{"id":107632,"date":"2017-02-08T08:57:07","date_gmt":"2017-02-08T10:57:07","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=107632"},"modified":"2017-02-08T09:29:41","modified_gmt":"2017-02-08T11:29:41","slug":"verso-e-reverso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso","title":{"rendered":"Verso e Reverso"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"490\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#1\">Ato Primeiro<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Ato Segundo<\/a><\/strong><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Jos\u00e9 de Alencar<\/h2>\n<p>Representada pela primeira vez no Teatro do Gin\u00e1sio, do Rio de Janeiro,<br \/>\nem 28 de outubro de 1857<\/p>\n<p>(A ***<\/p>\n<p>Uma noite vi-a no Gin\u00e1sio; representava-se uma com\u00e9dia um pouco<br \/>\nlivre.<\/p>\n<p>Veio-me o desejo de faz\u00ea-la sorrir sem obrig\u00e1-la a corar. Conservei<br \/>\nalgum tempo essa impress\u00e3o fugitiva; um dia ela correu aos bicos da<br \/>\npena, e cristalizou-se.<\/p>\n<p>Escrevi a minha primeira com\u00e9dia, O Rio de Janeiro [Verso e Reverso;<br \/>\nlogo depois O Dem\u00f4nio Familiar, e ultimamente O Cr\u00e9dito que deve<br \/>\nrepresentar-se breve.<\/p>\n<p>Se algum dia pois eu for um autor dram\u00e1tico deverei unicamente \u00e0quela<br \/>\nboa inspira\u00e7\u00e3o; a gl\u00f3ria e os aplausos que o p\u00fablico,<br \/>\nde generoso, quiser dar a essas pobres produ\u00e7\u00f5es de minha intelig\u00eancia,<br \/>\nlhe pertencem.<\/p>\n<p>A flor n\u00e3o se abriria se o raio de sol n\u00e3o a aquecesse e animasse.<\/p>\n<p><strong>PERSONAGENS<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, [estudante de S\u00e3o Paulo].<br \/>\nTEIXEIRA, [capitalista tio de Ernesto].<br \/>\nAUGUSTO, [zang\u00e3o da pra\u00e7a].<br \/>\nCUST\u00d3DIO, [empregado aposentado].<br \/>\nPEREIRA, poeta conhecido de].<br \/>\nHENRIQUE, [mo\u00e7o elegante].<br \/>\nFILIPE, [cambista de loterias].<br \/>\nJ\u00daLIA, [filha de Teixeira].<br \/>\nBRAGA, [caixeiro de loja].<br \/>\nD. LU\u00cdSA, [vi\u00fava de idade].<br \/>\nD. MARIANA, (parenta de Teixeira].<\/p>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>ATO PRIMEIRO<\/h4>\n<p>Um caixeiro de loja; um menino que vende f\u00f3sforos; uma menina de realejo.<\/p>\n<p><strong>NOTA<\/strong><\/p>\n<p>A cena \u00e9 na cidade do Rio de Janeiro e contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>O primeiro quadro passa-se em uma loja da Rua do Ouvidor nos fins de novembro.<br \/>\nO segundo na casa de Teixeira nas Laranjeiras, [em princ\u00edpio de mar\u00e7o].<\/p>\n<p>Urna loja da Rua do Ouvidor, [montada com luxo e no gosto franc\u00eas].<\/p>\n<p><strong>CENA PRIMEIRA<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, BRAGA, depois UM MENINO que vende f\u00f3sforos.<\/p>\n<p>ERNESTO (entrando de um salto) &#8211; Apre! \u00c9 insuport\u00e1vel! N\u00e3o<br \/>\nse pode viver em semelhante cidade; est\u00e1 um homem sujeito a ser empurrado<br \/>\npor todos esses meus senhores, e esmagado a cada momento por quanto carro,<br \/>\ncarro\u00e7a, carreta ou carrinho anda nestas ruas. Com efeito \u00e9<br \/>\numa fam\u00edlia&#8230; Desde o \u00f4nibus, o No\u00e9 dos ve\u00edculos,<br \/>\nat\u00e9 o coup\u00e9 aristocr\u00e1tico e o t\u00edlburi plebeu!<\/p>\n<p>BRAGA (dobrando as fazendas) &#8211; \u00c9 porque o senhor ainda n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 habituado.<\/p>\n<p>O MENINO ([entrando e] dirigindo-se a ERNESTO) &#8211; F\u00f3sforos! F\u00f3sforos!<br \/>\nInalter\u00e1veis e superiores! &#8230; (A BRAGA) F\u00f3sforos Sr. Braga.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Deixe-me, menino!<\/p>\n<p>O MENINO &#8211; Excelentes f\u00f3sforos de cera a vint\u00e9m!<\/p>\n<p>ERNESTO (a BRAGA) &#8211; Oh! que ma\u00e7ada! Deixe-me! (O MENINO sai.) Esta<br \/>\ngente toma-me naturalmente por algum acendedor de lampi\u00f5es; entendem<br \/>\nque eu vim ao Rio de Janeiro unicamente para comprar f\u00f3sforos. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o me admira que haja aqui tantos inc\u00eandios. (Senta-se junto<br \/>\ndo balc\u00e3o; uma pausa.) Como as coisas mudam vistas de perto! Quando<br \/>\nestava em S\u00e3o Paulo o meu sonho dourado era ver o Rio de Janeiro, esse<br \/>\npara\u00edso terrestre, essa maravilha de luxo, de riqueza e de eleg\u00e2ncia!<br \/>\nDepois de tr\u00eas anos de esperan\u00e7as consigo enfim realizar o meu<br \/>\ndesejo: d\u00e3o-se as f\u00e9rias, embarco, chego e sofro uma das mais<br \/>\ntristes decep\u00e7\u00f5es da minha vida. H\u00e1 oito dias apenas<br \/>\nque estou na corte e j\u00e1 tenho saudades de S\u00e3o Paulo. (Ergue-se.)<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; O Sr. n\u00e3o escolhe alguma coisa? Presentes para festas, o que<br \/>\nh\u00e1 de mais delicado; perfumarias&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO [voltando-lhe as costas] &#8211; Obrigado!<\/p>\n<p><strong>CENA II<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, FILIPE<\/p>\n<p>FILIPE ([entrando] a ERNESTO) &#8211; Vinte contos, meu caro senhor! Anda amanh\u00e3<br \/>\na roda!&#8230; Vinte contos!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Agrade\u00e7o; n\u00e3o estou disposto.<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; Oh! Sr. Filipe!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Quer um bilhete, um meio ou um quarto? Vig\u00e9simos&#8230; Tamb\u00e9m<br \/>\ntemos.<\/p>\n<p>ERNESTO (passeando) &#8211; Nada; n\u00e3o quero nada.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Bom n\u00famero este; premiado tr\u00eas vezes! Mas se prefere<br \/>\neste&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; J\u00e1 lhe disse que n\u00e3o preciso dos seus bilhetes.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Pois enjeita? A sorte grande? Olhe n\u00e3o se arrependa!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; A sorte grande que eu desejo \u00e9 ver-me livre de sua pessoa!<\/p>\n<p>FILIPE (baixo a BRAGA) &#8211; Malcriado!<\/p>\n<p>BRAGA (baixo a FILIPE) &#8211; \u00c9 um provinciano! (FILIPE sai.)<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Enfim! Estou livre deste! Que terra!&#8230; \u00c9 uma persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\nconstante. (Passeia.)<\/p>\n<p><strong>CENA III<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, BRAGA, AUGUSTO<\/p>\n<p>AUGUSTO [entrando] &#8211; Oh! (examinando ERNESTO) Ser\u00e1 algum acionista?..<br \/>\nVejamos! Tratemos de entabular rela\u00e7\u00f5es! ERNESTO (tira o rel\u00f3gio)<br \/>\n&#8211; J\u00e1 duas horas! Uma manh\u00e3 inteiramente perdida.<\/p>\n<p>AUGUSTO (cumprimentando) &#8211; O Sr. faz-me o obs\u00e9quio de dizer que horas<br \/>\ns\u00e3o?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Como?<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Que horas tem no seu rel\u00f3gio?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ah! desculpe; est\u00e1 parado. (Baixo a BRAGA) \u00c9 o que<br \/>\nfaltava!&#8230; servir de torre de igreja aqui ao Sr.<\/p>\n<p>AUGUSTO (a BRAGA) &#8211; Decididamente \u00e9 acionista! Que diz? Tem-me ares<br \/>\nde lavrador; s\u00e3o pelo menos vinte a\u00e7\u00f5es. Justamente as<br \/>\nque me faltam para completar as cem que vendi. A dez mil-r\u00e9is de pr\u00eamio&#8230;<br \/>\n(Corre atr\u00e1s de um homem que passa no fundo da loja.)<\/p>\n<p>Ol\u00e1 sio!&#8230; Aquelas trinta n\u00e3o quer vender?&#8230; Dou-lhe sete!&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO (a BRAGA) &#8211; Que extravagante! V\u00ea-se cada figura neste Rio de<br \/>\nJaneiro! (Senta-se e tira um charuto.) Ora deixe-me experimentar um dos tais<br \/>\nf\u00f3sforos de cera. (Acende o charuto.)<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; A\u00ed vem o homem outra vez. (Ri-se.)<\/p>\n<p>AUGUSTO (voltando) &#8211; O Sr. faz-me obs\u00e9quio do seu fogo?<\/p>\n<p>ERNESTO (a BRAGA) &#8211; Ainda! Isto n\u00e3o tem jeito.<\/p>\n<p>AUGUSTO (tomando o charuto) &#8211; Com licen\u00e7a! Creio que n\u00e3o me<br \/>\nenganei; o Sr. \u00e9 um dos contemplados; trinta pelo menos&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO (a BRAGA) &#8211; Estou quase oferecendo-lhe uma caixa de f\u00f3sforos.<\/p>\n<p>AUGUSTO (dando o charuto) &#8211; Obrigado! Volto para a Pra\u00e7a que est\u00e1<br \/>\nhoje animada.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Estimo muito.<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Se quer vender as suas a\u00e7\u00f5es, h\u00e3o perca a<br \/>\nocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Vender as minhas a\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Sim, Sr.; acredite no que lhe digo; n\u00e3o valem mais do que<br \/>\ncinco mil-r\u00e9is e j\u00e1 s\u00e3o bem pagas.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; O Sr. quer brincar naturalmente!<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; N\u00e3o brinco em neg\u00f3cio. Para encurtar raz\u00f5es<br \/>\ndou-lhe seis mil-r\u00e9is. Quer? Aqui est\u00e3o. Quantas tem?<\/p>\n<p>ERNESTO (a BRAGA) &#8211; Deste g\u00eanero ainda n\u00e3o tinha encontrado!<br \/>\n\u00c9 pior do que os tais cambistas de loterias. (Passeia.)<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Ent\u00e3o que decide? ERNESTO &#8211; Nada, Sr.<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Acha pouco? Tenho mais baratas; por\u00e9m para concluir dou-lhe<br \/>\nseis e quinhentos&#8230; Sete pagando a corretagem.<\/p>\n<p>ERNESTO [contrariado] &#8211; Pelo que, Sr.?&#8230; Disse-lhe que desejava vender alguma<br \/>\ncoisa para que o Sr. esteja a ma\u00e7ar-me h\u00e1 meia hora, oferecendo-me<br \/>\npre\u00e7os?<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; N\u00e3o me disse; mas eu adivinhei. N\u00f3s c\u00e1, homens<br \/>\nhabilitados ao neg\u00f3cio, n\u00e3o precisamos que nos digam as coisas.<br \/>\nApenas o v\u00ed, descobri logo que era acionista&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; O qu\u00ea? Acionista?.<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Sim; que tinha sido contemplado na distribui\u00e7\u00e3o das<br \/>\na\u00e7\u00f5es da Estrada de Ferro, na qualidade de lavrador naturalmente;<br \/>\npor isso ofere\u00e7o-lhe os meus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E o que \u00e9 o Sr.?<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Corretor de fundos e mercadorias; incumbo-me de todas as transa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde cr\u00e9dito e c\u00e2mbio, como saques, descontos.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois, meu Sr., sinto dizer-lhe que nem sou acionista, nem fui contemplado<br \/>\nem distribui\u00e7\u00e3o de coisa alguma.<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Deveras?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Dou-lhe minha palavra.<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Basta; \u00e0s suas ordens. (A BRAGA) Levei um logro! uma transa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmagn\u00edfica! Tamb\u00e9m n\u00e3o sei onde estava com a cabe\u00e7a!<br \/>\nDevia ver logo que este sujeitinho n\u00e3o tem a cara respeit\u00e1vel<br \/>\nde um acionista! (Vai sair pelo fundo).<\/p>\n<p>ERNESTO [a BRAGA] &#8211; Que diabo de profiss\u00e3o \u00e9 a que exerce este<br \/>\nbuscap\u00e9 vestido de palet\u00f3?<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; Creio que \u00e9 um corretor.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Fico-o conhecendo.<\/p>\n<p>(AUGUSTO saindo, encontra CUST\u00d3DIO que entra.)<\/p>\n<p><strong>CENA IV<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, CUST\u00d3DIO<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO [cumprimentando AUGUSTO] &#8211; Passou bem, Sr. Augusto? Que h\u00e1<br \/>\nde novo?&#8230;<\/p>\n<p>AUGUSTO (r\u00e1pido) &#8211; C\u00e2mbio 27 \u00bd; juros 9 e 10%; cota\u00e7\u00e3o<br \/>\noficial. A\u00e7\u00f5es &#8211; vendas animadas; Estradas de Ferro, dez, bastante<br \/>\nprocuradas. Tem Estrada de Ferro?&#8230;<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Dizem que o minist\u00e9rio n\u00e3o est\u00e1 seguro?&#8230;<\/p>\n<p>AUGUSTO (r\u00e1pido) &#8211; Seguro monstro &#8211; estacion\u00e1rio. Banco do<br \/>\nBrasil &#8211; 102; Hipotec\u00e1rio 205 &#8211; mercado regular, poucas vendas. Mangaratiba<br \/>\n&#8211; frouxo; Paquetes e G\u00e1s &#8211; oscilam; Rua do Cano &#8211; baixa completa, desconto.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o diz nada a respeito da pol\u00edtica?<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Digo que tome o meu conselho; Estrada de Ferro, Estrada de Ferro,<br \/>\ne largue o mais. Adeus; vou concluir uma opera\u00e7\u00e3o importante.<br \/>\n(Sai.)<\/p>\n<p>ERNESTO (a BRAGA) &#8211; Eis como se diverte um homem aqui na corte, olhando para<br \/>\no tempo e sofrendo as ma\u00e7adas de todos estes importunos! Oh! Os Srs.<br \/>\nfolhetinistas com os seus contos de mil e uma noites s\u00e3o os culpados<br \/>\ndo que me acontece! Quem os l\u00ea e quem v\u00ea a realidade!<\/p>\n<p>[CUST\u00d3DIO d\u00e1 um passeio pela loja e dirige-se a ERNESTO; BRAGA<br \/>\nvai ao fundo.]<\/p>\n<p><strong>CENA V<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, CUST\u00d3DIO<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Muito bom dia? [Apertam as m\u00e3os].<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Viva, senhor! (A BRAGA) Eis um sujeito que me conhece, mas que<br \/>\nnaturalmente nunca me viu.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E esta? O senhor n\u00e3o leu os jornais?<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Passei apenas os olhos&#8230; (Senta-se.)<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois eu nem isto. (A BRAGA) Pensa este senhor que sou algum almanaque<br \/>\nde not\u00edcias? Achou-me com cara de boletim?<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Que calor que est\u00e1 fazendo. Creio que teremos mudan\u00e7a<br \/>\nde tempo. O senhor n\u00e3o acha?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Vou ver, depois lhe direi.<\/p>\n<p>(Vai sair, encontra-se com HENRIQUE que entra.)<\/p>\n<p><strong>CENA VI<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, HENRIQUE<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Ernesto! Oh! Quando chegaste?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Adeus; como vais, Henrique?<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Perfeitamente, e tu? Alegro-me muito em ver-te por aqui.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o esperava ter o prazer de te encontrar.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Desembarcaste hoje mesmo?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o; h\u00e1 oito dias.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Como deixaste S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; No mesmo estado.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; \u00c9 verdade; aproveito a ocasi\u00e3o para pedir-te um<br \/>\npequeno obs\u00e9quio.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Estou \u00e0s tuas ordens.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Chegaste h\u00e1 pouco, e naturalmente deves ter curiosidade<br \/>\nde ver os nossos teatros; aceita este bilhete, \u00e9 do benef\u00edcio<br \/>\nde um h\u00e1bil artista.<\/p>\n<p>ERNESTO (com ironia) &#8211; Ora, meu amigo, \u00e9s tu que me fazes o obs\u00e9quio:<br \/>\nobrigad\u00edssimo.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Onde est\u00e1s morando?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; No Hotel de Botafogo.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Sei; adeus. Havemos de nos ver.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Sim; quando quiseres.<\/p>\n<p>HENRIQUE (saindo, passa por CUST\u00d3DIO) &#8211; Tem passado bem, Sr. Cust\u00f3dio?<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO (levanta-se) &#8211; Bem, obrigado. Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Quer ficar com um bilhete do benef\u00edcio de&#8230;<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Nada. H\u00e1 vinte anos n\u00e3o freq\u00fcento os<br \/>\nespet\u00e1culos; no meu tempo&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUE (rindo-se) &#8211; Freq\u00fcentava o teatrinho de bonecos! (Sai.)<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Crian\u00e7ola!<\/p>\n<p><strong>CENA VII<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, CUST\u00d3DIO<\/p>\n<p>ERNESTO (mostrando o cart\u00e3o) &#8211; Mais uma bucha!<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Pois caiu?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Est\u00e1 me parecendo que esta gente n\u00e3o faz outra coisa<br \/>\ndesde o princ\u00edpio at\u00e9 o fim do ano sen\u00e3o beneficiar se<br \/>\nmutuamente; mas beneficiar-se desta maneira! Proudhomme que definiu a propriedade<br \/>\num roubo legitimado pela lei se viesse ao Rio de Janeiro, n\u00e3o podia<br \/>\ndeixar de definir o benef\u00edcio um estelionato legitimado pela sociedade.<br \/>\nA pretexto de teatro e de baile um amigo abusa da nossa confian\u00e7a e<br \/>\nnos toma cinco ou dez mil-r\u00e9is contra a nossa vontade.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Pensa muito bem! O governo \u00e9 o culpado&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Dos benef\u00edcios?<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; De tudo!<\/p>\n<p>(Entram HENRIQUE e PEREIRA.)<\/p>\n<p><strong>CENA VIII<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, HENRIQUE, PEREIRA<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Meu amigo, desculpa; n\u00e3o pude deixar de voltar para ter<br \/>\no prazer de apresentar-te o Sr. Pereira, um dos nossos poetas mais distintos.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; \u00c9 bondade de meu amigo!<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO (a meia voz) &#8211; Que firma!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ah! O Sr. \u00e9 poeta! Estimo muito conhec\u00ea-lo: tenho<br \/>\numa grande simpatia pelos poetas, embora na minha vida nunca conseguisse fazer<br \/>\num verso.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Isto n\u00e3o quer dizer nada; Chateaubriand \u00e9 um grande<br \/>\npoeta e escreveu em prosa.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Meu amigo, n\u00f3s n\u00e3o queremos tomar-te o tempo. O<br \/>\nSr. Pereira vai publicar um volume de suas primeiras poesias e espera que<br \/>\ntu, que \u00e9s amante da literatura, protejas essa publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Tu pedes, Henrique, n\u00e3o posso recusar.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Submeto \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de V.Sa. o programa<br \/>\nda assinatura. Um belo volume in-8o franc\u00eas, de cem p\u00e1ginas,<br \/>\n5$OOO no ato da entrega. N\u00e3o exijo adiantado.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Mas n\u00e3o h\u00e1 necessidade de demorar uma coisa que pode<br \/>\nficar conclu\u00edda. (Tira a carteira.)<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; V.Sa. ordena&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Tomas duas assinatura ou tr\u00eas?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Uma basta, Henrique; sabes que a minha fortuna n\u00e3o est\u00e1<br \/>\na par do meu gosto pela literatura.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; \u00c9 sempre assim; os grandes talentos s\u00e3o ricos de<br \/>\nintelig\u00eancia, mas pobres desse vil objeto a que se chama dinheiro. (Recebe<br \/>\na nota.) Muito obrigado, Sr&#8230;.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o tem de qu\u00ea.<\/p>\n<p>(Entra D. LU\u00cdSA.)<\/p>\n<p><strong>CENA IX<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, D. LU\u00cdSA<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Perd\u00e3o, meus Srs.; tenham a bondade de ler este<br \/>\npapel.<\/p>\n<p>HENRIQUE (finge n\u00e3o ouvir) &#8211; At\u00e9 logo, Ernesto.<\/p>\n<p>PEREIRA (a ERNESTO) &#8211; Tive muito prazer em conhecer a V.Sa..<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Uma pobre vi\u00fava! Meu marido&#8230;<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Se puder servir-lhe para alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Igualmente!<\/p>\n<p>HENRIQUE (a PEREIRA) &#8211; Vamos; tenho pressa.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Ent\u00e3o, Srs! Qualquer coisa&#8230;<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; \u00c0s suas ordens. (Sai.)<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o l\u00ea?<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Adeus, adeus. (Sai.)<\/p>\n<p>CENA X<\/p>\n<p>ERNESTO, CUST\u00d3DIO, D. LU\u00cdSA<\/p>\n<p>ERNESTO (a CUST\u00d3DIO) &#8211; Que papel ser\u00e1 esse que aquela Sra.<br \/>\npede com tanta inst\u00e2ncia para ler? Talvez alguma not\u00edcia importante?<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO (levantando-se) &#8211; Com sua licen\u00e7a.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA (a CUST\u00d3DIO, apresentando o papel) &#8211; O Sr. faz obs\u00e9quio?&#8230;<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO (saindo) &#8211; Esqueci os \u00f3culos em casa. (Sai.)<\/p>\n<p><strong>CENA XI<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, D. LU\u00cdSA, depois BRAGA<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; V.Sa. ao menos me far\u00e1 a caridade!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Deixe ver. [Abre o papel] Ah! uma subscri\u00e7\u00e3o! Por<br \/>\nisso \u00e9 que os tais amigos se puseram todos ao fresco, fazendo-se desentendidos;<br \/>\num tinha pressa, o outro esqueceu os \u00f3culos. [Fecha.] Desculpe, minha<br \/>\nSra.; n\u00e3o posso dar nada; tenho feito muitas despesas.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Pouco mesmo que seja; tudo serve. \u00c9 para fazer o<br \/>\nenterro do meu pobre marido que expirou esta noite e deixou-me ao desamparo<br \/>\ncom oito filhinhos&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pobre mulher! Para esta n\u00e3o h\u00e1 um benef\u00edcio!<br \/>\nMas diga-me, seu marido nada possu\u00eda? A Sra. n\u00e3o tem parentes?<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Nem um; n\u00e3o tenho ningu\u00e9m de quem me valer.<br \/>\nAcredite, Sr., que para chegar a este estado de recorrer \u00e0 piedade<br \/>\ndos que n\u00e3o me conhecem, foi preciso ver meus pobres filhinhos nus,<br \/>\ne chorando de fome, os coitadinhos.<\/p>\n<p>BRAGA (dentro do balc\u00e3o) &#8211; Temos choradeira!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Corta o cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acha? Torne, minha Sra.;<br \/>\nsinto n\u00e3o poder dar mais; por\u00e9m n\u00e3o sou rico. (D\u00e1<br \/>\numa nota.)<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA [Examinando a nota] &#8211; Cinco mil-r\u00e9is!&#8230; [Olha ERNESTO<br \/>\ncom ar de zombaria e sai].<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E esta! Nem sequer um obrigado; julga que n\u00e3o lhe fiz favor?<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; Ora o Sr. ainda deixa-se lograr por esta gente?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E o Sr. n\u00e3o viu? Por que n\u00e3o me avisou?<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; N\u00e3o gosto de me intrometer nos neg\u00f3cios dos outros.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Boa moral!&#8230; Oh! mas esta n\u00e3o aturo.<\/p>\n<p>(Vai sair correndo e encontra-se com TEIXEIRA, J\u00daLIA e D. MARIANA<br \/>\nque entram.)<\/p>\n<p><strong>CENA XII<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, TEIXEIRA, J\u00daLIA, D. MARIANA, BRAGA<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ernesto!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Bom dia, sobrinho.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Adeus, meu tio. D. Mariana&#8230; Como est\u00e1, prima?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Boa, obrigada.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Anda passeando?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o; vim fazer algumas compras.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; J\u00falia, enquanto ficas vendo as fazendas com D. Mariana,<br \/>\nvou \u00e0 Pra\u00e7a e j\u00e1 volto.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Sim, papai; mas n\u00e3o se demore.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; um instante! (Sai.)<\/p>\n<p>BRAGA (fora do balc\u00e3o) &#8211; O que deseja V.Ex.a?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Alguns cortes de musselina e barege.<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; Temos lind\u00edssimos, do melhor gosto, chegados no paquete, da<br \/>\n\u00faltima moda; h\u00e3o de agradar a V. Ex.a; \u00e9 fazenda superior.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Pois deite-os l\u00e1 dentro que j\u00e1 vou escolher.<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; Sim, Sra.; V.Ex.a h\u00e1 de ficar satisfeita. (Sobe a cena com<br \/>\nD. MARIANA).<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Como, prima! A Sra. j\u00e1 tem excel\u00eancia?<\/p>\n<p>J\u00daLIA (sorrindo) &#8211; Aqui na corte todo o mundo tem, Ernesto. N\u00e3o<br \/>\ncusta dinheiro.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Entendo! Entendo! Mais esta singularidade para as minhas notas.<\/p>\n<p>BRAGA (dentro do balc\u00e3o \u00e0 D. MARIANA) &#8211; Sim, minha Sra.; tenha<br \/>\na bondade de esperar um momento; j\u00e1 venho mostrar-lhe fazenda que h\u00e1<br \/>\nde agradar-lhe.<\/p>\n<p>(J\u00daLIA senta-se.)<\/p>\n<p><strong>CENA XIII<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, J\u00daLIA, D. MARIANA, depois BRAGA<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Diga-me, Ernesto, como tem achado o Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quer que lhe confesse a verdade, J\u00falia?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Decerto, primo; n\u00e3o h\u00e1 necessidade de encobrir.<br \/>\nJ\u00e1 sei que n\u00e3o gostou?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ah! Se fosse s\u00f3 isso! [D. MARIANA desce.]<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; O que \u00e9 mais ent\u00e3o?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Sinto declarar; mas o seu Rio de Janeiro \u00e9 um verdadeiro<br \/>\ninferno!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Com efeito, Sr. Ernesto!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o diga isto, primo.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Digo e repito; um verdadeiro inferno.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Mas por qu\u00ea?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Eu lhe conto. Logo que cheguei, n\u00e3o vi, como j\u00e1 lhe<br \/>\ndisse, no aspecto geral da cidade, nada que me impressionasse. Muita casa,<br \/>\nmuita gente, muita lama; eis o que h\u00e1 de not\u00e1vel. Por\u00e9m<br \/>\nisto n\u00e3o \u00e9 nada; de perto \u00e9 mil vezes pior.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; E depois? Quando passeou?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quando passeei? Por ventura passeia-se no Rio de Janeiro? O que<br \/>\nchama a senhora passear? \u00c9 andar um homem saltando na lama, como um<br \/>\npassarinho, atropelado por uma infinidade de carros, e acotovelado por todo<br \/>\no mundo? \u00c9 n\u00e3o ter um momento de sossego, e estar obrigado a<br \/>\nresguardar os p\u00e9s de uma carro\u00e7a, o chap\u00e9u de um guarda-chuva,<br \/>\na camisa dos respingos de lama, e o ombro dos empurr\u00f5es? Se \u00e9<br \/>\nisto que a senhora chama passear, ent\u00e3o sim, admite que se passeie<br \/>\nno Rio de Janeiro; mas \u00e9 preciso confessar que n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nmuito agrad\u00e1veis esses passeios.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; J\u00e1 vejo que o primo n\u00e3o gosta da sociedade;<br \/>\n\u00e9 mais amigo da solid\u00e3o.<\/p>\n<p>D. MARIANA (no balc\u00e3o vendo fazendas) &#8211; Pois em um mo\u00e7o admira.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Perd\u00e3o, J\u00falia; gosto da sociedade; com ser estudante<br \/>\nde S\u00e3o Paulo, n\u00e3o desejo passar por um roceiro. Mas quero estar<br \/>\nna sociedade \u00e0 minha vontade e n\u00e3o \u00e0 vontade dos outros;<br \/>\nquero divertir-me, olhar, observar; e n\u00e3o ser obrigado a responder<br \/>\na um sujeito que me pede fogo, a outro que me pergunta o que h\u00e1 de<br \/>\nnovo, e a outro que deseja saber quantas horas s\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; E a Rua do Ouvidor? Que me diz? N\u00e3o achou bonita? \u00c0<br \/>\nnoite sobretudo?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Oh! n\u00e3o me fale na tal Rua do Ouvidor! Se o Rio de Janeiro<br \/>\n\u00e9 o inferno, a Rua do Ouvidor \u00e9 o purgat\u00f3rio de um pobre<br \/>\nestudante de S\u00e3o Paulo que vem passar as f\u00e9rias na corte.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o o compreendo, primo; e inteiramente o contrario<br \/>\ndo que me dizem todos.<\/p>\n<p>D. MARIANA (sempre no balc\u00e3o) &#8211; Decerto; n\u00e3o h\u00e1 quem<br \/>\nn\u00e3o fique encantado!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pode ser, D. Mariana, n\u00e3o contesto; os gostos s\u00e3o<br \/>\ndiferentes, mas eu lhe digo os encantos que achei na Rua do Ouvidor. Apenas<br \/>\ndei o primeiro passo, saltou-me um sujeito gritando a goelas despregadas &#8220;F\u00f3sforos!<br \/>\nF\u00f3sforos inalter\u00e1veis e superiores! A vint\u00e9m!&#8221; Para<br \/>\nme ver livre do tal menino tive que trocar uma nota e comprar um embrulho<br \/>\nde caixas de f\u00f3sforos.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (rindo) &#8211; Mas para que comprou?<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; N\u00e3o tinha necessidade&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Queriam que andasse com aquele pajem de nova esp\u00e9cie a aturdir-me<br \/>\nos ouvidos?&#8230; Por\u00e9m n\u00e3o fica nisto; apenas vejo-me livre de<br \/>\num, eis-me com outro: &#8220;Vig\u00e9simos, quartos, bilhetes, meios e inteiros!<br \/>\nSorte grande!&#8221; L\u00e1 se foram dez mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ainda? Foi tamb\u00e9m para se ver livre?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E porque estavam muitas pessoas que olhavam para mim, e n\u00e3o<br \/>\nqueria que me tornassem por um pobret\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Que id\u00e9ia! Todos eles est\u00e3o acostumados a isso,<br \/>\ne n\u00e3o fazem caso.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ainda n\u00e3o acabei. Da\u00ed a pouco um benef\u00edcio<br \/>\ndo ator tal, uma subscri\u00e7\u00e3o para isto, um cart\u00e3o de baile<br \/>\ndas sociedades de benefic\u00eancia de todas as na\u00e7\u00f5es do mundo.<br \/>\nEnfim encontro um amigo que n\u00e3o me via h\u00e1 tr\u00eas anos, e<br \/>\no primeiro cumprimento que me dirigiu foi empurrar-me este bilhete e ainda<br \/>\nem cima um volume de poesias que j\u00e1 paguei, mas que ainda n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 impresso.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (sorrindo) &#8211; Abusam de sua boa-f\u00e9, meu primo. \u00c9<br \/>\nnatural; ainda n\u00e3o conhece os nossos costumes; mas no meio de tudo<br \/>\nisso, n\u00e3o vejo raz\u00e3o para desgostar-se tanto do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois eu vejo. Que quer dizer sair um homem de casa para divertir-se,<br \/>\ne voltar com as algibeiras cheias (tirando) de caixas de f\u00f3sforos,<br \/>\nde programas de espet\u00e1culos, de bilhetes de todas as qualidades, e<br \/>\nde todas as cores, menos do tesouro; e al\u00e9m de tudo com a carteira<br \/>\nvazia? N\u00e3o, a Sra. pode achar muito boa a sua terra, mas eu n\u00e3o<br \/>\nestou disposto a atur\u00e1-la por mais tempo.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Que diz, primo?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Vou-me embora; amanh\u00e3 sai o vapor Josefina e eu aproveito.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Deveras, Ernesto? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; N\u00e3o v\u00ea que est\u00e1 brincando?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Palavra de honra! Tenho pressa de dizer adeus a esta terra dos<br \/>\nf\u00f3sforos, das loterias, e dos benef\u00edcios. . . Oh! dos benef\u00edcios<br \/>\nsobretudo!&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Escute, meu primo. Admito que essas primeiras impress\u00f5es<br \/>\ninfluam no seu esp\u00edrito; que o Rio de Janeiro tenha realmente estes<br \/>\ninconvenientes; mas v\u00e1 passar um dia conosco nas Laranjeiras, e eu<br \/>\nlhe mostrarei que em compensa\u00e7&amp;atiatilde;o h\u00e1 muitas belezas, muitos<br \/>\ndivertimentos que s\u00f3 na corte se podem gozar.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quais s\u00e3o eles? Os passeios dos arrabaldes? &#8211; Um banho de<br \/>\npoeira e de suor. Os bailes? &#8211; Um supl\u00edcio para os calos e um divertimento<br \/>\ns\u00f3 para as modistas e os confeiteiros. O teatro l\u00edrico? &#8211; Uma<br \/>\nexcelente cole\u00e7\u00e3o de medalhas digna do museu. As mo\u00e7as?&#8230;<br \/>\nNeste ponto bem v\u00ea que n\u00e3o posso ser franco, prima.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Fale; n\u00e3o me importa. Tenho at\u00e9 curiosidade<br \/>\nem saber o que pensa das mo\u00e7as do Rio. Fale!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois bem; j\u00e1 que manda, dir-lhe-ei que isto de mo\u00e7a<br \/>\n\u00e9 esp\u00e9cie desconhecida aqui na corte.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Como? N\u00e3o sei o que quer dizer.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quero dizer que n\u00e3o h\u00e1 mo\u00e7as no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; E eu o que sou?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pior \u00e9 esta! N\u00e3o falo dos presentes.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Bem; mas explique-se.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; No Rio de Janeiro, prima, h\u00e1 bal\u00f5es, crinolinas,<br \/>\nchap\u00e9us \u00e0 pastora, bonecas cheias de arames, tudo o que a Sra.<br \/>\nquiser; por\u00e9m, mo\u00e7as, n\u00e3o; n\u00e3o posso admitir.<br \/>\nIgnoro que haja no mundo uma degenera\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a humana<br \/>\nque tenha a cabe\u00e7a mais larga do que os ombros; que carregue uma concha<br \/>\nenorme como certos caramujos; que apresente enfim a forma de um cinco.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; De um cinco? Que esquisitice \u00e9 esta?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9 a verdade. Olhe uma mo\u00e7a de perfil, e ver\u00e1<br \/>\num cinco perfeito. O corpo \u00e9 a haste fina, o bal\u00e3o \u00e9<br \/>\na volta, e o chap\u00e9u arrebitado \u00e9 o corte. (Apontando para o<br \/>\nespelho fronteiro; Olhe!<\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e1 um.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (voltando-se) &#8211; Aonde?<\/p>\n<p>ERNESTO (rindo-se) &#8211; Ah! Perd\u00e3o, prima, era a Sra.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Obrigada pelo cumprimento! (Senta-se.)<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ficou zangada comigo, J\u00falia?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o; zangada, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Cuidei. (Uma pausa.)<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; \u00c0 vista disto o primo n\u00e3o viu no Rio de Janeiro<br \/>\nnada que lhe agradasse?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Nada absolutamente, n\u00e3o; vi alguma coisa, mas&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Mas. . . Acabe!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; O que me agrada \u00e9 justamente o que n\u00e3o me persegue,<br \/>\no que me foge mesmo.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Diga o que \u00e9?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o posso&#8230; N\u00e3o devo&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ora quer fazer mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois bem; vai por sua conta; depois n\u00e3o se zangue.<\/p>\n<p>D. Mariana, fa\u00e7a que n\u00e3o ouve. S\u00e3o seus olhos, J\u00falia!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Hein!&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA (corando) &#8211; Ah! Ernesto! Quer zombar de mim?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Olhe que eu n\u00e3o sou c\u00e1 do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o importa; mas \u00e9 estudante.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Boa maneira de lembrar-me a minha humilde posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Primo, n\u00e3o interprete mal as minhas palavras.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Oh! N\u00e3o pense que desconfio, n\u00e3o! Sei que um estudante<br \/>\n\u00e9 um animal que n\u00e3o tem classifica\u00e7\u00e3o social;<br \/>\npode ser tudo, mas ainda n\u00e3o \u00e9 nada. \u00c9 uma letra de c\u00e2mbio<br \/>\nque deve ser descontada pelo futuro, grande capitalista de sonhos e de esperan\u00e7as.<br \/>\nOra as mo\u00e7as t\u00eam medo do futuro, que para elas quer dizer o cabelo<br \/>\nbranco, a ruga, o carmim, o p\u00f3 de arroz, et caetera.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Isto s\u00e3o as mo\u00e7as vaidosas que s\u00f3 vivem<br \/>\nde frivolidades, e eu creio, meu primo, que o Sr. n\u00e3o deve fazer esta<br \/>\nid\u00e9ia de mim; ao contr\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>BRAGA (adianta-se entre os dois) &#8211; Minha Sra., os cortes de vestidos est\u00e3o<br \/>\n\u00e0s ordens de V.Ex.a.<\/p>\n<p>ERNESTO [consigo] &#8211; Maldito caixeiro!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; J\u00e1 vou.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Adeus, J\u00falia, lembran\u00e7as a meu tio, D. Mariana&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Venha c\u00e1, Ernesto, espere por papai.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o posso; adeus. (Sai.)<\/p>\n<p><strong>CENA XIV<\/strong><\/p>\n<p>J\u00daLIA, D. MARIANA<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o sei por que me interessa esse car\u00e1ter original.<br \/>\nTenho-lhe amizade j\u00e1, e apenas o vi h\u00e1 oito dias, e com esta<br \/>\na segunda vez.<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Ouviu o que ele disse?&#8230; Seus olhos&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Qual, D. Mariana, n\u00e3o creia. Cumprimentos de mo\u00e7o&#8230;<br \/>\nParte amanh\u00e3!&#8230;<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Isto diz ele.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ora, deixe-me escolher os vestidos. Vamos!&#8230;<\/p>\n<p>(Entram no interior da loja.)<\/p>\n<p><strong>CENA XV<\/strong><\/p>\n<p>FILIPE, D. LU\u00cdSA<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; O Sr. tenha a bondade de ler este papel.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Vejamos. (L\u00ea) A Sra. \u00e9 vi\u00fava ent\u00e3o?<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; \u00c9 verdade; perdi meu marido; estou na maior desgra\u00e7a;<br \/>\nnove filhinhos dos quais o maior n\u00e3o tem cinco anos.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Nesse caso nasceram de tr\u00eas meses como os cordeiros. Nove<br \/>\nfilhos em cinco anos!<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; S\u00e3o g\u00eameos, Sr.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Ah! tem raz\u00e3o! Foi uma ninhadazinha de pintos.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; O Sr. est\u00e1 zombando de mim? Se n\u00e3o fosse<br \/>\na dor de ver os pobrezinhos nus, chorando de fome, coitadinhos, n\u00e3o<br \/>\nme animaria a recorrer \u00e0 esmola das pessoas caridosas.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Fique certa que elas n\u00e3o deixar\u00e3o de ampar\u00e1-la<br \/>\nnessa desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; E o Sr&#8230;. pouco mesmo&#8230;<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Eu, minha Sra., n\u00e3o posso ser insens\u00edvel ao seu infort\u00fanio;<br \/>\na Sra. est\u00e1 justamente no caso de ser feliz. N\u00e3o h\u00e1 desgra\u00e7a<br \/>\nque sempre dure. S\u00f3 a sorte grande a pode salvar.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Que diz, senhor?<\/p>\n<p>FILIPE (tirando os bilhetes) &#8211; Um meio, um quarto, um vig\u00e9simo! N\u00e3o<br \/>\nperca esta ocasi\u00e3o; n\u00e3o rejeite a fortuna que a procura.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Ora, senhor! N\u00e3o se ria da desgra\u00e7a do pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Eu rir-me da desgra\u00e7a dos outros! Eu que vivo dela!<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Estou quase aproveitando os cinco mil-r\u00e9is de h\u00e1<br \/>\npouco.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Vamos, resolva-se.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Est\u00e1 bom! Sempre compro um quarto.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Antes um meio.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o quero; h\u00e1 de ser um quarto.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Aqui tem. (A meia voz) E pede esmolas!&#8230;<\/p>\n<p>(Entra uma menina de realejo que pede a gorjeta com um pandeiro.)<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Sai-te, vadia! A pol\u00edcia n\u00e3o olha para estas<br \/>\ncoisas.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; \u00c9 verdade; n\u00e3o sei para que servem as autoridades.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Deixam as pessoas honestas serem perseguidas por esta s\u00facia<br \/>\nde mendigos&#8230;<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Que n\u00e3o t\u00eam profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>(Saem \u00e0 direita; J\u00daLIA, D. MARIANA e BRAG\u00c1 entram do<br \/>\ninterior da loja.)<\/p>\n<p><strong>CENA XVI<\/strong><\/p>\n<p>J\u00daLIA, D. MARIANA, BRAGA<\/p>\n<p>(BRAGA traz uma caixa de corte de vestido.)<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; S\u00e3o muito bonitos os vestidos; voc\u00ea soube-os escolher,<br \/>\nJ\u00falia.<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; A senhora tem muito bom gosto.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Mande deixar isto no meu carro.<\/p>\n<p>BRAGA &#8211; Vou eu mesmo. (Sai pelo fundo.)<\/p>\n<p><strong>CENA XVII<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, J\u00daLIA, D. MARIANA<\/p>\n<p>ERNESTO (entrando \u00e0 direita todo enlameado) &#8211; Bonito!&#8230; Estou fresco.<\/p>\n<p>D. MARIANA (rindo) &#8211; Ah! ah! ah!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; O que \u00e9 isto, Ernesto?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; O que v\u00ea, prima. A sua Rua do Ouvidor p\u00f4s-me neste<br \/>\nestado miser\u00e1vel! Uma maldita carro\u00e7a! Est\u00fapidos que<br \/>\nn\u00e3o olham para quem passa!<\/p>\n<p>J\u00daLIA [sorrindo] &#8211; Foi uma vingan\u00e7a, primo; o senhor acabava<br \/>\nde dizer mal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E n\u00e3o tinha raz\u00e3o? Uma cidade de lama! Felizmente<br \/>\nj\u00e1 mandei tomar a minha passagem. [Entra Teixeira.]<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Como! Sempre vai amanh\u00e3?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que d\u00favida! E at\u00e9 por seguran\u00e7a embarco hoje<br \/>\nmesmo.<\/p>\n<p><strong>CENA XVIII<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, TEIXEIRA<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Que \u00e9 isto! Falas em embarcar. Para onde vais?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Volto para S\u00e3o Paulo, meu tio.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Veio-lhe agora esta id\u00e9ia! Diz que n\u00e3o gosta<br \/>\nda corte, que \u00e9 uma terra insuport\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Um inferno!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Caprichos de rapaz! N\u00e3o h\u00e1 cidade como o Rio de<br \/>\nJaneiro. \u00c9 verdade que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que foi. Bom<br \/>\ntempo, o tempo das trovoadas. Que diz, D. Mariana?<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Tem raz\u00e3o, Sr. Teixeira.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Fa\u00e7o id\u00e9ia! Se sem as tais trovoadas estou neste<br \/>\nestado!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; N\u00e3o sabes o que dizes. As trovoadas \u00e9 que nos preservam<br \/>\nda febre amarela, do c\u00f3lera e de todas essas mol\u00e9stias que nos<br \/>\nperseguem agora.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o quero contrari\u00e1-lo, meu tio; a sua corte \u00e9<br \/>\nbela, \u00e9 magn\u00edfica, com ou sem trovoadas. Mas eu por causa das<br \/>\nd\u00favidas vou admir\u00e1-la de longe.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; J\u00e1 tomou passagem, papai; vai amanh\u00e3.<\/p>\n<p>TEIXEIRA (a ERNESTO) &#8211; Pois n\u00e3o! Julgas que consinto nessa loucura!<br \/>\nEm falta de meu irm\u00e3o, teu pai, eu fa\u00e7o as suas vezes. Pro\u00edbo-te<br \/>\nexpressamente&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Meu tio, \u00e9 imposs\u00edvel, moralmente imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; T\u00e1, t\u00e1, t\u00e1! N\u00e3o me entendo com os<br \/>\nteus palavr\u00f5es de Academia. Eu c\u00e1 sou homem do p\u00e3o, p\u00e3o,<br \/>\nqueijo, queijo: disse que n\u00e3o ir\u00e1s e est\u00e1 dito.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Muito bem, papai. (A ERNESTO) N\u00e3o tem rem\u00e9dio<br \/>\nsen\u00e3o ficar.<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; E n\u00e3o se h\u00e1 de arrepender.<\/p>\n<p>ERNESTO Meu tio, previno-lhe que se me obriga a ficar nesta terra, suicido-me.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ah! Ernesto!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Que rapaz cabe\u00e7udo!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Fuma\u00e7as! N\u00e3o fa\u00e7am caso.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ou me suicido, ou mato o primeiro ma\u00e7ante que vier importunar-me.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; L\u00e1 isto \u00e9 neg\u00f3cio entre ti e a pol\u00edcia.<br \/>\n(Tira o rel\u00f3gio.) Quase tr\u00eas horas! Vamos D. Mariana, J\u00falia.<br \/>\n. . Ande, Sr. recalcitrante, h\u00e1 de jantar hoje conosco.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (a ERNESTO) &#8211; Bravo! Estou contente, vou vingar-me.<\/p>\n<p>ERNESTO [Enquanto os outros se dirigem \u00e0 porta] &#8211; Tr\u00eas meses<br \/>\nnesta terra! Meus tr\u00eas meses de f\u00e9rias do quinto ano, que eu<br \/>\ncontava fossem tr\u00eas dias de prazer! V\u00e3o ser tr\u00eas s\u00e9culos<br \/>\nde aborrecimento.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (da porta) &#8211; Ernesto, venha.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; L\u00e1 vou, prima! (Vai sair e encontra CUST\u00d3DIO que<br \/>\nentra.)<\/p>\n<p><strong>CENA XIX<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, CUST\u00d3DIO<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO (cumprimentando) &#8211; Como tem passado? Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>ERNESTO (ao ouvido) &#8211; Que n\u00e3o estou disposto a atur\u00e1-lo. (Sai.)<\/p>\n<p>[CUST\u00d3DIO fica pasmo no meio da cena; cai o pano.]<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>ATO SEGUNDO<\/h4>\n<p>Uma sala elegante em casa de Teixeira, nas Laranjeiras,<\/p>\n<p>[abrindo sobre um jardim]<\/p>\n<p><strong>CENA PRIMEIRA<\/strong><\/p>\n<p>J\u00daLIA, D. MARIANA<\/p>\n<p>(D. MARIANA l\u00ea os jornais junto \u00e0 mesa)<\/p>\n<p>J\u00daLIA (entrando) &#8211; Ernesto ainda n\u00e3o acordou?<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Creio que n\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Que pregui\u00e7oso! Nem por ser o \u00faltimo dia que<br \/>\ntem de passar conosco. \u00c0s onze horas deve embarcar. (Olhando a p\u00eandula)<br \/>\nAh! meu Deus j\u00e1 s\u00e3o nove! Vou acord\u00e1-lo!&#8230; Sim; ele<br \/>\ndisse-me ontem que era um dos seus maiores prazeres acordar ao som do meu<br \/>\npiano, quando eu estudava minha li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; N\u00e3o tem mau gosto.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Obrigada!&#8230; Mas qual \u00e9 a m\u00fasica de que ele<br \/>\n\u00e9 mais apaixonado? Ah! a \u00e1ria da Son\u00e2mbula! (Abre o piano<br \/>\ne toca.)<\/p>\n<p><strong>CENA II<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, ERNESTO<\/p>\n<p>ERNESTO [aparecendo \u00e0 direita] &#8211; Sinto n\u00e3o ser poeta, minha<br \/>\nprima, para responder dignamente a um t\u00e3o am\u00e1vel bom dia. Como<br \/>\npassou, D. Mariana?<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Bem; e o Sr.?<\/p>\n<p>J\u00daLIA [levantando-se] &#8211; Ah! j\u00e1 estava acordado! [Apertam as<br \/>\nm\u00e3os].<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; H\u00e1 muito tempo; aproveitei a manh\u00e3 para fazer uma<br \/>\npor\u00e7\u00e3o de despedidas que me faltavam. N\u00e3o se lembra que<br \/>\nhoje \u00e9 s\u00e1bado?<\/p>\n<p>J\u00daLIA [entristecendo] &#8211; \u00c9 verdade; daqui a pouco&#8230; ERNESTO<br \/>\n&#8211; Quis ficar livre para gozar dessas duas \u00faltimas horas que devemos<br \/>\npassar juntos. Fui a Botafogo, a S. Clemente, e ainda voltei \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Tudo esta manh\u00e3?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Sim; admira-se? Oh! no Rio de Janeiro pode-se fazer isto. Com essa<br \/>\ninfinidade de carros sempre \u00e0s ordens!..<\/p>\n<p>J\u00daLIA (sorrindo) &#8211; E que atropelam a gente que anda nas ruas.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Aqueles que andam a p\u00e9; mas os que v\u00e3o dentro, v\u00e3o<br \/>\ndepressa e comodamente.<\/p>\n<p>D. MARIANA [erguendo-se] &#8211; Estimo muito ouvir isto do Sr. (J\u00daLIA faz<br \/>\n\u00e0 D. MARIANA sinal de sil\u00eancio.)<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Por que, D. Mariana?<\/p>\n<p>J\u00daLIA (a ERNESTO) &#8211; At\u00e9 logo; agora n\u00e3o tem mais despedidas<br \/>\na fazer.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Por isso mesmo n\u00e3o deve deixar-me.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Vou dar algumas ordens; volto j\u00e1. Uma dona de casa<br \/>\ntem obriga\u00e7\u00f5es a cumprir, sobretudo quando deve fazer as \u00faltimas<br \/>\nhonras a um h\u00f3spede que vai deix\u00e1-la. N\u00e3o me demoro.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Olhe l\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA (sorrindo) &#8211; Um minuto! (Sai.)<\/p>\n<p><strong>CENA III<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, D. MARIANA<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que gra\u00e7a e eleg\u00e2ncia ela tem nos seus menores movimentos;<br \/>\ne ao mesmo tempo que simplicidade!&#8230; Oh! n\u00e3o h\u00e1 como as mo\u00e7as<br \/>\ndo Rio de Janeiro para fazerem de um nada, de uma palavra, de um gesto, um<br \/>\nencanto poderoso! Seu esp\u00edrito anima tudo; onde elas se acham tudo<br \/>\nbrinca, tudo sorri, porque a sua alma se comunica a todos os objetos que as<br \/>\ncercam.<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Que entusiasmo!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E n\u00e3o \u00e9 justo, D. Mariana?<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Certamente! (Uma pausa.)<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Como passaram r\u00e1pidos estes tr\u00eas meses! Pareceram-me<br \/>\num sonho!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Sim?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Oh! tenho-os impressos na mem\u00f3ria hora por hora, instante<br \/>\npor instante. De manh\u00e3 os sons prazenteiros do piano de J\u00falia<br \/>\nacordavam-me no fim de um sono tranq\u00fcilo. Da\u00ed a um instante uma<br \/>\nx\u00edcara de excelente chocolate confortava-me o est\u00f4mago, condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nessencial para a poesia.<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Ah! N\u00e3o sabia&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois fique sabendo, D. Mariana. Esses poetas que se alimentam de<br \/>\nfolhas de rosas, t\u00eam a imagina\u00e7\u00e3o pobre e raqu\u00edtica.<br \/>\nPouco depois dava um passeio com J\u00falia pelo jardim, apanh\u00e1vamos<br \/>\njuntos flores para os vasos, eu escolhia a mais linda para os seus cabelos,<br \/>\ne assim pass\u00e1vamos o tempo at\u00e9 a hora do almo\u00e7o, em que<br \/>\nmeu tio ia para a cidade tratar dos seus neg\u00f3cios na Pra\u00e7a&#8230;<br \/>\nBela institui\u00e7\u00e3o esta da Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio! Foi<br \/>\ncriada expressamente para que os pais e maridos deixassem as suas filhas e<br \/>\nmulheres livres, sob pretexto de tratar dos neg\u00f3cios. A princ\u00edpio<br \/>\naborreceu-me&#8230;<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; E agora?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Agora compreendo as suas imensas vantagens.<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Ora, Sr. Ernesto, j\u00e1 v\u00ea que as velhas do Rio de<br \/>\nJaneiro t\u00eam sempre algum pr\u00e9stimo.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que quer dizer, D. Mariana?<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Quero dizer que uma parenta velha que acompanha uma prima bonita<br \/>\nserve n\u00e3o s\u00f3 para fazer-lhe companhia, como para receber as<br \/>\nconfid\u00eancias de um primo apaixonado.<\/p>\n<p>ERNESTO (rindo) &#8211; Ora!&#8230; N\u00e3o tem raz\u00e3o!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; N\u00e3o se ria; \u00e9 s\u00e9rio! (Sobe.) A\u00ed<br \/>\nvem um mo\u00e7o que eu n\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>ERNESTO [olhando] &#8211; Ah! Henrique!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; seu amigo? Deixo-lhe com ele. [Sai].<\/p>\n<p><strong>CENA IV<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, HENRIQUE<\/p>\n<p>HENRIQUE [entrando] &#8211; Aqui me tens \u00e0s tuas ordens. Como passas?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Bem, meu amigo; pe\u00e7o-te desculpa do inc\u00f4modo que te<br \/>\ndei.<\/p>\n<p>HENRIQUE [com volubilidade] &#8211; Qual inc\u00f4modo! Recebi o teu bilhete,<br \/>\ndizias que precisavas de mim; fiz o que farias. Vejamos; de que se trata?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Desejava pedir-te um obs\u00e9quio; mas tenho acanhamento; temo<br \/>\nabusar da tua amizade.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Escuta, Ernesto. N\u00f3s aqui no Rio de Janeiro costumamos<br \/>\nser francos; quando um amigo precisa de outro, pede; se ele pode, satisfaz;<br \/>\nse n\u00e3o, diz abertamente: e nem por isso deixam de estimar-se da mesma<br \/>\nmaneira.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Tu me animas; vou dizer-te tudo.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; \u00c9 o meio de nos entendermos. [Sentam-se].<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Sabes que ainda sou estudante, e por conseguinte n\u00e3o tenho<br \/>\ngrande abund\u00e2ncia de dinheiro; vindo passar aqui as f\u00e9rias, julguei<br \/>\nque a mesada que o meu pai me dava chegasse para as minhas despesas. Mas na<br \/>\ncorte s\u00e3o tantos os prazeres e divertimentos, que quanto se tenha,<br \/>\ngasta-se; e gasta-se mesmo mais do que se tem. Foi o que me sucedeu.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Fizeste algumas d\u00edvidas? N\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Justamente: procedi mal. Mas que queres? Encontrei no Rio de Janeiro<br \/>\numa coisa que eu n\u00e3o conhecia sen\u00e3o de nome &#8211; o cr\u00e9dito;<br \/>\nhoje que experimentei os seus efeitos n\u00e3o posso deixar de confessar<br \/>\nque \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o maravilhosa.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Vale mais do que dinheiro!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Decerto; \u00e9 a ele que devo ter comprado o que precisava,<br \/>\nsem mesmo passar pelo inc\u00f4modo de pagar. Mas agora vou retirar-me para<br \/>\nS\u00e3o Paulo, e n\u00e3o desejava que viessem incomodar meu tio, al\u00e9m<br \/>\nde que seria desairoso para mim partir sem ter saldado essas contas.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Tens raz\u00e3o; um homem honesto pode demorar por necessidade<br \/>\no pagamento de uma d\u00edvida; mas n\u00e3o deve fugir de seu credor.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quis a princ\u00edpio falar a meu tio, mas tive vergonha de tocar<br \/>\nnisso; resolvi-me recorrer a ti.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Em quanto importam essas d\u00edvidas?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o chegam a cem mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Ora! uma bagatela. [Abre a carteira] Aqui tens.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Obrigado, Henrique, n\u00e3o fazes id\u00e9ia do servi\u00e7o<br \/>\nque me prestas! Vou passar-te um recibo ou um vale&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Que lembran\u00e7a, Ernesto! N\u00e3o sou negociante; tiro-te<br \/>\nde um pequeno embara\u00e7o; quando puderes me pagar\u00e1s. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 necessidade de papel e tinta em neg\u00f3cios de amizade.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; A tua confian\u00e7a ainda mais me penhora. Entretanto mesmo<br \/>\npara tranq\u00fcilidade minha desejava&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; N\u00e3o falemos mais nisso. Quando embarcas?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Hoje; daqui a duas horas.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Pois se n\u00e3o nos virmos mais, conta que aqui tens um amigo.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Eu te escreverei.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Se \u00e9 por simples aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tomes<br \/>\nesse inc\u00f4modo; escreve-me quando precisares de qualquer coisa.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ora, gra\u00e7as a ti, estou livre de uma grande inquieta\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nMas quero confessar-te uma injusti\u00e7a que cometi para contigo, e de<br \/>\nque me acuso.<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Como assim?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quando vi os mo\u00e7os aqui da corte, com seu ar de pouco caso,<br \/>\njulguei que n\u00e3o passavam de esp\u00edritos levianos! Hoje reconhe\u00e7o<br \/>\nque sob essa apar\u00eancia fr\u00edvola, h\u00e1 merecimento real e<br \/>\nmuita nobreza de car\u00e1ter. Tu \u00e9s um exemplo. A princ\u00edpio,<br \/>\ndesculpa, mas tomei-te por um sujeito que especulava sobre a amizade para<br \/>\na emiss\u00e3o de bilhetes de benef\u00edcio e de poesias in\u00e9ditas!<\/p>\n<p>HENRIQUE (rindo-se) &#8211; E mais \u00e9 que \u00e0s vezes assim \u00e9<br \/>\nnecess\u00e1rio! N\u00e3o podemos recusar certos pedidos!.<\/p>\n<p><strong>CENA V<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, CUST\u00d3DIO<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO (na porta) &#8211; Muito bons dias tenham todos nesta casa.<\/p>\n<p>ERNESTO [a HENRIQUE] &#8211; Oh! A\u00ed vem o nosso compadre como seu eterno<br \/>\nque h\u00e1 de novo. (A CUST\u00d3DIO) Bom dia, Sr. Cust\u00f3dio, como<br \/>\nvai?<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO [desce] &#8211; Bem, obrigado! Vai-se arrastando a vida enquanto<br \/>\nDeus \u00e9 servido. [Aperta-lhe a m\u00e3o] Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>ERNESTO [rindo] &#8211; Tudo \u00e9 velho; ali est\u00e3o os jornais, mas n\u00e3o<br \/>\ntrazem coisas de import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Conforme o costume. (Voltando a HENRIQUE) Tem passado bem?<br \/>\nQue h\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Nada, Sr. Cust\u00f3dio, nada absolutamente.<\/p>\n<p>(CUST\u00d3DIO vai sentar-se \u00e0 mesa e l\u00ea os jornais).<\/p>\n<p>ERNESTO (a HENRIQUE) &#8211; Nas prov\u00edncias n\u00e3o se encontra essa<br \/>\ncasta de b\u00edpedes implumes, que vivem absorvidos com a pol\u00edtica,<br \/>\nesperando antes de morrer ver realizada uma esp\u00e9cie de governo que<br \/>\nsonharam e que se parece com a rep\u00fablica de Plat\u00e3o!&#8230; Eis o<br \/>\nverdadeiro tipo da ra\u00e7a desses f\u00f3sseis da Independ\u00eancia<br \/>\ne do Sete de Abril. Cinq\u00fcenta anos de idade, empregado aposentado, bengala,<br \/>\ncaixa de rap\u00e9 e gravata branca. N\u00e3o tem outra ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais do que ler os jornais, perguntar o que h\u00e1 de novo e queixar-se<br \/>\nda imoralidade da \u00e9poca.<\/p>\n<p>HENRIQUE [rindo] &#8211; Serviam outrora para parceiro de gam\u00e3o nas boticas.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO (lendo) &#8211; Oh! C\u00e1 temos um artiguinho da oposi\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nCome\u00e7a! J\u00e1 era tempo! Com este minist\u00e9rio n\u00e3o<br \/>\nsei onde iremos parar.<\/p>\n<p>ERNESTO (a HENRIQUE) &#8211; Agora ei-lo ferrado com o tal artigo! Bom homem! Quando<br \/>\neu queria conversar com J\u00falia, n\u00f3s o cham\u00e1vamos sempre.<br \/>\nAssim \u00e9ramos tr\u00eas, e ao mesmo tempo est\u00e1vamos s\u00f3s;<br \/>\nporque, agarrando-se a um jornal, n\u00e3o ouve, fica cego. Podia apertar<br \/>\na m\u00e3o de minha prima que ele n\u00e3o percebia!<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Esta habilidade n\u00e3o sabia que eles tinham.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois recomendo-te!<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; Fica ao meu cuidado. Adeus; d\u00e1 c\u00e1 um abra\u00e7o;<br \/>\nat\u00e9 a volta.<\/p>\n<p>ERNESTO [abra\u00e7a] &#8211; Adeus, Henrique; lembra-te dos amigos, (Quer segui-lo.)<\/p>\n<p>HENRIQUE &#8211; N\u00e3o te incomodes. [Sai].<\/p>\n<p>CENA VI<\/p>\n<p>ERNESTO, CUST\u00d3DIO, TEIXEIRA, J\u00daLIA<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO [erguendo-se com o jornal na m\u00e3o] &#8211; Isto \u00e9<br \/>\ndesaforo!&#8230; Como \u00e9 que um governo se anima a praticar semelhantes<br \/>\ncoisas na capital do imp\u00e9rio?<\/p>\n<p>[TEIXEIRA e J\u00daLIA t\u00eam entrado enquanto fala CUST\u00d3DIO].<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Que \u00e9 isto, compadre! Por que est\u00e1 t\u00e3o zangado?<br \/>\n[A ERNESTO] Ernesto, como passaste a noite?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Bem, meu tio.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO [mostrando o jornal] &#8211; Pois n\u00e3o leu? Criou-se uma<br \/>\nnova reparti\u00e7\u00e3o! Um bom modo de arranjar os afilhados! No meu<br \/>\ntempo havia menos empregados e trabalhava-se mais. O Real Er\u00e1rio tinha<br \/>\ndezessete, e fazia-se o servi\u00e7o perfeitamente!<\/p>\n<p>[J\u00daLIA senta-se na conversadeira].<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Que quer, compadre? \u00c9 o progresso.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; O progresso da imoralidade.<\/p>\n<p>(TEIXEIRA toma um jornal sobre a mesa; CUST\u00d3DIO continua a ler; ERNESTO<br \/>\naproxima-se de J\u00daLIA.)<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Um minuto!&#8230; Foi um minuto com privil\u00e9gio de hora!<\/p>\n<p>J\u00daLIA [sorrindo] &#8211; Acha que me demorei muito?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Inda pergunta! E agora a\u00ed est\u00e1 meu tio, n\u00e3o<br \/>\nteremos um momento de liberdade!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Sente-se! Podemos conversar.<\/p>\n<p>ERNESTO [sentando-se] &#8211; Preferia que convers\u00e1ssemos sem testemunhas!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Tenha paci\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 culpa minha.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9 de quem \u00e9, J\u00falia? Se n\u00e3o se demorasse!<br \/>\n[Entra AUGUSTO].<\/p>\n<p><strong>CENA VII<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, AUGUSTO<\/p>\n<p>AUGUSTO [entrando] &#8211; Com licen\u00e7a!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Oh! Sr. Augusto!<\/p>\n<p>AUGUSTO [a J\u00daLIA] &#8211; Minha senhora! [a ERNESTO e CUST\u00d3DIO] Meus<br \/>\nSrs.! [A TEIXEIRA] Como passou de ontem, Sr. Teixeira? Pe\u00e7o desculpa<br \/>\nda hora impr\u00f3pria&#8230; [ERNESTO levanta-se e passa ao outro lado].<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; N\u00e3o tem de que. Estou sempre \u00e0s suas ordens.<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Como me disse que talvez n\u00e3o fosse hoje \u00e0 cidade&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Sim; por causa de meu sobrinho que embarca \u00e0s onze horas.<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Assentei de passar por aqui, para saber o que decide sobre aquelas<br \/>\ncem a\u00e7\u00f5es. Talvez hoje tenham subido, mas em todo o caso, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 bom fiar. Se quer o meu conselho &#8211; Estrada de Ferro &#8211; Estrada de<br \/>\nFerro &#8211; e largue o mais. Rua do Cano, nem de gra\u00e7a! Seguros est\u00e3o<br \/>\nem completa oscila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; O Sr. pode demorar-se cinco minutos?<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Como? Mais que o Sr. queira; apesar de que s\u00e3o quase dez<br \/>\nhoras, e \u00e0s onze devo fechar uma transa\u00e7\u00e3o importante.<br \/>\nMas temos tempo&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Pois ent\u00e3o fa\u00e7a favor; passemos ao meu gabinete;<br \/>\nquero incumbir-lhe de uns dois neg\u00f3cios que podem ser lucrativos.<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Vamos a isso! [cumprimentando] Minha Sra.! Meus Srs.! [A TEIXEIRA,<br \/>\ndirigindo-se ao gabinete] \u00c9 sobre estradas de ferro? [Saem, ERNESTO<br \/>\naproxima-se de J\u00daLIA].<\/p>\n<p><strong>CENA VIII<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, CUST\u00d3DIO, J\u00daLIA<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Estrada de ferro! Outra mania! No meu tempo viajava-se<br \/>\nperfeitamente daqui para Minas, e as estradas eram de terra. Agora querem<br \/>\nde ferro! Naturalmente para estragar os cascos dos animais.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Tem raz\u00e3o, Sr. Cust\u00f3dio, tem toda a raz\u00e3o!<\/p>\n<p>J\u00daLIA (a meia voz) &#8211; V\u00e1, v\u00e1 excit\u00e1-lo, depois<br \/>\nn\u00e3o se queixe, quando armar uma das suas quest\u00f5es intermin\u00e1veis.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9 verdade! Mas fiquei t\u00e3o contente, quando meu tio<br \/>\nsaiu, que n\u00e3o me lembrei que est\u00e1vamos s\u00f3s. [Senta-se].<br \/>\nDiga-me uma coisa, prima; que profiss\u00e3o tem este Sr. Augusto?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; \u00c9 um zang\u00e3o!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Estou na mesma. Que emprego \u00e9 esse?<\/p>\n<p>J\u00daLIA [sorrindo] &#8211; Eu lhe explico. Quando passe\u00e1vamos pelo<br \/>\njardim, n\u00e3o se lembra que \u00e0s vezes par\u00e1vamos diante dos<br \/>\ncorti\u00e7os de vidro que meu pai mandou preparar, e escondidos entre as<br \/>\nfolhas lev\u00e1vamos horas e horas a ver as abelhas fabricarem os seus<br \/>\nfavos?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Lembro-me; e por sinal que uma tarde uma abelha fez para mim um<br \/>\nfavo de mel mais doce do que o seu mel de flores. Tomou a sua face por uma<br \/>\nrosa, quis mord\u00ea-la; a Sra. fugiu com o rosto, mas eu que nunca volto<br \/>\na cara ao perigo, n\u00e3o fugi&#8230; com os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (confusa) &#8211; Est\u00e1 bom, primo! Ningu\u00e9m perguntou-lhe<br \/>\npor esta hist\u00f3ria! Se quer que lhe acabe de contar, cale a boca.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Estou mudo como um governista. Vamos ao zang\u00e3o!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Enquanto est\u00e1vamos embebidos a olhar aquele trabalho<br \/>\ndelicado, v\u00edamos um besouro parecido com uma abelha, que entrava disfar\u00e7ado<br \/>\nno corti\u00e7o; e em vez de trabalhar, chupava o mel j\u00e1 fabricado.<br \/>\nN\u00e3o via?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; O que eu me recordo ter visto perfeitamente eram dois olhozinhos<br \/>\ntravessos&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA (batendo o p\u00e9) &#8211; Via sim; eu lhe mostrei muitas vezes.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Est\u00e1 bom! J\u00e1, que deseja, confesso que via; via com<br \/>\nseus olhos!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Pois suponha que a Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio \u00e9<br \/>\numa colmeia: e que o dinheiro \u00e9 um favo de mel. Este sujeito que saiu<br \/>\ndaqui \u00e9 o besouro disfar\u00e7ado, o zang\u00e3o. Os corretores<br \/>\narranjam as transa\u00e7\u00f5es, disp\u00f5em os neg\u00f3cios; vem<br \/>\no zang\u00e3o e atravessa os lucros.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Compreendo agora o que \u00e9 o zang\u00e3o; \u00e9 uma excelente<br \/>\nprofiss\u00e3o para quem n\u00e3o tem nada que fazer, e demais bastante<br \/>\n\u00fatil para a sociedade.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; \u00datil em qu\u00ea?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Oh! Se n\u00e3o fosse ele, ficar\u00edamos s\u00f3s? Se n\u00e3o<br \/>\nfosse ele, meu tio estaria ainda aqui, querendo por for\u00e7a provar-me<br \/>\nque a desgra\u00e7a dos fluminenses prov\u00e9m de n\u00e3o haver mais<br \/>\ntrovoadas! Querendo convencer-me que as maravilhas do Rio de Janeiro s\u00e3o<br \/>\na laranja seleta, o badejete, a farinha de Suru\u00ed e a \u00e1gua da<br \/>\nCarioca! Sim! \u00c9 uma profiss\u00e3o muito \u00fatil! Aconselharei<br \/>\na todos os meus amigos que desejarem seguir o com\u00e9rcio, se fa\u00e7am<br \/>\nzang\u00e3os da pra\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ent\u00e3o \u00e9 nisso que est\u00e1 a grande utilidade&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Mas seriamente, prima; essa profiss\u00e3o f\u00e1cil e lucrativa<br \/>\n\u00e9 uma carreira aberta \u00e0 mocidade, que pretenda seguir a vida<br \/>\ncomercial.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Vou at\u00e9 a cidade! J\u00e1 passaria o \u00f4nibus<br \/>\ndas dez?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o sei, Sr. Cust\u00f3dio; mas o senhor n\u00e3o<br \/>\nalmo\u00e7a conosco?<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO [erguendo-se] &#8211; Almo\u00e7ar a esta hora! Obrigado!. Sr.<br \/>\nErnesto, boa viagem!<\/p>\n<p>ERNESTO [apertando-lhe a m\u00e3o] &#8211; Adeus, Sr. Cust\u00f3dio.<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; D\u00ea-nos not\u00edcias suas. Sem mais. . . D. J\u00falia!<br \/>\n[Sai].<\/p>\n<p><strong>CENA IX<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, J\u00daLIA<\/p>\n<p>[ERNESTO vem sentar-se na conversadeira junto da J\u00daLIA; ambos est\u00e3o<br \/>\nconfusos].<\/p>\n<p>J\u00daLIA [erguendo a cabe\u00e7a] &#8211; Ent\u00e3o, meu primo, ainda<br \/>\nn\u00e3o me disse se leva saudades do Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9 preciso que lhe diga, J\u00falia!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Naturalmente n\u00e3o sente deixar a corte; n\u00e3o achou<br \/>\naqui atrativos que o prendessem; viu uma grande cidade, \u00e9 verdade;<br \/>\nmuita gente, muita casa, muita lama.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Sim, mas no meio desse vasto mont\u00e3o de edif\u00edcios,<br \/>\nencontra-se aqui e ali um o\u00e1sis magn\u00edfico, onde a vida \u00e9<br \/>\num sonho, um id\u00edlio; onde nada falta para a comodidade da exist\u00eancia<br \/>\ne o gozo do esp\u00edrito; onde apenas se forma um desejo, ele \u00e9<br \/>\nlogo satisfeito. Vi alguns desses para\u00edsos terrestres, minha prima,<br \/>\ne vivi tr\u00eas meses em um deles, aqui nas Laranjeiras, nesta casa&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o exagere, n\u00e3o \u00e9 tanto assim; h\u00e1<br \/>\nalgumas casas bonitas, com efeito, mas a cidade em si \u00e9 insuport\u00e1vel;<br \/>\nn\u00e3o se pode andar pelas ruas sem ver-se incomodado a cada momento pelas<br \/>\ncarro\u00e7as, pelos empurr\u00f5es dos que passam.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que tem isso? Essa mesma confus\u00e3o tira a monotonia do passeio.<br \/>\nDemais, quando se anda pela Rua do Ouvidor, como andamos tantas vezes, todos<br \/>\nesses contratempos s\u00e3o prazeres. O susto de um carro faz com que a<br \/>\nmo\u00e7a que nos d\u00e1 o bra\u00e7o se recline sobre n\u00f3s;<br \/>\num sujeito que impede a passagem d\u00e1 um pretexto para que se pare e<br \/>\nse torne o passeio mais longo.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ao menos n\u00e3o negar\u00e1 uma coisa; e \u00e9 que<br \/>\ntemos uma verdadeira praga aqui no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Qual, prima?&#8230; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Os benef\u00edcios.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o diga isso, J\u00falia. Que coisa mais bela, do que<br \/>\nas pessoas que vivem na abastan\u00e7a protegerem divertindo-se aqueles<br \/>\nque necessitam e s\u00e3o pobres! O prazer eleva-se \u00e0 nobreza da<br \/>\nvirtude; o dinheiro que o rico esperdi\u00e7a para satisfazer os seus caprichos,<br \/>\ntransforma-se em oferta generosa, mas nobremente disfar\u00e7ada, que anima<br \/>\no talento do artista e alivia o sofrimento do enfermo; a caridade evang\u00e9lica<br \/>\ntorna-se uma institui\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o; n\u00e3o tem<br \/>\nraz\u00e3o, prima! Esses benef\u00edcios, que a Sra. censura, formam um<br \/>\ndos mais belos t\u00edtulos do Rio de Janeiro, o t\u00edtulo de cidade<br \/>\ngenerosa e hospitaleira.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o sei por que, meu primo, o Sr. v\u00ea tudo, agora,<br \/>\nde bons olhos. Por mim, confesso-lhe que, apesar de ser filha daqui, n\u00e3o<br \/>\nacho na corte nada que me agrade. O meu sonho \u00e9 viver no campo; a corte<br \/>\nn\u00e3o tem sedu\u00e7\u00f5es que me prendam.<\/p>\n<p>ERNESTO Ora, J\u00falia, pois realmente n\u00e3o h\u00e1 no Rio de<br \/>\nJaneiro nada que lhe agrade?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Nada absolutamente. Os passeios nos arrabaldes s\u00e3o<br \/>\num banho de poeira; os bailes, uma estufa; os teatros, uma sensaboril.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Como se diz isto, meu Deus! Pode haver coisa mais linda do que<br \/>\num passeio ao Corcovado, donde se v\u00ea toda esta cidade, que merece bem<br \/>\no nome que lhe deram de princesa do vale? Pode haver nada de mais encantador<br \/>\ndo que um baile no Clube? Que noites divertidas n\u00e3o se passa no Teatro<br \/>\nL\u00edrico, e mesmo no Gin\u00e1sio, onde fomos tantas vezes?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Fui por comprazer, e n\u00e3o por gostar. Acho tudo isto<br \/>\nt\u00e3o ins\u00edpido! Mesmo as mo\u00e7as do Rio de Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que t\u00eam?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o s\u00e3o mo\u00e7as. S\u00e3o umas bonecas<br \/>\nde papel\u00e3o, uma arma\u00e7\u00e3o de arames.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Mas \u00e9 a moda, J\u00falia. Que rem\u00e9dio t\u00eam<br \/>\nelas sen\u00e3o usar? H\u00e3o de fazer-se esquisitas? Demais, prima,<br \/>\nquer que lhe diga uma coisa? Essas saias bal\u00f5es, cheias de vento, t\u00eam<br \/>\numa grande virtude.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Qual \u00e9?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Fazer com que um homem acredite mais na realidade e n\u00e3o<br \/>\nse deixe levar tanto pelas apar\u00eancias.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o o entendo; \u00e9 charada.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ora! Est\u00e1 t\u00e3o claro! Quando se d\u00e1 a um pobre<br \/>\num vint\u00e9m de esmola, ele recebe e agradece; mas, se lhe derem uma moeda<br \/>\nque pare\u00e7a ouro, desconfiar\u00e1. Pois o mesmo me sucede com a moda.<br \/>\nQuando vejo uma crinolina, digo com os meus bot\u00f5es &#8211; &#8220;\u00e9<br \/>\nmulher ou pode ser&#8221;. Quando vejo um bal\u00e3o, n\u00e3o tem d\u00favida.<br \/>\n&#8211; &#8220;\u00e9 saia, e saia unicamente!&#8221;<\/p>\n<p>J\u00daLIA [rindo] &#8211; Pelo que vejo, n\u00e3o h\u00e1 nada no Rio de<br \/>\nJaneiro, ainda mesmo o que \u00e9 ruim, que n\u00e3o tenha um encanto,<br \/>\numa utilidade para o senhor, meu primo? Na sua opini\u00e3o \u00e9 uma<br \/>\nterra excelente.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Diga um para\u00edso, um c\u00e9u na terra! (J\u00daLIA d\u00e1<br \/>\numa gargalhada.) De que ri-se, J\u00falia?<\/p>\n<p>J\u00daLIA [rindo-se] &#8211; Muito bem! Eis onde eu queria chegar. H\u00e1<br \/>\ntr\u00eas meses, no primeiro dia em que veio morar conosco, tivemos uma conversa<br \/>\nperfeitamente igual a esta; com a diferen\u00e7a que ent\u00e3o os pap\u00e9is<br \/>\nestavam trocados; o senhor achava que o Rio de Janeiro era um inferno.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o me fale desse tempo! N\u00e3o me lembro dele! Estava<br \/>\ncego!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Bem; o que eu desejava era vingar a minha terra. Estou satisfeita:<br \/>\nesque\u00e7o tudo o que houve entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Como! Que diz, J\u00falia? N\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel!<br \/>\nEsses tr\u00eas meses que se passaram, esses tr\u00eas meses de felicidade,<br \/>\nfoi apenas uma vingan\u00e7a de sua parte?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Apenas.<\/p>\n<p>ERNESTO (despeitado) &#8211; Oh! Obrigado, prima.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o tem de que, meu primo; jogamos as mesmas armas;<br \/>\no senhor ganhou a primeira partida, eu tomei a minha desforra.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Eu ganhei a primeira partida! De que maneira? Acreditando na senhora.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Fazendo que eu chegasse a aborrecer o meu belo Rio de Janeiro,<br \/>\nt\u00e3o cheio de encantos; que achasse feio tudo quanto me agradava; que<br \/>\ndesprezasse os meus teatros, as minhas modas, os meus enfeites, tudo para.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Para&#8230; Diga, diga, J\u00falia!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Tudo para satisfazer um capricho do senhor; tudo por sua causa!<br \/>\n(Foge.)<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ah! perd\u00e3o&#8230; A vingan\u00e7a foi doce ainda; mas agora<br \/>\nvou sofrer uma mais cruel. Oito meses de saudade e aus\u00eancia!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Para quem tem uma mem\u00f3ria t\u00e3o fraca. .. Adeus!<br \/>\n[Vai sair] Adeus!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ainda uma acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; E se fosse um receio! (Sai de repente.)<\/p>\n<p>ERNESTO (seguindo-a) &#8211; J\u00falia! Escute, prima! [Sai].<\/p>\n<p><strong>CENA X<\/strong><\/p>\n<p>AUGUSTO, D. LU\u00cdSA<\/p>\n<p>AUGUSTO (na porta, a TEIXEIRA) &#8211; Sim, senhor; pode contar que hoje mesmo<br \/>\nfica o neg\u00f3cio conclu\u00eddo! Vou hoje \u00e0 pra\u00e7a. Quinze<br \/>\ne quinhentos, o \u00faltimo. [Dirige-se \u00e0 porta e encontra-se com<br \/>\nD. LU\u00cdSA que entra].<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; O senhor faz obs\u00e9quio de ver este papel?<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; A\u00e7\u00f5es?&#8230; De que companhia? Estrada de ferro? Quantas?<br \/>\nA como? Hoje baixaram. [Abre o papel].<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Qualquer coisa me serve! Pouco mesmo! Oito filhinhos&#8230;<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; Uma subscri\u00e7\u00e3o!&#8230; [Entregando] N\u00e3o tem cota\u00e7\u00e3o<br \/>\nna pra\u00e7a.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Uma pobre vi\u00fava&#8230;<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; \u00c9 firma que n\u00e3o se desconta. Com licen\u00e7a!<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Para fazer o enterro de meu marido! A empresa funer\u00e1ria&#8230;<\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; N\u00e3o tenho a\u00e7\u00f5es desta empresa; creio mesmo<br \/>\nque ainda n\u00e3o foi aprovada. Naturalmente alguma especula\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nPasse bem! [Sai].<\/p>\n<p><strong>CENA XI<\/strong><\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA, TEIXEIRA<\/p>\n<p>TEIXEIRA (atravessando a sala) &#8211; Hoje n\u00e3o nos querem dar almo\u00e7o.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Sr. Teixeira!<\/p>\n<p>TEIXEIRA [voltando-se] &#8211; Viva, senhora.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Vinha ver se me podia dar alguma coisa!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; J\u00e1? Pois acabou-se o dinheiro que lhe dei?<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; O pecurrucho faz muita despesa! \u00c9 verdade que o<br \/>\nSr. n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de carregar com elas! Mas seu amigo,<br \/>\no pai da crian\u00e7a n\u00e3o se importa.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Quem lhe diz que n\u00e3o se importa? Tem fam\u00edlia, deve<br \/>\nrespeitar as leis da sociedade; demais, sabe que eu tomei isto a mim.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Sim, Senhor.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Espere; vou dar-lhe dinheiro.<\/p>\n<p><strong>CENA XII<\/strong><\/p>\n<p>ERNESTO, D. LU\u00cdSA<\/p>\n<p>ERNESTO [entra sem ver D. LU\u00cdSA] &#8211; Oito meses sem v\u00ea-la!<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA [adianta-se] &#8211; V.Sa. ainda n\u00e3o leu este papel.<\/p>\n<p>ERNESTO [voltando-se] &#8211; J\u00e1 vi a senhora&#8230; Sim e por sinal que&#8230;<br \/>\nPode guardar o seu papel; sei o que ele cont\u00e9m; uma hist\u00f3ria<br \/>\nde oito filhinhos.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Nus os pobrezinhos, sem ter o que comer.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o me logra segunda vez.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Mas V.Sa. talvez precise de uma pessoa&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Onde mora a senhora?<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Rua da Guarda Velha, n.0 175; se o senhor deseja alguma<br \/>\ncomiss\u00e3o, algum recado&#8230; estou pronta.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Diga-me; se eu lhe mandasse de S\u00e3o Paulo por todos os vapores<br \/>\numa carta para entregar a uma mo\u00e7a, dentro de uma sua, a senhora entregava?<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Ora, na carreira; contanto que a carta de dentro viesse<br \/>\ncom o porte pago.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; H\u00e1 de vir; um bilhete de 5$OOO.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Serve; pode mandar.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois ent\u00e3o est\u00e1 dito; deixe-me tomar a sua morada.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o precisa; leve esse papel.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E a senhora fica sem ele?<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Tenho outro. [Tira do bolso rindo] Essa hist\u00f3ria<br \/>\nde vi\u00fava j\u00e1 est\u00e1 muito velha, agora sou mulher de um<br \/>\nentrevado<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que mulher impag\u00e1vel! Isto s\u00f3 se encontra aqui no<br \/>\nRio de Janeiro. Oh! agora! Posso escrever-lhe a J\u00falia.<\/p>\n<p>[Entra J\u00daLIA].<\/p>\n<p><strong>CENA XIII<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, J\u00daLIA, depois TEIXEIRA<\/p>\n<p>ERNESTO (a J\u00daLIA) &#8211; Sabe? Estou alegre.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Achei uma maneira de escrever-lhe de S\u00e3o Paulo sem que meu<br \/>\ntio saiba.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Oh! n\u00e3o, meu primo! N\u00e3o posso receber!&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Mas ent\u00e3o quer que passemos oito meses sem ao menos trocar<br \/>\numa palavra.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Se houvesse outro meio&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que melhor do que uma carta inocente?&#8230;<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Sem consentimento de meu pai?&#8230; N\u00e3o!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ent\u00e3o eu falo a meu tio logo de uma vez, e est\u00e1 acabado.<br \/>\nQuer?<\/p>\n<p>J\u00daLIA N\u00e3o sei. Fa\u00e7a o que entender.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Espere! Mas n\u00e3o sei como hei de dizer-lhe isto. (Entra TEIXEIRA<br \/>\ne d\u00e1 dinheiro a LU\u00cdSA.)<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Aqui tem, creio que isto \u00e9 suficiente para um m\u00eas;<br \/>\nportanto n\u00e3o me apare\u00e7a antes.<\/p>\n<p>D. LU\u00cdSA &#8211; Sim, senhor, obrigada. (A J\u00daLIA) Minha senhora!<br \/>\n(Baixo, a ERNESTO [comprimentando]) O dito, dito.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Sim. [Sai LU\u00cdSA].<\/p>\n<p><strong>CENA XIV<\/strong><\/p>\n<p>TEIXEIRA, ERNESTO, I\u00daLIA<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o sei, papai, por que ainda d\u00e1 dinheiro a<br \/>\nesta velha. \u00c9 uma vadia!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Uma pobre mulher! Para que Deus deu aos abastados sen\u00e3o<br \/>\npara esperdi\u00e7ar como os que n\u00e3o t\u00eam?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Se o Sr. compromete-se a fazer aceitar esta teoria, meu tio, declaro<br \/>\nque me inscrevo no n\u00famero dos pobret\u00f5es.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; J\u00e1 mandaste deitar o almo\u00e7o, J\u00falia?<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; J\u00e1 dei ordem, papai.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Ernesto precisa almo\u00e7ar quanto antes, pois n\u00e3o lhe<br \/>\nresta muito tempo para embarcar.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; N\u00e3o \u00e9 \u00e0s onze horas?<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Sim, e j\u00e1 s\u00e3o dez. (Sobe.)<\/p>\n<p>ERNESTO (baixo, a J\u00daLIA) &#8211; N\u00e3o a deixo sen\u00e3o no \u00faltimo<br \/>\nmomento; hei de aproveitar um minuto.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (baixo, a ERNESTO) &#8211; Um minuto nessas ocasi\u00f5es vale uma<br \/>\nhora.<\/p>\n<p>TEIXEIRA (descendo) &#8211; Agora, Ernesto, t\u00e3o cedo n\u00e3o te veremos<br \/>\npor c\u00e1!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Daqui a oito meses estou de volta, meu tio.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Pois n\u00e3o! Teu pai, na \u00faltima carta que me escreveu,<br \/>\ndisse que estava arrependido depois que consentira em que viesses ao Rio,<br \/>\ne que pelo gosto dele n\u00e3o voltar\u00e1s t\u00e3o cedo. Queixa-se<br \/>\nporque tens gasto muito!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Meu pai disse isto?<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Posso mostrar-te a carta.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Paci\u00eancia. Ele est\u00e1 no seu direito.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Agora \u00e9 tratares de te formar, e ganhar uma posi\u00e7\u00e3o;<br \/>\npoder\u00e1s fazer o que te aprouver. (Sobe) Nada de almo\u00e7o.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (baixo) &#8211; Quando nos veremos!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quem sabe! Talvez meu pai&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO (com ironia) &#8211; \u00c9 muito para esperar, n\u00e3o \u00e9,<br \/>\nprima?<\/p>\n<p>J\u00daLIA (sentida) &#8211; N\u00e3o, Ernesto; mas \u00e9 muito para sofrer!<\/p>\n<p><strong>CENA XV<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, FELIPE<\/p>\n<p>FILIPE [entra na carreira e faz um grande barulho] &#8211; Alv\u00edssaras! Alv\u00edssaras!<br \/>\nN\u00famero 1221! Sorte grande! Premiado! Alv\u00edssaras! N\u00famero<br \/>\n1221!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Que louco \u00e9 este?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Est\u00e1 danado!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Enganado, n\u00e3o! N\u00famero 1221! Sorte grande!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; O que quer o Sr.?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; As minhas alv\u00edssaras!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Mas pelo qu\u00ea? Explique-se.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Pelo bilhete que vendi ao Sr. (aponta para ERNESTO) e que saiu premiado.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; A mim? \u00c9 engano.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Engano! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! Ontem, na Rua do Ouvidor,<br \/>\nem casa do Wallerstein; por sinal que o Sr. estava comprando uns corais, justamente<br \/>\naqueles! (Aponta para o colo de JULIA, a qual volta-se confusa).<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Tem raz\u00e3o, nem me lembrava; deve estar na carteira. Ei-lo!<br \/>\nN\u00famero mil duzentos..<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; E vinte e um! N\u00e3o tem que ver!, \u00e9 o mesmo. N\u00e3o<br \/>\nme engano nunca!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Assim, este papel&#8230; eu tirei?&#8230;<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; A sorte grande&#8230; \u00c9 meio bilhete! Pertencem-lhe nove contos<br \/>\ne duzentos!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Nove contos! Sou rico! Tenho dinheiro para vir ao Rio de Janeiro,<br \/>\nainda que meu pai n\u00e3o consinta.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Agora vai gast\u00e1-los em extravag\u00e2ncias!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Pois n\u00e3o! Servir\u00e3o para me estabelecer aqui; montar<br \/>\nminha casa. Quero uma linda casinha como esta, um retiro encantador, onde<br \/>\na vida seja um sonho eterno! (A J\u00daLIA, baixo) Onde recordaremos os<br \/>\nnossos tr\u00eas meses de felicidade!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Vamos; despacha este homem.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Tome, meu tio; tome o bilhete e arranje isto como entender. V.Mc\u00ea.<br \/>\nme guardar\u00e1 o dinheiro.<\/p>\n<p>(TEIXEIRA e FILIPE saem; TEIXEIRA examina o bilhete).<\/p>\n<p>J\u00daLIA (a ERNESTO) &#8211; Como a felicidade vem quando menos se espera!<br \/>\nH\u00e1 pouco t\u00e3o tristes!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9 verdade! E se soubesse como isto me caiu do c\u00e9u!<br \/>\nNem me passava pela id\u00e9ia semelhante coisa, quando este homem come\u00e7ou<br \/>\na importunar-me de tal maneira, que tomei-lhe o bilhete para ver-me livre<br \/>\nda ma\u00e7ada. \u00c9 s\u00f3 a ele que devo a fortuna.<\/p>\n<p>J\u00daLIA (sorrindo) &#8211; Eis ent\u00e3o mais uma vantagem do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>ERNESTO (sorrindo) &#8211; Tem raz\u00e3o!<\/p>\n<p>TEIXEIRA (a FILIPE, dando-lhe dinheiro) &#8211; Tome; como alv\u00edssaras, basta.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Obrigado! (Desce a cena, a ERNESTO) Ent\u00e3o, um meio, um inteiro,<br \/>\num quarto? Enquanto venta, molha-se a vela.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Agrade\u00e7o; n\u00e3o sou ambicioso. Quero deixar a sorte<br \/>\ngrande tamb\u00e9m para os outros.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; E a senhora? E a Sra. e o Sr.?&#8230; Um meio?&#8230; Tenho justamente o<br \/>\nn\u00famero premiado.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Nada, nada; j\u00e1 compramos!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; As suas ordens. (Sai.)<\/p>\n<p><strong>CENA XVI<\/strong><\/p>\n<p>TEIXEIRA, ERNESTO, J\u00daLIA<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Ora, enfim, vamos almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Espere, meu tio, tenho urna palavra a dar-lhe.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Pois ent\u00e3o j\u00e1; uma palavra custa pouco a dizer.<\/p>\n<p>ERNESTO (baixo, a J\u00daLIA) &#8211; Sim! Por\u00e9m, a mim custa mais do<br \/>\nque um discurso!<\/p>\n<p>J\u00daLIA (baixo a ERNESTO) &#8211; Que vai fazer? Ao menos deixe-me retirar.<\/p>\n<p>ERNESTO (baixo, a J\u00daLIA) &#8211; Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>J\u00daLIA (baixo, a ERNESTO) &#8211; Morro de vergonha.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Ent\u00e3o? a tal palavra? Est\u00e3o combinados? Tu sabes<br \/>\no que \u00e9, J\u00falia?<\/p>\n<p>J\u00daLIA (vexada) &#8211; Eu, papai!&#8230; N\u00e3o, Sr.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Ora, tu sabes! Ficaste corada.<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Foi porque Ernesto riu-se.<\/p>\n<p>TEIXEIRA (a ERNESTO) &#8211; Falas ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Tenho a palavra aqui atravessada na garganta! L\u00e1 vai!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Ainda bem! O que \u00e9?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Escute, meu tio. E\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; \u00c9&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea&#8230;.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; J\u00e1 vejo que \u00e9 preciso ajudar-te! \u00c9 que&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Euuu&#8230; (J\u00falia faz sinal que n\u00e3o&#8230;) Quero&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Ah! Queres brincar? Pois n\u00e3o estou para te aturar. (Sobe.)<\/p>\n<p><strong>CENA XVII<\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos, D. MARIANA, depois PEREIRA<\/p>\n<p>D. MARIANA (entrando) &#8211; Ent\u00e3o, por quem se espera? S\u00e3o quase<br \/>\ndez horas.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Vamos, D. Mariana.<\/p>\n<p>ERNESTO (a J\u00daLIA, baixo) &#8211; Est\u00e1 tudo perdido.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Permitam o ingresso. O Sr. Teixeira?<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Um seu criado. O que pretende o Sr.?<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Tomei a liberdade de oferecer a V.EX.a esta minha produ\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica por ocasi\u00e3o do fausto motivo que enche hoje esta casa<br \/>\nde j\u00fabilo.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; N\u00e3o tenho excel\u00eancia; nem o compreendo. Queira explicar-se.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Com muito gosto. A minha veia po\u00e9tica inspirou-me este epital\u00e2mio<br \/>\nque ofere\u00e7o ao doce himeneu, \u00e0s n\u00fapcias venturosas, ao<br \/>\nfeliz cons\u00f3rcio da senhora sua filha com o senhor seu sobrinho. (Espanto<br \/>\ngeral).<\/p>\n<p>J\u00daLIA (escondendo o rosto) &#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Bravo!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Cal\u00fanias, Sr. Teixeira!<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; O cons\u00f3rcio de minha filha com meu sobrinho!&#8230; O senhor<br \/>\nest\u00e1 louco!<\/p>\n<p>PEREIRA (a TEIXEIRA) &#8211; \u00c9 verdade que alguns esp\u00edritos mesquinhos<br \/>\nchamam os poetas de loucos, porque n\u00e3o os compreendem; mas V.Ex.a n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 neste n\u00famero.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Entretanto, o senhor vem com um desprop\u00f3sito! Onde ouviu<br \/>\nfalar de casamento de minha filha?<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; H\u00e1 muito tempo sabia que o senhor seu sobrinho e a senhora<br \/>\nsua filha se amam ternamente&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA (olhando J\u00daLIA e ERNESTO, cabisbaixos) &#8211; Se amam ternamente!&#8230;<br \/>\n(A PEREIRA) E que tem isto? Quando mesmo fosse verdade, \u00e9 natural;<br \/>\ns\u00e3o mo\u00e7os, s\u00e3o primos&#8230;<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Por isso, sendo hoje um s\u00e1bado, e n\u00e3o tendo V.Ex.a<br \/>\nido \u00e0 Pra\u00e7a, conjeturei que as bodas, a feliz uni\u00e3o dos<br \/>\ndois cora\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA conjeturou mal; e para outra vez seja mais discreto em n\u00e3o<br \/>\nintrometer-se nos neg\u00f3cios de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; E a poesia? V.Ex.a n\u00e3o a recebe?<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Leve a quem a encomendou; ele que lhe pague! (Voltando-lhe as<br \/>\ncostas.)<\/p>\n<p>ERNESTO (baixo, a PEREIRA) &#8211; \u00c9 justo que seja eu que aproveitei. O<br \/>\nsenhor n\u00e3o sabe o servi\u00e7o que me prestou. (Dando-lhe um bilhete)<br \/>\nTome e safe-se quanto antes.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Entendo!<\/p>\n<p>ERNESTO (a J\u00daLIA e D. MARIANA) &#8211; Sublime ra\u00e7a que \u00e9<br \/>\nesta dos poetas! Sem o tal Sr. Pereira ainda estava engasgado com a palavra,<br \/>\ne ele achou uma por\u00e7\u00e3o de sin\u00f4nimos: cons\u00f3rcio,<br \/>\nfeliz uni\u00e3o, bodas, n\u00fapcias, himeneu e n\u00e3o sei que mais&#8230;<\/p>\n<p>PEREIRA (a TEIXEIRA) &#8211; Pe\u00e7o a V.Ex.a queira desculpar.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Est\u00e1 bom, Sr., n\u00e3o falemos mais nisto.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Passar bem. (Sai.)<\/p>\n<p><strong>CENA XVIII<\/strong><\/p>\n<p>TEIXEIRA, ERNESTO, J\u00daLIA, MARIANA, depois CUST\u00d3DIO<\/p>\n<p>TEIXEIRA acompanha PEREIRA que sai pelo fundo].<\/p>\n<p>J\u00daLIA (a D. MARIANA) &#8211; N\u00e3o tenho \u00e2nimo de olhar para<br \/>\nmeu pai!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Ele n\u00e3o foi mo\u00e7o? N\u00e3o amou? [TEIXEIRA desce).<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; A\u00ed vem o temporal desfeito.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Com que ent\u00e3o ama-se nesta casa; a gente de fora sabe;<br \/>\ne eu sou o \u00faltimo a quem se diz&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Perd\u00e3o, meu tio, n\u00e3o tive \u00e2nimo de confessar-lhe.<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; E tu, J\u00falia, que dizes a isto?<\/p>\n<p>D. MARIANA (a J\u00daLIA, baixo) &#8211; Fale! N\u00e3o tenha medo!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Papai!&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Percebo&#8230; Queres casar com teu primo, n\u00e3o \u00e9? Pois<br \/>\nest\u00e1 feito!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>D. MARIANA &#8211; Muito bem!<\/p>\n<p>TEIXEIRA (a ERNESTO) &#8211; Com uma condi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m; n\u00e3o<br \/>\nadmito epital\u00e2mios, nem versos de qualidade alguma.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Sim, meu tio; tudo quanto o Sr. quiser! Hoje mesmo podia ser&#8230;<br \/>\n\u00c9 s\u00e1bado&#8230;<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Alto l\u00e1, Sr. estudante! V\u00e1 se formar primeiro e<br \/>\nvolte.<\/p>\n<p>(D. MARIANA sobe e encontra-se com CUST\u00d3DIO.)<\/p>\n<p>ERNESTO &#8212; Oito meses!&#8230;<\/p>\n<p>D. MARIANA (a CUST\u00d3DIO) &#8211; Voltou?<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO &#8211; Perdi o \u00f4nibus! O recebedor roeu-me a corda!<\/p>\n<p>ERNESTO (a J\u00daLIA) &#8211; Esperar tanto tempo!<\/p>\n<p>J\u00daLIA &#8211; Mas assim \u00e9 doce esperar.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Oito meses longe do Rio de Janeiro! Que mart\u00edrio, meu Deus!<\/p>\n<p>TEIXEIRA (levantando-se) &#8211; Vamos! O caf\u00e9 j\u00e1 deve estar frio.<br \/>\n(Sobe e v\u00ea CUST\u00d3DIO) Oh! compadre!<\/p>\n<p>CUST\u00d3DIO Perdi o \u00f4nibus. Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>TEIXEIRA &#8211; Que vamos almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Ato Primeiro Ato Segundo &nbsp; Jos\u00e9 de Alencar Representada pela primeira vez no Teatro do Gin\u00e1sio, do Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 1857 (A *** Uma noite vi-a no Gin\u00e1sio; representava-se uma com\u00e9dia um pouco livre. Veio-me o desejo de faz\u00ea-la sorrir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-107632","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar Verso e Reverso<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar, Atos, Com\u00e9dia, Personagens, Ernesto, Teixeira, Augusto, Cust\u00f3dio, Literatura, Verso e Reverso\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar Verso e Reverso\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar, Atos, Com\u00e9dia, Personagens, Ernesto, Teixeira, Augusto, Cust\u00f3dio, Literatura, Verso e Reverso\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-02-08T10:57:07+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-02-08T11:29:41+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"60 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Verso e Reverso\",\"datePublished\":\"2017-02-08T10:57:07+00:00\",\"dateModified\":\"2017-02-08T11:29:41+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso\"},\"wordCount\":12066,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso\",\"name\":\"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar Verso e Reverso\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-02-08T10:57:07+00:00\",\"dateModified\":\"2017-02-08T11:29:41+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar, Atos, Com\u00e9dia, Personagens, Ernesto, Teixeira, Augusto, Cust\u00f3dio, Literatura, Verso e Reverso\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/verso-e-reverso#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Verso e Reverso\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar Verso e Reverso","description":"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar, Atos, Com\u00e9dia, Personagens, Ernesto, Teixeira, Augusto, Cust\u00f3dio, Literatura, Verso e Reverso","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar Verso e Reverso","og_description":"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar, Atos, Com\u00e9dia, Personagens, Ernesto, Teixeira, Augusto, Cust\u00f3dio, Literatura, Verso e Reverso","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-02-08T10:57:07+00:00","article_modified_time":"2017-02-08T11:29:41+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"60 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Verso e Reverso","datePublished":"2017-02-08T10:57:07+00:00","dateModified":"2017-02-08T11:29:41+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso"},"wordCount":12066,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso","name":"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar Verso e Reverso","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-02-08T10:57:07+00:00","dateModified":"2017-02-08T11:29:41+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Verso e Reverso, Jos\u00e9 de Alencar, Atos, Com\u00e9dia, Personagens, Ernesto, Teixeira, Augusto, Cust\u00f3dio, Literatura, Verso e Reverso","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verso-e-reverso#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Verso e Reverso"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107632","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=107632"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107632\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=107632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=107632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=107632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}