{"id":107968,"date":"2017-02-09T09:57:19","date_gmt":"2017-02-09T11:57:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=107968"},"modified":"2017-02-09T09:57:19","modified_gmt":"2017-02-09T11:57:19","slug":"a-falencia-julia-lopes-de-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/a-falencia-julia-lopes-de-almeida","title":{"rendered":"A Fal\u00eancia &#8211; J\u00falia Lopes de Almeida"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"555\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>J&uacute;lia Lopes de Almeida<\/h4>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p>O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando<br \/>\n    um ar de fornalha na atmosfera. Toda a rua de S. Bento, atravancada por ve&iacute;culos<br \/>\n    pesad&otilde;es e estrepitosos, cheirava a caf&eacute; cru. Era hora de trabalho.<\/p>\n<p>Entre o fragor das ferragens sacudidas, o giro amea&ccedil;ador das rodas<br \/>\n    e os corcovos de animais contidos por m&atilde;os brutas, o povo negrejava<br \/>\n    suando, compacto e esbaforido.<\/p>\n<p>&Agrave; porta do armaz&eacute;m de Francisco Teodoro era nesse dia grande<br \/>\n    o movimento. Um carroceiro, em p&eacute; dentro do caminh&atilde;o, onde ajeitava<br \/>\n    as sacas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:<\/p>\n<p>&#8211; Andem com isso, que &agrave;s onze horas tenho de estar nas Docas!<\/p>\n<p>E os carregadores vinham, sucedendo-se com uma pressa fant&aacute;stica,<br \/>\n    atirar as sacas para o fundo do caminh&atilde;o, levantando no baque nuvens<br \/>\n    de p&oacute; que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabeludos mal cobertos<br \/>\n    pela camisa de meia enrugada de algod&atilde;o sujo: outros negros, nus da<br \/>\n    cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.<\/p>\n<p>Ao cheiro do caf&eacute; misturava-se o do suor daqueles corpos agitados,<br \/>\n    cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pesco&ccedil;o e dos<br \/>\n    bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>No desespero da pressa, o carroceiro soltava impreca&ccedil;&otilde;es, aos<br \/>\n    berros, furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a<br \/>\n    caixa do caminh&atilde;o, todo derreado para a aniagem das sacas, respirando<br \/>\n    a poeirada que se levantava delas. Os outros respondiam com iguais improp&eacute;rios,<br \/>\n    que os cocheiros dos t&iacute;lburis, em esperas for&ccedil;adas, ouviam rindo,<br \/>\n    mastigando o cigarro.<\/p>\n<p>Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquilo, como formigas em correi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a vergada ao peso da saca, ro&ccedil;ando o corpo latejante<br \/>\n    nas ancas lustrosas dos burros.<\/p>\n<p>Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de uma<br \/>\n    ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que invadiam<br \/>\n    as cal&ccedil;adas, resvalando depois com estrondo para os paralelep&iacute;pedos<br \/>\n    da rua.<\/p>\n<p>Aqui, ali e acol&aacute;, pretinhas velhas, com um len&ccedil;o branco amarrado<br \/>\n    em forma de touca sobre a carapinha, varriam l&eacute;pidas com uma vassoura<br \/>\n    de pia&ccedil;ava os gr&atilde;os de caf&eacute; espalhados no ch&atilde;o.<br \/>\n    Com o mesmo a&ccedil;odamento peneiravam-nos logo em uma bacia pequena, de<br \/>\n    folha, com o fundo crivado a prego. Era o seu neg&oacute;cio, que aqueles<br \/>\n    dias de abund&acirc;ncia tornavam pr&oacute;spero. Enriqueciam-se com os sobejos.<\/p>\n<p>Assim, em toda a rua s&oacute; se viam bra&ccedil;os a gesticular, pernas<br \/>\n    a moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o mesmo<br \/>\n    triunfo, gemendo com o mesmo esfor&ccedil;o, em uma orquestra barulhenta e<br \/>\n    desarm&ocirc;nica.<\/p>\n<p>A n&atilde;o serem as africanas do caf&eacute; e uma ou outra italiana que<br \/>\n    se atrevia a sair de alguma f&aacute;brica de sacos com d&uacute;zias deles<br \/>\n    &agrave; cabe&ccedil;a, nenhuma outra mulher pisava aquelas pedras, s&oacute;<br \/>\n    afeitas ao peso bruto.<\/p>\n<p>Dominava ali o trabalho viril, a for&ccedil;a f&iacute;sica, movida por m&uacute;sculos<br \/>\n    de a&ccedil;o e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos<br \/>\n    de atletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de guerra,<br \/>\n    davam &agrave; velha rua a pulsa&ccedil;&atilde;o que o sangue vivo e mo&ccedil;o<br \/>\n    d&aacute; a uma art&eacute;ria, correndo sempre com vigor e com &iacute;mpeto.<\/p>\n<p>J&aacute; de outras ruas descia aquela onda quente, arfante de trabalho,<br \/>\n    vinha da rua dos Beneditinos e vinha dos armaz&eacute;ns da rua Municipal,<br \/>\n    todos atulhados de caf&eacute;, que esvaziavam em profus&atilde;o para os<br \/>\n    trapiches e as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.<\/p>\n<p>Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando um<br \/>\n    momento, com os cotovelos fincados nos joelhos erguidos, salivando o sarro<br \/>\n    dos cigarros, a saborear uma fuma&ccedil;a, olhando com indiferen&ccedil;a<br \/>\n    para aquela multid&atilde;o que passava aos trancos e barrancos, na &acirc;nsia<br \/>\n    da vida, num torvelinho de p&oacute; e gritaria.<\/p>\n<p>De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, surgiram<br \/>\n    nas esquinas e percorriam todo o quarteir&atilde;o, &agrave;s gargalhadas,<br \/>\n    enchendo os bolsos com o caf&eacute; das africanas velhas, cujos guinchos<br \/>\n    de protesto se perdiam abafados pelo ru&iacute;do complexo da rua.<\/p>\n<p>Dentro dos armaz&eacute;ns a mesma lufa-lufa.<\/p>\n<p>No de Francisco Teodoro n&atilde;o havia paragem.<\/p>\n<p>O primeiro caixeiro, seu Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, de<br \/>\n    olhos fundos e ma&ccedil;&atilde;s do rosto salientes, gesticulava em mangas<br \/>\n    de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.<\/p>\n<p>A porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de a&ccedil;o<br \/>\n    e lat&atilde;o todas as sacas que sa&iacute;am, para que se escapasse pela<br \/>\n    abertura uma mancheia de gr&atilde;os. Os carregadores apenas retardavam os<br \/>\n    passos nessa opera&ccedil;&atilde;o, e o caf&eacute; caia cantando na soleira.<\/p>\n<p>Ao fundo, um rapazinho magro e amarelo, o Ribas, apontava num caderno o n&uacute;mero<br \/>\n    de sacas que levavam, rente &agrave; escada de m&atilde;o por onde os carregadores<br \/>\n    subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois pelo asfalto desgastado<br \/>\n    e denegrido do solo.<\/p>\n<p>Tudo era feito numa urg&ecirc;ncia, obrigada a grande movimento.<\/p>\n<p>Um sopro ardente de vida, uma lufada de inc&ecirc;ndio bafejada por cem homens<br \/>\n    arquejando ao mesmo tempo na febre da ambi&ccedil;&atilde;o, varava todo aquele<br \/>\n    extenso por&atilde;o negro, sem janelas, ladeado de sacos sobrepostos e adornado<br \/>\n    nas vigas sujas do teto por infinita quantidade de teias de aranha, enredadas,<br \/>\n    como longas sanefas viscosas de crepe russo.<\/p>\n<p>De vez em quando, um ru&iacute;do de cascata rolava pelo interior do armaz&eacute;m.<br \/>\n    Era o caf&eacute;, que ensacavam na &aacute;rea do fundo, e que na queda das<br \/>\n    p&aacute;s desprendia um p&oacute; sutil e um cheiro violento.<\/p>\n<p>Fora, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no som<br \/>\n    confuso, em que vozes humanas e rodas de ve&iacute;culos se amalgamavam com<br \/>\n    o estrupido das patas dos animais.<\/p>\n<p>Alguns carregadores exaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas corriam<br \/>\n    logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito tr&ecirc;fego,<br \/>\n    sungando as cal&ccedil;as que lhe escorregavam pelos quadris magros.<\/p>\n<p>&#8211; Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!<\/p>\n<p>Era o seu estribilho.<\/p>\n<p>E havia sempre muito que fazer naquela casa, uma das mais gra&uacute;das<br \/>\n    no com&eacute;rcio de caf&eacute;. Dir-se-ia que o dinheiro aprendera sozinho<br \/>\n    o caminho dos seus cofres, correndo para eles sem interrup&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao lado do armaz&eacute;m e comunicando com ele por uma portinha estreita,<br \/>\n    havia &agrave; esquerda o corredor e a escada, que levava ao escrit&oacute;rio,<br \/>\n    acima, no primeiro andar.<\/p>\n<p>Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra,<br \/>\n    guarda-livros, escrevia em p&eacute;, junto &agrave; escrivaninha colocado<br \/>\n    ao centro. Em outra carteira trabalhavam mais dois ajudantes, um velho, o<br \/>\n    Mota, de sorriso am&aacute;vel e modos submissos; e o outro, um mo&ccedil;o<br \/>\n    bilioso de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado.<\/p>\n<p>Nessa sala o trabalho era silencioso. As penas n&atilde;o paravam, mal dando<br \/>\n    tempo &agrave;s m&atilde;os para folhearem os livros e as diversas papeladas.<br \/>\n    Diziam-se frases sem se levantar os olhos da escrita, e as perguntas eram<br \/>\n    apenas respondidas por monoss&iacute;labos.<\/p>\n<p>A um canto, sobre uma mesinha s&oacute;lida, entre uma das janelas e a parede,<br \/>\n    estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira pintada,<br \/>\n    a talha de filtro j&aacute; enegrecida pelo uso. Pelas paredes, pastas de<br \/>\n    molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e cartas a responder.<br \/>\n    Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada, abria-se uma janela para<br \/>\n    o negrume do armaz&eacute;m, sob uma clarab&oacute;ia estreita, de pouca luz.<\/p>\n<p>Era em um gabinete, ao lado, com uma janela para a rua e igual avareza de<br \/>\n    mob&iacute;lia, que o dono da casa escrevia a sua correspond&ecirc;ncia, bem<br \/>\n    repousado em uma larga cadeira de bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>Ele ali estava, acabando de fechar uma carta.<\/p>\n<p>Toda a sua pessoa ressumava fartura e a altivez de quem sai vitorioso de<br \/>\n    teimosa luta.<\/p>\n<p>Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, com os olhos gar&ccedil;os<br \/>\n    tranq&uuml;ilos e os dentes brancos e pequeninos, tinha um belo ar de burgu&ecirc;s<br \/>\n    satisfeito.<\/p>\n<p>N&atilde;o era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos<br \/>\n    seus passos pesados.<\/p>\n<p>Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a que<br \/>\n    ele respondia com paci&ecirc;ncia, indicando claramente as coisas, com min&uacute;cias,<br \/>\n    para evitar confus&otilde;es.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, &agrave; sua larga secret&aacute;ria de peroba, dava a<br \/>\n    face para o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas.<\/p>\n<p>Tinha ele por h&aacute;bito, tornado j&aacute; em cacoete, remexer com a<br \/>\n    m&atilde;o curta e gorda o dinheiro e as chaves guardadas no bolso direito<br \/>\n    das cal&ccedil;as. No come&ccedil;o da sua vida, dura de trabalho e de &aacute;spera<br \/>\n    economia aquilo seria feito com inten&ccedil;&atilde;o; agora representava<br \/>\n    um ato maquinal, alheio a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de<br \/>\n    posse.<\/p>\n<p>Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento de<br \/>\n    paragem, a hora do caf&eacute;, que um mulato mo&ccedil;o, o Isidoro, levava<br \/>\n    primeiro ao escrit&oacute;rio, servindo depois os empregados do armaz&eacute;m.<\/p>\n<p>Os degraus j&aacute; gastos da escada rangiam ent&atilde;o ao peso de um<br \/>\n    comiss&aacute;rio vizinho, o Jo&atilde;o Ramos, e do ensacador Lemos, da rua<br \/>\n    dos Beneditinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Inoc&ecirc;ncio Braga,<br \/>\n    recentemente associado ao grupo. As duas horas reuniam-se sempre ali para<br \/>\n    o cafezinho, descansando o corpo e desanuviando o esp&iacute;rito com palestras<br \/>\n    de seu interesse e do seu gosto.<\/p>\n<p>Nesse dia tinham soado j&aacute; as duas, quando os negociantes apareceram.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro levantou-se e bateu com os p&eacute;s, desenrugando as<br \/>\n    cal&ccedil;as.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! voc&ecirc;s tardaram&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Culpa do Lemos&#8230;<\/p>\n<p>E depois:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor est&aacute; com a casa repleta!<\/p>\n<p>&#8211; Tenho exportado muito caf&eacute;!<\/p>\n<p>&#8211; Felizardo! aproveite a &eacute;poca, que n&atilde;o pode ser melhor!<\/p>\n<p>Corria ent&atilde;o o ano de 1891 em que o pre&ccedil;o do caf&eacute; assumira<br \/>\n    propor&ccedil;&otilde;es extraordin&aacute;rias. O movimento crescia e casas<br \/>\n    pequenas galgavam aos saltos grandes posi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; O que eu te invejo, disse o Ramos, &uacute;nico que ousava tratar Teodoro<br \/>\n    por tu, n&atilde;o &eacute; a fortuna, &eacute; a mulata que te engoma as<br \/>\n    camisas!<\/p>\n<p>Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa,<br \/>\n    que saboreava o caf&eacute;, com ar satisfeito, de p&eacute;, com o pires<br \/>\n    muito afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; m&aacute; essa, regougou o Lemos, o comendador Lemos,<br \/>\n    da Benefici&ecirc;ncia, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas,<br \/>\n    que nem de crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do Inoc&ecirc;ncio,<br \/>\n    perguntando a Teodoro: <\/p>\n<p>&#8211; Aqui seu vizinho Gama Torres &eacute; que fez um cas&atilde;o de um dia<br \/>\n    para o outro, hem?<\/p>\n<p>&#8211; Homem, sempre &eacute; verdade aquilo?!<\/p>\n<p>&#8211; Se &eacute;!&#8230; tenho provas&#8230; Afinal, eu inspirei-o um pouco no neg&oacute;cio&#8230;<\/p>\n<p>Fixaram todos a vista no Inoc&ecirc;ncio Braga. Era um homem pequenino, magro,<br \/>\n    com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quase impercept&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8211; Custa-me a crer nesses milagres&#8230; ponderou Teodoro, pousando a x&iacute;cara<br \/>\n    na bandeja que o Isidoro oferecia.<\/p>\n<p>&#8211; Afirmo; quest&atilde;o de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armaz&eacute;m<br \/>\n    e esperou a ocasi&atilde;o. O sogro ajudou-o, est&aacute; claro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o meditou nas conseq&uuml;&ecirc;ncias que poderiam sobrevir se<br \/>\n    desse uma baixa.<\/p>\n<p>&#8211; Quem fala em baixa?! Eu s&oacute; lhe digo que o com&eacute;rcio do Rio<br \/>\n    de Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquele. Senhores,<br \/>\n    a aud&aacute;cia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus antepassados<br \/>\n    analfabetos. O negociante moderno age mais com o esp&iacute;rito do que com<br \/>\n    os bra&ccedil;os e alarga os seus horizontes pelas conquistas nobres do pensamento<br \/>\n    e do c&aacute;lculo. O Torres &eacute; de bom estofo; &eacute; destes. Conhe&ccedil;o<br \/>\n    os homens.<\/p>\n<p>Olhavam. todos para o Inoc&ecirc;ncio com um certo respeito, reconhecendo-lhe<br \/>\n    superioridade intelectual.<\/p>\n<p>&#8211; O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos.<\/p>\n<p>E logo o Inoc&ecirc;ncio acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Tamb&eacute;m aquele est&aacute; destinado a ser o nosso Rottschild!<\/p>\n<p>Teodoro contraiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais h&aacute;bil,<br \/>\n    o mais forte fora sempre o seu sonho&#8230;<\/p>\n<p>Voltando-se, inquiriu dos outros explica&ccedil;&otilde;es mi&uacute;das<br \/>\n    acerca daquele neg&oacute;cio fabuloso. O tempo favorecia as especula&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e ele meditava no assunto, alisando a barba grisalha, rente &agrave;s faces<br \/>\n    gordas e macias.<\/p>\n<p>O Negreiros, tendo dado volta &agrave; sala e enfiado pela porta do escrit&oacute;rio<br \/>\n    o seu enorme nariz de cavalete, virou-se para os outros e disse a meia voz:<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! n&atilde;o posso acostumar-me a ver aquele velho como ajudante<br \/>\n    de guarda-livros!<\/p>\n<p>&#8211; Que quer voc&ecirc;? murmurou Teodoro; o Matos empenhou. se por ele e afinal<br \/>\n    a aquisi&ccedil;&atilde;o foi boa. Precisa mais do que os mo&ccedil;os, e<br \/>\n    como d&aacute; boa conta do recado n&atilde;o penso em substitu&iacute;do.<br \/>\n    &Eacute; ass&iacute;duo.<\/p>\n<p>&#8211; Outro esquisit&atilde;o que voc&ecirc; tem c&aacute; em casa &eacute; l&aacute;<br \/>\n    embaixo o Joaquim&#8230; ningu&eacute;m dir&aacute; que &eacute; o mesmo, l&aacute;<br \/>\n    fora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito carnavalesco e metido com as damas, hem? Que se divirta, aqui trabalha<br \/>\n    como nenhum. &Eacute; uma pra&ccedil;a de arromba: descansa-me.<\/p>\n<p>&#8211; Ouvi dizer que ele vai casar com a Delfina do Recreio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hist&oacute;rias! o rapaz &eacute; s&eacute;rio.<\/p>\n<p>&#8211; Tolo &eacute; que ele n&atilde;o &eacute;, resmungou o Negreiros, procurando<br \/>\n    o chap&eacute;u.<\/p>\n<p>O Inoc&ecirc;ncio despediu-se tamb&eacute;m; ia num pulo ao Torres. Os afazeres<br \/>\n    eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o caf&eacute;.<\/p>\n<p>Quando ele saiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O comendador<br \/>\n    Lemos sentenciou:<\/p>\n<p>&#8211; Este Inoc&ecirc;ncio &eacute; espertalh&atilde;o! Est&aacute; aqui, est&aacute;<br \/>\n    diretor do banco. N&atilde;o duvido que o Torres tivesse sido empurrado por<br \/>\n    ele&#8230; Tem uma l&aacute;bia!<\/p>\n<p>&#8211; E sabe encostar-se a boas &aacute;rvores. O Barros tem-lhe dado boas comiss&otilde;es<br \/>\n    e n&atilde;o &eacute; &agrave;-toa que ele procura tanto agora o Torres&#8230;<br \/>\n    Mete-se sempre na melhor roda&#8230; Aquele n&atilde;o veio de Portugal como n&oacute;s,<br \/>\n    sem bagagem e cheirando a pau de pinheiro; trouxe luvas e meias de seda&#8230;<br \/>\n    O patife!<\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o os que naufragam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando n&atilde;o v&ecirc;m &agrave; ca&ccedil;a e n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    o jeitinho que este revela. Canta que nem um p&aacute;ssaro, para atrair a<br \/>\n    gente!<\/p>\n<p>&#8211; E uma intelig&ecirc;ncia superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas<br \/>\n    as m&atilde;os o colete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se<br \/>\n    no sofazinho austr&iacute;aco, teve uma ponta de censura para as coisas desta<br \/>\n    terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado. a cidade infecta.<\/p>\n<p>Inda nessa manh&atilde;, vendo marchar um pelot&atilde;o de soldados, sem<br \/>\n    cad&ecirc;ncia nem ritmo, lembrara-se da maneira por que os soldados da sua<br \/>\n    p&aacute;tria andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metais mais<br \/>\n    polidos, os passos iguaizinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em<br \/>\n    tudo mais aqui, o mesmo relaxamento.<\/p>\n<p>A maldita Rep&uacute;blica acabaria de escangalhar o resto. Veriam.<\/p>\n<p>S&oacute; no fim perguntaram pelas fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>&#8211; A prop&oacute;sito, perguntou o Ramos a Teodoro, aquela menina que vai<br \/>\n    tocar violino no concerto dos pobres &eacute; sua filha?<\/p>\n<p>&#8211; Que concerto?<\/p>\n<p>&#8211; De amanh&atilde;, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser&#8230; s&atilde;o coisas l&aacute; da m&atilde;e&#8230; a pequena tem<br \/>\n    um talent&atilde;o; o pr&oacute;prio mestre espanta-se.<\/p>\n<p>&#8211; E bonita! vi-a um destes dias, observou o Lemos.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, isso n&atilde;o! por enquanto ainda n&atilde;o se pode comparar<br \/>\n    com a m&atilde;e&#8230; protestou Francisco Teodoro, com sinceridade e um certo<br \/>\n    orgulho.<\/p>\n<p>Os outros sorriram.<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; isso, voc&ecirc; tem um pancad&atilde;o. Feliz em tudo, este<br \/>\n    diabo!<\/p>\n<p>Houve uma pausa.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, insistiu Francisco Teodoro, o Gama Torres deu um cheque valente.<br \/>\n    Pois olhem, eu n&atilde;o dava nada por ele: um brasileirinho magro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E come&ccedil;ou outro dia!<\/p>\n<p>&#8211; De mais a mais, parecia acanhado&#8230; t&iacute;mido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual! isso n&atilde;o! Conheci-o caixeiro, ali do Leite Bastos. Foi sempre<br \/>\n    um atirado; ali est&aacute; a prova: fez um cas&atilde;o de um dia para o<br \/>\n    outro. Dou raz&atilde;o ao Inoc&ecirc;ncio; aquele est&aacute; talhado para<br \/>\n    ser o nosso Rottschild&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vejam l&aacute;, rosnou o Lemos com a papada tr&ecirc;mula e um brilho<br \/>\n    de cobi&ccedil;a nos olhinhos pardos, eu quis fazer o mesmo neg&oacute;cio<br \/>\n    e l&aacute; o meu s&oacute;cio &eacute; medroso e: t&aacute;, t&aacute;, t&aacute;,<br \/>\n    &eacute; melhor esperar&#8230; Est&aacute; a&iacute;!<\/p>\n<p>&#8211; Fez bem, foi prudente! Deixem l&aacute; falar o Inoc&ecirc;ncio. Senhores,<br \/>\n    o com&eacute;rcio do Rio de Janeiro &eacute; honesto e n&atilde;o se tem dado<br \/>\n    mal com o seu sistema, observou Teodoro.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, o Inoc&ecirc;ncio aprecia isto de fora, por isso diz o contr&aacute;rio.<br \/>\n    Chama o com&eacute;rcio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.<\/p>\n<p>&#8211; Porco?! bradaram os outros, indignados.<\/p>\n<p>&#8211; Porco, confirmou o Ramos com solenidade.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo mais aceito, o porco &eacute; que n&atilde;o engulo, observou do seu<br \/>\n    canto o Lemos, o anafado.<\/p>\n<p>Ramos sentiu saltar-lhe na l&iacute;ngua esta resposta: &quot;porque os animais<br \/>\n    da mesma esp&eacute;cie n&atilde;o se devoram entre si&quot;. Ele confessava-se<br \/>\n    seduzido pelas exposi&ccedil;&otilde;es de Inoc&ecirc;ncio. Que talento!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, afinal de contas, que quer o Inoc&ecirc;ncio?! perguntou Teodoro de<br \/>\n    p&eacute;, cruzando os bra&ccedil;os sobre o fust&atilde;o alvo do colete.<\/p>\n<p>&#8211; Queria&#8230; pensava encontrar aqui uma pra&ccedil;a mais desenvolvida, maiores<br \/>\n    transa&ccedil;&otilde;es, casas de mais vulto. Diz que n&atilde;o temos sabido<br \/>\n    aproveitar as aragens. Que s&oacute; trabalhamos com o corpo. N&atilde;o o<br \/>\n    ouviu?<\/p>\n<p>&#8211; Com que diabo quereria ele que trabalh&aacute;ssemos?<\/p>\n<p>&#8211; Com a intelig&ecirc;ncia. Est&aacute; claro. E ele explicou a coisa bem.<br \/>\n    O nosso com&eacute;rcio &eacute; formado por gente sem escola, vinda de arraiais&#8230;<br \/>\n    Eu por mim, confesso, mal tive uns meses magros de col&eacute;gio! Apanhei<br \/>\n    muito e n&atilde;o aprendi nada.<\/p>\n<p>Houve um curto sil&ecirc;ncio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa<br \/>\n    vis&atilde;o de uma escola rudimentar, em um recanto pl&aacute;cido de aldeia.<\/p>\n<p>Depois de um suspiro, Teodoro concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Que venham para c&aacute; os doutores com teorias e modernismos, e veremos<br \/>\n    o tombo que isto leva!<\/p>\n<p>Entreolharam-se. A verdade &eacute; que tinham todos eles um soberano desprezo<br \/>\n    pelas classes intelectuais. Dai um sorrizinho de expressiva inten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mais um pouco de palestra sobre c&acirc;mbio, transa&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    bolsa e assuntos lidos no Jornal do Com&eacute;rcio do dia encheram um quarto<br \/>\n    de hora, que passou depressa. Por fim sa&iacute;ram, falando alto, dizendo<br \/>\n    que aquela casa cheirava a dinheiro.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro foi dar o seu giro pelo armaz&eacute;m. Vendo-o em baixo,<br \/>\n    seu Joaquim acudiu logo, limpando com a l&iacute;ngua o bigode molhado de<br \/>\n    caf&eacute;, a dar informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos esperando o caf&eacute; do Simas.<\/p>\n<p>O caminh&atilde;o j&aacute; est&aacute; ai perto, mas ficou entalado entre<br \/>\n    os carro&ccedil;&otilde;es do Gama Torres. Tem sido um desprop&oacute;sito<br \/>\n    o caf&eacute; que aquele armaz&eacute;m tem engolido.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; sei disso&#8230; bem. Mandou as contas para cima?<\/p>\n<p>O outro disfar&ccedil;ou um movimento de enfado e mal respondeu: &#8211; sim, senhor;<br \/>\n    depois gritou para o fundo:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Ribas!<\/p>\n<p>O Ribas cruzou-se com Francisco Teodoro, que seguiu at&eacute; a &aacute;rea,<br \/>\n    a ver ensacar o caf&eacute;.<\/p>\n<p>A gente do armaz&eacute;m tinha quiz&iacute;lia &agrave; do escrit&oacute;rio:<br \/>\n    fazia valer os seus servi&ccedil;os, deprimindo os alheios. Seu Joaquim considerava-se<br \/>\n    o melhor empregado da casa e gostava de mostrar as suas exig&ecirc;ncias.<br \/>\n    Os caixeiros temiam-no; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria,<br \/>\n    que ele n&atilde;o perdoava.<\/p>\n<p>O velho Mota, ajudante de guarda-livros, ainda era o &uacute;nico que lhe<br \/>\n    dispensava amabilidades e cortesias; mas, mesmo nisso, seu Joaquim lia uma<br \/>\n    adula&ccedil;&atilde;o. Com certeza o velho s&oacute; pensava em impingir-lhe<br \/>\n    a filha, que mirrava os seus trinta anos em um sobradinho da rua Funda.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro demorou-se um bocado na &aacute;rea vendo ensacar. Passou-lhe<br \/>\n    pela lembran&ccedil;a o tempo dos escravos, quando esse trabalho era exclusivamente<br \/>\n    feito pelos negros de na&ccedil;&atilde;o, com a sua cantilena triste, de<br \/>\n    africanos. Era mais bonito.<\/p>\n<p>As p&aacute;s iam e vinham cantando, num compasso bem ritmado, sempre seguido<br \/>\n    da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse servi&ccedil;o!<br \/>\n    E ainda acham que as coisas se alteram devagar!<\/p>\n<p>Rolavam pelo ch&atilde;o gr&atilde;os de caf&eacute;, como contas de cimento,<br \/>\n    e na atmosfera carregada mal se podia respirar. Francisco Teodoro voltou.<br \/>\n    O caminh&atilde;o estava j&aacute; &agrave; porta e os carregadores andavam<br \/>\n    nas suas corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de trapiche,<br \/>\n    o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a freguesia, acrescentando<br \/>\n    para o estimular:<\/p>\n<p>&#8211; Agora mesmo venho ali do seu vizinho, o Gama Torres, que me tem mandado<br \/>\n    l&aacute; para o trapiche um n&uacute;mero assombroso de sacas!<\/p>\n<p>O movimento do armaz&eacute;m interrompia-os de instante a instante. Francisco<br \/>\n    Teodoro mal respondia, com as id&eacute;ias desviadas para outro sentido.<\/p>\n<p>Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe falava com elogio e pasmo.<br \/>\n    Aquele est&aacute; destinado a ser o primeiro homem da pra&ccedil;a dissera-lhe<br \/>\n    o Inoc&ecirc;ncio, e o Inoc&ecirc;ncio era homem de bom faro e de &ecirc;xito<br \/>\n    seguro em todas as suas previs&otilde;es&#8230; Mas esse papel, de financeiro<br \/>\n    e negociante forte entre os mais fortes, fora o ideal de toda a sua longa<br \/>\n    vida de trabalhos, de sujei&ccedil;&otilde;es e de amarguras! Seria justo<br \/>\n    que o outro, de um pulo, erigisse edif&iacute;cio mais alto e glorioso do<br \/>\n    que o seu, cimentado com l&aacute;grimas, com sacrif&iacute;cios, com tantos<br \/>\n    anos de esfor&ccedil;o e de labor?<\/p>\n<p>Francisco Teodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a m&atilde;o<br \/>\n    frouxamente, e subiu para o escrit&oacute;rio. Na escada encontrou o mulato,<br \/>\n    o Isidoro, com uma vassoura na m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado!&#8230; n&atilde;o me tirem as teias de aranha do armaz&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor! Eu bem sei que aquilo d&aacute; felicidade&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro deteve-se um momento no escrit&oacute;rio e entrou depois<br \/>\n    para o seu gabinete.<\/p>\n<p>Fora, o sol avermelhava as fachadas feias e desiguais das casas fronteiras.<br \/>\n    Velhas paredes repintadas, outras com falhas de cali&ccedil;a, guardavam os<br \/>\n    seus segredos e as suas fortunas. Um h&aacute;lito ardente de ver&atilde;o<br \/>\n    bafejava toda a rua febril.<\/p>\n<p>Os armaz&eacute;ns, pelas bocas negras das suas portas escancaradas, vomitavam<br \/>\n    ainda sacas e sacas de caf&eacute;, que as locomotoras e as carro&ccedil;as<br \/>\n    levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da Prainha<br \/>\n    e da Sa&uacute;de, levantando do solo esmagado camadas de p&oacute;, que espalhavam<br \/>\n    no ar cintila&ccedil;&atilde;o de ouro.<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p>Em caminho de casa, Francisco Teodoro, recostado em um bonde, persistia em<br \/>\n    querer ler um jornal da tarde, sentindo que as id&eacute;ias lhe fugiam para<br \/>\n    um curso perigoso.<\/p>\n<p>O &ecirc;xito do Torres quizilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia<br \/>\n    o caminho, impedindo-o de chegar ao seu &uacute;ltimo ponto de mira. Galgava-lhe<br \/>\n    de assalto a dianteira, para se quedar sempre na sua frente, como um obst&aacute;culo.<\/p>\n<p>Aquela conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia o<br \/>\n    brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canseira do trabalho. A vida<br \/>\n    tem ironias: teria ele sido um tolo?<\/p>\n<p>Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples caixeiro,<br \/>\n    quase analfabeto, com a cabe&ccedil;a raspada, a jaqueta russa e os sapat&otilde;es<br \/>\n    barulhentos<\/p>\n<p>Tinha ainda fresco na mem&oacute;ria o dia do desembarque &#8211; estava um calor!<br \/>\n    &#8211; e de como depois rolara aos ponta-p&eacute;s, mal vestido, mal alimentado,<br \/>\n    com saudades da broa negra, das sovas da m&atilde;e e das ca&ccedil;adas aos<br \/>\n    grilos pelas charnecas do seu lugar.<\/p>\n<p>Pouco a pouco outros grilos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O som<br \/>\n    do dinheiro &eacute; m&uacute;sica; viera para o ganhar, atirou-se ao seu<br \/>\n    destino, tolerando todas as opress&otilde;es, dobrando-se a todas as exig&ecirc;ncias<br \/>\n    brutais, numa resigna&ccedil;&atilde;o de cachorro.<\/p>\n<p>Assim correram anos, dormindo em esteiras infectas, molhando de l&aacute;grimas<br \/>\n    o travesseiro sem fronha, at&eacute; que o seu mealheiro se foi enchendo,<br \/>\n    enchendo avaramente.<\/p>\n<p>Aquela inf&acirc;ncia de degredo era agora o seu triunfo. Vinha de longe<br \/>\n    a sua paix&atilde;o pelo dinheiro; levado por ela, n&atilde;o conhecera outra<br \/>\n    na mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao<br \/>\n    neg&oacute;cio. O neg&oacute;cio era o seu sonho de noite, a sua esperan&ccedil;a<br \/>\n    de dia, o ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de mo&ccedil;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o podia explicar, como, s&oacute; pelo atrito com pessoas mais cultivadas,<br \/>\n    ele fora perdendo, aos poucos, a grossa ignor&acirc;ncia de que viera adornado.<br \/>\n    A letra desenvolveu-se, tornou-se firme, e a sua tend&ecirc;ncia para contas<br \/>\n    fez prod&iacute;gios, agu&ccedil;ada com o sentido na verifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projetos, e observando<br \/>\n    atentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um negociante conhecedor<br \/>\n    do que tinha sob as m&atilde;os, e um homem limpo, a quem a sociedade recebia<br \/>\n    bem.<\/p>\n<p>N&atilde;o pudera ser menino, n&atilde;o soubera ser mo&ccedil;o, dera-se<br \/>\n    todo &agrave; deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor<br \/>\n    parte da vida. Para ele, o Brasil era o balc&atilde;o, era o armaz&eacute;m<br \/>\n    atulhado, onde o esfor&ccedil;o de cada indiv&iacute;duo tem o seu pr&ecirc;mio.<\/p>\n<p>Fora do com&eacute;rcio n&atilde;o havia nada que lhe merecesse o desvio<br \/>\n    de um olhar&#8230;<\/p>\n<p>Tempos de amargura e de esperan&ccedil;a, aqueles!<\/p>\n<p>Relembrando o passado, Francisco Teodoro procurava em si mesmo elementos<br \/>\n    com que pudesse bater influ&ecirc;ncias e opor-se &agrave;s especula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de afogadilho; devia encontr&aacute;-los espalhados pelos dias &aacute;speros<br \/>\n    da incerteza e os macios da prosperidade.<\/p>\n<p>Esta retrospec&ccedil;&atilde;o agradou-lhe; fixou v&aacute;rios per&iacute;odos.<\/p>\n<p>O tempo em que morara em um sobradinho do beco de Bragan&ccedil;a, sombreado<br \/>\n    pelo beiral muito estendido do telhado coberto de ervagem e pela sacada de<br \/>\n    r&oacute;tula de um verde sujo.<\/p>\n<p>Embaixo e defronte, caixoteiros, martelavam em t&aacute;buas de pinho, cujo<br \/>\n    cheiro dava ao beco imundo uma baforada fresca de floresta. E as marteladas<br \/>\n    que lhe importavam, se poucas horas estava em casa! De dia o trabalho; de<br \/>\n    noite o teatro ou a casa da Sid&ocirc;nia. Que seria feito da Sid&ocirc;nia?<br \/>\n    Devia estar por a&iacute; em qualquer canto&#8230; e velha.<\/p>\n<p>Aos domingos na ch&aacute;cara do Matos, o solo, os jantares &agrave; portuguesa,<br \/>\n    e a hospitalidade paciente da boa D. Vica&#8230; Tudo lhe girava na mem&oacute;ria,<br \/>\n    suavemente, suavemente.<\/p>\n<p>Fora no conforto daquela ch&aacute;cara, vendo-se cercado de considera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ao lado do amigo respousado e feliz, que ele sentiu a sua import&acirc;ncia<br \/>\n    e se lembrou que deveria haver na terra outras del&iacute;cias; mas o seu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, cansado de uma luta formid&aacute;vel, negava-lhe novas<br \/>\n    inclina&ccedil;&otilde;es. A p&aacute;tria esquecida n&atilde;o lhe acenava<br \/>\n    com o m&iacute;nimo encanto: a m&atilde;e morrera, a sua &uacute;nica irm&atilde;<br \/>\n    tinha-se recolhido a um convento. Fechara-se uma porta sobre a sua meninice.<\/p>\n<p>Sentia-se s&oacute;; come&ccedil;ava a cansar-se e a enjoar as mulheres f&aacute;ceis,<br \/>\n    com quem convivia em rela&ccedil;&otilde;es moment&acirc;neas. Mesmo a Sid&ocirc;nia<br \/>\n    enervava-o com os seus arrufos&#8230; e as suas denguices.<\/p>\n<p>Atirou-se a proteger as institui&ccedil;&otilde;es do seu pa&iacute;s, a<br \/>\n    andar com medalh&otilde;es e fazer mordomias na Benefici&ecirc;ncia. No fundo,<br \/>\n    n&atilde;o era s&oacute; a distra&ccedil;&atilde;o que ele buscava, nem a<br \/>\n    caridade que ele exercia; uma outra causa lhe filtrava nalma aquela voca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para o beneficio&#8230;<\/p>\n<p>E a comenda chegou.<\/p>\n<p>Foi s&oacute; depois de comendador que Teodoro se sentiu vexado daquela habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e se mudou para um segundo andar da rua da Candel&aacute;ria, que mobiliou<br \/>\n    a vinh&aacute;tico, com exuber&acirc;ncia de cromos pelas paredes. Achou,<br \/>\n    ainda assim, que &agrave; sua casa alegre faltava qualquer coisa&#8230;<\/p>\n<p>Viera-lhe a dispepsia. Que ins&ocirc;nias!<\/p>\n<p>Um m&eacute;dico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem a terra ou o casamento,<br \/>\n    para a regulariza&ccedil;&atilde;o de h&aacute;bitos. Ele achara cedo para<br \/>\n    a viagem: solidificaria primeiro a fortuna. A id&eacute;ia do casamento parecia-lhe<br \/>\n    mais salvadora.<\/p>\n<p>Para que lhe serviria o que juntara, se o n&atilde;o compartilhasse com uma<br \/>\n    esposa dedicada e meia d&uacute;zia de filhos que lhe herdassem virtudes e<br \/>\n    haveres?<\/p>\n<p>No seu sonho come&ccedil;ou a esbo&ccedil;ar-se a id&eacute;ia de um herdeiro.<br \/>\n    Teria um rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e fosse, sobretudo, um continuador daquela casa da rua de S. Bento, que engrandeceria<br \/>\n    com o seu prest&iacute;gio, a sua mocidade, bem assente no apoio e na experi&ecirc;ncia<br \/>\n    paterna. O filho seria a sua est&aacute;tua viva, nele reviveria, mais perfeito<br \/>\n    e melhor. Esse ao menos teria inf&acirc;ncia, seria instru&iacute;do.<\/p>\n<p>E tanto aquela id&eacute;ia o perseguia, que num domingo de sol abriu-se<br \/>\n    ao Matos, que acolheu com ar solene e discreto as confid&ecirc;ncias do amigo.<\/p>\n<p>Lembrava-se muito bem da cara com que o outro lhe respondera:<\/p>\n<p>&#8211; Sei o que voc&ecirc; quer. Tivemos aqui na vizinhan&ccedil;a uma fam&iacute;lia<br \/>\n    que est&aacute; mesmo ao pintar&#8230; Gente pobre, mas de educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A filha mais velha &eacute; a que lhe conv&eacute;m. Bonita e grave. Muito<br \/>\n    digna.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Pois uma mulher assim &eacute; que me servia.<\/p>\n<p>&#8211; O diabo &eacute; que elas v&atilde;o de mudan&ccedil;a para Sergipe&#8230;<\/p>\n<p>Ent&atilde;o acabou-se.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se acabou tal. Por enquanto est&atilde;o hospedadas em casa<br \/>\n    de umas tias, no Castelo. Ainda &eacute; tempo de l&aacute; irmos fazer uma<br \/>\n    visita&#8230; O resto fica por minha conta.<\/p>\n<p>Foi por uma noite escura que ele, j&aacute; mais por condescend&ecirc;ncia<br \/>\n    que por curiosidade, entrou com o Matos na casa das senhoras Rodrigues, no<br \/>\n    morro do Castelo.<\/p>\n<p>Fazia frio; na rua um c&atilde;o uivava longa, doloridamente.<\/p>\n<p>Quem abriu a porta foi a mais velha das donas da casa, d. Itelvina. senhora<br \/>\n    alta e seca, muito nariguda, vestida de l&atilde;s pardas. Os outros ainda<br \/>\n    se cumprimentavam e j&aacute; ela se sentava, erguendo o joelho agudo sob<br \/>\n    a costura. N&atilde;o tinha tempo a perder.<\/p>\n<p>A outra senhora da casa andava por fora; Teodoro conhecera-a depois. Essa<br \/>\n    era toda confiante e muito religiosa. Tinha ido &agrave; novena do Carmo com<br \/>\n    as duas sobrinhas mais mo&ccedil;as e o irm&atilde;o, o velho Rodrigues.<\/p>\n<p>Em uma sala vasta, quase nua, mal clareada por um lampi&atilde;o de querosene,<br \/>\n    viu Teodoro, pela primeira vez, d. Em&iacute;lia, uma senhora bonita, de ar<br \/>\n    majestoso e olhos tr&ecirc;fegos, e as suas duas filhas mais velhas &#8211; Camila<br \/>\n    e Sofia.<\/p>\n<p>Camila fazia croch&ecirc; perto do lampi&atilde;o; Sofia refugiara-se para<br \/>\n    um canto do canap&eacute;. queixando-se da cabe&ccedil;a. E a m&atilde;e come&ccedil;ou<br \/>\n    a falar com ar de sinceridade, muito demonstrativa. A cada instante o nome<br \/>\n    de Camila saia-lhe da boca com um elogio. Era a filha mais velha e a mais<br \/>\n    instru&iacute;da: pilhara os tempos das vacas gordas, quando o pai exercia<br \/>\n    um cargo lucrativo.<\/p>\n<p>Os dedos de Camila apressavam-se no croch&ecirc;; com certeza ela havia de<br \/>\n    ter errado os pontos e sentido os olhares de Teodoro queimarem-lhe a pele,<br \/>\n    que a tinha linda, de uma alvura azul de cam&eacute;lia.<\/p>\n<p>D. Em&iacute;lia asseverava que a sua Mila, como a chamavam em casa, esquecia-se<br \/>\n    das suas prendas, obrigadas pela necessidade a fazer servi&ccedil;os dom&eacute;sticos.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro comoveu-se com a id&eacute;ia de que aquela mulher, talhada<br \/>\n    para rainha, passasse os dias a picar os dedos na agulha ou a calejar as m&atilde;os<br \/>\n    com o uso da vassoura ou do ferro.<\/p>\n<p>Trabalhar! trabalhar &eacute; bom para os homens, de pele endurecida e alma<br \/>\n    feita de coragem. Olhou para a mo&ccedil;a com venera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Era bonita, alta, com grandes olhos aveludados, cabelo ondeado preto e uns<br \/>\n    dentes perfeitos, muito brancos, mas que ela mostrava pouco, sorrindo apenas.<br \/>\n    Da irm&atilde; Sofia, na sombra, mal se adivinhavam as fei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A uma das frases, em que a abund&acirc;ncia do amor materno lhe debuxava<br \/>\n    as perfei&ccedil;&otilde;es, Camila saiu de ao p&eacute; da luz e foi para<br \/>\n    a janela olhar para o escuro.<\/p>\n<p>Como correu depressa aquela noite!<\/p>\n<p>Francisco Teodoro saiu tonto. O amigo ria-se: n&atilde;o lhe tinha dito?<br \/>\n    Gabava-se de ser casamenteiro, levaria em breve tudo ao fim.<\/p>\n<p>E dias depois o Matos pedia a m&atilde;o de Camila para o amigo.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou ent&atilde;o a s&eacute;rie de presentes e de visitas. Mila<br \/>\n    tinha sempre o mesmo embara&ccedil;o e a mesma brandura de sorriso.<\/p>\n<p>O que ela ouvia da fam&iacute;lia, n&atilde;o o podia adivinhar Francisco<br \/>\n    Teodoro, que a sentia umas vezes reservada, outras vezes confiante.<\/p>\n<p>Adiou-se a partida para Sergipe; houve doen&ccedil;as em casa, prolonga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do noivado. peregrina&ccedil;&otilde;es de Teodoro por aquele morro do Castelo,<br \/>\n    com raminhos de violetas para a Mila; todas as do&ccedil;uras de namorado&#8230;<\/p>\n<p>Casaram-se em um dia lindo.<\/p>\n<p>Ele dera grandes esmolas aos pobres da igreja; Mila parecia um anjo entre<br \/>\n    nuvens brancas&#8230;<\/p>\n<p>Depois. a fam&iacute;lia partiu para Sergipe. O pai era chocho, mas levava<br \/>\n    a carteira gorda. A m&atilde;e, com o seu modo de rainha destronada, e as<br \/>\n    irm&atilde;s iam bem enroupadas e todas tranq&uuml;ilas sobre o futuro de<br \/>\n    Mila e do filho mais velho, o Joca, por quem Teodoro prometera olhar, e que<br \/>\n    andava por a&iacute;, &agrave;-toa.<\/p>\n<p>A sua maior como&ccedil;&atilde;o fora ao entrar em casa, na rua da Candel&aacute;ria.<br \/>\n    Supusera sempre que ela apalpasse, com sofreguid&atilde;o, todo o seu ninho,<br \/>\n    na alegria de ser a dona, a senhora de tantas coisas compradas para o agasalho<br \/>\n    do seu amor. Mas n&atilde;o: em vez de ir para o interior, Camila fora para<br \/>\n    a sacada. Ele acompanhou-a.<\/p>\n<p>Em frente, os telhados mais baixos sucediam-se irregulares, cortando-se em<br \/>\n    linhas angulosas de um vermelho sujo; as casas, desiguais, acumulavam-se,<br \/>\n    paredes amea&ccedil;ando paredes, janelinhas de s&oacute;t&atilde;os espiando<br \/>\n    as telhas estriadas de limo, de onde emergiam chamin&eacute;s negras e curtas,<br \/>\n    baforando fumo.<\/p>\n<p>Camila murmurava, como quem fala s&oacute;:<\/p>\n<p>&#8211; Se ao menos se visse o mar&#8230;<\/p>\n<p>Disse; e curvava-se para a rua quando a badalada de um sino reboou perto,<br \/>\n    formid&aacute;vel, prolongando-se num som que era como um gemido da cidade<br \/>\n    inteira. Mila ergueu-se com um estreme&ccedil;&atilde;o e voltou para o perfil<br \/>\n    da igreja o olhar est&aacute;tico.<\/p>\n<p>Ele sorrira do susto, enquanto ela dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; alto!<\/p>\n<p>Depois desse, vieram dias tranq&uuml;ilos. A mulher bordava almofadas para<br \/>\n    o sof&aacute; e emoldurava os cromos com musgo e flores secas.<\/p>\n<p>Tinham-se acostumado um ao outro, viviam em paz, quando a Sid&ocirc;nia reapareceu<br \/>\n    na vida de Teodoro, obrigando-o a desvios e infidelidades. Nem a pobre Camila<br \/>\n    desconfiara nunca&#8230; Tamb&eacute;m, nada lhe tinha faltado e j&aacute; devia<br \/>\n    ser um regalo para ela cobrir de boas roupas o seu corpo de neve, ter mesa<br \/>\n    farta, e andar pela cidade atraindo as vistas, no deleite da sua gra&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>Ent&atilde;o iam grandes remessas para Sergipe.<\/p>\n<p>Um sorvedouro, aquela fam&iacute;lia, sempre exalando lam&uacute;rias em<br \/>\n    todas as cartas, na sede insaci&aacute;vel de dinheiro.<\/p>\n<p>Por esse tempo o seu grande desgosto era o cunhado, o Joca, que se lhe metia<br \/>\n    em casa, com os seus maus costumes de vadio. Ele fora o causador de tant&iacute;ssimas<br \/>\n    querelas! E agressivo na sua indol&ecirc;ncia, mal humorado pelas dividas<br \/>\n    do jogo, e ingrato! M&aacute; ra&ccedil;a. Al&eacute;m do mais, pespegara-lhe<br \/>\n    depois com a filha em casa, aquela pobre Nina, t&atilde;o enfezada nos seus<br \/>\n    primeiros tempos, fina como um cani&ccedil;o, e com uma tosse de c&atilde;o,<br \/>\n    que repercutia pelos corredores. Enfim, essa, ao menos, servira depois para<br \/>\n    ajudar Camila a criar as filhas, que o M&aacute;rio, esse j&aacute; ela o<br \/>\n    encontrara forte como um her&oacute;i!.<\/p>\n<p>O M&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>No percurso da Carioca &agrave; praia de Botafogo, Teodoro foi assim reconstruindo<br \/>\n    a sua vida, solidificando-a, pondo-a de p&eacute;. Era com essas mem&oacute;rias<br \/>\n    de fam&iacute;lia e de trabalho, que ele se entrincheiraria contra os assaltos<br \/>\n    das novas ambi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O mar, muito azul, paletado de ouro aqui, desenhava j&aacute; acol&aacute;<br \/>\n    em grandes sombras negras o perfil dos morros. Uma aragem forte sacudia as<br \/>\n    &aacute;rvores, e folhas vinham redemoinhando no ar em v&ocirc;os tontos.<br \/>\n    Uns pequenos atiravam um c&atilde;o da Terra Nova &agrave; &aacute;gua, e<br \/>\n    as janelas dos palacetes mal se abriam aos esplendores de fora.<\/p>\n<p>Perto do col&eacute;gio, subiram para o bonde duas irm&atilde;s de caridade,<br \/>\n    com ramalhetes de rosas. Teodoro conhecia-as, eram professoras da filha, e<br \/>\n    distinguiam-no sempre, por sab&ecirc;-lo religioso. Iam levar &agrave; ermida<br \/>\n    da Copacabana aquelas flores, prometidas pela salva&ccedil;&atilde;o de uma<br \/>\n    aluna, que estivera &agrave;s portas da morte.<\/p>\n<p>Uma conversa simples, em dois minutos, foi como b&aacute;lsamo para o esp&iacute;rito<br \/>\n    fatigado do negociante.<\/p>\n<p>Demais, ele achou bonito, comovedor aquilo: uma crian&ccedil;a &agrave;s<br \/>\n    portas da morte, duas religiosas, um ramo de flores e a vis&atilde;o de uma<br \/>\n    ermida sobre o mar&#8230;<\/p>\n<p>Quando Francisco Teodoro chegou &agrave; casa, as suas filhas g&ecirc;meas,<br \/>\n    Raquel e Lia, brincavam na ch&aacute;cara. Ao v&ecirc;-lo abrir o port&atilde;o,<br \/>\n    as crian&ccedil;as atiraram-se para ele, que mal lhes passou os dedos pelos<br \/>\n    cabelos; elas tamb&eacute;m pouco se detiveram e Teodoro atravessou o jardim.<\/p>\n<p>O seu palacete era um dos mais lindos de Botafogo. No centro de um parque,<br \/>\n    ele erguia os seus balc&otilde;es por entre palmas estreladas de coqueiros<br \/>\n    e copas de &aacute;rvores bem escolhidas. Aquilo n&atilde;o fora obra sua;<br \/>\n    tinha comprado a vivenda a um titular de gosto, cuja ru&iacute;na o obrigara<br \/>\n    a hipotec&aacute;-la quando a constru&ccedil;&atilde;o ia em meio e a vend&ecirc;-la<br \/>\n    logo depois de conclu&iacute;da.<\/p>\n<p>A esquerda, uma escada de pedra, ladeada por uma grade florida, conduzia<br \/>\n    ao terra&ccedil;o alpendrado do andar superior, onde muitas vezes a fam&iacute;lia<br \/>\n    palestrava, &agrave; espera de descer para o jantar. Nessa tarde s&oacute;<br \/>\n    estava ali o filho mais velho, o M&aacute;rio, todo derreado numa cadeira<br \/>\n    de balan&ccedil;o. O pai foi andando, e ele mal esbo&ccedil;ou um movimento<br \/>\n    para levantar-se e dar-lhe as boas tardes.<\/p>\n<p>Era j&aacute; homem, muito mo&ccedil;o ainda, e todo ele revelava preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de luxo e cuidado da sua pessoa.<\/p>\n<p>Na sala da frente falava-se com alegria.<\/p>\n<p>&#8211; Temos visitas &#8211; pensou Teodoro, vendo chap&eacute;us de homem no cabide<br \/>\n    da saleta.<\/p>\n<p>Quando ele entrou na sala, a mulher dizia &agrave; filha:<\/p>\n<p>&#8211; Vai ensaiar, Ruth!<\/p>\n<p>A seu lado, sentado no mesmo div&atilde;, o dr. Gerv&aacute;sio Gomes desenhava<br \/>\n    a l&aacute;pis na carteira qualquer coisa que a fazia sorrir. Ele gabava-se<br \/>\n    de ter jeito para a caricatura. Era um homem magro, nervoso, de quarenta e<br \/>\n    tr&ecirc;s anos, trigueiro, e apurado na toilette. Era ligeiramente calvo,<br \/>\n    tinha um olhar de que as lentes de m&iacute;ope n&atilde;o atenuavam a agudeza,<br \/>\n    e um sorrizinho ir&ocirc;nico, que lhe mostrava os dentes claros e mi&uacute;dos<br \/>\n    como os dos roedores.<\/p>\n<p>Camila guardava um vi&ccedil;o prodigioso de mocidade. Todo o Rio a apontava<br \/>\n    como mulher formosa. Tinha herdado da m&atilde;e aquele ar de majestade, que<br \/>\n    tanto impressionara Teodoro na primeira entrevista do Castelo, ado&ccedil;ado<br \/>\n    por uma grande express&atilde;o de calma e de bondade.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro foi direito a eles e cumprimentou-os, sem se atrever a<br \/>\n    ro&ccedil;ar os l&aacute;bios na face da mulher, com todo o escrupuloso pudor<br \/>\n    das suas a&ccedil;&otilde;es em fam&iacute;lia. Sentava-se j&aacute;, quando<br \/>\n    ela lhe disse com leve censura:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o cumprimenta o capit&atilde;o Rino nem o maestro?<\/p>\n<p>Os outros estavam ao canto da sala, junto ao piano para onde Ruth se dirigia<br \/>\n    com o violino na m&atilde;o. Pedidas as desculpas, Teodoro voltou-se para<br \/>\n    o capit&atilde;o Rino:<\/p>\n<p>&#8211; Muito me alegro de o ver aqui, capit&atilde;o; quando chegou da sua viagem?<\/p>\n<p>&#8211; Ontem.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o imagina, interrompeu Camila; o capit&atilde;o trouxe-me<br \/>\n    um presente lind&iacute;ssimo!<\/p>\n<p>&#8211; Que foi? perguntou a meia voz o dr. Gerv&aacute;sio.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro enxugava com o len&ccedil;o a calva rosada e luzidia. Mila,<br \/>\n    voltando-se para o m&eacute;dico, explicou:<\/p>\n<p>&#8211; Uma cole&ccedil;&atilde;o de orqu&iacute;deas do Amazonas; e prometeu mandar<br \/>\n    vir para o lago uma Vit&oacute;ria R&eacute;gia.<\/p>\n<p>O doutor murmurou por entre dentes, em tom que s&oacute; Camila pudesse ouvir:<\/p>\n<p>&#8211; Isso de prometer &eacute; que n&atilde;o &eacute; bonito&#8230;<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a relanceou-lhe um olhar, como a pedir miseric&oacute;rdia para<br \/>\n    o outro, que palestrava agora com o dono da casa. &#8211; N&atilde;o era bonito,<br \/>\n    por que?!<\/p>\n<p>O capit&atilde;o Rino destacava-se entre todos na sala pelo seu tipo de louro<br \/>\n    e pela robustez do seu corpo. Era alto, de ombros largos. Tinha as m&atilde;os<br \/>\n    grandes, os olhos claros, de um azul de faian&ccedil;a, o bigode sedoso, como<br \/>\n    que acabado de nascer, e a pele queimada pelos ventos do mar. S&oacute; se<br \/>\n    lhe percebia a alvura da tez nos pulsos ou na raiz do pesco&ccedil;o, quando<br \/>\n    ele atirava a cabe&ccedil;a e os bra&ccedil;os nos seus gestos largos e desajeitados.<br \/>\n    Havia qualquer coisa de infantil naquele homem grande, uma interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&iacute;mida talvez no olhar, e um certo abandono, de pessoa pouco afeita<br \/>\n    &agrave; sociedade. Vestia-se mal, usava gravatas de cores vistosas, abusando<br \/>\n    do xadrez nos seus casacos de casimira mal feitos.<\/p>\n<p>Ruth p&ocirc;s-se em atitude; a m&atilde;e gritou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Imagina que est&aacute;s diante do audit&oacute;rio!<\/p>\n<p>Ela pareceu n&atilde;o a ouvir. Em p&eacute;, ao lado do piano, alta e espigada,<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a unida ao seu ombro estreito de menina, os cabelos negros<br \/>\n    caindo-lhe em ondas sobre o pesco&ccedil;o moreno, os olhos de um verde l&iacute;mpido,<br \/>\n    de &aacute;gua marinha, abertos para o v&aacute;cuo, tinha um ar de son&acirc;mbula<br \/>\n    perdida em sonhos divinos. As m&atilde;os, longas e esguias, moviam-se com<br \/>\n    seguran&ccedil;a; o vestido branco, salpicado de florinhas amarelas, mostrava-lhe<br \/>\n    um pouco das pernas finas, cal&ccedil;adas a preto.<\/p>\n<p>O L&eacute;lio Braga, rec&eacute;m-chegado da Alemanha, o gordo maestro que<br \/>\n    s&oacute; falava de m&uacute;sica ou de jogo, atacou o teclado vigorosamente.<br \/>\n    Fez-se o sil&ecirc;ncio em volta, mas por pouco tempo. Recome&ccedil;aram<br \/>\n    as conversas em tom mais baixo. Ruth n&atilde;o ouvia ningu&eacute;m; um brilho<br \/>\n    quente. de sol, saia-lhe dos olhos verdes, voltados para a luz.<\/p>\n<p>S&oacute; o capit&atilde;o Rino parecia escutar a m&uacute;sica, olhando<br \/>\n    de esguelha para Camila. Abominava a confian&ccedil;a que ela dava ao outro,<br \/>\n    ao magro dr. Gerv&aacute;sio, ali t&atilde;o agarrado &agrave;s suas saias,<br \/>\n    dizendo-lhe coisas que a faziam sorrir. Tudo naquele homem o irritava: o seu<br \/>\n    luxo, o seu tipo escanifrado e o seu ar de ironia, &agrave;s vezes perversa.<br \/>\n    outras insulsa.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, nunca interessado por coisas de arte, nem mesmo pela m&uacute;sica,<br \/>\n    quebrava ami&uacute;de as reflex&otilde;es do capit&atilde;o Rino, interrogando-o<br \/>\n    sobre assuntos do Norte, de puro interesse comercial.<\/p>\n<p>Ainda vibrava no ar a &uacute;ltima nota do violino, quando Nina, sobrinha<br \/>\n    dos donos da casa, entrou na sala, com o seu modo simples que a tornava simp&aacute;tica<br \/>\n    a toda a gente. N&atilde;o era bonita: tinha o nariz grosso e alguns sinais<br \/>\n    alourados na pele p&aacute;lida.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; viu as parasitas? perguntou-lhe Camila.<\/p>\n<p>&#8211; Sim; e, voltando-se para o capit&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Devemos conserv&aacute;-las ao ar livre ou na estufa?<\/p>\n<p>O capit&atilde;o fez um gesto de ignor&acirc;ncia.<\/p>\n<p>S&oacute; &agrave; hora do jantar, M&aacute;rio se reuniu &agrave; fam&iacute;lia.<br \/>\n    A mesa, cheia de cristais e de prataria, tinha um aspecto festivo.<\/p>\n<p>O dinheiro ganho &agrave; custa de trabalho gosta de impor-se a admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alheia. O dono da casa, refrescado no palet&oacute; de brim, n&atilde;o se<br \/>\n    cansava de elogiar os seus vinhos e aludia ami&uacute;de &agrave; excel&ecirc;ncia<br \/>\n    do cozinheiro.<\/p>\n<p>Se algu&eacute;m se esquivava a um copo de Bordeaux ou a um c&aacute;lice<br \/>\n    de velho Madeira, ele acudia animadoramente: &#8211; Beba, que esse &eacute; leg&iacute;timo;<br \/>\n    igual n&atilde;o se encontra com facilidade por ai.<\/p>\n<p>Havia sempre excesso de iguarias; voltavam para dentro pratos complicados<br \/>\n    intactos. A fartura passava ao desperd&iacute;cio. A copa atulhava-se de pe&ccedil;as<br \/>\n    grandes, em que as folhas de alface e os desenhos a rodas de lim&atilde;o,<br \/>\n    de ovo, azeitonas e gelatina n&atilde;o disfar&ccedil;avam a opul&ecirc;ncia<br \/>\n    das carnes.<\/p>\n<p>&Agrave; cabeceira da mesa, Francisco Teodoro gostava de, espalhando a vista<br \/>\n    por toda a longa superf&iacute;cie branca da toalha, v&ecirc;-la bem coberta<br \/>\n    de coisas caras e vistosas. Assim comia com apetite, gostosamente. Era o seu<br \/>\n    triunfo na vida, que todo esse luxo representava, na &uacute;nica ocasi&atilde;o<br \/>\n    em que lhe sobrava tempo para admir&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Os convivas eram instados para que comessem mais, comessem sempre! Com o<br \/>\n    dr. Gerv&aacute;sio havia menos inst&acirc;ncias: conheciam-lhe os h&aacute;bitos<br \/>\n    de homem delicado. O capit&atilde;o Rino era muito mais mo&ccedil;o e trazia<br \/>\n    da sua vida de mar valentias de est&ocirc;mago.<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as comiam &agrave; mesa, dirigidas por Nina, e faziam algazarra<br \/>\n    e exig&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>M&aacute;rio repreendia-as. achando intoler&aacute;vel que o pai consentisse<br \/>\n    aquilo!<\/p>\n<p>&#8211; O nome do seu vapor &eacute;&#8230;? perguntou ao capit&atilde;o o dr. Gerv&aacute;sio,<br \/>\n    ajeitando a luneta no nariz.<\/p>\n<p>&#8211; Netuno.<\/p>\n<p>&#8211; Amado de Anfitrite e das nereidas. O patrono deve p&ocirc;r-lhe em perigo<br \/>\n    o sossego&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por que?<\/p>\n<p>&#8211; Porque assim mo&ccedil;o, bonito, e com tal sugest&atilde;o, de forte envergadura<br \/>\n    precisa o senhor para resistir as sedu&ccedil;&otilde;es das sereias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que ningu&eacute;m viu nunca em mares brasileiros; respondeu o capit&atilde;o<br \/>\n    ingenuamente.<\/p>\n<p>&#8211; Convir&aacute; n&atilde;o afirmar que n&atilde;o as haja tamb&eacute;m<br \/>\n    em terras do Brasil, sublimou o doutor com um sorrizinho, descendo o olhar<br \/>\n    para a pera que descascava.<\/p>\n<p>Riram-se do embara&ccedil;o do capit&atilde;o, que murmurou, desviando a<br \/>\n    vista de Camila:<\/p>\n<p>&#8211; Os cantos das sereias n&atilde;o me seduziriam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois &eacute; pena; sem imagina&ccedil;&atilde;o a vida do mar n&atilde;o<br \/>\n    pode ter encantos. Se eu, em vez de m&eacute;dico, obrigado a deter-me com<br \/>\n    o que h&aacute; de mais prosaico na natureza. fosse&#8230; o capit&atilde;o do<br \/>\n    navio&#8230; perd&atilde;o. do vapor Netuno, apegar-me-ia &agrave; mitologia,<br \/>\n    faria dos seus deuses a minha florida e alegre religi&atilde;o, e afirmo que<br \/>\n    seriam de gozo para mim as noitadas no conv&eacute;s, vendo ao clar&atilde;o<br \/>\n    das estrelas V&ecirc;nus surgir das espumas e boiarem &agrave; tona da onda<br \/>\n    negra os dorsos brancos das cinq&uuml;enta filhas de Nereu. Estou certo de<br \/>\n    que n&atilde;o sentiria a tal melancolia das &aacute;guas, de que &agrave;s<br \/>\n    vezes os senhores se queixam. Um homem de esp&iacute;rito nunca est&aacute;<br \/>\n    s&oacute;&#8230;<\/p>\n<p>O capit&atilde;o sorriu e Francisco Teodoro falou com o seu modo sentencioso:<\/p>\n<p>&#8211; Eles gozam a seu modo.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o gozamos, n&atilde;o; a vida do mar &eacute; dura.<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio n&atilde;o pode sentir com sinceridade o que disse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assevero-lhe que sim, capit&atilde;o; e que parti de um princ&iacute;pio<br \/>\n    de que parto para todos os atos da vida, convicto de que est&aacute; no pr&oacute;prio<br \/>\n    homem o rem&eacute;dio dos grandes males que o afligem.<\/p>\n<p>&#8211; Se vai dizer isso ao p&eacute; dos seus doentes, ningu&eacute;m mais o<br \/>\n    chamar&aacute;, replicou Camila.<\/p>\n<p>&#8211; Chamar&atilde;o; infelizmente chamam sempre. Ningu&eacute;m tem absoluta<br \/>\n    confian&ccedil;a em si. O homem, por mais que digam, ignora a for&ccedil;a<br \/>\n    de que vem revestido para a sua fun&ccedil;&atilde;o. Para n&oacute;s, a natureza<br \/>\n    representa apenas o papel secund&aacute;rio da paisagem; &eacute; o acess&oacute;rio,<br \/>\n    a mise-en-sc&egrave;ne da Vida, em que nos atormentamos mutuamente num alarido<br \/>\n    de inferno: N&atilde;o valia a pena criar coisas t&atilde;o bonitas para serem<br \/>\n    t&atilde;o mal aproveitadas. Palavra de honra! se fosse poss&iacute;vel conceber<br \/>\n    o riso, ou apenas o sorriso na face tremenda do Onipotente, eu diria que Ele<br \/>\n    &agrave;s vezes escarnece de n&oacute;s. A sua sa&uacute;de, capit&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um dia meto-me no seu Netuno e atiro-me para o Norte. Curiosidade, simplesmente;<br \/>\n    tenho mais vontade de ver os crocodilos do Amazonas do que&#8230; eu sei l&aacute;,<br \/>\n    as bailarinas da Grande &Oacute;pera.<\/p>\n<p>&#8211; Homem, dizem que a carne do crocodilo &eacute; boa, disse Francisco Teodoro.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; tamb&eacute;m quem afirme que a das bailarinas ainda &eacute;<br \/>\n    melhor! observou o m&eacute;dico.<\/p>\n<p>Camila riu-se; e depois:<\/p>\n<p>&#8211; E eu que nunca vi um grande vapor por dentro!<\/p>\n<p>&#8211; Quer ir comigo a Manaus?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; mas quero que o capit&atilde;o Rino nos convide para visitar<br \/>\n    o Netuno.<\/p>\n<p>O mo&ccedil;o mar&iacute;timo balbuciou, corando:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>Interrompeu a frase, porque ia dizer: &#8211; eu n&atilde;o desejo outra coisa!<br \/>\n    mas achou mais acertado e mais simples acrescentar somente: &#8211; quando quiser.<\/p>\n<p>&#8211; Ser&aacute; num domingo, para que meu marido v&aacute; tamb&eacute;m. E<br \/>\n    as crian&ccedil;as poder&atilde;o ir?<\/p>\n<p>&#8211; Por que n&atilde;o?<\/p>\n<p>Lia e Rachei bateram palmas.<\/p>\n<p>Ao caf&eacute;, no terra&ccedil;o, Camila declarou preparar um grande baile<br \/>\n    para o S. Jo&atilde;o, quando Ruth completasse os seus quinze anos.<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio protestou: que viesse o baile, mas com outro pretexto.<\/p>\n<p>&#8211; Por que?<\/p>\n<p>&#8211; Porque a noitada de S. Jo&atilde;o mete medo &agrave;s casacas e assusta<br \/>\n    os decotes. &Eacute; um santo que s&oacute; quer luz de fogueiras, com altas<br \/>\n    labaredas e crepita&ccedil;&otilde;es, e ainda h&aacute; de ser no campo,<br \/>\n    entre gente rude que dance em torno &agrave;s chamas.<\/p>\n<p>&Eacute; uma festa que me d&aacute; id&eacute;ia de uma cerim&ocirc;nia ritual,<br \/>\n    de povo primitivo. Deixe o seu baile para outro dia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas depois eu n&atilde;o terei pretexto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! n&atilde;o &eacute; preciso descer uma pessoa a dar explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    aos amigos, quando se trata de os divertir&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro ouvia o dr. Gerv&aacute;sio com muito acatamento, reconhecendo-lhe<br \/>\n    superioridade intelectual.<\/p>\n<p>Devia-lhe a vida dos filhos, confessava, e dessa d&iacute;vida n&atilde;o<br \/>\n    se cansava de se dizer devedor.<\/p>\n<p>Aprovou a id&eacute;ia do baile, fizessem o que quisessem, a bolsa estava<br \/>\n    aberta. E a prop&oacute;sito, deixando os outros a tagarelar no terra&ccedil;o,<br \/>\n    ele fechou os olhos e pensou na felicidade do Gama Torres&#8230; Quem sabe?&#8230;<br \/>\n    talvez que ele pudesse fazer o mesmo; a &eacute;poca era favor&aacute;vel,<br \/>\n    o caf&eacute; rendia como nunca e ainda havia esperan&ccedil;as de alta&#8230;<br \/>\n    Se fugisse aquela ocasi&atilde;o&#8230; perderia o ensejo de triplicar de um dia<br \/>\n    para o outro a sua j&aacute; grande fortuna&#8230; Fora sempre um homem de a&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de recursos, como ficar na retaguarda, imbecilmente, deixando que a outro,<br \/>\n    novato, se conferisse o t&iacute;tulo de Rottschild brasileiro? O ci&uacute;me<br \/>\n    do seu nome de negociante enchia-o at&eacute; aos olhos. Encadeou e desencadeou<br \/>\n    pensamentos calculistas.<\/p>\n<p>Ter a maior fortuna, tendo partido do nada, era toda a sua ambi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Repetia a qualquer a humildade da sua origem, espreitando o efeito dessa confiss&atilde;o.<br \/>\n    Ser o mais poderoso, o mais rico, o mais forte, tendo partido do nada, n&atilde;o<br \/>\n    seria ter alcan&ccedil;ado a suprema gl&oacute;ria na terra?<\/p>\n<p>E, ali mesmo, bem recostado na sua cadeira de balan&ccedil;o, com o papo<br \/>\n    cheio de &oacute;timas iguarias, as m&atilde;os descansadas nos bra&ccedil;os<br \/>\n    da cadeira, ele insensivelmente passou do sonho ao sono.<\/p>\n<p>Na meia sombra do lusco-fusco, os olhos do capit&atilde;o Rino fulguravam,<br \/>\n    espiando com raiva os rostos do m&eacute;dico e de Camila, que se contemplavam.<br \/>\n    M&aacute;rio atravessou o terra&ccedil;o de charuto na boca, em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; rua.<\/p>\n<p>&#8211; Onde vais? perguntou-lhe a m&atilde;e.<\/p>\n<p>&#8211; Ao teatro; respondeu ele sem se deter. descendo a escada.<\/p>\n<p>&#8211; Este rapaz&#8230; este rapaz&#8230; resmungou por entre dentes o dr. Gerv&aacute;sio,<br \/>\n    em modo de censura.<\/p>\n<p>Camila desculpou-o; o filho tinha g&ecirc;nio e era muito independente. N&atilde;o<br \/>\n    queria contrari&aacute;-lo; para qu&ecirc;? a vida &eacute; curta, cedo viriam<br \/>\n    as amofina&ccedil;&otilde;es. O ju&iacute;zo havia de vir com a idade&#8230;<\/p>\n<p>Em baixo, no jardim, entre os grupos rescendentes de heliotropo e de jasmins<br \/>\n    do Cabo, as crian&ccedil;as e Ruth faziam roda &agrave; Noca, mulata antiga<br \/>\n    na fam&iacute;lia, que lhes contava hist&oacute;rias de fadas e de pr&iacute;ncipes<br \/>\n    encantados. Vendo M&aacute;rio dirigir-se para o port&atilde;o, a mulata chamou-o<br \/>\n    com familiaridade de amiga velha:<\/p>\n<p>&#8211; Seu M&aacute;rio, escuta aqui!<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute;, Noca?<\/p>\n<p>&#8211; Onde &eacute; que vai?<\/p>\n<p>&#8211; Se eu n&atilde;o morrer pelo caminho, hei de chegar ao teatro.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o morre; eu ainda esta noite sonhei que v. estava amortalhado<br \/>\n    e que d. Nina chorava sangue&#8230; Sonhar com morte &eacute; sinal de sa&uacute;de.<br \/>\n    Traga umas balas para mim.<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; esperando.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o Rino despediu-se e desceu tamb&eacute;m para a rua, ouvindo<br \/>\n    a voz da Noca recome&ccedil;ar numa melop&eacute;ia:<\/p>\n<p>&quot;Minha varinha de cond&atilde;o, pelo poder que Deus vos deu, fazei&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Nina, encostada &agrave; grade, via M&aacute;rio afastar-se; e l&aacute;<br \/>\n    em cima, no terra&ccedil;o, ao lado do marido adormecido, Camila curvou-se<br \/>\n    para o dr. Gerv&aacute;sio e beijou-o na boca.<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">III<\/a><\/h4>\n<p>Com pregui&ccedil;a de ir visitar as velhas tias do Castelo, Camila mandava<br \/>\n    &agrave;s vezes as filhas pequenas abra&ccedil;&aacute;-las em seu nome, em<br \/>\n    companhia da Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto<br \/>\n    do morro, muito antiga, com janelas de guilhotina e paredes encardidas. D.<br \/>\n    Itelvina raramente punha os p&eacute;s na rua, e era tida como a criatura<br \/>\n    mais sovina do bairro. A outra, d. Joana, pouco parava ali, sempre voltada<br \/>\n    para Deus. Era vi&uacute;va de um colchoeiro rico, morto de anasarca, de quem<br \/>\n    sofrera os maus tratos que, na inconsci&ecirc;ncia das bebedeiras, ele lhe<br \/>\n    ministrava.<\/p>\n<p>Viviam as duas, desde crian&ccedil;as, na mesma casa. heran&ccedil;a dos<br \/>\n    pais, conservando os seus h&aacute;bitos de vida mesquinha, amando ideais<br \/>\n    diversos: uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo<br \/>\n    o prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as m&atilde;os apalpam,<br \/>\n    e para a outra s&oacute; em querer bens dos c&eacute;u, com que a alma sonha.<\/p>\n<p>Nada sorria naquela habita&ccedil;&atilde;o &aacute;rida e velha. No quintal,<br \/>\n    nem um canteiro de flores; uma horta raqu&iacute;tica a um canto, algumas<br \/>\n    laranjeiras e um coradouro de grama pisada e sem vi&ccedil;o, estendendo-se<br \/>\n    ao lado de um tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro,<br \/>\n    o mesmo desconforto: salas com poucos m&oacute;veis e esses antiq&uuml;&iacute;ssimos,<br \/>\n    alcovas vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado<br \/>\n    na lenha.<\/p>\n<p>D. Itelvina percebia bem que para conserva&ccedil;&atilde;o daquela casa<br \/>\n    deveria fazer-lhe grandes consertos; mas queria obter da irm&atilde; que os<br \/>\n    fizesse todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo.<\/p>\n<p>A irm&atilde; &eacute; que n&atilde;o olhava para os buracos dos ratos e<br \/>\n    pouco lhe importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Cristo<br \/>\n    do seu orat&oacute;rio estivessem alumiados, a sua alma em gra&ccedil;a, e<br \/>\n    que ela pudesse fazer todas as semanas as suas confiss&otilde;es aos frades<br \/>\n    capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora ap&aacute;tica, gorda,<br \/>\n    de uma brancura an&ecirc;mica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabelo<br \/>\n    grisalho, curto, que ela cobria com uma touca preta de folhos encrespados.<br \/>\n    A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os p&eacute;s largos cal&ccedil;ados<br \/>\n    em duraque, e nas m&atilde;os finas e cor de leite tinha, ora o livro de ora&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de folhas j&aacute; denegridas nos &acirc;ngulos, ora um ros&aacute;rio de<br \/>\n    &acirc;mbar benzido pelo bispo.<\/p>\n<p>D. Itelvina n&atilde;o parecia crente. Ningu&eacute;m a vira nunca de joelhos<br \/>\n    em frente ao orat&oacute;rio da irm&atilde;. Nenhum tra&ccedil;o comum lembraria<br \/>\n    a outrem o parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e<br \/>\n    l&aacute;bios finos.<\/p>\n<p>A voz de d. Joana tinha inflex&otilde;es brandas, de alma tranq&uuml;ila;<br \/>\n    a voz de d. Itelvina tinha sibila&ccedil;&otilde;es desafinadas, rouquejava<br \/>\n    ou tinia, como se sa&iacute;sse de &oacute;rg&atilde;os de bronze. Nem as<br \/>\n    duas sabiam se se amavam.<\/p>\n<p>Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que confraterniza<br \/>\n    as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se mutuamente, guiadas pelo<br \/>\n    h&aacute;bito.<\/p>\n<p>Quando Noca bateu &agrave; porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que<br \/>\n    haviam de ser da Sancha, a negrinha &oacute;rf&atilde; que d. Itelvina explorava<br \/>\n    nos arranjos da casa.<\/p>\n<p>Abriu-se uma janela com bulha impaciente e apareceu a cara de d. Itelvina,<br \/>\n    indagando de quem batia.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; &eacute; voc&ecirc;, Noca! espera um pouco, eu j&aacute; vou.<\/p>\n<p>Dentro, a mulata explicou:<\/p>\n<p>&#8211; Nh&acirc; Mila mandou fazer uma visita e saber das senhoras como est&atilde;o&#8230;<br \/>\n    ela n&atilde;o p&ocirc;de vir, porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; sei. Isto &eacute; muito alto&#8230; se fossem as escadas do L&iacute;rico,<br \/>\n    muito que bem!&#8230; casa de pobres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhora! n&atilde;o &eacute; por isso, nem as senhoras s&atilde;o<br \/>\n    pobres! at&eacute; dizem todos o contr&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Dizem? mentiras! mentiras s&oacute;&#8230; Como vai seu Teodoro?<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem.<\/p>\n<p>&#8211; Excelente homem; aquilo &eacute; que foi sorte grande. bem Noca?<\/p>\n<p>&#8211; Foi. sim. senhora; ele &eacute; bom&#8230; tem as suas impertin&ecirc;ncias&#8230;<br \/>\n    mas a gente j&aacute; sabe que &eacute; do g&ecirc;nio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual o qu&ecirc;! Mila deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil uma mo&ccedil;a pobre e sem prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    encontrar um casamento assim!<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; verdade&#8230; Ela tamb&eacute;m &eacute; muito boa.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; se lembra de quando eles moravam na Lapa, que at&eacute; voc&ecirc;<br \/>\n    levava as vezes comida da casa de pasto para dar &agrave;s meninas?<\/p>\n<p>A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que n&atilde;o<br \/>\n    fora da Lapa que ela levava os restos dos jantares da casa de pasto do amigo,<br \/>\n    mas que subira muitas vezes a ladeira do Castelo, com a trouxinha das carnes<br \/>\n    na m&atilde;o, para matar a fome de Mila e das irm&atilde;s, ent&atilde;o<br \/>\n    hospedadas em casa de d. Itelvina.<\/p>\n<p>&#8211; De quem &eacute; que voc&ecirc; matava a fome, Noca? perguntou uma das<br \/>\n    crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>&#8211; De uma vi&uacute;va que j&aacute; morreu, emendou Noca. impelindo as duas<br \/>\n    crian&ccedil;as para o quintal. V&atilde;o ver a vista&#8230; v&atilde;o ver os<br \/>\n    sinais dos vapores&#8230; dizia ela.<\/p>\n<p>D. Itelvina olhou para as duas meninas e n&atilde;o p&ocirc;de conter-se<br \/>\n    que n&atilde;o exclamasse:<\/p>\n<p>&#8211; Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdi&ccedil;ado em vestidos de<br \/>\n    crian&ccedil;as! Mila teve sempre propens&atilde;o para o desperd&iacute;cio&#8230;<br \/>\n    Bonitos aqueles vestidos! onde os compraram?<\/p>\n<p>&#8211; Vieram de Paris&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uhm&#8230; n&atilde;o haviam de ser baratos&#8230; aquilo &eacute; seda, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;, sim, senhora. D. Joana saiu?<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; se sabe! anda pelas igrejas&#8230; Se n&atilde;o fosse eu, n&atilde;o<br \/>\n    sei como havia de ser!&#8230;<\/p>\n<p>Noca reparou, olhando para a alcova do orat&oacute;rio, aberta para a sala,<br \/>\n    que a lamparina estava apagada.<\/p>\n<p>D. Itelvina continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Joaninha s&oacute; vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe fa&ccedil;a<br \/>\n    tudo&#8230; Ela n&atilde;o tem aparecido por l&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ruth por que n&atilde;o veio?<\/p>\n<p>&#8211; Ficou dando li&ccedil;&atilde;o. Ela tocou no concerto e foi muito festejada.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; de lucrar muito com isso&#8230; Aposto em como n&atilde;o sabe ainda<br \/>\n    pregar um remendo ou fazer um vestido.<\/p>\n<p>&#8211; Gra&ccedil;as a Deus, ela n&atilde;o precisa disso!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O futuro o dir&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Credo!<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim. Cada vez bendigo mais a educa&ccedil;&atilde;o que minha m&atilde;e<br \/>\n    nos deu. Havia dias, que era desde manh&atilde; at&eacute; de noite a fazer<br \/>\n    balas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tal! e d. Joana n&atilde;o deu pra outras coisas?<\/p>\n<p>&#8211; Ela sempre foi religiosa, mas depois de vi&uacute;va refinou! E ainda se<br \/>\n    queixa de doente, que tem faltas de respira&ccedil;&atilde;o e pernas inchadas!<\/p>\n<p>&#8211; Coitada!<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha! ela vai daqui a p&eacute; a S&atilde;o Francisco, ao Carmo,<br \/>\n    a Penit&ecirc;ncia, a S. Bento a qualquer igreja da cidade!&#8230; As cinco horas<br \/>\n    j&aacute; est&aacute; nos Capuchinhos; e &agrave; tarde aqui na igreja do<br \/>\n    hospital ela canta com as Irm&atilde;s e com os soldados. E cada ladainha<br \/>\n    que Deus nos acuda!<\/p>\n<p>Algu&eacute;m batia &agrave; porta, e d. Itelvina, tendo espreitado pela<br \/>\n    janela, voltou-se apressada e foi reacender a lamparina do orat&oacute;rio.<\/p>\n<p>Sancha apareceu, com os bei&ccedil;os inchados pelo excesso do choro, e,<br \/>\n    dependurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na sala,<br \/>\n    olhou com ar de queixa muda para a Noca.<\/p>\n<p>A negrinha n&atilde;o teve resposta: a outra disfar&ccedil;ava, contemplando<br \/>\n    as paredes nuas e desbotadas da sala. Pela janela aberta via-se parte de um<br \/>\n    pared&atilde;o desmoronado, e l&aacute; em baixo, em um fundo largo e fresco,<br \/>\n    um trecho de mar muito azul.<\/p>\n<p>D. Joana entrou, arfando de cansa&ccedil;o, e sentou-se logo na primeira<br \/>\n    cadeira, ao p&eacute; da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro<br \/>\n    e os ros&aacute;rios, e sumiu-se, sem ter descerrado os l&aacute;bios nem<br \/>\n    enxugado os olhos vermelhos e inundados.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje a igreja estava repleta; falou monsenhor Nuno&#8230; foi um grande serm&atilde;o,<br \/>\n    de muito proveito e de muita f&eacute;! disse d. Joana, e depois de uma pausa:<br \/>\n    O Noca! Mila n&atilde;o vai nunca &agrave;s solenidades religiosas?<\/p>\n<p>&#8211; Vai todos os domingos &agrave; missa.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! que n&atilde;o deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos.<br \/>\n    A pena que eu tenho &eacute; de me custar tanto a ajoelhar&#8230; estou com as<br \/>\n    pernas cada vez mais inchadas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; cisma, resmungou d. Itelvina, retirando-se para o interior.<br \/>\n    Noca aconselhou logo um rem&eacute;dio prodigioso, benzido com cinco cruzes.<br \/>\n    Ela sabia dessas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a ch&aacute;cara,<br \/>\n    com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras; conhecia-lhes os segredos,<br \/>\n    roubava-lhes os filtros mais sutis e aplicava-os acompanhando-os com ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    especiais dos santos m&aacute;rtires. Era sempre a Noca quem avisava &agrave;s<br \/>\n    pessoas da fam&iacute;lia qual o melhor dia para cortar o cabelo, para fazer<br \/>\n    uma viagem ou para tomar qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia<br \/>\n    os sonhos que lhe contavam, com palavras de convic&ccedil;&atilde;o inabal&aacute;veis.<br \/>\n    Criara todos os filhos de Mila, desde o M&aacute;rio at&eacute; a Biju, a<br \/>\n    pequena mais nova, j&aacute; morta.<\/p>\n<p>Quando ela descia o morro, as crian&ccedil;as queixaram-se de fome e confessaram<br \/>\n    que n&atilde;o queriam voltar a visitar aquelas tias, que n&atilde;o lhes<br \/>\n    davam nada. Nem um bocadinho de p&atilde;o!<\/p>\n<p>Na pra&ccedil;a do Castelo, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de<br \/>\n    nova, brilhando ainda nas tigelas lavadas e no barro das panelas e das moringas<br \/>\n    &agrave; venda, e comprou frutas para as duas meninas.<\/p>\n<p>Portuguesas, de saias curtas e grandes arrecadas de ouro, iam e vinham, parando<br \/>\n    umas &agrave; porta, com pimpolhos ao colo, e outras falando alto, para dentro.<br \/>\n    A dona do neg&oacute;cio respondia a todos, conversando em ar de mexerico<br \/>\n    disfar&ccedil;ado, com a mulata, a quem via pela primeira vez.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora vem morar por aqui?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; vim fazer uma visita.<\/p>\n<p>&#8211; A quem, inda que mal pergunte?<\/p>\n<p>&#8211; As senhoras Rodrigues; conhece?<\/p>\n<p>&#8211; As duas velhotas da travessa de S. Sebasti&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Essas mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o conhe&ccedil;o outra coisa!&#8230; E depois de uma pausa, em que<br \/>\n    procurou conter-se, abalou a falar sem interrup&ccedil;&atilde;o. As senhoras<br \/>\n    Rodrigues eram muito conhecidas no bairro. Diziam que d. Itelvina passava<br \/>\n    horas da noite escavando o quintal, &agrave; procura dos afamados tesouros<br \/>\n    guardados pelos jesu&iacute;tas. Os vizinhos viam uma luz de lanterna movendo-se<br \/>\n    na sombra do p&aacute;tio, rente do ch&atilde;o, e olhavam-na com desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p>A outra era uma beata de igreja e j&aacute; constava que legaria os seus<br \/>\n    haveres ao frei &Acirc;ngelo, dos Capuchinhos. A quitandeira afirmava que<br \/>\n    elas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe comprassem<br \/>\n    nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras!<\/p>\n<p>Quando a Noca atravessava o largo. com uma crian&ccedil;a por cada m&atilde;o,<br \/>\n    para a ladeira do Semin&aacute;rio, sentiu que algu&eacute;m, que viera correndo,<br \/>\n    lhe puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.<\/p>\n<p>&#8211; U&eacute;! que &eacute; que voc&ecirc; quer?<\/p>\n<p>&#8211; Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio<br \/>\n    uma nota de quinhentos r&eacute;is amarrotada e imunda.<\/p>\n<p>&#8211; Que favor, gente?<\/p>\n<p>&#8211; Quando voltar c&aacute;, traga isto de ars&ecirc;nico, disse ela apontando<br \/>\n    o dinheiro que oferecia &agrave; mulata.<\/p>\n<p>&#8211; Ars&ecirc;nico&#8230; pra qu&ecirc;?! voc&ecirc; t&aacute; doida?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pra nada! fa&ccedil;a esta esmola&#8230;<\/p>\n<p>E como Noca n&atilde;o estendesse a m&atilde;o, a negrinha atafulhou-lhe<br \/>\n    o dinheiro, rapidamente, pela gola aberta do vestido, e voltou como uma seta<br \/>\n    para casa.<\/p>\n<p>As cabritas andavam soltas, pastando nas ervas altas; o sol, muito quente,<br \/>\n    alvejava roupas estendidas nas ruas, e na torre repintada dos Capuchinhos<br \/>\n    o sino badalava, convidando &agrave; ora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram em baixo,<br \/>\n    ao largo da M&atilde;e do Bispo, viram M&aacute;rio passar no seu phacton,<br \/>\n    que ele mesmo guiava numa posi&ccedil;&atilde;o correta. O lacaio, sem descruzar<br \/>\n    os bra&ccedil;os, sorriu para as crian&ccedil;as; o mo&ccedil;o passou sem<br \/>\n    reparar nas irm&atilde;s, que ficaram com ar despeitado, agarradas &agrave;<br \/>\n    saia da ama.<\/p>\n<p>O carro de M&aacute;rio rodava j&aacute; pela Guarda Velha, e Noca pensou:<\/p>\n<p>&#8211; Ele vai ali, vai direitinho pra casa da tal Luiza, o diabo da mulher que<br \/>\n    lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver s&oacute;!<\/p>\n<p>O Dion&iacute;sio dizia-lhe que a francesa era bonita e muito chic, e ela<br \/>\n    sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante daquele rapaz que<br \/>\n    embalara nos bra&ccedil;os e cujo corpo redondinho e nu suspendera tantas<br \/>\n    vezes no ar para o fazer rir. E fora uma crian&ccedil;a alegre; agora n&atilde;o<br \/>\n    era; pelo menos em casa mostrava-se t&atilde;o arredio e t&atilde;o s&eacute;rio&#8230;<br \/>\n    Noca suspirou e, depois de um levantar de ombros, prosseguiu nos seus pensamentos:<\/p>\n<p>&#8211; Afinal de contas, faz ele muito bem: a mocidade passa e o dinheiro foi<br \/>\n    inventado para se gastar. Ele gosta dela, acabou-se! Sabe Deus o que o pai<br \/>\n    teria pintado tamb&eacute;m; agora fala e quer dar leis ao cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do filho&#8230; Est&aacute;-se ninando! Aquele! pois sim! Cada um sabe de si&#8230;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a &uacute;nica pessoa que<br \/>\n    percebera aquele segredo fora ela. Sabia, mas calava-se muito bem calada;<br \/>\n    para que arranjar barulhos? Era t&atilde;o boa, a pobre, t&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    de contentar&#8230; Bastava ver os vestidos e os chap&eacute;us que ela usava:<br \/>\n    tudo restos de Mila e de Ruth, que ela fuchicava a seu jeito&#8230; Nunca pedia<br \/>\n    nada, nunca se punha em evid&ecirc;ncia, ningu&eacute;m se lembrava at&eacute;<br \/>\n    quando ela fazia anos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratid&atilde;o<br \/>\n    para com a mo&ccedil;a; mas de quem era a culpa? M&aacute;rio era um rapaz<br \/>\n    rico e de bom gosto, havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista<br \/>\n    numa sala.<\/p>\n<p>Noca adorava o M&aacute;rio; achava-o lindo, com o seu pequeno bu&ccedil;o<br \/>\n    alourado e os seus olhos negros e pestanudos. A flor da fam&iacute;lia. Aquele<br \/>\n    sa&iacute;ra &agrave; m&atilde;e.<\/p>\n<p>Passava um el&eacute;trico. As crian&ccedil;as sacudiram a mulata:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, Noca!<\/p>\n<p>&#8211; Vamos mesmo, que hoje de mais a mais &eacute; ter&ccedil;a-feira&#8230;<\/p>\n<p>A conselho do dr. Gerv&aacute;sio, Camila, tinha marcado as ter&ccedil;as-feiras<br \/>\n    para as suas recep&ccedil;&otilde;es. No come&ccedil;o houve relut&acirc;ncia<br \/>\n    em casa. Francisco Teodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana;<br \/>\n    a mulher mesmo, criada em velhos h&aacute;bitos, vexava-se, porque era da<br \/>\n    vontade do dr. Gerv&aacute;sio, e para esse o port&atilde;o da ch&aacute;cara<br \/>\n    estava sempre escancarado.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o faltava, ia v&ecirc;-la todas as manh&atilde;s, almo&ccedil;ar<br \/>\n    no lugar de Francisco Teodoro, que almo&ccedil;ava sozinho duas horas antes,<br \/>\n    a um canto da grande mesa vazia; e ali o m&eacute;dico ensinava &agrave;quela<br \/>\n    gente o meio de se conduzir na sociedade, polindo-lhe o esp&iacute;rito, alterando-lhe<br \/>\n    os gostos, fazendo-a preferir o queijo que ele preferia, o vinho de que mais<br \/>\n    gostava, as aves e as ca&ccedil;as com molhos delicados, de fino paladar.<\/p>\n<p>A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de frases que ele formava para si,<br \/>\n    com o pretexto de as dizer aos outros, e que eles todavia aceitavam, com agrado,<br \/>\n    num sorriso&#8230;<\/p>\n<p>Nessa manh&atilde; de ter&ccedil;a-feira estavam ainda ao almo&ccedil;o,<br \/>\n    quando palmas gordas estrondearam no jardim.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o L&eacute;lio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pesco&ccedil;o<br \/>\n    e correndo para fora.<\/p>\n<p>Era o L&eacute;lio; viram-lhe o gordo cacha&ccedil;o, atrav&eacute;s dos<br \/>\n    vidros da porta, quando ele passou pelo corredor.<\/p>\n<p>Com o pretexto de mostrar ao m&eacute;dico um anel novo, Camila estendeu-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o, luminosa de pedrarias.<\/p>\n<p>Ela segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou:<\/p>\n<p>&#8211; Tal qual cinco raios de sol&#8230; Sim, senhora! &eacute; muito perfeito este<br \/>\n    brilhante&#8230; mas este outro ainda &eacute; mais l&iacute;mpido&#8230;<\/p>\n<p>Ela sorria, e Nina excedeu-se em tratar das crian&ccedil;as, com o prop&oacute;sito<br \/>\n    de desviar a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Ponha este anel fora&#8230; &Eacute; indigno da sua m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Brilha tanto!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; do Cabo, muito amarelo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido.<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; l&aacute;, que n&atilde;o s&atilde;o mal escolhidas as suas pedras,<br \/>\n    precisa ainda de um brilhante negro, para este dedinho que est&aacute; muito<br \/>\n    nu. Tenho pena que n&atilde;o goste de p&eacute;rolas; s&oacute; quer pedras<br \/>\n    que fulgurem.<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro.<\/p>\n<p>&#8211; Versos?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Um romance.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem; eu s&oacute; gosto de versos quando o senhor mos l&ecirc;. Uma<br \/>\n    monotonia&#8230;<\/p>\n<p>Na saleta, ela abriu a veneziana e aspirou com for&ccedil;a o aroma dos resed&aacute;s<br \/>\n    plantados junto &agrave; parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia maravilhoso!<br \/>\n    depois, voltando-se:<\/p>\n<p>&#8211; O livro?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; aqui.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; leu?<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute;. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o leio. Sei que est&aacute; cheio de injusti&ccedil;as<br \/>\n    e de mentiras perversas. Os senhores romancistas n&atilde;o perdoam &agrave;s<br \/>\n    mulheres; fazem-nas respons&aacute;veis por tudo &#8211; como se n&atilde;o pag&aacute;ssemos<br \/>\n    caro a felicidade que fru&iacute;mos! Nesses livros tenho sempre medo do fim;<br \/>\n    revolto-me contra os castigos que eles infligem &agrave;s nossas culpas, e<br \/>\n    desespero-me por n&atilde;o poder gritar-lhes: hip&oacute;critas! hip&oacute;critas!<br \/>\n    Leve o seu livro; n&atilde;o me torne a trazer desses romances. Basta-me o<br \/>\n    nosso, para eu ter medo do fim.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenha remorsos; o nosso n&atilde;o acabar&aacute;!<\/p>\n<p>&#8211; Remorsos&#8230; remorsos de qu&ecirc;? Pensa, Gerv&aacute;sio, que, desde o<br \/>\n    primeiro ano de casado, o meu marido n&atilde;o me traiu tamb&eacute;m? Qual<br \/>\n    &eacute; a mulher, por mais est&uacute;pida, ou mais indiferente, que n&atilde;o<br \/>\n    adivinhe, que n&atilde;o sinta o adult&eacute;rio do marido no pr&oacute;prio<br \/>\n    dia em que ele &eacute; cometido? H&aacute; sempre um vest&iacute;gio da outra,<br \/>\n    que se mostra em um gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho&#8230;<br \/>\n    Eles traem-se com as compensa&ccedil;&otilde;es que nos trazem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso tudo &eacute; vago e abstrato.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o importa. E as den&uacute;ncias? e as cartas an&ocirc;nimas?<br \/>\n    e os ditos das amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignor&aacute;-las,<br \/>\n    todas! N&atilde;o &eacute; isso que a sociedade quer de n&oacute;s? As mentiras<br \/>\n    que o meu marido me pregou, deixaram sulco e eu paguei-lhas com o teu amor,<br \/>\n    e s&oacute; pelo amor! E assim mesmo o engan&aacute;-lo pesa-me, pesa-me,<br \/>\n    porque, quanto mais te amo, mais o estimo. &Eacute; uma tortura, que parece<br \/>\n    que foi inventada s&oacute; para mim!<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio n&atilde;o respondeu. Tinha o rosto contra&iacute;do por<br \/>\n    uma express&atilde;o de ci&uacute;me. Passado um instante de sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; extraordin&aacute;rio! Nunca julguei poss&iacute;vel essa dualidade<br \/>\n    no amor. Bem, levarei o livro. Adeus.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o v&aacute;&#8230; &Eacute; cedo&#8230; suplicou ela, com o rosto p&aacute;lido,<br \/>\n    iluminado de paix&atilde;o. Fique, &eacute; t&atilde;o bom! Falarei noutra<br \/>\n    coisa. Ensine-me a falar, Gerv&aacute;sio.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, diga l&aacute;: &#8211; amo-te!<\/p>\n<p>E ela ia repetir as palavras, quando as g&ecirc;meas entraram ruidosamente.<\/p>\n<p>Lia queria saber se aqueles navios pretos e pequeninos espalhados no jornal<br \/>\n    eram do capit&atilde;o Rino.<\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o; disse a m&atilde;e abreviando explica&ccedil;&otilde;es. V&atilde;o<br \/>\n    brincar.<\/p>\n<p>&#8211; Ih! ent&atilde;o ele &eacute; muito rico?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;. V&atilde;o brincar.<\/p>\n<p>As meninas sa&iacute;ram e o assunto voltou-se para o capit&atilde;o Rino.<br \/>\n    O m&eacute;dico ridicularizava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido,<br \/>\n    muito branco e muito louro, mal ajeitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha,<br \/>\n    faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo.<\/p>\n<p>Camila negava alguns desses defeitos. N&atilde;o tivesse medo: ela s&oacute;<br \/>\n    o amaria a ele, em toda a sua vida.<\/p>\n<p>Havia j&aacute; muito tempo que duravam aquelas conversas na saleta, com<br \/>\n    a porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e Rachel<br \/>\n    passavam a galope, montadas nas bengalas do pai.<\/p>\n<p>Era &agrave; despedida que o m&eacute;dico e Camila marcavam, de vez em quando,<br \/>\n    uma entrevista, longe, em uma casa da Lagoa, conservando o respeito por aquela<br \/>\n    habita&ccedil;&atilde;o onde as filhas dela viviam soltas, procurando-a a<br \/>\n    todos os instantes, irrompendo de tr&aacute;s dos reposteiros ou dos m&oacute;veis<br \/>\n    quando menos se esperava.<\/p>\n<p>Ruth acabara a li&ccedil;&atilde;o. Sentiram os passos do maestro na escada.<br \/>\n    Gerv&aacute;sio ergueu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Pois vou-me por a&iacute; abaixo com o L&eacute;lio. S&atilde;o horas das<br \/>\n    mo&ccedil;as bonitas na rua do Ouvidor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem me dera que eu fosse uma delas&#8230; A velhice aterra-me por sua causa!<br \/>\n    E ela vem perto!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tontinha! e n&atilde;o sou eu mais velho?<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; mas os homens! Quando eu tiver os cabelos brancos, voc&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu j&aacute; n&atilde;o terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos<br \/>\n    ambos com as doces recorda&ccedil;&otilde;es destes dias lindos. O nosso romance<br \/>\n    n&atilde;o acabar&aacute; nunca. D&ecirc;-me as suas ordens, minha senhora,<br \/>\n    aqui temos o L&eacute;lio.<\/p>\n<p>Camila acompanhou-os ao terra&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8211; Que me diz da sua disc&iacute;pula? perguntou o maestro.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem. Vai muito bem! Daqui a pouco ensina-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ela &eacute; estudiosa&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto os dois conversavam, o m&eacute;dico passeou o olhar pelo jardim;<br \/>\n    depois disse, voltando-se indignado para Camila:<\/p>\n<p>&#8211; O bandido do seu jardineiro est&aacute;-lhe fazendo bordaduras de horta<br \/>\n    nos canteiros! Aqueles feitios em gramas s&atilde;o de p&eacute;ssimo gosto.<br \/>\n    N&atilde;o tem instinto, o desgra&ccedil;ado! Hei de lhe arranjar outro, um<br \/>\n    franc&ecirc;s acostumado a lidar com as flores de Nice. Ver&aacute; a diferen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Este errou a profiss&atilde;o: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz<br \/>\n    id&eacute;ia do que seja a harmonia das cores; veja aquele canteiro: o roxo<br \/>\n    ao p&eacute; do escarlate, o amarelo ao p&eacute; da cor de rosa! Tudo mais,<br \/>\n    folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem guerra<br \/>\n    &agrave;s flores! Pois c&aacute; ter&aacute; o outro amanh&atilde;. Vamos,<br \/>\n    maestro?<\/p>\n<p>Eles desceram e Camila ficou encostada a um pilar, at&eacute; ver sumir-se<br \/>\n    o m&eacute;dico; j&aacute; ele tinha desaparecido e ainda ela olhava, pensativa&#8230;<\/p>\n<p>Fora h&aacute; anos&#8230; Gerv&aacute;sio morava j&aacute; na mesma casa do<br \/>\n    Jardim Bot&acirc;nico, bem instalado, mas muito metido consigo.<\/p>\n<p>Uma noite algu&eacute;m lhe batera &agrave; porta com desespero: era Francisco<br \/>\n    Teodoro, que o chamava como o m&eacute;dico mais pr&oacute;ximo, para ver<br \/>\n    uma filha que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua vizinhan&ccedil;a,<br \/>\n    mudando o M&aacute;rio, que tivera a palustre. O m&eacute;dico n&atilde;o<br \/>\n    clinicava, mas cedeu &agrave; s&uacute;plica e salvou Ruth de um tifo. A doen&ccedil;a<br \/>\n    fora longa; a menina s&oacute; aceitava rem&eacute;dios e alimento pela m&atilde;o<br \/>\n    do seu amiguinho, que tratou tamb&eacute;m de fortalecer M&aacute;rio.<\/p>\n<p>Camila dizia ent&atilde;o em &ecirc;xtase, ao marido:<\/p>\n<p>&#8211; Devemos ao dr. Gerv&aacute;sio a vida de nossos filhos! A entrada fora<br \/>\n    vitoriosa; justificava o ascendente do m&eacute;dico na fam&iacute;lia&#8230;<br \/>\n    Nem fora no come&ccedil;o, que ele amara a Camila. Nesse tempo ela n&atilde;o<br \/>\n    sabia ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma<br \/>\n    boa m&atilde;e tranq&uuml;ila, muito banal, com discursos longos e choradeiras<br \/>\n    sobre a morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As<br \/>\n    g&ecirc;meas, ent&atilde;o de meses, andavam sempre pendentes do palet&oacute;<br \/>\n    branco da m&atilde;e. Gerv&aacute;sio odiava aqueles casacos e aquelas queixumeiras<br \/>\n    ins&iacute;pidas. Mas esse tempo de prostra&ccedil;&atilde;o foi passando,<br \/>\n    e ela ascendeu pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a gra&ccedil;a.<br \/>\n    A evolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi r&aacute;pida, mas refletida e suave,<br \/>\n    como impelida por sopros delicados. Quando o m&eacute;dico percebeu quanto<br \/>\n    Camila mudava, e que essa transforma&ccedil;&atilde;o lenta e vis&iacute;vel<br \/>\n    se fazia ao influxo dos seus gostos, da sua conviv&ecirc;ncia e do seu espirito,<br \/>\n    come&ccedil;ou a observ&aacute;-la com redobrada aten&ccedil;&atilde;o, cultivando<br \/>\n    o prazer de a tornar outra, como que uma obra sua.<\/p>\n<p>Camila usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que ele lembrara como<br \/>\n    mais propicias &agrave; sua tez, adquiria express&otilde;es novas, inflex&otilde;es<br \/>\n    de voz em que nascia uma m&uacute;sica de tons coloridos e harmoniosos, fazia<br \/>\n    outros gestos, mais graves e adequados, pisava de maneira mais ritmada e linda,<br \/>\n    deixou os perfumes misturados, sem escolha, por uma ess&ecirc;ncia branca;<br \/>\n    e tudo isso o fazia sem esfor&ccedil;o, obedecendo &agrave; sugest&atilde;o.<br \/>\n    O m&eacute;dico via nela um reflexo perfeito da sua alma, sentia-se voltar-se,<br \/>\n    subir para ele; e absorvido nesse estudo delicado &#8211; apaixonou-se por ela.<\/p>\n<p>Levada na fascina&ccedil;&atilde;o, s&oacute; tarde Camila percebeu o perigo<br \/>\n    que a solicitava; ent&atilde;o quis fugir: fechou-se em casa, esquivava-se<br \/>\n    a ver o m&eacute;dico; mas, atrav&eacute;s da dist&acirc;ncia e do sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    ele percebia o amor dela a cham&aacute;-lo, a envolv&ecirc;-lo todo com uma<br \/>\n    obsess&atilde;o de loucura.<\/p>\n<p>Passaram-se assim longos meses, de saudades sem rem&eacute;dio, de agonias<br \/>\n    mudas; at&eacute; que um dia, cansados de uma resist&ecirc;ncia in&uacute;til,<br \/>\n    deixaram-se vencer.<\/p>\n<p>Para ele, aquela liga&ccedil;&atilde;o foi uma vit&oacute;ria; para ela como<br \/>\n    que uma lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa salvaguardava-se<br \/>\n    nessa cren&ccedil;a.<\/p>\n<p>Havia muito tempo j&aacute; que o dr. Gerv&aacute;sio entrara na intimidade<br \/>\n    da fam&iacute;lia: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe,<br \/>\n    com repetidas s&uacute;plicas de dinheiro. Conhecia a hist&oacute;ria do nascimento<br \/>\n    de Nina, filha natural do Joca, e da fugida dele, comprometido em uma casa<br \/>\n    de com&eacute;rcio; estava ao fato das doen&ccedil;as de d. Em&iacute;lia,<br \/>\n    das habilidades caligr&aacute;ficas do velho Rodrigues e da j&aacute; alta<br \/>\n    soma de dotes dada por Francisco Teodoro &agrave;s cunhadas.<\/p>\n<p>Tudo isto soubera-o ele naturalmente, sem indaga&ccedil;&otilde;es; vinha<br \/>\n    na enxurrada dos desabafos, no desafogo da amizade.<\/p>\n<p>Com o amor, ele tinha tamb&eacute;m sabido conquistar a estima. Toda a gente<br \/>\n    em casa o ouvia com aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Um pouco dessas coisas vagou pelo esp&iacute;rito de Camila, quando, de olhar<br \/>\n    alongado, seguia ainda a sombra de Gerv&aacute;sio.<\/p>\n<p>Dias depois ela dava os &uacute;ltimos retoques &agrave; sua toilette, em<br \/>\n    frente ao espelho, quando o marido entrou.<\/p>\n<p>Camila viu-o no cristal e perguntou-lhe mesmo sem se voltar:<\/p>\n<p>&#8211; Por que &eacute; que voc&ecirc; veio t&atilde;o cedo?<\/p>\n<p>&#8211; Por duas raz&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>E, como ele interrompesse a frase, ela, sobressaltada, acercou-se, indagando<br \/>\n    com interesse:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; est&aacute; doente? Diga!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho nada filha, descansa.<\/p>\n<p>Camila sorriu e voltou tranq&uuml;ila para defronte do espelho.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o que motivos s&atilde;o esses?<\/p>\n<p>&#8211; O primeiro, para pedir ao Gerv&aacute;sio que v&aacute; ver o Mota, que<br \/>\n    quebrou hoje uma perna.<\/p>\n<p>&#8211; O velho?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! como foi?<\/p>\n<p>&#8211; Foi no servi&ccedil;o da casa; descendo de um bonde. J&aacute; est&aacute;<br \/>\n    medicado, mas quero que o Gerv&aacute;sio lhe examine o aparelho. O segundo<br \/>\n    motivo &eacute; mais s&eacute;rio.<\/p>\n<p>Sem afastar do rosto o pompon do p&oacute; de arroz, Camila interrogou com<br \/>\n    certa indiferen&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Trata-se do senhor seu filho.<\/p>\n<p>&#8211; Meu s&oacute;?! tem gra&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tem gra&ccedil;a? Olha, eu &eacute; que lhe n&atilde;o acho nenhuma! Est&aacute;<br \/>\n    um bilontra, o tal senhor!<\/p>\n<p>&#8211; Aposto, meu velho, em como voc&ecirc; vem por a&iacute; com recrimina&ccedil;&otilde;es?!<\/p>\n<p>&#8211; Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das patifarias<br \/>\n    do rapaz &eacute;s tu.<\/p>\n<p>Camila voltou-se indignada, com os olhos chamejantes de c&oacute;lera:<\/p>\n<p>&#8211; Hem?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o dou um passo na rua que n&atilde;o encontre um credor do senhor<br \/>\n    meu filho.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camila, olhando<br \/>\n    para o marido de alto.<\/p>\n<p>Ele continuou:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto n&atilde;o pode<br \/>\n    continuar assim! Ele mant&eacute;m agora uma mulher: d&aacute;-lhe vestidos,<br \/>\n    carro, casa, e com toda a imprud&ecirc;ncia faz contas em meu nome! J&aacute;<br \/>\n    se viu coisa igual?!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; a mocidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; me tardava! &Eacute; a pouca vergonha. Que trabalhe.<\/p>\n<p>&#8211; Trabalhar! M&aacute;rio tem s&oacute; dezenove anos!<\/p>\n<p>&#8211; Faze m&atilde;os de veludo para o acariciar; &eacute; o costume! Mas por<br \/>\n    que n&atilde;o lhe fala voc&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Por que?! Ora essa! porque lhe vou &agrave; cara, se ele me retruca com<br \/>\n    um desaforo!&#8230; Esperarei mais alguns dias&#8230; fala-lhe tu primeiro. N&atilde;o<br \/>\n    lhe metas caraminholas na cabe&ccedil;a; dize-lhe que trabalhe, que siga o<br \/>\n    meu exemplo, e que se deixe de fazer d&iacute;vidas. Isto competiria a mim,<br \/>\n    bem sei, se n&atilde;o me tirasses toda a for&ccedil;a moral.<\/p>\n<p>&#8211; Eu?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Acodes com panos quentes sempre que o repreendo, e ai est&aacute;<br \/>\n    o resultado&#8230; E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora! tamb&eacute;m voc&ecirc; exagera. M&aacute;rio tem boa &iacute;ndole.<br \/>\n    &Eacute; incapaz de uma a&ccedil;&atilde;o m&aacute;. Descanse; eu falarei<br \/>\n    com ele. Quer ent&atilde;o que eu o aconselhe a deixar a tal mulher?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por for&ccedil;a! Uma perua velha, que o h&aacute; de comer por uma perna.<br \/>\n    N&atilde;o posso estar continuamente a desembolsar contos de r&eacute;is para<br \/>\n    os caprichos da tal madama. Podes dizer ao M&aacute;rio que, ou ele toma caminho,<br \/>\n    ou o mando para a Marinha.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; n&atilde;o est&aacute; em idade disso, nem eu me separo de meu<br \/>\n    filho!<\/p>\n<p>&#8211; Temos outra. Faze o que quiseres; hoje fala-lhe tu, e se ele n&atilde;o<br \/>\n    seguir outro caminho, ter&aacute; de se haver comigo. Diabo, tenho outros<br \/>\n    filhos!<\/p>\n<p>&#8211; Coitado do M&aacute;rio! tu nunca o amaste muito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Han! Eu?! eu &eacute; que nunca o amei? Oh! senhores&#8230; est&aacute; bom,<br \/>\n    est&aacute; bom, falemos noutras coisas&#8230; Acalma-te&#8230; e veste-te &aacute;<br \/>\n    vontade. As Gomes j&aacute; est&atilde;o ai: vi-as no jardim com a Ruth.<\/p>\n<p>&#8211; Que me importam a mim as Gomes!<\/p>\n<p>Francisco Teodoro chegou-se &agrave; janela, afastou a cortina e olhando<br \/>\n    por entre os vidros, informou com voz am&aacute;vel:<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; est&aacute; tamb&eacute;m o capit&atilde;o Rino&#8230; A&iacute;<br \/>\n    estava um bom casamento para a Nina, hem? Gosto dele, parece um excelente<br \/>\n    rapaz&#8230; apesar da proced&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Que proced&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>&#8211; Homem! a m&atilde;e morreu &agrave;s m&atilde;os do marido, por crime de<br \/>\n    adult&eacute;rio&#8230; Enfim, isso j&aacute; foi h&aacute; tantos anos, que ningu&eacute;m<br \/>\n    se lembrar&aacute; do caso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; lembrou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, porque ainda ontem me falaram nisso.. Bom casamento para a Nina&#8230;<br \/>\n    bom casamento!&#8230;<\/p>\n<p>Camila sorriu com desd&eacute;m e tratou de abotoar melhor o seu broche de<br \/>\n    p&eacute;rolas, sobre a escumilha cor de rosa do peitilho. Coitada da Nina&#8230;<br \/>\n    pois sim!<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem! l&aacute; chegam o L&eacute;lio e o Gerv&aacute;sio&#8230; Sou muito<br \/>\n    amigo do Gerv&aacute;sio, mas olha que ele tamb&eacute;m &eacute; um esquisit&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o diz nada a gente da sua vida, l&aacute; dos seus princ&iacute;pios&#8230;<br \/>\n    Com a intimidade que lhe damos era natural que soub&eacute;ssemos mais dele<br \/>\n    que toda a gente; e afinal sabemos s&oacute; o que todos sabem. Aqui para<br \/>\n    n&oacute;s, n&atilde;o simpatizam geralmente com ele por a&iacute;; dizem<br \/>\n    que ele nunca escreveu uma linha e que vive a criticar livros e autores&#8230;<br \/>\n    Realmente, ele n&atilde;o perdoa a ningu&eacute;m. Pois vou falar-lhe. At&eacute;<br \/>\n    j&aacute;.<\/p>\n<p>Antes de sair, Teodoro contemplou a mulher, ajeitou-lhe os carac&oacute;is<br \/>\n    da nuca e, atraindo-a, quis beij&aacute;-la; ela por&eacute;m esquivou-se<br \/>\n    com um movimento r&aacute;pido. Francisco Teodoro riu-se e saiu pensando consigo:<\/p>\n<p>&#8211; Todas as m&atilde;es s&atilde;o assim! S&oacute; porque lhe falei do filho&#8230;<br \/>\n    Em baixo, Ruth colhia flores para as visitas, que se agrupavam sob as ramas<br \/>\n    abundantes da mangueira. As Gomes, a m&atilde;e e duas filhas mo&ccedil;as,<br \/>\n    eram indefect&iacute;veis: todas as ter&ccedil;as-feiras l&aacute; iam, houvesse<br \/>\n    mau ou bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e escr&uacute;pulos,<br \/>\n    e com a cabe&ccedil;a recheada de receitas, tanto medicinais como culin&aacute;rias,<br \/>\n    que ela oferecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance da voz. As filhas<br \/>\n    eram espertas, cantavam ao piano e ao viol&atilde;o e vestiam-se com gra&ccedil;a,<br \/>\n    fazendo valer panos baratos.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o Rino examinava as palmeiras com a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um bot&acirc;nico, enquanto o maestro e o dr. Gerv&aacute;sio cumprimentavam<br \/>\n    as senhoras.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro apareceu risonho, com as duas m&atilde;os estendidas para<br \/>\n    a querida sra. d. In&aacute;cia Gomes, que se levantou remexendo as sedas<br \/>\n    farfalhantes do seu vestido cor de pinh&atilde;o. Que excelente seda aquela!<br \/>\n    j&aacute; passara por tr&ecirc;s feitios diferentes, e ainda era aquilo que<br \/>\n    se via!<\/p>\n<p>&#8211; Cara senhora, ent&atilde;o, o amigo Gomes?<\/p>\n<p>&#8211; Vem logo; ah! ele tem muito trabalho, n&atilde;o imagina.<\/p>\n<p>&#8211; Sei, sei&#8230; a vida foi feita para as mulheres. E ainda elas se queixam!<br \/>\n    S&oacute; se fala por ai em emancipa&ccedil;&atilde;o e outras patranhas&#8230;<br \/>\n    A mulher nasceu para m&atilde;e de fam&iacute;lia. O lar &eacute; o seu altar;<br \/>\n    deslocada dele n&atilde;o vale nada!<\/p>\n<p>Todos concordaram; e Francisco Teodoro passou adiante, puxando o dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    para uma al&eacute;ia mais solit&aacute;ria do jardim:<\/p>\n<p>&#8211; Vou pedir-lhe um obs&eacute;quio. L&aacute; um dos meus empregados, um<br \/>\n    ajudante de guarda-livros, o Mota, quebrou hoje uma perna, ao descer de um<br \/>\n    bonde. O homem foi tratado na farm&aacute;cia do Souto, mas&#8230; sabe que esses<br \/>\n    aparelhos feitos assim &agrave; pressa n&atilde;o inspiram confian&ccedil;a;<br \/>\n    pe&ccedil;o agora ao amigo que amanh&atilde; v&aacute; l&aacute; v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente. Onde mora?<\/p>\n<p>&#8211; Na rua Funda, tenho aqui o n&uacute;mero&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro sacou de um bilhete escrito a l&aacute;pis.<\/p>\n<p>&#8211; Rua Funda? Onde &eacute; isso?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; no outro mundo, l&aacute; para os lados da Sa&uacute;de.<\/p>\n<p>Enquanto Francisco Teodoro conversava com o m&eacute;dico, Camila desceu<br \/>\n    a escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.<\/p>\n<p>As Gomes acharam-na muito bonita e, intimamente, espantavam-se de n&atilde;o<br \/>\n    verem nela o menor sinal de decad&ecirc;ncia. Aquela pele alva e macia, aqueles<br \/>\n    cabelos negros sem um fio branco, aqueles dentes perfeitos e brilhantes, sem<br \/>\n    um toque sequer de ouro que atestasse a passagem dos anos e das m&atilde;os<br \/>\n    dos dentistas, faziam-na parecer sempre a mesma Camila dos tempos da Lapa,<br \/>\n    em que d. In&aacute;cia a conhecera.<\/p>\n<p>Vendo-a descer t&atilde;o bonita, o capit&atilde;o Rino corou at&eacute;<br \/>\n    &agrave; raiz dos cabelos e foi ele o &uacute;ltimo que se aproximou, tocando-lhe<br \/>\n    de leve nos dedos estrelados de an&eacute;is.<\/p>\n<p>Nina, que espreitava de cima, achou a ocasi&atilde;o oportuna para mandar<br \/>\n    pelo criado a bandeja de prata com o vermute.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n&atilde;o subiram?<\/p>\n<p>&#8211; Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ela est&aacute;<br \/>\n    crescida; j&aacute; n&atilde;o lhe ficam bem os vestidos curtos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga isso ao p&eacute; dela; apesar de que estou certa de que<br \/>\n    n&atilde;o toleraria as caudas; &eacute; muito crian&ccedil;a e tem modos<br \/>\n    de rapaz. N&atilde;o imagina, d. In&aacute;cia, que fantasia a desta menina!<br \/>\n    N&atilde;o sei como se arranja, mas a verdade &eacute; que se encarrapita<br \/>\n    nas &aacute;rvores com o seu violino; e faz gosto ouvi-la tocar l&aacute;<br \/>\n    em cima. Diz que &eacute; para fazer concertos com os passarinhos. Veja se<br \/>\n    eu a posso por de vestidos compridos. Que horror!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! mas &eacute; preciso perder este costume; ela j&aacute; tem os seus<br \/>\n    treze anos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quatorze&#8230; quase quinze! mas n&atilde;o parece.<\/p>\n<p>&#8211; Isso de trepar nas &aacute;rvores &eacute; para rapazes; uma menina de<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o tem deveres&#8230;<\/p>\n<p>Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito perfumada.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o fale mal de mim, d. In&aacute;cia; aqui tem a senhora uma fruta<br \/>\n    colhida por mim l&aacute; nos cocurutos da &aacute;rvore. Se eu n&atilde;o<br \/>\n    tivesse ido busc&aacute;-la a senhora n&atilde;o a teria agora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ai est&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>D. In&aacute;cia cheirou a fruta, com for&ccedil;a, cerrando os olhos papudos;<br \/>\n    e depois, voltando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Camila, voc&ecirc; j&aacute; comeu gel&eacute;ia de manga?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me lembra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois &eacute; gostosa e f&aacute;cil de fazer; olhe&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto d. In&aacute;cia desfiava a receita do doce, Camila olhava para<br \/>\n    ela, ouvindo o murm&uacute;ro de outras vozes, querendo distinguir as palavras<br \/>\n    do m&eacute;dico e do capit&atilde;o, sorrindo imbecilmente, destacando de<br \/>\n    longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao Netuno, da esquerda, ou um<br \/>\n    &#8211; espreme-se e p&otilde;e na peneira &#8211; da direita.<\/p>\n<p>Nesse dia M&aacute;rio n&atilde;o apareceu ao jantar e Francisco Teodoro<br \/>\n    queixou-se dele ao dr. Gerv&aacute;sio, em um v&atilde;o de janela, num desabafo<br \/>\n    de sentimento.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe raz&atilde;o,<br \/>\n    sem dizer contudo uma &uacute;nica palavra. Teodoro assegurava:<\/p>\n<p>&#8211; A m&atilde;e tem um cora&ccedil;&atilde;o de pomba, incapaz de fazer nem<br \/>\n    pensar no mal. A bondade excessiva leva aos desatinos&#8230; aquele filho &eacute;<br \/>\n    o mais velho e ela encontrou nele toda a sua ternura&#8230; n&atilde;o lhe levo<br \/>\n    a mal, &#8211; &eacute; m&atilde;e. Repare que para com as meninas ela &eacute;<br \/>\n    mais severa!<\/p>\n<p>O dr. j&aacute; observara isso mesmo; nessa mesma noite ele aconselhou Camila<br \/>\n    a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Ele conhecia a amante<br \/>\n    de M&aacute;rio: era uma francesa gananciosa, podre de rica, de cabelos pintados<br \/>\n    e carne mole. N&atilde;o valia nada e arruinara muita gente boa.<\/p>\n<p>Camila prometeu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se na<br \/>\n    conversa&ccedil;&atilde;o geral, fugindo daquele assunto irritante.<\/p>\n<p>A noite foram outras visitas, dois negociantes solteiros e duas mo&ccedil;as<br \/>\n    da vizinhan&ccedil;a, as Bragas.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro acoro&ccedil;ava os jogos e as m&uacute;sicas, acolhendo<br \/>\n    entre os joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se a tiravam para<br \/>\n    ele estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos, interrompendo<br \/>\n    com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E foi no meio daquele<br \/>\n    barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da rua das Violas, se lembrou<br \/>\n    de falar das opera&ccedil;&otilde;es comerciais do Gama Torres, com elogio<br \/>\n    e assombro.<\/p>\n<p>Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma gra&ccedil;a<br \/>\n    picante, que a m&atilde;e tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o refugiou-se em uma janela. Ruth foi ter com ele: o mo&ccedil;o<br \/>\n    ao princ&iacute;pio n&atilde;o lhe prestou aten&ccedil;&atilde;o; seguia,<br \/>\n    atrav&eacute;s das cortinas, os olhares trocados entre Camila e Gerv&aacute;sio.<\/p>\n<p>Seriam todos cegos, s&oacute; a ele caberia descortinar aquele amor, t&atilde;o<br \/>\n    evidente?<\/p>\n<p>Ruth, derreando a cabe&ccedil;a para tr&aacute;s, olhava para o c&eacute;u<br \/>\n    tranq&uuml;ilo. Houve um largo espa&ccedil;o de sil&ecirc;ncio entre ambos.<br \/>\n    Ruth disse por fim, sem abaixar os olhos:<\/p>\n<p>&#8211; Que parecer&aacute; a terra, vista de l&aacute;&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; Uma gota de luz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrela. E como elas hoje est&atilde;o<br \/>\n    bonitas! Se Deus me desse a escolher uma, eu ficaria embara&ccedil;ada. Olhe,<br \/>\n    repare para aquela, como &eacute; grande e suave!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; V&eacute;sper&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Linda, linda, linda!<\/p>\n<p>&#8211; Levanta mais os olhos, para acol&aacute;; repare para o Cruzeiro, como<br \/>\n    est&aacute; l&iacute;mpido hoje! Maravilhosa noite!<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; estou vendo&#8230; cinco estrelas brilhantes em um lago negro. Por que<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o escuro aquele peda&ccedil;o do c&eacute;u ao lado do Cruzeiro?<\/p>\n<p>&#8211; Porque n&atilde;o tem astros.<\/p>\n<p>&#8211; Deveria ter sido por ali que L&uacute;cifer caiu.<\/p>\n<p>&#8211; Por que?<\/p>\n<p>&#8211; Fez um rasg&atilde;o no fil&oacute; dourado. Por isso Deus p&ocirc;s ali<br \/>\n    a cruz, para que o diabo n&atilde;o tornasse a passar pelo buraco.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Se eu fosse p&aacute;ssaro, continuou ela, gostaria de voar &agrave; noite&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Como as corujas.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. As corujas s&atilde;o feias, metem medo, e eu s&oacute; gosto<br \/>\n    do que &eacute; bonito. Quereria ser uma ave branca e com asas t&atilde;o<br \/>\n    fortes que me levassem at&eacute; acima das nuvens. Desde pequenina que eu<br \/>\n    gosto de olhar para o c&eacute;u e que me desespero por n&atilde;o poder voar&#8230;<br \/>\n    &Agrave;s vezes sonho que estou voando&#8230; e &eacute; t&atilde;o bom!<\/p>\n<p>O capit&atilde;o Rino lembrou-lhe que fosse ao Observat&oacute;rio do Castelo,<br \/>\n    o que lhe seria f&aacute;cil, visto ter l&aacute; fam&iacute;lia na vizinhan&ccedil;a.<br \/>\n    Assim veria bem a lua e a cor das estrelas.<\/p>\n<p>Interessado por aquela imagina&ccedil;&atilde;o ardente, o capit&atilde;o<br \/>\n    Rino explicava &agrave; menina os nomes das estrelas, sentindo ro&ccedil;ar-lhe<br \/>\n    pelo ombro o cabelo dela, vendo-lhe na transpar&ecirc;ncia luminosa do olhar<br \/>\n    a chama de uma curiosidade insatisfeita.<\/p>\n<p>Ele tinha uma linguagem clara, mas interrompia as frases de vez em quando,<br \/>\n    com sobressalto, voltando-se para a sala atra&iacute;do pela voz de Camila.<\/p>\n<p>Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naqueles movimentos e continuava<br \/>\n    a interrog&aacute;-lo, com o olhar aceso para o grande c&eacute;u iluminado.<\/p>\n<p>Rebentaram palmas, l&aacute; dentro. Carlotinha acabara uma modinha requebrada,<br \/>\n    e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para uma valsa.<\/p>\n<p>&#8211; Quem toca?<\/p>\n<p>Judith foi para o piano, que atacou com for&ccedil;a e pedal.<\/p>\n<p>Apesar do barulho, Francisco Teodoro discutia com o Negreiros o arrojo do<br \/>\n    Gama Torres, atribuindo ao acaso o &ecirc;xito da famosa empresa, o que o<br \/>\n    amigo negava, afirmando o tino especial do outro.<\/p>\n<p>Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas m&atilde;os<br \/>\n    das mo&ccedil;as. Carlotinha, n&atilde;o logrando dan&ccedil;ar com o Rino<br \/>\n    nem com o Negreiros, atirou-se aos bra&ccedil;os da Terezinha, a mais mo&ccedil;a<br \/>\n    das Bragas. E as duas rodopiaram pela sala.<\/p>\n<p>Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas at&eacute; ao port&atilde;o.<br \/>\n    D. In&aacute;cia ia desde a porta de bra&ccedil;o com o marido, o Gomes, um<br \/>\n    velhote gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito faladoras,<br \/>\n    prometeram &agrave; Carlotinha e &agrave; Judith moldes de casaquinhas modernas,<br \/>\n    como as que traziam vestidas. Camila acompanhava-as tamb&eacute;m, retardando<br \/>\n    o passo, entre o dr. Gerv&aacute;sio e o capit&atilde;o Rino, que n&atilde;o<br \/>\n    dizia nada, recebendo em cheio o efl&uacute;vio daquela noite sem par! Um<br \/>\n    bonde passou e as Gomes partiram. Nina ficara em cima, acomodando a casa,<br \/>\n    vendo fechar as janelas da sala.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico chegou-se ent&atilde;o para Francisco Teodoro, perto do gradil,<br \/>\n    &agrave; espera de outro bonde para o Jardim. Camila sentou-se, olhando-lhe<br \/>\n    para o perfil doce, ensaiando uma confiss&atilde;o que n&atilde;o lhe sa&iacute;a<br \/>\n    nunca dos l&aacute;bios tr&ecirc;mulos. Camila abandonava-se, parecia provocar<br \/>\n    essa grande palavra, como se n&atilde;o bastassem a sua vaidade de mulher<br \/>\n    os amores do amante e do marido.<\/p>\n<p>Assim imaginou o capit&atilde;o Rino, todo penetrado do aroma e do encanto<br \/>\n    dela. A m&atilde;o de Camila pousara no banco, e ele ent&atilde;o, com o mesmo<br \/>\n    gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ela levantou-se, com modo brusco,<br \/>\n    sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e partiu logo<br \/>\n    para a luz clara do luar, deixando o capit&atilde;o na sombra da &aacute;rvore.<br \/>\n    O olhar do Gerv&aacute;sio indagou logo de tudo, enquanto o marido falava<br \/>\n    em coisas indiferentes. Foi nesse instante que l&aacute; em cima, no terra&ccedil;o,<br \/>\n    toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma sonata harmoniosa<br \/>\n    e larga.<\/p>\n<p>Embaixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquela m&uacute;sica<br \/>\n    e naquela noite.<\/p>\n<p>Sentado no mesmo banco, o capit&atilde;o Rino olhava com desespero para o<br \/>\n    vulto claro de Camila, que lhe fugia e se chegava para o seu amor feliz, toda<br \/>\n    embebida na poesia daqueles sons. Fechou os olhos para n&atilde;o ver&#8230;<\/p>\n<p>A do&ccedil;ura da m&uacute;sica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado&#8230;<br \/>\n    Uma estrela cadente riscou o espa&ccedil;o com um fugitivo fio luminoso. Camila<br \/>\n    apontou-a com o dedo.<\/p>\n<p>A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente Teodoro<br \/>\n    gritou para cima:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o s&atilde;o horas de m&uacute;sica. Para a cama!<\/p>\n<p>Depois, em um murm&uacute;rio satisfeito:<\/p>\n<p>&#8211; O diabo da pequena tem sentimento, hem?<\/p>\n<p>&#8211; Tem mais do que isso, afirmou Gerv&aacute;sio: tem talento, tem inspira&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Tanto esta &eacute; aplicada, quanto o irm&atilde;o&#8230; Bem! l&aacute; vem<br \/>\n    o seu bonde, doutor!<\/p>\n<p>O m&eacute;dico, despediu-se &agrave; pressa e correu; o capit&atilde;o Rino<br \/>\n    vencia a custo a sua como&ccedil;&atilde;o e saiu tamb&eacute;m, descendo<br \/>\n    a p&eacute; pela rua abaixo, apesar dos pedidos de Teodoro, que esperasse<br \/>\n    ali mesmo outro bonde para a cidade.<\/p>\n<p>Camila entrou em casa antes do marido e procurou imediatamente a Noca, que<br \/>\n    vigiava o sono de Rachel e de Lia.<\/p>\n<p>&#8211; M&aacute;rio j&aacute; entrou, Noca?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o senhora. Dion&iacute;sio j&aacute; veio h&aacute; que tempos<br \/>\n    e disse que seu M&aacute;rio ficava l&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute;?&#8230; Em casa da tal Luiza?! <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se meu marido sabe! Olhe&#8230; se ele perguntar, voc&ecirc; responda que M&aacute;rio<br \/>\n    entrou com exaqueca, e que por isso n&atilde;o foi &agrave; sala. Ouviu? Diga<br \/>\n    que ele est&aacute; dormindo.<\/p>\n<p>&#8211; E se ele amanh&atilde; perguntar a Dion&iacute;sio?<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; previna primeiro o rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb&eacute;m n&atilde;o sei pra que seu M&aacute;rio faz assim; s&oacute;<br \/>\n    pra meter a gente em embrulhos.. &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Tem paci&ecirc;ncia, Noca&#8230; ele &eacute; crian&ccedil;a&#8230; Amanh&atilde;<br \/>\n    eu lhe darei conselhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hum&#8230; Lia entornou o &oacute;leo da lamparina no ch&atilde;o, e eu j&aacute;<br \/>\n    fico esperando aborrecimentos. &Eacute; sabido: azeite entornado, desgosto<br \/>\n    em casa!<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca; l&aacute; vem seu Teodoro. Boa noite, Noca!<\/p>\n<p>Francisco Teodoro girou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado e<br \/>\n    fez &agrave; mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, j&aacute;<br \/>\n    a caminho do dormit&oacute;rio, voltou-se e foi dizer-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, Noca, se a enxaqueca do M&aacute;rio aumentar, sempre ser&aacute;<br \/>\n    bom dar-lhe uma pastilha de antipirina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, eu vou ver&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro saiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p>Era meio-dia, quando o dr. Gerv&aacute;sio saltou do bonde e encaminhou os<br \/>\n    seus p&eacute;s bem cal&ccedil;ados para a rua dos Beneditinos.<\/p>\n<p>J&aacute; o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carro&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    fragorosos abalavam os paralelep&iacute;pedos, amea&ccedil;ando esmagar tudo<br \/>\n    que topassem adiante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados pelas<br \/>\n    correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e p&eacute;s<br \/>\n    gretados, esbofavam-se agarrados aos grilh&otilde;es dos varais, saltando<br \/>\n    diante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.<\/p>\n<p>Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do caf&eacute; cru<br \/>\n    e a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a atmosfera<br \/>\n    de uma subst&acirc;ncia gordurosa e f&eacute;tida, sens&iacute;vel &agrave;<br \/>\n    pele pouco afeita a penetrar naquele ambiente.<\/p>\n<p>Atrav&eacute;s dos cristais da sua luneta de m&iacute;ope, o dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    olhava para tudo com o seu ar curioso, de cabe&ccedil;a erguida e narinas<br \/>\n    dilatadas, como se o olfato o ajudasse tamb&eacute;m um pouco a conhecer o<br \/>\n    porqu&ecirc; e o destino de todas aquelas coisas.<\/p>\n<p>Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do<br \/>\n    veston, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho faulante de<br \/>\n    um rubi, ele atravessava como um estrangeiro aquelas ruas, s&oacute; habituadas<br \/>\n    aos chap&eacute;us de coco, &agrave;s roupas do trabalho di&aacute;rio, alpacas<br \/>\n    e brins burgueses, ou aos trapos imundos dos carregadores bo&ccedil;ais.<\/p>\n<p>Como tivesse perdido o endere&ccedil;o do velho Mota, teve o dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    de subir ao escrit&oacute;rio de Francisco Teodoro. No armaz&eacute;m, em<br \/>\n    baixo, a grita do neg&oacute;cio tocava &agrave; loucura: pareciam todos impelidos<br \/>\n    por molas flex&iacute;veis de movimentos r&aacute;pidos; eram m&aacute;quinas,<br \/>\n    n&atilde;o eram homens, aquelas criaturas nunca dobradas ao peso do cansa&ccedil;o&#8230;<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua<br \/>\n    gin&aacute;stica de quarto, espantava-se da maneira l&eacute;pida por que<br \/>\n    aqueles homens tiravam as sacas do alto das pilhas e as punham aos ombros.<br \/>\n    O seu bra&ccedil;o fino, mas valente, sentia-se humilhado diante daqueles<br \/>\n    b&iacute;ceps de atletas.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro sorria-se do seu espanto, e para que ele n&atilde;o perdesse<br \/>\n    de novo o endere&ccedil;o, chamou um rapaz do armaz&eacute;m, o Ribas, e mandou-o<br \/>\n    acompanhar o m&eacute;dico at&eacute; a casa do enfermo.<\/p>\n<p>&#8211; Ser&aacute; melhor assim; disse ele, n&atilde;o haver&aacute; perigo de<br \/>\n    errar o caminho, porque, conquanto voc&ecirc; seja carioca, nesta parte da<br \/>\n    cidade, olhe que &eacute; mais estrangeiro do que eu!<\/p>\n<p>O Ribas sacudiu a poeira do chap&eacute;u, enterrou-o at&eacute; as orelhas<br \/>\n    enormes, e, balan&ccedil;ando os longos bra&ccedil;os sem punhos, dentro dum<br \/>\n    casaco enfiado &agrave; pressa, caminhou adiante, todo vergado, como um velho&#8230;<\/p>\n<p>E por toda a rua de S. Bento, ele guardou aquela compostura, sem relentar<br \/>\n    os passos nem voltar a cabe&ccedil;a. Entrado na da Prainha, modificou a atitude<br \/>\n    de caixeiro em servi&ccedil;o, foi-se deixando ficar atr&aacute;s, at&eacute;<br \/>\n    marchar ao lado do m&eacute;dico, morto por lhe pedir um cigarrinho.<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio percebeu-lhe a vontade.<\/p>\n<p>Deu-lhe cigarros.<\/p>\n<p>Atravessavam o largo da Prainha, que o sol alcatifava de ouro. Fazia calor.<br \/>\n    Ribas lembrou:<\/p>\n<p>&#8211; Se o senhor quiser tomar alguma coisa, aquele botequim &eacute; muito bom.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho sede.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; que l&aacute; para diante n&atilde;o h&aacute; nenhum que preste&#8230;<\/p>\n<p>&quot;O rapaz quer cerveja, pensou consigo o m&eacute;dico;. pois fa&ccedil;amos<br \/>\n    a vontade ao rapaz&quot;.<\/p>\n<p>Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com cromos nas paredes e pap&eacute;is<br \/>\n    de cor no lampi&atilde;o de g&aacute;s, havia tr&ecirc;s mesinhas vazias e<br \/>\n    uma ocupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente, sacudindo-se<br \/>\n    nas suas longas sobre-casacas ensebadas. Tudo &agrave;s moscas. O dono da<br \/>\n    casa veio, com ar sonolento, pedir as ordens; o dr. Gerv&aacute;sio deu-lhas,<br \/>\n    olhando para um viol&atilde;o pousado no balc&atilde;o, e de que se dependurava<br \/>\n    uma larga al&ccedil;a de cadar&ccedil;o vermelho.<\/p>\n<p>Aquele instrumento abandonado sugeriu-lhe a id&eacute;ia das noitadas de<br \/>\n    modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou &agrave;<br \/>\n    claridade ba&ccedil;a do luar, aqueles pr&eacute;dios teriam ouvidos com que<br \/>\n    escutassem m&uacute;sicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que n&atilde;o. A fadiga<br \/>\n    dos seus dias rudes tornaria de chumbo o seu sono, impass&iacute;vel a sua<br \/>\n    alma cansada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria l&aacute;<br \/>\n    dentro como um leve zumbir de abelhas&#8230;<\/p>\n<p>O dono do botequim julgou ver no olhar do m&eacute;dico um reparo ao desleixo<br \/>\n    da sala e arrebatou a viola para dentro.<\/p>\n<p>&quot;Foi-se a &uacute;nica nota pitoresca&quot;, pensou Gerv&aacute;sio,<br \/>\n    atirando os n&iacute;queis para a mesa.<\/p>\n<p>Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o m&eacute;dico,<br \/>\n    que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu conjunto de<br \/>\n    velharias e sobejid&otilde;es.<\/p>\n<p>A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: becos s&oacute;rdidos, marinhando<br \/>\n    pelo morro; casas acavaladas, de paredes sujas; janelas onde n&atilde;o acenava<br \/>\n    a gra&ccedil;a de uma cortina nem aparecia um busto de mulher; caras preocupadas,<br \/>\n    grossos troncos arfantes de homens de grande musculatura, e ru&iacute;do brutal<br \/>\n    de ve&iacute;culos pesad&otilde;es. faziam daquele canto da sua cidade, uma<br \/>\n    cidade alheia, infernal, preocupada bestialmente pelo p&atilde;o.<\/p>\n<p>Subiam a rua da Sa&uacute;de. Chegando &agrave; esquina do beco do Cleto,<br \/>\n    dr. Gerv&aacute;sio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte<br \/>\n    um vapor do Lloyd.<\/p>\n<p>Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espa&ccedil;o l&iacute;mpido.<br \/>\n    Em terra vinham marinheiros aos grupos, baloi&ccedil;ando-se nos rins. Portugueses<br \/>\n    levavam cargas, em carrinhos de m&atilde;o, para um trapiche.<\/p>\n<p>Foi logo adiante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o Ribas,<br \/>\n    exigindo-lhe os dez tost&otilde;es do jogo da v&eacute;spera. Eram quatro:<br \/>\n    um caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino loiro,<br \/>\n    que os outros denominavam o Bota &#8211; por trazer uma bota velha suspensa de um<br \/>\n    barbante a tiracolo -, e um italianinho sardento, sem pestanas.<\/p>\n<p>&#8211; Venham os dez tost&otilde;es! venham os dez tost&otilde;es que voc&ecirc;<br \/>\n    ficou devendo ontem no jogo&#8230; reclamavam.<\/p>\n<p>E o Ribas defendia-se, hipocritamente:<\/p>\n<p>&#8211; Que jogo? Eu?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, n&atilde;o se fa&ccedil;a de engra&ccedil;ado!<\/p>\n<p>O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: ele era o caixa;<br \/>\n    os companheiros romperam em assobios e chufas.<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de<br \/>\n    provoca&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Que se arranjasse.<\/p>\n<p>A curiosidade instigava-o a andar para diante; por bom humor talvez, sabia-lhe<br \/>\n    bem aquela caminhada. Tinha um olhar curioso para cada fachada arruinada,<br \/>\n    e parou com um sorriso, vendo em uma janela de vidros quebrados um vaso de<br \/>\n    cravos brancos.<\/p>\n<p>As flores trouxeram-lhe &agrave; id&eacute;ia as mulheres.<\/p>\n<p>Reparou ent&atilde;o que s&oacute; topava com homens, caixeiros apressados<br \/>\n    ou embarcadi&ccedil;os de pele queimada, ou mulatos chinelando nas cal&ccedil;adas,<br \/>\n    mostrando os calcanhares sem meias, num batep&eacute;s barulhento.<\/p>\n<p>J&aacute; agora n&atilde;o sentia s&oacute; o cheiro do caf&eacute;, como<br \/>\n    em S. Bento, sentia tamb&eacute;m o do a&ccedil;&uacute;car ensacado, o das<br \/>\n    mantas nauseabundas da carne-seca, o dos jac&aacute;s de toucinho nos trapiches<br \/>\n    e nos grandes armaz&eacute;ns, e do de sab&atilde;o das f&aacute;bricas, numa<br \/>\n    mistura enjoativa e asfixiante.<\/p>\n<p>Veio-lhe a impress&atilde;o de atravessar o ventre repleto da cidade, abarrotado<br \/>\n    de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da doidice &#8211; e olhou para<br \/>\n    si, receoso de encontrar n&oacute;doas e imundicie por toda a sua pessoa.<\/p>\n<p>E assim foi andando at&eacute; as Docas, j&aacute; esquecido do Ribas e j&aacute;<br \/>\n    esquecido do velho Mota. Ao p&eacute; das Docas parou.<\/p>\n<p>No ch&atilde;o, perto da porta, sacas de milho sobrepostas exalavam cheiro<br \/>\n    de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do c&acirc;nhamo, passeava<br \/>\n    ao sol.<\/p>\n<p>Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma baiana de ombros<br \/>\n    roli&ccedil;os e dentes s&atilde;os vendia gergelim, mendubi, batata doce<br \/>\n    e tangerinas aos marinheiros chegados essa manh&atilde; do Norte. Pelo grande<br \/>\n    port&atilde;o em arco, viam-se l&aacute; dentro das docas os caminh&otilde;es<br \/>\n    seguirem pelos trilhos para o cais, e as galerias em cima, por cujas rampas<br \/>\n    as sacas, apenas impelidas, desciam vertiginosamente.<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos<br \/>\n    arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranq&uuml;ilo mas amarfanhado,<br \/>\n    atando com m&atilde;os ligeiramente tr&ecirc;mulas a gravata suja.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor j&aacute; passou a rua Funda!<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso voltaremos.<\/p>\n<p>E voltaram, sem que o m&eacute;dico diminu&iacute;sse de aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    achando curioso um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou<br \/>\n    outra sacada de r&oacute;tulas, com janelas baixas, de caixilhos mi&uacute;dos,<br \/>\n    muito velhinhas, sugerindo lembran&ccedil;as, provocando divaga&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o ele parava, erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquilo.<br \/>\n    O Ribas n&atilde;o compreendia, e ficava &agrave; espera, com ar est&uacute;pido<br \/>\n    e os bra&ccedil;os pendurados.<\/p>\n<p>Passavam por um armarinho, quando o Ribas, n&atilde;o se contendo. disse<br \/>\n    com orgulho:<\/p>\n<p>&#8211; Esta loja &eacute; de minha irm&atilde;&#8230; ela est&aacute; ali&#8230; o senhor<br \/>\n    d&aacute; licen&ccedil;a?<\/p>\n<p>&#8211; Pode ir.<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio olhou. Em um balc&atilde;o tosco e estreito almo&ccedil;avam<br \/>\n    um homem macilento e uma mulher mo&ccedil;a, gr&aacute;vida, vestida de chita<br \/>\n    preta, sentada em um banco, com crian&ccedil;as nuas agarradas &agrave; saia.<br \/>\n    O almo&ccedil;o parecia parco, &#8211; n&atilde;o havia toalha nem vinho; o m&eacute;dico<br \/>\n    surpreendeu de relance dois copos d&aacute;gua e qualquer coisa p&aacute;lida<br \/>\n    dentro de um prato. Para n&atilde;o errar o caminho resolveu-se a esperar<br \/>\n    o guia, olhando entretanto para a meia d&uacute;zia de objetos expostos, na<br \/>\n    vidra&ccedil;a modest&iacute;ssima da porta: linhas de redes, de crochete<br \/>\n    de costura, anz&oacute;is e agulhas, cigarros, objetos de pescaria e cartas<br \/>\n    de A B C.<\/p>\n<p>O Ribas n&atilde;o se fez esperar; pareceu ao m&eacute;dico que o n&atilde;o<br \/>\n    tinham recebido bem&#8230;<\/p>\n<p>Seguiram dali por diante silenciosos, at&eacute; que o Ribas avisou:<\/p>\n<p>&#8211; A&iacute; est&aacute; a rua Funda.<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio olhou e sorriu a uma observa&ccedil;&atilde;o que as<br \/>\n    reminisc&ecirc;ncias de um quadro lhe sugeriam.<\/p>\n<p>Aquela rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da Concei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ladeada de casas de altura desigual, de onde em varais espetados pendiam roupas<br \/>\n    brancas recentemente lavadas, desenhando-se negra no fundo muito azul do c&eacute;u,<br \/>\n    lembrava-lhe uma viela de N&aacute;poles velha, onde o pitoresco n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; por certo maior, e de que ele tinha uma aquarela em casa.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; interessante, murmurou baixo, enquanto o Ribas, na frente, ia<br \/>\n    galgando a rua e batia &agrave; porta do sr. Mota, um sobradinho amarelo,<br \/>\n    de janelas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.<\/p>\n<p>O velho Mota dormitava no canap&eacute; da salinha de visitas, com a perna<br \/>\n    estendida sob uma colcha de retalhos de chita. As palmas do m&eacute;dico<br \/>\n    a filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do armarinho,<br \/>\n    que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o dr. Gerv&aacute;sio,<br \/>\n    ela estacou interdita, com os olhos arregalados e aconchegando com as m&atilde;os<br \/>\n    tontas a gola do palet&oacute; de chita.<\/p>\n<p>&#8211; Quem procura?<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio explicou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Fa&ccedil;a o favor de entrar&#8230;<\/p>\n<p>A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma colhendo as<br \/>\n    mostras de desmazelo da casa: aqui um p&eacute; de meia caldo da cesta de<br \/>\n    costura, acol&aacute; um pano de crivo roto, pendurado de um bra&ccedil;o<br \/>\n    de cadeira.<\/p>\n<p>O velho, despertado com sobressalto, mal atinava com o que dizer.<\/p>\n<p>Sim, ele conhecia o m&eacute;dico, e agradecia o cuidado do patr&atilde;o.<\/p>\n<p>A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em desordem.<br \/>\n    Era trintona, picada de bexigas, com as m&atilde;os desenvolvidas pelo uso<br \/>\n    da vassoura e da cozinha. O m&eacute;dico acompanhou-a com a vista, depois<br \/>\n    apressou-se em examinar o aparelho do doente, achando tudo em ordem, bem prevenido.<br \/>\n    Ainda bem; ele desacostumara-se dos seus trabalhos profissionais. A cl&iacute;nica<br \/>\n    irritava-o, como se tivesse pelos homens um interesse med&iacute;ocre.<\/p>\n<p>Sentindo os dedos do m&eacute;dico percorrerem-lhe a perna, seu Mota descrevia,<br \/>\n    numa lengalenga, a sua queda e a sua falta de recursos. Supunha fazer falta,<br \/>\n    ca&iacute;ra exatamente em uma ocasi&atilde;o de grande movimento no armaz&eacute;m&#8230;.<\/p>\n<p>A filha trouxe caf&eacute; em x&iacute;caras de p&oacute; de pedra; dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    bebeu uns goles por gentileza e o velho sorriu, aprovando-lhe a amabilidade.<\/p>\n<p>O Mota pedia desculpas da casa&#8230; n&atilde;o morava ali por gosto. Oh, se<br \/>\n    o dr. Gerv&aacute;sio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha<br \/>\n    vivia! Com a morte dela tudo desandara&#8230;<\/p>\n<p>O m&eacute;dico abreviou as lam&uacute;rias, prognosticando cura r&aacute;pida,<br \/>\n    e despediu-se, sem notar que a mo&ccedil;a reaparecera na salinha, com outro<br \/>\n    casaco enfeitado a crochet.<\/p>\n<p>Embaixo respirou de al&iacute;vio e come&ccedil;ou a descer a rua, por entre<br \/>\n    o palavreado gutural de papagaios suspensos &agrave;s janelas.<\/p>\n<p>Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir daqueles<br \/>\n    abomin&aacute;veis bichos; e ele apressou-se; mas logo na esquina pensou em<br \/>\n    andar por ali e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo mesmo caminho por<br \/>\n    que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha e desejou saber que<br \/>\n    mundo haveria l&aacute; em cima. Subiu.<\/p>\n<p>Crian&ccedil;as, nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam<br \/>\n    sozinhas, ladeando precip&iacute;cios.<\/p>\n<p>No alto o dr. Gerv&aacute;sio passou a outra rua, de grandes pedras engorduradas<br \/>\n    e denegridas, onde mulheres despenteadas falavam alto e gatos magros se esgueiravam<br \/>\n    rente &agrave;s paredes.<\/p>\n<p>Pareceu ao m&eacute;dico que a atmosfera ali era mais fria, de uma umidade<br \/>\n    penetrante, cheirando a velhice e a hortali&ccedil;as esmagadas. Mal concebia<br \/>\n    que s&eacute; pudesse dormir e amar naquele canto sinistro da cidade, mais<br \/>\n    prop&iacute;cio &agrave;s minhocas do que &agrave; natureza humana, quando<br \/>\n    reparou para uma mulher mo&ccedil;a, que, com uma lata de querosene, aparava<br \/>\n    &aacute;gua em uma bica. Era p&aacute;lida e linda. Tamb&eacute;m ela olhava<br \/>\n    para ele com um olhar de veludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.<\/p>\n<p>Esses encontros fortuitos traziam &agrave;s vezes ao m&eacute;dico compara&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    singulares. Aquela mulher era uma invoca&ccedil;&atilde;o; o seu olhar revelava<br \/>\n    uma consci&ecirc;ncia forte, a sua pele, cor de luar uma saudade infinita.<br \/>\n    Era a Agar da B&iacute;blia; urna a&ccedil;ucena num canteiro de lodo&#8230;<\/p>\n<p>Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas, corredores<br \/>\n    soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o mist&eacute;rio e o<br \/>\n    crime. Assaltou-o a id&eacute;ia de andar por ali &agrave; noite, disfar&ccedil;ado<br \/>\n    de qualquer maneira. E quando o sol se esconde qu&ecirc; o homem se mostra<br \/>\n    bem. Ele beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e penetraria em<br \/>\n    um daqueles albergues.<\/p>\n<p>Aos seus instintos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a lembran&ccedil;a,<br \/>\n    observando se a rosa da sua lapela ainda estaria fresca.<\/p>\n<p>Nem por isso&#8230; Foi ent&atilde;o obrigado a recuar de um salto; de uma alta<br \/>\n    trapeira atiravam &aacute;gua de barrela &agrave; rua. A &aacute;gua corria<br \/>\n    espumosa, em fios grossos, por entre os pedregulhos desiguais.<\/p>\n<p>&#8211; Bonito!<\/p>\n<p>Da&iacute; em diante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos<br \/>\n    se fixavam com estupefa&ccedil;&atilde;o no seu chap&eacute;u alto. Tinha<br \/>\n    a impress&atilde;o de atravessar por meio de ru&iacute;nas; parecia-lhe que<br \/>\n    em toda aquela rua n&atilde;o haveria um &uacute;nico caixilho com vidros,<br \/>\n    uma &uacute;nica chave sem ferrugem, uma &uacute;nica dobradi&ccedil;a perfeita.<\/p>\n<p>Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, resignada<br \/>\n    a tudo: ao p&atilde;o duro e &agrave; sombra de qualquer telha barata. Uma<br \/>\n    pobreza avarenta aquela, que formigava por toda a encosta de lagedos brutos,<br \/>\n    entre ratazanas e &aacute;guas servidas.<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio interrompeu o curso das suas id&eacute;ias ao ver,<br \/>\n    at&ocirc;nito, d. Joana sair de uma casa.<\/p>\n<p>Ela vinha cansada, com o largo rosto muito afogueado.<\/p>\n<p>Trazia nas m&atilde;os curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre<br \/>\n    e em n&iacute;queis.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o se mostrou menos espantada de o encontrar naqueles s&iacute;tios<br \/>\n    e foram andando juntos at&eacute; ao cimo do morro da Concei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    onde o ar livre varria toda a esplanada em frente ao pal&aacute;cio episcopal,<br \/>\n    e a luz de um c&eacute;u muito anilado e puro ca&iacute;a com todo o brilho.<\/p>\n<p>Respondendo a uma pergunta do m&eacute;dico, que aspirava com for&ccedil;a<br \/>\n    o ar do mar, como se quisesse lavar os pulm&otilde;es do ambiente infecto<br \/>\n    por que passara, d. Joana explicou que andava a pedir para a missa cantada.<br \/>\n    Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incr&iacute;vel!) era sempre nessas<br \/>\n    ruas de gente mi&uacute;da, miser&aacute;vel mesmo, que ela colhia maior n&uacute;mero<br \/>\n    de esmolas. &quot;A pobreza est&aacute; mais perto de Deus&quot;, dizia ela<br \/>\n    no seu doce tom de devo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Depois, ali mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha. Camila fora<br \/>\n    sempre uma desviada, nunca tivera propens&atilde;o para a igreja. Um cego<br \/>\n    via melhor as coisas da terra do que os olhos daquela alma as coisas do c&eacute;u!<\/p>\n<p>Que reparasse para os nomes judaicos que ela pusera nas filhas: Ruth, Lia,<br \/>\n    Rachel, quando havia tantos nomes de santas no calend&aacute;rio!<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso<br \/>\n    o que a magoava.<\/p>\n<p>Precisava salvar as crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, sim, esse era bom cat&oacute;lico; gostava de o ver na<br \/>\n    Candel&aacute;ria, com a sua opa de irm&atilde;o. Um santo homem!<\/p>\n<p>&#8211; Mas d. Mila vai &agrave; missa todos os domingos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, a missa hoje em dia &eacute; mais um dever de sociedade que um preceito<br \/>\n    de religi&atilde;o. Camila s&oacute; vai &agrave; igreja para se mostrar.<br \/>\n    Basta ver como ela se enfeita. Eu queria-a mais simples&#8230; A Ruth esteve algum<br \/>\n    tempo no col&eacute;gio das Irm&atilde;s: pois mal sabe o catecismo e ainda<br \/>\n    n&atilde;o cuidou da primeira comunh&atilde;o! Eu pe&ccedil;o a Deus por eles,<br \/>\n    mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Faz bem.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor &eacute; dos tais, que n&atilde;o querem crer.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n&atilde;o me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.<\/p>\n<p>&#8211; Aceito; rezarei nela pela sua convers&atilde;o. Olhe que bem precisa: o<br \/>\n    senhor est&aacute; empurrando Camila para o inferno&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu?!<\/p>\n<p>&#8211; Quem mais!<\/p>\n<p>&#8211; Oh, minha senhora, que injusti&ccedil;a&#8230; bem pelo contr&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, v&aacute; falando e n&atilde;o me olhe com esses olhos de motejo.<br \/>\n    Pensa que eu n&atilde;o sei de tudo? O &uacute;nico cego ali &eacute; o pobre<br \/>\n    do marido, que n&atilde;o merecia que lhe fizessem isso. Eu estou c&aacute;<br \/>\n    no meu canto, mas sei do que se passa, e toda a gente sabe, infelizmente&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; por falta de eu pedir a Nossa Senhora do Ros&aacute;rio,<br \/>\n    minha madrinha&#8230; mas os pecados v&ecirc;em-se, saltam aos olhos at&eacute;.<br \/>\n    J&aacute; me aconselhei com o padre Mendes, sem dizer de quem se tratava,<br \/>\n    est&aacute; claro, e pedi-lhe que rezasse para que isso acabasse em bem&#8230;<br \/>\n    Ele &eacute; um sacerdote, deve ser atendido&#8230; enquanto que eu, pobre pecadora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas a senhora est&aacute; louca, d. Joana?! balbuciou o m&eacute;dico,<br \/>\n    mal disfar&ccedil;ando a sua ira; n&atilde;o a entendo!<\/p>\n<p>Com medo de uma descarga de censuras, d. Joana despediu-se. Ia ainda dar<br \/>\n    uma volta pela Pedra do Sal.<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio mal a cumprimentou; sentia-se colado de espanto &agrave;quele<br \/>\n    ch&atilde;o poeirento. Os seus amores, que ele julgava bem ocultos, tinham<br \/>\n    varado as sacristias e ido do Botafogo elegante at&eacute; aos casebres do<br \/>\n    Castelo e da Concei&ccedil;&atilde;o! Quis desmentir a velha; mas os seus<br \/>\n    olhos claros, de um castanho louro, n&atilde;o o deixaram falar, cortando-lhe<br \/>\n    pela raiz qualquer protesto. Ela n&atilde;o falara s&oacute; pela boca, que<br \/>\n    a tinha sincera; mas tamb&eacute;m pelos olhos, em cuja limpidez aparecera<br \/>\n    toda a verdade.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico viu-a, com &oacute;dio, ir arrastando, na sua peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de f&eacute;, as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos<br \/>\n    e que ainda os franzidos da saia exageravam.<\/p>\n<p>Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ela tornasse, para lhe<br \/>\n    dizer ainda alguma coisa do pecado.<\/p>\n<p>O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do padre. Desde ent&atilde;o deixou de reparar nas coisas, para pensar em<br \/>\n    si. E os seus sentimentos eram de esp&eacute;cie confusa e tristonha.<\/p>\n<p>Em outros tempos, de mais verdes anos, a divulga&ccedil;&atilde;o de tais<br \/>\n    amores n&atilde;o o desgostaria, talvez&#8230; Ser amante de uma mulher bonita<br \/>\n    e cobi&ccedil;ada n&atilde;o &eacute; coisa que fique mal a um homem&#8230; Por<br \/>\n    ela, sim, devia ter cuidados e mist&eacute;rio; mas esse mesmo dever de discri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    absoluta n&atilde;o seria abafado pela voz do ego&iacute;smo, sempre a mais<br \/>\n    imperiosa nos homens, e pela da vaidade, se outras circunst&acirc;ncias n&atilde;o<br \/>\n    lhe exigissem segredo? As almas fortes dos homens t&ecirc;m dessas pequenices,<br \/>\n    e a dele, sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem prop&oacute;sito,<br \/>\n    de causar inveja aos menos afortunados&#8230;<\/p>\n<p>Cansado, nervoso, picado pelo sol, o dr. Gerv&aacute;sio seguiu &agrave;-toa,<br \/>\n    desceu o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos cumprimentos dos conhecidos,<br \/>\n    que ia encontrando &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que se aproximava do seu<br \/>\n    centro habitual. J&aacute; nada do que vira e o impressionara naquele giro,<br \/>\n    se lhe esbo&ccedil;ava na lembran&ccedil;a. Aquelas riquezas, aquele movimento,<br \/>\n    aquelas casas, aquele rumor de popula&ccedil;&atilde;o atarefada, baixa e<br \/>\n    mesclada, aquelas altas ruas despenhadas em escadarias imundas e barrancos,<br \/>\n    tudo se dissipava e se fundia numa impress&atilde;o de mar e de lixo, de onde<br \/>\n    surgia a voz melada, untuosa da tia Joana, oferecendo promessas, confidenciando<br \/>\n    com estranhos. sobre os seus amores e os seus adorados segredos.<\/p>\n<p>Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou &agrave; rua do Ouvidor,<\/p>\n<p>Veio-lhe ent&atilde;o em cheio o aroma das flores frescas, &agrave; venda<br \/>\n    na esquina; e a gra&ccedil;a de uma mulher que passava com um chap&eacute;u<br \/>\n    atrevido e um vestido bem feito, distra&iacute;ram-no um pouco&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">V<\/a><\/h4>\n<p>Noca foi ao quarto de M&aacute;rio, avis&aacute;-lo que a m&atilde;e lhe<br \/>\n    queria falar.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; sabe pra que &eacute;? perguntou-lhe o mo&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8211; Desconfio; h&aacute; de ser por causa da tal francesa&#8230; Parece que ainda<br \/>\n    foi outro dia que voc&ecirc; nasceu, e j&aacute; anda por a&iacute; na extravag&acirc;ncia!<\/p>\n<p>&#8211; Vai pregar a outra freguesia.<\/p>\n<p>&#8211; Verdade, verdade, seu pai tem raz&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu logo vi que o serm&atilde;o havia de vir empurrado por papai, disse<br \/>\n    M&aacute;rio com ironia, dando o &uacute;ltimo retoque &agrave; toilette.<br \/>\n    Nisso abriram a porta, ele voltou-se; era a m&atilde;e.<\/p>\n<p>Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama at&eacute; os travesseiros,<br \/>\n    sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a janela e saiu, deixando<br \/>\n    uma ponta de ordem no desalinho do quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Achei melhor falarmos aqui. N&atilde;o seremos interrompidos.<\/p>\n<p>&#8211; Como quiser. Sente-se, mam&atilde;e.<\/p>\n<p>Camila sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Ele, pegando-lhe nas<br \/>\n    m&atilde;os, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s nos dando s&eacute;rios desgostos, M&aacute;rio.<\/p>\n<p>&#8211; Eu?<\/p>\n<p>&#8211; Sim; bem sabes de que se trata.<\/p>\n<p>&#8211; Calculo; mas, francamente, n&atilde;o vejo raz&atilde;o para tamanho alvoro&ccedil;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; As tuas faltas s&atilde;o muito repetidas. N&atilde;o te emendas!<\/p>\n<p>&#8211; As minhas faltas s&atilde;o tributos da mocidade, f&aacute;ceis de perdoar.<\/p>\n<p>&#8211; Enganas-te.<\/p>\n<p>M&aacute;rio largou as m&atilde;os da m&atilde;e e tornou-se muito s&eacute;rio.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o compreendo.<\/p>\n<p>&#8211; Compreendes. Falo&#8230; falo dessa mulher com quem andas agora&#8230; dizem todos<br \/>\n    que ela arruinar&aacute; a tua sa&uacute;de e a nossa fortuna&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; criatura por quem um rapaz da tua idade se apaixone.<br \/>\n    Eu quando a encontro na rua nem sei onde ponho os p&eacute;s.<\/p>\n<p>M&aacute;rio corou, e murmurou qualquer coisa que a m&atilde;e n&atilde;o<br \/>\n    ouviu.<\/p>\n<p>&#8211; Receio sempre ver-te aparecer a seu lado; porque eu sei que tens tido a<br \/>\n    coragem de te apresentar em p&uacute;blico com ela. V&ecirc; a que horror<br \/>\n    exp&otilde;es tua fam&iacute;lia, j&aacute; n&atilde;o digo teu pai, que &eacute;<br \/>\n    um santo, mas que enfim, &eacute; homem; mas a tua irm&atilde; e a mim. &Eacute;<br \/>\n    feio da tua parte sujeitar-nos a uma decep&ccedil;&atilde;o dessa ordem&#8230;<\/p>\n<p>M&aacute;rio mordia os bei&ccedil;os, brancos de raiva.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me interrompas; j&aacute; agora direi tudo. &Eacute; preciso<br \/>\n    acabar com a explora&ccedil;&atilde;o daquela mulher, Deixa-a quanto antes,<br \/>\n    hoje mesmo, ouviste? Teu pai exige isso de ti, ele sabe que por causa dela<br \/>\n    tens cometido j&aacute; indignidades. &Eacute; uma vergonha, todos os dias<br \/>\n    s&atilde;o d&iacute;vidas e mais d&iacute;vidas!<\/p>\n<p>M&aacute;rio continha a custo a sua c&oacute;lera, apertando com as m&atilde;os,<br \/>\n    nervosamente, as costas de uma cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; P&otilde;e os olhos em teu pai. Segue-lhe o exemplo.<\/p>\n<p>M&aacute;rio sorriu com desd&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai est&aacute; velho; j&aacute; n&atilde;o se lembra do que fez na<br \/>\n    mocidade.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sabes que ele nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um animal.<\/p>\n<p>&#8211; Os portugueses nasceram s&oacute; para isso; eu tenho outros gostos e outras<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es. Meu pai n&atilde;o me compreende.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o dinheiro que esbanjas de quem &eacute;?!<\/p>\n<p>&#8211; Ah, o dinheiro! logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse ele<br \/>\n    com redobrado esc&aacute;rnio.<\/p>\n<p>&#8211; Por isso e por outras coisas; exclamou Camila, espica&ccedil;ada pela ironia<br \/>\n    do filho.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que outras coisas, mam&atilde;e!? retrucou ele, plantando-se diante<br \/>\n    dela, com raiva.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; te disse, j&aacute; te disse! n&atilde;o te finjas de surdo!<br \/>\n    Por causa da tua sa&uacute;de, que &eacute; fraca, e da tua reputa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Reputa&ccedil;&atilde;o! ora, mam&atilde;e, e &eacute; a senhora quem me<br \/>\n    fala nisso!<\/p>\n<p>Camila estacou, sem atinar com uma resposta, compreendendo o alcance das<br \/>\n    palavras do filho. A surpresa paralisou-lhe a l&iacute;ngua; o sangue arrefeceu-se-lhe<br \/>\n    nas veias; mas, de repente, a rea&ccedil;&atilde;o sacudiu-a e ent&atilde;o,<br \/>\n    num desatino, ferida no cora&ccedil;&atilde;o, ela achou para o M&aacute;rio<br \/>\n    admoesta&ccedil;&otilde;es mais &aacute;speras. Percebia que a l&iacute;ngua<br \/>\n    dizia mais que a sua vontade; mas n&atilde;o podia cont&ecirc;-la. A dor atirava-a<br \/>\n    para diante, contra &agrave;quele filho, at&eacute; ent&atilde;o poupado.<\/p>\n<p>Recebendo em cheio a c&oacute;lera materna, M&aacute;rio julgou perceber<br \/>\n    nela insinua&ccedil;&otilde;es de outrem. Havia de andar por ali a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    danada do dr. Gerv&aacute;sio. Quando Camila acabou de falar, ele come&ccedil;ou,<br \/>\n    destacando as palavras, que sa&iacute;am pesadas:<\/p>\n<p>&#8211; A senhora pode censurar-me em nome de meu pai, visto que ele n&atilde;o<br \/>\n    teve coragem para tanto.; mas em seu nome, n&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; M&aacute;rio!<\/p>\n<p>&#8211; Em seu nome, n&atilde;o! Quem me lan&ccedil;ou neste caminho e me fez ter<br \/>\n    os gostos que eu tenho?<\/p>\n<p>&#8211; O excesso do meu amor por ti est&aacute; bem castigado!&#8230; Mas n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; isso agora que desespera teu pai&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai &eacute; cego para as culpas dos outros; por que n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    tamb&eacute;m cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna &eacute;<br \/>\n    menos nociva &agrave; fam&iacute;lia que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o basta; a senhora assim o quis; conhece o meu g&ecirc;nio., podia<br \/>\n    ter evitado esta explica&ccedil;&atilde;o. Talvez seja melhor assim; afinal<br \/>\n    eu precisava dizer-lhe alguma coisa, eu tamb&eacute;m. E isto: &#8211; odeio o dr.<br \/>\n    Gerv&aacute;sio, e dou-lhe a escolher entre mim e ele.<\/p>\n<p>Camila fixou no filho olhos de espanto.<\/p>\n<p>Houve um largo sil&ecirc;ncio. Depois ele repetiu, martelando as palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Ou ele ou eu.<\/p>\n<p>A m&atilde;e, com uma lividez de morta, n&atilde;o voltava da sua estupefa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Todo o corpo lhe tremia, e l&aacute;grimas vieram pouco a pouco borbulhando,<br \/>\n    grossas e pesadas, nos seus olhos est&aacute;ticos. Tentou defender-se, chamar<br \/>\n    de cal&uacute;nia aquela id&eacute;ia; mas as palavras morreram-lhe na garganta,<br \/>\n    e ela encolheu-se na poltrona, cingindo os bra&ccedil;os ao busto, como se<br \/>\n    tentasse esmagar o cora&ccedil;&atilde;o ofendido.<\/p>\n<p>M&aacute;rio caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para<br \/>\n    a m&atilde;e, ia falar ainda, mas viu-a de aspecto t&atilde;o miser&aacute;vel,<br \/>\n    que uma s&uacute;bita miseric&oacute;rdia se apoderou dele.<\/p>\n<p>Ela chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de desaparecer.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoe-me, mam&atilde;e; mas que queria que eu dissesse!!<\/p>\n<p>Camila levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quase imperceptivelmente:<\/p>\n<p>&#8211; Nada&#8230;<\/p>\n<p>M&aacute;rio recome&ccedil;ou a passear, com as m&atilde;os nos bolsos, a<br \/>\n    cabe&ccedil;a baixa. Camila, ainda na poltrona, com as costas para a janela,<br \/>\n    os cotovelos fincados nos joelhos e o queixo nas m&atilde;os, procurava uma<br \/>\n    palavra com que pudesse convencer o filho da sua inoc&ecirc;ncia. Tudo lhe<br \/>\n    parecia prefer&iacute;vel &agrave;quela humilha&ccedil;&atilde;o. Daria a<br \/>\n    luz dos seus olhos, &#8211; ah, antes ela fosse cega! para que M&aacute;rio a julgasse<br \/>\n    pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito honesta, toda de seu<br \/>\n    marido e das suas crian&ccedil;as.. Compreendia bem que o sentimento e a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nas mulheres s&oacute; servem para a dor. Colhem rosas as insens&iacute;veis,<br \/>\n    que vivem eternamente na doce paz; para as outras h&aacute; pedras, duras<br \/>\n    como aquelas palavras do seu filho adorado. Antes ela fora surda: n&atilde;o<br \/>\n    as teria ouvido!<\/p>\n<p>Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos&#8230;<br \/>\n    e a&iacute; estava como dele s&oacute; se dizia bem! Ele amara outras pela<br \/>\n    vol&uacute;pia, pelo pecado, pelo crime; ela s&oacute; se desviara para um<br \/>\n    homem, depois de lutas redentoras; e porque fora arrastada nessa fascina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e porque n&atilde;o sabia esconder a sua ventura, a&iacute; estava boca do<br \/>\n    filho a dizer-lhe amarguras&#8230;<\/p>\n<p>Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na veneziana do quarto.<\/p>\n<p>M&aacute;rio aconselhou:<\/p>\n<p>&#8211; Ser&aacute; bom aparecer; as meninas est&atilde;o notando a sua aus&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camila levantando-se.<\/p>\n<p>Empurraram a porta. Era o Dion&iacute;sio que vinha saber se o patr&atilde;o<br \/>\n    precisaria do carro. Ouvira falar na v&eacute;spera em um almo&ccedil;o na<br \/>\n    G&aacute;vea.<\/p>\n<p>M&aacute;rio respondeu com impaci&ecirc;ncia e sem abrir:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito &agrave; m&atilde;e;<br \/>\n    puxou-a para si, beijou-a na testa e, com carinho:<\/p>\n<p>&#8211; Diga a meu pai que hoje mesmo me despedirei dela&#8230;<\/p>\n<p>Quando Camila saiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas g&ecirc;meas,<br \/>\n    que a puxavam para o jardim, gritando com entusiasmo:<\/p>\n<p>&#8211; Venha ver, mam&atilde;e!<\/p>\n<p>&#8211; Que coisa linda, mam&atilde;e!<\/p>\n<p>&#8211; O homem disse que foi papai que mandou!<\/p>\n<p>&#8211; Adivinhe o que &eacute;!<\/p>\n<p>&#8211; Diga; sabe o que &eacute;, mam&atilde;e?<\/p>\n<p>A m&atilde;e n&atilde;o respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda<br \/>\n    tr&ecirc;mula ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe<br \/>\n    aquelas palavras terr&iacute;veis. As crian&ccedil;as riam, e aquelas risadas<br \/>\n    eram como um clangor de sinos reboando em torno dela. Os sons avolumavam-se,<br \/>\n    repercutiam no seu c&eacute;rebro dolorido. Ele sabia! M&aacute;rio sabia!<br \/>\n    Quem lhe teria dito? que boca imunda profanara aquele segredo, em que h&aacute;<br \/>\n    tantos anos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da casa saberiam tamb&eacute;m?<\/p>\n<p>&#8211; Veja, mam&atilde;e, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado<br \/>\n    do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a cores, um menino<br \/>\n    e uma menina resguardados pelo mesmo chap&eacute;u de sol azul.<\/p>\n<p>RacheI bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Jo&atilde;ozinho<br \/>\n    e a menina Maria.<\/p>\n<p>&#8211; Maria, n&atilde;o! h&aacute; de se chamar Cec&iacute;lia, protestou Lia.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; de ser Maria, h&aacute; de ser Maria e h&aacute; de ser Maria!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, mam&atilde;e, que a menina se h&aacute; de chamar Maria?<\/p>\n<p>Camila n&atilde;o respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para<br \/>\n    os bonecos, p&ocirc;s-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus<br \/>\n    bibes brancos, e os cabelos soltos.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc;s gostam muito de mim? perguntou-lhes ela de repente. puxando-as<br \/>\n    para si.<\/p>\n<p>&#8211; Eu gosto muito!<\/p>\n<p>&#8211; Eu gosto mais!<\/p>\n<p>&#8211; Mentira! quem gosta mais sou eu!<\/p>\n<p>&#8211; Eu acho mam&atilde;e muito bonita!<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb&eacute;m acho.<\/p>\n<p>&#8211; E se eu fosse feia&#8230; bem feia&#8230; se&#8230; por exemplo, eu tivesse bexigas<br \/>\n    e ficasse marcada, sem olhos, com a pele repuxada&#8230; ainda assim voc&ecirc;s<br \/>\n    gostariam de mim?<\/p>\n<p>&#8211; Muito, muito!<\/p>\n<p>&#8211; Se Deus me desse uma doen&ccedil;a repugnante&#8230; como aquela doen&ccedil;a<br \/>\n    do Raimundo, sabem? a morf&eacute;ia, e que todos fugissem de mim com nojo<br \/>\n    e com medo&#8230; que fariam voc&ecirc;s?<\/p>\n<p>&#8211; Eu havia de. estar sempre ao p&eacute; de mam&atilde;e! Havia de lhe meter<br \/>\n    a comida na boca; mudar-lhe roupa e contar-lhe hist&oacute;rias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E eu havia de dormir na mesma cama que mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por que &eacute; que a senhora diz isso?! N&atilde;o chore, mam&atilde;e!<\/p>\n<p>Camila beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade caiu sobre<br \/>\n    o seu rosto p&aacute;lido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas defend&ecirc;-la-iam<br \/>\n    dos maus tratos do mundo.<\/p>\n<p>A campainha do almo&ccedil;o repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu<br \/>\n    violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tamb&eacute;m o<br \/>\n    grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Teodoro.<\/p>\n<p>Nina vinha na frente, conto seu modo tranq&uuml;ilo de m&eacute;nag&egrave;re,<br \/>\n    bem penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um aventalzinho<br \/>\n    circundado de rendas. Atr&aacute;s dela, Noca bamboleava o seu corpo cheio,<br \/>\n    sem colete, vestida de chita clara, rindo alto de uma anedota do copeiro.<\/p>\n<p>Camila teve um sobressalto.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m aquela, a Nina, saberia tudo? Teve &iacute;mpetos de lhe ir<br \/>\n    ao encontro e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabelos negros da<br \/>\n    Rachel e da Lia, que se cosiam &agrave;s suas saias, e passou-lhes as m&atilde;os<br \/>\n    na cabe&ccedil;a, devagar, numa car&iacute;cia muda, grata ao seu amor e &agrave;<br \/>\n    sua inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Que engra&ccedil;adinho! n&atilde;o acha, tia Mila, que h&aacute; de fazer<br \/>\n    bonita vista depois de colocado no meio do lago?<\/p>\n<p>&#8211; Acho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; de muito gosto!<\/p>\n<p>Noca tinha pena. Coitadinhas das crian&ccedil;as! haviam de ir assim t&atilde;o<br \/>\n    nuas para o sereno das noites? Muito chic!<\/p>\n<p>Uns admiravam a beleza da menina, outros a do menino, e afinal concordavam<br \/>\n    que o conjunto &eacute; que valia tudo. Ruth veio por &uacute;ltimo; queixava-se<br \/>\n    de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram a opini&atilde;o dela;<br \/>\n    n&atilde;o era t&atilde;o bonito, aquilo?<\/p>\n<p>&#8211; Nunca apreciei bonecos; voc&ecirc;s bem sabem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; boneco! Voc&ecirc; &eacute; enjoada! &Eacute; verdade! M&aacute;rio<br \/>\n    ainda n&atilde;o viu&#8230; Oh! Dion&iacute;sio! chama a&iacute; seu M&aacute;rio!<\/p>\n<p>Nina voltou-se, vermelha, para a janela do primo; ele n&atilde;o apareceu,<br \/>\n    e Ruth, instando pelo almo&ccedil;o:<\/p>\n<p>&#8211; Que milagre! Dr. Gerv&aacute;sio hoje n&atilde;o apareceu! exclamou sem<br \/>\n    inten&ccedil;&atilde;o, colhendo uma Marechal Neel para o peito.<\/p>\n<p>Camila estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal disfar&ccedil;ado<br \/>\n    susto. Por que teria ela dito aquilo?<\/p>\n<p>Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com m&atilde;os apressadas<br \/>\n    um trevo de quatro folhas, para dar &agrave; pobre da Nina.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! se ela encontrasse o trevo, a mo&ccedil;a seria correspondida pelo<br \/>\n    ingrato do primo, e assim o diabo da francesa iria bater a outra porta&#8230;<br \/>\n    Deus fizesse com que ela achasse um trevo de quatro folhas!<\/p>\n<p>Meia hora depois estavam todos &agrave; mesa, e ainda a mulata procurava<br \/>\n    com &acirc;nsia a folhinha fat&iacute;dica.<\/p>\n<p>M&aacute;rio atravessou o jardim; ela sentiu-lhe os passos e voltando-se<br \/>\n    chamou-o.<\/p>\n<p>&#8211; U&ecirc;! porque n&atilde;o foi almo&ccedil;ar?!<\/p>\n<p>&#8211; Preciso ir j&aacute; para a cidade. Diga isso mesmo a mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o foi se despedir dela?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; j&aacute; nos falamos&#8230; diga isso mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Hum!&#8230; voc&ecirc; hoje n&atilde;o tem boa cara!&#8230; L&aacute; dentro n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; ningu&eacute;m de fora: pode ir. E sua m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cantigas. Adeus.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Olhe, M&aacute;rio, lembre-se do que lhe diz esta mulata: &#8211;<br \/>\n    Sua felicidade est&aacute; aqui&#8230; As estrangeiras s&oacute; gostam de dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Adeusinho!<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, meu filho&#8230;<\/p>\n<p>A mulata foi at&eacute; o gradil, para olhar ainda para o mo&ccedil;o que<br \/>\n    ela ajudara a criar desde o primeiro dia.<\/p>\n<p>Como ele &eacute; bonito! pensava ela: as mulheres t&ecirc;m raz&atilde;o<br \/>\n    de o preferir a todos!&#8230; D. Nina n&atilde;o merece aquilo; mas, enfim, antes<br \/>\n    ela do que a tal sanguessuga&#8230; Este mundo &eacute; assim mesmo, a gente gosta<br \/>\n    de quem n&atilde;o deve&#8230; Ele morre pela outra e &eacute; esta quem morre<br \/>\n    por ele!&#8230; Verdade, verdade, ele &eacute; a flor da fam&iacute;lia&#8230; em<br \/>\n    quest&atilde;o de boniteza, garanto que n&atilde;o h&aacute; pessoa que se<br \/>\n    iguale a M&aacute;rio&#8230; Eu bem dizia que ele poria as irm&atilde;s num chinelo!<br \/>\n    Por que n&atilde;o teria vindo o dr. Gerv&aacute;sio&#8230; o diabo do feiticeiro<br \/>\n    deu bruxaria a nh&aacute; Mila&#8230; Se seu Teodoro sabe da hist&oacute;ria!&#8230;<br \/>\n    que estralada! Mas quem h&aacute; de dizer? Boca, fecha-te! boca, fecha-te!<br \/>\n    que n&atilde;o seja por minha culpa&#8230; Bem! M&aacute;rio tomou o bonde&#8230;<br \/>\n    l&aacute; vai ele almo&ccedil;ar com a outra&#8230; Ora! se isso lhe d&aacute;<br \/>\n    gosto, que aproveite!<\/p>\n<p>Com um gesto decidido, ela rematou o seu pensamento ego&iacute;sta e caminhou<br \/>\n    para a copa, &agrave; procura de almo&ccedil;o.<\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">VI<\/a><\/h4>\n<p>Numa manh&atilde; l&iacute;mpida, cor de safira, Camila e Ruth entraram com<br \/>\n    Teodoro e o dr. Gerv&aacute;sio na lancha &#8211; Aurora &#8211; em demanda do Netuno.<\/p>\n<p>O sol cobria com uma rede de ouro movedi&ccedil;a a superf&iacute;cie das<br \/>\n    &aacute;guas; fazia calor.<\/p>\n<p>As senhoras ajeitaram os folhos das suas saias de linho no banco da r&eacute;,<br \/>\n    e abriram as sombrinhas claras.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre gostaria que me provassem a serventia desses chap&eacute;us de sol.<br \/>\n    N&atilde;o resguardam nada. S&atilde;o objetos in&uacute;teis. Eu se fosse<br \/>\n    mulher nunca me sujeitaria a modas, disse Teodoro.<\/p>\n<p>&#8211; Faria mal. Quanto aos chap&eacute;us, acho-os bonitos; s&atilde;o muito<br \/>\n    decorativos. Veja como a cor de rosa da sombrinha de Ruth, e a creme de D.<br \/>\n    Mila se harmonizam neste fundo azul. Digam o que quiserem; para mim a intui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da arte est&aacute; na mulher, retrucou Gerv&aacute;sio.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser. Eu s&oacute; gosto do que &eacute; positivo e pr&aacute;tico.<br \/>\n    Enfim, nas senhoras ainda eu perd&ocirc;o certas niquices&#8230;<\/p>\n<p>Sabia Teodoro que o esp&iacute;rito e a posi&ccedil;&atilde;o de um homem<br \/>\n    se espelham nas suas roupas; por isso as dele eram sempre graves.<\/p>\n<p>Para tudo que n&atilde;o fosse o trabalho, envergava a sobrecasaca, bem abotoada<br \/>\n    sobre o est&ocirc;mago arredondado.<\/p>\n<p>A sua cartola luzidia, bem tratada, afirmava &agrave;s turbas que ia ali<br \/>\n    algu&eacute;m de cortesia e respeito; era como se o seu t&iacute;tulo de comendador<br \/>\n    tremeluzisse no cetim daquele pelo. N&atilde;o sa&iacute;a de casa sem carregar<br \/>\n    o guarda-sol de excelente seda portuguesa e cast&atilde;o de ouro, traste<br \/>\n    que o protegeria em um amplo c&iacute;rculo, se acaso chuvas ca&iacute;ssem<br \/>\n    inesperadamente. Previa tudo; com habilidade, harmonizara &agrave; maneira<br \/>\n    do traje a dos seus discursos, sempre entrecortados de: tais como, de maneiras<br \/>\n    que, por&eacute;m, tal e coisas&#8230;<\/p>\n<p>J&aacute; a lancha singrava as ondas mansas, quando ele contou ao dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    que a&iacute; uns colegas seus amigos queriam arranjar-lhe um t&iacute;tulo<br \/>\n    de Portugal; ele fizera constar que n&atilde;o aceitaria a distin&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas, se a coisa viesse, que havia de fazer?<\/p>\n<p>O m&eacute;dico respondeu com um gesto vago, em que perpassou a sombra de<br \/>\n    um sorriso.<\/p>\n<p>&#8211; Outros usar&atilde;o desses t&iacute;tulos com menos direito, continuou<br \/>\n    o negociante, n&atilde;o digo que n&atilde;o; em todo o caso&#8230;<\/p>\n<p>Mila lembrou que, para justificar essa honraria, bastariam as grandes somas<br \/>\n    com que ele entrava nas subscri&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Ele riu-se. <\/p>\n<p>&#8211; Estou vendo que voc&ecirc; quer ser viscondessa, hem?<\/p>\n<p>Ela encolheu os ombros. Em verdade, nunca pensara nisso. Gostava de viver<br \/>\n    bem, &agrave; larga, com muito dinheiro. Esse tinha-o, bastava-lhe.<\/p>\n<p>Iam todos calados, quando Ruth suspirou:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho pena de n&atilde;o ter trazido o violino!<\/p>\n<p>&#8211; Que tolice! havia de ter gra&ccedil;a!<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e, quando eu me comovo, gosto de tocar. Entendo-me t&atilde;o<br \/>\n    bem com a m&uacute;sica!<\/p>\n<p>Os pais riram-se da asneira e o dr. Gerv&aacute;sio fixou o rosto p&aacute;lido<br \/>\n    da mocinha. Esse n&atilde;o riu.<\/p>\n<p>A lancha Aurora, muito faceira, reluzente nos seus metais, cortava as &aacute;guas<br \/>\n    com rapidez, soltando silvos que assustavam as senhoras.<\/p>\n<p>&#8211; Este passeio est&aacute;-me abrindo o apetite para uma viagem&#8230; Se as<br \/>\n    coisas continuarem como at&eacute; aqui, &eacute; fato assentado que levarei<br \/>\n    a minha gente ainda este ano &agrave; Europa, disse Francisco Teodoro.<\/p>\n<p>Camila e o m&eacute;dico trocaram um olhar de susto.<\/p>\n<p>Vendo o lindo rosto, sempre t&atilde;o fresco e t&atilde;o mo&ccedil;o, de<br \/>\n    Mila, os seus cabelos negros, o seu colo cheio, os seus olhos de veludo, provocantes<br \/>\n    e apaixonados, toda aquela figura de mulher amorosa, quente e grave, que ele<br \/>\n    n&atilde;o se cansava de estreitar nos bra&ccedil;os, a id&eacute;ia de uma<br \/>\n    separa&ccedil;&atilde;o afigurou-se-lhe imposs&iacute;vel e monstruosa.<\/p>\n<p>Parecia-lhe que a amava ainda mais nesse dia do que em todos os passados;<br \/>\n    a do&ccedil;ura da sua conviv&ecirc;ncia enternecia-o, como se a entrevisse<br \/>\n    j&aacute; atrav&eacute;s da saudade.<\/p>\n<p>Ela assegurou-lhe em um sorriso que n&atilde;o partiria. N&atilde;o haveria<br \/>\n    for&ccedil;as capazes de a arrancarem do seu amor.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro mostrava agora &agrave; filha o casco branco de um navio<br \/>\n    de guerra, onde roupas lavadas de marinheiros enfestoavam de azul o castelo<br \/>\n    de proa. No cimo de um mastro, um homem que desatava cordames, tinha, na altura,<br \/>\n    propor&ccedil;&otilde;es de boneco.<\/p>\n<p>Gaivotas tontas voavam em bandos circulares, ponho grinaldas de asas fugitivas<br \/>\n    no azul imaculado. Longe, a casaria da cidade, com as suas torres, esfumava-se<br \/>\n    em uma neblina r&oacute;sea, esbatida em di&aacute;fana violeta.<\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; bonito! exclamou Ruth fulgurante, bebendo o ar que vinha<br \/>\n    em cheio da barra. Est&aacute;-me parecendo que, se eu fosse rapaz, seria<br \/>\n    marinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Outra tolice.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e, o azul &eacute; uma cor t&atilde;o bonita!<\/p>\n<p>&#8211; Se fosses rapaz&#8230; se fosses rapaz&#8230; realmente antes fosses, tu o rapaz<br \/>\n    e M&aacute;rio a rapariga&#8230; resmungou Teodoro.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre do M&aacute;rio&#8230; j&aacute; tardava&#8230; disse Mila.<\/p>\n<p>&#8211; Isto n&atilde;o &eacute; falar mal; &eacute; a, verdade.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; falar mal dizer que ele n&atilde;o tem aptid&otilde;es,<br \/>\n    que &eacute; insignificante?<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o disse tal.<\/p>\n<p>&#8211; Mas deu a entender. Eu nem sei at&eacute; como ele &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    bom, ouvindo tantas insinua&ccedil;&otilde;es. Se fosse outro, sabe Deus o<br \/>\n    que teria acontecido! &Eacute; porque tem mesmo muito bom cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Os erros que comete s&atilde;o naturais da idade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Senhora! n&atilde;o o defenda. Bem sabe porque &eacute; que eu digo as<br \/>\n    coisas. N&atilde;o falo &agrave;-toa.<\/p>\n<p>N&atilde;o, ela n&atilde;o sabia; o que via era uma grande injusti&ccedil;a,<br \/>\n    pesando continuamente sobre a cabe&ccedil;a do filho. Que mais queriam que<br \/>\n    o pobre fizesse? Ele n&atilde;o nascera para os trabalhos brutos, do com&eacute;rcio,<br \/>\n    era um delicado. Certamente que n&atilde;o tinha idade para se divertir a<br \/>\n    jogar a bisca em fam&iacute;lia; os seus dezenove anos tinham outras exig&ecirc;ncias.<br \/>\n    Reparassem todos que era natural&iacute;ssimo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual natural&iacute;ssimo, qual nada! Indecente, sim,, &eacute; que aquilo<br \/>\n    era. Um bilontrinha, o tal seu M&aacute;rio. Ainda na v&eacute;spera soubera<br \/>\n    de novas proezas. Ele deixara a francesa, sim, senhores; parecia ceder ao<br \/>\n    conselho da m&atilde;e; mas para que? Para andar em p&uacute;blico de bra&ccedil;o<br \/>\n    dado com outras, talvez piores, e entrar em casas de jogo, que a pol&iacute;cia<br \/>\n    ataca!<\/p>\n<p>Camila mostrou Ruth ao marido, com um olhar aflito, para que moderasse os<br \/>\n    furores da sua linguagem.<\/p>\n<p>Contente por cortar o di&aacute;logo, o m&eacute;dico apontou um vapor, que<br \/>\n    j&aacute; se via de perto.<\/p>\n<p>&#8211; O Netuno&#8230; &eacute; bonitinho, reparem.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; feio, n&atilde;o&#8230; resmungou Teodoro, j&aacute; desviado<br \/>\n    dos seus pensamentos; mas&#8230; esperem! l&aacute; no conv&eacute;s parece estar<br \/>\n    uma mulher. Que diacho! o capit&atilde;o Rino ser&aacute; casado?<\/p>\n<p>&#8211; Se &eacute; poss&iacute;vel! se ele fosse casado n&oacute;s estar&iacute;amos<br \/>\n    fartos de o saber. Voc&ecirc; diz cada tolice&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora tolices! que mal fazia que o homem fosse casado, hein?<\/p>\n<p>&#8211; A mim? nenhum certamente. Que me importa!&#8230; e Mila riu-se, querendo subjugar<br \/>\n    &agrave; for&ccedil;a a raiva que lhe ficara da discuss&atilde;o com o marido.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico tornou-se sombrio. Que mal faria que o outro fosse casado!<br \/>\n    Nenhum!&#8230; certamente. E se dissessem dele a mesma coisa a Mila, que responderia<br \/>\n    ela! a mesma coisa? com o mesmo levantar de ombros, com o mesmo desd&eacute;m?<br \/>\n    Teve &iacute;mpetos de lho perguntar; mas como? Ali era imposs&iacute;vel&#8230;<br \/>\n    Ficava para depois.<\/p>\n<p>A lancha atracou ao Netuno, e do portal&oacute; desceu o capit&atilde;o Rino,<br \/>\n    vestido de flanela branca, com uma bela rosa vermelha na lapela.<\/p>\n<p>Estranharam-lhe o porte, acharam-no muito mais elegante; parecia outro. Tinha<br \/>\n    descido para ajudar as senhoras. Ruth saiu da lancha num salto, mostrando<br \/>\n    as pernas finas, contente por aquela novidade, aquele mar circundado, de montanhas<br \/>\n    azuis, aquelas velas brancas e aqueles cascos alcatroados, flutuantes, com<br \/>\n    que se cruzara no caminho. O capit&atilde;o Rino mal olhou para ela; suspendeu-a,<br \/>\n    com pulso forte, at&eacute; o primeiro degrau da escada e voltou-se logo para<br \/>\n    Camila, com olhar ansioso, estendendo-lhe os bra&ccedil;os. Ela caiu-lhe em<br \/>\n    cheio sobre o peito largo e riu-se, pedindo desculpas. Era t&atilde;o pesada!<br \/>\n    Ele corou, tonto, tr&ecirc;mulo, sem achar uma palavra com que lhe respondesse.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, cuidadoso da cartola e das abas da sua ampla sobrecasaca,<br \/>\n    n&atilde;o prescindiu da m&atilde;o auxiliadora do capit&atilde;o; o dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    veio por fim, tirando num cumprimento o seu chap&eacute;u mole.<\/p>\n<p>Em cima, no tombadilho, marinheiros passavam vagarosos, indiferentes pelos<br \/>\n    visitantes. Junto ao portal&oacute;, estava uma senhora, a mesma, evidentemente,<br \/>\n    que eles tinham avistado da lancha.<\/p>\n<p>Era uma mulher delgada, branca e loira, com um par de olhos semelhantes aos<br \/>\n    do capit&atilde;o Rino, de um azul de faian&ccedil;a, e uma fisionomia vaga,<br \/>\n    de anjo decorativo. Contrastando com o tipo, trazia uma toilette escarlate,<br \/>\n    que lhe dava valor &agrave; pele cor de l&iacute;rio p&aacute;lido, e parecia<br \/>\n    uma ofensa ao seu corpo virginal. O capit&atilde;o apresentou-a logo a todos<br \/>\n    com duas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Minha irm&atilde;.<\/p>\n<p>Foi depois, aos poucos, durante a visita do Netuno, que viram desde o tombadilho<br \/>\n    at&eacute; ao por&atilde;o, que souberam que essa irm&atilde;, at&eacute;<br \/>\n    ali ignorada, se chamava Catarina, e vivia em companhia da madrasta, senhora<br \/>\n    vi&uacute;va, em uma frondosa ch&aacute;cara do Cosme Velho.<\/p>\n<p>Catarina ajudava o irm&atilde;o a mostrar o Netuno, e por vezes as suas explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tinham maior clareza que as dele. Se ele parava, ela tomava-lhe a palavra<br \/>\n    cortada. completava-a e seguia para diante com todo o desembara&ccedil;o.<\/p>\n<p>Depois de percorrerem o navio, o capit&atilde;o Rino convidou todos para<br \/>\n    um vermouth gelado, na rua C&acirc;mara.<\/p>\n<p>O espa&ccedil;o n&atilde;o era grande. Camila, Ruth e Catarina apertaram-se<br \/>\n    no mesmo div&atilde;, de marroquim cor de azeitona, encaixilhado em cedro,<br \/>\n    Francisco Teodoro recostou-se em uma poltrona ao p&eacute; da mesa, enquanto<br \/>\n    o m&eacute;dico se arranjava ao lado de uma estante esguia, abarrotada de<br \/>\n    livros, e o capit&atilde;o, em p&eacute;, narrava ao negociante v&aacute;rios<br \/>\n    epis&oacute;dios das suas viagens ao norte.<\/p>\n<p>Que pa&iacute;s! que maravilhoso pais este nosso! completava ele.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; pena n&atilde;o ter povo. sentenciou Teodoro.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; pena. Todas essas terras, ainda hoje virgens, ser&atilde;o<br \/>\n    num dia melhor a gl&oacute;ria do mundo, quando ele, esgotado pela explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das outras, voltar para elas olhos de amor. Guardam a sua fecundidade para<br \/>\n    uma outra ra&ccedil;a de grandes ideais, que ainda h&aacute; de vir. T&atilde;o<br \/>\n    formosas promessas n&atilde;o se fazem ao vento&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Outra ra&ccedil;a&#8230; outra ra&ccedil;a&#8230; vinda de onde?! nascida de quem?!<\/p>\n<p>&#8211; Da nossa, talvez; e das outras. As gera&ccedil;&otilde;es que definham<br \/>\n    nos pa&iacute;ses velhos aperfei&ccedil;oam-se e revigoram-se os novos. O<br \/>\n    futuro do mundo &eacute; nosso, e ser&aacute; a coroa&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    nossas bondades e virtudes, visto que o povo brasileiro &eacute; bom.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro n&atilde;o concordava em absoluto; n&atilde;o podia perdoar<br \/>\n    a Rep&uacute;blica. Aquela revolu&ccedil;&atilde;o fora uma revela&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Sentia-se engasgado com o ex&iacute;lio do imperador. Torceu assim a conversa<br \/>\n    para novo assunto.<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio conhecia as id&eacute;ias pol&iacute;ticas de Francisco<br \/>\n    Teodoro; ouvia-lhe sempre os mesmos coment&aacute;rios. Estava inteirado;<br \/>\n    quanto &agrave;s do outro, n&atilde;o lhe parecia que devesse lucrar muito<br \/>\n    em ouvi-las. Voltou-lhe as costas e p&ocirc;s-se a ler as lombadas dos livros<br \/>\n    da estante:<\/p>\n<p>&#8211; Virg&iacute;lio&#8230; Homem&#8230; Dante&#8230; Cam&otilde;es&#8230; Gon&ccedil;alves<br \/>\n    Dias&#8230; Shakespeare&#8230; bravo!<\/p>\n<p>Que esp&eacute;cie de homem seria ent&atilde;o esse capit&atilde;o Rino?<br \/>\n    Leria ele efetivamente aqueles poetas?! O m&eacute;dico abriu ao acaso o primeiro<br \/>\n    livro ao alcance da m&atilde;o, e observou logo que ele estava anotado, a<br \/>\n    l&aacute;pis, com sinais firmes, de uma vontade bem dirigida, perfeitamente<br \/>\n    consciente do seu claro ju&iacute;zo. Era o Cid. A primeira p&aacute;gina<br \/>\n    onde o olhar do dr. Gerv&aacute;sio caiu, havia este verso marcado com uma<br \/>\n    linha gorda:<\/p>\n<p>Lamour nest quun plaisir, lhonneur est un devoir.<\/p>\n<p>Falava D. Diogo. O m&eacute;dico releu o verso com um sorriso de sarcasmo.<\/p>\n<p>L amour nest quun plaisir&#8230;<\/p>\n<p>Pois sim! bem esquecido estaria o velho pai de D. Rodrigo, ou n&atilde;o<br \/>\n    chegara na sua juventude a amar com amor!<\/p>\n<p>Depois daquilo o dr. Gerv&aacute;sio folheou outros livros liter&aacute;rios,<br \/>\n    por curiosidade, desprezando os t&eacute;cnicos, e em todos achou vest&iacute;gios<br \/>\n    de uma leitura inteligente. Bastava; come&ccedil;ava a compreender o homem.<br \/>\n    Iludira-se at&eacute; ent&atilde;o, julgando o Rino como um med&iacute;ocre<br \/>\n    e um simples. Um simples seria, mas um med&iacute;ocre, n&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    o temera nunca como rival, apesar de o ver apaixonado por Mila; julgara-o<br \/>\n    fraco, inferior, sem recursos, falto de eleg&acirc;ncia, que &eacute; sempre<br \/>\n    o que seduz as mulheres, f&iacute;sica e intelectualmente; n&atilde;o passara<br \/>\n    nunca aos seus olhos de um marinheiro rude, ing&ecirc;nuo, sem a gra&ccedil;a<br \/>\n    da palavra a tempo, nem a linha da distin&ccedil;&atilde;o pessoal.<\/p>\n<p>Que conservaria o capit&atilde;o Rino no c&eacute;rebro de tanta leitura<br \/>\n    inquietadora e extraordin&aacute;ria? Que nervos eram aqueles, t&atilde;o<br \/>\n    perfeitos, que ap&oacute;s tantas torturas e del&iacute;cias pareciam intactos<br \/>\n    de como&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas?<\/p>\n<p>Da&iacute; &#8211; quem sabe? &#8211; toda aquela livralhada que ele marcara com o seu<br \/>\n    nome, no dom&iacute;nio da posse, viria de algum leil&atilde;o, de alguma<br \/>\n    heran&ccedil;a, n&atilde;o representando naquele gabinete mais que um mero<br \/>\n    adorno. Era o mais certo. Era mesmo a &uacute;nica hip&oacute;tese veross&iacute;mil;<br \/>\n    n&atilde;o admitia que o capit&atilde;o Rino fosse amigo de intelectualidades.<br \/>\n    Aquele bruto! Fixou-o com aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o! n&atilde;o eram aqueles olhos l&iacute;mpidos, nem aquelas passadas<br \/>\n    que faziam tremer os rijos assoalhos, que revelariam a ningu&eacute;m investiga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da velha arte, turbadora como a febre ou como um vinho raro. Ningu&eacute;m<br \/>\n    acreditaria que aquele homem grande, de carnes duras, faces rosadas como as<br \/>\n    de um menino s&atilde;o e modos bonach&otilde;es, fosse capaz de entender<br \/>\n    Shakespeare!<\/p>\n<p>Ler livros tais, anot&aacute;-los, am&aacute;-los, deleitar-se na sua conviv&ecirc;ncia,<br \/>\n    era obra para outra esp&eacute;cie de criaturas. Aquilo era um esc&aacute;rnio,<br \/>\n    n&atilde;o era outra coisa. Permitia-lhe a leitura de um ou outro cl&aacute;ssico<br \/>\n    portugu&ecirc;s de mais calmo estudo e pulsa&ccedil;&atilde;o regular; lembrava-se<br \/>\n    mesmo agora de lhe ter surpreendido algumas palavras de sabor antigo e que<br \/>\n    lhe tinham feito, aos ouvidos delicados, um certo prurido de estranheza. A<br \/>\n    sensa&ccedil;&atilde;o avivava-se, a reminisc&ecirc;ncia induzia-o a estudar<br \/>\n    o homem. Voltou de novo o olhar para ele e resumiu ainda em um tra&ccedil;o<br \/>\n    o seu ju&iacute;zo:<\/p>\n<p>&#8211; Um belo animal!<\/p>\n<p>A irm&atilde; do capit&atilde;o servia vermouth, mostrando em um sorriso<br \/>\n    am&aacute;vel os seus dentinhos bicudos e desiguais. Ao dirigir-se ao m&eacute;dico,<br \/>\n    ela obrigou-o a desviar-se da sua observa&ccedil;&atilde;o; e ele, descuidado,<br \/>\n    refletindo na frase uma id&eacute;ia que lhe atravessava o esp&iacute;rito,<br \/>\n    agradeceu-lhe em ingl&ecirc;s.<\/p>\n<p>&#8211; Acha-me com ar de miss, n&atilde;o &eacute; assim? Talvez tenha raz&atilde;o;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a primeira pessoa que me d&aacute; a entender isso mesmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se lhe desagrada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Absolutamente nada; por que? Houve na nossa fam&iacute;lia qualquer antepassado<br \/>\n    estrangeiro, uma bisav&oacute; dinamarquesa, creio eu&#8230; entretanto, afirmo-lhe,<br \/>\n    somos bem brasileiros, mesmo um pouco nativistas&#8230; J&aacute; me disseram,<br \/>\n    a prop&oacute;sito disto, que s&atilde;o os descendentes de estrangeiros exatamente<br \/>\n    os patriotas mais exaltados. Mas n&atilde;o quer gelo?<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado&#8230;<\/p>\n<p>Ela passou adiante, e o doutor tomou o seu primeiro gole de vermouth.<\/p>\n<p>&quot;Uma av&oacute; dinamarquesa, creio eu&#8230;&quot; Extraordin&aacute;rio,<br \/>\n    esse desprendimento pela sua origem! Bem lhe certificava esse dito, que aquela<br \/>\n    gente n&atilde;o era de indaga&ccedil;&otilde;es nem de perder tempo com objetos<br \/>\n    sem utilidade imediata.<\/p>\n<p>A boa pr&aacute;tica era essa: olhar para diante, que &eacute; onde se pode<br \/>\n    encontrar trope&ccedil;os. Caminho andado, caminho perdido. Adeusinho!<\/p>\n<p>Da cadeira de bra&ccedil;os, Francisco Teodoro atirava, a sua &uacute;ltima<br \/>\n    bomba contra a Rep&uacute;blica, lamentando este grande piais t&atilde;o digno<br \/>\n    de melhor sorte&#8230;<\/p>\n<p>Fino levantou-se; ele tinha outras opini&otilde;es e uma f&eacute; sincera<br \/>\n    nos destinos da p&aacute;tria. A alma nova da Am&eacute;rica s&oacute; podia<br \/>\n    agasalhar sentimentos de liberdade. A monarquia era a poeira da tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    acumulada com o correr dos s&eacute;culos, em velhas terras da Europa. L&atilde;<br \/>\n    teria a sua raz&atilde;o de ser, talvez; mas n&atilde;o aqui! Concluiu ele.<\/p>\n<p>Farfalharam as saias das senhoras, que se punham de p&eacute;, j&aacute;<br \/>\n    cansadas da discuss&atilde;o, abominando a pol&iacute;tica&#8230;<\/p>\n<p>Fora, no tombadilho, o sol estendia a sua luz clara. feita de ouro. Seguiram<br \/>\n    ent&atilde;o para debaixo do toldo.<\/p>\n<p>Que maravilha!<\/p>\n<p>Ruth lan&ccedil;ou-se &aacute; amurada, agitando o len&ccedil;o. Passava<br \/>\n    uma barca de Niter&oacute;i, repleta de passageiros, branca, ligeira, com<br \/>\n    a sua cauda de espumarada. Toda a superf&iacute;cie do mar, paletada de luzes.<br \/>\n    tremia como a pele mo&ccedil;a a um afago volutuoso. Ao longe, a Serra dos<br \/>\n    &Oacute;rg&atilde;os desenhava no c&eacute;u os seus contornos de um azul<br \/>\n    de ard&oacute;sia. Para os lados da barra havia montes de prata fosca em que<br \/>\n    o sol, cintilando nas pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos<br \/>\n    cor de violeta espelhavam-se n&aacute;gua; entre montanhas de um verdor intens&iacute;ssimo.<\/p>\n<p>Houve uns instantes de pasmo e de concentra&ccedil;&atilde;o, e foi nesse<br \/>\n    sil&ecirc;ncio que o m&eacute;dico percebeu um olhar de Camila para o capit&atilde;o<br \/>\n    do Netuno.<\/p>\n<p>Aquele simples movimento bastou para atear no peito do m&eacute;dico o fogar&eacute;u<br \/>\n    da ciumada. Estava feito; o outro venceria; soubera esperar e revelava-se<br \/>\n    a tempo. Era a primeira vez que sentia zelos da amante, sempre t&atilde;o<br \/>\n    sua, t&atilde;o submissa &agrave;s arbitrariedades do seu g&ecirc;nio desigual<br \/>\n    de homem nervoso. Quem pode confiar na lealdade de uma mulher? ningu&eacute;m,<br \/>\n    e a justi&ccedil;a era que ela o enganasse e o tra&iacute;sse, como por ele<br \/>\n    tra&iacute;a e enganava o esposo&#8230;<\/p>\n<p>Percebia bem que o capit&atilde;o Rino era mais belo, mais mo&ccedil;o, e<br \/>\n    essas duas qualidades s&oacute; por si bastavam, a seu ver, para fazer preferido<br \/>\n    um homem aos olhos de uma mulher de quarenta anos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O senhor, hoje est&aacute; nos seus dias de spleen, doutor? perguntou-lhe<br \/>\n    de repente Ruth, com o seu modo sacudido e imprudente.<\/p>\n<p>Ele deu-lhe o bra&ccedil;o e explicou-lhe que n&atilde;o; queria estar calado<br \/>\n    para ver melhor. Depois perguntou-lhe, sem rodeios se n&atilde;o achava o<br \/>\n    capit&atilde;o Rino muito diferente do que lhes parecera sempre em Botafogo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j&aacute; disse mesmo a ele, e descobri o motivo; &eacute; porque anda<br \/>\n    sempre de escuro, e hoje est&aacute; de branco!<\/p>\n<p>&#8211; E com uma flor ao peito!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda h&aacute; outra raz&atilde;o; &eacute; que ele est&aacute; contente.<br \/>\n    Ruth, a influ&ecirc;ncia das cores &eacute; grande nas criaturas, mas a das<br \/>\n    impress&otilde;es ainda &eacute; maior. A alegria for&ccedil;a a ser-se bonito.<br \/>\n    O capit&atilde;o tem hoje a alma vestida de branco e perfumada como a sua<br \/>\n    rosa vermelha da lapela&#8230; Uma bonita flor!&#8230; N&atilde;o creia que baste<br \/>\n    um alfaiate para dar a uma cara de pau a express&atilde;o que a dele hoje<br \/>\n    tem; a grande influ&ecirc;ncia do alfaiate p&aacute;ra no pesco&ccedil;o.<br \/>\n    A cabe&ccedil;a &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Do cabeleireiro?<\/p>\n<p>&#8211; Da paix&atilde;o. N&atilde;o creio que as mais fr&iacute;volas mulheres<br \/>\n    sejam t&atilde;o fr&iacute;volas que se contentem com o cheiro de uma pomada.<br \/>\n    ou o bom corte de um fraque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem falou em mulheres!?<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz&atilde;o, ningu&eacute;m! Veja como aquele barco de pesca vai bonito&#8230;<br \/>\n    Voc&ecirc; gosta destas coisas; faz bem. O amor da natureza e o amor da arte<br \/>\n    s&atilde;o os &uacute;nicos salvadores e dignos das almas puras. Os outros,<br \/>\n    pff!<\/p>\n<p>A mancha escarlate do vestido de Catarina apareceu diante deles; a irm&atilde;<br \/>\n    do capit&atilde;o convidou-os para o almo&ccedil;o; repararam ent&atilde;o<br \/>\n    que os outros j&aacute; tinham entrado e logo o m&eacute;dico previu que Mila<br \/>\n    tivesse ido pelo bra&ccedil;o de Rino&#8230;<\/p>\n<p>E fora; e l&aacute; estavam ambos em p&eacute; a um &acirc;ngulo da mesa,<br \/>\n    em frente a Francisco Teodoro, que gesticulava, no calor de uma discuss&atilde;o<br \/>\n    ainda pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>A mesa, sentaram-se, ao acaso, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de Camila e<br \/>\n    do marido, a quem o capit&atilde;o designou lugares. O m&eacute;dico escolheu<br \/>\n    assento entre Catarina e Ruth.<\/p>\n<p>Havia apetite; os primeiros pratos foram bem acolhidos. Catarina, julgando-se<br \/>\n    um pouco em sua casa, ajudava o irm&atilde;o; foi ela quem temperou a salada<br \/>\n    de camar&otilde;es e quem polvilhou os morangos de a&ccedil;&uacute;car e<br \/>\n    de gelo; as suas m&atilde;os muito brancas mostravam-se bem atiladas no h&aacute;bito<br \/>\n    de servir.<\/p>\n<p>O criado ia e vinha do bufet para a mesa, com a serenidade sobranceira de<br \/>\n    um ente necess&aacute;rio.<\/p>\n<p>Na sala, longa e estreita, eles ocupavam uma das mesas compridas. a da esquerda,<br \/>\n    a mesma ocupada sempre em viagem pelo capit&atilde;o; a outra, vazia e sem<br \/>\n    toalha, mostrando o verniz negro do oleado, dava um aspecto tristonho ao compartimento.<br \/>\n    Falou-se, a prop&oacute;sito de viagens, de quando naquela mesma sala n&atilde;o<br \/>\n    havia um s&oacute; lugar vazio, e que ao rumor das vozes se juntava o tilintar<br \/>\n    das lou&ccedil;as e dos talheres&#8230; S&oacute; nos dias de tempestade, em que<br \/>\n    o vapor era sacudido pelo furor das ondas, diminu&iacute;a a aflu&ecirc;ncia<br \/>\n    e apareciam, disseminados e tristonhos, s&oacute; os passageiros fortes, de<br \/>\n    bom est&ocirc;mago&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro relembrou os epis&oacute;dios banais da sua &uacute;nica<br \/>\n    viagem, de Portugal para aqui, e olhavam quase todos para o capit&atilde;o<br \/>\n    com certo interesse, como para um her&oacute;i. Em casa, nas confort&aacute;veis<br \/>\n    salas de Botafogo, t&atilde;o ricas e t&atilde;o burguesas, nunca a sua profiss&atilde;o<br \/>\n    lhes parecera simp&aacute;tica; agora compreendiam-lhe os perigos e observavam-no<br \/>\n    com respeito. O mar &eacute; t&atilde;o p&eacute;rfido! Qual era o ponto da<br \/>\n    viagem que mais lhe agradava? perguntou Mila.<\/p>\n<p>A entrada no Amazonas, respondeu Rino; e descreveu, comovido, o aspecto formid&aacute;vel<br \/>\n    do rio, a grossa corrente das suas &aacute;guas profundas, o seu ru&iacute;do<br \/>\n    sonoro, de ritmos novos, que nenhuma l&iacute;ngua exprime e nenhum som musical<br \/>\n    imita; e os cambiantes deslumbrant&iacute;ssimos dos poentes, derramando na<br \/>\n    &aacute;gua infinitas ramagens multicores, onde estrelejavam tons nunca dantes<br \/>\n    vistos, que apareciam para se apagar, e apagavam-se para reaparecer em outros<br \/>\n    pontos, igualmente luminosos e fugitivos.<\/p>\n<p>&#8211; Que esplendor de poentes!<\/p>\n<p>Depois as ilhas verdejantes, verdadeiros jardins, trechos de bosques emergindo<br \/>\n    da &aacute;gua profunda e refletindo-se nela. Sinto ali, repetia ainda, um<br \/>\n    mundo novo, guardando virgindades e mist&eacute;rios para uma ra&ccedil;a<br \/>\n    de gigantes, ainda n&atilde;o nascida&#8230; Ah, as terras ardentes do Norte s&atilde;o<br \/>\n    um deslumbramento!<\/p>\n<p>Havia outro ponto da viagem que lhe fazia inda maior como&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    era quando, j&aacute; de volta, entrava na ba&iacute;a do Rio de Janeiro.<br \/>\n    A ampla poesia desse espet&aacute;culo ado&ccedil;ava-lhe o humor estragado<br \/>\n    pela monotonia do mar alto&#8230;<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio punha afinal o dedo na alma do capit&atilde;o. Era assim<br \/>\n    mesmo; os livros da estante pertenciam-lhe: havia ali um homem. O embarcadi&ccedil;o<br \/>\n    mercen&aacute;rio tirava o seu traje de piloto e aparecia cavalheiro e poeta.<br \/>\n    Por que se havia enganado tanto tempo? A explica&ccedil;&atilde;o teve-a pouco<br \/>\n    depois, quando Rino afirmava que apesar das suas queixas, ele s&oacute; estava<br \/>\n    bem no Netuno; tanto se afastara da sociedade que se sentia bisonho nela,<br \/>\n    e que acreditava deixar sempre no seu navio um bocado da sua alma, quando<br \/>\n    ia para a terra.<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute; em terra, disse ele, compreendo o amor que tenho ao meu barco,<br \/>\n    aos meus livros, ao meu cachimbo e &agrave; minha rede, a que a solid&atilde;o<br \/>\n    e o h&aacute;bito deram foros de amigos; entretanto no mar, tenho saudades<br \/>\n    de terra, da fam&iacute;lia, das distra&ccedil;&otilde;es, de tudo que conjuntamente<br \/>\n    a torna deliciosa&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, a prop&oacute;sito do Norte, falou na prosperidade do<br \/>\n    Par&aacute;, no com&eacute;rcio da borracha e discutiu as suas rendas e os<br \/>\n    seus costumes. Ali, sim, havia gente refletida, de bons exemplos. Aquilo &eacute;<br \/>\n    que &eacute; povo: patriotismo, crit&eacute;rio, boas inten&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Falem-me disso.<\/p>\n<p>Concordaram. Houve uma pausa, em que se levaram &agrave; boca os copos cheios.<\/p>\n<p>Veio o peru &agrave; brasileira provocar elogios ao cozinheiro do Netuno.<br \/>\n    Magn&iacute;fico!<\/p>\n<p>Francisco Teodoro afirmou logo que aquele prato parecia feito, de saboroso<br \/>\n    que estava, por uma mulher. A brasileira tem um jeitinho especial para temperar<br \/>\n    panelas, dizia ele; e verdade, verdade, assim como ela n&atilde;o devia ser<br \/>\n    chamada para os cargos exercidos por homens, tamb&eacute;m os homens n&atilde;o<br \/>\n    lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser trancada ao sexo feio.<\/p>\n<p>Ele dizia isto como pilh&eacute;ria, por alegria.<\/p>\n<p>Catarina, fazendo estalar uma c&ocirc;dea de p&atilde;o entre os dedos magros,<br \/>\n    perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor &eacute; contra a emancipa&ccedil;&atilde;o da mulher, est&aacute;<br \/>\n    claro.<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora, eu sou da opini&atilde;o de que a mulher nasceu para m&atilde;e<br \/>\n    de fam&iacute;lia. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem<br \/>\n    a sua casa, e ter&aacute; cumprido a sua miss&atilde;o. Este foi sempre o<br \/>\n    meu ju&iacute;zo, e n&atilde;o me dei mal com ele, n&atilde;o quis casar com<br \/>\n    mulher sabichona. E nas med&iacute;ocres que se encontram as Esposas.<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio e o capit&atilde;o Rino trocaram um olhar, de relance.<\/p>\n<p>&#8211; E que s&atilde;o as outras? Mulheres que um homem honrado n&atilde;o deve<br \/>\n    consentir perto das suas filhas.<\/p>\n<p>Camila fez um sinal afirmativo. Ela era a mesma opini&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o s&atilde;o s&eacute;rias, concluiu.<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; por isso, replicou Catarina, de quantas mulheres se fala na sociedade<br \/>\n    e que mal sabem ler?<\/p>\n<p>&#8211; De poucas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De muitas. Sr. Teodoro, faz favor de me dar o vinho?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, as senhoras n&atilde;o conhecem o mundo! exclamou Teodoro, passando<br \/>\n    a garrafa ao m&eacute;dico, que encheu o copo de Catarina e disse rindo:<\/p>\n<p>&#8211; Elas n&atilde;o conhecer&atilde;o o mundo e n&oacute;s, meu amigo, n&atilde;o<br \/>\n    as conhecemos a elas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula<br \/>\n    e engana com uma arte capaz de endoidecer o pr&oacute;prio Mefist&oacute;feles&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Homem, que id&eacute;ia faz voc&ecirc; da honestidade das mulheres!<\/p>\n<p>&#8211; Fa&ccedil;o id&eacute;ia de que deve ser bem mais dif&iacute;cil de manter<br \/>\n    do que a nossa.<\/p>\n<p>&#8211; Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, n&atilde;o foi com o pensamento<br \/>\n    de que houvesse duas honestidades.<\/p>\n<p>&#8211; Pois se tivesse tido tal pensamento, t&ecirc;-lo-ia com muito acerto. H&aacute;<br \/>\n    duas.<\/p>\n<p>&#8211; Temos outra! Se est&aacute; de mar&eacute;, explique-nos a diferen&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o estou de mar&eacute;, mas explicarei: &eacute; pequena. Materializemos<br \/>\n    as compara&ccedil;&otilde;es, para as tornarmos bem claras. Suponhamos, por<br \/>\n    exemplo, que a nossa honestidade &eacute; um casaco preto e que a, das senhoras<br \/>\n    &eacute; um vestido branco. Tudo &eacute; roupa, t&ecirc;m ambos o mesmo destino,<br \/>\n    mas que aspectos e que responsabilidades diferentes!<\/p>\n<p>Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro, disfar&ccedil;ando<br \/>\n    as nodoazinhas. O pano &eacute; grosso, com uma escovadela voa para longe<br \/>\n    toda a poeira da imund&iacute;cie; e ficamos decentes. A honestidade das senhoras<br \/>\n    &eacute; um vestido de cetim branco, sem forro. Um pouco de suor, se faz calor,<br \/>\n    macula-o; o simples ro&ccedil;ar por uma parede, &agrave; procura da sombra<br \/>\n    am&aacute;vel, macula-o; uma picadela de alfinete, que s&oacute; teve a inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de segurar uma violeta cheirosa, toma naquela vasta candidez propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    desagrad&aacute;veis&#8230; Realmente, deve ser bem dif&iacute;cil saber defender<br \/>\n    um vestido de cetim branco que nunca se tire do corpo. Eu n&atilde;o sei como<br \/>\n    elas fazem, e, francamente, n&atilde;o me parece que a vida mere&ccedil;a<br \/>\n    tamanho luxo.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; &eacute; o homem das divaga&ccedil;&otilde;es; tratava-se de<br \/>\n    uma quest&atilde;o positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares s&atilde;o<br \/>\n    mais s&eacute;rias do que as outras&#8230; pelo menos parecem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Porque n&atilde;o lhes esquadrinhamos as n&oacute;doas de cetim&#8230; Passam<br \/>\n    despercebidas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Adeus!<\/p>\n<p>&#8211; Agora &eacute; s&eacute;rio; vou repetir-lhe o que disse h&aacute; pouco<br \/>\n    &agrave; sua filha, a quem ali&aacute;s o senhor educa para a arte. Foi mais<br \/>\n    ou menos isto:<\/p>\n<p>N&atilde;o cabem na alma humana muitas paix&otilde;es, e as melhores s&atilde;o<br \/>\n    as que nos desviam dos nossos semelhantes, sempre enganadores. S&oacute; os<br \/>\n    ideais de arte n&atilde;o pervertem, antes purificam e ensinam o Bem. As mulheres<br \/>\n    devem cultiv&aacute;-los com especial carinho. Acompanho, pois, as opini&otilde;es<br \/>\n    de d. Catarina e bebo &agrave; sua sa&uacute;de, minha senhora!<\/p>\n<p>Enquanto ele bebia, Camila observou-o com pasmo; sabia que ele n&atilde;o<br \/>\n    tinha aquelas id&eacute;ias. Sempre lhe ouvira que a mulher devia conservar-se<br \/>\n    no seu lugar de submiss&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, a senhora lamenta n&atilde;o ser eleitora? perguntou Francisco<br \/>\n    Teodoro &agrave; irm&atilde; do Rino, com um sorrizinho de mofa.<\/p>\n<p>&#8211; Eu? Deus me livre! Tomara que me deixem em paz no meu cantinho, com as<br \/>\n    minhas roseiras e os meus animais. Nunca falo por mim, sr. Teodoro. Eu nasci<br \/>\n    para mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, pelas outras?<\/p>\n<p>&#8211; Pelas outras que tenham atividade e coragem.<\/p>\n<p>E a casa, minha senhora? e os filhos? A este argumento &eacute; que ningu&eacute;m<br \/>\n    responde!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; velho.<\/p>\n<p>&#8211; Mas &eacute; bom, prova que a mulher nasce com o fim de criar filhos e<br \/>\n    amar com obedi&ecirc;ncia e fidelidade a um s&oacute; homem, o marido. Que<br \/>\n    diz tamb&eacute;m a isto o nosso doutor?<\/p>\n<p>&#8211; Que ela talvez tivesse nascido com essas inten&ccedil;&otilde;es, como<br \/>\n    o senhor disse, mas que as torceu depois de certa idade. N&atilde;o seria<br \/>\n    sem causa que Francisco I disse:<\/p>\n<p>Souvent femme varie.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro n&atilde;o entendeu, mas sorriu.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico dizia aquilo para Camila, que lhe evitara o olhar agudo,<br \/>\n    percebendo-lhe a perf&iacute;dia.<\/p>\n<p>&#8211; Isto &eacute; que se chama falar para n&atilde;o dizer nada&#8230; observou<br \/>\n    algu&eacute;m.<\/p>\n<p>Catarina serviu o caf&eacute;; quando passava a &uacute;ltima canequinha,<br \/>\n    disse:<\/p>\n<p>&#8211; As mulheres s&atilde;o mal compreendidas. Vejam aquela gravura. Est&aacute;<br \/>\n    ali um homem desafiando o perigo, avan&ccedil;ando na treva com a espada em<br \/>\n    punho, e a mulher mal o alumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada &agrave;s<br \/>\n    suas costas!<\/p>\n<p>&#8211; O que prova que a mulher &eacute; medrosa! exclamou Teodoro com modo triunfante.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, n&atilde;o &eacute; verdade; pelo menos no Brasil. N&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    nos escondemos atr&aacute;s do homem que procura defender-nos. Se ele avan&ccedil;a<br \/>\n    para o inimigo, sentimos n&atilde;o ter asas, e &eacute; sempre com &iacute;mpeto<br \/>\n    que nos lan&ccedil;amos na carreira querendo ajud&aacute;-lo a vencer ou evitar-lhe<br \/>\n    a derrota. Este &eacute; que &eacute; o nosso car&aacute;ter; que me desminta<br \/>\n    quem puder!<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio observou Catarina com aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ela estava de p&eacute;, com as narinas arfantes, as faces abrasadas.<\/p>\n<p>Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma brasileira.<br \/>\n    A tal av&oacute; dinamarquesa dava todo o lugar &agrave; outra av&oacute;<br \/>\n    ind&iacute;gena, descendente de alguma tribo selvagem.<\/p>\n<p>Duas horas depois, os visitantes deixavam o Netuno; o capit&atilde;o Rino<br \/>\n    e a irm&atilde; conduziram-os at&eacute; o cais, onde se separaram. Foi ent&atilde;o<br \/>\n    um grande al&iacute;vio para o dr. Gerv&aacute;sio, a quem a presen&ccedil;a<br \/>\n    do outro irritava terrivelmente.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro n&atilde;o se cansava de elogiar a ordem e o asseio em<br \/>\n    que encontrara tudo; come&ccedil;ava a venerar o capit&atilde;o Rino: achava-o<br \/>\n    eloq&uuml;ente, superior&#8230; lembrava detalhes insignificantes, muito agradecido<br \/>\n    &agrave;s cortesias do mo&ccedil;o. Catarina desagradara-lhe, com os seus<br \/>\n    modos independentes. Achara-a feia. Mulher quer-se com carne, &#8211; bons volumes,<br \/>\n    dizia ele, olhando de esguelha para o vulto redondo da esposa.<\/p>\n<p>&Agrave; rua 1o de Mar&ccedil;o despediu-se do grupo. Aproveitava a ocasi&atilde;o<br \/>\n    para visitar um colega doente; e encarregou o doutor de acompanhar a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Foram ent&atilde;o os tr&ecirc;s, Ruth adiante, com o seu modo distra&iacute;do,<br \/>\n    de queixo erguido e passos firmes; Camila ao lado do m&eacute;dico, atrav&eacute;s<br \/>\n    as ruas quase desertas, de domingo. Ao princ&iacute;pio nada se disseram.<br \/>\n    Camila advinhava tempestade pr&oacute;xima, sem lhe atinar com a causa. Estranhara<br \/>\n    as frases do Gerv&aacute;sio &agrave; mesa; sentia ainda a dor dos remoques<br \/>\n    que ele lhe atirara disfar&ccedil;adamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta;<br \/>\n    mais por submiss&atilde;o do que por indol&ecirc;ncia, ela esperava sempre<br \/>\n    que ele fosse o primeiro a falar e a agir, naquela torturante passividade<br \/>\n    de escrava, a que o seu amor a lan&ccedil;ara.<\/p>\n<p>Ele falou. Disse ter surpreendido a do&ccedil;ura de um amor nascente; que<br \/>\n    n&atilde;o se espantava da vit&oacute;ria do Rino. Achava que se devia despedir;<br \/>\n    que a via bem entregue&#8230;<\/p>\n<p>Camila compreendeu tudo, de relance; as l&aacute;grimas subiram-lhe aos olhos,<br \/>\n    sem que ela, pudesse responder &agrave; brutalidade da ofensa. O rosto tingiu-se-lhe<br \/>\n    de vermelho, numa onda de vergonha que a sufocava; vendo-a calada, ele insistiu<br \/>\n    baixinho, teimosamente, irritantemente, espa&ccedil;ando as palavras, extravasando<br \/>\n    todo o ci&uacute;me contido durante as horas de bordo.<\/p>\n<p>Ela murmurou ent&atilde;o, vexada, por entre dentes:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o gosto do Rino&#8230; eu n&atilde;o gosto&#8230;<\/p>\n<p>E para que falar assim, na rua? &Eacute; uma imprud&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tive tempo de escolher lugar. Isso &eacute; bom para os calmos.<br \/>\n    Depois, vendo-me amea&ccedil;ado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto<br \/>\n    tinha de ser j&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Como os homens s&atilde;o orgulhosos e injustos!<\/p>\n<p>&#8211; Ser&atilde;o. E as mulheres? vol&uacute;veis!<\/p>\n<p>&#8211; Quase sempre a mulher ainda ama e j&aacute; &eacute; considerada pelo homem<br \/>\n    como uma importuna!&#8230; Est&aacute; ai nossa volubilidade&#8230;<\/p>\n<p>Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ela quem disse<br \/>\n    primeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Que me importa a mim o Rino! estou pronta a desfeite&aacute;-lo, se com<br \/>\n    isso&#8230;<\/p>\n<p>O m&eacute;dico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade.<\/p>\n<p>&#8211; Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua&#8230;<\/p>\n<p>Ruth, sempre adiantada no caminho e sempre distra&iacute;da, n&atilde;o percebia<br \/>\n    nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ela que, de repente, vendo uma<br \/>\n    confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces &agrave; Nina e &agrave;s<br \/>\n    crian&ccedil;as, e parou &agrave; porta, &agrave; espera do m&eacute;dico<br \/>\n    e da m&atilde;e. No momento em que eles chegavam, saiu da confeitaria uma<br \/>\n    mulher ainda mo&ccedil;a, toda de luto.<\/p>\n<p>Ao v&ecirc;-la, o m&eacute;dico recuou bruscamente e ela, mal o viu, corou<br \/>\n    at&eacute; a raiz dos cabelos e vacilou tamb&eacute;m. O choque foi rude,<br \/>\n    e r&aacute;pido. Ele ficou firme na cal&ccedil;ada, muito p&aacute;lido, com<br \/>\n    contra&ccedil;&otilde;es nas faces, e ela passou s&eacute;ria, numa rigidez<br \/>\n    contrafeita e torturada.<\/p>\n<p>Camila sentiu ro&ccedil;ar pelo seu vestido claro o vestido de l&atilde;<br \/>\n    da outra; aspirou com for&ccedil;a o seu aroma violento de uma ess&ecirc;ncia<br \/>\n    desconhecida; viu-lhe a alvura da pele aveludada entre a gola de crepe e a<br \/>\n    parte da face onde terminava o veuzinho do chap&eacute;u; apanhou, naquele<br \/>\n    gesto de surpresa de ambos, um mist&eacute;rio qualquer, uma trai&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma infidelidade, uma ignominiosa mentira &agrave; sinceridade da sua paix&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute;?&#8230; quem &eacute;?! Perguntou ela com avidez fren&eacute;tica,<br \/>\n    puxando imprudentemente pela manga do m&eacute;dico.<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio, ainda no mesmo lugar, olhava para a mulher de luto<br \/>\n    que seguia numa pressa de quem foge; &agrave; voz de Camila, voltou-se atarantado,<br \/>\n    sorriu com esfor&ccedil;o evidente e depois, baixo, muito baixo, mas com modo<br \/>\n    sacudido e nervoso, disse:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o fa&ccedil;as caso: uma mulher que amei e que morreu.<\/p>\n<p>Uma nuvem negra toldou a vista de Camila e o cora&ccedil;&atilde;o apressou<br \/>\n    a sua marcha num batimento louco.<\/p>\n<p>Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia separando<br \/>\n    para um prato de papel&atilde;o.<\/p>\n<p>O dr. Gerv&aacute;sio pediu a Camila que serenasse o seu esp&iacute;rito.<br \/>\n    Ele lhe contaria tudo mais tarde. Descansasse, que aquilo era uma coisa passada,<br \/>\n    perfeitamente extinta.<\/p>\n<p>Ela fingiu aceitar a promessa; no fundo duvidou dela; mas para que tentar<br \/>\n    uma recrimina&ccedil;&atilde;o, se a sua l&iacute;ngua fraca n&atilde;o lhe<br \/>\n    sabia traduzir os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria<br \/>\n    calada&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">VII<\/a><\/h4>\n<p>O com&eacute;rcio de caf&eacute; nadava em ouro. Casas pequenas galgavam<br \/>\n    de assalto posi&ccedil;&otilde;es culminantes; havia por todo o bairro cafezista<br \/>\n    um perene rumor de dinheiro. E a mar&eacute; do ouro subia ainda com a magna<br \/>\n    abund&acirc;ncia das enchentes que amea&ccedil;am inunda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O pre&ccedil;o do caf&eacute; chegara a uma altura a que antes nunca tinha<br \/>\n    atingido. Era um del&iacute;rio de trabalho por todos aqueles armaz&eacute;ns<br \/>\n    de S. Bento.<\/p>\n<p>No de Francisco Teodoro o movimento era enorme.<\/p>\n<p>Seu Joaquim n&atilde;o parava um minuto, num vaiv&eacute;m incessante, realizando<br \/>\n    milagres de atividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando, r&aacute;pido<br \/>\n    no expediente, segur&iacute;ssimo nas suas previs&otilde;es e nas suas ordens.<br \/>\n    Ele sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ningu&eacute;m o visse arrancar<br \/>\n    uma confid&ecirc;ncia ou uma den&uacute;ncia dos seus amigos ou dos seus subordinados.<br \/>\n    Era nele que parecia encarnada a alma daquele casario da rua S. Bento, porque<br \/>\n    era o nome dele que andava de boca em boca, no ar, desde o caminh&atilde;o,<br \/>\n    na porta da rua, at&eacute; o fundo, o p&aacute;tio dos ensacadores, onde<br \/>\n    as p&aacute;s do caf&eacute;, caindo em ritmo, davam ao trabalho um acompanhamento<br \/>\n    de m&uacute;sica.<\/p>\n<p>Seu Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento para o<br \/>\n    outro, fazer cessar todo aquele giro vertiginoso, armar greves, paralisar<br \/>\n    a vida, fechar a porta ao dinheiro que quisesse entrar.<\/p>\n<p>Era dele todo o prestigio avistados trabalhadores bo&ccedil;ais, das formigas<br \/>\n    do armaz&eacute;m que negrejavam por ali num movimento incessante.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro descansava nele, deixava-o agir, &quot;conhecia-lhe o pulso&quot;,<br \/>\n    dizia; n&atilde;o fizera ele o mesmo no princ&iacute;pio da sua carreira?<br \/>\n    Agora, bem assente na vida, aristocratizava-se, dava-se ares de grande personagem.<\/p>\n<p>Havia uma hora em que o gerente subia ao escrit&oacute;rio do patr&atilde;o<br \/>\n    para alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados &agrave; atividade<br \/>\n    de baixo, seu Joaquim achava jeito de expor a situa&ccedil;&atilde;o do dia,<br \/>\n    dar as notas pedidas e ainda falar do movimento das grandes casas pr&oacute;ximas,<br \/>\n    fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armaz&eacute;m de<br \/>\n    Francisco Teodoro<\/p>\n<p>E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma chamazinha,<br \/>\n    brilhando tonta, faisca de ambi&ccedil;&atilde;o assanhada pelos sucessos<br \/>\n    pr&oacute;prios e alheios. <\/p>\n<p>Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto.<\/p>\n<p>Seu Joaquim, l&aacute; consigo, atribu&iacute;a a prosperidade do neg&oacute;cio<br \/>\n    ao tino da sua ger&ecirc;ncia, esperta e positiva. A seu ver, a gente do escrit&oacute;rio<br \/>\n    era inepta e n&atilde;o contribu&iacute;a em nada para o &ecirc;xito do neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>Julgava-se figura predominante, indispens&aacute;vel, e usava por isso de<br \/>\n    impertin&ecirc;ncias, que Teodoro tolerava, em desconto do servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>Quando o gerente descia a escada do escrit&oacute;rio e voltava para o armaz&eacute;m,<br \/>\n    Francisco Teodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava pensativo. Na sala<br \/>\n    pr&oacute;xima as penas dos empregados rangiam nos livros e o rumor das folhas<br \/>\n    que viravam era &agrave;s vezes o &uacute;nico que se ouvia.<\/p>\n<p>Naquela grande paz da fortuna conquistada, Francisco Teodoro sonhava ent&atilde;o<br \/>\n    com viagens demoradas, longos per&iacute;odos de abstra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Vinha-lhe o cansa&ccedil;o.<\/p>\n<p>Todavia, se refletia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam inatur&aacute;veis<br \/>\n    os dias sem aquela confus&atilde;o de trabalho, longe daquela atmosfera carregada<br \/>\n    e das tant&iacute;ssimas preocupa&ccedil;&otilde;es do seu com&eacute;rcio.<br \/>\n    A esse desejo indeciso, que com tanta justi&ccedil;a o seu corpo e o seu esp&iacute;rito<br \/>\n    fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente, que o incitava<br \/>\n    a novas empresas e que ele combatia com &acirc;nimo e ju&iacute;zo.<\/p>\n<p>Oh! se o M&aacute;rio fosse um homem, se tivesse jeito e coragem para aquela<br \/>\n    vida&#8230; com que satisfa&ccedil;&atilde;o ele o sentaria no seu lugar e lhe<br \/>\n    mostraria o caminho j&aacute; feito, f&aacute;cil de percorrer!<\/p>\n<p>Fora bem castigado o seu desejo de ter um filho, n&atilde;o pelo filho, mas<br \/>\n    pelo orgulho da continua&ccedil;&atilde;o daquela casa, que levaria o seu<br \/>\n    nome a outras gera&ccedil;&otilde;es. Viera o filho e voltava as costas &agrave;<br \/>\n    fortuna.<\/p>\n<p>A casa passaria a m&atilde;os estranhas, ou teria de morrer com ele&#8230;<\/p>\n<p>Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha concentrado<br \/>\n    tamanhos sacrif&iacute;cios, sonhada nos seus tempos de trope&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esfor&ccedil;o de uma vontade<br \/>\n    en&eacute;rgica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe mudasse<br \/>\n    o nome. &#8211;<\/p>\n<p>Como era bem-soante aquele &#8211; Casa Teodoro um ritmo de ouro!<\/p>\n<p>Naquela rua, de casas ricas, ela seria a mais rica, se o Gama Torres n&atilde;o<br \/>\n    se tivesse posto adiante, ajudado pela m&atilde;o do diabo, que a de Deus<br \/>\n    s&oacute; auxilia os homens de longos trabalhos e belos exemplos.<\/p>\n<p>O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade,<br \/>\n    que ele jogava na Bolsa como um doido. O resultado a&iacute; estava &#8211; magn&iacute;fico;<br \/>\n    mas n&atilde;o poderia ter sido p&eacute;ssimo?<\/p>\n<p>Certamente, conclu&iacute;a ele consigo, &#8211; n&atilde;o &eacute; a isso que<br \/>\n    se chama ser bom negociante; obra do acaso, nem mais nem menos&#8230;<\/p>\n<p>Chegara a hora do caf&eacute;. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos.<br \/>\n    As carnes pesavam-lhe; sentou-se logo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o como vai isso, Seu Teodoro, ham?<\/p>\n<p>&#8211; Bem&#8230; Muito trabalho.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o que se quer. Eu tamb&eacute;m n&atilde;o paro. Mas quer saber<br \/>\n    quem vai mesmo de vento em popa? O Inoc&ecirc;ncio. O ladr&atilde;o tem m&atilde;o<br \/>\n    certeira; n&atilde;o erra o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com a maior fleugma. O dinheiro n&atilde;o lhe escalda as m&atilde;os. Ele<br \/>\n    vem a&iacute;; deixei-o l&aacute; embaixo a conversar com um sujeito. &Eacute;<br \/>\n    um fin&oacute;rio de marca.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; esperto, &eacute;.<\/p>\n<p>Minutos depois o Inoc&ecirc;ncio Braga entrou, tr&ecirc;fego e alegre, em<br \/>\n    companhia do Negreiros, que subira para tratar de um neg&oacute;cio, e, enquanto<br \/>\n    este se entretinha com Teodoro, o Inoc&ecirc;ncio dizia, voltando-se para<br \/>\n    o Lemos:<\/p>\n<p>&#8211; Hoje &eacute; para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine<br \/>\n    que recebi carta do meu procurador, dizendo j&aacute; ser minha uma quinta<br \/>\n    l&aacute; da minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Terras de trigo?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; por isso. A propriedade s&oacute; dar&aacute; despezas.<br \/>\n    Comprei-a por vingan&ccedil;a. O dono era um fidalgo desses velhos, de raros<br \/>\n    exemplares. Por uma quest&atilde;o est&uacute;pida maltratou meu pai. Eu era<br \/>\n    pequeno, mas n&atilde;o me esqueci da ofensa. Os dias passaram; o fidalgo<br \/>\n    arruinou-se, e o filho do meu velho ganhou o bastante para faz&ecirc;-lo assinar,<br \/>\n    ainda que de cruz, as escrituras que lhe d&atilde;o direito &agrave;, posse<br \/>\n    da sua quinta. Meu pai j&aacute; se instalou no pal&aacute;cio; o diacho &eacute;<br \/>\n    que, pelos modos, ele n&atilde;o se acostuma &agrave; ociosidade e vai para<br \/>\n    o campo mondar o linho com os empregados&#8230; n&atilde;o faz mal, &eacute; o<br \/>\n    dono.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, foi um ato de amor filial, muito digno&#8230; murmurou o Lemos,<br \/>\n    assoando-se com estrondo.<\/p>\n<p>Isidoro entrou com o caf&eacute; e a conversa generalizou-se. &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, senhor Teodoro, &eacute; verdade que o Joaquim &eacute; seu<br \/>\n    interessado?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Inda bem. Voc&ecirc; n&atilde;o parecia portugu&ecirc;s, homem; voc&ecirc;<br \/>\n    parecia ingl&ecirc;s!<\/p>\n<p>&#8211; Por que?<\/p>\n<p>&#8211; Por n&atilde;o querer s&oacute;cios. Um cas&atilde;o destes pode enriquecer<br \/>\n    muita gente. Olhe que &eacute; um erro isto de querer tudo para si.<\/p>\n<p>Sim, pensou Francisco Teodoro, a vida &eacute; curta, e uma fonte cavada<br \/>\n    com tanto esfor&ccedil;o &eacute; justo que d&ecirc; &aacute;gua com abund&acirc;ncia<br \/>\n    para muitas sedes&#8230;<\/p>\n<p>J&aacute; o Isidoro recolhia as x&iacute;caras quando entrou o Jo&atilde;o<br \/>\n    Ramos, a bufar de calor. Pediu not&iacute;cias da sa&uacute;de de todos e<br \/>\n    mesmo antes de ouvir as respostas vasou quanto sabia acerca dos neg&oacute;cios.<br \/>\n    Vinha da casa do Lessa, que auferira lucros extraordin&aacute;rios de uma<br \/>\n    especula&ccedil;&atilde;o de caf&eacute;. Ele tamb&eacute;m se metera em grandes<br \/>\n    empresas; sacou papelada que lhe enchia os bolsos e representava muitos contos<br \/>\n    de, r&eacute;is.<\/p>\n<p>Inoc&ecirc;ncio Braga citava nomes de pobret&otilde;es tornados em milion&aacute;rios,<br \/>\n    com a alta, quando Jo&atilde;o Ramos o interrompeu, consultando os amigos<br \/>\n    se deveria aceitar a presid&ecirc;ncia de um banco. Ele hesitava&#8230;<\/p>\n<p>Inoc&ecirc;ncio aconselhou-o a que acedesse. O cargo era de prest&iacute;gio.<br \/>\n    Depois, o tempo efervescente do jogo tinha passado. As transa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    agora faziam-se com mais seguran&ccedil;a. Tamb&eacute;m ele tinha em forma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um grande projeto&#8230;<\/p>\n<p>Teodoro sufocava; n&atilde;o ouvia falar noutra coisa. O seu vizinho da esquerda<br \/>\n    e o seu vizinho da direita passavam quantidades fabulosas de libras para a<br \/>\n    Europa, ganhas no azar do momento. E ele?<\/p>\n<p>As suas reflex&otilde;es tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para<br \/>\n    afinal alcan&ccedil;ar o que os outros adquiriam com um gesto!<\/p>\n<p>A pouco e pouco os seus amigos mais circunspectos iam-se atirando &agrave;<br \/>\n    voragem da Bolsa. Afortunados, como se m&atilde;o invis&iacute;vel os guiasse,<br \/>\n    ganhavam quase sempre. S&oacute; ele resistira, firme nos seus princ&iacute;pios<br \/>\n    de moral e de economia. Mas o cont&aacute;gio da febre manifestava-se j&aacute;<br \/>\n    nos primeiros arrepios da tenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro refletia&#8230;<\/p>\n<p>Quando os amigos sa&iacute;ram, ele caminhou maquinalmente para a janela.,<\/p>\n<p>Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a cal&ccedil;ada, ajuntando<br \/>\n    o caf&eacute; da rua. Carregadores sa&iacute;am-lhe da porta, vergados ao<br \/>\n    peso das sacas. Os carro&ccedil;&otilde;es passavam che&iacute;ssimos, com<br \/>\n    estardalha&ccedil;o, chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se<br \/>\n    no ar espesso, engrossado de p&oacute;.<\/p>\n<p>Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido.<\/p>\n<p>Daquele esfor&ccedil;o surgiria a reden&ccedil;&atilde;o do povo. E com suor<br \/>\n    e l&aacute;grimas que se fertilizam os melhores campos.<\/p>\n<p>Da enxada, que fatiga o bra&ccedil;o e rasga o seio do barro, &eacute; que<br \/>\n    deriva o bem da humanidade, a &aacute;gua que mata a sede e a &aacute;rvore<br \/>\n    que d&aacute; sombra e se desmancha em flores.<\/p>\n<p>Aben&ccedil;oados os que n&atilde;o fraquejam e podem no fim da exist&ecirc;ncia<br \/>\n    erguer bem alto a cabe&ccedil;a sem respingos de v&iacute;cio. Esses n&atilde;o<br \/>\n    ter&atilde;o patinhado na enxurrada enganadora, esses dir&atilde;o aos filhos:<\/p>\n<p>&#8211; Olhem para a minha vida e fa&ccedil;am como eu fiz.<\/p>\n<p>Era 6 que pensava Francisco Teodoro, querendo agarrar-se &agrave; sua f&eacute;<br \/>\n    antiga, que temia ca&iacute;sse agora, abalada pela ventania daqueles dias<br \/>\n    de loucura.<\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">VIII<\/a><\/h4>\n<p>Na saleta de engomar, Noca, com o ferro na m&atilde;o, sabia do que se passava<br \/>\n    em toda a casa. Nesse dia ela trouxera uma bra&ccedil;ada de roupas para cima<br \/>\n    de uma cadeira junto da t&aacute;bua. Lia e Rachel interromperam-na depressa.<\/p>\n<p>&#8211; Noca, voc&ecirc; corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.<\/p>\n<p>&#8211; E outro para a minha, Noca?<\/p>\n<p>&#8211; V&atilde;o-se embora. Hoje n&atilde;o tenho tempo para conversas.<\/p>\n<p>&#8211; Um s&oacute;, Noca, sim?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o fa&ccedil;o nada! Amanh&atilde; seu pai est&aacute; a5 gritando<br \/>\n    que n&atilde;o tem roupa!<\/p>\n<p>Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se nela<br \/>\n    e a Noca n&atilde;o teve rem&eacute;dio sen&atilde;o cortar os vestidos das<br \/>\n    bonecas e ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribu&iacute;do o<br \/>\n    servi&ccedil;o, levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe;<br \/>\n    mas a mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade daquela<br \/>\n    criatura.<\/p>\n<p>A culpa era do sangue, da sua ra&ccedil;a, que menos estima os superiores<br \/>\n    quanto mais estes a afagam. Por isso ela morria de amores por M&aacute;rio,<br \/>\n    um rapazinho atrevido, de g&ecirc;nio autorit&aacute;rio e palavras duras.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ava a alisar a primeira camisa do patr&atilde;o, quando Dion&iacute;sio<br \/>\n    se acercou da t&aacute;bua.<\/p>\n<p>&#8211; Agora &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; chegando, Dion&iacute;sio?!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;. Fui levar um recado de seu M&aacute;rio&#8230; A senhora j&aacute;<br \/>\n    sabe que ele deixou a francesa? Esta agora &eacute; mais bonita; &eacute;<br \/>\n    uma carioca de se lhe tirar o chap&eacute;u<\/p>\n<p>&#8211; Ora veja s&oacute; como Dion&iacute;sio est&aacute; tolo&#8230; Ela apontou<br \/>\n    as crian&ccedil;as, que poderiam ir mexericar l&aacute; para dentro. E depois:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; loura ou &eacute; morena?<\/p>\n<p>&#8211; Morena, altinha, muito chic.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. V&aacute; arrumar o quarto de M&aacute;rio, ande.<\/p>\n<p>Mal saiu o Dion&iacute;sio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar<br \/>\n    sonso.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe aqui, d. Noca, o que eu achei embaixo do travesseiro de d. Nina.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute;? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho.<\/p>\n<p>Um retrato.<\/p>\n<p>Noca olhou; era um retrato de M&aacute;rio. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda<br \/>\n    continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Minha ama est&aacute; escrevendo uma carta, l&aacute; no quarto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; para Sergipe.<\/p>\n<p>A cabocla sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; O professor de m&uacute;sica est&aacute; ai&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; sei&#8230;. Vai pedir ao jardineiro um pouco de hortel&atilde;, anda,<br \/>\n    para eu botar de infus&atilde;o.<\/p>\n<p>Noca tinha ascend&ecirc;ncia sobre a criadagem, que a tratava por dona. Mesmo<br \/>\n    entre os brancos a palavra da sua experi&ecirc;ncia era ouvida com acatamento.<br \/>\n    Ela era a mulher desembara&ccedil;ada, a doceira dos grandes dias de festa,<br \/>\n    a &uacute;nica das engomadeiras capaz de satisfazer as impertin&ecirc;ncias<br \/>\n    do dono da casa; ningu&eacute;m sabia como a Noca preparar um rem&eacute;dio,<br \/>\n    um suadouro, nem dar um escalda-p&eacute;s sinapisado, nem t&atilde;o bem<br \/>\n    escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Alegre, forte, faladora e arrogante, com o g&ecirc;nio picado e a l&iacute;ngua<br \/>\n    pronta para a r&eacute;plica, n&atilde;o admitia admoesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nem conhecia economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava<br \/>\n    de cores claras e fitas alegres, pisando com todo o peso do seu corpo volumoso<br \/>\n    e encarando as criaturas de frente, num bom ar de sinceridade.<\/p>\n<p>Ex&iacute;mia na tradu&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    sonhos, era de uma imagina&ccedil;&atilde;o lentejolada de pequeninas id&eacute;ias<br \/>\n    extravagantes e concep&ccedil;&otilde;es originais. Para o mais insignificante<br \/>\n    fato, tinha uma explica&ccedil;&atilde;o misteriosa, embrulhada em n&eacute;voas<br \/>\n    e supersti&ccedil;&otilde;es curios&iacute;ssimas que sa&iacute;am da sua<br \/>\n    boca como lemas fatais, de uma verdade indiscut&iacute;vel.<\/p>\n<p>E aquela influ&ecirc;ncia estendera-se pela fam&iacute;lia toda. Camila consultava-a;<br \/>\n    Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe explica&ccedil;&otilde;es; Ruth<br \/>\n    ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para tudo que tivesse ares de<br \/>\n    fantasia; e a criadagem pedia conselhos, rezas, rem&eacute;dios, palpites<br \/>\n    de jogo e consola&ccedil;&otilde;es de desgostos&#8230;<\/p>\n<p>Noca acudia com prontid&atilde;o a todos, gabando-se, sem hipocrisia, de<br \/>\n    gostar de ser &uacute;til e servir de muito a muita gente&#8230;<\/p>\n<p>Ela andava agora desconfiada com a tristeza mal disfar&ccedil;ada de Mila.<br \/>\n    Desde aquele passeio ao Netuno deveria haver por ali grande novidade&#8230; O<br \/>\n    dr. Gerv&aacute;sio; entretanto, desfazia-se em cuidados&#8230; e o pobre do capit&atilde;o<br \/>\n    Rino era recebido com certa secura, que o est&uacute;pido parecia n&atilde;o<br \/>\n    compreender!<\/p>\n<p>A Nina, coitada, emagrecia como um arenque, e s&oacute; Ruth passava sem<br \/>\n    ver nada, como se a m&uacute;sica a levasse por outros caminhos&#8230; O patr&atilde;o&#8230;<br \/>\n    esse tamb&eacute;m ruminava qualquer coisa&#8230;<\/p>\n<p>Quem provocava confid&ecirc;ncias indiscretas da mulata era Nina, que, com<br \/>\n    o pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia &agrave; saleta do<br \/>\n    engomado logo que dela via sair o Dion&iacute;sio.<\/p>\n<p>A mulata, percebia tudo e n&atilde;o tinha escr&uacute;pulos em repetir a<br \/>\n    verdade. Ora, aquilo talvez curasse a mo&ccedil;a, pensava consigo. Se os<br \/>\n    amores n&atilde;o passassem, que seria da gente? O cora&ccedil;&atilde;o quer-se<br \/>\n    &agrave; larga. Sofrer por causa de um homem ? N&atilde;o v&ecirc;!<\/p>\n<p>Nina, com os olhos &uacute;midos, as m&atilde;os curtas, de dedos ligeiramente<br \/>\n    achatados, espalmados na t&aacute;bua ainda quente do ferro, escutava tudo<br \/>\n    muito caladinha e, quando a &uacute;ltima palavra ca&iacute;a dos bei&ccedil;os<br \/>\n    grossos da Noca e que a mulata come&ccedil;ava a assoprar as brasas, ela voltava<br \/>\n    para dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito desgra&ccedil;ada.<br \/>\n    Todos os esfor&ccedil;os que fazia por agradar eram in&uacute;teis; M&aacute;rio<br \/>\n    nem parecia v&ecirc;-la e mal parava em casa&#8230; A outra era bonita; morena<br \/>\n    e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer sofrer.<\/p>\n<p>Enquanto, no bul&iacute;cio da casa, todos se agitavam no trabalho ativo,<br \/>\n    Camila conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona, com as<br \/>\n    m&atilde;os in&uacute;teis, o olhar febril.<\/p>\n<p>A vis&atilde;o daquela. mulher de luto, da manh&atilde; do Netuno, n&atilde;o<br \/>\n    a deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e aquele<br \/>\n    ar discreto de honestidade e de eleg&acirc;ncia. O que a punha doente, e que<br \/>\n    a atormentava ainda mais era a obstina&ccedil;&atilde;o de Gerv&aacute;sio<br \/>\n    em negar-lhe uma explica&ccedil;&atilde;o qualquer. Que haveria entre ambos<br \/>\n    ?<\/p>\n<p>No seu ci&uacute;me e ressentimento, Camila esquiva-se agora ao m&eacute;dico;<br \/>\n    era em v&atilde;o que ele a chamava para as suas doces e cru&eacute;is entrevistas.<br \/>\n    Mas toda a sua for&ccedil;a em resistir ia afrouxando, e ela sentia bem que,<br \/>\n    apesar de tudo, chegaria um dia em que os seus p&eacute;s a levariam para<br \/>\n    ele.<\/p>\n<p>Foi ainda naquele canto do quarto que Francisco Teodoro a encontrou, ao voltar<br \/>\n    da cidade.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s doente ? Olha que eu trouxe um camarote para a A&iacute;da.<br \/>\n    O Negreiros disse-me que vai muito bem por esta companhia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que entende o Negreiros de m&uacute;sica<\/p>\n<p>&#8211; Ele tem excelente ouvido. Acho bom desceres. O Gerv&aacute;sio est&aacute;<br \/>\n    l&aacute; em baixo&#8230;<\/p>\n<p>Mila desceu, e, ao sair para o terra&ccedil;o, parou entre portas, escutando<br \/>\n    o que dizia o dr. Gerv&aacute;sio. Ele estava sentado, de costas para ela.<br \/>\n    Em frente dele, em p&eacute;, Ruth ouvia-o atentamente, com a corda de pular<br \/>\n    enrolada no bra&ccedil;o, e o rosto ainda vermelho pelo exerc&iacute;cio interrompido.<\/p>\n<p>&#8211; &quot;Voc&ecirc; disse que a irm&atilde; da Lage &eacute; uma mo&ccedil;a<br \/>\n    bem educada, ,querendo dizer que ela &eacute; uma mo&ccedil;a instru&iacute;da.<br \/>\n    H&aacute; diferen&ccedil;a: educa&ccedil;&atilde;o e instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o se confundem. Repare: por que considera voc&ecirc; essa mo&ccedil;a<br \/>\n    como bem educada? Porque fala franc&ecirc;s, ingl&ecirc;s, toca e desenha;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esfor&ccedil;o,<br \/>\n    compram-se aos mestres; as outras d&atilde;o-se ou nascem da boa conviv&ecirc;ncia.<br \/>\n    Uma pessoa instru&iacute;da n&atilde;o ser&aacute; de exterioridade agrad&aacute;vel<br \/>\n    se n&atilde;o for educada. A instru&ccedil;&atilde;o nem sempre transparece<br \/>\n    e nem sempre concorre para a felicidade. A educa&ccedil;&atilde;o prepara-nos<br \/>\n    para a toler&acirc;ncia e revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um<br \/>\n    cumprimento, por que andamos na rua, por que nos ajoelhamos em uma igreja,<br \/>\n    por que comemos a uma mesa, por que falamos ou por que ouvimos falar, por<br \/>\n    que em discuss&otilde;es tonalizamos as nossas opini&otilde;es com as opini&otilde;es<br \/>\n    contr&aacute;rias; por mil efeitos, enfim, que, sendo impercept&iacute;veis,<br \/>\n    real&ccedil;am o indiv&iacute;duo, porque o polem e o tornam digno da boa<br \/>\n    sociedade. A instru&ccedil;&atilde;o &eacute; a for&ccedil;a com que aparelhamos<br \/>\n    o nosso esp&iacute;rito para a vida, lan&ccedil;a e escudo para ataque e defesa;<br \/>\n    a educa&ccedil;&atilde;o &eacute; o perfume que os pais inteligentes derramam<br \/>\n    na alma dos filhos e que por tal jeito se infiltra neles, que nunca mais se<br \/>\n    evapora, seja qual for o ambiente em que vivam depois.<\/p>\n<p>&Eacute; bom n&atilde;o confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confus&otilde;es,<br \/>\n    &agrave; vista grossa dos indiferentes, n&atilde;o tem import&acirc;ncia;<br \/>\n    mas alteram a verdade e n&atilde;o escapam aos ouvidos delicados.&quot;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tornarei a trocar o sentido dessas duas palavras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O L&eacute;lio disse-me ontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin.<br \/>\n    Ora, voc&ecirc; pode tocar, mas n&atilde;o pode interpretar bem semelhante<br \/>\n    autor.<\/p>\n<p>&#8211; Por que?<\/p>\n<p>&#8211; Porque ainda n&atilde;o tem idade para compreend&ecirc;-lo. Chopin &eacute;<br \/>\n    um m&uacute;sico perigoso, minha filha; &eacute; um torturador, um excitador<br \/>\n    de almas. Contente-se com os seus cl&aacute;ssicos, mais sadios e mais frescos.<br \/>\n    A m&uacute;sica como a leitura, deve ser ministrada com prud&ecirc;ncia. Falarei<br \/>\n    ao L&eacute;lio. Sua m&atilde;e j&aacute; desceu?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; ai, atr&aacute;s do senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230;<\/p>\n<p>Mila socorreu-se da filha, para n&atilde;o ficar s&oacute; com o m&eacute;dico<br \/>\n    que a via muito esquiva. A palidez e a tristeza ado&ccedil;avam-lhe a fisionomia,<br \/>\n    dando-lhe um encanto novo. O Gerv&aacute;sio observava-a calado, indeciso,<br \/>\n    com medo de resolver de chofre a situa&ccedil;&atilde;o, com uma palavra s&oacute;..,.<\/p>\n<p>Todos os anos Francisco Teodoro celebrava os anivers&aacute;rios dele, da<br \/>\n    mulher e dos filhos com banquetes de tr&ecirc;s e quatro mesas, vinhos a rodo<br \/>\n    e dan&ccedil;as at&eacute; a madrugada.<\/p>\n<p>Nesses dias o m&eacute;dico fazia apenas o seu cumprimento, oferecia as violetas<br \/>\n    e o brinde do estilo, e retirava-se cedo para a casa silenciosa, l&aacute;<br \/>\n    para os lados do Jardim Bot&acirc;nico, onde ia fazer as suas leituras, comodamente<br \/>\n    reclinado na sua cadeira de balan&ccedil;o dentro do robe de chambre que lhe<br \/>\n    agasalhava o corpo magro.<\/p>\n<p>Camila conhecia suas antipatias por essas festas e n&atilde;o se lamentava<br \/>\n    por isso da aus&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A imensa casa era ent&atilde;o pequena para o n&uacute;mero de amigos. Nos<br \/>\n    jardins iluminados a bar&otilde;es e a copinhos, nas salas, nos corredores,<br \/>\n    nos terra&ccedil;os, no bufet, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor<br \/>\n    de vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes,<br \/>\n    ess&ecirc;ncias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas<br \/>\n    no banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chap&eacute;us<br \/>\n    e sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por<br \/>\n    sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o &uacute;nico<br \/>\n    fechado, tudo o que n&atilde;o devia estar embara&ccedil;ando o caminho: tapetes<br \/>\n    retirados &agrave; pressa para as dan&ccedil;as; mesas de centro, almofad&otilde;es<br \/>\n    do sof&aacute;, que tomavam espa&ccedil;o, floreiras, etc. As crian&ccedil;as<br \/>\n    corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista pago<br \/>\n    dedilhava no piano as polcas e as valsas do seu repert&oacute;rio.<\/p>\n<p>A essas festas iam sempre os colegas e os conhecidos de Francisco Teodoro,<br \/>\n    o pessoal da sua casa de com&eacute;rcio, gente da vizinhan&ccedil;a, alguns<br \/>\n    doutores, um senador do imp&eacute;rio, a quem era dirigida a melhor das aten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e amigas de Camila, do tempo do col&eacute;gio, mulheres de posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e bem apresent&aacute;veis, que s&oacute; com as ricas ela topara depois,<br \/>\n    na balb&uacute;rdia da vida.<\/p>\n<p>Nos intervalos da dan&ccedil;a havia sempre quem tocasse dificuldades ao<br \/>\n    piano, ou cantasse algum romance italiano.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, jubiloso e am&aacute;vel, instava para que comessem, para<br \/>\n    que bebessem. N&atilde;o se esquecia de ningu&eacute;m, punha mancheias de<br \/>\n    balas nos rega&ccedil;os das crian&ccedil;as, ordenava que se abrisse champagne,<br \/>\n    conduzia as senhoras idosas ao bufet recomendando &agrave; Noca que distribu&iacute;sse<br \/>\n    pela criadagem vinhos e doces.<\/p>\n<p>Eram festas pantagru&eacute;licas, em que o riso se comunicava mais pelo<br \/>\n    barulho que pela inten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Camila dan&ccedil;ava, ro&ccedil;ando os seus maravilhosos bra&ccedil;os<br \/>\n    nus pelas mangas dos comendadores ou dos empregados do marido.<\/p>\n<p>A mesa os brindes sucediam-se atropeladamente. Para o fim, havia sempre uma<br \/>\n    voz alta, pausada, que se erguia a vitoria do trabalho honrado e puro, e essa<br \/>\n    voz lembrava os maus dias de Francisco Teodoro, a sua pobreza, a, sua energia<br \/>\n    e o seu triunfo.<\/p>\n<p>O dono da casa respondia com palavras tr&ecirc;mulas e olhos umedecidos.<br \/>\n    Tilintavam as ta&ccedil;as e a m&uacute;sica vibrava com for&ccedil;a na sala.<br \/>\n    Voltavam para as dan&ccedil;as. Como Ruth n&atilde;o dan&ccedil;asse, o pai<br \/>\n    chamava-a de minha estudiosa gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco<br \/>\n    espantados para ela. Ruth esquivava-se &agrave;quela curiosidade e fugia para<br \/>\n    fora. Iam encontr&aacute;-la depois no balan&ccedil;o, sozinha, voando &agrave;<br \/>\n    claridade das estrelas&#8230;<\/p>\n<p>S&oacute; no dia seguinte ao do festim &eacute; que o dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    ia ao palacete Teodoro saborear o peru quebrado do almo&ccedil;o e os fios<br \/>\n    de ovos, na quieta&ccedil;&atilde;o cansada da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o eram por toda a parte vest&iacute;gios da barafunda. Nina contava<br \/>\n    os talheres, que espalhados entre a lou&ccedil;aria e os cristais punham onda<br \/>\n    de luz p&aacute;lida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam<br \/>\n    os m&aacute;rmores da escada e do vest&iacute;bulo e o jardineiro guardava<br \/>\n    os copinhos e as lanternas disseminadas pelo jardim.<\/p>\n<p>Era uma dessas festas que Francisco Teodoro desejava agora oferecer aos seus<br \/>\n    amigos. Desceu a consultar a mulher e o m&eacute;dico. Encontrou-os ainda<br \/>\n    no terra&ccedil;o, ao lado de Ruth, que as m&atilde;os da m&atilde;e prendiam<br \/>\n    nervosamente.<\/p>\n<p>Mila acolheu a id&eacute;ia com frieza; o marido insistiu:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; est&aacute; mole, anda diferente. Reaja, tome rem&eacute;dios.<br \/>\n    Que diabo! eu tenho obriga&ccedil;&atilde;o de obsequiar os homens. Eles v&ecirc;m<br \/>\n    a&iacute; em nome da col&ocirc;nia. N&atilde;o quero fazer figura triste.<\/p>\n<p>&#8211; Alguma manifesta&ccedil;&atilde;o ? perguntou Gerv&aacute;sio.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Uma tolice. Id&eacute;ias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me<br \/>\n    hoje disso o Negreiros. Foram at&eacute; ao ministro e n&atilde;o sei mais<br \/>\n    o qu&ecirc;! Enfim, j&aacute; disse, o que eu n&atilde;o quero &eacute; fazer<br \/>\n    figura triste. O engra&ccedil;ado &eacute; que minha mulher falava em dar<br \/>\n    um grande baile, e agora, que se apresenta a ocasi&atilde;o, faz cara feia!<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio acudiu. Achava magn&iacute;fica a id&eacute;ia e procuraria<br \/>\n    auxili&aacute;-la na execu&ccedil;&atilde;o. De si para si pensava que esse<br \/>\n    pretexto traria Mil&uacute; ao movimento da sua vida habitual; arranc&aacute;-la-ia<br \/>\n    daquela obstina&ccedil;&atilde;o de pensamento, daquela apatia f&iacute;sica<br \/>\n    que o atormentava.<\/p>\n<p>Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Teodoro pediu-lhe<br \/>\n    que a dirigisse. Desse dia em diante o m&eacute;dico punha e dispunha do palacete,<br \/>\n    como senhor absoluto. Determinava como as coisas se fizessem. A ceia seria<br \/>\n    no terra&ccedil;o, ao fundo, sob um toldo de seda, entre bosquetes de avencas<br \/>\n    e cam&eacute;lias brancas; desenhava ornamentos, encomendava flores, substitu&iacute;a<br \/>\n    estofos, harmonizava cores, dava estilo e gra&ccedil;a ao que s&oacute; tinha<br \/>\n    peso e luxo; idealizava a mat&eacute;ria, arrancava uma alma delicada &agrave;quelas<br \/>\n    salas carregadas e mudas.<\/p>\n<p>Mila assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas, pouco<br \/>\n    a pouco, Gerv&aacute;sio convencia-a de que a sua ciumada era lima doidice.<br \/>\n    N&atilde;o tivera ele tamb&eacute;m ci&uacute;mes do capit&atilde;o Rino ?<br \/>\n    E ai estava: j&aacute; nem pensava nisso!<\/p>\n<p>Como o cora&ccedil;&atilde;o de Mila n&atilde;o comportasse rigores, afeito<br \/>\n    &agrave; felicidade, ela foi esquecendo.<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">IX<\/a><\/h4>\n<p>Uma tarde, M&aacute;rio entrava na sala de jantar, quando viu o dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    &agrave; mesa; ent&atilde;o tornou a sair, sem dizer uma palavra.<\/p>\n<p>Mila sentiu o cora&ccedil;&atilde;o parar-lhe no peito. Teodoro n&atilde;o<br \/>\n    ligou import&acirc;ncia ao caso; para ele o filho voltara a buscar algum objeto<br \/>\n    esquecido, e, t&atilde;o entusiasmado estava a falar em neg&oacute;cios, que<br \/>\n    s&oacute; para a sobremesa disse espantado:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, e o M&aacute;rio ? ent&atilde;o o M&aacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    voltou?<\/p>\n<p>Nina murmurou, desculpando-o:<\/p>\n<p>&#8211; Acho que est&aacute; incomodado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vou ver isso.<\/p>\n<p>Teodoro levantou-se.<\/p>\n<p>Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfian&ccedil;a os ligasse entre<br \/>\n    si. Camila tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pai? No seu amor, de<br \/>\n    tamanhos supl&iacute;cios, nenhum igualara nunca ao desse instante.<\/p>\n<p>Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo M&aacute;rio!<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio compreendeu-a e tentava sosseg&aacute;-la de longe, com<br \/>\n    um olhar firme, de confian&ccedil;a, certo de que nada vale antecipar tristezas,<br \/>\n    que nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus p&eacute;s ou pelas suas<br \/>\n    asas, quando t&ecirc;m de vir. Mas tudo o fazia esperar que n&atilde;o viesse<br \/>\n    a que ela temia&#8230;<\/p>\n<p>E para afastar preocupa&ccedil;&otilde;es, falou de alegrias: anunciavam-se<br \/>\n    festas; abria-se uma exposi&ccedil;&atilde;o de pintura, excelente; e comentavam-se<br \/>\n    os brios de um tenor novo para o l&iacute;rico&#8230;<\/p>\n<p>Ele sentia que sua voz soava falso; ningu&eacute;m o ouvia, nem ele mesmo,<br \/>\n    que apesar da calma aparente dizia aquelas palavras pensando em escutar outras,<br \/>\n    que viessem de fora, como raios, fulminando tudo.<\/p>\n<p>Mila encostou-se ao espaldar da cadeira, muito p&aacute;lida, com uma express&atilde;o<br \/>\n    interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gerv&aacute;sio falava, falava&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, Teodoro rompeu pelo quarto do filho.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, seu M&aacute;rio ? isso faz-se ! Entra-se em uma sala para<br \/>\n    jantar e volta-se para tr&aacute;s sem satisfa&ccedil;&otilde;es, de mais<br \/>\n    a mais diante de visitas?!<\/p>\n<p>&#8211; Visitas? que visitas? o dr. Gerv&aacute;sio?&#8230; Esse &eacute; de casa.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute;; mas que fosse; se n&atilde;o me consideras nem a tua<br \/>\n    m&atilde;e, devias ao menos respeitar o h&oacute;spede.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se &eacute; o h&oacute;spede que eu detesto ! n&atilde;o posso ver<br \/>\n    aquele homem, papai, n&atilde;o posso ver aquele homem!<\/p>\n<p>&#8211; Tu est&aacute;s doido! por que?!<\/p>\n<p>M&aacute;rio calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pai<br \/>\n    insistia, furioso:<\/p>\n<p>&#8211; Essas coisas n&atilde;o se dizem &agrave;-toa; responde: porque lhe tens<br \/>\n    essa raiva ?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei&#8230; desde crian&ccedil;a que antipatizo com ele&#8230; por instinto&#8230;<br \/>\n    Aborre&ccedil;o aquele rosto p&aacute;lido&#8230; aquele corpo esguio.. aquela<br \/>\n    voz desigual, aquele sorrisinho de mofa, embirro com as suas m&atilde;os de<br \/>\n    mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua assiduidade, com os seus sapatos,<br \/>\n    com a cor das suas roupas, com os vidros das suas lunetas, com as suas ess&ecirc;ncias,<br \/>\n    com ele e com tudo que &eacute; dele. N&atilde;o me pergunte mais; n&atilde;o<br \/>\n    posso dizer mais nada; talvez lhe pare&ccedil;a pouco. &Eacute; muito. Por<br \/>\n    hoje desculpe-me. Estou doente.<\/p>\n<p>&#8211; Se est&aacute;s doente, trata-te; s&oacute; mesmo um del&iacute;rio de<br \/>\n    febre explica o que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que<br \/>\n    o caso n&atilde;o se repita, ouviste? que n&atilde;o se repita!&#8230; sen&atilde;o&#8230;olha<br \/>\n    que eu n&atilde;o sou bom!<\/p>\n<p>Francisco Teodoro saiu amea&ccedil;ador, mas foi dizer ao m&eacute;dico que<br \/>\n    efetivamente o M&aacute;rio estava indisposto&#8230;<\/p>\n<p>Nessa noite, como nas outras, o mo&ccedil;o foi para a rua sem um &#8211; at&eacute;<br \/>\n    logo!<\/p>\n<p>Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa aborrecia-o.<\/p>\n<p>A fam&iacute;lia andava a passear pela ch&aacute;cara, na doce pasmaceira<br \/>\n    costumada, vendo regar as plantas e nascer as estrelas. Fazia um calor b&aacute;rbaro.<br \/>\n    Ruth voava agarrada &agrave;s cordas do balan&ccedil;o, cantando alto, e atirando<br \/>\n    flores de cajazeiro &agrave; m&atilde;e, cada vez que ela passava por perto.<\/p>\n<p>Camila recebia-as com ambas as m&atilde;os e sorvia-lhes o aroma &aacute;cido<br \/>\n    e leve, numa deliciosa sensa&ccedil;&atilde;o, afagada pela homenagem.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado, minha filha<\/p>\n<p>&#8211; Ai vai um beijo, mam&atilde;e<\/p>\n<p>O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabelos de Mila. E o passeio<br \/>\n    continuava, arrastado e feliz.<\/p>\n<p>&#8211; Um dia esta menina leva um tombo!&#8230; Mas eu sei o que fa&ccedil;o. Amanh&atilde;<br \/>\n    cedo mando cortar as cordas do balan&ccedil;o. Mais vale prevenir!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, Teodoro, n&atilde;o ! &Eacute; o divertimento dela; e &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o inocente!<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; vens tu&#8230;<\/p>\n<p>Ruth n&atilde;os os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos<br \/>\n    &agrave; claridade que se difundia nas cores gloriosas de um crep&uacute;sculo<br \/>\n    ardente. De vez em quando, num impulso mais forte sua cabe&ccedil;a ro&ccedil;ava<br \/>\n    na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus ouvidos<br \/>\n    um rumor divino e ritmado, de m&uacute;sica impec&aacute;vel. Toda a sua for&ccedil;a<br \/>\n    se concentrava nas m&atilde;os, que a aspereza das cordas magoava, &uacute;nica<br \/>\n    parte ent&atilde;o sens&iacute;vel do seu corpo, que ia e vinha na luz cambiante<br \/>\n    da tarde, como uma sombra movedi&ccedil;a e impalp&aacute;vel.<\/p>\n<p>Na vertigem do v&ocirc;o, ela n&atilde;o via, em cima e em roda, sen&atilde;o<br \/>\n    claridades estonteadoras, onde anjos azuis abriam asas esgar&ccedil;adas de<br \/>\n    nuvens fugidias, por entre barras de ouro e enoveladas fogueiras rubras. Em<br \/>\n    baixo, na terra cor de &acirc;mbar, o veludo verde das gramas e dos arbustos<br \/>\n    distendia-se num espregui&ccedil;amento voluptuoso e macio, &agrave; espera<br \/>\n    do sono.<\/p>\n<p>Ia chegando a hora da consagra&ccedil;&atilde;o pur&iacute;ssima da natureza:<br \/>\n    a hora das estrelas, N&atilde;o tardou que o alaranjado poente se concentrasse<br \/>\n    num roxo escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente,<br \/>\n    a penumbra.<\/p>\n<p>O calor aumentava; houve roncar de trovoada ao longe.<\/p>\n<p>&#8211; Quer Deus Nosso Senhor que eu me v&aacute; embora, disse o m&eacute;dico.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, &eacute; prudente, n&oacute;s vamos ter chuva&#8230; respondeu Teodoro,<br \/>\n    consultando o c&eacute;u. E chuva de arrasar!<\/p>\n<p>Camila ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chap&eacute;u<br \/>\n    do m&eacute;dico. Despediram-se.<\/p>\n<p>Quando Teodoro entrou em casa perguntou &agrave; Noca:<\/p>\n<p>&#8211; Seu M&aacute;rio ?<\/p>\n<p>&#8211; Seu M&aacute;rio saiu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hum&#8230; eu j&aacute; esperava isso mesmo&#8230; Mas ele me paga&#8230;<\/p>\n<p>Camila e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para a<br \/>\n    saleta, onde costumavam passar o ser&atilde;o. Mal se sentaram, Mila impacientou-se.<br \/>\n    Formigas de asas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e perseguiam-na a ela<br \/>\n    tamb&eacute;m, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela gola do vestido.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo se junta, quando a gente est&aacute; aborrecida ! disse ela zangada.<\/p>\n<p>Nina sacudiu as formigas com o len&ccedil;o.<\/p>\n<p>Pelas dez horas, Francisco Teodoro chamou de novo a mulata.<\/p>\n<p>&#8211; Seu, M&aacute;rio ?<\/p>\n<p>&#8211; Ele ainda n&atilde;o voltou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; direito. Voc&ecirc; v&aacute; l&aacute; embaixo botar a tranca<br \/>\n    na porta. Quando ele vier, mesmo que bata, n&atilde;o abra. Percebeu?<\/p>\n<p>&#8211; Percebi, sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Agora chame o Dion&iacute;sio.<\/p>\n<p>E ao Dion&iacute;sio como a todos os criados, foi dada a mesma ordem.<\/p>\n<p>Mila levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos com<br \/>\n    a agulha, mal acertando com a costura.<\/p>\n<p>Teodoro voltou-se para elas:<\/p>\n<p>&#8211; Nos tempos antigos n&atilde;o havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se<br \/>\n    &agrave; mesma hora que os pais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sa&iacute;am pelas janelas&#8230; murmurou Camila.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim!<\/p>\n<p>&#8211; E se chover? A noite est&aacute; t&atilde;o feia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que volte para tr&aacute;s. N&atilde;o vem a p&eacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Mas como despede o t&iacute;lburi ao port&atilde;o, ter&aacute; de voltar<br \/>\n    a p&eacute;, e debaixo d&aacute;gua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Teodoro fora de si; ou raios,<br \/>\n    se ca&iacute;rem raios. Senhora, isto ent&atilde;o &eacute; vida?!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; a mocidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em<br \/>\n    dois ao peso do trabalho, e o senhor meu filho s&oacute; sabe gastar o que<br \/>\n    ajuntei com o suor do meu rosto!<\/p>\n<p>&#8211; Ele n&atilde;o tem a mesma sa&uacute;de; M&aacute;rio &eacute; fraco.<\/p>\n<p>&#8211; Mais uma raz&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Qual raz&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Basta; resolvi, acabou-se. Daqui em diante, ou o rapaz me entra em casa<br \/>\n    a horas convenientes ou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ou?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ou que v&aacute; dormir para o diabo!<\/p>\n<p>Camila olhou com desprezo para o marido, enojada daquela f&uacute;ria. Quis<br \/>\n    replicar, mas veio-lhe de repente um grande medo de que Francisco Teodoro<br \/>\n    a fizesse de novo intermedi&aacute;ria das suas amea&ccedil;as, e fugiu da<br \/>\n    sala para n&atilde;o responder, batendo com a porta, num desespero.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; por estas e por outras que o M&aacute;rio est&aacute; assim&#8230;<br \/>\n    resmungou o negociante, percorrendo a sala com as m&atilde;os nos bolsos,<br \/>\n    a tilintar as chaves.<\/p>\n<p>Fora, a noite estava negra, abafad&iacute;ssima. Vinha da terra e dos vegetais<br \/>\n    um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosfera, corporizava-a,<br \/>\n    tornando-a irrespir&aacute;vel.<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o eram onze horas e j&aacute; se recolhiam todos para os quartos,<br \/>\n    amodorrados, bambos.<\/p>\n<p>Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe, soturnamente.<\/p>\n<p>Fecharam-se as janelas; a tempestade a&iacute; estava. Quando rezava para<br \/>\n    dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao beiral<br \/>\n    do telhado.<\/p>\n<p>A mulata persignou-se duas vezes e ficou &agrave; escuta.<\/p>\n<p>O que passou depois, foi o vento.<\/p>\n<p>Ela deitou-se com um suspiro.<\/p>\n<p>Quem n&atilde;o se deitou foi a Nina. Sozinha, no seu quarto estreito, abriu<br \/>\n    a janela e debru&ccedil;ou-se para o jardim sondando a rua, atrav&eacute;s<br \/>\n    do arvoredo.<\/p>\n<p>Os lampi&otilde;es de g&aacute;s mal alumiavam as cal&ccedil;adas solit&aacute;rias,<br \/>\n    envolvidos pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania,<br \/>\n    lambendo tudo. De vez em quando, um bonde passava, de oleados corridos, com<br \/>\n    tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da noite.<\/p>\n<p>Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma cadeira;<br \/>\n    sentia-se opressa. O tuf&atilde;o descansava: ela voltou &agrave; janela,<br \/>\n    curiosa, com ansiedade, cosendo o peito nu ao peitoril largo. N&atilde;o viu<br \/>\n    nada. A voz arrastada de um b&ecirc;bedo guinchava na esquina, em falsete,<br \/>\n    acompanhada por outra voz que falava na mesma toada. Uma nova lufada veio<br \/>\n    forte, terr&iacute;vel, abalando tudo.<\/p>\n<p>A &uacute;nica janela iluminada da vizinhan&ccedil;a fechou-se.<\/p>\n<p>O b&ecirc;bedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes &agrave;<br \/>\n    dist&acirc;ncia, e s&oacute; ficou o vento, cada vez mais forte, uivando,<br \/>\n    uivando.<\/p>\n<p>Agora n&atilde;o parava; enchia tudo com o seu sopro formid&aacute;vel.<\/p>\n<p>Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o aroma<br \/>\n    das verdes, que ele ia levando pelo ar em revoada louca. Na in&uacute;til<br \/>\n    resist&ecirc;ncia da luta, as &aacute;rvores contorciam-se, estalavam; ca&iacute;am<br \/>\n    arbustos arrancados pelas ra&iacute;zes, e frutas verdes despenhavam-se sobre<br \/>\n    as telhas, com estrondo.<\/p>\n<p>Nina expunha a cabe&ccedil;a nua ao a&ccedil;oite da tormenta, enervada pela<br \/>\n    fixidez da sua id&eacute;ia. Entretanto, sabia, o M&aacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    merecia aquilo, n&atilde;o a amaria nunca.<\/p>\n<p>Havia uns quinze anos j&aacute; que ela morava naquela casa, levada pelo<br \/>\n    pai, o Joca: era ent&atilde;o muito enfezada, apesar dos seus dez anos. Entrara<br \/>\n    para ali como poderia ter entrado para um asilo qualquer: para ter cama e<br \/>\n    p&atilde;o. N&atilde;o ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada mesmo<br \/>\n    a meditar no passado mais do que queria. N&atilde;o conhecera a m&atilde;e,<br \/>\n    e em frente &agrave; mudez da treva pensava nela, como se a tivera visto.<br \/>\n    N&atilde;o compreendia por que rejeitavam o seu cora&ccedil;&atilde;o amoroso.<br \/>\n    Nem m&atilde;e na inf&acirc;ncia, nem noivo na mocidade. Que triunfo!<\/p>\n<p>Sabia pelos outros que a m&atilde;e fora urna mulher da m&aacute; vida e<br \/>\n    baixa classe; mais nada; e n&atilde;o era pouco.<\/p>\n<p>Criara-a desde o primeiro ano a av&oacute; paterna, d. Em&iacute;lia, sem<br \/>\n    muitos agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paci&ecirc;ncia j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o era nenhuma. Por causa disso aprendera depressa todos os servi&ccedil;os<br \/>\n    caseiros, era a copeira da fam&iacute;lia, e aos nove anos j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    se atrapalhava quando tinha de por uma panela de arroz ou de feij&atilde;o<br \/>\n    no fogo. L&aacute; teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca n&atilde;o se<br \/>\n    tivesse casado com uma vi&uacute;va carregada de filhos e que n&atilde;o podia<br \/>\n    ver a enteada diante de si&#8230; Sempre as antipatias! N&atilde;o era para tornar<br \/>\n    m&aacute; uma criatura? Lembrava-se que n&atilde;o fora tamb&eacute;m acolhida<br \/>\n    com entusiasmo na casa de Francisco Teodoro.<\/p>\n<p>Ao princ&iacute;pio, amedrontada, Nina procurara a companhia dos criados,<br \/>\n    de prefer&ecirc;ncia &agrave; da fam&iacute;lia, habituada aos servi&ccedil;os<br \/>\n    grosseiros e &agrave;s palavras brutas, com o seu ar de c&atilde;ozinho batido.<br \/>\n    Toda a gente tomava isso como o mais claro ind&iacute;cio dos instintos baixos;<br \/>\n    aquilo era o tra&ccedil;o da lama que ela trazia da m&atilde;e e que arrastaria<br \/>\n    pela vida fora.<\/p>\n<p>Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava ent&atilde;o<br \/>\n    os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a do&ccedil;ura<br \/>\n    do seu car&aacute;ter e o engenho do seu esp&iacute;rito. Ruth em poucos dias<br \/>\n    preferia-a aos outros, atirando-lhe ao pesco&ccedil;o magrinho e p&aacute;lido<br \/>\n    os seus dois bracinhos redondos. Aquela conquista foi uma gl&oacute;ria para<br \/>\n    Nina. O amor de algu&eacute;m nascia para ela, como a luz para um cego, e<br \/>\n    sentia nos beijos cor de rosa da crian&ccedil;a gorda e bem tratada o aroma<br \/>\n    da vida, que at&eacute; ent&atilde;o ela s&oacute; parecia ter espreitado<br \/>\n    de longe.<\/p>\n<p>M&aacute;rio era nesse tempo um rapazinho de cinco anos, alto e forte para<br \/>\n    a idade, muito lindo, arrojado e pouco am&aacute;vel para ela. Abusando da<br \/>\n    sua for&ccedil;a e da sua posi&ccedil;&atilde;o de preferido, trazia-a fascinada,<br \/>\n    pronta a ceder &agrave;s suas vontades absurdas.<\/p>\n<p>De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a ado&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Nina em casa de Teodoro fora d. Joana, para quem a menina cheirava a pecado<br \/>\n    e era uma blasf&ecirc;mia viva aos preceitos da moral religiosa. Para essa<br \/>\n    classe h&aacute; os asilos, afirmava ela; as plantas daninhas n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    para os canteiros de violetas. A caridade faz hosp&iacute;cios, orfanatos,<br \/>\n    rodas, onde se apuram e aperfei&ccedil;oam os filhos da impureza e da vergonha;<br \/>\n    mas agasalhar no seio honesto um animal desconhecido, era exporem-se a um<br \/>\n    veneno de efeitos imprevistos.<\/p>\n<p>Mila n&atilde;o repelia a id&eacute;ia, cheia de indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela origem da sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando<br \/>\n    as boas gra&ccedil;as de todos, devagar, pela sua docilidade e o seu pr&eacute;stimo.<\/p>\n<p>Apesar de mi&uacute;da e de p&aacute;lida, ningu&eacute;m a via doente; tinha<br \/>\n    os m&uacute;sculos flex&iacute;veis, como o g&ecirc;nio. Aos doze anos conservava<br \/>\n    o seu ar est&uacute;pido e humilde; n&atilde;o conhecia uma letra; mas ensinava<br \/>\n    as criadas novas a varrerem a casa e a porem a mesa com perfei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Como o M&aacute;rio lhe batesse um dia com os arreios do seu cavalo de pau,<br \/>\n    Francisco Teodoro resolveu p&ocirc;-la em um col&eacute;gio, de pensionista,<br \/>\n    recomendando uma instru&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica, nada ornamental.<br \/>\n    Bem orientado andou.<\/p>\n<p>O col&eacute;gio fora o seu melhor tempo. Do pai n&atilde;o sabia sen&atilde;o<br \/>\n    de longe em longe, quando ele participava &agrave; irm&atilde; o nascimento<br \/>\n    de mais um filho, com umas lembran&ccedil;as murchas, para ela, no fim da<br \/>\n    carta.<\/p>\n<p>Ao princ&iacute;pio, a id&eacute;ia daquele irm&atilde;o, que n&atilde;o<br \/>\n    veria talvez nunca, sensibilizava-a; depois deixou de pensar nisso&#8230; Para<br \/>\n    qu&ecirc;?<\/p>\n<p>Foi s&oacute; depois de mulher que Nina come&ccedil;ou a amar a m&atilde;e;<br \/>\n    amor ignorado por todos e que ela cultivava como um segredo caro. Sondai bem<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o mais puro, que l&aacute; no fundo achareis um mist&eacute;rio,<br \/>\n    alguma coisa que existe e que se nega, ou porque fa&ccedil;a corar ou porque<br \/>\n    fa&ccedil;a sofrer.<\/p>\n<p>Nina tinha vexame de perguntar pela m&atilde;e e ardia em desejos de saber<br \/>\n    dela. Onde estaria essa mulher repudiada?<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m lho dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a id&eacute;ia<br \/>\n    mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha&#8230; ora em um desses recantos<br \/>\n    negros da cidade, j&aacute; velha e ainda atolada no vicio, batida, escarnecida,<br \/>\n    miser&aacute;vel.<\/p>\n<p>No meio da treva, que ela interrogava com &acirc;nsia, pareceu-lhe sentir<br \/>\n    a alma impenetr&aacute;vel da m&atilde;e solicitando-a n&oacute; agoniado<br \/>\n    suspiro do vento; ent&atilde;o estendeu os bra&ccedil;os, solu&ccedil;ando,<br \/>\n    no desejo da Morte, para o encontro definitivo das duas almas e a fus&atilde;o<br \/>\n    de um beijo eterno, que redimisse uma e desse &agrave; outra a sua primeira<br \/>\n    alegria.<\/p>\n<p>Reboaram os primeiros trov&otilde;es, com enorme estampido; um ziguezague<br \/>\n    de ouro cortou o espa&ccedil;o negro, e &agrave; luz branca de um rel&acirc;mpago<br \/>\n    a casaria muda bailou macabramente com o arvoredo escuro.<\/p>\n<p>A convuls&atilde;o passou, para voltar depressa; na fosforesc&ecirc;ncia<br \/>\n    m&oacute;bil e ofuscante da luz, todas as coisas tomavam propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    extraordin&aacute;rias, mas logo, nos intervalos, a treva da noite mais se<br \/>\n    condensava.<\/p>\n<p>Aplacou-se o vento, e ent&atilde;o, s&oacute; de um jato, a chuva caiu, pesada,<br \/>\n    brutal, ensurdecedora.<\/p>\n<p>A &aacute;gua borrifava a janela. Nina procurou um chale, envolveu-se e voltou.<br \/>\n    Era tempo: atrav&eacute;s das torrentes da chuva, viu tremeluzir indistinta<br \/>\n    no v&eacute;u fosco das &aacute;guas, a lanterninha de um t&iacute;lburi.<\/p>\n<p>Debru&ccedil;ada, alongando a cabe&ccedil;a, a mo&ccedil;a gritou:<\/p>\n<p>&#8211; M&aacute;rio! M&aacute;rio!<\/p>\n<p>Mas a sua voz fraca perdia-se no dil&uacute;vio.<\/p>\n<p>O primo abria o port&atilde;o; ela tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que<br \/>\n    o pai lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se j&aacute;<br \/>\n    na sombra, ia-se embora.<\/p>\n<p>Nina voltou para dentro, acendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.<\/p>\n<p>Com o cora&ccedil;&atilde;o aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadi&ccedil;o,<br \/>\n    com a precau&ccedil;&atilde;o de quem vai para o crime.<\/p>\n<p>Quando chegou embaixo j&aacute; o M&aacute;rio sacudia a fechadura com impaci&ecirc;ncia.<br \/>\n    praguejando raivoso.<\/p>\n<p>Ela tateou os ferrolhos e recomendou:<\/p>\n<p>&#8211; Espere um bocadinho, M&aacute;rio!<\/p>\n<p>&#8211; Que estupidez!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o fa&ccedil;a barulho&#8230; j&aacute; vai! sussurrava ela sem que<br \/>\n    ele a ouvisse de fora.<\/p>\n<p>Enfim, a porta abriu-se. M&aacute;rio esperava cosido ao umbral.<\/p>\n<p>&#8211; Que id&eacute;ia foi esta de deixarem a chave&#8230;<\/p>\n<p>E ele interrompeu a frase e a c&oacute;lera, ao ver a prima ali. Por que<br \/>\n    seria ela e n&atilde;o qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?<\/p>\n<p>&#8211; Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.<\/p>\n<p>Nina quis subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a chama<br \/>\n    da vela com a m&atilde;o, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do chale<br \/>\n    que a envolvia. Na meia escuridade do vest&iacute;bulo, M&aacute;rio percebeu-lhe<br \/>\n    a do&ccedil;ura do ombro nu, pequeno, redondo, um pouco de carne virginal<br \/>\n    guardada at&eacute; a&iacute; em um recato que nem o baile afuguentara nunca.<br \/>\n    E j&aacute; ele n&atilde;o viu sen&atilde;o a pureza daquele ombro acetinado,<br \/>\n    saindo do meio das l&atilde;s, como um desafio aos seus sentidos, num assalto<br \/>\n    impudico e voluptuoso.<\/p>\n<p>Acudiu-lhe ent&atilde;o a id&eacute;ia perversa de haver um prop&oacute;sito<br \/>\n    malicioso naquela hist&oacute;ria. N&atilde;o lhe afirmara Noca tantas e tantas<br \/>\n    vezes que a prima o amava?<\/p>\n<p>A filha da mulher de m&aacute; vida a&iacute; estava agora, como devia ser:<br \/>\n    livre de hipocrisias. M&aacute;rio estendeu-lhe os bra&ccedil;os. Nina compreendeu.<\/p>\n<p>Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com for&ccedil;a e<br \/>\n    subiu correndo.<\/p>\n<p>A vela apagou-se, os degraus da escada pareciam multiplicar-se debaixo de<br \/>\n    seus p&eacute;s. No alvoro&ccedil;o, pisava sem cautela ora no assoalho, ora<br \/>\n    no passadi&ccedil;o, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu<br \/>\n    desespero, supondo-se ainda perseguida pelos bra&ccedil;os do M&aacute;rio,<br \/>\n    que se quedara estupefato no mesmo ponto.<\/p>\n<p>Um trov&atilde;o estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina<br \/>\n    sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto at&eacute;<br \/>\n    ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.<\/p>\n<p>Com as m&atilde;os estendidas apalpava a escurid&atilde;o, ouvindo s&oacute;<br \/>\n    o estrondo da chuva, compacta, sempre igual. Temia que o primo a perseguisse<br \/>\n    e n&atilde;o se atrevia a voltar a cabe&ccedil;a, para n&atilde;o esbarrar<br \/>\n    com ele, ali mesmo, junto aos seus calcanhares.<\/p>\n<p>Os p&eacute;s, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada<br \/>\n    assobiando pelas frinchas de uma porta, t&ecirc;-la reconhecer o quarto, de<br \/>\n    que deixara aberta a janela, e ela entrou arrebatada, for&ccedil;ando a porta,<br \/>\n    que resistia. Fechou-se logo &agrave; chave, colou o ouvido &agrave; fechadura.<br \/>\n    Ningu&eacute;m; suspirou de al&iacute;vio, estava s&oacute;.<\/p>\n<p>Um rel&acirc;mpago conduziu-a &agrave; janela, de que fechou os vidros, alagando-se<br \/>\n    toda. Despiu-se &agrave; pressa, &agrave;s escuras, deixando cair toda a roupa<br \/>\n    molhada no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>E foi &agrave; luz branca de um outro rel&acirc;mpago que ela se viu toda<br \/>\n    nua, muito p&aacute;lida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o<br \/>\n    rosto de repente, como se vira um fantasma, e saltou para a cama, enfiando<br \/>\n    a camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da<br \/>\n    sua pr&oacute;pria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre<br \/>\n    no vidro.<\/p>\n<p>Era tal a sua confus&atilde;o e a vibra&ccedil;&atilde;o dos seus nervos,<br \/>\n    que n&atilde;o sentiu algu&eacute;m andar pelo corredor de vela acesa e passos<br \/>\n    compassados.<\/p>\n<p>M&aacute;rio adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Teodoro voltava<br \/>\n    para o sono interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a porta<br \/>\n    ao seu rapaz, por t&atilde;o feia noite de trovoada, &#8211; e ainda Nina, na estreiteza<br \/>\n    da sua cama, com os olhos pasmados para o teto negro, sofria, sofria, sofria&#8230;<\/p>\n<p>No outro dia, &agrave;s oito horas da manh&atilde;, quando Francisco Teodoro<br \/>\n    entrou na sala de jantar para o almo&ccedil;o, comido sempre cedo e &agrave;<br \/>\n    parte da fam&iacute;lia, j&aacute; l&aacute; encontrou a sobrinha, retocando<br \/>\n    os arranjos do copeiro para a sua mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Bons dias, Nina; voc&ecirc; passou bem a noite? perguntou-lhe ele, fixando-lhe<br \/>\n    os olhos pisados.<\/p>\n<p>&#8211; Eu passo sempre bem&#8230; respondeu ela corando.<\/p>\n<p>Ele teve pena; e mais baixo, para que o criado n&atilde;o o ouvisse:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; fez mal em abrir a porta a meu filho; ele n&atilde;o lhe merece<br \/>\n    esses sacrif&iacute;cios&#8230; e&#8230; e mesmo isso n&atilde;o lhe fica bem; a sua<br \/>\n    inten&ccedil;&atilde;o foi boa; realmente a noite estava pavorosa&#8230; contudo<br \/>\n    espero ser esta a &uacute;ltima vez que sou desobedecido.<\/p>\n<p>Envergonhada, prevendo grandes males, em uma ang&uacute;stia em que se fundia<br \/>\n    um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e adorando-o,<br \/>\n    sentindo-se dele para a vida e para a morte, quase que se arrependia de se<br \/>\n    n&atilde;o ter abandonado, solu&ccedil;ando por aqueles bra&ccedil;os de que<br \/>\n    fugira&#8230;<\/p>\n<p>Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas junto<br \/>\n    &agrave; mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as id&eacute;ias, sem que<br \/>\n    ela atinasse com que palavra responder. Francisco Teodoro reclamou ent&atilde;o<br \/>\n    dela, mesmo para a tirar do embara&ccedil;o em que a via, que lhe partisse<br \/>\n    uma fatia do roast-beef frio e que lhe fosse depois buscar o Jornal, esquecido<br \/>\n    em cima, no quarto de toilette.<\/p>\n<p>Aquela maneira polida e reservada n&atilde;o era a usada pelo negociante<br \/>\n    nos seus momentos de censura. Ao contr&aacute;rio, ele abusava dos termos<br \/>\n    violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma dessas<br \/>\n    crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a admoesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era misericordiosa, e por isso mesmo mais comovedora.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o respondeu, e apressou-se em servir o tio.<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\">X<\/a><\/h4>\n<p>Raras vezes as tias do Castelo apareciam em Botafogo. D. Itelvina n&atilde;o<br \/>\n    se arredava de casa, espica&ccedil;ando o servi&ccedil;o da Sancha, arreliada<br \/>\n    com os desperd&iacute;cios e a beatice da irm&atilde;; esta &eacute; que,<br \/>\n    de longe em longe, ia sentar-se &agrave; mesa de Mila para uma palestra curta,<br \/>\n    no intervalo das suas devo&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Nina, ainda atarantada pela advert&ecirc;ncia do tio, punha no terra&ccedil;o<br \/>\n    a gaiola do cacatua, quando viu d. Joana atravessar o jardim com os seus passos<br \/>\n    vagarosos, de mulher gorda e cansada.<\/p>\n<p>&#8211; Que milagre! a senhora por aqui!<\/p>\n<p>A velha sorriu-lhe e s&oacute; depois de sentada num banco do terra&ccedil;o<br \/>\n    &eacute; que falou, com a bland&iacute;cia costumada, desamarrando com as<br \/>\n    m&atilde;os papudinhas o n&oacute; da mantilha preta.<\/p>\n<p>&#8211; Mal imagina voc&ecirc; por onde tenho andado!<\/p>\n<p>Olhe: &agrave;s cinco horas j&aacute; eu estava em S&atilde;o Bento, ouvindo<br \/>\n    a missa de N.S. da Concei&ccedil;&atilde;o; depois dei muitas voltas pela<br \/>\n    cidade, angariando esmolas.<\/p>\n<p>&#8211; T&atilde;o cedo?<\/p>\n<p>&#8211; Nos bairros pobres a vida come&ccedil;a de madrugada. Por falar em esmolas,<br \/>\n    ontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; pena; s&atilde;o umas almas muito tementes a Deus. Achei-as atrapalhad&iacute;ssimas,<br \/>\n    preparando doces para oferecerem ao vig&aacute;rio Alves, que faz anos hoje.<br \/>\n    N&atilde;o imagina como elas s&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, tia Joana, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:<\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; Dion&iacute;sio, leve o caf&eacute; ao sr. M&aacute;rio, ouviu?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda est&atilde;o dormindo?!<\/p>\n<p>&#8211; Tio Francisco j&aacute; saiu.<\/p>\n<p>&#8211; Triste pecado &eacute; a pregui&ccedil;a&#8230; enfim, c&aacute; estou eu rezando<br \/>\n    por todos&#8230; Pois as Bragas entregaram-me dez cart&otilde;es para um grande<br \/>\n    concerto que vai haver no Cassino, em beneficio da igreja do Monte Serrate&#8230;<br \/>\n    Para o fim que &eacute;, ningu&eacute;m se pode negar; Camila deve levar a<br \/>\n    Ruth a essas festas de m&uacute;sicos&#8230; Eu pago a minha cadeira, mas l&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o vou, e as outras nove espero deix&aacute;-las aqui. Voc&ecirc;s<br \/>\n    v&atilde;o a tantos espet&aacute;culos indecentes, que n&atilde;o fazem nada<br \/>\n    de mais indo a este, que &eacute; para bom fim. Canta uma tal&#8230; Marcondes,<br \/>\n    ou&#8230; n&atilde;o sei qu&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A senhora fale com tia Mila. Seu Jo&atilde;o! chamou ela interrompendo<br \/>\n    outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! &eacute;<br \/>\n    preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    rosas, fa&ccedil;a de folhagens&#8230; J&aacute; reparou para as palmeirinhas<br \/>\n    da entrada?<\/p>\n<p>&#8211; A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos canteiros,<br \/>\n    que Deus nos acuda!<\/p>\n<p>&#8211; Veja se remedeia isso hoje mesmo&#8230;<\/p>\n<p>O jardineiro passou; d. Joana disse:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; pena que n&atilde;o haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao<br \/>\n    vig&aacute;rio Alves. Ontem a mulher e as filhas do dr. Mendes passaram l&aacute;<br \/>\n    o dia, pregando cortinas, tapetes, ajudando d. Maria a enfeitar o quarto do<br \/>\n    filho&#8230; Aquelas s&atilde;o tamb&eacute;m muito boas pessoas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quer caf&eacute;, tia Joana?<\/p>\n<p>&#8211; Aceito&#8230; Voc&ecirc; &eacute; das tais que nunca v&atilde;o &agrave; missa&#8230;<br \/>\n    h&aacute; de se arrepender&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho tempo&#8230; Quer mais a&ccedil;&uacute;car?<\/p>\n<p>&#8211; Quero&#8230; Qual n&atilde;o tem tempo!&#8230; pois olhe, voc&ecirc; tem pecados<br \/>\n    atr&aacute;s de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha&#8230;<\/p>\n<p>Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da tia,<br \/>\n    olhou para o jardim, ainda empapado d&aacute;gua, muito verde, juncado de<br \/>\n    folhas arremessadas pela ventania..<\/p>\n<p>D. Joana saboreava o caf&eacute;, sem reparar na mo&ccedil;a, que continuava<br \/>\n    em p&eacute;, com o rosto contra&iacute;do por uma express&atilde;o de raiva<br \/>\n    e de melancolia.<\/p>\n<p>Ruth encontrou-as assim. Ela vinha toda fresca do banho, com o seu cabelo<br \/>\n    negro e ondeado solto sobre os ombros estreitos, e o vestido branco, de cinto<br \/>\n    largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao corpo um ar de anjo<br \/>\n    de catedral.<\/p>\n<p>&#8211; Como est&aacute; crescida! exclamou d. Joana ao v&ecirc;-la.<\/p>\n<p>Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.<\/p>\n<p>&#8211; Bons dias! Sabe, tia Joana? Ainda ontem pensei na senhora!<\/p>\n<p>&#8211; Por que?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Porque ando com muita vontade de ir ao observat&oacute;rio do Castelo ver<br \/>\n    a lua e as estrelas.<\/p>\n<p>&#8211; Que lembran&ccedil;a! pensei que fosse para a levar a alguma festa de igreja&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; isso cansa-me, e, depois, j&aacute; tenho visto tantas! Naquela<br \/>\n    da S&eacute;, outro dia, os m&uacute;sicos desafinaram que foi um horror!<br \/>\n    Se ao menos cantassem bem&#8230; Quem me lembrou a ida ao observat&oacute;rio<br \/>\n    foi o capit&atilde;o Rino. Ver bem a luz e a cor das estrelas &eacute; o que<br \/>\n    me preocupa agora. Leve-me l&aacute;, titia, sim?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; melhor que voc&ecirc; pense em conhecer o c&eacute;u por dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Seria querer demais. Voc&ecirc; j&aacute; leu hoje a Flor de Neve, Nina?<\/p>\n<p>Nina meneou com a cabe&ccedil;a, que n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Que hist&oacute;ria &eacute; essa de flor de neve? indagou D. Joana.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; um romance do Jornal, muito bonito. Estou morta por saber se a<br \/>\n    Madalena morreu&#8230; tamb&eacute;m se tiver morrido n&atilde;o tornarei a pegar<br \/>\n    no Jornal!<\/p>\n<p>D. Joana ia reprovar a leitura, quando Camila apareceu no terra&ccedil;o,<br \/>\n    bonita, de peignoir cor de rosa, toda rescendente, dando as m&atilde;os as<br \/>\n    duas filhas pequenas.<\/p>\n<p>Nina tomou a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o &agrave; tia e, para fugir &agrave;<br \/>\n    presen&ccedil;a da velha, que naquele momento se lhe tornara odiosa, entrou<br \/>\n    logo para a sala de jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Isto aqui est&aacute; muito &uacute;mido; por que n&atilde;o foi l&aacute;<br \/>\n    para dentro, tia Joana?<\/p>\n<p>&#8211; Este banco est&aacute; enxuto. A Nina estava aqui&#8230;<\/p>\n<p>Camila, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatua e beijou-o<br \/>\n    no penacho.<\/p>\n<p>Depois, para a velha:<\/p>\n<p>&#8211; O que a trouxe t&atilde;o cedo?<\/p>\n<p>D. Joana voltou &agrave; hist&oacute;ria das Bragas, da missa em S. Bento,<br \/>\n    e apresentou &agrave; sobrinha as dez cadeiras para o concerto em benef&iacute;cio<br \/>\n    da capela do Monte Serrate.<\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; para um motivo de religi&atilde;o, eu fico, do contr&aacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o; porque exatamente no domingo tenho convite para uma festa.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje faz anos o vig&aacute;rio Alves; voc&ecirc; n&atilde;o lhe manda um<br \/>\n    bilhete?<\/p>\n<p>&#8211; Posso mandar.<\/p>\n<p>&#8211; Acho bom. Ele reza muito por sua inten&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um santo<br \/>\n    padre e um perfeito homem.<\/p>\n<p>&#8211; Ele &eacute; bonito, e trata-se bem. J&aacute; tomou caf&eacute;, titia?<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute;.. Por que &eacute; que voc&ecirc; deixa Ruth ler jornais? Ela<br \/>\n    falou ai num folhetim; isso s&atilde;o obras impuras; &eacute; preciso zelar<br \/>\n    pela alma de sua filha.<\/p>\n<p>&#8211; O pai n&atilde;o se importa, que hei de fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n&atilde;o fez a primeira comunh&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; cedo.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; tal. Ela n&atilde;o querer&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Se quer! ainda que n&atilde;o fosse sen&atilde;o para p&ocirc;r coroa e<br \/>\n    v&eacute;u&#8230; Todas as meninas sonham com a primeira comunh&atilde;o. &Eacute;<br \/>\n    um ensaio para o casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Heresias&#8230; E o M&aacute;rio&#8230; como vai o M&aacute;rio?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; um mo&ccedil;o bonito.<\/p>\n<p>&#8211; E&#8230; mais ajuizado?<\/p>\n<p>Camila corou levemente, ro&ccedil;ou em um disfarce as faces pelas asas brancas<br \/>\n    do cacatua, e respondeu com um sorriso:<\/p>\n<p>&#8211; Como todos os rapazes de vinte anos&#8230;<\/p>\n<p>Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um p&ecirc;ssego<br \/>\n    verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Mila chamou a Noca, que<br \/>\n    interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joana levantou-se com<br \/>\n    um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.<\/p>\n<p>Estava alquebrada, pesavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da poltrona,<br \/>\n    que a envolveu logo numa car&iacute;cia de sono. Cochilou gostosamente, mal<br \/>\n    ouvindo as correrias e as gargalhadas das crian&ccedil;as, o tinir das lou&ccedil;as<br \/>\n    que punham na mesa, e os passos da criadagem em movimento. Atrav&eacute;s<br \/>\n    do sono tudo aquilo era sutil e bom como uma m&uacute;sica a dist&acirc;ncia.<br \/>\n    Quando despertou, iam servir o almo&ccedil;o. Perto, em um v&atilde;o de janela,<br \/>\n    o dr. Gerv&aacute;sio, com roupa clara e flores na lapela, conversava baixo<br \/>\n    com a Camila.<\/p>\n<p>D. Joana tossiu para preveni-los da sua presen&ccedil;a; n&atilde;o se queria<br \/>\n    aproveitar do momento para indiscri&ccedil;&otilde;es. Por fortuna, Nina entrou<br \/>\n    na sala,, vinda da copa, carregando uma cestinha de uvas brancas.<\/p>\n<p>L&aacute; em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.\n  <\/p>\n<p>&quot;Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, parece o zurrar de um burro!&quot;<br \/>\n    pensou consigo a velha, espregui&ccedil;ando-se disfar&ccedil;adamente.<\/p>\n<p>&Agrave; hora do almo&ccedil;o, o Dion&iacute;sio trouxe uma bandeja para<br \/>\n    servir M&aacute;rio no quarto, visto que este s&oacute; comparecia &aacute;<br \/>\n    mesa da fam&iacute;lia quando o dr. Gerv&aacute;sio n&atilde;o estava.<\/p>\n<p>Camila mal encobria o seu desespero, velando aquela ofensa com desculpas<br \/>\n    frouxas, s&oacute; para que o m&eacute;dico n&atilde;o reparasse. E ele nem<br \/>\n    viu tal coisa; aceitou os pretextos sem desconfian&ccedil;a. M&aacute;rio<br \/>\n    merecia-lhe pouca aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de p&atilde;o<br \/>\n    mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joana notou aquilo muito calada, com<br \/>\n    medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito suspiros curtos,<br \/>\n    que afogava em bordeaux&#8230;<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio observava a Ruth, que os exerc&iacute;cios que lhe ouvira<br \/>\n    n&atilde;o estavam no andamento justo. Deveria repass&aacute;-los, antes da<br \/>\n    li&ccedil;&atilde;o; depois aconselhou a Camila que chamasse uma aia inglesa<br \/>\n    ou alem&atilde; para as g&ecirc;meas, que perdiam o tempo, pervertendo-se<br \/>\n    com a linguagem de criadas bo&ccedil;ais. Ele opinava pelas alem&atilde;s;<br \/>\n    s&atilde;o disciplinadoras, risonhas e mais acess&iacute;veis que as outras.<br \/>\n    Depois de dirigir uns dois gracejos a Nina, o m&eacute;dico fixou com aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o rosto p&aacute;lido e humilde de D. Joana, muito calada ao lado de Ruth.<br \/>\n    Lembrou-se de relance do encontro que tivera com ela no alto da ladeira de<br \/>\n    Jo&atilde;o Homem, sobre as pedras gordurosas da cal&ccedil;ada, entre magotes<br \/>\n    de moleques curiosos e paredes sujas de pr&eacute;dios velhos.<\/p>\n<p>Ficara-lhe no ouvido toda a censura dela, e houve ent&atilde;o nele um &iacute;mpeto<br \/>\n    de agarrar Mila e de beij&aacute;-la mesmo ali, diante dos olhos castos e<br \/>\n    pudibundos da velha.<\/p>\n<p>Foi s&oacute; depois do caf&eacute;, ao acender o charuto, que ele ouviu<br \/>\n    d. Joana, com o seu tom a&ccedil;ucarado, queixar-se &agrave; sobrinha:<\/p>\n<p>&#8211; Por que &eacute; que voc&ecirc; n&atilde;o ensina ao menos as suas filhas<br \/>\n    a se persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus pelos bens que recebem n&atilde;o &eacute; vergonha nenhuma&#8230; A sua<br \/>\n    consci&ecirc;ncia, Mila, est&aacute; muito perturbada por maus conselhos e<br \/>\n    exemplos de ateus sem caridade&#8230; Eu n&atilde;o queria falar, mas tenho-lhes<br \/>\n    muita amizade para ficar impass&iacute;vel; n&atilde;o lhe parece que est&aacute;<br \/>\n    em tempo de ensinar estas meninas a respeitarem a nossa religi&atilde;o?<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio sorriu; compreendera o remoque; Mila protestou:<\/p>\n<p>&#8211; Todos em casa eram religiosos, ningu&eacute;m deixaria de ouvir a sua missa<br \/>\n    ao domingo, exceto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma<br \/>\n    ou outra criada mais sobrecarregada de servi&ccedil;o; &agrave; noite tamb&eacute;m<br \/>\n    ningu&eacute;m adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ela n&atilde;o<br \/>\n    se esquecia dos seus deveres.<\/p>\n<p>Isto foi dito em tom seco, que encrespou um tanto o g&ecirc;nio manso da<br \/>\n    tia; para vingar-se do m&eacute;dico, de quem supunha emanar toda a altera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessa fam&iacute;lia t&atilde;o sua, ela exclamou com ironia, voltando-se<br \/>\n    para ele:<\/p>\n<p>&#8211; Aposto em como o doutor tamb&eacute;m reza todas as noites?<\/p>\n<p>&#8211; Aos meus deuses, respondeu ele com toda a calma, por que n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Como se chamam os seus deuses?<\/p>\n<p>&#8211; Cam&otilde;es, Dante, Shakespeare&#8230; Nunca adorme&ccedil;o sem ter lido<br \/>\n    algum poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. E a raz&atilde;o<br \/>\n    por que me explico ter t&atilde;o belos sonhos, visto que este feio homem<br \/>\n    que aqui esta, excelent&iacute;ssima, tem sonhos que perfumariam a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    da mais formosa das mulheres. Ontem li Dante. Estive no inferno, D. Joana,<br \/>\n    e que inferno bel&iacute;ssimo!<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; trazendo para c&aacute; essas id&eacute;ias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Descanse; esta religi&atilde;o n&atilde;o se ensina; &eacute; para os iniciados.<br \/>\n    A senhora j&aacute; ouviu falar em Byron?<\/p>\n<p>&#8211; Algum inimigo da nossa Igreja, como o senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu n&atilde;o quero mal &agrave; sua Igreja! acho-a s&oacute; muito<br \/>\n    triste, toda voltada para a morte&#8230; N&atilde;o lhe quero mal, porque para<br \/>\n    sua glorifica&ccedil;&atilde;o ela tem criado catedrais que s&atilde;o verdadeiras<br \/>\n    apoteoses da arte.<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute; por isso?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; uma das raz&otilde;es, e a &uacute;nica f&aacute;cil de explicar-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; Julga-me muito bronca.<\/p>\n<p>&#8211; Ao contr&aacute;rio, estou-lhe falando como a um literato! Agora, se quer,<br \/>\n    discutamos religi&atilde;o e filosofia. Conhece Comte?<\/p>\n<p>&#8211; Algum danado.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o termo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei, adoram-no numa Capelinha da rua Benjamin Constant. Que pecado!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! j&aacute; tem not&iacute;cias&#8230; Estamos bem adiantados.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor &eacute; um dos tais que n&atilde;o perdem essas sess&otilde;es?<\/p>\n<p>&#8211; Eu nunca l&aacute; vou. J&aacute; lhe disse, detesto a filosofia. Para<br \/>\n    enfadar-me basta-me a medicina e para distrair-me as minhas roseiras. A senhora<br \/>\n    conhece algum bom rem&eacute;dio para matar pulg&otilde;es de roseira? Tenho<br \/>\n    uma Yellow Persian quase perdida!<\/p>\n<p>&#8211; A sua medicina nem para as plantas serve?<\/p>\n<p>&#8211; Nem para as plantas, a miser&aacute;vel!<\/p>\n<p>&#8211; Tia Mila! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Est&atilde;o a&iacute; a baronesa da Lage e a irm&atilde;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! E eu de peignoir!<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio voltou-se e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Pois est&aacute; muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, sujeita-se<br \/>\n    a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim n&atilde;o h&aacute; vestido<br \/>\n    t&atilde;o bonito.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o vou assim mesmo&#8230;<\/p>\n<p>D. Joana sorriu com m&aacute;goa; at&eacute; nisso a opini&atilde;o do diabo<br \/>\n    do homem era seguida!<\/p>\n<p>&#8211; Bem, Mila, ficamos despedidas, disse ela, eu vou-me embora. O dinheiro<br \/>\n    dos bilhetes?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade! Nina! d&aacute; cem mil r&eacute;is a tia Joana pelas<br \/>\n    dez cadeiras. At&eacute; outra vez, tia Joana. Lembran&ccedil;as.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a saiu.<\/p>\n<p>&#8211; Jesus! exclamou logo a velha, j&aacute; passa de uma hora e Mila esqueceu-se<br \/>\n    de dar-me o cart&atilde;o para o vig&aacute;rio Alves!<\/p>\n<p>O m&eacute;dico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe<br \/>\n    no rosto. Que desejaria Mila dizer por escrito ao padre Alves? A velha percebeu-lhe<br \/>\n    a estranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que ele lhe pedisse alguma<br \/>\n    explica&ccedil;&atilde;o, afogando o rosto fl&aacute;cido na juba negra de<br \/>\n    Ruth, com muitos abra&ccedil;os, ternuras e lembran&ccedil;as ao M&aacute;rio.<\/p>\n<p>Quando Camila entrou no seu sal&atilde;o, a baronesa da Lage, toda de cetim<br \/>\n    preto, estava de p&eacute;, contemplando um quadro insignificante, ricamente<br \/>\n    emoldurado.<\/p>\n<p>A irm&atilde;, sentada perto do sof&aacute;, com um arzinho enfadado de loura<br \/>\n    an&ecirc;mica, distra&iacute;a-se brincando com os dedos enluvados nos berloques<br \/>\n    do seu cord&atilde;o de ouro.<\/p>\n<p>A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar daquele modo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas est&aacute; em sua casa, est&aacute; muito bem. Olha, Paquita, este<br \/>\n    peignoir&eacute; &eacute; quase igual &agrave;quele que eu comprei ontem no<br \/>\n    Raunier, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>A Paquita meneou languidamente a cabe&ccedil;a, que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baronesa atrav&eacute;s<br \/>\n    de um belo sorriso.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; f&aacute;cil. Vem participar-me o seu casamento!<\/p>\n<p>&#8211; Casar-me, eu? qual!<\/p>\n<p>&#8211; Por que n&atilde;o? &Eacute; a viuvinha mais cobi&ccedil;ada deste Rio<br \/>\n    de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, esp&eacute;cie<br \/>\n    de dama de companhia, sabe? s&oacute; encarregada de receber e despedir os<br \/>\n    meus pretendentes&#8230; N&atilde;o se ria, saiba que &eacute; verdade. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade, Paquita?<\/p>\n<p>Paquita meneou a cabe&ccedil;a, que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Bem v&ecirc;. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?<\/p>\n<p>&#8211; Em um bond.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; me tardava. O bond &eacute; o eterno mexeriqueiro desta terra.<br \/>\n    Tamb&eacute;m voc&ecirc;s quando n&atilde;o querem comprometer os seus informantes,<br \/>\n    atribuem ao pobre bond todas as indiscri&ccedil;&otilde;es&#8230; Por isso o abomino.<br \/>\n    S&oacute; saio de carro&#8230; N&atilde;o! Eu n&atilde;o venho participar coisa<br \/>\n    nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que n&oacute;s,<br \/>\n    protetoras do Sagrado Cora&ccedil;&atilde;o, pretendemos dar no dia quinze.<br \/>\n    Se n&atilde;o fosse coisa de religi&atilde;o, eu n&atilde;o me meteria nisto.<br \/>\n    J&aacute; me t&ecirc;m pedido para organizar festas em beneficio de escolas<br \/>\n    e de hospitais para pobres, como se na nossa Am&eacute;rica houvesse pobreza&#8230;<br \/>\n    Creia, minha amiga, no Brasil n&atilde;o h&aacute; miser&aacute;veis, h&aacute;<br \/>\n    ateus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de f&eacute; crist&atilde;.<\/p>\n<p>Camila concordou; Paquita atreveu-se a dar uma senten&ccedil;a.<\/p>\n<p>Houve uma pausa.<\/p>\n<p>&#8211; Paquita deu-me um dia destes not&iacute;cias de seu filho; diz que est&aacute;<br \/>\n    muito bonito mo&ccedil;o.<\/p>\n<p>Paquita atirou &agrave; irm&atilde; um olhar de reprova&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas as palavras j&aacute; tinham sa&iacute;do, e nenhum poder as faria voltar<br \/>\n    ao ponto de partida.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;&#8230; mas um pouco vadio; n&atilde;o gosta de trabalhar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! nem precisa disso! &Eacute; muito distinto. Eu, no caso dele, faria<br \/>\n    o mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas o pai &eacute; que n&atilde;o se resigna a isso.<\/p>\n<p>Paquita esbo&ccedil;ou um sorriso que n&atilde;o foi notado. A baronesa continuou:<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; recebeu convite para o nosso baile?<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esperamos que seja M&aacute;rio quem nos marque o cotillon. Papai gosta<br \/>\n    muito do M&aacute;rio.<\/p>\n<p>O pai da baronesa e da Paquita era um velho portugu&ecirc;s, antigo cavouqueiro,<br \/>\n    que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda a cidade conhecia<br \/>\n    as suas anedotas e simplicidades. Demais, ele gabava-se dos seus princ&iacute;pios<br \/>\n    rudes e pesados.<\/p>\n<p>&#8211; N&oacute;s tamb&eacute;m preparamos um baile; somente a data &eacute; ainda<br \/>\n    incerta, disse Camila.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; se fala nisso.<\/p>\n<p>A baronesa conversava com volubilidade, mal tocando nos assuntos. Falou muito<br \/>\n    e falaria ainda mais se a Paquita n&atilde;o a interrompesse de repente com<br \/>\n    uma frase seca:<\/p>\n<p>&#8211; Vamo-nos embora.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, vamo-nos embora.<\/p>\n<p>Quando elas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no concerto,<br \/>\n    Camila ficou com as m&atilde;os cheias de bilhetes para a matin&eacute;e.<\/p>\n<p>A baronesa, no meio da vidrilhada do seu vestido de cetim, caminhava como<br \/>\n    se levasse m&uacute;sica consigo; tinha os passos cadenciados, o busto bem<br \/>\n    erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados de morena.<\/p>\n<p>Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar &agrave;<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o. Camila notou, ao apertar-lhe a m&atilde;o, a magreza<br \/>\n    do pulso, um pulso alvo, fino, de crian&ccedil;a doente, entrevisto entre<br \/>\n    a luva e a manga.<\/p>\n<p>Em baixo, no vest&iacute;bulo, as mo&ccedil;as esbarraram com o dr. Gerv&aacute;sio,<br \/>\n    que sa&iacute;a tamb&eacute;m, cansado de esperar por Camila.<\/p>\n<p>Houve ent&atilde;o uma troca de olhares significativos entre a baronesa e<br \/>\n    a silenciosa Paquita, que fez ao m&eacute;dico um quase impercept&iacute;vel<br \/>\n    sinal de cabe&ccedil;a. A irm&atilde;, muito expansiva, reteve-o, falou-lhe<br \/>\n    com alegria, achando jeito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu<br \/>\n    concerto de religi&atilde;o.<\/p>\n<p>Nessa tarde o capit&atilde;o apareceu em Botafogo. Come&ccedil;avam a notar-lhe<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.<\/p>\n<p>Ruth veio em alvoro&ccedil;o, chamando-o de ingrato, pedindo not&iacute;cias<br \/>\n    do Netuno. Nina acolhia-o sempre com simpatia, achando nele um ar de bom amigo,<br \/>\n    a quem num lance de perigo ou de ang&uacute;stia o cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    uma mulher pode vasar uma confid&ecirc;ncia e pedir um conforto; Francisco<br \/>\n    Teodoro abriu-lhe os bra&ccedil;os: Por que n&atilde;o aparecia, havia tanto?<br \/>\n    S&oacute; Camila sorriu com esfor&ccedil;o e reserva, estendendo-lhe a ponta<br \/>\n    dos dedos frios.<\/p>\n<p>E era por isso que ele fugia agora daquela casa, onde o seu pensamento vivia<br \/>\n    encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por Camila crescia &agrave;<br \/>\n    propor&ccedil;&atilde;o que ele se abstinha de a procurar, ou que se via maltratado<br \/>\n    por ela. N&atilde;o achava explica&ccedil;&atilde;o para aquela mudan&ccedil;a;<br \/>\n    n&atilde;o a recebera ele no seu navio como a uma princesa?<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as abra&ccedil;avam-no com entusiasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Meninas! que &eacute; isso? ent&atilde;o! exclamava Francisco Teodoro,<br \/>\n    rindo, muito fraco pelas denguices das g&ecirc;meas.<\/p>\n<p>Camila olhou e teve pena. O capit&atilde;o Rino estava mais magro; toda a<br \/>\n    sua roupa, escura e desajeitada, parecia dan&ccedil;ar-lhe no corpo; havia<br \/>\n    uma tristeza resignada nos seus olhos gar&ccedil;os. Ela levantou-se, pretextando<br \/>\n    dor de cabe&ccedil;a e subiu para o seu quarto.<\/p>\n<p>Rino pensou: &quot;Ela foge-me&#8230; talvez seja melhor assim&quot;.<\/p>\n<p>Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ningu&eacute;m<br \/>\n    percebeu que ele estava com o ouvido &agrave; escuta e os l&aacute;bios franzidos<br \/>\n    por um sorriso amargo.<\/p>\n<p>Lia e Rachel balan&ccedil;avam-lhe os bra&ccedil;os rindo muito, comparando<br \/>\n    as suas grandes m&atilde;os &agrave;s delas, t&atilde;o mimosas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Capit&atilde;o Rino, por que n&atilde;o nos traz nunca sua irm&atilde;?<br \/>\n    perguntou-lhe Ruth.<\/p>\n<p>Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, ele respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Catarina &eacute; uma esquisita; ela sai todos os dias, mas para andar<br \/>\n    l&aacute; pelo morro colhendo plantas&#8230; Raras vezes vai &agrave; cidade ou<br \/>\n    faz visitas. Somos uns insoci&aacute;veis, n&oacute;s dois. Meu pai era mar&iacute;timo,<br \/>\n    minha madrasta foi sempre muito doente, e est&aacute; nisso, julgo eu, a origem<br \/>\n    do nosso mal&#8230; ou do nosso bem, quem nos dir&aacute;?<\/p>\n<p>Fazendo uma carinha c&ocirc;mica, e apontando para o c&eacute;u, Ruth respondeu<br \/>\n    com ar solene: &#8211; S&oacute; Deus!<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">XI<\/a><\/h4>\n<p>Era a hora do caf&eacute; no armaz&eacute;m de Francisco Teodoro. O escrit&oacute;rio<br \/>\n    estava cheio; o Inoc&ecirc;ncio, mi&uacute;do e tr&ecirc;fego, retorcendo<br \/>\n    com m&atilde;o nervosa o bigodinho alourado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe<br \/>\n    no rosto p&aacute;lido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia<br \/>\n    andar esparso no ambiente de todo aquele enorme casar&atilde;o de S. Bento.<\/p>\n<p>Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.<\/p>\n<p>A seu lado o velho Jo&atilde;o Ferreira, espada&uacute;do trigueir&atilde;o,<br \/>\n    largo de faces e de gestos comentava com benevol&ecirc;ncia os atos do governo,<br \/>\n    berrando &agrave;s vezes contra a opini&atilde;o dos outros, que o atacaram<br \/>\n    por todos os lados em vivas repres&aacute;lias.<\/p>\n<p>O Lemos sorria calado, muito est&uacute;pido para entrar em quest&otilde;es<br \/>\n    de tal ordem. Que lhe falassem do pre&ccedil;o da carne seca, que importava<br \/>\n    em grosso, e dos jac&aacute;s de toicinho, e a sua opini&atilde;o figuraria<br \/>\n    logo com todo o peso da autoridade. O Negreiros em p&eacute;, com o seu enorme<br \/>\n    nariz de cavalete, que a m&atilde;o distra&iacute;da acariciava de vez em<br \/>\n    quando, era o &uacute;nico republicano naquele ninho de velhos portugueses<br \/>\n    aferrados &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es tradicionais da sua p&aacute;tria<br \/>\n    e desta que o seu amor e o seu bem-estar escolheram.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo<br \/>\n    o minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeir&atilde;o as ironias<br \/>\n    do Inoc&ecirc;ncio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de<br \/>\n    Francisco Teodoro, que n&atilde;o compreendia como um t&atilde;o fiel monarquista<br \/>\n    pudesse achar desculpas para os desatinos desta &quot;Rep&uacute;blica de<br \/>\n    ingratos&quot;.<\/p>\n<p>Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Ele fora sempre um republicano<br \/>\n    e um estremado e era por isso olhado por alguns dos seus compatriotas com<br \/>\n    estranheza e susto. Como Jo&atilde;o Ferreira no maior ardor de seu discurso<br \/>\n    esbarrasse com a express&atilde;o alegre do rosto de Negreiros, e lhe compreendesse<br \/>\n    o contentamento de o ter de seu lado, tergiversou e, com maldade alegre, achou<br \/>\n    logo tamb&eacute;m motivos de &aacute;spera censura ao mesmo governo que tinha<br \/>\n    gabado havia pouco. N&atilde;o, que ele j&aacute; estava maduro para dar o<br \/>\n    seu bra&ccedil;o a torcer!<\/p>\n<p>Os outros triunfaram, era assim que o queriam; e chegou a vez de Negreiros<br \/>\n    entrar na discuss&atilde;o.<\/p>\n<p>Foi nesse instante, no meio da balb&uacute;rdia de vozes, que o capit&atilde;o<br \/>\n    Rino apareceu no limiar da porta com o chap&eacute;u na m&atilde;o, e uma<br \/>\n    express&atilde;o interrogativa no rosto.<\/p>\n<p>A chegada s&uacute;bita daquele estranho, para quem Francisco Teodoro fez<br \/>\n    logo um lugar ao p&eacute; da sua secret&aacute;ria, abaixou o calor da conversa.<\/p>\n<p>Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos ombros, de reconcilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e amizade. S&oacute; os olhinhos do Inoc&ecirc;ncio Braga ardiam na mesma<br \/>\n    febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as pontas do bigode<br \/>\n    delgado.<\/p>\n<p>&#8211; Que novidade &eacute; esta, o senhor por aqui?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o lhe roubarei o tempo; &eacute; por curtos instantes.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita&#8230; d&ecirc;-me licen&ccedil;a<br \/>\n    de o apresentar aos meus amigos.<\/p>\n<p>Feitas as apresenta&ccedil;&otilde;es, o Isidoro entrou com o caf&eacute;<br \/>\n    em uma grande bandeja e houve uns segundos de sil&ecirc;ncio. Depois, Francisco<br \/>\n    Teodoro perguntou baixo ao capit&atilde;o se lhe quereria falar reservadamente.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os<br \/>\n    meus cumprimentos &agrave; sua fam&iacute;lia. Parto para o Par&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n&atilde;o vai jantar conosco? o senhor n&atilde;o imagina como<br \/>\n    &eacute; querido l&aacute; em casa. A minha gente n&atilde;o lhe perdoaria<br \/>\n    isso! Bem sabe que n&atilde;o fazemos cerim&ocirc;nias.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, mas a minha viagem desta vez &eacute; mais longa, obriga-me a<br \/>\n    preparativos que n&atilde;o me deixam tempo para nada. Na volta levarei os<br \/>\n    meus respeitos a todos.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitad&iacute;ssimo,<br \/>\n    lhe bailava sob a pele de louro.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! as obriga&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se deixam por coisa nenhuma&#8230;<br \/>\n    dou-lhe raz&atilde;o; sou homem de neg&oacute;cios. Darei os seus recados<br \/>\n    &agrave; minha gente. Camila vai ficar triste&#8230; paci&ecirc;ncia&#8230; Pois quando<br \/>\n    quiser l&aacute; estamos &agrave;s ordens como bons amigos; e Francisco Teodoro<br \/>\n    estendeu a m&atilde;o larga ao capit&atilde;o Rino, que a apertou confuso<br \/>\n    e alvoro&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Seu Joaquim apareceu no escrit&oacute;rio e pousou um ma&ccedil;o de pap&eacute;is<br \/>\n    na secret&aacute;ria, pedindo a Teodoro que lhe desse pronto expediente.<\/p>\n<p>Aquilo eq&uuml;ivalia a uma despedida; havia urg&ecirc;ncia de recome&ccedil;ar-se<br \/>\n    a lida. Levantaram-se todos.<\/p>\n<p>Inoc&ecirc;ncio Braga deixou-se para &uacute;ltimo e ao despedir-se do negociante<br \/>\n    pediu-lhe uma entrevista em sua casa para neg&oacute;cio urgente, de alta<br \/>\n    import&acirc;ncia.<\/p>\n<p>No olhar de Teodoro houve uma interroga&ccedil;&atilde;o pasmada. O do Inoc&ecirc;ncio<br \/>\n    tinha lampejos de ouro. Seu Joaquim observava em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no<br \/>\n    corredor junto &agrave;s grades do armaz&eacute;m, de orelhas moles e ombros<br \/>\n    desca&iacute;dos, ruminando &oacute;dios em sil&ecirc;ncio contra o Joaquim,<br \/>\n    que o deprimia &agrave; vista de todos. O capit&atilde;o levava os olhos cheios<br \/>\n    de outras imagens, para atentar nele. O bafo quente da rua, cheia de povo<br \/>\n    e de sol acordou-o do sonho. Na cal&ccedil;ada, mesmo &agrave; porta do armaz&eacute;m,<br \/>\n    a velha Ter&ecirc;ncia varria &agrave; pressa as pedras com a vassourinha<br \/>\n    de pia&ccedil;ava, e a cabecinha amarrada no len&ccedil;o branco, pendente<br \/>\n    para o seu trabalho. Os carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando<br \/>\n    entre os ve&iacute;culos repletos de caf&eacute;, numa gritaria medonha. O<br \/>\n    trabalho trombeteava a todos os ventos a sua for&ccedil;a poderos&iacute;ssima.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o Rino seguiu, abrindo passagem atrav&eacute;s de grupos compactos<br \/>\n    e movedi&ccedil;os.<\/p>\n<p>Aquela multid&atilde;o aturdia-o.<\/p>\n<p>O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas pr&oacute;prias como&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a ser um isolado e um melanc&oacute;lico, afeito a amar na natureza o que<br \/>\n    ela tem de maior e de mais simples.<\/p>\n<p>A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do<br \/>\n    oceano que ele cortava com a proa firme do seu Netuno.<\/p>\n<p>Talvez tivesse escolhido mal a sua profiss&atilde;o. A vida do homem era<br \/>\n    aquilo que ali estava: a agita&ccedil;&atilde;o perene, o trabalho violento,<br \/>\n    o amor sem idealiza&ccedil;&otilde;es, o espet&aacute;culo renovado de tudo<br \/>\n    que a terra produz, mata e faz renascer para a fulgura&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    tempo, que &eacute; instant&acirc;neo e &eacute; eterno.<\/p>\n<p>O pr&oacute;prio mar, que escolhera e a que se lan&ccedil;ara na fantasia<br \/>\n    da adolesc&ecirc;ncia, n&atilde;o era &agrave; orla branca da Terra que vinha<br \/>\n    atirar a sua grande queixa, a sua f&uacute;ria formid&aacute;vel ou a sua<br \/>\n    voluptuosidade infinita?<\/p>\n<p>A terra p&aacute;lida dos areais, a terra cor de sangue das matas, a terra<br \/>\n    negra do ouro, a terra roxa dos cafeeiros, m&atilde;e da abund&acirc;ncia,<br \/>\n    ou a terra clara dos laranjais, fonte de perfume, n&atilde;o &eacute; por<br \/>\n    ventura a parte do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em caindo,<br \/>\n    se trasmuda em orvalho fecundo?<\/p>\n<p>O capit&atilde;o Rino olhava para toda aquela gente, marinheiros, soldados,<br \/>\n    vadios e trabalhadores bra&ccedil;ais, negros ou portugueses, uma popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em repel&otilde;es, pensando no<br \/>\n    ponto da chegada. Ele ouvia-lhes a respira&ccedil;&atilde;o, a ofeg&acirc;ncia<br \/>\n    dos peitos cansados e a cad&ecirc;ncia dos passos batendo dominadoramente<br \/>\n    as pedras duras do ch&atilde;o.<\/p>\n<p>Aquele ru&iacute;do era sempre para ele uma m&uacute;sica de sonoridade nova.<\/p>\n<p>Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Sa&uacute;de, sem notar o aspecto<br \/>\n    desigual da casaria, os negros trapiches tresandando a sebos de carnes e meladuras<br \/>\n    de a&ccedil;&uacute;car esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a<br \/>\n    porta da rua at&eacute; l&aacute; ao fundo do armaz&eacute;m, aberto para<br \/>\n    um quadro lampejante de mar.<\/p>\n<p>Os trapiches sucediam-se, repletos de barricas, de sacos, de fardos e de<br \/>\n    pranch&otilde;es, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava<br \/>\n    de mistura, e de sons &aacute;speros dos guindastes, suspensos sobre balan&ccedil;as.<br \/>\n    Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquela confus&atilde;o<br \/>\n    louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a impress&atilde;o de<br \/>\n    que a terra se debatia num del&iacute;rio de febre.<\/p>\n<p>Ele ia ao morro da Concei&ccedil;&atilde;o, dizer adeus a um antigo companheiro,<br \/>\n    agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada sobre<br \/>\n    rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se aqui para<br \/>\n    se despenhar acol&aacute;, acotovelando-se em &acirc;ngulos de uma lado para<br \/>\n    descer ao outro em escadarias toscas.<\/p>\n<p>De casas velhas, abertas para a grande luz, sa&iacute;am mulheres para estender<br \/>\n    ao sol blusas de marinheiros, enquanto l&aacute; dentro vozes frescas de mo&ccedil;as<br \/>\n    cantavam modinhas ternas.<\/p>\n<p>A beira dos precip&iacute;cios, crian&ccedil;as, quase nuas, atiravam com<br \/>\n    os p&eacute;s, dentre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas<br \/>\n    ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam trapos,<br \/>\n    entre gatos adormecidos e galinhas soltas.<\/p>\n<p>O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a face<br \/>\n    quente e robusta da terra.<\/p>\n<p>Capit&atilde;o Rino atravessava uma rua de marinheiros.<\/p>\n<p>Ao ver alguns rostos tranq&uuml;ilos e bra&ccedil;os grossos de mulheres,<br \/>\n    trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o cora&ccedil;&atilde;o daquela gente<br \/>\n    era resignado e sabia esperar.<\/p>\n<p>A grande virtude estava com ela, s&oacute; os simples podem ser fortes.<\/p>\n<p>Depois de v&aacute;rias voltas, por caminhos muito acidentados e sujos, ele<br \/>\n    viu-se na ladeira da Concei&ccedil;&atilde;o, entre casas baixas, umas com<br \/>\n    as faces para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.<\/p>\n<p>Outra gente ali se movia nas ruas. Rolavam no cisco das cal&ccedil;adas velhos<br \/>\n    bot&otilde;es azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarelavam em<br \/>\n    l&iacute;ngua &aacute;spera, com vizinhos de m&aacute; compostura, e um fartum<br \/>\n    enchia a atmosfera da rua longa, at&eacute; &agrave;s proximidades da velha<br \/>\n    fortaleza.<\/p>\n<p>Em todo o comprimento do seu passeio, foi ali a primeira vez que o capit&atilde;o<br \/>\n    Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.<\/p>\n<p>A&iacute; estava uma coisa que ele n&atilde;o ouvia nunca sobre a onda inconstante&#8230;<\/p>\n<p>Pouco depois bateu &agrave; porta do amigo, mas ele n&atilde;o estava em<br \/>\n    casa; s&oacute; voltaria &agrave; noite. Rino continuou para cima at&eacute;<br \/>\n    o p&aacute;tio do forte e a&iacute; sentou-se um bocado na muralha, olhando<br \/>\n    para baixo.<\/p>\n<p>Que via ele? a casaria desigual, feia, derramada, brilhando aqui nas telhas<br \/>\n    novas de reconstru&ccedil;&otilde;es, mostrando acol&aacute; outras, negras<br \/>\n    ou esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento cont&iacute;nuo<br \/>\n    da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os pr&eacute;dios melanc&oacute;licos?<br \/>\n    N&atilde;o. Com os olhos fixos na &aacute;gua crespa da ba&iacute;a, coalhada<br \/>\n    de vapores negros, de navios brancos, de embarca&ccedil;&otilde;es de todo<br \/>\n    o feitio, ele s&oacute; pensava em Camila, t&atilde;o r&iacute;gida para com<br \/>\n    ele quanto d&oacute;cil e amorosa para com o outro&#8230;<\/p>\n<p>Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus &agrave; sua mocidade, &agrave;quele<br \/>\n    sonho de amor, que ele dizia atrav&eacute;s daquela infinidade de cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. N&atilde;o haveria<br \/>\n    mais ningu&eacute;m assim, t&atilde;o desafortunado.<\/p>\n<p>Como seria bom viver, mesmo naquele imundo bairro de trabalho, com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tranq&uuml;ilo, com f&eacute; no amor!<\/p>\n<p>Para ele, estava escrito: n&atilde;o tornaria a ver Camila. A humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &uacute;ltima visita queimara-o como brasas. Ainda se ela o desprezasse,<br \/>\n    mas n&atilde;o amasse o outro!<\/p>\n<p>E toda a causa da sua desventura estava naquela prefer&ecirc;ncia. Por que<br \/>\n    havia de ser o outro, e n&atilde;o ele?<\/p>\n<p>O sino da Concei&ccedil;&atilde;o badalou com for&ccedil;a. Rino voltou-se;<br \/>\n    dois padres mo&ccedil;os, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos<br \/>\n    pretos de exclama&ccedil;&atilde;o em um quadro vasto de sol. Nesse instante<br \/>\n    o mo&ccedil;o mar&iacute;timo teve a vis&atilde;o de que, ao encontro da sua,<br \/>\n    vinham duas almas iguais, tristes na sua esterilidade. Ainda aquelas tinham<br \/>\n    o seu ideal, se guardavam intato o &oacute;leo divino que todas as chagas<br \/>\n    suaviza e todas as mis&eacute;rias embeleza.<\/p>\n<p>E ele? sem f&eacute; sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus<br \/>\n    dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia neste<br \/>\n    mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que cria, pelo que combate<br \/>\n    ou pelo que amplia?<\/p>\n<p>Os padres passaram; ele quis segui-los, mas o corpo, cansado, amolecido,<br \/>\n    ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Mila de preferir ao outro?<br \/>\n    parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre doce e plat&ocirc;nico,<br \/>\n    se ela fosse para todos uma mulher austera, bem encerrada no c&iacute;rculo<br \/>\n    de seus deveres.<\/p>\n<p>Esta id&eacute;ia trouxe a lembran&ccedil;a da m&atilde;e, morta a facadas<br \/>\n    pelo pai, como ad&uacute;ltera. A imagem dela encheu-lhe o cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    ergueu-se bruscamente e come&ccedil;ou a descer a rua, apressado com a id&eacute;ia<br \/>\n    de fugir para longe, salvar-se do perigo que o solicitava.<\/p>\n<p>Era preciso n&atilde;o tornar a ver Mila; nunca mais! Para algo lhe serviria<br \/>\n    o seu orgulho de homem.<\/p>\n<p>A vontade domaria o cora&ccedil;&atilde;o rebelde. N&atilde;o tornaria a<br \/>\n    v&ecirc;-la.<\/p>\n<p>A id&eacute;ia da m&atilde;e lembrou-lhe a irm&atilde;; tinha ainda tempo<br \/>\n    de ir jantar com ela naquela silenciosa casa das Laranjeiras. S&oacute; no<br \/>\n    dia seguinte iria para bordo aprestar o Netuno.<\/p>\n<p>Devia pensar noutras coisas; esfor&ccedil;ava-se por isso. Desejar Mila,<br \/>\n    para qu&ecirc;? n&atilde;o tornaria a v&ecirc;-la&#8230;<\/p>\n<p>Desceu o morro apressado, at&eacute; &agrave; rua dos Ourives e seguiu por<br \/>\n    ela, sacudindo os ombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem<br \/>\n    nada quer ver resoluto acalmado por um esfor&ccedil;o em que entrara todo<br \/>\n    o poder da sua vontade.<\/p>\n<p>Fugir de Camila e para sempre, criar, talvez, l&aacute; longe, em terras<br \/>\n    do norte, uma fam&iacute;lia honesta, era o que devia fazer, o que faria,<br \/>\n    inevitavelmente e bem depressa, como rem&eacute;dio para esquecer&#8230;<\/p>\n<p>O capit&atilde;o atravessou ruas, passou por amigos como se ningu&eacute;m<br \/>\n    visse, e s&oacute; ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chofre, com um<br \/>\n    batimento forte de cora&ccedil;&atilde;o. Diante dele, majestosa no seu vestido<br \/>\n    preto picado apenas no peito por uma rosa escarlate, Camila sorriu-lhe, estendendo-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o enluvada. Era uma reconcilia&ccedil;&atilde;o e um apelo; ele<br \/>\n    n&atilde;o atinou com que dissesse. Ao lado da m&atilde;e, Ruth fixava nele<br \/>\n    aquele brilhante par de esmeraldas que Deus lhe dera por olhos. Trocados os<br \/>\n    cumprimentos elas n&atilde;o se detiveram, e o mo&ccedil;o seguiu tamb&eacute;m<br \/>\n    o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma dela todo deslumbrado<br \/>\n    por aquele ar de deusa inating&iacute;vel.<\/p>\n<p>Dali at&eacute; &agrave; Carioca j&aacute; os seus passos se colavam &agrave;s<br \/>\n    pedras, desejosos de parar para a seguirem depois, quando ela voltasse para<br \/>\n    o calor da sua casa; mas o capit&atilde;o Rino obrigou-se a ter ju&iacute;zo<br \/>\n    e caminhou para um bonde das &Aacute;guas F&eacute;rreas, que era justamente<br \/>\n    o assaltado nessa ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>S&oacute; depois de sentado reparou que estava junto da D. In&aacute;cia<br \/>\n    Gomes e das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e risonhas<br \/>\n    nas suas toilettes claras.<\/p>\n<p>D. In&aacute;cia suspirava, cansada do esfor&ccedil;o da tomada de lugar,<br \/>\n    com as m&atilde;os carregadas de embrulhos, e o toucado j&aacute; desca&iacute;do<br \/>\n    sobre a orelha esquerda. N&atilde;o a pilhariam t&atilde;o cedo na cidade,<br \/>\n    afirmava.<\/p>\n<p>Reconhecendo o capit&atilde;o Rino, pediram-lhe logo not&iacute;cias da fam&iacute;lia<br \/>\n    Teodoro, como estava a boa Camila?<\/p>\n<p>Ele disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.<\/p>\n<p>A Carlotinha, sempre tr&ecirc;fega, debru&ccedil;ava-se sobre o colo da m&atilde;e,<br \/>\n    dizendo-lhe com a sua voz maliciosa frases em que entrava mais atrevimento<br \/>\n    do que esp&iacute;rito. Tinham-se mudado para as Laranjeiras e ofereciam-lhe<br \/>\n    a casa. D. In&aacute;cia vinha espantada com os pre&ccedil;os dos objetos<br \/>\n    adquiridos; se n&atilde;o fossem as mo&ccedil;as, ela n&atilde;o viria &agrave;<br \/>\n    cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.<\/p>\n<p>&#8211; E o sr. Gomes, como est&aacute;? perguntou o capit&atilde;o, menos por<br \/>\n    interesse do que para dizer alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado, como velho cheio de trabalho. O sr. n&atilde;o imagina! meu marido<br \/>\n    sacrifica-se pelos outros e o resultado n&oacute;s sabemos qual &eacute;.<br \/>\n    Este mundo &eacute; de ingratos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, &eacute; de ingratos; confirmou o capit&atilde;o.<\/p>\n<p>At&eacute; as Laranjeiras D. In&aacute;cia teve tempo de despejar todas as<br \/>\n    lamenta&ccedil;&otilde;es da sua alma atribulada; falou de tudo, at&eacute;<br \/>\n    das cozinheiras e do mau servi&ccedil;o do a&ccedil;ougue. O discurso, intermin&aacute;vel,<br \/>\n    numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capit&atilde;o<br \/>\n    insuport&aacute;vel a lonjura da viagem.<\/p>\n<p>Carlotinha perguntou pelo dr. Gerv&aacute;sio. Que era feito dele, que ningu&eacute;m<br \/>\n    o via, sen&atilde;o no palacete Teodoro?<\/p>\n<p>Rino encolheu os ombros, n&atilde;o sabia. Judith debru&ccedil;ou-se por<br \/>\n    sua vez, e contemplou-o com curiosidade.<\/p>\n<p>Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos oferecimentos, apontando<br \/>\n    o port&atilde;o da sua resid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o Rino correspondeu &agrave;s expans&otilde;es com amabilidade<br \/>\n    discreta, admirado da exuber&acirc;ncia daquela gente. Que lhe importavam<br \/>\n    as denguices da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith,<br \/>\n    p&aacute;lida e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquela<br \/>\n    Mila de formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a do&ccedil;ura<br \/>\n    da m&atilde;o enluvada?<\/p>\n<p>A fatalidade daquela paix&atilde;o bem se revelava em tudo; ele furtava-se<br \/>\n    a v&ecirc;-la, saudoso e aflito, mas forte na sua resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e eis que ela lhe aparecia em uma volta 4e rua, inesperadamente! O bond parara<br \/>\n    no ponto e o mo&ccedil;o desceu, caminhando para diante at&eacute; a ch&aacute;cara<br \/>\n    da madrasta; o port&atilde;o estava aberto, entrou.<\/p>\n<p>Nos largos canteiros touceiras de canas da &Iacute;ndia erguiam os seus penachos<br \/>\n    de flores vermelhas e amarelas; ele tomou &agrave; esquerda, por uma rua ladeada<br \/>\n    de girass&oacute;is e de magn&oacute;lias cor de ouro velho. Era ao fundo<br \/>\n    dessa rua que aparecia a casa, de fei&ccedil;&atilde;o antiga, s&oacute;lida<br \/>\n    e simples, com paredes brancas e largas janelas de guilhotina.<\/p>\n<p>Sentindo gente, veio um c&atilde;o enorme l&aacute; de dentro, aos saltos<br \/>\n    e latidos, e logo ap&oacute;s apareceu Catarina no patamar de pedra, da escada<br \/>\n    em semic&iacute;rculo.<\/p>\n<p>Ela desceu ao encontro do irm&atilde;o, muito risonha.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s boa? perguntou-lhe ele, segurando-lhe no queixo forte e ligeiramente<br \/>\n    quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.<\/p>\n<p>&#8211; Estou, d. Mariquinhas &eacute; que est&aacute; doente, com uma das linfatites<br \/>\n    do costume.<\/p>\n<p>&#8211; Chamaste m&eacute;dico?<\/p>\n<p>&#8211; Chamei, e l&aacute; a deixei com a Hemengarda ao p&eacute; da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Que Hemengarda?<\/p>\n<p>&#8211; Aquela enfermeira mulata, do n. 15, m&atilde;e do&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; sei.<\/p>\n<p>&#8211; D. Mariquinhas gosta muito dela. Queres ir v&ecirc;-la agora?<\/p>\n<p>&#8211; Depois; fiquemos por aqui. Os teus girass&oacute;is est&atilde;o muito<br \/>\n    lindos.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o parece um jardim japon&ecirc;s? Repara. Temos cris&acirc;ntemos<br \/>\n    que nem os dos biombos, canas como as das ventarolas, l&iacute;rios e girass&oacute;is&#8230;<br \/>\n    d. Mariquinhas acha detest&aacute;veis todas estas flores e fala em mand&aacute;-las<br \/>\n    arrancar&#8230; Esta nossa madrasta tem singularidades. N&atilde;o compreende<br \/>\n    o adorno e desconhece a gra&ccedil;a das linhas. S&oacute; gosta das flores<br \/>\n    pelo cheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens feito?<\/p>\n<p>&#8211; Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se eu<br \/>\n    quiser sair?<\/p>\n<p>&#8211; Efetivamente est&aacute;s muito s&oacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Preciso casar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Casa-te.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho medo.<\/p>\n<p>&#8211; Os homens assustam-te?<\/p>\n<p>&#8211; Um pouco. S&atilde;o enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflito! Depois,<br \/>\n    a lembran&ccedil;a da nossa m&atilde;e faz-me odiar o casamento.<\/p>\n<p>&#8211; S&ecirc; honesta.<\/p>\n<p>&#8211; Quem pode saber hoje o que ser&aacute; manh&atilde;?<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz&atilde;o. Fica solteira; ser&aacute;s mais feliz. Tens uma alma<br \/>\n    indom&aacute;vel. Conserva-te aqui. Esta casa &eacute; t&atilde;o prop&iacute;cia<br \/>\n    a uma vida de calma e de reflex&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta comigo. Chama-me com mal&iacute;cia<br \/>\n    &#8211; doutora. Todos os meus gostos s&atilde;o assunto de mofa para ela, e todos<br \/>\n    os seus s&atilde;o para mim de aborrecimento. E a&iacute; tens a calma desta<br \/>\n    casa. Fresca tranq&uuml;ilidade!<\/p>\n<p>&#8211; Tem paci&ecirc;ncia ou, ent&atilde;o, dou o dito por n&atilde;o dito. Casa-te!<\/p>\n<p>&#8211; Com quem?<\/p>\n<p>&#8211; Comigo n&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p>&#8211; Nem tu quererias.<\/p>\n<p>&#8211; Por que?<\/p>\n<p>&#8211; Porque amas a Camila Teodoro.<\/p>\n<p>Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O jardineiro<br \/>\n    passou com o carro de m&atilde;o cheio de folhas secas, e cumprimentou o mo&ccedil;o,<br \/>\n    que n&atilde;o lhe correspondeu &agrave; cortesia, tonto. pasmado para a irm&atilde;,<br \/>\n    que estacara tamb&eacute;m ao dizer as &uacute;ltimas palavras.<\/p>\n<p>&#8211; Nega, se &eacute;s capaz; disse ela. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o nego.<\/p>\n<p>Quedaram-se mudos, contemplando-se de face. Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente,<br \/>\n    a lembran&ccedil;a da m&atilde;e assassinada pelo marido. Compreenderam-se<br \/>\n    atrav&eacute;s do sil&ecirc;ncio. Catarina murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; &Agrave; propor&ccedil;&atilde;o que envelhe&ccedil;o, mais se vincula<br \/>\n    em mim a saudade dela e n&atilde;o consigo desvanecer o meu rancor por ele.<br \/>\n    N&atilde;o lhe perd&ocirc;o.<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu; mas a sociedade absolveu-o. <\/p>\n<p>&#8211; Os homens. Ela era t&atilde;o boa! <\/p>\n<p>&#8211; Enganou-o.<\/p>\n<p>&#8211; Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento de<br \/>\n    casa e o meu &oacute;dio. Em v&atilde;o ele se fazia bom para agradar-me;<br \/>\n    era de uma humildade que comovia a todos, menos a mim. N&atilde;o tornei a<br \/>\n    beijar-lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Nem mesmo na hora da morte?!<\/p>\n<p>&#8211; Nem mesmo na hora da morte. E eu quis; curvei-me; mas quase ao encostar<br \/>\n    a minha boca &agrave; m&atilde;o dele, ergui-me com terror. Ele percebeu tudo.<br \/>\n    Que morte!<\/p>\n<p>&#8211; Foste cruel.<\/p>\n<p>&#8211; Fui humana. Tu o amavas?<\/p>\n<p>&#8211; Antes? muito!<\/p>\n<p>&#8211; Depois?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Mas era nosso pai&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ela era nossa m&atilde;e!<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz&atilde;o. Para os filhos a m&atilde;e &eacute; sempre a melhor<br \/>\n    e a mais pura entre as mulheres.<\/p>\n<p>Um sabi&aacute; cantou e eles ficaram a escutar, com os olhos rasos de &aacute;gua.<\/p>\n<p>&#8211; Foi no Netuno que percebeste tudo, n&atilde;o foi? perguntou Rino mudando<br \/>\n    de tom.<\/p>\n<p>&#8211; Onde havia de ser?<\/p>\n<p>&#8211; E s&oacute; aquela vez bastou?<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Manda calar aquele sabi&aacute;, Catarina!<\/p>\n<p>&#8211; Deixa l&aacute; o p&aacute;ssaro; chora.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Parto depois de amanh&atilde;. Desta vez a viagem ser&aacute; longa&#8230;<br \/>\n    Entrego em Bel&eacute;m o comando do Netuno a outro. Tenho substituto; est&aacute;<br \/>\n    tudo combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo fugir-lhe. N&atilde;o era<br \/>\n    preciso que evocasses a lembran&ccedil;a do passado para me dissuadir&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tive a inten&ccedil;&atilde;o de te dissuadir; quer-me parecer<br \/>\n    que o amor n&atilde;o &eacute; figura de barro que se amolgue com os dedos.<br \/>\n    Somente, como ela ama o dr. Gerv&aacute;sio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por quem soubeste isso?<\/p>\n<p>&#8211; Por nossa madrasta, que sem sair daqui sabe sempre de tudo, benza-a Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem lhe diria a ela semelhante coisa?!<\/p>\n<p>&#8211; Talvez o m&eacute;dico&#8230; talvez a cozinheira&#8230; talvez o vento. O vento<br \/>\n    traz-lhe aos ouvidos coisas que ningu&eacute;m mais ouve. E &eacute; uma espada<br \/>\n    desembainhada para todas as faltas, aquela mulher!<\/p>\n<p>&#8211; De mais a mais, &eacute; uma cal&uacute;nia! Camila &eacute; discreta;<br \/>\n    mesmo que isso assim fosse, quem poderia adivinhar?<\/p>\n<p>&#8211; Jo&atilde;o, amores s&atilde;o como luzes atrav&eacute;s de rendas: aparecem<br \/>\n    sempre.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, n&atilde;o; &eacute; preciso convenc&ecirc;-la de que isso<br \/>\n    &eacute; falso. Mila n&atilde;o ama ningu&eacute;m; n&atilde;o ama ningu&eacute;m!<\/p>\n<p>Catarina fechou os olhos por um segundo, depois recome&ccedil;aram a andar,<br \/>\n    um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete sulferino que as<br \/>\n    flores dos jambeiros-rosa alastravam no ch&atilde;o. A tarde descia clara<br \/>\n    e calma, toda azul, com leves tons opalinos.<\/p>\n<p>&#8211; Catarina?<\/p>\n<p>&#8211; Jo&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Precisava ter-te sempre a meu lado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei o~ teus filhos.<br \/>\n    Procura amar outra mulher. H&aacute; tantas no mundo, h&aacute; tantas.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; uma s&oacute;: a que amam os. S&oacute; quero aquela. <\/p>\n<p>&#8211; Sofres muito?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo h&aacute; de fazer-me bem.<br \/>\n    Custa muito guardar um segredo destes! E eu guardo o meu h&aacute; lauto tempo!<\/p>\n<p>&#8211; Parecia-te. Bem viste que eu j&aacute; o tinha comigo. Sorriram ambos,<br \/>\n    com tristeza.<\/p>\n<p>Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catarina tinha<br \/>\n    o viveiro das rosas. mas n&atilde;o se detiveram. Tornaram a cruzar-se com<br \/>\n    o jardineiro e, tomando a larga rua dos girass&oacute;is. entraram em casa.<\/p>\n<p>Antes de se sentarem &agrave; mesa, os dois irm&atilde;os foram ao quarto<br \/>\n    da madrasta. uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um len&ccedil;o<br \/>\n    amarrado na cabe&ccedil;a e o rosto polvilhado de amido. A Hemengarda tinha<br \/>\n    cerrado as janelas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa muitos vidros<br \/>\n    de rem&eacute;dios, e um cheiro de c&acirc;nfora espalhado em tudo.<\/p>\n<p>O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e a<br \/>\n    enferma, fazendo uma voz d&eacute;bil, queixou-se de muitas dores e de muito<br \/>\n    frio.<\/p>\n<p>Os enteados disseram-lhe meia d&uacute;zia de frases animadoras, recomendaram-lhe<br \/>\n    paci&ecirc;ncia e. sentindo que a importunavam. sa&iacute;ram em bicos de<br \/>\n    p&eacute;s.<\/p>\n<p>Antes de se sentarem &agrave; mesa, Catarina confessou ao irm&atilde;o sentir-se<br \/>\n    aliviada com a aus&ecirc;ncia da madrasta. Teriam assim um jantar mais &iacute;ntimo.<\/p>\n<p>Ele perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Afinal, tu a aborreces s&oacute; por ela ser tua madrasta?<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute;. Se a morte de minha m&atilde;e tivesse sido natural, eu aceitaria<br \/>\n    depois a madrasta, sen&atilde;o com ternura, ao menos com respeito. Assim,<br \/>\n    quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pai. ela ofendeu minha m&atilde;e. Mas<br \/>\n    o mal est&aacute; feito e &eacute; irremedi&aacute;vel, n&atilde;o falemos<br \/>\n    nela. Sup&otilde;e que eu sou uma esquisita, que ela &eacute; outra, e n&atilde;o<br \/>\n    penses mais nisso.<\/p>\n<p>Ao jantar falaram-se baixo para n&atilde;o incomodar a doente, cujo quarto<br \/>\n    era na vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Quando &agrave; noite o capit&atilde;o Rino se despediu da irm&atilde; no<br \/>\n    jardim, sentiu, ao abra&ccedil;&aacute;-la, que ela chorava. Era a primeira<br \/>\n    vez, entre tantas de separa&ccedil;&atilde;o, que isso acontecia. Ele beijou-a<br \/>\n    consolado, certo de que em toda a terra havia um cora&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    o amava com firmeza. com sinceridade &#8211; o dela.<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">XII<\/a><\/h4>\n<p>Havia no palacete Teodoro um compartimento que raras vezes se abria: era<br \/>\n    uma sala, destinada naturalmente na sua origem a biblioteca, e de que o negociante<br \/>\n    fizera o seu escrit&oacute;rio. Ficava embaixo, no r&eacute;s do ch&atilde;o,<br \/>\n    ao fundo do vest&iacute;bulo. toda voltada para o sil&ecirc;ncio do jardim,<br \/>\n    que formava perto das suas janelas grupos de plantas sem aroma, dentro de<br \/>\n    grandes relvados, onde a bulha dos p&eacute;s morria.<\/p>\n<p>Como o negociante n&atilde;o usasse de livros. o seu escrit&oacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    tinha estantes. A mob&iacute;lia, de canela e de couro, guardava ali, na sua<br \/>\n    atitude impass&iacute;vel, um cunho de austeridade que n&atilde;o desdizia<br \/>\n    do aposento, vasto e s&oacute;brio.<\/p>\n<p>Aquelas cadeiras e aquele sof&aacute; de bra&ccedil;os estendidos, tinham<br \/>\n    o ar das coisas a que a intimidade dos seres n&atilde;o deu ainda uma alma.<\/p>\n<p>A melhor parede para uma arma&ccedil;&atilde;o era ocupada por dois quadros<br \/>\n    industriais, de ricas molduras lampejantes, e por um contador veneziano. Sobre<br \/>\n    esse m&oacute;vel, erguia-se, com ar de desafio, a estatueta de um cavalheiro<br \/>\n    de capa e espada e grande pluma ao vento.<\/p>\n<p>Do lampi&atilde;o de bronze com abajur, ca&iacute;a uma luz bem dirigida,<br \/>\n    espalhando-se sobre a secret&aacute;ria em um largo c&iacute;rculo tranq&uuml;ilo.<\/p>\n<p>Foi para junto dessa mesa que Francisco Teodoro levou o amigo. o Inoc&ecirc;ncio<br \/>\n    Braga, oferecendo-lhe uma cadeira ao p&eacute; da sua.<\/p>\n<p>A figura tr&ecirc;fega daquele homem mi&uacute;do, que com os seus quarenta<br \/>\n    anos n&atilde;o parecia ter mais de vinte e cinco, o brilho movedi&ccedil;o<br \/>\n    dos seus olhinhos, perspicazes e mergulhadores, a sua palidez ba&ccedil;a,<br \/>\n    os seus movimentos r&aacute;pidos e incisivos, a febre dos seus gestos, a<br \/>\n    clareza da sua exposi&ccedil;&atilde;o, punham em evid&ecirc;ncia a pacata<br \/>\n    atitude do dono da casa, a calma dos seus modos, de satisfeito, de burgu&ecirc;s<br \/>\n    que j&aacute; da vida alcan&ccedil;ou tudo, e que se compraz em ver o mundo<br \/>\n    do alto do seu fast&iacute;gio.<\/p>\n<p>Com as m&atilde;os apoiadas na mesa, onde, a par de um vistoso tinteiro de<br \/>\n    prata maci&ccedil;a, s&oacute; havia o C&oacute;digo Comercial de Orlando,<br \/>\n    Francisco Teodoro abria os ouvidos &agrave;s palavras do outro, em quem pressentia<br \/>\n    o desejo arrojado de grandes v&ocirc;os. Sabia-o t&atilde;o inteligente quanto<br \/>\n    esperto, de uma atividade febril e fecunda. Esperava que aquela entrevista<br \/>\n    fosse para lhe pedir o nome e o capital para qualquer empresa.<\/p>\n<p>Tinha-se aparelhado j&aacute; com algumas evasivas e preparado para uma certa<br \/>\n    condescend&ecirc;ncia, que o valor do homem o obrigava a ter. O seu capital,<br \/>\n    avolumado, podia com lucro tomar diversas deriva&ccedil;&otilde;es, fertilizando<br \/>\n    zonas e expandindo a sua for&ccedil;a; tudo estava no cr&eacute;dito de quem<br \/>\n    lho pedisse, e nas vantagens que lhe oferecessem.<\/p>\n<p>E era s&oacute; em neg&oacute;cio que Francisco Teodoro fazia caso do dinheiro.<br \/>\n    No mesmo dia em que assinava vinte ou trinta contos para um hospital ou uma<br \/>\n    igreja, numa penada rija e franca, recusava emprestar a qualquer pobre diabo<br \/>\n    cinco ou dez contos para um come&ccedil;o de vida.<\/p>\n<p>O seu dinheiro, adquirido com esfor&ccedil;o, gostava de mostrar-se em borbot&otilde;es<br \/>\n    sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente.<\/p>\n<p>Queria tudo &agrave; larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas<br \/>\n    e as bebidas atafulhavam os arm&aacute;rios e a despensa at&eacute; a brutalidade.<br \/>\n    Dizia-se que no palacete Teodoro os cozinheiros enriqueciam e que a vigil&acirc;ncia<br \/>\n    trabalhosa da Nina n&atilde;o conseguia atenuar a impetuosidade do desperd&iacute;cio.<br \/>\n    As pr&oacute;prias d&iacute;vidas do M&aacute;rio faziam vociferar o negociante,<br \/>\n    n&atilde;o pelo consumo do dinheiro, mas por perdi&ccedil;&atilde;o daquele<br \/>\n    filho, que ele n&atilde;o conseguia dirigir a seu modo.<\/p>\n<p>Gastar consigo, com a sua gente. era sempre um motivo de vaidade e de gozo;<br \/>\n    mas gastar mal em neg&oacute;cio. arriscar em com&eacute;rcio problem&aacute;tico,<br \/>\n    &eacute; que lhe parecia uma ignom&iacute;nia.<\/p>\n<p>Agora, com este Inoc&ecirc;ncio Braga. as coisas mudavam. A superioridade<br \/>\n    do homem obrigava-o a transigir um pouco&#8230;<\/p>\n<p>Por isso ele fez entrar o Inoc&ecirc;ncio para o escrit&oacute;rio, onde<br \/>\n    mal chegava o eco das correrias das pequenas.<\/p>\n<p>Sem pre&acirc;mbulos, o outro atacou o assunto com a altivez de quem n&atilde;o<br \/>\n    pede, mas oferece favores.<\/p>\n<p>Com o seu timbre de voz nasalada como se toda ela s&oacute; lhe sa&iacute;sse<br \/>\n    da cabe&ccedil;a, come&ccedil;ou:<\/p>\n<p>&#8211; Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande sindicato de caf&eacute;.<br \/>\n    O Gama Torres, que, aqui entre n&oacute;s, deve aos meus conselhos a sua prosperidade,<br \/>\n    est&aacute; pronto a entrar com grande parte do capital. Foi ele que me disse<br \/>\n    que o consultasse tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro sentiu um arrepio mas n&atilde;o pestanejou. Os olhos do<br \/>\n    Braga cintilavam na sombra.<\/p>\n<p>Com elogios moderados, mas de infal&iacute;vel alcance, &agrave; arg&uacute;cia<br \/>\n    e bom crit&eacute;rio do negociante, Inoc&ecirc;ncio exp&ocirc;s o seu plano,<br \/>\n    estudando-o, revirando-o por todos os lados, mostrando c&aacute;lculos, em<br \/>\n    cuja elabora&ccedil;&atilde;o perdera noites de sono, assoprando-o devagar,<br \/>\n    com eloq&uuml;&ecirc;ncia, fortificando-o com argumentos persuasivos.<\/p>\n<p>Tudo aquilo aparecia como a irrefrag&aacute;vel verdade, singelamente. Nenhum<br \/>\n    artif&iacute;cio de palavras. Termos l&iacute;mpidos como &aacute;gua da fonte.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, empolgado. reclamava repeti&ccedil;&otilde;es. Inoc&ecirc;ncio<br \/>\n    prestava-se.<\/p>\n<p>Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos<br \/>\n    dif&iacute;ceis de uma m&uacute;sica, at&eacute; que se passasse por eles<br \/>\n    sem trope&ccedil;o. O tino comercial do Inoc&ecirc;ncio Braga confirmava-se.<\/p>\n<p>Entretanto, Francisco Teodoro hesitava. A sua escola fora outra, mais rude.<\/p>\n<p>O assalto as.<\/p>\n<p>Sentido-o escorregar medrosamente dentre os seus dedos nervosos, Inoc&ecirc;ncio<br \/>\n    sorria e com habilidade, sem querer constranger resolu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    retomava o fio de ouro da sua proposta, e estendia-a sedutoramente.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia zona cafeeira, em &Aacute;frica, na Am&eacute;rica ou na<br \/>\n    &Aacute;sia, de que ele n&atilde;o falasse com a autoridade de bom conhecedor.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que podia contar os gr&atilde;os de cada &aacute;rvore. Em algumas<br \/>\n    col&ocirc;nias o sol mirrava o fruto; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas;<br \/>\n    em certos pa&iacute;ses de caf&eacute;, o caf&eacute; faltava, e s&oacute;<br \/>\n    no Brasil, terra da promiss&atilde;o, os cafezais vergavam ao peso da cereja<br \/>\n    rubra. Tudo isto era documentado com trechos de jornais estrangeiros, colados<br \/>\n    num caderno, anotado nas margens, com letra mi&uacute;da.<\/p>\n<p>Em toda a exposi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o havia c&aacute;lculo sem base,<br \/>\n    id&eacute;ias sem argumentos. Tudo era saber aproveitar a ocasi&atilde;o prop&iacute;cia,<br \/>\n    esta incompar&aacute;vel &eacute;poca de neg&oacute;cios, para lan&ccedil;ar<br \/>\n    a rede&#8230;.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro resistia ainda, ou antes, queria resistir, por instinto;<br \/>\n    mas a verdade &eacute; que abria os ouvidos &agrave;s palavras do outro, e<br \/>\n    n&atilde;o achava termos com que defendesse a sua relut&acirc;ncia.<\/p>\n<p>O prest&iacute;gio de saber traduzir um artigo para jornal vale alguma coisa.<br \/>\n    Inoc&ecirc;ncio leu um artigo traduzido por ele do ingl&ecirc;s, sobre a propaganda<br \/>\n    e o futuro do caf&eacute;, obra s&oacute;lida, que Francisco Teodoro aprovou.<\/p>\n<p>Reconhecia nos ingleses grande capacidade.<\/p>\n<p>&#8211; Justamente, grande capacidade, atalhou o outro; e sabe o senhor por que?<\/p>\n<p>&#8211; Superioridade de ra&ccedil;a&#8230; Sim, &eacute; o que dizem.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creia o senhor nessas balelas. Qual superioridade de ra&ccedil;a!<br \/>\n    de educa&ccedil;&atilde;o, s&oacute; de educa&ccedil;&atilde;o. Individualmente,<br \/>\n    o ingl&ecirc;s n&atilde;o &eacute; mais forte do que n&oacute;s, com toda<br \/>\n    a sua gin&aacute;stica, com todas as pipas de &oacute;leo de f&iacute;gado<br \/>\n    que tenha ingerido em pequeno.<\/p>\n<p>A vantagem deles &eacute; outra: v&ecirc;em melhor e fazem a tempo as suas<br \/>\n    especula&ccedil;&otilde;es. Podem ter medo de fantasmas, mas n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    medo de neg&oacute;cios. Especular com intelig&ecirc;ncia, ganhar boladas<br \/>\n    gordas, encher as m&atilde;os, que para isso as t&ecirc;m grandes, de libras<br \/>\n    esterlinas, eis para o que o ingl&ecirc;s nasce e se desenvolve.<\/p>\n<p>Por isso o com&eacute;rcio deles &eacute; t&atilde;o forte.<\/p>\n<p>Como os ingleses se ririam de n&oacute;s, meu amigo, se quisessem perder<br \/>\n    tempo estudando as t&iacute;midas especula&ccedil;&otilde;es do nosso com&eacute;rcio<br \/>\n    de analfabetos!<\/p>\n<p>N&atilde;o percamos tamb&eacute;m n&oacute;s o nosso tempo; estudemos este<br \/>\n    assunto.<\/p>\n<p>Curvaram-se outra vez para a secret&aacute;ria coberta de artigos, tabelas,<br \/>\n    estat&iacute;sticas&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro n&atilde;o se atrevia a uma resposta. Inoc&ecirc;ncio disse,<br \/>\n    sem tirar os olhos dos pap&eacute;is:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui s&oacute; vejo um homem capaz de entrar nisto sem medo: o Gama Torres.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; rapaz novo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E atilad&iacute;ssimo.<\/p>\n<p>&#8211; Os neg&oacute;cios precisam ser feitos com vagar&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; &Agrave; moda antiga.<\/p>\n<p>&#8211; De todos os tempos.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Quando h&aacute; febre &eacute; preciso saber aproveit&aacute;-la<br \/>\n    na subida do term&ocirc;metro.<\/p>\n<p>As ocasi&otilde;es fogem e n&atilde;o se repetem; o senhor refletir&aacute;;<br \/>\n    esperaremos alguns dias, poucos, bem v&ecirc; que n&atilde;o devemos adiar<br \/>\n    isso para outra &eacute;poca. Esta &eacute; a melhor. &#8211; &Eacute; a &uacute;nica.<\/p>\n<p>Deixo-lhe aqui a minha papelada: consulte-a. Aqui est&atilde;o coisas melhores<br \/>\n    e mais convincentes do que palavras: &#8211; cifras.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, acavalou no nariz a sua luneta de vista cansada e seguiu<br \/>\n    com o olhar os caracteres cerrados que os dedos do outro apontavam e percorriam<br \/>\n    rapidamente.<\/p>\n<p>Como o rumor da enchente que se aproxima e vem at&eacute; a inunda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    assim aquele amontoado de parcelas ia crescendo e amea&ccedil;ando de desabar<br \/>\n    em blocos de ouro.<\/p>\n<p>Quando via uma abertazinha, Francisco Teodoro aproveitava-a para uma obje&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que Inoc&ecirc;ncio repelia sem esfor&ccedil;o, com mostras de quem j&aacute;<br \/>\n    vinha prevenido para tudo.<\/p>\n<p>A meia-noite ergueu-se, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Amanh&atilde; &eacute; domingo; o senhor fique com estes pap&eacute;is<br \/>\n    e leia-os outra vez, com o seu sossego. Segunda-feira eu irei procur&aacute;-los<br \/>\n    no armaz&eacute;m, das duas para as tr&ecirc;s horas. Estude e resolva. Boa<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro acompanhou a visita at&eacute; o port&atilde;o do jardim.<br \/>\n    Em cima, a casa estava toda fechada; a fam&iacute;lia dormia. O jardineiro,<br \/>\n    na soleira, esperava que a visita sa&iacute;sse para soltar os c&atilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; Que linda noite, sr. Teodoro, e como o seu jardim cheira bem!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, Camila gosta muito de flores. Deve ser das violetas.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; dos jasmins do Cabo, asseverou o jardineiro.<\/p>\n<p>&#8211; Ou dos jasmins do Cabo; pois muito boas noites!<\/p>\n<p>Nessa noite Francisco Teodoro mal p&ocirc;de dormir. O seu pensamento girava,<br \/>\n    girava. Como os tempos eram outros! Percebia a raz&atilde;o do Inoc&ecirc;ncio:<br \/>\n    o com&eacute;rcio do Rio j&aacute; n&atilde;o tolerava o cansa&ccedil;o das<br \/>\n    obras lentas. A finura e a ast&uacute;cia valiam mais do que os processos<br \/>\n    rudes e morosos do sistema antigo. Ah! se ele tivesse tido instru&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Quando no dia seguinte abriu o Jornal, na frescura da varanda, percebeu que<br \/>\n    n&atilde;o suportaria a leitura. Os olhos teimaram, e ficaram-se presos ao<br \/>\n    papel; mas o pensamento, insubmisso, embarafustou por outros caminhos; foi<br \/>\n    preciso fazer a vontade ao pensamento. Francisco Teodoro desceu ao escrit&oacute;rio<br \/>\n    e engolfou-se na papelada do Inoc&ecirc;ncio Braga.<\/p>\n<p>E lia ainda, meio tonto, quando Ruth entrou, com ar amuado.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe uma coisa, papaizinho?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; n&atilde;o sei nada. Que temos?<\/p>\n<p>&#8211; Uma desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro levantou os olhos, assustado.<\/p>\n<p>&#8211; Que dizes?!<\/p>\n<p>&#8211; Digo que a Nina faz anos hoje e que ningu&eacute;m tem um presente para<br \/>\n    lhe dar. Demais a mais &eacute; domingo: est&aacute; tudo fechado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o a desgra&ccedil;a &eacute; essa?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor. Ela n&atilde;o se esquece de ningu&eacute;m, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    justo que os outros, que podem mais, se esque&ccedil;am dela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, n&atilde;o lhe falta nada.<\/p>\n<p>&#8211; A mim parece-me que lhe falta tudo. Quando qualquer de n&oacute;s faz anos,<br \/>\n    o senhor d&aacute; uma festa e mam&atilde;e arranja surpresas&#8230; Ela &eacute;<br \/>\n    como se fosse outra filha. Quando Rachei esteve doente, eu ia dormir para<br \/>\n    a minha cama e era Nina que fazia de irm&atilde;, velando ao p&eacute; da<br \/>\n    doente&#8230; Entretanto&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro contemplou a filha com aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Acaba.<\/p>\n<p>&#8211; Quando Rachei ficou boa, toda a gente se congratulava com papai, com mam&atilde;e,<br \/>\n    comigo, mesmo com a Noca, e ningu&eacute;m se lembrou dos sacrif&iacute;cios<br \/>\n    de Nina. O senhor diz: n&atilde;o lhe falta nada. &Eacute; o que parece. Basta<br \/>\n    dizer que se quiser fazer a esmola de um vint&eacute;m precisa de pedi-lo<br \/>\n    ao senhor ou a mam&atilde;e.<\/p>\n<p>Foi uma ma&ccedil;ada eu n&atilde;o ter-me lembrado ontem! Ela n&atilde;o<br \/>\n    tem chap&eacute;u&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Quem te lembrou isso hoje?<\/p>\n<p>&#8211; Lembrei-me eu mesma, quando tirei a folhinha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom; promete-lhe o chap&eacute;u.<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Parece-te que temos sido ingratos para com ela?<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que al&eacute;m do chap&eacute;u ela precisa de outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que coisa?<\/p>\n<p>&#8211; Outro dia, quando fomos &agrave; cidade, ela gostou muito de uma gravata<br \/>\n    que viu numa vitrina. Eu perguntei-lhe: &#8211; mas por que &eacute; que voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o compra esta gravata? E ela sorriu. Depois, passamos numa confeitaria<br \/>\n    e ela manifestou vontade de tomar um sorvete. Eu estava com tosse, n&atilde;o<br \/>\n    podia tomar gelo, mas perguntei: &#8211; por que &eacute; que voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    toma um sorvete? E ela foi andando. No bonde quando voltamos, o condutor vendo<br \/>\n    que ela era mais velha pediu-lhe as passagens. Nina ficou que nem uma pitanga<br \/>\n    e indicou-me com um gesto&#8230; Foi ent&atilde;o que eu percebi que desde que<br \/>\n    uma pessoa p&otilde;e vestido comprido, precisa de usar uma carteirinha no<br \/>\n    bolso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Queres ent&atilde;o dar-lhe uma carteira?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Eu dou o chap&eacute;u; a carteira deve ser dada ou por papai<br \/>\n    ou por mam&atilde;e.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; dito. Vamos a ver agora se nos d&atilde;o almo&ccedil;o.<\/p>\n<p>J&aacute; toda a fam&iacute;lia os esperava na sala de jantar. O dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    faltara, por isso o M&aacute;rio se dignara de aparecer.<\/p>\n<p>Foi logo no princ&iacute;pio do almo&ccedil;o que Francisco Teodoro, voltando-se<br \/>\n    para a sobrinha, declarou:<\/p>\n<p>&#8211; Nina, como eu n&atilde;o entendo de modas, o presente que escolhi hoje<br \/>\n    para voc&ecirc; foi uma casa. Com os alugu&eacute;is voc&ecirc; poder&aacute;<br \/>\n    escolher todos os meses um vestido a seu gosto.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a, que fazia nesse momento os pratos de Rachel e de Lia, estacou<br \/>\n    com os olhos esbugalhados. Riram-se do seu espanto e fizeram-lhe a sa&uacute;de.<br \/>\n    Ela come&ccedil;ou a chorar.<\/p>\n<p>&#8211; Homem, n&atilde;o foi para a ver chorar que eu disse o que disse. De maneiras<br \/>\n    que voc&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>Mas, Francisco Teodoro tinha tamb&eacute;m os olhos luminosos. Camila aplaudiu<br \/>\n    a id&eacute;ia e tocaram os copos, comovidos.<\/p>\n<p>Depois, o negociante disse que levaria a sobrinha no dia seguinte ao tabeli&atilde;o,<br \/>\n    para a transfer&ecirc;ncia da propriedade, e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; A casa n&atilde;o &eacute; grande, mas &eacute; nova e bonitinha.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, M&aacute;rio, interrompeu Camila, a baronesa tornou a<br \/>\n    escrever, insistindo para que voc&ecirc; n&atilde;o falte ao baile do pai.<\/p>\n<p>Parece que a Paquita est&aacute; apaixonada!<\/p>\n<p>M&aacute;rio teve um sorriso de desd&eacute;m; Nina deixou cair o talher<br \/>\n    com que recome&ccedil;ara a partir o beef das primas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o convidaram s&oacute; o M&aacute;rio?! inquiriu o negociante,<br \/>\n    espantado.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, a todos: vamos todos. Eu j&aacute; mandei fazer os vestidos,<br \/>\n    mas do M&aacute;rio &eacute; que fazem quest&atilde;o&#8230; uma insist&ecirc;ncia<br \/>\n    esquisita! Eu s&oacute; atribuo a quer&ecirc;-lo o Meireles para genro.<\/p>\n<p>&#8211; Fresco genro, um frangote sem profiss&atilde;o&#8230; deixa-se de asneiras!<br \/>\n    O Meireles n&atilde;o &eacute; nenhum parvo.<\/p>\n<p>M&aacute;rio fixou o pai com ar atrevido, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Pois fique o senhor sabendo que mam&atilde;e acertou. A Paquita gosta de<br \/>\n    mim, e j&aacute; disse ao velho que n&atilde;o se casar&aacute; com outro.<br \/>\n    Eu &eacute; que n&atilde;o quero.<\/p>\n<p>Nina tremia.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro riu alto.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! a pequena, n&atilde;o duvido&#8230; agora o pai! H&aacute; de cas&aacute;-la<br \/>\n    como casou a outra, com um homem de peso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ver&aacute;s. Bom casamento &eacute; ela, l&aacute; isso &eacute;&#8230; Quantas<br \/>\n    filhas s&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Cinco, parece-me que cinco.<\/p>\n<p>&#8211; Mesmo assim. O Meireles est&aacute; podre de rico. Podre de rico! Tamb&eacute;m<br \/>\n    nunca vi homem t&atilde;o agarrado; tinha at&eacute; a alcunha do Chora vint&eacute;ns&#8230;<br \/>\n    Dantes eram muito freq&uuml;entes as alcunhas&#8230; ai, no com&eacute;rcio&#8230;<br \/>\n    Alcunhas e bofet&otilde;es. Hoje est&aacute; tudo mudado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assim mesmo ainda h&aacute; muita brutalidade! disse Camila com um arzinho<br \/>\n    de nojo.<\/p>\n<p>&#8211; Que queres? Nem todos nascem para doutores.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia alus&atilde;o. Francisco Teodoro tinha na mulher a f&eacute;<br \/>\n    mais cega; todavia, ela corou e n&atilde;o se atreveu a voltar o rosto para<br \/>\n    o lado do filho.<\/p>\n<p>Findo o almo&ccedil;o, a Noca cercou a Nina na copa para lhe perguntar:<\/p>\n<p>&#8211; Que foi que eu lhe disse hoje?<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a, aturdida, n&atilde;o se lembrava; a mulata explicou:<\/p>\n<p>&#8211; Menina, pois eu n&atilde;o lhe disse que ver borboleta azul &eacute; sinal<br \/>\n    de boa nova?<\/p>\n<p>&#8211; Borboleta azul?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Gente! j&aacute; se esqueceu que hoje de manh&atilde;zinha viu uma borboleta<br \/>\n    azul? Pois olhe: ela veio lhe avisar que voc&ecirc; havia de receber este<br \/>\n    bonito dote&#8230; E ainda h&aacute; quem n&atilde;o acredite!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, &eacute; verdade, voc&ecirc; me disse&#8230;<\/p>\n<p>E a mo&ccedil;a sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de<br \/>\n    do&ccedil;ura.<\/p>\n<p>Na segunda-feira, &agrave;s duas horas da tarde o Inoc&ecirc;ncio Braga apresentou-se<br \/>\n    a Francisco Teodoro no seu escrit&oacute;rio da rua de S. Bento para buscar<br \/>\n    a papelada; mas o negociante esquecera-se dela em casa, mostrando-se indeciso,<br \/>\n    e renovando com disfarce perguntas em que transparecia a mais viva curiosidade.<\/p>\n<p>O outro, percebendo tudo, muito correto, explicou com detalhes todos os pontos,<br \/>\n    sem insistir com Teodoro para que acedesse. O que tinha de dizer estava dito.<br \/>\n    Que passasse muito bem. Coube ent&atilde;o a Teodoro prometer que iria ele<br \/>\n    pessoalmente levar os pap&eacute;is &agrave; sua resid&ecirc;ncia, na rua<br \/>\n    do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assunto.<\/p>\n<p>Nessa tarde o Ribas, balan&ccedil;ando os bra&ccedil;os moles, entregava<br \/>\n    ao patr&atilde;o uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho<br \/>\n    Mota; a perna n&atilde;o o deixava ainda ir ao servi&ccedil;o; pedia desculpas<br \/>\n    com humildade, tresuando mis&eacute;ria. Era o dia do vencimento do ordenado.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro deixou cair a carta na cesta dos pap&eacute;is rasgados<br \/>\n    e, cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao Inoc&ecirc;ncio&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"13\" id=\"13\">XIII<\/a><\/h4>\n<p>O palacete Teodoro preparava-se para o baile.<\/p>\n<p>Desde manh&atilde; at&eacute; &agrave; tarde era uma invas&atilde;o de oper&aacute;rios<br \/>\n    pelas salas e corredores, um cont&iacute;nuo martelar nas paredes, bulhas<br \/>\n    abomin&aacute;veis de escadas arrastadas, de utens&iacute;lios atirados ao<br \/>\n    ch&atilde;o, de l&acirc;minas raspando parquets e de m&oacute;veis deslocados.<\/p>\n<p>Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o desprezo<br \/>\n    do por&atilde;o, o sol e o vento entravam pelas janelas escancaradas, com<br \/>\n    inteiro desassombro.<\/p>\n<p>Varado de ar e de luz, repleto de gente estranha, o interior da casa perdera<br \/>\n    o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amor&aacute;vel e discreto.<\/p>\n<p>Ruth sentia a impress&atilde;o de estar numa pra&ccedil;a p&uacute;blica.<br \/>\n    O baile n&atilde;o a interessava, e aqueles preparativos irritavam-na. Tinha<br \/>\n    uma salva&ccedil;&atilde;o: fugir para o fundo da ch&aacute;cara, com o seu<br \/>\n    violino ou um romance qualquer. A m&uacute;sica inebriava-a; o livro abria-lhe<br \/>\n    cismas, e n&atilde;o raro ela adormecia estirada no banco do caramanch&atilde;o,<br \/>\n    numa das suas longas estiadas de pregui&ccedil;a, entre o violino e o livro<br \/>\n    abandonados.<\/p>\n<p>Os outros da fam&iacute;lia preocupavam-se com a festa.<\/p>\n<p>Camila ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da modista<br \/>\n    um vestido com bordaduras luminosas, flores e asas espalmadas sobre tules,<br \/>\n    que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro.<\/p>\n<p>O bul&iacute;cio produzia-lhe febre, anseio de chegar ao fim, de ver as suas<br \/>\n    salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho das<br \/>\n    dan&ccedil;as.<\/p>\n<p>Outras preocupa&ccedil;&otilde;es iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando<br \/>\n    para o esquecimento. Que valia j&aacute; a tal mulher de luto? Gerv&aacute;sio<br \/>\n    n&atilde;o provava com a sua assiduidade ser s&oacute; dela? Talvez tivesse<br \/>\n    visto mal, quem sabe? a gente ilude-se tantas vezes<\/p>\n<p>E repelia da lembran&ccedil;a as palavras, a meia confiss&atilde;o do m&eacute;dico,<br \/>\n    que tornavam o fato positivo e doloroso. A vis&atilde;o esgar&ccedil;ava-se.<br \/>\n    Gerv&aacute;sio n&atilde;o a deixava tomar corpo.<\/p>\n<p>Ele agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora ele quem determinara<br \/>\n    a transforma&ccedil;&atilde;o de duas alcovas in&uacute;teis em uma sala de<br \/>\n    m&uacute;sica, em que essa aplica&ccedil;&atilde;o fosse indicada por pinturas<br \/>\n    a fresco: foi ele quem contratou artistas, quem escolheu mob&iacute;lias novas<br \/>\n    e harmonizou o conjunto em todas as pe&ccedil;as. Tudo que sa&iacute;a das<br \/>\n    suas m&atilde;os parecia a Camila perfeito.<\/p>\n<p>Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanso. Vigiavam tudo. As g&ecirc;meas,<br \/>\n    ati&ccedil;adas pela balb&uacute;rdia, contentes com a novidade, atiravam-se<br \/>\n    por entre os utens&iacute;lios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se<br \/>\n    da desordem que provocavam.<\/p>\n<p>Mesmo Francisco Teodoro parecia mais satisfeito.<\/p>\n<p>Depois de um exame meditado, ele tinha resolvido: aceitaria a proposta do<br \/>\n    Inoc&ecirc;ncio, daquele tr&ecirc;fego Inoc&ecirc;ncio, t&atilde;o perspicaz.<\/p>\n<p>Livre de uma preocupa&ccedil;&atilde;o que o enervava, tornou-se mais leve<br \/>\n    e mais risonho. J&aacute; tinha determinado as coisas: um m&ecirc;s depois<br \/>\n    do baile a fam&iacute;lia partiria para Petr&oacute;polis, para o novo palacete<br \/>\n    que ali estava construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro<br \/>\n    que nem um avestruz.<\/p>\n<p>Um belo dia, Ruth atravessava a sala de m&uacute;sica para a escada, aflita<br \/>\n    por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes estacou<br \/>\n    surpreendida.<\/p>\n<p>De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam r&oacute;seos anjinhos nus,<br \/>\n    soprando em longos flautins de ouro.<\/p>\n<p>A maneira por que nascia da tinta aquela carna&ccedil;&atilde;o tenra e doce,<br \/>\n    porque a leveza do pincel chamava &agrave; tona aquele bando de crian&ccedil;as,<br \/>\n    que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da atmosfera<br \/>\n    densa, as &uacute;ltimas j&aacute; batidas de sol, na irradia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    l&iacute;mpida da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava<br \/>\n    aos seus olhos, como que um mist&eacute;rio que se esclarecia ao seu entendimento.<\/p>\n<p>Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de f&aacute;bricas.<br \/>\n    A m&aacute;quina n&atilde;o produz almas, e s&oacute; a alma impressiona e<br \/>\n    acorda instintos.<\/p>\n<p>Em p&eacute;, com o violino mal seguro nas m&atilde;os, Ruth concebia agora<br \/>\n    como se podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta<br \/>\n    e bruta, o artista fizesse o &eacute;ter, onde nuvens se balan&ccedil;avam<br \/>\n    e asinhas de fil&oacute; batiam tr&ecirc;mulas.<\/p>\n<p>Aquela surpresa dava-lhe a id&eacute;ia de ter posto os p&eacute;s em pa&iacute;s<br \/>\n    novo, um pa&iacute;s de sonhos.<\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o pensava em se arredar dali. Cada vez mais curiosa, punha<br \/>\n    a vista s&ocirc;frega nas m&atilde;os do pintor, t&atilde;o grandes e t&atilde;o<br \/>\n    leves, e nas tintas da paleta, que se desmanchavam noutras, tintas mais suaves<br \/>\n    ou em flechas de sol.<\/p>\n<p>T&atilde;o embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    entrou e lhe bateu no ombro, ela respondeu, sem desviar a vista da parede:<\/p>\n<p>&#8211; Estou gostando de ver&#8230;<\/p>\n<p>&quot;A quem diabo teria sa&iacute;do esta pequena?!&quot; pensou consigo<br \/>\n    o m&eacute;dico, ao mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho<br \/>\n    do pintor. E n&atilde;o lhe agradou completamente o trabalho; torceu os l&aacute;bios,<br \/>\n    descontente.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significa&ccedil;&atilde;o daquele gesto,<br \/>\n    ele respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tive talvez raz&atilde;o; a minha exig&ecirc;ncia torna-me incontent&aacute;vel<br \/>\n    e injusto. Eu j&aacute; sabia que o artista n&atilde;o &eacute; genial; portanto,<br \/>\n    n&atilde;o podia esperar dele uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos<br \/>\n    tenha uma perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? N&atilde;o<br \/>\n    digamos isso aos outros, que os outros nada ver&atilde;o. A cor &eacute; bonita,<br \/>\n    o efeito &eacute; gracioso, basta. J&aacute; &eacute; uma felicidade haver<br \/>\n    alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu, como n&atilde;o entendo acho bonito.<\/p>\n<p>Estou at&eacute; com vontade de pedir a mam&atilde;e que me mande ensinar<br \/>\n    pintura&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte s&oacute;,<br \/>\n    &eacute; raro haver quem a sirva dignamente. Estude s&oacute; m&uacute;sica,<br \/>\n    s&oacute; m&uacute;sica e n&atilde;o pense em mais nada&#8230;<\/p>\n<p>Passados dias dava-se por finda a decora&ccedil;&atilde;o da sala e Ruth<br \/>\n    voltou a n&atilde;o encontrar jeito de estar dentro de casa, no meio da balb&uacute;rdia<br \/>\n    dos trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balan&ccedil;o, ou no<br \/>\n    caramanch&atilde;o das rosas amarelas, fazendo do parque o seu sal&atilde;o<br \/>\n    de m&uacute;sica e de leitura. Ensinava as g&ecirc;meas a trepar &agrave;s<br \/>\n    arvores ou coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, &agrave; guisa<br \/>\n    de asas.<\/p>\n<p>Um dia, por&eacute;m, a confus&atilde;o chegou ao pr&oacute;prio parque.<br \/>\n    Abriam um novo lago e alteravam o desenho dos relvados para os efeitos da<br \/>\n    ilumina&ccedil;&atilde;o. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre<br \/>\n    os canteiros, falando alto, e gesticulando afanosos e zangados.<\/p>\n<p>N&atilde;o tendo j&aacute; para onde fugir, Ruth pediu &agrave; m&atilde;e<br \/>\n    que a mandasse com a Noca para o Castelo. Passaria dois dias com as tias velhas.<br \/>\n    A tia Joana prometera-lhe hist&oacute;rias de santos e lev&aacute;-la &agrave;s<br \/>\n    igrejas e ao Observat&oacute;rio para ver a lua e as estrelas.<\/p>\n<p>Era a ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, d. Itelvina contava, no orat&oacute;rio,<br \/>\n    os n&iacute;queis arrecadados pela irm&atilde;, em esmolas para uma missa<br \/>\n    rezada.<\/p>\n<p>D. Joana tinha ido &agrave; novena do Ros&aacute;rio, nos Capuchinhos, e<br \/>\n    entoava a essa hora o &#8211; ora pro nobis, em coro com o povo e os frades.<\/p>\n<p>Ruth sentiu frio naquele casar&atilde;o do Castelo, de largas salas ensebadas,<br \/>\n    sem cortinas, quase sem mob&iacute;lia, com pap&eacute;is sujos nas paredes<br \/>\n    desguarnecidas; mas a id&eacute;ia de ir ao observat&oacute;rio tentava-a,<br \/>\n    e valia todos os sacrif&iacute;cios. Ficaria.<\/p>\n<p>Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa em<br \/>\n    frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu, perguntando pela<br \/>\n    sua encomenda.<\/p>\n<p>&#8211; Que encomenda, gente?<\/p>\n<p>&#8211; A senhora j&aacute; se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o ars&ecirc;nico<br \/>\n    que eu pedi&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; U&eacute;! voc&ecirc; est&aacute; maluca! eu j&aacute; nem me lembrava<br \/>\n    disso! Tome o seu dinheiro; n&atilde;o foi quinhentos r&eacute;is que voc&ecirc;<br \/>\n    me deu?<\/p>\n<p>&#8211; Foi; mas eu n&atilde;o quero dinheiro, quero a outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pra qu&ecirc;? ora veja s&oacute;! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?<\/p>\n<p>A negrinha p&ocirc;s as m&atilde;os, em um gesto s&uacute;plice.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga nada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; &eacute; tola!&#8230;<\/p>\n<p>A negrinha suspirou baixo e murmurou uma frase que n&atilde;o pode ser ouvida,<br \/>\n    porque D. Itelvina aparecera, de olhar desconfiado e narinas dilatadas farejando<br \/>\n    mist&eacute;rios.<\/p>\n<p>Da&iacute; a instantes, no canap&eacute; da sala, Ruth respondia ao longo<br \/>\n    question&aacute;rio da tia que lhe apalpava a l&atilde; do vestido, achando<br \/>\n    desperd&iacute;cio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um<br \/>\n    anel de p&eacute;rolas, e a consist&ecirc;ncia das fitas de cetim do seu chap&eacute;u<br \/>\n    de palha. Das presentes passou &agrave;s coisas ausentes, em perguntas miudinhas<br \/>\n    e torpes:<\/p>\n<p>&#8211; O dr. Gerv&aacute;sio ainda vai l&aacute; todos os dias ?<\/p>\n<p>&#8211; Vai, sim, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Hum&#8230; Diga-me uma coisa: M&aacute;rio continua a fazer d&iacute;vidas<br \/>\n    ?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Camila sai sozinha ?<\/p>\n<p>&#8211; &Agrave;s vezes sai.<\/p>\n<p>&#8211; Porque &eacute; que voc&ecirc; n&atilde;o vai sempre com ela, hein?<\/p>\n<p>&#8211; Eu tenho que estudar.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o fica bem uma senhora sair s&oacute;&#8230;<\/p>\n<p>Ruth contemplou-a, estupefata.<\/p>\n<p>&#8211; As m&aacute;s l&iacute;nguas falam. O pal&aacute;cio de Petr&oacute;polis<br \/>\n    est&aacute; pronto?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; quase pronto. N&oacute;s vamos para l&aacute; este ano.<\/p>\n<p>&#8211; Em quantos contos est&aacute; ?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei, n&atilde;o, senhora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O dr. Gerv&aacute;sio vai tamb&eacute;m ?<\/p>\n<p>&#8211; Acho que n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Hum&#8230; Quando se casa a Nina? ainda n&atilde;o haver&aacute; por l&aacute;<br \/>\n    algu&eacute;m de olho ?<\/p>\n<p>&#8211; Pra Nina ? n&atilde;o, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Seu pai n&atilde;o h&aacute; de gastar pouco, agora, para este baile, hein!<br \/>\n    Diz que est&atilde;o reformando tudo! &eacute; verdade?<\/p>\n<p>Inocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do m&eacute;dico na escolha dos aparatos, as cores do toldo de cetim do terra&ccedil;o,<br \/>\n    as pinturas da sala de m&uacute;sica, os lavores dos jarr&otilde;es para o<br \/>\n    vest&iacute;bulo&#8230;<\/p>\n<p>D. Itelvina ouvia, sem interromper a narra&ccedil;&atilde;o de Ruth, que<br \/>\n    ela animava a prosseguir com um gesto de interesse &aacute;vido. No fim, concluiu<br \/>\n    com um sorriso torto:<\/p>\n<p>&#8211; T&ecirc;m dinheiro, fazem muito bem em gastar.<\/p>\n<p>Nisto bateram &agrave; porta. Sancha moveu-se l&aacute; dentro e veio pelo<br \/>\n    corredor. Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova pr&oacute;xima e acendeu<br \/>\n    a lamparina do Senhor Santo Cristo, que assoprava sempre que a irm&atilde;<br \/>\n    voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a viu<br \/>\n    mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quase que por encanto,<br \/>\n    uma meia d&uacute;zia de moedas no bolso do avental. A velha julgou que a<br \/>\n    sobrinha nada tivesse percebido, t&atilde;o r&aacute;pido e adunco fora o<br \/>\n    seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que embebida<br \/>\n    na prosa ela se esquecera de a reacender&#8230;<\/p>\n<p>Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca rodara<br \/>\n    sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ela!<\/p>\n<p>D. Joana entrou, gemendo de cansa&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, maninha, quem est&aacute; aqui! disse-lhe a irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; Que milagre! exclamou D. Joana, abrindo os bra&ccedil;os para Ruth, que<br \/>\n    se precipitou neles, morta por se ver livre da secura &#038;aacuteaacute;spera da outra<br \/>\n    tia.<\/p>\n<p>&#8211; Quem foi que trouxe voc&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Noca&#8230; ela vem-me buscar depois de amanh&atilde; bem cedo&#8230; mam&atilde;e<br \/>\n    n&atilde;o queria dar licen&ccedil;a, tinha medo que eu incomodasse, mas tanto<br \/>\n    pedi, tanto pedi&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esta casa &eacute; muito triste. A alegria passou por aqui h&aacute; mais<br \/>\n    de trinta anos, mas n&atilde;o deixou sinal. Sancha! tira as minhas botinas.<br \/>\n    &Eacute; muito triste esta casa&#8230; filha&#8230; Estamos t&atilde;o velhas&#8230;<\/p>\n<p>Sancha ajoelhou-se. D. Joana estendeu dois p&eacute;s inchados, cal&ccedil;ados<br \/>\n    a duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ela gemeu: primeiro<br \/>\n    de dor, depois de al&iacute;vio.<\/p>\n<p>&#8211; Vai buscar as chinelas&#8230;Pois voc&ecirc; fez muito bem em vir&#8230;Amanh&atilde;<br \/>\n    poder&aacute; ir comigo &agrave; missa, &agrave; tarde &agrave; novena e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E &agrave; noite ao Observat&oacute;rio. Foi por causa do Observat&oacute;rio<br \/>\n    que eu vim. Dr. Gerv&aacute;sio escreveu ao Diretor, apresentando-nos&#8230; Estou<br \/>\n    com uma curiosidade!<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o temos mas, nem pera mas, mas, titia; fa&ccedil;a a vontade &agrave;<br \/>\n    sua sobrinha, sim?<\/p>\n<p>Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampi&atilde;o de querosene<br \/>\n    com um f&eacute;tido horr&iacute;vel. D. Itelvina saiu da alcova, atravessou<br \/>\n    a sala, e sumiu-se na goela negra do corredor.<\/p>\n<p>Ruth sentia-se mal naquele canap&eacute; alto, de assento afundado. Foi &agrave;<br \/>\n    janela, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe hist&oacute;rias<br \/>\n    de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joana n&atilde;o se fez de rogada.<\/p>\n<p>As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeiti&ccedil;avam<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o, arrepiavam agora Ruth, naquela meia sombra, num<br \/>\n    ambiente t&atilde;o diverso do que lhe era habitual.<\/p>\n<p>Os cil&iacute;cios, as caldeiras fumegantes, as fr&aacute;guas acesas do<br \/>\n    inferno, a nudez das virgens m&aacute;rtires, as cruzadas para a Terra Santa.<br \/>\n    lan&ccedil;as flechando o ar abrasado, ex&eacute;rcitos comidos pela peste<br \/>\n    ou esmagando judeus, os grandes votos solenes, os ritos cru&eacute;is, as<br \/>\n    persegui&ccedil;&otilde;es injustas, os gritos de miseric&oacute;rdia, todas<br \/>\n    as agonias e todos os &ecirc;xtases, que a velha relatava, para a vit&oacute;ria<br \/>\n    da F&eacute; crist&atilde;, assombravam Ruth, que toda se cosia &agrave; tia,<br \/>\n    olhando desconfiada para a vastid&atilde;o sombria do aposento mudo.<\/p>\n<p>Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas indecisas<br \/>\n    de animais fant&aacute;sticos; seriam talvez os porcos babosos das lendas<br \/>\n    sat&acirc;nicas, os drag&otilde;es fram&iacute;feros, ou os magros c&atilde;es<br \/>\n    de focinho erguido a uivar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tia Joana, tia Joana<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isso, minha filha?<\/p>\n<p>&#8211; Eu estou com medo&#8230; conte outra hist&oacute;ria mais suave&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se espante, menina! S&atilde;o as grandes dores, o sangue e<br \/>\n    a morte que ensinam a F&eacute;. Quem n&atilde;o sofre n&atilde;o compreende<br \/>\n    o c&eacute;u, Ruth! Ainda ontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, o c&eacute;u assim &eacute; feio, tia Joana&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cale a boca!&#8230; espere&#8230; quero ver se me lembro de uma lenda muito antiga<br \/>\n    que j&aacute; tem corrido mundo, mas que &eacute; bem verdadeira e bem simples.<\/p>\n<p>&#8211; Em que n&atilde;o haja nem fogueiras nem sangue, sim?<\/p>\n<p>&#8211; Nem sangue, nem fogueiras: &#8211; Foi um dia&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"14\" id=\"14\">XIV<\/a><\/h4>\n<p>Foi um dia uma freira p&aacute;lida, muito mo&ccedil;a, muito linda, temente<br \/>\n    a Deus e devotada &agrave; Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho,<br \/>\n    de r&iacute;gidas penit&ecirc;ncias, isolado em cima de um rochedo.<\/p>\n<p>Da frecha gradeada da sua cela, a freira s&oacute; via: em baixo, a pedraria<br \/>\n    negra, e al&eacute;m charnecas brancacentas a perder de vista.<\/p>\n<p>Uma tristeza.<\/p>\n<p>No claustro, para onde deitava a sua cela, mesmo no &acirc;ngulo perto da<br \/>\n    portaria, havia uma imagem de m&aacute;rmore representando Nossa Senhora,<br \/>\n    t&atilde;o doce, t&atilde;o humana, que mais parecia criatura viva. Sempre<br \/>\n    que soror P&aacute;lida deslizava pelo claustro, fazia &agrave; Virgem uma<br \/>\n    rever&ecirc;ncia profunda e murmurava:<\/p>\n<p>&#8211; Ave!<\/p>\n<p>E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.<\/p>\n<p>Uma noite, soror P&aacute;lida, depois de reverenciar o Bendito, desabotoava<br \/>\n    o seu h&aacute;bito e preparava-se para dormir um soninho inocente, quando<br \/>\n    lhe pareceu ouvir o seu nome na janelinha. &quot;H&aacute; de ser o vento&#8230;&quot;<br \/>\n    pensou ela, tirando a cruz e o v&eacute;u.<\/p>\n<p>N&atilde;o era o vento; a mesma voz, mais distinta agora, repetiu-lhe o nome.<br \/>\n    Soror P&aacute;lida quis resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera<br \/>\n    t&atilde;o doce, nem t&atilde;o suspirado; assim, levada por curiosidade,<br \/>\n    ou n&atilde;o sei porqu&ecirc;, foi-se aproximando, foi-se aproximando&#8230;<\/p>\n<p>T&atilde;o depressa chegou, Jesus! que havia de ver?<\/p>\n<p>Suspenso nos var&otilde;es de ferro, o capel&atilde;o do convento olhava<br \/>\n    para ela, com dois olhos que nem duas estrelas.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor capel&atilde;o, por que estais a&iacute;? perguntou ela aflita,<br \/>\n    pondo as m&atilde;os tr&ecirc;mulas.<\/p>\n<p>&#8211; Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe ele.<\/p>\n<p>E logo de mil modos come&ccedil;ou a tent&aacute;-la.<\/p>\n<p>Tais coisas disse, tais coisas fez, que a pobre o escutava embevecida. Chamou-a<br \/>\n    linda, meiga, ang&eacute;lica, e por fim (v&ecirc; a perf&iacute;dia!) pediu-lhe<br \/>\n    que o beijasse, que o beijasse na boca ou que ele se despenharia no abismo&#8230;<\/p>\n<p>A freira debatia-se: que n&atilde;o!&#8230;mas, para n&atilde;o o ver morrer<br \/>\n    despeda&ccedil;ado no rochedo, v&aacute; l&aacute;, condescendeu em beij&aacute;-lo.<br \/>\n    Louca! que fizeste? foi a tua perdi&ccedil;&atilde;o! Ele sumiu-se e ela ficou<br \/>\n    de joelhos, muito tr&ecirc;mula, muito alvoro&ccedil;ada.<\/p>\n<p>Em v&atilde;o coseu cil&iacute;cios &agrave;s suas carnes, em v&atilde;o<br \/>\n    se rojou pedindo a Deus que lhe apagasse da mem&oacute;ria aquele pecado doce<br \/>\n    e horrendo; em v&atilde;o! O beijo ali estava sempre nos seus l&aacute;bios,<br \/>\n    sentia-o quente, perfumado, embriagador.<\/p>\n<p>Soror P&aacute;lida j&aacute; n&atilde;o era a mesma; perdia o sentido das<br \/>\n    rezas, tinha del&iacute;quios, abstra&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O mo&ccedil;o capel&atilde;o voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a<br \/>\n    a que fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares cheirosos<br \/>\n    e &aacute;guas cristalinas.<\/p>\n<p>Ela recuava, com temor de tamanho crime; mas ele estendia-lhe os l&aacute;bios<br \/>\n    e convencia-a de que o amor vale mais que o c&eacute;u, mais que a perp&eacute;tua<br \/>\n    bem-aventuran&ccedil;a, mais que tudo!<\/p>\n<p>E tornava a suplicar-lhe que fugisse: ele a esperaria junto &agrave; portaria,<br \/>\n    com os cavalos prontos, mais r&aacute;pidos que o vento.<\/p>\n<p>Sabe-se como essas coisas s&atilde;o: mau &eacute; dar-se ouvidos a primeira<br \/>\n    vez. A freira j&aacute; n&atilde;o pensava sen&atilde;o em varar aquelas charnecas<br \/>\n    longu&iacute;ssimas ao galope de um cavalo ardego, sentindo palpitar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu cavaleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, sutil e<br \/>\n    tr&ecirc;mula, deslizava para a portaria com aten&ccedil;&atilde;o de fugir,<br \/>\n    esbarrava com a Virgem, fazia-lhe a sua rever&ecirc;ncia profunda, murmurando<br \/>\n    contritamente: &#8211; Ave! e passava; mas, oh! surpresa! a grande porta do convento<br \/>\n    desaparecera, e na portaria, como em todo o claustro, s&oacute; havia grossas<br \/>\n    paredes impenetr&aacute;veis.<\/p>\n<p>Soror P&aacute;lida voltava at&ocirc;nita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho<br \/>\n    azul.<\/p>\n<p>Por serem sempre as flores presentes de namorados, o mo&ccedil;o capel&atilde;o<br \/>\n    levava todas as noites rosas &agrave; sua eleita. No outro dia toda a comunidade<br \/>\n    entoava:<\/p>\n<p>&#8211; Milagre! milagre! a Irm&atilde; da Virgem recebe rosas do c&eacute;u. Os<br \/>\n    anjos trazem-lhe flores do Para&iacute;so, como a Santa Dorot&eacute;ia!<\/p>\n<p>Assim acreditavam, visto que s&oacute; cardos e espinheiros bravos nasciam<br \/>\n    em redor, por aquelas penedias.<\/p>\n<p>E entoavam hinos.<\/p>\n<p>Cansado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o mo&ccedil;o capel&atilde;o<br \/>\n    aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto voltado<br \/>\n    para a outra banda.<\/p>\n<p>Assim fez a louquinha, mas de cora&ccedil;&atilde;o apertado em muita agonia.<br \/>\n    Dessa vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e<br \/>\n    trancas, (e que tais eram elas!) se abriam de per si. Foi por isso que a freira<br \/>\n    fugiu para a noite negra, com seu h&aacute;bito branco&#8230;<\/p>\n<p>Depois&#8230;<\/p>\n<p>S&oacute; no fim de um ano, quando ele se cansara de a amar, foi que a m&iacute;sera<br \/>\n    percebeu que o seu cavaleiro n&atilde;o era o capel&atilde;o &#8211; mas o diabo<br \/>\n    em pessoa! Arrepiada, transida de medo, fugiu por montes e vales, de cruz<br \/>\n    al&ccedil;ada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se<br \/>\n    com &aacute;rduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, l&eacute;guas e<br \/>\n    l&eacute;guas, por mataria espessa, mal se sustentando nas pernas fracas e<br \/>\n    nos p&eacute;s ensang&uuml;entados, at&eacute; que &agrave; luz frouxa de<br \/>\n    uma madrugada viu um dia os penhascos abruptos do convento, e caiu de joelhos,<br \/>\n    persignando-se.<\/p>\n<p>Finda a ora&ccedil;&atilde;o, ergueu-se. Passava ent&atilde;o pela estrada<br \/>\n    um velho muito velho, de bord&atilde;o e sacola, e ela perguntou-lhe se n&atilde;o<br \/>\n    ouvira falar em uma religiosa fugida do convento um ano antes?<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma freira fugiu nunca daquele convento, respondeu ele; s&atilde;o<br \/>\n    todas umas santinhas, louvado seja o Senhor!<\/p>\n<p>&#8211; Amen! Entretanto&#8230; ouvi dizer que uma das irm&atilde;s, que recebia rosas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A do milagre!? ah! essa! &Eacute; a mais pura&#8230; Ide v&ecirc;-la, Ide v&ecirc;-la<br \/>\n    se sofreis. Essa at&eacute; d&aacute; vista aos cegos e faz andar os paral&iacute;ticos.<\/p>\n<p>Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer, com<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o aos pulos, bateu &agrave; porta do convento.<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute;? perguntou de dentro uma voz dulc&iacute;ssima.<\/p>\n<p>&#8211; Uma pecadora arrependida, para a penit&ecirc;ncia &#8211; sussurrou soror P&aacute;lida,<br \/>\n    lavada em pranto. E confessou logo ali os seus desatinos&#8230;<\/p>\n<p>A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos enferrujados<br \/>\n    estavam de veludo,- e a rodeira mostrou-se com um sorriso &agrave; freira<br \/>\n    apoquentada.<\/p>\n<p>Oh! aquele sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os joelhos,<br \/>\n    na profunda rever&ecirc;ncia antiga, murmurou com imensa compun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e infinita do&ccedil;ura:<\/p>\n<p>A Irm&atilde; rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara<br \/>\n    a forma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam: badalando<br \/>\n    os sinos, varrendo os claustros, acendendo as velas dos altares e arrumando<br \/>\n    os gavet&otilde;es da sacristia.<\/p>\n<p>&#8211; Toma o teu h&aacute;bito, disse-lhe Nossa Senhora, e vai para a tua cela&#8230;<br \/>\n    Descansa, que ningu&eacute;m soube do teu opr&oacute;bio, ningu&eacute;m!..,<\/p>\n<p>Soror P&aacute;lida prostou-se e uniu humildemente a face &agrave; lage fria;<br \/>\n    depois, erguendo o rosto inundado de l&aacute;grimas, perguntou solu&ccedil;ando:<\/p>\n<p>&#8211; E V&oacute;s, M&atilde;e Sant&iacute;ssima?!<\/p>\n<p>&#8211; Eu? Perd&ocirc;o, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, j&aacute; dentro do<br \/>\n    seu nicho azul&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o lampi&atilde;o<br \/>\n    fumarento. D. Itelvina s&oacute; usava mate, que sempre era de maior economia.<br \/>\n    Sentaram-se. Ruth mal engoliu a sua x&iacute;cara. Pensava em Soror P&aacute;lida.<\/p>\n<p>Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joana. Lembrando-se das<br \/>\n    pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito branco coberto<br \/>\n    de fil&oacute;s delicados. A tia mexia-se, benzia todo o quarto, rezava a<br \/>\n    meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso, e com a vig&iacute;lia<br \/>\n    da velhice perturbava o sono da menina. Foi no meio do sil&ecirc;ncio da casa,<br \/>\n    que irromperam de repente, l&aacute; do fundo, uns gritos lancinantes.<\/p>\n<p>Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isto, tia Joana?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; nada&#8230; h&aacute; de ser a maninha batendo na Sancha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; nada, dorme minha filha!<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230;tia Joana, v&aacute; l&aacute; dentro&#8230;pe&ccedil;a a titia pra n&atilde;o<br \/>\n    dar na coitada!<\/p>\n<p>&#8211; Eu?! n&atilde;o&#8230; a negrinha merece&#8230; maninha n&atilde;o gosta de interven&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    Sancha faz espalhafato &agrave;-toa.<\/p>\n<p>&#8211; Vou eu.<\/p>\n<p>Ruth, em fraldas de camisa, de pernas nuas, saltou para o ch&atilde;o, com<br \/>\n    um movimento de c&oacute;lera; e saiu para a sala de jantar; j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    havia luz; guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para<br \/>\n    a cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de marmeleiro.<\/p>\n<p>A negrinha mal se livrava com os bra&ccedil;os tapando o rosto e abaixando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia<br \/>\n    descaindo sobre a carapinha da outra.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n&atilde;o se faz, tia Itelvina! isso n&atilde;o se faz! gritou ela<br \/>\n    com &iacute;mpeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o tem nada com o que eu fa&ccedil;o. Este diabo botou<br \/>\n    de prop&oacute;sito gordura na &aacute;gua do meu banho&#8230; eu sei porque dou.<br \/>\n    Ela merece. Ruth, v&aacute; dormir.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora n&atilde;o<br \/>\n    tem cora&ccedil;&atilde;o?!<\/p>\n<p>&#8211; Ora v&aacute;-se ninar! Sancha praqui!<\/p>\n<p>A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fog&atilde;o, e exagerava<br \/>\n    as dores, torcendo-se toda, amparada pela compaix&atilde;o da Ruth.<\/p>\n<p>D. Itelvina avan&ccedil;ou os dedos magros, e, agarrando-a por um bra&ccedil;o,<br \/>\n    puxou-a para si; a sobrinha ent&atilde;o abra&ccedil;ou-se &agrave; negrinha,<br \/>\n    unindo a sua carne alva, quase nua, ao corpo preto e abjecto da Sancha.<\/p>\n<p>&#8211; Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ela, em um desafio nervoso,<br \/>\n    sacudindo a cabeleira sobre os ombros estreitos.<\/p>\n<p>D. Itelvina atirou fora a vara e disse para a negra:<\/p>\n<p>&#8211; Vai-te deitar, diabo! foi o que te valeu&#8230;Mas n&oacute;s havemos de ajustar<br \/>\n    contas&#8230;<\/p>\n<p>Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e<br \/>\n    Ruth, arrepiada, tr&ecirc;mula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joana.<\/p>\n<p>A velha amarrava um len&ccedil;o na cabe&ccedil;a. A sobrinha interrogou-a:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; sempre assim?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; uma vez ou outra.<\/p>\n<p>&#8211; Mas como podem viver neste inferno?!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, voc&ecirc; n&atilde;o sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada<br \/>\n    que ela lhe deita vidro mo&iacute;do na &aacute;gua, e na panela&#8230; &eacute;<br \/>\n    uma coisa ruim. E ladra, ih! Voc&ecirc; sabe o meu g&ecirc;nio, n&atilde;o<br \/>\n    sei guardar chaves&#8230; Pois &eacute; raro o dia em que a Sancha n&atilde;o<br \/>\n    me fique com alguns tost&otilde;es das missas&#8230; Maninha corrige-a para bem<br \/>\n    dela. &Eacute; um sacrif&iacute;cio&#8230; Eu n&atilde;o teria paci&ecirc;ncia<br \/>\n    para a aturar.<\/p>\n<p>&#8211; A Sancha vai amanh&atilde; comigo para casa.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; doida, menina! e quem nos h&aacute; de fazer o servi&ccedil;o?<\/p>\n<p>&#8211; Aluguem uma mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Ruth&#8230; voc&ecirc; &eacute; muito crian&ccedil;a&#8230; n&atilde;o pense na<br \/>\n    Sancha. Ela faz tudo quanto pode para excitar maninha&#8230; Eu se sigo, &eacute;<br \/>\n    porque sei. Ainda ontem queimou-lhe de prop&oacute;sito os chinelos novos,<br \/>\n    com o pretexto de os ir secar ao fogo. A minha roupa, lava ela; a da maninha<br \/>\n    deixa-a apodrecer na beirada do tanque. &Eacute; uma coisa ruim!&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    pense mais nela. Durma&#8230;<\/p>\n<p>Mas Ruth n&atilde;o podia dormir; e quando de madrugada a tia Joana se levantou<br \/>\n    para ir &agrave; missa das Almas, ela saltou da cama, para ir tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Antes de sa&iacute;rem, foram &agrave; cozinha procurar caf&eacute;, e l&aacute;<br \/>\n    encontraram Sancha a acender o fogo, assoprando com for&ccedil;a. Foi ent&atilde;o<br \/>\n    que Ruth se chegou para ela e, pousando-lhe a m&atilde;o no ombro, disse alto,<br \/>\n    sem medo que a tia Joana a ouvisse:<\/p>\n<p>&#8211; Sancha, porque &eacute; que voc&ecirc; n&atilde;o foge?<\/p>\n<p>A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Nh&aacute;?!<\/p>\n<p>&#8211; Fuja!<\/p>\n<p>A tia Joana, entretida a partir o p&atilde;o da v&eacute;spera, n&atilde;o<br \/>\n    percebera nada. Uma esperan&ccedil;a vaga tremeluziu no rosto est&uacute;pido<br \/>\n    da preta.<\/p>\n<p>&#8211; E depois? perguntou ela, assustada.<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; l&aacute; para minha casa; eu falarei a mam&atilde;e.<\/p>\n<p>&#8211; De que serve! me mandar&atilde;o outra vez para c&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Titia pode alugar outra criada&#8230; papai falar&aacute; com ela&#8230;<\/p>\n<p>A tia Joana acabara de partir o p&atilde;o e chamava a sobrinha para o caf&eacute;<br \/>\n    da v&eacute;spera, requentado.<\/p>\n<p>Quando sa&iacute;ram era j&aacute; dia, mas as n&eacute;voas da manh&atilde;<br \/>\n    pousavam ainda nos telhados, e nada se via da cidade, em baixo.<\/p>\n<p>Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pelo espesso<br \/>\n    e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros vadios. Tocou a<br \/>\n    matinas e a tia Joana benzeu-se. Ruth, pouco afeita a madrugadas, achava um<br \/>\n    prazer divino em ir assim rompendo as n&eacute;voas com a pele refrescada<br \/>\n    pela umidade da atmosfera e os olhos cheios daquela luz branca, suave, que<br \/>\n    subia e se ia estendendo pelo c&eacute;u todo.<\/p>\n<p>Na igreja, a tia fez rever&ecirc;ncia a todos os altares, com uma ora&ccedil;&atilde;ozinha<br \/>\n    na ponta da l&iacute;ngua para cada um; Ruth seguiu at&eacute; o altar-mor<br \/>\n    e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma s&uacute;plica,<br \/>\n    um apelo para a miseric&oacute;rdia de Deus. Entre o altar, onde um ramo de<br \/>\n    flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores, foi-se esbo&ccedil;ando<br \/>\n    pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De m&atilde;os postas,<br \/>\n    Ruth pediu &agrave; Virgem uma b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o para a negra, um<br \/>\n    pouco de piedade, um ref&uacute;gio, uma consola&ccedil;&atilde;o. At&eacute;<br \/>\n    ali que sabia das mis&eacute;rias do mundo? nada. Aquela noite do Castelo,<br \/>\n    t&atilde;o simples, t&atilde;o mon&oacute;tona, fora uma revela&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Era bem certo que a l&aacute;grima existia, que irrompiam solu&ccedil;os de<br \/>\n    peitos oprimidos, que para algu&eacute;m os dias n&atilde;o tinham cor nem<br \/>\n    a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins,<br \/>\n    com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda,<br \/>\n    a saudade do c&eacute;u, como dizia o dr. Gerv&aacute;sio, e que n&atilde;o<br \/>\n    era mais que a doida aspira&ccedil;&atilde;o da artista incipiente, que germinava<br \/>\n    no seu peito fraco.<\/p>\n<p>E aquela mesma m&aacute;goa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se<br \/>\n    &agrave; outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a ponta-p&eacute;s,<br \/>\n    dormindo sem len&ccedil;&oacute;is em uma esteira, comendo em p&eacute;, apressada,<br \/>\n    os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algod&otilde;es rotos,<br \/>\n    curvada para um trabalho sem descanso nem paga!<\/p>\n<p>Por que? Que direito teriam uns a todas as prim&iacute;cias e regalos da<br \/>\n    vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?<\/p>\n<p>Sabia a hist&oacute;ria da Sancha: uma negrinha vinda aos sete anos da ro&ccedil;a<br \/>\n    para a casa das tias, com sentido no p&atilde;o e no ensino. Era dos &uacute;ltimos<br \/>\n    rebent&otilde;es dessa ra&ccedil;a que vai desaparecendo, como um bando de<br \/>\n    animais perseguidos.<\/p>\n<p>E tudo dela repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a cor, a forma, o<br \/>\n    cheiro; mas percebera que tamb&eacute;m ali havia uma alma e sofrimento, e<br \/>\n    ent&atilde;o, com l&aacute;grimas nos olhos, perguntava a Deus, ao grande<br \/>\n    Pai misericordioso, porque a criara, a ela, t&atilde;o branca e t&atilde;o<br \/>\n    bonita, e fizera com o mesmo sopro aquela carne de trevas, aquele corpo feio<br \/>\n    da Sancha imunda? Que reparasse aquela injusti&ccedil;a tremenda e alegrasse<br \/>\n    em felicidade perfeita o cora&ccedil;&atilde;o da negra.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, o cora&ccedil;&atilde;o dela deve ser da mesma cor que o meu, cismava<br \/>\n    Ruth, confusa, com os olhos no altar.<\/p>\n<p>Quando acabou a missa, tia Joana quis fazer a sua penit&ecirc;ncia, umas<br \/>\n    coroas de ros&aacute;rio que ela disse a meia voz, de olhos cerrados.<\/p>\n<p>Ao sa&iacute;rem do convento, dois frades retiveram a velha junto &agrave;<br \/>\n    pia de &aacute;gua benta, interessados pela sua sa&uacute;de, cobrindo-a de<br \/>\n    b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os e de boas palavras. Fora, j&aacute; o sol irrompera<br \/>\n    vitorioso, estra&ccedil;alhando os &uacute;ltimos farrapos de neblina.<\/p>\n<p>A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo at&eacute;<br \/>\n    a igreja do Carmo.<\/p>\n<p>Ruth n&atilde;o respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de igreja em<br \/>\n    igreja do que voltar para o triste casar&atilde;o da tia Itelvina.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; conhece a igreja do Carmo?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhora. Ou&ccedil;o sempre missa na capela do col&eacute;gio.<br \/>\n    N&atilde;o gosto das igrejas grandes.<\/p>\n<p>&#8211; Por que?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!<\/p>\n<p>&#8211; Tia Joana, h&aacute; muita coisa que eu sinto e que n&atilde;o sei explicar.<br \/>\n    A senhora n&atilde;o acontece o mesmo?<\/p>\n<p>&#8211; A mim? n&atilde;o; nem a mim nem a ningu&eacute;m. Quando a gente diz que<br \/>\n    gosta ou n&atilde;o gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora reza da mesma maneira em uma igreja grande, sombria e fria, que<br \/>\n    em uma igrejinha clara e enfeitada de flores?<\/p>\n<p>&#8211; Certamente. Deus tanto est&aacute; nas grandes como nas pequenas igrejas.<br \/>\n    Ele est&aacute; em toda a parte.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se Deus est&aacute; em toda a parte, porque abandona certas pessoas?<\/p>\n<p>D. Joana estacou.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga heresias, menina! Deus n&atilde;o desampara ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8211; E a Sancha?<\/p>\n<p>&#8211; Hein?<\/p>\n<p>&#8211; A Sancha.<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; vem voc&ecirc; com a negrinha!<\/p>\n<p>&#8211; Negra ou branca, &eacute; criatura.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o digo que n&atilde;o. Mas que falta &agrave; Sancha?<\/p>\n<p>&#8211; Oh, tia Joana! pergunte antes o que lhe sobra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; &eacute; muito impression&aacute;vel. Creia que a pequena n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; infeliz. Que seria dela, se n&atilde;o estivesse l&aacute; em casa&#8230;<br \/>\n    Uma desgra&ccedil;ada, dessas da rua. Talvez que bebesse, ou que j&aacute;<br \/>\n    estivesse com um filho nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8211; Estar com um filho nos bra&ccedil;os! mas isso seria uma fortuna, tia Joana.<br \/>\n    Tomara eu.<\/p>\n<p>Menina, que &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; dizendo!<\/p>\n<p>&#8211; Gosto tanto de crian&ccedil;as! Olhe, tia Joana, o meu desejo &eacute;<br \/>\n    ter vinte filhos, vinte!<\/p>\n<p>A velha corou.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&ocirc;o essas palavras, porque voc&ecirc; &eacute; inocente; mas n&atilde;o<br \/>\n    torne a repeti-las, ouviu?<\/p>\n<p>Ruth cismava em que constituiria pecado o ter vinte filhos, quando D. Joana<br \/>\n    exclamou, apontando para duas crian&ccedil;as, carregadas uma com uma harpa,<br \/>\n    outra com uma rabeca:<\/p>\n<p>&#8211; Olha, Ruth; aquelas, sim, &eacute; que s&atilde;o infelizes: andam ao sol<br \/>\n    e &agrave; chuva, e se n&atilde;o levam dinheiro para casa, ainda apanham<br \/>\n    por cima.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o as compare &agrave; outra, tia Joana. Eu preferiria andar sempre<br \/>\n    ao ar livre, apanhando s&oacute;is e chuvas, tocando no meu violino, dormindo<br \/>\n    em qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao menos<br \/>\n    estes t&ecirc;m a m&uacute;sica.<\/p>\n<p>D. Joana riu-se.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade; quando voc&ecirc; toca esquece tudo.<\/p>\n<p>Chegaram &agrave; igreja; a missa tinha come&ccedil;ado. Ruth deixou-se ficar<br \/>\n    sentada no banco, sem atender aos pux&otilde;es que a velha lhe dava, para<br \/>\n    que se ajoelhasse. Para que, se tinha esgotado o ardor da sua alma na primeira<br \/>\n    missa do convento? Sentia-se agora cansada, apertavam-lhe as saudades da m&atilde;e<br \/>\n    e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu intermin&aacute;vel aquela missa,<br \/>\n    que a velha ouvia toda de joelhos, num &ecirc;xtase!<\/p>\n<p>Findo o sacrif&iacute;cio, D. Joana quis levar esmolas a todas as caixas<br \/>\n    da igreja.<\/p>\n<p>Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia ouvi-la.<br \/>\n    No adro lembrou ainda:<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; que estamos c&aacute; embaixo, vamos a Santa Rita saber not&iacute;cias<br \/>\n    do padre Euclides, que est&aacute; doente.<\/p>\n<p>Ruth objetou:<\/p>\n<p>&#8211; Mas titia, eu estou com fome&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz&atilde;o, filhinha; mas &eacute; um momento s&oacute;. O sacrist&atilde;o<br \/>\n    nos dar&aacute; informa&ccedil;&otilde;es e seguiremos logo para casa.<\/p>\n<p>Em Santa Rita, rezava-se uma missa de s&eacute;timo dia. Gente de preto cobria<br \/>\n    as naves como um bando de urubus. O sacrist&atilde;o procurado ajudava &agrave;<br \/>\n    missa, e n&atilde;o havia ningu&eacute;m na sacristia que soubesse do padre<br \/>\n    Euclides. D. Joana deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da<br \/>\n    igreja, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Rezemos por alma deste morto, filha.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n&oacute;s nem o conhecemos, titia!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o faz mal; foi um pecador, precisamos salv&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Tia Joana ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e p&aacute;lido para o altar.<br \/>\n    Era tal a f&eacute;, a doce piedade que a sua express&atilde;o difundia, que<br \/>\n    Ruth deixou-se cair de joelhos e pediu a Deus perd&atilde;o para a alma daquele<br \/>\n    desconhecido, por quem tantas mulheres choravam&#8230;<\/p>\n<p>Que Deus lhe desse abrigo e eternos gozos!<\/p>\n<p>Enfim, o sacrist&atilde;o afirmou &agrave; senhora do Castelo, como muita<br \/>\n    gente a chamava, que o padre Euclides entrar&aacute; em convalescen&ccedil;a,<br \/>\n    e diria no domingo a sua missa.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tamb&eacute;m uma coisa; disse<br \/>\n    Ruth.<\/p>\n<p>&#8211; Pe&ccedil;a, filhinha.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; que estamos t&atilde;o perto, deixe-me ir tomar a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a papai. A estas horas ele est&aacute; farto de estar no armaz&eacute;m.<\/p>\n<p>D. Joana hesitou:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que n&atilde;o &eacute; t&atilde;o perto assim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que j&aacute; estou h&aacute; tanto tempo fora de casa.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l&aacute;&#8230; Que pieguice!<\/p>\n<p>Tinham andado meia d&uacute;zia de metros quando esbarraram com Francisco<br \/>\n    Teodoro, que vinha re&ccedil;umando sa&uacute;de e alegria pelas faces coradas,<br \/>\n    empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engomados, de que um palet&oacute;<br \/>\n    preto fazia ressaltar a alvura.<\/p>\n<p>Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; ele estendeu<br \/>\n    as m&atilde;os &agrave; filha, com uma exclama&ccedil;&atilde;o de alegria:<\/p>\n<p>&#8211; Senhora fujona, que faz por aqui?!<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; engoli tr&ecirc;s missas, papai; mas ainda estou com fome! &iacute;amos<br \/>\n    agora procur&aacute;-lo ao armaz&eacute;m; eu queria tomar-lhe a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    para depois irmos almo&ccedil;ar&#8230;<\/p>\n<p>Se papai nos levasse a um hotel?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o Inoc&ecirc;ncio<br \/>\n    Braga, que j&aacute; deve estar &agrave; minha espera&#8230; Adeus.<\/p>\n<p>E, abreviando, ele meteu na m&atilde;o da filha uma nota de vinte mil r&eacute;is,<br \/>\n    aconselhando &agrave;s duas que comessem qualquer coisa em um restaurante.<br \/>\n    E despediu-se &agrave; pressa, mal ouvindo os in&uacute;meros recados que<br \/>\n    a Ruth mandava &agrave; m&atilde;e.<\/p>\n<p>D. Joana lembrou-se que estavam perto da casa do dr. Maia, e que mais valeria<br \/>\n    irem l&aacute; papar-lhe o almo&ccedil;o do que entrarem sozinhas em um restaurante.<br \/>\n    Ruth sorriu-se do escr&uacute;pulo da velha, j&aacute; contagiada pelas economias<br \/>\n    s&oacute;rdidas da irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; Tanto me faz, tia Joana; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei contente;<br \/>\n    respondeu-lhe a menina.<\/p>\n<p>Ardiam-lhe os p&eacute;s; uma fadiga enorme amolecia-lhe o corpo; e entregava-se,<br \/>\n    inerte, &agrave; vontade da velha. Por fortuna, a casa do dr. Maia ora perto<br \/>\n    do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de rasgados sal&otilde;es<br \/>\n    arejados, onde velhas mob&iacute;lias bem espanadas atestavam o escr&uacute;pulo<br \/>\n    dos moradores.<\/p>\n<p>O dr. Maia foi o primeiro a receb&ecirc;-las no corredor; muito velhinho,<br \/>\n    arrastando os chinelos bordados pela neta, com a gorra de veludo cobrindo-lhe<br \/>\n    a calva, e um bom sorriso hospitaleiro iluminando-lhe o rostinho claro e murcho,<br \/>\n    onde os olhos azuis se iam velando da neblina da velhice.<\/p>\n<p>D. Joana era &iacute;ntima da casa, recebida sem cerim&ocirc;nia; e como<br \/>\n    a Ruth tivesse ar de menina, ele foi empurrando a ambas para a sala de jantar.<\/p>\n<p>S&oacute; estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois<br \/>\n    do almo&ccedil;o, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras.<br \/>\n    Mas no fundo das ca&ccedil;arolas ainda havia restos de arroz e de ensopado;<br \/>\n    D. Elisa recomendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joana<br \/>\n    e Ruth almo&ccedil;avam, ao som de um discurso do dr. Maia, que ia descrevendo<br \/>\n    com surpreendente entusiasmo o seu invento de um bal&atilde;o dirig&iacute;vel.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o pensava em outra coisa; vivia em perp&eacute;tuo v&ocirc;o,<br \/>\n    entre altas camadas de atmosfera. Desde alguns anos se fixara nesses estudos<br \/>\n    e para eles fazia convergir todos os seus cuidados.<\/p>\n<p>A mulher sorria-se com resigna&ccedil;&atilde;o imposta pelos mil desvarios<br \/>\n    que se acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que ele fora assim, metido<br \/>\n    a empresas opostas &agrave; sua compet&ecirc;ncia. Tinha estudado para m&eacute;dico,<br \/>\n    e abandonara a cl&iacute;nica para defender r&eacute;us desamparados, escrever<br \/>\n    para jornais e desperdi&ccedil;ar for&ccedil;as e tempo na elabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de grandes empreendimentos que n&atilde;o levava a termo. Agora era o bal&atilde;o.<\/p>\n<p>Aquele velho de quase oitenta anos, achacado de asma, perdia horas de sono,<br \/>\n    curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma &agrave; sua id&eacute;ia,<br \/>\n    em uma palpita&ccedil;&atilde;o assombrosa de vida&#8230;<\/p>\n<p>Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    daqueles ideais. D. Elisa dizia &agrave;s vezes que se a alma, no seu &uacute;ltimo<br \/>\n    v&ocirc;o, tomasse forma vis&iacute;vel, veriam, os que assistissem &agrave;<br \/>\n    morte do marido, que a dele lhe voaria do peito como uma borboleta. E toda<br \/>\n    azul! acrescentava ela, com o seu sorriso simp&aacute;tico.<\/p>\n<p>D. Joana mal entendia as descri&ccedil;&otilde;es do dr. Maria, mastigando<br \/>\n    com dificuldade a carne um pouco dura, batida &agrave; pressa. Ruth abria<br \/>\n    os ouvidos e via esgar&ccedil;ar-se a neblina que a idade punha nos olhos<br \/>\n    do m&eacute;dico e ir-lhe aparecendo nas pupilas azuis um branco fulgor de<br \/>\n    primavera. Ela percebia alguma coisa, via j&aacute; o bal&atilde;o cindindo<br \/>\n    as nuvens, leve, leve, airoso, vestido de cores luminosas. Como seria bom<br \/>\n    subir t&atilde;o alto, t&atilde;o alto!<\/p>\n<p>&#8211; O meu bal&atilde;o ser&aacute; de alum&iacute;nio, um metal lev&iacute;ssimo,<br \/>\n    explicava ele, e todo redondo, girar&aacute; em grandes c&iacute;rculos, como<br \/>\n    se dan&ccedil;asse uma valsa; percebem?<\/p>\n<p>D. Joana fez que sim com a cabe&ccedil;a, e espetou uma batata. Ruth murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Assim branco e redondo, ser&aacute; como a lua&#8230; que bonito!<\/p>\n<p>Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposi&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    velho, que se despediu das senhoras e l&aacute; se foi a sala pigarreando<br \/>\n    pelo corredor.<\/p>\n<p>D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas dom&eacute;sticas.<br \/>\n    O marido esgotava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe valia<br \/>\n    era o filho mais velho, o Jos&eacute;&#8230; A neta andava na Escola Normal e<br \/>\n    ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, j&aacute; trintonas,<br \/>\n    coitadas, cosiam para fora&#8230; A&iacute; estava a vida. E &eacute; assim, por<br \/>\n    a&iacute;; toda a gente trabalha; acrescentou ela com um suspiro.<\/p>\n<p>Quando D. Joana e a sobrinha voltaram para o Castelo, quem lhes abriu a porta<br \/>\n    de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota da negrinha<br \/>\n    n&atilde;o ouvira o seu conselho?<\/p>\n<p>Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina aludia com esc&aacute;rnio mal contido<br \/>\n    &agrave;s grandezas do palacete Teodoro, e lamentava-se de s&oacute; poder<br \/>\n    abastecer-se de g&ecirc;neros baratos, espremendo-se em lam&uacute;rias. D.<br \/>\n    Joana benzeu o p&atilde;o, rezou de m&atilde;os postas, e sentou-se &agrave;<br \/>\n    mesa com a sua consci&ecirc;ncia feliz, e uma doce express&atilde;o de conforto.<br \/>\n    Para ela tudo era bom, estava tudo sempre muito bem.<\/p>\n<p>Foi nessa noite que Ruth subiu com ela as escadas do Observat&oacute;rio,<br \/>\n    para ver estrelas; e quando as viu, a sua como&ccedil;&atilde;o foi tamanha<br \/>\n    e. tantas as suas exclama&ccedil;&otilde;es, que a tia observou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; &eacute; muito exagerada, Ruth!<\/p>\n<p>Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No c&eacute;u, de um azul fechado, aqueles<br \/>\n    pontos de ouro tomavam formas e dimens&otilde;es excepcionais. Esta estrela<br \/>\n    era verde, aquela azul, aquela outra violeta, e uma como um bouquet de variados<br \/>\n    matizes e outra p&aacute;lida, e outra afogueada, e outra diamantina, e todas<br \/>\n    imensas e luminos&iacute;ssimas. Oh! as estrelas, que beleza de c&eacute;u!<br \/>\n    Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, l&iacute;mpidas como o clar&atilde;o<br \/>\n    da f&eacute;. Depois, aqueles chuveiros de ouro e prata, aquele fervilhamento<br \/>\n    multicor da via-l&aacute;ctea, raios de fogo dan&ccedil;ando, cruzando-se,<br \/>\n    chispando em fagulhas de uma pirotecnia fant&aacute;stica&#8230; Depois a lua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nossa Senhora, que imensidade!&#8230; Como &eacute; bonito! Oh! tia Joana,<br \/>\n    como &eacute; bonito!<\/p>\n<p>&#8211; Bom, bom; divirta-se&#8230;<\/p>\n<p>Ruth n&atilde;o respondia; com o olho colado &agrave; lente, esmagada pela<br \/>\n    poesia daqueles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem<br \/>\n    sobre ela aromas que a embriagassem.<\/p>\n<p>&#8211; Filhinha, vamo-nos embora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mais um bocadinho s&oacute;&#8230; oh! tia Joana!<\/p>\n<p>Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal alumiada e que tresandava<br \/>\n    a azeite de lamparina, Ruth via na imagina&ccedil;&atilde;o impressionada<br \/>\n    as estrelas, globos enormes de cristal cheios de luz e cheios de flores, fulgurando<br \/>\n    e espargindo aromas. J&aacute; ela adormecia e ainda a tia lhe ouviu em um<br \/>\n    murm&uacute;rio entrecortado:<\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; bonito!<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joana sa&iacute;ra sozinha<br \/>\n    para as devo&ccedil;&otilde;es; nem a pressentira. Tia Itelvina andava aos<br \/>\n    berros pela casa.<\/p>\n<p>Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta:<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute;?<\/p>\n<p>A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina:<\/p>\n<p>&#8211; A Sancha fugiu!<\/p>\n<p>Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth.<\/p>\n<p>Atirou-se para a cama, puxou os len&ccedil;&oacute;is at&eacute; a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Para onde teria ido a pobre, sozinha, sem conhecer ningu&eacute;m? De quem<br \/>\n    seria a culpa se lhe acontecesse uma desgra&ccedil;a?&#8230; De quem, sen&atilde;o<br \/>\n    dela?&#8230; Ora! sempre seria mais feliz l&aacute; fora&#8230;<\/p>\n<p>Quando nesse dia Noca apareceu no Castelo, Ruth lan&ccedil;ou-lhe os bra&ccedil;os<br \/>\n    ao pesco&ccedil;o. Era a sua liberta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irm&atilde;, que<br \/>\n    se levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada, provocando<br \/>\n    a negrinha para o assanhamento da rua.<\/p>\n<p>Foi ao fragor dessas invectivas que Ruth se despediu da velha, deixando-a<br \/>\n    sozinha no seu casar&atilde;o, onde as catingas do rato e do mofo vagavam<br \/>\n    conjuntamente.<\/p>\n<h4><a name=\"15\" id=\"15\">XV<\/a><\/h4>\n<p>Crian&ccedil;as, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, &agrave;s g&ecirc;meas,<br \/>\n    quando viu entrar a Terezinha Braga.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; chegou a boa hora, Terezinha, n&oacute;s vamos tomar caf&eacute;.<br \/>\n    Entre.<\/p>\n<p>&#8211; Estou com muita pressa; quero ver se voc&ecirc;s me emprestam o &uacute;ltimo<br \/>\n    figurino.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n&oacute;s n&atilde;o temos disso. Tia Mila manda fazer tudo fora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Manda a Noca pedir ali &agrave; casa do Dr. Nuno!<\/p>\n<p>Nina vacilava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira tudo<br \/>\n    da janela da copa, interveio com ar perempt&oacute;rio:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Teodoro n&atilde;o quer que se pe&ccedil;a nada &agrave; vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Ele n&atilde;o precisa saber&#8230; insistiu a Terezinha, ainda no jardim.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, xente! Por que &eacute; que a senhora n&atilde;o manda pedir os figurinos<br \/>\n    em seu nome?<\/p>\n<p>&#8211; Porque estamos mal com o Dr. Nuno&#8230; ora, voc&ecirc; bem sabe!<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o. Eu s&oacute; sei que temos ordem de n&atilde;o incomodar<br \/>\n    a vizinhan&ccedil;a. Seu Teodoro n&atilde;o &eacute; para brincadeiras; quando<br \/>\n    p&otilde;e a boca no mundo vai tudo raso! Crian&ccedil;as! olhe s&oacute;<br \/>\n    onde elas est&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Vai busc&aacute;-las, Noca, que o caf&eacute; arrefece. Entra, Terezinha,<br \/>\n    talvez se possa arranjar alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esta D. Nina, n&atilde;o tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata.<\/p>\n<p>Servindo o caf&eacute;, Nina explicou &agrave; Terezinha:<\/p>\n<p>&#8211; A baronesa da Lage est&aacute; l&aacute; dentro; eu vou pedir-lhe que me<br \/>\n    mande logo os seus figurinos.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; para o meu vestido de baile.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; mesmo &eacute; que o vai fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Que rem&eacute;dio! Sabe de que cor s&atilde;o os das Gomes?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Amarelos! A Carlotinha pediu &agrave; modista que lhe decotasse bem o vestido<br \/>\n    atr&aacute;s, para mostrar o sinal preto da esp&aacute;dua&#8230; &eacute; levada,<br \/>\n    a Carlotinha! Ningu&eacute;m dir&aacute;, &agrave;s vezes, que &eacute; uma<br \/>\n    mo&ccedil;a de fam&iacute;lia; parece outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; muito bonita, agora, depois que engordou.<\/p>\n<p>&#8211; Mas cada vez mais maliciosa&#8230;<\/p>\n<p>Nina n&atilde;o respondeu; mandava o copeiro servir o caf&eacute; &agrave;<br \/>\n    sala. Lia e Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as m&atilde;os,<br \/>\n    muito pirracentas.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; viram s&oacute; estas meninas como est&atilde;o! Bem, D. Nina!<br \/>\n    d&ecirc; todos os sonhos a Ruth.<\/p>\n<p>Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em dire&ccedil;&atilde;o a Ruth,<br \/>\n    que se balan&ccedil;ava em silencio numa cadeira, e ent&atilde;o as crian&ccedil;as<br \/>\n    avan&ccedil;aram para a mesa, &agrave; espera do caf&eacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Ora gra&ccedil;as!<\/p>\n<p>Engulido o caf&eacute;, Terezinha declarou:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora!<\/p>\n<p>As g&ecirc;meas fugiram tamb&eacute;m, com as m&atilde;os cheias de sonhos,<br \/>\n    para o jardim; Nina e Ruth ficaram s&oacute;s, muito caladas, ouvindo as moscas<br \/>\n    voejar sobre os restos a&ccedil;ucarados dos pratos.<\/p>\n<p>De repente, Nina:<\/p>\n<p>&#8211; Em que &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; pensando, Ruth?<\/p>\n<p>&#8211; Na Sancha.<\/p>\n<p>&#8211; Que id&eacute;ia!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; que ningu&eacute;m sabe! fui eu que disse &agrave; Sancha que<br \/>\n    fugisse. Tive tanta pena dela! Tia Itelvina &eacute; m&aacute;: batia na negrinha<br \/>\n    com vara. Eu vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada&#8230; que est&uacute;pida!<br \/>\n    N&atilde;o sei como ela podia ag&uuml;entar aquela vida. Fui eu que lhe disse<br \/>\n    que fugisse; e depois que ela fugiu, tenho medo que morra por a&iacute; &agrave;<br \/>\n    toa, que n&atilde;o ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bonde&#8230;<br \/>\n    At&eacute; sonho com a Sancha. Que coisa horr&iacute;vel!<\/p>\n<p>Nina consolou-a. A Noca j&aacute; lhe contara que a pretinha quisera envenenar-se;<br \/>\n    era menos burra do que parecia.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; &eacute; muito nervosa; deixe l&aacute; a Sancha, pense em outra<br \/>\n    coisa. Tia Mila ainda est&aacute; no terra&ccedil;o com a baronesa da Lage&#8230;<br \/>\n    vamos l&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Para qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Para falar nos figurinos&#8230; Eu ando um pouco desconfiada com tantas visitas<br \/>\n    daquela senhora&#8230; voc&ecirc; tem reparado como ela cochicha com M&aacute;rio?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois repare&#8230; A lesma da Paquita tem bom advogado!<\/p>\n<p>&#8211; M&aacute;rio n&atilde;o gosta dela.<\/p>\n<p>&#8211; Quem disse?<\/p>\n<p>&#8211; Ele mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Voc&ecirc; n&atilde;o ouviu?<\/p>\n<p>&#8211; Ouvi&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? Quem sabe o que estar&aacute; para acontecer!<\/p>\n<p>Nessa tarde Camila participava em segredo ao marido que a baronesa da Lage<br \/>\n    viera declarar-lhe o amor da irm&atilde; por M&aacute;rio, e lembrar-lhe que<br \/>\n    o baile seria uma bela ocasi&atilde;o para a apresenta&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    noivos.<\/p>\n<p>O negociante olhou boquiaberto para a mulher.<\/p>\n<p>Ela disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eles desejam abreviar essa hist&oacute;ria, porque o velho quer ir para<br \/>\n    a Europa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas &eacute; incr&iacute;vel!<\/p>\n<p>&#8211; Por que?<\/p>\n<p>&#8211; Porque! porque o Meireles &eacute; um homem pr&aacute;tico; n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; de querer entregar a filha a um rapaz sem profiss&atilde;o! Isso<br \/>\n    n&atilde;o pode ser. A Lage est&aacute; doida.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; &eacute; injusto&#8230; M&aacute;rio n&atilde;o tem profiss&atilde;o,<br \/>\n    mas pode vir a t&ecirc;-la.<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; v&ecirc;m cantigas! Pois sim! Aqui para n&oacute;s: o rapaz n&atilde;o<br \/>\n    vale nada. Quem n&atilde;o trabalha, que garantia pode dar &agrave; fam&iacute;lia?<\/p>\n<p>&#8211; Ele &eacute; rico, e a Paquita ainda o &eacute; mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por esse lado aprovo. O dote dela &eacute; bom, e a fam&iacute;lia excelente.<br \/>\n    Se o M&aacute;rio soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que<br \/>\n    se casasse com mulher pobre. S&atilde;o as melhores; trazem a experi&ecirc;ncia<br \/>\n    da vida. A experi&ecirc;ncia da vida &eacute; um grande dote.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; fala com M&aacute;rio?<\/p>\n<p>&#8211; Eu?! eu n&atilde;o. n&atilde;o concorrerei com o meu conselho para semelhante<br \/>\n    asneira. Arranjem-se. Que diabo! ele ainda n&atilde;o tem vinte anos. Fala-lhe<br \/>\n    tu&#8230; se quiseres.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro passeava pelo quarto, com as m&atilde;os nos bolsos, fazendo<br \/>\n    tilintar as chaves.<\/p>\n<p>&#8211; A Lage disse-me tamb&eacute;m que voc&ecirc; entrou em uma grande negociata<br \/>\n    com o Inoc&ecirc;ncio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como soube ela disso?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei&#8230; Diz que a sua casa vai ser uma das mais fortes ai&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tenho medo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hein?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; nada; est&aacute; feito. Pois senhores, parece incr&iacute;vel,<br \/>\n    eles querem mesmo o casamento?<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? Logo que M&aacute;rio queira, ser&aacute; coisa para uns<br \/>\n    quinze dias. O Meireles deseja levar os noivos consigo. Bem pensado, Paquita<br \/>\n    teve bom gosto.<\/p>\n<p>&#8211; Muito fresco! Olha: eu lavo dai as minhas m&atilde;os.<\/p>\n<p>&#8211; Logo vi&#8230; M&aacute;rio j&aacute; deve ter chegado; eu vou falar com ele.<br \/>\n    Por enquanto &eacute; bom n&atilde;o dizer nada a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8211; A quem o dizes&#8230;<\/p>\n<p>Teodoro ficou s&oacute; no quarto, mudando de casaco e de cal&ccedil;ado,<br \/>\n    vagarosamente, com sentido no neg&oacute;cio que o preocupava.<\/p>\n<p>Como diabo teria a Lage sabido daquele neg&oacute;cio com o Braga?<\/p>\n<p>Abriu a janela e encostou-se.<\/p>\n<p>De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a<br \/>\n    m&uacute;sica da cristalaria e da prata movidas pelo copeiro.<\/p>\n<p>No grande lago do parque, de &aacute;guas renovadas, patos gordos desprezavam<br \/>\n    as migalhas de pio que a Rachel e a Lia, deitadas de bru&ccedil;os na relva<br \/>\n    sobre os bordados bem engomados dos vestidos, lhes atiravam &agrave;s mancheias.<br \/>\n    Sob a jaqueira enorme, carregada de frutas grandes como ubres t&uacute;midos,<br \/>\n    o c&atilde;o de guarda preso &agrave; corrente, devorava uma enorme posta<br \/>\n    de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, rebentavam em grelos<br \/>\n    vi&ccedil;osos ou se expandiam em flores, e pela rua de palmeiras, que ia<br \/>\n    ter &agrave; horta, o jardineiro vinha carregado com uma cesta de frutas e<br \/>\n    frescos p&eacute;s de alface.<\/p>\n<p>A terra suava de farta; n&atilde;o lhe faltava nem o adubo que lhe d&aacute;<br \/>\n    for&ccedil;a, nem o ornamento que lhe d&aacute; gra&ccedil;a. Afigurou-se<br \/>\n    ent&atilde;o a Teodoro, com clareza, que a vida &eacute; uma coisa bem boa<br \/>\n    para quem vence e faz cair sobre o terreno que o circunda a chuva de ouro<br \/>\n    fecundante.<\/p>\n<p>No seu orgulho de homem sa&iacute;do do nada, aquele gozo material da riqueza<br \/>\n    enchia-lhe a alma de uma esp&eacute;cie de hero&iacute;smo.<\/p>\n<p>Era como se ele tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos alicerces<br \/>\n    do seu pal&aacute;cio at&eacute; as mais esquisitas frutas do seu pomar e<br \/>\n    as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada &agrave; custa<br \/>\n    do seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da planta lhe tivesse sa&iacute;do de entre os dedos poderosos.<\/p>\n<p>Em todo esse sentimento de conquista havia a bondosa ingenuidade de ter sabido<br \/>\n    criar para os seus uma felicidade perfeita.<\/p>\n<p>Nunca os filhos saberiam o que era uma inf&acirc;ncia como fora a sua, desagalhada,<br \/>\n    errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo sem esperan&ccedil;a<br \/>\n    de satisfa&ccedil;&atilde;o, e a todos envolveria sempre o luxo, a abund&acirc;ncia<br \/>\n    e a alegria.<\/p>\n<p>As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosfera l&iacute;mpida.<\/p>\n<p>Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a aten&ccedil;&atilde;o para baixo<br \/>\n    da janela: Camila e M&aacute;rio sa&iacute;am de casa para o jardim. Ela,<br \/>\n    alta, bem desenhada no seu vestido claro, andava de vagar: ele, com o peito<br \/>\n    florido por um fresco bouquet de mios&oacute;tis, as mios nos bolsos, parecia<br \/>\n    ouvir a m&atilde;e com aten&ccedil;&atilde;o a que n&atilde;o era afeito.<\/p>\n<p>Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta &agrave; casa; quando<br \/>\n    os perdeu de vista, Francisco Teodoro desceu &agrave; sala de jantar. A mesa<br \/>\n    estava pronta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido escuro,<br \/>\n    dava uns retoques &agrave; fruteira.<\/p>\n<p>&#8211; O dr. Gerv&aacute;sio almo&ccedil;ou c&aacute;? perguntou-lhe o tio.<\/p>\n<p>&#8211; Como sempre.<\/p>\n<p>&#8211; Vir&aacute; jantar?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que n&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o diacho&#8230; eu precisava falar-lhe!<\/p>\n<p>&#8211; O seu empregado est&aacute; pior?<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que sim&#8230; coitado&#8230;<\/p>\n<p>Nina suspirou, e da fruteira passou &agrave;s flores da jarra, pensando no<br \/>\n    velho Mota, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:<\/p>\n<p>&#8211; Quer que eu mande tocar a sineta?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; bom esperar um pouco; tua tia est&aacute; em confer&ecirc;ncia<br \/>\n    com o M&aacute;rio. De maneira que o Gerv&aacute;sio n&atilde;o voltar&aacute;<br \/>\n    hoje por aqui?<\/p>\n<p>Nina n&atilde;o respondeu, o cora&ccedil;&atilde;o batia-lhe com for&ccedil;a.<br \/>\n    A id&eacute;ia da Lage deu-lhe o pressentimento da verdade. Seria certo, Deus<br \/>\n    do c&eacute;u que M&aacute;rio se casaria com a outra? Confer&ecirc;ncia com<br \/>\n    ele&#8230; para qu&ecirc;?<\/p>\n<p>Francisco Teodoro recostara-se em uma cadeira do terra&ccedil;o, lendo um<br \/>\n    jornal da tarde a que pouca aten&ccedil;&atilde;o prestava. O que estaria<br \/>\n    a mulher a dizer ao filho? Julgava do seu dever n&atilde;o intervir naquela<br \/>\n    crian&ccedil;ada; se o fizesse, seria para despersuadir a mo&ccedil;a de tal<br \/>\n    casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o consentimento<br \/>\n    do intransigente Meireles: s&oacute; explicava aquilo por caduquice; miolo<br \/>\n    mole. &#8211; O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao M&aacute;rio! &#8211; resmungava<br \/>\n    ele de vez em quando, com estupefa&ccedil;&atilde;o, como se fizesse um coment&aacute;rio<br \/>\n    ao artigo acabado de ler.<\/p>\n<p>Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de arm&aacute;rio a arm&aacute;rio,<br \/>\n    de janela a janela, veio para o terra&ccedil;o e encostou-se &agrave; balaustrada,<br \/>\n    muito abatida. De seus olhos pardos sa&iacute;a uma luz branca, onde relampejavam<br \/>\n    fulgores frios.<\/p>\n<p>Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira depressa<br \/>\n    da janela da copa para o terra&ccedil;o, com medo de perceber-lhes nos gestos<br \/>\n    a express&atilde;o exata das palavras que diziam. Adivinhava a verdade, mas<br \/>\n    temia ouvi-la, porque essa verdade n&atilde;o a magoaria s&oacute;, ofende-la-ia<br \/>\n    tamb&eacute;m. Era como que um ultraje &agrave; sua mocidade outoni&ccedil;a,<br \/>\n    &agrave; sua pobreza e &agrave; sua f&eacute; no amor. Sentia-se predestinada<br \/>\n    a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de sentimentos<br \/>\n    dava-lhe desejos maus.<\/p>\n<p>A tia, contra o dever, n&atilde;o amava, n&atilde;o era amada, n&atilde;o<br \/>\n    sacrificava tudo pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina<br \/>\n    de um beijo? Aquele livro de paix&atilde;o, t&atilde;o imprudentemente aberto<br \/>\n    diante dos seus olhos, n&atilde;o a fizeram por tantas vezes estremecer de<br \/>\n    inveja e sonhar com as del&iacute;cias do amor?<\/p>\n<p>At&eacute; ai respeitara aquela paix&atilde;o, sentia-a sincera, fazia-se<br \/>\n    cega, apiedada daquelas almas felizes. Agora tinha &iacute;mpetos de se vingar,<br \/>\n    de arrancar das m&atilde;os do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a for&ccedil;a<br \/>\n    a hist&oacute;ria daqueles amores que a humilhavam, porque entre ela e a tia,<br \/>\n    n&atilde;o era a outra, casada e mie, mas sim ela, &oacute;rf&atilde; e virgem,<br \/>\n    quem tinha direito &agrave;quela felicidade de amar e de ser amada&#8230;<\/p>\n<p>Duas borboletas brancas passaram rente a ela, perseguindo-se.<\/p>\n<p>Nina fechou os olhos, mas a vis&atilde;o da felicidade alheia l&aacute; estava<br \/>\n    dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o M&aacute;rio?<\/p>\n<p>Lia e Rachel interromperam-na; vinham nas bicicletas a toda a for&ccedil;a,<br \/>\n    reclamando o jantar aos brados. O Pai sorriu, achando-as lindas, assim rosadas,<br \/>\n    com os cabelos ao vento.<\/p>\n<p>Elas, j&aacute; combinadas, atiraram-se para ele, turbulentamente, pedindo-lhe<br \/>\n    ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de verdade, puxado a<br \/>\n    poneys com o cocheiro vestido de azul.<\/p>\n<p>Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a confer&ecirc;ncia<br \/>\n    da tia.<\/p>\n<p>E quando Camila e M&aacute;rio entraram na sala ningu&eacute;m lhes soube<br \/>\n    ler nas fisionomias uma sombra sequer da verdade: falavam ambos do baile,<br \/>\n    como se de outra coisa n&atilde;o tivessem tratado.<\/p>\n<p>Foi s&oacute; &agrave; noite que Mila disse no quarto ao marido:<\/p>\n<p>&#8211; O M&aacute;rio aceita o casamento. Assim como assim, ele n&atilde;o tem<br \/>\n    mesmo gosto para o com&eacute;rcio&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"16\" id=\"16\">XVI<\/a><\/h4>\n<p>Na sua salinha da rua Funda, estendido no velho canap&eacute; empoeirado,<br \/>\n    seu Mota, emagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas, olhava para<br \/>\n    as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede encardida.<\/p>\n<p>L&aacute; dentro, a filha cortava o sil&ecirc;ncio de vez em quando com as<br \/>\n    suas passadas vagarosas, em que se sentia o cansa&ccedil;o.<\/p>\n<p>Tinha raz&atilde;o: era s&oacute; para tudo. O pai, apesar da impertin&ecirc;ncia<br \/>\n    da mol&eacute;stia e das suas exig&ecirc;ncias de homem amigo da limpeza,<br \/>\n    resignava-se quase sem protestos &agrave;quela imund&iacute;cie em que se<br \/>\n    ia encharcando. Certo, que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo<br \/>\n    o servi&ccedil;o sem se enxovalhar, &eacute; coisa de romance. A Em&iacute;lia<br \/>\n    andava com as mangas e o avental sujos de carv&atilde;o, tinha as unhas impregnadas<br \/>\n    do cheiro da cebola e do alho; e as m&atilde;os, avermelhadas pelo uso do<br \/>\n    sab&atilde;o da terra com que esfregava a roupa, tinham perdido o jeito para<br \/>\n    a car&iacute;cia doce, macia, t&atilde;o querida das crian&ccedil;as e dos<br \/>\n    doentes. A pobre andava escada abaixo e escada acima, do s&oacute;t&atilde;o<br \/>\n    para a cozinha e da cozinha para o s&oacute;t&atilde;o, com os ombros vergados<br \/>\n    ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou torcidas, para estender l&aacute;<br \/>\n    em cima no telhado, a um calor de rachar.<\/p>\n<p>A paci&ecirc;ncia esgotara-se-lhe, ela andava aos suspiros, cada vez mais<br \/>\n    cor de cidra.<\/p>\n<p>Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ela mesma se achava feia. O<br \/>\n    seu rosto alongava-se, tomava uma express&atilde;o de animal.<\/p>\n<p>O pai chamou-a:<\/p>\n<p>&#8211; Em&iacute;lia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias&#8230; est&atilde;o-me<br \/>\n    incomodando. O palet&oacute; est&aacute; sem bot&otilde;es.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o respondeu, foi dentro e voltou:<\/p>\n<p>&#8211; Est&atilde;o aqui outras meias.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha paci&ecirc;ncia, minha filha, eu n&atilde;o posso dobrar a perna&#8230;<\/p>\n<p>Em&iacute;lia agachou-se e mudou as meias ao pai. Ele continuou:<\/p>\n<p>&#8211; As minhas cal&ccedil;as de brim estio muito encardidas, ser&aacute; bom<br \/>\n    alvej&aacute;-las enquanto eu estou em casa. V&atilde;o ser muito precisas.<br \/>\n    O meu terno de casimira est&aacute; escovado?<\/p>\n<p>Ela mal respondeu com um sinal de cabe&ccedil;a. O pai, querendo poup&aacute;-la,<br \/>\n    com remorsos de lhe dar semelhante exist&ecirc;ncia, atrapalhava-a com exig&ecirc;ncias;<br \/>\n    eram os len&ccedil;os rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que as cadeiras<br \/>\n    tinham um dedo de p&oacute;, ou por que as plantas das latinhas morriam nas<br \/>\n    janelas &agrave; mingua d&aacute;gua, torradas de sol.<\/p>\n<p>Enfadada, Em&iacute;lia fazia os reparos exigidos, em sil&ecirc;ncio, com<br \/>\n    ar rebarbativo, ent&atilde;o o velho voltava o rosto para a parede e fechava<br \/>\n    os olhos para reter as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>Vinham-lhe &agrave; mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da<br \/>\n    sua defunta, tio ativa, t&atilde;o pagodista e festeira.<\/p>\n<p>Quem diria que de tal m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&Agrave; hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da<br \/>\n    cozinha, ao p&eacute; de uma janela com vista para telhados.<\/p>\n<p>De enfastiado, ele &agrave;s vezes n&atilde;o se continha e suspirava:<\/p>\n<p>&#8211; Que jantarzinho cangueiro&#8230;<\/p>\n<p>Em&iacute;lia n&atilde;o respondia; punha-lhe no prato o feij&atilde;o e<br \/>\n    a carne seca, que ele engolia com esfor&ccedil;o.<\/p>\n<p>Nesse dia a tarde estava quente.<\/p>\n<p>O papagaio da vizinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras<br \/>\n    de baixo, reunidas no quintal.<\/p>\n<p>Mota sentiu vontade de palrar um pouco tamb&eacute;m; mas a companheira voltou-lhe<br \/>\n    as costas para ir lavar as panelas e o cheiro das banhas frias tornou-se insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p>Ele voltou resignado para o canap&eacute; da saleta, martelando com a bengala<br \/>\n    o ch&atilde;o ro&iacute;do pelo caruncho e pelos ratos.<\/p>\n<p>O seu sonho era sair, voltar ao escrit&oacute;rio, tatear as folhas dos livros,<br \/>\n    pensar em neg&oacute;cios, deixar de ver o rosto comprido da filha e de sentir<br \/>\n    a morrinha da casa suja.<\/p>\n<p>Quem de vez em quando cortava aquela pasmaceira com um pouco de alegria,<br \/>\n    era a baiana Bertolina que lhes levava um resto de quitanda recambiada, fatias<br \/>\n    de Man&eacute;-taiado, ou cocadas com ab&oacute;bora, sujeitas ao azedume.<br \/>\n    E ent&atilde;o era s&oacute;:<\/p>\n<p>&#8211; Ioi&ocirc;! Iai&aacute;! e gargalhadas frescas e: &Eacute; preciso paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    atr&aacute;s dos dias maus v&ecirc;m os dias bons, n&atilde;o &eacute; meu<br \/>\n    Ioi&ocirc;? Tenham f&eacute; em Deus&#8230; E adeus, minha Iai&aacute;, e adeus<br \/>\n    meu Ioi&ocirc;!<\/p>\n<p>Seu Mota sorria lambiscando as cocadas, feliz por ver algu&eacute;m rir.<\/p>\n<p>Nessa tarde a Bertolina iria a prop&oacute;sito; mas quem apareceu foi o<br \/>\n    Ribas.<\/p>\n<p>Seu Mota contava as moscas da parede, sem querer dar confian&ccedil;a ao<br \/>\n    rapaz, mas abria os ouvidos.<\/p>\n<p>Ele estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia d&uacute;zia<br \/>\n    de palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Ontem houve um baile em casa de seu Teodoro. Diz que a rua estava cheia<br \/>\n    de carros. S&oacute; o vestido da D. Camila custou dez contos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem acredita nisso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O M&aacute;rio vai casar-se com uma mo&ccedil;a que tem para cima de mil<br \/>\n    contos. Foi ao baile coberta de j&oacute;ias. Seu Guimar&atilde;es, seu Castro,<br \/>\n    todos estes turunas do caf&eacute; foram l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Como sabe voc&ecirc; de tanta coisa?<\/p>\n<p>&#8211; Foi o Isidoro quem me contou.<\/p>\n<p>O Ribas, com os ombros desca&iacute;dos e um sorriso nos l&aacute;bios moles,<br \/>\n    falava em suntuosidades, com a voz empapada em saliva.<\/p>\n<p>O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confian&ccedil;a ao rapaz,<br \/>\n    sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o n&atilde;o entendia, exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o tem que fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Eu ainda n&atilde;o achei emprego&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Veja l&aacute;, eu n&atilde;o quero que seu cunhado pense que o retenho<br \/>\n    em minha casa.<\/p>\n<p>&#8211; Meu cunhado n&atilde;o me governa.<\/p>\n<p>Seu Mota despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada sentiu-lhe<br \/>\n    a falta. Ao menos aquilo era algu&eacute;m, sempre trazia um eco de vida,<br \/>\n    um zum-zum de fora.<\/p>\n<p>O Ribas desceu, enfarado daquele velho cainha, que n&atilde;o escorrera nem<br \/>\n    um tost&atilde;ozinho para o caf&eacute;; se pensava que ele ia levar as novidades<br \/>\n    s&oacute; pelo amor dos seus olhos! Burro! Ele ainda haveria de ensinar toda<br \/>\n    aquela canalha a tem&ecirc;-lo e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era s&oacute;<br \/>\n    falar com o Pirueta da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a capoeiragem&#8230;<\/p>\n<p>Na rua da Sa&uacute;de parou &agrave; porta do armarinho da irm&atilde;,<br \/>\n    a Deolinda, que esmiu&ccedil;ava a grenha hirsuta de um filho de tr&ecirc;s<br \/>\n    anos, recostado sobre o seu ventre enorme.<\/p>\n<p>Ribas fez-lhe sinal da porta, perguntando se podia entrar e observando ao<br \/>\n    mesmo tempo se o cunhado estaria ali; ela disse-lhe que n&atilde;o entrasse<br \/>\n    e, sacudindo-se a custo, foi &agrave; porta e falou-lhe em segredo.<\/p>\n<p>Voc&ecirc; n&atilde;o tem vergonha! V&aacute;-se embora! Ubaldino tal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Queria que voc&ecirc; me emprestasse quinhentos r&eacute;is&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Onde &eacute; que eu vou buscar dinheiro, gente!<\/p>\n<p>&#8211; Na gaveta do balc&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Na gaveta! por voc&ecirc; ter mexido na gaveta do balc&atilde;o &eacute;<br \/>\n    que aconteceu o que aconteceu; v&aacute;-se embora!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o seja m&aacute;, Deolinda.<\/p>\n<p>&#8211; E o seu ordenado? Olhe: n&oacute;s n&atilde;o fazemos neg&oacute;cio nenhum&#8230;<br \/>\n    Minha crian&ccedil;a est&aacute; para nascer e eu n&atilde;o tenho nem uma<br \/>\n    camisinha arranjada. Mal d&aacute; pra comer, sabe Deus como.<\/p>\n<p>&#8211; n&atilde;o seja sovina; depois eu pago.<\/p>\n<p>&#8211; Ubaldino ai vem&#8230; v&aacute;-se embora.<\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230;<\/p>\n<p>E com arremesso o Ribas seguiu pela cal&ccedil;ada at&eacute; as Docas; &agrave;<br \/>\n    porta encheu-se de batata roxa, cozida; que a Bertolina baiana vendia, tagarelando<br \/>\n    com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas ainda teve uns tost&otilde;es<br \/>\n    para tangerinas. S&oacute; bem repleto foi que bateu as solas rotas pelas<br \/>\n    cal&ccedil;adas, a caminho da rua de S. Bento.<\/p>\n<p>A&iacute; chegado, quis desafiar a paci&ecirc;ncia de seu Joaquim, postando-se<br \/>\n    como um basbaque &agrave; porta do armaz&eacute;m, vendo os trabalhadores<br \/>\n    na sua faina entrarem e sa&iacute;rem sem interrup&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em cima, no escrit&oacute;rio, Francisco Teodoro, amolecido pela sua noitada<br \/>\n    de festa, narrava lealmente ao Meireles, pai da Paquita, a inaptid&atilde;o<br \/>\n    do filho para o trabalho.<\/p>\n<p>O Meireles sorria; que descansasse, ele encaminharia tudo, &#8211; e acrescentava:<\/p>\n<p>&#8211; Paquita, com aquele ar de songa-monga, &eacute; de uma energia de homem,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; de brinquedos. Tem um ju&iacute;zo not&aacute;vel. Eu<br \/>\n    agora levo-os para a Europa, fa&ccedil;o o M&aacute;rio observar o movimento<br \/>\n    das principais pra&ccedil;as e na volta voc&ecirc; ver&aacute;, Teodoro, como<br \/>\n    o seu filho h&aacute; de trabalhar! Ser&aacute; ent&atilde;o tempo de voc&ecirc;<br \/>\n    ceder-lhe o campo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E eu estou morto por isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? Urge andar depressa, que eu n&atilde;o quero perder a viagem<br \/>\n    do Equateur.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro come&ccedil;ava a compreender que a Paquita, se era assim,<br \/>\n    seria a &uacute;nica mulher capaz de modificar o car&aacute;ter do filho.<br \/>\n    M&aacute;rio seria um instrumento nas suas mios en&eacute;rgicas. N&atilde;o<br \/>\n    a supusera nem a cria ainda tal, t&atilde;o fr&aacute;gil, t&atilde;o esbranqui&ccedil;ada<br \/>\n    e inexpressiva a vira sempre na moldura dos seus cabelos louros.<\/p>\n<p>Estava bem; M&aacute;rio precisava de uma vontade firme, que o dominasse<br \/>\n    e dirigisse; nem com uma lanterna acesa encontraria coisa t&atilde;o boa.<\/p>\n<p>Paquita seria a salva&ccedil;&atilde;o do seu filho, a garantia da sua casa<br \/>\n    comercial, que j&aacute; n&atilde;o acabaria com ele.<\/p>\n<p>Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquele filho perdido,<br \/>\n    que tamanhas desilus&otilde;es lhe semeara na vida. Come&ccedil;ava a sentir<br \/>\n    que lhe n&atilde;o perdera o amor.<\/p>\n<p>Ele continuaria aquela casa, com tanto trabalho nascida, que teria com ele<br \/>\n    a mesma firma, a mesma tradi&ccedil;&atilde;o&#8230; Seria sempre a Casa Teodoro,<br \/>\n    feita pela sua ambi&ccedil;&atilde;o, perpetuada na sua descend&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"17\" id=\"17\">XVII<\/a><\/h4>\n<p>Nina tinha voltado do casamento de M&aacute;rio e despia-se devagar no seu<br \/>\n    quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho.<\/p>\n<p>Era o fim, e nem por estar tudo consumado se resignava. Para bem dela, os<br \/>\n    noivos iam nesse mesmo dia para Petr&oacute;polis, e de l&aacute; s&oacute;<br \/>\n    voltariam para bordo de um transatl&acirc;ntico. Como seria doce &agrave;<br \/>\n    Paquita cruzar os mares nos bra&ccedil;os do seu amor&#8230;<\/p>\n<p>Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera para<br \/>\n    casar depressa, e contemplou-as com ironia&#8230; ia atir&aacute;-las ao ch&atilde;o,<br \/>\n    quando algu&eacute;m bateu &agrave; porta. Abriu.<\/p>\n<p>Era a Noca, que vinha toda alterada.<\/p>\n<p>&#8211; Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do sal&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu&eacute;m sabe. Veja s&oacute;, que desgra&ccedil;a estar&aacute;<br \/>\n    para acontecer! Espelho quebrado: morte ou ru&iacute;na.<\/p>\n<p>&#8211; Morte! se fosse a minha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca, menina, n&atilde;o diga asneiras. Quem &eacute; que ama uma<br \/>\n    vez s&oacute; na vida?<\/p>\n<p>&#8211; Muita gente&#8230; eu.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o acredite, deixe falar. A senhora &eacute; mo&ccedil;a, ver&aacute;.<br \/>\n    Mas venha ver o espelho; n&atilde;o presta a gente ficar calada quando est&aacute;<br \/>\n    aflita. Parece arte do diabo, cruzes! Logo hoje!<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; andando, eu j&aacute; vou.<\/p>\n<p>Nina mudou de vestido &agrave; pressa e desceu.<\/p>\n<p>Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo desgra&ccedil;as,<br \/>\n    sugestionados pela influ&ecirc;ncia da Noca.<\/p>\n<p>&#8211; Que pena! um espelho t&atilde;o rico&#8230; murmurou Nina maquinalmente, pensando<br \/>\n    na Paquita.<\/p>\n<p>&#8211; O caso n&atilde;o &eacute; o dinheiro. Eu c&aacute; n&atilde;o tenho pena,<br \/>\n    tenho medo.<\/p>\n<p>&#8211; Agora que se h&aacute; de fazer? ter paci&ecirc;ncia e esperar, disse Nina<br \/>\n    com um sorriso p&aacute;lido.<\/p>\n<p>&#8211; Esperar! Diz voc&ecirc; muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez aquilo,<br \/>\n    temos que esperar grandes coisas. Noca n&atilde;o fala &agrave; toa. Voc&ecirc;s<br \/>\n    ver&atilde;o. &Eacute; melhor n&atilde;o dizer nada a nh&aacute; Mila.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; melhor&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando o dr. Gerv&aacute;sio entrou no jardim de Camila,<br \/>\n    encontrou-a no terra&ccedil;o, rescendente e fresca no seu peignoir marfim<br \/>\n    pontilhado de ouro.<\/p>\n<p>&#8211; Como est&aacute;s linda! murmurou ele pegando-lhe na m&atilde;o, que ela<br \/>\n    deixou beijar &agrave; grande luz, como se a aus&ecirc;ncia de M&aacute;rio<br \/>\n    cegasse todos de casa.<\/p>\n<p>E o casamento de M&aacute;rio fora um al&iacute;vio para ambos. Estavam livres<br \/>\n    daquela testemunha importuna, que tinham de respeitar. Mila bendizia aquele<br \/>\n    casamento, que a libertava de uma humilha&ccedil;&atilde;o constante, levando-lhe<br \/>\n    o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se, ele ia ser feliz.<br \/>\n    Que mais poderia desejar um cora&ccedil;&atilde;o de m&atilde;e?<\/p>\n<p>Foi nesse mesmo dia, &agrave; tarde, que Francisco Teodoro chegou sombrio<br \/>\n    a casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escrit&oacute;rio,<br \/>\n    em baixo. Camila entrou da rua mais tarde, sacudindo-se &agrave; pressa pela<br \/>\n    escada acima.<\/p>\n<p>Durante o jantar s&oacute; ela falava, muito risonha, rescendendo &agrave;<br \/>\n    ess&ecirc;ncia com que Gerv&aacute;sio a pulverizara pouco antes no chalezinho<br \/>\n    da Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquele perfume era como que a alma dele<br \/>\n    que ela trouxesse consigo.<\/p>\n<p>&#8211; Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ela, apontando para fora<br \/>\n    com a mio fulgurante de an&eacute;is.<\/p>\n<p>Era um por-de-sol maravilhoso.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo cor de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores. Como<br \/>\n    isto &eacute; bonito! E h&aacute; quem fale mal da vida; e h&aacute; idiotas<br \/>\n    que se matam!<\/p>\n<p>Francisco Teodoro cruzou o talher sem ter comido.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor est&aacute; doente? perguntou-lhe Nina.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho vontade de comer, mandem-me o caf&eacute; ao jardim.<\/p>\n<p>Camila contemplou-o com m&aacute;goa e explicou aos outros:<\/p>\n<p>&#8211; Ele est&aacute; impressionando com o casamento de M&aacute;rio. Meninas,<br \/>\n    voc&ecirc;s procurem entreter e distrair seu pai. Mande guardar um copo de<br \/>\n    leite para ele, Nina; seu tio n&atilde;o pode ficar assim. Deus queira que<br \/>\n    ele n&atilde;o me fique doente&#8230;<\/p>\n<p>E um v&eacute;u de tristeza passou pelos olhos, h&aacute; pouco risonhos,<br \/>\n    de Mila.<\/p>\n<p>Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Teodoro; ele repelia<br \/>\n    a companhia de toda a gente para ir passear sozinho l&aacute; para o fundo<br \/>\n    da ch&aacute;cara. Ruth tocou em v&atilde;o as suas melhores m&uacute;sicas:<br \/>\n    o pai nem parecia ouvi-las&#8230;<\/p>\n<p>Na sala de engomar, a Noca comentava a tristeza do patr&atilde;o, como um<br \/>\n    fato anunciado pelo desastre do espelho&#8230; &quot;A coisa est&aacute; come&ccedil;ando&#8230;<br \/>\n    Eu n&atilde;o dizia&quot;?<\/p>\n<p>&Aacute; noite, enquanto Francisco Teodoro folheava embaixo a papelada do<br \/>\n    Inoc&ecirc;ncio Braga, Mila despia-se em frente do seu psych&eacute;, namorando<br \/>\n    a pr&oacute;pria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fr&ecirc;mito<br \/>\n    a del&iacute;cia de bem merecer um grande amor.<\/p>\n<p>Como a Sulamita, toda ela era formosa. O peito farto, o pesco&ccedil;o alvo<br \/>\n    e redondo, as m&atilde;os pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros<br \/>\n    e pestanudos, de onde jorrava uma luz veludosa e doce que toda a vestia de<br \/>\n    gra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ao prender o cabelo, lembrou-se de uma compara&ccedil;&atilde;o de Gerv&aacute;sio;<br \/>\n    ele dissera uma vez, ao v&ecirc;-la pentear-se, que as suas m&atilde;os eram<br \/>\n    como duas aves luminosas esvoa&ccedil;ando na treva. Mila sorriu.<\/p>\n<p>Foi s&oacute; depois das ora&ccedil;&otilde;es, ao espregui&ccedil;ar-se<br \/>\n    no seu largo leito, que se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte<br \/>\n    para ir a bordo despedir-se do filho.<\/p>\n<p>Tudo era como um sonho. O M&aacute;rio j&aacute; casado! Parecia-lhe que<br \/>\n    ainda o estava a ver pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquele<br \/>\n    sobrado da rua da Candel&aacute;ria, onde a sua vida fora t&atilde;o diferente.<br \/>\n    E foi com a vis&atilde;o daquele filho em crian&ccedil;a, daquela carne de<br \/>\n    rosas, daquela boca inocente que a babava de beijos, que ela adormeceu, sentindo-lhe<br \/>\n    o peso amado do corpo nos bra&ccedil;os saudosos.<\/p>\n<p>Quando soou meia-noite, em toda a casa s&oacute; havia de p&eacute; Francisco<br \/>\n    Teodoro, que folheava ainda no escrit&oacute;rio a papelada do Inoc&ecirc;ncio<br \/>\n    Braga.<\/p>\n<p>Nessa manh&atilde; ele tivera o primeiro toque de alarma, num telegrama do<br \/>\n    Havre para o Jornal, que afirmava ter descido o pre&ccedil;o do caf&eacute;<br \/>\n    nos principais mercados.<\/p>\n<p>Aflito, com a percep&ccedil;&atilde;o de um desastre iminente e enorme, abalou<br \/>\n    logo do armaz&eacute;m para o escrit&oacute;rio do Braga. que o recebeu entre<br \/>\n    duas risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isso! o senhor &eacute; assustadi&ccedil;o&#8230; pois n&atilde;o<br \/>\n    percebe que isto tudo &eacute; jogo?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o compreendo&#8230; balbuciou Francisco Teodoro com um enleio, em<br \/>\n    que entrava com um amargo desapontamento a do&ccedil;ura de uma vaga esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o compreende, porque &eacute; um nervoso; n&atilde;o tem a calma<br \/>\n    dos grandes esp&iacute;ritos empreendedores. Eu desejaria convenc&ecirc;-lo<br \/>\n    da certeza dos seus lucros; mas na disposi&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito<br \/>\n    em que est&aacute;, vejo que isso &eacute; coisa dif&iacute;cil. Ver&aacute;<br \/>\n    que amanh&atilde; n&atilde;o teremos not&iacute;cia alguma.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo &eacute; feito aqui, homem, garanto-lhe que &eacute; feito aqui!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; imposs&iacute;vel!<\/p>\n<p>&#8211; Acredite.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o pode ser. O Jornal, tio s&eacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, n&atilde;o pode ser!&#8230; que ingenuidade! Se eu lhe afirmo, &eacute;<br \/>\n    porque sei. E se n&atilde;o fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria poss&iacute;vel<br \/>\n    que eu estivesse calmo?<\/p>\n<p>&#8211; Penso de outro modo: tenho l&aacute; grande parte do meu capital.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu&eacute;m diz o contr&aacute;rio&#8230; sei&#8230; &eacute; natural o seu<br \/>\n    cuidado; somente, afirmo-lhe que &eacute; infundado. Amanh&atilde;, ou haver&aacute;<br \/>\n    sil&ecirc;ncio, ou h&aacute; desmentido. Tudo isto &eacute; jeito. Olhe, o<br \/>\n    Gama Torres est&aacute; satisfeit&iacute;ssimo; saiu h&aacute; pouco daqui.<br \/>\n    Est&aacute; contente; aquele &eacute; um homem do tempo. h&aacute; de ir longe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu, confesso-me arrependido.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, n&atilde;o diga tal! que barbaridade! O nosso triunfo &eacute; certo.<br \/>\n    E j&aacute; que se mostra assim apreensivo, fa&ccedil;amos uma coisa; telegrafemos<br \/>\n    ao Lacerda. Eu por mim n&atilde;o telegrafaria, conhe&ccedil;o a alma destas<br \/>\n    maquina&ccedil;&otilde;es. Tudo &eacute; qu&iacute;mica. Digo-lhe mais: eu<br \/>\n    estou contente.. Olhe, amanh&atilde; poderei provar-lhe com documentos irrefut&aacute;veis<br \/>\n    a veracidade das minhas afirma&ccedil;&otilde;es. Venha c&aacute; &aacute;s<br \/>\n    duas horas.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro saiu menos torturado: mas, &aacute; propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que as horas avan&ccedil;avam, voltava-lhe a inqu&iacute;eta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a ponto de n&atilde;o poder trabalhar. Fugiu para casa e ali encontrou o mesmo<br \/>\n    desassossego.<\/p>\n<p>Atirou-se aos pap&eacute;is: leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia<br \/>\n    maior confus&atilde;o naquele embrulho de problemas, em que todo o seu bom<br \/>\n    senso naufragava.<\/p>\n<p>Inquietava-se com pressentimentos. Era muito disso. Afinal, um telegrama<br \/>\n    isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia n&atilde;o ser verdadeiro.<br \/>\n    Afligiam-no certos zum-zuns da cidade. Os boatos s&atilde;o como os corvos,<br \/>\n    aparecem no ar atra&iacute;dos pela podrid&atilde;o oculta.<\/p>\n<p>Todavia. forcejava por acreditar nas boas previs&otilde;es do Braga. O homem<br \/>\n    era honesto e tinha nas m&atilde;os h&aacute;beis o fio da trama: logo, melhor<br \/>\n    seria esperar pelas tais provas irrefut&aacute;veis&#8230;<\/p>\n<p>Eram seis horas da manh&atilde; quando Camila o chamou para irem ao Equateur.<\/p>\n<p>Foi um alvoro&ccedil;o em casa.<\/p>\n<p>Noca era a mais curiosa; queria ir tamb&eacute;m despedir-se do M&aacute;rio<br \/>\n    e ver por dentro uma daquelas casas flutuantes. onde n&atilde;o viajaria nem<br \/>\n    &agrave; m&atilde;o de Deus Padre!<\/p>\n<p>Apressou-se em vestir as g&ecirc;meas, que se faziam de tolas, exigindo os<br \/>\n    vestidos novos e os chap&eacute;us cor de rosa.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o: ponderava ela, deixem os chap&eacute;us cor de rosa para passear<br \/>\n    na cidade&#8230; levem os brancos.<\/p>\n<p>&#8211; Eu quero levar o chap&eacute;u cor de rosa, gritou Lia; e logo Rachel:<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb&eacute;m quero levar o chap&eacute;u cor de rosa.<\/p>\n<p>&#8211; Que tolice, gente! um chap&eacute;u daqueles para o mar!<\/p>\n<p>As meninas berraram, e Mila interveio:<\/p>\n<p>&#8211; Pois que levem os chap&eacute;us cor de rosa; tamb&eacute;m voc&ecirc;s<br \/>\n    gostam de aborrecer as crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>As dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao Netuno,<br \/>\n    e voltando-se para a m&atilde;e, perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade! nunca mais a gente soube do capit&atilde;o Rino.<\/p>\n<p>Camila levantou os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Quando ele voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio pela<br \/>\n    ba&iacute;a.<\/p>\n<p>&#8211; Por uma noite de luar&#8230; disse Camila.<\/p>\n<p>Ruth acrescentou, para bulir com a Noca, que se agarrava &agrave;s bordas<br \/>\n    da lancha:<\/p>\n<p>&#8211; Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos rel&acirc;mpagos e trov&otilde;es.<br \/>\n    Ainda h&aacute; de ser mais bonito.<\/p>\n<p>&#8211; U&eacute;, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com<br \/>\n    este sol todo estou com medo, quanto mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; pena que Nina n&atilde;o tivesse vindo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para qu&ecirc;! para ver a outra?<\/p>\n<p>Francisco Teodoro n&atilde;o ouvia nada; percorria com a vista ansiosa todos<br \/>\n    os telegramas dos jornais. Nada; n&atilde;o vinha nada; e com isso ele n&atilde;o<br \/>\n    sabia se havia de achar motivo de al&iacute;vio ou de maiores apreens&otilde;es.<\/p>\n<p>Quando subiram ao tombadilho, j&aacute; l&aacute; encontraram o Meireles,<br \/>\n    mais o M&aacute;rio e a Paquita. Ela, sempre com o seu arzinho enjoado, contando<br \/>\n    as palavras que dizia, tratando a fam&iacute;lia do marido com cerim&ocirc;nias<br \/>\n    afastadoras. M&aacute;rio ia e vinha, sol&iacute;cito, obedecendo com sorrisos<br \/>\n    &aacute;s ordens que ela lhe dava em frases curtas:<\/p>\n<p>&#8211; Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das j&oacute;ias&#8230; Que lhe fosse<br \/>\n    buscar a capa&#8230; Que verificasse quais as malas que iam para o por&atilde;o<br \/>\n    e que mandasse a vermelha para o beliche.<\/p>\n<p>Mal ele se lhe aproximava, logo ela o incumbia de qualquer coisa que o afastava:<br \/>\n    &#8211; Que contasse os volumes,.. Que entregasse a cesta das frutas ao maitre d&#8217;hotel,<br \/>\n    recomendando-lhe que as metesse na geleira&#8230; Que pusesse os seus cart&otilde;es<br \/>\n    de visita nas costas das cadeiras, para evitar confus&otilde;es&#8230; M&aacute;rio<br \/>\n    girava sobre as solas de borracha dos sapatos claros e l&aacute; ia l&eacute;pido<br \/>\n    cumprir as ordens. Camila pasmava. Quem lhe diria que aquele era o mesmo M&aacute;rio<br \/>\n    indom&aacute;vel, seco, t&atilde;o imprest&aacute;vel sempre aos favores pedidos<br \/>\n    pela m&atilde;e e as irm&atilde;s? Vendo aquilo, subia-lhe do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos olhos uma tristeza ciumenta, m&aacute;goa de alma ferida a que nenhuma<br \/>\n    raz&atilde;o abafa a queixa.<\/p>\n<p>Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo &agrave;s perguntas<br \/>\n    da sogra.<\/p>\n<p>Entretanto, Teodoro e o Meireles passeavam a largas passadas da proa a r&eacute;.<\/p>\n<p>O velho Meireles era de opini&atilde;o que o telegrama do Jornal inserido<br \/>\n    na v&eacute;spera era coisa s&eacute;ria, de alarme. Francisco Teodoro engoliu<br \/>\n    em seco: n&atilde;o teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital<br \/>\n    fora atirado &agrave; voragem de uma especula&ccedil;&atilde;o. Relatou por&eacute;m,<br \/>\n    as palavras do Braga e as suas afirma&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me fale nesse homem, interrompeu o outro com viol&ecirc;ncia;<br \/>\n    &eacute; um especulador sem escr&uacute;pulos&#8230; quer mais claro? &#8211; &eacute;<br \/>\n    um ladr&atilde;o!<\/p>\n<p>Veio de Portugal, h&aacute; coisa de seis anos, sem vint&eacute;m, e sabe<br \/>\n    quanto j&aacute; passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos!<\/p>\n<p>Vi a prova. O patife!<\/p>\n<p>Aquilo &eacute; l&aacute; da minha freguezia&#8230; conheci-lhe o pai, era outro<br \/>\n    marreco que tal! Homem &#8211; n&atilde;o se deixe levar pelas cantigas novas, n&oacute;s<br \/>\n    antigos. verdadeiros p&eacute;s de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo<br \/>\n    terreno. Essas bas&oacute;fias e esses atrevimentos s&atilde;o bons para quem<br \/>\n    n&atilde;o tem nada a perder&#8230; Olhe, l&aacute; toca a retirada; avise sua<br \/>\n    senhora, para descerem sem precipita&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Ao abra&ccedil;arem M&aacute;rio, Francisco Teodoro, com a voz estrangulada.<br \/>\n    recomendou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Ju&iacute;zo, meu rapaz.<\/p>\n<p>Camila, branca como m&aacute;rmore, apertou o filho com for&ccedil;a ao cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    depois, sentindo-o frio no seu abra&ccedil;o, beijou-o no pesco&ccedil;o e<br \/>\n    na face e fixou nele em uma queixa muda os seus grandes olhos magoados. Foi<br \/>\n    s&oacute; na lancha, escondendo-se dos olhares da Paquita, que ela desatou<br \/>\n    em solu&ccedil;os que ningu&eacute;m tentou reprimir.<\/p>\n<p>Havia em todos igual ressentimento. Noca chamava mentalmente a Paquita de<br \/>\n    lambisg&oacute;ia, percebendo que ela roubava o M&aacute;rio a toda a fam&iacute;lia,<br \/>\n    absolutamente. Ruth reconhecia que as separa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o<br \/>\n    as reveladoras do amor. Cuidara ela nunca por ventura que um abra&ccedil;o<br \/>\n    de despedida custasse tanta pena? Lia e Rachel abriam olhares curiosos para<br \/>\n    tantos rostos preocupados, e s&oacute; Francisco Teodoro acenou para o filho<br \/>\n    com um len&ccedil;o, pondo naquele adeus toda a sua ternura.<\/p>\n<p>Quem lhe diria? Agora, na possibilidade de um desastre, a &uacute;nica pessoa<br \/>\n    da fam&iacute;lia que ele via salva era o M&aacute;rio!<\/p>\n<p>Chegando &agrave; terra, Camila e as filhas foram de carro para casa, e Francisco<br \/>\n    Teodoro, depois de almo&ccedil;ar &agrave; pressa num restaurante, seguiu<br \/>\n    impaciente para o armaz&eacute;m.<\/p>\n<p>A porta dele a pretinha Ter&ecirc;ncia guinchava contra um italianinho que<br \/>\n    se lhe associara sem licen&ccedil;a ao neg&oacute;cio, atirando-se a pilhagem<br \/>\n    do caf&eacute; da cal&ccedil;ada.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; alguma novidade? perguntou Teodoro ao gerente.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor. Ah! &ecirc; verdade, o Mota parece que est&aacute;<br \/>\n    moribundo.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre homem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A filha veio hoje procurar o senhor; vinha chorando.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; de ser preciso mandar recursos a essa gente&#8230; Arreda dali aquele<br \/>\n    saco, Jo&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Mota&#8230;<\/p>\n<p>O gerente j&aacute; n&atilde;o o ouvia: determinava servi&ccedil;os.<\/p>\n<p>Chegando ao escrit&oacute;rio, Francisco Teodoro tratou de remeter dinheiro<br \/>\n    ao Mota e informar-se do seu estado. O portador voltou depressa. O velho tivera<br \/>\n    uma s&iacute;ncope mas estava melhor.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Mota, murmurou Teodoro, consultando o rel&oacute;gio, morto<br \/>\n    pelas duas horas. E &agrave;s duas horas correu ao escrit&oacute;rio do Inoc&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>Em cima um empregado informou-o de que o Sr. Inoc&ecirc;ncio partira nessa<br \/>\n    manh&atilde; para Petr&oacute;polis, a neg&oacute;cio urgente. Deixara dito<br \/>\n    que na volta iria procur&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro n&atilde;o conteve um movimento de raiva, e saiu tonto,<br \/>\n    sem cumprimentar ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>O ru&iacute;do, o trabalho, o movimento alegre da rua fizeram-no sentir mais<br \/>\n    o seu cansa&ccedil;o moral. Ia cabisbaixo, quando encontrou o Negreiros; deteve-lhe<br \/>\n    os passos e, quase sem explica&ccedil;&atilde;o, perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Diga-me c&aacute;: que opini&atilde;o faz voc&ecirc; do Inoc&ecirc;ncio<br \/>\n    Braga?<\/p>\n<p>O Negreiros sorriu, co&ccedil;ou o nariz enorme, e sibilou:<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo &eacute; um espertalh&atilde;o; n&atilde;o &eacute; bom fiar, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; bom fiar.<\/p>\n<p>&#8211; E que me diz voc&ecirc; daquele telegrama do Jornal de ontem, sobre a baixa<br \/>\n    do caf&eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Que hei de dizer? que anuncia cat&aacute;strofe para muita gente boa. Sabe<br \/>\n    o que me consola? &Eacute; que os Estados Unidos ainda levar&atilde;o um rombo<br \/>\n    maior do que n&oacute;s. N&atilde;o lhe parece?<\/p>\n<p>Que importavam a Francisco Teodoro as fal&ecirc;ncias dos americanos! ele<br \/>\n    s&oacute; tremia pela dele, era na sua fortuna que estavam condensados todos<br \/>\n    os bens do universo.<\/p>\n<p>Negreiros sentiu-lhe a m&atilde;o fria, ao apertar-lha, e voltou-se de repente,<br \/>\n    fixando-o nos olhos:<\/p>\n<p>&#8211; Homem, querem ver que voc&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>O negociante n&atilde;o lhe respondeu; simulando pressa passou adiante.<\/p>\n<p>Nessa tarde ele encontrou a casa cheia. D. In&aacute;cia espalhava receitas<br \/>\n    de doces por todos os cantos onde encontrasse dois ouvidos pacientes. A Carlotinha,<br \/>\n    com o seu ar picante de morena desembara&ccedil;ada, debicava as Bragas, que<br \/>\n    riam muito, aludindo aos namorados da Judith e da irm&atilde;, piscando para<br \/>\n    um estudante de medicina, o Oscar Pereira, que elas apresentavam nesse dia<br \/>\n    &agrave; fam&iacute;lia Teodoro, como um excelente recitador de mon&oacute;logos.<\/p>\n<p>Mas na casa pouco se apreciavam os versos e ningu&eacute;m lhos pediu.<\/p>\n<p>O Dr. Gerv&aacute;sio jogava com o Gomes e o L&eacute;lio, Camila girava<br \/>\n    pela casa, esquecendo-se no meio do ru&iacute;do, da impress&atilde;o de abandono<br \/>\n    dessa manh&atilde; no Equateur.<\/p>\n<p>L&aacute; dentro, Nina mandava acrescentar mais uma t&aacute;bua &agrave;<br \/>\n    mesa e descia &agrave; adega para determinar ao copeiro os vinhos a servir.<\/p>\n<p>Assim, aquele dia de semana parecia de festa.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro sentou-se ao p&eacute; do piano e olhou para todos como<br \/>\n    se olhasse para fantasmas. Que quereria dizer tanta alegria? Ent&atilde;o<br \/>\n    toda aquela gente n&atilde;o teria mais que fazer, nem outras coisas em que<br \/>\n    pensar?<\/p>\n<p>N&atilde;o esteve muito tempo sossegado. Lia e Rachel saltaram-lhe para os<br \/>\n    joelhos, e ele, cansado, deixou-as trepar, e fez de cavalinho durante alguns<br \/>\n    minutos&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"18\" id=\"18\">XVIII<\/a><\/h4>\n<p>Todos os dias era aquilo: logo pela manh&atilde; Francisco Teodoro saltava<br \/>\n    da cama com sentido nos telegramas do Jornal. Desta vez, como das outras,<br \/>\n    sofreu o mesmo desapontamento. L&aacute; vinha a not&iacute;cia de que o caf&eacute;<br \/>\n    baixava de pre&ccedil;o, pouco a pouco, invariavelmente.<\/p>\n<p>Vestiu-se &agrave; pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pesadelos<br \/>\n    da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam pelos<br \/>\n    tamarineiros.<\/p>\n<p>Eram seis horas, e j&aacute; Lia e Rachei andavam aos saltos, ainda de cal&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os enxugadores<br \/>\n    no bra&ccedil;o e a saboneteira na m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, crian&ccedil;as; que cacetes!<\/p>\n<p>As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pai, tomando-lhe o passo.<\/p>\n<p>&#8211; Bons dias, papai!<\/p>\n<p>&#8211; Bons dias, papai!<\/p>\n<p>O pai nem sorriu, afastou-as com brandura e disse:<\/p>\n<p>&#8211; V&atilde;o tomar o seu banho.<\/p>\n<p>&#8211; Eu quero passear com o senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb&eacute;m quero&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o fa&ccedil;am esperar a Noca. V&atilde;o tomar o seu banho. Logo&#8230;<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as come&ccedil;aram ent&atilde;o a desafiar a paci&ecirc;ncia<br \/>\n    da mulata, em correrias e nega&ccedil;as. Francisco Teodoro seguiu sozinho<br \/>\n    para o fundo da ch&aacute;cara. E por ali andou calado, sem atender aos cumprimentos<br \/>\n    dos empregados que passavam por ele.<\/p>\n<p>Sentia-se opresso, como se carregasse nos ombros um fardo muito pesado. Era<br \/>\n    a primeira vez que atentava na pequena dura&ccedil;&atilde;o da mocidade:<br \/>\n    a falta da energia dos outros tempos do&iacute;a-lhe na alma.<\/p>\n<p>E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que s&oacute; t&ecirc;m vida<br \/>\n    para isso&#8230;<\/p>\n<p>A Nina foi ter com ele.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor anda muito madrugador&#8230; Quer almo&ccedil;ar? Est&aacute; tudo<br \/>\n    pronto.<\/p>\n<p>Ele puxou pelo rel&oacute;gio.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, posso ir, s&atilde;o quase nove horas&#8230;<\/p>\n<p>Entraram. As pequenas puseram-se aos lados do pai, que lhes metia na boca<br \/>\n    bocadinhos de p&atilde;o com ovo.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor d&aacute; tudo &agrave;s meninas e n&atilde;o come nada! observou<br \/>\n    Nina.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho fome.<\/p>\n<p>&#8211; Depois fica doente&#8230; por que n&atilde;o fala com o m&eacute;dico?<\/p>\n<p>&#8211; Eu? para qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est&aacute; o caf&eacute;.<\/p>\n<p>Engolindo o caf&eacute;, de um trago, Francisco Teodoro saiu apressado.<\/p>\n<p>Noca foi espi&aacute;-lo &agrave; janela e veio dizer &agrave; Nina que seu<br \/>\n    Teodoro parecia outro homem; at&eacute; mudara de andar. Contemplaram-se as<br \/>\n    duas, e foi ainda a mulata quem murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe se algu&eacute;m disse de nh&aacute; Mila, hein?<\/p>\n<p>As onze horas, quando se sentaram &agrave; mesa do almo&ccedil;o, j&aacute;<br \/>\n    a vis&atilde;o de Teodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro.<\/p>\n<p>A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas, atrav&eacute;s<br \/>\n    do toldo riscado das janelas; sobre a toalha havia os mesmos excelentes vinhos<br \/>\n    e o mesmo excelente aroma de manac&aacute;. Nas jardineiras, os tufos rendados<br \/>\n    das avencas davam, como em todos os dias, igual aspecto de frescura &agrave;<br \/>\n    sala; as crian&ccedil;as rebentavam de sa&uacute;de&#8230; Que mais seria preciso<br \/>\n    para que as horas voassem na vida como num sonho?<\/p>\n<p>Entretanto, o dr. Gerv&aacute;sio perguntou a Mila:<\/p>\n<p>&#8211; Seu marido est&aacute; melhor?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei; anda amofinado&#8230; Sentiu muito o casamento de M&aacute;rio.<br \/>\n    Ele n&atilde;o quer que se diga que est&aacute; doente. E efetivamente n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute;. N&atilde;o sei o que &eacute; aquilo.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio calou-se, pensativo. As g&ecirc;meas come&ccedil;aram a rir,<br \/>\n    uma da outra.<\/p>\n<p>&#8211; Viu que bonito cr&oacute;ton est&aacute; no vaso da entrada, doutor? perguntou<br \/>\n    Ruth ao m&eacute;dico.<\/p>\n<p>&#8211; Vi. O cr&oacute;ton &eacute; bonito, o vaso &eacute; que &eacute; medonho.<br \/>\n    Tirem aquele vaso de alabastro dali, ou eu n&atilde;o volto c&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Acha feio?<\/p>\n<p>&#8211; Horr&iacute;vel.<\/p>\n<p>Nesse dia, Francisco Teodoro n&atilde;o achou um instante de alivio no trabalho.<\/p>\n<p>Foi ao escrit&oacute;rio do Inoc&ecirc;ncio e ma&ccedil;ou-o com interroga&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfar&ccedil;adamente.<\/p>\n<p>J&aacute; havia perto de tr&ecirc;s meses que os telegramas anunciavam regularmente<br \/>\n    numa propor&ccedil;&atilde;o de acinte, a baixa do caf&eacute; no Havre.<\/p>\n<p>E ainda o Inoc&ecirc;ncio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido<br \/>\n    esgar&ccedil;ado, fugitivo.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros, teve &iacute;mpetos<br \/>\n    de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir; todavia, conteve-se, certo<br \/>\n    de que nada lucraria, e desceu a escada do outro com o protesto de ser a &uacute;ltima<br \/>\n    vez.<\/p>\n<p>Quando entrou no seu escrit&oacute;rio, o guarda-livros estendeu-lhe um telegrama:<br \/>\n    A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava fal&ecirc;ncia, arrastando na<br \/>\n    queda grandes capitais de Teodoro.<\/p>\n<p>O negociante leu a comunica&ccedil;&atilde;o em sil&ecirc;ncio e em sil&ecirc;ncio<br \/>\n    se conservou por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas,<br \/>\n    de olhar parado e o papel aberto nas m&atilde;os tr&ecirc;mulas.<\/p>\n<p>Os empregados do escrit&oacute;rio assistiam mudos e contrafeitos &agrave;quela<br \/>\n    cena. O Mota j&aacute; l&aacute; estava, muito amarelo, de olhos encovados,<br \/>\n    mal escovado, com a gravata torta num colarinho amarrotado, com o triste ar<br \/>\n    de pobreza relaxada; tamb&eacute;m ele percebeu que pairava ali uma grande<br \/>\n    desgra&ccedil;a, e sacudiu piedosamente a cabe&ccedil;a, fixando o rosto transtornado<br \/>\n    do patr&atilde;o.<\/p>\n<p>Ouviam-se as moscas no ar zumbir com for&ccedil;a.<\/p>\n<p>Quinze dias mais tarde anunciava-se o fim de tudo, &#8211; a grande casa Teodoro<br \/>\n    teve de declarar fal&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Na fam&iacute;lia nada se sabia; o negociante readquirira nos &uacute;ltimos<br \/>\n    tempos uma relativa serenidade. Tinha de se render &agrave; pra&ccedil;a numa<br \/>\n    segunda-feira, e exatamente no domingo a sua mesa encheu-se.<\/p>\n<p>A fam&iacute;lia Gomes chegou cedo.<\/p>\n<p>D. In&aacute;cia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda cor<br \/>\n    de pinh&atilde;o; que seda aquela! parecia nova, com as rendas pretas do adorno.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, como se passa por aqui? disse ela alegremente, repimpando-se<br \/>\n    na melhor cadeira da sala de jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Assim, assim,&#8230; tio Francisco n&atilde;o anda nada bom, est&aacute; muito<br \/>\n    abatido, respondeu Nina.<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; que &eacute; mau. E sua tia?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; l&aacute; em cima, j&aacute; vem.<\/p>\n<p>&#8211; Gostaram dos biscoitos que eu mandei?<\/p>\n<p>&#8211; Muito, s&atilde;o muito bons.<\/p>\n<p>&#8211; Eu trouxe a receita para Mila. Amanh&atilde;, se Deus quiser, hei de experimentar<br \/>\n    outros. Como a Ruth cresce! Aqueles s&atilde;o de polvilho. Perceberam?<\/p>\n<p>&#8211; Percebemos.<\/p>\n<p>&#8211; Com muitos ovos. Nas confeitarias n&atilde;o se fazem assim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Carlotinha tirava o chap&eacute;u em frente ao espelho da etag&ecirc;re,<br \/>\n    cantarolando:<\/p>\n<p>&quot;No Brasil &eacute; doce dovos,<br \/>\n    Chiquita<br \/>\n    Um beijo dado em voc&ecirc;.&quot;<br \/>\n    &quot;Um beijo&#8230;&quot;<\/p>\n<p>e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ela.<\/p>\n<p>Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala, sacudiu<br \/>\n    os bra&ccedil;os numa tilinta&ccedil;&atilde;o de pulseiras e roubou Nina<br \/>\n    &agrave; m&atilde;e, puxando-a para o terra&ccedil;o:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; sabe duma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como &eacute;<br \/>\n    bom! como eu estou contente!<\/p>\n<p>&#8211; Foi o Samuel?<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, quem havia de ser?<\/p>\n<p>&#8211; Seu pai n&atilde;o queria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que rem&eacute;dio teve ele&#8230; Custou, hein? Ele h&aacute; de passar por<br \/>\n    aqui&#8230; Voc&ecirc; vem comigo para o jardim?<\/p>\n<p>Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos mon&oacute;logos. O dr.<br \/>\n    Gerv&aacute;sio mesmo, que n&atilde;o costumava aparecer aos domingos, l&aacute;<br \/>\n    foi para o joguinho com o L&eacute;lio e o Gomes.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro mandou abrir cerveja. A crian&ccedil;ada da vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    tagarelava pelos corredores. Fazia um sol!<\/p>\n<p>&#8211; Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, sr. Teodoro?<\/p>\n<p>&#8211; Muito bons&#8230; a sra. d. In&aacute;cia &eacute; em&eacute;rita. Sabemos.<\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o de polvilho&#8230; Eu trouxe&#8230;<\/p>\n<p>Camila apareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. In&aacute;cia remexeu-se<br \/>\n    nas sedas e levantou-se interrompendo a frase. Disse outra:<\/p>\n<p>&#8211; Como ela vem! &Eacute; um c&eacute;u!<\/p>\n<p>De vez em quando Noca aparecia na porta do corredor, percorria com a vista<br \/>\n    toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros criados, em<br \/>\n    arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Terezinha Braga com o estudante<br \/>\n    dos mon&oacute;logos, pelos v&atilde;os das janelas.<\/p>\n<p>&#8211; Credo, um mocinho t&atilde;o aquele&#8230;<\/p>\n<p>&Agrave;s dez horas da noite come&ccedil;ou a debandada. As primeiras a sair<br \/>\n    foram as Bragas com muitos adeuzinhos e risadas. O dr. Gerv&aacute;sio carregou<br \/>\n    com o L&eacute;lio, dando-lhe hospedagem com a condi&ccedil;&atilde;o de lhe<br \/>\n    ouvir Chopin. As Gomes foram as &uacute;ltimas. As mo&ccedil;as sa&iacute;ram<br \/>\n    carregadas de flores e mudas de plantas, e d. In&aacute;cia com o bra&ccedil;o<br \/>\n    vergado ao peso da bolsa cheia de p&ecirc;ssegos inchados, bons para doce.<\/p>\n<p>&#8211; Com o pretexto da do&ccedil;aria, ela passava sempre revista ao pomar de<br \/>\n    Camila. O marido dava-lhe o bra&ccedil;o, com a cabe&ccedil;a erguida, para<br \/>\n    que n&atilde;o lhe ca&iacute;ssem do nariz o pesado pince-nez de tartaruga.<\/p>\n<p>&#8211; Foi um dia bem passado! disse depois Mila &agrave; sua gente.<\/p>\n<p>Os outros concordaram.<\/p>\n<p>Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco Teodoro<br \/>\n    entrou no quarto das crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>Do g&aacute;s em lamparina descia uma luz doce, atenuada por um globo de<br \/>\n    porcelana.<\/p>\n<p>Em duas caminhas iguais, de ferro branco com varais dourados, e separadas<br \/>\n    apenas por um intervalo de um metro, as duas meninas dormiam profundamente,<br \/>\n    com os len&ccedil;&oacute;is revoltos, as pernas nuas, os cabelos espalhados<br \/>\n    sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o ar e l&aacute;bios<br \/>\n    entreabertos.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz, parecia<br \/>\n    mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama; a outra velava-se<br \/>\n    em uma meia sombra, com as m&atilde;os espalmadas no peitinho gordo.<\/p>\n<p>Que dormir t&atilde;o bonito. Quase que lhes lia os sonhos, atrav&eacute;s<br \/>\n    das p&aacute;lpebras mimosas&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora para<br \/>\n    outra. Como eram bons aqueles leitos, como era espa&ccedil;oso aquele quarto,<br \/>\n    como eram finos aqueles sapatinhos que descansavam vazios sobre o tapete,<br \/>\n    e como cheiravam bem aquelas sainhas bordadas e aqueles vestidos brancos que<br \/>\n    estavam ali atirados para as costas de uma cadeira! E n&atilde;o poderiam<br \/>\n    crescer assim as suas filhas, com aquele conforto de luxo! Dias depois sairiam<br \/>\n    do seu palacete, e iriam&#8230; para onde? que os esperaria a todos?<\/p>\n<p>Francisco Teodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos; voltou-se<br \/>\n    assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A mulata, que vinha<br \/>\n    deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou:<\/p>\n<p>&#8211; Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era.<\/p>\n<p>&#8211; T&atilde;o sonhando&#8230; &agrave;s vezes basta mudar de posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e ficam logo quietas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, estar&atilde;o sonhando&#8230; queira Deus que os sonhos sejam bons&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Elas n&atilde;o t&ecirc;m nada! T&atilde;o frescas&#8230; apalpe s&oacute;,<br \/>\n    pra v&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, deixe-as dormir&#8230; olhe por elas&#8230; olhe por elas!<\/p>\n<p>Francisco Teodoro saiu do quarto com um n&oacute; na garganta. Como seriam<br \/>\n    educadas aquelas crian&ccedil;as? As pobres ainda n&atilde;o sabiam nada,<br \/>\n    nem uma letra&#8230; nem uma! Em vez de subir para seu quarto, onde Camila adormecia,<br \/>\n    ele acendeu uma vela, apagou o g&aacute;s da saleta e desceu para o seu escrit&oacute;rio,<br \/>\n    no r&eacute;s do ch&atilde;o.<\/p>\n<p>&Agrave; uma hora da madrugada, Teodoro escrevia ainda. Do lampi&atilde;o<br \/>\n    de bronze descia uma luz calma, fixa, propicia &agrave; escrita. A mob&iacute;lia<br \/>\n    de canela e de couro lavrado, nua, bem arrumada, tomava uma fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de espanto naquela claridade muda.<\/p>\n<p>Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede cor de<br \/>\n    avel&atilde; a sombra da sua atitude arrogante e viva&#8230;<\/p>\n<p>Na mesa, ao lado do c&oacute;digo de Orlando, o tinteiro de prata tinha reflexos<br \/>\n    brancos; e s&oacute; das quatro molduras douradas dos quadros saltavam lampejos<br \/>\n    luminosos que animavam a sala.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro escrevia cartas: acabada uma, come&ccedil;ava outra. Dir-se-ia<br \/>\n    que as palavras eram em todas iguais. A pena corria dando as mesmas voltas<br \/>\n    e rangendo com for&ccedil;a, como se fosse calcada por uns dedos de ferro.<br \/>\n    Terminada a &uacute;ltima, colocou-as em um ma&ccedil;o sobre a pasta e encostou-se<br \/>\n    na larga cadeira, ofegante, com os olhos no v&aacute;cuo. Esteve largo tempo<br \/>\n    assim, im&oacute;vel. Depois, sem que um &uacute;nico m&uacute;sculo do rosto<br \/>\n    se lhe contra&iacute;sse, abriu uma gaveta da secret&aacute;ria, tirou dela<br \/>\n    um rev&oacute;lver e examinou-o com aten&ccedil;&atilde;o. Era uma arma nova,<br \/>\n    reluzindo ainda &agrave;s &uacute;ltimas fric&ccedil;&otilde;es da camur&ccedil;a;<br \/>\n    o negociante revirou-a entre os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou<br \/>\n    a guard&aacute;-la na mesma gaveta, que fechou &agrave; chave.<\/p>\n<p>Estava ali dentro o descanso, a eterna paz.<\/p>\n<p>Tinha ao alcance da m&atilde;o o esquecimento de tudo&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, depois de uma terr&iacute;vel noite de ins&ocirc;nia, Teodoro<br \/>\n    desceu &agrave; hora do costume para a sala de jantar, reluzente de cristais<br \/>\n    e prataria, e sentou-se &agrave; mesa, em frente ao terra&ccedil;o que todo<br \/>\n    se via pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degraus amplos desciam<br \/>\n    para o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos bala&uacute;stres<br \/>\n    irrompiam, de entre tufos de avenca, dois espl&ecirc;ndidos p&eacute;s de<br \/>\n    manac&aacute; em flor. Francisco Teodoro olhava para eles sem os ver, absorvido<br \/>\n    no seu desgosto, quando a afilhada o interrompeu:<\/p>\n<p>&#8211; Bons dias, titio!<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, Nina.<\/p>\n<p>&#8211; Estava gostando de ver os manac&aacute;s?<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230;est&atilde;o bonitos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Lindos! Sabe? tia Mila vai ter hoje um desgosto!<\/p>\n<p>&#8211; Hein?! perguntou Francisco Teodoro sobressaltado.<\/p>\n<p>&#8211; Amanheceu hoje morto o cacatu&aacute;, e ningu&eacute;m sabe porque. Noca<br \/>\n    j&aacute; est&aacute; dizendo que &eacute; sinal de desastre em uma casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! ela disse isso?<\/p>\n<p>&#8211; Disse. N&oacute;s n&atilde;o nos importamos; mas o senhor sabe como tia<br \/>\n    Mila &eacute; impression&aacute;vel!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatu&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; O capit&atilde;o Rino.. Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; D&ecirc;-me uma x&iacute;cara de ch&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o bife e os ovos a&iacute; v&ecirc;m&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o quero nada. S&oacute; ch&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Coma ent&atilde;o destas bolachinhas. Est&atilde;o muito bem feitas.<\/p>\n<p>Nina foi ao arm&aacute;rio, de onde retirou a biscoiteira de cristal. Enquanto<br \/>\n    o tio comia, ela sentou-se a seu lado e pediu-lhe l&aacute;pis para escrever<br \/>\n    uma nota, nas costas de um cart&atilde;o de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Deus queira que eu n&atilde;o me esque&ccedil;a de nada do que tia Mila<br \/>\n    recomendou&#8230;<\/p>\n<p>Depois leu alto:<\/p>\n<p>&#8211; Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimar&atilde;es que mande<br \/>\n    trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de veludo turquesa.<\/p>\n<p>Dizer ao Bastos que fa&ccedil;a, pela medida que tem l&aacute;, mais um par<br \/>\n    de sapatos de cetim preto&#8230; H&aacute; mais: um quilo de bombons e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga mais; hoje n&atilde;o posso fazer nada disso.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o tia Mila ir&aacute; a cidade&#8230; &Eacute; melhor.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! que n&atilde;o v&aacute;, atalhou ele nervosamente. Dize-lhe<br \/>\n    que voltarei cedo. Eu farei tudo&#8230; mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos<br \/>\n    de cetim, os doces&#8230;Ah! a Noca tinha raz&atilde;o! Sabes tu, Nina?<\/p>\n<p>&#8211; Eu? murmurou a mo&ccedil;a espantada: Eu? repetia ela, com assombro, eu<br \/>\n    n&atilde;o sei nada!<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz&atilde;o&#8230; cala-te e espera. Expliquem &agrave; minha mulher<br \/>\n    o significado da morte do cacatu&aacute;, n&atilde;o faz mal. Adeus, tenho<br \/>\n    pressa&#8230;<\/p>\n<p>Nina ficou pensando:<\/p>\n<p>&#8211; Tio Francisco estar&aacute; doido?<\/p>\n<p>Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as cigarras<br \/>\n    cantavam estridulamente. Os bondes vinham cheios, e bandos de crian&ccedil;as<br \/>\n    passavam nas cal&ccedil;adas a caminho do col&eacute;gio.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro &eacute; que n&atilde;o caminhava bem: tinha um grande<br \/>\n    peso derrubando-lhe os ombros, e sentia as pernas amolecidas. Tomou o bonde<br \/>\n    j&aacute; na praia. Adiante dele, no banco da frente, ia um portuguezinho<br \/>\n    rec&eacute;m-chegado, de jaqueta, chap&eacute;u de feltro de abas ensebadas<br \/>\n    e grossos sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado,<br \/>\n    entreabrindo os l&aacute;bios secos e gretados numa express&atilde;o admirativa.<br \/>\n    Francisco Teodoro n&atilde;o podia desprender a vista daquela crian&ccedil;a<br \/>\n    r&uacute;stica. Veio-lhe &agrave; mem&oacute;ria o seu desembarque, a sua<br \/>\n    pobreza, a crosta da terra p&aacute;tria que trazia presa &agrave;s solas<br \/>\n    brutas dos seus sapatos, e o espanto com que ele, tamb&eacute;m, nos seus<br \/>\n    primeiros dias, olhava para este c&eacute;u, e estas &aacute;rvores, e estas<br \/>\n    montanhas, em uma interroga&ccedil;&atilde;o de esperan&ccedil;a e de medo;<br \/>\n    e da saudade que tivera da broa, da aldeia, das &aacute;guas claras daquele<br \/>\n    rio em que se banhava nas tardes de ver&atilde;o, daquelas charnecas onde<br \/>\n    ia &agrave; ca&ccedil;a dos grilos, daqueles campos de trigos dourados ao<br \/>\n    sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da m&atilde;e, das caminhadas<br \/>\n    pelas brancas estradas atr&aacute;s dos burricos do moleiro&#8230;<\/p>\n<p>E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: &quot;Volta<br \/>\n    para a tua aldeia, contenta-te com o p&atilde;o duro, com a sardinha assada,<br \/>\n    e a &aacute;gua do bom Deus!<\/p>\n<p>&quot;Onde h&aacute; uma &aacute;rvore h&aacute; sombra onde um homem se<br \/>\n    deite. N&atilde;o queiras a riqueza, que ela engana e mente. Mas vale ser<br \/>\n    pobre toda a vida! Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos<br \/>\n    a rolarem nus pela terra que um dia os h&aacute; de comer&#8230; Se bem os vestires<br \/>\n    a todos&#8230; ver&aacute;s: pesar&atilde;o ouro e valer&atilde;o p&oacute;&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Eram dez horas quando o negociante entrou no armaz&eacute;m. Seu Joaquim<br \/>\n    andava azedo e mal humorado, e at&eacute; mesmo para o patr&atilde;o tinha<br \/>\n    um modo rebarbativo e seco. Depois, o trabalho estacionara; n&atilde;o havia<br \/>\n    nenhum caminh&atilde;o &agrave; porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas<br \/>\n    de sacos e para as aranhas do teto.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro chegou-se &agrave; mesa que estava &agrave; esquerda da<br \/>\n    porta de entrada, apanhou ai a sua correspond&ecirc;ncia e girando sobre os<br \/>\n    calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escrit&oacute;rio.<\/p>\n<p>Em cima estavam s&oacute; o guarda-livros, que escrevia de p&eacute;, e o<br \/>\n    velho Mota, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias.<\/p>\n<p>&#8211; O Leite Mendes mandou c&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; tudo direito, n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Escrevi eu mesmo as cartas&#8230; veja se est&atilde;o em ordem&#8230;<\/p>\n<p>O guarda-livros fez um gesto de recusa.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; j&aacute; estou desacostumado dessas coisas&#8230; veja. Depois<br \/>\n    ser&aacute; bom mand&aacute;-las entregar, insistiu Teodoro.<\/p>\n<p>&#8211; Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Adiaremos ao menos a&#8230; a cat&aacute;strofe.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! o Sidney! h&aacute; de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui<br \/>\n    justamente uma carta dele, que ainda n&atilde;o abri. Vou l&ecirc;-la agora.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro sentou-se muito p&aacute;lido, e rasgou o sobrescrito com<br \/>\n    m&atilde;o tr&ecirc;mula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da<br \/>\n    leitura uma grande pausa, em que o sil&ecirc;ncio pesava; ao fim de alguns<br \/>\n    minutos o negociante ergueu-se e come&ccedil;ou a passear nervosamente de<br \/>\n    um lado para o outro. De vez em quando lan&ccedil;ava uma pergunta pueril<br \/>\n    ou distra&iacute;da:<\/p>\n<p>&#8211; Que dia &eacute; hoje?<\/p>\n<p>&#8211; 29&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; sim&#8230; 29&#8230; &eacute; isso&#8230; 29&#8230; 29&#8230; repetia ele baixo.<\/p>\n<p>Os outros calavam-se.<\/p>\n<p>O sol entrava com for&ccedil;a pela sacada aberta; Francisco Teodoro p&ocirc;s<br \/>\n    as folhas da janela em fresta e voltando-se atravessou vagarosamente e em<br \/>\n    diagonal o escrit&oacute;rio at&eacute; o canto da talha, cujo barro come&ccedil;ou<br \/>\n    a raspar com a unha.<\/p>\n<p>Da rua vinha uma bulha ensurdecedora: rolavam conjuntamente carro&ccedil;as<br \/>\n    e vozes praguejantes; os chicotes estalavam no ar e, em grossas nuvens de<br \/>\n    p&oacute;, o cheiro do caf&eacute; cru subia na atmosfera quente.<\/p>\n<p>S&uacute;bito, Francisco Teodoro voltou-se para o guarda-livros e disse com<br \/>\n    voz segura:<\/p>\n<p>&#8211; Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete.<\/p>\n<p>O empregado releu os sobrescritos e chegando-se &agrave; janela do fundo,<br \/>\n    que deitava para o interior do armaz&eacute;m, gritou para baixo:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Augusto!<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m lhe respondeu, e como ele repetisse o chamado com mais for&ccedil;a,<br \/>\n    o gerente voltou-se para cima com ar amea&ccedil;ador e um outro caixeiro<br \/>\n    gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Augusto ainda n&atilde;o voltou da rua!<\/p>\n<p>Fechado o gabinete, Francisco Teodoro escreveu longamente Meireles e ao M&aacute;rio,<br \/>\n    relatando-lhes o desastre, sem lamenta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido &agrave; Lage,<br \/>\n    mas levantou logo os ombros; era uma mulher, que podia entender de neg&oacute;cios?<br \/>\n    De mais, as coisas iriam em declive r&aacute;pido, e um novo empr&eacute;stimo<br \/>\n    seria um compromisso irremiss&iacute;vel&#8230; melhor fora n&atilde;o se ter<br \/>\n    lembrado dela. E as tias do Castelo? a essas pediria apoio para a fam&iacute;lia;<br \/>\n    ele j&aacute; nada queria para si; poucos dias teria de vida: o golpe era<br \/>\n    muito forte para deix&aacute;-lo de p&eacute;. Mas a mulher?&#8230; e as filhas?<br \/>\n    E, afinal, acreditava ele na fortuna das velhas? onde a escondiam elas que<br \/>\n    ningu&eacute;m a via? Riquezas, riquezas, v&aacute; a gente desencant&aacute;-las<br \/>\n    em cofres &aacute;varos!<\/p>\n<p>As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a reuni&atilde;o<br \/>\n    dos credores no armaz&eacute;m, para verifica&ccedil;&atilde;o do estado da<br \/>\n    casa. Francisco Teodoro tinha algumas horas diante de si para avisar a fam&iacute;lia,<br \/>\n    mas faltava-lhe a coragem.<\/p>\n<p>Saiu do escrit&oacute;rio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um<br \/>\n    ou outro amigo. Logo no primeiro quarteir&atilde;o teve um sobressalto; &agrave;<br \/>\n    porta da casa Torres estaca um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou<br \/>\n    o corpanzil metido em alvejantes brins, com um fraque preto fugindo para tr&aacute;s<br \/>\n    e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o abd&ocirc;men<br \/>\n    arredondado. Francisco Teodoro corou, teve desejos de ser engolido pela terra;<br \/>\n    e tocando com os dedos tr&ecirc;mulos na aba do chap&eacute;u esbo&ccedil;ou<br \/>\n    um sorriso e foi andando.<\/p>\n<p>J&aacute; mal podia caminhar: um peso horr&iacute;vel nas pernas fazia-o<br \/>\n    retardar os passos, exatamente quando os queria acelerar; arrimava-se com<br \/>\n    for&ccedil;a ao seu chap&eacute;u de chuva e remexia os bei&ccedil;os como<br \/>\n    se fosse a falar sozinho; era a secura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe<br \/>\n    ter engolido todo o p&oacute; das ruas.<\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o via ningu&eacute;m, pouco se importava que o cumprimentassem;<br \/>\n    ia pensando em tomar o bonde na esquina; mas como n&atilde;o o visse ali em<br \/>\n    toda a extens&atilde;o da rua, subiu pela cal&ccedil;ada rente aos trilhos.<br \/>\n    Tinha andado alguns metros quando esbarrou com o Negreiros.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de<br \/>\n    quem j&aacute; fora informado do desastre e n&atilde;o quizesse aludir a ele.<\/p>\n<p>&#8211; Todos bons&#8230; estou &agrave; espera do bonde.<\/p>\n<p>&#8211; Isso &agrave;s vezes demora&#8230; Eu n&atilde;o tenho paci&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>&#8211; Han&#8230; &eacute; aborrecido.<\/p>\n<p>Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um coup&eacute; particular<br \/>\n    que ro&ccedil;ou na cal&ccedil;ada; dentro ia o Inoc&ecirc;ncio, que os viu<br \/>\n    e os cumprimentou com um adeuzinho de m&atilde;o.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro nem tocou no chap&eacute;u e murmurou com &oacute;dio.<\/p>\n<p>&#8211; C&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Vai para a Europa&#8230; segue diretamente para Londres, num paquete da Nova<br \/>\n    Zel&acirc;ndia, amanh&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; Com o meu dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>Negreiros engoliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando<br \/>\n    um pouco, aproximou-se mais de Teodoro e murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Se precisar de mim&#8230; os amigos s&atilde;o para as ocasi&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>Francisco Teodoro estremeceu e apertou-lhe a m&atilde;o com for&ccedil;a;<br \/>\n    houve nos olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloq&uuml;ente de<br \/>\n    uma l&aacute;grima. Vinha um bonde; o negociante tornou a sacudir em sil&ecirc;ncio<br \/>\n    a m&atilde;o de Negreiros e partiu.<\/p>\n<p>No largo da Carioca, ao esperar outro bonde que o levasse &agrave; casa,<br \/>\n    Francisco Teodoro topou com a baronesa da Lage, farfalhante nas suas sedas<br \/>\n    e vidrilhos; quis evit&aacute;-la, n&atilde;o p&ocirc;de: a mo&ccedil;a estendia-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o enluvada, sorrindo-lhe atrav&eacute;s do veuzinho.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? Papai escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito. M&aacute;rio<br \/>\n    est&aacute; deslumbrado; comprou belos cavalos de ra&ccedil;a em Londres;<br \/>\n    se n&atilde;o fosse a mulher, diz papai que ele poria em poucos dias todo<br \/>\n    o dinheiro fora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu tenciono tamb&eacute;m partir em breve; vou ter com eles a Paris&#8230;<br \/>\n    Irei abra&ccedil;ar a nossa Camila qualquer dia destes. M&aacute;rio escreveu-lhes?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; noivo&#8230; tem desculpa&#8230; l&aacute; est&aacute; o seu bonde.<\/p>\n<p>&#8211; E a senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Eu vou de carro. Saudades a todos.<\/p>\n<p>Ela afastou-se ligeira, no frou-frou das saias de seda, e o negociante tomou<br \/>\n    lugar no bonde, repetindo mentalmente a frase da Lage, acerca de M&aacute;rio:<br \/>\n    &quot;Se n&atilde;o fosse a mulher, ele poria em poucos dias todo o dinheiro<br \/>\n    fora.&quot;<\/p>\n<p>Nunca a viagem da cidade &agrave; rua dos Volunt&aacute;rios lhe parecera<br \/>\n    t&atilde;o curta.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas g&ecirc;meas,<br \/>\n    &agrave; espera dele no jardim, ambas de branco, risonhas e saltitantes, e<br \/>\n    de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que lhe faziam lembrar<br \/>\n    os olhos da m&atilde;e em uma vaga reminisc&ecirc;ncia saudosa; e, em cima,<br \/>\n    de Camila, em frente ao espelho, nos &uacute;ltimos retoques da toilette da<br \/>\n    tarde, com os bra&ccedil;os arqueados e os dedos carregados de an&eacute;is,<br \/>\n    unidos nas ondas negras do penteado&#8230;<\/p>\n<p>Que lhes diria ele? que lhes diria?!<\/p>\n<p>Lembrou-se ent&atilde;o do dr. Gerv&aacute;sio: seria esse amigo quem se<br \/>\n    encarregasse de dizer tudo a Mila, no dia seguinte, &agrave; hora em que ele<br \/>\n    estivesse com os credores no armaz&eacute;m&#8230; no fim, absolutamente no fim!<\/p>\n<p>Essa id&eacute;ia animou-o.<\/p>\n<p>Iria &agrave; noite procurar o m&eacute;dico &agrave; sua resid&ecirc;ncia<br \/>\n    e confessar-lhe-ia tudo. Ao abrir o port&atilde;o da ch&aacute;cara, viu as<br \/>\n    suas g&ecirc;meas voando nas bicicletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons<br \/>\n    do violino de Ruth em uma sonatina fresca.<\/p>\n<p>Nina fazia um ramo e Camila, j&aacute; pronta, formosa no seu vestido cor<br \/>\n    de milho maduro, lia no terra&ccedil;o, com o cotovelo pousado no jarr&atilde;o<br \/>\n    das gard&ecirc;nias.<\/p>\n<h4><a name=\"19\" id=\"19\">XIX<\/a><\/h4>\n<p>C om um avental atado sobre as rendas do peignoir, Camila executava, com<br \/>\n    a Noca, uma receita de doce dada por d. In&aacute;cia.<\/p>\n<p>Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefect&iacute;vel<br \/>\n    nos jantares de anivers&aacute;rio das Gomes.<\/p>\n<p>A mulata pisava as nozes no almofariz. Mila acabava de observar a calda e<br \/>\n    voltava a consultar o papel, em que a caligrafia desleixada da Judith confundia<br \/>\n    os a com os o, quando a Nina apareceu dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Dr. Gerv&aacute;sio est&aacute; ai. Entrou para a saleta. Quer falar com<br \/>\n    a senhora.<\/p>\n<p>&#8211; A estas horas!&#8230; Ele n&atilde;o disse por que n&atilde;o veio almo&ccedil;ar?&#8230;<br \/>\n    perguntou ela alvoro&ccedil;ada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o avental.<br \/>\n    Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho, despeja-lhe dentro<br \/>\n    as nozes&#8230; depois destas bem cozidas retira o tacho do fogo e mistura ao<br \/>\n    doce doze gemas de ovo&#8230; torna a p&ocirc;r tudo ao lume&#8230; Anda, Nina! desamarra<br \/>\n    este avental, de uma vez!<\/p>\n<p>&#8211; Deu n&oacute;, tia Mila! Tenha paci&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Depois? inquiriu, Noca, enquanto Mila, para n&atilde;o perder tempo, lavava<br \/>\n    os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.<\/p>\n<p>&#8211; Depois? Espera, deixa-me ver a receita&#8230; Ah, depois da massa estar bem<br \/>\n    cozida, p&otilde;e-se no forno, em uma forma untada com manteiga. Manteiga<br \/>\n    fresca, ouviu? Lembre-se que o dr. Gerv&aacute;sio n&atilde;o gosta de manteiga<br \/>\n    salgada&#8230; Pronto este avental? At&eacute; que enfim! Fica em meu lugar, Nina.<\/p>\n<p>Nina ficou, e Camila, tendo enxugado as m&atilde;os ao avental, que atirou<br \/>\n    ao ch&atilde;o, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da gola,<br \/>\n    que as m&atilde;os &aacute;geis ajeitavam mesmo sem espelho.<\/p>\n<p>Sentindo-lhe os passos, Gerv&aacute;sio foi-lhe ao encontro, mas com ar t&atilde;o<br \/>\n    grave e desusado que ela logo o estranhou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; doente?!<\/p>\n<p>&#8211; Eu, n&atilde;o&#8230; por que?<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; est&aacute; diferente. Que modo!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer.<\/p>\n<p>&#8211; A mim?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute;?<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o respondeu imediatamente: contemplava-a em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    segurando-lhe nas m&atilde;os como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir<br \/>\n    o golpe em cheio. Mila impacientou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Que ser&aacute;, meu Deus! E logo lhe ocorreu a id&eacute;ia de que sucedera<br \/>\n    algum desastre ao filho, um naufr&aacute;gio. Aterrorizada por aquele pensamento,<br \/>\n    balbuciou apenas: &#8211; M&aacute;rio?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se trata do M&aacute;rio. &Eacute; isto: voc&ecirc;s est&atilde;o<br \/>\n    pobres&#8230; Teodoro faliu.<\/p>\n<p>Camila tornou-se l&iacute;vida Houve um longo sil&ecirc;ncio cortado s&oacute;<br \/>\n    pelo zumbir de uma vespa no resed&aacute; da janela. Ela n&atilde;o ouvia<br \/>\n    a vespa, n&atilde;o ouvia nada.<\/p>\n<p>O seu rosto, que havia pouco refletia o fulgor das brasas, estava t&atilde;o<br \/>\n    desbotado agora, que o m&eacute;dico, inquieto, com receio de uma s&iacute;ncope,<br \/>\n    amparou-a, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Compreendo a estupefa&ccedil;&atilde;o, mas agora, que a verdade est&aacute;<br \/>\n    sabida, &eacute; preciso coragem&#8230; Camila!<\/p>\n<p>Como ela continuasse im&oacute;vel, ele abalou-a brandamente, repetindo-lhe<br \/>\n    o nome: Camila&#8230; Camila!&#8230; julgava-te mais forte, muito mais forte! Olha<br \/>\n    para mim. Percebe o sentido das minhas palavras &#8211; falir n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    morrer. Teu marido n&atilde;o morreu, &#8211; faliu.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; imposs&iacute;vel! murmurou ela por fim com uma voz de son&acirc;mbula.<\/p>\n<p>&#8211; Imposs&iacute;vel por que? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Voc&ecirc;s<br \/>\n    mulheres n&atilde;o entendem destas coisas. S&oacute; conhecem a vida pela<br \/>\n    superf&iacute;cie, por isso &eacute; que t&ecirc;m surpresas com fatos natural&iacute;ssimos.<br \/>\n    Hoje a fal&ecirc;ncia &eacute; de Teodoro, amanh&atilde; ser&aacute; de e<br \/>\n    depois de outro&#8230; A s&eacute;rie h&aacute; de ser longa.<\/p>\n<p>&#8211; Que me importam os outros!<\/p>\n<p>&#8211; Importa como explica&ccedil;&atilde;o: &eacute; uma conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    do tempo. Mas senta-te, est&aacute;s muito fria&#8230; queres uma capa?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o quero nada. E, como ele quisesse ret&ecirc;-la, ela desprendeu-se-lhe<br \/>\n    bruscamente dos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8211; Descansa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o posso.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio calou-se, &agrave; espera: ela come&ccedil;ou a andar com<br \/>\n    passadas irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma id&eacute;ia.<br \/>\n    A vida, h&aacute; pouco suspensa, voltava agora com &iacute;mpeto. A rea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    escaldava-lhe o corpo. Ela ia falando, estra&ccedil;alhando frases:<\/p>\n<p>&#8211; Que horror! como havemos de aparecer diante de toda esta gente&#8230; Que insensatez,<br \/>\n    naquela idade! deixar-se falir! n&atilde;o compreendo! Que vergonha, que vergonha!<br \/>\n    E as crian&ccedil;as?!&#8230; N&atilde;o pode ser! n&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p>Subitamente parou, com um rel&acirc;mpago de esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Se fosse mentira?!<\/p>\n<p>&#8211; Eu seria um miser&aacute;vel.<\/p>\n<p>&#8211; Podiam ter-te enganado. Quem te disse?<\/p>\n<p>&#8211; Ele.<\/p>\n<p>&#8211; Burro!<\/p>\n<p>Camila deu um pux&atilde;o &agrave; gola, como se o vestido a sufocasse e<br \/>\n    recome&ccedil;ou logo no seu giro tonto.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico tentou acalm&aacute;-la:<\/p>\n<p>&#8211; Escuta, Mila, tenho hoje, como direi&#8230; pudor em aludir &agrave; nossa<br \/>\n    felicidade; contudo &eacute; em nome dela que te pe&ccedil;o que n&atilde;o<br \/>\n    fa&ccedil;as a teu marido recrimina&ccedil;&otilde;es insensatas. Lembra-te<br \/>\n    que ele &eacute; o mais desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Camila sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda:<\/p>\n<p>&#8211; A culpa &eacute; dele&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A culpa &eacute; de todos.<\/p>\n<p>&#8211; Isto n&atilde;o podia ter acontecido de repente, e ele n&atilde;o me disse<br \/>\n    nada! Os homens pensam que n&oacute;s n&atilde;o nos interessamos pela sua<br \/>\n    vida. T&ecirc;m-nos s&oacute; para o seu prazer! S&oacute;, s&oacute;, s&oacute;!<\/p>\n<p>&#8211; Teodoro est&aacute; muito acabrunhado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando foi que ele te disse?<\/p>\n<p>&#8211; Ontem &agrave; noite, em minha casa. Chorou.<\/p>\n<p>&#8211; Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar!<\/p>\n<p>&#8211; A dor &eacute; forte.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; perdeu uma filha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma crian&ccedil;a apenas nascida&#8230; Agora perde a sua honra de negociante,<br \/>\n    que ele preza acima de tudo.<\/p>\n<p>&#8211; A sua honra! mas Teodoro n&atilde;o roubou nada!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, mas empregou capitais em empresas de azar. A lei tem severidades.<br \/>\n    &Eacute; preciso estar preparada para tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que ele pode ser preso?<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe, n&atilde;o &eacute; prov&aacute;vel, mas&#8230;<\/p>\n<p>Os olhos de Camila, at&eacute; ent&atilde;o enxutos, encheram-se de l&aacute;grimas<br \/>\n    e ela disse, com os bei&ccedil;os tr&ecirc;mulos:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! ele n&atilde;o sair&aacute; de ao p&eacute; de mim. V&aacute;<br \/>\n    busc&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Tu o amas, Camila!<\/p>\n<p>Ela fez que sim com a cabe&ccedil;a e foi sentar-se junto ao m&eacute;dico,<br \/>\n    olhando-o de face.<\/p>\n<p>Por algum tempo foi s&oacute; o zumbir da abelha no resed&aacute; o &uacute;nico<br \/>\n    rumor que se ouviu na sala. Gerv&aacute;sio desviou os olhos.<\/p>\n<p>Camila vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto escondido<br \/>\n    nas m&atilde;os.<\/p>\n<p>A crise foi longa. Atrav&eacute;s da porta fechada sentiam-se passinhos indiscretos<br \/>\n    pelo corredor.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio consultou o rel&oacute;gio. Eram quatro horas. Que se teria<br \/>\n    passado em S. Bento? Desejava apressar a situa&ccedil;&atilde;o, acabar com<br \/>\n    aquilo; sentia-se opresso, levantou-se, foi &agrave; janela olhar para o azul<br \/>\n    macio do c&eacute;u chamalotado de nuvenzinhas brancas.<\/p>\n<p>Um belo dia perdido!<\/p>\n<p>Camila solu&ccedil;ava. Ele voltou-se sem saber como cortar aquela agonia.<br \/>\n    Nunca o cora&ccedil;&atilde;o daquela mulher lhe parecera t&atilde;o impenetr&aacute;vel,<br \/>\n    nunca a sua psicologia t&atilde;o obscura. Esperava v&ecirc;-la raivosa, assustada<br \/>\n    pela perspectiva da ru&iacute;na, reagindo com f&uacute;ria contra aquela<br \/>\n    decep&ccedil;&atilde;o tremenda. Era evidente que ela se tinha casado por<br \/>\n    interesse n&atilde;o seria extraordin&aacute;rio que se julgasse agora roubada&#8230;<br \/>\n    Entretanto, s&oacute; nos primeiros instantes Camila tinha pensado em si,<br \/>\n    no ego&iacute;smo a que a vida a acostumara; mas a dor da compaix&atilde;o<br \/>\n    viera depressa e manifestava-se mais abundante.<\/p>\n<p>Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ci&uacute;me, dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    perguntou baixo a Camila, fixando-lhe o rosto inundado:<\/p>\n<p>&#8211; Mas sempre o amaste assim?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o&#8230; eu comecei a am&aacute;-lo depois que o enganei&#8230; &Eacute;<br \/>\n    amizade, &eacute; uma amizade muito grande!<\/p>\n<p>O m&eacute;dico n&atilde;o respondeu; olhava para ela pensativo, e depois<br \/>\n    de um largo sil&ecirc;ncio:<\/p>\n<p>&#8211; Enxuga os olhos. &eacute; tempo de chamar o resto da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Ruth e as crian&ccedil;as entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que<br \/>\n    o dr. Gerv&aacute;sio quis associar a fam&iacute;lia. E sobre todos eles a<br \/>\n    porta foi fechada com precau&ccedil;&otilde;es, para que os criados n&atilde;o<br \/>\n    percebessem do que se tratava.<\/p>\n<p>Dr. Gerv&aacute;sio exp&ocirc;s o fato em poucas palavras, ferindo o assunto<br \/>\n    sem rodeios. Lia e Rachel n&atilde;o o entendiam, embasbacadas para a m&atilde;e.<br \/>\n    As palavras para elas s&oacute; tinham som, mas n&atilde;o sentido.<\/p>\n<p>Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a m&atilde;e, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o chore, que isso aumentar&aacute; a afli&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    papai.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para<br \/>\n    Nina:<\/p>\n<p>&#8211; E voc&ecirc;, que diz?<\/p>\n<p>&#8211; Nada; espero.<\/p>\n<p>&#8211; E sei que h&aacute; de esperar com firmeza. Muito bem.<\/p>\n<p>Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Teodoro expunha com voz tr&ecirc;mula<br \/>\n    os neg&oacute;cios da casa aos credores, reunidos no seu escrit&oacute;rio.<\/p>\n<p>Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe, a uma ou outra pergunta,<br \/>\n    que a delicada compaix&atilde;o do momento tornava t&iacute;mida. O pr&oacute;prio<br \/>\n    Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se de leve quando<br \/>\n    andava, para que o assoalho n&atilde;o gemesse e tinha artes de transformar,<br \/>\n    para um brando sussurro, o seu vozeir&atilde;o de trovoada.<\/p>\n<p>Em baixo, o armaz&eacute;m parecia outro. Seu Joaquim permanecia sentado<br \/>\n    ao p&eacute; da mesa, enquanto os caixeiros pasmavam, inativos, para as rumas<br \/>\n    das sacas e para as aranhas negras do teto, que se suspendiam de viga para<br \/>\n    viga em grandes bambinelas de fumo lutuoso. No ch&atilde;o nem um gr&atilde;o<br \/>\n    de caf&eacute;; tudo varrido como se fora um dia santificado. S&oacute; na<br \/>\n    rua havia ainda a bulha das &uacute;ltimas carro&ccedil;as e o ronco de alguns<br \/>\n    armaz&eacute;ns que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.<\/p>\n<p>Do seu ponto, seu Joaquim n&atilde;o perdia de vista a casa do Gama Torres,<br \/>\n    agora a mais afortunada da rua.<\/p>\n<p>Logo que recebeu o &uacute;ltimo aperto de m&atilde;o dos seus credores,<br \/>\n    Francisco Teodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o n&atilde;o vissem<br \/>\n    chorar; mas as l&aacute;grimas que o enchiam n&atilde;o chegaram aos olhos,<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o absorvia-lhas todas. Envelhecido, exausto, encostou-se<br \/>\n    a sua velha secret&aacute;ria, companheira de tantos anos de trabalho, e ali<br \/>\n    ficou, como um vi&uacute;vo ao p&eacute; da e&ccedil;a em que a amada dorme<br \/>\n    o &uacute;ltimo sono.<\/p>\n<p>J&aacute; os credores estavam longe quando ele, tomando vagarosamente o chap&eacute;u,<br \/>\n    entrou outra vez no escrit&oacute;rio.<\/p>\n<p>O Mota chorava, com os cotovelos fincados na escrivaninha. O guarda-livros<br \/>\n    levantou-se e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte.<br \/>\n    Vou tentar outra vida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Faz mal, n&atilde;o devia cortar a sua carreira&#8230; seja feliz! Abra&ccedil;aram-se.<\/p>\n<p>Mota aproximou-se.<\/p>\n<p>&#8211; E o senhor? perguntou-lhe Teodoro.<\/p>\n<p>O velho fez um gesto de ignor&acirc;ncia; depois suspirou.<\/p>\n<p>&#8211; Fico pra ai &agrave;-toa&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Recomend&aacute;-lo-ei ao Negreiros.<\/p>\n<p>&#8211; Ser&aacute; favor&#8230;<\/p>\n<p>Os outros empregados n&atilde;o estavam: Francisco Teodoro agradeceu &agrave;queles<br \/>\n    o seu concurso e desceu, olhando para os degraus carcomidos com saudade infinita<br \/>\n    de todas as vezes que por eles pisara, num longo per&iacute;odo de trinta<br \/>\n    anos&#8230;<\/p>\n<p>No armaz&eacute;m, apertou a m&atilde;o dos caixeiros, desde o mais &iacute;nfimo,<br \/>\n    e deteve-se a falar com o Joaquim.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor que tenciona fazer agora?<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Teodoro, eu fui j&aacute; h&aacute; dias convidado para a casa Gama<br \/>\n    Torres&#8230; Devo entrar para l&aacute; amanh&atilde;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem&#8230; muito bem!&#8230; balbuciou em tom frouxo o negociante. E, relanceando<br \/>\n    o olhar triste pelo armaz&eacute;m, em um &uacute;ltimo adeus saudos&iacute;ssimo,<br \/>\n    saiu para a rua.<\/p>\n<p>Na porta vizinha a velha Ter&ecirc;ncia, com a carapinha oculta no len&ccedil;o<br \/>\n    branco, e os bracinhos delgados estendidos para diante, sacudia os &uacute;ltimos<br \/>\n    gr&atilde;os de caf&eacute;, peneirando-os na bacia de folha furada a prego.<br \/>\n    J&aacute; a sombra se estendia pelas cal&ccedil;adas, e s&oacute; l&aacute;<br \/>\n    em cima o sol encarapu&ccedil;ava de ouro as platibandas dos pr&eacute;dios.<\/p>\n<h4><a name=\"20\" id=\"20\">XX<\/a><\/h4>\n<p>A hora em que Francisco Teodoro entrou em casa, j&aacute; havia estrelas<br \/>\n    no c&eacute;u. O dr. Gerv&aacute;sio e as meninas esperavam-no no port&atilde;o.<br \/>\n    Logo no jardim ele sentiu-se abra&ccedil;ado pelas filhas e a Nina com demorada<br \/>\n    ternura. Desprendendo-se de todos, olhou a roda, procurando algu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8211; D. Camila adormeceu h&aacute; pouco, acudiu o m&eacute;dico &#8211; Noca est&aacute;<br \/>\n    ao p&eacute; dela.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro n&atilde;o respondeu; sentou-se em um banco, com ar de<br \/>\n    extenuado, com a cabe&ccedil;a pendida para o peito; e, depois de uma longa<br \/>\n    pausa:<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; desesperada, muito contra mim?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; respondeu o m&eacute;dico, est&aacute; resignada. S&atilde;o<br \/>\n    todos fortes, acredite.<\/p>\n<p>&#8211; Coitadas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga assim, papai! exclamou Ruth, n&atilde;o se aflija! Neste<br \/>\n    mundo ent&atilde;o s&oacute; h&aacute; lugar para os ricos?<\/p>\n<p>&#8211; Bom, s&oacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual! havemos de ser muitos felizes, descanse.<\/p>\n<p>&#8211; Como recebeu ela a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o m&eacute;dico.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente, teve um abalo&#8230; n&atilde;o esperava semelhante coisa, mas<br \/>\n    venceu-se com admir&aacute;vel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante<br \/>\n    para obrig&aacute;-la a dormir e repousar os nervos&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Fez bem; obrigado.<\/p>\n<p>&#8211; Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao menos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por isso mesmo, tome um caldo e v&aacute;-se deitar.<\/p>\n<p>Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina esquecera-se<br \/>\n    de enfeitar a mesa com as flores do costume. e a gaiola vazia do cacatu&aacute;<br \/>\n    punha a um canto uma nota de tristeza e de morte. Francisco Teodoro aceitou<br \/>\n    a sopa, tomou-a em sil&ecirc;ncio, e logo depois, deixando todos a mesa, pediu<br \/>\n    licen&ccedil;a para subir. O m&eacute;dico, receioso acompanhou-o com a vista.<br \/>\n    Que se iria passar l&aacute; em cima? como receberia Camila o marido?<\/p>\n<p>Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser dela, que j&aacute; estivesse<br \/>\n    acordada e andasse nervosamente pela casa&#8230;<\/p>\n<p>Lia e Rachel, t&atilde;o turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando<br \/>\n    tudo pasmadamente.<\/p>\n<p>Imperturb&aacute;vel, Nina servia a todos.<\/p>\n<p>&#8211; Que idade t&ecirc;m mesmo estas meninas? perguntou o m&eacute;dico de repente,<br \/>\n    apontando para as g&ecirc;meas.<\/p>\n<p>&#8211; Seis anos, respondeu Ruth.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; cedo para entrarem para o col&eacute;gio, balbuciou ele, completando<br \/>\n    alto um pensamento qualquer.<\/p>\n<p>Tinham acabado de jantar, quando Francisco Teodoro desceu.<\/p>\n<p>&#8211; D. Camila?<\/p>\n<p>&#8211; Quando eu subi dormia ainda; mas solu&ccedil;ava de vez em quando. Depois<br \/>\n    acordou e fez-se de forte para tranq&uuml;ilizar-me. Talvez que ela n&atilde;o<br \/>\n    tivesse compreendido todo o alcance da desgra&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Compreendeu, mas resignou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a pedir-lhe:<br \/>\n    venha c&aacute; amanh&atilde;, cedo, &agrave;s sete horas da manha. Ser&aacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel?<\/p>\n<p>&#8211; Virei.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico saiu, recomendando &agrave; Noca mil cuidados com Mila. Duas<br \/>\n    horas depois, a casa estava em sil&ecirc;ncio; as crian&ccedil;as dormiam,<br \/>\n    e Nina, n&atilde;o vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar<br \/>\n    ao escrit&oacute;rio do tio, que achou escrevendo na sua larga secret&aacute;ria.<\/p>\n<p>&#8211; D&aacute; licen&ccedil;a, tio Francisco?<\/p>\n<p>O negociante encobriu depressa com o bra&ccedil;o o papel em que escrevia,<br \/>\n    e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Pode entrar.<\/p>\n<p>E Nina entrou, embara&ccedil;ada, percebendo o movimento do tio.<\/p>\n<p>&#8211; Que quer voc&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Quero pedir-lhe um favor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu ainda os poderei prestar?!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! tio Francisco!<\/p>\n<p>&#8211; Diga l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho vergonha&#8230; eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diga, diga.<\/p>\n<p>Nina sentiu impaci&ecirc;ncia na voz do tio, e resolveu-se:<\/p>\n<p>&#8211; Quero p&ocirc;r em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ela<br \/>\n    &eacute; pequena, mas caberemos todos l&aacute;, se&#8230;<\/p>\n<p>Nina corou; o tio contemplou-a em sil&ecirc;ncio, depois, sentindo que as<br \/>\n    l&aacute;grimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Fez voc&ecirc; muito bem em dizer-me isso; eu precisava chorar. Bem vejo<br \/>\n    que n&atilde;o h&aacute; s&oacute; ingratos no mundo; voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    um anjo. Aceito o seu agasalho; olhe por minhas filhas.<\/p>\n<p>As g&ecirc;meas s&atilde;o muito pequenas, n&atilde;o t&ecirc;m educa&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &eacute; o que mais me pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tamb&eacute;m<br \/>\n    paci&ecirc;ncia com sua tia, &eacute; quem vai sofrer mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O senhor h&aacute; de lhe dar o exemplo de resigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Voc&ecirc; que entende disso? V&aacute; dormir.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; dormir.<\/p>\n<p>Nina murmurou, muito embara&ccedil;ada:<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, minha filha. Que Deus a fa&ccedil;a feliz.<\/p>\n<p>Ela saiu sem compreender bem os gestos desencontrados nem o sentido das palavras<br \/>\n    do tio.<\/p>\n<p>Ele queria estar s&oacute;. A dor fazia-o desconfiado, temia que o amor da<br \/>\n    fam&iacute;lia n&atilde;o subsistisse &agrave; cat&aacute;strofe.<\/p>\n<p>Em que fizera ele at&eacute; ent&atilde;o consistir a felicidade e o seu<br \/>\n    merecimentos aos olhos dela? No dinheiro, s&oacute; no dinheiro. Ele era bom<br \/>\n    porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de j&oacute;ias, de fartura e<br \/>\n    de conforto. Ele era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara<br \/>\n    a tudo, visto que o dinheiro &eacute; o dominador do mundo e ele tinha dinheiro.<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o compreendia como tendo trabalhado tanto, juntado com t&atilde;o<br \/>\n    tremendo esfor&ccedil;o em t&atilde;o largo per&iacute;odo de sacrif&iacute;cios,<br \/>\n    deixara agora ir tudo por &aacute;gua abaixo em t&atilde;o curtos dias. Desfazer<br \/>\n    &eacute; f&aacute;cil!<\/p>\n<p>Revoltado contra si, Francisco Teodoro cravou as unhas na calva, chamando-se<br \/>\n    de leviano e miser&aacute;vel. Como toda a gente se riria da sua falta de<br \/>\n    senso. A culpa era dele. Deixar-se levar por cantigas com a sua idade e sua<br \/>\n    experi&ecirc;ncia! Sentia ferver-lhe o &oacute;dio por todos os amigos que<br \/>\n    o tinham inebriado com palavras perigosas e f&uacute;teis. Ent&atilde;o todos<br \/>\n    chamavam o Inoc&ecirc;ncio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora, depois<br \/>\n    de tudo feito e perdido, &eacute; que o diziam um especulador sem consci&ecirc;ncia.<br \/>\n    Mas agora era tarde; estava tudo perdido.<\/p>\n<p>Recome&ccedil;ar a vida? como? J&aacute; nem o pr&oacute;prio exemplo da<br \/>\n    coragem antiga lhe valia de nada.<\/p>\n<p>A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o esp&iacute;rito resistiriam &agrave;<br \/>\n    luta tremenda de recome&ccedil;ar.<\/p>\n<p>Pela primeira vez Francisco Teodoro percebeu que h&aacute; na vida uma coisa<br \/>\n    melhor do que o dinheiro: a mocidade. Com o corpo vergado, o esp&iacute;rito<br \/>\n    amortecido, ele era o homem extinto, o fantasma do outro, que ficava boiando<br \/>\n    no passado, desconhecido por todos, s&oacute; amado pela sua lembran&ccedil;a.<\/p>\n<p>&quot;Velho&#8230; estou velho! pensava ele, j&aacute; n&atilde;o sirvo para<br \/>\n    nada. E agora? Para onde h&aacute; de ir esta gente, que eu mesmo habituei<br \/>\n    a grandezas? Para o sobradinho da rua da Candel&aacute;ria? Nem isso. Camila<br \/>\n    naquele tempo contentava-se&#8230; agora j&aacute; se afez a outra coisa. Camila!<br \/>\n    Camila sem sedas? n&atilde;o, n&atilde;o se pode compreender Camila sem sedas.<br \/>\n    Onde tinha eu a cabe&ccedil;a? Miser&aacute;vel! Eu sou um ladr&atilde;o.<br \/>\n    roubei a meus filhos. Eu sou um ladr&atilde;o!&quot;<\/p>\n<p>Como se quisesse fugir das pr&oacute;prias id&eacute;ias, come&ccedil;ou<br \/>\n    a andar pelo escrit&oacute;rio, com ar desvairado. Vingava-o a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que tudo agonizava com ele.<\/p>\n<p>A especula&ccedil;&atilde;o, a fraude, a gan&acirc;ncia, a trai&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a mentira, iriam roendo e corrompendo fortunas e carateres. Enganados e<br \/>\n    enganadores seriam todos engolidos conjuntamente pela outra fal&ecirc;ncia,<br \/>\n    de que a sua era uma das precursoras.<\/p>\n<p>No fim, havia de aparecer a justi&ccedil;a punindo as ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e as vaidades destes tempos e destes homens doidos, quando, depois de tudo<br \/>\n    consumado, n&atilde;o houvesse nada a refazer mas tudo a criar.<\/p>\n<p>A pulsa&ccedil;&atilde;o do seu sangue alvoro&ccedil;ado dava-lhe a percep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fant&aacute;stica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade<br \/>\n    de uns, a ignor&acirc;ncia de outros e a ambi&ccedil;&atilde;o de todos, em<br \/>\n    voragens abertas pela pol&iacute;tica amaldi&ccedil;oada.<\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o culpava o patr&iacute;cio, o Inoc&ecirc;ncio Braga,<br \/>\n    como causa direta da sua ru&iacute;na. A responsabilidade da sua perda caia<br \/>\n    em cheio sobre a Rep&uacute;blica, que ele invectivava de criminosa, na alucina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do desespero.<\/p>\n<p>Toda a sua vida de trabalho rotineiro material, sem ideais, mas cansativa<br \/>\n    na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio caudaloso que tivesse<br \/>\n    vencido a nado e de que s&oacute; depois de transposto, percebesse o volume<br \/>\n    e os perigos.<\/p>\n<p>Entretanto, talvez n&atilde;o tivesse sido dif&iacute;cil percorrer aquilo<br \/>\n    de outra maneira e melhor&#8230; N&atilde;o fosse ele um ignorante e n&atilde;o<br \/>\n    se teria deixado enfeiti&ccedil;ar por palavras!<\/p>\n<p>Era pois tamb&eacute;m certo que a intelig&ecirc;ncia e a instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    valiam alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p>Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Teodoro disse alto, num<br \/>\n    suspiro:<\/p>\n<p>&#8211; Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job!<\/p>\n<p>Mas o som da sua pr&oacute;pria voz assustou-o. Espreitou a ver se o viam.<br \/>\n    Foi &agrave; porta; n&atilde;o havia ningu&eacute;m. Lembrou-se depois dos<br \/>\n    seus projetos de viagem: idas &agrave; Europa, regalados descansos.<\/p>\n<p>Era de justi&ccedil;a, diziam todos, e a justi&ccedil;a fizera-a ele por<br \/>\n    suas m&atilde;os, o homem nasceu para o trabalho, ele devia voltar para o<br \/>\n    trabalho.<\/p>\n<p>E as for&ccedil;as? Onde estavam elas, que as n&atilde;o sentia? Ah! corpo<br \/>\n    miser&aacute;vel! corpo miser&aacute;vel.<\/p>\n<p>Afogueado, como se tivesse brasas na cabe&ccedil;a, Teodoro procurou a frescura<br \/>\n    do ar livre e foi encostar-se ao umbral da janela.<\/p>\n<p>Fora numa noite assim, de lua clara, que o av&ocirc; se enforcara numa amendoeira,<br \/>\n    fugindo, no seu del&iacute;rio de persegui&ccedil;&atilde;o, a um inimigo<br \/>\n    que lhe ia no encal&ccedil;o. Era um campon&ecirc;s rude, o av&ocirc;; havia<br \/>\n    muito meses antes desse ato que ele andava taciturno, agitado; depois, que<br \/>\n    tranq&uuml;ilidade!<\/p>\n<p>Francisco Teodoro olhou para a noite:<\/p>\n<p>O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos manac&aacute;s,<br \/>\n    que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce.<\/p>\n<p>O aroma das plantas avivou-lhe tamb&eacute;m a sensa&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    seus triunfos de outrora.<\/p>\n<p>Aquela ess&ecirc;ncia divina nascia da fertilidade das suas terras. trabalhadas<br \/>\n    por homens pagos por ele.<\/p>\n<p>A criadagem! Como os seus criados, menos feliz do que eles, precisava tamb&eacute;m<br \/>\n    agora do sal&aacute;rio de um patr&atilde;o, com que matasse a fome &agrave;<br \/>\n    mulher e aos filhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como Job! repetiu ele furioso, arrancando as barbas e unhando as faces.<br \/>\n    N&atilde;o lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo f&iacute;sico,<br \/>\n    a macera&ccedil;&atilde;o da carne, para completa puni&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    sua in&eacute;pcia.<\/p>\n<p>N&atilde;o saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiri-la &eacute;<br \/>\n    sinal de loucura. Ele era um doido! Sim, ele era um doido. Tal qual o av&ocirc;!<br \/>\n    Riu alto; ele era um doido!<\/p>\n<p>Foi ent&atilde;o que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado<br \/>\n    em surdina.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado para<br \/>\n    o grande c&eacute;u tranq&uuml;ilo, onde as estrelas palpitavam. Compreendeu;<br \/>\n    Ruth n&atilde;o quisera perturbar a tristeza da fam&iacute;lia e fugira com<br \/>\n    a sua m&uacute;sica para fora! Aquela era uma forte, amava o seu ideal mais<br \/>\n    do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus &agrave;quela alma de<br \/>\n    &ecirc;xtase e de sonho?<\/p>\n<p>Os gemidos da m&uacute;sica vagavam na noite clara como queixas de anjos<br \/>\n    invis&iacute;veis. N&atilde;o pareciam vibradas por m&atilde;os humanas aquelas<br \/>\n    notas suav&iacute;ssimas e repassadas de do&ccedil;ura. Tr&ecirc;mulo, vencido<br \/>\n    pela como&ccedil;&atilde;o, Francisco Teodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente.<br \/>\n    O &uacute;ltimo beneficio era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento.<br \/>\n    Nem ele soube quanto tempo durou aquela crise de pranto que o sufocava. Quando<br \/>\n    Ruth acabou a sua m&uacute;sica e ele lhe sentiu os passos leves e apressados<br \/>\n    na areia, teve &iacute;mpetos de cham&aacute;-la e cobri-la de beijos.<\/p>\n<p>Mais forte, por&eacute;m, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de<br \/>\n    enfraquecer. Ele fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Cada homem &eacute; criado para um fim. O dele tinha sido o de ganhar dinheiro;<br \/>\n    ganhara-o, cumprira o seu destino. N&atilde;o podendo recome&ccedil;ar, inutilizado<br \/>\n    para a a&ccedil;&atilde;o, devia acabar de uma vez. Toda a energia da sua<br \/>\n    vida se concentraria num movimento &uacute;nico e decisivo.<\/p>\n<p>Ruth subia a escada. Ele foi colar o ouvido &agrave; porta para escutar-lhe<br \/>\n    os passos. Beijaria o lugar em que ela punha os p&eacute;s&#8230; Esteve assim<br \/>\n    longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando&#8230;<\/p>\n<p>Pouco a pouco a casa adormecia, at&eacute; que se encheu toda do pesado sil&ecirc;ncio<br \/>\n    do sono.<\/p>\n<p>&Agrave; uma hora Francisco Teodoro levantou-se muito p&aacute;lido, persignou-se<br \/>\n    e rezou, ali mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do cavalheiro<br \/>\n    de bronze. Finda a ora&ccedil;&atilde;o, caminhou resolutamente para a sua<br \/>\n    secret&aacute;ria. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve<br \/>\n    de saias que deslizavam pela escada abaixo.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro tirou da gaveta o seu rev&oacute;lver, olhou-o um instante<br \/>\n    e encostava-o no ouvido quando a mulher apareceu na porta, muda de terror,<br \/>\n    estendendo-lhe as m&atilde;os. Ele cerrou logo os olhos &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vida e apressou o tiro.<\/p>\n<p>E toda a casa acordou aos gritos de Camila que, com os bra&ccedil;os no ar,<br \/>\n    clamava por socorro.<\/p>\n<h4><a name=\"21\" id=\"21\">XXI<\/a><\/h4>\n<p>A morte de Francisco Teodoro fez sensa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Amigos e conhecidos acudiram pressurosos &agrave; casa da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a baronesa<br \/>\n    da Lage ofereceu-se para educar as g&ecirc;meas. Chamado de madrugada pelo<br \/>\n    jardineiro, dr. Gerv&aacute;sio determinara tudo: o enterro seria conforme<br \/>\n    disposi&ccedil;&otilde;es do finado, a expensas da sua Irmandade.<\/p>\n<p>Toda a fam&iacute;lia solu&ccedil;ava &agrave; roda do cad&aacute;ver. Camila<br \/>\n    tinha no olhar uma fixidez de loucura. A cena da morte reproduzia-se diante<br \/>\n    dela, como se uma infinita sucess&atilde;o de espelhos a refletisse consecutivamente.<\/p>\n<p>Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de duas<br \/>\n    horas, cuidosa, com medo que ele fizesse uma loucura, morta por encostar-lhe<br \/>\n    a cabe&ccedil;a aturdida ao seu peito de mulher enternecida, sentindo que<br \/>\n    o amava na sua dor, mais do que o tinha amado na felicidade. Entretanto, porque<br \/>\n    s&oacute; obedecera ao desejo de o ver e s&oacute; viera procur&aacute;-lo<br \/>\n    no momento justo e inevit&aacute;vel da morte? Se ela tivesse adivinhado?<br \/>\n    Por que n&atilde;o tinha ela obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita?<\/p>\n<p>O descuido do pressentimento &eacute; uma falta que a consci&ecirc;ncia n&atilde;o<br \/>\n    perdoa. Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido<br \/>\n    uma hora antes! Um minuto antes!<\/p>\n<p>E agora, como caminharia na vida sem aquele companheiro de tantos anos? Que<br \/>\n    fariam todos ali sem ele?<\/p>\n<p>Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar.<\/p>\n<p>No meio de tanta gente, s&oacute; o dr. Gerv&aacute;sio a compreendia. Os<br \/>\n    outros mal acreditavam na sua sinceridade.<\/p>\n<p>As maiores condol&ecirc;ncias voltavam-se para os filhos, e s&oacute; por<br \/>\n    etiqueta e dever de apar&ecirc;ncia cumprimentavam a vi&uacute;va.<\/p>\n<p>As Bragas tinham sido as primeiras, como vizinhas, a invadir a casa, e tomaram<br \/>\n    conta dela, afetando grandes intimidades, dispondo, ordenando, mostrando aos<br \/>\n    estranhos a sua interfer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>D. In&aacute;cia Gomes foi tamb&eacute;m, muito chorosa, pelo bra&ccedil;o<br \/>\n    do seu velho. Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha<br \/>\n    tamb&eacute;m tivera uma s&iacute;ncope. Eram muito amigas&#8230; Pudera n&atilde;o!<\/p>\n<p>Era s&oacute; gente e mais gente a entrar e a sair, pessoas curiosas da vizinhan&ccedil;a,<br \/>\n    que aproveitavam o ensejo para varar os jardins daquela casa de luxo, onde<br \/>\n    nunca tinham entrado; ondas negras de povo, cruzando-se nas portas, escoando-se<br \/>\n    pelos corredores, num sussurro de passos e de vozes abafadas&#8230;<\/p>\n<p>D. Joana conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a encomenda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do suicida. Com o ros&aacute;rio nas m&atilde;os tr&ecirc;mulas, os olhos<br \/>\n    inundados, ela n&atilde;o saia de ao p&eacute; do cad&aacute;ver, defendendo-o<br \/>\n    do inferno na f&eacute; ardente e pura da sua prece.<\/p>\n<p>Quem lhe diria! um homem t&atilde;o temente a Deus.. t&atilde;o digno do<br \/>\n    Para&iacute;so!<\/p>\n<p>E toda se debulhava em prantos por aquela alma perdida.<\/p>\n<p>Por seu lado, sentada num canto, com as grandes m&atilde;os pousadas na seda<br \/>\n    russa do seu vestido preto, d. Itelvina considerava na fragilidade humana.<br \/>\n    Por que morrera aquele homem? Por n&atilde;o ter sabido guardar.<\/p>\n<p>O instinto da vida &eacute; o ego&iacute;smo. Julgara-o mais precavido e<br \/>\n    mais forte; afinal era um bobo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado, acontecer-lhe-ia<br \/>\n    aquilo? n&atilde;o. Morreria de velho, deixando testamento.<\/p>\n<p>Sempre pensara que ele havia de deixar testamento; seria ent&atilde;o uma<br \/>\n    cerim&ocirc;nia completa e bonita, bem certo &eacute; que o dinheiro d&aacute;<br \/>\n    prest&iacute;gio a tudo.<\/p>\n<p>Empobrecer&#8230; suicidar-se, quem diria? um portugu&ecirc;s, um homem conservador<br \/>\n    e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime n&atilde;o estava em suicidar-se,<br \/>\n    estava em empobrecer, em deixar a fam&iacute;lia na mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>Na sociedade h&aacute; s&oacute; uma coisa rid&iacute;cula: a pobreza. Vejam<br \/>\n    se os jornais inscrevem o nome dos miser&aacute;veis que v&atilde;o para a<br \/>\n    vala.<\/p>\n<p>Pois sim! Dizem que o dinheiro n&atilde;o vale nada, mas s&oacute; d&atilde;o<br \/>\n    not&iacute;cia dos mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres<br \/>\n    do colch&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com asco.<br \/>\n    A seu lado ca&iacute;am as dobras fartas de um reposteiro de veludo lavrado;<br \/>\n    ela apalpou-o, sentindo com um arrepio o pelo do cetim do forro agarrar-se-lhe<br \/>\n    &agrave; pele &aacute;spera dos dedos.<\/p>\n<p>&#8211; Foi por estas e por outras! murmurou ela de si para si.<\/p>\n<p>Que far&aacute; agora esta gente toda? Talvez conte comigo&#8230;<\/p>\n<p>Ah, mas eu n&atilde;o posso&#8230; eu n&atilde;o posso. Que trabalhem ! para<br \/>\n    isso Deus lhes deu cinco dedos em cada m&atilde;o.<\/p>\n<p>No meio dessas considera&ccedil;&otilde;es acudia-lhe de vez em quando &agrave;<br \/>\n    lembran&ccedil;a o que estaria fazendo em casa a criada&#8230; n&atilde;o fosse<br \/>\n    ela dar entrada a algu&eacute;m!<\/p>\n<p>Ruth solu&ccedil;ou alto; d. Itelvina n&atilde;o se mexeu, mas disse consigo:<\/p>\n<p>&#8211; Coitadinha&#8230;<\/p>\n<p>E consigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos solu&ccedil;os,<br \/>\n    que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela viol&ecirc;ncia da<br \/>\n    como&ccedil;&atilde;o. O cheiro da cera, a chama tr&ecirc;mula das tochas,<br \/>\n    faziam-lhe mal &agrave; cabe&ccedil;a. Desculpou-se com isso, de n&atilde;o<br \/>\n    ajudar ningu&eacute;m; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia<br \/>\n    chegar, e enfim chegou.<\/p>\n<p>Paravam carros &agrave; porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o Negreiros<br \/>\n    choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso fechar o caix&atilde;o.<br \/>\n    Ruth desmaiou; as g&ecirc;meas bradaram pelo pai. Nina acudiu a todos, com<br \/>\n    os olhos em sangue, e Camila, tirando o len&ccedil;o da face do morto, beijou-o<br \/>\n    tr&ecirc;s vezes.<\/p>\n<p>De volta do cemit&eacute;rio, dr. Gerv&aacute;sio entrou no palacete Teodoro.<br \/>\n    O g&aacute;s da sala de jantar estava em lamparina, ele mal distinguiu uns<br \/>\n    vultos a um canto; aproximou-se. Era Camila sentada no div&atilde;, entre<br \/>\n    as g&ecirc;meas adormecidas. Ela, muito p&aacute;lida. com uma brancura que<br \/>\n    sa&iacute;a do negror das roupas num polimento de m&aacute;rmore, interrogou-o<br \/>\n    com o olhar.<\/p>\n<p>Calado, o m&eacute;dico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contato<br \/>\n    das m&atilde;os: ela encolheu-se, ele recuou e foi sentar-se ao p&eacute;<br \/>\n    da mesa.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que se repeliam. Mila sentia na palma da m&atilde;o a<br \/>\n    friagem daquela chave pequenina e pesada sem saber onde guard&aacute;-la,<br \/>\n    com medo de a por no seio, achando irreverente guard&aacute;-la no bolso.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio considerava na dolorosa delicadeza daquela situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que o obrigara a ele a trazer do cemit&eacute;rio a chave da pris&atilde;o<br \/>\n    perp&eacute;tua do outro. Apoquentou-o a id&eacute;ia de o terem escolhido<br \/>\n    por ironia, e, olhando para a Mila, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar<br \/>\n    sem arrepios aquela boca, que t&atilde;o repetidos beijos dera num cad&aacute;ver&#8230;<\/p>\n<p>A &uacute;nica voz na sala era a do rel&oacute;gio; mal se ouvia a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das crian&ccedil;as bem acomodadas.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio quis falar, dar alguns conselhos a Camila; sabia-a muito<br \/>\n    inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como trat&aacute;-la. A l&iacute;ngua<br \/>\n    negava-lhe o tu, a que seu amor o acostumara. Ela suspirava baixinho, de queixo<br \/>\n    ca&iacute;do para o peito.<\/p>\n<p>Uns passos e um ro&ccedil;ar de saias pela escada fizeram-na voltar a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8211; Como est&aacute; Ruth? perguntou Mila.<\/p>\n<p>&#8211; T&aacute; com febre&#8230; D. Nina ficou perto dela&#8230; Camila voltou-se para<br \/>\n    o m&eacute;dico:<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; v&ecirc;-la&#8230; sim?<\/p>\n<p>Ele fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata.<\/p>\n<h4><a name=\"22\" id=\"22\">XXII<\/a><\/h4>\n<p>S&oacute; no fim de um m&ecirc;s foi que a fam&iacute;lia Teodoro tratou<br \/>\n    de mudar-se.<\/p>\n<p>Nina despediu os criados, montou a casa nova com mob&iacute;lias baratas,<br \/>\n    leitos de ferro, lou&ccedil;as brancas, sem douraduras. Pensava em tudo, tra&ccedil;ava<br \/>\n    planos, sacudia o torpor e a apatia dos que a rodeavam, indagava pre&ccedil;os<br \/>\n    e discutia o valor dos objetos que adquiria.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; d&aacute; &agrave; pr&oacute;pria dor uma forma de felicidade,<br \/>\n    disse-lhe um dia o m&eacute;dico; &eacute; a mulher mais compenetrada dos<br \/>\n    seus deveres de mulher que eu tenho conhecido.<\/p>\n<p>&#8211; De que serve?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para fazer os outros felizes. A sua influ&ecirc;ncia e a sua atividade<br \/>\n    t&ecirc;m realizado prod&iacute;gios. E eu que j&aacute; n&atilde;o acreditava<br \/>\n    em prod&iacute;gios!<\/p>\n<p>&#8211; Bem v&ecirc; que fazia mal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem vejo. Nina sorriu; e depois continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Falando s&eacute;rio: tenho medo da responsabilidade que vou assumindo,<br \/>\n    sem saber como.<\/p>\n<p>Tia Mila n&atilde;o est&aacute; em idade de aceitar h&aacute;bitos novos<br \/>\n    sem grande sacrif&iacute;cio; Ruth s&oacute; h&aacute; de querer saber do<br \/>\n    seu violino; para tudo mais foi sempre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pregui&ccedil;osa.<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; As outras s&atilde;o t&atilde;o pequenas! Eu estarei a seu lado.<\/p>\n<p>Nina corou, e n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p>Dias depois Noca foi ao quarto da ama avis&aacute;-la de que iriam almo&ccedil;ar<br \/>\n    j&aacute; na outra casa.<\/p>\n<p>Mila apertou as p&aacute;lpebras.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora torna a adormecer! Eu vou abrir a janela&#8230; abro?<\/p>\n<p>Camila n&atilde;o respondeu; sentiu o corpo pesar-lhe na cama e espalmou<br \/>\n    as m&atilde;os no seu largo colch&atilde;o de clina. Como era bom!<\/p>\n<p>O &oacute;cio tinha-lhe infiltrado no sangue a voluptuosidade, que embelezava<br \/>\n    a sua carne de p&ecirc;ssego maduro, colhido ao sol de outono. O seu corpo<br \/>\n    redondo e r&oacute;seo tinha o aroma expansivo da flor aberta, e a maciez<br \/>\n    da fruta polpuda e delicada que n&atilde;o pode sofrer nem grandes baques,<br \/>\n    nem grandes ventanias.<\/p>\n<p>Noca insistiu:<\/p>\n<p>&#8211; Abro a janela?<\/p>\n<p>Camila calou-se ainda, procurando gozar mais um minuto o conforto do seu<br \/>\n    quarto cheiroso. Tinha criado fundas ra&iacute;zes no luxo, n&atilde;o se<br \/>\n    podia desprender por si, seria preciso que a arrancassem.<\/p>\n<p>A culpa n&atilde;o fora sua&#8230; a &uacute;ltima vez, essa, que se estendia<br \/>\n    sob um docel assim de rendas e de cetins? S&oacute; agora compreendia o valor<br \/>\n    das m&iacute;nimas coisas na harmonia do conjunto.<\/p>\n<p>Ali tudo era bom. A id&eacute;ia da necessidade, do tac&atilde;o acalcanhado,<br \/>\n    do chap&eacute;u feito em casa, do vestido forrado de algod&atilde;o, irritavam-na<br \/>\n    at&eacute; &agrave; doen&ccedil;a. A pobreza tem morrinha; &eacute; suja.<\/p>\n<p>Quis lembrar-se do seu quarto de solteira, buscando na humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do passado a resigna&ccedil;&atilde;o do futuro; dormira na mesma alcova que<br \/>\n    a irm&atilde; Sofia. Mal p&ocirc;de reconstruir na mem&oacute;ria o mobili&aacute;rio<br \/>\n    barato desse aposento, em que havia roupas pelas paredes&#8230;<\/p>\n<p>Noca andava pelo quarto; Camila olhou:<\/p>\n<p>Era em frente &agrave;queles grandes espelhos que o marido a encontrava quando<br \/>\n    voltava do trabalho, satisfeito dos seus neg&oacute;cios, pisando e falando<br \/>\n    alto, com as m&atilde;os carregadas de embrulhos de guloseimas e de jornais<br \/>\n    da tarde.<\/p>\n<p>E n&atilde;o era para ele que ela picava nos seus vestidos claros uma flor,<br \/>\n    ou uma j&oacute;ia discreta. Era para o Gerv&aacute;sio que ado&ccedil;ava<br \/>\n    a sua beleza e se agarrava tanto &agrave; mocidade. A mocidade!<\/p>\n<p>Vendo-a abstrata, com os olhos &uacute;midos, cheios de tristeza, Noca avisou,<br \/>\n    j&aacute; impaciente:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, nh&aacute; Mila, a gente n&atilde;o deve ir tarde; o carro daqui<br \/>\n    a pouco est&aacute; a&iacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Ajuda-me a vestir&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E as meninas, l&aacute; embaixo? Lia e Rachel agora &eacute; que v&atilde;o<br \/>\n    tomar banho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; tem raz&atilde;o&#8230; eu estou mal acostumada&#8230; V&aacute;, eu<br \/>\n    me arranjarei sozinha. Tamb&eacute;m, para este vestu&aacute;rio&#8230; Que saudade,<br \/>\n    Noca!<\/p>\n<p>&#8211; Que se h&aacute; de fazer?! Agora &eacute; ter coragem!<\/p>\n<p>Duas horas depois Nina passava a &uacute;ltima revista &agrave; casa, abria<br \/>\n    as gavetas verificando se todos os m&oacute;veis estavam vazios e limpos,<br \/>\n    e percorria tudo, do sal&atilde;o &agrave; cozinha, da cozinha ao fundo do<br \/>\n    quintal; Noca ajudava-a na inquiri&ccedil;&atilde;o, remexendo as prateleiras<br \/>\n    e fechando as janelas e as portas.<\/p>\n<p>&#8211; No escrit&oacute;rio, por mais que tivessem lavado, l&aacute; ficava indel&eacute;vel,<br \/>\n    em uma sombra, no assoalho, a mancha do sangue de Francisco Teodoro. Nina<br \/>\n    ia passar por cima dela, quando Noca deu um grito. A mo&ccedil;a recuou, olhando<br \/>\n    aterrorizada para o ch&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Pisei?!<\/p>\n<p>&#8211; Quase&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>Contemplaram-se as duas entre l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Foi uma grande desgra&ccedil;a, Noca!<\/p>\n<p>&#8211; Se foi! Ainda me parece mentira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A mim tamb&eacute;m. As vezes julgo mesmo que ele vem da cidade e que vou<br \/>\n    v&ecirc;-lo abrir o port&atilde;o&#8230; Pobre tio Francisco!<\/p>\n<p>Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquela mob&iacute;lia impass&iacute;vel<br \/>\n    lhes estendia os bra&ccedil;os numa s&uacute;plica.<\/p>\n<p>Na secret&aacute;ria, ao lado do c&oacute;digo de Orlando, o tinteiro de<br \/>\n    prata j&aacute; vazio e em que a caneta sem pena pesava num abandono de corpo<br \/>\n    morto, havia cintila&ccedil;&otilde;es frias.<\/p>\n<p>Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura atrevida<br \/>\n    do cavalheiro de bronze, de chap&eacute;u emplumado na m&atilde;o, em um aceno<br \/>\n    arrogante de adeus.<\/p>\n<p>Disseram-lhe o &uacute;ltimo, e fecharam a porta.<\/p>\n<p>Na limpeza da casa, Nina encontra em um caixote, no por&atilde;o, entre um<br \/>\n    sem n&uacute;mero de objetos mutilados e antiqu&iacute;ssimos, o chicotinho<br \/>\n    com que M&aacute;rio a zurzia nos dias de c&oacute;lera, quando, pequena e<br \/>\n    magra, ela fazia reboar pelos corredores a sua tosse de c&atilde;o, que ele<br \/>\n    abafava gritando-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca! cala a boca!<\/p>\n<p>Calar a boca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste sorriso<br \/>\n    desbotado, Nina separou de todos os objetos destinados para a fogueira, aquele<br \/>\n    chicotinho revelador e prof&eacute;tico, e guardou-o como rel&iacute;quia.<\/p>\n<p>Para que nascera ela, sen&atilde;o para ser batida?<\/p>\n<p>Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camila e as duas g&ecirc;meas<br \/>\n    esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atr&aacute;s delas,<br \/>\n    muito magrinha e p&aacute;lida, Ruth mal sustentava a caixa do seu violino,<br \/>\n    pasmando para as &aacute;rvores amadas um olhar dolorido e longo.<\/p>\n<p>Um minuto depois acomodavam-se no carro. Noca fechava o port&atilde;o do<br \/>\n    jardim, entregava as chaves ao criado do dr. Gerv&aacute;sio, que esperava<br \/>\n    ali, na rua, para ir lev&aacute;-las ao patr&atilde;o. Subiu por &uacute;ltimo<br \/>\n    para a cale&ccedil;a. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos saiu<br \/>\n    um suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa.<\/p>\n<p>Ruth chorou; parecia-lhe que deixava ali o pai, o seu querido papai&#8230; S&oacute;<br \/>\n    Lia e Rachel gorgearam uma risadinha. &#8211; Enfim, iam para a casa nova!<\/p>\n<p>Durante a viagem ningu&eacute;m mais falou.<\/p>\n<p>Para qu&ecirc;? Diriam todos a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfar&ccedil;avam<br \/>\n    l&aacute;grimas, e iam assim, de negro, come&ccedil;ar nova vida.<\/p>\n<p>Eram dez horas quando o carro parou em frente &agrave; casa de Nina.<\/p>\n<p>Na vizinhan&ccedil;a, tocavam exerc&iacute;cios num piano desafinado. O sol<br \/>\n    irradiava com for&ccedil;a no cascalho branco do ch&atilde;o.<\/p>\n<p>A casa era pequena, em um trecho sossegado da rua de d. Luiza, disfar&ccedil;ada<br \/>\n    por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos opressos; habituados<br \/>\n    &agrave; largueza de um pal&aacute;cio, parecia-lhes que aqueles tetos e que<br \/>\n    aquelas paredes se apertariam de repente esmagando-os a todos.<\/p>\n<p>O melhor quarto fora arranjado para Mila e as g&ecirc;meas; Ruth e Nina dormiriam<br \/>\n    na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo.<\/p>\n<p>A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japoneses no papel, abria<br \/>\n    para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a desafogava.<br \/>\n    Tinham-na alegrado com um par de cortinas de cretone claro e uns vasos de<br \/>\n    flores na janela.<\/p>\n<p>Nina explicava &agrave; tia como determinara as coisas, sujeitando-se a mud&aacute;-las,<br \/>\n    se lhe n&aatilde;o agradasse a posi&ccedil;&atilde;o delas.<\/p>\n<p>Supusera melhor suprimir a sala de visitas e fazer dela, que era ampla e<br \/>\n    clara, a sala de trabalho. Em vez do sof&aacute;, do dunkerke in&uacute;til,<br \/>\n    de uma ou outra cadeira pregui&ccedil;osa, estavam ali a m&aacute;quina de<br \/>\n    costura, cadeiras fortes, uma estante para m&uacute;sicas, um arm&aacute;rio,<br \/>\n    uma mesa e uma t&aacute;bua de engomar.<\/p>\n<p>&#8211; Aquela t&aacute;bua faz mau efeito aqui&#8230; murmurou Mila numa censura leve,<br \/>\n    sentando-se, muito abatida.<\/p>\n<p>A sobrinha explicou:<\/p>\n<p>&#8211; A saleta l&aacute; dentro &eacute; muito pequenina, ficou vazia, para as<br \/>\n    crian&ccedil;as brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, p&otilde;e-se<br \/>\n    l&aacute; a t&aacute;bua.<\/p>\n<p>&#8211; Depois&#8230;<\/p>\n<p>Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o resto.<\/p>\n<p>Onde estava a sala do piano? e o escrit&oacute;rio? Onde guardariam as suas<br \/>\n    bicicletas? A cozinha ent&atilde;o era aquele cochicholo?<\/p>\n<p>A m&atilde;e anediava-lhes os cabelos, sem responder, com os olhos parados.<\/p>\n<p>Tinham arranjado para cozinheira uma preta velha, de trinta mil r&eacute;is<br \/>\n    mensais. Mila achou-a repugnante e disse a Nina que lhe pusesse ao menos um<br \/>\n    avental. E &agrave; hora do almo&ccedil;o n&atilde;o comeu; olhava para as<br \/>\n    g&ecirc;meas que iam devorando os bifes e o arroz da cozinheira nova.<\/p>\n<p>Nina ofereceu Collares &agrave; tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos indagar<br \/>\n    a proveni&ecirc;ncia daquele vinho, tamb&eacute;m, soube-lhe mal, bebido por<br \/>\n    um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de cristal lapidado<br \/>\n    que atiravam sobre a toalha bouquets iriados e tremeluzentes. Eram como violetas<br \/>\n    e bot&otilde;es de ouro que nascessem da luz e se espalhassem sobre o adamascado<br \/>\n    do linho.<\/p>\n<p>O vinho viera da adega do dr. Gerv&aacute;sio; ningu&eacute;m mais o bebeu.<br \/>\n    Lia pediu repeti&ccedil;&atilde;o do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina,<br \/>\n    diminuindo a sua ra&ccedil;&atilde;o, encheu os pratos das primas.<\/p>\n<p>O sol entrava pela janela numa larga toalha de ouro, rebrilhando no verniz<br \/>\n    novo dos m&oacute;veis e nas roupas vermelhas dos japoneses retorcidos do<br \/>\n    papel.<\/p>\n<p>A preta velha trouxe o caf&eacute; numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou<br \/>\n    brutalmente em um canto da mesa.<\/p>\n<p>Camila fechou os olhos para n&atilde;o ver; quando os abriu, a sobrinha estendia-lhe<br \/>\n    uma canequinha delicada, do &uacute;ltimo aparelho do palacete.<\/p>\n<p>Mexendo o caf&eacute;, vagarosamente, a tia perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute; veio esta canequinha?<\/p>\n<p>&#8211; E uma x&iacute;cara de ch&aacute;; n&oacute;s bebemos bem nas outras. Veio<br \/>\n    tamb&eacute;m um copo de cristal. Esqueci-me de o p&ocirc;r na mesa&#8230;Quer<br \/>\n    mais a&ccedil;&uacute;car?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o quero diferen&ccedil;as para mim. Depois: &#8211; Realmente, custa<br \/>\n    muito a beber num vidro grosso!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o acho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, voc&ecirc;!<\/p>\n<p>Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do dr. Gerv&aacute;sio, que entrou<br \/>\n    trazendo a correspond&ecirc;ncia, jornais e uma carta para Francisco Teodoro,<br \/>\n    que o carteiro levara ainda &agrave; rua dos Volunt&aacute;rios da P&aacute;tria.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; esteve l&aacute; em casa outra vez?! perguntou Mila admirada.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhora. Fui l&aacute; com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e<br \/>\n    mais o leiloeiro.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute;! Andaram depressa!&#8230; Olhe, &eacute; bom avisar o carteiro.<\/p>\n<p>&#8211; Seu doutor j&aacute; avisou.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; pode ir&#8230;<\/p>\n<p>A carta era de Sergipe. O pai de Camila queixava-se de doen&ccedil;as e de<br \/>\n    atrasos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Em&iacute;lia andava<br \/>\n    amea&ccedil;ada de congest&atilde;o; o Joca internara-se com a fam&iacute;lia<br \/>\n    para o interior, por m&iacute;ngua de empregos, a Sofia fora pedir-lhe agasalho<br \/>\n    por ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo.<\/p>\n<p>Desde a primeira at&eacute; a &uuacute;ltima palavra arrastava-se um suspiro<br \/>\n    lamentoso de pobreza e de in&eacute;rcia.<\/p>\n<p>Quando Camila acabou de ler a carta, deixou-a cair aberta sobre os joelhos<br \/>\n    e calou-se muito p&aacute;lida. Ruth solu&ccedil;ava com a cabe&ccedil;a deitada<br \/>\n    na mesa. Ouvira as s&uacute;plicas, mas o que a alterava n&atilde;o eram os<br \/>\n    cuidados do av&ocirc;, era o destino daquele sobrescrito que ela tinha diante<br \/>\n    dos olhos, com o nome do pai, que, na ilus&atilde;o da vida viera de longe,<br \/>\n    impelido por v&aacute;rias m&atilde;os desconhecidas e que, chegando ao final,<br \/>\n    n&atilde;o encontrava ningu&eacute;m!<\/p>\n<p>Releram a carta; vinha atrasada. J&aacute; por l&aacute;, deviam estar fartos<br \/>\n    de saber a verdade. Como teriam recebido a not&iacute;cia? Camila cerrou as<br \/>\n    p&aacute;lpebras; viu a m&atilde;e, tal qual era na primeira visita de Teodoro<br \/>\n    ao Castelo: faladora, animada, com aqueles grandes olhos tr&ecirc;fegos sempre<br \/>\n    reluzindo de esperan&ccedil;a&#8230; deveriam estar bem amortecidos agora aqueles<br \/>\n    olhos, bem cansados de chorar&#8230; E, como nunca, Mila sentiu saudades do carinho<br \/>\n    e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que ventura, se pudesse voltar<br \/>\n    a ser pequenina, inocente e adormecer no colo da m&atilde;e! Seria t&atilde;o<br \/>\n    doce&#8230; t&atilde;o doce&#8230;<\/p>\n<p>Os rigores do luto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o bom<br \/>\n    senso de Nina n&atilde;o reagissem contra as praxes. Depois n&atilde;o bastava<br \/>\n    a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida.<\/p>\n<p>Conheceram-se, pela primeira vez na fam&iacute;lia, as agruras do c&aacute;lculo,<br \/>\n    o dever das restri&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>M&aacute;rio escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris; retido por uma<br \/>\n    doen&ccedil;a de Paquita, cujo nome repetia em todos os per&iacute;odos. A<br \/>\n    verdade &eacute; que na fam&iacute;lia ningu&eacute;m contava com ele, e que<br \/>\n    todos dissimulavam ressentimentos, fugindo de agravar tristezas.<\/p>\n<p>Noca, pronta em expedientes, arranjou depressa freguesia para engomados.<\/p>\n<p>Aquilo aborrecia Camila, que n&atilde;o gostava de ver trouxas de roupa atravancando<br \/>\n    a casa. O ferro, a fuma&ccedil;a, os peitilhos das camisas alvejando ao sol<br \/>\n    aumentavam-lhe o t&eacute;dio e o mal estar. A vida pesava-lhe.<\/p>\n<p>Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma disc&iacute;pula<br \/>\n    de violino para Ruth, a filha de um empregado p&uacute;blico da vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Camila op&ocirc;s-se. Ver a sua pobre filha andar na rua angariando dinheiro<br \/>\n    alheio? nunca. N&atilde;o tinham ainda chegado a tal extremo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, tia Mila, a n&atilde;o ser que M&aacute;rio lhe d&ecirc; uma mesada,<br \/>\n    com que devemos contar? perguntou Nina, estupefata daquela afirmativa e acrescentou:<br \/>\n    o que n&oacute;s trouxemos, mesmo com economia, n&atilde;o dar&aacute; para<br \/>\n    mais de dois meses&#8230;<\/p>\n<p>Camila arregalou os olhos, como se s&oacute; ent&atilde;o tivesse a percep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua desgra&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>Aproveitando a perplexidade da m&atilde;e, Ruth convenceu-a de que as li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    seriam um meio de a distrair; j&aacute; n&atilde;o ag&uuml;entava aqueles<br \/>\n    dias sem fim.<\/p>\n<p>S&oacute; &agrave; Nina n&atilde;o sobravam horas para trabalhos de interesse;<br \/>\n    precisava dividir-se em todos os misteres dom&eacute;sticos; as cozinheiras<br \/>\n    n&atilde;o paravam, umas porque bebiam, outras porque achavam o ordenado mesquinho&#8230;Era<br \/>\n    um vai-vem cansativo, e ela sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua paci&ecirc;ncia<br \/>\n    nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua miss&atilde;o de mulher,<br \/>\n    ado&ccedil;ando sofrimentos, serenando tempestades e conservando-se na meia<br \/>\n    sombra de um papel secund&aacute;rio.<\/p>\n<p>Corriam assim os meses. Os amigos escasseavam, mais pelo retraimento da fam&iacute;lia<br \/>\n    que pela sua mudan&ccedil;a de fortuna. Os infelizes julgam os homens piores<br \/>\n    do que eles s&atilde;o, e nunca v&ecirc;m em si a causa justificada de certos<br \/>\n    abandonos. Camila queixava-se &agrave;s vezes das rela&ccedil;&otilde;es antigas,<br \/>\n    sem cogitar que quem mais fugia era ela, envergonhada da sua nova situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Levado talvez mais pelo h&aacute;bito que por outra cousa, dr. Gerv&aacute;sio<br \/>\n    continuava na assiduidade antiga; as suas visitas eram mais curtas, feitas<br \/>\n    de passagem; evitava, com escrupulosa discri&ccedil;&atilde;o, os almo&ccedil;os<br \/>\n    naquele lar pobre e simples. Demais a mais, n&atilde;o podia falar nunca a<br \/>\n    s&oacute;s com Mila, naquela casa estreita; encontrava-a rodeada sempre da<br \/>\n    fam&iacute;lia, fechada no seu rigoroso vestido de vi&uacute;va, muito arredia.<br \/>\n    Aquelas esquivan&ccedil;as n&atilde;o o atormentavam, ele sentia que a ia<br \/>\n    amando com menos amor e mais amizade; era como uma irm&atilde;, necessitada<br \/>\n    do seu amparo e do seu conselho, que ele n&atilde;o podia deixar de ver todos<br \/>\n    os dias; o calor da sua m&atilde;o e o som da sua voz j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    lhe alvoro&ccedil;avam os sentidos adormecidos; e bem percebia que no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dela a paix&atilde;o estava tamb&eacute;m apaziguada, e que para Camila ele<br \/>\n    ia j&aacute; sendo apenas o amigo.<\/p>\n<p>E assim se passaram poucos meses, at&eacute; que chegou um dia em que o olhar<br \/>\n    de Camila, irradiando, se trocou com o dele num fulgor de desejo. O fogo abafado<br \/>\n    pelas cinzas da tristeza irrompia subitamente, como uma labareda de fragoa.<br \/>\n    Ele espantou-se, ela conteve-se envergonhada, e separaram-se ambos inquietos<br \/>\n    e torturados.<\/p>\n<h4><a name=\"23\" id=\"23\">XXIII<\/a><\/h4>\n<p>Adeus, mam&atilde;e! n&oacute;s vamos levar estas sobras do jantar &agrave;s<br \/>\n    crian&ccedil;as da Jacinta, ouviu? Nina disse que n&atilde;o vale a pena guardar<br \/>\n    para amanh&atilde;; &eacute; pouco e pode azedar.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que crian&ccedil;as s&atilde;o essas? perguntou Camila &agrave;s duas<br \/>\n    g&ecirc;meas, que lhe falavam do quintal com a trouxinha da comida num guardanapo.<\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o as netas da Jacinta&#8230;<\/p>\n<p>Ruth apareceu atr&aacute;s das irm&atilde;s.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e n&atilde;o conhece&#8230; Jacinta &eacute; uma velha paral&iacute;tica<br \/>\n    que mora na vizinhan&ccedil;a da minha disc&iacute;pula. Sempre que passamos<br \/>\n    por l&aacute; nos pede esmola&#8230; E t&atilde;o velhinha que faz pena. Combinamos<br \/>\n    com a Nina que sempre que sobrasse alguma coisa do jantar f&ocirc;ssemos levar<br \/>\n    a ela. Quando me lembro do que se desperdi&ccedil;ava l&aacute; em casa! Por<br \/>\n    um lado, mais vale a gente ser pobre&#8230; Os ricos, n&atilde;o &eacute; por<br \/>\n    mal, mas como n&atilde;o conhecem a necessidade dos outros n&atilde;o consolam<br \/>\n    ningu&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fala baixo! Bem, meus amores, v&atilde;o antes que seja noite.<\/p>\n<p>&#8211; Anda depressa, Noca.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e, como n&oacute;s vamos acompanhadas, podemos depois fazer<br \/>\n    um passeiozinho?<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230;<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as sa&iacute;ram com a mulata. Camila sorriu. A Provid&ecirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o a desamparava. Ainda na sua casa havia sobras para dar&#8230;<\/p>\n<p>A tarde ca&iacute;a com lentid&atilde;o; a vi&uacute;va, derreada na cadeira<br \/>\n    de balan&ccedil;o da sala de jantar, olhava pela janela aberta para a grande<br \/>\n    amendoeira do quintal, cujas folhas cor de ferrugem ca&iacute;am espa&ccedil;adamente,<br \/>\n    com um rumor t&iacute;mido.<\/p>\n<p>Invadia-a uma grande tristeza, um desejo vago de fugir, de sumir-se na transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma ess&ecirc;ncia diversa. A sua alma amorosa crescia-lhe dentro do peito<br \/>\n    na &acirc;nsia do calor do abra&ccedil;o e o sabor do beijo. N&atilde;o podia<br \/>\n    mais, as roupas negras sufocavam-na, lembravam-lhe a todos os instantes aquele<br \/>\n    minuto inolvid&aacute;vel, que se lhe fixara na vida, que se repetia sessenta<br \/>\n    vezes em todas as horas e de que ela n&atilde;o se libertaria nunca!<\/p>\n<p>Nunca? Quem sabe? a sua carne forte acordava de um longo letargo com fr&ecirc;mitos<br \/>\n    de mocidade, capaz de todos os prod&iacute;gios. Se a paix&atilde;o que ela<br \/>\n    via arrefecer nos olhos de Gerv&aacute;sio se reacendesse! Se ele voltasse<br \/>\n    a am&aacute;-la com aquele amor antigo, todo de extremos&#8230; Se ele voltasse!<\/p>\n<p>Na palidez da tarde moribunda, a grande amendoeira desnudava tranq&uuml;ilamente.<br \/>\n    Camila olhava para ela, invejando-lhe a serenidade, quando sentiu passos.<\/p>\n<p>Voltou-se.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio sorria-lhe da porta.<\/p>\n<p>&#8211; Vem! murmurou ela ent&atilde;o, num triunfo, estendendo-lhe os bra&ccedil;os&#8230;<br \/>\n    Ele precipitou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, voltas a ser minha! a ser minha!<\/p>\n<p>&#8211; Espera&#8230; sossega&#8230; a Nina est&aacute; em casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que importa a Nina?<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te! Oh, eu j&aacute; n&atilde;o posso mais!<\/p>\n<p>Muito juntos, com as bocas quase unidas, eles repetiam as mesmas palavras<br \/>\n    de outrora, que soavam agora aos ouvidos de Mila como novas.<\/p>\n<p>O c&eacute;u ia mudando de cor; as folhas da amendoeira desprendiam-se c&eacute;leres<br \/>\n    e com freq&uuml;&ecirc;ncia; dir-se-ia uma tarde de outono, e era apenas come&ccedil;o<br \/>\n    de ver&atilde;o.<\/p>\n<p>Camila, reentrada no seu sonho maravilhoso, parecia iluminada. O m&eacute;dico<br \/>\n    puxou-a para si, ia beij&aacute;-la, quando a Nina apareceu na sala, com modo<br \/>\n    disfar&ccedil;ado.<\/p>\n<p>&#8211; Querem luz? Como as meninas est&atilde;o tardando!<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio n&atilde;o respondeu; achou-a importuna. Camila disse com<br \/>\n    meiguice:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; cedo, minha filha&#8230;<\/p>\n<p>Ficou depois por muito tempo calada, recolhida na sua alegria. Era como se<br \/>\n    a tivessem encerrado em uma redoma luminosa e cheia de perfumes, em que houvesse<br \/>\n    outra atmosfera que lhe alterasse a natureza, isolando-a de tudo o mais. As<br \/>\n    roupas do luto n&atilde;o lhe pesavam, semelhavam rendas lev&iacute;ssimas;<br \/>\n    pela primeira vez a imagem do marido no &uacute;ltimo momento se lhe apagou<br \/>\n    na mem&oacute;ria&#8230; Era j&aacute; noite quando ela acompanhou Gerv&aacute;sio<br \/>\n    ao jardinzinho da entrada. Ele sentia-a tr&ecirc;mula, numa como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de virgem, como se aquele velho amor pecaminoso fosse um amor nascente.<\/p>\n<p>A sua voz, lenta e grave, tinha inflex&otilde;es t&iacute;midas, e a brancura<br \/>\n    da sua carne tantas vezes beijada por dois homens, parecia-lhe, na sombra,<br \/>\n    de uma imaterialidade pur&iacute;ssima.<\/p>\n<p>&#8211; Agora &eacute;s s&oacute; minha, s&oacute; minha! dizia Gerv&aacute;sio,<br \/>\n    apertando-lhe as m&atilde;os com for&ccedil;a, quando um homem se aproximou<br \/>\n    do port&atilde;o e o empurrou. Olharam, com espanto, mas logo Camila deu um<br \/>\n    grito: reconhecera o filho e correu para ele.<\/p>\n<p>M&aacute;rio olhou para o m&eacute;dico com aborrecimento n&atilde;o disfar&ccedil;ado<br \/>\n    e recuou, dando lugar a que ele passasse para a rua, como a despedi-lo.<\/p>\n<p>Trocaram um cumprimento r&aacute;pido e cruzaram-se.<\/p>\n<p>Foi s&oacute; depois do port&atilde;o fechado sobre as costas do outro que<br \/>\n    o M&aacute;rio se voltou para a m&atilde;e com uma express&atilde;o que significava<br \/>\n    &#8211; ainda?!<\/p>\n<p>Camila rompeu em solu&ccedil;os e ent&atilde;o o filho abra&ccedil;ou-a docemente,<br \/>\n    e a foi levando para dentro. Nina acendeu o g&aacute;s, batendo os dentes,<br \/>\n    num acesso nervoso; depois contemplaram-se todos, em sil&ecirc;ncio. Foi ainda<br \/>\n    solu&ccedil;ante, que Mila perguntou afinal:<\/p>\n<p>&#8211; A Paquita?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; muito pesada, por isso n&atilde;o veio.<\/p>\n<p>Camila sentiu o sangue sumir-lhe. Que! um neto! o seu M&aacute;rio ia ter<br \/>\n    um filho!<\/p>\n<p>&#8211; Demorei-me mais na Europa por esse motivo: os m&eacute;dicos acharam imprudente<br \/>\n    que a Paquita se metesse em viagens&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fizeram bem. Por aqui sofreu-se tanto! Quando chegaram?<\/p>\n<p>&#8211; Esta madrugada. Desembarcamos &agrave;s nove horas&#8230;<\/p>\n<p>Outra decep&ccedil;&atilde;o: todo o dia. no Rio, e s&oacute; &agrave; noite<br \/>\n    o filho a procurava!<\/p>\n<p>Ele explicou: tivera muito trabalho, idas &agrave; alf&acirc;ndega, uma trapalhada!<br \/>\n    E as irm&atilde;s? onde estavam as irm&atilde;s?<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; v&ecirc;m, andam a&iacute; pela cal&ccedil;ada. Vai avis&aacute;-las,<br \/>\n    Nina.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a saiu. M&aacute;rio continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Porque n&atilde;o as entregou &agrave; minha cunhada? Ela escreveu-nos<br \/>\n    falando nisso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tive pena&#8230; n&atilde;o me quero separar delas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, concordo que &eacute; penoso; mas &eacute; para o bem delas, e esta<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode continuar. Paquita &eacute; uma mulher<br \/>\n    sensata, mesmo a bordo determinou tudo da melhor maneira: Lia e Rachei v&atilde;o<br \/>\n    para a casa de minha cunhada; Ruth ir&aacute; morar conosco, isto at&eacute;<br \/>\n    lhe facilitar&aacute; um casamento, coisa sempre dif&iacute;cil para uma mo&ccedil;a<br \/>\n    pobre, e Nina tem o recurso de ir para a casa do pai&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E&#8230;eu?!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora, visto que agora &eacute; livre&#8230; porque n&atilde;o se h&aacute;<br \/>\n    de casar?<\/p>\n<p>Camila tornou-se rubra e escondeu o rosto nas m&atilde;os.<\/p>\n<p>M&aacute;rio n&atilde;o soubera reprimir-se, e j&aacute; agora prosseguia:<\/p>\n<p>&#8211; Acho prefer&iacute;vel o casamento &agrave; continua&ccedil;&atilde;o desta<br \/>\n    vida. Perdoe-me que lhe diga, mas suas filhas merecem outros exemplos&#8230;<\/p>\n<p>As m&atilde;os de Mila, geladas, apertaram com mais for&ccedil;a o rosto<br \/>\n    em fogo.<\/p>\n<p>M&aacute;rio falou ainda.<\/p>\n<p>Ele premeditara o seu discurso, ao lado da previdente Paquita, mas a l&iacute;ngua<br \/>\n    recusava-se a repeti-lo inteirinho, no seu rigor de forma decisiva.<\/p>\n<p>Vinha como uma espada, cortando todos os n&oacute;s. Prevalecia-se da sua<br \/>\n    autoridade de homem.<\/p>\n<p>A m&atilde;e teve nojo, e num s&oacute; grito explodiram-lhe todas as queixas.<br \/>\n    As faces, de vermelhas tornaram-se l&iacute;vidas, as m&atilde;os e os bei&ccedil;os<br \/>\n    tremiam-lhe; avan&ccedil;ou:<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; dizer &agrave; Paquita, &agrave; sua pr&aacute;tica e sensata<br \/>\n    Paquita, que eu n&atilde;o preciso do dinheiro dela ouviu? N&atilde;o se demore,<br \/>\n    que ela &eacute; capaz de bater em voc&ecirc;&#8217;<\/p>\n<p>&#8212; Mam&atilde;e!<\/p>\n<p>&#8211; Perversos! vir de t&atilde;o longe, o meu filho, para me dizer isto. O<br \/>\n    meu filho! e eu que tinha tantas saudades!<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e, a senhora &eacute; injusta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Injusta &eacute; ela, que me quer separar de todos os filhos e te ensina<br \/>\n    a faltar-me ao respeito. Acham que tenho sofrido pouco?!<\/p>\n<p>&#8211; Acalme-se e reconhecer&aacute; que temos raz&atilde;o. Paquita &eacute;<br \/>\n    um anjo.<\/p>\n<p>&#8211; Um diabo do inferno!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora est&aacute; me ofendendo.<\/p>\n<p>&#8211; E ningu&eacute;m me ofendeu? Diga! ningu&eacute;m me ofendeu?!<\/p>\n<p>&#8211; Sossegue: tudo se h&aacute; de arranjar; bem sabe que eu n&atilde;o tenho<br \/>\n    nada; a fortuna &eacute; de minha mulher, mas n&oacute;s lhe daremos uma mesada,<br \/>\n    visto que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Recuso; n&atilde;o quero nada dessas m&atilde;os. O meu filho morreu no<br \/>\n    dia em que se casou. Se o envergonho, &eacute; melhor fingir que n&atilde;o<br \/>\n    me conhece. V&aacute;-se embora.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute;-se embora! Eu n&atilde;o preciso de nada. Suas irm&atilde;s sa&iacute;ram<br \/>\n    para dar uma esmola. Temos sobras em casa. Que castigo, meu Deus!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tive a inten&ccedil;&atilde;o de a ofender. Se eu n&atilde;o<br \/>\n    tivesse encontrado aqui aquele maldito homem, as coisas teriam caminhado de<br \/>\n    outra maneira. Compete agora a mim o dever de zelar pela sua honra. A senhora<br \/>\n    &eacute; vi&uacute;va, o Dr. Gerv&aacute;sio &eacute; solteiro, amam-se, casem-se.<br \/>\n    E l&oacute;gico.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo amor de Deus! M&aacute;rio!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora n&atilde;o &eacute; crian&ccedil;a, deve perceber que desse modo<br \/>\n    compromete o futuro das meninas. O tempo lhe dir&aacute; se tenho raz&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que insist&ecirc;ncia! uma vez por todas: basta, basta, basta!<\/p>\n<p>&#8211; Bem. mam&atilde;e, calo-me.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim!<\/p>\n<p>Era oportuno o ponto. As meninas entravam em tropel pelo jardim, gritando:<\/p>\n<p>&#8211; M&aacute;rio, M&aacute;rio!<\/p>\n<p>Ele chegou &agrave; porta, agitad&iacute;ssimo e estendeu os bra&ccedil;os<br \/>\n    a Ruth, que lhe pareceu muito magrinha, j&aacute; de vestido comprido, como<br \/>\n    uma senhora. O abra&ccedil;o evocou em ambos a lembran&ccedil;a do pai. M&aacute;rio<br \/>\n    semeou beijos e l&aacute;grimas nos cabelos da irm&atilde;, na sua primeira<br \/>\n    efus&atilde;o de ternura.<\/p>\n<p>Foi s&oacute; depois de tudo acabado, que &agrave; Noca, contemplando o mo&ccedil;o<br \/>\n    de frente, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Gentes! reparem como o bigode de M&aacute;rio cresceu, e como ele est&aacute;<br \/>\n    bonito!<\/p>\n<h4><a name=\"24\" id=\"24\">XXIV<\/a><\/h4>\n<p>Domingo de ver&atilde;o; as cigarras chiavam estridulamente no flamboyant<br \/>\n    da rua. Grande sossego em tudo.<\/p>\n<p>Fechada no seu quarto, Camila tentava ler, mas os olhos fugiam-lhe da leitura<br \/>\n    para as caminhas vazias das g&ecirc;meas, entregues desde a v&eacute;spera<br \/>\n    &agrave; baronesa da Lage. Cumpriam-se as ordens de M&aacute;rio.<\/p>\n<p>A fam&iacute;lia espalhava-se ao bruto ponta-p&eacute; da pobreza: uns para<br \/>\n    aqui, outros para acol&aacute;&#8230; Que imprevistas solu&ccedil;&otilde;es tem<br \/>\n    a vida!<\/p>\n<p>Numa persist&ecirc;ncia cruel, o conselho do filho fincava-se-lhe no c&eacute;rebro.<br \/>\n    Exangue e dolorida, ela n&atilde;o lutava; a fatalidade faria dela o que quisesse&#8230;<br \/>\n    O que a atormentava sobretudo era a saudade das g&ecirc;meas, que tinham levado<br \/>\n    consigo toda a sua alegria e que, ausentes dela, iriam dispensando &agrave;<br \/>\n    outra os afagos que deveriam ser s&oacute; seus! Pobres inocentes, l&aacute;<br \/>\n    viria um dia em que o preconceito da honra se levantasse no seu caminho, como<br \/>\n    um rochedo em cujas arestas lhes ficassem o sangue e a carne.<\/p>\n<p>Via j&aacute; a outra como uma inimiga. Fora ela quem lhe tirara o filho<br \/>\n    para a irm&atilde;; era ela quem lhe tirava as filhas para si. O pretexto<br \/>\n    humilhava-a, achava-se indigna por n&atilde;o ter tido for&ccedil;as de defender<br \/>\n    as crian&ccedil;as, arrancadas de casa pela press&atilde;o da necessidade.<br \/>\n    Olhou para as m&atilde;os: eram bonitas, mas n&atilde;o sabiam fazer nada.<br \/>\n    Camila escondeu-as depressa, arrepiada, nas dobras do casaco.<\/p>\n<p>E o conselho do filho n&atilde;o a deixava, numa fixidez alucinadora. Sim,<br \/>\n    s&oacute; Gerv&aacute;sio poderia salv&aacute;-la, se quisesse dizer primeiro<br \/>\n    a palavra que ela n&atilde;o tinha coragem de pronunciar.<\/p>\n<p>Camila fechava os olhos, tapava os ouvidos e sempre, continuamente, entre<br \/>\n    o seu orgulho de mulher e os seus extremos de m&atilde;e, badalavam as palavras<br \/>\n    do filho:<\/p>\n<p>&#8211; Case-se, case-se, case-se!<\/p>\n<p>E ele tinha raz&atilde;o; s&oacute; assim ela tornaria a ter um lar onde<br \/>\n    aninhasse as filhas; cessariam os sacrif&iacute;cios de Nina e de Ruth, a<br \/>\n    Noca trabalharia s&oacute; para si, e o M&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>O ressentimento que lhe ficara daquele filho, que viera de longe para lhe<br \/>\n    amargurar, avolumou-lhe as l&aacute;grimas que chorava. Tinha-se humilhado,<br \/>\n    havia de humilhar-se at&eacute; ao fim. Falaria a Gerv&aacute;sio.<\/p>\n<p>Devia fazer-se isso depressa, a tempo de salvar toda a gente e reunir as<br \/>\n    crian&ccedil;as antes do desapego completo.<\/p>\n<p>Francisco Teodoro assim quisera, furtando-se &agrave; responsabilidade da<br \/>\n    fam&iacute;lia. fugindo da vida desde que a vida, em vez de presente&aacute;-lo,<br \/>\n    lhe pedia favores. Era o abandono; pois bem, ela reconstituiria o lar que<br \/>\n    ele desmanchara; o seu velho amor, purificado por tantos sobressaltos, por<br \/>\n    tantas agonias, ressurgiria, como um dia de luz ap&oacute;s outros de negrume,<br \/>\n    para a felicidade de todos!<\/p>\n<p>O ora&ccedil;&atilde;o faz pagar caro &agrave;s mulheres a sua gl&oacute;ria,<br \/>\n    bem o sabia. Dei-a tudo, certa de que n&atilde;o era a honra do marido que<br \/>\n    sacrificava: era a sua pr&oacute;pria. Ele n&atilde;o era autor nem c&uacute;mplice,<br \/>\n    n&atilde;o podia ser arg&uuml;ido pela sociedade hip&oacute;crita.<\/p>\n<p>Por fortuna. tinha-se empenhado com um homem de bem: Gerv&aacute;sio salv&aacute;-la-ia.<br \/>\n    M&aacute;rio dissera um dia:<\/p>\n<p>&#8211; Escolha entre mim e o dr. Gerv&aacute;sio &#8211; A&iacute; estava ela agora<br \/>\n    radiante, escolhendo a ambos, porque adorava um, porque era m&atilde;e do<br \/>\n    outro.<\/p>\n<p>As horas passavam devagar. Num piano vizinho rompeu uma polca faceira; ressoavam<br \/>\n    gargalhadas na rua.<\/p>\n<p>Que dia lindo e como havia gente alegre na vida! Camila foi &agrave; janela;<br \/>\n    vacilava ainda. Nem uma nuvem no c&eacute;u; voltou para dentro e esbarrou<br \/>\n    com as caminhas vazias. Numa imposi&ccedil;&atilde;o de vontade, despiu-se<br \/>\n    a pressa e enfiou o vestido de sair; os dedos mal atinavam com os colchetes;<br \/>\n    nem olhou para o espelho, na ansiedade de partir. de correr para o futuro&#8230;<\/p>\n<p>Eram quatro horas quando entrou no bonde que a levaria &agrave; casa do dr.<br \/>\n    Gerv&aacute;sio. Colheu a cauda do vestido, dobrou sobre o rosto o seu v&eacute;u<br \/>\n    de vi&uacute;va, ciosa de que lhe n&atilde;o lessem os pensamentos na altera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do rosto. Dobrava-se, enfim, &aacute; vontade da nora, aquela criatura implac&aacute;vel,<br \/>\n    que nunca a procurava, conservando-se a dist&acirc;ncia, com medo do contato.<br \/>\n    Camila sorria daqueles grandes escr&uacute;pulos, t&atilde;o tardiamente acordados&#8230;<\/p>\n<p>Para melhor evitar a sogra, Paquita mudara-se para Petr&oacute;polis; e o<br \/>\n    M&aacute;rio, sempre com medo de perder a barca, mal visitava a fam&iacute;lia,<br \/>\n    carregado de encomendas para a mulher e o filho, um rapag&atilde;o nascido<br \/>\n    longe da av&oacute;.<\/p>\n<p>Camila esquecia-se de tudo isso, abrindo os olhos para as imagens exteriores.<br \/>\n    Era como se tivesse sa&iacute;do de um c&aacute;rcere: tudo lhe parecia diferente<br \/>\n    e mais bonito. Come&ccedil;avam j&aacute; a aparecer as ch&aacute;caras de<br \/>\n    Botafogo, grandes relvados, altas palmeiras, frescuras de &aacute;gua e de<br \/>\n    sombras macias.<\/p>\n<p>Em quantas daquelas casas, ela fizera brilhar as suas j&oacute;ias, rugir<br \/>\n    as suas sedas, vagar o perfume do seu len&ccedil;o de rendas e dos seus vestidos!<br \/>\n    Bons tempos&#8230; ah! mas eles voltariam, quando a fortuna e a lealdade de Gerv&aacute;sio<br \/>\n    a repusessem no lugar de que a ambi&ccedil;&atilde;o do marido a tinha arrancado.<\/p>\n<p>Ia leve. Como &eacute; bonito e curto o caminho da felicidade!<\/p>\n<p>O bonde dobrou a rua dos Volunt&aacute;rios; e uma s&uacute;bita ang&uacute;stia<br \/>\n    caiu no cora&ccedil;&atilde;o de Camila. Ia passar pelo palacete Teodoro como<br \/>\n    uma estranha. Por um grande trecho da rua, ela esperava esse momento com curiosidade<br \/>\n    e terror; e quando o momento chegou, quis abranger tudo com a vista, adivinhar<br \/>\n    at&eacute; o que se passava dentro daquelas grossas paredes. Na fugacidade<br \/>\n    do instante s&oacute; pode perceber que a janela do seu quarto estava aberta<br \/>\n    e que tinham substitu&iacute;do por areia preta a antiga areia branca do jardim.<br \/>\n    Teve &iacute;mpetos de mandar parar o bonde, de entrar pela casa, ir at&eacute;<br \/>\n    &agrave; sua saleta, continuar o bordado ou a leitura interrompida e beijar<br \/>\n    as duas filhinhas, coradas, ofegantes pelas &uacute;ltimas corridas da bicicleta,<br \/>\n    que l&aacute; deviam estar dentro, ao p&eacute; da Noca, na sala de engomar,<br \/>\n    sobra&ccedil;ando as suas grandes bonecas de olhos azuis&#8230;<\/p>\n<p>O bonde passou, e Mila, toda voltada no banco, olhava para a sua casa, depois<br \/>\n    para o seu jardim, e ainda, enquanto a viu, para a alta copa ramalhuda da<br \/>\n    sua mangueira&#8230;<\/p>\n<p>Sentiu ent&atilde;o como que um desdobramento de personalidade. Ela que passava,<br \/>\n    sozinha, vestida da l&atilde; negra, com um v&eacute;u de crepe pela cara,<br \/>\n    mal arranjada, abotoada &agrave; pressa, n&atilde;o era a Camila dos vestidos<br \/>\n    claros e das m&atilde;os luminosas; essa estaria l&aacute; dentro do palacete<br \/>\n    no seu eterno sonho de mocidade, de amor e de beleza&#8230;<\/p>\n<p>Quando entrou em casa de Gerv&aacute;sio, teve um &iacute;mpeto de voltar<br \/>\n    para tr&aacute;s. Todos os seus escr&uacute;pulos se levantaram em revoada.<br \/>\n    Feriu-a ent&atilde;o a id&eacute;ia de que j&aacute; era av&oacute;, e que<br \/>\n    esse t&iacute;tulo devia ser um rid&iacute;culo algemando-a ao sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    O filho de seu filho seria tamb&eacute;m um inimigo? T&atilde;o pequenino,<br \/>\n    apenas nascido, e j&aacute; teria for&ccedil;a para se interpor entre ela<br \/>\n    e a felicidade?<\/p>\n<p>Um criado abriu o guarda-vento; ela entrou indecisa para o vest&iacute;bulo.<br \/>\n    Nunca se encontrara ali sozinha: Gerv&aacute;sio n&atilde;o quisera exp&ocirc;-la<br \/>\n    aos coment&aacute;rios dos seus criados; preferia ter um canto obscuro, todo<br \/>\n    destinado a ela e que nenhuma outra mulher maculasse com a sua presen&ccedil;a<br \/>\n    ou a sua indaga&ccedil;&atilde;o curiosa.<\/p>\n<p>O mesmo criado conduziu-a por um corredor atapetado, ornado de plantas, at&eacute;<br \/>\n    uma sala do mesmo pavimento t&eacute;rreo, abrindo sobre um jardinzinho interior,<br \/>\n    onde as dracenas se empenachavam de flores.<\/p>\n<p>Pediu-lhe que esperasse ali. O senhor doutor conferenciava com um indiv&iacute;duo<br \/>\n    no escrit&oacute;rio, mas ia avis&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Ela respondeu-lhe que n&atilde;o, n&atilde;o tinha pressa; ficaria at&eacute;<br \/>\n    que o outro sa&iacute;sse&#8230;<\/p>\n<p>Quando se viu s&oacute;, Mila levantou o v&eacute;u com um suspiro de al&iacute;vio.<br \/>\n    Olhou amorosamente para tudo: nas paredes alguns quadros; uma certa sobriedade<br \/>\n    nos arranjos e nos m&oacute;veis. Reconheceu numa cadeira uma almofada bordada<br \/>\n    por ela, e, a um canto, um jarr&atilde;o chin&ecirc;s com que Francisco Teodoro<br \/>\n    presenteara o m&eacute;dico, ap&oacute;s uma doen&ccedil;a grave do M&aacute;rio.<\/p>\n<p>O marido! o M&aacute;rio! como eles lhe fugiam para o horizonte da vida&#8230;<br \/>\n    Aquele jarr&atilde;o evocava uma &eacute;poca feliz. O filho era ent&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; um rapazinho atrevido, mas t&atilde;o meigo, t&atilde;o lindo! o<br \/>\n    marido era forte, falador, arrebatado, amea&ccedil;ando fazer cair a casa<br \/>\n    ao furor das suas rebentinas. E ela? Ela bem diferente: caseira, mal vestida,<br \/>\n    ego&iacute;sta e muito severa para as faltas alheias&#8230; Prodigalizava-se pouco,<br \/>\n    o pr&oacute;prio marido n&atilde;o obtinha dela mais do que o carinho frio,<br \/>\n    de condescend&ecirc;ncia; n&atilde;o por mal, n&atilde;o por prop&oacute;sito,<br \/>\n    nem sabia porque&#8230;<\/p>\n<p>Fora Gerv&aacute;sio que lhe ensinara a enternecer-se, a reprimir as suas<br \/>\n    c&oacute;leras, a perdoar as fraquezas dos outros, a embelezar a sua casa,<br \/>\n    a sua pessoa, a sua vida, a querer bem a todos, com intelig&ecirc;ncia e com<br \/>\n    consci&ecirc;ncia. Antes n&atilde;o o houvera conhecido; ela talvez n&atilde;o<br \/>\n    tivesse sido boa para ningu&eacute;m, mas teria sido honesta e n&atilde;o<br \/>\n    conheceria o sofrimento.<\/p>\n<p>Com os olhos parados nas figuras policromas do jarr&atilde;o, Camila relembrava<br \/>\n    todo o mart&iacute;rio do seu amor, nascido pouco a pouco da intimidade&#8230;<\/p>\n<p>O tal indiv&iacute;duo demorava-se no escrit&oacute;rio. Ela levantou-se,<br \/>\n    foi &agrave; janela olhar para o jardim. As plantas eram finas; como no interior<br \/>\n    da casa, havia tamb&eacute;m ali uma tranq&uuml;ilidade distinta. Sentia-se<br \/>\n    que os gostos e os instintos do dono sabiam subordinar-se a uma vontade forte.<\/p>\n<p>Camila olhava abstratamente para as flores, quando ouviu passos no corredor.<br \/>\n    Voltou-se; Gerv&aacute;sio apareceu no limiar da porta.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isso, Mila?!<\/p>\n<p>&#8211; Nada&#8230; eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por que vieste?!<\/p>\n<p>Camila avan&ccedil;ou timidamente. Ele continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Por que n&atilde;o me mandaste chamar logo que entraste? Est&aacute;s t&atilde;o<br \/>\n    p&aacute;lida!&#8230; t&atilde;o fria&#8230; Foi uma imprud&ecirc;ncia vir aqui, a<br \/>\n    esta hora!&#8230; Mas por que?!<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; eu n&atilde;o poderia falar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz&atilde;o, aquela casa &eacute; t&atilde;o pequena! est&aacute;-se<br \/>\n    t&atilde;o perto de todos! Senta-te, meu amor.<\/p>\n<p>&#8211; Contrario-te?<\/p>\n<p>&#8211; Nunca! estamos juntos! Fala.<\/p>\n<p>&#8211; Eu&#8230;<\/p>\n<p>Mal pronunciou a primeira palavra, Camila arrependeu-se da sua resolu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Era quase velha, j&aacute; era av&oacute;! Aquele pensamento toda se enrubesceu;<br \/>\n    calou-se de novo, com os olhos rasos de &aacute;gua.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o te compreendo&#8230; assustas-me! Tens segredos para mim? Olha que<br \/>\n    me zango! Vamos, que aconteceu?<\/p>\n<p>&#8211; Amas-me sempre?<\/p>\n<p>&#8211; Sempre!<\/p>\n<p>&#8211; Como&#8230; no princ&iacute;pio?<\/p>\n<p>&#8211; Mais.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o baixinho, num sussuro, com o rosto unido ao rosto dele, Camila<br \/>\n    disse tudo. Levada pelo seu sonho, ela n&atilde;o percebia quanto as m&atilde;os<br \/>\n    dele tremiam nas m&atilde;os e que sombras lhe passavam pelo rosto transtornado.<\/p>\n<p>Quando ela acabou, ele n&atilde;o respondeu; ficou por largo tempo im&oacute;vel,<br \/>\n    como se ainda esperasse a &uacute;ltima palavra.<\/p>\n<p>A vira&ccedil;&atilde;o da tarde encheu a sala com o aroma das dracenas;<br \/>\n    Camila sorveu-o com deleite, como se fora um afago do c&eacute;u. Enfim, falara,<br \/>\n    tinha-se dissipado a nuvem e j&aacute; sorridente, instou pela resposta:<\/p>\n<p>&#8211; Queres?<\/p>\n<p>O m&eacute;dico ergueu-se de chofre, e com voz met&aacute;lica e dura disse<br \/>\n    rapidamente:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p>Camila moveu os l&aacute;bios, numa agonia de morte. O que ela temia ali<br \/>\n    estava. Ele tinha raz&atilde;o, era bem feito, casar, para qu&ecirc;? Fora<br \/>\n    a nora que a obrigara a tamanha humilha&ccedil;&atilde;o! Atr&aacute;s daquela<br \/>\n    m&aacute;scara de seriedade, Gerv&aacute;sio havia de se estar rindo dela,<br \/>\n    da pretens&atilde;o daquele miser&aacute;vel corpo de av&oacute; a um noivado<br \/>\n    de amor! Teve a impress&atilde;o doloros&iacute;ssima de estar coberta de<br \/>\n    rugas e de cabelos brancos; olhou para as m&atilde;os com medo; n&atilde;o<br \/>\n    compreendeu bem o motivo por que continuava ali e levantou-se com esfor&ccedil;o,<br \/>\n    para se ir embora. O seu destino estava escrito: via todo o futuro tapado<br \/>\n    pelo corpo pequenino do neto.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio, pondo-lhe as m&atilde;os nos ombros, fe-la sentar-se outra<br \/>\n    vez, com brandura.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu&ecirc;? perguntou-lhe ela, quase chorando. <\/p>\n<p>&#8211; Para te dizer tudo: eu sou casado.<\/p>\n<p>Camila abafou um grito, tapando a boca com a m&atilde;o.<\/p>\n<p>Ele dissera aquilo num desabafo, na &acirc;nsia do golpe inevit&aacute;vel,<br \/>\n    com uma voz cortante como a de um machado lanhando um tronco verde. Roto o<br \/>\n    segredo, apiedou-se logo e falou com humildade, muito chegado a ela. Tamb&eacute;m<br \/>\n    pensara nisso, ela, tamb&eacute;m a quereria fazer sua aos olhos de toda a<br \/>\n    gente, mas estava preso a outra mulher, at&eacute; que a morte&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A morte! suspirou Camila.<\/p>\n<p>E ele continuou, muito comovido:<\/p>\n<p>&#8211; Viste-a uma vez. lembras-te? era aquela mulher de luto que encontramos<br \/>\n    na volta do Netuno. Achaste-a bonita&#8230; percebeste a nossa impress&atilde;o<br \/>\n    e tiveste ci&uacute;mes&#8230; Eu n&atilde;o queria que soubesse&#8230; mas agora<br \/>\n    a explica&ccedil;&atilde;o deve ser completa, dir-te-ei toda a verdade. Meu<br \/>\n    pobre amor, perdoa-me&#8230;<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio segurou nas m&atilde;os de Camila; ela retirou-as devagar<br \/>\n    e fixou-o com um olhar de t&atilde;o clara interroga&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    ele continuou mais baixo, mastigando as palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Sim. amei-a muito! casei-me por amor; mas no dia em que percebi que ela<br \/>\n    me enganava, deixei-a&#8230; Mor&aacute;vamos no Rio Grande, ela ficou l&aacute;<br \/>\n    com a m&atilde;e, eu voltei para aqui. Quis divorciar-me&#8230; ela op&ocirc;s-se;<br \/>\n    op&otilde;e-se ainda; quer ter-me acorrentado como um c&atilde;o: consegue-o.<br \/>\n    &Eacute; tudo.<\/p>\n<p>Era tudo. Camila percebeu o melindre do segredo, mantido para evitar-lhe<br \/>\n    uma ofensa. A raz&atilde;o iluminava-se-lhe; ela n&atilde;o podia ser aos<br \/>\n    olhos daquele homem nem melhor nem mais digna do que a outra que ele desprezara;<br \/>\n    a mesma culpa as nivelava, e se ele n&atilde;o encontrara perd&atilde;o para<br \/>\n    a esposa. como encontraria respeito para ela?<\/p>\n<p>Sempre calada, puxou o seu v&eacute;u de vi&uacute;va para o rosto e levantou-se.<\/p>\n<p>O aroma das dracenas invadia tudo, numa exala&ccedil;&atilde;o sufocante.<\/p>\n<p>Gerv&aacute;sio beijava-lhe as m&atilde;os, suplicando-lhe que lhe perdoasse;<br \/>\n    fora por amor de ambos&#8230; Por que n&atilde;o continuariam a viver como at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o?<\/p>\n<p>Camila n&atilde;o respondia, e como ele instasse, ela pediu:<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-me ir embora!<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz&atilde;o; precisas descansar. Mas n&atilde;o podes ir assim, deixa-me<br \/>\n    ao menos mandar buscar-te um carro!<\/p>\n<p>Camila desprendeu-se, j&aacute; muito impaciente; queria ir sozinha, andar<br \/>\n    a p&eacute; ao ar livre. Ele consentiu, adivinhando que a perdia para sempre.<br \/>\n    Talvez fosse melhor assim&#8230;<\/p>\n<p>Ela colheu a cauda da saia e saiu tiritando de frio, por aquela luminosa<br \/>\n    tarde de ver&atilde;o. Encontrara fechada a porta do futuro; voltara para<br \/>\n    tr&aacute;s, aturdida, como se sentisse dentro da cabe&ccedil;a um sino doido,<br \/>\n    badalando furiosamente. Ele era casado! Ele mentira-lhe! Tantos anos de mentira,<br \/>\n    tantos anos de mentira!<\/p>\n<p>Era j&aacute; noite quando Camila entrou no seu jardinzinho da rua de d.<br \/>\n    Luiza. A casa estava ainda &agrave;s escuras, mas Ruth tocava l&aacute; dentro<br \/>\n    um ad&aacute;gio de Mendelssohn. Extenuada, Camila sentou-se nos degraus de<br \/>\n    pedra, como uma mendiga &agrave; espera da esmola. As luzes dispersas dos<br \/>\n    lampi&otilde;es semeavam de pontos de ouro a curva negra do morro; a &uacute;ltima<br \/>\n    cigarra adormecia nas flores abertas do flamboyant, e a alma dos seres invis&iacute;veis<br \/>\n    erguia-se na noite, enchendo-a de impenetr&aacute;vel e sagrado mist&eacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>Camila, com o olhar aberto para o veludo macio da sombra, percebia que estava<br \/>\n    tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma carta a Gerv&aacute;sio,<br \/>\n    com a sua &uacute;ltima palavra. O adeus definitivo. As l&aacute;grimas rolavam-lhe<br \/>\n    em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que aquele era o dia da sua<br \/>\n    segunda viuvez.<\/p>\n<p>Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um amigo<br \/>\n    calmo, que n&atilde;o a repudiaria nunca&#8230; Na segunda, perdia a ilus&atilde;o<br \/>\n    no amor, a f&eacute; divina na felicidade duradoura, o melhor bem da terra!<\/p>\n<p>Chegara ao fim de tudo, &agrave; hora tremenda da expia&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas fora ela, por ventura, uma criminosa?<\/p>\n<p>Maldizia-se, fora uma confiante, dera-se toda com os seus devaneios, os seus<br \/>\n    desesperos; dera-se completamente, absolutamente, e aquele a quem tudo sacrificara<br \/>\n    tinha-a deixado do lado de fora da sua vida, como a uma estranha.<\/p>\n<p>Ele mentira-lhe, ele mentira-lhe!<\/p>\n<p>Era casado, e desprezara a mulher pela mesma culpa! Que seria ela tamb&eacute;m<br \/>\n    aos olhos dele?<\/p>\n<p>Oh! ser honesta, viver honesta, morrer honesta, que felicidade! Se pudesse<br \/>\n    voltar atr&aacute;s, desfazer todos aqueles dias de sonho e de ebriedade,<br \/>\n    recome&ccedil;ar os labores antigos na insossa domesticidade de esposa obediente,<br \/>\n    sem imagina&ccedil;&atilde;o, sem vontade, feliz em ser sujeita, em bem servir<br \/>\n    a um s&oacute; homem, com que pressa voltaria para evitar esta humilha&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pior que todas as mortes, porque vinha dele, que ela amava tanto! Amava ainda.<br \/>\n    Ainda!<\/p>\n<p>Olhou com desprezo para o seu belo corpo de mulher ardente. Era um despojo,<br \/>\n    de que valia? Lembrou-se com terror das filhas, aquelas crian&ccedil;as nascidas<br \/>\n    dela, predestinadas para o Sofrimento. Caminhariam alegremente para o Amor,<br \/>\n    e o Amor s&oacute; lhes daria decep&ccedil;&atilde;o e mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>Numa ang&uacute;stia, Camila interrogou com olhar ansioso a treva muda: Senhor,<br \/>\n    que haveria no mundo para salva&ccedil;&atilde;o das almas doloridas?!<\/p>\n<p>Alguma coisa falou-lhe no ar, em um rasgo de poesia, que subia as estrelas:<br \/>\n    a m&uacute;sica de Ruth. A ess&ecirc;ncia da l&aacute;grima purificava-se<br \/>\n    no som, com um poder de infinita pacifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o a vi&uacute;va teve inveja da filha, daquele ideal pur&iacute;ssimo,<br \/>\n    que n&atilde;o lhe traria nunca o travo de um desengano. A arte a consolaria<br \/>\n    do homem, pensou, quando chegasse o dia de o amar e de o servir&#8230;<\/p>\n<p>Maldita a natureza, que a fizera, a ela, s&oacute; para o amor!<\/p>\n<p>As onze horas da manh&atilde; seguinte, Camila sentou-se a um canto da sala<br \/>\n    de trabalho. O sol entrava pela janela, estendendo no ch&atilde;o uma toalha<br \/>\n    de ouro. Debru&ccedil;ada sobre a mesa, Ruth escrevia em papel de pauta, preparando<br \/>\n    li&ccedil;&otilde;es para duas disc&iacute;pulas novas. Toda a sua indol&ecirc;ncia<br \/>\n    antiga se transformara em atividade. Nina cosia &agrave; m&aacute;quina e,<br \/>\n    no meio da casa, Noca borrifava a roupa para o engomado. Ela olhou para todos.<br \/>\n    Ruth estava feiosa, muito magrinha; mas a sua coragem iluminava-lhe a fronte,<br \/>\n    uma fronte de homem, vasta e pensadora; as outras pareciam at&eacute; mais<br \/>\n    bonitas naquele af&atilde;. Estavam na sua atmosfera.<\/p>\n<p>Com voz pausada e clara, Camila pediu que lhe dessem trabalho. Olharam-na<br \/>\n    com espanto.<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e, quer mesmo fazer alguma coisa?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha filha&#8230; Tudo acabou, devo come&ccedil;ar vida nova!<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o mande buscar as meninas e ensine-as a ler! exclamou Ruth.<\/p>\n<p>Um grito irrompeu de todos os peitos. Noca saltou:<\/p>\n<p>&#8211; Vou j&aacute; me vestir! Credo! n&atilde;o sei o que parece isto da gente<br \/>\n    dar os filhos. Deixe M&aacute;rio falar, afinal aqui ningu&eacute;m h&aacute;<br \/>\n    de morrer de fome&#8230; Vou buscar as crian&ccedil;as?! Vou, ou n&atilde;o vou?<\/p>\n<p>&#8211; Vai, respondeu Camila muito excitada; mas olha, n&atilde;o ofendas a baronesa.<br \/>\n    Basta dizer&#8230; que eu n&atilde;o tenho nada no mundo sen&atilde;o as minhas<br \/>\n    filhas!<\/p>\n<p>&#8211; Bem que eu ouvi a senhora chorar toda a santa noite&#8230; At&eacute; estive<br \/>\n    quase&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta de palavreado, Noca! interrompeu Nina; e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; descansada, eu acabarei de borrifar a roupa. E depois, para a<br \/>\n    tia:<\/p>\n<p>&#8211; Faz bem, tia Mila. O trabalho distrai.<\/p>\n<h4><a name=\"25\" id=\"25\">XXV<\/a><\/h4>\n<p>Depois de dois anos de viagens pelos Estados Unidos, o capit&atilde;o Rino<br \/>\n    desembarcou no Rio de Janeiro. Vinha outro, remo&ccedil;ado, l&eacute;pido,<br \/>\n    despido do seu ar de ing&ecirc;nua rudeza. Havia agora no seu sorriso a mesclazinha<br \/>\n    de ironia que a perversidade do mundo ensina aos homens.<\/p>\n<p>Catarina notou-lhe logo a diferen&ccedil;a, ao conduzi-lo alegremente por<br \/>\n    entre os girass&oacute;is do seu jardim. Compreendeu a serenidade do irm&atilde;o.<br \/>\n    Vinha salvo.<\/p>\n<p>Na manh&atilde; seguinte ele lia alto um jornal, quando esbarrou com um an&uacute;ncio<br \/>\n    para um concerto de Ruth.<\/p>\n<p>Parou; ele soubera de tudo pelas cartas de Catarina, e, voltando-se, fixou<br \/>\n    nela os seus olhos claros. Houve uma troca de confid&ecirc;ncias entre os<br \/>\n    dois rostos mudos; depois, curvando-se um pouco para o irm&atilde;o, a mo&ccedil;a<br \/>\n    perguntou em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211; Vai visit&aacute;-la agora?<\/p>\n<p>Rino hesitou, e depois, com o tom mais natural do mundo, respondeu com outra<br \/>\n    pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Para qu&ecirc;?&#8230;<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span> www.biblio.com.br <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo XXII Cap\u00edtulo XXIII [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[378],"tags":[],"class_list":["post-107968","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-literatura-infantil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Fal\u00eancia - J\u00falia Lopes de Almeida, Obra A Fal\u00eancia - J\u00falia Lopes de Almeida<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Fal\u00eancia - J\u00falia Lopes de Almeida, Obra, Personagens, Francisco Teodoro, Seu Joaquim, Rio de Janeiro, Literatura, A Fal\u00eancia - J\u00falia Lopes de Almeida\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Fal\u00eancia - J\u00falia Lopes de Almeida, Obra A Fal\u00eancia - J\u00falia Lopes de Almeida\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Fal\u00eancia - J\u00falia Lopes de Almeida, Obra, Personagens, Francisco Teodoro, Seu Joaquim, Rio de Janeiro, Literatura, A Fal\u00eancia - J\u00falia Lopes de Almeida\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/a-falencia-julia-lopes-de-almeida\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-02-09T11:57:19+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"449 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/a-falencia-julia-lopes-de-almeida#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/a-falencia-julia-lopes-de-almeida\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"A Fal\u00eancia &#8211; 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