{"id":107761,"date":"2017-02-08T13:28:56","date_gmt":"2017-02-08T15:28:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=107761"},"modified":"2017-04-28T17:30:50","modified_gmt":"2017-04-28T19:30:50","slug":"historia-da-literatura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/historia-da-literatura-brasileira","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria da Literatura Brasileira"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"555\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#1\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#19\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><\/strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Jos\u00e9 Ver\u00edssimo<\/h4>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A LITERATURA QUE SE escreve no Brasil \u00e9 j\u00e1 a express\u00e3o<br \/>\nde um pensamento e sentimento que se n\u00e3o confundem mais com o portugu\u00eas,<br \/>\ne em forma que, apesar da comunidade da l\u00edngua, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmais inteiramente portuguesa. \u00c9 isto absolutamente certo desde o Romantismo,<br \/>\nque foi a nossa emancipa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, seguindo-se naturalmente<br \/>\n\u00e0 nossa independ\u00eancia pol\u00edtica. Mas o sentimento que o<br \/>\npromoveu e princi- palmente o distinguiu, o esp\u00edrito nativista primeiro<br \/>\ne o nacionalista depois, esse se veio formando desde as nossas primeiras manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nliter\u00e1rias, sem que a vassalagem ao pensamento e ao esp\u00edrito<br \/>\nportugu\u00eas lograsse jamais abaf\u00e1-lo. \u00c9 exatamente essa<br \/>\npersist\u00eancia no tempo e no espa\u00e7o de tal sentimento, manifestado<br \/>\nliterariamente, que d\u00e1 \u00e0 nossa literatura a unidade e lhe justifica<br \/>\na autonomia.<\/p>\n<p>A nossa literatura colonial manteve aqui t\u00e3o viva quanto lhe era poss\u00edvel<br \/>\na tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria portuguesa. Submissa a esta e repetindo-lhe<br \/>\nas manifesta\u00e7\u00f5es, embora sem nenhuma excel\u00eancia e antes<br \/>\ninferiormente, animou-a todavia desde o princ\u00edpio o nativo sentimento<br \/>\nde apego \u00e0 terra e afeto \u00e0s suas cousas. Ainda sem prop\u00f3sito<br \/>\nacabaria este sentimento por determinar manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias<br \/>\nque em estilo diverso do da metr\u00f3pole viessem a exprimir um g\u00eanio<br \/>\nnacional que paulatinamente se diferen\u00e7ava.<\/p>\n<p>Necessariamente nasceu e desenvolveu-se a literatura no Brasil como rebento<br \/>\nda portuguesa e seu reflexo. Nenhuma outra apreci\u00e1vel influ\u00eancia<br \/>\nespiritual experimentou no per\u00edodo da sua forma\u00e7\u00e3o, que<br \/>\n\u00e9 o colonial. Tamb\u00e9m do pr\u00f3prio meio em que se ia daquela<br \/>\nformando lhe n\u00e3o proveio ent\u00e3o qualquer influxo mental que pudesse<br \/>\ncontribuir para distingui-la. E como assim foi at\u00e9 quase acabar o s\u00e9culo<br \/>\nXVIII, n\u00e3o apresenta per\u00edodos claros e definidos da sua evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nnesse lapso. As rea\u00e7\u00f5es que daquele meio porventura sofreu foram<br \/>\napenas de ordem f\u00edsica, a impress\u00e3o da terra em seus filhos;<br \/>\nde ordem fisiol\u00f3gica, os naturais efeitos dos cruzamentos que aqui<br \/>\nproduziram novos tipos \u00e9tnicos; e de ordem pol\u00edtica e social,<br \/>\nresultantes das lutas com os holandeses e outros forasteiros, das expedi\u00e7\u00f5es<br \/>\nconquistadoras do sert\u00e3o, dos descobrimentos das minas e conseq\u00fcente<br \/>\ndilata\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e aumento da sua riqueza e import\u00e2ncia.<br \/>\nEstas rea\u00e7\u00f5es n\u00e3o bastaram para de qualquer modo infirmar<br \/>\na influ\u00eancia espiritual portuguesa e minguar-lhe os efeitos. Criaram,<br \/>\npor\u00e9m, o sentimento por onde a literatura aqui se viria a diferen\u00e7ar<br \/>\nda portuguesa. As divis\u00f5es at\u00e9 hoje feitas no desenvolvimento<br \/>\nda nossa literatura n\u00e3o parece correspondam \u00e0 realidade dos<br \/>\nfatos. Mostra-o a sua mesma varia\u00e7\u00e3o e diversidade nos diferentes<br \/>\nhistoriadores da nossa literatura, e at\u00e9 mesmo no principal deles,<br \/>\nincoerente consigo mesmo. Ap\u00f3s acurado estudo desses fatos tenho por<br \/>\nimposs\u00edvel e v\u00e3o assent\u00e1-los em divis\u00f5es perfeitamente<br \/>\nexatas ou disp\u00f4-los em bem distintas categorias. Faz\u00ea-lo com \u00eaxito<br \/>\nimportaria o mesmo que descobrir outros tantos aspectos diversos e caracter\u00edsticos<br \/>\nem uma literatura sem autonomia, atividade e riqueza bastantes para se nela<br \/>\npassarem as altera\u00e7\u00f5es de inspira\u00e7\u00e3o, de estesia<br \/>\nou de estilo que discriminam e assentam os per\u00edodos liter\u00e1rios;<br \/>\numa literatura que em trezentos anos da sua exist\u00eancia apagada e mesquinha<br \/>\nn\u00e3o experimentou outras rea\u00e7\u00f5es espirituais que as da<br \/>\nMetr\u00f3pole, servilmente seguida. Assim sendo, \u00e9 evidente que<br \/>\nos \u00fanicos per\u00edodos liter\u00e1rios aqui verific\u00e1veis<br \/>\nseriam os mesmos ali averiguados. Quando come\u00e7ava aqui a literatura,<br \/>\nl\u00e1 havia terminado, ou estava terminando, o quinhentismo, a melhor<br \/>\n\u00e9poca da portuguesa. Principiava ent\u00e3o l\u00e1 o seiscentismo,<br \/>\nprematura e r\u00e1pida degrada\u00e7\u00e3o daquele brilhante momento,<br \/>\ncuja brevidade era ali\u00e1s consoante com a da \u00e9poca de esplendor<br \/>\nnacional, revendo tudo o que de ocasional e fortuito houvera nos escassos<br \/>\ncem anos da dupla gl\u00f3ria portuguesa. Mas, como acertadamente nota um<br \/>\nnovo cr\u00edtico, &#8220;o seiscentismo n\u00e3o terminou em 1699, no<br \/>\n\u00faltimo dia do ano, perdurou at\u00e9 a segunda metade do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII e a Arc\u00e1dia e suas imita\u00e7\u00f5es n\u00e3o encerram<br \/>\no s\u00e9culo XVIII; a Arc\u00e1dia de Ant\u00f4nio Dinis s\u00f3 se<br \/>\nfundou em 1756. No segundo quartel ainda Ant\u00f4nio Jos\u00e9 satirizava<br \/>\no gongorismo, que era uma atualidade&#8221;.1<\/p>\n<p>O que, portanto, havia no Brasil era o seiscentismo, a escola gong\u00f3rica<br \/>\nou espanhola, aqui amesquinhada pela imita\u00e7\u00e3o, e por ser, na<br \/>\npoesia e na prosa, a balbuciante express\u00e3o de uma sociedade embrion\u00e1ria,<br \/>\nsem fei\u00e7\u00e3o nem car\u00e1ter, inculta e grossa. Que o era,<br \/>\no mais perfunt\u00f3rio exame, a leitura ainda por alto dos versejadores<br \/>\ne prosistas dessa \u00e9poca o mostrar\u00e1 irrecusavelmente. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 descobrir-lhe diferen\u00e7a que os releve na inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomposi\u00e7\u00e3o, forma ou estilo das obras. Sob o aspecto liter\u00e1rio<br \/>\ns\u00e3o todos genuinamente portugueses, por via de regra inferiores aos<br \/>\nrein\u00f3is. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o apresentada, a de Greg\u00f3rio<br \/>\nde Matos, \u00e9 impertinente. Da sua obra a s\u00f3 por\u00e7\u00e3o<br \/>\ndistinta, e estim\u00e1vel por outras qualidades que as propriamente liter\u00e1rias,<br \/>\n\u00e9 a sat\u00edrica ou antes burlesca. A inspira\u00e7\u00e3o e<br \/>\nfeitio desta n\u00e3o destoa, por\u00e9m, quando se tem presumido da musa<br \/>\ngaiata portuguesa do tempo, ilustrada ou deslustrada por D. Tom\u00e1s de<br \/>\nNoronha, Crist\u00f3v\u00e3o de Morais, Serr\u00e3o de Castro, Jo\u00e3o<br \/>\nSucarelo, Diogo Camacho e quejandos, todos mais ou menos disc\u00edpulos<br \/>\ne imitadores, como o nosso patr\u00edcio, do espanhol Quevedo, mas todos<br \/>\na ele inferiores. Como aos comuns motivos de satirizar de seus \u00eamulos<br \/>\nportugueses juntasse Greg\u00f3rio de Matos o est\u00edmulo do seu descontentamento<br \/>\nde colonial gorado nas suas ambi\u00e7\u00f5es e malogrado na sua vaidade,<br \/>\n\u00e9 talvez o seu estro sat\u00edrico mais rico e, para n\u00f3s,<br \/>\nmuito mais interessante que o daqueles. N\u00e3o \u00e9, por\u00e9m,<br \/>\nnem mais original, nem mais subido. A singularidade, mesmo a superioridade<br \/>\nde Greg\u00f3rio de Matos, ainda quando bem assente, n\u00e3o bastaria<br \/>\nali\u00e1s para desabonar o conceito de que o seu exemplo n\u00e3o prejudica<br \/>\na regra geral da nossa evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria no per\u00edodo<br \/>\ncolonial. Um s\u00f3 escritor, uma s\u00f3 obra, salvo proemin\u00eancia<br \/>\nexcepcional e de efeitos averiguados, n\u00e3o anula um fato liter\u00e1rio<br \/>\ncomo o verificado. A parte s\u00e9ria das composi\u00e7\u00f5es de Greg\u00f3rio<br \/>\nde Matos \u00e9 genuinamente do pior seiscentismo, como pela l\u00edngua,<br \/>\nestilo e outras fei\u00e7\u00f5es o \u00e9 tamb\u00e9m a sua por\u00e7\u00e3o<br \/>\nsat\u00edrica. De resto o seu caso ficou \u00fanico e isolado, incapaz,<br \/>\nportanto, de alterar como quer que fosse a continuidade do nosso desenvolvimento<br \/>\nliter\u00e1rio. E os fatos provam que em nada o alterou. Simult\u00e2nea<br \/>\ne posteriormente continuou aquele como se vinha fazendo.<\/p>\n<p>Somente para o fim do s\u00e9culo XVIII \u00e9 que entramos a sentir<br \/>\nnos poetas brasileiros algo que os come\u00e7a a distinguir. E s\u00f3<br \/>\nnos poetas. Distin\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, ainda muito escassa e limitada<br \/>\ne tamb\u00e9m parcial. Por um ou outro poema em que se rev\u00ea a influ\u00eancia<br \/>\namericana, h\u00e1 dezenas de outros em tudo e por tudo portugueses. Os<br \/>\nmesmos poetas do princ\u00edpio do s\u00e9culo XIX, sucessores imediatos<br \/>\ndos mineiros e predecessores pr\u00f3ximos dos rom\u00e2nticos, s\u00e3o<br \/>\nainda e sobretudo seiscentistas, apenas levemente atenuados pelo arcadismo.<br \/>\nEsta procrastina\u00e7\u00e3o do seiscentismo aqui, como o gongorismo<br \/>\nque lhe era consubstancial, e \u00e9 acaso cong\u00eanito \u00e0 gente<br \/>\nib\u00e9rica, al\u00e9m do motivo geral da mais lenta evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nmental das col\u00f4nias, poderia talvez explic\u00e1-lo o ter aqui vivido,<br \/>\nse exibido e influ\u00eddo o mais poderoso engenho portugu\u00eas dessa<br \/>\n\u00e9poca, o Padre Ant\u00f4nio Vieira. A sua singular individualidade,<br \/>\nexaltando-lhe os insignes dotes liter\u00e1rios, supera a desprez\u00edvel<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do per\u00edodo e a ampara e defende<br \/>\nse n\u00e3o legitima. A corroborar-lhe a m\u00e1 influ\u00eancia, continuada<br \/>\npelos pregadores seus disc\u00edpulos, vieram as academias liter\u00e1rias,<br \/>\nfocos e escolas do mais desbragado gongorismo. Somente com os primeiros rom\u00e2nticos,<br \/>\nentre 1836 e 1846, a poesia brasileira, retomando a trilha logo apagada da<br \/>\nPl\u00eaiade Mineira entra j\u00e1 a cantar com inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nfeita dum consciente esp\u00edrito nacional. Atuando na express\u00e3o<br \/>\nprincipiava essa inspira\u00e7\u00e3o a diferen\u00e7\u00e1-la da<br \/>\nportuguesa. Desde ent\u00e3o somente \u00e9 poss\u00edvel descobrir<br \/>\ntra\u00e7os diferenciais nas letras brasileiras. N\u00e3o ser\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 propriamente essenciais ou formais, deixam-se, por\u00e9m, perceber<br \/>\nnos est\u00edmulos de sua inspira\u00e7\u00e3o, motivos da sua composi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne principalmente no seu prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>As duas \u00fanicas divis\u00f5es que legitimamente se podem fazer no<br \/>\ndesenvolvimento da literatura brasileira, s\u00e3o, pois, as mesmas da nossa<br \/>\nhist\u00f3ria como povo: per\u00edodo colonial e per\u00edodo nacional.<br \/>\nEntre os dois pode marcar-se um momento, um est\u00e1dio de transi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nocupado pelos poetas da Pl\u00eaiade Mineira (1769-1795) e, se quiserem,<br \/>\nos que os seguiram at\u00e9 os primeiros rom\u00e2nticos. Considerada,<br \/>\npor\u00e9m, em conjunto a obra desses mesmos n\u00e3o se diversifica por<br \/>\ntal modo da po\u00e9tica portuguesa contempor\u00e2nea, que force a inven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma categoria distinta para os p\u00f4r nela. No primeiro per\u00edodo,<br \/>\no colonial, toda a divis\u00e3o que n\u00e3o seja apenas did\u00e1tica<br \/>\nou meramente cronol\u00f3gica, isto \u00e9, toda a divis\u00e3o sistem\u00e1tica,<br \/>\nparece-me arbitr\u00e1ria. Nenhum fato liter\u00e1rio autoriza, por exemplo,<br \/>\na descobrir nela mais que algum lev\u00edssimo ind\u00edcio de &#8220;desenvolvimento<br \/>\nauton\u00f4mico&#8221;, insuficiente em todo caso para assentar uma divis\u00e3o<br \/>\nmet\u00f3dica. Ao contr\u00e1rio, ela \u00e9 em todo esse per\u00edodo<br \/>\ninteira e estritamente conjunta \u00e0 portuguesa. Nas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde evolu\u00e7\u00e3o da sociedade que aqui se formava, seria milagre<br \/>\nque assim n\u00e3o fosse. De desenvolvimento e portanto de forma\u00e7\u00e3o,<br \/>\npois que desenvolvimento implica forma\u00e7\u00e3o e vice-versa, \u00e9<br \/>\ntodo o per\u00edodo colonial da nossa literatura, por\u00e9m, apenas de<br \/>\ndesenvolvimento em quantidade e extens\u00e3o, e n\u00e3o de atributos<br \/>\nque a diferen\u00e7assem.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que na segunda metade do s\u00e9culo XVII e princ\u00edpio<br \/>\ndo XVIII, poetas brasileiros (n\u00e3o foram ali\u00e1s mais de tr\u00eas),<br \/>\nocasionalmente, sem inten\u00e7\u00e3o nem insist\u00eancia mostraram-se<br \/>\nimpressionados pela sua terra, cantaram-lhe as excel\u00eancias naturais<br \/>\ncom exagero de apre\u00e7o e entusiasmo em que \u00e9 l\u00edcito perceber<br \/>\no abrolhar do sentimento nacional, come\u00e7ado a gerar-se com os sucessos<br \/>\nda guerra holandesa. Fizeram-no ali\u00e1s pouco e mediocremente. Em vez<br \/>\nde seguir e cavar esse veio que se lhes deparava, perseveraram na po\u00e9tica<br \/>\nportuguesa sua contempor\u00e2nea. Seria desarrazoado, seria for\u00e7ar<br \/>\nos fatos a acomodarem-se \u00e0s nossas preven\u00e7\u00f5es, enxergar<br \/>\nmostras de sentimento liter\u00e1rio auton\u00f4mico nessas singular\u00edssimas<br \/>\nexce\u00e7\u00f5es. Nem por isso s\u00e3o elas desinteressantes. Testemunham<br \/>\na influ\u00eancia dos aludidos sucessos no esp\u00edrito dos brasileiros,<br \/>\nonde criaram ou ativaram o sentimento nativista. Importam-nos ainda como as<br \/>\nprimeiras manifesta\u00e7\u00f5es do impulso de louvar a terra, impulso<br \/>\nque se tornaria logo um sestro liter\u00e1rio nosso. A quase dois s\u00e9culos<br \/>\nde dist\u00e2ncia o verificaria Casimiro de Abreu, nos seus sentidos e conhecidos<br \/>\nversos:<\/p>\n<p>Todos cantam sua terra<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vou cantar a minha<\/p>\n<p>Nas d\u00e9beis cordas da lira<\/p>\n<p>Hei de faz\u00ea-la rainha.<\/p>\n<p>Toma outra fei\u00e7\u00e3o que a puramente portuguesa a nossa literatura<br \/>\nno segundo per\u00edodo, o nacional.<\/p>\n<p>Independente e constitu\u00eddo, desenvolvendo-se menos adstrito \u00e0<br \/>\nexclusiva influ\u00eancia da Metr\u00f3pole e ao seu absorvente predom\u00ednio,<br \/>\nentra o pa\u00eds a experimentar o influxo de outras e melhores culturas,<br \/>\nsofre novos contatos e rea\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o outros tantos<br \/>\nest\u00edmulos da sua intelig\u00eancia e capacidade liter\u00e1ria.<br \/>\nO maior de todos, por\u00e9m, n\u00e3o ser\u00e1 externo, mas o mesmo<br \/>\nsentimento nacional afinal consciente: o desvanecimento da sua independ\u00eancia,<br \/>\nda sua maioridade de povo, das suas possibilidades de crescimento com as suas<br \/>\npromissoras esperan\u00e7as de futuro. Por isso a literatura imediatamente<br \/>\nposterior \u00e0 Independ\u00eancia \u00e9 ostensivamente, intencionalmente<br \/>\nnacionalista e patri\u00f3tica. O germe nativista de que a Prosopop\u00e9ia,<br \/>\nde Bento Teixeira, ao expirar do s\u00e9culo XVI, \u00e9 j\u00e1 o primeiro<br \/>\nind\u00edcio, e a Ilha de Mar\u00e9, de Botelho de Oliveira, no final<br \/>\ndo s\u00e9culo XVII, um mais vis\u00edvel sinal, germe desenvolvido, podemos<br \/>\ndizer nutrido, do calor bairrista de Rocha Pita, e relevado nos poetas do<br \/>\nfim do s\u00e9culo XVIII, completa com a primeira gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica a sua evolu\u00e7\u00e3o. E resulta da \u00edndole claramente<br \/>\nnacionalista, mais ainda, patri\u00f3tica, da literatura de ap\u00f3s<br \/>\na Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Este fato determinara-o a mesma rea\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria inaugurada<br \/>\nna Europa com o Romantismo, que em suma era sobretudo, e esta \u00e9 a sua<br \/>\nmais exata defini\u00e7\u00e3o, uma revolta contra o que se continuava<br \/>\na chamar de classicismo. Tanto mais f\u00e1cil foi \u00e0 nova escola<br \/>\nencontrar aqui simpatias, entusiasmos e sequazes, quanto sendo um princ\u00edpio<br \/>\nde independ\u00eancia e liberdade lisonjeava o nosso ardor de ambas no momento.<br \/>\nTeve de fato alvoro\u00e7ado acolhimento, como era pr\u00f3prio de gente<br \/>\nnova, em pleno fervor da sua mocidade emancipada, irreflexiva e malquerente<br \/>\nde quanto lhe recordava a sua servid\u00e3o pol\u00edtica e mental. Cumpre,<br \/>\ntodavia, n\u00e3o exagerar essa malevol\u00eancia, que por honra dos corifeus<br \/>\ndesse nosso movimento liter\u00e1rio nunca se desmandou nas suas reivindica\u00e7\u00f5es<br \/>\nde autonomia liter\u00e1ria, antes guardou nelas uma compostura de bom gosto.<\/p>\n<p>O Romantismo europeu n\u00e3o s\u00f3 influiu os poetas e escritores<br \/>\nde todo o g\u00eanero, se n\u00e3o os pol\u00edticos, os oradores, ainda<br \/>\nsacros, de que \u00e9 frisante exemplo Monte Alverne, o maior deles, e os<br \/>\npublicistas. Como na Europa, foi tamb\u00e9m aqui mais que uma escola liter\u00e1ria,<br \/>\numa forma de pensamento geral.<\/p>\n<p>Principalmente assinalaram o nosso Romantismo: a simpatia com o \u00edndio,<br \/>\na inten\u00e7\u00e3o de o reabilitar do ju\u00edzo dos conquistadores<br \/>\ne dos nossos mesmos patr\u00edcios coloniais, o errado pressuposto dele<br \/>\nser o nosso antepassado hist\u00f3rico, o amor da natureza e da hist\u00f3ria<br \/>\ndo pa\u00eds, encarados ambos com sentimentos e inten\u00e7\u00f5es<br \/>\nestreitamente nativistas, o conceito sentimentalista da vida, o prop\u00f3sito<br \/>\nmanifesto de fazer uma literatura nacional e at\u00e9 uma cultura brasileira.<br \/>\nInspirado no preconceito dos m\u00e9ritos do \u00edndio revelou-se este<br \/>\nprop\u00f3sito em recomenda\u00e7\u00f5es do ensino da l\u00edngua<br \/>\ntupi, em parvoinhas propostas de sua substitui\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas<br \/>\nna ado\u00e7\u00e3o de apelidos ind\u00edgenas ou na troca dos portugueses<br \/>\npor estes e no encarecimento de quanto era ind\u00edgena.2<\/p>\n<p>Com estas fei\u00e7\u00f5es apenas ligeiramente modificadas por novos<br \/>\ninfluxos recebidos de fora ou aqui mesmo nascidos, durou o nosso Romantismo,<br \/>\niniciado pela terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XIX, at\u00e9 o meado<br \/>\ndo dec\u00eanio de 1870. As \u00faltimas obras de vulto que ainda a ele,<br \/>\ncom a sua inspira\u00e7\u00e3o indianista, se vinculam, s\u00e3o o Evangelho<br \/>\nnas Selvas, de Fagundes Varela, e as Americanas, de Machado de Assis, ambas<br \/>\nem 1875.<\/p>\n<p>Pelo fim do Romantismo, esgotado como acabam todas as escolas liter\u00e1rias,<br \/>\ntanto por enfraquecimento e exaust\u00e3o dos seus motivos, como pela natural<br \/>\nusura, entram a influir a mente brasileira outras correntes de pensamentos,<br \/>\noutros crit\u00e9rios e at\u00e9 outras modas est\u00e9ticas europ\u00e9ias<br \/>\nde al\u00e9m Pireneus oriundas das novas correntes espirituais, o positivismo<br \/>\nem geral ou o novo esp\u00edrito cient\u00edfico, o evolucionismo ingl\u00eas,<br \/>\no materialismo de Haeckel, Moleschott, B\u00fcchner, o comtismo, a cr\u00edtica<br \/>\nde Strauss, Renan ou Taine, o socialismo integral de Proudhon, o socialismo<br \/>\nliter\u00e1rio de Hugo, de Quinet, de Michelet. Outras tend\u00eancias<br \/>\ne fei\u00e7\u00f5es, criadas por estas novas formas de pensamento, se<br \/>\nsubstituem ao ceticismo, ao desalento, ao satanismo, tudo tamb\u00e9m liter\u00e1rio<br \/>\nou apenas sentimental de Byron, Musset e outros que tanto haviam influenciado<br \/>\na nossa segunda gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica. Verifica-se que nenhuma<br \/>\ndas correntes do pensamento europeu que aturaram no brasileiro levou menos<br \/>\nde vinte anos a se fazer aqui sentir. E esta \u00e9 a regra ainda depois<br \/>\nque as nossas comunica\u00e7\u00f5es com a Europa se tornaram mais f\u00e1ceis<br \/>\ne mais freq\u00fcentes. Destas v\u00e1rias influ\u00eancias contradit\u00f3rias,<br \/>\ne at\u00e9 disparatadas, que todas, por\u00e9m, simultaneamente atuaram<br \/>\no nosso pensamento, n\u00e3o saiu, nem podia sair, um composto \u00fanico<br \/>\ne ainda menos coerente, como at\u00e9 certo ponto fora no per\u00edodo<br \/>\nrom\u00e2ntico o espiritualismo crist\u00e3o ou o puro sentimentalismo<br \/>\ndos nossos rom\u00e2nticos, sem exce\u00e7\u00e3o. Sob o aspecto liter\u00e1rio<br \/>\no que delas resultou foi o rompimento, mais ou menos intencional, mais ou<br \/>\nmenos estrepitoso, mais ou menos perempt\u00f3rio, com o Romantismo. De<br \/>\ntal rotura se n\u00e3o gerou, entretanto, um movimento com bastante ressalto,<br \/>\ncar\u00e1ter ou homogeneidade que possamos defini-lo com um apelido id\u00f4neo.<br \/>\nO que se lhe tem dado, como as divis\u00f5es e subdivis\u00f5es nele feitas,<br \/>\nafigura-se-me inconseq\u00fcente com os fatos liter\u00e1rios bem apreciados.<br \/>\nN\u00e3o ignoro, e menos contesto, a import\u00e2ncia e valia das classifica\u00e7\u00f5es<br \/>\npara compendiar a explica\u00e7\u00e3o dos fatos liter\u00e1rios. Mas<br \/>\nn\u00e3o basta n\u00e3o ignor\u00e1-lo ou pratic\u00e1-las a torto<br \/>\ne a direito para podermos alardear filosofia de hist\u00f3ria liter\u00e1ria.<br \/>\nAquele valor e import\u00e2ncia s\u00f3 a t\u00eam as classifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nperfeitas em que quase nada ou mesmo nada fica ao arb\u00edtrio do cr\u00edtico,<br \/>\nmas tudo obedece l\u00f3gica e naturalmente a um justo crit\u00e9rio bem<br \/>\nestabelecido. Sem isso, que \u00e9 dific\u00edlimo em todas as literaturas<br \/>\ne \u00e9 positivamente imposs\u00edvel em a nossa, tais classifica\u00e7\u00f5es<br \/>\ntanto podem inculcar uma digna tend\u00eancia filos\u00f3fica, como uma<br \/>\nsupina presun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que principalmente distinguiu e afei\u00e7oou este nosso movimento espiritual<br \/>\nou mais propriamente liter\u00e1rio posterior ao Romantismo foi o pensamento<br \/>\ncient\u00edfico e filos\u00f3fico triunfante por meados do s\u00e9culo<br \/>\nXIX \u2014 caracterizado pelo preconceito da infalibilidade da ci\u00eancia<br \/>\ne por uma exagerada opini\u00e3o da sua import\u00e2ncia. Esse pensamento,<br \/>\naqui como em toda a parte, recebeu a denomina\u00e7\u00e3o pouco precisa,<br \/>\nmas em suma bastante significativa, de pensamento moderno. Aqui produziu ele<br \/>\nmaior e mais raciocinado desapego \u00e0s cren\u00e7as tradicionais religiosas<br \/>\nou pol\u00edticas, gerou o acatolicismo ou o agnosticismo em grande n\u00famero<br \/>\nde esp\u00edritos e o republicanismo ainda em maior n\u00famero. N\u00e3o<br \/>\nchegou, por\u00e9m, a criar manifesta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\nalguma bastante consider\u00e1vel e homog\u00eanea, e suficientemente distinta,<br \/>\npara a podermos nomear com exatid\u00e3o segundo os seus particulares caracteres<br \/>\nliter\u00e1rios. Para sair da dificuldade sem, por iludi-la, cair no erro<br \/>\nde dar a esta fase da nossa literatura algum apelido desapropositado, parece<br \/>\nque o meio mais seguro \u00e9 lhe verificar a inspira\u00e7\u00e3o ou<br \/>\nid\u00e9ia geral e motriz, e consoante ela denomin\u00e1-la. Era esta<br \/>\ndeclaradamente seguir em arte como em filosofia, e ainda em pol\u00edtica,<br \/>\nas id\u00e9ias modernas, o racionalismo cient\u00edfico, o positivismo<br \/>\nfilos\u00f3fico, o transformismo e o evolucionismo como um crit\u00e9rio<br \/>\ngeral do pensamento, o liberalismo pol\u00edtico, que levava de um lado<br \/>\nao republicanismo, de outro, com duvidosa coer\u00eancia, ao socialismo.<br \/>\nO &#8220;pensamento moderno&#8221;, e a sua competente apologia, foram aqui<br \/>\num tema liter\u00e1rio repetido at\u00e9 o fastio e sob esta denomina\u00e7\u00e3o<br \/>\nou a ainda mais vaga de &#8220;id\u00e9ia nova&#8221; se reuniam desencontrados<br \/>\nconceitos, sentimentos e aspira\u00e7\u00f5es. Dava-lhes, todavia, unidade<br \/>\nbastante para ao menos exteriormente os caracterizar. N\u00e3o sendo poss\u00edvel<br \/>\ndescobrir-lhes com toda a certeza o acento predominante, a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria essencial e por evitar a impertin\u00eancia e vaidade das<br \/>\ntentativas j\u00e1 feitas para grupar em categorias definidas autores e<br \/>\nobras desta \u00faltima fase da nossa evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria,<br \/>\nparece mais prudente crism\u00e1-la segundo o seu principal est\u00edmulo<br \/>\nmental \u2014 a sua supersti\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias modernas<br \/>\n\u2014 e chamar-lhe de modernismo.3 Efetivamente \u00e9 a influ\u00eancia<br \/>\ncosmopolita e on\u00edmoda dessas id\u00e9ias e dominante em a nossa literatura<br \/>\nnessa fase e, salvo exce\u00e7\u00f5es individuais pouco relevantes, n\u00e3o<br \/>\nmais o nacionalismo rom\u00e2ntico. Torna-se a poesia \u2014 e a poesia<br \/>\nfoi sempre em c\u00f3pia e qualidade a por\u00e7\u00e3o mais consider\u00e1vel<br \/>\nda nossa literatura \u2014 menos subjetiva, menos ing\u00eanua e sentimentalista,<br \/>\ne a diminui\u00e7\u00e3o destas suas qualidades acaso, sob o aspecto da<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o, amesquinhou o nosso lirismo. Ao inv\u00e9s ganhou<br \/>\nele em dons verbais de express\u00e3o e em virtudes de forma e m\u00e9trica.<br \/>\nA mesma forma aperfei\u00e7oou-se com qualidades de composi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne temperan\u00e7a. Nota-se mais o aparecimento em toda a nossa literatura<br \/>\nde requisitos de que carecia, e que faltaram sempre \u00e0 antiga literatura<br \/>\nportuguesa, o gosto, o interesse, a capacidade das id\u00e9ias gerais, preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais largamente humanas e sociais, em vez de pura sentimentalidade e do estreito<br \/>\nnacionalismo rom\u00e2ntico. Alguns dos principais representantes desta \u00faltima<br \/>\nfase da nossa evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria s\u00e3o, sem preju\u00edzo<br \/>\ndo seu brasileirismo de raiz, cosmopolitas ou universais. Tais s\u00e3o<br \/>\nCastro Alves, Tobias Barreto, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Eduardo Prado.<\/p>\n<p>Antes da Rep\u00fablica, ou por esp\u00edrito de oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nao imp\u00e9rio cat\u00f3lico, ou por influ\u00eancia desse pensamento<br \/>\nmoderno, eram os intelectuais brasileiros quase todos livres-pensadores, ou<br \/>\npelo menos esp\u00edritos de um largu\u00edssimo liberalismo, que ro\u00e7ava<br \/>\npelo livre-pensamento. Este liberalismo foi, ali\u00e1s, a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nconsp\u00edcua do esp\u00edrito brasileiro e da vida p\u00fablica brasileira<br \/>\ndurante todo o reinado de D. Pedro II. Com a Rep\u00fablica, que n\u00e3o<br \/>\npodia falhar \u00e0 \u00edndole ditatorial e desp\u00f3tica do republicanismo<br \/>\nlatino e aos efeitos da sua educa\u00e7\u00e3o pelo jacobinismo franc\u00eas,<br \/>\natenuou-se essa fei\u00e7\u00e3o e minguou na pol\u00edtica, como na<br \/>\nintelig\u00eancia nacional, aquele esp\u00edrito liberal.<\/p>\n<p>Uma escola liter\u00e1ria n\u00e3o morre de todo porque outra a substitui,<br \/>\ncomo uma religi\u00e3o n\u00e3o desaparece inteiramente porque outra a<br \/>\nsuplanta. Tamb\u00e9m n\u00e3o acontece que um movimento ou manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncoletiva de ordem intelectual, uma \u00e9poca liter\u00e1ria ou art\u00edstica,<br \/>\nseja sempre conforme com o seu princ\u00edpio e conserve inteira a sua fisionomia<br \/>\ne car\u00e1ter. \u00c9, pois, \u00f3bvio que aqui, como sucedeu na Europa,<br \/>\nficaram germes ou antes restos do Romantismo, como neste haviam ficado do<br \/>\nclassicismo. Misturados com o &#8220;cientificismo&#8221; do momento ou influ\u00eddos<br \/>\npor ele, esses remanescente do Romantismo confundiram-se na corrente geral<br \/>\ndaquele originada, produzindo com outros est\u00edmulos e impulsos supervenientes<br \/>\nalgumas fei\u00e7\u00f5es diversas na fisionomia liter\u00e1ria desta<br \/>\nfase. Nenhuma, por\u00e9m, t\u00e3o distinta que force a discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A dificuldade geralmente verificada desta discrimina\u00e7\u00e3o sobe<br \/>\nde ponto aqui, onde por in\u00f3pia da tradi\u00e7\u00e3o intelectual<br \/>\no nosso pensamento, de si mofino e incerto obedece servil e canhestramente<br \/>\na todos os ventos que nele v\u00eam soprar, e n\u00e3o assume jamais modalidade<br \/>\nformal e distinta. Sob o aspecto filos\u00f3fico o que \u00e9 poss\u00edvel<br \/>\nnotar no pensamento brasileiro, quanto \u00e9 l\u00edcito deste falar,<br \/>\n\u00e9, mais talvez que a sua pobreza, a sua informidade. Esta \u00e9<br \/>\ntamb\u00e9m a mais saliente fei\u00e7\u00e3o da nossa literatura dos<br \/>\nanos de 70 para c\u00e1. Disfar\u00e7a-as a ambas, ou as atenua, o \u00edntimo<br \/>\nsentimento comum do nosso lirismo, ainda em a nossa prosa manifesto, a sensibilidade<br \/>\nf\u00e1cil, a car\u00eancia, n\u00e3o obstante o seu ar de melancolia,<br \/>\nde profundeza e seriedade, a sensualidade levada at\u00e9 a lasc\u00edvia,<br \/>\no gosto da ret\u00f3rica e do reluzente. Acrescentem-se como caracter\u00edsticos<br \/>\nmentais a petul\u00e2ncia intelectual substituindo o estudo e a medita\u00e7\u00e3o<br \/>\npela improvisa\u00e7\u00e3o e invencionice, a leviandade em aceitar inspira\u00e7\u00f5es<br \/>\ndesencontradas e a facilidade de entusiasmos irrefletidos por novidades est\u00e9ticas,<br \/>\nfilos\u00f3ficas ou liter\u00e1rias. \u00c0 falta de outras qualidades,<br \/>\nestas emprestam ao nosso pensamento e \u00e0 sua express\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\na forma de que, por m\u00edngua de melhores virtudes, se reveste. Aquelas<br \/>\nrevelam mais sentimentalismo que racioc\u00ednio, mais impulsos emotivos<br \/>\nque consci\u00eancia esclarecida ou alumiado entendimento, revendo tamb\u00e9m<br \/>\nas defici\u00eancias da nossa cultura. Mas por ora, e a despeito da mencionada<br \/>\nrea\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito cient\u00edfico e do pensamento<br \/>\nmoderno dele inspirado, somos assim, e a nossa literatura, que \u00e9 a<br \/>\nmelhor express\u00e3o de n\u00f3s mesmos, claramente mostra que somos<br \/>\nassim.<\/p>\n<p>Literatura \u00e9 arte liter\u00e1ria. Somente o escrito com o prop\u00f3sito<br \/>\nou a intui\u00e7\u00e3o dessa arte, isto \u00e9, com os artif\u00edcios<br \/>\nde inven\u00e7\u00e3o e de composi\u00e7\u00e3o que a constituem \u00e9,<br \/>\na meu ver, literatura. Assim pensando, qui\u00e7\u00e1 erradamente, pois<br \/>\nn\u00e3o me presumo de infal\u00edvel, sistematicamente excluo da hist\u00f3ria<br \/>\nda literatura brasileira quanto a esta luz se n\u00e3o deva considerar literatura.<br \/>\nEsta \u00e9 neste livro sin\u00f4nimo de boas ou belas letras, conforme<br \/>\na vern\u00e1cula no\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica. Nem se me d\u00e1<br \/>\nda pseudonovidade germ\u00e2nica que no voc\u00e1bulo literatura compreende<br \/>\ntudo o que se escreve num pa\u00eds, poesia l\u00edrica e economia pol\u00edtica,<br \/>\nromance e direito p\u00fablico, teatro e artigos de jornal e at\u00e9<br \/>\no que se n\u00e3o escreve, discursos parlamentares, cantigas e hist\u00f3rias<br \/>\npopulares, enfim autores e obras de todo o g\u00eanero.4<\/p>\n<p>N\u00e3o se me imp\u00f5e o conceito com tal grau de certeza que eu me<br \/>\nn\u00e3o atreva a opor-lhe a minha heresia, quero dizer a minha humilde<br \/>\nopini\u00e3o. Com o mais recente e um dos mais justamente apreciados historiadores<br \/>\nda literatura francesa, o Sr. G. Lanson, estou que &#8220;a literatura destina-se<br \/>\na nos causar um prazer intelectual, conjunto ao exerc\u00edcio de nossas<br \/>\nfaculdades intelectuais, e do qual lucrem estas mais for\u00e7as, ductilidade<br \/>\ne riqueza. \u00c9 assim a literatura um instrumento de cultura interior;<br \/>\ntal o seu verdadeiro of\u00edcio. Possui a superior excel\u00eancia de<br \/>\nhabituar-nos a tomar gosto pelas id\u00e9ias. Faz com que encontremos num<br \/>\nemprego o nosso pensamento, simultaneamente um prazer, um repouso, uma renova\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDescansa das tarefas profissionais e sobreleva o esp\u00edrito aos conhecimentos,<br \/>\naos interesses, aos preconceitos de of\u00edcio; ela &#8220;humaniza&#8221;<br \/>\nos especialistas. Mais do que nunca precisam hoje os esp\u00edritos de t\u00eampera<br \/>\nfilos\u00f3fica; os estudos t\u00e9cnicos de filosofia, por\u00e9m,<br \/>\nnem a todos s\u00e3o acess\u00edveis. \u00c9 a literatura, no mais nobre<br \/>\nsentido do termo, uma vulgariza\u00e7\u00e3o da filosofia: mediante ela<br \/>\ns\u00e3o as nossas sociedades atravessadas por todas as grandes correntes<br \/>\nfilos\u00f3ficas determinantes do progresso ou ao menos das mudan\u00e7as<br \/>\nsociais; \u00e9 ela quem mant\u00e9m nas almas, sem isso deprimidas pela<br \/>\nnecessidade de viver e afogadas nas preocupa\u00e7\u00f5es materiais,<br \/>\na \u00e2nsia das altas quest\u00f5es que dominam a vida e lhe d\u00e3o<br \/>\num sentido ou um alvo. Para muitos dos nossos contempor\u00e2neos sumiu-se-lhes<br \/>\na religi\u00e3o, anda longe a ci\u00eancia; da literatura somente lhes<br \/>\nadv\u00e9m os est\u00edmulos que os arrancam ao ego\u00edsmo estreito<br \/>\nou ao mister embrutecedor&#8221;.5 N\u00e3o se poderia definir com mais cabal<br \/>\njusteza, nem com mais elegante simplicidade, a literatura e sua import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Muitos dos escritores brasileiros, tanto do per\u00edodo colonial como<br \/>\ndo nacional, conquanto sem qualifica\u00e7\u00f5es propriamente liter\u00e1rias,<br \/>\ntiveram todavia uma influ\u00eancia qualquer em a nossa cultura, a fomentaram<br \/>\nou de algum modo a revelam. Bem mereceram, pois, da nossa literatura. Erro<br \/>\nfora n\u00e3o os admitisse sequer como subsidi\u00e1rios, a hist\u00f3ria<br \/>\ndessa literatura. \u00c9 tamb\u00e9m principalmente como tais que merecem<br \/>\nconsideradas obras, ali\u00e1s por outros t\u00edtulos not\u00e1veis,<br \/>\ncomo a de Gabriel Soares ou os Di\u00e1logos das Grandezas do Brasil. Os<br \/>\nportugueses que no Brasil escreveram, embora do Brasil e de cousas brasileiras,<br \/>\nn\u00e3o pertencem \u00e0 nossa literatura nacional, e s\u00f3 abusivamente<br \/>\npode a hist\u00f3ria destas ocupar-se deles. O mesmo sucede com outros estrangeiros<br \/>\nque aqui fizeram literatura como o hispano-americano Santiago Nunes Ribeiro,<br \/>\no espanhol Pascoal, ou os franceses Emile Adet e Louis Bourgain. Aqueles pelo<br \/>\ncar\u00e1ter e estilo de suas letras eram, como os mesmos brasileiros natos,<br \/>\nportugueses, e como o eram igualmente de nascimento e for\u00e7osamente<br \/>\nde sentimento \u2014 que este se n\u00e3o naturaliza \u2014 como quaisquer<br \/>\noutros estrangeiros, n\u00e3o cabem nesta hist\u00f3ria. No seu primeiro<br \/>\nper\u00edodo ela \u00e9 a dos escritores portugueses nascidos no Brasil,<br \/>\nno segundo dos autores brasileiros de nascimento e atividade liter\u00e1ria.<br \/>\nOs portugueses que para c\u00e1 vieram fazer literatura ap\u00f3s a Independ\u00eancia,<br \/>\nCastilhos, Zaluares, Novais e outros, nem pela nacionalidade ou sentimento,<br \/>\nnem pela l\u00edngua ou estilo, n\u00e3o pertencem \u00e0 nossa literatura,<br \/>\nonde legitimamente n\u00e3o se lhes abre lugar. S\u00e3o por todas as<br \/>\nsuas fei\u00e7\u00f5es portugueses. Assim, os brasileiros que, alheando-se<br \/>\ninteiramente do Brasil, em Portugal exerceram toda a sua atividade liter\u00e1ria,<br \/>\ncomo o infeliz e engenhoso Ant\u00f4nio Jos\u00e9 e o preclaro Alexandre<br \/>\nde Gusm\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o cabem nela. Tudo autoriza a crer<br \/>\nque Ant\u00f4nio Jos\u00e9 e Alexandre de Gusm\u00e3o n\u00e3o teriam<br \/>\nsido literariamente o que foram se houvessem ficado no Brasil. Foi, pois,<br \/>\nPortugal, a sua p\u00e1tria liter\u00e1ria, como o Brasil foi a p\u00e1tria<br \/>\nliter\u00e1ria de Gonzaga.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe literatura de que apenas h\u00e1 not\u00edcia nos repert\u00f3rios<br \/>\nbibliogr\u00e1ficos ou quejandos livros de erudi\u00e7\u00e3o e consulta.<br \/>\nUma literatura, e \u00e0s modernas de ap\u00f3s a imprensa me refiro,<br \/>\ns\u00f3 existe pelas obras que vivem, pelo livro lido, de valor efetivo<br \/>\ne permanente e n\u00e3o moment\u00e2neo e contingente. A literatura brasileira<br \/>\n(como ali\u00e1s sua m\u00e3e, a portuguesa) \u00e9 uma literatura de<br \/>\nlivros na m\u00e1xima parte mortos, e sobretudo de nomes, nomes em penca,<br \/>\ninsignificantes, sem alguma rela\u00e7\u00e3o positiva com as obras. Estas,<br \/>\nrar\u00edssimas s\u00e3o, at\u00e9 entre os letrados, os que ainda as<br \/>\nversam. N\u00e3o pode haver maior argumento da sua desvalia.<\/p>\n<p>Por um mau patriotismo, sentimento funesto a toda a hist\u00f3ria, que<br \/>\nnecessariamente vicia, e tamb\u00e9m por vaidade de erudi\u00e7\u00e3o,<br \/>\npresumiram os nossos historiadores liter\u00e1rios avultar e valorizar o<br \/>\nseu assunto, ou o seu pr\u00f3prio conhecimento dele, com fartos r\u00f3is<br \/>\nde autores e obras, acompanhados de elogios desmarcados e impertinentes qualificativos.<br \/>\nN\u00e3o obstante o preg\u00e3o patri\u00f3tico, tais nomes e obras<br \/>\ncontinuaram desconhecidos eles e elas n\u00e3o lidas. N\u00e3o quero cair<br \/>\nno mesmo engano de supor que a cr\u00edtica ou a hist\u00f3ria liter\u00e1ria<br \/>\nt\u00eam faculdades para dar vida e m\u00e9rito ao que de si n\u00e3o<br \/>\ntem. Igualmente n\u00e3o desejo continuar a fazer da hist\u00f3ria da<br \/>\nnossa literatura um cemit\u00e9rio, enchendo-a de autores de todo mortos,<br \/>\nalguns ao nascer. No per\u00edodo colonial haver\u00e1 esta for\u00e7osamente<br \/>\nde ocupar-se de sujeitos e obras de escasso ou at\u00e9 nenhum valor liter\u00e1rio,<br \/>\ncomo s\u00e3o quase todas as dessa \u00e9poca. N\u00e3o sendo, por\u00e9m,<br \/>\nesse o \u00fanico da obra liter\u00e1ria, nem o ponto de vista est\u00e9tico<br \/>\ne s\u00f3 de que podemos fazer a hist\u00f3ria liter\u00e1ria, cumpre<br \/>\ndo ponto de vista hist\u00f3rico, o mais leg\u00edtimo no caso, apreciar<br \/>\nautores e livros que, ainda \u00e0quela luz med\u00edocres, t\u00eam<br \/>\nqualquer import\u00e2ncia como iniciadores, precursores, inspiradores ou<br \/>\nat\u00e9 simples ind\u00edculos de movimentos ou momentos liter\u00e1rios.<br \/>\n\u00c9 justamente naquele per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o, o mais<br \/>\ninsignificante sob o aspecto est\u00e9tico, mas n\u00e3o o menos importante<br \/>\ndo ponto de vista hist\u00f3rico, que mais numerosos se nos deparar\u00e3o<br \/>\nobras e indiv\u00edduos de todo mofinos. Temos, por\u00e9m, de contar<br \/>\ncom eles, pois nessa forma\u00e7\u00e3o atuaram sequer com o seu exemplo<br \/>\ne ajudaram a manter a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da ra\u00e7a.<br \/>\nNo segundo per\u00edodo da constitui\u00e7\u00e3o da literatura a que,<br \/>\nsem maior impropriedade, j\u00e1 podemos chamar de nacional, cumpre-nos<br \/>\nser ainda mais escassos em admitir tipos de insuficiente representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria. Cabe excluir-lhe da hist\u00f3ria, que deve ser a da literatura<br \/>\nviva, indiv\u00edduos e obras que virtudes de idea\u00e7\u00e3o ou de<br \/>\nexpress\u00e3o n\u00e3o assinalaram bastante para poderem continuar estimados<br \/>\nal\u00e9m do seu tempo. Obras que apenas o acompanharam, sem nele influ\u00edrem<br \/>\nou se distinguirem, ou que nem ao menos lhe representam dignamente o esp\u00edrito<br \/>\ne capacidade, ou ainda que n\u00e3o sejam a express\u00e3o de uma consp\u00edcua<br \/>\npersonalidade, apenas ter\u00e3o lugar \u00e0 margem da literatura e da<br \/>\nsua hist\u00f3ria. Parece um crit\u00e9rio, n\u00e3o infal\u00edvel<br \/>\nmas seguro, de escolha, a mesma escolha feita pela opini\u00e3o mais esclarecida<br \/>\ndos contempor\u00e2neos, confirmada pelo ju\u00edzo da posteridade. Rar\u00edssimo<br \/>\n\u00e9 que esta sele\u00e7\u00e3o, mesmo no Brasil, onde \u00e9 l\u00edcito<br \/>\nter por menos alumiada a opini\u00e3o p\u00fablica, n\u00e3o seja ao<br \/>\ncabo justa, e s\u00f3 os que lhe resistem s\u00e3o dignos da hist\u00f3ria<br \/>\nliter\u00e1ria. N\u00e3o pode esta, a pretexto de opini\u00f5es pessoais<br \/>\nde quem a escreve, desatender \u00e0 sele\u00e7\u00e3o natural que o<br \/>\nsenso comum opera nas literaturas. Cumpre-lhe antes acat\u00e1-la se n\u00e3o<br \/>\ntem argumentos incontest\u00e1veis a opor-lhe. Em que pese \u00e0 nossa<br \/>\npretens\u00e3o de letrados, s\u00e3o os eleitos daquela opini\u00e3o<br \/>\nos que cabem na hist\u00f3ria da literatura, que n\u00e3o queira invadir<br \/>\no dom\u00ednio da bibliografia nem merecer o reproche de simplesmente impressionista.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da literatura brasileira \u00e9, no meu conceito, a hist\u00f3ria<br \/>\ndo que da nossa atividade liter\u00e1ria sobrevive na nossa mem\u00f3ria<br \/>\ncoletiva de na\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o cabem nela os nomes que n\u00e3o<br \/>\nlograram viver al\u00e9m do seu tempo tamb\u00e9m n\u00e3o cabem nomes<br \/>\nque por mais ilustres que regionalmente sejam n\u00e3o conseguiram, ultrapassando<br \/>\nas raias das suas prov\u00edncias, fazerem-se nacionais. Este conceito presidiu<br \/>\n\u00e0 reda\u00e7\u00e3o desta hist\u00f3ria, embora com a largueza<br \/>\nque as condi\u00e7\u00f5es peculiares \u00e0 nossa evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria impunham. Ainda nela entram muitos nomes que podiam sem inconveniente<br \/>\nser omitidos, pois de fato bem pouco ou quase nada representam. Por\u00e9m<br \/>\numa sele\u00e7\u00e3o mais rigorosa \u00e9 trabalho para o futuro.<\/p>\n<p>Os elementos biogr\u00e1ficos, necess\u00e1rios \u00e0 melhor compreens\u00e3o<br \/>\ndo autor e da sua \u00e9poca liter\u00e1ria, como outros dados cronol\u00f3gicos,<br \/>\ns\u00e3o da maior import\u00e2ncia para bem situar nestas obras e autores<br \/>\ne indicar-lhes a a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria<br \/>\nliter\u00e1ria deve, por\u00e9m, antes ser a hist\u00f3ria daquelas<br \/>\ndo que destes. Obras e n\u00e3o livros, movimentos e manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nliter\u00e1rias s\u00e9rias e conseq\u00fcentes, e n\u00e3o modas e<br \/>\nrodas liter\u00e1rias, eiva das literaturas contempor\u00e2neas, s\u00e3o,<br \/>\na meu ver, o imediato objeto da hist\u00f3ria da literatura. Um livro pode<br \/>\nconstituir uma obra,6 vinte podem n\u00e3o faz\u00ea-la. S\u00e3o obras<br \/>\ne n\u00e3o livros, escritores e n\u00e3o meros autores que fazem e ilustram<br \/>\numa literatura. Em a nossa deparam-se-nos a cada passo sujeitos que sem voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nnem engenho liter\u00e1rio, embora n\u00e3o de todo sem entendimento ou<br \/>\nestro, produziram, geralmente em mo\u00e7os, um livro, um ou mais poemas<br \/>\nou outra pequena e n\u00e3o repetida obra liter\u00e1ria. Outros at\u00e9<br \/>\na repetem em maior n\u00famero de volumes. Mais que a voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o tinham, moveu-os a vaidade, a presun\u00e7\u00e3o da notoriedade<br \/>\nque a autoria d\u00e1 ou quejando passageiro est\u00edmulo. No reinado<br \/>\nde D. Pedro II, monarca amador de letras e caro\u00e1vel aos letrados, por<br \/>\nlhe armar \u00e0 benevol\u00eancia e patroc\u00ednio, foi comum fingirem-se<br \/>\nmuitos de amantes daquelas e as praticarem, mesmo assiduamente, mais porventura<br \/>\ndo que lhes pedia a voca\u00e7\u00e3o ou consentia o talento. Alguma vez<br \/>\nfoi esse labor sincero, se bem que efeito de uma inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ncircunstancial e moment\u00e2nea, que se n\u00e3o repetindo descobre-lhe<br \/>\na insufici\u00eancia. Tais autores espor\u00e1dicos, amadores sem engenho<br \/>\nnem capacidade liter\u00e1ria, e tais obras casuais, produtos de uma inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nfortuita ou interesseira, n\u00e3o pertencem \u00e0 literatura e menos<br \/>\n\u00e0 sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Seja qual for o nosso parecer sobre o valor da obra liter\u00e1ria, isolada<br \/>\nou em rela\u00e7\u00e3o com o seu meio e tempo, prevalece a no\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo senso comum que em todo caso ela precisa de virtudes de pensamento e de<br \/>\nexpress\u00e3o com que logre a estima e agrado geral. A que n\u00e3o as<br \/>\ntiver \u00e9 obra de nascen\u00e7a morta. As qualidades de express\u00e3o,<br \/>\npor\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o apenas atributos de forma sob o aspecto<br \/>\ngramatical ou estil\u00edstico, sen\u00e3o virtudes mais singulares e<br \/>\nsubidas de \u00edntima conex\u00e3o entre o pensamento e o seu enunciado.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 escritor sen\u00e3o o que tem alguma cousa interessante<br \/>\ndo dom\u00ednio das id\u00e9ias a exprimir e sabe exprimi-la por escrito,<br \/>\nde modo a lhe aumentar o interesse, a torn\u00e1-lo permanente e a dar aos<br \/>\nleitores o prazer intelectual que a obra liter\u00e1ria deve produzir.<\/p>\n<p>Confesso haver hesitado na exposi\u00e7\u00e3o da marcha da nossa literatura,<br \/>\nse pelos g\u00eaneros liter\u00e1rios, poesia \u00e9pica, l\u00edrica<br \/>\nou dram\u00e1tica, hist\u00f3ria, romance, eloq\u00fc\u00eancia e que<br \/>\ntais, consagrados pela ret\u00f3rica e pelo uso, ou se apenas cronologicamente,<br \/>\nconforme a seq\u00fc\u00eancia natural dos fatos liter\u00e1rios. Ative-me<br \/>\nafinal a este \u00faltimo alvitre menos por julg\u00e1-lo em absoluto<br \/>\no melhor que por se me antolhar o mais consent\u00e2neo com a evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma literatura, como a nossa, em que os fatos liter\u00e1rios, mormente<br \/>\nno per\u00edodo de sua forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o tais<br \/>\ne tantos que lhes permitam a exposi\u00e7\u00e3o e estudo conforme determinadas<br \/>\ncategorias. Nesse per\u00edodo e ainda no seguinte aqueles diferentes g\u00eaneros<br \/>\nn\u00e3o apresentam bastante mat\u00e9ria \u00e0 hist\u00f3ria, sem<br \/>\nperigo desta derramar-se ociosamente. Ao contr\u00e1rio expor esses fatos<br \/>\nna ordem e segundo as circunst\u00e2ncias em que eles se passam, as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nque os determinam e condicionam e as fei\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas<br \/>\nque afetam, parece far\u00e1 mais intelig\u00edvel a nossa evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria com a vantagem de guardar maior respeito ao princ\u00edpio<br \/>\nda \u00faltima unidade da literatura. Nesta, como na arte e na ci\u00eancia,<br \/>\n\u00e9 consp\u00edcua a fun\u00e7\u00e3o do fator individual. Um escritor<br \/>\nn\u00e3o pode ser bem entendido na sua obra e a\u00e7\u00e3o sen\u00e3o<br \/>\nvisto em conjunto, e n\u00e3o repartido conforme os g\u00eaneros diversos<br \/>\nem que provou o engenho.<\/p>\n<p>Refugi tamb\u00e9m \u00e0 praxe das cita\u00e7\u00f5es mais ou menos<br \/>\nextensas dos autores tratados, limitando-as a raros exemplos, quando absolutamente<br \/>\nindispens\u00e1veis \u00e0 justifica\u00e7\u00e3o de algum conceito.<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel, e at\u00e9 prov\u00e1vel, que mais de um deste<br \/>\nlivro se encontre e ajuste, com os de outrem. Apesar da diversidade proverbial<br \/>\ndos gostos e da variedade das determinantes das nossas opini\u00f5es, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 infinita a capacidade de varia\u00e7\u00e3o em assuntos dos quais<br \/>\no gosto individual n\u00e3o \u00e9 mais o \u00fanico juiz. For\u00e7osamente<br \/>\nh\u00e3o de algumas vezes as nossas opini\u00f5es coincidir com alheias.<br \/>\nO importante \u00e9 que as minhas eu as tenha feito com estudo pr\u00f3prio<br \/>\ne direto dos fatos e monumentos liter\u00e1rios e isso protesto ter sempre<br \/>\nfeito. Muito presumido e tolo seria o escritor, m\u00e1xime o historiador<br \/>\nliter\u00e1rio, que supusesse n\u00e3o dizer sen\u00e3o cousa de todo<br \/>\noriginais e in\u00e9ditas ou poder evitar os infal\u00edveis encontros<br \/>\nde opini\u00f5es:<\/p>\n<p>Il faut \u00eatre ignorant comme un ma\u00eetre d\u2019\u00e9cole<\/p>\n<p>Pour se flatter de dire une seule parole<\/p>\n<p>Que personne ici-bas n\u2019ait pu dire avant vous.<\/p>\n<p>Por motivos \u00f3bvios de discri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria n\u00e3o<br \/>\nse quisera este livro ocupar sen\u00e3o de mortos. Esta norma, por\u00e9m,<br \/>\nera quase imposs\u00edvel segui-la na \u00faltima fase da nossa literatura,<br \/>\nvivendo ainda, como felizmente vivem, alguns dos principais representantes<br \/>\ndos movimentos liter\u00e1rios nela ocorridos; calar-lhes os nomes seria<br \/>\ndeixar suspensa a hist\u00f3ria desses movimentos. Ainda assim apenas ocasionalmente,<br \/>\npor amor de completar ou esclarecer a exposi\u00e7\u00e3o, se dir\u00e1<br \/>\nde vivos.<\/p>\n<p>Tal o esp\u00edrito em que ap\u00f3s mais de vinte e cinco anos de estudo<br \/>\nda nossa literatura empreendo escrever-lhe a hist\u00f3ria. N\u00e3o me<br \/>\nanima, em toda a sinceridade o digo, a presun\u00e7\u00e3o de encher nenhuma<br \/>\nlacuna nem de prevalecer contra o que do assunto h\u00e1 escrito, certamente<br \/>\ncom maior cabedal de saber e mais talento. N\u00e3o h\u00e1 mat\u00e9ria<br \/>\nque dispense novos estudos. Existe sempre, em qualquer uma, lugar para outros<br \/>\nlabores. N\u00e3o desconhe\u00e7o o que devo aos meus benem\u00e9ritos<br \/>\npredecessores desde Varnhagen at\u00e9 o Sr. S\u00edlvio Romero.<\/p>\n<p>Pela c\u00f3pia, valia e influ\u00eancia de sua obra de investiga\u00e7\u00e3o<br \/>\nda nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria, \u00e9 aquele o verdadeiro fundador<br \/>\nda hist\u00f3ria da nossa literatura. Depois dele esta, em que pese \u00e0<br \/>\ningrata presun\u00e7\u00e3o em contr\u00e1rio, n\u00e3o fez mais que<br \/>\nrepeti-lo, ampliando-o. Cronologicamente, n\u00e3o o ignoro, o precederam,<br \/>\nCunha Barbosa, Norberto Silva, Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es, Pereira<br \/>\nda Silva, Bouterwek, Sismonde de Sismondi e Ferdinand Denis.* Nenhum, por\u00e9m,<br \/>\nfez investiga\u00e7\u00f5es originais ou estudos acurados e alguns apenas<br \/>\nse ocuparam da nossa literatura ocasional e episodicamente. E todos, repito,<br \/>\nat\u00e9 o advento de Varnhagen, a fizeram superficialmente, apenas repetindo<br \/>\nparcas no\u00e7\u00f5es hauridas em noticiadores portugueses, divagando<br \/>\nretoricamente a respeito, sem nenhum ou com escasso conhecimento pessoal da<br \/>\nobra liter\u00e1ria aqui feita. Decididamente o primeiro que o teve cabal<br \/>\nfoi Varnhagen. Prestante e estim\u00e1vel como recolta de documentos da<br \/>\npoesia brasileira, que sem ele se teriam talvez perdido, tem somenos m\u00e9rito<br \/>\ncomo informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica o Parnaso Brasileiro, do C\u00f4nego<br \/>\nJanu\u00e1rio da Cunha Barbosa. Pereira da Silva nenhuma confian\u00e7a<br \/>\ne pouca estima merece como historiador liter\u00e1rio. Nunca investigou<br \/>\nseriamente coisa alguma e est\u00e1 cheio de erros de fato e de aprecia\u00e7\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 no seu tempo indesculp\u00e1veis. Magalh\u00e3es apenas mostrou<br \/>\na sua ignor\u00e2ncia do assunto, que n\u00e3o estudou, limitando-se a<br \/>\numa amplifica\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica. Depois de Varnhagen \u00e9<br \/>\nNorberto Silva o mais operoso, o mais seguro dos primitivos estudiosos da<br \/>\nnossa literatura, cuja hist\u00f3ria projetou escrever. As suas numerosas<br \/>\ncontribui\u00e7\u00f5es para ela, infelizmente na maior parte avulsas<br \/>\ne dispersas em pref\u00e1cios, revistas e jornais, s\u00e3o geralmente<br \/>\nrelevantes. Aproveitando inteligentemente o trabalho destes e de outras fontes<br \/>\nde informa\u00e7\u00e3o e as not\u00edcias e esclarecimentos pessoais<br \/>\nde Magalh\u00e3es e Porto Alegre, o austr\u00edaco Fernando Wolf publicou<br \/>\n(Berlim, 1863) a sua ainda hoje muito estim\u00e1vel Histoire de la Litt\u00e9rature<br \/>\nBr\u00e9silienne, a primeira narrativa sistem\u00e1tica e exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompleta, at\u00e9 aquela data, da nossa atividade liter\u00e1ria, compreendendo<br \/>\no Romantismo. Trouxe-a at\u00e9 os nossos dias o Sr. Dr. S\u00edlvio Romero<br \/>\nnuma obra que quaisquer que sejam os seus defeitos n\u00e3o \u00e9 menos<br \/>\num distinto testemunho da nossa cultura liter\u00e1ria no \u00faltimo<br \/>\nquartel do s\u00e9culo passado. A Hist\u00f3ria da Literatura Brasileira<br \/>\ndo Sr. Dr. S\u00edlvio Romero \u00e9 sobretudo valiosa por ser o primeiro<br \/>\nquadro completo n\u00e3o s\u00f3 da nossa literatura mas de quase todo<br \/>\no nosso trabalho intelectual e cultura geral, pelas id\u00e9ias gerais e<br \/>\nvistas filos\u00f3ficas que na hist\u00f3ria da nossa literatura introduziu,<br \/>\ne tamb\u00e9m pela influ\u00eancia excitante e estimulante que exerceu<br \/>\nem a nossa atividade liter\u00e1ria de 1880 para c\u00e1.<\/p>\n<p>Com diverso conceito do que \u00e9 literatura, e sem fazer pra\u00e7a<br \/>\nde filosofia ou est\u00e9tica sistem\u00e1tica, aponta esta apenas a fornecer<br \/>\naos que porventura se interessem pelo assunto uma no\u00e7\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nexata e t\u00e3o clara quanto em meu poder estiver, do nosso progresso liter\u00e1rio,<br \/>\ncorrelacionado com a nossa evolu\u00e7\u00e3o nacional. E foi feita, repito-o<br \/>\ndesenganadamente, no estudo direto das fontes, que neste caso s\u00e3o as<br \/>\nmesmas obras liter\u00e1rias, todas por mim lidas e estudadas, como ali\u00e1s<br \/>\nrigorosamente me cumpria.<\/p>\n<p>Rio, 4 de dezembro de 1912.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ver\u00edssimo<\/p>\n<p><strong>PER\u00cdODO COLONIAL<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h4>\n<p><strong>A PRIMITIVA SOCIEDADE COLONIAL<\/strong><\/p>\n<p>O IN\u00cdCIO DA COLONIZA\u00c7\u00c3O do Brasil pelos portugueses<br \/>\ncoincidiu com a mais brilhante \u00e9poca da hist\u00f3ria deste povo<br \/>\ne particularmente com o mais not\u00e1vel per\u00edodo da sua atividade<br \/>\nmental. \u00c9 o s\u00e9culo chamado \u00e1ureo da sua l\u00edngua<br \/>\ne literatura, o s\u00e9culo dos seus m\u00e1ximos prosadores e poetas,<br \/>\ncom Cam\u00f5es \u00e0 frente.<\/p>\n<p>Essa curta renascen\u00e7a geral e florescimento liter\u00e1rio de Portugal<br \/>\nn\u00e3o passou, por\u00e9m, nem podia passar, \u00e0 sua grande col\u00f4nia<br \/>\namericana. Se aquela interessava \u00e0 massa da na\u00e7\u00e3o, que<br \/>\nlhe assistia \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es e experimentava os efeitos,<br \/>\nesta apenas tocava o c\u00edrculo estreito que ali, como ent\u00e3o em<br \/>\ntoda a Europa, advertia em poetas e literatos. Roda de fidalgo, de cortes\u00e3os,<br \/>\nde eclesi\u00e1sticos, dos quais, justamente os mais cultos, rar\u00edssimos<br \/>\nse iam a conquistas e empresas ultramarinas. O grosso dos que se nelas metiam<br \/>\neram da multid\u00e3o ignara que constitu\u00eda a maioria da na\u00e7\u00e3o,<br \/>\no &#8220;vulgo vil sem nome&#8221; de que, com o seu desd\u00e9m de fidalgo<br \/>\ne letrado, fala o Cam\u00f5es, chefiados por bar\u00f5es apenas menos<br \/>\nincultos do que eles. Nem o empenho que os c\u00e1 trazia lhes consentia<br \/>\noutras preocupa\u00e7\u00f5es que as puramente materiais de a todo o transe<br \/>\nassenhorearem a terra, lhe dominarem o gentio e aproveitarem a riqueza, exagerada<br \/>\npela sua mesma cobi\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, pois, de estranhar que em nenhum dos primeiros cronistas<br \/>\ne noticiadores do Brasil, no primeiro e ainda no segundo s\u00e9culo da<br \/>\ncoloniza\u00e7\u00e3o, mesmo quando j\u00e1 havia manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nliter\u00e1rias, se n\u00e3o encontre a menor refer\u00eancia ou alus\u00e3o<br \/>\na qualquer forma de atividade mental aqui, a exist\u00eancia de um livro,<br \/>\nde um estudioso ou cousa que o valha. O padre Ant\u00f4nio Vieira, homem<br \/>\nde letras como era, em toda a sua obra, abundante de not\u00edcias, refer\u00eancias<br \/>\ne informes do Brasil do s\u00e9culo XVII, apenas uma vez, acidental e vagamente<br \/>\nlhe alude \u00e0 literatura. Foi quando, escrevendo ao mordomo-mor do Reino,<br \/>\ncontou, jogando de voc\u00e1bulo, que na Bahia, &#8220;sobre se tirarem as<br \/>\ncapas aos homens (por decis\u00e3o de um novo governador) t\u00eam dito<br \/>\nmil lindezas os poetas, sendo maior a novidade deste ano (1682) nestes engenhos<br \/>\ndo que nos de a\u00e7\u00facar.&#8221;1<\/p>\n<p>Entretanto no tempo de Vieira, a maior parte do s\u00e9culo XVII, j\u00e1<br \/>\nno Brasil havia manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias no med\u00edocre<br \/>\npoema de Bento Teixeira (1601) e nos poemas e prosas ainda ent\u00e3o in\u00e9ditas<br \/>\nmas que circulariam em c\u00f3pias ou seriam conhecidas de ouvido, de seu<br \/>\npr\u00f3prio irm\u00e3o Bernardo Vieira Ravasco, do padre Ant\u00f4nio<br \/>\nde S\u00e1, pregador, de Eus\u00e9bio de Matos e de seu irm\u00e3o Gerg\u00f3rio<br \/>\nde Matos, o famoso sat\u00edrico, de Botelho de Oliveira, sem falar nos<br \/>\nque inc\u00f3gnitos escreviam rela\u00e7\u00f5es, not\u00edcias e<br \/>\ncr\u00f4nicas da terra, um Gabriel Soares (1587), um Frei Vicente do Salvador,<br \/>\ncuja obra \u00e9 de 1627, o ignorado autor dos Di\u00e1logos das Grandezas<br \/>\ndo Brasil e outros de que h\u00e1 not\u00edcia.<\/p>\n<p>N\u00e3o trouxeram, pois, os portugueses para o Brasil algo do movimento<br \/>\nliter\u00e1rio que ia \u00e0quela data em sua p\u00e1tria. Mas evidentemente<br \/>\ntrouxeram a capacidade liter\u00e1ria j\u00e1 ali desde o s\u00e9culo<br \/>\nXIII pelo menos revelada pela sua gente e que naquele em que aqui se come\u00e7aram<br \/>\na estabelecer atingia ao seu apogeu. As suas primeiras preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde ordem espiritual, que possamos verificar, produziram-se quase meio s\u00e9culo<br \/>\nap\u00f3s o descobrimento com a chegada dos primeiros jesu\u00edtas em<br \/>\n1549, e sob a influ\u00eancia destes. As escolas de ler, escrever e contar,<br \/>\ngram\u00e1tica latina, casos de consci\u00eancia, doutrina crist\u00e3<br \/>\ne mais tarde ret\u00f3rica e filosofia escol\u00e1stica, logo abertas<br \/>\npor esses padres nos seus &#8220;col\u00e9gios&#8221;, imediatamente \u00e0<br \/>\nsua chegada fundados, foram a fonte donde promanou, no primeiro s\u00e9culo,<br \/>\ntoda a cultura brasileira e com ela os primeiros alentos da literatura.<\/p>\n<p>A terra achada &#8220;por tanta maneira graciosa&#8221; pelos seus descobridores,<br \/>\ne que aos primeiros que a descreveram se deparou magnifica, s\u00f3 muito<br \/>\nmais tarde entrou a influir no \u00e2nimo dos seus filhos os incitamentos<br \/>\ndas suas excel\u00eancias. E isso de leve e de passagem, embora com repeti\u00e7\u00f5es<br \/>\nque fariam dessa impress\u00e3o uma sensa\u00e7\u00e3o duradoura e caracter\u00edstica<br \/>\nem a nossa poesia.<\/p>\n<p>A gente que a habitava, broncos selvagens sem sombra de literatura, e cujos<br \/>\nmitos e lendas passaram de todo despercebidos aos primeiros colonizadores<br \/>\ne a seus imediatos descendentes, n\u00e3o podia de modo algum influir na<br \/>\nprimitiva emo\u00e7\u00e3o po\u00e9tica brasileira. S\u00f3 com o<br \/>\ntempo e muito lentamente, pelo influxo de sua \u00edndole, do seu temperamento,<br \/>\nda sua idiossincrasia na gente resultante dos seus primeiros cruzamentos com<br \/>\nos europeus, viria ela a atuar no sentimento brasileiro. Mas ainda por forma<br \/>\nque ningu\u00e9m pode, sem petul\u00e2ncia ou inconsci\u00eancia, gabar-se<br \/>\nde discriminar e explicar. \u00c9 da mesma natureza indireta, reflexa, imponder\u00e1vel,<br \/>\na influ\u00eancia que possa haver tido e que certamente teve no mesmo sentimento<br \/>\no elemento africano, que desde o primeiro s\u00e9culo se caldeou com os<br \/>\nportugueses e o \u00edndio para a constitui\u00e7\u00e3o do nosso povo.<br \/>\nAinda que o gentio selvagem, com quem entraram os conquistadores em contato,<br \/>\ntivesse uma poesia de forma m\u00e9trica, o que \u00e9 mais que duvidoso,<br \/>\nn\u00e3o se descobre meio de demonstrar n\u00e3o s\u00f3 que ela houvesse<br \/>\nem tempo algum influ\u00eddo na inspira\u00e7\u00e3o dos nossos primeiros<br \/>\npoetas, ou como poderia ter influ\u00eddo. Absolutamente se n\u00e3o descobriu<br \/>\nat\u00e9 hoje, mau grado as assevera\u00e7\u00f5es fantasistas e gratuitas<br \/>\nem contr\u00e1rio, n\u00e3o diremos um testemunho, mas uma simples presun\u00e7\u00e3o<br \/>\nque autorize a contar quer o \u00edndio, quer o negro, como fatores da nossa<br \/>\nliteratura. Apenas o teriam sido mui indiretamente como fatores da variedade<br \/>\n\u00e9tnica que \u00e9 o brasileiro. Mas ainda assim a determina\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom que cada um deles entrou para a forma\u00e7\u00e3o da psique brasileira,<br \/>\ne portanto das suas emo\u00e7\u00f5es em forma liter\u00e1ria, \u00e9<br \/>\nimposs\u00edvel, se n\u00e3o nos queremos pagar de vagas palavras e conceitos<br \/>\nespeciosos. H\u00e1 bons fundamentos para supor que os primeiros versejadores<br \/>\ne prosistas brasileiros eram brancos estremes, e at\u00e9 de boa proced\u00eancia<br \/>\nportuguesa. \u00c9, portanto, o portugu\u00eas, com a sua civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom a sua cultura, com a sua l\u00edngua e literatura j\u00e1 feita, e<br \/>\nat\u00e9 com o seu sangue, o \u00fanico fator certo, positivo e apreci\u00e1vel<br \/>\nnas origens da nossa literatura. E o foi enquanto se n\u00e3o realizou o<br \/>\nmesti\u00e7amento do pa\u00eds pelo cruzamento fisiol\u00f3gico e psicol\u00f3gico<br \/>\ndos diversos elementos \u00e9tnicos que aqui concorreram, do qual resultou<br \/>\no tipo brasileiro diferenciado por v\u00e1rias fei\u00e7\u00f5es f\u00edsicas<br \/>\ne morais do seu principal genitor, o portugu\u00eas. For\u00e7osamente<br \/>\nlenta em fazer-se, e ainda mais em atuar espiritualmente, n\u00e3o podia<br \/>\nesta mesti\u00e7agem haver influ\u00eddo na mente brasileira sen\u00e3o<br \/>\nsuperficial, indefinida e morosamente. Em todo caso as duas ra\u00e7as inferiores<br \/>\napenas influ\u00edram pela via indireta da mesti\u00e7agem e n\u00e3o<br \/>\ncom quaisquer manifesta\u00e7\u00f5es claras de ordem emotiva, como sem<br \/>\nnenhum fundamento se lhes atribuiu.<\/p>\n<p>A sociedade que aqui existiu no primeiro s\u00e9culo da conquista e da<br \/>\ncoloniza\u00e7\u00e3o (1500-1600) e a que desta se foi desenvolvendo pela<br \/>\nsua multiplica\u00e7\u00e3o, logo aumentada pelo cruzamento com aquelas<br \/>\nra\u00e7as, era em suma a mesma de Portugal nesse tempo, apenas com o amesquinhamento<br \/>\nimposto pelo meio f\u00edsico em que se encontrava. A todos os respeitos<br \/>\nnela predominava o portugu\u00eas. \u00cdndios e negros eram apenas o instrumento<br \/>\nindispens\u00e1vel ao seu prop\u00f3sito de assenhorear e explorar a terra<br \/>\ne \u00e0 necessidade de sua prepara\u00e7\u00e3o. Salvo exce\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiminutas, esse portugu\u00eas pertencia \u00e0s classes inferiores do<br \/>\nReino, e quando acontecia n\u00e3o lhes pertencer pela categoria social,<br \/>\nera-o de fato pelas condi\u00e7\u00f5es morais e econ\u00f4micas. Soldados<br \/>\nde aventura, fidalgos pobres e desqualificados, assoldadados de donat\u00e1rios,<br \/>\ncapit\u00e3es-mores e conquistadores, tratantes \u00e1vidos de novas mercancias,<br \/>\ncl\u00e9rigos de nenhuma virtude, gente suspeita \u00e0 pol\u00edcia<br \/>\nda Metr\u00f3pole, al\u00e9m de homiziados, de degradados, eram, em sua<br \/>\nmaioria, os componentes da sociedade portuguesa, para aqui transplantada.<br \/>\nOs seus costumes dissolutos, a sua indisciplina moral e mau comportamento<br \/>\nsocial s\u00e3o o tema de acerbas queixas n\u00e3o s\u00f3 dos jesu\u00edtas,<br \/>\nque acaso no seu rigor de moralistas austeros lhes exageravam os defeitos,<br \/>\nmas das autoridades r\u00e9gias dos cronistas e mais noticiadores. Justamente<br \/>\nao tempo da constitui\u00e7\u00e3o das capitanias gerais a sociedade portuguesa<br \/>\ntinha descido ao \u00faltimo grau de desmoraliza\u00e7\u00e3o e relaxamento<br \/>\nde costumes.2 Um dos mais perspicazes observadores da primitiva sociedade<br \/>\ncolonial brasileira, o autor inc\u00f3gnito dos Di\u00e1logos das Grandezas<br \/>\ndo Brasil, explicando em 1618 por que apesar da abund\u00e2ncia da terra<br \/>\nera tanta a carestia das cousas de maior necessidade, atribui a culpa \u00e0<br \/>\nneglig\u00eancia e pouca ind\u00fastria dos moradores que todos n\u00e3o<br \/>\npensavam sen\u00e3o em voltar ao Reino sem cuidarem do adiantamento e futuro<br \/>\nda mesma terra. &#8220;O Estado do Brasil todo em geral, escreve ele no seu<br \/>\nestilo ingenuamente vern\u00e1culo, se forma de cinco condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde gente a saber: mar\u00edtima, que trata de suas navega\u00e7\u00f5es<br \/>\ne vem aos portos das capitanias deste Estado com suas naus e caravelas carregadas<br \/>\nde fazendas que trazem por seu frete, aonde descarregam e adubam as suas naus<br \/>\ne as tornam a carregar, fazendo outra vez viagem com carga de a\u00e7\u00facares,<br \/>\npau do Brasil e algod\u00e3o para o Reino, e de gente desta condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nse acha, em qualquer tempo do ano, muita pelos portos das capitanias. A segunda<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o de gente s\u00e3o os mercadores, que trazem do Reino<br \/>\nas suas mercadorias a vender a esta terra, e comutar por a\u00e7\u00facares,<br \/>\ndo que tiram muito proveito; e daqui nasce haver muita gente dessa qualidade<br \/>\nnela com as suas lojas de mercadorias abertas, e tendo correspond\u00eancia<br \/>\ncom outros mercadores do Reino que lhas mandam. Como o intento destes \u00e9<br \/>\nfazerem-se somente ricos pela mercancia, n\u00e3o tratam do aumento da terra,<br \/>\nantes pretendem de a esfolarem tudo quanto podem. A terceira condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gente s\u00e3o oficiais mec\u00e2nicos de que h\u00e1 muitos no Brasil<br \/>\nde todas as artes, os quais procuram exercitar, fazendo seu proveito nelas,<br \/>\nsem se lembrarem de nenhum modo do bem comum. A quarta condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gente \u00e9 de homens que servem a outros por soldada que lhe d\u00e3o,<br \/>\nocupando-se em encaixotamento de a\u00e7\u00facar, feitorizar canaviais<br \/>\nde engenho e criarem gados, com nome de vaqueiros, servirem de carreiros e<br \/>\nacompanharem seus amos, e de semelhante gente h\u00e1 muita por todo este<br \/>\nEstado, que n\u00e3o tem nenhum cuidado do bem geral. A quinta condi\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 daqueles que tratam da lavoura e estes tais se dividem ainda em duas<br \/>\nesp\u00e9cies: uma a dos que s\u00e3o mais ricos, t\u00eam engenhos com<br \/>\no t\u00edtulo de senhores deles, nomes que lhes cede Sua Majestade e suas<br \/>\ncartas e provis\u00f5es, e os demais t\u00eam partidos de canas; a outra,<br \/>\ncujas for\u00e7as n\u00e3o abrangem a tanto, se ocupam em lavrar mantimentos,<br \/>\nlegumes, e todos, assim uns como os outros, fazem as suas lavouras e granjearias<br \/>\ncom escravos da Guin\u00e9&#8230;&#8230;; e como o de que vivem \u00e9 somente<br \/>\ndo que granjeiam com os tais escravos, n\u00e3o lhes sofre o \u00e2nimo<br \/>\nocupar a nenhum deles em cousa que n\u00e3o seja tocante a lavoura, que<br \/>\nprofessam de maneira que t\u00eam por tempo perdido o que gastam em plantar<br \/>\numa \u00e1rvore que lhes haja de dar fruto em dois ou tr\u00eas anos, por<br \/>\nlhes parecer que \u00e9 muita demora; porque se ajunta a isto o cuidar cada<br \/>\num deles que logo em breve tempo se h\u00e3o de embarcar para o Reino, e<br \/>\nn\u00e3o basta a desengan\u00e1-los desta opini\u00e3o mil dificuldades<br \/>\nque a olhos vistos lhe impedem pod\u00ea-la fazer; por maneira que este pressuposto<br \/>\nque t\u00eam todos em geral de se haverem de ir para o Reino com a cobi\u00e7a<br \/>\nde fazerem mais quatro p\u00e3es de a\u00e7\u00facar, quatro covas de<br \/>\nmantimentos, n\u00e3o h\u00e1 homem em todo este Estado que procure nem<br \/>\nse disponha a plantar \u00e1rvores frut\u00edferas nem fazer as benfeitorias<br \/>\ndas plantas que se fazem em Portugal e pelo conseguinte se n\u00e3o disp\u00f5em<br \/>\na fazerem cria\u00e7\u00f5es de gado e outras, e se algum o faz \u00e9<br \/>\nem muita pequena quantidade e t\u00e3o pouca que a gasta toda consigo mesmo<br \/>\ne com a sua fam\u00edlia. E da\u00ed resulta a carestia e falta destas<br \/>\ncoisas&#8230;&#8221;3<\/p>\n<p>\u00c9 o depoimento de uma testemunha de vista, inteligente, bem intencionada<br \/>\ne insuspeita por sua nacionalidade, sobre os elementos de que se ia formando<br \/>\na vida econ\u00f4mica da nova sociedade portuguesa na Am\u00e9rica, e a<br \/>\nprimeira delega\u00e7\u00e3o do desapego \u00e0 terra pelos seus mesmos<br \/>\npovoadores, daquilo que um historiador nosso chamou transoceanismo (Capistrano<br \/>\nde Abreu). Ainda mesmo para a aprecia\u00e7\u00e3o do presente, n\u00e3o<br \/>\nperderam todo o interesse estas suas observa\u00e7\u00f5es, cuja exatid\u00e3o<br \/>\nali\u00e1s outros documentos contempor\u00e2neos confirmam.<\/p>\n<p>Assim escreve no come\u00e7o do s\u00e9culo XVII o nosso historiador<br \/>\nFrei Vicente do Salvador: &#8220;E deste modo se h\u00e3o os povoadores,<br \/>\nos quais, por mais arraizados que na terra estejam e mais ricos que sejam,<br \/>\ntudo pretendem levar a Portugal, e se as fazendas e bem que possuem souberam<br \/>\nfalar tamb\u00e9m lhes houveram de ensinar a dizer como os papagaios, aos<br \/>\nquais a primeira coisa que ensinam \u00e9 Papagaio Real, para Portugal,<br \/>\nporque tudo querem para l\u00e1. E isto n\u00e3o t\u00eam s\u00f3 os<br \/>\nque de l\u00e1 vieram, mas ainda os que c\u00e1 nasceram, que uns e outros<br \/>\nusam da terra n\u00e3o como senhores mas como usufrutu\u00e1rios, s\u00f3<br \/>\npara a desfrutarem e a deixarem destru\u00edda.&#8221;4<\/p>\n<p>N\u00e3o numera o autor do Di\u00e1logos nem os oficiais p\u00fablicos<br \/>\nda governan\u00e7a, nem a clerezia, nem os homens d\u2019armas da conquista<br \/>\ne defesa da col\u00f4nia. Eram a gente parasita sempre suspirosa por tornar<br \/>\n\u00e0 terra, sem nenhum \u00e2nimo de ficada aqui. Oficiais e mec\u00e2nicos<br \/>\ne ainda somenos indiv\u00edduos, mal aqui chegados tornavam-se de uma fil\u00e1ucia<br \/>\nque deu na vista a mais de um observador. A escravid\u00e3o exonerando-os<br \/>\nde trabalhar e habituando-os a viver como no Reino viam viverem os fidalgos,<br \/>\ninsuflavam-se das fuma\u00e7as destes. Brand\u00f4nio, no terceiro Di\u00e1logo,<br \/>\nobservava ao seu interlocutor Alviano que a gente do Brasil era mais afidalgada<br \/>\ndo que ele imaginava, e aos seus escravos incumbia todo o trabalho. Com estes<br \/>\ninformes devemos crer n\u00e3o andam muito longe da verdade os noticiadores<br \/>\nda corrup\u00e7\u00e3o que logo eivou a primitiva sociedade colonial brasileira.<\/p>\n<p>O seu primeiro estabelecimento foi, com a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o<br \/>\nde S\u00e3o Paulo, todo no litoral, \u00e0 beira-mar. As suas vilas e<br \/>\ncidades primitivas, desde S\u00e3o Vicente e Olinda at\u00e9 a do Salvador,<br \/>\nenquanto n\u00e3o entraram a construir casas de adobe \u00e0 moda de Portugal,<br \/>\nn\u00e3o se diferenciariam notavelmente das aldeias ind\u00edgenas aqui<br \/>\nencontradas, constru\u00eddas de paus toscos ou folhagens. E como ali continuariam<br \/>\na viver desconfortavelmente, incomodamente, sordidamente, faltos de m\u00f3veis,<br \/>\nde alfaias e de asseio, segundo viviam os mesmos fidalgos e burgueses no Reino.5<\/p>\n<p>As mulheres brancas eram raras, as donas e senhoras rar\u00edssimas. As<br \/>\nfam\u00edlias existentes na maior parte teriam vindo constitu\u00eddas<br \/>\nde Portugal e muito poucas seriam. As formadas aqui, por motivo de escassez<br \/>\nde mulheres brancas, seriam ainda menos. As demais resultavam de uni\u00f5es<br \/>\nirregulares dos colonos com as suas negras, conforme principiaram os portugueses<br \/>\na chamar \u00e0s \u00edndias, ou do seu casamento com estas, como come\u00e7ou<br \/>\na acontecer por influ\u00eancia dos jesu\u00edtas, e mais tarde foi acoro\u00e7oado<br \/>\npelo rei. As numerosas filhas ileg\u00edtimas ou legitimadas do Caramuru<br \/>\ncasaram com fidalgos e soldados da conquista e seriam mamelucas ainda escuras,<br \/>\ndo primeiro sangue, e umas broncas caboclas. Ao contr\u00e1rio do que passou<br \/>\nna Am\u00e9rica inglesa, excetuando algum eclesi\u00e1stico ou alto funcion\u00e1rio,<br \/>\nquase n\u00e3o veio para o Brasil nenhum reinol instru\u00eddo, e ainda<br \/>\nincluindo estes pode dizer-se que no primeiro s\u00e9culo da coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o houve aqui algum representante da boa cultura europ\u00e9ia dessa<br \/>\ngloriosa era.<\/p>\n<p>O mais antigo assento da primeira sociedade brasileira, que n\u00e3o desmere\u00e7a<br \/>\no nome de civilizada, foi a capitania de Pernambuco de Duarte Coelho. Este<br \/>\nfidalgo da primeira nobreza portuguesa e ilustrado por bizarros feitos militares<br \/>\nna \u00cdndia desde 1534 se estabeleceu na sua capitania com a sua mulher,<br \/>\nda casa dos Albuquerques, um cunhado, outros fidalgos e cavaleiros de suas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es ou parentescos, e muitos colonos, os melhores talvez<br \/>\ndos que nesses tempos vieram ao Brasil. A sua col\u00f4nia foi a mais bem<br \/>\nordenada e a mais em governada de todas e a que mais prosperou. Mas mesmo<br \/>\na\u00ed n\u00e3o faltam testemunhos da descompostura dos costumes coloniais.<br \/>\nJer\u00f4nimo de Albuquerque, cunhado do austero donat\u00e1rio, quando<br \/>\ncasou de ordem da rainha escandalizada com a sua libertinagem, f\u00eaz-se<br \/>\nacompanhar de onze filhos naturais que tivera, uns da filha do tuxaua Arco<br \/>\nVerde, outros de suas mancebas \u00edndias.6 A ordem e pol\u00edcia material<br \/>\ncriada pela forte e esclarecida vontade de Duarte Coelho parece ter a\u00ed<br \/>\ncorrespondido ao princ\u00edpio da maior homogeneidade social, nos elementos<br \/>\nmais coerentes da coloniza\u00e7\u00e3o e no maior n\u00famero e melhor<br \/>\nqualidade dos primeiros colonos. Tamb\u00e9m as da terra favoreciam-lhe<br \/>\no aproveitamento, facilitando ainda, com o seu adiantamento e a obra do seu<br \/>\ndonat\u00e1rio, pela maior proximidade do Reino e mais freq\u00fcentes e<br \/>\nr\u00e1pidas comunica\u00e7\u00f5es com ele. Duarte Coelho n\u00e3o<br \/>\nparece ter sido um fidalgo sem letras, e as apreciaria porque elas, com Jo\u00e3o<br \/>\nde Barros, o tinham celebrado e a parentes seus por suas fa\u00e7anhas na<br \/>\n\u00cdndia. Dois dos seus descendentes e sucessores na capitania-mor de<br \/>\nPernambuco foram homens de letras. N\u00e3o admira, pois, que desta sociedade<br \/>\nonde j\u00e1 havia sociabilidade e luxo, sa\u00edsse a mais antiga obra<br \/>\nliter\u00e1ria brasileira, a Prosopop\u00e9ia, de Bento Teixeira, em 1601.<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o do governo-geral da Bahia e conseq\u00fcente centraliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nda vida colonial da cidade do Salvador, expressamente fundada para esse efeito,<br \/>\ncriou na segunda metade do s\u00e9culo XVI, quando justamente come\u00e7ava<br \/>\na definhar a prosperidade de Pernambuco, a segunda sociedade menos grosseira<br \/>\nque houve no Brasil. N\u00e3o era t\u00e3o escolhida como a de Duarte<br \/>\nCoelho a col\u00f4nia trazida por Tom\u00e9 de Sousa. Era, por\u00e9m,<br \/>\nmais numerosa e compunha-se de mais variados e a certos respeitos mais prest\u00e1veis<br \/>\nelementos de coloniza\u00e7\u00e3o, oficiais e mestres de of\u00edcios,<br \/>\nmec\u00e2nicos, t\u00e9cnicos, artes\u00e3os, al\u00e9m dos agricultores<br \/>\ne obreiros comuns. Trouxe mais o governador-geral a primeira leva daqueles<br \/>\npadres que iam ser o principal instrumento da civiliza\u00e7\u00e3o do<br \/>\npa\u00eds, como ela somente se podia fazer aqui \u2014 os jesu\u00edtas.<br \/>\nA cidade cresceu em n\u00famero e import\u00e2ncia de pr\u00e9dios e<br \/>\naumentou em popula\u00e7\u00e3o. Os jesu\u00edtas fundaram col\u00e9gio<br \/>\ne outros religiosos conventos distribuindo todos instru\u00e7\u00e3o aos<br \/>\nmeninos portugueses e ind\u00edgenas. Ao redor da cidade fizeram-se engenhos.<br \/>\nTodo o Rec\u00f4ncavo se foi povoando, contribuindo para o aumento de Salvador,<br \/>\nque se fazia uma pequena corte t\u00e3o disparatada nos seus v\u00e1rios<br \/>\naspectos, costumes e vestu\u00e1rios, quanto o eram os elementos que a formavam:<br \/>\nfidalgos, cavaleiros, funcion\u00e1rios, mec\u00e2nicos, soldados, \u00edndios,<br \/>\nnegros, bem trajados uns, maltrapilhos outros, seminus aqueles. Gib\u00f5es<br \/>\nde veludo e seda bordados de ouro e enfeites de penas \u00e0 guisa de roupa.<br \/>\nMuitos frades, padres em demasia.<\/p>\n<p>Por divertimentos comuns, ou jogos il\u00edcitos ou festas de igreja, e<br \/>\nextraordinariamente touradas, cavalhadas, canas. Soltura de costumes, viver<br \/>\ndesregrado, h\u00e1bitos de ociosidade. Enfim a vida das sociedades coloniais<br \/>\nincipientes, compostas de elementos disparatados, e dispostos a desforrarem-se<br \/>\nda disciplina e constrangimento das metr\u00f3poles por uma vida \u00e0<br \/>\nmanga lassa. Procuravam conter-lhe os \u00edmpetos e desmandos, ali\u00e1s<br \/>\ncom pouca efic\u00e1cia, o governador e seus auxiliares e os padres, principalmente,<br \/>\na acredit\u00e1-los, os jesu\u00edtas, que ali\u00e1s constantemente<br \/>\nralham contra esta sociedade. O decorrer dos tempos lhe n\u00e3o modificou<br \/>\nconsideravelmente a constitui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e moral. Ela<br \/>\npermaneceu essencialmente a mesma na sua fei\u00e7\u00e3o \u00e9tnica,<br \/>\nna sua constitui\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica, como na sua forma\u00e7\u00e3o<br \/>\npsicol\u00f3gica, isto \u00e9, permaneceu portuguesa, ao menos at\u00e9<br \/>\nas guerras holandesas, na primeira metade do s\u00e9culo XVII. Por isso<br \/>\n\u00e9 que durante todo o per\u00edodo colonial, salvo algumas raras,<br \/>\nmofinas e intermitentes manifesta\u00e7\u00f5es de nativismo, a literatura<br \/>\naqui \u00e9 inteiramente portuguesa, de inspira\u00e7\u00e3o, de sentimento<br \/>\ne de estilo. N\u00e3o faz sen\u00e3o imitar inferiormente, sem variedade<br \/>\nnem talento, a da m\u00e3e p\u00e1tria. E milagre seria se assim n\u00e3o<br \/>\nfosse.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo II<\/h4>\n<p><strong>PRIMEIRAS MANIFESTA\u00c7\u00d5ES LITER\u00c1RIAS<\/strong><\/p>\n<p>OS VERSEJADORES<\/p>\n<p>AS LITERATURAS COME\u00c7AM sempre por um livro, que freq\u00fcentemente<br \/>\nn\u00e3o tem outro m\u00e9rito que o da prioridade. Literatura oral, como<br \/>\nfoi primeiramente a nossa, \u00e9 apenas uma acep\u00e7\u00e3o particular,<br \/>\nlarga demais e abusiva desse voc\u00e1bulo. N\u00e3o importa que esse<br \/>\nlivro seja uma obra-prima ou sequer estim\u00e1vel; basta que tenha a inten\u00e7\u00e3o,<br \/>\no feitio e o car\u00e1ter da obra liter\u00e1ria. E que se lhe possa descobrir,<br \/>\nou mesmo emprestar, uma representa\u00e7\u00e3o da sociedade ou da vida<br \/>\nque o produziu. Mas o s\u00f3 fato de ser o ponto de partida de uma literatura<br \/>\nlhe marca na hist\u00f3ria dela um lugar irrecus\u00e1vel.<\/p>\n<p>Qual foi o brasileiro que, quando ainda mal se esbo\u00e7ava aqui uma sociedade,<br \/>\nescreveu e publicou uma obra liter\u00e1ria?<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias e incertas not\u00edcias de uma cr\u00f4nica escrita<br \/>\nem Pernambuco talvez antes do s\u00e9culo de 600. Seria porventura o primeiro<br \/>\nescrito feito no Brasil. Sobre se n\u00e3o saber nada a seu respeito, nem<br \/>\ndo seu autor, sequer se era brasileiro, \u00e9 duvidoso tivesse essa obra<br \/>\nalguma import\u00e2ncia para a hist\u00f3ria da nossa literatura. Mas independentemente<br \/>\nda sua exist\u00eancia e qualifica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria &#8220;foi<br \/>\nPernambuco o lugar em que abrolhou a flor liter\u00e1ria em nossa p\u00e1tria&#8221;.7<\/p>\n<p>&#8220;Para este resultado \u2014 explana o insigne sabedor que o verificou<br \/>\n\u2014 concorreu mais de um fator. Pernambuco desenvolveu-se regularmente;<br \/>\nDuarte Coelho desde o desembarque e empossamento da terra domou os \u00edndios,<br \/>\nque nunca mais fizeram-lhe frente com bom \u00eaxito; os colonos viram logo<br \/>\nremunerados os seus labores; o solo era f\u00e9rtil; a vida f\u00e1cil;<br \/>\na sociabilidade e o luxo consider\u00e1veis; a popula\u00e7\u00e3o branca<br \/>\nem geral de origem comum (Viana) apresentando menos elementos disparatados,<br \/>\nmais depressa tendia \u00e0 unifica\u00e7\u00e3o; o sentimento caracter\u00edstico<br \/>\ndo nosso s\u00e9culo XVI \u2014 o desprezo e desgosto pela terra brasileira,<br \/>\no transoceanismo&#8230; ali primeiro arrefeceu. Acrescente-se a facilidade e freq\u00fc\u00eancia<br \/>\nde viagens \u00e0 Europa, a conseq\u00fcente abund\u00e2ncia de comodidades,<br \/>\ncuja aus\u00eancia algures tornava o pa\u00eds detestado e detest\u00e1vel;<br \/>\no natural versar de livros hist\u00f3ricos, como o de Jo\u00e3o de Barros,<br \/>\nem que fulgiam os nomes de Albuquerque e Duarte Coelho, a tend\u00eancia<br \/>\nliter\u00e1ria dos capit\u00e3es-mores de terra&#8230; que escreveram livros.&#8221;8<\/p>\n<p>Em 1601 sa\u00eda em Lisboa, da imprensa de Ant\u00f4nio Alvarez, um op\u00fasculo<br \/>\nde dezoito p\u00e1ginas, in-4\u00ba, trazendo no alto da primeira do texto<br \/>\neste t\u00edtulo: Prosopop\u00e9ia Dirigida a Jorge Dalbuquerque Coelho,<br \/>\nCapit\u00e3o, e Governador de Pernambuco, Nova Lusitana, etc. O nome do<br \/>\nautor Bento Teyxeyra vinha, assim escrito, embaixo do Pr\u00f3logo, no qual<br \/>\nfazia ao seu her\u00f3i o oferecimento da obra.<\/p>\n<p>\u00c9 um poema de noventa e quatro oitavas, em verso endecass\u00edlabo,<br \/>\nsem divis\u00e3o de cantos, nem numera\u00e7\u00e3o de estrofes, cheio<br \/>\nde reminisc\u00eancias, imita\u00e7\u00f5es, arremedos e par\u00f3dias<br \/>\ndos Lus\u00edadas. N\u00e3o tem propriamente a\u00e7\u00e3o, e a prosopop\u00e9ia<br \/>\ndonde tira o nome est\u00e1 numa fala de Proteu, profetizando post facto,<br \/>\nos feitos e a fortuna, exageradamente idealizados, dos Albuquerques, particularmente<br \/>\nde Jorge, o terceiro donat\u00e1rio de Pernambuco, ao qual \u00e9 consagrado.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem m\u00e9rito algum de inspira\u00e7\u00e3o, poesia ou<br \/>\nforma. Afora a sua import\u00e2ncia cronol\u00f3gica de primeira produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria publicada de um brasileiro, pouqu\u00edssimo valor tem.<br \/>\nNo meio da pr\u00f3pria ruim literatura po\u00e9tica portuguesa do tempo<br \/>\n\u2014 ali\u00e1s, a s\u00f3 atender \u00e0 data em que possivelmente<br \/>\nfoi este poema escrito, a melhor \u00e9poca dessa literatura \u2014 n\u00e3o<br \/>\nse elevaria este acima da multid\u00e3o de maus poetas iguais.<\/p>\n<p>O poeta ou era de si med\u00edocre, ou bem novo e inexperiente quando o<br \/>\nescreveu. Confessa ali\u00e1s no seu Pr\u00f3logo, j\u00e1 gong\u00f3rico<br \/>\nantes do gongorismo (tanto o v\u00edcio \u00e9 da nossa ra\u00e7a) que<br \/>\neram as suas &#8220;primeiras prim\u00edcias&#8221;. N\u00e3o se sabe se<br \/>\nveio a dar fruto mais sazonado. Nos seus setecentos e cinq\u00fcenta e dois<br \/>\nversos apenas haver\u00e1 algum not\u00e1vel, pela id\u00e9ia ou pela<br \/>\nforma. S\u00e3o na maioria prosaicos, como banais s\u00e3o os seus conceitos.<br \/>\nA l\u00edngua n\u00e3o tem a distin\u00e7\u00e3o ou relevo, e o estilo<br \/>\ntraz j\u00e1 todos os defeitos que maculam o pior estilo po\u00e9tico<br \/>\ndo tempo, e seriam os distintivos da m\u00e1 poesia portuguesa do s\u00e9culo<br \/>\nseguinte, o vazio ou o afetado da id\u00e9ia e a pen\u00faria do sentimento<br \/>\npo\u00e9tico, cujo realce se procurava com efeitos mitol\u00f3gicos e<br \/>\nreminisc\u00eancias cl\u00e1ssicas, impr\u00f3prios e incongruentes,<br \/>\nsem sombra do g\u00eanio com que Cam\u00f5es, com sucesso \u00fanico,<br \/>\nrestaurara esses recursos na poesia do seu tempo.<\/p>\n<p>Conforme a regra cl\u00e1ssica, come\u00e7a o poema pela invoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 de justi\u00e7a reparar que come\u00e7a com uma novidade, a invoca\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 desta vez dirigida ao Deus dos crist\u00e3os. Al\u00e9m do Deus,<br \/>\ninvoca a Jorge de Albuquerque &#8220;o sublime Jorge em que se esmalta a estirpe<br \/>\nde Albuquerque excelente&#8221; com versos diretamente imitados do Lus\u00edadas.<br \/>\nA mem\u00f3ria fresca do poema de Cam\u00f5es est\u00e1 por todo o poema<br \/>\ndo nosso patr\u00edcio, em que n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 reminisc\u00eancias,<br \/>\ninflu\u00eancias mas versos imitados, parodiados, alguns quase integralmente<br \/>\ntranscritos, e ainda alus\u00f5es \u00e0 grande epop\u00e9ia portuguesa.<br \/>\nNada por\u00e9m compar\u00e1vel ao g\u00eanio criador com que Cam\u00f5es<br \/>\nsoube imitar e superar os seus modelos.<\/p>\n<p>Depois da invoca\u00e7\u00e3o preceitual segue-se no poema de Bento Teixeira,<br \/>\ncomo tamb\u00e9m era de regra, a &#8220;narra\u00e7\u00e3o&#8221; expressamente<br \/>\ndesignada do livro.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o do poema \u00e9 falada ou narrada. Proteu a diz de<br \/>\nsobre o recife de Pernambuco. Seis estrofes o descrevem, de um modo ins\u00edpido,<br \/>\npura e secamente topogr\u00e1fico:<\/p>\n<p>Para a parte do sul onde a pequena<\/p>\n<p>Ursa, se v\u00ea de guardas rodeada,<\/p>\n<p>Onde o C\u00e9u luminoso mais serena,<\/p>\n<p>Tem sua influi\u00e7\u00e3o, e temperada.<\/p>\n<p>Junto da nova Lusit\u00e2nia ordena,<\/p>\n<p>A natureza, m\u00e3e, bem atentada,<\/p>\n<p>Um porto tam quieto e tam seguro,<\/p>\n<p>Que pera as curvas naus serve de muro.<\/p>\n<p>E assim por diante sem nada que lhe eleve o tom at\u00e9 \u00e0 poesia.<\/p>\n<p>Dali, por ordem de Netuno, profetiza Proteu, num largo canto em louvor dos<br \/>\nAlbuquerques e nomeadamente de Jorge, a quem se endere\u00e7a esta prosopop\u00e9ia.<br \/>\nV\u00ea Proteu<\/p>\n<p>A opulenta Olinda florescente<\/p>\n<p>Chegar ao cume do supremo estado<\/p>\n<p>Ser\u00e1 de fera e belicosa gente<\/p>\n<p>O seu largo distrito povoado<\/p>\n<p>Por nome ter\u00e1, Nova Lusit\u00e2nia,<\/p>\n<p>Das leis isenta da fatal ins\u00f4nia.<\/p>\n<p>Esta Lusit\u00e2nia ser\u00e1 governada por Duarte Pacheco &#8220;o gr\u00e3o<br \/>\nDuarte&#8221; que o poeta, pela voz de Proteu, compara a En\u00e9ias, a P\u00fablio<br \/>\nCipi\u00e3o, a Nestor e a F\u00e1bio. E tudo o que at\u00e9 ent\u00e3o<br \/>\ntinha passado com os Pachecos e Albuquerques, j\u00e1 celebrados por Cam\u00f5es,<br \/>\nocorre a Proteu que o profetiza posteriormente desmedindo-se no louvor e encarecimento.<br \/>\nAcaba o poema pouco originalmente, com as despedidas do poeta, repetindo a<br \/>\npromessa de voltar com um novo canto,<\/p>\n<p>Por tal modo que cause ao mundo espanto.<\/p>\n<p>Jorge de Albuquerque Coelho, o motivo sen\u00e3o o her\u00f3i deste poema,<br \/>\nera filho de Duarte Coelho, primeiro donat\u00e1rio de Pernambuco, onde<br \/>\nJorge nasceu, em Olinda, em 1539. O enf\u00e1tico padre Loreto Couto9, falando<br \/>\ndele como de sujeito verdadeiramente extraordin\u00e1rio, assevera que &#8220;ainda<br \/>\nque Pernambuco n\u00e3o tivera produzido outro filho bastaria este para<br \/>\na sua imortal gl\u00f3ria&#8221;. E mais, que &#8220;foi este insigne pernambucano<br \/>\num daqueles esp\u00edritos raros para cuja produ\u00e7\u00e3o tarda<br \/>\ns\u00e9culos inteiros a natureza, pois \u00e0 sua rara virtude e insigne<br \/>\nvalor, acrescentou uma erudi\u00e7\u00e3o rara e conhecimento das letras<br \/>\nhumanas&#8221;.<\/p>\n<p>Uma e outro n\u00e3o teriam sido adquiridos no Brasil. Se s\u00e3o exatas,<br \/>\ncomo parece, as not\u00edcias de Jaboat\u00e3o,10 Jorge Albuquerque criou-se<br \/>\nem Portugal, onde aos 14 anos se achava. Com 20 voltou a Pernambuco, donde<br \/>\ntornou ao Reino, em 1555, aos 26 anos, ap\u00f3s a sua brilhante campanha<br \/>\ncontra os \u00edndios da capitania. Nesta viagem para Portugal sofreu o<br \/>\nnaufr\u00e1gio c\u00e9lebre da nau Santo Ant\u00f4nio que o levava, cuja<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o, escrita pelo piloto Afonso Lu\u00eds e reformada<br \/>\npor Ant\u00f4nio de Castro, foi atribu\u00edda a Bento Teixeira.11 Em Portugal<br \/>\n&#8220;foi de todos aplaudido de cortes\u00e3o, generoso, discreto, liberal,<br \/>\naf\u00e1vel e modesto&#8221;.12 Em suma, se havemos de crer os seus panegiristas<br \/>\nmais pr\u00f3ximos dele e os que os copiaram, teria sido um portento de<br \/>\ngentilezas guerreiras e de virtudes civis.<\/p>\n<p>Poemas como a Prosopop\u00e9ia do nosso patr\u00edcio, que este her\u00f3i<br \/>\nmotivou, em tudo med\u00edocre, endere\u00e7ados a potentados e magnates,<br \/>\narmando-lhes \u00e0 benevol\u00eancia e prote\u00e7\u00e3o, eram freq\u00fcent\u00edssimos<br \/>\ne superabundavam na bibliografia da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em todos os tempos poetas e literatos foram inclinad\u00edssimos \u00e0<br \/>\nbajula\u00e7\u00e3o dos poderosos. Casando-se geralmente pouco o seu g\u00eanio<br \/>\ncom o \u00e1rduo de uma exist\u00eancia de trabalho e esfor\u00e7o pr\u00f3prio,<br \/>\ne amando sobretudo os lazeres da vida ociosa, prop\u00edcios \u00e0s suas<br \/>\ninven\u00e7\u00f5es e imagina\u00e7\u00f5es, para o haverem sacrificam<br \/>\nde boa mente \u00e0 vaidade dos grandes dos quais sem mais fadiga que a<br \/>\nde cont\u00e1-los e louv\u00e1-los, esperam lucrar tais \u00f3cios,<br \/>\nmuito seus queridos. Igualmente caro\u00e1veis da grandeza, pompa e luxo<br \/>\ndesses magnates, com os quais facilmente se embevecem, \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesse gosto imolam brios e melindres. Em Portugal tais poetas e literatos<br \/>\nfaziam at\u00e9 parte da domesticidade da corte ou das grandes casas fidalgas<br \/>\ne ricas, que os aposentavam e pensionavam, em troca dos poemas e escrituras<br \/>\ncom que infalivelmente celebravam a fam\u00edlia em cada um dos seus sucessos<br \/>\ndom\u00e9sticos, nascimentos, casamentos, mortes, fa\u00e7anhas guerreiras,<br \/>\nvantagens sociais obtidas, anivers\u00e1rios. Como havia destes poetas efetivos,<br \/>\nprivados, caseiros, os havia tamb\u00e9m ocasionais, mas n\u00e3o menos<br \/>\nprontos ao louvor hiperb\u00f3lico, \u00e0 lisonja enf\u00e1tica, \u00e0<br \/>\nbajula\u00e7\u00e3o rasteira, em c\u00e2mbio da prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nsolicitada ou em paga de alguma gra\u00e7a obtida. Na sociedade de ent\u00e3o<br \/>\no homem de letras, ainda sem p\u00fablico que o pudesse manter, e at\u00e9<br \/>\nfor\u00e7ado e apenas muito limitadamente exercer a sua atividade, quase<br \/>\ns\u00f3 dos principais pelo poderio e riqueza, que acaso lhes estimassem<br \/>\nas prendas sem os estimar a eles, podia viver. Freq\u00fcentemente eram estes<br \/>\nque lhe mandavam imprimir as obras, que sem tais patronos dificilmente achariam<br \/>\neditores. Tais costumes, explic\u00e1veis e porventura desculp\u00e1veis<br \/>\npelas condi\u00e7\u00f5es do tempo, passaram naturalmente do Reino \u00e0<br \/>\nsua col\u00f4nia da Am\u00e9rica, onde os vice-reis, governadores e capit\u00e3es-generais<br \/>\ne mores faziam de reis pequenos, e os fazendeiros, senhores de engenho e outros<br \/>\nmagnates locais substitu\u00edram e arremedavam os gr\u00e3os-senhores<br \/>\nda Metr\u00f3pole. Tanto passaram que desde as suas primeiras manifesta\u00e7\u00f5es,<br \/>\na poesia, e depois toda a esp\u00e9cie de literatura, inspirou-se grandemente<br \/>\naqui daqueles motivos, e foi consideravelmente \u00e1ulica. Aulicismo, arcadismo,<br \/>\ngongorismo foram sempre ali\u00e1s tra\u00e7os caracter\u00edsticos<br \/>\ndas letras portuguesas.<\/p>\n<p>Quer em Portugal, quer no Brasil duraram estes costumes at\u00e9 o s\u00e9culo<br \/>\nXVIII. N\u00e3o sei ali\u00e1s se \u00e9 poss\u00edvel dizer estejam<br \/>\nde todo extintos. Mais certo ser\u00e1 tenham antes variado e se transformado<br \/>\ndo que desaparecido completamente as formas e modos com que poetas e literatos<br \/>\nsempre atiraram ao patroc\u00ednio dos poderosos, adulando-os em prosa e<br \/>\nverso. Seja que ainda pesa sobre eles essa heran\u00e7a, seja porque continuam<br \/>\na preferir alcan\u00e7ar por tais meios o que s\u00f3 com fadiga e dificuldade<br \/>\nlhes daria trabalho mais honesto, certo \u00e9 n\u00e3o desapareceu o<br \/>\ncostume de todo. Bento Teixeira fica, pois, sendo, n\u00e3o s\u00f3 o<br \/>\nprimeiro em data dos poetas brasileiros, mas o patriarca dos nossos &#8220;engrossadores&#8221;<br \/>\nliter\u00e1rios. E de ambos os modos progenitor fecund\u00edssimo de incont\u00e1vel<br \/>\nprole.<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que simultaneamente com ele, se n\u00e3o<br \/>\nantes, houvesse o Brasil produzido outros versejadores \u00e1ulicos, isto<br \/>\n\u00e9, cujo principal motivo de inspira\u00e7\u00e3o fosse angariar<br \/>\no patrono de algum poderoso da terra. O mundo dividiu-se sempre entre patronos<br \/>\ne clientes. Todavia n\u00e3o sabemos de nenhum que o antecedesse ou viesse<br \/>\nao seu tempo.<\/p>\n<p>Conjetura-se com bons fundamentos houvesse composto o seu poema nos \u00faltimos<br \/>\nanos do s\u00e9culo, com certeza depois do desastre de D. Sebasti\u00e3o<br \/>\nem \u00c1frica, em 1578, a que j\u00e1 o poema se refere. Talvez nos arredores<br \/>\nde 1596, que neste ano ainda vivia Jorge de Albuquerque e o poema foi composto<br \/>\nquando ele vivo.<\/p>\n<p>De Bento Teyxeyra, como ele o assinou, ou Bento Teixeira Pinto, como tamb\u00e9m<br \/>\nlhe escreveram o nome, nada mais se sabe al\u00e9m da parca not\u00edcia<br \/>\ndo bibli\u00f3grafo Diogo Barbosa Machado na sua Biblioteca Lusitana, publicada<br \/>\nem 1741; que nasceu em Pernambuco e era &#8220;igualmente perito na po\u00e9tica<br \/>\ne na hist\u00f3ria&#8221;. N\u00e3o diz nem o lugar nem a data do nascimento.<br \/>\nUm cronista pernambucano, posterior a Barbosa Machado, o citado padre Couto,<br \/>\nnoticiador geralmente de segunda m\u00e3o, apenas acrescenta que era de<br \/>\nOlinda.13 Dele n\u00e3o h\u00e1 nenhuma not\u00edcia contempor\u00e2nea,<br \/>\ne estas mesmas vagas informa\u00e7\u00f5es de mais de um s\u00e9culo<br \/>\nposteriores, n\u00e3o foram jamais verificadas ou ampliadas por quaisquer<br \/>\ninvestiga\u00e7\u00f5es ulteriores. Outras not\u00edcias que dele h\u00e1<br \/>\nem escritores mais modernos s\u00e3o de pura inventiva de seus autores.<\/p>\n<p>Chama-lhe de &#8220;perito na hist\u00f3ria&#8221; o bibli\u00f3grafo Machado,<br \/>\ne com este o padre Couto, que apenas o repete, por lhe atribu\u00edrem ambos<br \/>\na obra em prosa Di\u00e1logos das grandezas do Brasil. Como come\u00e7ou<br \/>\na provar Varnhagen em 1872,14 e pode-se hoje ter por incontest\u00e1vel,<br \/>\nessa obra, porventura a mais interessante da primitiva literatura do Brasil,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 de Bento Teixeira.15 E \u00e9 pena, pois vale mais do<br \/>\nque a sua trivial e ins\u00edpida Prosopop\u00e9ia. Como quer que seja,<br \/>\nmarca esta o primeiro passo dos brasileiros na vida liter\u00e1ria, \u00e9<br \/>\no primeiro documento da sua vontade e capacidade de continuar na Am\u00e9rica<br \/>\na atividade espiritual da Metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Publicada ali, ali mesmo se teria sumido, confundida na massa enorme de quejandas<br \/>\nprodu\u00e7\u00f5es. Talvez ficasse at\u00e9 desconhecida no Brasil.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o ou mem\u00f3ria<br \/>\ndela al\u00e9m das duas indicadas, ambas em suma de origem portuguesa, mas<br \/>\noutro poeta brasileiro, Manoel Botelho de Oliveira, dando \u00e0 luz um<br \/>\nlivro de versos um s\u00e9culo depois, gabava-se de ser o primeiro brasileiro<br \/>\nque os publicava. E dos dois \u00fanicos exemplares originais que se lhe<br \/>\nconhecem, o \u00fanico existente no Brasil, na Biblioteca Nacional do Rio<br \/>\nde Janeiro, veio de Portugal (onde est\u00e1 o outro na Biblioteca Nacional<br \/>\nde Lisboa) na cole\u00e7\u00e3o de livro do citado Barbosa Machado.16<\/p>\n<p>O apre\u00e7o da terra, mesmo uma exagerada admira\u00e7\u00e3o dela,<br \/>\nda sua natureza, das suas riquezas e bens, \u00e9 uma impress\u00e3o comum<br \/>\nnos primeiros que do Brasil escreveram, estranhos e ind\u00edgenas. Como<br \/>\nveremos, ser\u00e1 essa impress\u00e3o que, fazendo-se emo\u00e7\u00e3o<br \/>\ne est\u00edmulo de inspira\u00e7\u00e3o, imprimir \u00e0 nossa literatura<br \/>\no primeiro tra\u00e7o da sua futura diferencia\u00e7\u00e3o da portuguesa.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 desapropositado notar que a primeira manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo g\u00eanio liter\u00e1rio brasileiro \u00e9 um poema relativo a cousas<br \/>\nda terra embora ainda sem emo\u00e7\u00e3o que lhe d\u00ea maior relevo<br \/>\ne significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, de Bento Teixeira e de versejadores de igual jaez, que<br \/>\nporventura houve, ou simultaneamente com aquele, versejaram tamb\u00e9m<br \/>\npadres jesu\u00edtas compondo cantigas devotas para os seus catec\u00famenos.<br \/>\nEsta primitiva literatura jesu\u00edtica se n\u00e3o limitava, entretanto,<br \/>\na tais cantigas. Desde que esses padres aqui se estabeleceram, por meado do<br \/>\ns\u00e9culo XVI, compreendia discursos em prosa e verso, epigramas ou poemas<br \/>\nconceituosos alusivos aos motivos das festividades, di\u00e1logos em verso<br \/>\nou prosa ou misturados de ambos e cenas dialogadas representadas em tablados<br \/>\nou ramadas \u00e0 guisa dos autos no Reino, infalivelmente sobre um assunto<br \/>\nde devo\u00e7\u00e3o e edi-fica\u00e7\u00e3o. Comumente misturavam-se<br \/>\nneste autos o latim e o portugu\u00eas e tamb\u00e9m o castelhano. Serviam-lhe<br \/>\nde atores ou recitadores os \u00edndios amansados e menos broncos, algum<br \/>\ndisc\u00edpulo europeu dos jesu\u00edtas e at\u00e9 um destes padres.<br \/>\nDas festividades em que tinham lugar estas manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias<br \/>\n\u2014 se tal se lhes pode chamar \u2014 d\u00e1 repetidas not\u00edcias<br \/>\no padre Fern\u00e3o Cardim, deixando ver qu\u00e3o freq\u00fcentes e gerais<br \/>\neram em toda a costa bras\u00edlica.17 Dos autores de tais produ\u00e7\u00f5es<br \/>\no mais, ou antes o \u00fanico, conhecido \u00e9 o padre Jos\u00e9 de<br \/>\nAnchieta, figura t\u00e3o verdadeiramente vener\u00e1vel que n\u00e3o<br \/>\nconseguiu desmerec\u00ea-la a admira\u00e7\u00e3o carola com que tem<br \/>\nsido exal\u00e7ado. Noticia o seu confrade padre Sim\u00e3o de Vasconcelos<br \/>\nque Anchieta &#8220;comp\u00f4s com vivo e raro engenho, muitas obras po\u00e9ticas,<br \/>\nem toda a sorte de metro, em que era mui f\u00e1cil, todas ao divino e a<br \/>\nfim de evitar abusos e entretenimentos menos honestos. Entre estes foram a<br \/>\nde mais tomo o livro da vida e feitos de Mem de S\u00e1, terceiro governador<br \/>\nque foi deste Estado, em verso her\u00f3ico latino; v\u00e1rias com\u00e9dias,<br \/>\npassos, \u00e9clogas, descri\u00e7\u00f5es devot\u00edssimas que ainda<br \/>\nhoje andam na sua mesma letra; e a vida da Virgem Senhora Nossa em verso eleg\u00edaco&#8221;.18<br \/>\nEm a sua Cr\u00f4nica da Companhia de Jesus no Estado do Brasil, em 1663,<br \/>\nj\u00e1 o mesmo padre assim informava da particular atividade liter\u00e1ria<br \/>\ndo seu eminente companheiro: &#8220;Era destro em quatro l\u00ednguas: portuguesa,<br \/>\ncastelhana, latina e bras\u00edlica; em todas elas traduziu em romances<br \/>\npios com muita gra\u00e7a e delicadeza, as cantigas profanas que ent\u00e3o<br \/>\nandavam em uso; com fruto das almas, porque deixadas as lasc\u00edvias n\u00e3o<br \/>\nse ouvia pelos caminhos outra cousa sen\u00e3o cantigas ao divino, convidados<br \/>\nos entendimentos a isso do suave metro de Jos\u00e9&#8221;.19<\/p>\n<p>17Narrativa epistolar de uma viagem e miss\u00e3o jesu\u00edtica pela<br \/>\nBahia, Ilh\u00e9us, Porto Seguro, Pernambucano, Esp\u00edrito Santo, Rio<br \/>\nde Janeiro, S\u00e3o Vicente, etc., pelo P. Fern\u00e3o Cardim. Lisboa,<br \/>\n1847, passim.<\/p>\n<p>18Vida do Padre Joseph de Anchieta. Lisboa, 1672. Apud Teixeira de Melo,<br \/>\nP. Joseph de Anchieta, Anais da Biblioteca Nacional, I, 51.<\/p>\n<p>19Cr\u00f4nica, etc., segunda edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro, 1864,<br \/>\n2\u00aa parte, 84.<\/p>\n<p>Das suas com\u00e9dias, ou melhor autos sacros, a mais consider\u00e1vel<br \/>\n\u00e9 a Prega\u00e7\u00e3o Universal, circunstancialmente mencionada<br \/>\npelo seu bi\u00f3grafo, e da qual s\u00e3o conhecidos alguns trechos,<br \/>\ncomo o s\u00e3o algumas outras, bem poucas ali\u00e1s, composi\u00e7\u00f5es<br \/>\nsuas. S\u00e3o puras obras de catequiza\u00e7\u00e3o, devo\u00e7\u00e3o<br \/>\ne edifica\u00e7\u00e3o sem intuitos nem qualidades liter\u00e1rias,<br \/>\napenas conhecidas de fragmentos e sem unidade de estilo ou sequer de l\u00edngua,<br \/>\npois as escrevia, consoante o interesse do momento, em portugu\u00eas, latim<br \/>\nou castelhano e ainda em tupi e at\u00e9 misturava estes idiomas. Mas estas<br \/>\nmesmas composi\u00e7\u00f5es, como o seu poema da Vida de Mem de S\u00e1<br \/>\nou da Vida da Virgem Maria, ambos em latim, o que basta para exclu\u00ed-los<br \/>\nda nossa literatura, e mais as suas not\u00edcias e informa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Brasil e do trabalho de catequese e coloniza\u00e7\u00e3o que aqui<br \/>\nao seu tempo se fazia, e at\u00e9 a sua Gram\u00e1tica da l\u00edngua<br \/>\nmais usada na costa do Brasil (Coimbra, 1596) est\u00e3o manifestamente<br \/>\nrevelando no piedoso jesu\u00edta uma voca\u00e7\u00e3o de escritor.<br \/>\nFoi seguramente um poeta, menos, por\u00e9m, nestas obras, a que apenas<br \/>\nsalva a ingenuidade da inten\u00e7\u00e3o e a pureza do sentimento que<br \/>\nlhas inspirou, que pelo seu ardente e esquisito sentimento do divino e profunda<br \/>\nsimpatia com o gentio cuja se fez ap\u00f3stolo. A sua obra po\u00e9tica,<br \/>\na sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9, com a sua pur\u00edssima vida, toda<br \/>\nvotada ao ideal da sua voca\u00e7\u00e3o, esse apostolado, que foi simult\u00e2neo<br \/>\num milagre de entendimento e de ingenuidade. Quanto \u00e0s suas composi\u00e7\u00f5es<br \/>\npo\u00e9ticas, essas apenas lhe autorizam a men\u00e7\u00e3o do nome,<br \/>\npor outros e melhores t\u00edtulos glorioso, entre os nossos primitivos<br \/>\nversejadores. S\u00e3o tanto literatura como os diversos catecismos bil\u00edng\u00fces<br \/>\nescritos no per\u00edodo colonial.<\/p>\n<p>OS PROSISTAS<\/p>\n<p>I \u2014 PORTUGUESES<\/p>\n<p>A prosa portuguesa chamada, n\u00e3o se sabe ao certo por que, de cl\u00e1ssica<br \/>\n\u00e9 do s\u00e9culo XVI. N\u00e3o s\u00e3o, por\u00e9m, dessa<br \/>\nera, mas da seguinte, os seus mais acabados modelos. Apreciada sem os comuns<br \/>\npreconceitos do casticismo, verifica-se n\u00e3o atingiu ainda ent\u00e3o<br \/>\na express\u00e3o cabal e perfeita de um pensamento que por largo e humano<br \/>\nmerecesse viver.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo anterior, o sentimento portugu\u00eas com as suas<br \/>\nespeciais qualidades exprimiu-se em magn\u00edficas formas po\u00e9ticas<br \/>\nque iniciavam o peculiar lirismo nacional e entravam a dar \u00e0 poesia<br \/>\nportuguesa a sua distin\u00e7\u00e3o. Qui\u00e7\u00e1 essa ra\u00e7a<br \/>\nsentimental e po\u00e9tica carecia de um pensamento t\u00e3o particular<br \/>\nquanto o era o seu sentimento. N\u00e3o se lhe encontra a express\u00e3o<br \/>\nna prosa. O seu foi ali\u00e1s sempre mesquinho e de repeti\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFaltou-lhe imagina\u00e7\u00e3o criadora, poder de generaliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfaculdades filos\u00f3ficas. A prosa, a linguagem apropriada ao revelar<br \/>\nficou-lhe em todo o tempo inferior \u00e0 poesia. Mesmo no per\u00edodo<br \/>\napelidado \u00e1ureo da literatura portuguesa, a prosa vacilou entre o &#8220;estilo<br \/>\nmetaf\u00edsico b\u00e1rbaro dos rudes escritores do s\u00e9culo XV&#8221;,<br \/>\nsegundo a qualifica\u00e7\u00e3o de Herculano, e o falso polimento culto<br \/>\ndo s\u00e9culo XVII. Sincretizam-se as duas fei\u00e7\u00f5es ainda<br \/>\nnos melhores escritores dessa \u00e9poca, deparam-se-nos ambas sem grande<br \/>\nesfor\u00e7o de procura nos mais afamados.<\/p>\n<p>No Brasil, desde que se come\u00e7ou a escrever prosa a que j\u00e1 possamos<br \/>\nchamar de liter\u00e1ria, foram justamente os defeitos dessa prosa portuguesa,<br \/>\na dureza e simultaneamente o amaneirado do frasear, o inchado e o retorcido<br \/>\nda express\u00e3o, com o sacrif\u00edcio intencional da sua correnteza<br \/>\ne naturalidade, que predominaram. Quando aqui se come\u00e7ou a fazer prosa,<br \/>\na fei\u00e7\u00e3o dominante da portuguesa era o gongorismo, o hip\u00e9rbaton,<br \/>\nas constru\u00e7\u00f5es arrevesadas e rebuscadas, os trocadilhos. Um<br \/>\nestilo presumidamente po\u00e9tico ou eloq\u00fcente, mas de fato apenas<br \/>\nt\u00famido e enf\u00e1tico. Era esse o estilo culto do qual o padre Vieira,<br \/>\ninconsciente de que era por muito o seu, dizia, praticando-o na sua mesma<br \/>\ncensura: &#8220;Este desventurado estilo de que hoje se usa, os que o querem<br \/>\nhonrar chamam-lhe culto, e os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda<br \/>\nlhe fazem muita honra. O estilo culto n\u00e3o \u00e9 escuro, \u00e9<br \/>\nnegro bo\u00e7al e muito cerrado.&#8221;20 Se tal era ainda nos melhores<br \/>\nescritores da Metr\u00f3pole e estilo liter\u00e1rio da \u00e9poca em<br \/>\nque se come\u00e7ou a escrever no Brasil, que podia ele ser na grossa col\u00f4nia<br \/>\nnascente?<\/p>\n<p>Do s\u00e9culo XVI escrito no Brasil, se n\u00e3o por brasileiro nato,<br \/>\npor brasileiro adotivo, nacionalizado por longa resid\u00eancia no pa\u00eds<br \/>\ne enraizamento nele por fam\u00edlia aqui constitu\u00edda e bens aqui<br \/>\nadquiridos, s\u00f3 nos resta um livro, o Tratado descritivo do Brasil,<br \/>\npor Gabriel Soares de Sousa, terminado em 1587. Nem pelo est\u00edmulo que<br \/>\no originou, nem pelo seu prop\u00f3sito, nem pelo estilo \u00e9 o livro<br \/>\nde Gabriel Soares obra liter\u00e1ria. Era, como dir\u00edamos hoje, um<br \/>\nmemorial de concess\u00e3o apresentado ao Governo, como justificativa dos<br \/>\nfavores que para a sua empresa de explora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds<br \/>\nlhe pedia o autor. A obra, por\u00e9m, lhe excedeu o prop\u00f3sito. Deu<br \/>\na este memorial desusada extens\u00e3o e uma amplitude que o fez abranger<br \/>\na hist\u00f3ria e a geografia, no seu mais largo sentido, da grande col\u00f4nia<br \/>\namericana ent\u00e3o sob o dom\u00ednio espanhol. A sinceridade da sua<br \/>\nlonga, minuciosa e exata informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o chegam a prejudicar-lhe<br \/>\nos gabos e encarecimentos da terra, que no forasteiro aclimado rev\u00eaem<br \/>\numa viva e tocante afei\u00e7\u00e3o ao seu ex\u00f3tico pa\u00eds<br \/>\nde ado\u00e7\u00e3o, onde passara da pobreza \u00e0 abastan\u00e7a,<br \/>\na que consagrara o melhor da sua exist\u00eancia e atividade, onde amara<br \/>\ne fora amado, fizera fam\u00edlia e iria morrer na busca aventurosa e dura<br \/>\ndas suas riquezas nativas. Pod\u00edamos portanto adot\u00e1-lo por nosso<br \/>\nse acaso este simp\u00e1tico feitio de sua obra n\u00e3o revisse tamb\u00e9m<br \/>\no prop\u00f3sito de empreiteiro de facilitar-se a merc\u00ea impetrada,<br \/>\njustificando-a sobejamente com a not\u00edcia interesseira da terra que<br \/>\nse propunha a explorar.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o era um letrado e a sua &#8220;ten\u00e7\u00e3o, conforme<br \/>\ndeclara, n\u00e3o foi escrever hist\u00f3ria que deleitasse com estilo<br \/>\ne boa linguagem&#8221;, e n\u00e3o esperava &#8220;tirar louvor desta escritura&#8221;,<br \/>\nsaiu-lhe a obra, embora rude de feitura e pouco castigada de linguagem, menos<br \/>\neivada dos v\u00edcios liter\u00e1rios do tempo, e, por virtude do pr\u00f3prio<br \/>\nassunto, muito mais interessante e proveitosa ainda hoje do que a maior parte<br \/>\ndas que ent\u00e3o mais classicamente se escreviam, sermon\u00e1rios,<br \/>\nvidas de santos, cr\u00f4nicas de reis, de pr\u00edncipes e magnates, livros<br \/>\nde devo\u00e7\u00e3o e milagrices.<\/p>\n<p>Nunca publicada antes que o fizesse sem ainda lhe saber o autor, em 1825,<br \/>\na Academia Real das Ci\u00eancias de Lisboa,21 a obra de Gabriel Soares,<br \/>\nsem embargo de in\u00e9dita, n\u00e3o passou desapercebida aos curiosos<br \/>\ndo seu objeto, imediatos ou posteriores ao inteligente e laborioso reinol.<br \/>\nSe a n\u00e3o compulsou o nosso primeiro cronista nacional, Frei Vicente<br \/>\ndo Salvador, conheceram-na e versaram-na o cl\u00e1ssico autor dos Di\u00e1logos<br \/>\nde v\u00e1ria hist\u00f3ria, Pedro de Mariz, Jaboat\u00e3o, o perluxo<br \/>\ncronista franciscano, Sim\u00e3o de Vasconcelos, o n\u00e3o menos difuso<br \/>\ne n\u00e3o menos gong\u00f3rico cronista jesu\u00edta, o bom autor da<br \/>\nCorografia brasileira, Aires de Casal, e depois, mas ainda em antes dela impressa,<br \/>\noutros historiadores e noticiadores do Brasil, Roberto Southey, Ferdinand<br \/>\nDenis, Martius. As numerosas c\u00f3pias manuscritas (Varnhagen d\u00e1<br \/>\nnot\u00edcia de vinte) que sem embargo do seu volume (de mais de trezentas<br \/>\np\u00e1ginas impressas in 8\u00ba) desta obra se fizeram, indicam que se<br \/>\npermaneceu in\u00e9dita n\u00e3o foi porque a houvessem por desinteressante<br \/>\nou somenos. Somente o suspicaz ci\u00fame com que a metr\u00f3pole evitava<br \/>\na divulga\u00e7\u00e3o das suas col\u00f4nias pode explicar assim ter<br \/>\npermanecido obra de tanta valia.<\/p>\n<p>Gabriel Soares de Sousa, nascido em Portugal pelos anos de 1540, veio para<br \/>\no Brasil pelos de 1565 a 1569. Na Bahia estabeleceu-se como colono agr\u00edcola.<br \/>\nAli casou e prosperou a ponto de nos dezessete anos de estada se fazer senhor<br \/>\nde um engenho de a\u00e7\u00facar, e abastado, como do seu testamento<br \/>\nse depreende. Ganhando com a fortuna posi\u00e7\u00e3o, foi dos homens<br \/>\nbons da terra e vereador da C\u00e2mara do Salvador. Um irm\u00e3o seu<br \/>\nque, parece, o precedera no Brasil havia feito explora\u00e7\u00f5es no<br \/>\nsert\u00e3o de S\u00e3o Francisco, onde presumira haver descoberto minas<br \/>\npreciosas. Falecido ele, quis Gabriel Soares prosseguir as suas explora\u00e7\u00f5es<br \/>\ne descobrimentos. Com este prop\u00f3sito passou \u00e0 Europa em 1584,<br \/>\na fim de solicitar da Corte da Madri autoriza\u00e7\u00e3o e favores para<br \/>\no seu empreendimento de procura e explora\u00e7\u00e3o de tais minas.<br \/>\nPor justificar os seus projetos e requerimentos, e angariar-se a boa vontade<br \/>\ndos que podiam fazer-lhe as gra\u00e7as pedidas, nomeadamente do Ministro<br \/>\nD. Crist\u00f3v\u00e3o de Moura, redigiu nos quatro anos de 1584 a 1587<br \/>\no longo memorial, como ele pr\u00f3prio lhe chamou, que conservado in\u00e9dito<br \/>\nat\u00e9 o s\u00e9culo passado, foi nele publicado sob t\u00edtulos<br \/>\ndiferentes, o qual constitui uma verdadeira enciclop\u00e9dia do Brasil<br \/>\n\u00e0 data da sua composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gabriel Soares, sujeito de bom nascimento se n\u00e3o fidalgo de linhagem,<br \/>\nsuficientemente instru\u00eddo, sobreinteligente, era curioso de observar<br \/>\ne saber, e excelente observador como revela o seu livro. Embora determinado<br \/>\npor uma necessidade de momento, n\u00e3o foi este composto de improviso<br \/>\ne de mem\u00f3ria. Para o redigir serviu-se, como declara, das &#8220;muitas<br \/>\nlembran\u00e7as por escrito&#8221; que nos dezessete anos da sua resid\u00eancia<br \/>\nno Brasil fez do que lhe pareceu digno de nota. Obtidas as concess\u00f5es<br \/>\ne favores requeridos, nomeado capit\u00e3o-mor e governador da conquista<br \/>\nque fizesse e das minas que descobrisse, partiu para o Brasil em 1591, com<br \/>\numa expedi\u00e7\u00e3o de trezentos e sessenta colonos e quatro frades.<br \/>\nMalogrou-se-lhe completamente a empresa, pois n\u00e3o s\u00f3 naufragou<br \/>\nnas costas de Sergipe mas depois veio, com o resto da expedi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque conseguira salvar do naufr\u00e1gio e reconstitu\u00edra na Bahia,<br \/>\na perecer nos sert\u00f5es pelos quais se internara. Seus ossos, mais tarde<br \/>\ntrazidos para a Bahia, foram e se acham sepultados na capela-mor da igreja<br \/>\ndo mosteiro de S. Bento, tendo sobre a l\u00e1pide que os recobre o epit\u00e1fio:<br \/>\n&#8220;Aqui jaz um pecador&#8221; segundo o disposto no seu testamento.22 Deste<br \/>\ndocumento induz-se que era homem abastado, devoto, nimiamente cuidadoso da<br \/>\nsalva\u00e7\u00e3o da sua alma, mediante esmolas, obras pias, missas e<br \/>\nquejandos recursos que aos cat\u00f3licos se deparam para o conseguir.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 propriamente a obra de Gabriel Soares liter\u00e1ria,<br \/>\nnem pela inspira\u00e7\u00e3o, nem pelo prop\u00f3sito, nem pelo estilo.<br \/>\nS\u00f3 o \u00e9 no sentido, por assim dizer material, da palavra literatura.<br \/>\nO estilo \u00e9, como pertinentemente mostrou Varnhagen, ali\u00e1s achando-lhe<br \/>\nencanto que lhe n\u00e3o conseguimos descobrir rude, primitivo e pouco castigado,<br \/>\nmas em suma menos viciado dos defeitos dos somenos escritores contempor\u00e2neos,<br \/>\nmais desartificioso do que o come\u00e7avam a usar os seus coevos, como<br \/>\nde homem que n\u00e3o fazia literatura e n\u00e3o cuidava de imitar os<br \/>\nque a faziam.<\/p>\n<p>\u00c9 grande, por\u00e9m, o m\u00e9rito especial dessa obra. Varnhagen<br \/>\nse o encareceu n\u00e3o o exagerou demasiado escrevendo, ele que mais do<br \/>\nque ningu\u00e9m a estudou e conheceu: &#8220;Como cor\u00f3grafo o mesmo<br \/>\n\u00e9 seguir o roteiro de Soares que o de Pimentel ou de Roussin; em topografia<br \/>\nningu\u00e9m melhor do que ele se ocupou da Bahia; como fit\u00f3logo<br \/>\nfaltam-lhe naturalmente os princ\u00edpios da ci\u00eancia bot\u00e2nica;<br \/>\nmas Diosc\u00f3rides ou Pl\u00ednio n\u00e3o explicam melhor as plantas<br \/>\ndo velho mundo que Soares as do novo, que desejava fazer conhecidas. A obra<br \/>\ncontempor\u00e2nea que o jesu\u00edta Jos\u00e9 de Acosta publicou em<br \/>\nSevilha em 1590, com o t\u00edtulo de Hist\u00f3ria natural e moral das<br \/>\n\u00cdndias e que tanta celebridade chegou a adquirir, bem que pela forma<br \/>\ne assuntos se possa comparar \u00e0 de Soares, \u00e9-lhe muito inferior<br \/>\nquanto \u00e0 originalidade e c\u00f3pia de doutrina. O mesmo dizemos<br \/>\ndas de Francisco Lopes de C\u00e2mara e de Gon\u00e7alo Fernandez de Oviedo.<br \/>\nO grande Azara, com o talento natural que todos lhe reconhecem, n\u00e3o<br \/>\ntratou instintivamente, no fim do s\u00e9culo passado, da zoologia austro-americana<br \/>\nmelhor que o seu predecessor portugu\u00eas; e numa etnografia geral de povos<br \/>\nb\u00e1rbaros, nenhumas p\u00e1ginas poder\u00e3o ter mais cabida pelo<br \/>\nque respeita ao Brasil, o que nos legou o senhor do engenho das vizinhan\u00e7as<br \/>\nde Jequiri\u00e7\u00e1. Causa pasmo como a aten\u00e7\u00e3o de um<br \/>\ns\u00f3 homem p\u00f4de ocupar-se em tantas cousas &#8220;que juntas se<br \/>\nv\u00eaem raramente&#8221;, como as que se cont\u00eam na sua obra, que trata<br \/>\na um tempo, em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, de geografia, de hist\u00f3ria,<br \/>\nde topografia, de hidrografia, de agricultura entretr\u00f3pica, de horticultura<br \/>\nbrasileira, de mat\u00e9ria m\u00e9dica ind\u00edgena em todos os seus<br \/>\nramos e at\u00e9 de mineralogia&#8221;.23 N\u00e3o \u00e9 excessivo este<br \/>\nju\u00edzo, e quem o emitia tinha compet\u00eancia para o fazer.<\/p>\n<p>Um outro portugu\u00eas, o padre Jesu\u00edta Fern\u00e3o Cardim, que<br \/>\ntamb\u00e9m viveu no Brasil, deixou dois escritos de pouco tomo, pelos quais<br \/>\ntem sido, a meu ver impertinentemente, inclu\u00eddo na hist\u00f3ria<br \/>\nda nossa literatura como um dos seus primitivos escritores. Menores s\u00e3o<br \/>\nainda que os de Gabriel Soares os seus t\u00edtulos a pertencer \u00e0<br \/>\nnossa literatura. O a todos os respeitos mais consider\u00e1vel e melhor<br \/>\ndos seus dois escritos s\u00e3o duas cartas que desde o Brasil endere\u00e7ou<br \/>\nao Provincial da Companhia em Portugal, recontando-lhe, miudamente, e de modo<br \/>\nverdadeiramente interessante, uma viagem de inspe\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica<br \/>\npor algumas de nossas capitanias. Varnhagen, que as descobriu, publicou-as<br \/>\nem 1847 com o t\u00edtulo fact\u00edcio de Narrativa epistolar de uma<br \/>\nviagem e miss\u00e3o jesu\u00edtica pela Bahia, Ilh\u00e9us, Porto Seguro,<br \/>\nPernambuco, Esp\u00edrito Santo, Rio de Janeiro, etc., desde o ano de 1583<br \/>\nao de 1590.24 Embora documento interessant\u00edssimo para o estudo das<br \/>\nmiss\u00f5es jesu\u00edticas e da mesma vida colonial no primeiro s\u00e9culo,<br \/>\nn\u00e3o tem a obra de Fern\u00e3o Cardim, se obra se lhe pode chamar,<br \/>\no interesse bem mais geral, a import\u00e2ncia e a valia da de Gabriel Soares.<br \/>\nA sua inclus\u00e3o na nossa literatura \u00e9 t\u00e3o leg\u00edtima<br \/>\ncomo o seria a de toda a correspond\u00eancia jesu\u00edtica daqui desde<br \/>\nN\u00f3brega at\u00e9 o padre Ant\u00f4nio Vieira, e ainda al\u00e9m.<br \/>\nNo desenvolvimento da nossa literatura n\u00e3o teve esta de Fern\u00e3o<br \/>\nCardim sequer a parte que \u00e9 l\u00edcito atribuir \u00e0 de Gabriel<br \/>\nSoares, pelo que desta aproveitaram os posteriores autores brasileiros.<\/p>\n<p>Outro escrito que se lhe imputa com fundados motivos mas sem absoluta certeza<br \/>\n\u00e9 a monografia, como lhe chamar\u00edamos hoje, Do princ\u00edpio<br \/>\ne origem dos \u00edndios do Brasil e dos seus costumes, adora\u00e7\u00f5es<br \/>\ne cerim\u00f4nias, t\u00edtulo tamb\u00e9m fact\u00edcio.25<\/p>\n<p>Pertence a esta primeira fase da literatura colonial e a mesma sorte destes,<br \/>\no curioso escrito Di\u00e1logos das grandezas do Brasil, descobertos e divulgados<br \/>\npor Varnhagen.<\/p>\n<p>Ignora-se-lhe ainda hoje o autor. Ao inv\u00e9s do que primeiramente sup\u00f4s<br \/>\nVarnhagen, que o atribuiu a brasileiro, nomeadamente a Bento Teixeira, o poeta<br \/>\nda Prosopop\u00e9ia, deve de t\u00ea-lo escrito em portugu\u00eas. Mas<br \/>\num portugu\u00eas, como tantos aqui houve, e dos quais \u00e9 Gabriel Soares<br \/>\n\u00f3timo exemplar, naturalizado por longo estabelecimento na terra, afei\u00e7oado<br \/>\na ela, identificado com ela, a ponto de tomar-lhe calorosamente a defesa contra<br \/>\num patr\u00edcio rec\u00e9m-chegado e de exagerar-lhe as excel\u00eancias<br \/>\ncomo um zeloso patriota. Quem quer que fosse, era homem instru\u00eddo,<br \/>\ngrande conhecedor do Brasil, simpaticamente curioso dos seus aspectos naturais<br \/>\ne sociais e de todas as ex\u00f3ticas fei\u00e7\u00f5es da nova terra.<br \/>\nInstru\u00eddo, esclarecido e judicioso, as suas muitas observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre a administra\u00e7\u00e3o, os h\u00e1bitos, a economia e mais<br \/>\nfaces do pa\u00eds, s\u00e3o geralmente bem feitas e acertadas. Algumas<br \/>\nsurpreendem-nos pela agudeza e perspic\u00e1cia. Tais s\u00e3o, em 1618,<br \/>\napenas passado um s\u00e9culo do descobrimento e n\u00e3o acabado ainda<br \/>\no da coloniza\u00e7\u00e3o, os seus reparos da indol\u00eancia, indiferen\u00e7a<br \/>\ne \u00edndole afidalgada dos moradores do Brasil que tudo fiavam do escravo,<br \/>\nescusando-se ao trabalho. Mais not\u00e1vel \u00e9 ainda que tenha desde<br \/>\nent\u00e3o verificado a influ\u00eancia civilizadora da Am\u00e9rica<br \/>\nna Europa, ou ao menos no europeu, para c\u00e1 imigrado e aqui tornado,<br \/>\ngra\u00e7as \u00e0 riqueza adquirida e \u00e0 sua indistin\u00e7\u00e3o<br \/>\nde classes, de r\u00fastico em policiado. Realmente a parte da Am\u00e9rica<br \/>\nna civiliza\u00e7\u00e3o, na pol\u00edcia, como diziam os nossos cl\u00e1ssicos,<br \/>\ne escreve o autor dos Di\u00e1logos das grandezas, \u00e9 muito maior<br \/>\ndo que se n\u00e3o pensa. S\u00e3o milh\u00f5es os europeus que tendo<br \/>\npara ela vindo de todo broncos, grosseiramente trajados, sem nenhuns h\u00e1bitos<br \/>\nde asseio, conforto ou civilidade, e com as manhas inerentes \u00e0 sua<br \/>\nmiser\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o na m\u00e3e p\u00e1tria, logram<br \/>\ncom a fortuna crescer de situa\u00e7\u00e3o e emparelhar com as melhores<br \/>\nclasses americanas. Destas tomam estilos de vida, imitadas por elas das melhores<br \/>\nda Europa, das quais acol\u00e1 os preconceitos de casta, aqui desconhecidos,<br \/>\nos traziam afastados. A transforma\u00e7\u00e3o come\u00e7ada pelo que<br \/>\npodemos chamar o h\u00e1bito externo se completa pelo conv\u00edvio dessas<br \/>\nclasses, cujo com\u00e9rcio lhes \u00e9 facilitado pela fortuna e posi\u00e7\u00e3o<br \/>\naqui facilmente adquiridas. Muit\u00edssimos al\u00e9m desta educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nindireta, a fazem formalmente freq\u00fcentando as nossas escolas ou particularmente<br \/>\ntomando mestres, o que lhes seria muito mais dif\u00edcil nos seus pa\u00edses<br \/>\nde origem. E a Am\u00e9rica restitui \u00e0 Europa desbastados da sua<br \/>\ngrosseria origin\u00e1ria, limpos, no rigor da express\u00e3o, civilizados,<br \/>\npolidos, com o melhor feitio f\u00edsico e social, milh\u00f5es de sujeitos<br \/>\nque lhe v\u00eam bo\u00e7ais e crassos. Devolve-lhe cavalheiro quem lhe<br \/>\nchegou labrego. \u00c9 admir\u00e1vel que este fato interessant\u00edssimo<br \/>\nn\u00e3o tenha escapado ao perspicaz observador dos Di\u00e1logos das<br \/>\ngrandezas, que, notando-o, do mesmo passo o atesta aqui desde o come\u00e7o<br \/>\ndo s\u00e9culo XVII. &#8220;O Brasil \u00e9 pra\u00e7a do mundo, assenta-se<br \/>\nele, se n\u00e3o fazemos agravo a algum reino ou cidade em lhe darmos tal<br \/>\nnome, e juntamente academia p\u00fablica, onde se aprende com muita facilidade<br \/>\ntoda a pol\u00edcia, bom modo de falar, honra dos termos de cortesia, saber<br \/>\nbem negociar e outros atributos desta qualidade&#8221;. E como seu interlocutor<br \/>\nlhe retorquisse que n\u00e3o devia de ser assim, e antes pelo contr\u00e1rio,<br \/>\npois o Brasil se povoara primeiramente com &#8220;degradados e gente de mau<br \/>\nvier&#8221; e por conseguinte pouco pol\u00edtico, pois carecendo de nobreza<br \/>\nlhe faltava necessariamente a pol\u00edcia, Brand\u00f4nio, pseud\u00f4nimo<br \/>\ncom que se disfar\u00e7a o autor, retruca-lhe: &#8220;Nisso n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nd\u00favida, mas deveis saber que esses povoadores, que primeiramente vieram<br \/>\npovoar o Brasil, a poucos lan\u00e7os pela largueza da terra, deram em ser<br \/>\nricos, e com a riqueza foram largando de si a ruim natureza, de que as necessidades<br \/>\ne pobrezas que padeciam no Reino os faziam usar, e os filhos de tais j\u00e1<br \/>\nentronizados com a mesma riqueza e governo da terra despiram a pele velha,<br \/>\ncomo cobra, usando em tudo de honrad\u00edssimos termos com se ajuntarem<br \/>\na isso o haverem vindo depois a este Estado muitos homens nobil\u00edssimos<br \/>\ne fidalgas, os quais casaram nele e se liaram em parentesco com os da terra,<br \/>\nem forma que se h\u00e1 feito entre todos uma mistura de sangue assaz nobres.<br \/>\nEnt\u00e3o como neste Brasil concorrem de todas as partes diversas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde gente a comerciar, e este com\u00e9rcio o tratam com os naturais da terra,<br \/>\nque geralmente s\u00e3o dotados de muita habilidade, ou por natureza do<br \/>\nclima, ou do bom c\u00e9u de que gozam, tomam dos estrangeiros tudo o que<br \/>\nacham bom, de que fazem excelente conserva para a seu tempo usarem dela.&#8221;<\/p>\n<p>Literariamente estes Di\u00e1logos, sem serem romance ou novela, s\u00e3o<br \/>\numa fic\u00e7\u00e3o, a primeira escrita no Brasil. O processo de di\u00e1logos,<br \/>\nj\u00e1 o notou Varnhagen, estava ent\u00e3o em moda em Portugal, para<br \/>\na exposi\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e no\u00e7\u00f5es de ordem<br \/>\nmoral, pol\u00edtica ou econ\u00f4mica. S\u00e3o principalmente desta<br \/>\nordem as que intenta divulgar o autor deste, com o prop\u00f3sito manifesto<br \/>\nde propaganda, como hoje dir\u00edamos, do Brasil, por um portugu\u00eas<br \/>\nque la\u00e7os diversos de interesse e amor apegariam \u00e0 terra, da<br \/>\nqual fala carinhosamente. Pela l\u00edngua e estilo, embora n\u00e3o sejam<br \/>\nnem uma nem outro primorosos, s\u00e3o estes Di\u00e1logos o que melhor<br \/>\nnos legou a escrita portuguesa no Brasil nesta primeira fase da produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria aqui. Por ambos \u00e9 de um quinhentista que, justamente<br \/>\npor n\u00e3o ser um literato, n\u00e3o trazia ainda a eiva do s\u00e9culo<br \/>\nliter\u00e1rio que come\u00e7ava. Escrevendo, com interesse e amor, de<br \/>\ncousas novas, in\u00e9ditas, bem conhecidas suas, f\u00ea-lo com maior<br \/>\nobjetividade, intelig\u00eancia e simpleza do que era comum em livros portugueses<br \/>\ncontempor\u00e2neos. E, ao menos para n\u00f3s brasileiros, mais interessantemente.<br \/>\nEm nenhum outro sobre o Brasil e aqui escrito na mesma \u00e9poca ou ainda<br \/>\nimediatamente depois, se encontram tantos testemunhos de mesti\u00e7agem<br \/>\nque aqui se come\u00e7ava a operar, e j\u00e1 ia mesmo relativamente adiantada,<br \/>\nda comunh\u00e3o das gentes diversas que neste pa\u00eds se encontraram.<br \/>\nE como ao cabo \u00e9 tal mesti\u00e7agem, n\u00e3o s\u00f3 fisiol\u00f3gica<br \/>\nsen\u00e3o psicol\u00f3gica tamb\u00e9m, que distinguir\u00e1 o grupo<br \/>\nbrasileiro, dar-lhe-\u00e1 fei\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e atuar\u00e1<br \/>\na sua express\u00e3o liter\u00e1ria, s\u00e3o os Di\u00e1logos das<br \/>\ngrandezas um estim\u00e1vel subs\u00eddio da nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>II \u2014 BRASILEIROS<\/p>\n<p>O primeiro brasileiro conhecido que escreveu prosa num g\u00eanero liter\u00e1rio,<br \/>\nqual \u00e9 a hist\u00f3ria, e de feitio a se lhe poder qualificar a obra<br \/>\nde liter\u00e1ria, foi Frei Vicente do Salvador. \u00c9 por ele que come\u00e7a<br \/>\na nossa literatura em prosa.<\/p>\n<p>Vicente Rodrigues Palha, como no s\u00e9culo se chamava Frei Vicente, segundo<br \/>\nas escassas not\u00edcias que dele temos, nasceu em Matuim, umas seis l\u00e9guas<br \/>\nao norte da cidade da Bahia, em 1564. Como a maioria dos homens instru\u00eddos<br \/>\nda \u00e9poca, estudou com os jesu\u00edtas no seu col\u00e9gio de S\u00e3o<br \/>\nSalvador, e depois em Coimbra, em cuja Universidade se formou em ambos os<br \/>\ndireitos e doutorou-se. Voltando ao Brasil ordenou-se sacerdote, chegou a<br \/>\nc\u00f4nego da S\u00e9 baiana e vig\u00e1rio-geral. Aos trinta e cinco<br \/>\nanos f\u00eaz-se frade, vestindo o h\u00e1bito de S\u00e3o Francisco<br \/>\ne trocando o nome pelo de Frei Vicente de Salvador. Missionou na Para\u00edba,<br \/>\nresidiu em Pernambuco e cooperou na funda\u00e7\u00e3o da casa franciscana<br \/>\ndo Rio de Janeiro, em 1607, sendo o seu primeiro prelado. Tornou posteriormente<br \/>\na Pernambuco, onde leu um curso de artes, no convento da ordem, em Olinda.<br \/>\nRegressando \u00e0 Bahia a\u00ed foi guardi\u00e3o do respectivo convento,<br \/>\nem 1612. Eleito em Lisboa cust\u00f3dio da Cust\u00f3dia franciscana brasileira,<br \/>\nno mesmo ano de 1612 teve de voltar a Pernambuco. Ap\u00f3s haver estado<br \/>\nem Portugal, regressado novamente \u00e0 Bahia, como guardi\u00e3o, tornado<br \/>\nao Rio e mais uma vez \u00e0 Bahia, a\u00ed faleceu entre os anos de 1636<br \/>\na 1639. Estas diferentes viagens, este trato de diversas terras e popula\u00e7\u00f5es<br \/>\ndevia ter-lhe completado a educa\u00e7\u00e3o escolar com aquela, a certos<br \/>\nrespeitos melhor, que se faz no com\u00e9rcio do mundo. A ela podemos atribuir<br \/>\na singular objetividade do seu estilo. Foram grandes e bons os seus servi\u00e7os<br \/>\n\u00e0 sua ordem e \u00e0 sua p\u00e1tria por v\u00e1rios lugares<br \/>\ne postos da sua atividade. Passou por excelente religioso e bom letrado. A<br \/>\nsua obra faz acreditar merecida esta reputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa obra, Hist\u00f3ria do Brasil, conclu\u00edda a 20 de dezembro de<br \/>\n1627, ficou in\u00e9dita at\u00e9 1888. Escreveu-a o bom e douto frade<br \/>\na pedido, poder\u00edamos dizer por encomenda, de Manoel Severim de Faria,<br \/>\num dos mais considerados eruditos portugueses contempor\u00e2neos, que lhe<br \/>\nprometera public\u00e1-la \u00e0 sua custa.<\/p>\n<p>Como ningu\u00e9m melhor que Varnhagen conheceu o Tratado descritivo do<br \/>\nBrasil de Gabriel Soares, ningu\u00e9m melhor que o sr. Capistrano de Abreu<br \/>\nconhece a Hist\u00f3ria do Brasil de Frei Vicente do Salvador, cujo foi<br \/>\nse n\u00e3o o revelador, gl\u00f3ria que cabe tamb\u00e9m a Varnhagen,<br \/>\no divulgador a capac\u00edssimo editor. Com igual autoridade ao seu ciente<br \/>\npredecessor na historiografia brasileira, julga assim o sr. Capistrano de<br \/>\nAbreu a obra do frade baiano: &#8220;Sua hist\u00f3ria prende-se antes ao<br \/>\ns\u00e9culo XVII que ao s\u00e9culo XVI, neste com as dificuldades das<br \/>\ncomunica\u00e7\u00f5es, com a fragmenta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio<br \/>\nem capitanias e das capitanias em vilas, dominava o esp\u00edrito municipal:<br \/>\nbrasileiro era o nome de uma profiss\u00e3o; quem nascia no Brasil, se n\u00e3o<br \/>\nficava infamado pelos diversos elementos de seu sangue, ficava-o pelo simples<br \/>\nfato de aqui ter nascido \u2014 um mazombo, se de algum corpo se reconheciam<br \/>\nmembros, n\u00e3o estava aqui mas no ultramar: portugueses diziam-se os<br \/>\nque o eram e os que o n\u00e3o eram. Frei Vicente do Salvador representa<br \/>\na rea\u00e7\u00e3o contra a tend\u00eancia dominante: Brasil significa<br \/>\npara ele mais que express\u00e3o geogr\u00e1fica, express\u00e3o hist\u00f3rica<br \/>\ne social. O s\u00e9culo XVII \u00e9 a germina\u00e7\u00e3o desta id\u00e9ia<br \/>\ncomo o s\u00e9culo XVIII \u00e9 a matura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A sua Hist\u00f3ria n\u00e3o repousa sobre os estudos arquivais.<br \/>\nHaveria dificuldade em examinar arquivos? ou n\u00e3o era o seu esp\u00edrito<br \/>\ninclinado a leitura penosa de pap\u00e9is amarelecidos pelo tempo? Da\u00ed<br \/>\ncerta laxid\u00e3o no seu livro: muitos fatos omitidos que hoje conhecemos<br \/>\ne que ele com mais facilidade e mais completamente poderia ter apurado, contornos<br \/>\nenfumados, datas flutuantes, d\u00favidas n\u00e3o satisfeitas. At\u00e9<br \/>\ncerto ponto a Hist\u00f3ria de Frei Vicente \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0<br \/>\ngeografia do merit\u00edssimo padre Mateus Soares, um s\u00e9culo mais<br \/>\ntarde: correta onde determinava posi\u00e7\u00f5es astron\u00f4micas;<br \/>\nem outros pontos fundada sobre roteiros de bandeirantes e mineiros.<\/p>\n<p>&#8220;Mas esta pecha resgata-a por qualidades superiores. A Hist\u00f3ria<br \/>\npossui um tom popular, quase folcl\u00f3rico; anedotas, ditos, uma senten\u00e7a<br \/>\ndo bispo de Tucum\u00e3, uma frase do Rei do Congo, uma denomina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Vasco Fernandes. Mais ainda: v\u00ea-se o Brasil qual era na realidade,<br \/>\naparece o Branco, aparece o \u00cdndio, aparece o Negro; o preto Basti\u00e3o<br \/>\npercebe-se que fez rir a boas gargalhadas o nosso autor. Informa\u00e7\u00f5es<br \/>\npor que suspir\u00e1vamos, e que n\u00e3o esper\u00e1vamos encontrar,<br \/>\nele as oferece \u00e0s m\u00e3os cheias, ora num tra\u00e7o fugitivo,<br \/>\nora demoradamente: leia-se por exemplo o \u00faltimo cap\u00edtulo do<br \/>\nlivro IV, relativo a constru\u00e7\u00e3o de engenhos: antes nada se sabia<br \/>\na tal respeito. H\u00e1 tamb\u00e9m o pensamento que a prosperidade do<br \/>\nBrasil est\u00e1 no sert\u00e3o, que \u00e9 preciso penetrar o oeste,<br \/>\ndeixar de ser caranguejo, apenas arranhando praias, a oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo bandeirismo ao transoceanismo: e da\u00ed a por\u00e7\u00e3o de roteiros<br \/>\nque debalde se procuraria em outras obras.&#8221;26<\/p>\n<p>Dos mesmos m\u00e9ritos que do seu ponto de vista de historiador lhe verifica<br \/>\no sr. Capistrano de Abreu, pode concluir a cr\u00edtica liter\u00e1ria<br \/>\npara lhe avaliar os quilates nesta esp\u00e9cie. \u00c9 um livro que poder\u00edamos<br \/>\nchamar de cl\u00e1ssico se n\u00e3o nos agarr\u00e1ssemos \u00e0 estreita<br \/>\nconcep\u00e7\u00e3o gramatical e ret\u00f3rica que o voc\u00e1bulo<br \/>\ntomou em Portugal. A sua l\u00edngua correta, expressiva e at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nvezes colorida, mais porventura do que o costuma ser a dos escritores seus<br \/>\ncontempor\u00e2neos, tem sobre a destes a superioridade da singeleza e da<br \/>\nnaturalidade, virtudes neles raras. E poder\u00edamos acrescentar da familiaridade,<br \/>\ncomo o mostram o j\u00e1 aludido simile da explora\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nportugueses limitada \u00e0 costa com o arranhar das praias pelos caranguejos,<br \/>\ne que tais, tirados das novidades que \u00e0 sua pena inteligente ofereciam<br \/>\nos aspectos inteiramente in\u00e9ditos do pa\u00eds que historiava e descrevia.<br \/>\n\u00c9 muito mais agrad\u00e1vel de ler que Gabriel Soares e para n\u00f3s<br \/>\nbrasileiros ao menos do que muitos dos chamados cl\u00e1ssicos portugueses,<br \/>\ncronistas como ele. Tem esp\u00edrito, tem chiste, quase poder\u00edamos<br \/>\ndizer que \u00e0s vezes tem at\u00e9 humour. H\u00e1 sobretudo nele<br \/>\numa desenvoltura de pensar e de dizer que aumentam o sabor liter\u00e1rio<br \/>\n\u00e0 sua Hist\u00f3ria. Sirvam de exemplo estas suas reflex\u00f5es<br \/>\nsobre o nome do Brasil: \u00c9 porventura por isso (refere-se \u00e0 troca<br \/>\ndo nome de Terra de Santa Cruz pelo de Brasil), ainda que ao nome de Brasil<br \/>\najuntarem o de estado e lhe chamem estado do Brasil, ficou ele t\u00e3o<br \/>\npouco est\u00e1vel, que, com n\u00e3o haver hoje cem anos, quando isto<br \/>\nescrevo, que se come\u00e7ou a povoar, j\u00e1 se h\u00e3o despovoado<br \/>\nalguns lugares, e sendo a terra t\u00e3o grande e f\u00e9rtil, como adiante<br \/>\nveremos, nem por isso vai em aumento, antes em diminui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Disto d\u00e3o alguns a culpa aos reis de Portugal, outros aos povoadores;<br \/>\naos reis pelo pouco caso que h\u00e3o feito deste t\u00e3o grande estado,<br \/>\nque nem o t\u00edtulo quiseram dele, pois intitulando-se senhores da Guin\u00e9<br \/>\npor uma caravelinha que l\u00e1 vai e vem, como disse o rei do Congo, do<br \/>\nBrasil que n\u00e3o quiseram intitular. Nem depois da morte de el-rei D\u00e3o<br \/>\nJo\u00e3o Terceiro, que o mandou povoar e soube estim\u00e1-lo, houve<br \/>\noutro que dele curasse, sen\u00e3o para colher suas rendas e direitos.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 do mesmo esp\u00edrito e tom a sua observa\u00e7\u00e3o, j\u00e1<br \/>\natr\u00e1s citado do desapego dos moradores \u00e0 terra.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 historiador que reconta, observa e reflexiona,<br \/>\n\u00e9 tamb\u00e9m moralista avisado que sem biocos fradescos, compara,<br \/>\naprecia e generaliza, e sabe faz\u00ea-lo com gra\u00e7a natural e frase<br \/>\nque desta mesma naturalidade tira a eleg\u00e2ncia. S\u00e3o outro documento<br \/>\ndestes seus dotes, e at\u00e9 da sua perspic\u00e1cia psicol\u00f3gica,<br \/>\nestas suas finas observa\u00e7\u00f5es sobre a obra da catequese, com<br \/>\nque tamb\u00e9m inculca o que era no fundo a superficial cristianiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo selvagem. Soube o seu esp\u00edrito realista discernir, e dizer sem os<br \/>\nrebu\u00e7os que lhe punham os jesu\u00edtas, alguns motivos da passividade<br \/>\ncom que o \u00edndio se prestava a certas pr\u00e1ticas religiosas. \u00c9<br \/>\ndemais diz\u00ea-lo com uma deliciosa sem-cerim\u00f4nia. &#8220;Confesso<br \/>\nque \u00e9 trabalho labutar com este gentio com a sua inconst\u00e2ncia,<br \/>\nporque no princ\u00edpio era gosto ver o fervor e devo\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom que acudiam \u00e0 igreja e quando lhes tangiam o sino, \u00e0 doutrina<br \/>\nou \u00e0 missa, corriam com um \u00edmpeto e estr\u00e9pido que pareciam<br \/>\ncavalos, mas em breve tempo come\u00e7aram a esfriar de modo que era necess\u00e1rio<br \/>\nlev\u00e1-los \u00e0 for\u00e7a, e se iam morar nas suas ro\u00e7as<br \/>\ne lavouras, fora da aldeia, por n\u00e3o os obrigarem a isto. S\u00f3<br \/>\nacodem todos com muita vontade nas festas em que h\u00e1 alguma cerim\u00f4nia,<br \/>\nporque s\u00e3o muito amigos de novidades; como dia de S\u00e3o Jo\u00e3o<br \/>\nBatista por causa das fogueiras e capelas, dia da comemora\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeral dos defuntos, para ofertarem por eles, dia de Cinza e de Ramos e principalmente<br \/>\ndas endoen\u00e7as para se disciplinarem, porque o tem por valentia. E tanto<br \/>\n\u00e9 isto assim que um principal chamado Iniaoba, e depois de crist\u00e3o<br \/>\nJorge de Albuquerque, estando ausente uma semana santa, chegando \u00e0<br \/>\naldeia nas oitavas da P\u00e1scoa e dizendo-lhe os outros que se haviam<br \/>\ndisciplinado grandes e pequenos, se foi ter comigo, que ent\u00e3o presidia,<br \/>\ndizendo: &#8220;Como havia de haver no mundo que se disciplinasse at\u00e9<br \/>\nos meninos e ele sendo t\u00e3o grande e valente, como de feito era, ficasse<br \/>\ncom o seu sangue no corpo sem o derramar.&#8221; Respondia-lhe eu que todas<br \/>\nas coisas tinham seu tempo, e que nas endoen\u00e7as se haviam disciplinado<br \/>\nem mem\u00f3ria dos a\u00e7outes que Cristo senhor nosso por n\u00f3s<br \/>\nhavia padecido, mas que j\u00e1 agora se festejava sua gloriosa ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom alegria, e nem com isto se aquietou, antes me p\u00f4s tantas inst\u00e2ncias<br \/>\ndizendo que ficaria desonrado e tido por fraco, que foi necess\u00e1rio<br \/>\ndizer-lhe que fizesse o que quisesse, com que logo se foi a\u00e7outar rijamente<br \/>\npor toda a aldeia, derramando tanto sangue das suas costas quanto os outros<br \/>\nestavam por festas metendo de vinhos nas ilhargas.&#8221;27<\/p>\n<p>27Obr. cit., 169.<\/p>\n<p>\u00c9 precioso o texto, assim pela arguta observa\u00e7\u00e3o de<br \/>\ncertos caracter\u00edsticos hoje muito conhecidos do selvagem, a sua inconst\u00e2ncia<br \/>\nde prop\u00f3sito, o seu amor da novidade, o seu ponto de honra de valentia<br \/>\nbruta, como pela l\u00edngua que sendo boa, conforme a melhor do tempo,<br \/>\nescapa entretanto aos feios v\u00edcios desta do empolado, das constru\u00e7\u00f5es<br \/>\narrevesadas e do estilo presumidamente pomposo. A sua frase \u00e9 ao contr\u00e1rio<br \/>\nch\u00e3, sem artif\u00edcio e j\u00e1, como viria legitimamente a ser<br \/>\nbrasileira, quando n\u00e3o se propusesse indiscretamente a arremedar a<br \/>\nportuguesa, menos invertida, mais direta do que esta. Mais um exemplo para<br \/>\nacabar com a comprova\u00e7\u00e3o das qualidades do nosso primeiro prosador.<br \/>\nDescreve-nos no cap. XLIV a primeira miss\u00e3o jesu\u00edtica \u00e0<br \/>\nIbiapaba, dos padres Francisco Pinto e Lu\u00eds Figueira.<\/p>\n<p>&#8220;Estes se partiram de Pernambuco o ano de mil seiscentos e sete em o<br \/>\nm\u00eas de janeiro, com alguns gentios das suas doutrinas, ferramenta e<br \/>\nvestidos, com que os ajudou o Governador para darem aos b\u00e1rbaros. Come\u00e7aram<br \/>\nseu caminho por mar e prosseguiram ao longo da costa cento e vinte l\u00e9guas<br \/>\npara o norte o Rio de Jaguaribe, onde desembarcaram. Da\u00ed caminharam<br \/>\npor terra e com muito trabalho outras tantas l\u00e9guas at\u00e9 os montes<br \/>\nde Ibiapaba, que ser\u00e1 outras tantas aqu\u00e9m do Maranh\u00e3o,<br \/>\nperto dos b\u00e1rbaros que buscavam, mas acharam o passo impedido de outros<br \/>\nmais b\u00e1rbaros e cru\u00e9is do gentio tapuia, aos quais tentearam<br \/>\nos padres pelos \u00edndios seus companheiros com d\u00e1divas, para que<br \/>\nquisessem sua amizade, e os deixassem passar adiante, por\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nfizeram mas antes mataram os embaixadores, reservando somente um mo\u00e7o<br \/>\nde dezoito anos que os guiasse aonde estavam os padres, como o fez seguindo-os<br \/>\nmuito n\u00famero deles. Saindo o padre Francisco Pinto da sua tenda, onde<br \/>\nestava rezando, a ver o que era, por mais que com palavras cheias de amor<br \/>\ne benevol\u00eancia os quisesse quietar, e os seus poucos \u00edndios com<br \/>\nflechas pretendiam defend\u00ea-lo, eles, com a f\u00faria com que vinham<br \/>\nmataram o mais valente, com que os mais n\u00e3o puderam resistir-lhe nem<br \/>\ndefender o padre, que lhe n\u00e3o dessem com um pau roli\u00e7o tais<br \/>\ne tantos golpes na cabe\u00e7a que lha quebraram e o deixaram morto. O mesmo<br \/>\nquiseram fazer ao padre Lu\u00eds Figueira, que n\u00e3o estava longe<br \/>\ndo Companheiro, mas um mo\u00e7o da sua companhia, sentindo o ru\u00eddo<br \/>\ndos b\u00e1rbaros o avisou, dizendo em l\u00edngua portuguesa: &#8220;Padre,<br \/>\npadre, guarda a vida&#8221; e o padre se meteu \u00e0 pressa em os bosques,<br \/>\nonde, guardado da Divina Provid\u00eancia, o n\u00e3o puderam achar, por<br \/>\nmais que o buscaram, e se foram contentes com os despojos que acharam dos<br \/>\nornamentos que os padres levavam para dizer missa, e alguns outros vestidos<br \/>\ne ferramenta para darem, com o que teve lugar o padre Lu\u00eds Figueira<br \/>\nde recolher seus poucos companheiros, espalhados com medo da morte, e de chegar<br \/>\nao lugar daquele ditoso sacrif\u00edcio, onde acharam o corpo estendido,<br \/>\na cabe\u00e7a quebrada e desfigurado o rosto, cheio de sangue e lodo, limpando-o<br \/>\ne levando-o. E composto o defunto em uma rede em lugar de ata\u00fade lhe<br \/>\nderam sepultura ao p\u00e9 de um monte, que n\u00e3o permitia ent\u00e3o<br \/>\noutro aparato maior o aperto em que estavam; por\u00e9m nem Deus permitiu<br \/>\nque estivesse assim muito tempo, antes me disse Martins Soares, que agora<br \/>\n\u00e9 capit\u00e3o daquele distrito, que o tinham j\u00e1 posto em<br \/>\numa igreja, onde n\u00e3o s\u00f3 os portugueses e crist\u00e3os, que<br \/>\nali moram, \u00e9 venerado, mas ainda dos mesmos gentios.&#8221;28<\/p>\n<p>28As cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o respectivamente de p\u00e1gs. 7,<br \/>\n169 e 178 da edi\u00e7\u00e3o dos Anais da Biblioteca Nacional, cit. \u00c9<br \/>\nclaro que modernizei a ortografia e pontua\u00e7\u00e3o. Desta malograda<br \/>\nmiss\u00e3o jesu\u00edtica e mart\u00edrio do padre Francisco Pinto,<br \/>\nt\u00e3o sucinta, clara e simplesmente narrada por Frei Vicente do Salvador,<br \/>\nconhe\u00e7o tr\u00eas vers\u00f5es, duas mais ou menos contempor\u00e2neas,<br \/>\noutra do s\u00e9culo XVIII, \u00c9 a primeira a do padre Fern\u00e3o<br \/>\nGuerreiro na sua obra Rela\u00e7\u00e3o anual das causas que fizeram os<br \/>\npadres da Companhia, etc. (Lisboa, 1605) na parte Das cousas do Brasil, &#8220;apud&#8221;<br \/>\nas Mem\u00f3rias para a hist\u00f3ria do extinto estado do Maranh\u00e3o,<br \/>\npor C\u00e2ndido Mendes de Almeida, Rio de Janeiro, 1874, II, 551 e seg.<br \/>\nA segunda \u00e9 a da Rela\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o da serra de<br \/>\nIbiapaba, pelo padre Ant\u00f4nio Vieira, escrita em 1660, publicada nas<br \/>\nmesmas Mem\u00f3rias de C\u00e2ndido Mendes, II, 455. Vem finalmente a<br \/>\nterceira do cap. IV da Hist\u00f3ria da Companhia de Jesus da prov\u00edncia<br \/>\ndo Par\u00e1 e Maranh\u00e3o do padre Jos\u00e9 de Morais, escrita em<br \/>\n1759 e publicada em tomo I das mesmas citadas Mem\u00f3rias. Se concordam<br \/>\nno fato essencial da morte do padre Francisco Pinto \u00e0s m\u00e3os<br \/>\ndos \u00edndios por ele convocados, divergem estas vers\u00f5es e a de<br \/>\nFrei Vicente nas circunst\u00e2ncias que o acompanharam.<\/p>\n<p>As tr\u00eas outras vers\u00f5es deste fato existentes na literatura da<br \/>\nnossa l\u00edngua, principalmente a dos padres Ant\u00f4nio Vieira e Jos\u00e9<br \/>\nde Morais, fornecem-nos oportunidades de avaliarmos de Frei Vicente do Salvador<br \/>\ncomo escritor. Neste passo ao menos n\u00e3o lhe sai mal o confronto, mesmo<br \/>\ncom o do muito maior deles, o grande exemplar dos melhores escritores portugueses,<br \/>\nVieira. Ao passo que a dos dois jesu\u00edtas \u00e9 nesse estilo que<br \/>\no padre Manuel Bernardes, com tanto sal e a prop\u00f3sito chamou de &#8220;fraldoso<br \/>\ne dilatado&#8221;, a do modesto frade brasileiro, embora sem a corre\u00e7\u00e3o<br \/>\ngramatical daqueles, \u00e9 simultaneamente precisa, sucinta e s\u00f3bria,<br \/>\nsem sacrif\u00edcio da clareza. Do que sabemos de Frei Vicente do Salvador<br \/>\ne do que nos revela a sua obra, foi ele, no melhor sentido do qualificativo,<br \/>\nde \u00e2nimo ing\u00eanuo. Como escritor \u00e9 este ainda o que mais<br \/>\nlhe assenta, e que o sobreleva, com outros dons j\u00e1 ditos, a todos os<br \/>\nescritores do Brasil, nacionais ou portugueses, nesta primeira fase da literatura<br \/>\naqui. Se houv\u00e9ramos n\u00f3s brasileiros de fazer a lista dos nossos<br \/>\ncl\u00e1ssicos, isto \u00e9, daqueles escritores que sobre bem escreverem<br \/>\na sua l\u00edngua, conforme o uso do seu tempo, melhor nos representassem<br \/>\no sentimento, o entendimento e a vontade que faz de n\u00f3s uma na\u00e7\u00e3o,<br \/>\no primeiro dessa lista seria por todos os t\u00edtulos Frei Vicente do Salvador<br \/>\ncom a sua Hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 ele o \u00fanico prosista brasileiro da fase inicial da nossa<br \/>\nliteratura.<\/p>\n<p>A prosa brasileira assim t\u00e3o dignamente estreada n\u00e3o se continuou<br \/>\npelo resto do s\u00e9culo. \u00c0 copiosa produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica<br \/>\ndesse momento de modo algum correspondem escritos em prosa, que n\u00e3o<br \/>\nsejam pap\u00e9is e documentos de administra\u00e7\u00e3o ou de informa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pa\u00eds, j\u00e1 oficiais, j\u00e1 particulares, estes oriundos<br \/>\nna maior parte das ordens religiosas, maiormente da Companhia de Jesus. Esses<br \/>\nmesmos permaneceram in\u00e9ditos, ou s\u00e3o apenas de not\u00edcia<br \/>\nconhecidos. Nenhum foi reduzido a livro. Informa o bibli\u00f3grafo portugu\u00eas<br \/>\nBarbosa Machado, escrevendo ali\u00e1s um s\u00e9culo depois, que um dos<br \/>\npoetas dessa \u00e9poca, que tamb\u00e9m foi funcion\u00e1rio real e<br \/>\nmilitara pela metr\u00f3pole na col\u00f4nia, Bernardo Vieira Ravasco,<br \/>\nirm\u00e3o do padre Ant\u00f4nio Vieira, deixara manuscrita uma Descri\u00e7\u00e3o<br \/>\ntopogr\u00e1fica, eclesi\u00e1stica, civil e natural do Estado do Brasil.<br \/>\nEsta obra n\u00e3o veio jamais a lume e ningu\u00e9m a conhece. A julgar<br \/>\npelo t\u00edtulo seria uma repeti\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XVII<br \/>\ndo Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares, do s\u00e9culo XVI,<br \/>\ncom a diferen\u00e7a de ser feita por brasileiro, porventura mais completa<br \/>\ne com certeza piorada pela presun\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e pelo<br \/>\nestilo gong\u00f3rico do autor, que era o da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Escreveu mais Vieira Ravasco em Discurso pol\u00edtico sobre a neutralidade<br \/>\nda coroa de Portugal nas guerras presentes das coroas da Europa e sobre os<br \/>\ndanos que da neutralidade podem resultar a essa coroa e como se devem e podem<br \/>\nobviar (1692?) e rem\u00e9dios pol\u00edticos com que se evitar\u00e3o<br \/>\nos danos que no discurso antecedente se prop\u00f5em (datado da Bahia, 10<br \/>\nde junho de 1693). Estes dois pap\u00e9is, respectivamente de 13 e 16 folhas,<br \/>\napareceram em c\u00f3pia moderna na Exposi\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria<br \/>\ndo Brasil realizada pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro em 1881.29<br \/>\n\u00c0 falta de outros m\u00e9ritos, esses escritos fariam de Vieira Ravasco<br \/>\no primeiro em data dos nossos publicistas.<\/p>\n<p>Exceto estes escritos de Ravasco, e aqueles outros supostos ou apenas referidos,<br \/>\nos quais ali\u00e1s n\u00e3o s\u00e3o propriamente liter\u00e1rios,<br \/>\na \u00fanica prosa que se fazia na col\u00f4nia, afora a da conversa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nera a dos serm\u00f5es.<\/p>\n<p>Admitindo, mais por seguir o uso que por convic\u00e7\u00e3o, seja o<br \/>\nserm\u00e3o um g\u00eanero liter\u00e1rio, e haja de fazer parte da hist\u00f3ria<br \/>\nda literatura, parece incontest\u00e1vel que s\u00f3 o ser\u00e1 e s\u00f3<br \/>\ncaber\u00e1 nela quando tenha sido posto por escrito. Sem isto pertenceria<br \/>\nquando muito \u00e0 literatura oral, e desta n\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria.30<\/p>\n<p>O serm\u00e3o, por\u00e9m, teve no passado uma import\u00e2ncia, mesmo<br \/>\nliter\u00e1ria, muito grande, muito maior do que tem hoje. Social ou mundanamente<br \/>\nfoi um divertimento, um espet\u00e1culo que, conforme o pregador, podia<br \/>\ndespertar interesse e atrair concurso t\u00e3o alvoro\u00e7ado ou numeroso<br \/>\nde ouvintes como outros quaisquer do tempo: um auto de f\u00e9, uma corrida<br \/>\nde touros, um jogo de canas, uma representa\u00e7\u00e3o teatral ou alguma<br \/>\nsolenidade da Corte. Mas, como espet\u00e1culo gratuito e aberto ao povo,<br \/>\nera mais concorrido do que estes, s\u00f3 a abastados ou favorecidos acess\u00edveis.<br \/>\nTanto mais que n\u00e3o constitu\u00eda o serm\u00e3o s\u00f3 por<br \/>\nsi o espet\u00e1culo, mas era apenas um &#8220;n\u00famero&#8221; nos que<br \/>\na igreja oferece aos seus fi\u00e9is, com a prodigalidade, a pompa, a encena\u00e7\u00e3o<br \/>\nsemipag\u00e3 das suas pitorescas cerim\u00f4nias. Ajudava, pois, o serm\u00e3o<br \/>\na sociabilidade de uma gente de natureza retra\u00edda e triste, qual a<br \/>\nportuguesa, em tempo em que \u00e0 sociabilidade se deparavam poucos ensejos<br \/>\nde exercer-se. Servia de elemento de instru\u00e7\u00e3o pela discuss\u00e3o<br \/>\nde problemas morais e no\u00e7\u00f5es de toda a ordem, que ao redor deles<br \/>\nfor\u00e7osamente surgiam, e mais pela forma de os expor. De um ou de outro<br \/>\nmodo, excitavam as intelig\u00eancias, punham e resolviam quest\u00f5es,<br \/>\nassentavam ou retificavam opini\u00f5es, suscitavam emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ne forneciam, como os discursos acad\u00eamicos ou parlamentares de hoje,<br \/>\ntemas \u00e0s conversa\u00e7\u00f5es. Foi a sua repeti\u00e7\u00e3o<br \/>\nimportuna e corriqueira, a sua vulgariza\u00e7\u00e3o, a trivialidade<br \/>\ndessaborida e fatigante dos seus processos, dos seus estilos, dos seus &#8220;truques&#8221;<br \/>\na in\u00f3pia do pensamento, invariavelmente o mesmo, que o alimentava,<br \/>\ne da l\u00edngua constantemente a mesma que falava, com o mesmo arranjo<br \/>\ne corte do assunto, o mesmo aparelho de erudi\u00e7\u00e3o, id\u00eanticos<br \/>\nrecursos ret\u00f3ricos, e at\u00e9 iguais entona\u00e7\u00f5es e<br \/>\ngestos no orador, que acabaram com o serm\u00e3o, como g\u00eanero liter\u00e1rio<br \/>\nestim\u00e1vel. Prejudicou-o tamb\u00e9m a sua cada vez mais crescente<br \/>\nincoer\u00eancia com os tempos. Foi um grande expediente de propaganda e<br \/>\nedifica\u00e7\u00e3o religiosa, e ainda moral, n\u00e3o s\u00f3 quando<br \/>\nas almas eram mais sens\u00edveis a tal recurso de li\u00e7\u00e3o oral<br \/>\nbradada de cima de um p\u00falpito, mas quando, sendo pouco vulgar a imprensa,<br \/>\ne menos ainda a capacidade de leitura, encontrava o serm\u00e3o nas massas<br \/>\nanalfabetas ou pouco lidas, ou ainda com poucas facilidades de ler, ouvintes<br \/>\nnumerosos e de boa vontade. Com a multiplica\u00e7\u00e3o dos livros,<br \/>\nmesmo religiosos, \u00e0 literatura paren\u00e9tica oral se foi substituindo<br \/>\na literatura piedosa escrita. Ceci tuera cela. E a decad\u00eancia do serm\u00e3o<br \/>\nacompanhada com grande avan\u00e7o pela da orat\u00f3ria sagrada, n\u00e3o<br \/>\ndiminuiu apenas a import\u00e2ncia do g\u00eanero; teve ainda uma influ\u00eancia<br \/>\nretrospectiva. Amesquinhou lan\u00e7ou no olvido os produtos do seu bom<br \/>\ntempo.<\/p>\n<p>Na l\u00edngua portuguesa o \u00fanico orador sagrado que porventura<br \/>\nainda tem leitores \u00e9 o padre Ant\u00f4nio Vieira. Tem-nos ali\u00e1s<br \/>\nantes como cl\u00e1ssico muito apreciado da l\u00edngua, como exemplar<br \/>\nde escrita vern\u00e1cula e numerosa, que como professor de religi\u00e3o<br \/>\nou moral. Nem h\u00e1 j\u00e1, mesmo entre as pessoas piedosas, se n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o de todo ignaras, quem lhe sofra a filosofia inconsistente ou a<br \/>\nci\u00eancia e erudi\u00e7\u00e3o atrasad\u00edssimas ainda para o<br \/>\nseu tempo, al\u00e9m dos obsoletos e at\u00e9 rid\u00edculos processos<br \/>\nret\u00f3ricos. Na l\u00edngua francesa tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nmais de tr\u00eas oradores sagrados com leitores. Bossuet, Massillon e Bourdaloue.<br \/>\nDestes mesmo o que mais se l\u00ea, qui\u00e7\u00e1 o \u00fanico ainda<br \/>\nem verdade lido, \u00e9 Bossuet. Nenhum deles \u00e9, ali\u00e1s, como<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o foi Vieira, apenas orador sagrado. Foram personagens<br \/>\nconsider\u00e1veis no seu tempo, e, al\u00e9m de a\u00e7\u00f5es memor\u00e1veis,<br \/>\ndeixaram obras liter\u00e1rias pelas quais se recomendam e \u00e0 sua<br \/>\nobra orat\u00f3ria. S\u00e3o justamente tais a\u00e7\u00f5es, o papel<br \/>\nque desempenharam e a influ\u00eancia que tiveram na sua \u00e9poca os<br \/>\ndois maiores deles, Bossuet e Vieira, que mais que os seus m\u00e9ritos<br \/>\nliter\u00e1rios lhes fazem viver os serm\u00f5es.<\/p>\n<p>Nenhum dos sermonistas brasileiros coloniais exerceu no seu meio e tempo<br \/>\na\u00e7\u00e3o ou influ\u00eancia que se lhes refletisse nos serm\u00f5es,<br \/>\ndando-lhes a vida e emo\u00e7\u00e3o que ainda descobrimos nos de Vieira.<br \/>\nNenhum, tamb\u00e9m, em que pese aos seus excessivos elogiadores, possui<br \/>\nqualidades essenciais ou formais que lhe dessem aos serm\u00f5es publicados,<br \/>\n\u2014 que os in\u00e9ditos esses de todo n\u00e3o pertencem \u00e0<br \/>\nliteratura \u2014 aquilo que lhes n\u00e3o p\u00f4de emprestar a sua exist\u00eancia<br \/>\nobscura.<\/p>\n<p>Desses o que, parece, teve mais talento, melhor l\u00edngua estilo e mais<br \/>\nfor\u00e7a orat\u00f3ria foi o padre Ant\u00f4nio de S\u00e1 (1620-1678),<br \/>\njesu\u00edta, natural do Rio de Janeiro. Exerceu o Minist\u00e9rio do<br \/>\np\u00falpito no Brasil e em Portugal e, parece, tamb\u00e9m ocasionalmente<br \/>\nem Roma, ao mesmo tempo em que ilustrava o p\u00falpito portugu\u00eas<br \/>\no padre Vieira. Deste foi, como acontecia com todos os pregadores da \u00e9poca,<br \/>\ndisc\u00edpulo e seguidor. Dos seus serm\u00f5es, avulsamente publicados<br \/>\nainda em sua vida, e depois coligidos em 1750,31 se verifica que por alguns<br \/>\naspectos o foi superiormente. Para o nosso gosto atual, talvez sobrelevando<br \/>\nao mestre e \u00eamulo no estilo nimiamente ornado e culto do tempo, e notavelmente<br \/>\nde Vieira, com quem o nosso bairrismo liter\u00e1rio o tem querido emparelhar.<br \/>\nNem pela c\u00f3pia, n\u00famero e mais excel\u00eancia de linguagem,<br \/>\nnem pelo teso, vigoroso e pessoal do estilo, nem pelo arrojo, riqueza e variedade<br \/>\nda imagina\u00e7\u00e3o e dos tropos acompanha Ant\u00f4nio de S\u00e1<br \/>\na Vieira, do qual \u00e9, ainda com valor pr\u00f3prio que se lhe n\u00e3o<br \/>\npode negar, p\u00e1lido reflexo. Mas tamb\u00e9m o n\u00e3o acompanha<br \/>\nno gongorismo, no abuso dos trocadilhos e menos no atrevimento e despejo de<br \/>\nconceitos e compara\u00e7\u00f5otilde;es com que o celebrado orador portugu\u00eas,<br \/>\nno seu materialismo religioso, ro\u00e7a n\u00e3o raro pela chocarrice<br \/>\ne pela indec\u00eancia, sen\u00e3o pela blasf\u00eamia.32 N\u00e3o obstante<br \/>\nos seus reais m\u00e9ritos, a boa qualidade da sua l\u00edngua e estilo,<br \/>\nmesmo o talento que revela em seus serm\u00f5es, Ant\u00f4nio de S\u00e1<br \/>\n\u00e9 apenas um nome que se encontra nas antologias did\u00e1ticas e<br \/>\ncuja obra, fora dos curtos trechos destas, ningu\u00e9m mais l\u00ea e<br \/>\nquase todos ignoram inteiramente.<\/p>\n<p>\u00c9 que de fato, a despeito do nosso catolicismo consuetudin\u00e1rio,<br \/>\nos sentimentos que o inspiraram n\u00e3o t\u00eam mais a virtude de interessar-nos<br \/>\ne comover-nos. E s\u00f3 vive a obra liter\u00e1ria cuja emo\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeradora persiste apesar do tempo, sempre capaz de provocar em n\u00f3s<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o id\u00eantica. Isto \u00e9 que o serm\u00e3o, quando<br \/>\nse n\u00e3o misturam nele, como nos de Bossuet ou Vieira, interesses verdadeiramente<br \/>\nhumanos, ou bocados da nossa vida e das nossas paix\u00f5es, quando \u00e9<br \/>\napenas expediente de edifica\u00e7\u00e3o religiosa, n\u00e3o mais consegue.<br \/>\nPerdeu, pois, o essencial dos atributos liter\u00e1rios: o dom da emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Numerosos nomes de pregadores podem, no per\u00edodo colonial, juntar-se<br \/>\nao do padre Ant\u00f4nio de S\u00e1 e os nossos historiadores liter\u00e1rios<br \/>\nn\u00e3o se t\u00eam poupado a faz\u00ea-lo. Uns viram as suas obras publicadas,<br \/>\nas de outros o foram posteriormente. Alguns s\u00e3o apenas mencionados<br \/>\npor noticiadores, \u00e0s vezes posteriores de um s\u00e9culo, o que n\u00e3o<br \/>\nimpediu fossem por aqueles julgados e elogiados, como se os houveram conhecido<br \/>\nmais que por vagas not\u00edcias. Nem h\u00e1 como verificar as vers\u00f5es<br \/>\nque uma vez inventadas v\u00e3o sendo repetidas sem cr\u00edtica por quantos<br \/>\ndo assunto t\u00eam escrito. Se o maior deles, como parece ter sido Ant\u00f4nio<br \/>\nde S\u00e1, sumiu-se de todo no recesso escuro de alguma livraria p\u00fablica,<br \/>\nonde apenas lhe freq\u00fcentem a obra insetos bibli\u00f3fagos, e n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 descobrir-lhes o influxo na mentalidade do seu tempo na sua literatura,<br \/>\nparece in\u00fatil, ou v\u00e3o alarde de fac\u00edlima erudi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnomear os outros.<\/p>\n<p>A orat\u00f3ria sagrada no Brasil foi sem d\u00favida, no per\u00edodo<br \/>\ncolonial e no in\u00edcio do nacional, uma revela\u00e7\u00e3o e porventura<br \/>\num estimulante, em estreitos limites ali\u00e1s, da cultura do momento.<br \/>\nEra uma das formas por que se manifestava a intelig\u00eancia e cultura brasileira,<br \/>\nprincipalmente eclesi\u00e1stica. Mas como outras dessas formas de express\u00e3o,<br \/>\na poesia, a hist\u00f3ria, os paneg\u00edricos pessoais ou da terra, os<br \/>\nescritos morais, tinham os serm\u00f5es a mesma inferioridade de toda essa<br \/>\nliteratura convencional, ret\u00f3rica, sem alguma relev\u00e2ncia de engenho,<br \/>\nsentimento ou express\u00e3o. S\u00f3 mais tarde, quando os oradores sagrados<br \/>\nse fizeram tamb\u00e9m, sob a influ\u00eancia do momento hist\u00f3rico,<br \/>\noradores e at\u00e9 tribunos pol\u00edticos, e exprimiam ou ressumavam<br \/>\nas paix\u00f5es nacionais na \u00e9poca da Independ\u00eancia, se nos<br \/>\ndeparam alguns, bem poucos ali\u00e1s, cuja obra, somente por este aspecto,<br \/>\nainda n\u00e3o morreu de todo.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo III<\/h4>\n<p><strong>O GRUPO BAIANO<\/strong><\/p>\n<p>A ATIVIDADE LITER\u00c1RIA dos brasileiros, na segunda fase do per\u00edodo<br \/>\ncolonial, particularmente na \u00faltima metade do s\u00e9culo XVII, manifesta-se<br \/>\nquase exclusivamente pela poesia. Ali\u00e1s em todo esse per\u00edodo<br \/>\na literatura brasileira comp\u00f4s-se em grand\u00edssima parte de poesia.<br \/>\n&#8220;O Brasil foi uma Arc\u00e1dia antes de ser uma na\u00e7\u00e3o&#8221;,<br \/>\nverificou finalmente um cr\u00edtico de meados do s\u00e9culo passado.33<br \/>\nO que n\u00e3o \u00e9, no s\u00e9culo XVII, poesia, e poesia de bem<br \/>\npouca poesia, \u00e9 serm\u00e3o ou literatura oficial, cr\u00f4nicas,<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es, memoriais de car\u00e1ter estilo burocr\u00e1tico.<br \/>\nA natural pobreza da primeira fase do mesmo per\u00edodo, da qual s\u00f3<br \/>\nficou um nome de poeta e um poema, sucede a sua anormal abund\u00e2ncia na<br \/>\nsegunda metade do s\u00e9culo XVII. Anormal pela sua despropor\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom o meio, uma sociedade embrion\u00e1ria, incoerente, apenas policiada,<br \/>\ne inculta, e anormal ainda pela sua correla\u00e7\u00e3o com a prosa,<br \/>\nde todo muda nesse momento. Relaciona a poesia quase uma d\u00fazia de poetas.<br \/>\nA que atribuir-lhes a g\u00eanese?<\/p>\n<p>Primeiro ao natural incentivo da pr\u00f3pria inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\ninconscientemente estimulada pela tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\nda metr\u00f3pole, sobretudo po\u00e9tica. A estes primeiros incitamentos<br \/>\njuntou-se o aumento da cultura colonial, pela educa\u00e7\u00e3o distribu\u00edda<br \/>\ndos col\u00e9gios dos jesu\u00edtas. Fazia-se esta principalmente nos<br \/>\npoetas latinos lidos, comentados, aprendidos de cor. Dessa educa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsempre e em toda a parte liter\u00e1ria, e apontando apenas ao brilhante<br \/>\ne vistoso, eram elementos principais exerc\u00edcios ret\u00f3ricos de<br \/>\npoesia, o que ali\u00e1s n\u00e3o obstou a que da Companhia jamais sa\u00edsse<br \/>\num verdadeiro poeta, em qualquer l\u00edngua.34 Influ\u00edam mais para<br \/>\na produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica brasileira, em \u00e9poca em que<br \/>\nas preocupa\u00e7\u00f5es eram for\u00e7osamente muito outras que as<br \/>\nliter\u00e1rias, as solenidades oficiais, celebrando faustos sucessos da<br \/>\nmonarquia, os abadessados e outeiros desde que aqui houve conventos, isto<br \/>\n\u00e9, desde o fim do s\u00e9culo XVI, as festividades escol\u00e1sticas<br \/>\ninventadas ou pelo menos sistematicamente praticadas pelos jesu\u00edtas,<br \/>\nquase sempre acompanhadas de representa\u00e7\u00f5es teatrais, das quais<br \/>\nh\u00e1 not\u00edcia desde aquele s\u00e9culo, as academias ou assembl\u00e9ias<br \/>\nde letrados que reciprocamente se liam versos e prosas \u2014 versos sobretudo<br \/>\n\u2014 e conversavam de letras, ainda em antes de se fundarem como sociedades<br \/>\nconstitu\u00eddas, no s\u00e9culo XVIII.35 Eram tudo costumes da metr\u00f3pole<br \/>\nlogo transplantados para a col\u00f4nia. Em tais festas e solenidades, como<br \/>\nnessas academias, havia sempre recita\u00e7\u00e3o de versos inspirados<br \/>\npelos mesmos motivos delas e consagrados a lhes louvar os objetos ou promotores.<br \/>\n\u00c9 justamente nessas festas que, com certeza desde os princ\u00edpios<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII, se verifica a influ\u00eancia do ind\u00edgena<br \/>\ne do negro em costumes e pr\u00e1ticas do Brasil36 e porventura do seu sentimento<br \/>\nno sentimento brasileiro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do natural gosto de se publicarem, e da vaidade, muito de raiz<br \/>\nem poetas e literatos, de aparecerem e luzirem, estimulava-os o empenho ou<br \/>\na necessidade de angariarem a benevol\u00eancia e a prote\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos promotores ou patronos dessas festividades ou objetos delas, governadores,<br \/>\ncapit\u00e3es-generais, capit\u00e3es-mores, prelados.<\/p>\n<p>Ainda em fins do s\u00e9culo XVI come\u00e7ou o descobrimento das minas<br \/>\nde ouro, que, continuado pelo XVII e seguido do achado dos diamantes, criou<br \/>\nno pa\u00eds uma riqueza maior, mais f\u00e1cil e mais pronta que o pau-brasil,<br \/>\no a\u00e7\u00facar e mais produtos ind\u00edgenas da sua primitiva exporta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSimultaneamente deu-se a interpresa dos holandeses contra a col\u00f4nia.<br \/>\nO primeiro ouro, e at\u00e9 a s\u00f3 bem fundada esperan\u00e7a dele,<br \/>\ncom a cata cobi\u00e7osa das esmeraldas, entrara a influir nos moradores,<br \/>\nquer nativos, mamelucos e mazombos, quer advent\u00edcios, rein\u00f3is<br \/>\nou emboabas, a opini\u00e3o das grandezas da terra. Disso \u00e0 bem-queren\u00e7a<br \/>\ne orgulho dela, com a conseq\u00fcente presun\u00e7\u00e3o dos merecimentos<br \/>\ndeles pr\u00f3prios seus moradores, ia apenas um passo. N\u00e3o distaria<br \/>\nmuito este sentimento de um incipiente patriotismo. De 1624 a 1654 sofrera<br \/>\no Brasil, da Bahia ao Maranh\u00e3o, assaltos, ocupa\u00e7\u00f5es e<br \/>\nconquistas dos holandeses. Salvador, com o seu Rec\u00f4ncavo, fora duas<br \/>\nvezes investida e de uma tomada. Relativamente, na expugna\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo invasor maior fora a parte dos colonos que a da metr\u00f3pole. Disso<br \/>\nhouveram eles clara consci\u00eancia. Os nossos sucessos nessas lutas, com<br \/>\nas suas conseq\u00fc\u00eancias pol\u00edticas e sociais, e ainda morais,<br \/>\nhaviam exaltado a nascente alma brasileira com os primeiros ardores daquele<br \/>\nsentimento, ent\u00e3o apenas existente sob a forma rudimentar de apego<br \/>\n\u00e0 terra natal, a que temos chamado nativismo. Essas lutas d\u00e3o<br \/>\nlugar a uma copiosa literatura hist\u00f3rica: O valeroso Lucideno, de Fr.<br \/>\nManoel Calado (1648), O castrioto lusitano, de Fr. Rafael de Jesus (1679),<br \/>\nas Mem\u00f3rias di\u00e1rias, de Duarte de Albuquerque (1654) e ainda<br \/>\na Jornada&#8230; para se recuperar a cidade do Salvador, do P. Bartolomeu Guerreiro<br \/>\n(1625) e menores e menos importantes escritos relativos a essas guerras. A<br \/>\nesses cumpre juntar as numerosas genealogias que posteriormente a essa \u00e9poca<br \/>\nse come\u00e7aram a escrever, umas hoje publicadas, outras ainda in\u00e9ditas,<br \/>\nprovando hist\u00f3rias e genealogias o acordar de uma consci\u00eancia<br \/>\ncoletiva nos naturais da terra e a satisfa\u00e7\u00e3o que a si mesmo<br \/>\nse queriam dar da sua valia presente e passada, e de que n\u00e3o era t\u00e3o<br \/>\nsomenos a sua pros\u00e1pia. N\u00e3o obstante todos estrangeiros, portugueses,<br \/>\nos seus autores falaram da terra e dos seus naturais com tanta estima e enc\u00f4mio<br \/>\nque lhes aumentara a consci\u00eancia que come\u00e7avam a ter de si e<br \/>\ndo seu torr\u00e3o natal, por eles defendido com boa vontade, resolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndenodo verdadeiramente admir\u00e1veis. N\u00e3o s\u00f3 admir\u00e1veis<br \/>\nmas fecundos, porque principalmente desse padecer por ela lhes viria a certeza<br \/>\nde quanto a amavam e quanto lhes ela merecia o seu amor. O nacionalismo brasileiro<br \/>\ndataria da\u00ed.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 entretanto nos poetas nomeados qualquer revela\u00e7\u00e3o<br \/>\nformal de haverem sido estimulados por essa exalta\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica.<br \/>\n\u00c9, por\u00e9m, quase inadmiss\u00edvel que n\u00e3o a tenham<br \/>\nainda inconscientemente experimentado, sentindo-se, como todos os seus patr\u00edcios,<br \/>\nmais dignos e maiores, levantados como foram os brasileiros no pr\u00f3prio<br \/>\nconceito e at\u00e9 no da metr\u00f3pole, pela galhardia com que em t\u00e3o<br \/>\napertada conjuntura se houveram. N\u00e3o deve ser inteiramente fortuita<br \/>\na coincid\u00eancia do florescimento, mofino embora, da nossa poesia na segunda<br \/>\nmetade do s\u00e9culo XVII sucedendo ao nosso esfor\u00e7o e triunfo nas<br \/>\nguerras com os flamengos. Apenas haver\u00e1 nesses poetas alguma esquiva<br \/>\nrefer\u00eancia ou alus\u00e3o a tais sucessos ainda frescos. \u00c9,<br \/>\npor\u00e9m, seguramente not\u00e1vel que as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo nacionalismo brasileiro sob a forma ainda primitiva do apego por assim<br \/>\ndizer material \u00e0 terra, da ufania das suas excel\u00eancias e belezas<br \/>\nnativas, como sob a forma grosseira da animadvers\u00e3o ao reinol, datem<br \/>\njustamente de ap\u00f3s esses acontecimentos.<\/p>\n<p>Nesse momento tamb\u00e9m a Bahia, a cidade do Salvador e a sua comarca,<br \/>\nber\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira, p\u00e1tria e domic\u00edlio<br \/>\ndesses poetas, crescera e se desenvolvera, avantajando-se a todos os respeitos<br \/>\naos demais centros de popula\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia. A crer os<br \/>\ncronistas coevos, propensos ali\u00e1s todos, pois que o hiperb\u00f3lico<br \/>\ne o pomposo estavam na fei\u00e7\u00e3o do tempo, ao exagero, era a cidade,<br \/>\ndesde o primeiro s\u00e9culo da sua funda\u00e7\u00e3o, uma povoa\u00e7\u00e3o<br \/>\nadiantada, de muita comodidade e riqueza. &#8220;A Bahia \u00e9 a cidade<br \/>\nde El-Rei e a Corte do Brasil&#8221; \u2014 escrevia o padre Fern\u00e3o<br \/>\nCardim, j\u00e1 em 1585. Tudo \u00e9 relativo. A n\u00f3s hoje a Bahia<br \/>\nse nos afigura ainda uma cidade atrasada, de escasso conforto, comparada a<br \/>\noutras mesmo do Brasil, como Rio de Janeiro e S. Paulo. Como quer que seja<br \/>\na cidade do Salvador, na sua extravag\u00e2ncia e incoer\u00eancia de todas<br \/>\nas primitivas cidades americanas, meios aldeamentos de \u00edndios, meios<br \/>\nacampamentos militares, meias povoa\u00e7\u00f5es civis, aglomera\u00e7\u00f5es<br \/>\nde choupanas, fortalezas, casas de moradia, resid\u00eancias oficiais, todas<br \/>\nmesquinhas e feias, era a sede do Governo-Geral e assento dos seus membros,<br \/>\nautoridades civis e militares, cujas fun\u00e7\u00f5es ali\u00e1s ainda<br \/>\nse confundiam. Dessas autoridades o maior n\u00famero eram fidalgos de condi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne tratamento. Era tamb\u00e9m a sede do \u00fanico bispado do pa\u00eds,<br \/>\ncom a sua s\u00e9 e o que ela implica de c\u00f4negos e mais dignidades.<br \/>\nPossu\u00eda j\u00e1 muitas igrejas, alguns conventos e um col\u00e9gio<br \/>\ndos jesu\u00edtas, cujas aulas quase todos os letrados do tempo haviam freq\u00fcentado.<br \/>\nNo seu tempo se fazia justamente ouvir a voz eloq\u00fcente e florida do padre<br \/>\nAnt\u00f4nio Vieira e a sua palavra de um t\u00e3o liter\u00e1rio sabor.<br \/>\nTinha &#8220;muitas casas sobradadas e de pedra e cal, telhadas e forradas<br \/>\ncomo as do Reino&#8221; das quais ao tempo de Gandavo, que o diz, &#8220;havia<br \/>\nruas muy cumpridas e formosas&#8221;.37 No tempo daqueles poetas teria de uns<br \/>\nmil ou mil e quinhentos moradores, e os seus arredores dois mil e quinhentos<br \/>\na tr\u00eas mil.38 Desde meio s\u00e9culo antes destes poetas, havia na<br \/>\ncidade uma boa pra\u00e7a em que se corriam touros, e nela &#8220;umas nobres<br \/>\ncasas&#8221; onde residiam os governadores. Numa outra pra\u00e7a faziam-se<br \/>\ncavalhadas, que, continuadas no s\u00e9culo XVII, Greg\u00f3rio de Matos<br \/>\ndevia de celebrar em suas s\u00e1tiras. N\u00e3o faltavam moradores ricos<br \/>\nde bens de raiz, pe\u00e7as de prata e ouro, arreios de montaria e tais<br \/>\nalfaias de casa, que muitos possu\u00edam dois a tr\u00eas mil cruzados<br \/>\nem j\u00f3ias de ouro e prata lavrada. Mais de cem deles usufru\u00edam<br \/>\nrendas de mil a cinco mil cruzados e mais, n\u00e3o faltando capitais de<br \/>\nvinte e sessenta mil. Tratavam-se grandemente. Tinham cavalos, criados e escravos.<br \/>\nVestiam-se, principalmente o mulherio, com grandeza e luxo, n\u00e3o usando<br \/>\nelas, &#8220;por n\u00e3o ser fria a terra&#8221; sen\u00e3o sedas. Mesmo<br \/>\na gente somenos acompanhava este luxo. Os pe\u00f5es usavam cal\u00e7\u00e3o<br \/>\ne gib\u00e3o de cetim e damasco e traziam as mulheres com vasquinhas e gib\u00f5es<br \/>\nda mesma fazenda. Eram bem arranjadas as casas, e nas mesas comum o servi\u00e7o<br \/>\nde prata, andando as senhoras ataviadas de j\u00f3ias de ouro.39 Fern\u00e3o<br \/>\nCardim, descrevendo as boas recep\u00e7\u00f5es feitas ao visitador jesu\u00edta<br \/>\ne seu s\u00e9quito na Bahia e arredores, n\u00e3o lhe esquece nem de mencionar<br \/>\nos grandes repastos que lhes ofereciam e as iguarias servidas, galinhas, perus,<br \/>\npatos, cabritos, leit\u00f5es, todo o g\u00eanero de pescado e mariscados<br \/>\nde toda a sorte, como lhe n\u00e3o esquece notar a limpeza e concerto do<br \/>\nservi\u00e7o, na maioria de prata, nem os ricos leitos de seda, etc.40 Quem<br \/>\nconhece as nossas cidades sertanejas de hoje em dia, ou as conheceu h\u00e1<br \/>\ntrinta anos ou mais, n\u00e3o ter\u00e1 dificuldade em imaginar o que<br \/>\nseria a Bahia dos fins do s\u00e9culo XVI e do s\u00e9culo XVII: um misto<br \/>\nincongruente de civiliza\u00e7\u00e3o e barbaria, de luxo e desconforto.<br \/>\nJ\u00e1 ent\u00e3o havia nela uma grande popula\u00e7\u00e3o negra<br \/>\ne mesti\u00e7a. Os costumes n\u00e3o eram de forma alguma austeros, antes<br \/>\nsoltos, como foram sempre os das sociedades incipientes, quando os n\u00e3o<br \/>\ncontinha uma severa disciplina moral, qual a dos puritanos da Nova Inglaterra.<br \/>\nAfora de guerrear o ind\u00edgena, que \u00e0s vezes ainda amea\u00e7ava<br \/>\na cidade ou o Rec\u00f4ncavo, ou de ir atac\u00e1-lo nos seus sert\u00f5es<br \/>\npara o descer ou reduzir, al\u00e9m da preocupa\u00e7\u00e3o de agress\u00f5es<br \/>\nposs\u00edveis de estrangeiros cobi\u00e7osos do Brasil, resumia-se a<br \/>\natividade daquelas popula\u00e7\u00f5es na cultura dos engenhos de a\u00e7\u00facar<br \/>\nvizinhos da cidade ou espalhados pelo Rec\u00f4ncavo. Mas esse trabalho como<br \/>\nqualquer outro, e tamb\u00e9m a granjearia dos alimentos naturais \u2014<br \/>\nca\u00e7a, pesca, frutos da terra, era todo exclusivamente feito por escravos,<br \/>\no que criava para a popula\u00e7\u00e3o livre, ind\u00edgena ou forasteira,<br \/>\n\u00f3cio prop\u00edcios aos v\u00edcios e mais costumes. &#8220;Os encargos<br \/>\nde consci\u00eancia s\u00e3o muitos, escrevia o padre Cardim ao seu Provincial,<br \/>\nos pecados que se cometem neles (engenhos) n\u00e3o t\u00eam conta: quase<br \/>\ntodos andam amancebados por causa das muitas ocasi\u00f5es; (e jogando de<br \/>\nvoc\u00e1bulo com o a\u00e7\u00facar, principal riqueza da terra) bem<br \/>\ncheio de pecados vai esse doce, por que tanto fazem, grande \u00e9 a paci\u00eancia<br \/>\nde Deus que tanto sofre&#8221;.41 \u00c9 tamb\u00e9m a impress\u00e3o<br \/>\nde Froger 42 como de outros viajantes estrangeiros, citados por Southey,43<br \/>\nque pela Bahia passaram aquele tempo. E a obra sat\u00edrica, como a mesma<br \/>\nvida de Greg\u00f3rio de Matos, confirma essa descompostura de costumes.<br \/>\nA essa popula\u00e7\u00e3o mistura incongruente de fidalguia e de ral\u00e9<br \/>\nportuguesa, de negros e mulatos, e \u00edndios e mamelucos, de numerosa<br \/>\nsoldadesca e n\u00e3o menos copiosa clerezia, ocupavam-na tamb\u00e9m<br \/>\nas devo\u00e7\u00f5es festivais nas sessenta e tantas igrejas da cidade<br \/>\ne seus sub\u00farbios.44<\/p>\n<p>Afora as festas de igreja, em cuja freq\u00fc\u00eancia e esplendor emulariam<br \/>\nas diversas religi\u00f5es, missas solenes, prociss\u00f5es, ladainhas,<br \/>\nnovenas, vias-sacras e outras da bela e rica liturgia cat\u00f3lica, espet\u00e1culos<br \/>\ndiletos da gente ib\u00e9rica, tinha os moradores da Bahia para diverti-los<br \/>\ntouros, n\u00e3o menos dela prezados, as cavalhadas, as festividades por<br \/>\nmotivos de j\u00fabilos nacionais da metr\u00f3pole, representa\u00e7\u00f5es<br \/>\nteatrais dos col\u00e9gios dos jesu\u00edtas ou acompanhando essas festividades,<br \/>\nos abadessados, obrigados aos tradicionais outeiros po\u00e9ticos da pen\u00ednsula.<br \/>\nNa cidade e nos seus arredores era comum fazerem-se com\u00e9dias. A essas<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00f5es consagrou Greg\u00f3rio de Matos mais de um<br \/>\ndos seus poemas.45 A escravatura africana muito numerosa, com a facilidade<br \/>\ne despejo de costumes produzidos pela escravid\u00e3o, a soltura da vida<br \/>\ncolonial devia dar a esses divertimentos, a que cumpre juntar os batuques,<br \/>\ncandombl\u00e9s, cateret\u00eas e outras importa\u00e7\u00f5es d\u2019\u00c1frica,<br \/>\nj\u00e1 aqui mesti\u00e7adas com quejandas de Portugal e do pa\u00eds,<br \/>\num singular pico de talvez maior licen\u00e7a que a da sociedade portuguesa<br \/>\nda \u00e9poca.<\/p>\n<p>Os moradores mais abonados mandavam os filhos estudar a Coimbra, depois de<br \/>\nos haverem feito cursar as aulas preparat\u00f3rias locais, mormente as<br \/>\ndos jesu\u00edtas, que eram as mais recomendadas e freq\u00fcentadas. Al\u00e9m<br \/>\ndas mat\u00e9rias de religi\u00e3o e teologia, estudavam-se nessas aulas<br \/>\no latim e sua literatura e conjuntamente a hist\u00f3ria e geografia antigas<br \/>\ne a mitologia. Nelas explicou e comentou S\u00eaneca, est\u00e1-se a ver<br \/>\ncom que abuso de sutilezas e desmancho de trocadilhos, o padre Ant\u00f4nio<br \/>\nVieira. Os jesu\u00edtas mantinham em seu col\u00e9gio uma livraria, ou<br \/>\nbiblioteca como hoje chamamos, em que certamente com livros de religi\u00e3o<br \/>\ne teologia se achariam os poetas antigos e os portugueses e espanh\u00f3is<br \/>\nde mais nomeada e estima\u00e7\u00e3o. Por cita\u00e7\u00f5es de Botelho<br \/>\nde Oliveira, um dos poetas maiores do grupo baiano, verifica-se que eram a\u00ed<br \/>\nconhecidos entre os letrados, Tasso, Marini, Gongora, Lope de Vega, Cam\u00f5es,<br \/>\nJorge de Montmor, Gabriel Pereira de Castro. E o seriam com certeza ainda<br \/>\noutros, famosos naquele tempo. A educa\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica,<br \/>\nquase a \u00fanica dos nossos primeiros poetas e letrados, \u00e9 essencialmente<br \/>\nformal\u00edstica, apenas vistosa, de mostra e aparato, parecendo n\u00e3o<br \/>\napontar sen\u00e3o a ornamentar a mem\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 porventura<br \/>\ntemer\u00e1rio atribuir-lhe a fei\u00e7\u00e3o geral, abundante destes<br \/>\nestigmas, do s\u00e9culo da decad\u00eancia liter\u00e1ria portuguesa,<br \/>\nj\u00e1 bem estreada, e o car\u00e1ter incolor, e dessaborido como um<br \/>\ntema de escolar, da primeira poesia brasileira.<\/p>\n<p>Nesta cidade e sociedade, simultaneamente rudimentar e gastada, nasceram,<br \/>\ncriaram-se, viveram e produziram no s\u00e9culo XVIII os poetas que se convencionou<br \/>\nreunir sob o voc\u00e1bulo de grupo baiano. Al\u00e9m de os juntar o acidente<br \/>\nde existirem no mesmo lugar e momento, associa-os a comunh\u00e3o na mesma<br \/>\npo\u00e9tica portuguesa da \u00e9poca. S\u00e3o eles, por ordem de nascimento:<br \/>\nBernardo Vieira Ravasco (1617-1697), irm\u00e3o do padre Ant\u00f4nio Vieira;<br \/>\nFrei Eus\u00e9bio de Matos (1629-1692); Domingos Barbosa (1632-1685); Gon\u00e7alo<br \/>\nSoares da Fran\u00e7a (1632-1724?); Greg\u00f3rio de Matos, irm\u00e3o<br \/>\nde Eus\u00e9bio (1633-1696); Manoel Botelho de Oliveira (1636-1711); Jos\u00e9<br \/>\nBorges de Barros (1657-1719); Gon\u00e7alo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque,<br \/>\nprimo do outro Ravasco (1659-1725) e Jo\u00e3o de Brito Lima (1677?). Com<br \/>\na s\u00f3 exce\u00e7\u00e3o de Botelho de Oliveira, nenhum deixou livro<br \/>\nimpresso, sendo que dos outros, excetuado Greg\u00f3rio de Matos, de quem<br \/>\nexiste manuscrita parte consider\u00e1vel da sua produ\u00e7\u00e3o,<br \/>\napenas nos restam amostras, resguardadas em antologias e repert\u00f3rios<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII. Dessas amostras n\u00e3o podemos induzir sen\u00e3o<br \/>\no med\u00edocre engenho desses versejadores. Nenhuma autoriza a sentir a<br \/>\nperda do resto. Apenas se haveria perdido com ele mais algum sinal, como o<br \/>\nda Ilha de Mar\u00e9, de Botelho de Oliveira, da impress\u00e3o da terra<br \/>\ne dos seus \u00faltimos sucessos nesses poetas, e, portanto, a confirma\u00e7\u00e3o<br \/>\ninteressante do despontar do nosso nacionalismo.<\/p>\n<p>Cento e quatro anos depois da Prosopop\u00e9ia de Bento Teixeira, sa\u00eda<br \/>\n\u00e0 luz em Lisboa outro livro de brasileiro, uma cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nde poemas l\u00edricos, com este t\u00edtulo, muito do tempo: M\u00fasica<br \/>\ndo Parnaso em quatro coros de rimas portuguesas, castelhanas, italianas e<br \/>\nlatinas com seu descante c\u00f4mico reduzido em duas com\u00e9dias, oferecida<br \/>\nao Excelent\u00edssimo Senhor Dom Nuno \u00c1lvares Pereira de Melo, Duque<br \/>\ndo Cadaval, etc., e entoada por Manuel Botelho de Oliveira, Fidalgo da Casa<br \/>\nde Sua Majestade. Na oficina de Miguel Menescal, Impressor do Santo Of\u00edcio,<br \/>\nAno de 1705, in 4\u00ba, 240 p\u00e1gs.<\/p>\n<p>Manoel Botelho de Oliveira \u00e9 o \u00fanico desses poetas cuja obra<br \/>\nfoi publicada ainda no seu tempo. Da\u00ed lhe vem a relativa, e ainda assim<br \/>\nmuito apoucada, notoriedade. H\u00e1 nessa obra, ali\u00e1s num s\u00f3<br \/>\ndos seus poemas, o primeiro sintoma de emo\u00e7\u00e3o est\u00e9tica<br \/>\nproduzida pela terra em um dos seus naturais, e literariamente exprimida.<br \/>\nE a express\u00e3o n\u00e3o \u00e9, sob este aspecto, de todo somemos.<br \/>\nEntre os poemas do tempo \u00e9 acaso o \u00fanico que ainda leiamos com<br \/>\naprazimento.<\/p>\n<p>Segundo a mais antiga e \u00fanica not\u00edcia que do poeta existe,<br \/>\nBotelho de Oliveira &#8220;nasceu na cidade da Bahia, capital da Am\u00e9rica<br \/>\nportuguesa, no ano de 1636, filho de Ant\u00f4nio \u00c1lvares Botelho,<br \/>\ncapit\u00e3o de infantaria paga, fidalgo da Casa de Sua Majestade. Estudou<br \/>\nna Universidade de Coimbra jurisprud\u00eancia ces\u00e1rea (direito romano),<br \/>\nexercitando na sua p\u00e1tria a advocacia das causas forenses por muitos<br \/>\nanos com grande cr\u00e9dito da sua literatura. Foi vereador do Senado da<br \/>\nsua p\u00e1tria e capit\u00e3o-mor de uma das comarcas dela. Teve grande<br \/>\ninstru\u00e7\u00e3o da l\u00edngua latina, castelhana, italiana, como<br \/>\ntamb\u00e9m da poesia, metrificando com suavidade e cad\u00eancia. Faleceu<br \/>\na 5 de janeiro de 1711&#8221;.46<\/p>\n<p>O livro de Botelho de Oliveira, a primeira cole\u00e7\u00e3o de poesias<br \/>\npublicada por brasileiro, cont\u00e9m, afora os poemas em portugu\u00eas,<br \/>\nespanhol, latim e italiano (os quatro coros de rimas a que alude o t\u00edtulo),<br \/>\nduas com\u00e9dias em castelhano: Hay amigo para amigo e amor\u2014enga\u00f1os<br \/>\ny zelos, das quais a primeira parece havia j\u00e1 sido impressa antes de<br \/>\nsair novamente no volume M\u00fasica do Parnaso.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 neste principal documento dos come\u00e7os da nossa<br \/>\npoesia, ou melhor, da poesia portuguesa no Brasil, distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nnot\u00e1vel, \u00e9 pobre de sentimento e inspira\u00e7\u00e3o. A<br \/>\nl\u00edngua, como a metrifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 correta, ainda<br \/>\nboa, se bem n\u00e3o escapem ambas aos v\u00edcios e defeitos do tempo.<br \/>\nO chamado cat\u00e1logo da Academia de Lisboa inclui a M\u00fasica do<br \/>\nParnaso nos livros que se haviam de ler para a organiza\u00e7\u00e3o do<br \/>\ndicion\u00e1rio da l\u00edngua, projetado pela mesma Academia. Os poemas,<br \/>\nsonetos, can\u00e7\u00f5es madrigais e quejandas composi\u00e7\u00f5es<br \/>\nnas f\u00f3rmulas da po\u00e9tica em moda, ou s\u00e3o laudat\u00f3rios,<br \/>\nendere\u00e7ados a diversas personagens, geralmente pr\u00f3ceres da rep\u00fablica,<br \/>\npor v\u00e1rios motivos, nenhum bastante comovente para inspirar um poeta,<br \/>\nou s\u00e3o versos de amor, mas do amor obrigat\u00f3rio dos poetas, versos<br \/>\nfrios, sem paix\u00e3o, a certa Anarda, a amante proverbial que lhos inspira.<br \/>\nTamb\u00e9m os h\u00e1 simplesmente galantes, endere\u00e7ados a outras<br \/>\ndamas ou a conta de outras: Pintura dos olhos de uma dama, pintura de uma<br \/>\ndama namorada de um letrado e quejandos&#8230; O nosso cronologicamente primeiro<br \/>\nl\u00edrico (j\u00e1 que Bento Teixeira presume-se de \u00e9pico) n\u00e3o<br \/>\nfoi, pois, sen\u00e3o um correto e vern\u00e1culo versejador como os teve<br \/>\na nossa l\u00edngua \u00e0s dezenas na mesma \u00e9poca e depois. Esta<br \/>\nsua obra po\u00e9tica apenas lhe daria direito a uma men\u00e7\u00e3o<br \/>\nna hist\u00f3ria da nossa literatura, como um nome desvalioso e desinteressante<br \/>\n\u00e0 sua evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o fora o acidente feliz do seu<br \/>\npoema A Ilha de Mar\u00e9, que unicamente o salva de um esquecimento completo<br \/>\ne merecido. Ao inconsciente est\u00edmulo do nativismo, gerado dos acontecimentos<br \/>\nno meio dos quais nasceu e se fez homem, sentiu-se um dia Botelho de Oliveira<br \/>\nsinceramente tocado pelas belezas e dons do seu torr\u00e3o natal, e sob<br \/>\nesta como\u00e7\u00e3o cantou-o ingenuamente, caso ent\u00e3o extraordin\u00e1rio,<br \/>\ne n\u00e3o sem lindeza. Aquela insignificante ilha da ba\u00eda de Todos<br \/>\nos Santos, provavelmente o seu ber\u00e7o, n\u00e3o podia conter ela s\u00f3<br \/>\ntanta cousa como ele lhe p\u00f5e no poema em que a celebra, tantas e t\u00e3o<br \/>\nboas prendas. \u00c9 a sua Bahia, \u00e9 o mesmo Brasil, que o poeta embevecido<br \/>\nresume na sua ilha natal e que, cantando-a, canta com manifesta satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne ufania:<\/p>\n<p>Esta ilha de Mar\u00e9, ou de alegria<\/p>\n<p>Que \u00e9 termo da Bahia<\/p>\n<p>Tem quase tudo quanto o Brasil todo,<\/p>\n<p>Que de todo o Brasil \u00e9 breve apodo.<\/p>\n<p>Dele embevecido faz j\u00e1, o que \u00e9 a mesma marca do nativismo<br \/>\nbrasileiro, ing\u00eanuas compara\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis<br \/>\na Portugal e \u00e0 Europa, dando a primazia \u00e0 sua terra:<\/p>\n<p>Tenho explicado as fruitas e legumes<\/p>\n<p>Que d\u00e3o a Portugal muitos ci\u00fames;<\/p>\n<p>Tenho recopilado<\/p>\n<p>O que o Brasil cont\u00e9m para invejado<\/p>\n<p>E para preferir a toda a terra.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>Este poema, que pode ainda hoje ser lido com aprazimento, gra\u00e7as ao<br \/>\nseu pitoresco, \u00e0 sua cor local e simplicidade, inicia na poesia brasileira<br \/>\no seu tocante sestro de cantar a terra natal. Meio s\u00e9culo depois, Santa<br \/>\nRita Dur\u00e3o pouco mais far\u00e1 que repetir e desenvolve com mais<br \/>\nlargo estro e mais advertido sentimento, a inspira\u00e7\u00e3o da Ilha<br \/>\nde Mar\u00e9, quando no canto VII do Caramuru celebra as riquezas naturais<br \/>\ne produ\u00e7\u00f5es do Brasil.<\/p>\n<p>Esta emo\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 mais a simples impress\u00e3o<br \/>\nda terra do versejador da Prosopop\u00e9ia, Botelho de Oliveira foi o primeiro<br \/>\na exprimi-la. Outro poeta baiano, o An\u00f4nimo Itaparicano, a repetiria<br \/>\nno s\u00e9culo XVIII, e ela nunca mais desapareceria da poesia brasileira.<br \/>\nAntes permaneceria nesta como uma das suas emo\u00e7\u00f5es mais peculiares<br \/>\ne um dos seus mais comuns motivos de inspira\u00e7\u00e3o, concorrendo<br \/>\npara dar-lhe as fei\u00e7\u00f5es que pouco a foram distinguindo da portuguesa.<br \/>\nJustamente no momento em que, com o Romantismo, a separa\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre as duas literaturas se estabelece e acentua, o maior poeta brasileiro,<br \/>\nGon\u00e7alves Dias, lhe achar\u00e1 a forma definitiva e sublime na sua<br \/>\ningenuidade, na Can\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio. E apenas haver\u00e1<br \/>\npoeta no nosso Romantismo em que se n\u00e3o ou\u00e7a essa nota amor\u00e1vel<br \/>\nda terra p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Botelho de Oliveira \u00e9, com a sua Ilha de Mar\u00e9, o mais frisante<br \/>\nexemplo, em nossa primitiva literatura, ao conceito da g\u00eanese do sentimento<br \/>\nbrasileiro ap\u00f3s os sucessos da primeira parte do s\u00e9culo XVII,<br \/>\nos acrescimentos geogr\u00e1ficos e econ\u00f4micos da col\u00f4nia e<br \/>\nas suas lutas vitoriosas contra<\/p>\n<p>Holanda p\u00e9rfida e nociva<\/p>\n<p>como ele disse.<\/p>\n<p>O que nos legaram os outros, excetuando sempre Greg\u00f3rio de Matos,<br \/>\n\u00e9 muito pouco para lhe podermos avaliar com seguran\u00e7a o m\u00e9rito.<br \/>\nMas sobre insignificante tem tudo o mesmo ar de fam\u00edlia da pior poesia<br \/>\ncontempor\u00e2nea.<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo IV<\/h4>\n<p><strong>GREG\u00d3RIO DE MATOS<\/strong><\/p>\n<p>DO GRUPO BAIANO o mais conhecido, o mais interessante e curioso e ainda,<br \/>\nem suma, o mais distinto, \u00e9 Greg\u00f3rio de Matos. Se, como parece,<br \/>\ns\u00e3o realmente suas as numerosas composi\u00e7\u00f5es m\u00e9tricas<br \/>\nque, em c\u00f3pias do s\u00e9culo XVIII, chegaram at\u00e9 n\u00f3s,<br \/>\nfoi ele tamb\u00e9m o nosso mais copioso poeta dos tempos coloniais. H\u00e1<br \/>\nv\u00e1rios volumes manuscritos de obras suas. S\u00e3o umas s\u00e9rias,<br \/>\noutras sat\u00edricas e burlescas, a m\u00e1xima parte ali\u00e1s, mais<br \/>\nburlescas do que sat\u00edricas. S\u00e3o estas n\u00e3o s\u00f3 as<br \/>\nmais por\u00e9m as \u00fanicas conhecidas, tanto dos historiadores da<br \/>\nnossa literatura como do vulgo dos letrados.<\/p>\n<p>Da por\u00e7\u00e3o s\u00e9ria da obra de Greg\u00f3rio de Matos<br \/>\nn\u00e3o julgaram aqueles dever ocupar-se. Deste descuido resultou uma no\u00e7\u00e3o<br \/>\nimperfeita e uma id\u00e9ia errada do poeta. Fizeram dele um her\u00f3i<br \/>\nliter\u00e1rio, um precursor do nosso nacionalismo, um antiescravagista,<br \/>\num g\u00eanio po\u00e9tico, um rep\u00fablico austero, qui\u00e7\u00e1<br \/>\num patriota revoltado contra a mis\u00e9ria moral da col\u00f4nia. Houvessem<br \/>\nprocurado conhecer a parte n\u00e3o sat\u00edrica de sua obra, ou sequer<br \/>\nlido atentamente a parte sat\u00edrica publicada,47 \u00fanica que conheceram,<br \/>\nhaveriam escusado cair em tantos erros como ju\u00edzos.<\/p>\n<p>47Obras po\u00e9ticas de Greg\u00f3rio de Matos Guerra&#8230; Tomo I (\u00fanico<br \/>\npublicado). Rio de Janeiro. Na Tipografia Nacional, 1882. A publica\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoi feita por Alfredo do Vale Cabral, da Biblioteca Nacional, editor em quem<br \/>\nera muito maior o amor das letras nacionais e do trabalho bibliogr\u00e1fico<br \/>\ndo que a capacidade cr\u00edtica. Vale Cabral, ali\u00e1s, publicou apenas<br \/>\numa pequena parte da obra sat\u00edrica de Greg\u00f3rio de Matos.<\/p>\n<p>\u00danico entre os poetas e escritores coloniais, coube a Greg\u00f3rio<br \/>\nde Matos a fortuna de ter um bi\u00f3grafo ainda, quase seu contempor\u00e2neo.<br \/>\nEsta sua biografia48 escrita por volta do meado do s\u00e9culo XVIII, mais<br \/>\nde quarenta anos depois dele morto, e o fato das numerosas c\u00f3pias dos<br \/>\nseus poemas provam a fama que havia adquirido e a estima em que era tido.<br \/>\nUma e outra n\u00e3o deixaram de atuar nos que modernamente o estudaram,<br \/>\nali\u00e1s com preconceitos nacionalistas j\u00e1 de todo desapropositados.<br \/>\n\u00c9 tamb\u00e9m ele acaso o \u00fanico dos nossos poetas de quem,<br \/>\nantes dos mineiros, encontramos lembran\u00e7a em autores portugueses. O<br \/>\nbispo do Par\u00e1, D. Fr. Jo\u00e3o de S. Jos\u00e9, nas suas Mem\u00f3rias,<br \/>\nde meados do s\u00e9culo XVIII, consagra-lhe um par\u00e1grafo.49<\/p>\n<p>O seu parcial\u00edssimo bi\u00f3grafo noticiou, e todos o t\u00eam<br \/>\nrepetido, que o padre Ant\u00f4nio Vieira dizia que &#8220;maior fruto faziam<br \/>\nas s\u00e1tiras de Matos que os serm\u00f5es de Vieira&#8221;. Pode ser,<br \/>\nmas em toda a obra de Vieira referente ao Brasil se n\u00e3o encontra a<br \/>\nmais vaga alus\u00e3o ao poeta, e n\u00e3o \u00e9 de crer o asserto<br \/>\nna boca do soberbo jesu\u00edta.<\/p>\n<p>Filho de um escudeiro fidalgo emigrado da prov\u00edncia portuguesa e propriet\u00e1rio<br \/>\nna Bahia de uma senhora brasileira de boa gera\u00e7\u00e3o e afazendada,<br \/>\nGreg\u00f3rio de Matos cedo foi mandado estudar a Portugal. Ali se doutorou<br \/>\nem leis em Coimbra,50 onde se lhe revelou o engenho po\u00e9tico e a \u00edndole<br \/>\nsat\u00edrica. Na indisciplina geral da sociedade portuguesa, mais do que<br \/>\nestreada naqueles princ\u00edpios do s\u00e9culo XVII, teria a Universidade,<br \/>\nisto \u00e9, a corpora\u00e7\u00e3o de seus alunos, como sempre teve,<br \/>\nparte consp\u00edcua. N\u00e3o se precisa de grande esfor\u00e7o de<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o para ver o nosso brasileiro, naturalmente com boa<br \/>\nmesada, reputa\u00e7\u00e3o de rico, desenvolto, talentoso, chistoso e<br \/>\ntr\u00eafego, representando saliente papel nas famosas tro\u00e7as e tropelias<br \/>\ndaquela rapaziada irrequieta e bulhenta. &#8220;Anda aqui, escrevia desde Coimbra<br \/>\na um amigo da Corte um seu condisc\u00edpulo, Belchior da Cunha Brochado,<br \/>\nao depois desembargador na Bahia, anda aqui um estudante brasileiro t\u00e3o<br \/>\nrefinado na s\u00e1tira que com suas imagens e seus tropos parece que baila<br \/>\nMomo \u00e0s can\u00e7onetas de Apolo.&#8221; Imagina-se o furor que ele<br \/>\nfaria em Coimbra.<\/p>\n<p>Dali j\u00e1 conhecido e estimado pelo engenho po\u00e9tico e g\u00eanio<br \/>\nfolgaz\u00e3o, parece saiu tamb\u00e9m com bons cr\u00e9ditos de leguleio,<br \/>\nconfirmados pouco depois na pr\u00e1tica de advocacia com um bom letrado,<br \/>\ncom quem trabalhou em Lisboa. A metr\u00f3pole foi-lhe, como a tantos outros<br \/>\nbrasileiros, caro\u00e1vel e prop\u00edcia. Teve em Lisboa os lugares<br \/>\nde juiz do crime e de juiz de \u00f3rf\u00e3os. Como tal uma de suas senten\u00e7as<br \/>\nfigura nos Coment\u00e1rios de Pegas \u00e0s ordena\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Reino. Cresceu em cr\u00e9ditos e considera\u00e7\u00f5es de jurista<br \/>\ne jurisperito, com bons aug\u00farios de aumentos na magistratura, quando<br \/>\nde s\u00fabito se viu baldado nas suas pretens\u00f5es a maiores cargos<br \/>\ne, ao que parece, malquisto da Corte ou do Governo. O seu bi\u00f3grafo,<br \/>\no licenciado Pereira Botelho, cujas s\u00e3o estas not\u00edcias, duvidosas<br \/>\npor serem de uma \u00fanica testemunha, que n\u00e3o era sequer presencial,<br \/>\nn\u00e3o diz claramente o motivo deste desfavor.<\/p>\n<p>Das suas retorcidas explica\u00e7\u00f5es, no mais sesquipedal estilo<br \/>\ndo tempo, pode-se por\u00e9m induzir sem risco de erro que \u00e0 sua<br \/>\nveia sat\u00edrica, t\u00e3o bem iniciada em Coimbra, deveu Greg\u00f3rio<br \/>\nde Matos a sua desgra\u00e7a. Deu-lhe provavelmente curso e criou-se inimigos<br \/>\nentre os poderosos. Mas ainda nesta conjuntura n\u00e3o lhe foi a fortuna<br \/>\nde todo adversa, pois lhe deparou um favorecedor no primeiro arcebispo nomeado<br \/>\npara a Bahia. Sem obst\u00e1culo de n\u00e3o ter Greg\u00f3rio de Matos<br \/>\nmais que as ordens menores, o nomeou tesoureiro-mor da sua catedral, acrescentando-lhe<br \/>\no cargo de vig\u00e1rio-geral. De Lisboa veio Matos amatalotado com um patr\u00edcio,<br \/>\nque recolhia \u00e0 terra como desembargador da Rela\u00e7\u00e3o. Se<br \/>\ns\u00e3o exatos os dados do seu bi\u00f3grafo, teria Greg\u00f3rio de<br \/>\nMatos, quando regressou \u00e0 terra natal para nela viver, 58 anos feitos.<br \/>\nEra j\u00e1 um pouco tarde para se lhe afazer e afei\u00e7oar. N\u00e3o<br \/>\nseria uma natureza afetiva, como n\u00e3o o s\u00e3o em geral os sat\u00edricos.<br \/>\nMostra-o se ter deixado ficar em Portugal, donde s\u00f3 saiu obrigado das<br \/>\ncircunst\u00e2ncias. Voltando do desterro de Angola, deixou-se tamb\u00e9m,<br \/>\npor puro esp\u00edrito de bo\u00eamia, ficar em Pernambuco, sem mais se<br \/>\nlhe dar da fam\u00edlia que na Bahia fizera e abandonara. \u00c9 certo<br \/>\nque entre os seus poemas alguns h\u00e1 \u00e0 sua futura mulher e \u00e0<br \/>\nmorte de seus filhos. S\u00e3o por\u00e9m os versos de praxe dos poetas<br \/>\nenamorados. Nos feitos aos filhos a ret\u00f3rica do tempo escondeu o sentimento<br \/>\nreal que porventura os inspirou.<\/p>\n<p>Pelo seu g\u00eanio mal\u00e9dico e sat\u00edrico, pela irrita\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom que deixara Portugal, pelo desapego da terra, onde se encontrava deslocado<br \/>\ne contrafeito, e a qual n\u00e3o cuidou de afei\u00e7oar-se, achou-se<br \/>\nnaturalmente mal e contrariado nesta, e em oposi\u00e7\u00e3o com ela.<br \/>\nMais de trinta anos de Portugal lhe tornaram insuport\u00e1vel a mesquinha<br \/>\nvida da sua mesquinha Bahia.<\/p>\n<p>Muito vaidoso, como soem geralmente ser poetas e literatos, era-o extremamente<br \/>\ndo seu t\u00edtulo de doutor, do seu saber jur\u00eddico, da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque tivera no Reino, e at\u00e9 de ser branco. Sentia-se, pois, afrontado<br \/>\ncom a indiferen\u00e7a dos seus patr\u00edcios e vizinhos, insens\u00edveis<br \/>\na estas suas superioridades. Acham-se-lhe fartos documentos deste seu estado<br \/>\nd\u2019alma, em todo caso revelador de pouco esp\u00edrito, em v\u00e1rios<br \/>\npassos de sua obra. Na Ep\u00edstola ao Conde do Prado, filho do governador-geral<br \/>\nMarqu\u00eas das Minas, claramente o descobre:<\/p>\n<p>Era eu em Portugal<\/p>\n<p>S\u00e1bio, discreto, entendido,<\/p>\n<p>Poeta melhor que alguns<\/p>\n<p>Douto como os meus vizinhos.<\/p>\n<p>E chegando a esta terra<\/p>\n<p>Logo n\u00e3o fui nada disto<\/p>\n<p>Porque um direito entre tortos<\/p>\n<p>Parece que anda torcido.<\/p>\n<p>Desvanece-se grandemente do seu t\u00edtulo de doutor e de vez em quando<br \/>\no alardeia. No Benze-se o poeta de v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es que observava<br \/>\nna sua p\u00e1tria, ralha:<\/p>\n<p>Que pregue um douto serm\u00e3o<\/p>\n<p>Um alarve, um asneir\u00e3o;<\/p>\n<p>E que esgrima em demasia<\/p>\n<p>Quem nunca l\u00e1 da Sofia<\/p>\n<p>Soube ler um argumento<\/p>\n<p>Anjo bento!<\/p>\n<p>A Sofia \u00e9 a Universidade de Coimbra, alcunha que lhe veio da rua desse<br \/>\nnome ficava. Nas Verdades lastima-se:<\/p>\n<p>Os doutos est\u00e3o nos cantos<\/p>\n<p>Os ignorantes na pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Nos Milagres do Brasil exprobra:<\/p>\n<p>Um branco muito encolhido,<\/p>\n<p>Um mulato muito ousado,<\/p>\n<p>Um branco todo coitado,<\/p>\n<p>Um canaz todo atrevido.<\/p>\n<p>O saber muito abatido<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia e ignorante<\/p>\n<p>Muito ufano e mui farfante<\/p>\n<p>Sem pena ou contradi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Milagres do Brasil s\u00e3o.<\/p>\n<p>Mostra Greg\u00f3rio de Matos particular ojeriza a negros e mulatos, aos<br \/>\nquais por via de regra chama de c\u00e3es. Tinha consci\u00eancia e orgulho<br \/>\nde sua pros\u00e1pia e sangue estreme. Lastima, \u00e9 certo, os negros<br \/>\ne teve uma vez express\u00f5es de comisera\u00e7\u00e3o pelos escravos<br \/>\n(pelo que j\u00e1 o deu a cr\u00edtica ind\u00edgena por abolicionista),<br \/>\nmas a conta que de uns e outros fazia era a do reinol do mazombo, isto \u00e9,<br \/>\ndo branco filho de portugu\u00eas como ele. Nos citados Milagres do Brasil<br \/>\nsobram exemplos desta sua ojeriza. E na tamb\u00e9m citada Ep\u00edstola<br \/>\nao Conde do Prado:<\/p>\n<p>Pois eu por limpo e por branco<\/p>\n<p>Fui na Bahia mofino<\/p>\n<p>N\u00e3o suporta o menospre\u00e7o da gente da Bahia \u00e0 sua superioridade,<br \/>\ne n\u00e3o lhe sofre a paci\u00eancia a este jurista que a sua qualidade<br \/>\nde branco e outras partes lhe n\u00e3o d\u00eaem insen\u00e7\u00f5es<br \/>\ne regalias:<\/p>\n<p>N\u00e3o sei para que \u00e9 nascer<\/p>\n<p>Neste Brasil empestado<\/p>\n<p>Um homem branco e honrado<\/p>\n<p>Sem outra ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Terra t\u00e3o grosseira e crassa<\/p>\n<p>Que a ningu\u00e9m se tem respeito<\/p>\n<p>Salvo se mostra algum jeito<\/p>\n<p>De ser mulato!<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Os brancos aqui n\u00e3o podem<\/p>\n<p>Mais que sofrer e calar<\/p>\n<p>E se um negro v\u00e3o matar<\/p>\n<p>Chovem despesas.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe valem as defesas.<\/p>\n<p>Do atrevimento de um c\u00e3o,<\/p>\n<p>Porque acorda a Rela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Sempre faminta.<\/p>\n<p>E, mais, ainda nos Citados Milagres do Brasil:<\/p>\n<p>Que vos direi do mulato,<\/p>\n<p>Que vos n\u00e3o tenha j\u00e1 dito,<\/p>\n<p>Se ser\u00e1 amanh\u00e3 delito<\/p>\n<p>Falar dele sem recato?<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Imaginais que o insensato<\/p>\n<p>Do canzarr\u00e3o fala tanto<\/p>\n<p>Porque sabe tanto ou quanto?<\/p>\n<p>N\u00e3o, se n\u00e3o por ser mulato;<\/p>\n<p>Ter sangue de carrapato,<\/p>\n<p>Seu estoraque de congo<\/p>\n<p>Cheirar-lhe a roupa a mondongo.51<\/p>\n<p>Ao rev\u00e9s era extremamente caro\u00e1vel de mulatas e crioulas. O<br \/>\ns\u00e1tiro que nele descobriu a cr\u00edtica imaginosa de Araripe J\u00fanior,<br \/>\nprodigalizou-se em versos amant\u00e9ticos, babosos, de velho femeeiro,<br \/>\na esse tipo feminino, de que a Bahia teve sempre a primazia. Mas ainda nestes<br \/>\nrequebros n\u00e3o \u00e9 raro revelar-se-lhe, na ironia com que insensivelmente<br \/>\ndescambam em s\u00e1tira, aquela quiz\u00edlia de ra\u00e7a. Os seus<br \/>\napetites grosseiros eram, por\u00e9m, mais fortes que esta sua idiossincrasia,<br \/>\ne ele \u00e9 sobretudo o cantor da mulata.<\/p>\n<p>Na Bahia, o seu primeiro ato inconsiderado foi andar a secular, apenas revestindo<br \/>\nas vestes sacerdotais, a que o obrigavam as suas fun\u00e7\u00f5es, quando<br \/>\nas exercia, o que foi motivo de esc\u00e2ndalo. Se como sujeito douto, que<br \/>\nse vira bem aceito no Reino, onde ocupara boa posi\u00e7\u00e3o, se encontrou<br \/>\nmal aqui, por outro lado a sua \u00edndole desabusada, solta devia achar<br \/>\na terra \u00e0 sua fei\u00e7\u00e3o. Que importa que ele tenha deblaterado<br \/>\ncontra ela e contra os seus v\u00edcios e defeitos quando da sua mesma obra<br \/>\nverificamos, de modo a n\u00e3o deixar d\u00favida, que se comp\u00f4s<br \/>\nperfeitamente com tudo aquilo de que ralha e viveu deleitosamente a mesma<br \/>\nvida que t\u00e3o crua e insistentemente reprova aos seus concidad\u00e3os?<br \/>\nO capad\u00f3cio que era de \u00edndole e condi\u00e7\u00e3o, achou<br \/>\nna sua terra onde expandir os seus instintos nativos se n\u00e3o at\u00e1vicos,<br \/>\ninflu\u00eddos de mais a mais pelo meio. Greg\u00f3rio de Matos \u00e9<br \/>\na mais perfeita e mais ilustre express\u00e3o desse tipo essencialmente<br \/>\nnacional, do qual foi e continua a ser a Bahia a fecunda progenitora, o capad\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u00c9 ele o seu mais eminente prot\u00f3tipo, como \u00e9 tamb\u00e9m<br \/>\no primeiro bo\u00eamio da nossa literatura, com a vantagem sobre os aqui<br \/>\nprocriados pelo romantismo de o ser de nascen\u00e7a e originalmente, e<br \/>\nn\u00e3o de macaquea\u00e7\u00e3o de Paris. Porque nele se completasse<br \/>\ncabalmente o tipo do capad\u00f3cio, era tamb\u00e9m insigne cantador<br \/>\nde modinhas, tocador de viola, um solfista, como ent\u00e3o se chamava.<br \/>\nAo \u00faltimo remate da sua caracteriza\u00e7\u00e3o, s\u00f3 lhe<br \/>\nfaltou ser mesti\u00e7o, se com efeito n\u00e3o era, o que quase custa<br \/>\na crer. Mas se a indol\u00eancia, o desleixo, a inc\u00faria, certas qualidades<br \/>\nbrilhantes mas superficiais de esp\u00edrito, a debilidade de car\u00e1ter,<br \/>\na lasc\u00edvia exuberante, s\u00e3o os sinais mais comuns e aparentes<br \/>\ndo mesti\u00e7o, ele moralmente o era, apesar da sua presun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde branco puro, da sua vaidade de douto, dos seus muitos anos de Portugal<br \/>\ne da educa\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<p>Quis, talvez, conciliar duas cousas incompat\u00edveis, e de o n\u00e3o<br \/>\nter, por imposs\u00edvel, conseguido, resultou o seu profundo desgosto da<br \/>\nterra, manifestado com uma reitera\u00e7\u00e3o e variedade de formas<br \/>\nque lhe est\u00e3o revendo a sinceridade fundamental. As duas cousas que<br \/>\nquis acordar eram a considera\u00e7\u00e3o p\u00fablica pelos seus talentos,<br \/>\nletras e gradua\u00e7\u00e3o social com a vida dissoluta que, a despeito<br \/>\ndos p\u00e9ssimos costumes locais, seria ainda assim escandalosa, segundo<br \/>\nressalta das anedotas da sua vida e o deixa de manifesto a sua obra. Como<br \/>\nn\u00e3o o conseguisse, e por hora da moralidade humana que jamais so\u00e7obra<br \/>\ntotalmente n\u00e3o o podia alcan\u00e7ar, rebelou-se, fazendo-se ao mesmo<br \/>\ntempo o flagelo e o divertimento dos seus concidad\u00e3os, o &#8220;boca<br \/>\ndo inferno&#8221;, como \u00e9 de tradi\u00e7\u00e3o o alcunhavam. N\u00e3o<br \/>\nse limitava a versejar por sua conta, se n\u00e3o que fazia versos para<br \/>\noutros. Como fosse de fato quem sat\u00edricos e mal\u00e9dicos mais e<br \/>\nmelhor os fazia, atribu\u00edam-lhe quantos neste g\u00eanero apareciam,<br \/>\nde autoria desconhecida. N\u00e3o \u00e9, pois, improv\u00e1vel que<br \/>\ndos existentes com o seu nome, os haja que n\u00e3o sejam seus. S\u00f3<br \/>\nse empresta aos ricos. Disso queixa-se ele, deixando na sua mesma queixa a<br \/>\nmarca da sua vaidade:<\/p>\n<p>Saiu a s\u00e1tira m\u00e1<\/p>\n<p>E empurraram-me os perversos,<\/p>\n<p>Porque enquanto a fazer versos<\/p>\n<p>S\u00f3 eu tenho jeito c\u00e1.<\/p>\n<p>Noutras obras de talento<\/p>\n<p>S\u00f3 eu sou o asneir\u00e3o<\/p>\n<p>Mas sendo s\u00e1tira, ent\u00e3o<\/p>\n<p>S\u00f3 eu tenho entendimento.<\/p>\n<p>Achou-se, portanto, em guerra com a sociedade cujo era, de cujos v\u00edcios<br \/>\ne manhas comparticipava, para cuja imoralidade contribu\u00eda com o seu<br \/>\nexemplo de vida desregrada e ainda torpe, como o testemunham os seus poemas<br \/>\npublicados e in\u00e9ditos. Tinha ali\u00e1s consci\u00eancia da animadvers\u00e3o<br \/>\nrec\u00edproca dele e de sua cidade:<\/p>\n<p>Querem-me aqui todos mal,<\/p>\n<p>E eu quero mal a todos,<\/p>\n<p>Eles e eu por nossos modos<\/p>\n<p>Nos pagamos tal por tal:<\/p>\n<p>E querendo eu mal a quantos<\/p>\n<p>Me t\u00eam \u00f3dio t\u00e3o veemente<\/p>\n<p>O meu \u00f3dio \u00e9 mais valente<\/p>\n<p>Pois sou s\u00f3 e eles tantos.<\/p>\n<p>E noutro passo dos in\u00e9ditos da Biblioteca Nacional (Cod. 34-29, p\u00e1g.<br \/>\n403) malsina assim cinicamente da terra:<\/p>\n<p>Porque esta negra terra<\/p>\n<p>Nas produ\u00e7\u00f5es, que erra,<\/p>\n<p>Cria venenos mais que boa planta:<\/p>\n<p>Comigo a prova ordeno<\/p>\n<p>Que me criou para mortal veneno.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho que aquela confiss\u00e3o t\u00e3o pessoal seja apenas<br \/>\no desenvolvimento, feito ali\u00e1s com vantagem, destes versos do espanhol<br \/>\nQuevedo, tantas vezes imitado e at\u00e9 plagiado por Greg\u00f3rio de<br \/>\nMatos:<\/p>\n<p>Muchos dicen mal de mi,<\/p>\n<p>Y yo digo mal de muchos;<\/p>\n<p>Mi decir es m\u00e1s valiente<\/p>\n<p>Por ser tantos y yo ser uno.52<\/p>\n<p>Foi justamente esta situa\u00e7\u00e3o singular em que o puseram a sua<br \/>\n\u00edndole e o seu engenho que deu a Greg\u00f3rio de Matos a sua fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nparticular e distinta e o singularizou em a nossa literatura colonial. Enganaram-se<br \/>\nredondamente os que pretenderam fazer dele ou quiseram ver nele um precursor<br \/>\nda nossa emancipa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, cronologicamente o primeiro<br \/>\nbrasileiro da nossa literatura. \u00c9 de todo impertinente supor-lhe filosofias<br \/>\ne inten\u00e7\u00f5es morais ou sociais. \u00c9 simplesmente um nervoso,<br \/>\nqui\u00e7\u00e1 um nevr\u00f3tico, um impulsivo, um esp\u00edrito<br \/>\nde contradi\u00e7\u00e3o e denega\u00e7\u00e3o, um malcriado rabugento<br \/>\ne mal\u00e9dico. Mas estes mesmos defeitos, se lhe n\u00e3o permitem figurar<br \/>\ncom a fisionomia com que o fantasiaram, serviram grandemente \u00e0 sua<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e lha revelaram, embora parcialmente,<br \/>\nsobre todas as do seu tempo. Em todo caso, mereceria Greg\u00f3rio de Matos<br \/>\naquela aprecia\u00e7\u00e3o se houvera apenas sido o poeta sat\u00edrico<br \/>\nde sua obra e da tradi\u00e7\u00e3o, o d\u00edscolo que s\u00f3 ele<br \/>\nentre os seus contempor\u00e2neos malsinou do regime colonial e dos v\u00edcios<br \/>\np\u00fablicos e particulares que o pioravam, e que, num impulso de despeito<br \/>\npessoal, foi o \u00fanico a sentir aquilo que devia, volvidos dois s\u00e9culos,<br \/>\nser o germe do pensamento da nossa independ\u00eancia:<\/p>\n<p>Que os brasileiros s\u00e3o bestas<\/p>\n<p>E estar\u00e3o a trabalhar<\/p>\n<p>Toda a vida por manterem<\/p>\n<p>Magamos de Portugal.<\/p>\n<p>E mais, se a esse feitio pessoal do seu estro juntasse tra\u00e7os liter\u00e1rios<br \/>\nque o diferen\u00e7assem de qualquer modo da poesia portuguesa contempor\u00e2nea.<br \/>\nMas isto justamente n\u00e3o acontecia. O s\u00e1tiro era bifronte, e<br \/>\no poeta, ainda na s\u00e1tira, seguia sem discrep\u00e2ncia apreci\u00e1vel<br \/>\na moda po\u00e9tica ali em voga sem nenhuma esp\u00e9cie de originalidade,<br \/>\nsen\u00e3o a de ser aqui o \u00fanico que ralhava do meio.<\/p>\n<p>Numa face tinha o riso escarninho e petulante e o jeito obsceno do capad\u00f3cio,<br \/>\nna outra a compostura cortes\u00e3 acad\u00eamica, devota, do doutor de<br \/>\nCoimbra, do magistrado, do vig\u00e1rio-geral, do procurador da mitra. Com<br \/>\numa zomba, ri, chalaceia, maldiz, descomp\u00f5e, injuria, enxovalha, ridiculariza<br \/>\na terra e sociedade a que pertence, e faz pra\u00e7a desavergonhada dos<br \/>\nseus amores reles, da sua vida despejada e indecorosa; com a outra, tal qual<br \/>\nos seus confrades em musa do tempo, louvaminha, bajula, incensa a magnates<br \/>\ne poderosos, ou verseja motivos e temas futil\u00edssimos, com tropos, imagens,<br \/>\ntrocados e jogos de voc\u00e1bulos em nada destoantes da po\u00e9tica<br \/>\ndo tempo, da qual a sua se n\u00e3o afasta em cousa alguma. Como sat\u00edrico,<br \/>\nn\u00e3o destoa Greg\u00f3rio de Matos, nem pela inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnem pela express\u00e3o da musa gaiata portuguesa coeva, ilustrada ou deslustrada<br \/>\npor D. Tom\u00e1s de Noronha, Crist\u00f3v\u00e3o de Morais, Serr\u00e3o<br \/>\nde Castro, Jo\u00e3o Sucarelo, Fr. Vahia, Diogo Camacho e quejandos, todos<br \/>\ncomo eles, sequazes do espanhol Quevedo, de quem foi o nosso patr\u00edcio<br \/>\nservil imitador. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1, nem na inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnem na express\u00e3o da poesia n\u00e3o sat\u00edrica de Greg\u00f3rio<br \/>\nde Matos algum sinal que o estreme entre os seiscentistas e gongoristas seus<br \/>\ncontempor\u00e2neos. Emparelha em tudo e por tudo com eles.<\/p>\n<p>Salvo o pouco que dela publicou Varnhagem no seu Floril\u00e9gio (I,17-104),<br \/>\nesta fei\u00e7\u00e3o da obra po\u00e9tica de Greg\u00f3rio de Matos<br \/>\nficou at\u00e9 hoje desconhecida, mesmo dos que sobre ele mais longamente<br \/>\ndiscorreram. Existe entretanto na Biblioteca Nacional material manuscrito<br \/>\nmais que bastante para o estudo completo do poeta, sem o qual n\u00e3o podemos<br \/>\nter dele uma no\u00e7\u00e3o cabal. Desse estudo, que fizemos, resultar\u00e1<br \/>\na certeza de que Greg\u00f3rio de Matos \u00e9 antes um poeta burlesco,<br \/>\npicaresco, at\u00e9 chulo, \u00e0 maneira de Quevedo, seu modelo, e dos<br \/>\nsat\u00edricos portugueses seus contempor\u00e2neos, do que sat\u00edrico<br \/>\nao modo de um Hor\u00e1cio, de um Juvenal ou de um Boileau.<\/p>\n<p>E n\u00e3o porque n\u00e3o houvesse nele talento para o ser. Que o havia<br \/>\nmostram-no os seus poemas Aos v\u00edcios, belo de conceito e forma, os<br \/>\ndous Retratos dos governadores C\u00e2mara Coutinho e Sousa de Menezes, e,<br \/>\nacaso sobre todos a s\u00e1tira que come\u00e7a<\/p>\n<p>Que n\u00e9scio que eu era ent\u00e3o<\/p>\n<p>Quando cuidava o n\u00e3o era!<\/p>\n<p>S\u00e3o todos modelos de boa poesia do g\u00eanero, em que podemos admirar<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o, chiste e conceito, al\u00e9m da beleza m\u00e9trica<br \/>\ne da excelente l\u00edngua, numerosa e propri\u00edssima. Estas mesmas<br \/>\nqualidades se nos deparam em outros seus poemas, j\u00e1 burlescos, j\u00e1<br \/>\ns\u00e9rios, mas apenas parcialmente, em alguma estrofe, em algum verso.<br \/>\nGeralmente, por\u00e9m, ele \u00e9 o tipo do poeta descuidado, desmazelado,<br \/>\ncomo foi o tipo do homem desleixado. Versejava a torto e a direito, por conta<br \/>\npr\u00f3pria ou alheia, sem escolha do momento ou do assunto, sem respeito<br \/>\nao pr\u00f3prio estro, nem decoro de quem era. Prodigalizava a veia inesgot\u00e1vel<br \/>\nem temas como &#8220;A uma briga que teve certo vig\u00e1rio com um ouvires<br \/>\npor causa de uma mulata&#8221;, &#8220;A pris\u00e3o de duas mulatas por uma<br \/>\nquerela que delas deu o c\u00e9lebre capit\u00e3o&#8230; de alcunha o Mangar\u00e1<br \/>\npelo furto de um papagaio&#8221;, &#8220;A mulata&#8230; que chamava seu um vestido<br \/>\nque trazia de sua senhora&#8221;, &#8220;A mulata Vic\u00eancia amando ao mesmo<br \/>\ntempo a tr\u00eas sujeitos&#8221;, &#8220;A um crioulo chamado o Luzia a quem<br \/>\nvasaram um olho por causa de uma negra&#8221; e quejandas. Dele se conta que<br \/>\nvendo em Pernambuco duas mulatas engalfinhadas numa briga que as p\u00f4s<br \/>\nridiculamente descompostas, p\u00f4s-se a gritar: &#8220;Aqui d\u2019El-Rei,<br \/>\ncontra o Sr. Caetano de Melo!&#8221;. A raz\u00e3o de seu grito, explicava<br \/>\ndepois, era ter o governador deste nome lhe defendido versejar, quando se<br \/>\nlhe deparavam assuntos como aquele. A historieta \u00e9 interessante por<br \/>\nmuito significativo do est\u00edmulo e feitio po\u00e9tico de Greg\u00f3rio<br \/>\nde Matos. E crescid\u00edssimo n\u00famero das suas composi\u00e7\u00f5es<br \/>\nchamadas sat\u00edricas n\u00e3o t\u00eam motivos diversos daquele que<br \/>\nse lastimava de perder.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o melhores se n\u00e3o por menos indecorosos, os m\u00f3veis<br \/>\nde sua inspira\u00e7\u00e3o de outra ordem que a burlesca. Verseja por<br \/>\ngovernadores, potentados, bispos e arcebispos, com louvores e enaltecimentos<br \/>\nhiperb\u00f3licos e pedit\u00f3rios indignos. Verseja tamb\u00e9m por<br \/>\nespet\u00e1culos de com\u00e9dias a que assiste, por festas a que vai,<br \/>\npor sucessos sem nenhuma import\u00e2ncia, por beldades diversas, e por fim<br \/>\nverseja devotamente como um libertino arrependido ou antes medroso do inferno.<\/p>\n<p>Ao mesmo governador Ant\u00f4nio Lu\u00eds Gon\u00e7alves da C\u00e2mara<br \/>\nCoutinho, de quem fez numa das suas tem\u00edveis e melhores s\u00e1tiras<br \/>\no c\u00e9lebre retrato, endere\u00e7ou Greg\u00f3rio de Matos um Memorial<br \/>\nem forma de soneto pedindo uma esmola (sic), o qual assim termina:<\/p>\n<p>Seguiram os tr\u00eas reis planeta louro,<\/p>\n<p>Guie-me a minha estrela o pedit\u00f3rio<\/p>\n<p>Com que na vossa m\u00e3o ache um tesouro.<\/p>\n<p>Entre v\u00e1rios sonetos seus a arcebispos, todos destoantes da reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe fizeram de poeta isento e homem de brios, depara-se-nos este a D.<br \/>\nJo\u00e3o Franco de Oliveira, que do bispado de Angola passava ao arcebispado<br \/>\nda Bahia, e que reproduzimos por dar a medida da po\u00e9tica de Greg\u00f3rio<br \/>\nde Matos:<\/p>\n<p>Hoje os Matos incultos da Bahia<\/p>\n<p>Se n\u00e3o suave for, ruidosamente<\/p>\n<p>Cantem a boa vinda do eminente<\/p>\n<p>Pr\u00edncipe desta sacra monarquia.<\/p>\n<p>Hoje em Roma de Pedro se lhe fia<\/p>\n<p>Segunda vez a barca e o tridente<\/p>\n<p>Porque a pesca que fez j\u00e1 no Oriente<\/p>\n<p>O destinou para a do meio-dia.<\/p>\n<p>Oh se quisesse Deus que sendo ouvida<\/p>\n<p>A musa bronca dos incultos Matos<\/p>\n<p>Ficasse vossa p\u00farpura atra\u00edda<\/p>\n<p>Oh se como Aream, que a doces tratos<\/p>\n<p>Uma pedra atraiu endurecida<\/p>\n<p>Atra\u00edsse eu, Senhor, vossos sapatos!<\/p>\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos que o poeta que assim saudava o arcebispo era<br \/>\nvig\u00e1rio-geral e procurador da mitra. A estes versos de louvor a poderosos,<br \/>\nvezo muito corriqueiro nos poetas contempor\u00e2neos, juntava Greg\u00f3rio<br \/>\nde Matos alguns poemas de inspira\u00e7\u00e3o mais alta, como este soneto:<\/p>\n<p>\u00c0 Instabilidade das Coisas do Mundo:<\/p>\n<p>Nasce o sol, e n\u00e3o dura mais que um dia<\/p>\n<p>Depois da luz se segue a noite escura<\/p>\n<p>Em tristes sonhos morre a formosura,<\/p>\n<p>Em cont\u00ednuas tristezas a alegria.<\/p>\n<p>Por\u00e9m se acaba o sol, por que nascia?<\/p>\n<p>Se \u00e9 t\u00e3o formosa a luz, por que n\u00e3o dura?<\/p>\n<p>Como a beleza assim se transfigura?<\/p>\n<p>Como o gosto da pena assim se fia?<\/p>\n<p>Mas no sol e na luz falte a firmeza<\/p>\n<p>Na formosura n\u00e3o se d\u00ea const\u00e2ncia<\/p>\n<p>E na alegria sinta-se tristeza.<\/p>\n<p>Come\u00e7a o mundo enfim pela ignor\u00e2ncia<\/p>\n<p>E tem qualquer dos bens por natureza<\/p>\n<p>E firmeza somente na inconst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ou como este sobre A vida solit\u00e1ria, \u00faltimo paradeiro dos var\u00f5es<br \/>\nprudentes:<\/p>\n<p>Ditoso tu que na palho\u00e7a agreste<\/p>\n<p>Viveste mo\u00e7o e velho respiraste,<\/p>\n<p>Ber\u00e7o foi em que mo\u00e7o te criaste<\/p>\n<p>Essa ser\u00e1, que para morto ergueste.<\/p>\n<p>A\u00ed do que ignoravas aprendeste<\/p>\n<p>A\u00ed do que aprendeste me ensinaste,<\/p>\n<p>Que os desprezos do mundo que alcan\u00e7aste<\/p>\n<p>Armas s\u00e3o com que a vida defendeste.<\/p>\n<p>Ditoso tu que longe dos enganos<\/p>\n<p>A que a Corte tributa rendimentos<\/p>\n<p>Tua vida dilatas e deleitas<\/p>\n<p>Nos pal\u00e1cios reais se encurtam anos<\/p>\n<p>Por\u00e9m tu, sincopando os aposentos<\/p>\n<p>Mais te dilatas quando mais te estreitas.53<\/p>\n<p>Estas transcri\u00e7\u00f5es d\u00e3o a medida do valor po\u00e9tico<br \/>\nde Greg\u00f3rio de Matos e, parece, justificam o nosso conceito de que<br \/>\nele se n\u00e3o distingue notavelmente dos poetas portugueses e brasileiros<br \/>\nseus contempor\u00e2neos. Que n\u00e3o teve a m\u00ednima influ\u00eancia<br \/>\nliter\u00e1ria no seu tempo ou posteriormente, provam-no de sobejo as obras<br \/>\ndos seus confrades de grupo e as do s\u00e9culo XVIII, o s\u00e9culo das<br \/>\nAcademias liter\u00e1rias e, ao menos at\u00e9 antes dos mineiros, de<br \/>\nextrema pobreza po\u00e9tica.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia liter\u00e1ria da sua copiosa obra po\u00e9tica \u00e9<br \/>\nsingularmente levantada por lances interessant\u00edssimos \u00e0 hist\u00f3ria<br \/>\ndos nossos costumes e da sociedade do seu tempo. Desta nos deixou, mormente<br \/>\nna parte sat\u00edrica ou burlesca, precioso elemento de estudo, das suas<br \/>\nmaneiras e h\u00e1bitos, dos seus mesmos sentimentos e fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nmorais. A sua l\u00edngua, que julgamos poder qualificar de cl\u00e1ssica,<br \/>\ntem modalidades, idiotismos, ad\u00e1gios, fraseados, muito peculiares,<br \/>\ne alguns certamente j\u00e1 brasileiros. O seu vocabul\u00e1rio, que est\u00e1<br \/>\na pedir um estudo especial, \u00e9 abundante em termos casti\u00e7os,<br \/>\narcaicos e raros, espanholismos e brasileirismos. Costumes, usos e manhas<br \/>\nnossas aparecem-lhe nos versos em alus\u00f5es, refer\u00eancias, express\u00f5es,<br \/>\nque documentam o grau adiantado da mesti\u00e7agem entre os tr\u00eas fatores<br \/>\nda nossa gente que aqui se vinha operando desde o primeiro s\u00e9culo da<br \/>\nnossa exist\u00eancia. \u00c9 sobretudo esta fei\u00e7\u00e3o documental<br \/>\nda sociedade do seu tempo que sobreleva Greg\u00f3rio de Matos aos seus<br \/>\ncontempor\u00e2neos e ainda a todos os poetas coloniais antes dos mineiros,<br \/>\ntodos eles sem fisionomia pr\u00f3pria. O \u00fanico que em suma a tem<br \/>\n\u00e9 ele.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo V<\/h4>\n<p><strong>ASPECTOS LITER\u00c1RIOS DO S\u00c9CULO XVIII<\/strong><\/p>\n<p>LITERARIAMENTE, O S\u00c9CULO XVIII se caracteriza pela escassez de poetas<br \/>\nna sua primeira metade, pela funda\u00e7\u00e3o das academias liter\u00e1rias<br \/>\ndo fim do seu primeiro quartel aos come\u00e7os do \u00faltimo, pela abund\u00e2ncia<br \/>\nda sua literatura hist\u00f3rica, e, o que principalmente o ilustra, pelo<br \/>\nadvento, no seu ter\u00e7o final, de um grupo de poetas, que foram os melhores<br \/>\nno per\u00edodo colonial.<\/p>\n<p>Exclu\u00eddo Ant\u00f4nio Jos\u00e9 da Silva, o engenhoso e mal-aventurado<br \/>\njudeu fluminense, queimado pela Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa, em 1739,<br \/>\nnenhum poeta de algum valor se nos depara no Brasil naquele momento. Ant\u00f4nio<br \/>\nJos\u00e9, de brasileiro s\u00f3 teve, por\u00e9m, o acidente do nascimento.<br \/>\nSua forma\u00e7\u00e3o e atividade liter\u00e1ria foi toda portuguesa,<br \/>\ne n\u00e3o h\u00e1 no seu estilo, quer de prosador quer de poeta, bem<br \/>\ncomo na sua inspira\u00e7\u00e3o, nada que n\u00e3o seja genuinamente<br \/>\nportugu\u00eas. E o que porventura n\u00e3o \u00e9 portugu\u00eas \u00e9<br \/>\nantes italiano (como as coplas de que misturou as suas \u00f3peras) ou espanhol<br \/>\ndo que brasileiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve nesse tempo nenhum poeta equivalente a Greg\u00f3rio de<br \/>\nMatos ou mesmo a Botelho de Oliveira. \u00c9, entretanto, crescido o n\u00famero<br \/>\nde escrevedores e versificadores do s\u00e9culo XVIII, de que se encontram<br \/>\nmen\u00e7\u00f5es. S\u00f3 Jaboat\u00e3o, e unicamente na sua ordem<br \/>\nfranciscana, nomeia perto de trinta e lhes menciona as obras, muitas impressas,<br \/>\noutras manuscritas: de devo\u00e7\u00e3o, paneg\u00edricos de santos,<br \/>\nserm\u00f5es e tamb\u00e9m versos e hist\u00f3ria.54 O mesmo sucedia<br \/>\nnas outras ordens religiosas. A prosa, por\u00e9m, tirante a dos pregadores,<br \/>\nnenhum de m\u00e9rito que mere\u00e7a recorda\u00e7\u00e3o, e a de<br \/>\nalgum memorialista ou noticiador da terra, igualmente somenos, n\u00e3o<br \/>\ndeixou de si lembran\u00e7a estim\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dos poetas do s\u00e9culo XVII anteriores aos mineiros, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nnenhum que se salve por uma inspira\u00e7\u00e3o feliz como a da Ilha<br \/>\nde Mar\u00e9, ou por qualquer fei\u00e7\u00e3o particular como a sat\u00edrica<br \/>\nde Greg\u00f3rio de Matos. Somenos sob todos os aspectos, o poeta dos Eust\u00e1quidos,<br \/>\nFr. Manoel de Santa Maria Itaparica, merece todavia comemorado pela sua Descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nversejada da ilha de Itaparica. Os Eust\u00e1quidos s\u00e3o um &#8220;poema<br \/>\nsacro e tragic\u00f4mico&#8221; da vida de S. Eust\u00e1quio. Esta classifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pr\u00f3prio autor e o seu objeto j\u00e1 deixam ver que sensaboria<br \/>\nmetrificada n\u00e3o \u00e9. Vem-lhe apensa a Descri\u00e7\u00e3o,<br \/>\ninteressante somente por ser a segunda manifesta\u00e7\u00e3o na poesia<br \/>\nbrasileira da mesma emo\u00e7\u00e3o nativista, patri\u00f3tica se quiserem,<br \/>\nque produziu a Ilha de Mar\u00e9 e que constituiria um rasgo particular<br \/>\nda nossa poesia.55<\/p>\n<p>54Novo Orbe Ser\u00e1fico Bras\u00edlico. Rio de Janeiro, 1858, I, 345.<\/p>\n<p>55Descri\u00e7\u00e3o da Ilha de Itaparica em oitavas endecass\u00edlabas<br \/>\njunta aos Eust\u00e1quidos, poema sacro e tragic\u00f4mico em que se cont\u00e9m<br \/>\na vida de Santo Eust\u00e1quio m\u00e1rtir, chamado antes pl\u00e1cido,<br \/>\ne sua mulher e filhos. Por um an\u00f4nimo da ilha de Itaparica, termo da<br \/>\ncidade da Bahia. Dado \u00e0 luz por um devoto do Santo. Varnhagem, a quem<br \/>\nse deve a revela\u00e7\u00e3o deste poema, alcunhado de An\u00f4nimo<br \/>\nItaparicano o autor dos Eust\u00e1quidos e da Descri\u00e7\u00e3o anexa,<br \/>\nidentificou-o primeiramente com o padre Francisco de Souza, natural daquela<br \/>\nilha, e autor do Oriente conquistado. Acabou, por\u00e9m, identificando-o<br \/>\ncom Fr. Manoel de Santa Maria Itaparica (Floril\u00e9gio, I, 152 e Introdu\u00e7\u00e3o).<br \/>\nA publica\u00e7\u00e3o total do Novo orbe ser\u00e1fico de Jaboat\u00e3o<br \/>\n(2\u00aa parte, I, 38) veio confirmar esta leg\u00edtima presun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Varnhagen, e permitir-nos inferir que a impress\u00e3o dos Eust\u00e1quidos<br \/>\n\u00e9 posterior ao ano de 1768. Fr. Itaparica, segundo o mesmo Jaboat\u00e3o,<br \/>\nviveu entre 1704 e 1768, ano em que o historiador da ordem franciscana no<br \/>\nBrasil ainda o d\u00e1 como vivo e a sua obra como in\u00e9dita. Segundo<br \/>\na mesma autoridade, teria Fr. Itaparica escrito epigramas, can\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsonetos, e mais um canto her\u00f3ico e um peneg\u00edrico em oitavas<br \/>\npor ocasi\u00e3o das festas realizadas pelo casamento de pr\u00edncipes<br \/>\nde Portugal e Castela, em 1728, na Para\u00edba. Tudo isto, creio que sem<br \/>\ngrande perda para as nossas letras, ficou in\u00e9dito.<\/p>\n<p>Como na Prosopop\u00e9ia de Bento Teixeira e geralmente em todos os versejadores<br \/>\ndo per\u00edodo colonial, \u00e9 manifesta neste poema de sessenta e cinco<br \/>\noitavas a li\u00e7\u00e3o de Cam\u00f5es. Esta infelizmente revela-se<br \/>\napenas na imita\u00e7\u00e3o canhestra e at\u00e9 na par\u00f3dia<br \/>\nde algum verso do grande \u00e9pico ou ainda no arremedo de situa\u00e7\u00f5es<br \/>\nou passos dos Lus\u00edadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sem galanteria invoca o poeta a Musa, como sua companheira de<br \/>\ntodos os tempos, bons e maus:<\/p>\n<p>Musa que no florido de meus anos<\/p>\n<p>Teu furor tantas vezes me inspiraste<\/p>\n<p>E na idade em que v\u00eam os desenganos<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m sempre fiel me acompanhaste,<\/p>\n<p>Tu, que influxos repartes soberanos<\/p>\n<p>Deste monte Helicon, que j\u00e1 pisaste,<\/p>\n<p>Agora me concede o que te pe\u00e7o<\/p>\n<p>Para seguir seguro o que come\u00e7o.<\/p>\n<p>O seu verso tem quase sempre esta facilidade e corre\u00e7\u00e3o. A<br \/>\ndescri\u00e7\u00e3o da sua ilha natal, mais vasada nos moldes cl\u00e1ssicos<br \/>\nque a de Botelho de Oliveira, tem, conquanto topogr\u00e1fica, a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nnativista que falta a Bento Teixeira. Pinta a vida dos pescadores da ilha,<br \/>\na pescaria da baleia, sua principal ind\u00fastria, a fabrica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu azeite, e noticia os produtos, dons e bens da terra, seus frutos e<br \/>\nnovidades. E terminando, frouxamente ali\u00e1s, a descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nda ilha que fica no<\/p>\n<p>Porto em que est\u00e1 hoje situada<\/p>\n<p>A opulenta e ilustrada Bahia<\/p>\n<p>assim conclui:<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui Musa: n\u00e3o me \u00e9 permitido<\/p>\n<p>Que passe mais avante a veloz pena;<\/p>\n<p>A minha p\u00e1tria tenho definido<\/p>\n<p>Com esta descri\u00e7\u00e3o breve e pequena;<\/p>\n<p>E se o t\u00ea-la t\u00e3o pouco engrandecida<\/p>\n<p>N\u00e3o me louva mas antes me condena,<\/p>\n<p>N\u00e3o usei termos de poeta esperto,<\/p>\n<p>Fui historiador em tudo certo.<\/p>\n<p>Com o mesmo sentimento nativista sens\u00edvel, embora sem emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nnot\u00e1vel, desde a Prosopop\u00e9ia e mais manifesto em Botelho de<br \/>\nOliveira, precedeu este poema de alguns anos o de Santa Rita Dur\u00e3o.<br \/>\nTamb\u00e9m no canto V do seu poema Eust\u00e1quidos, Fr. Santa Maria<br \/>\nItaparica, num sonho que finge, p\u00f5e certo Postero a profetizar o advento<br \/>\ndo Brasil e nascimento do poeta, anunciando o poema da Descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua ilha natal, que ele<\/p>\n<p>H\u00e1 de cantar em lira temperada.<\/p>\n<p>Tudo isto com grande insulsez. O tal poema sacro e her\u00f3i-c\u00f4mico<br \/>\npor si s\u00f3 n\u00e3o daria ao nome do frade poeta o m\u00ednimo relevo<br \/>\nse lho n\u00e3o levantasse a emo\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica com que<br \/>\ncantou a sua p\u00e1tria, como \u00e0 ilha do seu nascimento chamou, e<br \/>\nn\u00e3o documentasse a continuidade da inspira\u00e7\u00e3o que se<br \/>\nia criando e ficaria na poesia brasileira como um dos seus tra\u00e7os distintivos.<br \/>\nSob aspecto da l\u00edngua n\u00e3o deixa de ser interessante a med\u00edocre<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o de Fr. Itaparica. A l\u00edngua liter\u00e1ria<br \/>\ndo Brasil ainda era ent\u00e3o e seria por todo o per\u00edodo colonial,<br \/>\napenas talvez com menos arte e menos n\u00famero, a mesma de Portugal. N\u00e3o<br \/>\nhavia ainda tempo para que os cruzamentos e outras influ\u00eancias mesol\u00f3gicas<br \/>\nhouvessem modificado o falar brasileiro, e menos para que as modifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nporventura havidas passassem do falar corrente \u00e0 l\u00edngua dos<br \/>\nescritores educados por portugueses e feitos s\u00f3, ou muito principalmente,<br \/>\nna leitura de livros portugueses ou latinos. A de Fr. Itaparica \u00e9,<br \/>\npois, a l\u00edngua do tempo, gong\u00f3rica, empolada e sobretudo amaneirada.<br \/>\nTodas as impress\u00f5es e id\u00e9ias se lhe reduzem em adjetivos, que<br \/>\napenas com varia\u00e7\u00f5es sinon\u00edmicas se repetem copiosamente<br \/>\ncom pouca propriedade. Ali\u00e1s o defeito n\u00e3o \u00e9 raro, mesmo<br \/>\nnos chamados cl\u00e1ssicos. Usa abundantemente de termos pouco vulgares<br \/>\nou j\u00e1 ent\u00e3o obsoletos e tamb\u00e9m de espanholismos e neologismos,<br \/>\ntudo denotando rebusca de linguagem. Encontram-se-lhe: elado, fenestras, temblar,<br \/>\ngateando, lesura, trufatil(?), olorizar, cl\u00e1veo, est\u00fapeo (do<br \/>\ngrego stupeo, caule, mas feito adjetivo?), pevidosa, ahulidos(?). Descrevendo<br \/>\no preparo do azeite da baleia em Itaparica, fala dos negros empregados nesse<br \/>\nservi\u00e7o:<\/p>\n<p>Cujos membros de azeite andam untados<\/p>\n<p>Daquelas cirandagens salpicados.<\/p>\n<p>em que a palavra cirandagem desviada do seu sentido vern\u00e1culo (=sarandalha)<br \/>\nalimpaduras que se apartam cirandando (joeirando) e se lan\u00e7am fora,<br \/>\ntem j\u00e1 a acep\u00e7\u00e3o brasileira de restos imprest\u00e1veis,<br \/>\nimund\u00edcie mi\u00fada, guloseimas vis.<\/p>\n<p>Nenhum outro poeta que mere\u00e7a lembrado ou mesmo que o n\u00e3o mere\u00e7a,<br \/>\nmas com obra conhecida, nos depara este s\u00e1faro per\u00edodo da poesia<br \/>\nno Brasil. A m\u00fasica do parnaso foi publicada em 1705, mas os seus poemas<br \/>\ns\u00e3o incontestavelmente dos \u00faltimos anos do s\u00e9culo anterior,<br \/>\nnos quais passou tamb\u00e9m a atividade liter\u00e1ria do seu autor.<br \/>\nOutrossim poetou nesta \u00e9poca Sebasti\u00e3o da Rocha Pita, acaso<br \/>\na melhor figura liter\u00e1ria dela. A sua produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica,<br \/>\npor\u00e9m, nos seria totalmente desconhecida n\u00e3o foram os documentos<br \/>\nrelativos \u00e0s academias liter\u00e1rias de que fez parte, existentes<br \/>\nna Biblioteca Nacional e as transcri\u00e7\u00f5es deles feitas por Fernandes<br \/>\nPinheiro.56 H\u00e1 not\u00edcia vaga e insegura de que escrevera tamb\u00e9m<br \/>\num romance em verso castelhano. \u00c9 como historiador que ele tem um lugar<br \/>\nna nossa literatura colonial.<\/p>\n<p>S\u00f3 para o fim da terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XVIII, se<br \/>\nnos antolham alguns escritores em prosa mais estim\u00e1veis que os aludidos.<br \/>\nSeguindo de perto o seu aparecimento o das academias liter\u00e1rias aqui<br \/>\nfundadas desde meados da segunda d\u00e9cada, n\u00e3o \u00e9 porventura<br \/>\nindiscreto ver neles influ\u00eancias destas.<\/p>\n<p>Como assembl\u00e9ia ocasional de literatos que reciprocamente se recitavam<br \/>\nos seus versos e prosas, havia academias no Brasil ainda em antes do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII. Greg\u00f3rio de Matos, notavelmente, e elas se refere nos seus versos<br \/>\nsat\u00edricos.57 Mas como associa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e<br \/>\nregularmente organizadas datam de 1724. Foi nesta era criada a primeira, a<br \/>\nAcademia Brasileira dos Esquecidos. Para em tudo imitar as da metr\u00f3pole,<br \/>\ncujo arremedo era, fundava-se conforme aquelas com a prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nreal, sob os ausp\u00edcios do vice-rei, ou antes estabelecida por ele no<br \/>\nseu pr\u00f3prio pal\u00e1cio. Nestes termos, imagem acabada do estilo<br \/>\nda \u00e9poca e seu, lhe noticia a funda\u00e7\u00e3o Rocha Pita, que<br \/>\nfoi um dos seus membros mais consp\u00edcuos:<\/p>\n<p>&#8220;A nossa portuguesa Am\u00e9rica (e principalmente a prov\u00edncia<br \/>\nda Bahia), que na produ\u00e7\u00e3o de engenhosos filhos pode competir<br \/>\ncom It\u00e1lia e Gr\u00e9cia, n\u00e3o se achava com as academias introduzidas<br \/>\nem todas as rep\u00fablicas bem organizadas, para apartarem a idade juvenil<br \/>\ndo \u00f3cio contr\u00e1rio das virtudes e origem de todos os v\u00edcios<br \/>\ne apurarem a sutileza dos engenhos. N\u00e3o permitiu o vice-rei que faltasse<br \/>\nno Brasil esta pedra de toque no estim\u00e1vel oiro dos seus talentos,<br \/>\nde mais quilates que o das suas minas. Erigiu uma dout\u00edssima academia,<br \/>\nque se faz em pal\u00e1cio na sua presen\u00e7a. Deram-lhe fama as pessoas<br \/>\nde maior gradua\u00e7\u00e3o e entendimento que se acham na Bahia, tomando-o<br \/>\npor seu protetor. T\u00eam presidido nela erudit\u00edssimos sujeitos.<br \/>\nHouve graves e discretos assuntos, aos que se fizeram elegantes e agud\u00edssimos<br \/>\nversos; e vai continuando nos seus progressos, esperando que em t\u00e3o<br \/>\ngrande prote\u00e7\u00e3o se d\u00eaem ao prelo os seus escritos, em<br \/>\npr\u00eamio das suas fadigas.&#8221;58<\/p>\n<p>A Academia dos Renascidos fundava-se em 1759 com quarenta s\u00f3cios de<br \/>\nn\u00famero, ou efetivos, e oitenta supranumer\u00e1rios, ou correspondentes.<br \/>\nA maioria versejava ou fazia prosa oficial ou acad\u00eamica. Glosando motes,<br \/>\nversificando temas preestabelecidos ou tamb\u00e9m amplificando retoricamente<br \/>\nassuntos oferecidos aos seus curtos engenhos, nenhum destes versejadores ou<br \/>\nprosistas tinham virtudes liter\u00e1rias por que perdurasse na mem\u00f3ria<br \/>\ndos homens e as suas obras, ainda as impressas, \u00e9 como se n\u00e3o<br \/>\nexistissem.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro foi institu\u00edda em 1736 a Academia dos Felizes, e<br \/>\nmais tarde, em 1752, a dos Seletos, que de fato se resumiu a uma sess\u00e3o<br \/>\nmagna liter\u00e1ria, como dir\u00edamos hoje, consagrada a celebrar o<br \/>\ngovernador e capit\u00e3o-general Gomes Freire de Andrade, que a presidiu.59<br \/>\nTinham estas reuni\u00f5es a vantagem de serem prazo dado e audit\u00f3rio<br \/>\nf\u00e1cil e ben\u00e9volo de letrados e poetas e portanto um est\u00edmulo<br \/>\noferecido ao seu estro.<\/p>\n<p>Criadas quando acaso j\u00e1 n\u00e3o correspondiam \u00e0s condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nda sua origem europ\u00e9ia, mais por imita\u00e7\u00e3o das do Reino,<br \/>\nvontade e inspira\u00e7\u00e3o oficial do que como uma exig\u00eancia<br \/>\ne produto na incipiente cultura ind\u00edgena, tiveram as academias liter\u00e1rias<br \/>\nno Brasil, uma exist\u00eancia transit\u00f3ria e ingl\u00f3ria. Mas<br \/>\nn\u00e3o de todo in\u00fatil e sem efeito nessa cultura e na literatura<br \/>\nque a devia representar. Apesar da origem oficial, e de serem um arremedo,<br \/>\nhavia porventura nelas um sentimento de emula\u00e7\u00e3o com a metr\u00f3pole,<br \/>\ne portanto um primeiro e leve sintoma do esp\u00edrito local de independ\u00eancia.<br \/>\nAcaso a denomina\u00e7\u00e3o da primeira, de Academia Brasileira dos<br \/>\nEsquecidos, rev\u00ea o despeito dos seus fundadores contra o esquecimento<br \/>\ndos letrados coloniais na forma\u00e7\u00e3o das academias portuguesas<br \/>\nanteriores. O prop\u00f3sito que n\u00e3o s\u00f3 essa, mas a dos Renascidos<br \/>\ne a dos Felizes declaradamente tiveram, de estudar sob os seus diversos aspectos<br \/>\no Brasil e a sua hist\u00f3ria, traduz evidentemente um \u00edntimo sentimento<br \/>\nde apego \u00e0 terra, com a inten\u00e7\u00e3o, ainda certamente pouco<br \/>\nconsciente, da parte que no seu desenvolvimento devia caber aos seus letrados.<\/p>\n<p>A qualifica\u00e7\u00e3o que todas, apesar do oficialismo da sua origem<br \/>\nou exist\u00eancia, se deram de Brasileiras (bras\u00edlica), quando ainda<br \/>\nn\u00e3o existia ou n\u00e3o era vulgar o patron\u00edmico da terra,<br \/>\nporventura j\u00e1 revela um sentimento de separa\u00e7\u00e3o, do qual<br \/>\nn\u00e3o tinham qui\u00e7\u00e1 esses acad\u00eamicos consci\u00eancia,<br \/>\nmas que o despeito ou motivos menos ego\u00edsticos, como a ufania da sua<br \/>\nterra, criara. Como quer que seja apontavam todas ao progresso das letras<br \/>\ne da cultura espiritual do Brasil, e trabalhando, ainda mal, como trabalharam,<br \/>\npor esse prop\u00f3sito, trabalharam primeiro pela nossa emancipa\u00e7\u00e3o<br \/>\nintelectual e, por esta, sem ali\u00e1s disso se aperceberem, pela nossa<br \/>\nemancipa\u00e7\u00e3o nacional. Isso, entretanto, n\u00e3o as impediu<br \/>\nde continuarem a fazer a mesma obra liter\u00e1ria dos portugueses, e fazerem-na<br \/>\ninferiormente. Sobre haverem iniciado o com\u00e9rcio e trato rec\u00edproco<br \/>\ndos homens de letras do Brasil, convocando-os de toda a parte dele para se<br \/>\nlhes associarem, tiveram o efeito imediatamente \u00fatil de chamar a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ne despertar o gosto e o amor do estudo da nossa hist\u00f3ria e das nossas<br \/>\ncousas. S\u00e3o testemunho desse seu influxo a Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica<br \/>\nPortuguesa, com que Rocha Pita realizou um dos prop\u00f3sitos da Academia<br \/>\nBras\u00edlica dos Esquecidos, e a Hist\u00f3ria militar do Brasil, de<br \/>\nJos\u00e9 de Mirales, s\u00f3cio da dos Renascidos, e confessadamente<br \/>\nescrita por sua influ\u00eancia.60<\/p>\n<p>Estes, com Nuno Marques Pereira, o autor do Peregrino da Am\u00e9rica,<br \/>\ns\u00e3o os escritores de prosa mais conhecidos desta fase da nossa literatura.<br \/>\nDeles, por\u00e9m, s\u00f3 merecem a aten\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria<br \/>\nliter\u00e1ria Rocha Pita e Marques Pereira.<\/p>\n<p>De Nuno Marques Pereira n\u00e3o sabem os bi\u00f3grafos sen\u00e3o<br \/>\nque nasceu em Cairu, na Bahia, em 1652, e faleceu em Lisboa em 1728. Dos seus<br \/>\nestudos, vida e feitos nada se conhece, que n\u00e3o seja suspeito de infundado.<br \/>\nEra presb\u00edtero secular. No intuito piedoso de denunciar ou de emendar<br \/>\nos costumes do Estado, que se lhe antolhavam p\u00e9ssimos, escreveu o livro<br \/>\ncitado, \u00fanico lavor liter\u00e1rio que se lhe sabe, e cujo t\u00edtulo<br \/>\ncompleto lhe define o est\u00edmulo e prop\u00f3sito. Chama-se compridamente:<br \/>\nComp\u00eandio narrativo do peregrino da Am\u00e9rica em que se tratam<br \/>\nv\u00e1rios discursos espirituais e morais com muitas advert\u00eancias<br \/>\ne documentos contra os abusos que se acham introduzidos pela mil\u00edcia<br \/>\ndiab\u00f3lica no Estado do Brasil.61<\/p>\n<p>O Peregrino da Am\u00e9rica, como abreviadamente se lhe chama, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 de modo algum um conto ou novela, n\u00e3o tem o menor parentesco<br \/>\ncom a chamada literatura de cordel, cousa que no Brasil \u00e9 do s\u00e9culo<br \/>\nXIX, quando aqui apareceu como imita\u00e7\u00e3o ser\u00f3dia ou contrafa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda portuguesa, ent\u00e3o j\u00e1 em decad\u00eancia. N\u00e3o se pode<br \/>\ndizer que o livro de Marques Pereira haja iniciado o g\u00eanero romanesco<br \/>\nou novel\u00edstico no Brasil. \u00c9, por\u00e9m, uma fic\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo o s\u00e3o tamb\u00e9m os Di\u00e1logos das grandezas do Brasil.<br \/>\nUma fic\u00e7\u00e3o de fim e car\u00e1ter religioso, obra de devo\u00e7\u00e3o<br \/>\ne edifica\u00e7\u00e3o. Consiste totalmente a fic\u00e7\u00e3o em<br \/>\no autor, ou quem finge escrever a narrativa, dizer-se um peregrino ou viajor<br \/>\nque trata da sua salva\u00e7\u00e3o (p. 3, ed. 1728) e que andando pelo<br \/>\nmundo aproveita ensejos e oportunidades de doutrinar crist\u00e3mente os<br \/>\ndiversos interlocutores que se lhe deparam, e esse mundo que, segundo um destes,<br \/>\no Anci\u00e3o do cap. I, &#8220;\u00e9 estrada de peregrinos e n\u00e3o<br \/>\nlugar nem habita\u00e7\u00e3o de moradores, porque a verdadeira p\u00e1tria<br \/>\n\u00e9 o C\u00e9u&#8221;. Este pensamento do misticismo crist\u00e3o<br \/>\n\u00e9 o de todo o livro. Nem ele tem outra fabula\u00e7\u00e3o que<br \/>\nos repetidos fingidos encontros do Peregrino com indiv\u00edduos com quem<br \/>\ntroca reflex\u00f5es morais e religiosas, no prop\u00f3sito manifesto<br \/>\nde os doutrinar. Seria ele de todo desinteressante para n\u00f3s, que n\u00e3o<br \/>\nnos compadecemos mais com estas exorta\u00e7\u00f5es paren\u00e9ticas,<br \/>\nse o autor lhes n\u00e3o houvesse freq\u00fcentemente misturado cousas da<br \/>\nvida real, contado anedotas, citado ditos e reflex\u00f5es profanas, aplicado<br \/>\na sua doutrina e moralidade a casos concretos, revendo a vida e os costumes<br \/>\ndo tempo e lugar, referido fatos da sua experi\u00eancia e feito considera\u00e7\u00f5es<br \/>\natrav\u00e9s das quais divisamos sentimentos e id\u00e9ias contempor\u00e2neas<br \/>\ne aspectos da exist\u00eancia colonial. Infelizmente esta fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu livro, que seria para n\u00f3s hoje a mais importante e apraz\u00edvel,<br \/>\n\u00e9 de muito excedida pela de pr\u00e9dica de moral caturra e trivial\u00edssima,<br \/>\nna pior maneira do mau estilo da \u00e9poca. Os moralistas s\u00f3 os<br \/>\nsofremos em literatura com originalidade, agudeza e bom estilo. Nada salva,<br \/>\npois, o Peregrino da Am\u00e9rica de ser a sensaboria que se tornou mal<br \/>\npassado o s\u00e9culo em cujo primeiro ter\u00e7o foi publicado. N\u00e3o<br \/>\npensavam assim os seus contempor\u00e2neos. Este livro, que raros ser\u00e3o<br \/>\ncapazes de ler integralmente, foi um dos mais lidos no seu tempo e no imediatamente<br \/>\nposterior, como provam as cinco edi\u00e7\u00f5es que dele se fizeram<br \/>\nem menos de quarenta anos, n\u00famero consider\u00e1vel para a \u00e9poca.<\/p>\n<p>N\u00e3o era romance ou novela, mas em prosa e impressa era a primeira<br \/>\nobra de imagina\u00e7\u00e3o escrita por natural da terra. E dizia de<br \/>\ncousas desta, e de envolta com refer\u00eancias aos seus costumes, nota\u00e7\u00f5es<br \/>\nde sua vida, alus\u00f5es aos seus moradores, derramava-se em considera\u00e7\u00f5es<br \/>\nde suas manhas. Talvez esteja principalmente nesta atualidade o segredo da<br \/>\nsua estima\u00e7\u00e3o e sucesso. J\u00e1 n\u00e3o era, todavia,<br \/>\ntanta a dos letrados seus patr\u00edcios para o fim do s\u00e9culo, pois<br \/>\nSilva Alvarenga, no canto V do seu poema her\u00f3i-c\u00f4mico O desertor<br \/>\ndas letras (1774), enumerando livros ent\u00e3o considerados somenos e desprez\u00edveis,<br \/>\ncita entre eles o Peregrino da Am\u00e9rica.62<\/p>\n<p>Ao Peregrino da Am\u00e9rica excedem sem d\u00favida muito em valor liter\u00e1rio,<br \/>\nem distin\u00e7\u00e3o de pensamento e excel\u00eancia de express\u00e3o<br \/>\nas Reflex\u00f5es sobre a vaidade dos homens, de Matias Aires da Silva de<br \/>\nE\u00e7a, publicada em Lisboa em 1752. Entretanto s\u00e3o quase desconhecidas,<br \/>\nmesmo dos eruditos e dos historiadores mais minuciosos da nossa literatura,<br \/>\nn\u00e3o obstante o apre\u00e7o que parece haverem merecido dos contempor\u00e2neos,<br \/>\nse tal se pode inferir das quatro edi\u00e7\u00f5es que teve at\u00e9<br \/>\n1768. Matias Aires nasceu em S\u00e3o Paulo a 27 de mar\u00e7o de 1705,<br \/>\nde Jos\u00e9 Ramos da Silva, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Provedor da<br \/>\nCasa da Moeda de Lisboa, e de sua mulher D. Catarina de Horta. N\u00e3o<br \/>\nse lhe conhece a data da morte. Na companhia de seus pais foi para Portugal<br \/>\ncom menos de 12 anos, ali graduou-se de mestre em artes na Universidade de<br \/>\nCoimbra e substituiu o pai na Provedoria da Casa da Moeda, e, parece, nunca<br \/>\nmais tornou ao Brasil. Seria, pois, um esp\u00edrito de pura forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nportuguesa, apenas melhorando, ou somente modificado, quanto \u00e0 cultura,<br \/>\npela estadia em Fran\u00e7a, onde se formou em direito can\u00f4nico e<br \/>\ndireito civil. Pode ser estivesse tamb\u00e9m em outros pa\u00edses europeus.<br \/>\nAl\u00e9m das Reflex\u00f5es sobre a vaidade dos homens ou discursos morais<br \/>\nsobre os efeitos da vaidade, com o mesmo objeto de filosofia moralizante escreveu<br \/>\nmais uma Carta sobre a fortuna, que saiu anexa \u00e0 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas Reflex\u00f5es (1786). H\u00e1 tamb\u00e9m da sua lavra, mas j\u00e1<br \/>\nem outra ordem de id\u00e9ias, o Problema de arquitetura civil, por que<br \/>\nos edif\u00edcios antigos t\u00eam mais dura\u00e7\u00e3o e resistem<br \/>\nmais ao tremor de terra que os modernos? (Lisboa, 1777) e um Discurso congratulat\u00f3rio<br \/>\npela felic\u00edssima convalescen\u00e7a e real vida de El-Rei D. Jos\u00e9,<br \/>\nsa\u00eddo em 1759.<\/p>\n<p>Como moralista, Matias Aires ainda seria hoje benem\u00e9rito de leitura<br \/>\ne estima, sequer pela maior isen\u00e7\u00e3o do seu esp\u00edrito das<br \/>\nestreitezas do moralismo eclesi\u00e1stico dominante no seu tempo, e tamb\u00e9m<br \/>\npela sua express\u00e3o mais desempe\u00e7ada dos v\u00edcios estil\u00edsticos<br \/>\ndo tempo, mais livre, menos pesada e at\u00e9 mais elegante. Encontra-se-lhe<br \/>\nmesmo, n\u00e3o obstante n\u00e3o fazer sen\u00e3o glosar a velha li\u00e7\u00e3o<br \/>\njudaico-crist\u00e3 sobre a vaidade, um ou outro conceito menos vulgar finamente<br \/>\nenunciado. Ele seria o melhor dos nossos moralistas se de fato a sua obra<br \/>\nn\u00e3o valesse principalmente ou quase somente como uma curiosidade liter\u00e1ria<br \/>\ndaqueles tempos, sem tal superioridade de pensamento ou de express\u00e3o<br \/>\nque lhe determine a integra\u00e7\u00e3o nas nossas letras, e menos qualquer<br \/>\nrepercuss\u00e3o ou influxo nelas.63<\/p>\n<p>63Sobre este quase ignorado escritor nascido no Brasil, v. Inoc\u00eancio,<br \/>\nDic Bibl., VI; Solid\u00f4nio Leite, Cl\u00e1ssicos esquecidos, e um artigo<br \/>\ndo Sr. Nestor V\u00edtor no Correio da Manh\u00e3.<\/p>\n<p>Sacramento Blake tamb\u00e9m o noticia com esp\u00e9cies novas, mas para<br \/>\nmim duvidosas.<\/p>\n<p>O aparecimento destas duas obras \u00e9 um acontecimento liter\u00e1rio<br \/>\nacaso mais importante que a numerosa produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica<br \/>\nanterior. A prosa \u00e9 a linguagem da virilidade e da raz\u00e3o. Entrando<br \/>\na exprimir-se tamb\u00e9m em prosa quando at\u00e9 a\u00ed, salvo o<br \/>\nexemplo isolado de Fr. Vicente do Salvador, s\u00f3 em verso se exprimira,<br \/>\ndava a mentalidade que se ia formando, mostra de maior madureza e variedade<br \/>\nde aptid\u00f5es. O versar das letras hist\u00f3ricas e outras, no mesmo<br \/>\ns\u00e9culo, pelos Mirales, Jaboat\u00f5es, Taques, Madres de Deus, Borges<br \/>\nda Fonseca, Velosos, sem embargo da insufici\u00eancia liter\u00e1ria dos<br \/>\nseus produtos, mais claramente o comprova.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o da Rocha Pita nasceu na cidade da Bahia a 3 de maio de 1660.<br \/>\nForam seus pais Jo\u00e3o Velho Godin e D. Brites da Rocha Pita, filha do<br \/>\nCapit\u00e3o-Mor Sebasti\u00e3o da Rocha Pita, &#8220;uma das primeiras<br \/>\ne mais poderosas pessoas de Pernambuco&#8221;, informa, justamente desvanecido<br \/>\nda sua pros\u00e1pia, o neto. Estudou com os jesu\u00edtas no seu col\u00e9gio<br \/>\nda Bahia, at\u00e9 os dezesseis anos. Como no tempo faziam tantos rapazes<br \/>\nda col\u00f4nia de fam\u00edlias abastadas, da Bahia foi estudar a Coimbra,<br \/>\nem cuja Universidade se bacharelou em c\u00e2nones. De volta \u00e0 terra,<br \/>\nfoi feito coronel de um regimento de infantaria de ordenan\u00e7as. Casando<br \/>\ncom uma patr\u00edcia, retirou-se para uma rica fazenda \u00e0s margens<br \/>\ndo Paragua\u00e7u, perto da Cachoeira, onde fez vida de cavalheiro agricultor,<br \/>\ndando-se tamb\u00e9m \u00e0s letras. Al\u00e9m de um romance em verso,<br \/>\nque parece haver merecido pouca estima\u00e7\u00e3o, deu \u00e0 luz,<br \/>\nem Lisboa, duas obras pequenas, e de assunto mais de reportagem que de literatura,<br \/>\nBreve comp\u00eandio e narra\u00e7\u00e3o do f\u00fanebre espet\u00e1culo<br \/>\nque na cidade da Bahia se viu na morte d\u2019El-Rei D. Pedro II, em 1709,<br \/>\ne Sum\u00e1rio da vida e morte da Ex.ma Sr\u00aa D. Leonor Josefa de Vilhena<br \/>\ne das ex\u00e9quias que se celebraram \u00e0 sua mem\u00f3ria na cidade<br \/>\nda Bahia, em 1721. Com estas obrinhas teria tomado gosto das not\u00edcias<br \/>\nda sua terra. A funda\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da Academia Bras\u00edlica<br \/>\ndos Esquecidos porventura o estimularia nesse sentido.<\/p>\n<p>Seus s\u00f3cios deviam &#8220;tomar por mat\u00e9ria geral dos seus estudos<br \/>\na hist\u00f3ria brasileira&#8221;, segundo dizia o pr\u00f3prio auto da<br \/>\nsua funda\u00e7\u00e3o.64 Rocha Pita, que fora dos seus fundadores e dos<br \/>\nmais consp\u00edcuos, empreendeu escrever a do Brasil, mais cabalmente do<br \/>\nque havia sido ainda escrita. Para realizar o seu intento passou-se a Lisboa<br \/>\ne a\u00ed publicou, no dito ano de 1730, a Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica<br \/>\nportuguesa.<\/p>\n<p>Nem pela intui\u00e7\u00e3o e sentimento hist\u00f3rico, nem pelo sabor<br \/>\nliter\u00e1rio, emparelha a Hist\u00f3ria de Rocha Pita com a do Fr. Vicente<br \/>\ndo Salvador. Est\u00e1 em tudo e por tudo obsoleta, e al\u00e9m da fei\u00e7\u00e3o<br \/>\npor assim dizer oficial da sua composi\u00e7\u00e3o, \u00e9 perluxa,<br \/>\nenf\u00e1tica e inchada de pensamento e linguagem. Justamente o excessivo<br \/>\nfloreio de estilo com que foi intencionalmente escrita, e que no-la torna<br \/>\ndesagrad\u00e1vel, fazia-a no seu tempo estim\u00e1vel e foi, n\u00e3o<br \/>\nde todo sem raz\u00e3o, estimada.<\/p>\n<p>Escrita em estilo de prosa po\u00e9tica, como se fora um poema em louvor<br \/>\ndo Brasil, com mais entusiasmo e arroubo de sentimento patri\u00f3tico do<br \/>\nque com a serenidade e o bom ju\u00edzo da hist\u00f3ria, marca justamente<br \/>\na transi\u00e7\u00e3o da poesia a que quase exclusivamente se reduzia<br \/>\na nossa produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria para a prosa em que \u00edamos<br \/>\ncome\u00e7ar a mais freq\u00fcentemente exprimir-nos. Os seus censores oficiais,<br \/>\nsujeitos dos mais doutos do tempo, cobriram-na de louvores, n\u00e3o s\u00f3<br \/>\n\u00e0 sua composi\u00e7\u00e3o, mas ao seu merecimento de obra hist\u00f3rica.<br \/>\nGostava-se ent\u00e3o do que ora nos despraz. A frase de Rocha Pita acham-na<br \/>\neles &#8220;verdadeiramente portuguesa, desafetada, pura, concisa e conceituosa&#8221;.<br \/>\nAfora o casticismo, ali\u00e1s de mau cunho, n\u00e3o pode a cr\u00edtica<br \/>\nhoje sen\u00e3o verificar-lhe as qualidades opostas, isto \u00e9, a prolixidade,<br \/>\na afeta\u00e7\u00e3o, o inchado do frasear e o abuso de conceitos corriqueiros<br \/>\nou rebuscados. De seu valor hist\u00f3rico disseram os censores cousas justas<br \/>\ne boas, se bem prejudicadas pelo seu tom hiperb\u00f3lico, ali\u00e1s<br \/>\nconsoante com o do livro.<\/p>\n<p>O m\u00e9rito incontest\u00e1vel da Hist\u00f3ria de Rocha Pita, ainda<br \/>\ncom as restri\u00e7\u00f5es que do ponto de vista das exig\u00eancias<br \/>\nda hist\u00f3ria se lhe possam fazer, o de ser a mais completa publicada,<br \/>\ncomo lhe reconheceram os censores oficiais, n\u00e3o o era s\u00f3 para<br \/>\nos portugueses que assim podiam melhor informar-se dos sucessos da sua grande<br \/>\ncol\u00f4nia. Aos brasileiros, o livro do historiador baiano, escrito num<br \/>\nestilo que lhes seria muito grato ao paladar liter\u00e1rio e sentimento<br \/>\nnativista, ensinava-lhes a hist\u00f3ria da sua terra, sublimando-a por<br \/>\ntal forma, que eles se ufanariam de serem seus filhos.<\/p>\n<p>A velha tend\u00eancia de apre\u00e7o e gabo da terra, primeiro vagido<br \/>\ndo nosso brasileirismo, gosto e louvor n\u00e3o artificial e de estudo,<br \/>\nmas natural e espont\u00e2neo, por inspir\u00e1-lo realmente a grandeza<br \/>\ne opul\u00eancia dela, tend\u00eancia manifesta, como temos visto, desde<br \/>\nos primeiros representantes espirituais do povo aqui em forma\u00e7\u00e3o,<br \/>\naparecia agora na obra de Rocha Pita como que raciocinada, sistematizada na<br \/>\nprosa t\u00famida e florida do seu primeiro historiador publicado. E desde<br \/>\nent\u00e3o esse feitio empolado e hiperb\u00f3lico de dizer da nossa p\u00e1tria<br \/>\n(casando-se ali\u00e1s perfeitamente com o excesso de detrata\u00e7\u00e3o<br \/>\nela) seria um rasgo not\u00e1vel do nosso sentimento nacional, manifestando-se<br \/>\nliterariamente. Apenas haver\u00e1 d\u2019ora avante poeta ou prosador<br \/>\nque n\u00e3o a celebre e cante com os arroubos l\u00edricos do seu historiador<br \/>\nRocha Pita. Gra\u00e7as \u00e0 sua influ\u00eancia, t\u00e3o consoante<br \/>\ncom o nosso pr\u00f3prio g\u00eanio, ser\u00e1 ela magnificada sobre<br \/>\nposse, a exata no\u00e7\u00e3o da sua natureza deturpada, a sua geografia<br \/>\nfalsificada, as suas verdadeiras fei\u00e7\u00f5es escondidas ou desfiguradas<br \/>\nsob posti\u00e7os e arrebiques de patriotismo convencional ou simpl\u00f3rio.<br \/>\nDas nossas mofinas montanhas, pouco mais que colinas comparadas com as do<br \/>\nantigo continente, ou com as de outras regi\u00f5es do nosso, n\u00e3o<br \/>\nteve Rocha Pita pudor de escrever que &#8220;umas parecem ter os ombros no<br \/>\nc\u00e9u, outras penetr\u00e1-lo com a cabe\u00e7a&#8221;. E os demais<br \/>\naspectos naturais do Brasil s\u00e3o assim por ele engrandecidos.<\/p>\n<p>Ufana-se e embevece-se na enumera\u00e7\u00e3o hiperb\u00f3lica da<br \/>\nnossa fauna e flora, e no seu ing\u00eanuo entusiasmado aceita e propala<br \/>\nas no\u00e7\u00f5es err\u00f4neas que ainda viciam a nossa hist\u00f3ria<br \/>\nnatural popular com a exist\u00eancia de feras tem\u00edveis, de gados<br \/>\nque se alimentam de terra, cobras que trituram o &#8220;maior touro&#8221; e<br \/>\no devoram. Muitas das nossas abus\u00f5es e enganos da opul\u00eancia e<br \/>\nferacidade da nossa terra, ilus\u00f5es umas porventura auspiciosas, outras<br \/>\ncertamente funestas, vieram de Rocha Pita e de sua influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Em meio onde a hist\u00f3ria era apenas um tema liter\u00e1rio e at\u00e9<br \/>\nret\u00f3rico, sem disciplina cient\u00edfica ou rigoroso m\u00e9todo<br \/>\nde investiga\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica, n\u00e3o era despicienda<br \/>\na obra do escritor brasileiro. Compendiava e ordenava n\u00e3o sem capacidade<br \/>\ne num estilo ao sabor da \u00e9poca, as dispersas e desconcertadas no\u00e7\u00f5es<br \/>\nda hist\u00f3ria do pa\u00eds e vulgarizava-as em forma acess\u00edvel<br \/>\ne simp\u00e1tica. Os seus defeitos e falhas n\u00e3o seriam aos contempor\u00e2neos<br \/>\nt\u00e3o patentes quanto avultam para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Poder-se-ia incluir aqui, e n\u00e3o deixaram de faz\u00ea-lo os historiadores<br \/>\nda nossa literatura, um outro brasileiro, o padre Francisco de Souza, natural<br \/>\nda ilha de Itaparica, na Bahia, onde nasceu em 1628, falecido em Goa, na \u00cdndia<br \/>\nportuguesa, em 1713. Em Lisboa publicou ele em 1710 o seu grosso livro Oriente<br \/>\nconquistado a Jesus Cristo pelos padres da Companhia de Jesus na prov\u00edncia<br \/>\nde Goa, not\u00e1vel exemplar da historiografia e da linguagem e estilo<br \/>\ndo tempo. Tendo vivido mais de 80 anos, dos quais a m\u00e1xima parte em<br \/>\nPortugal e na \u00c1sia, e escrito de cousas de todo estranhas ao Brasil<br \/>\ne segundo o esp\u00edrito e a maneira portuguesa, esse nosso patr\u00edcio<br \/>\napenas o \u00e9 pelo acidente do nascimento. Literariamente ainda nos pertence<br \/>\nmenos que Gabriel Soares ou o autor dos Di\u00e1logos das grandezas.<\/p>\n<p>Da mesquinheza po\u00e9tica da maior parte do s\u00e9culo XVIII, surde<br \/>\nentretanto, pelo seu \u00faltimo ter\u00e7o, uma por todos os t\u00edtulos<br \/>\nconsider\u00e1vel produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Tamb\u00e9m,<br \/>\nao menos pelo n\u00famero e m\u00e9rito particular de informa\u00e7\u00e3o,<br \/>\naparecem trabalhos hist\u00f3ricos que constituem contribui\u00e7\u00e3o<br \/>\nnot\u00e1vel \u00e0 prosa brasileira. No momento assinalado, uma pl\u00eaiade<br \/>\nde poetas brasileiros entram a concorrer dignamente com os poetas portugueses<br \/>\ncontempor\u00e2neos, a fazerem-se bem aceitos da literatura m\u00e3e. Mais<br \/>\nbrasileiros que nenhuns outros at\u00e9 a\u00ed, por mais vivo sentimento<br \/>\nda terra natal ou adotiva, ao qual j\u00e1 porventura podemos chamar de<br \/>\nnacional, estabelecem esses poetas a transi\u00e7\u00e3o da fase puramente<br \/>\nportuguesa da nossa literatura para a sua fase brasileira. Esta, iniciada<br \/>\npelo romantismo ao cabo do primeiro ter\u00e7o do seguinte s\u00e9culo,<br \/>\nter\u00e1 nalguns deles os seus inconscientes precursores.<\/p>\n<p>S\u00e3o em suma esses poetas, reunidos sob a denomina\u00e7\u00e3o,<br \/>\na meu ver impr\u00f3pria, de &#8220;escola mineira&#8221;, quando apenas formam<br \/>\num grupo liter\u00e1rio, sem algum rasgo caracter\u00edstico que coletivamente<br \/>\nos distinga, os que enchem esse per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o constituem. Com a cria\u00e7\u00e3o das academias liter\u00e1rias,<br \/>\no crescimento da popula\u00e7\u00e3o, o seu desenvolvimento mental e econ\u00f4mico<br \/>\ne mais o das comunica\u00e7\u00f5es da col\u00f4nia com o Reino, aumentou<br \/>\nconsideravelmente o n\u00famero de versejadores, cujos nomes constam de<br \/>\nrepert\u00f3rios e livros de consulta especiais. Da multid\u00e3o desses<br \/>\nsobressaem, com qualidades que lhes asseguram um lugar \u00e0 parte, aqueles<br \/>\na quem, n\u00e3o obstante n\u00e3o passarem de seis, me proponho a chamar<br \/>\nenglobadamente de pl\u00eaiade mineira: Santa Rita Dur\u00e3o, Cl\u00e1udio<br \/>\nManoel da Costa, Bas\u00edlio da Gama, Alvarenga Peixoto, Tom\u00e1s Gonzaga<br \/>\ne Silva Alvarenga. Estes merecem lugar separado nesta Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Outros contempor\u00e2neos seus, Domingos Caldas Barbosa (1740-1800), Ant\u00f4nio<br \/>\nMendes Bordalo (1750-1806), Domingos Vidal de Barbosa (1760-1793?), Bartolomeu<br \/>\nAnt\u00f4nio Cordovil (1746-1810?), Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (1769-1811),<br \/>\ne que tais versejadores que impertinentemente t\u00eam sido anexados \u00e0<br \/>\nchamada escola mineira, de todo n\u00e3o pertencem ao grupo de poetas com<br \/>\nque indiscretamente a formaram. Alguns lhe n\u00e3o pertencem sequer cronologicamente,<br \/>\ncomo Tenreiro Aranha, nascido quando este grupo j\u00e1 ia em adiantada<br \/>\nforma\u00e7\u00e3o. S\u00e3o demais t\u00e3o insignificantes que podemos<br \/>\ndispensar-nos de os levar em conta no estudo da nossa evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria. Deles \u00e9 um dos de melhor engenho o mulato ou crioulo<br \/>\nCaldas Barbosa. Nasceu no Rio de Janeiro por volta de 1740 ou nesse ano, e<br \/>\nfaleceu em Lisboa em 1800. Passou o maior tempo da sua vida em Portugal, como<br \/>\nfamiliar, parasita, quase f\u00e2mulo dos condes de Pombeiro, capel\u00e3o<br \/>\ne poeta mercen\u00e1rio dessa fam\u00edlia fidalga e generosa. N\u00e3o<br \/>\ntem nenhuma superioridade, por\u00e9m apenas valer\u00e1 menos que muitos<br \/>\ndos poetas portugueses seus contempor\u00e2neos com quem conviveu e emulou.<br \/>\nVivendo a vida portuguesa, conservou, entretanto, alerta, o sentimento \u00edntimo<br \/>\nda po\u00e9tica popular brasileira revelado no estilo de algumas composi\u00e7\u00f5es<br \/>\nsuas em que desce at\u00e9 as formas indecorosas ou delambidas do verso<br \/>\npopular:<\/p>\n<p>Meu bem est\u00e1 mal com eu<\/p>\n<p>Gentes de bem pegou nele<\/p>\n<p>Tape, tape, tipe, tipe,<\/p>\n<p>Ai C\u00e9u<\/p>\n<p>Ela \u00e9 minha iai\u00e1<\/p>\n<p>O seu moleque sou eu.<\/p>\n<p>E que tais modos triviais do nosso lirismo popular de mistura com reminisc\u00eancias,<br \/>\nsentimento e sensa\u00e7\u00f5es de cousas brasileiras.<\/p>\n<p>Cuidei que o gosto de amar<\/p>\n<p>Sempre o mesmo gosto fosse<\/p>\n<p>Mas um amor brasileiro<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei por que \u00e9 mais doce.<\/p>\n<p>Gentes como isto<\/p>\n<p>C\u00e1 \u00e9 temperado<\/p>\n<p>Que sempre o favor<\/p>\n<p>Me sabe a salgado:<\/p>\n<p>N\u00f3s l\u00e1 no Brasil<\/p>\n<p>A nossa ternura<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00facar nos sabe<\/p>\n<p>Tem muita do\u00e7ura<\/p>\n<p>\u00d3! se tem! tem<\/p>\n<p>Tem um mel mui saboroso<\/p>\n<p>\u00c9 bem bom, \u00e9 bem gostoso.<\/p>\n<p>Cantados \u00e0 viola, com os requebros e denguices da musa mulata, e o<br \/>\nsotaque meloso do brasileiro, versos tais teriam em Portugal o sainete do<br \/>\nex\u00f3tico, para resgatar-lhes a mesquinhez da inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da forma. N\u00e3o enriquecem a poesia brasileira. Na hist\u00f3ria<br \/>\ndesta, Caldas Barbosa apenas ter\u00e1 a import\u00e2ncia de testemunhar<br \/>\ncomo se havia j\u00e1 operado no fim do s\u00e9culo XVIII a mesti\u00e7agem<br \/>\nluso-brasileira, que, primeiro f\u00edsica, acabara por influir a psique<br \/>\nnacional. Era natural que essa influ\u00eancia no dom\u00ednio mental se<br \/>\nprincipiasse a manifestar num mesti\u00e7o de primeiro sangue, como parece<br \/>\nera o &#8220;fulo Caldas&#8221;, dos apodos dos seus rivais portugueses. Depois<br \/>\nde Greg\u00f3rio de Matos, na segunda metade do s\u00e9culo XVII, o qual<br \/>\npode ser, apesar da sua jact\u00e2ncia do contr\u00e1rio, n\u00e3o fosse<br \/>\nbranco estreme, \u00e9 com Caldas Barbosa que expressamente se revela na<br \/>\npoesia brasileira, a musa popular brasileira na sua inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ndengosamente er\u00f3tica e no seu estilo baboso.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da poesia, a prosa aqui escrita no mesmo momento, a prosa<br \/>\na que, sequer pelo seu g\u00eanero e intuitos, possamos chamar de liter\u00e1ria,<br \/>\nn\u00e3o deixou documentos que a valorizassem. Os que existem s\u00e3o<br \/>\ntodavia, relativamente numerosos, e alguns merit\u00f3rios no tocante \u00e0<br \/>\nnossa historiografia e informa\u00e7\u00e3o geral do pa\u00eds. Mas<br \/>\ncomo escritores minguam a todos, ou pouco avultam em todos, os atributos que<br \/>\nlhes valeria essa qualifica\u00e7\u00e3o. De outros a atividade mental<br \/>\ne liter\u00e1ria foi inteiramente portuguesa e passou-se em Portugal. Est\u00e3o<br \/>\nneste caso os irm\u00e3os Bartolomeu Louren\u00e7o de Gusm\u00e3o (1685-1724)<br \/>\ne Alexandre de Gusm\u00e3o (1695-1753), ambos paulistas, de Santos. O primeiro<br \/>\nnada tem de comum com a literatura, sen\u00e3o uns med\u00edocres serm\u00f5es<br \/>\nnunca mais lidos; o segundo, alto e vers\u00e1til engenho, pertence por<br \/>\ntoda a sua forma\u00e7\u00e3o e atividade \u00e0 literatura portuguesa,<br \/>\nque justificadamente o adotou.<\/p>\n<p>Os brasileiros a que primeiro nos referimos como autores de obras em prosa<br \/>\ns\u00e3o: Pedro Taques de Almeida Pais Leme (17..-1777);65 Fr. Gaspar da<br \/>\nMadre Deus (1730-1800);66 Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Vitorino Borges da Fonseca<br \/>\n(1718-1786);67 Fr. Ant\u00f4nio de Santa Maria Jaboat\u00e3o (1695-176.).68<br \/>\nS\u00e3o todos estes autores de cr\u00f4nicas e rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nhist\u00f3ricas de nenhum ou de ruim sabor liter\u00e1rio ou de secas<br \/>\ne ins\u00edpidas genealogias, acaso subs\u00eddios valiosos para a nossa<br \/>\nhist\u00f3ria, mas somenos como boas letras. Sobre o aspecto liter\u00e1rio<br \/>\nos sobreleva Fr. Vicente do Salvador com a sua Hist\u00f3ria do Brasil,<br \/>\ne o mesmo Rocha Pita com a da Am\u00e9rica portuguesa. Entretanto esta abund\u00e2ncia<br \/>\nde escritos hist\u00f3ricos e outros que poder\u00edamos citar, no s\u00e9culo<br \/>\nXVIII, n\u00e3o \u00e9 sem import\u00e2ncia e significa\u00e7\u00e3o<br \/>\nna hist\u00f3ria da nossa literatura, como express\u00e3o da nacionalidade.<br \/>\nTestemunha que se continuava a operar aqui o trabalho \u00edntimo e lento<br \/>\nde uma consci\u00eancia nacional que buscava apoio e est\u00edmulo na indaga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos fastos da terra, da pros\u00e1pia e feitos de seus filhos, de que j\u00e1<br \/>\ntirara desvanecimento. Tamb\u00e9m provava a nossa capacidade para lucubra\u00e7\u00f5es<br \/>\nque no Reino haviam dado renome e considera\u00e7\u00e3o aos seus cultores.<br \/>\nSe tivessem sido ent\u00e3o publicados, houveram esses escritos podido ser<br \/>\num fator do sentimento de solidariedade nacional, que \u00e9 o mesmo fundamento<br \/>\ndas na\u00e7\u00f5es. Eram em todo caso prova desse sentimento manifesto<br \/>\nneles no apre\u00e7o exagerado e na ufania, n\u00e3o raro indiscreta,<br \/>\ndela. O isolamento completo e a separa\u00e7\u00e3o dos que aqui cultivaram<br \/>\nletras n\u00e3o eram j\u00e1 t\u00e3o completas gra\u00e7as \u00e0<br \/>\nfunda\u00e7\u00e3o das academias liter\u00e1rias, que os chamaram donde<br \/>\nquer que viessem, para si, como supranumer\u00e1rios ou correspondentes.<br \/>\nA literatura dessa \u00e9poca, tomada a express\u00e3o do seu mais lato<br \/>\nsentido, revela a forma\u00e7\u00e3o vagarosa e ainda obscura mas certa<br \/>\nde uma gente que come\u00e7a a ter o sentimento de si mesma, que d\u00e1<br \/>\nprovas de intelig\u00eancia e capacidade mental e que, tendo a confiada opini\u00e3o<br \/>\nda excel\u00eancia da sua p\u00e1tria, n\u00e3o tardar\u00e1 muito<br \/>\nque n\u00e3o entre a pensar na sua autonomia pol\u00edtica. O est\u00edmulo<br \/>\ndaquilo que, na obscuridade dos seus rinc\u00f5es p\u00e1trios, escreviam<br \/>\ne guardavam esses histori\u00f3grafos desinteressados e modestos, andaria<br \/>\nj\u00e1 rec\u00f4ndito no sentimento popular. \u00c9 por isso que, sem<br \/>\nembargo da sua forma\u00e7\u00e3o portuguesa e do seu respeito e apego<br \/>\n\u00e0s tradi\u00e7\u00f5es espirituais da metr\u00f3pole, os poetas<br \/>\nbrasileiros das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XVIII foram,<br \/>\ncom espontaneidade que lhes explica a distin\u00e7\u00e3o, os int\u00e9rpretes<br \/>\nde tal sentimento. Fato significativo, a poesia de ent\u00e3o, pelo estro<br \/>\nde Santa Rita Dur\u00e3o, prop\u00f5e-se claramente a cantar o Brasil,<br \/>\ncom a mesma inten\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica com que Cam\u00f5es<br \/>\ncantara Portugal.<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo VI<\/h4>\n<p><strong>A PL\u00caIADE MINEIRA<\/strong><\/p>\n<p>DAS CAPITANIAS BRASILEIRAS era certamente a de Minas a que mais motivos dava<br \/>\nao surto deste sentimento e aspira\u00e7\u00e3o. Nos povos como nos indiv\u00edduos,<br \/>\no principal est\u00edmulo \u00e0 autonomia \u00e9 a consci\u00eancia,<br \/>\nque lhes d\u00e1 a abastan\u00e7a, de se poderem prover a si mesmos. Descobertas<br \/>\nna segunda metade do s\u00e9culo XVII, as minas que denominaram a regi\u00e3o,<br \/>\ne grandemente incrementada nesta a minera\u00e7\u00e3o do ouro e do diamante,<br \/>\naflui-lhe das capitanias vizinhas, Bahia, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo,<br \/>\ntoda a gente, e foi muita, para quem aquelas julgadas f\u00e1ceis riquezas<br \/>\neram irresist\u00edvel chamariz. Assim se come\u00e7ou a fazer a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Capitania de Minas Gerais, desde ent\u00e3o a mais avultada, a mais densa<br \/>\ne logo depois a mais rica do Brasil. Como a riqueza cria a cultura, pelas<br \/>\nfacilidades que lhes proporciona, tamb\u00e9m a mais culta.<\/p>\n<p>Por disposi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do pa\u00eds, e pela variedade<br \/>\ndos s\u00edtios minerais descobertos, a vida local, longe de se concentrar<br \/>\nexclusivamente numa cidade capital, dispersava-se por v\u00e1rios pontos<br \/>\nimportantes, Sabar\u00e1, S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, Diamantina, Mariana,<br \/>\nSerro. Com as suas escolas avulsas, semin\u00e1rios episcopais, col\u00e9gios<br \/>\nde jesu\u00edtas ou aulas de outros religiosos, tamb\u00e9m atra\u00eddos<br \/>\npelo engodo das minas, eram tais vilas e cidades outros tantos pequenos focos<br \/>\nde instru\u00e7\u00e3o, e contribu\u00edam para difundi-la pelas comarcas<br \/>\ncujo centro eram e pela capitania. Valeriam ainda porventura mais como est\u00edmulo<br \/>\ndo esp\u00edrito de autonomia, do municipalismo, que devia contrastar o<br \/>\noficialismo rein\u00edcola da capital. A riqueza feita a muitos dos seus<br \/>\nmoradores pela minera\u00e7\u00e3o, do mesmo passo que os excitava a uma<br \/>\nvida larga e de luxo, largueza e luxo relativos mas consoantes com o meio,<br \/>\ne para ele at\u00e9 ostentoso, movia-os a mandarem os filhos n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 a Portugal, mas tamb\u00e9m a outros pa\u00edses europeus, seguir<br \/>\nestudos superiores. No s\u00e9culo XVIII, mormente na sua segunda metade,<br \/>\no n\u00famero de doutores, leigos e eclesi\u00e1sticos, e de cl\u00e9rigos<br \/>\ncom estudos superiores dos semin\u00e1rios, era com certeza em Minas Gerais<br \/>\nmaior do que em qualquer outra capitania. J\u00e1 ent\u00e3o, devido justamente<br \/>\na serem principalmente de religiosos os estabelecimentos de ensino e as aulas<br \/>\navulsas de latim criadas em v\u00e1rias localidades pelas reformas de Pombal,<br \/>\nandava muito espalhado o estudo do latim e sab\u00ea-lo era vulgar em Minas.<br \/>\nA ci\u00eancia do latim constitu\u00eda ainda, mesmo na mais adiantada<br \/>\nEuropa, o fundamento e o essencial de toda a cultura. Nas festividades feitas<br \/>\nem Mariana, em 1748, por ocasi\u00e3o da ere\u00e7\u00e3o do bispado<br \/>\ne posse do seu primeiro prelado, nos outeiros e academias realizadas como<br \/>\npartes das festas, numerosos versejadores e letrados recitaram, al\u00e9m<br \/>\nde discursos congratulat\u00f3rios e serm\u00f5es peneg\u00edricos,<br \/>\ngr\u00e1vidos de erudi\u00e7\u00e3o latina e hidr\u00f3picos de hip\u00e9rboles,<br \/>\nd\u00fazias de poemas, curtos e longos, d\u00e9cimas, sonetos, elegias,<br \/>\nacr\u00f3sticos, cantos her\u00f3icos, glosas, silvas, epigramas, em latim<br \/>\ne em portugu\u00eas.69 Da li\u00e7\u00e3o e cultura da capitania podemos<br \/>\nfazer id\u00e9ia pelas livrarias particulares nela \u00e0quele tempo existentes.<br \/>\nD\u00e3o-nos informa\u00e7\u00e3o a respeito os autos de seq\u00fcestros<br \/>\nfeitos nos bens dos implicados na chamada Conjura\u00e7\u00e3o Mineira.<br \/>\nAl\u00e9m dos livros profissionais de estudo e consulta, constitu\u00edam-nas<br \/>\ngeralmente os melhores autores latinos no original e gregos no original e<br \/>\nem tradu\u00e7\u00f5es latinas, e mais os franceses Descartes, Condillac,<br \/>\nCorneille, Racine, Bossuet, Montesquieu, Voltaire, tratados e dicion\u00e1rios<br \/>\nde hist\u00f3ria e erudi\u00e7\u00e3o, as d\u00e9cadas de Barros e<br \/>\nCouto, os poetas cl\u00e1ssicos portugueses, e tamb\u00e9m Tasso, Milton,<br \/>\nMetast\u00e1sio, Quevedo, afora dicion\u00e1rios de v\u00e1rias l\u00ednguas,<br \/>\nobras de matem\u00e1ticas, ci\u00eancias naturais e f\u00edsicas e outras.70<\/p>\n<p>Ainda em antes de findar o primeiro quartel do s\u00e9culo, come\u00e7aram<br \/>\na manifestar-se em Minas sintomas de descontentamento da metr\u00f3pole<br \/>\ne de hostilidades aos seus propostos \u00e0 governan\u00e7a da capitania.<br \/>\nContam-se desde ent\u00e3o alguns alvorotos e motins, pomposa e impropriamente<br \/>\napelidados de revoltas e at\u00e9 de revolu\u00e7\u00f5es pelos historiadores<br \/>\nind\u00edgenas, contra o governo colonial. Reprimidos alguns com a bruta<br \/>\nviol\u00eancia com que em todos os tempos todos os governos presumem impedir<br \/>\no natural levante contra os seus desmandos, a sua repress\u00e3o apenas<br \/>\nserviu para desenvolver ou acirrar a animadvers\u00e3o do brasileiro contra<br \/>\no reinol. Dos governadores da capitania os houve fidalgos da melhor nobreza<br \/>\nportuguesa, homens de corte e de sociedade, talvez com os v\u00edcios e<br \/>\ndefeitos nessas comuns, mas em todo caso com as prendas que eram o apan\u00e1gio<br \/>\nde sua classe. Acompanhavam-nos outros gentis-homens, que com os filhos da<br \/>\nterra mais graduados por educa\u00e7\u00e3o, haveres, fam\u00edlias<br \/>\ne postos, faziam em Vila Rica, a pitoresca capital de Minas, uma pequena corte.<br \/>\nFestas de igreja, freq\u00fcentes e pomposas, cavalhadas, canas e outros divertimentos<br \/>\ndo Reino para aqui, a que acudiam os vizinhos desde Diamantina, Mariana e<br \/>\nmais longe, e animavam.<\/p>\n<p>Mais numerosa e mais densa que nenhuma outra do Brasil, a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Minas, aquela ao menos que tinha Vila Rica por centro imediato, sentia-se<br \/>\nmelhor o contacto rec\u00edproco, criador da solidariedade. Sendo a mais<br \/>\nrica, era tamb\u00e9m a mais isenta, a mais desvanecida de suas possibilidades.<br \/>\nEste desvanecimento bairrista tinha-o Tiradentes em sumo grau. O esp\u00edrito<br \/>\nlocalista, fei\u00e7\u00e3o cong\u00eanita dos mineiros, oriundos das<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e morais do desenvolvimento da capitania,<br \/>\nfortificava ali o nativismo ou nacionalismo regional. O sentimento da liberdade<br \/>\ne da independ\u00eancia, atribu\u00eddo geralmente aos montanheses, parece<br \/>\nter em Minas mais uma vez justificado o conceito. Foi este meio que produziu<br \/>\na flora\u00e7\u00e3o de poetas que \u00e9 a pl\u00eaiade mineira. Em<br \/>\nqualquer outro do Brasil o seu aparecimento se n\u00e3o compreenderia.<\/p>\n<p>Esses poetas s\u00e3o: Santa Rita Dur\u00e3o (17&#8230;-1784), Cl\u00e1udio<br \/>\nda Costa (1729-1780), Bas\u00edlio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto<br \/>\n(1744-1793), Tom\u00e1s Gonzaga (1744-1807?), Silva Alvarenga (1749-1814).<br \/>\nEstes s\u00e3o os que formam o grupo at\u00e9 aqui impropriamente chamado<br \/>\nde escola mineira, e que chamaremos, porventura, com mais propriedade, a pl\u00eaiade<br \/>\nmineira. Al\u00e9m destes, e pelo mesmo tempo, produziu Minas muitos outros<br \/>\npoetas, somenos a este, meros versejadores ocasionais, como sempre os houve<br \/>\naqui, dos quais nenhum ultrapassou a fama local contempor\u00e2nea. Os mais<br \/>\nmi\u00fados noticiadores nomeiam: Joaquim In\u00e1cio de Seixas Brand\u00e3o,<br \/>\nJoaquim Jos\u00e9 Lisboa, Ant\u00f4nio Caetano Vilas Boas da Gama, irm\u00e3o<br \/>\nde Bas\u00edlio, Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos, Francisco Greg\u00f3rio<br \/>\nPires Monteiro Bandeira, Miguel Eug\u00eanio da Silva Mascarenhas, Silv\u00e9rio<br \/>\nRibeiro de Carvalho, Francisco e Domingos Barbosa, Matias Alves de Oliveira.<br \/>\nS\u00e3o nomes sem outra significa\u00e7\u00e3o e valia que o de servirem<br \/>\npara atestar a exist\u00eancia em Minas de for\u00e7as po\u00e9ticas<br \/>\nque ajudam a explicar a forma\u00e7\u00e3o daquela pl\u00eaiade.<\/p>\n<p>Mas a s\u00f3 influ\u00eancia deste meio, onde nasceram e se criaram,<br \/>\nn\u00e3o bastaria a explicar-lhes o estro e surto po\u00e9tico, e menos<br \/>\na atividade liter\u00e1ria. A esse primeiro influxo p\u00e1trio juntou-se<br \/>\npreponderantemente o de sua longa perman\u00eancia na Europa, do seu conv\u00edvio<br \/>\nem um ambiente social e liter\u00e1rio mais estimulante dos seus dons nativos<br \/>\ndo que seria a sua terra e o meio, em suma acanhado, em que se haviam criado.<br \/>\nO contr\u00e1rio ali\u00e1s passou com Tom\u00e1s Gonzaga, do grupo<br \/>\no \u00fanico que n\u00e3o era brasileiro, e o \u00fanico de quem se<br \/>\npode dizer que foi o Brasil que o fez poeta. N\u00e3o se conhece com efeito<br \/>\nnenhuma produ\u00e7\u00e3o anterior \u00e0s liras de Mar\u00edlia<br \/>\nde Dirceu, e estas resultaram de seus amores malfadados com uma brasileira,<br \/>\ne, concomitantemente, de sucessos em que se achou envolvido no Brasil, que<br \/>\naos seus louros de poeta juntaram a coroa de m\u00e1rtir da liberdade.<\/p>\n<p>I \u2014 OS L\u00cdRICOS<\/p>\n<p>Quando se lhes formou o esp\u00edrito aos poetas mineiros ou come\u00e7avam<br \/>\neles a poetar, vi\u00e7ava em Portugal o arcadismo, movimento propositadamente<br \/>\niniciado ali por meados do mesmo s\u00e9culo XVIII contra o gongorismo do<br \/>\ns\u00e9culo antecedente. O arcadismo, por\u00e9m, foi mais que uma escola,<br \/>\num estilo liter\u00e1rio. Ao contr\u00e1rio dos seus manifestos intuitos<br \/>\nn\u00e3o conseguiu, se n\u00e3o muito parcialmente, nem desbancar o seiscentismo,<br \/>\nnem fazer regressar as letras portuguesas, como era o seu prop\u00f3sito,<br \/>\n\u00e0 natureza e ao natural, \u00e0 nobre simplicidade, \u00e0 pureza<br \/>\nda frase, \u00e0 verossimilhan\u00e7a dos pensamentos. Ali\u00e1s estas<br \/>\nvirtudes nunca foram comuns nessas letras. E no arcadismo ficaram ainda ressaibos<br \/>\ndemasiados do sescentismo contra o qual se organizara.<\/p>\n<p>Os poetas mineiros, como os demais poetas brasileiros da mesma \u00e9poca,<br \/>\nnenhum benem\u00e9rito de men\u00e7\u00e3o particular, s\u00e3o antes<br \/>\nde tudo Arcades, ainda quando n\u00e3o pertencem efetivamente a alguma das<br \/>\nArc\u00e1dias do Reino. No Brasil nenhuma houve com exist\u00eancia real<br \/>\nde sociedade organizada de poetas. As de que se fala n\u00e3o passaram de<br \/>\nimagina\u00e7\u00f5es e fingimentos seus. Como \u00c1rcades portugueses,<br \/>\neles n\u00e3o foram somente ao geral dos seus contempor\u00e2neos da metr\u00f3pole,<br \/>\nantes, como reconheceu Garrett e o t\u00eam verificado outros historiadores<br \/>\nda literatura portuguesa, contribu\u00edram para lhe avultar e enriquecer<br \/>\na poesia naquela \u00e9poca. O que decididamente os sobreleva \u00e0queles<br \/>\ne os torna mais not\u00e1veis e, para n\u00f3s ao menos, mais interessantes,<br \/>\ns\u00e3o as suas novas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 poesia portuguesa,<br \/>\ncom as quais tamb\u00e9m entra a nossa a se distinguir dela. Introduzem<br \/>\num novo elemento de emo\u00e7\u00e3o, o seu nativismo comovido, o seu<br \/>\npatriotismo particular; um novo assunto, a gente e a natureza americana, e<br \/>\ncom isto, e resultante disto, novos sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nindefin\u00edveis talvez mais sens\u00edveis, que o meio novo de que eram,<br \/>\ndo qual ou no qual cantavam, lhes influ\u00eda nas almas. Escapando, pelo<br \/>\nseu mesmo exotismo ao predom\u00ednio absoluto das tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nliter\u00e1rias portuguesas, ao rigor da moda po\u00e9tica ent\u00e3o<br \/>\nna metr\u00f3pole vigente, puderam ser e foram mais naturais, mais isentos<br \/>\ndos defeitos e v\u00edcios em que se desmanda ali essa moda. S\u00e3o,<br \/>\nem suma, menos gong\u00f3ricos que os portugueses, sacrificam muito menos<br \/>\n\u00e0 mitologia e ao trem cl\u00e1ssico do que eles.<\/p>\n<p>Segundo a ordem cronol\u00f3gica de sua manifesta\u00e7\u00e3o, Cl\u00e1udio<br \/>\nda Costa \u00e9 o primeiro destes poetas. Nasceu no S\u00edtio da Vargem,<br \/>\ndistrito da cidade de Mariana, aos 5 de junho de 1729, de Jo\u00e3o Gon\u00e7alves<br \/>\nda Costa, portugu\u00eas, e Teresa Ribeiro de Alvarenga, mineira. Seu pai<br \/>\nocupava-se de minera\u00e7\u00e3o e lavoura. Por parte de pai, seus av\u00f3s<br \/>\neram portugueses, e de m\u00e3e brasileiros, de S\u00e3o Paulo e de boa<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o. Eram gente abonada, pois quatro dos seus cinco filhos<br \/>\ncursaram a Universidade de Coimbra. Tinha em Minas um tio frade e doutor,<br \/>\nFr. Francisco Vieira, que fora opositor daquela Universidade e era agora procurador-geral<br \/>\nda Religi\u00e3o da SS. Trindade no Brasil. Com ele iniciou os primeiros<br \/>\nestudos de latim em Ouro Preto, donde aos quatorze anos se passou ao Rio de<br \/>\nJaneiro. Aqui, no col\u00e9gio dos jesu\u00edtas, estudou filosofia. Com<br \/>\nvinte anos embarcou para Portugal, com destino a Coimbra, em cuja Universidade<br \/>\nse formou em c\u00e2nones. Entre 1753 e 54 recolheu ao Brasil, dando-se \u00e0<br \/>\nadvocacia em Vila Rica, onde tamb\u00e9m exerceu o importante cargo de secret\u00e1rio<br \/>\ndo Governo. Por sua idade, boa li\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, fama de<br \/>\ndouto e cr\u00e9dito de autor publicado, exerceu Cl\u00e1udio da Costa<br \/>\nali uma esp\u00e9cie de magist\u00e9rio entre os seus confrades em musa,<br \/>\nmaiores e menores, que todos lhe liam as suas obras e lhe escutavam os conselhos.<br \/>\nAos sessenta anos foi comprometido na chamada Conjura\u00e7\u00e3o Mineira.<br \/>\nPreso, e sem d\u00favida apavorado com as conseq\u00fc\u00eancias da tremenda<br \/>\nacusa\u00e7\u00e3o de r\u00e9u de inconfid\u00eancia, suicidou-se na<br \/>\npris\u00e3o.71<\/p>\n<p>Na minuta manuscrita de seus escritos que acompanha os citados apontamentos,<br \/>\ndeclara Cl\u00e1udio que &#8220;aplicado desde os primeiros anos ao estudo<br \/>\ndas belas-letras&#8221; conservava in\u00e9ditos em 1759: Rimas nas l\u00ednguas<br \/>\nlatina, italiana, portuguesa, castelhana e francesa em poesia her\u00f3ica<br \/>\ne l\u00edrica, dois tomos in 4\u00ba. \u00c9 preciosa a confiss\u00e3o,<br \/>\nmenos como testemunho da capacidade po\u00e9tica do nosso patr\u00edcio<br \/>\nem cinco l\u00ednguas, que por mostrar quanto, com mais de meio s\u00e9culo<br \/>\nde permeio, e a despeito da Arc\u00e1dia, estava ainda perto de Botelho<br \/>\nde Oliveira, o poeta seiscentista da M\u00fasica do Parnaso em quatro coros<br \/>\nde rimas portuguesas, castelhanas, italianas e latinas. Cl\u00e1udio Manoel<br \/>\nda Costa \u00e9 ali\u00e1s, e ficaria, o mais portugu\u00eas dos poetas<br \/>\nmineiros, o mais seiscentista e simultaneamente o mais arc\u00e1dico, o<br \/>\nmais achegado \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o e po\u00e9tica portuguesa<br \/>\ntradicional e a do momento em que se lhe formou o esp\u00edrito, em suma,<br \/>\no menos brasileiro do grupo. Di-lo bastantemente o s\u00f3 t\u00edtulo<br \/>\nde seus escritos in\u00e9ditos e publicados, Rimas pastoris ou Musa buc\u00f3lica,<br \/>\ncent\u00faria sacra, poema ao glorioso parto de Maria Sant\u00edssima,<br \/>\nMon\u00fasculo po\u00e9tico, Culto m\u00e9trico a certa abadessa, e<br \/>\nquejandos.<\/p>\n<p>Poetou e escreveu com abund\u00e2ncia segundo se v\u00ea das suas mesmas<br \/>\ncitadas informa\u00e7\u00f5es, e o testemunha a parte publicada de sua<br \/>\nobra.72<\/p>\n<p>Nos citados &#8220;Apontamentos&#8221; figuram entre os seus manuscritos Poesias<br \/>\ndram\u00e1ticas que se t\u00eam muitas vezes representado nos teatros de<br \/>\nVila Rica, Minas em geral e Rio de Janeiro e V\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es<br \/>\nde dramas de Metast\u00e1sio. Alguns destes dramas em rima solta, outros<br \/>\nem prosa, proporcionados ao teatro portugu\u00eas. Sobre confirmarem a variedade<br \/>\nde aptid\u00f5es po\u00e9ticas de Cl\u00e1udio da Costa, seriam estas<br \/>\nobras contribui\u00e7\u00e3o porventura estim\u00e1vel para a hist\u00f3ria<br \/>\nda nossa literatura dram\u00e1tica e ainda do nosso teatro. Parece que se<br \/>\nperderam todas. De sua copiosa obra po\u00e9tica, a por\u00e7\u00e3o<br \/>\nverdadeiramente insigne s\u00e3o os Sonetos, entre os quais os h\u00e1<br \/>\nrivalizando os mais excelentes da l\u00edngua. Obedecendo \u00e0 po\u00e9tica<br \/>\npreconizada pelos fautores da Arc\u00e1dia, embora com sobreviv\u00eancias<br \/>\ndo seiscentismo, duas fei\u00e7\u00f5es distinguem os sonetos de Cl\u00e1udio<br \/>\nManuel da Costa: um vago perfume camoniano e uma sensibilidade particular<br \/>\nporventura a primeira manifesta\u00e7\u00e3o da nostalgia brasileira,<br \/>\ndepois repetida por tantos poetas nossos. S\u00e3o amostras destes dois<br \/>\ntra\u00e7os os sonetos:<\/p>\n<p>Se os poucos dias que vivi contente<\/p>\n<p>Foram bastantes para o meu cuidado,<\/p>\n<p>Que pode vir a um pobre desgra\u00e7ado<\/p>\n<p>Que a id\u00e9ia do seu mal n\u00e3o acrescente!<\/p>\n<p>Aquele mesmo bem, que me consente,<\/p>\n<p>Talvez prop\u00edcio, meu tirano fado<\/p>\n<p>Esse mesmo me diz, que o meu estado<\/p>\n<p>Se h\u00e1 de mudar em outro diferente.<\/p>\n<p>Leve pois a fortuna os seus favores;<\/p>\n<p>Eu os desprezo j\u00e1; porque \u00e9 loucura<\/p>\n<p>Comprar a tanto pre\u00e7o as minhas dores:<\/p>\n<p>Se quer que me n\u00e3o queixe, a sorte escura<\/p>\n<p>Ou saiba ser mais firme nos rigores ou saiba ser constante na brandura.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Onde estou! este s\u00edtio desconhe\u00e7o;<\/p>\n<p>Quem fez t\u00e3o diferente aquele prado!<\/p>\n<p>Tudo outra natureza tem tomado;<\/p>\n<p>E em contempl\u00e1-las t\u00edmido esmore\u00e7o.<\/p>\n<p>Uma fonte aqui houve; eu n\u00e3o me esque\u00e7o<\/p>\n<p>De estar a ela um dia reclinado:<\/p>\n<p>Ali em vale um monte est\u00e1 mudado:<\/p>\n<p>Quanto pode dos anos o progresso!<\/p>\n<p>\u00c1rvores aqui vi t\u00e3o florescentes<\/p>\n<p>Que faziam perp\u00e9tua a primavera:<\/p>\n<p>Nem troncos vejo agora decadentes.<\/p>\n<p>Eu me engano: a regi\u00e3o esta n\u00e3o era:<\/p>\n<p>Mas que venho a estranhar, se est\u00e3o presentes,<\/p>\n<p>Meus males com que tudo degenera!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Este \u00e9 o rio, a montanha \u00e9 esta,<\/p>\n<p>Estes os troncos, estes os rochedos,<\/p>\n<p>S\u00e3o estes inda os mesmos arvoredos;<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a mesma r\u00fastica floresta.<\/p>\n<p>Tudo cheio de horror se manifesta,<\/p>\n<p>Rio, montanhas, troncos e penedos<\/p>\n<p>Que de amor nos suav\u00edssimos enredos<\/p>\n<p>Foi cena alegre, e urna \u00e9 j\u00e1 funesta.<\/p>\n<p>Oh! quam lembrado estou de haver subido<\/p>\n<p>Aquele monte, e \u00e0s vezes, que baixando<\/p>\n<p>Deixei do pranto o vale umedecido!<\/p>\n<p>Tudo me est\u00e1 a mem\u00f3ria retratando;<\/p>\n<p>Que na mesma saudade do infame ru\u00eddo<\/p>\n<p>Vem as mortas esp\u00e9cies despertando.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mem\u00f3rias do presente, e do passado<\/p>\n<p>Fazem guerra cruel dentro em meu peito;<\/p>\n<p>E bem que ao sofrimento ando j\u00e1 feito,<\/p>\n<p>Mais que nunca desperta hoje o cuidado.<\/p>\n<p>Que diferente, que diversos estado<\/p>\n<p>\u00c9 este, em que somente o triste efeito<\/p>\n<p>Da pena, a que meu mal me tem sujeito,<\/p>\n<p>Me acompanha entre aflito e magoado!<\/p>\n<p>Tristes lembran\u00e7as! e que em v\u00e3o componho<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria da vossa sombra escura!<\/p>\n<p>Que n\u00e9scio em v\u00f3s a ponderar me ponho!<\/p>\n<p>Ide-vos; que em t\u00e3o m\u00edsera loucura<\/p>\n<p>Todo o passado bem tenho por sonho;<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e9 certa a presente desventura.<\/p>\n<p>Adorador fiel das musas europ\u00e9ias, age n\u00e3o obstante nele o<br \/>\nincoers\u00edvel imp\u00e9rio da terra natal, para onde quisera trazer<br \/>\ne onde quisera aclimatar aquelas musas, e o seu cortejo cl\u00e1ssico de<br \/>\n&#8220;ninfas, o pastor, a ovelha, o touro&#8221;:<\/p>\n<p>Musas, canoras Musas, este canto<\/p>\n<p>V\u00f3s me inspirastes, v\u00f3s meu tenro alento<\/p>\n<p>Erguestes brandamente \u00e0quele assento.<\/p>\n<p>Que tanto, \u00f3 Musas, prezo, adoro tanto.<\/p>\n<p>L\u00e1grimas tristes s\u00e3o, m\u00e1goas e pranto,<\/p>\n<p>Tudo o que entoa o m\u00fasico instrumento;<\/p>\n<p>Mas se o favor me dais, ao mundo atento<\/p>\n<p>Em assunto maior farei espanto.<\/p>\n<p>Se em campos n\u00e3o pisados algum dia<\/p>\n<p>Entre a Ninfa, o Pastor, a ovelha, o touro,<\/p>\n<p>Efeitos s\u00e3o da vossa melodia;<\/p>\n<p>Que muito, \u00f3 Musas, pois, que em fausto agouro<\/p>\n<p>Cres\u00e7am do p\u00e1trio rio \u00e0 margem fria<\/p>\n<p>A imarcesc\u00edvel hera, o verde louro!<\/p>\n<p>Sem embargo dos seus poemas de intuitos nativistas, como a F\u00e1bula<br \/>\ndo Ribeir\u00e3o do Carmo e Vila Rica, faltou-lhe infelizmente talento para<br \/>\ndesta transplanta\u00e7\u00e3o fazer melhor do que instalar na paisagem<br \/>\ne no ambiente americano os estafados temas e motivos da cansada poesia pastoril<br \/>\nportuguesa, sem ter ao menos, como Gonzaga, alguma forte paix\u00e3o que<br \/>\nos revi\u00e7asse. Influenciado sem d\u00favida pelo exemplo de Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama e de Dur\u00e3o, comp\u00f4s o seu poema brasileiro, se n\u00e3o<br \/>\npelo sentimento e inspira\u00e7\u00e3o, pelo assunto, Vila Rica. \u00c9<br \/>\numa obra med\u00edocre, indigna do poeta dos Sonetos e ainda de outros versos,<br \/>\na qual apenas rev\u00ea o apego \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o que fazia<br \/>\nanacronicamente viver esse g\u00eanero na literatura da nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p>Vern\u00e1culo nesta e correto na forma e estilo po\u00e9tico de fino<br \/>\ne delicado sentimento, com tons bastante pessoais, apenas um todo nada gong\u00f3rico,<br \/>\nCl\u00e1udio Manoel da Costa \u00e9, todavia, julgando-o pelo conjunto<br \/>\nda sua obra, o mais \u00e1rcade dos \u00e1rcades brasileiros. N\u00e3o<br \/>\ntem alguma emo\u00e7\u00e3o grande ou profunda, poetiza por poetizar,<br \/>\nacademicamente, seguindo de perto a escola na inspira\u00e7\u00e3o, nos<br \/>\ntemas preferidos, nas formas m\u00e9tricas. \u00c9 um virtuose e um diletante,<br \/>\nse podemos juntar os dois termos, mas o \u00e9 com engenho e n\u00e3o<br \/>\nraro, nos Sonetos, formosamente. Nenhum dos seus poemas em que se pode enxergar<br \/>\nalgo de sentimento p\u00e1trio, ou de influxo da terra natal, se distingue<br \/>\nna sua obra. Revelam, por\u00e9m, todos, ainda que vagamente, como tais<br \/>\nmotivos come\u00e7avam a impor-se aos engenhos brasileiros, dos quais volvido<br \/>\nmeio s\u00e9culo se iam tornar prediletos.<\/p>\n<p>Nasceu Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga em Portugal, na cidade do Porto,<br \/>\nem 1744, de pai fluminense e m\u00e3e portuguesa, filha de ingl\u00eas.<br \/>\nComo o pai houvesse exercido a magistratura na Bahia, Tom\u00e1s Gonzaga<br \/>\npassou algum tempo da adolesc\u00eancia nessa cidade, ainda ent\u00e3o<br \/>\na principal do Brasil. Voltando com a fam\u00edlia a Portugal, aos vinte<br \/>\ne quatro anos bacharelou-se em leis em Coimbra. Por ter sido opositor a cadeiras<br \/>\nda faculdade jur\u00eddica, fez jus ao t\u00edtulo de desembargador. Com<br \/>\nessa gradua\u00e7\u00e3o veio para o Brasil, em 1782, nomeado ouvidor<br \/>\nde Vila Rica, a pitoresca e sombria capital de Minas Gerais. Afora a declara\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma de suas liras, de que por amor de Mar\u00edlia destru\u00edra os<br \/>\nversos que antes de a conhecer consagrara a outras mulheres, declara\u00e7\u00e3o<br \/>\nque apenas ser\u00e1 gentileza de namorado, n\u00e3o se conhece testemunho<br \/>\nde que Gonzaga houvesse poetado antes de vir para o Brasil. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\nnenhum ind\u00edcio h\u00e1 de o ter feito.73 Foi o Brasil que o fez poeta,<br \/>\ne \u00e9 isto que o naturaliza brasileiro. Aqui se lhe depararam os motivos<br \/>\ndo seu poetar, primeiro a mulher que parece ter amado de um grande e terno<br \/>\namor, principal est\u00edmulo do seu estro at\u00e9 ent\u00e3o adormecido;<br \/>\ndepois os sucessos que, a despeito da sua inoc\u00eancia, o envolveram na<br \/>\nchamada Conjura\u00e7\u00e3o Mineira. Despeda\u00e7ando-lhe a exist\u00eancia,<br \/>\nque se lhe antolhava auspiciosamente fagueira, esses sucessos ajuntaram \u00e0s<br \/>\nemo\u00e7\u00f5es dolorosas dos seus contrariados amores o abalo cruel<br \/>\nde uma calamidade inaudita: a acusa\u00e7\u00e3o do crime de lesa-majestade,<br \/>\na pris\u00e3o, os ferros, os maus tratos, a masmorra, um longo e martirizante<br \/>\nprocesso, a perspectiva da forca, em suma o desmoronar s\u00fabito e brutal<br \/>\nde todas as suas risonhas esperan\u00e7as de namorado e funcion\u00e1rio,<br \/>\nem via de realiza\u00e7\u00e3o. De sua dor fez as formosas can\u00e7\u00f5es<br \/>\nque o imortalizaram, como um dos bons poetas do amor da nossa l\u00edngua.<br \/>\nA brasileira sua amada era uma jovem matuta, sem outra cultura e esp\u00edrito<br \/>\nque as suas gra\u00e7as naturais. Para ser dela entendido e toc\u00e1-la,<br \/>\nversejou-lhe naturalmente, simplesmente, com o m\u00ednimo de artif\u00edcios<br \/>\ncl\u00e1ssicos poss\u00edvel \u00e0 po\u00e9tica portuguesa, quase<br \/>\nsem arrebiques liter\u00e1rios, nem rebuscas de express\u00e3o, que ela<br \/>\npudesse desentender. Assim como lhe forneceu o motivo e o est\u00edmulo<br \/>\nde inspira\u00e7\u00e3o, deu-lhe o Brasil tamb\u00e9m o estilo que o<br \/>\ndistingue e sobreleva aos seus pares. Como poeta \u00e9, pois, Gonzaga um<br \/>\nl\u00eddimo produto brasileiro.<\/p>\n<p>Comutada a pena de morte, imposta pela al\u00e7ada que julgou a presumida<br \/>\nconspira\u00e7\u00e3o, em degredo para Angola, em \u00c1frica, ali morreu<br \/>\nde mis\u00e9ria moral e f\u00edsica pelos anos de 1807 a 1809. A primeira<br \/>\nedi\u00e7\u00e3o de suas liras, sob o t\u00edtulo que se devia tornar<br \/>\nfamoso de Mar\u00edlia de Dirceu, apareceu em Lisboa, em 1792, no mesmo<br \/>\nano da sua condena\u00e7\u00e3o e desterro. E desde ent\u00e3o se tem<br \/>\nfeito delas, aumentadas de suas partes, cuja autenticidade \u00e9 question\u00e1vel,<br \/>\ntrinta e quatro edi\u00e7\u00f5es.74 Nenhum outro poema da nossa l\u00edngua,<br \/>\ncom a s\u00f3 exce\u00e7\u00e3o dos Lus\u00edadas, teve t\u00e3o<br \/>\ngrande n\u00famero de edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mar\u00edlia de Dirceu, o t\u00edtulo consagrado das liras de Gonzaga,<br \/>\n\u00e9 a mais nobre e perfeita idealiza\u00e7\u00e3o do amor da nossa<br \/>\npoesia. Cl\u00e1ssica embora de l\u00edngua e po\u00e9tica, \u00e9<br \/>\numa obra pessoal, escapa e superior \u00e0s f\u00f3rmulas e compet\u00eancias<br \/>\ndas escolas. Canta de amor numa toada sinceramente sentida e por isso tocante,<br \/>\ndo amor como a grande e fecunda e honesta paix\u00e3o humana nas suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom a vida, ainda nos seus aspectos prosaicos, a exist\u00eancia e os sentimentos<br \/>\nvulgares ou sublimes. Por essa express\u00e3o \u00e9 Gonzaga um grande<br \/>\npoeta.<\/p>\n<p>No que em Gonzaga se rev\u00ea o portugu\u00eas, como ali\u00e1s em Cl\u00e1udio<br \/>\nda Costa, brasileiro nato, \u00e9 nos afeites portugueses de sua poesia,<br \/>\nos fingimentos pastoris, imagens e tropos de ambos derivados. Isso mesmo,<br \/>\npor\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 mais essencialmente portugu\u00eas do que<br \/>\nitaliano ou espanhol, se n\u00e3o puramente arc\u00e1dico. Mas a realidade<br \/>\nda sua situa\u00e7\u00e3o, a verdade do seu sentimento, a sinceridade<br \/>\nda sua emo\u00e7\u00e3o, sobrelevaram as m\u00e1culas postas no seu<br \/>\npoema pelos inevit\u00e1veis estigmas da po\u00e9tica em voga e quase<br \/>\nas apagaram. Se o Brasil o naturalizou seu, fazendo-o poeta, ele por sua vez<br \/>\nfoi o principal agente de naturaliza\u00e7\u00e3o aqui da sentimentalidade<br \/>\nvoluptuosa do lirismo portugu\u00eas. Foi ele, com efeito, o primeiro que<br \/>\nno Brasil cantou t\u00e3o constante, t\u00e3o exclusiva e t\u00e3o ternamente<br \/>\nde amor.<\/p>\n<p>Dos poetas desta pl\u00eaiade, o de obra menos consider\u00e1vel \u00e9<br \/>\nIn\u00e1cio Jos\u00e9 de Alvarenga Peixoto.75 Natural do Rio de Janeiro,<br \/>\nfilho de Sim\u00e3o de Alvarenga Braga e de D. \u00c2ngela Micaela da Cunha,<br \/>\nque ignoramos se eram brasileiros ou portugueses, gente se n\u00e3o de bom<br \/>\nnascimento, abonada. Feitos os primeiros estudos com os jesu\u00edtas, na<br \/>\nsua cidade natal, por volta de 1760 foi conclu\u00ed-los em Portugal. Em<br \/>\nCoimbra formou-se em leis, em Cintra foi juiz de fora e no Reino demorou-se<br \/>\nat\u00e9 depois de 1775. Neste ano ainda se encontrava ali, onde, com outros<br \/>\npoetas e versejadores brasileiros, Bas\u00edlio da Gama e seu irm\u00e3o<br \/>\nAnt\u00f4nio Caetano Vilas Boas da Gama, Joaquim In\u00e1cio de Seixas,<br \/>\nda fam\u00edlia da futura namorada de Gonzaga, Silva Alvarenga e outros<br \/>\nmais versejou \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o da est\u00e1tua de D. Jos\u00e9<br \/>\nI. De Portugal voltou despachado ouvidor da Comarca do Rio das Mortes. Este<br \/>\ncargo, e o seu posterior casamento com uma senhora mineira de fam\u00edlia<br \/>\npaulista, levou Alvarenga Peixoto a domiciliar-se e estabelecer-se em Minas,<br \/>\nonde trocou a profiss\u00e3o de magistrado pela de fazendeiro e minerador<br \/>\ne o t\u00edtulo acad\u00eamico de doutor pelo de coronel, pelo qual ficou<br \/>\nmais conhecido. Dera-lhe esta patente, com o comando do regimento de cavalaria<br \/>\nda campanha do Rio Verde, o Governador D. Lu\u00eds da Cunha Menezes. Vivendo<br \/>\nem S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, ia freq\u00fcentemente a Vila Rica, onde<br \/>\nera h\u00f3spede habitual de Gonzaga, de quem devia ter sido companheiro<br \/>\nem Coimbra e era ainda parente. Estes dois poetas e Cl\u00e1udio da Costa<br \/>\nencontravam-se em fraternal conv\u00edvio, comunicando-se mutuamente as<br \/>\nsuas composi\u00e7\u00f5es e conversando de letras e, naturalmente, das<br \/>\ncousas da capitania. Destas conversa\u00e7\u00f5es, em que tomariam parte<br \/>\noutros homens de letras ou de alguma representa\u00e7\u00e3o na capitania,<br \/>\nmal entendidas por uns, deturpadas por outros, originou-se a suspeita de uma<br \/>\nconjura\u00e7\u00e3o contra o dom\u00ednio portugu\u00eas, com o intento<br \/>\nde conflagrar a capitania e proclamar a sua independ\u00eancia. N\u00e3o<br \/>\nobstante o seu aulicismo e a const\u00e2ncia de suas manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nbajulat\u00f3rias de venera\u00e7\u00e3o a soberanos e magnates portugueses<br \/>\nseus delegados, foi Alvarenga Peixoto comprometido nela, preso e, com Gonzaga<br \/>\ne seus outros companheiros de suspei\u00e7\u00e3o, trazido algemado para<br \/>\nas l\u00f4bregas masmorras do Rio de Janeiro. Ap\u00f3s um longo processo<br \/>\nde tr\u00eas anos, delas saiu para o desterro de Ambaca em \u00c1frica,<br \/>\nonde pouco depois morreu em 1793.<\/p>\n<p>A crermos os seus bi\u00f3grafos, incluindo o melhor deles, Norberto Silva,<br \/>\nAlvarenga Peixoto escreveu muito maior n\u00famero de composi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo que as que se lhe conhecem, e que Norberto foi quem mais completa e cuidadosamente<br \/>\ncolecionou.76 Voltando de Portugal ao Rio de Janeiro, aqui o acolheu benignamente<br \/>\no vice-rei Marqu\u00eas de Lavradio. No teatro ou &#8220;casa da \u00f3pera&#8221;,<br \/>\ncomo lhe chamavam, criado por este vice-rei, fez Alvarenga Peixoto, sempre<br \/>\nchegado aos magnates, representar uma tradu\u00e7\u00e3o em versos de<br \/>\nM\u00e9rope, trag\u00e9dia de Maffei e tamb\u00e9m um drama original,<br \/>\nigualmente em versos, En\u00e9ias no L\u00e1cio. Tal \u00e9 ao menos<br \/>\na vers\u00e3o de Cunha Barbosa77 propalada por Norberto, ignoramos com que<br \/>\nfundamento. Infelizmente essas tentativas, como as de Cl\u00e1udio da Costa,<br \/>\ne outros que porventura houve, perderam-se totalmente. Assim tamb\u00e9m<br \/>\nse teriam perdido, levadas no tuf\u00e3o da devassa e seq\u00fcestros de<br \/>\nque foram objeto os acusados de inconfid\u00eancia e seus bens, muitas outras<br \/>\ncomposi\u00e7\u00f5es de Alvarenga Peixoto. No que dele nos resta \u2014<br \/>\nvinte sonetos, duas liras, tr\u00eas odes incompletas, uma cantata e um canto<br \/>\nem oitava rima78 \u2014 percebe-se um bom poeta, de seu natural f\u00e1cil<br \/>\ne fluente. N\u00e3o lhe falta imagina\u00e7\u00e3o nem conceito. Infelizmente<br \/>\no motivo principal de sua inspira\u00e7\u00e3o no que dele nos ficou,<br \/>\nversos na maior parte de enc\u00f4mios a magnates, versos de cortes\u00e3o,<br \/>\nlhe haveria prejudicado dotes que mais se adivinham que se sentem. Passa como<br \/>\num dos seus melhores sonetos A saudade, feito depois da sua senten\u00e7a<br \/>\nde morte. N\u00e3o lhe seriam inferiores A l\u00e1stima, composta &#8220;na<br \/>\nmasmorra da Ilha das Cobras, lembrando-se da fam\u00edlia&#8221;, nem o feito<br \/>\n\u00e0 Rainha D. Maria I suplicando-lhe a comuta\u00e7\u00e3o da pena<br \/>\nde morte, se n\u00e3o houvesse em ambas demasiados tra\u00e7os da ruim<br \/>\npo\u00e9tica do tempo, empolada e campanuda. Comparticipa Alvarenga Peixoto<br \/>\ndo sentimento comum a estes poetas de afeto, pode mesmo dizer-se de ufania,<br \/>\nda terra natal, unido a um sincero apego a Portugal. Manifesta-se na maior<br \/>\nparte dos poemas que lhe conhecemos, particularmente na ode \u00e0 Rainha<br \/>\nD. Maria I, da qual se poderia inferir ter havido aqui a esperan\u00e7a<br \/>\nde que ela c\u00e1 viesse, em visita \u00e0 sua col\u00f4nia:<\/p>\n<p>Se o Rio de Janeiro<\/p>\n<p>S\u00f3 a gl\u00f3ria de ver-vos merecesse<\/p>\n<p>J\u00e1 era vosso mundo novo inteiro<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>Vinde, real senhora<\/p>\n<p>Honrar os nossos mares por dous meses<\/p>\n<p>Vinde ver o Brasil que vos adora<\/p>\n<p>&#8230;..<\/p>\n<p>Vai, ardente desejo,<\/p>\n<p>Entra humilhado na real Lisboa<\/p>\n<p>Sem ser sentido do invejoso Tejo<\/p>\n<p>Aos p\u00e9s augusto voa,<\/p>\n<p>Chora e faze que a m\u00e3e compadecida<\/p>\n<p>Dos saudosos filhos se condoa<\/p>\n<p>&#8230;..<\/p>\n<p>Da Am\u00e9rica o furor<\/p>\n<p>Perdoai, grande augusta; \u00e9 lealdade<\/p>\n<p>S\u00e3o dignos de perd\u00e3o crimes de amor.<\/p>\n<p>Este sentimento, que \u00e9 manifesto em todos os poetas, desdiz do que<br \/>\nlhes imputou a torva e suspicaz pol\u00edtica dos governadores e vice-reis<br \/>\nportugueses, cujo excessivo zelo lhes transformou apenas indiscretas conversa\u00e7\u00f5es<br \/>\nem conjura\u00e7\u00e3o e fez destes \u00e1rcades ideol\u00f3gicos<br \/>\nr\u00e9us de inconfid\u00eancia, destruindo est\u00fapida e maldosamente<br \/>\ntr\u00eas destes am\u00e1veis poetas. Este \u00edntimo sentimento casava-se-lhes<br \/>\nna fantasia com a ambi\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica de que se aumentasse<br \/>\nna monarquia portuguesa a import\u00e2ncia de sua terra e que as nobres estirpes<br \/>\ndaquela dessem aqui rebentos que lhe quisessem como a sua. Estas e outras<br \/>\nquimeras, vagos e indecisos sonhos de poetas, se encontram no Sonho e no Canto<br \/>\ngenetl\u00edaco, de Alvarenga Peixoto, em que, a prop\u00f3sito do filho<br \/>\ndo governador D. Rodrigo de Menezes, se rejubila de que<\/p>\n<p>Os her\u00f3is das mais altas cataduras<\/p>\n<p>Principiam a ser patr\u00edcios nossos.<\/p>\n<p>Chegamos ao \u00faltimo, na ordem do tempo, dos l\u00edricos deste belo<br \/>\ngrupo. \u00c9 Manoel In\u00e1cio da Silva Alvarenga, natural de Vila Rica,<br \/>\nem Minas, onde nasceu em 1749, donde saiu apenas adolescente e aonde n\u00e3o<br \/>\nmais voltou. Era filho de um homem pardo, In\u00e1cio Silva Alvarenga, m\u00fasico<br \/>\nde profiss\u00e3o, como t\u00eam sido tant\u00edssimos de sua ra\u00e7a<br \/>\nno Brasil, e pobre, e de m\u00e3e desconhecida. A benevol\u00eancia de<br \/>\npessoas a quem a sua intelig\u00eancia e voca\u00e7\u00e3o estudiosa<br \/>\ninteressava, deveu poder vir para o Rio estudar, e daqui, feitos os preparat\u00f3rios,<br \/>\nseguir para Coimbra, onde se bacharelou em c\u00e2nones, sempre com as melhores<br \/>\naprova\u00e7\u00f5es, em 1775 ou 76, com 27 anos de idade. Em Portugal<br \/>\nrelacionou-se com alguns patr\u00edcios, como Alvarenga Peixoto e Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama, mais velhos do que ele e tamb\u00e9m poetas. Do \u00faltimo,<br \/>\nparece, foi grande amigo. Celebrou-o mais de uma vez, e efusivamente, em seus<br \/>\nversos. No c\u00edrculo destes e de outros brasileiros dados \u00e0s musas,<br \/>\nter-se-ia primeiro feito conhecido. Em 1774 publicara em Coimbra o poema her\u00f3i-c\u00f4mico.<br \/>\nO Desertor (8\u00ba, 69 p\u00e1gs.), metendo \u00e0 bulha o escolasticismo<br \/>\ncoimbr\u00e3o, pouco antes desbancado pelas reformas pombalinas, e celebrando<br \/>\nestas reformas. Franco \u00e9 o m\u00e9rito liter\u00e1rio deste poema.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9, todavia, despiciendo como documento de um novo estado<br \/>\nde esp\u00edrito, mais literal e desabusado, da sociedade portuguesa sob<br \/>\na a\u00e7\u00e3o de Pombal, e do caminho que havia feito em esp\u00edritos<br \/>\nliter\u00e1rios brasileiros o sentimento p\u00e1trio, manifestado no poema<br \/>\nem alus\u00f5es, refer\u00eancias, lembran\u00e7as de cousas nossas.<br \/>\nQuando foi do dil\u00favio po\u00e9tico da inaugura\u00e7\u00e3o da<br \/>\nest\u00e1tua eq\u00fcestre de D. Jos\u00e9 I, em 1775, Silva Alvarenga<br \/>\no engrossou com um soneto e uma ode. O mesmo motivo inspirou-lhe ainda a ep\u00edstola<br \/>\nem alexandrinos de treze s\u00edlabas Ao sempre augusto e fidel\u00edssimo<br \/>\nrei de Portugal o Senhor D. Jos\u00e9 I no dia da coloca\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sua real est\u00e1tua eq\u00fcestre. Era ent\u00e3o estudante, e tal<br \/>\nse declara no impresso da obra. Dois anos depois vinha a lume o Templo de<br \/>\nNetuno, poemeto (id\u00edlio) de sete p\u00e1ginas em tercetos e quartetos,<br \/>\nmuito bem metrificados, com que, ao mesmo tempo que celebra a aclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Rainha D. Maria I:<\/p>\n<p>Possa da augusta filha o forte bra\u00e7o<\/p>\n<p>Por longo tempo sustentar o escudo,<\/p>\n<p>Que ampara tudo o que seu reino encerra<\/p>\n<p>E encher de astros o c\u00e9u, de her\u00f3is a terra.<\/p>\n<p>se despede sinceramente sentido de seu amigo o patr\u00edcio Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama:<\/p>\n<p>Ainda me parece que saudoso<\/p>\n<p>Te vejo estar da praia derradeira<\/p>\n<p>Cansando a vista pelo mar undoso.<\/p>\n<p>Sei que te h\u00e3o de assustar de quando em quando<\/p>\n<p>Os ventos, os v\u00e1rios climas e o perigo<\/p>\n<p>De quem t\u00e3o longos mares vai cortando.<\/p>\n<p>Vive, Termindo, e na inconstante estrada<\/p>\n<p>Pisa a cerviz da ind\u00f4mita fortuna,<\/p>\n<p>Tendo a vol\u00fabil roda encadeada<\/p>\n<p>Aos p\u00e9s do trono em s\u00f3lida coluna.<\/p>\n<p>Com este conselho baixamente pr\u00e1tico ao rec\u00e9m-protegido de<br \/>\nPombal para que angarie tamb\u00e9m o patroc\u00ednio da rainha de pouco<br \/>\naclamada, e que ia ser o centro da rea\u00e7\u00e3o contra aquele, termina<br \/>\nSilva Alvarenga o seu poema. Antes de lhes exprobrarmos a vileza do sentimento,<br \/>\nconsideremos que era muito menor e muito mais desculp\u00e1vel do que iguais<br \/>\nque agora vemos em todo o g\u00eanero de plumitivos. Ele procedia consoante<br \/>\no tempo e o uso geral de poetas e literatos, que ainda n\u00e3o tinham outro<br \/>\nrecurso que a prote\u00e7\u00e3o dos poderosos. Precede imediatamente<br \/>\nesta quadra menos digna, e acaso por isso mesmo menos bela, o formoso e sentido<br \/>\nterceto:<\/p>\n<p>Se enfim respiro os puros climas nossos,<\/p>\n<p>No teu seio fecundo, \u00f3 P\u00e1tria amada,<\/p>\n<p>Em paz descansem os meus frios ossos,<\/p>\n<p>que rev\u00ea o sentimento do amor da terra natal comum a todos estes poetas,<br \/>\nque todos o manifestaram de forma a lhe sentirmos o trabalho de transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo limitado nativismo, se n\u00e3o apenas bairrismo, de seus predecessores<br \/>\nem um patriotismo mais consciente e amplo. Vinha este poema assinado por &#8220;Alcindo<br \/>\nPalmireno, \u00e1rcade ultramarino&#8221; e era endere\u00e7ado a &#8220;Jos\u00e9<br \/>\nBas\u00edlio da Gama, Termindo Sep\u00edlio&#8221;. Estas alcunhas arc\u00e1dicas,<br \/>\ne outras que tomaram v\u00e1rios poetas do mesmo grupo, como a de Dirceu,<br \/>\nde Gonzaga, n\u00e3o indicam nos que as traziam a qualidade de associados<br \/>\nde alguma das sociedades liter\u00e1rias ent\u00e3o existentes com o nome<br \/>\nde Arc\u00e1dias. Somente de Cl\u00e1udio e Bas\u00edlio se pode crer<br \/>\nque a tais sociedades pertencessem. Na maioria dos outros, do grupo mineiro<br \/>\nou n\u00e3o, era apenas um apelido gen\u00e9rico. Arc\u00e1dia quer<br \/>\ndizer assento de poetas, e por extens\u00e3o poesia, e, em Portugal e aqui,<br \/>\na poesia na \u00e9poca vigente. \u00c1rcade valia, pois, o mesmo que poeta.<br \/>\n&#8220;\u00c1rcade ultramarino&#8221; n\u00e3o dizia mais que poeta do ultramar,<br \/>\nsem de forma alguma indicar a exist\u00eancia no Brasil dessas sociedades,<br \/>\nque de fato nunca aqui existiram.<\/p>\n<p>Foi Silva Alvarenga um dos mais fecundos e melhores poetas da pl\u00eaiade<br \/>\nmineira. Desde o Desertor das letras, o seu poema her\u00f3i-c\u00f4mico<br \/>\ncontra o carrancismo do ensino universit\u00e1rio, n\u00e3o cessou de<br \/>\nversejar. Em folhas avulsas, folhetos, cole\u00e7\u00f5es e floril\u00e9gios<br \/>\ndiversos, jornais liter\u00e1rios portugueses e brasileiros (pois ainda<br \/>\nfoi contempor\u00e2neo dos que primeiro aqui apareceram), foram publicadas<br \/>\nas suas muitas obras. A de mais vulto, o poema madrigalesco Glaura, saiu em<br \/>\nLisboa em 1799 e 1801. As notas de aprova\u00e7\u00e3o obtidas em Coimbra<br \/>\npor Silva Alvarenga lhe arg\u00faem h\u00e1bitos de estudo s\u00e9rio,<br \/>\nque tudo faz supor conservasse depois de graduado e pela vida adiante. Era<br \/>\nseguramente homem de muito boas letras, com a melhor cultura liter\u00e1ria<br \/>\nque ent\u00e3o em Portugal se pudesse fazer. Quanto a ela, juntava, al\u00e9m<br \/>\ndo engenho po\u00e9tico, talento real, esp\u00edrito e bom gosto pouco<br \/>\nvulgar no tempo; sobejam-lhe as obras para o provar, nomeadamente os seus<br \/>\npref\u00e1cios e poemas did\u00e1ticos. Assenta consigo mesmo, embora<br \/>\nsegundo a Arc\u00e1dia e Gar\u00e7\u00e3o, que na &#8220;imita\u00e7\u00e3o<br \/>\nda natureza consiste toda a for\u00e7a da poesia&#8221;, e a sua Ep\u00edstola<br \/>\na Jos\u00e9 Bas\u00edlio, insistindo nesta opini\u00e3o, est\u00e1<br \/>\ncheia de discretos conceitos de bom ju\u00edzo liter\u00e1rio. Se nem<br \/>\nsempre os praticou, \u00e9 que mais pode com ele a influ\u00eancia do momento<br \/>\nliter\u00e1rio que as excelentes regras da sua arte po\u00e9tica. Lera<br \/>\nArist\u00f3teles, Plat\u00e3o, Homero. Lida com eles e os cita de conhecimento<br \/>\ndireto, e a prop\u00f3sito. Conhece as literaturas modernas mais ilustres,<br \/>\ninclusive a inglesa. N\u00e3o lhe s\u00e3o estranhas as ci\u00eancias<br \/>\nmatem\u00e1ticas, f\u00edsicas ou naturais. No seu poema As artes, as<br \/>\nfigura, ou se lhes refere com apropriadas alegorias ou pertinentes alus\u00f5es.<\/p>\n<p>Formado em c\u00e2nones voltou Silva Alvarenga ao Rio de Janeiro em 1777,<br \/>\ne aqui se deixou ficar, talvez porque nenhum afeto ou interesse de fam\u00edlia,<br \/>\nque n\u00e3o a tinha regular, o chamasse a Minas, sua terra natal. V\u00e1rios<br \/>\npoemas seus, nomeadamente a sua Ode \u00e0 mocidade portuguesa, a ep\u00edstola<br \/>\na Bas\u00edlio da Gama e As artes, acima citado, mostram em Silva Alvarenga<br \/>\num esp\u00edrito ardoroso de cultura, de progresso intelectual, e entusiasta<br \/>\nde letras e ci\u00eancias. Ele traria para o Brasil desejos e impulsos de<br \/>\npromover tudo isto aqui. Angariando a boa vontade do vice-rei de ent\u00e3o,<br \/>\nMarqu\u00eas do Lavradio, fundou, com outros doutos que aqui encontrou, uma<br \/>\nsociedade cient\u00edfica, cujo objeto principal &#8220;era n\u00e3o esquecerem<br \/>\nos seus s\u00f3cios as mat\u00e9rias que em outros pa\u00edses haviam<br \/>\naprendido, antes pelo contr\u00e1rio adiantar os seus conhecimentos&#8221;.79<br \/>\nFoi ef\u00eamera a exist\u00eancia desta sociedade. Num outro vice-rei,<br \/>\nLu\u00eds de Vasconcelos e Sousa, encontrou igualmente o nosso poeta anima\u00e7\u00e3o<br \/>\ne patroc\u00ednio. Por ele teve a nomea\u00e7\u00e3o de professor r\u00e9gio<br \/>\nde uma aula de ret\u00f3rica e po\u00e9tica, solenemente inaugurada em<br \/>\n1782, e sob os seus ausp\u00edcios restaurou, em 1786, com a denomina\u00e7\u00e3o<br \/>\nagora de Sociedade Liter\u00e1ria, a associa\u00e7\u00e3o extinta. Dela<br \/>\nfoi secret\u00e1rio e porventura a alma.80 A mal conhecida exist\u00eancia<br \/>\ndestas duas associa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias fundadas por Alvarenga<br \/>\ndeu azo \u00e0s hip\u00f3teses e imagina\u00e7\u00f5es que t\u00eam<br \/>\nali\u00e1s ocorrido como certezas, de uma Arc\u00e1dia Ultramarina, criada<br \/>\npor ele com o concurso de Bas\u00edlio da Gama, que entretanto estava em<br \/>\nPortugal, donde nunca mais saiu. Dos s\u00f3cios destas duas sociedades,<br \/>\nm\u00e9dicos, letrados, padres, o \u00fanico nome que escapou ao completo<br \/>\nesquecimento e a hist\u00f3ria liter\u00e1ria recolheu al\u00e9m do<br \/>\nde Silva Alvarenga, foi o de Mariano Jos\u00e9 Pereira da Fonseca, o futuro<br \/>\nMarqu\u00eas de Maric\u00e1, autor das M\u00e1ximas. A esta atividade<br \/>\nliter\u00e1ria juntava Alvarenga a profiss\u00e3o de advogado. Mudado<br \/>\no vice-rei liberal pelo Conde de Rezende, que n\u00e3o o era (1790), este,<br \/>\ntornado mais desconfiado pelos recentes sucessos da Inconfid\u00eancia Mineira,<br \/>\nenxergou nessa reuni\u00e3o de estudiosos e homens de letras n\u00e3o<br \/>\nsei que sinistros projetos de conjura contra o poder real. Preso em 1794,<br \/>\nap\u00f3s m\u00faltiplos interrogat\u00f3rios e mais de dois anos de<br \/>\npris\u00e3o nas l\u00f4bregas masmorras da fortaleza de Santo Ant\u00f4nio,<br \/>\nfoi Silva Alvarenga restitu\u00eddo sem julgamento \u00e0 liberdade. Teve<br \/>\nsorte. N\u00e3o eram acaso mais culpados do que ele os seus confrades de<br \/>\nMinas, dois anos antes, comutada a senten\u00e7a de morte em desterro, mandados<br \/>\nmorrer nas in\u00f3spitas areias africanas. Faltou apenas um pouco mais<br \/>\nde zelo ao vice-rei Rezende e ao principal juiz da nova al\u00e7ada, o poeta<br \/>\ndo Hissope, Dinis. Viveu at\u00e9 1814 e colaborou ainda no Patriota, a<br \/>\nrevista liter\u00e1ria que fomentou o movimento intelectual anterior \u00e0<br \/>\nindepend\u00eancia.<\/p>\n<p>Pelo esp\u00edrito, pelo temperamento liter\u00e1rio, pelo estilo tanto<br \/>\ncomo pela idade, \u00e9 Silva Alvarenga o mais moderno dos poetas do grupo,<br \/>\no menos iscado dos v\u00edcios da \u00e9poca, o mais livre dos preconceitos<br \/>\nda escola, cujas alus\u00f5es e rid\u00edculo n\u00e3o desconhecia,<br \/>\ncomo se v\u00ea na sua Ep\u00edstola a Jos\u00e9 Bas\u00edlio. Tem<br \/>\nal\u00e9m disso bom humor, esp\u00edrito e, em suma, rev\u00ea melhor<br \/>\nque os outros a emancipa\u00e7\u00e3o produzida em certos esp\u00edritos<br \/>\npela pol\u00edtica antijesu\u00edtica de Pombal. Com ser mestre de ret\u00f3rica,<br \/>\nevita mais que os outros os recursos do arsenal cl\u00e1ssico e mitol\u00f3gico.<br \/>\nE quando cede \u00e0 corrente, o faz com muito mais personalidade sen\u00e3o<br \/>\noriginalidade, mesmo com desembara\u00e7o e liberdade rara no tempo. \u00c9<br \/>\ndisso prova a sua formosa her\u00f3ide Teseu e Ariana, uma das melhores<br \/>\namostras da nossa poesia, naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>II \u2014 OS \u00c9PICOS<\/p>\n<p>\u00c9 principalmente na \u00e9pica que os brasileiros, se n\u00e3o<br \/>\nsobrelevam aos portugueses da segunda metade do s\u00e9culo XVIII, concorrem<br \/>\ndignamente com eles. Os dois poemas brasileiros, o Uraguai,* de Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama, e o Caramuru, de Santa Rita Dur\u00e3o, n\u00e3o desmerecem das<br \/>\nmelhores epop\u00e9ias portuguesas da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Bas\u00edlio da Gama nasceu nos arredores da antiga Vila de<br \/>\nS. Jos\u00e9 do Rio das Mortes, depois S. Jos\u00e9 de El-Rei, hoje Tiradentes,<br \/>\n1741. Foram seus pais o capit\u00e3o-mor Manoel da Costa Vilas Boas, portugu\u00eas,<br \/>\ne D. Quit\u00e9ria In\u00e1cia da Gama, brasileira, ambos de bom nascimento.<br \/>\nA m\u00e3e descendia da nobre fam\u00edlia Gama de Portugal, motivo por<br \/>\nque talvez o filho lhe preferisse o apelido ao do pai. De seus ascendentes<br \/>\nsomente eram brasileiros a m\u00e3e e a av\u00f3 materna. \u00d3rf\u00e3o<br \/>\nde pai em anos verdes, e talvez minguado de bens, veio para o Rio de Janeiro<br \/>\ncursar de favor o col\u00e9gio dos jesu\u00edtas. Estava para professar<br \/>\nna Companhia quando foi esta dissolvida e seus membros expulsos dos dom\u00ednios<br \/>\nportugueses. Aproveitando a exce\u00e7\u00e3o em favor dos n\u00e3o<br \/>\nprofessos, abandonou Bas\u00edlio da Gama a Companhia. Do Brasil passou<br \/>\na Portugal e da\u00ed a Roma, onde foi admitido \u00e0 Arc\u00e1dia<br \/>\nRomana. De Roma voltou ao Brasil em fins de 1766 ou princ\u00edpios de 1767.<br \/>\nEm meados do ano seguinte tornava a Portugal, com destino \u00e0 Universidade<br \/>\nde Coimbra. Preso em Lisboa como ex-jesu\u00edta, esquivou o conseq\u00fcente<br \/>\ndesterro para Angola consagrando um formoso poema ao casamento de uma filha<br \/>\ndo Marqu\u00eas de Pombal, ministro todo-poderoso de D. Jos\u00e9 I. No<br \/>\npr\u00f3prio ano (1769) desse Epital\u00e2mio, saiu da Impress\u00e3o<br \/>\nr\u00e9gia o Uraguai. Como no mesmo volume vinha a Rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nabreviada, famosa diatribe contra os jesu\u00edtas, obra pessoa de Pombal,<br \/>\n\u00e9 leg\u00edtimo conjeturar que por conta deste correra a publica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo poema. Dedicado no texto ao irm\u00e3o de Pombal, ex-governador do Par\u00e1,<br \/>\nMaranh\u00e3o, era oferecido ao marqu\u00eas em um soneto preliminar. Desde<br \/>\nent\u00e3o n\u00e3o saiu mais Bas\u00edlio da Gama de Portugal, sendo<br \/>\ninexata a not\u00edcia corrente de uma segunda vinda ao Brasil depois da<br \/>\npublica\u00e7\u00e3o do Uraguai. Al\u00e9m deste, que \u00e9 a sua<br \/>\nobra capital, comp\u00f4s mais de trinta poemas, entre maiores e menores,<br \/>\nsem contar algumas glosas. Em 1754 foi nomeado oficial da Secretaria do Reino.<br \/>\nSucessivamente obteve mais tarde o t\u00edtulo de escudeiro fidalgo da Casa<br \/>\nReal (1787) e o h\u00e1bito de Santiago da Espada. Emprego e merc\u00ea<br \/>\nlhe davam uma renda anual que n\u00e3o s\u00f3 o punha ao abrigo de priva\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmas lhe facultava viver com relativa largueza. Aos cinq\u00fcenta e quatro<br \/>\nanos, ou perto deles, faleceu em Lisboa, solteiro, a 31 de julho de 1795.81<\/p>\n<p>Pouco adequado a um poema \u00e9pico segundo os moldes cl\u00e1ssicos,<br \/>\nera o assunto de Bas\u00edlio da Gama: a guerra que Portugal, auxiliado<br \/>\npela Espanha, fez aos \u00edndios dos Sete Povos das Miss\u00f5es do Uruguai,<br \/>\nrebelados contra o tratado de 1750, que os passava ao dom\u00ednio portugu\u00eas,<br \/>\ntirando-os aos seus padres os jesu\u00edtas que os haviam descido, amansado<br \/>\ne aldeado, e os despejava de suas terras. Tal tema, ainda exagerado por uma<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o \u00e9pica, daria apenas um epis\u00f3dio em<br \/>\npoema de mais vulto. Demais faltava ao poeta o recuo do tempo para uma poss\u00edvel<br \/>\nidealiza\u00e7\u00e3o do acontecimento, cujos autores ainda viviam. A<br \/>\nepop\u00e9ia tinha, pois, de ser uma simples narrativa hist\u00f3rica<br \/>\nem versos de fatos recent\u00edssimos, a que uma animosidade contra os jesu\u00edtas,<br \/>\nque se manifestava j\u00e1 na Espanha e Portugal, e iria breve resultar<br \/>\nnos atos de Pombal e de Aranda, dava um desmesurado relevo. Limitado pela<br \/>\nrealidade material do acontecimento, ainda a todos presente, peado pela contemporaneidade<br \/>\ndas personagens, de todos conhecidas, n\u00e3o podia o poeta dar \u00e0<br \/>\nsua imagina\u00e7\u00e3o a liberdade e o alor necess\u00e1rios \u00e0<br \/>\nidealiza\u00e7\u00e3o do seu tema. Pelas circunst\u00e2ncias da sua composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntinha fatalmente o seu poema de lhe sair limitado no tempo e no espa\u00e7o,<br \/>\ne sobretudo despido das roupagens e fei\u00e7\u00f5es propriamente \u00e9picas.<br \/>\nVarnhagen notou que a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega a durar um ano,<br \/>\ne o leitor atento observar\u00e1 como o poeta se cinge \u00e0 realidade<br \/>\nprosaica dos sucessos.<\/p>\n<p>Ao poeta n\u00e3o prejudicou, antes serviu, esta situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe criou o assunto. Obrigou-o a limitar as propor\u00e7\u00f5es do<br \/>\nseu poema e impediu-o de seguir os moldes cl\u00e1ssicos, inventando ao<br \/>\nredor do fato principal os desenvolvimentos que a coetaneidade deles n\u00e3o<br \/>\ncomportava. Fossem estas causas mais que o engenho do poeta que deram ao Uraguai<br \/>\na sua fei\u00e7\u00e3o particular entre os \u00faltimos poemas ainda<br \/>\noriundos da corrente camoniana, em lhes haver cedido o patenteou ele. O g\u00eanio<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 a emancipa\u00e7\u00e3o absoluta das condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nque nos rodeiam e limitam. Consiste principalmente em compreend\u00ea-las<br \/>\nno que elas t\u00eam de mais sutil, de mais fugaz e de mais dif\u00edcil.<br \/>\nA superioridade de Bas\u00edlio da Gama est\u00e1 em ter compreendido,<br \/>\nou antes sentido, que os poetas s\u00e3o principalmente entes de sensa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque o assunto n\u00e3o lhe dava para uma epop\u00e9ia como aquelas que<br \/>\nent\u00e3o, \u00e0 cola da de Cam\u00f5es, se faziam, e haver, contra<br \/>\no gosto, a voga, a corrente do seu tempo avan\u00e7ado muito al\u00e9m<br \/>\ndele e dado \u00e0 literatura portuguesa o seu primeiro poema rom\u00e2ntico.<br \/>\nCom efeito, n\u00e3o se parece o Uraguai com qualquer outro poema do tempo.<br \/>\nDesvia-se do trilho costumeiro da po\u00e9tica em vigor. N\u00e3o come\u00e7a<br \/>\npela invoca\u00e7\u00e3o, antes entre ex-abrupto na mat\u00e9ria do<br \/>\npoema, o que era absolutamente novo:<\/p>\n<p>Fumam ainda nas desertas praias<\/p>\n<p>Lagos de sangue t\u00e9pidos e impuros,<\/p>\n<p>Em que ondeiam cad\u00e1veres despidos,<\/p>\n<p>Pasto de corvos.<\/p>\n<p>N\u00e3o obedece \u00e0 quase indefect\u00edvel pr\u00e1tica da oitava<br \/>\nendecass\u00edlaba; \u00e9 em verso branco, e os demais deles bel\u00edssimos.<br \/>\nN\u00e3o recorre ao maravilhoso pag\u00e3o ou outro, n\u00e3o se encontra<br \/>\nm\u00e1cula de gongorismo. A l\u00edngua \u00e9 a do seu tempo, casti\u00e7a,<br \/>\nsem rebusca, clara, l\u00edmpida, e o estilo natural e simples, apenas com<br \/>\no m\u00ednimo de artif\u00edcio que a mesma composi\u00e7\u00e3o exigia.<br \/>\nN\u00e3o refuge a misturar o burlesco com o grave, nem disfar\u00e7a as<br \/>\nfei\u00e7\u00f5es realistas do seu reconto \u00e9pico. Por todos estes<br \/>\nrasgos, e por alguns outros sinais intr\u00ednsecos de metrifica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nlinguagem e estilo e mais pela liberdade espiritual e sentimentos liberais<br \/>\ne humanos que o animam, \u00e9 j\u00e1 o Uraguai um poema rom\u00e2ntico,<br \/>\no precursor na poesia do tempo do romantismo americano, o iniciador do indianismo,<br \/>\nque viria a ser no s\u00e9culo XIX o tra\u00e7o mais distinto e significativo<br \/>\nda renascen\u00e7a liter\u00e1ria do Brasil.<\/p>\n<p>Bas\u00edlio da Gama tem de raiz a inspira\u00e7\u00e3o \u00e9pica.<br \/>\nAl\u00e9m do Uraguai, em que a provou excelentemente, do Quitubia (1791),<br \/>\nque \u00e9, com pouca sorte ali\u00e1s, outra demonstra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndela, afetava o poeta o tom \u00e9pico de prefer\u00eancia a outro, ainda<br \/>\nem poemas de natureza a o n\u00e3o pedirem. Quase n\u00e3o cantou de amor,<br \/>\nfaltando por isso ao seu lirismo esse poderoso elemento sentimental e est\u00e9tico.<br \/>\n\u00c9, por\u00e9m, um esp\u00edrito livre e um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nterno. Da liberdade de seu esp\u00edrito que faz dele um liberal de antes<br \/>\ndos tempos, h\u00e1 ind\u00edcios sobejos n\u00e3o s\u00f3 no Uraguai,<br \/>\nmas em v\u00e1rios poemas seus. Revela-se ainda o seu gosto por Voltaire,<br \/>\nde quem traduziu a trag\u00e9dia Mahomet, e a sua desafei\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 guerra e \u00e0s mesmas fa\u00e7anhas e gl\u00f3rias militares,<br \/>\nins\u00f3litas no seu tempo. N\u00e3o sabemos de outro poeta contempor\u00e2neo<br \/>\nque haja t\u00e3o declaradamente anteposto os labores e artes da paz, &#8220;\u00e0s<br \/>\nb\u00e9licas fadigas&#8221; e augurado uma futura era pac\u00edfica, em<br \/>\nque fugissem do mundo<\/p>\n<p>as guerras sanguinosas<\/p>\n<p>Detestadas das m\u00e3es e das esposas,<\/p>\n<p>e em que<\/p>\n<p>No capacete a abelhas os favos cria,<\/p>\n<p>Curva-se em foice a espada reluzente.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m da sua ternura h\u00e1 exemplos bastantes nos seus versos,<br \/>\nparticularmente nas lembran\u00e7as do seu amigo Alpoim, no Uraguai, e de<br \/>\noutro amigo seu, o \u00e1rcade romano Mireu, no mesmo poema, e em v\u00e1rios<br \/>\noutros menores, aludindo enternecido a amigos e benfeitores. A sua obra deixa<br \/>\numa grata impress\u00e3o de admirativa simpatia.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria liter\u00e1ria, a import\u00e2ncia de Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama \u00e9 o maior do que a de qualquer outro da mesma pl\u00eaiade.<br \/>\nSobre se revelar no Uraguai porventura o melhor engenho de entre esses poetas,<br \/>\nfoi o primeiro a tomar por motivos de inspira\u00e7\u00e3o cousas americanas<br \/>\ne p\u00e1trias. Soube demais cant\u00e1-las com um raro esp\u00edrito<br \/>\nde liberdade c\u00edvica e po\u00e9tica, sem as escravizar a f\u00f3rmulas<br \/>\nconsagradas e ainda com peregrinas qualidades de inven\u00e7\u00e3o e<br \/>\nestilo. Observou Costa e Silva que foi Santa Rita Dur\u00e3o o fundador<br \/>\nda poesia brasileira, por ser &#8220;o primeiro que teve o bom senso de destacar-se<br \/>\ndas preocupa\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias que havia bebido nas escolas,<br \/>\npara compor uma epop\u00e9ia brasileira pela a\u00e7\u00e3o, pelos costumes,<br \/>\npelos sentimentos e id\u00e9ias e pelo colorido local&#8221;. Esqueceu-lhe<br \/>\nque o Uraguai precedera o Caramuru de doze anos e que mais do que estes se<br \/>\nmostrava estreme de preocupa\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias bebidas nas<br \/>\nescolas.<\/p>\n<p>Deste grupo de poetas \u00e9 Frei Jos\u00e9 de Santa Rita Dur\u00e3o<br \/>\no mais velho, pois nasceu em Cata Preta, distrito de Mariana, no qual tamb\u00e9m<br \/>\nviu a luz Cl\u00e1udio da Costa, pelos anos de 1717 a 1720. Seu pai, o sargento-mor<br \/>\nPaulo Rodrigues Dur\u00e3o, era portugu\u00eas e abastado. Ignoramos a<br \/>\nnacionalidade da m\u00e3e, D. Ana Garc\u00eaz de Morais. Era o pai homem<br \/>\nreligioso e nimiamente devoto. Por sua morte deixou importantes legados para<br \/>\nquantidade de objetos e esmolas por sua alma e pelas de seus pais, escravos<br \/>\ne outros. Iguais sentimentos piedosos seriam os da fam\u00edlia, consoante<br \/>\nera ent\u00e3o comum em Minas. Explica-se assim a voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nreligiosa de seu filho Jos\u00e9, o nosso poeta, que depois de estudos preparat\u00f3rios<br \/>\nno col\u00e9gio dos jesu\u00edtas do Rio de Janeiro, onde a voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nincipiente se lhe teria desenvolvido, passou-se a Portugal. Ali, na ordem<br \/>\nde Santo Agostinho, entrou, fez o noviciado e, em 1738, entre os vinte e vinte<br \/>\ntr\u00eas anos, professou. Para seus alimentos dera o pai \u00e0 ordem<br \/>\ndois mil cruzados. J\u00e1 professo num col\u00e9gio desta, em Coimbra,<br \/>\nfez os estudos para a formatura na Universidade, onde se doutorou em teologia.<br \/>\nFoi lente na sua Ordem e teve o t\u00edtulo de substituto na Universidade.<br \/>\nViveu uma vida feliz de estudos e alguns pequenos trabalhos liter\u00e1rios.<br \/>\nCultivou ent\u00e3o a amizade do c\u00e9lebre erudito portugu\u00eas,<br \/>\no futuro arcebispo de \u00c9vora, Frei Manoel do Cen\u00e1culo, que associou<br \/>\no nosso patr\u00edcio aos seus estudos das l\u00ednguas orientais contra<br \/>\no estreito confinamento dos jesu\u00edtas na s\u00f3 literatura latina.<br \/>\nN\u00e3o se sabe ao certo por que se achou Dur\u00e3o na conting\u00eancia<br \/>\nde deixar Portugal, retirando-se, sen\u00e3o fugindo, para Espanha. Na carta<br \/>\nem que conta a Fr. Manoel do Cen\u00e1culo a sua escapula e lhe reclama<br \/>\no apoio, apenas diz: &#8220;As minhas desgra\u00e7as me levaram inconsideradamente<br \/>\n\u00e0 Cidade&#8230; em 1762&#8221;, sem explicar quais desgra\u00e7as foram.<br \/>\nAp\u00f3s alguns vexames que por motivo de estado de guerra entre a Espanha<br \/>\ne Portugal ali sofreu, inclusive a pris\u00e3o, p\u00f4de transferir-se<br \/>\n\u00e0 It\u00e1lia, onde se achava j\u00e1 em 1764. Em Roma soube fazer-se<br \/>\npatrocinar por alguns figur\u00f5es da C\u00faria, entre os quais o famoso<br \/>\nGanganeli, o futuro papa Benedito XIV, que lhe arranjou o lugar de bibliotec\u00e1rio<br \/>\nda livraria p\u00fablica Lancisiana, onde esteve por nove anos, bem aceito<br \/>\ndos literatos romanos, que o meteram em v\u00e1rias das suas sociedades<br \/>\nliter\u00e1rias. \u00c9 not\u00e1vel que ele n\u00e3o figure com algum<br \/>\nnome arc\u00e1dico, indicando ter pertencido \u00e0 Arc\u00e1dia Romana.<br \/>\nNaquele cargo aposentou-se, no prop\u00f3sito de concorrer a uma cadeira<br \/>\ndas que se esperava vagassem na Universidade de Coimbra com a iminente expuls\u00e3o<br \/>\ndos jesu\u00edtas. Gra\u00e7as, parece, ao apoio de Cen\u00e1culo e<br \/>\n\u00e0 benevol\u00eancia do nosso compatriota D. Francisco de Lemos, amigo<br \/>\nde Dur\u00e3o, rec\u00e9m-nomeado por Pombal reitor da Universidade, realizou-se-lhe<br \/>\naquele prop\u00f3sito, pois o encontramos em 1778 recitando como opositor<br \/>\na ora\u00e7\u00e3o de sapi\u00eancia na abertura das aulas.82<\/p>\n<p>Por esse tempo teria come\u00e7ado o seu poema, cuja composi\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontinuaria quando, acaso receoso da rea\u00e7\u00e3o antipombalina, recolheu<br \/>\n\u00e0 casa de sua ordem em Lisboa, em 1779. A\u00ed conclu\u00eddo<br \/>\nou limado, foi publicado em 1781.<\/p>\n<p>Em nenhum dos poetas da pl\u00eaiade mineira, ou quaisquer outros seus contempor\u00e2neos,<br \/>\no nativismo que preludiou aqui o nacionalismo e o patriotismo, como est\u00edmulo<br \/>\nde inspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, manifesta-se t\u00e3o claramente<br \/>\ncomo em Santa Rita Dur\u00e3o. O seu poema tinha j\u00e1, por volta de<br \/>\n1778 a 80, quando foi imaginado e escrito, um prop\u00f3sito patri\u00f3tico.<br \/>\n&#8220;Os sucessos do Brasil, escreveu o poeta nas Reflex\u00f5es pr\u00e9vias,<br \/>\nantepostas ao seu livro, n\u00e3o mereciam menos um poema que os da \u00cdndia.<br \/>\nIncitou-me a escrever este o amor da p\u00e1tria.&#8221; Como por tr\u00e1s<br \/>\nde Cam\u00f5es, trazido aqui \u00e0 mem\u00f3ria por Dur\u00e3o, vemos<br \/>\na Jo\u00e3o de Barros, o insigne historiador do descobrimento e conquista<br \/>\nda \u00cdndia, assim atr\u00e1s de Santa Rita Dur\u00e3o enxergamos<br \/>\nRocha Pita, o autor vanglorioso da Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica portuguesa.<br \/>\nN\u00e3o precisava Dur\u00e3o confessar que o lera. O seu poema bastaria<br \/>\npara o atestar e certificar-nos de que dele principalmente derivam n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 passos, incidentes e digress\u00f5es do Caramuru, mas principalmente<br \/>\no seu entusiasmo patri\u00f3tico. Patriotismo, por\u00e9m, que n\u00e3o<br \/>\nera ainda o brasileirismo estreme, sen\u00e3o um sentimento misto, comum<br \/>\na todos esses poetas, de lealdade portuguesa e de amor \u00e0 terra natal,<br \/>\nsentimento que se dividia entre a na\u00e7\u00e3o, que era Portugal, e<br \/>\na p\u00e1tria, que era o Brasil.<\/p>\n<p>Sobre ser impertinente fazer do descobrimento da Bahia, ou ainda do Brasil,<br \/>\numa epop\u00e9ia, \u00e0 luz da est\u00e9tica n\u00e3o era muito melhor<br \/>\nque o de Bas\u00edlio da Gama o tema de Dur\u00e3o. Tinha, por\u00e9m,<br \/>\nsobre o daquele a vantagem do maior recuo do tempo, menor precis\u00e3o<br \/>\nou maior incerteza hist\u00f3rica, dando ao poeta ensanchas a desenvolvimentos<br \/>\nem que aproveitou a Hist\u00f3ria do Brasil do descobrimento ao governo-geral<br \/>\ne ainda a previs\u00e3o da luta contra os holandeses. Como todos sabem,<br \/>\no assunto do poema do epis\u00f3dio meio hist\u00f3rico, meio lend\u00e1rio,<br \/>\ndo naufr\u00e1gio do aventureiro portugu\u00eas Diogo \u00c1lvares Correia,<br \/>\nque, so\u00e7obrando nas costas orientais do Brasil, justamente no rec\u00f4ncavo<br \/>\nda Bahia, escapou do naufr\u00e1gio e caiu nas m\u00e3os dos \u00edndios<br \/>\nque a\u00ed havia. Guardado para servir-lhes de repasto, conseguiu esquivar<br \/>\na sua triste sorte e dominar-lhes com o pavor que lhes causou matando no v\u00f4o<br \/>\num p\u00e1ssaro, e fazendo outras fa\u00e7anhas com um arcabuz que acertara<br \/>\nsalvar da cat\u00e1strofe. Sobre esse fato veross\u00edmil, e que se teria<br \/>\nrepetido entre navegadores e selvagens, ignorantes das armas de fogo, bordou<br \/>\na imagina\u00e7\u00e3o popular circunst\u00e2ncias e acrescentou desenvolvimentos<br \/>\nque a hist\u00f3ria mais tarde, por m\u00e3o do operos\u00edssimo Varnhagen,<br \/>\nprovaria lend\u00e1rios, como a viagem de Diogo \u00c1lvares \u00e0<br \/>\nFran\u00e7a em companhia da gentia Paragua\u00e7u, sua noiva, o batismo<br \/>\ndesta em Paris e o casamento deste casal, sendo padrinhos em ambas as cerim\u00f4nias<br \/>\nHenrique II e a sua mulher, a c\u00e9lebre Catarina de M\u00e9dicis, que<br \/>\ndeu o seu nome \u00e0 sua ex\u00f3tica afilhada. Diogo \u00c1lvares,<br \/>\ndizia a lenda, perfilhada pelos cronistas, recebeu dos \u00edndios, por<br \/>\ncausa da arma flamante com que dava a morte, a alcunha de Caramuru. Este nome,<br \/>\nque \u00e9 simplesmente o de um peixe, e que lhe deram por o terem apanhado<br \/>\nno mar, a nossa fantasia etnol\u00f3gica o interpretou de v\u00e1rios<br \/>\nmodos, todos evidentemente falsos. N\u00e3o havia ali\u00e1s em Diogo<br \/>\n\u00c1lvares, nem houve nos seus atos, os predicados de um her\u00f3i<br \/>\nde epop\u00e9ia, e a mesma lenda n\u00e3o lhos d\u00e1. Nem o poeta<br \/>\nlhos soube emprestar que os relevassem.<\/p>\n<p>Pela sua concep\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o era o Caramuru,<br \/>\nmais do que o Uraguai, um dos muitos poemas sa\u00eddos da fonte camoniana.<br \/>\nSem embargo desta falta de originalidade inicial, da mesma forma e estilo<br \/>\npo\u00e9tico, e de reminisc\u00eancias do poema de Cam\u00f5es, tem o<br \/>\nCaramuru qualidades pr\u00f3prias e estim\u00e1veis. Como poema nacional<br \/>\nleva a primazia ao Uraguai, apesar da sua inferioridade po\u00e9tica. Al\u00e9m<br \/>\nda inten\u00e7\u00e3o manifesta que o gerou como a epop\u00e9ia do descobrimento<br \/>\ndo Brasil, \u00e9 o Caramuru mais nosso pela sua a\u00e7\u00e3o e teatro<br \/>\ndela, o Rec\u00f4ncavo, o ber\u00e7o por assim dizer da nacionalidade que<br \/>\nse ia criar aqui, e ainda pelos m\u00faltiplos testemunhos do seu interesse<br \/>\ne amor do pa\u00eds. Descreve-o e conta-o Dur\u00e3o j\u00e1 com o desvanecimento<br \/>\nde sua grandeza e excel\u00eancia e a previs\u00e3o de seus altos destinos.<br \/>\nEstes, por\u00e9m, se lhe n\u00e3o antolhavam ainda na forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma nacionalidade distinta, mas apenas no concurso decisivo que a sua p\u00e1tria<br \/>\nde nascimento traria \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o da grandeza da na\u00e7\u00e3o<br \/>\ncuja era parte<\/p>\n<p>O Brasil aos lusos confiado<\/p>\n<p>Ser\u00e1, cumprindo os fins do alto destino,<\/p>\n<p>Instrumento talvez neste hemisf\u00e9rio<\/p>\n<p>De recobrar no mundo o antigo imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Infelizmente o modo, imposto pelo seu estado de frade, e frade de bons costumes,<br \/>\npor que tratou o drama amoroso, e que serve de n\u00facleo ao seu poema,<br \/>\nprivou-o de dar-lhe a emo\u00e7\u00e3o que nos poderia ainda comover.<br \/>\nGrav\u00edssima falta de senso est\u00e9tico foi o fazer de Diogo \u00c1lvares<br \/>\ne Paragua\u00e7u, o aventureiro portugu\u00eas e a \u00edndia sua namorada<br \/>\ne depois sua mulher, um casal de castos amantes. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontra a natureza, contra os fatos, contra a verossimilhan\u00e7a, e mais<br \/>\nque tudo inest\u00e9tica. N\u00e3o se imagina um rude aventureiro portugu\u00eas<br \/>\ndo s\u00e9culo XVI, ardente e voluptuoso, quais se mostraram na conquista,<br \/>\nna situa\u00e7\u00e3o singular, e como quer que seja esquerda, descrita<br \/>\npor Dur\u00e3o, com uma formosa \u00edndia, mo\u00e7a e amorosa, em<br \/>\nmeio desta natureza excitante e dos f\u00e1ceis costumes ind\u00edgenas,<br \/>\ne sem nenhum estorvo social, comportando-se qual se comportou o seu, isto<br \/>\n\u00e9, como um santo ou um lend\u00e1rio cavaleiro crist\u00e3o, e<br \/>\na reservando, num milagre de contin\u00eancia, para sua esposa segundo a<br \/>\nSanta Madre Igreja e ainda em cima doutrinando-a que nem um mission\u00e1rio<br \/>\nprofissional sobre as excel\u00eancias da castidade. N\u00e3o obstante<br \/>\no seu profundo catolicismo, Cam\u00f5es n\u00e3o caiu neste erro, e ao<br \/>\ncontr\u00e1rio enalteceu o seu poema com os conhecidos passos de uma t\u00e3o<br \/>\nart\u00edstica voluptuosidade.<\/p>\n<p>Como o Uraguai, o Caramuru insinua o americanismo na poesia portuguesa, abre<br \/>\naos \u00edndios e \u00e0s cousas ind\u00edgenas maior espa\u00e7o<br \/>\nna brasileira do que o fizera aquele, e funda o primeiro indianismo. N\u00e3o<br \/>\nos acompanharam os outros poetas do grupo. Nestes mesmos, por\u00e9m, sentimentos<br \/>\ne inspira\u00e7\u00f5es mais nativos e mais nativistas do que at\u00e9<br \/>\na\u00ed, as suas repetidas alus\u00f5es ou refer\u00eancias a cousas<br \/>\np\u00e1trias, a nostalgia dela em alguns deles entremostrada, procedem incontestavelmente<br \/>\nde Bas\u00edlio da Gama e Dur\u00e3o, mormente do primeiro, do qual h\u00e1<br \/>\nclaras impress\u00f5es em quase todos estes poetas. Dur\u00e3o parece<br \/>\nn\u00e3o os haver tocado tanto. N\u00e3o se encontram reminisc\u00eancias,<br \/>\ne menos mem\u00f3ria deles, em seus poemas. \u00c9 que o seu trazia ainda<br \/>\nmuito da velha f\u00f3rmula que o arcadismo desses poetas menosprezava.<br \/>\nSem embargo do prop\u00f3sito patri\u00f3tico de Dur\u00e3o, e das manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\neloq\u00fcentes do seu brasileirismo, eles, mais artistas que patriotas, lhe<br \/>\npreferiram, como n\u00f3s hoje, Bas\u00edlio da Gama, a quem Cl\u00e1udio<br \/>\nda Costa, Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga louvaram com admirativa estima\u00e7\u00e3o<br \/>\ne imitaram, mostrando sentirem o que de novo, inspirado e alto havia no seu<br \/>\ng\u00eanio.<\/p>\n<p>A tr\u00eas dos representantes da pl\u00eaiade mineira, Cl\u00e1udio<br \/>\nda Costa, Alvarenga Peixoto e Tom\u00e1s Gonzaga, tem sido atribu\u00eddo<br \/>\no poema sat\u00edrico das Cartas Chilenas, composto em Minas, na segunda<br \/>\nmetade do s\u00e9culo XVIII. \u00c9 mais que uma s\u00e1tira, uma diatribe<br \/>\ncontra o governador D. Lu\u00eds da Cunha Menezes e sua administra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEle figura como o her\u00f3i burlesco sob o pseud\u00f4nimo de Fanfarr\u00e3o<br \/>\nMin\u00e9sio. Fingem-lhe a a\u00e7\u00e3o e sucessos passados em Santiago<br \/>\ndo Chile, nomes que, conforme j\u00e1 notara Varnhagen, cabem no verso tanto<br \/>\ncomo Vila Rica e Minas.<\/p>\n<p>Escrito em forma de cartas dirigidas por um tal Critilo e certo Doroteo,<br \/>\nambos poetas, tem este poema, se assim se lhe pode chamar, real valor liter\u00e1rio.<br \/>\nSa\u00edram \u00e0 luz pela primeira vez, em edi\u00e7\u00e3o da revista<br \/>\nMinerva Brasiliense, no Rio de Janeiro, em 1845, em n\u00famero de sete.<br \/>\nDeu uma segunda, mais completa do que esta, com treze cartas ou cantos, a<br \/>\nLivraria Laemmert, desta cidade, em 1863. Dirigiu-a Lu\u00eds Francisco<br \/>\nda Veiga, autor conhecido de v\u00e1rios estim\u00e1veis trabalhos hist\u00f3ricos,<br \/>\no qual, entre os pap\u00e9is de seu pai, encontrara um manuscrito do poema.<br \/>\nNesse manuscrito, que ali\u00e1s n\u00e3o era um aut\u00f3grafo, ocorre<br \/>\na assinatura de Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga (sic) sob a data: Vila<br \/>\nRica, 9 de fevereiro de 1798, no fim da dedicat\u00f3ria em prosa, que precede<br \/>\nimediatamente o &#8220;Pr\u00f3logo&#8221; igualmente em prosa. O pai do editor<br \/>\nliter\u00e1rio, Saturnino da Veiga, ainda contempor\u00e2neo daqueles poetas,<br \/>\no acreditava de Gonzaga. O primeiro editor das Cartas Chilenas, o escritor<br \/>\nchileno aqui residente e redator da Minerva Brasiliense, Santiago Nunes Ribeiro,<br \/>\ncom a sua edi\u00e7\u00e3o publicara um outro testemunho da autoria de<br \/>\nGonzaga. \u00c9 o de Francisco das Chagas Ribeiro, abonado por Nunes Ribeiro<br \/>\ncomo &#8220;anci\u00e3o entusiasta da literatura brasileira, deposit\u00e1rio<br \/>\nde muitos dos seus tesouros e cujo testemunho, se n\u00e3o \u00e9 irrecus\u00e1vel,<br \/>\n\u00e9 muito poderoso e digno de respeito&#8221;. (Apud Cartas Chilenas,<br \/>\nedi\u00e7\u00e3o Laemmert, introdu\u00e7\u00e3o de L. F. da Veiga).<br \/>\nFrancisco das Chagas Ribeiro, sobre o qual se me n\u00e3o deparou outra<br \/>\ninforma\u00e7\u00e3o, p\u00f4s no seu manuscrito esta declara\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8220;Tenho motivos para certificar que o Dr. Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga<br \/>\n\u00e9 o autor das Cartas Chilenas&#8221;. E assinou.<\/p>\n<p>Estas duas atribui\u00e7\u00f5es, por sujeitos ainda contempor\u00e2neos<br \/>\ndo poeta, e ao que parece respeit\u00e1veis, bastariam, em boa cr\u00edtica,<br \/>\npara dirimir a quest\u00e3o, se n\u00e3o houvesse contra elas valiosos<br \/>\ntestemunhos ou documentos.<\/p>\n<p>Depois de estudo mais atento das Cartas, eu, que de primeiro n\u00e3o acreditava<br \/>\nfossem de Gonzaga, pendo hoje a crer que dele s\u00e3o, e n\u00e3o vejo<br \/>\nraz\u00e3o entre as muitas dadas, que prevale\u00e7a contra a atribui\u00e7\u00e3o<br \/>\nque de sua autoria lhe fazem Saturnino da Veiga e Chagas Ribeiro. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\nmilitam a favor do seu testemunho os seguintes motivos: a) pelo seu valor<br \/>\nliter\u00e1rio e po\u00e9tico (que \u00e9 muito maior do que se tem<br \/>\ndito) n\u00e3o podem essas Cartas ser sen\u00e3o de algum dos poetas conhecidos<br \/>\nque viviam em Minas na \u00e9poca da sua composi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\nsendo prov\u00e1vel a exist\u00eancia de nenhum outro capaz de as escrever<br \/>\ne que ficasse de todo inc\u00f3gnito; b) esse poeta devia reunir duas condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmanifestas no contexto do poema: ser portugu\u00eas e ser inimigo rancoroso<br \/>\ndo governador satirizado. Que o autor das Cartas Chilenas \u00e9 portugu\u00eas<br \/>\nde naturalidade mostram-no os versos 5 e 15 da p\u00e1g. 149 da edi\u00e7\u00e3o<br \/>\nLaemmert, em que positivamente alude \u00e0 sua vinda da Europa e ao seu<br \/>\nnascimento em Portugal. Revela-se ainda portugu\u00eas nas suas v\u00e1rias<br \/>\nalus\u00f5es todas pouco simp\u00e1ticas \u00e0 terra e \u00e0s suas<br \/>\ncousas, e em que, atacando acrimoniosamente o governador e a sua administra\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o malsina jamais do regime ou do governo colonial. Rev\u00ea-se<br \/>\nainda o reinol, branco estreme e de categoria fina, na sua manifesta antipatia<br \/>\naos mulatos, a quem n\u00e3o perde ensejo de apodar (p\u00e1gs. 106, 203,<br \/>\n312 e passim). A sua linguagem nimiamente casti\u00e7a, de boleio de frase<br \/>\ne vocabul\u00e1rio muito de Portugal, e outros sinais idiom\u00e1ticos<br \/>\nque uma an\u00e1lise mi\u00fada revelaria, traem tamb\u00e9m o portugu\u00eas.<br \/>\nOra, como o \u00fanico portugu\u00eas do grupo era Gonzaga, a ele se deve<br \/>\natribuir o poema, onde ali\u00e1s se encontram pensamentos, imagens e express\u00f5es<br \/>\nque coincidem com as da Mar\u00edlia de Dirceu. (Cp. p\u00e1g. 100: &#8220;Que<br \/>\nimporta que os acuses&#8230;&#8221; com a lira XXXVI da 1\u00aa parte).<\/p>\n<p>As Cartas s\u00e3o evidentemente de um inimigo ac\u00e9rrimo do governador,<br \/>\na quem n\u00e3o poupam as mais terr\u00edveis acusa\u00e7\u00f5es<br \/>\ne conv\u00edcios. Ora, dos tr\u00eas poetas que somente podiam ser os seus<br \/>\nautores, e \u00fanicos a quem t\u00eam sido atribu\u00eddas, s\u00f3<br \/>\nGonzaga era sabidamente inimigo dele. Alvarenga Peixoto, ao contr\u00e1rio,<br \/>\n\u00e9 um favorecido, um protegido de Cunha Menezes, que o fez coronel,<br \/>\nhonraria que o desvaneceu mais que o seu t\u00edtulo de doutor, e lhe concedeu<br \/>\nadiasse o pagamento de certa d\u00edvida \u00e0 Fazenda Real.83<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio era personagem quase oficial, ligado ao governo da Capitania,<br \/>\nque por duas vezes (1762-1765 e 1769-1773) secretariara, era j\u00e1 setuagen\u00e1rio,<br \/>\nidade menos apropriada \u00e0s viol\u00eancias da s\u00e1tira. Gonzaga,<br \/>\nao contr\u00e1rio, como ouvidor da comarca e deputado \u00e0 Junta de<br \/>\nFazenda, achou-se em conflito com aquele governador, quando foi da arremata\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Contrato das entradas no tri\u00eanio de 785 a 787, em que Cunha Menezes<br \/>\n&#8220;de sua pr\u00f3pria particular autoridade&#8221;, segundo o Ministro<br \/>\ndo Reino, Martinho de Melo e Castro (V. Rev. do Inst., VI, 54 e seg.) e contra<br \/>\no voto fundamentado de Gonzaga, mandou adjudicar ao seu protegido Jos\u00e9<br \/>\nPereira Marques, o Marquesio das Cartas Chilenas, aquele contrato. Foi esta<br \/>\nquest\u00e3o do contrato das entradas, em que, talvez, tanto o governador<br \/>\ncomo o ouvidor estavam empenhados por martes diversas, que criou a rec\u00edproca<br \/>\nhostilidade de Cunha Menezes e Gonzaga, e principalmente motivou as Cartas<br \/>\nChilenas, e que fez o poeta tom\u00e1-lo &#8220;entre dentes&#8221;, segundo<br \/>\na sua express\u00e3o, muito portuguesa, do in\u00edcio da 4\u00aa. E a<br \/>\n8\u00aa \u00e9 inteiramente consagrada \u00e0 prevarica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo governador em contratos e despachos, de que o poeta o acusa e malsina quase<br \/>\ncom as mesmas raz\u00f5es e palavras que a Gonzaga ouvidor atribuiu o Ministro<br \/>\nMelo e Castro no documento acima citado. Repetirei que \u00e9 not\u00e1vel<br \/>\nque, maldizendo este poema t\u00e3o afrontosamente do governador e da sua<br \/>\nroda, jamais deixa perceber o menor sentimento de desgosto da metr\u00f3pole<br \/>\ne do regime colonial. Um portugu\u00eas qualquer poderia ali\u00e1s deix\u00e1-lo<br \/>\ntransparecer; n\u00e3o o podia Gonzaga, que, como magistrado reinol e vogal<br \/>\nda Junta da Real Fazenda, fazia parte consp\u00edcua do governo da Capitania.<br \/>\nN\u00e3o obstante esta sua cautela, s\u00f3 a sua autoria conhecida, ou<br \/>\ndesconfiada, de t\u00e3o terr\u00edvel libelo contra um recente governador<br \/>\ne v\u00e1rios funcion\u00e1rios seus parciais explica que ele fosse, contra<br \/>\na sua manifesta inoc\u00eancia, comprometido numa conspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nse conspira\u00e7\u00e3o houve, de que tudo \u2014 os seus sentimentos<br \/>\nde portugu\u00eas, a sua lealdade de funcion\u00e1rio, o seu interesse<br \/>\npessoal e a sua situa\u00e7\u00e3o de noivo amoros\u00edssimo \u2014<br \/>\nfor\u00e7osamente o afastava. O argumento de que o poeta sentimental e mimoso<br \/>\nde Mar\u00edlia n\u00e3o podia escrever aquelas violentas Cartas, de virulenta<br \/>\ns\u00e1tira, ro\u00e7ando \u00e0s vezes pela obscenidade, \u00e9 de<br \/>\numa pobre psicologia, contradita por mil exemplos da hist\u00f3ria liter\u00e1ria.84<\/p>\n<p>Todos os poetas deste grupo, o que talvez se n\u00e3o reproduza mais na<br \/>\nhist\u00f3ria da nossa literatura com qualquer dos grupos liter\u00e1rios<br \/>\nque nela possamos distinguir, al\u00e9m do estro, tinham a mais completa<br \/>\ncultura liter\u00e1ria do tempo. Todos fizeram com aproveitamento as suas<br \/>\nhumanidades, todos, exceto Bas\u00edlio da Gama, tinham o seu curso universit\u00e1rio,<br \/>\neram doutores em leis ou c\u00e2nones. Todos parecem a par do saber da sua<br \/>\n\u00e9poca, ao menos do que, sem estudos especiais, se adquire com aquela<br \/>\ncultura. Os brasileiros do grupo todos sa\u00edram do seu pa\u00eds, estanciaram<br \/>\nlargos anos em Portugal e alguns, como Dur\u00e3o e Bas\u00edlio, estiveram<br \/>\nem Espanha e It\u00e1lia. Liam os enciclopedistas franceses. Quase todos,<br \/>\nal\u00e9m do latim, sabiam o grego, e de ambas as l\u00ednguas versavam<br \/>\nos poetas no original. Dur\u00e3o, afora essas duas l\u00ednguas cl\u00e1ssicas,<br \/>\nsabia o hebraico. A todos eram familiares os escritores antigos, particularmente<br \/>\nos poetas, e os principais escritores e poetas modernos, italianos, franceses<br \/>\ne espanh\u00f3is, e ainda alguns ingleses. Cl\u00e1udio da Costa poetava<br \/>\nem italiano, acaso n\u00e3o menos excelentemente que em portugu\u00eas,<br \/>\ne o podia fazer ainda em castelhano e franc\u00eas; traduziu Voltaire e cantou<br \/>\na Milton. Bas\u00edlio da Gama tamb\u00e9m traduziu Voltaire.<\/p>\n<p>Conheceram-se, trataram-se, foram camaradas ou amigos quase todos. Ligou-os<br \/>\no sentimento da p\u00e1tria comum, o mesmo amor \u00e0s letras, a irmandade<br \/>\ndo estro, e mais, o mesmo esp\u00edrito liberal, comum a todos e manifesto<br \/>\nna obra de todos. Silva Alvarenga compreendia e admirava a Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama e o cantou com entusiasmo, pode dizer-se patriotismo. Cl\u00e1udio<br \/>\nda Costa, com igual entusiasmo, consagrou uma ode aos \u00e1rcades seus<br \/>\npatr\u00edcios e endere\u00e7ou poemas a Alvarenga Peixoto. Serviu tamb\u00e9m<br \/>\nde centro n\u00e3o s\u00f3 a este e a Gonzaga, mas a outros menores que<br \/>\npoetavam em Vila Rica, que todos, segundo a ver\u00eddica tradi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nlhe submetiam ao saber e experi\u00eancia os seus versos. Gonzaga alude carinhosamente<br \/>\nem suas liras a Cl\u00e1udio e a Alvarenga Peixoto, seus \u00edntimos.<br \/>\nNaquela \u00e9poca de acesa briga de poetas, se n\u00e3o sabe que hajam<br \/>\nos nossos entre si brigado.<\/p>\n<p>Todas essas coincid\u00eancias e circunst\u00e2ncias n\u00e3o foram certamente<br \/>\nalheias \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o deste grupo de poetas e \u00e0<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o e distin\u00e7\u00e3o que os assinalam na nossa literatura<br \/>\ne ainda na poesia portuguesa. Para alguns deles ao menos, a sua justa celebridade<br \/>\nfoi grandemente ajudada, sem quebra ali\u00e1s no seu merecimento, pelos<br \/>\ndesgra\u00e7ados sucessos em que foram envolvidos. Aureolando-os de mart\u00edrio,<br \/>\nn\u00e3o serviriam pouco, e justo \u00e9 que assim fosse, \u00e0 sua<br \/>\ngl\u00f3ria de poetas.<\/p>\n<h4><a name=\"7\"><\/a><br \/>\n<strong>Cap\u00edtulo VII<\/strong><\/h4>\n<p><strong>OS PREDECESSORES DO ROMANTISMO<\/strong><\/p>\n<p>I \u2014 OS POETAS<\/p>\n<p>VERDADEIRAMENTE \u00c9 DO S\u00c9CULO XIX que podemos datar a exist\u00eancia<br \/>\nde uma literatura brasileira, tanto quanto pode existir literatura sem l\u00edngua<br \/>\npr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Se a Independ\u00eancia do Brasil oficialmente come\u00e7a em 1822, de<br \/>\nfato a sua autonomia, e at\u00e9 hegemonia no sistema pol\u00edtico portugu\u00eas,<br \/>\ndata de 1808, quando, emigrando para c\u00e1, a dinastia portuguesa, na<br \/>\nrealidade, fez do Rio de Janeiro a capital da monarquia. Virtualmente o Imp\u00e9rio<br \/>\ndo Brasil estava criado desde que o pr\u00edncipe regente, D. Jo\u00e3o,<br \/>\nrealizando um velho, intermitente mas nunca desvanecido pensamento pol\u00edtico<br \/>\nportugu\u00eas, proclamou que o seu protesto contra a viol\u00eancia napole\u00f4nica<br \/>\nse erguia do seio de um novo imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ardores e alentos novos criou ent\u00e3o o povo que h\u00e1 tr\u00eas<br \/>\ns\u00e9culos se vinha aqui formando e cuja consci\u00eancia nacional, desde<br \/>\no s\u00e9culo XVII, com as guerras holandesas, entrara a despontar. O fato<br \/>\ndo Ipiranga, precedido da singular situa\u00e7\u00e3o resultante da estada<br \/>\naqui da fam\u00edlia real e conseq\u00fcente transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda col\u00f4nia em reino unido ao de Portugal, perfizera essa consci\u00eancia<br \/>\ne lhe influ\u00edra a vontade de existir com a vida distinta que faz as<br \/>\nna\u00e7\u00f5es. Em tais momentos, como em todos os partos, s\u00e3o<br \/>\ninfal\u00edveis as roturas. Deu-se aqui o rompimento entre brasileiros e<br \/>\nportugueses, pode dizer-se o levante de uns contra outros, fen\u00f4meno<br \/>\nnecess\u00e1rio da separa\u00e7\u00e3o dos dois povos. Para complet\u00e1-la<br \/>\ndevia esse sentimento for\u00e7osamente interessar a todos aos aspectos<br \/>\nda vida do brasileiro, at\u00e9 a\u00ed comum com a do portugu\u00eas,<br \/>\ne as v\u00e1rias fei\u00e7\u00f5es do seu pensamento e sentimento. N\u00e3o<br \/>\nfoi maior a rotura porque o fato pol\u00edtico que a produziu foi antes<br \/>\numa transa\u00e7\u00e3o que uma revolu\u00e7\u00e3o e por se haver<br \/>\npassado justamente no momento em que a metr\u00f3pole se afei\u00e7oava<br \/>\nao mesmo modelo pol\u00edtico adotado pela col\u00f4nia. Em todo caso,<br \/>\nfoi suficiente para diferen\u00e7ar desde ent\u00e3o como entidades pol\u00edticas<br \/>\ndistintas portugueses e brasileiros.<\/p>\n<p>Exageravam estes a ruindade da administra\u00e7\u00e3o colonial, aumentavam-lhe<br \/>\ncom as mais deslavadas hip\u00e9rboles de um patriotismo exaltado os vexames<br \/>\ne as incapacidades. Aos seus olhos, com a import\u00e2ncia de metr\u00f3pole,<br \/>\nperdia tamb\u00e9m Portugal o prest\u00edgio moral e mental, de criador,<br \/>\neducador e guia dessa sociedade que aqui se emancipava.<\/p>\n<p>Era precisamente a hora em que na Europa, na verdadeira Europa, em Alemanha,<br \/>\nem Inglaterra, em Fran\u00e7a, manifestavam-se claramente j\u00e1 os sinais<br \/>\nda renova\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que iria interessar todos os aspectos<br \/>\ndo pensamento e ainda do sentimento europeu: o Romantismo. Quaisquer que hajam<br \/>\nsido os seus motivos e caracter\u00edsticos, sejam quais forem as defini\u00e7\u00f5es<br \/>\nque comporte (e in\u00fameras lhe tem sido dadas), o Romantismo foi sobretudo<br \/>\num movimento de liberdade espiritual, primeiro, se lhe remontarmos \u00e0s<br \/>\n\u00faltimas origens, filos\u00f3fica, liter\u00e1ria e art\u00edstica<br \/>\ndepois, e ainda social e pol\u00edtica. Em arte e literatura seu objetivo<br \/>\nfoi fazer algo diferente do passado e do existente, e at\u00e9 contra ambos.<br \/>\nExcedeu o seu prop\u00f3sito, e em todos os ramos de atividade mental, at\u00e9<br \/>\nnas ci\u00eancias, foi uma rea\u00e7\u00e3o contra o esp\u00edrito<br \/>\ncl\u00e1ssico, que, embora desnaturado, ainda dominava em todos.<\/p>\n<p>Iniciou-se na Alemanha pelos \u00faltimos vinte e cinco anos do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII. Reinava ent\u00e3o em Portugal o pseudo-classicismo da Arc\u00e1dia.<br \/>\nNo Brasil cantavam os poetas mineiros, alguns deles rom\u00e2nticos por antecipa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas em suma era o mesmo Arcadismo o tom dominante nas letras. Da Alemanha<br \/>\nirradiou por Inglaterra e Fran\u00e7a. Nestes pa\u00edses as suas primeiras<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis s\u00e3o j\u00e1 do princ\u00edpio<br \/>\ndo s\u00e9culo XIX. S\u00f3 quase vinte e cinco anos mais tarde come\u00e7aria<br \/>\na sua influ\u00eancia a se fazer sentir em Portugal, onde as suas ainda indecisas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es datam exatamente do princ\u00edpio do segundo<br \/>\nquartel do s\u00e9culo. Com a sua terceira d\u00e9cada entra ele no Brasil.<br \/>\nN\u00e3o foi, entretanto, de Portugal que o recebemos, sen\u00e3o de Fran\u00e7a,<br \/>\nque ia ser e permanecer a principal fornecedora de id\u00e9ias, de sentimentos<br \/>\ne at\u00e9 de estilo \u00e0 nossa literatura.<\/p>\n<p>Mas entre o fim do renascimento po\u00e9tico aqui operado (dentro ali\u00e1s<br \/>\ns\u00f3 de si mesmo e sem irradia\u00e7\u00e3o not\u00e1vel) pela<br \/>\npl\u00eaiade mineira e as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es do nosso<br \/>\nRomantismo, isto \u00e9, entre o \u00faltimo dec\u00eanio do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII e o terceiro do XIX, d\u00e1-se na poesia brasileira uma paralisa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo movimento que parecia prenunciar-lhe a autonomia. Pode mesmo dizer-se que<br \/>\nse d\u00e1 um regresso ao estafado Arcadismo portugu\u00eas. Nunca tivera<br \/>\no Brasil tantos poetas, se a esses versejadores se pode atribuir o ep\u00edteto.<br \/>\nRelativamente aos progressos que j\u00e1 fiz\u00e9ramos, nunca os tivera<br \/>\nt\u00e3o ruins, t\u00e3o ins\u00edpidos e incolores.<\/p>\n<p>Nesta fase arrolam os historiadores ou simples noticiadores da nossa literatura<br \/>\nmais de vinte. Na v\u00e3 presun\u00e7\u00e3o de lhes emprestarem valor,<br \/>\npois n\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel que efetivamente lho encontrem, sobre<br \/>\nnome\u00e1-los adjetivam-nos com qualificativos que a leitura dos seus poemas<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 desabona mas prejudica.<\/p>\n<p>S\u00e3o, calando ainda bastantes nomes, e na ordem cronol\u00f3gica,<br \/>\nFrancisco de Melo Franco (1757-1823), Ant\u00f4nio Pereira de Sousa Caldas<br \/>\n(1762-1814), Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva (1763-1838),<br \/>\nSilv\u00e9rio Ribeiro de Carvalho (1746-1843?), Jos\u00e9 El\u00f3i<br \/>\nOt\u00f4ni (1764-1851), Fr. Francisco de S. Carlos (1768-1829), Francisco<br \/>\nVilela Barbosa (marqu\u00eas de Paranagu\u00e1) (1769-1846), Lu\u00eds<br \/>\nPaulino Pinto da Fran\u00e7a (1771-1824), Paulo Jos\u00e9 de Melo Azevedo<br \/>\ne Brito (1779-1848), Janu\u00e1rio da Cunha Barbosa (1780-1846), Domingos<br \/>\nBorges de Barros (visconde de Pedra Branca) (1780-1855), Jo\u00e3o Gualberto<br \/>\nFerreira dos Santos Reis (1787-185?), Manoel Alves Branco (visconde de Caravelas)<br \/>\n(1797-1854), Joaquim Jos\u00e9 da Silva (?), Ladislau dos Santos Titara<br \/>\n(1802-1861), \u00c1lvaro Teixeira de Macedo (1807-1849?), Ant\u00f4nio<br \/>\nAugusto de Queiroga (1812-1855), Francisco Bernardino Ribeiro (1815-1837),<br \/>\nJoaquim Jos\u00e9 Lisboa (?).<\/p>\n<p>A m\u00e1xima parte destes compridos nomes n\u00e3o despertar\u00e1<br \/>\nna mem\u00f3ria do leitor, ainda ilustrado, reminisc\u00eancia liter\u00e1ria<br \/>\nalguma. \u00c9 como se lhe citassem poetas chineses. Os que n\u00e3o morreram<br \/>\nde todo, de morte ali\u00e1s merecid\u00edssima, vivem apenas numa vaga<br \/>\ne indefinida tradi\u00e7\u00e3o, mantida pelos professores de literatura.<br \/>\nAlgum raro amador das letras p\u00e1trias, mais por curiosidade que por<br \/>\ngozo liter\u00e1rio, ler\u00e1 ainda, ou melhor ter\u00e1 lido, Jos\u00e9<br \/>\nBonif\u00e1cio, El\u00f3i Ot\u00f4ni, Fr. Francisco de S. Carlos, Sousa<br \/>\nCaldas, talvez Pedra Branca. Os outros nem mais essa curiosidade despertam.<br \/>\nTais como Pinto de Fran\u00e7a e algum outro, que, idos mo\u00e7os e at\u00e9<br \/>\ncrian\u00e7as para Portugal, l\u00e1 se criaram, educaram e deixaram ficar,<br \/>\ns\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o e sentimento portugueses, e portugu\u00eas<br \/>\n\u00e9 o seu estro e estilo po\u00e9tico. Custa a reconhecer nesta lista<br \/>\num verdadeiro poeta. Na grande maioria, s\u00e3o apenas versejadores de<br \/>\nmais ou menos engenho e arte, os melhores com a erudi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica<br \/>\ne liter\u00e1ria comum aos doutos do tempo, com a qual, a custo e raro,<br \/>\nconseguem real\u00e7ar a pen\u00faria do seu estro, sem disfar\u00e7ar<br \/>\nentretanto a trivialidade do seu estilo po\u00e9tico, repeti\u00e7\u00e3o<br \/>\ninsulsa e fraco arremedo do da metr\u00f3pole, ent\u00e3o igualmente miser\u00e1vel.<br \/>\nJ\u00e1 entrado o s\u00e9culo XIX, versejavam copiosamente odes, sonetos,<br \/>\nepital\u00e2mios, cantatas, glosas, liras, epigramas, ditirambos, metamorfoses,<br \/>\nep\u00edstolas, enfim toda a farta e extravagante nomenclatura dos s\u00e9culos<br \/>\npassados. Versejavam sem inspira\u00e7\u00e3o nem sentimento, artificialmente,<br \/>\npor of\u00edcio ou presun\u00e7\u00e3o. Repetiam sem o talento de os<br \/>\nrenovar os tropos e imagens da mitologia cl\u00e1ssica e as formas estafadas<br \/>\nde uma po\u00e9tica anacr\u00f4nica e obsoleta. Natividade Saldanha, com<br \/>\na falsa eloq\u00fc\u00eancia que de bom grado confundimos com poesia, celebra<br \/>\nos feitos e vultos patr\u00edcios com reminisc\u00eancia, ep\u00edtetos,<br \/>\nfiguras e apelidos cl\u00e1ssicos e pag\u00e3o. \u00c9 &#8220;a fatigante<br \/>\n\u00eanfase do ditirambo hist\u00f3rico&#8221;, de que fala Morley, aqui<br \/>\nvulgar\u00edssima. A fecundidade po\u00e9tica de alguns \u00e9 assombrosa.<br \/>\nLadislau Titara, de 1827 a 1852, publicou oito tomos em formato de 8.\u00ba<br \/>\nde Obras po\u00e9ticas, somando 1819 p\u00e1ginas de versos, e o seu irm\u00e3o<br \/>\nGualberto, em seis anos, quatro tomos do mesmo formato. Que exemplo a futuros<br \/>\nescritores!<\/p>\n<p>\u00c0 imita\u00e7\u00e3o do seu Hor\u00e1cio, que sabem talvez de<br \/>\ncor, mas cujo \u00edntimo sentimento mal alcan\u00e7am, e de cujo talento<br \/>\nandam afastad\u00edssimos, e seguindo velhos h\u00e1bitos arraigados dos<br \/>\npoetas portugueses, s\u00e3o-lhes motivos de inspira\u00e7\u00e3o fatos<br \/>\ne datas de pessoas gradas, a cuja benevol\u00eancia armam com lisonjas metrificadas,<br \/>\nelogios po\u00e9ticos, epital\u00e2mios por casamentos, nascimentos e quejandos.<\/p>\n<p>Sousa Caldas \u00e9 certamente o melhor deles todos, o mais vigoroso l\u00edrico<br \/>\ndos predecessores imediatos do Romantismo. Ele fez um trabalho consider\u00e1vel<br \/>\nde erudito e poeta traduzindo em vern\u00e1culo os Salmos atribu\u00eddos<br \/>\na Davi.85 Algumas dessas tradu\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o em<br \/>\nverdade indignas dos louvores que \u00e9 de praxe fazer-lhes. N\u00e3o<br \/>\nteria, por\u00e9m, id\u00e9ia muito exata da poesia hebraica quem por<br \/>\nelas houvesse de julg\u00e1-la. Mas, ainda excelente, perderia o lavor do<br \/>\nnosso patr\u00edcio muito do seu valor pelo mesmo desinteresse com que hoje<br \/>\na maioria dos leitores se dispensam de ler tradu\u00e7\u00f5es dos poemas<br \/>\nde pura inven\u00e7\u00e3o religiosa e de uso devoto. Conquanto se digam<br \/>\ncat\u00f3licos, n\u00e3o \u00e9 certamente neles que procuram nem acham<br \/>\na emo\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de que acaso sintam necessidade. Os<br \/>\nSalmos de Davi, traduzidos pelo padre Sousa Caldas para l\u00edngua falada<br \/>\npor muitos milh\u00f5es de cat\u00f3licos, ficaram na primeira e \u00fanica<br \/>\nedi\u00e7\u00e3o. Publicados h\u00e1 noventa anos, n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nainda um livro raro. Escreveu tamb\u00e9m Sousa Caldas Poesias sacras e<br \/>\nprofanas, impressas no tomo II das Obras po\u00e9ticas. Padecem as primeiras<br \/>\ndo mesmo percal\u00e7o dos Salmos, pois n\u00e3o \u00e9 mais, se alguma<br \/>\nvez foi, sob as formas e maneiras da poesia profana, odes, cantatas e outras<br \/>\ntais que buscamos a edifica\u00e7\u00e3o religiosa ou a satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e9tica para a nossa piedade. De resto, em nossa gente o sentimento<br \/>\nreligioso n\u00e3o foi jamais tal que comportasse a esp\u00e9cie de deleite<br \/>\nproveniente da leitura e medita\u00e7\u00e3o dos poemas b\u00edblicos<br \/>\nversificados em vulgar. Mais devotos que religiosos, preferimos sempre as<br \/>\napar\u00eancias e exterioriza\u00e7\u00f5es da religi\u00e3o sob a<br \/>\nforma oral dos serm\u00f5es ou visual e sensitiva das pompas cultuais.<\/p>\n<p>Como poeta profano, Sousa Caldas se n\u00e3o extrema dos portugueses seus<br \/>\ncontempor\u00e2neos, se bem valha mais que qualquer dos seus patr\u00edcios<br \/>\ncoevos. E, salvo os mineiros, mais que todos os poetas seus antecessores.<br \/>\n\u00c9 mais correto e mais rico versejador que estes, e sobretudo mais vern\u00e1culo.<br \/>\nSob o aspecto da l\u00edngua pode, entre os brasileiros, passar por distinto.<br \/>\nAs suas produ\u00e7\u00f5es originais consideradas melhores s\u00e3o<br \/>\na cantata Pigmali\u00e3o e a ode Ao Homem Selvagem. \u00c0quela infelizmente<br \/>\nse depara na cantata Dido, de Gar\u00e7\u00e3o, um desfavor\u00e1vel<br \/>\nconfronto. A ode Ao homem selvagem, essa \u00e9 realmente formoso transunto<br \/>\ndas id\u00e9ias de Rousseau, em sustenta\u00e7\u00e3o das quais foi<br \/>\nescrita. Os seis sonetos que nos deixou Sousa Caldas, sem distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nalguma, antes lhe desabonam que lhe acreditam o estro.<\/p>\n<p>\u00c0 imita\u00e7\u00e3o das Lettres Persannes, de Montesquieu, Sousa<br \/>\nCaldas escrevera uma obra em prosa de filosofia pr\u00e1tica e moral em<br \/>\nforma epistolar. Dela apenas nos restam duas cartas que n\u00e3o bastam<br \/>\npara autorizar um ju\u00edzo do seu trabalho. Revela-se contudo a\u00ed<br \/>\nescritor f\u00e1cil, casti\u00e7o e, para o seu tempo, meio e estado,<br \/>\nesp\u00edrito liberal e tolerante. Versam justamente essas duas cartas sobre<br \/>\na atitude da Igreja perante os escritos contr\u00e1rios \u00e0 sua moral<br \/>\ne dogmas, o que o leva a considerar o tema geral geral da livre express\u00e3o<br \/>\ndo pensamento. F\u00e1-lo Sousa Caldas com aquele latitudinarismo que foi<br \/>\nsempre a marca do ultramontanismo franco-italiano.86<\/p>\n<p>N\u00e3o pode divergir muito o ju\u00edzo que devemos fazer de Jos\u00e9<br \/>\nEl\u00f3i Ot\u00f4ni, que, como Sousa Caldas, foi poeta sacro e profano.<br \/>\nMas o foi com menos talento, e principalmente, com menos vigor. As suas tradu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos pseudos Prov\u00e9rbios de Salom\u00e3o e do Livro de J\u00f3, feitos<br \/>\ndo latim da Vulgata, s\u00e3o antes par\u00e1frases que tradu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 achar-lhes o sabor que do original parecem guardar algumas<br \/>\ntradu\u00e7\u00f5es diretamente feitas em prosa ou verso. As poesias originais<br \/>\nde Ot\u00f4ni n\u00e3o destoam da comum mediocridade da poesia sua contempor\u00e2nea.87<br \/>\nJos\u00e9 El\u00f3i Ot\u00f4ni nasceu na cidade do Serro, em Minas Gerais,<br \/>\nem 1764. Depois dos primeiros estudos em sua terra, esteve na It\u00e1lia<br \/>\ne em Portugal, onde ainda voltou duas vezes em outras \u00e9pocas de sua<br \/>\nvida, vindo a falecer no Rio de Janeiro, num emprego p\u00fablico subalterno,<br \/>\nem 1851.<\/p>\n<p>86V. essas cartas na Ver. Do Inst., III, 144 e 216.<\/p>\n<p>87J\u00f3, traduzido em verso por Jos\u00e9 El\u00f3i Ot\u00f4ni,<br \/>\netc. Rio de Janeiro, 1852, in 8.\u00ba gr., XXXIX, 42, 104 p\u00e1gs. \u00c9<br \/>\nlonga a lista de produ\u00e7\u00f5es de El\u00f3i Ot\u00f4ni, come\u00e7adas<br \/>\na publicar em Lisboa desde 1801, Cf. Inoc\u00eancia, Dic. Bibliogr\u00e1fico,<br \/>\nIV, 309 e seg.<\/p>\n<p>Um frade franciscano fluminense, Fr. Francisco de S. Carlos, comp\u00f4s<br \/>\npela mesma \u00e9poca, &#8220;em honra da Santa Virgem&#8221;, segundo reza<br \/>\no t\u00edtulo, um poema, A Assun\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma das<br \/>\nmais insulsas e aborridas produ\u00e7\u00f5es da nossa poesia. Em oito<br \/>\nestirados cantos de versos decass\u00edlabos, rimados uniformemente em parelha,<br \/>\nmonotonia que \u00e9 aumentada pela pobreza das rimas e geral mesquinheza<br \/>\nda forma, descreve o poeta a Assun\u00e7\u00e3o da Virgem desde a ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu t\u00famulo, em \u00c9feso, at\u00e9 \u00e0 sua chegada ao<br \/>\nPara\u00edso, atrav\u00e9s de v\u00e1rias perip\u00e9cias maravilhosas<br \/>\npor ele imaginadas. O poema \u00e9 do princ\u00edpio ao fim prosaico,<br \/>\nsem se lhe poder tirar algum epis\u00f3dio ou trecho realmente belo, a inventiva<br \/>\npobre, balda de novidades ou grandeza, a l\u00edngua mesquinha e vulgar.<br \/>\nEntretanto cr\u00edticos houve que o acharam digno de rivalizar com o Para\u00edso<br \/>\nPerdido, de Milton, e a Mess\u00edada, de Klopstock, e n\u00e3o duvidaram<br \/>\nde qualific\u00e1-lo de &#8220;poema eminentemente nacional&#8221; e de consider\u00e1-lo<br \/>\ncomo &#8220;um dos monumentos que nos legou a gera\u00e7\u00e3o passada<br \/>\n(do princ\u00edpio do s\u00e9culo XIX) para a forma\u00e7\u00e3o da<br \/>\nnossa literatura&#8221;. Chamar-lhe &#8220;poema eminentemente nacional&#8221;,<br \/>\nporque introduziu nas suas descri\u00e7\u00f5es frutas, plantas e animais<br \/>\ndo Brasil e alguns aspectos da natureza brasileira, \u00e9 equivocar-se<br \/>\nsobre o sentido da express\u00e3o. O vezo de cantar as cousas da terra,<br \/>\nde nome\u00e1-las, cit\u00e1-las ou descrev\u00ea-las, \u00e0s vezes<br \/>\ncomovidamente, mas tamb\u00e9m \u00e0s vezes sem emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nalguma, era velho na nossa poesia. Vinha, conforme mostramos, dos fins do<br \/>\ns\u00e9culo XVI; praticou-o Dur\u00e3o no Caramuru, cultivaram-no alguns<br \/>\ndos poetas mineiros e outros. Tal sestro revia o despontar do sentimento nativista<br \/>\ne o seu sucessivo desenvolvimento. Ao tempo de Fr. Francisco de S. Carlos<br \/>\nera j\u00e1 t\u00e3o comum o emprego desse recurso po\u00e9tico, que<br \/>\nnada tinha de particularmente not\u00e1vel. Tanto mais que o usou o franciscano<br \/>\npoeta sem a menor distin\u00e7\u00e3o. Apenas continuava uma tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\ncriada, da qual h\u00e1 exemplos noutros poetas seus contempor\u00e2neos<br \/>\ndeste infausto per\u00edodo das nossas letras, como na Discri\u00e7\u00e3o<br \/>\ncuriosa, do ruim poeta mineiro Joaquim Jos\u00e9 Lisboa. E como a continuava<br \/>\nsem a relevar por quaisquer virtudes de fundo ou de forma, fazendo apenas<br \/>\nnomenclaturas \u00e1ridas, n\u00e3o sabendo tirar desse expediente nenhum<br \/>\npartido est\u00e9tico, n\u00e3o lhe pode servir isso de recomenda\u00e7\u00e3o<br \/>\nao seu ins\u00edpido poema. O que era nos seus predecessores novidade interessante,<br \/>\nreveladora de um sentimento, uma emo\u00e7\u00e3o, uma inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nnova na poesia portuguesa, era nele simples repeti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\nlevantada por algum talento superior de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Destas duas d\u00fazias de poetas menores, o \u00fanico, al\u00e9m<br \/>\nde Sousa Caldas, que porventura se destaca por uma inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais sincera e dons de express\u00e3o que o extremam, \u00e9 Jos\u00e9<br \/>\nBonif\u00e1cio de Andrada e Silva, o Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, principal<br \/>\ncooperador da nossa independ\u00eancia nacional. As circunst\u00e2ncias<br \/>\nque o fizeram e em que foi poeta, lhe explicam o destaque.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio nasceu em Santos, S\u00e3o Paulo, aos 13 de<br \/>\njunho de 1763. Feitos os seus primeiros estudos no Brasil e completos os seus<br \/>\ndezoito anos, passou-se a Portugal, e ali, em Coimbra, se formou em filosofia<br \/>\ne leis. Fundada em 1774, pelo duque de Laf\u00f5es, a Academia Real das<br \/>\nCi\u00eancias de Lisboa, foi, com o patroc\u00ednio daquele magnate, seu<br \/>\nmembro e depois secret\u00e1rio. Ao mesmo apoio deveu a comiss\u00e3o<br \/>\nespecial de estudar nos principais centros cient\u00edficos europeus ci\u00eancias<br \/>\nnaturais e metalurgia. Dez anos empregou nestes estudos, percorrendo os principais<br \/>\npa\u00edses da Europa, onde os podia com mais proveito fazer. De volta a<br \/>\nPortugal, foi nomeado intendente geral das minas, com a gradua\u00e7\u00e3o<br \/>\nde desembargador, recebendo tamb\u00e9m o grau de doutor em ci\u00eancias<br \/>\nnaturais e o encargo de inaugurar na Universidade de Coimbra uma cadeira de<br \/>\nmetalurgia e geognosia, a qual regeu at\u00e9 \u00e0 invas\u00e3o francesa<br \/>\nde 1807. Criado, por motivo desta invas\u00e3o, um batalh\u00e3o acad\u00eamico,<br \/>\nfoi dele Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio major e logo depois tenente-coronel.<br \/>\nMais tarde serviu o cargo de intendente de pol\u00edcia do Porto. Em 1819<br \/>\nretirou-se, com licen\u00e7a, para o Brasil. Vivia em S. Paulo, sua prov\u00edncia<br \/>\nnatal, quando sobrevieram os acontecimentos de 1820 e 1821 e come\u00e7aram<br \/>\nno Rio de Janeiro os primeiros movimentos da Independ\u00eancia. Estes despertaram-lhe<br \/>\no sentimento nacional, acaso adormecido por cerca de quarenta anos de exist\u00eancia<br \/>\nportuguesa. Fez-se parte consp\u00edcua nesse movimento, do qual foi, com<br \/>\nD. Pedro, o principal protagonista. Como ministro e conselheiro muito ouvido<br \/>\ndo rec\u00e9m fundado imp\u00e9rio e deputado \u00e0 sua assembl\u00e9ia<br \/>\nconstituinte, teve um grande papel nessa primeira fase da constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pa\u00eds sob o novo regime, sendo, pelos seus talentos e capacidades,<br \/>\na primeira figura dela. A excessiva energia que, como primeiro-ministro, empregou<br \/>\ncontra os seus oposicionistas, ia comprometendo a causa que t\u00e3o bem<br \/>\nservira. Em todo caso motivou a excita\u00e7\u00e3o dos \u00e2nimos que<br \/>\nproduziu os sucessos donde resultou a demiss\u00e3o de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio<br \/>\ne o seu ex\u00edlio.<\/p>\n<p>Era Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio uma natureza pessoal\u00edssima, de \u00edndole<br \/>\nautorit\u00e1ria e violenta. Como todos os pol\u00edticos do seu temperamento,<br \/>\ntanto era desp\u00f3tico no poder como abominava o despotismo em n\u00e3o<br \/>\nsendo ele o d\u00e9spota. Nimiamente orgulhoso e demasiado convencido da<br \/>\nsua superioridade, ali\u00e1s real, no meio pol\u00edtico donde o expulsavam,<br \/>\ndoeu-lhe profundamente o ex\u00edlio a que o constrangiam os seus advers\u00e1rios,<br \/>\ndesterrando-o da p\u00e1tria cuja independ\u00eancia, com mais presun\u00e7\u00e3o<br \/>\nque raz\u00e3o, exclusivamente se atribu\u00eda. Encheu-se de despeito<br \/>\ne raiva contra o soberano, a quem com mau gosto reprochou de ingrato, contra<br \/>\nos pol\u00edticos seus advers\u00e1rios, e at\u00e9 contra a p\u00e1tria.<br \/>\nFoi neste estado d\u2019alma de homem que se cr\u00ea indispens\u00e1vel<br \/>\ne a quem dispensam, de homem soberbo de si e humilhado pelos mesmos a quem<br \/>\nse julgava proeminente e tinha por seus devedores, que repontou em Jos\u00e9<br \/>\nBonif\u00e1cio, aos sessenta e dois anos, o estro po\u00e9tico de que<br \/>\nj\u00e1 dera amostras quando estabelecido em Portugal. Facit indignatio<br \/>\nversum. Em Bord\u00e9us, em cujos arredores se fixara durante o ex\u00edlio,<br \/>\npublicou o volume das Poesias avulsas, de Am\u00e9rico El\u00edsio, em<br \/>\n1825. A sua forte e n\u00e3o comum cultura liter\u00e1ria e cient\u00edfica,<br \/>\ne grandes experi\u00eancias da vida, fortificaram-lhe o engenho po\u00e9tico.<br \/>\nA paix\u00e3o real fez o resto. Era um apaixonado e estava apaixonado. Aquela<br \/>\ndeu-lhe aos versos, n\u00e3o obstante o ressaibo arc\u00e1dico que se<br \/>\nlhe descobre no estilo, no feitio e at\u00e9 na alcunha com que se disfar\u00e7ou<br \/>\no autor, uma vida, uma emo\u00e7\u00e3o, uma sinceridade como se n\u00e3o<br \/>\nencontra em nenhum dos poetas seus patr\u00edcios e contempor\u00e2neos,<br \/>\ne que fazem dele acaso o \u00fanico que tem personalidade e que, por isso,<br \/>\npossamos ouvir ainda hoje. Ao contr\u00e1rio de toda a poesia do tempo,<br \/>\na sua, ao menos a inspirada da sua situa\u00e7\u00e3o atual, \u00e9<br \/>\npessoal, vibrante das suas paix\u00f5es pol\u00edticas e patri\u00f3ticas<br \/>\ne dos seus mesmos sentimentos ego\u00edstas, do seu orgulho, da sua soberba,<br \/>\nda sua vaidade malferida, e que ele n\u00e3o procura dissimular. Soam nelas<br \/>\nqueixas, reproches, impreca\u00e7\u00f5es e brados pela liberdade que<br \/>\nele pr\u00f3prio, de ess\u00eancia desp\u00f3tico, recusara aos seus<br \/>\nantagonistas quando no poder. E mais, sem embargo de queixas e exprobra\u00e7\u00f5es<br \/>\nque chegam \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria,<\/p>\n<p>Morrerei no desterro em terra estranha,<\/p>\n<p>Que no Brasil s\u00f3 vis escravos medram:<\/p>\n<p>Para mim o Brasil n\u00e3o \u00e9 mais p\u00e1tria,<\/p>\n<p>Pois faltou \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Viv\u00edssimo amor dela e fervorosos anseios por ela. Ainda quando, por<br \/>\ndistrair-se das suas ang\u00fastias de rep\u00fablico despeitado, recorre<br \/>\naos prazeres reais ou imagin\u00e1rios de que Baco era o patrono cl\u00e1ssico,<br \/>\no pensamento saudoso e amargurado se lhe volve \u00e0 p\u00e1tria distante:<\/p>\n<p>Em br\u00f3dio festivo<\/p>\n<p>Mil copos retinam;<\/p>\n<p>Que a n\u00f3s n\u00e3o nos minam<\/p>\n<p>Remorsos cru\u00e9is;<\/p>\n<p>Em j\u00fabilo vivo<\/p>\n<p>Juremos constantes<\/p>\n<p>De ser como dantes<\/p>\n<p>\u00c0 p\u00e1tria fi\u00e9is<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>Gritemos unidos<\/p>\n<p>Em santa amizade<\/p>\n<p>Salve, \u00f3 liberdade!<\/p>\n<p>E viva o Brasil!<\/p>\n<p>Sim, cessem gemidos,<\/p>\n<p>Que a p\u00e1tria adorada<\/p>\n<p>Veremos vingada<\/p>\n<p>Do bando servil.<\/p>\n<p>A sua forte cultura, desempe\u00e7ada do caturrismo portugu\u00eas por<br \/>\nlongo com\u00e9rcio com a melhor da Europa, e aliviada do aparelho escol\u00e1stico<br \/>\ne cl\u00e1ssico pela sua paix\u00e3o, deu-lhe \u00e0 express\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica mais calor, mais vida e movimento do que tinha a do tempo.<br \/>\nH\u00e1 versos seus que, pela liberdade e personalismo da sua inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\npelo subjetivismo dos sentimentos, exuber\u00e2ncia usual da express\u00e3o<br \/>\ne despejo de apetites, como que aventam j\u00e1 o Romantismo. A sua ode<br \/>\nA Natureza, no seu sincretismo do pseudocl\u00e1ssico com o que se chamava<br \/>\nrom\u00e2ntico nas terras por onde Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio peregrinou,<br \/>\n\u00e9 exemplo e testemunho de que nele a nova corrente liter\u00e1ria<br \/>\ncome\u00e7ava, ainda a despeito seu, a influir. Lembre-se que Jos\u00e9<br \/>\nBonif\u00e1cio traduziu para nova l\u00edngua, em verso, o pseudo Ossian,<br \/>\num dos \u00eddolos do Romantismo.<\/p>\n<p>Manifesta\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas como as de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio,<br \/>\nmas sem a vibra\u00e7\u00e3o das suas, s\u00e3o ali\u00e1s comuns<br \/>\nna poesia desta fase. Raro ser\u00e1 dos citados o poeta em que se n\u00e3o<br \/>\ndeparem. Ainda portugueses pela ret\u00f3rica, s\u00e3o j\u00e1 brasileiros<br \/>\npelo cora\u00e7\u00e3o. Vimos como Caldas Barbosa, predecessor imediato<br \/>\ndesses poetas, n\u00e3o obstante as condi\u00e7\u00f5es em que se lhe<br \/>\ndesenvolveu o engenho e em que poetou, conservou um \u00edntimo sentimento<br \/>\nda sua terra e espontaneamente o exprimia. O poema de Fr. Francisco de S.<br \/>\nCarlos superambunda de manifesta\u00e7\u00f5es do mesmo sentimento. Joaquim<br \/>\nLisboa consagra \u00e0 terra natal uma descri\u00e7\u00e3o em verso,<br \/>\nda qual ali\u00e1s s\u00f3 se salva a inten\u00e7\u00e3o. Bartolomeu<br \/>\nCordovil celebra em seus poemas as cousas e melhorias do seu Goi\u00e1s.<br \/>\nNatividade Saldanha, esse mais que todos, canta as gl\u00f3rias do seu Pernambuco<br \/>\ne os seus her\u00f3is, comparando-os aos da poesia e hist\u00f3ria cl\u00e1ssicas.<br \/>\nDe envolta, celebrando o Brasil, proclama aos brasileiros:<\/p>\n<p>\u00d3 jovens brasileiros,<\/p>\n<p>Descendentes de her\u00f3is, her\u00f3is v\u00f3s mesmos<\/p>\n<p>Pois a ra\u00e7a de her\u00f3is n\u00e3o degenera,<\/p>\n<p>Eis o vosso modelo:<\/p>\n<p>O valor paternal em v\u00f3s reviva<\/p>\n<p>A p\u00e1tria que habitais comprou seu sangue,<\/p>\n<p>Que em vossas veias pulsa.<\/p>\n<p>Imitai-os, porque eles no sepulcro<\/p>\n<p>Vos chamem com prazer seus caros filhos.<\/p>\n<p>Vilela Barbosa festeja a primavera do seu &#8220;p\u00e1trio Brasil&#8221;,<br \/>\nretoricamente ainda, mas revendo o sentimento, desajudado de engenho, que<br \/>\no inspirava. O mesmo \u00e9 exato dizer do C\u00f4nego Janu\u00e1rio<br \/>\nda Cunha Barbosa, cujo talento era tamb\u00e9m muito inferior \u00e0s<br \/>\nsuas boas inten\u00e7\u00f5es e cuja obra, em todos os g\u00eaneros med\u00edocre,<br \/>\napenas tem o m\u00e9rito destas. A poesia brasileira deve-lhe entretanto<br \/>\num inestim\u00e1vel servi\u00e7o, a compila\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Parnaso brasileiro,88 com que salvou de total perda grande n\u00famero<br \/>\nde produ\u00e7\u00f5es dos nossos poetas da \u00e9poca colonial.<\/p>\n<p>A atividade destes poetas \u00e9 toda dos \u00faltimos anos do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII e dos trinta primeiros do XIX. Muitos deles viram as suas obras publicadas,<br \/>\nj\u00e1 em volume, j\u00e1 em cole\u00e7\u00f5es ou peri\u00f3dicos,<br \/>\nna mesma \u00e9poca em que as compuseram. As de outros correram manuscritas<br \/>\nou impressas em folhas avulsas. Afora a tend\u00eancia assinalada de celebrar<br \/>\na terra, com um mais vivo sentimento do que se pode chamar a sua capacidade<br \/>\npol\u00edtica, com que continuavam a inspira\u00e7\u00e3o nativista<br \/>\nde desde o in\u00edcio da nossa poesia, n\u00e3o h\u00e1 nesta fase<br \/>\nnada que a distinga da ruim poesia portuguesa contempor\u00e2nea, ou que<br \/>\na aproxime do que nesta havia de melhor. Excetuados Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio<br \/>\ne Sousa Caldas, cuja obra \u00e9 mais s\u00f3lida e revela mais talento,<br \/>\nos mais s\u00e3o de fato insignificantes. Em Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio<br \/>\ns\u00f3 tem ali\u00e1s valor os poemas inspirados da sua paix\u00e3o<br \/>\nde rep\u00fablico fundamente ferido na sua soberba, ou em que ele mais misturou<br \/>\nessa paix\u00e3o. O resto se n\u00e3o sobreleva \u00e0 mediocridade<br \/>\ncomum. \u00c9 de um \u00e1rcade imbu\u00eddo de filintismo. Predecessores<br \/>\ndo Romantismo, n\u00e3o lhe s\u00e3o os precursores, pois bem pouco \u00e9<br \/>\no que se lhes possa descobrir pronunciando o movimento que aqui se ia em breve<br \/>\niniciar, e do qual alguns destes poetas foram contempor\u00e2neos, inadvertidos.<br \/>\nN\u00e3o souberam sequer continuar os mineiros, dos quais n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nneles outro sinal que o apontado, nem preceder os rom\u00e2nticos. Ocupam<br \/>\napenas um vazio, a fase entre os dois movimentos po\u00e9ticos, sem o preencherem.<br \/>\nE tomados em conjunto, n\u00e3o se lhes sente na poesia impress\u00e3o<br \/>\nou influxo da evolu\u00e7\u00e3o que desde a chegada da fam\u00edlia<br \/>\nreal portuguesa se operava aqui, nem mesmo da independ\u00eancia cujos contempor\u00e2neos<br \/>\ne testemunhas muitos deles foram. \u00c1rcades de decad\u00eancia, mostraram-se<br \/>\nverdadeiramente impass\u00edveis, muito antes que o desinteligente parnasianismo<br \/>\nhouvesse importado de Paris a moda de o ser de caso pensado.<\/p>\n<p>II \u2014 PROSADORES<\/p>\n<p>Sob o aspecto liter\u00e1rio, t\u00e3o mesquinha e despicienda como a<br \/>\npoesia foi a prosa da fase que precedeu imediatamente o Romantismo. Nenhuma<br \/>\ngrande ou sequer not\u00e1vel obra liter\u00e1ria produziu. Foi, por\u00e9m,<br \/>\ncomo a poesia, f\u00e9rtil em escrevedores de assunto que s\u00f3 remota<br \/>\ne subsidiariamente poder\u00e3o dizer com a literatura: economia pol\u00edtica<br \/>\ne social, direito p\u00fablico e administrativo, quest\u00f5es pol\u00edticas,<br \/>\ncom\u00e9rcio e finan\u00e7as. A hist\u00f3ria, que tamb\u00e9m fizeram,<br \/>\na trataram em mofino estilo, e mesquinhamente, \u00e0 moda de anais e cr\u00f4nicas.<br \/>\nO n\u00famero relativamente grande dos que destes assuntos e de outros cong\u00eaneres<br \/>\nescreveram e a c\u00f3pia dos escritos publicados neste per\u00edodo,<br \/>\ns\u00e3o um documento precioso da nossa vida intelectual e da nossa cultura<br \/>\nnessa \u00e9poca. Se os poetas, com raras exce\u00e7\u00f5es, ficaram<br \/>\nalheios \u00e0s circunst\u00e2ncias precursoras da independ\u00eancia,<br \/>\nos prosadores, ao contr\u00e1rio, mostram-se influenciados e interessados<br \/>\npelo que aqui se passava, e, de boa vontade e \u00e2nimo puro, lhe trouxeram<br \/>\nao seu concurso. Toda a sua obra, mal constru\u00edda sob o aspecto liter\u00e1rio,<br \/>\ncom pouco ou sem algum m\u00e9rito de fundo ou forma que a fizesse sobreviver<br \/>\nao seu tempo, ou que lhe desse nele qualquer proemin\u00eancia liter\u00e1ria,<br \/>\nobra de publicistas e de jornalistas de ocasi\u00e3o, apontando a fins imediatamente<br \/>\npr\u00e1ticos, serviu ou procurou servir \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nde nossa na\u00e7\u00e3o, a qual j\u00e1 tinha como certa e definitiva.<br \/>\nN\u00e3o se pode todavia incorporar ao nosso patrim\u00f4nio propriamente<br \/>\nliter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uma das manifesta\u00e7\u00f5es espirituais mais interessantes do sentimento<br \/>\np\u00fablico brasileiro no momento que precedeu a independ\u00eancia \u00e9<br \/>\no aparecimento, em 1813, no Rio de Janeiro, do Patriota, jornal liter\u00e1rio,<br \/>\npol\u00edtico, mercantil, etc. Fundou-o e dirigiu, e publicou-o na Impress\u00e3o<br \/>\nR\u00e9gia, criada em 1808 pelo pr\u00edncipe regente, Manoel Ferreira<br \/>\nde Ara\u00fajo Guimar\u00e3es, pol\u00edgrafo baiano, formado em Portugal,<br \/>\nmatem\u00e1tico, engenheiro, economista, poeta e jornalista, homem, como<br \/>\ntantos outros naquele fecundo per\u00edodo da nossa forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional, cheio de boa vontade. Como com muita raz\u00e3o reparava outro<br \/>\npublicista nacional, Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa Pereira, o famoso<br \/>\nredator do c\u00e9lebre Correio Brasiliense, de Londres, que \u00e0 s\u00f3<br \/>\npublica\u00e7\u00e3o de um jornal com o nome de Patriota era um sinal<br \/>\ndos tempos. &#8220;H\u00e1 dez anos, escrevia ele no seu Correio, em 1813,<br \/>\nestando a Corte em Lisboa, que ningu\u00e9m se atreveria a dar a um jornal<br \/>\no nome de Patriota, e a Henr\u00edada, de Voltaire, estava no n\u00famero<br \/>\ndos livros que se n\u00e3o podiam ler sem correr o risco de passar por ateu,<br \/>\npelo menos por jacobino. E temos agora em t\u00e3o curto espa\u00e7o j\u00e1<br \/>\nse assenta que o povo do Brasil pode ler a Henr\u00edada, de Voltaire, e<br \/>\npode ter um jornal com o t\u00edtulo de Patriota, termo que estava proscrito<br \/>\ncomo um dos que tinham o cunho revolucion\u00e1rio&#8221;.89 Nos dois anos<br \/>\ncompletos que durou, foi o Patriota um centro de converg\u00eancia do trabalho<br \/>\nmental brasileiro, particularmente aplicado ao estudo das cousas do pa\u00eds,<br \/>\ne nele colaboraram, com alguns dos poetas citados, Pedra Branca, Silva Alvarenga,<br \/>\nJos\u00e9 Bonif\u00e1cio e todos os homens doutos do tempo que deixaram<br \/>\nqualquer sinal de si nas nossas letras, marqu&amp;eecirc;s de Maric\u00e1, Camilo<br \/>\nMartins Lage, Pedro Francisco Xavier de Brito, Silvestre Pinheiro Ferreira,<br \/>\nJos\u00e9 Saturnino da Costa Pereira, etc. O Brasil e tudo quanto lhe interessava<br \/>\no conhecimento e o progresso eram os seus assuntos prediletos.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 de Sousa de Azevedo Pizarro e Ara\u00fajo (1753-1830), Jos\u00e9<br \/>\nda Silva Lisboa (visconde de Cairu) (1756-1835), Baltazar da Silva Lisboa<br \/>\n(1761-1840), Lu\u00eds Gon\u00e7alves dos Santos (1764-1844), Mariano<br \/>\nJos\u00e9 Pereira da Fonseca (marqu\u00eas de Maric\u00e1) (1773-1848),<br \/>\nJos\u00e9 Feliciano Fernandes Pinheiro (visconde de S. Leopoldo) (1774-1847),<br \/>\nal\u00e9m de somenos nomes com que facilmente se alongaria esta lista, formam<br \/>\ncomo prosistas o exato pendant dos poetas nomeados seus contempor\u00e2neos.<br \/>\nTem, por\u00e9m, sobre estes a superioridade de uma obra que ao tempo foi<br \/>\nmais \u00fatil e serviu melhor \u00e0 causa da na\u00e7\u00e3o e particularmente<br \/>\nda sua cultura. A de alguns deles tem ainda o m\u00e9rito de haverem iniciado<br \/>\nqualquer cousa na cultura ou nas letras brasileiras: assim a de Cairu estr\u00e9ia<br \/>\naqui os estudos econ\u00f4micos e de direito p\u00fablico e mercantil,<br \/>\na de Maric\u00e1 a literatura moralista. \u00c9 o que lhes d\u00e1 direito<br \/>\nao menos \u00e0 men\u00e7\u00e3o dos seus nomes na hist\u00f3ria da<br \/>\nnossa literatura. Com exce\u00e7\u00e3o de um ou outro, n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\npropriamente escritores com id\u00e9ias e dons de express\u00e3o liter\u00e1ria,<br \/>\nou que representem o esp\u00edrito ou o sentimento do seu povo, nem as suas<br \/>\nobras t\u00eam qualidades que nos permitam l\u00ea-las sem fastio e displic\u00eancia<br \/>\ne pelas quais se incorporassem no patrim\u00f4nio das nossas boas letras.<br \/>\nS\u00e3o, por\u00e9m, expoentes ing\u00eanuos e expositores sinceros<br \/>\nda cultura da sua \u00e9poca no Brasil, seus promotores e fautores aqui.<br \/>\nTais s\u00e3o principalmente o visconde de Cairu, o marqu\u00eas de Maric\u00e1,<br \/>\no visconde de S. Leopoldo e o mesmo Aires de Casal, se n\u00e3o fora portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 da Silva Lisboa, a quem seus grandes m\u00e9ritos liter\u00e1rios<br \/>\ne relevantes servi\u00e7os p\u00fablicos mereceram o t\u00edtulo de<br \/>\nvisconde de Cairu, pelo qual \u00e9 mais conhecido, \u00e9 certamente<br \/>\npela extens\u00e3o e solidez dos seus conhecimentos, e fecundidade do seu<br \/>\nlabor, a figura mais proeminente das nossas letras, tomada a express\u00e3o<br \/>\nno seu sentido mais lato da fase que vamos historiando. Nasceu na Bahia em<br \/>\n1756, completou os estudos secund\u00e1rios e fez superiores em Portugal,<br \/>\nonde lecionou grego e hebraico no Col\u00e9gio das Artes, de Coimbra, e<br \/>\nap\u00f3s uma longa e bem preenchida exist\u00eancia no Brasil como professor,<br \/>\npublicista, funcion\u00e1rio p\u00fablico, magistrado e parlamentar, faleceu<br \/>\nno Rio de Janeiro em 1836. O seu m\u00e9rito \u00e9 muito maior como jurista,<br \/>\neconomista, comercialista e publicista ou sabedor e escritor de quest\u00f5es<br \/>\np\u00fablicas, pol\u00edticas e administrativas, do que como literato,<br \/>\nse bem tenha sido o visconde de Cairu um dos brasileiros de mais vasta literatura.<br \/>\nContempor\u00e2neo de Adam Smith, o criador da economia pol\u00edtica,<br \/>\nparece foi o nosso patr\u00edcio o primeiro que nas l\u00ednguas neolatinas<br \/>\nescreveu dessa nova ci\u00eancia, divulgando desde 1798 as id\u00e9ias<br \/>\ndo pensador ingl\u00eas. As tr\u00eas principais obras de Silva Lisboa sobre<br \/>\na mat\u00e9ria s\u00e3o Princ\u00edpios de direito mercantil (1798-1803),<br \/>\nPrinc\u00edpios de economia pol\u00edtica (1804) e Estudos de bem comum<br \/>\n(1819-1820). Conta-se que Monte Alverne, mais que seu advers\u00e1rio te\u00f3rico,<br \/>\nseu inimigo pessoal e inimigo rancoroso como sa\u00eda ser, entrando na<br \/>\nsua aula de filosofia do semin\u00e1rio de S. Jos\u00e9 no dia da morte<br \/>\nde Cairu, com um gesto desabrido, com que acaso escondia o sentimento, declarara<br \/>\n&#8220;que n\u00e3o dava aula porque morrera um grande homem, apesar de que<br \/>\na sua cabe\u00e7a n\u00e3o passava de uma gaveta de sapateiro&#8221;. Tamb\u00e9m<br \/>\na antipatia, em que pese a Carlyle, agu\u00e7a a intelig\u00eancia e facilita<br \/>\na compreens\u00e3o. A frase atribu\u00edda ao soberbo frade90 traduz na<br \/>\nsua vulgaridade uma impress\u00e3o exata da copiosa, desigual e disforme<br \/>\nobra do douto e laborios\u00edssimo escritor que foi Cairu. Consta-lhe a<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o impressa ou manuscrita de setenta e sete n\u00fameros<br \/>\nde obras maiores ou menores de direito, economia pol\u00edtica ou social,<br \/>\nhist\u00f3ria, quest\u00f5es do dia e p\u00fablicas, didasc\u00e1lica,<br \/>\njornalismo, pol\u00eamica, pedagogia, moral.91 Como composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfatura, estilo, esta produ\u00e7\u00e3o \u00e9 irregular, desigual e<br \/>\nainda extravagante e disparatada, revendo \u00e0 pressa e at\u00e9 \u00e0<br \/>\nprecipita\u00e7\u00e3o do trabalho, a excita\u00e7\u00e3o ou a paix\u00e3o<br \/>\ndo momento, o produto de ocasi\u00e3o. A literatura dela s\u00f3 podia<br \/>\naproveitar pequen\u00edssima parte, a Hist\u00f3ria dos principais sucessos<br \/>\npol\u00edticos do Brasil por exemplo, a Vida de Wellington e pouco mais.<br \/>\nEsta mesma, por\u00e9m, carece de predicados liter\u00e1rios que a recomendem<br \/>\n\u00e0 nossa estima. Em todos os g\u00eaneros produtos das circunst\u00e2ncias,<br \/>\nas obras de Cairu n\u00e3o sobrevivem \u00e0s que as produziram.<\/p>\n<p>Mariano Jos\u00e9 Pereira da Fonseca, quase somente conhecido pelo seu<br \/>\nt\u00edtulo de marqu\u00eas de Maric\u00e1, vinha do tempo dos \u00faltimos<br \/>\nvice-reis do Brasil, um dos quais o Conde de Resende, sob a inculpa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde inconfidente, o teve preso por mais de dois anos. No vice-reinado de Lu\u00eds<br \/>\nde Vasconcelos fundaram alguns homens de estudo e letras do Rio de Janeiro,<br \/>\no doutor Manoel In\u00e1cio da Silva Alvarenga, mestre r\u00e9gio de ret\u00f3rica<br \/>\ne conhecido poeta da pl\u00eaiade mineira, Jo\u00e3o Marques Pinto, mestre<br \/>\nr\u00e9gio de grego, o m\u00e9dico Jacinto Jos\u00e9 da Silva, o nosso<br \/>\nMariano Jos\u00e9 Pereira da Fonseca e outros letrados, uma sociedade liter\u00e1ria.<br \/>\nAs reuni\u00f5es peri\u00f3dicas destes homens de letras, em tempos em<br \/>\nque ainda estava fresca a lembran\u00e7a da chamada Conjura\u00e7\u00e3o<br \/>\nMineira, cujos s\u00f3cios eram em maioria tamb\u00e9m homens de letras,<br \/>\nforam havidas por suspeitas, dissolvida a sociedade e presos e processados<br \/>\nos seus membros.<\/p>\n<p>Mariano da Fonseca nasceu no Rio de Janeiro em 1773, e na mesma cidade faleceu<br \/>\nem 1848. Formou-se em matem\u00e1tica e filosofia em Coimbra, o que correspondia<br \/>\n\u00e0 profiss\u00e3o de engenheiro. Como aconteceu geralmente a todos<br \/>\nos brasileiros de instru\u00e7\u00e3o e m\u00e9rito da \u00e9poca<br \/>\nda Independ\u00eancia, teve importante situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<br \/>\ne social no primeiro reinado, distin\u00e7\u00f5es honor\u00edficas<br \/>\ne altos cargos, senador, conselheiro de Estado. Aos quarenta ou quarenta e<br \/>\num anos come\u00e7ou a publicar no Patriota, de Ara\u00fajo Guimar\u00e3es,<br \/>\nas suas M\u00e1ximas, pensamentos e reflex\u00f5es, sob o pseud\u00f4nimo<br \/>\nde Um brasileiro. Porventura para lhes dar o peso da autoridade de maior experi\u00eancia,<br \/>\nmais tarde, em nova edi\u00e7\u00e3o que delas fez, declarou hav\u00ea-las<br \/>\nescrito dos sessenta aos setenta e tr\u00eas. Norberto lhe reparou no equ\u00edvoco<br \/>\ne o corrigiu com raz\u00e3o.92 De 1837 a 1841 publicou, j\u00e1 sob o<br \/>\nt\u00edtulo de marqu\u00eas de Maric\u00e1, as suas M\u00e1ximas, pensamentos<br \/>\ne reflex\u00f5es em tr\u00eas partes respectivamente, distribuindo-as gratuitamente.<br \/>\nComo ele tenha depois facultado a todos a reimpress\u00e3o das suas obras,<br \/>\ndevemos crer que esta rara generosidade obedecia a um pensamento de interesse<br \/>\npela doutrina\u00e7\u00e3o moral dos seus patr\u00edcios. O marqu\u00eas<br \/>\nde Maric\u00e1, como La Rochefoucauld, com quem mui indevidamente o comparou<br \/>\numa cr\u00edtica mais patri\u00f3tica que esclarecida, n\u00e3o escreveu<br \/>\nem sua vida sen\u00e3o m\u00e1ximas. Ele pr\u00f3prio as computou, na<br \/>\n\u00faltima cole\u00e7\u00e3o que delas imprimiu, em 1845. \u00c9,<br \/>\npois, segundo a qualifica\u00e7\u00e3o modern\u00edssima e depois do<br \/>\nautor do Comp\u00eandio do peregrino da Am\u00e9rica e de Matias Aires,<br \/>\no primeiro moralista da nossa literatura. N\u00e3o tinha, por\u00e9m,<br \/>\numa filosofia sua ou sequer alheia afei\u00e7oada pela sua pr\u00f3pria<br \/>\nexperi\u00eancia e medita\u00e7\u00e3o. Repete os lugares comuns da \u00e9tica<br \/>\ncontempor\u00e2nea, mistura de cristianismo sentimental e de liberalismo<br \/>\npol\u00edtico. A sua psicologia, escol\u00e1stica e vulgar, jamais vai<br \/>\nao fundo das cousas, nem descobre na alma humana novidades ou aspectos rec\u00f4nditos<br \/>\nou in\u00e9ditos. \u00c0 sua observa\u00e7\u00e3o falta finura e penetra\u00e7\u00e3o,<br \/>\nou originalidade. Faz parte da vulgar sabedoria comum e ele n\u00e3o a soube<br \/>\nrelevar pelos dons singulares de express\u00e3o que o g\u00eanero requer,<br \/>\ne que s\u00e3o porventura o principal m\u00e9rito dos seus grandes modelos<br \/>\nfranceses. M\u00e1ximas e pensamentos, valem talvez principalmente pela<br \/>\nforma que revestem. S\u00e3o o imprevisto, o ressalto, junto \u00e0 concis\u00e3o<br \/>\ne \u00e0 justeza desta que os valoriza. O escolho do g\u00eanero \u00e9<br \/>\na banalidade, clara ou mascarada com o paradoxo ou a singularidade. Neste<br \/>\nescolho bateu freq\u00fcentemente o marqu\u00eas de Maric\u00e1. Nem por<br \/>\nisso perdem as suas M\u00e1ximas a import\u00e2ncia que lhe assinalei de<br \/>\nprimeiro exemplar do moralismo leigo e liter\u00e1rio em a nossa literatura.<br \/>\nE para o comum dos leitores que dispensam no assunto refinamentos, sutilezas<br \/>\nde id\u00e9ias e express\u00e3o, podem ser leitura agrad\u00e1vel e<br \/>\nproveitosa, porque o essencial \u00e9 s\u00e3o e a forma escorreita, sem<br \/>\nrebusca indiscreta de purismo e j\u00e1 do nosso tempo e gosto.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Feliciano Fernandes Pinheiro, visconde de S. Leopoldo, nascido<br \/>\nem Santos (S. Paulo) em 1774 e falecido em Porto Alegre (Rio Grande do Sul)<br \/>\nem 1847, foi sujeito consider\u00e1vel pela sua ilustra\u00e7\u00e3o<br \/>\ne alta situa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica no reinado do primeiro<br \/>\nimperador. Formado em direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal fez<br \/>\nos seus primeiros trabalhos liter\u00e1rios, tradu\u00e7\u00f5es e compila\u00e7\u00f5es<br \/>\nde assuntos de imediata utilidade pr\u00e1tica, ali publicados de 1799 a<br \/>\n1801. No Brasil, ap\u00f3s haver exercido diversas comiss\u00f5es de servi\u00e7o<br \/>\np\u00fablico, foi eleito em 1821, deputado \u00e0s Cortes da na\u00e7\u00e3o<br \/>\nportuguesa quando da reforma governamental por que esta passou, e como tal<br \/>\ntornou a Portugal. Esp\u00edrito conservador e moderado, foi dos poucos<br \/>\ndeputados brasileiros que juraram a constitui\u00e7\u00e3o por elas feita.<br \/>\nDe volta ao Brasil em seguida \u00e0 declara\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia,<br \/>\nfoi aqui deputado geral, presidente de prov\u00edncia, ministro do Imp\u00e9rio,<br \/>\nsenador e ocasionalmente encarregado de uma miss\u00e3o de car\u00e1ter<br \/>\ndiplom\u00e1tico. Por estes servi\u00e7os teve o t\u00edtulo de visconde<br \/>\nde S. Leopoldo, nome por que ficou quase exclusivamente conhecido. Al\u00e9m<br \/>\nde mem\u00f3rias biogr\u00e1ficas de compatriotas ilustres ou sobre limites<br \/>\ndo Brasil e ainda monografias interessantes para a nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria,93<br \/>\nescreveu uma obra not\u00e1vel para o tempo e ainda hoje estim\u00e1vel,<br \/>\nAnais da Capitania de S. Pedro.94 Como livro, quero dizer, sob o puro aspecto<br \/>\nbibliogr\u00e1fico, o mais bem feito dessa \u00e9poca, o mais perfeito<br \/>\nde composi\u00e7\u00e3o e estrutura. N\u00e3o obstante algumas incorre\u00e7\u00f5es<br \/>\nde linguagem, galicismos e alguns mais graves defeitos de estilo, a sua reda\u00e7\u00e3o<br \/>\nrev\u00ea o homem educado em Portugal e a leitura dos portugueses. A l\u00edngua<br \/>\n\u00e9 geralmente melhor do que aqui comumente escrita. Como historiador<br \/>\ndistingue-se j\u00e1 o visconde de S. Leopoldo por bom crit\u00e9rio hist\u00f3rico,<br \/>\naptid\u00f5es cr\u00edticas, capacidade de apurar os sucessos nos documentos<br \/>\naut\u00eanticos de prefer\u00eancia originais ou in\u00e9ditos, informa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsegura das fontes ou informes impressos do assunto ou a ele aproveit\u00e1veis,<br \/>\narte de dispor e referir os fatos e, notavelmente, menos prolixidade como<br \/>\nera, e continuou a ser, de costume. As suas Mem\u00f3rias, publicadas postumamente<br \/>\nna Revista do Instituto Hist\u00f3rico (tomos 37-38), conquanto lhes falte<br \/>\no interesse das revela\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas e mesmo das indiscri\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque principalmente d\u00e3o relevo e pico a este g\u00eanero de literatura,<br \/>\nsem que lho levante tamb\u00e9m um estilo mais liter\u00e1rio, s\u00e3o<br \/>\ntodavia, at\u00e9 pela raridade delas nas nossas letras, estim\u00e1veis.<\/p>\n<p>Todos os mais autores de prosa desta mesma fase ainda menos consider\u00e1veis<br \/>\ns\u00e3o. Nenhum \u00e9 um escritor que se fa\u00e7a todavia ler com<br \/>\naprazimento.<\/p>\n<h4><a name=\"8\"><\/a> <strong>Cap\u00edtulo VIII<\/strong><\/h4>\n<p>O ROMANTISMO E A PRIMEIRA GERA\u00c7\u00c3O ROM\u00c2NTICA<\/p>\n<p>TIVESSE O PR\u00cdNCIPE regente de Portugal, logo depois rei D. Jo\u00e3o<br \/>\nVI, o prop\u00f3sito de preparar o Brasil para a independ\u00eancia, n\u00e3o<br \/>\nhaveria porventura procedido t\u00e3o atilada e eficazmente. Por uma s\u00e9rie<br \/>\nde medidas econ\u00f4micas e pol\u00edticas, mal chegado ao Brasil havia<br \/>\nele come\u00e7ado a reforma completa do velho regime colonial, naquilo justamente<br \/>\nque mais devia concorrer para despertar nos brasileiros o sentimento da sua<br \/>\npersonalidade e import\u00e2ncia e lhes acoro\u00e7oar veleidades porventura<br \/>\nlatentes de autonomia e emancipa\u00e7\u00e3o. A autonomia nos dera de<br \/>\nfato a transplanta\u00e7\u00e3o da realeza para c\u00e1, a eleva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil a reino e a ere\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro em capital da<br \/>\nmonarquia portuguesa. A emancipa\u00e7\u00e3o surgiria do conflito dessa<br \/>\nautonomia com a insensata contrariedade que lhe criou a rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nrecolonizadora portuguesa.<\/p>\n<p>Da gera\u00e7\u00e3o que testemunhou, acompanhou e at\u00e9 fomentou<br \/>\nou promoveu os sucessos da nossa independ\u00eancia pol\u00edtica, surgiu<br \/>\num seleto grupo de homens de estudo e letras que lhe completaram o feito insigne,<br \/>\ndando \u00e0 recente na\u00e7\u00e3o o abono indispens\u00e1vel da<br \/>\nsua capacidade de cultura. \u00c9 esse grupo que, sob o aspecto liter\u00e1rio,<br \/>\nchamo a primeira gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, quero dizer os escritores<br \/>\nque, influenciados pelo Romantismo europeu e seguindo-lhe aqui os ditames,<br \/>\napareceram de 1836 em diante e cuja atividade se dilatou por um quarto de<br \/>\ns\u00e9culo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Monte Alverne (1784-1858), que foi de algum modo um precursor<br \/>\ndo movimento como o mais escutado preceptor filos\u00f3fico dos seus principais<br \/>\nfautores, e de Magalh\u00e3es, o seu iniciador, mormente constituem essa<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o intelectual, Porto Alegre (1806-1879), amigo e \u00eamulo<br \/>\nde Magalh\u00e3es; Teixeira e Sousa (1812-1861); Pereira da Silva (1817-1898);<br \/>\nVarnhagen (1819-1882); Norberto da Silva (1820-1891) e, o maior deles, Gon\u00e7alves<br \/>\nDias (1823-1864). Outros nomes podiam alongar esta lista, nenhum, por\u00e9m,<br \/>\ncom a significa\u00e7\u00e3o e import\u00e2ncia de quaisquer destes.<\/p>\n<p>Distingue-se esta gera\u00e7\u00e3o pela versatilidade dos talentos,<br \/>\nvariedade da obra e prop\u00f3sito patri\u00f3tico da sua atividade mental.<br \/>\nQuase todos eles, sen\u00e3o todos, s\u00e3o poetas, dramaturgos, novelistas,<br \/>\neruditos, cr\u00edticos, publicistas, e Porto Alegre ser\u00e1 demais<br \/>\npintor e arquiteto. No seu ardor pelos cr\u00e9ditos intelectuais de sua<br \/>\np\u00e1tria, parecia quererem completa a sua literatura; que se n\u00e3o<br \/>\nlimitasse, como at\u00e9 ent\u00e3o, quase exclusivamente \u00e0 poesia.<\/p>\n<p>Quando todos eles se faziam homens, o c\u00f4nego Janu\u00e1rio da Cunha<br \/>\nBarbosa, que com grandes cr\u00e9ditos de literato e orador sagrado vinha<br \/>\nda gera\u00e7\u00e3o anterior, zeloso dos interesses mentais da novel<br \/>\np\u00e1tria, fundou com outros letrados e homens de boa vontade o Instituto<br \/>\nhist\u00f3rico, geogr\u00e1fico e etnogr\u00e1fico brasileiro. Com a<br \/>\npublica\u00e7\u00e3o do Parnaso Brasileiro (1829), foi este o melhor servi\u00e7o<br \/>\nprestado por Janu\u00e1rio Barbosa, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s nossas<br \/>\nletras, mas \u00e0 nossa cultura. Teve o Instituto hist\u00f3rico, em<br \/>\nverdade, o papel de uma Academia que, sem restri\u00e7\u00f5es de especialidades,<br \/>\nse abrisse a todos as capacidades nacionais e a todos as lucubra\u00e7\u00f5es<br \/>\npor pouco que interessassem ao Brasil. E assim, de prop\u00f3sito ou n\u00e3o,<br \/>\ndeu ao movimento espiritual que se aqui operava uma base racional no estudo<br \/>\nda hist\u00f3ria, da geografia e da etnografia do pa\u00eds, compreendidas<br \/>\ntodas largamente. Os principais rom\u00e2nticos foram todos seus s\u00f3cios<br \/>\nconsp\u00edcuos e colaboradores da Revista que desde 1839 come\u00e7ou<br \/>\no Instituto hist\u00f3rico a publicar trimensalmente. A todos os literatos<br \/>\nbrasileiros do tempo serviu esta institui\u00e7\u00e3o de tra\u00e7o<br \/>\nde uni\u00e3o e confraternidade liter\u00e1ria e de est\u00edmulo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de patri\u00f3tica, ostensivamente patri\u00f3tica, a primeira<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica \u00e9 religiosa e moralizante. Estas<br \/>\nfei\u00e7\u00f5es fazem que seja triste, como ali\u00e1s ser\u00e1<br \/>\na segunda. Somente a tristeza desta \u00e9 a do ceticismo, do desalento<br \/>\ne fastio da vida, segundo Byron, Musset, Espronceda e quejandos mestres seus.<br \/>\nA melancolia de Magalh\u00e3es e seus parceiros \u00e9 a tristeza de que<br \/>\npenetrou a alma humana o sombrio catolicismo medieval. Na alma portuguesa,<br \/>\ndonde deriva a nossa, aumentou-a a for\u00e7ada beataria popular, sob o<br \/>\nterror da Inquisi\u00e7\u00e3o e o jugo, acaso pior, do jesuitismo. Rematava-a<br \/>\no descontentamento criado nesses brasileiros pela desconformidade entre as<br \/>\nsuas ambi\u00e7\u00f5es intelectuais e o meio. J\u00e1 em prosa, j\u00e1<br \/>\nem verso, todos eles lastimam-se da pouca estima e mesquinha recompensa do<br \/>\ng\u00eanio que, parece, acreditavam ter e do desapre\u00e7o do seu trabalho<br \/>\nliter\u00e1rio. N\u00e3o tinha ali\u00e1s raz\u00e3o. Era inconsiderado<br \/>\npretender que um povo em suma inculto, e de mais a mais ocupado com a quest\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica, a organiza\u00e7\u00e3o da Monarquia, a manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\nda ordem, de 1817 a 1848 alterada por todo o pa\u00eds, cuidasse de seus<br \/>\npoetas e literatos. N\u00e3o \u00e9, todavia, exato que, apesar disso,<br \/>\nos descurasse por completo. O povo amava esses seus patr\u00edcios talentosos<br \/>\ne sabidos, revia-se gostosamente neles, acatava desvanecido os louvores que<br \/>\nmereciam aos que acreditava mais capazes de os apreciar. Supria-lhe esta capacidade,<br \/>\no sentimento patri\u00f3tico restante dos tempos ainda pr\u00f3ximos da<br \/>\nIndepend\u00eancia, e a ing\u00eanua vaidade nacional com ela nascida. O<br \/>\nimperador come\u00e7ou ent\u00e3o o seu mecenato, nem sempre esclarecido,<br \/>\nmas sempre cordial, em favor dessa gera\u00e7\u00e3o que lhe vinha ilustrar<br \/>\no reinado. D. Pedro II, que por tantos anos devia ser a \u00fanica opini\u00e3o<br \/>\np\u00fablica que jamais houve no Brasil, iniciou por esse tempo a sua a\u00e7\u00e3o,<br \/>\nao cabo util\u00edssima, na vida intelectual da na\u00e7\u00e3o. Prezando-se<br \/>\nde literato e douto, apreciou pelo seu povo incapaz de faz\u00ea-lo, e acoro\u00e7oou<br \/>\ne premiou esses seus representantes intelectuais. Se n\u00e3o todos, a maioria<br \/>\nda primeira gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, com muitos outros depois<br \/>\ndela, em todo o reinado, mereceram-lhe decidido patroc\u00ednio. Revestia<br \/>\neste n\u00e3o s\u00f3 a forma de sua amizade pessoal, que ali\u00e1s<br \/>\nnunca chegava ao valimento, por\u00e9m a mais concreta e prestadia de empregos,<br \/>\ncomiss\u00f5es, honrarias. E, louvados sejam, n\u00e3o lhe foram ingratos.<br \/>\nAs principais obras em todos os g\u00eaneros dessa \u00e9poca s\u00e3o-lhe<br \/>\ndedicadas, em termos que rev\u00eaem o reconhecimento da munific\u00eancia<br \/>\nimperial. Todos eles foram fervorosos e sinceros monarquistas, menos ali\u00e1s<br \/>\npor amor do princ\u00edpio que do monarca. E se n\u00e3o pode malsinar-lhes<br \/>\nou sequer suspeitar-lhes a dedica\u00e7\u00e3o, sabendo-se qu\u00e3o<br \/>\nescrupuloso era o imperante nos seus favores e qu\u00e3o parco era deles.<br \/>\nMas a vaidade, infal\u00edvel estigma profissional, destes literatos, se<br \/>\nn\u00e3o contentava desta alta estima; quisera mais, quisera o imposs\u00edvel,<br \/>\nque, como nas principais na\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias da Europa,<br \/>\ndessem \u00e0s letras aqui considera\u00e7\u00e3o, gl\u00f3ria e fortuna.<br \/>\nFoi esse, ali\u00e1s, um dos rasgos do Romantismo, o exagero da vaidade<br \/>\nnos homens de letras e artistas, revendo a intensidade do descomedido individualismo<br \/>\nda escola. Os dessa gera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, ainda tiveram pudor<br \/>\nde n\u00e3o aludir sequer \u00e0 fei\u00e7\u00e3o material das suas<br \/>\nambi\u00e7\u00f5es, pudor que, passado o Romantismo, desapareceria de<br \/>\ntodo, principalmente depois da emigra\u00e7\u00e3o de literatos estrangeiros,<br \/>\nindustriais das letras, e da invas\u00e3o do jornalismo pela literatura<br \/>\nou da literatura pelo jornalismo. A desconformidade entre aqueles nossos primeiros<br \/>\nhomens de letras e o meio, essa, por\u00e9m, era real, continuou e acaso<br \/>\ntem aumentado com o tempo. E basta para, com a mofineza sentimental que, sobre<br \/>\nser muito nossa, era tamb\u00e9m da \u00e9poca, explicar o matiz de tristeza<br \/>\nda primeira gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, no tom geral do seu entusiasmo<br \/>\npol\u00edtico liter\u00e1rio. Aumentando na segunda gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica, nunca mais desapareceria esse matiz das nossas letras, sob<br \/>\neste aspecto express\u00e3o exata do nosso humor nacional.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que at\u00e9 ent\u00e3o se passava, a educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria da maioria dos escritores dessa gera\u00e7\u00e3o se<br \/>\nfizera aqui mesmo. Por desgosto da metr\u00f3pole, entraram a abandonar-lhe<br \/>\na escola, at\u00e9 a\u00ed ass\u00eddua e submissamente freq\u00fcentada.<br \/>\nFalavam, pois, a l\u00edngua que aqui se falava, e naturalmente a escreviam<br \/>\ncomo a falavam, sem mais arremedo do casticismo reinol. A que escreveram,<br \/>\ne n\u00e3o \u00e9 por ventura este um dos seus somenos m\u00e9ritos<br \/>\ndo ponto de vista da nossa evolu\u00e7\u00e3o geral, m\u00e9rito que<br \/>\navultar\u00e1 quando de todo nos emanciparmos literariamente de Portugal,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 mais a que aqui antes deles se escrevia. \u00c9 outro<br \/>\no boleio da frase, a constru\u00e7\u00e3o mais direta, a invers\u00e3o<br \/>\nmenos freq\u00fcente. Usam mais comumente dos tempos compostos dos verbos,<br \/>\n\u00e0 francesa ou \u00e0 italiana. Refogem ao h\u00e1bito cl\u00e1ssico<br \/>\nportugu\u00eas de nas suas ora\u00e7\u00f5es de ger\u00fandio come\u00e7\u00e1-las<br \/>\npor ele. Colocam os pronomes obl\u00edquos segundo lhes pede o falar do<br \/>\npa\u00eds e n\u00e3o conforme a pros\u00f3dia portuguesa, que entra<br \/>\nent\u00e3o a ser aqui motivo de chufa e tro\u00e7a. Usam de extrema e<br \/>\nat\u00e9 abusiva liberdade no coloc\u00e1-los. D\u00e3o maior extens\u00e3o<br \/>\na certas preposi\u00e7\u00f5es. A forma do modo finito seguido de um infinitivo<br \/>\ncom preposi\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira portuguesa, preferem a do infinito<br \/>\nseguido de ger\u00fandio. E propositadamente, ou propositalmente, como escrevem<br \/>\nsegundo aqui soa, empregam voc\u00e1bulos de origem americana ou africana,<br \/>\nj\u00e1 perfilhados pelo povo. Aceitam as deturpa\u00e7\u00f5es ou modifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nde sentido das formas casti\u00e7as aqui popularmente operadas, e come\u00e7am<br \/>\na dar foros de liter\u00e1rios a todos esses voc\u00e1bulos ou dizeres,<br \/>\nde fato lidimamente brasileiros e para n\u00f3s vern\u00e1culos, por serem<br \/>\nde cunho do povo que aqui se constitu\u00eda em na\u00e7\u00e3o distinta<br \/>\ne independente. S\u00e3o, entretanto, parcos de estrangeirismos, quer de<br \/>\nvocabul\u00e1rio, quer de sintaxe. O fundo da l\u00edngua conserva-se<br \/>\nneles mais puro, embora sem afeta\u00e7\u00e3o de casticismo. Sua linguagem<br \/>\ne estilo s\u00e3o por via de regra nativos, infelizmente at\u00e9 sem<br \/>\nas qualidades essenciais \u00e0 boa composi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<br \/>\nSempre crescendo e avultando segue esta maneira, que come\u00e7ou com eles,<br \/>\nat\u00e9 depois da segunda gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica. S\u00f3<br \/>\nna segunda fase do que chamamos modernismo, com a introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos estudos filol\u00f3gicos segundo o seu novo conceito, e da sua rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre o da l\u00edngua nacional, consoante os mesmos programas do ensino<br \/>\noficial entraram a chamar \u00e0 nossa, inicia-se aqui um movimento em contr\u00e1rio<br \/>\n\u00e0quela indiferen\u00e7a pelo apuro desta. Come\u00e7a-se ent\u00e3o<br \/>\na fazer timbre de escrever bem segundo os ditames gramaticais e os modelos<br \/>\nchamados cl\u00e1ssicos. A mesma cr\u00edtica, que at\u00e9 a\u00ed<br \/>\ndescarava este relevante aspecto da obra liter\u00e1ria, principia a prestar-lhe<br \/>\naten\u00e7\u00e3o e a not\u00e1-lo, ainda quando ela pr\u00f3pria<br \/>\no desatende. N\u00e3o sei quem ao cabo tem raz\u00e3o. Foi mais firme<br \/>\nj\u00e1 o meu parecer da necessidade de conservarmos o portugu\u00eas casti\u00e7o<br \/>\nestreme quanto poss\u00edvel nas modifica\u00e7\u00f5es que o seu novo<br \/>\nhabit\u00e1culo americano lhe imp\u00f5e. Come\u00e7o a convencer-me<br \/>\nda impossibilidade de tal prop\u00f3sito. N\u00e3o o poder\u00edamos<br \/>\nrealizar sen\u00e3o artificialmente como uma rea\u00e7\u00e3o erudita,<br \/>\nsem apoio nas raz\u00f5es \u00edntimas da mentalidade nacional e com sacrif\u00edcio<br \/>\nda nossa espontaneidade e originalidade. Nem teria tal rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nprobabilidade de definitivamente vingar numa popula\u00e7\u00e3o que ser\u00e1<br \/>\namanh\u00e3 de muitos milh\u00f5es, originariamente de v\u00e1rias e<br \/>\ndiversas l\u00ednguas. N\u00e3o se pode admitir que a gente brasileira<br \/>\nse submeta a uma disciplina ling\u00fc\u00edstica de todo oposta aos instintos<br \/>\nprofundos das suas necessidades de express\u00e3o determinadas pela variedade<br \/>\nde seus falares ancestrais e pelas exig\u00eancias imediatas da sua situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial e moral.<\/p>\n<p>Apenas a literatura n\u00e3o deve esquecer que ela \u00e9, sobre o aspecto<br \/>\nda express\u00e3o, uma for\u00e7a conservadora. Sem oferecer resist\u00eancia<br \/>\ncaprichosa e desarrazoada \u00e0 natural evolu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua<br \/>\nque lhe serve de instrumento, cumpre-lhe n\u00e3o se lhe submeter enquanto<br \/>\nos seus resultados n\u00e3o tiverem a generalidade de fatos ling\u00fc\u00edsticos<br \/>\nindisput\u00e1veis. A intromiss\u00e3o inoportuna da literatura nessa<br \/>\nevolu\u00e7\u00e3o, sobretudo para lhe aceitar indiscretamente todas as<br \/>\nnovidades inventadas com pretexto dela, n\u00e3o pode sen\u00e3o prejudic\u00e1-la<br \/>\nnaquilo que justamente \u00e9 importante da sua exist\u00eancia, a sua<br \/>\nfaculdade de express\u00e3o. Se ela, por\u00e9m, por outro lado, se ativesse<br \/>\nrigorosamente ao casticismo portugu\u00eas, no genu\u00edno sentido deste<br \/>\nvoc\u00e1bulo, o brasileiro acabaria por ficar alheio aos seus escritores<br \/>\ne estes aos seus patr\u00edcios, por motivo da descorrela\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre a l\u00edngua falada por uns e a escrita por outros.<\/p>\n<p>E \u00e9 talvez esta a mais \u00edntima causa da falta de simpatia \u2014<br \/>\nagora talvez maior do que dantes \u2014 entre os nossos escritores e o nosso<br \/>\npovo. Nesta sociedade descomedidamente igualit\u00e1ria, como talvez outra<br \/>\nn\u00e3o exista, o escritor e o p\u00fablico vivem inteiramente alheados<br \/>\num do outro pelo pensamento e pela express\u00e3o. A rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nvernaculista dos maranhenses durante justamente esta primeira fase rom\u00e2ntica,<br \/>\nn\u00e3o obstante os preclaros modelos de Sotero dos Reis, Jo\u00e3o Lisboa,<br \/>\nOdorico Mendes e Gon\u00e7alves Dias, ficou est\u00e9ril. Destes nomes,<br \/>\no \u00fanico que sobrevive na mem\u00f3ria do povo \u00e9 o de Gon\u00e7alves<br \/>\nDias, o poeta dos versos simples e populares da Can\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o segredo da popularidade persistente dos poetas da segunda<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica n\u00e3o est\u00e1 somente em que<br \/>\neles foram os de mais rico e sincero sentimento que jamais tivemos, mas em<br \/>\nque o exprimiram numa l\u00edngua e forma po\u00e9tica ao alcance de todos,<br \/>\nsem artif\u00edcio de m\u00e9trica nem arrebiques de estilo. O mesmo acontece<br \/>\ncom os principais romancistas dessa fase. Macedo e Alencar, como o documentam<br \/>\nos registros da Biblioteca Nacional e vos informar\u00e3o os livreiros e<br \/>\nmais que tudo o provam as suas constantes reimpress\u00f5es, continuam a<br \/>\nter mais leitores do que os romancistas de hoje, apesar de n\u00e3o terem<br \/>\npor si os reclamos do notici\u00e1rio camaradeiro e das parcerias de elogio<br \/>\nm\u00fatuo.<\/p>\n<p>Os nossos escritores da primeira gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, se<br \/>\nn\u00e3o menos artistas, s\u00e3o tamb\u00e9m em suma menos artificiosos<br \/>\nque os do mesmo per\u00edodo em Portugal. A sua arte liter\u00e1ria, quando<br \/>\na t\u00eam, \u00e9 ing\u00eanua e canhestra, o que lhes d\u00e1 ao estilo<br \/>\nalgo, n\u00e3o de todo desagrad\u00e1vel, dos primitivos. Com exce\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pomposo Porto Alegre e de certos poetas menores, como Norberto em algumas<br \/>\ndas sua infelizes tentativas \u00e9picas e dram\u00e1ticas, os melhores<br \/>\ndeles escrevem se n\u00e3o singelamente, o que parece incompat\u00edvel<br \/>\ncom o nosso g\u00eanio liter\u00e1rio, todavia em estilo menos torcido<br \/>\ne enf\u00e1tico que o geral da ex-metr\u00f3pole, e do qual n\u00e3o<br \/>\nescaparam no mesmo per\u00edodo os melhores dali, porventura com a \u00fanica<br \/>\nexce\u00e7\u00e3o relevante de Garrett. Esta relativa simplicidade \u00e9<br \/>\numa das virtudes mais estim\u00e1veis dos bons poetas da segunda gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica. Pecam, entretanto, os de ambas estas gera\u00e7\u00f5es<br \/>\npelo excesso de sentimentalismo e de romanesco que, principalmente na fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nem prosa, ro\u00e7a neles pela pieguice e pelo amaneirado do pensamento<br \/>\ne da express\u00e3o. N\u00e3o tem ainda as preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde forma que chamamos de art\u00edsticas. E n\u00e3o eram desses artistas<br \/>\nnatos da palavra escrita que, sem inten\u00e7\u00e3o nem rebusca, acham<br \/>\na forma excelente. Apenas Gon\u00e7alves Dias na maior parte da sua obra,<br \/>\ne Porto Alegre no seu t\u00e3o mal julgado quanto desconhecido Colombo,<br \/>\ne alguma vez na sua prosa caracter\u00edstica, a encontraram. Porto Alegre,<br \/>\ncujo bom gosto era menos apurado que o de Gon\u00e7alves Dias, prejudicou-se<br \/>\nno entanto pela sua inclina\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara, mas muito da<br \/>\n\u00edndole liter\u00e1ria nacional, ao pomposo e reluzente do estilo<br \/>\ne ao rebuscado do pensamento e da forma.<\/p>\n<h4><a name=\"9\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo IX<\/h4>\n<p><strong>MAGALH\u00c3ES E O ROMANTISMO<\/strong><\/p>\n<p>FAVORECIDO PELA AUTONOMIA de fato resultante da mudan\u00e7a da Corte portuguesa<br \/>\npara c\u00e1, pelo apartamento intelectual da metr\u00f3pole come\u00e7ado<br \/>\na operar com a cria\u00e7\u00e3o de faculdades, escolas, institutos de<br \/>\ninstru\u00e7\u00e3o e da imprensa, e, sobretudo, pela total independ\u00eancia<br \/>\npol\u00edtica proclamada em 1822, e efervesc\u00eancia c\u00edvica por<br \/>\nela produzida, manifestou-se no Brasil, por volta de 1840, o movimento de<br \/>\nreforma liter\u00e1ria chamado o Romantismo.<\/p>\n<p>\u00c9 aos Suspiros po\u00e9ticos e saudades, cole\u00e7\u00e3o de<br \/>\npoesias publicada em Paris, em 1836, por Domingos Jos\u00e9 Gon\u00e7alves<br \/>\nde Magalh\u00e3es, que ele pr\u00f3prio, os cr\u00edticos e leitores<br \/>\ncontempor\u00e2neos atribu\u00edram o in\u00edcio do Romantismo aqui.<br \/>\nRazoavelmente se n\u00e3o pode discordar deste conceito. O leitor de hoje,<br \/>\nentretanto, s\u00f3 com esfor\u00e7o e aplica\u00e7\u00e3o encontrar\u00e1<br \/>\nnesse livro o que plenamente o justifique. E somente da compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom o que era aqui a poesia antes dele, lhe vir\u00e1 a certeza de que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 errado.<\/p>\n<p>Tem um duplo car\u00e1ter a inspira\u00e7\u00e3o desses poemas, patri\u00f3tico<br \/>\ne religoso. O patriotismo, significando com esta palavra n\u00e3o s\u00f3<br \/>\no amor e devo\u00e7\u00e3o da terra, mas o sentimento da sua distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Portugal, j\u00e1 era, desde os mineiros, e aumentada pelos poetas dif\u00edceis<br \/>\nde dominar que lhes sucederam, a fei\u00e7\u00e3o particularmente not\u00e1vel<br \/>\nda poesia brasileira. Era ali\u00e1s apenas o desenvolvimento do nativismo<br \/>\nnela manifestado desde o s\u00e9culo XVII, que se acentuava na propor\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo progresso do pa\u00eds. A religi\u00e3o, ou melhor a religiosidade<br \/>\npo\u00e9tica de Magalh\u00e3es, era o produto direto da revivesc\u00eancia<br \/>\nreligiosa operada na Alemanha pelo idealismo filos\u00f3fico de Kant e Hegel,<br \/>\nem Fran\u00e7a pelo sentimentalismo cat\u00f3lico de Chateaubriand. E<br \/>\nmais o resultado imediato da influ\u00eancia de Monte Alverne, o facundo<br \/>\nprofessor dessa filosofia, mestre muito querido e admirado do poeta.<\/p>\n<p>Em nenhum destes dois rasgos da po\u00e9tica de Magalh\u00e3es h\u00e1<br \/>\nmais que tra\u00e7os, como se diria em qu\u00edmica, do movimento de emancipa\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e9tica desde o fim do s\u00e9culo anterior iniciado na Europa.<br \/>\nTra\u00e7os iguais encontram-se em Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio e, apenas<br \/>\nmais apagados, em Sousa Caldas. O impressionismo po\u00e9tico dos Suspiros<br \/>\ne saudades, revelado no livro por poemas inspirados das ru\u00ednas romanas,<br \/>\nda medita\u00e7\u00e3o sobre a sorte dos imp\u00e9rios, dos grandes<br \/>\nespet\u00e1culos da natureza ou das magn\u00edficas f\u00e1bricas humanas,<br \/>\ngerando o assombro da grandeza de Deus e dos prod\u00edgios do Cristianismo,<br \/>\na nostalgia curtida entre t\u00famulos e ciprestes, a cisma dos destinos<br \/>\nda p\u00e1tria, nas paix\u00f5es humanas e no nada da vida, todos temas<br \/>\naqui novos, j\u00e1 \u00e9 certamente, por mais de um aspecto da inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da express\u00e3o, rom\u00e2ntico, como rom\u00e2ntico \u00e9 o subjetivismo<br \/>\nde que procede essa impress\u00e3o po\u00e9tica. Mas o \u00e9 sem clara<br \/>\nconsci\u00eancia ou intui\u00e7\u00e3o profunda. Se do pref\u00e1cio<br \/>\nque sob o voc\u00e1bulo de &#8220;Lede&#8221; lhe p\u00f4s o poeta, p\u00e1ginas<br \/>\nde pouco valor filos\u00f3fico ou est\u00e9tico, algo pode tirar-se \u00e9<br \/>\nque o poeta n\u00e3o concebia a poesia sen\u00e3o como um &#8220;aroma<br \/>\nd\u2019alma&#8221;, que &#8220;deve de cont\u00ednuo subir ao Senhor&#8221;;<br \/>\n&#8220;som acorde da intelig\u00eancia&#8221; &#8220;deve santificar as virtudes<br \/>\ne amaldi\u00e7oar o v\u00edcio&#8221;. &#8220;O poeta, resume ele em um<br \/>\nvazio anfiguri, empunhando a lira da Raz\u00e3o, cumpre-lhe vibrar as cordas<br \/>\neternas do Santo, do Justo e do Belo.&#8221; E logo abaixo exprobra &#8220;\u00e0<br \/>\nmaior parte dos nossos poetas&#8221; e &#8220;ao mesmo Caldas, o primeiro dos<br \/>\nnossos l\u00edricos&#8221; &#8220;n\u00e3o se terem apoderado desta id\u00e9ia&#8221;.<br \/>\nEssas p\u00e1ginas an\u00f3dinas, mal pensadas e mal escritas, nada t\u00eam<br \/>\ndo ardor dos iniciadores ou ne\u00f3fitos da nova escola fora daqui. Delas<br \/>\nse n\u00e3o deduz nenhuma id\u00e9ia clara da est\u00e9tica do poeta<br \/>\ne do seu conceito dessa escola. Procurou d\u00e1-la desde o aparecimento<br \/>\ndo livro, Sales T\u00f4rres Homem, o futuro Visconde de Inhomirim, que ent\u00e3o<br \/>\nainda fazia literatura, num artigo da Niter\u00f3i, Revista Brasiliense,<br \/>\nao tempo publicada em Paris. Apenas, por\u00e9m, com um pouco mais de clareza<br \/>\nque o mesmo poeta. Sales T\u00f4rres Homem via o Romantismo como uma rea\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontra o paganismo e a literatura deste derivada, assim como via que da mesma<br \/>\nfonte crist\u00e3 bebiam inspira\u00e7\u00f5es &#8220;n\u00e3o s\u00f3<br \/>\na poesia, como as artes e a filosofia, irm\u00e3 da teologia&#8221;. E p\u00f5e<br \/>\nde manifesto a inspira\u00e7\u00e3o religiosa e patri\u00f3tica do poeta,<br \/>\nque \u00e9 tamb\u00e9m a da sua cr\u00edtica. Como a patri\u00f3tica,<br \/>\na inspira\u00e7\u00e3o religiosa n\u00e3o era uma novidade na poesia<br \/>\nbrasileira. Estavam frescos os exemplos de Sousa Caldas e de El\u00f3i Ot\u00f4ni,<br \/>\nal\u00e9m de mostras acidentais de outros poetas contempor\u00e2neos destes<br \/>\nou seus antecessores. Deus, sob v\u00e1rios voc\u00e1bulos (at\u00e9<br \/>\no de Tup\u00e1: &#8220;Tup\u00e1, \u00f3 N\u00famen dos meus pais&#8221;,<br \/>\nde Firmino Rodrigues Silva) e per\u00edfrases, bem como a religi\u00e3o<br \/>\ne seus mist\u00e9rios entravam freq\u00fcentemente em tropos, imagens, figuras<br \/>\ne em toda a po\u00e9tica daquela fase interm\u00e9dia. Erraria quem destas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es inferisse um \u00edntimo e forte sentimento<br \/>\nreligioso nesses poetas e no povo cujos \u00f3rg\u00e3os eram. \u00c9<br \/>\num simples vezo, um cacoete liter\u00e1rio, oriundo da sua educa\u00e7\u00e3o,<br \/>\ninteiramente eclesi\u00e1stica. Desde que se iniciou, com o primeiro estabelecimento<br \/>\ndos portugueses, at\u00e9 o come\u00e7o da segunda metade do s\u00e9culo<br \/>\nXIX, a instru\u00e7\u00e3o aqui foi toda e exclusivamente dada por padres<br \/>\nnas escolas, col\u00e9gios e semin\u00e1rios, e ainda nas fam\u00edlias.<br \/>\nOs homens mais instru\u00eddos, os letrados que encheram as listas de s\u00f3cios<br \/>\ndas academias liter\u00e1rias coloniais, eram em sua maioria padres ou frades,<br \/>\ndoutores em c\u00e2nones, homens de igreja em suma. A forma oral e popular<br \/>\nda literatura tinha a sua mais alta, mais freq\u00fcente e mais autorizada<br \/>\nexpress\u00e3o no serm\u00e3o. Desta educa\u00e7\u00e3o recebida,<br \/>\nna escola e fora dela, de eclesi\u00e1sticos, mais do que um real sentimento<br \/>\nreligioso resultou o h\u00e1bito de express\u00f5es de car\u00e1ter<br \/>\nreligioso n\u00e3o s\u00f3 em a nossa conversa\u00e7\u00e3o corrente,<br \/>\nmas em nossos escritos, discursos, poesias. S\u00e3o antes tropos, frases<br \/>\nfeitas, locu\u00e7\u00f5es proverbiais que a express\u00e3o de verdadeiro<br \/>\nsentimento religioso. Justamente nesta fase, os dois sentimentos, patri\u00f3tico<br \/>\ne religioso, misturavam-se aqui. Nas crises nacionais graves, como nos transes<br \/>\nindividuais, o esp\u00edrito humano apavorado, revendo a origem deste sentimento,<br \/>\nfaz-se religioso. Aqui, demais, eram em grande n\u00famero eclesi\u00e1sticos<br \/>\nos principais adeptos e fatores da revolu\u00e7\u00e3o que se operava.<br \/>\nDo p\u00falpito, as vozes mais ou menos eloq\u00fcentes de Janu\u00e1rio<br \/>\nBarbosa, de S. Carlos, de Sampaio e de Monte Alverne pregavam ao mesmo tempo<br \/>\npela religi\u00e3o e pela p\u00e1tria. Nas aulas, mestres, em maioria<br \/>\ncl\u00e9rigos regulares ou seculares, juntavam \u00e0s suas li\u00e7\u00f5es<br \/>\nfundamentalmente religiosas as suas excita\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas.<br \/>\nNo Rio de Janeiro, o principal centro de cultura e de vida liter\u00e1ria<br \/>\ndo pa\u00eds, como o principal foco do movimento da independ\u00eancia<br \/>\nnacional, Fr. Francisco de Monte Alverne fazia do p\u00falpito ou da c\u00e1tedra<br \/>\nestrado de tribuno pol\u00edtico, misturando constantemente, com eloq\u00fc\u00eancia<br \/>\nretumbante, havida ent\u00e3o por sublime, a religi\u00e3o e a p\u00e1tria.<br \/>\nDe resto, o Romantismo europeu, mesmo na Alemanha, foi em seus princ\u00edpios,<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 uma rea\u00e7\u00e3o religiosa, mas at\u00e9 cat\u00f3lica.<br \/>\nEsta sua fei\u00e7\u00e3o bastava para o tornar simp\u00e1tico aqui,<br \/>\nonde o elemento eclesi\u00e1stico era mentalmente preponderante.<\/p>\n<p>Foi este meio e momento que produziu Magalh\u00e3es. Nascido em 1811 no<br \/>\nRio de Janeiro, a sua inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e juventude passaram-se<br \/>\nna quadra mais ativa e efervescente da nossa vida pol\u00edtica, que justamente<br \/>\nent\u00e3o em verdade come\u00e7ava. Era menino de onze anos pela Independ\u00eancia,<br \/>\ne pelo 7 de abril entrava em plena juventude. Coincidiu-lhe a idade viril<br \/>\ncom a da p\u00e1tria. Se houvesse em Magalh\u00e3es maior personalidade,<br \/>\nmais car\u00e1ter, quero dizer qualidades morais salientes e ativas que<br \/>\nlhe estimulassem o engenho, o momento e o meio teriam podido fazer dele um<br \/>\ngrande poeta. N\u00e3o logrou ser sen\u00e3o um distinto poeta, cujo sentimento<br \/>\nse ressente das circunst\u00e2ncias em que se criou, cujo estro e inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nrev\u00eaem aquele meio e momento, mas sem o relevo e a distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nque foi de moda atribuir-lhe. N\u00e3o se veja, ali\u00e1s, nessa atribui\u00e7\u00e3o<br \/>\napenas a mesquinhez do gosto e do senso cr\u00edtico do tempo ou um efeito<br \/>\ndas camaradagens liter\u00e1rias do autor, sen\u00e3o a conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\ndos mesmos exaltados sentimentos nacionais do momento. Nem foi ele o \u00fanico<br \/>\na quem esta circunst\u00e2ncia aproveitou. Ao contr\u00e1rio, ela influiu<br \/>\npreponderantemente na admira\u00e7\u00e3o ing\u00eanua e desavisado apre\u00e7o<br \/>\nque os nossos av\u00f3s da primeira gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a<br \/>\nIndepend\u00eancia tiveram por todos os seus poetas e literatos. A sua vaidade<br \/>\npatri\u00f3tica, ent\u00e3o exagerada, desvanecia-se deles, como prova<br \/>\nda nossa capacidade mental a opor \u00e0s presun\u00e7\u00f5es e preconceitos<br \/>\nportugueses da nossa inferioridade. E, ou fosse porque candidamente estivessem<br \/>\npersuadidos do m\u00e9rito dos escritores patr\u00edcios, ou por despique<br \/>\nda opini\u00e3o da metr\u00f3pole, lho encareciam descomedidamente. Que,<br \/>\npor Magalh\u00e3es, n\u00e3o era a manifesta\u00e7\u00e3o de uma parceria<br \/>\nou convent\u00edculo de literatos, mas o sentimento geral e sincero mostra-o<br \/>\no terem dele aproveitado ainda os mais med\u00edocres. Tal sentimento \u00e9<br \/>\no inspirador da cr\u00edtica nimiamente laudat\u00f3ria e at\u00e9 louvaminheira<br \/>\nda \u00e9poca, e que se continuaria at\u00e9 n\u00f3s em virtude de<br \/>\num h\u00e1bito adquirido. \u00c9 tamb\u00e9m esse sentimento, ininteligente<br \/>\ncertamente, mas ao cabo respeit\u00e1vel, que levaria os primeiros historiadores<br \/>\ndas nossas letras, que justamente ent\u00e3o come\u00e7am a aparecer,<br \/>\n\u00e0 enumera\u00e7\u00e3o fastidiosa e in\u00fatil de nomes e nomes,<br \/>\ne a juntar-lhes os mais descabidos enc\u00f4mios.<\/p>\n<p>Antes dos Suspiros po\u00e9ticos e saudades, publicara Magalh\u00e3es,<br \/>\nem 1832, um volume de Poesias, reproduzido mais tarde nas Poesias avulsas<br \/>\n(Rio de Janeiro, Garnier, 1864). Superabunda de provas de que \u00e0quela<br \/>\ndata estava ainda Magalh\u00e3es no subarcadismo reinante em Portugal e<br \/>\naqui em todo o primeiro quartel do XIX s\u00e9culo e continuado at\u00e9<br \/>\no pleno advento do Romantismo. Sob a influ\u00eancia desse subarcadismo ou<br \/>\npseudoclassicismo, como se lhe tem chamado, conservou-se Magalh\u00e3es<br \/>\nainda nas duas d\u00e9cadas seguintes. E acaso se pudesse dizer que, salvo<br \/>\na exce\u00e7\u00e3o da Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios e de parte<br \/>\na inten\u00e7\u00e3o do seu teatro, nunca se lhe emancipou de todo. Como<br \/>\no seu amigo e \u00eamulo Porto Alegre, era Magalh\u00e3es de temperamento<br \/>\nmais um \u00e1rcade que um rom\u00e2ntico, e mais do que \u00e0quele<br \/>\nacontecia, lhe iam contra a \u00edndole as aud\u00e1cias do Romantismo,<br \/>\nnaturais e necess\u00e1rias nos movimentos revolucion\u00e1rios como foi<br \/>\nesse. H\u00e1 poemas seus dos anos de 40, e at\u00e9 de 60, de todo em<br \/>\ntodo arc\u00e1dicos, odes pind\u00e1ricas, com os obsoletos cortes cl\u00e1ssicos<br \/>\nde estrofes, \u00e9podos e antiestrofes, a terminologia mitol\u00f3gica,<br \/>\nos tropos e figuras da velha ret\u00f3rica quintilianesca, com que os pseudocl\u00e1ssicos<br \/>\nde todos os pa\u00edses desde a Renascen\u00e7a ingenuamente presumiram<br \/>\nemular com os latinos e gregos e reproduzi-los. Nessas poesias avulsas bem<br \/>\npouco h\u00e1 que, ao menos pela inspira\u00e7\u00e3o e estilo, eleve<br \/>\nMagalh\u00e3es acima dos poetas seus imediatos predecessores, nem que o<br \/>\nsepare deles. Apenas na composi\u00e7\u00e3o e forma desses poemas \u00e9<br \/>\nposs\u00edvel notar alguma diferen\u00e7a na maior objetividade dos assuntos<br \/>\ne ainda nos t\u00edtulos de diversas composi\u00e7\u00f5es. Ao amor<br \/>\nda p\u00e1tria, \u00e0 liberdade, \u00e0 guerra, ao dia 25 de mar\u00e7o,<br \/>\nao dia 7 de abril e quejandos, n\u00e3o s\u00e3o comuns na poesia anterior.<br \/>\nTalvez se pudesse dizer que pronunciam o individualismo rom\u00e2ntico assuntos<br \/>\ne t\u00edtulos como \u00c0 saudade, A volta do ex\u00edlio e outras<br \/>\ninspiradas de motivos pessoais, assim como as Noites melanc\u00f3licas,<br \/>\nse o seu \u00edntimo sentimento e estilo n\u00e3o fossem ainda os da po\u00e9tica<br \/>\ndominantes antes do Romantismo. Comp\u00f5e elogios dram\u00e1ticos em<br \/>\nverso, como o da Independ\u00eancia do Brasil, tal qual Tenreiro Aranha,<br \/>\ne cartas amistosas em prosa e verso, tal qual Sousa Caldas. Escreve epic\u00e9dios,<br \/>\nliras, ep\u00edstolas, copiosamente, perluxamente mas sem engenho que revigore<br \/>\ne alente essas formas de todo gastas. Ali\u00e1s o vinco dessas categorias<br \/>\npo\u00e9ticas era profundo na poesia da nossa l\u00edngua, e o pr\u00f3prio<br \/>\nGol\u00e7alves Dias ainda capitulou com ele quando j\u00e1 era de todo<br \/>\nanacr\u00f4nico e impertinente o seu emprego.<\/p>\n<p>No mesmo ano em que, com 21 de idade, estreara com as Poesias (1832), partiu<br \/>\nMagalh\u00e3es para a Europa, em viagem de instru\u00e7\u00e3o e recreio.<br \/>\nPara ser doutor, t\u00edtulo aqui indispens\u00e1vel de recomenda\u00e7\u00e3o,<br \/>\nformara-se antes em medicina no Rio de Janeiro. Quatro anos depois apareciam<br \/>\nem Paris os Suspiros po\u00e9ticos e saudades.95<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo percorrera a Fran\u00e7a, a B\u00e9lgica, a It\u00e1lia,<br \/>\na Su\u00ed\u00e7a. N\u00e3o foi grande a modifica\u00e7\u00e3o que<br \/>\no contato de cousas novas e sugestivas operou na sua \u00edndole po\u00e9tica.<br \/>\nEm suma os Suspiros po\u00e9ticos, acolhidos e saudados como uma renova\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria, n\u00e3o se distinguem com tal relevo das Poesias do ano<br \/>\nde 32, que sem mais exames possamos atribuir-lhe aquele efeito. Teve-o entretanto.<\/p>\n<p>As formas po\u00e9ticas eram outras, j\u00e1 a dos poemas soltos n\u00e3o<br \/>\nsujeitos a uma nomenclatura preestabelecida. Bania o poeta, ou ao menos olvidava,<br \/>\nas odes com as suas reparti\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas, e o resto<br \/>\ndaquelas categorias, e quando se endere\u00e7ava aos amigos n\u00e3o mais<br \/>\nlhes trocava os nomes por apelidos arc\u00e1dicos, como nas Poesias avulsas.<br \/>\nO soneto, forma estr\u00f3fica de que os \u00e1rcades usaram e abusaram,<br \/>\ne numerosos na primeira cole\u00e7\u00e3o, desaparece totalmente desta,<br \/>\nonde n\u00e3o se nos depara nenhum. O Romantismo foi parco em sonetos. H\u00e1<br \/>\nmais variedade, mais liberdade nas formas m\u00e9tricas e quase nenhum socorro<br \/>\naos recursos mitol\u00f3gicos ou cl\u00e1ssicos. O pr\u00f3prio t\u00edtulo<br \/>\nda cole\u00e7\u00e3o indica uma subjetividade, um sentimentalismo maior,<br \/>\ne da leitura verifica-se que \u00e9 de fato maior e influi na emo\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos pr\u00f3prios poemas objetivos. O poeta refere e reporta a si, o que<br \/>\n\u00e9 bem rom\u00e2ntico, todas as como\u00e7\u00f5es que lhe v\u00eam<br \/>\ndos aspectos da natureza, da contempla\u00e7\u00e3o dos sucessos humanos,<br \/>\ndas medita\u00e7\u00f5es sobre temas e fic\u00e7\u00f5es abstratas.<br \/>\nMistura-lhes constantemente a sua nostalgia, o seu pesar, os sofrimentos que<br \/>\nexperimenta ou cisma. Da biografia conhecida de Magalh\u00e3es n\u00e3o<br \/>\nparece tenha sido desventurado ou tido grandes penas na vida. Ao inv\u00e9s,<br \/>\nquanto dele sabemos, foi um mimoso da fortuna. Dos seus poemas, entretanto,<br \/>\nresultaria a presun\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. \u00c9 talvez ele<br \/>\nquem inaugura na poesia brasileira o estilo lamuriento dos que j\u00e1 algures<br \/>\nchamei de nost\u00e1lgicos da desgra\u00e7a, moda po\u00e9tica que tanto<br \/>\nfloresceu aqui. N\u00e3o achou, no entanto, a sua dor, talvez por n\u00e3o<br \/>\nser verdadeiramente sentida, nenhuma express\u00e3o bastante forte para<br \/>\nnos comover tamb\u00e9m a n\u00f3s. O abstrato do seu estilo, porventura<br \/>\na sua caracter\u00edstica, sob o aspecto do estilo, concorreu ainda mais<br \/>\npara diminuir-lhe a intensidade da emo\u00e7\u00e3o j\u00e1 de si, parece,<br \/>\npouco profunda e o calor da express\u00e3o, apenas altieloq\u00fcente. Da\u00ed,<br \/>\ne da prolixidade, outra fei\u00e7\u00e3o do seu poetar, o desmaio e o<br \/>\nbanal da sua poesia, apesar dos seus prop\u00f3sitos filos\u00f3ficos.<br \/>\n\u00c9 que ele lhe p\u00f4s n\u00e3o os seus \u00edntimos sentimentos<br \/>\natuados pela sua filosofia, as suas emo\u00e7\u00f5es apenas influ\u00eddas<br \/>\npor ela, sen\u00e3o os pr\u00f3prios ditames da escola e do livro, e levou<br \/>\npara a sua arte inten\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas. Os passos de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nfilos\u00f3fica dos seus poemas s\u00e3o puramente did\u00e1ticos e<br \/>\nn\u00e3o a express\u00e3o de uma simples emo\u00e7\u00e3o po\u00e9tica:<\/p>\n<p>N\u00e3o, o medo n\u00e3o foi quem sobre a terra<\/p>\n<p>Os joelhos dobrou ao homem primeiro,<\/p>\n<p>E as m\u00e3os aos c\u00e9us ergueu-lhe. N\u00e3o, o medo<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o criador da Divindade!<\/p>\n<p>Foi o espanto, o amor, a consci\u00eancia,<\/p>\n<p>E a sublime efus\u00e3o d\u2019alma e sentidos,<\/p>\n<p>Viu o homem seu Deus por toda a parte,<\/p>\n<p>E a sua alma exaltou-se de alegria.<\/p>\n<p>Todo esse poema O Cristianismo, cujos s\u00e3o estes desenxabidos versos,<br \/>\n\u00e9 did\u00e1tico, sem que um sentimento po\u00e9tico, inspirado<br \/>\nembora do religioso, se nele manifeste de maneira a tocar-nos. Noutro seu<br \/>\npoema, muito celebrado, todo ele justificativo deste conceito, se nos deparam<br \/>\ntrechos como o seguinte, antes versos de professor de filosofia que de poeta<br \/>\nfil\u00f3sofo:<\/p>\n<p>Assaz, oh Deus, o homem sobre a terra<\/p>\n<p>Revela teu poder, tua grandeza,<\/p>\n<p>A Raz\u00e3o, \u00e9s tu mesmo; a liberdade,<\/p>\n<p>Com que prendaste o homem, n\u00e3o, n\u00e3o pode<\/p>\n<p>Dominar a Raz\u00e3o, que te proclama!<\/p>\n<p>Se muda para mim fosse a Natura,<\/p>\n<p>Na Raz\u00e3o que me aclara, e n\u00e3o \u00e9 minha,<\/p>\n<p>Senhor, tua exist\u00eancia eu descobrira.<\/p>\n<p>Em arte n\u00e3o basta n\u00e3o imitar para ser original. N\u00e3o<br \/>\nse descobre em Magalh\u00e3es imita\u00e7\u00f5es, nem predile\u00e7\u00e3o<br \/>\npor algum dos mestres do Romantismo. Mas tamb\u00e9m se lhe n\u00e3o lobriga<br \/>\noriginalidade. Se alguma tinha, prejudicou-a a sua filosofia de escola, o<br \/>\nseu demasiado respeito das tradi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, e obliterou-lha<br \/>\no abstrato e o fluido do seu estilo po\u00e9tico. A diplomacia, carreira<br \/>\nem que apenas estreado em letras entrou, com a sua gravidade protocolar, a<br \/>\nsua artificialidade, a sua futilidade, a sua compostura de mostra, n\u00e3o<br \/>\ndevia ter pouco contribu\u00eddo para sufocar em Magalh\u00e3es, ou amesquinh\u00e1-los,<br \/>\nos dons po\u00e9ticos mais vivazes que porventura recebera na natureza.<br \/>\nInflu\u00eancias de filosofia escol\u00e1stica e livresca e do decoro da<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o social fazem-no versejar os mais triviais lugares-comuns:<\/p>\n<p>Um Deus existe, a Natureza o atesta:<\/p>\n<p>A voz do tempo a sua gl\u00f3ria entoa,<\/p>\n<p>De seus prod\u00edgios se acumula o espa\u00e7o;<\/p>\n<p>E esse Deus, que criou milh\u00f5es de mundos,<\/p>\n<p>Mal queira, num minuto<\/p>\n<p>Pode ainda criar mil mundos novos.<\/p>\n<p>Se a sua emo\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, a sua inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncarece de profundeza, pobre \u00e9 tamb\u00e9m a sua express\u00e3o.<br \/>\nRaro se faz nalguma forma sint\u00e9tica, conceituosa ou intuitiva. Por<br \/>\nvia de regra se derrama em um longo fraseado, com exclama\u00e7\u00f5es<br \/>\ne ap\u00f3strofes. Roma lhe n\u00e3o inspira sen\u00e3o banalidades<br \/>\nda sua hist\u00f3ria corriqueira e dos seus mais triviais aspectos:<\/p>\n<p>Roma \u00e9 bela, \u00e9 sublime, \u00e9 um tesouro<\/p>\n<p>De milh\u00f5es de riquezas; toda a It\u00e1lia<\/p>\n<p>\u00c9 um vasto museu de maravilhas.<\/p>\n<p>Eis o qu\u2019eu dizer possa; esta \u00e9 a P\u00e1tria<\/p>\n<p>Do pintor, do fil\u00f3sofo, do vate.<\/p>\n<p>O prosaico escandaloso destes versos n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o<br \/>\nou uma raridade. De todo este grosso volume dos Suspiros po\u00e9ticos (mais<br \/>\nde 350 p\u00e1ginas) apenas vive hoje, e merece viver, o Napole\u00e3o<br \/>\nem Waterloo, que sem ter a profundeza, a intensa emo\u00e7\u00e3o humana<br \/>\ne po\u00e9tica do Cinque magio, de Manzoni, salva-se por um alevantado sopro<br \/>\n\u00e9pico e sem embargo de alguns desfalecimentos, uma bela forma eloq\u00fcente<br \/>\ne comovida.<\/p>\n<p>O que os contempor\u00e2neos acharam de novo no livro, e o pelo que ele<br \/>\nos impressionou, foi, com a aus\u00eancia dos fastidiosos e safados assuntos<br \/>\nantes preferidos, mitol\u00f3gicos e cl\u00e1ssicos, dos ran\u00e7osos<br \/>\ntropos da caduca ret\u00f3rica, a personalidade do autor. N\u00e3o se<br \/>\nrevelava esta no vigor do sentimento ou no ressalto da express\u00e3o, como<br \/>\ncom Victor Hugo em Fran\u00e7a ou Garrett em Portugal, mas se apresentava<br \/>\nnas numerosas refer\u00eancias a si mesmo, nas suas declara\u00e7\u00f5es<br \/>\nde f\u00e9 e de princ\u00edpios, nas suas confiss\u00f5es e l\u00e1stimas.<br \/>\nPor pouco que tudo isso fosse realmente, ou por pouco que nos pare\u00e7a<br \/>\na n\u00f3s, foi ent\u00e3o, com ajuda do sentimento nacionalista predominante,<br \/>\nachado muito. A despeito das restri\u00e7\u00f5es que podemos fazer hoje,<br \/>\nhavia ainda nos Suspiros po\u00e9ticos, e se n\u00e3o enganaram os contempor\u00e2neos,<br \/>\na exala\u00e7\u00e3o de uma alma, tocada da nova gra\u00e7a rom\u00e2ntica,<br \/>\ninflu\u00edda, por pouco que fosse, pelo sopro da liberdade est\u00e9tica<br \/>\nque agitava a atmosfera europ\u00e9ia e t\u00e3o bem se casava com o de<br \/>\nliberdade pol\u00edtica que soprava em sua p\u00e1tria. E \u00e0s vezes<br \/>\nexalava-se linda e sentidamente:<\/p>\n<p>Castas Virgens da Gr\u00e9cia,<\/p>\n<p>Que os sacros bosques habitais do Pindo!<\/p>\n<p>Oh Numes t\u00e3o fagueiros,<\/p>\n<p>Que o ber\u00e7o me embalastes<\/p>\n<p>Com risos lisonjeiros<\/p>\n<p>Assaz a inf\u00e2ncia minha fascinastes.<\/p>\n<p>Guardai os louros vossos,<\/p>\n<p>Guardai-os, sim, qu\u2019eu hoje os renuncio.<\/p>\n<p>Adeus fic\u00e7\u00f5es de Homero!<\/p>\n<p>Deixai, deixai minha alma<\/p>\n<p>Em seus novos del\u00edrios engolfar-se,<\/p>\n<p>Sonhar com as terras do seu p\u00e1trio Rio;<\/p>\n<p>S\u00f3 de suspiros coroar-me quero,<\/p>\n<p>De saudades, de ramos de cipreste;<\/p>\n<p>S\u00f3 quero suspirar, gemer s\u00f3 quero.<\/p>\n<p>E um c\u00e2ntico formar co\u2019os meus suspiros.<\/p>\n<p>Assim pela aura matinal vibrado<\/p>\n<p>O Anemoc\u00f3rdio, o ramo pendurado,<\/p>\n<p>Em cada corda geme,<\/p>\n<p>E a selva peja de harmonia estreme.<\/p>\n<p>Renunciando \u00e0s musas cl\u00e1ssicas, \u00e9, entretanto, na sua<br \/>\nl\u00edngua que lhes refoge. Distingue o Magalh\u00e3es dos Suspiros po\u00e9ticos<br \/>\nda gera\u00e7\u00e3o po\u00e9tica precedente e do mesmo Magalh\u00e3es<br \/>\ndos versos de 32, outra fei\u00e7\u00e3o muito do Romantismo, a soberba<br \/>\ndo poeta, o senso da nobreza da sua miss\u00e3o, a alevantada ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se lhe gera deste pressuposto. S\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo individualismo rom\u00e2ntico, embora nele contidas, mais discretas do<br \/>\nque acaso cumpria, sem os entusiasmos, transbordantes at\u00e9 \u00e0<br \/>\ndescompostura, de muitos dos corifeus da escola. Leiam-se o Vate, A Poesia,<br \/>\nA Mocidade. Este poema sobretudo rev\u00ea, e n\u00e3o sem intensidade,<br \/>\naquela &#8220;trag\u00e9dia da ambi\u00e7\u00e3o&#8221; que, segundo Brandes,<br \/>\nse apresentava na alma da juventude rom\u00e2ntica francesa. Como quer que<br \/>\nseja, esse grosso volume de poesias teve, de 1836 a 1865, tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nfato aqui extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Que no fundo de Magalh\u00e3es, por\u00e9m, havia permanecido o \u00e1rcade<br \/>\nretardat\u00e1rio das Poesias de 1832, provam-no os poemas posteriores a<br \/>\n1836, publicados sob o t\u00edtulo de Poesias v\u00e1rias, como segunda<br \/>\nparte das Poesias avulsas, em 1864. Neles volta \u00e0 po\u00e9tica apenas<br \/>\nesquecida nos Suspiros. Prova-o mais, de desde o t\u00edtulo, a sua posterior<br \/>\ncole\u00e7\u00e3o de versos, Ur\u00e2nia, em que tudo lembra mais a po\u00e9tica<br \/>\nobsoleta que a em voga.<\/p>\n<p>A inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, como a forma que a realiza, ou<br \/>\no estilo, \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do temperamento do poeta que a condiciona.<br \/>\nO de Magalh\u00e3es era evidentemente mais consoante ao pensamento geral<br \/>\ne \u00e0 po\u00e9tica dos \u00faltimos cinq\u00fcenta anos, do que com<br \/>\nas id\u00e9ias e a po\u00e9tica do seu tempo. Pode ser que, como ele pr\u00f3prio<br \/>\ninsinua atrav\u00e9s de Wolf, fosse o Romantismo alem\u00e3o, simplesmente<br \/>\ncomo express\u00e3o do sentimento nacional, como revolta contra a servid\u00e3o<br \/>\nde todo o mundo ao classicismo franc\u00eas, que lhe atuasse o estro. Em<br \/>\ntodo caso, sob uma forma comedida e reportada, revendo o seu med\u00edocre<br \/>\nentusiasmo pelo movimento, cujo promotor e chefe, mais por for\u00e7a das<br \/>\ncousas quer por \u00edntima persua\u00e7\u00e3o, foi aqui.<\/p>\n<p>Se Magalh\u00e3es houvera ficado nos Suspiros po\u00e9ticos, talvez fosse<br \/>\napenas um nome a mais no comprido rol dos nossos poetas. Quaisquer que fossem<br \/>\nos m\u00e9ritos dessa cole\u00e7\u00e3o, n\u00e3o eram tais que s\u00f3<br \/>\npor ela pudesse o autor tomar na literatura brasileira a import\u00e2ncia<br \/>\nque alcan\u00e7ou. Deu-lha mui justamente o volume e a variedade da sua<br \/>\nobra, provando nele capacidades que, sem serem sublimes, eram menos comuns,<br \/>\naptid\u00f5es liter\u00e1rias diversas e voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\nincontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es, e o seu exemplo influiria os seus companheiros e disc\u00edpulos<br \/>\nda primeira gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, sentiu que o renovamento<br \/>\nliter\u00e1rio de que as circunst\u00e2ncias o faziam o principal promotor,<br \/>\ncarecia de apoiar-se em um labor mental mais copioso, mais variado e mais<br \/>\nintenso, do que at\u00e9 ent\u00e3o aqui feito, e que uma literatura n\u00e3o<br \/>\npode constar somente de poesia, e menos de pequenos poemas soltos. Com esta<br \/>\nintui\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o intelig\u00eancia clara do problema,<br \/>\nque para ele e os jovens intelectuais seus patr\u00edcios se estabelecia,<br \/>\nMagalh\u00e3es colaborou em revistas com ensaios diretamente interessantes<br \/>\nao movimento liter\u00e1rio e ao pensamento brasileiro, criou, com Martins<br \/>\nPena, o teatro nacional, iniciou, com Teixeira e Sousa, o romance, reatou<br \/>\ncom os Tamoios a tradi\u00e7\u00e3o da poesia \u00e9pica do Caramuru<br \/>\ne do Uraguai, fez etnografia e hist\u00f3ria brasileiras, deu \u00e0 filosofia<br \/>\ndo Brasil o seu primeiro livro que n\u00e3o fosse um mero comp\u00eandio,<br \/>\ne ainda fez jornalismo pol\u00edtico e liter\u00e1rio, e cr\u00edtica.<br \/>\nPela sua const\u00e2ncia, assiduidade, dedica\u00e7\u00e3o \u00e0s<br \/>\nletras, que a situa\u00e7\u00e3o social alcan\u00e7ada no segundo reinado,<br \/>\nao contr\u00e1rio do que foi aqui comum, nunca lhe fez abandonar, \u00e9<br \/>\nMagalh\u00e3es o primeiro em data dos nossos homens de letras, e um dos<br \/>\nmaiores pela inspira\u00e7\u00e3o fundamental, volume, variedade e ainda<br \/>\nm\u00e9rito da sua obra. Pode dizer-se que ele inicia, quanto \u00e9 ela<br \/>\nposs\u00edvel aqui, a carreira liter\u00e1ria no Brasil, e ainda por isso<br \/>\n\u00e9 um fundador.<\/p>\n<p>Os preconceitos pseudocl\u00e1ssicos de Magalh\u00e3es e a sua \u00edndole<br \/>\nliter\u00e1ria, sempre mais arc\u00e1dica que rom\u00e2ntica, levaram-no<br \/>\nno teatro \u00e0 trag\u00e9dia, na poesia ao poema \u00e9pico. Em ambos<br \/>\nos casos inspirou-o o esp\u00edrito nacionalista da \u00e9poca, o prop\u00f3sito<br \/>\nde fazer literatura nacional, de assunto e sentimento. Declara ele pr\u00f3prio<br \/>\no seu desejo de encetar a carreira dram\u00e1tica com um assunto nacional.<br \/>\nA sua est\u00e9tica confessada no pref\u00e1cio da trag\u00e9dia de<br \/>\nAnt\u00f4nio Jos\u00e9 lhe oscila entre &#8220;o rigor dos cl\u00e1ssicos<br \/>\ne o desalinho dos rom\u00e2nticos&#8221;. Como ecl\u00e9tico de temperamento<br \/>\ne de filosofia, admirador fervoroso de Cousin, Magalh\u00e3es toma a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsoberba de um artista alheio e superior a escolas, emancipado. &#8220;O poeta<br \/>\nindependente, diz ele no seu magro Discurso sobre a hist\u00f3ria da literatura<br \/>\ndo Brasil, citando Schiller,96 n\u00e3o reconhece por lei sen\u00e3o as<br \/>\ninspira\u00e7\u00f5es de sua alma, e por soberano o seu g\u00eanio.&#8221;<br \/>\nG\u00eanio \u00e9 uma palavra de que Magalh\u00e3es abusava, metendo-a<br \/>\nat\u00e9 um passo onde for\u00e7osamente se referia a si pr\u00f3prio.<br \/>\nInfelizmente, g\u00eanio n\u00e3o tinha nenhuma, e a postura de poeta independente<br \/>\nque alardeava n\u00e3o lhe calhava ao modesto engenho. Era a forma\u00e7\u00e3o<br \/>\npseudocl\u00e1ssica do seu esp\u00edrito, consoante com a sua \u00edndole<br \/>\nliter\u00e1ria, e o seu ecletismo filos\u00f3fico que lhe impunham essa<br \/>\natitude. O pr\u00f3prio t\u00edtulo de trag\u00e9dia que deu \u00e0s<br \/>\nsuas pe\u00e7as de teatro contrastava o parecer do Romantismo, que em nome<br \/>\nda liberdade da arte, e da verdade humana, refugava a velha f\u00f3rmula<br \/>\ncl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>96Op\u00fasculos hist\u00f3ricos e liter\u00e1rios, 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nRio de Janeiro, Garnier, 1865,270.<\/p>\n<p>O renovador do teatro, e simultaneamente principal fautor do Romantismo portugu\u00eas,<br \/>\nGarrett, n\u00e3o por simples imita\u00e7\u00e3o, mas com raz\u00f5es<br \/>\nexcelentes, chamou ao seu admir\u00e1vel Frei Lu\u00eds de Sousa de &#8220;drama&#8221;,<br \/>\nn\u00e3o obedeceu \u00e0 regra dos cinco atos e escreveu-o em prosa, porventura<br \/>\na mais bela que jamais se fez em nossa l\u00edngua. Magalh\u00e3es, que<br \/>\ntem sobre Garrett o m\u00e9rito da prioridade na introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo teatro moderno em portugu\u00eas,97 ao inv\u00e9s deliberadamente chamava<br \/>\n\u00e0 sua de trag\u00e9dia, punha-lhe os cinco atos cl\u00e1ssicos,<br \/>\nembora para isso tivesse de derramar a composi\u00e7&amp;atatilde;o, e fazia-a<br \/>\nem verso, segundo a f\u00f3rmula consagrada. Distinguem-na, por\u00e9m,<br \/>\ndo mesmo passo revendo a influ\u00eancia do Romantismo, o assunto moderno<br \/>\ne nacional, a familiaridade da express\u00e3o apesar do verso cl\u00e1ssico,<br \/>\ne o pensamento liberal que a inspira, n\u00e3o obstante o catolicismo do<br \/>\nautor. N\u00e3o ser\u00e1 o Ant\u00f4nio Jos\u00e9, sob o puro aspecto<br \/>\nliter\u00e1rio e est\u00e9tico, uma perfeita ou sequer not\u00e1vel<br \/>\nobra d\u2019arte, mas \u00e9 sem d\u00favida um documento muito apreci\u00e1vel<br \/>\nda capacidade do poeta, e n\u00e3o de todo sem for\u00e7a dram\u00e1tica<br \/>\nou beleza de express\u00e3o. E, o que muito importa, no conjunto da nossa<br \/>\nliteratura dram\u00e1tica, sobre a iniciar, n\u00e3o \u00e9 despecienda.<br \/>\nSente-se ainda que \u00e9 uma obra feita de inspira\u00e7\u00e3o. P\u00f5e-no<br \/>\nde manifesto o contraste com o Olg\u00edato, obra prolixa, difusa e declamat\u00f3ria.<br \/>\nO Otelo \u00e9 apenas a tradu\u00e7\u00e3o em verso da incolor trag\u00e9dia<br \/>\ndo pseudocl\u00e1ssico franc\u00eas Ducis, a qual nesta dinamiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 nada conserva da fort\u00edssima emo\u00e7\u00e3o shakespeariana.<\/p>\n<p>Como quer que seja, o impulso da literatura dram\u00e1tica estava dado.<br \/>\nEm outubro do mesmo ano de 1838, Martins Pena, engenho teatral mais nativo<br \/>\nque Magalh\u00e3es, fazia representar a sua primeira com\u00e9dia, O juiz<br \/>\nde paz na ro\u00e7a, lidimamente brasileira, por figurar com toda a verdade<br \/>\num aspecto c\u00f4mico da nossa vida. Seguindo o exemplo de Magalh\u00e3es,<br \/>\ntodos os rom\u00e2nticos escrever\u00e3o teatro. Nenhum, por\u00e9m,<br \/>\nantes da segunda gera\u00e7\u00e3o, com o talento, a arte e o sucesso<br \/>\ndele.<\/p>\n<p>Da impress\u00e3o feita na mente portuguesa pela epop\u00e9ia de Cam\u00f5es,<br \/>\nresultou n\u00e3o s\u00f3 em Portugal mas no Brasil a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9pica, que \u00e9 um dos mais curiosos aspectos da literatura da<br \/>\nnossa l\u00edngua. Desvaneceram-se dela por tal forma os portugueses, que<br \/>\n\u00e9 de ver o filaucioso entono com que presumiram amesquinhar a literatura<br \/>\nfrancesa, reprochando-lhe a car\u00eancia de uma epop\u00e9ia. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\neles as tinham em demasia. Desta opini\u00e3o resultou mais o parvoinho<br \/>\npressuposto de que um poeta, para merecer inteira estima\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncumpria-lhe escrever um poema \u00e9pico. Aos brasileiros herdaram o seu<br \/>\npreconceito. Os nossos rom\u00e2nticos encontravam-no sancionado pelos exemplos<br \/>\nde Bento Teixeira, de Santa Rita Dur\u00e3o, de Bas\u00edlio da Gama,<br \/>\nde Cl\u00e1udio da Costa e de outros poetas autores de poemas \u00e9picos<br \/>\nmais ou menos consider\u00e1veis. No prop\u00f3sito deliberado de fomentar<br \/>\na literatura da na\u00e7\u00e3o estreante, Magalh\u00e3es fizera poesia,<br \/>\nfizera teatro, fizera novela, escrevera ensaios filos\u00f3ficos, hist\u00f3ricos<br \/>\ne liter\u00e1rios. Em 1856 coroou, segundo seria a sua mesma persuas\u00e3o,<br \/>\na sua obra de renascen\u00e7a com um poema \u00e9pico, em dez cantos,<br \/>\nem endecass\u00edlabos soltos, de assunto e de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional, a Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios.<\/p>\n<p>O aparecimento desta obra foi um acontecimento liter\u00e1rio. Contra ela<br \/>\nescreveu Jos\u00e9 de Alencar, ent\u00e3o estreante, uma cr\u00edtica<br \/>\nacerba, e o que \u00e9 pior, freq\u00fcentemente desarrazoada. Sa\u00edram-lhe<br \/>\nem defesa ningu\u00e9m menos que Monte Alverne e o pr\u00f3prio Imperador<br \/>\nD. Pedro II, que fora, \u00e0s ocultas, o editor do poema. Tinha raz\u00e3o<br \/>\nMagalh\u00e3es quando do seu citado estudo sobre a hist\u00f3ria da nossa<br \/>\nliteratura notava que no come\u00e7o daquele s\u00e9culo &#8220;uma s\u00f3<br \/>\nid\u00e9ia absorve todos os pensamentos, uma id\u00e9ia at\u00e9 ent\u00e3o<br \/>\nquase desconhecida; \u00e9 a id\u00e9ia da p\u00e1tria; ela domina tudo,<br \/>\ne tudo se faz por ela e em seu nome. Independ\u00eancia, liberdade, institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nsociais, reformas pol\u00edticas, todas as cria\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias<br \/>\nem uma nova na\u00e7\u00e3o, tais s\u00e3o os objetos que ocupam as<br \/>\nintelig\u00eancias, que atraem a aten\u00e7\u00e3o de todos, e os \u00fanicos<br \/>\nque ao povo interessam&#8221;. Continuava verdadeira a sua observa\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne desse sentimento menos de s\u00e3o patriotismo que de vaidade patri\u00f3tica<br \/>\naproveitou ele largamente, e aproveitava agora no sucesso da Confedera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Tamoios. O que principalmente disseram do poema os seus defensores \u00e9<br \/>\nque era uma obra de inspira\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica. Este errado<br \/>\ncrit\u00e9rio de ju\u00edzo de uma obra liter\u00e1ria ou art\u00edstica<br \/>\npermaneceria nos nossos costumes, como um v\u00edcio de cr\u00edtica irradic\u00e1vel,<br \/>\ne ainda n\u00e3o desapareceu de todo. O pr\u00f3prio Alencar, tr\u00eas<br \/>\nlustros depois, defendendo obras suas dos ataques da cr\u00edtica ou da<br \/>\nopini\u00e3o p\u00fablica, apelava para o sentimento patri\u00f3tico<br \/>\nque lhas inspirava. Este indiscreto sentimento, principalmente, ajudou a nomeada<br \/>\nque no seu tempo teve a Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios, como em geral<br \/>\nfavoreceu a obra dos nossos primeiros rom\u00e2nticos, dele inspirada.<\/p>\n<p>O poema de Magalh\u00e3es apareceu um ano antes dos quatro cantos dos Timbiras,<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias. Parece, entretanto, que os contempor\u00e2neos<br \/>\nn\u00e3o repararam que a Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios, voltando<br \/>\nao \u00edndio estreado na poesia brasileira por Bas\u00edlio da Gama e<br \/>\nDur\u00e3o, nada criava, mas apenas seguia a sua retaura\u00e7\u00e3o<br \/>\nnela, desde 1846 feita por Gon\u00e7alves dias nos seus Primeiros cantos.<br \/>\nApenas \u00e0 fei\u00e7\u00e3o que se chamou indianismo, e que foi de<br \/>\nprinc\u00edpio a mais singular do nosso Romantismo, trouxe o poema de Magalh\u00e3es<br \/>\no concurso precioso de uma obra consider\u00e1vel e de um homem socialmente<br \/>\nmais considerado que Gon\u00e7alves Dias, com altas e prestigiosas amizades<br \/>\ne rela\u00e7\u00f5es, poeta ent\u00e3o muito mais estimado que o seu<br \/>\njovem \u00eamulo. Era ainda o momento em que um falso crit\u00e9rio sociol\u00f3gico<br \/>\ne um desvairado sentimentalismo queriam fazer do \u00edndio um elemento<br \/>\ndemasiado interessante da nossa nacionalidade. Portanto, lisonjeava o sentimento<br \/>\np\u00fablico, e lhe aproveitava da simpatia. A Confedera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Tamoios n\u00e3o criou na nossa literatura o que se viria chamar &#8220;indianismo&#8221;,<br \/>\ne que se n\u00e3o foi todo o nosso Romantismo, foi a sua fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais peculiar. Mas, com a autoridade liter\u00e1ria de que ent\u00e3o<br \/>\ngozava o seu autor, trouxe \u00e0 iniciativa de Gon\u00e7alves Dias uma<br \/>\ncoopera\u00e7\u00e3o apenas inferior \u00e0 a\u00e7\u00e3o deste,<br \/>\nse \u00e9 que no momento n\u00e3o foi havida por superior. Em 1859, tr\u00eas<br \/>\nanos depois da Confedera\u00e7\u00e3o, apresentava Magalh\u00e3es ao<br \/>\nInstituto hist\u00f3rico uma extensa mem\u00f3ria sobre Os ind\u00edgenas<br \/>\ndo Brasil perante a hist\u00f3ria, que poderia ser como o coment\u00e1rio<br \/>\nperp\u00e9tuo de seu poema. O fim declarado desse trabalho \u00e9 reabilitar<br \/>\no elemento ind\u00edgena. N\u00e3o era outro o \u00edntimo pensamento<br \/>\ndo indianismo.98<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es foi principalmente e sobretudo poeta. Por sua obra de poeta<br \/>\ninfluiu poderosamente na implanta\u00e7\u00e3o do Romantismo aqui, e,<br \/>\nportanto, na funda\u00e7\u00e3o da literatura que desde ent\u00e3o se<br \/>\ncome\u00e7a a distinguir da portuguesa. Mas escreveu tamb\u00e9m prosa,<br \/>\nensaios diversos e tratados filos\u00f3ficos. Como prosador \u00e9 seguramente,<br \/>\nn\u00e3o obstante alguns defeitos nativos (como o j\u00e1 ridiculamente<br \/>\nfamoso da coloca\u00e7\u00e3o dos pronomes), um dos mais vern\u00e1culos,<br \/>\npela propriedade do vocabul\u00e1rio, sempre nele casti\u00e7o, e de parte<br \/>\nos leg\u00edtimos sacrif\u00edcios ao seu falar brasileiro, pela corre\u00e7\u00e3o<br \/>\nsint\u00e1tica do fraseado. \u00c9 mais simples, mais natural, menos rebuscado<br \/>\nou trabalhado o seu estilo do que era o dos escritores que aqui o precederam,<br \/>\ne ainda da maior parte dos que se lhe seguiram. Sob o aspecto da linguagem<br \/>\ne estilo s\u00e3o escritos estim\u00e1veis, e que se deixam ainda ler<br \/>\nsem dificuldade, antes com aprazimento, os seus op\u00fasculos citados.<br \/>\nA sua Biografia do padre Mestre Fr. Francisco de Monte Alverne, e p\u00e1ginas<br \/>\nsuas de literatura amena como O pav\u00e3o, podem passar por exemplos de<br \/>\nboa prosa, como n\u00e3o era vulgar na \u00e9poca.<\/p>\n<h4><a name=\"10\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo X<\/h4>\n<p><strong>OS PR\u00d3CERES DO ROMANTISMO<\/strong><\/p>\n<p>I \u2014 PORTO ALEGRE<\/p>\n<p>MANUEL DE ARA\u00daJO PORTO ALEGRE nasceu no Rio Grande do Sul em 29 de<br \/>\nnovembro de 1806 e faleceu, feito Bar\u00e3o de Santo \u00c2ngelo, em Lisboa,<br \/>\nem 29 de dezembro de 1879. Como crescid\u00edssimo n\u00famero de literatos<br \/>\nbrasileiros, era um autodidata. Ap\u00f3s os primeiros e for\u00e7osamente<br \/>\nmofinos estudos preparat\u00f3rios feitos na sua prov\u00edncia natal,<br \/>\nveio para o Rio de Janeiro em 1827.99 Destinava-se \u00e0 Academia Militar.<br \/>\nN\u00e3o indicava este prop\u00f3sito nenhuma voca\u00e7\u00e3o pela<br \/>\ncarreira das armas. Porto Alegre cedia \u00e0 necessidade que levou tant\u00edssimos<br \/>\nmo\u00e7os brasileiros pobres a procurarem aquela escola para adquirirem<br \/>\neconomicamente uma instru\u00e7\u00e3o que de outro modo n\u00e3o poderiam<br \/>\nfazer. Como lhe falhasse a matr\u00edcula na Academia Militar, voltou-se<br \/>\npara a de Belas-Artes, onde ao cabo do primeiro ano alcan\u00e7ou o pr\u00eamio<br \/>\nde pintura e arquitetura. O pintor Debret, daquele grupo de artistas franceses<br \/>\nque no tempo de D. Jo\u00e3o VI vieram aqui fundar o ensino art\u00edstico,<br \/>\nfoi um dos seus mestres e por tal maneira se lhe afei\u00e7oou, que regressando<br \/>\n\u00e0 Fran\u00e7a, em 1831, levou-o consigo. At\u00e9 o ano de 1837<br \/>\nviajou Porto Alegre pela B\u00e9lgica, It\u00e1lia, Su\u00ed\u00e7a,<br \/>\nInglaterra e Portugal, e nessas viagens completou a sua instru\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeral e educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Voltando ao Brasil nesse<br \/>\nano, fundou com outros o Conservat\u00f3rio Dram\u00e1tico e a Academia<br \/>\nde \u00d3pera L\u00edrica, e tomou parte ativa e consp\u00edcua no movimento<br \/>\nliter\u00e1rio do Romantismo, colaborando em v\u00e1rias revistas, dirigindo<br \/>\noutras, trabalhando no Instituto Hist\u00f3rico e publicando obras diversas.<br \/>\nPosteriormente entrou para o Corpo Consular, tornando \u00e0 Europa, que<br \/>\ndesde 1859 quase sempre habitou e onde morreu. Em Paris pertenceu ao grupo<br \/>\nda Niter\u00f3i, revista brasileira de ci\u00eancias, letras e artes ali<br \/>\npublicada em 1836, e que serviu de \u00f3rg\u00e3o \u00e0 inicia\u00e7\u00e3o<br \/>\nda literatura brasileira no Romantismo. Do mesmo grupo eram Magalh\u00e3es<br \/>\ne Sales T\u00f4rres Homem, que a pol\u00edtica devia em breve tomar \u00e0s<br \/>\nletras. Nesse per\u00edodo estreou com o poema A voz da natureza, composto<br \/>\nem N\u00e1poles, em 1835. Este &#8220;Canto sobre as ru\u00ednas de Cumas&#8221;<br \/>\n\u00e9 naquela \u00e9poca um poema estranho, inteiramente fora dos moldes<br \/>\nda poesia contempor\u00e2nea, alguma coisa que, n\u00e3o obstante fraquezas<br \/>\nde inspira\u00e7\u00e3o e forma, se aproxima da poesia bem mais moderna<br \/>\nda Lenda dos s\u00e9culos e que tais interpreta\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas<br \/>\nda hist\u00f3ria. Em 1843, noutra revista que foi parte importante no movimento<br \/>\ndo nosso Romantismo, a Minerva Brasiliense, deu Porto Alegre \u00e0 luz<br \/>\nas suas primeiras Brasilianas. Muito mais tarde as reuniu em volume com outras<br \/>\ncomposi\u00e7\u00f5es e este mesmo t\u00edtulo, que era de si um programa<br \/>\nliter\u00e1rio.100 A sua inten\u00e7\u00e3o declara-o ele no pref\u00e1cio,<br \/>\nn\u00e3o lhe pareceu ficasse baldada, &#8220;porque foi logo compreendida<br \/>\npor alguns engenhos mais fecundos e superiores que trilharam a mesma vereda&#8221;.<br \/>\nE em seguida confessa ter desejado &#8220;seguir e acompanhar o Sr. Magalh\u00e3es<br \/>\nna reforma da arte, feita por ele em 1836 com a publica\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nSuspiros po\u00e9ticos e completada em 1856 com o seu poema da Confedera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Tamoios&#8221;. O testemunho precioso de Porto Alegre ratifica plenamente<br \/>\no consenso geral dos contempor\u00e2neos do papel principal de Magalh\u00e3es<br \/>\nno advento do nosso Romantismo. Porto Alegre \u00e9, entretanto, um engenho<br \/>\nmais vasto, mais profundo, mais completo que o seu amigo e \u00eamulo. E<br \/>\nmais pessoal tamb\u00e9m, e mais intenso. N\u00e3o obstante n\u00e3o<br \/>\n\u00e9, como n\u00e3o era Magalh\u00e3es, um rom\u00e2ntico de voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nou de \u00edndole. Pelo menos nenhum deles o foi como ser\u00e3o os da<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o seguinte \u00e0 sua. Ao Romantismo dos dous preclaros<br \/>\namigos faltam algumas fei\u00e7\u00f5es, e acaso das mais caracter\u00edsticas,<br \/>\ndesse importante fato liter\u00e1rio, como o extremo subjetivismo e o individualismo<br \/>\nins\u00f3lito. Quase lhes ficou estranho, principalmente a Porto Alegre,<br \/>\no amor, que em Magalh\u00e3es \u00e9 apenas o amor comedido, burgu\u00eas,<br \/>\ndom\u00e9stico, ao inv\u00e9s justamente do que cantavam e faziam os corifeus<br \/>\ndo Romantismo europeu. Esta falta lhes amesquinhou o estro e a express\u00e3o,<br \/>\nem ambos sempre mais ret\u00f3rica, mais eloq\u00fcente mesmo que sentida.<br \/>\nAs Brasilianas s\u00e3o uma obra de escola e de prop\u00f3sito, em que<br \/>\na inten\u00e7\u00e3o, louvabil\u00edssima embora e \u00e0s vezes realizada<br \/>\ncom talento, \u00e9 mais vis\u00edvel que a inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEst\u00e3o muito longe da emo\u00e7\u00e3o sincera e tocante das Americanas,<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias, que viriam dar ao \u00edntimo sentimento brasileiro,<br \/>\nqual era naquele momento hist\u00f3rico, a sua exata express\u00e3o.<\/p>\n<p>A obra capital de Porto Alegre \u00e9, por\u00e9m, o grande poema Colombo,<br \/>\npublicado em 1866, em pleno Romantismo, quando a poesia brasileira havia j\u00e1<br \/>\nrompido com a tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica portuguesa antiga, e florescia<br \/>\naqui a segunda gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica. Entrementes, de 1844<br \/>\na 1859, escrevera, fizera representar ou publicar v\u00e1rias pe\u00e7as<br \/>\nde teatro, libretos de \u00f3pera, dramas, com\u00e9dias e outras obras,<br \/>\nque se nenhuma lhe assegura renome como autor dram\u00e1tico, demonstram-lhe<br \/>\ntodas a versatilidade do engenho e a atividade liter\u00e1ria, e serviram<br \/>\npara impedir n\u00e3o secasse a corrente iniciada com Magalh\u00e3es e<br \/>\nMartins Pena e para, materialmente ao menos, avolumarem-na. No mesmo per\u00edodo<br \/>\nda sua estadia no Brasil antes do Consulado, escreveu em peri\u00f3dicos<br \/>\ncujo fundador, diretor ou simples colaborador, foi, viagem, cr\u00edtica<br \/>\nliter\u00e1ria e de arte, biografias, pronunciando como orador do Instituto<br \/>\nHist\u00f3rico v\u00e1rios discursos, que s\u00e3o talvez a sua obra<br \/>\nmais not\u00e1vel em prosa. Na Revista dessa associa\u00e7\u00e3o publicou<br \/>\na sua conhecida Mem\u00f3ria sobre a antiga escola de pintura fluminense<br \/>\ne artigos de iconografia brasileira. Como a quantos do mesmo g\u00eanero<br \/>\nescreveu, os inspirava mais a inten\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica de<br \/>\nexal\u00e7ar al\u00e9m do leg\u00edtimo cousas da p\u00e1tria que<br \/>\ndiscreto senso cr\u00edtico. Mas era moda louvar descomedidamente, engrandecer<br \/>\nsobre posse, tudo o que era nosso, na ing\u00eanua esperan\u00e7a de nos<br \/>\nvalorizarmos. A \u00edndole de si mesma entusiasta e pomposa de Porto Alegre<br \/>\ncedeu gostosamente \u00e0 moda.<\/p>\n<p>A obra de prosador de Porto Alegre \u00e9 menos consider\u00e1vel que<br \/>\na de Magalh\u00e3es, e n\u00e3o foi, como a deste, jamais reunida em livro.<br \/>\nMenos vern\u00e1culo como prosador que o seu \u00eamulo, o \u00e9 muito<br \/>\nmais como poeta, no Colombo. Mas sobretudo lhe \u00e9 superior pela abund\u00e2ncia<br \/>\ne vigor das id\u00e9ias, movimento e colorido do estilo, e brilho da forma.<br \/>\nNeste, como \u00e9 muito nosso, freq\u00fcentemente excede-se e cai no empolado<br \/>\ne no ret\u00f3rico. Magalh\u00e3es escreve mais natural e simplesmente,<br \/>\nsem ali\u00e1s evitar sempre os extremos, o banal e o inchado. Esta marca<br \/>\ndo verdadeiro escritor, ter id\u00e9ias gerais, Porto Alegre \u00e9 um<br \/>\ndos primeiros dos nossos em que se nos depara.<\/p>\n<p>\u00c9 extraordinariamente raro que ainda um homem de grande engenho, como<br \/>\nsem d\u00favida era Porto Alegre, resista \u00e0s influ\u00eancias e<br \/>\nse forre aos preconceitos do seu ambiente espiritual. Em plena pujan\u00e7a<br \/>\ndas suas faculdades liter\u00e1rias, aos cinq\u00fcenta anos e em mais de<br \/>\nmetade do s\u00e9culo que rompera com a tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica<br \/>\ndas grandes epop\u00e9ias, comp\u00f4s e publicou um poema de um pr\u00f3logo<br \/>\ne quarenta cantos com mais de vinte e quatro mil versos, Colombo.101<\/p>\n<p>Por mais dif\u00edcil que se nos antolhe a leitura deste extens\u00edssimo<br \/>\npoema, merece ele que ven\u00e7amos a nossa hodierna repugn\u00e2ncia de<br \/>\nler grandes epop\u00e9ias e o leiamos. H\u00e1 nele uma realmente assombrosa<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o e fecundidade de inven\u00e7\u00e3o, insignes<br \/>\ndons de express\u00e3o verbal, como raro se achar\u00e1 outro exemplo<br \/>\nna poesia da nossa l\u00edngua, magnific\u00eancias de descri\u00e7\u00f5es<br \/>\nverdadeiramente primorosas, revelando no poeta o artista pl\u00e1stico,<br \/>\num nobre intuito quase sempre felizmente realizado de pensamento, corre\u00e7\u00e3o<br \/>\nquase impec\u00e1vel de versifica\u00e7\u00e3o, vernaculidade estreme,<br \/>\nengenhosas aud\u00e1cias de cria\u00e7\u00e3o e de express\u00e3o,<br \/>\ne outras qualidades que o fazem uma das mais excelentes tentativas para reviver<br \/>\nna nossa l\u00edngua, se n\u00e3o nas literaturas contempor\u00e2neas,<br \/>\nessa esp\u00e9cie de poemas. Mas os g\u00eaneros ou formas liter\u00e1rias<br \/>\nvalem tamb\u00e9m por sua conformidade com o tempo que os produziu. O poema<br \/>\nde Porto Alegre vinha j\u00e1 de todo obsoleto e inoportunamente, com um<br \/>\nmaquinismo po\u00e9tico apenas suport\u00e1vel na pura lenda e n\u00e3o<br \/>\nem uma epop\u00e9ia de fundo hist\u00f3rico. Representa um em todo caso<br \/>\nnobre esfor\u00e7o de vontade de uma inspira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o<br \/>\npodia ser natural e espont\u00e2nea, por desconforme com tudo quanto constitui<br \/>\na mentalidade e estimula o estro do poeta. O leitor pode admirar o meio sucesso<br \/>\ndesse ingente esfor\u00e7o. Mas n\u00e3o lhe sente emo\u00e7\u00e3o<br \/>\ncapaz de comov\u00ea-lo at\u00e9 lhe fazer aceitar essa nova cria\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9pica. O Colombo \u00e9 uma obra mais de raz\u00e3o e de intelig\u00eancia<br \/>\nque de instinto e sentimento, como foram os monumentos po\u00e9ticos que<br \/>\nele anacronicamente procurava continuar.<\/p>\n<p>II \u2014 TEIXEIRA E SOUSA<\/p>\n<p>Fluminense, como a maior parte dos primeiros rom\u00e2nticos, Ant\u00f4nio<br \/>\nGon\u00e7alves Teixeira e Sousa nasceu em Cabo Frio aos 28 de mar\u00e7o<br \/>\nde 1812 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1.\u00ba de dezembro de 1861.<br \/>\nTeve algo de rom\u00e2ntica a vida do criador do romance brasileiro. Filho<br \/>\nleg\u00edtimo de um portugu\u00eas com uma preta, apenas fazia os seus<br \/>\nprimeiros estudos quando se viu obrigado, pela prec\u00e1ria situa\u00e7\u00e3o<br \/>\necon\u00f4mica da fam\u00edlia, a abandon\u00e1-los e adotar uma profiss\u00e3o<br \/>\nmec\u00e2nica, a de carpinteiro. Por alguns anos exerceu este of\u00edcio<br \/>\nno Rio de Janeiro, para onde viera de Itabora\u00ed com o fim de nele aperfei\u00e7oar-se.<br \/>\nCinco anos depois regressou \u00e0 terra natal. Tinham-lhe morrido os quatro<br \/>\nirm\u00e3os mais velhos. Aos vinte anos achou-se s\u00f3 no mundo, com<br \/>\nescass\u00edssimos bens que lhe herdara o pai. Senhor de si, voltou aos<br \/>\nestudos com o mesmo antigo ardor e o mesmo mestre, o cirurgi\u00e3o In\u00e1cio<br \/>\nCardoso da Silva, professor r\u00e9gio em Cabo Frio, e tamb\u00e9m poeta,<br \/>\ncujos versos Teixeira e Sousa mais tarde piedosamente reuniu e publicou. Em<br \/>\n1840 voltou ao Rio de Janeiro, onde a simpatia de cor, de engenho po\u00e9tico<br \/>\ne de amor \u00e0s letras facilmente o ligou a Paula Brito.<\/p>\n<p>Francisco Paula Brito (1809-1861) \u00e9, na sua situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsecund\u00e1ria, uma das figuras mais curiosas e mais simp\u00e1ticas<br \/>\ndessa \u00e9poca liter\u00e1ria. Nascido no Rio de Janeiro, de gente de<br \/>\ncor e humilde, chegou-lhe a puberdade e juventude em pleno movimento da Independ\u00eancia<br \/>\ne estabelecimento da monarquia, e dessa \u00e9poca conservou o ardor patri\u00f3tico<br \/>\ne o desvanecido nacionalismo que a assinalou. De quase nenhumas letras, mas<br \/>\ninteligente e curioso, despertou-se-lhe o gosto por aquelas e pelos seus cultores<br \/>\nno trato de umas e outros, no exerc\u00edcio do seu of\u00edcio de tip\u00f3grafo.<br \/>\nMais tarde montou uma imprensa de conta pr\u00f3pria, \u00e0 qual anexou<br \/>\numa loja de livros. Como fosse muito caro\u00e1vel de literatos, a quem<br \/>\ncom peri\u00f3dicos que fundou, como a Marmota (1849-1861), oferecia a satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde se verem publicados e louvados, a sua loja, no antigo Largo do Rossio,<br \/>\ntornou-se o prazo dado da mocidade liter\u00e1ria do tempo, e, como era<br \/>\nigualmente patriota ardente e chefe pol\u00edtico de bairro, freq\u00fcentavam-no<br \/>\ntamb\u00e9m homens p\u00fablicos not\u00e1veis, doutores e outros letrados.<br \/>\nPor ser a sua loja um centro de not\u00edcias, palestras e novidades da<br \/>\nvida urbana que n\u00e3o seriam sempre de extrema veracidade e antes facilmente<br \/>\nmentirosas, deu-lhe o povo a alcunha de &#8220;A Petal\u00f3gica&#8221;. Foram<br \/>\nseus habituados todos os nossos primeiros e ainda muitos dos segundos rom\u00e2nticos,<br \/>\nde todas as gradua\u00e7\u00f5es. Desse com\u00e9rcio com letrados,<br \/>\na intelig\u00eancia aberta e pronta de mesti\u00e7o de Paula Brito tirou<br \/>\no melhor proveito. Ele tamb\u00e9m se fez escritor e poeta. Ali\u00e1s<br \/>\no foi em tudo mediocremente, revelando apenas um generoso esfor\u00e7o e<br \/>\nexcelentes inten\u00e7\u00f5es de servir as letras nacionais, e a mesma<br \/>\nsociedade, com publica\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter educativo, moralizador<br \/>\ne patri\u00f3tico, edi\u00e7\u00f5es de obras brasileiras e tamb\u00e9m<br \/>\ncom as suas produ\u00e7\u00f5es em prosa e verso. Mais rico de boa vontade<br \/>\nque de bens de fortuna, n\u00e3o s\u00f3 acolheu, apresentou, protegeu<br \/>\nos jovens de voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que o procuravam, como<br \/>\nfestejou, celebrou, preconizou os literados j\u00e1 feitos, mecenas quase<br \/>\nt\u00e3o pobre e desvalido como os seus protegidos, e sequer sem idoneidade<br \/>\npara mentor liter\u00e1rio, teve entretanto o am\u00e1vel Paula Brito<br \/>\na\u00e7\u00e3o apreci\u00e1vel e frutuosa no momento em que a sua loja,<br \/>\nse n\u00e3o ele, era o centro da vida liter\u00e1ria no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Teixeira e Sousa foi simultaneamente empregado e colaborador liter\u00e1rio<br \/>\nde Paula Brito, em cuja c\u00e9lebre loja conheceu, imagina-se com que c\u00e2ndida<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o, os sujeitos mais afamados em letras, a roda liter\u00e1ria,<br \/>\nhabituada da Petal\u00f3gica. A\u00ed repartia o tempo que lhe deixava<br \/>\na freguesia entre ouvir aqueles personagens e escrever os seus primeiros versos.<br \/>\nCome\u00e7ou por composi\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, mas como se<br \/>\nlhe n\u00e3o abrissem as portas do teatro, e na doce ilus\u00e3o de ganhar<br \/>\nmais alguma cousa do que lhe podia dar o patr\u00e3o e amigo, fez romances.<br \/>\nEscusa dizer que nem versos nem romances lhe deram fortuna. Era, por\u00e9m,<br \/>\numa real voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, desajudada embora de g\u00eanio<br \/>\ne de cultura. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o desanimou, mas na const\u00e2ncia<br \/>\ndo engano que lhe acalentava a ambi\u00e7\u00e3o, e vendo a prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nque recebiam alguns letrados, imaginou compor um poema que lha atra\u00edsse.<br \/>\nE o comp\u00f4s numa improvisa\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, em doze cantos<br \/>\nde oitava rima, \u00e0 moda de Cam\u00f5es. Escritos os seis primeiros,<br \/>\nfoi com eles, como carta de recomenda\u00e7\u00e3o, ao ministro da Fazenda<br \/>\nsolicitar-lhe um emprego. Deu-lhe o pr\u00f3cere o de guarda da Alf\u00e2ndega<br \/>\ncom 400 mil-r\u00e9is anuais, o que para o tempo e situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo poeta n\u00e3o seria t\u00e3o mau como figurou Norberto na biografia<br \/>\nde Teixeira e Sousa. O poema \u00e9 A independ\u00eancia do Brasil, mais<br \/>\num dos muitos pecos rebentos da \u00e1rvore camoniana, e este de todo mofino.102<br \/>\nA cr\u00edtica, com Gon\u00e7alves Dias \u00e0 frente, foi-lhe impiedosa.<br \/>\n\u00c0 vista, por\u00e9m, da sua condescend\u00eancia habitual com n\u00e3o<br \/>\nmelhores frutos da musa ind\u00edgena contempor\u00e2nea, \u00e9 l\u00edcito<br \/>\nsupor que a humildade de condi\u00e7\u00e3o do poeta fosse parte na justi\u00e7a<br \/>\nque lhe faziam. Desse p\u00e9ssimo poema salvou-se o autor com um verso<br \/>\nque, como aquele tamb\u00e9m \u00fanico verso da trag\u00e9dia tro\u00e7ada<br \/>\npor Pailleron, \u00e9 bom, e ficaria proverbial:<\/p>\n<p>Em nobre empresa a mesma queda \u00e9 nobre.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es o citaria, sem nomear o autor, no seu pref\u00e1cio dos<br \/>\nFatos do esp\u00edrito humano, deturpando-o. Um escritor portugu\u00eas,<br \/>\ncom a incoerc\u00edvel antipatia com que quase sempre olharam os escritores<br \/>\nseus patr\u00edcios para os nossos, chamou-lhe de Cam\u00f5es africano.<br \/>\nEsquecia que Cam\u00f5es como Teixeira e Sousa os tem havido em barda na<br \/>\nsua terra, como lhe n\u00e3o lembrava que desde o s\u00e9culo XV havia<br \/>\numa numeros\u00edssima escravaria negra em Portugal&#8230; Auxiliado por amigos<br \/>\ne associado a Paula Brito, abandonando o mesquinho emprego, abriu uma oficina<br \/>\ntipogr\u00e1fica conjuntamente loja de objetos de escrit\u00f3rio. Casou,<br \/>\nfez fam\u00edlia e maus neg\u00f3cios, fechou a loja e aceitou para viver<br \/>\no lugar de mestre-escola do Engenho Velho com casa e 800 mil-r\u00e9is anuais,<br \/>\nnomeado pelo marqu\u00eas de Monte Alegre. Sem jeito nem gosto pela ingrata<br \/>\nprofiss\u00e3o de mestre de meninos, pediu ao Ministro Nabuco lhe desse<br \/>\na escrivania vaga de Maca\u00e9. Nabuco fez melhor, nomeou-o para uma escrivania<br \/>\nda Corte, o que era para ele quase a abastan\u00e7a: escriv\u00e3o da<br \/>\nPrimeira Vara do Ju\u00edzo do Com\u00e9rcio do Rio de Janeiro. Foi isto<br \/>\nem 1855. Mal passados seis anos morria Teixeira e Sousa com 49 anos de idade.<br \/>\nFora carpinteiro, tip\u00f3grafo, caixeiro, revisor de provas, guarda da<br \/>\nAlf\u00e2ndega, editor, mestre-escola e por fim escriv\u00e3o do Foro.<br \/>\nMas sobretudo foi, com mal empregada e malograda voca\u00e7\u00e3o, homem<br \/>\nde letras. E n\u00e3o as tinha de todo m\u00e1s, pois compunha versos<br \/>\nlatinos103 e era lido nas literaturas modernas.<\/p>\n<p>Antes do mal sorteado poema da Independ\u00eancia do Brasil, publicara Teixeira<br \/>\ne Sousa dous volumes de poesias com o t\u00edtulo de C\u00e2nticos l\u00edricos<br \/>\n(1841-1842) e o poema rom\u00e2ntico, em cinco cantos, de versos endecass\u00edlabos<br \/>\nsoltos, Os tr\u00eas dias de um noivado (1844), inspirado de uma lenda ind\u00edgena.<br \/>\nMais de uma daquelas poesias e um ou outro passo deste poema dizem que havia<br \/>\num poeta, que porventura apenas carecia de cultura e polimento, neste desventurado<br \/>\namador das letras. Um soneto seu ao menos, embora o prejudique o amaneirado<br \/>\ndo estilo, \u00e9 um dos melhores do tempo e j\u00e1 prenuncia o lirismo<br \/>\nda segunda gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, muito mais subjetivo do<br \/>\nque o era o da primeira. \u00c9 este:<\/p>\n<p>Vi o semblante teu, morri de gosto,<\/p>\n<p>Amei-te e tu regeste a minha sorte;<\/p>\n<p>Tu foste a minha estrela, e tu meu norte;<\/p>\n<p>Que m\u00e1gico poder tem o teu rosto!<\/p>\n<p>Foste ingrata, mudou-se o teu composto,<\/p>\n<p>Sofri da ingratid\u00e3o o cruel corte,<\/p>\n<p>Anelei no meu mal a torva morte;<\/p>\n<p>Que m\u00e1gico poder tem o desgosto!<\/p>\n<p>Choras arrependida?&#8230; \u00d3! n\u00e3o, serena,<\/p>\n<p>Serena o rosto teu meu doce encanto;<\/p>\n<p>Que m\u00e1gico poder tem tua pena!<\/p>\n<p>Resistir aos teus ais&#8230; quem pode tanto?!<\/p>\n<p>Que te adore outra vez amor ordena;<\/p>\n<p>Que m\u00e1gico poder n\u00e3o tem teu pranto!<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, como poeta que Teixeira e Sousa tem um<br \/>\nlugar nesta gera\u00e7\u00e3o e nesta Hist\u00f3ria, mas como o primeiro<br \/>\nescritor brasileiro de romance, portanto o criador do g\u00eanero aqui. O<br \/>\nPer\u00edodo Colonial que com Nuno Marques Pereira tivera no Peregrino da<br \/>\nAm\u00e9rica a primeira fic\u00e7\u00e3o, essa, por\u00e9m, de moral<br \/>\ne edifica\u00e7\u00e3o religiosa, nada produziu que se possa chamar de<br \/>\nnovela ou romance. A renova\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria indicada por<br \/>\nMagalh\u00e3es produzira algumas novelas e contos, publicados geralmente<br \/>\nnos peri\u00f3dicos dessa \u00e9poca e muito poucos dados \u00e0 luz<br \/>\nem volume. Daquelas, a mais antiga s\u00e3o As duas \u00f3rf\u00e3s,<br \/>\nde Noberto, aparecida em 1841. Romance propriamente, o primeiro \u00e9 o<br \/>\nFilho do pescador, de Teixeira e Sousa, de 1843. Sucessivamente publicou Teixeira<br \/>\ne Sousa mais cinco romances, As fatalidades de dous jovens (1846), Maria ou<br \/>\na menina roubada (1859), Tardes de um pintor ou as intrigas de um jesu\u00edta<br \/>\n(1847), A provid\u00eancia (1854), Gonzaga ou a conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Tiradentes (1848-1851). Destes, alguns sa\u00edram primeiramente em jornais<br \/>\ne peri\u00f3dicos, como a Marmota de Paula Brito. Por esta const\u00e2ncia<br \/>\nde produ\u00e7\u00e3o num g\u00eanero que, antes que Macedo o seguisse<br \/>\nem 1844 com A moreninha, era ele o \u00fanico a cultivar, ganhou Teixeira<br \/>\ne Sousa direito inconcusso ao t\u00edtulo de criador do romance brasileiro.<br \/>\nOs seus infelizmente tornaram-se para n\u00f3s ileg\u00edveis, tanta \u00e9<br \/>\na insufici\u00eancia da sua inven\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne tamb\u00e9m da sua linguagem.<\/p>\n<p>Se houv\u00e9ramos de aceitar a preced\u00eancia cronol\u00f3gica como<br \/>\n\u00fanica ou principal indica\u00e7\u00e3o de prioridade liter\u00e1ria<br \/>\n\u2014 que antes deve ser julgada pela valia e influxo da obra, a Teixeira<br \/>\ne Sousa caberia tamb\u00e9m a primazia na introdu\u00e7\u00e3o do nosso<br \/>\nsegundo indianismo. Com efeito, de parte algumas passageiras refer\u00eancias<br \/>\na assuntos ind\u00edgenas, ou epis\u00f3dicas apresenta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde \u00edndios em alguns poemas da fase imediatamente anterior ao Romantismo,<br \/>\n\u00e9 ele o primeiro a fazer do nosso selvagem tema de uma fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nem verso e a tomar \u00edndios para suas personagens principais nos Tr\u00eas<br \/>\ndias de um noivado, &#8220;poema rom\u00e2ntico&#8221; de que a Minerva Brasiliense<br \/>\npublicou fragmentos em 1843 e que veio a lume em 1844. Que o inspirara ou<br \/>\nestimulara a inven\u00e7\u00e3o de Chateaubriand do indianismo na literatura<br \/>\nfrancesa com a sua Atala, fornece ele pr\u00f3prio um documento na seguinte<br \/>\nestrofe do seu poema:<\/p>\n<p>Tu que de ermos \u00e1speros, in\u00f3spitos<\/p>\n<p>Do Gr\u00e3o Meschacebeu viste os arcanos;<\/p>\n<p>Que debuxaste dos agrestes \u00edncolas<\/p>\n<p>A par de usos seus, beleza egr\u00e9gia<\/p>\n<p>Na melindrosa virgem das palmeiras,<\/p>\n<p>Com sublime pincel, bardo sicambro,<\/p>\n<p>Tua Atala t\u00e3o gentil, t\u00e3o pura e meiga,<\/p>\n<p>Perdoa, inda era menos que Mir\u00edlia.<\/p>\n<p>\u00c9 que, sob a influ\u00eancia do Romantismo europeu, em revolta contra<br \/>\no classicismo, o indianismo se apresentava \u00e0 nossa mente revoltada<br \/>\ncontra a hegemonia liter\u00e1ria portuguesa, que era o nosso classicismo,<br \/>\ncomo o nosso natural recurso de rea\u00e7\u00e3o espiritual nacionalista.<br \/>\nFoi antes o est\u00edmulo pol\u00edtico da Independ\u00eancia que a a\u00e7\u00e3o<br \/>\nde nossos escritores uns sobre os outros que originou aqui o indianismo rom\u00e2ntico<br \/>\ne o generalizou. Ao mesmo tempo que Teixeira e Sousa escrevia, talvez ainda<br \/>\nem Itabora\u00ed, esse poema j\u00e1 indianista de inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nassunto e sentimento (1842-43), Gon\u00e7alves Dias, segundo informe fidedigno<br \/>\nno seu bi\u00f3grafo A. H. Leal, compunha as poesias americanas que deviam<br \/>\nvir \u00e0 luz em volume no Rio em 1846, e criar pela for\u00e7a de beleza<br \/>\nque trazia o indianismo.<\/p>\n<p>III \u2014 PEREIRA DA SILVA<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Manuel Pereira da Silva nasceu no Rio de Janeiro a 30 de agosto<br \/>\nde 1817 e faleceu em Paris a 14 de junho de 1898. Era formado em Direito pela<br \/>\nFaculdade de Paris, foi deputado geral, presidente de prov\u00edncia e exerceu<br \/>\noutras fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas igualmente importantes. Escritor<br \/>\nabundante, como todos os do grupo de que fez parte, foi historiador pol\u00edtico<br \/>\ne liter\u00e1rio, bi\u00f3grafo, cr\u00edtico, romancista e poeta. \u00c9<br \/>\no tipo do amador, do diletante, em letras, escrevendo pelo gosto, acaso pela<br \/>\nvaidade de escrever, sem no \u00edntimo se lhe dar muito do que escreve<br \/>\ne menos de como escreve. Tinha sem d\u00favida voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria,<br \/>\nmas sem dons correspondentes que a fecundassem. Escrever era para ele um h\u00e1bito,<br \/>\ncomo que um v\u00edcio elegante, qual jogar as armas ou montar a cavalo,<br \/>\num desporto agrad\u00e1vel e distinto. N\u00e3o lhe importava nem a t\u00eampera<br \/>\ndas armas nem a qualidade do animal, o essencial para ele era jog\u00e1-las<br \/>\nou mont\u00e1-lo. Assim a sua obra copiosa e volumosa, importante pelos<br \/>\nassuntos, pouco vale pelo fundo e pela forma. Historiador, escreveu hist\u00f3ria<br \/>\ncom pouco estudo, com quase nenhuma pesquisa, sem cr\u00edtica nem escr\u00fapulos<br \/>\nde investiga\u00e7\u00e3o demorada e paciente; cr\u00edtico, n\u00e3o<br \/>\npassa de um elogiador ret\u00f3rico, com vasta mas superficial leitura das<br \/>\nliteraturas modernas e mal assimilada conquanto extensa informa\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria, sem id\u00e9ias pr\u00f3prias nem alguma originalidade;<br \/>\npoeta, \u00e9 menos que med\u00edocre, e romancista, carece absolutamente<br \/>\nde imagina\u00e7\u00e3o. Mas como veio sempre escrevendo desde a inaugura\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Romantismo at\u00e9 o pleno modernismo, por mais de cinq\u00fcenta anos,<br \/>\ndando um exemplo raro de const\u00e2ncia no labor liter\u00e1rio, o seu<br \/>\nnome ganhou em suma certa aura e a sua figura liter\u00e1ria ficou at\u00e9<br \/>\na sua morte em evid\u00eancia, e, ao menos por aquela virtude, estimada.<br \/>\nO exemplo seria demais bel\u00edssimo se outro fosse o valor da sua volumosa<br \/>\nobra. Desta apenas lhe sobrevive ainda, antes por ser a \u00fanica no g\u00eanero<br \/>\nque pelo merecimento que possa ter, a Hist\u00f3ria da funda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo imp\u00e9rio brasileiro (Paris, 1864-1868), ali\u00e1s cheia de inexatid\u00f5es<br \/>\ne falhas, como todas as suas obras hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Se Teixeira e Sousa foi o criador do romance que nos habituamos a chamar<br \/>\nde brasileiro, isto \u00e9, o que representa a nossa vida comum e descreve<br \/>\nos nossos costumes, paisagens, tipos, foi entretanto Pereira da Silva quem,<br \/>\nprecedendo-o, criou o romance de fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, ent\u00e3o<br \/>\nem voga com Walter Scott e seus primeiros disc\u00edpulos. Ufanava-se com<br \/>\nmotivo no pref\u00e1cio da primeira edi\u00e7\u00e3o do seu Jer\u00f4nimo<br \/>\nCorte Real, &#8220;cr\u00f4nica do s\u00e9culo XVI&#8221;, de que este era<br \/>\num dos primeiros da literatura portuguesa moderna, pois que viu a luz do dia<br \/>\nnos anos de 1839. Realmente s\u00f3 o precedeu em Portugal o Arco de Sant\u2019Ana,<br \/>\nde Garrett, que \u00e9 de 1833. Em 1839 publicou Pereira da Silva o romance<br \/>\nhist\u00f3rico O anivers\u00e1rio de D. Miguel em 1825, mas \u00e9 apenas<br \/>\numa novela de trinta e tr\u00eas p\u00e1ginas, como \u00e9 apenas uma<br \/>\nnovela de poucas mais p\u00e1ginas Religi\u00e3o, amor e p\u00e1tria,<br \/>\nsa\u00edda no mesmo ano. Jer\u00f4nimo Corte Real tamb\u00e9m teve a<br \/>\nsua primeira publica\u00e7\u00e3o no Jornal do Com\u00e9rcio em forma<br \/>\nde curta novela, que o autor ampliou em romance, alongando-o ali\u00e1s<br \/>\ncom desenvolvimento impertinente, quando a deu em livro de 240 p\u00e1ginas,<br \/>\nem 1865. Do mesmo g\u00eanero de Jer\u00f4nimo Corte Real \u00e9 Manoel<br \/>\nde Morais, &#8220;cr\u00f4nica do s\u00e9culo XVII&#8221;. Sabendo-se como<br \/>\nele fazia hist\u00f3ria, avalia-se como faz o romance hist\u00f3rico.<br \/>\nOs seus realmente n\u00e3o t\u00eam valia alguma como quadro das \u00e9pocas<br \/>\nque presumem pintar, nem qualidades de imagina\u00e7\u00e3o ou express\u00e3o<br \/>\nque lhes atenuem esse defeito. Esta ali\u00e1s \u00e9 talvez melhor nestes<br \/>\nseus dous romances que no resto dos seus livros, e, em todo caso, \u00e9<br \/>\nsuperior \u00e0 dos de Teixeira e Sousa.<\/p>\n<p>\u00c9 Pereira da Silva um dos criadores da nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria.<br \/>\nPrecedeu mesmo Varnhagen nesses estudos, mas de pouco lhe vale essa preced\u00eancia<br \/>\nmeramente cronol\u00f3gica, porque o que fez nesse g\u00eanero, quer no<br \/>\nParnaso Brasileiro (1843) quer no Plutarco Brasileiro (1847), n\u00e3o tem<br \/>\na originalidade nem a seguran\u00e7a dos trabalhos de Varnhagen. S\u00e3o<br \/>\na repeti\u00e7\u00e3o sem cr\u00edtica do j\u00e1 sabido, com muitas<br \/>\nnovidades de pura inven\u00e7\u00e3o ou de falha ou viciosa informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAcham-se-lhe por\u00e9m na obra cr\u00edtica, desde 1842, alguns conceitos<br \/>\nque deviam mais tarde ser espalhafatosamente apresentados como originais e<br \/>\nin\u00e9ditos. Tal \u00e9 o de literatura que aquela data j\u00e1 Pereira<br \/>\nda Silva declarava ser &#8220;o desenvolvimento das for\u00e7as intelectuais<br \/>\ntodas de um povo; o complexo de suas luzes e civiliza\u00e7\u00e3o; a<br \/>\nexpress\u00e3o do grau de ci\u00eancia que ele possui; a reuni\u00e3o<br \/>\nde tudo quanto exprimem a imagina\u00e7\u00e3o e o racioc\u00ednio pela<br \/>\nlinguagem e pelos escritos&#8221;.104 Sem menosprezar-lhe inteiramente as constantes<br \/>\nprovas do seu gosto das letras e da sua longa persist\u00eancia em document\u00e1-lo<br \/>\ncom obras de toda a esp\u00e9cie, os seus contempor\u00e2neos, n\u00e3o<br \/>\nobstante as sinceras louvaminhas de parceiros, n\u00e3o se enganaram sobre<br \/>\no valor da sua obra, e apenas mediocremente o estimaram como escritor. A hist\u00f3ria<br \/>\nda literatura lhes ratificar\u00e1 este sentimento.<\/p>\n<p>IV \u2014 VARNHAGEN<\/p>\n<p>Cronologicamente pertence tamb\u00e9m a esta gera\u00e7\u00e3o um escritor<br \/>\nque, sem ter como tal grandes recomenda\u00e7\u00f5es, foi todavia um<br \/>\ndos mais prestimosos da literatura e da cultura brasileira: Francisco Adolfo<br \/>\nde Varnhagen. Nasceu em Sorocaba (S. Paulo) em 17 de fevereiro de 1816 de<br \/>\npai alem\u00e3o, criou-se e educou-se em Portugal, onde passou a inf\u00e2ncia<br \/>\ne juventude. Conquanto houvesse percorrido uma grande extens\u00e3o do litoral<br \/>\ne ainda do sert\u00e3o brasileiro, em viagens de observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne estudo, nunca propriamente habitou o Brasil, quero dizer, nunca nele se<br \/>\ndemorou com \u00e2nimo de se domiciliar. O fato de sua origem germ\u00e2nica<br \/>\ne forma\u00e7\u00e3o portuguesa e europ\u00e9ia, da sua constante aus\u00eancia<br \/>\ne pouca conviv\u00eancia do seu pa\u00eds natal e mais tarde de ter constitu\u00eddo<br \/>\nfam\u00edlia fora dele, d\u00e3o a Varnhagen uma fisionomia particular,<br \/>\num todo nada ex\u00f3tico. Da estirpe germ\u00e2nica tirava seu instinto<br \/>\nde venera\u00e7\u00e3o e respeito dos magnates, dos poderosos, das institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nconsagradas e das cousas estabelecidas. \u00c9 talvez o \u00fanico brasileiro<br \/>\nsem falha neste particular, justamente porque \u00e9 em suma pouco brasileiro<br \/>\nde temperamento, de \u00edndole e ainda de sentimento. Levou-o \u00e0<br \/>\npia batismal o pr\u00f3prio capit\u00e3o general da prov\u00edncia em<br \/>\nque nasceu, o Conde de Palma. Desde a\u00ed \u00e9 com tais pr\u00f3ceres<br \/>\nque anda. Como historiador, raro acha a censurar nos que t\u00eam o mando,<br \/>\nao contr\u00e1rio esfor\u00e7a-se por lhes encontrar sempre raz\u00f5es<br \/>\ne desculpas. Do mesmo modo justifica sempre todas as institui\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndescobre-lhes ou inventa-lhes virtudes e benef\u00edcios. Mal pode esconder<br \/>\no j\u00fabilo e a vaidade pela troca feita pelo imperador, seu amigo e protetor,<br \/>\ndo seu nome j\u00e1 glorioso de Varnhagen pelo de visconde de Porto Seguro.<br \/>\nConsagrou toda a sua laboriosa exist\u00eancia a estudar a hist\u00f3ria<br \/>\ndo Brasil, e a servi-lo com dedica\u00e7\u00e3o e zelo em cargos e miss\u00f5es<br \/>\ndiplom\u00e1ticas. Sente-se-lhe, entretanto, n\u00e3o sei que aus\u00eancia<br \/>\nde simpatia, no rigor etimol\u00f3gico da palavra, pelo pa\u00eds que<br \/>\nmelhor que ningu\u00e9m estudou e conhecia, e era o do seu nascimento. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 patriotismo, entenda-se, que lhe desconhecemos, esse o tinha ele,<br \/>\ncomo qualquer outro e do melhor. Faltava-lhe, por\u00e9m, n\u00e3o lho<br \/>\nsentimos ao menos, aquele n\u00e3o sei que \u00edntimo e ing\u00eanuo,<br \/>\nmais instintivo que raciocinado, sentimento da terra e da gente. Ele n\u00e3o<br \/>\ntem as idiossincrasias do pa\u00eds. Por isso Varnhagen n\u00e3o \u00e9<br \/>\nde fato rom\u00e2ntico, sen\u00e3o pela \u00e9poca liter\u00e1ria em<br \/>\nque viveu e colaborou; de todos os brasileiros seus contempor\u00e2neos no<br \/>\nper\u00edodo inicial do Romantismo, \u00e9 talvez o \u00fanico que al\u00e9m<br \/>\nde n\u00e3o ser indianista, isto \u00e9, de n\u00e3o ter nenhuma simpatia<br \/>\npelo \u00edndio como fator da nossa gente, ao contr\u00e1rio o menospreza,<br \/>\no deprime e at\u00e9 lhe aplaude a destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m<br \/>\no \u00fanico que altamente estima o portugu\u00eas, lhe proclama a superioridade,<br \/>\noculta ou disfar\u00e7a os defeitos do regime colonial e, propositadamente,<br \/>\nlhe adota o pensamento e a l\u00edngua. S\u00f3 ele dos seus companheiros<br \/>\na escreveria vernaculamente, sem sequer o incoerc\u00edvel brasileirismo<br \/>\nda posi\u00e7\u00e3o dos pronomes, todos neles indefectivelmente postos<br \/>\n\u00e0 portuguesa. Mas a escreve apenas corretamente, de estudo e prop\u00f3sito,<br \/>\ncom esfor\u00e7o manifesto, sem espontaneidade, flu\u00eancia ou eleg\u00e2ncia,<br \/>\nnem os idiotismos por que o verdadeiro escritor revela a sua nacionalidade.<br \/>\nPor tudo isto se n\u00e3o achou Varnhagen em simpatia com os seus confrades<br \/>\nde gera\u00e7\u00e3o, nem estes com ele. Enquanto por esp\u00edrito<br \/>\nde camaradagem e muito tamb\u00e9m de solidariedade na obra que juntos amorosamente<br \/>\nfaziam, eles se n\u00e3o regateavam m\u00fatuos enc\u00f4mios e acoro\u00e7oamentos<br \/>\nfreq\u00fcentemente desmerecidos e indiscretos, olvidavam a Varnhagen ou o<br \/>\ntratavam como colaborador somenos. Raramente se lhe acha o nome, e ainda assim<br \/>\nparcamente elogiado, nos muitos escritos com que reciprocamente se sustentavam<br \/>\ne \u00e0 sua causa. Ser\u00e1 porque n\u00e3o compreendessem a import\u00e2ncia<br \/>\npara esta da obra de erudi\u00e7\u00e3o que ele fazia? Ser\u00e1 porque<br \/>\na esses poetas, que todos sobretudo o eram, essa obra parecesse de pouco alcance<br \/>\nliter\u00e1rio e pouco gloriosa? No entanto quase todos eles faziam tamb\u00e9m<br \/>\nhist\u00f3ria, mesmo liter\u00e1ria. \u00c9 verdade que a faziam de<br \/>\npalpite, como poetas, sem investiga\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, sem acurado<br \/>\nestudo, ret\u00f3rica e declamatoriamente, com a sua imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nou repeti\u00e7\u00e3o do j\u00e1 feito pelos portugueses. Apenas Norberto,<br \/>\nmas somente em parte da sua obra, escapa a este reproche.<\/p>\n<p>O primeiro escrito consider\u00e1vel de Varnhagen, j\u00e1 da s\u00f3lida<br \/>\nerudi\u00e7\u00e3o de que ele seria um dos raros exemplos nas nossas letras,<br \/>\nforam as suas Reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre a obra de Gabriel Soares,<br \/>\npublicadas no tomo V da &#8220;Cole\u00e7\u00e3o de not\u00edcias para<br \/>\na hist\u00f3ria e geografia das na\u00e7\u00f5es ultramarinas&#8221;<br \/>\npela Academia Real das Ci\u00eancias de Lisboa (1836). Come\u00e7ando a<br \/>\nsua fecunda iniciativa da rebusca e publica\u00e7\u00e3o de monumentos<br \/>\ninteressantes para a nossa hist\u00f3ria geral, d\u00e1, em 1839, \u00e0<br \/>\nluz, tamb\u00e9m em Lisboa, o Di\u00e1rio da navega\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde P\u00earo Lopes.<\/p>\n<p>Em 1840 escreve no Panorama, o c\u00e9lebre \u00f3rg\u00e3o da renova\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria portuguesa, uma Cr\u00f4nica do descobrimento do Brasil,<br \/>\nque seria o primeiro romance brasileiro se n\u00e3o fosse apenas uma dessaborida<br \/>\ncr\u00f4nica romanceada sobre a carta de Caminha, cujo descobridor na Torre<br \/>\ndo Tombo foi Varnhagen. Sem falar em outros seus escritos de maior interesse<br \/>\nportugu\u00eas que brasileiro, dos anos imediatamente subseq\u00fcentes,<br \/>\nenceta em 1845, com os \u00c9picos brasileiros, nova edi\u00e7\u00e3o<br \/>\nprefaciada e anotada dos poemas de Santa Rita Dur\u00e3o e Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama, as suas publica\u00e7\u00f5es diretamente relativas \u00e0<br \/>\nnossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria, pouco depois prosseguidas com a do<br \/>\nFloril\u00e9gio da poesia brasileira ou cole\u00e7\u00e3o das mais not\u00e1veis<br \/>\ncomposi\u00e7\u00f5es dos poetas brasileiros falecidos, contendo as biografias<br \/>\nde muitos deles, tudo precedido de um &#8220;Ensaio Hist\u00f3rico sobre<br \/>\nas Letras do Brasil&#8221;.105<\/p>\n<p>Pelo rigoroso e acurado da sua investiga\u00e7\u00e3o e estudo e dos<br \/>\nseus resultados, pela novidade das suas not\u00edcias, pelo in\u00e9dito<br \/>\ne seguro da sua informa\u00e7\u00e3o, pelo n\u00famero e justeza de<br \/>\nalgumas de suas id\u00e9ias gerais, pela largueza de sua vista, esta obra<br \/>\nde Varnhagen lan\u00e7ava os fundamentos, e o futuro provou que definitivos,<br \/>\nda hist\u00f3ria da nossa literatura. N\u00e3o valem contra este conceito<br \/>\na preced\u00eancia meramente cronol\u00f3gica de alguns t\u00edmidos<br \/>\ne deficient\u00edssimos ensaios de Cunha Barbosa, de Pereira da Silva, de<br \/>\nNorberto, de Magalh\u00e3es e outros, que apenas repetiram as conhecidas<br \/>\nnot\u00edcias dos bibli\u00f3grafos e memorialistas portugueses, sem lhe<br \/>\nacrescentar nada de novo, e ainda errando o que j\u00e1 andava sabido. Neste<br \/>\ninvestigar dos nossos prim\u00f3rdios liter\u00e1rios, continuado na sua<br \/>\nHist\u00f3ria geral do Brasil, onde em v\u00e1rios passos se ocupa da<br \/>\nnossa evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, e em pap\u00e9is e mem\u00f3rias<br \/>\ndiversas publicadas em peri\u00f3dicos e revistas, descobriu, noticiou,<br \/>\neditou e fez editar Varnhagem alguns preciosos escritos. Tais foram os Di\u00e1logos<br \/>\ndas grandezas do Brasil, de Gabriel Soares, a Narrativa epistolar, de Cardim,<br \/>\na Prosopop\u00e9ia, de Bento Teixeira, a Hist\u00f3ria do Brasil, de Fr.<br \/>\nVicente do Salvador, sem contar quantidade de esp\u00e9cies novas para a<br \/>\nvida e obra de outros escritores do per\u00edodo colonial.<\/p>\n<p>A obra capital de Varnhagen \u00e9, por\u00e9m, a sua Hist\u00f3ria<br \/>\ndo Brasil, que ele chamou de Geral por abranger nela todas as manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nda nossa vida e atividade, ainda a liter\u00e1ria e a art\u00edstica.<br \/>\nPublicada primeiro em 1857 e reeditada em 1872, \u00e9 um livro de primeira<br \/>\nordem, se n\u00e3o pela sua estrutura, ainda assim n\u00e3o de todo defeituosa,<br \/>\npelo bem apurado dos fatos, riqueza e variedade das informa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nharmonia do conjunto e exposi\u00e7\u00e3o geralmente bem feita. Sem imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsem qualidades est\u00e9ticas de escritor, sem relevo ou eleg\u00e2ncia<br \/>\nde estilo, Varnhagen escreve, todavia, decorosamente. Merece igual aprecia\u00e7\u00e3o<br \/>\noutra consider\u00e1vel obra sua, a Hist\u00f3ria das lutas com os holandeses,<br \/>\npublicada j\u00e1 fora do per\u00edodo rom\u00e2ntico. Na nossa literatura<br \/>\nhist\u00f3rica, as obras de Varnhagen s\u00e3o certamente o que temos<br \/>\nde mais not\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tentou ele, como vimos, pela sua Cr\u00f4nica romanceada do Descobrimento<br \/>\ndo Brasil, as obras de imagina\u00e7\u00e3o ou de fic\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCarecendo de qualidades de imagina\u00e7\u00e3o e fantasia e de estilo,<br \/>\nn\u00e3o lhe podia suceder bem. O seu Amador Bueno, &#8220;drama \u00e9pico-hist\u00f3rico-americano&#8221;<br \/>\n(Lisboa, 1847, Madri, 1858), com o seu Sum\u00e9, &#8220;lenda mito-religiosa-americana&#8221;,<br \/>\ne o seu Caramuru, romance hist\u00f3rico brasileiro, em redondilhas de seis<br \/>\ns\u00edlabas, sa\u00eddo primeiro no Floril\u00e9gio e depois em separado,<br \/>\napenas lhe documentam a incapacidade para essa esp\u00e9cie de literatura.<br \/>\n\u00c9 pela sua obra de historiador e de erudito que Varnhagen merece, e<br \/>\ntem, um distinto lugar na hist\u00f3ria da nossa literatura, da qual foi<br \/>\no criador e permanece o alicerce ainda inabalado.<\/p>\n<p>Varnhagen veio a falecer longe do Brasil, como sempre tinha vivido, em Viena<br \/>\nd\u2019\u00c1ustria, a 20 de junho de 1878.<\/p>\n<p>A filosofia da Hist\u00f3ria de Varnhagen \u00e9 a comum filosofia espiritualista<br \/>\ncrist\u00e3 do seu tempo, com o pensamento moral e pol\u00edtico da sua<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o portuguesa. \u00c9 em hist\u00f3ria um providencialista,<br \/>\nem pol\u00edtica um homem de raz\u00e3o de Estado, da ordem, da autoridade<br \/>\ne do fato consumado. Depois de narrar as depreda\u00e7\u00f5es do cors\u00e1rio<br \/>\ningl\u00eas Cavendish nas costas do Brasil, diz que veio a &#8220;falecer<br \/>\nno mar, dentro de pouco tempo, provavelmente ralado pelos remorsos&#8221; (Hist.<br \/>\ngeral, I, 391). Os remorsos matarem um cors\u00e1rio do s\u00e9culo XVI!<br \/>\nDuguay-Trouin, regressando do seu assalto feliz ao Rio de Janeiro, &#8220;sofreu<br \/>\ntemporais que lhe derrotaram a esquadra, como se a Provid\u00eancia quisesse<br \/>\ncastigar os que os nossos haviam deixado impunes&#8221; (ibid. II, 816). Malogrou-se<br \/>\na revolu\u00e7\u00e3o pernambucana de 1817. &#8220;Ainda assim desta vez<br \/>\n(e n\u00e3o foi a \u00faltima) o bra\u00e7o da Provid\u00eancia, afirma<br \/>\nseriamente Varnhagen, bem que \u00e0 custa de lament\u00e1veis v\u00edtimas<br \/>\ne sacrif\u00edcios, amparou o Brasil, provendo em favor da sua integridade&#8221;<br \/>\n(ibid. 1150, II). Esta filosofia tem ao menos a vantagem de n\u00e3o ser<br \/>\npresun\u00e7osa e de dispensar qualquer outra. Era ali\u00e1s a do tempo,<br \/>\ne dela se serviram aqui todos os historiadores sem exce\u00e7\u00e3o de<br \/>\nJo\u00e3o Lisboa, o mais alumiado de todos. Varnhagen, por\u00e9m, com<br \/>\nabuso, piorando o seu caso com o carrancismo da sua educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nportuguesa se n\u00e3o de seu pr\u00f3prio temperamento liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>V \u2014 NORBERTO<\/p>\n<p>Joaquim Norberto de Souza Silva nasceu no Rio de Janeiro a 6 de junho de<br \/>\n1820 e faleceu em Niter\u00f3i a 14 de maio de 1891. Nesta gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nde laboriosos homens de letras, foi um dos mais laboriosos, e a alguns respeitos,<br \/>\num dos melhores e mais \u00fateis deles. Ou porque a exist\u00eancia fosse<br \/>\nent\u00e3o mais f\u00e1cil ou porque o amor desinteressado das letras<br \/>\nfosse ent\u00e3o maior, \u00e9 certo que nenhuma gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria brasileira antes ou depois desta trabalhou e produziu tanto<br \/>\ncomo esta. As bibliografias de Norberto enumeram-lhe cerca de 80 obras diversas,<br \/>\ngrandes e pequenas, desde 1841 publicadas em volume ou em jornais e revistas,<br \/>\nafora pref\u00e1cios, introdu\u00e7\u00f5es cr\u00edtico-liter\u00e1rias<br \/>\na obras que editou e outras. No acervo liter\u00e1rio encontra-se-lhe de<br \/>\ntudo, poesia de v\u00e1rios g\u00eaneros, teatro, romance, biografia, ensaios<br \/>\ne estudos liter\u00e1rios, administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, hist\u00f3ria<br \/>\npol\u00edtica e liter\u00e1ria e cr\u00edtica. Como Norberto n\u00e3o<br \/>\ntinha nem o talento, nem a cultura, pois era um fraco autodidata, que presume<br \/>\ntamanha e t\u00e3o variada produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 ela na m\u00e1xima<br \/>\nparte med\u00edocre ou insignificante. Deste enorme lavor apenas se salvam,<br \/>\npara bem da sua reputa\u00e7\u00e3o, os seus v\u00e1rios trabalhos sobre<br \/>\nas nossas origens liter\u00e1rias, os seus excelentes estudos sobre os poetas<br \/>\nmineiros, a sua grande e boa monografia da Conjura\u00e7\u00e3o Mineira<br \/>\ne algumas mem\u00f3rias hist\u00f3ricas publicadas na Revista do Instituto.<br \/>\nPor aqueles trabalhos \u00e9 Norberto, depois de Varnhagen, o mais prestimoso<br \/>\ne capaz dos indagadores da hist\u00f3ria da nossa literatura, um dos instituidores<br \/>\ndesta. Como cr\u00edtico, por\u00e9m, sacrifica demais ao preconceito<br \/>\nnacionalista de achar bom quanto era nosso, de encarecer o m\u00e9rito de<br \/>\npoetas e escritores somenos, no ing\u00eanuo pressuposto de servir \u00e0<br \/>\ncausa das nossas letras. Ele as serviu otimamente ali\u00e1s, menos pelo<br \/>\nque de original produziu, que \u00e9 tudo secund\u00e1rio, ou por esse<br \/>\nzelo indiscreto delas que f\u00ea-las suas conscienciosas investiga\u00e7\u00f5es<br \/>\nde alguns tipos e momentos da nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria, e publica\u00e7\u00f5es<br \/>\nescorreitas de algumas obras que andavam in\u00e9ditas ou dispersas e desencontradi\u00e7as<br \/>\ndos nossos melhores poetas coloniais.<\/p>\n<p>Concorreu mais para avultar grandemente a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\ndo seu tempo e gera\u00e7\u00e3o. Na esteira de Magalh\u00e3es fez tamb\u00e9m<br \/>\npoesia americana, cantou os \u00edndios, p\u00f4s em verso cenas e epis\u00f3dios<br \/>\nda nossa hist\u00f3ria ou das nossas tradi\u00e7\u00f5es, e, at\u00e9,<br \/>\ncom pouco engenho e nenhum sucesso, tentou a naturaliza\u00e7\u00e3o da<br \/>\nbalada, forma po\u00e9tica por sua singeleza absolutamente antip\u00e1tica<br \/>\n\u00e0 gente, como a portuguesa e a nossa, de alma pouco ing\u00eanua e<br \/>\nque de raiz ama a eloq\u00fc\u00eancia da poesia. Em Norberto se exagera<br \/>\no espiritualismo sentimental de Magalh\u00e3es, e o seu maneirismo po\u00e9tico.<br \/>\nAl\u00e9m dos portugueses e brasileiros l\u00ea o pseudo-Ossian, Lamartine,<br \/>\nGeorge Sand (ainda ent\u00e3o M.me Du Devant, como a cita), A. de Vigny,<br \/>\nDelavingne e Chateaubriand, Lope de Rueda, Victor Hugo, Parny, Ducis, Shakespeare.<br \/>\nO alimento rom\u00e2ntico n\u00e3o lhe tira toda a subst\u00e2ncia cl\u00e1ssica,<br \/>\ne, cedendo-lhe, escreve tamb\u00e9m uma trag\u00e9dia em verso, em cinco<br \/>\natos, respeitando deliberadamente as regras aristot\u00e9licas: Clitemnestra.<br \/>\nDas pe\u00e7as que escreveu Norberto, parece que a \u00fanica representada,<br \/>\nem 1846, e por Jo\u00e3o Caetano, foi Amador Bueno ou a fidelidade paulistana,<br \/>\nem 5 atos. Tamb\u00e9m se representaram tradu\u00e7\u00f5es suas do<br \/>\nTartufo, de Moli\u00e8re, e do Carlos VII, de Dumas pai, segundo a informa\u00e7\u00e3o<br \/>\npouco segura de Sacramento Blake.<\/p>\n<p>Noberto foi mais o criador, se n\u00e3o do romance brasileiro da fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nnovel\u00edstica em prosa aqui. A sua novela, ali\u00e1s por ele mesmo<br \/>\nchamada de romance, As duas \u00f3rf\u00e3s, foi publicada em 1841 (8.\u00ba,<br \/>\n35 p\u00e1gs.), dois anos portanto antes do Filho do pescador, de Teixeira<br \/>\ne Sousa, que \u00e9 de fato pelo desenvolvimento e volume o primeiro romance<br \/>\nbrasileiro. Em 1852 reuniu Norberto essa e mais tr\u00eas novelas sob o t\u00edtulo,<br \/>\nimpr\u00f3prio quanto ao primeiro termo, de Romances e novelas, num volume<br \/>\nem oitavo de 224 p\u00e1ginas. S\u00e3o todas de assunto e inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional. A intui\u00e7\u00e3o que Norberto tinha do romance acha-se expressa<br \/>\nna sua not\u00edcia sobre Teixeira e Sousa: &#8220;expandir-se pelas minuciosidades<br \/>\ndas descri\u00e7\u00f5es dos quadros da natureza, perder-se em reflex\u00f5es<br \/>\nfilos\u00f3ficas e demorar-se nas trivialidades de um enredo cheio de incidentes<br \/>\npara retardar o desenlace da a\u00e7\u00e3o principal&#8221;.106<\/p>\n<p>Certamente Teixeira e Sousa nos seus longos romances cumpriu mais \u00e0<br \/>\nrisca este programa, ali\u00e1s da sua \u00edndole e gosto; Norberto,<br \/>\npor\u00e9m, ainda nas suas novelas o seguiu.<\/p>\n<p>Norberto publicou v\u00e1rias cole\u00e7\u00f5es de poesias, quatro<br \/>\nou cinco pelo menos, al\u00e9m de numerosos poemas que em tempos diversos<br \/>\nsa\u00edram em per\u00edodicos e n\u00e3o foram jamais reunidos. Embora<br \/>\nmuito apreciados no seu tempo, nenhum s\u00f3 desses poemas viveu na nossa<br \/>\nmem\u00f3ria ou sobreviveu ao poeta. A hist\u00f3ria liter\u00e1ria<br \/>\n\u00e9 uma impertinente e implac\u00e1vel desconsoladora da vaidade liter\u00e1ria,<br \/>\npatenteando a do pr\u00f3prio trabalho das letras e o ef\u00eamero e prec\u00e1rio<br \/>\nda gl\u00f3ria contempor\u00e2nea. Mas no seu tempo, ao menos, n\u00e3o<br \/>\nfoi de todo v\u00e3o esse \u00edmprobo labor dos Norbertos, dos Teixeiras<br \/>\ne Sousas e de outros companheiros seus na cria\u00e7\u00e3o da nossa literatura.<br \/>\nEles trouxeram a pedra que por oculta e desconhecida nem por isso deixa de<br \/>\nter servido para levantar o edif\u00edcio.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante haver compilado um volume de estudos alheios da l\u00edngua<br \/>\nportuguesa,107 o que faria supor-lhe particular estudo dela, Norberto n\u00e3o<br \/>\nescreveu bem. Como os escritores seus confrades de escola e companheiros de<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teve mesmo a nossa preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde bem escrever, com acerto e eleg\u00e2ncia. \u00c9 geralmente natural<br \/>\ndesataviado, mas n\u00e3o raro tamb\u00e9m incorreto. Quando se quer elevar<br \/>\na um estilo mais castigado, guinda-se e cai no empolado e no difuso. Perpetra<br \/>\nmenos galicismos do que hoje e do que o vulgo dos escritores portugueses seus<br \/>\ncontempor\u00e2neos. Ali\u00e1s os da sua gera\u00e7\u00e3o incorriam<br \/>\nmenos nesse defeito que os posteriores.<\/p>\n<p>A sua obra capital em prosa \u00e9 a Hist\u00f3ria da Conjura\u00e7\u00e3o<br \/>\nMineira, nada obstante a opini\u00e3o que dela possa fazer o nosso sentimentalismo<br \/>\npol\u00edtico, uma das boas monografias da nossa literatura hist\u00f3rica.<br \/>\nE mais bem ordenada e composta do que \u00e9 comum em livros tais aqui escritos.<br \/>\nAl\u00e9m disso, o que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 aqui vulgar, uma<br \/>\nobra original, feita principalmente com pesquisas pr\u00f3prias e de estudo<br \/>\npessoal.<\/p>\n<p>VI \u2014 MACEDO<\/p>\n<p>Joaquim Manuel de Macedo nasceu em Itabora\u00ed, na prov\u00edncia do<br \/>\nRio de Janeiro, em 24 de junho de 1820, e morreu na cidade do Rio de Janeiro<br \/>\nem 11 de abril de 1882. Foi historiador, poeta, romancista, cor\u00f3grafo,<br \/>\ndramaturgo e comedista, al\u00e9m de jornalista pol\u00edtico e liter\u00e1rio.<br \/>\nNem pelo vigor do pensamento, nem por qualidades de express\u00e3o liter\u00e1ria,<br \/>\nse abaliza como escritor. \u00c9 como criador, com Magalh\u00e3es e Teixeira<br \/>\ne Sousa, e mais eficaz do que estes, do romance brasileiro, como um dos principais<br \/>\nfomentadores do nosso teatro, e porventura o seu melhor engenho, como autor<br \/>\nde um poema rom\u00e2ntico, no g\u00eanero um dos melhores produtos liter\u00e1rios<br \/>\ndessa \u00e9poca, e enfim pela influ\u00eancia que, principalmente como<br \/>\nromancista, exerceu, que Macedo \u00e9 um dos tipos mais vivos da nossa<br \/>\nliteratura. Foi um dos escritores mais fecundos que temos tido, talvez o mais<br \/>\nfecundo. Deixou mais de vinte romances, quase outras tantas pe\u00e7as de<br \/>\nteatro, poesia e aquele poema rom\u00e2ntico em seis cantos, livros de hist\u00f3ria<br \/>\ne corografia do Brasil, quatro grossos volumes de biografia, obras did\u00e1ticas,<br \/>\ndiscursos acad\u00eamicos e pol\u00edticos, al\u00e9m de estudos hist\u00f3ricos,<br \/>\ne folhetins e artigos diversos de sua colabora\u00e7\u00e3o em jornais<br \/>\ne revistas. Afora os romances, o teatro e aquele poema, o resto \u00e9 de<br \/>\nsomenos valor. Macedo fazia hist\u00f3ria como fazia romance, descuidadamente,<br \/>\nao correr da pena, sem nenhum escr\u00fapulo de investiga\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de estudo. Os seus grossos tomos de biografia s\u00e3o totalmente sem<br \/>\npr\u00e9stimo.<\/p>\n<p>A sua primeira obra em livro \u00e9 o romance A moreninha,108 de 1844.<br \/>\nSeguem-se-lhe, no ano seguinte, O mo\u00e7o loiro (2 vols. In-8.\u00ba),<br \/>\nem 1848, Os dois am\u00f4res (2 vols. In-8.\u00ba), em 49 Rosa e, a breves<br \/>\ntrechos, Vicentina, O forasteiro (ali\u00e1s escrito antes de todos estes),<br \/>\nO culto do dever, A luneta m\u00e1gica, O Rio do Quarto, Nina, As mulheres<br \/>\nde mantilha, Um noivo e duas noivas, e outros, sem contar as novelas colecionadas<br \/>\nsob v\u00e1rios t\u00edtulos. A maior parte tem mais de um tomo.<\/p>\n<p>A moreninha foi um acontecimento liter\u00e1rio e popularizou-se rapidamente.<br \/>\nA cr\u00edtica exultou com o seu aparecimento. Dutra e Melo, na Minerva<br \/>\nBrasiliense, do mesmo passo que o celebra com grandes gabos, exp\u00f5e<br \/>\na teoria do romance como devia ser e era aqui praticado. Preconiza o romance<br \/>\nhist\u00f3rico e o romance filos\u00f3fico, que ainda ningu\u00e9m aqui<br \/>\nfizera, contanto que neste se n\u00e3o sigam &#8220;os del\u00edrios da<br \/>\nescola francesa, um Louis Lambert por exemplo&#8221;. Se bem cair no preceito<br \/>\ndo Omne tulit punctum qui miscuit utile dulci, deve esse romance tornar-se<br \/>\nmoralizador e po\u00e9tico. Reconhece que &#8220;autores de merecimento,<br \/>\npoetas distintos (aludiria certamente a Magalh\u00e3es, Teixeira e Sousa<br \/>\ne Noberto) se tinham j\u00e1 ocupado do romance sentimental produzindo belas<br \/>\np\u00e1ginas&#8221;. De todo esse artigo de escritor ent\u00e3o muito conceituado,<br \/>\ndeduz-se que o romance devia ser po\u00e9tico, sentimental, moralizador.<br \/>\nFoi assim realmente que mais ou menos o fizeram os romancistas dessa gera\u00e7\u00e3o<br \/>\ne ainda da seguinte.<\/p>\n<p>A moreninha consagrou definitivamente o autor que at\u00e9 a sua morte<br \/>\nfoi conhecido como &#8220;o Macedo d\u2019A moreninha&#8221; ou tamb\u00e9m<br \/>\npelo apelido familiar de &#8220;o Macedinho&#8221;. Esse romance, ainda hoje<br \/>\nmuito lido, \u00e9 talvez o que maior n\u00famero de edi\u00e7\u00f5es<br \/>\ne republica\u00e7\u00f5es tem tido no Brasil.<\/p>\n<p>Os romances de Macedo s\u00e3o todos talhados por um s\u00f3 molde. S\u00e3o<br \/>\ning\u00eanuas hist\u00f3rias de amor, ou antes de namoro, com a reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nigualmente ing\u00eanua de uma sociedade qual era a do seu tempo, ch\u00e3<br \/>\ne matuta. Cuidando aumentar-lhes o interesse, e acaso tamb\u00e9m faz\u00ea-los<br \/>\nmais liter\u00e1rios, carrega o autor no romanesco, exagera a sentimentalidade<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 pieguice, filosofa banalidades a fartar e moraliza impertinentemente.<br \/>\nS\u00e3o romances morais, de fam\u00edlia; leitura para senhoras e senhoritas<br \/>\nde uma sociedade que deles pr\u00f3prios se verifica inocente, pelo menos<br \/>\nsem mal\u00edcia, e que, salvo os retoques do romanesco, essas novelas parece<br \/>\nretratam fielmente. A sua filosofia \u00e9 trivial, otimista e satisfeita,<br \/>\nconforme o esp\u00edrito da \u00e9poca romanceada. A sua moral, a tradicional<br \/>\nnos povos crist\u00e3os, sem d\u00favidas, nem conflitos de consci\u00eancia,<br \/>\na moral de catecismo para uso vulgar. Nem a prejudica o abuso de namoro, ou<br \/>\nalguns casos de amor romanesco, pois tudo n\u00e3o aponta sen\u00e3o ao<br \/>\ncasamento e acaba invariavelmente nele, para completa satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos bons costumes. Pouco variam as situa\u00e7\u00f5es e tipos dos romances<br \/>\nde Macedo. Ou eram de fato uma e outros constantes na sociedade de que Macedo<br \/>\nescreveu o romance, ou ao romancista faltou a arte de lhes descobrir as for\u00e7osas<br \/>\nvaria\u00e7\u00f5es. S\u00e3o infal\u00edveis neles certas categorias<br \/>\nde personagens, a mo\u00e7a apaixonada, amorosa ou namoradeira, a intrigante<br \/>\nou invejosa que contra esta conspira, o gal\u00e3, ora fatal e irresist\u00edvel,<br \/>\nora apenas simp\u00e1tico e galanteador, a velha namoradeira e rid\u00edcula,<br \/>\no velho azevieiro e grotesco, o estudante engra\u00e7ado, divertido e tr\u00eafego,<br \/>\no traidor que maquina contra o gal\u00e3 e a sua amada, o anci\u00e3o<br \/>\n(o anci\u00e3o de Macedo \u00e9 um homem de 50 anos, como as suas jovens<br \/>\namorosas n\u00e3o t\u00eam nunca mais de dezesseis) experiente, amigo certo<br \/>\ne conselheiro avisado e mais o gracioso ou jocoso da com\u00e9dia. Vem a<br \/>\np\u00ealo a terminologia teatral, porque Macedo \u00e9 em muito autor dram\u00e1tico,<br \/>\ne os seus romances deixam por mais de uma fei\u00e7\u00e3o rever este<br \/>\nconsp\u00edcuo feitio do seu engenho. Ao inv\u00e9s dos escritores nossos<br \/>\npatr\u00edcios dessa fase e ainda dos das subseq\u00fcentes, Macedo \u00e9<br \/>\num escritor alegre e satisfeito, porventura o \u00fanico da nossa literatura.<br \/>\nA sua arte lhe \u00e9 um divertimento, e o seu objeto, praticando-a, divertir<br \/>\nos seus contempor\u00e2neos, sem talvez se lhe dar dos vindouros. Diverti-los<br \/>\nmoralizando-os, risonhamente, despreocupadamente, sem outro prop\u00f3sito<br \/>\nmais alto, tal parece ter sido o seu intuito liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>A atividade dram\u00e1tica de Macedo vai de 1849 aos \u00faltimos anos<br \/>\nde 60 ou aos primeiros de 70. \u00c9 justamente o per\u00edodo de maior<br \/>\nflorescimento do nosso teatro, que ent\u00e3o realmente existiu com autores<br \/>\ne atores nacionais, queridos e estimados do p\u00fablico. Entre os \u00faltimos<br \/>\nhavia-os, \u00e9 certo, portugueses, mas esses, quase todos domiciliados<br \/>\naqui, achavam-se de fato nacionalizados. Macedo concorreu para esse teatro<br \/>\ncom mais de uma d\u00fazia de pe\u00e7as, dramas em prosa e verso, com\u00e9dias,<br \/>\n\u00f3peras, que s\u00e3o o moderno vaudeville, e farsas, mostrando em<br \/>\ntudo voca\u00e7\u00e3o decidida para o g\u00eanero f\u00e1cil e boa<br \/>\nveia c\u00f4mica. Como esta lhe vinha mais do natural que a dram\u00e1tica,<br \/>\nvalem as suas com\u00e9dias mais do que os seus dramas. Na com\u00e9dia<br \/>\nacha-se ele melhor, em um mundo mais natural, mais espont\u00e2neo e que<br \/>\nlhe \u00e9 mais familiar e conhecido que o dos seus dramas. Na inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne feitura destes, sente-se a influ\u00eancia da dramaturgia francesa contempor\u00e2nea,<br \/>\ncomo em Lusbela, por exemplo, a da Dame aux Cam\u00e9lias, ou de quejandos<br \/>\nmodelos. Demasiado rom\u00e2nticos de assunto, excessivamente romanescos<br \/>\nde composi\u00e7\u00e3o e estilo, falham mais os seus dramas do que as<br \/>\nsuas com\u00e9dias na representa\u00e7\u00e3o que presumem ser da nossa<br \/>\nvida. N\u00e3o logram tamb\u00e9m atingir por qualidades superiores de<br \/>\ninven\u00e7\u00e3o e express\u00e3o a generalidade da representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana que supra ou exceda aquela. H\u00e1, por\u00e9m, neles condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde teatralidade e arte de desenvolvimento e exposi\u00e7\u00e3o. O principal<br \/>\ndefeito do nosso teatro, o que mais nos afronta com a sua desnaturalidade,<br \/>\n\u00e9 o di\u00e1logo geralmente falso ou em desacordo com o que ouvimos<br \/>\nna rua ou na sala. A nossa sociedade, de fato ainda n\u00e3o de todo perfeitamente<br \/>\npoliciada, se n\u00e3o criou j\u00e1 uma sociabilidade, com f\u00f3rmulas<br \/>\ndialogais e de tratamento m\u00fatuo entre os interlocutores, que o escritor<br \/>\nde outras l\u00ednguas quase n\u00e3o faz sen\u00e3o reproduzir. Esse<br \/>\ntratamento no nosso teatro mostra afrontosa incoer\u00eancia, que \u00e9<br \/>\nali\u00e1s a mesma dos nossos h\u00e1bitos de conversa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuerendo evit\u00e1-la, Macedo e muitos dos nossos escritores de teatro<br \/>\nainda hoje recorrem ao tratamento da segunda pessoa do plural, que fora do<br \/>\nestilo oficial ou do verso, de todo n\u00e3o usamos. E como o rid\u00edculo<br \/>\n\u00e9 um pouco o ins\u00f3lito, essas formas ridiculizam as pe\u00e7as<br \/>\nque as empregam. O teatro rom\u00e2ntico na com\u00e9dia popular de Pena,<br \/>\nde Macedo, de Alencar e de autores de menor nome, deu da sociedade do tempo<br \/>\numa c\u00f3pia em suma exata. Desmerece, por\u00e9m, essa representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nno drama ou na com\u00e9dia da nossa alta vida. Esta a viram sempre atrav\u00e9s<br \/>\nde suas impress\u00f5es de rom\u00e2ntica francesa. Da\u00ed a pouca<br \/>\nfidelidade na pintura dela e nos sentimentos que lhe atribuem. Nunca houve<br \/>\nde fato na nossa sociedade preconceitos de ra\u00e7a ou de casta bastante<br \/>\ngeneralizados e profundos, capazes de determinar as situa\u00e7\u00f5es<br \/>\ncomo a de Lusbela, de Macedo.<\/p>\n<p>Num momento de feliz inspira\u00e7\u00e3o escreveu Macedo A nebulosa,<br \/>\npoema n\u00e3o s\u00f3 rom\u00e2ntico de inten\u00e7\u00e3o e de<br \/>\nescola, mas nimiamente romanesco. N\u00e3o obstante a sua sensibilidade<br \/>\nlamurienta, e o aparelho ultra-rom\u00e2ntico da a\u00e7\u00e3o, cheia<br \/>\nde maravilhas de m\u00e1gica, h\u00e1 neste \u00fanico poema de Macedo<br \/>\ngrandes belezas de poesia e express\u00e3o. Mais de um trecho seu ainda<br \/>\nnos impressiona pela for\u00e7a de emo\u00e7\u00e3o que lhe p\u00f4s<br \/>\no poeta. Mas ainda para o tempo desmasiava-se o poema em indiscretos apelos<br \/>\nao pat\u00e9tico e sentimentalidade que fazem que hoje n\u00e3o o leiamos<br \/>\nsem enfado.<\/p>\n<p>Concomitantemente com estes principais representantes da nossa primeira fase<br \/>\nrom\u00e2ntica, poetaram aqui outros muitos sujeitos, como os fluminenses<br \/>\nJoaquim Jos\u00e9 Teixeira (1822-1884), Jos\u00e9 Maria Velho da Silva<br \/>\n(1811-1901), Ant\u00f4nio F\u00e9lix Martins (1812-?), Jos\u00e9 Maria<br \/>\ndo Amaral (1812-1885), Firmino Rodrigues Silva (de Niter\u00f3i, 1816-1879);<br \/>\nos mineiros C\u00e2ndido Jos\u00e9 de Ara\u00fajo Viana (marqu\u00eas<br \/>\nde Sapuca\u00ed \u2014 1893-1875) e Ant\u00f4nio Augusto de Queiroga (1812-1855);<br \/>\no baiano Francisco Moniz Barreto (1804-1868), e o pernambucano Ant\u00f4nio<br \/>\nPeregrino Maciel Monteiro (1804-1868).<\/p>\n<p>Publicistas, pol\u00edticos, diplomatas, advogados, m\u00e9dicos, funcion\u00e1rios<br \/>\np\u00fablicos, poetas o s\u00e3o apenas ocasionalmente, inconseq\u00fcentemente,<br \/>\nmais de recreio que de voca\u00e7\u00e3o, e a sua obra de amadores sobre<br \/>\nescassa, o que lhes rev\u00ea a in\u00f3pia do estro, \u00e9 em suma<br \/>\ninsignificante. Vale somente como ind\u00edcio de uma inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica que se n\u00e3o limitava aos pr\u00f3ceres do movimento<br \/>\nrom\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Havia no entanto entre eles um bom, um verdadeiro poeta, Jos\u00e9 Maria<br \/>\ndo Amaral, antes um \u00e1rcade retardat\u00e1rio do que um puro rom\u00e2ntico,<br \/>\nmas um \u00e1rcade todo impregnado do lirismo garretiano. Os seus sonetos,<br \/>\nnunca reunidos em volume, s\u00e3o talvez como tais, e como poesia subjetiva,<br \/>\no que melhor deixou essa gera\u00e7\u00e3o. A fama de que gozou Moniz<br \/>\nBarreto, devida ao seu singular talento de improvisador, qualidade ent\u00e3o<br \/>\napreciad\u00edssima, n\u00e3o a confirma agora a leitura da sua obra,<br \/>\nreflexo demasiado apagado do dessorado elmanismo.<\/p>\n<h4><a name=\"11\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XI<\/h4>\n<p><strong>GON\u00c7ALVES DIAS E O GRUPO MARANHENSE<\/strong><\/p>\n<p>OS IMPULSOS DE renova\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dos nossos rom\u00e2nticos<br \/>\nda primeira hora, Magalh\u00e3es, Porto Alegre, Norberto, Macedo e outros,<br \/>\nos veio perfazer o poderoso talento de Gon\u00e7alves Dias. Da poesia genuinamente<br \/>\nbrasileira, n\u00e3o por exterioridade de inspira\u00e7\u00e3o ou de<br \/>\nforma ou pela inten\u00e7\u00e3o dos temas e motivos, mas pelo \u00edntimo<br \/>\nsentimento do nosso g\u00eanio com as suas idiossincrasias e peculiaridades,<br \/>\nem suma da psique nacional, foi ele o nosso primeiro e jamais excedido poeta.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves Dias \u00e9 nas nossas letras um dos raros exemplos comprobat\u00f3rios<br \/>\nda falaz teoria da ra\u00e7a. Parece que nele se reuniam as tr\u00eas de<br \/>\nque se formou o nosso povo. Seu pai era portugu\u00eas de nascimento, a m\u00e3e<br \/>\naquilo que chamamos no Norte, donde era, cafuza, isto \u00e9, o resultado<br \/>\ndo cruzamento do \u00edndio com o negro. Nasceu em Caxias, no Maranh\u00e3o,<br \/>\nem 1823, da uni\u00e3o natural de seu pai com aquela boa mesti\u00e7a,<br \/>\nque lhe foi m\u00e3e carinhosa. Da terra natal, onde iniciou os estudos<br \/>\nde latim com o mestre p\u00fablico local, passou com o pai \u00e0 capital<br \/>\nda Prov\u00edncia, seguindo logo ambos da\u00ed para Portugal, o pai em<br \/>\nbusca de sa\u00fade, ele de instru\u00e7\u00e3o. Pouco depois de ali<br \/>\nchegado, morreu-lhe o pai, que j\u00e1 ia muito doente. Com quatorze anos,<br \/>\nachou-se Gon\u00e7alves Dias s\u00f3, em terra estranha. Esta circunst\u00e2ncia,<br \/>\nagravando a nostalgia que sem d\u00favida lhe produzia o apartamento da<br \/>\np\u00e1tria e da m\u00e3e, aumentar-lhe-ia a natural dor da perda do pai.<br \/>\nNo bel\u00edssimo poema autobiogr\u00e1fico Saudades, que dedicou \u00e0<br \/>\nirm\u00e3, transpira ainda, n\u00e3o obstante os anos passados, a sua<br \/>\ngrande m\u00e1goa, &#8220;essa dor que n\u00e3o tem nome&#8221;:<\/p>\n<p>De quando sobre as bordas de um sepulcro<\/p>\n<p>Anseia um filho, e nas fei\u00e7\u00f5es queridas<\/p>\n<p>Dum pai, dum conselheiro, dum amigo<\/p>\n<p>O selo eterno vai gravando a morte!<\/p>\n<p>Escutei suas \u00faltimas palavras,<\/p>\n<p>Repassado de dor! \u2014 Junto ao seu leito,<\/p>\n<p>De joelhos, em l\u00e1grimas banhado<\/p>\n<p>Recebi os seus \u00faltimos suspiros.<\/p>\n<p>E a luz fun\u00e9rea e triste que lan\u00e7aram<\/p>\n<p>Seus olhos turvos, ao partir da vida<\/p>\n<p>De p\u00e1lido clar\u00e3o cobriu meu rosto<\/p>\n<p>No meu amargo pranto refletindo<\/p>\n<p>O cansado porvir que me aguardava!<\/p>\n<p>Tornou ao Maranh\u00e3o, mas j\u00e1 em 1840 estava de volta a Portugal<br \/>\nmatriculado na Universidade de Coimbra. Ou assim nascesse, e \u00e9 talvez<br \/>\no mais certo, ou as circunst\u00e2ncias do seu nascimento, aquele golpe precocemente<br \/>\nsofrido, a orfandade, o prematuro afastamento da terra natal e das suas mais<br \/>\ncaras afei\u00e7\u00f5es de inf\u00e2ncia, assim o houvessem feito, foi<br \/>\nGon\u00e7alves Dias, n\u00e3o obstante alguns lampejos de bom humor e<br \/>\nde jovialidade, uma alma profundamente melanc\u00f3lica e profundamente<br \/>\nsens\u00edvel. Ela se lhe formou ainda em meio das agita\u00e7\u00f5es<br \/>\nconseq\u00fcentes \u00e0 Independ\u00eancia. Deu-o a m\u00e3e \u00e0<br \/>\nluz quando o pai, por esquivar persegui\u00e7\u00f5es que a sua qualidade<br \/>\nde portugu\u00eas lhe poderia atrair, achava-se foragido nos matos vizinhos<br \/>\nde Caxias, habitando uma palho\u00e7a, onde Gon\u00e7alves Dias nasceu,<br \/>\nna car\u00eancia de qualquer conforto, entre afli\u00e7\u00f5es e medos.<br \/>\nDeixaram-lhe forte e viva impress\u00e3o estes primeiros incidentes de sua<br \/>\nvida. Di-lo ele \u00e0 sua irm\u00e3 naquele poema, uma das suas melhores<br \/>\np\u00e1ginas:<\/p>\n<p>Parti, dizendo adeus \u00e0 minha inf\u00e2ncia,<\/p>\n<p>Aos s\u00edtios que eu amei, aos rostos caros<\/p>\n<p>Que j\u00e1 no ber\u00e7o conheci, \u00e0queles<\/p>\n<p>De quem, mau grado a aus\u00eancia, o tempo, a morte<\/p>\n<p>E a incerteza cruel do meu destino,<\/p>\n<p>N\u00e3o me posso lembrar sem ter saudades,<\/p>\n<p>Sem que aos meus olhos l\u00e1grimas despontem.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Ave educada nas floridas selvas<\/p>\n<p>Vim da praia beijar a fina areia;<\/p>\n<p>Subit\u00e2neo tuf\u00e3o arrebatou-me,<\/p>\n<p>Perdi a verde relva, o brando ninho.<\/p>\n<p>Nem jamais casarei doces gorjeios<\/p>\n<p>Ao saudoso rugir dos meus palmares;<\/p>\n<p>Por\u00e9m a branca ang\u00e9lica mimosa<\/p>\n<p>Com seu candor enamorando as \u00e1guas,<\/p>\n<p>Floresce \u00e0s margens do meu p\u00e1trio rio.<\/p>\n<p>E a mesma imagem se repete mais adiante, mostrando a obsess\u00e3o daquela<br \/>\nimpress\u00e3o dolorosa:<\/p>\n<p>Ave educada nas floridas selvas,<\/p>\n<p>Um tuf\u00e3o me expeliu do p\u00e1trio ninho;<\/p>\n<p>As tardes dos meus dias vorrascosos<\/p>\n<p>N\u00e3o terei de passar sentado \u00e0 porta<\/p>\n<p>Do abrigo de meus pais, nem longe dele,<\/p>\n<p>Verei tranq\u00fcilo aproximar-se o inverno<\/p>\n<p>E p\u00f4r do sol dos meus cansados anos!<\/p>\n<p>O tuf\u00e3o que o expeliu do p\u00e1trio ninho foi o casamento do pai<br \/>\ncom outra mulher que n\u00e3o aquela de quem ele nascera. A dor que lhe<br \/>\nenvolveu a inf\u00e2ncia afei\u00e7oou-lhe a \u00edndole pessoal e po\u00e9tica<br \/>\ne p\u00f4s-lhe n\u2019alma a tristeza forte que ser\u00e1 a sua marca<br \/>\ne o seu encanto. A ela juntaram-se-lhe despertadas ou alvoro\u00e7adas pelos<br \/>\ngabos desde menino ouvidos ao seu talento, ambi\u00e7\u00f5es de sobrelevar-se<br \/>\n\u00e0 sua mesquinha condi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Um dia apareceu um rec\u00e9m-nado,<\/p>\n<p>Como a concha que o mar \u00e0 praia arroja;<\/p>\n<p>Cresceu qual cresce a planta em terra inculta,<\/p>\n<p>Que ningu\u00e9m educou, a chuva apenas,<\/p>\n<p>Infante viu da roda sepulturas,<\/p>\n<p>Em que n\u00e3o atentou;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o sentiu brotarem na sua alma<\/p>\n<p>Sonhos de puro amor, sonhos de gl\u00f3ria<\/p>\n<p>Sentiu no peito um mundo de esperan\u00e7as,<\/p>\n<p>Sentiu a for\u00e7a em si \u2014 patente o mundo.<\/p>\n<p>Em 1845 formado em Direito, regressou \u00e0 sua prov\u00edncia. Foi<br \/>\n\u00e0 terra natal que deixou logo &#8220;ralado de desgostos, por motivos<br \/>\nque se n\u00e3o declara&#8221;, informa discretamente um seu grande amigo<br \/>\ne amoroso bi\u00f3grafo. Esses motivos seriam de ordem dom\u00e9stica<br \/>\ne provenientes da coexist\u00eancia da m\u00e3e e da madrasta, que ali\u00e1s<br \/>\nparece-lhe fora caro\u00e1vel. A entristecer-lhe o \u00e2nimo j\u00e1<br \/>\nde raiz e das circunst\u00e2ncias de sua vida melanc\u00f3lico, a amargurar-lhe<br \/>\na alma e travar-lha de dissabores, que a sua sensibilidade de poeta e de valetudin\u00e1rio<br \/>\nexagerariam, concorreram mais as condi\u00e7\u00f5es de pen\u00faria<br \/>\ne depend\u00eancia em que, gra\u00e7as \u00e0 bondade e comisera\u00e7\u00e3o<br \/>\nde patr\u00edcios, amigos rar\u00edssimos, lograra completar a formatura<br \/>\nem Coimbra. Pouco se demorando na capital de sua Prov\u00edncia, veio para<br \/>\no Rio de Janeiro em meados de 1846 e aqui publicou os seus Primeiros cantos.109<br \/>\nAntes publicara apenas um pequeno poema Inoc\u00eancia no trovador de Coimbra<br \/>\ne tr\u00eas ou quatro de igual extens\u00e3o no Arquivo, jornal do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica, tanto a do Rio de Janeiro como a das prov\u00edncias,<br \/>\nacolheu este primeiro livro de Gon\u00e7alves Dias com calorosos e merecidos<br \/>\nenc\u00f4mios e, o que mais vale e \u00e9 menos comum, com atilada compreens\u00e3o<br \/>\ndo seu valor. O balbucio de Magalh\u00e3es e Porto Alegre era j\u00e1<br \/>\nem Gon\u00e7alves Dias a fala clara, perfeita e melodiosa. Com muito mais<br \/>\nharmonia, mais \u00edntimo e mais vivo sentimento, mais espont\u00e2nea<br \/>\ne original inspira\u00e7\u00e3o, maior sensibilidade emotiva, havia relevantemente<br \/>\nnele dons de express\u00e3o muito superiores. Pode dizer-se que aqueles<br \/>\npoemas revelam \u2014 e os posteriores o confirmariam \u2014 o primeiro<br \/>\ngrande poeta do Brasil.<\/p>\n<p>Esta preemin\u00eancia de que os contempor\u00e2neos tiveram a intui\u00e7\u00e3o,<br \/>\na vieram confirmar os Segundos cantos e sextilhas de Frei Ant\u00e3o, publicados<br \/>\ntamb\u00e9m no Rio dois anos depois. Valem menos as Sextilhas como prova<br \/>\ndo seu saber da l\u00edngua e um feliz posti\u00e7o arcaico desta, que<br \/>\npor testemunharem a delicadeza e vigor da sua imagina\u00e7\u00e3o e pensamento<br \/>\npo\u00e9tico e riqueza de sua inspira\u00e7\u00e3o l\u00edrica. Corroboraram-no<br \/>\nainda os \u00daltimos cantos, de 1851, tudo reunido mais tarde sob o t\u00edtulo<br \/>\nde Cantos, na primeira edi\u00e7\u00e3o de Leipzig (F. A. Brackhaus, 1857,<br \/>\n16.\u00ba, XXVIII, 654 p\u00e1gs.). Sucederam-se novas edi\u00e7\u00f5es<br \/>\nem n\u00famero de quatro, contadas da primeira dos Cantos quando acabava<br \/>\no poeta de morrer. Alguns dos poemas dos Primeiros Cantos, porventura os melhores,<br \/>\nrepunham em a nossa poesia o \u00edndio nela primeiro introduzido por Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama e Dur\u00e3o. Era essa a sua grande e formosa novidade. Nos poemas<br \/>\ndaqueles poetas n\u00e3o entrava o \u00edndio sen\u00e3o como elemento<br \/>\nda a\u00e7\u00e3o ou de epis\u00f3dios, sem lhes interessar mais do<br \/>\nque o pediam o assunto ou as condi\u00e7\u00f5es do g\u00eanero. Nos<br \/>\ncantos de Gon\u00e7alves Dias, ao contr\u00e1rio, \u00e9 ele de fato<br \/>\na personagem principal, o her\u00f3i, a ele v\u00e3o claramente as simpatias<br \/>\ndo poeta, por ele \u00e9 a sua predile\u00e7\u00e3o manifesta.<\/p>\n<p>Entre a publica\u00e7\u00e3o dos Primeiros e dos \u00daltimos cantos<br \/>\ncomp\u00f4s Gon\u00e7alves Dias os primeiros seis de um poema americano<br \/>\nOs Timbiras, dos quais publicou em Leipzig, em 1857, os quatro primeiros.<br \/>\nContinuava a mesma inspira\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica ao \u00edndio<br \/>\ne a mesma idealiza\u00e7\u00e3o afetuosa dos seus feitos e gestos, que<br \/>\ndistinguir\u00e1 o segundo indianismo, cujo iniciador foi exatamente Gon\u00e7alves<br \/>\nDias, do primeiro criado por Bas\u00edlio da Gama. Os Timbiras, como as<br \/>\nAmericanas, n\u00e3o s\u00f3 ficariam, a todas as luzes, os mais belos<br \/>\npoemas de inspira\u00e7\u00e3o indianista aqui produzidos, mas os \u00fanicos<br \/>\nque sobrevivem aos motivos ocasionais dessa inspira\u00e7\u00e3o e ao<br \/>\ngosto do momento. Um deles, I-Juca-Pirama, \u00e9 sob todos os aspectos,<br \/>\nessenciais ou formais, uma das raras obras-primas da nossa poesia e ainda<br \/>\nde nossa l\u00edngua. O pr\u00f3prio Portugal, geralmente pouco simp\u00e1tico<br \/>\n\u00e0s nossas tentativas de emancipa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria,<br \/>\npelo mais autorizado ent\u00e3o dos seus \u00f3rg\u00e3os intelectuais,<br \/>\nAlexandre Herculano, n\u00e3o s\u00f3 reconhecia nos Primeiros cantos<br \/>\n&#8220;as inspira\u00e7\u00f5es de um grande poeta&#8221;, mas lastimava<br \/>\nn\u00e3o houvesse o poeta dado neles maior espa\u00e7o \u00e0s poesias<br \/>\namericanas. Os Timbiras cediam ao preconceito do poema \u00e9pico da tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nportuguesa, continuada aqui desde os come\u00e7os da nossa poesia. Acostando-se-lhe,<br \/>\nfazia-o entretanto Gon\u00e7alves Dias com manifesta superioridade de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de express\u00e3o. Aquela \u00e9 mais sincera, vem-lhe mais do \u00edntimo.<br \/>\nPorventura impulsado por um rec\u00f4ndito sentimento de sua alma de caboclo,<br \/>\navivado pela nostalgia do &#8220;filho do bosque&#8221;, traz muito maior vigor<br \/>\nde idealiza\u00e7\u00e3o. A express\u00e3o \u00e9 muito mais rica,<br \/>\nmuito mais variada e melodiosa \u2014 sobre tudo muito mais melodiosa \u2014<br \/>\nque a de qualquer outro dos nossos poemas. Do maior dos nossos \u00e9picos<br \/>\nat\u00e9 ent\u00e3o, Bas\u00edlio da Gama ter\u00e1, com mais opulenta<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o, a harmonia do verso branco, no qual j\u00e1 rivalizava<br \/>\ncom Garrett. A influ\u00eancia do Uraguai \u00e9 vis\u00edvel no poema.<br \/>\nMas n\u00e3o o deslustra essa influ\u00eancia, que apenas rev\u00ea a<br \/>\ncontinuidade da nossa tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Indicia esse<br \/>\ninfluxo, e quase reproduz o verso do Uraguai<\/p>\n<p>No espa\u00e7o azul n\u00e3o chega o raio<\/p>\n<p>estoutro dos Timbiras, aludindo ao surto do condor ap\u00f3s a presa feita,<\/p>\n<p>E sobe audaz onde n\u00e3o chega o raio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a ap\u00f3strofe \u2014 Am\u00e9rica infeliz! do formos\u00edssimo<br \/>\ncanto terceiro recorda o \u2014 Gentes da Europa nunca vos trouxera \u2014<br \/>\ndo segundo canto do Uraguai.<\/p>\n<p>Nenhum poeta moderno teve como Cam\u00f5es o sentimento do paganismo e<br \/>\ndo seu maravilhoso. Assim tamb\u00e9m nenhum poeta brasileiro, em prosa<br \/>\nou verso, teve em grau igual ao de Gon\u00e7alves Dias o sentimento do nosso<br \/>\n\u00edndio e do que lhe constitu\u00eda a fei\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<br \/>\nTodos os nossos indianistas, maiores e menores, sem excetuar o pr\u00f3prio<br \/>\nAlencar, que \u00e9 quem em tal sentimento mais se aproxima de Gon\u00e7alves<br \/>\nDias, o foram antes de estudo e prop\u00f3sito que de voca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDa\u00ed a sua inferioridade relativamente ao poeta dos Timbiras e os desprop\u00f3sitos<br \/>\nem que ca\u00edram. E o conceito pode ser generalizado a toda a obra l\u00edrica<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias.<\/p>\n<p>\u00c9 que ele \u00e9 um dos raros, se n\u00e3o foi o \u00fanico,<br \/>\ndos nossos que, com os dons naturais para o ser, a vida fez poeta. N\u00e3o<br \/>\na moda, a ret\u00f3rica, a camaradagem, a presun\u00e7\u00e3o ou algum<br \/>\nest\u00edmulo vaidoso ou interesseiro, ou sequer patri\u00f3tico, o fizeram<br \/>\npoeta sen\u00e3o a dor e o sofrimento. \u00c9 primeiro o afastamento do<br \/>\ntorr\u00e3o natal e do carinho materno em anos verdes, a perda do pai e<br \/>\no isolamento em terra estranha, a amargura do seu nascimento mais que humilde,<br \/>\no sentimento da sua inferioridade social \u2014 contrastando com a sua fidalguia<br \/>\nmoral e mental, \u00e9 a humilha\u00e7\u00e3o de viver de amigos, \u00e9<br \/>\na sua pen\u00faria de recursos e mesquinhez de vida, \u00e9 o desencontro<br \/>\nde suas ambi\u00e7\u00f5es com as suas possibilidades, \u00e9 o conv\u00edvio<br \/>\ndo meio mesquinho seu conterr\u00e2neo e por fim e acaso mais que tudo, quando<br \/>\nj\u00e1 lhe sorrira a gl\u00f3ria e ele assim mesmo se enobrecera pelo<br \/>\ng\u00eanio e trabalho, a recusa da mulher muito amada, por motivo do seu<br \/>\nnascimento. N\u00e3o h\u00e1, ou apenas haver\u00e1 um destes passos<br \/>\nda sua vida dolorosa, aos quais outros fora poss\u00edvel acrescentar, que<br \/>\nn\u00e3o tenha deixado impress\u00f5es, ecos, vislumbres nos seus poemas.<br \/>\nA nostalgia inspira-lhe a Can\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio, no seu g\u00eanero<br \/>\ne ingenuidade acaso o mais sublime trecho l\u00edrico da nossa poesia, a<br \/>\nexpress\u00e3o mais intensa e mais exata do nosso \u00edntimo sentimento<br \/>\np\u00e1trio. As agruras da sua juventude as Saudades, de t\u00e3o fina<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o dolorosa, de t\u00e3o bela e comovedora express\u00e3o.<br \/>\nOs seus amores infelizes esses dois soberb\u00edssimos trechos sem iguais<br \/>\nno nosso lirismo: Se se morre de amor e Ainda uma vez, adeus, e mais aquele<br \/>\nencantador No jardim, amostra peregrina em a nossa poesia de emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nprofunda casada \u00e0 profunda singeleza. Nem desmerecem destes os poemas<br \/>\nda mesma inspira\u00e7\u00e3o, que lhe brotam, cheios de l\u00e1grimas<br \/>\ndo fundo d\u2019alma: \u00d3 que acordar e Se muito sofri j\u00e1, n\u00e3o<br \/>\nmo perguntes.110<\/p>\n<p>110Os dois primeiros citados foram publicados pelo poeta nos seus Cantos,<br \/>\nedi\u00e7\u00e3o de Leipzig, de 1857; os tr\u00eas \u00faltimos sa\u00edram<br \/>\nnas suas Obras p\u00f3stumas, dadas a lume com inteligente e carinhoso desv\u00ealo<br \/>\npelo seu amigo Dr. Ant\u00f4nio Henriques Leal (S. Lu\u00eds do Maranh\u00e3o,<br \/>\n1868-1869, 4 vols.). Na biografia do poeta que o mesmo consciencioso editor<br \/>\npublicou no 3.\u00ba vol. Do seu Panteon Maranhense (Lisboa, 1873-1875, in-8.\u00ba<br \/>\ngr., 4 vols.) reproduziu correta e aumentada a excelente not\u00edcia da<br \/>\nvida e obras do poeta de que lhe precedera as Obras P\u00f3stumas. Foi-nos<br \/>\nela de grande pr\u00e9stimo neste estudo. Sem embargo de veniais sen\u00f5es<br \/>\nde composi\u00e7\u00e3o (divaga\u00e7\u00f5es e alongamentos escusados,<br \/>\npor exemplo) s\u00e3o estas duas obras de Henriques Leal, um dos ep\u00edgonos<br \/>\ndessa bela gera\u00e7\u00e3o maranhense, modelo \u00fanico em a nossa<br \/>\ncr\u00edtica bibliogr\u00e1fica e biogr\u00e1fica, e credores de muita<br \/>\nestima.<\/p>\n<p>Antes e depois de Gonzaga jamais se ouvira em a nossa poesia cantos de amor<br \/>\nt\u00e3o repassados de \u00edntimo sentimento e de uma t\u00e3o formosa<br \/>\nexpress\u00e3o. Os poetas contempor\u00e2neos dos \u00faltimos anos de<br \/>\nGon\u00e7alves Dias, os seus sucessores imediatos, os poetas da segunda<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, os repetir\u00e3o com emo\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0s vezes igual, nenhum por\u00e9m com a alta e essencial beleza dos<br \/>\nseus. Com ele achava enfim o lirismo brasileiro a sua express\u00e3o mais<br \/>\neminente, a sua fei\u00e7\u00e3o modelar, nunca mais, se n\u00e3o atingida,<br \/>\nexcedida.<\/p>\n<p>O poeta a mais de um respeito genial desdobra-se em Gon\u00e7alves Dias<br \/>\nnum dos prosadores mais seletos das nossas letras. \u00c0s obras l\u00edricas<br \/>\njunta simultaneamente com inspira\u00e7\u00e3o muito mais rom\u00e2ntica<br \/>\nque a de Magalh\u00e3es e seus colaboradores, a dram\u00e1tica. Em 1847<br \/>\npublica D. Leonor de Mendon\u00e7a, drama original de assunto portugu\u00eas,<br \/>\nem tr\u00eas atos e cinco quadros. Antes, em 1843, compusera o Patkul, no<br \/>\nano seguinte Beatriz Cenci e mais tarde (1860) Boabdil, todos s\u00f3 postumamente<br \/>\npublicados. N\u00e3o sabemos por que n\u00e3o foi nenhum destes dramas<br \/>\nrepresentado tendo aparecido o primeiro e sendo escritos os outros justamente<br \/>\nna \u00e9poca em que nascia o teatro brasileiro, que eles teriam concorrido<br \/>\npara enriquecer e ilustrar. Ainda do ponto de vista teatral, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nnenhum deles inferior aos de Magalh\u00e3es e companheiros, e ao menos Leonor<br \/>\nde Mendon\u00e7a lhes \u00e9, como cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica<br \/>\ne m\u00e9rito liter\u00e1rio, superior. Est\u00e1 este longe da intensa<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o e da alta e serena beleza do Frei Lu\u00eds de Souza,<br \/>\nde Garrett, mas n\u00e3o lhe est\u00e1 tanto da sobriedade e formosa singeleza<br \/>\nde estilo. Publicando-o, precedeu-o o autor de um pref\u00e1cio em que,<br \/>\nde parte os inevit\u00e1veis sacrif\u00edcios \u00e0 po\u00e9tica<br \/>\ndo tempo, h\u00e1 conceitos originais e inteligentes da literatura dram\u00e1tica<br \/>\ne de seus meios de express\u00e3o. Mais que tudo, \u00e9 interessante<br \/>\nneste drama a interpreta\u00e7\u00e3o do duvidoso caso hist\u00f3rico<br \/>\nque lhe forneceu o tema. Al\u00e9m de original e psicologicamente verdadeira,<br \/>\n\u00e9 humana e dram\u00e1tica. Segundo o poeta, determinaram-no somente<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es do meio, &#8220;a fatalidade filha das circunst\u00e2ncias<br \/>\ne que dimana dos nossos h\u00e1bitos e da nossa civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;,<br \/>\ncomo ele ch\u00e3mente explica, sem parecer dar maior import\u00e2ncia<br \/>\nao seu achado, que n\u00e3o era vulgar para a \u00e9poca. \u00c9 pelo<br \/>\nmenos repar\u00e1vel que fazendo teatro Gon\u00e7alves Dias s\u00f3<br \/>\no fizesse de assuntos estrangeiros. Podia-se acaso ver neste fato a clara<br \/>\nconsci\u00eancia que teria de que a nossa sociedade, a hist\u00f3rica e<br \/>\na atual, dificilmente depararia ao poeta assuntos prop\u00edcios \u00e0<br \/>\ncria\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. Embora assim fosse, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmenos de notar-lhe a absten\u00e7\u00e3o de assuntos nacionais, pois a<br \/>\ngrandeza do poeta consiste por muito em sobrepujar tais dificuldades. Quanto<br \/>\na trazer o \u00edndio para o teatro, como o trouxe para a poesia, parece<br \/>\nandou acertad\u00edssimo, sem embargo do muito que h\u00e1 de dramaticamente<br \/>\nbelo no I-Juca-Pirama. Mas a est\u00e9tica particular do governo desaconselha<br \/>\na invas\u00e3o, ainda acompanhada de m\u00fasica, do selvagem no teatro.<\/p>\n<p>A obra puramente po\u00e9tica de Gon\u00e7alves Dias sobrepujou em acabamento<br \/>\ne m\u00e9rito a tudo o mais que escreveu, de modo a o velar e esconder mesmo<br \/>\n\u00e0 maioria dos seus admiradores. O seu brasileirismo, que n\u00e3o<br \/>\nera apenas manifesta\u00e7\u00e3o do seu indianismo, mas lhe estava, para<br \/>\nfalar com o nosso povo, na massa do sangue, e lhe vinha do nascimento e cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nem um meio genuinamente brasileiro e de influi\u00e7\u00f5es da ra\u00e7a<br \/>\nind\u00edgena na forma\u00e7\u00e3o da sua psique, o fortificaram estudos<br \/>\nda hist\u00f3ria e etnografia nacional, nos quais revelou outras faces do<br \/>\nseu talento e capacidade liter\u00e1ria: qualifica\u00e7\u00f5es para<br \/>\ntais estudos, aptid\u00e3o cr\u00edtica, facilidade e pertin\u00eancia<br \/>\nde exposi\u00e7\u00e3o. As suas mem\u00f3rias sobre a exist\u00eancia<br \/>\nde amazonas no Brasil, sobre o descobrimento casual ou n\u00e3o deste e<br \/>\nsobre as civiliza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas do pa\u00eds e da Oce\u00e2nia,<br \/>\ncomo antes desde as suas Reflex\u00f5es acerca dos Anais de Berredo, do<br \/>\nmesmo passo que lhe comprovam n\u00e3o comum erudi\u00e7\u00e3o destes<br \/>\nassuntos, documentam no poeta n\u00e3o vulgar versatilidade de talento.111<\/p>\n<p>A estes diversos escritos, e at\u00e9 alguns de car\u00e1ter administrativo<br \/>\ne oficial, colabora\u00e7\u00e3o em revistas e jornais, ensaios apenas<br \/>\nencetados, folhetins, cumpre juntar como prova da atividade mental do poeta<br \/>\ne gosto e voca\u00e7\u00e3o dos estudos brasileiros, o Dicion\u00e1rio<br \/>\nda l\u00edngua tupi (Leipzig, 1858) e o Vocabul\u00e1rio da l\u00edngua<br \/>\ngeral&#8230; usada no Alto Amazonas (Rev. do Inst., XVII). Todas estas obras em<br \/>\nprosa de Gon\u00e7alves Dias, ainda as que n\u00e3o s\u00e3o de natureza<br \/>\nliter\u00e1ria, distinguem-se pela linguagem e estilo mais cuidados do que<br \/>\nera aqui comum, salvo nos seus comprovincianos. S\u00e3o por isso das que<br \/>\nainda podemos ler com facilidade e prazer. N\u00e3o s\u00f3 por qualidades<br \/>\nde pensamento, de imagina\u00e7\u00e3o e de sentimento, sen\u00e3o pelas<br \/>\nde express\u00e3o, \u00e9 Gon\u00e7alves Dias um dos nossos cl\u00e1ssicos,<br \/>\nou por outra um daqueles pouco numerosos escritores brasileiros que o sendo<br \/>\npelas \u00edntimas qualidades de que procede um estilo, escrevem certa,<br \/>\nfluente e elegantemente. Ainda como escritor portugu\u00eas, um ou outro<br \/>\ndeslize112 n\u00e3o o desabona de vern\u00e1culo. E o \u00e9 com mais<br \/>\nnaturalidade, menos intencionalmente e de estudo do que os seus camaradas<br \/>\ndo grupo Odorico Mendes, Sotero dos Reis e Jo\u00e3o Lisboa.<\/p>\n<p>Ensaiou tamb\u00e9m Gon\u00e7alves Dias o romance, e quase foi ele, antes<br \/>\nde Texeira e Sousa, o seu inventor aqui. Ainda em Coimbra, por 1841 ou 42,<br \/>\nescreveu um a que deu o t\u00edtulo realista de Mem\u00f3rias de Agapito<br \/>\nGoiaba, do qual apareceram fragmentos no Maranh\u00e3o em 1846. Era um livro<br \/>\nde mem\u00f3rias e recorda\u00e7\u00f5es pessoais travestidas e idealizadas,<br \/>\n\u00e0 moda da Nova Helo\u00edsa, e s\u00f3 por isso seria certamente<br \/>\ncurioso. Apesar deste exemplo ilustre, se n\u00e3o estava ainda na despudorada<br \/>\nliteratura pessoal cujo criador foi exatamente Rousseau. \u00c0 delicadeza<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias repugnou public\u00e1-lo e o destruiu mais tarde.<br \/>\nPelo que dessa tentativa nos resta, presumimos que al\u00e9m do sainete<br \/>\ndas reminisc\u00eancias e confid\u00eancias disfar\u00e7adas num romance<br \/>\nvivido, teria este sobre os dos criadores do g\u00eanero aqui, aquilo que<br \/>\ntotalmente lhes faltou, virtudes de composi\u00e7\u00e3o e de express\u00e3o.<br \/>\n\u00c9, por\u00e9m, como poeta o maior e o mais completo que o Brasil<br \/>\ncriou, e o que lhe \u00e9 mais afim, que Gon\u00e7alves Dias vive e viver\u00e1<br \/>\nna nossa literatura, da qual \u00e9 uma das figuras mais eminentes, se n\u00e3o<br \/>\na mais eminente. Vive e viver\u00e1 tamb\u00e9m pela sua influ\u00eancia,<br \/>\nque foi consider\u00e1vel e leg\u00edtima e n\u00e3o cessou ainda de<br \/>\ntodo, e que porventura reviver\u00e1 quando, passado este momento de exotismo<br \/>\ndesvairado e incoerente, volvermos \u00e0 mesma fonte donde dimana o nosso<br \/>\nsentimento, n\u00e3o ind\u00edgena e nativista, mas social e humano.<\/p>\n<p>O GRUPO MARANHENSE<\/p>\n<p>Os comprovincianos e admiradores de Gon\u00e7alves Dias levantaram-lhe<br \/>\nem S. Lu\u00eds uma est\u00e1tua. De sobre o airoso fuste de uma palmeira<br \/>\nde m\u00e1rmore, eleva-se a sua d\u00e9bil e melanc\u00f3lica figura<br \/>\nde rom\u00e2ntico. Em cada face do plinto onde assenta a planta que o poeta<br \/>\nfez, com o canoro sabi\u00e1, s\u00edmbolo da terra brasileira, destacam-se<br \/>\nem relevo os medalh\u00f5es de ilustres conterr\u00e2neos e camaradas do<br \/>\npoeta: Jo\u00e3o Lisboa (1812-1863), Odorico Mendes (1799-1864), Sotero<br \/>\ndos Reis (1800-1871), Gomes de Sousa. A id\u00e9ia feliz da associa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndestes nomes na justa homenagem que ao m\u00e1ximo de seus filhos prestava<br \/>\na sua terra natal, comemora a coexist\u00eancia simult\u00e2nea nesse mesmo<br \/>\ntorr\u00e3o brasileiro de um grupo de intelectuais, como ora dizemos, que<br \/>\npor mal dela e nosso jamais se repetiria. Console-se o Maranh\u00e3o, tamb\u00e9m<br \/>\n\u00e0 Atenas, que lhe deram por antonom\u00e1stico, nunca jamais lhe<br \/>\nvoltou o tempo de P\u00e9ricles.<\/p>\n<p>Conquistado pelos portugueses ao franceses em antes de passados tr\u00eas<br \/>\nlustros do s\u00e9culo XVII, era desde 1624 o Maranh\u00e3o constitu\u00eddo<br \/>\nem Estado, separado do Brasil, aumentado do Gr\u00e3o-Par\u00e1, do Piau\u00ed<br \/>\ne do Cear\u00e1. Como o Brasil, teve o seu governador particular, geralmente<br \/>\nfidalgo de boa linhagem, sua legisla\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nprivativa. A posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica aproximava-o mais da<br \/>\nmetr\u00f3pole que o Brasil, tornando-lhe as comunica\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom ela mais prontas. N\u00e3o seria pouco motivo para lhe atrair a imigra\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se n\u00e3o desenra\u00edza de todo da p\u00e1tria e que \u00e9<br \/>\ntalvez, como qualidade de gente, a melhor. Nota o insigne historiador maranhense<br \/>\nque o Maranh\u00e3o recebeu menos degradados que o Brasil.113 Desde 1655,<br \/>\ncomo galard\u00e3o dos seus servi\u00e7os na expuls\u00e3o dos holandeses,<br \/>\nforam pelo rei concedidos aos &#8220;cidad\u00e3os&#8221; de S. Lu\u00eds<br \/>\n(e de Bel\u00e9m do Gr\u00e3o-Par\u00e1) os privil\u00e9gios dos do<br \/>\nPorto. &#8220;Qualquer que fosse, pondera o mesmo historiador, a import\u00e2ncia<br \/>\ndestes privil\u00e9gios, todos (os moradores) faziam muito empenho em alcan\u00e7\u00e1-los,<br \/>\ne nesta mat\u00e9ria, como em tudo o mais, se introduziram pouco a pouco<br \/>\ngraves abusos. Soldados, criados de servir, mercadores degradados, crist\u00e3os<br \/>\nnovos; uns simplesmente in\u00e1beis, outros at\u00e9 infames pela lei,<br \/>\nachavam maneiras de introduzir os seus nomes nos pelouros, obtendo assim por<br \/>\numa parte as qualifica\u00e7\u00f5es de nobreza e o exerc\u00edcio dos<br \/>\ncargos da governan\u00e7a, e por outro a isen\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o<br \/>\nmilitar na infantaria paga, e nas ordenan\u00e7as&#8221;.114 Desde os seus<br \/>\ncome\u00e7os, foi o Maranh\u00e3o pa\u00eds agr\u00edcola, de cultura<br \/>\nde g\u00eaneros da terra e mais de algod\u00e3o. Nesta cultura, tamb\u00e9m<br \/>\ndesde os seus princ\u00edpios, empregou numerosa escravaria negra e ind\u00edgena.<br \/>\nA grande propriedade agr\u00edcola, mormente quando baseada no trabalho<br \/>\nescravo, sempre e por toda a parte criou presun\u00e7\u00f5es ou fumos<br \/>\nde fidalguia, vida ou apar\u00eancias de grandeza. Excetuado talvez Pernambuco,<br \/>\nfoi o Maranh\u00e3o, em todo o Norte do Brasil, o lugar de mais numerosa<br \/>\nescravatura negra, e pela mesma situa\u00e7\u00e3o de trabalhadores agr\u00edcolas<br \/>\nonde esta mais maltratada e desprez\u00edvel se achou. Por motivo ainda<br \/>\ndaquela real ou supositiva pros\u00e1pia, foi ali mais vivo do que so\u00eda<br \/>\nser no resto do pa\u00eds o preconceito de cor. Mais porventura do que em<br \/>\noutra parte do Brasil se conservou estreme acol\u00e1 a branca, predominando<br \/>\nna sua capital at\u00e9 a Independ\u00eancia, e querendo predominar ainda<br \/>\ndepois dela, o elemento portugu\u00eas. Talvez sejam estes os motivos do<br \/>\nsotaque maranhense aproximar-se mais do que nenhum outro brasileiro do portugu\u00eas,<br \/>\no que explicaria tamb\u00e9m, sabida a influ\u00eancia da fon\u00e9tica<br \/>\nna sintaxe, que ali se tenha falado e escrito melhor do que algures. Por que<br \/>\ns\u00e3o os escritores maranhenses os que menos praticam a coloca\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira dos pronomes pessoais obl\u00edquos, sen\u00e3o porque a sua<br \/>\npron\u00fancia se avizinha mais da de Portugal? N\u00e3o se pode mais<br \/>\nduvidar que este fato ling\u00fc\u00edstico \u00e9 em suma produzido por<br \/>\num fen\u00f4meno pros\u00f3dico.115<\/p>\n<p>O Maranh\u00e3o foi no Brasil um dos bons centros da cultura jesu\u00edtica,<br \/>\ntoda ela particularmente liter\u00e1ria. Ali viveu alguns anos da sua vida,<br \/>\npregou v\u00e1rios dos seus serm\u00f5es, escreveu muitas de suas cartas,<br \/>\nparticipou das suas lutas e contendas o padre Ant\u00f4nio Vieira. Que desde<br \/>\no s\u00e9culo XVII havia em S. Lu\u00eds poetas, embora nenhum nome tenha<br \/>\nchegado at\u00e9 n\u00f3s, mostra-o o fato da exist\u00eancia de devassas<br \/>\ncontra os homens versistas, autores de s\u00e1tiras contra os governantes.116<br \/>\nBequim\u00e3o, o cabe\u00e7a dos motins de 1684, possu\u00eda e lia<br \/>\nlivros de hist\u00f3rias de revolu\u00e7\u00f5es. Mais de um dos fidalgos<br \/>\nportugueses que governaram o Maranh\u00e3o, al\u00e9m de Berredo, o autor<br \/>\ndos seus Anais, era homem culto e ainda de letras; e de outros funcion\u00e1rios<br \/>\ncoloniais portugueses como Guedes Aranha, Henriarte, h\u00e1 documentos<br \/>\npreciosos do que chamo neste livro literatura de informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFosse qual fosse a constitui\u00e7\u00e3o da sociedade maranhense nos<br \/>\ntempos coloniais, tivesse ela no extremo norte a primazia da pros\u00e1pia,<br \/>\nda riqueza ou da cultura, e demais um sentimento c\u00edvico mais apurado<br \/>\npelas suas lutas com o estrangeiro invasor, ou brigas intestinas que muitas<br \/>\nforam e que, bem como aquelas, poderiam concorrer para lhes agu\u00e7ar<br \/>\no entendimento, o certo \u00e9 que nesse per\u00edodo n\u00e3o concorreu<br \/>\no Maranh\u00e3o sequer com um nome para engrossar o nosso cabedal liter\u00e1rio.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 com efeito um s\u00f3 maranhense entre os escritores<br \/>\nbrasileiros do per\u00edodo colonial.<\/p>\n<p>Entretanto, mal acabado este, estr\u00e9iam os maranhenses em a nossa literatura<br \/>\ne da maneira mais brilhante. Efeito demorado daqueles antecedentes ou simples<br \/>\nacaso, isto \u00e9, evento, fortuito, cujas causas n\u00e3o podemos deslindar?<br \/>\nAntes de ter imprensa, teve o Maranh\u00e3o, em 1821, um jornal manuscrito,<br \/>\ncomo os faziam os rapazes nos internatos, o qual, em c\u00f3pias t\u00e3o<br \/>\nnumerosas quanto poss\u00edvel, corria a capital. Ainda nesse ano passou<br \/>\na folha manuscrita a impressa, sob o mesmo t\u00edtulo de Conciliador maranhense,<br \/>\nque rev\u00ea o generoso intuito de empecer as demasias da agita\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacionalista, j\u00e1 bem come\u00e7ada, contra os rein\u00f3is. A partir<br \/>\nda\u00ed multiplicam-se os jornais na prov\u00edncia. Desde 1825 aparecem<br \/>\ncomo publicistas, \u00e0 frente de jornais, dois daquele grupo de intelectuais,<br \/>\nOdorico Mendes e Sotero dos Reis. Outro, qui\u00e7\u00e1 o maior dos quatro,<br \/>\nJo\u00e3o Francisco Lisboa, \u00e9 jornalista desde 1832 e o ser\u00e1,<br \/>\ncom intermit\u00eancias e sem fazer disso estado, pelo resto da vida. Desde<br \/>\no princ\u00edpio foi escritor mais zeloso do seu estilo do que costumam<br \/>\nou podem ser jornalistas. Com a Revista aparecida em 1840, inicia Sotero dos<br \/>\nReis o jornalismo liter\u00e1rio na sua Prov\u00edncia. Era uma &#8220;folha<br \/>\npol\u00edtica e liter\u00e1ria&#8221; n\u00e3o s\u00f3 pela declara\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu subt\u00edtulo, mas pela sua mat\u00e9ria e linguagem. &#8220;Quando<br \/>\nse lhe deparava ensejo, n\u00e3o deixava passar uma obra liter\u00e1ria<br \/>\nde cunho sem dar dela not\u00edcia, assinalando-lhe as belezas e reproduzindo<br \/>\ntrechos de originais brasileiros ou portugueses ou traduzindo-os que eram<br \/>\nem l\u00edngua estranha&#8221;.117 O jornalismo destes homens de letras,<br \/>\ntalvez nele deslocados, era doutrinal, de alto tom e boa l\u00edngua.<\/p>\n<p>Quaisquer que tenham sido as suas determinantes, existia j\u00e1 na \u00e9poca<br \/>\nda Independ\u00eancia o gosto liter\u00e1rio no Maranh\u00e3o. Prova-o<br \/>\no apuro com que ali se estudava e escrevia a l\u00edngua nacional em contraste<br \/>\ncom o desleixo com que era tratada no resto do Brasil e a parte que ali se<br \/>\ndava no mesmo jornalismo pol\u00edtico \u00e0 literatura. Provam-no mais<br \/>\noutros fatos. Em 1845, uma sociedade liter\u00e1ria, composta de nomes n\u00e3o<br \/>\nde todo obscuros nas nossas letras, funda um Jornal de instru\u00e7\u00e3o<br \/>\ne recreio, que, al\u00e9m de versar assuntos did\u00e1ticos e pedag\u00f3gicos,<br \/>\n&#8220;era revista de literatura amena&#8221;. Outro grupo de homens de estudo<br \/>\ne letras, no qual se encontram alguns do primeiro, fundou no ano seguinte<br \/>\numa Sociedade filom\u00e1tica, a qual tamb\u00e9m publicou uma Revista<br \/>\ne iniciou, antes de ningu\u00e9m mais no Brasil, as confer\u00eancias liter\u00e1rias.<br \/>\nCaso talvez mais not\u00e1vel, desde 1847 tinha o Maranh\u00e3o uma imprensa<br \/>\ncapaz de imprimir com dec\u00eancia que lhe podia invejar a Corte, obras<br \/>\nvolumosas como os Anais de Berredo. Nessa oficina aprendeu Belarmino de Matos,<br \/>\ntalvez o melhor impressor que j\u00e1 teve o Brasil, e dela saiu para montar<br \/>\numa pr\u00f3pria, onde nitidamente imprimiu bom n\u00famero de obras,<br \/>\ncom acabamento ent\u00e3o \u00fanico e ainda hoje raro excedido. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 menor testemunho deste pendor maranhense a possibilidade ali de livros<br \/>\ncomo os de Sotero dos Reis e de publica\u00e7\u00f5es como o Jornal de<br \/>\nTimon.<\/p>\n<p>Neste ambiente, por qualquer motivo que nos escapa, liter\u00e1rio, apareceu<br \/>\na bela prog\u00eanie de jornalistas, poetas, historiadores, cr\u00edticos,<br \/>\neruditos, sabedores que desde o momento da Independ\u00eancia at\u00e9<br \/>\nos anos de 1860, isto \u00e9, durante cerca de quarenta, ilustraram o Maranh\u00e3o<br \/>\ne lhe mereceram a alcunha gloriosa de Atenas brasileira. Benem\u00e9ritos<br \/>\nde mais demorada aten\u00e7\u00e3o e maior apre\u00e7o pela sua import\u00e2ncia<br \/>\nliter\u00e1ria e parte em a nossa literatura, s\u00e3o os j\u00e1 mencionados.<\/p>\n<p>Manoel Odorico Mendes, nascido em S. Lu\u00eds em 1799 e falecido em Londres<br \/>\nem 1864, \u00e9 porventura o mais acabado humanista que j\u00e1 tivemos.<br \/>\n\u00c0 ci\u00eancia das l\u00ednguas cl\u00e1ssicas, e da sua filologia<br \/>\ne literatura, de que deixou prova cabal e duas vers\u00f5es fidel\u00edssimas,<br \/>\nembora de custosa leitura, de Virg\u00edlio e de Homero, juntava estro po\u00e9tico<br \/>\noriginal, se bem que escasso. Foi tamb\u00e9m um erudito de cousas liter\u00e1rias<br \/>\ncasti\u00e7as e ex\u00f3ticas. Coube-lhe reivindicar definitivamente para<br \/>\nPortugal a composi\u00e7\u00e3o original do Palmeirim de Inglaterra, pretendida<br \/>\npela Espanha, j\u00e1 com assentimento de erudi\u00e7\u00e3o portuguesa.118<br \/>\nMas sobretudo foi um tradutor insigne, se n\u00e3o pela eloq\u00fc\u00eancia<br \/>\ne flu\u00eancia, pela fidelidade e concis\u00e3o verdadeiramente assombrosa,<br \/>\ndada a diferente \u00edndole das l\u00ednguas, com que trasladou para<br \/>\no portugu\u00eas os dous m\u00e1ximos poetas da antig\u00fcidade cl\u00e1ssica,<br \/>\nn\u00e3o raras vezes ali\u00e1s emulando-os em beleza e vigor de express\u00e3o.<br \/>\nTamb\u00e9m traduziu M\u00e9rope (1831) e o Tancredo (1839), de Voltaire.<br \/>\nAssevera o cl\u00e1ssico D. Francisco Manuel de Melo que &#8220;no pecado<br \/>\nde tradu\u00e7\u00f5es n\u00e3o costumam cair sen\u00e3o homens de<br \/>\npouco engenho&#8221;. Que n\u00e3o era grande o de Odorico Mendes parece<br \/>\nmostr\u00e1-lo o fato de n\u00e3o nos haver ele deixado, benem\u00e9rito<br \/>\nde cita\u00e7\u00e3o e leitura, mais que um poema original, ele que tanto<br \/>\ntrabalhou e produziu em tradu\u00e7\u00f5es. Esse poema \u00e9 o Hino<br \/>\n\u00e0 tarde. Escrito em Portugal e publicado pela primeira vez na Minerva<br \/>\nBrasiliense, em 1844, mesclam-se nesta composi\u00e7\u00e3o o cl\u00e1ssico<br \/>\ne o rom\u00e2ntico, uma inspira\u00e7\u00e3o ainda arc\u00e1dica e<br \/>\neurop\u00e9ia e sentimentos brasileiros e estilo moderno. \u00c9, nada<br \/>\nobstante, um dos melhores produtos po\u00e9ticos do tempo e merece ainda<br \/>\nestimado. J\u00e1 porventura prenuncia Gon\u00e7alves Dias pelo tom sentimental<br \/>\ndo seu lirismo mais subjetivo que o de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Francisco Sotero dos Reis, um ano mais mo\u00e7o que Odorico Mendes, mas<br \/>\nseu condisc\u00edpulo de humanidades, sem ter t\u00e3o completa cultura<br \/>\ncl\u00e1ssica deste, o sobrelevou pela maior amplitude e originalidade de<br \/>\nsua obra. Principiou como Odorico Mendes e Jo\u00e3o Lisboa por jornalista<br \/>\npol\u00edtico, conforme era necess\u00e1rio em \u00e9poca em que todo<br \/>\no brasileiro de alguma instru\u00e7\u00e3o e capacidade de express\u00e3o<br \/>\nera solicitado, se n\u00e3o constrangido pelas circunst\u00e2ncias, a dizer<br \/>\nda cousa p\u00fablica e a tomar parte na refrega pol\u00edtica. Jornalista<br \/>\ncom letras e professor delas, foi-lhe f\u00e1cil a transi\u00e7\u00e3o<br \/>\npara autor de livros, principalmente did\u00e1ticos, Postilas de gram\u00e1tica<br \/>\ngeral aplicada \u00e0 l\u00edngua portuguesa pela an\u00e1lise dos cl\u00e1ssicos<br \/>\n(1862), Gram\u00e1tica portuguesa (1866), tradu\u00e7\u00e3o dos Coment\u00e1rios<br \/>\nde C\u00e9sar (1863), e finalmente o Curso de literatura portuguesa e brasileira<br \/>\n(1866-1868, 8.\u00ba gr., 4 vols.). N\u00e3o obstante ainda did\u00e1tico<br \/>\ne composto para uso dos seus disc\u00edpulos do Instituto de humanidades,<br \/>\nonde lecionava a mat\u00e9ria, \u00e9 por este livro que Sotero dos Reis<br \/>\npertence \u00e0 literatura e particularmente \u00e0 hist\u00f3ria da<br \/>\nnossa.<\/p>\n<p>\u00c0 cr\u00edtica de Sotero dos Reis, n\u00e3o obstante informad\u00edssima<br \/>\ne alumiada por uma boa cultura liter\u00e1ria cl\u00e1ssica e moderna,<br \/>\nfalta porventura, com um mais justo crit\u00e9rio filos\u00f3fico ou est\u00e9tico,<br \/>\na necess\u00e1ria isen\u00e7\u00e3o de preconceitos escol\u00e1sticos<br \/>\ne patri\u00f3ticos. Deriva por muito ainda das regras e processos quintilianescos<br \/>\ne da cr\u00edtica portuguesa de origem acad\u00eamica. N\u00e3o esconde<br \/>\nou sequer disfar\u00e7a o seu empenho em engrandecer o nosso valor liter\u00e1rio,<br \/>\naumentando o dos autores por eles estudado, muito al\u00e9m da medida permitida.<br \/>\nEquiparar, por exemplo, o marqu\u00eas de Maric\u00e1 a La Rochefoucauld<br \/>\n\u00e9 um desprop\u00f3sito que por si s\u00f3 bastaria para desqualificar<br \/>\na capacidade cr\u00edtica e a intelig\u00eancia liter\u00e1ria de Sotero<br \/>\ndos Reis, se a sua obra n\u00e3o desmentisse este conceito. Como quer que<br \/>\nseja, o Curso de literatura, de Sotero dos Reis, \u00e9, no seu g\u00eanero,<br \/>\ncom a Hist\u00f3ria do Brasil, de Varnhagen, e o Jornal de Timon, de Jo\u00e3o<br \/>\nLisboa, uma das obras capitais da fase rom\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Francisco Lisboa, nascido no Itapicurumirim, no Maranh\u00e3o,<br \/>\nem 1812, e falecido em Lisboa, em 1863, \u00e9 das mais singulares figuras<br \/>\nda nossa literatura. Com grande aproveitamento estudou as poucas letras que<br \/>\nera poss\u00edvel aprender na capital de sua Prov\u00edncia, tendo por<br \/>\nmestre de latim e latinidade o seu futuro \u00eamulo e rival Sotero dos Reis,<br \/>\ntreze anos mais velho do que ele. Fez-se homem quando os acontecimentos do<br \/>\n7 de abril de 1831, alvorotando o pa\u00eds, provocaram em todo ele as lutas<br \/>\ne conflitos, n\u00e3o raro mais que de opini\u00f5es e de imprensa, entre<br \/>\nbrasileiros e portugueses ou caramurus, conforme a alcunha que lhes davam<br \/>\nos nossos. Estreou nas letras como jornalista pol\u00edtico com o Brasileiro,<br \/>\nt\u00edtulo que na \u00e9poca era um programa, em meados de 1832. J\u00e1<br \/>\nhavia ent\u00e3o na capital da Prov\u00edncia quatro jornais, &#8220;todos<br \/>\nquatro muito exagerados e descomedidos na linguagem e desarrazoados nas doutrinas&#8221;.119<\/p>\n<p>Os trechos desse jornal, reproduzidos na biografia de Lisboa pelo autor do<br \/>\nPanteon maranhense, testemunham j\u00e1 no novel jornalista de vinte anos<br \/>\no reflexivo pensador, e diserto e vern\u00e1culo escritor do futuro Jornal<br \/>\nde Timon. Como aos homens de verdadeiros talento liter\u00e1rio e alta compostura<br \/>\nmoral, a pol\u00edtica em que entrara como jornalista e com leg\u00edtimas<br \/>\nambi\u00e7\u00f5es de rep\u00fablico, n\u00e3o quis a Jo\u00e3o<br \/>\nLisboa. Ele despicou-se-lhe da recusa auspiciosa consagrando-se \u00e0s<br \/>\nletras. Mas no literato sentir-se-\u00e1 sempre o rep\u00fablico malogrado<br \/>\nque, sem amesquinhar-se em recrimina\u00e7\u00f5es, se desforra com humor<br \/>\ne ironia do desd\u00e9m ou da bo\u00e7alidade do povo soberano e dos seus<br \/>\ndignos diretores. Na pol\u00edtica e no jornalismo fora sempre um liberal,<br \/>\nno mais alto e melhor sentido da palavra, mais adiantado e desabusado at\u00e9<br \/>\nque o comum dos liberais do seu tempo. Tamb\u00e9m o foi em literatura romanticamente,<br \/>\napesar da gravidade do seu feitio mental, sem temor do sentimentalismo, como<br \/>\nquem sabia que, razoado, \u00e9 ainda o sentimento o melhor est\u00edmulo<br \/>\nda intelig\u00eancia e da a\u00e7\u00e3o humana. Antes de conhecer pessoalmente<br \/>\na Herculano, e do seu com\u00e9rcio com o maior dos portugueses contempor\u00e2neos,<br \/>\nj\u00e1 tinha Jo\u00e3o Lisboa no pensamento e na escrita o estilo em<br \/>\nque se tem querido enxergar a influ\u00eancia do grande escritor portugu\u00eas.<br \/>\nO feitio e isen\u00e7\u00e3o do seu car\u00e1ter deu-lhe a forma tersa,<br \/>\nl\u00edmpida, em que juntou com discernimento e garbo o casticismo portugu\u00eas<br \/>\naos naturais influxos do brasileirismo. \u00c9 menos purista do que Sotero<br \/>\ndos Reis e Odorico Mendes, que ali\u00e1s tamb\u00e9m, em rigor, n\u00e3o<br \/>\no s\u00e3o. P\u00f5e muitas vezes os pronomes \u00e0 brasileira, porque<br \/>\nlhe soariam melhor e ainda se n\u00e3o havia inventado a cerebrina teoria<br \/>\nde fazer de um uso geral a constante de doutos e indoutos da nossa terra,<br \/>\nerro crasso da l\u00edngua. N\u00e3o refoge de todo ao neologismo pertinente<br \/>\nnem recua ao estrangeirismo expressivo e necess\u00e1rio. Encontra-se-lhe<br \/>\npor acaso uma ou outra impropriedade ou sacrif\u00edcio ao uso comum. Estes<br \/>\nsen\u00f5es, se \u00e9 certo que o sejam, e em todo caso raros, n\u00e3o<br \/>\nlhe chegam a macular a escrita ou sequer a lhe empanarem a geral formosura.<br \/>\nTais e maiores se nos deparam nos melhores dos chamados cl\u00e1ssicos da<br \/>\nl\u00edngua. Esta \u00e9 nele portuguesa de lei pela corre\u00e7\u00e3o<br \/>\ngramatical e mais pelo torneio da frase, \u00edndole, n\u00famero e propriedades<br \/>\ndo vocabul\u00e1rio, sem indiscretas escava\u00e7\u00f5es arcaicas e<br \/>\napenas com uma ou outra afeta\u00e7\u00e3o impertinente de classicismo.<br \/>\nCom alumiado entendimento leu e meditou os cl\u00e1ssicos, o que n\u00e3o<br \/>\nera costume aqui, e se lhes apropriou da l\u00edngua, com exata intelig\u00eancia<br \/>\nda sua evolu\u00e7\u00e3o e fino tato de escritor de ra\u00e7a.<\/p>\n<p>A sua obra principal, come\u00e7ada a publicar em 1852, \u00e9 o Jornal<br \/>\nde Timon, obra sem precedentes na nossa l\u00edngua e uma das mais originais<br \/>\nda nossa literatura. No pensamento do autor devia o Jornal de Timon ser uma<br \/>\nesp\u00e9cie de revista dos &#8220;costumes do tempo&#8221; vistos atrav\u00e9s<br \/>\ndo seu temperamento, cuja austeridade lhe valia dos seus concidad\u00e3os<br \/>\no apodo de misantropo ou mais vulgarmente casmurro, e descritos e comentados<br \/>\ncom o seu natural humor e veia liter\u00e1ria. D\u00e1-se antes como &#8220;amigo<br \/>\ncontristado e abatido&#8221; do que presenciava, que como &#8220;inimigo cheio<br \/>\nde fel e desabrimento&#8221;. O &#8220;seu fim prim\u00e1rio&#8221;, por\u00e9m,<br \/>\nficaria &#8220;sendo sempre a pintura dos costumes pol\u00edticos&#8221;.<br \/>\nMas como na nossa terra, segundo observa perspicazmente, &#8220;a vida e atividade<br \/>\ndos partidos se concentram principalmente nas elei\u00e7\u00f5es, transformando<br \/>\nassim um simples meio, em princ\u00edpio e fim, de todos os seus atos, as<br \/>\ncenas eleitorais descritas sob todas as suas rela\u00e7\u00f5es e pontos<br \/>\nde vista imagin\u00e1veis&#8221; lhe ocuparam grande parte do Jornal. De<br \/>\nfato este se veio a dividir em tr\u00eas partes, a primeira sobre as elei\u00e7\u00f5es<br \/>\nnos tempos anteriores ao nosso, a segunda sobre partidos e elei\u00e7\u00f5es<br \/>\nno Maranh\u00e3o, e a terceira e \u00faltima relativa \u00e0 hist\u00f3ria<br \/>\ndesta Prov\u00edncia e por extens\u00e3o \u00e0 do Brasil. Sem muita<br \/>\nregularidade apareceu o Jornal de Timon de 1852 a 1858, sendo recebido no<br \/>\npa\u00eds, n\u00e3o obstante o seu tom praguento, com merecida estima\u00e7\u00e3o<br \/>\ne grandes louvores. Chegou esse apre\u00e7o \u00e0 nega\u00e7\u00e3o<br \/>\nepigram\u00e1tica de que fosse obra de brasileiro.120<\/p>\n<p>A primeira parte \u00e9 um bom estudo hist\u00f3rico, em estilo ameno<br \/>\ne humor\u00edstico, feito n\u00e3o sobre expositores de segunda m\u00e3o,<br \/>\nmas das mesmas fontes originais, das elei\u00e7\u00f5es nos tempos antigos,<br \/>\nm\u00e9dios e modernos, n\u00e3o s\u00f3 com a ci\u00eancia dos documentos,<br \/>\nmas com a intui\u00e7\u00e3o e sentimento da vida p\u00fablica dessas<br \/>\n\u00e9pocas. O estilo \u00e9 o mais adequado ao g\u00eanero de que era<br \/>\no autor o criador aqui, natural, prazenteiro, bem-humorado e ir\u00f4nico.<br \/>\nS\u00e3o as mesmas, com maior personalidade, mais ironia, at\u00e9 mais<br \/>\nacrim\u00f4nia que \u00e0s vezes chega ao sarcasmo, as qualidades de estilo<br \/>\nda segunda parte. Esta modifica\u00e7\u00e3o de tom lha impunha o pr\u00f3prio<br \/>\nassunto, por mais de perto lhe importar. Vibram-lhe na pena por mais que o<br \/>\ncontenha o seu bom gosto e natural compostura, e lhas disfarce a ironia, as<br \/>\npaix\u00f5es que lhe agitaram a mocidade e n\u00e3o estavam de todo extintas<br \/>\nnem na sua alma, nem na sociedade que lha formara. Por isso \u00e9 talvez<br \/>\nessa parte a sua obra n\u00e3o s\u00f3 mais original, por\u00e9m, do<br \/>\npuro aspecto liter\u00e1rio, mais curiosa e mais viva. Conquanto aplicada<br \/>\nno Maranh\u00e3o, fez Jo\u00e3o Lisboa nela um coment\u00e1rio perp\u00e9tuo<br \/>\ndo que \u00e9 entre n\u00f3s a vida pol\u00edtica, cifrada como ele<br \/>\nargutamente reconheceu, nas lutas dos partidos e nas brigas eleitorais. Tem<br \/>\no seu op\u00fasculo o sinal das obras que por virtudes de pensamento e de<br \/>\nforma n\u00e3o envelhecem e ficam contempor\u00e2neas de todas as eras.<br \/>\nRefere o seu citado minudencioso e fidedigno bi\u00f3grafo que, horrorizado<br \/>\nda escravid\u00e3o (a qual na sua terra, justamente mais do que em outras<br \/>\ndo Norte, apresentava mais execrando aspecto), come\u00e7ou Jo\u00e3o<br \/>\nLisboa a escrever um livro, meio hist\u00f3ria, meio romance, da escravid\u00e3o<br \/>\nno Brasil, como propaganda contra ela. Foi isto nas v\u00e9speras de 1850<br \/>\nou \u00e0 entrada desse dec\u00eanio. Em todo caso antes do Jornal de Timon.<br \/>\nO aparecimento da Senzala do Pai Tom\u00e9, como casti\u00e7amente vertia<br \/>\no Uncle Tom\u2019s Cabin, de Beecher Stowe, onde parece achou semelhan\u00e7as<br \/>\ncom o seu principiado trabalho, fizeram-no desistir de continu\u00e1-lo.<br \/>\nHavia, entretanto, em Jo\u00e3o Lisboa um romancista, e esta inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nprova que ele pr\u00f3prio o sentia. Provam-no, por\u00e9m, melhor As<br \/>\nelei\u00e7\u00f5es e os partidos no Maranh\u00e3o, ruim t\u00edtulo<br \/>\nde uma excelente por\u00e7\u00e3o do Jornal de Timon, onde h\u00e1 cenas,<br \/>\ndi\u00e1logos, inven\u00e7\u00f5es, descri\u00e7\u00f5es, cria\u00e7\u00f5es<br \/>\nde tipos, figuras e situa\u00e7\u00f5es fartamente reveladores de que<br \/>\nn\u00e3o carecia Jo\u00e3o Lisboa, antes as tinha em grau relevante, das<br \/>\nqualidades de imagina\u00e7\u00e3o, sem falar nas de express\u00e3o,<br \/>\nde um bom romancista. As duas primeiras partes do mesmo Jornal, revelam em<br \/>\nJo\u00e3o Lisboa um pensador pol\u00edtico e um moralista, no sentido<br \/>\nliter\u00e1rio dado hoje a este voc\u00e1bulo, como n\u00e3o temos talvez<br \/>\noutro. Os seus Apontamentos, not\u00edcias e observa\u00e7\u00f5es para<br \/>\nservirem \u00e0 hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o, que constituem a terceira<br \/>\npor\u00e7\u00e3o da obra, confirmando-lhe as qualidades liter\u00e1rias,<br \/>\ndescobrem-lhe peregrinos dotes de investigador, de erudito e de cr\u00edtico,<br \/>\ne fazem lastimar que como historiador n\u00e3o nos deixasse mais que essa<br \/>\ncurta obra fragment\u00e1ria e a Vida do padre Ant\u00f4nio Vieira. \u00c0<br \/>\nhist\u00f3ria do Brasil, como ela vinha sendo feita aqui, at\u00e9, se<br \/>\nn\u00e3o mormente, pelo mesmo Varnhagen, hist\u00f3ria burocr\u00e1tica<br \/>\ne oficial, ainda com o feitio de cr\u00f4nicas ou anais, sem imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfilosofia ou estilo, desanimada e tediosa, dava Jo\u00e3o Lisboa nova fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a sua arte de fazer viver as personagens e os sucessos, aproveitando algum<br \/>\nrasgo mais saliente deles com que os caracterizasse, descobrindo-lhes algum<br \/>\naspecto mais pitoresco ou lhos engenhando com bom gosto e justo senso das<br \/>\ncousas hist\u00f3ricas. Mas sobretudo com um sentimento brasileiro mais<br \/>\n\u00edntimo e perfeito que o de Varnhagen, muito maior sensibilidade art\u00edstica<br \/>\ne capacidade liter\u00e1ria de express\u00e3o, e, tamb\u00e9m, compreendendo<br \/>\nmelhor do que nenhum dos seus predecessores os aspectos sociais e psicol\u00f3gicos<br \/>\nda Hist\u00f3ria e a import\u00e2ncia do povo nela. Certos rasgos ou quest\u00f5es<br \/>\nda nossa, como o respeitante aos \u00edndios, processos de coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nportuguesa, fei\u00e7\u00f5es e caracteres diversos da vida colonial,<br \/>\nningu\u00e9m aqui ainda os encarara com igual compreens\u00e3o da sua<br \/>\nimport\u00e2ncia, com tanta sagacidade e intelig\u00eancia como Jo\u00e3o<br \/>\nLisboa. Com alumiado entendimento viu a quest\u00e3o dos \u00edndios sem<br \/>\nas aberra\u00e7\u00f5es realistas de Varnhagen, nem o sentimentalismo<br \/>\nrom\u00e2ntico da \u00e9poca, sendo muito para notar em favor da sua intelig\u00eancia<br \/>\na isen\u00e7\u00e3o com que apreciou o indianismo, em seu tempo t\u00e3o<br \/>\nvigoroso, e lhe viu a fal\u00e1cia: &#8220;Esse falso patriotismo caboclo,<br \/>\nesp\u00e9cie de mania mais ou menos dominante, escreveu ele, leva-nos a<br \/>\nformular quanto ao passado acusa\u00e7\u00f5es injustas contra os nossos<br \/>\ngenu\u00ednos maiores; desperta no presente antipatias e animosidades, que<br \/>\na s\u00e3 raz\u00e3o e uma pol\u00edtica ilustrada aconselham pelo contr\u00e1rio<br \/>\na apartar e adormecer; e ao passo que faz conceber esperan\u00e7as infundadas<br \/>\ne quim\u00e9ricas sobre uma reabilita\u00e7\u00e3o que seria perigosa,<br \/>\nse n\u00e3o fora imposs\u00edvel, embara\u00e7a, retarda e empece os<br \/>\nprogressos da nossa p\u00e1tria, em grande parte dependente da imigra\u00e7\u00e3o<br \/>\nda ra\u00e7a empreendedora dos brancos, e da transfus\u00e3o de um sangue<br \/>\nmais ativo e generoso, \u00fanico meio poss\u00edvel j\u00e1 agora de<br \/>\nreabilita\u00e7\u00e3o&#8221;.121 Brasileiro de origem e nascimento, brasileiro<br \/>\npelas mais \u00edntimas fibras de sua alma e pelo mais profundo do seu sentimento,<br \/>\nJo\u00e3o Lisboa \u00e9 um dos nossos primeiros europeus, pelas l\u00facidas<br \/>\nqualidades do seu claro g\u00eanio, tento da civiliza\u00e7\u00e3o e<br \/>\ndesd\u00e9m dos nossos parvoinhos preconceitos nativistas e ainda patri\u00f3ticos.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante carecer-lhe da \u00faltima dem\u00e3o, \u00e9 a<br \/>\nVida do padre Ant\u00f4nio Vieira ainda o que de melhor se escreveu sobre<br \/>\no famoso jesu\u00edta, com mais exata intelig\u00eancia do homem e da sua<br \/>\nobra de mission\u00e1rio e de pol\u00edtico, e de sua \u00e9poca. N\u00e3o<br \/>\nfora algum exagero de liberalismo, \u00e9 uma obra que se poderia dizer<br \/>\natual.<\/p>\n<p>Nada adiantaria considerar Jo\u00e3o Lisboa sob outros aspectos do seu<br \/>\nvariado engenho. Em nenhum desmereceu, quer pela for\u00e7a ou destreza<br \/>\ndo pensamento, quer pelo vigor ou beleza da express\u00e3o. Mesmo como orador,<br \/>\nque dizem fora not\u00e1vel, deixou no seu discurso sobre a anistia magn\u00edfico<br \/>\ntestemunho de uma viril eloq\u00fc\u00eancia e da mais bela, s\u00f3bria<br \/>\ne comovida linguagem orat\u00f3ria. \u00c9 incontestavelmente um dos escritores<br \/>\nque mais ilustram a nossa literatura, dos poucos que h\u00e3o de viver quando,<br \/>\nna sele\u00e7\u00e3o que o tempo vai naturalmente fazendo, houverem desaparecido<br \/>\ngrande parte de nomes ontem e hoje mais celebrados que o seu.<\/p>\n<p>Outros nomes, menos ilustres, mas ainda estim\u00e1veis conta o grupo maranhense.<br \/>\nS\u00e3o quase todos, se n\u00e3o todos, produto manifesto da influ\u00eancia<br \/>\ndestes, gera\u00e7\u00e3o criada na sua admira\u00e7\u00e3o e pelo<br \/>\nseu est\u00edmulo. Dos que t\u00eam o seu medalh\u00e3o no pedestal da<br \/>\nest\u00e1tua de Gon\u00e7alves Dias, \u00e9 Gomes de Sousa o \u00fanico<br \/>\nsem jus \u00e0 hist\u00f3ria da literatura. Gomes de Souza (Joaquim) \u00e9<br \/>\nde 1829 a 1863. Os seus contempor\u00e2neos tiveram-no em conta de g\u00eanio.<br \/>\nAos dezenove anos, j\u00e1 formado em medicina, foi nomeado, ap\u00f3s<br \/>\nbrilhante concurso, professor da Escola mais tarde denominada Polit\u00e9cnica,<br \/>\ne, parece, deu outras provas da sua extraordin\u00e1ria intelig\u00eancia,<br \/>\nrara capacidade de estudo e variedade de aptid\u00f5es. Morrendo aos 34,<br \/>\nn\u00e3o deixou mais que uma pequena obra fragment\u00e1ria de matem\u00e1tica<br \/>\ne uma antologia de poemas l\u00edricos das principais l\u00ednguas cultas.<br \/>\nFoi apenas uma bela e porventura leg\u00edtima esperan\u00e7a malograda,<br \/>\nmas de fato sem import\u00e2ncia liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Lisboa Serra (Jo\u00e3o Duarte, 1818-1855). Contempor\u00e2neo em Coimbra<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias e seu amigo dedicad\u00edssimo, a quem este deveu<br \/>\namparo quando se achou isolado e sem recursos em Portugal. Poetou com longos<br \/>\nintervalos e parcamente, mas com bastante sentimento e corre\u00e7\u00e3o.<br \/>\nGalv\u00e3o de Carvalho (Trajano, 1830-1864). Andou sucessivamente a estudar<br \/>\npor Portugal, S. Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, onde afinal se formou<br \/>\ne ficou. Havia nele a massa de um bom, talvez excelente poeta, com muita sensibilidade<br \/>\ne facilidade de express\u00e3o. Foi um dos primeiros que aqui cantou compassivamente<br \/>\no escravo. Cantou igualmente a paisagem, a vida campesina e cousas brasileiras,<br \/>\ncom sentimento e gra\u00e7a. Franco de S\u00e1 (Ant\u00f4nio Joaquim,<br \/>\n1836-1856). \u00c9 poeta de grande sensibilidade e sinceridade de emo\u00e7\u00e3o<br \/>\ne rara facilidade e singeleza de express\u00e3o, qualidades que a morte,<br \/>\ncolhendo-o aos vinte anos, lhe n\u00e3o deu tempo de cultivar.<\/p>\n<p>Desvanece-se ainda o Maranh\u00e3o com os nomes de Almeida Braga (Fl\u00e1vio<br \/>\nReimar), Celso de Magalh\u00e3es, Marques Rodrigues, Dias Carneiro, Augusto<br \/>\nColin, Frederico Correia, Frei Cust\u00f3dio Ferr\u00e3o, Vieira da Silva,<br \/>\nSousa Andrade, Ant\u00f4nio Henriques Leal, homens de letras ou de saber,<br \/>\ntodos que com obras de v\u00e1rios g\u00eaneros e m\u00e9rito continuaram<br \/>\nat\u00e9 perto de n\u00f3s o movimento liter\u00e1rio da sua prov\u00edncia<br \/>\npelo grupo primitivo iniciado.<\/p>\n<p>Este grupo \u00e9 contempor\u00e2neo da primeira gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica toda ela de nascimento ou resid\u00eancia fluminense. O que<br \/>\no situa e distingue na nossa literatura e o sobreleva a essa mesma gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 a sua mais clara intelig\u00eancia liter\u00e1ria, a sua maior<br \/>\nlargueza espiritual. Os maranhenses n\u00e3o t\u00eam os biocos devotos,<br \/>\na ostenta\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica, a afeta\u00e7\u00e3o moralizante<br \/>\ndo grupo fluminense, e geralmente escrevem melhor que estes.<\/p>\n<h4><a name=\"12\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XII<\/h4>\n<p><strong>A SEGUNDA GERA\u00c7\u00c3O ROM\u00c2NTICA. OS PROSADORES<\/strong><\/p>\n<p>NA PROSA, UM NOME principalmente domina a fase liter\u00e1ria que das \u00faltimas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es do primeiro Romantismo vai \u00e0s primeiras<br \/>\ndo que, \u00e0 falta de melhor nome, chamarei de naturalismo: Jos\u00e9<br \/>\nde Alencar. O seu aferro ao indianismo quando este j\u00e1 come\u00e7ava<br \/>\na ser anacr\u00f4nico, os est\u00edmulos e prop\u00f3sitos nacionalistas<br \/>\nda sua atividade liter\u00e1ria, a despeito da cronologia o poriam espiritualmente<br \/>\nna primeira gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica se, por outro lado, as qualidades<br \/>\npeculiares do seu engenho, estro e estilo n\u00e3o o separassem dela. \u00c9<br \/>\numa das principais figuras da nossa literatura e, com Magalh\u00e3es e Gon\u00e7alves<br \/>\nDias, um dos seus fundadores. Mais talvez, por\u00e9m, que pelo valor intr\u00ednseco<br \/>\nde sua obra, em todo o caso grande, serviu-a com a sua vontade decisiva de<br \/>\nfaz\u00ea-la de todo independente da portuguesa. Este prop\u00f3sito o<br \/>\narrastou, ali\u00e1s, al\u00e9m do racional e do justo, com as suas desarrazoadas<br \/>\nopini\u00f5es e, o que \u00e9 pior, a sua desavisada pr\u00e1tica, da<br \/>\nl\u00edngua que dev\u00edamos escrever e do nosso direito de alterar a<br \/>\nque nos herdaram os nossos fundadores. Apesar da obstina\u00e7\u00e3o<br \/>\nque p\u00f4s neste conceito, sobretudo depois que os escritores portugueses<br \/>\nlhe malsinaram o prop\u00f3sito nacionalista, e sem embargo de incorre\u00e7\u00f5es<br \/>\nmanifestas, algumas ali\u00e1s volunt\u00e1rias, foi Jos\u00e9 de Alencar<br \/>\no primeiro dos nossos romancistas a mostrar real talento liter\u00e1rio<br \/>\ne a escrever com eleg\u00e2ncia. Afora os prosadores maranhenses, escritores<br \/>\nentretanto de outros g\u00eaneros, \u00e9 ele cronologicamente o primeiro<br \/>\nque por virtudes de idea\u00e7\u00e3o e dons de express\u00e3o mere\u00e7a<br \/>\nplenamente o nome de escritor.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Martiniano de Alencar, nascido no Cear\u00e1 em 1 de maio de<br \/>\n1829 e falecido no Rio de Janeiro em 13 de dezembro de 1877, vinha de uma<br \/>\nfam\u00edlia antiga e not\u00e1vel pela comparticipa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque naquela Prov\u00edncia, seu ber\u00e7o, tivera nos movimentos da Independ\u00eancia,<br \/>\npor amor da qual alguns dos seus sofreram persegui\u00e7\u00f5es, puni\u00e7\u00f5es<br \/>\ne at\u00e9 morte. Seu pai, o padre Jos\u00e9 Martiniano de Alencar, participou<br \/>\nna Revolta Pernambucana de 1817, foi deputado \u00e0s Cortes portuguesas<br \/>\ne nelas se distinguiu pelo calor com que combateu pelo Brasil contra o pensamento<br \/>\nportugu\u00eas da sua recoloniza\u00e7\u00e3o. Ao diante membro da Constituinte<br \/>\nbrasileira, foi um dos deportados por motivos pol\u00edticos. Havia, pois,<br \/>\nno filho, o escritor, uma heran\u00e7a de revolta, de independ\u00eancia<br \/>\nde Portugal e at\u00e9 de m\u00e1 vontade ao portugu\u00eas. Ele tamb\u00e9m<br \/>\nfoi pol\u00edtico, deputado da sua terra, ministro e conselheiro de Estado,<br \/>\nfigura consp\u00edcua num partido, o conservador. Pela natureza aristocr\u00e1tica<br \/>\ndo seu temperamento e do seu esp\u00edrito, por tradi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nfam\u00edlia, que, a despeito dos seus antecendentes revolucion\u00e1rios,<br \/>\nera, de partido, conservadora, foi Jos\u00e9 de Alencar, revolucion\u00e1rio<br \/>\nem letras, conservador em pol\u00edtica. Num pa\u00eds novo como o Brasil,<br \/>\nonde nenhuma tradi\u00e7\u00e3o existia, e todos os instintos pol\u00edticos<br \/>\neram de ontem e de empr\u00e9stimo, nada de importante havia a conservar.<br \/>\nAs diferentes alcunhas dos partidos apenas cobriam e disfar\u00e7avam sentimentos,<br \/>\ninteresses ou at\u00e9 paix\u00f5es pessoais ou de grupos, sem alguma<br \/>\ncorrespond\u00eancia efetiva com princ\u00edpios necess\u00e1rios e definidos.<br \/>\nComo era um nervoso, um pessoal, esquivo \u00e0 popularidade que, contradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito humana, acaso no \u00edntimo ambicionava, chegava \u00e0s vezes,<br \/>\nqui\u00e7\u00e1 por influ\u00eancia liter\u00e1ria dos escritores pol\u00edticos<br \/>\ningleses, ao exagero do seu conservantismo. Assim foi advers\u00e1rio da<br \/>\nemancipa\u00e7\u00e3o dos escravos quando j\u00e1 n\u00e3o o era nenhum<br \/>\nintelectual brasileiro. Pol\u00edtico conservador, mostrou-se todavia ind\u00f3cil<br \/>\n\u00e0 disciplina partid\u00e1ria, pretendendo inconsideradamente manter<br \/>\na sua personalidade de encontro \u00e0s exig\u00eancias dessa disciplina.<br \/>\nFazendo-se um nome liter\u00e1rio justamente glorioso, \u00e0 sua nativa<br \/>\naltivez, virtude dos t\u00edmidos, como ele, e que nele escorregava para<br \/>\na misantropia, juntou-se a incoerc\u00edvel vaidade do literato, tornando-o<br \/>\nmenos acomodativo na vida p\u00fablica e mais distante na vida comum. Num<br \/>\nmeio como o nosso, mal-educado, f\u00e1cil \u00e0 camaradagem vulgar e<br \/>\navesso \u00e0s rela\u00e7\u00f5es cerimoniosas, a sua atitude reservada,<br \/>\nesquiva \u00e0 familiaridade corriqueira do nosso viver, impediu-lhe de<br \/>\nser pessoalmente popular, como foi, por exemplo, Macedo, seu \u00eamulo e<br \/>\nseu contraste. Desarrazoadamente do\u00eda-lhe, ao que parece, esta falta<br \/>\nde popularidade, \u00e0 qual ali\u00e1s, honra lhe seja, nunca sacrificou<br \/>\na sua atitude. Tudo isto lhe serviu entretanto n\u00e3o s\u00f3 \u00e0<br \/>\nforma\u00e7\u00e3o da sua personalidade liter\u00e1ria, mas de est\u00edmulo<br \/>\na um labor que foi um dos mais fecundos das nossas letras. Nascido e criado<br \/>\nno sert\u00e3o, ainda ent\u00e3o pouco menos que bravio, do Cear\u00e1,<br \/>\nonde se n\u00e3o haveriam de todo desvanecido as mem\u00f3rias do antigo<br \/>\n\u00edncola, tendo ainda sangue deste nas veias, sentindo portanto mais<br \/>\nfortemente essa esp\u00e9cie de brasileirismo caboclo que o Romantismo acoro\u00e7oara,<br \/>\ncomparticipando da ojeriza de fam\u00edlia ao conquistador, explica-se que<br \/>\nJos\u00e9 de Alencar haja serodiamente se rendido ao indianismo, rejuvenescendo<br \/>\nna sua inspira\u00e7\u00e3o e instaurando-o na prosa brasileira, quando<br \/>\nele se morria na poesia. Certo, s\u00e3o justamente da d\u00e9cada de<br \/>\n50 a 60 a Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios e os Timbiras, as duas manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais consider\u00e1veis do indianismo. Mas, vindo ap\u00f3s as &#8220;poesias<br \/>\namericanas&#8221; de Gon\u00e7alves Dias, eram apenas um caso de movimento<br \/>\nadquirido. Os Timbiras, desde meados de 1847, estavam planejados e o seu primeiro<br \/>\ncanto escrito.122 Havendo Gon\u00e7alves Dias e outros seus companheiros<br \/>\nde gera\u00e7\u00e3o composto fic\u00e7\u00f5es em prosa, nenhuma<br \/>\nfizera em cujo assunto o elemento fosse o \u00edndio, pois n\u00e3o vale<br \/>\na pena lembrar o mesquinho Sum\u00e9, de Varnhagen.<\/p>\n<p>\u00c9 esta a primeira distin\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 de Alencar,<br \/>\nintroduzir no romance brasileiro o \u00edndio e os seus acess\u00f3rios,<br \/>\naproveitando-o ou em plena selvageria ou em com\u00e9rcio com o branco.<br \/>\nComo o quer representar no seu ambiente exato, ou que lhe parece exato, \u00e9<br \/>\nlevado a fazer tamb\u00e9m, se n\u00e3o antes de mais ningu\u00e9m,<br \/>\ncom talento que lhe assegura a primazia, o romance da natureza brasileira.<br \/>\nProtraindo-se nele, atrav\u00e9s de Chateaubriand, o sentimentalismo de<br \/>\nRousseau, exageradamente caro\u00e1vel ao homem selvagem, fez este romance<br \/>\ndo \u00edndio e do seu meio com todo o idealismo indispens\u00e1vel para<br \/>\no tornar simp\u00e1tico. E f\u00e1-lo de prop\u00f3sito por contrariar<br \/>\na imagem que dele nos deixam os cronistas e que os seus atuais remanescentes<br \/>\nembrutecidos n\u00e3o desmentem.123 Nesse romance havia de ficar, pela sinceridade<br \/>\nda inspira\u00e7\u00e3o e pela forma, a mais bela que at\u00e9 ent\u00e3o<br \/>\nse aqui escrevera, o mestre inexced\u00edvel.<\/p>\n<p>Estreou em 1857 com uma obra-prima, que infelizmente n\u00e3o mais se repetiria<br \/>\nem sua carreira liter\u00e1ria, o Guarani. Na literatura brasileira d\u00e1-se<br \/>\nfreq\u00fcentemente o caso estranho de iniciarem-se os escritores com as suas<br \/>\nmelhores obras e estacionarem nelas, se delas n\u00e3o retrogradam. O fato<br \/>\npassou-se com Alencar com o Guarani, com Macedo com a Moreninha, com Taunay<br \/>\ncom a Inoc\u00eancia, com Raul Pomp\u00e9ia com o Ateneu, com o Sr. Bilac<br \/>\ncom as suas primeiras Poesias, e se esta acaso passando com o Sr. Gra\u00e7a<br \/>\nAranha com o seu Cana\u00e3. As obras-primas, como j\u00e1 foi dito, fazem-nas<br \/>\ntamb\u00e9m o tempo, e o tempo n\u00e3o faltou com esta sua virtude ao<br \/>\nromance de Alencar. E legitimamente. Al\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ncriadora da inven\u00e7\u00e3o do drama, da sua urdidura e desenvolvimento,<br \/>\nda tra\u00e7a dos epis\u00f3dios, da variedade e bem tecido das cenas,<br \/>\nda inven\u00e7\u00e3o das figuras, da vida insuflada numa fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nde raiz fals\u00edssima, a ponto de no-la fazer veross\u00edmil e aceit\u00e1vel,<br \/>\nlevava o Guarani tal vantagem de composi\u00e7\u00e3o, de l\u00edngua<br \/>\ne estilo a todos os romances at\u00e9 ent\u00e3o aqui escritos que, sob<br \/>\neste aspecto, pode dizer-se que criava o g\u00eanero em a nossa literatura.<br \/>\n\u00c9 para a nossa fic\u00e7\u00e3o em prosa o que foram os Primeiros<br \/>\ncantos de Gon\u00e7alves Dias para a nossa poesia. E se em literatura a<br \/>\nverdadeira e leg\u00edtima prioridade n\u00e3o \u00e9 a do tempo, sen\u00e3o<br \/>\na da qualidade e repercuss\u00e3o da obra, Alencar \u00e9 o criador de<br \/>\num g\u00eanero em que Teixeira e Sousa e o mesmo Macedo haviam apenas sido<br \/>\nos precursores, como quer que sejam ainda canhestros. A de todo falsa ou inveross\u00edmil<br \/>\nfabula\u00e7\u00e3o, o desmedido idealismo, o demasiado romanesco, v\u00edcios<br \/>\nda escola aqui, mas tamb\u00e9m efeitos de temperamento liter\u00e1rio<br \/>\ndo autor, de tudo o salva o largo e belo sopro \u00e9pico, que, casando-se<br \/>\nperfeitamente com a inspira\u00e7\u00e3o l\u00edrica, quase faz do Guarani<br \/>\no romance brasileiro por excel\u00eancia, o nosso epos. Como representa\u00e7\u00e3o,<br \/>\npor um idealista de ra\u00e7a, do choque em o nosso meio selvagem do conquistador<br \/>\ne do ind\u00edgena, da oposi\u00e7\u00e3o dos dous e dos sentimentos<br \/>\nque encarnavam, e mais da vit\u00f3ria da gra\u00e7a da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre a selvageria, como o romance brasileiro de inten\u00e7\u00e3o, de<br \/>\nassunto, de cen\u00e1rio e mais que tudo de sentimento, ficaria o Guarani<br \/>\ncomo um livro sem segundo na obra de Alencar e talvez em a nossa literatura.<\/p>\n<p>A inclina\u00e7\u00e3o dos rom\u00e2nticos aos estudos hist\u00f3ricos<br \/>\nfoi uma, e talvez a melhor das manifesta\u00e7\u00f5es do sentimento patri\u00f3tico<br \/>\nque aqui se gerou da Independ\u00eancia. Deu-lhe corpo, estimulou-a, favoreceu-a<br \/>\na cria\u00e7\u00e3o do Instituto Hist\u00f3rico, onde se procurou ass\u00eddua<br \/>\ne zelosamente estudar a nossa hist\u00f3ria, menos talvez por curiosidade<br \/>\ne amor de sab\u00ea-la que por, mediante ela, justificar e exaltar aquele<br \/>\nsentimento. O melhor fruto desse bom trabalho de pesquisa das nossas origens<br \/>\ne da nossa vida colonial foi a Hist\u00f3ria geral do Brasil, de Varnhagen,<br \/>\nde 1857. Nesta rebusca dos seus t\u00edtulos hist\u00f3ricos, da sua genealogia<br \/>\nnacional e principalmente de quanto neles pudesse legitimar-lhe o orgulho<br \/>\nou as aspira\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas, \u00e9 natural que as<br \/>\nimagina\u00e7\u00f5es se alvoro\u00e7assem na ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde idealizar o nosso passado. Tanto mais que se estava em plena voga do romance<br \/>\nhist\u00f3rico, de que a literatura da nossa l\u00edngua possu\u00eda<br \/>\nj\u00e1 alguns modelos ent\u00e3o estimad\u00edssimos. Criando o romance<br \/>\nbrasileiro, Teixeira e Sousa, sem lhe ser estorvo a pouquidade do seu engenho<br \/>\ne da sua cultura, ensaiou tamb\u00e9m o romance hist\u00f3rico nas Fatalidades<br \/>\nde dous jovens, &#8220;recorda\u00e7\u00f5es dos tempos coloniais&#8221;.<br \/>\nEste mesmo subt\u00edtulo traziam as suas Tardes de um pintor. Macedo, que<br \/>\nali\u00e1s se abonava de historiador, e fazia hist\u00f3ria pitoresca,<br \/>\ns\u00f3 muito tarde, em 1870, escreveu romance hist\u00f3rico. O g\u00eanero<br \/>\nabundou aqui depois dos anos de 40. Cultivaram-no Pereira da Silva, Moreira<br \/>\nde Azevedo e v\u00e1rios outros autores somenos. Pode dizer-se que foi uma<br \/>\ndas fei\u00e7\u00f5es do nacionalismo dominante no per\u00edodo rom\u00e2ntico<br \/>\neste gosto pelo chamado romance hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Dele resultava tamb\u00e9m o Guarani, pois pela figura vagamente hist\u00f3rica<br \/>\nde D. Ant\u00f4nio de Mariz e representa\u00e7\u00e3o de um aspecto da<br \/>\nvida colonial, se podia presumir de hist\u00f3rico. As minas de prata, sete<br \/>\nanos posteriores ao Guarani, continuam-lhe, com mais acentuada inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde romance hist\u00f3rico, o mesmo prop\u00f3sito de tomar o Brasil e<br \/>\naspectos brasileiros tradicionais, pitorescos ou sociais, como principal tema<br \/>\nliter\u00e1rio, acaso o \u00fanico convinh\u00e1vel a uma literatura<br \/>\nverdadeiramente nacional. Este conceito parece ter sido, com algum exclusivismo,<br \/>\no de Alencar, de seus disc\u00edpulos e admiradores e at\u00e9 de antagonistas<br \/>\nseus, o que \u00e9 o maior documento da impress\u00e3o que ele fez no<br \/>\nseu meio. \u00c9, entretanto, errado. Certamente neste per\u00edodo de<br \/>\nforma\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es americanas, carecedoras ainda<br \/>\nde um real sentimento ou pensamento pr\u00f3prio, o que pode dar \u00e0<br \/>\nsua literatura alguma diferen\u00e7a e sainete \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas fei\u00e7\u00f5es pitorescas que lhes s\u00e3o peculiares. Nada<br \/>\nobsta, por\u00e9m, que tamb\u00e9m aquelas que lhes s\u00e3o comuns<br \/>\ncom outras sociedades mais antigas e j\u00e1 formadas, como as europ\u00e9ias,<br \/>\npossam ter o interesse liter\u00e1rio, e que n\u00e3o haja na alma elementar<br \/>\ndestes povos prim\u00e1rios aspectos dignos de aten\u00e7\u00e3o da<br \/>\nliteratura. H\u00e1 sempre num povo alguma cousa de \u00edntimo que lhe<br \/>\n\u00e9 pr\u00f3prio, como no indiv\u00edduo algo rec\u00f4ndito e importante<br \/>\nque o distingue. Ao escritor cabe descobri-lo e revel\u00e1-lo e \u00e0<br \/>\nliteratura represent\u00e1-lo em suas rela\u00e7\u00f5es morais e sociais.<\/p>\n<p>Sabemos as sugest\u00f5es de Chateaubriand, de Walter Scott, de Cooper,<br \/>\na que Alencar, como todos os autores de romances americanos de inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rica, obedecia. A cr\u00edtica que mais tarde procurou diminuir<br \/>\nAlencar contrapondo-lhe este e outros predecessores, nomeadamente o primeiro,<br \/>\ncriador do indianismo na mais moderna fic\u00e7\u00e3o americana em prosa,<br \/>\nfoi de todo ininteligente, acaso por ser de todo mal\u00e9vola. Muito embora<br \/>\nseguindo trilhas j\u00e1 por outros abertas, Jos\u00e9 de Alencar o fez<br \/>\ncom sentimento diferente e pr\u00f3prio, inspira\u00e7\u00e3o pessoal<br \/>\ne individualidade e engenho bastantes para assegurar-lhe, do ponto de vista<br \/>\nda hist\u00f3ria da nossa literatura, cr\u00e9ditos de original. Iracema<br \/>\n(1865), Ubirajara, chamados pelo autor de &#8220;lendas tupis&#8221; s\u00e3o<br \/>\ndois romances po\u00e9ticos; a mais de um respeito dous poemas em prosa.<br \/>\nE s\u00f3 como tal aceit\u00e1veis, pois apesar da c\u00e2ndida presun\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontr\u00e1ria do autor, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel maior contrafa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda vida, costumes, \u00edndole e linguagem do \u00edndio brasileiro, nem<br \/>\nmais extravagante sentimento do que \u00e9 o selvagem em geral e do que<br \/>\nera particularmente o nosso. Porfiam nestes dous romances as mais disparatadas<br \/>\nimagina\u00e7\u00f5es com as mais flagrantes inveros- similhan\u00e7as<br \/>\netnol\u00f3gicas, hist\u00f3ricas e morais. Imitados por escritores somenos,<br \/>\nque n\u00e3o tinham a sincera inspira\u00e7\u00e3o de Alencar nem o<br \/>\nseu engenho, foram estes os \u00fanicos que dessa literatura ficaram. Mais<br \/>\nque a inten\u00e7\u00e3o nacionalista ou o preconceito indianista, j\u00e1<br \/>\npericlitante \u00e0 publica\u00e7\u00e3o do \u00faltimo, deixaram-se<br \/>\nos leitores tocar pela falaciosa mas sedutora poesia que neles havia, e que<br \/>\nainda n\u00e3o passou de todo.<\/p>\n<p>Como a da maioria dos literados brasileiros, a forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\nde Alencar era, sobre deficiente, defeituosa. Se a falta de uma educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria sistem\u00e1tica houvesse de ser motivo de espontaneidade<br \/>\ne originalidade, raras literaturas poderiam mais que a nossa mostrar estas<br \/>\nqualidades. Confessa Jos\u00e9 de Alencar, ali\u00e1s em p\u00e1ginas<br \/>\nbem insignificantes, que ap\u00f3s estudos cl\u00e1ssicos malfeitos, como<br \/>\nforam sempre os nossos dos chamados preparat\u00f3rios, os livros que leu<br \/>\nforam maus romances franceses, Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina<br \/>\ne quejandos em ruins tradu\u00e7\u00f5es portuguesas. Leu-os e os releu<br \/>\ne, reconhece ele pr\u00f3prio, foi essa leitura que lhe influiu a imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncuja heran\u00e7a atribui \u00e0 m\u00e3e, para se fazer romancista.<br \/>\nMais tarde, j\u00e1 estudante de um curso superior, mas ainda entendendo<br \/>\nmal o franc\u00eas, leu no original e desordenadamente Balzac, Vigny, Dumas,<br \/>\nal\u00e9m de Chateaubriand e Victor Hugo. Daquelas primeiras leituras de<br \/>\nromances romanescos traduzidos na inten\u00e7\u00e3o das damas sentimentais,<br \/>\nlhe ficaria sempre o conceito \u2014 que foi ali\u00e1s o de toda a nossa<br \/>\nrom\u00e2ntica at\u00e9 o naturalismo \u2014 que o romance \u00e9 uma<br \/>\nhist\u00f3ria puramente sentimental, cujos lances devem pela idealiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne romanesco nos afastar das feias realidades da vida e servir de divertimento<br \/>\ne ensino. \u00c9 uma hist\u00f3ria principalmente escrita em vista das<br \/>\nsenhoras. O romanesco, freq\u00fcentemente de uma inven\u00e7\u00e3o pueril<br \/>\ne de uma sentimentalidade que frisa \u00e0 pieguice, foi com Alencar, com<br \/>\nMacedo, com Bernardo Guimar\u00e3es e ainda com Taunay, sem falar em menores,<br \/>\na fei\u00e7\u00e3o predominante \u2014 fei\u00e7\u00e3o que no-lo<br \/>\ntorna hoje geralmente despiciendo \u2014 do romance brasileiro at\u00e9<br \/>\no Naturalismo ou melhor at\u00e9 Machado de Assis, que ainda em antes deste<br \/>\nse libertara desse vezo. Um ou outra exce\u00e7\u00e3o, embora relevante,<br \/>\ncomo a de Manoel de Almeida, e do mesmo Machado de Assis desde as suas primeiras<br \/>\nnovelas e contos, n\u00e3o foi bastante para alterar aquele tom muito no<br \/>\ngosto do p\u00fablico. Foi nele, ora mais ora menos acentuado, que Alencar<br \/>\nescreveu as novelas e romances com que desde 1860 iniciara, em Cinco minutos,<br \/>\no romance da nossa vida civilizada e mundana e ainda um vago esbo\u00e7o<br \/>\ndo que viria a chamar-se romance psicol\u00f3gico. Para este romance faltavam-lhe<br \/>\npor\u00e9m dons de aguda observa\u00e7\u00e3o que o g\u00eanero presume<br \/>\ne tamb\u00e9m acaso o gosto de as fazer, pelo que lhe deparariam de antip\u00e1tico<br \/>\ne at\u00e9 molesto ao seu idealismo. S\u00f3 isto impediu de ser aqui<br \/>\no criador dessa forma. Simultaneamente, sem descontinuar fazia \u2014 \u00e9<br \/>\nbem a express\u00e3o tratando-se deste idealista da gema \u2014 o romance<br \/>\nda vida mesti\u00e7a brasileira, do nosso meio provinciano ou sertanejo,<br \/>\ncom a sua paisagem, os seus moradores, os seus costumes, as suas atividades<br \/>\npeculiares. No Ga\u00facho (1870), no Tronco do ip\u00ea (1871), no Til<br \/>\n(1875), no Sertanejo (1876), essa vida \u00e9 recontada n\u00e3o conforme<br \/>\numa vis\u00e3o natural das cousas, mas segundo o conceito que j\u00e1<br \/>\nfora confessadamente o do Guarani, &#8220;um ideal que o escritor intenta poetizar&#8221;<br \/>\ne cuja pr\u00e1tica o arrasta, como em todos eles, a frioleiras ou a monstruosidade<br \/>\nde imagina\u00e7\u00e3o e de est\u00e9tica. N\u00e3o obsta que n\u00e3o<br \/>\nhaja tamb\u00e9m nesses livros a realidade superior que a mesma poesia cria.<\/p>\n<p>A incapacidade de ficar na realidade m\u00e9dia, que a fic\u00e7\u00e3o<br \/>\npara nos interessar exige, e n\u00e3o s\u00f3 realidade de a\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas de express\u00e3o e de emo\u00e7\u00e3o, empeceu Alencar de ser<br \/>\num melhor, mesmo um bom autor dram\u00e1tico. Como tal estreou em 1857,<br \/>\nno mesmo ano do Guarani, com o Dem\u00f4nio familiar, que \u00e9 porventura<br \/>\ntamb\u00e9m a sua melhor obra de teatro. Realmente pouco falta a esta pe\u00e7a<br \/>\npara ser, como com\u00e9dia de costumes e representa\u00e7\u00e3o de<br \/>\num dos percal\u00e7os dos nossos de ent\u00e3o, uma obra excelente e mal<br \/>\nchega a ser uma pe\u00e7a de conta. Para o teatro, principalmente, levou<br \/>\nAlencar as predisposi\u00e7\u00f5es moralizantes que, sobre serem muito<br \/>\ndo gosto do nosso Romantismo, excetuados os poetas da segunda gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica, s\u00e3o da \u00edndole do g\u00eanero. Todo o seu teatro<br \/>\nas revela. Acentua deliberadamente as preocupa\u00e7\u00f5es morais e<br \/>\ndid\u00e1ticas com que nascera o nosso teatro, apenas em Martins Pena atenuadas<br \/>\npelo car\u00e1ter de farsa do seu e pelo que havia na sua veia de nativo<br \/>\ne popular. O fito do teatro, segundo se lhe depreende da obra, deve ser a<br \/>\ndiscuss\u00e3o dos problemas de ordem moral que interessam a sociedade contempor\u00e2nea.<br \/>\nEsta \u00e9 ali\u00e1s a concep\u00e7\u00e3o do teatro posterior ao<br \/>\nRomantismo, desde a dramaturgia burguesa dos franceses, mestres do g\u00eanero,<br \/>\nat\u00e9 a de Ibsen, Tolst\u00f3i ou Sudermann. As Asas de um anjo, representadas<br \/>\nem 1858, exageravam este prop\u00f3sito moralizador at\u00e9 exceder os<br \/>\nlimites necess\u00e1rios dos direitos da arte. Manifestamente inspirada<br \/>\ndas pe\u00e7as cong\u00eaneres ent\u00e3o no galarim A Dama das cam\u00e9lias<br \/>\ne as Mulheres de m\u00e1rmore, com as quais o mesmo autor as compara, tem<br \/>\nconfrontadas com estas inferioridades e defeitos palmares. S\u00e3o os mais<br \/>\nsainetes, a desconformidade com o meio, que certamente n\u00e3o comportava<br \/>\no drama (n\u00e3o sei por que o autor lhe chamou com\u00e9dia) qual o<br \/>\nconcebeu e realizou o escritor, artificialidade dos processos, da composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndo estilo, tudo resultante daquela mesma desconformidade. Nem tem como aquelas<br \/>\npe\u00e7as, que evidentemente lhe serviram de est\u00edmulo e modelo,<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 a arte consumada do dramaturgo, mas a, ainda mais relevante,<br \/>\ndo escritor. Custa a dizer, mas \u00e9 a verdade: toda a filosofia teatral<br \/>\nde Alencar, nesta como em suas outras pe\u00e7as, \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nde lugares-comuns, n\u00e3o levantados infelizmente por excel\u00eancias<br \/>\nde express\u00e3o. N\u00e3o pode ser outro, penso, o nosso ju\u00edzo<br \/>\nde hoje, mas no seu tempo a obra dram\u00e1tica de Alencar era aqui uma<br \/>\nnovidade de concep\u00e7\u00e3o e de estilo. Ao teatro de costumes de<br \/>\nPena e de Macedo traz Jos\u00e9 de Alencar o teatro de teses, de id\u00e9ias,<br \/>\ncom prop\u00f3sitos n\u00e3o s\u00f3 de moralista vulgar, mas de pensador<br \/>\ne em suma com melhor estilo que aqueles. Se n\u00e3o tem o engenho c\u00f4mico<br \/>\ndos dous e o dram\u00e1tico do segundo, o sobrelevava a ambos em qualidades<br \/>\npropriamente liter\u00e1rias. Compreende a obra teatral de Alencar sete<br \/>\npe\u00e7as, cinco com\u00e9dias e dous dramas, sem falar numa com\u00e9dia<br \/>\nl\u00edrica ou libreto de \u00f3pera, ao todo uns trinta atos que pelo<br \/>\nmenos provam nos autores do nosso teatro rom\u00e2ntico maior imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne capacidade do g\u00eanero do que t\u00eam mostrado os que lhe sucederam.<\/p>\n<p>Dessas pe\u00e7as, a \u00faltima que escreveu e fez representar foi o<br \/>\nJesu\u00edta, pelos anos de 70. Na sua obra dram\u00e1tica n\u00e3o<br \/>\nser\u00e1 talvez a melhor, mas \u00e9 porventura a mais forte, a mais<br \/>\ntrabalhada, aquela em que o autor deu mais de si, em que \u00e9 mais evidente<br \/>\no seu esfor\u00e7o de fazer uma grande obra de teatro. Infelizmente assentou-a<br \/>\nnuma concep\u00e7\u00e3o do jesu\u00edta, se n\u00e3o falsa, contr\u00e1ria<br \/>\nao conceito comum desse tipo, e faltou-lhe engenho para vencer a nossa preven\u00e7\u00e3o.<br \/>\nH\u00e1 no entretanto no seu drama, mais talvez que em nenhuma outra das<br \/>\nsuas pe\u00e7as, qualidades estim\u00e1veis e ainda relevantes de simplicidade<br \/>\nde meios, de express\u00e3o e de emo\u00e7\u00e3o. Afora as suas pr\u00e1ticas<br \/>\nsistem\u00e1ticas no escrever a l\u00edngua, tem a sua, nesta, qualidades<br \/>\nque lhes suprem e escondem os defeitos neste particular. O drama \u00e9<br \/>\nbem feito, se bem a sua inspira\u00e7\u00e3o paradoxal \u2014 um jesu\u00edta<br \/>\nprecursor da Independ\u00eancia do Brasil \u2014 pare\u00e7a de todo falsa.<br \/>\nOu ao autor faltou com que dar-lhe a verossimilhan\u00e7a que a fic\u00e7\u00e3o<br \/>\ndram\u00e1tica exige.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 de Alencar foi ainda cr\u00edtico, publicista, orador parlamentar<br \/>\ne jurisconsulto. Da sua atividade como cr\u00edtico, principalmente exercida<br \/>\nem breves artigos de jornais, s\u00f3 ficaram em livro as Cartas sobre a<br \/>\nConfedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios (1856), mera censura impressionista,<br \/>\nfreq\u00fcentemente desarrazoada, de inspira\u00e7\u00e3o demasiado pessoal,<br \/>\ndos defeitos do poema de Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es. \u00c9 como<br \/>\npublicista principalmente que Alencar se assinalou fora do romance, e que<br \/>\nmostrou, al\u00e9m de vigor dial\u00e9tico, brilho e eleg\u00e2ncia de<br \/>\nforma n\u00e3o comum no g\u00eanero at\u00e9 ele. Estreou nele com as<br \/>\ndesde logo c\u00e9lebres Cartas de Erasmo, dirigidas anonimamente ao imperador,<br \/>\ncuja primeira edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1865. Outras com a mesma ep\u00edgrafe,<br \/>\no mesmo endere\u00e7o, ou tamb\u00e9m escritas a outros destinat\u00e1rios,<br \/>\ncomo o povo e alguns pr\u00f3ceres da pol\u00edtica, sa\u00edram ainda<br \/>\nem 1866 e 68. Da primeira s\u00e9rie houve segunda edi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde Paris, no mesmo ano, e terceira do Rio de Janeiro, em 1866, o que indica<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o e interesse que despertaram. Al\u00e9m de op\u00fasculos<br \/>\nde car\u00e1ter pol\u00edtico ou de discuss\u00e3o de teses constitucionais,<br \/>\ndeixou um livro, O sistema representativo, sobre este assunto. Para orador<br \/>\nn\u00e3o tinha figura, nem voz, nem porte, mas compensava com grande vantagem<br \/>\nestas falhas, pelas qualidades liter\u00e1rias dos seus discursos, ci\u00eancia<br \/>\ndoutrin\u00e1ria e not\u00e1veis recursos de ataque e defesa, ironia mordente<br \/>\ne at\u00e9 acerado sarcasmo de que na tribuna era pr\u00f3digo. Com isto<br \/>\nconseguiu no seu tempo renome de orador parlamentar not\u00e1vel, que os<br \/>\nseus discursos publicados confirmam. A sua obra de jurisconsulto, que os competentes<br \/>\nainda estimam, s\u00e3o, afora alguns op\u00fasculos de advocacia, A propriedade<br \/>\ne esbo\u00e7os jur\u00eddicos, ambas publica\u00e7\u00f5es p\u00f3stumas<br \/>\nde 1883. Toda esta por\u00e7\u00e3o da sua atividade intelectual lhe verifica<br \/>\no engenho, poderoso e vers\u00e1til, mas sob o puro aspecto liter\u00e1rio,<br \/>\nprincipalmente provado no romance, n\u00e3o teria bastado para lhe criar<br \/>\no nome que este lhe deu.<\/p>\n<p>Como romancista, a sua produ\u00e7\u00e3o oferece duas fases, das quais<br \/>\na segunda \u00e9, se n\u00e3o de decl\u00ednio, de relativa inferioridade.<br \/>\nEle pr\u00f3prio parece o haver sentido quando, desde 1870, trocou o seu<br \/>\nnome j\u00e1 ilustre pelo pseud\u00f4nimo de S\u00eanio, declarando-se<br \/>\nvelho da velhice n\u00e3o do corpo, feitura dos anos, mas da alma, gerada<br \/>\ndas desilus\u00f5es. &#8220;H\u00e1 duas velhices \u2014 escrevia tristemente<br \/>\n\u00e0 frente do Ga\u00facho, publicado aquele ano \u2014: a do corpo,<br \/>\nque trazem os anos, e a da alma, que deixam as desilus\u00f5es. Aqui onde<br \/>\na opini\u00e3o \u00e9 terra s\u00e1fara e o morma\u00e7o da corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nvai crestando todos os est\u00edmulos nobres, aqui a alma envelhece depressa.<br \/>\nAinda bem! A solid\u00e3o moral dessa velhice precoce \u00e9 um ref\u00fagio<br \/>\ncontra a idolatria de Moloch.&#8221; Tinha apenas quarenta e um anos quem estas<br \/>\ndesenganadas palavras escrevia. As desilus\u00f5es lhas dera a pol\u00edtica,<br \/>\ncriando-lhe ambi\u00e7\u00f5es que lhe n\u00e3o deixou satisfazer. Artista<br \/>\nnervoso e nimiamente suscet\u00edvel, um sensitivo, alma de impressionabilidade<br \/>\ndoentia, n\u00e3o soube Alencar sofrer com isen\u00e7\u00e3o e superioridade<br \/>\no malogro das suas ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mais quando vinha<br \/>\nacompanhado da nega\u00e7\u00e3o dos seus talentos liter\u00e1rios e<br \/>\nda sua obra, em arremetidas a\u00e7uladas pelos mesmos com quem o seu temperamento<br \/>\nirritadi\u00e7o, qui\u00e7\u00e1 vaidade de intelectual que se n\u00e3o<br \/>\ndissimulava bastante, o tinham politicamente incompatibilizado. Com a recusa<br \/>\ndo imperador de o escolher senador na lista s\u00eaxtupla em que tinha o<br \/>\nprimeiro lugar, recusa inspirada num alto sentimento de moral p\u00fablica,<br \/>\npois Alencar era ministro na ocasi\u00e3o do pleito, com a sua desaven\u00e7a<br \/>\ncom os seus correligion\u00e1rios, coincidia a guerra j\u00e1 aludida<br \/>\nque ao literato fizeram Franklin T\u00e1vora e Jos\u00e9 de Castilho e<br \/>\noutros, seguindo-se-lhe os primeiros ataques da cr\u00edtica (Joaquim Nabuco,<br \/>\nS\u00edlvio Romero), aos quais se mostrou mais que de raz\u00e3o sens\u00edvel.<br \/>\nE ele que em op\u00fasculos pol\u00edticos, nomeadamente nas Cartas de<br \/>\nErasmo, a sua principal obra de publicista, se mostrava um devotado imperialista<br \/>\ne havia feito, com a apologia do imperador, a defesa do poder pessoal, que<br \/>\nlhe arg\u00fciam, e at\u00e9 preconizado o uso deste poder, agora, por uma<br \/>\nreviravolta vulgar nos nossos temperamentos de impulsivos, atribuindo ao monarca<br \/>\ntodos os seus dissabores, encheu-se de \u00f3dio contra ele, desdisse-se<br \/>\ne contradisse-se, em demasia entregue a este abalo moral. Como quer que seja<br \/>\no melhor da sua obra liter\u00e1ria, \u00e9 justamente a anterior a este<br \/>\nper\u00edodo, o Guarani, as Minas de prata, as novelas de 1860, Luc\u00edola,<br \/>\nDiva, Iracema. H\u00e1 nas que v\u00eam ap\u00f3s aquela crise um gosto<br \/>\nmals\u00e3o do extravagante, mesmo do monstruoso, uma afeta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo desengano e de desilus\u00e3o, que lhe rev\u00ea a chaga da alma malferida.<br \/>\nO Ga\u00facho, Til, a Pata da gazela e ainda o Tronco do ip\u00ea s\u00e3o<br \/>\ndisso documento. E voltando ao romance hist\u00f3rico, de que dera em Minas<br \/>\nde prata o nosso mais perfeito exemplar, descai na s\u00e1tira propositada<br \/>\ne, o que \u00e9 pior, feita sem talento nem finura. A Guerra dos mascates<br \/>\n(1871), onde, com o imperador, quase sem disfarce encarnado no governador<br \/>\nde Pernambuco, figuram alguns magnates da pol\u00edtica grossamente caracterizados<br \/>\ne outros contempor\u00e2neos de algum destaque, \u00e9 antes um panfleto<br \/>\nque um romance hist\u00f3rico. E como obra d\u2019arte \u00e9 a todos<br \/>\nos respeitos inferior, sem que a execu\u00e7\u00e3o lhe desculpe a m\u00e1<br \/>\nsortida inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A obra propriamente liter\u00e1ria de Alencar, romance e teatro, fundamento<br \/>\ndo seu renome, \u00e9, a despeito das restri\u00e7\u00f5es que se lhe<br \/>\npossam fazer, valiosa. Mas s\u00f3 as suas virtudes est\u00e9ticas n\u00e3o<br \/>\nlhe assegurariam a proemin\u00eancia que nas nossas letras ele tem, n\u00e3o<br \/>\nfora a sua import\u00e2ncia e significa\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria<br \/>\nda nossa literatura. A vontade persistente de promover a literatura nacional,<br \/>\no esfor\u00e7o que nisto empenhou, a mesma c\u00f3pia e variedade desta<br \/>\nobra, mais talvez que o seu valor propriamente liter\u00e1rio, lhe asseguram<br \/>\ne ao seu autor lugar eminente nesta hist\u00f3ria. A sua por\u00e7\u00e3o<br \/>\nprincipal, onde se nos deparam tr\u00eas ou quatro livros porventura destinados<br \/>\na perdurar, s\u00e3o os romances e novelas de antes de S\u00eanio, compreendida<br \/>\nSenhora, n\u00e3o obstante a sua data (1857). N\u00e3o possuindo a l\u00edngua<br \/>\ncom seguro conhecimento, tinha Alencar, entretanto, com um fino sentimento<br \/>\ndela, dons naturais de escritor que o distinguiram, desde que apareceu, entre<br \/>\ntodos os seus contempor\u00e2neos, antes que Machado de Assis, sob este aspecto<br \/>\nao menos, os excedesse a todos. Mas com essas qualidades nativas, alguma afeta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne certos amaneirados de estilo, aumentados na fase de S\u00eanio. As cr\u00edticas<br \/>\ngeralmente justas feitas \u00e0 sua linguagem n\u00e3o tiveram sen\u00e3o<br \/>\no efeito de lhe exacerbarem o orgulho ou vaidade liter\u00e1ria. P\u00f4s-se<br \/>\na estudar a l\u00edngua mais com o prop\u00f3sito de encontrar nesse estudo<br \/>\nantes justificativa do que emenda dos seus defeitos de escritor, nos quais<br \/>\ndesarrazoadamente e com dano da sua literatura perseverou do mesmo passo acoro\u00e7oando<br \/>\ncom o seu exemplo ilustre a funesta intrus\u00e3o individual em o natural<br \/>\ndesenvolvimento da l\u00edngua. H\u00e1 no estilo de Alencar, colorido,<br \/>\nsonoridade, mesmo m\u00fasica, eloq\u00fc\u00eancia, emo\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomunicativa, mas h\u00e1 tamb\u00e9m \u00eanfase e mau gosto. Como escritor<br \/>\nfaltava-lhe, pode dizer-se inteiramente, esp\u00edrito, que parece apenas<br \/>\nrevelou nas discuss\u00f5es parlamentares, onde ali\u00e1s os seus ataques<br \/>\ne r\u00e9plicas s\u00e3o mais aceradas que espirituosas. Como Herculano,<br \/>\nsegundo lhe reprochou Camilo Castelo Branco, Alencar era de uma insulsez al\u00e9m<br \/>\ndo que se permite ao escritor p\u00fablico. Da\u00ed o malogro do seu<br \/>\nromance caricatural da Guerra dos mascates, e a fraca vida das suas com\u00e9dias.<br \/>\nFoi-lhe acaso funesto o ter come\u00e7ado por uma obra-prima, muito admirada<br \/>\ne celebrada e lhe haver faltado o bom esp\u00edrito de se n\u00e3o embevecer<br \/>\ndo seu sucesso, ali\u00e1s merecido.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos antes do Guarani, com que Jos\u00e9 de Alencar retaurava<br \/>\nnas nossas letras a inspira\u00e7\u00e3o pseudonacionalista do indianismo<br \/>\npericlitante, aparecia o primeiro volume das Mem\u00f3rias de um sargento<br \/>\nde mil\u00edcias, por &#8220;Um Brasileiro&#8221;. O pseud\u00f4nimo est\u00e1<br \/>\nrevendo a preocupa\u00e7\u00e3o nacionalista que era ainda por muito a<br \/>\nda literatura do tempo e da qual Alencar se vinha justamente fazer o arauto<br \/>\nconvencido. Tamb\u00e9m o era o das Mem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias,<br \/>\nmas depurado do preconceito indianista. Assentava antes numa intui\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais justa do objeto da nossa fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como Macedo quando escreveu a sua Moreninha, o autor era um estudante de<br \/>\nmedicina, jornalista, redator do Correio Mercantil, ent\u00e3o um dos mais<br \/>\nliter\u00e1rios do Rio de Janeiro, Manoel Ant\u00f4nio de Almeida, nesta<br \/>\ncidade nascido em 1830. Formado em 1857, no ano do Guarani, dos Tamoios e<br \/>\ndos Timbiras, pouco depois, em 1861, pereceu num naufr\u00e1gio indo de<br \/>\nviagem para Campos. Com ele, pode dizer-se, naufragou a talvez mais promissora<br \/>\nesperan\u00e7a do romance brasileiro. Pouco falta, com efeito, \u00e0s<br \/>\nMem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias para serem a obra-prima<br \/>\ndo g\u00eanero na fase rom\u00e2ntica. \u00c9 original como nenhum outro<br \/>\ndos at\u00e9 ent\u00e3o e ainda imediatamente posteriores, aparecidos,<br \/>\npois foi concebido e executado sem imita\u00e7\u00e3o ou influ\u00eancia<br \/>\nde qualquer escola ou corrente liter\u00e1ria que houvesse atuado a nossa<br \/>\nliteratura, e antes pelo contr\u00e1rio a despeito delas, como uma obra<br \/>\nespont\u00e2nea e pessoal. Em pleno Romantismo, aqui sobreexcessivamente<br \/>\nidealista, romanesco e sentimental tamb\u00e9m em excesso, o romance do<br \/>\nmalogrado Manoel de Almeida \u00e9 perfeitamente realista, ainda naturalista,<br \/>\nmuito antes do advento, mesmo na Europa, das doutrinas liter\u00e1rias que<br \/>\nreceberam estes nomes. N\u00e3o pertence a nenhuma escola ou tend\u00eancia<br \/>\nda fic\u00e7\u00e3o sua contempor\u00e2nea, antes destoa por completo<br \/>\ndo seu feitio geral. \u00c9 uma obra inteiramente pessoal em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nno meio liter\u00e1rio de ent\u00e3o. Antes de ningu\u00e9m, pratica<br \/>\nno romance brasileiro e pode afirmar-se que a pratica com suficiente engenho,<br \/>\nmais que a pintura ou nota\u00e7\u00e3o superficial, a observa\u00e7\u00e3o<br \/>\na que j\u00e1 \u00e9 l\u00edcito chamar de psicol\u00f3gica do indiv\u00edduo<br \/>\ne do meio, a descri\u00e7\u00e3o pontual, sem preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde embelezamento dos costumes e tipos caracter\u00edsticos, a representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nrealista das cousas, sem refugir, o que haveria escandalizado a Macedo e Alencar,<br \/>\nmesmo aos seus aspectos mais prosaicos e at\u00e9 mais repugnantes, mas<br \/>\nevitando sempre tanto as cruezas que trinta anos depois haviam de macular<br \/>\no naturalismo ind\u00edgena, no seu grosseiro arremedo do franc\u00eas,<br \/>\ncomo os fingimentos e afeites com que presumiam aformosear a nossa vida e<br \/>\na sua literatura os romancistas seus contempor\u00e2neos. A l\u00edngua<br \/>\ne o estilo deste romance, menos trabalhados que o de Alencar e menos desleixados<br \/>\nque os de Teixeira e Sousa e Macedo, tem, se n\u00e3o maior corre\u00e7\u00e3o<br \/>\n(e a sua \u00e9 certamente maior que a destes \u00faltimos), mais flu\u00eancia<br \/>\ne espontaneidade e mais personalidade.<\/p>\n<p>Acaso foram estas fei\u00e7\u00f5es, que hoje revelam aos nossos olhos<br \/>\neste romance, a causa dele n\u00e3o ter tido na nossa literatura a influ\u00eancia<br \/>\nmerecida. O gosto e a intelig\u00eancia do p\u00fablico \u00e0quela data<br \/>\niam preferentemente \u00e0s qualidades opostas \u00e0s que agora nos parecem<br \/>\nconstituir o m\u00e9rito. Habituado ao romance romanesco e moralizante qual<br \/>\nera n\u00e3o s\u00f3 o nosso, mas o portugu\u00eas nessa \u00e9poca,<br \/>\nem rever-se embevecido nas concertadas cria\u00e7\u00f5es dos seus romancistas,<br \/>\nn\u00e3o se podia o p\u00fablico enfeiti\u00e7ar com um romance que<br \/>\npara o seu gosto tinha o defeito de ser demasiado real e desenfeitado. Este<br \/>\nseria tamb\u00e9m o sentimento dos pr\u00f3ceres do Romantismo, ent\u00e3o<br \/>\ncom toda a autoridade na opini\u00e3o liter\u00e1ria nacional. Parece<br \/>\nindic\u00e1-lo o fato do Br\u00e9sil litt\u00e9raire, de Wolf, sabidamente<br \/>\ninspirado por Magalh\u00e3es e Porto Alegre, n\u00e3o aludir sequer \u00e0s<br \/>\nMem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias, e ao seu mal-aventurado<br \/>\nautor, nem o representar na antologia, onde tanta cousa p\u00e9ssima vem,<br \/>\nque adicionou ao seu livro. O desaparecimento de Manoel de Almeida, quase<br \/>\nimediato \u00e0 publica\u00e7\u00e3o do seu romance, o triunfo inconteste<br \/>\nda rom\u00e2ntica de Alencar, prejudicariam essa obra at\u00e9 ent\u00e3o<br \/>\na mais original e a mais viva da nossa fic\u00e7\u00e3o e lhe impediriam<br \/>\nde ter a influ\u00eancia que nela merecia ter tido e que porventura lhe daria<br \/>\noutra e melhor fei\u00e7\u00e3o. A sua reedi\u00e7\u00e3o em 1862,<br \/>\npor Quintino Bocai\u00fava, ainda todo devotado \u00e0s nossas letras,<br \/>\nembora provando que a certos esp\u00edritos n\u00e3o era o seu valor desconhecido,<br \/>\nainda encontrou a opini\u00e3o p\u00fablica a mesma em mat\u00e9ria<br \/>\nliter\u00e1ria. S\u00f3 muito mais tarde, quando o naturalismo entrou<br \/>\na desbancar o Romantismo que aqui se procrastinava, se come\u00e7aria a<br \/>\nver no romance de Manoel de Almeida e precursor ind\u00edgena, mas sempre<br \/>\ndesconhecido, da rom\u00e2ntica em voga.<\/p>\n<p>Simultaneamente com Alencar, dous romancistas principalmente disputavam a<br \/>\naten\u00e7\u00e3o do nosso p\u00fablico, Joaquim Manoel de Macedo e<br \/>\nBernardo Joaquim da Silva Guimar\u00e3es. Cronol\u00f3gica e literariamente,<br \/>\nMacedo pertencia \u00e0 primeira gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica.<br \/>\nEra um genu\u00edno produto daquele momento e meio liter\u00e1rio, e foi<br \/>\nna sua plena vig\u00eancia que estreou nas letras, iniciando do mesmo passo<br \/>\ncom Teixeira e Sousa o romance, e com Martins Pena e Magalh\u00e3es o teatro<br \/>\nbrasileiro. Escritor copios\u00edssimo como, excetuado presentemente o Sr.<br \/>\nCoelho Neto, n\u00e3o tivemos outro, Macedo, ali\u00e1s sem jamais progredir<br \/>\nnem variar, ultrapassou a sua \u00e9poca e foi ainda o mais abundante dos<br \/>\nprosistas da segunda gera\u00e7\u00e3o. Sem falar dos seus livros de hist\u00f3ria<br \/>\nou de cr\u00f4nica e numerosos escritos pol\u00edticos e liter\u00e1rios<br \/>\ndispersos em jornais e revistas, tudo geralmente insignificante, s\u00e3o<br \/>\nda fase ocupada por esta gera\u00e7\u00e3o (1850-1870) os Romances da<br \/>\nsemana, O culto do dever, A luneta m\u00e1gica, As v\u00edtimas algozes,<br \/>\nNina, As mulheres de mantilha, A namoradeira, A baronesa do amor, para n\u00e3o<br \/>\ncitar sen\u00e3o os, aos menos pelo tomo, mais consider\u00e1veis. E no<br \/>\nteatro, excetuado o Cego, que \u00e9 de 1849, \u00e9 desta mesma fase<br \/>\ntoda a sua abundante literatura dram\u00e1tica. Mas quer no romance, quer<br \/>\nno teatro. Macedo n\u00e3o fez mais ainda na v\u00e9spera ou j\u00e1<br \/>\nem pleno dia do naturalismo que continuar, por in\u00e9rcia, o movimento<br \/>\nadquirido com a primeira gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica. Esta imobilidade,<br \/>\nque n\u00e3o basta \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o social de V\u00edtimas<br \/>\nalgozes, e de alguma sua pe\u00e7a de teatro, para desmentir, decididamente<br \/>\no fixa nesta gera\u00e7\u00e3o, sem embargo dele ter vivido, e sempre<br \/>\nescrevendo, at\u00e9 1882. Nem a concep\u00e7\u00e3o do romance ou do<br \/>\nteatro, nem o estilo de Macedo, variaram nunca do seu conceito primitivo de<br \/>\numa hist\u00f3ria inventada e recontada com muita poesia, ou, o que ele<br \/>\ncria tal, para comover a sentimentalidade do leitor ou do ouvinte, com o fim<br \/>\nde o edificar moralmente. Com este conceito, que foi o de todos os nossos<br \/>\nrom\u00e2nticos, sem exce\u00e7\u00e3o de Alencar, Macedo o realizou<br \/>\nsem engenho que o relevasse, a sua obra \u00e9, do puro aspecto liter\u00e1rio,<br \/>\nde somenos valia. H\u00e1 nela, por\u00e9m, alguma cousa que a levanta<br \/>\ne faz viver da vida mesquinha que ainda tem: primeiro a sua sinceridade, a<br \/>\nsua ingenuidade na representa\u00e7\u00e3o do primeiro meio s\u00e9culo<br \/>\nda nossa exist\u00eancia nacional, segundo a alegria que h\u00e1 nela,<br \/>\ne que agradavelmente destoa da estranha tristeza de todos os seus companheiros<br \/>\nde gera\u00e7\u00e3o. Como quer que seja, ele tem, sem grande riqueza<br \/>\ne for\u00e7a ali\u00e1s, imagina\u00e7\u00e3o e facilidade. Como autor<br \/>\nde teatro foi talvez o que melhor o soube fazer aqui. O desleixo com que geralmente<br \/>\nescreveu, sen\u00e3o tamb\u00e9m pensou as suas obras, prejudicou-as consideravelmente<br \/>\nem o nosso atual conceito. Mas os seus defeitos de concep\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de forma, a que somos hoje nimiamente sens\u00edvel, n\u00e3o afrontavam<br \/>\nos seus contempor\u00e2neos, dos quais foi um favorito. Ainda hoje \u00e9<br \/>\ndos nossos romancistas mais lidos, se bem que \u00e0s escondidas e em segredo.<br \/>\n\u00c9 o que tem sido mais repetidamente editado. E Taunay, que estreava<br \/>\nj\u00e1 na terceira gera\u00e7\u00e3o, dedicando-lhe o seu romance A<br \/>\nmocidade de Trajano, como a um mestre, apenas exprimiu o sentimento de comum<br \/>\napre\u00e7o pelo operoso e divertido escritor.<\/p>\n<p>Bernardo Guimar\u00e3es nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em 1827.124<br \/>\nEra filho de Joaquim da Silva Guimar\u00e3es, um desses muit\u00edssimos<br \/>\npoetas merecidamente esquecidos de que o Brasil \u00e9 abundante. Al\u00e9m<br \/>\nde versejar, o pai escrevia prosa; era pequeno jornalista provinciano. Bernardo<br \/>\nGuimar\u00e3es encontrou, pois, uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\nna fam\u00edlia. Devia-lhe avultar a heran\u00e7a e comunh\u00e3o da<br \/>\nSociedade Acad\u00eamica de S. Paulo, cuja Faculdade de Direito, no tempo<br \/>\nem que a freq\u00fcentou, era um foco de atividade intelectual. Ali teve por<br \/>\ncolegas e companheiros \u00c1lvares de Azevedo, Aureliano Lessa e outros<br \/>\njovens poetas e escritores. Segundo a tradi\u00e7\u00e3o constante, ele,<br \/>\ncomo ali\u00e1s tant\u00edssimos outros dos nossos doutores, tudo fez<br \/>\nmenos estudar. Depois de formado, foi sucessivamente magistrado em Goi\u00e1s,<br \/>\nprofessor de Ret\u00f3rica e Filosofia na sua terra e jornalista no Rio<br \/>\nde Janeiro. Fixando-se mais tarde na sua Prov\u00edncia, a\u00ed exerceu<br \/>\nquase toda a sua atividade liter\u00e1ria, que n\u00e3o foi pequena. Como<br \/>\nprosador, Bernardo Guimar\u00e3es come\u00e7ou, ao que parece, pela cr\u00edtica,<br \/>\nfeita em jornais em que escrevia no Rio. N\u00e3o sabemos o que vale a sua<br \/>\ncr\u00edtica. Como ele n\u00e3o perseverou nela e n\u00e3o deixasse<br \/>\ncomo cr\u00edtico obra por que o avaliemos, pouco nos importa sab\u00ea-lo,<br \/>\nrebuscando jornais velhos.<\/p>\n<p>Muito mais que Alencar e acaso mais at\u00e9 que Macedo, Bernardo Guimar\u00e3es,<br \/>\ncomo romancista \u00e9 um espont\u00e2neo, sem alguma preven\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria, prop\u00f3sito est\u00e9tico ou filia\u00e7\u00e3o<br \/>\nconsciente a nenhuma escola. \u00c9 um contador de hist\u00f3rias no sentido<br \/>\npopular da express\u00e3o, sem a ingenuidade, \u00e0s vezes excelente,<br \/>\ndestes, porque em suma \u00e9 um letrado, e as suas letras lhe viciam a<br \/>\nnaturalidade. Se o seu primeiro romance, O ermit\u00e3o do Muquem, \u00e9<br \/>\num &#8220;romance brasileiro&#8221;, segundo a classifica\u00e7\u00e3o costumeira,<br \/>\ncom grandes laivos indianistas, \u00e9 porque essa era a corrente do momento<br \/>\ne tamb\u00e9m porque se lhe deparou, quando nos sert\u00f5es goianos,<br \/>\num tema sobre muito pr\u00f3prio para impressionar a imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nextremamente favor\u00e1vel \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o romanesca,<br \/>\nconsoante o conceito e gosto dela aqui vigentes. As datas da primeira publica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Guarani em jornal e depois em livro, e da edi\u00e7\u00e3o do Ermit\u00e3o,<br \/>\nautorizam a admitir a influ\u00eancia daquele na inten\u00e7\u00e3o deste.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nele, entretanto, influ\u00eancia formal do romance<br \/>\nde Alencar, nem dos seus processos, tirante a excessiva sentimentalidade e<br \/>\no desmarcado romanesco, em suma a idealiza\u00e7\u00e3o descomedida, que<br \/>\nera o achaque do tempo. Qualquer que seja a qualidade do engenho de Bernardo<br \/>\nGuimar\u00e3es, e como poeta ele \u00e9 dos bons que tivemos \u2014 a<br \/>\nverdade \u00e9 que, sem literariamente ser o que chamamos um esp\u00edrito<br \/>\noriginal, n\u00e3o \u00e9 um esp\u00edrito imitativo e subordinado.<br \/>\nComo poeta, n\u00e3o obstante ter vivido no foco da rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nultra-rom\u00e2ntica e na intimidade espiritual do seu principal corifeu,<br \/>\nele conserva a sua individualidade distinta por fei\u00e7\u00f5es que<br \/>\ncontrastam com as dos companheiros de gera\u00e7\u00e3o; emo\u00e7\u00e3o<br \/>\ne express\u00e3o mais s\u00f3brias, sentimentalidade menos exuberante,<br \/>\nalma e veia menos triste e ainda jovial, apenas algum alarde do ceticismo<br \/>\nou desespera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os seus romances e novelas s\u00e3o todos natural e correntemente contados<br \/>\nsem preocupa\u00e7\u00e3o ou trabalho de escrita, mas tamb\u00e9m sem<br \/>\na peregrina virtude de a conseguir bela, independentemente deste esfor\u00e7o.<br \/>\nNele, como em Macedo e no geral dos nossos rom\u00e2nticos, a espontaneidade<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 a liter\u00e1ria, e menos a que, sem grande trabalho,<br \/>\nd\u00e1 com a forma justa. Ainda menos \u00e9 a que, ainda com trabalho,<br \/>\n\u00e0s vezes grande, logra, o que \u00e9 o sumo da arte, iludir-nos dando-nos<br \/>\na impress\u00e3o da facilidade. Bernardo Guimar\u00e3es escreveu mal,<br \/>\nquero dizer sem apuro de composi\u00e7\u00e3o, nem beleza de estilo. O<br \/>\nseu \u00e9 o de todo o mundo que n\u00e3o cuida do que escreve, a sua<br \/>\nl\u00edngua \u00e9 pobre, a sua adjetiva\u00e7\u00e3o corriqueira,<br \/>\no seu pensamento trivial. S\u00e3o os defeitos de Macedo e ainda mais de<br \/>\nTeixeira e Sousa, mas no escritor mineiro mais sens\u00edveis por virem<br \/>\ndepois destes e quando a literatura nacional j\u00e1 tinha trinta anos de<br \/>\nexist\u00eancia e de produ\u00e7\u00e3o nunca descontinuada. Com uma<br \/>\njusta intui\u00e7\u00e3o das exig\u00eancias da composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria, faltou aos nossos rom\u00e2nticos uma cr\u00edtica que<br \/>\nos esclarecesse delas. A que aqui se come\u00e7ou ent\u00e3o a fazer,<br \/>\nprovinha em linha reta da que tinha em Portugal por \u00f3rg\u00e3os principais<br \/>\nas Academias e Arc\u00e1dias e os censores oficiais, uma cr\u00edtica<br \/>\nde hiperb\u00f3licos enc\u00f4mios, de campanudos elogios, em que os ju\u00edzos<br \/>\ntomavam por via de regra a forma de equipara\u00e7\u00f5es disparatadas<br \/>\ncom os autores c\u00e9lebres ou de assimila\u00e7\u00f5es antonom\u00e1sticas<br \/>\nn\u00e3o menos estapaf\u00fardias. A cr\u00edtica ali, ali\u00e1s,<br \/>\noscilou sempre entre o paneg\u00edrico e o vitup\u00e9rio, a louvaminha<br \/>\ne a diatribe. Com a mesma \u00edndole passou ao Brasil, e os que a fizeram<br \/>\naqui, nos nossos primeiros jornais e revistas, como o Patriota, a Minerva,<br \/>\no Guanabara, Niter\u00f3i, movidos do sentimento presumido patri\u00f3tico<br \/>\nde encarecer os nossos valores intelectuais, ainda lhe exageram aquela tend\u00eancia<br \/>\nat\u00e1vica. A cr\u00ea-los, esses nossos come\u00e7os de literatura<br \/>\nnacional seriam um acervo de obras-primas. N\u00e3o fora essa cr\u00edtica<br \/>\nlouvaminheira e puerilmente patri\u00f3tica que teve Macedo por um g\u00eanio<br \/>\nliter\u00e1rio e cada uma das suas defeituosas produ\u00e7\u00f5es por<br \/>\num primor, os seus seguidores e disc\u00edpulos e ele pr\u00f3prio, que<br \/>\nviveu mais que bastante para emendar-se, teriam necessariamente nos sa\u00eddo<br \/>\nmais perfeitos. Essa cr\u00edtica continuou para Bernardo Guimar\u00e3es,<br \/>\nhavido no seu tempo (e ainda hoje pela opini\u00e3o bairrista) por um grande<br \/>\nromancista e escritor. O p\u00fablico parece ali\u00e1s n\u00e3o lhe<br \/>\nter endossado o conceito, pois o Ermit\u00e3o, publicado em 1859, n\u00e3o<br \/>\nteve at\u00e9 agora mais que essa edi\u00e7\u00e3o. E os seus outros<br \/>\nromances n\u00e3o passaram igualmente da primeira, ao inv\u00e9s das suas<br \/>\npoesias, que j\u00e1 atingiram a quarta, o que prova que o p\u00fablico<br \/>\n\u00e9 mais inteligente do que se nos afigura. \u00c9 esta a li\u00e7\u00e3o<br \/>\nda nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria, que a cr\u00edtica indiscretamente<br \/>\nanimadora n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 in\u00fatil, mas prejudicial. Apenas<br \/>\nserve para produzir frutos pecos, desencaminhando atividades porventura melhor<br \/>\nempregadas fora da literatura ou acoro\u00e7oando vaidades que se tomam<br \/>\npor voca\u00e7\u00f5es. Sem embargo deste ensino, continua a ser este<br \/>\no conceito da cr\u00edtica aqui, quando n\u00e3o \u00e9 a diatribe ou<br \/>\na simples arrog\u00e2ncia de indigesta erudi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na rom\u00e2ntica brasileira, Teixeira e Sousa havia criado o g\u00eanero,<br \/>\niniciado o romance de costumes populares rurais ou urbanos, Macedo o continuara,<br \/>\nmas romanceando principalmente a vida burguesa da capital, Manoel de Almeida<br \/>\nensaiara-se apenas, mas com engenho superior ao destes, no romance da vida<br \/>\ncarioca de um quarto de s\u00e9culo antes, segundo o conceito tradicional,<br \/>\ncom evidente propens\u00e3o e clara intelig\u00eancia para a an\u00e1lise<br \/>\ndos caracteres e sentimentos. Alencar, depois de se haver ensaiado na novela<br \/>\nromanesca da vida social, iniciara o romance do &#8220;per\u00edodo da conquista&#8221;<br \/>\nda &#8220;luta em que a ra\u00e7a invasora destr\u00f3i a ra\u00e7a ind\u00edgena&#8221;<br \/>\ncom o manifesto prop\u00f3sito de reabilitar o \u00edndio da m\u00e1<br \/>\nfama que lhe fizeram os cronistas, o que s\u00f3 idealizando-o extravagantemente<br \/>\npodia conseguir.125 Este prop\u00f3sito era ali\u00e1s o mesmo de Magalh\u00e3es,<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias de outros indianistas, e o que de alguma sorte o<br \/>\nlegitimava \u00e9 que a na\u00e7\u00e3o inteira o adotou.<\/p>\n<p>Bernardo Guimar\u00e3es \u00e9 o criador do romance sertanejo e regional,<br \/>\nsob o seu puro aspecto brasileiro. O meio cujo era, determinou esta tend\u00eancia<br \/>\nda sua rom\u00e2ntica. Mas ao contr\u00e1rio do que se devia esperar de<br \/>\nescritor t\u00e3o familiar com o ambiente que lhe fornecia os temas, n\u00e3o<br \/>\nse lhe apura nas obras a imagem exata, seja na sua representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nobjetiva, seja na sua idealiza\u00e7\u00e3o subjetiva. Em toda a obra<br \/>\nrom\u00e2ntica de Bernardo Guimar\u00e3es ser\u00e1 dif\u00edcil escolher<br \/>\numa p\u00e1gina que possamos citar como pintura ou express\u00e3o exemplar<br \/>\ndo meio sertanejo. Teve ele ambi\u00e7\u00f5es mais altas que esta pintura<br \/>\nde g\u00eanero, ensaiou-se tamb\u00e9m no romance hist\u00f3rico e no<br \/>\nde inten\u00e7\u00f5es sociais, com o Seminarista, onde versou o caso<br \/>\ncelibato clerical, com a Escrava Isaura, em que dramatiza cenas da escravid\u00e3o,<br \/>\ncom Maur\u00edcio, em que tenta ressuscitar uma \u00e9poca hist\u00f3rica<br \/>\nda vida colonial da sua prov\u00edncia. Infelizmente os mesmos defeitos<br \/>\nque lhe viciam os romances sertanejos lhe maculam estes, acrescidos da pobreza<br \/>\ndo seu pensamento e acaso maior insufici\u00eancia da sua express\u00e3o.<\/p>\n<p>125Como e Porque Sou Romancista, 44 e seg.<\/p>\n<h4><a name=\"13\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XIII<\/h4>\n<p><strong>A SEGUNDA GERA\u00c7\u00c3O ROM\u00c2NTICA. OS POETAS<\/strong><\/p>\n<p>AS \u00daLTIMAS MANIFESTA\u00c7\u00d5ES do Romantismo com os rasgos<br \/>\nque deram ao nosso a sua fei\u00e7\u00e3o particular, nomeadamente o indianismo,<br \/>\na inspira\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica e o prop\u00f3sito nacionalista,<br \/>\no espiritualismo filos\u00f3fico, o sentimentalismo, a religiosidade e a<br \/>\ninten\u00e7\u00e3o moralizante, alcan\u00e7am at\u00e9 meados dos<br \/>\nanos de 60, com a publica\u00e7\u00e3o do Colombo, de Porto Alegre, em<br \/>\n1864. Ainda em antes do seu esgotamento como forma liter\u00e1ria, surge<br \/>\numa nova gera\u00e7\u00e3o de poetas e prosadores, na qual se contam alguns<br \/>\ndos nossos principais escritores. Simultaneamente com a primeira gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica, mas depois desta bem estreada, isto \u00e9, ap\u00f3s<br \/>\n1846, coexiste, como j\u00e1 relatamos, o grupo maranhense que por Gon\u00e7alves<br \/>\nDias, a sua mais eminente individualidade, se liga ao grupo formado no Rio<br \/>\nde Janeiro por aquela gera\u00e7\u00e3o. Gon\u00e7alves Dias estabelece<br \/>\ntamb\u00e9m a transi\u00e7\u00e3o entre essa e a seguinte. Esta apenas<br \/>\nmui parcialmente lhe acompanhar\u00e1 a inspira\u00e7\u00e3o indianista.<br \/>\nSofrer\u00e1, por\u00e9m, a influ\u00eancia da sua po\u00e9tica e ainda<br \/>\ndo seu sentimento po\u00e9tico.<\/p>\n<p>Desde 1853, com as Obras Po\u00e9ticas de \u00c1lvares de Azevedo, seguidas<br \/>\ndas Trovas de Laurindo Rabelo (1854), das Inspira\u00e7\u00f5es do Claustro<br \/>\nde Junqueira Freire 91855), das Primaveras de Casimiro de Abreu (1859), revela-se<br \/>\numa nova prog\u00eanie de poetas. Juntam-se-lhe os prosadores, alguns tamb\u00e9m<br \/>\npoetas, Jos\u00e9 de Alencar, que estr\u00e9ia em 1857; Macedo, que vinha<br \/>\nda primeira, mas como romancista ocupa nesta um grande lugar e como escritor<br \/>\ndram\u00e1tico quase totalmente lhe pertence; Manoel de Almeida, porventura<br \/>\na mais promissora e infelizmente malograda esperan\u00e7a da novel\u00edstica<br \/>\nbrasileira; Bernardo Guimar\u00e3es, Agr\u00e1rio de Meneses se menores<br \/>\nou menos importantes.<\/p>\n<p>Como ep\u00edgonos da primeira gera\u00e7\u00e3o de iniciadores, continuam-lhe<br \/>\na tradi\u00e7\u00e3o e o labor, influ\u00eddos ou n\u00e3o por novas<br \/>\nid\u00e9ias e conceitos liter\u00e1rios, Pereira da Silva, Varnhagen,<br \/>\nMacedo, Norberto Silva, al\u00e9m de outros somenos, contempor\u00e2neos<br \/>\ne companheiros seus.<\/p>\n<p>Principalmente distingue esta gera\u00e7\u00e3o da precedente a sua maior<br \/>\nliberdade espiritual, e conseq\u00fcente mais largo conceito est\u00e9tico,<br \/>\nquer no seu pensamento geral, quer na sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0<br \/>\nliteratura. Aquele n\u00e3o \u00e9 mais o estreme idealismo cat\u00f3lico<br \/>\ndos primeiros rom\u00e2nticos. Ressente-se ao contr\u00e1rio o seu do influxo<br \/>\ndo ceticismo liter\u00e1rio, do &#8220;satanismo&#8221;, para falar com De<br \/>\nMaistre, de Byroin, Musset e outros rom\u00e2nticos europeus de fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nmenos religiosa que a do primeiro movimento na Europa e aqui. O Brasil tamb\u00e9m<br \/>\nprogredira pol\u00edtica, econ\u00f4mica e mentalmente. Ao cabo da primeira<br \/>\nmetade do s\u00e9culo, asseguradas da independ\u00eancia, a monarquia e<br \/>\na ordem, n\u00e3o havia mais motivo e lugar para os ardores patri\u00f3ticos<br \/>\ne as paix\u00f5es nacionalistas de antes. Na gera\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\nque surge por esta \u00e9poca, e que ser\u00e1 talvez a mais brilhante<br \/>\nde toda a nossa literatura, entra a desvanecer-se a miragem do indianismo,<br \/>\nque justamente por esse tempo Jo\u00e3o Lisboa, no seu Jornal de Timon,<br \/>\nmetia pela primeira vez \u00e0 bulha. Apesar do grande exemplo e dur\u00e1vel<br \/>\nsucesso de Gon\u00e7alves Dias, e da Confedera\u00e7\u00e3o do Tamoios,<br \/>\nde Magalh\u00e3es, publicada em 1856, nenhum poeta caiu mais nesse engano,<br \/>\nao menos com a convic\u00e7\u00e3o ou sentimento dos seus criadores na<br \/>\nnossa literatura. Restaurou-o, ou melhor instaurou-o, no romance Jos\u00e9<br \/>\nde Alencar, publicando, um ano depois dos Tamoios e no mesmo dos Timbiras,<br \/>\no Guarani.<\/p>\n<p>O pensamento de uma literatura brasileira, que fora expressamente o de Magalh\u00e3es<br \/>\ne seus companheiros, que a obra de Gon\u00e7alves Dias principalmente avigorara,<br \/>\no reassumira Jos\u00e9 de Alencar com mais clara consci\u00eancia e mais<br \/>\nfirme prop\u00f3sito de o executar. Pensou servi-lo criando o romance da<br \/>\nvida ind\u00edgena selvagem ou misturada com a vida civilizada dos colonizadores,<br \/>\ncomo no Guarani, ou pura ou quase pura na Iracema e depois, serodiamente,<br \/>\nno Ubirajara. Mas n\u00e3o obstante o real talento de escritor que neste<br \/>\nprop\u00f3sito p\u00f4s, e daquelas duas primeiras obras de m\u00e9rito<br \/>\nverdadeiro com que procurou realiz\u00e1-lo, ele lhe ficou infecundo. N\u00e3o<br \/>\nconseguiu empecer a decad\u00eancia do indianismo, nem assentar definitivamente<br \/>\no senso nacionalista da literatura brasileira, como o quisera. N\u00e3o<br \/>\nficou, entretanto, de todo sem repercuss\u00e3o ou influ\u00eancia. Os<br \/>\npr\u00f3prios portugueses Mendes Leal e Pinheiro Chagas se meteram a fazer<br \/>\ncom O calabar (1863), Os bandeirantes (1867), A virgem guaraciaba (1868),<br \/>\nliteratura nacionalista brasileira. O est\u00edmulo puramente industrial<br \/>\ndessas obras insinua-lhes claramente o malogro. Os jovens poetas que desde<br \/>\n1850, ainda em antes de publicados em livros, vinham versejando, n\u00e3o<br \/>\ncuram mais de \u00edndios nem do que lhes concerne. N\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nsequer patriotas no sentido em que o foram Magalh\u00e3es e os do seu grupo.<br \/>\nNem os preocupa ao menos a forma\u00e7\u00e3o de uma literatura nacional.<br \/>\nO seu brasileirismo de todo estreme dos preconceitos nacionalistas, vem-lhe<br \/>\nmais do \u00edntimo e \u00e9 em suma mais racional. S\u00e3o mais subjetivos,<br \/>\nmais pessoais, mais ocupados de si, dos seus amores, das suas paix\u00f5es,<br \/>\ndos seus sofrimentos e dissabores, que de literatura ou de pol\u00edtica.<br \/>\n\u00c9 menor neles do que fora nos seus antecessores a influ\u00eancia<br \/>\nde Chateaubriand, avoengo do nosso segundo indianismo. Pratica-o tamb\u00e9m<br \/>\npela mesma \u00e9poca um outro romancista, Bernardo Guimar\u00e3es, mas<br \/>\npratica-o antes por imita\u00e7\u00e3o, sem a espontaneidade e menos o<br \/>\ntalento de Alencar. E sendo melhor poeta que romancista e tendo poetado copiosamente,<br \/>\njamais poetou do \u00edndio.<\/p>\n<p>Os poetas da segunda gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica possu\u00edram<br \/>\nem grau not\u00e1vel a primeira virtude de quem nos quer comover, a sinceridade.<br \/>\nCircunst\u00e2ncias fortuitas de sua vida fizeram com que todos eles de fato<br \/>\nvivessem a sua poesia ou sentissem realmente o que com ela exprimiram. Talvez<br \/>\npor isso n\u00e3o s\u00e3o artistas mas poetas, com o m\u00ednimo de<br \/>\nartif\u00edcio e o m\u00e1ximo de emo\u00e7\u00e3o, em mais de um<br \/>\ndeles ing\u00eanua, conforme conv\u00e9m \u00e0 boa arte. O que se lhes<br \/>\npode descobrir de nacional, o seu brasileirismo mais \u00edntimo que de<br \/>\nmostra, como o era o dos da gera\u00e7\u00e3o anterior, \u00e9 j\u00e1<br \/>\na revela\u00e7\u00e3o da nossa alma do povo diferente, como se ela viera<br \/>\nformando e afei\u00e7oando em tr\u00eas s\u00e9culos de vida hist\u00f3rica<br \/>\ne em trinta anos de exist\u00eancia aut\u00f4noma, a express\u00e3o inconsciente<br \/>\ndo seu sentir ou do seu pensar, indefinidos sim, mas j\u00e1 inconfund\u00edveis.<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o brasileiros porque cantem o bronco silv\u00edcola<br \/>\ndestas terras, ou porque celebram-nas a estas. N\u00e3o rebuscam temas,<br \/>\nnem for\u00e7am a inspira\u00e7\u00e3o ao feitio ind\u00edgena. Com<br \/>\nexce\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alves Dias, que \u00e9 mais da primeira<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o que desta, nenhum destes poetas \u00e9, ainda parcialmente,<br \/>\nindianista, ou tem sequer o prop\u00f3sito nacionalista. Protraem-se estas<br \/>\nfei\u00e7\u00f5es apenas nalgum mais med\u00edocre ou em um ou outro<br \/>\nprosador, cujo provincianismo sertanejo os sujeitava mais \u00e0 influ\u00eancia<br \/>\ndo ambiente nacional, onde mais vivazes eram ainda as tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nda terra brava e do seu primitivo habitador. Tais s\u00e3o Jos\u00e9 de<br \/>\nAlencar, que confessa a influ\u00eancia do sert\u00e3o brasileiro na germina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Guarani,126 e Bernardo Guimar\u00e3es, que diretamente dos nossos sert\u00f5es<br \/>\nmeio selvagens recebe mais que a inspira\u00e7\u00e3o os assuntos de suas<br \/>\nnovelas.<\/p>\n<p>Criados e educados j\u00e1 de todo fora da influ\u00eancia mental portuguesa,<br \/>\ns\u00e3o os escritores desta gera\u00e7\u00e3o menos portugueses de<br \/>\npensamento e express\u00e3o do que os da primeira. O seu brasileirismo,<br \/>\nmenos pol\u00edtico do que o destes, \u00e9 mais emotivo, mais de raiz,<br \/>\ne por isso mesmo, est\u00e1 mais nos seus defeitos e qualidades de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de estilo, que nas inferioridades da sua manifesta\u00e7\u00e3o. Conservando<br \/>\nmuito do sentimento po\u00e9tico portugu\u00eas, do senso da saudade e<br \/>\nda nostalgia, da melancolia amorosa que tanto o distingue, e que em Gon\u00e7alves<br \/>\nDias, embora ardente e voluptuosa, n\u00e3o atinge ainda a lux\u00faria,<br \/>\no lirismo destes poetas tem j\u00e1 desenganadamente o tom que separa o<br \/>\nlirismo brasileiro do portugu\u00eas. Nada o prova melhor que a compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ndestes poetas com os seus contempor\u00e2neos portugueses Jo\u00e3o de<br \/>\nLemos, Soares de Passos, Mendes Leal, Serpa Pimentel, aos quais pode afirmar-se<br \/>\nque ficaram de todo estranhos os nossos.<\/p>\n<p>Afora em alguns poetas da Renascen\u00e7a portuguesa como Cam\u00f5es,<br \/>\no lirismo portugu\u00eas n\u00e3o foi jamais casto, antes sempre mais luxurioso<br \/>\nque voluptuoso. O lirismo brasileiro, por\u00e9m, exagera e piora esta fei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesde a segunda gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica \u2014 o da primeira<br \/>\npecara mesmo por demasiado continente \u2014 entra a ser desenfreadamente<br \/>\ner\u00f3tico, como o de um povo onde o amor nasceu entre ra\u00e7as desiguais<br \/>\ne inimigas e portanto entre viol\u00eancias e brutezas de apetites e carnalidades,<br \/>\ne um povo onde a f\u00e1cil e franca mistura de uma gente europ\u00e9ia<br \/>\nem decad\u00eancia com ra\u00e7as inferiores e b\u00e1rbaras devia produzir<br \/>\num mesti\u00e7o excessivamente sensual, em todas as acep\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo termo. A influ\u00eancia particular portuguesa que acaso se descobre nesta<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o \u00e9 a de Garrett. Mas o tom popular que Garrett<br \/>\nrestitu\u00edra \u00e0 poesia portuguesa e que h\u00e1 na destes poetas,<br \/>\napenas porventura lhes rev\u00ea o \u00edntimo brasileirismo, feito sob<br \/>\na influ\u00eancia do meio ainda matuto, simples e desartificioso. Nessa influ\u00eancia<br \/>\nconcorreria a da poesia que andava tradicionalmente na boca das mucamas negras,<br \/>\ncrioulas, mamelucas e mulatas que haveriam sido as primeiras educadoras desses<br \/>\npoetas e suas iniciadoras sentimentais, como o foram de gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nde brasileiros.<\/p>\n<p>A riqueza relativa do seu estro, se o compararmos ao dos rom\u00e2nticos<br \/>\nda primeira hora, e ainda aos dos nossos poetas que imediatamente lhes sucederam,<br \/>\na naturalidade e viveza da sua express\u00e3o, al\u00e9m dos j\u00e1<br \/>\nnotados atributos de espontaneidade, sinceridade e candura, sempre raro na<br \/>\npoesia da nossa l\u00edngua, impuseram estes poetas, mais que \u00e0 admira\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 afei\u00e7\u00e3o dos seus patr\u00edcios. Efetivamente s\u00e3o<br \/>\nporventura os melhores que jamais teve o Brasil, e \u00e9 incontest\u00e1vel<br \/>\nque s\u00e3o ainda hoje os mais estimados da na\u00e7\u00e3o, os mais<br \/>\nrepetidamente publicados, os mais constantemente lidos. E a sua influ\u00eancia,<br \/>\nque foi grande, ainda n\u00e3o desapareceu. Queira-o ou n\u00e3o, mais<br \/>\nde um poeta atual e n\u00e3o dos somenos, \u00e9 disc\u00edpulo dos<br \/>\ndesta gera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o obstante o aumento da cultura, o presumido<br \/>\naperfei\u00e7oamento do gosto e o desenvolvimento exagerado do reclamo,<br \/>\nnenhum poeta nosso depois deles, com exce\u00e7\u00e3o talvez de Castro<br \/>\nAlves, que deles ali\u00e1s procede, teve um n\u00famero de reimpress\u00f5es<br \/>\nparciais ou totais e de leitores que estes tiveram.<\/p>\n<p>Com os poetas da segunda gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, nomeadamente<br \/>\ncom \u00c1lvares de Azevedo, entra um novo motivo na poesia brasileira,<br \/>\na morte. Cantores da terra, das damas, de magnates, de temas abstratos, da<br \/>\nnatureza, de indiv\u00edduos, do amor, da p\u00e1tria, de sentimentos<br \/>\npersonificados e at\u00e9 do sofrimento e da dor, nenhum cantara entretanto<br \/>\na morte, ou a morte, a despeito de ser um dos grandes temas l\u00edricos,<br \/>\nn\u00e3o fora para nenhum, est\u00edmulo de inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEstes poetas s\u00e3o todos tristes. A todos eles contagiou a melancolia<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias, o primeiro dos nossos poetas com quem andou a id\u00e9ia<br \/>\nda morte.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das heran\u00e7as ancestrais e das influ\u00eancias deprimentes<br \/>\ndo ambiente e de poetas estrangeiros nimiamente admirados e seguidos, contribuiu<br \/>\npara a sua tristeza e desalento a sua fraqueza f\u00edsica cong\u00eanita<br \/>\nou sobrevinda, atestada pela exist\u00eancia enfermi\u00e7a e morte prematura<br \/>\nde todos eles. O que mais velho morreu, Gon\u00e7alves Dias, tinha apenas<br \/>\nquarenta e um anos; dos outros nenhum alcan\u00e7ou os quarenta, e os mais<br \/>\ndeles nem aos trinta chegaram. \u00c1lvares de Azevedo finou-se aos vinte.<br \/>\n\u00c0 natureza d\u00e9bil e doentia destes poetas juntaram-se em todos<br \/>\neles circunst\u00e2ncias pessoais de desacordo com o seu ambiente dom\u00e9stico<br \/>\nou meio social que lhes agravaram o triste estado d\u2019alma para o qual<br \/>\nj\u00e1 os predispunha a sua astenia. Tamb\u00e9m passara a \u00e9poca<br \/>\ndos grandes entusiasmos e vastas esperan\u00e7as criada pelos sucessos conseq\u00fcentes<br \/>\n\u00e0 Independ\u00eancia e ao 7 de abril. A na\u00e7\u00e3o entrava<br \/>\nna sua exist\u00eancia sossegada e pouco estimulante de quaisquer energias.<\/p>\n<p>I \u2014 \u00c1LVARES DE AZEVEDO<\/p>\n<p>A Lira dos vinte anos e as Poesias diversas, que compunham o primeiro tomo<br \/>\ndas Obras po\u00e9ticas de \u00c1lvares de Azevedo, eram uma novidade<br \/>\nna poesia brasileira, quase igual ao que haviam sido os Suspiros po\u00e9ticos,<br \/>\nde Magalh\u00e3es, em 1836, e os Primeiros cantos, de Gon\u00e7alves Dias,<br \/>\nem 1846.<\/p>\n<p>Manoel Ant\u00f4nio \u00c1lvares de Azevedo nascera em S. Paulo em 1831.<br \/>\nA inf\u00e2ncia passou-lhe no Rio de Janeiro. De menino revelou grande intelig\u00eancia<br \/>\ne curiosidade mental, estudando e tanto e t\u00e3o bem que aos dezesseis<br \/>\nanos completara com aproveitamento e brilho o curso do Col\u00e9gio de Pedro<br \/>\nII e recebia a carta de bacharel em letras. Mais que ass\u00edduo leitor,<br \/>\nera um devorador de livros, ainda na idade em que a tal apetite n\u00e3o<br \/>\npode corresponder igual capacidade de assimila\u00e7\u00e3o. Em S. Paulo,<br \/>\npara onde passou a estudar Direito, distinguiu-se pelo talento com que acaso<br \/>\nsupria a aplica\u00e7\u00e3o e pelo seu precoce engenho po\u00e9tico.<br \/>\nA liberdade que lhe outorgava a vida de &#8220;acad\u00eamico&#8221;, numa<br \/>\npequena cidade escolar onde os estudantes tinham gra\u00e7as de estado de<br \/>\nque usavam e abusavam, a aus\u00eancia do constrangimento familiar e as mesmas<br \/>\nisen\u00e7\u00f5es que lhe conferia o renome de menino prod\u00edgio<br \/>\nque levara do Rio, influ\u00edram-no a viver a vida rom\u00e2ntica, realizando<br \/>\nas idealiza\u00e7\u00f5es dos poetas de que se achava saturado, Musset,<br \/>\nByron, Espronceda, George Sand, ou imitando a exist\u00eancia e vezos que<br \/>\nlhes atribu\u00eda a eles ou tinham as suas criaturas. E pela imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nao menos, come\u00e7ou a viver tal vida na qual, com as suas nativas inclina\u00e7\u00f5es,<br \/>\nentrou muita literatura. Como, por\u00e9m, o arremedo se lhe fundia perfeitamente<br \/>\ncom o temperamento e correspondia em suma aos seus mais \u00edntimos instintos<br \/>\npo\u00e9ticos, n\u00e3o resultou em disparate conforme com mais de um<br \/>\ntem acontecido. Da combina\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias tend\u00eancias<br \/>\ncom a imita\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, criou-se uma vida fact\u00edcia.<br \/>\nPresumiu transplantar para a mesquinha vida de S. Paulo de meados do s\u00e9culo<br \/>\npassado, costumes e pr\u00e1ticas do Romantismo europeu. Quis praticar as<br \/>\nfa\u00e7anhas sentimentais dos her\u00f3is de Musset e Byron. A candura<br \/>\ncom que o fez n\u00e3o s\u00f3 o salvou de um rid\u00edculo naufr\u00e1gio,<br \/>\nmas at\u00e9 o engrandeceu, criando-lhe a fei\u00e7\u00e3o que o distinguiria<br \/>\nna poesia brasileira e o faria um dos seus dominadores. Daquele seu teor da<br \/>\nvida rom\u00e2ntica, a express\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 a Noite<br \/>\nna taverna, composi\u00e7\u00e3o singular, extravagante, mas acaso na<br \/>\nmais vigorosa, colorida e nervosa prosa que aqui se escreveu nesse tempo.<\/p>\n<p>Mostrava-se \u00c1lvares de Azevedo poeta pessoal e subjetivo, como n\u00e3o<br \/>\nfora talvez nenhum dos nossos antes dele e raros o seriam depois. Impress\u00f5es<br \/>\nda natureza ou de arte n\u00e3o lograva nunca objetiv\u00e1-las. Transfundiam-se-lhe<br \/>\nnaturalmente em \u00edntimas sensa\u00e7\u00f5es, por via de regra dolorosas.<br \/>\n\u00c9, neste per\u00edodo, o primeiro que quase unicamente canta de amor,<br \/>\nque fica alheio \u00e0 natureza que o cerca ou \u00e0 na\u00e7\u00e3o<br \/>\na que pertence. S\u00f3 lhe interessa a mulher, &#8220;o eterno feminino&#8221;<br \/>\nde que foi talvez o primeiro a ter aqui o sentimento \u00e0 maneira goetiana,<br \/>\ne que o absorve e alucina. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil distinguir o que<br \/>\n\u00e9 nele inspira\u00e7\u00e3o e sensibilidade po\u00e9tica do que<br \/>\ns\u00e3o instintos e impulsos sensuais de mo\u00e7o brasileiro, superexcitado<br \/>\npela t\u00edsica que o minava. Eram raros nele os temas objetivos vulgares<br \/>\nem Magalh\u00e3es, Porto Alegre e Gon\u00e7alves Dias e menos os temas<br \/>\nret\u00f3ricos ou adequados \u00e0s amplifica\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas,<br \/>\nt\u00e3o ao gosto destes, inclusive o \u00faltimo. Quando casualmente<br \/>\nos tratava, ou incidentemente lhe acudiam, envolvia-os com o seu sentimentalismo<br \/>\nrom\u00e2ntico, preocupa\u00e7\u00f5es femininas ou amorosas, em imagens,<br \/>\npensamentos e sensa\u00e7\u00f5es. Malsinando dos pol\u00edticos traidores<br \/>\nde seus ideais e que tudo sotop\u00f5em aos seus baixos interesses, a imagem<br \/>\nde que se socorre \u00e9 ainda de poeta amoroso:<\/p>\n<p>Almas descridas de um sonhar primeiro<\/p>\n<p>Venderiam o beijo derradeiro<\/p>\n<p>Da virgem que os amou.<\/p>\n<p>Mesmo quando o desespero rom\u00e2ntico, a sua sensibilidade doentia o reverte<br \/>\n\u00e0s cren\u00e7as tradicionais como nos Hinos do profeta, declama\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica muito \u00e0 moda rom\u00e2ntica, se bem mais eloq\u00fcente<br \/>\nque similares de Magalh\u00e3es, ainda nesses momentos se lhes insinua na<br \/>\ninspira\u00e7\u00e3o o eterno feminino, um eterno feminino qual o podia<br \/>\nconceber um poeta brasileiro, jovem, sensual e ardoroso. Como ali\u00e1s<br \/>\nnenhum dos poetas da sua gera\u00e7\u00e3o, \u00c1lvares de Azevedo<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 um poeta descritivo, um paisagista, conforme mais ou menos<br \/>\nser\u00e3o quase todos os nossos depois dela. Quando, por\u00e9m, acerta<br \/>\nde ter uma inspira\u00e7\u00e3o da natureza, \u00e0 sua emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nmistura-se infalivelmente a mulher e o amor, reagindo sobre a materialidade<br \/>\nda impress\u00e3o e idealizando-a. Vejam Tarde de ver\u00e3o, Tarde de<br \/>\noutono, em que ao descritivo inculcado pelo t\u00edtulo se substituem puras<br \/>\nsensa\u00e7\u00f5es subjetivas.<\/p>\n<p>Segundo era j\u00e1 consuetudin\u00e1rio na nossa poesia, a sua terra<br \/>\ntamb\u00e9m lhe inspira um canto de amor em que n\u00e3o falta o confronto<br \/>\npreferencial com terras estrangeiras:<\/p>\n<p>No italiano c\u00e9u nem mais suaves<\/p>\n<p>S\u00e3o da noute os amores<\/p>\n<p>N\u00e3o tem mais fogo os c\u00e2nticos das aves<\/p>\n<p>Nem tem mais flores!<\/p>\n<p>Onde sentimos reminisc\u00eancias da Can\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio,<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias. Mas o que lhe aformoseia a terra natal e lha faz<br \/>\namada \u00e9 ainda a mulher querida que nela vive. Ao descante de sua terra<br \/>\nmistura os seus transportes amorosos.<\/p>\n<p>Aos homens doentes e desconsolados pela id\u00e9ia da morte, m\u00e1xime<br \/>\nse s\u00e3o poetas, acontece recolherem-se em si mesmos e viverem de uma<br \/>\nvida interior. \u00c1lvares de Azevedo, valetudin\u00e1rio precoce, foi<br \/>\nlevado a viver essa vida, apesar das alegrias da idade que lhe resumam em<br \/>\nmais de um poema faceto ou humor\u00edstico. Alegrias e tristezas chocam-se-lhe<br \/>\nna alma jovem, ardente e ambiciosa, produzindo a ironia por vezes amarga de<br \/>\nalguns dos seus poemas (O poema do Frade, Um cad\u00e1ver de poeta, Id\u00e9ias<br \/>\n\u00edntimas, Bo\u00eamios, Spleen e charutos) os gritos de descren\u00e7a<br \/>\ne desesperan\u00e7a desses e de outros e de prosas como a Noite na taverna.<br \/>\nDessa ironia \u00e9 ele o \u00fanico exemplar na nossa poesia, como seria<br \/>\no instituidor nela dessa desespera\u00e7\u00e3o e descren\u00e7a. De<br \/>\ntal estado d\u2019alma lhe veio, com o n\u00edmio subjetivismo, o sentimento<br \/>\nora acerbo, ora zombeteiro, da vida, e a car\u00eancia ou a pobreza de impress\u00f5es<br \/>\nda natureza ou da sociedade na sua poesia. Destas \u00faltimas apenas se<br \/>\nlhe achar\u00e1 um exemplo claro no \u00fanico poema objetivo que deixou,<br \/>\nPedro Ivo, ali\u00e1s um dos mais admir\u00e1veis da nossa poesia, dos<br \/>\nraros em que o motivo pol\u00edtico ou social da inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o sufoca ou amesquinha os elementos propriamente po\u00e9ticos,<br \/>\nantes lhes serve excelentemente \u00e0 express\u00e3o. \u00c9 que no<br \/>\npoema de \u00c1lvares de Azevedo predominou o mesmo objeto da sua inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\na sua \u00edntima emo\u00e7\u00e3o mais de poeta que de rep\u00fablico.<\/p>\n<p>Entre estes poetas foi \u00c1lvares de Azevedo um dos esp\u00edritos<br \/>\nliterariamente mais cultos. Conheceu as obras-primas das melhores literaturas<br \/>\nna sua l\u00edngua original, e tinha boa li\u00e7\u00e3o das letras-m\u00e3es<br \/>\nda nossa. Havia atilamento e bom gosto no seu esp\u00edrito cr\u00edtico,<br \/>\napenas iludido pelo seu entusiasmo juvenil. Conhecia e amava os portugueses,<br \/>\ne foi um dos que sofreu a influ\u00eancia de Garrett, a quem tinha alta e<br \/>\nmerecida estima. Do influxo do lirismo e da forma garretiana h\u00e1 talvez<br \/>\nsinais em seus poemas Ai Jesus!, o poeta, amor e poucos mais. \u00c9 por\u00e9m<br \/>\numa influ\u00eancia toda lateral, digamos assim, em que o poeta brasileiro,<br \/>\nainda sofrendo-a, conserva a sua personalidade. Nem ela obrou ent\u00e3o<br \/>\naqui com a mesma generalidade ou for\u00e7a, com que atuava a literatura<br \/>\nportuguesa antes do Romantismo.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia da morte \u00e9 uma obsess\u00e3o em \u00c1lvares de<br \/>\nAzevedo. Direta ou indiretamente, intencional ou inconscientemente, aparece<br \/>\nou insinua-se-lhe nos versos como a que, com a do amor, lhe \u00e9 mais<br \/>\nfamiliar. Lembran\u00e7as de morrer, um dos seus mais belos poemas, como<br \/>\nSe eu morresse amanh\u00e3, de igual sentimento e beleza, n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nmais que manifesta\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas da \u00edntima ang\u00fastia<br \/>\nde sua alma de que, como verdadeiro poeta, ele fez deliciosas can\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE apenas haver\u00e1 algumas das suas que a n\u00e3o reveja.<\/p>\n<p>II \u2014 LAURINDO RABELO<\/p>\n<p>Laurindo Jos\u00e9 da Silva Rabelo, fluminense ou antes carioca, viveu<br \/>\nde 8 de junho de 1826 a 28 de setembro de 1864. Menos a educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a cultura, que, n\u00e3o obstante a sua formatura em Medicina, parece<br \/>\nn\u00e3o terem sido apuradas, havia nele fei\u00e7\u00f5es de \u00c1lvares<br \/>\nde Azevedo. Foi igualmente, talvez desde a puberdade, doente e fraco. De origem<br \/>\ne condi\u00e7\u00e3o humilde, mulato de ra\u00e7a, a consci\u00eancia<br \/>\nda sua situa\u00e7\u00e3o, sem a for\u00e7a de car\u00e1ter necess\u00e1ria<br \/>\npara a contrastar, amargurou-lhe desde cedo a exist\u00eancia que levou \u00e0<br \/>\nbo\u00eamia, obrigado da necessidade, se n\u00e3o tamb\u00e9m pelo natural<br \/>\nrelaxamento a angariar amizades e prote\u00e7\u00f5es da benevol\u00eancia<br \/>\nsocial, ornando e animando partidas e festas com o seu estro e as suas fac\u00e9cias,<br \/>\nimprovisos, glosas, poesias recitadas ou cantadas \u00e0 viola, como um<br \/>\naedo ou trovador primitivo, e mais os ditos que se lhe atribuem. Foi, como<br \/>\nnenhum outro, o poeta popular, mais conhecido em seu tempo pela alcunha de<br \/>\nPoeta lagartixa, tirada de seu corpo escanifrado, que pelo seu nome. N\u00e3o<br \/>\no ro\u00e7ou a descren\u00e7a rom\u00e2ntica, como a \u00c1lvares de<br \/>\nAzevedo e a Junqueira Freire. N\u00e3o lhe fugiu, ou sequer se lhe desvaneceu<br \/>\nnotavelmente a ing\u00eanua cren\u00e7a dom\u00e9stica, conservada, como<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o comum, por h\u00e1bito, e nele, poeta de nascen\u00e7a,<br \/>\npor necessidade sentimental. A desventura, o sofrimento, aumentou-lhe, por\u00e9m,<br \/>\na tristeza dos da sua gera\u00e7\u00e3o e exacerbou-lhe a sensibilidade,<br \/>\ne como \u00e0queles criou-lhe a ang\u00fastia da morte, que atormentava<br \/>\no poeta da Lira dos vinte anos, afligia a Junqueira Freire, a Casimiro de<br \/>\nAbreu e a outros da mesma fam\u00edlia liter\u00e1ria. Do Rio Grande do<br \/>\nSul, aonde o levara o seu emprego de m\u00e9dico do ex\u00e9rcito, escrevia<br \/>\nnos formosos tercetos endere\u00e7ados ao seu amigo Paula Brito, o bondoso<br \/>\ne ing\u00eanuo mecenas, t\u00e3o mesquinho como os poetas que patrocinava:<\/p>\n<p>Tenho n\u2019alma um cruel pressentimento<\/p>\n<p>(Talvez n\u00e3o mui remota profecia<\/p>\n<p>Que n\u00e3o posso apagar do pensamento!)<\/p>\n<p>Espero cedo o meu extremo dia<\/p>\n<p>E a morte, da p\u00e1tria t\u00e3o distante,<\/p>\n<p>\u00c9 quadro que me abate de agonia!<\/p>\n<p>Das humilha\u00e7\u00f5es que ao seu talento e brio impunha a sua mofina<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o, defendia-se com o orgulho com que se lhe fingia indiferente,<br \/>\nmas que \u00e0s vezes lhe irrompiam ou em gestos desabridos ou em gritos<br \/>\npo\u00e9ticos verdadeiramente dolorosos e comoventes, porque vindos d\u2019alma.<br \/>\nTais s\u00e3o: Meu segredo, Minha vida, A linguagem dos tristes, N\u00e3o<br \/>\nposso mais, \u00daltimo canto do cisne:<\/p>\n<p>Eu me finjo ante v\u00f3s, porque venero<\/p>\n<p>O sublime das l\u00e1grimas; conhe\u00e7o-as<\/p>\n<p>S\u00e3o modestas vestais, vivem no ermo<\/p>\n<p>Aborrecem festins&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>Bem fechadas no claustro de meus olhos<\/p>\n<p>Dentro em meu cora\u00e7\u00e3o hei de cont\u00ea-las<\/p>\n<p>Guard\u00e1-las bem de v\u00f3s, contentes, hei de<\/p>\n<p>Porque a dor me n\u00e3o traia neste empenho<\/p>\n<p>Zelosa e vigilante sentinela<\/p>\n<p>Em meus l\u00e1bios trazer constante um riso.<\/p>\n<p>Pungia-o esse t\u00e3o comum mal secreto, de que um dos nossos poetas devia,<br \/>\nduas gera\u00e7\u00f5es depois, dizer num soneto modelar. Serviu-lhe grandemente<br \/>\no estro esse mal. Na sua desgra\u00e7a, de que a sua \u00edndole de bo\u00eamio<br \/>\ne a sua doentia sensibilidade de poeta fizera um real sofrimento, achou motivos<br \/>\nde inspira\u00e7\u00e3o cuja sinceridade se traduz numa forma comovida<br \/>\ne tocante, se n\u00e3o excelente. Esta mesma lucrou da sua exist\u00eancia<br \/>\nde poeta popular a simplicidade do sentimento e a singeleza da express\u00e3o<br \/>\nque lhe d\u00e3o \u00e0 poesia um cunho particular e n\u00e3o raro delicioso.<br \/>\nO t\u00edtulo de Trovas que lhe p\u00f4s calha admiravelmente aos seus<br \/>\npoemas em que a espontaneidade da inspira\u00e7\u00e3o e a ingenuidade<br \/>\ndo sentimento se n\u00e3o embara\u00e7am de dificuldades e caprichos de<br \/>\nexpress\u00e3o. Laurindo Rabelo \u00e9 um poeta no sentido profundo que<br \/>\no povo d\u00e1 a este nome. Tamb\u00e9m nenhum outro dos nossos teve a<br \/>\nalma t\u00e3o perto do povo.<\/p>\n<p>III \u2014 JUNQUEIRA FREIRE<\/p>\n<p>Lu\u00eds Jos\u00e9 Junqueira Freire nasceu na Bahia em 1832 e ali mesmo<br \/>\nfaleceu, sem nunca ter sa\u00eddo da terra natal, em 1855. Os seus estudos<br \/>\nexclusivamente liter\u00e1rios, fizera-os com pouco sistema nas aulas prim\u00e1rias<br \/>\ne avulsas secund\u00e1rias da sua terra e em seguida no Liceu Provincial.<br \/>\nCompletou-os ou os aperfei\u00e7oou depois com a leitura copiosa e variada,<br \/>\nprincipalmente dos poetas latinos e modernos. As suas tentativas cr\u00edticas<br \/>\nn\u00e3o lhe desmerecem essa capacidade e s\u00e3o escritas numa l\u00edngua<br \/>\nem que porventura havia um bom embri\u00e3o de prosador.<\/p>\n<p>Uma tempor\u00e3 paix\u00e3o amorosa mal-aventurada levou Junqueira Freire,<br \/>\npor desespero rom\u00e2ntico, a fazer-se frade. N\u00e3o tinha nenhuma<br \/>\nvoca\u00e7\u00e3o ou sequer vivo sentimento religioso. Ao rev\u00e9s,<br \/>\ndos fragmentos autobiogr\u00e1ficos dele restantes verifica-se que era antes<br \/>\num esp\u00edrito cr\u00edtico, j\u00e1 meio desabusado, que metia \u00e0<br \/>\nbulha devo\u00e7\u00f5es e crendices acatadas pela Igreja. Ao desespero<br \/>\namoroso a que a vida mon\u00e1stica n\u00e3o dera rem\u00e9dio, ajuntou-se<br \/>\nlhe logo o desespero da vida, para a qual n\u00e3o nascera, e com ele a<br \/>\nrevolta contra o seu estado de frade e at\u00e9 contra o estado mon\u00e1stico<br \/>\nem geral. Foram os dois sentimentos conjugados que o fizeram poeta e lhe deram<br \/>\na originalidade de ser na nossa literatura, sen\u00e3o tamb\u00e9m em<br \/>\ntoda a poesia da nossa l\u00edngua, o \u00fanico francamente rebelde a<br \/>\numa das fei\u00e7\u00f5es mais particulares do catolicismo, e que de o<br \/>\nser tirou inspira\u00e7\u00e3o. Ao livro de seus primeiros poemas publicados<br \/>\nna Bahia em 1855, pouco antes de sua morte, chamou de Inspira\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo claustro. O t\u00edtulo \u00e9 impr\u00f3prio, pois faz erroneamente<br \/>\nsupor que lhos inspirou a religi\u00e3o do claustro, quando motivaram-nos<br \/>\no desespero e a revolta contra ele. Sob a estamenha do monge continuou a palpitar<br \/>\no seu cora\u00e7\u00e3o enamorado, e no claustro mesmo o seu amor, numa<br \/>\nard\u00eancia de desejos insatisfeitos e agora irrealiz\u00e1veis sem crime,<br \/>\nirrompia em poemas que, no seu estado, frisavam ao sacril\u00e9gio. Dessa<br \/>\ncole\u00e7\u00e3o justamente os poemas mais fracos s\u00e3o os de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\npresumida de religiosa, O ap\u00f3stolo entre as gentes, A flor murcha do<br \/>\naltar, O incenso do altar, Os claustros e quejandos, em que id\u00e9ia,<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o, estilo s\u00e3o de lament\u00e1vel frouxid\u00e3o.<br \/>\nA todos falta a un\u00e7\u00e3o que s\u00f3 d\u00e1 menos uma f\u00e9<br \/>\nconfessada que um \u00edntimo sentimento religioso. Nenhum parece vindo<br \/>\nt\u00e3o do fundo d\u2019alma como as suas impreca\u00e7\u00f5es de<br \/>\nfrade desiludido ou os seus lamentos de amoroso desesperado. A mesma observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncabe aos seus poemas intencionalmente brasileiros. Destes poetas \u00e9<br \/>\nJunqueira Freire o \u00fanico a ainda sacrificar ao indianismo e a prop\u00f3sitos<br \/>\npatri\u00f3ticos, embora escassamente e sem convic\u00e7\u00e3o nem<br \/>\nentusiasmo. Ressentem-se destas falhas os seus poemas (O hino da cabocla,<br \/>\nDertinoa) dessa inspira\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o em tudo e por tudo<br \/>\nbem longe do modelo evidentemente mirado, Gon\u00e7alves Dias, com quem<br \/>\nJunqueira Freire teve rela\u00e7\u00f5es pessoais e a quem dedicou um<br \/>\ndos seus poemas. N\u00e3o aprendeu, ali\u00e1s, dele a ci\u00eancia do<br \/>\nverso branco, que ao seu falta harmonia e relevo. Os melhores versos de Junqueira<br \/>\nFreire s\u00e3o talvez os de contextura popular, sem preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde m\u00e9trica. Afetava demasiado o verso de onze s\u00edlabas, geralmente<br \/>\ndesagrad\u00e1vel pelo seu soar agalopado.<\/p>\n<p>Punge-o tamb\u00e9m a id\u00e9ia da morte, como era natural de uma alma<br \/>\nde raiz rom\u00e2ntica, afligida pelo \u00f3dio da sua profiss\u00e3o<br \/>\nmon\u00e1stica, pelo desespero de um mal-aventurado amor e ainda pela mis\u00e9ria<br \/>\nde um organismo doentio. Entrev\u00ea-se-lhe aquela id\u00e9ia em v\u00e1rios<br \/>\npassos dos seus poemas, e claramente e numa bela frase po\u00e9tica mostra-se<br \/>\nno intitulado Morte:<\/p>\n<p>Pensamento gentil de paz eterna<\/p>\n<p>Amiga morte, vem.<\/p>\n<p>Punge-o por\u00e9m, sem a express\u00e3o angustiosa de \u00c1lvares<br \/>\nde Azevedo ou Casimiro de Abreu, se n\u00e3o mais conformada e serena. Os<br \/>\nseus poemas caracter\u00edsticos, a manifesta\u00e7\u00f5es mais significativas<br \/>\ndo seu sentimento e estro e do seu feitio po\u00e9tico, s\u00e3o Meu filho<br \/>\nno claustro, A \u00f3rf\u00e3 na costura, Frei Bastos, A profiss\u00e3o<br \/>\nde Frei Ramos, A freira, Ela, Saudade, Desejo, Morte, Temor. Estes sobretudo<br \/>\nlhe d\u00e3o a fei\u00e7\u00e3o que o distingue no grupo da segunda<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica. Nenhum deles tem a perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nrelativa que se pode exigir de quem poetava em \u00e9poca em que se n\u00e3o<br \/>\nera t\u00e3o pontilhoso nas exig\u00eancias da forma po\u00e9tica, mas<br \/>\nreunidos desenham uma n\u00e3o vulgar fisionomia de poeta.<\/p>\n<p>IV \u2014 CASIMIRO DE ABREU<\/p>\n<p>Tem-na tamb\u00e9m pr\u00f3pria e not\u00e1vel Casimiro de Abreu. Poetando<br \/>\ndesde 1855, havendo mesmo publicado em Portugal desde 1856, na Ilustra\u00e7\u00e3o<br \/>\nLuso-Brasileira, alguns poemas, s\u00f3 em 1859 deu \u00e0 luz as suas<br \/>\nPrimaveras, porventura o mais lido dos nossos livros de versos.<\/p>\n<p>Casimiro Jos\u00e9 Marques de Abreu era natural da Barra de S\u00e3o<br \/>\nJo\u00e3o, na prov\u00edncia do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1837 e<br \/>\nmorreu em 1860. Seu pai, portugu\u00eas como o de Gon\u00e7alves Dias,<br \/>\ncomo esse o destinava ao com\u00e9rcio. Menos trat\u00e1vel, por\u00e9m,<br \/>\nque aquele, quis obrigar o filho a ficar numa profiss\u00e3o a que este<br \/>\nera de todo avesso.<\/p>\n<p>Dos poetas da sua gera\u00e7\u00e3o \u00e9 Casimiro de Abreu, talvez<br \/>\nmais que outro qualquer, o poeta do amor e da saudade. Os dois sentimentos<br \/>\ns\u00e3o a alma da sua poesia. Este pobre rapaz fraco e enfermi\u00e7o<br \/>\nnascera poeta, com a sensa\u00e7\u00e3o viva, dolorosa do que o grande<br \/>\npoeta latino chamara as l\u00e1grimas das cousas, cujo mortal encanto lhe<br \/>\npenetrou cedo a alma melanc\u00f3lica. O drama \u00edntimo da sua vida,<br \/>\no desconhecimento do seu talento, a contrariedade oposta \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o<br \/>\ne, acaso, as imperfei\u00e7\u00f5es do lar paterno, tudo teria sido exagerado<br \/>\nat\u00e9 ao tr\u00e1gico pela sua sensibilidade doentia. \u00c9 grande<br \/>\na m\u00e1goa que de tudo lhe vem; grande, real e sincera. Da sua vida amorosa<br \/>\nnada de certo sabemos. Os seus bi\u00f3grafos, mesmo aqueles que mais intimamente,<br \/>\nparece, o conheceram e trataram, como Reinaldo Montoro e Teixeira de Melo,<br \/>\ndivagam e amplificam, segundo tem sido aqui o mau vezo dos bi\u00f3grafos,<br \/>\nem vez de lhe investigarem a vida e de a contarem sem impertinentes recatos.127<br \/>\nNos seus versos, por\u00e9m, h\u00e1 a impress\u00e3o pungente de um<br \/>\namor infeliz que lhe deixou a alma malferida e para sempre dolorosa. O afastamento,<br \/>\na aus\u00eancia da terra natal, o ex\u00edlio, como, imitando a Gon\u00e7alves<br \/>\nDias, lhe chamou, completaria a exacerba\u00e7\u00e3o da sua sensibilidade<br \/>\norg\u00e2nica e lhe daria ao estro o tom nost\u00e1lgico que, sem igualar<br \/>\na simplicidade genial do seu inspirador, n\u00e3o lhe ficar\u00e1 somenos<br \/>\nem emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 sob a influ\u00eancia da nostalgia e do amor, ambos de fato nele<br \/>\numa doen\u00e7a, que se p\u00f5e a cantar o Brasil. Mas o Brasil, que<br \/>\ncanta em seus sentidos versos, a p\u00e1tria por quem chora e que celebra,<br \/>\n\u00e9 principalmente a terra em que lhe ficaram as cousas amadas e mormente<br \/>\na desconhecida a quem dedicou o seu livro e que, segundo a meia confid\u00eancia<br \/>\nde um daqueles bi\u00f3grafos, teria encontrado morta quando voltou \u00e0<br \/>\nterra natal. A saudade desta com os encantos que a saudade empresta aos seus<br \/>\nmotivos \u00e9 que o faz patriota, se mesmo com esta restri\u00e7\u00e3o<br \/>\nse lhe pode aplicar o ep\u00edteto, que n\u00e3o vai aqui como elogio.<br \/>\nA sua nostalgia \u00e9 sobretudo o amor, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 mulher<br \/>\nquerida, mas a quanto este amoroso amava, o torr\u00e3o natal, a casa paterna,<br \/>\na vida campestre, que para as almas sens\u00edveis como a sua se enche de<br \/>\nprest\u00edgio ignorados do vulgo.<\/p>\n<p>L\u00e1 de longe cantou a sua terra, os s\u00edtios da sua inf\u00e2ncia,<br \/>\nas suas recorda\u00e7\u00f5es de toda a ordem, avivadas pela saudade,<br \/>\ncom sentida e comovedora emo\u00e7\u00e3o. As penas de amor e de saudade<br \/>\nfizeram-no o poeta que foi. Toda a sua curta vida, ainda depois de restitu\u00eddo<br \/>\n\u00e0 sua terra, uma saudade incerta, uma indefinida nostalgia ficar-lhe-ia<br \/>\nna alma como um ferrete daquelas penas. E o nosso povo, que do portugu\u00eas<br \/>\nherdou o senso desses dois sentimentos, em a nossa ra\u00e7a irmanados na<br \/>\nmesma emo\u00e7\u00e3o, achou porventura em Casimiro de Abreu o mais fiel<br \/>\nint\u00e9rprete das suas pr\u00f3prias como\u00e7\u00f5es elementares,<br \/>\nprim\u00e1rias, do amor do torr\u00e3o e da mulher querida. Pelo que \u00e9<br \/>\nCasimiro de Abreu o poeta brasileiro que o nosso povo mais entende e a quem<br \/>\nmais quer. Ama-o, recita-o, canta-o, fazendo-o um poeta popular, em certos<br \/>\nmeios quase an\u00f4nimo. Comprova este asserto o fato de ser Casimiro de<br \/>\nAbreu, de todos os nossos poetas, excetuando Gonzaga, certamente o que tem<br \/>\nsido mais vezes reimpresso, total ou parcialmente. As suas Primaveras t\u00eam,<br \/>\npelo menos, oito edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Voltando doente e abatido \u00e0 terra natal, a vista daquelas cousas t\u00e3o<br \/>\nchoradas no ex\u00edlio p\u00f5e-lhe na alma dolente acentos raros atingidos<br \/>\npela nossa poesia. E dele se haviam de inspirar Lu\u00eds Guimar\u00e3es<br \/>\nJ\u00fanior, L\u00facio de Mendon\u00e7a e outros que cantaram iguais<br \/>\nestados d\u2019alma:<\/p>\n<p>Eis meu lar, minha casa, meus amores,<\/p>\n<p>A terra onde nasci, meu teto amigo,<\/p>\n<p>A gruta, a sombra, a solid\u00e3o, o rio<\/p>\n<p>Onde o amor me nasceu, cresceu comigo.<\/p>\n<p>Os mesmos campos que eu deixei crian\u00e7a,<\/p>\n<p>\u00c1rvores novas, tanta flor no prado!&#8230;<\/p>\n<p>Oh! como \u00e9s linda, minha terra d\u2019alma,<\/p>\n<p>\u2014Noiva enfeitada para o seu noivado.<\/p>\n<p>Foi aqui, foi ali, al\u00e9m&#8230; mais longe,<\/p>\n<p>Que eu sentei-me a chorar no fim do dia,<\/p>\n<p>\u2014L\u00e1 vejo o atalho que vai dar na v\u00e1rzea&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 o barranco por onde eu subia!&#8230;<\/p>\n<p>Acho agora mais seca a cachoeira<\/p>\n<p>Onde banhei meu infantil cansa\u00e7o,<\/p>\n<p>\u2014Como est\u00e1 velho o laranjal tamanho<\/p>\n<p>Onde eu ca\u00e7ava o sanha\u00e7u a la\u00e7o!&#8230;<\/p>\n<p>Como eu me lembro dos meus dias puros!<\/p>\n<p>Nada me esquece!&#8230; Esquecer quem h\u00e1 de?<\/p>\n<p>\u2014Cada pedra que eu palpo ou tronco ou folha<\/p>\n<p>Fala-me ainda dessa doce idade.<\/p>\n<p>E a casa?&#8230; as salas, estes m\u00f3veis, tudo,<\/p>\n<p>O crucifixo pendurado ao muro&#8230;<\/p>\n<p>O quarto do orat\u00f3rio, a sala grande<\/p>\n<p>Onde eu temia penetrar no escuro!&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 da melhor, da mais alta, da mais profunda poesia. Como poeta do<br \/>\namor, n\u00e3o \u00e9 demais dizer que Casimiro de Abreu deu \u00e0<br \/>\nnossa l\u00edngua, t\u00e3o rica sob este aspecto, algum dos seus mais<br \/>\ncomovidos sen\u00e3o mais formosos cantos. A uns destes os prejudicou, no<br \/>\nconceito da gera\u00e7\u00e3o imediata ao poeta, a mesma popularidade<br \/>\nque os vulgarizou nos recitativos de sal\u00e3o, como foram de moda. N\u00e3o<br \/>\nobsta que poemas como Amor e medo e Minha alma \u00e9 triste sejam, sem<br \/>\nencarecimento, apesar da sua toada que nos \u00e9 hoje menos agrad\u00e1vel,<br \/>\ndos mais belos da nossa poesia.<\/p>\n<p>Com incorre\u00e7\u00f5es de forma po\u00e9tica, a que somos depois<br \/>\ndo parnasianismo demasiadamente sens\u00edveis, t\u00eam eles em alto grau,<br \/>\nsentimento, idealiza\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o da melhor esp\u00e9cie<br \/>\npo\u00e9tica, e at\u00e9, em mais de um passo, peregrinas excel\u00eancias<br \/>\nde express\u00e3o. H\u00e1 em Amor e medo notadamente um ardor de vol\u00fapia<br \/>\nao mesmo tempo contida e exuberante, que lhe real\u00e7a sobremodo a beleza,<br \/>\ne formosuras de sensa\u00e7\u00e3o e de express\u00e3o que n\u00e3o<br \/>\nteriam o direito de desdenhar os mais reputados sequazes de Baudelaire. \u00c9<br \/>\nforte a sua tradu\u00e7\u00e3o das tenta\u00e7\u00f5es amorosas da<br \/>\ncarne, como o diriam estes poetas, e, mais, de todo nova na nossa poesia,<br \/>\nsen\u00e3o tamb\u00e9m na da l\u00edngua portuguesa:<\/p>\n<p>Ai! Se eu te visse no calor da sesta,<\/p>\n<p>A m\u00e3o tremente no calor das tuas,<\/p>\n<p>Amarrotado o teu vestido branco,<\/p>\n<p>Solto o cabelo nas esp\u00e1duas nuas&#8230;<\/p>\n<p>Ai! Se eu te visse, Madalena pura,<\/p>\n<p>Sobre o veludo reclinada a meio,<\/p>\n<p>Olhos cerrados na vol\u00fapia doce,<\/p>\n<p>Os bra\u00e7os frouxos, palpitante o seio!&#8230;<\/p>\n<p>Ai! Se eu te visse em languidez sublime,<\/p>\n<p>Na face as rosas virginais do pejo,<\/p>\n<p>Tr\u00eamula a fala, a protestar baixinho,<\/p>\n<p>Vermelha a boca solu\u00e7ando um beijo!&#8230;<\/p>\n<p>Desprezados, como necessariamente suceder\u00e1 dentro em pouco, os preconceitos<br \/>\nque a vulgariza\u00e7\u00e3o de tais versos contra eles criou, eles nos<br \/>\naparecer\u00e3o em toda a sua novidade e beleza de sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne express\u00e3o. Ver-se-a o seu realismo de id\u00e9ias e estilo, nem<br \/>\nsequer suspeitado ent\u00e3o como f\u00f3rmula ou processo de escola,<br \/>\ndo mesmo passo que se lhes sentir\u00e1 o ardor e a intensidade que desafia<br \/>\nquanto a paix\u00e3o \u00e0 cola daquele poeta franc\u00eas e dos seus<br \/>\ndisc\u00edpulos p\u00f4s nos versos dos nossos ulteriores poetas. Em que<br \/>\nlhes pese ao est\u00fapido desd\u00e9m pelo verdadeiro e not\u00e1vel<br \/>\npoeta que \u00e9 Casimiro de Abreu, facilmente se verifica que eles lhe<br \/>\nsofreram a influ\u00eancia e freq\u00fcentemente o imitaram, raro o igualando<br \/>\ne nunca o excedendo na realidade da emo\u00e7\u00e3o nem no sublime da<br \/>\nexpress\u00e3o. Pela profundeza e sinceridade do seu sentimento po\u00e9tico,<br \/>\ntem ele mais raz\u00e3o de viver do que estes; j\u00e1 vive de fato mais<br \/>\ndo que eles viver\u00e3o, e o futuro, n\u00e3o duvido vaticinar, o desforrar\u00e1<br \/>\ncabalmente dos seus tolos desd\u00e9ns.<\/p>\n<p>Tristeza ing\u00eanita, melancolia amorosa, acerba nostalgia, angustioso<br \/>\nsofrimento de uma alma rica de ing\u00eanuas e ardentes aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\nde gl\u00f3ria e de amor, tudo deu a este delicioso poeta a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndolorosa que ainda no meio dos poetas dolentes da sua gera\u00e7\u00e3o<br \/>\no distingue. Tinha tamb\u00e9m, como os outros, o pressentimento da morte<br \/>\nprematura. Mais de um poema seu o declara ou o rev\u00ea.<\/p>\n<p>A um amigo rec\u00e9m-morto dizia:<\/p>\n<p>Dorme tranq\u00fcilo \u00e0 sombra do cipreste&#8230;<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o tarda a minha vez;<\/p>\n<p>Com efeito, dois anos depois, finava-se com vinte e tr\u00eas de idade,<br \/>\nna sua fazenda ou s\u00edtio de Indaia\u00e7u, no torr\u00e3o natal,<br \/>\n\u00e0s cinco horas e vinte e cinco minutos da tarde do dia 18 de outubro<br \/>\nde 1860.128<\/p>\n<p>V \u2014 POETAS MENORES<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o estes poetas, os principais da gera\u00e7\u00e3o que,<br \/>\nestreando pelos anos de 1850, viveu literariamente at\u00e9 o fim da seguinte<br \/>\nd\u00e9cada e ainda al\u00e9m. Afora estes, poetaram, por esse tempo,<br \/>\ncom ou sem livros publicados, Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889),<br \/>\nJos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva (1827-1886), Aureliano Jos\u00e9<br \/>\nLessa (1828-1861), Bernardo Joaquim da Silva Guimar\u00e3es (1827-1884),<br \/>\nJos\u00e9 Alexandre Teixeira de Melo (1833-1907), Jos\u00e9 Joaquim C\u00e2ndido<br \/>\nde Macedo J\u00fanior (1842-1860) e outros de menor merecimento e reputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Francisco Otaviano e Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, chamado o Mo\u00e7o,<br \/>\npara distingui-lo do seu tio do mesmo nome, o patriarca da Independ\u00eancia,<br \/>\nforam dous brilhantes poetas amadores, dous insignes diletantes da poesia,<br \/>\ne tamb\u00e9m, dous brilhantes esp\u00edritos, porventura dous talentos<br \/>\nde primeira ordem. Mas a sua voca\u00e7\u00e3o, se a voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 &#8220;sen\u00e3o a incapacidade de falharmos \u00e0s<br \/>\ninclina\u00e7\u00f5es naturais do nosso esp\u00edrito&#8221;, n\u00e3o<br \/>\neram as letras ou ao menos as letras praticadas com a assiduidade de uma profiss\u00e3o.<br \/>\nCom encantador e n\u00e3o vulgar estro po\u00e9tico, ambos, apenas espor\u00e1dica<br \/>\ne ocasionalmente, poetaram. Esse dom, o exerceram antes como uma prenda de<br \/>\nsociedade, mais uma distin\u00e7\u00e3o a juntar \u00e0s muitas que<br \/>\npossu\u00edam como pol\u00edticos, jornalistas, parlamentares, juristas,<br \/>\ndo que por necessidade do seu temperamento liter\u00e1rio. Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio,<br \/>\ncuja obra po\u00e9tica esparsa cont\u00e9m algumas obras-primas (O redivivo,<br \/>\nUm p\u00e9, Primus inter pares, A margem da corrente), publicou apenas,<br \/>\nainda em antes que come\u00e7asse esta gera\u00e7\u00e3o, com a qual<br \/>\nprincipalmente cantou, um pequeno folheto de versos Rosas e goivos, em 1848.129<br \/>\nFrancisco Otaviano versificou copiosa e elegantemente em jornais, revistas<br \/>\ne \u00e1lbuns mulheris, fez primorosas tradu\u00e7\u00f5es de Byron,<br \/>\ndeixou admir\u00e1veis versos proverbiais, mas ao cabo nenhum volume por<br \/>\nonde possamos cabalmente apreci\u00e1-lo. Nem um, nem outro tiveram na nossa<br \/>\npoesia a import\u00e2ncia a que os seus talentos lhes dariam direito incontest\u00e1vel<br \/>\ne at\u00e9 os obrigavam; ambos, por\u00e9m, exerceram nela, ao menos no<br \/>\nc\u00edrculo dos poetas que puderam conhec\u00ea-los e a sua dispersa produ\u00e7\u00e3o,<br \/>\nineg\u00e1vel influ\u00eancia. S\u00e3o antes dous grandes nomes liter\u00e1rios,<br \/>\nalgo lend\u00e1rios, que dous escritos not\u00e1veis.<\/p>\n<p>Est\u00e1 exatamente nas mesmas condi\u00e7\u00f5es Pedro Lu\u00eds<br \/>\nPereira de Souza (1839-1884). Tamb\u00e9m ele foi um poeta brilhante, o<br \/>\nprecursor da inspira\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social e do que depois<br \/>\nse chamou condoreirismo, na nossa poesia, pol\u00edtico de relevo, jornalista,<br \/>\nconversador agradabil\u00edssimo, segundo quantos o trataram, e homem do<br \/>\nmundo de rara sedu\u00e7\u00e3o. Deixou meia d\u00fazia de poemas, os<br \/>\nmelhores no tom \u00e9pico (Os volunt\u00e1rios da morte, Terribilis Dea)<br \/>\nque todo o Brasil conheceu, recitou e admirou. Mas a sua obra dispersa de<br \/>\nmero diletante, se lhe criou um nome meio lend\u00e1rio como o de Jos\u00e9<br \/>\nBonif\u00e1cio e Francisco Otaviano, n\u00e3o basta a assegurar-lhe um<br \/>\nposto de primeira ordem na nossa poesia.<\/p>\n<p>Sem lhes ter a fama, valem acaso mais para a hist\u00f3ria da nossa literatura<br \/>\nTeixeira de Melo, Aureliano Lessa e principalmente Bernardo Guimar\u00e3es.<br \/>\nTeixeira de Melo, cujas Sombras e sonhos precederam as Primaveras de Casimiro<br \/>\nde Abreu, e que era um quase conterr\u00e2neo do poeta da alma triste, era<br \/>\ntamb\u00e9m, como ele, de seu natural melanc\u00f3lico. A sua tristeza<br \/>\nnativa e o seu estro sofreram a influ\u00eancia de Gon\u00e7alves Dias,<br \/>\nmas por sua vez o seu lirismo n\u00e3o deixou de influir no de Casimiro<br \/>\nde Abreu, em que se encontram imagens e express\u00f5es de poemas das Sombras<br \/>\ne sonhos, e que epigrafou com versos destes poemas as suas Primaveras. Mas<br \/>\nTeixeira de Melo, com desenganados queixumes m\u00e9tricos da vida, cedo<br \/>\nabandonou a poesia e burocraticamente, fazendo bibliografia e erudi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nviveu septuagen\u00e1rio. Como poeta, al\u00e9m de ser um leg\u00edtimo<br \/>\ne estim\u00e1vel representante da po\u00e9tica da sua gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfoi um dos mais corretos versificadores dela, devendo-lhe a arte do verso<br \/>\naqui as melhorias de um alexandrino mais perfeito do que antes dele se fizera<br \/>\ne de nas estrofes de quatro versos rim\u00e1-los sempre alternadamente,<br \/>\no que antes s\u00f3 excepcionalmente se fazia.<\/p>\n<p>Aureliano Lessa, ligeiramente mais objetivo que \u00c1lvares de Azevedo,<br \/>\ne de um sentimento menos profundo que qualquer dos poetas desta gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnem assim lhe escapa aos estigmas caracter\u00edsticos. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\npertence-lhe por todas as fei\u00e7\u00f5es da sua poesia, sem que tenha<br \/>\nnenhuma que particularmente o distinga. Destes poetas secund\u00e1rios desta<br \/>\nprog\u00eanie, o maior, pela sua mais distinta fisionomia, pela c\u00f3pia<br \/>\nda sua produ\u00e7\u00e3o e ainda pelos quilates destas, \u00e9, sem<br \/>\nd\u00favida, Bernardo Guimar\u00e3es. Este, ali\u00e1s, pertence-lhe<br \/>\nantes cronol\u00f3gica que literariamente, antes por ser do mesmo tempo,<br \/>\nter vivido a vida de alguns deles, poetado conjuntamente com eles, do que<br \/>\npor paridade de sentimento ou estro com eles. N\u00e3o h\u00e1 nos seus<br \/>\npoemas \u2014 e a sua produ\u00e7\u00e3o foi uma das mais copiosas do<br \/>\ntempo \u2014 nem o excessivo subjetivismo, nem o m\u00f3rbido sentimentalismo,<br \/>\nnem a tristeza e dol\u00eancia dos seus companheiros de gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne menos ainda a sua ardente voluptuosidade. \u00c9 mesmo o \u00fanico<br \/>\ndeles que n\u00e3o \u00e9 triste ou que sabe disfar\u00e7ar a tristeza<br \/>\ne m\u00e1goa, que \u00e0s vezes declara galhofando dos seus mesmos pesares<br \/>\nou expondo-os mais a sorrir que a chorar, como preferiam fazer aqueles. \u00c9<br \/>\nem todo o nosso romantismo o \u00fanico poeta alegre, o que versejou de<br \/>\ncousas alegres e com inspira\u00e7\u00e3o e inten\u00e7\u00e3o jovial.<br \/>\nE versejou geralmente bem, se n\u00e3o com mais arte, com arte diferente<br \/>\nda dos seus companheiros e mais variada inspira\u00e7\u00e3o. \u00c9<br \/>\nele quem reintegra o descritivo na poesia desta gera\u00e7\u00e3o, que<br \/>\ndela o tinha quase abolido. O seu temperamento po\u00e9tico, principalmente<br \/>\nconsiderado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca em que poetou (1858-1864),<br \/>\n\u00e9 mais cl\u00e1ssico ou antes mais arc\u00e1dico, que rom\u00e2ntico;<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 ao menos nas suas manifesta\u00e7\u00f5es as exuber\u00e2ncias<br \/>\ne menos os excessos de emo\u00e7\u00e3o do Romantismo. Mas tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 o melhor da sua sensibilidade. Bernardo Guimar\u00e3es<br \/>\nteve em seu tempo, e n\u00e3o sei se continuar\u00e1 a ter, mais nome<br \/>\ncomo romancista que como poeta. N\u00e3o me parece de todo acertado este<br \/>\nmodo de ver.<\/p>\n<h4><a name=\"14\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XIV<\/h4>\n<p><strong>OS \u00daLTIMOS ROM\u00c2NTICOS<\/strong><\/p>\n<p>I \u2014 PROSADORES<\/p>\n<p>ANACR\u00d4NICO E AMANEIRADO procrastinava-se o Romantismo, conservando<br \/>\nos seus tra\u00e7os distintivos; a inten\u00e7\u00e3o nacionalista,<br \/>\nrealizada no poema ou no romance, j\u00e1 indianista, j\u00e1 do pitoresco<br \/>\npatr\u00edcio da paisagem ou da vida, e a sentimentalidade idealista. Afora<br \/>\nos rom\u00e2nticos da primeira hora, que se sobreviviam a si mesmos \u2014<br \/>\ne eram quase todos porque esta gera\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s da segunda,<br \/>\nviveu velha, \u2014 havia os que, aparecendo quando j\u00e1 se acabava<br \/>\no alento liter\u00e1rio que a criara, ainda lhe sofreram a influ\u00eancia<br \/>\nou cediam tamb\u00e9m ao prest\u00edgio daqueles fundadores. Os mesmos<br \/>\nque se desviam de Alencar, a principal figura liter\u00e1ria do tempo, o<br \/>\nreconhecido chefe da literatura nacional, at\u00e9 os que o negam (ali\u00e1s<br \/>\npoucos) n\u00e3o contestam ou sequer duvidam a legitimidade do prop\u00f3sito<br \/>\nnacionalista. \u00c9 que este revia o \u00edntimo sentimento a que, com<br \/>\na sua ordin\u00e1ria propriedade de express\u00e3o, Machado de Assis chamaria<br \/>\nde &#8220;instinto de nacionalidade&#8221;. Presume esta Hist\u00f3ria haver<br \/>\ncabalmente verificado o desabrochar desse instinto desde ainda mal iniciada<br \/>\na forma\u00e7\u00e3o do nosso povo, bem como o seu constante desenvolvimento<br \/>\na par com o deste. A espontaneidade do fen\u00f4meno n\u00e3o prova, entretanto,<br \/>\nque n\u00e3o assentasse em um errado conceito do nacionalismo na literatura.<br \/>\nDesde 1873, no artigo de que acabo de citar uma feliz express\u00e3o, Machado<br \/>\nde Assis oferecia a primeira contrariedade, que me conste, \u00e0 opini\u00e3o<br \/>\nao seu parecer err\u00f4nea, que s\u00f3 nas obras consoantes aquele prop\u00f3sito<br \/>\nreconhecia esp\u00edrito nacional e conceituosamente escrevia &#8220;n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 d\u00favida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente,<br \/>\ndeve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua regi\u00e3o;<br \/>\nmas n\u00e3o estabelecemos doutrinas t\u00e3o absolutas que a empobre\u00e7am.<br \/>\nO que se deve exigir do escritor, antes de tudo, \u00e9 certo sentimento<br \/>\n\u00edntimo que o torne homem do seu tempo e do seu pa\u00eds, ainda quando<br \/>\ntrata de assuntos remotos no tempo e no espa\u00e7o&#8221;.130 Este programa<br \/>\ndevia ele cumpri-lo com peregrina distin\u00e7\u00e3o, despreocupadamente.<\/p>\n<p>Iniciava-se, por\u00e9m, a rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao Romantismo,<br \/>\nsob o seu aspecto de nacionalismo exclusivista. Ap\u00f3s largos anos de<br \/>\npaz, de tranq\u00fcilidade interna, de remansosa vida pacata sob um regime<br \/>\nliberal e bonach\u00e3o, apenas abalada por mesquinhas brigas partid\u00e1rias<br \/>\nque n\u00e3o logravam perturb\u00e1-la, rebentou a guerra do Paraguai,<br \/>\nque durante os \u00faltimos cinco anos do dec\u00eanio de 60 devia alvoro\u00e7ar<br \/>\no pa\u00eds. Pela primeira vez depois da Independ\u00eancia (pois a guerra<br \/>\ndo Prata de 1851 mal durou um ano e n\u00e3o chegou a interessar a na\u00e7\u00e3o)<br \/>\nsentiu o povo brasileiro praticamente a responsabilidade que aos seus membros<br \/>\nimp\u00f5em estas coletividades chamadas na\u00e7\u00f5es. Ele, que<br \/>\nat\u00e9 ent\u00e3o vivia segregado nas suas prov\u00edncias, ignorando-se<br \/>\nmutuamente, encontra-se agora fora das estreitas preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nbairristas do campan\u00e1rio, num campo prop\u00edcio para estreitar<br \/>\na confraternidade de um povo, o campo de batalha. De prov\u00edncia a prov\u00edncia<br \/>\ntrocam-se id\u00e9ias e sentimentos; prolongam-se ap\u00f3s a guerra as<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es de acampamento. Houve enfim uma vasta comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ninterprovincial do Norte para o Sul, um interc\u00e2mbio nacional de emo\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncujos efeitos se fariam for\u00e7osamente sentir na mentalidade nacional.<br \/>\nA mocidade das escolas, cujos catedr\u00e1ticos se faziam soldados e marchavam<br \/>\npara a guerra, alvoro\u00e7ou-se com o entusiasmo pr\u00f3prio da idade.<br \/>\nOs que n\u00e3o deixavam o livro pela espada, bombardeavam o inimigo long\u00ednquo<br \/>\ncom estrofes inflamadas e discursos tonitruantes, excitando o f\u00e9rvido<br \/>\nentusiasmo das massas. O amor, a morte, o desgosto da vida, os queixumes melanc\u00f3licos,<br \/>\nremanescentes do Romantismo, cederam lugar a novos motivos de inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor outro lado, acontecimentos exteriores que tinham aqui grande repercuss\u00e3o,<br \/>\nas lutas do liberalismo franc\u00eas contra o Segundo Imp\u00e9rio napole\u00f4nico,<br \/>\nlutas em que a poesia e a literatura tomavam t\u00e3o grande parte, a implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma monarquia europ\u00e9ia na Am\u00e9rica, a revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nrepublicana na Espanha e o fen\u00f4meno de um grande poeta, Victor Hugo,<br \/>\ncontrapondo-se em toda a grandeza do seu g\u00eanio e da sua c\u00f3lera<br \/>\nrepublicana ao Imp\u00e9rio e desafiando-o em face do mundo at\u00f4nito,<br \/>\ncomoviam tamb\u00e9m a mente nacional. Impress\u00f5es de todos esses<br \/>\nsucessos h\u00e1 na poesia do tempo. Poetas e ainda prosadores eram por<br \/>\neles solicitados em outras dire\u00e7\u00f5es que o estreme subjetivismo<br \/>\nrom\u00e2ntico. Debuxou-se ent\u00e3o a rea\u00e7\u00e3o anti-rom\u00e2ntica.<br \/>\nIniciava-se, por\u00e9m, sem alvoroto, nem decis\u00e3o como que a medo.<br \/>\nAinda vencedora, n\u00e3o o suplantara de todo na radicada opini\u00e3o<br \/>\nde que o assunto brasileiro primasse em a nossa literatura e at\u00e9 em<br \/>\nquaisquer lucubra\u00e7\u00f5es nossas. Salvo o que o cumprimento deste<br \/>\npreceito pudesse ter de excessivo, n\u00e3o era ele inteiramente desarrazoado.<br \/>\nA fun\u00e7\u00e3o faz o \u00f3rg\u00e3o. A aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\nconstante dos nossos sentimentos nacionais na idealiza\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\nou noutro labor intelectual a assuntos brasileiros devia em rigor acabar por<br \/>\ncriar e desenvolver em n\u00f3s aquele instinto. A hist\u00f3ria da nossa<br \/>\nliteratura prova, ali\u00e1s, que assim sucedeu.<\/p>\n<p>J\u00e1 come\u00e7ada a rea\u00e7\u00e3o, menos contra esse instinto<br \/>\nleg\u00edtimo e necess\u00e1rio que contra o conceito abusivo da sua aplica\u00e7\u00e3o,<br \/>\napareceu nas nossas letras um escritor que, sem embargo da sua proced\u00eancia<br \/>\nfrancesa e ser de ra\u00e7a um puro europeu, o possui como poucos brasileiros<br \/>\nda nossa forma\u00e7\u00e3o tradicional, o visconde de Taunay. Em 1872,<br \/>\nMachado de Assis, que viria a suceder a Alencar no principado das nossas letras,<br \/>\nestreava no romance com um livro a todos os respeitos novo aqui, Ressurrei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo mesmo ano publicou Taunay a Inoc\u00eancia, formoso exemplar do &#8220;romance<br \/>\nbrasileiro&#8221; segundo a f\u00f3rmula aceita. Um ano antes estreara com<br \/>\na Mocidade de Trajano. Apesar da antipatia posteriormente manifestada pelo<br \/>\nautor, na sua obra cr\u00edtica, \u00e0s novas correntes que come\u00e7avam<br \/>\na arrastar para fora do Romantismo a fic\u00e7\u00e3o francesa, figurino<br \/>\nsempre canhestramente copiado da nossa, sente-se-lhe todavia o influxo em<br \/>\nambos os romances.<\/p>\n<p>Alfredo d\u2019Escragnolle Taunay, visconde de Taunay, nasceu no Rio de<br \/>\nJaneiro em 22 de fevereiro de 1843 e nesta cidade faleceu em 1899. Engenheiro<br \/>\nmilitar e oficial de ex\u00e9rcito, fez a campanha do Paraguai e exerceu<br \/>\nv\u00e1rias comiss\u00f5es t\u00e9cnicas. Professou tamb\u00e9m letras<br \/>\ne ci\u00eancias naturais na Escola Militar e, como Alencar, foi homem pol\u00edtico,<br \/>\ndeputado geral, presidente de prov\u00edncia e senador do Imp\u00e9rio.<br \/>\nTeve talentos e aptid\u00f5es variadas, era pintor e m\u00fasico, e possu\u00eda,<br \/>\ncom boa educa\u00e7\u00e3o liberal, prendas de homem do mundo. Foi um<br \/>\ndos escritores mais vers\u00e1teis e fecundos do seu tempo, mesmo o foi<br \/>\ntalvez com desleixada facilidade, acaso com menosprezo da sua situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria. Aludo a livros como o Encilhamento ou Como e porque me tornei<br \/>\nkneipista e que tais escritos seus. Esta falha, por\u00e9m, revia a sua<br \/>\nesquisita bonomia e o ing\u00eanuo ardor de propagandista que nele houve<br \/>\nsempre e se manifestou nas suas campanhas de imprensa e de tribuna por quest\u00f5es<br \/>\np\u00fablicas tomadas calorosamente a peito. N\u00e3o \u00e9 ocioso<br \/>\nrecord\u00e1-lo, pois mostra a fei\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do g\u00eanio<br \/>\nde Taunay, fei\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi estranha \u00e0 sua f\u00f3rmula<br \/>\nliter\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c0 sua obra, considerada pela c\u00f3pia e ainda pela qualidade,<br \/>\nfaltou coes\u00e3o e intensidade que lhe dessem mais solidez e distin\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE como quer que seja dispersiva, feita com facilidade que ro\u00e7a pelo<br \/>\nbanal e inconseq\u00fcente. Al\u00e9m da propriamente liter\u00e1ria,<br \/>\nromance, cr\u00edtica, teatro, compreende viagens e explora\u00e7\u00f5es<br \/>\nde engenheiro, relat\u00f3rios t\u00e9cnicos, rela\u00e7\u00f5es de<br \/>\nguerra, estudos etnogr\u00e1ficos, escritos pol\u00edticos e sociais,<br \/>\nquest\u00f5es p\u00fablicas, biografias, hist\u00f3ria e pe\u00e7as<br \/>\nmusicais. Dois livros destacam-se de toda ela, que lhe asseguraram em vida<br \/>\nnomeada de bons quilates e lhe d\u00e3o um lugar na nossa literatura: a<br \/>\nnarrativa, feita com grande talento liter\u00e1rio, de um epis\u00f3dio<br \/>\nda guerra do Paraguai, a Retirada da laguna e o romance de costumes sertanejos<br \/>\nInoc\u00eancia, j\u00e1 referido.<\/p>\n<p>Taunay, a quem tive a ventura de conhecer de perto, n\u00e3o obstante a<br \/>\nsua dupla origem estrangeira, era um genu\u00edno brasileiro de \u00edndole<br \/>\ne sentimento. N\u00e3o lhe faltavam sequer sinais das nossas peculiaridades,<br \/>\no que lhe completava a caracteriza\u00e7\u00e3o nacional. A sua literatura<br \/>\nde inspira\u00e7\u00e3o, sentimento e inten\u00e7\u00e3o brasileira<br \/>\n\u00e9 a express\u00e3o sincera desta sua fei\u00e7\u00e3o. O seu<br \/>\neurope\u00edsmo ainda muito pr\u00f3ximo, apenas lhe transparece no ardor<br \/>\ncom que, apesar de conservador de partido, se empenhou por id\u00e9ias liberais<br \/>\nque a seu ver deviam atrair e facilitar a imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia,<br \/>\nda qual foi ardoroso propugnador. Sob o pseud\u00f4nimo, logo descoberto,<br \/>\nde S\u00edlvio Dinarte, estreou na literatura com o j\u00e1 citado romance<br \/>\nA mocidade de Trajano, em 1871. Quer neste, quer em Inoc\u00eancia, que se<br \/>\nlhe seguiu de perto, atenua-se a sentimentalidade excessiva e o romanesco<br \/>\ndo romance em voga. Paisagens e costumes s\u00e3o descritos com mais senso<br \/>\nda realidade e mais sobriedade e exatid\u00e3o de tra\u00e7os. E n\u00e3o<br \/>\nsomente a sua representa\u00e7\u00e3o interessa ao autor, sen\u00e3o<br \/>\ntamb\u00e9m aspectos pol\u00edticos, sociais e morais, que ressaiam da<br \/>\na\u00e7\u00e3o, das personagens ou dos usos. N\u00e3o se libertara ainda<br \/>\nda preocupa\u00e7\u00e3o doutrinal dos seus antecessores, tinha-a, por\u00e9m,<br \/>\ncom mais largueza espiritual e mais desenvoltura de express\u00e3o. Em A<br \/>\nMocidade de Trajano havia manifesta\u00e7\u00f5es de livre-pensamento<br \/>\ne s\u00e1tira quer aos nossos costumes pol\u00edticos, quer a pr\u00e1ticas<br \/>\ndevotas, desusadas na nossa fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tinha feitio diferente de tudo o que no g\u00eanero aqui se publicara, a<br \/>\nInoc\u00eancia. Romance feito de impress\u00f5es diretas de paisagens,<br \/>\ncenas, tipos e fatos gerais, apenas idealizados por uma recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\nque devia de ser saudosa, havia neste, com uma representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nesteticamente verdadeira, ao mesmo tempo singela e forte, do sert\u00e3o<br \/>\ne da vida sertaneja no Brasil central, um sincero sentimento, uma simpatia<br \/>\nreal, sem excesso de sensibilidade, do seu objeto. N\u00e3o obstante desfalecimentos<br \/>\nde estilo, havia mais nele o m\u00e9rito da novidade. Estavam em voga os<br \/>\nromances de Alencar, Macedo e Bernardo Guimar\u00e3es. O primeiro era nimiamente<br \/>\nromanesco e idealista, fei\u00e7\u00f5es que ao tempo as suas reais qualidades<br \/>\nde escritor n\u00e3o bastavam para atenuar. Macedo, mestre de que ali\u00e1s<br \/>\nTaunay se confessava disc\u00edpulo, sobre romanesco, de l\u00edngua desleixada<br \/>\ne estilo frouxo, pode dizer-se que n\u00e3o tinha propriamente feitio liter\u00e1rio.<br \/>\nBernardo Guimar\u00e3es, com qualidades art\u00edsticas inferiores, como<br \/>\nMacedo, era como Alencar, mas sem o seu talento, um rom\u00e2ntico idealista<br \/>\npiorado pelo romanesco sentimental. Sem falar em Manoel de Almeida, cujo \u00fanico<br \/>\nromance n\u00e3o teve repercuss\u00e3o, \u00e9 Taunay quem na Inoc\u00eancia,<br \/>\ntalvez sem prop\u00f3sito, levado apenas dos instintos pr\u00e1ticos do<br \/>\nseu g\u00eanio e nativo realismo do seu temperamento, e ainda pelo que chamarei<br \/>\no seu materialismo liter\u00e1rio, escreve o primeiro romance realista,<br \/>\nno exato sentido do voc\u00e1bulo, da vida brasileira num dos seus aspectos<br \/>\nmais curiosos, um romance ressumando a realidade, quase sem esfor\u00e7o<br \/>\nde imagina\u00e7\u00e3o, nem literatura, mas que a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana da trag\u00e9dia r\u00fastica, de uma simplicidade cl\u00e1ssica,<br \/>\nidealiza nobremente. Precedera-o de tr\u00eas anos o Casamento no arrabalde,<br \/>\nde Franklin T\u00e1vora, de id\u00eantica fei\u00e7\u00e3o. Sobre n\u00e3o<br \/>\nter a intensidade e o compendioso de Inoc\u00eancia, nem, portanto, a sua<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o, publicado na prov\u00edncia, passou despercebido menos<br \/>\npor uma conspira\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio, como erradamente suporia<br \/>\no autor, mas em virtude mesmo das necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nda nossa vida liter\u00e1ria. Ao contr\u00e1rio, o romance de Taunay sa\u00eda<br \/>\nacompanhado da calorosa recomenda\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel de<br \/>\nFrancisco Otaviano, que lhe augurava longa vida e acertou no vatic\u00ednio.<br \/>\nN\u00e3o havia em Inoc\u00eancia os arrebiques e enfeites com que ainda<br \/>\nos melhores dos nossos romances presumiam embelezar-nos a vida e costumes<br \/>\ne a si mesmos sublimarem-se. E com rara simplicidade de meios, l\u00edngua<br \/>\nch\u00e3 e at\u00e9 comum, estilo natural de quase nenhum lavor liter\u00e1rio,<br \/>\ncomposi\u00e7\u00e3o s\u00f3bria, desartificiosa, quase ing\u00eanua,<br \/>\ne, relativamente a ent\u00e3o vigente, original e nova, sa\u00eda uma<br \/>\nobra-prima.<\/p>\n<p>Infelizmente se n\u00e3o repetiria jamais na obra do romancista. Os seus<br \/>\nseguintes romances ter\u00e3o quase todos o m\u00e9rito, ainda extraordin\u00e1rio,<br \/>\nde melhor observa\u00e7\u00e3o, de inten\u00e7\u00e3o de psicologia<br \/>\ne estudo e desenho de caracteres, de l\u00edngua mais cuidada. Esta, por\u00e9m,<br \/>\npor demasiado impessoal e dessangrada, nunca logrou ser um estilo. Depois<br \/>\nde Inoc\u00eancia, a sua obra mais viva, e digno par desta, \u00e9 a Retirada<br \/>\nda Laguna, ou antes La Retraite de Lagune, pois foi escrita em franc\u00eas.<br \/>\nO ser escrita nesta l\u00edngua porventura contribuiu para lhe dar a s\u00f3bria<br \/>\neleg\u00e2ncia e o intenso vigor descritivo que a distinguem na sua obra,<br \/>\nmas de alguma sorte a desterra da nossa literatura. Taunay aumentou o nosso<br \/>\ncabedal liter\u00e1rio, enriquecendo do mesmo passo a nossa fic\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom outros romances, L\u00e1grimas do cora\u00e7\u00e3o (1873), republicado<br \/>\nnos anos de 90 com o t\u00edtulo menos rom\u00e2ntico de Manuscrito de<br \/>\numa mulher, Ouro sobre azul (1874), Hist\u00f3rias brasileiras (1878), Narrativas<br \/>\nmilitares (1878) e No decl\u00ednio (1899). Dons de observa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nqualidades de narra\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\napesar da fraqueza e inefici\u00eancia da aplica\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica<br \/>\ne maior simplicidade de estilo, geralmente os sobrelevam aos romances de Macedo<br \/>\nou Bernardo Guimar\u00e3es e at\u00e9, embora menos, aos de Alencar. Nos<br \/>\n\u00faltimos era j\u00e1 evidente o influxo do naturalismo na sua fase<br \/>\nextrema. Eram, por\u00e9m, acaso mais realistas que naturalistas, porque<br \/>\no realismo estava no fundo do engenho liter\u00e1rio de Taunay, como o idealismo<br \/>\nno de Alencar.<\/p>\n<p>Ensaiou igualmente Taunay o teatro (Am\u00e9lia Smith) e a cr\u00edtica<br \/>\n(Estudos cr\u00edticos, 1881-1883), mas em nenhum destes g\u00eaneros deixou<br \/>\nobra consider\u00e1vel. O seu lugar na hist\u00f3ria da nossa literatura<br \/>\ns\u00e3o os seus romances somente que merecidamente lho conferem.<\/p>\n<p>A preced\u00eancia de Franklin T\u00e1vora aos dois romancistas atr\u00e1s<br \/>\nnomeados, Taunay e Machado de Assis, \u00e9 apenas cronol\u00f3gica. N\u00e3o<br \/>\nobstante se haver estreado no romance desde 1862, com os \u00cdndios de<br \/>\nJaguaribe, s\u00f3 de fato come\u00e7ou o seu nome a sair da obscuridade<br \/>\nprovinciana pelos anos de 70, primeiro com a publica\u00e7\u00e3o escandalosa<br \/>\ndas Cartas a Cincinato, depois com os romances O cabeleira (1876), O matuto<br \/>\n(1878), Louren\u00e7o (1881).<\/p>\n<p>Joaquim Franklin da Silveira T\u00e1vora era do Cear\u00e1, nascido em<br \/>\n13 de janeiro de 1843. Passou a maior parte da sua vida no Norte, onde se<br \/>\nlhe formou o esp\u00edrito e pelo qual tinha um apego bairrista. Os seus<br \/>\n\u00faltimos anos viveu-os no Rio de Janeiro, e aqui faleceu em 18 de agosto<br \/>\nde 1888. Acaso mais por esp\u00edrito de insubordina\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nescritores nov\u00e9is contra os consagrados, que por justificadas raz\u00f5es,<br \/>\nfoi dos que se insurgiram contra a hegemonia liter\u00e1ria de Alencar.<br \/>\nTem sido sempre aqui a literatura uma cousa \u00e0 parte na vida nacional.<br \/>\nFeita principal se n\u00e3o exclusivamente por mo\u00e7os despreocupados<br \/>\nda vida pr\u00e1tica, que sacrificavam a ing\u00eanuas ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde gl\u00f3ria ou \u00e0 vaidade de nomeada, nunca assegurou aos seus<br \/>\ncultores posi\u00e7\u00f5es ou proveitos, como n\u00e3o constituiu jamais<br \/>\nprofiss\u00e3o ou carreira. Nestas condi\u00e7\u00f5es tal insurrei\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo outras quejandas, e tanta cousa da nossa vida liter\u00e1ria, era apenas<br \/>\numa macaquea\u00e7\u00e3o de id\u00eanticas rebeli\u00f5es nos centros<br \/>\nliter\u00e1rios europeus. Com viol\u00eancia que tanto pode haver sinceridade<br \/>\nde convic\u00e7\u00f5es como a cong\u00eanita irritabilidade dos poetas,<br \/>\ne sob pseud\u00f4nimo de Sempr\u00f4nio, atacou Franklin T\u00e1vora a<br \/>\nJos\u00e9 de Alencar, e aos seus livros, nomeadamente a Iracema e o Ga\u00facho,<br \/>\nem uma s\u00e9rie de cartas primeiro publicadas num peri\u00f3dico do<br \/>\nRio, depois reunidas em livro de n\u00edtida edi\u00e7\u00e3o de Paris.131<\/p>\n<p>Sob o disfarce de Cincinato eram endere\u00e7adas ao escritor portugu\u00eas<br \/>\nJos\u00e9 Feliciano de Castilho. Ainda banindo da literatura e da vida,<br \/>\ncomo devem ser, quaisquer estreitas preven\u00e7\u00f5es nacionais, de<br \/>\ntodo impertinentes na ordem intelectual, essa obra de Franklin T\u00e1vora,<br \/>\nali\u00e1s apreci\u00e1vel como cr\u00edtica e como estilo, era uma<br \/>\nm\u00e1 a\u00e7\u00e3o. Fossem quais fossem os defeitos da de Alencar,<br \/>\nn\u00e3o eram tais que o desclassificassem do posto que ocupava nas nossas<br \/>\nletras. Determinava-a demais uma verdadeira voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria,<br \/>\ncomo a inspiravam uma sincera e nobre ambi\u00e7\u00e3o de promover a<br \/>\nliteratura nacional. E em verdade o fazia com honrado labor e engenho no momento<br \/>\nincompar\u00e1vel. Ao mesmo empenho, ali\u00e1s, se consagrara Franklin<br \/>\nT\u00e1vora, encetando a sua atividade liter\u00e1ria com livros da chamada<br \/>\n&#8220;literatura brasileira&#8221;, Os \u00edndios de Jaguaribe, Um casamento<br \/>\nno arrabalde. E o mesmo prop\u00f3sito teve o resto da sua vida. Nem ao<br \/>\ncabo a sua literatura diferia notavelmente da de Alencar, sen\u00e3o por<br \/>\nlhe ser inferior. Os \u00edndios de jaguaribe, O cabeleira, O matuto, Louren\u00e7o,<br \/>\nque s\u00e3o as suas obras t\u00edpicas como indianismo ou regionalismo<br \/>\npitoresco, n\u00e3o se diferenciam essencialmente dos romances de Alencar<br \/>\nda mesma inspira\u00e7\u00e3o, e menos ainda os excedem em merecimento.<br \/>\nS\u00e3o-lhes antes somenos como imagina\u00e7\u00e3o e estilo. E era<br \/>\na um escritor estrangeiro que se fizera aqui o negador sistem\u00e1tico<br \/>\nou o instigador da nega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, do nosso engenho<br \/>\ne capacidade liter\u00e1ria, que Franklin T\u00e1vora tomava por parceiro<br \/>\nnesse jogo de descr\u00e9dito do escritor que com tanta bizarria, e n\u00e3o<br \/>\nsem sucesso, se empenhava no fomento da literatura nacional. Mas na vida liter\u00e1ria<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 maior satisfa\u00e7\u00e3o nem melhor pr\u00eamio,<br \/>\nde que vermos seguir-nos os passos os mesmos que nos contestam e nos atacam.<br \/>\nSe Alencar fosse um homem de esp\u00edrito, a investida de Franklin T\u00e1vora,<br \/>\nacompanhada de seus &#8220;romances brasileiros&#8221;, devia intimamente rejubil\u00e1-lo.<br \/>\nSem embargo de endere\u00e7adas ao irm\u00e3o de Ant\u00f4nio de Castilho,<br \/>\no ser\u00f4dio \u00e1rcade contra quem se tinha revoltado n\u00e3o havia<br \/>\nmuito a mocidade liter\u00e1ria portuguesa, as Cartas a Cincinato eram acaso<br \/>\nrepercuss\u00e3o do famoso e rid\u00edculo motim liter\u00e1rio do Bom<br \/>\nsenso e bom gosto. N\u00e3o tiveram, por\u00e9m, o eco da c\u00e9lebre<br \/>\ncarta deste t\u00edtulo de Antero de Quental \u00e0quele, nem motivaram<br \/>\nsen\u00e3o as respostas malignas e ainda ferinas do seu equ\u00edvoco<br \/>\ndestinat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Com excelentes qualidades liter\u00e1rias, tinha Franklin T\u00e1vora,<br \/>\nmais do que \u00e9 l\u00edcito a um homem de esp\u00edrito, preconceitos<br \/>\nprovincianos, quizila \u00e0 &#8220;Corte&#8221;, cujos literatos, ali\u00e1s<br \/>\nna maioria provincianos, imaginava apostados em desconhecer e hostilizar os<br \/>\nescritores da prov\u00edncia. Algum tempo, justamente naquele em que fazia<br \/>\nas suas primeiras armas liter\u00e1rias Franklin T\u00e1vora, prevaleceu<br \/>\neste estado de esp\u00edrito, que o revia mesquinho, em certo grupo de homens<br \/>\nde letras nortistas, indiscretamente revoltados contra a leg\u00edtima e<br \/>\nnatural preponder\u00e2ncia mental do Rio de Janeiro. Como se, dada a nossa<br \/>\nforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cultural, e organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica, n\u00e3o fosse absurdo o regionalismo espiritual que lhes<br \/>\napetecia. Desta ridicularia ainda haver\u00e1 algum representante anacr\u00f4nico,<br \/>\ne nunca se emancipou Franklin T\u00e1vora. Manifestou-o ainda no pref\u00e1cio<br \/>\nda 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, aqui publicada, de Um casamento no arrabalde.<br \/>\nEsta preven\u00e7\u00e3o lhe teria gerado a desinteligente ojeriza a Alencar,<br \/>\ncomo um dos &#8220;sacerdotes sumos&#8221;, segundo o seu dizer, da literatura<br \/>\ndos que no Rio de Janeiro menosprezavam a da prov\u00edncia. Do mesmo preconceito<br \/>\nlhe viria a infeliz id\u00e9ia da reparti\u00e7\u00e3o da literatura<br \/>\nbrasileira em &#8220;literatura do Norte&#8221; e &#8220;literatura do Sul&#8221;,<br \/>\nconforme a regi\u00e3o brasileira que lhe fornecia a inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o tema. Qu\u00e3o melhor alumiado n\u00e3o andou Alencar escolhendo<br \/>\nos seus sem prefer\u00eancia de regi\u00f5es, para compor segundo o bel\u00edssimo<br \/>\ndizer de Machado de Assis &#8220;com as diferen\u00e7as da vida, das zonas<br \/>\ne dos tempos a unidade nacional de sua obra&#8221;.<\/p>\n<p>Mas a obra construtiva de Franklin T\u00e1vora, os seus quatro ou seis<br \/>\nromances publicados de 1869 a 1881, exclu\u00eddos os \u00cdndios de Jaguaribe,<br \/>\ntentativa malograda de indianismo da sua juventude inesperta, sobreleva de<br \/>\nmuito este seu mal-avisado trabalho de demoli\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o<br \/>\ntem nem a imagina\u00e7\u00e3o nem o alinde do estilo liter\u00e1rio<br \/>\nde Alencar, escreve todavia com mais apuro e observa com mais fidelidade.<br \/>\nA sua representa\u00e7\u00e3o da natureza e da vida \u00e9 mais exata,<br \/>\nse n\u00e3o mais expressiva. A sua l\u00edngua mais simples, menos enfeitada,<br \/>\natingindo mesmo \u00e0s vezes, como no Casamento no arrabalde, uma singeleza<br \/>\nencantadora, livra-o da ret\u00f3rica sentimental que Alencar nem sempre<br \/>\nevitou. Este \u00faltimo romance \u00e9 no seu g\u00eanero um dos melhores<br \/>\nda nossa literatura, um daqueles em que a vida burguesa provinciana, e n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 nas suas exterioridades, mas nos seus caracteres intr\u00ednsecos<br \/>\ne essenciais, se acha mais fiel e artisticamente reproduzida. Um casamento<br \/>\nno arrabalde, como a Inoc\u00eancia, de Taunay, \u00e9 um romance de um<br \/>\nrealista espont\u00e2neo, para quem o realismo n\u00e3o exclui por completo<br \/>\na idealiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica, que \u00e9 como o sopro divino<br \/>\nque lhe anima a feitura. Algo deste car\u00e1ter realista se nos depara<br \/>\nem todos os romances de T\u00e1vora, o que faz dele, como do seu contempor\u00e2neo<br \/>\nTaunay, um dos reatores contra a rom\u00e2ntica aqui ainda ent\u00e3o prevalecente,<br \/>\num dos precursores, portanto, do naturalismo.<\/p>\n<p>O teatro e a literatura dram\u00e1tica no Brasil n\u00e3o tiveram nunca<br \/>\na import\u00e2ncia, nem o m\u00e9rito, do romance ou da poesia. Ficaram-lhes<br \/>\nsempre somenos em quantidade e em qualidade. A \u00e9poca de maior florescimento,<br \/>\nsob estas duas esp\u00e9cies, do nosso teatro e da nossa literatura dram\u00e1tica,<br \/>\ns\u00e3o as duas d\u00e9cadas de 1860 a 1880. Pertence-lhes quase todo<br \/>\nou o melhor do teatro de Macedo, de Alencar, de Quintino Bocaiuva, de Agr\u00e1rio<br \/>\nde Meneses, de Pinheiro Guimar\u00e3es e de outros numerosos autores de<br \/>\nteatro, cujos nomes, entretanto, cabem mais na hist\u00f3ria deste que na<br \/>\nda literatura em geral. N\u00e3o s\u00f3 no Rio de Janeiro, mas nas capitais<br \/>\ndas prov\u00edncias principais, existiam e mantinham-se casas de espet\u00e1culos<br \/>\nde pe\u00e7as nacionais, portuguesas ou traduzidas, representadas por companhias<br \/>\ncompostas quase por igual de atores brasileiros e portugueses fixados no Brasil,<br \/>\ne at\u00e9 aqui feitos, dos quais alguns nomes ainda vivem na tradi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo Joaquim Augusto, Furtado Coelho, Florindo, Vicente de Oliveira, Eug\u00eania<br \/>\nC\u00e2mara, Ism\u00eania dos Santos, Manuela Luci, Xisto Ba\u00eda, Corr\u00eaa<br \/>\nVasques, e ainda outros. Mas, ou por defici\u00eancia dos nossos autores<br \/>\ndram\u00e1ticos, ou por defeito do pr\u00f3prio meio de que se inspiravam,<br \/>\nfaltou sempre ao nosso teatro capacidade de representa\u00e7\u00e3o teatral<br \/>\nda nossa sociedade, que invariavelmente falsificava. E como tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o tiveram o talento de express\u00e3o mais alta da nossa vida que,<br \/>\nembora a desnaturando, atingisse a uma realidade humana geral, a nossa literatura<br \/>\ndram\u00e1tica consta antes de \u00f3timas inten\u00e7\u00f5es que<br \/>\nde boas obras.<\/p>\n<p>Nela trabalhou tamb\u00e9m Franklin T\u00e1vora, de quem se conhecem<br \/>\npelo menos tr\u00eas dramas: Um mist\u00e9rio de fam\u00edlia (1861),<br \/>\nTr\u00eas l\u00e1grimas (1870) e Ant\u00f4nio, representado aqui no Rio,<br \/>\nmas que parece se n\u00e3o chegou a imprimir. Os impressos corroboram o<br \/>\nconceito acima, n\u00e3o se distinguem nem como representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda nossa vida, neles adulterada ao influxo da dramaturgia francesa, sempre<br \/>\naqui dominante, mas aqui sempre est\u00e9ril, nem como express\u00e3o<br \/>\ngeral de sentimentos e atos humanos.<\/p>\n<p>Deixou Franklin T\u00e1vora tamb\u00e9m algumas excelentes p\u00e1ginas<br \/>\nde cr\u00edtica, g\u00eanero que tratou com evidente disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne talento, mas que n\u00e3o cultivou bastante para destacar a figura nele.<\/p>\n<p>II \u2014 POETAS<\/p>\n<p>Pela \u00e9poca em que se estrearam estes romancistas, as principais fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nou correntes da poesia brasileira, no que tinha esta de mais peculiar, eram<br \/>\nainda, se n\u00e3o o indianismo, o brasileirismo dos primeiros rom\u00e2nticos,<br \/>\ne o sentimentalismo doentio, de envolta com o ceticismo liter\u00e1rio e<br \/>\na desilus\u00e3o e desalento, dos segundos. Esgotavam-se essas duas correntes<br \/>\nquando surgiram, com pouco intervalo, Machado de Assis (1839-1908), Tobias<br \/>\nBarreto (1839-1889), Fagundes Varela (1841-1875), Lu\u00eds Guimar\u00e3es<br \/>\nJ\u00fanior (1847-1898) e Castro Alves (1847-1871), que podemos considerar<br \/>\nos \u00faltimos rom\u00e2nticos da nossa poesia, que j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nsejam anacr\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s nenhum tra\u00e7o comum saliente liga estes poetas. Quando<br \/>\nmuito, o teriam Tobias Barreto e Castro Alves na fei\u00e7\u00e3o orat\u00f3ria<br \/>\ndo seu estro, a que se deu o nome de condoreirismo, porque os seus arroubos<br \/>\npo\u00e9ticos presumiam semelhar-se ao surto do condor. Denomina\u00e7\u00e3o<br \/>\nali\u00e1s, como tantas outras inventadas na nossa literatura, de pouca<br \/>\npropriedade. Naquele grupo n\u00e3o caberia sen\u00e3o aos dois poetas<br \/>\nnomeados ou a algum seu secund\u00e1rio imitador, indigno de men\u00e7\u00e3o<br \/>\nparticular. Demais n\u00e3o foram nem Tobias, nem Castro Alves os inventores<br \/>\ndesse falso g\u00eanero de poesia enf\u00e1tica e declamat\u00f3ria.<br \/>\nAntes deles, Pedro Lu\u00eds publicara os seus poemas Nunes Machado, A sombra<br \/>\nde Tiradentes, Os volunt\u00e1rios da morte (1863), Terribilis Dea, Justamente<br \/>\nno diapas\u00e3o que devia dar \u00e0queles dois poetas o ep\u00edteto<br \/>\nextravagante de condoreiros. E na procura das \u00faltimas fontes do mesmo<br \/>\nveio, poder\u00edamos acaso remontar ao Napole\u00e3o em Waterloo, de<br \/>\nMagalh\u00e3es, a certos poemas de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o Mo\u00e7o,<br \/>\ne a outras anteriores amostras da nossa fac\u00fandia po\u00e9tica. Est\u00e1<br \/>\nesta no nosso temperamento, e o condoreirismo n\u00e3o era uma novidade<br \/>\nna nossa poesia, mas apenas o exagero, sob a influ\u00eancia do entusiasmo<br \/>\npatri\u00f3tico do momento e da ret\u00f3rica hugoana, desse defeito do<br \/>\nnosso estro po\u00e9tico. O aparecimento simult\u00e2neo de Varela com<br \/>\no seu Pavilh\u00e3o auviverde, e de Vitoriano Palhares com o seu A D. Pedro<br \/>\nII, a prop\u00f3sito do conflito anglo-brasileiro de 1862, e de numerosos<br \/>\npoemas t\u00e3o patri\u00f3ticos como bomb\u00e1sticos de Jos\u00e9<br \/>\nBonif\u00e1cio e Pedro Lu\u00eds, coincidindo com os de Castro Alves e<br \/>\nTobias Barreto, da mesma entoa\u00e7\u00e3o, est\u00e3o atestando que<br \/>\nn\u00e3o havia novidade essencial no chamado condoreirismo de 60 a 70.<\/p>\n<p>O Romantismo byroniano, temperado por \u00c1lvares de Azevedo, de Musset<br \/>\ne Spronceda e de outros condimentos de id\u00eantico sabor liter\u00e1rio,<br \/>\ntinha certamente desviado da sua dire\u00e7\u00e3o primeira, crist\u00e3,<br \/>\npatri\u00f3tica e moralizante, o movimento liter\u00e1rio com que aqui<br \/>\nse iniciara a nossa literatura nacional. Mas al\u00e9m da parcial impress&amp;atatilde;o<br \/>\nque fez nos tr\u00eas principais poetas da mesma gera\u00e7\u00e3o, mal<br \/>\nfizera escola com Aureliano Lessa, Bernardo Guimar\u00e3es e menores poetas,<br \/>\ndesvairados sobretudo com as extravag\u00e2ncias da Noite na taverna. Nos<br \/>\nanos de 60, mesmo no atrasado Brasil, j\u00e1 n\u00e3o havia atmosfera<br \/>\npara ele. A voz do desespero, da ironia, do ceticismo daqueles poetas europeus<br \/>\nsubstitu\u00eda-se como um clarim de guerra vibrante de c\u00f3leras,<br \/>\nmas rica de esperan\u00e7as, ora flauta buc\u00f3lica, ora lira amorosa,<br \/>\ntuba canora e belicosa ou doce avena da paz, mas em suma otimista, a voz de<br \/>\nVictor Hugo. Esta ouviram e seguiram mais ou menos de perto da gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nque entrou a cantar por esta \u00e9poca. Tamb\u00e9m os houve que escutaram<br \/>\nde prefer\u00eancia a melodia lamartiniana impregnada do idealismo crist\u00e3o.<br \/>\nMas n\u00e3o se sai imune de uma corrente liter\u00e1ria para outra. Levam-se<br \/>\nsempre ressaibos daquela. Estes poetas apresentam um misto de romantismo e<br \/>\ndas tend\u00eancias est\u00e9ticas que em nascendo para a vida liter\u00e1ria<br \/>\nencontraram no seu ambiente. Tem em dose quase igual o desalento sentimental,<br \/>\nmesmo o ceticismo, apenas menos anunciado daquela gera\u00e7\u00e3o e<br \/>\nos ideais pr\u00e1ticos, as emo\u00e7\u00f5es sociais, a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana, ainda pol\u00edtica, com os instintos de propaganda da corrente<br \/>\nhugoana. E apenas alguma leve nota de indianismo ou brasileirismo nela transformada<br \/>\nnum mais \u00edntimo que ostensivo sentimento nacional. E como em Victor<br \/>\nHugo, al\u00e9m da fei\u00e7\u00e3o social e humanit\u00e1ria, o que<br \/>\nmais os impressiona s\u00e3o os aspectos verbais do seu estro, a sua altiloq\u00fc\u00eancia<br \/>\npoderosa, caem no arremedo, geralmente infeliz, desse feitio da sua po\u00e9tica.<br \/>\nDa\u00ed derivaria a alcunha, que cumpre n\u00e3o tomar a s\u00e9rio,<br \/>\nque de hugoanos tiveram alguns.<\/p>\n<p>A fac\u00fandia po\u00e9tica do grande vate franc\u00eas, cujo prest\u00edgio<br \/>\nse aumentava do seu papel pol\u00edtico, achava no meio escolar onde se<br \/>\nia fazer este novo movimento liter\u00e1rio, terreno prop\u00edcio. \u00c0s<br \/>\npredisposi\u00e7\u00f5es orat\u00f3rias ou verbosas da ra\u00e7a,<br \/>\namiga da frase empolada e do voc\u00e1bulo pomposo, juntava-se aquela venturosa<br \/>\nidade em que nem a reflex\u00e3o nem o estudo apuraram ainda o gosto e o<br \/>\ndiscernimento. Em tal meio, as tiradas po\u00e9ticas de Tobias Barreto e<br \/>\nCastro Alves, que hoje nos parecem extravagantes desprop\u00f3sitos, eram<br \/>\nachadas sublimes:<\/p>\n<p>A lei sustenta o popular direito,<\/p>\n<p>N\u00f3s sustentamos o direito em p\u00e9!<\/p>\n<p>Um peda\u00e7o de gl\u00e1dio no infinito,<\/p>\n<p>Um trapo de bandeira na amplid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ver o mist\u00e9rio eri\u00e7ado,<\/p>\n<p>Rodeando os mausol\u00e9us,<\/p>\n<p>Morrer&#8230; subindo agarrado<\/p>\n<p>No escarpamento dos C\u00e9us.<\/p>\n<p>Pernambuco anelante<\/p>\n<p>Suspende na m\u00e3o possante<\/p>\n<p>O peso do Paraguai!132<\/p>\n<p>Quejandos versos, estrofes, que digo?, poemas inteiros neste estilo alvoro\u00e7avam<br \/>\naquela mocidade, cujo indiscreto entusiasmo n\u00e3o serviria sen\u00e3o<br \/>\npara mais perverter o estro desses poetas e desvairar o gosto p\u00fablico.<\/p>\n<p>Dos chamados condoreiros apenas dois, os j\u00e1 nomeados Tobias Barreto<br \/>\ne Castro Alves, lograram distinguir-se por outras partes que essa falaz poesia,<br \/>\nentre os que, como eles, presumiam reproduzir aqui a Victor Hugo, quando n\u00e3o<br \/>\nfaziam sen\u00e3o contrafazer-lhe os mais patentes defeitos.<\/p>\n<p>Tobias Barreto de Menezes nasceu em Sergipe em 7 de junho de 1839, e a 20<br \/>\ndo mesmo m\u00eas de junho de 1889 faleceu no Recife, em cuja Faculdade de<br \/>\ndireito se formou e onde principalmente exerceu a sua atividade liter\u00e1ria.<br \/>\nN\u00e3o obstante o dispersivo, o incoerente e at\u00e9, de algum modo,<br \/>\no extravagante dessa atividade, que n\u00e3o lhe permitiu deixar em qualquer<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o em que se exerceu, mais que uma obra fragment\u00e1ria<br \/>\ne incongruente, certo \u00e9 ele uma das figuras singulares das nossas letras.<br \/>\nTinha grande talento, mem\u00f3ria acaso ainda mais grande, rara aptid\u00e3o<br \/>\npara l\u00ednguas como para m\u00fasica, e decidida voca\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o estudo, ora servida, ora prejudicada, pelos seus est\u00edmulos desencontrados<br \/>\nde mesti\u00e7o impulsivo e malcriado. Orador nativo, amava a pompa dos<br \/>\ngrandes gestos e das grandes frases. Apenas a sua educa\u00e7\u00e3o roceira<br \/>\ne rudimentar atenuava e amortecia esta sua predile\u00e7\u00e3o com a<br \/>\nvulgaridade, que n\u00e3o raro chegava ao chulismo da express\u00e3o,<br \/>\nem que o r\u00fastico transparecia sob o letrado. Fazendo filosofia, cr\u00edtica,<br \/>\nsociologia e ainda poesia, freq\u00fcentemente se lhe revela este v\u00edcio<br \/>\nde origem ou temperamento. \u00c9 justamente o contr\u00e1rio do honn\u00eate<br \/>\nhomme consoante La Rochefoucauld. A sua fama, um pouco fact\u00edcia, a<br \/>\ndeveu mais \u00e0s suas brigas e pol\u00eamicas, por via de regra descompostas,<br \/>\nou ao preg\u00e3o temer\u00e1rio de disc\u00edpulos, que propriamente<br \/>\n\u00e0 sua obra, de fato muito pouco lida. Como fil\u00f3sofo que presumiu<br \/>\nser ou pretenderam faz\u00ea-lo, como cr\u00edtico, como soci\u00f3logo,<br \/>\nfoi sobretudo um negador dos valores existentes da nossa intelectualidade,<br \/>\num contemptor sistem\u00e1tico da cultura francesa e portuguesa e um pregoeiro<br \/>\ne vulgarizador da cultura alem\u00e3. Tinha ao menos a desculpa de que sabia<br \/>\nperfeitamente o alem\u00e3o, \u2014 e puerilmente se desvanecia de o haver<br \/>\naprendido consigo mesmo, \u2014 o que n\u00e3o aconteceu talvez a nenhum<br \/>\noutro dos seus disc\u00edpulos, presun\u00e7osos germanistas. Como jurista,<br \/>\nnada mais fez que recomendar, com o descomedimento que \u00e9 um dos tra\u00e7os<br \/>\ndo seu temperamento liter\u00e1rio, as novas id\u00e9ias jur\u00eddicas<br \/>\nalem\u00e3s, contrapondo-as apaixonadamente \u00e0s id\u00e9ias cl\u00e1ssicas<br \/>\naqui vigentes.<\/p>\n<p>Se o pensador e o jurista em Tobias Barreto iam \u00e0 cultura germ\u00e2nica,<br \/>\ntratada embora por ele mais l\u00edrica que objetivamente, o seu temperamento<br \/>\nest\u00e9tico, em m\u00fasica e em poesia, rev\u00ea demais o mesti\u00e7o<br \/>\nluso-africano. Como poeta \u00e9 simultaneamente um sentimental, um orador<br \/>\nsem algo da profunda ingenuidade da poesia alem\u00e3. Em m\u00fasica,<br \/>\nn\u00e3o obstante a sua, ao que parece, grande ci\u00eancia desta arte,<br \/>\nconfessa ele pr\u00f3prio que n\u00e3o compreendia sen\u00e3o a italiana.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 incontest\u00e1vel que fosse o introdutor do hugo\u00edsmo<br \/>\nna nossa poesia. Tal invento, ali\u00e1s, n\u00e3o bastaria para afam\u00e1-lo.<br \/>\nDe parte a sua inspira\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social, objetiva<br \/>\nem suma, a poesia de Hugo influiu aqui, ainda nos seus melhores disc\u00edpulos,<br \/>\nmuito mais pelos seus aspectos extreriores e pelo defeito da sua fei\u00e7\u00e3o<br \/>\norat\u00f3ria, que pelo profundo lirismo \u00edntimo e alto sentimento<br \/>\npo\u00e9tico que acaso a sobreleva entre toda a poesia do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Muito menor foi o renome e a influ\u00eancia de Tobias Barreto como poeta<br \/>\ndo que como pensador. Eclipsou-lhos Castro Alves, seu feliz \u00eamulo no<br \/>\ncondoreirismo e seu triunfante rival em toda a poesia. O lirismo de Tobias<br \/>\nBarreto, no que tem de melhor, \u00e9 em suma da mesma esp\u00e9cie do<br \/>\ncomum lirismo brasileiro, amoroso ou antes namorado, sensual, dolente, abundante<br \/>\nem voluptuosidades ardentes e queixumes melanc\u00f3licos. Se alguma cousa<br \/>\no distingue \u00e9, de um lado, o tom orat\u00f3rio, ainda \u00e9pico,<br \/>\nem que oscila entre as extravag\u00e2ncia dos Volunt\u00e1rios pernambucanos<br \/>\ne quejandos poemas e os belos rasgos do G\u00eanio da humanidade; de outro,<br \/>\na nota popular simples, vulgar, mesmo trivial, que \u00e0s vezes lhe d\u00e1<br \/>\na cantiga um sainete particular e, ocasionalmente, encantador. Mas dessa nota<br \/>\nabusa, bem como barateia e vulgariza o estro em glosar notas, \u00e0 moda<br \/>\ndos poetas seiscentistas e arc\u00e1dicos, e em celebrar com inaudita facilidade<br \/>\nde admira\u00e7\u00e3o e trivialidade de emo\u00e7\u00e3o a quanto<br \/>\ncabotino ou cabotina acertava de passar pelo Recife. Quer como poeta, quer<br \/>\ncomo prosador, uma das maiores falhas de Tobias Barreto foi a de gosto. A<br \/>\natividade po\u00e9tica de Tobias Barreto exerceu-se ali\u00e1s, principalmente<br \/>\nnos primeiros anos da sua vida liter\u00e1ria (1862-1871), quando ainda<br \/>\nestudante, o que lhe explica e desculpa as defici\u00eancias e sen\u00f5es.<br \/>\nQue, apesar do seu incontest\u00e1vel estro, n\u00e3o era propriamente<br \/>\numa voca\u00e7\u00e3o de poeta, prova-o o haver quase abandonado a poesia<br \/>\npela filosofia, o direito, a cr\u00edtica e outros estudos.<\/p>\n<p>\u00c9 a Ant\u00f4nio de Castro Alves que por consenso geral pertence<br \/>\na primazia entre os poetas desta gera\u00e7\u00e3o. Nasceu ele na Bahia<br \/>\na 14 de mar\u00e7o de 1847, e ali morreu em 6 de junho de 1871. Da sua terra<br \/>\nnatal, ainda n\u00e3o completos os estudos de preparat\u00f3rios, passou-se<br \/>\na Pernambuco para os acabar, e estudar Direito. Foi l\u00e1 que realmente<br \/>\nestreou em 1862. Seis anos depois deixou Pernambuco por S. Paulo, passando<br \/>\npelo Rio de Janeiro, onde lhe serviram de introdutores Jos\u00e9 de Alencar<br \/>\ne Machado de Assis. Trazia na sua bagagem liter\u00e1ria, com v\u00e1rios<br \/>\npoemas soltos avulsamente publicados, o drama Gonzaga ou a Conjura\u00e7\u00e3o<br \/>\nMineira, j\u00e1 representado na Bahia. Em S. Paulo, ao contato de uma juventude<br \/>\nentusiasta de poesia e eloq\u00fc\u00eancia, ao est\u00edmulo de festas<br \/>\nrepetidas que lhe depararam ensejo de dar provas de ambas, acabou de se lhe<br \/>\ndesabrochar o engenho po\u00e9tico. No fim de 1869, dali recolheu enfermo<br \/>\n\u00e0 terra natal, onde pouco depois faleceu, tendo antes dado a lume os<br \/>\nseus versos reunidos, sob o t\u00edtulo de Espumas flutuantes (1870). Poucos<br \/>\nlivros brasileiros, e menos de versos, t\u00eam sido t\u00e3o lidos.<\/p>\n<p>Tem-se dito que os latinos n\u00e3o temos poesia, sen\u00e3o eloq\u00fc\u00eancia.<br \/>\nN\u00e3o discuto o asserto. N\u00f3s brasileiros, que apenas seremos por<br \/>\num ter\u00e7o latinos, sei que somos nimiamente sens\u00edveis \u00e0<br \/>\nret\u00f3rica po\u00e9tica. N\u00e3o nos impede isso ali\u00e1s de<br \/>\ncomovermo-nos tamb\u00e9m, embora superficialmente talvez, ao sentimento<br \/>\nda poesia quando ela canta as f\u00e1ceis paix\u00f5es sensuais do nosso<br \/>\nardor amoroso de mesti\u00e7os ou chora os nossos f\u00e1ceis desgostos<br \/>\nde gente mole. S\u00e3o exemplos os casos de Gon\u00e7alves Dias, poeta<br \/>\ndo amor, e dos realmente deliciosos cantores da segunda gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica, e de Fagundes Varela, ainda hoje os poetas mais vivos na<br \/>\nnossa mem\u00f3ria e no nosso cora\u00e7\u00e3o. A ingenuidade, por\u00e9m,<br \/>\na virtude cardial dos maiores poetas anglo-germ\u00e2nicos, essa sim, \u00e9<br \/>\nquase de todo estranha \u00e0 nossa poesia, que assim carece de um dos mais<br \/>\nsedutores elementos da arte, quando, ap\u00f3s os \u00faltimos rom\u00e2nticos,<br \/>\nos nossos poetas se fizeram refinados e se puseram a apurar com a forma o<br \/>\nsentimento \u00e0 moda dos parnasianos franceses, deixaram de fato de comover<br \/>\no p\u00fablico, ou s\u00f3 continuaram a impression\u00e1-lo pelo aspecto<br \/>\nexterno dos seus poemas perfeitos, pela sonoridade constante dos seus versos.<br \/>\nPorque em suma o que preferimos \u00e9 a forma, mormente a forma eloq\u00fcente,<br \/>\norat\u00f3ria, a \u00eanfase, ainda o &#8220;palavr\u00e3o&#8221;, as imagens<br \/>\nvistosas, aquelas sobre todas, que por seu exagero, sua desconformidade, sua<br \/>\nmaterialidade, mais impressionam o nosso esp\u00edrito, de nenhum modo \u00e1tico.<br \/>\n\u00c9 este no fundo o motivo do nosso antigo afeto ao \u00e9pico e da<br \/>\nnossa moderna predile\u00e7\u00e3o pelos poetas sobretudo eloq\u00fcentes<br \/>\ne brilhantes, como os condoreiros, Pedro Lu\u00eds, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio<br \/>\ne o Sr. Bilac. \u00c9 verdade que nenhum destes vale apenas por qualidades<br \/>\nde brilho e fac\u00fandia po\u00e9tica. Essas tinha-as em alto grau, e<br \/>\nda boa esp\u00e9cie, Castro Alves, mas tinha outras al\u00e9m delas.<\/p>\n<p>Passada a sentimentalidade sincera, mas pouco variada, e que sob o aspecto<br \/>\nda express\u00e3o acabara por se tornar mon\u00f3tona, das gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nprecedentes, a inspira\u00e7\u00e3o de Castro Alves apareceu como uma<br \/>\nnovidade. Era, pois, bem-vindo o jovem poeta baiano, e n\u00e3o lhe custou<br \/>\na assumir no breve tempo que viveu e poetou o principado da poesia. \u00c9<br \/>\nposs\u00edvel que Tobias Barreto o precedesse de dois ou tr\u00eas anos<br \/>\nno arremedo de Hugo e na fac\u00fandia po\u00e9tica alcunhada de condoreirismo.<br \/>\nEsta preced\u00eancia meramente cronol\u00f3gica, n\u00e3o seguida de<br \/>\ninflu\u00eancia apreci\u00e1vel, por forma alguma prejudica o fato incontest\u00e1vel<br \/>\nda preemin\u00eancia po\u00e9tica de Castro Alves neste momento. Al\u00e9m<br \/>\nde maior talento po\u00e9tico, de mais rica inspira\u00e7\u00e3o, de<br \/>\nestro mais poderoso e da express\u00e3o ao cabo mais formosa e mais tocante,<br \/>\nconcorreram para o sobrelevar ao poeta sergipano a sua sa\u00edda de Pernambuco<br \/>\ne vinda ao Rio e S. Paulo, e que lhe dilatou a fama al\u00e9m do estreito<br \/>\nc\u00edrculo pernambucano, no qual se confinou a de Tobias Barreto, e, mais<br \/>\nainda, a publica\u00e7\u00e3o em 1870 dos seus versos, ao passo que os<br \/>\ndo seu rival s\u00f3 vieram \u00e0 luz onze anos depois. E em tanto que<br \/>\nas Espumas flutuantes, de Castro Alves, t\u00eam hoje oito ou dez edi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nafora numerosas publica\u00e7\u00f5es avulsas de alguns dos seus poemas,<br \/>\nos Dias e noites de Tobias Barreto n\u00e3o alcan\u00e7aram mais de duas.<br \/>\nEste fato marca suficientemente o grau de estima em que os dois poetas s\u00e3o<br \/>\ntidos.<\/p>\n<p>Havia em Castro Alves, como em \u00c1lvares de Azevedo, que ele grandemente<br \/>\nadmirava e imitou, o fogo sagrado, alguma cousa que \u00e0 nossa observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuperficial e pendor para o exagero de ju\u00edzos, parecia g\u00eanio,<br \/>\num grande talento verbal, uma sincera eloq\u00fc\u00eancia comunicativa,<br \/>\num simp\u00e1tico entusiasmo juvenil. Tudo isto encobria as imperfei\u00e7\u00f5es<br \/>\nevidentes da sua obra, e disfar\u00e7ava-lhe as incorrei\u00e7\u00f5es<br \/>\nde pensamento e express\u00e3o. N\u00e3o se viu ent\u00e3o que \u00e0<br \/>\nfarragem daquela verbosidade de escola sobrelevava de muito a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\npor onde se ele ligava ao nosso lirismo e o continuava dando-lhe \u2014 e<br \/>\neste \u00e9 o seu m\u00e9rito e import\u00e2ncia \u2014 com um verbo<br \/>\nmais vivo, mais brilhante, mais sonoro, uma vida nova, formas mais variadas,<br \/>\ncores mais rutilantes, sentimentos menos comuns, maior fundo de id\u00e9ias,<br \/>\nmaior riqueza de sensa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 que naquele<br \/>\nestilo pomposo n\u00e3o tenha Castro Alves dous ou tr\u00eas poemas verdadeiramente<br \/>\nbelos. H\u00e1, por exemplo, em Vozes d\u2019\u00c1frica, e ainda no<br \/>\nNavio negreiro, mais que a \u00eanfase ou a ret\u00f3rica da escola, eloq\u00fc\u00eancia<br \/>\ndos melhores quilates, profundo sentimento po\u00e9tico, emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nsincera e, sobretudo no primeiro, uma formosa idealiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica<br \/>\nda situa\u00e7\u00e3o do continente maldito e das reivindica\u00e7\u00f5es<br \/>\nque o nosso ideal humano lhe atribui. E mais uma ent\u00e3o ainda n\u00e3o<br \/>\nvulgar perfei\u00e7\u00e3o de forma. N\u00e3o a perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nm\u00e9trica simplesmente, por\u00e9m, m\u00e9rito mais alto e mais<br \/>\nraro, a correla\u00e7\u00e3o da palavra com o pensamento, a sobriedade<br \/>\nda express\u00e3o que se n\u00e3o desvia e derrama do seu curso, e por<br \/>\nvezes uma concis\u00e3o forte que real\u00e7a singularmente toda a composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nal\u00e9m de imagens novas, verdadeiras, belas de fato, e uma representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque em certas estrofes atinge do perfeito sen\u00e3o ao sublime. S\u00e3o<br \/>\ndisso exemplo esses versos que t\u00eam o vigor de uma grande pintura:<\/p>\n<p>L\u00e1 no solo onde o cardo apenas medra,<\/p>\n<p>Boceja a esfinge colossal de pedra<\/p>\n<p>Fitando o morno c\u00e9u.<\/p>\n<p>De Tebas nas colunas derrocadas<\/p>\n<p>As cegonhas espiam debru\u00e7adas,<\/p>\n<p>O horizonte sem fim<\/p>\n<p>Onde branqueja a caravana errante<\/p>\n<p>E o camelo mon\u00f3tono, arquejante,<\/p>\n<p>Que desce de Efraim&#8230;<\/p>\n<p>Com Castro Alves pode dizer-se que se alarga a nossa inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica, objetiva-se o nosso estro e os poetas entram a perceber que<br \/>\no mundo vis\u00edvel existe. Poeta nacional, se n\u00e3o mais nacionalista,<br \/>\npoeta social, humano e humanit\u00e1rio, o seu rico estro livrou-o de perder-se<br \/>\nnum objetivismo que, n\u00e3o temperado de lirismo, \u00e9 a mesma nega\u00e7\u00e3o<br \/>\nda poesia. As cousas sociais e humanas as viu e entendeu e as cantou como<br \/>\npoeta, \u00e0s vezes com preval\u00eancia da eloq\u00fc\u00eancia sobre<br \/>\no sentimento, mas sempre com sentida emo\u00e7\u00e3o de poeta. A sua<br \/>\ninflu\u00eancia foi enorme, sen\u00e3o sempre estim\u00e1vel. Atuou vantajosamente<br \/>\nem alguns dos seus melhores sucessores, o que desculpa a calamidade dos imitadores<br \/>\nmed\u00edocres.<\/p>\n<p>Foi contempor\u00e2neo destes poetas em Pernambuco, qui\u00e7\u00e1<br \/>\nos emulou, Lu\u00eds Nicolau Fagundes Varela, fluminense do Rio Claro, onde<br \/>\nnasceu em 17 de agosto de 1841. Na sua mesma prov\u00edncia, em Niter\u00f3i,<br \/>\nfaleceu em 18 de fevereiro de 1875. Poetou entre os anos de 60 e 75. Cronol\u00f3gica<br \/>\ne literariamente sucede aos primeiros poetas da segunda gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica, que admirou e imitou. Al\u00e9m da deles, sofreu vis\u00edvel<br \/>\ne confessadamente como ali\u00e1s aconteceu a todos os poetas posteriores<br \/>\na Gon\u00e7alves Dias, a influ\u00eancia do poeta maranhense. Estes diversos<br \/>\ninfluxos foram decisivos na forma\u00e7\u00e3o do estro e estilo po\u00e9tico<br \/>\nde Varela. Foi menor o de Tobias Barreto e Castro Alves, n\u00e3o obstante<br \/>\nter Varela assistido em Pernambuco no tempo em que os dous emulavam ali pela<br \/>\nsupremacia po\u00e9tica. Varela era de ess\u00eancia um puro sentimental,<br \/>\ne isso ficou apesar das suas med\u00edocres tentativas de poesia patri\u00f3tica.<br \/>\nMas a sua originalidade, se a tinha, ressentiu-se demasiado de todas essas<br \/>\ninflu\u00eancias. Lido ap\u00f3s aqueles poetas, deixa-nos a impress\u00e3o<br \/>\ndo j\u00e1 lido. No tom propriamente l\u00edrico dos seus poemas, nada<br \/>\nse depara de novo, nem no fundo nem na forma. E como ambos n\u00e3o t\u00eam<br \/>\nnele quaisquer virtudes not\u00e1veis ou sinais particulares de distin\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne haja em seus versos demasiadas reminisc\u00eancias daqueles poetas, e repeti\u00e7\u00f5es<br \/>\nde seus pr\u00f3prios pensamentos e dizeres, \u00e0 impress\u00e3o de<br \/>\nfalta de originalidade junta-se a da banalidade. \u00c9 que poeta espont\u00e2neo,<br \/>\nde uma inspira\u00e7\u00e3o quase popular, \u00e9 tamb\u00e9m poeta<br \/>\nmuito descuidado do seu estro e da sua arte, todo entregue \u00e0 pura inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque as reminisc\u00eancias e o prest\u00edgio daqueles poetas queridos<br \/>\nfreq\u00fcentemente comprometem. Havia, entretanto, nele um grande fundo de<br \/>\npoesia, isto \u00e9, de sentimento po\u00e9tico. Se n\u00e3o tivera<br \/>\ncedido com demasiada neglig\u00eancia do seu pr\u00f3prio engenho \u00e0s<br \/>\ninflu\u00eancias que banalizaram parte consider\u00e1vel da sua obra, outro<br \/>\npoderia ter sido o valor desta. Juven\u00edlia \u00e9 um dos mais admir\u00e1veis<br \/>\ntrechos do nosso lirismo, como o \u00e9 tamb\u00e9m o C\u00e2ntico do<br \/>\ncalv\u00e1rio, uma das mais eloq\u00fcentes, quero dizer uma das mais comoventes,<br \/>\numa das mais belas entre as elegias da nossa l\u00edngua. Mas enfim a sinceridade<br \/>\nque parece haver no seu sentimento, a simplicidade \u00e0s vezes deliciosa<br \/>\ndo seu cantar, a melanc\u00f3lica voluptuosidade e o \u00edntimo brasileirismo<br \/>\ndaquele sentimento, com a mesma ingenuidade da sua po\u00e9tica seduzem-nos<br \/>\nirresistivelmente e justificam a estima que, apesar das restri\u00e7\u00f5es<br \/>\nfeitas, ele merece e teve dos seus contempor\u00e2neos. Dos poetas do seu<br \/>\ntempo \u00e9 o que mais tem a inspira\u00e7\u00e3o nacionalista ent\u00e3o<br \/>\nem decl\u00ednio, talvez o \u00fanico de inspira\u00e7\u00e3o americana,<br \/>\nainda indianista. Foi parte principal nesta a sua devo\u00e7\u00e3o por<br \/>\nGon\u00e7alves Dias, a quem evoca no Evangelho das selvas, como o &#8220;mestre<br \/>\nda harmonia&#8221;. Este poema seria a derradeira manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo indianismo. A de Machado de Assis tem fei\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias<br \/>\nque a separam do indianismo tradicional. Com bel\u00edssimos versos brancos,<br \/>\nh\u00e1 ainda neste poema de Varela formosos trechos, mas, em suma, revela<br \/>\no cansa\u00e7o da escola e o seu esgotamento, se n\u00e3o a mesma insufici\u00eancia<br \/>\ndo poeta para o g\u00eanero. Os seus poemas patri\u00f3ticos, inspirados<br \/>\nde um momento cr\u00edtico da vida nacional, e que dele e dos sentimentos<br \/>\nque agitavam o pa\u00eds tiravam interesse, foram por isso mesmo parte grande<br \/>\nna fama que em vida adquiriu Varela, acaso acima do seu valor real. Passado<br \/>\no motivo de sua inspira\u00e7\u00e3o, nos parecem agora apenas declamat\u00f3rios,<br \/>\nn\u00e3o tendo guardado nada que esteticamente nos comova. O que h\u00e1<br \/>\nde bom, \u00e0s vezes mesmo de excelente, em Varela, \u00e9 o seu lirismo<br \/>\nsentimental, as suas manifesta\u00e7\u00f5es de dor de pai ou de amante,<br \/>\nos seus lamentos de poeta infeliz, ou que, por amor do romantismo, se fez<br \/>\ninfeliz, quando, o que desgra\u00e7adamente acontece com demasiada freq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nn\u00e3o lhe desmerecem o canto imita\u00e7\u00f5es ou reminisc\u00eancias<br \/>\nde outros poetas.<\/p>\n<p>Machado de Assis e Lu\u00eds Guimar\u00e3es J\u00fanior, cronologicamente<br \/>\ndesta gera\u00e7\u00e3o, estrearam com ela. Machado de Assis, por\u00e9m,<br \/>\nmesmo como poeta, tem um lugar \u00e0 parte e merece cap\u00edtulo especial<br \/>\nda hist\u00f3ria da nossa literatura. Lu\u00eds Guimar\u00e3es J\u00fanior,<br \/>\na despeito da cronologia, pertence antes \u00e0 gera\u00e7\u00e3o parnasiana<br \/>\nque a esta. Foi como parnasiano que ele teve na poesia brasileira um lugar,<br \/>\nse n\u00e3o distinto, not\u00e1vel, que os seus Corimbos (Pernambuco,<br \/>\n1869), pelos quais pertence aos \u00faltimos rom\u00e2nticos, n\u00e3o<br \/>\nbastariam para dar-lhe.<\/p>\n<h4><a name=\"15\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XV<\/h4>\n<p><strong>O MODERNISMO<\/strong><\/p>\n<p>O MOVIMENTO DE ID\u00c9IAS que antes de acabada a primeira metade do s\u00e9culo<br \/>\nXIX se come\u00e7ara a operar na Europa com o positivismo comtista, o transformismo<br \/>\ndarwinista, o evolucionismo spenceriano, o intelectualismo de Taine e Renan<br \/>\ne quejandas correntes de pensamento, que, influindo na literatura, deviam<br \/>\np\u00f4r termo ao dom\u00ednio exclusivo do Romantismo, s\u00f3 se entrou<br \/>\na sentir no Brasil, pelo menos, vinte anos depois de verificada a sua influ\u00eancia<br \/>\nali. Sucessos de ordem pol\u00edtica e social, e ainda de ordem geral, determinaram-lhe<br \/>\nou facilitaram-lhe a manifesta\u00e7\u00e3o aqui. Foram, entre outros,<br \/>\nou os principais: a guerra do Paraguai, acordando o sentimento nacional, meio<br \/>\nadormecido desde o fim das agita\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias<br \/>\nconseq\u00fcentes \u00e0 Independ\u00eancia, e das nossas lutas o Prata;<br \/>\na quest\u00e3o do elemento servil, comovendo toda a na\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne lhe despertando os brios contra a aviltante institui\u00e7\u00e3o consuetudin\u00e1ria;<br \/>\na impropriamente chamada quest\u00e3o religiosa, resultante de conflito<br \/>\nentre as pretens\u00f5es de autonomia do catolicismo oficial e as exig\u00eancias<br \/>\ndo tradicional regalismo do Estado, a qual alvoro\u00e7ou o esp\u00edrito<br \/>\nliberal contra as veleidades do ultramontanismo e abriu a discuss\u00e3o<br \/>\nda cren\u00e7a avoenga, provocando emancipa\u00e7\u00f5es de consci\u00eancias<br \/>\ne abalos da f\u00e9 costumeira; e, finalmente, a guerra franco-alem\u00e3<br \/>\ncom as suas conseq\u00fc\u00eancias, despertando a nossa aten\u00e7\u00e3o<br \/>\npara uma outra civiliza\u00e7\u00e3o e cultura que a francesa, estimulando<br \/>\nnovas curiosidades intelectuais. Certos efeitos inesperados da guerra do Paraguai,<br \/>\ncomo o surdo conflito que, apenas acabada, surgiu entre a tropa demasiado<br \/>\npresumida do seu papel e import\u00e2ncia e os profundos instintos civilistas<br \/>\nda monarquia, n\u00e3o foram sem efeito neste momento da mentalidade nacional.<br \/>\nTamb\u00e9m a Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola de 1868 e conseq\u00fcente<br \/>\nadvento da Rep\u00fablica em Espanha, a queda do segundo imp\u00e9rio<br \/>\nnapole\u00f4nico e imediata proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica<br \/>\nem Fran\u00e7a, em 1870, fizeram ressurgir aqui com maior vigor do que nunca<br \/>\na id\u00e9ia republicana, que desde justamente este ano de 70 se consubstanciara<br \/>\nnum partido com \u00f3rg\u00e3o na imprensa da capital do imp\u00e9rio.<br \/>\nEsta propaganda republicana teve um pronunciado car\u00e1ter intelectual<br \/>\ne interessou grandemente os intelectuais, pode dizer-se que toda a sua parte<br \/>\nmo\u00e7a, ao menos. Outro car\u00e1ter da agita\u00e7\u00e3o republicana<br \/>\nfoi o seu livre-pensamento, se n\u00e3o o seu anticatolicismo, por oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 monarquia, oficialmente cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Atuando simultaneamente sobre o nosso entendimento e a nossa consci\u00eancia,<br \/>\npela como\u00e7\u00e3o causada nos esp\u00edritos aptos para lhes sofrer<br \/>\no abalo, estes diferentes sucessos produziram um salutar alvoro\u00e7o,<br \/>\ndo qual evidentemente se ressentiu o nosso pensamento e a nossa express\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria. \u00c0s id\u00e9ias, nem sempre coerentes, \u00e0s<br \/>\nvezes mesmo desencontradas daquele movimento, fautoras tamb\u00e9m nos acontecimentos<br \/>\nsociais e pol\u00edticos apontados, chamamos aqui de modernas; expressamente<br \/>\nde &#8220;pensamento moderno&#8221;. A novidade que tinham, ou que lhe enxerg\u00e1vamos,<br \/>\nfoi principal\u00edssima parte no alvoro\u00e7o com que as abra\u00e7\u00e1vamos.<br \/>\nNa ordem mental e, particularmente liter\u00e1ria, os seus efeitos se fizeram<br \/>\nsentir numa maior liberdade espiritual e num mais vivo esp\u00edrito cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Foi um dos seus principais agentes, mormente no norte do pa\u00eds, onde<br \/>\nent\u00e3o a vida intelectual, com o seu centro em Pernambuco, tinha certa<br \/>\natividade, Tobias Barreto, j\u00e1 atr\u00e1s estudado como poeta. Eis<br \/>\ncomo o porventura mais inteligente dos seus alunos, o Sr. Gra\u00e7a Aranha,<br \/>\nno estilo com que a nossa gente se escusa a clarificar as pr\u00f3prias<br \/>\nid\u00e9ias e se embriaga de palavras, lhe diz o feito insigne: &#8220;Em<br \/>\n1882, Tobias Barreto, que os seus condisc\u00edpulos n\u00e3o compreenderam<br \/>\ne de cuja intensa reputa\u00e7\u00e3o ainda se espantam e sorriem, abalava<br \/>\ncomo um ciclone a sonolenta Academia do Recife. Ele invade a sociedade espiritual<br \/>\ndo seu tempo como um verdadeiro homem da sua ra\u00e7a. E o segredo da sua<br \/>\nfor\u00e7a est\u00e1 na absoluta e constante fidelidade a esse temperamento,<br \/>\nem cuja formid\u00e1vel composi\u00e7\u00e3o entram doses gigantescas<br \/>\nde calor, de luz e de todas aquelas ondas de vida, que o sol transfunde regiamente<br \/>\nao sangue mesti\u00e7o&#8230; Tinha a exuber\u00e2ncia, a seiva, a neglig\u00eancia<br \/>\nque o fazia estranho a todo o c\u00e1lculo, mesmo o da sua reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde al\u00e9m-t\u00famulo, o prodigioso dom de fantasiar, o fabuliren dos<br \/>\ncriadores, e mais a impaci\u00eancia e a tem\u00edvel explos\u00e3o da<br \/>\nrevolta que permanecer\u00e1 como o tra\u00e7o vivaz do seu car\u00e1ter.<br \/>\nN\u00e3o houve vaso que o amoldasse; n\u00e3o conheceu sen\u00e3o os<br \/>\nlimites inabord\u00e1veis da liberdade e os de extrema irresponsabilidade.<br \/>\nP\u00f4de como um sertanejo viver com o povo, foi descuidado, miser\u00e1vel<br \/>\ne infeliz. Cresceu m\u00fasico e poeta. E mais tarde, quando lhe chegar<br \/>\na cultura, ela vir\u00e1 na barca fant\u00e1stica da poesia. E foi pelo<br \/>\nimpulso dessa vol\u00e1til ess\u00eancia do seu temperamento, que Tobias<br \/>\nBarreto passou da arte para a filosofia. O pensador nele \u00e9 uma modela\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo vate. Transportar\u00e1 para a metaf\u00edsica, para as ci\u00eancias<br \/>\nbiol\u00f3gicas, para o direito, a magia da adivinha\u00e7\u00e3o, o<br \/>\nimproviso milagroso, a necessidade de idealizar e de imaginar, que \u00e9<br \/>\na poesia. Quase toda a sua ci\u00eancia, quando n\u00e3o vem da legisla\u00e7\u00e3o<br \/>\nou da l\u00edngua, \u00e9 feita principalmente da intui\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne os seus vastos descortinamentos, os clar\u00f5es que abre, a vida que<br \/>\nd\u00e1 \u00e0s id\u00e9ias apenas entrevistas no prisma da sua vis\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 mais a cria\u00e7\u00e3o do poeta que a l\u00f3gica do s\u00e1bio.<br \/>\nE nisto foi um homem do seu tempo e da nossa ra\u00e7a. \u00c9 preciso<br \/>\nque o sangue corra longamente, durante s\u00e9culos, numa infinita descend\u00eancia,<br \/>\npara que o precipitado das for\u00e7as originais do nosso esp\u00edrito<br \/>\nseja a idealiza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O m\u00e1ximo, o que<br \/>\npor enquanto podemos atingir, foi o que nos deu Tobias Barreto, a filosofia<br \/>\natrav\u00e9s das cores solares da poesia&#8221;.133<\/p>\n<p>Esta p\u00e1gina, ali\u00e1s bela, \u00e9 por mais de um t\u00edtulo<br \/>\npreciosa. Primeira como documento do nosso gosto do verbo pelo verbo, quanto<br \/>\nmais pomposo e rutilante mais amado, &#8220;imensa reputa\u00e7\u00e3o&#8221;,<br \/>\n&#8220;abalava como um ciclone&#8221;, &#8220;formid\u00e1vel composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um temperamento&#8221;, &#8220;doses gigantescas&#8221;, &#8220;prodigioso<br \/>\ndom de fantasiar&#8221;, &#8220;a magia da adivinha\u00e7\u00e3o&#8221;,<br \/>\n&#8220;o improviso milagroso&#8221;, &#8220;os vastos descortinamentos&#8221;,<br \/>\ne tudo mais assim magnificado e exorbitante.<\/p>\n<p>Nunca os m\u00e1ximos pensadores dos grandes pa\u00edses de alta cultura,<br \/>\num Kant, um Spencer, um Comte lograram ser assim t\u00e3o grandiloquamente<br \/>\ncelebrados pelos seus compatriotas.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 sobretudo precioso este discurso, porque o pr\u00f3prio vago<br \/>\ne amb\u00edguo desta representa\u00e7\u00e3o de Tobias Barreto e sua<br \/>\nobra rev\u00ea o incerto e equ\u00edvoco dessa figura e dessa obra, ainda<br \/>\nhoje ambas mal definidas, gra\u00e7as principalmente aos seus indiscretos<br \/>\npanegiristas. J\u00e1 vimos em que verdadeiramente lhe consistiu a a\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque, ainda reduzida a essas propor\u00e7\u00f5es, foi todavia consider\u00e1vel,<br \/>\ncomo est\u00edmulo e impulso. As nossas academias ou faculdades superiores<br \/>\nforam desde o meio do s\u00e9culo passado os principais focos da nossa atividade<br \/>\nliter\u00e1ria. Dessa origem lhe vir\u00e1 a fraqueza dos resultados,<br \/>\na sua imperfei\u00e7\u00e3o e inconsist\u00eancia. A nossa literatura<br \/>\ndesde o Romantismo foi principalmente feita por estudantes ou mo\u00e7os<br \/>\napenas sa\u00eddos das faculdades, com pouca li\u00e7\u00e3o dos livros<br \/>\ne nenhuma da vida. Nelas se geraram quase todos os nossos movimentos, e todas<br \/>\nas novidades de ordem mental, como era natural, acharam nelas terreno adequado,<br \/>\ntanto para o joio como para o trigo. Foi sobretudo mediante os seus alunos<br \/>\ndo Recife, literariamente deslumbrados pela fac\u00fandia do professor,<br \/>\ndeslumbramento aumentado da simpatia que lhes inspiravam os seus h\u00e1bitos<br \/>\nbo\u00eamios e alguns dos seus mesmos defeitos, tudo levado \u00e0 conta<br \/>\nde poesia ou filosofia, que Tobias Barreto influiu na mente brasileira. Sem<br \/>\noutra originalidade, talvez, que a do seu verbo, como ele desordenado e exuberante,<br \/>\nsem nenhum saber cient\u00edfico realmente s\u00f3lido, agitou, entretanto,<br \/>\numa por\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias novas, pregou ou doutrinou concep\u00e7\u00f5es<br \/>\ndesconhecidas da maioria, citou, com enf\u00e1ticos enc\u00f4mios, nomes<br \/>\nalem\u00e3es e russos de quase todos ignorados, e cujo valor rar\u00edssimos<br \/>\npodiam verificar, e firme e desassombradamente proclamou a necessidade de<br \/>\nrefazermos completamente a nossa cultura em outras fontes que aquelas onde<br \/>\nat\u00e9 a\u00ed principalmente bebiam as portuguesas e francesas. A estas<br \/>\nn\u00e3o conseguiu ali\u00e1s que de todo as deix\u00e1ssemos, pois<br \/>\nnela \u00e9 que principalmente bebemos ainda. N\u00e3o foi, por\u00e9m,<br \/>\ninteiramente perdido o seu reclamo. Concorreu muito para entrar conosco a<br \/>\nd\u00favida salutar de que as nascentes tradicionais da nossa cultura n\u00e3o<br \/>\nseriam as \u00fanicas ben\u00e9ficas, e a curiosidade do nosso esp\u00edrito<br \/>\nse alargou consoantemente. Basta isso para lhe assegurar um posto proeminente<br \/>\nna nossa evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, ou antes cultural, sem necessidade<br \/>\nde lhe exagerarmos o valor da obra.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a fragment\u00e1ria e dispersiva, e n\u00e3o guarda outra<br \/>\nunidade que a da inspira\u00e7\u00e3o acaso mais l\u00edrica que filos\u00f3fica<br \/>\ndo seu g\u00eanio e da sua f\u00e9, na superioridade da cultura alem\u00e3<br \/>\ne na legitimidade da sua hegemonia. Em estilo descomposto como lhe era a vida,<br \/>\nnuma forma muito pessoal, e por isso mesmo viva e interessante, com propositada<br \/>\nou congenial car\u00eancia daquela urbanidade de que os latinos faziam uma<br \/>\nvirtude liter\u00e1ria, escreveu dezenas de op\u00fasculos, artigos e<br \/>\nensaios. Teoria liter\u00e1ria, cr\u00edtica, filosofia, sociologia, religi\u00e3o,<br \/>\ndireito, psicologia, literatura comparada, filosofia cient\u00edfica, biologia,<br \/>\nhist\u00f3ria, em suma de omni re scibili, tudo versou neles. Esta afeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde saber universal, sempre suspeito num puro autodidata, real\u00e7ado em<br \/>\nverdade por um grande e sincero calor de exposi\u00e7\u00e3o, em que superabundavam<br \/>\nprovas de talento, abalou a mocidade da escola onde professava e por ela boa<br \/>\nparte da mentalidade mo\u00e7a do pa\u00eds. Livro, n\u00e3o publicou<br \/>\nem vida mais que os Estudos alem\u00e3es, cole\u00e7\u00e3o de artigos<br \/>\ndiversos, e Menores e loucos, monografia de direito criminal. A maior parte<br \/>\nda sua obra saiu p\u00f3stuma. A sua a\u00e7\u00e3o foi sobretudo oral,<br \/>\na do seu ensino, dos seus discursos, das suas palestras, e reflexa, operada<br \/>\npor interm\u00e9dio dos seus disc\u00edpulos. E de fato se n\u00e3o<br \/>\nexerceu e tornou sens\u00edvel com prioridade que lhe assegure a primazia<br \/>\nde precursor do movimento modernista aqui. Sem falar dos seus anos de estudante<br \/>\nno Recife (1862-1871), em que &#8220;cultivou preponderamente a poesia&#8221;,134<br \/>\na sua a\u00e7\u00e3o \u00fatil s\u00f3 verdadeiramente come\u00e7ou<br \/>\ncom o seu professorado ali em 1882. Os dez anos anteriores (1871-1881) passara-os<br \/>\nele na pequena cidade pernambucana da Escada, obscuro e desconhecido. Nesse<br \/>\nlugarejo, que n\u00e3o era nenhuma Weimar, publicou op\u00fasculos em<br \/>\nportugu\u00eas e alem\u00e3o. Destes \u00faltimos seria ele pr\u00f3prio<br \/>\num dos rar\u00edssimos leitores, porque, segundo nos exprobrava como de<br \/>\numa inf\u00e2mia, n\u00e3o havia ent\u00e3o aqui mais que umas escassas<br \/>\ndezenas de pessoas que lessem essa l\u00edngua. Esta exc\u00eantrica atividade<br \/>\nliter\u00e1ria da Escada n\u00e3o teve nenhuma publicidade e menos repercuss\u00e3o.<br \/>\nS\u00f3 foi lembrada quanto Tobias Barreto se tinha feito conhecido como<br \/>\nprofessor no Recife e come\u00e7ava a criar pros\u00e9litos. Ningu\u00e9m<br \/>\nque de todo n\u00e3o ignore as condi\u00e7\u00f5es da nossa vida intelectual,<br \/>\nadmitir\u00e1 a influ\u00eancia de um escritor, por mais genial que o suponhamos,<br \/>\ncuja atividade se exer\u00e7a espor\u00e1dica e fragmentariamente em magros<br \/>\nfolhetos e ef\u00eameros peri\u00f3dicos, numa cidade sertaneja. Somente<br \/>\nem 1882 come\u00e7ou, pois, a a\u00e7\u00e3o de Tobias Barreto a se<br \/>\nfazer sentir, e de primeiro exclusivamente no Recife.<\/p>\n<p>Antes disso, por\u00e9m, desde os primeiros anos do dec\u00eanio de 70,<br \/>\ne sob as influ\u00eancias notadas, manifestava-se no Rio de Janeiro o movimento<br \/>\nmodernista. Foi nos pr\u00f3prios livros franceses de Litr\u00e9, de Quinet,<br \/>\nde Taine ou de Renan, influenciados pelo pensamento alem\u00e3o e tamb\u00e9m<br \/>\npelo ingl\u00eas, que come\u00e7amos desde aquele momento a intruir-nos<br \/>\ndas novas id\u00e9ias. Influindo tamb\u00e9m em Portugal, criara ali a<br \/>\ncultura alem\u00e3 uma pl\u00eaiade de escritores pelo menos ruidosos,<br \/>\ncomo Te\u00f3filo Braga, Adolfo Coelho, Joaquim de Vasconcelos, Antero de<br \/>\nQuental, Luciano Cordeiro, amotinados contra a situa\u00e7\u00e3o mental<br \/>\ndo Reino. Al\u00e9m destes, E\u00e7a de Queir\u00f3s e Ramalho Ortig\u00e3o<br \/>\nvulgarizavam nas Farpas, com mais petul\u00e2ncia e esp\u00edrito do que<br \/>\nsaber, as novas id\u00e9ias. Todos estes, aqui muito mais lidos do que nunca<br \/>\no foi Tobias Barreto, atuaram poderosamente a nossa mentalidade. E o movimento<br \/>\ncoimbr\u00e3o, como se chamou \u00e0 briga liter\u00e1ria do &#8220;Bom<br \/>\nsenso e bom gosto&#8221;, pelos anos de 65, teve certamente muito maior repercuss\u00e3o<br \/>\nna mentalidade liter\u00e1ria brasileira do tempo, do que a pseudo-escola<br \/>\ndo Recife. Muito mais daquele movimento do que da influ\u00eancia de Tobias<br \/>\nBarreto, derivou a Literatura brasileira e a Cr\u00edtica moderna (1880)<br \/>\ndo Sr. S\u00edlvio Romero, e bem assim os seus principais estudos da hist\u00f3ria<br \/>\nda literatura brasileira. O positivismo comtista inaugurava aqui e em S. Paulo<br \/>\na sua propaganda, primeiro somente do aspecto cient\u00edfico da doutrina.<br \/>\nEssa prega\u00e7\u00e3o convencida, tenaz, teve desde logo a seu lado,<br \/>\na prestigi\u00e1-la, alguns bons sabedores das ci\u00eancias positivas,<br \/>\nparticularmente das matem\u00e1ticas. E em 1875, estranho a qualquer influ\u00eancia<br \/>\ndo exc\u00eantrico fil\u00f3sofo da Escada, um velho diplomata, Ara\u00fajo<br \/>\nRibeiro (visconde do Rio Grande), publicava no Rio de Janeiro o seu volumoso<br \/>\nlivro O fim da cria\u00e7\u00e3o, o primeiro de doutrina darwinista, se<br \/>\nn\u00e3o materialista, escrito no Brasil.<\/p>\n<p>Na mesma d\u00e9cada entrou a instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica a<br \/>\nocupar mais seriamente a aten\u00e7\u00e3o dos governos e do p\u00fablico.<br \/>\nA Tipografia Nacional tirava em volume as tradu\u00e7\u00f5es dos livros<br \/>\nde Hippeau sobre o ensino p\u00fablico nos Estados Unidos, na Inglaterra<br \/>\ne na Pr\u00fassia. Reformava-se, procurando-se desenvolv\u00ea-lo, o Col\u00e9gio<br \/>\nde D. Pedro II, \u00fanico foco de estudos cl\u00e1ssicos que possu\u00edamos,<br \/>\nhoje quase extinto. Criavam-se confer\u00eancias e cursos p\u00fablicos,<br \/>\nonde se come\u00e7aram a agitar as novas id\u00e9ias filos\u00f3ficas,<br \/>\ncient\u00edficas e liter\u00e1rias. Remodelava-se o antigo curso da Escola<br \/>\nCentral, organizando-se a Escola Polit\u00e9cnica, acrescentando-se-lhe<br \/>\naos cursos profissionais as duas importantes se\u00e7\u00f5es de ci\u00eancias<br \/>\nf\u00edsicas e naturais e ci\u00eancias f\u00edsicas e matem\u00e1ticas.<br \/>\nPara reger as novas cadeiras vieram da Europa professores especiais, como<br \/>\no f\u00edsico Guignet, o fisiologista Couty, o mineralogista e ge\u00f3logo<br \/>\nGorceix, logo depois incumbido da funda\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Escola de Minas de Ouro Preto, nesse tempo criada. Tamb\u00e9m o ensino<br \/>\nm\u00e9dico foi reformado, acrescido de mat\u00e9rias e cadeiras novas.<br \/>\nA reforma que igualmente sofreram o Museu e a Biblioteca Nacional determinou<br \/>\nmaior atividade e mais \u00fatil efeito destas velhas e paradas institui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO Museu come\u00e7ou a publicar os seus interessantes Arquivos em cujos<br \/>\ntr\u00eas primeiros volumes (1876-1878) se encontram trabalhos originais<br \/>\nde antropologia, fisiologia, arqueologia e etnografia e hist\u00f3ria natural<br \/>\nde sabedores brasileiros, Lacerda, Rodrigues Peixoto, Ladislau Neto, Ferreira<br \/>\nPena, e estrangeiros ao servi\u00e7o do Brasil, Hartt, Orville Derby, Fritz<br \/>\nM\u00fcller e outros. Simultaneamente com os Arquivos do Museu v\u00eam a<br \/>\nlume os Anais da Biblioteca Nacional, ricos de informa\u00e7\u00f5es bibliogr\u00e1ficas,<br \/>\nde eruditas mem\u00f3rias e monografias interessantes para a nossa hist\u00f3ria<br \/>\nliter\u00e1ria e geral. Nos ensaios de ci\u00eancia (1873), Batista Caetano<br \/>\nde Almeida Nogueira funda o estudo das l\u00ednguas ind\u00edgenas brasileiras<br \/>\nsegundo os novos m\u00e9todos da ci\u00eancia da linguagem, recriada pelos<br \/>\nalem\u00e3es, tirando-o do fantasioso empirismo em que at\u00e9 ent\u00e3o<br \/>\nandou. Os estudos da hist\u00f3ria do Brasil no s\u00e9culo XVI (1880),<br \/>\nn\u00e3o obstante o seu ex\u00edguo tomo, revelavam no Sr. Capistrano<br \/>\nde Abreu raras capacidades, posteriormente confirmadas por outros trabalhos,<br \/>\npara essa ordem de estudos, aqui tamb\u00e9m depois da morte de Varnhagen<br \/>\nquase que entregues \u00e0 pura improvisa\u00e7\u00e3o. Pelo fim do<br \/>\nmesmo dec\u00eanio, Araripe J\u00fanior, um dos melhores esp\u00edritos<br \/>\ndeste momento, come\u00e7ara a publicar o seu perfil liter\u00e1rio de<br \/>\nJos\u00e9 de Alencar, uma das obras capitais da cr\u00edtica brasileira,<br \/>\ne no pref\u00e1cio da primeira edi\u00e7\u00e3o, em 1882, declarava<br \/>\nque a reconstitui\u00e7\u00e3o das suas id\u00e9ias datava de 1873.<br \/>\nNo Cear\u00e1, donde era e onde residia Araripe J\u00fanior, formara-se<br \/>\npor aquele tempo um grupo liter\u00e1rio composto dele, de Capistrano de<br \/>\nAbreu, do malogrado Rocha Lima, de Domingos Ol\u00edmpio, de Tom\u00e1s<br \/>\nPompeu e doutros nomes menos conhecidos, grupo ledor de Spencer, Buckle, Taine<br \/>\ne Comte e entusiasta das suas novas id\u00e9ias. Esse grupo ficou estranho<br \/>\n\u00e0 influ\u00eancia da Escada e precedeu de dez anos a do Recife. O<br \/>\nJos\u00e9 de Alencar, de Araripe J\u00fanior, inspirava-o manifestamente<br \/>\no crit\u00e9rio cr\u00edtico de Taine, como o descobrimento do Brasil<br \/>\ne seu desenvolvimento no s\u00e9culo XVI (1883), de Capistrano de Abreu,<br \/>\no evolucionismo spenceriano. Em 1874, um m\u00e9dico de S. Paulo, o Dr.<br \/>\nLu\u00eds Pereira Barreto, publicava, sob o t\u00edtulo de Tr\u00eas<br \/>\nfilosofias, a exposi\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o, que ficou ali\u00e1s<br \/>\nincompleta, dos tr\u00eas estados do esp\u00edrito humano, conforme a doutrina<br \/>\nde Augusto Comte. E as quest\u00f5es hist\u00f3ricas, filos\u00f3ficas,<br \/>\njur\u00eddicas, pol\u00edticas e ainda culturais que se prendem ao grave<br \/>\ntema do poder e autoridade do papa e das suas rela\u00e7\u00f5es com o<br \/>\ns\u00e9culo eram, em 1877, larga e eruditamente discutidas pelo Sr. Rui<br \/>\nBarbosa numa copios\u00edssima introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 sua vers\u00e3o<br \/>\npara o portugu\u00eas da obra alem\u00e3 do C\u00f4nego Doellinger, O<br \/>\nPapa e o Conc\u00edlio. Nessa prefa\u00e7\u00e3o, o Sr. Rui Barbosa<br \/>\nrevelava, acaso excessivamente, a vastid\u00e3o da sua literatura n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 francesa ou alem\u00e3, mas universal.<\/p>\n<p>Destes fatos n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito sen\u00e3o concluir que<br \/>\na a\u00e7\u00e3o de Tobias Barreto, conquanto consider\u00e1vel, n\u00e3o<br \/>\nfoi tal qual se tem presumido, e que efetivamente s\u00f3 entrou a exercer-se<br \/>\npelo ano de 1882. Ent\u00e3o j\u00e1 no Cear\u00e1 e em S. Paulo pelo<br \/>\nmenos, e no Rio de Janeiro, desde o princ\u00edpio do s\u00e9culo passado<br \/>\no nosso mais consider\u00e1vel centro intelectual, manifestamente se desenhava<br \/>\no movimento a que tenho chamado de modernismo. Principalmente reflexa, a a\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Tobias Barreto nesse movimento operou-se mediante os seus disc\u00edpulos<br \/>\nimediatos, dos quais um ao menos, o Sr. S\u00edlvio Romero (S. Paulo de<br \/>\nquem Tobias \u00e9 o Cristo), teve consider\u00e1vel influ\u00eancia<br \/>\nna juventude liter\u00e1ria dos \u00faltimos vinte anos do s\u00e9culo<br \/>\npassado. No empenho, ali\u00e1s simp\u00e1tico na sua inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde o exaltarem, inventaram uma &#8220;escola do Recife&#8221;, da qual o fizeram<br \/>\ninstituidor. N\u00e3o viram, como atiladamente nota o mesmo Sr. Gra\u00e7a<br \/>\nAranha, que &#8220;a for\u00e7a singular desse homem estava na genialidade<br \/>\npo\u00e9tica por onde lhe veio a intui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<br \/>\ne filos\u00f3fica&#8221; e que &#8220;essa genialidade, essa imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nfaltaria aos seus disc\u00edpulos porque ela era uma express\u00e3o puramente<br \/>\nindividual e que se n\u00e3o repete&#8230; Extrairiam dos livros e das frases<br \/>\ndo mestre apenas as f\u00f3rmulas audazes, confundiriam a s\u00e1tira<br \/>\ncom a seriedade do pensamento, tomariam os vagos delineamentos por conclus\u00f5es<br \/>\ndefinitivas e espalhariam numa l\u00edngua b\u00e1rbara a dogm\u00e1tica<br \/>\ndoutrina para as quais n\u00e3o teriam nem a ci\u00eancia, nem adivinha\u00e7\u00e3o<br \/>\nprof\u00e9tica&#8221;.135 A &#8220;escola do Recife&#8221; n\u00e3o tem de<br \/>\nfato exist\u00eancia real. O que assim abusivamente chamaram \u00e9 apenas<br \/>\num grupo constitu\u00eddo pelos disc\u00edpulos diretos de Tobias Barreto,<br \/>\nprofessor diserto e, sobretudo, ultraben\u00e9volo, eloq\u00fcente orador<br \/>\nliter\u00e1rio e poeta facundo, mais do que Tobias pensador e escritor.<br \/>\nCumpre, ali\u00e1s, repetir que esse grupo, salvo imigra\u00e7\u00f5es<br \/>\nindividuais posteriores, restringiu-se ao Norte, donde era a m\u00e1xima<br \/>\nparte de seus alunos, e mais exatamente a Pernambuco.<\/p>\n<p>Mas ainda reduzida a estas propor\u00e7\u00f5es, que me parecem as verdadeiras,<br \/>\na figura de Tobias Barreto e o seu papel na nossa literatura, ou mais exatamente<br \/>\nna nossa mentalidade, \u00e9 relevante. Ele atuou duplamente, primeiro,<br \/>\ne acaso principalmente, como demolidor dos nossos valores mentais que pela<br \/>\nsua pr\u00f3pria imobilidade se tornavam um impedimento ao nosso progresso<br \/>\nespiritual, depois como uma for\u00e7a de est\u00edmulo e reforma para<br \/>\nessa mentalidade. Apontou, se n\u00e3o abriu, caminhos novos e novas dire\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00e0 nossa intelig\u00eancia, criou disc\u00edpulos em que se lhe frutificaram<br \/>\nos ensinamentos e cuja a\u00e7\u00e3o foi consider\u00e1vel, suscitou<br \/>\ndiscuss\u00f5es e pol\u00eamicas com que agitou o nosso meio intelectual,<br \/>\nem suma, deu um forte e \u00fatil abalo ao nosso pensamento, como quer que<br \/>\nseja no momento inerte. N\u00e3o foi, por\u00e9m, nem um s\u00e1bio,<br \/>\nnem um pensador original ou profundo. O seu darwinismo n\u00e3o podia ser<br \/>\nsen\u00e3o de mera predile\u00e7\u00e3o sentimental. Carecendo da instru\u00e7\u00e3o<br \/>\ncient\u00edfica, e especialmente biol\u00f3gica, para apreciar idoneamente<br \/>\nas doutrinas de Darwin e seus disc\u00edpulos ou \u00eamulos, n\u00e3o<br \/>\npodia, sem impertin\u00eancia, pronunciar-se sobre elas e menos profess\u00e1-las.<br \/>\nAli\u00e1s quase todos os nossos pseudo-fil\u00f3sofos evolucionistas,<br \/>\ntransformistas ou darwinistas o foram, como ele, de palpite. Um princ\u00edpio,<br \/>\num conceito, uma id\u00e9ia sua, n\u00e3o se lhe conhece naqueles dom\u00ednios.<br \/>\nN\u00e3o fez de fato sen\u00e3o expor, ao que parece com grande eloq\u00fc\u00eancia<br \/>\nprofessoral, em todo caso, mesmo escrevendo, com grande calor comunicativo,<br \/>\na arrog\u00e2ncia pr\u00f3pria para impor, o que em filosofia, em cr\u00edtica,<br \/>\nem literatura, em direito, faziam os alem\u00e3es, por cuja cultura se enrabichou<br \/>\ncom exclusivismo pouco abonat\u00f3rio do seu esp\u00edrito cr\u00edtico.<br \/>\nComo a sua prega\u00e7\u00e3o, endere\u00e7ava-se a um p\u00fablico<br \/>\npara quem a Alemanha, sob o aspecto da cultura, era terra inc\u00f3gnita,<br \/>\ne mais um p\u00fablico principalmente constitu\u00eddo de rapazes t\u00e3o<br \/>\nignorantes como facilmente impression\u00e1veis, nada mais f\u00e1cil<br \/>\ndo que alcan\u00e7ar foros de or\u00e1culo.<\/p>\n<p>O modernismo de que, em todo caso, foi ele aqui um dos principais fautores,<br \/>\nproduto de for\u00e7as heterog\u00eaneas, teve tamb\u00e9m desencontrados<br \/>\nefeitos na ordem liter\u00e1ria: na fic\u00e7\u00e3o em prosa, deu o<br \/>\nnaturalismo, ou melhor favoreceu o advento do naturalismo franc\u00eas; na<br \/>\npoesia simultaneamente o parnasianismo e a extravag\u00e2ncia da chamada<br \/>\npoesia cient\u00edfica. Em outras ordens de atividade, na filosofia, na<br \/>\ncr\u00edtica, em sociologia, em hist\u00f3ria, influiu com outros m\u00e9todos<br \/>\ne porventura mais esclarecido entendimento. Mas tamb\u00e9m, e em maior<br \/>\nn\u00famero talvez, produziu repeti\u00e7\u00f5es, descorados ou desajeitados<br \/>\narremedos do que nesses ramos de conhecimento se fazia l\u00e1 fora. Desvairando,<br \/>\npor\u00e9m, a nossa fraca ci\u00eancia deu lugar ao que Herculano chamou<br \/>\ncom propriedade de &#8220;gongorismo cient\u00edfico&#8221;. Acaso o seu mais<br \/>\n\u00fatil e not\u00e1vel efeito foi, apesar destas m\u00e1culas, o desenvolvimento<br \/>\ndo esp\u00edrito cr\u00edtico. Efetivamente nesta fase da nossa literatura,<br \/>\nmais que em qualquer das que a precederam, se nos depara esse esp\u00edrito<br \/>\ne \u00e0s vezes da boa qualidade. Fora, por\u00e9m, da poesia e do romance,<br \/>\nou da orat\u00f3ria parlamentar, justamente em plena e brilhante floresc\u00eancia<br \/>\nnos \u00faltimos anos do Imp\u00e9rio, n\u00e3o produziu um conjunto<br \/>\nde obras que se possam agrupar sob uma qualifica\u00e7\u00e3o particular<br \/>\nou a que una qualquer pensamento ou id\u00e9ia geral comum. A mais consider\u00e1vel<br \/>\nsa\u00edda desse movimento, menos ali\u00e1s por virtudes intr\u00ednsecas,<br \/>\nque pelos seus efeitos, e essa produto direto do estilo criado em Pernambuco<br \/>\npor Tobias Barreto, mas concebida e realizada no Rio de Janeiro, \u00e9<br \/>\ntalvez a j\u00e1 citada Hist\u00f3ria da literatura brasileira do Sr.<br \/>\nS\u00edlvio Romero (1888).<\/p>\n<p>O romance romanesco e nimiamente sentimental de Alencar, Macedo ou Bernardo<br \/>\nGuimar\u00e3es, quando j\u00e1 o naturalismo franc\u00eas n\u00e3o<br \/>\nera uma novidade, acabara por, ainda em antes deste movimento, ceder o passo<br \/>\nao de Taunay, Machado de Assis e Franklin T\u00e1vora, \u00fanicos dos<br \/>\nromancistas sucessores daqueles que fizeram uma obra equivalente \u00e0<br \/>\nsua. Esta, por\u00e9m, salvo no segundo, era ainda, como a dos rom\u00e2nticos,<br \/>\nintencionalmente nacionalista, e em Franklin T\u00e1vora at\u00e9 propositadamente<br \/>\nregionalista. Somente continuando com o nacionalismo liter\u00e1rio, estes<br \/>\ne outros que os acompanharam, o fizeram com atenua\u00e7\u00e3o da f\u00f3rmula<br \/>\nrom\u00e2ntica dominante. Eles pertencem antes \u00e0 \u00faltima fase<br \/>\ndo Romantismo. Os verdadeiros naturalistas segundo as receitas francesas j\u00e1<br \/>\naviadas em Portugal por E\u00e7a de Queir\u00f3s e seus disc\u00edpulos<br \/>\nvieram depois, quando esses \u00faltimos rom\u00e2nticos iam em meio da<br \/>\nsua liter\u00e1ria, e at\u00e9 quando o naturalismo entrava j\u00e1<br \/>\na declinar em Fran\u00e7a.<\/p>\n<h4><a name=\"16\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XVI<\/h4>\n<p><strong>O NATURALISMO E O PARNASIANISMO<\/strong><\/p>\n<p>RARISSIMAMENTE, SE ALGUMA VEZ acontece, exprimem fielmente as etiquetas liter\u00e1rias<br \/>\no fen\u00f4meno que presumem definir, ou lhe compendiam exatamente o car\u00e1ter.<br \/>\nN\u00e3o escapou o naturalismo a esta regra. Nenhuma das suas v\u00e1rias<br \/>\ndefini\u00e7\u00f5es satisfaz plenamente. Para a mesma fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nem prosa, a que primeiro e particularmente foi esse nome dado, n\u00e3o<br \/>\nse lhe acha explica\u00e7\u00e3o cabal. No entanto, os autores o aplicam<br \/>\n\u00e0 cr\u00edtica, \u00e0 orat\u00f3ria, \u00e0 filosofia, \u00e0<br \/>\nhist\u00f3ria e at\u00e9 \u00e0 poesia. Historiadores da literatura<br \/>\nfrancesa, por exemplo, sob este voc\u00e1bulo designam o per\u00edodo<br \/>\nliter\u00e1rio de 1850 a 1890.136<\/p>\n<p>\u00c9, que, como o Romantismo, o naturalismo foi sobretudo uma tend\u00eancia<br \/>\ngeral. Como aquele fora uma rea\u00e7\u00e3o contra o classicismo, foi<br \/>\no Naturalismo um levante contra o Romantismo. Caracteriza-o e distingue-o<br \/>\na sua inspira\u00e7\u00e3o diversa do Romantismo, mormente a sua inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito menos espiritualista que a deste, e conseq\u00fcentemente a sua vontade<br \/>\nde proceder diferentemente dele. Revela-se este seu \u00edntimo sentimento<br \/>\ne prop\u00f3sito no sacrif\u00edcio ou diminui\u00e7\u00e3o da personalidade<br \/>\ndo autor, exuberante no Romantismo; numa observa\u00e7\u00e3o mais rigorosa<br \/>\ne at\u00e9 presumidamente inspirada em m\u00e9todos cient\u00edficos;<br \/>\nnuma representa\u00e7\u00e3o mais fiel do observado, reduzindo ao m\u00ednimo<br \/>\na idealiza\u00e7\u00e3o romanesca; no menosprezo dos constantes apelos<br \/>\n\u00e0 sensibilidade do leitor, pelo abuso do pat\u00e9tico; na invas\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 do romance, mas de todos os g\u00eaneros liter\u00e1rios,<br \/>\npelo esp\u00edrito cr\u00edtico, que era principalmente o do tempo. Tudo<br \/>\nisto revia o momento, da preval\u00eancia das ci\u00eancias exatas e de<br \/>\numa filosofia inspirada de seus m\u00e9todos e baseada nos seus resultados<br \/>\nsobre a metaf\u00edsica ecl\u00e9tica do princ\u00edpio do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>O nosso naturalismo, que foi uma das resultantes do modernismo, nada inovou<br \/>\nou sequer modificou no naturalismo franc\u00eas seu prot\u00f3tipo. Ao<br \/>\nnaturalismo ingl\u00eas, anterior a este, e ao mesmo tempo t\u00e3o s\u00f3brio<br \/>\ne distinto, ficou de todo alheio. Apenas se lhe vislumbra o cont\u00e1gio<br \/>\nna fic\u00e7\u00e3o de Machado de Assis. Mas estreitamente ainda que o<br \/>\nnosso Romantismo seguira o franc\u00eas, arremedou o naturalismo ind\u00edgena<br \/>\no naturalismo da mesma proced\u00eancia modelando-se quase exclusivamente<br \/>\npor \u00c9mile Zola e o seu disc\u00edpulo portugu\u00eas E\u00e7a<br \/>\nde Queir\u00f3s. De novelas, contos, curtas e ligeiras fic\u00e7\u00f5es<br \/>\ne ainda romances, segundo a f\u00f3rmula pessoal destes dois escritores,<br \/>\nhouve aqui fartura deste 1883 at\u00e9 o r\u00e1pido esgotamento dessa<br \/>\nf\u00f3rmula pelos anos de 90, quando ela se n\u00e3o procrastinou em<br \/>\nexemplares inferiores que importunamente ainda a empregavam. Obras realmente<br \/>\nnot\u00e1veis e vivedouras, ou sequer estim\u00e1veis, bem poucas produziu,<br \/>\ne nomes que mere\u00e7am historiados s\u00e3o, acaso, apenas tr\u00eas:<br \/>\nAlu\u00edsio de Azevedo, J\u00falio Ribeiro e Raul Pomp\u00e9ia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de haver formulado estes fi\u00e9is disc\u00edpulos, e muitos<br \/>\noutros somenos, atuou o naturalismo aqui, como fica atr\u00e1s verificado,<br \/>\nmodificando e atenuando em romancistas como Franklin T\u00e1vora e Taunay<br \/>\ne nas nossas letras em geral, as fei\u00e7\u00f5es e os excessos do Romantismo.<br \/>\nResultou em vis\u00e3o mais clara das cousas, observa\u00e7\u00e3o mais<br \/>\nsincera e express\u00e3o em suma melhor.<\/p>\n<p>Alu\u00edsio de Azevedo nasceu no Maranh\u00e3o em 14 de abril de 1857<br \/>\ne veio a morrer como c\u00f4nsul do Brasil em Buenos Aires em 31 de janeiro<br \/>\nde 1913. Como tantos dos nossos escritores, com insuficientes letras lan\u00e7ou-se<br \/>\nno jornalismo, que, as dispensando, \u00e9 uma boa escola de escrita corrente<br \/>\ne f\u00e1cil. O seu primeiro livro foi um romance, na pior maneira rom\u00e2ntica,<br \/>\nUma l\u00e1grima de mulher (Maranh\u00e3o, 1880). Logo depois enveredou<br \/>\npelo caminho que lhe antolhava o naturalismo, conservando, contudo, ressaibos<br \/>\ndaquela moda. Quando apareceu o seu segundo livro, outro romance, O mulato<br \/>\n(Maranh\u00e3o, 1881), onde, ao jeito da nossa est\u00e9tica, era estudado<br \/>\no caso do preconceito de cor na prov\u00edncia natal do autor, protra\u00eda-se<br \/>\nainda o Romantismo nos romances sempre lidos de Alencar e Macedo e de Bernardo<br \/>\nGuimar\u00e3es, ainda vivo. Como tipos de transi\u00e7\u00e3o entre<br \/>\nas duas correntes liter\u00e1rias, rom\u00e2ntica e naturalista, haviam<br \/>\naparecido desde 1870 Taunay e Franklin T\u00e1vora, para n\u00e3o citar<br \/>\nsen\u00e3o os que fizeram obra mais consider\u00e1vel. Estreando-se no<br \/>\nromance em 1872, com a Ressurrei\u00e7\u00e3o, eximira-se Machado de Assis<br \/>\nquase completamente do Romantismo, sem cair, por\u00e9m, no que ao seu claro<br \/>\nengenho lhe parecia o engano do naturalismo. Ele de fato nunca pertenceu a<br \/>\nescola alguma, e atrav\u00e9s de todas manteve isenta a sua singular personalidade<br \/>\nliter\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a sua proced\u00eancia provinciana, teve O mulato o<br \/>\nmais simp\u00e1tico acolhimento do Rio de Janeiro e do pa\u00eds em geral.<br \/>\nA novidade um pouco escandalosa que trazia, ajudada demais do cansa\u00e7o,<br \/>\nde f\u00f3rmula rom\u00e2ntica, foi grata ao nosso paladar enfastiado do<br \/>\nromanesco dos nossos novelistas, e pouco apurado para saborear as finas iguarias<br \/>\ndo Br\u00e1s Cubas, de Machado de Assis, publicado em 1881. A gente habituada<br \/>\nao despejado naturalismo, mesmo cru realismo das discuss\u00f5es pol\u00edticas<br \/>\ne brigas jornal\u00edsticas, aqui sempre descompostas ambas, e mais \u00e0<br \/>\nproverbial licen\u00e7a da nossa conversa\u00e7\u00e3o, a maneira zolista<br \/>\ndevia for\u00e7osamente de agradar.<\/p>\n<p>Passando-se da terra natal para o Rio de Janeiro, continuou Alu\u00edsio<br \/>\nde Azevedo a obra encetada com O mulato, e continuou aperfei\u00e7oando-se,<br \/>\no que de comum n\u00e3o tem sucedido nas nossas letras, onde, como j\u00e1<br \/>\nfica notado, n\u00e3o s\u00e3o poucos os autores cujos melhores livros<br \/>\ns\u00e3o justamente os primeiros. Alu\u00edsio de Azevedo n\u00e3o s\u00f3<br \/>\nreformou O mulato, melhorando-lhe em nova edi\u00e7\u00e3o a composi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o estilo, mas, n\u00e3o obstante a bo\u00eamia que por um resto anacr\u00f4nico<br \/>\ndo Romantismo ainda praticou, p\u00f4s s\u00e9rio empenho de aperfei\u00e7oamento<br \/>\nna obra subseq\u00fcente. Os romances A casa de pens\u00e3o (1884), O homem<br \/>\n(1887), O corti\u00e7o (1890), confirmaram o talento afirmado no Mulato<br \/>\ne asseguraram-lhe na nossa literatura o t\u00edtulo de iniciador do naturalismo<br \/>\ne do seu mais not\u00e1vel escritor.<\/p>\n<p>O principal dem\u00e9rito do naturalismo da receita zolista, j\u00e1,<br \/>\nsem nenhum ingrediente novo, aviada em Portugal por E\u00e7a de Queir\u00f3s<br \/>\ne agora no Brasil por Alu\u00edsio de Azevedo, era vulgariza\u00e7\u00e3o<br \/>\nda arte que em si mesmo trazia. Os seus assuntos prediletos, o seu objeto,<br \/>\nos seus temas, os seus processos, a sua est\u00e9tica, tudo nele estava<br \/>\nao alcance de toda a gente, que se deliciava com se dar ares de entender literatura<br \/>\ndiscutindo de livros que traziam todas as vulgaridades da vida ordin\u00e1ria<br \/>\ne se lhe compraziam na descri\u00e7\u00e3o minudenciosa. Foi tamb\u00e9m<br \/>\no que fez ef\u00eamero o naturalismo, j\u00e1 moribundo em Fran\u00e7a<br \/>\nquando aqui nascia.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria, por\u00e9m, justo contestar-lhe o bom servi\u00e7o<br \/>\nprestado, tanto aqui como l\u00e1, \u00e0s letras. Ele trouxe \u00e0<br \/>\nnossa fic\u00e7\u00e3o mais justo sentimento da realidade, arte mais perfeita<br \/>\nda sua figura\u00e7\u00e3o, maior interesse humano, intelig\u00eancia<br \/>\nmais clara dos fen\u00f4menos sociais e da alma individual, express\u00e3o<br \/>\nmais apurada, em suma uma representa\u00e7\u00e3o menos defeituosa da<br \/>\nnossa vida, que pretendia definir. Dos que aqui por voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nou mero instinto de imita\u00e7\u00e3o, demasiado comum nas nossas letras,<br \/>\nseguiram o naturalismo e se nele ensaiaram, o que mais cabalmente realizou<br \/>\neste efeito da nossa doutrina liter\u00e1ria foi Alu\u00edsio de Azevedo,<br \/>\ncom uma obra de m\u00e9rito e influ\u00eancia consider\u00e1veis, qual<br \/>\na daqueles seus quatro romances, aos quais podemos juntar o \u00faltimo<br \/>\nque escreveu, o livro de uma sogra. Este ali\u00e1s n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmais plenamente naturalista, e a sua execu\u00e7\u00e3o lhe saiu inferior<br \/>\n\u00e0 dos primeiros. O resto de sua obra, de pura inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nindustrial, \u00e9 de valor somenos.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m naturalista de escola, mais talvez por amor da sua novidade<br \/>\ne voga que por sincera simpatia com ela, J\u00falio Ribeiro, no seu \u00fanico<br \/>\nromance dessa f\u00f3rmula, A carne (S. Paulo, 1888).<\/p>\n<p>J\u00falio C\u00e9sar Ribeiro, filho de norte-americano com brasileira,<br \/>\nnasceu em Minas Gerais aos 16 de abril de 1845 e faleceu em S. Paulo, onde<br \/>\nexerceu a sua atividade liter\u00e1ria, em 1 de novembro de 1890. Como \u00e9<br \/>\naqui muito comum, era autodidata, votado por natural inclina\u00e7\u00e3o<br \/>\naos estudos ling\u00fc\u00edsticos. De atividade dispersiva e \u00edndole<br \/>\nm\u00f3bil, acaso tr\u00eafega, foi cumulativamente professor de l\u00ednguas,<br \/>\njornalista, polemista, pondo nestes dois of\u00edcios grande ardor e at\u00e9<br \/>\nveem\u00eancia. Al\u00e9m dos antigos , necess\u00e1rios \u00e0 sua<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o filol\u00f3gica, estudou ou simplesmente leu desordenadamente<br \/>\nos modernos, sobre todos os modern\u00edssimos, sem talvez os meditar bastante.<br \/>\nDe seu natural ardoroso, alvoro\u00e7ou-se com as mais frescas novidades<br \/>\nintelectuais. O melhor fundamento da sua reputa\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\na sua gram\u00e1tica portuguesa (S. Paulo, 1881), um dos mais not\u00e1veis<br \/>\nprodutos da nossa copiosa literatura do g\u00eanero. Com suficiente saber<br \/>\ne intelig\u00eancia do assunto, h\u00e1 talvez nessa obra demasiado e qui\u00e7\u00e1<br \/>\nindiscreto entusiasmo pelas \u00faltimas novidades glotol\u00f3gicas e<br \/>\npelos seus inventores. Da mesma especialidade publicou tamb\u00e9m J\u00falio<br \/>\nRibeiro outros estudos. A sua obra propriamente liter\u00e1ria cifra-se,<br \/>\npor\u00e9m, naquele romance e no que o precedeu Padre Belchior de Pontes<br \/>\n(Campinas, S. Paulo, 1876-1877, nova edi\u00e7\u00e3o, Lisboa, 1904).<br \/>\nChamou-lhe ele de &#8220;romance hist\u00f3rico original&#8221;, mas a despeito<br \/>\ndo aparato de erudi\u00e7\u00e3o de que o cercou, e de serem hist\u00f3ricos<br \/>\nfatos, epis\u00f3dios e algumas principais personagens bem como o protagonista,<br \/>\nainda o \u00e9 menos que os de Alencar ou Macedo. Nada no livro nos d\u00e1<br \/>\na ilus\u00e3o da \u00e9poca e do meio romanceados, antes pelo contr\u00e1rio.<br \/>\nPadre Belchior de Pontes, n\u00e3o obstante a afeta\u00e7\u00e3o de<br \/>\nci\u00eancia, afeta\u00e7\u00e3o que na Carne sedes desmandaria at\u00e9<br \/>\nao rid\u00edculo, n\u00e3o obstante maior objetividade de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da representa\u00e7\u00e3o romanesca, era ainda uma pura novela rom\u00e2ntica,<br \/>\ncanhestramente composta.137 N\u00e3o tem sequer este romance as excel\u00eancias<br \/>\nde express\u00e3o que imaginaria encontrar num gram\u00e1tico profissional<br \/>\nquem n\u00e3o soubesse que por via de regra s\u00e3o os gram\u00e1ticos<br \/>\nmofinos escritores.<\/p>\n<p>O modernismo teve em J\u00falio Ribeiro, como fica insinuado, um dos seus<br \/>\nfervorosos adeptos. Seguindo, menos acaso e inspira\u00e7\u00e3o que por<br \/>\nenlevo da novidade, ent\u00e3o muito festejada, a corrente do romance naturalista,<br \/>\nescreveu A carne nos mais apertados moldes do zolismo, e cujo t\u00edtulo<br \/>\ns\u00f3 por si indica a fei\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e escandalosamente<br \/>\nobscena do romance. Salva-o, entretanto, de completo malogro o vigor de certas<br \/>\ndescri\u00e7\u00f5es. Mas A carne vinha ao cabo confirmar a incapacidade<br \/>\ndo distinto gram\u00e1tico para obras de imagina\u00e7\u00e3o j\u00e1<br \/>\nprovada em Padre Belchior de Pontes. \u00c9, como dela escrevi em 1889,<br \/>\nainda vivo o autor, o parto monstruoso de um c\u00e9rebro artisticamente<br \/>\nenfermo.138 Mas ainda assim no nosso mofino naturalismo sect\u00e1rio, um<br \/>\nlivro que merece lembrado e que, com todos os seus defeitos, seguramente revela<br \/>\ntalento.<\/p>\n<p>\u00c9 do mesmo ano da Carne, O ateneu de Raul Pomp\u00e9ia. Nascido<br \/>\nem 12 de abril de 1863 e falecido a 25 de dezembro de 1895. Raul d\u2019\u00c1vila<br \/>\nPomp\u00e9ia escreveu este romance ainda em come\u00e7o da juventude.<br \/>\nInexperiente na vida, com aquela &#8220;vigorosa ignor\u00e2ncia que faz a<br \/>\nfor\u00e7a da mocidade&#8221;, de que fala Bruneti\u00e8re, mais com a<br \/>\nimpress\u00e3o forte, como seriam todas em a sua natureza excit\u00e1vel<br \/>\ne vibr\u00e1til, das novas id\u00e9ias e pressentimentos que alvoro\u00e7avam<br \/>\na mocidade do tempo, Raul Pomp\u00e9ia deu no Ateneu a amostra mais distinta,<br \/>\nse n\u00e3o a mais perfeita, do naturalismo no Brasil. Ao contr\u00e1rio<br \/>\ndos seus dous principais \u00eamulos nessa moda liter\u00e1ria, Alu\u00edsio<br \/>\nde Azevedo e J\u00falio Ribeiro, que, achegando-se demasiado ao seu figurino<br \/>\nfranc\u00eas, sacrificaram-lhe a originalidade que acaso tinham, Raul Pomp\u00e9ia,<br \/>\ncom dotes de pensador e de artista superiores aos dous, n\u00e3o perdeu<br \/>\na sua. O seu romance \u00e9 mais original e o mais distinto produto da escola<br \/>\naqui, sem ser t\u00e3o bem composto como os melhores de Alu\u00edsio de<br \/>\nAzevedo. Pelo Desenvolvimento, volume e ainda qualidade de sua obra, este<br \/>\nficaria, entretanto, e como tal \u00e9 considerado, o principal representante<br \/>\nind\u00edgena da escola. No que decididamente os sobreleva a todos Raul<br \/>\nPomp\u00e9ia \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 na maior originalidade nativa<br \/>\ne na distin\u00e7\u00e3o, sob o aspecto art\u00edstico, do seu \u00fanico<br \/>\nromance, mas ainda no talento superior revelado na abund\u00e2ncia, ro\u00e7ando<br \/>\nacaso pela demasia de id\u00e9ias e sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o raro<br \/>\nesquisitas e sempre curiosas, que d\u00e3o ao seu livro singular sainete<br \/>\ne pico. Nesse livro, por\u00e9m, que tantas promessas trazia e tantas esperan\u00e7as<br \/>\ndespertou, parece se esgotou todo o engenho do malogrado escritor e esp\u00edrito<br \/>\nbrilhant\u00edssimo.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve no Brasil, como n\u00e3o houve em parte alguma, poesia<br \/>\na que se possa chamar de naturalista no mesmo sentido em que se fala de romance,<br \/>\ne ainda de teatro, naturalista. \u00c9 que n\u00e3o existe poesia sem<br \/>\ncerta dose de idealismo, incompat\u00edvel com tal naturalismo. Enganavam-se<br \/>\nredondamente, como ao tempo lhes mostrou Machado de Assis, 139 os imitadores<br \/>\nind\u00edgenas de Baudelaire que nas Fleurs du mal buscavam justifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu realismo ou naturalismo. E a sua intelig\u00eancia os condenou \u00e0<br \/>\nimita\u00e7\u00e3o pueril e falha.<\/p>\n<p>A poesia brasileira contempor\u00e2nea da rom\u00e2ntica naturalista foi,<br \/>\ncomo ficou averiguado, o parnasianismo, e, com manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nminguadas e somenos, a alcunhada poesia cient\u00edfica, que de poesia s\u00f3<br \/>\nteve o exprimir-se em versos, geralmente ruins.<\/p>\n<p>Influiu de fato o modernismo na poesia com a sua inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ncient\u00edfica e filos\u00f3fica, produzindo isso que aqui se denominou<br \/>\nde &#8220;poesia cient\u00edfica&#8221;, o que \u00e9 de si mesmo uma contradi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nenquanto as verdades cient\u00edficas se n\u00e3o fizerem sentimento na<br \/>\nalma do poeta. P\u00f4r em versos, ainda excelentes \u2014 o que ali\u00e1s<br \/>\nnunca aconteceu \u2014 no\u00e7\u00f5es cient\u00edficas ou id\u00e9ias<br \/>\nfilos\u00f3ficas \u00e9 retrogradar \u00e0 poesia did\u00e1tica, cousa<br \/>\nque de poesia s\u00f3 tem o nome. J\u00e1 vimos que n\u00e3o deu aqui<br \/>\nnada de si, e nada deixou por que sequer mere\u00e7a lembrada, sen\u00e3o<br \/>\ncomo um fato, ali\u00e1s insignificante, da nossa evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Desde 1879, Machado de Assis, no escrito citado, verificava que &#8220;a poesia<br \/>\nsubjetiva chegara efetivamente aos derradeiros limites da conven\u00e7\u00e3o&#8221;<br \/>\ne simultaneamente a influ\u00eancia das ci\u00eancias modernas que deram<br \/>\n\u00e0 mocidade &#8220;diferentes no\u00e7\u00f5es das cousas e um sentimento<br \/>\nque de nenhum modo podia ser o da gera\u00e7\u00e3o que os precedeu&#8221;.<\/p>\n<p>Com estas no\u00e7\u00f5es mais sofregamente bebidas que cabalmente assimiladas,<br \/>\nentraram a impressionar a nossa imagina\u00e7\u00e3o e faculdades po\u00e9ticas,<br \/>\nTeodoro de Banville, Baudelaire, Leconte de Lisle, os poetas do Parnasse contemporain,<br \/>\ne, ainda e sempre, Victor Hugo, o Hugo da L\u00e9gende des si\u00e8cles<br \/>\n(1859-77-83), o vate social e pol\u00edtico. Simultaneamente as impressionaram<br \/>\nos poetas portugueses da rea\u00e7\u00e3o coimbr\u00e3 contra Castilho<br \/>\ne o ultra-romantismo, em que demoradamente agonizava, sob o patroc\u00ednio<br \/>\ndeste extraordin\u00e1rio versejador, a poesia portuguesa: Jo\u00e3o de<br \/>\nDeus, Te\u00f3filo Braga, Antero de Quental, Guerra Junqueiro.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que superficialmente se pensa, as influ\u00eancias<br \/>\nintelectuais europ\u00e9ias nunca demoraram menos de vinte anos a se fazerem<br \/>\naqui sentir. Banville e Baudelaire apareceram com as suas obras t\u00edpicas<br \/>\nem 1857, aquela revista de poesia publicou-se de 1865 a 66, e os poetas portugueses<br \/>\nque nos traziam o eco do movimento das id\u00e9ias, que havia pelo menos<br \/>\ncinco lustros abalavam os esp\u00edritos europeus, eram todos do dec\u00eanio<br \/>\nde 60.<\/p>\n<p>Ao feitio po\u00e9tico que no Brasil correspondeu ao naturalismo no romance,<br \/>\ne que de parte modalidades diversas e indefin\u00edveis de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nse caracterizou pela preocupa\u00e7\u00e3o da forma e pela maior absten\u00e7\u00e3o<br \/>\nda personalidade do artista, chamou-se de parnasianismo. Naturalismo e parnasianismo<br \/>\ns\u00e3o ambos filhos daquele movimento. Mesmo em Fran\u00e7a, a denomina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde parnasianismo \u00e9 arbitr\u00e1ria. N\u00e3o houve propriamente<br \/>\nali escola parnasiana. A n\u00e3o ser o do trabalho exterior, do lavor do<br \/>\nverso, nenhum v\u00ednculo de sentimento ou inspira\u00e7\u00e3o comum<br \/>\nliga os poetas que, reunidos em torno de Leconte de Lisle, colaboravam no<br \/>\nParnasse contemporain, do qual lhes veio a alcunha. O \u00fanico que com<br \/>\nele tinha alguma analogia era Jos\u00e9 Maria Heredia.140<\/p>\n<p>A forma rigorosa, impessoal, impass\u00edvel, em que se quis ver a marca<br \/>\nda escola \u2014 desmentida ali\u00e1s mesmo em Fran\u00e7a, por alguns<br \/>\ndos seus mais distintos alunos, como Copp\u00e9e \u2014 se n\u00e3o coadunava<br \/>\ncom o lirismo portugu\u00eas e brasileiro, ambos essencialmente feitos de<br \/>\nsentimentalidade e de personalismo, ambos muito pessoais. Em Portugal, mais<br \/>\nainda que no Brasil, n\u00e3o houve nunca verdadeiros parnasianos, segundo<br \/>\no conceito comum do parnasianismo,141 se n\u00e3o o forem os seus \u00e1rcades<br \/>\ndo fim do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Transplantado para o Brasil, o parnasianismo franc\u00eas modificou-se sensivelmente<br \/>\nsob a a\u00e7\u00e3o das nossas idiossincrasias sentimentais, da nossa<br \/>\nf\u00e1cil emotividade e das tradi\u00e7\u00f5es da nossa poesia. A<br \/>\nimpersonalidade e sobretudo a impassibilidade n\u00e3o v\u00e3o com o<br \/>\nnosso temperamento. S\u00e3o dos anos de 70 as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo paranasianismo na nossa poesia. Foram talvez as Miniaturas de Gon\u00e7alves<br \/>\nCr\u00easpo a sua primeira manifesta\u00e7\u00e3o. Publicadas em 1871,<br \/>\ncom poemas de 69 e 70, traziam sob o nome do poeta a men\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8220;natural do Rio de Janeiro&#8221;. Brasileiro de nascimento e mesti\u00e7o,<br \/>\ntamb\u00e9m de temperamento, de inten\u00e7\u00e3o, e, o que \u00e9<br \/>\nmais, de sentimento, era o autor genuinamente brasileiro. Os seus deliciosos<br \/>\npoemas, por\u00e9m, de parnasianos apenas tinham o escr\u00fapulo da fatura.<br \/>\nMuitos livros de versos publicaram-se aqui no dec\u00eanio de 70 a 80: Falenas<br \/>\ne Americanas, de Machado de Assis; N\u00e9voas matutinas e Alvoradas, de<br \/>\nL\u00facio de Mendon\u00e7a; Flores do campo, de Ezequiel Freire; Telas<br \/>\nSonantes, do Sr. Afonso Celso; Sonetos e rimas, de Lu\u00eds Guimar\u00e3es<br \/>\nJ\u00fanior, e outros. Distingue estas cole\u00e7\u00f5es de poemas<br \/>\nmaior abund\u00e2ncia de temas objetivos, uma not\u00e1vel diminui\u00e7\u00e3o<br \/>\nna sentimentalidade e subjetivismo, acaso excessivos, dos rom\u00e2nticos<br \/>\ne, sobretudo, um mais esmerado trabalho de forma. Algumas delas, como as de<br \/>\nMachado de Assis e Lu\u00eds Guimar\u00e3es J\u00fanior, j\u00e1 traziam,<br \/>\nsob este aspecto, distinta excel\u00eancia. Estes dous poetas, por\u00e9m,<br \/>\ndesde os seus primeiros versos se mostravam, mais do que era aqui comum, cuidadosos<br \/>\nda forma.<\/p>\n<p>A inspira\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica t\u00e3o consoante com a nossa<br \/>\n\u00edndole liter\u00e1ria, como \u00e9 de ver, se n\u00e3o desvanecera<br \/>\ntotalmente ao influxo da nova po\u00e9tica. N\u00e3o s\u00f3 \u00e9<br \/>\nainda vis\u00edvel naqueles poemas mas em dois novos poetas que por esse<br \/>\ntempo apareceram, o Sr. Alberto de Oliveira, que viria a ser talvez o mais<br \/>\nt\u00edpico dos nossos parnasianos, e o malogrado Te\u00f3filo Dias. Tanto<br \/>\nas Can\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas do primeiro, como a Lira dos verdes<br \/>\nanos e os Cantos tropicais do segundo s\u00e3o de 1878, e em ambos, de mistura<br \/>\ncom a toada geral do nosso lirismo rom\u00e2ntico, h\u00e1 claros toques<br \/>\nda nova po\u00e9tica. A estas diversas cole\u00e7\u00f5es seguiram-se<br \/>\nas Sinfonias (1883) e Versos e vers\u00f5es (1887), de Raimundo Correia,<br \/>\nas Meridionais, do Sr. Alberto de Oliveira, as Contempor\u00e2neas, do Sr.<br \/>\nAugusto de Lima e, finalmente, em 1888 as Poesias do Sr. Bilac, que ficariam<br \/>\ncomo talvez o mais acabado exemplar do nosso parnasianismo, tanto pelas qualidades<br \/>\nformais como de inspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vale a pena citar mais:<br \/>\nuns, embora com estro, apenas ocasionalmente foram poetas, outros n\u00e3o<br \/>\no souberam ser com virtudes tais que mal decorrido um quarto de s\u00e9culo<br \/>\nn\u00e3o ficassem de todo esquecidos. Como felizmente passara a \u00e9poca<br \/>\nem que os nossos poetas morriam mo\u00e7os, est\u00e3o, Deus louvado,<br \/>\nvivos esses e outros seus imediatos sucessores, dos quais alguns t\u00eam<br \/>\num nome e um lugar na poesia brasileira. Acode naturalmente o do Sr. Lu\u00eds<br \/>\nMurat, estreado nesta \u00e9poca com muito ru\u00eddo, aplauso, abund\u00e2ncia<br \/>\ne brilho e que assim poetou at\u00e9 h\u00e1 pouco. O Sr. Lu\u00eds<br \/>\nMurat, por\u00e9m, apenas parcialmente pertence a esta fase po\u00e9tica,<br \/>\npois ao contr\u00e1rio dos poetas que a assinalam, seus contempor\u00e2neos<br \/>\ne companheiros, tanto a sua inspira\u00e7\u00e3o como a sua maneira refletem<br \/>\nnotavelmente, n\u00e3o obstante meras apar\u00eancias de novidades, a po\u00e9tica<br \/>\nanterior. \u00c9 como ele, embora de fei\u00e7\u00e3o muito diferente,<br \/>\nmais rom\u00e2ntico que parnasiano, o Sr. Melo Morais Filho, o poeta dos<br \/>\nCantos do Equador. Com o prop\u00f3sito de nacionalismo voltou ao indianismo,<br \/>\nrepetindo com muito menos engenho a Gon\u00e7alves Dias.<\/p>\n<p>Dos citados poetas, dois dos mais estimados vinham do Romantismo, do qual<br \/>\nainda conservam ressaibos Machado de Assis e Lu\u00eds Guimar\u00e3es<br \/>\nJ\u00fanior. Machado de Assis, que desde o princ\u00edpio se distinguira<br \/>\npela arte excelente dos seus versos, apenas a teria apurado mais com o advento<br \/>\ndo parnasianismo. Mas nele os efeitos da nova po\u00e9tica e das correntes<br \/>\nque a originaram s\u00f3 s\u00e3o manifestos na sua \u00faltima cole\u00e7\u00e3o,<br \/>\nas Ocidentais. Lu\u00eds Guimar\u00e3es J\u00fanior, que ia pelos trinta<br \/>\nanos, o que \u00e9 aqui quase a velhice para um poeta, fora desde os seus<br \/>\nprimeiros versos (Corimbos, 1869) versificador esmerado. Sofrendo a impress\u00e3o<br \/>\nda nova moda, n\u00e3o foi s\u00f3 a sua versifica\u00e7\u00e3o que<br \/>\nse aperfei\u00e7oou, mas toda a sua express\u00e3o po\u00e9tica, e os<br \/>\nSonetos e Rimas (Roma, 1880) s\u00e3o, sob este aspecto, um dos mais distintos<br \/>\nlivros da nossa poesia e n\u00e3o sei se n\u00e3o tamb\u00e9m um dos<br \/>\nmelhores exemplares do parnasianismo \u00e0 francesa aqui. O seu lirismo,<br \/>\nde qualidades muito nacionais, n\u00e3o sofreu modifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nessencial do parnasianismo e por muitos rasgos ele continuou com originalidade<br \/>\ne sentimento pr\u00f3prios, e melhor express\u00e3o, os poetas das \u00faltimas<br \/>\ngera\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas. Mas poemas como Hist\u00f3ria de<br \/>\num c\u00e3o, Satan\u00e1s, A esmola, A morte de \u00e1guia, revelam<br \/>\na a\u00e7\u00e3o do novo pensamento que influ\u00eda a poesia. A distinta<br \/>\narte do verso fazia-o um dos corifeus da sua renova\u00e7\u00e3o aqui.<\/p>\n<p>Pelo mesmo tempo come\u00e7ou a aparecer com maior reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne lustre o nome de Lu\u00eds Delfino, que talvez desde os anos de 50 se<br \/>\nvinha lendo sob versos publicados em diversos peri\u00f3dicos. Lu\u00eds<br \/>\nDelfino dos Santos \u00e9 uma das figuras mais curiosas, mais extraordin\u00e1rias<br \/>\nat\u00e9 da nossa poesia. Era de Santa Catarina, onde nasceu em 25 de agosto<br \/>\nde 1834, o que o faz da gera\u00e7\u00e3o dos segundos rom\u00e2nticos,<br \/>\nquase todos nesse dec\u00eanio nascidos. Formou-se em medicina no Rio de<br \/>\nJaneiro, onde se deixou ficar clinicando e onde faleceu a 30 de janeiro de<br \/>\n1910.<\/p>\n<p>Desde muito jovem at\u00e9 \u00e0s v\u00e9speras de morrer, com setenta<br \/>\ne seis anos, poetou constante e despreocupadamente, sem esfor\u00e7o, sem<br \/>\npresun\u00e7\u00e3o, acaso sem maior afeto e certamente sem paix\u00e3o<br \/>\npela sua habilidade po\u00e9tica. A poesia foi-lhe antes um h\u00e1bito<br \/>\ncontra\u00eddo na mocidade e continuado pelo resto da vida que um of\u00edcio,<br \/>\nou sequer uma ocupa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Sendo o mais copioso<br \/>\npoeta que jamais tivemos, e n\u00e3o raro um dos mais excelentes, n\u00e3o<br \/>\ndeixou entretanto um livro de versos, em terra onde todo o versejador se precipita<br \/>\nem p\u00f4r em volume os seus. Como certamente lhe n\u00e3o teriam faltado<br \/>\noportunidades de o fazer, pois al\u00e9m da posi\u00e7\u00e3o social<br \/>\nque alcan\u00e7ou, era abastado, pode-se ver nesta sua neglig\u00eancia<br \/>\nou uma singular indiferen\u00e7a pela sua arte ou uma peregrina forma de<br \/>\nfaceirice liter\u00e1ria. Tanto pela qualidade da sua idea\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo pela da sua express\u00e3o, Lu\u00eds Delfino motivadamente impressionou<br \/>\nos poetas que, quando ele come\u00e7ava a envelhecer, entravam a despir-se<br \/>\ndo Romantismo. Ainda com as qualidades comezinhas do nosso lirismo, e a sua,<br \/>\nmais que volutuosidade, lasc\u00edvia, mostrava-se ele mais esquisito e<br \/>\nmais requintado. Trazia maior riqueza, maior variedade, maior novidade de<br \/>\nimagens, expressas em formas menos vulgares. Sente-se-lhe, entretanto, a rebusca,<br \/>\no que n\u00e3o era para lhe desafei\u00e7oar os mo\u00e7os que pospunham<br \/>\no espont\u00e2neo da inspira\u00e7\u00e3o ao caprichoso do lavor art\u00edstico.<br \/>\nNesta rebusca cai freq\u00fcentemente no extravagante do pensamento e no anfiguri<br \/>\nda express\u00e3o. A relativa serenidade do seu estro, contido nas suas<br \/>\nnaturais exuber\u00e2ncias ind\u00edgenas pela fei\u00e7\u00e3o do<br \/>\npoeta ao requinte da express\u00e3o, o seu amor da bela forma, o seu menos<br \/>\nabsorvente subjetivismo, o seu ar mais de refinado galanteador que de apaixonado,<br \/>\nlibertando-o dos mais comuns v\u00edcios da nossa poesia de ent\u00e3o,<br \/>\nestremaram Lu\u00eds Delfino dos \u00faltimos rom\u00e2nticos. Na voga<br \/>\ndo parnasianismo aqui, e n\u00e3o no seu in\u00edcio, foi que o nome de<br \/>\nLu\u00eds Delfino saiu da penumbra em que se vinha fazendo desde aqueles<br \/>\nanos, para ser reconhecido e proclamado pelos poetas da nova gera\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomo um dos seus cabe\u00e7as e por eles celebrado como um mestre de verso.<br \/>\nValia-lhe a predile\u00e7\u00e3o, t\u00e3o contr\u00e1rio aos nossos<br \/>\ncostumes liter\u00e1rios, o afastamento do velho poeta das rodas em que<br \/>\naqueles jovens, que poderiam ser seus filhos, reciprocamente se disputavam<br \/>\na preemin\u00eancia. De fato ele n\u00e3o lhes era um concorrente. Foram<br \/>\nprincipalmente os seus numerosos sonetos nos moldes da nova po\u00e9tica,<br \/>\nalguns realmente belos, que lhe trouxeram ao p\u00fablico o nome, at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o pouco menos que obscuro. At\u00e9 que ponto a import\u00e2ncia<br \/>\nque mais talvez que o seu engenho lhe deram as circunst\u00e2ncias, se haja<br \/>\ntraduzido em influ\u00eancia suficientemente apreci\u00e1vel, n\u00e3o<br \/>\nsei dizer. Houve em sua fama, que ali\u00e1s mal ultrapassou as rodas liter\u00e1rias,<br \/>\nmuito do que os franceses chamam succ\u00e8s d\u2019estime. Em suma, Lu\u00eds<br \/>\nDelfino foi talvez antes um insigne virtuose do verso do que um grande poeta,<br \/>\ncomo liberalmente chegaram a chamar-lhe.<\/p>\n<p>No dec\u00eanio de 70 a 80 repetiu-se em S. Paulo o que ali sucedera de<br \/>\n50 a 60: um grupo de mo\u00e7os estudantes da respectiva Faculdade de Direito,<br \/>\namigos das letras, particularmente da poesia e entusiastas das &#8220;id\u00e9ias<br \/>\nmodernas&#8221;, tomaram a frente do movimento po\u00e9tico. Desse grupo,<br \/>\ndonde todos mais ou menos poetavam, sa\u00edram alguns dos melhores, poetas<br \/>\ndesta fase, nomeadamente al\u00e9m dos Srs. Augusto de Lima e Olavo Bilac,<br \/>\nainda felizmente vivos, sem falar dos que ficaram em estr\u00e9ias, Te\u00f3filo<br \/>\nDias e Raimundo Correia.<\/p>\n<p>Nesse grupo, a poesia, sofrendo embora as influ\u00eancias do pensamento<br \/>\nmoderno, n\u00e3o exorbitava da sua natureza. Mantinha-se entre o nosso<br \/>\nlirismo tradicional e a nova po\u00e9tica, oriunda dos parnasianos franceses.<br \/>\nMisturava-lhes ali\u00e1s Baudelaire, que n\u00e3o chegou a entender,<br \/>\ne continuava a admirar e imitar Hugo. Mas em suma, com menos corriqueira inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncertas novidades de pensamento e, sobretudo, express\u00e3o mais apurada,<br \/>\n\u00e9 poesia da que dispensa qualificativo. Dos poetas que a iniciaram,<br \/>\ne com mais distin\u00e7\u00e3o a fizeram, os que, por j\u00e1 falecidos,<br \/>\nt\u00eam lugar nesta Hist\u00f3ria, s\u00e3o os mais not\u00e1veis<br \/>\nTe\u00f3filo Dias e Raimundo Correia, ambos maranhenses.<\/p>\n<p>Te\u00f3filo Dias de Mesquita nasceu em Caxias em 28 de fevereiro de 1857.<br \/>\nEra, por sua m\u00e3e, sobrinho de Gon\u00e7alves Dias. Este pr\u00f3ximo<br \/>\nparentesco n\u00e3o deixou de ser parte tanto na sua fei\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica como no renome que adquiriu. Ele pr\u00f3prio parece se desvanecia,<br \/>\ne com raz\u00e3o, dele, e de bom grado se deixava impressionar desta consang\u00fcinidade<br \/>\ngloriosa. Mais do que a confessada admira\u00e7\u00e3o pelo seu ilustre<br \/>\nparente, o grande poeta dos Cantos, o feitio do engenho po\u00e9tico de<br \/>\nTe\u00f3filo Dias lhe rev\u00ea o afeto e as naturais afinidades. Ele n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 s\u00f3 um puro parnasiano, o que, como fica assentado, n\u00e3o<br \/>\ntivemos aqui, por o n\u00e3o consentir nem o nosso temperamento nacional,<br \/>\nnem a nossa feitura mental. Mais do que em Raimundo Correia, Bilac, Alberto<br \/>\nde Oliveira, Augusto de Lima, que do grupo parnasiano de S. Paulo e do Rio<br \/>\nde Janeiro e pode dizer-se do Brasil, foram os corifeus e os mais distintos<br \/>\npoetas, s\u00e3o em Te\u00f3filo Dias evidentes os ressaibos do Romantismo,<br \/>\nainda na sua fei\u00e7\u00e3o, aqui a mais saliente, de nacionalismo.<br \/>\n\u00c9 nestas que se lhe sente o parentesco de Gon\u00e7alves Dias. Do<br \/>\nseu natural feitio rom\u00e2ntico h\u00e1 tamb\u00e9m ind\u00edcios<br \/>\nno seu vezo rom\u00e2ntico da bo\u00eamia. A julgar pelas reminisc\u00eancias<br \/>\ndos seus contempor\u00e2neos e camaradas, ele foi o \u00faltimo dos nossos<br \/>\nbo\u00eamios liter\u00e1rios \u00e0 moda rom\u00e2ntica, piorada em<br \/>\nS. Paulo por \u00c1lvares de Azevedo e os estudantes literatos do tempo<br \/>\ne os seus subseq\u00fcentes macaqueadores.<\/p>\n<p>A atividade po\u00e9tica de Te\u00f3filo Dias vai de 1876, ano em que<br \/>\nestr\u00e9ia com a Lira dos verdes anos (Cp. Lira dos vinte anos, de \u00c1lvares<br \/>\nde Azevedo), a 1887, em que publicou a Com\u00e9dia dos deuses. Entrementes<br \/>\npublicara os Cantos tropicais (1878) e Fanfarras (1882). Faleceu a 29 de mar\u00e7o<br \/>\nde 1889 em S. Paulo, onde casara na fam\u00edlia dos Andradas, a cuja prote\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeveu modesta posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nessa prov\u00edncia.<br \/>\nSegundo o comum conceito do parnasianismo, Te\u00f3filo Dias, n\u00e3o<br \/>\nobstante haver poetado no melhor per\u00edodo da escola aqui, apenas pelo<br \/>\napuro intencional da forma, abuso do descritivo e outras particularidades<br \/>\ne fei\u00e7\u00f5es de virtuosidade, ser\u00e1 um parnasiano. De parte<br \/>\ntais fei\u00e7\u00f5es, \u00e9 ainda um rom\u00e2ntico modificado,<br \/>\natenuado pelo &#8220;pensamento moderno&#8221;, que nele influiu mais do que<br \/>\nnos seus camaradas de gera\u00e7\u00e3o. Mostra-o notavelmente a sua Com\u00e9dia<br \/>\ndos deuses, poema confessadamente cal\u00e7ado no Aasvero, de Edgard Quinet,<br \/>\nsem quase nenhuma inven\u00e7\u00e3o essencial de fundo e de express\u00e3o.<br \/>\nEsta \u00e9 ali\u00e1s em Te\u00f3filo Dias mais rica do que naqueles.<br \/>\nMas n\u00e3o tal que lhe tenha sobrelevado o estro at\u00e9 uma obra de<br \/>\nvida e beleza duradoura. \u00c9, entre os poetas da mesma grei, talvez o<br \/>\nmenos vivo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, vive de uma vida ainda muito prezada e que n\u00e3o<br \/>\nparece deva extinguir-se breve, o seu companheiro Raimundo Correia. Este delicioso<br \/>\npoeta nasceu a bordo de um vapor, em \u00e1guas do Maranh\u00e3o, aos<br \/>\n13 de maio de 1860. Valetudin\u00e1rio, de um nervosismo doentio, que ali\u00e1s<br \/>\nmal se revela em seus poemas ou apenas se vislumbra no tom de melancolia e<br \/>\ndesalento que \u00e9 talvez o seu mais \u00edntimo encanto, em extremo<br \/>\nsensitivo, encontrou nas suas mesmas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas<br \/>\ne morais o melhor do seu estro. Filho de um magistrado do velho feitio, que<br \/>\nat\u00e9 nos aspectos exteriores punham a gravidade profissional do seu<br \/>\nestado, severamente educado numa fam\u00edlia rigorosamente cat\u00f3lica,<br \/>\ne ele pr\u00f3prio magistrado, Raimundo Correia, n\u00e3o obstante a perda<br \/>\ndas cren\u00e7as paternas e a delet\u00e9ria influ\u00eancia da ser\u00f3dia<br \/>\nbo\u00eamia dos poetas estudantes de S. Paulo, conservou, com o fundo de<br \/>\ntristeza que lhe era congenial, a sua honestidade nativa e uma intemerata<br \/>\nalma de poeta idealista e intimamente romanesco. Como todos os nervosos da<br \/>\nsua esp\u00e9cie, era um desconfiado e um t\u00edmido. De todas estas<br \/>\nsuas fei\u00e7\u00f5es pessoais h\u00e1 vest\u00edgios na sua poesia,<br \/>\ne foi a consubstancia\u00e7\u00e3o perfeita do seu estro com o seu temperamento<br \/>\nque, apesar do seu apego \u00e0s f\u00f3rmulas da po\u00e9tica parnasiana,<br \/>\nfez dele talvez o mais comovido e por isso mesmo o mais interessante poeta<br \/>\nda sua gera\u00e7\u00e3o. Sem maior originalidade (e a falta de originalidade<br \/>\n\u00e9 talvez o mais vis\u00edvel defeito da nossa gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nparnasiana) tem, como nenhum dos seus confrades, um raro e particular dom<br \/>\nde assimila\u00e7\u00e3o com que soube transubstanciar em pr\u00f3prias<br \/>\nemo\u00e7\u00f5es alheias, emprestando-lhes um sentimento mais profundo<br \/>\ne uma express\u00e3o mais intensa e mais formosa. Os temas dos seus dous<br \/>\nmais belos e mais justamente afamados poemas As pombas e mal secreto n\u00e3o<br \/>\nlhe pertencem, mas nem por isso esses admir\u00e1veis sonetos s\u00e3o<br \/>\nmenos seus, tantos ele lhes recriou e ressentiu o sentimento original e t\u00e3o<br \/>\nformosamente os afei\u00e7oou consoante com a sua \u00edndole po\u00e9tica.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 pelo seu real talento po\u00e9tico e peregrinas qualidades<br \/>\nda sua express\u00e3o foi Raimundo Correia um dos maiores dos nossos poetas<br \/>\nde ap\u00f3s o Romantismo, mas tamb\u00e9m porque foi de todos eles aquele<br \/>\nem que o apuro, mesmo a rebusca da forma, n\u00e3o prejudicou nem a ingenuidade<br \/>\ndo sentimento, nem a sua express\u00e3o natural, nem tampouco a ess\u00eancia<br \/>\ndo nosso lirismo tradicional. Com menores aptid\u00f5es verbais que os seus<br \/>\n\u00eamulos, ele entretanto os excedeu a todos em propriedade, singularidade<br \/>\ne beleza de express\u00e3o po\u00e9tica. Raimundo Correia morreu em Paris,<br \/>\na 13 de setembro de 1911.<\/p>\n<p>Em Pernambuco, tamb\u00e9m no meio escolar se operou paralela mas n\u00e3o<br \/>\nigual renova\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Em S. Paulo, o &#8220;pensamento<br \/>\nmoderno&#8221;, ou diretamente ou mediante os parnasianos franceses, influ\u00eda<br \/>\nos estros po\u00e9ticos sem os desviar enormemente dos dom\u00ednios e<br \/>\nda express\u00e3o pr\u00f3pria da poesia. Eram &#8220;novos&#8221;, mais<br \/>\nficavam poetas. O contr\u00e1rio sucedia em Pernambuco. Ao influxo de Tobias<br \/>\nBarreto, dos repetidos e impertinentes apelos \u00e0 Ci\u00eancia, \u00e0<br \/>\nFilosofia, ao Pensamento Moderno (tudo com mai\u00fascula), em uma palavra,<br \/>\ndo cientificismo, como barbaramente se chamou a esta presun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ci\u00eancia, nasceu o prop\u00f3sito desta coisa h\u00edbrida e desarrazoada<br \/>\nque apelidaram de poesia cient\u00edfica. N\u00e3o deu ali\u00e1s sen\u00e3o<br \/>\nfrutos pecos ou gorados ainda em flor. Poesia cient\u00edfica \u00e9 incongru\u00eancia<br \/>\nmanifesta. Que a ci\u00eancia, influindo a mentalidade humana e aperfei\u00e7oando-a<br \/>\nconsoante as suas solu\u00e7\u00f5es definitivas, ou os seus crit\u00e9rios,<br \/>\npossa acabar por atuar tamb\u00e9m o sentimento humano, \u00e9 uma verdade<br \/>\npsicol\u00f3gica de primeira intui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o o \u00e9<br \/>\nmenos que o sentimento assim feito possa comover-se conformemente com os motivos<br \/>\nque o produziram ou segundo a emotividade resultante de determina\u00e7\u00f5es<br \/>\ndaquelas solu\u00e7\u00f5es a crit\u00e9rios. Se for cabal a convers\u00e3o<br \/>\nda no\u00e7\u00e3o em sentimento, se este j\u00e1 for bastante intenso,<br \/>\npoder\u00e1 a sua express\u00e3o corresponder-lhe \u00e0 intensidade<br \/>\ne ser, pois, do ponto de vista est\u00e9tico, leg\u00edtima e bela. Mas<br \/>\npara que isto aconte\u00e7a, cumpre seja completa e perfeita a transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda id\u00e9ia em sentimento \u00edntimo capaz de express\u00e3o art\u00edstica,<br \/>\nsubjetiva. Sen\u00e3o ser\u00e1 uma pura emo\u00e7\u00e3o sentimental,<br \/>\ncuja express\u00e3o po\u00e9tica dispensa qualificativo ou, o que foi<br \/>\na nossa &#8220;poesia cient\u00edfica&#8221;, uma aberra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pseudopoetas e pseudocientistas, um efeito de moda ou uma ocasi\u00e3o<br \/>\norat\u00f3ria. Poesia, como arte que \u00e9, \u00e9 s\u00edntese,<br \/>\numa s\u00edntese emotiva. Limitando-se os nossos poetas cient\u00edficos<br \/>\na versejar no\u00e7\u00f5es, princ\u00edpios, conhecimentos cient\u00edficos,<br \/>\ne mais nomes do que coisas, resvalavam \u00e0 poesia did\u00e1tica, de<br \/>\nrid\u00edcula mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tobias Barreto, o principal causador, pelo seu ensino todo imbu\u00eddo<br \/>\nde &#8220;cientificismo&#8221;, desta suposta poesia, mas muito mais poeta que<br \/>\nos seus disc\u00edpulos, n\u00e3o caiu t\u00e3o em cheio como estes<br \/>\nno engano para o qual tanto concorreu. Quem principalmente a apadrinhou foi<br \/>\nMartins J\u00fanior, poeta em que era maior o fogo juvenil que o estro.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Isidoro Martins J\u00fanior nasceu no Recife em 24 de novembro<br \/>\nde 1860, e faleceu no Rio de Janeiro em 22 de agosto de 1904. Desde os bancos<br \/>\nda Faculdade de Direito, onde se formou, foi um esp\u00edrito agitado das<br \/>\nid\u00e9ias mais adiantadas, das opini\u00f5es mais recentes, de entusiasmos<br \/>\nfogosos, tudo traduzido em manifesta\u00e7\u00f5es e gestos de orador.<br \/>\nProdigalizava-se em discuss\u00f5es, palestras, escritos do ef\u00eamero<br \/>\njornalismo escolar, discursos e versos, num movimento infatig\u00e1vel do<br \/>\nseu temperamento caloroso e impulsivo. Desde 1879 publicou folhetos de direito,<br \/>\nfilosofia, literatura, e os seus primeiros versos, com o t\u00edtulo intencionalmente<br \/>\nexpressivo de Estilha\u00e7os, As vis\u00f5es de hoje (1881), republicadas,<br \/>\nrefundidas cinco anos depois, s\u00e3o o seu livro principal. Foi a\u00ed<br \/>\nque fez e propagou a &#8220;poesia cient\u00edfica&#8221; em poemas que eram<br \/>\na condena\u00e7\u00e3o do g\u00eanero como esse da S\u00edntese cient\u00edfica,<br \/>\ndo qual s\u00f3 estes versos bastavam para o desmoralizar definitivamente:<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 Comte<\/p>\n<p>P\u00f4de, est\u00f3ico, escalar o alevantado monte<\/p>\n<p>No p\u00edncaro do qual via-se a neve branca<\/p>\n<p>Da nova concep\u00e7\u00e3o do mundo reta e franca!<\/p>\n<p>Deixando embaixo Kant, Simon, Burdin, Turgot,<\/p>\n<p>Newton e Condorcet e Leibnitz, \u2014 voou<\/p>\n<p>Ele para as alturas m\u00e1gicas da gl\u00f3ria,<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ter arrancado ao p\u00e9lago da Hist\u00f3ria<\/p>\n<p>A vasta concha azul da Ci\u00eancia Social!<\/p>\n<p>E mais \u00e9 que houve quem tomasse a s\u00e9rio estas infantilidades,<br \/>\ne s\u00f3 como tais perdo\u00e1veis, de rapaz de escola!<\/p>\n<p>Acompanharam-no, com efeito, outros mo\u00e7os t\u00e3o pouco reflexivos<br \/>\ne t\u00e3o pouco poetas como ele. Apenas menos declaradamente seguiu a corrente,<br \/>\na que aflu\u00edam tamb\u00e9m caudais da Lenda dos s\u00e9culos, de<br \/>\nVictor Hugo, e da Vis\u00e3o dos templos, do Sr. Te\u00f3filo Braga, o<br \/>\nSr. S\u00edlvio Romero (Cantos do fim do s\u00e9culo, Rio de Janeiro,<br \/>\n1878). Pelo nome que justamente adquiriu nas nossas letras, e pela sua mesma<br \/>\nobra po\u00e9tica desta errada tend\u00eancia, foi talvez o Sr. S\u00edlvio<br \/>\nRomero o mais consider\u00e1vel destes poetas. Sem nenhuma superioridade,<br \/>\nmas tamb\u00e9m sem tamanha insufici\u00eancia quanto lhe assacaram, versificou<br \/>\nno\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, pensamentos filos\u00f3ficos, conceitos<br \/>\nhist\u00f3ricos, opini\u00f5es sociais com maior ardor que sucesso. Esta<br \/>\npoesia cient\u00edfica de que Martins J\u00fanior se fizera o arauto (Poesia<br \/>\ncient\u00edfica, Recife, 1883), e que poucos mais cultores teve al\u00e9m<br \/>\ndele e do Sr. S\u00edlvio Romero, e nenhum certamente credor de estima\u00e7\u00e3o,<br \/>\nera ainda, por muitos aspectos, um remanescente do condoreirismo. Acabada<br \/>\na guerra do Paraguai e esgotado um dos principais estimulantes desta maneira<br \/>\npo\u00e9tica, exatamente quando novas id\u00e9ias cient\u00edficas e<br \/>\nfilos\u00f3ficas nos chegavam da Europa e come\u00e7ava aqui ao menos<br \/>\no momento de c\u00e2ndida f\u00e9 na ci\u00eancia que durou at\u00e9<br \/>\nh\u00e1 pouco, foi esta, por isso mesmo que pouco sabida, que alvoro\u00e7ou<br \/>\na mocidade.<\/p>\n<p>\u00c9 este o grande mal da literatura brasileira: que por circunst\u00e2ncias<br \/>\npeculiares \u00e0 nossa evolu\u00e7\u00e3o nacional, ela tem sido sobretudo,<br \/>\nquase exclusivamente at\u00e9, feita por mo\u00e7os, geralmente rapazes<br \/>\ndas escolas superiores, ou simples estudantes de preparat\u00f3rios, sem<br \/>\no saber dos livros e menos ainda o da vida. Ora a literatura, para que valha<br \/>\nalguma cousa, h\u00e1 de ser o resultado emocional da experi\u00eancia<br \/>\nhumana. A nossa tem principalmente sido uma literatura de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne fundo, mais livrescos que vividos.<\/p>\n<h4><a name=\"17\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XVII<\/h4>\n<p><strong>O TEATRO E A LITERATURA DRAM\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n<p>SEN\u00c3O COMO LITERATURA, como espet\u00e1culo data o teatro no Brasil<br \/>\ndo s\u00e9culo do descobrimento. Foram seus inventores ou introdutores aqui<br \/>\nos jesu\u00edtas. Na sua obra de catequese e educa\u00e7\u00e3o, a mais<br \/>\ninteligente sem d\u00favida que jamais se fez, recorriam esses padres, desde<br \/>\na Europa, a todos os recursos, ainda os mais grosseiros, de sugest\u00e3o.<br \/>\nDesses foram as grandes solenidades, meio profanas, meio religiosas, dos seus<br \/>\ncol\u00e9gios, com representa\u00e7\u00f5es, recita\u00e7\u00f5es,<br \/>\nc\u00e2nticos e dan\u00e7as e espet\u00e1culos a que j\u00e1 podemos<br \/>\nchamar de teatrais. Mediante estes, os seus mais rudes palcos achariam acaso<br \/>\nouvintes mais caro\u00e1veis que o seu p\u00falpito.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo XVI, na citada Narrativa epistolar de Fern\u00e3o<br \/>\nCardim e em outros cronistas, no s\u00e9culo XVII, nos longos t\u00edtulos<br \/>\ndos poemas de Greg\u00f3rio de Matos142 e em mais de um noticiador do Brasil<br \/>\nde ent\u00e3o, e com freq\u00fc\u00eancia maior nos cronistas do s\u00e9eacute;culo<br \/>\nXVIII, encontram-se not\u00edcias desses espet\u00e1culos, que uma cr\u00edtica<br \/>\nincompetente pretendeu arvorar em in\u00edcio do nosso teatro.<\/p>\n<p>142&#8243;A umas com\u00e9dias que se representaram no s\u00edtio de Caja\u00edba&#8221;.<br \/>\n&#8220;A uma com\u00e9dia que fizeram os pardos confrades de N.S. do Amparo&#8221;.<br \/>\nMS. 1-5-1-29 da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Desses talvez o primeiro de que h\u00e1 not\u00edcia foi o que o Padre<br \/>\nJos\u00e9 de Anchieta realizou em S. Vicente, em 1555, fazendo representar<br \/>\npor \u00edndios seus catec\u00famenos e portugueses, em tupi, e em portugu\u00eas,<br \/>\no auto da Prega\u00e7\u00e3o universal, ruim arremedo dos &#8220;autos<br \/>\nde devo\u00e7\u00e3o&#8221; que se representavam no Reino, dos quais o<br \/>\ncontempor\u00e2neo Gil Vicente deixou os melhores exemplares.<\/p>\n<p>Mas nem esse pobre auto, nem outros que se lhe seguiram, representados em<br \/>\nestabelecimentos jesu\u00edticos ou alhures, n\u00e3o s\u00e3o propriamente<br \/>\nteatro no sentido da literatura dram\u00e1tica. Todos eles desapareceram<br \/>\nsem deixar prole, nem seq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>As representa\u00e7\u00f5es ou espet\u00e1culos teatrais, que aqui<br \/>\nmais tarde se viram, e de que h\u00e1 not\u00edcias desde os meados do<br \/>\ns\u00e9culo XVIII, de com\u00e9dias, entremezes, momos, loas, portugueses<br \/>\ne espanh\u00f3is, ou, quem sabe?, j\u00e1 produto colonial, nenhuma afinidade<br \/>\nteriam com os autos jesu\u00edticos ou quejandos. Desde, pelo menos, a segunda<br \/>\nmetade do s\u00e9culo XVIII que em festas p\u00fablicas celebradas por<br \/>\nocasi\u00e3o da exalta\u00e7\u00e3o ao trono de reis portugueses, ou<br \/>\nde nascimentos, despos\u00f3rios principescos, se faziam aqui representa\u00e7\u00f5es<br \/>\nteatrais, em geral de pe\u00e7as espanholas, como tamb\u00e9m sucedia<br \/>\nna metr\u00f3pole. Em 1761, na Bahia, por motivos dos esponsais da futura<br \/>\nD. Maria I, foi representado um Anfitri\u00e3o, acaso o mesmo do nosso engenhoso<br \/>\ne desgra\u00e7ado patr\u00edcio Ant\u00f4nio Jos\u00e9.143<\/p>\n<p>Destas representa\u00e7\u00f5es, e sempre por id\u00eanticos motivos,<br \/>\nem outras partes do Brasil, ainda em antes da funda\u00e7\u00e3o da Casa<br \/>\nda \u00d3pera no Rio de Janeiro, em 1767, se encontram not\u00edcias nas<br \/>\ncr\u00f4nicas e relatos contempor\u00e2neos. Se n\u00e3o \u00e9 ainda<br \/>\nposs\u00edvel asseverar que Alvarenga Peixoto, um dos poetas da pl\u00eaiade<br \/>\nmineira, tenha de fato composto um drama En\u00e9ias no L\u00e1cio e traduzido<br \/>\na M\u00e9rope, de Maffei, e, menos ainda, que por volta de 1775 estes se<br \/>\nhajam representados na referida Casa da \u00d3pera, n\u00e3o parece duvidoso<br \/>\nque outro poeta do mesmo grupo, Cl\u00e1udio Manoel da Costa, tenha composto<br \/>\n&#8220;poesias dram\u00e1ticas&#8221; que, segundo declara\u00e7\u00e3o<br \/>\nsua, se tinham &#8220;muitas vezes representado nos teatros de Vila Rica, Minas<br \/>\nem geral e Rio de Janeiro&#8221; e feito &#8220;v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es<br \/>\nde dramas de Metast\u00e1sio&#8221;.144<\/p>\n<p>Nesses teatros, de exist\u00eancia for\u00e7osamente prec\u00e1ria,<br \/>\ne atividade espor\u00e1dica e intermitente, eram principalmente, tal qual<br \/>\ncomo em Portugal, pe\u00e7as espanholas que se representavam. Quando ele<br \/>\ncome\u00e7ou, j\u00e1 ali mesmo se n\u00e3o representava mais Gil Vicente.<br \/>\nO teatro portugu\u00eas vivia de pe\u00e7as estrangeiras, e menos de entremezes<br \/>\ne \u00f3peras nacionais \u2014 alguma coisa como o moderno vaudeville franc\u00eas<br \/>\n\u2014 sendo as principais e melhores destas as do Judeu, cuja popularidade<br \/>\nfoi grande e que, sem o nome do seu malogrado autor, se representavam freq\u00fcentemente<br \/>\nno Reino, e porventura tamb\u00e9m no Brasil. Este teatro, pois, de brasileiro<br \/>\ns\u00f3 tem a circunst\u00e2ncia de estar no Brasil. O teatro brasileiro<br \/>\npropriamente dito, de autores, pe\u00e7as e atores brasileiros ou abrasileirados,<br \/>\nque fosse j\u00e1 um produto do nosso g\u00eanio e do meio, \u00e9, por<br \/>\nassim dizer, de ontem. Pode existir quem o tenha visto nascer.<\/p>\n<p>Como simples curiosidade hist\u00f3rica, uma hist\u00f3ria exaustiva<br \/>\nde teatro brasileiro, compreendendo o espet\u00e1culo e a literatura, podia,<br \/>\nporventura devia, recordar essas primeiras representa\u00e7\u00f5es. Nessa<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o caberiam os autos, di\u00e1logos, loas e quejandos<br \/>\nespet\u00e1culos dados nos estabelecimentos jesu\u00edticos e em festividades<br \/>\np\u00fablicas ou particulares nos tempos coloniais. H\u00e1 para tal not\u00edcia<br \/>\nmaterial bastante em documentos contempor\u00e2neos. N\u00e3o existe, por\u00e9m,<br \/>\num s\u00f3 de literatura dram\u00e1tica, por onde possamos avaliar-lhe<br \/>\na import\u00e2ncia e m\u00e9rito. Os primeiros que apareceram s\u00e3o<br \/>\nde 1838 para c\u00e1, os dramas ou trag\u00e9dias de Magalh\u00e3es<br \/>\ne as com\u00e9dias ou farsas de Martins Pena.<\/p>\n<p>Foi o Romantismo, com o qual se iniciou o que j\u00e1 podemos chamar de<br \/>\nliteratura nacional, o criador tamb\u00e9m do nosso teatro. Este ficou de<br \/>\ntodo estreme de qualquer influxo daquelas remotas e, pode dizer-se, ignoradas<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00f5es coloniais. Na sua primeira fase produziu o Romantismo<br \/>\nGon\u00e7alves de Magalh\u00e3es e Martins Pena, e logo depois Macedo<br \/>\ne Jos\u00e9 de Alencar. Simultaneamente apareceu aqui um grande ator que,<br \/>\ncom seu nativo talento e ardor pela arte dram\u00e1tica, realizou no palco,<br \/>\nmediante companhias em que chegou a interessar os mesmos estadistas do tempo<br \/>\ne outros consp\u00edcuos cidad\u00e3os, e com aplauso e colabora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo p\u00fablico, o teatro brasileiro. O nome desse ator, Jo\u00e3o Caetano<br \/>\n(+ 1863), chegou at\u00e9 n\u00f3s com tal aur\u00e9ola de admira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de gl\u00f3ria, t\u00e3o saudosamente lembrado, que se lhe dispensa<br \/>\na biografia ou mais positivos testemunhos do seu valor real. A impress\u00e3o<br \/>\nque ele causou nos seus contempor\u00e2neos, impress\u00e3o profunda e<br \/>\nduradoura, basta para assegurar-lhe a primazia na realiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nc\u00eanica daqueles e doutros autores e, portanto, na cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde &#8220;teatro&#8221; aqui.<\/p>\n<p>Como literatura, o seu criador foi, segundo vimos, Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es,<br \/>\ncom o seu Ant\u00f4nio Jos\u00e9 ou o poeta e a Inquisi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntrag\u00e9dia em verso, em 5 atos, representada pela primeira vez por Jo\u00e3o<br \/>\nCaetano e sua companhia, no seu teatro da Pra\u00e7a da Constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\n(depois Teatro de S. Pedro de Alc\u00e2ntara) em 13 de mar\u00e7o de 1838.<br \/>\nEsta data asseguraria a Magalh\u00e3es e ao Brasil a prioridade do teatro<br \/>\nrom\u00e2ntico na literatura da nossa l\u00edngua. A pe\u00e7a com que<br \/>\nGarrett inaugurou o moderno teatro portugu\u00eas, Um auto de Gil Vicente,<br \/>\nfoi representada em Lisboa quatro meses depois da do nosso patr\u00edcio.<br \/>\nEsta prioridade, por\u00e9m, pouco mais \u00e9 que cronol\u00f3gica.<br \/>\nO drama de Garrett, sobre ter outro valor liter\u00e1rio, \u00e9 bem mais<br \/>\nrom\u00e2ntico do que a trag\u00e9dia de Magalh\u00e3es. Aproveita, entretanto,<br \/>\na primazia da data, para comprovar que n\u00e3o foi de Portugal que Magalh\u00e3es<br \/>\nrecebeu o impulso renovador, e portanto que o nosso Romantismo, por ele inaugurado<br \/>\nna poesia com os Suspiros po\u00e9ticos (1836), compostos e publicados no<br \/>\nfoco do romantismo latino, Paris, se originou de outras fontes que a portuguesa.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es como Porto Alegre, seu amigo e \u00eamulo nesta renova\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o eram por temperamento e \u00edndole liter\u00e1ria dois verdadeiros<br \/>\nrom\u00e2nticos, quanto o seriam por exemplo Gon\u00e7alves Dias e Alencar.<br \/>\nForam-no antes de estudo e prop\u00f3sito que de voca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA sua \u00edntima caracter\u00edstica liter\u00e1ria seria antes o pseudoclassicismo<br \/>\nou o ser\u00f4dio arcadismo do fim do s\u00e9culo XVIII e princ\u00edpio<br \/>\ndo XIX em Portugal e alhures, e do qual Ponsard, em Fran\u00e7a, era no<br \/>\nteatro o mais eminente representante. Quando o Romantismo franc\u00eas proclamava<br \/>\na fal\u00eancia ou esgotamento da trag\u00e9dia, substituindo-a pelo drama<br \/>\nem que os elementos da com\u00e9dia se misturavam ao pat\u00e9tico do<br \/>\nteatro tr\u00e1gico, Magalh\u00e3es escrevia trag\u00e9dias feitas ainda<br \/>\nsegundo as cl\u00e1ssicas regras aristot\u00e9licas. De fora parte a sobriedade<br \/>\naustera dos grandes moldes gregos, seguidos por Ferreira e Racine, e a inferioridade<br \/>\ndo seu estro, renasciam estas no palco de S. Pedro de Alc\u00e2ntara, ao<br \/>\ngesto poderoso de Jo\u00e3o Caetano. Eram, por\u00e9m, antes uns arremedos<br \/>\nda trag\u00e9dia cl\u00e1ssica do que o verdadeiro drama rom\u00e2ntico<br \/>\nqual o conceberam Schiller e Hugo. Trasladando para o nosso teatro, e poder\u00edamos<br \/>\ndizer para o teatro portugu\u00eas, o drama shakespeariano, que \u00e9<br \/>\no mais remoto e ilustre avoengo do Romantismo, fazia-o Magalh\u00e3es das<br \/>\ndescoradas vers\u00f5es com que Ducis amaneirou ao gosto franc\u00eas o<br \/>\nteatro de Shakespeare. Mas Ant\u00f4nio Jos\u00e9 ou o poeta e a Inquisi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque pelo tema moderno, pelo esp\u00edrito liberal e sobretudo pelo t\u00edtulo<br \/>\n\u00e9 bem rom\u00e2ntico, Olgiato, que o \u00e9 de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne express\u00e3o, e o mesmo Otelo, deviam ficar na nossa literatura dram\u00e1tica,<br \/>\nse n\u00e3o no nosso teatro, como bons exemplares da nossa obra liter\u00e1ria<br \/>\nnesse g\u00eanero. O importante, por\u00e9m, estava feito, um belo exemplo<br \/>\nestava dado, uma fecunda iniciativa realizada, e n\u00e3o sem superioridade.<br \/>\nAtores brasileiros ou abrasileirados, num teatro brasileiro, representavam<br \/>\ndiante de uma plat\u00e9ia brasileira entusiasmada e comovida, o autor brasileiro<br \/>\nde uma pe\u00e7a cujo protagonista era tamb\u00e9m brasileiro e que expl\u00edcita<br \/>\ne implicitamente lhe falava do Brasil. Isto sucedia dezesseis anos ap\u00f3s<br \/>\na Independ\u00eancia, quando ainda referviam e bulhavam na jovem alma nacional<br \/>\ntodos os entusiasmos desse grande momento pol\u00edtico e todas as alvoro\u00e7adas<br \/>\nesperan\u00e7as e generosas ilus\u00f5es por ele criadas. Nada mais era<br \/>\npreciso para que na opini\u00e3o do p\u00fablico brasileiro, em quem era<br \/>\nainda ent\u00e3o vivo o ardor c\u00edvico, aquele teatro com os que nele<br \/>\noficiavam como autores e atores, tomasse a fei\u00e7\u00e3o de um templo<br \/>\nonde se celebrava literariamente a p\u00e1tria nova.<\/p>\n<p>Martins Pena, como ali\u00e1s todos os rom\u00e2nticos, aproveitou deste<br \/>\nsentimento. A individualidade que certamente tinha, a sua originalidade nativa,<br \/>\nem uma palavra a sua voca\u00e7\u00e3o, livraram-no, por\u00e9m, de<br \/>\nceder ao duplo ascendente de Magalh\u00e3es e de Jo\u00e3o Caetano, e<br \/>\nfizeram dele o verdadeiro criador do nosso teatro. Mais porventura que a Magalh\u00e3es,<br \/>\nassegura-lhe este t\u00edtulo a c\u00f3pia de pe\u00e7as que escreveu<br \/>\ne fez representar, quer pela cena, quer pela imprensa, e, sobretudo, o seu<br \/>\nmuito mais acentuado car\u00e1ter nacional. Por tudo isso a obra teatral<br \/>\nde Martins Pena certamente influiu mais no advento do teatro nacional que<br \/>\na de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Carlos Martins Pena nasceu no Rio de Janeiro a 5 de novembro<br \/>\nde 1815 e faleceu em Lisboa a 7 de dezembro de 1848. A sua instru\u00e7\u00e3o<br \/>\nparece n\u00e3o ter tido m\u00e9todo nem seq\u00fc\u00eancia. Passou<br \/>\npela Aula de Com\u00e9rcio ent\u00e3o existente, e pela Academia de Belas-Artes.<br \/>\nEstudou l\u00ednguas estrangeiras e completou consigo mesmo os seus estudos.<br \/>\nCultivou tamb\u00e9m a m\u00fasica, que o ajudaria na composi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos couplets que lhe exornam as pe\u00e7as. Foi empregado p\u00fablico<br \/>\nem dois minist\u00e9rios e mais tarde adido \u00e0 lega\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira em Londres, onde esteve quase um ano. Dando-se mal com o clima<br \/>\nlondrino, veio j\u00e1 bastante doente para Lisboa e a\u00ed faleceu apenas<br \/>\npassado um m\u00eas. Seria, pois, mais culto e mais instru\u00eddo pela<br \/>\nfreq\u00fcenta\u00e7\u00e3o de sociedades mais civilizadas que a da p\u00e1tria<br \/>\ndo que o deixam supor as suas com\u00e9dias. N\u00e3o se lhe vislumbra<br \/>\nna obra conhecida nada que revele algo de g\u00eanio teatral ingl\u00eas<br \/>\nou da literatura inglesa, nem de qualquer outra. A sua gra\u00e7a, pois<br \/>\na tem em quantidade, \u00e9 j\u00e1 a resultante da fus\u00e3o aqui<br \/>\nda chala\u00e7a portuguesa com a capado\u00e7agem mesti\u00e7a, a gra\u00e7ola<br \/>\nbrasileira, sem sombra da finura do esp\u00edrito franc\u00eas ou do humor<br \/>\nbrit\u00e2nico. Esta sua imunidade, como a j\u00e1 verificada ao prest\u00edgio<br \/>\nde Magalh\u00e3es e Jo\u00e3o Caetano, a despeito da predile\u00e7\u00e3o<br \/>\np\u00fablica pelo dramalh\u00e3o e pela trag\u00e9dia, est\u00e1 atestando<br \/>\na individualidade pr\u00f3pria, a inspira\u00e7\u00e3o nativa, a originalidade<br \/>\nde Martins Pena.145<\/p>\n<p>Estreando no teatro ap\u00f3s o grande sucesso de Magalh\u00e3es, servido<br \/>\npor Jo\u00e3o Caetano, e os v\u00e1rios triunfos por este e seus companheiros<br \/>\nalcan\u00e7ados com os dramalh\u00f5es rom\u00e2nticos, e sem lhe dar<br \/>\nda voga deste teatro, antes seguindo o seu g\u00eanio e voca\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo deve fazer todo o artista sincero, Martins Pena come\u00e7a e prossegue<br \/>\ncom a com\u00e9dia. Ingenuamente, desartificiosamente, com observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsem profundeza, mesmo banal mas exata e sincera, traz para o teatro \u2014<br \/>\npela primeira vez, note-se, porque o seu sucesso explica-o a s\u00f3 novidade<br \/>\ndo seu feito \u2014 a nossa vida popular e burguesa e quotidiana do tempo.<br \/>\nEvidentemente n\u00e3o tem presun\u00e7\u00f5es nem prop\u00f3sitos<br \/>\nliter\u00e1rios como os teve Magalh\u00e3es; apenas v\u00ea claro, observa<br \/>\ncom aten\u00e7\u00e3o e reproduz fielmente, com a naturalidade em que<br \/>\nse revela o escritor de teatro. E Martins Pena n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o<br \/>\nisto, um escritor de teatro. Do autor dram\u00e1tico possui, em grau de<br \/>\nque se n\u00e3o antolha outro exemplo na nossa literatura, as qualidades<br \/>\nessenciais ao of\u00edcio e ainda certos dons, que as real\u00e7am: sabe<br \/>\nimaginar ou arranjar uma pe\u00e7a, combinar as cenas, dispor os efeitos,<br \/>\ntravar o di\u00e1logo, e tem essa esp\u00e9cie de observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nf\u00e1cil, elementar, corriqueira e superficial, mas no caso preciosa,<br \/>\nque \u00e9 um dos talentos do g\u00eanero. N\u00e3o raro tem o tra\u00e7o<br \/>\npsicol\u00f3gico do caricaturista, e o jeito de apanhar o rasgo significativo<br \/>\nde um tipo, de uma situa\u00e7\u00e3o, de um vezo. Possui veia c\u00f4mica<br \/>\nnativa, espont\u00e2nea e ainda abundante, infelizmente, por\u00e9m, (defeito<br \/>\ndesta mesma virtude) com facilidade de se desmandar na farsa. Martins Pena<br \/>\ne Manoel de Almeida, o singular e malogrado autor das Mem\u00f3rias de um<br \/>\nsargento de mil\u00edcias, s\u00e3o porventura os melhores, se n\u00e3o<br \/>\nos \u00fanicos, exemplos de espontaneidade liter\u00e1ria que apresenta<br \/>\na literatura brasileira.<\/p>\n<p>A maior parte das pe\u00e7as de Martins Pena s\u00e3o antes farsas que<br \/>\ncom\u00e9dias. Independentemente dessa denomina\u00e7\u00e3o, que ele<br \/>\npr\u00f3prio lhes deu, a sua fei\u00e7\u00e3o e estilo \u00e9 de farsa.<br \/>\nEle exagera o feitio c\u00f4mico das situa\u00e7\u00f5es e personagens,<br \/>\nacumula o burlesco sobre o rid\u00edculo, manifestamente no intuito de melhor<br \/>\ndivertir, provocando-lhe o riso abundante e descomedido, o seu p\u00fablico.<br \/>\n\u00c9 tradi\u00e7\u00e3o que o conseguiu plenamente. Ainda hoje se<br \/>\nrepresentam as com\u00e9dias de Pena com o mesmo sucesso de franca hilaridade<br \/>\nque lhe fizeram nossos pais. A mais de meio s\u00e9culo de dist\u00e2ncia,<br \/>\nlidas ou ouvidas, deixam-nos a impress\u00e3o de representarem suficientemente<br \/>\nno essencial e caracter\u00edstico o meio brasileiro que lhe serviu de modelo<br \/>\ne tema. E s\u00f3 talvez delas, em todo o nosso teatro, se poder\u00e1<br \/>\ndizer a mesma cousa.<\/p>\n<p>Foi consider\u00e1vel, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao tempo, a atividade<br \/>\nliter\u00e1ria de Martins Pena, exercida de 1838 a 1847. Al\u00e9m de<br \/>\num romance e folhetins teatrais, de que apenas temos not\u00edcia incerta,<br \/>\ndeixou vinte e tantas pe\u00e7as de teatro, das quais tr\u00eas dramas.<br \/>\nDezenove pelo menos foram representadas e nove impressas, sendo algumas reimpressas,<br \/>\nainda em vida do autor ou posteriormente. Ultimamente foram reeditadas em<br \/>\num s\u00f3 volume, infelizmente com bem pouco cuidado editorial.146<\/p>\n<p>O exemplo de Magalh\u00e3es e Martins Pena frutificou. Dos rom\u00e2nticos<br \/>\nda primeira hora, os principais, Norberto, Teixeira e Sousa, Porto Alegre,<br \/>\nGon\u00e7alves Dias, Macedo e at\u00e9 Varnhagen, com fortuna e sucesso<br \/>\ndiverso, em geral med\u00edocre, escreveram tamb\u00e9m teatro. Alguns<br \/>\nal\u00e9m de Macedo, conseguiram ver-se representados. J\u00e1 fica dito<br \/>\nda obra teatral de cada um deles, no que ela interessa \u00e0 literatura.<br \/>\nS\u00e3o, por\u00e9m, muitos os autores de pe\u00e7as de teatro de todo<br \/>\no g\u00eanero escritas ou representadas nessa fase da nossa literatura e<br \/>\nna que imediatamente se lhe segue. Desses apenas um ou outro nome n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 de todo esquecido. Tais s\u00e3o os de Carlos Cordeiro, Castro<br \/>\nLopes, Lu\u00eds Burgain, Pinheiro Guimar\u00e3es, Agr\u00e1rio de Meneses,<br \/>\nQuintino Bocai\u00fava, cujo teatro \u00e9 de 1850 a 1870. Estes mesmos<br \/>\ns\u00e3o apenas uma recorda\u00e7\u00e3o cada dia mais apagada, pois<br \/>\nn\u00e3o concorre para aviv\u00e1-la a sua obra dram\u00e1tica que n\u00e3o<br \/>\nmais se representa e ningu\u00e9m l\u00ea.<\/p>\n<p>Nesse momento, que corresponde \u00e0 segunda fase do Romantismo, as duas<br \/>\nprincipais figuras do nosso teatro foram Jos\u00e9 de Alencar e Macedo,<br \/>\nj\u00e1 atr\u00e1s como tais estudados. S\u00e3o dois talentos diversos,<br \/>\ndois engenhos quase opostos. H\u00e1 mais arte, mais gravidade, maior sentimento<br \/>\ne respeito da literatura no primeiro que no segundo. Mas tamb\u00e9m menos<br \/>\nespontaneidade, menos naturalidade, menor vis comica e somenos dons de autor<br \/>\nde teatro. Macedo \u00e9 o leg\u00edtimo continuador de Martins Pena,<br \/>\ncom melhorias de composi\u00e7\u00e3o e mais largo engenho dram\u00e1tico.<br \/>\n\u00c9, sobretudo, principalmente comparado com Alencar, um autor burgu\u00eas<br \/>\ne para a burguesia, se \u00e9 l\u00edcito o uso de tais express\u00f5es<br \/>\naqui. Na representa\u00e7\u00e3o da vida burguesa, ou antes da vida med\u00edocre<br \/>\nbrasileira, nos deixou Macedo no seu teatro, como no seu romance, de parte<br \/>\nos seus nunca emendados defeitos de linguagem e estilo, exemplares estim\u00e1veis.<br \/>\nGeralmente tem as suas pe\u00e7as boas qualidades teatrais, e h\u00e1<br \/>\natos seus, como o primeiro de Luxo e vaidade, excelentes. A torre em concurso,<br \/>\nque criou o tipo popular do capit\u00e3o Tib\u00e9rio, embora descambe<br \/>\nna farsa, tem todo o sabor de uma cr\u00edtica hilariante feita \u00e0s<br \/>\nnossas brigas pol\u00edticas, das quais \u00e9 \u00f3timo retrato. Nesta,<br \/>\ncomo na maioria de suas pe\u00e7as, mormente nas estremes de presun\u00e7\u00f5es<br \/>\nliter\u00e1rias e portanto mais espont\u00e2neas e naturais, enredo, tipos,<br \/>\nsitua\u00e7\u00f5es, express\u00e3o, \u00e9 tudo muito nosso. Quaisquer<br \/>\nque sejam as defici\u00eancias e defeitos do teatro de Macedo, a vida brasileira<br \/>\nou mais propriamente a vida carioca do seu tempo, acha-se nele, como ali\u00e1s<br \/>\nno seu romance, sinceramente representada.<\/p>\n<p>Alencar, natureza literariamente mais fina que Macedo, ao inv\u00e9s deste<br \/>\nleva para a literatura vistas de artista e de pensador, aponta mais alto.<br \/>\nO seu teatro n\u00e3o quer ser, como o de Pena ou o de Macedo, a simples<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00e3o elementar da vida nacional. Representando-a como<br \/>\nmelhor lhe permite o seu cong\u00eanito idealismo, pretende tamb\u00e9m<br \/>\neducar, Para Alencar, o teatro, segundo o conceito no seu tempo incontestado,<br \/>\n\u00e9 uma escola. Cabe-lhe a honra de haver trazido para a cena brasileira<br \/>\no que depois se chamou o teatro de id\u00e9ias. M\u00e3e (1860), drama<br \/>\ncheio de defeitos, mas n\u00e3o sem intensidade e por partes belo, \u00e9<br \/>\numa das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias do sentimento<br \/>\nnacional contra a escravid\u00e3o. O cr\u00e9dito (1858) trouxe para o<br \/>\nnosso teatro a quest\u00e3o do dinheiro, que com Dumas Filho, come\u00e7ara<br \/>\na ser um dos temas do teatro franc\u00eas. Tamb\u00e9m as quest\u00f5es<br \/>\nsociais e morais contempor\u00e2neas acham eco ou encontram cabida no teatro<br \/>\nde Alencar. No mais agudo da quest\u00e3o religiosa aqui (1875), ele fez<br \/>\nrepresentar o Jesu\u00edta, malograda concep\u00e7\u00e3o de um tipo<br \/>\nque o teatro n\u00e3o comportava tal qual ele o concebeu, ao contr\u00e1rio<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 do que parece ser a verdade, mas, o que \u00e9 o importante,<br \/>\ndo conceito vulgar do jesu\u00edta. E \u00e9 a inferioridade do teatro<br \/>\nque ele n\u00e3o comporta o que abertamente contraria esses preconceitos.<\/p>\n<p>Alencar, que tinha muito menos gra\u00e7a e veia c\u00f4mica que Pena<br \/>\ne Macedo, escreveu tamb\u00e9m puras com\u00e9dias de costumes, e uma<br \/>\ndelas ao menos ficou na nossa literatura teatral com a express\u00e3o arguta<br \/>\ne espirituosa de um grave mal da nossa sociedade, n\u00e3o de todo acabado<br \/>\ncom a extin\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o: a influ\u00eancia nefasta<br \/>\ndo moleque, da &#8220;cria da casa&#8221;, f\u00e2mulo da nossa intimidade,<br \/>\nintrometido na nossa vida, e que, gra\u00e7as \u00e0 nossa proverbial<br \/>\nbonacheirice ou desleixo e aos nossos costumes extremamente igualit\u00e1rios,<br \/>\ntoma nela uma situa\u00e7\u00e3o desmoralizadora do decoro dom\u00e9stico.<br \/>\n\u00c9 o Dem\u00f4nio familiar, r\u00e9plica ind\u00edgena do criado<br \/>\nou lacaio da antiga com\u00e9dia italiana, francesa e ainda portuguesa,<br \/>\nmas na de Alencar, cria\u00e7\u00e3o original, filha somente da sua observa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nda qual, por\u00e9m, nem ele nem os seus \u00eamulos n\u00e3o souberam<br \/>\ntirar todo o proveito que porventura ela comportava.<\/p>\n<p>O per\u00edodo da maior atividade de Alencar e Macedo, como escritores<br \/>\ndram\u00e1ticos, vai de meados do dec\u00eanio de 50 aos fins do de 70.<br \/>\n\u00c9 esse tamb\u00e9m o de mais vida do nosso teatro, quer como espet\u00e1culo,<br \/>\nquer como literatura dram\u00e1tica. Com estes dous escritores concorreram,<br \/>\nal\u00e9m de alguns dos j\u00e1 citados (Quintino Bocai\u00fava, Agr\u00e1rio<br \/>\nde Meneses, Pinheiro Guimar\u00e3es e outros somenos), Augusto de Castro,<br \/>\nAquiles Varej\u00e3o, Fran\u00e7a J\u00fanior, que sem not\u00e1vel<br \/>\nm\u00e9rito liter\u00e1rio, tiveram entretanto relativo e n\u00e3o de<br \/>\ntodo imerecido sucesso no palco.<\/p>\n<p>Agr\u00e1rio de Menezes, baiano (1834-1863), goza de uma reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nexagerada que a literatura da sua obra absolutamente n\u00e3o justifica.<br \/>\nO seu Calabar, t\u00e3o gabado qu\u00e3o pouco conhecido, como aqui muito<br \/>\nfreq\u00fcentemente sucede, n\u00e3o lhe abona nem a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ncriadora, nem o estro po\u00e9tico. Como escritores de teatro, mais valor<br \/>\nt\u00eam Pinheiro Guimar\u00e3es e Fran\u00e7a J\u00fanior. Aquele<br \/>\ncomo dramaturgo, que principalmente foi, tem os mesmos defeitos de Macedo<br \/>\ne Alencar, com menos espontaneidade que o primeiro e pior estilo que o segundo.<br \/>\nFran\u00e7a J\u00fanior, com muito da veia c\u00f4mica popular de Martins<br \/>\nPena, a mesma observa\u00e7\u00e3o superficial dos tipos e rid\u00edculos<br \/>\nsociais, a mesma gra\u00e7a um pouco vulgar no apresent\u00e1-los, carece<br \/>\nda ingenuidade que real\u00e7a o engenho de Pena. No teatro de Fran\u00e7a<br \/>\nJ\u00fanior sente-se o trato com o teatro c\u00f4mico franc\u00eas. Em<br \/>\ntodo caso, \u00e9 com Martins Pena e Macedo um dos nossos autores dram\u00e1ticos<br \/>\nainda porventura represent\u00e1veis.<\/p>\n<p>No assinalado per\u00edodo n\u00e3o s\u00f3 muitos dos nossos literatos<br \/>\nescreveram para o teatro e acharam quem lhes representasse as pe\u00e7as,<br \/>\nmas quem os fosse ouvir, o que nunca mais aconteceu. A nossa bibliografia<br \/>\nteatral de ent\u00e3o \u00e9 a mais copiosa de toda a nossa literatura<br \/>\ne para ela n\u00e3o concorreu somente o Rio de Janeiro, mas outras capitais<br \/>\nbrasileiras, como Par\u00e1, Maranh\u00e3o, Cear\u00e1, Pernambuco,<br \/>\nBahia, S. Paulo, Porto Alegre. Havia pelo teatro vern\u00e1culo, brasileiro<br \/>\nou portugu\u00eas, ou estrangeiro nacionalizado por tradu\u00e7\u00f5es<br \/>\naqui feitas (e numerosas foram ent\u00e3o as tradu\u00e7\u00f5es do<br \/>\nfranc\u00eas), interesse e curiosidade que depois desapareceram de todo com<br \/>\na concorr\u00eancia do teatro estrangeiro, trazido por companhias advent\u00edcias.<br \/>\nO espet\u00e1culo bem mais divertido e interessante por elas apresentado<br \/>\nfoi um tremendo confronto para o nosso teatro, que tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\ntinha mais para ampar\u00e1-lo aquele antigo ing\u00eanuo sentimento nativista,<br \/>\nque tanto aproveitara aos iniciadores do nosso teatro e da nossa literatura<br \/>\nem geral. Ao contr\u00e1rio com o desenvolvimento das nossas comunica\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom a Europa pela mais freq\u00fcente e mais r\u00e1pida navega\u00e7\u00e3o<br \/>\na vapor, come\u00e7ara a prevalecer na nossa &#8220;sociedade&#8221; o gosto<br \/>\nex\u00f3tico. Antes floresceram v\u00e1rias empresas teatrais que ofereciam<br \/>\naos autores oportunidades de se fazerem representar e at\u00e9 lhes desafiavam<br \/>\no engenho. Nas principais capitais do pa\u00eds, companhias locais ou avent\u00edcias<br \/>\nera certo darem em esta\u00e7\u00f5es adequadas espet\u00e1culos com<br \/>\npe\u00e7as nacionais, portuguesas ou traduzidas. Dos atores que as compunham<br \/>\nescaparam alguns nomes, famosos no seu tempo, e que ainda vivem na tradi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAl\u00e9m dos da primeira hora do nosso teatro e seus fundadores, Jo\u00e3o<br \/>\nCaetano, Florindo, Estela Sezefreda, Costa, citam-se mais os de Joaquim Augusto,<br \/>\nFurtado Coelho, Germano Amoedo, Vicente de Oliveira, Eug\u00eania C\u00e2mara,<br \/>\nIsm\u00eania dos Santos, Manuela Luci, Xisto Ba\u00eda, Corr\u00eaa Vasques<br \/>\ne outros.<\/p>\n<p>Produto do Romantismo, o teatro brasileiro finou-se com ele. Parece-me verdade<br \/>\nque n\u00e3o deixou de si nenhum documento equivalente aos que nos legou<br \/>\no Romantismo no romance o na poesia. A literatura dram\u00e1tica brasileira<br \/>\nnada conta, ao meu ver, que valha o Guarani ou a Iracema, a Moreninha ou as<br \/>\nMem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias, a Inoc\u00eancia ou Br\u00e1s<br \/>\nCubas, os Cantos de Gon\u00e7alves Dias ou os poemas da segunda gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica.<\/p>\n<p>O modernismo, \u00faltima fase da nossa evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria,<br \/>\nnenhum documento not\u00e1vel deixou de si no nosso teatro ou na nossa literatura<br \/>\ndram\u00e1tica. O seu advento coincidiu com a inteira decad\u00eancia de<br \/>\nambos pelos motivos apontados. O naturalismo, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo modernismo que poderia ter influ\u00eddo nesse g\u00eanero de literatura,<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o produziu nada de distinto nela. Com excelentes inten\u00e7\u00f5es<br \/>\ne incontest\u00e1vel engenho para o teatro, Artur Azevedo (1856-1908) n\u00e3o<br \/>\nconseguiu sen\u00e3o tornar mais patente o esgotamento do nosso, pela descorrela\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre a sua boa vontade e a sua pr\u00e1tica de autor dram\u00e1tico.<br \/>\nVencidos pelas condi\u00e7\u00f5es em que o encontraram, e que n\u00e3o<br \/>\ntiveram energia suficiente para contrastar, Artur Azevedo e os mo\u00e7os<br \/>\nseus contempor\u00e2neos e companheiros no empenho de o reformarem (Valentim<br \/>\nMagalh\u00e3es, Urbano Duarte, Moreira Sampaio, Figueiredo Coimbra, Orlando<br \/>\nTexeira e outros) sem maior dificuldade trocaram as suas boas inten\u00e7\u00f5es<br \/>\nde fazer literatura dram\u00e1tica (e alguns seriam capazes de faz\u00ea-la)<br \/>\npela resolu\u00e7\u00e3o de fabricar com ingredientes pr\u00f3prios<br \/>\nou alheios, o teatro que achava fregueses: revistas de ano, arreglos, adapta\u00e7\u00f5es,<br \/>\npar\u00f3dias ou tamb\u00e9m tradu\u00e7\u00f5es de pe\u00e7as estrangeiras.<br \/>\nIntervindo o amor do ganho, a que os rom\u00e2nticos tinham romanticamente<br \/>\nficado de todo estranhos, baixou o nosso teatro em propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nnunca vistas, e, por uma ironia das cousas, justamente no momento em que Artur<br \/>\nAzevedo e os seus citados companheiros lhe pregavam a regenera\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos jornais onde escreviam. Uma ou outra pe\u00e7a de valor liter\u00e1rio<br \/>\nou teatral que estes autores fizeram n\u00e3o bastou para levant\u00e1-lo.<br \/>\nO p\u00fablico se desinteressava, e continuava a desinteressar-se, pelo<br \/>\nque se chama teatro nacional. E como s\u00f3 acudisse \u00e0quele teatro<br \/>\nde fancaria, de arreglos, revistas de ano e par\u00f3dias, esses escritores<br \/>\npouco escrupulosos tiveram de servir esse p\u00fablico consoante o seu grosseiro<br \/>\npaladar.<\/p>\n<p>Apesar da sua grande inferioridade relativamente \u00e0 fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nnovel\u00edstica e \u00e0 poesia, o nosso teatro e literatura dram\u00e1tica<br \/>\nt\u00eam fei\u00e7\u00f5es que n\u00e3o devem ser desconhecidas e desatendidas<br \/>\nda cr\u00edtica. Durante a \u00e9poca rom\u00e2ntica, foi intencional<br \/>\ne manifestamente nacionalista, e o foi ing\u00eanua e naturalmente, de assuntos,<br \/>\ntemas, figuras e, o que mais \u00e9, de sentimento. Ainda imediatamente<br \/>\ndepois inspirou-o o mesmo sentimento. Assim, as principais quest\u00f5es<br \/>\nque agitaram o esp\u00edrito p\u00fablico pelo fim do Romantismo e logo<br \/>\ndepois a guerra do Paraguai, a quest\u00e3o religiosa, a da escravid\u00e3o,<br \/>\nrepercutiram no nosso teatro, quer da capital, quer das prov\u00edncias.<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o poucas as pe\u00e7as, com\u00e9dias e dramas, a<br \/>\nque estas quest\u00f5es forneceram temas ou deram motivo. Com todos os seus<br \/>\ndefeitos, apresenta o teatro brasileiro de 1850-1880, certos caracteres ou<br \/>\nsimples sinais que lhe s\u00e3o pr\u00f3prios, e at\u00e9 lhe d\u00e3o<br \/>\ntal qual originalidade, tirada da sua mesma imperfei\u00e7\u00e3o. Canhestros<br \/>\nembora, e por via de regra imitadores do teatro franc\u00eas, os seus autores<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o sempre copistas servis, e sobrelevam o seu arremedo<br \/>\ncom um \u00edntimo sentimento do meio, que ainda n\u00e3o tinha sido de<br \/>\ntodo amesquinhado ou extraviado pelo estrangeirismo logo depois triunfante.<br \/>\nNa com\u00e9dia, em que se mostravam mais capazes, talvez porque em Martins<br \/>\nPena se lhe deparou modelo apropriado, h\u00e1 em geral boa observa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nrepresenta\u00e7&amp;atatilde;o exata e dialoga\u00e7\u00e3o conforme as situa\u00e7\u00f5es,<br \/>\npersonagens e fatos. Por via de regra tudo isto falta ao drama brasileiro,<br \/>\nque ofende sempre o nosso sentimento da verossimilhan\u00e7a, \u00e0 qual<br \/>\nmais do que nunca somos hoje sens\u00edveis, e nos deixa infalivelmente<br \/>\numa impress\u00e3o de artificialidade. Seja defeito da mesma sociedade dramatizada,<br \/>\nseja falha do engenho dos nossos escritores de teatro, \u00e9 fato que nenhum<br \/>\nnos deu j\u00e1 uma cabal impress\u00e3o art\u00edstica da nossa vida<br \/>\nou representa\u00e7\u00e3o dela que n\u00e3o venha eivada de mal disfar\u00e7ados<br \/>\nexotismos de inspira\u00e7\u00e3o, de sentimento e de estilo. Demasiados<br \/>\nmodismos estrangeiros de costumes, de atos, de gestos e de linguagem a desfiguram<br \/>\ncomo defini\u00e7\u00e3o que presumem ser dessa vida e lhe viciam a express\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria. A nossa sociedade, quer a que se tem por superior, quer<br \/>\na m\u00e9dia, n\u00e3o tem sen\u00e3o uma sociabilidade ainda incoerente<br \/>\ne canhestra, de rela\u00e7\u00f5es e interdepend\u00eancias rudimentares<br \/>\ne limitadas. Poucos e apagados s\u00e3o por ora os conflitos de interesses<br \/>\ne paix\u00f5es que servem de tema ao drama moderno. Carece tamb\u00e9m<br \/>\nainda de estilo pr\u00f3prio nas maneiras e na linguagem. Tendo perdido<br \/>\nno arremedo contrafeito do estrangeiro, isto \u00e9 do franc\u00eas, o<br \/>\nseu car\u00e1ter c\u00f4mico, n\u00e3o adquiriu ainda fei\u00e7\u00f5es<br \/>\npeculiares que lhe facultem a express\u00e3o teatral. Quanto \u00e0 liter\u00e1ria,<br \/>\nesta \u00e9 no nosso teatro, e foi sempre, ainda mais defeituosa e insuficiente<br \/>\ndo que no nosso romance.<\/p>\n<p>Com crassa ignor\u00e2ncia ou est\u00f3lido menosprezo da nossa hist\u00f3ria<br \/>\nliter\u00e1ria, est\u00e3o agora mesmo tentando criar um &#8220;teatro<br \/>\nnacional&#8221; ab ovo, como se nada houvesse feito antes. As amostras at\u00e9<br \/>\nagora apresentadas desta tentativa n\u00e3o autorizam ainda, acho eu, alguma<br \/>\nesperan\u00e7a no seu bom sucesso.<\/p>\n<h4><a name=\"18\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XVIII<\/h4>\n<p><strong>PUBLICISTAS, ORADORES, CR\u00cdTICOS<\/strong><\/p>\n<p>SEGUNDO TEMOS VERIFICADO, no per\u00edodo colonial compunha-se sobretudo<br \/>\na nossa literatura de poesia, l\u00edrica ou \u00e9pica, com alguma rara<br \/>\ne insignificante amostra da dram\u00e1tica, e mais de cr\u00f4nicas, not\u00edcias<br \/>\ne informes do pa\u00eds, hist\u00f3ria, obras de edifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ne moral religiosa e serm\u00f5es. Com o Romantismo, com que lhe iniciamos<br \/>\no per\u00edodo nacional, apareceram outros e mais variados g\u00eaneros<br \/>\nliter\u00e1rios, a filosofia, a cr\u00edtica e a hist\u00f3ria liter\u00e1ria,<br \/>\no teatro, a orat\u00f3ria pol\u00edtica e parlamentar, a fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nem prosa e as vernaculamente chamadas quest\u00f5es p\u00fablicas, ou<br \/>\npublic\u00edstica, segundo o barbarismo em voga.<\/p>\n<p>Esta como aquelas duas variedades novas de orat\u00f3ria, n\u00e3o podiam<br \/>\nali\u00e1s existir sen\u00e3o num regime de livre opini\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pensamento que s\u00f3 com a Independ\u00eancia tivemos. O estabelecimento<br \/>\nda imprensa conseq\u00fcente ao da sede da monarquia portuguesa aqui, em 1808,<br \/>\nsobre haver servido para estimular o sentimento nacional excitado por essa<br \/>\nmudan\u00e7a pol\u00edtica, veio favorecer o advento de novas express\u00f5es<br \/>\nda nossa atividade mental, naturalmente influ\u00edda por esse mesmo alvoro\u00e7o.<br \/>\nN\u00e3o foram poucas, embora sejam na maioria somenos, as publica\u00e7\u00f5es<br \/>\nde assuntos econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais feitas pela Imprensa<br \/>\nR\u00e9gia, depois Imprensa Nacional, desde o ano da sua funda\u00e7\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 o da Independ\u00eancia, j\u00e1 originais, j\u00e1 tradu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O movimento pol\u00edtico que antecedeu e seguiu a Independ\u00eancia<br \/>\nsuscitou voca\u00e7\u00f5es de estudo e discuss\u00e3o das quest\u00f5es<br \/>\np\u00fablicas de imediato interesse do pa\u00eds. Aparece ent\u00e3o<br \/>\no mais c\u00e9lebre dos nossos publicistas, o criador dos estudos econ\u00f4micos<br \/>\ne sociol\u00f3gicos no Brasil, Jos\u00e9 da Silva Lisboa, visconde de<br \/>\nCairu, de quem j\u00e1 dissemos. V\u00eam logo depois ou simultaneamente<br \/>\ncom ele, os jornalistas cujos nomes acaso impertinentes na hist\u00f3ria<br \/>\nda nossa literatura, qual a concebemos, pertencem \u00e0 da nossa forma\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica, e t\u00e3o not\u00e1veis se tornaram que ainda hoje,<br \/>\nn\u00e3o obstante nunca mais lidos, nos s\u00e3o familiares: Hip\u00f3lito<br \/>\nda Costa (tinha o comprido nome de Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa Pereira<br \/>\nFurtado de Mendon\u00e7a), o fundador e redator do Correio Brasiliense (1808-1822);<br \/>\nJanu\u00e1rio da Cunha Barbosa, ent\u00e3o muito apreciado orador sagrado<br \/>\ne poeta, e Joaquim Gon\u00e7alves Ledo, redatores do Rev\u00e9rbero Constitucional<br \/>\nFluminense (1821-1822); Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o padrinho e o mais<br \/>\neminente estadista da Independ\u00eancia, com o seu Tamoio (1823), e por<br \/>\nfim, j\u00e1 ao cabo do per\u00edodo, Evaristo Ferreira da Veiga, da Aurora<br \/>\nFluminense (1828-1835), jornal grandemente influente no seu tempo, sem falar<br \/>\ndos escritores ou simples folicul\u00e1rios dos numerosos e ef\u00eameros<br \/>\njornais dessa \u00e9poca agitada. J\u00e1 vimos que uma revista de ex\u00edguo<br \/>\nformato, mas de nome expressivo e de inten\u00e7\u00e3o claramente nacionalista,<br \/>\no Patriota (1813-1814), fundada e dirigida pelo prestante pol\u00edgrafo<br \/>\nManuel Ferreira de Ara\u00fajo Guimar\u00e3es, atuou utilmente na literatura<br \/>\nimediatamente anterior ao Romantismo, agrupando como seus colaboradores os<br \/>\nhomens de melhores letras do tempo.<\/p>\n<p>Abundaram no momento da funda\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio os jornais<br \/>\ne panfletos pol\u00edticos ou simplesmente facciosos que mais que id\u00e9ias<br \/>\nrepresentavam as paix\u00f5es de momento e lhes traziam no estilo os ardores<br \/>\ne viol\u00eancias. A literatura, por\u00e9m, n\u00e3o recolheu nenhum<br \/>\ndeles. Ainda os que com esses, ou posteriormente com a Aurora, mais doutrinais<br \/>\ne mais bem escritos, se tornaram relevantes pela a\u00e7\u00e3o que acaso<br \/>\ntiveram, ou somente pela impress\u00e3o que porventura fizeram, redigidos<br \/>\nalguns por indiv\u00edduos consider\u00e1veis, esses mesmos carecem de<br \/>\nvirtudes liter\u00e1rias que os fa\u00e7am viver sen\u00e3o como documentos<br \/>\npara a nossa hist\u00f3ria pol\u00edtica ou testemunhos do nosso pensamento<br \/>\npol\u00edtico contempor\u00e2neo. Entre tais op\u00fasculos e panfletos,<br \/>\ncitam-se como mais not\u00e1veis, isto \u00e9, como tendo tido mais repercuss\u00e3o<br \/>\nno seu tempo, Carta aos eleitores, de Bernardo de Vasconcelos (1828); Fac\u00e7\u00e3o<br \/>\naulica, por Firmino Rodrigues Silva (1847); Libelo do povo, por Timandro Sales<br \/>\nTorres Homem (1849); A\u00e7\u00e3o, rea\u00e7\u00e3o, transa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde Justiniano Rosa da Rocha (1855); Confer\u00eancia dos divinos, por Ant\u00f4nio<br \/>\nFerreira Viana (1867); e, mais notavelmente, as Cartas de Erasmo, de Jos\u00e9<br \/>\nde Alencar (1865-66), \u00e0s quais o grande nome liter\u00e1rio do autor<br \/>\nemprestou merecimento que talvez n\u00e3o tivessem.<\/p>\n<p>Contempor\u00e2neos destes, de uma atividade liter\u00e1ria dispersiva<br \/>\ne passada quase toda na prov\u00edncia, a de Pernambuco, donde ambos eram,<br \/>\nforam dois escritores cujos nomes tiveram certa popularidade, n\u00e3o de<br \/>\ntodo extinta, Miguel do Sacramento Lopes Gama (1791-1852) e Jos\u00e9 In\u00e1cio<br \/>\nde Abreu e Lima (1796-1869). O primeiro, al\u00e9m de numerosas tradu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo franc\u00eas e do italiano, de obras de filosofia, religi\u00e3o, economia<br \/>\npol\u00edtica, educa\u00e7\u00e3o, nenhuma importante, deixou poemas<br \/>\nher\u00f3i-c\u00f4micos e sat\u00edricos, e prosas tamb\u00e9m sat\u00edricas,<br \/>\nmas \u00e9 sobretudo conhecido pelo seu jornal da mesma natureza O carapuceiro<br \/>\n(Pernambuco, 1832-1847). Foi autor did\u00e1tico e um dos escritores mais<br \/>\ncorretos do seu tempo. Abreu e Lima deixou na sua terra natal, e ainda no<br \/>\nBrasil ilustrado, o renome de um pol\u00edgrafo not\u00e1vel. Escreveu<br \/>\ncom efeito comp\u00eandios de hist\u00f3ria do Brasil, pol\u00eamica liter\u00e1ria<br \/>\ne religiosa, o primeiro livro sobre socialismo aqui publicado (O socialismo,<br \/>\nRecife, 1855, 352 p\u00e1gs.), obras de direito ou sobre quest\u00f5es<br \/>\np\u00fablicas, estudos diplom\u00e1ticos e m\u00e9dicos, etc., tudo<br \/>\ncom certo vigor de estilo, mas com graves falhas sob o aspecto da linguagem.<\/p>\n<p>Quando o Imp\u00e9rio sai vitorioso das dificuldades dos seus primeiros<br \/>\nvinte e cinco anos, e o Romantismo triunfara inteiramente com esta literatura<br \/>\nquase somente pol\u00edtica, entram a aparecer escritos de outro e mais<br \/>\nalto interesse e valor sobre quest\u00f5es p\u00fablicas, problemas de<br \/>\nadministra\u00e7\u00e3o e economia nacional. Versaram-nos principalmente<br \/>\njornalistas muito apreciados no seu tempo e cujos nomes chegaram at\u00e9<br \/>\nn\u00f3s ainda celebrados, como Justiniano da Rocha, Saldanha Marinho, Quintino<br \/>\nBocai\u00fava (que fez tamb\u00e9m literatura escrevendo teatro e cr\u00edtica<br \/>\ne dirigindo revistas e empresas editoriais), Ferreira Viana, T\u00f4rres<br \/>\nHomem, Jos\u00e9 Maria do Amaral (tamb\u00e9m bom poeta), Jos\u00e9<br \/>\nde Alencar, Otaviano de Almeida Rosa, Silva Paranhos. Alguns destes e outros<br \/>\ncujos nomes se lhes poderia razoavelmente juntar, se haviam ensaiado como<br \/>\npublicistas nas suas prov\u00edncias, onde tamb\u00e9m floresceu esta<br \/>\nliteratura pol\u00edtica. Como dentre essas \u00e9 o Maranh\u00e3o aquela<br \/>\ncujo concurso foi mais consider\u00e1vel e precioso para o nosso movimento<br \/>\nliter\u00e1rio do Romantismo, foi tamb\u00e9m essa prov\u00edncia que<br \/>\nprincipalmente contribuiu com alguns nomes, dos quais o maior \u00e9 o de<br \/>\nJo\u00e3o Lisboa, para aumentar a lista dos publicistas brasileiros dessa<br \/>\n\u00e9poca. Em todo o pa\u00eds, por\u00e9m, nomeadamente em Pernambuco,<br \/>\nBahia, S. Paulo e Minas, foi ent\u00e3o not\u00e1vel a obra da imprensa<br \/>\njornal\u00edstica, que produziu alguns escritores de m\u00e9rito, cujos<br \/>\nnomes, apesar da for\u00e7osa caduquez da sua literatura, n\u00e3o est\u00e3o<br \/>\nainda de todo esquecidos.<\/p>\n<p>O publicista de livros de maior capacidade e de obra mais consider\u00e1vel<br \/>\ndesde o Romantismo ao Modernismo foi, al\u00e9m de Jo\u00e3o Lisboa, cujo<br \/>\nJornal de Timon literariamente o sobreleva a todos, Tavares Bastos (Aureliano<br \/>\nC\u00e2ndido, 1839-1875). Consta a sua obra de Cartas do solit\u00e1rio,<br \/>\nestudo sobre v\u00e1rias quest\u00f5es p\u00fablicas (1863), O Vale<br \/>\ndo Amazonas, estudos de economia pol\u00edtica, social e estat\u00edstica<br \/>\n(1866), A Prov\u00edncia (1870), estudo da mesma natureza sobre a descentraliza\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica da na\u00e7\u00e3o, e mais meia d\u00fazia de obras<br \/>\nmenores. Distingue-as a todas a quase novidade de tais estudos aqui, onde<br \/>\napenas se depararia algum feito com a mesma objetividade, a mesma sincera<br \/>\ne desinteressada aplica\u00e7\u00e3o, a mesma seriedade de intuitos e<br \/>\nde pensamento, estreme de paix\u00f5es partid\u00e1rias ou tend\u00eancias<br \/>\nego\u00edsticas. Se Tavares Bastos se n\u00e3o distingue por not\u00e1veis<br \/>\nqualidades de escritor, o seu est\u00edmulo \u00e9 todavia f\u00e1cil<br \/>\ne corrente, e a sinceridade dos seus est\u00edmulos e a sua \u00edntima<br \/>\nconvic\u00e7\u00e3o lhe d\u00e3o n\u00e3o raro vigor e brilho. Mais<br \/>\ndo que um simples penteador de frases, foi um disseminador de id\u00e9ias,<br \/>\nque germinaram e que a\u00ed est\u00e3o em parte realizadas. Foi em suma<br \/>\num precursor, de fato mais eficaz do que muitos cujos nomes andam injustamente<br \/>\nmais celebrados que o seu.<\/p>\n<p>Mas obras como as suas, quando porventura n\u00e3o as salvam qualidades<br \/>\nexcepcionais de pensamento e express\u00e3o, perdem, com a oportunidade<br \/>\nque as motivou, o melhor do seu interesse. Se a hist\u00f3ria liter\u00e1ria<br \/>\npode lembr\u00e1-las como um documento a mais da atividade mental de uma<br \/>\n\u00e9poca, que ajuda a lhe completar a fei\u00e7\u00e3o e relevar a<br \/>\nimport\u00e2ncia, a literatura \u2014 \u00e0 qual n\u00e3o se incorpora<br \/>\nde fato se n\u00e3o o que por virtudes de idea\u00e7\u00e3o e de forma<br \/>\ntem um interesse permanente \u2014 as deixa de lado.<\/p>\n<p>Quando Tavares Bastos publicava o seu \u00faltimo livro, em 1870, iniciava-se<br \/>\nj\u00e1 o movimento geral que ia modificar a mente brasileira e as suas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es escritas, e simultaneamente a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica da na\u00e7\u00e3o. Dele era importante a quest\u00e3o<br \/>\nque aqui se chamou do elemento servil e que no seu mais saliente aspecto,<br \/>\na emancipa\u00e7\u00e3o dos escravos, tanto interessou e t\u00e3o intensamente<br \/>\nalvoro\u00e7ou o pa\u00eds. Dela h\u00e1 impress\u00f5es not\u00e1veis,<br \/>\ne at\u00e9 fortes, na literatura nacional, no romance, no teatro, na poesia,<br \/>\nna orat\u00f3ria e nos estudos econ\u00f4micos e sociais. Um poeta que<br \/>\nacaso poderia vir a ser grande, Castro Alves, celebrizou-se ent\u00e3o como<br \/>\n&#8220;cantor dos Escravos&#8221;, t\u00edtulo do poema em que lhes idealizava<br \/>\na mis\u00e9ria da condi\u00e7\u00e3o e os sofrimentos. A public\u00edstica<br \/>\ncom este objeto foi abundante, e nela a declama\u00e7\u00e3o, a ret\u00f3rica,<br \/>\na orat\u00f3ria presumidamente eloq\u00fcente porque retumbante e ruidosa,<br \/>\nderam-se largas. Al\u00e9m de livros como os de Perdig\u00e3o Malheiros,<br \/>\nA escravid\u00e3o no Brasil, ensaio hist\u00f3rico, jur\u00eddico, social<br \/>\n(Rio de Janeiro, 1866-67), ali\u00e1s de distinto merecimento, e que antecedeu<br \/>\ne preparou a fase decisiva do movimento abolicionista, destacam-se outros<br \/>\nde propaganda direta como os de Joaquim Nabuco, e os que procuravam servir<br \/>\nservindo \u00e0 causa do desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds,<br \/>\nmediante outros fatores e processos que n\u00e3o o escravo e a escravid\u00e3o,<br \/>\npelos seus autores condenados e combatidos. S\u00e3o exemplo dessa literatura<br \/>\nsubsidi\u00e1ria da propaganda abolicionista Trabalhadores asi\u00e1ticos,<br \/>\nde Salvador de Mendon\u00e7a, e Garantia de juros e Agricultura nacional,<br \/>\nde Andr\u00e9 Rebou\u00e7as. \u00c9, por\u00e9m, o Abolicionismo,<br \/>\nde Joaquim Nabuco (1833), a melhor manifesta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\ndo g\u00eanero e momento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a quest\u00e3o religiosa, como aqui impropriamente se chamou<br \/>\nao conflito de dois bispos com o governo imperial por motivo de interdi\u00e7\u00e3o<br \/>\npor aqueles, sem benepl\u00e1cito deste, de irmandades religiosas, deu lugar<br \/>\nao aparecimento de livros e folhetos discutindo a quest\u00e3o. \u00c9<br \/>\nao cabo somenos o valor doutrinal e liter\u00e1rio dessa literatura. O m\u00e9rito<br \/>\nprincipal da discuss\u00e3o acesamente travada entre regalistas defensores<br \/>\ndo poder temporal, ultramontanos propugnadores do pleno direito da Igreja<br \/>\ne livres-pensadores hostis a ambos, foi ter despertado aqui o eco de controv\u00e9rsias<br \/>\nhist\u00f3rico-pol\u00edtico-religiosas travadas na Europa e atingindo<br \/>\n\u00e0 mesma religi\u00e3o oficial, desde ent\u00e3o mais desenganadamente<br \/>\nposta em debate p\u00fablico, n\u00e3o s\u00f3 no seu privil\u00e9gio,<br \/>\nmas na sua ess\u00eancia. Como principais documentos da contenda ficaram:<br \/>\nA Igreja e o Estado e v\u00e1rios op\u00fasculos com o mesmo motivo por<br \/>\nGanganeli (Joaquim Saldanha Marinho, 1873-1876), Direito contra o Direito,<br \/>\npelo bispo do Par\u00e1, D. Ant\u00f4nio de Macedo Costa (1874), A Igreja<br \/>\nno Estado, por Tito Franco de Almeida (1874), Miss\u00e3o especial a Roma<br \/>\nem 1873 (1881) e o Bispo do Par\u00e1 ou a miss\u00e3o a Roma (1887),<br \/>\npelo Bar\u00e3o de Penedo (Francisco In\u00e1cio de Carvalho Moreira),<br \/>\ne a longa, exaustiva e s\u00e1bia Introdu\u00e7\u00e3o posta pelo Sr.<br \/>\nRui Barbosa \u00e0 sua tradu\u00e7\u00e3o do famoso panfleto de Janus<br \/>\n(o c\u00f4nego Su\u00ed\u00e7o-Alem\u00e3o Doellinger), O Papa e o<br \/>\nConc\u00edlio (1877). Tamb\u00e9m o interesse e sabor destes e de muitos<br \/>\noutros escritos do mesmo motivo e ocasi\u00e3o, dos quais apenas poucos<br \/>\nter\u00e3o algum m\u00e9rito intr\u00ednseco, desapareceram com as circunst\u00e2ncias<br \/>\nque os produziram.<\/p>\n<p>Cabe aqui a interessant\u00edssima figura de Joaquim Nabuco. Historiador,<br \/>\ncr\u00edtico, soci\u00f3logo, economista, orador parlamentar ou tribuno<br \/>\npopular e moralista, em tudo foi essencialmente um publicista, se por publicista<br \/>\npodemos tamb\u00e9m entender o escritor que escreve por amor e interesse<br \/>\nda causa p\u00fablica e cuja \u00edntima inspira\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\npol\u00edtica. Temperamento de raiz pol\u00edtico, esp\u00edrito curioso<br \/>\ne interessado pela causa p\u00fablica e nimiamente sens\u00edvel aos seus<br \/>\nmovimentos e manifesta\u00e7\u00f5es, incapaz de satisfazer-se de temas<br \/>\npuramente liter\u00e1rios, Joaquim Nabuco, na maioria e no melhor do que<br \/>\nescreveu, \u00e9 um escritor pol\u00edtico no mais alto significado da<br \/>\nexpress\u00e3o. Nele, por\u00e9m, exemplo talvez \u00fanico entre os<br \/>\nnossos publicistas, o talento liter\u00e1rio real\u00e7ou de tal maneira<br \/>\na fei\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que era a principal do seu esp\u00edrito,<br \/>\nque f\u00ea-lo um verdadeiro, um grande escritor. Constitu\u00eda-lhe o<br \/>\ntalento liter\u00e1rio, al\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o, que \u00e9<br \/>\numa das suas faculdades dominantes, grande riqueza de idea\u00e7\u00e3o,<br \/>\naumentada da facilidade de apropriar id\u00e9ias e afei\u00e7o\u00e1-las<br \/>\nconsoante o seu pr\u00f3prio esp\u00edrito. Tinha mais peregrina distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pensamento e not\u00e1vel capacidade de id\u00e9ias gerais. E os seus<br \/>\ndons naturais de express\u00e3o graciosa e elegante, eloq\u00fcente e comovida,<br \/>\neram tais que n\u00e3o alcan\u00e7aram mingu\u00e1-las as suas insufici\u00eancias<br \/>\nna l\u00edngua. Se n\u00e3o \u00e9, como Macedo, Alencar ou Machado<br \/>\nde Assis, um literato, esses dons e mais as suas faculdades est\u00e9ticas,<br \/>\no seu fino sentimento art\u00edstico, fizeram dele um dos mais completos<br \/>\ne insignes homens de letras que temos tido.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da m\u00e1xima parte do escritores brasileiros, que<br \/>\nquase todos tiveram origens med\u00edocres sen\u00e3o \u00ednfimas,<br \/>\nJoaquim Aur\u00e9lio Nabuco de Ara\u00fajo procedia de estirpe fidalga,<br \/>\nda antiga nobreza territorial de Pernambuco, e era de uma fam\u00edlia senatorial.<br \/>\nSeu av\u00f4 e seu pai foram senadores do Imp\u00e9rio e ocuparam nele<br \/>\naltas situa\u00e7\u00f5es de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\nNasceu na capital daquela Prov\u00edncia em 19 de agosto de 1849. Na respectiva<br \/>\nfaculdade formou-se em Direito. Diplomata no princ\u00edpio da sua vida<br \/>\np\u00fablica, como tal acabou embaixador em Washington, em 17 de janeiro<br \/>\nde 1910. Entrementes foi jornalista, parlamentar, propagandista da aboli\u00e7\u00e3o<br \/>\nda escravid\u00e3o, escreveu versos e ensaios, fez cr\u00edtica e confer\u00eancias<br \/>\nliter\u00e1rias e pol\u00edticas, publicou folhetos e livros, propugnou<br \/>\na Confedera\u00e7\u00e3o das prov\u00edncias sob o Imp\u00e9rio. Ca\u00eddo<br \/>\neste, Joaquim Nabuco fez-se por alguns anos o seu mais caloroso e brilhante<br \/>\npaladino. A sua viva imagina\u00e7\u00e3o, a sua ativa intelig\u00eancia,<br \/>\no seu profundo gosto de a\u00e7\u00e3o p\u00fablica e de notoriedade<br \/>\nn\u00e3o lhe consentiam, ainda mau grado seu, deixar sem emprego um talento<br \/>\nem toda a sua for\u00e7a e um esp\u00edrito pouco feito para a absten\u00e7\u00e3o,<br \/>\no isolamento ou a intransig\u00eancia teimosa. Arrastado por estas for\u00e7as,<br \/>\n&#8220;procurou reconciliar-se com os nobres destinos da nossa p\u00e1tria<br \/>\ne, religiosamente, segundo a sua bela imagem, envolveu a sua f\u00e9 mon\u00e1rquica<br \/>\nna mortalha de p\u00farpura em que dormem as grandes dinastias fundadoras&#8221;.<\/p>\n<p>Apenas a trama do esp\u00edrito de Nabuco seria brasileira, pelas heran\u00e7as<br \/>\nde ra\u00e7a onde haveria acaso uma gota de sangue ind\u00edgena, pela<br \/>\na\u00e7\u00e3o do meio r\u00fastico onde lhe passou a primeira inf\u00e2ncia<br \/>\nrecontada por ele numa p\u00e1gina imortal,147 pela influ\u00eancia do<br \/>\nambiente em que se criou e fez homem, pelas suas afinidades de orgulho de<br \/>\nestirpe com a gente consular de que procedia. Mas o lavor e recamo posto nessa<br \/>\ndelgada trama nacional era todo estrangeiro, metade franc\u00eas, metade<br \/>\ningl\u00eas, e pontos escassos mais firmes da cultura greco-romana. De forma\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde \u00edndole, de sociabilidade, mais um europeu que um brasileiro. Nem<br \/>\nera isso privil\u00e9gio seu. Crescido n\u00famero dos nossos intelectuais<br \/>\no compartilham com ele. Ele, por\u00e9m, o foi mais e mais distintamente<br \/>\nque todos. A sua vida liter\u00e1ria come\u00e7ou (excetuadas as produ\u00e7\u00f5es<br \/>\nmenores da adolesc\u00eancia) por um livro de versos em franc\u00eas e acabou<br \/>\npor um livro de pensamentos tamb\u00e9m nessa l\u00edngua, que porventura<br \/>\nescrevia t\u00e3o bem quanto a pr\u00f3pria. Nela ainda escreveu Le droit<br \/>\nau meurtre, carta a Ernesto Renan sobre o L\u2019Homme Femme, de Dumas Filho,<br \/>\ne um drama em verso L\u2019Option, postumamente publicado.<\/p>\n<p>Da literatura da sua l\u00edngua, a figura que melhor conheceu, quem sabe<br \/>\nse n\u00e3o a \u00fanica que conheceu, e amou foi Cam\u00f5es. Consagrou-lhe<br \/>\num livro, o primeiro que publicou em portugu\u00eas, Cam\u00f5es e os Lus\u00edadas<br \/>\n(Rio, 1872, in-8\u00ba, 294 p\u00e1gs.), e para o cabo da sua vida, j\u00e1<br \/>\nembaixador nos Estados Unidos, tr\u00eas confer\u00eancias em universidades<br \/>\namericanas.148 Nesse livro, do qual ultimamente desdenhava, havia, com a marca<br \/>\nindel\u00e9vel de quem o escreveu, vistas certas e originais da nossa literatura.<br \/>\nEra, mesmo para o tempo, falha a sua erudi\u00e7\u00e3o camonianna, e<br \/>\nsua cr\u00edtica, e ele pr\u00f3prio o reconhece, demasiado objetiva e<br \/>\nainda muito escol\u00e1stica. Atenuavam-lhe os defeitos essenciais, o belo<br \/>\ndizer e os rasgos de talento que foram sempre, em todos os assuntos, apan\u00e1gio<br \/>\nseu.<\/p>\n<p>Antes que o tomasse quase exclusivamente a pol\u00edtica, fez confer\u00eancias,<br \/>\nfolhetins e artigos liter\u00e1rios ou art\u00edsticos, discursos acad\u00eamicos,<br \/>\njornalismo pol\u00edtico. Quando, por volta de 1880, come\u00e7ou a maior<br \/>\ncampanha contra a escravid\u00e3o, de que todos os brasileiros, pode dizer-se,<br \/>\nse sentiam envergonhados, Nabuco entrou nela com todo o ardor de um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesejoso de servir uma nobre causa e ansioso da gl\u00f3ria que da\u00ed<br \/>\nlhe resultaria. Entre os nossos abolicionistas da vanguarda foi ele talvez<br \/>\no mais intelectual. Exteriorizou-se numa a\u00e7\u00e3o p\u00fablica<br \/>\na que o seu engenho liter\u00e1rio, os seus dotes de orador, o brilho da<br \/>\nsua personalidade e at\u00e9 a beleza do seu f\u00edsico e a eleg\u00e2ncia<br \/>\ndo seu porte e maneiras emprestaram lustre singular. Al\u00e9m de discursos,<br \/>\nconfer\u00eancias, artigos de jornais, escreveu o livro O Abolicionismo,<br \/>\nacaso o mais excelente produto, sob o aspecto liter\u00e1rio, desse movimento.<br \/>\nN\u00e3o era, como a maioria daqueles a que o assunto deu ensejo, obra de<br \/>\nret\u00f3rica propagandista, declamat\u00f3ria ou altiloq\u00fcente, sen\u00e3o<br \/>\nlivro de racioc\u00ednio e argumenta\u00e7\u00e3o, em suma uma obra<br \/>\nde pensador e escritor.<\/p>\n<p>O melhor, por\u00e9m, da sua obra liter\u00e1ria, a que lhe assegura<br \/>\num eminente posto nas nossas letras, a faz nos quinze \u00faltimos anos,<br \/>\nentre os 46 e os 61, de sua vida. S\u00e3o desse per\u00edodo os seus<br \/>\nlivros Balmaceda e a Guerra civil do Chile (1895), A interven\u00e7\u00e3o<br \/>\nestrangeira durante a revolta (1896) e, a maior e mais importante de todas,<br \/>\nUm estadista do Imp\u00e9rio, J. F. Nabuco de Ara\u00fajo, sua vida e<br \/>\nopini\u00f5es: sua \u00e9poca (1898), em que, com a vida de seu pai, pol\u00edtico<br \/>\ne jurisconsulto eminente, historia uma fase importante do segundo imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Embora inspirados todos de esp\u00edrito pol\u00edtico, mas do seu esp\u00edrito<br \/>\npol\u00edtico, muito diferente pela eleva\u00e7\u00e3o e pela cultura<br \/>\ndo que costuma ser aqui esse esp\u00edrito, esses livros s\u00e3o eminentemente<br \/>\nobra de escritor distint\u00edssimo, e encerram algumas das mais belas p\u00e1ginas<br \/>\nda prosa brasileira. Por este aspecto valem como argumento contra o preconceito<br \/>\ndo casticismo, provando que um autor brasileiro de real talento liter\u00e1rio,<br \/>\nisto \u00e9, com as qualidades essenciais de pensamento, imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne express\u00e3o, pode, a despeito do portugu\u00eas estreme, ser em todo<br \/>\no vigor da express\u00e3o um grande escritor. Tal o foi sem d\u00favida<br \/>\nJoaquim Nabuco. Tal fora tamb\u00e9m, embora com menor vigor e eleg\u00e2ncia,<br \/>\nJos\u00e9 de Alencar. Estes exemplos, por\u00e9m, s\u00e3o muito poucos,<br \/>\ne de forma alguma autorizam, m\u00e1xime a quem n\u00e3o tenha as qualidades<br \/>\ndestes dous excepcionais escritores, o descuido da l\u00edngua.<\/p>\n<p>Outro publicista de talento, muito esp\u00edrito, boa linguagem e estilo<br \/>\nelegante, ensa\u00edsta fecundo e original, polemista vigoroso e agudo,<br \/>\num verdadeiro escritor em suma pelas peregrinas qualidades da sua idea\u00e7\u00e3o<br \/>\ne express\u00e3o, \u00e9 Eduardo Prado. Chamava-se com todo o seu nome<br \/>\nEduardo Paulo da Silva Prado. Nasceu na capital de S. Paulo de uma velha,<br \/>\nimportante e opulenta fam\u00edlia, ali vinculada, em 27 de fevereiro de<br \/>\n1860, e na mesma cidade formou-se em Direito e veio a falecer em 30 de agosto<br \/>\nde 1901.<\/p>\n<p>A sua obra \u00e9 copiosa e foi toda feita em jornais e revistas, um pouco<br \/>\nao acaso das circunst\u00e2ncias e ocasi\u00f5es. Hoje acha-se toda reunida<br \/>\nem nove volumes e comp\u00f5e-se de artigos liter\u00e1rios, viagens,<br \/>\nensaios, discursos, cr\u00edtica liter\u00e1ria, social ou pol\u00edtica,<br \/>\npol\u00eamica, etc. Na literatura brasileira, Eduardo Prado tem duas singularidades:<br \/>\nser um dos poucos sen\u00e3o o \u00fanico homem rico e certamente o de<br \/>\nmais valor que aqui se deu, sequer como diletante, \u00e0s letras, e ser<br \/>\ntalvez em a nossa literatura o \u00fanico escritor reacion\u00e1rio. Refiro-me<br \/>\na escritor e n\u00e3o a pol\u00edticos que ocasionalmente tenham escrito,<br \/>\nnem a jornalistas, cuja obra ef\u00eamera n\u00e3o considero aqui. Joaquim<br \/>\nNabuco, conquanto cat\u00f3lico praticante e monarquista convicto, n\u00e3o<br \/>\npode ser tudo por um reacion\u00e1rio, porque achou jeito de conciliar com<br \/>\no seu catolicismo, porventura mais de imagina\u00e7\u00e3o que de sentimento,<br \/>\no seu profundo liberalismo, e foi sempre, conquanto aristocrata de ra\u00e7a<br \/>\ne temperamento, irredutivelmente um liberal, um democrata em pol\u00edtica.<br \/>\nEduardo Prado, que em tudo, em costumes, em opini\u00f5es e gostos, parece<br \/>\nter sido um diletante, um esp\u00edrito cosmopolita, pode ser que fosse<br \/>\ntamb\u00e9m em cren\u00e7a religiosa e pol\u00edtica. A sua curiosidade<br \/>\nintelectual, o seu gosto do novo e do ex\u00f3tico, diga-se, a dose de esnobismo<br \/>\nque havia nele, e certo senso de eleg\u00e2ncia e mudanismo hostil \u00e0<br \/>\nnossa baixa democracia, e mais a sua freq\u00fcenta\u00e7\u00e3o de meios<br \/>\nmon\u00e1rquicos e reacion\u00e1rios de Paris, explicam talvez o seu reacionarismo<br \/>\ncat\u00f3lico e mon\u00e1rquico, em oposi\u00e7\u00e3o com a sua natural<br \/>\nindepend\u00eancia mental e irrever\u00eancia espiritual. \u00c9 o nosso<br \/>\nmais acabado tipo de diletante intelectual, do amador das coisas de esp\u00edrito.<br \/>\nE amador e diletante o foi em tudo, com bom humor, muito esp\u00edrito e<br \/>\ninconseq\u00fcentemente. Com pontos de contato com Nabuco, n\u00e3o tem<br \/>\no seu talento, e menos a sua seriedade espiritual. O brilho mundano da sua<br \/>\nexist\u00eancia de mo\u00e7o rico e pr\u00f3digo, as suas longas viagens,<br \/>\na sua exist\u00eancia europ\u00e9ia, o seu \u00edntimo com\u00e9rcio<br \/>\ncom homens de letras europeus, deram-lhe um prest\u00edgio que a sua s\u00f3<br \/>\nobra liter\u00e1ria, ali\u00e1s documento de talento liter\u00e1rio<br \/>\npouco vulgar, acaso n\u00e3o lhe teria s\u00f3 por si dado. Aumentou-lho<br \/>\na persegui\u00e7\u00e3o tolamente feita pelo Governo Provis\u00f3rio<br \/>\nda Rep\u00fablica ao seu brilhante panfleto A ditadura militar no Brasil<br \/>\ne a atitude por ele tomada em face n\u00e3o s\u00f3 da Rep\u00fablica<br \/>\nmas do geral sentimento liberal do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como escritor, Eduardo Prado foi, em suma, um jornalista, por\u00e9m com<br \/>\nmais talento, mais esp\u00edrito, mais cultura e mais experi\u00eancia<br \/>\ndo mundo que o comum deles. Da causa p\u00fablica teve menos o interesse<br \/>\nque a curiosidade do seu elemento dram\u00e1tico. A pol\u00edtica foi-lhe<br \/>\napenas um tema liter\u00e1rio, que tratou com a desenvoltura de um esp\u00edrito<br \/>\nno fundo c\u00e9tico e paradoxal.<\/p>\n<p>A public\u00edstica, no seu mais exato sentido de literatura das quest\u00f5es<br \/>\np\u00fablicas, nunca de fato se incorporou aqui \u00e0 literatura propriamente<br \/>\ndita ou a enriqueceu com exemplares de maior valor que o ocasional e de emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nmenos ef\u00eamera que a do momento. Salvo em um ou outro jornalista de mais<br \/>\nvigoroso pensamento e de mais perfeita express\u00e3o, como Justiniano da<br \/>\nRocha, Otaviano Rosa, Quintino Bocai\u00fava e os j\u00e1 atr\u00e1s<br \/>\ncitados Tito Franco de Almeida, Saldanha Marinho, Ferreira Viana, Jos\u00e9<br \/>\nde Alencar e outros, e mais perto de n\u00f3s Salvador de Mendon\u00e7a,<br \/>\nFerreira de Ara\u00fajo, Ferreira de Meneses, Le\u00e3o Veloso, Rodolfo<br \/>\nDantas, Belarmino Barreto, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, cujos nomes,<br \/>\nacaso por outros motivos que os puramente liter\u00e1rios, sobrevivem, careceu<br \/>\nsempre a nossa public\u00edstica de qualidades com que se pudesse legitimamente<br \/>\nincorporar na nossa literatura e viver nela por obras sempre estim\u00e1veis.<br \/>\nJoaquim Nabuco e Eduardo Prado apenas s\u00e3o publicistas por parte de<br \/>\nsua obra e pela inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de quase toda ela.<\/p>\n<p>Mais ainda do que a public\u00edstica, a orat\u00f3ria pol\u00edtica<br \/>\nn\u00e3o podia existir antes de um regime de livre discuss\u00e3o, qual<br \/>\no aqui inaugurado com a Independ\u00eancia. Os sucessos que imediatamente<br \/>\na precederam, bem como os que se lhe seguiram, deram justamente lugar ao aparecimento<br \/>\nde sociedades e clubes patri\u00f3ticos, juntas de governo e assembl\u00e9ias<br \/>\npol\u00edticas por amor dela convocadas, donde resultou essa esp\u00e9cie<br \/>\nde eloq\u00fc\u00eancia num pa\u00eds que at\u00e9 ent\u00e3o outra<br \/>\nn\u00e3o conhecera que a sagrada ou, em import\u00e2ncia e escala muito<br \/>\nmenor, a acad\u00eamica.<\/p>\n<p>A primeira teria ali\u00e1s nesta fase da nossa hist\u00f3ria um brilho<br \/>\nque ainda se n\u00e3o apagou de todo da tradi\u00e7\u00e3o. Foram seus<br \/>\nmais eminentes cultores e deixaram alguns documentos que at\u00e9 certo<br \/>\nponto lhes justificam a fama contempor\u00e2nea, Sousa Caldas, o vigoroso<br \/>\npoeta l\u00edrico do qual ali\u00e1s como pregador apenas resta a mem\u00f3ria<br \/>\ndo apre\u00e7o em que o tiveram os seus ouvintes; Fr. Francisco de S. Carlos,<br \/>\no secund\u00e1rio poeta da Assun\u00e7\u00e3o da Virgem; Fr. Francisco<br \/>\nde Sampaio e o c\u00f4nego Janu\u00e1rio Barbosa, ambos jornalistas e agitadores<br \/>\npol\u00edticos, e o \u00faltimo med\u00edocre poeta e estim\u00e1vel<br \/>\nliterato, e, finalmente, o maior de todos, Monte Alverne.<\/p>\n<p>Este com S. Carlos e Sampaio formaram um trio de oradores sacros que no seu<br \/>\ntempo, em que ainda se apreciava o g\u00eanero, e ir ao serm\u00e3o era<br \/>\num dos poucos divertimentos da popula\u00e7\u00e3o e dos raros recreios<br \/>\nda gente culta, se disputavam a prefer\u00eancia do p\u00fablico e a primazia<br \/>\ndo p\u00falpito. Deu-lhes principalmente relevo \u00e0 orat\u00f3ria,<br \/>\nsobretudo a de Monte Alverne, que decididamente os sobreleva a todos, o terem-na<br \/>\nexercitado no momento de como\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e alvoro\u00e7o<br \/>\npatri\u00f3tico, que lhes atuou na fac\u00fandia e lhes deu ao estro uma<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o nova e renovadora da cansada eloq\u00fc\u00eancia sagrada<br \/>\naqui em antes praticada. Pode dizer-se que neles, que n\u00e3o foram somente<br \/>\npregadores mas oradores patri\u00f3ticos e ainda pol\u00edticos, preludia<br \/>\na orat\u00f3ria pol\u00edtica de 1823.<\/p>\n<p>Francisco de Monte Alverne nasceu no Rio de Janeiro em 9 de agosto de 1784<br \/>\ne faleceu em Niter\u00f3i a 2 de janeiro de 1858. A sua atividade orat\u00f3ria<br \/>\nvai de 1819 a 1856, isto \u00e9, passa-se na \u00e9poca climat\u00e9rica<br \/>\nque imediatamente precedeu e seguiu a da Independ\u00eancia e funda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Imp\u00e9rio, cujo extremo propugnador foi. Aparece como uma das vozes<br \/>\ndo sentimento nacional nesse momento exuberante de entusiasmo. Segundo as<br \/>\nnot\u00edcias, umas ainda pessoais, outras tradicionais e algumas escritas<br \/>\nque dele temos, e que a sua obra confirma, foi uma bela figura de frade soberbo,<br \/>\npersonal\u00edssimo, ingenuamente desvanecido do seu saber e fac\u00fandia.<br \/>\nEste manifesto, mas n\u00e3o antip\u00e1tico, contraste entre a humildade<br \/>\nreclamada pelo seu instituto e o seu orgulho intelectual, e mais as circunst\u00e2ncias<br \/>\ndo tempo, lhe fizeram a fisionomia particular e distinta que tem na nossa<br \/>\nvida mental. Professor de filosofia, mestre sem alguma originalidade, mas<br \/>\neloq\u00fcente e dominador, teve por disc\u00edpulos, dos quais se soube<br \/>\nfazer admiradores e devotos, boa por\u00e7\u00e3o dos homens que vieram<br \/>\na intelectualmente florescer nos anos subseq\u00fcentes e o melhor da mocidade<br \/>\ndo tempo. Exerceu grande influ\u00eancia \u2014 talvez a primeira de ordem<br \/>\nmental que aponte a nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria \u2014 nas jovens<br \/>\ngera\u00e7\u00f5es que com ele aprenderam ou o ouviram. Durante todo o<br \/>\nper\u00edodo rom\u00e2ntico, poetas e prosadores o celebraram em biografias<br \/>\ne not\u00edcias, em poemas que lhe dedicam ou lhe comemoram o engenho. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 demais dizer que, para as gera\u00e7\u00f5es suas contempor\u00e2neas<br \/>\nou imediatamente posteriores ele foi o primeiro dos nossos her\u00f3is intelectuais.<br \/>\nN\u00e3o os enganava a intui\u00e7\u00e3o dos rom\u00e2nticos. Pelo<br \/>\nseu arrogante pessoalismo, pela sua exuberante individualidade, pela mistura<br \/>\nna sua orat\u00f3ria de emo\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas e religiosas;<br \/>\ne pela sua indisciplina, sem quebra ali\u00e1s da sua austeridade mon\u00e1stica,<br \/>\nespiritual, e mais pelo tom e estilo pitoresco dos seus serm\u00f5es, onde<br \/>\nsentimos estes v\u00e1rios impulsos, foi Monte Alverne o verdadeiro precursor<br \/>\ndo Romantismo aqui.<\/p>\n<p>A primeira eloq\u00fc\u00eancia pol\u00edtica brasileira, inaugurada na<br \/>\nAssembl\u00e9ia Constituinte de 1823, tem uma dupla fei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor mais de um rasgo lembra a orat\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa,<br \/>\nem cuja hist\u00f3ria eram lidos os principais de seus membros, e ressuma<br \/>\nalgo tamb\u00e9m da orat\u00f3ria sagrada da nossa l\u00edngua, que<br \/>\nera o modelo mais presente aos iniciadores dessa eloq\u00fc\u00eancia aqui.<br \/>\nAlguns deles j\u00e1 o haviam ali\u00e1s ensaiado nas juntas e sess\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas de antes da Independ\u00eancia ou a tinham praticado como<br \/>\ndeputados do Brasil nas Cortes de Lisboa, em 1821. Mas os mesmos oradores<br \/>\nportugueses destas seriam bisonhos parlamentares, cuja educa\u00e7\u00e3o<br \/>\norat\u00f3ria, feita sob o duplo influxo da eloq\u00fc\u00eancia revolucion\u00e1ria<br \/>\nfrancesa e do serm\u00e3o nacional, n\u00e3o podia ser aos nossos de grande<br \/>\nexemplo.<\/p>\n<p>Como o serm\u00e3o, o discurso pol\u00edtico, salvo casos sempre raros<br \/>\nde peregrinas excel\u00eancias de fundo e forma, por sua mesma efemeridade<br \/>\ne conting\u00eancia, como pelo ocasional dos seus motivos e inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 muito excepcionalmente conserva o interesse da emo\u00e7\u00e3o<br \/>\noriginal. Nem sequer concorria aqui para prolong\u00e1-lo al\u00e9m da<br \/>\nsua hora, o livro que os recolhesse. Apenas o Anais das assembl\u00e9ias<br \/>\nonde foram proferidos lhes guardaria o eco, de todo extinto ali\u00e1s nesses<br \/>\ncartap\u00e1cios nunca lidos.<\/p>\n<p>Teve a Constituinte alguns oradores not\u00e1veis, dos quais se pode dizer<br \/>\nque o eram mais de nascen\u00e7a que de feitura. O maior deles, ao menos<br \/>\no mais c\u00e9lebre, foi Ant\u00f4nio Carlos Ribeiro de Andrada Machado<br \/>\ne Silva (1775-1845), cuja fama vinha das Cortes portuguesas de 1821, e devia<br \/>\nconfirm\u00e1-la a sua ulterior carreira de orador em assembl\u00e9ias<br \/>\nposteriores \u00e0 Constituinte.<\/p>\n<p>Nestas, os nomes cuja reputa\u00e7\u00e3o excedeu ao seu tempo s\u00e3o<br \/>\nos de Rebou\u00e7as, Maciel Monteiro, Rodrigues dos Santos, Bernardo de<br \/>\nVasconcelos, Sousa Franco, Alves Branco, Nabuco de Ara\u00fajo, Rio Branco,<br \/>\nSilveira Martins, talvez o maior de todos nas qualidades propriamente orat\u00f3rias,<br \/>\nTorres Homem, Jos\u00e9 de Alencar, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o Mo\u00e7o,<br \/>\ncujos discursos lidos hoje lhe n\u00e3o abonam a fama contempor\u00e2nea,<br \/>\nJoaquim Nabuco, Fernandes da Cunha. Destes, bem poucos, fora dos Anais parlamentares,<br \/>\ndeixaram documento escrito por onde possamos avaliar-lhes, quanto um orador<br \/>\npode ser julgado pelo discurso n\u00e3o ouvido, o fundamento da celebridade.<br \/>\nTemos, pois, que contentar-nos com a tradi\u00e7\u00e3o. Segundo esta,<br \/>\nforam estes, com alguns mais, e muito antes bons parlamentares, bons discutidores,<br \/>\nque oradores, os melhores exemplares da nossa orat\u00f3ria pol\u00edtica.<br \/>\nLiterariamente, salvo as exce\u00e7\u00f5es de um Rebou\u00e7as, um<br \/>\nMaciel Monteiro, um Nabuco pai e filho, um Torres Homem e um Jos\u00e9 de<br \/>\nAlencar, pouco valem. Rar\u00edssimos ser\u00e3o os seus discursos cuja<br \/>\nleitura n\u00e3o nos seja agora displicente. \u00c9 que sobretudo &#8220;oradores<br \/>\nde neg\u00f3cios&#8221;, segundo a express\u00e3o francesa, isto \u00e9<br \/>\nde quest\u00f5es pol\u00edticas ou partid\u00e1rias de ocasi\u00e3o,<br \/>\no interesse das suas arengas passou com o dos seus motivos, e tanto mais completamente<br \/>\nquando por via de regra eles n\u00e3o lhes souberam dar qualidades de pensamento<br \/>\ne de express\u00e3o que as fizessem viver.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica no Brasil nasceu com as academias liter\u00e1rias do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII. Os seus primeiros ensaios foram os pareceres ou ju\u00edzos nelas<br \/>\napresentados sobre os trabalhos sujeitos \u00e0 sua aprecia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nContinuavam esses pareceres o costume portugu\u00eas, tamb\u00e9m oriundo<br \/>\ndas academias, de que as nossas foram um arremedo. Eram por via de regra inchados<br \/>\nde pensamento e de express\u00e3o, gr\u00e1vidos de erudi\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria contempor\u00e2nea e, como estal\u00e3o de estima, usavam<br \/>\nrigorosamente a pauta da ret\u00f3rica cl\u00e1ssica consoante Hor\u00e1cio<br \/>\ne Quintiliano, e aferiram das obras conforme elas lhes pareciam ou n\u00e3o<br \/>\nacordes com essas pautas. A inspira\u00e7\u00e3o geral desses primeiros<br \/>\nensaios de cr\u00edtica, n\u00e3o s\u00f3 aqui mas em Portugal \u2014<br \/>\naos quais cumpre juntar os ju\u00edzos dos censores oficiais, que \u00e0s<br \/>\nvezes se desmandavam em cr\u00edticos, \u2014 era de regra exageradamente<br \/>\nben\u00e9vola, e facilmente escorregava para os mais desmarcados enc\u00f4mios<br \/>\ne excessivos louvores, em linguagem, como era a liter\u00e1ria da \u00e9poca,<br \/>\nt\u00fargida e hiperb\u00f3lica. Dizendo, por exemplo, de um ruim poema<br \/>\nfeito \u00e0 Virgem Maria pelo poeta Jos\u00e9 Pires de Carvalho e Albuquerque,<br \/>\nhoje absolutamente ileg\u00edvel, os cr\u00edticos \u2014 chamavam-se<br \/>\nent\u00e3o censores \u2014 da Academia dos Renascidos, asseveravam que<br \/>\no livro do seu confrade continha &#8220;em si mat\u00e9rias t\u00e3o sublimes<br \/>\ne cantos t\u00e3o suaves, que aparece ser todo inspirado do c\u00e9u,<br \/>\nainda que organizado na terra, favor na verdade particular de que foi dotado<br \/>\no autor, n\u00e3o s\u00f3 como devoto, mas como poeta&#8221;. E n\u00e3o<br \/>\nsatisfeitos, acrescentaram: &#8220;\u00c9 t\u00e3o sublime a musa do nosso<br \/>\nacad\u00eamico que a sair do eminente cume do Parnaso s\u00f3 passaria<br \/>\ncomo passou ao mais elevado \u00e1pice do Olimpo&#8221;.149<\/p>\n<p>149Apud Fernandes Pinheiro, Rev. do Inst. Hist., XXXII, 59.<\/p>\n<p>N\u00e3o fora imposs\u00edvel ou sequer dif\u00edcil mostrar ainda<br \/>\nagora ressaibos deste estilo de cr\u00edtica em quejandos documentos das<br \/>\nnossas sociedades liter\u00e1rias e nos mesmos cr\u00edticos de of\u00edcio.<br \/>\nCom poucas exce\u00e7\u00f5es permaneceu este estilo essencialmente o<br \/>\nmesmo at\u00e9 o advento do modernismo, cujo esp\u00edrito foi notavelmente<br \/>\ncr\u00edtico, sem que entretanto lograsse refug\u00e1-lo de todo da cr\u00edtica<br \/>\nind\u00edgena. N\u00e3o raro aquele tom empolado da velha cr\u00edtica<br \/>\nportuguesa para aqui transplantada foi apenas substitu\u00eddo por mal assimiladas<br \/>\nnovidades pseudofilos\u00f3ficas por pseudocient\u00edficas expressas<br \/>\nem nova forma de gongorismo, que, como o outro, nos vinha tamb\u00e9m de<br \/>\nPortugal.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica como um ramo independente da literatura, o estudo das obras<br \/>\ncom um crit\u00e9rio mais largo que as regras da ret\u00f3rica cl\u00e1ssica,<br \/>\ne j\u00e1 acompanhado de indaga\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e<br \/>\nrefer\u00eancias mesol\u00f3gicas, hist\u00f3ricas e outras, buscando<br \/>\ncompreender-lhes e explicar-lhes a forma\u00e7\u00e3o e a ess\u00eancia,<br \/>\nessa cr\u00edtica derivada ali\u00e1s imediatamente daquela, pelo que<br \/>\nlhe conservou alguma das fei\u00e7\u00f5es mais antip\u00e1ticas, nasceu<br \/>\ncom o Romantismo. Precedeu-o mesmo, nos estudos biogr\u00e1ficos e liter\u00e1rios<br \/>\ndo Patriota, de Ara\u00fajo Guimar\u00e3es, do Parnaso Brasileiro, de<br \/>\nCunha Barbosa, de Niter\u00f3i, de Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es<br \/>\ne Porto Alegre. Era, por\u00e9m, sobretudo louvaminheira e derramada em<br \/>\nimpertinentes considera\u00e7\u00f5es gerais, e acreditava ingenuamente<br \/>\nque preconizar a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria nacional era o mesmo<br \/>\nque valoriz\u00e1-la e que o louvor, ainda indiscreto, seria est\u00edmulo<br \/>\nbastante ao fomento das nossas letras. Esse est\u00edmulo imprudente achou-o<br \/>\nque fartasse o Romantismo na cr\u00edtica, que com ele surgiu em jornais<br \/>\ne revistas como a citada Niter\u00f3i, a Minerva Brasiliense, a Guanabara,<br \/>\na Revista do Instituto e mais tarde a Revista Popular e outras publica\u00e7\u00f5es<br \/>\nsemelhantes. E n\u00e3o se pode dizer que esta cr\u00edtica ainda nimiamente<br \/>\nencomi\u00e1stica, e que convencidamente atestava de primas obras cuja leitura<br \/>\nnos \u00e9 hoje insuport\u00e1vel, n\u00e3o tenha, em suma, tido uma<br \/>\na\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica. \u00c0 falta de outro qualquer pr\u00eamio<br \/>\ndo seu esfor\u00e7o, encontravam nela os autores &#8220;o favor com que mais<br \/>\nse acende o engenho.&#8221; Apenas a maioria delas n\u00e3o teria o que acender.<\/p>\n<p>Iludindo-os sobre o seu pr\u00f3prio merecimento, essa cr\u00edtica n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 os desvairava, mas desservia os que acaso tinham e cujos defeitos<br \/>\nela se abstinha, por mal entendida caridade, de apontar, faltando assim \u00e0<br \/>\nsua tarefa de educar o p\u00fablico, que mui confiadamente a seguia. Com<br \/>\nessa cr\u00edtica que se traduzia em louvores indiscretos acompanhados de<br \/>\ndivaga\u00e7\u00f5es a mais das vezes ociosas e at\u00e9 impertinentes,<br \/>\ncr\u00edtica ainda em suma ret\u00f3rica, surgiu pela mesma \u00e9poca<br \/>\na cr\u00edtica erudita e mais a hist\u00f3ria liter\u00e1ria, seu natural<br \/>\nsuporte. Desprezadas, como \u00e9 de raz\u00e3o, umas primeiras malogradas<br \/>\ntentativas de Cunha Barbosa, Magalh\u00e3es, Ferreira da Silva, o criador<br \/>\ndessa esp\u00e9cie de cr\u00edtica aqui, e simultaneamente da hist\u00f3ria<br \/>\nda nossa literatura, foi Varnhagen. \u00c9 ele, com efeito, o primeiro que<br \/>\npesquisa e assenta, com dados seguros, fatos e datas liter\u00e1rias, e<br \/>\nos correlaciona com a nossa evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o primeiro<br \/>\nque estuda diretamente os autores, descobre alguns apenas vagamente conhecidos,<br \/>\npublica-lhes ou revela-lhes as obras, identifica-os ou comprova-lhes a exist\u00eancia<br \/>\ne atividade. Foi com efeito o primeiro que investigou com capacidade de erudito<br \/>\ne um crit\u00e9rio que \u00e9 essencialmente o mesmo da nossa posterior<br \/>\nhist\u00f3ria liter\u00e1ria, as nossas origens liter\u00e1rias, e fez<br \/>\ndas nossas letras a exposi\u00e7\u00e3o mais cabal e exata que at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o se fez. Foi igualmente o primeiro que as viu no seu conjunto<br \/>\ne n\u00e3o s\u00f3 na sua poesia, como mais ou menos o fizeram os seus<br \/>\npredecesores, e, embora de relance, ocupou-se de todos os autores nacionais<br \/>\nque pode conhecer, e ainda de portugueses abrasileirados pela sua estadia<br \/>\nno Brasil e preocupa\u00e7\u00f5es brasileiras, fossem poetas ou historiadores,<br \/>\nmoralistas, viajantes, cronistas, economistas, etc. Alguns descobriu e desencavou<br \/>\ne divulgou de escusos repert\u00f3rios portugueses, corrigindo datas, aventando<br \/>\ninforma\u00e7\u00f5es ignoradas, emendando outras, publicando antologias<br \/>\ne edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas dos nossos poetas e de escritores<br \/>\nde cousas brasileiras. Este trabalho, grand\u00edssimo e important\u00edssimo<br \/>\npara o tempo, f\u00ea-lo ele na edi\u00e7\u00e3o dos \u00c9picos Brasileiros<br \/>\n(1845), no Floril\u00e9gio da poesia brasileira (1850) e na Hist\u00f3ria<br \/>\ngeral do Brasil (1854-57), em mem\u00f3rias, monografias e artigos da Revista<br \/>\ndo Instituto e outras publica\u00e7\u00f5es. No Floril\u00e9gio assentou,<br \/>\nem bases que n\u00e3o foram ainda sensivelmente modificadas, a hist\u00f3ria<br \/>\nda nossa literatura. Nas 54 p\u00e1ginas do &#8220;Ensaio hist\u00f3rico<br \/>\nsobre as letras no Brasil&#8221;, que vem como introdu\u00e7\u00e3o desse<br \/>\nprecioso livrinho, acham-se pelo menos indicados o crit\u00e9rio etnol\u00f3gico<br \/>\ncomo elemento das investiga\u00e7\u00f5es da nossa literatura e da sua<br \/>\nmesma inspira\u00e7\u00e3o, o elemento ind\u00edgena americano como<br \/>\nconcorrente nela, as origens imediatas ou o primeiro impulso da poesia e do<br \/>\nteatro no Brasil, a necessidade de serem os nossos poetas sobretudo americanos,<br \/>\no interesse da poesia popular, a correla\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos<br \/>\nmentais com os sucessos hist\u00f3ricos e outros que muito posteriormente<br \/>\nseriam trazidos \u00e0 luz como novidade da \u00faltima hora.<\/p>\n<p>Neste gosto e trabalho de investiga\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da<br \/>\nnossa literatura o seguiu, com menor cabedal de conhecimentos e menor capacidade,<br \/>\nmas com igual boa vontade e n\u00e3o sem sucesso, Norberto Silva. Devemos-lhe<br \/>\nprincipalmente um mais exato conhecimento dos poetas mineiros, v\u00e1rios<br \/>\nestudos biogr\u00e1ficos liter\u00e1rios e alguns ensaios de uma hist\u00f3ria<br \/>\nda nossa literatura, que n\u00e3o chegou a escrever. Tamb\u00e9m Porto<br \/>\nAlegre fez cr\u00edtica liter\u00e1ria e foi aqui o criador da cr\u00edtica<br \/>\nart\u00edstica. Como tal devem-se-lhe os primeiros estudos sobre a nossa<br \/>\npintura e arquitetura e da iconografia e m\u00fasica brasileira, publicados<br \/>\nno Ostensor, na revista Guanabara, no \u00cdris, na Revista Brasileira e<br \/>\nna Revista do Instituto, entre 1845 e 1856. O entusiasmo patri\u00f3tico<br \/>\ndos da sua gera\u00e7\u00e3o levou-o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o indiscreta<br \/>\nde uma &#8220;escola fluminense de pintura&#8221;. Outros rom\u00e2nticos da<br \/>\nprimeira hora, Magalh\u00e3es, Macedo, Ferreira da Silva, Gon\u00e7alves<br \/>\nDias, fizeram igualmente cr\u00edtica liter\u00e1ria. Pelo tempo adiante,<br \/>\ncom certa assiduidade e algum m\u00e9rito, Paula Menezes, Dutra e Melo,<br \/>\nParanhos Schutel, Jaci Monteiro; e alguns estrangeiros que aqui colaboraram<br \/>\ncom os nossos na constitui\u00e7\u00e3o da nossa literatura nacional,<br \/>\ntais os franceses Burgain e Adet, o espanhol Pascoal, o chileno Santiago Nunes<br \/>\nRibeiro, os portugueses Zaluar e Montoro distinguiram-se como cr\u00edticos.<br \/>\nEssa cr\u00edtica, por\u00e9m, foi sempre feita dispersamente em jornais<br \/>\ne revistas, e nunca se sistematizou. Raro era outra cousa que um artigo de<br \/>\nocasi\u00e3o a favor de um livro ou autor. Toda ela tendia \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o<br \/>\nfreq\u00fcentemente inconsiderada da mente nacional e dos seus produtos. \u00c9<br \/>\npatri\u00f3tica como a literatura que lhe servia de assunto. Mais tarde<br \/>\ne serodiamente, o mau exemplo das brigas liter\u00e1rias da &#8220;guerra<br \/>\ndos poetas&#8221; e das arc\u00e1dias portuguesas produziu aqui os seus efeitos<br \/>\nna acrim\u00f4nia, na diatribe, nos doestos e at\u00e9 na arrog\u00e2ncia<br \/>\ndoutrin\u00e1ria, que muitas vezes substitu\u00edram a longanimidade e<br \/>\ncomplac\u00eancia da nossa primitiva cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Na segunda gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, \u00c1lvares de Azevedo<br \/>\nescreveu alguns ensaios de cr\u00edtica, que por lampejos de talento, novidade<br \/>\nde id\u00e9ias gerais e qualidades da express\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\nsobrelevam o que aqui se fazia no g\u00eanero, e mostravam ainda uma vez<br \/>\na compassibilidade da cr\u00edtica e da cria\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<br \/>\nJunqueira Freire, outro poeta dessa gera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se<br \/>\nensaiou na cr\u00edtica, com menos romantismo e acaso mais agudeza que \u00c1lvares<br \/>\nde Azevedo, mas tamb\u00e9m mais de passagem ainda que este. Fizeram-na<br \/>\nigualmente em jornais, outros poetas e prosadores desta fase, nomeadamente<br \/>\nBernardo Guimar\u00e3es e Jos\u00e9 de Alencar, que reuniu em livro a<br \/>\nsua cr\u00edtica da Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios, de Magalh\u00e3es<br \/>\n(1856).<\/p>\n<p>Feita assim dispersamente, ao acaso dos ensejos, sem seq\u00fc\u00eancia<br \/>\nnem sistema, como uma manifesta\u00e7\u00e3o pessoal de impress\u00f5es<br \/>\nrecebidas dos livros lidos, mas talvez por amor dos autores que da literatura,<br \/>\ncomo um est\u00edmulo ou um reclamo, e tamb\u00e9m \u00e0s vezes, mas<br \/>\nraras, como um an\u00e1tema, n\u00e3o chegou essa cr\u00edtica a ser<br \/>\num g\u00eanero liter\u00e1rio separadamente cultivado. E os seus produtos<br \/>\nhavemos de ir busc\u00e1-los em jornais e revistas, pref\u00e1cios de<br \/>\nlivros ou reproduzidos e citados em p\u00e1ginas posteriores. Quem mais<br \/>\nsistematicamente a fez depois das duas primeiras gera\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas,<br \/>\npelo menos como professor oficial de literatura, foi o c\u00f4nego Fernandes<br \/>\nPinheiro, que deixou dois livros consider\u00e1veis de mat\u00e9ria cujo<br \/>\ndocente era no Col\u00e9gio de Pedro II, Curso elementar de literatura nacional<br \/>\n(1862) e Resumo da hist\u00f3ria liter\u00e1ria (1873). De fundo pr\u00f3prio,<br \/>\nquer de erudi\u00e7\u00e3o, quer de pensamento, pouco havia do autor destes<br \/>\nlivros, onde se continuavam extemporaneamente sistemas cr\u00edticos j\u00e1<br \/>\nao tempo obsoletos. Demais, apesar do t\u00edtulo, o seu Curso era sobretudo<br \/>\nde literatura portuguesa, para o qual o autor achava o trabalho j\u00e1<br \/>\nfeito. A brasileira, mormente no seu mais importante per\u00edodo, o nacional,<br \/>\napenas ocupava algumas p\u00e1ginas. Com melhor sentimento liter\u00e1rio,<br \/>\ncom mais fina percep\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, e sobretudo com muito<br \/>\nmelhor estilo, mas apenas acidental e esporadicamente, tamb\u00e9m fez cr\u00edtica<br \/>\nMachado de Assis.<\/p>\n<p>Ao tempo em que o c\u00f4nego Pinheiro professava aqui as li\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque depois tirou em livro, um outro professor de literatura no Maranh\u00e3o,<br \/>\nSotero dos Reis, fazia o Curso de literatura brasileira e portuguesa, publicado<br \/>\ndepois em quatro tomos, de 1866 a 1868. Com o seu desenvolvimento e propor\u00e7\u00f5es,<br \/>\n\u00e9 n\u00e3o s\u00f3 a primeira obra de estudo hist\u00f3rico liter\u00e1rio<br \/>\ne cr\u00edtico da nossa literatura, mas ainda da portuguesa, e era na nossa<br \/>\nl\u00edngua uma novidade. Transplantava Sotero dos Reis para ela, como ainda<br \/>\nno seu tempo foi notado, a renova\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica operada<br \/>\nem Fran\u00e7a por Villemain. Abalizado conhecedor por um com\u00e9rcio<br \/>\nmais direto do que o tinha o c\u00f4nego Pinheiro das letras portuguesas<br \/>\ne do seu desenvolvimento aqui, fez delas mais cabal exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se podia ent\u00e3o querer. O processo hist\u00f3rico, que era o daquele<br \/>\nseu principal modelo, levou-o ao estudo, acaso por demais particularizado,<br \/>\nda literatura portuguesa, de suas origens at\u00e9 ao fim do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII. No estudo da literatura brasileira, que ocupa parte menor do seu Curso,<br \/>\nSotero dos Reis n\u00e3o lhe remontou \u00e0s origens nem lhe acompanhou<br \/>\na evolu\u00e7\u00e3o. Exp\u00f4-la por alguns dos seus tipos mais preeminentes<br \/>\n\u2014 como o fazia Taine com a literatura inglesa \u2014 come\u00e7ando<br \/>\nem Santa Rita Dur\u00e3o e vindo at\u00e9 Gon\u00e7alves Dias. Nunca,<br \/>\npor\u00e9m, se fizera estudo t\u00e3o completo e com t\u00e3o boa arte<br \/>\nde composi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, e em suma t\u00e3o bem feito<br \/>\ncomo no livro de Sotero dos Reis.<\/p>\n<p>Menos ainda do que qualquer dos g\u00eaneros liter\u00e1rios aqui versados,<br \/>\nn\u00e3o se constituiu a cr\u00edtica em aplica\u00e7\u00e3o particular<br \/>\nda atividade liter\u00e1ria. E como n\u00e3o tivesse outra doutrina que<br \/>\no gosto pessoal dos que eventualmente a faziam, fosse pura externa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde impress\u00f5es individuais, mais no intuito de louvor ou censura, que<br \/>\nno de exame e explica\u00e7\u00e3o da obra, afetasse um tom ret\u00f3rico<br \/>\ne ordinariamente se excedesse em divaga\u00e7\u00f5es escusadas de trivialidades<br \/>\nliter\u00e1rias ou em banalidades conceituosas, essa cr\u00edtica, afora<br \/>\no que \u00e9 propriamente hist\u00f3ria liter\u00e1ria feita por um<br \/>\nVarnhagen, um Norberto, um Sotero e ainda um Fernandes Pinheiro, apenas deixou<br \/>\nde si um outro documento estim\u00e1vel. Nada obstante foi \u00fatil e,<br \/>\nainda com as suas falhas e defeitos, serviu ao desenvolvimento das nossas<br \/>\nletras.<\/p>\n<p>O movimento que tenho chamado de modernismo e cujo mais evidente sinal foi,<br \/>\ncomo o europeu de que se originou, o esp\u00edrito cr\u00edtico, deu aqui<br \/>\n\u00e0 cr\u00edtica outra dire\u00e7\u00e3o e outros crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>A revolta da escola coimbr\u00e3, em Portugal, contra o que um dos seus<br \/>\nchefes chamou as &#8220;teocracias liter\u00e1rias&#8221; do velho Reino,<br \/>\no resto de pseudocl\u00e1ssicos, de anacr\u00f4nicos \u00e1rcades ou<br \/>\nde ser\u00f4dios rom\u00e2nticos que, com Ant\u00f4nio de Castilho \u00e0<br \/>\ntesta, entorpeciam a evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria portuguesa, n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 ecoou aqui, mas influiu, acaso mais poderosamente que o coevo pensamento<br \/>\neuropeu, no motim que aqui tamb\u00e9m se levantou contra os nossos escritores<br \/>\nconsagrados. A este alvoroto brasileiro faltou, por\u00e9m, a coes\u00e3o<br \/>\nque teve o portugu\u00eas, e ficou longe da import\u00e2ncia daquele. A<br \/>\nsua inspira\u00e7\u00e3o ou antes os seus inspiradores estrangeiros foram<br \/>\ndiversos: Sainte-Beuve, Taine, Scherer, Renan, Spencer e at\u00e9 Comte,<br \/>\nn\u00e3o obstante a sua avers\u00e3o sistem\u00e1tica \u00e0 cr\u00edtica,<br \/>\ne tamb\u00e9m os muito proclamados mas de fato pouco sabidos cr\u00edticos<br \/>\nalem\u00e3es de nomes estranhos aos nossos ouvidos. Se a rea\u00e7\u00e3o<br \/>\npela cultura germ\u00e2nica em Portugal, atuadora da nossa, fez ali uma d\u00fazia<br \/>\nde germanistas capazes, aqui n\u00e3o conseguiu formar sequer a metade,<br \/>\no que prova a inconsci\u00eancia do arremedo e a inconsist\u00eancia do<br \/>\nmovimento e concomitantemente a nossa madra\u00e7aria nacional. Salvo Tobias<br \/>\nBarreto, que foi o mais distinto pr\u00f3cer do movimento e cuja cultura<br \/>\ngerm\u00e2nica parece ter sido cabal, os nossos outros germanistas seus disc\u00edpulos<br \/>\nou seguidores a fizeram superficialmente e atrav\u00e9s do franc\u00eas.<\/p>\n<p>Como quer que seja, operou-se um salutar movimento de rea\u00e7\u00e3o<br \/>\ne houve manifesto alargamento do nosso esp\u00edrito liter\u00e1rio e<br \/>\ndo nosso esp\u00edrito em geral. Come\u00e7ou-se a compreender que a cr\u00edtica<br \/>\ntinha um papel distinto e uma fun\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria na literatura<br \/>\ne a abandonar os seus processos puramente ret\u00f3ricos por outros em que<br \/>\nentravam novos elementos de considera\u00e7\u00e3o na aprecia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas obras liter\u00e1rias, a hist\u00f3ria, a psicologia, a etnografia,<br \/>\na sociologia, a pol\u00edtica, enfim quanto atuava os escritores e os podia<br \/>\nexplicar e \u00e0s suas obras. Em 1873, em um artigo em que \u00e9 l\u00edcito<br \/>\nenxergar o influxo das id\u00e9ias que iam dar nova dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nao nosso pensamento liter\u00e1rio e \u00e0 cr\u00edtica, Machado de<br \/>\nAssis, verificando a car\u00eancia aqui da cr\u00edtica como of\u00edcio<br \/>\nliter\u00e1rio, lastimava-lhe a falta e reclamava-a como uma necessidade<br \/>\nda nossa literatura.150 De 1875 em diante entram a aparecer livros propriamente<br \/>\nde cr\u00edtica, os Ensaios e estudos de filosofia e cr\u00edtica, desse<br \/>\nano, e os Estudos alem\u00e3es, de 1883, de Tobias Barreto, a Cr\u00edtica<br \/>\ne literatura, do malogrado escritor do grupo liter\u00e1rio formado no Cear\u00e1<br \/>\npor esse tempo, Raimundo Ant\u00f4nio da Rocha Lima (1878). Outro escritor<br \/>\ndesse grupo, Araripe J\u00fanior (Trist\u00e3o de Alencar \u2014 27 de<br \/>\njulho de 1848 \u2014 29 de outubro de 1911, Fortaleza, Cear\u00e1), conquanto<br \/>\nse houvesse ensaiado, ali\u00e1s sem nenhum sucesso, na fic\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfoi principalmente um cr\u00edtico, j\u00e1 em jornais e revistas da sua<br \/>\nterra natal, de Pernambuco e do Rio, j\u00e1 em livros, Jos\u00e9 de Alencar<br \/>\n(1882), Greg\u00f3rio de Matos, Movimento liter\u00e1rio e outros. Seguindo<br \/>\nmuito de perto as doutrinas cr\u00edticas de Taine, esfor\u00e7ou-se por<br \/>\npratic\u00e1-las e divulg\u00e1-las aqui, temperando-as entretanto com<br \/>\na sua fantasia, incongruente com o esp\u00edrito geom\u00e9trico do seu<br \/>\napregoado mestre, e fazendo da complac\u00eancia imoderado uso. Entre os<br \/>\nnossos livros de cr\u00edtica desse momento, destacam-se pelo seu volume<br \/>\ne import\u00e2ncia os Estudos sobre a literatura brasileira; O lirismo brasileiro<br \/>\n(1877), do escritor maranhense domiciliado em Portugal, Sr. Jos\u00e9 Ant\u00f4nio<br \/>\nde Freitas disc\u00edpulo muito fiel do Sr. T. Braga; o Cam\u00f5es e<br \/>\nos Lus\u00edadas (1872), de Joaquim Nabuco, mais explana\u00e7\u00e3o<br \/>\nentusi\u00e1stica, feita ali\u00e1s com talento, que aprecia\u00e7\u00e3o<br \/>\ncr\u00edtica; os Estudos cr\u00edticos, por S\u00edlvio Dinarte (Escragnolce<br \/>\nTaunay, 1881-1883, 3 vols.). Mas o primeiro dos escritores brasileiros que,<br \/>\nde parte um breve e malogrado excurso pela poesia, fez obra copiosa de cr\u00edtica<br \/>\ngeral e particular, \u00e9 o Sr. S\u00edlvio Romero, simultaneamente disc\u00edpulo,<br \/>\npor Tobias Barreto, dos alem\u00e3es e, muito mais diretamente, dos franceses<br \/>\npor Taine e Scherer, pelo que \u00e9 da literatura propriamente dita, e<br \/>\nde Spencer, Haeckel, Noir\u00e9 e Iehring, pelo que \u00e9 filosofia e<br \/>\npensamento geral.<\/p>\n<p>\u00c9 singular que o maior e mais universal dos cr\u00edticos franceses<br \/>\ndo s\u00e9culo passado, o que mais influ\u00eancia exerceu no seu tempo,<br \/>\nmesmo fora da Fran\u00e7a, Sainte-Beuve, tenha muito pouco influ\u00eddo,<br \/>\nao menos de modo direto e claro, na constitui\u00e7\u00e3o definitiva<br \/>\nda nossa cr\u00edtica, como atividade liter\u00e1ria distinta. S\u00f3<br \/>\ntalvez em Machado de Assis se lobriga algo do seu exemplo.<\/p>\n<h4><a name=\"19\"><\/a><br \/>\nCap\u00edtulo XIX<\/h4>\n<p><strong>MACHADO DE ASSIS<\/strong><\/p>\n<p>CHEGAMOS AGORA AO escritor que \u00e9 a mais alta express\u00e3o do nosso<br \/>\ng\u00eanio liter\u00e1rio, a mais eminente figura da nossa literatura,<br \/>\nJoaquim Maria Machado de Assis. No bairro popular, pobre e exc\u00eantrico<br \/>\ndo Livramento, no Rio de Janeiro, nasceu ele, de pais de mesquinha condi\u00e7\u00e3o,<br \/>\na 21 de junho de 1839. Nesta mesma cidade, donde nunca saiu, faleceu, com<br \/>\npouco mais de 69 anos, em 29 de setembro de 1908. A data do seu nascimento<br \/>\ne do seu aparecimento na literatura o fazem da \u00faltima gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nrom\u00e2ntica. Mas a sua \u00edndole liter\u00e1ria avessa a escolas,<br \/>\na sua singular personalidade, que lhe n\u00e3o consentiu jamais matricular-se<br \/>\nem alguma, quase desde os seus princ\u00edpios fizeram dele um escritor<br \/>\n\u00e0 parte, que tendo atravessado v\u00e1rios momentos e correntes liter\u00e1rios,<br \/>\na nenhuma realmente aderiu sen\u00e3o mui parcialmente, guardando sempre<br \/>\na sua isen\u00e7\u00e3o. S\u00e3o obscuros e incertos os seus come\u00e7os,<br \/>\nos informes que deles h\u00e1, duvidoso ou suspeitos. Ningu\u00e9m na<br \/>\nliteratura brasileira foi mais, ou sequer tanto como ele, estranho a toda<br \/>\na esp\u00e9cie de cabotinagem, de vaidade, de exibicionismo. De raiz odiava<br \/>\ntoda a publicidade, toda a vulgariza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fosse<br \/>\npuramente a dos seus livros publicados. Do seu mesmo trabalho liter\u00e1rio,<br \/>\ncomo de tudo o que lhe dizia respeito, tinha um exagerado recato. Refugia<br \/>\nabsolutamente \u00e0s confid\u00eancias tanto pessoais como liter\u00e1rias.<br \/>\nPor cousa alguma quisera que as humildes condi\u00e7\u00f5es em que nascera<br \/>\nservissem para exal\u00e7ar-lhe a situa\u00e7\u00e3o que alcan\u00e7ara.<br \/>\nAo seu recatad\u00edssimo orgulho repugnava, como um expediente vulgar,<br \/>\nfazer entrar no lustre que conquistara esse elemento de estima. A sua biografia<br \/>\neram os seus livros, a sua arte era a sua pros\u00e1pia. N\u00e3o lhes<br \/>\nquis misturar nada que pudesse parecer um apelo \u00e0 benevol\u00eancia<br \/>\ndos seus contempor\u00e2neos em prol da exalta\u00e7\u00e3o do seu nome.<br \/>\nFazer reclamo da mesquinhez das suas origens, como \u00e9 t\u00e3o vulgar,<br \/>\nlhe era profundamente antip\u00e1tico. S\u00f3 a incapacidade de compreender<br \/>\nnatureza t\u00e3o finamente aristrocr\u00e1tica como Machado de Assis<br \/>\ne a esquisita nobreza destes sentimentos poderia reprochar-lhos.<\/p>\n<p>Era dos engenhos privilegiados que, sentindo fortemente a voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria, com a clara consci\u00eancia da necessidade de ajud\u00e1-la<br \/>\npela aplica\u00e7\u00e3o e trabalho, a si mesmo se educam. Fez-se ele<br \/>\npr\u00f3prio. Teria apenas freq\u00fcentado a \u00ednfima escola prim\u00e1ria<br \/>\nda sua meninice, aprendido ao acaso das oportunidades algo mais do que ali<br \/>\nlhe ensinaram, e lido ass\u00eddua e atentamente. Precisando cuidar muito<br \/>\ncedo de si, pois os pais, sobre paup\u00e9rrimos, lhe morreram quando lhe<br \/>\ncome\u00e7ava a puberdade, trabalhou ent\u00e3o, ao que parece, como sacrist\u00e3o<br \/>\nda Igreja da Lampadosa, e depois caixeiro da pequena Livraria e Tipografia<br \/>\nde Paula Brito, prazo dado dos escritores feitos ou por fazer da \u00e9poca.<br \/>\nTalvez ali se iniciasse na arte tipogr\u00e1fica, que mais tarde parece<br \/>\nexerceu como compositor na Imprensa Nacional. Desde 1856 pelo menos se encontram<br \/>\nna Marmota Fluminense, &#8220;jornal de modas e variedades&#8221;, editado e<br \/>\nredigido por aquele singular, estim\u00e1vel e prestimoso amador das nossas<br \/>\nletras que foi Paula Brito, e colaborado por nomes depois nela not\u00e1veis,<br \/>\nalguns poemas seus. Tem o tom melancolicamente sentimental, a religiosidade<br \/>\nrom\u00e2ntica e tamb\u00e9m laivos de descren\u00e7a, da poesia daquele<br \/>\ndec\u00eanio.151 \u00c9 de crer que Machado de Assis houvesse versejado<br \/>\ndesde antes dessas datas. Depois da Marmota, encontram-se-lhe versos na Revista<br \/>\nPopular e Jornal das Fam\u00edlias, de Garnier, na Biblioteca Brasileira,<br \/>\nde Quintino Bocai\u00fava, e no Di\u00e1rio do Rio de Janeiro, de 1862.<br \/>\nDa reda\u00e7\u00e3o deste jornal, em lugar subalterno, fez parte com<br \/>\nSaldanha Marinho, Quintino Bocai\u00fava e outros j\u00e1 ent\u00e3o<br \/>\nou depois conhecidos jornalistas. Entrementes aprendera o ingl\u00eas, l\u00edngua<br \/>\npouco vulgar aos nossos literatos e cuja literatura n\u00e3o teria concorrido<br \/>\npouco para ajudar a tend\u00eancia natural de Machado de Assis ao humor,<br \/>\nde que foi aqui o \u00fanico mestre insigne. Tamb\u00e9m lhe daria o esquisito<br \/>\nsentimento de decoro que distingue a sua obra, e o defendeu das influ\u00eancias<br \/>\ndo naturalismo franc\u00eas. Em 1863, da tipografia daquele jornal saiu o<br \/>\nseu primeiro livro, um folheto, Teatro de Machado de Assis. Constava de duas<br \/>\ncom\u00e9dias em um ato, representadas ambas no ano anterior e prefaciadas<br \/>\npor Quintino Bocai\u00fava, que parece ter sido, com Paula Brito, o seu<br \/>\nintrodutor na vida liter\u00e1ria. Desde ent\u00e3o Machado de Assis mostrava-se<br \/>\na figura extraordin\u00e1ria e, em toda a significa\u00e7\u00e3o do<br \/>\ntermo, distinta que viria a ser nas nossas letras, tanto pelo seu engenho<br \/>\ncomo pela sua eleva\u00e7\u00e3o moral. Estreante, publicava uma obra<br \/>\nj\u00e1 not\u00e1vel pelas qualidades de esp\u00edrito e composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara a qual o seu prefaciador desenganadamente declarava que lhe n\u00e3o<br \/>\nachava jeito, e a publicava sem apelar desse ju\u00edzo, acaso rigoroso.<br \/>\nFizera teatro n\u00e3o s\u00f3 porque o momento, o de maior florescimento<br \/>\ndo nosso, lho acoro\u00e7oava, mas por confessada ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\njuvenil de ensaiar as for\u00e7as nesse g\u00eanero que o atra\u00eda,<br \/>\ncuidando que nas qualidades para ele se apurariam com o tempo e trabalho.<br \/>\nMas s\u00f3 em 1864, com as Cris\u00e1lidas, \u00e9 que verdadeiramente<br \/>\ncome\u00e7a a sua vida liter\u00e1ria, n\u00e3o mais como tentativa,<br \/>\nsen\u00e3o como atividade nunca descontinuada. Vinte e dous poemas, escritos<br \/>\nentre 1858 e 64, compunham essa cole\u00e7\u00e3o. Distinguiam-se pela<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o menos desbordante que o nosso comum lirismo e por um<br \/>\napuro de forma ins\u00f3lito na nossa poesia. \u00c0 perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom que j\u00e1 manejava o alexandrino, verso ainda mal-aclimado na nossa<br \/>\nl\u00edngua, o pechoso cuidado que punha nos ritmos e rimas dos seus, para<br \/>\nos fazer menos triviais e mais tersos sem perda da sonoridade, juntava-se<br \/>\no polido da l\u00edngua e o escolhido da frase po\u00e9tica: Aspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque \u00e9 de 1862, mormente Versos \u00e0 Corina, de 1864, documentam<br \/>\neste ju\u00edzo. Tanto pelo valor do sentimento como da sua express\u00e3o,<br \/>\neste \u00faltimo \u00e9 uma das mais belas amostras do nosso lirismo.<br \/>\nComo as obras verdadeiramente cl\u00e1ssicas, isto \u00e9, que n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o de ocasi\u00e3o ou de moda, t\u00e3o vivo e novo hoje como<br \/>\n\u00e0 data da sua composi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 quase meio s\u00e9culo.<br \/>\nEstava-se ainda em pleno vi\u00e7o do subjetivismo e do sentimentalismo<br \/>\npo\u00e9tico de \u00c1lvares de Azevedo e dos seus companheiros de gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\npoesia de descren\u00e7a e desconsolo, de desengano e tristeza, dominada<br \/>\npela id\u00e9ia da morte. De todos esses poetas eram os versos, como dos<br \/>\nseus dizia exatamente aquele, flores da sua alma, &#8220;murchas flores que<br \/>\ns\u00f3 orvalha o pranto&#8221;. Machado de Assis, que, pela mesquinha condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que viera ao mundo, n\u00e3o devia ter sofrido e lutado menos do que<br \/>\neles, tem desde ent\u00e3o o altivo pudor de n\u00e3o p\u00f4r a sua<br \/>\nalma em p\u00fablico, de n\u00e3o fazer estendal da sua desgra\u00e7a.<br \/>\nA musa \u00e9 para ele a &#8220;consoladora em cujo seio amigo e sossegado<br \/>\nrespira o poeta o suave sono, quando a m\u00e3o do tempo e o h\u00e1lito<br \/>\ndos homens lhe tenham murchado a flor das ilus\u00f5es e da vida&#8221;.<br \/>\nEste sentimento revigora-se no Prel\u00fadio das Falenas, a sua segunda<br \/>\nedi\u00e7\u00e3o das poesias:<\/p>\n<p>O poeta \u00e9 assim: tem, para a dor e o t\u00e9dio,<\/p>\n<p>Um ref\u00fagio tranq\u00fcilo, um suave rem\u00e9dio:<\/p>\n<p>\u00c9s tu, casta poesia, \u00f3 terra pura e santa!<\/p>\n<p>Quando a alma padece, a lira exorta e canta;<\/p>\n<p>E a musa que, sorrindo, os seus b\u00e1lsamos verte,<\/p>\n<p>Cada l\u00e1grima nossa em p\u00e9rola converte.<\/p>\n<p>N\u00e3o era das falazes costumeiras profiss\u00f5es de f\u00e9 de<br \/>\npoetas. Toda a sua vida liter\u00e1ria, de um t\u00e3o alevantado e peregrino<br \/>\nno decoro, a confirma.<\/p>\n<p>V\u00e1rios s\u00e3o os motivos de inspira\u00e7\u00e3o nas Cris\u00e1lidas<br \/>\ndesde as mais intensas emo\u00e7\u00f5es de poeta amoroso ou antes preocupado<br \/>\nj\u00e1, como nenhum outro aqui, do eterno feminino, e rasgos de pensamento<br \/>\nque nos formosos tercetos de No Limiar, como nos belos alexandrinos de Aspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\npressagiam o poeta perfeito das Ocidentais, at\u00e9 os temas subjetivos<br \/>\nsentidamente idealizados do Epit\u00e1fio do M\u00e9xico, de Pol\u00f4nia,<br \/>\nde Monte Alverne. Mas nem naqueles havia o comum excesso de sentimentalismo,<br \/>\nnem nestes algum exagero de idealismo, e uns e outros vinham estremes da mol\u00e9stia<br \/>\nconstitucional da nossa poesia, a orat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Trazem certamente o cunho do tempo, por\u00e9m com tal medida e acerto<br \/>\nque, no seu encantador lirismo, muito nosso, nos s\u00e3o contempor\u00e2neos.<br \/>\n\u00c9 dos poucos de ent\u00e3o que n\u00e3o envelheceram, isto \u00e9,<br \/>\nque n\u00e3o precisam que nos ponhamos no diapas\u00e3o do seu tempo para<br \/>\nos sentirmos e estimarmos. Digam-no estas estrofes de Visio, que s\u00e3o<br \/>\nde 64:<\/p>\n<p>Eras p\u00e1lida. E os cabelos,<\/p>\n<p>A\u00e9reos, soltos novelos,<\/p>\n<p>Sobre as esp\u00e1duas* ca\u00edam&#8230;<\/p>\n<p>Os olhos meio cerrados<\/p>\n<p>De vol\u00fapia e de ternura<\/p>\n<p>Entre l\u00e1grimas luziam&#8230;<\/p>\n<p>E os bra\u00e7os entrela\u00e7ados,<\/p>\n<p>Como cingindo a ventura,<\/p>\n<p>Ao teu seio me cingiam&#8230;<\/p>\n<p>Depois, naquele del\u00edrio,<\/p>\n<p>Suave, doce mart\u00edrio<\/p>\n<p>De pouqu\u00edssimos instantes,<\/p>\n<p>Os teus l\u00e1bios sequiosos,<\/p>\n<p>Frios, tr\u00eamulos, trocavam<\/p>\n<p>Os beijos mais delirantes,<\/p>\n<p>E no supremo dos gozos<\/p>\n<p>Antes os anjos se casavam<\/p>\n<p>Nossas almas palpitantes&#8230;<\/p>\n<p>Depois&#8230; depois a verdade,<\/p>\n<p>A fria realidade,<\/p>\n<p>A solid\u00e3o, a tristeza;<\/p>\n<p>Daquele sonho desperto,<\/p>\n<p>Olhei&#8230; sil\u00eancio de morte<\/p>\n<p>Respirava a natureza, \u2014<\/p>\n<p>Era a terra, era o deserto,<\/p>\n<p>Fora-se o doce transporte,<\/p>\n<p>Restava a fria certeza.<\/p>\n<p>Desfizera-se a mentira:<\/p>\n<p>Tudo aos meus olhos fugira;<\/p>\n<p>Tu e o teu olhar ardente,<\/p>\n<p>L\u00e1bios tr\u00eamulos e frios,<\/p>\n<p>O abra\u00e7o longo e apertado,<\/p>\n<p>O beijo doce e veemente;<\/p>\n<p>Restavam meus desvarios,<\/p>\n<p>E o incessante cuidado,<\/p>\n<p>E a fantasia doente.<\/p>\n<p>E agora te vejo. E fria<\/p>\n<p>T\u00e3o outra est\u00e1s da que eu via<\/p>\n<p>Naquele sonho encantado!<\/p>\n<p>\u00c9s outra, calma, discreta,<\/p>\n<p>Com o olhar indiferente,<\/p>\n<p>T\u00e3o outro o olhar sonhado,<\/p>\n<p>Que a minha alma de poeta<\/p>\n<p>N\u00e3o ver se a imagem presente<\/p>\n<p>Foi a vis\u00e3o do passado.<\/p>\n<p>Foi, sim, mas vis\u00e3o apenas;<\/p>\n<p>Daquelas vis\u00f5es amenas<\/p>\n<p>Que \u00e0 mente dos infelizes<\/p>\n<p>Descem vivas e animadas,<\/p>\n<p>Cheias de luz e esperan\u00e7a<\/p>\n<p>E de celestes matizes:<\/p>\n<p>Mas, apenas dissipadas,<\/p>\n<p>Fica uma leve lembran\u00e7a,<\/p>\n<p>N\u00e3o ficam outras ra\u00edzes.<\/p>\n<p>Inda assim, embora sonho,<\/p>\n<p>Mas, sonho doce e risonho,<\/p>\n<p>Desse-me Deus que fingida<\/p>\n<p>Tivesse aquela ventura<\/p>\n<p>Noite por noite, hora a hora,<\/p>\n<p>No que me resta de vida,<\/p>\n<p>Que, j\u00e1 livre da amargura,<\/p>\n<p>Alma, que em dores me chora,<\/p>\n<p>Chorara de agradecida!<\/p>\n<p>H\u00e1 neles certamente o toque do tempo, e algo de garrettiano, mas tamb\u00e9m<br \/>\numa alma de verdadeiro poeta, que sobrevive \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Atividade po\u00e9tica de Machado de Assis se continuou com as Falenas<br \/>\nem 1869, as Americanas em 1875 e as Ocidentais em 1902. Quer em verso, quer<br \/>\nem prosa, a sua produ\u00e7\u00e3o \u2014 outra singularidade deste singular<br \/>\nescritor \u2014 sem ser nunca de improviso ou apressada, \u00e9 cont\u00ednua,<br \/>\nsempre trabalhada e aperfei\u00e7oada. Modesto por \u00edndole e por civilidade,<br \/>\nt\u00edmido de temperamento, mod\u00e9stia e timidez que encobriam grande<br \/>\nenergia moral e \u00edntima consci\u00eancia de sua capacidade, Machado<br \/>\nde Assis, estranho a toda a petul\u00e2ncia da juventude, estuda, observa,<br \/>\nmedita, l\u00ea e rel\u00ea os cl\u00e1ssicos da l\u00edngua e as obras-primas<br \/>\ndas principais literaturas. Ao contr\u00e1rio de alguns not\u00e1veis<br \/>\nescritores nossos que come\u00e7aram pelas suas melhores obras e como que<br \/>\nnelas se esgotaram, tem Machado de Assis uma marcha ascendente. Cada obra<br \/>\nsua \u00e9 um progresso sobre a anterior. Ou de pr\u00f3pria intui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu claro g\u00eanio, ou por influ\u00eancia do particular meio liter\u00e1rio<br \/>\nem que se achou, fosse porque fosse, foi ele um dos raros sen\u00e3o o \u00fanico<br \/>\nescritor brasileiro do seu tempo que voluntariamente se entregou ao estudo<br \/>\nda l\u00edngua pela leitura atenta dos seus melhores modelos. Foram seus<br \/>\namigos e companheiros alguns portugueses escritores ou amadores das boas letras,<br \/>\ncomo Jos\u00e9 de Castilho, Em\u00edlio Zaluar, Xavier de Novais, Manuel<br \/>\nde Melo, o esclarecido fil\u00f3logo de cuja casa e rica livraria foi habituado,<br \/>\nReinaldo Montoro, o bibli\u00f3filo Ramos Paz e outros. Nesta roda a l\u00edngua<br \/>\nse teria conservado mais estreme das corrup\u00e7\u00f5es americanas,<br \/>\nseria melhor falada e mais estudada. Considerando-se, por\u00e9m, que outros<br \/>\nbrasileiros que viveram e at\u00e9 se educaram em Portugal, nem por isso<br \/>\nlucraram no seu portugu\u00eas, mais que \u00e0 influ\u00eancia dessa<br \/>\nroda, ao seu \u00edntimo sentimento liter\u00e1rio e \u00e0 sua intui\u00e7\u00e3o<br \/>\nda import\u00e2ncia da express\u00e3o na literatura, deveu Machado de Assis<br \/>\na excel\u00eancia incompar\u00e1vel da sua. Sabia-se por confid\u00eancia<br \/>\nsua que, escasseando-lhe recursos para adquirir os cl\u00e1ssicos, associou-se<br \/>\nno Gabinete Portugu\u00eas de Leitura para os ter consigo e extrat\u00e1-los.<br \/>\nConfirmando esta sua confiss\u00e3o, acharam-se-lhe no esp\u00f3lio liter\u00e1rio<br \/>\nnumerosas notas e extratos dessas leituras. Sobretudo foi o \u00fanico que<br \/>\nsoube ler os cl\u00e1ssicos, mestres dobres e equ\u00edvocos, com discernimento<br \/>\ne fin\u00edssimo tato de escritor nato. N\u00e3o aprendeu deles mais que<br \/>\na propriedade do dizer, o boleio casti\u00e7o da frase, a l\u00eddima<br \/>\nexpress\u00e3o vern\u00e1cula, sem lhes tomar as f\u00f3rmulas b\u00e1rbaras<br \/>\nrepugnantes ao nosso gosto moderno, nem trasladar-lhes indiscretamente para<br \/>\nos seus escritos \u2014 como impertinentemente fizeram Camilo Castelo Branco<br \/>\ne Castilho \u2014 o vocabul\u00e1rio ou fraseado obsoleto. As Falenas justificam<br \/>\no seu t\u00edtulo simb\u00f3lico, nelas se desenvolvem as qualidades j\u00e1<br \/>\nmanifestadas nas Cris\u00e1lidas, notadamente as da forma po\u00e9tica,<br \/>\nm\u00e9trica, l\u00edngua, estilo, esquisito dom de express\u00e3o,<br \/>\nem que geralmente sobrelevam a poesia do tempo. Vinte anos antes do parnasianismo<br \/>\ntinham j\u00e1 rasgos deste no s\u00f3brio e requintado da emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nno menor individualismo do poeta, que, ao contr\u00e1rio dos \u00faltimos<br \/>\nrom\u00e2nticos, seus contempor\u00e2neos, se escondia e se esquivava. Os<br \/>\ntemas pura ou demasiadamente subjetivos, as confiss\u00f5es impudentes do<br \/>\nmais rec\u00f4ndito da sua alma, t\u00e3o do gosto deles, cediam o passo<br \/>\na temas mais gerais, menos pessoais ou, quando o eram, tratados mais discretamente,<br \/>\ncom mais refinada sensibilidade. Algumas pe\u00e7as desta cole\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo as da Lira chinesa e Uma ode de Anacreonte, poemeto dram\u00e1tico<br \/>\nem que finura da imagina\u00e7\u00e3o pede me\u00e7as \u00e0 rara<br \/>\nformosura de express\u00e3o, descobrem um poeta em toda a for\u00e7a do<br \/>\nseu talento. Musset e Lamartine, e tamb\u00e9m Andr\u00e9 Chenier, e mais<br \/>\nAnt\u00f4nio de Castilho e Garrett, s\u00e3o ent\u00e3o os seus principais<br \/>\nmestres de po\u00e9tica. Nenhum, por\u00e9m, com tal prest\u00edgio<br \/>\nque lhe ofusque a originalidade pr\u00f3pria. Outros mestres seus, dous<br \/>\npoetas nossos por quem era grande a sua admira\u00e7\u00e3o, foram Bas\u00edlio<br \/>\nda Gama e Gon\u00e7alves Dias. Este, n\u00e3o obstante a diferen\u00e7a<br \/>\ndos seus g\u00eanios, o impressionou grandemente. Porventura a essa impress\u00e3o<br \/>\ndevemos atribuir a inspira\u00e7\u00e3o das Americanas, que, com o Evangelho<br \/>\ndas selvas, de Fagundes Varela, do mesmo ano, s\u00e3o a derradeira manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\napreci\u00e1vel do indianismo da nossa poesia.<\/p>\n<p>Escritor desde os seus princ\u00edpios consciente e reflexivo, que nunca<br \/>\nse deixou arrastar pelas modas liter\u00e1rias, e menos correu ap\u00f3s<br \/>\na voga do dia, Machado de Assis, ainda cedendo \u00e0 influ\u00eancia da<br \/>\ninspira\u00e7\u00e3o americana, f\u00ea-lo com t\u00e3o discreto sentimento<br \/>\ne em forma t\u00e3o pessoal e t\u00e3o nova, que o seu indianismo, certamente<br \/>\ninferior ao de Gon\u00e7alves Dias como emo\u00e7\u00e3o e express\u00e3o<br \/>\ntocante, tem um sainete particular e uma generalidade maior, o que acaso lhe<br \/>\nassegura um melhor futuro. &#8220;Algum tempo, escreveu ele na &#8220;advert\u00eancia&#8221;<br \/>\ndas Americanas explicando o seu novo livro, foi de opini\u00e3o que a poesia<br \/>\nbrasileira devia estar toda, ou quase toda, no elemento ind\u00edgena. Veio<br \/>\na rea\u00e7\u00e3o, e advers\u00e1rios n\u00e3o menos competentes<br \/>\nque sinceros, absolutamente o exclu\u00edram do programa da literatura nacional.<br \/>\nS\u00e3o opini\u00f5es extremas que, pelo menos, me parecem discut\u00edveis.&#8221;<br \/>\nE n\u00e3o as querendo discutir, limita-se a esta observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque dirimia definitivamente a quest\u00e3o, se, como me parece certo, o<br \/>\ns\u00f3 crit\u00e9rio da obra d\u2019arte \u00e9 o talento com que<br \/>\n\u00e9 realizada: &#8220;Direi somente que, em meu entender, tudo pertence<br \/>\n\u00e0 inven\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, uma vez que traga os caracteres<br \/>\ndo belo e possa satisfazer as condi\u00e7\u00f5es da arte. Ora, a \u00edndole<br \/>\ndos costumes dos nossos abor\u00edgines est\u00e3o muita vez neste caso;<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 preciso mais para que o poeta lhes d\u00ea a vida da<br \/>\ninspira\u00e7\u00e3o. A generosidade, a const\u00e2ncia, o valor, a piedada,<br \/>\nh\u00e3o de ser sempre elementos da arte, ou brilhem nas margens do Scamandro<br \/>\nou nas do Tocantins. O exterior muda: o capacete de Ajax \u00e9 mais cl\u00e1ssico<br \/>\ne polido que o canitar de Itajuba; a sand\u00e1lia de Calipso \u00e9 um<br \/>\nprimor de arte que n\u00e3o achamos na planta nua de Lind\u00f3ia. Esta<br \/>\n\u00e9, por\u00e9m, a parte inferior da poesia, a parte acess\u00f3ria.<br \/>\nO essencial \u00e9 a alma do homem.&#8221;<\/p>\n<p>Este final compendia a est\u00e9tica de Machado de Assis. Poeta ou prosador,<br \/>\nele se n\u00e3o preocupa sen\u00e3o da alma humana. Entre os nossos escritores,<br \/>\ntodos mais ou menos atentos ao pitoresco, aos aspectos exteriores das cousas,<br \/>\ntodos principalmente descritivos ou emotivos, e muitos resumindo na descri\u00e7\u00e3o<br \/>\ntoda a sua arte, s\u00f3 por isso secund\u00e1ria, apenas ele vai al\u00e9m<br \/>\ne mais fundo, procurando, sob as apar\u00eancias de f\u00e1cil contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\ne igualmente f\u00e1cil relato, descobrir a mesma ess\u00eancia das cousas.<br \/>\n\u00c9 outra das suas distin\u00e7\u00f5es e talvez a mais relevante.<\/p>\n<p>Da impress\u00e3o que o indianismo havia feito na nossa mente, d\u00e1<br \/>\ntestemunho o fato deste mesmo arguto e desabusado esp\u00edrito ter-se ainda<br \/>\ndeixado enganar por ele, e lhe haver tamb\u00e9m sacrificado. Mas ainda<br \/>\nassim o seu sentimento n\u00e3o \u00e9 o mesmo de Gon\u00e7alves Dias<br \/>\nou de Alencar. Tinha Machado de Assis mais esp\u00edrito cr\u00edtico<br \/>\nque estes e menos sentimento rom\u00e2ntico, e era de todo estranho a quaisquer<br \/>\ninflu\u00eancias ancestrais ou mesol\u00f3gicas que porventura atuaram<br \/>\nnos dous, para que ca\u00edsse completamente no engano do indianismo, como<br \/>\nainda sucedeu a Varela. Dos costumes, figuras, manhas e fei\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo \u00edndio e da sua vida que p\u00f5e em poema, procura sobretudo descobrir<br \/>\na ess\u00eancia sob as exterioridades ex\u00f3ticas, e por ela revelar-lhe<br \/>\na alma. Ainda assim esta por\u00e7\u00e3o da sua obra \u00e9 a menos<br \/>\nestim\u00e1vel. Releva-a, por\u00e9m, a sua interpreta\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica dos temas e a formosura da express\u00e3o, nele singular.<br \/>\nDous ao menos desses poemas, e justamente aqueles que mais se afastam da f\u00f3rmula<br \/>\nindianista, nos quais a trivial descri\u00e7\u00e3o ou exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde feitos e gestos indianos \u00e9 substitu\u00edda pela sua interpreta\u00e7\u00e3o<br \/>\npsicol\u00f3gica, Niani e \u00faltima jornada, s\u00e3o de superior<br \/>\nbeleza po\u00e9tica e de rara feitura art\u00edstica.<\/p>\n<p>As Ocidentais, publicadas na edi\u00e7\u00e3o das suas Poesias completas<br \/>\n(1901), rev\u00eaem a influ\u00eancia em Machado de Assis do modernismo,<br \/>\ndo qual, desde o seu citado artigo sobre a nova gera\u00e7\u00e3o de poetas<br \/>\nque se estrearam depois de 1870, ele dera t\u00e3o exata defini\u00e7\u00e3o.<br \/>\nS\u00e3o, infelizmente, poucos os poemas cuja inspira\u00e7\u00e3o vem<br \/>\ndessa nova corrente. O desfecho, C\u00edrculo vicioso, Uma criatura, Mundo<br \/>\ninterior, Suavi Mari Magnum, A mosca azul, No alto, mais os distintos quilates<br \/>\ndessa poesia lhe ressarcem sobradamente a quantidade. Com todas as suas brilhantes<br \/>\ne n\u00e3o raro tocantes qualidades de emo\u00e7\u00e3o, faltou sempre<br \/>\n\u00e0 poesia brasileira profundeza de sentimento. Viva, eloq\u00fcente<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 fac\u00fandia, exuberante, colorida e vistosa, carece<br \/>\npor via de regra de intensidade na sensa\u00e7\u00e3o e de sobriedade<br \/>\nna express\u00e3o. N\u00e3o quero dizer que estas virtudes lhe faltem<br \/>\nde todo, mas apenas que n\u00e3o s\u00e3o propriamente as suas. Machado<br \/>\nde Assis \u00e9 um dos poucos poetas nossos que as teve, e distintamente,<br \/>\ne as manifestou, como j\u00e1 ficou notado, desde a sua estr\u00e9ia.<br \/>\nElas, principalmente sob o aspecto da profundeza, se lhes aperfei\u00e7oaram<br \/>\nnos citados poemas das Ocidentais. \u00c9 ainda que a\u00ed ele n\u00e3o<br \/>\ncedeu \u00e0 moda do momento, nem acompanhou inconsideradamente, como fizeram<br \/>\ntantos outros, a onda modernista. Apenas desenvolveu-se no sentido dela, que<br \/>\nera o mesmo sentido que trazia o seu pensamento, o do ceticismo sem desespero<br \/>\ne do pessimismo benevolente, ambos de raiz. Mais que sinais, amostras de ambos<br \/>\nencontram-se j\u00e1 nas suas cole\u00e7\u00f5es anteriores. O que,<br \/>\ndistin\u00e7\u00e3o rar\u00edssima, acaso \u00fanica, se n\u00e3o<br \/>\nencontra em nenhum destes poemas \u00e9 a indiscreta transplanta\u00e7\u00e3o<br \/>\npara a poesia de cousas cient\u00edficas ou filos\u00f3ficas ou algo da<br \/>\nrespectiva g\u00edria. Tudo nele, como no verdadeiro poeta, se faz sentimento<br \/>\ne sensa\u00e7\u00e3o e como tal se exprime, e em forma que \u00e9, sem<br \/>\no rebuscado do Parnasianismo, porventura a mais perfeita alcan\u00e7ada<br \/>\npela nossa poesia.<\/p>\n<p>Poeta dos mais importantes da literatura brasileira, \u00e9 Machado de<br \/>\nAssis o mais insigne dos seus prosadores e, no dom\u00ednio que lhe \u00e9<br \/>\npr\u00f3prio, a fic\u00e7\u00e3o romanesca, o maior dos nossos escritores.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 somente um escritor vern\u00e1culo, numeroso, disserto<br \/>\ne elegant\u00edssimo. \u00c0s qualidades de express\u00e3o que possui<br \/>\ncomo nenhum outro, junta as de pensamento, uma filosofia pessoal e virtudes<br \/>\nliter\u00e1ria muito particulares, que fazem dele um cl\u00e1ssico, no<br \/>\nmais nobre sentido da palavra, \u2014 o \u00fanico talvez da nossa literatura.<\/p>\n<p>Como prosador compreende a sua obra, al\u00e9m de numerosos livros de conto,<br \/>\nromances, teatro, cr\u00edtica e cr\u00f4nicas jornal\u00edsticas. Do<br \/>\nconto foi ele, se n\u00e3o o iniciador, um dos primeiros cultores e porventura<br \/>\no primacial escritor na l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Efetivamente ningu\u00e9m jamais nesta contou com t\u00e3o leve gra\u00e7a,<br \/>\nt\u00e3o fino esp\u00edrito, tamanha naturalidade, t\u00e3o f\u00e9rtil<br \/>\ne graciosa imagina\u00e7\u00e3o, psicologia t\u00e3o arguta, maneira<br \/>\nt\u00e3o interessante e express\u00e3o t\u00e3o cabal, historietas,<br \/>\ncasos, anedotas de pura fantasia ou de perfeita verossimilhan\u00e7a, tudo<br \/>\nrecoberto e real\u00e7ado de emo\u00e7\u00e3o muito particular, que<br \/>\nvaria entre amarga e prazenteira, mas infalivelmente discreta. Hist\u00f3rias<br \/>\nde amor, estados d\u2019alma, rasgos de costumes, tipos, fic\u00e7\u00f5es<br \/>\nda hist\u00f3ria ou da vida, casos de consci\u00eancia, caracteres, gente<br \/>\ne h\u00e1bitos de toda a casta, fei\u00e7\u00f5es do nosso viver, nossos<br \/>\nmais \u00edntimos sentimentos e mais peculiares idiossincrasias, acha-se<br \/>\ntudo superior e excelentemente representado, por um milagre de transposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nart\u00edstica, nos seus contos. E sem vest\u00edgio de esfor\u00e7o,<br \/>\nnaturalmente, num estilo maravilhoso de vernaculidade, de precis\u00e3o,<br \/>\nde eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p>No romance estreou Machado de Assis, em 1872, com o j\u00e1 citado Ressurrei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA grande novidade deste romance era n\u00e3o ser sen\u00e3o o primeiro<br \/>\nde an\u00e1lise de caracteres e temperamentos, o primeiro ao menos que com<br \/>\neste s\u00f3 prop\u00f3sito aqui se escrevia. N\u00e3o trazia vislumbre<br \/>\nde intencional brasileirismo vigente. Ao inv\u00e9s declaradamente apontava<br \/>\na outra cousa que o romance de costumes. O interesse do livro era deliberadamente<br \/>\nprocurado no &#8220;esbo\u00e7o de uma situa\u00e7\u00e3o e no contraste<br \/>\nde dois caracteres&#8221;. Alencar com Cinco minutos, A viuvinha (1856), ali\u00e1s<br \/>\nsimples novelas, Luc\u00edola (1862) e Diva (1864), e o mesmo Manoel de<br \/>\nAlmeida com o Sargento de mil\u00edcias (1857) podem em rigor cronol\u00f3gico<br \/>\nser considerados os precursores do nosso romance da vida urbana ou mundana,<br \/>\nda pintura de caracteres e situa\u00e7\u00f5es e que estes se encontram<br \/>\ne definem, ou mesmo do romance que ao tempo ainda se chamava de fisiol\u00f3gico<br \/>\ne que depois se chamaria de psicol\u00f3gico. Mas o seu criador, pela arte<br \/>\nconsciente e engenho com que j\u00e1 o fez em Ressurrei\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne o ensaiara com bom sucesso nos contos e novelas que precederam este livro,<br \/>\nfoi Machado de Assis. Neste mesmo romance, como naquelas fic\u00e7\u00f5es<br \/>\nmenores, embora refugissem ao particularismo nativista, havia j\u00e1 uma<br \/>\nnota\u00e7\u00e3o exata, ou antes uma clara intui\u00e7\u00e3o das<br \/>\nnossas \u00edntimas peculiaridades nacionais. O sempre progressivo exerc\u00edcio<br \/>\ndesta faculdade de an\u00e1lise do ambiente, estreme das suas f\u00e1ceis<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00f5es pitorescas, fariam de Machado de Assis n\u00e3o<br \/>\nobstante o seu desprendimento do brasileirismo, qual o entendiam aqui, porventura<br \/>\no mais intimamente nacional dos nossos romancistas, se n\u00e3o procurarmos<br \/>\no nacionalismo somente nas exterioridades pitorescas da vida ou nos tra\u00e7os<br \/>\nmais not\u00f3rios do indiv\u00edduo ou do meio. Como o que sobretudo<br \/>\nlhe interessa \u00e9 a alma das cousas e dos homens, \u00e9 ela que ele<br \/>\nprocura exprimir e que geralmente exprime com insigne engenho e arte. Ainda<br \/>\nem algum tipo, epis\u00f3dio, ou cena de pura fantasia, nunca a fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Machado de Assis afronta o nosso senso da \u00edntima realidade. Assim,<br \/>\npor exemplo, nesse conto magn\u00edfico O Alienista ou nessoutra j\u00f3ia<br \/>\nConto alexandrino, como na admir\u00e1vel inven\u00e7\u00e3o de Br\u00e1s<br \/>\nCubas, e todas as vezes que a sua rica imagina\u00e7\u00e3o se deu largas<br \/>\npara fora da realidade vulgar, sob os artif\u00edcios e os mesmos desmandos<br \/>\nda fantasia, sentimos a verdade essencial e profunda das cousas, poder\u00edamos<br \/>\nchamar-lhe um realista superior, se em literatura o realismo n\u00e3o tivesse<br \/>\nsentido definido.<\/p>\n<p>Havia entretanto no primeiro romance de Machado de Assis e ainda mais talvez<br \/>\nnos que mais de perto o seguiram, A m\u00e3o e a luva (1874), Helena (1876),<br \/>\nvis\u00edveis ressaibos de romantismo sen\u00e3o do Romantismo. Temperava-os,<br \/>\npor\u00e9m, j\u00e1, diluindo-os num sabor mais pessoal e menos de escola,<br \/>\ne sua nativa ironia e a sua desabusada vis\u00e3o das cousas, que o forravam<br \/>\nao romanesco, \u00e0 sentimentalidade amaneirada que tanto viciou e desluziu<br \/>\na nossa fic\u00e7\u00e3o. E, mais dons de express\u00e3o em que ficou<br \/>\nat\u00e9 agora \u00fanico e que, sob este aspecto ao menos, o sobrelevam<br \/>\na todos os nossos escritores, e, n\u00e3o receio diz\u00ea-lo, ainda aos<br \/>\nportugueses seus contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Em 1881, com as Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas atingia<br \/>\nMachado de Assis o apogeu do seu engenho liter\u00e1rio, num romance de<br \/>\nrara originalidade, uma obra, a despeito do seu tom ligeiro de fantasia humor\u00edstica,<br \/>\nfundamente meditada e fortemente travada em todas as suas partes, porventura<br \/>\na mais excelente que a nossa imagina\u00e7\u00e3o j\u00e1 produziu.<br \/>\nAs Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas s\u00e3o a epop\u00e9ia<br \/>\nda irremedi\u00e1vel tolice humana, a s\u00e1tira da nossa incur\u00e1vel<br \/>\nilus\u00e3o, feita por um defunto completamente desenganado de tudo. Desde<br \/>\na sua cova conta-nos Br\u00e1s Cubas, numa l\u00edngua primorosa de simplicidade,<br \/>\na sua vida do nascimento \u00e0 morte, a sua fam\u00edlia, a sua educa\u00e7\u00e3o,<br \/>\no seu meio, os seus primeiros namoros de rapaz e amores de homem, as suas<br \/>\nambi\u00e7\u00f5es, os seus amores adulterinos com certa Virg\u00edlia,<br \/>\nenfim, quanto na vida sequer um momento o interessou ou ocupou de modo a impressionar-lhe<br \/>\na mem\u00f3ria e o entendimento. E s\u00f3 estas faculdades se deixaram<br \/>\nnele tocar por tais sucessos. Viu Br\u00e1s Cubas, ainda pressentiu a vaidade<br \/>\nde tudo, e como ao cabo todas as cousas s\u00e3o naturais, necess\u00e1rias,<br \/>\ndeterminadas por um conjunto de condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nessencialmente nem boas, nem m\u00e1s, e pelas quais \u00e9 s\u00e1bio<br \/>\nn\u00e3o nos abalarmos, n\u00e3o se deixou jamais comover. No fundo de<br \/>\ntudo h\u00e1 sempre um todo nada de rid\u00edculo, de com\u00e9dia,<br \/>\nde falsidade, de fingimento, de c\u00e1lculo. Tolo \u00e9 quem se deixa<br \/>\nenganar com as apar\u00eancias, &#8220;empulhar&#8221;, segundo o verbo muito<br \/>\ndo gosto de escritor. Mas a humanidade, a sociedade, \u00e9 assim feita<br \/>\ne n\u00e3o h\u00e1 revoltar-nos contra ela e menos quer\u00ea-la outra.<br \/>\nA vida \u00e9 boa, mas com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o a tomarmos<br \/>\nmuito a s\u00e9rio. Tal \u00e9 a filosofia de Br\u00e1s Cubas, decididamente<br \/>\nhomem de muit\u00edssimo esp\u00edrito. Ele viveu quanto pode, segundo<br \/>\neste seu pensar, e se com o seu pessimismo conformado e indulgente n\u00e3o<br \/>\nse achou logrado &#8220;ao chegar ao outro lado do mist\u00e9rio&#8221;, foi<br \/>\nporque verificou um pequeno saldo no balan\u00e7o final da sua exist\u00eancia.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o tive filhos, \u2014 escreveu na \u00faltima p\u00e1gina<br \/>\ndas suas Mem\u00f3rias, \u2014 n\u00e3o transmiti a nenhuma criatura<br \/>\no legado da nossa mis\u00e9ria.&#8221;<\/p>\n<p>Desta arriscada repeti\u00e7\u00e3o do velho tema da vaidade de tudo<br \/>\ne do engano da vida, a que o Eclesiaste b\u00edblico deu a consagra\u00e7\u00e3o<br \/>\nalgumas vezes secular, saiu-se galhardamente Machado de Assis. Transportando-o<br \/>\npara o nosso meio, incorporando-o no nosso pensamento, ajustando-o \u00e0s<br \/>\nnossas mais \u00edntimas fei\u00e7\u00f5es, soube renov\u00e1-lo pela<br \/>\naplica\u00e7\u00e3o particular, pelos novos efeitos que dele tirou, pelas<br \/>\nnovas faces que lhe descobriu e express\u00e3o pessoal que lhe deu.<\/p>\n<p>As Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas eram o rompimento<br \/>\nt\u00e1cito, mais completo e definitivo de Machado de Assis, com o Romantismo<br \/>\nsob o qual nascera, crescera e se fizera escritor. Ali\u00e1s conquanto<br \/>\nnecessariamente lhe sofresse a influ\u00eancia, nunca jamais se lhe entregara<br \/>\ntotalmente nem lhe sacrificara o que de pessoal e original havia no seu engenho,<br \/>\ne acharia em Br\u00e1s Cubas a sua cabal express\u00e3o. A sua primeira<br \/>\nobra de contador, Hist\u00f3rias da meia-noite (1869), Contos fluminenses<br \/>\n(1873), com os seus primeiros livros de romancista, o j\u00e1 nomeado Ressurrei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nA m\u00e3o e a luva (1874), Helena (1876), Iai\u00e1 Garcia (1878), traziam<br \/>\nressaibos rom\u00e2nticos, embora atenuados pelo cong\u00eanito pessimismo<br \/>\ne nativa ironia do autor. Ora o Romantismo n\u00e3o comportava nem a ironia<br \/>\nnem o pessimismo, na forma desenganada, risonha e resignada de Machado de<br \/>\nAssis. Mas os contos que sucederam imediatamente \u00e0queles, Pap\u00e9is<br \/>\navulsos (1882), Hist\u00f3rias sem data (1884), V\u00e1rias hist\u00f3rias<br \/>\n(1905), muitos deles anteriores a Br\u00e1s Cubas, trazem j\u00e1 evidente<br \/>\no tom deste. Desde, portanto, os anos de 70, renunciando ao escasso Romantismo<br \/>\nque nele havia, criava-se Machado de Assis uma maneira nova, muito sua, muito<br \/>\nparticular e muito distinta e por igual estreme daquela escola e das novas<br \/>\nmodas liter\u00e1rias. Nessa maneira, particularmente em Br\u00e1s Cubas<br \/>\ne em Quincas Borba (1891), que se lhe seguiu e que a certos respeitos o continua,<br \/>\nvislumbra-se mais do que se percebe, o remoto influxo dos humoristas ingleses,<br \/>\ne antes dos seus processos formais que do fundo, que este \u00e9 de raiz<br \/>\ndo autor. Com a escrupulosa probidade liter\u00e1ria que foi uma das suas<br \/>\nvirtudes, ele pr\u00f3prio o publicou no pref\u00e1cio do primeiro. Em<br \/>\nDom Casmurro (1899), em Esa\u00fa e Jac\u00f3 (1904) e sobretudo em Memorial<br \/>\nde Aires (1908), o seu \u00faltimo livro, desaparecem esses laivos de influ\u00eancia<br \/>\nperegrina. Como correspondessem perfeitamente \u00e0 sua pr\u00f3pria<br \/>\n\u00edndole liter\u00e1ria, transubstanciaram-se-lhe no engenho e estilo.<\/p>\n<p>Com a variedade de temas, de enredos de a\u00e7\u00f5es, de epis\u00f3dios,<br \/>\nque distinguem cada romance de Machado de Assis no conjunto de sua obra, h\u00e1<br \/>\nem todos uma rara unidade de inspira\u00e7\u00e3o, de pensamento e de<br \/>\nexpress\u00e3o. Todos, por\u00e9m, representam, talvez com demasiado prop\u00f3sito,<br \/>\nmas sem excesso de demonstra\u00e7\u00e3o, a tolice e a mal\u00edcia<br \/>\nhumanas. \u00c9 este o tema geral, e ao mesmo tempo o duende, o espantalho<br \/>\ndo escritor. Ele descobriu esses estigmas e os exp\u00f4s sob todas as suas<br \/>\nfaces e modalidades, at\u00e9 ao amor paterno ou na ternura materna, nas<br \/>\na\u00e7\u00f5es mais sublimes e nos atos mais corriqueiros, e n\u00e3o<br \/>\npor um prop\u00f3sito tamb\u00e9m malicioso ou simplesmente liter\u00e1rio,<br \/>\nmas porque os seus olhos de artista \u2014 o que pode ser uma inferioridade<br \/>\nou um defeito \u2014 n\u00e3o os viam sen\u00e3o assim, e a sua \u00edntima<br \/>\nsinceridade lhe n\u00e3o permita modificar a pr\u00f3pria vis\u00e3o<br \/>\npor comprazer com o gosto vulgar. Mas como a sua faculdade mestra \u00e9<br \/>\na imagina\u00e7\u00e3o humor\u00edstica, isto \u00e9, a vis\u00e3o<br \/>\npessimista das cousas, atrav\u00e9s da intelig\u00eancia da sua necessidade<br \/>\ne conting\u00eancia e do sentimento da nossa import\u00e2ncia contra elas,<br \/>\nas viu com risonho desd\u00e9m ou com ir\u00f4nica benevol\u00eancia.<br \/>\nEssa vis\u00e3o ele a tem agud\u00edssima, e a sua an\u00e1lise das<br \/>\nalmas sem alguma presun\u00e7\u00e3o de psicol\u00f3gica, antes desdenhosa<br \/>\ndo ep\u00edteto, tem uma rara percep\u00e7\u00e3o dos seus mais \u00edntimos<br \/>\nsegredos. Dom Casmurro \u00e9 exemplo desta sua superior faculdade de romancista,<br \/>\ncomprovada ali\u00e1s em toda a sua obra. \u00c9 o caso de um homem inteligente,<br \/>\nsem d\u00favida, mas simples, que desde rapazinho se deixa iludir pela mo\u00e7a<br \/>\nque ainda menina amara, que o enfeiti\u00e7ara com a sua faceirice calculada,<br \/>\ncom a sua profunda ci\u00eancia cong\u00eanita de dissimula\u00e7\u00e3o,<br \/>\na quem ele se dera com todo ardor compat\u00edvel com o seu temperamento<br \/>\npacato. Ela o enganara com o seu melhor amigo, tamb\u00e9m um velho amigo<br \/>\nde inf\u00e2ncia, tamb\u00e9m um dissimulado, sem que ele jamais o percebesse<br \/>\nou desconfiasse. Somente o veio a descobrir quando lhe morre num desastre<br \/>\no amigo querido e deplorado. Um olhar lan\u00e7ado pela mulher ao cad\u00e1ver,<br \/>\naquele mesmo olhar que trazia &#8220;n\u00e3o sei que fluido misterioso e<br \/>\nen\u00e9rgico, uma for\u00e7a que arrastava para dentro, como a vaga que<br \/>\nse retira da praia, nos dias de ressaca&#8221;, o mesmo olhar que outrora o<br \/>\narrastara e prendera a ele e que ela agora lan\u00e7a ao morto, lhe revela<br \/>\na infidelidade dos dois. Era imposs\u00edvel em hist\u00f3ria de um adult\u00e9rio<br \/>\nlevar mais longe a arte de apenas insinuar, advertir o fato sem jamais indic\u00e1-lo.<br \/>\nMachado de Assis \u00e9, com a justa dose de sensualismo est\u00e9tico<br \/>\nindispens\u00e1vel, um autor extremamente decente. N\u00e3o por afeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde moralidade, ou por vulgar pudic\u00edcia, mas em respeito da sua arte.<br \/>\nBastava-lhe saber que a obscenidade, a pornografia, seriam um chamariz aos<br \/>\nseus livros, para evitar esse baixo recurso de sucesso, ainda que a fidalguia<br \/>\nnativa dos seus sentimentos n\u00e3o repulsasse tais processos.<\/p>\n<p>Porque este sujeito t\u00edmido, apagado, pequenino, modesto, que parecia<br \/>\ndeslizar na vida com a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o incomodar a<br \/>\nningu\u00e9m, de n\u00e3o ser molesto a pessoa alguma, era, de fato, um<br \/>\nhomem com energias \u00edntimas, caladas, rec\u00f4nditas, mas invenc\u00edveis.<br \/>\nAssim como fazer-se uma posi\u00e7\u00e3o social, nunca transigiu com<br \/>\na sociedade e suas mazelas, tamb\u00e9m nunca, como escritor, condescendeu<br \/>\ncom as modas liter\u00e1rias que n\u00e3o dissessem com o seu temperamento<br \/>\nart\u00edstico, ou seguiu por amor da voga as correntes mais no gosto do<br \/>\np\u00fablico. A este pode afirmar-se que n\u00e3o fez em toda a sua obra<br \/>\na menor concess\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 velho, com sessenta e oito anos, e n\u00e3o foi jamais robusto,<br \/>\nescreveu ainda um livro admir\u00e1vel, o Memorial de Aires, inspirado na<br \/>\nsaudade da esposa e companheira muito amada, j\u00e1 chorada no sublime<br \/>\nsoneto que antepusera \u00e0s Rel\u00edquias de casa velha, o primeiro<br \/>\nque deu \u00e0 luz depois da morte dela. Memorial de Aires \u00e9 talvez<br \/>\no \u00fanico livro comovido, de uma como\u00e7\u00e3o que se n\u00e3o<br \/>\nprocura esconder ou disfar\u00e7ar e de emo\u00e7\u00e3o cordial e n\u00e3o<br \/>\nsomente est\u00e9tica, que escreveu Machado de Assis. Com a peregrina arte<br \/>\nde transposi\u00e7\u00e3o que possu\u00eda e que s\u00f3 revelaria<br \/>\nplenamente a hist\u00f3ria de seus livros, mas que podemos avaliar pelo<br \/>\npouco que dela sabemos, idealizou Machado de Assis, num suave romance contado<br \/>\npor terceiro, um velho diplomata espirituoso e desenganado, o Conselheiro<br \/>\nAires, o seu pal\u00e1cio e feliz viver dom\u00e9stico. N\u00e3o que<br \/>\no indicasse ou sequer o insinuasse. Descobriram-no os que lhe conheceram a<br \/>\nvida, e eram bem poucos, pois nunca se &#8220;derramou&#8221; e odiava os &#8220;derramados&#8221;,<br \/>\nna emo\u00e7\u00e3o nova que discretamente, sobriamente, recatadamente,<br \/>\ncomo que receosa de profanar na publicidade cousas \u00edntimas e sagradas,<br \/>\naparecia nesse delicioso livro, um dos mais tocantes da nossa literatura.<\/p>\n<p>As estr\u00e9ias liter\u00e1rias de Machado de Assis coincidiram com<br \/>\no melhor momento do nosso teatro em toda a evolu\u00e7\u00e3o da nossa<br \/>\nliteratura, entre os anos de 50 e 70, particularmente o dec\u00eanio interm\u00e9dio.<br \/>\nOs melhores dos nossos literatos de ent\u00e3o escreveram para o teatro<br \/>\ne acharam quem os representasse e quem os fosse ouvir, o que nunca mais aconteceu<br \/>\ndepois. A nossa bibliografia teatral dessa \u00e9poca \u00e9 a mais copiosa<br \/>\nde toda a nossa literatura, e havia pelo teatro nacional interesse e curiosidade<br \/>\nque depois desapareceu de todo, com a concorr\u00eancia do teatro estrangeiro<br \/>\nimportado por companhias alien\u00edgenas. A influ\u00eancia do momento<br \/>\ne o gosto que pessoalmente tinha pelo teatro, mais que decidida voca\u00e7\u00e3o,<br \/>\nlevaram Machado de Assis a trat\u00e1-lo.152 Com a segura consci\u00eancia<br \/>\nque do seu pr\u00f3prio engenho tinha, ele pr\u00f3prio mal se iludira<br \/>\nsobre a sua aptid\u00e3o para o teatro. Numa carta-pref\u00e1cio de suas<br \/>\npe\u00e7as publicadas em 1863, O caminho da porta e O protocolo, confessava,<br \/>\npodemos crer que sinceramente: &#8220;Tenho o teatro por cousa muito s\u00e9ria<br \/>\ne as minhas for\u00e7as por cousa insuficiente; penso que as qualidades<br \/>\nnecess\u00e1rias ao autor dram\u00e1tico desenvolvem-se e apuram-se com<br \/>\no tempo e o trabalho&#8230;&#8221; Sem d\u00favida, mas as qualidades, sobretudo<br \/>\nas inferiores, as habilidades do of\u00edcio de autor dram\u00e1tico,<br \/>\na acomoda\u00e7\u00e3o ao gosto p\u00fablico e \u00e0 perspectiva<br \/>\nparticular da rampa, uma por\u00e7\u00e3o de dons somenos, mas essenciais<br \/>\nao bom sucesso na arte inferior que \u00e9 o teatro, faltavam a Machado<br \/>\nde Assis. No teatro nunca pode ele passar de composi\u00e7\u00f5es ligeiras,<br \/>\nao gosto de &#8220;prov\u00e9rbios&#8221; franceses, sainetes, contos porventura<br \/>\nespirituosamente dialogados, algumas encantadoras de gra\u00e7a fina e elegante<br \/>\nestilo, mas sem grande valor teatral. Tais s\u00e3o os Deuses de casaca,<br \/>\ncom\u00e9dia levemente sat\u00edrica da nossa vida social e pol\u00edtica,<br \/>\nem formosos alexandrinos, em que se rev\u00ea a influ\u00eancia de Castilho;<br \/>\nTu, s\u00f3 tu, puro amor, pequena obra-prima, alguma cousa como uma deliciosa<br \/>\nfigurinha de T\u00e2nagra no meio das esculturas de F\u00eddias; N\u00e3o<br \/>\nconsultes m\u00e9dico, sainete digno de Musset. Tudo, por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\npassava de um ano, excelente como literatura amena para deleitar-nos uma hora,<br \/>\nmas sem a a\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a, a emo\u00e7\u00e3o que deve<br \/>\ntrazer a obra teatral. Basta que esta por sua mesma natureza se enderece a<br \/>\numa plat\u00e9ia, que ser\u00e1 sempre em maioria composta de ignaros<br \/>\nou simples, para que lhe n\u00e3o bastem as qualidades propriamente liter\u00e1rias.<\/p>\n<p>Como cr\u00edtico, Machado de Assis foi sobretudo impressionista. Mas um<br \/>\nimpressionista que, al\u00e9m da cultura e do bom gosto liter\u00e1rio<br \/>\ninato e desenvolvido por ela, tinha peregrinos dons de psic\u00f3logo e<br \/>\nrara sensibilidade est\u00e9tica. Conhecimento do melhor das literaturas<br \/>\nmodernas, intelig\u00eancia perspicaz desabusada de modas liter\u00e1rias<br \/>\ne hostil a todo pedantismo e dogmatismo, comprazia-lhe principalmente na cr\u00edtica<br \/>\na an\u00e1lise da obra liter\u00e1ria segundo a impress\u00e3o desta<br \/>\nrecebida. Nessa an\u00e1lise revelava-se-lhe a rara finura e o apurado gosto.<br \/>\nQue n\u00e3o era incapaz de outra esp\u00e9cie de cr\u00edtica em que<br \/>\nentrasse o estudo das condi\u00e7\u00f5es mesol\u00f3gicas em que se<br \/>\nproduziu a obra liter\u00e1ria, deu mais de uma prova. Com o fino tato liter\u00e1rio<br \/>\ne reflexivo ju\u00edzo, que o assinalam entre os nossos escritores, no ensaio<br \/>\ncr\u00edtico atr\u00e1s citado sobre o Instituto da nacionalidade, na<br \/>\nnossa literatura ajuizou com acerto, embora com a benevol\u00eancia que as<br \/>\nmesmas condi\u00e7\u00f5es da sua vida liter\u00e1ria lhe impunham,<br \/>\nos seus fundadores e apontou com seguran\u00e7a os pontos fracos ou duvidosos<br \/>\nde certos conceitos liter\u00e1rios aqui vigentes, emendando o que neles<br \/>\nlhe parecia errado e aventando opini\u00f5es que ent\u00e3o, em 1873,<br \/>\neram de todo novas. Ningu\u00e9m, nem antes nem depois, estabeleceu mais<br \/>\nexata e mais simplesmente a quest\u00e3o do indigenismo da nossa literatura,<br \/>\nnem disse cousas mais justas do indianismo e da sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em suma Machado de Assis, sem ter feito of\u00edcio de cr\u00edtico,<br \/>\n\u00e9 como tal um dos mais capazes e mais sinceros que temos tido. Respeitador<br \/>\ndo trabalho alheio, como todo o trabalhador honesto, mas sem confundir esse<br \/>\nrespeito com a condescend\u00eancia camaradeira, estreme de animosidades<br \/>\npessoais ou de emula\u00e7\u00f5es profissionais, com o m\u00ednimo<br \/>\ndos infal\u00edveis preconceitos liter\u00e1rios ou com a for\u00e7a<br \/>\nde os dominar, desconfiado de sistemas e assertos categ\u00f3ricos, suficientemente<br \/>\ninstru\u00eddo nas cousas liter\u00e1rias e uma vis\u00e3o pr\u00f3pria,<br \/>\ntalvez demasiadamente pessoal, mas por isso mesmo interessante da vida, ningu\u00e9m<br \/>\nmais do que ele podia ter sido o cr\u00edtico cuja falta lastimou como um<br \/>\ndos maiores males da nossa literatura. Em compensa\u00e7\u00e3o deixou-lhe<br \/>\num incompar\u00e1vel modelo numa obra de cria\u00e7\u00e3o que ficar\u00e1<br \/>\ncomo o mais perfeito exemplar do nosso engenho nesse dom\u00ednio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X&nbsp; Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX&nbsp; &nbsp; Jos\u00e9 Ver\u00edssimo Introdu\u00e7\u00e3o A LITERATURA QUE 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