{"id":107982,"date":"2017-02-09T10:09:23","date_gmt":"2017-02-09T12:09:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=107982"},"modified":"2017-02-09T10:09:23","modified_gmt":"2017-02-09T12:09:23","slug":"a-viuva-de-simoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/a-viuva-de-simoes","title":{"rendered":"A Vi\u00fava de Sim\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"555\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t  <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>J&uacute;lia Lopes de Almeida<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p>Apesar de mo&ccedil;a e de rica, a vi&uacute;va Sim&otilde;es raras vezes<br \/>\n    sa&iacute;a; dedicava-se absolutamente &agrave; sua casa, um bonito chalet<br \/>\n    em Santa Tereza. Vivia sempre ali; inquirindo, analisando tudo num exame fixo,<br \/>\n    demorado, paciente, que exasperava os seus cinco criados: a Benedita, cozinheira<br \/>\n    preta, ex-escrava da fam&iacute;lia; o Augusto, copeiro, franc&ecirc;s, habituado<br \/>\n    a servir s&oacute; gente de luxo; a lavadeira Ana, alem&atilde;, de rosto<br \/>\n    largo e olhos deslavados; o jardineiro Jo&atilde;o, portugu&ecirc;s; homem<br \/>\n    j&aacute; antigo no servi&ccedil;o, e uma mulatinha de quinze anos, cria de<br \/>\n    casa, a Simpl&iacute;cia, magra, baixa, com um focinho de fuinha e olhos pequenos,<br \/>\n    perspicazes e terr&iacute;veis.<\/p>\n<p>N&atilde;o era f&aacute;cil dirigir pessoal t&atilde;o diferente em ra&ccedil;as<br \/>\n    e em educa&ccedil;&atilde;o. A vi&uacute;va; modesta, e um pouco indolente<br \/>\n    para os deveres exteriores, consumia ali, dentro das suas paredes, toda a<br \/>\n    sua atividade.<\/p>\n<p>Em vida do marido freq&uuml;entara algum tanto a sociedade; mas depois que<br \/>\n    ele partiu sozinho para o outro mundo, ela encolheu-se com medo que se discutisse<br \/>\n    l&aacute; fora a sua reputa&ccedil;&atilde;o, coisa em que pensava numa obsess&atilde;o<br \/>\n    quase nevr&oacute;tica.<\/p>\n<p>Adquirira fama de menag&egrave;re exemplar; e ent&atilde;o levava o escr&uacute;pulo<br \/>\n    a um ponto elevad&iacute;ssimo para n&atilde;o desmerecer nunca do conceito<br \/>\n    de boa dona de casa. Levantava-se cedo; percorria o jardim, a horta, o pomar,<br \/>\n    o galinheiro; censurava o hortel&atilde;o pelo menor descuido; via bem at&eacute;<br \/>\n    as mais insignificantes ninharias: a grama precisava ser aparada&#8230; As roseiras<br \/>\n    careciam de poda; porque n&atilde;o se enxertavam estes ou aqueles p&eacute;s<br \/>\n    de fruta? O homem respondia que j&aacute; tinha deliberado aquilo mesmo, e<br \/>\n    ela passava adiante, sempre com perguntas ou ordens.<\/p>\n<p>No interior era um chuveiro de recrimina&ccedil;&otilde;es. A cozinha tomava-lhe<br \/>\n    horas. Passava os dedos nas panelas e nos ferros do fogo, a ver se estavam<br \/>\n    limpos; cheirava as ca&ccedil;arolas; obrigava a Benedita a arear de novo<br \/>\n    tachos e grelhas, a lavar a t&aacute;bua dos bifes e o m&aacute;rmore das<br \/>\n    pias e da mesa. Se havia alguma torneira pouco reluzente ou alguma n&oacute;doa<br \/>\n    no ch&atilde;o, detinha-se, exigindo que se corrigisse a falta logo ali, &agrave;<br \/>\n    sua vista. E era assim por todos os compartimentos, minuciosa, ativa, severa.<\/p>\n<p>Lamentava-se da falta de m&eacute;todo, que a obrigava a ter em casa tantos<br \/>\n    criados; mas se pensava em despedir algum deles, achava-o logo indispens&aacute;vel.<br \/>\n    A casa era grande e o dia curto para observ&aacute;-la em todas as suas exig&ecirc;ncias.<br \/>\n    A vi&uacute;va n&atilde;o fazia outra coisa sen&atilde;o mandar; entretanto<br \/>\n    n&atilde;o lhe sobrava tempo para mais nada!<\/p>\n<p>Tinha de vez em quando as suas horas tristes, em que a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    se lhe revoltava contra a monotonia daqueles meses que se desfolhavam iguais<br \/>\n    em tudo, sempre iguais&#8230; O corpo cansado n&atilde;o reagia, e o pensamento<br \/>\n    nadava pregui&ccedil;osamente em id&eacute;ias vagas, coloridas pelo romantismo<br \/>\n    da idade em que as alegrias e entusiasmos da mocidade j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    existem, e em que as friezas da velhice ainda n&atilde;o chegaram&#8230; Ela tinha<br \/>\n    uma filha, Sara, que era o seu conforto e a sua agonia. Por causa dela renunciava<br \/>\n    aos divertimentos do mundo, exagerando as suas atribui&ccedil;&otilde;es caseiras.<br \/>\n    Tinha medo de apaixonar-se um dia, fugia do perigo de amar, de trazer para<br \/>\n    casa, para o gozo do seu corpo e da sua alma, um padrasto para a filha, um<br \/>\n    estranho com quem tivesse de repartir os seus cuidados e as suas riquezas.<\/p>\n<p>O seu temperamento, aparentemente frio, dava-lhe por vezes momentaneamente,<br \/>\n    um ar de rija autoridade, muito em contradi&ccedil;&atilde;o com o seu tipo<br \/>\n    moreno, de brasileira. No trato comum era calma, e tinha sempre o cuidado<br \/>\n    de n&atilde;o trair as suas horas de desfalecimento, em que lhe passavam pela<br \/>\n    mente desejos e id&iacute;lios irrealiz&aacute;veis&#8230;<\/p>\n<p>A vi&uacute;va j&aacute; n&atilde;o tinha a frescura da primeira mocidade,<br \/>\n    mas era ainda uma mulher bonita. Era alta e esbelta e tinha um par de olhos<br \/>\n    pretos bel&iacute;ssimos e uma pele morena delicadamente penujenta e macia.<\/p>\n<p>A sua carne j&aacute; n&atilde;o tinha a rijeza do pomo verde, que resiste<br \/>\n    &agrave; dentada, e ca&iacute;a sobre ela toda um ar de moleza, de doce cansa&ccedil;o,<br \/>\n    que lhe quebrantava a voz e o gesto. Vinha dela um encanto esquisito e delicado,<br \/>\n    que ningu&eacute;m afirmaria ser da pureza das suas linhas ou da maneira que<br \/>\n    tinha de andar, de sorrir ou de dizer as coisas.<\/p>\n<p>Aos domingos a vida era mais calma. Os criados trabalhavam afincadamente<br \/>\n    ao s&aacute;bado, em lavagens, polimentos, renova&ccedil;&otilde;es de plantas<br \/>\n    e de flores nas salas, e gozavam de lazeres maiores e permiss&otilde;es de<br \/>\n    passeios no dia imediato. A vi&uacute;va ent&atilde;o respirava de al&iacute;vio<br \/>\n    com o sil&ecirc;ncio e a aus&ecirc;ncia dos servos que se revezavam no servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>Num domingo de junho de 1891 ela sentou-se na sua sala, muito fresca e perfumada;<br \/>\n    e, estendida numa cadeira de balan&ccedil;o, perto da janela, p&ocirc;s-se<br \/>\n    muito sossegadamente a ler um jornal do dia.<\/p>\n<p>Estava num dos seus momentos de melancolia; almejava qualquer coisa que ela<br \/>\n    mesma n&atilde;o sabia definir. Era a revolta surda contra a pacatez da sua<br \/>\n    vida sem emo&ccedil;&otilde;es, contra aquele prop&oacute;sito de enterrar<br \/>\n    a sua mocidade e a sua formosura longe dos gozos e dos triunfos mundanos.<\/p>\n<p>O que lhe parecia agora um sacrif&iacute;cio parecera-lhe horas antes uma<br \/>\n    del&iacute;cia.<\/p>\n<p>A verdade era que a vi&uacute;va al&eacute;m, do medo de comprometer a felicidade<br \/>\n    da filha, sentia pregui&ccedil;a de cortar de uma vez aquele sistema recolhido<br \/>\n    de vida, iniciado pelo marido, um pouco ciumento.<\/p>\n<p>Os seus olhos percorriam superficialmente todo o jornal, quando de s&uacute;bito<br \/>\n    estacaram num ponto. Por muito tempo n&atilde;o se despregaram de quatro linhas<br \/>\n    banais, lendo-as e relendo-as at&eacute; que o jornal, levado por um dos seus<br \/>\n    gestos l&acirc;nguidos, caiu aberto sobre os joelhos. Voltada para o sonho,<br \/>\n    ela continuou im&oacute;vel, com os membros lassos estendidos sob as roupagens<br \/>\n    longas e negras do seu ainda rigoroso luto de viuvez, e p&ocirc;s-se a seguir<br \/>\n    com o olhar, que o pensamento erradio tornava ora abstrato, ora pensativo,<br \/>\n    uma barquinha de velas pandas que deslizava l&aacute; embaixo, isolada e pequenina,<br \/>\n    na solid&atilde;o das &aacute;guas.<\/p>\n<p>Estava uma manh&atilde; gloriosa, c&eacute;u azul cheio de sol, mar de um<br \/>\n    azul ainda mais denso, pacificado pela do&ccedil;ura da atmosfera.<\/p>\n<p>Pelos socalcos abruptos da montanha desciam os quintais e o casario disperso.<br \/>\n    A grande alegria da luz envolvia tudo: manchas vermelhas de barro, tufos de<br \/>\n    vegeta&ccedil;&atilde;o, quadros dom&eacute;sticos encerrados entre a brancura<br \/>\n    de quatro muros caiados surpreendidos do alto, homens trabalhando nas suas<br \/>\n    hortas, mulheres estendendo roupa ao sol. O azul e o verde enchiam o ar com<br \/>\n    os seus tons fortes. &Aacute;gua, c&eacute;u e montanhas, tudo isso a vi&uacute;va<br \/>\n    olhava do alto, como se estivesse suspensa no espa&ccedil;o. Seguindo a linha<br \/>\n    alva de uma praia riscada al&eacute;m da ba&iacute;a, o seu pensamento ia<br \/>\n    agora em linha reta aos primeiros tempos da sua vida.<\/p>\n<p>Mal se lembrava da m&atilde;e, um vulto t&ecirc;nue que fugia &agrave; sua<br \/>\n    lembran&ccedil;a&#8230; ficara &oacute;rf&atilde; cedo&#8230; Do pai sim! Que bom<br \/>\n    velho! Que doce amigo fora ele sempre!&#8230;<\/p>\n<p>A transpar&ecirc;ncia do dia fazia real&ccedil;ar com nitidez todas as min&uacute;cias<br \/>\n    da paisagem, mas os olhos da vi&uacute;va afeitos &agrave;quele esplendor<br \/>\n    n&atilde;o o observavam, tinham um flu&iacute;do dourado, vago, de quem olha<br \/>\n    para coisas que outros n&atilde;o v&ecirc;em&#8230;<\/p>\n<p>Lembran&ccedil;as antigas de pessoas, de palavras, de id&eacute;ias ou de<br \/>\n    sonhos, fugidios, apagados ou mortos.<\/p>\n<p>Silenciosas, no meio das &aacute;guas profundas e aniladas, as Fortalezas<br \/>\n    de Santa Cruz e da Laje viam-se distintamente, na sua triste cor de granito<br \/>\n    umedecido e velho. Na de Santa Cruz, poder-se-iam contar as seteiras da casamata,<br \/>\n    como &oacute;rbitas vazias; nos recifes da Laje, a onda, embora branda, punha<br \/>\n    rendilha&ccedil;&otilde;es brancas, de espuma salitrosa; e l&aacute; ao fundo,<br \/>\n    na barra, como outras sentinelas igualmente firmes e igualmente poderosas,<br \/>\n    levantavam os seus dorsos redondos, duas ilhas em tudo semelhantes, como dois<br \/>\n    irm&atilde;os g&ecirc;meos.<\/p>\n<p>As montanhas sucediam-se, esmeraldinas, escuras, azuladas ou viol&aacute;ceas<br \/>\n    conforme o grau de dist&acirc;ncia e a luz que as feria, e para al&eacute;m<br \/>\n    das ilhas o mar estendia-se, at&eacute; confundir-se no horizonte num tom<br \/>\n    enfuma&ccedil;ado e compacto.<\/p>\n<p>A areia do jardim rangeu e a vi&uacute;va voltou para a rabeca. Era a Simpl&iacute;cia,<br \/>\n    que ia l&eacute;pida, de saias engomadas, procurando cravinas para enfeitar<br \/>\n    a carapinha, j&aacute; amarrada com uma fita azul. Quando passou rente &agrave;<br \/>\n    janela, a vi&uacute;va sentiu o cheiro das suas ess&ecirc;ncias exageradamente<br \/>\n    impregnadas na mulatinha; fechou os olhos, sentindo pregui&ccedil;a de ralhar<br \/>\n    por aquela confian&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>A rapariga rabeou ligeira por entre os canteiros e sumiu-se.<\/p>\n<p>O barco de vela ia tamb&eacute;m ligeiro, como uma asa branca cortando o<br \/>\n    azul, e a mo&ccedil;a seguia-o, pensativa, lembrando fatos&#8230;<\/p>\n<p>De repente o seu olhar perdeu aquela cor crepuscular, que d&aacute; a saudade,<br \/>\n    e fixou-se na cidade, como se quisesse indagar do que se passava por l&aacute;.<\/p>\n<p>Surgindo de entre a verdura e a casaria, erguia-se logo em baixo, risonho<br \/>\n    e fresco, o outeiro da Gl&oacute;ria, encimado pela igreja branca e pitoresca,<br \/>\n    contrapondo a sua poesia graciosa e alde&atilde; &agrave; majestade ilimitada<br \/>\n    do mar.<\/p>\n<p>Todo o bairro do Catete, com as suas ruas elegantes, parecia imerso numa<br \/>\n    grande paz. A esguia chamin&eacute; da City Improvements n&atilde;o sujava<br \/>\n    o ar com o seu fumo, denegrido e infecto. Subia de tudo uma poesia alegre,<br \/>\n    desde as pontes r&uacute;sticas de madeira alcatroadas, que mal se viam numa<br \/>\n    curva de praia, at&eacute; o deslizar da barca de Niter&oacute;i que atravessava<br \/>\n    a ba&iacute;a, com a bandeira flutuante na r&eacute; e um rastro de espumarada<br \/>\n    na proa.<\/p>\n<p>A filha da vi&uacute;va jogava o croquet com um grupo de amigas, no pomar;<br \/>\n    mal se ouviam em casa a bulha seca dos martelos nas bolas, mais as risadas<br \/>\n    das jogadoras alegres. Tinha sido o pai, riograndense robusto e sang&uuml;&iacute;neo,<br \/>\n    quem a habituara &agrave;queles exerc&iacute;cios e jogos ao ar livre.<\/p>\n<p>Filho de uma senhora alem&atilde; e de um negociante portugu&ecirc;s, o Sim&otilde;es<br \/>\n    de Porto Alegre, ele tinha recebido da m&atilde;e uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    viril e uma sa&uacute;de robusta, e do pai um pequeno patrim&ocirc;nio com<br \/>\n    que mais tarde se estabeleceu no Rio, quando, j&aacute; &oacute;rf&atilde;o<br \/>\n    de m&atilde;e, o veio acompanhar at&eacute; portas do hosp&iacute;cio de D.<br \/>\n    Pedro II, onde o velho, louco, ainda viveu alguns anos terrivelmente agoniados!&#8230;<\/p>\n<p>O olhar da vi&uacute;va passou num v&ocirc;o r&aacute;pido por sobre o mar,<br \/>\n    as ilhas, a cidade e as montanhas e ficou abstrato, voltado de novo aos sonhos,<br \/>\n    inconscientemente preso ao P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car, cabe&ccedil;a<br \/>\n    da formid&aacute;vel esfinge que descansa sobre o leito misterioso do mar<br \/>\n    o seu enorm&iacute;ssimo corpo de montanha, com as garras sumidas nas &aacute;guas<br \/>\n    e a fronte sumida nas nuvens. O seu pensamento l&aacute; ia esvoa&ccedil;ando<br \/>\n    como ave ligeira, pelo tempo antigo, sem que a vista se desfitasse da pedra<br \/>\n    arroxeada do monte, cortada de grandes laivos esbranqui&ccedil;ados ou escuros,<br \/>\n    escorregando de cima, como se fossem l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>E o pensamento, acordado de um letargo em que jazia sepultado havia longo<br \/>\n    tempo&#8230; corria agora mais doce e velozmente do que o barco de velas l&aacute;<br \/>\n    em baixo, na solid&atilde;o das &aacute;guas.<\/p>\n<p>Junho espalhava cores luminosas; as primaveras estavam cobertas de p&eacute;talas<br \/>\n    solferinas, as paineiras abriam sorrisos cor de rosa nas suas grandes flores;<br \/>\n    nas in&uacute;meras arauc&aacute;rias do morro suspendiam-se estrelas de um<br \/>\n    verdor condensado e as rosas embalsamavam o ar fresco, leve, inundado de luz.<\/p>\n<p>A vi&uacute;va deixava-se, pregui&ccedil;osamente, no mesmo lugar, a id&eacute;ia<br \/>\n    longe, a carne alagada pela do&ccedil;ura inigual&aacute;vel do inverno fluminense<br \/>\n    e os olhos errando pelo que a natureza pode ter de mais idealmente formoso!<br \/>\n    O pensamento ia, ia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Dias&#8230; o Luciano Dias! que lindo e que am&aacute;vel ele tinha sido!<br \/>\n    Sempre muito ass&iacute;duo&#8230; apaixonado&#8230; meigo, desenrolando uma voz veludosa,<br \/>\n    concentrada, acariciadora&#8230; Ai, o Luciano! fora quase seu noivo&#8230;<\/p>\n<p>Luciano tinha sido o primeiro e o mais duradouro amor da vi&uacute;va; cartas,<br \/>\n    promessas, juramentos, frases aquecidas na mais ardente paix&atilde;o, haviam<br \/>\n    partido de um para outro nos bons tempos da juventude. Ela era ainda muito<br \/>\n    crian&ccedil;a, ele tamb&eacute;m&#8230; como se amaram! Entretanto, ela o havia<br \/>\n    esquecido: s&oacute; uma ou outra vez, por qualquer acaso, se recordava dele.<br \/>\n    Supunha mesmo que nunca mais o tornasse a ver, e que, se porventura isso se<br \/>\n    viesse a dar, ela n&atilde;o experimentaria a mais leve como&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    e ei-la agora alarmada, s&oacute; porque lera na Gazeta a not&iacute;cia da<br \/>\n    sua chegada da Europa! Havia dois dias j&aacute; que ele estava no Rio, debaixo<br \/>\n    do mesmo c&eacute;u, respirando o mesmo ar que ela!<\/p>\n<p>Quando o encontraria? Desejava v&ecirc;-lo. Uma revoada de saudades trouxe-lhe<br \/>\n    &agrave; alma todo o perfume daquele amor passado. Parecia-lhe que estivera<br \/>\n    todo aquele tempo &agrave; sua espera, como uma noiva extremosa e fiel&#8230;<\/p>\n<p>Sim, desejava v&ecirc;-lo, mas tinha receio.<\/p>\n<p>Receio&#8230; nem sabia de que, mas tinha-o. Afinal n&atilde;o houvera amado<br \/>\n    nunca outro homem como amara aquele!<\/p>\n<p>&#8211; O Luciano&#8230; porque a deixara ele? Que hist&oacute;ria t&ecirc;-lo-ia obrigado<br \/>\n    a abandonar o seu amor? Diziam-no leviano&#8230; vol&uacute;vel&#8230; talvez o tivesse<br \/>\n    sido. Que seria agora?<\/p>\n<p>Voltaria casado? Pensaria ainda alguma vez nos tempos idos, quando se correspondiam<br \/>\n    e se encontravam em casa do tio Gustavo, no Engenho Velho? Ele teria ainda<br \/>\n    na mem&oacute;ria o beijo que lhe furtara, na face, timidamente, no dia dos<br \/>\n    anos dela? Teria sabido do seu casamento? Desconfiaria que ele se havia realizado<br \/>\n    por despeito? Dezenove anos tinham decorrido depois de tudo isso! Parecia-lhe<br \/>\n    imposs&iacute;vel! Dezenove anos j&aacute;! A verdade, por&eacute;m, &eacute;<br \/>\n    que a mem&oacute;ria do Luciano estava, havia muito, apagada no seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e agora uma simples not&iacute;cia, lac&ocirc;nica e murcha, ressuscitava-lhe<br \/>\n    na alma a saudade de todo aquele romance passado. O Luciano j&aacute; lhe<br \/>\n    n&atilde;o sa&iacute;a do pensamento: era alto&#8230; magro, tinha o cabelo ligeiramente<br \/>\n    ondeado e os olhos grandes, negros, um pouco melanc&oacute;licos talvez, em<br \/>\n    todo o caso formosos.<\/p>\n<p>E ficou ainda por alguns minutos a pensar nas coisas que lera ou julgara<br \/>\n    ler nesses formosos olhos l&acirc;nguidos e pretos.<\/p>\n<p>Em que consistira a sua vida depois dessa encantadora leitura? Arranjos de<br \/>\n    casa&#8230; idas &agrave; modista&#8230; passeios in&uacute;teis pela rua do Ouvidor&#8230;.<br \/>\n    estudos de m&uacute;sica para figurar nos saraus das amigas&#8230; um ou outro<br \/>\n    ver&atilde;o em Petr&oacute;polis, raro&#8230; e os cuidados pela educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e sa&uacute;de da filha, pelo bem estar do marido e por bem conservar as regalias<br \/>\n    da sua vida material, de burguesa rica.<\/p>\n<p>Dias f&aacute;ceis, simples, sem como&ccedil;&otilde;es que os marcasse.<br \/>\n    O esposo fora um bom homem, embora genioso e um pouco violento; ela era grata<br \/>\n    &agrave; sua mem&oacute;ria e sentia-se feliz por t&ecirc;-lo estimado com<br \/>\n    sinceridade, fidelidade.<\/p>\n<p>Com o jornal ca&iacute;do nos joelhos, a vi&uacute;va continuava im&oacute;vel,<br \/>\n    misturando na id&eacute;ia a lembran&ccedil;a da morte do pai com as express&otilde;es<br \/>\n    amorosas do Luciano, o nascimento da Sara, o dia da partida do namorado e<br \/>\n    o dia do seu casamento com o Sim&otilde;es; a paci&ecirc;ncia do marido, os<br \/>\n    sucessos da sua voz nos concertos das Nunes, a &uacute;ltima carta de Luciano<br \/>\n    e o primeiro beijo da filha&#8230; l&aacute;grimas, alegrias&#8230; banalidades, coisas<br \/>\n    que enchem a vida de toda a gente.<\/p>\n<p>Na sua intelig&ecirc;ncia modesta todas as miudezas tomavam grandes vultos.<br \/>\n    A volta de Luciano Dias reavivava-lhe a imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Desde a morte do marido que procurava estiolar, ressequir o seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mo&ccedil;a. O seu ego&iacute;smo maternal absorvia-a toda; n&atilde;o<br \/>\n    se daria a ningu&eacute;m, n&atilde;o roubaria &agrave; filha nem um dos seus<br \/>\n    afagos, nem um &uacute;nico dos seus pensamentos e dos seus cuidados. Pela<br \/>\n    sua idolatrada Sara deixaria queimar o seu corpo, cegar os seus olhos e despeda&ccedil;ar<br \/>\n    o seu cora&ccedil;&atilde;o. Perecesse tudo sobre a terra se s&oacute; a custa<br \/>\n    desse aniquilamento pudesse o sorriso iluminar os l&aacute;bios frescos da<br \/>\n    filha!<\/p>\n<p>A vi&uacute;va ca&iacute;ra numa prostra&ccedil;&atilde;o singular; por fim,<br \/>\n    sacudindo o pensamento, procurou reagir e fixar o esp&iacute;rito em coisas<br \/>\n    diversas.<\/p>\n<p>Pensar em Luciano&#8230; para qu&ecirc;? Ele deixara-a sem explica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ela casara-se com outro, estava tudo acabado.<\/p>\n<p>A estas horas ele teria meia d&uacute;zia de filhos, uma esposa estrangeira<br \/>\n    um lar calmo e feliz; ela tinha uma filha mo&ccedil;a, a responsabilidade<br \/>\n    do seu nome e da sua casa. Cada um que seguisse o seu rumo; olhar para tr&aacute;s<br \/>\n    seria, al&eacute;m de rid&iacute;culo, pueril e perigoso&#8230; Na estrada da<br \/>\n    vida todos os passos que damos deixam vest&iacute;gios, mas desde que desejemos<br \/>\n    voltar atr&aacute;s, j&aacute; n&atilde;o lhes encontramos as pegadas. Tudo<br \/>\n    se esvai, todas as cenas se desligam, ficando aqui e ali, como n&eacute;voas<br \/>\n    esgar&ccedil;adas em penedias calvas, uma ou outra lembran&ccedil;a, uma ou<br \/>\n    outra saudade. A vida &eacute; assim.<\/p>\n<p>A vi&uacute;va Sim&otilde;es estava a pensar nisso quando o Augusto foi entregar-te<br \/>\n    um cart&atilde;o de visita.<\/p>\n<p>Ela leu-o e quedou-se pensativa. O sangue afluiu-lhe ao rosto, apertou com<br \/>\n    for&ccedil;a nos dedos finos e nervosos o bilhete, indecisa. Com o olhar chamejante<br \/>\n    e o l&aacute;bio inferior apertado entre os dentes<\/p>\n<p>&#8211; A resposta? perguntou por fim o criado. <\/p>\n<p>&#8211; Manda entrar.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; extraordin&aacute;rio! murmurou a vi&uacute;va Sim&otilde;es;<br \/>\n    nunca mais pensei nele&#8230; hoje penso&#8230; e ele chega!<\/p>\n<p>Aquela coincid&ecirc;ncia afigurava-se, ao seu esp&iacute;rito mal educado,<br \/>\n    como que um aviso sobrenatural. J&aacute; nem se recordava de que a sua mem&oacute;ria<br \/>\n    fora despertada pela not&iacute;cia da Gazeta!<\/p>\n<p>Luciano! Sim. Era ele quem se anunciava! Que vinha fazer &agrave; sua casa,<br \/>\n    ap&oacute;s dezenove anos de aus&ecirc;ncia e de completa indiferen&ccedil;a?<br \/>\n    Que saudades vinha revolver ou que id&iacute;lios acordar?<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que estes pensamentos se atropelavam no seu esp&iacute;rito,<br \/>\n    ela, por um movimento em que entrava tanto de coquetterie como de nervosismo,<br \/>\n    ergueu-se, apoiou a m&atilde;o no espaldar baixo de um fauteuil, impelindo<br \/>\n    com o p&eacute;, para o lado, a longa cauda do seu vestido de vi&uacute;va.<br \/>\n    Houve um sil&ecirc;ncio; o cora&ccedil;&atilde;o bateu-lhe com for&ccedil;a.<br \/>\n    Soaram passos pelo corredor encerado, esses passos foram abalados na alcatifa<br \/>\n    da saleta cont&iacute;gua, onde a voz do Augusto indicou:<\/p>\n<p>&#8211; Tenha a bondade de passar a outra sala&#8230;<\/p>\n<p>Ela voltou-se com um sorriso desbotado e viu destacar-se, no fundo bronzeado<br \/>\n    do reposteiro, a figura elegante e correta de Luciano Dias&#8230; <\/p>\n<p>Ele avan&ccedil;ou, e curvando-se diante dela:<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>A vi&uacute;va Sim&otilde;es estendeu-lhe a m&atilde;o que a como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gelava e ele elegantemente beijou a m&atilde;o que se lhe oferecia.<\/p>\n<p>L&aacute; fora, entre os murtais, continuavam as gargalhadas das mo&ccedil;as,<br \/>\n    e na doida alegria da luz, voavam os pombos por sobre as &aacute;rvores e<br \/>\n    o telhado do chalet.<\/p>\n<p>Sentados um em frente do outro, a vi&uacute;va Sim&otilde;es observava que<br \/>\n    o Luciano Dias de ent&atilde;o era bem diverso do Luciano de outrora! Tinha<br \/>\n    os cabelos grisalhos, embora fartos, o que lhe dava um novo encanto &agrave;<br \/>\n    fisionomia viril; j&aacute; n&atilde;o era esbelto: o seu corpo perdera a<br \/>\n    graciosa flexibilidade dos vinte anos, tornara-se um pouco grosso, o ventre<br \/>\n    arredondara-se-lhe, e no seu rosto expressivo e simp&aacute;tico, havia vest&iacute;gios<br \/>\n    de cansadas ins&ocirc;nias.<\/p>\n<p>Por seu turno ele analisava a vi&uacute;va. Achava-a com certeza muito menos<br \/>\n    fresca, mas talvez mais encantadora. Agora tinha a gra&ccedil;a consciente,<br \/>\n    um pouco amaneirada, em todo o caso cativante. As faces tinham desca&iacute;do<br \/>\n    um pouco mas o corpo era agora mais airoso e ondeante.<\/p>\n<p>Se as olheiras se haviam acentuado e os cabelos negros estriado de um ou<br \/>\n    de outro fio branco, ao menos o sorriso tornara-se mais fino, mais inteligente<br \/>\n    e perspicaz, e para ele, homem de sociedade, no saber sorrir estava toda a<br \/>\n    arte e ci&ecirc;ncia da mulher de sal&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao princ&iacute;pio houve um certo embara&ccedil;o na conversa. Esbo&ccedil;avam-se<br \/>\n    frases que morriam depressa. Ele n&atilde;o justificava a visita; ela encolhia-se<br \/>\n    com reserva. Luciano, era, aparentemente, j&aacute; quase um estranho! Trocaram-se<br \/>\n    falas banais.<\/p>\n<p>Se a viagem tinha corrido calma&#8230; se n&atilde;o achava agora o Rio uma cidade<br \/>\n    feia&#8230;<\/p>\n<p>Ele respondia num modo cerimonioso e discreto e ambos, escondendo com todo<br \/>\n    recato os seus pensamentos e lembran&ccedil;as, afetavam indiferen&ccedil;a<br \/>\n    e sossego.<\/p>\n<p>Um gesto, um olhar, um suspiro quebram &agrave;s vezes os mais firmes prop&oacute;sitos.<\/p>\n<p>Fios h&aacute; que parecendo de ouro s&atilde;o de seda: se lhes querem prolongar<br \/>\n    muito a tens&atilde;o &#8211; estalam. Foi o que sucedeu.<\/p>\n<p>Luciano, depois de um pequeno sil&ecirc;ncio, fixando a vi&uacute;va nos<br \/>\n    olhos, deu-lhe os p&ecirc;sames pelo seu luto.<\/p>\n<p>Houve um estremecimento.<\/p>\n<p>Sem saberem como, de fato em fato, vieram a falar do tempo antigo. A evoca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desses dias de mocidade foi como que um pouco de sol que derretesse o gelo<br \/>\n    entre ambos, e chegou mesmo um instante em que ele, enlanguescendo a voz e<br \/>\n    os olhos murmurou baixo:<\/p>\n<p>&#8211; Ernestina!<\/p>\n<p>Era o nome dela. A vi&uacute;va Sim&otilde;es levantou-se muito vermelha,<br \/>\n    atravessou a sala at&eacute; a um gueridon que ficava em frente, mudou ali<br \/>\n    a posi&ccedil;&atilde;o de uma camponesa de biscuit, sem perceber mesmo porque<br \/>\n    fazia aquilo, e voltando a sentir-se perto de Luciano, disse, olhando para<br \/>\n    os zig-zags da alcatifa:<\/p>\n<p>&#8211; Estou velha!<\/p>\n<p>&#8211; Formosa velhice.!<\/p>\n<p>&#8211; Trinta e seis anos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E eu trinta e nove&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Os homens s&atilde;o sempre mo&ccedil;os&#8230;<\/p>\n<p>Luciano n&atilde;o respondeu; contemplava agora, com muita aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o retrato a &oacute;leo do finado comendador Sim&otilde;es.<\/p>\n<p>Ernestina, um tanto embara&ccedil;ada, perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Conheceu meu marido?<\/p>\n<p>&#8211; Conheci&#8230; quando fui para a Europa ele tinha-se associado a um amigo de<br \/>\n    meu pai, o Nunes. Vi-o no armaz&eacute;m, exatamente no dia da partida.<\/p>\n<p>&#8211; Era muito bom homem.. murmurou Ernestina quase a medo.<\/p>\n<p>&#8211; Sim? talvez por instinto, eu antipatizava com ele&#8230; perdoe-me que lhe<br \/>\n    confesse estas coisas&#8230;<\/p>\n<p>Ela sorriu-se, ele continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Tive uma grande surpresa em Paris quando soube do seu casamento. Eu tencionava<br \/>\n    voltar cedo e julgava vir encontr&aacute;-la ainda solteira&#8230;<\/p>\n<p>Luciano crivava de retic&ecirc;ncias essas frases, sublinhando-as com o olhar.<br \/>\n    Chegou ao ponto de afirmar que, se n&atilde;o fosse esse casamento ele n&atilde;o<br \/>\n    teria vivido na Europa tantos anos&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina, at&ocirc;nita, respondeu com vis&iacute;vel ressentimento:<\/p>\n<p>&#8211; Mas o sr. foi como adido da lega&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; mas que teria isso? Por acaso um adido de lega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o pode vir buscar a noiva ao seu pa&iacute;s?<\/p>\n<p>&#8211; Inda n&atilde;o &eacute;ramos&#8230; Ernestina suspendeu a &uacute;ltima palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Noivos?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, respondeu ela com a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Eu assim a considerava, disse Luciano, envolvendo-a no seu olhar de veludo.<br \/>\n    Que faltava? o pedido ao papai!&#8230; ele consentiria por certo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas nem ao menos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Conclua! por Deus.!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o recebi nem uma linha, nem uma explica&ccedil;&atilde;o. A sua<br \/>\n    partida era a significa&ccedil;&atilde;o de um rompimento! Foi o que eu entendi.<\/p>\n<p>&#8211; Entendeu mal&#8230; n&atilde;o tive coragem de lhe dizer adeus&#8230; e depois,<br \/>\n    perdoe-me a vaidade! quis por em prova o seu afeto!<\/p>\n<p>Ernestina abaixou a cabe&ccedil;a, subitamente arrependida de ter dado a<br \/>\n    m&atilde;o de esposa ao Sim&otilde;es. Lamentava agora em esp&iacute;rito<br \/>\n    a perda de todo esse tempo, em que poderia ter vivido ao lado de Luciano,<br \/>\n    na Europa, freq&uuml;entando pal&aacute;cios de pr&iacute;ncipes e fazendo<br \/>\n    ressaltar, com os atavios parisienses, os seus encantos de brasileira gentil.<\/p>\n<p>&#8211; Afirmaram-me que o senhor ia para sempre&#8230; murmurou ela por fim.<\/p>\n<p>&#8211; Cal&uacute;nias&#8230; aposto que foi o Sim&otilde;es quem lhe disse isso?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas como foi que ele conseguiu fazer-se amar! era um urso, lembra-me bem,<br \/>\n    era um urso!<\/p>\n<p>Desta vez foi Ernestina que murmurou como um queixume:<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Luciano!<\/p>\n<p>&#8211; Isto n&atilde;o &eacute; falar mal, mas sempre gostaria de saber&#8230; como<br \/>\n    foi?<\/p>\n<p>&#8211; O casamento foi feito&#8230; meu pai queria&#8230; eu cedi.<\/p>\n<p>Ernestina n&atilde;o teve coragem de levantar os olhos; receou ver erguer-se<br \/>\n    da sua cadeira de veludo escarlate, na grande tela em frente, o marido terr&iacute;vel<br \/>\n    e amea&ccedil;ador.<\/p>\n<p>Enquanto Luciano lhe dizia quanto tinha sofrido com esse casamento e a esp&eacute;cie<br \/>\n    de al&iacute;vio que sentira ao sab&ecirc;-la vi&uacute;va, enquanto ele,<br \/>\n    cheio de sedu&ccedil;&atilde;o, se apoderava da sua m&atilde;o esguia e branca<br \/>\n    e lhe dizia que viera da Europa por ela, s&oacute; por ela; Ernestina, tr&ecirc;mula,<br \/>\n    envergonhava-se da sua mentira, parecendo-lhe sentir os olhos do esposo fixos<br \/>\n    nela.<\/p>\n<p>O casamento feito pelo pai! Mentira! O Sim&otilde;es fora aceito por despeito<br \/>\n    dela com o outro, o Luciano, mais nada. O pai n&atilde;o interviera, ficou<br \/>\n    at&eacute; surpreso quando o negociante lhe pediu a filha. Em verdade, ele,<br \/>\n    o bom Sim&otilde;es, fora requestado pela mo&ccedil;a! O plano fora seu; queria<br \/>\n    casar, ser rica, vingar-se de Luciano, que a perseguia sempre nos bailes,<br \/>\n    nos teatros, em toda a parte, e que afinal, sem uma explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deixava-a para ir para Fran&ccedil;a!&#8230;<\/p>\n<p>O comendador Sim&otilde;es tinha sido um bom marido, carinhoso, cort&ecirc;s,<br \/>\n    sempre pronto a dar-lhe tudo quanto ela desejasse, vestidos caros, casa ajardinada,<br \/>\n    mob&iacute;lias modernas, vida farta, confort&aacute;vel e doce.<\/p>\n<p>Ela tinha consci&ecirc;ncia disso tudo, gozara a seu modo, conforme as exig&ecirc;ncias<br \/>\n    da sua educa&ccedil;&atilde;o burguesa. Se n&atilde;o tivesse tido a filha,<br \/>\n    talvez que a pr&oacute;pria comodidade em que vivia imersa a tivesse feito<br \/>\n    procurar os gozos ef&ecirc;meros da sociedade, mas a sua pequenina Sara prendia-a<br \/>\n    aos deveres da casa, preocupando-a muito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o seu pai obrigou-a a casar? perguntou Luciano numa insist&ecirc;ncia<br \/>\n    maldosa.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigar propriamente n&atilde;o&#8230; aconselhou e achei que era do meu dever<br \/>\n    obedecer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E n&atilde;o se arrependeu, Ernestina ? N&atilde;o lhe ocorreu nunca &agrave;<br \/>\n    mem&oacute;ria a lembran&ccedil;a de algu&eacute;m que sofreria muito com<br \/>\n    o seu casamento?<\/p>\n<p>A vi&uacute;va Sim&otilde;es corava, alisando com a m&atilde;o a preta do<br \/>\n    seu longo vestido. Conteve o desejo de contar quanto tinha chorado, na manh&atilde;<br \/>\n    do casamento, com a lembran&ccedil;a de Luciano&#8230; Ocorreu-lhe tamb&eacute;m<br \/>\n    o constrangimento que tinha sentido, no dia seguinte, pelo marido, vendo-o<br \/>\n    comer com a faca, ao almo&ccedil;o. Vieram-lhe &agrave; mente cenas desligadas,<br \/>\n    que ela repelia, sem atinar com uma resposta.<\/p>\n<p>Luciano aproximava-se dela, envolvendo-a com a sua voz quente e o seu olhar<br \/>\n    macio e caricioso, ali mesmo, bem em frente &agrave;s barbas fartas e ruivas<br \/>\n    do comendador Sim&otilde;es. As suas palavras escorriam como o mel de um favo.<br \/>\n    Ernestina, sempre de cabe&ccedil;a baixa, tinha o sorriso paralisado, sem<br \/>\n    coragem de por um dique &agrave;quela ternura perigosa.<\/p>\n<p>Ele ousava queixar-se de ter sido esquecido! A vi&uacute;va n&atilde;o protestava.<br \/>\n    Entretanto, lembrava-se bem! nos primeiros meses de casada aborrecia o marido<br \/>\n    e disfar&ccedil;ava mal esse sentimento. O seu sonho tinha sido casar e partir.<br \/>\n    Ir a Paris ver Luciano, trat&aacute;-lo com desprezo, fingir-se feliz&#8230; O<br \/>\n    marido op&ocirc;s-se &agrave; viagem, o &uacute;nico desejo em que a contrariou,<br \/>\n    expondo-lhe raz&otilde;es de com&eacute;rcio e fortuna&#8230; Sair do Rio era<br \/>\n    imposs&iacute;vel ent&atilde;o: prometeu que mais tarde percorreriam o mundo!<\/p>\n<p>O tempo e a conviv&ecirc;ncia desvaneceram o desamor da esposa. O nascimento<br \/>\n    de Sara acabou de solidificar a afli&ccedil;&atilde;o de Ernestina pelo marido.<br \/>\n    O pensamento de ambos convergia para a pequenita; tinham ambos o mesmo cuidado,<br \/>\n    encontravam-se ao mesmo tempo a beijar o mesmo rosto ou a embalar o mesmo<br \/>\n    ber&ccedil;o&#8230; As suas conversa&ccedil;&otilde;es mais intimamente doces<br \/>\n    eram a respeito da Sarinha, vendo-a brincar dos joelhos de um para os joelhos<br \/>\n    do outro, a dizer com igual ternura.<\/p>\n<p>&#8211; Papai&#8230; ou mam&atilde;e!<\/p>\n<p>Essas coisas iam voando pelo esp&iacute;rito da vi&uacute;va, enquanto Luciano<br \/>\n    lhe dizia que viera de Paris por sab&ecirc;-la livre, do contr&aacute;rio<br \/>\n    l&aacute; estaria ainda&#8230;<\/p>\n<p>Falando sempre, doce e mansamente ele pegou-lhe na m&atilde;o e retirou,<br \/>\n    muito devagar, a alian&ccedil;a de ouro que ela ainda usava no dedo.<\/p>\n<p>Ernestina consentiu. O anel rolou para o ch&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre julguei que o senhor voltasse casado. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se lembrava que os homens s&atilde;o menos vol&uacute;veis do<br \/>\n    que as mulheres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>E Ernestina riu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Temos uma prova em n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p>Ernestina, j&aacute; menos perturbada, perguntou, fixando em Luciano um olhar<br \/>\n    claro e s&eacute;rio:<\/p>\n<p>&#8211; Diga-me uma coisa, com toda a franqueza e lealdade: porque saiu do Rio<br \/>\n    sem me mandar ao menos um bilhete, uma palavra qualquer de despedida?<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu j&aacute; lhe disse.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, interrompeu Ernestina, a raz&atilde;o apresentada n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; aceit&aacute;vel. Por em prova o meu afeto! Isso n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    coisa que ocorra a um namorado de vinte anos.<\/p>\n<p>&#8211; Incompletos&#8230; acrescentou Luciano com um sorriso.<\/p>\n<p>&#8211; Demais a mais!<\/p>\n<p>&#8211; Realmente &eacute;ramos muito crian&ccedil;as&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o fuja a minha pergunta, lembraremos isso depois&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que maldade! Por que n&atilde;o h&aacute; de acreditar no que eu disse?<br \/>\n    Quis por &agrave; prova o seu amor; al&eacute;m disso, meu pai, note que meu<br \/>\n    pai &eacute; que era secret&aacute;rio da lega&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o<br \/>\n    eu, imp&ocirc;s-me essa viagem; neg&oacute;cios de fam&iacute;lia complicados<br \/>\n    e que nem mesmo a gente depois de passado o tempo, sabe explicar! Eu era o<br \/>\n    secret&aacute;rio de meu pai&#8230; foi isso naturalmente o que fez com que lhe<br \/>\n    dissessem que eu tinha ido como adido. Inda a pouco n&atilde;o esclareci esse<br \/>\n    ponto para n&atilde;o interromp&ecirc;-la&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem! vejo que o senhor &eacute; teimoso e n&atilde;o quer dizer o motivo<br \/>\n    de um rompimento t&atilde;o inesperado&#8230; Seja. E mesmo, agora, que nos importa<br \/>\n    isso?<\/p>\n<p>&#8211; Ficou zangada comigo? <\/p>\n<p>&#8211; Muito<\/p>\n<p>&#8211; Perdoa-me?<\/p>\n<p>Ernestina teve vontade de dizer &#8211; esqueci-o &#8211; mas calou-se; roda a sua energia<br \/>\n    e resolu&ccedil;&atilde;o tinham-se despeda&ccedil;ado!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora casou muito cedo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com dezoito anos incompletos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quantos meses depois da minha partida?<\/p>\n<p>&#8211; Cinco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que barbaridade!&#8230;<\/p>\n<p>Riram-se. Lembravam-se juntos do passado.<\/p>\n<p>Tinham come&ccedil;ado a amar-se em casa de um tio de Ernestina, ela com<br \/>\n    quinze anos, ele com dezoito&#8230; uma criancice de que Ernestina se teria esquecido,<br \/>\n    se o seu casamento n&atilde;o tivesse sido feito por despeito disso. Luciano<br \/>\n    era ent&atilde;o estudante de medicina; o pai morava em Minas o ele hospedava-se<br \/>\n    em casa de um negociante, Gustavo Ferreira, no Engenho Velho.<\/p>\n<p>O negociante era o correspondente e o amigo mais querido do pai de Luciano<br \/>\n    e era tamb&eacute;m o irm&atilde;o preferido do pai de Ernestina. Isso ligou-os.<\/p>\n<p>O tio Gustavo, como ambos diziam, n&atilde;o tinha filhos, a mulher passava<br \/>\n    a vida doente, sempre queixosa e asm&aacute;tica, no entanto, ela vivia ainda<br \/>\n    e ele tinha morrido de um ataque apopl&eacute;ctico.<\/p>\n<p>&#8211; Seu pai? Perguntou Luciano<\/p>\n<p>&#8211; Morreu&#8230; Daquele tempo s&oacute; vivem a tia Mariana e a Josefa.<\/p>\n<p>&#8211; Que Josefa?<\/p>\n<p>&#8211; Aquela mulata l&aacute; de casa&#8230; que lhe fazia muita guerra.<\/p>\n<p>&#8211; Uma baixa&#8230; queixuda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso mesmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tenho id&eacute;ia&#8230; sim&#8230; que interceptava as minhas cartas!&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Exatamente.<\/p>\n<p>&#8211; Deve estar muito velha!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como o tempo passa!<\/p>\n<p>&#8211; E que saudades o senhor veio trazer-me da minha mocidade!<\/p>\n<p>Ouvindo de longe uma gargalhada argentina e fresca, a vi&uacute;va Sim&otilde;es<br \/>\n    disse:<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha! &eacute; preciso que a conhe&ccedil;a; vamos ao jardim! <\/p>\n<p>&#8211; Uma filha!&#8230; tornou Luciano com tristeza, ali est&aacute; uma lembran&ccedil;a<br \/>\n    do outro que me amargura bastante&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ela &eacute; um anjo!<\/p>\n<p>&#8211; Tanto pior&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina tornou-se muito s&eacute;ria o seu olhar at&eacute; ali inefavelmente<br \/>\n    doce, ficou de repente &aacute;spero, por ofendido.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, desejo mesmo cumprimentar Melle. Sim&otilde;es, murmurou Luciano<br \/>\n    emendando o seu erro, e demonstrando interesse pela menina.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, mas prometa-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; nada, vamos? E a vi&uacute;va passou adiante.<\/p>\n<p>A sala tinha portas para uma varanda de ladrilhos cor de rosa e colunas finas<br \/>\n    de ferro bronzeado. Dali descia-se por tr&ecirc;s degraus baixos e muito largos<br \/>\n    para o jardim. O sol de junho iluminava tudo com uma luz risonha, e nos largos<br \/>\n    canteiros relvados as flores rubras das casadinhas pareciam gotejar o sangue<br \/>\n    nos seus bra&ccedil;os espinhosos.<\/p>\n<p>A vi&uacute;va Sim&otilde;es ia adiante, erguendo a cauda do vestido preto;<br \/>\n    Luciano admirava-lhe a gra&ccedil;a do andar e a cor levemente morena do seu<br \/>\n    pesco&ccedil;o roli&ccedil;o e delicado. Dando volta ao jardim foram parar<br \/>\n    a uma segunda grade; a dona da casa abriu e entraram no pomar. A&iacute;,<br \/>\n    num espa&ccedil;o bem varrido, nivelado e todo guarnecido em derredor por<br \/>\n    bambus, &eacute; que Sara e as amigas jogavam o croquet.<\/p>\n<p>No momento em que entraram, exatamente quem jogava era a filha de Ernestina.<br \/>\n    N&atilde;o lhe viram a cara; estava curvada para diante; o vestido arrastava<br \/>\n    na frente, mostrando-lhe atr&aacute;s os tornozelos finos e as meias pretas<br \/>\n    riscadas de cinzento. A m&atilde;e deixou-a jogar, e ao v&ecirc;-la erguer-se<br \/>\n    bateu-lhe levemente no ombro. Sara voltou-se.<\/p>\n<p>Luciano observou-a com curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas &eacute; j&aacute; uma mo&ccedil;a! observou ele at&ocirc;nito.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o lhe disse que estava velha? perguntou Ernestina com um sorriso.<\/p>\n<p>Olhando atentamente para Sara, Luciano resumiu assim o seu ju&iacute;zo:<br \/>\n    a cara do pai! ponham-lhe umas barbas vermelhas e a&iacute; teremos o comendador<br \/>\n    Sim&otilde;es.<\/p>\n<p>Sara n&atilde;o era alta como a m&atilde;e, nem tinha a gentileza do seu<br \/>\n    porte aristocr&aacute;tico. Tinha a cabe&ccedil;a um pouco grande e forte,<br \/>\n    a testa arredondada, os olhos castanhos e inteligentes, o cabelo de um louro<br \/>\n    ardente e luminoso, a boca risonha, os dentes s&atilde;os.<\/p>\n<p>O que encantava nela era o bom ar de sa&uacute;de, de inoc&ecirc;ncia e de<br \/>\n    alegria que se emanava do seu olhar franco, da sua pele rosada e fresca, e<br \/>\n    da sua boca simp&aacute;tica.<\/p>\n<p>Pareceria um rapaz vestido de mulher se n&atilde;o tivesse uma express&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o ing&ecirc;nua e se os cabelos n&atilde;o lhe cobrissem as costas<br \/>\n    numa tran&ccedil;a t&atilde;o longa e t&atilde;o farta.<\/p>\n<p>Falava alto, e conquanto de tom autorit&aacute;rio, a sua voz era doce e<br \/>\n    clara.<\/p>\n<p>Ganhara a partida e estava vitoriosa; estendeu a m&atilde;o a Luciano, como<br \/>\n    se fosse a um amigo velho, com uma franqueza descuidada. Impelindo para tr&aacute;s<br \/>\n    o cabelo que lhe voava para o rosto, convidou as amigas para outra partida<br \/>\n    mas as companheiras estavam cansadas e ela come&ccedil;ou a juntar o aparelho<br \/>\n    numa caixa, contando ao mesmo tempo &agrave; m&atilde;e o fiasco de Georgina<br \/>\n    Tavares. Uma gra&ccedil;a!<\/p>\n<p>A Georgina era uma moreninha galante, filha de um advogado da vizinhan&ccedil;a,<br \/>\n    e a maior amiga de Sara. As outras eram quatro sobrinhas do dr. Tavares, filhas<br \/>\n    de um m&eacute;dico do Esp&iacute;rito Santo, e estavam passando uma temporada<br \/>\n    com a prima. Vestiam mal e encolhiam-se envergonhadas, umas de encontro &agrave;s<br \/>\n    outras.<\/p>\n<p>Ernestina voltou para dentro em companhia de Luciano. Atravessaram calados<br \/>\n    o jardim. No primeiro degrau da varanda a vi&uacute;va perguntou, parando<br \/>\n    de repente com a m&atilde;o sumida na trepadeira que envolvia uma das colunas:<\/p>\n<p>&#8211; Que tal achou minha filha?<\/p>\n<p>Ele moveu a cabe&ccedil;a com um sorriso, estendeu, depois de alguma hesita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os bei&ccedil;os em bico, e n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que lhe desagradou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A senhora parece-me ser uma dessas m&atilde;es excessivas a quem n&atilde;o<br \/>\n    se pode dar uma opini&atilde;o franca dos filhos?<\/p>\n<p>&#8211; Engana-se, respondeu secamente a vi&uacute;va.<\/p>\n<p>&#8211; O melhor &eacute; n&atilde;o perguntar nada. Ao contr&aacute;rio, eu quero<br \/>\n    saber qual a sua impress&atilde;o! Tenho empenho nisso! <\/p>\n<p>&#8211; Manda?<\/p>\n<p>&#8211; Exijo!<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o a&iacute; est&aacute;: acho-a feia!<\/p>\n<p>&#8211; Feia! mas em que!?<\/p>\n<p>&#8211; Em tudo menos no cabelo, que assim mesmo tem o defeito de ser um pouco<br \/>\n    avermelhado, e na cor da pele. Admira-me como n&atilde;o tem sardas, que s&atilde;o<br \/>\n    quase uma conseq&uuml;&ecirc;ncia do tipo.<\/p>\n<p>&#8211; Antipatizou com ela, &eacute; o que eu vejo!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; balbuciou Luciano vacilando.<\/p>\n<p>&#8211; Sara &eacute; m anjo<\/p>\n<p>&#8211; Muito parecida com o pai!<\/p>\n<p>&#8211; Ora.<\/p>\n<p>&#8211; Antes tivesse sa&iacute;do &agrave; m&atilde;e, concluiu Luciano, seria<br \/>\n    muito mais formosa e menos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E menos?<\/p>\n<p>&#8211; Quero dizer &#8211; mais agrad&aacute;vel para mim.<\/p>\n<p>Ernestina, apesar dos esfor&ccedil;os por encobrir a tristeza que essas palavras<br \/>\n    provocaram, deixou-a transparecer e Luciano despediu-se com uma certa frieza,<br \/>\n    como se estivessem amuados.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o voc&ecirc; foi hoje &agrave; Santa Tereza? perguntou o Rosas<br \/>\n    a Luciano Dias.<\/p>\n<p>&#8211; Fui&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ent&atilde;o, que tal?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda fresca! Bonita!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; bonitona, &eacute;.<\/p>\n<p>Conversavam acerca da vi&uacute;va Sim&otilde;es.<\/p>\n<p>O Rosas acabava de jantar com o amigo regaladamente, na sua saleta do pavilh&atilde;o,<br \/>\n    no Flamengo, com vista para o mar. Estavam s&oacute;s; o criado levara o caf&eacute;<br \/>\n    e eles tinham acendido os charutos.<\/p>\n<p>A tarde ca&iacute;a serena e bela num esmaecimento de tons delicados. Diante<br \/>\n    da porta aberta do pavilh&atilde;o, a rua larga e arenosa do jardim estendia-se<br \/>\n    com uma brancura p&aacute;lida, sem brilho, e nos largos canteiros relvados,<br \/>\n    batidos de sombra, as palmeiras ornamentais abriam muito as folhas, como enormes<br \/>\n    m&atilde;os espalmadas. Entre o verdor enegrecido das plantas, sorriam de<br \/>\n    vez em quando rosas claras, cor de carne mo&ccedil;a, e os arbustos das azal&eacute;ias<br \/>\n    brancas destacavam-se muito, todos cobertos com as suas flores de neve.<\/p>\n<p>Do outro lado, pelas janelas abertas, vinha o marulho das ondas a morrerem<br \/>\n    na praia.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; tenho licor&#8230; disse Luciano, respondendo a um gesto do Rosas,<br \/>\n    que tornara a encher o seu c&aacute;lice e passava a garrafa ao amigo.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; bom; isto reanima e conforta o est&ocirc;mago. E depois de um<br \/>\n    trago em que esgotou o c&aacute;lice:<\/p>\n<p>&#8211; Pois voc&ecirc; fez mal em ir &agrave; Sim&otilde;es&#8230; pode comprometer-se<br \/>\n    e depois n&atilde;o ter rem&eacute;dio, sen&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Casar? <\/p>\n<p>&#8211; Casar.<\/p>\n<p>&#8211; Qual!<\/p>\n<p>&#8211; Veja o que aconteceu comigo!<\/p>\n<p>O Rosas, homem j&aacute; dos seus cinq&uuml;enta anos, gordo e calvo, cansado<br \/>\n    do seu viver de solteir&atilde;o, tinha-se casado, para um ano depois separar-se<br \/>\n    da mulher, com grande esc&acirc;ndalo.<\/p>\n<p>A pobrezinha tinha sido uma cabe&ccedil;a tonta e bonita. Passara a mocidade<br \/>\n    a ler novelas dos jornais e a fazer crochet &agrave; janela da casa do pai,<br \/>\n    em S. Crist&oacute;v&atilde;o.<\/p>\n<p>Mont&eacute;pin lan&ccedil;ou-lhe no esp&iacute;rito a semente da inveja<br \/>\n    das fidalgas loiras, de m&atilde;os de cetim e olhos de veludo turquesa. O<br \/>\n    crochet dava-lhe tempo para remoer mentalmente cenas de amor ad&uacute;ltero<br \/>\n    deslizadas nos parques alfombrados de castelos provincianos. Quando casou,<br \/>\n    o Rosas tinha ainda todos os gostos do negociante pacato e burgu&ecirc;s.<br \/>\n    Como isso fosse por 1890, no per&iacute;odo efervescente do jogo da bolsa,<br \/>\n    em que os luxos se assanharam at&eacute; o desmando, n&atilde;o custou muito<br \/>\n    transform&aacute;-lo. Foi ela, portanto, quem o acostumou &agrave;queles jantares<br \/>\n    no pavilh&atilde;o, quem o obrigou a comprar carro, a freq&uuml;entar o l&iacute;rico,<br \/>\n    at&eacute; que um belo dia &#8211; z&aacute;s! L&aacute; se foi mar em fora com<br \/>\n    um primo dele, levando todas as j&oacute;ias e deixando por despedida algumas<br \/>\n    linhas mal escritas.<\/p>\n<p>Entretanto, aquele golpe n&atilde;o o desesperou; tinha mesmo facilidade<br \/>\n    extrema em aludir a ele. Chegava a ponto de constranger os amigos. Um deles<br \/>\n    notou-lhe um dia:<\/p>\n<p>&#8211; Homem! h&aacute; certas infelicidades que se escondem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ao contr&aacute;rio, respondeu-lhe o Rosas, h&aacute; certas infelicidades<br \/>\n    que devem ser espalhadas para servirem de exemplo!<\/p>\n<p>L&aacute; tinha o seu modo de ver.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; muitos meses que n&atilde;o vejo a Sim&otilde;es, prosseguiu<br \/>\n    o dono da casa, fincando o cotovelo na mesa e erguendo at&eacute; a altura<br \/>\n    da calva a m&atilde;o gorda e curta, em que luzia um enorme brilhante.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, j&aacute; agora hei de morrer solteiro, disse Luciano pausadamente.<br \/>\n    Conheci por alguns anos a vida de fam&iacute;lia, fui t&atilde;o feliz quanto<br \/>\n    podia ser nas condi&ccedil;&otilde;es em que me achava, e isso bastou-me.<\/p>\n<p>&#8211; Alguma liga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Uma rapariga por quem me apaixonei&#8230; vivemos quatro anos juntos.<br \/>\n    Hei de ter sempre saudades desse tempo&#8230; ela era linda e era um anjo!<\/p>\n<p>&#8211; Um anjo com asas para fugir depois de quatro anos de ventura, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Foi voc&ecirc; que a deixou ?<\/p>\n<p>&#8211; Morreu.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>Houve um instante de sil&ecirc;ncio. O Rosas prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que eu estava mal com o Sim&otilde;es?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Neg&oacute;cios.<\/p>\n<p>&#8211; Ouvi dizer que ele era um homem mau.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o era tal.<\/p>\n<p>&#8211; Por mim n&atilde;o sei nada. Eu mal o conheci. <\/p>\n<p>&#8211; Ele era um pouco irasc&iacute;vel e muito extremado nas suas opini&otilde;es<br \/>\n    mas era o que se pode chamar homem de bem! Na quest&atilde;o que tivemos,<br \/>\n    eu mesmo confesso, hoje, bem entendido, que a raz&atilde;o estava do lado<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Que quer? tive maus conselheiros. Essa &eacute; que &eacute; a verdade.<\/p>\n<p>&#8211; Ele era portugu&ecirc;s, n&atilde;o era?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; riograndense, filho de alem&atilde; e de um negociante que<br \/>\n    morreu doido, aqui no hosp&iacute;cio; ainda o conheci&#8230; O Sim&otilde;es<br \/>\n    tinha puxado ao tipo da m&atilde;e, era vermelho e ruivo; morreu de congest&atilde;o.<br \/>\n    J&aacute; se esperava isso mesmo era um touro, pesco&ccedil;o curto, cabe&ccedil;a<br \/>\n    grande&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A filha parece-se muito com ele deve ser violenta e forte. &Eacute; feia.<\/p>\n<p>&#8211; Tem uma filha s&oacute;?<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois o Sim&otilde;es n&atilde;o era mau homem. Um po&ccedil;o curto de<br \/>\n    id&eacute;ias&#8230; Se a menina sair ao pai n&atilde;o ser&aacute; atormentada<br \/>\n    pela intelig&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Agora diga-me: acerca do comportamento de Ernestina nunca se falou?<\/p>\n<p>&#8211; Nunca ouvi nada! Gozou sempre de reputa&ccedil;&atilde;o. Isso a meu ver<br \/>\n    n&atilde;o tem valor. H&aacute; mulheres t&atilde;o sonsas!<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! nem um amante, hein?<\/p>\n<p>&#8211; Nenhum, que me conste.<\/p>\n<p>&#8211; O Sim&otilde;es deixou grande fortuna?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei&#8230; calcula-se nuns quatrocentos contos, talvez.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; m&aacute; soma&#8230; Pois se n&atilde;o fosse o demo da<br \/>\n    filha, quem sabe? Talvez que realmente eu ca&iacute;sse na asneira de casar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o quis quando ela era mo&ccedil;a, e ent&atilde;o agora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando era mo&ccedil;a era pobre&#8230; Mas o que me metia mais medo, ainda<br \/>\n    assim, n&atilde;o era a pobreza, eram os olhos dela!<\/p>\n<p>&#8211; Os olhos!<\/p>\n<p>&#8211; Receava que viesse a suceder-me o que sucedeu a voc&ecirc; Ernestina tinha<br \/>\n    uma beleza provocante, de espantar maridos!<\/p>\n<p>&#8211; Pois foi uma boa mulher&#8230; essas coisas enganam. A minha era mansa como<br \/>\n    um cordeiro, olhos postos no ch&atilde;o&#8230; parecia um anjo! Ca&iacute; como<br \/>\n    um patinho&#8230; e a&iacute; est&aacute; o resultado! Ora! estou livre! Isto<br \/>\n    de casamento &eacute; o diabo! Evita Santa Tereza!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; perigo! Preciso de alguma coisa para entreter o tempo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Trabalha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em que! Perdi o costume. Depois o que tenho d&aacute;-me para viver&#8230;<\/p>\n<p>Luciano levantou-se e foi &agrave; janela, enquanto o Rosas sacudia com o<br \/>\n    dedo a cinza do charuto. <\/p>\n<p>&#8211; Sabe! disse Luciano sem se voltar, e prosseguindo logo: estou encantado<br \/>\n    com a minha terra. Que beleza!<\/p>\n<p>&#8211; Homem, n&atilde;o &eacute; isso que costuma dizer quem vem da Europa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Onde viu voc&ecirc; nunca uma cidade com vistas destas?! e apontou<br \/>\n    com um gesto largo a ba&iacute;a em frente.<\/p>\n<p>O Rosas levantou-se e foi encostar-se ao peitoril ao lado do outro. Ficaram<br \/>\n    silenciosos vendo os &uacute;ltimos raios do sol iluminarem com uma luz policroma<br \/>\n    parte do mar. De um lado tremulava uma rede malhada de ouro cintilante, mais<br \/>\n    al&eacute;m uma nuvem vermelha refletia nas &aacute;guas um tapete de rosas,<br \/>\n    e em outros pontos apareciam manchas viol&aacute;ceas e sombrias que iam crescendo<br \/>\n    e movendo-se na onda. Na areia clara destacavam-se velhas pedras escuras,<br \/>\n    em que as algas se apegavam, como aranhas secas.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos dar um giro, interrompeu o Rosas, pouco afeito &agrave;s contempla&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da natureza.<\/p>\n<p>E sa&iacute;ram os dois.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III<\/a><\/h4>\n<p>Luciano e o amigo desceram pela rua do Catete conversando e devagar, num<br \/>\n    exerc&iacute;cio de boa digest&atilde;o.<\/p>\n<p>O Rosas bamboleava o corpo curto e grosso, com o veston azul aberto na frente<br \/>\n    e as m&atilde;os sumidas nos bolsos; o Luciano ia ao lado, distra&iacute;do,<br \/>\n    com os bra&ccedil;os p&#8217;r&#8217;as costas e o bengal&atilde;o suspenso entre as duas<br \/>\n    m&atilde;os.<\/p>\n<p>Os bondes passavam cheios. Em uma ou outra casa iam-se mo&ccedil;as &agrave;<br \/>\n    janela, quase todas bonitas, bem vestidas.<\/p>\n<p>Ia caindo docemente a noite. Um propheta corria de lampi&atilde;o a lampi&atilde;o,<br \/>\n    com a blusa de zuarte flutuante, o varal erguido e o chap&eacute;u enterrado<br \/>\n    at&eacute; as orelhas.<\/p>\n<p>A rua tinha trechos menos tumultuosos de fei&ccedil;&atilde;o aristocr&aacute;tica,<br \/>\n    onde as casas n&atilde;o se abriam t&atilde;o burguesmente &agrave; poeira<br \/>\n    e &agrave; curiosidade de fora; mas logo em outro quarteir&atilde;o, tudo<br \/>\n    mudava, aspecto de pessoas e de coisas, como se se tivesse dado um salto para<br \/>\n    outro bairro. Ent&atilde;o, em vez de pr&eacute;dios grandes, de cortinas<br \/>\n    cerradas e plantas ornamentais nas entradas, eram as casas apertadas, desiguais;<br \/>\n    e, de vez em quando, ou um frege tresandando a azeite e sardinhas, ou uma<br \/>\n    quitanda apertada, cheirando a fruta apodrecida e a hortali&ccedil;a murcha.<br \/>\n    Nesse ponto andavam crian&ccedil;as aos magotes pela cal&ccedil;ada, de m&atilde;os<br \/>\n    dadas, embara&ccedil;ando os transeuntes. &Agrave; porta de um barbeiro ou<br \/>\n    de outra qualquer casa de neg&oacute;cio, sufocada por pr&eacute;dios maiores,<br \/>\n    conversavam algumas pessoas com muitos gestos e poucas risadas.<\/p>\n<p>Luciano prestava aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s m&iacute;nimas coisas, querendo<br \/>\n    em v&atilde;o comparar o aspecto dessa rua de ent&atilde;o, como do tempo<br \/>\n    em que ali tinha morado, havia largos anos!&#8230; A diferen&ccedil;a estaria<br \/>\n    na sua maneira de olhar? perguntava ele a si pr&oacute;prio.<\/p>\n<p>O Rosas conhecia meio mundo, morava por ali havia muito, por isso cumprimentava<br \/>\n    quase toda a gente; quando o fazia a alguma senhora chic, Luciano n&atilde;o<br \/>\n    tardava em perguntar-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute;?<\/p>\n<p>Pelo meio da rua rolavam maciamente os carros particulares, de volta do passeio<br \/>\n    a Botafogo e em demanda dos lares. O Rosas citava o nome das donas, gente<br \/>\n    boa, freq&uuml;entadora do L&iacute;rico e de Petr&oacute;polis.<\/p>\n<p>O Luciano pedia-lhe que o apresentasse, n&atilde;o conhecia ningu&eacute;m,<br \/>\n    e era soci&aacute;vel, afeito &agrave;s saias e a conversa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com senhoras.<\/p>\n<p>O Rosas sorria.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; est&aacute;-me com cara de conquistador. <\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hoje apresentar a gente um amigo como voc&ecirc; em casa de outro&#8230; &eacute;<br \/>\n    um perigo&#8230; enfim, n&atilde;o direi que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fa&ccedil;a-se de puritano!<\/p>\n<p>&#8211; E sou; desde que me sucedeu o que voc&ecirc; sabe, ent&atilde;o, nem se<br \/>\n    fala!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora adeus!<\/p>\n<p>Nisso o Rosas apontou para um carrinho elegante e leve, que vinha da cidade<br \/>\n    guiado por uma mo&ccedil;a de claro, airosa, bem sentada na almofada. Como<br \/>\n    a luz j&aacute; fosse escassa, Luciano n&atilde;o a pode ver bem. Atr&aacute;s<br \/>\n    dela desenham-se as silhou&eacute;ttes de dois lacaios empertigados.<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute;? inquiriu Luciano, reparando para um gesto do Rosas.<\/p>\n<p>&#8211; Clara Silvestre&#8230; uma ex-atriz do Recreio.<\/p>\n<p>&#8211; Parece chic.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; uma das mais bonitas, a&iacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Apresenta-me?<\/p>\n<p>&#8211; Sem escr&uacute;pulo.<\/p>\n<p>Houve um sorriso. Passavam pela esquina de Santo Amaro. Luciano parou, mostrando<br \/>\n    um pr&eacute;dio em frente.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; morei naquela casa&#8230; era ent&atilde;o rapazinho, andava &agrave;s<br \/>\n    voltas com exames de franc&ecirc;s.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o foi nascido e criado em Minas?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Ali ao lado era uma padaria e aqui, nesta esquina, um armaz&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; as reminisc&ecirc;ncias v&atilde;o tomando um car&aacute;ter<br \/>\n    mais positivo. Mas, que diabo! N&atilde;o me lembra que seu pai tenha morado<br \/>\n    aqui!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o, foi s&oacute; depois do meu nascimento que meu pai se<br \/>\n    resolveu a ir para a prov&iacute;ncia; voltamos de l&aacute; por doen&ccedil;a<br \/>\n    de minha m&atilde;e. No fim de dois anos ela morreu, meu pai regressou para<br \/>\n    a prov&iacute;ncia e eu fui ent&atilde;o morar com o nosso correspondente,<br \/>\n    o Gustavo Ferreira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tio da Sim&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, tio da Sim&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Conheci-o. Morreu, sabe?<\/p>\n<p>&#8211; Disse-mo a sobrinha.<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230; Ela p&ocirc;-lo ao corrente de todos os sucessos&#8230; Falaram do passado?<\/p>\n<p>&#8211; Um pouco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Devia ter sido linda, a Sim&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; Espl&ecirc;ndida! e depois viva, alegre!&#8230; parece muito mudada. Era de<br \/>\n    meter medo!&#8230; Hoje n&atilde;o &eacute; a mesma&#8230; ainda assim&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    lhe digo nada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; chic. Agora, fora de ca&ccedil;oada, n&atilde;o se ponha a brincar<br \/>\n    com o fogo inutilmente! A Sim&otilde;es &eacute; seria; voc&ecirc; deve evitar<br \/>\n    a conviv&ecirc;ncia, visto n&atilde;o querer casar. Conhe&ccedil;o bem a nossa<br \/>\n    sociedade&#8230; isto est&aacute; feio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que mania!<\/p>\n<p>&#8211; Tome sentido!<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! Ernestina &eacute; uma vi&uacute;va, n&atilde;o &eacute; mulher<br \/>\n    que se deixe iludir&#8230; Ser&aacute; capaz at&eacute; de me iludir a mim!<\/p>\n<p>&#8211; Qual! E quer saber uma coisa? Em todo este desmando em que vivemos, eu<br \/>\n    n&atilde;o culpo as mulheres, culpo os homens. Elas s&atilde;o boas.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!<\/p>\n<p>&#8211; Se voc&ecirc; quer a Sim&otilde;es, case-se com ela.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o volte a Santa Tereza.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tenho muita pr&aacute;tica&#8230; conhe&ccedil;o bem as mulheres!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode enganar-se uma vez. Voc&ecirc; agora est&aacute; em Paris&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parisiense ou n&atilde;o, a mulher &eacute; sempre a mesma!<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim! ou&ccedil;a o meu conselho!<\/p>\n<p>&#8211; Ora!<\/p>\n<p>A noite tinha ca&iacute;do completamente. Durante a travessia do cais da<br \/>\n    Gl&oacute;ria, sentiram frio. O Rosas falava sempre, Luciano mal o ouvia,<br \/>\n    com o pensamento afastado.<\/p>\n<p>Atravessavam agora a rua da Lapa.<\/p>\n<p>Mo&ccedil;as cheias de fitinhas e de papelotes recostavam-se ao peitoral<br \/>\n    das janelas baixas; na cal&ccedil;ada os moleques assobiavam o Chegou, chegou,<br \/>\n    chegou, e os baleiros ro&ccedil;avam pelas crian&ccedil;as, oferecendo-lhes<br \/>\n    balas. Ali n&atilde;o podiam conversar, a cal&ccedil;ada era estreita, muito<br \/>\n    atravancada; Luciano caminhava atr&aacute;s do Rosas, reparando para os tipos,<br \/>\n    admirado de ver t&atilde;o poucas pretas. Uma ou outra mulata cruzava-se de<br \/>\n    vez em quando no caminho, carregada de ess&ecirc;ncias e de la&ccedil;os,<br \/>\n    muito espartilhada, exagerando a moda do vestido e do penteado. Onde se teriam<br \/>\n    metido os pretos do ganho, os minas, de cara retalhada, rodilha na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    cesto na m&atilde;o? E o fervilhamento de crioulas na rua, de vestido de riscado<br \/>\n    e manga curta, mais a quantidade de formosas baianas, muito limpas, como seu<br \/>\n    belo traje flamante, a camisa de renda, o turbante airoso, o pesco&ccedil;o<br \/>\n    e os bra&ccedil;os cheios de contas de vidro e de corais, a manta riscada,<br \/>\n    a tiracolo, a sala muito franzida rebolando aos movimentos dos s&oacute;lidos<br \/>\n    quadris carnudos, e as chinelinhas tac-que-tac nas cal&ccedil;adas?<\/p>\n<p>E os chins de tran&ccedil;a longa, roupa de algod&atilde;o grosso, vara no<br \/>\n    ombro gigos pendentes, percorrendo as ruas num passo apressado e ferindo o<br \/>\n    ar com a sua voz achatada &#8211; camalon &#8211; p&eacute;ce!? E os crioulos que vendiam<br \/>\n    cal&ccedil;ado em caixas envidra&ccedil;adas, apregoando, numa melop&eacute;ia<br \/>\n    grave e prolongada &#8211; Sapato! E as g&ocirc;ndolas, dilig&ecirc;ncias desengon&ccedil;adas,<br \/>\n    suspensas sobre as suas quatro rodas altas, rodando aos solavancos sobre os<br \/>\n    paralelep&iacute;pedos, num fracasso tremendo? E os meninos vendedores de<br \/>\n    cana, entoando musicalmente:<\/p>\n<p>&#8211; Vai cana, sinh&aacute;, vai cana sinh&aacute;, vai cana sinh&aacute;, bem<br \/>\n    doce!? E os carregadores de pianos, empunhando o caracax&aacute; tradicional,<br \/>\n    que vinha desde longe num rumor inconfund&iacute;vel?<\/p>\n<p>Que vento dispersara aquela gente? para que pa&iacute;s teriam fugido todos<br \/>\n    aqueles tipos a que se habituara na inf&acirc;ncia? Agora s&oacute; via caras<br \/>\n    estrangeiradas, muitos italianos, turcos imundos, quase toda a gente branca,<br \/>\n    muito luxo, muitas equipagens, cavalos de ra&ccedil;a guiados por titulares,<br \/>\n    com lacaios e grooms ingleses, muitas toilettes vistosas, muitos brilhantes<br \/>\n    e uma variedade infinita da cores nas bandejas de balas e nas cabe&ccedil;as<br \/>\n    das burguezinhas pobres, cheias de papelotes!<\/p>\n<p>De dia para dia as coisas mudam de aspecto e muda a observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos olhos que as v&ecirc;em. Luciano sentia saudades da sua maneira dever<br \/>\n    e de sentir de outrora! Ent&atilde;o as impress&otilde;es ficavam-lhe sem<br \/>\n    que o esp&iacute;rito as analisasse, agora submetia tudo a cr&iacute;tica<br \/>\n    e a compara&ccedil;&atilde;o est&uacute;pida e fatigante, sem conseguir fixar<br \/>\n    bem no esp&iacute;rito o car&aacute;ter especial do lugar e do povo por que<br \/>\n    passava.<\/p>\n<p>Tinham chegado ao largo da Lapa e encaminharam-se para o passeio. O Rosas<br \/>\n    retomou o fio da conversa; para ele era ponto de f&eacute;: a felicidade no<br \/>\n    lar era prejudicada pelo marido.<\/p>\n<p>&#8211; Somos uns viciosos acrescentava ele &#8211; pensamos em duas coisas &#8211; roleta<br \/>\n    e mulheres; ainda no Rio n&atilde;o &eacute; nada, mas nas prov&iacute;ncias?<br \/>\n    N&oacute;s damos &agrave;s nossas esposas o luxo que podemos, mas n&atilde;o<br \/>\n    as associamos aos nossos empreendimentos, n&atilde;o as fazemos entrar em<br \/>\n    nosso esp&iacute;rito. Compreende voc&ecirc;? S&atilde;o objetos de luxo e<br \/>\n    de comodidade&#8230; tamb&eacute;m percebendo isto mesmo, algumas delas, desde<br \/>\n    que n&atilde;o nos faltem bot&otilde;es na roupa branca e o almo&ccedil;o<br \/>\n    &agrave; hora certa, n&atilde;o t&ecirc;m muito escr&uacute;pulo em nos retribu&iacute;rem<br \/>\n    as mentiras que lhes pregamos.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! Voc&ecirc; &eacute; um original! Se outro o dissesse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isto n&atilde;o quer dizer que a maioria das fam&iacute;lias aqui n&atilde;o<br \/>\n    sejam honest&iacute;ssimas!<\/p>\n<p>&#8211; Honestidade &eacute; palavra que se n&atilde;o usa em pa&iacute;ses civilizados&#8230;<\/p>\n<p>O Rosas n&atilde;o respondeu; seguiram pela alameda da esquerda at&eacute;<br \/>\n    o terra&ccedil;o, fugindo ao povo que se aproximava do restaurant, &agrave;<br \/>\n    espera da m&uacute;sica.<\/p>\n<p>E foi ent&atilde;o &agrave; luz das estrelas que tremulava l&aacute; em cima<br \/>\n    entre flocos de nuvens, e ao olhar das ondas c&aacute; em baixo, que um desfiar<br \/>\n    do anedotas, de parte a parte, os obrigava muitas vezes a parar e a torcerem-se<br \/>\n    de riso.<\/p>\n<p>Uma hora depois despediram-se. O Rosas ia para um voltarete com amigos e<br \/>\n    Luciano para o teatro.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p>O car&aacute;ter de Ernestina ia-se transformando rapidamente. Depois da<br \/>\n    visita de Luciano, ela passou uns dias muito sombria e r&iacute;spida, indignada<br \/>\n    consigo mesma contra as id&eacute;ias que lhe iam nascendo como rebent&otilde;es<br \/>\n    novos em tronco maduro, diversas em tudo das antigas, que se despegavam como<br \/>\n    folhas secas&#8230; Enraivecia-a a lembran&ccedil;a da sua fraqueza e condescend&ecirc;ncia,<br \/>\n    deixando Luciano recordar coisas perigosas&#8230; Ah! se pudesse voltar atr&aacute;s<br \/>\n    recome&ccedil;ar todo o tempo da visita, como se faria impass&iacute;vel,<br \/>\n    serena e austera!<\/p>\n<p>As coisas agora eram bem outras! Ainda h&aacute; pouco tempo ela n&atilde;o<br \/>\n    sa&iacute;a de casa e impunha &agrave; filha, rigorosamente, todos os preceitos<br \/>\n    e tristezas do luto. Eram ent&atilde;o baldados os convites da Georgina Tavares,<br \/>\n    que morava ao lado e que n&atilde;o faltava com os pais a inst&acirc;ncias<br \/>\n    e oferecimentos. Nada! Sara tinha muitas vezes desejo de ir a uma ou outra<br \/>\n    soir&eacute;e, mas respondia gaguejando que n&atilde;o, &agrave; espera que<br \/>\n    a m&atilde;e consentisse.<\/p>\n<p>Ernestina conservava-se muda e Georgina retirava-se desapontada e triste.<br \/>\n    No dia seguinte esta corria logo cedo a vazar nos ouvidos da amiga as suas<br \/>\n    impress&otilde;es do baile ou do teatro, e era ent&atilde;o um chilrear de<br \/>\n    risadinhas sufocadas e de exclama&ccedil;&otilde;es por coisas apenas entrevistas<br \/>\n    por uma nas descri&ccedil;&otilde;es muito falhadas e entrecortadas da outra.<\/p>\n<p>Sara perguntava pelas toilettes mais lindas do baile e Georgina explicava-as<br \/>\n    com uma min&uacute;cia surpreendente. Assim o enredo dos dramas. Que de l&aacute;grimas<br \/>\n    rebentavam dos olhos de ambas e que desfolhar de risos tinham os seus l&aacute;bios<br \/>\n    de meninas, quando Georgina transladava para aquele sereno canto do jardim<br \/>\n    os gritos de agonia ou as frases jocosas que ouvira no palco!<\/p>\n<p>E era s&oacute;:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! Voc&ecirc; n&atilde;o imagina! Que coisa bonita!<\/p>\n<p>&#8211; Conte o resto! suplicava Sara com olhar &aacute;vido e ouvidos bem abertos.<\/p>\n<p>E as cenas atropelavam-se.<\/p>\n<p>Georgina ia e vinha muito ligeira, esquecia min&uacute;cias que ligavam o<br \/>\n    entrecho, voltava atr&aacute;s, parava de repente para um detalhe, descrevia<br \/>\n    os vestidos das atrizes e atrapalhava-se a mi&uacute;do embrulhando cenas<br \/>\n    ou repetindo frases.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, num ou noutro ponto, confessava: aqui n&atilde;o entendi<br \/>\n    bem! e, outras vezes ent&atilde;o, a sua imagina&ccedil;&atilde;o colaborava<br \/>\n    em grande escala com o autor da pe&ccedil;a, descrita e ampliada.<\/p>\n<p>Sara impacientava-se, tirava por conclus&otilde;es, farrapo a farrapo, o<br \/>\n    drama inteiro! Como deveria ser lindo!<\/p>\n<p>Na manh&atilde; seguinte a uma r&eacute;cita do L&iacute;rico, Georgina ia<br \/>\n    mais cedo para a casa da amiga, havia mais que contar. Em primeiro lugar,<br \/>\n    descarnava-se o libreto, depois o cen&aacute;rio. Georgina movia o seu corpo<br \/>\n    leve e delgado, explicando com muitos gestos:<\/p>\n<p>&#8211; A cena representava o mar, ao fundo; &agrave; esquerda uma igreja com torres,<br \/>\n    sino e tudo. Aqui, e apontava para um canteiro de jurujubas, havia uns degraus,<br \/>\n    ali (outro canteiro) uma casa grande com um port&atilde;o em arco; &agrave;<br \/>\n    direita as ruas. Quando a Theodorini entra, com um grande v&eacute;u branco<br \/>\n    pelo rosto e o vestido de noiva a rastos, a gente sente una calafrio &#8211; que<br \/>\n    n&atilde;o pode explicar.<\/p>\n<p>Podia; Sara encolhia os ombros, imitando insensivelmente o movimento da outra.<\/p>\n<p>&#8211; Que pena que voc&ecirc; n&atilde;o ou&ccedil;a a Theodorini!<\/p>\n<p>&#8211; E a m&uacute;sica?<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; Georgina levantava embevecida os olhos ao c&eacute;u. Sara suspirava,<br \/>\n    lamentando n&atilde;o ter ouvido e visto tudo aquilo.<\/p>\n<p>Passava depois &agrave; descri&ccedil;&atilde;o dos espectadores.<\/p>\n<p>&#8211; Estavam muitos conhecidos?<\/p>\n<p>&#8211; Alguns. O Breves foi falar conosco num intervalo; perguntou por voc&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>O Breves era sempre o primeiro mencionado por ela, por fazer a corte a Sara.<\/p>\n<p>&#8211; Que me importa o Breves! E o Raul? <\/p>\n<p>O Raul fazia a corte a Georgina.<\/p>\n<p>&#8211; Estava tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8211; Olhou muito p&#8217;ra voc&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Olhou&#8230; Eu fingi que n&atilde;o o via&#8230; por causa da mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>Seguia depois a rela&ccedil;&atilde;o dos camarotes. As Mendes; duas de azul,<br \/>\n    duas de cor de rosa; j&aacute; um pouco amarrotadas pelos anos, mas, com o<br \/>\n    muito p&oacute; d&#8217;arroz e alguns brilhantes, ainda faziam vista&#8230;<\/p>\n<p>O pai, em p&eacute;, atr&aacute;s delas com as barbicas brancas espetadas<br \/>\n    e a sua eterna posi&ccedil;&atilde;o de bra&ccedil;os cruzados, parecia um<br \/>\n    lacaio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A Helena Gomes estava?<\/p>\n<p>&#8211; Muito chic! Toda de branco, com p&eacute;rolas no pesco&ccedil;o e violetas<br \/>\n    na cintura&#8230; o marido, que tolo! Deixava de olhar para ela para se derreter<br \/>\n    para a prima, que &eacute; uma lesma!<\/p>\n<p>&#8211; Que prima?<\/p>\n<p>&#8211; Para a D. Catarina!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Aquela a quem voc&ecirc; me apresentou no hotel da Boa Vista?!<\/p>\n<p>&#8211; Essa mesma! Est&aacute; seca e com umas olheiras que lhe comem a cara!<br \/>\n    Horr&iacute;vel!<\/p>\n<p>&#8211; A Helena vinga-se&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; verdade!&#8230; l&aacute; estava o Seixas no mesmo camarote&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Assim mesmo t&ecirc;m sido fi&eacute;is&#8230;<\/p>\n<p>Riam-se. Comentavam tudo. O focinhozinho inteligente de Georgina farejava<br \/>\n    todo o teatro, descortinava sorrisos que partiam de uns para outros, leves<br \/>\n    e sutis como o voar de arminhos soltos. A ingenuidade dos quinze anos era<br \/>\n    uma hist&oacute;ria nessa criatura freq&uuml;entadora da sociedade em que<br \/>\n    todos os v&iacute;cios se exp&otilde;em tanto &agrave; luz. Curiosidade e<br \/>\n    perspic&aacute;cia, sim, tinha de sobra, e quando comentava erros alheios<br \/>\n    punia sempre os delinq&uuml;entes, afirmando:<\/p>\n<p>&#8211; Quando eu me casar n&atilde;o hei de incorrer na mais pequena falta!<\/p>\n<p>Partiam quase sempre dessa frase no batel de ouro do futuro, a fazer e desfazer<br \/>\n    sonhos, at&eacute; que se separavam com dois beijos.<\/p>\n<p>Antes disso ainda num lamento por n&atilde;o ter visto o mesmo que Georgina,<br \/>\n    Sara suspirava:<\/p>\n<p>&#8211; Se papai fosse vivo!<\/p>\n<p>Era o ponto final.<\/p>\n<p>Ernestina, que fora sempre inflex&iacute;vel &agrave;s solicita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da filha para sa&iacute;das e divertimentos, mudara completamente de parecer<br \/>\n    depois da visita de Luciano.<\/p>\n<p>Agora, ela n&atilde;o sabia mesmo por que, sentia necessidade de andar, divertir-se,<br \/>\n    num ambiente diverso do seu.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, com a tardan&ccedil;a que Luciano punha em fazer-lhe a segunda<br \/>\n    visita, esse desejo aumentou, caracterizando-se nela vontade que tinha de<br \/>\n    o encontrar na rua, num jardim numa sala, em qualquer parte, como obra do<br \/>\n    acaso.<\/p>\n<p>Ernestina lembrou &agrave; filha toilettes novas, como pretexto para descer<br \/>\n    &agrave; cidade.<\/p>\n<p>Era a sua primeira tentativa. Sara exultou. Estavam ao almo&ccedil;o; comeram<br \/>\n    com apetite, conversando numa camaradagem risonha. Bonito sol&#8230; dia fresco.<br \/>\n    Belo passeio! Logo ali fizeram uma lista de coisas precisas.<\/p>\n<p>Ernestina disse &agrave; filha que se n&atilde;o vestisse antes das duas<br \/>\n    horas, e dirigiu-se para o seu quarto. O diabinho da Simpl&iacute;cia &eacute;<br \/>\n    que sabia bem o lugar de todas as coisas, e veio pressurosa ajudar a ama,<br \/>\n    observando-a de esguelha, como se lhe estudasse os movimentos. Come&ccedil;ou<br \/>\n    a dispor das roupas para a sa&iacute;da, com o maior esmero. Os crepes do<br \/>\n    luto passavam do guarda-vestidos para cima da cama, onde Ernestina os examinava<br \/>\n    com cuidado.<\/p>\n<p>A Simpl&iacute;cia ia e vinha, sumindo as m&atilde;os magras nas gavetas,<br \/>\n    retirando as roupas brancas e os fichus, len&ccedil;os e meias de seda. De<br \/>\n    vez em quando, num giro r&aacute;pido, ocultava no seio, sutilmente, um rolo<br \/>\n    de fitas, sem que a vi&uacute;va desse por tal, mas vinha logo estender na<br \/>\n    cama o leque, as luvas, o v&eacute;u, a saia de seda, at&eacute; o chap&eacute;u<br \/>\n    de sol, que ela escovava com min&uacute;cia. Tudo pronto, Ernestina mandou-a<br \/>\n    sair mas a rapariga achou jeito de se chegar para o guarda-vestidos, ainda<br \/>\n    escancarado, e de exclamar com modo lisonjeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Iai&aacute; &eacute; a mo&ccedil;a de mais gosto que h&aacute; em Santa<br \/>\n    Tereza!&#8230; &Eacute; preciso Iai&aacute; se casar outra veiz para us&aacute;<br \/>\n    seus vestidos claros&#8230; Hi! Iai&aacute; fica bonita com roupa clara!<\/p>\n<p>Ernestina corou; e vendo os olhinhos da mulata fixos nela, disse com aspereza:<\/p>\n<p>&#8211; Vai-te embora.<\/p>\n<p>A Simpl&iacute;cia saiu e a mo&ccedil;a fechou-se por dentro. Foi ent&atilde;o<br \/>\n    para outro quarto cont&iacute;guo, onde estava o toucador. Sentou-se em frente<br \/>\n    ao espelho e ensaiou penteados novos pacientemente, a ver se algum lhe ficaria<br \/>\n    melhor que o habitual; venceu por fim o costumado; o cabelo parecia ir tombando<br \/>\n    sozinho, nas ondula&ccedil;&otilde;es naturais. A vi&uacute;va curvou-se,<br \/>\n    observou de perto os dentes, perfumou-se muito, sorrindo para o espelho, achando<br \/>\n    bonito o seu rosto oval, onde as pestanas faziam sombra.<\/p>\n<p>Em frente dela, sobre o m&aacute;rmore, o perfumista Guerlin parecia ter<br \/>\n    despejado, profusamente, os seus mais finos produtos. Potes de porcelana,<br \/>\n    vasos de cristal, bocetas de veloutine exalavam um aroma confuso, forte, entontecedor.<\/p>\n<p>Sozinha naquele quarto em que a sua imagem se duplicava, Ernestina estudava<br \/>\n    os seus movimentos procurando ao mesmo tempo adivinhar qual seria, entre tantos,<br \/>\n    o perfume preferido de Luciano.<\/p>\n<p>O musgo?&#8230; Quem sabe? Talvez&#8230; fazia lembrar o campo&#8230; &aacute;gua limpa<br \/>\n    rolando em pedras claras, camponesas contentes, de carnes fortes.<\/p>\n<p>O l&iacute;rio? Quem sabe?&#8230; Talvez&#8230; fazia sonhar em id&iacute;lios brandos<br \/>\n    e amores virginais. A flor de fruta? O jicky? O heliotropo? A violeta?&#8230;<br \/>\n    Quem pudesse adivinhar! Ernestina abria os diversos frascos, consecutivamente.<br \/>\n    Chegava-os bem perto, as narinas palpitantes; mas no fundo de todos eles encontrava<br \/>\n    o mesmo mist&eacute;rio, a mesma vertigem, a mesma d&uacute;vida!<\/p>\n<p>Isso exacerbava a voluptuosidade da mo&ccedil;a, irritando-a no mesmo tempo.<br \/>\n    Desmanchava com m&atilde;os nervosas, na &aacute;gua simples, as nuvens opalinas<br \/>\n    das ess&ecirc;ncias e quedava-se depois observando os seus ombros delicados<br \/>\n    e nus, os seus formosos bra&ccedil;os e a maciez do seu colo airoso.<\/p>\n<p>Vestia-se devagar, demoradamente. A l&atilde; preta do luto repugnou-lhe;<br \/>\n    aquele trajo &aacute;spero e triste n&atilde;o era o que o seu corpo desejava.<br \/>\n    A pele bem tratada queria seda, um contato macio que ca&iacute;sse sobre ela<br \/>\n    como uma caricia&#8230;<\/p>\n<p>Abriu a gaveta das j&oacute;ias, apalpou os an&eacute;is de brilhantes e<br \/>\n    de p&eacute;rolas, as pulseiras e o seu alfinete predileto, um bot&atilde;o<br \/>\n    de rubi e brilhantes. Mas sobre a l&atilde; do vestido as j&oacute;ias iam<br \/>\n    mal, e o mundo impedia-lhe o prazer de as trazer com o luto.<\/p>\n<p>Toda de preto parecia mais magra e menos bonita. Exasperou-se. Achou o vestido<br \/>\n    medonho, o chap&eacute;u detest&aacute;vel!<\/p>\n<p>Durante mais de uma hora foi um incessante abrir e fechar de gavetas, at&eacute;<br \/>\n    que a voz de Sara se fez ouvir atrav&eacute;s da porta.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e? Est&aacute; pronta? S&atilde;o duas horas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; vou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; eu estou pronta&#8230; a senhora quer lunch ?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; melhor irmos ao Paschoal, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; sim, vai descendo&#8230; eu j&aacute; vou.<\/p>\n<p>Sara descia o jardim quando sentiu os passos apressados da m&atilde;e. Ernestina<br \/>\n    impacientara-se com a espera do bonde para o elevador, e embaixo, com o outro<br \/>\n    que a levasse a S. Francisco. Falava em comprar carro, mudar mesmo de bairro,<br \/>\n    ir para Laranjeiras. Sara estranhava aquilo, fazendo obje&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Concordava com a aquisi&ccedil;&atilde;o do carro, mas opunha-se &agrave;<br \/>\n    troca de casa; aquela em que viviam estava cheia de recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do pai: o escrit&oacute;rio, sua varanda predileta&#8230; os cantos preferidos<br \/>\n    no terra&ccedil;o, na sala de jantar&#8230; at&eacute; as plantas fora, &aacute;rvores<br \/>\n    e roseiras cultivadas por ele! Suplicava que n&atilde;o falasse nisso.<\/p>\n<p>Chegadas &agrave; cidade Ernestina procurava em n&atilde;o esconder o seu<br \/>\n    alvoro&ccedil;o. Sara f&ecirc;-la entrar na Notre Dame, encantada pela exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das vitrines. A m&atilde;e deixava-a perto do balc&atilde;o, sozinha e dirigia&#8211;se<br \/>\n    amiudadamente &agrave; porta, numa ansiedade febril.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a reclamava:<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e! Escolha; qual &eacute; mais bonito, este corte cinzento ou<br \/>\n    aquele branco e preto?<\/p>\n<p>&#8211; O azul.<\/p>\n<p>&#8211; O azul!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, o azul &eacute; o mais bonito, respondeu a m&atilde;e apressada quase<br \/>\n    sem olhar.<\/p>\n<p>&#8211; E o luto?<\/p>\n<p>Ernestina atrapalhou-se, j&aacute; nem lhe ocorria o luto. E num disfarce:<\/p>\n<p>&#8211; Quero dizer &#8211; podes tamb&eacute;m comprar o azul, para fazer depois.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o passar&aacute; da moda?!<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei l&aacute;!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e, acha que o azul me vai bem?<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem.<\/p>\n<p>Cansada de pedir conselhos &agrave; m&atilde;e, Sara passava sozinha do rayon<br \/>\n    das l&atilde;s para os das sedas, das capas, dos chap&eacute;us, das rendas,<br \/>\n    de tudo!<\/p>\n<p>Comprava aqui, ali, acol&aacute;, meio tonta, magnetizada por tantas coisas<br \/>\n    brilhantes e bem dispostas.<\/p>\n<p>A travessia daquela casa ia-lhe povoando a imagina&ccedil;&atilde;o de sonhos.<\/p>\n<p>As escomilhas, as gazes, as tules transparentes, as sedas muito claras, de<br \/>\n    tecidos mimosos lembravam-lhe bailes, acendiam-lhe desejos de valsas, cortadas<br \/>\n    por frases curtas ao som ritmado da m&uacute;sica. As sedas pretas, os livros<br \/>\n    de missa, as grandes franjas do vidrilho, chamavam-na de repente a festas<br \/>\n    de igreja, muito solenes, onde o bispo aben&ccedil;oasse o povo&#8230; Dali saltava<br \/>\n    para o m&eacute;nage; as toalhas de linho adamascadas com barras vermelhas,<br \/>\n    ouro velho e azul persa, sorriam-lhe, chamando-a para a sua alegre sala de<br \/>\n    jantar, cheirando as belas rosas &#8211; marechal Niel, que se enroscavam &agrave;s<br \/>\n    janelas. E ela apalpava pel&uacute;cias cor de fogo e rendas cor de opala,<br \/>\n    pensava em toilettes de teatro, de baile, de recep&ccedil;&atilde;o, de passeio,<br \/>\n    vendo as fitas desenroscarem-se dentre as m&atilde;os de um caixeiro, como<br \/>\n    serpentes multicores e tentadoras, e contemplando os grandes leques de plumas,<br \/>\n    que uma mo&ccedil;a escolhia perto do balc&atilde;o.<\/p>\n<p>Queria comprar tudo; encontrava uma aplica&ccedil;&atilde;o imediata para<br \/>\n    cada objeto. A moda sorria-lhe, chamava-a para fora daquele luto, daquela<br \/>\n    vida austera, concentrada e simples do seu chalet. Invejava as mulheres que<br \/>\n    freq&uuml;entam a sociedade arrastando capas de arminhos em corredores de<br \/>\n    teatros e caudas de veludo nos sal&otilde;es de baile.<\/p>\n<p>Na ocasi&atilde;o do pagamento, Sara correu a m&atilde;e, que n&atilde;o<br \/>\n    sa&iacute;ra da porta. Ernestina entregou-lhe a carteira, que fosse sozinha<br \/>\n    &agrave; caixa, ela esperaria ali.<\/p>\n<p>Um instante depois desciam a par a rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>Havia muita gente nas cal&ccedil;adas, um rumor surdo de passos e de vozes<br \/>\n    que as atordoava; tinham-se afeito ao sil&ecirc;ncio da sua ch&aacute;cara.<br \/>\n    Sara entrou num armarinho, Ernestina acompanhou-a at&eacute; o interior da<br \/>\n    casa, mas voltou depressa para fora com um sobressalto. Parecia-lhe ouvir<br \/>\n    a voz de Luciano. Fora erro: era um sujeito que discutia com um velhote surdo,<br \/>\n    gesticulando muito.<\/p>\n<p>De p&eacute;, na soleira da porta, a vi&uacute;va olhava para a multid&atilde;o<br \/>\n    que passava, esperando, a todos os minutos, o Luciano&#8230; Pela l&atilde; mole<br \/>\n    do seu vestido preto ro&ccedil;avam as saias de seda e as saias de chita das<br \/>\n    outras mulheres que passeavam devagar ou que passavam apenas, na pressa dos<br \/>\n    que trabalham.<\/p>\n<p>Na esquina, perto, estacionavam os vendedores de flores; os seus ramos de<br \/>\n    cravos e violetas embalsamavam o ar; e era um encanto ver a variedade de rosas<br \/>\n    finas, brancas, amarelas, escarlates, cor de rosa, e os raminhos de mios&oacute;tis,<br \/>\n    de um azul delicado, dormindo na concha verde e macia de uma folha de malva,<br \/>\n    mais as formosas cam&eacute;lias da Petr&oacute;polis de uma alvura pur&iacute;ssima&#8230;<\/p>\n<p>No meio da rua, um homenzinho cor de folha seca atra&iacute;a a crian&ccedil;ada<br \/>\n    segurando pelos fios os alegres bal&otilde;es de g&aacute;s, vermelhos e azuis,<br \/>\n    muito leves, que bailavam sobre a onda movedi&ccedil;a dos chap&eacute;us<br \/>\n    escuros.<\/p>\n<p>Mas que importava &agrave; vi&uacute;va Sim&otilde;es aquela variedade de<br \/>\n    matizes, aquela do&ccedil;ura de sons, aquela onda de perfumes, de toilletes,<br \/>\n    e de mulheres bonitas que se alastrava por ali? Tinha s&oacute; um objetivo:<br \/>\n    v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>Uma cigana imunda, com o filho ao colo e o xale em farrapos, esteve longo<br \/>\n    tempo parada diante dela, com a m&atilde;o estendida, murmurando queixumes.<br \/>\n    Ernestina, com a cabe&ccedil;a erguida e o olhar em busca de Luciano entre<br \/>\n    grupos e grupos de homens que se sucediam, nem a viu nem ouviu, e a mendiga,<br \/>\n    desanimada, passou adiante.<\/p>\n<p>Uma pancada de leque num ombro chamou-a a realidade. Era D. Candinha, a mulher<br \/>\n    do Nunes.<\/p>\n<p>&#8211; Que milagre &eacute; esse?! Voc&ecirc; na cidade!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! &Eacute; verdade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Onde est&aacute; Sara? Bem se v&ecirc; que voc&ecirc; n&atilde;o vem &agrave;<br \/>\n    rua do Ouvidor h&aacute; muito tempo! <\/p>\n<p>&#8211; Por qu&ecirc;?!<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; com ar esquisito&#8230; tem alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; Sara!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou aqui, mam&atilde;e.<\/p>\n<p>Foi um al&iacute;vio para a vi&uacute;va. Sara desatou a conversar com D.<br \/>\n    Candinha e Ernestina deixou-se silenciosa, &agrave; vontade.<\/p>\n<p>D. Candinha era uma boa companheira de passeio, desembara&ccedil;ada, risonha<br \/>\n    e conhecendo meio mundo, o que encantava Sara, &aacute;vida por divertimentos<br \/>\n    e sociabilidade. A mulher do Nunes era alta, gorda, morena, bei&ccedil;o ensombrado<br \/>\n    por um bu&ccedil;o, amea&ccedil;ador de se tornar em bigode l&aacute; para<br \/>\n    a velhice, bonita de fei&ccedil;&otilde;es, com dentes magn&iacute;ficos e<br \/>\n    olhos rasgados, &uacute;midos e espertos. Gostava muito de reunir em casa<br \/>\n    os amigos em soir&eacute;es que se prolongavam at&eacute; as primeiras horas<br \/>\n    do dia. Vestia com luxo, embora sem gosto, sedas com ramos, tecidos vistosos<br \/>\n    que lhe iam mal. Usava muitas j&oacute;ias e falava alto, abrindo os bra&ccedil;os<br \/>\n    para cada amiga, e a bolsa para cada pobre.<\/p>\n<p>&#8211; Viram passar por aqui o meu velho? perguntou &agrave;s Sim&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>D. Candinha adorava o marido, negociante portugu&ecirc;s, homem generoso,<br \/>\n    que lhe fazia todas as vontades e ainda pagava col&eacute;gio de luxo &agrave;s<br \/>\n    cunhadas e casa a duas tias velhas, irm&atilde;s do sogro.<\/p>\n<p>Estiveram conversando algum tempo, at&eacute; que Ernestina, muito impaciente,<br \/>\n    arrastou a filha consigo.<\/p>\n<p>De longe em longe alguns conhecidos faziam-nas parar, manifestando espanto<br \/>\n    por encontr&aacute;-las na cidade, t&atilde;o raro isso era. Sara ria-se,<br \/>\n    Ernestina respondia, seguindo com o olhar a turba que passava. Em uma dessas<br \/>\n    ocasi&otilde;es conversavam com um velho, amigo do finado Sim&otilde;es quando<br \/>\n    Ernestina julgou ver Luciano ao longe.<\/p>\n<p>Foi uma l&aacute;stima! o velho falava-lhe sem que ela percebesse nada e<br \/>\n    apressou-se em despedir-se, cortando uma frase que o pobre homem come&ccedil;ava<br \/>\n    a dizer. Estranhando os movimentos da mo&ccedil;a, ele n&atilde;o se p&ocirc;de<br \/>\n    coibir e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Procura algu&eacute;m?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o!&#8230; respondeu Ernestina embara&ccedil;ada; h&aacute; muito tempo<br \/>\n    que n&atilde;o saio e esta bulha incomoda-me. Vou para casa.<\/p>\n<p>Entretanto, seguiu caminho oposto e at&eacute; as 6 horas subiu e desceu<br \/>\n    a rua do Ouvidor, deixando Sara comprar o que lhe aprouvesse, sem a m&iacute;nima<br \/>\n    interven&ccedil;&atilde;o, num verdadeiro supl&iacute;cio.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">V<\/a><\/h4>\n<p>-&Ccedil;&aacute; va bien monsiu Auguste? perguntava a Simpl&iacute;cia ao<br \/>\n    copeiro, na cozinha, esgani&ccedil;ando-se e rindo para ele, que mal lhe respondia,<br \/>\n    com um sorriso desdenhoso.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo de negrinha assanhada! murmurava Benedita, remexendo as panelas.<\/p>\n<p>&#8211; Ora veja s&oacute;! Aquela treze de maio!.. Eu n&atilde;o sou negrinha<br \/>\n    sou mo&ccedil;a morena, ouviu?<\/p>\n<p>&#8211; Quem lhe ensinou franc&ecirc;s?! perguntou o jardineiro a mulata, interrompendo<br \/>\n    o caf&eacute; que bebia pelo pires.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e.<\/p>\n<p>A Benedita riu-se alegremente, fartamente.<\/p>\n<p>Simpl&iacute;cia na aus&ecirc;ncia de Ernestina chamava-a mam&atilde;e.<\/p>\n<p>Ora veja se nhanh&atilde; ia-se cans&aacute; de ensinar franceis &agrave;<br \/>\n    negrinha! Seu Jo&atilde;o! Ela s&oacute; sabe diz&ecirc; aquilo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sei mais coisas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o converse com seu Augusto, pr&aacute; gente v&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>O copeiro levou os talheres para a sala do jantar, sem querer dar confian&ccedil;a<br \/>\n    &agrave; pequena.<\/p>\n<p>&#8211; Toma! gritou-lhe a Benedita; e estalou a l&iacute;ngua depois de ter provado<br \/>\n    o feij&atilde;o.<\/p>\n<p>Simpl&iacute;cia acrescentou, espalmando no ar a m&atilde;o curta e magra:<br \/>\n    &#8211; Deixe est&aacute;, que ele me paga; inda h&aacute; de gost&aacute; mais<br \/>\n    di mim do que eu gosto dele. Depois tirou do peito um lencinho da ama, muito<br \/>\n    perfumado, e come&ccedil;ou a dan&ccedil;ar, cantando alto: x&oacute;-x&oacute;-x&oacute;-ara&uacute;na,<br \/>\n    para que o copeiro a ouvisse, sacudindo o len&ccedil;o sobre a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    hirsuta e cheia de terra, do hortel&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Sapeca! murmurou a Benedita com desprezo.<\/p>\n<p>A dan&ccedil;a continuou requebrada e lenta, at&eacute; que ouviram a voz<br \/>\n    de Ernestina zangada por n&atilde;o encontrar ainda a mesa posta.<\/p>\n<p>Calaram-se todos; caiu a casa no costumado e respeitoso sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>A vi&uacute;va voltara enfadada e nervosa; sa&iacute;ra &agrave; procura<br \/>\n    de Luciano e n&atilde;o o tinha encontrado. Onde estaria? Por que o amava<br \/>\n    assim?! Como podia um amor h&aacute; tanto tempo extinto renascer com tamanha<br \/>\n    veem&ecirc;ncia ? Arrependia-se<br \/>\n    de ter sa&iacute;do; n&atilde;o queria pensar nele, nem amar ningu&eacute;m.<br \/>\n    Aquilo era uma loucura que havia de passar. Desejava somente v&ecirc;-lo mais<br \/>\n    uma vez, s&oacute; uma vez&#8230; depois afast&aacute;-lo-ia da id&eacute;ia.<br \/>\n    Ela n&atilde;o se pertencia, era da filha; tudo que havia ali devia ser da<br \/>\n    filha&#8230; tinha sido ganho pelo pai, com esfor&ccedil;o, por amor dela&#8230;<\/p>\n<p>Logo depois do jantar, Ernestina recolheu-se ao quarto, muito fatigada e<br \/>\n    nervosa. Parecia-lhe um sonho aquilo! Principiava a considerar ignominioso<br \/>\n    todo o tempo que vivera ao lado do marido, na pacatez burguesa e honesta do<br \/>\n    seu lar. Lembrando-se dos beijos que o esposo lhe dera, esfregava com for&ccedil;a<br \/>\n    os l&aacute;bios e as faces, como se os sentisse ainda e os quisesse arrancar<br \/>\n    da pele. Chegou a lamentar o nascimento da filha, mas desse sentimento arrependeu-se<br \/>\n    depressa; adorava Sara, e queria-a sempre bem pertinho de si, conquanto desse<br \/>\n    raz&atilde;o a Luciano; afinal, o ci&uacute;me dele lisonjeava-a&#8230; Se Luciano<br \/>\n    aborrecia Sara era porque a amava, a ela, e a pequena era a recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    viva e inextingu&iacute;vel do pai&#8230;<\/p>\n<p>Andou pelo quarto, febrilmente, at&eacute; o anoitecer.<\/p>\n<p>Volta e meia esbarrava com algum objeto que pertencera ao marido e desviava<br \/>\n    o olhar, indignada de o ver ainda ali, na intimidade do seu quarto. Ernestina<br \/>\n    encostou-se por fim &agrave; janela: a tarde morria rapidamente; toda a terra<br \/>\n    lhe parecia escura, de uma tristeza singular: o mar, ao longe, como que um<br \/>\n    deserto de cinza; as casas, t&uacute;mulos dispersos; as &aacute;rvores, sombras<br \/>\n    negras e mudas!<\/p>\n<p>Ernestina sentia as l&aacute;grimas queimarem-lhe as p&aacute;lpebras, o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o grosso pesando-lhe no peito, e uma raiva crescente de<br \/>\n    tudo, de todos! Ficou por muito tempo olhando, at&eacute; que as luzes de<br \/>\n    g&aacute;s bordaram toda a cidade de pontos luminosos. Num canto, um foco<br \/>\n    de luz clara enluarava um grande c&iacute;rculo em um nimbo indistinto, e<br \/>\n    a vi&uacute;va, aconchegando os bra&ccedil;os ao corpo friorento, olhava para<br \/>\n    a luz, fixa, abstratamente.<\/p>\n<p>Eram sete horas quando desceu ao jardim &agrave; procura da filha. Encontrou-a<br \/>\n    trepada numa escada de m&atilde;o, debru&ccedil;ada no muro, conversando para<br \/>\n    o quintal vizinho, com a sua amiga Georgina.<\/p>\n<p>Desta vez era Sara quem descrevia as suas impress&otilde;es, narrando epis&oacute;dios<br \/>\n    vulgares do passeio e relatando o n&uacute;mero de pessoas conhecidas, com<br \/>\n    que se tinha encontrado.<\/p>\n<p>Ernestina zangou-se, desabafando contra a filha toda a sua c&oacute;lera.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isso! Est&aacute;s aqui com este frio?! Eu depois que te ature<br \/>\n    se ficares doente! Vamos; para dentro, anda!<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; vou, mam&atilde;e&#8230; adeus Gina!<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o! Que modos s&atilde;o esses?<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; estou descendo, mam&atilde;e!<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, vamos!<\/p>\n<p>&#8211; Eu ainda hoje n&atilde;o tinha visto Gina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nem h&aacute; necessidade de se verem todos os dias! Estou farta de tolices!<\/p>\n<p>A voz de Ernestina tornara-se brusca, imperativa.<\/p>\n<p>Entraram ambas.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;ezinha est&aacute; zangada? perguntou Sara com do&ccedil;ura,<br \/>\n    abra&ccedil;ando a m&atilde;e.<\/p>\n<p>Ernestina arrependeu-se e, envergonhada da sua aspereza, beijou a filha,<br \/>\n    dizendo-lhe com brandura:<\/p>\n<p>&#8211; Vai tocar.<\/p>\n<p>&#8211; Tocar?! E o luto?<\/p>\n<p>O luto! O eterno luto? Era sempre a resposta! Passaram um ser&atilde;o melanc&oacute;lico.<br \/>\n    &Agrave;s 18 horas recolheram-se aos quartos.<\/p>\n<p>Ernestina n&atilde;o p&ocirc;de dormir; a cama fazia-lhe mal; atormentava-a<br \/>\n    a id&eacute;ia das noites que dormira ali, com o Sim&otilde;es.<\/p>\n<p>Quinze dias depois Luciano fez-lhe a segunda visita. A vi&uacute;va lamentou-se<br \/>\n    da sua aus&ecirc;ncia e indagou dos lugares que ele mais freq&uuml;entava.<\/p>\n<p>Ele, muito calculadamente, mostrava-se frio, disse ter estado fora, na fazenda<br \/>\n    de um amigo, e a visita corre, &agrave;s vezes silenciosa e sempre constrangida.<\/p>\n<p>Quando Luciano saiu, Ernestina fechou-se no quarto, a chorar.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Sara, ao almo&ccedil;o, notou a falta da alian&ccedil;a<br \/>\n    no dedo da m&atilde;e.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; j&aacute; muitos dias que ando sem ela, objetou Ernestina, perdi-a.<\/p>\n<p>Sara mandou imediatamente a Simpl&iacute;cia procurar o anel. A mulata encontrava<br \/>\n    tudo, parecia ter o dom especial de adivinhar as coisas, o que fazia dizer<br \/>\n    &agrave; Benedita:<\/p>\n<p>&#8211; Simpl&iacute;cia acha tudo que se some porque &eacute; ela mesma que esconde<br \/>\n    tudo que se pode sumir!<\/p>\n<p>O anel n&atilde;o fora escondido por ela, entretanto achara-o rapidamente,<br \/>\n    embaixo de um dunkerque da sala. Aquilo acabou de contrariar Ernestina. Alegou<br \/>\n    que a alian&ccedil;a estava muito larga; o frio contra&iacute;ra-lhe a carne&#8230;<\/p>\n<p>Ela j&aacute; n&atilde;o procurava lutar contra o seu amor; a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    tinha-a martirizado inutilmente.<\/p>\n<p>Passava os dias a pensar nele, nuns id&iacute;lios de menina de quinze anos.<br \/>\n    Os criados j&aacute; n&atilde;o sofriam a mesma fiscaliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    severa. Os arm&aacute;rios ficavam abertos, a chave da dispensa nas m&atilde;os<br \/>\n    da Benedita, para regalo da Simpl&iacute;cia, que apreciava os seus copinhos<br \/>\n    de licor de cacau&#8230;<\/p>\n<p>Uma noite em que a saudade e o desejo de ver Luciano apertaram, foram ao<br \/>\n    teatro.<\/p>\n<p>Sara estava content&iacute;ssima, mas a m&atilde;e arrependeu-se depressa.<br \/>\n    Levavam uma pe&ccedil;a grosseira, que a plat&eacute;ia aplaudia muito. Luciano<br \/>\n    n&atilde;o aparecia. A Sim&otilde;es n&atilde;o tirava os olhos das portas<br \/>\n    da entrada, esperando sempre que ele viesse, atra&iacute;do pelo seu amor.<br \/>\n    Sentia febre e n&atilde;o prestava aten&ccedil;&atilde;o ao que se passava<br \/>\n    em cena. As gargalhadas e os aplausos atormentavam-na. &Agrave; sa&iacute;da,<br \/>\n    quando j&aacute; nada esperava, teve uma surpresa: Luciano conversava num<br \/>\n    grupo de rapazes, perto do teatro. Ele destacando-se da roda, foi cumpriment&aacute;-la.<\/p>\n<p>&#8211; Vieram de carro, n&atilde;o? Perguntou, procurando em redor com a vista.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; viemos de bonde&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sozinhas?! E mostrou espanto.<\/p>\n<p>Ernestina ficou embara&ccedil;ada.<\/p>\n<p>&#8211; Que tem isso? objetou Sara, o luar est&aacute; t&atilde;o lindo que at&eacute;<br \/>\n    convida a irmos a p&eacute; at&eacute; o ascensor!<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; mas n&atilde;o &eacute; prudente arriscarem-se duas senhoras mo&ccedil;as<br \/>\n    a andar por estas horas na rua, sem um cavalheiro.<\/p>\n<p>Luciano acompanhou-as; ia ao lado da vi&uacute;va censurando-a pela mal escolha<br \/>\n    do teatro e por virem ambas t&atilde;o s&oacute;s. Achou-a linda nessa noite.<\/p>\n<p>Ela calava-se, sem confessar que todas aquelas loucuras as fazia por ele,<br \/>\n    mesmo com preju&iacute;zo da filha! Passadas as ruas de maior movimento, ele<br \/>\n    deu-lhe o bra&ccedil;o e curvou-se meigo para ela.<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-se de uma noite de luar como esta, em que andamos de bra&ccedil;o<br \/>\n    pela ch&aacute;cara do tio Gustavo?<\/p>\n<p>&#8211; Se me lembro!&#8230; Dias depois foi o senhor para a Europa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E um ano depois recebi a not&iacute;cia do seu casamento&#8230;<\/p>\n<p>A evoca&ccedil;&atilde;o do tempo passado tornou a envolv&ecirc;-los na mesma<br \/>\n    familiaridade da primeira visita. Sara andava na frente, cantarolando baixo<br \/>\n    os couplets que ouvira; eles iam muito juntos, apertando-se as m&atilde;os<br \/>\n    e falando de amor.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">VI<\/a><\/h4>\n<p>No dia seguinte Luciano foi jantar a Santa Tereza; encontrou as duas senhoras<br \/>\n    na saleta do piano; a vi&uacute;va fazia um bordado de tape&ccedil;aria, a<br \/>\n    filha renovava as flores de um jarr&atilde;o.<\/p>\n<p>Ele sentou-se entre ambas, votando toda a sua aten&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    a dona da casa, a quem ofereceu um pacote de marrons-glac&eacute;s, enfeitado<br \/>\n    de fitinhas azuis. A vi&uacute;va desamarrou o embrulho com toda a delicadeza,<br \/>\n    mostrando as unhas, que brilhvam como coral polido. Entretanto Sara, com o<br \/>\n    pesco&ccedil;o esticado, ia dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Eu gosto muito de doces&#8230; sa&iacute; a papai! Como ele apreciava marrons-glac&eacute;s!<br \/>\n    Lembra-se, mam&atilde;e, aquela vez que fomos todos ao Jardim Bot&acirc;nico?<br \/>\n    s&oacute; n&oacute;s dois acabamos com um pacote de marrons do tamanho desse?<br \/>\n    Mam&atilde;e s&oacute; dizia: &quot;Sara! Que &eacute; isso?! Basta!&quot;<br \/>\n    e papai ent&atilde;o, santo que ele era! respondia-lhe &quot;Ora, meu amor<br \/>\n    deixa a pequena! se ela come, &eacute; porque tem vontade!&quot;<\/p>\n<p>&#8211; Papai muitas vezes chamava mam&atilde;e assim: Meu amor!<\/p>\n<p>Luciano mordeu o bigode, enquanto a vi&uacute;va, muito corada, disfar&ccedil;ava,<br \/>\n    perguntando-lhe se n&atilde;o achava de bom gosto o seu bordado.<\/p>\n<p>E erguia a talagar&ccedil;a, j&aacute; meio encoberta pelas sedas e as l&atilde;s.<\/p>\n<p>Querendo desviar da mem&oacute;ria da filha a lembran&ccedil;a do pai, ela<br \/>\n    come&ccedil;ou a falar com volubilidade em coisas diferentes, saltando de<br \/>\n    assunto, como a escolher terreno.<\/p>\n<p>Como por fim a conversa reca&iacute;sse sobre coisas de arte, Luciano pediu-lhes<br \/>\n    que marcassem um dia para irem ver o seu pequeno museu.<\/p>\n<p>Ele trouxera da Europa algumas coisas valiosas e citava entre elas um busto<br \/>\n    de garoto que figurara no Salon.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; dito! exclamou Sara alegremente, iremos amanh&atilde;!<\/p>\n<p>&#8211; Amanh&atilde;; n&atilde;o&#8230; objetou Luciano quase sem olhar para a mo&ccedil;a.<br \/>\n    Tenho ainda alguns preparativos a fazer. Ainda n&atilde;o achei um tapete<br \/>\n    a meu gosto para a biblioteca.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! O senhor tem uma biblioteca? tornou Sara.<\/p>\n<p>E depois de uma pequena pausa:<\/p>\n<p>&#8211; A&iacute; est&aacute; uma coisa que eu ainda n&atilde;o vi em casas particulares&#8230;<br \/>\n    Se papai fosse vivo eu tamb&eacute;m teria uma biblioteca! Ele dizia sempre<br \/>\n    que havia de me dar ma bonita educa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade, mam&atilde;e?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; sim&#8230; &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>Luciano rufava com os dedos na mesa, sem ocultar o seu enfado.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! se o senhor conhecesse papai, havia de gostar muito dele!<\/p>\n<p>Luciano sorriu; Sara continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Todos o estimavam! S&oacute; uma pessoa lhe tinha raiva&#8230; Inveja! Tamb&eacute;m<br \/>\n    eu odeio-a!<\/p>\n<p>Sem pronunciar o nome, compreenderam todos que aludia ao Rosas.<\/p>\n<p>&#8211; Papai era t&atilde;o meigo! T&atilde;o condescendente! Dava-me sempre um<br \/>\n    beijo em cada face e outro na boca. E &agrave; mam&atilde;e tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Luciano levantou-se e Ernestina, muito corada, disse, precipitando as palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, Sara! que termos s&atilde;o esses? Vai espairecer as saudades<br \/>\n    de teu pai com a Gina, anda! &Eacute; melhor isso do que estar constantemente<br \/>\n    a relembrar coisas passadas!<\/p>\n<p>Os olhos de Sara encheram-se de l&aacute;grimas; mas para que Luciano n&atilde;o<br \/>\n    a visse chorar, saiu precipitadamente da sala.<\/p>\n<p>Ernestina ficou silenciosa, com as m&atilde;os tr&ecirc;mulas, a vista pasmada<br \/>\n    nas cores vistosas do bordado.<\/p>\n<p>&#8211; Decididamente, eu n&atilde;o posso tolerar a presen&ccedil;a desta menina!<br \/>\n    exclamou Luciano num desabafo.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou brutal? Desculpe, mas sou sincero.<\/p>\n<p>&#8211; Ela &eacute; uma crian&ccedil;a&#8230; ignora que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma crian&ccedil;a!<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Mas diga-me: que significa&ccedil;&atilde;o tem aquilo de estar sempre,<br \/>\n    mas sempre, referindo-se ao pai?!<\/p>\n<p>&#8211; Amava-o muito.<\/p>\n<p>&#8211; Embora, mas isso parece ou n&atilde;o parece proposital?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o?! As m&atilde;es s&atilde;o cegas!<\/p>\n<p>&#8211; Coitadinha, &eacute; t&atilde;o inocente, a minha Sara&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei; mas confesso-lhe que s&oacute; a sua vista me mortifica!<\/p>\n<p>Ernestina levantou-se p&aacute;lida e tr&ecirc;mula de indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o lhe posso impor simpatia por minha filha, mas julgo estar no<br \/>\n    direito de ordenar que a respeite&#8230; ou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ou que me retire?<\/p>\n<p>Ernestina calou-se, sufocando na garganta os solu&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o v&ecirc;, Ernestina, que se eu odeio a filha, &eacute;<br \/>\n    porque adoro a m&atilde;e?! Perdoe as minhas palavras, s&atilde;o filhas do<br \/>\n    ci&uacute;me violento, tenaz, que se apoderou de mim desde que vi Sara! Ela<br \/>\n    &eacute; a continua&ccedil;&atilde;o do pai, o beijo vivo, ardente, trocado<br \/>\n    pelas vossas bocas! E &eacute; essa id&eacute;ia que me martiriza e que me<br \/>\n    perde!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; uma&#8230; insensatez&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Chame como quiser.<\/p>\n<p>Nessa tarde Ernestina lembrou &agrave; filha que fosse passar parte da noite<br \/>\n    em casa da Gina.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e vai?<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o.<\/p>\n<p>A filha admirou-se; at&eacute; ent&atilde;o a m&atilde;e n&atilde;o a deixara<br \/>\n    nunca sair s&oacute;!<\/p>\n<p>O luar inundava a terra coro a sua luz veludosa. Pelas portas de vidro, fechadas<br \/>\n    ao frio, via-se l&aacute; embaixo a cidade, com umas luzes frouxas.<\/p>\n<p>Sara tinha sa&iacute;do; Ernestina e Luciano, sentados junto a uma janela<br \/>\n    da sala, conservaram-se por instantes silenciosos, pensando talvez nos primeiros<br \/>\n    elas do seu amor, desabotoado e esquecido em plena mocidade.<\/p>\n<p>&#8211; Dizem os psic&oacute;logos que duas criaturas que se amaram e que se esqueceram<br \/>\n    mutuamente n&atilde;o se tornam a amar nunca mais!<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! N&atilde;o a imaginava t&atilde;o letrada!&#8230; mas fique certa de<br \/>\n    que a psicologia &eacute; uma palavra t&atilde;o enganadora como outra qualquer&#8230;<br \/>\n    E depois, n&oacute;s nunca nos esquecemos, n&atilde;o e assim?<\/p>\n<p>&#8211; Eu por mim&#8230; &#8211; Ernestina n&atilde;o teve coragem de concluir A mentira<br \/>\n    n&atilde;o lhe saiu da garganta. Luciano aproximou para bem perto da dela<br \/>\n    a sua cadeira, tomou a m&atilde;o da vi&uacute;va e beijou-a demoradamente<br \/>\n    na palma, nos dedos, nas unhas.<\/p>\n<p>&#8211; Que m&atilde;os bonitas!&#8230; &#8211; Como eu adoro estas m&atilde;ozinhas!&#8230;<br \/>\n    Ernestina sorriu; ele continuou a falar amorosamente, e pediu-lhe que tirasse<br \/>\n    o luto. Queria v&ecirc;-la de branco, como uma noiva, e de cores claras e<br \/>\n    cantantes.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; preciso esperar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; D&ecirc;-me esta prova de amor, tire o luto!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; cedo&#8230; tenho medo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Medo de qu&ecirc;? De que os outros reparem?!<\/p>\n<p>&#8211; Medo de&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De quem?!<\/p>\n<p>&#8211; De minha filha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>Ernestina corou, arrependida de ter dito aquilo. Ficaram alguns segundos<br \/>\n    calados e im&oacute;veis; de repente a mo&ccedil;a, resvalando o olhar pelas<br \/>\n    paredes, pareceu-lhe distinguir o corpo da Simpl&iacute;cia, mal oculto por<br \/>\n    um reposteiro; levantou-se de chofre e atravessou a sala. Luciano seguia-lhe<br \/>\n    os movimentos com estranheza.<\/p>\n<p>&#8211; Que tem? Que &eacute; isso?!<\/p>\n<p>Mas a vi&uacute;va chamava para dentro, afastando rapidamente o reposteiro;<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o havia nem a sombra da mulata. O Augusto apareceu e ela<br \/>\n    mandou iluminar a sala.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu&ecirc;? indagou Luciano, o luar est&aacute; t&atilde;o bonito&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, Ernestina n&atilde;o cedeu e exigiu de Augusto que acendesse<br \/>\n    todos os bicos do lustre e das arandelas&#8230;<\/p>\n<p>Quando voltou para o lado de Luciano, encontrou-o com a fisionomia &aacute;spera<br \/>\n    e pensativa. Ela falou lhe em casamento. N&atilde;o queria prolongar aquela<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o. Logo que expirasse o prazo do luto, poderiam unir-se<br \/>\n    para sempre.<\/p>\n<p>Ele ouvia-a calado; depois de um curto espa&ccedil;o de sil&ecirc;ncio, perguntou<br \/>\n    se n&atilde;o haveria algum pretendente a m&atilde;o de Sara&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; por qu&ecirc;?!<\/p>\n<p>&#8211; Seria melhor que ela casasse primeiro&#8230; viver&iacute;amos s&oacute;s,<br \/>\n    sem ouvir refer&ecirc;ncias a outro que me viessem estragar a felicidade!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Separar-me de minha filha?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o ser&aacute; a primeira m&atilde;e a quem isso aconte&ccedil;a!<\/p>\n<p>&#8211; Nunca!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o falemos mais nisso, replicou Luciano com tristeza.<\/p>\n<p>&#8211; Conservaram-se por algum tempo afastados, mas as m&atilde;os uniram-se<br \/>\n    outra vez, os olhos procuraram-se e ele beijou-a na fronte, na face, na boca.<\/p>\n<p>Ernestina, meio oculta pela cortina de renda preta, deixava-se abra&ccedil;ar<br \/>\n    amolecida, tonta, sem for&ccedil;as para resistir; o busto vergado para Luciano,<br \/>\n    os bra&ccedil;os pendentes, o corpo tr&ecirc;mulo. <\/p>\n<p>Nas paredes cinzentas da sala, os arabescos de ouro cintilavam, como se os<br \/>\n    milhares de gafanhotos que estampavam no papel suas asas agudas e as suas<br \/>\n    pernas fin&iacute;ssimas, se embaralhassem numa dan&ccedil;a endiabrada!<\/p>\n<p>O g&aacute;s a toda for&ccedil;a chamejava no cristal do espelho, amornando<br \/>\n    a atmosfera e fazendo uma bulha de sopro surdo, como riso abafado!<\/p>\n<p>Toda a energia da vi&uacute;va tinha fugido. A luz? Que lhe importava a luz?!<br \/>\n    Ela n&atilde;o via, n&atilde;o pensava, resvalava sem pena nem cuidado, sentindo-se<br \/>\n    feliz, mais nada!<\/p>\n<p>Subitamente ouviram a voz de Sara, que se aproximava de casa, cantando alto.<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute;-se embora, Luciano! <\/p>\n<p>&#8211; Mais um momento&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha a&iacute; vem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; ainda em casa da Gina&#8230; a voz vem de l&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, vem do jardim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mais um beijo&#8230; Afirmo-lhe que ela est&aacute; em casa da Gina!<\/p>\n<p>&#8211; E que esteja&#8230; &eacute; tarde.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; cedo&#8230;<\/p>\n<p>Ele quis abra&ccedil;&aacute;-la; ela resistiu: reassumira toda a sua energia.<\/p>\n<p>Luciano saiu, cruzando-se com Sara j&aacute; perto do terra&ccedil;o. A mo&ccedil;a<br \/>\n    sorriu-se interrompendo o canto, deu-lhe as boas-noites; ele resmungou umas<br \/>\n    palavras incompreens&iacute;veis e mal tocou o chap&eacute;u.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o me diz adeus?! perguntou Sara at&ocirc;nita, voltando-se<br \/>\n    para tr&aacute;s, para o vulto de Luciano, que fugia na sombra.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Bruto! murmurou a mo&ccedil;a ofendida. Por que n&atilde;o falaria comigo?!<br \/>\n    Ora por qualquer coisa! Que me importa!<\/p>\n<p>Ernestina tinha ficado s&oacute;. A filha calara-se; a casa parecia adormecida.<br \/>\n    Batia-lhe o cora&ccedil;&atilde;o e o sangue abrasava-lhe as faces. Precisava<br \/>\n    de ar; abriu a janela e encostou-se; respirou com for&ccedil;a, sentindo-se<br \/>\n    feliz por ter vencido. Ser amante de Luciano? Nunca. Esposa, sim. &Agrave;<br \/>\n    propor&ccedil;&atilde;o que os seus sentidos se acalmavam, ela pensava na<br \/>\n    implac&aacute;vel exig&ecirc;ncia de Luciano, de a separar da filha&#8230;<\/p>\n<p>Encostada ao umbral, deixou que a sua alma fraca de mulher interrogasse as<br \/>\n    coisas mudas! Que lhe destinaria o futuro? Nada lhe respondia. Foi em v&atilde;o<br \/>\n    que meditou, cravando o olhar interrogativo na grande esfinge que desenhava<br \/>\n    al&eacute;m, na noite enluarada, o seu enorme corpo vigilante e altivo!<\/p>\n<p>Voltou para dentro muito nervosa e agitada. Ao atravessar a sala, teve medo.<\/p>\n<p>Da sua grande tela sombria, o marido parecia acompanh&aacute;-la com a vista.<\/p>\n<p>Ernestina sentiu vergarem-se-lhe os joelhos e tateou com m&atilde;o tr&ecirc;mula<br \/>\n    o fecho da porta por onde saiu.<\/p>\n<p>Nessa noite n&atilde;o p&ocirc;de conciliar o sono. No quarto tudo lhe falava<br \/>\n    do marido.<\/p>\n<p>A cama parecia-lhe guardar o calor do seu corpo; os len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    o as fronhas eram marcados com o seu nome, e o cabide em que ele costumava<br \/>\n    pendurar a roupa estendia para ela os bra&ccedil;os nus&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina revolvia-se no leito, sem descanso. Sem perceber como, com a conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    adquirira certos h&aacute;bitos do esposo; procurava agora um meio de os corrigir.<br \/>\n    S&oacute; agora notava que era como o dele o jeito porque cerrava o cortinado,<br \/>\n    sempre de um lado s&oacute;; que fora com ele que se viciara em n&atilde;o<br \/>\n    adormecer sem tomar uns goles de &aacute;gua a&ccedil;ucarada, e que at&eacute;<br \/>\n    os seus gestos, as suas palavras e o seu modo de pensar refletiam particularidades<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p>Sem poder dormir e muito impressionada, passou ao quarto da filha. Sara dormia<br \/>\n    profundamente, respirando alto, com os bra&ccedil;os sumidos embaixo da roupa<br \/>\n    e a sua cabe&ccedil;a redonda e grande enterrada no travesseiro.<\/p>\n<p>Ernestina, a tremer de frio, deitou-se aos p&eacute;s da cama, muito devagarinho,<br \/>\n    encolhendo-se para diminuir de volume.<\/p>\n<p>Adormeceu e acordou v&aacute;rias vezes, mas o seu sono era leve, como que<br \/>\n    assustado.<\/p>\n<p>Ao amanhecer, levantou-se antes que Sara a surpreendesse e saiu. Tornou para<br \/>\n    o seu quarto, estendeu-se num div&atilde;, muito cansada, com o corpo cheio<br \/>\n    de dores, a cabe&ccedil;a fraca, e p&ocirc;s-se a cismar em futilidades: concertos<br \/>\n    de j&oacute;ias, vestidos a fazer, e visitas&#8230;<\/p>\n<p>Nesse dia aliviou o luto.<\/p>\n<p>Sara mostrou-se admirada e ofendida.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n&atilde;o h&aacute; um ano e mam&atilde; j&aacute; usa branco?!<\/p>\n<p>&#8211; O luto &eacute; uma tolice&#8230; creio que j&aacute; dei uma satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; sociedade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De rigor &eacute; um ano.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; na roupa que est&aacute; o sentimento, &eacute; no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei&#8230; mas&#8230; gostava que mam&atilde; fizesse como as outras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; As outras! Quem te ouvir falar assim h&aacute; de pensar que n&atilde;o<br \/>\n    lamentei a morte de teu pai?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, minha mam&atilde;zinha. Deus me livre! Eu bem sei que mam&atilde;<br \/>\n    tem muitas saudades&#8230; pudera! se n&atilde;o fosse assim, a senhora seria<br \/>\n    ingrata!<\/p>\n<p>Ernestina corou, mas Sara, muito ing&ecirc;nua, n&atilde;o deu por tal.<\/p>\n<p>Principiou ent&atilde;o uma vida toda diferente.<\/p>\n<p>Era a lufa-lufa dos vestidos novos, sedas caras, luxo sem m&eacute;todo.<br \/>\n    Assinatura no L&iacute;rico, concertos, dias inteiros fora de casa, em passeios<br \/>\n    onde se encontrasse Luciano. Ele vinha sempre muito atencioso, numa amabilidade<br \/>\n    discreta e delicada, conversar com Ernestina, que tinha assim a sua recompensa.<br \/>\n    Sara recebia com prazer e sem observa&ccedil;&atilde;o essas coisas, que a<br \/>\n    m&atilde;e explicava assim aos amigos:<\/p>\n<p>&#8211; Sara tem dezoito anos&#8230; est&aacute; no tempo de gozar, n&atilde;o lhe<br \/>\n    faltar&atilde;o desgostos no futuro!<\/p>\n<p>O seu amor por Luciano crescia como uma febre. N&atilde;o pensava, n&atilde;o<br \/>\n    via outra coisa. Era sempre ele a povoar-lhe o esp&iacute;rito de sonhos.<br \/>\n    Nos bailes, como n&atilde;o dan&ccedil;ava ainda, incitava-o a dan&ccedil;ar<br \/>\n    com a filha, e no outro dia, indagava dela o que lhe tinham dito os pares,<br \/>\n    fazendo-a repetir as palavras de Luciano.<\/p>\n<p>Sara ia contando, sem reparo, e confessava que fora ele o mais espirituoso<br \/>\n    entre todos os pares com quem tinha conversado.<\/p>\n<p>Ernestina, lisonjeada, beijava a filha, muito alegre.<\/p>\n<p>Todas as pessoas que elogiassem Luciano tornavam-se logo para ela muito simp&aacute;ticas.<br \/>\n    Sabendo que o Rosas, velho e encarni&ccedil;ado inimigo do seu defunto marido,<br \/>\n    era o melhor e mais &iacute;ntimo amigo de Luciano Dias, entrou a consagrar-lhe<br \/>\n    tal amizade que o convidou repetidas vezes, com insist&ecirc;ncia, para ir<br \/>\n    a sua casa. E isso aconteceu.<\/p>\n<p>O Rosas cedeu &agrave; vontade da vi&uacute;va e do amigo, procurando mesmo<br \/>\n    intervir para que se realizasse o casamento. Um dia Ernestina conversava com<br \/>\n    ele muito satisfeita na sua sala, esperando ouvi-lo falar de Luciano, quando<br \/>\n    Sara, ainda desprevenida, abriu a porta e entrou.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a estacou no umbral, fixando atenta e admirada os olhos na visita.<br \/>\n    O seu rosto, habitualmente rosado, tornou-se l&iacute;vido; os abas tremeram-lhe,<br \/>\n    n&atilde;o encontrando palavras para a indigna&ccedil;&atilde;o que lhe fervia<br \/>\n    no peito.<\/p>\n<p>A m&atilde;e, embara&ccedil;ad&iacute;ssima, ergueu-se e foi ter com ela,<br \/>\n    automaticamente, sem atinar com o que dissesse; mas Sara repeliu-a com um<br \/>\n    gesto.<\/p>\n<p>Ernestina compreendeu ent&atilde;o, num relance, a sua imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    e empurrando a filha para fora, fechou com raiva o reposteiro.<\/p>\n<p>Sara saiu para o jardim, tonta e tr&ecirc;mula. N&atilde;o via nada; andava<br \/>\n    de um lado para outro como um p&aacute;ssaro ferido a lutar com a morte. A<br \/>\n    pouco e pouco a dor ia se abrindo, mostrando-se toda, como uma flor ao sol.<br \/>\n    A mo&ccedil;a esmagava com os p&eacute;s, maldosamente, os mios&oacute;tis<br \/>\n    rasteiros de florinhas azuis como olhos de anjos e as folhas tenras da malva-ma&ccedil;&atilde;<br \/>\n    cheirosa. Rangiam sob as suas botinas a grama fresca, as hastes dos junquilhos,<br \/>\n    os amores-perfeitos de cores veludosas, os bot&otilde;es de ouro, as violetas,<br \/>\n    os cravos, as an&ecirc;monas e as flores l&aacute;cteas do nardo.<\/p>\n<p>Destruir, arrasar tudo, era a sua vontade.<\/p>\n<p>O Rosas, o grande inimigo de seu pai, ali, dentro daquela casa, em doce t&ecirc;te-a-t&ecirc;te<br \/>\n    com sua m&atilde;e! O comendador Sim&otilde;es n&atilde;o o pudera ver nunca<br \/>\n    sem desgosto e sem raiva, e o vil aproveitava-se agora que ele j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    vivia, para ir recostar-se nos seus estofos e pisar as suas alcatifas!<\/p>\n<p>Sara sentia-se forte; tinha &iacute;mpetos de esperar ali o Rosas e de lhe<br \/>\n    bater na cara com as suas m&atilde;os nervosas. Desesperada, fustigava as<br \/>\n    plantas, em movimentos furiosos. Voavam dispersas as flores arom&aacute;ticas<br \/>\n    do belo manac&aacute;, o heliotropo l&acirc;nguido pendia para o ch&atilde;o.<br \/>\n    Um dil&uacute;vio de flores inundava os gramados. Choviam p&eacute;talas de<br \/>\n    rosas e de hibiscos, de d&aacute;lias, l&iacute;rios, margaridas, jasmins,<br \/>\n    cidrilha, jurujubas, murta, pet&uacute;nias, f&uacute;csias, resed&aacute;,<br \/>\n    esponjas, ixora e a&ccedil;ucenas. Flores de arbustos, flores de trepadeiras,<br \/>\n    flores tuberosas ou flores de orqu&iacute;deas, obedeciam todas &agrave; vontade<br \/>\n    de Sara, que as derrubava, subindo e descendo as ruas do jardim e do pomar,<br \/>\n    repetindo baixinho: Papai&#8230; papai!&#8230; como a pedir-lhe socorro, por sentir<br \/>\n    iminente um perigo.<\/p>\n<p>O dia estava formoso, de um azul violeta muito intenso, onde a luz dourada<br \/>\n    do sol rolava em ondas largas. As rom&atilde;zeiras enfeitavam-se com as suas<br \/>\n    flores de um escarlate r&eacute;gio; pendiam das jaqueiras, como &uacute;beres<br \/>\n    enormes, grandes jacas maduras; e a parreira abria numa cruz, cor da esperan&ccedil;a,<br \/>\n    os seus bra&ccedil;os cobertos de folhas largas e macias. Sara corria no meio<br \/>\n    de tudo aquilo, nervosa, resfolegante como um animal de ra&ccedil;a, mostrando<br \/>\n    as pernas finas, galgando os degraus dos socalcos, esmagando com as solas<br \/>\n    as flores claras dos morangueiros, abrindo para todas as coisas os seus olhos<br \/>\n    muito brilhantes e movendo os l&aacute;bios secos na repetida suplica da sua<br \/>\n    alma: &quot;Papai&#8230; papai&#8230;&quot; Mas o pai n&atilde;o lhe respondia e ela,<br \/>\n    de vez em quando, desesperada, arrancava com repel&otilde;es as frutas que<br \/>\n    a m&atilde;o alcan&ccedil;ava e atirava-as ao ch&atilde;o, bruta, violentamente,<br \/>\n    s&oacute; pelo del&iacute;rio de estragar.<\/p>\n<p>As laranjas, de um verde que a matura&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ava a<br \/>\n    tingir, rolavam de socalco em socalco. Grupos de jambos brancos, ca&iacute;am,<br \/>\n    separando as suas camp&acirc;nulas de cristal rosado de mistura com ara&ccedil;&aacute;s<br \/>\n    ainda verdes e pitangas cor de rubi. Um tapete de frutas ia-se alastrando<br \/>\n    pelo pomar, e Sara pisava, esmigalhava, mordia, rangendo os dentes nas frutas<br \/>\n    acres, ainda verdes, ou sacudia as &aacute;rvores, abra&ccedil;ando-se aos<br \/>\n    troncos cetinosos dos p&eacute;s de cambuc&aacute;, ou aos galhos &aacute;speros<br \/>\n    das goiabeiras.<\/p>\n<p>Tudo a mortificava, a exacerbava. Revivia a lembran&ccedil;a do pai, o &oacute;dio<br \/>\n    antigo, entranhado, feroz, por ele consagrado ao Rosas, a surpresa de o ter<br \/>\n    sentado perto da m&atilde;e e ao mesmo tempo a vergonha, a dor ter sido repelida!<\/p>\n<p>O sol parecia queim&aacute;-la, abrasando-lhe a cabe&ccedil;a nua, refulgindo<br \/>\n    no seu formoso cabelo cor de ouro, solto pelas costas, numa tran&ccedil;a<br \/>\n    lassa. Ela ia, ora batida de sombra, ora toda vestida de sol, sem saber para<br \/>\n    onde, parando aqui, ali, voltando para tr&aacute;s, desfolhando sem piedade<br \/>\n    as grandes flores roxas do maracuj&aacute; ou as flores perfumosas dos limoeiros,<br \/>\n    batendo com os p&eacute;s nos caj&aacute;s soltos, nas carambolas e nas ameixas<br \/>\n    de Madagascar, espalhadas no ch&atilde;o. O seu desejo era que aquele bom<br \/>\n    sol, enorme e fecundante, incendiasse num momento todas aquelas limeiras e<br \/>\n    cidreiras, os p&eacute;s de sapoti, de pinhas, de genipapo a dos abius, as<br \/>\n    figueiras, as ameixeiras, o laranjal, os bambus, as jabuticabeiras, os p&eacute;s<br \/>\n    da grumixama e de abric&oacute;, todas as velhas &aacute;rvores amadas e o<br \/>\n    roseiral, e a casa, e ela e tudo!<\/p>\n<p>De repente estacou; os joelhos vergaram-se-lhe &#8211; e rebentou em solu&ccedil;os.<br \/>\n    Em frente dela erguia-se o vulto enorme e sombrio de uma mangueira que tinha<br \/>\n    sido sempre ali a &aacute;rvore predileta do pai.<\/p>\n<p>Sara deixou cair na terra dura o seu corpo branco e cansado. A mangueira<br \/>\n    era no alto, no extremo da ch&aacute;cara; estendia para todos os lados os<br \/>\n    seus poderosos bra&ccedil;os tranq&uuml;ilos, de onde pendia a erva &#8211; barba<br \/>\n    de velho, caindo em fios longos, que lhe davam um aspecto de vetusta e doce<br \/>\n    austeridade.<\/p>\n<p>Sara quedou-se im&oacute;vel, sobre as ra&iacute;zes da mangueira, que se<br \/>\n    salientavam na terra escura, como uma vigorosa ramifica&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    nervos. L&aacute; embaixo, ao longe, a cidade atirava ao ar rolos de fuma&ccedil;a,<br \/>\n    e como que a evapora&ccedil;&atilde;o do suor do trabalho, que parecia subir<br \/>\n    em camadas cont&iacute;nuas, densas, distintas na atmosfera. No mar, que a<br \/>\n    muita luz empalidecia, distinguiam-se os cascos negros dos navios mercantes<br \/>\n    e as chamin&eacute;s bojudas dos paquetes. A febre dos dias de semana rumorejava<br \/>\n    num del&iacute;rio rouco, cortado de vez em quando por um ou outro silvo agud&iacute;ssimo,<br \/>\n    das m&aacute;quinas de alguma fabrica&#8230;<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro arfava. De todos os telhados parecia elevar-se, ignota e<br \/>\n    grande, a dor da luta pela vida.<\/p>\n<p>A felicidade, o luxo, a mis&eacute;ria, o dinheiro, o gozo, a raiva, o esplendor,<br \/>\n    a f&eacute;, a mentira, a paz e a desordem, tudo ela via dali, na suprema<br \/>\n    glorifica&ccedil;&atilde;o da luz de ouro que tombava a jorros do c&eacute;u<br \/>\n    viol&aacute;ceo.<\/p>\n<p>O teatro, o hosp&iacute;cio, as igrejas, as f&aacute;bricas, os c&atilde;es,<br \/>\n    os jardins, os pal&aacute;cios, os casebres, o mar, o arvoredo, o cemit&eacute;rio,<br \/>\n    tudo se unia e se confundia na fogueira do sol, na vida da grande e poderosa<br \/>\n    cidade.<\/p>\n<p>Sara chorava baixinho.<\/p>\n<p>Aquela mangueira muda, serena, com a sua velha casca rugosa, as suas nodosidades<br \/>\n    cobertas de cambaxilras, as suas folhas sombrias e abertas; e as suas parasitas,<br \/>\n    quebrava-lhe a excita&ccedil;&atilde;o raivosa numa onda de ternura. Era ali<br \/>\n    que o comendador Sim&otilde;es gostava de sentar-se, nas tardes de domingo,<br \/>\n    recomendando sempre ao hortel&atilde;o que n&atilde;o lhe bulisse nessa &aacute;rvore;<br \/>\n    que a deixasse livre de enxertos e de podas; queria-a assim: agreste, inculta<br \/>\n    e sossegada.<\/p>\n<p>Sara recordava isso, olhando para as toalhas ondeadas de verdura que se iam<br \/>\n    desenrolando pelo pomar at&eacute; l&aacute; em baixo, &agrave; casa, de que<br \/>\n    s&oacute; distinguia o telhado. Os tamarindeiros, salpicados com florinhas<br \/>\n    amarelas, e os pessegueiros, de um verde cinzento; mais as figueiras, as ameixeiras,<br \/>\n    os cajueiros, as &aacute;rvores de abric&oacute;, das carambolas, da fruta<br \/>\n    do conde, do abacate, as amendoeiras enormes e as bananeiras airosas, confundiam-se,<br \/>\n    unindo as ramas, variando os matizes do verde mais claro at&eacute; o verde<br \/>\n    mais negro, com manchas: aqui louras, ali esbranqui&ccedil;adas, ou r&oacute;seas,<br \/>\n    ou cor de ferrugem. A meio do pomar, &agrave; direita, destacavam-se entre<br \/>\n    todas pela forma bizarramente recortada das suas folhas elegant&iacute;ssimas,<br \/>\n    a &aacute;rvore da fruta-p&atilde;o, e l&aacute; embaixo, sobre o telhado<br \/>\n    vermelho do chalet, ela via a &uacute;ltima estrela, pequenina e escura, da<br \/>\n    grande arauc&aacute;ria do jardim.<\/p>\n<p>Sara continuava chorando, enraivecida contra a m&atilde;e. Por que consentira<br \/>\n    ela em receber o Rosas?! Por que mudava de dia para dia o seu car&aacute;ter?<br \/>\n    Porque se ocupava agora tanto consigo, passando horas no seu quarto, sozinha,<br \/>\n    fugindo da companhia dos outros e aparecendo depois toda cheirosa, fresca<br \/>\n    como a flor apenas desabrochada? Que mist&eacute;rio seria esse que ia afastando<br \/>\n    dela, evidentemente, todo o carinhoso e doce amor de Ernestina? Que falta<br \/>\n    teria ela cometido? Por que se adivinhava t&atilde;o s&oacute;?<\/p>\n<p>Sem achar explica&ccedil;&atilde;o para os seus tristes pressentimentos,<br \/>\n    Sara escondeu o rosto, a invocar a mem&oacute;ria do pai.<\/p>\n<p>Estava assim, quando ouviu passos perto. Era a m&atilde;e que a procurava,<br \/>\n    entre zangada e aflita.<\/p>\n<p>&#8211; Sara!? Que loucura &eacute; essa?<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Levanta-te!<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a ergueu-se, comovida pelo tom severo da vi&uacute;va.<\/p>\n<p>Ernestina continuou &aacute;spera e decisivamente:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; preciso compreender bem isto: exijo que sejas cort&ecirc;s para<br \/>\n    toda a pessoa; seja ela quem for, que eu quiser receber em minha casa!<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e, eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se n&atilde;o deseja sujeitar-se &agrave; minha vontade, case-se!<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que vergonha!<\/p>\n<p>&#8211; Mas mam&atilde;e! Aquele homem?<\/p>\n<p>&#8211; Com aquele ou com qualquer outro tens de ser delicada.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! Isso n&atilde;o! Aquele &eacute; um infame; foi o maior inimigo<br \/>\n    de meu pai eu n&atilde;o o esque&ccedil;o! e se ela voltar c&aacute; eu bato-lhe<br \/>\n    na cara, bato-lhe!<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te! Quem manda aqui sou eu! Se o recebi, &eacute; porque entendi que<br \/>\n    o devia fazer!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Mam&atilde;e!<\/p>\n<p>&#8211; Vamos! E Ernestina com o olhar seco apontou o caminho de casa.<\/p>\n<p>Sara seguiu silenciosa, tr&ecirc;mula, ainda embaixo da raiva e do despeito<br \/>\n    que t&atilde;o intensamente tinham vibrado nela. Pisava com for&ccedil;a,<br \/>\n    fitando a sombra da m&atilde;e, que se projetava muito esguia a seu lado.<\/p>\n<p>&Agrave; porta da sala de jantar encontraram o jardineiro, que subira da<br \/>\n    cidade com um garraf&atilde;o de vinho ao ombro.<\/p>\n<p>Ele quis dizer qualquer coisa; a vi&uacute;va fez-lhe um gesto, que se calasse.<br \/>\n    Durante o jantar a m&atilde;e e a filha n&atilde;o se falaram. Sara n&atilde;o<br \/>\n    comia, sentia um novelo na garganta e receava chorar ali mesmo, diante dos<br \/>\n    criados. &Agrave; noite entrou cedo para o quarto, deixando a m&atilde;e sozinha<br \/>\n    no terra&ccedil;o.<\/p>\n<p>Ernestina n&atilde;o sofria menos. A indigna&ccedil;&atilde;o da filha exasperara-a,<br \/>\n    mas a sua submiss&atilde;o depois tinha-a comovido. Afinal reconhecia raz&atilde;o<br \/>\n    na mo&ccedil;a e chegava a envergonhar-se do seu procedimento. O Rosas tinha<br \/>\n    sido um inimigo ac&eacute;rrimo do marido. A quest&atilde;o entre ambos tomara<br \/>\n    um rumo t&atilde;o perigoso, que fora preciso interven&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    terceiro. O Nunes, como amigo mais &iacute;ntimo do comendador, tinha-se posto<br \/>\n    de permeio e evitado um desenlace terr&iacute;vel &agrave; negregada quest&atilde;o.<br \/>\n    Por muito tempo o nome do Rosas tinha sido envolto no mais asqueroso desprezo<br \/>\n    e Sara, que adorava o pai, e compartilhava do seu temperamento, come&ccedil;ou<br \/>\n    a ter pelo Rosas a mesma raiva, talvez ainda mais violenta que a dele. Depois<br \/>\n    da morte do Sim&otilde;es, esse sentimento de rancor havia-se acentuado. A<br \/>\n    lembran&ccedil;a do pai enchia-a de caridade para todos, menos para os que<br \/>\n    em vida o tivessem insultado ou feito sofrer!<\/p>\n<p>Por isso a vi&uacute;va Sim&otilde;es entrava a ter remorsos e a preocupar-se<br \/>\n    muito com a opini&atilde;o de Sara. Que diria ela quando soubesse de tudo?<\/p>\n<p>Pensava nisso quando sentiu ranger o port&atilde;o de ferro do jardim; voltando<br \/>\n    o rosto percebeu, atrav&eacute;s da meia escuridade da noite, o vulto de Luciano<br \/>\n    Dias, em que se destacava num fato escuro uma nesga de colete branco.<\/p>\n<p>Ernestina levantou-se e disse-lhe, mal o viu aproximar-se:<\/p>\n<p>&#8211; Sei porque vem. O seu amigo Rosas contou-lhe tudo!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade: e j&aacute; que abordou a quest&atilde;o t&atilde;o abruptamente,<br \/>\n    deixe-me dizer-lhe que venho indignado!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei porque!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sabe porque!?<\/p>\n<p>&#8211; A culpada fui eu&#8230; Sara n&atilde;o tinha sido prevenida, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o a desculpe, pelo amor de Deus!<\/p>\n<p>&#8211; O Rosas n&atilde;o devia ter vindo&#8230; eu estava louca quando o convidei!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Veio porque eu lhe pedi tamb&eacute;m que viesse. &Eacute; tempo de se<br \/>\n    acabar com inimizades insensatas. Ele &eacute; um bom homem.<\/p>\n<p>&#8211; Ser&aacute;, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas?<\/p>\n<p>&#8211; Sara teve raz&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga isso! Uma menina de educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o faz<br \/>\n    o que ela fez. Foi insolente!<\/p>\n<p>Ernestina levantou-se, muito ofendida; mas Luciano n&atilde;o lhe deu tempo<br \/>\n    de falar; continuava, muito nervoso:<\/p>\n<p>&#8211; O Rosas descreveu-me bem nitidamente a cena&#8230; saiu envergonhad&iacute;ssimo<br \/>\n    e furioso! Quando eu digo que precisamos arranjar um casamento para sua filha!<\/p>\n<p>Ernestina mastigou, col&eacute;rica:<\/p>\n<p>&#8211; Um casamento&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim &eacute; indispens&aacute;vel para a nossa felicidade. Isto assim n&atilde;o<br \/>\n    pode continuar, bem v&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode. Eu n&atilde;o quero que minha filha se case. &Eacute; minha, amo-a;<br \/>\n    acabou-se! Pensando friamente, Sara fez bem. O Rosas foi um inimigo ac&eacute;rrimo<br \/>\n    do pai; n&atilde;o devia ter vindo.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente; mas o pai est&aacute; morto, o Rosas esqueceu ofensas, veio<br \/>\n    exatamente para uma reconcilia&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o e a ela, menina<br \/>\n    sentimental e mal educada, a quem compete receber ou despedir este ou aquele<br \/>\n    indiv&iacute;duo que entre em casa de sua m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Luciano!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o senhora! Sara foi brutal. Al&eacute;m de tudo, o Rosas &eacute;<br \/>\n    um velho e ela abusou da sua posi&ccedil;&atilde;o de senhora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta! Isso desgosta-me.<\/p>\n<p>&#8211; E a mim ainda mais. Imagine: caso-me. Bem. E ent&atilde;o? hei de deixar<br \/>\n    de receber o meu melhor amigo, em minha casa, s&oacute; por um capricho piegas<br \/>\n    da menina.? Precisamos meditar bem em tudo! O que passou, passou!<\/p>\n<p>&#8211; O Rosas era inimigo do pai? Que tenho eu com isso? &Eacute; meu amigo,<br \/>\n    e portanto da minha fam&iacute;lia!<\/p>\n<p>&#8211; Lembre-se de que n&oacute;s ainda n&atilde;o somos a sua fam&iacute;lia&#8230;<br \/>\n    Amamo-nos, queremos casar, e desde que isso suceda, as vontades dela ficar&atilde;o<br \/>\n    em segundo plano, ter&aacute; de submeter-se &agrave; nossa. O que determinarmos<br \/>\n    &eacute; o que se h&aacute; de fazer. &Eacute; melhor explicar-lhe isso j&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Falar-lhe no casamento? &Eacute; cedo deixemos passar o ano de luto&#8230;<br \/>\n    respondeu Luciano&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Do luto? Mas onde est&aacute; ele?<\/p>\n<p>&#8211; Nela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade que Sara persiste em andar de luto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A sua toler&acirc;ncia, Ernestina, &eacute; que a tem perdido! Sua filha<br \/>\n    &eacute; autorit&aacute;ria e caprichosa. Decida-se a fazer o que lhe tenho<br \/>\n    dito: e aconselhe-a de longe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ela vai sofrer muito!&#8230; N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Embora; tudo redundar&aacute; em seu proveito.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei por que aborrece assim a minha pobre filha: se convivesse<br \/>\n    com ela, havia de ador&aacute;-la! &Eacute; um anjo.<\/p>\n<p>&#8211; O que vejo &eacute; que tem medo de mago&aacute;-la com uma simples palavra,<br \/>\n    e entretanto a mim n&atilde;o poupa desgostos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! Mas como!<\/p>\n<p>&#8211; Referindo-se constantemente ao seu finado marido, n&atilde;o reprimindo<br \/>\n    o modo desabrido da senhora sua filha, conservando na sala, bem em frente<br \/>\n    ao seu, o retrato do Sim&otilde;es como senhor leg&iacute;timo de sua casa<br \/>\n    e ao seu cora&ccedil;&atilde;o&#8230; Por que n&atilde;o retira dali aquele quadro?<br \/>\n    N&atilde;o calcula o ci&uacute;me, o &oacute;dio que lhe tenho e o mal que<br \/>\n    ele me faz!<\/p>\n<p>&#8211; Desculpo as suas palavras, porque elas s&atilde;o filhas do ci&uacute;me.<\/p>\n<p>Ernestina estava surpreendida e desgostosa com Luciano. A c&oacute;lera tornava-o<br \/>\n    grosseiro, &aacute;spero. O seu g&ecirc;nio rompia todos os preceitos da educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e do cavalheirismo para se mostrar rude e indom&aacute;vel.<\/p>\n<p>Sara foi todo o assunto da noite. A m&atilde;e defendia-a, punha-a acima<br \/>\n    de tudo e de todos, como se fosse um s&iacute;mbolo da perfei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na terra. Fazia isso exatamente por v&ecirc;-la acusada. O seu amor maternal<br \/>\n    reagia contra todas as censuras num grande exagero.<\/p>\n<p>Luciano saiu cedo, impressionado e nervoso.<\/p>\n<p>A verdade era que os olhos de Ernestina inquietavam-no mais do que ele desejava.<\/p>\n<p>Como dissera ao Rosas, furtava-se ao casamento, procurando no amor da vi&uacute;va<br \/>\n    uma dessas p&aacute;ginas de paix&atilde;o, freq&uuml;entes na vida dos homens.<br \/>\n    Ernestina, por&eacute;m, sabia defender-se, era muito mais forte do que ele<br \/>\n    poderia supor, os planos de amor f&aacute;cil iam-se desmoronando e ele revolvia-se<br \/>\n    desesperado entre o desejo de possuir a mulher e a m&aacute; vontade de a<br \/>\n    chamar &#8211; esposa!<\/p>\n<p>N&atilde;o era positivamente como marido que ele queria beijar a boca pequena<br \/>\n    e rubra da vi&uacute;va Sim&otilde;es! O corpo esbelto e ondeante da mo&ccedil;a,<br \/>\n    o negro azulado do seu cabelo farto, a do&ccedil;ura dos seus olhos rasgados<br \/>\n    e &uacute;midos o moreno quente da sua pele rosada, acendiam-lhe no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o o amor puro e casto que o homem deve dedicar a companheira eterna,<br \/>\n    mas o fogo sensual de uma paix&atilde;o violenta e transit&oacute;ria. Ele<br \/>\n    amava-a, amava-a, sim; tinha ci&uacute;mes do passado, era sincero na sua<br \/>\n    c&oacute;lera, odiava o Sim&otilde;es e a filha do Sim&otilde;es, por&eacute;m<br \/>\n    &agrave; sua imagina&ccedil;&atilde;o o vulto de Ernestina aparecia, teimosamente,<br \/>\n    engrinaldado de p&acirc;mpanos e de ta&ccedil;a em punho, como uma bachante!<\/p>\n<h4><a name=\"7\">VII<\/a><\/h4>\n<p>Corria o m&ecirc;s de agosto, muito morno e ameno. No meio da bateria da<br \/>\n    cozinha a Benedita ouvia o palavreado da Simpl&iacute;cia, que rodopiava pela<br \/>\n    casa, trazendo novidades e inventando coisas. O Augusto olhava com altivez<br \/>\n    e desd&eacute;m para aquela ra&ccedil;a de mulheres, enquanto o hortel&atilde;o<br \/>\n    se babava todo, ouvindo as tagarelices e a discuss&atilde;o das duas. Simpl&iacute;cia<br \/>\n    tinha o bolso sempre cheio de dinheiro, moedinhas de prata e n&iacute;queis<br \/>\n    subtra&iacute;dos &agrave; gaveta da ama. Detestava o cobre. Fazia-se fina,<br \/>\n    com lacinhos de fita na gola do casaco branco e saias bem talhadas. A outra<br \/>\n    era fiel e amea&ccedil;ava &agrave;s vezes de ir direito &agrave; ama denunciar<br \/>\n    a mulata.<\/p>\n<p>Simpl&iacute;cia levantava os ombros. Que lhe importava? Que fosse!<\/p>\n<p>Como se aproximasse o dia de Nossa Senhora da Gl&oacute;ria, ela afirmava<br \/>\n    que iria &agrave; festa de bra&ccedil;o com seu Augusto, como-se fossem marido<br \/>\n    e mulher&#8230;<\/p>\n<p>Os outros riam-se, vendo a indiferen&ccedil;a e um certo ar de nojo do copeiro<br \/>\n    pela pequena.<\/p>\n<p>Na v&eacute;spera do dia da Gl&oacute;ria a Simpl&iacute;cia foi direto &agrave;<br \/>\n    vi&uacute;va pedir-lhe licen&ccedil;a para a sa&iacute;da. Ernestina negou-lha;<br \/>\n    mandara retirar da sala, precipitadamente, o retrato do comendador. Simpl&iacute;cia<br \/>\n    sorria sem ressentimento, vendo o Augusto e o Jo&atilde;o descerem a tela<br \/>\n    da parede. Aproveitava uma ocasi&atilde;o em que Sara conversava com Georgina,<br \/>\n    no jardim vizinho. Mal o hortel&atilde;o sa&iacute;ra de casa com o quadro,<br \/>\n    j&aacute; a Simpl&iacute;cia rondava o port&atilde;o, &agrave; espera de Sara.<br \/>\n    Quando a mo&ccedil;a entrou, a mulata disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Nh&aacute; Sara, a senhora sabe para onde &eacute; que Iai&aacute; mandou<br \/>\n    o retrato de Sinh&ocirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Hein?!<\/p>\n<p>&#8211; Seu Jo&atilde;o levou ele&#8230; Coitado de quem morre!<\/p>\n<p>Aquela piedade da negrinha pelo morto fez estremecer a mo&ccedil;a com um<br \/>\n    movimento de amargurada indigna&ccedil;&atilde;o. Subiu correndo at&eacute;<br \/>\n    a casa e abriu com estrondo a porta da sala.<\/p>\n<p>Ernestina voltou-se, inquieta. A filha olhara at&ocirc;nita e demoradamente<br \/>\n    para a parede vazia, onde se destacava numa mancha clara o bocado do papel<br \/>\n    at&eacute; a&iacute; resguardado pela tela.<\/p>\n<p>&#8211; Por que tirou dali o retrato de papai?! perguntou Sara &agrave; m&atilde;e,<br \/>\n    com a voz alterada e o rosto p&aacute;lido.<\/p>\n<p>Ernestina corou: disse de um modo confuso que o retrato precisava de reparo&#8230;<br \/>\n    que o teria mandado ao pintor que o fizera; e inventou um desastre em que<br \/>\n    um desajeitamento do Augusto figurava como &uacute;nico respons&aacute;vel.<\/p>\n<p>Tinha mentido e desviava a vista dos olhos claros da filha.<\/p>\n<p>Cedera ao desejo de Luciano. O retrato do comendador tinha ido para S. Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    para a casa de uma mulher pobre, a Josefa, que a tinha criado e a quem ela<br \/>\n    protegia com uma pequena mesada.<\/p>\n<p>At&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o se servira dessa criatura, que entretanto<br \/>\n    lhe aparecia agora como um recurso para segredos e afli&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Sara retirou-se desconfiada e tristonha; ocorreu ent&atilde;o a Ernestina<br \/>\n    ir &agrave; casa da ama e fazer voltar o retrato. Veio um clar&atilde;o de<br \/>\n    bom racioc&iacute;nio iluminar-lhe o esp&iacute;rito. Afinal, ela andava a<br \/>\n    fazer um papel de culpada; temia a filha como se o seu amor por Luciano fosse<br \/>\n    coisa ileg&iacute;tima ou criminosa.<\/p>\n<p>O que tinha a fazer era chamar Sara e dizer-lhe muito simplesmente: Luciano<br \/>\n    e eu amamo-nos e casar-nos-emos em breve&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto vinham-lhe &agrave; mente os conselhos e pedidos do noivo, rogando<br \/>\n    que conservasse o seu amor em mist&eacute;rio! E por sua vez formulava um<br \/>\n    &#8211; por qu&ecirc;? A que n&atilde;o podia dar solu&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>A vi&uacute;va Sim&otilde;es saiu sem se despedir da filha, desceu rapidamente<br \/>\n    o jardim, compondo sobre o rosto o veuzinho preto e sacudindo com as pontas<br \/>\n    dos dedos o plastron do vestido. Chegou afadigada &agrave; casa da ama.<\/p>\n<p>A pobre mulher recebeu-a de bra&ccedil;os abertos, como de costume.<\/p>\n<p>&#8211; U&ecirc; gente! Como Iai&aacute; veio vermelha! foi a sua primeira exclama&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    e logo depois foi-a levando para o sof&aacute;, tirou-lhe o chap&eacute;u,<br \/>\n    disse-lhe que descansasse para ir depois fazer lunch, e apontou para o doce<br \/>\n    de coco em duas compoteiras na mesa.<\/p>\n<p>Ernestina deixava-a falar; estava ainda ofegante, meditando no que devia<br \/>\n    fazer. De repente:<\/p>\n<p>&#8211; Diga, Josefa recebeu o retrato de meu marido, n&atilde;o recebeu?<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent&atilde;o n&atilde;o hav&eacute;ra de receb&ecirc;? Est&aacute;<br \/>\n    no quarto do orat&oacute;rio, mas h&aacute; de se pendur&aacute; aqui, em<br \/>\n    cima do sof&aacute;! Como aquele, &eacute; que n&atilde;o h&aacute; outro<br \/>\n    homem! Santo mesmo! N&atilde;o se case mais, Iai&aacute;, que outro assim<br \/>\n    n&atilde;o acha!<\/p>\n<p>&#8211; Cale-se&#8230; voc&ecirc; nem sabe o que est&aacute; dizendo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como n&atilde;o sei? Agora me diga porque foi que me deu o retrato dele?<br \/>\n    Mandou copiar outro novo l&aacute; pra sala?!<\/p>\n<p>Ernestina n&atilde;o p&ocirc;de deixar de sorrir &agrave;quela ingenuidade<br \/>\n    e, atraindo a velha para seu lado, contou-lhe tudo.<\/p>\n<p>A Josefa era uma velhota acaboclada, baixa e ossuda, de ombros largos e direitos,<br \/>\n    queixo quadrado e m&atilde;os grandes. Gozara a prefer&ecirc;ncia entre os<br \/>\n    antigos escravos dos pais de Ernestina por ser de uma limpeza e fidelidade<br \/>\n    sem exemplo. Toda a sua roupa andava recendendo &agrave;s ra&iacute;zes do<br \/>\n    capim cheiroso e ela era o bra&ccedil;o direito da casa. Quando a senhora<br \/>\n    morreu, Ernestina tinha s&oacute; dois anos. A Josefa ficou encarregada de<br \/>\n    olhar por tudo: dirigia o servi&ccedil;o das outras, tratava da menina com<br \/>\n    esmero, trazendo-a sempre asseada e contente. Alforriada, n&atilde;o abandonou<br \/>\n    a casa. Era teimosa, de humor desigual, mas firme e amor&aacute;vel como um<br \/>\n    c&atilde;o. <\/p>\n<p>Tinha reminisc&ecirc;ncias muito claras de Luciano Dias. Embirrara sempre<br \/>\n    com ele. Farejara-lhe maus sentimentos. Tinha-lhe feito um mal terr&iacute;vel:<br \/>\n    apreendido cartas, rasgado fotografias, feito desaparecer muitos raminhos<br \/>\n    de flores por ele dirigidos &agrave; mo&ccedil;a. Agora o que a<br \/>\n    comovia era a saudade de Sara. J&aacute; n&atilde;o tinha ascendente na fam&iacute;lia,<br \/>\n    nem a idade lhe consentia a mesma for&ccedil;a de g&ecirc;nio. Estava quebrantada,<br \/>\n    mole; apoiou-se por isso todas as id&eacute;ias de Ernestina sem contestar<br \/>\n    nem aconselhar cosa alguma; dependia dela e temia ir de encontro aos seus<br \/>\n    desejos.<\/p>\n<p>Recebeu calada as confid&ecirc;ncias, ficando por fim assente que no dia<br \/>\n    seguinte voltaria para Santa Tereza o retrato do comendador. Ernestina saiu<br \/>\n    risonha; aquele desabafo fizera-lhe bem. Percebia ter na Josefa um arrimo<br \/>\n    seguro. Se por um lado a velha n&atilde;o a consolava, n&atilde;o sabendo<br \/>\n    aconselh&aacute;-la, por outro dizia a tudo am&eacute;m e favorecia-lhe assim<br \/>\n    todos os seus projetos. Em caminho para casa, Ernestina forjava uma mentira,<br \/>\n    preparando-se para sustentar o olhar claro e interrogativo da filha.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">VIII<\/a><\/h4>\n<p>A Simpl&iacute;cia aproveitava a aus&ecirc;ncia de Ernestina, enchendo-se<br \/>\n    de goiabada, queijo do Reino e c&aacute;lices de licor, muito bem repimpada<br \/>\n    numa cadeira da sala de jantar. Sara conversava com a amiga na casa vizinha,<br \/>\n    Augusto fora &agrave; cidade, a Ana estava no tanque &agrave;s voltas com<br \/>\n    a roupa e a Benedita cochichava com o hortel&atilde;o l&aacute; para os fundos<br \/>\n    da casa; podia estar tranq&uuml;ila.<\/p>\n<p>A Simpl&iacute;cia arremedava a senhora na maneira de estar &agrave; mesa,<br \/>\n    movia com delicadeza o c&aacute;lice e dava dentadinhas pequenas no doce,<br \/>\n    sorrindo sua finura, a remoer id&eacute;ias.<\/p>\n<p>A tola Iai&aacute; estava-lhe nas unhas. Conhecera-lhe o seu amor por Luciano<br \/>\n    desde o primeiro dia&#8230; n&atilde;o que ela n&atilde;o tinha s&oacute; habilidade<br \/>\n    para encontrar as coisas que as outras perdiam, nem para subtrair das gavetas<br \/>\n    moedinhas e fitas&#8230; Ria-se da cegueira de Sara&#8230; ainda havia de ser ela<br \/>\n    quem lhe abrisse os olhos!&#8230;<\/p>\n<p>Os c&aacute;lices de licor sucederam-se at&eacute; cair do frasco a &uacute;ltima<br \/>\n    gota. Que estupidez! Ela ainda tinha tanta goiabada no prato&#8230; lembrou-se<br \/>\n    do cognac. Foi ao arm&aacute;rio, mas deu-lhe uma tontura; o ch&atilde;o fugia-lhe<br \/>\n    embaixo dos p&eacute;s, o guarda pratos inclinava-se, a mesa recuava, as cadeiras<br \/>\n    tomavam atitudes de dan&ccedil;a e as aves mortas dos quadros das paredes<br \/>\n    agitavam-se todas, sacudindo as penas.<\/p>\n<p>&#8211; U&ecirc;! exclamou a mulatinha, esfregando os olhos; e demorou-se, percebendo<br \/>\n    a verdade, com tato bastante para esconder a garrafa e lev&aacute;-la para<br \/>\n    o quarto&#8230; Beberia &agrave; noite, na cama. N&atilde;o lhe convinha embebedar-se<br \/>\n    de dia; e foi pedir &agrave; Benedita uma x&iacute;cara de caf&eacute;. Estava<br \/>\n    com uma enxaqueca!<\/p>\n<p>Quando Ernestina entrou, a Simpl&iacute;cia correu a tirar-lhe o chap&eacute;u<br \/>\n    e guardar as luvas. Ernestina deu-lhas maquinalmente.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, Iai&aacute;, me deixa ir na festa?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu&ecirc;?&#8230; Seu Luciano n&atilde;o quer?<\/p>\n<p>Ernestina deu um salto, assustada; sem atinar com o que dissesse, repetiu:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Luciano!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhora&#8230; pois ent&atilde;o ele n&atilde;o est&aacute; para casar<br \/>\n    com a senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s doida! Cala-te; repreendeu a vi&uacute;va, mas a Simpl&iacute;cia<br \/>\n    ajuntou com ar malicioso:<\/p>\n<p>&#8211; Iai&aacute; n&atilde;o se zangue n&atilde;o&#8230; mas eu vi outro dia seu<br \/>\n    Luciano dar um beijo na senhora&#8230; l&aacute; na sala&#8230; perto da janela&#8230;<br \/>\n    Eu n&atilde;o conto nada a nh&aacute; Sara&#8230; mas a senhora h&aacute; de me<br \/>\n    deix&aacute; i na festa&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina estava vencida; entretanto levantou-se, col&eacute;rica, erguendo<br \/>\n    a m&atilde;o para bater na negrinha. &Agrave;quela amea&ccedil;a Simpl&iacute;cia<br \/>\n    saltou:<\/p>\n<p>&#8211; Iai&aacute;, j&aacute; n&atilde;o sou sua escrava! Se a senhora n&atilde;o<br \/>\n    me fiz&eacute; as vontades eu juro em como vou direitinha diz&ecirc; tudo<br \/>\n    a nh&aacute; Sara: que seu Luciano tem raiva dela, e que d&aacute; beijinhos<br \/>\n    na senhora!&#8230;<\/p>\n<p>O licor fazia-a ir muito mais longe do que premeditara; a cabe&ccedil;a girava-lhe<br \/>\n    ainda um pouco e ela n&atilde;o podia conter a l&iacute;ngua. Via o seu erro,<br \/>\n    mas j&aacute; n&atilde;o o sabia emendar; declarara tudo; tinha um plano antigo:<br \/>\n    ir confidenciando aos caixeiros das vendas o segredo da ama&#8230; e ser a primeira<br \/>\n    a declar&aacute;-lo a Sara, se Ernestina n&atilde;o lhe desse consentimento<br \/>\n    para ir &agrave; festa, e ainda mais dinheiro e mais ainda a ordem para que<br \/>\n    a acompanhasse o Augusto!<\/p>\n<p>A vi&uacute;va estava aterrada, com medo de levantar um escarc&eacute;u despedindo<br \/>\n    a rapariga e sem vontade de lhe fazer o gosto. Mas a mulata venceu; e ainda<br \/>\n    Ernestina lhe p&ocirc;s nas orelhas uns brincos de coral e nas m&atilde;os<br \/>\n    uma nota de dez mil r&eacute;is.<\/p>\n<p>&#8211; Vai&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina chorou de raiva. Por ela, chamaria imediatamente Sara, e diria<br \/>\n    toda a verdade; mas Luciano opunha-se a isso tenazmente e ela mesmo esperava<br \/>\n    faz&ecirc;-lo quando o visse mais propenso a estimar a filha. O seu terror<br \/>\n    agora era que Sara viesse a saber de tudo pela boca asquerosa da mulata.<\/p>\n<p>Resolveu mand&aacute;-la passar um tempo em Friburgo, com a tia Mariana,<br \/>\n    vi&uacute;va de Gustavo Ferreira. Naqueles dias ao menos estaria livre de<br \/>\n    qualquer intriga ou revela&ccedil;&atilde;o desagrad&aacute;vel. Escreveu<br \/>\n    a Luciano largamente. Pedia que decidisse o casamento. A conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    f&aacute;-lo-ia depois amar a enteada. A seu ver, Luciano n&atilde;o esperava<br \/>\n    outra coisa sen&atilde;o vencer a antipatia pela pequena&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte a Simpl&iacute;cia, toda vestida de branco, com fitinhas<br \/>\n    verdes, descia o jardim ao lado do Augusto, muito s&eacute;rio e bem arranjado.<\/p>\n<p>A Benedita acompanhava-os com a vista, e quando eles, embaixo, abriram o<br \/>\n    port&atilde;o, ela disse alto, em cima sacudindo no ar a m&atilde;o engordurada:<\/p>\n<p>&#8211; Sapeca do diabo! Que boa sova!<\/p>\n<h4><a name=\"9\">IX<\/a><\/h4>\n<p>Em um dos primeiros dias de setembro, Ernestina partiu para Friburgo, com<br \/>\n    a filha e a Georgina Tavares. Durante a viagem elas mal se falavam, abrindo<br \/>\n    muito os olhos para as paisagens soberanamente belas do caminho.<\/p>\n<p>A tia Mariana j&aacute; as esperava, palestrando na gare com um empregado<br \/>\n    da esta&ccedil;&atilde;o. Era uma velha alta e seca, fiel ao uso da crinolina,<br \/>\n    com uns band&ocirc;s grisalhos que lhe tapavam as orelhas, e umas sobrancelhas<br \/>\n    espessas, que em v&atilde;o pretendiam dar ferocidade ao seu aspecto tranq&uuml;ilo.<br \/>\n    Passava por milion&aacute;ria e avarenta; mas em verdade a pobre senhora s&oacute;<br \/>\n    tinha com que viver regularmente e bem alimentar a cria&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    seus ricos bichinhos de seda, gozo &uacute;nico dos seus dias ins&iacute;pidos.<\/p>\n<p>Morava num casar&atilde;o baixo, antigo, com janelas de peitoril para o largo<br \/>\n    e grande quintal plantado de amoreiras, de onde se via ao longe, a cascata<br \/>\n    do Neves, desenrolando no veludo verde da montanha o seu len&ccedil;ol d&#8217;&aacute;gua<br \/>\n    cristalina&#8230;<\/p>\n<p>A primavera desabotoava-se magn&iacute;fica, numa exuber&acirc;ncia de tons<br \/>\n    deliciosa; mas as meninas, afeitas ao clima do Rio, andavam tiritantes, envolvidas<br \/>\n    em l&atilde;s.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias a tia Mariana reclamava detalhes da revolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    maldizendo a rep&uacute;blica e chorando pelo imperador, o bom velho das barbas<br \/>\n    de neve, que lhe tinha apertado casualmente a m&atilde;o uma vez, havia muitos<br \/>\n    anos, numa festa de caridade&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina fazia coro nas lamenta&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o sabia<br \/>\n    explicar nada, o que desesperava a outra; ent&atilde;o Sara, mais indiferente,<br \/>\n    inventava detalhes que a velha ouvia, limpando os &oacute;culos.<\/p>\n<p>Um dia, a vi&uacute;va Sim&otilde;es decidiu-se a deixar as meninas com a<br \/>\n    tia, e descer para o Rio sozinha, conquanto um pouco assustada por aquela<br \/>\n    ousadia.<\/p>\n<p>Ela afirmava &agrave; filha que voltaria depressa, explicando alto, repetidamente,<br \/>\n    que n&atilde;o podia deixar a casa entregue aos criados&#8230;<\/p>\n<p>A Ana era cada vez mais exigente; todos os meses pedia aumento de ordenado,<br \/>\n    e mais cerveja, e mais isto e mais aquilo&#8230;<\/p>\n<p>O Augusto mudara completamente depois do passeio &agrave; Gl&oacute;ria do<br \/>\n    Outeiro, dormia de dia horas inteiras e ria alto coma Simpl&iacute;cia, pelos<br \/>\n    cantos, sem respeita nenhum&#8230;<\/p>\n<p>O Jo&atilde;o andava doente, a Benedita com um mau humor execr&aacute;vel&#8230;<br \/>\n    e ela, confessava, tinha medo que lhe pusessem fogo &agrave; casa!&#8230;<\/p>\n<p>A tia Mariana aprovava: &#8211; que fosse depressa! Isto de criados n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; que fiar&#8230; cada um faz o que pode para ser pior!<\/p>\n<p>Quando Ernestina entrou em casa sentiu uma profunda e dolorida saudade da<br \/>\n    filha. Era o seu primeiro apartamento. Toda a tarde e toda a noite n&atilde;o<br \/>\n    lhe puderam sair do sentido a voz e o vulto de Sara, a adorada companheira<br \/>\n    de toda a sua vida&#8230; Logo de manh&atilde; cedo escreveu-lhe uma grande carta<br \/>\n    cheia de recomenda&ccedil;&otilde;es: que se agasalhasse, que fizesse exerc&iacute;cio,<br \/>\n    que lhe escrevesse sempre&#8230;<\/p>\n<p>Depois escreveu a Luciano, e parou, com a pena no ar, pensando em qual daqueles<br \/>\n    amores a absorvia mais&#8230; <\/p>\n<p>Agora que Sara estava ausente, sentia por ela uma ternura esquisita, mais<br \/>\n    penetrante, que lhe ia at&eacute; o fundo do cora&ccedil;&atilde;o, que a<br \/>\n    afastava de todas as outras coisas, arredando mesmo para um plano mais nublado<br \/>\n    e indeciso a figura de Luciano&#8230; Estranhava aquilo; aquele redobramento de<br \/>\n    amor maternal que a dominava completamente, absolutamente. Aproveitou pressurosa<br \/>\n    a frieza que lhe parecia ent&atilde;o sentir pelo noivo, e pediu-lhe na carta<br \/>\n    que a n&atilde;o fosse ver. Contou-lhe tudo. Sara estava longe mas sentia<br \/>\n    bem que n&atilde;o a poderia conservar assim&#8230; faltara-lhe o ar em casa,<br \/>\n    sem ela&#8230; n&atilde;o se resignaria nunca a viver daquele modo! Cas&aacute;-la<br \/>\n    n&atilde;o era coisa admiss&iacute;vel. Sara era ainda muito nova. Conclu&iacute;a<br \/>\n    pedindo mais uma vez a Luciano que dominasse a antipatia pueril que o afastava<br \/>\n    de Sara para viverem depois todos felizes&#8230; muito felizes!<\/p>\n<p>Ernestina acabou a carta chorando. Aquela harmonia sonhada e pedida n&atilde;o<br \/>\n    existiria nunca; percebia bem. Viveriam juntos talvez, mas aborrecendo-se.<br \/>\n    Era isso mesmo que ela tentara outrora, quando escondia em casa a sua mocidade,<br \/>\n    o seu lindo rosto, a sua alma ansiosa, &aacute;vida de amor! Era por isso<br \/>\n    mesmo que ela desejara sempre a velhice que a vestisse de gelo, lhe quebrasse<br \/>\n    os &iacute;mpetos, que a deixasse sem aspira&ccedil;&otilde;es e sem desejos,<br \/>\n    na sua grande virtude de m&atilde;e sem m&aacute;cula&#8230;<\/p>\n<p>Ela pedia a Luciano que a n&atilde;o fosse ver, temendo que ele lhe desobedecesse.<br \/>\n    Entretanto era preciso. Estava s&oacute;; tinha medo de sucumbir.<\/p>\n<p>Nessa mesma tarde recebeu a primeira carta de Sara, escrita &agrave; mesma<br \/>\n    hora em que ela lhe escrevera, com iguais pedidos e recomenda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    com a mesma chuva de beijos, a mesma intensidade de afeto.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">X<\/a><\/h4>\n<p>O Rosas balou&ccedil;ava-se em uma grande cadeira austr&iacute;aca no seu<br \/>\n    terra&ccedil;o do Flamengo, ouvindo Luciano ler a &uacute;ltima carta de Ernestina<br \/>\n    e uma de Sara dirigida &agrave; m&atilde;e. Acabada a leitura, o Rosas deitou<br \/>\n    ao ar o fumo azul do seu havana e o amigo perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; E ent&atilde;o?!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o que eu dizia: voc&ecirc; tem de casar com ela!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; boa! Se a gente tivesse de casar com todas as mulheres a quem<br \/>\n    faz a corte!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc&ecirc; foi mais longe do que isso!<\/p>\n<p>&#8211; Aqueles olhos p&otilde;em-me tonto! A verdade &eacute; esta: eu amo Ernestina,<br \/>\n    mas n&atilde;o quero casar com ela&#8230;-<\/p>\n<p>&#8211; Por qu&ecirc;?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei! Aquela filha&#8230; o g&ecirc;nio dela mesmo, incomoda-me,<br \/>\n    irrita-me! Voc&ecirc; n&atilde;o v&ecirc; esta carta? Manda a filha para Friburgo<br \/>\n    e &eacute; exatamente agora que me pede para n&atilde;o ir v&ecirc;-la!<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem. Isso compreende-se&#8230; &eacute; uma mulher honesta&#8230; voc&ecirc;,<br \/>\n    que diabo! &Eacute; um homem perigoso! Mas, deixe-se de hist&oacute;rias!<br \/>\n    Pe&ccedil;a a vi&uacute;va e case-se. &Eacute; mulher garantida, v&ecirc;-se<br \/>\n    por essas cartas. Afinal, voc&ecirc; gosta dela&#8230; l&aacute; por embirrar<br \/>\n    com a filha n&atilde;o &eacute; raz&atilde;o! O caso &eacute; outro. Voc&ecirc;<br \/>\n    &eacute; um galanteador e julga que as mulheres nasceram s&oacute; para joguetes<br \/>\n    do seu capricho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bonito! Ponha-se agora com frases&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora! quantos amores j&aacute; lhe conheci! Mas o tempo passa. V&aacute;-se<br \/>\n    ver ao espelho! Tem j&aacute; muitos cabelos brancos e olhe que por ter vindo<br \/>\n    de Paris n&atilde;o pense que n&atilde;o haja por a&iacute; outros mais chics&#8230;<\/p>\n<p>Luciano relia a carta de Sara.<\/p>\n<p>&#8211; A pequena n&atilde;o escreve mal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; muito expansiva!<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o compreende? A m&atilde;e quer catequizar-me com as<br \/>\n    cartas da filha.<\/p>\n<p>E guardando os pap&eacute;is no bolso:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Ela talvez deseje que eu lhe desobede&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; at&eacute; prov&aacute;vel que conte com isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Acha?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! com certeza.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o vou; h&aacute; de chamar-me primeiro; se quiser. Hoje vou<br \/>\n    passar a tarde com&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Clara Silvestre?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! com o Henrique Bastos&#8230; ele convidou-me para um passeio a<br \/>\n    S. Paulo, vou-lhe dizer que aceito.<\/p>\n<p>&#8211; Faz bem.<\/p>\n<p>Entretanto, Ernestina sentia-se febril, quase doente de ansiedade, esperando<br \/>\n    o momento em que Luciano fosse pedir oficialmente a sua m&atilde;o. Ele escrevia-lhe<br \/>\n    de S. Paulo, mas as cartas iam rareando e as saudades crescendo. Ernestina<br \/>\n    foi duas vezes a Friburgo; afogava a filha em beijos e abra&ccedil;os e voltava<br \/>\n    com uma enorme lista de encomenda que acrescentava sempre com mais tet&eacute;ias<br \/>\n    e gulodices. Todavia, sentia nessa dura experi&ecirc;ncia ser imposs&iacute;vel<br \/>\n    viver longe da sua querida Sara, e teimava em prolongar a separa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pagando com l&aacute;grimas de saudade esse sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s meses depois da aus&ecirc;ncia, Luciano voltou a casa de Ernestina;<br \/>\n    encontrou-a em doce palestra com D. Candinha Nunes. Sara voltaria no dia seguinte.<br \/>\n    Ernestina estava radiante. Ele achou-a p&aacute;lida, transparecia nela o<br \/>\n    cansa&ccedil;o da tristeza e da solid&atilde;o, embora a alegria do momento<br \/>\n    a sacudisse nervosamente.<\/p>\n<p>Passaram a tarde no jardim; &agrave; noite entraram para a sala, mobiliada<br \/>\n    de novo, e entretiveram-se vendo os arranjos e modifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    feitos em tudo pela vi&uacute;va para surpreender Sara.<\/p>\n<p>D. Candinha exclamava:<\/p>\n<p>&#8211; Qual! N&atilde;o h&aacute; amor como o de m&atilde;e! Vejam como Ernestina<br \/>\n    pensa na filha!<\/p>\n<p>Luciano abanava afirmativamente a cabe&ccedil;a, vendo Ernestina embara&ccedil;ada,<br \/>\n    tateando as coisas,<\/p>\n<p>&Agrave;s dez horas, como o Nunes n&atilde;o aparecesse, D. Candinha disse:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, o senhor meu marido esqueceu-se de mim! Seu Luciano, acompanha-me<br \/>\n    &agrave; cidade?<\/p>\n<p>&#8211; At&eacute; a sua casa, minha senhora. Despediram-se; e Ernestina, retendo<br \/>\n    a m&atilde;o de Luciano, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Ela chega amanh&atilde;!&#8230; Vem v&ecirc;-la?<\/p>\n<p>&#8211; Certamente&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o puderam dizer mais nada, D. Candinha, murmurava j&aacute; fora:<\/p>\n<p>&#8211; Que noite linda!<\/p>\n<h4><a name=\"11\">XI<\/a><\/h4>\n<p>Sara encontrou a casa toda renovada. Ernestina comprara mob&iacute;lias caras<br \/>\n    e reposteiros de luxo. Tinha aproveitado a aus&ecirc;ncia da filha para varrer<br \/>\n    pela porta fora todas as recorda&ccedil;&otilde;es do passado.<\/p>\n<p>O Jo&atilde;o enchera tudo de flores, desde a porta da rua at&eacute; &agrave;<br \/>\n    do quintal, muito contente com a volta da menina, que era a alegria da casa.<br \/>\n    A Benedita preparou surpresas para o jantar, uns past&eacute;is e uns pudins<br \/>\n    especiais, feitos com prazer e capricho, muito ornamentados, A Simpl&iacute;cia<br \/>\n    pregou na carapinha um cravo vermelho e amarrou fitinhas no pesco&ccedil;o,<br \/>\n    dizendo fazer isso para ser agrad&aacute;vel a Nh&aacute; Sara.<\/p>\n<p>A Ana p&ocirc;s no guarda-lou&ccedil;a, sorrateiramente, um queijo fabricado<br \/>\n    pelo pai em Petr&oacute;polis e s&oacute; o Augusto continuou indiferente<br \/>\n    no servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>Sara tinha voltado de Friburgo com o dr. Tavares e a Gina. N&atilde;o se<br \/>\n    cansava de beijar a m&atilde;e, falando-lhe rente &agrave; cara.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? Fui pedida em casamento!<\/p>\n<p>&#8211; Sim?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas eu respondi que mam&atilde;e j&aacute; me tinha prometido a um<br \/>\n    pr&iacute;ncipe estrangeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Quem foi?<\/p>\n<p>&#8211; Um velhote muito rico, mas muito feio, chamado Menezes. Depois desse, quem<br \/>\n    tamb&eacute;m n&atilde;o desgostou de mim foi o Eug&ecirc;nio Ribas. Esse<br \/>\n    n&atilde;o chegou a falar em casamento&#8230; mas deu a entender&#8230; e confessou<br \/>\n    ao dr. Tavares que me adorava!<\/p>\n<p>&#8211; O Eug&ecirc;nio Ribas n&atilde;o &eacute; um mo&ccedil;o louro, amigo do<br \/>\n    Nunes?<\/p>\n<p>&#8211; Esse mesmo! Ia aos bailes em Friburgo, de casaca e luvas brancas. Por aqui<br \/>\n    h&aacute; alguma novidade?<\/p>\n<p>&#8211; D. Candinha esteve c&aacute;, ontem; veio convidar-nos para um baile masqu&eacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Que bom!<\/p>\n<p>Come&ccedil;aram logo as combina&ccedil;&otilde;es de toilettes e de idas<br \/>\n    &agrave; cidade para compras.<\/p>\n<p>Nessa tarde, quando Luciano abriu o port&atilde;o do jardim, deparou com<br \/>\n    Sara que ia muito risonha ao seu encontro. Estranhou-a. A mo&ccedil;a parecia-lhe<br \/>\n    agora mais alta e mais elegante. Usava um vestido branco transparente, que<br \/>\n    mostrava numa sombra t&ecirc;nue a sua carna&ccedil;&atilde;o de loura, alva<br \/>\n    e rosada. Aquele traje dava-lhe um ar encantador de alegria e de ingenuidade.<\/p>\n<p>At&eacute; ent&atilde;o vira-a sempre de escuro, vacilando entre o cinzento<br \/>\n    e o preto tristonho do luto; os tons claros iluminavam-lhe a fisionomia numa<br \/>\n    doce irradia&ccedil;&atilde;o de poesia e de gra&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Entre depressa! exclamou ela, senhor ingrato, que n&atilde;o me mandava<br \/>\n    nem sequer saudades por interm&eacute;dio de mam&atilde;e! E fique desde j&aacute;<br \/>\n    sabendo que, para seu castigo, tem de desenhar hoje mesmo uma toilette de<br \/>\n    fantasia para esta sua amiguinha!<\/p>\n<p>E puxou-o, rindo, para dentro, segurando-lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p>Luciano deixava-se ir, encantado com aquele acolhimento. Estava num dos seus<br \/>\n    dias de bom humor, e o passeio a S. Paulo e a aus&ecirc;ncia de Ernestina,<br \/>\n    cujo amor o enervava, tinham-lhe temperado os pobres nervos doentios. Sentia-se<br \/>\n    saud&aacute;vel e tranq&uuml;ilo naquela tarde.<\/p>\n<p>Passaram todo o tempo da visita combinando fantasias para o baile de D. Candinha.<\/p>\n<p>&Agrave; despedida, Sara perguntou.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, mam&atilde;e j&aacute; foi ver a sua cole&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de quadros?<\/p>\n<p>&#8211; Cole&ccedil;&atilde;o de quadros? Quem a ouvisse diria que possuo uma galeria!<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; arrependido do convite que nos fez, ou gracejava quando nos<br \/>\n    relatou objetos art&iacute;sticos e mais trapalhadas adquiridas na Europa?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o menti. O que desde j&aacute; lhes digo &eacute; que a minha<br \/>\n    cole&ccedil;&atilde;o &eacute; pobre; mas fa&ccedil;am uma coisa: v&atilde;o<br \/>\n    l&aacute; amanh&atilde;; por exemplo.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; dito! Valeu, mam&atilde;e?<\/p>\n<p>Ernestina consentiu. Nessa noite ela foi dormir content&iacute;ssima: pareciam<br \/>\n    feitas as pazes entre Sara e Luciano Dias.<\/p>\n<p>No dia seguinte, &agrave;s 2 horas, desceram de Santa Tereza. A tarde estava<br \/>\n    quente, de um azul carregado.<\/p>\n<p>A casa de Luciano Dias ficava perto, na rua do Riachuelo; era de uma apar&ecirc;ncia<br \/>\n    simples: fachada sem estilo, de um tom cinzento, com frisos dourados nas tr&ecirc;s<br \/>\n    janelas de peitoril. Entraram; dentro, uma pequena escada de m&aacute;rmore<br \/>\n    conduzia &agrave; saleta de onde Luciano desceu a receb&ecirc;-las. Ernestina<br \/>\n    estava comovida, Sara curiosa, Momentos depois, conversavam no pequenino sal&atilde;o<br \/>\n    de Luciano, com ele afrancesadamente chamava &agrave; sua boa sala.<\/p>\n<p>Nas paredes de verde-escuro, encaixilhadas em madeiras. finas, destacava-se<br \/>\n    uma multid&atilde;o de objetos e pequenas telas: medalh&otilde;es hist&oacute;ricos,<br \/>\n    baixos relevo, adagas e punhais, recorda&ccedil;&otilde;es de touriste, insignificantes<br \/>\n    para os indiferentes; aqui um punho da mais rara merletti veneziana, ali um<br \/>\n    mosaico de Roma, um ramo da flor dos Alpes, a penugenta edelweiss, uma faca<br \/>\n    de Toledo incrustada de ouro, ou um leque de Madri.<\/p>\n<p>Sara ia observando tudo com muxoxos de desilus&atilde;o, at&eacute; alegrar-se<br \/>\n    com a vista de uma formosa cabe&ccedil;a de mulher, que surgia, risonha e<br \/>\n    fresca, do fundo cor de aurora da tela.<\/p>\n<p>Ernestina sentara-se num div&atilde;, procurando prender toda a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Luciano; mas este respondia-lhe apenas, lisonjeado com a observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que Sara prestava a tudo, comentando os objetos, indo e vindo de um para outro<br \/>\n    lado, fazendo-lhe perguntas, apontando como feias, antiguidades que ele achava<br \/>\n    lindas, extasiando-se &agrave;s vezes em frente de outras coisas que considerava<br \/>\n    med&iacute;ocres! Tudo que tivesse um ar de alegria ou de sa&uacute;de, era<br \/>\n    o que vibrava na mo&ccedil;a maior entusiasmo. Um grupo de crian&ccedil;as,<br \/>\n    uma alde&atilde; robusta, um pescador banhado de sol, um ramo de papoulas<br \/>\n    sang&uuml;&iacute;neas ou de frutas bem desenhadas e frescas, rebentavam-lhe<br \/>\n    dos l&aacute;bios vermelhos frases de espont&acirc;nea admira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Os assuntos diab&oacute;licos, nervosos, os quadros torturados em que, em<br \/>\n    fundos turvos, se estorcessem corpos aflitos ou relampejassem olhares de agonia,<br \/>\n    de d&uacute;vida, ou de &oacute;dio, tudo em que a dor domadora, atroc&iacute;ssima<br \/>\n    e amarga, derramasse o seu travo ou fincasse o seu dente impiedoso; tudo em<br \/>\n    que a arte reproduzisse a l&aacute;grima e o sofrimento humano, arrepiava<br \/>\n    as carnes sadias de Sara, para quem a vida tinha s&oacute; por dever ser risonha,<br \/>\n    ser boa, ser f&eacute;rtil!<\/p>\n<p>Os seus olhos de menina inexperiente n&atilde;o compreendiam os requintes<br \/>\n    art&iacute;sticos de um ou de outro autor, mas a sua alma entusi&aacute;stica<br \/>\n    abria-se com alegria &agrave;s impress&otilde;es da arte.<\/p>\n<p>Ernestina passeou o olhar atrav&eacute;s do lorgnon por tudo que a rodeava,<br \/>\n    sem demonstrar claramente as suas predile&ccedil;&otilde;es, temendo cair<br \/>\n    em erros de observa&ccedil;&atilde;o. A filha, mal ou bem, ia apontando defeitos<br \/>\n    e belezas, manifestando sem rebu&ccedil;o a sua maneira de ver e de sentir.<br \/>\n    A cabe&ccedil;a do garoto elogiada por Luciano, fez com que a mo&ccedil;a<br \/>\n    batesse palmas de contentamento. O busto talhado em m&aacute;rmore tinha energia,<br \/>\n    gra&ccedil;a e independ&ecirc;ncia, qualidades que se juntavam no car&aacute;ter<br \/>\n    de Sara. A mo&ccedil;a n&atilde;o p&ocirc;de conter-se, e, com os olhos &uacute;midos,<br \/>\n    beijou nas duas faces a cara rechonchuda do pequeno garoto de Paris.<\/p>\n<p>Luciano estremeceu como se alguma coisa nova se tivesse revelado nele. Ernestina<br \/>\n    murmurou, repreensivamente:<\/p>\n<p>&#8211; Sara! Que criancice!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Mam&atilde;e! Se este diabinho &eacute; t&atilde;o bonito! Repare para<br \/>\n    os olhos!&#8230; que mal&iacute;cia!&#8230; e para a cabe&ccedil;a!&#8230; que aud&aacute;cia&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o parece mesmo que esta boca est&aacute; gritando: Viva a Fran&ccedil;a!<br \/>\n    e que neste peito bate orgulhosamente um cora&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>Estiveram algum tempo de p&eacute; em frente ao busto, depois Luciano conduziu-as<br \/>\n    para outra salinha interior, onde mandara preparar uma fineza de lunch. <\/p>\n<p>Sobre o linho escarlate e preto da toalha, brilhavam pratos finos de bombons,<br \/>\n    frutas e guloseimas variadas. A vi&uacute;va tirou vagarosamente as luvas,<br \/>\n    sorrindo com sossego para Luciano, que lhe dava o lugar de honra, &agrave;<br \/>\n    cabeceira. Sara, sem esperar por convite, sentou-se, dizendo alto:<\/p>\n<p>&#8211; Ui! Tanta coisa!! Para mim bastam as uvas&#8230; o que pe&ccedil;o &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o se admire se eu comer todas!<\/p>\n<p>Luciano chegou para ela a cestinha das uvas e sentou-se entre as duas senhoras.<\/p>\n<p>Ernestina rescendia a Scherry-blosson e as suas m&atilde;os bem tratadas<br \/>\n    moviam-se vagarosamente acima dos pratos ou do linho escuro da toalha. Por<br \/>\n    toda ela descia um ar de tranq&uuml;ilidade e de ventura, fixando em Luciano<br \/>\n    um olhar calmo, como o de esposa feliz, em Sara um olhar de m&atilde;e confiante.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a, numa gourmandise not&aacute;vel, ia dando cabo das uvas brancas,<br \/>\n    falando sempre, enchendo a casa com a sua voz fresca e com os seus risos gorjeados.<\/p>\n<p>Nessa tarde Luciano n&atilde;o saiu; sentou-se pregui&ccedil;osamente a ler<br \/>\n    no seu escrit&oacute;rio; mas a pr&oacute;pria leitura fatigava-o e abandonava<br \/>\n    de vez em quando o livro, relembrando a gra&ccedil;a de Sara, a onda de alegria<br \/>\n    que ela espalhara por toda a sua casa; os seus ditos, a singular mudan&ccedil;a<br \/>\n    dos seus tra&ccedil;os, do seu car&aacute;ter e at&eacute; da sua roupa! Nas<br \/>\n    duas horas em que ela estivera ali, quantas coisas notara!<\/p>\n<p>Tinha-lhe feito observa&ccedil;&otilde;es justas e lembrado coisas em que<br \/>\n    ele agora nem repararia&#8230; aquela colcha de veludo preto suspensa na biblioteca<br \/>\n    fazia lembrar um pano de enterro&#8230; era uma fantasia de mau gosto. O piano<br \/>\n    deveria estar longe da janela&#8230; o busto do garoto mais voltado para a luz&#8230;<br \/>\n    a sala dos quartos n&atilde;o deveria ter cortinas&#8230; e faltava um tapete<br \/>\n    de fundo vermelho no escrit&oacute;rio&#8230; tudo isso ela dissera &agrave; vol-d&#8217;oiseau<br \/>\n    , no primeiro relance; e ele percebia agora que ela tinha raz&atilde;o. Era<br \/>\n    como se de repente o v&aacute;cuo de sua casa solit&aacute;ria se tivesse<br \/>\n    tornado em um corpo de mulher mo&ccedil;a e contente, e lhe reclamasse tudo<br \/>\n    que lhe faltava&#8230; E parecia-lhe ent&atilde;o que Sara fora momentaneamente<br \/>\n    a alma daquele ninho que ele enfeitava, amava, e que encontrava sempre mudo,<br \/>\n    frio, morto, incapaz de corresponder ao seu carinho!<\/p>\n<p>E Ernestina? Parecera-lhe nesse dia um pouco avelhentada, medrosa de express&atilde;o.<br \/>\n    E teve pena daquela alma de crian&ccedil;a, fechada em um corpo j&aacute;<br \/>\n    em decad&ecirc;ncia&#8230; entretanto ela era mais formosa do que a filha, e n&atilde;o<br \/>\n    era a filha certamente que ele amava!<\/p>\n<p>Desde desse dia Luciano n&atilde;o deixou de ir nem uma s&oacute; tarde a<br \/>\n    Santa Tereza. E era sempre Sara quem o vinha receber, enquanto Ernestina o<br \/>\n    esperava, risonha e calma, na sua varanda entrela&ccedil;ada de flores.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">XII<\/a><\/h4>\n<p>Chegou a noite do baile masqu&eacute;. Fazia calor e luar; o c&eacute;u tinha<br \/>\n    poucas estrelas, mas muita luz.<\/p>\n<p>Ernestina trajava um domin&oacute; &agrave; fantasia, muito unido ao corpo,<br \/>\n    da seda e rendas pretas, com longa cauda e capuch&atilde;o seguro ao cabelo<br \/>\n    por brilhantes espl&ecirc;ndidos.<\/p>\n<p>Ia elegante na sua seriedade. O seu desejo era ter ido decotada, com um traje<br \/>\n    farfalhante e claro, mas teve medo da cr&iacute;tica e absteve-se preocupada<br \/>\n    sempre com a opini&atilde;o dos outros. &Agrave;s dez horas entraram no baile.<\/p>\n<p>O Nunes abria os seus ricos sal&otilde;es burgueses num esplendor de luzes<br \/>\n    e de flores. N&atilde;o tivera esp&iacute;rito para reviver na sua festa uma<br \/>\n    &eacute;poca hist&oacute;rica qualquer, em que tudo, convidados e casa, fosse<br \/>\n    submetido rigorosamente ao estilo e ao figurino do tempo reproduzido. Negociante<br \/>\n    rico e feliz, pouco afeito aos requintes liter&aacute;rios, satisfazia condescendente<br \/>\n    e bondosamente ao capricho da esposa, proporcionando-lhe o ensejo de mostrar<br \/>\n    a sua casa e os seus jardins formos&iacute;ssimos.<\/p>\n<p>Luciano esperava as Sim&otilde;es na saleta da entrada. Ele riu-se vendo<br \/>\n    Sara com um vestu&aacute;rio diverso do que haviam combinado. Tinha-lhe aconselhado<br \/>\n    o rom&acirc;ntico costume de Margarida, que lhe fazia valer a beleza das tran&ccedil;as,<br \/>\n    e ela aparecia-lhe numa toilette extravagante, sem origem bem determinada<br \/>\n    e onde o ouro e o vermelho se embaralhavam indiscretamente.<\/p>\n<p>Era uma verdadeira boemia de opereta com pandeiro, cabelo solto, bra&ccedil;os<br \/>\n    nus, saia redonda tilintante de moedas. Sara zangou-se ao deparar com Luciano<br \/>\n    encasacado, foi logo direita a ele, dizendo que, se todos fizessem o mesmo,<br \/>\n    n&atilde;o teria gra&ccedil;a nenhuma o tal baile masqu&eacute;! Depois de<br \/>\n    um muxoxo, acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Estou bem?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; linda!<\/p>\n<p>&#8211; Se eu n&atilde;o lhe falasse, agora o senhor n&atilde;o me reconheceria.<br \/>\n    Mam&atilde;e acha a minha toilette vulgar. Eu estava morta por saber a sua<br \/>\n    opini&atilde;o&#8230; ainda bem que me acha bonita!<\/p>\n<p>Ernestina ouviu tudo im&oacute;vel, sentindo um calafrio percorrer-lhe a<br \/>\n    espinha. Luciano n&atilde;o desviava a vista da cabe&ccedil;a loura da filha,<br \/>\n    onde flutuava a ponta de um len&ccedil;o de seda vermelha.<\/p>\n<p>Nessa noite ela n&atilde;o lhe pediu como costumava: dance com minha filha,<br \/>\n    sim? Ao contr&aacute;rio, desejava afast&aacute;-lo de Sara. Entretanto eles<br \/>\n    dan&ccedil;avam juntos.<\/p>\n<p>A gentil boemia fazia tilintar as moedas da saia; em uma alegria barulhenta.<\/p>\n<p>Estava feliz nessa noite; tinha ditos de esp&iacute;rito e havia sempre um<br \/>\n    grupo de rapazes a cortej&aacute;-la muito.<\/p>\n<p>O Eug&ecirc;nio Ribas n&atilde;o a perdia de vista, procurando todas as ocasi&otilde;es<br \/>\n    de estar a seu lado. A coisa chegava a dar na vista; algumas pessoas diziam<br \/>\n    mesmo que o Eug&ecirc;nio era j&aacute; noivo da Sara Sim&otilde;es. O Nunes,<br \/>\n    velho amigo de Ernestina, julgou prudente advertir o mo&ccedil;o, e ele lealmente<br \/>\n    confessou adorar a filha da vi&uacute;va e esperar s&oacute; um momento oportuno<br \/>\n    para fazer-lhe a sua declara&ccedil;&atilde;o. Ernestina soube depressa da<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o de Eug&ecirc;nio e sentiu um al&iacute;vio inexplic&aacute;vel.<br \/>\n    Entretanto Luciano, num zelo de pai, come&ccedil;ava a achar embirrativa a<br \/>\n    assiduidade do outro.<\/p>\n<p>Sara ia-o levando tamb&eacute;m, inconscientemente, atr&aacute;s de si, de<br \/>\n    sala em sala, risonha e descuidada, sempre a prefer&ecirc;ncia, distinguindo-o<br \/>\n    entre todos os outros.<\/p>\n<p>Ele seguia-a sem saber porque, obedecendo a um sentimento de prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que julgava dever dispensar-lhe.<\/p>\n<p>&Agrave; uma hora estavam no jardim. Como a noite estivesse quente, seguiram<br \/>\n    at&eacute; ao fundo, ao pared&atilde;o que dava sobre o mar. Pelos relvados<br \/>\n    circundavam linhas multicores de copinhos luminosos e um foco de luz el&eacute;trica,<br \/>\n    partindo do centro do jardim, derramava a sua luz di&aacute;fana sobre a verdura<br \/>\n    reluzente dos arbustos e a brancura marm&oacute;rea das V&ecirc;nus e das<br \/>\n    bachantes nuas.<\/p>\n<p>A vegeta&ccedil;&atilde;o abundante e incompar&aacute;vel do Rio exibia ali<br \/>\n    os seus mais encantadores exemplares. Palmeiras variad&iacute;ssimas, fetos<br \/>\n    enormes misturavam os seus leques e as suas rendas &agrave;s carnudas beg&ocirc;nias,<br \/>\n    &agrave;s avencas sutis, &agrave;s parasitas de formas artisticamente rebeldes<br \/>\n    e fant&aacute;sticas, &agrave;s rosas, aos cactos, aos jasmins, &agrave;s<br \/>\n    flores ardentes e rudes e &agrave;s flores idealmente brandas e leves como<br \/>\n    flocos de espuma. A folhagem vermelha e cor de ouro velho do croton tinha<br \/>\n    a seus p&eacute;s os tapetes rose-dourados dos jasmins-manga, ca&iacute;dos<br \/>\n    como um chuveiro de perfume e de luz dos galhos claros da &aacute;rvore.<\/p>\n<p>Luciano continuava ao lado de Sara, sem saber mesmo porque considerava-se<br \/>\n    agora o seu protetor e o seu guarda, num zelo mais do que paterno. A mo&ccedil;a<br \/>\n    fugira um pouco &agrave; assiduidade importuna do Eug&ecirc;nio Ribas, confessara<br \/>\n    isso mesmo a Luciano, numa confid&ecirc;ncia amiga e sincera. A intimidade<br \/>\n    a que Ernestina os obrigara autorizara aquilo.<\/p>\n<p>Sara encostou-se ao pared&atilde;o, olhando para o mar. Uma express&atilde;o<br \/>\n    de indefin&iacute;vel do&ccedil;ura espalhou-se-lhe pela fisionomia, at&eacute;<br \/>\n    a&iacute; radiante de alegria. Sobre a sua cabe&ccedil;a estendia os bra&ccedil;os<br \/>\n    um formid&aacute;vel magn&oacute;lia escura, em que as flores p&aacute;lidas<br \/>\n    vazavam dos seus copos marf&iacute;neos o aroma da paix&atilde;o, violento<br \/>\n    e entontecedor. Ao longe, do pavilh&atilde;o das ipom&eacute;ias, vinham os<br \/>\n    sons da banda com os seus clarins sonoros, e l&aacute; em cima, no azul tranq&uuml;ilo<br \/>\n    do c&eacute;u, a lua ia rolando, lentamente!<\/p>\n<p>Luciano contemplava ext&aacute;tico a &oacute;rf&atilde; do seu velho rival.<br \/>\n    Ela tinha os bra&ccedil;os nus, brancos e estendidos para a frente, as m&atilde;os<br \/>\n    sobre as pedras esverdeadas do muro, os olhos entrecerrados acompanhando as<br \/>\n    ondas, que iam e vinham brandamente, queixosas.<\/p>\n<p>Luciano contemplava-a assim, achando-a bizarra naquele traje quente que envolvia,<br \/>\n    como uma inj&uacute;ria, o seu corpo delicado e virginal, sentindo-a ao mesmo<br \/>\n    tempo mais c&acirc;ndida, mais ideal, mais doce do que nunca! Aquela cisma<br \/>\n    e s&uacute;bita melancolia da mo&ccedil;a tornavam-na como que uma imagem<br \/>\n    de santa milagrosa, que ele tivesse visto surgir por encanto daquelas flores<br \/>\n    ou daquele mar. Ora desejava v&ecirc;-la sempre assim, im&oacute;vel e serena,<br \/>\n    ora sentia &iacute;mpetos de a beijar, de a morder, de lhe dizer que a amava!<\/p>\n<p>Sara prendera a meia mascara de veludo ao cinto e no seu rosto largo, onde<br \/>\n    sempre a express&atilde;o de lealdade tinha suprido a falta de delicadeza,<br \/>\n    iam agora rolando duas l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Em que pensa? perguntou-lhe Luciano comovido, segurando-lhe na m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Em meu pai! Sinto remorsos desta alegria que tenho tido hoje&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que criancice!<\/p>\n<p>&#8211; Ser&aacute;! Mas que quer? Ele era t&atilde;o bom! Amava-me tanto! e depois&#8230;<br \/>\n    bem sabe; &eacute; a primeira festa a que eu assisto aqui, nesta casa, onde<br \/>\n    tantas vezes vim em sua companhia! Ele era &iacute;ntimo desta fam&iacute;lia&#8230;<br \/>\n    Papai e o Nunes eram como se fossem irm&atilde;os!&#8230;<\/p>\n<p>Sara, excitada pelo excesso da dan&ccedil;a e pelo aroma das flores, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a falar do comendador, relembrando os seus carinhos, o extremoso cuidado que<br \/>\n    lhe dedicava, a maneira por que se fazia crian&ccedil;a para brincar com ela;<br \/>\n    a sua solicitude e bondade, o modo piegas com que a tratava, chamando-a: &#8211;<br \/>\n    Joj&oacute;ia, meu bem!<\/p>\n<p>Citava fatos, descrevendo a sua caridade modesta, a sua honradez sem m&aacute;cula<br \/>\n    e a retid&atilde;o do seu esp&iacute;rito. Dava ao pai uma aur&eacute;ola<br \/>\n    de santidade, sem esconder contudo a rigidez austera do seu car&aacute;ter.<\/p>\n<p>Luciano ouvia-a com uma aten&ccedil;&atilde;o silenciosa simpatizando a pouco<br \/>\n    e pouco com esse homem, que ainda havia alguns dias odiara e que parecia agora<br \/>\n    outro atrav&eacute;s das saudades e das palavras de Sara!<\/p>\n<p>N&atilde;o analisava os seus sentimentos; esquecia todo o passado ao influxo<br \/>\n    daquela ternura filial; daquela voz argentina, molhada de l&aacute;grimas,<br \/>\n    que vibrava no ar perfumado da noite com uma do&ccedil;ura de sonho. Compreendia<br \/>\n    agora bem o cora&ccedil;&atilde;o extremoso e leal da mo&ccedil;a; sentia-a<br \/>\n    forte, fiel, sincera e justiceira, alma feita para esposa e para m&atilde;e,<br \/>\n    capaz de todas as lutas, digna de todas as gl&oacute;rias!<\/p>\n<p>Ca&iacute;a por terra o seu ci&uacute;me raivoso e ele desejaria agora ver<br \/>\n    o Sim&otilde;es reassumir milagrosamente o seu antigo posto ao lado de Sara<br \/>\n    e ao lado de Ernestina!<\/p>\n<p>Quantas vezes a vi&uacute;va lhe tinta respondido, quando ele maldizia o<br \/>\n    marido:<\/p>\n<p>&#8211; Ele morreu! E ter ci&uacute;mes de um morto &eacute; uma insensatez!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! redarg&uuml;ia-lhe Luciano; eu preferiria ter ci&uacute;mes<br \/>\n    de um vivo, com quem pudesse lutar e a quem pudesse vencer!<\/p>\n<p>&#8211; Mas se ele n&atilde;o tivesse morrido, eu ainda seria casada&#8230; <\/p>\n<p>Era sempre esta frase e tapava a boca de Luciano, at&eacute; que ele, entre<br \/>\n    risonho e agastado, conclu&iacute;a:<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; ele teve ao menos o ju&iacute;zo de morrer a tempo!<\/p>\n<p>Entretanto, Luciano via agora com respeito e como&ccedil;&atilde;o o nome<br \/>\n    daquele homem h&aacute; pouco detestado! O cora&ccedil;&atilde;o abria-se-lhe<br \/>\n    a um sentimento novo de simpatia e de piedade.<\/p>\n<p>Sentindo-se compreendida, Sara desabafou as suas m&aacute;goas. Referiu-se<br \/>\n    &agrave; historia do retrato do pai, &agrave; mudan&ccedil;a inexplic&aacute;vel<br \/>\n    do g&ecirc;nio de Ernestina, &agrave; maneira por que tirara o luto antes<br \/>\n    do tempo, o seu nervosismo, o modo por que evitava falar no marido, cujo nome<br \/>\n    deixara de soar em casa. Aquela ingratid&atilde;o &eacute; que lhe do&iacute;a<br \/>\n    muito!<\/p>\n<p>Agitada pelas dan&ccedil;as, pela m&uacute;sica, pelo brilho da noite e o<br \/>\n    aroma voluptuoso das magn&oacute;lias, Sara expandia-se, na embriaguez da<br \/>\n    dor, falando sempre, revendo-se no olhar de Luciano.<\/p>\n<p>Ele deixou-se envolver de tal sorte que se indignava contra Ernestina, esquecido<br \/>\n    de que tudo o que ela fizera tinha sido a pedido e a conselho seu! E olhava<br \/>\n    para a Sara amorosamente, embevecidamente!<\/p>\n<p>Atr&aacute;s deles, suspensos das &aacute;rvores e de fest&otilde;es de folhas,<br \/>\n    pendiam as lanternas multicores, como fitas luminosas apanhadas aqui e al&eacute;m<br \/>\n    pela m&atilde;o invis&iacute;vel da noite. A m&uacute;sica do jardim tocava<br \/>\n    uma fanfarra, os sons dos clarins vibravam tr&ecirc;mulos e l&iacute;mpidos,<br \/>\n    espalhando pelo espa&ccedil;o uma grande sonoridade!<\/p>\n<p>Ernestina aproximou-se de bra&ccedil;o dado com o Nunes e chamou a filha<br \/>\n    com voz irritada e &aacute;spera. Sara baixou humildemente o rosto, iluminado<br \/>\n    por uma como&ccedil;&atilde;o feliz. Seguiram ambas para a toilette &agrave;<br \/>\n    procura das capas.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">XIII<\/a><\/h4>\n<p>A ama Josefa rematava uma costura quando sentiu um farfalhar de sedas pelo<br \/>\n    corredor.<\/p>\n<p>&#8211; Um gente? como Iai&aacute; vem bonita!<\/p>\n<p>&#8211; Escute, Josefa, atalhou Ernestina, eu hoje espero uma visita aqui, em sua<br \/>\n    casa! Preciso da sala, ouviu?<\/p>\n<p>&#8211; A casa toda &eacute; sua!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que horas ser&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o duas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o pode tardar!&#8230;<\/p>\n<p>Josefa correu &agrave; sala, para tirar de cima do sof&aacute; e das cadeiras,<br \/>\n    camisas engomadas, dos fregueses, que l&aacute; tinha estendido, cobertas<br \/>\n    com uma tarlatana cor de rosa&#8230; E nesse trabalho ia pensando que a Ernestina<br \/>\n    era uma tonta, mesmo uma criatura muito sem ju&iacute;zo, e conclu&iacute;a:<\/p>\n<p>&#8211; Por que diabo n&atilde;o se casar&aacute; ela de uma vez?!<\/p>\n<p>Quando voltou para dentro, encontrou a vi&uacute;va Sim&otilde;es em frente<br \/>\n    do espelho, compondo os an&eacute;is do cabelo.<\/p>\n<p>Mirou-a toda. Nem um vest&iacute;gio de luto no seu traje!<\/p>\n<p>Ernestina levava um vestido de seda mole, que lhe ca&iacute;a rente ao corpo,<br \/>\n    mostrando-lhe as formas delicadas da cinta, do seio e das pernas. Tinha nas<br \/>\n    orelhas duas safiras, a pedra da felicidade, que sorriam nas suas cintila&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    como dois olhos de anjo rebelde. Por toda ela escorria um aroma quente.<\/p>\n<p>&#8211; Esse vestido &eacute; novo? perguntou a ama.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;; n&atilde;o v&ecirc; que tem a cor da moda?<\/p>\n<p>&#8211; Azul&#8230; ou cinzento&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; Azul el&eacute;trico.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!.. n&atilde;o sei que mais h&atilde;o de inventar! Iai&aacute; agora<br \/>\n    anda muito chic !&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina sorriu; mas depressa as sobrancelhas contra&iacute;ram-se, formando-lhe<br \/>\n    uma ligeira ruga acima do nariz; esteve um momento silenciosa, pensativa e<br \/>\n    im&oacute;vel; tornou, por&eacute;m, depressa a alisar com a m&atilde;o a<br \/>\n    seda do corpinho. Tirou do bolso uma caixinha redonda, pouco maior do que<br \/>\n    uma noz, abriu-a, puxou por um pom-pom quase microsc&oacute;pico e agitou<br \/>\n    sobre o rosto com toda a sutileza, espalhando uma nuvenzinha de p&oacute;<br \/>\n    de arroz.<\/p>\n<p>&#8211; Iai&aacute; sempre dizia que n&atilde;o haver&aacute; de us&aacute; nunca<br \/>\n    essas coisas!&#8230; &#8211; observou a ama.<\/p>\n<p>&#8211; Eu era mo&ccedil;a! E hoje&#8230;<\/p>\n<p>Houve um rel&acirc;mpago de &oacute;dio a fuzilar-lhe nos olhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; velha?! perguntou a outra rindo.<\/p>\n<p>Ernestina n&atilde;o respondeu; limpava com a ponta da toalha umedecida na<br \/>\n    &aacute;gua as pestanas e as sobrancelhas, que se desenhavam negras e finas<br \/>\n    numa leve curva harmoniosa. Depois, sacudiu os ombros com o len&ccedil;o,<br \/>\n    examinou os dentes, as unhas&#8230; e prestou o ouvido atenta; sentira passos..<br \/>\n    mas os passos passaram e ela ent&atilde;o disse com um sorriso ir&ocirc;nico:<\/p>\n<p>&#8211; Uma mulher apaixonada n&atilde;o deveria nunca envelhecer.<\/p>\n<p>Bateram. Josefa correu a abrir a porta da sala; Ernestina relanceou a vista<br \/>\n    para o espelho e murmurou num desafio quase triunfante:<\/p>\n<p>&#8211; Sara! Vamos a ver qual de n&oacute;s duas vence!<\/p>\n<p>Dois minutos depois, ela entrava na sala. Luciano foi ao seu encontro com<br \/>\n    um modo embara&ccedil;ado, conquanto af&aacute;vel. Ernestina fixava-o com<br \/>\n    altivez.<\/p>\n<p>&#8211; Chamou-me e aqui me tem, disse ele procurando sorrir.<\/p>\n<p>&#8211; Compreende porque n&atilde;o lhe pedi que fosse antes a minha casa.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras? E riu-se. Depois, num tom ora precipitado, ora lento:<\/p>\n<p>&#8211; Pois vai compreender. Trata-se de minha filha. <\/p>\n<p>Luciano n&atilde;o p&ocirc;de reprimir um movimento de surpresa. A vi&uacute;va<br \/>\n    observou-o um instante e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor tem tido v&aacute;rias vezes a b&aacute;rbara franqueza de me<br \/>\n    dizer que a n&atilde;o pode suportar! Ela, al&eacute;m de todos os defeitos<br \/>\n    da m&aacute; educa&ccedil;&atilde;o, tem a enorme desvantagem de ser o retrato<br \/>\n    do pai!&#8230; Ora, refletindo em tudo isso e de acordo com uma id&eacute;ia sua,<br \/>\n    j&aacute; mais de uma vez manifestada, resolvi uma coisa: &#8211; cas&aacute;-la!<\/p>\n<p>Luciano estremeceu, mas continuou silencioso e s&eacute;rio. Ernestina tinha<br \/>\n    o olhar cravado nele, procurando estudar-lhe os gestos e penetrar-lhe no pensamento.<br \/>\n    Aquele olhar cheio de fogo e de paix&atilde;o perturbava-o tanto como as palavras<br \/>\n    que ia ouvindo.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; j&aacute; tempo de lhe declararmos o nosso amor e os nossos projetos.<br \/>\n    Para que o casamento se realize, &eacute; for&ccedil;oso separar-me dela&#8230;<br \/>\n    assim o senhor me tem dito&#8230; Aconselhe-me agora.<\/p>\n<p>Luciano quis falar, mas deteve-se. Ernestina esperou um segundo.<\/p>\n<p>&#8211; Porque n&atilde;o responde? O senhor nunca teve cuidado em esconder de<br \/>\n    mim o mal que lhe queria. Disse-me muit&iacute;ssimas vezes que a achava intoler&aacute;vel,<br \/>\n    mal educada, autorit&aacute;ria, feia e antip&aacute;tica. Foi por sua causa<br \/>\n    que eu a mandei para Friburgo; foi por inexplic&aacute;veis pedidos seus que<br \/>\n    escondi at&eacute; hoje as nossas inten&ccedil;&otilde;es, como se elas fossem<br \/>\n    criminosas.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o me tem custado pouco o mentir &agrave; minha filha, acredite!<br \/>\n    Se ela n&atilde;o tivesse por mim a venera&ccedil;&atilde;o, o amor absoluto<br \/>\n    que me faz parecer a seus olhos a mais pura e a melhor das mulheres, que julgaria<br \/>\n    de mim?!<\/p>\n<p>&quot;Muitas vezes o senhor me tem dito que pare&ccedil;o indiferente ao<br \/>\n    seu amor, e fria!&#8230; Entretanto fique certo de que a minha frieza e indiferentismo<br \/>\n    t&ecirc;m-me custado um grande esfor&ccedil;o, porque bem sabe que o amo com<br \/>\n    veem&ecirc;ncia, que o amo com paix&atilde;o!<\/p>\n<p>A voz de Ernestina tinha urna sonoridade nova, ondeando, entre a censura<br \/>\n    e a queixa, e a maneira acentuada e firme porque falava revestia-a de um encanto<br \/>\n    singular.<\/p>\n<p>Houve uma pausa; a vi&uacute;va Sim&otilde;es cortou-a com azedume:<\/p>\n<p>&#8211; Devemos casar Sara quanto antes.<\/p>\n<p>&#8211; Cas&aacute;-la&#8230; &#8211; balbuciou Luciano como um eco.<\/p>\n<p>&#8211; Sim! Eug&ecirc;nio Ribas ama-a, e como &eacute; seu amigo lembrei-me de<br \/>\n    uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade?!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; certo; e o que o senhor tem a fazer &eacute; o seguinte: &#8211; V&aacute;<br \/>\n    ter com o Eug&ecirc;nio, prontifique-se a pedir a m&atilde;o de minha filha,<br \/>\n    depois&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Depois?<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; &agrave; minha casa e consulte a opini&atilde;o de Sara; elogie<br \/>\n    o rapaz, que &eacute; na verdade digno. Em seguida poderemos declarar-lhe<br \/>\n    as nossas inten&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Ernestina falava com uma linguagem estudada, reprimindo os sentimentos, domados<br \/>\n    por um esfor&ccedil;o de vontade que j&aacute; n&atilde;o podia sustentar.\n  <\/p>\n<p>Contemplaram-se por algum tempo silenciosos. Luciano com espanto. Ernestina<br \/>\n    com altivez: por fim, ele disse baixo, num tom magoado:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; imposs&iacute;vel!<\/p>\n<p>&#8211; Imposs&iacute;vel! Por que?! N&atilde;o tem sido o senhor mesmo a insinuar,<br \/>\n    a aconselhar, a exigir mesmo, que eu case minha filha?! Al&eacute;m de tudo,<br \/>\n    ela ama o Eug&ecirc;nio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Adora-o!<\/p>\n<p>&#8211; Confessou-lhe isso j&aacute;? perguntou Luciano.<\/p>\n<p>A vi&uacute;va n&atilde;o teve coragem de sobrecarregar sua impiedosa mentira<br \/>\n    e, corando um pouco, acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Sei que ela o ama&#8230; vive a falar nele a prop&oacute;sito de tudo&#8230; basta<br \/>\n    ouvir-lhe o nome para embara&ccedil;ar-se&#8230; surpreendi-a pedindo &aacute;<br \/>\n    Georgina not&iacute;cias dele&#8230; &Eacute; natural, s&atilde;o ambos mo&ccedil;os&#8230;<br \/>\n    s&atilde;o ambos bonitos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; s&atilde;o ambos mo&ccedil;os&#8230; Luciano baixou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    entristecido por aquela confid&ecirc;ncia, pensando na felicidade do outro.<br \/>\n    Ernestina compreendeu-o talvez e agarrou-lhe na m&atilde;o com do&ccedil;ura,<br \/>\n    falando-lhe baixinho e tratando-o por tu, pela primeira vez.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! meu Luciano, como te amo! Como eu te quero bem! Havemos de ser felizes&#8230;<br \/>\n    H&aacute; tantos anos j&aacute; que n&oacute;s sonh&aacute;vamos com essa<br \/>\n    felicidade!&#8230; Lembras-te? Eu era ainda menina! Quando vesti o meu primeiro<br \/>\n    vestido de mulher, eu j&aacute; te amava! Foste tu que despertaste o meu primeiro<br \/>\n    sonho&#8230; ser&aacute;s tu quem me feche caridosamente os olhos quando eu morrer,<br \/>\n    beijando-te! Meu marido! Meu marido! Luciano! Lembro-me ainda de todas as<br \/>\n    palavras que me dizias h&aacute; vinte anos!&#8230; Dize-me outra vez que me amas&#8230;<br \/>\n    Est&aacute;s triste!&#8230; Eu daria todo o meu sangue para que fosses feliz!<br \/>\n    Amo-te assim.<\/p>\n<p>Luciano ia sentindo reviver pouco a pouco o amor. Sara amava outro? Que amasse!<br \/>\n    Era tempo de acabar com aquilo; que se casassem depressa e lhe fugissem dos<br \/>\n    olhos.<\/p>\n<p>Ernestina falava agora, falava sempre, j&aacute; sem calma, feliz, desatando<br \/>\n    frases de queixa, de censura, de desespero e de amor, deslumbrando Luciano<br \/>\n    com a sua voz quente, a sua formosura miraculosamente rejuvenescida nessa<br \/>\n    hora de enlevo e de paix&atilde;o ardente e concentrada.<\/p>\n<p>Ele j&aacute; n&atilde;o a observa com reserva, mas com admira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A pouco e pouco a palidez mate, o luminoso olhar da vi&uacute;va, toda aquela<br \/>\n    febre em que ela se revolvia, iam-lhe acendendo desejos de a apertar nos bra&ccedil;os.<br \/>\n    Ela percebeu isso e postou-se defronte dele, com o corpo arfando sob a seda<br \/>\n    mole do vestido e a cabe&ccedil;a inclinada como a pedir beijos.<\/p>\n<p>Luciano ergueu-se desvairado e quis beij&aacute;-la, ela furtou-se a isso<br \/>\n    nuns movimentos arredondados e l&acirc;nguidos, e, baixando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    muito risonha e feliz, disse-lhe quase num murm&uacute;rio:<\/p>\n<p>&#8211; Depois&#8230;<\/p>\n<p>Foi ent&atilde;o Luciano quem prometeu ir falar ao Eug&ecirc;nio e combinou<br \/>\n    a maneira de o fazer sem indiscri&ccedil;&atilde;o. A vi&uacute;va envolvia-o<br \/>\n    num longo olhar voluptuoso e perturbante, ele ia prometendo tudo quanto ela<br \/>\n    queria e mandava.<\/p>\n<p>&#8211; Amanh&atilde; ficar&aacute; tudo acabado? perguntou-lhe por fim Ernestina.<\/p>\n<p>&#8211; Assim o espero.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus.<\/p>\n<p>Nessa tarde, Ernestina ao tirar no seu quarto o lindo vestido de seda, parou<br \/>\n    em frente ao espelho, olhando para os bra&ccedil;os e o colo nus, de um moreno<br \/>\n    delicado que a luz tingia de um reflexo dourado. Contemplou-se por muito tempo<br \/>\n    e concluiu triunfante:<\/p>\n<p>&#8211; Sara &eacute; mo&ccedil;a, mas eu sou mais bonita!<\/p>\n<p>Luciano sa&iacute;ra tonto! As palavras de Ernestina, o seu corpo esbelto,<br \/>\n    as atitudes provocantes, o aroma forte que a envolvia, e aquela cena de paix&atilde;o<br \/>\n    e de enleio, tinham-no alvoro&ccedil;ado. Ele acostumara-se &agrave; serenidade<br \/>\n    um tanto fria da mo&ccedil;a; o seu amor por ela j&aacute; se ia tornando<br \/>\n    num h&aacute;bito mais digno do nome de amizade. Agora, por&eacute;m, as coisas<br \/>\n    mudavam e ele sentia que iam mudando a tempo.<\/p>\n<p>Durante todo o resto do dia, vibraram nos seus ouvidos as express&otilde;es<br \/>\n    queixosas de Ernestina, e as narinas dilatavam-se-lhe, sentindo como que impregnada<br \/>\n    a ess&ecirc;ncia dela no seu fato, na sua pr&oacute;pria pele!<\/p>\n<p>&Agrave; tarde deveria procurar o Eug&ecirc;nio, mas &agrave;s primeiras<br \/>\n    horas da noite ainda o encontraram em casa, e em casa ficou sem resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    atado. A verdade era que, com o correr das horas, Ernestina ia cedendo lugar<br \/>\n    &agrave; filha, e ele sofria querendo e n&atilde;o podendo cumprir a extravagante<br \/>\n    miss&atilde;o que lhe dera a Sim&otilde;es.<\/p>\n<p>Luciano mesmo estranhava aquela indecis&atilde;o. Sara n&atilde;o lhe era<br \/>\n    nada, havia poucos dias apenas que percebera que ela n&atilde;o era feia e<br \/>\n    que tinha esp&iacute;rito. Procurava abster-se de pensar nela, mas o pensamento<br \/>\n    teimoso voltava a reproduzi-la num deleite amargo. &Agrave; propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o tempo avan&ccedil;ava, ele enfraquecia no prop&oacute;sito de obedecer<br \/>\n    a vi&uacute;va. N&atilde;o compreendia agora o amor de Sara por Eug&ecirc;nio<br \/>\n    Ribas.<\/p>\n<p>Supunha a confid&ecirc;ncia de Ernestina um estratagema. <\/p>\n<p>Ele tinha julgado ler nos olhos de Sara, essas estranhas pupilas ora castanhas<br \/>\n    ora azuis, alguma coisa de infinitamente doce, uma promessa, um sonho, um<br \/>\n    v&ocirc;o de pensamento que parecia dirigir-se a ele.<\/p>\n<p>Com a aus&ecirc;ncia, o vulto de Ernestina ia-se esfumando no seu esp&iacute;rito,<br \/>\n    e numa irradia&ccedil;&atilde;o de luz ele via Sara, dizendo-lhe na sua grande<br \/>\n    franqueza:<\/p>\n<p>&#8211; Amo-a!<\/p>\n<p>E era toda essa gra&ccedil;a, lealdade e candura, toda essa mocidade e alegria<br \/>\n    que ele ia oferecer a outro, a um estranho, que a n&atilde;o compreenderia<br \/>\n    nunca talvez! Esposa&#8230;<\/p>\n<p>Ele tamb&eacute;m a preferiria para esposa, quereria ser ele a conduzi-la<br \/>\n    ao altar a cham&aacute;-la &#8211; minha!<\/p>\n<p>Em toda a sua vida era a primeira vez que essa palavra simples assumia no<br \/>\n    seu pensamento propor&ccedil;&otilde;es t&atilde;o belas! E Sara haveria de<br \/>\n    sagrar essas tr&ecirc;s silabas divinas com as suas qualidades perfeitas,<br \/>\n    seria esposa amor&aacute;vel e honesta a quem a mentira repugnasse e o sacrif&iacute;cio<br \/>\n    aprouvesse!<\/p>\n<p>N&atilde;o se resignando a falar ao Eug&ecirc;nio Ribas nesse mesmo dia,<br \/>\n    Luciano sentou-se &agrave; mesa e escreveu longamente &agrave; vi&uacute;va<br \/>\n    Sim&otilde;es. Alegou necessidade urgente de partir nessa madrugada para Minas,<br \/>\n    para onde o chamava, por telegrama, um velho parente moribundo&#8230;<\/p>\n<p>Adiava tudo para a volta. <\/p>\n<p>Luciano escreveu aquilo com a convic&ccedil;&atilde;o de poder mais tarde<br \/>\n    vencer a sua vontade e apressar o casamento de Sara. Entretanto, percebia<br \/>\n    bem: se Ernestina era para ele a mulher de fogo que lhe queimava a carne,<br \/>\n    a filha era a mulher de luz ben&eacute;fica que lhe iluminava o futuro, e<br \/>\n    ele amava a ambas, a uma com os sentidos, a outra com o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"14\">XIV<\/a><\/h4>\n<p>Fazia um calor abafadi&ccedil;o e medonho.<\/p>\n<p>Pelas janelas abertas da sala via-se a cidade coberta por um pesado v&eacute;u<br \/>\n    cinzento da atmosfera enfuma&ccedil;ada e densa.<\/p>\n<p>As plantas enlanguesciam no jardim e a areia faiscava na sua alvura brilhante.<\/p>\n<p>Ernestina estava na sala, onde o retrato do marido reassumira o seu antigo<br \/>\n    posto. Ca&iacute;ra num grande abatimento.<\/p>\n<p>A carta de Luciano tinha-a amargurado. Era evidente que ele fugira &agrave;<br \/>\n    entrevista com o Eug&ecirc;nio Ribas: Amaria ent&atilde;o muito a filha? Era<br \/>\n    isso o que a desesperava.<\/p>\n<p>Compreendia finalmente que n&atilde;o soubera inspirar a Luciano mais do<br \/>\n    que uma paix&atilde;o carnal. O cora&ccedil;&atilde;o e o esp&iacute;rito<br \/>\n    tinham vivido alheios. Ele quisera um galanteio e ela dera-lhe todo o seu<br \/>\n    amor.<\/p>\n<p>Envergonhava-se de ter sido t&atilde;o cr&eacute;dula; se o tivesse tratado<br \/>\n    com desd&eacute;m, ele ador&aacute;-la-ia talvez! pensava ela.<\/p>\n<p>Tomou a ler a carta, e amarrotou-a com desespero. Vendo fugir o noivo sentia<br \/>\n    recrudescer a sua paix&atilde;o. Amava-o como nunca!<\/p>\n<p>A rivalidade com a filha exacerbava isso. A mocidade de Sara era a sua tortura.<br \/>\n    Invejava aqueles dezoito anos, aquela alma primaveril, aquele rosto fresco<br \/>\n    e tranq&uuml;ilo. Estremecia, com medo da velhice, da sua fatal e terr&iacute;vel<br \/>\n    decad&ecirc;ncia que sentia j&aacute; perto, muito perto.<\/p>\n<p>Suprimir Sara, pelo casamento, era o seu sonho de ouro! Na sua imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doente surgiam id&eacute;ias extravagantes. Pensou em ir ela mesma, procurar<br \/>\n    o Eug&ecirc;nio Ribas, ou fazer-lhe constar pelo Nunes, que daria um grande<br \/>\n    dote &agrave; filha&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina era delicada e repeliu depressa essa lembran&ccedil;a. Seria expor<br \/>\n    a filha a coment&aacute;rios, isso nunca! Como sair daquele embara&ccedil;o?<br \/>\n    Queria vencer, custasse o que custasse. Seria abomin&aacute;vel que Luciano<br \/>\n    lhe fugisse uma segunda vez! A sua esperan&ccedil;a era de que a filha n&atilde;o<br \/>\n    retribuiria nunca o amor dele!<\/p>\n<p>Ernestina imaginara que haveria de ser cada vez mais amada, exatamente por<br \/>\n    n&atilde;o ter cedido aos desejos e solicita&ccedil;&otilde;es do noivo e<br \/>\n    eis que via agora desmoronarem-se todos os seus c&aacute;lculos e aspira&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Enraivecia-se contra Luciano! Imaginava os mais estranhos e esquisitos meios<br \/>\n    de prend&ecirc;-lo a si. J&aacute; n&atilde;o importava tanto que ele amasse<br \/>\n    a outra, contanto que se casasse com ela!&#8230; Ser abandonada sendo formosa<br \/>\n    e livre, era uma monstruosidade! Depois, Ernestina j&aacute; se humilhava<br \/>\n    a que o Luciano se deixasse amar, unicamente desde que pudesse dizer alto<br \/>\n    &agrave; vista de toda a gente, a verdade que sepultava na alma havia tanto<br \/>\n    tempo! Ser feliz com ele, por ele, dedicar-se-lhe completa, absolutamente,<br \/>\n    era o seu sonho.<\/p>\n<p>Tinha f&eacute; que todo o seu carinho, todo o seu amor e cuidado cativariam<br \/>\n    o marido mais do que haviam cativado o amante!<\/p>\n<p>No meio destes pensamentos, que se atropelavam desordenadamente no seu c&eacute;rebro,<br \/>\n    a vi&uacute;va foi interrompida por Sara que entrando na sala foi direita<br \/>\n    a ela.<\/p>\n<p>M&atilde;e e filha olharam-se, como adivinhando-se.<\/p>\n<p>Subitamente a mo&ccedil;a, que era como fora o pai, de uma franqueza arrojada,<br \/>\n    disse num tom sacudido e firme:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho que lhe dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deu-me ontem a entender que o Eug&ecirc;nio Ribas quer casar comigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, quer.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu n&atilde;o quero.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Ele &eacute; um mo&ccedil;o excelente, muito bem educado. <\/p>\n<p>&#8211; Seja o que for; n&atilde;o gosto dele.<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha! repara que ele faria a tua felicidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Enfim mam&atilde;e eu s&oacute; lhe pe&ccedil;o uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>Ernestina ouvia-a, suspensa.<\/p>\n<p>&#8211; Se ele vier pedir a minha m&atilde;o, n&atilde;o me consulte; diga-lhe<br \/>\n    logo que eu amo outro.<\/p>\n<p>&#8211; Amas outro?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute; esse outro? perguntou Ernestina com medo, com uma voz abafada,<br \/>\n    segurando-se ao bra&ccedil;o da filha.<\/p>\n<p>&#8211; Luciano.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; mentira! exclamou Ernestina j&aacute; de p&eacute; e com raiva,<br \/>\n    &eacute; mentira!<\/p>\n<p>Sara olhava-a com pasmo; a vi&uacute;va deteve-se um minuto, depois puxou-a<br \/>\n    para si, beijou-lhe a tran&ccedil;as, as faces, os olhos e murmurou quase<br \/>\n    numa s&uacute;plica:<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230; dize-me que &eacute; mentira!<\/p>\n<p>Sara n&atilde;o respondeu: olhava-a sempre com o mesmo olhar espantado e<br \/>\n    mudo.<\/p>\n<p>A m&atilde;e levou-a at&eacute; o sof&aacute;, f&ecirc;-la sentar-se, sentou-se<br \/>\n    ela tamb&eacute;m e segurando-lhe nas m&atilde;os deixou-se resvalar at&eacute;<br \/>\n    ficar quase de joelhos aos p&eacute;s da filha. E foi assim, com os olhos<br \/>\n    empanados de l&aacute;grimas que ela disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb&eacute;m o amo, Sara, eu tamb&eacute;m o adoro!<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a teve um gesto de horror e de susto a m&atilde;e prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Escutai para ti ele &eacute; um amor que come&ccedil;a, um capricho de<br \/>\n    crian&ccedil;a talvez, que se apagar&aacute; depressa; e para mim ele &eacute;<br \/>\n    a vida, toda a minha mocidade! Eu era ainda mais nova do que tu e j&aacute;<br \/>\n    o amava!<\/p>\n<p>Abandona essa id&eacute;ia! Tens um futuro tamanho!.. amar&aacute;s depois<br \/>\n    outro homem, mais novo, mais belo, mais digno de ti! Eu &eacute; que estou<br \/>\n    no fim&#8230; eu e que j&aacute; n&atilde;o tenho esperan&ccedil;a e que morrerei<br \/>\n    se ele me desprezar!<\/p>\n<p>Sara, com o rosto voltado para fora, n&atilde;o respondia. Ernestina suplicava-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Olha para mim! N&atilde;o imaginas o sacrif&iacute;cio que tenho feito<br \/>\n    para te esconder este amor! E ele &eacute; t&atilde;o velho em meu cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Quando eu te gerei, quando te sentia nas minhas entranhas ou que te suspendia<br \/>\n    no meu seio, ele j&aacute; palpitava em mim, com o mesmo fogo, com a mesma<br \/>\n    viol&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>Sara voltou os olhos para o retrato do pai e duas l&aacute;grimas grossas<br \/>\n    deslizaram-lhe devagar pelas faces.<\/p>\n<p>Surpreendendo a dolorosa piedade que aquele gesto exprimia, Ernestina murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Respeitei sempre teu pai e procurei por todos os modos faz&ecirc;-lo feliz&#8230;<br \/>\n    Se o meu cora&ccedil;&atilde;o era de outro&#8230;<\/p>\n<p>A filha sufocou-lhe a frase tapando-lhe a boca com a m&atilde;o, fria e nervosa.<br \/>\n    Houve uma pausa, ouvia-se a cansada respira&ccedil;&atilde;o de ambas. Sara<br \/>\n    a retirou m&atilde;o com um movimento brusco, Ernestina solu&ccedil;ou baixo:<\/p>\n<p>&#8211; Dize-me que lhe fugir&aacute;s!<\/p>\n<p>Sara n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; E h&aacute;s de ser tu, minha filha! quem me roube a ventura com que desde<br \/>\n    menina sonho! Sara eu sou uma louca! Ah! Na minha idade as paix&otilde;es<br \/>\n    s&atilde;o assim, levam a estes desatinos! Como &eacute; cruel a velhice!&#8230;<br \/>\n    como tu &eacute;s feliz, minha Sara!<\/p>\n<p>Ernestina cobrindo de beijos a m&atilde;o gelada da filha foi-lhe contando<br \/>\n    tudo baixo e precipitadamente.<\/p>\n<p>Revelou assim numa doidice indiscreta, as promessas e exig&ecirc;ncias de<br \/>\n    Luciano, os seus conselhos e at&eacute; os seus ditos ferinos contra a filha!<\/p>\n<p>J&aacute; exausta, Ernestina deixou-se cair sentada na alcatifa. Sara ent&atilde;o<br \/>\n    levantou-se, atravessou a sala sem olhar para tr&aacute;s e saiu. A m&atilde;e<br \/>\n    ficou s&oacute; com o rosto sumido no estofo de um fauteuil, solu&ccedil;ando<br \/>\n    alto como uma doida!<\/p>\n<h4><a name=\"15\">XV<\/a><\/h4>\n<p>Sara encerrou-se no seu quarto. Sentia-se atordoada e opressa. Esteve longo<br \/>\n    tempo &agrave; janela com os olhos parados no azul acinzentado do mar.<\/p>\n<p>A pouco e pouco via esclarecidas muitas passagens de outrora: frases ir&ocirc;nicas<br \/>\n    e secas de Luciano, atitudes constrangidas da m&atilde;e e mesmo certos ditos<br \/>\n    levemente maliciosos da Georgina, que tinha sido, como sempre, muito mais<br \/>\n    perspicaz do que ela&#8230;<\/p>\n<p>Isso tudo vinha-lhe &agrave; mem&oacute;ria demoradamente, como se umas coisas<br \/>\n    arrastassem outras.<\/p>\n<p>Mas afinal, o que tangia com mais dor no seu cora&ccedil;&atilde;o, eram<br \/>\n    aquelas pungent&iacute;ssimas palavras da m&atilde;e, referindo-se &agrave;<br \/>\n    antiguidade do seu afeto: &quot;Quando eu te gerei, quando te sentia nas minhas<br \/>\n    entranhas ou que te suspendia no meu seio, ele j&aacute; palpitara em mim<br \/>\n    com o mesmo fogo, com a mesma viol&ecirc;ncia!&quot;<\/p>\n<p>Eram essas express&otilde;es nervosas e apaixonadas que soavam mais repetidamente<br \/>\n    aos ouvidos da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>Por que se teria casado a m&atilde;e! Por que teria mentido &agrave;quele<br \/>\n    santo, que se n&atilde;o fosse a filha estaria completamente esquecido na<br \/>\n    terra? Envergonhava-se como se, por ter sido concebida sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    desse amor, tivesse comparticipa&ccedil;&atilde;o no crime da mentira. Votava<br \/>\n    tal adora&ccedil;&atilde;o &agrave; mem&oacute;ria do seu querido morto, que,<br \/>\n    mais pequena ainda que tivesse sido a falta, lhe pareceria uma monstruosidade!<br \/>\n    Amar um homem e casar com outro era, aos seus olhos castos, uma ignom&iacute;nia!<br \/>\n    Que mist&eacute;rio haveria em tudo aquilo? Por que n&atilde;o se teriam eles<br \/>\n    declarado e unido se eram ambos livres?! Come&ccedil;ava a duvidar da honestidade<br \/>\n    da m&atilde;e; queria-a toda voltada para aquele que a amara, leal, exclusivamente!<\/p>\n<p>A confiss&atilde;o de Ernestina fora at&eacute; a brutalidade. Para que desvendar-lhe<br \/>\n    as queixas e antipatias de Luciano? N&atilde;o precisava disso para compreender<br \/>\n    agora tudo: a retirada do luto antes do tempo&#8230; a hist&oacute;ria do retrato&#8230;<br \/>\n    o seu afastamento para Friburgo&#8230; os gestos e conversas com que procuravam<br \/>\n    livrar-se dela&#8230; Lamentava ter vazado a sua alma no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Luciano naquela terr&iacute;vel noite do baile. O seu amor transformara-se<br \/>\n    subitamente em &oacute;dio: Execrava Luciano, n&atilde;o compreendia mesmo<br \/>\n    como o tivesse amado! E amara-o talvez por tanto ouvir falar dele; &agrave;<br \/>\n    for&ccedil;a de v&ecirc;-lo na intimidade da casa, de respirar aquela atmosfera<br \/>\n    em que o nome dele, o gosto dele, a ida dele pareciam impregnar-se; fora talvez<br \/>\n    por ter sido tratada por ele com pouca aten&ccedil;&atilde;o&#8230; Nascera esse<br \/>\n    amor do ressentimento, morria na raiva!<\/p>\n<p>Sara come&ccedil;ou depois a passear pelo quarto, mordendo as m&atilde;os,<br \/>\n    sacudindo os ombros em movimentos fortes, sobressaltada, coberta de vergonha<br \/>\n    s&oacute; com a id&eacute;ia de que Luciano adivinhara o seu primeiro amor!<br \/>\n    Que a vira chorar, que demorara nas suas pupilas enternecidas os olhos p&eacute;rfidos,<br \/>\n    que lhe apertara as m&atilde;os com modo enamorado, sentindo-a dele&#8230; toda<br \/>\n    dele! Revia tudo: as vozes&#8230; as luzes&#8230; o mar&#8230; as flores&#8230; o seu nome<br \/>\n    suspirado por ele num enlevo&#8230; aquele perfume, aqueles batimentos de cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    aquele despertar no amor, que a comovera tanto! <\/p>\n<p>Enganada, enganada! Pensava ela com asco de si mesma, como se tivesse sido<br \/>\n    um crime a sua credulidade. A m&atilde;e tinha-lhe mentido. Tinham-lhe mentido<br \/>\n    todos que a rodeavam!<\/p>\n<p>Come&ccedil;ava a odiar toda a gente.<\/p>\n<p>De repente estacou; a visita do Rosas ocorreu-lhe como a lembran&ccedil;a<br \/>\n    da maior ignom&iacute;nia de toda a sua vida. E a m&atilde;e, que a tinha<br \/>\n    deixado sofrer tanto.<\/p>\n<p>Pensou logo que Ernestina j&aacute; n&atilde;o a amasse. Cuidou mesmo que<br \/>\n    ela talvez desejasse a sua morte&#8230;<\/p>\n<p>O calor sufocava-a. Sentia um novelo na garganta, que lhe tapava o ar. Foi<br \/>\n    ao lavat&oacute;rio, encharcou a toalha de rosto na &aacute;gua do jarro e<br \/>\n    envolveu-se nela.<\/p>\n<p>Nisso a Simpl&iacute;cia passou rente &agrave; janela cantando, em um disfarce,<br \/>\n    para ver o que se passava l&aacute; dentro do quarto da mo&ccedil;a. Sara<br \/>\n    retraiu-se, envergonhada, lembrando-se de frases da mulata, percebendo a sua<br \/>\n    curiosidade.<\/p>\n<p>Toda a gente sabia do amor da vi&uacute;va por Luciano, s&oacute; ela ignorara<br \/>\n    tudo! Simpl&iacute;cia, voltou, ondulando o seu corpo de cobra em movimentos<br \/>\n    pregui&ccedil;osos, cantarolando entre dentes.<\/p>\n<p>Era demais! Sara fechou violentamente as venezianas e recome&ccedil;ou agitad&iacute;ssima<br \/>\n    a passear de um lado para outro.<\/p>\n<p>At&eacute; as negras de casa queriam vigi&aacute;-la!<\/p>\n<p>Sup&ocirc;s que tivesse sido aquilo mandado pela m&atilde;e, e rasgou-lhe<br \/>\n    o retrato num &iacute;mpeto, arrancando-o da sua cabeceira onde ele sorria<br \/>\n    junto do retrato do esposo!&#8230; Depois atirou ao ch&atilde;o a fotografia despeda&ccedil;ada,<br \/>\n    e voltou-se religiosamente para o retrato do pai. <\/p>\n<p>Amava-o mais do que nunca! Beijou-o, disse-lhe baixinho tudo que ia voando<br \/>\n    pela sua imagina&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Queria vingar-se e ving&aacute;-lo, remir os beijos que a mal lhe dera, pensando<br \/>\n    no outro; faz&ecirc;-los amargar aquele crime; aniquil&aacute;-los entre as<br \/>\n    suas m&atilde;os fr&aacute;geis. A vergonha de ter amado Luciano, de lhe ter<br \/>\n    demonstrado o seu amor nascente, punha-a vermelha tr&ecirc;mula, excitada.<br \/>\n    Como podia isso ter sido, santo Deus? Agora chamava-lhe miser&aacute;vel,<br \/>\n    c&atilde;o, c&atilde;o!<\/p>\n<p>Teve vontade de socorrer-se em algu&eacute;m, e achava-se s&oacute; no mundo,<br \/>\n    completamente s&oacute;!<\/p>\n<p>Sara pestanejava, sentindo nas pupilas secas uma impress&atilde;o dolorosa,<br \/>\n    como se as tivessem polvilhado de areia quente. O sangue tingia-lhe todo o<br \/>\n    rosto de um rosado viv&iacute;ssimo e ela apertava com as m&atilde;os geladas<br \/>\n    as fontes palpitante. A toalha resvalara-lhe dos ombros para o ch&atilde;o,<br \/>\n    e atrav&eacute;s do vestido molhado, via-se-lhe tremer a carne das costas<br \/>\n    em convuls&otilde;es repetidas. O pai olhava-a com o mesmo olhar mudo e frio.<br \/>\n    A mo&ccedil;a deitou-se abatida por uma vertigem que a sossegou momentaneamente.<br \/>\n    Depois abriu os olhos para o teto nu. Voltou-lhe o conhecimento das coisas.<br \/>\n    As l&aacute;grimas n&atilde;o vieram, mas veio a febre.<\/p>\n<h4><a name=\"16\">XVI<\/a><\/h4>\n<p>Eram 11 horas da noite; no quarto de Sara havia um rumor baixo do vozes e<br \/>\n    um forte cheiro de mostarda com que sinapizavam a doente. A lamparina espalhava<br \/>\n    uma claridade morna e discreta. No papel branco da parede o cortinado da cama<br \/>\n    desenhava em sombras movedi&ccedil;as as suas rosas, p&acirc;mpanos e fetos.<br \/>\n    Sara estava ali deitada de costas no seu leito de virgem, com os olhos cerrados,<br \/>\n    im&oacute;vel como a imagem de um t&uacute;mulo. A m&atilde;e mudava-lhe os<br \/>\n    sinapismos, ajoelhada no ch&atilde;o, com as m&atilde;os sumidas em baixo<br \/>\n    dos len&ccedil;&oacute;is, os olhos vermelhos, maltratados pelo choro.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico examinava com aten&ccedil;&atilde;o o rem&eacute;dio acabado<br \/>\n    de chegar da botica.<\/p>\n<p>&#8211; D&ecirc;em-me uma luz pediu ele, impaciente, revirando entre os dedos magros<br \/>\n    o frasco do xarope.<\/p>\n<p>A Ana chegou uma vela, fazendo com a m&atilde;o anteparo, para que a claridade<br \/>\n    n&atilde;o batesse no rosto da doente. <\/p>\n<p>&#8211; Erraram a f&oacute;rmula! Erraram como burros! gritou o doutor lendo com<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o o r&oacute;tulo e mirando a cor opalizada do rem&eacute;dio,\n  <\/p>\n<p>Ernestina voltou-se; o m&eacute;dico abrira o frasco lambia a ponta do dedo<br \/>\n    molhada no xarope.<\/p>\n<p>&#8211; Pe&ccedil;o rem&eacute;dio e mandam-me veneno, resmungou o m&eacute;dico<br \/>\n    zangado, pousando o vidro sobre a c&ocirc;moda.<\/p>\n<p>&#8211; E agora? perguntou-lhe Ernestina.<\/p>\n<p>&#8211; Agora &eacute; preciso mandar buscar outro.<\/p>\n<p>&#8211; Chamem o Jo&atilde;o! Gritou a vi&uacute;va para dentro.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico escreveu, exigindo que fossem a outra farm&aacute;cia.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o quero que minha filha morra! gemeu Ernestina<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o morrer&aacute;, descanse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me engana, doutor?!<\/p>\n<p>&#8211; Estas doen&ccedil;as cerebrais s&atilde;o graves, grav&iacute;ssimas&#8230;<br \/>\n    mas espero que havemos de triunfar.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! O senhor n&atilde;o tem certeza!<\/p>\n<p>&#8211; Sua filha tem um temperamento sang&uuml;&iacute;neo, muito forte&#8230; mas,<br \/>\n    Senhor, que determinaria isto?!<\/p>\n<p>Era a vig&eacute;sima vez que ele fazia aquela pergunta. Ernestina suspirou,<br \/>\n    muito opressa.<\/p>\n<p>&#8211; Daqui a uma hora d&ecirc;-lhe uma colher de xarope. Depois s&oacute; o<br \/>\n    calmante.<\/p>\n<p>A vi&uacute;va acompanhou o m&eacute;dico at&eacute; a porta repetindo a<br \/>\n    pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; perigo&#8230; h&aacute; muito perigo?! <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o posso dizer nada&#8230; por enquanto&#8230; respondeu o m&eacute;dico<br \/>\n    embara&ccedil;ado<\/p>\n<p>Ernestina juntou as m&atilde;os, aflita.<\/p>\n<p>&#8211; Amanh&atilde; deve apresentar melhoras&#8230; murmurou ele, procurando consol&aacute;-la.<br \/>\n    Ele saiu, Ernestina voltou cambaleante para o quarto da filha.<\/p>\n<p>Aproximou-se do leito; Sara tinha os olhos abertos, mas fixos, mudos.<\/p>\n<p>&#8211; Meu amor&#8230; como est&aacute;s?<\/p>\n<p>Sara n&atilde;o se moveu. Ernestina recuou, chorando, para um recanto mais<br \/>\n    sombrio do quarto.<\/p>\n<p>Havia j&aacute; muitos dias que aquilo era assim; dias e noites passadas<br \/>\n    naquele canto, com as m&atilde;os nos joelhos e olhos na filha. De vez em<br \/>\n    quando levantava-se; Sara gemia, ela ia arranjar-lhe a roupa, beij&aacute;-la,<br \/>\n    pedir-lhe perd&atilde;o, baixinho, com toda a humildade e ternura; sem obter<br \/>\n    nenhum olhar em resposta, voltava para o seu canto, lugubremente. Rezava ent&atilde;o<br \/>\n    de um modo desordenado e aflito, encolhendo-se na cadeira, com verdadeiro<br \/>\n    pavor do retrato do marido que continuava suspenso sobre a cabeceira da cama,<br \/>\n    e que parecia estar ali para proteger a filha e arg&uuml;ir terrivelmente<br \/>\n    a esposa. A vi&uacute;va via incessantemente esta pergunta atroz nos olhos<br \/>\n    dele:<\/p>\n<p>&#8211; Que fizeste de nossa filha?<\/p>\n<p>Sara balan&ccedil;ava-se entre a vida e a morte. A m&atilde;e n&atilde;o<br \/>\n    sabia de mais nada; estava sempre ali sem dormir, sem se despir, quase sem<br \/>\n    comer, com o rosto transformado, o cabelo em desalinho, os l&aacute;bios a<br \/>\n    murmurarem preces e promessas:<\/p>\n<p>&#8211; &quot;Meu Deus! se salvares minha filha eu vestirei dez &oacute;rf&atilde;os<br \/>\n    pobres e dar-lhes-ei educa&ccedil;&atilde;o&#8230; <\/p>\n<p>Virgem Maria! se deres sa&uacute;de &agrave; minha filha eu irei descal&ccedil;a,<br \/>\n    como a mais humilde e pobre das criaturas, angariar esmolas para os velhinhos<br \/>\n    fracos e aleijados!&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Ao m&eacute;dico ela suplicava, de joelhos; que lhe salvasse a filha, prometendo-lhe<br \/>\n    fortunas e coisas imposs&iacute;veis!<\/p>\n<p>Quando a noite chegava, era horr&iacute;vel! Via-se sozinha; a filha parecia-lhe,<br \/>\n    &agrave;s vezes, moribunda, outras vezes morta.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o tinha medo de se chegar &agrave; cama, arrastava-se de joelhos<br \/>\n    e rezava ao retrato do marido como rezaria a uma imagem sagrada. Ela era a<br \/>\n    culpada e tudo!<\/p>\n<p>O remorso juntava-se &agrave; dor. Agora a sua felicidade seria ver Sara<br \/>\n    feliz.<\/p>\n<p>O seu amor era um crime! Pedia perd&atilde;o a Deus, prometendo-lhe altares<br \/>\n    de ouro se ele salvasse Sara!<\/p>\n<p>Naquela noite Ernestina estava mais agitada do que nunca. O cansa&ccedil;o<br \/>\n    f&iacute;sico juntava-se &agrave; fadiga e tortura moral. Ela revoltava-se<br \/>\n    contra o corpo, sentindo por vezes vacilar-lhe a vista e a raz&atilde;o.<\/p>\n<p>No sil&ecirc;ncio profundo da noite, a badalada da uma hora soou como um<br \/>\n    grande suspiro de agonia. Ernestina levantou-se e foi direita &agrave; c&ocirc;moda.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico tinha recomendado vigil&acirc;ncia e extrema pontualidade<br \/>\n    nas horas do rem&eacute;dio&#8230; Ela tomou o vidro por onde o rem&eacute;dio<br \/>\n    coava uma boa cor opalina e aproximou-se do leito. Sara tinha os olhos abertos,<br \/>\n    mas como se n&atilde;o vissem; a m&atilde;e agitou-a, ela moveu a cabe&ccedil;a<br \/>\n    com um gemido&#8230; Ernestina chegou lhe a colher &agrave; boca, a mo&ccedil;a<br \/>\n    cerrou apertadamente os l&aacute;bios. Foi ent&atilde;o uma luta at&eacute;<br \/>\n    que a m&atilde;e for&ccedil;ou-a, batendo-lhe com a colher nos dentes, a tomar<br \/>\n    o rem&eacute;dio; chegava a ser brutal, mas queria a todo o custo a salva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da filha! Sara n&atilde;o p&ocirc;de engolir o xarope, gorgolejou-lhe na boca<br \/>\n    e saiu espumante, escorrendo-lhe pelo queixo. Desesperada, Ernestina deu-lhe<br \/>\n    outra colher e tapou-lhe depois rapidamente a boca, com a m&atilde;o espalmada.<br \/>\n    A doente engoliu com ru&iacute;do, e ficou-se, como dantes, im&oacute;vel.<br \/>\n    A vi&uacute;va beijou-a devagar, como a pedir perd&atilde;o por aquela viol&ecirc;ncia,<br \/>\n    e levantou-se; mas ao voltar-se estremeceu! Sobre a mesa de cabeceira estava<br \/>\n    o outro vidro de xarope.<\/p>\n<p>De repente lembrou-se de tudo e viu o seu erro. Enganara-se nos rem&eacute;dios.<br \/>\n    Comparou os dois frascos, eram iguais no tamanho, eram quase iguais na cor&#8230;<br \/>\n    mas num estaria talvez a salva&ccedil;&atilde;o, no outro estava com certeza<br \/>\n    a morte!<\/p>\n<p>E fora a morte que ela levava &agrave; sua amada, &agrave; sua idolatrada<br \/>\n    filha!<\/p>\n<p>Ernestina correu para fora, gritando pelos criados: tornou depois a entrar<br \/>\n    no quarto, e pareceu-lhe que as pupilas de Sara se tinham dilatado muito e<br \/>\n    que na sua pele branca e p&aacute;lida desabrochavam manchas viol&aacute;ceas.<br \/>\n    Tornou a sair e foi bater com ambas as m&atilde;os na porta do quarto das<br \/>\n    criadas, que j&aacute; se vestiam estremunhadas e aflitas. Quis tornar para<br \/>\n    o lado de Sara, n&atilde;o teve coragem e atirou-se para o jardim.<\/p>\n<p>A casa do hortel&atilde;o era ao fundo, meio encoberta pelos p&eacute;s de<br \/>\n    murta, ao lado da horta. Ernestina correu para l&aacute;, pisando nos canteiros,<br \/>\n    col&eacute;rica contra os espinhos das roseiras que a obrigavam a parar, prendendo-lhe<br \/>\n    o vestido que ela estra&ccedil;alhava.<\/p>\n<p>O Jo&atilde;o acordou assustado, ouvindo a voz da patroa que lhe ordenava<br \/>\n    de ir chamar o m&eacute;dico depressa, muito depressa. Ele respondeu que sim,<br \/>\n    com a voz empastada, cheia de sono.<\/p>\n<p>&#8211; Chame tamb&eacute;m um padre! Minha filha morre!<\/p>\n<p>Ernestina voltou para dentro mais uma vez. Seguiu pelo corredor com as m&atilde;os<br \/>\n    no ar, o peito arfante. Esbarrou na porta do quarto de Sara, sem for&ccedil;as<br \/>\n    para entrar, com medo da morte. Esteve algum tempo inerte, encostada no umbral,<br \/>\n    repetindo baixo, num tremor nervoso, matei rainha filha&#8230; matei minha filha&#8230;<br \/>\n    matei minha filha&#8230; Espreitou de longe, por fim; criadas rodeavam a cama<br \/>\n    de Sara. Lembrou-se de repente de ir buscar Luciano; Sara amava-o, s&oacute;<br \/>\n    ele a poderia salvar!<\/p>\n<p>Seria o amor o Cristo que ressuscitasse aquele corpo ex&acirc;nime e que<br \/>\n    fizesse erguerem-se, na miraculosa paz das almas satisfeitas, aquelas p&aacute;lpebras<br \/>\n    im&oacute;veis e aquela p&aacute;lida cabe&ccedil;a de moribunda! S&oacute;<br \/>\n    a amor teria o poder m&aacute;gico de acordar aquela carne que nem os seus<br \/>\n    beijos, nem as suas l&aacute;grimas faziam estremecer?<\/p>\n<p>Ernestina saiu para a rua e correu pelo morro abaixo, num atordoamento. Ia<br \/>\n    para buscar Luciano, o seu amado, o seu sonhado esposo, e dizer-lhe: confesse<br \/>\n    o seu amor &agrave; minha filha e salve-a!<\/p>\n<p>O caminho estava negro, a vi&uacute;va sentia o vestido embara&ccedil;ar-se-lhe<br \/>\n    debaixo dos p&eacute;s; trope&ccedil;ava a mi&uacute;do, caiu uma vez; ergueu-se;<br \/>\n    e foi seguindo.<\/p>\n<p>N&atilde;o levava nem chap&eacute;u nem xale, e o vestido leve, caseiro,<br \/>\n    mal a resguardava da chuva que principiava a cair.<\/p>\n<p>Uma patrulha cortou-lhe o caminho; ela disse-lhe, entre solu&ccedil;os: &#8211;<br \/>\n    Vou buscar Luciano, minha filha morre! E com tal dor disse aquilo que a policia<br \/>\n    deixou-a passar, atrav&eacute;s da noite, sozinha na sua ang&uacute;stia!<\/p>\n<p>A chuva ca&iacute;a do c&eacute;u enegrecido; as casas estavam fechadas e<br \/>\n    mudas, as ruas solit&aacute;rias; os lampi&otilde;es de g&aacute;s pareciam<br \/>\n    tochas f&uacute;nebres, acesas de longe em longe e os passos da vi&uacute;va<br \/>\n    Sim&otilde;es soavam no meio daquilo tudo de uma maneira irregular, nervosa,<br \/>\n    triste.<\/p>\n<p>Chegou quase morta &agrave; rua do Riachuelo; encostou-se &agrave; parede<br \/>\n    dum pr&eacute;dio, tateou a campainha el&eacute;trica e vibrou-a sem interrup&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    at&eacute; que lhe abriram a porta. Era a casa de Luciano; o criado reconheceu-a<br \/>\n    logo e n&atilde;o p&ocirc;de conter um murm&uacute;rio de espanto.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora aqui!&#8230; a estas horas! balbuciou ele.<\/p>\n<p>Ernestina n&atilde;o respondeu; galgou os degraus e seguiu esbarrando nos<br \/>\n    m&oacute;veis e nas paredes at&eacute; perto do quarto de Luciano, para onde<br \/>\n    gritou com toda a sua alma, num &uacute;ltimo esfor&ccedil;o:<\/p>\n<p>&#8211; Luciano! Luciano! Matei minha filha! Salve minha filha!<\/p>\n<p>Ernestina n&atilde;o p&ocirc;de suster-se por mais tempo em p&eacute;. A<br \/>\n    vista escureceu-se-lhe, os joelhos vergaram-se-lhe e ela caiu desmaiada. <\/p>\n<p>Quando Luciano entrou na sala ela ainda estava estendida no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>O criado iluminava a cena, com os olhos espantados. Vendo o amo, perguntou<br \/>\n    indeciso:<\/p>\n<p>&#8211; Ela diz que matou a filha&#8230; quer o senhor que v&aacute; avisar a pol&iacute;cia?<\/p>\n<p>&#8211; Quero que v&aacute;s chamar um carro, oh burro! Pois n&atilde;o v&ecirc;s<br \/>\n    que ela morre?<\/p>\n<p>Luciano tinha chegado nesse dia da viagem a Minas, arranjada como pretexto<br \/>\n    para adiar as explica&ccedil;&otilde;es com o Eug&ecirc;nio Ribas. Nada sabia<br \/>\n    acerca de Sara, temia escrever a Ernestina em quem pensava, quando longe,<br \/>\n    como numa doce amiga de inf&acirc;ncia, e quando perto, no alvoro&ccedil;o<br \/>\n    dos sentidos, como na mais desej&aacute;vel das amantes! Aquela mulher era<br \/>\n    um enigma!<\/p>\n<p>Desde os tempos antigos da sua primeira paix&atilde;o, que ele lhe fugira<br \/>\n    por medo!&#8230;<\/p>\n<p>A beleza de Ernestina ela ent&atilde;o de uma singularidade atormentadora!<br \/>\n    Vira sempre nela a tenta&ccedil;&atilde;o da carne, chamando-a por isso de:<br \/>\n    &#8211; virgem inconscientemente pecaminosa! Nunca lhe ocorrera dar-lhe uma flor.<br \/>\n    Se pensava em presente&aacute;-la, vinham-lhe &agrave; id&eacute;ia pedrarias<br \/>\n    caras, engastadas em metais rijos e vistosos.<\/p>\n<p>A n&atilde;o ser como amante, lasciva e ardente, ele s&oacute; podia conceber<br \/>\n    Ernestina casar-se com um pr&iacute;ncipe poderoso ou um desses homens fant&aacute;sticos,<br \/>\n    das lendas, que a vestisse de roupas suntuos&iacute;ssimas e a fizesse servir<br \/>\n    em baixela de ouro. Era a mulher destinada, pela sua formosura emocionadora,<br \/>\n    ao luxo, &agrave; grandeza e ao amor!<\/p>\n<p>N&atilde;o que o seu rosto fosse de linhas puras, nem que as suas palavras<br \/>\n    denunciassem a vol&uacute;pia; aquele ardor, aquele dom&iacute;nio, vinham<br \/>\n    da sua pele, do seu olhar, do seu porte e do seu sorriso.<\/p>\n<p>Decorreram anos depois de tudo isso; agora ele sabia-a boa e honesta; a sua<br \/>\n    vida de casada fora doce, invej&aacute;vel, simples, reta! Inda assim, era<br \/>\n    sempre a mesma impress&atilde;o esquisita, meramente sensual, que essa mulher<br \/>\n    produzia nele!<\/p>\n<p>Lamentava-se disso agora que, pela conviv&ecirc;ncia, conhecia as maneiras<br \/>\n    e id&eacute;ias severas de Ernestina, sempre t&atilde;o correta e t&atilde;o<br \/>\n    fria.<\/p>\n<p>Aquela cena em casa da ama Josefa encheu-o de assombro e de piedade. Calculava<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio que teria custado &agrave; vi&uacute;va o seu coquetismo<br \/>\n    quase canalha.<\/p>\n<p>Ernestina a&iacute; estava agora a seus p&eacute;s, com o vestido sujo de<br \/>\n    lama, o cabelo solto, os olhos dentro de um c&iacute;rculo negro.<\/p>\n<p>Luciano, at&ocirc;nito, curvou-se para v&ecirc;-la bem de perto.<\/p>\n<p>O criado repetiu:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor far&aacute; o que entender&#8230; mas eu sempre achava bom avisar<br \/>\n    a policia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um carro, j&aacute; disse! gritou Luciano com raiva; e enquanto o outro<br \/>\n    sa&iacute;a a procurar um carro, ele fixava com susto a fisionomia da vi&uacute;va.<\/p>\n<p>&#8211; Que se teria passado? As hip&oacute;teses voavam-lhe doidamente pelo esp&iacute;rito.<br \/>\n    Suspendeu a vi&uacute;va, p&ocirc;-la no sof&aacute; agitando-lhe a cabe&ccedil;a<br \/>\n    numa almofada.<\/p>\n<p>Julgava-a v&iacute;tima de uma febre. Era del&iacute;rio tudo aquilo: a sua<br \/>\n    vinda e aquelas palavras horr&iacute;veis que o tinham despertado de um modo<br \/>\n    t&atilde;o cruel.<\/p>\n<p>&#8211; &quot;Matei minha filha; salve minha filha!&quot;<\/p>\n<p>Luciano vestira um robe de chambre ao conhecer a voz de Ernestina, apressando-se<br \/>\n    em v&ecirc;-la: agora fazia rapidamente a sua toilette, com o ouvido &agrave;<br \/>\n    escuta e o cora&ccedil;&atilde;o aos saltos.<\/p>\n<p>Sara&#8230; Sara! Meu Deus! Que haveria de verdade em tudo isso? A ser del&iacute;rio,<br \/>\n    n&atilde;o teriam deixado a doente sair aquela hora&#8230; sozinha&#8230; Loucura?<br \/>\n    Quem sabe?&#8230; Mas como? Por que teria enlouquecido Ernestina?&#8230; E no fundo<br \/>\n    do seu esp&iacute;rito debatia-se o medo de que realmente a vi&uacute;va tivesse<br \/>\n    estrangulado a filha em um momento de ci&uacute;me&#8230;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo a raz&atilde;o lembrava-lhe o amor daquela m&atilde;e, para<br \/>\n    quem a filha era o s&iacute;mbolo da perfei&ccedil;&atilde;o na terra, o inexaur&iacute;vel<br \/>\n    manancial de todos os bens! Impressionado e perplexo, ele procurava &agrave;s<br \/>\n    vezes interrogar a vi&uacute;va, mas curvava-se para ela, sem &acirc;nimo<br \/>\n    de a despertar, abandonando-a naquela vertigem que a imobilizara completamente.<\/p>\n<p>A chuva tinha engrossado e batia agora com for&ccedil;a nos vidros da janela.<\/p>\n<p>Luciano ia e vinha do quarto para a sala, esperando a todos os momentos o<br \/>\n    carro, ansioso por sair e saber a verdade!<\/p>\n<p>Mas o carro tardava e, acabada a sua toilette, ele iluminou a sala e sentou-se<br \/>\n    em frente da vi&uacute;va Sim&otilde;es. Que diferen&ccedil;a. Ela parecia-lhe<br \/>\n    muito mais morena; os cabelos ca&iacute;dos para os ombros davam-lhe um aspecto<br \/>\n    de louca, e a sua boca, deliciosamente pequenina e vermelha, estava ent&atilde;o<br \/>\n    desbotada, entreaberta numa express&atilde;o de agonia.<\/p>\n<p>Luciano, n&atilde;o tendo em casa &eacute;ter, recorreu &agrave;s ess&ecirc;ncias,<br \/>\n    mas vacilava se deveria ou n&atilde;o chamar a vi&uacute;va &agrave; realidade<br \/>\n    da vida. Julgou mais acertado lev&aacute;-la assim, receando que lhe sobreviesse<br \/>\n    uma crise violenta.<\/p>\n<p>Pobre mulher! pensava Luciano com infinita tristeza. E sentia uma dor incompreens&iacute;vel,<br \/>\n    que seria talvez o remorso, imaginando que no fundo a causa de tudo aquilo&#8230;<br \/>\n    era ele!<\/p>\n<h4><a name=\"17\">XVII<\/a><\/h4>\n<p>As criadas tinham despertado nos gritos de Ernestina, mas quando sa&iacute;ram<br \/>\n    do quarto j&aacute; n&atilde;o a encontraram. Foram todas rodear o leito de<br \/>\n    Sara, espavoridas sem atinar com o que fizessem.<\/p>\n<p>A cozinheira tomou por fim o expediente de mandar o jardineiro chamar o padre<br \/>\n    Anselmo. A mo&ccedil;a estava nas &uacute;ltimas, afirmava ela. Saiu para<br \/>\n    isso e encontrou o hortel&atilde;o j&aacute; na porta, acabando de enfiar<br \/>\n    j&aacute; as mangas da jaqueta.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Jo&atilde;o? Nh&aacute; Sara t&aacute; morrendo&#8230; v&aacute; cham&aacute;<br \/>\n    o padre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A patroa j&aacute; me disse&#8230;<\/p>\n<p>A Benedita voltou chorosa para o lado da doente. O seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sentia uma m&aacute;goa imensa por ver assim a sua sinh&aacute; mo&ccedil;a,<br \/>\n    que tantas vezes trouxera ao colo, quando pequenina!<\/p>\n<p>O hortel&atilde;o caminhava apressado sob a chuva mi&uacute;da, que vinha<br \/>\n    caindo como uma nuvem ligeira, na montanha.<\/p>\n<p>&#8211; Se a menina morre, dizia ele consigo mesmo, eu saio da casa!&#8230;<\/p>\n<p>Sara era adora pelos servos; n&atilde;o tendo de ordenar coisa alguma, ela<br \/>\n    n&atilde;o se mostrava severa e intervinha muitas vezes nas zangas da m&atilde;e,<br \/>\n    procurando desculp&aacute;-los.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes mesmo a mo&ccedil;a ia ajud&aacute;-lo, de manh&atilde; cedo,<br \/>\n    na cultura do jardim. Era trafega, alegre e robusta, gostava daqueles exerc&iacute;cios<br \/>\n    ao sol; tinha os seus instrumentos e os seus canteiros, onde n&atilde;o consentia<br \/>\n    que outras pessoas bulissem.<\/p>\n<p>E depois que risadas, que alegres cantorias! Era extraordin&aacute;ria! Nem<br \/>\n    ele nunca vira mo&ccedil;a rica e de cidade ter tanto humor! E pensava:<\/p>\n<p>&quot;Ai! as belas manh&atilde;s!&#8230;, se elas n&atilde;o voltam mais&#8230; pobre<br \/>\n    menina!&quot;<\/p>\n<p>Depois de ter batido &agrave; porta do medico, o jardineiro apressou-se a<br \/>\n    ir chamar o sacerdote.<\/p>\n<p>O padre Anselmo morava mais longe, numa casa rodeada de c&atilde;es e de<br \/>\n    roseiras bravas&#8230; Mas nem os espinhos das flores nem o latido dos c&atilde;es<br \/>\n    dissuadiam os crentes de o ir chamar a desoras. Sabiam todos que o padre Anselmo<br \/>\n    n&atilde;o se negava a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Rico ou pobre, que lhe importava! Era uma a salvar, e ele ia sempre! A chuva<br \/>\n    tinha apertado. Os dois homens caminhavam depressa, os seus vultos manchavam<br \/>\n    ainda de mais negro a escurid&atilde;o da noite, que nenhuma bulha de vida<br \/>\n    perturbava. Somente ao longe a &aacute;gua do aqueduto rumoreja uns solu&ccedil;os<br \/>\n    surdos, que o jardineiro maldizia, trazendo-lhe &agrave; mente o estertor<br \/>\n    de um moribundo&#8230;<\/p>\n<p>O seu pavor por vezes era tamanho que ele, o trabalhador da terra, forte<br \/>\n    e rude, tinha &iacute;mpetos de se agarrar &agrave; batina e ao manto negro<br \/>\n    e flutuante do padre!<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; a&iacute; o carro, disse o criado a Luciano; e quis logo narrar<br \/>\n    a grande dificuldade que tivera para obter uma cale&ccedil;a, &agrave;quela<br \/>\n    hora; mas o amo sem lhe dar aten&ccedil;&atilde;o ordenou-lhe que o ajudasse<br \/>\n    a transportar a doente.<\/p>\n<p>Ernestina ia desacordada, ele sentia-a nos bra&ccedil;os, como morta.<\/p>\n<p>O cocheiro, receando talvez ser c&uacute;mplice involunt&aacute;rio num crime,<br \/>\n    veio, antes de subir para a bol&eacute;ia, examinar de perto a mo&ccedil;a,<br \/>\n    e foi depois para o seu posto resmungando baixo. Seguiram. A chuva diminuiu<br \/>\n    pouco a pouco; poder-se-iam por fim contar as gotas que soavam como pancadas<br \/>\n    dadas compassadamente com as pontas dos dedos na coberta do carro.<\/p>\n<p>Ernestina continuava insens&iacute;vel a tudo; ia com a cabe&ccedil;a deitada<br \/>\n    no peito de Luciano, os p&eacute;s pousados no banco fronteiro. Ele amparava-a<br \/>\n    com desvelo, levando atrav&eacute;s da noite imaculada e s&oacute;, a sua<br \/>\n    desejada amante. De vez em quando ao passarem por algum lampi&atilde;o de<br \/>\n    g&aacute;s, a luz vinha amarelada e frouxa, iluminar a cabe&ccedil;a desfalecida<br \/>\n    da vi&uacute;va.<\/p>\n<p>Luciano contemplava at&ocirc;nito; parecia-lhe incr&iacute;vel que se envelhecesse<br \/>\n    t&atilde;o depressa! Havia menos de um m&ecirc;s que n&atilde;o via Ernestina;<br \/>\n    deixara-a fresca, lou&ccedil;&atilde;, tentadora, vinha encontr&aacute;-la<br \/>\n    amolecida, p&aacute;lida, cheia de cabelos brancos. Uma grande piedade substitu&iacute;a<br \/>\n    agora o seu amor tempestuoso e antigo. Um filho n&atilde;o teria carinho mais<br \/>\n    doce nem mais respeitoso para sua m&atilde;e!<\/p>\n<p>Quando chegaram ao port&atilde;o do jardim, Ernestina voltara a si. O cocheiro<br \/>\n    desceu da bol&eacute;ia e abriu a portinhola, sacudindo barulhentamente a<br \/>\n    &aacute;gua que lhe escorria do capote de borracha. A noite estava ainda trevosa;<br \/>\n    dentro, atrav&eacute;s das grades, viam-se as janelas do chalet, cujos vidros,<br \/>\n    molhados, coavam uma luz p&aacute;lida e triste. Luciano ajudou Ernestina<br \/>\n    a apear-se.<\/p>\n<p>O carro voltou, enterrando as rodas na lama, com uma bulha surda. A vi&uacute;va<br \/>\n    Sim&otilde;es mal se podia arrastar, e a travessia do jardim foi vagarosa;<br \/>\n    em torno deles as flores, abafadas pela chuva, tinham um aroma discreto e<br \/>\n    vago. Uma ou outra gota de chuva, retida nas folhas e despenhada agora das<br \/>\n    &aacute;rvores, ca&iacute;a como uma l&aacute;grima fria sobre a cabe&ccedil;a<br \/>\n    nua de Ernestina. Ela l&aacute; n&atilde;o podia mover as pernas; um grande<br \/>\n    peso paralisava-lhe as for&ccedil;as; a voz sumiu-se-lhe tamb&eacute;m e de<br \/>\n    tal jeito que s&oacute; p&ocirc;de acenar com a m&atilde;o a Luciano, que<br \/>\n    fosse depressa e que a deixasse ali.<\/p>\n<p>Luciano tremia, estava perplexo, apreensivo; as suas suposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    haviam-se dissipado logo que ao chegar ao port&atilde;o da ch&aacute;cara<br \/>\n    n&atilde;o vira Sara, como esperava, correr para a m&atilde;e doente.<\/p>\n<p>O sil&ecirc;ncio daquela casa iluminada encheu-o de pavor e sentia, instintivamente,<br \/>\n    repuls&atilde;o por aquela mulher que ia conduzindo com tanta solicitude!<\/p>\n<p>Sentia ainda ferir-lhe os ouvidos o seu grito terr&iacute;vel:<\/p>\n<p>&#8211; Luciano! Luciano! Matei minha filha! Salve minha filha!<\/p>\n<p>Nesse instante, manchando o corredor coma sua ampla batina negra, ele viu<br \/>\n    o padre Anselmo dirigir-se para o quarto de Sara. Ao mesmo tempo rompeu ali<br \/>\n    de dentro um solu&ccedil;o que ondulou dolorosamente pelo ar silencioso da<br \/>\n    noite, fincando-se-lhe no cora&ccedil;&atilde;o como uma dor atroc&iacute;ssima.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o &eacute; verdade!? gritou Luciano sacudindo Ernestina.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;&#8230; disse ela por entre os dentes cerrados, com m olhar de susto.<\/p>\n<p>Num grande desvairamento, Luciano galgou de um pulo os poucos degraus do<br \/>\n    terra&ccedil;o, deixando a vi&uacute;va fora sozinha. Outro solu&ccedil;o<br \/>\n    mais brando choroso, voou pela noite negra.<\/p>\n<p>Ernestina deu alguns passos. cambaleante, at&eacute; que sem for&ccedil;as<br \/>\n    caiu de joelhos, erguendo as m&atilde;os unidas para o c&eacute;u impiedoso.<\/p>\n<p>Ela tamb&eacute;m tinha reconhecido o padre; aquela batina preta passando<br \/>\n    r&aacute;pida, de uma porta a outra porta, como que lhe dissera alto e de<br \/>\n    longe: acabou-se!<\/p>\n<p>Dentro, havia um rumor abalado de vozes, e um crepitar de luzes, talvez das<br \/>\n    velas de cera alumiadas junto ao cad&aacute;ver&#8230; E c&aacute; fora nem uma<br \/>\n    luz; tudo preto; &aacute;gua correndo pelos declives da montanha, nada mais.<\/p>\n<p>Ernestina j&aacute; n&atilde;o rezava, nem o seu esp&iacute;rito sabia formular,<br \/>\n    nem os seus l&aacute;bios articular palavras. Encolhida, de joelhos na areia<br \/>\n    molhada; ela afundava o olhar pelo corredor, agarrando-se as grades do terra&ccedil;o,<br \/>\n    e empapando a cabe&ccedil;a nas trepadeiras alagadas&#8230;<\/p>\n<p>Subitamente, uma voz desconhecida disse alto, l&aacute; de dentro:<\/p>\n<p>&#8211; Muito depressa! &#8211; e ela viu o jardineiro vir correndo pelo corredor e sair.<\/p>\n<p>&#8211; Que seria?! Teve desejo de o segurar em ambas as m&atilde;os, de lhe perguntar<br \/>\n    se a sua filha adorada era viva ou morta&#8230; mas n&atilde;o p&ocirc;de mover-se,<br \/>\n    e ele, como a n&atilde;o visse&#8230; passou.<\/p>\n<p>Ernestina ent&atilde;o deixou-se cair sentada, com as m&atilde;os espalmadas<br \/>\n    no ch&atilde;o e o pesco&ccedil;o dobrado sobre a espinha. A chuva recome&ccedil;ava<br \/>\n    em pingos grossos que lhe ca&iacute;am nos olhos abertos, no queixo, ora um&#8230;<br \/>\n    ora outro&#8230; ora dois a um tempo.<\/p>\n<p>Queria ir ver a filha, beij&aacute;-la, suplicar-lhe que vivesse, que vivesse,<br \/>\n    que vivesse! Mas eram in&uacute;teis os seus tremendos esfor&ccedil;os para<br \/>\n    levantar-se, subir os degraus e ir ao quarto de Sara.<\/p>\n<p>Sentia-se presa &agrave; terra; j&aacute; n&atilde;o era uma mulher, mas<br \/>\n    como que uma planta, nascida para o sofrimento e por isso mesmo valentemente<br \/>\n    enraizada no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando Luciano entrou no quarto de Sara viu o padre Anselmo de p&eacute;<br \/>\n    junto do leito, com uma das m&atilde;os estendida sobre a cabe&ccedil;a da<br \/>\n    mo&ccedil;a numa atitude de ben&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A fronte do velho erguida, os olhos &uacute;midos e levantados, os l&aacute;bios<br \/>\n    movendo-se numa ora&ccedil;&atilde;o compenetrada, baixa e fervorosa, tinham<br \/>\n    uma do&ccedil;ura solene em que a piedade humana se misturava com a austeridade<br \/>\n    religiosa. O homem nele sofria uma revolta contra a natureza, por que morrer<br \/>\n    uma mulher t&atilde;o jovem; o padre por&eacute;m congratulava-se com o c&eacute;u,<br \/>\n    que ia receber no seu seio l&iacute;mpido uma virgem pura!<\/p>\n<p>Luciano ficou preso &agrave;quele leito, numa mudez gelada, olhos fixos em<br \/>\n    Sara, por quem sentia agora recrudescer o seu amor. Amava-a sim, com intensidade!<br \/>\n    As l&aacute;grimas rebentavam-lhe dos olhos celeremente. A Benedita solu&ccedil;ava<br \/>\n    alto, de vez em quando, e aqueles solu&ccedil;os revolviam-lhe n&#8217;alma toda<br \/>\n    a sua ternura. Atr&aacute;s dele, o m&eacute;dico escrevia; mas no seu desespero<br \/>\n    Luciano nem reparava nele; todo o seu sentido estava nessa cama estreita,<br \/>\n    branca, revolta, onde, como uma est&aacute;tua, pesada e r&iacute;gida, Sara<br \/>\n    parecia dormir! Morta n&atilde;o estava! Ele via-lhe o peito abaixar-se e<br \/>\n    erguer-se numa respira&ccedil;&atilde;o custosa, como se aquele resto de vida<br \/>\n    lhe pesasse sobre o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A doente tinha as fei&ccedil;&otilde;es alteradas, o rosto l&iacute;vido,<br \/>\n    manchado de escuro, os l&aacute;bios entumecidos e as p&aacute;lpebras roxas.<\/p>\n<p>Luciano quis beij&aacute;-la na testa, o padre Anselmo desviou-o com austeridade.<\/p>\n<p>A pena do m&eacute;dico rangia no papel, e as criadas, agrupadas aos p&eacute;s<br \/>\n    da cama, esperavam as ordens, olhando com tristeza para a mo&ccedil;a. Benedita<br \/>\n    chorava sempre alto, e o padre compadecido, disse-lhe com voz doce e triste:<\/p>\n<p>&#8211; Espere! Ela talvez n&atilde;o morra&#8230; a miseric&oacute;rdia de Deus &eacute;<br \/>\n    infinita!<\/p>\n<p>O m&eacute;dico postou-se novamente &agrave; cabeceira da doente.<\/p>\n<p>Luciano, vendo-o, contou-lhe o que ouvira de Ernestina, baixo e precipitadamente.<br \/>\n    Que seria aquilo, um envenenamento?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o!&#8230; houve um engano de rem&eacute;dio, nada mais. Percebi, logo<br \/>\n    que entrei, do que se tratava, vendo &agrave; cabeceira da doente o frasco<br \/>\n    que eu j&aacute; tinha posto de parte, por terem errado a f&oacute;rmula&#8230;<br \/>\n    mas n&atilde;o era caso de matar&#8230; mormente em dose pequena&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    foi isso que determinou o acesso!<\/p>\n<p>&#8211; Mas h&aacute; esperan&ccedil;a?<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma&#8230;<\/p>\n<p>Luciano estremeceu e um suor frio inundou-lhe a testa.<\/p>\n<p>&#8211; Isto &eacute;&#8230; acudiu o m&eacute;dico, quem sabe? n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    a primeira que eu veja ressuscitar&#8230; Estas doen&ccedil;as de cabe&ccedil;a<br \/>\n    s&atilde;o terr&iacute;veis.<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230; ela foi atacada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De uma febre cerebral.<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Agrave;s vezes, &eacute; melhor morrer, concluiu o medo abaixando-se para<br \/>\n    examinar o rosto de Sara.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico empregava a atividade de toda a gente da casa; as criadas<br \/>\n    iam e vinham, aquecendo &aacute;gua, transportando roupas, luzes, receitas,<br \/>\n    acudindo sem cansa&ccedil;o a todos os chamados, com boa vontade e ligeireza.<\/p>\n<p>Entretanto o padre Anselmo perguntava por Ernestina. At&eacute; a&iacute;<br \/>\n    tanto ele como o m&eacute;dico tinham-na julgado recolhida, propositalmente<br \/>\n    afastada da filha, e poupavam-lhe a agonia de a ver morrer. Agora por&eacute;m<br \/>\n    o caso era outro, desde que Luciano narrara a ida da vi&uacute;va a sua casa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent&atilde;o onde est&aacute; ela? perguntava o padre.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m sabia responder, percorreram a casa inutilmente.<\/p>\n<p>&#8211; Veio comigo, afirmava Luciano; entramos juntos!&#8230; Mas Luciano n&atilde;o<br \/>\n    se arredava do leito de Sara, n&atilde;o se lembrava de mais nada, repetia<br \/>\n    maquinalmente aquilo &#8211; veio comigo, entramos juntos! &#8211; sem interesse, sem<br \/>\n    preocupa&ccedil;&atilde;o, entregue &agrave; sua surpresa, com os olhos fitos<br \/>\n    em Sara, esperando a morte!<\/p>\n<p>O padre estremecia; vinham-lhe &agrave; id&eacute;ia os despenhadeiros do<br \/>\n    morro, onde Ernestina fosse talvez pedir o esquecimento da dor que a pungia.<\/p>\n<p>Chamou ent&atilde;o o jardineiro e sa&iacute;ram ambos.<\/p>\n<p>As sombras da noite iam-se dissipando. A dois passos da porta o padre distinguiu<br \/>\n    algu&eacute;m deitado sobre a grama; aproximou-se abaixando-se, apalpou Ernestina.<\/p>\n<p>&#8211; Ajude-me a lev&aacute;-la para dentro, disse ele ao jardineiro.<\/p>\n<p>E ergueram a vi&uacute;va que estava alagada e fria.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre m&atilde;e!&#8230; repetia o bom velho, comovido. Dentro recomendou &agrave;s<br \/>\n    criadas que lhe mudassem roupa e friccionassem o corpo. Feito isso, ele entrou<br \/>\n    no quarto e sentou-se ao p&eacute; do leito.<\/p>\n<p>Ernestina abriu os olhos e, de repente, espavorida com a lembran&ccedil;a<br \/>\n    da filha perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Morreu?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o morrer&aacute;, tenha esperan&ccedil;a!&#8230; respondeu-lhe o padre.<\/p>\n<p>No entorpecimento da sua terr&iacute;vel dor, Ernestina n&atilde;o pareceu<br \/>\n    alegrar-se; deixou-se cair sobre os travesseiros e adormeceu profundamente.<\/p>\n<h4><a name=\"18\">XVIII<\/a><\/h4>\n<p>Quando Ernestina acordou era dia. Quis mover-se, n&atilde;o p&ocirc;de. A<br \/>\n    cabe&ccedil;a ardia-lhe, muito pesada e dorida, tinha o rosto vermelho e uma<br \/>\n    dor no peito que a n&atilde;o deixava respirar. O m&eacute;dico foi v&ecirc;-la,<br \/>\n    assegurou-lhe que Sara n&atilde;o morreria, consolando-a muito. Ela quis contar<br \/>\n    a hist&oacute;ria toda como confundira os rem&eacute;dios e o seu desatino<br \/>\n    depois. Ele f&ecirc;-la calar-se, percebera a verdade vendo os dois frascos<br \/>\n    juntos e abertos&#8230; providenciara a tempo. <\/p>\n<p>Tudo ia bem.<\/p>\n<p>Tudo ia bem!&#8230; Entretanto, numa ocasi&atilde;o ela teve medo que a enganassem<br \/>\n    e saltou da cama descal&ccedil;a, com a camisa aberta no peito e os cabelos<br \/>\n    soltos; atravessou a sala sem que a vissem, passou pelo corredor onde circulava<br \/>\n    livremente o ar, e abriu de mansinho a porta do quarto de Sara, com um medo<br \/>\n    terr&iacute;vel de o ir encontrar vazio&#8230; mas n&atilde;o; Sara dormia numa<br \/>\n    atitude serena, e, a seus p&eacute;s, de costas para a porta, estava Luciano.<\/p>\n<p>Ernestina voltou para o seu quarto, sem desgosto, sem alegria, impass&iacute;vel<br \/>\n    como se tudo aquilo fosse esperado!<\/p>\n<p>Sentou-se na cama com os p&eacute;s nus sobre o tapete, as m&atilde;os ca&iacute;das<br \/>\n    nos joelhos, e assim ficou algum tempo, com os olhos fixos no reposteiro da<br \/>\n    porta, sem pestanejar, im&oacute;vel, abstrata. A pouco e pouco a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi-se tornando mais dif&iacute;cil e o corpo, vencido, caiu pesadamente sobre<br \/>\n    os travesseiros. Recrudesceram-lhe as dores e a febre. Pelas faces, muito<br \/>\n    vermelhas, rolavam l&aacute;grimas grossas e ardentes, e ela mal podia respirar,<br \/>\n    sentindo uma pontada violenta no peito.<\/p>\n<p>Luciano entrava a medo no quarto da vi&uacute;va, esperando sempre uma recrimina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    temendo tamb&eacute;m exacerbar-lhe o mal. A sua consci&ecirc;ncia n&atilde;o<br \/>\n    o deixava &agrave; vontade entre aquelas duas mulheres enfermas. Entretanto<br \/>\n    n&atilde;o se afastava dali. Daquela casa.<\/p>\n<p>Sara n&atilde;o o tinha percebido ainda; a vi&uacute;va n&atilde;o falava<br \/>\n    a ningu&eacute;m. Como o m&eacute;dico exigisse enfermeiras, ele julgou dever<br \/>\n    avisar a mulher do Nunes e a ama Josefa.<\/p>\n<p>Georgina passava tamb&eacute;m agora os dias e as noites no quarto da amiga.<br \/>\n    Desenvolvera uma atividade de que ningu&eacute;m a julgara capaz. Era en&eacute;rgica,<br \/>\n    movia sem cansa&ccedil;o o seu corpo franzino; com as m&atilde;os &aacute;geis,<br \/>\n    os passos leves, o ouvido atento e o seu belo olhar de gazela, t&atilde;o<br \/>\n    vivo e t&atilde;o meigo, a sondar a doente, buscando uma esperan&ccedil;a<br \/>\n    que n&atilde;o aparecia!<\/p>\n<p>Ah, ela compreendeu a verdade sem ouvir explica&ccedil;&otilde;es! O amor<br \/>\n    de Ernestina por Luciano n&atilde;o fora nunca um segredo para ela; a sua<br \/>\n    perspic&aacute;cia adivinhara-o logo. Percebendo mais tarde que, por sua vez<br \/>\n    Sara o adorava, esperou com curiosidade e medo o desfecho daquela hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Ele a&iacute; estava, e bem triste!<\/p>\n<p>A D. Candinha Nunes mudou-se tamb&eacute;m para Santa Tereza e era quem determinava<br \/>\n    tudo, ass&iacute;dua, sol&iacute;cita e animada. Entrava pouco nos quartos<br \/>\n    das doentes, mas preparava-lhes l&aacute; dentro os caldos, o leite, o gelo,<br \/>\n    as roupas e ordenava o sil&ecirc;ncio entre as criadas que; a um gesto seu,<br \/>\n    suspendiam o m&iacute;nimo rumor.<\/p>\n<p>&Agrave; cabeceira da vi&uacute;va Sim&otilde;es estava a Josefa sentada<br \/>\n    em um banquinho, com as m&atilde;os descansadas no colo e o queixo erguido<br \/>\n    para a cama. De vez em quando cochilava, e ent&atilde;o o queixo, quadrado<br \/>\n    e forte, batia-lhe no peito ossudo, ela despertava com vexame, olhando em<br \/>\n    roda, observando se a tinham visto, receosa de um olhar de censura. Mas, nada.<br \/>\n    A vi&uacute;va tinha os olhos fechados ou postos no teto, as m&atilde;os sumidas<br \/>\n    nas dobras do linho, os l&aacute;bios silenciosos.<\/p>\n<p>Pelas janelas cerradas o sol encrava em fisgas; a n&atilde;o ser o tic-tac<br \/>\n    do rel&oacute;gio, s&oacute; se ouvia o voar das moscas na sua bulha quase<br \/>\n    impercept&iacute;vel e vaga. Josefa para justificar a sua estada ali, erguia-se<br \/>\n    de vez em quando, alisava o len&ccedil;ol da doente e perguntava-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Quer alguma coisa?<\/p>\n<p>A vi&uacute;va respondia com um gesto que n&atilde;o; a maior parte das vezes<br \/>\n    nem assim mesmo respondia, quedava-se im&oacute;vel, e a Josefa tornava para<br \/>\n    o banquinho, com um suspiro de cansa&ccedil;o ao corpo mo&iacute;do daquela<br \/>\n    indol&ecirc;ncia. E as horas iam passando; o sol abrandava a sua luz amarela,<br \/>\n    recolhia pouco a pouco as fitas de ouro, que estendera atrav&eacute;s das<br \/>\n    venezianas cerradas. Ca&iacute;a a tarde e o sil&ecirc;ncio continuava, triste<br \/>\n    e profundo.<\/p>\n<p>D. Candinha ia de hora em hora dar o rem&eacute;dio, recomendando sempre<br \/>\n    &agrave; Josefa que a avisasse se houvesse alguma falta. &Agrave;s vezes,<br \/>\n    de longe em longe, a pobre mulher pedia &agrave; mo&ccedil;a que ficasse ali<br \/>\n    um minuto; ela voltaria depressa.<\/p>\n<p>Sa&iacute;a; e, logo fora da porta, respirava com for&ccedil;a, sacudia as<br \/>\n    saias e andava com passos largos, desentorpecendo-se. Ia ao quintal girar<br \/>\n    um pouco, colhia um raminho de mangerona ou de hortel&atilde; e entrava na<br \/>\n    cozinha mastigando as folhas e pedindo um caldo.<\/p>\n<p>Tornava o alimento &agrave; pressa, lamentando n&atilde;o poder sabore&aacute;-lo.<br \/>\n    Em verdade o que ela saboreava mais n&atilde;o era a sopa, era a liberdade,<br \/>\n    era a janela francamente aberta, a variedade das caras e a variedade das coisas,<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia do quarto de doente, com o seu cheiro enjoativo de rem&eacute;dios,<br \/>\n    cortinas descidas e o rel&oacute;gio est&uacute;pido, a dizer sobre a c&ocirc;moda<br \/>\n    sempre o mesmo: tic, tac, tic, tac tic, tac!<\/p>\n<p>Mas outras vizinhas vieram, boas, cuidadosas e, apesar de tudo, a Josefa,<br \/>\n    como um c&atilde;o de guarda passava os dias sentada no banquinho, olhando<br \/>\n    para a vi&uacute;va, cansada, triste esperando pelas horas da refei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para ir gozar l&aacute; fora, sob esse pretexto, o ar, a luz e a palestra.<\/p>\n<p>&#8211; Tomara j&aacute; que isto acabe! pensava ela, que Iai&aacute; fique boa<br \/>\n    e Sarinha tamb&eacute;m. Ave Maria! Como estar&atilde;o os meus cacos em S.<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o! <\/p>\n<p>A vis&atilde;o da casa atormentava-a muito. Via as baratas passeando sobre<br \/>\n    os pratos da marmelada, feitos para quitanda, na manh&atilde; da subida para<br \/>\n    Santa Tereza; lembrava-se de ter deixado fora do quarto, pendurado, &agrave;<br \/>\n    toa, o seu melhor vestido e parecia-lhe sentir o ru&iacute;do dos dentinhos<br \/>\n    dos ratos nas roupas dos fregueses&#8230; Credo! Calculava os preju&iacute;zos,<br \/>\n    somava pelos dedos o que teria de pagar a um e a outro, e pasmava diante das<br \/>\n    cifras que se desenhavam em seu esp&iacute;rito em propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    enormes!<\/p>\n<p>Uma noite, a Josefa teve um sonho que a decidiu a abandonar a doente por<br \/>\n    algum tempo.<\/p>\n<p>Sonhou que o seu adorado S. Sebasti&atilde;o, furioso por ver apagada a lamparina<br \/>\n    com que ela, cuidadosa, religiosamente, o alumiava no seu orat&oacute;rio<br \/>\n    dia e noite, entrara a desfechar-lhe nos olhos todas as setas do seu bendito<br \/>\n    corpo.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o! gemia a pobre; mas o santo n&atilde;o lhe perdoava.<\/p>\n<p>Quando Josefa acordou sentiu dor nos olhos&#8230; aquilo tornou-a apreensiva.<br \/>\n    Foi ao espelho; os olhos estavam vermelhos!<\/p>\n<p>&#8211; U&ecirc;! Gente! Isto &eacute; aviso do C&eacute;u! Eu vou logo a S. Crist&oacute;v&atilde;o!<\/p>\n<p>Ao meio-dia vestiu o seu vestido de merino preto, p&ocirc;s o seu velho toucado<br \/>\n    de vidrilhos e flores roxas e disp&ocirc;s-se a sair.<\/p>\n<p>Estava toda a casa silenciosa. A vi&uacute;va dormia e a m&atilde;e de Georgina<br \/>\n    fazia-lhe quarto. Josefa atravessou a sala de jantar em bicos de p&eacute;s<br \/>\n    e entrou no corredor. Ao fundo, a porta do jardim atraia-a, muito aberta,<br \/>\n    como um quadro de luz; e ela seguia com passos mi&uacute;dos, segurando na<br \/>\n    m&atilde;o a bolsinha de couro que n&atilde;o deixava nunca, quando de repente<br \/>\n    um grito agudo feriu o ar e o sil&ecirc;ncio da casa. Josefa estacou.<\/p>\n<p>Deus do c&eacute;u! Que teria sido!? Houve uma pausa; correram minutos&#8230;<br \/>\n    outro grito igual e estr&iacute;dulo partiu do quarto de Sara. Josefa voltou<br \/>\n    depressa para o quarto da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Que foi?!<\/p>\n<p>Georgina levantou para ela os olhos chorosos, D.Candinha, mais calma, respondeu-lhe<br \/>\n    sem olhar para ela, fixando a doente:<\/p>\n<p>&#8211; Foi a morte, Josefa! Sara est&aacute; perdida!&#8230;<\/p>\n<p>Josefa caiu de joelhos e p&ocirc;s as m&atilde;os, Georgina imitou-a, sem<br \/>\n    saber como, e ambas rezaram silenciosas, chorando.<\/p>\n<p>Ambas rezaram, ambas fizeram promessas, e quando se levantaram abra&ccedil;aram-se,<br \/>\n    sem saber como, sem saber porque!<\/p>\n<p>XIX<\/p>\n<p>Tomavam-se precau&ccedil;&otilde;es para que os gritos de Sara n&atilde;o<br \/>\n    chegassem ao quarto da m&atilde;e; entretanto a vi&uacute;va Sim&otilde;es<br \/>\n    ouviu-os e perguntou por eles uma vez.<\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o as crian&ccedil;as do vizinho; respondeu-lhe D. Candinha, trocando<br \/>\n    depois um olhar de intelig&ecirc;ncia com a Josefa, que se agachara no seu<br \/>\n    posto, com o queixo erguido para a cama.<\/p>\n<p>A pobre mulher desistira da ida &agrave; casa. Baratas e ratos que andassem<br \/>\n    por l&aacute; &agrave; vontade. J&aacute; n&atilde;o temia coisa alguma.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que voc&ecirc; ainda est&aacute; de chap&eacute;u!&#8230; avisou D. Candinha.\n  <\/p>\n<p>Josefa elevou as m&atilde;os grossas &agrave; altura das flores roxas do<br \/>\n    toucado:<\/p>\n<p>&#8211; V&ecirc;! Por isso &eacute; que tenho dor de cabe&ccedil;a&#8230; &#8211; murmurou<br \/>\n    ela. <\/p>\n<p>Mudara de vestido, estava agora de chita; com uma saia e um casaco da cozinheira.<br \/>\n    O toucado dava-lhe ares de macaco velho, desconfiado, ainda n&atilde;o acertado<br \/>\n    ao ritmo do realejo.<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; descansar! disse-lhe D. Candinha.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; fico. E agora j&aacute; n&atilde;o tenho sono&#8230; j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o tenho nada&#8230;<\/p>\n<p>E os seu olhinhos castanhos encheram-se de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>Entretanto, no quarto de Sara, Luciano e Georgina conversavam acerca da doente:<\/p>\n<p>&#8211; Tem reparado numa coisa? perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Em que?<\/p>\n<p>&#8211; Nos raros momentos em que Sara parecia melhorar, mostrava-se aflita com<br \/>\n    a minha presen&ccedil;a!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Notou tamb&eacute;m isso?<\/p>\n<p>&#8211; Notei.<\/p>\n<p>&#8211; Julguei que pudesse ser uma ilus&atilde;o minha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o foi. Sara quando o viu e o reconheceu teve um grande abalo;<br \/>\n    tornou-se roxa; n&atilde;o viu como ela fechou apertadamente os olhos?<\/p>\n<p>&#8211; Porque me odiar&aacute; ela?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda o senhor pergunta?<\/p>\n<p>Georgina agravava os remorsos de Luciano, vingando a amiga. Outras vezes<br \/>\n    falavam-se como irm&atilde;os, elogiando Sara, recordando em comum os seus<br \/>\n    gestos e os seus ditos, como se tratassem de uma morta.<\/p>\n<p>O arrependimento de Luciano crescia, &agrave; vista da doente. J&aacute;<br \/>\n    nada esperava, n&atilde;o podia &agrave; for&ccedil;a de amor resgatar culpas<br \/>\n    as antigas&#8230; Todas as noites sa&iacute;a daquela casa pensando em n&atilde;o<br \/>\n    voltar&#8230; que ia fazer ali, entre duas mulheres, v&iacute;timas do seu capricho<br \/>\n    de homem gasto pelos prazeres e pelas dores da vida? Ele n&atilde;o era mau<br \/>\n    afinal&#8230; como se tinha deixado levar t&atilde;o levianamente, em tudo aquilo?!<br \/>\n    Julgara talvez todas as mulheres iguais&#8230; Habituara-se &agrave; vida fr&iacute;vola<br \/>\n    longe da fam&iacute;lia, do meio de que se afastara para correr boemiamente,<br \/>\n    alegremente, dos sal&otilde;es f&aacute;ceis para os caf&eacute;s, e os teatros,<br \/>\n    sem afei&ccedil;&otilde;es s&eacute;rias, sem preocupa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    sem trabalho, gastando as for&ccedil;as e adquirindo v&iacute;cios.<\/p>\n<p>Depois toda aquela hist&oacute;ria tinha come&ccedil;ado como uma simples<br \/>\n    flirtation leve e risonha&#8230; Este desenlace agora enchia-o de pavor e procurava<br \/>\n    salvar a sua consci&ecirc;ncia sem encontrar aux&iacute;lio&#8230; Outras vezes<br \/>\n    exagerava as suas faltas, revolvendo id&eacute;ias, penitenciando o seu esp&iacute;rito<br \/>\n    deca&iacute;do&#8230;<\/p>\n<p>Os m&eacute;dicos faziam repetidas visitas ao dia; as enfermeiras eram incans&aacute;veis<br \/>\n    e o tempo ia cada vez mais azul e formoso. Luciano subia todas as tardes,<br \/>\n    ficava at&eacute; meia-noite e descia atormentado, sozinho, dizendo consigo<br \/>\n    que estava tudo acabado, bem acabado&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto a vi&uacute;va chorava e teimava por sair da cama. Queria ver<br \/>\n    a filha, pressentia alguma coisa, dizia &agrave;s vezes que a enganavam. Sara<br \/>\n    estava morta&#8230; Outras cismava com aquele rumor estranho que se fazia em toda<br \/>\n    a casa, e em que o nome de Sara parecia sussurrado continuamente&#8230;<\/p>\n<p>M&eacute;dicos e enfermeiros prolongaram aquele estado negando-lhe autoriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para erguer-se. <\/p>\n<p>Os gritos de Sara tinham cessado, a casa voltara ao anterior sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    Uma vez a vi&uacute;va viu, atrav&eacute;s das p&aacute;lpebras, no lev&iacute;ssimo<br \/>\n    sono dos convalescentes, entrar D. Candinha e dirigir-se &agrave; Josefa,<br \/>\n    que estava a cochilar no seu canto. A mo&ccedil;a curvou-se para a velha,<br \/>\n    e, entre ambas, Ernestina distinguiu no ar, sutilmente estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Sara&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que me diz, senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Psiu!&#8230;<\/p>\n<p>Sa&iacute;ram ambas, cautelosamente. A vi&uacute;va Sim&otilde;es sentou-se<br \/>\n    de um salto e prestou o ouvido. Pareceu-lhe sentir um choro abafado, afastou<br \/>\n    desvairadamente as roupas da cama e ergueu-se do leito sempre escutando, tr&ecirc;mula,<br \/>\n    com os cabelos desgrenhados sobre os ombros magros e as pernas finas desenhadas<br \/>\n    no linho da camisola.<\/p>\n<p>Entreabriu assim a porta e esgueirou-se a medo para o corredor:<\/p>\n<p>L&aacute; fora, na atmosfera suavemente morna, vagava o aroma das flores<br \/>\n    de laranjeira. Ernestina teve uma vertigem. A luz cegou-a, o aroma entonteceu-a.<br \/>\n    Encostou-se ao umbral. N&atilde;o passava ningu&eacute;m, a casa parecia deserta;<br \/>\n    a vi&uacute;va recobrou alento e atravessou o corredor, descal&ccedil;a, com<br \/>\n    os artelhos nus, pensando em ir encontrar a filha amortalhada, no cetim branco<br \/>\n    das esponsais, com a grinalda de virgem e o v&eacute;u cast&iacute;ssimo esparso<br \/>\n    em ondas sobre as suas opulentas tran&ccedil;as loiras&#8230;<\/p>\n<p>Foi desse modo, sem ser pressentida, at&eacute; ao quarto de vestir da filha,<br \/>\n    e, sempre muda e atenta, aproximou-se da alcova. Dali n&atilde;o podia ver<br \/>\n    Sara, encoberta pelas costas e o cortinado do leito. Tinha ainda medo&#8230; medo<br \/>\n    de entrar naquele quarto&#8230; medo de se aproximar da filha! Junto &agrave;<br \/>\n    mesa, de que s&oacute; via um &acirc;ngulo, estava sentado um homem; divisava-lhe<br \/>\n    a orla das cal&ccedil;as cinzentas e os p&eacute;s que se moviam nervosamente.\n  <\/p>\n<p>Georgina olhava para fora, com o rosto unido aos vidros. O seu corpo de menina<br \/>\n    tino e chato, ondulava com o esfor&ccedil;o da respira&ccedil;&atilde;o, e<br \/>\n    os cotovelos pontudos, erguidos &agrave; altura das orelhas, que as m&atilde;os<br \/>\n    cruzadas sobre a nuca encobriam, faziam cismar no desejo das asas, asas que<br \/>\n    se batessem pelo azul fora levando aquele cora&ccedil;&atilde;o de pomba para<br \/>\n    bem longe das mis&eacute;rias da vida!<\/p>\n<p>Perto da cama, D. Candinha e Josefa cochichavam, curvando-se para a doente.<br \/>\n    Transparecia a dor no perfil de ambas. <\/p>\n<p>Ernestina deu mais dois passes para diante. <\/p>\n<p>D. Candina percebendo-a exclamou assustada:<\/p>\n<p>&#8211; Olhem quem est&aacute; ali!<\/p>\n<p>Rodearam Ernestina; Josefa enrolou-a no seu xale, enquanto a vi&uacute;va<br \/>\n    perguntava baixinho &agrave; Georgina, apontando o leito:<\/p>\n<p>&#8211; Morreu?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p>Como se aquelas palavras lhe tivessem insuflado nova vida, Ernestina desembara&ccedil;ou-se<br \/>\n    de todos, que procuravam ret&ecirc;-la, e correu para a cama.<\/p>\n<p>Pararam os outros a v&ecirc;-la silenciosos e opressos. D. Candinha cobriu-lhe<br \/>\n    de novo os ombros com o xale, mas o xale resvalava para o ch&atilde;o. A vi&uacute;va<br \/>\n    curvada para a filha n&atilde;o dizia nada nem se movia t&atilde;o pouco.<br \/>\n    Olhava&#8230; olhava&#8230; olhava!<\/p>\n<p>Sara tinha emagrecido muito e a sua cabe&ccedil;a, redonda e forte, parecia<br \/>\n    desproporcionada agora emergindo de uns ombros estreitos, de crian&ccedil;a.<br \/>\n    Os olhos n&atilde;o tinham brilho, olhavam sem ver e a boca entreaberta enchia-se<br \/>\n    de baba, que Georgina limpava de vez em quando, pacientemente.<\/p>\n<p>A m&atilde;e parecia n&atilde;o compreender&#8230; <\/p>\n<p>D. Candinha murmurou-lhe ao ouvido:<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isso, Ernestina? V&aacute; vestir-se! Luciano est&aacute;<br \/>\n    aqui&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que me importa! Sara? oh minha filha?<\/p>\n<p>Sara voltou-se para a m&atilde;e e arrastou algumas s&iacute;labas embrulhadamente<br \/>\n    que ningu&eacute;m p&ocirc;de entender!<\/p>\n<p>Pouco a pouco a vi&uacute;va foi percebendo a verdade; a filha n&atilde;o<br \/>\n    morreria&#8230; mas estava idiota! Ao redor dela, todos calados esperavam uma<br \/>\n    cena em que a dor explodisse em gritos, ou a abatesse num desmaio. Nada! A<br \/>\n    vi&uacute;va achava, apesar de tudo, uma consola&ccedil;&atilde;o &#8211; a filha<br \/>\n    vivia e, idiota embora, respirava, deixava-se beijar! Estava nisso o seu resto<br \/>\n    de ventura materna!<\/p>\n<p>De joelhos, perto da cama, esteve longo tempo a olhar, a olhar&#8230; Ergueu-se<br \/>\n    com um suspiro e deixou que D. Candinha lhe vestisse um peignoir de l&atilde;;<br \/>\n    atou ela mesma maquinalmente os cord&otilde;es da cinta sem desviar os olhos<br \/>\n    da filha.<\/p>\n<p>S&oacute; depois de algum tempo foi que ela chorou, muito baixinho, embebendo<br \/>\n    as l&aacute;grimas no len&ccedil;o.<\/p>\n<p>Luciano tinha-se afastado do quarto e passeava no jardim, fugindo aos olhos<br \/>\n    de todos e &agrave; bulha atormentadora das vozes. Subia e descia pelas ruas<br \/>\n    vagarosamente, parando &agrave;s vezes para afastar com o p&eacute; uma folha<br \/>\n    seca do caminho, ou para esmagar entre as unhas as p&eacute;talas leitosas<br \/>\n    das flores das laranjeiras. Os galhos carregados das &aacute;rvores desciam<br \/>\n    muito e as formiguinhas passeavam pelos troncos apressadamente, carregando<br \/>\n    folhinhas e salpicando de preto a brancura das folhas.<\/p>\n<p>Luciano contemplava aquilo tudo sem pensar no que via, mas vendo, sem pensar<br \/>\n    tamb&eacute;m em outra coisa. Cansado, subiu pelo pomar dando volta pela horta,<br \/>\n    meio inculta agora e abandonada. <\/p>\n<p>Por entre as largas folhas &aacute;speras das ab&oacute;boras que se alastravam<br \/>\n    comendo vencedoramente a maior parte do terreno, erguiam-se os c&aacute;lices<br \/>\n    altos das flores na sua triunfante cor de ouro vivo. E ele notou com pregui&ccedil;a<br \/>\n    o desleixo em que o Jo&atilde;o tinha agora a verdura, toda abafada pelo aboboral.<br \/>\n    Afinal de contas, &eacute; sempre a for&ccedil;a bruta que predomina em toda<br \/>\n    a natureza. As flores delicadas e franzinas que nascem para o perfume, como<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o da mulher para o amor, caem e morrem se n&atilde;o<br \/>\n    lhes d&atilde;o amparo doce e cuidadoso. Luciano continuou at&eacute; acima,<br \/>\n    &agrave; touceira de bambus, onde vira pela primeira vez Sara e Georgina com<br \/>\n    outras amigas jogando o croquet. Parou a&iacute; um momento com a lembran&ccedil;a<br \/>\n    daquele dia na mem&oacute;ria. Teve saudades&#8230; Entrou depois no jardim e<br \/>\n    viu logo ali perto duas saracuras brigando sobre a grama de um canteiro largo.<br \/>\n    Ele chegou a sorrir, reparando para os meneios aqueles corpos delicados; uma<br \/>\n    delas fez-lhe lembrar Georgina, na gra&ccedil;a e na ligeireza. Subiu por<br \/>\n    fim ao terra&ccedil;o e, exausto como se viesse de longas caminhadas, sentou-se<br \/>\n    num banco, encostou a cabe&ccedil;a &agrave; parede e olhou para a frente.<\/p>\n<p>A luz forte do sol envolvia tudo no seu manto glorioso e quente. O mar estendia-se<br \/>\n    sereno, muito azul, limpo de barcos, beijando as fitas brancas das praias<br \/>\n    long&iacute;nquas e fronteiras. As montanhas recortavam no c&eacute;u l&iacute;mpido<br \/>\n    os seus enormes perfis bizarros num esbatimento de sombras e de luz. Embaixo,<br \/>\n    no pitoresco outeiro da Gl&oacute;ria tremulavam bandeiras de festa. Entre<br \/>\n    a casaria da cidade, l&aacute; uma outra janela, batida de sol, despedia dos<br \/>\n    vidros chamas de inc&ecirc;ndio e repicavam os sinos e havia em tudo um ar<br \/>\n    de alegria e de infinita do&ccedil;ura! S&oacute; ao longe, tem&iacute;vel<br \/>\n    no seu grandioso mist&eacute;rio, a Esfinge silenciosa mergulhava parte do<br \/>\n    seu corpo de montanhas na &aacute;gua profunda, erguendo para o alto espa&ccedil;o<br \/>\n    a sua fronte rochosa e altiva!<\/p>\n<p>Luciano quedou-se ali longo tempo, ora com os olhos fitos nos galhardetes<br \/>\n    da igreja, ora nas fortalezas silenciosas, ou nos despenhadeiros do morro,<br \/>\n    onde as paineiras abriam, em sorrisos cor de rosa, as suas grandes flores.<\/p>\n<p>Concluindo uma s&eacute;rie de reflex&otilde;es quaisquer, Luciano murmurou<br \/>\n    a meia-voz, levantando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Decididamente hei de morrer solteiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; falando sozinho? perguntou-lhe D. Candinha, que havia chegado<br \/>\n    sem ser pressentida.<\/p>\n<p>&#8211; Falei alto? N&atilde;o admira, estou meio maluco&#8230;. respondeu ele sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; preciso cuidado&#8230; as paredes t&ecirc;m ouvidos&#8230; e&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; tudo acabado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para Ernestina e para Sara, com certeza.<\/p>\n<p>&#8211; E para mim.<\/p>\n<p>&#8211; Isso&#8230; duvido! Conhe&ccedil;o os homens, as impress&otilde;es neles n&atilde;o<br \/>\n    duram como em n&oacute;s&#8230; Mas, enfim, n&atilde;o &eacute; disso que se trata<br \/>\n    agora. Vim procur&aacute;-lo para dizer-lhe adeus&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute;?!<\/p>\n<p>&#8211; De que se admira?<\/p>\n<p>&#8211; Acho muito cedo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n&atilde;o se lembra de que sou casada e que de mais a mais hoje<br \/>\n    &eacute; dia santo?<\/p>\n<p>&#8211; Ser dia santo n&atilde;o &eacute; raz&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p>-&Eacute;. Imagine: devo ter a casa cheia de gente! Acostumei-me a fazer<br \/>\n    dan&ccedil;ar os sobrinhos nos dias feriados e tanto eles como os empregados<br \/>\n    do Nunes contam com isso&#8230; J&aacute; que acudi as afli&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de uns, &eacute; justo que divirta os outros&#8230; Contudo, sr. ego&iacute;sta,<br \/>\n    repare bem: se vou embora &eacute; porque Ernestina tem uma coragem &uacute;nica.<br \/>\n    Exigiu a minha retirada, bem como a de Georgina!<\/p>\n<p>&#8211; Deveras! Est&aacute; assim calma?<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente&#8230; Diz que o que temia era encontrar a filha morta&#8230; A pequena<br \/>\n    conhece-a. Coitadas!<\/p>\n<p>&#8211; Que futuro triste!<\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230; a tudo a gente se acostuma! Adeus, v&aacute; ver-me de vez em quando.<\/p>\n<p>&#8211; Consente que eu a acompanhe?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. O senhor pode ser preciso aqui.<\/p>\n<p>D. Candinha ajeitou o veuzinho preto sobre o seu rosto largo e desceu o jardim<br \/>\n    cal&ccedil;ando as luvas.<\/p>\n<p>Luciano entrou. A Josefa esperava-o e disse-lhe logo que o viu, com um jeito<br \/>\n    embara&ccedil;ado:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o v&aacute; l&aacute; dentro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Iai&aacute; n&atilde;o quer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230; ela disse-lhe isso?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Disse&#8230;<\/p>\n<p>Luciano parou indeciso, magoado, sem saber como falar a Ernestina, mas desejando<br \/>\n    ardentemente v&ecirc;-la e beijar-lhe a m&atilde;o antes de sair. Respeitava-a<br \/>\n    agora como a uma santa, amava-a com a ternura de um filho. A Josefa observava-o<br \/>\n    com d&oacute; e com espanto, ele continuava perplexo diante dela.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor quer mesmo falar com Iai&aacute;? rompeu ela.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, quero&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Espere um pouco&#8230; Ela est&aacute; sozinha. Georgina j&aacute; foi para<br \/>\n    casa&#8230; que mo&ccedil;a boa! Eu fico morando aqui. Iai&aacute; quer que eu<br \/>\n    tome conta da casa&#8230; que hei de fazer? Olhe, eu ainda n&atilde;o disse nada;<br \/>\n    mas a Simpl&iacute;cia fugiu com o Augusto esta madrugada e o pior &eacute;<br \/>\n    que levou roupas finas e talheres de prata!&#8230; Que mulatinha levada! Aquilo<br \/>\n    h&aacute; de acabar rolando b&ecirc;bada pelas ruas. A Ana j&aacute; veio<br \/>\n    me dizer que exige mais ordenado!&#8230; Ui!&#8230; agora esta hist&oacute;ria de<br \/>\n    criadas &eacute; um inferno!<\/p>\n<p>Luciano interrompeu-a com um gesto.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j&aacute; volto, disse ela, e saiu. Ele ficou s&oacute;, sentado no<br \/>\n    sof&aacute;, embaixo do retrato do comendador Sim&otilde;es.<\/p>\n<p>Passado algum tempo, a Josefa tornou pressurosa.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o?! Inquiriu Luciano.<\/p>\n<p>&#8211; Iai&aacute; n&atilde;o quer v&ecirc;-lo e pede-lhe para n&atilde;o voltar<br \/>\n    a esta casa.<\/p>\n<p>Dias depois, a vi&uacute;va Sim&otilde;es acompanhava com a vista, do seu<br \/>\n    terra&ccedil;o de ladrilhos cor de rosa, um paquete transatl&acirc;ntico,<br \/>\n    que demandava a barra, levando Luciano para a Europa.<\/p>\n<p>O tempo estava espl&ecirc;ndido, de um azul glorioso, o mar desenrolava o<br \/>\n    seu manto, sem rugas, com uma serenidade de sonho, e as flores desabrochavam<br \/>\n    numa alegre ansiedade de luz e de vida, perfumando tudo&#8230;<\/p>\n<p>Ao lado da m&atilde;e, numa cadeira de rodas, Sara, com o seu eterno e doloroso<br \/>\n    sorriso, fazia e desmanchava a &uacute;nica coisa bela que lhe ficara: a sua<br \/>\n    tran&ccedil;a loura.<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I 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