{"id":107720,"date":"2017-02-08T11:51:53","date_gmt":"2017-02-08T13:51:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=107720"},"modified":"2017-02-08T11:52:11","modified_gmt":"2017-02-08T13:52:11","slug":"motta-coqueiro-ou-pena-de-morte-resumo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/motta-coqueiro-ou-pena-de-morte-resumo","title":{"rendered":"Motta Coqueiro ou Pena de Morte (Resumo)"},"content":{"rendered":"<p>Maca\u00e9, pequena cidade do litoral da prov\u00edncia do Rio de Janeiro, n\u00e3o conhece a vida ativa e estrepitosa das grandes cidades populosas.<\/p>\n<p>Olhando ao longe o oceano que vem, \u00e0s vezes acovardado e murmurando apenas, \u00e0s vezes espumando e bramindo estender-se ou arremessar-se na praia donde ela surge, o aspecto da cidade e o do oceano contrastam singularmente.<\/p>\n<p>\u00c9 que enfrentam o movimento das vagas, quase sempre brusco e violento, e a mais tranq\u00fcila quieta\u00e7\u00e3o; o ru\u00eddo que por horas de tempestade assoberba-se, avoluma-se e prorrompe em escarc\u00e9us medonhos, e o sil\u00eancio que de cont\u00ednuo reina nas ruas e pra\u00e7as pouco transitadas.<\/p>\n<p>Para ligar a vida da cidade e a do oceano s\u00f3 h\u00e1 os navios ancorados, que ficam silenciosos, oscilando ao tom das ondas, de maneira que os seus extensos mastros como que fingem pontes movedi\u00e7as interpostas a ambos.<\/p>\n<p>No dia 26 de agosto de 1855 dir-se-ia que uma inesperada mudan\u00e7a se havia efetuado, trocando-se repentinamente os pap\u00e9is entre si.<\/p>\n<p>Ao passo que as vagas erguiam os colos azulados a rosear-lhes a orla branquicenta no colorido de uma serena madrugada, a cidade j\u00e1 acordada enchia-se dos sussurros pr\u00f3prios de uma reuni\u00e3o popular.<\/p>\n<p>De toda a parte aflu\u00edam cavaleiros e carros de bois, conduzindo fam\u00edlias, que presto apeavam e seguiam em dire\u00e7\u00e3o ao mesmo lugar.<\/p>\n<p>Irisavam as ruas as roupas variegadas e vivas dos moradores do interior, e os transeuntes apenas cortejavam-se, sem que nenhum deles reparasse que o outro, quebrando os estilos da boa camaradagem e sociabilidade sertaneja, n\u00e3o fizesse uma longa parada para informar-se por mi\u00fado da sa\u00fade e neg\u00f3cios do seu conhecido.<\/p>\n<p>Essa atividade ins\u00f3lita denunciava que toda aquela gente reunia-se para assistir a alguma cena extraordin\u00e1ria, algum desses acontecimentos memor\u00e1veis que se gravam indelevelmente na mem\u00f3ria dos povos, desinteressada arquivista dos fatos que mais tarde ter\u00e3o de ser julgados pela imparcialidade da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os pontos mais concorridos eram a pra\u00e7a Municipal e a rua que, atravessando-a, vai terminar na pra\u00e7a do Rossio.<\/p>\n<p>No primeiro largo a popula\u00e7\u00e3o aflu\u00eda, estacionava, engrossava-se agora e para logo rareava, escoando-se para sul e norte pela rua secante.<\/p>\n<p>Contrapondo-se a tamanha atividade, \u00e0 serenidade expansiva das fisionomias, onde havia o reflexo de um sentimento honesto, o sino da Matriz come\u00e7ava a dobrar por morto.<\/p>\n<p>Esse fato, que destoa dos sentimentos religiosos das popula\u00e7\u00f5es do interior, ficaria, por\u00e9m, cabalmente explicado para aqueles que se. acercassem dos grupos, que estadiavam pelas pra\u00e7as citadas e a rua, que na parte norte passava pela cadeia da cidade.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! eu se vim aqui n\u00e3o foi para regozijar-me com a morte do infeliz; tenho certeza de que ele entrou nisso como Pilatos no Credo.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. est\u00e1 falando s\u00e9rio, Sr. Martins?<\/p>\n<p>&#8211; Se estou, era at\u00e9 capaz de jurar que ele n\u00e3o mandou matar.<\/p>\n<p>&#8211; Ora isto \u00e9 que \u00e9 vontade de teimar. Todas as testemunhas foram concordes em dizer que foi ele.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Sr. Lu\u00eds de Sousa, se eu for dizer aqui ao Sr. Cerqueira, e este a outro, e a outro que o senhor mandou matar uma fam\u00edlia, isto, por si s\u00f3, \u00e9 uma prova contra o senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Valha-me Deus, isto n\u00e3o vem a p\u00ealo. O Motta Coqueiro n\u00e3o est\u00e1 neste caso; era um homem tido e havido por mau em todo o Macabu; malquisto com seus vizinhos s\u00e9rios e s\u00f3 cercado de homens iguais ao Faustino, um fugido das gal\u00e9s, e o Florentino, o tal Flor, bem conhecido por perverso.<\/p>\n<p>&#8211; Os senhores dizem s\u00f3, mas n\u00e3o apontam os males que ele fez. O pr\u00f3prio Francisco Benedito foi por ele acolhido em sua casa, quando, tendo sido corrido pelo Dr. Manh\u00e3es, n\u00e3o tinha onde cair morto.<\/p>\n<p>&#8211; Agora \u00e9 que o senhor disse tudo; para o desgra\u00e7ado cair morto era preciso mesmo ir agregar-se para a casa do fac\u00ednora, que n\u00e3o s\u00f3 lhe desmoralizou uma filha, mas ainda lhe queria roubar as benfeitorias do S\u00edtio.<\/p>\n<p>&#8211; E o que me diz o Sr. Martins acerca da mulher de Motta Coqueiro? interrompeu um novo interlocutor.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou da opini\u00e3o do Sr. Lu\u00eds de Sousa; para mim, Motta Coqueiro era capaz de fazer ainda mais, principalmente porque era a\u00e7ulado pela mulher, a qual dizia que, para despicar o seu marido, venderia at\u00e9 o seu cord\u00e3o de ouro.<\/p>\n<p>&#8211; Por Deus ou pelos diabos; os senhores falam s\u00f3 e n\u00e3o me deixam falar. Com os diabos, Motta Coqueiro j\u00e1 foi condenado; dentro de uma hora h\u00e1 de ser pendurado pelo carrasco; que eu diga que sim, que os Srs. digam que n\u00e3o, nada lhe aproveita; mas a verdade antes de tudo. Eu n\u00e3o falo por mim. O Concei\u00e7\u00e3o \u00e9 homem \u00e0-toa?<\/p>\n<p>&#8211; Eu vou com ele at\u00e9 o inferno.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo menos nunca ouvi dizer que ele n\u00e3o fosse um homem s\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois o Concei\u00e7\u00e3o diz que Motta Coqueiro \u00e9 inocente no assassinato da fam\u00edlia de Francisco Benedito.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o por que n\u00e3o foi ser testemunha da defesa, se ele sabia do fato?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foi, e fez muito bem; eram capazes de dizer que ele tamb\u00e9m era um dos co-r\u00e9us, porque o Concei\u00e7\u00e3o, como sabem, estava na casa de Motta Coqueiro na noite em que se deu o crime.<\/p>\n<p>&#8211; Ponhamos as cousas nos seus lugares, Sr. Martins, interrompeu Lu\u00eds de Sousa. Ningu\u00e9m diz que o Coqueiro foi o matador, o que se diz \u00e9 que ele foi mandante, e n\u00e3o havia de dar as ordens \u00e0 vista de Concei\u00e7\u00e3o. J\u00e1 v\u00ea que este nada pode saber com certeza.<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Lu\u00eds de Sousa, eu n\u00e3o quero brigar com voc\u00ea, e por isso o melhor \u00e9 cortar quest\u00f5es. O Sr. fica com a sua opini\u00e3o e eu fico com a minha, o tempo dir\u00e1 qual de n\u00f3s tinha raz\u00e3o. Eu digo que \u00e9 falso, \u00e9 falso, \u00e9 falso; o Coqueiro n\u00e3o mandou fazer tais mortes; esse desgra\u00e7ado morre inocente.<\/p>\n<p>Pela conversa\u00e7\u00e3o a que acabamos de assistir \u00e9 f\u00e1cil saber que achamo-nos no dia em que a justi\u00e7a p\u00fablica, para desafrontar-se, ou melhor, desafrontar a indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica, ia levar ao cadafalso Manuel da Motta Coqueiro, que era geralmente acusado como mandante do assassinato execrando, que exterminou toda uma fam\u00edlia \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de uma mo\u00e7a, que n\u00e3o se achava no lugar do crime.<\/p>\n<p>A not\u00edcia lutuosa correu veloz por todo o Brasil, e todo o povo ergueu um brado de maldi\u00e7\u00e3o contra os assassinos.<\/p>\n<p>Pedia-se em altos brados, nas reuni\u00f5es e na imprensa, uma puni\u00e7\u00e3o famosa, que passasse de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, atestando que ao menos os contempor\u00e2neos, impotentes para reparar o crime, tinham sido inexor\u00e1veis num castigo tremendo.<\/p>\n<p>O nome de Motta Coqueiro era proferido com horror e bem assim os dos seus c\u00famplices, e as m\u00e3es, ao verem-nos passar, ensinavam \u00e0s criancinhas a maldiz\u00ea-los.<\/p>\n<p>O governo provincial e as autoridades locais uniram-se em sol\u00edcito esfor\u00e7o para a captura dos r\u00e9us, oferecendo especialmente ao que prendesse o mandante uma quantia com que nunca sonharam os pobres moradores das matas, por onde Coqueiro vagava refugiado; &#8211; dois contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>Entretanto do meio do \u00f3dio geral que cercava mais estreitamente o nome de Motta Coqueiro, alguns \u00e2nimos ben\u00e9volos, concordes em amaldi\u00e7oar os criminosos, afastavam todavia o seu veredicto da cabe\u00e7a do principal acusado.<\/p>\n<p>Era desse n\u00famero o ardente Sr. Martins, que, sempre protestando n\u00e3o aceitar discuss\u00f5es a respeito do assunto geral da conversa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia entretanto resistir a n\u00e3o chegar-se aos grupos para lhes ouvir as opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Homem t\u00e3o honrado e bondoso, quanto g\u00e1rrulo, o Sr. Martins naquela manh\u00e3 discutiu com quase toda a popula\u00e7\u00e3o de Maca\u00e9, e o maior n\u00famero das vezes concluiu repetindo a frase final da sua conversa\u00e7\u00e3o com Lu\u00eds de Sousa: \u00c9 falso, \u00e9 falso; o desgra\u00e7ado morre inocente.<\/p>\n<p>Desanimado e entristecido por n\u00e3o encontrar na compacta massa de povo uma pessoa s\u00f3 que concordasse consigo, plenamente, na inocenta\u00e7\u00e3o de Coqueiro, Martins atravessava rapidamente o beco do Caneca, quando foi detido por uma vigorosa m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Com que o Sr. Martins veio tamb\u00e9m assistir ao enforcamento da Fera de Macabu?<\/p>\n<p>Estas \u00faltimas palavras foram, por\u00e9m, proferidas com acento t\u00e3o repassado de tristeza, que o Sr. Martins, sorrindo, abriu os bra\u00e7os e neles estreitou o seu interlocutor, exclamando:<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 que, enfim, encontro um homem que pensa comigo!<\/p>\n<p>E os peitos daqueles dois homens deixaram que perto batessem por longo espa\u00e7o os cora\u00e7\u00f5es, que palpitavam por um sentimento bem diverso do que animava \u00e0 maioria da cidade.<\/p>\n<p>Quando separaram-se ambos tinham os olhos rasos de l\u00e1grimas, e por um movimento acorde correram o olhar em redor.<\/p>\n<p>Aquele olhar na sua t\u00edmida express\u00e3o tra\u00eda o temor que ambos, mas principalmente o novo personagem, tinham de ser vistos por algu\u00e9m; t\u00e3o grande era a exalta\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos que atemorizava at\u00e9 a livre manifesta\u00e7\u00e3o de sentimentos ben\u00e9volos para com o sentenciado, sem logo incorrer em censura.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 verdade, Sr. Jo\u00e3o Seberg? O Coqueiro morre inocente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, meu amigo, e ainda agora mesmo acabo de conversar ali com a D. Maria; respondeu Seberg, apontando para uma casa que tinha a porta e as janelas fechadas.<\/p>\n<p>&#8211; E a D. Maria \u00e9 tamb\u00e9m do n\u00famero das que se arrebicaram para ver a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9, felizmente. Acaba de contar-me que as suas duas filhas lhe vieram pedir para virem, em companhia das vizinhas, ver este novo assassinato. Negou-lhes a licen\u00e7a e at\u00e9 repreendeu-as fortemente. Ainda agora quando o sino dobrou pela vez, que ser\u00e1 pen\u00faltima, antes de separarmo-nos para sempre do desgra\u00e7ado, ela, que estava conversando comigo, empalideceu, mandou que acendessem as velas do orat\u00f3rio, e chamou as filhas para que ao \u00faltimo dobre pe\u00e7am a Deus que perdoe-nos a cegueira da nossa justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Faz pena a pobre senhora; nem que fosse parenta dele. S\u00f3 ouvindo-a; ela narra diferentes obras caridosas feitas pelo infeliz Coqueiro, e s\u00f3 interrompe-se para chorar.<\/p>\n<p>&#8211; Isto revolta mesmo a gente, Sr. Seberg: ver morrer um amigo inocente e n\u00e3o ter for\u00e7a para salv\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; E ele que resistia sempre que se lhe queria dar meios para fugir ou&#8230; suicidar-se, o que era muito melhor do que ir parar \u00e0s m\u00e3os do carrasco.<\/p>\n<p>&#8211; Desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8211; E nem ao menos ver na hora de morrer a esposa, e os filhos, que n\u00e3o se ativeram a estar aqui, temendo que os&#8230; enforcassem tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um esc\u00e2ndalo!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma requintada inf\u00e2mia. Obstaram a defesa, dificultaram as provas, andaram com ele de Herodes para Pilatos, e afinal chamaram requintado desavergonhamento aquele grito de desespero, com que ele acabou de responder ao \u00faltimo interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o viram nas barbas e nos cabelos que de todo embranqueceram, na macilenta cor de seu rosto, nas p\u00e1lpebras sempre entrecerradas, a express\u00e3o de um generoso cora\u00e7\u00e3o, que, talvez conhecendo o culpado, n\u00e3o condenava ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Adeus, Sr. Martins, rezemos por ele, e que Deus perdoe a quem o faz morrer.<\/p>\n<p>Separaram-se, e o Sr. Seberg, com a cabe\u00e7a baixa e vagaroso passo, tomou para a banda da pra\u00e7a Municipal. A sua longa barba grisalha ca\u00eda-lhe na sobrecasaca preta toda abotoada, o seu porte, o seu ar, como que se iluminavam com as cintila\u00e7\u00f5es da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Naquela hora, esse homem severo, completamente vestido de preto, e com o semblante embaciado pela mais sincera tristeza, parecia o latente remorso de uma popula\u00e7\u00e3o inteira, que vinha assistir \u00e0 trag\u00e9dia judici\u00e1ria para mais tarde lavar a n\u00f3doa que manchava as v\u00edtimas da lei.<\/p>\n<p>De repente Seberg estacou, como que detido por um bra\u00e7o de ferro.<\/p>\n<p>O sino da Matriz dobrava e, na outra extremidade da pra\u00e7a, o povo que se apinhava, encontroando-se, bradava:<\/p>\n<p>L\u00e1 vem ele; l\u00e1 vem ele!<\/p>\n<p>Os gritos que, avassalando o sussurrar perene da multid\u00e3o, como que chumbaram os p\u00e9s de Seberg ao ch\u00e3o da pra\u00e7a, sobreexcitavam cada vez mais os esp\u00edritos.<\/p>\n<p>Os v\u00e1rios grupos dispersos puseram-se em desordenado movimento. Cada qual queria chegar primeiro ao ponto donde os gritos partiram. Os mais mo\u00e7os corriam rapidamente, e as senhoras idosas, cambaleando aqui e acol\u00e1, e praguejando no puro estilo do beat\u00e9rio, aproximavam-se como um bando de gansos espantados.<\/p>\n<p>Os pais e m\u00e3es, no intuito de darem desde a inf\u00e2ncia um exemplo \u00e0 sua prog\u00eanie, levavam consigo os filhos, e na velocidade de que precisavam dispor, quase que os arrastavam, ao som de ralhos impertinentes.<\/p>\n<p>Toda essa gente apressava-se, corria, aglomerava-se, encontrava-se, e alguns mais imprudentes, querendo a todo o transe romper caminho no mais denso do ajuntamento, provocavam, da parte dos desalojados, violentos empurr\u00f5es e frases duras, a ponto de ser necess\u00e1ria a interven\u00e7\u00e3o da autoridade para evitar conflitos.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi um rebate falso o que se espalhara.<\/p>\n<p>J\u00e1 a campainha, tangida por um dos irm\u00e3os da Miseric\u00f3rdia, badalejava lugubremente \u00e0 porta da cadeia.<\/p>\n<p>Pedia-se sil\u00eancio e repetiam-se insistentes psius por toda a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7amos o pregoeiro! ou\u00e7amos o pregoeiro! bradava-se por toda a parte. Esse novo fermento lan\u00e7ado \u00e0 s\u00f4frega curiosidade de todos, fez com que alguns se destacassem, porque, temendo n\u00e3o poder ver da\u00ed o espet\u00e1culo, queriam buscar em outro lugar melhor ponto de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Sr. Lu\u00eds de Sousa muito interessado em coadjuvar a justi\u00e7a, quanto estivesse em suas for\u00e7as, elegeu-se capit\u00e3o dos retirantes e, suando em bica, bufando e abanando-se com o chap\u00e9u, gritava a bons pulm\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos para o Rossio, l\u00e1 o bicho n\u00e3o nos escapara.<\/p>\n<p>Dentro em pouco o Rossio recebia mais um numeroso contingente de espectadores, ansiosos por verem o epilogo desse ros\u00e1rio de horrores, do qual durante tr\u00eas anos esteve pendente a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>A pra\u00e7a do Rossio, em que devia ter lugar a execu\u00e7\u00e3o, estava quase literalmente cheia, e, soturnamente sonora, transbordava esse zunido abafado que derrama o vento atravessando um t\u00fanel.<\/p>\n<p>Reinava a\u00ed a alegria e o dia espl\u00eandido, todo luz e c\u00e9u azul, aqui e acol\u00e1 sarapintado de nuvens alvadias, como que santificava esse regozijo, a n\u00e3o ser que na opul\u00eancia de brilho um poder oculto tentasse ver se era poss\u00edvel que um raio ao menos penetrasse naquelas consci\u00eancias.<\/p>\n<p>Abertos os guarda-s\u00f3is e reunidos em grupos, os curiosos matavam o tempo comentando as perip\u00e9cias do crime e do processo, louvando a maioria o bom andamento da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Um desses grupos chamava a aten\u00e7\u00e3o pelo ar de misteriosa intimidade que o envolvia.<\/p>\n<p>Tinha a palavra um mo\u00e7o alto, de complei\u00e7\u00e3o fraca, elegantemente vestido, e em tudo diferente dos habitantes do lugar.<\/p>\n<p>&#8211; Se eu tivesse influ\u00eancia, dizia ele, obstaria por hoje a execu\u00e7\u00e3o do Coqueiro.<\/p>\n<p>&#8211; Era violar a lei, doutor; o c\u00f3digo ordena que a execu\u00e7\u00e3o se efetue no dia imediato ao da intima\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a ao r\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor; mas se o r\u00e9u estiver t\u00e3o doente que nem se possa levantar, se o r\u00e9u estiver moribundo?<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu vi o Coqueiro quando chegou da corte e n\u00e3o me consta ainda hoje que ele esteja em tal estado.<\/p>\n<p>&#8211; Pois esteve bem mal esta noite. Cedendo \u00e0 vergonha ou ao desespero tentou suicidar-se, e para isso serviu-se de um peda\u00e7o de vidro com o qual fez um ferimento no pulso.<\/p>\n<p>&#8211; E o que faziam os guardas?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o ser\u00e1 uma f\u00e1bula inventada pelos amigos?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor, fomos v\u00ea-lo, eu e o Dr. Silva, e ambos ligamos-lhe as veias.<\/p>\n<p>&#8211; Embora, doutor, ele pode ser conduzido em uma padiola; e eu tenho de que n\u00e3o sairei hoje daqui sem v\u00ea-lo pendurado acol\u00e1.<\/p>\n<p>Na dire\u00e7\u00e3o indicada pelo interlocutor estava levantada a m\u00e1quina sombria da justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>A sua fealdade comovente, brutal encarna\u00e7\u00e3o dos sentimentos da popula\u00e7\u00e3o, pavoneava-se, entretanto, com o ep\u00edteto honroso de instrumento da desafronta p\u00fablica.<\/p>\n<p>Todos fitavam-na com simpatia, com estremecimento mesmo, e cada um buscava tomar posi\u00e7\u00e3o apropriada a t\u00ea-la de frente.<\/p>\n<p>Talvez pela imagina\u00e7\u00e3o exaltada do povo passassem as imagens das v\u00edtimas imoladas \u00e0 sanha facinorosa dos seus matadores.<\/p>\n<p>Diante da horrorosa constru\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria popular avivava recorda\u00e7\u00f5es de outros tempos, ouvidas em ser\u00f5es de fam\u00edlia aos pais j\u00e1 finados.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda hoje isto \u00e9 bom. Contava-me meu pai, que ouviu ao meu av\u00f4, que, no tempo de D. Jo\u00e3o VI, primeiro o carrasco desmunhecava com um golpe as m\u00e3os do padecente e s\u00f3 depois \u00e9 que ele era levado \u00e0 forca.<\/p>\n<p>&#8211; Era o que esse precisava; eu sigo a letra do evangelho; quem com ferro fere com ferro seja ferido.<\/p>\n<p>O gracejo por sua vez vinha pagar tributo \u00e0 reuni\u00e3o piedosa de tantos cora\u00e7\u00f5es justiceiros, que naquele momento se expandiam folgadamente numa espont\u00e2nea conformidade de sentimentos.<\/p>\n<p>De vez em quando toda a massa popular ondulava, aflu\u00eda para um ponto e reflu\u00eda depois.<\/p>\n<p>Era uma voz que se levantava para apregoar que estavam rufando os tambores e que, portanto, em breve se desdobraria o painel ansiosamente esperado.<\/p>\n<p>Serenava o sussurro; as m\u00e3os arqueavam-se em torno dos pavilh\u00f5es das orelhas, e todos tomavam a atitude de quem escuta.<\/p>\n<p>Tamanha ansiedade denunciava bem que, em meio de toda essa gente, n\u00e3o havia quem refletisse no que h\u00e1 de iniq\u00fcidade nessa desafronta do crime pelo crime.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a, dinamizando a barbaridade, folga e jacta-se de dar aos descendentes dos ofendidos uma repara\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o v\u00ea que n\u00e3o ser\u00e1 multiplicando a orfandade e o desamparo que ela chegar\u00e1 um dia a trancar as pris\u00f5es.<\/p>\n<p>A baba do sentenciado cai como indel\u00e9vel mancha negra sobre todos os seus; e n\u00e3o pode haver maior torpeza do que condenar a quem n\u00e3o mereceu a condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os magistrados e os que mandam executar essas b\u00e1rbaras senten\u00e7as dormem tranq\u00fcilamente na paz de uma consci\u00eancia honesta, porque entregam \u00e0s m\u00e3os do carrasco as pontas da corda ou o cabo do alfanje.<\/p>\n<p>A sociedade por sua vez aplaude, na magistradura e em si mesma, a seguran\u00e7a dos lares e o amor da justi\u00e7a, no dia em que das alturas da forca pende mais um cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>E todavia parece que h\u00e1 menos torpeza em um homem matar outro, do que em reunirem-se milhares para matar um s\u00f3.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensavam, por\u00e9m, deste modo os grupos que estacionavam no Rossio no dia em que se devia executar os acusados pelo assassinato da fam\u00edlia de Francisco Benedito.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio: havia quase duas horas que do Rossio \u00e0 cadeia andavam ansiosos \u00e0 espera de ver consumar-se a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as janelas estavam cheias, e as mulheres, coradas pelo sol e excitadas pelo desejo de emo\u00e7\u00f5es, debru\u00e7avam-se nos peitoris espiando para o lugar de onde devia vir o pr\u00e9stito.<\/p>\n<p>Um incidente inesperado veio p\u00f4r bem patente a aprova\u00e7\u00e3o p\u00fablica ao decreto dos tribunais.<\/p>\n<p>Espalharam-se dois boatos ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Propalou-se que a munific\u00eancia do poder moderador reservara-se para ir no alto do cadafalso tirar do pesco\u00e7o dos padecentes o bara\u00e7o infamante, e assim restitui-los \u00e0 vida, ao remorso e ao arrependimento.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m quis dar cr\u00e9dito aparentemente, mas, em consci\u00eancia, cada um sentiu-se profundamente despeitado e denunciava o despeito repetindo entre um sorriso: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco, por\u00e9m, ajuntava-se um complemento ao boato, e a popula\u00e7\u00e3o alarmou-se seriamente.<\/p>\n<p>Divulgou-se que pessoas fidedignas tinham visto chegar a toda a brida um cavaleiro. Acrescentava-se que o rec\u00e9m-chegado era campista e desconhecido no lugar.<\/p>\n<p>Podia bem ser mais um curioso, mas tamb\u00e9m podia ser o portador do perd\u00e3o, visto que o segundo defensor de Motta Coqueiro era residente em Campos e prometera salvar o seu cliente a todo o custo. A not\u00edcia inspirou geral desagrado e ouvia-se em todos os grupos unissonamente dizer-se:<\/p>\n<p>&#8211; Se fizerem isto, fica estabelecido que podemos de hoje em diante matar a quem nos aprouver, sem que possamos ser punidos. Quem perdoa Motta Coqueiro n\u00e3o pode condenar a mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ainda os \u00e2nimos n\u00e3o tinham sequer contido o choque produzido pelo boato, e j\u00e1 um outro corria de ouvido em ouvido.<\/p>\n<p>Este era ainda mais grave e mais pr\u00f3prio para irritar os justos instintos dos curiosos.<\/p>\n<p>Afirmava-se o primeiro boato, e caso ele se n\u00e3o realizasse, nem por isso o principal sentenciado deixaria de burlar a senten\u00e7a.<\/p>\n<p>O meio empregado era simples. A corda fora embebida em aguarr\u00e1s e portanto n\u00e3o poderia resistir ao peso do padecente.<\/p>\n<p>Logo que ela arrebentasse, a bandeira da Miseric\u00f3rdia seria colocada sobre Coqueiro e os seus amigos impediriam a que a execu\u00e7\u00e3o se renovasse.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um atentado sem nome, exclamava col\u00e9rico o Sr. Lu\u00eds de Sousa. Mas enquanto eu for vivo, veremos se faz-se ou n\u00e3o se faz justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A \u00faltima palavra de Lu\u00eds de Sousa era a que pairava em todos os l\u00e1bios, e a id\u00e9ia que motivava a satisfa\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se riam, n\u00e3o se alegravam por desumanidade; regozijavam-se crendo que se efetuava uma justa vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Sousa era a imagem da indigna\u00e7\u00e3o profunda e dos desejos da multid\u00e3o, a que acabava de reunir-se mais um espectador.<\/p>\n<p>Era Seberg que, sem saber por que, dirigira-se para o lugar onde lhe estava reservado um golpe tremendo.<\/p>\n<p>Numa das continuas viravoltas que dava, Lu\u00eds de Sousa esbarrou com Seberg, e comunicava-lhe o ocorrido, quando uma circunst\u00e2ncia p\u00f4s-lhe ponto \u00e0 narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os ecos do clarim da for\u00e7a p\u00fablica anunciavam o saimento do pr\u00e9stito.<\/p>\n<p>A tropa, que estava postada na frente da cadeia, manobrou e dividiu-se em dois pelot\u00f5es, formando alas \u00e0 porta da pris\u00e3o; e alguns soldados de cavalaria, andando a passo lento, come\u00e7aram a abrir um claro por entre os espectadores.<\/p>\n<p>\u00c2 porta do malseguro e abarracado edif\u00edcio, &#8211; que desempenhava as fun\u00e7\u00f5es de calabou\u00e7o, com exala\u00e7\u00f5es insalubres de enxovias s\u00f3rdidas e compartimentos abafados e sem luz, &#8211; um irm\u00e3o da Miseric\u00f3rdia movia compassadamente uma enorme campa, cujas badaladas tristes como que acordavam a comisera\u00e7\u00e3o nas almas dos circunstantes.<\/p>\n<p>Semelhante a um bando de aves agoureiras, tendo pendentes dos ombros os seus balandraus negros, a irmandade da Miseric\u00f3rdia assomou na porta da cadeia e distribuiu-se em paralelas \u00e0s alas dos soldados.<\/p>\n<p>Alguns dos irm\u00e3os, segurando em uma das m\u00e3os uma vara de prata e na outra uma sacola negra, l\u00e1 se foram pelo povo dentro a esmolar para os sufr\u00e1gios do que ia morrer.<\/p>\n<p>E aqueles mesmos homens, que ainda h\u00e1 pouco indignavam-se com a s\u00f3 id\u00e9ia da possibilidade de um perd\u00e3o, concorriam com o seu \u00f3bolo para que a religi\u00e3o se incumbisse de redimir na eternidade a alma daquele a quem atribu\u00edam um crime, que justamente revoltava a todos os esp\u00edritos bem-formados.<\/p>\n<p>Sublime contradi\u00e7\u00e3o entre o homem religioso e o cidad\u00e3o: este consente que a cabe\u00e7a de um irm\u00e3o v\u00e1 ter \u00e0s m\u00e3os do carrasco, aquele d\u00e1 sinceramente o seu \u00f3bolo para que da ignom\u00ednia social passe o supliciado \u00e0s felicidades sonhadas pela cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 verdade que, em consci\u00eancia, o povo n\u00e3o quer as penas irrepar\u00e1veis!<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a confraria apareceu a bandeira santa, outrora s\u00edmbolo de esperan\u00e7a, a que se dirigiam os olhares do condenado, que ao v\u00ea-la, atrav\u00e9s da mem\u00f3ria afogueada pelas saudades da fam\u00edlia, dos amigos, do trabalho e da p\u00e1tria, contrapunha \u00e0 imagem horrorosa do cadafalso o sonho consolador do perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a lei inexor\u00e1vel condenou desapiedadamente esta esperan\u00e7a, de maneira que \u00e9 hoje um aparato v\u00e3o o painel em que a p\u00e1lida Maria, num abra\u00e7o estreitado ao cad\u00e1ver de Jesus, consorcia-se com o filho adorado para a conquista da reden\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o no seu painel mostra que possui para as supremas desgra\u00e7as o supremo perd\u00e3o; a sociedade com o seu carrasco, alimentado com a lama das enxovias, diz-nos que para as acusa\u00e7\u00f5es formid\u00e1veis ela s\u00f3 conhece o castigo in\u00edquo e irrepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Seguia-se imediatamente ao painel um sacerdote tendo nas m\u00e3os uma grande cruz, na qual abriam-se os bra\u00e7os e confrangia-se o corpo l\u00edvido de um Cristo ensang\u00fcentado, cuja face voltava-se para o lado do padecente.<\/p>\n<p>A poucos passos da cruz e lateralmente a ela, vinha o porteiro tendo nas m\u00e3os um papel, em que estava exarada a senten\u00e7a lavrada pelo tribunal contra o r\u00e9u.<\/p>\n<p>Quando esta parte do pr\u00e9stito passou o limiar da pris\u00e3o, o enorme derramamento popular, que assemelhava-se a um lago estagnado, tamanho era o seu sil\u00eancio e quieta\u00e7\u00e3o &#8211; agitou-se inopinadamente, brotando num surdo murm\u00fario.<\/p>\n<p>O murm\u00fario fez-se sussurro e o sussurro intenso rumor e ouviram-se gritos e choros de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>E que na porta do calabou\u00e7o, vestido com a alva funer\u00e1ria e acompanhado por um sacerdote, acabava de assomar o r\u00e9u.<\/p>\n<p>O seu nome era Manuel da Motta Coqueiro. Fora, havia tr\u00eas anos, um homem abastado, influ\u00eancia pol\u00edtica de um munic\u00edpio, um dos convidados indispens\u00e1veis nas melhores reuni\u00f5es; agora n\u00e3o era mais do que um padecente resignado mas tido por perigoso e por isso espionado e guardado solicitamente pela for\u00e7a p\u00fablica, enquanto que, olhado como um ente repulsivo, servia de pasto \u00e0 curiosidade vingativa de uma sociedade inteira.<\/p>\n<p>Com o andar vagaroso, por\u00e9m firme, veio colocar-se no meio da clareira. Acompanhou-o o sacerdote, que em uma das m\u00e3os tinha um livro aberto e na outra um pequeno crucifixo.<\/p>\n<p>Aos lados desses dois homens inermes viam-se o carrasco e oito soldados, com as baionetas caladas.<\/p>\n<p>Pairava sobre este grupo a solenidade da morte.<\/p>\n<p>Alto, magro, com as faces escaveiradas e ict\u00e9ricas, marcadas por uma grande mancha arroxeada, as p\u00e1lpebras entrecerradas, completamente brancos os compridos cabelos, as sobrancelhas extremamente salientes e espontadas, e as barbas longas de sob as quais pendia-lhe de volta do pesco\u00e7o at\u00e9 a cinta, em torno da qual se enroscava, o bara\u00e7o infamante; Motta Coqueiro tinha mais a apar\u00eancia de um m\u00e1rtir do que a de um celerado.<\/p>\n<p>Cruzados sobre o peito os bra\u00e7os algemados, a cabe\u00e7a inclinada, os olhos fitos no ch\u00e3o, im\u00f3vel no meio daquela multid\u00e3o agitada, que se colocava nas pontas dos p\u00e9s para melhor fit\u00e1-lo; o seu porte solene, a compostura evang\u00e9lica do seu semblante, fazia pensar ou na mais requintada hipocrisia, ou no mais inexplic\u00e1vel dos infort\u00fanios.<\/p>\n<p>Ao lado desse rosto, cuja express\u00e3o fora amortecida pela desventura, contraste enorme, aparecia o car\u00e3o negro, est\u00fapido e truculento do carrasco, surgindo de sob o gorro vermelho como um v\u00f4mito fuliginoso da garganta de uma fornalha.<\/p>\n<p>Fuzilava-lhe nas fei\u00e7\u00f5es o garbo bestial do crime.<\/p>\n<p>Com a m\u00e3o esquerda colocada \u00e0 ilharga e arqueado o bra\u00e7o seminu, espraiava pela m\u00f3 de basbaques meio aterrorada, o olhar sanhudo, coado atrav\u00e9s de umas pupilas negras, borradas numa c\u00f3rnea injetada de sangue.<\/p>\n<p>Pelas narinas carnudas e achatadas a sua bo\u00e7al ignor\u00e2ncia aspirava com o ar o alento necess\u00e1rio aos seus instintos de fera.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s eles vinham o juiz municipal, revestido com a toga de magistrado, e o escriv\u00e3o, trajado de preto.<\/p>\n<p>Uma linha de pra\u00e7as fechava o pr\u00e9stito funer\u00e1rio.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio, instantes quebrado, foi para logo restabelecido e dentre ele s\u00f3 partia o soar agoureiro da campa, tangida em badaladas espa\u00e7adas, quando o porteiro come\u00e7ou a apregoar em voz alta a senten\u00e7a pela qual Manuel da Motta Coqueiro era condenado a sofrer a pena capital, por ser mandante dos assassinatos de Francisco Benedito, sua mulher e seis filhos.<\/p>\n<p>Ao termo da leitura, soaram os tambores e as cometas un\u00edssonos com o badalejar l\u00fagubre da campa, e o pr\u00e9stito desfilou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e0 semelhan\u00e7a de uma floresta que \u00e9 tomada de assalto por um tuf\u00e3o e ao passo que se retorce e anseia, desfaz-se em sussurros e farfalhos prolongados, o povo, movendo-se para acompanhar os personagens da medonha trag\u00e9dia, enchia o espa\u00e7o de um ru\u00eddo confuso.<\/p>\n<p>Era como ouvir-se ao longe o roncar de uma cachoeira.<\/p>\n<p>Contidos por algum tempo pela comisera\u00e7\u00e3o, as exclama\u00e7\u00f5es, os coment\u00e1rios, as pragas jorravam agora de todos os lados.<\/p>\n<p>Alguns mais exaltados negavam-se \u00e0 s\u00faplica que lhes era dirigida pelos caridosos irm\u00e3os da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Desse n\u00famero era uma velha, que tendo um dos bra\u00e7os passado ao redor da cintura de uma rapariguinha morena, de olhos esbugalhados e boquiaberta, via passar o pr\u00e9stito, parada a um dos cantos da pra\u00e7a Municipal.<\/p>\n<p>A darmos cr\u00e9dito aos muxoxos que provocava aos vizinhos, a feia da velha era uma dessas beatas impertinentes que n\u00e3o se importam de incomodar aos mais contanto que elas n\u00e3o sejam ao de leve prejudicadas nos seus c\u00f4modos.<\/p>\n<p>Quando Coqueiro passava-lhe defronte, a velha enrugando ainda mais as enregelhadas pelancas, que outrora tinham sido faces, taramelou para a companheira:<\/p>\n<p>&#8211; Olha aquele peda\u00e7o de malvado; vai ali que parece um santinho. Credo! que mal-encarado.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! nhanh\u00e3, coitado, vai t\u00e3o triste.<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca, tola, resmungou a velha, ao passo que apertava um pouco mais o polegar e o indicador na cinta da pequena. &#8211; Ter d\u00f3 dele, te arrenego, tinhoso; \u00e9 pena que o malvado n\u00e3o tenha no pesco\u00e7o tantas vidas quantas arrancou, para espirrarem-lhe todas nas unhas do carrasco. Deus lhe perdoe, mas est\u00e1 se vendo mesmo que foi ele.<\/p>\n<p>&#8211; Ui! exclamaram noutro grupo, que carrasco t\u00e3o feio, meu Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Oito mortes, oito, entre velhos e crian\u00e7as, a vida dele s\u00f3 n\u00e3o paga. Eu, c\u00e1 no meu pensar, entendo que se devia fazer o mesmo \u00e0 fam\u00edlia dele, para que ele soubesse se era bom!<\/p>\n<p>&#8211; Deus te perdoe, Deus te perdoe! escapava mais adiante ao an\u00f4nimo popular.<\/p>\n<p>E o pr\u00e9stito caminhava, parando, por\u00e9m, a todas as esquinas para dar lugar \u00e0 leitura da senten\u00e7a.<\/p>\n<p>De cada vez que o pr\u00e9stito parava ouvia-se um como cicio partido dos l\u00e1bios dos sacerdotes e do condenado.<\/p>\n<p>Uma dessas vezes, pode-se distinguir algumas das palavras segredadas pelo ministro de Deus:<\/p>\n<p>&#8211; Confesse toda a verdade, irm\u00e3o, purifique a sua consci\u00eancia na hora de comparecer perante Deus.<\/p>\n<p>&#8211; Repito, meu padre; n\u00e3o mandei fazer tais assassinatos.<\/p>\n<p>E duas l\u00e1grimas tardas e volumosas, dessas que s\u00f3 os hip\u00f3critas confessos ou os desgra\u00e7ados sabem chorar, escorregaram pelas faces cadaverosas do padecente.<\/p>\n<p>Ora envolvido no rufo rouco dos tambores, ora atravessado pelo badalejar da campa e pelo clangor das cornetas, o pr\u00e9stito seguiu vagarosamente pelas ruas mais concorridas da cidade, at\u00e9 parar em frente \u00e0 igreja, onde o pregoeiro em alta voz leu ainda uma vez a senten\u00e7a irrevog\u00e1vel, que devia manchar na cabe\u00e7a de um homem o nome de toda a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Parte do pr\u00e9stito j\u00e1 estava dentro do templo; algumas das sentinelas, que custodiavam mais de perto o r\u00e9u, j\u00e1 transpunham o limiar, quando um incidente inesperado veio p\u00f4r em alarma a todos os circunstantes.<\/p>\n<p>Um homem desconhecido, com as faces macilentas, o olhar esgazeado, os vestidos em desordem, e entretanto revelando pelo seu traje, pelo pr\u00f3prio desespero, ser um cavalheiro, rompera \u00e0 for\u00e7a uma das alas de pra\u00e7as e viera colocar-se em meio do pr\u00e9stito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maca\u00e9, pequena cidade do litoral da prov\u00edncia do Rio de Janeiro, n\u00e3o conhece a vida ativa e estrepitosa das grandes cidades populosas. 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