{"id":106784,"date":"2017-02-07T18:01:51","date_gmt":"2017-02-07T20:01:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=106784"},"modified":"2017-03-24T12:10:57","modified_gmt":"2017-03-24T14:10:57","slug":"sonhos-douro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/sonhos-douro","title":{"rendered":"Sonhos D&#8217;Ouro"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"490\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"links\" href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#18\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#19\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#20\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#21\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#22\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#23\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#24\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#25\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#26\">Cap\u00edtulo XXVI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#27\">Cap\u00edtulo XXVII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#28\">Cap\u00edtulo XXVIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#29\">Cap\u00edtulo XXIX<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#30\">Cap\u00edtulo XXX<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#31\">Cap\u00edtulo XXXI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#32\">Cap\u00edtulo XXXII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#32\">Carta ao Editor<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#32\">P\u00f3s-Escrito<\/a><br \/>\n<\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Jos\u00e9 de Alencar<\/h2>\n<h4><a id=\"1\" name=\"1\"><\/a>I<\/h4>\n<p>O sol ardente de fevereiro dourava as lindas serranias da Tijuca.<\/p>\n<p>Que formosa manh\u00e3! O c\u00e9u arreava-se do mais puro azul; o verde<br \/>\nda relva e da folhagem sorria entre as gotas de orvalho, cambiando aos toques<br \/>\nda luz.<\/p>\n<p>Frocos de n\u00e9voa, restos da cerra\u00e7\u00e3o da noite, cingiam<br \/>\nainda os p\u00edncaros mais altos da montanha, como pregas de v\u00e9u<br \/>\nflutuante, ao sopro da brisa, pelas esp\u00e1duas das lindas amazonas, que<br \/>\ndurante o ver\u00e3o costumam percorrer aquelas amenas devesas.<\/p>\n<p>Seriam sete horas.<\/p>\n<p>Um passeador solit\u00e1rio seguia a p\u00e9 e distraidamente por um<br \/>\ndos muitos caminhos que se cruzam em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es<br \/>\npela encosta ocidental da montanha. Levava ele embaixo do bra\u00e7o esquerdo<br \/>\num \u00e1lbum de desenho, naturalmente destinado \u00e0 c\u00f3pia das<br \/>\nmagn\u00edficas perspectivas, que oferecem a cada passo as quebradas da<br \/>\nserrania.<\/p>\n<p>Era mo\u00e7o de 28 anos. Seu rosto de tra\u00e7os nobres n\u00e3o<br \/>\ntinha decerto a beleza correta e art\u00edstica do tipo cl\u00e1ssico,<br \/>\nnem a faceirice de certos casquilhos, pr\u00edncipes da moda: apresentava<br \/>\npor\u00e9m uma fisionomia simp\u00e1tica e distinta. O olhar sobretudo,<br \/>\nque \u00e9 o sol d&#8217;alma, lhe esclarecia a larga fronte pensativa de reflexos<br \/>\ninteligentes.<\/p>\n<p>Trajava com extrema simplicidade. Tinha um vestu\u00e1rio completo, ou<br \/>\nno jarg\u00e3o parisiense dos alfaiates, um costume ainda bem conservado<br \/>\ne decente, apesar de um tanto fanado na gola. Notava-se a aus\u00eancia completa<br \/>\ndo ouro: a abotoadura era toda de marfim; e n\u00e3o se via sinal de rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>Depois de alguns minutos de passeio, o mo\u00e7o, cujos olhos iam percorrendo<br \/>\ncom indiferen\u00e7a as bordas do caminho, de um e outro lado alternadamente,<br \/>\ndesviou-se do trilho batido e seguiu por dentro do mato. Mal tivera tempo<br \/>\nde sumir-se entre a ramagem do arvoredo, quando ouviu-se o tropel de um cavalo<br \/>\nque passou a galope. Enfiando o olhar por entre as folhas, p\u00f4de ver<br \/>\no cavaleiro, o qual era rapaz de 21 anos, de belo parecer e maneiras agrad\u00e1veis.<br \/>\nMontava um cavalo castanho.<\/p>\n<p>&#8211; F\u00e1bio!<br \/>\n&#8211; O cavaleiro colheu prontamente as r\u00e9deas, fazendo estacar a montaria,<br \/>\ne voltou-se duvidoso para ver se com efeito o haviam chamado, como lhe parecera.<br \/>\nA rapidez do galope e a repercuss\u00e3o do solo tinham impedido que ouvisse<br \/>\ndistintamente a voz do passeador a p\u00e9:<br \/>\n&#8211; Que milagre!&#8230; Hoje madrugaste!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00c9s tu, Ricardo?! Exclamou o cavaleiro retribuindo o sorriso.<br \/>\nVou \u00e0 &#8220;Vista dos Chins&#8221; com uns rapazes que est\u00e3o<br \/>\na\u00ed no hotel do Jourdain. Convidaram-me ontem \u00e0 noite. \u00c9<br \/>\num piquenique! Queres ir tamb\u00e9m?<br \/>\n&#8211; S\u00f3 se part\u00edssemos ao meio o &#8220;Galgo&#8221;, observou Ricardo,<br \/>\nalisando a linda anca do cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Dou-te garupa! Replicou F\u00e1bio gracejando.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado!&#8230; Luisinha teria ci\u00fames.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; vai romantizar com as flores, que os sujeitos est\u00e3o \u00e0<br \/>\nminha espera. Talvez j\u00e1 chegue tarde! Digam l\u00e1 o que quiserem.<br \/>\nUm homem deve se dar a respeito, e n\u00e3o comparar-se com os animais e<br \/>\nos carroceiros que deitam de dia e acordam-se de noite.<\/p>\n<p>Atirando esse gracejo, F\u00e1bio deu de r\u00e9deas ao animal e partiu<br \/>\na galope.<\/p>\n<p>&#8211; Olha o &#8220;Galgo&#8221;, hem! gritou Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito!&#8230; nem de Bela tens tanto cuidado!<br \/>\nRicardo sorriu e, acompanhou com os olhos o amigo at\u00e9 que sumiu-se<br \/>\nna volta do caminho. N\u00e3o era por\u00e9m o cavaleiro, apesar de elegante,<br \/>\no que prendia a ten\u00e7\u00e3o do passeador, e sim o cavalo cuja fina<br \/>\nroupagem castanha brilhava aos reflexos do sol. A esbelteza das formas esgalgadas<br \/>\ne o garbo dos movimentos f\u00e1ceis e vivos, lhe tinham merecido o lindo<br \/>\nnome dado pelo dono.<\/p>\n<p>Quando o vulto airoso do cavalo encobriu-se por detr\u00e1s da folhagem<br \/>\nde uma \u00e1rvore que interceptou-lhe a vista, Ricardo, abafando um suspiro<br \/>\ninvolunt\u00e1rio, desviou-se novamente do caminho ao qual voltara para<br \/>\nfalar com o amigo.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes o pensamento do mo\u00e7o vagava de um a outro objeto,<br \/>\ndesta \u00e0quela moita, do ramo ao tronco, da folha \u00e0 raiz, como<br \/>\nse procurasse um ponto qualquer onde se fixasse, distraindo-se das id\u00e9ias<br \/>\ne recorda\u00e7\u00f5es do \u00edntimo. Outras vezes, depois de adejar<br \/>\ncomo uma borboleta, o esp\u00edrito do solit\u00e1rio passeador recolhia-se<br \/>\ninsensivelmente, e abstra\u00eda-se de quanto o cercava, para envolver-se<br \/>\nnos refolhos d&#8217;alma.<\/p>\n<p>Alguma coisa por\u00e9m chamou por momentos sua aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFoi a pequena flor silvestre de um arbusto que se encontra nas matas da Tijuca.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o nome do arbusto, nem mesmo se j\u00e1 foi batizado pela<br \/>\nci\u00eancia. \u00c9 natural que n\u00e3o tenha escapado \u00e0s pesquisas<br \/>\ndos dois ilustres &#8220;freires&#8221; da flora brasileira, o Veloso e o Alem\u00e3o;<br \/>\nmas, como apesar de tanto dinheiro esperdi\u00e7ado pelo governo, as letras<br \/>\nandam entre n\u00f3s abandonadas \u00e0 indiferen\u00e7a e ao charlatanismo,<br \/>\nque s\u00e3o a medusa e o minotauro do talento, n\u00e3o me pude socorrer<br \/>\n\u00e0 ci\u00eancia dos dois c\u00e9lebres bot\u00e2nicos.<\/p>\n<p>A este respeito Ricardo n\u00e3o era menos ignorante. O modo porque ele<br \/>\nadmirava a pequena flor revelava o tato do artista ou do poeta. Seu exame<br \/>\nnada absolutamente se parecia com a fria disseca\u00e7\u00e3o que o botanista<br \/>\nopera nas diferentes partes de uma planta, para conhecer o seu g\u00eanero,<br \/>\nclasse e fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A flor tem a forma de um junquilho, mas \u00e9 de uma bela cor de ouro,<br \/>\ne aveludada como a a\u00e7ucena. Falta-lhe o perfume, que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda flor, a sua respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A corola tubular, com cinco l\u00f3bulos agudos de lan\u00e7a, surge<br \/>\nde um c\u00e1lice que parece coralina. Cada haste sustenta comumente tr\u00eas<br \/>\nc\u00e1lices dispostos como as aspas de um leque; a\u00ed dentro desses<br \/>\nc\u00e1lices formam-se os bot\u00f5es, como pequenas pontas de ouro no<br \/>\nseu r\u00f3seo engaste.<\/p>\n<p>Pelo conhecimento que fizemos, a planta e eu, durante o ver\u00e3o passado,<br \/>\nnotei-lhe duas particularidades. Talvez recebesse eu dela outras confid\u00eancias<br \/>\nse n\u00e3o nos separ\u00e1ssemos t\u00e3o cedo, e t\u00e3o no princ\u00edpio<br \/>\nainda de nossa amizade.<\/p>\n<p>Os bot\u00f5es, que despontam em dezembro, por muito tempo se conservam<br \/>\nestacion\u00e1rios, sem crescimento aparente. \u00c9 s\u00f3 dois ou<br \/>\ntr\u00eas meses depois, em fevereiro e mar\u00e7o, que as gemas d&#8217;ouro<br \/>\nse elevam como alj\u00f4fares, e desabrocham para murchar em um dia. Mas<br \/>\nas tr\u00eas flores irm\u00e3s n\u00e3o crescem, nem abrem ao mesmo tempo;<br \/>\nv\u00eam solit\u00e1rias, uma depois da outra.<\/p>\n<p>Eram estas justamente as observa\u00e7\u00f5es que fazia Ricardo, examinando<br \/>\na linda corola e os bot\u00f5es nascentes aninhados ainda no fundo do c\u00e1lice<br \/>\nnacarado. Muitas vezes em seus passeios tinha ele notado o arbusto coberto<br \/>\ndas lindas p\u00e9rolas douradas. Cansado de esperar o desabrochar, sup\u00f4s<br \/>\na floresc\u00eancia j\u00e1 passada, e naquilo que via, o embri\u00e3o<br \/>\ndo fruto.<\/p>\n<p>Depois de olhar a flor agreste com enlevos de artista, o mo\u00e7o, que<br \/>\nprocurava qualquer modelo, lembrou-se de copiar o arbusto em uma das p\u00e1ginas<br \/>\ndo \u00e1lbum. Escolheu a posi\u00e7\u00e3o, aproveitando os acidentes<br \/>\ndo terreno em ladeira, para servir-lhe de mesa. De joelhos na grama, debru\u00e7ado<br \/>\nsobre o declive de um barranco, tra\u00e7ou rapidamente a l\u00e1pis o<br \/>\nesbo\u00e7o da planta.<\/p>\n<p>Enquanto descansava, examinou de novo a flor do ramo que tinha quebrado:<br \/>\n&#8211; Que bela cor de ouro! murmurou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o com as impress\u00f5es po\u00e9ticas da flor agreste se<br \/>\nenlearam outras cismas que absorveram completamente o esp\u00edrito de Ricardo.<br \/>\nComo a seiva exuberante de uma \u00e1rvore, que rompe a casca e borbulha<br \/>\naqui e ali pelo tronco em fios de resina, assim os pensamentos que enchiam<br \/>\na alma do mancebo se escapavam de vez em quando nas palavras entrecortadas<br \/>\nde um mon\u00f3logo.<\/p>\n<p>&#8211; Ouro!&#8230; ouro!&#8230; \u00c9s o rei do mundo, rei absoluto, autocrata de<br \/>\ntodas as grandezas da terra! Tu, sim, tu reinas e governas, sem lei, sem opini\u00e3o,<br \/>\nsem parlamento, sem ministros respons\u00e1veis!&#8230; N\u00e3o tens nenhum<br \/>\ndesses trambolhos que arrastam os soberanos constitucionais.<\/p>\n<p>&#8220;Lei?&#8230; Que lei \u00e9 a tua, sen\u00e3o o capricho com que escarneces<br \/>\ndos homens? Tu dizes ao pobre, cobi\u00e7a; ao opulento, gasta; ao ladr\u00e3o,<br \/>\nrouba; e a todos, grandes e pequenos, adorai-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Opini\u00e3o?&#8230; Quem faz esse rumor que nos atordoa os ouvidos<br \/>\ne a que chamam pomposamente opini\u00e3o p\u00fablica? Tu, que sustentas<br \/>\nos jornais, pagas os jantares, ofereces lindos presentes, estreitas as amizades,<br \/>\ne nutres a admira\u00e7\u00e3o e o entusiasmo!&#8221;<br \/>\nO mon\u00f3logo expirou nos l\u00e1bios do mo\u00e7o; por\u00e9m a<br \/>\nexpress\u00e3o de seu rosto indicava que o esp\u00edrito seguia mentalmente<br \/>\no sucessivo desenvolvimento da id\u00e9ia.<\/p>\n<p>&#8211; Todos n\u00f3s, bons ou maus, somos s\u00faditos de tua majestade,<br \/>\ncom a diferen\u00e7a que os maus te bajulam e se arrastam a teus p\u00e9s<br \/>\npara satisfa\u00e7\u00e3o de ign\u00f3beis instintos; enquanto que os<br \/>\nhomens honestos te respeitam como um grande poder, te servem para se robustecerem<br \/>\ncom tua for\u00e7a, mas n\u00e3o te sacrificam a dignidade e a virtude.<\/p>\n<p>Um sorriso amargo pairou nos l\u00e1bios de Ricardo:<br \/>\n&#8211; Por isso, como todos os reis, tu repeles quase sempre essas almas de rija<br \/>\nt\u00eampera, que n\u00e3o se dobram a teus caprichos. Preferes os lisonjeiros,<br \/>\nos cora\u00e7\u00f5es de corti\u00e7a, as almas de esponja, que \u00e0<br \/>\nvontade se embebem ou se encharcam daquilo que te apraz ou te repugna.<\/p>\n<p>A sombra de algum pensamento mais desanimador perpassou-lhe na fronte, e<br \/>\nderramou-lhe pelo semblante uma express\u00e3o de melancolia. As p\u00e1lpebras<br \/>\ncerraram-se como se a luz do sol ofendesse a penumbra d&#8217;alma em que dormiam<br \/>\nas m\u00e1goas \u00edntimas e as queridas reminisc\u00eancias:<br \/>\n&#8211; Minha felicidade, a felicidade de uma fam\u00edlia inteira, depende de<br \/>\nti, de um teu bafejo!&#8230; Vinte contos!&#8230; Uma migalha das tuas imensas riquezas.<br \/>\nDizem que milion\u00e1rios j\u00e1 deram mais, muito mais, para terem<br \/>\ndireito a um nome de cinco letras! Quatro contos cada letra! H\u00e1 mulheres<br \/>\nque levam ao baile algumas noites, durante sua vida, j\u00f3ias que valem<br \/>\ndez vezes mais do que essa quantia! Quanto n\u00e3o custa cada hora daquele<br \/>\nprazer! Entretanto n\u00e3o s\u00e3o cinco letras, s\u00e3o oito criaturas,<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o horas apenas, s\u00e3o anos, s\u00e3o vidas de amor<br \/>\ne ventura, que eu obteria com esta miser\u00e1vel quantia&#8230; miser\u00e1vel<br \/>\npara os opulentos; para mim um tesouro, um futuro!&#8230;<\/p>\n<p>Sob a influ\u00eancia da profunda cisma, Ricardo tinha a pouco e pouco<br \/>\nmudado a posi\u00e7\u00e3o, que tomara para desenhar. O corpo debru\u00e7ado<br \/>\nanteriormente sobre o declive, que servira de mesa, inclinou-se insensivelmente<br \/>\npara o lado, firmando-se no cotovelo. Assim com a cabe\u00e7a apoiada na<br \/>\nm\u00e3o esquerda, quase deitado sobre a relva, como sobre um div\u00e3,<br \/>\nprosseguia o mo\u00e7o nos seus devaneios, com os olhos fitos na flor, que<br \/>\nembalan\u00e7ava-se lentamente aos movimentos dos dedos.<\/p>\n<p>&#8211; Bastava uma tira de papel, um bilhete de loteria, ou uma carta de jogar,<br \/>\npara dar-me essa quantia, o pre\u00e7o de minha felicidade, a sa\u00fade<br \/>\nde minha m\u00e3e, o casamento de Luisinha e&#8230; Ah! Quantas vezes n\u00e3o<br \/>\nme tenho embalado nestas ilus\u00f5es sedutoras, nestes sonhos d&#8217;ouro! S\u00e3o<br \/>\ncomo tu, linda flor, os meus sonhos d&#8217;ouro. Brota uma t\u00eanue esperan\u00e7a,<br \/>\nassim como o teu bot\u00e3o; vai crescendo lentamente, no meio de \u00e2nsias<br \/>\ne d\u00favidas; afinal desabrocha em flor; mas \u00e9 flor do vento, que<br \/>\nlogo murcha. Tamb\u00e9m tu n\u00e3o vives mais que um dia!&#8230; Nisto nos<br \/>\nparecemos bem; constante a preocupa\u00e7\u00e3o; o sorriso ef\u00eamero;<br \/>\ntua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 vegetar, a minha, pensar!<br \/>\nDecorrido um momento, o semblante de Ricardo expandiu-se:<br \/>\n&#8211; H\u00e1 tanto tempo que vejo esta planta, e n\u00e3o lhe conhecia a<br \/>\nflor!&#8230; Quem sabe? Talvez seja o an\u00fancio do primeiro sorriso da fortuna!<br \/>\nLogo zombou de sua lembran\u00e7a, e da puerilidade daquela supersti\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas, longe de a repelir, embebeu-se na ilus\u00e3o. Todos n\u00f3s temos<br \/>\nem nossa alma um cantinho, que, apesar dos anos, da experi\u00eancia e dos<br \/>\ntrabalhos, fica menino at\u00e9 que enfim o homem volta \u00e0 primeira<br \/>\ninf\u00e2ncia. Nesse cantinho dormem as ilus\u00f5es ing\u00eanuas, as<br \/>\nesperan\u00e7as infindas, a f\u00e9 robusta e sobretudo certos laivos<br \/>\nde loucura que tonificam a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed, \u00e9 justamente nesse santu\u00e1rio da inf\u00e2ncia,<br \/>\nque a alma viril do homem costuma-se refugiar nos momentos de crise, quando<br \/>\nsustenta alguma luta com a fortuna; ou vencedora para fortalecer-se com a<br \/>\nseiva primitiva, e renovar o combate; ou vencida para escapar ao desespero,<br \/>\nque a invade.<\/p>\n<p>Ricardo deixou-se ir \u00e0 merc\u00ea da fantasia, que recortava arabescos<br \/>\nem seu esp\u00edrito. Era um desses sonhos acordados, em que as no\u00e7\u00f5es<br \/>\nconfusas se agitam num claro-escuro do esp\u00edrito. Esse jogo da luz e<br \/>\ndas sombras d&#8217;alma, junto \u00e0 extrema volubilidade dos pensamentos, n\u00e3o<br \/>\ndeixava destacar-se cada uma das id\u00e9ias. Bilhete de loteria, jogo de<br \/>\ncartas, heran\u00e7as inesperadas, a prote\u00e7\u00e3o de um milion\u00e1rio,<br \/>\no trabalho aben\u00e7oado por Deus, e mil rasgos e acidentes da fortuna;<br \/>\ntudo isto misturado com a imagem da flor se baralhava na mente de Ricardo,<br \/>\napagando-se e luzindo alternativamente, como os fogos-f\u00e1tuos em noite<br \/>\nescura. Mas todas essas fosforesc\u00eancias iam derramando n&#8217;alma como que<br \/>\numa linda miragem, a abastan\u00e7a, a posse dos vinte contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o!&#8230; Como hav\u00edamos de ser felizes, Bela! Que beijos,<br \/>\nminha querida m\u00e3e, que eu te havia de dar para te beber nas faces as<br \/>\nl\u00e1grimas de prazer! Porque tu havias de chorar de alegria, como choraste<br \/>\nde dor. E tamb\u00e9m a ti, Luisinha! A todos!&#8230;<\/p>\n<p>A cada uma dessas palavras o mo\u00e7o, completamente possu\u00eddo<br \/>\ne dominado por suas recorda\u00e7\u00f5es, inclinava-se sobre a flor agreste<br \/>\nque tinha na m\u00e3o, e beijava-a com ardor, vendo naquela gentil criatura<br \/>\nda natureza a imagem das pessoas a quem amava.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! ent\u00e3o lhes pagaria em beijos as saudades que sentem por mim!..<\/p>\n<p>O trino mavioso de um riso fresco e argentino arrancou subitamente o mo\u00e7o<br \/>\n\u00e0 profunda cogita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aturdido um instante pela completa alhea\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito,<br \/>\nque andava bem longe dali, atrav\u00e9s dos mares, Ricardo voltou-se para<br \/>\nver quem t\u00e3o bruscamente o havia chamado \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>O quadro que tinha diante dos olhos era digno de uma das folhas de seu \u00e1lbum,<br \/>\nornado de finas aquarelas.<\/p>\n<h4><a id=\"2\" name=\"2\"><\/a>II<\/h4>\n<p>Entre o arvoredo tecido de grinaldas amarelas aparecia uma esfera do azul<br \/>\ndo c\u00e9u, como tela fina de um painel, cingido por medalh\u00e3o de<br \/>\nouro. A sombra de uma nuvem errante infundia ao horizonte suave transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>Debuxava-se na tela acetinada o vulto airoso de linda mo\u00e7a, que montava<br \/>\ncom eleg\u00e2ncia um cavalo isabel.<\/p>\n<p>A alvura de sua tez fresca e pura escurecia o mais fino jaspe. Nem os raios<br \/>\ndo sol, nem o exerc\u00edcio acenderam uma rosa mesmo p\u00e1lida em sua<br \/>\nface, c\u00e2ndida como a p\u00e9tala do jasmim. A seiva dessa mocidade,<br \/>\no vi\u00e7o dessa alma, n\u00e3o se expandia no rubor da c\u00fatis,<br \/>\nmas no olhar ardente e espl\u00eandido dos grandes olhos negros, e no sorriso<br \/>\nmimoso dos l\u00e1bios, que eram um primor da natureza.<\/p>\n<p>Admirando aquele rosto encantador, ningu\u00e9m reparava na sua palidez;<br \/>\nao contr\u00e1rio parecia que os tons rosados maculariam a alvura do l\u00edrio.<br \/>\nA alma que se derrama assim em ondas no olhar e no sorriso, est\u00e1 no<br \/>\n\u00edntimo, no cora\u00e7\u00e3o, donde se desprende em centelhas;<br \/>\nn\u00e3o pode tingir as faces.<\/p>\n<p>Um roup\u00e3o de caxemira verde-escura, debruado a cairel de seda preta,<br \/>\ncom abotoadura de a\u00e7o, moldava um talhe esbelto, que parecia talhado<br \/>\nem m\u00e1rmore, tal era a corre\u00e7\u00e3o das linhas e a harmonia<br \/>\ndos contornos. O gracioso chap\u00e9u de castor cor de p\u00e9rola, em<br \/>\nvez de cobrir-lhe a cabe\u00e7a gentil, pousava como um pombo na rica madeixa<br \/>\nnegra, que lhe descia caprichosamente pelo pesco\u00e7o em opulentas cascatas.<\/p>\n<p>Cal\u00e7ava luvas de camur\u00e7a amarela, cujo longo canh\u00e3o<br \/>\nafunilado cobria-lhe uma parte do bra\u00e7o, mas deixava admirar o pulso<br \/>\ndelicado, cingido por um punho de cambraia lisa, igual ao colarinho rebatido<br \/>\nsobre a gola do roup\u00e3o.<\/p>\n<p>A m\u00e3o esquerda sustinha as r\u00e9deas tran\u00e7adas com bastante<br \/>\nfirmeza, por\u00e9m com a gra\u00e7a f\u00e1cil que teria segurando<br \/>\nno baile o leque ou o ramalhete. A direita suspensa apertava pela haste um<br \/>\nchicotinho, cujo cabo de madrep\u00e9rola parecia machucar nos l\u00e1bios<br \/>\no sorriso faceiro, que ali brincava, e de vez em quando trinava como um can\u00e1rio.<\/p>\n<p>Da cintura de menina ou de silfo nasciam as amplas dobras do roup\u00e3o<br \/>\nde montar, ro\u00e7agante sobre os flancos do belo animal. Como na constante<br \/>\nondula\u00e7\u00e3o do mar percebe-se, por uma inflex\u00e3o mais forte,<br \/>\na vaga nascente que se empola, assim no meio das largas pregas do vestido<br \/>\nsentia-se o relevo suave da perna esbelta e nervosa, que esticava o loro,<br \/>\nenquanto o p\u00e9, despeitado por n\u00e3o se mostrar, agitava impaciente<br \/>\no estribo.<\/p>\n<p>O cavalo era digno pedestal daquela est\u00e1tua de Diana. Alto, airoso,<br \/>\nde uma estampa soberba, respirava a eleg\u00e2ncia altiva e serena, que lhe<br \/>\nimprimira a educa\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica. O cavalo do Cabo, de boa<br \/>\nra\u00e7a, tem alguma coisa do lorde: a mesma fleuma aristocr\u00e1tica,<br \/>\no mesmo garbo frio e impass\u00edvel, a mesma sobriedade do gesto, caracterizam<br \/>\nos dois fidalgos.<\/p>\n<p>Tenho para mim que um cavalo do Cabo olha para os cavalos de ra\u00e7a<br \/>\ndiferente com o mesmo polido desd\u00e9m que sentia Lorde Derby pela nobreza<br \/>\ndas outras na\u00e7\u00f5es. O lorde ingl\u00eas apropriou-se do antigo<br \/>\nmote dos senhores do mundo, civis sum. O cavalo do Cabo, parodiando a divisa,<br \/>\ndiz equus sum; eu sou o cavalo por excel\u00eancia, o fidalgo de ra\u00e7a,<br \/>\no gentleman da estrebaria.<\/p>\n<p>Por isso na atitude do lindo animal montado pela gentil amazona n\u00e3o<br \/>\nse via a impaci\u00eancia fogosa, a vivacidade s\u00f4frega, que sem d\u00favida<br \/>\nressumbraria no filho da ra\u00e7a brasileira, apesar de muito afastado<br \/>\nde sua primitiva estirpe \u00e1rabe. O lindo isabel, sentindo a doce press\u00e3o<br \/>\ndas r\u00e9deas colhidas pela m\u00e3o da senhora, estacara im\u00f3vel,<br \/>\ncom a firmeza correta de uma posi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. As pernas<br \/>\nlan\u00e7adas pisavam o ch\u00e3o com r\u00edgida eleg\u00e2ncia; a<br \/>\ncauda e a crina conservavam a art\u00edstica ondula\u00e7\u00e3o que<br \/>\nlhes imprimira a m\u00e3o do escudeiro; a cabe\u00e7a erguida com a arrog\u00e2ncia<br \/>\ninclinava-se ligeiramente para despedir o olhar obl\u00edquo do orgulho<br \/>\ndesdenhoso.<\/p>\n<p>Pitt, o grande Pitt, parando no meio de um discurso eloq\u00fcente, ao influxo<br \/>\nda s\u00fabita inspira\u00e7\u00e3o de um epigrama, que seu l\u00e1bio<br \/>\nsarc\u00e1stico ia desferir contra Fox, devia ter no parlamento ingl\u00eas<br \/>\naquela atitude soberba.<\/p>\n<p>Se a linda mo\u00e7a ficasse ali horas, creio que o seu impass\u00edvel<br \/>\ncavalo n\u00e3o daria sinal de impaci\u00eancia, nem levantaria a unha<br \/>\naristocr\u00e1tica para escavar o ch\u00e3o. Podiam tamb\u00e9m as moscas<br \/>\nimpertinentes pousar na anca; ele n\u00e3o se preocupava com a ral\u00e9.<br \/>\nApenas, muito importunado, agitaria o corpo com um movimento semelhante ao<br \/>\ndo fidalgo que levanta os ombros em sinal de t\u00e9dio.<\/p>\n<p>Eis o quadro original que Ricardo viu de relance. O vulto da mo\u00e7a,<br \/>\nesclarecido por um raio do sol coado entre a folhagem, se estampava no fundo<br \/>\nazul, com vigor de colorido e anima\u00e7\u00e3o de tons admir\u00e1veis.<br \/>\nAtrav\u00e9s da n\u00e9voa sutil que h\u00e1 pouco envolvia seu esp\u00edrito,<br \/>\no desenhista podia supor um instante que via uma paisagem de Delacroix atrav\u00e9s<br \/>\nda ilus\u00e3o di\u00e1fana de um diorama.<\/p>\n<p>Chegando-se ao arbusto para examinar-lhe a flor, n\u00e3o reparou o mo\u00e7o<br \/>\nque, seguindo por dentro do mato, se aproximara do caminho no lugar onde este<br \/>\nfazia uma curva. Deitara-se pois voltando costas ao trilho, que lhe ficava<br \/>\na duas bra\u00e7as de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A linda amazona, que vinha ao passo do animal, descobriu o solit\u00e1rio<br \/>\npasseador, e pressentiu nele algum desses eternos sonhadores que se chamam<br \/>\npoetas ou artistas: gente por quem as mulheres t\u00eam o mesmo fraco dos<br \/>\nmeninos pelas bolhas de sab\u00e3o; coisa para se ver um instante, enquanto<br \/>\nbrilha.<\/p>\n<p>Disfar\u00e7ando a sua indiscri\u00e7\u00e3o com o pretexto de esperar<br \/>\nalgu\u00e9m que a acompanhava, fez a amazona parar o animal. O vento, volvendo<br \/>\nas folhas do \u00e1lbum, mostrava as aquarelas, que os olhos curiosos tentavam<br \/>\nespiar, enquanto a m\u00e3o afastava o longo v\u00e9u cor de havana. Esguardando<br \/>\nos desenhos, n\u00e3o esquecera a mo\u00e7a o artista que, entregue a<br \/>\nseus pensamentos, murmurava palavras soltas.<\/p>\n<p>Quando o viu beijar com ardor, uma e muitas vezes, a pequena flor agreste,<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de se conter, e deixou escapar-se a risada harmoniosa,<br \/>\nque ainda se desfolhava em sua boca travessa, como uma rosa desabrochada naquela<br \/>\nmanh\u00e3. Debalde quis ela, pousando nos l\u00e1bios o cabo de madrep\u00e9rola<br \/>\ndo chicote, trancar aquele cofre de p\u00e9rolas e rubis: as j\u00f3ias<br \/>\nse desfiavam rorejando as melodias de uma voz suave.<\/p>\n<p>O riso fresco de uma linda boca, ainda quando borbulha dele alguma mal\u00edcia,<br \/>\n\u00e9 sempre doce e saboroso. Por isso Ricardo, apesar de reconhecer que<br \/>\na mo\u00e7a ria-se dele, em vez de zangar-se, riu-se para ela.<\/p>\n<p>O v\u00e9u caiu imediatamente, ocultando em uma nuvem espessa o rosto<br \/>\nencantador. A uma vibra\u00e7\u00e3o da r\u00e9dea, o soberbo isabel<br \/>\ndesatou o passo elegante em um trote largo, de suprema corre\u00e7\u00e3o<br \/>\nhipi\u00e1trica. O quadro arrebatador se tinha apagado de repente, deixando<br \/>\na tela azul erma da imagem sedutora.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o por\u00e9m outro quadro mais cheio desenhou-se<br \/>\nno claro do arvoredo. Era formado por uma inglesa gorda, de meia-idade, dessas<br \/>\nmulheres que teimam em n\u00e3o envelhecer, e por um portugu\u00eas magro,<br \/>\ndesses homens que aos quarenta anos envelhecem sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Estas duas criaturas eram o epigrama vivo uma da outra. Montada a cavalo,<br \/>\ncom um chap\u00e9u de abas enormes, a inglesa parecia, relevem a compara\u00e7\u00e3o,<br \/>\num queijo londrino posto em prato alto e coberto com a tampa de cristal. O<br \/>\nportugu\u00eas, esguio e curvado sobre a mula que o levava, com um chap\u00e9u<br \/>\nafunilado, era a perfeita imagem de uma salsicha assada num espeto.<\/p>\n<p>Para que o contraste fosse perfeito, a mulher falando ao homem, estropiava<br \/>\no portugu\u00eas de uma maneira horr\u00edvel; e o homem, escutando-a atentamente<br \/>\ncomo se a compreendesse, arranjava de vez em quando no fundo da garganta um<br \/>\ngrunhido que tinha pretens\u00e3o de ser um yes, como uma careta tem a pretens\u00e3o<br \/>\nde ser um sorriso.<\/p>\n<p>Ricardo vendo o segundo painel sentiu na vista uma sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nigual \u00e0 do paladar que, saboreando a polpa deliciosa de um cambuc\u00e1,<br \/>\nsentisse de repente o gosto do pepino. Fechou os olhos enquanto o m\u00fatuo<br \/>\nepigrama em carne e osso passava, acompanhado por um pajem de libr\u00e9.<\/p>\n<p>Um novo gorjeio de riso melodioso derramou-se pela solid\u00e3o; por\u00e9m<br \/>\nRicardo n\u00e3o ouviu mais do que um eco remoto.<\/p>\n<p>&#8211; De que se ri, menina? perguntou a mestra em ingl\u00eas. Why do you laugh,<br \/>\nbaby?<br \/>\n&#8211; Bonito romance, Mrs. Trowshy! respondeu a mo\u00e7a na mesma l\u00edngua.<\/p>\n<p>&#8211; Que t\u00edtulo tem?<br \/>\n&#8211; T\u00edtulo!&#8230;replicou a mo\u00e7a rindo. N\u00e3o est\u00e1 escrito<br \/>\nainda! Se agora mesmo eu vi o primeiro cap\u00edtulo!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>&#8211; Ande l\u00e1, Mrs. Trowshy! E a senhora bem caladinha!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que \u00e9?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o viu um mo\u00e7o que estava recostado na grama ao lado do caminho?<br \/>\n&#8211; Onde?&#8230; N\u00e3o vi nada!<br \/>\n&#8211; Sim? N\u00e3o me engana! Pois o mo\u00e7o tinha uma flor na m\u00e3o,<br \/>\ncreio que era um girassol, e pensando que eu n\u00e3o o via, ou talvez que<br \/>\nera outra pessoa, dava tais beijos na flor, que de cada beijo comia um peda\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Oh! engra\u00e7ado! Exclamava a mestra com um riso puro cockney.<\/p>\n<p>&#8211; Espere; o mais interessante \u00e9 que ele n\u00e3o cansava de dizer<br \/>\nenquanto beijava o seu girassol: My love, my soul, my darling Harriet, my<br \/>\npretty Mrs. Trowshy!<br \/>\n&#8211; Baby, baby!&#8230; repetia a mestra afogada em riso.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas n\u00e3o entendera meia palavra do di\u00e1logo travado<br \/>\nem ingl\u00eas; mas ele julgava que, sendo incumbido de acompanhar a mo\u00e7a<br \/>\ne a mestra na qualidade de criado grave, devia compor-se \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaqueles de quem estava constitu\u00eddo a sombra.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem id\u00e9ias, menina!<br \/>\n&#8211; \u00c9 s\u00e9rio, Mrs. Trowshy. Palavra que vi o mo\u00e7o. E a senhora<br \/>\ntamb\u00e9m; n\u00e3o disfarce.<\/p>\n<p>A mestra voltou-se gravemente para o criado, e com os dentes cerrados para<br \/>\ndestrin\u00e7ar as palavras portuguesas, como se fossem cabeloiro, disse<br \/>\nmais ou menos isto:<br \/>\n&#8211; Senhor Daniel, n\u00f3s ver young gentleman?<br \/>\n&#8211; Iuh!&#8230; iuh!&#8230; iuh!&#8230; respondeu o Sr. Daniel que ficara em branco.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o disse? exclamou a mo\u00e7a desatando a risada com extremo<br \/>\nprazer.<\/p>\n<p>&#8211; Iuh!&#8230; iuh!&#8230; fez a mestra arremedando o portugu\u00eas. Que quer dizer<br \/>\niuh?&#8230;<\/p>\n<p>Neste momento um cavaleiro a galope assomou na curva do caminho, e encontrou-se<br \/>\nde frente com a mo\u00e7a e sua comitiva. Era F\u00e1bio que voltava do<br \/>\nseu passeio gorado; ao avistar o grupo, moderou o andar do animal para melhor<br \/>\nexaminar as pessoas, com especialidade a gentil amazona.<\/p>\n<p>Cumprimentou respeitosamente a mo\u00e7a, que retribuiu-lhe com uma inclina\u00e7\u00e3o<br \/>\nda fronte, bastante graciosa para revelar a fina educa\u00e7\u00e3o, mas<br \/>\nt\u00e3o reservada e altiva que n\u00e3o permitia a quem recebesse dirigir-lhe<br \/>\numa palavra, ou aproximar-se.<\/p>\n<p>O &#8220;Galgo&#8221; e o formoso isabel tamb\u00e9m se cortejaram: o cavalo<br \/>\nbrasileiro, vivo, ardente e prazenteiro, enfreando-se garboso e soltando um<br \/>\nligeiro nitrido de prazer; o cavalo do Cabo, com o cumprimento protetor que<br \/>\num ministro enfatuado se digna deferir a um deputado novel.<\/p>\n<p>Como o jovem deputado, o jovem corcel, vendo aquela fatuidade, sentiu certo<br \/>\nprurido na pata, mas pelo respeito ao cavaleiro que o montava, pela dec\u00eancia<br \/>\ndevida \u00e0 boa sociedade, e sobretudo pela educa\u00e7\u00e3o que<br \/>\nlhe dera o dono, desprezou a arrog\u00e2ncia do colega.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 este o mo\u00e7o, menina? perguntou a inglesa motejando.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, Mrs. Trowshy. Este \u00e9 outro: \u00e9 rival do primeiro,<br \/>\nreplicou a mo\u00e7a. N\u00e3o viu que cumprimento lhe fez? Creio que<br \/>\nteremos duelo! \u00c9 como h\u00e1 de acabar o romance!<br \/>\nE o riso que se escondera nas covinhas da face, quando se aproximara um estranho,<br \/>\nvoltou de novo ao l\u00e1bio da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Hop! hop! exclamou ela, desaparecendo em um tempo de galope.<\/p>\n<h4><a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>III<\/h4>\n<p>A pouca dist\u00e2ncia, F\u00e1bio tendo apressado a marcha do animal,<br \/>\nouviu uma voz sua conhecida que recordava \u00e0 surdina um tema da Norma.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda est\u00e1s por c\u00e1, Ricardo? disse ele. Parece que n\u00e3o<br \/>\nte lembras do almo\u00e7o?<br \/>\nRicardo, que estava embrulhando os l\u00e1pis e fechando o \u00e1lbum<br \/>\npara ir-se, ergueu a cabe\u00e7a surpreso.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! E o piquenique?<br \/>\n&#8211; Ora! N\u00e3o me fales! Os tais sujeitos fiaram-se uns nos outros, e afinal<br \/>\nquerendo ser muito espertos ficaram todos logrados, e me lograram a mim. Apenas<br \/>\npercebi a coisa, mosquei-me a toda pressa para n\u00e3o perder o magro cafezinho<br \/>\nda tia.<\/p>\n<p>&#8211; E vieste num galope desesperado? disse Ricardo passando a m\u00e3o pelos<br \/>\npeitos do cavalo, umedecidos de suor, assim como o ventre.<\/p>\n<p>&#8211; Qual? Isso \u00e9 calor: o sol est\u00e1 muito quente e o &#8220;Galgo&#8221;<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o fogoso! Sua por nada.<\/p>\n<p>&#8211; Eu creio que tu ainda \u00e9s mais fogoso que ele, F\u00e1bio! Disse<br \/>\nRicardo ganhando o caminho na dire\u00e7\u00e3o em que viera.<\/p>\n<p>F\u00e1bio apeou-se, e atirando as r\u00e9deas ao pesco\u00e7o do<br \/>\n&#8220;Galgo&#8221;, seguiu ao lado do amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Viste quem passou aqui?<br \/>\n&#8211; Uma mo\u00e7a? disse Ricardo sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Conheceste?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a Guida!&#8230; A filha dos Soares.<\/p>\n<p>&#8211; Soares&#8230; Um rica\u00e7o?<br \/>\n&#8211; Um milion\u00e1rio, um bezerro de ouro, uma esp\u00e9cie de Midas, que<br \/>\ntem o dom de transformar tudo em dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Come\u00e7ando pela pr\u00f3pria consci\u00eancia? observou Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Ele era capaz de vender-se aproveitando a alta, para comprar-se depois<br \/>\nna baixa, ganhando alguns contos de r\u00e9is na opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vejo que \u00e9 uma grande cabe\u00e7a em finan\u00e7as.<br \/>\n\u00c9 pena que n\u00e3o se aplicasse \u00e0 pol\u00edtica; seria<br \/>\no criador de uma situa\u00e7\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Mas vem c\u00e1, Ricardo. No fim de contas h\u00e1s de confessar que<br \/>\nisso de consci\u00eancia \u00e9 traste de pobre. Eu a comparo a uma mala<br \/>\nde couro, ou uma canastra de pau. Numa casa rica seria sumamente rid\u00edculo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Queres ent\u00e3o dizer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Entendo que ningu\u00e9m pode enriquecer, deixando-se levar pelos conselhos<br \/>\nda tal velha rabugenta, que se agasta com a menor coisa e de tudo se aflige.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu penso ao contr\u00e1rio que a consci\u00eancia \u00e9 indispens\u00e1vel<br \/>\n\u00e0 riqueza, justamente para cont\u00ea-la e coibir os seus excessos.<br \/>\nA pobreza tem para reprimir-se a pr\u00f3pria fraqueza; mas a opul\u00eancia,<br \/>\nservida pela justi\u00e7a e at\u00e9 cortejada pela lei, carece de um<br \/>\nfreio, a fim de n\u00e3o precipitar-se: esse freio \u00e9 a consci\u00eancia;<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 outro.<\/p>\n<p>&#8211; Bela teoria!&#8230; A moral pr\u00e1tica \u00e9 muito diferente!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o decores com este nome a toler\u00e2ncia do abuso e a transa\u00e7\u00e3o<br \/>\nc\u00f4moda que muita gente faz entre o seu interesse e o seu dever. A moral<br \/>\npr\u00e1tica n\u00e3o pode ser outra coisa, sen\u00e3o a virtude nos<br \/>\natos da vida. Seriamente, me entriste\u00e7o, F\u00e1bio, quando te vejo<br \/>\ndefender o que no fundo de tua alma reprovas, estou bem certo!<br \/>\n&#8211; Foi um gracejo!<br \/>\n&#8211; O ouro \u00e9 a pedra de toque da consci\u00eancia; o prumo que lhe sonda<br \/>\na profundidade. Creio que sou um homem honesto; mas n\u00e3o tenho a certeza<br \/>\ndisso, porque ainda n\u00e3o me vi \u00e0 prova, entre os escr\u00fapulos<br \/>\nda probidade e os lucros certos de uma a\u00e7\u00e3o menos digna.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu confio mais em ti, do que tu mesmo. Se por acaso o tal milion\u00e1rio,<br \/>\no Soares, te oferecesse vinte contos de r\u00e9is para comprometeres a causa<br \/>\nde alguns dos teus quatro clientes de meia cara, estou convencido que o repelirias<br \/>\ncom indigna\u00e7\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Tamb\u00e9m creio, replicou Ricardo sorrindo. Entretanto tu sabes o que<br \/>\nvale esta soma para mim, para n\u00f3s, F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade! Quando eu me lembro que para sermos felizes bastava-nos<br \/>\no que esse Midas ganha enquanto dorme a sesta!<br \/>\n&#8211; Exageras tamb\u00e9m!<br \/>\n&#8211; Dizem que ele tem um rendimento anual de mais de duzentos contos, o que<br \/>\nd\u00e1 vinte e cinco mil-r\u00e9is por hora. Ora ele costuma dormir duas<br \/>\nhoras, e tr\u00eas quando janta feijoada; portanto a\u00ed tens, cinq\u00fcenta<br \/>\nmil-r\u00e9is, o que n\u00e3o ganhar\u00e1s, meu Ricardo, nem quando<br \/>\nfores ministro e senador.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s bem servido!<br \/>\n&#8211; H\u00e1s de ser! Mas v\u00ea o que \u00e9 este mundo. Viste o cavalo<br \/>\ndo Cabo em que ia a Guida, um lindo isabel?<br \/>\n&#8211; \u00c9 um bonito animal.<\/p>\n<p>&#8211; Pois enquanto n\u00f3s, dois cidad\u00e3os brasileiros, duas esperan\u00e7as<br \/>\nda p\u00e1tria, vamos almo\u00e7ar o magro caf\u00e9 com p\u00e3o,<br \/>\no tal fidalgo antes de sair a passeio j\u00e1 saboreou um pau de chocolate<br \/>\nfino.<\/p>\n<p>&#8211; Chocolate? Ora, F\u00e1bio!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 brincadeira; chocolate marquis! Ah! tu n\u00e3o conheces<br \/>\na Guidinha. Um dia o tal cavalo do Cabo, que \u00e9 delicado como um rapazinho<br \/>\nda moda, constipou-se aqui na Tijuca, numa manh\u00e3 de chuva, e sobreveio-lhe<br \/>\numa tosse. A menina entendeu que o seu querido isabel estava sofrendo do peito,<br \/>\ne que portanto devia tomar chocolate todas as manh\u00e3s.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 luxo que o nosso &#8220;Galgo&#8221; n\u00e3o lhe inveja.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas o teu &#8220;Galgo&#8221; chegando \u00e0 casa, se quiser enxugar<br \/>\no corpo, h\u00e1 de rolar-se no ch\u00e3o: n\u00e3o tem como o fidalgo<br \/>\na seu servi\u00e7o um criado, melhor pago do que dois advogados do nosso<br \/>\nconhecimento. Esse criado, depois de enxugar-lhe o corpo, com uma toalha de<br \/>\nri\u00e7o, veste-lhe uma camisa de brim de linho, mais fino do que o de<br \/>\nminha cal\u00e7a. Isto quando o isabel n\u00e3o transpira; porque nesse<br \/>\ncaso vem uma garrafa de vinho para esfregar-lhe o p\u00ealo: vinho generoso,<br \/>\ncomo n\u00f3s s\u00f3 bebemos uma vez por outra, nalgum banquete.<\/p>\n<p>&#8211; Admira-me que andes ao fato de tudo isto!<br \/>\n&#8211; Compreendes! Mo\u00e7a bonita e rica!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma celebridade, como a Lagrange ou a Ristori; pertence ao p\u00fablico,<br \/>\nque tem o direito de saber as particularidades de sua vida.<\/p>\n<p>&#8211; Justamente; s\u00e3o os pr\u00f3prios amigos da casa que referem estas<br \/>\ncoisas como prova da gra\u00e7a e esp\u00edrito da mo\u00e7a. Queres<br \/>\nsaber uma que me contaram h\u00e1 poucos dias?<br \/>\n&#8211; D\u00e1s tanta import\u00e2ncia a esses caprichos?<br \/>\n&#8211; Rio-me; e acho uma fortuna quando os ricos nos divertem, e n\u00e3o nos<br \/>\nafligem como tantas vezes sucede. Mas ouve, que \u00e9 engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8211; Conta.<\/p>\n<p>&#8211; Foi com o doutor&#8230; Um dos primeiros m\u00e9dicos da corte&#8230; Esquece-me<br \/>\nagora o nome&#8230; o doutor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o importa.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem. Uma noite, seriam duas horas da madrugada, chovia a c\u00e2ntaros,<br \/>\nquando batem-lhe \u00e0 porta. Era um chamado a toda a pressa para a casa<br \/>\ndo Soares; a carta era instante; o carro estava \u00e0 espera. O velho doutor<br \/>\nconsultou todas as juntas do corpo para ver se n\u00e3o tinha algum travo<br \/>\nde reumatismo, que o desculpasse com o capitalista e a consci\u00eancia.<br \/>\nAchando-se perfeitamente l\u00e9pido, n\u00e3o teve rem\u00e9dio sen\u00e3o<br \/>\nerguer-se e partir.<\/p>\n<p>&#8211; Fez sua obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida. Chegando o doutor foi recebido pela Guida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A filha?<br \/>\n&#8211; Sim; a qual muito aflita comunicou-lhe que o incomodara \u00e0quela hora<br \/>\nda noite para ver Sofia, que estava muito mal, a decidir, de uma mol\u00e9stia<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o. O doutor conhecia melhor o dinheiro do que a fam\u00edlia<br \/>\ndo capitalista; n\u00e3o sabia pois de quem se tratava; pensou por\u00e9m<br \/>\nque devia ser uma pessoa importante da casa. Acompanhou a mo\u00e7a a uma<br \/>\nalcova frouxamente iluminada por uma lamparina, onde havia um leito envolvido<br \/>\nem alvos cortinados de fil\u00f3. O doente parecia uma crian\u00e7a; estendendo<br \/>\na m\u00e3o para tomar-lhe o pulso, sentiu o m\u00e9dico um p\u00ealo<br \/>\nmacio; aproximou a vela e ent\u00e3o distinguiu perfeitamente uma cachorrinha,<br \/>\ndeitada em travesseiros de cetim e coberta com uma colcha de damasco.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 exato isto?<br \/>\n&#8211; Asseguro-te que \u00e9. Faze id\u00e9ia de como ficou o doutor, arrancado<br \/>\n\u00e0 sua casa \u00e0 uma hora da noite, e rebaixado do seu pedestal<br \/>\nde m\u00e9dico do que h\u00e1 de mais ilustre e elevado na corte, a m\u00e9dico<br \/>\nde c\u00e3o. Se a gra\u00e7a fosse de qualquer outra pessoa, ele decerto<br \/>\nn\u00e3o a suportaria; mas era de uma mo\u00e7a bonita. O velho assentou<br \/>\nque o melhor meio de sair-se do caso era lev\u00e1-lo em tom de galhofa&#8230;<br \/>\n&#8220;Ah! \u00c9 sua maninha?&#8221; disse ele. Examinou com uma gravidade<br \/>\nc\u00f4mica o doente, pediu papel e receitou neste gosto: &#8220;R\u00e9cipe:<br \/>\nUso interno: Ma\u00e7ada &#8211; 2 oit. Capricho de crian\u00e7a &#8211; 1 on\u00e7a.<br \/>\nMisture e fa\u00e7a infus\u00e3o para tomar \u00e0s colheradas de hora<br \/>\nem hora. Uso externo: Gargalhada &#8211; 3 oitavas. Paci\u00eancia &#8211; 1 libra. Fa\u00e7a<br \/>\numa fomenta\u00e7\u00e3o. Para a Sr\u00aa. D. Sofia Soares. Dr. F.&#8221;<br \/>\nEntregou a receita \u00e0 menina, e assegurou-lhe que D. Sofia se restabeleceria<br \/>\nbrevemente.<\/p>\n<p>&#8211; Era pachorrento o doutor.<\/p>\n<p>&#8211; Que havia ele de fazer; dar a cavaco? Mas escuta o resto. \u00c9 um<br \/>\nromance. A Guida mandou a receita \u00e0 botica da casa. Podes bem avaliar<br \/>\ndo como ficaria embara\u00e7ado o botic\u00e1rio para avi\u00e1-la:<br \/>\nnunca na sua vida tinha manipulado semelhantes drogas. Mas a menina fez-lhe<br \/>\nsaber muito positivamente, que se n\u00e3o mandasse os rem\u00e9dios receitados<br \/>\npelo m\u00e9dico perderia a freguesia. Nestes apertos passou-lhe o doutor<br \/>\npela porta; contou-lhe o que sucedia; o velho desatou a rir. &#8220;Olhe; ma\u00e7ada,<br \/>\n\u00e9 qualquer amargo. Capricho de menina, umas c\u00f3cegas, como as<br \/>\nque produz o s\u00falfur. Gargalhada, um pouco de muriato no p\u00ealo<br \/>\nda cachorrinha, e ver\u00e1 que boas risadas ela d\u00e1. Paci\u00eancia,<br \/>\nisso \u00e9 um emoliente, farinha de linha\u00e7a.&#8221; O botic\u00e1rio<br \/>\naproveitou a lembran\u00e7a e aviou a receita. Se a Sofia tomou o rem\u00e9dio<br \/>\nn\u00e3o sei; mas ficou boa.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 mais prov\u00e1vel que n\u00e3o tomasse.<\/p>\n<p>&#8211; Estou por isso. Tempos depois aparecendo o doutor em sua casa, a Guida<br \/>\nexigiu a conta da visita feita \u00e0 Sofia. O velho, julgando-se autorizado<br \/>\npelos sessenta anos e pelo gracejo da menina, disse-lhe que o pre\u00e7o<br \/>\nera um beijo. Nesse momento chegava \u00e0 porta a mestra, uma inglesa gorducha<br \/>\ne m\u00edope.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente uma que vi passar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a tal. A Guida corre a ela; inventa de repente uma hist\u00f3ria<br \/>\nda chegada imprevista do marido, uma alegre surpresa; e acaba mostrando-lhe<br \/>\no vulto do doutor, que n\u00e3o entendia a conversa por ser em ingl\u00eas.<br \/>\nA mestra precipita-se como uma bala de canh\u00e3o, agarra-se ao pesco\u00e7o<br \/>\ndo velho, e cobre-o de uma chuva de beijos sonoros e cheios, verdadeiros beijos<br \/>\nde lei, pesando 24 quilates cada um.<\/p>\n<p>&#8211; E o doutor?<br \/>\n&#8211; Quando se p\u00f4de desvencilhar dos bra\u00e7os e da boca da gorducha,<br \/>\nviu Guida que ria de sua triste figura: &#8220;Est\u00e1 vendo, doutor, como<br \/>\neu pago generosamente as minhas d\u00edvidas. O senhor pedia um beijo, e<br \/>\nleva algumas d\u00fazias deles&#8221;. O velho limpava a cara, enquanto a<br \/>\ninglesa esfregava os bei\u00e7os como se lhes quisesse tirar a pele. N\u00e3o<br \/>\nachas engra\u00e7ada a anedota, Ricardo?<br \/>\n&#8211; Acho que essa mo\u00e7a tem pouco ju\u00edzo.<\/p>\n<p>&#8211; Ju\u00edzo tem ela; mas \u00e9 ju\u00edzo de mo\u00e7a rica, muito<br \/>\ndiferente do ju\u00edzo de mo\u00e7a pobre. O velho Soares \u00e9 uma<br \/>\nm\u00e1quina de fazer dinheiro; vive no escrit\u00f3rio. A mulher, esta<br \/>\nsuporta a sua opul\u00eancia como um cativeiro. Os outros filhos ainda est\u00e3o<br \/>\nno col\u00e9gio. Quem h\u00e1 de suar daquela riqueza e da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque ela d\u00e1 sen\u00e3o Guida?<br \/>\n&#8211; Podia usar de uma maneira mais s\u00e9ria e mais \u00fatil.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o seria ent\u00e3o uma crian\u00e7a de dezesseis anos?<br \/>\n&#8211; Mas \u00e9 justamente por n\u00e3o ser uma crian\u00e7a que eu a censuro.<br \/>\nA travessura aos dezesseis anos \u00e9 inocente; n\u00e3o tem a mal\u00edcia<br \/>\ndas com\u00e9dias de mau gosto representadas por essa mo\u00e7a.<\/p>\n<p>F\u00e1bio voltara-se cuidando ouvir um rumor. Os dois amigos conversando<br \/>\nao lado um do outro tinham deixado a estrada e tomado um atalho que descia<br \/>\npela encosta da montanha.<\/p>\n<p>&#8211; No fim das contas, assim deve ser, acrescentou Ricardo. Ela \u00e9 muito<br \/>\nbonita e muito rica; deve ter algum defeito; s\u00e3o os espinhos da rosa,<br \/>\ncomo diria um poeta, ou o azinhavre do ouro, como dir\u00e1 naturalmente<br \/>\no marido que lhe desfrutar o dote.<\/p>\n<p>Conversavam os dois amigos de cora\u00e7\u00e3o aberto, em voz clara,<br \/>\ncomo quem n\u00e3o se receia de ouvir o eco de seu pensamento; n\u00e3o<br \/>\nse lembrando que as folhas das \u00e1rvores t\u00eam olhos, e as brisas<br \/>\nouvidos sutis.<\/p>\n<p>Expiravam as \u00faltimas palavras quando soaram distintamente no ch\u00e3o<br \/>\nbatido do caminho, que lhes ficava sobranceiro, passos de animal. Erguendo<br \/>\nos lhos viram a linda amazona que passava lentamente de volta de seu passeio.<\/p>\n<p>N\u00e3o abaixou a cabe\u00e7a nem voltou o rosto; mas um olhar cintilou<br \/>\nsob o v\u00e9u espesso, como a luz de um rel\u00e2mpago, e caiu sobre os<br \/>\ndois mo\u00e7os, apagando-se logo.<\/p>\n<p>&#8211; Ter\u00e1 ouvido? perguntou F\u00e1bio rindo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 prov\u00e1vel! disse Ricardo com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso estamos comprometidos.<\/p>\n<p>&#8211; Por que raz\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Tinha uma id\u00e9ia. O Soares est\u00e1 passando o ver\u00e3o aqui<br \/>\nna Tijuca. Sabes, assim no campo, tomam-se rela\u00e7\u00f5es com muita<br \/>\nfacilidade. Queria ver se nos apresentavam sua casa.<\/p>\n<p>&#8211; Que lembran\u00e7a! Hav\u00edamos de fazer uma bonita figura no meio<br \/>\ndessa gente que arrota ouro, n\u00f3s dois pobret\u00f5es!<br \/>\n&#8211; Talvez a riqueza pegue como a lepra!<br \/>\n&#8211; Pega; quando se tem mau sangue.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, fora de gra\u00e7a: \u00e9 preciso fazermos rela\u00e7\u00f5es,<br \/>\nadquirir amigos, do contr\u00e1rio nada alcan\u00e7aremos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digo o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Continuando a conversa, chegaram os dois mo\u00e7os a um pequeno vale<br \/>\nescondido entre duas pontas da montanha. Um escasso ribeiro descia em cascata<br \/>\nrumorejando por entre as pedras, e serpejava \u00e0 sombra das bananeiras.<\/p>\n<p>No meio do vale havia uma pequena casa cercada por algumas fruteiras.<\/p>\n<h4><a id=\"4\" name=\"4\"><\/a>IV<\/h4>\n<p>Por entre duas linhas de cafezeiros aparecia a porta da casa; e em p\u00e9<br \/>\nna soleira, uma velhinha de cabelos brancos em carrapito, com vestido de chita<br \/>\namarelo e um len\u00e7o vermelho de Alcoba\u00e7a, cruzado ao peito.<\/p>\n<p>Era D. Joaquina Sampaio, tia de F\u00e1bio e senhora de pequena propriedade.<br \/>\nPassava ela entre todos os parentes como rica, porque possu\u00eda esses<br \/>\ndois palmos de terra e uns tr\u00eas centavos. Com a sua rocinha, como ela<br \/>\nlhe chamava, ia vivendo, pobremente sim, mas tranq\u00fcila e feliz.<\/p>\n<p>Tudo ali era velho: a casa, as \u00e1rvores, a dona e os escravos. A mocidade<br \/>\ns\u00f3 brilhava no renovo das plantas e no semblante dos dois amigos, que<br \/>\npassavam habitualmente o domingo em companhia da velha.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas hoje n\u00e3o t\u00eam muita fome! disse D. Joaquina apenas<br \/>\navistou os dois mo\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Ao contr\u00e1rio, minha tia, tragos duas fomes em vez de uma, respondeu<br \/>\nF\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o parece. J\u00e1 o sol est\u00e1 entrando pela casa,<br \/>\nreplicou a senhora mostrando a r\u00e9stia no pavimento da sala.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 tarde com efeito! disse Ricardo.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o levara maquinalmente a m\u00e3o ao bolso do colete para<br \/>\ntirar o rel\u00f3gio; mas reprimiu o movimento involunt\u00e1rio, enquanto<br \/>\num sorriso triste lhe fugia dos l\u00e1bios. Tivera h\u00e1 dias necessidade<br \/>\nde pagar algumas d\u00edvidas impertinentes. Era preciso vender o cavalo<br \/>\nou o rel\u00f3gio; preferiu desfazer-se deste \u00faltimo traste. Que<br \/>\nlhe importava saber com exatid\u00e3o as horas, se elas n\u00e3o lhe traziam<br \/>\nnenhuma felicidade?<\/p>\n<p>O almo\u00e7o era frugal como de costume. Caf\u00e9 com leite muito<br \/>\nbem feito, tr\u00eas p\u00e3es, um para cada pessoa, e excelentes bananas-ma\u00e7\u00e3s.<br \/>\nTodos os domingos punha-se invariavelmente no meio da mesa uma grande manteigueira<br \/>\nde lou\u00e7a azul, como era o resto do aparelho. F\u00e1bio nos primeiros<br \/>\ntempos destampava sem cerim\u00f4nia a manteigueira e empastava a fatia;<br \/>\nmas acabou-se a primeira por\u00e7\u00e3o e s\u00f3 restava a crosta<br \/>\nligeira que fica aderente \u00e0s paredes da lou\u00e7a. Ricardo fez-lhe<br \/>\ncompreender que n\u00e3o deviam se tornar pesados \u00e0 excelente senhora,<br \/>\ncuja hospitalidade era oferecida de t\u00e3o bom cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesde esse dia a tampa da manteigueira caiu como a lousa de um t\u00famulo,<br \/>\npara n\u00e3o mais se abrir. Posta no meio da mesa ela n\u00e3o era mais<br \/>\ndo que um s\u00edmbolo ou um emblema; atestava a dec\u00eancia do almo\u00e7o,<br \/>\npois na opini\u00e3o da dona da casa n\u00e3o havia mesa capaz sem manteiga.<\/p>\n<p>No domingo em que estamos, D. Joaquina fez uma surpresa a seus h\u00f3spedes.<br \/>\nHavia quatro ovos quentes.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! exclamou F\u00e1bio alegremente. A Nanica brilhou desta vez.<\/p>\n<p>&#8211; Estes sobraram de uma d\u00fazia que estou guardando para tirar uma<br \/>\nninhada.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, minha tia. Havemos de fazer uma sociedade para ficarmos<br \/>\nricos de repente. Conhe\u00e7o um americano que inventou uma m\u00e1quina<br \/>\nde chocar ovos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei; para tirar os pintos sem galinha.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Isto n\u00e3o vale nada. A minha m\u00e1quina \u00e9 coisa<br \/>\nmais sublime; olhe, minha tia: mete-se um ovo, um ovo s\u00f3. Tr\u00eas<br \/>\ndias depois abre-se a porta da m\u00e1quina, e enche-se a capoeira de galos,<br \/>\ngalinhas e frangos.<\/p>\n<p>&#8211; Grandes?<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o? Manda-se vender \u00e0 cidade a primeira capoeira.<br \/>\nMas como as galinhas antes de sa\u00edrem da m\u00e1quina puseram l\u00e1<br \/>\nos ovos, e estes j\u00e1 est\u00e3o feitos galinhas, \u00e9 um n\u00e3o<br \/>\nacabar!<br \/>\nA velha ria-se \u00e0s gargalhadas das pilh\u00e9rias do sobrinho; e assim<br \/>\niam temperando o almo\u00e7o com o sal da alegria e do prazer, que \u00e9<br \/>\nsem d\u00favida o melhor adubo.<\/p>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o \u00edntima e sincera que havia entre os dois<br \/>\nmo\u00e7os era mais do que amizade, era uma afei\u00e7\u00e3o fraternal,<br \/>\nque o casamento de F\u00e1bio e Luisinha devia mais tarde consagrar. Pela<br \/>\nidade, como pela gravidade do car\u00e1ter e superioridade de intelig\u00eancia,<br \/>\nRicardo exercia sobre o amigo a doce autoridade de um irm\u00e3o mais velho:<br \/>\na autoridade do exemplo e do conselho.<\/p>\n<p>Estas rela\u00e7\u00f5es tinham come\u00e7ado havia seis anos na cidade<br \/>\nde S\u00e3o Paulo, onde habitava Ricardo com sua fam\u00edlia. No ano<br \/>\nem que o talentoso estudante ia concluir o seu curso e formar-se, F\u00e1bio,<br \/>\nmuito mais mo\u00e7o, matriculou-se na faculdade. Apesar dessa circunst\u00e2ncia<br \/>\nque os devera separar logo no princ\u00edpio de seu conhecimento, a amizade<br \/>\nestreitou-se entre os dois. O meigo sorriso de Luisinha foi naturalmente o<br \/>\nfio dourado que teceu essa m\u00fatua afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Havia tr\u00eas meses que F\u00e1bio se tinha formado. Para ele o prazer<br \/>\nque sempre desperta esse dia no cora\u00e7\u00e3o do estudante, veio travado<br \/>\nde saudades. Sua pobreza n\u00e3o lhe permitia realizar o voto mais querido<br \/>\nde sua alma; tinha de separa-se de Luisinha, para recolher \u00e0 corte,<br \/>\nao seio da fam\u00edlia. Ia trabalhar na esperan\u00e7a de adquirir uma<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o modesta, mas decente, para oferecer \u00e0 companheira<br \/>\nde sua exist\u00eancia. Os dois cora\u00e7\u00f5es sofreram com a aus\u00eancia,<br \/>\nmas resignaram-se.<\/p>\n<p>Ricardo de seu lado reconhecera que em S\u00e3o Paulo n\u00e3o poderia,<br \/>\napesar de seu talento, obter os recursos indispens\u00e1veis para assegurar<br \/>\no futuro da numerosa fam\u00edlia que pesava sobre ele, depois da morte<br \/>\nde seu pai. Aproveitando a ocasi\u00e3o, veio com F\u00e1bio para a corte<br \/>\ntentar fortuna.<\/p>\n<p>Estabeleceram-se ambos como advogados. Obtido o escrit\u00f3rio, posto<br \/>\no nome na porta e feitos os an\u00fancios, esperaram pelos clientes. Nos<br \/>\ntr\u00eas meses decorridos conseguira Ricardo quatro causas gratuitas, que<br \/>\npor grande obs\u00e9quio lhe arranjara um procurador. Apenas l\u00e1 de<br \/>\ntempos a tempos, uma inquiri\u00e7\u00e3o, ou algum requerimento, ia ajudando<br \/>\na compensar as despesas.<\/p>\n<p>Os dois amigos suportavam sua pobreza nobremente. \u00c0s vezes F\u00e1bio,<br \/>\nmais desabusado, sustentava umas id\u00e9ias materialistas, como aquelas<br \/>\nque exprimira durante o passeio; mas Ricardo, que n\u00e3o transigia em<br \/>\nmat\u00e9ria de escr\u00fapulo e honestidade, combatia tais aberra\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo esp\u00edrito de seu amigo, e destru\u00eda a influ\u00eancia nociva<br \/>\nque o mal poderoso e laureado exerce sobre as almas cuja t\u00eampera n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 bastante forte para resistir-lhe.<\/p>\n<p>A semana passava-se na expectativa ilus\u00f3ria dos clientes que n\u00e3o<br \/>\nvinham, ou na medita\u00e7\u00e3o de um estudo obrigado e sem est\u00edmulos.<br \/>\nNo s\u00e1bado, os dois amigos tomavam a g\u00f4ndola de Andara\u00ed,<br \/>\ncom o fim de aceitar de D. Joaquina uma hospitalidade oferecida com o maior<br \/>\ngosto e satisfa\u00e7\u00e3o. Para a excelente senhora, enterrada viva<br \/>\nnaquele retiro, a chegada de F\u00e1bio e seu companheiro era uma visita<br \/>\ndo mundo \u00e0quela solid\u00e3o, donde n\u00e3o sa\u00eda sen\u00e3o<br \/>\nde ano em ano. O contato daquela mocidade a remo\u00e7ava; ela escutava<br \/>\ncom admira\u00e7\u00e3o a palavra inspirada do talentoso advogado, ou<br \/>\nria das gra\u00e7as do sobrinho.<\/p>\n<p>Ricardo possu\u00eda em S\u00e3o Paulo um cavalo, o &#8220;Galgo&#8221;,<br \/>\nao qual muito se afei\u00e7oara. Mudando-se para o Rio de Janeiro n\u00e3o<br \/>\nse animara a vend\u00ea-lo; trouxe-o consigo. Ignorava quanto \u00e9 dispendioso<br \/>\nna corte o trato de um animal. Sem d\u00favida seria obrigado a separar-se<br \/>\ndo &#8220;Galgo&#8221;, se F\u00e1bio n\u00e3o pedisse \u00e0 tia para<br \/>\nconserv\u00e1-lo na sua rocinha da Tijuca. Assim pouco se aproveitava o<br \/>\ndono do seu cavalo; por\u00e9m obtinha conserv\u00e1-lo, esperando melhores<br \/>\ntempos.<\/p>\n<p>Os dois amigos partilhavam igualmente os servi\u00e7os do cavalo, e o<br \/>\n&#8220;Galgo&#8221; parecia compreender essa comunidade, porque os considerava<br \/>\na ambos como senhores, embora respeitasse mais a Ricardo.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, quando subiam a serra, um por seu turno montava o &#8220;Galgo&#8221;,<br \/>\nenquanto o outro ia a p\u00e9 com a fresca, at\u00e9 que o cavalo tendo<br \/>\nchegado \u00e0 casa, vinha-lhe ao encontro para poupar-lhe um resto de caminho.<br \/>\nNa segunda-feira pela manh\u00e3, voltando para a cidade, revezavam igualmente.<\/p>\n<p>O domingo era repartido da mesma forma: um desfrutava o passeio da manh\u00e3,<br \/>\no outro o da tarde. Se pois o &#8220;Galgo&#8221; descansava durante os quatro<br \/>\ndias da semana, nos outros fazia sofr\u00edvel exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>F\u00e1bio, de g\u00eanio descuidado e folgaz\u00e3o, \u00e0s vezes<br \/>\nabusava, fazendo proezas com o &#8220;Galgo&#8221;; mas Ricardo coibia as travessuras,<br \/>\nmoderando o ardor do amigo. Disto nunca resultava menor desconfian\u00e7a<br \/>\nentre ambos. Nessa boa e verdadeira amizade, um punha em comunh\u00e3o o<br \/>\nsorriso, o outro o conselho; um era a alegria e a esperan\u00e7a, o outro<br \/>\nera a consola\u00e7\u00e3o e a f\u00e9.<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o, enquanto a velha foi rezar, como de costume, F\u00e1bio<br \/>\ntomou a espingarda, Ricardo, sentando-se \u00e0 janela, abriu o \u00e1lbum<br \/>\ne entreteve-se a desenhar. Primeiramente coloriu a figura do pequeno arbusto,<br \/>\nparte de mem\u00f3ria, e parte \u00e0 vista do galho que tinha quebrado.<\/p>\n<p>Enquanto se ocupava com esse trabalho, a mente repassava as recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\nda cena recente e da posi\u00e7\u00e3o em que o surpreendera a mo\u00e7a<br \/>\na cavalo; com estas lembran\u00e7as vinham de envolta as saudade das pessoas<br \/>\na quem amava, e de quem se achava ausente. Quando as veria para contar-lhes<br \/>\ntodos esses pequenos incidentes de sua vida, para referir-lhes essa longa<br \/>\nhist\u00f3ria de uma esperan\u00e7a t\u00e3o ansiada!<br \/>\nComo n\u00e3o se haviam de rir aqueles entes por quem se estremecia, quando<br \/>\nsoubesses dos beijos ardentes que ele dera na florinha agreste, e da risada<br \/>\ndesdenhosa que de repente o chamara \u00e0 realidade!<br \/>\nPassou-lhe pela id\u00e9ia tra\u00e7ar o quadro de Guida como ele vira.<br \/>\nSua fam\u00edlia teria curiosidade de conhecer essa mo\u00e7a de que F\u00e1bio<br \/>\nnaturalmente havia de contar as travessuras. Insensivelmente o l\u00e1pis<br \/>\ncome\u00e7ou a tra\u00e7ar no papel o primeiro e leve esbo\u00e7o do<br \/>\nquadro que lhe ficara gravado no esp\u00edrito pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Ricardo nunca aprendera desenho com mestres de arte. Sentira em si a intui\u00e7\u00e3o<br \/>\nda forma, e cultivara essa disposi\u00e7\u00e3o natural, guiado pelas<br \/>\npr\u00f3prias observa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o teve necessidade de<br \/>\nque lhe ensinassem as regras da perspectiva, pois as tinha diante dos olhos<br \/>\nnas paisagens que se desdobravam pelas lindas v\u00e1rzeas de S\u00e3o<br \/>\nPaulo.<\/p>\n<p>Deus criou tr\u00eas linguagens para o artista: a linguagem da forma, a<br \/>\npintura; a linguagem dos sons, a m\u00fasica; e a linguagem da palavra,<br \/>\na poesia, de todas a mais sublime porque fala n\u00e3o s\u00f3 ao cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo \u00e0 intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Ricardo era um poeta da forma; ele fazia versos com as cores. Suas impress\u00f5es,<br \/>\ndebuxava-as sobre o papel em imagens, retratadas ao vivo. Copiava-as da mem\u00f3ria,<br \/>\nonde ficavam estampadas como em uma l\u00e2mina fotogr\u00e1fica; depois<br \/>\na imagina\u00e7\u00e3o bordava a l\u00e1pis com essas recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\nalgum soneto ou alguma ode, corretos no desenho, brilhantes no colorido.<\/p>\n<p>Os contornos gerais do quadro j\u00e1 estavam delineados; via-se em tra\u00e7o<br \/>\nquase desvanecido a moldura da folhagem entran\u00e7ada de grinaldas amarelas,<br \/>\na estampa do soberbo cavalo isabel, e o lindo perfil da amazona cujo v\u00e9u<br \/>\nse enrolava ao sopro da brisa.<\/p>\n<p>Sentindo que F\u00e1bio se aproximava, Ricardo voltou a p\u00e1gina<br \/>\ndo \u00e1lbum e disfar\u00e7ou esbo\u00e7ando figuras grotescas em uma<br \/>\nfolha solta. Se o amigo visse o quadro, adivinharia quem era a mo\u00e7a;<br \/>\nseria necess\u00e1rio referir a cena dos beijos. Ora, Ricardo tinha vexame<br \/>\nde contar essa infantilidade de seu cora\u00e7\u00e3o; e sobretudo a F\u00e1bio,<br \/>\nque ele considerava como um irm\u00e3o mais mo\u00e7o. \u00c0 sua m\u00e3e<br \/>\nn\u00e3o duvidaria contar, em um momento de ternura, e depois de decorrido<br \/>\nalgum tempo. Um cora\u00e7\u00e3o de mulher compreende certas delicadezas,<br \/>\nque parecem rid\u00edculas ao esp\u00edrito de um homem; ainda mais quando<br \/>\nesse homem \u00e9 um mo\u00e7o de g\u00eanio prazenteiro, como era F\u00e1bio.<\/p>\n<p>O resto do dia passou como de costume, repartido entre a conversa, a leitura,<br \/>\no banho, o jantar, e o jogo da paix\u00e3o de D. Joaquina, a bisca cega.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, Ricardo, a quem tocou a vez, arreou o &#8220;Galgo&#8221;<br \/>\ne foi dar um passeio, enquanto F\u00e1bio sa\u00eda a p\u00e9 sem destino,<br \/>\nem busca de alguma companhia para passar a noite.<\/p>\n<p>Seriam 6 \u00bd horas da tarde. Apenas um doce reflexo de ouro tingia<br \/>\no cume das mais altas montanhas. A suavidade do crep\u00fasculo derramava-se<br \/>\nna atmosfera. \u00c9 encantador esse adeus do dia quando se despede da formosa<br \/>\nserraria da Tijuca. O c\u00e9u, despindo o fulgor da luz, mostra a limpidez<br \/>\ne transpar\u00eancia do puro azul, seio infindo onde a alma se embebe, como<br \/>\no filho no colo materno.<\/p>\n<p>Ricardo vinha entregue ao enlevo da contempla\u00e7\u00e3o da tarde,<br \/>\nquando ao dobrar uma volta do caminho achou-se diante de um rancho de mo\u00e7as,<br \/>\nque andavam passeando. Entre todas distinguia-se, pelo talhe esbelto e gracioso,<br \/>\numa, vestida de seda escocesa, desde a botina at\u00e9 as fitas do cabelo.<\/p>\n<p>Diante dela corria, saltando e latindo, uma cachorrinha felpuda, muito alva,<br \/>\ncom brincos de ouro e uma coleira de veludo; mas apenas percebeu o cavaleiro,<br \/>\natirou-se ao &#8220;Galgo&#8221; para mord\u00ea-lo no jarrete.<\/p>\n<p>Ricardo, tendo reconhecido a Guida, sup\u00f4s que a cachorrinha era a<br \/>\nmesma da hist\u00f3ria contada por F\u00e1bio, a Sofia. Mais aborrecido<br \/>\nficou ainda com o impertinente animal, que investia furioso contra as pernas<br \/>\ndo cavalo.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o nada tinha de agrad\u00e1vel; o caminho era estreito;<br \/>\nde um lado o despenhadeiro, do outro a montanha cortada a pique. O &#8220;Galgo&#8221;,<br \/>\nfogoso e irritado com a insultante amea\u00e7a do c\u00e3o, encrespava-se,<br \/>\nlan\u00e7ando fogo pelas narinas. Ricardo, excelente cavaleiro, conseguiu<br \/>\ndominar o primeiro \u00edmpeto, e tocando no chap\u00e9u, disse para as<br \/>\nmo\u00e7as que se tinham posto ao abrigo subindo a ribanceira da montanha:<br \/>\n&#8211; Acho bom chamar o c\u00e3ozinho!<br \/>\nA Guida deu um estalo com os dedos:<br \/>\n&#8211; C\u00e1, Sofia.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe! disseram as outras rindo.<\/p>\n<p>Pensavam que Ricardo tinha medo do cavalo, e queriam divertir-se com a queda.<br \/>\nN\u00e3o se lembravam, que naquele lugar, \u00e0 borda de um despenhadeiro,<br \/>\npodia ser fatal.<\/p>\n<p>Sofia ouvira a voz da senhora; mas, com o seu privil\u00e9gio de c\u00e3o<br \/>\nmimoso desobedeceu; e investiu contra o &#8220;Galgo&#8221; com maior sanha.<br \/>\nEla estava acostumada \u00e0quele brinquedo; j\u00e1 tinha mordido o jarrete<br \/>\nde muitos cavalos, atirando ao ch\u00e3o os cavaleiros, para divertimento<br \/>\nda senhora e suas amigas.<\/p>\n<p>Ricardo vendo a inutilidade de sua recomenda\u00e7\u00e3o, deu largas<br \/>\n\u00e0 c\u00f3lera do &#8220;Galgo&#8221;. O brioso cavalo juntou, e atirando-se<br \/>\npara a frente de um salto, arremessou o coice. A cachorrinha foi cair no fundo<br \/>\ndo precip\u00edcio, sem tempo sequer de soltar um gemido de dor.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida morreu! disse uma das mo\u00e7as.<\/p>\n<p>Passando pelas senhoras, Ricardo cortejou:<br \/>\n&#8211; Queiram desculpar, minhas senhoras; este cavalo \u00e9 um provinciano;<br \/>\nainda n\u00e3o tem maneiras cortes\u00e3s.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, antes de dormir, F\u00e1bio dava risadas gostosas ouvindo<br \/>\no epis\u00f3dio do passeio.<\/p>\n<h4><a id=\"5\" name=\"5\"><\/a>V<\/h4>\n<p>Decorreu mais de um m\u00eas.<\/p>\n<p>Durante esse tempo Ricardo passou com seu amigo tr\u00eas domingos na Tijuca.<br \/>\nDe cada vez o acaso o fizera encontrar a Guida quando mal pensava.<\/p>\n<p>A primeira vez foi na manh\u00e3 do domingo que seguiu-se \u00e0s cenas<br \/>\nreferidas.<\/p>\n<p>Ricardo sa\u00edra no &#8220;Galgo&#8221; a passeio. Tomando para o lado<br \/>\nda cascatinha, que as chuvas dos \u00faltimos dias tinham enriquecido, lembrou-se<br \/>\no mo\u00e7o de subir at\u00e9 a Floresta, um dos mais lindos s\u00edtios<br \/>\nda Tijuca. O nome pomposo do lugar n\u00e3o \u00e9 por ora mais do que<br \/>\numa promessa; quando por\u00e9m crescerem as mudas de \u00e1rvores de<br \/>\nlei, que a paci\u00eancia e inteligente esfor\u00e7o do engenheiro Archer<br \/>\nt\u00eam alinhado aos milhares pelas encostas, uma selva frondosa cobrir\u00e1<br \/>\no largo dorso da montanha, onde nascem os ricos mananciais.<\/p>\n<p>Viva a imagem da loucura humana! Refazer \u00e0 custa de anos, trabalho<br \/>\ne disp\u00eandio de grande cabedal, o que destruiu em alguns dias pela cobi\u00e7a<br \/>\nde um lucro insignificante! Aquelas encostas secas e nuas, que uma planta\u00e7\u00e3o<br \/>\nlaboriosa vai cobrindo de plantas emprestadas, se vestiam outrora de matas<br \/>\nvirgens, de \u00e1rvores seculares, cujos esqueletos carcomidos \u00e0s<br \/>\nvezes se encontram ainda escondidos nalguma profunda grota. Veio o homem civilizado<br \/>\ne abateu os troncos gigantes para fazer carv\u00e3o; agora, que precisa<br \/>\nda sombra para obter \u00e1gua, arroja-se a inventar uma selva, como se<br \/>\nfosse um pal\u00e1cio. Ontem carvoeiro, hoje aguadeiro; mas sempre a mesma<br \/>\nformiga, abandonando a casa velha para empregar sua atividade em construir<br \/>\na nova.<\/p>\n<p>Ricardo pensava pouco mais ou menos nesse sentido, enquanto ganhava a ponte<br \/>\nda Cascatinha, com inten\u00e7\u00e3o de subir at\u00e9 a Floresta.<br \/>\nMas essas preocupa\u00e7\u00f5es se desvaneceram completamente diante<br \/>\ndo quadro arrebatador que se oferecera a seus olhos.<\/p>\n<p>Brancos len\u00e7\u00f3is de espuma se desdobravam pelas escarpas do<br \/>\nrochedo, como as pregas de alvo manto flutuando sobre as esp\u00e1duas de<br \/>\nAgar, a africana. A vegeta\u00e7\u00e3o se debru\u00e7ando de um e outro<br \/>\nlado, derrama sobre a cachoeira uma sombra doce, que torna mais negra a pedra<br \/>\ne mais c\u00e2ndida a espuma.<\/p>\n<p>H\u00e1 cascatas muito mais ricas e abundantes do que essa, n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 na grande massa das \u00e1guas, como na vastid\u00e3o e aspereza<br \/>\ndos penhascos. T\u00eam, sem d\u00favida aspecto mais soberbo e majestoso;<br \/>\ninspiram n&#8217;alma pensamentos mais graves e sublimes.<\/p>\n<p>A Cascatinha da Tijuca, por\u00e9m, prima pela gra\u00e7a; n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 espl\u00eandida, \u00e9 mimosa; em vez da pompa selvagem respira<br \/>\numa certa gentileza de mo\u00e7a elegante; bem se v\u00ea que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 uma filha do deserto; est\u00e1 a duas horas da corte, recebe freq\u00fcentemente<br \/>\ndiplomatas, estrangeiros ilustres e a melhor sociedade do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Assim n\u00e3o se despenha ela com a f\u00faria de uma serpente, mas<br \/>\ncom a indol\u00eancia com que uma senhora da moda se derreia no recosto do<br \/>\ndiv\u00e3.<\/p>\n<p>Sua voz n\u00e3o \u00e9 um trov\u00e3o, mas um rumorejo que embala<br \/>\ndocemente o cora\u00e7\u00e3o. Perto dela sente-se no ar o h\u00e1lito<br \/>\nfresco das \u00e1guas que se esfrolam, e n\u00e3o a constante neblina<br \/>\nproduzida pelos borbot\u00f5es que se desfazem em p\u00f3 com a viol\u00eancia<br \/>\ndo choque.<\/p>\n<p>O jovem advogado tinha contemplado muitas vezes a Cascatinha, e at\u00e9<br \/>\nj\u00e1 possu\u00eda em seu \u00e1lbum uma aquarela da formosa paisagem;<br \/>\nmas nunca a vira t\u00e3o abundante d&#8217;\u00e1gua, t\u00e3o enfeitada<br \/>\ne casquilha. Projetou voltar a p\u00e9, depois do almo\u00e7o, para tirar<br \/>\noutra vista. Assim teria a Cascatinha em traje de festa e em desalinho.<\/p>\n<p>Uma voz soou a pouca dist\u00e2ncia:<br \/>\n&#8211; Oh! beautiful! Very beautiful!<br \/>\nRicardo estava no centro da ponte, com o cavalo atravessado, para ver de frente<br \/>\na Cascatinha. Conhecendo que outras pessoas se aproximavam fez voltar o animal<br \/>\npara dar-lhes passagem. Este movimento colocou-o em face de Guida, que chegava.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a tinha o mesmo traje de amazona que no domingo passado; mas<br \/>\nem vez de serem de camur\u00e7a amarela as luvas eram de peau de Su\u00e8de<br \/>\ncor de castanha e o chap\u00e9u de palha arroz com um v\u00e9u branco.<br \/>\nSalvas essas ligeiras modifica\u00e7\u00f5es do vestu\u00e1rio, que<br \/>\nnaturalmente escaparam aos olhos do mo\u00e7o, era a c\u00f3pia viva do<br \/>\nquadro, que lhe aparecera \u00e0 borda do caminho, oito dias antes. A moldura<br \/>\nsim, era diferente; os flor\u00f5es dourados dos corimbos da aroeira foram<br \/>\nsubstitu\u00eddos pela negra e musgosa cercadura do rochedo.<\/p>\n<p>Os olhos de Guida e Ricardo se encontraram.<\/p>\n<p>Reconhecendo-a, o mo\u00e7o envolveu-a com o olhar, um desses olhares<br \/>\nardentes e profundos, que embebem em si os objetos, como um molde, para depois<br \/>\nvaz\u00e1-los dentro d&#8217;alma. Olhar de poeta ou de artista, que esculpe na<br \/>\nmem\u00f3ria est\u00e1tuas, os relevos e arabescos da natureza; donde<br \/>\nos copia depois a imagina\u00e7\u00e3o em poemas, em harmonias, em raios<br \/>\nde luz. Esse olhar tem alguma coisa do cinzel que talha, e da lava ardente<br \/>\nque se coalha e vitrifica sobre os objetos.<\/p>\n<p>Guida, que trazia nos l\u00e1bios o sorriso gracioso, perturbou-se, e<br \/>\ndesviou a vista corando. Pareceu-lhe descobrir naquela express\u00e3o estranha<br \/>\ndo olhar de Ricardo uma exprobra\u00e7\u00e3o pela cena do domingo anterior.<\/p>\n<p>Conhecendo que tinha vexado a mo\u00e7a, Ricardo arrependeu-se do seu<br \/>\nmovimento de curiosidade art\u00edstica. Da \u00faltima vez que estivera<br \/>\nna Tijuca desenhara de mem\u00f3ria a cena do seu primeiro encontro com<br \/>\nGuida; julgou por\u00e9m imposs\u00edvel dar \u00e0 figura da mo\u00e7a<br \/>\nos tra\u00e7os da fisionomia encantadora, que ele apenas vira t\u00e3o<br \/>\nde relance. Oferecendo-se essa ocasi\u00e3o de ver Guida de mais perto e<br \/>\ndemoradamente, quis decorar-lhe as fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A delicadeza d&#8217;alma do advogado compreendera o acanhamento da mo\u00e7a,<br \/>\nembora o atribu\u00edsse a causa diferente. Por isso cuidou em afastar-se<br \/>\ndali. Fazendo o &#8220;Galgo&#8221; voltar sobre os p\u00e9s, cortejou de<br \/>\nlonge e subiu na dire\u00e7\u00e3o da Floresta.<\/p>\n<p>Durante esta r\u00e1pida cena, Mrs. Trowshy, enlevada diante da cascata,<br \/>\nn\u00e3o cessava de expandir a sua admira\u00e7\u00e3o em exclama\u00e7\u00f5es<br \/>\npat\u00e9ticas, semelhantes \u00e0s que lhe ouvimos em princ\u00edpio.<br \/>\nA po\u00e9tica imagina\u00e7\u00e3o da inglesa quis infundir um raio<br \/>\ndo seu entusiasmo no companheiro, o nosso conhecido Sr. Daniel; mas perdeu<br \/>\nseu tempo: o portugu\u00eas era feito de m\u00fasculo e osso; por conseguinte<br \/>\nimpenetr\u00e1vel \u00e0 poesia, como um capote de borracha \u00e9 impenetr\u00e1vel<br \/>\n\u00e1 \u00e1gua.<\/p>\n<p>Foi no momento de afastar-se, que a inglesa reparou no mo\u00e7o:<br \/>\n&#8211; Este n\u00e3o \u00e9 o sujeito que ia matando Sofia? perguntou em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que \u00e9!<br \/>\n&#8211; Que monstro! exclamou Mrs. Trowshy, com o horror que lhe inspiraria um tigre.<\/p>\n<p>&#8211; Ele n\u00e3o teve culpa. Depois \u00e9 que vi; podia o cavalo atirar-se<br \/>\nno despenhadeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Era bem feito; para que anda em um cavalo t\u00e3o fogoso?<br \/>\n&#8211; Mas \u00e9 muito bonito! N\u00e3o acha, Mrs. Trowshy?<br \/>\n&#8211; Oh! N\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o com &#8220;Edgard&#8221;!<br \/>\n&#8211; &#8220;Edgard&#8221; \u00e9 um cavalo de pre\u00e7o, um cavalo de ra\u00e7a;<br \/>\ntem a estampa mais vistosa e elegante; por\u00e9m acho o outro mais bonito!<br \/>\nOlhe a gra\u00e7a dos movimentos. Como \u00e9 vivo e faceiro! Como brinca!<br \/>\nEst\u00e1-se vendo a alegria nos seus olhos, e no garbo com que move o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Guida falava seguindo com o olhar o &#8220;Galgo&#8221; que subia o primeiro<br \/>\nlan\u00e7o da escada.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o possu\u00edsse esse lindo isabel, havia de ach\u00e1-lo<br \/>\nmagn\u00edfico!<br \/>\n&#8211; Ora, Mrs. Trowshy! N\u00e3o \u00e9 por isso. Acho &#8220;Edgard&#8221;<br \/>\nespl\u00eandido, incompar\u00e1vel: tudo que a senhora quiser; mas n\u00e3o<br \/>\ngosto desta frieza; um cavalo que n\u00e3o sabe brincar, sempre grave e<br \/>\nempertigado como um ministro em audi\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Dobrando o segundo lan\u00e7o da estrada em ziguezague, viu Ricardo<br \/>\nque a mo\u00e7a tomava a mesma dire\u00e7\u00e3o; naturalmente ia como<br \/>\nele at\u00e9 a Floresta, ou mais acima ao pico da montanha que tem a forma<br \/>\ne o nome de Bico do Papagaio.<\/p>\n<p>Essa coincid\u00eancia incomodou o jovem advogado. Por qu\u00ea? Se tivesse<br \/>\nde explicar, naturalmente n\u00e3o lhe acudiria a raz\u00e3o e por uma<br \/>\ncircunst\u00e2ncia muito simples, porque n\u00e3o existia. Com efeito n\u00e3o<br \/>\nfora um motivo distinto, suscet\u00edvel de aprecia\u00e7\u00e3o, o<br \/>\nque atuara em seu esp\u00edrito; por\u00e9m unicamente certas repugn\u00e2ncias<br \/>\nque \u00e0s vezes despertam em nosso esp\u00edrito a respeito de um fato.<br \/>\n\u00c9 uma esp\u00e9cie de antipatia.<\/p>\n<p>A possibilidade de sucessivos encontros, a facilidade de se verem de longe,<br \/>\nsubindo os lan\u00e7os da estrada em ziguezague e, finalmente, essa comunidade<br \/>\nde passeio, embora fortuita, todas essas circunst\u00e2ncias confusas, indistintas,<br \/>\ncalaram no \u00e2nimo de Ricardo uma s\u00fabita contrariedade. Refletiu<br \/>\nque a Floresta era distante, e, a n\u00e3o ir de corrida, chegaria tarde<br \/>\npara o almo\u00e7o; ora, passear, para ele, n\u00e3o era correr e sim<br \/>\ncontemplar.<\/p>\n<p>O resultado dessas reflex\u00f5es foi apear-se o advogado e puxar o cavalo<br \/>\npara uma vereda que vai ter ao cimo da cascata. A\u00ed oculto pela folhagem<br \/>\nouviu o tropel dos animais que passavam. Quando presumiu que j\u00e1 estivessem<br \/>\nbem longe, tornou a cavalgar, e descendo o caminho da Cascatinha, foi acabar<br \/>\no seu passeio interrompido na bela estrada que vai ter ao Jardim Bot\u00e2nico.<\/p>\n<p>F\u00e1bio esperava-o para o almo\u00e7o, deitado em uma esteira no<br \/>\nterreiro da casinha, enquanto D. Joaquina andava apanhando umas goiabas maduras<br \/>\npara a merenda. O praticante de advocacia tinha brilhado naquele dia: empregando<br \/>\na manh\u00e3 na ca\u00e7a de passarinhos, trouxera uma d\u00fazia de<br \/>\nrolas, que chiavam no espeto, trescalando perfumes estranhos naqueles lares<br \/>\nacostumados \u00e0s refei\u00e7\u00f5es frugais.<\/p>\n<p>O outro encontro fora no mesmo lugar da primeira cena.<\/p>\n<p>Subia Ricardo a p\u00e9, e tomara involuntariamente, pela for\u00e7a<br \/>\ndo h\u00e1bito, o caminho que seguira da vez passada. Chegando ao ponto<br \/>\nonde estivera desenhando sobre a grama, procurou o arbusto, que ainda estava<br \/>\ncoberto dos seus bot\u00f5es de ouro; apenas duas flores desabrochadas brilhavam<br \/>\nsobre o ramo verde-escuro.<\/p>\n<p>Notou o mo\u00e7o que junto \u00e0 planta estava o ch\u00e3o pisado<br \/>\npor casco de cavalo; mas n\u00e3o deu grande aten\u00e7\u00e3o a essa<br \/>\ncircunst\u00e2ncia, t\u00e3o vulgar em um s\u00edtio onde freq\u00fcentemente<br \/>\nandam animais soltos.<\/p>\n<p>Abriu o \u00e1lbum na p\u00e1gina em que desenhara a cena do primeiro<br \/>\nencontro da mo\u00e7a; e cotejando-a com o s\u00edtio, corrigiu alguns<br \/>\ntra\u00e7os do arvoredo, n\u00e3o porque lhes prejudicassem a beleza do<br \/>\nquadro, mas por um capricho de artista. A paisagem era uma c\u00f3pia e<br \/>\nn\u00e3o uma fantasia; queria que fosse o mais exata poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Tinha conclu\u00eddo esse trabalho e estava examinando os bot\u00f5es<br \/>\nde ouro e as flores abertas, quando repercutiu o tropel de uma cavalgata.<br \/>\nEram com efeito diversas pessoas, senhoras e homens, que iam de passeio, rindo<br \/>\ne conversando.<\/p>\n<p>Fitando os olhos no caminho, Ricardo viu a Guida, que tamb\u00e9m o percebera.<br \/>\nOu fosse espanto de &#8220;Edgard&#8221;, ou descuido da gentil amazona no governo<br \/>\ndas r\u00e9deas, ou qualquer outra circunst\u00e2ncia, o lindo isabel ao<br \/>\npassar em frente ao mo\u00e7o tinha-se desviado do caminho, penetrando no<br \/>\nmato, com dire\u00e7\u00e3o ao arbusto.<\/p>\n<p>Descobrindo por\u00e9m o mo\u00e7o, Guida com sua habitual destreza<br \/>\ncorrigiu o desvio do cavalo, e fustigando-o com um movimento de contrariedade,<br \/>\nganhou a frente da cavalgata, que desapareceu num turbilh\u00e3o de poeira.<\/p>\n<p>&#8211; E a flor, Guida? perguntou uma das mo\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o achei!<br \/>\nRicardo compreendeu ent\u00e3o o movimento da elegante amazona e a circunst\u00e2ncia<br \/>\nque a princ\u00edpio notara de rastos de cavalo junto ao arbusto; a ferradura<br \/>\ninglesa fina e um tanto oval estava denunciando a pata aristocr\u00e1tica<br \/>\nde &#8220;Edgard&#8221;.<\/p>\n<p>Pensou que a filha do milion\u00e1rio tamb\u00e9m gostava da linda flor<br \/>\nagreste. E quem n\u00e3o se agradaria daqueles alj\u00f4fares graciosos?<br \/>\nPara ela sobretudo deviam ser de um encanto especial; n\u00e3o tinham a<br \/>\ncor do ouro, essa cor sedutora que a natureza destinou para o sol e o dinheiro,<br \/>\nos dois clar\u00f5es que deslumbram, um a vista, outro a alma?<br \/>\nNaturalmente a mo\u00e7a j\u00e1 conhecia a flor antes do primeiro encontro;<br \/>\npassando procurava-a com os olhos, quando o descobriu, a ele Ricardo, na posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nrid\u00edcula de um namorado de novela antiga, beijando o cravo que lhe<br \/>\natirou da janela a dama dos seus pensamentos.<\/p>\n<p>Agora a Guida encaminhara o cavalo para o arbusto a fim de colher um ramo;<br \/>\nmas avistando o importuno passeador, desistiu, disparando a galope.<\/p>\n<p>&#8211; Esta mo\u00e7a, disse Ricardo rindo-se interiormente, h\u00e1 de me<br \/>\nconsiderar como uma esp\u00e9cie de borboleta preta!<br \/>\nDepois do almo\u00e7o, estando o sol muito quente, F\u00e1bio deitou-se<br \/>\na ler no quarto, e Ricardo, tomando a sua caixa de tintas, foi trabalhar junto<br \/>\n\u00e0 janela. Continuou a colorir o quadro que representava a Guida, e<br \/>\ncujos tra\u00e7os ele havia corrigido pela manh\u00e3. As fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nda mo\u00e7a, se n\u00e3o eram de uma semelhan\u00e7a perfeita, recordavam<br \/>\nsem d\u00favida a gentileza de sua fisionomia.<\/p>\n<p>Seriam onze horas do dia; fazia uma calma abrasadora. D. Joaquina e as pretas<br \/>\nestavam recolhidas l\u00e1 para o interior; F\u00e1bio, contra o seu costume,<br \/>\nlia t\u00e3o placidamente que causava suspeitas. Tido na casa estava em<br \/>\nsil\u00eancio. Fora, o &#8220;Galgo&#8221; tosava uns tufos de capim melado;<br \/>\ne a Nanica ciscava no terreiro em companhia de um galo e de um pinto.<\/p>\n<p>A janela junto da qual trabalhava Ricardo, era de tacani\u00e7a, onde<br \/>\nhavia sombra; da\u00ed n\u00e3o se enxergava a frente da casa, nem a rua<br \/>\nde cafezeiros e abacates que ia dar \u00e0 cancela da estrada; por isso<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de ele ver um grupo de cavaleiros que, parados no caminho,<br \/>\nespiavam para descobrir alguma pessoa da casa.<\/p>\n<p>Afinal avistaram uma das pretas velhas que sa\u00edra a apanhar gravetos<br \/>\npara o fogo.<\/p>\n<p>&#8211; Vem c\u00e1, m\u00e3e; voc\u00ea nos d\u00e1 um pouco d&#8217;\u00e1gua?<br \/>\ndisse um dos cavaleiros.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, meu senhor; pode entrar, respondeu a preta velha abrindo a cancela.<\/p>\n<p>Os cavaleiros invadiram a propriedade de D. Joaquina; a maior parte por\u00e9m<br \/>\nficou \u00e0 sombra das \u00e1rvores; apenas alguns mais impacientes se<br \/>\naproximaram da porta, a fim de esperar a \u00e1gua. Essa impaci\u00eancia<br \/>\nn\u00e3o era produzida tanto pela sede que eles tinham, como pelo desejo<br \/>\nde cada um ser o primeiro a servir uma linda amazona, que esperava \u00e0<br \/>\nsombra de uma laranjeira.<\/p>\n<p>&#8211; Duvido que a tal velha tenha \u00e1gua bastante para matar a sede de<br \/>\ntanta gente! observou um cavaleiro.<\/p>\n<p>&#8211; Felizmente o rio passa perto.<\/p>\n<p>&#8211; O melhor \u00e9 irmos logo a ele; que dizes, Guimar\u00e3es?<br \/>\n&#8211; Que esp\u00e9cie de copo nos trar\u00e1 a preta? Aposto que alguma x\u00edcara!<br \/>\n&#8211; \u00c1gua em x\u00edcara!<br \/>\n&#8211; Senhores, esta casa est\u00e1 bem boa para uma fogueira de S. Jo\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o acham?<br \/>\n&#8211; \u00c9 mais velha que a Tijuca.<\/p>\n<p>&#8211; Quem morar\u00e1 aqui?<br \/>\n&#8211; Alguma velha cara\u00e7a do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>&#8211; Segundo tomo da sujeita dos cambuc\u00e1s!<br \/>\nEstes ditos mais ou menos chistosos, entremeados de risos, eram proferidos<br \/>\ncom inten\u00e7\u00e3o de divertir a gentil amazona. Mas esta, inteiramente<br \/>\ndistra\u00edda, estivera olhando com aten\u00e7\u00e3o o &#8220;Galgo&#8221;<br \/>\nque se aproximara da cerca do pasto, apenas percebera a chegada dos outros<br \/>\nanimais; depois examinara a casa com uma express\u00e3o de surpresa desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>O cavalo, sentindo as r\u00e9deas frouxas, andara alguns passos, o que<br \/>\no aproximara do canto da casa. Os olhos da mo\u00e7a ca\u00edram sobre<br \/>\na janela, junto \u00e0 qual Ricardo estivera trabalhando. O \u00e1lbum<br \/>\naberto ficara encostado \u00e0 ombreira onde o desenhista o pusera para<br \/>\nsecar as tintas, antes de dar-lhe os \u00faltimos toques. N\u00e3o aparecia<br \/>\no busto do mo\u00e7o; ao rumor das vozes na porta tinha-se ele voltado,<br \/>\ne procurava distinguir a fala das pessoas.<\/p>\n<p>O primeiro movimento da menina foi recuar o cavalo; por\u00e9m seu olhar<br \/>\ntinha descoberto na p\u00e1gina aberta do \u00e1lbum a paisagem recentemente<br \/>\npintada. Ela teve um pressentimento; e correu a vista r\u00e1pida por seu<br \/>\ntalhe, verificando a semelhan\u00e7a que do primeiro relance se lhe afigurava.<\/p>\n<p>Era o mesmo roup\u00e3o verde-escuro, o gracioso chap\u00e9u de castor<br \/>\ncor de p\u00e9rola, e as luvas de camur\u00e7a amarela. A estampa de &#8220;Edgard&#8221;<br \/>\ncompletava a sua figura de amazona.<\/p>\n<p>Nesse momento Ricardo, erguendo-se, descobriu o vulto da mo\u00e7a; ela<br \/>\ncorou reconhecendo a sua indiscri\u00e7\u00e3o; mas n\u00e3o obstante,<br \/>\num olhar afouto interrogou o semblante do advogado, fitando-se alternadamente<br \/>\nnele ou na paisagem<br \/>\nRicardo cortejara polidamente a mo\u00e7a, mas com esse movimento chegou-se<br \/>\nquanto p\u00f4de \u00e0 janela, e disfar\u00e7adamente ocultou o \u00e1lbum.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos esperando a \u00e1gua que foram buscar! disse a voz maviosa<br \/>\nde Guida, como uma desculpa, ou um pretexto para sair da situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que o acaso a colocara.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! com muito prazer.<\/p>\n<p>Voltando o \u00e1lbum com o movimento que lhe imprimira furtivamente o<br \/>\nbra\u00e7o, Ricardo colocou-o fechado sobre a mesa e recolheu-se ao interior<br \/>\npara mandar trazer a \u00e1gua. Tudo isto foi executado de modo que se observaram<br \/>\nas delicadezas devidas a uma senhora.<\/p>\n<p>Guida, apesar da curiosidade imensa que tinha de ver a aquarela, se afastara<br \/>\nmodestamente.<\/p>\n<p>Molhou os l\u00e1bios no copo d&#8217;\u00e1gua que lhe apresentou um dos<br \/>\ncavaleiros; e lan\u00e7ando um \u00faltimo olhar \u00e0 velha casa e<br \/>\n\u00e0s velhas \u00e1rvores que a rodeavam, partiu a todo galope. Debalde<br \/>\nos companheiros de passeio se esfor\u00e7aram por alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>No domingo seguinte, voltando Ricardo da &#8220;Vista Chinesa&#8221;, soltara<br \/>\nas r\u00e9deas ao &#8220;Galgo&#8221; que esticava os m\u00fasculos em um<br \/>\ngalope ligeiro.<\/p>\n<p>De repente o animal retraiu as orelhas finas e vivas; tinha ouvido o tropel<br \/>\nde outro animal, que vinha atr\u00e1s a alguma dist\u00e2ncia, e tamb\u00e9m<br \/>\nde galope. Pouco depois a estampa elegante de &#8220;Edgard&#8221; alongou-se<br \/>\npelo lado direito, e a Guida passou rapidamente voltando-se para ver se o<br \/>\ncavaleiro a seguia.<\/p>\n<p>O &#8220;Galgo&#8221; aceitando o desafio que &#8220;Edgard&#8221; lhe tinha<br \/>\nlan\u00e7ado na passagem, juntara para arrojar-se avante como uma flecha;<br \/>\nmas a m\u00e3o firme do cavaleiro o sofreara, privando-o do prazer de dar<br \/>\numa li\u00e7\u00e3o ao fidalgo.<\/p>\n<p>Era a quinta vez que Ricardo inesperadamente, por uma singular combina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo acaso, encontrava aquela mo\u00e7a. A Tijuca n\u00e3o \u00e9 muito<br \/>\nextensa em verdade; mas oferece v\u00e1rios passeios e tem caminhos desencontrados.<br \/>\nEntretanto, em dire\u00e7\u00f5es opostas, em horas diferentes, com intervalos<br \/>\ndesiguais, uma coincid\u00eancia estranha aproximava os dois desconhecidos.<\/p>\n<p>&#8211; Se eu fosse algum dos muitos apaixonados que h\u00e1 de ter esta mo\u00e7a,<br \/>\ndizia Ricardo consigo e continuando o seu passeio, havia de empregar os maiores<br \/>\nesfor\u00e7os para preparar estes encontros casuais; andaria de rel\u00f3gio<br \/>\nna m\u00e3o, espiando a hora em que ela costuma sair de casa, estudando<br \/>\no programa habitual de suas excurs\u00f5es, a dire\u00e7\u00e3o que<br \/>\ntoma freq\u00fcentemente. E apesar de tudo isto, e das boas corridas que daria<br \/>\na cavalo, muitas vezes havia de perder o meu tempo e a minha paci\u00eancia.<br \/>\nEntretanto eu, que j\u00e1 n\u00e3o possuo rel\u00f3gio, que tenho apenas<br \/>\numa metade de cavalo, que saio de casa sem me lembrar de semelhante mo\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o venho mais \u00e0 Tijuca um s\u00f3 dia, que n\u00e3o a encontre<br \/>\numa e duas vezes. Caprichos da fortuna!<br \/>\nO mo\u00e7o conjeturou que a mestra e o criado, comitiva habitual da filha<br \/>\ndo milion\u00e1rio, tinham ficado atr\u00e1s, e talvez a grande dist\u00e2ncia.<br \/>\nA Guida naturalmente seria obrigada a esper\u00e1-los; e portanto teria<br \/>\nele um segundo encontro.<\/p>\n<p>&#8211; Nada! pensou ele; e parou \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Mas a inglesa e o seu companheiro n\u00e3o apareciam; os minutos corriam;<br \/>\ne Ricardo, surpreso, n\u00e3o sabia o que pensar, repugnando-lhe admitir<br \/>\na possibilidade de andar a mo\u00e7a sozinha por aqueles s\u00edtios desertos.<br \/>\nTeria decorrido um quarto de hora quando ressoou do lado oposto o galope do<br \/>\ncavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Querem ver que \u00e9 ela que volta? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida!<br \/>\nEra Guida com efeito; tendo passado o cavaleiro, estimulada pelo prazer vivo<br \/>\nda equita\u00e7\u00e3o, arrependeu-se de haver deixado t\u00e3o distantes<br \/>\nos seus companheiros. Resolveu esper\u00e1-los. Naturalmente o mo\u00e7o<br \/>\nn\u00e3o tardaria a passar; aquele encontro, num ermo, a incomodava; mas<br \/>\nela j\u00e1 o conhecia como um homem delicado; demais a mestra n\u00e3o<br \/>\npodia estar longe.<\/p>\n<p>A demora inquietou-a. Temeu que alguma coisa houvesse sucedido a Mrs. Trowshy,<br \/>\ne que ent\u00e3o se achasse realmente s\u00f3 naquela solid\u00e3o.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o era de Ricardo que se receava, mas do isolamento.<\/p>\n<p>Por isso retrocedia de corrida a caminho percorrido.<\/p>\n<p>Ricardo, apenas se persuadiu que era com efeito a mo\u00e7a, disparou<br \/>\na galope na dire\u00e7\u00e3o da &#8220;Vista Chinesa&#8221;, a ver se escapava<br \/>\na novo encontro. Chegando \u00e0 &#8220;Mesa&#8221;, viu Mrs. Trowshy sentada<br \/>\nao lado do Sr. Daniel conversando com o maior sossego.<\/p>\n<p>O advogado passou como um raio, o que fez a inglesa fingir um desmaio, imaginando<br \/>\nalgum jovem salteador que a vinha raptar. O Sr. Daniel assegurou-lhe que os<br \/>\nsalteadores da Tijuca, chamados quilombolas, furtavam bananas, galinhas e<br \/>\noutras coisas leves, mas n\u00e3o inglesas que pesassem dez quintais portugueses.<\/p>\n<p>Nesse dia Ricardo chegou tarde para o almo\u00e7o; mas livrou-se de segundo<br \/>\nencontro.<\/p>\n<h4><a id=\"6\" name=\"6\"><\/a>VI<\/h4>\n<p>Do lado que olha para o mar, a Serra da Tijuca apresenta um aspecto muito<br \/>\ndiferente. As encostas que descem para o Andara\u00ed, como os vales e emin\u00eancias<br \/>\nque se encontram pelo dorso da montanha, t\u00eam a fisionomia risonha e<br \/>\npitoresca; s\u00e3o ondula\u00e7\u00f5es amenas ou recortes caprichosos,<br \/>\nque deleitam a vista.<\/p>\n<p>Na outra face, a natureza \u00e9 agreste; dir-se-ia uma terra convulsa.<br \/>\nO fogo subterr\u00e2neo ferveu nas entranhas da terra, e rasgando-lhe os<br \/>\nflancos, arremessou aqui e ali pelas encostas aqueles enormes calhaus ou maci\u00e7os<br \/>\nde rocha, fragmentos da primeira carca\u00e7a do globo.<\/p>\n<p>A superf\u00edcie da terra conserva ainda um aspecto combusto e \u00e1rido;<br \/>\nv\u00ea-se que por a\u00ed passou a lava em tempos remotos. De espa\u00e7o<br \/>\na espa\u00e7o o trabalho do homem cobriu a encosta da montanha de planta\u00e7\u00f5es;<br \/>\nmas entre esses pontos cultivados destaca-se ainda mais a bronca aspereza<br \/>\ndos s\u00edtios agrestes.<\/p>\n<p>No domingo em que estamos, Ricardo dirigiu o seu passeio a p\u00e9 para<br \/>\naquelas bandas. J\u00e1 tinha algumas vezes feito essa excurs\u00e3o at\u00e9<br \/>\na &#8220;Cascata Grande&#8221;, um dos pontos mais freq\u00fcentados pelas pessoas<br \/>\nque passam o ver\u00e3o na Tijuca; naquele dia por\u00e9m tencionava ir<br \/>\nmais longe, at\u00e9 a habita\u00e7\u00e3o de uma pobre gente, conhecida<br \/>\nde D. Joaquina, e \u00e0s vezes por ela socorrida em suas mis\u00e9rias.<br \/>\nO saquinho da boa velha, apesar de escasso, tinha sempre uns vint\u00e9ns<br \/>\npara as esmolas do s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Justamente na v\u00e9spera, D. Joaquina recebera por interm\u00e9dio<br \/>\nde algum quitandeiro um recado da pobre gente e exprimira a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mandar-lhe qualquer pequeno socorro, como costumava. O advogado lembrou-se<br \/>\ndisso, quis dar a seu passeio um fim caritativo; tinha na v\u00e9spera recebido<br \/>\ndez mil-r\u00e9is, como honor\u00e1rio por um requerimento. Estava rico;<br \/>\npodia pois aliviar dessa vez o saquinho de D. Joaquina daquela despesa.<\/p>\n<p>Com este pensamento tomou \u00e0s seis horas da manh\u00e3 o caminho<br \/>\nda Barra.<\/p>\n<p>A\u00ed, pr\u00f3ximo \u00e0 Restinga, havia ent\u00e3o, e talvez<br \/>\nainda exista, uma cabana coberta de palha de sap\u00e9, com paredes de embo\u00e7o.<br \/>\nEm muitos lugares por\u00e9m tinha ca\u00eddo o barro, deixando entre<br \/>\nas varas grandes buracos, tapados com ramas secas.<\/p>\n<p>Esta cho\u00e7a miser\u00e1vel ficava a algumas bra\u00e7as do caminho.<br \/>\nPara chegar \u00e0 porta, Ricardo tomou uma vereda que rodeava uma quebrada<br \/>\nde terreno. Estendida em varas via-se a enxugar alguma roupa de chita e algod\u00e3o,<br \/>\nmuito bem lavada, mas aberta em crivo de t\u00e3o gasta e rasgada que j\u00e1<br \/>\nestava. Sobre o capim do terreiro estava emborcada alguma pouca lou\u00e7a<br \/>\nbranca de beira azul, uma panela, uma frigideira e uma colher de pau.<\/p>\n<p>Esse terreiro era, n\u00e3o chovendo, a lavanderia, a copa, a cozinha<br \/>\ne a sala da pobre gente. A cho\u00e7a tinha apenas um compartimento, onde<br \/>\nse acomodavam Sim\u00e3o, a mulher, e tr\u00eas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Esse homem sustentava sua fam\u00edlia com o produto da pescaria e de<br \/>\numa pequena planta\u00e7\u00e3o de bananas; assim iam vivendo pobremente,<br \/>\nmas sem grandes priva\u00e7\u00f5es, quando de repente tudo come\u00e7ou<br \/>\na desandar. O peixe fugia da tarrafa do pobre Sim\u00e3o; as bananeiras<br \/>\ncome\u00e7aram a mirrar; e at\u00e9 os ovos da galinha goravam ao menor<br \/>\nronco da trovoada.<\/p>\n<p>O pescador era homem ativo, incans\u00e1vel no trabalho, por\u00e9m<br \/>\ncar\u00e1ter d\u00e9bil, que desanimava com os reveses. As cont\u00ednuas<br \/>\ndecep\u00e7\u00f5es o acabrunharam; caiu em uma prostra\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoral, muito mais perigosa do que a enfermidade do corpo. Convenceu-se de<br \/>\nque o seu infort\u00fanio era um castigo do c\u00e9u por algum pecado<br \/>\nque cometera; e resignou-se a sofrer sem lutar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se resiste a Deus, mulher! dissera ele.<\/p>\n<p>A Gertrudes por\u00e9m atribu\u00eda a desgra\u00e7a ao quebranto<br \/>\nque algum invejoso deitara \u00e0 sua casa. Ela se lembrava que um dia passara<br \/>\npor ali e pedira \u00e1gua um ingl\u00eas muito magro, sem d\u00favida<br \/>\nchupado pelas almas do outro mundo. Desde esse dia tudo andava \u00e0s avessas,<br \/>\ndizia a mulher; porque o sujeito saindo zangado com o pequeno que o chamara<br \/>\nde gooden, deitara \u00e0 casa uma figa.<\/p>\n<p>Entrando na choupana, viu Ricardo o Sim\u00e3o deitado em uma esteira<br \/>\nsobre a cama de varas da altura de um palmo apenas. A magreza extrema, a atonia<br \/>\ne lividez do semblante, estavam indicando uma mol\u00e9stia grave. A mulher,<br \/>\nsentada defronte em um toco de pau, cismava na sua vida enquanto descansava<br \/>\num momento da lida de cada dia. Era ela quem valia agora \u00e0 desgra\u00e7ada<br \/>\nfam\u00edlia com seu trabalho e sua dilig\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que \u00e9 isto? disse o mo\u00e7o correndo os olhos<br \/>\ndo marido \u00e0 mulher.<\/p>\n<p>&#8211; O Sim\u00e3o anda bem doente!<br \/>\n&#8211; Que tem?<br \/>\n&#8211; Nada, nada, meu senhor. Isto vai assim mesmo at\u00e9 acabar de uma vez.<\/p>\n<p>A mulher levantou os ombros:<br \/>\n&#8211; Ningu\u00e9m lhe tira aquilo da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que sente? perguntou Ricardo ao doente.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei!<br \/>\n&#8211; \u00c9 assim uma fraqueza, que j\u00e1 nem se pode levantar, respondeu<br \/>\na mulher. H\u00e1 uma semana que est\u00e1 a\u00ed, nessa cama, que<br \/>\nnem ata, nem desata.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem tomado rem\u00e9dio?<br \/>\n&#8211; Que h\u00e1 de tomar, meu senhor?<br \/>\nRicardo achou-se embara\u00e7ado na resposta; nada absolutamente entendia<br \/>\nde medicina, ci\u00eancia ali\u00e1s em que todos arranham seu tanto. Tirando<br \/>\nda carteira uma nota de dois mil-r\u00e9is, p\u00f4-la na m\u00e3o da<br \/>\nmulher do pescador.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 D. Joaquina que lhe manda!<br \/>\n&#8211; Deus lhe h\u00e1 de pagar a ela as esmolas que nos tem feito, disse a<br \/>\nGertrudes.<\/p>\n<p>&#8211; E como v\u00e3o agora? T\u00eam sido mais felizes?<br \/>\n&#8211; Qual, meu senhor! O quebranto n\u00e3o nos deixa. A pescaria&#8230; n\u00e3o<br \/>\nse fala; depois que Sim\u00e3o caiu de cama, ainda eu fui deitar a rede<br \/>\ncom o pequeno; mas \u00e9 \u00e0 toa! As bananeiras enfezaram de uma vez.<br \/>\nSe n\u00e3o fossem uns pintos&#8230; Que para bem dizer n\u00e3o foram os<br \/>\npintos, mas a cachorrinha. Se n\u00e3o fosse isso, a gente j\u00e1 estava<br \/>\nmorta de fome.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o sucedeu-lhe alguma coisa boa? Sinal de que a fortuna est\u00e1<br \/>\nvoltando.<\/p>\n<p>&#8211; Foi boa e foi m\u00e1; por\u00e9m no final de contas saiu pelo melhor.<br \/>\nImagine o senhor que a muito custo eu tirei uma ninhada de pintos, que estavam-se<br \/>\ncriando muito espertinhos. Sempre eram uns cobrinhos&#8230; Mas um dia apareceu<br \/>\naqui uma mo\u00e7a a cavalo, bem vestida, com uma velha gorda e mais um<br \/>\nportugu\u00eas que \u00e9 um espirro de gato. Eles j\u00e1 tinham passado<br \/>\nna v\u00e9spera e estiveram falando com o pequeno. Ent\u00e3o salta do<br \/>\ncolo da mo\u00e7a uma cachorrinha, e vai-se aos pintos e mata a todos, um<br \/>\npor um.<\/p>\n<p>&#8211; Uma cachorrinha branca felpuda, que tem brincos de ouro?<br \/>\n&#8211; Isso mesmo. O senhor conhece? \u00c9 muito bonitinha; mas tamb\u00e9m<br \/>\nnunca vi uma demoninha assim.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o matou-lhe os pintos?<br \/>\n&#8211; Um por um. E a mo\u00e7a ria que era um gosto, dando estalinhos nos dedos;<br \/>\nmas depois que a cachorrinha acabou de matar os pintos, ent\u00e3o a senhora<br \/>\nficou muito zangada e ralhou bastante com ela. Disse que tinha pena do que<br \/>\nsucedera, e mandou entregar a Sim\u00e3o um dinheiro para pagar os pintos.<br \/>\nFoi dinheiro que chegou para a gente viver at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>&#8211; E depois? A mo\u00e7a?<br \/>\n&#8211; Esteve atirando no capim umas moedinhas de prata; a cachorrinha de aposta<br \/>\ncom os pequenos corria para apanhar: aquele que achasse ganhava. Uma vez o<br \/>\nPedrinho quis tomar da cachorrinha; mas ela ia mordendo-o na m\u00e3o. Se<br \/>\nn\u00e3o fosse a mo\u00e7a que acudiu t\u00e3o depressa com o chicotinho!<br \/>\nEnquanto Ricardo conversava com a Gertrudes, e o Sim\u00e3o ouvia mergulhado<br \/>\nno mesmo torpor, dois meninos e uma menina, acocorados a um canto, cochichavam<br \/>\nentre si. A pen\u00faria tinha apagado naquelas crian\u00e7as a vivacidade<br \/>\nnatural da inf\u00e2ncia. Havia no seu gesto e semblante um espasmo de tristeza,<br \/>\nque afligia.<\/p>\n<p>Enfiando a vista pelo buraco da parede, as crian\u00e7as se agitaram com<br \/>\ncerta curiosidade t\u00edmida, despertada por alguma coisa que tinham visto.<br \/>\nO rumor de passos de animais indicava a chegada ou passagem de pessoas a cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e! disse uma das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; A mo\u00e7a!&#8230; acrescentou a outra.<\/p>\n<p>Gertrudes reclinou-se, para estender a vista pela abertura da porta. Ricardo<br \/>\nimitando seu movimento reconheceu Guida, acompanhada pela habitual comitiva.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o ergueu-se contrariado.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus. Voltarei depois.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quer ver a mo\u00e7a? Ela \u00e9 bem bonita.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 a conhe\u00e7o; e por isso n\u00e3o quero que me encontre<br \/>\naqui. Sairei pelo fundo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o o melhor \u00e9 ficar aqui dentro porque ela n\u00e3o<br \/>\nse apeia.<\/p>\n<p>Nisto a Gertrudes que se chegara \u00e0 porta voltou ao mo\u00e7o:<br \/>\n&#8211; Ora, est\u00e1 vendo! Que artes desta mo\u00e7a!<br \/>\nA Guida tinha dirigido &#8220;Edgard&#8221; para o lugar onde estava a secar<br \/>\na mesquinha lou\u00e7a da pobre gente, e o elegante cavalo divertia-se em<br \/>\nespeda\u00e7ar desdenhosamente com a pata cada um dos pratos.<\/p>\n<p>Os meninos assistiam \u00e0 cena admirados; Guida ria-se como uma crian\u00e7a;<br \/>\na inglesa despedia da garganta uma cascata de &#8220;ohs!&#8221; e o Sr. Daniel<br \/>\nimpass\u00edvel estava mentalmente calculando o custo da lou\u00e7a quebrada.<\/p>\n<p>Ricardo viu esta cena pelas fendas da choupana. Quando n\u00e3o houve<br \/>\nmais nada a quebrar, Guida, sofreando com for\u00e7a o cavalo, exclamou<br \/>\ncom um fingido assomo de mau humor:<br \/>\n&#8211; Este cavalo \u00e9 insuport\u00e1vel! Est\u00e1 sempre fazendo destas!<br \/>\nN\u00e3o posso mais atur\u00e1-lo!<br \/>\nA m\u00e3ozinha afilada virou o chicote com for\u00e7a. &#8220;Edgard&#8221;<br \/>\nsaindo se sua habitual impassibilidade, come\u00e7ou a pinotear, o que espalhou<br \/>\na mestra, o portugu\u00eas e as crian\u00e7as cada um para seu lado. O<br \/>\nresultado dessa escaramu\u00e7a foi atirar ao ch\u00e3o a vara da roupa,<br \/>\nque o lindo isabel despeitado pisou acabando de esgar\u00e7ar com os cascos<br \/>\naqueles andrajos.<\/p>\n<p>&#8211; Tome, Daniel, d\u00ea a esta gente: \u00e9 para pagar o estrago que<br \/>\nfez o cavalo.<\/p>\n<p>A Guida tirara de uma carteirinha de tartaruga uma nota de cinq\u00fcenta<br \/>\nmil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Mas agora me lembro: talvez eles n\u00e3o tenham lou\u00e7a para comer<br \/>\nhoje. Mande o moleque comprar!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 muito, senhora?<br \/>\n&#8211; Sr. Daniel, eu n\u00e3o pedi a sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>O Daniel abaixou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 sua m\u00e3e? perguntou a mo\u00e7a a uma das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Estou aqui, senhora dona.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sabe o que fez este cavalo mal-educado?<br \/>\n&#8211; Vi, sim senhora. Foi como da outra vez a cachorrinha com os pintos!<br \/>\n&#8211; \u00c9 verdade! Fiquei depois t\u00e3o arrependida de a ter trazido!<br \/>\nMrs. Trowshy atalhou em franc\u00eas, com um olhar de exprobra\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Allez! Vous l&#8217;avez fait expr\u00e8s, par m\u00e9chancet\u00e9!<br \/>\n&#8211; Mais non! Disse a Guida sorrindo; e voltou-se para continuar a conversa<br \/>\ncom a mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? A Sofia depois daquela travessura quase morreu!<br \/>\n&#8211; De qu\u00ea, gentes!<br \/>\n&#8211; Quis morder o cavalo de um mo\u00e7o que passava, e levou um coice que<br \/>\na atirou da montanha abaixo.<\/p>\n<p>&#8211; Jesus!<br \/>\n&#8211; Foi bem feito para n\u00e3o ser t\u00e3o travessa. Ainda est\u00e1<br \/>\nde cama.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 como o meu companheiro. Vive ali espichado, que n\u00e3o se<br \/>\nlevanta mais.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Seu marido est\u00e1 doente? De qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Ningu\u00e9m sabe; depois que o peixe lhe fugiu da rede, come\u00e7ou<br \/>\nassim a desandar.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 ele? Chame-o.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! N\u00e3o pode consigo.<\/p>\n<p>&#8211; Chame sempre.<\/p>\n<p>O Sim\u00e3o a custo arrastou-se at\u00e9 a porta da choupana.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor amanh\u00e3 h\u00e1 de levar peixe em nossa casa. Olhe l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; O peixe conhece as minhas tarrafas! \u00c9 \u00e0 toa.<\/p>\n<p>&#8211; Ver\u00e1. Eu sou muito feliz; obtenho tudo que desejo. Basta que eu<br \/>\nlhe encomende o peixe, para o senhor tirar a rede cheia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 castigo, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Castigo de estar a\u00ed deitado, sem fazer nada, enquanto a pobre da<br \/>\nmulher de amofina de trabalhar.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ele est\u00e1 doente! acudiu Gertrudes.<\/p>\n<p>&#8211; Doente de manha!<br \/>\nGuida lan\u00e7ou o cavalo contra o pescador, que, vendo-se amea\u00e7ado<br \/>\npelas ferraduras de &#8220;Edgard&#8221;, arrancou-se \u00e0 prostra\u00e7\u00e3o<br \/>\npara recuar de um salto, com uma rapidez ali\u00e1s desnecess\u00e1ria,<br \/>\nporque a m\u00e3o firme da mo\u00e7a obrigara o cavalo a girar sobre os<br \/>\np\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o v\u00ea como ele salta? disse Guida soltando uma risada. Que<br \/>\nvergonha! Curtindo a pregui\u00e7a enquanto os filhos e a mulher n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam o que comer!<br \/>\nA mo\u00e7a chamou o menino mais velho:<br \/>\n&#8211; Venha c\u00e1, menino. Amanh\u00e3 tome a rede e v\u00e1 pescar, j\u00e1<br \/>\nque seu pai de nada serve.<\/p>\n<p>O pescador deu no ar um safan\u00e3o; apanhou a tarrafa ao canto e foi<br \/>\nresmungando estend\u00ea-la na cerca ao lado da choupana; Daniel chegou-se<br \/>\na ele para tratar a respeito da lou\u00e7a quebrada; e a Guida despedindo-se<br \/>\npartiu com a mestra.<\/p>\n<p>Ricardo do interior da choupana ouvira todas as palavras da mo\u00e7a,<br \/>\ne por v\u00e1rias vezes enfiando os olhos entre as fendas da taipa, estudara<br \/>\na express\u00e3o daquela fisionomia encantadora, que lhe aparecia ent\u00e3o<br \/>\ncomo uma esp\u00e9cie de mito.<\/p>\n<p>Havia com efeito nas a\u00e7\u00f5es e nas palavras da mo\u00e7a alguma<br \/>\ncoisa de estranho e confuso, que escapava \u00e0 compreens\u00e3o do jovem<br \/>\nadvogado, ali\u00e1s esp\u00edrito profundo e observador. A volubilidade<br \/>\ndo pensamento, saltando dos gracejos infantis \u00e0s coisas mais s\u00e9rias;<br \/>\no estouvamento que se notava em certas ocasi\u00f5es, para logo ceder \u00e0<br \/>\nreflex\u00e3o; e finalmente as liberalidades com que ela desculpava suas<br \/>\ntravessuras, davam a essa fisionomia moral um car\u00e1ter vago e indeciso.<\/p>\n<p>Era um esp\u00edrito leviano ou sensato? Era um bom ou mau cora\u00e7\u00e3o?<br \/>\nOu seria acaso uma e outra coisa: a luta perigosa da alma na transi\u00e7\u00e3o<br \/>\nda inf\u00e2ncia \u00e0 juventude? Nessa crise surgem as paix\u00f5es,<br \/>\nque sopitam \u00e0s puras cren\u00e7as e as ilus\u00f5es da inoc\u00eancia.<br \/>\nSe a alma tem para ampar\u00e1-la a educa\u00e7\u00e3o e os germes de<br \/>\ns\u00e3 , oral, sai triunfante da luta: a virtude coroa a inoc\u00eancia.<br \/>\nSe por\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 defendido nem<br \/>\npelo princ\u00edpio, nem pelo exemplo, sucumbe; e a flor da mocidade quando<br \/>\nbrota da inf\u00e2ncia, vem j\u00e1 eivada.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, quando conversavam esperando o sono, Ricardo disse a seu<br \/>\namigo:<br \/>\n&#8211; Sabes, F\u00e1bio! Aquela Guida assim mesmo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o<br \/>\nm\u00e1, como n\u00f3s pens\u00e1vamos.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?!<br \/>\n&#8211; O advogado referiu a cena a que assistira pela manh\u00e3, e o que anteriormente<br \/>\nlhe contara a Gertrudes.<\/p>\n<p>&#8211; O que pensa disso ent\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Penso que no meio das travessuras desta mo\u00e7a h\u00e1 um escr\u00fapulo<br \/>\nde consci\u00eancia, direi mesmo, um fundo de bondade. Estouvada, como \u00e9,<br \/>\nn\u00e3o pode resistir \u00e0 vontade de brincar, e faz coisas de que<br \/>\nlogo se arrepende; mas esse arrependimento pelo menos \u00e9 generoso. Assim<br \/>\nas faltas que ela comete s\u00e3o ocasi\u00f5es para uma liberalidade,<br \/>\nque talvez nunca lhe inspirasse espontaneamente o sentimento de caridade.<\/p>\n<p>F\u00e1bio, que n\u00e3o apreciava as demonstra\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas,<br \/>\ntinha adormecido.<\/p>\n<h4><a id=\"7\" name=\"7\"><\/a>VII<\/h4>\n<p>No pr\u00f3ximo domingo, Ricardo montado no &#8220;Galgo&#8221; descia da<br \/>\nPedra Bonita, para onde naquela manh\u00e3 dirigia o seu passeio.<\/p>\n<p>A Pedra Bonita \u00e9 uma rocha que se levanta sobre um cabe\u00e7o<br \/>\nde montanha como um gorro de granito. Da\u00ed, dessa atalaia das nuvens,<br \/>\ngoza-se uma vista soberba sobre o mar, e v\u00ea-se de perto o enorme cesto<br \/>\nda G\u00e1vea, habitualmente cingido de vapores.<\/p>\n<p>Como todos os belos s\u00edtios da Tijuca, a Pedra Bonita \u00e9 muito<br \/>\nfreq\u00fcentada pelos filhos da loura \u00c1lbion, incans\u00e1veis exploradores<br \/>\ndesse belo arrabalde do rio de Janeiro. Contam que um ingl\u00eas a\u00ed<br \/>\nse perdera, ficando sobre o gigantesco pedestal de rocha, elevado \u00e0<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o de est\u00e1tua, durante tr\u00eas dias, sem comer<br \/>\nnem beber. Foi-lhe o penedo o contr\u00e1rio do outeiro da Ilha dos Amores:<br \/>\nmais f\u00e1cil de subir que de descer.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m contam que nessa pedra, ou em outra que demora na mesma altura,<br \/>\nentre as nuvens, algumas senhoras tendo l\u00e1 subido foram obrigadas,<br \/>\npara descer, a tirar os bal\u00f5es. O vento engolfando-se nas arma\u00e7\u00f5es,<br \/>\namea\u00e7ava arrebat\u00e1-las \u00e0 terra, levando-as de uma vez<br \/>\nao c\u00e9u, pelo caminho do mar.<\/p>\n<p>Os ingleses herdaram dos jesu\u00edtas um s\u00e9timo ou oitavo sentido,<br \/>\nque possu\u00edam em alto grau aqueles mestres da vida: \u00e9 o sentido<br \/>\nda higiene. Por onde passou a poderosa companhia, foi deixando conventos nas<br \/>\nsitua\u00e7\u00f5es melhores, tanto pela salubridade como pela formosura.<br \/>\nO ingl\u00eas foi dotado do mesmo faro do belo e do saud\u00e1vel. Chegando<br \/>\nao Rio de Janeiro, volve os olhos para a cinta de montanhas que cerca a cidade,<br \/>\ne considera isso um sobrado natural que a Provid\u00eancia construiu por<br \/>\ncima do escrit\u00f3rio para alcova de dormir.<\/p>\n<p>Pese embora ao nosso amor-pr\u00f3prio nacional, eles naturalizaram inglesa<br \/>\na nossa Tijuca; fizeram daquela serra onde campearam os tamoios, uma Esc\u00f3cia<br \/>\nbrasileira. O grito dos highlanders percorre as formosas encostas. Pelas grotas<br \/>\nonde reboava primitivamente o brado selvagem da pocema, ouve-se agora repetido<br \/>\nde vale em vale pela voz suave das amazonas o gracioso la-la-hi-ti.<\/p>\n<p>Se quereis ver o que h\u00e1 de mais belo e encantador naquele arrebalde,<br \/>\nprocurai o conhecimento de algum filho da Gr\u00e3-Bretanha. Ele conhece<br \/>\na Tijuca de uma \u00e0 outra extremidade, desde a gruta mais funda at\u00e9<br \/>\no pico mais alto. Sabe n\u00e3o s\u00f3 dos v\u00e1rios passeios, como<br \/>\ndo dia e da hora em que se deve apreciar cada um deles. Afinal, quando tiverdes<br \/>\nvisto toda a Tijuca j\u00e1 descoberta e explorada, o ingl\u00eas inventar\u00e1<br \/>\numa pedra ainda n\u00e3o conhecida e uma excurs\u00e3o pitoresca como<br \/>\na de subir \u00e0 G\u00e1vea por um caminho de lagarto.<\/p>\n<p>Ricardo vinha pensando que felizmente naquele dia escapara de encontrar-se<br \/>\ncom a Guida. Era este o quarto Domingo depois que a conhecera, e seria o primeiro<br \/>\nem que n\u00e3o a visse. O advogado n\u00e3o daria a import\u00e2ncia<br \/>\na esses encontros fortuitos se, al\u00e9m de serem eles cont\u00ednuos,<br \/>\nn\u00e3o se houvessem dado as circunst\u00e2ncias especiais, que j\u00e1<br \/>\nconhecemos.<\/p>\n<p>Felicitava-se por\u00e9m o mo\u00e7o muito cedo. Numa curva da estrada<br \/>\nachou-se em face de numerosa cavalgata, que tomava-lhe a passagem. Guida,<br \/>\nque vinha na frente em companhia de algumas senhoras, exclamara:<br \/>\n&#8211; Ali est\u00e1 a flor, Clarinha. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o linda?<br \/>\n&#8211; Aonde?<br \/>\n&#8211; Ali, um arbusto. N\u00e3o v\u00ea? Disse ela indicando o lugar com a<br \/>\nhaste do chicotinho.<\/p>\n<p>&#8211; Vejo. Amarela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cor de ouro.<\/p>\n<p>Guida tinha parado, e todos os cavaleiros se gruparam de modo a ver o objeto<br \/>\nque lhes excitava a curiosidade. Ricardo, havendo-se adiantado na esperan\u00e7a<br \/>\nde passar, foi obrigado a demorar-se em frente do grupo.<\/p>\n<p>&#8211; Onde vai a senhora, D. Guida?<br \/>\nEsta pergunta foi dirigida por um dos cavaleiros \u00e0 mo\u00e7a, vendo-a<br \/>\nimpelir &#8220;Edgard&#8221; contra o barranco do caminho para aproximar-se<br \/>\ndo arbusto, que ficava cerca de duas bra\u00e7as ladeira abaixo.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 que nenhum dos senhores se lembrou de oferecer-me uma daquelas<br \/>\nflores, que eu acho t\u00e3o bonitas, vou eu mesma busc\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fa\u00e7a isto!<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma imprud\u00eancia!<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o consinto!<br \/>\nCom efeito havia temeridade no intendo da mo\u00e7a. Quem j\u00e1 foi<br \/>\n\u00e0 Pedra Bonita sabe quanto \u00e9 abrupta aquela montanha; o caminho,<br \/>\nbastante \u00edngreme, atravessa as costas rudes, cortadas em r\u00e1pido<br \/>\ntalude e profundamente sarjadas pelos sulcos das torrentes que descem do cimo<br \/>\nda serra quando chove. Seria sumamente perigosa a descida por semelhantes<br \/>\nbarrancos, at\u00e9 mesmo para um animal solto.<\/p>\n<p>Desprezando por\u00e9m as advert\u00eancias que lhe dirigiam suas amigas<br \/>\ne companheiras, a mo\u00e7a fustigou o cavalo, que refugara. Castigado asperamente,<br \/>\n&#8220;Edgard&#8221; descera alguns passos por um trilho, ou antes por um rego;<br \/>\nmas, reconhecendo o perigo que havia em continuar aquela descida quase a pique,<br \/>\ntomou rapidamente por outro rego que atravessava, e galgou o leito do caminho<br \/>\ncom grande esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Vai, Guimar\u00e3es! Disse um dos cavaleiros.<\/p>\n<p>&#8211; Por mim, n\u00e3o tinha d\u00favida. Mas n\u00e3o h\u00e1 cavalo<br \/>\ncapaz de fazer isto.<\/p>\n<p>Ricardo que assistia \u00e0 cena, de parte, esperando ocasi\u00e3o de<br \/>\npassar, n\u00e3o perdeu as palavras que pronunciara o Guimar\u00e3es,<br \/>\ne sentiu despertar-se-lhe o zelo pelos brios do &#8220;Galgo&#8221;. Aos 27<br \/>\nanos, o homem \u00e9 ordinariamente temer\u00e1rio. A vida n\u00e3o<br \/>\nrepresenta ainda a seus olhos um cabedal, mas uma simples aspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o avan\u00e7ou.<\/p>\n<p>Por esse tempo continuavam os pedidos e admoesta\u00e7\u00f5es a Guida<br \/>\npara abandonar seu projeto; mas ela, indiferente ao que diziam em torno, a<br \/>\nprinc\u00edpio rira do susto dos outros; mas agora, muito irritada contra<br \/>\n&#8220;Edgard&#8221; por ter recuado, castigava o animal que girava corcoveando.<br \/>\nA amazona, forcejando para traz\u00ea-lo \u00e0 borda do barranco, afinal<br \/>\no conseguiu, mas de uma maneira bem desastrada.<\/p>\n<p>Com efeito, pungido ao mesmo tempo pelo freio e pelo chicote, perdera a<br \/>\nsua calma habitual; irritou-se, e obrigado a fazer o que lhe repugnava, caminhava<br \/>\npara o despenhadeiro, disposto, n\u00e3o a descer, mas a precipitar-se.<\/p>\n<p>Felizmente Ricardo chegara a tempo. Inclinando-se, p\u00f4de segurar &#8220;Egard&#8221;<br \/>\npelo freio, quando j\u00e1 levantava as m\u00e3os para pular. Obrigou-o<br \/>\nent\u00e3o a voltar-se para o leito da estrada, e disse simplesmente \u00e0<br \/>\nmo\u00e7a:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o des\u00e7a!<br \/>\nGuida ficou im\u00f3vel acompanhando com os olhos o &#8220;Galgo&#8221;, que<br \/>\ndescia com admir\u00e1vel agilidade e firmeza o sinuoso barranco. S\u00f3<br \/>\nhavia para apoio do casco a estreita borda do sulco, por onde dificilmente<br \/>\nandaria um homem a p\u00e9: e contudo o cavalo desceu e subiu sem vacilar<br \/>\num passo, com plena confian\u00e7a na for\u00e7a e na elasticidade de<br \/>\nseus m\u00fasculos.<\/p>\n<p>Todas as pessoas que faziam parte da cavalgata acompanharam a descida e<br \/>\nascens\u00e3o com surpresa e interesse. Os mais nervosos estremeciam com<br \/>\na id\u00e9ia da desgra\u00e7a, que podia acontecer ao desconhecido. Os<br \/>\noutros sentiam uma como\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 que lhes<br \/>\ndespertaria uma briga de galos, uma corrida de cavalos, ou talvez uma representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nno circo.<\/p>\n<p>Ricardo tinha partido do arbusto duas ou tr\u00eas hastes com flor. Era<br \/>\na mesma flor cor de ouro, que ele costumava colher nos seus passeios a p\u00e9,<br \/>\ne que j\u00e1 por duas vezes fora testemunha de seu encontro com a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando o cavalo, correspondendo dignamente ao nome, galgou com ligeireza<br \/>\no caminho, o advogado apresentou \u00e0 mo\u00e7a o ramalhete que tinha<br \/>\ncolhido, e fazendo um cumprimento geral, apartou-se rapidamente da alegre<br \/>\ncavalgata.<\/p>\n<p>Ao passar entre os cavaleiros, ouviu uma voz que o chamava pelo sobrenome:<br \/>\n&#8211; Adeus, Nunes! Aposto que j\u00e1 n\u00e3o te lembras de mim?<br \/>\nO advogado reconheceu um de seus colegas de ano, a quem n\u00e3o vira desde<br \/>\na formatura.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Guimar\u00e3es?<br \/>\nTrocaram um aperto de m\u00e3o com algumas palavras banais, e separaram-se.<\/p>\n<p>Entretanto Guida, tendo prendido o raminho de flores no peito do roup\u00e3o,<br \/>\ncontinuara o passeio, acompanhada pelas outras senhoras e cavaleiros. Vendo<br \/>\naproximar-se o mo\u00e7o que pouco antes falara a Ricardo, dirigiu-lhe a<br \/>\npalavra:<br \/>\n&#8211; Conhece este mo\u00e7o, Sr. Guimar\u00e3es?<br \/>\n&#8211; \u00c9 o Dr. Nunes. Foi meu colega de ano.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Formaram-se juntos?<br \/>\n&#8211; E se n\u00e3o me engano, fizemos ato no mesmo dia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bacharel?&#8230; disse Guida, como se completasse um pensamento interior.<\/p>\n<p>Supunha talvez que Ricardo era um artista, algum pintor que percorria os<br \/>\ns\u00edtios da Tijuca para copiar perspectivas, que mais tarde lhe servissem<br \/>\nde assunto a algum quadro a \u00f3leo. O \u00e1lbum de desenho, que o<br \/>\nmo\u00e7o trazia habitualmente nos seus passeios a p\u00e9, e a aquarela<br \/>\nem que ela se julgara reconhecer, deviam com efeito induzi-la \u00e0quele<br \/>\nengano.<\/p>\n<p>&#8211; Foi um dos primeiros estudantes do nosso ano. Mo\u00e7o de grande talento,<br \/>\npor\u00e9m muito pobre; dizem at\u00e9 que foi o tio, o Dr. Costa, quem<br \/>\no ajudou a formar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Que faz ele agora? Perguntou a mo\u00e7a com interesse.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. Creio que est\u00e1 aqui advogando; mas perde o seu<br \/>\ntempo; n\u00e3o faz nada.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? N\u00e3o tem talento?<br \/>\n&#8211; Mas de que lhe serve se ningu\u00e9m o conhece? Servia-lhe mais ficar<br \/>\ncom metade do talento que tem, e a outra metade de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como prote\u00e7\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Ora: negociantes que lhe d\u00eaem boas causas e o recomendem a seus amigos.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a, lan\u00e7ando um olhar para o cimo da montanha que se desenhava<br \/>\nno horizonte, mudou de repente o tom e o assunto da conversa.<\/p>\n<p>&#8211; A Pedra Bonita ainda fica muito longe? Disse ela nesse d\u00fabio tom<br \/>\nque vacila entre uma interroga\u00e7\u00e3o e uma afirmativa.<\/p>\n<p>&#8211; Falta um bom peda\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o passamos o Carneiro. O melhor \u00e9 voltarmos; j\u00e1<br \/>\nest\u00e1 o sol t\u00e3o quente! Hoje sa\u00edmos muito tarde.<\/p>\n<p>&#8211; Como quiser!<br \/>\n&#8211; Vamos voltar? perguntou a mo\u00e7a virando-se para consultar as amigas.<\/p>\n<p>As opini\u00f5es dividiram-se; alguns desejavam a continua\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo passeio apesar do tempo perdido com o epis\u00f3dio da flor; outros por\u00e9m<br \/>\njulgavam que era mais prudente voltar, \u00e0 vista da hora adiantada e<br \/>\ndo intenso calor.<\/p>\n<p>&#8211; Que horas s\u00e3o? perguntou uma senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Meia antes do almo\u00e7o, respondeu Guida sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Neste caso voltemos! Gritou a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guida exagerava no interesse de sua causa. O almo\u00e7o foi servido quarenta<br \/>\nminutos depois, \u00e0s dez horas em ponto. Cercavam a mesa perto de trinta<br \/>\npessoas.<\/p>\n<p>Na cabeceira estava D. Paulina, a mulher do comendador Soares, senhora de<br \/>\nestatura regular, e bastante nutrida. Tinha na fisionomia um ar de bondade<br \/>\ne singeleza que lhe conciliava a simpatia geral. Seus gestos eram acanhados;<br \/>\nvia-se que n\u00e3o estava a c\u00f4modo, nem se ocupava em desempenhar<br \/>\no seu papel de dona-de-casa. Esta senhora, que nascera para uma vida modesta,<br \/>\nsentia-se acabrunhada ela riqueza e opressa por esse luxo de ostenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nque a envolvia e se apoderara at\u00e9 de sua pessoa. Seu vestido feito<br \/>\nno rigor da moda era uma t\u00fanica de Nessus para aquele g\u00eanio pachorrento.<\/p>\n<p>Na extremidade oposta, ou na outra cabeceira, estava o comendador Soares,<br \/>\nhomem de cinq\u00fcenta e cinco anos, de mediana estatura e talhe franzino,<br \/>\nmas vivo e \u00e1gil, respirando sa\u00fade e alegria no rosto prazenteiro<br \/>\ne no gesto animado. Trazia a barba raspada e o cabelo cortado \u00e0 escovinha.<\/p>\n<p>&#8211; Dr. Nogueira, n\u00e3o quer um pouco deste lombinho? Diz aqui o Bastos<br \/>\nque n\u00e3o est\u00e1 mau.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 magn\u00edfico.<\/p>\n<p>A pessoa a que se dirigira o Soares, era um homem de trinta e seis anos<br \/>\ne parece distinto.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, comendador! Nada mais.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu vou a ele. Quem me acompanha? Aposto que o Guimar\u00e3es?<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 dito!<br \/>\n&#8211; O Sr. Guimar\u00e3es deve ter bom apetite. Fez um grande passeio a cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade!<br \/>\n&#8211; Onde foram? perguntou Soares.<\/p>\n<p>&#8211; \u00cdamos \u00e0 Pedra Bonita; mas n\u00e3o chegamos at\u00e9<br \/>\nl\u00e1. D. Guida quis voltar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 era t\u00e3o tarde!<br \/>\n&#8211; E perdemos muito tempo com a tal flor.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, que l\u00e1 se vai o segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Que segredo?<br \/>\n&#8211; Ora; eu lhe conto, papai, disse a Guida. Queria apanhar uma flor, mas &#8220;Edgard&#8221;,<br \/>\nque \u00e9 um poltr\u00e3o, teve medo de descer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim; mas que ladeira! quase direita!<br \/>\n&#8211; Ora. O outro cavalo n\u00e3o desceu?<br \/>\n&#8211; Com que risco!<br \/>\n&#8211; No fim de contas &#8220;Edgard&#8221;, zangado, ia-se atirando da montanha<br \/>\nabaixo, quando um mo\u00e7o que passava, conhecido do Sr. Guimar\u00e3es,<br \/>\nagarrou-o pelo freio, e desceu para apanhar a flor!<br \/>\n&#8211; Se n\u00e3o fosse ele, quem sabe o que sucederia.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Guimar\u00e3es deve apresentar-nos o seu amigo, n\u00e3o acha,<br \/>\npapai?<br \/>\n&#8211; Decerto!<br \/>\n&#8211; Terei muito prazer. Encontrando-me com ele&#8230; ia respondendo o Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>Atalhou por\u00e9m o Dr. Nogueira:<br \/>\n&#8211; A flor \u00e9 naturalmente essa que a senhora tem no seio?<br \/>\n&#8211; Sim, senhor, \u00e9 esta mesmo. Veja papai, como \u00e9 linda!<br \/>\n&#8211; Muito! Quase que podias traz\u00ea-la como pingentes.<\/p>\n<p>&#8211; Boa id\u00e9ia, papai! Vou mandar fazer uns brincos deste feitio.<\/p>\n<p>&#8211; Ficar\u00e3o magn\u00edficos.<\/p>\n<p>&#8211; E h\u00e1 de ser moda!<br \/>\n&#8211; Sr. Bastos, o senhor me h\u00e1 de fazer o favor?&#8230; disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Com muito gosto, D. Guida!<br \/>\nA flor corria de m\u00e3o em m\u00e3o; e teria se desfolhado afinal se<br \/>\na dona n\u00e3o reclamasse com inst\u00e2ncia para restitu\u00ed-la \u00e0<br \/>\nsua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Guida anda apaixonada por essa flor, disse D. Clarinha. H\u00e1 mais<br \/>\nde um m\u00eas que me fala nela.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 pela flor? Perguntou o Dr. Nogueira com um sorriso malicioso.<\/p>\n<p>Guida lan\u00e7ou-lhe um olhar, que era um alfinete embebido em alj\u00f4far:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 pela flor, n\u00e3o. \u00c9 pelo senhor. Pois n\u00e3o<br \/>\nsabia?<br \/>\n&#8211; Ah! se fosse, D. Guida, eu seria o homem o mais feliz do mundo, acredite!<br \/>\n&#8211; Bravo, bravo! E ent\u00e3o, D. Paulina?<br \/>\n&#8211; Guida sempre foi muito apaixonada de flores, respondeu a senhora, aturdida<br \/>\npor aqueles constantes di\u00e1logos que se cruzavam.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a respondera \u00e0 fineza do Dr. Nogueira, inclinando altivamente<br \/>\na fronte, e soltando um ir\u00f4nico &#8211; &#8220;obrigada!&#8221;<br \/>\nQuando aplacou-se o rumor das risadas e exclama\u00e7\u00f5es provocadas<br \/>\npela declara\u00e7\u00e3o amorosa que, a t\u00edtulo de fineza, lan\u00e7ara<br \/>\no Dr. Nogueira t\u00e3o \u00e0 queima-roupa, o Soares, ocupado em despachar<br \/>\nconscienciosamente o lombinho de porco, p\u00f4de introduzir uma observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe acudira.<\/p>\n<p>&#8211; Ande l\u00e1, Dr. Nogueira, creio que n\u00e3o \u00e9 o senhor o<br \/>\n\u00fanico. H\u00e1 mais quem pense da mesma maneira!<br \/>\n&#8211; Decerto, disseram quase ao mesmo tempo o Guimar\u00e3es e o Bastos, um<br \/>\nenrubescendo, o outro empalidecendo.<\/p>\n<p>Talvez que outras exclama\u00e7\u00f5es mais submissas viessem aos l\u00e1bios,<br \/>\ne outros rumores mais t\u00edmidos subissem \u00e0s faces; mas n\u00e3o<br \/>\nse animaram a aparecer. Perderam-se nos aplausos com que foi recebida a observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo dono da casa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, disse a Guida, a quem o tema da conversa\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o agradava; ningu\u00e9m quer saber disto agora, papai; mudemos<br \/>\nde assunto.<\/p>\n<p>&#8211; Pois muda tu, que nisso de mudar, as mulheres est\u00e3o no seu elemento.<\/p>\n<p>&#8211; O que n\u00e3o \u00e9 muito lisonjeiro para os homens.<\/p>\n<p>&#8211; Conforme.<\/p>\n<p>&#8211; Mas escute, papai. Estou resolvida a vender &#8220;Edgard&#8221;. Depois<br \/>\ndo que me fez hoje, n\u00e3o posso mais suport\u00e1-lo. Quer compr\u00e1-lo?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o; eu c\u00e1, n\u00e3o deixo a minha mula paulista. Esses<br \/>\ncavalos da moda, que voc\u00eas apreciam por serem muito grandes e muito<br \/>\ncaros, n\u00e3o me servem.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o compre para mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o! Que lembran\u00e7a! acudiu D. Paulina.<\/p>\n<p>&#8211; Nada. Contigo n\u00e3o quero neg\u00f3cio, replicou o Soares. Dizem<br \/>\npor a\u00ed que sou um espertalh\u00e3o; mas ainda est\u00e1 para ser<br \/>\na primeira vez que n\u00e3o me logres.<\/p>\n<p>&#8211; Qual, papai! exclamou Guida sorrindo. \u00c9 o senhor que se engana<br \/>\na si mesmo; o pai logra o capitalista!<br \/>\n&#8211; Muito bem!<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 isso ent\u00e3o! replicou o Soares rindo com prazer.<\/p>\n<p>Acabara o almo\u00e7o. Guida, com uma cortesia geral, deu o exemplo levantando-se<br \/>\nda mesa.<\/p>\n<p>Ela exercia esse direito por uma delega\u00e7\u00e3o t\u00e1cita da<br \/>\nm\u00e3e, incapaz de tomar por si t\u00e3o grave resolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Soares, que podia adverti-la com um sinal, estava inibido de o fazer. Se<br \/>\nnos dias de trabalho o capitalista almo\u00e7ava a vapor, nos domingos tinha<br \/>\nsaudades da mesa e custava a separar-se dela.<\/p>\n<h4><a id=\"8\" name=\"8\"><\/a>VIII<\/h4>\n<p>Deixando a mesa do almo\u00e7o, as pessoas reunidas em casa do Soares espalharam-se<br \/>\npela sala, varanda e jardim, formando grupos.<\/p>\n<p>As senhoras ficaram na sala, vendo \u00e1lbuns e figurinos, conversando<br \/>\nsobre modas, ou tocando e cantando. Alguns cavalheiros resistiam ao perfume<br \/>\ndo havana para gozarem por mais tempo da am\u00e1vel companhia das mo\u00e7as.<br \/>\nOutros, para voltarem mais cedo, saboreavam j\u00e1 o seu charuto, passeando<br \/>\nno jardim, defronte das janelas, por onde \u00e0s vezes intervinham na conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na varanda os capitalistas e negociantes discutiam sobre o estado da pra\u00e7a;<br \/>\napreciavam as transa\u00e7\u00f5es mais importantes da semana finda; faziam<br \/>\nconjeturas sobre a alta e baixa do c\u00e2mbio, caindo por fim no assunto<br \/>\ninesgot\u00e1vel de todas as conversas daquele tempo, por ser a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nconstante de todos os esp\u00edritos; a conclus\u00e3o da guerra do Paraguai,<br \/>\nque o intr\u00e9pido C\u00e2mara acaba de selar com a \u00faltima vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m, desdobravam-se as mesas de jogo \u00e0 espera dos apaixonados<br \/>\ndo solo e voltarete; mais longe, se ajustavam passeios a p\u00e9 e a cavalo,<br \/>\nou visitas aos h\u00f3spedes do am\u00e1vel Sr. Bennett.<\/p>\n<p>Em toda essa reuni\u00e3o de pessoas havia dois pontos para os quais convergia<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o; eram o Soares e a filha.<\/p>\n<p>Os esp\u00edritos positivos, os homens de neg\u00f3cio, os soldados<br \/>\nda cruzada fan\u00e1tica do ouro, que \u00e9 a grande preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo s\u00e9culo atual, esses infatig\u00e1veis obreiros do dinheiro contemplavam<br \/>\no capitalista como um her\u00f3i ou como um g\u00eanio, como o C\u00e9sar<br \/>\nou o Napole\u00e3o da pra\u00e7a. O comendador representava a seus olhos<br \/>\no s\u00edmbolo ou mito da riqueza, como H\u00e9rcules o era da for\u00e7a.<\/p>\n<p>A rapidez com que Soares, de simples dono de um armarinho, se elevara a<br \/>\nmilion\u00e1rio por uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es l\u00edcitas,<br \/>\nmas combinadas com tino superior e executadas com incr\u00edvel arrojo;<br \/>\no milagre dessa riqueza colossal honestamente acumulada em cerca de vinte<br \/>\nanos, enchia de admira\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 os ne\u00f3fitos<br \/>\nno culto do bezerro de ouro, como os mesmos negociantes j\u00e1 possuidores<br \/>\nde algumas centenas de contos.<\/p>\n<p>As vistas fitavam-se com afinco no rosto franco e prazenteiro do capitalista,<br \/>\nque se lhes afigurava o dinheiro encarnado, o milh\u00e3o feito homem. Estudavam<br \/>\nsua fisionomia, aprendiam seus menores gestos, decoravam suas palavras ainda<br \/>\nbanais. O Soares tinha em si o grande segredo de ganhar dinheiro; talvez o<br \/>\nprecioso cond\u00e3o da riqueza estivesse em alguma particularidade de sua<br \/>\npessoa e fosse poss\u00edvel a um homem h\u00e1bil surpreend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Esfor\u00e7avam-se pois em imitar aquele tipo de milion\u00e1rio improvisado.<br \/>\nUm tinha notado que ele trazia sapat\u00f5es de bico espalmado, feitos em<br \/>\numa tenda da travessa do Carmo. Pensando que o segredo podia estar nisso,<br \/>\nrecorreu ao fregu\u00eas antigo do capitalista para lhe fazer cal\u00e7ado<br \/>\nem tudo igual. Outro observara que o Soares trazia uma pequena caixa oval<br \/>\ncheia de rap\u00e9, n\u00e3o para tomar, mas simplesmente para cheirar.<\/p>\n<p>Havia gente que n\u00e3o s\u00f3 copiava o milion\u00e1rio no vestu\u00e1rio<br \/>\ne nos h\u00e1bitos, como at\u00e9 na comida. Um chegou a convencer-se<br \/>\nque o feij\u00e3o-preto e o lombinho de porco tinham virtude aur\u00edfera;<br \/>\ne apontava a prov\u00edncia de Minas como a prova do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>De seu lado, Guida era naquele c\u00e9u o astro da beleza, de que as outras<br \/>\nmo\u00e7as n\u00e3o passavam de sat\u00e9lites. Em torno dela giravam<br \/>\nos cavalheiros elegantes, todos aqueles que n\u00e3o tinham resumido a sua<br \/>\nexist\u00eancia no balc\u00e3o e ainda se ocupavam de m\u00fasica, de<br \/>\narte e de sentimento. Para esses o dinheiro n\u00e3o \u00e9 um fim, como<br \/>\npara os primeiros, os cruzados do s\u00e9culo; \u00e9 meio apenas de obter<br \/>\no gozo; \u00e9 um engaste para o prazer. Assim uma mulher bonita na pobreza<br \/>\nparece uma cris\u00f3lita embutida em estanho; na riqueza, torna-se uma<br \/>\np\u00e9rola cercada de diamantes.<\/p>\n<p>Os olhares desta parte da sociedade acompanhavam os movimentos de Guida<br \/>\ncom admira\u00e7\u00e3o e insist\u00eancia igual \u00e0 dos adoradores<br \/>\ndo dinheiro encarnado na pessoa de Soares. Ela tamb\u00e9m representava<br \/>\no mito do s\u00e9culo, o milh\u00e3o. Se o pai figurava o milh\u00e3o<br \/>\nfeito homem, ela era o milh\u00e3o feito anjo; o ouro convertido em luz,<br \/>\na libra esterlina transformada em estrela, o bilhete do banco adquirindo de<br \/>\nrepente a gra\u00e7a di\u00e1fana da asa de borboleta.<\/p>\n<p>Os etimologistas, gente que profetiza o passado e inventa o esquecido, dizem<br \/>\nque ouro, palavra de origem eg\u00edpcia, significou primitivamente a luz,<br \/>\no sol, passando a designar o metal precioso por analogia. Se assim foi, como<br \/>\nme parece racional, Guida personificava o ouro segundo a delicada compara\u00e7\u00e3o<br \/>\nda poesia oriental; era o sol espl\u00eandido da fortuna; era a r\u00e9stia<br \/>\nde luz coalhada em barra, o prisma banc\u00e1rio, o raio amoedado.<\/p>\n<p>Entre todos os cavalheiros que se prostravam humildes ante o \u00eddolo,<br \/>\ndistinguiam-se tr\u00eas, ou pela assiduidade na adora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nou pela esperan\u00e7a que afagavam. Eram o Guimar\u00e3es, o Bastos e<br \/>\no Dr. Nogueira: pessoas que sem d\u00favida merecem alguma not\u00edcia,<br \/>\npois um deles, segundo se dizia geralmente, teria de ser o feliz, o querido<br \/>\nda fortuna, o marido da mais rica heran\u00e7a e da mais bonita mo\u00e7a<br \/>\ndo Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es era um mo\u00e7o de vinte e sete anos, filho de um antigo<br \/>\nprocurador muito ginja, que devia deixar-lhe uma leg\u00edtima de uns seiscentos<br \/>\ncontos de r\u00e9is. O pai \u00e0 custa de empenhos conseguira form\u00e1-lo<br \/>\nem Direito; mas s\u00f3 por luxo, para dar-lhe o t\u00edtulo que tanto<br \/>\ninvejara. Sucedeu por\u00e9m que ningu\u00e9m tomou ao s\u00e9rio a<br \/>\ncoisa, nem mesmo o rapaz. Todos continuaram a trat\u00e1-lo pura e simplesmente<br \/>\npelo nome, sem o competente doutor. Era t\u00e3o profundo o esquecimento<br \/>\nda formatura do filho do procurador que seus amigos e camaradas acreditariam<br \/>\nmais facilmente que ele fosse um pr\u00edncipe inc\u00f3gnito do que um<br \/>\nbacharel.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es tinha um exterior agrad\u00e1vel: bem feito, de talhe<br \/>\nvantajoso, vestia-se no rigor da moda, mas ao gosto do alfaiate, e portanto<br \/>\ncom todas as extravag\u00e2ncias do figurino. Montava bem a cavalo; fumava<br \/>\ncom garbo o seu havana; sustentava sofrivelmente uma dessas conversas de ninharias,<br \/>\nessenciais nos intervalos da quadrilha e em ocasi\u00f5es de apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bastos era um corretor, que aos trinta e quatro anos j\u00e1 havia feito<br \/>\numa bela fortuna.<\/p>\n<p>Soares o tinha no melhor conceito, e num c\u00edrculo de \u00edntimos<br \/>\nlhe profetizara o milh\u00e3o aos quarenta anos. Ora, o milh\u00e3o, segundo<br \/>\no comendador, \u00e9 o p\u00f3lipo, que se reproduz com espantosa rapidez.<\/p>\n<p>O corretor era o que se chamava um bonito homem; isto \u00e9, uma estampa<br \/>\nsoberba para ganadeiro ou tambor-mor. Alto de estatura, porte robusto, mas<br \/>\nbem talhado, tinha um rosto de fei\u00e7\u00f5es regulares, moldurado<br \/>\npor uma bela su\u00ed\u00e7a negra. Vestia-se com a simplicidade do negociante<br \/>\ningl\u00eas; falava com acerto em assuntos comerciais; animava-se a discutir<br \/>\npol\u00edtica at\u00e9 com os mais not\u00e1veis estadistas; por\u00e9m<br \/>\nnuma roda de senhoras faltava-lhe a flu\u00eancia, a menos que n\u00e3o<br \/>\nse tratasse de compras e encomendas, ponto em que mais ou menos entrava o<br \/>\ng\u00eanio mercantil.<\/p>\n<p>O Dr. Nogueira advogava. Como todos os homens de talento, tinha-se envolvido<br \/>\nna pol\u00edtica, esse terr\u00edvel maelstrom que arrasta em nosso malfadado<br \/>\npa\u00eds todas as grandes intelig\u00eancias, como todas as ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\nardentes. Sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o passava de uma espera na grande<br \/>\nca\u00e7ada nacional. Apresentava-se candidato por sua prov\u00edncia,<br \/>\ne cheio de entusiasmo acreditava que ia abrir-se a seu talento uma carreira<br \/>\nbrilhante.<\/p>\n<p>Ele tinha os dotes necess\u00e1rios: bela intelig\u00eancia, palavra<br \/>\nf\u00e1cil e elegante, que amenizava as mais \u00e1ridas quest\u00f5es<br \/>\ne elevava os assuntos triviais; car\u00e1ter d\u00factil, suscet\u00edvel<br \/>\nde amoldar-se a todas as situa\u00e7\u00f5es como de ligar-se a qualquer<br \/>\nindiv\u00edduo; car\u00e1ter que se pode bem comparar ao estanho, de que<br \/>\nse faz a solda. Soares tributava ao advogado a maior considera\u00e7\u00e3o<br \/>\ne tinha plena confian\u00e7a em seu futuro.<\/p>\n<p>Apesar de magro e descarnado, o rosto do advogado tinha express\u00e3o<br \/>\nmuito distinta, sobretudo quando falava com interesse; ent\u00e3o a fisionomia<br \/>\ne o gesto desenhavam-lhe a id\u00e9ia, antes que a palavra elegante viesse<br \/>\ndar-lhe o colorido. Quem o escutava recebia ao mesmo tempo pelos olhos e pelo<br \/>\nouvido o seu pensamento, sempre elevado.<\/p>\n<p>Cada um dos tr\u00eas candidatos a sol da bela estrela de ouro tinha mais<br \/>\nou menos consci\u00eancia das suas, como das vantagens dos competidores.<br \/>\nO Guimar\u00e3es confiava na heran\u00e7a e na prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nde D. Paulina, em virtude da amizade antiga que existia entre a m\u00e3e<br \/>\nda menina e a sua. Bastos descansava no conceito em que o comendador tinha<br \/>\na sua habilidade comercial, e nos trezentos contos bem l\u00edquidos, fechados<br \/>\nna carteira em bilhetes do tesouro. O Dr. Nogueira contava com a considera\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe tributava o comendador, mas sobretudo com as altas e brilhantes posi\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncujo prest\u00edgio sem d\u00favida fascinaria mais do que o dinheiro,<br \/>\na um homem habituado como Soares, a nadar em ouro.<\/p>\n<p>Estes eram os t\u00edtulos que exibiam os campe\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 escolha paterna; mas eles, que bem conheciam a Guida, sabiam quanto<br \/>\nera importante e necess\u00e1ria a escolha da filha. Por isso empregavam<br \/>\ntodos os esfor\u00e7os para granjear o amor ou pelo menos a simpatia da<br \/>\nlinda mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando se tratava de um passeio, de uma conversa f\u00fatil para fazer<br \/>\nrir as senhoras, de um brinquedo de sala, ou qualquer outra ninharia, Bastos<br \/>\ne Nogueira se arredavam deixando o campo ao Guimar\u00e3es. Nenhum deles<br \/>\nseria capaz de disputar ao mo\u00e7o a palma da garrulhice banal e fofa,<br \/>\nque imita as farfalhas de seda, ou os floreios do leque. Quando se ouve discorrer<br \/>\numa dessas nugas encasacadas, parece com efeito que n\u00e3o \u00e9 um<br \/>\nhomem que fala, mas um alfinete, um grampo, um colchete, qualquer dos objetos<br \/>\nindispens\u00e1veis ao vestu\u00e1rio feminino, que de repente adquirisse<br \/>\no dom da palavra.<\/p>\n<p>O Bastos ficava mudo e pasmo diante da volubilidade do Guimar\u00e3es;<br \/>\nele n\u00e3o compreendia que um homem tivesse essa propriedade de fazer-se<br \/>\nrealejo, e repetir durante horas e horas o que dissera na v\u00e9spera ou<br \/>\nouvira dos outros. Quanto ao Nogueira, compreendia; mas, se alguma vez lembrou-se<br \/>\nde competir com o Guimar\u00e3es, arrependeu-se e corou de si mesmo, porque<br \/>\nreconheceu o rid\u00edculo. Sua palavra era uma \u00e1guia, pensava ele:<br \/>\na \u00e1guia da intelig\u00eancia, habituada a planar entre as nuvens.<br \/>\nComo podia fazer dessa ave corpulenta uma abelha que borboleteasse entre as<br \/>\nflorinhas de um jardim?<br \/>\nPara a asa altaneira s\u00f3 a flor gigante, a grande ninf\u00e9ia escarlate,<br \/>\na rainha dos lagos, que os ingleses chamavam &#8220;vit\u00f3ria&#8221;, em<br \/>\nhonra de sua soberana, mas eu chamarei &#8220;imperatriz&#8221;, em raz\u00e3o<br \/>\nde ser uma majestade brasileira. Dir-me-\u00e3o que n\u00e3o sou bot\u00e2nico,<br \/>\ne portanto n\u00e3o tenho autoridade para crismar essa esp\u00e9cie de<br \/>\nloto, que os ind\u00edgenas chamavam &#8220;milho d&#8217;\u00e1gua&#8221;. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 decerto minha inten\u00e7\u00e3o invadir os dom\u00ednios da<br \/>\nci\u00eancia. Podem os bot\u00e2nicos inventar quanto nome grego e latino<br \/>\nlhes aprouver para apelidarem as plantas; podem fazer a aut\u00f3psia das<br \/>\ninocentes criaturas para reduzi-las a sistema; mas as flores, como mimos da<br \/>\nnatureza, pertencem \u00e0 literatura; s\u00e3o do dom\u00ednio da poesia.<\/p>\n<p>Onde me ia levando o pensamento? Voltemos \u00e0 Tijuca.<\/p>\n<p>O Bastos desforrava-se do Guimar\u00e3es e do Nogueira, quando se tratava<br \/>\nde alguma encomenda, de qualquer dos pequenos servi\u00e7os que uma senhora,<br \/>\nprivada em nosso pa\u00eds da plena liberdade de sair s\u00f3, tem necessidade<br \/>\nde exigir e aceitar. O Rio de Janeiro \u00e9 sem d\u00favida uma cidade<br \/>\nde muito luxo, abundantemente sortida pela ind\u00fastria estrangeira de<br \/>\ntodos os artigos de moda e fantasia; mas, como as especialidades n\u00e3o<br \/>\nest\u00e3o ainda bem distintas, em virtude da desigualdade e incerteza do<br \/>\nconsumo, muitas vezes \u00e9 dif\u00edcil saber onde encontrar-se aquilo<br \/>\nque deseja.<\/p>\n<p>O corretor tinha um perfeito conhecimento dessa topografia especial do com\u00e9rcio<br \/>\na retalho. Quando se tratava de comprar uma fita de cor muito rara e perfeitamente<br \/>\nigual \u00e0 fazenda; de procurar um objeto que n\u00e3o se encontrava<br \/>\nna rua do Ouvidor ou da Quitanda; de escolher um presente de gosto, novo,<br \/>\nainda n\u00e3o visto; de descobrir uns bot\u00f5es ou enfeites de forma<br \/>\noriginal e esquisita, fantasiados pela imagina\u00e7\u00e3o de Guida,<br \/>\no Bastos triunfava. Realmente fazia coisas admir\u00e1veis: ningu\u00e9m<br \/>\narranjava uma encomenda melhor, nem mais depressa e barato.<\/p>\n<p>Nogueira e Guimar\u00e3es n\u00e3o ousavam disputar-lhe essa superioridade.<br \/>\nO candidato, porque nem para si pr\u00f3prio sabia comprar; al\u00e9m<br \/>\nde que sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe permitia descer ao papel de<br \/>\ncomiss\u00e1rio, nem mesmo de uma mo\u00e7a bonita. O Guimar\u00e3es<br \/>\nn\u00e3o tinha jeito, nem dinheiro: a mesada que recebia do pai, e os presentes<br \/>\nque a m\u00e3e lhe fazia, n\u00e3o chegavam para operar os milagres de<br \/>\nbarateza, inventados pelo corretor.<\/p>\n<p>Batido pelo Guimar\u00e3es nos divertimentos, e pelo Bastos nas encomendas,<br \/>\no Dr. Nogueira tinha tamb\u00e9m seus momentos de triunfo: n\u00e3o eram<br \/>\nmui freq\u00fcentes, mas acreditava ele que deixavam profunda e longa impress\u00e3o.<br \/>\nQuando a reuni\u00e3o se tornava mais solene, o que sucedia em ocasi\u00e3o<br \/>\nde alguma visita de considera\u00e7\u00e3o ou de algum jantar de cerim\u00f4nia,<br \/>\no advogado aproveitava algum assunto favor\u00e1vel para soltar as asas<br \/>\n\u00e0 sua palavra fascinadora. Divagava com gra\u00e7a; e sobre o mais<br \/>\npequeno fato tinha a arte de bordar anedotas curiosas, ditos chistosos, reminisc\u00eancias<br \/>\ninteressantes, que lhe fornecia uma sofr\u00edvel li\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<br \/>\nHavia em tudo isto muita afeta\u00e7\u00e3o, e mais liga que ouro; por\u00e9m<br \/>\nentusiasmava o seu audit\u00f3rio habitual.<\/p>\n<p>Nestas ocasi\u00f5es, Bastos e Guimar\u00e3es afundavam-se em sua mediocridade.<br \/>\nOs elogios, que obtinha a cada instante o talento do Nogueira, os incomodavam<br \/>\ncomo um enxame da vespas; mas nada os esmagava como a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom que Guida ouvia.<\/p>\n<p>O candidato, vendo a mo\u00e7a presa de seus l\u00e1bios, com os olhos<br \/>\nfitos nele, acreditava que essa alma gentil se abria inocentemente ao calor<br \/>\nde sua palavra, como a flor ao raio da aurora; e que ele penetrava-lhe no<br \/>\nseio, e a pouco e pouco tomava posse dela. Contudo n\u00e3o se desvanecia;<br \/>\nacreditava que n\u00e3o era ainda o cora\u00e7\u00e3o da menina quem<br \/>\no ouvia, mas apenas sua curiosidade.<\/p>\n<p>Estas pretens\u00f5es \u00e0 m\u00e3o da filha do milion\u00e1rio<br \/>\neram conhecidas n\u00e3o s\u00f3 pela fam\u00edlia e pessoas que freq\u00fcentavam<br \/>\na casa, como pelos estranhos. Nenhum dos tr\u00eas pretendentes recatava<br \/>\nseus projetos; ao contr\u00e1rio, n\u00e3o perdiam ensejo de fazer ostenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeles, nem se embara\u00e7avam com o reparo dos indiferentes, quando podiam<br \/>\ncolher uma vantagem sobre os rivais.<\/p>\n<p>A sociedade habitual do comendador assistia a esse jogo matrimonial com<br \/>\no interesse e curiosidade, com que os romanos apreciavam uma luta de gladiadores,<br \/>\ne os ingleses acompanhavam um steeple-chase. Dividiam-se as opini\u00f5es,<br \/>\ne tamb\u00e9m os votos e simpatias. Havia intermin\u00e1veis quest\u00f5es<br \/>\na respeito da prefer\u00eancia de Guida por algum de seus tr\u00eas adoradores.<\/p>\n<p>Talvez excite reparo e toler\u00e2ncia do comendador Soares neste assunto,<br \/>\nque t\u00e3o de perto lhe devia interessar como pai. Esse modo de proceder<br \/>\nn\u00e3o provinha de neglig\u00eancia, mas de uma resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nbem calculada. Entendia ele que o casamento de uma mo\u00e7a \u00e9 quest\u00e3o<br \/>\nvital tanto para os pais, como para ela; e portanto depende do consentimento<br \/>\nde ambas as partes. Em outros termos, assim exprimira chistosamente o seu<br \/>\npensamento ao Nogueira, um dia em que este o sondou a respeito de suas inten\u00e7\u00f5es:<br \/>\n&#8211; Nesta mat\u00e9ria de casamento, meu caro doutor, eu sou a coroa, a Guida<br \/>\n\u00e9 o parlamento. Ela tem o direito de votar o projeto; eu limito-me<br \/>\n\u00e0 san\u00e7\u00e3o do veto. Assim o pretendente, quero dizer, o<br \/>\nministro, se quiser or\u00e7amento, deve usar de toda a sua eloq\u00fc\u00eancia<br \/>\nno parlamento para derrotar a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O comendador era pois um pai constitucional representativo. Assistia com<br \/>\nimparcialidade \u00e0 luta dos partidos, reservando-se contudo o direito<br \/>\nde ensaiar habilmente o governo pessoal, quando fosse indispens\u00e1vel<br \/>\nao bem p\u00fablico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das tr\u00eas pretens\u00f5es confessadas, havia no c\u00edrculo<br \/>\ndo Soares um grande n\u00famero de esperan\u00e7as em bot\u00e3o, que<br \/>\nn\u00e3o ousavam desabrochar; mas tamb\u00e9m n\u00e3o se resolviam<br \/>\na murchar. Ah! a esperan\u00e7a \u00e9 uma das plantas mais vivazes que<br \/>\neu conhe\u00e7o; quando uma vez brotou no cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 meio de extirp\u00e1-la: \u00e9 como a urtiga. Embora o ferro<br \/>\na corte, rebenta de novo. S\u00f3 morre quando lhe esmigalham as ra\u00edzes.<\/p>\n<p>Assim, apesar de reconhecerem a impossibilidade de sua realiza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nessas esperan\u00e7as pululavam em torno da mo\u00e7a, como um bando de<br \/>\nbesouros verdes nas p\u00e9talas de uma rosa. Quando \u00e0 noite, depois<br \/>\nde algumas horas passadas na casa de Soares, se recolhiam, ao deitar-se balbuciava<br \/>\ncada uma em seu aposento, por este gosto mais ou menos:<br \/>\n&#8211; Este bigodinho!&#8230; pensava um, alisando diante do espelho o fino bu\u00e7o.<br \/>\nT\u00eam-se visto coisas!<br \/>\n&#8211; O caso \u00e9 que ela gosta bem de cantar comigo! sonhava outro, recordando<br \/>\num dueto do Hernani.<\/p>\n<p>&#8211; No fim de contas a eleg\u00e2ncia \u00e9 o fraco das mo\u00e7as,<br \/>\nmurmurava o terceiro, requebrando o talhe bem torneado.<\/p>\n<p>&#8211; Um homem que valsa como eu, chama aten\u00e7\u00e3o num baile. E o<br \/>\nque \u00e9 um baile sen\u00e3o a batalha campal, onde se conquista a beleza?<br \/>\nexclamava um jovem oficial que fez a campanha do Paraguai nas tert\u00falias<br \/>\nde Montevid\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Que ela me acha engra\u00e7ado, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida;<br \/>\nora, o riso \u00e9 o caminho do cora\u00e7\u00e3o, dizia um repetidor<br \/>\nde pilh\u00e9rias, esp\u00e9cie de bobo de sala, esfregando as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Estas e outras esperan\u00e7as viviam de ar, como os camale\u00f5es,<br \/>\ne como eles, mudavam constantemente de cor: ora tinham o verde risonho da<br \/>\nfolha que nasce, ora o amarelo bronzeado da folha mirrada pelo sol, que o<br \/>\nvento leva de envolta com o p\u00f3.<\/p>\n<h4><a id=\"9\" name=\"9\"><\/a>IX<\/h4>\n<p>Guida animava com a sua gra\u00e7a e gentileza os diversos grupos que se<br \/>\ntinham formado na sala.<\/p>\n<p>No sof\u00e1, onde se conversava, ia sentar-se um instante para ouvir<br \/>\ne interromper, excitando a r\u00e9plica e provocando o riso com suas travessuras.<br \/>\nNo piano aparecia de repente, tocava ou cantava alguma coisa \u00e0s pressas,<br \/>\ne aproximando-se da mesa, mostrava \u00e0s pessoas, que folheavam \u00e1lbuns,<br \/>\nlindas vistas da Su\u00ed\u00e7a, da Esc\u00f3cia, de Sintra e da Tijuca.<\/p>\n<p>O Guimar\u00e3es, que estava naquele dia em veia de felicidade, acompanhava<br \/>\na mo\u00e7a nessas evolu\u00e7\u00f5es com um certo ar pretencioso que<br \/>\nn\u00e3o escapava \u00e0s outras pessoas. Decididamente parecia que a<br \/>\nprefer\u00eancia se manifestava pelo mais jovem e mais elegante dos pretendentes;<br \/>\ntal foi pelo menos a opini\u00e3o das senhoras que nesta mat\u00e9ria<br \/>\nfalam de cadeira.<\/p>\n<p>O Dr. Nogueira, despeitado com o remoque da Guida, na ocasi\u00e3o do<br \/>\nalmo\u00e7o e a prop\u00f3sito da flor, conservava-se arredio; estava<br \/>\nainda no jardim fumando o seu charuto. Entretanto, quem o observasse com aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nconhecia que atrav\u00e9s das folhas das \u00e1rvores ele n\u00e3o perdia<br \/>\nde vista as janelas da sala.<\/p>\n<p>Bastos estava indeciso; n\u00e3o se animava a entrar em combate, nem se<br \/>\nresolvia a abandonar o campo. Recostado \u00e0 sacada pela parte de fora,<br \/>\nmas completamente voltado para dentro, observava a mo\u00e7a, sem contudo<br \/>\nesfor\u00e7ar-se por atrair-lhe a aten\u00e7\u00e3o. Bem desejava obter<br \/>\naquela ventura; mas sua imagina\u00e7\u00e3o ingrata n\u00e3o lhe suscitava<br \/>\num meio de realizar seu desejo.<\/p>\n<p>Teria decorrido cerda de uma hora depois do almo\u00e7o, quando Mrs. Trowshy<br \/>\nmostrou a Guida a figura esguia do Daniel em p\u00e9 na porta do interior.<br \/>\nA mo\u00e7a aproximou-se do criado, que lhe disse:<br \/>\n&#8211; Dei o recado; respondeu que h\u00e1 de escrever ao Sr. Comendador agradecendo.<\/p>\n<p>&#8211; Escrever? Perguntou Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o vem?<br \/>\n&#8211; Pode ser.<\/p>\n<p>&#8211; Bem!<br \/>\nGuida herdara do pai certa impetuosidade do desejo, que foi a origem da riqueza<br \/>\ndo capitalista, e devia exercer na vida da filha not\u00e1vel influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois do \u00faltimo encontro com Ricardo, naquela manh\u00e3, teve<br \/>\ndesejo de conhecer o advogado; desejo que revelou com franqueza na ocasi\u00e3o<br \/>\ndo almo\u00e7o, pedindo a Guimar\u00e3es que o apresentasse. N\u00e3o<br \/>\nconfiando por\u00e9m na promessa do mo\u00e7o, ao levantar-se da mesa,<br \/>\ntomou o bra\u00e7o do pai e preveniu-o de sua inten\u00e7\u00e3o de<br \/>\nmandar Daniel convidar a Ricardo da parte dele, Soares.<\/p>\n<p>&#8211; Manda! respondeu o pai com indiferen\u00e7a, habituado a confiar todas<br \/>\nessas min\u00facias dom\u00e9sticas a mulher, que as abandonava \u00e0<br \/>\nfilha.<\/p>\n<p>O Daniel partiu imediatamente; e o resultado de sua incumb\u00eancia acabava<br \/>\nele de comunic\u00e1-lo \u00e0 mo\u00e7a, com a sua imperturb\u00e1vel<br \/>\ngravidade.<\/p>\n<p>&#8211; Is he coming? (Vem?), perguntou Mrs. Trowshy.<\/p>\n<p>Guida disse que n\u00e3o, com um ligeiro aceno de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Why not? (Por que n\u00e3o?)<br \/>\nNovo aceno exprimiu a ignor\u00e2ncia da mo\u00e7a a respeito do motivo<br \/>\npor que Ricardo n\u00e3o vinha. Contudo o tato de sua alma de mulher lhe<br \/>\nindicava, embora vagamente, a natureza daquele motivo.<\/p>\n<p>&#8211; Ele \u00e9 pobre, pensava ela, muito pobre; h\u00e1 de ser suscet\u00edvel<br \/>\nportanto.<\/p>\n<p>Talvez Ricardo se ofendesse com o convite, feito por interm\u00e9dio de<br \/>\num criado; e a sua resposta de que havia de &#8220;escrever agradecendo&#8221;,<br \/>\nmanifestava bem seu pensamento: era mais do que um simples criado: era um<br \/>\nhomem da confian\u00e7a de seu pai. O convite por este interm\u00e9dio<br \/>\nparecia-lhe t\u00e3o delicado, como por carta, sem a solenidade que ela<br \/>\njustamente n\u00e3o lhe queira dar.<\/p>\n<p>Se Guida desejava anteriormente a presen\u00e7a do mo\u00e7o em sua<br \/>\ncasa, agora mais que nunca. Duas raz\u00f5es atuavam em seu esp\u00edrito.<br \/>\nA contrariedade do obst\u00e1culo e a vontade de desvanecer uma ofensa involunt\u00e1ria.<br \/>\nO que fora at\u00e9 ent\u00e3o uma lembran\u00e7a delicada apenas, mudava-se<br \/>\nem capricho.<\/p>\n<p>Capricho? Quem n\u00e3o sabe o que isso \u00e9? A palavra o est\u00e1<br \/>\ndizendo. \u00c9 a alma da mulher que se precipita sobre uma id\u00e9ia,<br \/>\ncom a mesma temer\u00e1ria vivacidade e petul\u00e2ncia da cabra selvagem<br \/>\na arremessar-se pelas arestas do despenhadeiro.<\/p>\n<p>Guida sentou-se ao piano e come\u00e7ou a preludiar. N\u00e3o tardou<br \/>\nque o Guimar\u00e3es se aproximasse, atra\u00eddo pelo \u00edm\u00e3,<br \/>\ne bordasse sobre o tema da m\u00fasica uma dessas falas que parecem um croch\u00ea<br \/>\nde palavras de diversas cores. A mo\u00e7a tomou interesse na conversa,<br \/>\ne prolongou-a por algum tempo; mas interrompeu-se de repente como se lhe ocorresse<br \/>\numa id\u00e9ia:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o pretende apresentar hoje seu amigo, Sr. Guimar\u00e3es?<br \/>\n&#8211; Como? Que amigo?<br \/>\n&#8211; J\u00e1 se esqueceu? Com efeito!<br \/>\n&#8211; Ah! lembro-me. O Nunes. Mas hoje?<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o quando h\u00e1 de ser?<br \/>\n&#8211; Qualquer outro dia.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o for hoje, que ele est\u00e1 na Tijuca, nunca mais o senhor<br \/>\nachar\u00e1 uma ocasi\u00e3o para apresent\u00e1-lo. Amanh\u00e3 estou<br \/>\ncerta que j\u00e1 nem se lembrar\u00e1 disso!<br \/>\n&#8211; Sou esquecido, \u00e9 verdade; mas da senhora, D. Guida, lembro-me at\u00e9<br \/>\ndemais.<\/p>\n<p>&#8211; Pois lembre-se menos de mim, para se lembrar mais do que prometeu a meu<br \/>\npai. V\u00e1 buscar o amigo!<br \/>\n&#8211; Agora?<br \/>\n&#8211; Neste momento, disse Guida levantando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se n\u00e3o sei onde ele est\u00e1!<br \/>\n&#8211; Daniel h\u00e1 de saber. Vou dizer-lhe que sele o seu cavalo e o acompanhe.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 porta, a mo\u00e7a deu as ordens necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, D. Guida, confesso-lhe que poucas rela\u00e7\u00f5es tenho com<br \/>\no Nunes; depois que nos formamos h\u00e1 seis anos, \u00e9 a primeira<br \/>\nvez que nos encontramos. Mesmo em S\u00e3o Paulo, nunca fomos amigos; apenas<br \/>\nconhecidos. Chegou \u00e0 corte, n\u00e3o o visitei. N\u00e3o me julgo<br \/>\npois com direito a procur\u00e1-lo assim de repente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tudo isto o senhor devia ter pensado antes de se comprometer: agora tenha<br \/>\npaci\u00eancia. Seu pai costuma dizer que d\u00edvidas n\u00e3o se perdoam.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda h\u00e1 uma raz\u00e3o. Eu sei que o Nunes p\u00f4s aqui um<br \/>\nescrit\u00f3rio de advocacia, porque vi o an\u00fancio; mas se procede<br \/>\nbem, se \u00e9 homem fino, capaz de entrar na primeira sociedade, ignoro.<br \/>\nN\u00e3o posso portanto tomar sobre mim a responsabilidade de trazer \u00e0<br \/>\ncasa do comendador um mo\u00e7o que pode praticar algum ato&#8230;<\/p>\n<p>Guida sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Esse receio n\u00e3o tenha: eu o absolvo da responsabilidade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o comendador?<br \/>\n&#8211; Fica por minha conta.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o devo abusar.<\/p>\n<p>Guida olhou o mo\u00e7o com ar resoluto:<br \/>\n&#8211; O senhor n\u00e3o vai?<br \/>\n&#8211; A senhora fica zangada comigo?<br \/>\n&#8211; Oh! n\u00e3o; muito agradecida ao contr\u00e1rio!<br \/>\nSoltando essa frase cheia de ironia, a mo\u00e7a deixou o Guimar\u00e3es<br \/>\natordoado; e voltou-se para sua mestra, que lia nesse momento um n\u00famero<br \/>\nda Illustrated London News.<\/p>\n<p>&#8211; Mrs. Trowshy, a senhora hoje h\u00e1 de jantar perto do Sr. Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>Se ainda restava ainda alguma hesita\u00e7\u00e3o no esp\u00edrito<br \/>\ndo filho do procurador, desvaneceu-se de s\u00fabito e completamente diante<br \/>\ndaquela terr\u00edvel amea\u00e7a. Jantar perto da inglesa significava<br \/>\no mesmo que ficar-lhe hipotecado pelo resto da tarde e por toda a noite. Para<br \/>\nevitar essa calamidade, Guimar\u00e3es entendeu que n\u00e3o lhe restava<br \/>\noutra sa\u00edda sen\u00e3o obedecer ao capricho da menina partindo em<br \/>\nbusca do colega.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vou, D. Guida!<br \/>\n&#8211; Ah! Esquecia-me dizer-lhe que seu colega tem um amigo, um companheiro; \u00e9<br \/>\npreciso convidar a ambos.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhora; cumprirei a sua ordem. Mas n\u00e3o me condene a jantar<br \/>\nperto da mestra.<\/p>\n<p>&#8211; Se trouxer quem o substitua! disse Guida rindo.<\/p>\n<p>&#8211; Fica a meu cuidado!<br \/>\nGuimar\u00e3es montou a cavalo e partiu com o Daniel. Todo esse epis\u00f3dio<br \/>\nn\u00e3o escapou, nem ao Bastos recostado \u00e0 janela, nem ao Nogueira<br \/>\nque passeava no jardim. O \u00faltimo n\u00e3o vira o di\u00e1logo trocado<br \/>\nentre a Guida e o Guimar\u00e3es; mas bastou a partida deste, acompanhado<br \/>\npelo criado da casa, para excitar-lhe apreens\u00f5es.<\/p>\n<p>Animado pela aus\u00eancia dos dois competidores, s\u00f3 em campo, o<br \/>\nBastos, mais desassombrado de esp\u00edrito, descobriu afinal o meio de<br \/>\nsolicitar a aten\u00e7\u00e3o da filha do milion\u00e1rio:<br \/>\n&#8211; D. Guida! disse ele com a voz um pouco tr\u00eamula.<\/p>\n<p>&#8211; Chamou-me? Perguntou-lhe a mo\u00e7a voltando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Como h\u00e1 de querer ent\u00e3o os brincos?<br \/>\n&#8211; Que brincos, Sr. Bastos?<br \/>\n&#8211; Pois n\u00e3o me pediu no almo\u00e7o para mandar fazer-lhe uns brincos<br \/>\ndo feitio dessa flor? Replicou o corretor rubro como um tenor sem voz quando<br \/>\nd\u00e1 um d\u00f3 de nariz.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade. Desculpe-me; n\u00e3o me lembrava assim de repente.<br \/>\nDepois lhe darei uma flor para servir de modelo.<\/p>\n<p>&#8211; Esta que a senhora tem?<br \/>\n&#8211; Esta ou outra, \u00e9 indiferente, observou a mo\u00e7a com inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bastos perturbou-se, e nesse intervalo a aten\u00e7\u00e3o de Guida<br \/>\nse desviou para outro lado, de modo que achou-se o corretor outra vez na mesma<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o cruel em que estava anteriormente, recostado \u00e0<br \/>\njanela e atado ao seu acanhamento, que era para ele um rochedo de T\u00e2ntalo.<\/p>\n<p>No meio das paix\u00f5es que se agitavam em torno dela, Guida conservava,<br \/>\ndevido a seu recato e altivez natural, uma grande serenidade. Quando alguma<br \/>\nvez uma palavra mais significativa ou uma alus\u00e3o mais direta a vinha<br \/>\nprovocar, ela a afastava com a sua ironia, ou com essa express\u00e3o de<br \/>\nindiferen\u00e7a que perturbava o Bastos.<\/p>\n<p>Assim permanecia estranha \u00e0 luta de que era objeto. Sua alma pura<br \/>\nplanava como um astro sobre as vagas que a ambi\u00e7\u00e3o ou o amor<br \/>\nsublevavam naqueles cora\u00e7\u00f5es. As bonan\u00e7as, como as tempestades,<br \/>\ndesse oceano, se eram produzidas por sua influ\u00eancia celeste, n\u00e3o<br \/>\na atingiam: ela brilhava sempre com o mesmo esplendor e a mesma limpidez.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, suas palavras, seus olhares, seus menores gestos, eram<br \/>\nestudados por adoradores, como por indiferentes, e interpretados ao sabor<br \/>\nde cada um. A mo\u00e7a incomodava-se muito com isso; retra\u00eda-se;<br \/>\ntornava-se cada vez mais reservada, constrangendo sua jovialidade e franqueza.<br \/>\nN\u00e3o obstante o c\u00edrculo em que vivia, obstinava-se em dar a quanto<br \/>\nela dizia ou fazia, uma significa\u00e7\u00e3o oculta misteriosa.<\/p>\n<p>Uma noite sucedeu dan\u00e7ar duas quadrilhas com o mesmo par; t\u00e3o<br \/>\nindiferente lhe era o sujeito que n\u00e3o se lembrou de j\u00e1 ter dan\u00e7ado<br \/>\ncom ele no princ\u00edpio da partida. O fato foi muito comentado, at\u00e9<br \/>\npor algumas amigas, que viram nele uma prefer\u00eancia manifesta. Guida<br \/>\naproveitou a ocasi\u00e3o para de uma vez p\u00f4r termo a essa insist\u00eancia<br \/>\nque a afligia.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho muito tempo para ser mo\u00e7a. Agora ainda sou crian\u00e7a<br \/>\ne quero s\u00ea-lo at\u00e9 dezoito anos. N\u00e3o cuido nessas coisas<br \/>\nde que os outros tanto se ocupam; s\u00f3 penso em divertir-me. Para mim<br \/>\n\u00e9 indiferente o par com quem dan\u00e7o, desde que for um homem delicado,<br \/>\nde boa sociedade. E assim quanto ao mais.<\/p>\n<p>Estavam presentes Nogueira, Bastos, Guimar\u00e3es, e muitos outros apaixonados<br \/>\nocultos. Momentos depois as palavras da mo\u00e7a, repetidas em v\u00e1rios<br \/>\ngrupos, eram conhecidas por todos.<\/p>\n<p>Guida dizia a verdade. Se era j\u00e1 mo\u00e7a na flor da beleza e<br \/>\nna gra\u00e7a, tinha contudo a ing\u00eanua isen\u00e7\u00e3o da menina.<br \/>\nSeu cora\u00e7\u00e3o ainda estava em bot\u00e3o; seus pensamentos,<br \/>\nembora alguma vez se embalassem nos sonhos azuis de um futuro risonho, eram<br \/>\nem geral absorvidos pelo estudo, ou pelo prazer dos passeios e divertimentos<br \/>\ninocentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o brincava mais com bonecas, \u00e9 verdade; suas bonecas eram<br \/>\n&#8220;Edgard&#8221; e &#8220;Sofia&#8221;, ou as flores de seu jardim. Mas tamb\u00e9m<br \/>\nningu\u00e9m a via tomar ares melanc\u00f3licos e atitudes pensativas,<br \/>\nsuspirar a cada instante, ou recitar poesias de amor, acentuando as frases<br \/>\napaixonadas do poeta. Em uma palavra, n\u00e3o era rom\u00e2ntica. Tinha<br \/>\na suas amigas afei\u00e7\u00e3o sincera; mas n\u00e3o lhes emprestava<br \/>\na linguagem ardente, que afetam certas mo\u00e7as, e que faz supor, sob<br \/>\npretexto de amizade, a expans\u00e3o de algum amor oculto, ou pelo menos<br \/>\nde um amor ideal criado pela imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso dificilmente podiam os adoradores de Guida iludir-se a respeito<br \/>\nde sua indiferen\u00e7a. As palavras da menina n\u00e3o tinham sentido<br \/>\namb\u00edguo, nem misteriosa alus\u00e3o; o olhar, o sorriso, o gesto<br \/>\neram transparentes e n\u00e3o conheciam o jogo cruel de semear esperan\u00e7as<br \/>\ne excitar desejos, para depois machuc\u00e1-los, como as flores ou as fitas<br \/>\nque se trouxe no cabelo.<\/p>\n<p>Assim o esp\u00edrito s\u00e9rio de Nogueira n\u00e3o se deixava embair<br \/>\npor seu amor-pr\u00f3prio; ele acreditava que Guida n\u00e3o dava a menor<br \/>\nprefer\u00eancia a qualquer de seus adoradores; mas pensava que de repende<br \/>\npodia seu cora\u00e7\u00e3o desabrochar, e nesse momento se despertariam<br \/>\nas impress\u00f5es gravadas n&#8217;alma da menina. Toda sua t\u00e1tica se<br \/>\nlimitava a imprimir no esp\u00edrito de Guida, como em uma cera branda,<br \/>\na admira\u00e7\u00e3o por seu talento e a confian\u00e7a em seu futuro<br \/>\nbrilhante.<\/p>\n<p>Mas, apesar de h\u00e1bil, o futuro deputado estava apaixonado pela mo\u00e7a,<br \/>\ne tanto bastava para tirar-lhe a calma necess\u00e1ria de seu plano. Assim,<br \/>\nna ocasi\u00e3o do almo\u00e7o, ouvindo referir o incidente do servi\u00e7o<br \/>\nprestado por Nunes, tivera uma suspeita; e para esclarec\u00ea-la fizera<br \/>\na prop\u00f3sito da flor uma alus\u00e3o que lhe valera a r\u00e9plica<br \/>\nir\u00f4nica da mo\u00e7a. Arrependera-se e esperava a primeira ocasi\u00e3o<br \/>\npara desvanecer a desagrad\u00e1vel impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram estas cismas que ainda o preocupavam no jardim, enquanto fumava o segundo<br \/>\ncharuto:<br \/>\n&#8211; Quem ser\u00e1 esse mo\u00e7o?&#8230; dizia ele consigo, arrancando distraidamente<br \/>\nas p\u00e9talas de uma rosa. Foi hoje a primeira vez? Guida passeia a cavalo<br \/>\ntodos os dias; n\u00e3o o ter\u00e1 encontrado anteriormente?&#8230; Algum<br \/>\nromance come\u00e7ado&#8230; quem sabe! O Guimar\u00e3es saiu com o criado.<br \/>\nAposto que foi em busca do sujeito para apresent\u00e1-lo hoje mesmo. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 d\u00favida! Por que motivo ela daria tamanha aten\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0quele boneco, se n\u00e3o fosse o desejo de obter dele um servi\u00e7o?<br \/>\nE o tolo prestou-se!&#8230;<\/p>\n<p>Nogueira meditou alguns instantes, e por fim murmurou:<br \/>\n&#8211; A coisa desta vez \u00e9 s\u00e9ria!<br \/>\nAtirando fora aponta do charuto, entrou na sala.<\/p>\n<h4><a id=\"10\" name=\"10\"><\/a>X<\/h4>\n<p>Enquanto sucediam estes fatos, Ricardo, a causa involunt\u00e1ria deles,<br \/>\nestava bem tranq\u00fcilo em casa de D. Joaquina.<\/p>\n<p>De volta do passeio, saboreou com o amigo o frugal almo\u00e7o da boa<br \/>\nsenhora. Ainda estavam \u00e0 mesa galhofando e rindo, quando ouviram o<br \/>\nsom do b\u00fazio, e pouco depois apareceu-lhes o Sim\u00e3o pescador,<br \/>\nalegre, corado e bem disposto.<\/p>\n<p>Trazia v\u00e1rias selhas de cip\u00f3 cheias de peixe; uma delas era<br \/>\ndestinada a D. Joaquina, a quem Gertrudes a mandava de presente.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! j\u00e1 est\u00e1 bom? Perguntou-lhe Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, senhor; para bem dizer, n\u00e3o tinha mol\u00e9stia; andava<br \/>\nbanzeiro, mas a mo\u00e7a me trouxe felicidade. Depois daquele dia em que<br \/>\nela ralhou comigo, o senhor bem viu, n\u00e3o h\u00e1 m\u00e3os a medir.<br \/>\n\u00c9 peixe tanto, que a rede quase n\u00e3o ag\u00fcenta.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom; estimo muito!<br \/>\nDepois de algumas palavras trocadas com a velha, o pescador despediu-se:<br \/>\n&#8211; Adeus, sinh\u00e1 dona. Ainda vou levar este peixe \u00e0 casa do comendador,<br \/>\no pai da mo\u00e7a. Bom fregu\u00eas!<br \/>\nEste fato deixou alguma impress\u00e3o no esp\u00edrito de Ricardo, que<br \/>\nlembrou-se da cena a que assistira domingo passado. Haver\u00e1 criaturas<br \/>\naben\u00e7oadas, que tenham o dom de comunicar aos outros sua influ\u00eancia<br \/>\nprop\u00edcia? pensou o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Tendo a presen\u00e7a do pescador despertado a lembran\u00e7a de Guida,<br \/>\nRicardo contou a F\u00e1bio o seu encontro pela manh\u00e3 e o incidente<br \/>\nda flor.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, creio que sempre tomamos a pra\u00e7a de assalto! exclamou F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o abandonas tua id\u00e9ia!<br \/>\n&#8211; Ora, se fosse comigo o encontro desta manh\u00e3, agora estaria eu almo\u00e7ando<br \/>\nem casa do Soares.<\/p>\n<p>&#8211; E de que te servia isto?<br \/>\n&#8211; De qu\u00ea?&#8230; \u00c9 bom que o dinheiro v\u00e1-se acostumando conosco,<br \/>\ne o meio \u00e9 chegarmo-nos \u00e0queles que o t\u00eam.<\/p>\n<p>&#8211; Receio ao contr\u00e1rio que nossa pobreza o importune, indo procur\u00e1-lo<br \/>\nno meio do luxo.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o prolongou-se. Os dois amigos ainda estavam empenhados<br \/>\nnela quando chegou o Daniel com a incumb\u00eancia que sabemos. Ricardo,<br \/>\na princ\u00edpio surpreso pelo convite que n\u00e3o esperava, n\u00e3o<br \/>\nhesitou na resposta que o portugu\u00eas transmitiu a Guida. F\u00e1bio<br \/>\ntomando o amigo de parte instou com ele para aceitar a fineza do capitalista;<br \/>\nmas nada obteve.<\/p>\n<p>&#8211; Decididamente, assim n\u00e3o iremos para adiante; \u00e9 desenganar,<br \/>\ndisse F\u00e1bio muito contrariado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tens raz\u00e3o; \u00e9 justamente assim que podemos merecer<br \/>\nconsidera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o aceitando uma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmenos digna. Reflete bem: que figura rid\u00edcula n\u00e3o hav\u00edamos<br \/>\nde fazer naquela sociedade?<br \/>\n&#8211; A mesma que fazem os outros. Nem todos que freq\u00fcentam a casa do Soares,<br \/>\ns\u00e3o ricos.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto; mas os que n\u00e3o t\u00eam um tratamento correspondente<br \/>\nou s\u00e3o amigos ou parasitas. Nenhum destes pap\u00e9is nos cabe.<\/p>\n<p>F\u00e1bio levantou os ombros. Tornou-lhe Ricardo:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sou desses homens que ostentam um desprezo fingido pelo dinheiro<br \/>\ne odeiam os favoritos da fortuna. Ao contr\u00e1rio, quando a riqueza \u00e9<br \/>\nhonestamente adquirida, eu a respeito e estimo, porque representa a meus olhos<br \/>\no fruto, t\u00e3o leg\u00edtimo como brilhante, do trabalho; mas em caso<br \/>\nalgum lhe sacrificarei minha dignidade: n\u00e3o me farei cortes\u00e3o<br \/>\ndessa como de qualquer outra grandeza da terra. O lisonjeiro para mim \u00e9<br \/>\num eunuco moral.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o um pobre n\u00e3o pode sem bajula\u00e7\u00e3o ter<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o com pessoas ricas? Que doutrina!<br \/>\n&#8211; Sem d\u00favida que pode, quando se estabelece uma certa igualdade social<br \/>\npor virtude de alguma causa, como, por exemplo, a amizade, o parentesco, uma<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o elevada, a considera\u00e7\u00e3o p\u00fablica,<br \/>\netc. Um escritor not\u00e1vel, embora nada tenha de seu, pode aceitar a<br \/>\nhospitalidade do milion\u00e1rio, porque trata de igual a igual; se este<br \/>\n\u00e9 rei na pra\u00e7a, ele \u00e9 rei na imprensa. Sua presen\u00e7a,<br \/>\nassim como a de todas as outras pessoas distintas, \u00e9 honra que os ricos<br \/>\nsolicitam.<\/p>\n<p>&#8211; Neste caso, tu que tens talento e escreves bem, devias aceitar o convite;<br \/>\nera uma honra que fazias ao Soares.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado pela ironia.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 a ironia?<br \/>\n&#8211; Somos dois pobret\u00f5es obscuros; eu podia acrescentar de minha parte,<br \/>\ne desconhecido, por que realmente o sou nesta grande cidade. Em casa de um<br \/>\nmilion\u00e1rio, no meio de uma sociedade habituada ao luxo e \u00e0s<br \/>\ngrandezas, qual seria nossa posi\u00e7\u00e3o? Creio que a classifico<br \/>\nbem dizendo que far\u00edamos o ponto de transi\u00e7\u00e3o entre o<br \/>\nparasita e o criado; formar\u00edamos o elo desses dois an\u00e9is da<br \/>\ncadeia.<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito! Mod\u00e9stia t\u00e3o requintada degenera em orgulho.<br \/>\nEntendes que n\u00e3o sendo dos primeiros, te rebaixas?<br \/>\n&#8211; \u00c9 outra fragilidade que eu n\u00e3o tenho, F\u00e1bio, esse fofo<br \/>\norgulho da pobreza, que serve de forro a um fingido desprezo da riqueza. N\u00e3o<br \/>\nme envergonho de ser pobre, de parec\u00ea-lo e confessar em qualquer ocasi\u00e3o;<br \/>\nmas estou longe de fazer da minha pobreza uma esp\u00e9cie de dorna de Di\u00f3genes.<br \/>\nA falta de dinheiro pesa-me, sem contudo me acabrunhar; e justamente porque<br \/>\nela me pesa, me elevo mais em minha consci\u00eancia, sentindo-me incapaz<br \/>\nde cobi\u00e7ar a fortuna adquirida por meios l\u00edcitos. Est\u00e1s<br \/>\nportanto enganado, meu amigo; n\u00e3o tenho orgulho, mas dignidade.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a mesma coisa com diverso nome.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o: o orgulho \u00e9 um impulso para elevar-se acima dos outros;<br \/>\na dignidade \u00e9 a firmeza, que n\u00e3o consente descer da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque nos compete. Ora, cada degrau que eu subisse da escada do Soares, era<br \/>\num passo que descia do meu n\u00edvel. Isolado no meio de tantos convidados,<br \/>\ndesconhecido naquela sociedade habitual, perguntariam: &#8220;Que veio aqui<br \/>\nfazer este sujeito? &#8211; Prestou um pequeno servi\u00e7o \u00e0 filha do<br \/>\ncomendador, responderia algum \u00edntimo; se fosse um criado, dava-se uma<br \/>\ngorjeta; mas como \u00e9 um pobre bacharel, convidaram-no a jantar&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Tu n\u00e3o conheces a sociedade do Rio de Janeiro; nunca a freq\u00fcentaste.<br \/>\nJulgas por S\u00e3o Paulo, ou por informa\u00e7\u00f5es falsas.<\/p>\n<p>&#8211; Conhe\u00e7o-a melhor do que tu, pela raz\u00e3o do prov\u00e9rbio<br \/>\n&#8220;que nos olhos dos outros v\u00ea-se o argueiro, e n\u00e3o se enxerga<br \/>\nno nosso o cavaleiro&#8221;. Bem sei que esses intrusos de que falo muitas<br \/>\nvezes, n\u00e3o s\u00f3 obt\u00eam a toler\u00e2ncia, como se tornam<br \/>\nnecess\u00e1rios; tocam quadrilhas, fazem dan\u00e7ar as feias, ou exaltam<br \/>\nas virtudes dos donos da casa. S\u00e3o os criados de gal\u00e3o amarelo<br \/>\ndos rica\u00e7os e banqueiros, ou um m\u00f3vel de pal\u00e1cio, necess\u00e1rio<br \/>\n\u00e0 comodidade e ao bem-estar, como um sof\u00e1 de estofo, um tapete<br \/>\naveludado, uma cadeira de balan\u00e7o. Um traste, bem v\u00eas, que n\u00e3o<br \/>\ntem consci\u00eancia do papel que representa; sai dali o tocador de quadrilhas,<br \/>\npor exemplo, acreditando que \u00e9 um amigo da casa, e dos mais estimados.<\/p>\n<p>&#8211; Se todos pensassem como tu, n\u00e3o haveria sociedade poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Se todos pensassem como eu, a sociedade n\u00e3o seria o que \u00e9<br \/>\nhoje, uma floresta negra, onde o salteador de luva de pelica assalta o homem<br \/>\nhonesto; onde o assassinato e o roubo tomam tantas vezes o nome de casamento<br \/>\npor amor e de alian\u00e7a por amizade.<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00ea pois quanto era dif\u00edcil a miss\u00e3o de<br \/>\nque estava incumbido o Guimar\u00e3es. Segundo todas as probabilidades,<br \/>\no filho do procurador n\u00e3o escaparia naquele domingo ao recrutamento<br \/>\na que Guida o condenara no caso de n\u00e3o apresentar substituto id\u00f4neo.<br \/>\nTinha de sentar pra\u00e7a de cavaleiro servente de Mrs. Trowshy, pelo resto<br \/>\ndo dia.<\/p>\n<p>Para destruir os escr\u00fapulos porventura exagerados de Ricardo, e demov\u00ea-lo<br \/>\nde sua primeira resolu\u00e7\u00e3o, fora preciso um esp\u00edrito h\u00e1bil<br \/>\ne atilado, que sondasse os motivos de sua recusa e os abalasse. Ora, o Guimar\u00e3es<br \/>\nera a mais positiva denega\u00e7\u00e3o dessas qualidades; s\u00f3 tinha<br \/>\nviveza para as frioleiras; incapaz de sentir, como de compreender as nobres<br \/>\nsuscetibilidades da alma do colega, nunca poderia desvanecer-lhe a repugn\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, nenhum tipo t\u00e3o pr\u00f3prio para arredar<br \/>\ncada vez mais o jovem advogado da casa do Soares! O enfatuamento da riqueza,<br \/>\na impertin\u00eancia do herdeiro a quem a vida do pai retarda o gozo da leg\u00edtima,<br \/>\na ambig\u00fcidade dessa posi\u00e7\u00e3o no meio de um passado de d\u00edvidas<br \/>\ne de um futuro de dissipa\u00e7\u00e3o faziam daquele mo\u00e7o o contraste<br \/>\nvivo de quanto h\u00e1 de delicado no cora\u00e7\u00e3o e de sensato<br \/>\nno esp\u00edrito.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a, a simples presen\u00e7a daquele boneco, a torcer constantemente<br \/>\no bigodinho, e a mirar-se todo em si mesmo, quando n\u00e3o encontrava um<br \/>\nespelho, produzia em um homem s\u00e9rio o efeito de uma lixa moral: eri\u00e7ava<br \/>\na epiderme d&#8217;alma. Essa fora a impress\u00e3o que pela manh\u00e3, na<br \/>\nocasi\u00e3o do passeio, o Guimar\u00e3es deixara no \u00e2nimo do colega,<br \/>\napesar de trocarem apenas algumas palavras.<\/p>\n<p>Guida, pois, tinha errado. Querendo apressar a apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Ricardo, talvez a tivesse impedido. Se o Guimar\u00e3es n\u00e3o fosse<br \/>\n\u00e0 procura do mo\u00e7o, porventura um concurso de circunst\u00e2ncias<br \/>\nlevaria o jovem advogado \u00e0 casa do comendador. Entretanto, agora, quem<br \/>\nsabe se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se agravou, e a dificuldade mudou-se<br \/>\nem impossibilidade? a mo\u00e7a n\u00e3o podia prever todos os escr\u00fapulos<br \/>\nde Ricardo; supunha que o obst\u00e1culo provinha apenas de uma quest\u00e3o<br \/>\nde forma. Entretanto, cumpre confess\u00e1-lo, n\u00e3o tinha ela plena<br \/>\nconfian\u00e7a na interven\u00e7\u00e3o do Guimar\u00e3es; o que at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o lhe parecera t\u00e3o usual, uma simples apresenta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nagora se afigurava a seu esp\u00edrito como um acontecimento, e quase tomava<br \/>\nas propor\u00e7\u00f5es de um lance dram\u00e1tico.<\/p>\n<p>O Dr. Nogueira, sentando-se perto dela, tomara sobre a mesa um \u00e1lbum<br \/>\nde paisagens da Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem vontade de passear \u00e0 Europa, D. Guida? disse ele<br \/>\nfolheando o \u00e1lbum.<\/p>\n<p>&#8211; Muita; por meu gosto j\u00e1 teria ido; mas papai prometeu-me que nestes<br \/>\ntr\u00eas anos me levaria.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ir antes, disse uma senhora sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade! Acudiu outra que tinha compreendido a mal\u00edcia<br \/>\nda observa\u00e7\u00e3o. E sem o comendador!<br \/>\nO futuro deputado abaixara a cabe\u00e7a, e parecia completamente absorvido<br \/>\nem ver as estampas. Recordava-se do incidente da flor, e n\u00e3o queria<br \/>\nprovocar segundo motejo, quando procurava apagar a impress\u00e3o do primeiro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o entendo! dissera Guida fitando seu l\u00edmpido olhar no<br \/>\nsemblante da senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Casando-se, Guida. Agora \u00e9 moda; as mo\u00e7as que podem v\u00e3o<br \/>\npassar a lua-de-mel em Paris.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bem poss\u00edvel que me case antes de tr\u00eas anos, D.<br \/>\nGuilhermina; mas asseguro-lhe que n\u00e3o me lembro disso.<\/p>\n<p>Guida pronunciou estas palavras com a maior calma. As cont\u00ednuas alus\u00f5es<br \/>\na esse assunto, banalidades com que de ordin\u00e1rio se entret\u00eam<br \/>\nas mo\u00e7as, a tinham habituado. Longe de corar ou perturbar-se, como<br \/>\naquelas que sofrem desse fraco, ficava t\u00e3o serena como se lhe falassem<br \/>\ndo baile que havia de festejar os seus dezoito anos.<\/p>\n<p>&#8211; Altdorf!&#8230; disse o Dr. Nogueira em meio solil\u00f3quio observando<br \/>\na vista da cidade su\u00ed\u00e7a. \u00c9 a p\u00e1tria do libertador:<br \/>\nde Guilherme Tell!<br \/>\nGuida lan\u00e7ara os olhos \u00e0 estampa.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora recorda-se do fato? \u00c9 o assunto de uma das mais belas<br \/>\n\u00f3peras do grande maestro, do imortal Rossini. Um elegante escritor<br \/>\nfranc\u00eas, M\u00e9ry, observa com muito chiste, que esse primor de harmonia,<br \/>\na m\u00fasica t\u00e3o sublime do autor da Sem\u00edramis, foi escrito<br \/>\nsobre um libreto indigesto, sem merecimento e at\u00e9 sem gram\u00e1tica.<br \/>\nIsto prova, minhas senhoras, que o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa<br \/>\npara ser eloq\u00fcente nem de sintaxe, nem de ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 se representou aqui no Rio de Janeiro essa \u00f3pera? perguntou<br \/>\nD. Guilhermina.<\/p>\n<p>&#8211; Guilherme Tell? Sim, minha senhora; h\u00e1 muitos anos.<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9 o enredo?<br \/>\n&#8211; \u00c9 com alguns epis\u00f3dios o fato hist\u00f3rico. Sabe que Gessler,<br \/>\ngovernador da Su\u00ed\u00e7a e homem cruel, aborrecido com a fama de<br \/>\nbom archeiro que tinha um campon\u00eas, chamado Wilhelm, teve o b\u00e1rbaro<br \/>\ncapricho de obrig\u00e1-lo a atirar ao alvo em uma ma\u00e7\u00e3 colocada<br \/>\nsobre a cabe\u00e7a do filho. Embora tivesse o archeiro plena confian\u00e7a<br \/>\nem sua destreza, a id\u00e9ia de que uma linha podia fazer dele um assassino<br \/>\nde seu pr\u00f3prio filho, o enchia de terror. Mas o que n\u00e3o pode<br \/>\na vontade do homem? A flecha arrebatou a ma\u00e7\u00e3 da cabe\u00e7a<br \/>\ndo menino inc\u00f3lume. Contudo o pai j\u00e1 tinha outra embebida no<br \/>\narco. &#8220;Para que esta segunda flecha?&#8221; perguntou o tirano.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Para ti, se eu tivesse a desgra\u00e7a de ferir meu filho&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Bonito, n\u00e3o \u00e9, Guida?<br \/>\n&#8211; \u00c9 com efeito admir\u00e1vel, continuou o doutor; entretanto a per\u00edcia<br \/>\ndo alem\u00e3o nada \u00e9 a vista da destreza dos selvagens do Brasil.<br \/>\nEstes faziam coisas incr\u00edveis.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras?<br \/>\n&#8211; Furavam os olhos de um p\u00e1ssaro a voar; e flechavam o peixe dentro<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>&#8211; Que vista! acudiu D. Guilhermina.<\/p>\n<p>&#8211; Este ponto indica o lugar donde Guilherme Tell atirou. Aqui ele pronunciou<br \/>\naquela palavra que foi o primeiro grito de liberdade de sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ent\u00e3o o Ipiranga da Su\u00ed\u00e7a? disse Guida sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Justamente; mas o nosso Ipiranga n\u00e3o tem uma fonte, nem sequer<br \/>\numa l\u00e1pida, que comemore o dia 7 de Setembro. Bajulam-se os reis e<br \/>\nos grandes; mas n\u00e3o se honra a na\u00e7\u00e3o. Quando eu for deputado,<br \/>\nhei de advogar esta causa, que \u00e9 a dos brios nacionais.<\/p>\n<p>O doutor voltou a p\u00e1gina:<br \/>\n&#8211; Esta \u00e9 Friburgo, c\u00e9lebre por sua ermida, que um homem s\u00f3,<br \/>\ncavou na rocha viva trabalhando 25 anos; verdadeiro milagre de f\u00e9 e<br \/>\npaci\u00eancia. J\u00e1 ouvi contar um fato an\u00e1logo, sucedido em<br \/>\nMinas; mas esse, a ser verdadeiro, \u00e9 mais para admirar porque foi um<br \/>\naleijado dos bra\u00e7os que trabalhava com os p\u00e9s, e assim construiu<br \/>\numa capela. Desta cidade de Friburgo assim vieram os primeiros colonos que<br \/>\nfundaram a nossa cidade do mesmo nome.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Nova Friburgo. O ano passado l\u00e1 estivemos! exclamou uma travessa<br \/>\nmenina.<\/p>\n<p>&#8211; Eis Genebra e o seu belo lago; \u00e9 a p\u00e1tria de Rousseau, de<br \/>\nCalvino, de Sta\u00ebl e outros personagens ilustres.<\/p>\n<p>Continuou Nogueira por algum tempo essa viagem a v\u00f4o de pensamento<br \/>\npelas montanhas da pitoresca Helv\u00e9cia, que ele tinha visitado havia<br \/>\ntr\u00eas anos. Descreveu o aspecto dos campos e bosques durante o inverno,<br \/>\ne aquela natureza \u00e1spera e desabrida, que educa o homem para os grandes<br \/>\ncometimentos, ensinando-lhe o trabalho, como uma defesa contra o frio e a<br \/>\nfome.<\/p>\n<p>Guida e as senhoras o escutavam embebidas, quando o Guimar\u00e3es passou<br \/>\ndefronte da janela.<\/p>\n<p>&#8211; Onde iria o Guimar\u00e3es? Perguntou o doutor com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Foi convidar a pessoa que ele ficou de nos apresentar, respondeu Guida<br \/>\ncom a maior naturalidade.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ergueu-se para saber o resultado da comiss\u00e3o. O Guimar\u00e3es<br \/>\nvinha nadando em satisfa\u00e7\u00e3o; de ordin\u00e1rio o porte do<br \/>\nmo\u00e7o e a sua compostura manifestavam o enlevo que ele sentia da pr\u00f3pria<br \/>\npessoa. Naquele momento, por\u00e9m, era uma aleluia viva.<\/p>\n<p>A filha do comendador e o Nogueira conjenturaram que o Guimar\u00e3es<br \/>\nfora bem sucedido, mas cada um a seu modo.<\/p>\n<p>&#8211; Vem; pensou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vem, felizmente! cogitou o doutor.<\/p>\n<p>O Nogueira n\u00e3o sabia da penit\u00eancia que estava reservada ao<br \/>\nGuimar\u00e3es; por isso entendia que o motivo de sua satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nera ver-se livre do novo e tem\u00edvel competidor, depois de haver delicadamente<br \/>\ncondescendido com o desejo da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o? perguntou Guida ao filho do procurador.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s quatro horas c\u00e1 est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigada, disse a menina apertando-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava satisfeito seu capricho; n\u00e3o pensou mais nisso. Poucos instantes<br \/>\ndepois, Nogueira encontrou-se com Guimar\u00e3es:<br \/>\n&#8211; J\u00e1 sei que foi infeliz em sua embaixada.<\/p>\n<p>&#8211; Nada. Fiz como Napole\u00e3o; foi s\u00f3 ir, ver e vencer.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho ouvido atribuir estas palavras a C\u00e9sar, replicou o doutor;<br \/>\nmas naturalmente h\u00e1 erros nos historiadores.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e9sar ou Napole\u00e3o, \u00e9 a mesma coisa, com a diferen\u00e7a<br \/>\nde falar um o latim e o outro o franc\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Neste caso as palavras que citou devem ser de algum C\u00e9sar em portugu\u00eas.<br \/>\nMas ent\u00e3o o sujeito vem? E o senhor chama a isto vencer? acrescentou<br \/>\nNogueira chasqueando.<\/p>\n<p>O Guimar\u00e3es tinha com efeito vencido; mas n\u00e3o como ele dizia,<br \/>\n\u00e0 maneira de C\u00e9sar, em tr\u00eas tempos &#8211; veni, vidi, vici.<br \/>\nHavia nisso mod\u00e9stia de sua parte. Fora mais do que C\u00e9sar; mais<br \/>\ndo que Alexandre: cortara o n\u00f3 g\u00f3rdio com um rev\u00e9s da<br \/>\nl\u00edngua. N\u00e3o tivera tempo de chegar, nem de ver, e j\u00e1<br \/>\ntinha vencido; bastou-lhe abrir a boca.<\/p>\n<p>A coisa se passara deste modo. Pr\u00f3ximo \u00e0 casa de D. Joaquina,<br \/>\nGuimar\u00e3es encontrou F\u00e1bio; este o desenganou. Atordoado, saiu-se<br \/>\no Guimar\u00e3es com uma pachouchada:<br \/>\n&#8211; Quem sabe se o Nunes n\u00e3o pregou algum calote no comendador e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Boa id\u00e9ia! Atalhou F\u00e1bio a rir. Sabe que mais! L\u00e1<br \/>\nvamos comer o jantar do homem.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe l\u00e1!<br \/>\n&#8211; Com certeza!&#8230; Eu me incumbo do neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e0s quatro horas?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sem falta.<\/p>\n<h4><a id=\"11\" name=\"11\"><\/a>XI<\/h4>\n<p>Tinham dado tr\u00eas horas da tarde.<\/p>\n<p>Guida recolhera a seu aposento; era o momento de vestir-se para o jantar.<\/p>\n<p>Sentada defronte do toucador, percorria com os olhos os dois guarda-roupas,<br \/>\ncheios de vestidos de v\u00e1rios gostos e padr\u00f5es. Conhecia-se que<br \/>\nestava embara\u00e7ada na escolha, e esperava alguma inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\npara improvisar a ode de gaze, seda e rendas, que escrevem cada dia as senhoras<br \/>\nelegantes.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas esp\u00e9cies de faceirice.<\/p>\n<p>Uma \u00e9 inocente e pura expans\u00e3o da beleza. A mulher bonita<br \/>\nobedece a uma lei da natureza, revelando-se na plenitude de sua gra\u00e7a;<br \/>\nenfeita-se, como a flor desabrocha, como a estrela cintila, como o c\u00e9u<br \/>\nse anila. Deus criou tais primores para serem admirados.<\/p>\n<p>Esta faceirice \u00e9 casta, sem afeta\u00e7\u00e3o; seu desejo resume-se<br \/>\nem ser natural, em revelar a gentileza pr\u00f3pria no maior brilho. \u00c9<br \/>\na poesia de Hor\u00e1cio, a m\u00fasica de Bellini, a pintura de Rafael,<br \/>\ncopiadas no traje da mulher formosa.<\/p>\n<p>A outra faceirice consiste em uma orgulhosa ostenta\u00e7\u00e3o da<br \/>\nbeleza. A mulher n\u00e3o cede \u00e0 for\u00e7a espont\u00e2nea de<br \/>\nseu organismo, mas ao est\u00edmulo da vaidade. Adorna-se como o cristal<br \/>\nque imita o diamante, ou como a centelha que se afigura uma estrela na treva<br \/>\nda noite. \u00c9 linda. Mas pretende ser espl\u00eandida.<\/p>\n<p>Esta faceirice vive da afeta\u00e7\u00e3o, que transforma uma criatura<br \/>\nhumana em um aleij\u00e3o da moda. N\u00e3o se contenta com ser admirada;<br \/>\nexige a adora\u00e7\u00e3o, o culto ardente de todos que a contemplam,<br \/>\nembora tenha de pagar com olhares e sorrisos o incenso que lhe queimam aos<br \/>\np\u00e9s.<\/p>\n<p>Guida n\u00e3o tinha decerto esta faceirice de mau cunho, esp\u00e9cie<br \/>\nde ouro-pel da beleza; mas sentia, como toda a mo\u00e7a bonita, o desejo<br \/>\ninato de ser castamente admirada. Naquele dia esse desejo adquiria a intensidade<br \/>\nque costuma em ocasi\u00f5es de espet\u00e1culos, festas e bailes.<\/p>\n<p>Entretanto nada disso havia em casa do comendador Soares. Era o jantar habitual<br \/>\ndos domingos, talvez menos concorrido do que em semanas anteriores. Afora<br \/>\nas pessoas que tinham assistido ao almo\u00e7o, ningu\u00e9m mais se esperava<br \/>\nal\u00e9m dos dois bachar\u00e9is; mas a presen\u00e7a destes n\u00e3o<br \/>\ndava decerto o car\u00e1ter de uma festa \u00e0quela simples reuni\u00e3o<br \/>\ncampestre.<\/p>\n<p>Quem pudesse acompanhar o pensamento de Guida, nessa ocasi\u00e3o, conheceria<br \/>\nsem d\u00favida a causa de seu embara\u00e7o na escolha do vestu\u00e1rio.<br \/>\nA menina, recostada na cadeira, tinha come\u00e7ado a cal\u00e7ar um par<br \/>\nde botinas cor de p\u00e9rola; mas de repente se distra\u00edra, permanecendo<br \/>\nna mesma posi\u00e7\u00e3o, com o pezinho mimoso cruzado sobre o joelho<br \/>\ne os olhos fitos no espelho, onde parecia rastrear a sombra das cogita\u00e7\u00f5es<br \/>\nque lhe perpassavam na fronte pura.<\/p>\n<p>Guida lembrava-se de seu primeiro encontro com Ricardo, e da s\u00e9rie<br \/>\nde impress\u00f5es que se tinham gravado em seu esp\u00edrito desde aquele<br \/>\nmomento.<\/p>\n<p>Rindo-se da atitude de namorado em que vira o mo\u00e7o, e aproveitando<br \/>\no pretexto para brincar com sua mestra, a menina pouca import\u00e2ncia deu<br \/>\n\u00e0quele pequeno incidente; e j\u00e1 o tinha completamente esquecido,<br \/>\nquando, na volta do passeio, ouvira casualmente um trecho da conversa dos<br \/>\ndois amigos.<\/p>\n<p>Como todas as pessoas que vivem na alta sociedade e em posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuperior, Guida estava acostumada \u00e0 maledic\u00eancia. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nestranhava, quando via uma a\u00e7\u00e3o ou uma palavra acremente censurada<br \/>\npela mordacidade e pela inveja. Ela pr\u00f3pria na sua qualidade de dote<br \/>\nmilion\u00e1rio, disputado por tantos adoradores, n\u00e3o era um altar<br \/>\nonde se queimavam como incenso tantos despeitos e ci\u00fames?<br \/>\nEntretando a palavra grave de Ricardo, a opini\u00e3o severa desse desconhecido,<br \/>\npronunciada com a calma e firmeza da raz\u00e3o, traspassou a alma da mo\u00e7a<br \/>\nde uma sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel. O olhar que ela deixou<br \/>\ncair sobre os dois mo\u00e7os, foi de desdenhosa altivez; mas a eletricidade<br \/>\ndo lampejo bem indicava que o cora\u00e7\u00e3o se confrangera, e o c\u00e9u<br \/>\ndessa alma pura se toldara.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! dizia Guida interiormente ao chegar \u00e0 casa, que me importa<br \/>\na opini\u00e3o desse mo\u00e7o a meu respeito! N\u00e3o tenho ju\u00edzo?&#8230;<br \/>\nMas n\u00e3o ando aos beijos com as flores que encontro! N\u00e3o pare\u00e7o<br \/>\numa crian\u00e7a, apesar de ter dezesseis anos?&#8230; Se h\u00e1 homens que,<br \/>\nmesmo de cabelos brancos, ainda s\u00e3o meninos&#8230; N\u00e3o \u00e9<br \/>\nde admirar&#8230;<\/p>\n<p>Durante o resto do dia n\u00e3o se lembrou do incidente; mas \u00e0<br \/>\ntarde, a cena provocada por &#8220;Sofia&#8221; avivou as impress\u00f5es<br \/>\nda manh\u00e3, dando-lhes por\u00e9m novo aspecto. O mancebo, que lhe<br \/>\naparecera de manh\u00e3 como um pensador grave, mostrava-se agora elegante<br \/>\ncavaleiro; por outro lado, ela, que se queixara interiormente da censura do<br \/>\ndesconhecido, n\u00e3o acabava de a justificar arriscando a vidad e um homem<br \/>\ncom um de seus caprichos, a posse da cachorrinha mal-educada?<br \/>\nQuando Ricardo desapareceu na volta do caminho, uma voz murmurou num cantinho<br \/>\nda consci\u00eancia:<br \/>\n&#8211; Ele tinha raz\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Depois estas preocupa\u00e7\u00f5es se afogaram de novo no entretenimento<br \/>\nda conversa e da m\u00fasica. S\u00f3 ressurgiram um momento, antes de<br \/>\nadormecer, nesse crep\u00fasculo da alma entre a vig\u00edlia e o sono,<br \/>\nquando as impress\u00f5es do dia flutuam vagamente diante do esp\u00edrito<br \/>\ncomo objetos que se imegem na sombra.<\/p>\n<p>A imagem de Ricardo beijando a flor perpassou no meio da vis\u00e3o. Nessa<br \/>\nhora em que a travessura do g\u00eanio alegre j\u00e1 estava sopitada,<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o expandiu-se. Guida pensou que devia ser ardente e<br \/>\nsincero aquele amor que exalava, no ermo, \u00e0 face de Deus; talvez fosse<br \/>\num amor infeliz.<\/p>\n<p>Se eu pudesse saber a sua hist\u00f3ria!<br \/>\nAdormeceu; e sonhou que encontrara a florzinha agreste cor de ouro, e que<br \/>\nesta lhe contara a raz\u00e3o por que o mo\u00e7o a beijava. Mas de manh\u00e3<br \/>\nn\u00e3o se lembrava mais da hist\u00f3ria; s\u00f3 lhe ficara a imagem<br \/>\nfugitiva do sonho.<\/p>\n<p>As mo\u00e7as afagam muito os sonhos, quase tanto como costumam as m\u00e3es<br \/>\naos primeiros filhos. A raz\u00e3o \u00e9 porque os sonhos s\u00e3o<br \/>\nos primeiros filhos da imagina\u00e7\u00e3o da menina que chega \u00e0<br \/>\nadolesc\u00eancia. Os desejos vagos, as t\u00edmidas esperan\u00e7as,<br \/>\nos perfumes do cora\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se animam a exalar-se<br \/>\ndurante o dia, rescendem \u00e0 noite, no abandono do sono, como o aroma<br \/>\nde certas flores que s\u00f3 abrem com o orvalho.<\/p>\n<p>Guida ocupou-se durante o dia com o seu sonho; e passando pelo mesmo lugar<br \/>\nonde na v\u00e9spera encontrara Ricardo, desejou ver a flor e conhec\u00ea-la.<br \/>\nViu com efeito; achou-a muito linda; desde esse dia ficaram amigas. Sempre<br \/>\nque vinha desses lados quebrava alguns ramos, que levava consigo.<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a de Ricardo se apagara completamente do esp\u00edrito<br \/>\nde Guida, e do primeiro encontro n\u00e3o restava outro vest\u00edgio<br \/>\nsen\u00e3o a afei\u00e7\u00e3o \u00e0 linda florzinha agreste, quando<br \/>\no encontro na &#8220;Cascatinha&#8221; veio debuxar outra vez a reminisc\u00eancia<br \/>\nfugitiva. Guida, que j\u00e1 havia notado o garbo e a beleza do &#8220;Galgo&#8221;,<br \/>\np\u00f4de ent\u00e3o contempl\u00e1-lo a seu gosto; e a estampa do lindo<br \/>\ncavalo foi a recorda\u00e7\u00e3o que lhe ficou desse domingo.<\/p>\n<p>Mais tarde o acaso lhe deparou a ocasi\u00e3o de ver a aquarela do \u00e1lbum<br \/>\nde Ricardo. A suspeita ou pressentimento de que o desenho representava seu<br \/>\nvulto a cavalo, excitou-lhe vivamente a curiosidade. Ela daria sem hesitar<br \/>\no mais querido dos seus caprichos, &#8220;Edgard&#8221; ou &#8220;Sofia&#8221;,<br \/>\npara ver aquela paisagem.<\/p>\n<p>A imagem de Ricardo, passada a primeira impress\u00e3o, desmaiava a pouco<br \/>\ne pouco. Os \u00faltimos encontros j\u00e1 n\u00e3o lhe destacavam os<br \/>\ncontornos: o vulto do desconhecido permanecia vago, indistinto, no fundo das<br \/>\nreminisc\u00eancias da mo\u00e7a. Fora um homem, um homem qualquer, que<br \/>\npassara um momento no horizonte de sua exist\u00eancia, e s\u00f3 lhe aparecia<br \/>\nagora como uma sombra.<\/p>\n<p>O que estava bem gravado na alma de Guida, o que ela afagava em algum momento<br \/>\nde cisma, n\u00e3o era o mo\u00e7o, n\u00e3o; mas coisa muito diversa.<br \/>\nEra a linda flor agreste, a quem amava; era o formoso cavalo, que desejava<br \/>\nardentemente possuir; era finalmente a aquarela do \u00e1lbum, que ansiava<br \/>\npor ver Ricardo n\u00e3o figurava nas recorda\u00e7\u00f5es da menina,<br \/>\nsen\u00e3o como um amigo da flor amada, como o dono do cavalo cobi\u00e7ado,<br \/>\ne o autor do desenho misterioso.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida era agrad\u00e1vel ao esp\u00edrito de Guida que a<br \/>\npessoa ligada a ela por essas rela\u00e7\u00f5es, fosse um mo\u00e7o<br \/>\ndistinto pela intelig\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o. Nas poucas vezes<br \/>\nque de relan\u00e7e vira o advogado, a mo\u00e7a tinha reconhecido ou<br \/>\nantes pressentido nele com o tato da mulher os dotes do esp\u00edrito e<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o. Por isso consentia que a lembran\u00e7a do desconhecido<br \/>\nse associasse em sua mem\u00f3ria aos objetos de seu desvelo.<\/p>\n<p>O encontro daquela manh\u00e3 n\u00e3o mudara a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo esp\u00edrito de Guida. Ricardo dera novamente provas de delicadeza e<br \/>\ngalanteria; deixara de ser um desconhecido, para assumir a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndigna que lhe davam um grau cient\u00edfico e uma profiss\u00e3o nobre;<br \/>\nmas seus t\u00edtulos ao interesse especial da menina continuavam os mesmos.<br \/>\nSe n\u00e3o fosse a flor, o cavalo e o desenho, passaria desapercebido aos<br \/>\nolhos da filha do milion\u00e1rio, ante a qual de curvavam diariamente tantas<br \/>\ndistin\u00e7\u00f5es do talento, da posi\u00e7\u00e3o e da riqueza.<\/p>\n<p>Guida estimou bastante que Ricardo estivesse nas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde ser apresentado em sua casa, e que as circunst\u00e2ncias facilitassem<br \/>\nessa apresenta\u00e7\u00e3o. Mas por qu\u00ea? Seja embora desconsolador<br \/>\npara o romance o motivo que influ\u00eda no cora\u00e7\u00e3o da menina,<br \/>\nn\u00e3o podemos ocult\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Desde que se estabelecessem rela\u00e7\u00f5es com o mo\u00e7o, podia<br \/>\nela satisfazer sua curiosidade de ver a aquarela, preparava a aquisi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo lindo animal, e teria um cavaleiro destro para dirigi-la no caso de ser<br \/>\no &#8220;Galgo&#8221; fogoso demais para montaria de senhora; finalmente conversaria<br \/>\nsobre a flor querida, com algu\u00e9m que tamb\u00e9m a amava. Mais tarde,<br \/>\nquem sabe? Saberia a hist\u00f3ria daqueles beijos ardentes; mas isso era<br \/>\nmenos importante, j\u00e1 pertencia \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e<br \/>\nn\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Realmente n\u00e3o h\u00e1 poesia que resista a essa fria aut\u00f3psia<br \/>\nda alma e disseca\u00e7\u00e3o do sentimento.<\/p>\n<p>Quando se devia esperar que os encontros rom\u00e2nticos de uma mo\u00e7a<br \/>\nrica e bonita com um mancebo pobre, mas de grande talento e nobre car\u00e1ter,<br \/>\ngerassem no cora\u00e7\u00e3o virgem uma paix\u00e3o po\u00e9tica<br \/>\ne generosa; quando se podia contar com um id\u00edlio gracioso bafejado<br \/>\npelas auras suaves da Tijuca, perfumado pela fragr\u00e2ncia das flores agrestes,<br \/>\nembalado pelo canto das aves de envolta com o murm\u00fario das \u00e1guas,<br \/>\ne aljofrado pelos orvalhos daquele c\u00e9u azul, o romancista n\u00e3o<br \/>\nacha mais do que um capricho de crian\u00e7a, uma curiosidade infantil,<br \/>\num desejo de menina travessa.<\/p>\n<p>Felizmente Ricardo n\u00e3o amava Guida, nem sentia por ela a vaga inquieta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque anuncia crises de cora\u00e7\u00e3o. Felizmente: porque do contr\u00e1rio<br \/>\nteria de sofrer a ang\u00fastia de uma cruel decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de repassar estas reminisc\u00eancias, o pensamento da menina voltou<br \/>\nao objeto que as tinha provocado, \u00e0 escolha do traje para aquele dia.<br \/>\nPrecisava, queria agradar a Ricardo, e por isso estudava o meio, n\u00e3o<br \/>\nde excitar-lhe a admira\u00e7\u00e3o, deslumbrando-o como brilho da beleza<br \/>\nou da opul\u00eancia, mas sim de atra\u00ed-lo pela simpatia.<\/p>\n<p>O resultado se sua cogita\u00e7\u00e3o foi repelir o par de botinas<br \/>\nque tinha na m\u00e3o, um primor de arte: duas j\u00f3ias de camur\u00e7a<br \/>\ntrabalhadas pelo Guilherme. As persianas da alcova cerraram-se, derramando<br \/>\nno aposento um doce crep\u00fasculo. A beleza casta \u00e9 violeta, que<br \/>\ns\u00f3 abre na sombra.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o eram quatro horas quando Guida apareceu na sala.<\/p>\n<p>Tinha um vestido branco de extrema simplicidade, fitas no cinto e no cabelo,<br \/>\nbotinas de duraque preto, e uma gargantilha de veludo da mesma cor, com um<br \/>\nmedalh\u00e3o de jaspe. Era de jaspe tamb\u00e9m a pulseira, ofuscada<br \/>\npela alvura do bra\u00e7o mimoso, que surgia dos folhos da manga, como uma<br \/>\nmagn\u00f3lia dentre frocos de neve.<\/p>\n<p>S\u00f3 no andar se revelava a deusa, disfar\u00e7ada com esse traje<br \/>\nmodesto e comum. Apenas assomou na porta da sala, todos os olhares se fitaram<br \/>\nnela, e a alma de cada um de seus apaixonados desdobrou-se sobre o tapete,<br \/>\npara ter o sumo gozo de ser pisada por aquele passo airoso, que se desenvolvia<br \/>\ncomo a ascens\u00e3o de um astro.<\/p>\n<p>As senhoras por\u00e9m n\u00e3o puderam conter a surpresa. Onde a filha<br \/>\nde um milion\u00e1rio, a mo\u00e7a mais elegante do Rio de Janeiro, conhecida<br \/>\npelo seu luxo e bom gosto, onde fora buscar aquele traje comum, que uma menina<br \/>\npobre aceitaria para chegar \u00e0 tarde \u00e0 janela, mas n\u00e3o<br \/>\ntraria por certo em um domingo, quando houvesse visitas em casa? Algumas n\u00e3o<br \/>\nacreditariam uma hora antes que a filha do Soares possu\u00edsse em seu<br \/>\nguarda-roupa os acess\u00f3rios precisos para criar um adere\u00e7o t\u00e3o<br \/>\nvulgar e rococ\u00f3.<\/p>\n<p>Guida conseguira portanto realizar seu pensamento. Achando em suas recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\na imagem de Ricardo, como a de um mo\u00e7o pobre e de um car\u00e1ter<br \/>\naustero, compreendeu, com a admir\u00e1vel intui\u00e7\u00e3o da sensibilidade<br \/>\nfeminina, que o meio de atrair essa alma n\u00e3o era decerto a ostenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nd sua formosura e opul\u00eancia; ao contr\u00e1rio, por esse modo aumentaria<br \/>\na repugn\u00e2ncia que levara o advogado a declinar o primeiro convite, e<br \/>\nsem d\u00favida o afastaria de sua casa.<\/p>\n<p>Era preciso n\u00e3o magoar o pudor da pobreza, n\u00e3o irritar as<br \/>\nsuscetibilidades de um esp\u00edrito severo, para conciliar sua benevol\u00eancia<br \/>\ne obter a sua estima. Bem quisera Guida eliminar em torno dela, da casa, das<br \/>\nsalas, do jantar, dos convidados, o aparato da riqueza a que estava habituada;<br \/>\nmas, n\u00e3o sendo isso poss\u00edvel, desejou ao menos que sua pessoa<br \/>\nfosse um protesto contra o luxo que a cercava, e uma delicada fineza ao h\u00f3spede<br \/>\nesperado.<\/p>\n<p>As fitas que ela trazia no cinto e no cabelo eram da cor do traje com que<br \/>\nandava ordinariamente o jovem advogado. Eu que descrevi esse traje no primeiro<br \/>\nencontro, j\u00e1 n\u00e3o me lembrava dele; mas Guida o achara no fundo<br \/>\nde suas reminisc\u00eancias quando pouco antes estivera cismando. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 como as mulheres para guardarem estas arestas sutis no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No seio, onde as bandas do corpinho se cruzavam, formando o n\u00edveo<br \/>\nrega\u00e7o, brilhavam algumas flores e bot\u00f5es de ouro, colhidos<br \/>\npelo advogado no passeio daquela manh\u00e3. Havia tamb\u00e9m nisso uma<br \/>\nfineza a Ricardo, um agradecimento \u00e0 delicadeza com que satisfizera<br \/>\no seu capricho de menina.<\/p>\n<p>Inocente crian\u00e7a! N\u00e3o pensava no mal que podia resultar desses<br \/>\ngalanteios infantis.<\/p>\n<p>Dentro em pouco devia chegar \u00e0 sua casa um mancebo, a quem ela encontrara<br \/>\npor diversas vezes, e afinal abrira as portas de sua casa. Esse cora\u00e7\u00e3o<br \/>\njovem, ardente, podia notar as identifica\u00e7\u00f5es da alma da mo\u00e7a<br \/>\ncom a sua, expressas por uma combina\u00e7\u00e3o de cor ou pelo gosto<br \/>\nde uma flor: a\u00ed estava a centelha da paix\u00e3o, a fa\u00edsca<br \/>\ndo inc\u00eandio que ela ia atear se querer.<\/p>\n<p>Guida descera antes de quatro horas; queria assistir \u00e0 chegada de<br \/>\nRicardo, n\u00e3o s\u00f3 para evitar a solenidade de uma apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nem plena sala, como porque sentia que sua presen\u00e7a era indispens\u00e1vel<br \/>\npara desvanecer o acanhamento natural de quem pela primeira vez \u00e9 introduzido<br \/>\nem uma sociedade desconhecida.<\/p>\n<p>Davam quatro horas, quando Ricardo e F\u00e1bio com pontualidade escrupulosa<br \/>\nentravam na casa de Soares.<\/p>\n<h4><a id=\"12\" name=\"12\"><\/a>XII<\/h4>\n<p>O comendador Soares jogava a manilha com seus parceiros habituais, tr\u00eas<br \/>\nvelhos amigos e camaradas.<\/p>\n<p>O primeiro, \u00e0 direita, era o bar\u00e3o do Sa\u00ed. Natural<br \/>\nde Minas, onde come\u00e7ara a vida como tocador de tropa, em uma de suas<br \/>\nviagens \u00e0 corte arrumou-se de caixeiro no armaz\u00e9m de mantimentos<br \/>\ndo consignat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Aos cinq\u00fcenta anos achou-se o Jo\u00e3o Barbalho possuidor de algumas<br \/>\ncentenas de contos; e convencido que n\u00e3o era pr\u00f3prio de um grande<br \/>\ncapitalista chamar-se pela mesma forma que um mo\u00e7o tropeiro, trocou<br \/>\npor um t\u00edtulo \u00e0-toa aquele nome que valia um bras\u00e3o;<br \/>\nfidalgo bras\u00e3o, se j\u00e1 o houve, pois era o do trabalho e perseveran\u00e7a,<br \/>\ne tinha por timbre e divisa a probidade.<\/p>\n<p>O parceiro da esquerda fazia com o precedente o maior contraste. Curto,<br \/>\nesguio e encarquilhado, quanto o outro espa\u00e7oso e amplo, as m\u00ednguas<br \/>\ndo corpo sobravam-lhe nas m\u00e3os e nariz, ou como diziam os malignos,<br \/>\nnas garras e no bico. Tudo o mais era miniatura.<\/p>\n<p>O visconde de Aljuba come\u00e7ara a sua vida mercantil na escola, onde<br \/>\nexercia o mister de belchior. Livros, l\u00e1pis, roupa, tudo ele comprava<br \/>\npor bagatela aos meninos, em princ\u00edpio como agente de um negociante<br \/>\nde cacar\u00e9us da esquina, e depois por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Quando o deram por pronto na escrita e tabuada, arranjou ele uma espelunca,<br \/>\nchamada casa de penhor, onde emprestava dinheiro especialmente aos pretos<br \/>\nquitandeiros. A pouco e pouco elevou-se a clientela, at\u00e9 que p\u00f4de<br \/>\nfechar em sua carteira as primeiras firmas da pra\u00e7a do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que, de repente, o Camacho transformado em visconde, sem<br \/>\nque ningu\u00e9m pudesse atinar com o meio por que obtivera, logo de supet\u00e3o,<br \/>\naquele t\u00edtulo, quando o costume era come\u00e7ar por bar\u00e3o.<br \/>\nDiziam uns que fora comprado, outros que lho tinham dado.<\/p>\n<p>&#8211; Nem dado, nem comprado! acudia o Soares em tom de pilh\u00e9ria. O velhaco<br \/>\ndo Camacho empalmou o aljube, que lhe tinham dado de penhor, e fez-se visconde.<br \/>\nCom todo o direito! N\u00e3o resta d\u00favida.<\/p>\n<p>Os ouvintes riam; e o visconde, imperturb\u00e1vel, metia as m\u00e3os<br \/>\nnos bolsos e repetia com certo sonsonete que lhe era pr\u00f3prio, um dito<br \/>\nmuito conhecido:<br \/>\n&#8211; A alma do neg\u00f3cio \u00e9 o segredo.<\/p>\n<p>Os amigos mais \u00edntimos do Soares, sobretudo o bar\u00e3o do Sa\u00ed,<br \/>\npor vezes lhe tinham feito observa\u00e7\u00f5es a respeito da privan\u00e7a<br \/>\na que ele admitia o visconde, cuja reputa\u00e7\u00e3o dava para um excelente<br \/>\nher\u00f3i do romance galote, atualmente na moda.<\/p>\n<p>Mas o Soares, que lhe sabia as anedotas, galhofava.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso lidar com essa gente, para aprender-lhe as manhas, se<br \/>\nn\u00e3o corre-se o risco de ser-se enganado a cada instante. E quem as<br \/>\nconhece melhor do que o bicho?<br \/>\nPor isso o Soares, que era um gaiato de conta, a toda a hora, no jogo ou em<br \/>\nneg\u00f3cio, chamava o visconde de &#8211; &#8220;meu mestre&#8221;; com o que<br \/>\neste se lisonjeava, pois tinha para si que n\u00e3o era pequena gl\u00f3ria<br \/>\ndar li\u00e7\u00f5es de velhacaria a um espertalh\u00e3o daquele trope.<\/p>\n<p>O \u00faltimo dos parceiros, que ficava fronteiro ao comendador, mostrava<br \/>\numa figura respeit\u00e1vel. Poucas fisionomias possuem aquela sisudez,<br \/>\ntocada por uma express\u00e3o de mansuetude, exala\u00e7\u00e3o, ou<br \/>\nefl\u00favio d&#8217;lama, a ameigar as asperezas de uma consci\u00eancia r\u00edgida<br \/>\ne austera.<\/p>\n<p>Nada mais enganador por\u00e9m do que esse prospecto de homem importante,<br \/>\nconhecido por Conselheiro Barros. Dentro, o que havia, era um desses entes<br \/>\namb\u00edguos, destinados a viver em perp\u00e9tua irresolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nalmas bonachas e inertes, a quem a natureza de em vez de cabe\u00e7a um<br \/>\ncabo, em lugar de cora\u00e7\u00e3o uma azelha, para serem empunhados<br \/>\npor outrem, sem o que n\u00e3o se movem, nem se abalam.<\/p>\n<p>Em casa, o Barros era manejado pela mulher; se ela n\u00e3o tinha de v\u00e9spera<br \/>\n\u00e0 noite apartado sobre um cabide a roupa necess\u00e1ria para o dia<br \/>\nseguinte, ele n\u00e3o se vestia, e era capaz de ficar at\u00e9 meio-dia<br \/>\nde chambre e chinelas, como j\u00e1 lhe acontecera. Nunca sabia quando tinha<br \/>\nfome, e seria escusado perguntarem-lhe; era D. Guilhermina quem lhe regulava<br \/>\no apetite, o sono, e at\u00e9 a mol\u00e9stia. Uma ocasi\u00e3o, ardendo<br \/>\nele em febre, a mulher o persuadiu de que estava perfeitamente bom; levou-o<br \/>\na um passeio em que apanharam sol e chuva. \u00c0 noite, quando se recolheram,<br \/>\no homem nada sentia.<\/p>\n<p>Fora de casa, n\u00e3o saindo com ele, entregava-o a mulher a um lacaio<br \/>\nde confian\u00e7a, que o levava a visitas e neg\u00f3cios indicados no<br \/>\nrol; ou o conduzia direito ao escrit\u00f3rio, onde tomava conta dele o<br \/>\nseu jovem s\u00f3cio e &#8220;suplente no mercantil e dom\u00e9stico&#8221;,<br \/>\nsegundo o maligno visconde da Aljuba.<\/p>\n<p>Filho do consignat\u00e1rio, onde se arrumava em rapaz Jo\u00e3o Barbalho,<br \/>\nquando deu dem\u00e3o ao of\u00edcio de tocador de tropas, herdara o Barros<br \/>\nbom patrim\u00f4nio, o qual se lhe multiplicava na burra, sem que ele se<br \/>\napercebesse do como isso se fazia. Quando o s\u00f3cio no fim do ano lhe<br \/>\natestava com o balan\u00e7o os grandes lucros da casa, n\u00e3o se imagina<br \/>\no pasmo em que ficava por muitos dias.<\/p>\n<p>Chegado o tempo de entrar para a roda dos figur\u00f5es, lembran\u00e7a<br \/>\nque bem se v\u00ea n\u00e3o partiu dele, mas da mulher, e entabulada a<br \/>\nnegocia\u00e7\u00e3o, tratou-se da escolha do t\u00edtulo. D. Guilhermina<br \/>\ntinha paix\u00e3o pelo de condessa, e achava que uma coroa de tr\u00eas<br \/>\ncastelos ia \u00e0s maravilhas com as tran\u00e7as opulentas de seus cabelos<br \/>\nnegros.<\/p>\n<p>Desta vez, por\u00e9m, o marido quis ter voto e ser homem. Preferiu o<br \/>\nt\u00edtulo de conselheiro; e turrou de modo que n\u00e3o houve meios<br \/>\nde arranc\u00e1-lo da\u00ed. Nem a mulher, nem o s\u00f3cio, nem mesmo<br \/>\no Soares, que era um or\u00e1culo para ele, o demoveram do seu prop\u00f3sito.<br \/>\nEssas almas de gelatina t\u00eam isso de particular, que em se inteiri\u00e7ando,<br \/>\ntornam-se guascas; n\u00e3o dobram mais.<\/p>\n<p>Foi o \u00fanico momento, em que esse homem, habituado desde a sua vinda<br \/>\nao mundo a ser qualquer, foi eu. Toda a energia que devia ter despendido a<br \/>\npequenas doses durante quarenta anos, acumulou-a para empreg\u00e1-la de<br \/>\num s\u00f3 jacto. Debalde tentaram persuadi-lo que podia ser conselheiro<br \/>\ne conde ao mesmo tempo contando que pagasse em propor\u00e7\u00e3o. Na<br \/>\npaga, n\u00e3o havia d\u00favida de sua parte; mas a pr\u00e1tica do<br \/>\nmundo lhe ensinara que o conde mata o conselheiro; e se ele ca\u00edsse<br \/>\nem afidalgar-se, ningu\u00e9m o trataria jamais por &#8220;conselheiro Bastos&#8221;,<br \/>\nque era a sua grande ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maior concess\u00e3o, a que chegou, foi consentir que a mulher se fizesse<br \/>\ncondessa, ela s\u00f3, ficando ele conselheiro. Neste sentido, a inst\u00e2ncias<br \/>\nde D. Guilhermina, deram-se os passos necess\u00e1rios; mas o governo, depois<br \/>\nde ouvir os mestres da lei, decidiu que uma condessa s\u00f3 pode ser mulher<br \/>\nde um conde.<\/p>\n<p>Resignou-se pois D. Guilhermina, com o maior pesar, ao seu nome de batismo;<br \/>\nmas n\u00e3o perdeu de todo a esperan\u00e7a. Consta que apelou para a<br \/>\nemancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, id\u00e9ia de que era ardente sect\u00e1ria,<br \/>\ne com raz\u00e3o, porque de seu casal foi ela sempre em contesta\u00e7\u00e3o<br \/>\no cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora aproveitemos a ocasi\u00e3o para completar o quadro, com<br \/>\nalguns tra\u00e7os biogr\u00e1ficos do Soares.<\/p>\n<p>Era ele paulista; e dos quatro o mais mo\u00e7o, e mais rico ele s\u00f3<br \/>\ndo que todos os outros juntos. Viera ao Rio de Janeiro pela primeira vez aos<br \/>\nonze anos de idade, tocando uma porcada, que trazia ao mercado seu tio, velho<br \/>\nroceiro de Lorena.<\/p>\n<p>Naquele tempo as porcadas percorriam as ruas, como ainda hoje os bandos<br \/>\nde perus. Estando parados em uma rua, enquanto o velho comprava chita, um<br \/>\nmoleque \u00e0 sorrelfa introduziu no ouvido de um leit\u00e3o uma bicha.<br \/>\nAo estalo do foguete, espirrou o bacorinho, e ei-lo a correr espavorido. O<br \/>\nrapazinho barafustou atr\u00e1s, para atar-lhe a corrida.<\/p>\n<p>Mas corrida foi aquela que o meteu por um labirinto de ruas, onde a cabo<br \/>\nde uma hora achou-se \u00e0s tontas, sem novas do bacorinho nem do tio.<br \/>\nQuanto mais procurava orientar-se, mais se atrapalhava; e todo o resto do<br \/>\ndia levou a quebrar esquinas, at\u00e9 que exausto de fome e de cansa\u00e7o,<br \/>\nacocorou-se no v\u00e3o de uma porta, a engolir as l\u00e1grimas que lhe<br \/>\nqueriam saltar aos bugalhos.<\/p>\n<p>Passava um menino de volta do col\u00e9gio, acompanhado de seu pajem,<br \/>\nque sentindo lhe puxarem pelo jaqu\u00e9, voltou-se e viu o lapuzinho, de<br \/>\nm\u00e3os postas a implor\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Que tem voc\u00ea? perguntou-lhe com pena.<\/p>\n<p>&#8211; Me perdi!<br \/>\nO menino era Barros, filho do consignat\u00e1rio, onde j\u00e1 estava<br \/>\nde caixeiro Jo\u00e3o Barbalho. Levou o caipirinha para a casa; e a fam\u00edlia<br \/>\ncompadecida o agasalhou, mandando em busca do velho roceiro, que n\u00e3o<br \/>\nfoi poss\u00edvel encontrar apesar de todas as pesquisas. Resolvido a encarreirar<br \/>\no rapazito, o consignat\u00e1rio o arranjou de caixeiro em casa de um cambista;<br \/>\ne a\u00ed come\u00e7ou ele a carreira que devia lev\u00e1-lo ao apogeu<br \/>\nda riqueza.<\/p>\n<p>De g\u00eanio franco e jovial, tinha Soares uma fonte perene de alegria,<br \/>\ncom que orvalhava as agruras da vida; mas atrav\u00e9s dos risos e pilh\u00e9rias,<br \/>\nseu esp\u00edrito pronto e seguro trabalhava com a inflexibilidade da moda<br \/>\nde a\u00e7o que move as figuras de um realejo.<\/p>\n<p>Suas melhores opera\u00e7\u00f5es, combinava-as no meio de um jantar<br \/>\nou de uma partida de jogo, e executava-as a galhofar. Brincava com seus milh\u00f5es,<br \/>\ncomo um menino com seus trebelhos.<\/p>\n<p>Sendo de todos o mais rico, era para notar-se que fosse o menos graduado.<br \/>\nA comenda era uma hist\u00f3ria, e vale a pena saber-se.<\/p>\n<p>Quando a riqueza de Soares tornou-se s\u00f3lida e incontest\u00e1vel,<br \/>\nat\u00e9 para os invejosos, come\u00e7aram a cham\u00e1-lo de comendador,<br \/>\ne por mais que o milion\u00e1rio metesse a coisa a rid\u00edculo, defendendo-se<br \/>\ncontra a honraria, por tal modo vulgarizou-se o tratamento, que n\u00e3o<br \/>\nhouve meio de resistir-lhe. O p\u00fablico soberano entendeu que um homem<br \/>\nt\u00e3o recheado de ouro n\u00e3o podia existir sem que fosse ao menos<br \/>\ncomendador, como qualquer troca-tintas.<\/p>\n<p>&#8211; Ora pois! dizia o Soares, eis-me comendador por un\u00e2nime aclama\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos povos. Mas h\u00e1 de ser da ordem do bacorinho!<br \/>\nEssa refer\u00eancia \u00e0 humildade de sua origem, ele a fazia freq\u00fcentemente;<br \/>\ne percebia-se que tinha sua vaidade em ter subido de t\u00e3o baixo \u00e0quela<br \/>\nsumidade financeira. Custava-lhe a compreender o vexame do bar\u00e3o do<br \/>\nSa\u00ed, quando aludiam ao come\u00e7o de sua carreira, e por isso estava<br \/>\nsempre a apoquentar o amigo chamando-o de bar\u00e3o do lote, com o que<br \/>\neste se resmo\u00eda.<\/p>\n<p>Ficou pois o Soares comendador, por uso e cortesia, como tanta gente boa;<br \/>\ne ningu\u00e9m havia nesta corte imperial que n\u00e3o o acreditasse inscrito<br \/>\nno grande livro das ordens; no que de todo n\u00e3o erravam, pois era ele<br \/>\nterceiro de S\u00e3o Francisco de Paula. Mas este Santo n\u00e3o consta<br \/>\nque fosse cavaleiro, e palmilhava como qualquer plebeu sem esporas, nem pros\u00e1pias.<\/p>\n<p>Em cartas, sobretudo nas de empenho, em listas de acionistas de banco, chapas<br \/>\nde diretores, e gazetilhas, l\u00e1 vinha estampado o infal\u00edvel &#8220;comendador&#8221;;<br \/>\nque aderira ao nome do Soares, como uma dessas alcunhas implac\u00e1veis<br \/>\nque perseguem certos indiv\u00edduos toda a vida, e afinal colam-se \u00e0<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o, criam ra\u00edzes e transmitem-se a toda a descend\u00eancia.<br \/>\nO p\u00fablico \u00e9 um tirano, e bem gaiato \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>\u00c9 bem poss\u00edvel, pois, que \u00e0 imita\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos mais, j\u00e1 o trataste eu de comendador e continue a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<h4><a id=\"13\" name=\"13\"><\/a>XIII<\/h4>\n<p>A partida estava empenhada. O Barros fizera a vaza; cabia-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Quem joga? perguntou Soares.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o conselheiro! respondeu o Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o podemos ir jantar. Temos tempo, e ainda chegaremos cedo.<\/p>\n<p>De fato o Barros, na forma do costume, esperava que o conc\u00edlio dos<br \/>\nsujeitos que o estavam aperuando, decidisse a grande quest\u00e3o da melhor<br \/>\ncarta a jogar.<\/p>\n<p>&#8211; O homem quer abarrotar-nos? observou o visconde. Est\u00e1 pensando.<\/p>\n<p>&#8211; Anda conselheiro, instou o Soares; se pensas tanto, ficas em branco para<br \/>\noutra vez.<\/p>\n<p>O banqueiro queria bem, do fundo d&#8217;alma, ao filho de seu falecido benfeitor,<br \/>\ne por ele faria todos os sacrif\u00edcios. Mas a veia sarc\u00e1stica,<br \/>\nque ao pr\u00f3prio dono n\u00e3o poupava, \u00e0s vezes sem ele o querer,<br \/>\nbeliscava o inofensivo e pachorrento amigo. Nunca o Soares pudera tomar ao<br \/>\ns\u00e9rio o t\u00edtulo de conselheiro do Barros; e por isso inventara<br \/>\naquele termo mais apropriado, pela etimologia id\u00eantica \u00e0 de cabeleireiro.<\/p>\n<p>Impass\u00edvel como sempre, o Barros nem se ressentiu, nem se apressou.<\/p>\n<p>Foi nessa ocasi\u00e3o que aproximou-se o Guimar\u00e3es, acompanhado<br \/>\nde Ricardo e F\u00e1bio, a quem fora receber na entrada:<br \/>\n&#8211; Sr. Comendador, tenho o prazer de apresentar-lhe os meus amigos, os Srs.<br \/>\nDr. Nunes e Dr. Ara\u00fajo!<br \/>\n&#8211; Tenho muito prazer em conhec\u00ea-los! Esta casa est\u00e1 sempre ao<br \/>\nseu dispor, quando queiram. Nada de cerim\u00f4nias. Estamos em fam\u00edlia!<br \/>\nEstas palavras, Soares as proferiu soerguendo-se da cadeira, no tom de cortesia<br \/>\ne amabilidade corriqueira, de que na sua qualidade de milion\u00e1rio era<br \/>\nobrigado a fazer gasto freq\u00fcente com a turba de parasitas e gaud\u00e9rios,<br \/>\nque assaltam as casas ricas.<\/p>\n<p>Depois do usual aperto de m\u00e3o, voltava \u00e0 partida que fora<br \/>\num instante distra\u00eddo, e j\u00e1 esquecera os novos h\u00f3spedes,<br \/>\nem cujas fei\u00e7\u00f5es nem reparara, quando sentiu no ombro o doce<br \/>\ntoque da m\u00e3o de Guida:<br \/>\n&#8211; Papai, \u00e9 o Dr. Nunes que esta manh\u00e3 encontramos no passeio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! exclamou o milion\u00e1rio erguendo-se e abandonando a mesa do jogo.<\/p>\n<p>Notara Guida de parte a desagrad\u00e1vel impress\u00e3o que deixara<br \/>\nna fisionomia de Ricardo aquele acolhimento de carrega\u00e7\u00e3o que<br \/>\nlhe fizera o banqueiro; e por isso indiretamente advertira o pai de que tratava-se<br \/>\nde um h\u00f3spede especial, e n\u00e3o de um intrometido.<\/p>\n<p>&#8211; Eu \u00e9 que devia primeiro visit\u00e1-lo, doutor, para agradecer-lhe<br \/>\nseus obs\u00e9quios; mas os velhos merecem desculpa dessas faltas, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 assim?<br \/>\n&#8211; Quando as h\u00e1; mas neste caso, s\u00f3 vejo uma extrema fineza da<br \/>\nsua parte, Sr. Comendador.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! N\u00e3o tenho comenda de qualidade alguma; \u00e9<br \/>\numa intriga de certa gente. N\u00e3o fa\u00e7a caso. Chame-se Soares,<br \/>\nsem mais.<\/p>\n<p>&#8211; Queira desculpar, acudiu Ricardo. Eu n\u00e3o sabia, Sr. Soares.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida, nem vale a pena falar mais nisso. Quero apresent\u00e1-lo<br \/>\n\u00e0 minha mulher. Onde est\u00e1 tua m\u00e3e, Guida?<br \/>\n&#8211; Na sala.<\/p>\n<p>Apresentando Ricardo a D. Paulina, o Soares deixou-o em companhia das senhoras.<\/p>\n<p>&#8211; Desceu muito depressa a Pedra Bonita? disse Guida ao advogado. N\u00f3s<br \/>\nvoltamos logo depois e j\u00e1 n\u00e3o o avistamos.<\/p>\n<p>&#8211; Estavam \u00e0 minha espera.<\/p>\n<p>&#8211; E o seu cavalo \u00e9 muito bom!<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 acostumado aos morros. \u00c9 um bonito passeio o da Pedra<br \/>\nBonita; n\u00e3o o tinha feito ainda.<\/p>\n<p>&#8211; Que pena! N\u00e3o chegarmos at\u00e9 acima! disse D. Clarinha.<\/p>\n<p>&#8211; Iremos outra vez! acudiu Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Depois que o encontramos, o senhor n\u00e3o faz id\u00e9ia, Guida<br \/>\nficou impaciente por voltar! disse a sonsa da Clarinha.<\/p>\n<p>&#8211; O sol estava muito quente! observou Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foi por isso; o passeio tinha perdido a gra\u00e7a para mim,<br \/>\nrespondeu a altiva menina com serena candidez.<\/p>\n<p>F\u00e1bio conversava com D. Paulina, que ria-se dos seus gracejos. Guida,<br \/>\nque se afastara do grupo das senhoras para sentar-se perto da m\u00e3e,<br \/>\ntomou parte na conversa; e \u00e0 hora do jantar estavam, ela e F\u00e1bio,<br \/>\nmuito camaradas um do outro.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o de passarem \u00e0 sala da comida, F\u00e1bio aproximando-se<br \/>\nde Ricardo, disse-lhe rapidamente ao ouvido:<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o ainda achas que fiz mal?<br \/>\nRicardo encolheu os ombros. F\u00e1bio o tinha resolvido contra vontade<br \/>\na aceitar o convite do Soares. Para isso foi necess\u00e1rio afian\u00e7ar-lhe<br \/>\nque dera sua palavra de honra a Guimar\u00e3es, e o fizera para esmagar<br \/>\na cal\u00fania de que ele se tornara eco.<\/p>\n<p>Era Ricardo dos homens para que n\u00e3o h\u00e1 bagatelas em mat\u00e9ria<br \/>\nde probidade. Desde que exigiam dele um sacrif\u00edcio em nome dos escr\u00fapulos<br \/>\nde consci\u00eancia e do respeito \u00e0 palavra de honra, era certo obt\u00ea-lo<br \/>\nainda que se tratasse de uma ninharia. Assim exprobrando a F\u00e1bio de<br \/>\nse haver comprometido sem o consultar, e quando j\u00e1 conhecia sua repugn\u00e2ncia,<br \/>\nse resignou \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o de que bem desejava poupar-se.<\/p>\n<p>O primeiro acolhimento de Soares foi como uma nomea\u00e7\u00e3o que<br \/>\nele recebesse, ali ante toda gente, de parasita da casa. O sentido daquelas<br \/>\npalavras feitas em amabilidade, \u00e0 guisa de filhoses de algod\u00e3o,<br \/>\nele bem o compreendeu: &#8220;Entra; eu te admito no rol dos gaud\u00e9rios<br \/>\ndesta casa; come, diverte-te, intriga; arranja teus neg\u00f3cios; caloteia<br \/>\nos meus amigos; namora nossas filhas; desfruta-me por todos modos. Dou-te<br \/>\nlicen\u00e7a para tudo, at\u00e9 para falares mal de mim; contanto que<br \/>\nmobilies minha casa com dec\u00eancia. Tenho grandes salas, ricos tapetes,<br \/>\ncadeiras de estofo, soberbos jantares; mas preciso de gente de casaca, para<br \/>\nencher estas salas, pisar esses tapetes, sentar-se nessas cadeiras, e comer<br \/>\nestes jantares.&#8221;<br \/>\nA Ricardo n\u00e3o surpreendeu a recep\u00e7\u00e3o: ele a esperava.<br \/>\nTodavia incomodou-o tanto a realidade que decidiu eclipsar-se no meio da confus\u00e3o,<br \/>\ne retirar-se antes do jantar, sem prevenir F\u00e1bio.<\/p>\n<p>Demoveu-o desse intento a distin\u00e7\u00e3o com que logo depois o<br \/>\ntratou Soares e a fam\u00edlia. As preven\u00e7\u00f5es que trazia,<br \/>\nse de todo n\u00e3o se dissiparam, ao menos emudeceram, diante do car\u00e1ter<br \/>\nfranco do banqueiro, da singeleza ing\u00eanua de D. Paulina, e na natural<br \/>\ne graciosa isen\u00e7\u00e3o de Guida, que parecia flor ex\u00f3tica<br \/>\nnaquele \u00e1ureo clima do milh\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentiu que deixara de ser um n\u00famero de rol, um an\u00f4nimo perdido<br \/>\nna turba; e por conseguinte n\u00e3o tinha j\u00e1 o direito de se escapar,<br \/>\nsem dar satisfa\u00e7\u00e3o. A delicadeza, e tamb\u00e9m o assomo ainda<br \/>\nvago dum desejo a espontar, exigiam que assistisse ao banquete do Soares.<\/p>\n<p>&#8211; Chamam-nos para jantar! disse o dono da casa convidando com um gesto seus<br \/>\nh\u00f3spedes a passarem ao sal\u00e3o.<\/p>\n<p>A Ricardo estava destinado um lugar \u00e0 direita de D. Paulina; quanto<br \/>\na F\u00e1bio, como n\u00e3o se lembravam dele, e pela simples raz\u00e3o<br \/>\nde j\u00e1 haver tomado conta da casa, a igual de conhecido velho, foi colocando-se<br \/>\nao lado de D. Guilhermina, que mostrava-se encantada com a l\u00e1bia cintilante<br \/>\ne espirituosa do bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; Doutor Nunes, cuide de si! disse o Soares logo depois de tomada a sopa,<br \/>\nsen\u00e3o minha mulher deixa-o com fome.<\/p>\n<p>&#8211; Fico prevenido! respondeu Ricardo sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 sempre a brincar! Observou D. Paulina, respondendo ao sorriso<br \/>\ndo mo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Como quer come\u00e7ar? \u00c0 francesa pelo peixe, ou c\u00e1 \u00e0<br \/>\nnossa moda brasileira pelo cozido? tornou o dono da casa.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 estou servido.<\/p>\n<p>Um criado acabava de trazer o prato de peixe, que lhe servira a Guida fazendo<br \/>\ncomo de costume as honras da casa.<\/p>\n<p>No correr do jantar conversando com D. Paulina, Ricardo sentia um prazer<br \/>\n\u00edntimo, como que um aroma das rosas guardadas no seio d&#8217;alma. Era que<br \/>\no aspecto sereno da senhora, a efus\u00e3o de bondade que ressumbrava de<br \/>\ntoda a sua pessoa, e especialmente as maneiras t\u00e3o lhanas, lhe estavam<br \/>\nretratando na imagina\u00e7\u00e3o o aspecto vener\u00e1vel de sua m\u00e3e,<br \/>\ne mostrando a tal como havia de ser, se a fortuna a colocasse no pin\u00e1culo<br \/>\nda riqueza.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, Guida sentada \u00e0 cabeceira e atenta a seus deveres<br \/>\nde dona-de-casa, que ela exercia com ex\u00edmio tato, intervinha com alguma<br \/>\nobserva\u00e7\u00e3o na conversa de D. Paulina; e Ricardo recordava-se<br \/>\nde Bela, t\u00e3o linda como a filha do banqueiro, embora lhe faltasse o<br \/>\ngarbo que dava ao talhe da \u00faltima supremo realce.<\/p>\n<p>Falando a m\u00e3e dos v\u00e1rios s\u00edtios da Tijuca, a mo\u00e7a<br \/>\ndisse para Ricardo:<br \/>\n&#8211; Domingo, havemos de ir \u00e0 Vista Chinesa!<br \/>\n&#8211; Com muito prazer.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um passeio agrad\u00e1vel! observou D. Paulina.<\/p>\n<p>&#8211; A vista \u00e9 soberba; mas como passeio, a Barra.<\/p>\n<p>&#8211; E tem raz\u00e3o; \u00e9 mais pitoresco! replicou Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Por que ent\u00e3o n\u00e3o convidaste antes o Sr. Dr. Nunes para<br \/>\nir \u00e0 Barra?<br \/>\n&#8211; Por qu\u00ea?&#8230;repetiu Guida a sorrir. O caminho do Jardim \u00e9 melhor<br \/>\npara galopar.<\/p>\n<p>&#8211; Travessa! disse D. Paulina com bondade.<\/p>\n<p>&#8211; Gosta muito de andar a cavalo? perguntou o advogado.<\/p>\n<p>&#8211; Muito! \u00c9 minha paix\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Ao ex\u00edguo visconde, sumido atr\u00e1s do enorme peru, n\u00e3o<br \/>\nescapavam as v\u00e1rias impress\u00f5es que se manifestavam na fisionomia<br \/>\ndo banquete, sob o ru\u00eddo da conversa banal travada de uma \u00e0<br \/>\noutra ponta da mesa, e acompanhada do tinir dos cristais e ranger dos talheres.<\/p>\n<p>&#8220;O prato \u00e9 o homem&#8221;; tradu\u00e7\u00e3o livre do axioma<br \/>\nde Brillat-Savarin: &#8220;Dis-moi ce que tu manges, je te diirai ce que tu<br \/>\nes&#8221;. Diante do visconde erguia-se um coculo de iguarias; mas era um c\u00famulo<br \/>\nusur\u00e1rio e avarento; compunha-se de uma nica de cada coisa. Servia-se<br \/>\ndo primeiro ao \u00faltimo dos acepipes; mas s\u00f3 tirava o juro: uns<br \/>\nmagros 3%.<\/p>\n<p>Com dois daqueles pratos enciclop\u00e9dicos, estava jantado.<\/p>\n<p>Nesse momento comia ele rapidamente, resmoendo com um dos tais bocados esta<br \/>\npalavra, que lhe restava a fazer c\u00f3cegas nos l\u00e1bios:<br \/>\n&#8211; Que \u00e1lgebra!&#8230; Que \u00e1lgebra!&#8230;<\/p>\n<p>Na linguagem peculiar do visconde &#8220;\u00e1lgebra&#8221; significava<br \/>\numa dessas opera\u00e7\u00f5es intrincadas de juros acumulados e m\u00faltiplos,<br \/>\ninseridos em cl\u00e1usulas aleat\u00f3rias e onzeneiras, que fulminam<br \/>\no m\u00edsero ca\u00eddo nas garras de um capitalista mitrado.<\/p>\n<p>Notara o modo atencioso com que o Soares, depois da sutil advert\u00eancia<br \/>\nda filha, tratara a Ricardo; tamb\u00e9m a fineza de o colocarem \u00e0<br \/>\ndireita de D. Paulina; e por \u00faltimo o gesto s\u00e9rio e meigo com<br \/>\nque lhe falava a Guida, para os outros sempre desdenhosa com o remoque a frisar-lhe<br \/>\no l\u00e1bio.<\/p>\n<p>Lobrigou nesse concurso de circunst\u00e2ncias um plano de casamento, que,<br \/>\nbem conduzido, podia ao cabo de um ano tornar Ricardo o feliz possuidor de<br \/>\num dote milion\u00e1rio, com o acess\u00f3rio de uma galante pequena.<\/p>\n<p>E o capitalista, que houvesse fornecido ao noivo em projeto os fundos necess\u00e1rios<br \/>\npara sustentar a posi\u00e7\u00e3o, poderia retirar da opera\u00e7\u00e3o<br \/>\num lucro prodigioso.<\/p>\n<p>No meio deste mon\u00f3logo que reproduzimos sem o sainete de seu estilo<br \/>\nfinanceiro, o visconde come\u00e7ou a calcular, como se fossem algarismos,<br \/>\nos gr\u00e3os de ervilha que espetava no garfo:<br \/>\n&#8211; Vamos ver: 500$ por m\u00eas, para o patife lordear por a\u00ed e meter<br \/>\nnum chinelo a rapaziada da rua do Ouvidor; em um ano, temos 6:000$, dois anos<br \/>\nque digamos, 12:000$. Para o alfaiate, charutos, carro e o diabo, ponhamos<br \/>\n8:000$, sem falar dos calotes que ele h\u00e1 de pregar \u00e0 grande.<br \/>\nA\u00ed temos 20:000$. Com um juro magro, de 3%, acumulado de m\u00eas<br \/>\nem m\u00eas, vai ficar-me o tal boneco um tanto salgadete. Mas pode render<br \/>\nuns duzentos contecos&#8230;<\/p>\n<p>Nesse ponto o visconde foi interrompido por um incidente.<\/p>\n<p>O Dr. Nogueira observava o enlevo de D. Guilhermina a escutar os floreios<br \/>\nque F\u00e1bio murmurava-lhe a meio tom; derreando-se no encosto da cadeira,<br \/>\npassou por fora da mesa ao Bastos, colocado tr\u00eas lugares mais longe,<br \/>\numa observa\u00e7\u00e3o maliciosa.<\/p>\n<p>O Guimar\u00e3es que de passagem apanhara o dito, percebendo pelo riso<br \/>\ndo Bastos que havia esp\u00edrito, assentou de aproveit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Meus senhores, uma novidade!<br \/>\n&#8211; A firma Barros e Cia vai admitir um s\u00f3cio de ind\u00fastria, gritou<br \/>\nrepetindo textualmente e dito do Nogueira.<\/p>\n<p>Felizmente poucos lhe davam aten\u00e7\u00e3o; mas nestes o pasmo foi<br \/>\ngeral. Percebendo pelo espanto quanto era crespa a gra\u00e7a, o Guimar\u00e3es<br \/>\ntratou logo de tirar de si a responsabilidade.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o Dr. Nogueira que disse!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o costumo falar por procurador, meu caro! acudiu o candidato, carregando<br \/>\nna palavra.<\/p>\n<p>O Guimar\u00e3es, que se envergonhava da profiss\u00e3o do pai, amoitou-se,<br \/>\nremexendo-se na cadeira.<\/p>\n<h4><a id=\"14\" name=\"14\"><\/a>XIV<\/h4>\n<p>Que luzida companhia desfila pela estrada do Jardim?<br \/>\nAssim \u00e9 conhecido o caminho que serpeja pelas encostas da serra da<br \/>\nTijuca, e contornando a base da montanha desde a Cruz, no alto da Boa Vista,<br \/>\nvai morrer das praias de Copacabana.<\/p>\n<p>Cerca de dez cavaleiros, entre os quais elegantes amazonas, baralham-se<br \/>\nna marcha ligeira e trote dos fogosos cavalos, soltando \u00e0 brisa da<br \/>\nmanh\u00e3 e aos ecos das quebradas, exclama\u00e7\u00f5es de prazer,<br \/>\nr\u00e9plicas joviais, e o saboroso riso da alegria descuidosa.<\/p>\n<p>A uma quadra de dist\u00e2ncia aparecia outro pequeno grupo, do qual cavaleiros<br \/>\ne cavalgaduras faziam com o primeiro absoluto contraste.<\/p>\n<p>Era figura proeminente nele Mrs. Trowshy, flanqueada \u00e0 direita pelo<br \/>\nvisconde da Aljuba, e \u00e0 esquerda pelo Sr. Ben\u00edcio, um dos mais<br \/>\nass\u00edduos comensais da casa do comendador. Seguia-os \u00e0 cola o<br \/>\nSr. Daniel, como sempre metido naquele s\u00e9rio e empertigado, que lhe<br \/>\nservia de estojo.<\/p>\n<p>Os quatro iam montados em mulas baias, que no mais cadente chouto os chocalhava<br \/>\ndentro das roupas e da pele, como sacos metidos em bruacas. Por vezes Mrs.<br \/>\nTrowshy, amiga da palestra, buscou travar conversa com o visconde; mas a voz,<br \/>\nj\u00e1 prestes a sair da boca aberta, com o solavanco afundou-se-lhe pela<br \/>\ngarganta abaixo; e n\u00e3o houve meio de tirar sen\u00e3o um gorgot\u00e3o.<\/p>\n<p>Condenados assim ao sil\u00eancio for\u00e7ado, e sacolejados at\u00e9<br \/>\no \u00e2mago, os quatro companheiros de passeio, temendo esbroarem-se com<br \/>\no trote infernal, haviam tentado cada um por sua conta moderar o ardor \u00e0<br \/>\nrespectiva mula; mas fora baldado o intento. As baias estavam postadas, e<br \/>\nn\u00e3o havia modo de dobrar-lhes os queixos, por mais que puxassem dos<br \/>\nfreios.<\/p>\n<p>Se uma parasse, todas a imitariam; mas a\u00ed estava a dificuldade, que<br \/>\nnenhuma queria ser a primeira; entendiam l\u00e1 entre si que a sua dignidade<br \/>\nburresca sofreria com semelhante condescend\u00eancia.<\/p>\n<p>Afinal a inglesa n\u00e3o p\u00f4de mais com o vascolejo, que estava<br \/>\npor um tris a sacudi-la pela boca fora; pediu socorro ao Sr. Daniel, que tamb\u00e9m<br \/>\nse via nos mesmos apertos.<\/p>\n<p>&#8211; Se&#8230;nhor, nhor, nhor&#8230; Da&#8230;ni, ni, ni&#8230;<\/p>\n<p>Ouvindo afrautar-se a voz de Mrs. Trowshy \u00e0 maneira de fuga entre<br \/>\nbemol e sustenido, pensou o criado que a mestra ensaiava alguma \u00e1ria<br \/>\nitaliana, onde figurasse um tenor com o seu nome, o que lhe fazia l\u00e1<br \/>\npor dentro umas c\u00f3cegas mui gostosas.<\/p>\n<p>Foi quando a \u00faltima s\u00edlaba de seu nome, depois de gargarejar<br \/>\nalgum tempo na solnora laringe da professora, e rompendo afinal dos queixos<br \/>\nbritanicamente cerrados como uma bala raiada, vibrou um grito de ang\u00fastia,<br \/>\nque o Sr. Daniel, subitamente arrancado ao seu enlevo, compreendeu o susto<br \/>\nda mestra.<\/p>\n<p>No tr\u00eamulo olhar que lhe permitia o chouto valente da mula, viu o<br \/>\ngrosso volume da inglesa aos trambolh\u00f5es na sela, e por tal modo, que<br \/>\nia a despencar-se ao ch\u00e3o, e s\u00f3 por milagre escapara at\u00e9<br \/>\naquele momento.<\/p>\n<p>Bem quis o Daniel parar a mula e apear-se para acudir a tempo; mas ainda<br \/>\numa vez convenceu-se que nem sempre governa o de cima. Quando ruminava essa<br \/>\nreflex\u00e3o filos\u00f3fica, ouviu-se um gemido, e a inglesa adernando<br \/>\nent\u00e3o completamente como uma corveta inglesa de quarenta canh\u00f5es,<br \/>\ndespenhou-se da sela abaixo.<\/p>\n<p>Deu-se nesta ocasi\u00e3o, por\u00e9m, um incidente, que precisa de<br \/>\nexplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As mulas em que vinham os quatro companheiros de passeio, eram as baias<br \/>\ndo tiro do comendador Soares, acostumadas a trabalhar juntas, quando a vit\u00f3ria<br \/>\nia \u00e0 Tijuca ou ao Jardim, puxada a quatro. Naquela manh\u00e3, crescendo<br \/>\no n\u00famero dos passeantes, foi necess\u00e1rio recorrer a esses animais,<br \/>\nque passavam por dar sela.<\/p>\n<p>A &#8220;Gatinha&#8221;, que era a m\u00e3o da primeira parelha, tocou a<br \/>\nMrs. Trowshy; e a &#8220;Sinh\u00e1&#8221;, sua companheira, ao Daniel. Da<br \/>\nSegunda parelha deram a da m\u00e3o ao visconde, que por exce\u00e7\u00e3o<br \/>\nnaquele Domingo arvorou-se em passeante, e meteu-se no meio da rapaziada;<br \/>\na da sela ficou para o Ben\u00edcio.<\/p>\n<p>Ora, desde o princ\u00edpio do passeio que as mulas procuravam emparelhar-se,<br \/>\ncomo de costume; mas a &#8220;Gatinha&#8221;, fustigada pela inglesa, metera-se<br \/>\nentre as duas da outra parelha; e a &#8220;Sinh\u00e1&#8221;, a quem o Daniel<br \/>\ntrazia bem esticada a r\u00e9dea, era obrigada a ficar atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Com o susto, soltou o criado de todo a r\u00e9dea; de modo que a &#8220;Sinh\u00e1&#8221;,<br \/>\nmetendo o focinho, alongou-se pelos ilhais da companheira, e t\u00e3o a<br \/>\ntempo, que o busto respeit\u00e1vel da matrona, ao virar de querena, encontrou<br \/>\no toro magri\u00e7o mas rijo do Daniel, que lhe serviu de espeque.<\/p>\n<p>Emparelhadas e de r\u00e9deas soltas, as duas mulinhas despregaram pelo<br \/>\nmacadame um trote bonito, que era o orgulho do cocheiro do Soares, mas nesse<br \/>\nmomento causava o desespero do Daniel, agarrado ao ar\u00e7\u00e3o para<br \/>\nescorar a rotunda que desabara sobre ele.<\/p>\n<p>Todavia, ao cabo de alguns instantes sentiu que ele pr\u00f3prio ia aluir-se<br \/>\nao peso da carga; na sua afli\u00e7\u00e3o gritou aos outros:<br \/>\n&#8211; Acudam, \u00f3 senhores, que eu s\u00f3 n\u00e3o ag\u00fcento!<br \/>\nO visconde e o Ben\u00edcio, cuja parelha trotava no coice da outra, como<br \/>\nse a prendessem os tirantes e guias da carruagem, n\u00e3o pediam aos c\u00e9us<br \/>\noutra coisa sen\u00e3o que lhes fosse dado parar as mulas e p\u00f4r um<br \/>\ntermo \u00e0quele chouto formid\u00e1vel, que ia com certeza esmoer-lhes<br \/>\nos ossos e bater-lhes manteiga dos miolos amassados dentro da cachola.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, senhores! Exclamou o Daniel j\u00e1 esmagado, mas tentando<br \/>\num surto. Deixam cair a mestra de D. Guidinha?<br \/>\nO principal cuidado do ilh\u00e9u era a sua esposa, amea\u00e7ada seriamente<br \/>\nde ser despenhada com aquele desabe humano que por seguro o achatava em terra.<\/p>\n<p>Na impossibilidade de sofrearem as mulas e faz\u00ea-las parar a fim de,<br \/>\napeados, acudirem ao Daniel e ampararem da queda a inglesa, os dois ac\u00f3litos<br \/>\ntiveram nesse transe supremo um rasgo her\u00f3ico. Estendidos, quase deitados<br \/>\nao pesco\u00e7o das baias, cada um inteiri\u00e7ando o bra\u00e7o direito,<br \/>\nmeteu a m\u00e3o a trambolho luso-brit\u00e2nico e o afincou na sela.<\/p>\n<p>Afinado cada vez mais no trote largo e cadente, o tiro das mulas despejou<br \/>\no caminho \u00e0s bra\u00e7adas, conduzindo em charola a grotesca penca<br \/>\ndos quatro; e com pouca demora apanhou a luzida comitiva, que j\u00e1 tinha<br \/>\nmoderado o primeiro ardor.<\/p>\n<p>Ao dar com o grupo c\u00f4mico, digno de uma farsa eq\u00fcestre em circo<br \/>\nde cavalinhos, despregou-se o riso de todos os l\u00e1bios, e uma gargalhada<br \/>\nestrepitosa rolou pelas quebradas da serra, como a cascata grande da Tijuca<br \/>\na espadanar por entre os fraguedos.<\/p>\n<p>Topando com outros animais, as baias moderaram o entusiasmo e afinal estacaram,<br \/>\npois a um aceno de Guida alguns cavaleiros tinham saltado ao ch\u00e3o a<br \/>\ntempo de apararem na queda a cambulhada humana, que j\u00e1 de todo pendurada<br \/>\nsobre as ancas da &#8220;Sinh\u00e1&#8221; ia finalmente despencar-se.<\/p>\n<p>Concertada a marcha da comitiva, continuou ela a passo por algum tempo,<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 para dar respiro \u00e0 batida dos animais, como sobretudo<br \/>\npara que Mrs. Trowshy e os seus companheiros de tiro tornassem a si da esfrega<br \/>\ne pudessem de novo soldar-se na sela.<\/p>\n<p>Na frente ia Guida, montada no &#8220;Galgo&#8221;, que ela governava com<br \/>\na mesma eleg\u00e2ncia e corre\u00e7\u00e3o do costume, mas com certa<br \/>\npreven\u00e7\u00e3o que se revelava na firmeza do gesto e vivacidade do<br \/>\nolhar. Ela sentia que n\u00e3o tinha de haver-se com a arrog\u00e2ncia<br \/>\naristocr\u00e1tica do filho de \u00c1lbion, mas com a briosa independ\u00eancia<br \/>\ndo \u00e1rdego curitiano.<\/p>\n<p>Perto da mo\u00e7a vinha Ricardo em &#8220;Edgard&#8221;, conversando com<br \/>\nD. Clarinha. Aos lados, Guimar\u00e3es e o Bastos disputavam a direita ou<br \/>\na esquerda da mo\u00e7a, conforme as sinuosidades do caminho e evolu\u00e7\u00f5es<br \/>\nda cavalgada.<\/p>\n<p>No segundo plano notava-se D. Guilhermina a par com F\u00e1bio, que se<br \/>\ndesempenava em um soberbo cavalo campista, cujo defeito \u00fanico era ser<br \/>\num tanto pesado. Seguiam-se outras mo\u00e7as e cavaleiros, sem contar a<br \/>\nbagagem pesada, que fechava agora o bando.<\/p>\n<p>Eram sete horas da manh\u00e3, e pouco havia que o rancho alegre partira.<\/p>\n<p>Conforme o ajuste do domingo precedente, Ricardo \u00e0s seis horas se<br \/>\ndirigira \u00e0 casa do Soares. N\u00e3o lhe causava o m\u00ednimo alvoroto<br \/>\nesse passeio; dispunha-se a ele, como ao cumprimento de um dever de cortesia.<\/p>\n<p>Guida o convidara para obsequi\u00e1-lo; e ele, que reconhecia-se injusto<br \/>\nnas preven\u00e7\u00f5es que nutrira contra o banqueiro e sua fam\u00edlia,<br \/>\nconsiderava-se obrigado em consci\u00eancia a aceitar de rosto alegre o agasalho<br \/>\nque lhe faziam nessa casa. Era o \u00fanico meio que tinha de agradecer<br \/>\na fineza.<\/p>\n<p>Todavia, n\u00e3o foi esse o principal motivo. Da conversa de F\u00e1bio,<br \/>\npercebeu ele que o amigo ardia em desejos de tomar parte no passeio, e n\u00e3o<br \/>\nfaltaria por certo, se o &#8220;Galgo&#8221; pudesse dividir-se em dois ou estivesse<br \/>\nem moda a garupa.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o Ricardo, que tinha suas raz\u00f5es, n\u00e3o hesitou<br \/>\nmais; e decidiu-se a ir ao passeio, para evitar que F\u00e1bio o substitu\u00edsse.<\/p>\n<p>Muito cedo, pois, chegou \u00e0 casa do Soares. Grande por\u00e9m foi<br \/>\na sua surpresa, e n\u00e3o menor a contrariedade, avistando no p\u00e1tio,<br \/>\nentre o grupo de senhoras e cavaleiros, que se preparavam para montar, a F\u00e1bio<br \/>\nocupado em apertar a cilha do cavalo de D. Guilhermina.<\/p>\n<p>Madrugando nesse dia, contra o costume, o sobrinho de D. Joaquina se aprontara<br \/>\ne sa\u00edra a passeio para o lado da Boa Vista. Afagava-o uma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em caminho encontrou D. Guilhermina que voltava do banho com outras:<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o vai \u00e0 &#8220;Vista dos Chins?&#8221; perguntou<br \/>\nela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o arranjei animal! respondeu F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Que desculpa! Eu lhe empresto um. Venha!<br \/>\nF\u00e1bio acompanhou as senhoras \u00e0 casa do Soares. No p\u00e1tio<br \/>\nj\u00e1 estavam arreando os animais. D. Guilhermina chamou um escravo:<br \/>\n&#8211; O cavalo do Sr. Lima aqui para o Sr. Dr. F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Este castanho \u00e9 o seu? perguntou F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Acha bonito?<br \/>\n&#8211; Soberbo!<br \/>\nGuida, que descia os degraus da escada, viu Ricardo apear-se, e foi-lhe ao<br \/>\nencontro:<br \/>\n&#8211; Como passou?<br \/>\nSaudara ao mo\u00e7o com estas palavras e um aperto de m\u00e3o; mas o<br \/>\nolhar cheio de afagos foi para o &#8220;Galgo&#8221;. Havia nesse olhar a ang\u00e9lica<br \/>\nvoluptuosidade com que a mo\u00e7a cobi\u00e7a um capricho, e a menina<br \/>\numa boneca.<\/p>\n<p>&#8220;Edgarg&#8221; estava pronto e esperava pela senhora. O estribo de Guida<br \/>\nera feito de modo que lhe permitia montar sem aux\u00edlio de banco, apesar<br \/>\nda altura do cavalo. Era um simples inven\u00e7\u00e3o de seu g\u00eanio<br \/>\ntravesso, a qual o melhor corrieiro da corte, o Lambet, se incumbira de p\u00f4r<br \/>\nem pr\u00e1tica. A volta do loro passando na mola atravessava o suadouro<br \/>\ne prendia-se no outro lado a um pequeno gancho pregado na arma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo selim e elegantemente disfar\u00e7ado por uma aba de couro.<\/p>\n<p>Antes de montar o loro frouxo descia o estribo at\u00e9 o ponto de n\u00e3o<br \/>\nconstranger; elevando-se rapidamente sobre esse apoio, de um salto a mo\u00e7a<br \/>\ngalgava o selim; e recolhendo o loro, prendia-o mais curto, encaixando o ilh\u00f3<br \/>\nno gancho.<\/p>\n<p>Assim tinha ela a liberdade de apear-se quando queria, durante o passeio,<br \/>\ne montar sem aux\u00edlio estranho.<\/p>\n<p>J\u00e1 estava com o p\u00e9 no estribo, e a ampla saia do roup\u00e3o<br \/>\nmostrava a ponta da bota castanha a brincar sobre o disco de a\u00e7o quando,<br \/>\ntomada de s\u00fabito a desgosto, afastou-se de &#8220;Edgard&#8221;:<br \/>\n&#8211; Aborrece-me este cavalo!&#8230; disse ela com enfado. Pedro!&#8230;<\/p>\n<p>O preto acudiu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 outro animal para mim?<br \/>\n&#8211; E o alaz\u00e3o? perguntou o preto embasbacado e apontando para o &#8220;isabel&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero este!&#8230; \u00c9 muito feio.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! que injusti\u00e7a! disse Ricardo sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor acha bonito?<br \/>\n&#8211; \u00c9 um soberbo animal.<\/p>\n<p>&#8211; Pois v\u00e1 nele.<\/p>\n<p>&#8211; E a senhora?<br \/>\n&#8211; Eu irei em qualquer.<\/p>\n<p>&#8211; De modo algum. Se o &#8220;Galgo&#8221; n\u00e3o fosse t\u00e3o esperto!<br \/>\n&#8211; Por isso n\u00e3o! Mas o senhor n\u00e3o se h\u00e1 de privar por<br \/>\nminha causa. N\u00e3o; eu fico, vou passear a p\u00e9.<\/p>\n<p>Depois de alguns escr\u00fapulos mais por parte de Guida, a inst\u00e2ncias<br \/>\nde Ricardo, fez-se a troca; e partiu enfim a passeata.<\/p>\n<h4><a id=\"15\" name=\"15\"><\/a>XV<\/h4>\n<p>Em uma aberta do mato que borda o caminho, avistaram os passeantes ao longe<br \/>\na barra da Tijuca, ao longo da qual estendia-se o cord\u00e3o de espuma<br \/>\ndas vagas, como uma franja de arminho, guarnecendo o manto de cetim do oceano,<br \/>\na embeber o azul do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Os passeantes saudaram com uma exclama\u00e7\u00e3o de prazer o quadro<br \/>\nencantador daquela marinha, tocada pelos raios do sol nascente, que aveludava<br \/>\nas cores mimosas da palheta americana.<\/p>\n<p>Com um pouco, dobraram o &#8220;Canto da saudade&#8221;, e os olhos desafogados<br \/>\ndo arvoredo que vestia a orla do caminho, se desdobraram \u00e1vidos pelos<br \/>\nhorizontes abertos, recreando-se com a paisagem de v\u00e1rias ch\u00e1caras,<br \/>\nderramadas no vale, ou alteadas pelas assomadas das fronteiras colinas.<\/p>\n<p>Entre estas notam-se principalmente duas, a do Moke, por ser das resid\u00eancias<br \/>\nmais antigas que se estabeleceram nesse apraz\u00edvel s\u00edtio; e a<br \/>\ndo Dr. Cochrane, arranjada \u00e0 fei\u00e7\u00e3o de um modesto parque<br \/>\ningl\u00eas, o que lhe atra\u00eda outrora grande n\u00famero de visitantes.<\/p>\n<p>Aqueles dos passeantes, que mais conheciam o pr\u00e9dio por t\u00ea-lo<br \/>\npercorrido freq\u00fcentes vezes, apontavam de longe os v\u00e1rios pontos<br \/>\nde recreio:<br \/>\n&#8211; Olhe, l\u00e1 est\u00e1 o lago!<br \/>\n&#8211; E a ilha!<br \/>\n&#8211; Ali, por aquele caminho vai sair-se na &#8220;Cascatinha&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 naquele morro \u00e9 a &#8220;Vista do mar&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Como se chama a ilha?<br \/>\n&#8211; Malacoff.<\/p>\n<p>E outras exclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Talvez nessa ocasi\u00e3o percorria o escritor destas p\u00e1ginas as<br \/>\nbordas do lago sereno, em seu passeio matinal, bem longe de imaginar que teria<br \/>\nde referir a com\u00e9dia, cujas figuras principais passavam ao longe, sem<br \/>\nque ele as percebesse.<\/p>\n<p>Entre todos os alegres companheiros, s\u00f3 Ricardo mostrava-se reservado,<br \/>\ncomo j\u00e1 era naturalmente fora da intimidade, e ainda mais quando tinha<br \/>\npreso o esp\u00edrito de uma constante preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seu olhar inquieto se repartia entre Guida, que ia perto, mas pouco adiante,<br \/>\ne F\u00e1bio, que o seguia a pequena dist\u00e2ncia, do lado oposto.<\/p>\n<p>Percebendo o desejo de Guida, o mo\u00e7o insistira em satisfazer-lhe<br \/>\ninocente capricho, com o oferecimento do &#8220;Galgo&#8221; para aquele passeio.<\/p>\n<p>Causava-lhe t\u00e3o \u00edntimo prazer a circunst\u00e2ncia de poder<br \/>\nele, um pobret\u00e3o, prestar um obs\u00e9quio no meio daquela sociedade<br \/>\ncosida a ouro, que os primeiros receios sobre o animal se desvaneceram com<br \/>\na seguran\u00e7a da gentil amazona.<\/p>\n<p>A caminho, por\u00e9m, conheceu Ricardo que embora Guida se mostrasse<br \/>\nt\u00e3o destra, como era elegante cavaleira, todavia o seu pulso delicado,<br \/>\nque cerrava o canh\u00e3o da luva de camur\u00e7a amarela como a corola<br \/>\nde um jacinto a desabrochar, teria o vigor necess\u00e1rio para domar a<br \/>\nimpetuosidade do generoso corcel?<br \/>\nE o &#8220;Galgo&#8221; nessa manh\u00e3 estava nem de prop\u00f3sito em<br \/>\num de seus momentos de fogo. A presen\u00e7a dos outros animais excitava-lhe<br \/>\nos brios generosos; e o ar puro da manh\u00e3, que ele hauria \u00e0s<br \/>\ngolfadas para lan\u00e7ar das narinas em fumo ardente, parecia repass\u00e1-lo<br \/>\nda ligeireza e mobilidade do vento.<\/p>\n<p>Ricardo, sabedor das travessuras e floretas com que nessas ocasi\u00f5es<br \/>\ncostumava o &#8220;Galgo&#8221; divertir-se, e lembrando-se de quanta firmeza<br \/>\nde r\u00e9dea e agilidade carecia para evitar que estes folguedos se transformassem<br \/>\nem revoltas s\u00e9rias e c\u00f3leras indom\u00e1veis, Ricardo estava<br \/>\nem constante sobressalto e arrependido de haver consentido na troca.<\/p>\n<p>Acompanhando a garbosa inflex\u00e3o da m\u00e3o esquerda de Guida,<br \/>\na cada instante passava-lhe prudentes avisos sobre o manejo do animal, advertindo-a<br \/>\ndos sestros e modo de os corrigir ou abrandar. Guida ouvia-o com indiferen\u00e7a,<br \/>\nquase distra\u00edda, e apesar de sua afabilidade com o advogado, bem se<br \/>\nconhecia que essa solicitude beliscava-lhe o amor-pr\u00f3prio; pois a mo\u00e7a<br \/>\ntinha presun\u00e7\u00e3o de ser perfeita cavaleira.<\/p>\n<p>N\u00e3o escapava a Ricardo essa contrariedade; mas, ainda com risco de<br \/>\ndesagradar, n\u00e3o poupava as observa\u00e7\u00f5es, toda a vez que<br \/>\nas julgava necess\u00e1rias, embora por \u00faltimo j\u00e1 procurasse<br \/>\num disfarce para as dissimular.<\/p>\n<p>Se tirava os olhos do &#8220;Galgo&#8221; e da elegante amazona, era para<br \/>\nrelance\u00e1-los ao lado oposto, onde F\u00e1bio brincava com D. Guilhermina.<br \/>\nJ\u00e1 no domingo anterior notara a assiduidade do amigo junto \u00e0<br \/>\nmulher do conselheiro; mas sup\u00f4s que n\u00e3o passava de um galanteio<br \/>\nsem conseq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>O noivo de sua irm\u00e3, bem sabia o advogado, era dos tais de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nandejo e buli\u00e7oso, que n\u00e3o podem ficar quietos, como crian\u00e7as<br \/>\nque s\u00e3o; mas est\u00e3o sempre a bisbilhotar quanta boneca lhes cai<br \/>\nno goto. E o pior \u00e9 impedi-los de traquinar, pois s\u00e3o capazes<br \/>\nent\u00e3o de estrepolias diab\u00f3licas.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do passeio, contudo, entendia Ricardo que o galanteio j\u00e1<br \/>\nia entrando demais pelo recato de uma senhora casada.<\/p>\n<p>F\u00e1bio n\u00e3o s\u00f3 tinha servido de escudeiro a D. Guilhermina<br \/>\npara suspend\u00ea-la do banco, meter-lhe no estribo o p\u00e9 elegante,<br \/>\ne arranjar-lhe as dobras da saia de montaria, como continuara pelo caminho<br \/>\na exercer o mesmo agrad\u00e1vel mister.<\/p>\n<p>Era ele quem levava o chapeuzinho de sol, o len\u00e7o, as flores, o leque<br \/>\ne at\u00e9 o chicotinho de madrep\u00e9rola da senhora, que lhe confiara<br \/>\nde boa vontade todos esses objetos, n\u00e3o s\u00f3 pela comodidade de<br \/>\nos trazer \u00e0 m\u00e3o em um cabide ambulante, como para dar ao mo\u00e7o<br \/>\no prazer de os guardar.<\/p>\n<p>Se precisava do len\u00e7o para enxugar os l\u00e1bios \u00famidos<br \/>\ndo sorriso, como um lil\u00e1s ressumando orvalhos; se tinha fome, como<br \/>\no colibri dos perfumes de seu ramo de violetas; se os dedos cativos na luva<br \/>\nde pelica bronzeada sentiam \u00edmpetos de se agitarem, como os passarinhos<br \/>\nde voar, e queriam divertir-se a cortar os talos das folhas com a vergasta<br \/>\ndo chicotinho, F\u00e1bio prontamente lhe passava o objeto desejado, e nessa<br \/>\ntroca, repetida de instante a instante, as m\u00e3os se tocavam uma e muitas<br \/>\nvezes no meio dos risos causados pelos desencontros.<\/p>\n<p>Quando o sol montando as assomadas fronteiras come\u00e7ou a castigar<br \/>\no caminho, F\u00e1bio apressou-se em abrir o chapelinho de sol para resguardar<br \/>\no rosto da formosa senhora, que de bom grado prestou-se a essa fineza oriental<br \/>\ncomo uma sultana a receberia de seu escravo.<\/p>\n<p>Assim, tendo necessidade de conchegar o animal para melhor interceptar o<br \/>\nsol, sentia F\u00e1bio ro\u00e7ar-lhe pelo bra\u00e7o a linda esp\u00e1dua,<br \/>\ncujo t\u00e9pido conchego o trespassava. Nestas ocasi\u00f5es um ligeiro<br \/>\nrubor repontava na face aveludada da mo\u00e7a; mas desfolhava-se logo em<br \/>\num riso desdenhoso, como uma rosa a que a chuva arranca as p\u00e9talas.<\/p>\n<p>Esse jogo m\u00fatuo de ademanes e brincos, Ricardo o considerava n\u00e3o<br \/>\nmais simples amabilidade, por\u00e9m namoro formal e j\u00e1 escandaloso<br \/>\npara uma senhora casada.<\/p>\n<p>Nisso mostrava Ricardo o seu atraso nas regras da boa sociedade. Ainda estava<br \/>\npelo antigo roj\u00e3o, quando se reparava em tais bagatelas, e fazia-se<br \/>\nmau ju\u00edzo da senhora que desse a qualquer mo\u00e7o, ainda mesmo<br \/>\num \u00edntimo, tanta liberdade.<\/p>\n<p>Atualmente \u00e9 a moda; a mo\u00e7a solteira ou casada, que n\u00e3o<br \/>\ntiver essas maneiras distintas, certamente n\u00e3o passa por elegante.<\/p>\n<p>Outra circunst\u00e2ncia muito incomodava a Ricardo: era a facilidade com<br \/>\nque F\u00e1bio insinuava-se nessa sociedade, onde ambos se deviam considerar<br \/>\napenas como h\u00f3spedes de arriba\u00e7\u00e3o, prontos a deix\u00e1-la<br \/>\nao cabo de algumas horas. Ao contr\u00e1rio, o amigo j\u00e1 come\u00e7ava<br \/>\na desfrutar os favores com tal desembara\u00e7o, que pouco faltava para<br \/>\nentrar no rol dos \u00edntimos, esp\u00e9cie de parasitas da pior casta,<br \/>\nporque n\u00e3o s\u00f3 devoram os jantares e ceias, estragam os cavalos,<br \/>\ncarruagens e m\u00f3veis, mas babujam a reputa\u00e7\u00e3o, quando<br \/>\nn\u00e3o a honra.<\/p>\n<p>Eis os motivos que traziam t\u00e3o preocupado o jovem advogado durante<br \/>\no passeio.<\/p>\n<p>Outra pessoa por\u00e9m perseguia a F\u00e1bio com olhares furibundos;<br \/>\nera o Ben\u00edcio, que por vezes tentara aproximar-se, mas tivera de ceder<br \/>\n\u00e0 baia, rebelde ao freio, e mais teimosa que ele!<br \/>\nEstaria o Ben\u00edcio tamb\u00e9m apaixonado por D. Guilhermina?<br \/>\nE por que n\u00e3o? Apesar as compridas pernas, do longo talhe em ab\u00f3bada,<br \/>\ne da cabe\u00e7a a tr\u00eas quinas, pode um homem ter o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nsens\u00edvel.<\/p>\n<h4><a id=\"16\" name=\"16\"><\/a>XVI<\/h4>\n<p>Pr\u00f3ximo \u00e0 crista da montanha, onde o caminho talhando-lhe o<br \/>\ncimo, come\u00e7a a descambar para a vertente, deu-se um pequeno acidente<br \/>\nque s\u00f3 notaram tr\u00eas pessoas, al\u00e9m daquelas entre quem<br \/>\nse passou.<\/p>\n<p>&#8211; Pode fechar! disse D. Guilhermina para F\u00e1bio indicando-lhe com<br \/>\no olhar o chap\u00e9u de sol. O senhor deve estar cansado!<br \/>\n&#8211; Por t\u00e3o pouco? N\u00e3o me prive deste prazer.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras? Acha que \u00e9 um prazer trazer um chap\u00e9u de sol aberto?<br \/>\nperguntou a mo\u00e7a com remoque.<\/p>\n<p>&#8211; Para abrig\u00e1-la do sol?&#8230; Decerto que o \u00e9!<br \/>\n&#8211; Neste caso deixe-me tamb\u00e9m experimentar. Fa\u00e7a-me o favor de<br \/>\npassar o meu!<br \/>\nF\u00e1bio quis desobedecer e retorquiu; mas, insistindo a senhora, deu-lhe<br \/>\no chapelinho de cetim verde e contentou-se com apertar-lhe a ponta dos dedos,<br \/>\nque n\u00e3o fugiram a tempo de escaparem \u00e0 cilada.<\/p>\n<p>D. Guilhermina tinha casualmente, por duas ou tr\u00eas vezes, encontrado<br \/>\no olhar perscrutador de Ricardo; e sentindo-se alvo da aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mo\u00e7o, tamb\u00e9m teve de seu lado curiosidade de observ\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O chap\u00e9u de sol de F\u00e1bio interceptava-lhe o olhar; afastou-o<br \/>\npois, e adiantou o cavalo de modo a n\u00e3o perder os movimentos do mo\u00e7o,<br \/>\nsem deixar contudo que ele o percebesse.<\/p>\n<p>D. Guilhermina era bonita, e tinha consci\u00eancia de sua formosura, que<br \/>\nestava ent\u00e3o no esplendor.<\/p>\n<p>Teria vinte e oito anos; de desenvolvimento tardio, como uma d\u00e1lia<br \/>\na que faltasse por algum tempo o sol, essa idade que para outras come\u00e7a<br \/>\na desfolha, para ela, depois de dez anos de casamento, era a mais brilhante<br \/>\nflora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tez aveludada de seu colo; o fresco e delicioso encarnado das faces; olhos<br \/>\nrasgados como duas favas de baunilha e afogados em cristal de leite; a oca,<br \/>\ntalvez grande, mas primor de gra\u00e7a, cheia de sedu\u00e7\u00f5es<br \/>\nirresist\u00edveis; e as formas encantadoras do talhe modelado com a maior<br \/>\ncorre\u00e7\u00e3o e harmonia; tudo nela estava respirando o vi\u00e7o<br \/>\ndessa plenitude da mocidade que \u00e9 o apogeu da mulher.<\/p>\n<p>Como era natural, essa beleza, t\u00e3o reputada nos sal\u00f5es, sup\u00f4s-se<br \/>\no objeto de uma admira\u00e7\u00e3o ardente, e talvez mesmo j\u00e1<br \/>\nenvolta em sentimento mais terno. Qualquer d\u00favida desapareceu no esp\u00edrito<br \/>\nda mo\u00e7a, apenas notou a express\u00e3o de desgosto que se derramava<br \/>\nna fisionomia franca de Ricardo, ao surpreender um requebro ou ademane namorado<br \/>\nde F\u00e1bio.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o procurou o olhar de Ricardo e encontrando-o tentava ret\u00ea-lo<br \/>\ncom um l\u00e2nguido volver do seu. Uma vez demorando-se muito tempo em aspirar<br \/>\no perfume das violetas com os olhos fitos no mancebo, deixou depois cair a<br \/>\nm\u00e3o que segurava o ramo, e este escorregou ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>O chapelinho de sol, faceiramente inclinado, ocultou esta m\u00edmica<br \/>\n\u00e0s acesas vistas de F\u00e1bio; e um relancear r\u00e1pido e vivo<br \/>\nindicou a Ricardo a queda do ramo de violetas.<\/p>\n<p>O primeiro assomo do advogado foi ditado pela cortesia; as r\u00e9deas<br \/>\ncolhidas de pronto sofrearam a marcha do animal. Mas logo ap\u00f3s retraindo,<br \/>\nmostrou-se de todo alheio ao incidente; nem suspeitou sombra de provoca\u00e7\u00e3o,<br \/>\nonde s\u00f3 via mero acaso.<\/p>\n<p>D. Guilhermina por\u00e9m parara de repente procurando em si um objeto<br \/>\nque lhe faltasse.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9? perguntou F\u00e1bio sol\u00edcito. Perdeu alguma<br \/>\ncoisa?<br \/>\nA resposta demorou-se um instante \u00e0 espera que Ricardo se voltasse;<br \/>\nmas este afastava-se.<\/p>\n<p>&#8211; Meu ramo!<br \/>\n&#8211; Caiu sem d\u00favida; vou procur\u00e1-lo.<\/p>\n<p>F\u00e1bio retrocedeu \u00e0 cata do ramo; mas j\u00e1 o Ben\u00edcio<br \/>\no tinha apanhado, e para n\u00e3o machuc\u00e1-lo, o trazia a p\u00e9,<br \/>\npuxando a mula.<\/p>\n<p>&#8211; Faz favor! Disse F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Nada, meu senhor; quero entreg\u00e1-lo \u00e0 dona.<\/p>\n<p>D. Guilhermina que esperava parada, o recebeu, mui contrariada.<\/p>\n<p>&#8211; Pode seguir, Sr. Ben\u00edcio, disse F\u00e1bio que desejava aproveitar<br \/>\na ocasi\u00e3o de ficar s\u00f3 com a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se incomode! Talvez D. Guilhermina tenha outra vez necessidade<br \/>\nde meus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>A mulher do conselheiro percebendo a impaci\u00eancia de F\u00e1bio e<br \/>\nreceando que ele tivesse algum desaguisado com o pachorrento Sr. Ben\u00edcio,<br \/>\np\u00f4s o cavalo a meio galope.<\/p>\n<p>&#8211; Viva!! disse o mo\u00e7o content\u00edssimo por livrar-se do sujeito.<\/p>\n<p>Mas o homem, soltando o chouto \u00e0 mula, a\u00ed estava rente com<br \/>\neles e os acompanhou at\u00e9 apanharem os outros.<\/p>\n<p>A Guida n\u00e3o escapara a provoca\u00e7\u00e3o de D. Guilhermina,<br \/>\ne vendo Ricardo render-se no primeiro assomo, sorriu. Era a ocasi\u00e3o<br \/>\nde subtrair-se \u00e0 vigil\u00e2ncia cont\u00ednua que o dono do &#8220;Galgo&#8221;<br \/>\nexercia sobre ela.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo, D. Guidinah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nem a rainha do ar.<\/p>\n<p>Estas exclama\u00e7\u00f5es do Bastos e Guimar\u00e3es festejavam<br \/>\nas escaramu\u00e7as com que a mo\u00e7a se divertia \u00e0 beira do<br \/>\nprofundo despenhadeiro.<\/p>\n<p>Voltando-se, viu Ricardo as curvetas do &#8220;Galgo&#8221;, e adiantou-se:<br \/>\n&#8211; Confesso-lhe que estou arrependido da troca! Pensei que a senhora n\u00e3o<br \/>\nfosse t\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e3o estabanada!&#8230; Pode dizer!&#8230; acudiu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Queria dizer imprudente, apenas.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigada! retorquiu com um sorriso de gentil motejo. Tenho eu culpa<br \/>\ndas estrepolias de seu cavalo?<br \/>\n&#8211; Mas eu preveni-a do quanto ele \u00e9 \u00e1rdego! N\u00e3o suporta<br \/>\ncertas birrazinhas que a senhora costuma fazer a &#8220;Edgard&#8221;! \u00c9<br \/>\num caipira, como eu.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 o senhor tamb\u00e9m querendo fazer o &#8220;Galgo&#8221;<br \/>\npior o que \u00e9! N\u00e3o o acho t\u00e3o feroz como o pinta o dono!<br \/>\n&#8211; Em todo o caso eu lhe pe\u00e7o, n\u00e3o o irrite!&#8230; disse Ricardo<br \/>\nalisando a anca do animal para acalm\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu estou bem quietinha, v\u00ea! disse a mo\u00e7a com as m\u00e3os<br \/>\ncruzadas sobre o gancho do selim. Ainda quer mais? acrescentou atirando a<br \/>\nRicardo um sorriso cheio de mal\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o chega mais para o meio? Vai muito na beira do barranco!<br \/>\n&#8211; Ah! Tamb\u00e9m faz mal? Pode cair a ribanceira? N\u00e3o \u00e9?<br \/>\nMas l\u00e1; se a montanha vier abaixo?<br \/>\nRicardo n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Que diz?<br \/>\n&#8211; Zombe a seu gosto!&#8230; Divirta-se \u00e0 minha custa, contanto que deixe<br \/>\no &#8220;Galgo&#8221; sossegado, tornou Ricardo gracejando.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, n\u00e3o quero que tenha queixa de mim.<\/p>\n<p>E inclinando as r\u00e9deas, fez o &#8220;Galgo&#8221;, j\u00e1 apaziguado,<br \/>\ntomar o meio da estrada.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 satisfeito?<br \/>\n&#8211; Se continuar assim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O senhor est\u00e1 prevenido contra mim. Quem sabe se n\u00e3o me<br \/>\nfizeram alguma intriga? Pois engana-se, tenho um g\u00eanio de \u00e1gua<br \/>\nmorna.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o supunha, acudiu Ricardo; mas depois do que tenho visto esta<br \/>\nmanh\u00e3, posso jurar!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 verdade?&#8230; Estamos quase no fim do passeio e ainda<br \/>\nn\u00e3o dei um galope!<br \/>\n&#8211; O galope n\u00e3o \u00e9 das piores coisas.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; Ent\u00e3o o galope n\u00e3o faz mal?<br \/>\n&#8211; Conforme; num cavalo manso, o galope \u00e9 agrad\u00e1vel e n\u00e3o<br \/>\ntem o menor risco; mas em um animal arisco, como o &#8220;Galgo&#8221;, n\u00e3o<br \/>\nconv\u00e9m a uma senhora.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 perigoso? perguntou Guida com um modo c\u00e2ndido.<\/p>\n<p>&#8211; Pode tornar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras!<br \/>\n&#8211; Se n\u00e3o acredita&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ao contr\u00e1rio, acudiu Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Uma tarde destas e neste mesmo caminho esteve a atirar-se com F\u00e1bio<br \/>\npela montanha abaixo.<\/p>\n<p>&#8211; E como escapou?<br \/>\n&#8211; Esbarrando contra os bois de um carro que por felicidade estava atravessado<br \/>\nna estrada.<\/p>\n<p>&#8211; Ahh!&#8230; O tal senhor &#8220;Galgo&#8221; faz dessas estrepolias!&#8230; repetia<br \/>\nGuida afagando o pesco\u00e7o do animal com a m\u00e3ozinha enluvada.<\/p>\n<p>De repente um sibilo cortou os ares; e o &#8220;Galgo&#8221; se arremessou<br \/>\nno espa\u00e7o como m turbilh\u00e3o, no meio do qual mal se distinguia<br \/>\no torvelim da saia de Guida, agitada pela corrida impetuosa.<\/p>\n<p>Fora o chicotinho que, vibrado pela m\u00e3o nervosa, fustigara cruelmente<br \/>\no brioso corcel; ao passo que a menina inclinando a cabe\u00e7a desdenhosamente<br \/>\nsobre a esp\u00e1dua, soltara estas palavras no momento de abandonar-se<br \/>\nao \u00edmpeto do animal.<\/p>\n<p>&#8211; Quero ver!&#8230;<\/p>\n<p>Surpreso, Ricardo olhou um instante o vulto da mo\u00e7a que voava, soltando<br \/>\naos ecos da montanha o seu mote t\u00edpico:<br \/>\n&#8211; Hep!&#8230; hep!&#8230; hep!&#8230;<\/p>\n<p>Cobrando-se logo do enleio causado pelo imprevisto arrojo, Ricardo largou<br \/>\nr\u00e9deas a &#8220;Edgard&#8221;, que partiu \u00e0 desfilada no encal\u00e7o<br \/>\ndo &#8220;Galgo&#8221;, e sem d\u00favida o alcan\u00e7aria, pois, contido<br \/>\npelo freio, j\u00e1 o curitibano moderava o primeiro \u00edmpeto.<\/p>\n<p>Mas Guida ouviu o estrupido; e voltando-se, conheceu que Ricardo a seguia<br \/>\ne talvez a alcan\u00e7asse. O chicotinho sibilou nos ares, semelhante a<br \/>\numa v\u00edbora que se enrosca; e o &#8220;Galgo&#8221;, alongando-se como<br \/>\numa flecha, devorou o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>No meio daquele turbilh\u00e3o, pareceu ao mo\u00e7o que o talhe esbelto<br \/>\nda menina oscilava na sela, e buscou afirmar a vista, quando um grito de terror,<br \/>\nque se escapara fremente dos l\u00e1bios de Guida, cortou os ares.<\/p>\n<p>Fincar esporas no isabel e dispar\u00e1-lo com um tiro de canh\u00e3o,<br \/>\nfoi para Ricardo um movimento maquinal, que ele executou antes de pensar.<\/p>\n<p>Estendia-se por diante o lan\u00e7o do caminho, que fazendo, volta na<br \/>\nextremidade corta o cabe\u00e7o da montanha, e ocorre alguma dist\u00e2ncia<br \/>\nentre dois taludes profundos para surdir j\u00e1 na outra encosta da serra,<br \/>\nno ponto chamado &#8220;Mesa&#8221;.<\/p>\n<p>Havia nesse lugar uma longa mesa, feita de paus toscos e ensombrada por<br \/>\nespesso bambuzal. Talvez j\u00e1 o tempo a tenha consumido; h\u00e1 tr\u00eas<br \/>\nanos ainda a vi, reparada dos primeiros estragos e j\u00e1 outra vez carcomida.<\/p>\n<p>Quantos piqueniques n\u00e3o tem visto o memoroso bosque dos bambus? Que<br \/>\nsegredos n\u00e3o guardam em hier\u00f3glifos e datas os verdes troncos<br \/>\ndas taquaras, que a foice do trabalhador da estrada n\u00e3o cortou ainda<br \/>\npara empalhar o rancho? Que banquetes dados aquela rude estiva de varas, sem<br \/>\ntoalha nem servi\u00e7os de prata, mas t\u00e3o op\u00edparos de contentamento<br \/>\ne prazer?<br \/>\nPassando \u00e0 direita do bambuzal, alonga-se o caminho pelo lan\u00e7ante<br \/>\nda montanha, e ao cabo de algumas bra\u00e7as derrama-se por uma pequena<br \/>\nesplanada, que serve como de rampa ao magn\u00edfico cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>A\u00ed, \u00e0 esquerda, no socalco do caminho, est\u00e1 a palho\u00e7a<br \/>\nonde pousavam os colonos, que abriram o caminho do Jardim e deram nome ao<br \/>\ns\u00edtio. Conhecido a princ\u00edpio o lugar pela simples indica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde &#8220;Rancho dos chins&#8221;, a imagina\u00e7\u00e3o popular enlevada<br \/>\npela brilhante perspectiva, de lembran\u00e7a fantasiava alguma das pinturas<br \/>\ndi\u00e1fanas e aveludadas que vira debuxadas em papel de arroz; e da\u00ed<br \/>\no nome de &#8220;Vista chiensa&#8221;.<\/p>\n<h4><a id=\"17\" name=\"17\"><\/a>XVII<\/h4>\n<p>Devorou Ricardo em completa disparada o lan\u00e7o do caminho, at\u00e9<br \/>\na garganta onde sumira o &#8220;Galgo&#8221; levando a mo\u00e7a, talvez j\u00e1<br \/>\nde rasto.<\/p>\n<p>Ao entrar no estreito passo, ainda p\u00f4de ver de relance o vulto de<br \/>\nGuida que passava como uma sobra, por defronte do bambuzal. Ferrando de novo<br \/>\nas esporas em &#8220;Edgard&#8221; admirado daquela aspereza, o mancebo, sem<br \/>\nperder a calma de que tanto precisava, fez um \u00faltimo esfor\u00e7o<br \/>\npara alcan\u00e7ar o &#8220;Galgo&#8221;, cortar-lhe a dianteira, e evitar<br \/>\na desgra\u00e7a iminente.<\/p>\n<p>Mas nenhuma esperan\u00e7a tinha de o conseguir; bem conhecia seu cavalo,<br \/>\ne avaliando do isabel pela amostra, via que n\u00e3o era ele para bater<br \/>\no corredor paulista, em condi\u00e7\u00f5es iguais, quanto mais com tal<br \/>\npartido.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o desaparecia; e Ricardo via aproximar-se com espantosa rapidez<br \/>\na rampa da montanha, donde o &#8220;Galgo&#8221; ia precipitar-se arrastando<br \/>\na infeliz mo\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o restava mais que dois trancos do galope, quando arrebatado<br \/>\npela m\u00e3o destra da amazona, que o suspendeu no ar, o &#8220;Galgo&#8221;,<br \/>\nrodando sobre os p\u00e9s, com as m\u00e3os no ar e quase vertical, retrocedeu<br \/>\na disparada em que ia, e sofreado veio esbarrar-se contra &#8220;Edgard&#8221;,<br \/>\nque seguia a vinte bra\u00e7os de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Com tamanha rapidez fora executada esta evolu\u00e7\u00e3o, que antes<br \/>\nde Ricardo voltar a si da surpresa, assomou-lhe em frente o rosto mimoso de<br \/>\nGuida, animada pelo ardor da corrida, como pela galhardia da sua proeza eq\u00fcestre.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou t\u00e3o m\u00e1 cavaleira, como pensava! disse-lhe<br \/>\na mo\u00e7a desfolhando um riso fresco e argentino.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acho a menor gra\u00e7a nisto! retorquiu o mo\u00e7o com<br \/>\num modo s\u00e9rio e displicente.<\/p>\n<p>&#8211; Assustou-se?&#8230; Por uma pessoa indiferente!&#8230; Se fosse uma irm\u00e3<br \/>\nou algu\u00e9m que lhe interessasse!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada agrad\u00e1vel sair-se a passeio, e ter-se de<br \/>\nassistir a uma cat\u00e1strofe. Se me houvesse convidado para uma representa\u00e7\u00e3o<br \/>\neq\u00fcestre \u00e0 borda de um precip\u00edcio, eu por certo n\u00e3o<br \/>\nme acharia aqui; e sobretudo n\u00e3o concorreria de alguma forma para estas<br \/>\nbrilhaturas.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que n\u00e3o me emprestava o seu cavalo? Ent\u00e3o pensa<br \/>\nque eu precisava dele para atirar-me da ladeira abaixo, se me viesse \u00e0<br \/>\nfantasia experimentar essa emo\u00e7\u00e3o? Est\u00e1 enganado. Para<br \/>\nisso preferia &#8220;Edgard&#8221;, pois com sua fleuma brit\u00e2nica, s\u00f3<br \/>\nobrigado por mim ele se precipitaria, mas friamente, como um cavalo que se<br \/>\nrespeita; e n\u00e3o desastradamente, e \u00e0s cegas, como o seu &#8220;Galgo&#8221;<br \/>\nque n\u00e3o tem maneiras.<\/p>\n<p>&#8211; Em todo o caso, a senhora h\u00e1 de permitir que tire de mim a responsabilidade<br \/>\nque tomei, sem a avaliar, disse Ricardo em tom firme, embora envolto em um<br \/>\nmodo cort\u00eas e polido.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o! A\u00ed o tem, o seu mimoso! exclamou Guida saltando<br \/>\nda sela, com extrema agilidade.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? Por exigir o que lhe pertence? Estava em seu direito. No<br \/>\nque n\u00e3o estava, e eu n\u00e3o lhe desculpo, \u00e9 na id\u00e9ia<br \/>\nque fez de mim.<\/p>\n<p>Dos l\u00e1bios da mo\u00e7a desprendeu-se um riso sarc\u00e1stico,<br \/>\nprel\u00fadio de sua palavra ir\u00f4nica:<br \/>\n&#8211; Pensa o senhor que tendo-o convidado para um passeio, era eu capaz de dar-me<br \/>\nao desfrute de correr um perigo qualquer, como por exemplo, o de atirar-me<br \/>\nda montanha abaixo, para que o senhor, como um her\u00f3i de romance, chegasse<br \/>\na tempo de salvar-me? Pois saiba que nada me aborrece tanto como esses romantismos,<br \/>\nj\u00e1 t\u00e3o vistos e corriqueiros. Al\u00e9m de que seria inc\u00f4modo<br \/>\npara n\u00f3s ambos: o senhor teria de suportar todo o peso da minha gratid\u00e3o;<br \/>\ne eu de combater a cada instante os escr\u00fapulos de sua mod\u00e9stia<br \/>\ne delicadeza. Imagine o agrad\u00e1vel divertimento que teria cada um de<br \/>\nn\u00f3s, o senhor, esmagado pela minha riqueza e generosidade, eu, crivada<br \/>\npelos espinhos de sua dignidade. Ao cabo de um m\u00eas n\u00e3o poder\u00edamos<br \/>\nnos ver; e far\u00edamos um do outro a mais triste id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Ricardo ocupado em trocar os selins dos cavalos, ouvia impass\u00edvel<br \/>\nessa loq\u00fcela. Reprimida a primeira contrariedade, conseguira dominar-se<br \/>\ne estava resolvido a n\u00e3o interromper a mo\u00e7a; que melhor meio<br \/>\nde apagar o fogo \u00e0quele despeito feminino?<br \/>\nPasseando de um para outro lado, Guida falava, abatendo com a chibata os largos<br \/>\nrofos da saia de montar; na ida e vinda lan\u00e7ava a Ricardo um olhar<br \/>\nimpaciente por causa do sil\u00eancio com que ele a escutava.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabe o conceito que hav\u00edamos de fazer um do outro?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Eu lhe digo; mas permita que nos substitua por outros quaisquer para haver<br \/>\nmais franqueza. O her\u00f3i do romance teria e hero\u00edna na conta<br \/>\nde uma criatura sem alma, nem cora\u00e7\u00e3o; esp\u00e9cie de mulher<br \/>\nde ouro, para quem o sentimento \u00e9 c\u00e1lculo, e que s\u00f3 conhece<br \/>\numa linguagem, a moeda. A hero\u00edna consideraria o salvador como um presun\u00e7oso,<br \/>\nque aproveitara-se de um mero acaso para se guindar ao pedestal de her\u00f3i,<br \/>\ne humilhar os outros com o seu desd\u00e9m. Pensa que exagero?<br \/>\n&#8211; Ao contr\u00e1rio, acudiu Ricardo firme no seu prop\u00f3sito de n\u00e3o<br \/>\nchocar o melindre da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 se v\u00ea que fez uma id\u00e9ia muito errada a meu respeito.<br \/>\nN\u00e3o tenho queda para rom\u00e2ntica, nem jeito para representar de<br \/>\nmusa suplementar, e como Safo atirar-me do rochedo abaixo, a p\u00e9 ou<br \/>\na cavalo. Sou filha de banqueiro, e deram-me educa\u00e7\u00e3o inglesa.<br \/>\nDevo ter pois o esp\u00edrito positivo, e saber o valor do tempo, o que<br \/>\nquer dizer, da vida. Para mim n\u00e3o h\u00e1 homem neste mundo que valha<br \/>\num suspiro, quanto mais um suic\u00eddio!<br \/>\nNesse momento chegava o rancho dos cavaleiros, cujo primeiro susto se desvanecera<br \/>\ncom esta observa\u00e7\u00e3o, que, se tivesse acontecido alguma desgra\u00e7a,<br \/>\nRicardo houvera gritado por socorro.<\/p>\n<p>O Ben\u00edcio correu direito ao paulista, ocupado em mudar os arreios,<br \/>\ne atirou-se ao ch\u00e3o como uma bala:<br \/>\n&#8211; Sucedeu alguma coisa?&#8230; Tenho aqui meu estojo! Se precisa furar&#8230; Olhe,<br \/>\naqui est\u00e1! Quem sabe se a excelent\u00edssima n\u00e3o se machucou.<br \/>\nEu tenho aqui arnica! \u00c9 uma coisa que trago sempre comigo! Ent\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Vendo aproximarem-se os companheiros de passeio, Guida afastou-se deixando<br \/>\nRicardo \u00e0s voltas com o Ben\u00edcio, e foi contemplar o espl\u00eandido<br \/>\ncen\u00e1rio que se desdobrava em face dela.<\/p>\n<p>Al\u00e9m, na extrema, campindo os horizontes do soberbo painel, o oceano<br \/>\ncalmo e sereno que se vinha desdobrar at\u00e9 babujar com branca orla de<br \/>\nespuma as praias de Copacabana e de Marambaia. Era a tela onde se estampava<br \/>\ncom vivo colorido, sobre o campo azul, a magn\u00edfica paisagem.<\/p>\n<p>Um jardim encantado, como se desenha \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquando lemos aos vinte anos os contos das Mil e uma noites; um sonho oriental<br \/>\ndebuxado em porcelana ou madrep\u00e9rola; tal era o quadro deslumbrante<br \/>\nque debuxavam aquelas encostas.<\/p>\n<p>L\u00e1, no mar, as ilhas que fingem ninhos de gaivotas, a se balou\u00e7arem<br \/>\nao reflexo das ondas. Na praia junto \u00e0 Lagoa, as alamedas do Jardim<br \/>\nBot\u00e2nico, recortando em losangos os maci\u00e7os da folhagem; e as<br \/>\npalmeiras imperiais meneando \u00e0s brisas da manh\u00e3 os seus verdes<br \/>\ncocares.<\/p>\n<p>N\u00e3o v\u00eas junto ao s\u00edtio apraz\u00edvel um enorme caramelo,<br \/>\nservido sobre uma ta\u00e7a da mais pura safira, como a promessa dos regalos<br \/>\nque a natureza americana oferece aos que visitam suas plagas?<br \/>\n\u00c9 o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, no esfor\u00e7o a que o reduzem<br \/>\na dist\u00e2ncia e a emin\u00eancia, donde o avistamos.<\/p>\n<p>A nossos p\u00e9s, o gigante da pedra, o pr\u00f3cero Corcovado, que<br \/>\no nauta em demanda da barra antolha-se como o guarda desse Jardim das Hesp\u00e9rides<br \/>\ne daqui parece agachado, como um an\u00e3o, \u00e0 base da grande montanha<br \/>\nque nos serve de pedestal.<\/p>\n<p>O que por\u00e9m dava a essa perspectiva um aspecto fascinador, era sobretudo<br \/>\na di\u00e1fana limpidez do ar e uma plenitude de luz que estofava os objetos,<br \/>\ncobrindo-os com uma esp\u00e9cie de \u00e1urea expans\u00e3o. N\u00e3o<br \/>\nse podia chamar resplendor, porque n\u00e3o reverberava nem deslumbrava<br \/>\nos olhos; era antes uma pubesc\u00eancia, doce e aveludada, onde se engolfavam<br \/>\nos olhos com del\u00edcia.<\/p>\n<p>Derramaram-se os passeantes pela borda da esplanada para melhor apreciar<br \/>\nos v\u00e1rios pontos de perspectiva, e cruzaram-se as observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde toda a casta, e as r\u00e9plicas ou risos que elas provocavam.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o reino das fadas, disse F\u00e1bio a D. Guilhermina, mostrando-lhe<br \/>\no admir\u00e1vel panorama. Est\u00e1 a senhora nos seus dom\u00ednios.<\/p>\n<p>&#8211; Se assim fosse, eu encantava-o j\u00e1, respondeu a mo\u00e7a a sorrir.<\/p>\n<p>&#8211; Em qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Nesta flor! tornou mostrando-lhe uma violeta que prendeu ao seio.<\/p>\n<p>A esse tempo dizia o Guimar\u00e3es:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei o que acham demais neste lugar! Abalar-se a gente para ver<br \/>\nmorros trepados por cima doutros!<br \/>\n&#8211; Pretexto para o almo\u00e7o, homem, disse o Bastos, a quem o passeio afiara<br \/>\no apetite; contando que n\u00e3o se demore o farnel.<\/p>\n<p>Era o nosso corretor desses homens cujo est\u00f4mago professa a maior<br \/>\nindepend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o e \u00e0<br \/>\ncabe\u00e7a: imagem de uma rep\u00fablica bem organizada, com perfeito<br \/>\nequil\u00edbrio dos poderes.<\/p>\n<p>&#8211; Fairy!&#8230; Fairy! exclamava entretanto Mrs. Trowshy, estatelada diante<br \/>\ndaquela magnific\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Guimar\u00e3es! gritou um dos elegantes da comitiva.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 l\u00e1?<br \/>\n&#8211; Eras capaz de virar uma cambalhota daqui no Jardim?<br \/>\n&#8211; Abra\u00e7ado contigo.<\/p>\n<p>No seu entusiasmo travou a inglesa do bra\u00e7o do Ben\u00edcio, que<br \/>\nestava engomando com a m\u00e3o a cal\u00e7a amarrotada pelo burro.<\/p>\n<p>&#8211; Look, Sir, how beautiful!<br \/>\n&#8211; \u00c9 Botafogo, sim, senhora! respondeu o homem sem desconcertar-se.<\/p>\n<p>\u00c1 parte, o visconde parecia enlevado ante a cena maravilhosa; tal<br \/>\nconcentra\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito mostrava sua atitude contemplativa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 admirando, Sr. Visconde? perguntou-lhe Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Estava parafusando uma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se pode saber? insistiu a mo\u00e7a com mal\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211; O terreno que Deus desperdi\u00e7ou para fazer mar!<br \/>\nGuida voltou-se com um sorriso para Ricardo que escutara o di\u00e1logo:<br \/>\n&#8211; \u00c9 dos meus!<br \/>\nChegaram \u00e0 &#8220;Mesa&#8221; os copeiros com os petrechos do almo\u00e7o,<br \/>\nque formavam a carga de um burro. O Bastos e o Ben\u00edcio foram dos primeiros<br \/>\na avistar o farnel e deram as alv\u00edssaras aos mais.<\/p>\n<p>Dirigiram-se ent\u00e3o os convidados ao bambuzal, onde os esperava um<br \/>\nlauto almo\u00e7o.<\/p>\n<p>O visconde da Aljuba n\u00e3o perdeu seu tempo. Enquanto devorava o improvisado<br \/>\nalmo\u00e7o, ia resmoendo os seus c\u00e1lculos. Anexara-se \u00e0 passeata,<br \/>\ncom surpresa de todos, unicamente para julgar por si da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Ricardo em rela\u00e7\u00e3o a Guida.<\/p>\n<p>Os rapazes, que n\u00e3o podiam nem remotamente perscrutar a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo refinado usu\u00e1rio, cuidaram que estava apaixonado por Mrs. Trowshy,<br \/>\ne pretendia disput\u00e1-la ao Sr. Ben\u00edcio, o cavaleiro servente<br \/>\nda inglesa.<\/p>\n<p>O velho deixava-os rir \u00e0 sua vontade, e ia lan\u00e7ando na mem\u00f3ria,<br \/>\ncomo em um borrador, as observa\u00e7\u00f5es que depois contava tirar<br \/>\na limpo.<\/p>\n<p>Assim n\u00e3o lhe escapou o afastamento que de repente, depois da disparada,<br \/>\nhavia entre Ricardo e a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Arrufos! dizia consigo o visconde polvilhando de pimenta-do-reino os camar\u00f5es.<br \/>\nIsto arde, mas abre o apetite!<br \/>\nE ria-se por dentro da pachouchada.<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o, cada um quis deixar nos bambus uma lembran\u00e7a<br \/>\ndo passeio. Escreveram uns o nome e a data; outros a simples inicial; D. Guilhermina<br \/>\nfoi desse n\u00famero, e F\u00e1bio cercou o d\u00edstico de um tra\u00e7o<br \/>\nfingindo um cora\u00e7\u00e3o espetado em um F.<\/p>\n<p>Durante esse tempo o Sr. Ben\u00edcio, depois de ter fornecido \u00e0<br \/>\ndireita e \u00e0 esquerda canivetes e tesouras para os d\u00edsticos,<br \/>\n\u00e0 sorrelfa tirava os arreios da baia e passava-os para o machinho da<br \/>\ncarga, sem que os copeiros, ocupados a devastar as ru\u00ednas do almo\u00e7o,<br \/>\ndessem pela barganha.<\/p>\n<p>Ricardo gravou o nome da Lu\u00edsa, sua irm\u00e3, talvez na esperan\u00e7a<br \/>\nde pungir com aquela recorda\u00e7\u00e3o a alma de F\u00e1bio; mas<br \/>\neste nem se apercebia de sua presen\u00e7a ali, t\u00e3o enlevado o tinham<br \/>\nos olhos da mulher do Barros.<\/p>\n<p>O visconde, armando-se de um garfo, marcou um bambu com um enorme cifr\u00e3o;<br \/>\no que inspirou a Guida um enigma pitoresco. Com um grampo desenhou a mo\u00e7a<br \/>\nna casca verde da taquara um cifr\u00e3o dando bra\u00e7o a um xis rechonchudo,<br \/>\no que todos aplaudiram com risadas descobrindo a alus\u00e3o aos requebros<br \/>\nda inglesa com o usur\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c0s onze horas montaram a cavalo para a volta. Ricardo, a pretexto<br \/>\nde arranjar os arreios do &#8220;Galgo&#8221;, deixou-se ficar, resolvido a<br \/>\nseparar-se da companhia, tomando pelo caminho de baixo.<\/p>\n<h4><a id=\"18\" name=\"18\"><\/a>XVIII<\/h4>\n<p>Quando sup\u00f4s que o farrancho devia ir longe, Ricardo montou no &#8220;Galgo&#8221;<br \/>\ne seguiu passo.<\/p>\n<p>&#8211; Decididamente esta sociedade n\u00e3o me conv\u00e9m, e eu estou fazendo<br \/>\naqui uma triste figura: a figura de um estafermo num baile de m\u00e1scaras,<br \/>\nou de um enfermo em dieta \u00e0 mesa do banquete. H\u00e1 certas loucuras<br \/>\ne v\u00edcios da sociedade, em que o homem deve tornar-se c\u00famplice,<br \/>\nsob pena de passar por grosseiro ou imbecil. A mim nem ao menos resta a consola\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo dilema; na opini\u00e3o desta gente j\u00e1 tenho direito incontest\u00e1vel<br \/>\n\u00e0 dupla qualifica\u00e7\u00e3o. Imbecil, porque me falta o jeito<br \/>\npara explorar as boas rela\u00e7\u00f5es com um milion\u00e1rio; grosseiro,<br \/>\nporque n\u00e3o aplaudo \u00e0 esperteza de uns, ao descaro de outros,<br \/>\ne finalmente aos caprichos de uma menina presun\u00e7osa e mal-educada.<\/p>\n<p>Desatando indiferente estes pensamentos \u00e0 brisa, com os frocos da<br \/>\nfuma\u00e7a de seu charuto, feriu-lhe o esp\u00edrito uma recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\namarga:<br \/>\n&#8211; Pobre Lu\u00edsa!&#8230; N\u00e3o me quiseste crer, quando te mostrei o<br \/>\ncar\u00e1ter de F\u00e1bio, como ele \u00e9, homem do dia ou antes do<br \/>\nmomento, sem elos no passado, nem cuidados no futuro. Esses homens s\u00e3o<br \/>\nna sociedade a imagem das plantas aqu\u00e1ticas, vivendo \u00e0 flor<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua, sem ra\u00edzes na terra, nem ramas no ar, ervas sempre,<br \/>\ncomo s\u00e3o meninos sempre aqueles homens. Cobrem-nas lindas flores, uma<br \/>\nfolhagem sempre vi\u00e7osa; mas n\u00e3o h\u00e1 a\u00ed tronco,<br \/>\nnem \u00e2mago. Bem me compreendeste, e tua alma te disse que eu tinha raz\u00e3o!<br \/>\nMas tu j\u00e1 o amavas.<\/p>\n<p>Afundou-se ainda mais em suas reflex\u00f5es:<br \/>\n&#8211; E agora? Agora que se atira \u00e0 sociedade, faminto dos prazeres e divertimentos<br \/>\nque tanto cobi\u00e7ou, querer\u00e1 ele, ou poder\u00e1, nunca mais<br \/>\nvoltar ao amor obscuro, suave e calmo da fam\u00edlia?&#8230;<\/p>\n<p>No meio de suas cogita\u00e7\u00f5es foi Ricardo surpreendido pelo galope<br \/>\nde um cavalo que lhe vinha no encal\u00e7o, e n\u00e3o tivera o tempo<br \/>\nde voltar-se quando &#8220;Edgard&#8221; flanqueou o &#8220;Galgo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me esperava, aposto! disse Guida com um gesto garrido.<\/p>\n<p>Perturbado com o gracejo da mo\u00e7a depois do que entre eles houvera,<br \/>\ne sobretudo com aquele a s\u00f3s em um caminho deserto, n\u00e3o soube<br \/>\nRicardo que responder.<\/p>\n<p>&#8211; Errou o caminho? perguntou ao cabo de alguns instantes.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Quis ficar atr\u00e1s; e escondi-me.<\/p>\n<p>Era a verdade. Reparando na demora de Ricardo, suspeitou da inten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo paulista, que ela sabia quanto era desconfiado. Sentindo-se culpada, e<br \/>\nr\u00e9 de seus assomos altivos, assentou de apagar aquele ressentimento.<\/p>\n<p>Pronta em suas resolu\u00e7\u00f5es, lan\u00e7ou o cavalo a todo galope,<br \/>\ne desaparecendo \u00e0 vista dos companheiros, ganhou sobre eles uma grande<br \/>\ndist\u00e2ncia. Chegando ao ponto onde cruzava uma picada que vai ter ao<br \/>\nMoke, apeou-se e escondeu-se no mato com &#8220;Edgard&#8221;.<\/p>\n<p>Da\u00ed viu passar o rancho, e notando a aus\u00eancia de Ricardo, esperou<br \/>\nque este passasse, para alcan\u00e7\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Os dois mo\u00e7os seguiam ao lado um do outro, mudos, e enleados daquele<br \/>\nencontro. Afinal Guida, revestindo-se da sua gentil petul\u00e2ncia, rompeu<br \/>\no sil\u00eancio:<br \/>\n&#8211; Eu sou uma estouvada! disse ela voltando-se para Ricardo com express\u00e3o<br \/>\nador\u00e1vel.<\/p>\n<p>E como ele n\u00e3o respondia:<br \/>\n&#8211; Confesse! N\u00e3o \u00e9 esse o ju\u00edzo que forma de mim?<br \/>\n&#8211; Nem tanto, replicou Ricardo no mesmo tom. Se dissesse caprichosa e travessa,<br \/>\neu n\u00e3o reclamaria.<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto minha av\u00f3 me chama de &#8220;Santinha&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez as santas sejam assim quando meninas.<\/p>\n<p>&#8211; Que quer? Estou habituada a me fazerem todas as vontades!<br \/>\n&#8211; O que \u00e9 bem perigoso.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?<br \/>\n&#8211; A vontade?&#8230; \u00c9 a fera mais indom\u00e1vel que eu conhe\u00e7o,<br \/>\nbem entendido, para aqueles que a t\u00eam, porque n\u00e3o dou esse nome<br \/>\nao influxo que dirige certos indiv\u00edduos, como o vento impele o navio.<br \/>\nA vontade \u00e9 a soberania d&#8217;alma, a acentua\u00e7\u00e3o de sua superioridade<br \/>\nmoral; \u00e9 o rei que temos em n\u00f3s, e que pode tornar-se de repente<br \/>\num d\u00e9spota, contra o qual n\u00e3o h\u00e1 nem o recurso da rep\u00fablica.<br \/>\nNas senhoras, este aut\u00f3crata chama-se capricho, como outrora em Roma<br \/>\nlhe deram o nome de imperador, moda que pegou. O capricho \u00e9 um tirano<br \/>\ndo g\u00eanero de Augusto. Ama o despotismo brilhante de luxo e galas, representando<br \/>\nno tom da alta com\u00e9dia, por bons autores, e com rica decora\u00e7\u00e3o!<br \/>\nAh! perd\u00e3o que estou falando pol\u00edtica!&#8230; exclamou o advogado<br \/>\ninterrompendo-se a rir.<\/p>\n<p>Ricardo aproveitara o primeiro tema, para quebrar com uma conversa banal,<br \/>\nmais ou menos salpicada do sal e humor do esp\u00edrito, o acanhamento da<br \/>\nsingular situa\u00e7\u00e3o em que se achava, s\u00f3 com essa mo\u00e7a,<br \/>\nem s\u00edtio ermo.<\/p>\n<p>&#8211; Que tem? Eu gosto da pol\u00edtica&#8230; para rir, bem entendido.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 para o que ela serve.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quanto ao capricho, n\u00e3o concordo com sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 natural; as posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o diversas!<br \/>\n&#8211; Ou os g\u00eanios.<\/p>\n<p>&#8211; E o que \u00e9 o g\u00eanio sen\u00e3o o molde que a sociedade imprime<br \/>\nn&#8217;alma desde o ber\u00e7o, pela educa\u00e7\u00e3o primeiro, e depois<br \/>\npela opul\u00eancia ou pobreza, pela grandeza ou humildade de condi\u00e7\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o acredita que n\u00e3o \u00e9 a natureza, por\u00e9m o<br \/>\nmundo, que nos faz o que somos? Creio que se engana. H\u00e1 pessoas que<br \/>\nvivem deslocadas na posi\u00e7\u00e3o em que a fortuna as colocou, e a<br \/>\nquel essa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode transformar a alma que receberam<br \/>\nde Deus.<\/p>\n<p>&#8211; Exce\u00e7\u00f5es raras. As almas que resistem ao ambiente que as<br \/>\ncerca, e n\u00e3o tomam a conforma\u00e7\u00e3o do mundo onde se desenvolvem,<br \/>\nmas conservam sempre sua fei\u00e7\u00e3o original; essas almas s\u00e3o<br \/>\nprivilegiadas. Sua miss\u00e3o \u00e9 reformar, rompendo as cadeias, que<br \/>\nmanietam as voca\u00e7\u00f5es. Quantas vezes por\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nsucumbem? E o mundo nem se apercebe das v\u00edtimas desse eterno martirol\u00f3gio<br \/>\nsocial.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade! disse Guida gravemente, curvando a fronte pensativa.<\/p>\n<p>Com essa inflex\u00e3o e o formoso semblante tocado de uma doce tinta<br \/>\nde melancolia, continuou o caminho em sil\u00eancio, e como esquecida do<br \/>\ncompanheiro.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o tornou-se de novo inc\u00f4moda para Ricardo, que<br \/>\nem v\u00e3o excogitava um meio polido de romper esse encontro comprometedor<br \/>\npara a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Felizmente que veio tir\u00e1-lo daquele embara\u00e7o o g\u00eanio<br \/>\nobsequiado de uma pessoa, a quem n\u00e3o prestamos ainda a devida considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Surdindo de um desabe do talude onde se metera com o machinho para abrigar-se<br \/>\nda soalheira, o Sr. Ben\u00edcio saiu ao encontro de Guida, com um respeit\u00e1vel<br \/>\nchap\u00e9u de sol, empunhado \u00e0 guisa de pend\u00e3o de irmandade.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est\u00e1 o guarda-sol, excelent\u00edssima!<br \/>\n&#8211; Obrigada, Sr. Ben\u00edcio, respondeu Guida arrancada a suas reflex\u00f5es<br \/>\ncom um ligeiro sobressalto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o sol est\u00e1 t\u00e3o quente!<br \/>\n&#8211; Basta-me o v\u00e9u, respondeu a mo\u00e7a desdobrando o fil\u00f3<br \/>\nverde do chap\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a favor, D. Guida?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o posso com o peso da sua barraca, Sr. Ben\u00edcio, disse Guida<br \/>\ncom um remoque.<\/p>\n<p>&#8211; Por isso n\u00e3o, eu carrego, respondeu imperturb\u00e1vel o homem.<\/p>\n<p>&#8211; Dispenso! acudiu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Com licen\u00e7a! tornou o Ben\u00edcio metendo os calcanhares no<br \/>\nmachinho a fim de guardar a mo\u00e7a do sol.<\/p>\n<p>&#8211; Ora deixe-me!<br \/>\n&#8211; A excelent\u00edssima pode ficar doente.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenha susto!<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o neste tempo em que h\u00e1 tanta febre por a\u00ed!&#8230;<\/p>\n<p>Guida come\u00e7ou a solfejar o buona sera do Barbeiro de Sevilha.<\/p>\n<p>&#8211; A Sr\u00aa. D. Paulina n\u00e3o h\u00e1 de gostar, quando souber o<br \/>\nsol que a excelent\u00edssima apanhou. A senhora j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o<br \/>\nafogueada!<br \/>\n&#8211; Decerto! replicou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o calor!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o seu guarda-sol que me est\u00e1 irritando os nervos.<\/p>\n<p>&#8211; A excelent\u00edssima h\u00e1 de ver, se amanh\u00e3 n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 com sardas na pele. E ser\u00e1 uma pena!<br \/>\nColhendo as r\u00e9deas &#8220;Edgard&#8221;, com gesto de impaci\u00eancia,<br \/>\nfez Guida uma evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, e fustigando a valer a<br \/>\nanca do machinho em que montava o Sr. Ben\u00edcio, despachou-o a trote<br \/>\nlargo pela estrada fora.<\/p>\n<p>Sacudido pelo chouto cadente, o homem agarrado ao ar\u00e7\u00e3o da<br \/>\nsela voltou-se ainda para reiterar o oferecimento, que era escandido em uma<br \/>\nesp\u00e9cie de solu\u00e7o causado pelo vascolejo.<\/p>\n<p>&#8211; A excel (uf)&#8230; lent\u00edssima(uf)&#8230; faz mal (uf)&#8230; Aposto que (uf)&#8230;<br \/>\nchegan&#8217;a (uf)&#8230; cas&#8217;a&#8217;sta com&#8230; (uf) dor de cab&#8217;\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>E mais diria, se n\u00e3o desaparecesse na sinuosidade da estrada.<\/p>\n<p>Era o Sr. Ben\u00edcio a encarna\u00e7\u00e3o de um tipo muito usual<br \/>\nde nossa sociedade, o do &#8220;homem servi\u00e7al&#8221;, uma das encarna\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo aresko de Teofrasto.<\/p>\n<p>A maior satisfa\u00e7\u00e3o desse homem era obsequiar; n\u00e3o pensava<br \/>\nem outra coisa, n\u00e3o tinha ocupa\u00e7\u00e3o. Tanta arte e per\u00edcia<br \/>\npunha nesse mister, que o elevara \u00e0 import\u00e2ncia de uma profiss\u00e3o,<br \/>\nembora ningu\u00e9m a tenha exercido com o mesmo zelo e amor.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que tinha um empreguito no tesouro, se n\u00e3o era nalguma<br \/>\nsecretaria de estado. Mas esse n\u00e3o passava de um pretexto para receber<br \/>\nos magros vencimentos, e de um meio de exercer com maior proveito a sua voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nirresist\u00edvel de obsequiar.<\/p>\n<p>Aparecia \u00e0s vezes na reparti\u00e7\u00e3o para tratar do negocinho<br \/>\ndo seu amigo o conselheiro A. ou de seu amigo bar\u00e3o B.; e aproveitava<br \/>\no ensejo para assinar o ponto e p\u00f4r-se em dia com os atrasados. Essa<br \/>\nregalia, o chefe n\u00e3o a permitiria a qualquer; e se o fizesse, havia<br \/>\nde co\u00e7ar-se com a mofina que sem falta os empregados teriam o cuidado<br \/>\nde ati\u00e7ar-lhe nos jornais.<\/p>\n<p>Mas a um homem t\u00e3o servi\u00e7al como o Sr. Ben\u00edcio, quem<br \/>\npodia recusar essas liberdades; e quem teria \u00e2nimo de censur\u00e1-las?<br \/>\nAchava-se o amanuense em toda a parte, mas sobretudo onde havia pessoas a<br \/>\nobsequiar; s\u00f3 em dois lugares era ele incerto, e at\u00e9 mesmo vasqueiro;<br \/>\nna reparti\u00e7\u00e3o e na casa de morada. Afora estas exce\u00e7\u00f5es,<br \/>\nficava-se tentado a crer que o homem tinha o dom da ubiq\u00fcidade.<\/p>\n<p>Trazia habitualmente uma grande sobrecasaca de pano azul-ferrete, que era<br \/>\nmenos uma pe\u00e7a de vestu\u00e1rio, do que um agregado de bolsos. Tinha<br \/>\nquatro: dois nas abas e dois no peito, mas de tais dimens\u00f5es que se<br \/>\ntocavam, acolchoando todo o forro, com o chuma\u00e7o de pap\u00e9is,<br \/>\nlen\u00e7os, carteiras, f\u00f3sforos e mil outros objetos de que andava<br \/>\nsempre munido, para ter o sumo de prazer de obsequiar.<\/p>\n<p>Usava chap\u00e9u de copa baixa e abas largas. Esse traste caracter\u00edstico<br \/>\ntinha pregado por dentro uma folhinha-cart\u00e3o, um hor\u00e1rio da<br \/>\nestrada de ferro, o mapa da partida dos correios, e os sinais de inc\u00eandio;<br \/>\ntudo isto por baixo do forro volante de tafet\u00e1.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o via, de dia ou \u00e0 noite, a p\u00e9 ou de carro,<br \/>\nsem o enorme chap\u00e9u de sol verde-gaio a que dera Guida o pr\u00f3prio<br \/>\nnome de barraca. A esse traste precioso, devia ele o inef\u00e1vel prazer<br \/>\nde preservar os aldores de can\u00edcula, ou da chuva repentina, o seu velho<br \/>\namigo senador C. quando atravessava o campo, e o outro seu velho amigo o desembargador<br \/>\nD. ao sair da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se ao sair amea\u00e7ava chuva, ou os calos lha tinham anunciado \u00e0<br \/>\nnoite, munia-se por precau\u00e7\u00e3o de um par de galochas de borracha,<br \/>\nque sumia na profundeza de um dos quatro bolsos insond\u00e1veis. Achava-se<br \/>\nsempre modos de aparecer a prop\u00f3sito para resguardar da lama os p\u00e9s<br \/>\nde alguns personagens desprecatados.<\/p>\n<p>A essa previs\u00e3o deveu ele a preciosa amizade do monsenhor E. Vendo-o<br \/>\num dia entrar no bonde com sapato fino e meia carmesim, acompanhou-o at\u00e9<br \/>\nBotafogo, e a\u00ed teve a satisfa\u00e7\u00e3o de encaixar-lhe o par<br \/>\nde galochas, com que a excel\u00eancia patinhou no mingau do macadame, sem<br \/>\nm\u00e1cula das ins\u00edgnias prelat\u00edcias.<\/p>\n<p>Outros objetos constitu\u00edam o indispens\u00e1vel do Sr. Ben\u00edcio<br \/>\ne sem os quais n\u00e3o sa\u00eda de casa: eram os jornais do dia, uma<br \/>\nprovis\u00e3o de len\u00e7os brancos e de rap\u00e9, um papel de palitos,<br \/>\ncaixas de f\u00f3sforos, e um estojo de viagem no qual havia tesoura, canivete,<br \/>\nalfinetes, preparos de costura, e at\u00e9 dois frasquinhos, um com arnica<br \/>\ne outro com \u00e9ter.<\/p>\n<p>Perdemos de vista nestes \u00faltimos tempos ao digno St. Ben\u00edcio;<br \/>\nmas apostamos que ele introduziu no seu necess\u00e1rio mais um frasquinho<br \/>\npara a &#8220;hesperidina&#8221;.<\/p>\n<p>Assim armado de ponto em branco, lan\u00e7ava-se o nosso homem na labuta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo costume; por onde ele passava, n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de obsequiar:<br \/>\nera m\u00e9dico, modista, agente, recadista, alfaiate, folhinha, gazeta,<br \/>\nalmanaque, guarda-roupa, estojo, paliteiro e tudo enfim que fosse preciso,<br \/>\ncontanto que desse largas a seu g\u00eanio servi\u00e7al.<\/p>\n<p>Entre duas e tr\u00eas horas, Ben\u00edcio era infal\u00edvel na rua<br \/>\ndo Ouvidor. Se a fam\u00edlia de seu \u00edntimo amigo<br \/>\nO general F. queria avisar a este do lugar onde o estava esperando; se o seu<br \/>\nilustre amigo o conde G. ao chegar ao largo de S\u00e3o Francisco de Paula<br \/>\nn\u00e3o encontrava o carro e precisava que o fossem chamar; se a sua respeitabil\u00edssima<br \/>\namiga a baronesa H., que andava \u00e0s voltas com encomendas, procurava<br \/>\nalguma casa de pechincha; se finalmente o seu bom amigo o camarista I., ou<br \/>\no almirante K., ou o marqu\u00eas L. queriam perder-se em certas ruas abstrusas<br \/>\ne enganar-se de porta: a\u00ed estava rente o incompar\u00e1vel Ben\u00edcio;<br \/>\nera ele o homem da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um \u00e1pice dava ele com o general em certa barraca de campanha,<br \/>\nque este gostava de contemplar, l\u00e1 para as bandas do Mercado, efeitos<br \/>\nda nostalgia guerreira; farejava o lacaio do conde na barraca do largo da<br \/>\nS\u00e9 onde o brejeiro jogava o pacau por conta do senhor; conduzia a matrona<br \/>\na uma casa misteriosa, onde ia todo o mundo grande, mas ningu\u00e9m confessava;<br \/>\ne por \u00faltimo tais voltas dava com o camarista, o almirante e o marqu\u00eas,<br \/>\nque eles perdiam-se por detr\u00e1s de umas r\u00f3tulas&#8230;<\/p>\n<p>O Ben\u00edcio tinha n\u00e3o s\u00f3 um, como diversos abeced\u00e1rios<br \/>\nde amigos; mas entre esses escolhia uma d\u00fazia, que eram os do peito.<br \/>\nHavia neste \u00faltimo n\u00famero suas disponibilidades necess\u00e1rias,<br \/>\ncomo outrora no conselho de estado. Assim era de rigor que a\u00ed estivesse<br \/>\no presidente do conselho certo e o prov\u00e1vel, para o que ningu\u00e9m<br \/>\ntinha melhor faro do que o nosso amanuense; e isso provinha da sua privan\u00e7a<br \/>\ncom um particular de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, o filho, sen\u00e3o<br \/>\no mesmo, que tivera certa contesta\u00e7\u00e3o com o Dr. Fran\u00e7a,<br \/>\no velho. Destas anedotas, j\u00e1 n\u00e3o se fazem hoje em dia.<\/p>\n<p>Para estes amigos do peito era o Sr. Ben\u00edcio o Petrus in cunctis,<br \/>\no pau para toda a obra. Por isso lhe pagava o estado um conto e seiscentos<br \/>\ncomo amanuense.<\/p>\n<p>Tal era pelo menos a convic\u00e7\u00e3o em que estava o nosso homem.<\/p>\n<p>Incorporando-se ao passeio, n\u00e3o tivera o Sr. Ben\u00edcio outro<br \/>\nfim sen\u00e3o dar pasto ao g\u00eanio servi\u00e7al. A princ\u00edpio<br \/>\na fogosa mula baia o impedira de aproveitar as ocasi\u00f5es; mas para a<br \/>\nvolta tivera o cuidado de passar os arreios para o machinho cargueiro.<\/p>\n<h4><a id=\"19\" name=\"19\"><\/a>XIX<\/h4>\n<p>Com a arrancada do machinho, bem a contragosto do Ben\u00edcio, ficaram<br \/>\noutra vez s\u00f3s os dois mo\u00e7os.<\/p>\n<p>Mas a poucos passos de dist\u00e2ncia cruza a volta que desce para o vale.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui, pe\u00e7o licen\u00e7a para separar-me, disse Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o passa o dia conosco?<br \/>\n&#8211; H\u00e1 de me desculpar; tenho necessidade de estar em casa.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vejo que n\u00e3o esqueceu!<br \/>\n&#8211; O qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; A impertin\u00eancia de h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! minha senhora!<br \/>\n&#8211; Tem medo de outra cena igual.<\/p>\n<p>&#8211; Que id\u00e9ia!<br \/>\n&#8211; E eu me n\u00e3o posso queixar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma injusti\u00e7a que me faz, D. Guida.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 um meio de convencer-me.<\/p>\n<p>&#8211; Qual?<br \/>\n&#8211; Passe o dia conosco.<\/p>\n<p>Ricardo hesitou um instante.<\/p>\n<p>&#8211; Passarei, disse naturalmente.<\/p>\n<p>Refletiu que se persistisse em retirar-se naquele momento, deixaria no esp\u00edrito<br \/>\nda mo\u00e7a a convic\u00e7\u00e3o de o haver ofendido, e o desgosto<br \/>\nque sempre causa a suspeita de ter deca\u00eddo da estima de um homem sisudo.<\/p>\n<p>Que necessidade tinha de humilhar essa mo\u00e7a, de quem afora um instante<br \/>\nde contrariedade naquela manh\u00e3, s\u00f3 recebera amabilidades e delicadezas?<br \/>\nEram mais algumas horas de constrangimento, que lhe custava essa condescend\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Agrade\u00e7o-lhe de cora\u00e7\u00e3o, respondera Guida. Em outro<br \/>\ndia sua companhia me seria agrad\u00e1vel, como sempre.<\/p>\n<p>Ricardo inclinou-se:<br \/>\n&#8211; Hoje se n\u00e3o jantasse conosco, eu ficaria triste, acrescentou a mo\u00e7a<br \/>\ncom um c\u00e2ndido sorriso.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o fique alegre, replicou o mo\u00e7o retribuindo o gracejo.<\/p>\n<p>&#8211; E estou!<br \/>\nUma terceira voz misturou-se ao di\u00e1logo:<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o a excelent\u00edssima n\u00e3o quer aceitar?<br \/>\nEra, n\u00e3o carec\u00edamos dizer, o incans\u00e1vel Sr. Ben\u00edcio,<br \/>\nque tendo afinal conseguido sofrear o chouto do machinho, voltara atr\u00e1s;<br \/>\ne aproximando-se sem que o percebessem, ali estava de espinha\u00e7o arqueado<br \/>\ne bra\u00e7o estendido, a empunhar o guarda-sol, em posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde archeiro.<\/p>\n<p>Desta vez Guida n\u00e3o respondeu-lhe e seguiu adiante. Voltou-se ent\u00e3o<br \/>\no Ben\u00edcio para Ricardo e apresentou-lhe a veneranda barraca:<br \/>\n&#8211; Sr. Doutor, V. S. \u00e9 servido?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o; obrigado.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que o sol est\u00e1 pelando.<\/p>\n<p>&#8211; Nem por isso! Ao contr\u00e1rio, acho bem fresca a manh\u00e3! Fizemos<br \/>\num passeio magn\u00edfico. N\u00e3o gosta da &#8220;Vista dos chins&#8221;?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a favor! Insistiu o obsequioso Sr. Ben\u00edcio com o guarda-sol.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um panorama admir\u00e1vel; n\u00e3o creio que haja no mundo<br \/>\numa tela igual, a n\u00e3o ser uma que eu conhe\u00e7o de fundo verde-gaio,<br \/>\npor detr\u00e1s da qual se desenha a figura de Mefist\u00f3feles. N\u00e3o<br \/>\na que representa no drama de Goethe, mas uma que aparece na farsa do Judas<br \/>\nem S\u00e1bado de Aleluia.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho muito gosto! acudiu imperturb\u00e1vel o Sr. Ben\u00edcio metendo<br \/>\n\u00e0 cara do advogado o chap\u00e9u de sol.<\/p>\n<p>O riso cristalino de Guida que, ao remoque do mo\u00e7o, trilara como<br \/>\num colar de p\u00e9rolas a desfiar-se, desatou em risada com a r\u00e9plica<br \/>\ndo amanuense.<\/p>\n<p>Ricardo tinha dois fins, travando conversa com o Ben\u00edcio, e falando-lhe<br \/>\nem linguagem que para este era grego ou hebraico.<\/p>\n<p>Conseguia em primeiro lugar reter junto de si aquele algarismo social, que<br \/>\ntinha naquele momento a grande import\u00e2ncia de uma unidade; somada ao<br \/>\nn\u00famero dois fazia tr\u00eas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso defendia-se da serrazina dos oferecimentos com que o ia<br \/>\napoquentar, e nada obstava a que tratasse de rir-se em vez de amofinar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe! n\u00e3o me incomoda.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 conhecia a &#8220;Vista chinesa&#8221;, Sr. Ben\u00edcio?<br \/>\n&#8211; Vim uma vez, o ano passado, e por sinal que fazia um sol de abrasar como<br \/>\nagora, e eu ofereci o meu guarda-sol ao Dr. Nogueira, o que valeu-lhe bem!<br \/>\nAceite, tome o meu conselho!&#8230; concluiu o amanuense enristando de novo a<br \/>\ncana para investir contra o advogado.<\/p>\n<p>Apanhado de surpresa, quando pensava que o Ben\u00edcio ia devagar, protestou<br \/>\nRicardo n\u00e3o cair mais no logro de escut\u00e1-lo; e tomando a palavra<br \/>\ncome\u00e7ou a fazer ao companheiro a descri\u00e7\u00e3o pitoresca<br \/>\nda Tijuca.<\/p>\n<p>&#8211; Mais bonito do que a &#8220;Vista chinesa&#8221;, \u00e9 o &#8220;Bico<br \/>\ndo papagaio&#8221;. Ali \u00e9 que eu o queria ver, Sr. Ben\u00edcio, para<br \/>\ncomparar os dois picos. No de l\u00e1 h\u00e1 justamente por cima do nariz<br \/>\nda pedra uma \u00e1rvore que finge bem um chap\u00e9u de sol!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o fa\u00e7a cerim\u00f4nia, Sr. Doutor! atalhou o Ben\u00edcio<br \/>\nvoltando \u00e0 carga.<\/p>\n<p>O amanuense divertia \u00e0 maneira das caricaturas, que depois de vistas,<br \/>\nse tornam mon\u00f3tonas.<\/p>\n<p>Assim era o nosso homem quando ele exibia algum de seus perfis, de um c\u00f4mico<br \/>\nirresist\u00edvel; mas \u00e0 for\u00e7a de reproduzir-se com a regularidade<br \/>\nde aut\u00f4mato, ca\u00eda em uma insipidez esmagadora.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou que Ricardo sentisse invadi-lo o t\u00e9dio a ponto<br \/>\nde n\u00e3o poder mais suportar nem a vista do amanuense. Para subtrair-se<br \/>\na esse foco de aborrecimento, apressou o animal:<br \/>\n&#8211; \u00c9 de primeira for\u00e7a! disse Guida lendo-lhe no rosto.<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito! N\u00e3o imaginava!<br \/>\n&#8211; H\u00e1 pouco n\u00e3o dizia o senhor que a vontade ou o capricho \u00e9<br \/>\num rei? Pois tem destes cortes\u00e3os!<br \/>\n&#8211; Ah! \u00c9 preciso! S\u00e3o os cortes\u00e3os que vingam os oprimidos;<br \/>\nquando n\u00e3o comprometem, intrigam ou traem os soberanos, ao menos lhes<br \/>\nmoem um pouco a paci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o duvido da utilidade dos cortes\u00e3os, respondeu sorrindo<br \/>\na mo\u00e7a. Mas quanto \u00e0 sua compara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\na acho exata. A respeito de capricho h\u00e1 de concordar, que devo entender<br \/>\nalguma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Muito!<br \/>\n&#8211; Por uma simples raz\u00e3o! Sou muito caprichosa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acredito!<br \/>\n&#8211; Se eu confesso!<br \/>\n&#8211; Por isso mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de mudar de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, pode ser. \u00c9 a moda.<\/p>\n<p>&#8211; O capricho est\u00e1 bem longe de ser rei. \u00c9 apenas o valido,<br \/>\no primeiro-ministro ou presidente de conselho, a quem o rei eleva acima dos<br \/>\noutros s\u00faditos para ter o prazer de o contrair, de picar-lhe a vaidade,<br \/>\nde criv\u00e1-lo de alfinetes como ao Sr.***<br \/>\nGuida pronunciou o nome; eu por\u00e9m que n\u00e3o estou para divulgar<br \/>\na malignidade, e comprometer-me com gente poderosa, substituo-lhe a retic\u00eancia<br \/>\nestrelada.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem \u00e9 o rei desse valido? perguntou Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; O rei? \u00c9 o mundo, e portanto qualquer pessoa. Pode ser o senhor,<br \/>\npor exemplo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu?<br \/>\n&#8211; Por que n\u00e3o? Vou lhe confessar uma fraqueza minha. Eu tenho nestes<br \/>\nmomentos tr\u00eas desejos&#8230; N\u00e3o cuide que s\u00e3o os da caixinha<br \/>\ndo jogo de prendas.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem; eu j\u00e1 me tinha lembrado do Sr. Ben\u00edcio e de seu<br \/>\nchap\u00e9u de sol.<\/p>\n<p>&#8211; Qualquer desses tr\u00eas desejos depende do senhor; entretanto eu estou<br \/>\ncerta que n\u00e3o \u00e9 capaz de satisfazer a nenhum.<\/p>\n<p>Estava Ricardo surpreso ao \u00faltimo ponto da dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nque tomara a conversa; mas o modo natural de Guida, e a garridice com que<br \/>\nfalava, o punham a gosto.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 me metendo em brios, notou o mo\u00e7o a rir.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m tenho a minha diplomacia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas enfim sem conhecer os tais desejos, \u00e9 que nada posso dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto! H\u00e1 quase um m\u00eas, que est\u00e3o me tentando! E<br \/>\neu perderia esta ocasi\u00e3o de acabar com eles; pois bem, convencida de<br \/>\nque n\u00e3o posso satifaz\u00ea-los&#8230;<\/p>\n<p>Guida levou a m\u00e3o aos l\u00e1bios e soltou um arrulo gracioso,<br \/>\nque pareceu, com o gesto, desfolhar nos ares:<br \/>\n&#8211; Prrr!&#8230; solto-lhes as asas e&#8230; Adeus, pombinhos!<br \/>\n&#8211; Quem sabe?&#8230; A senhora est\u00e1 figurando a coisa como muito dif\u00edcil,<br \/>\npara sazonar o gostinho. Aposto que eu vou, como a l\u00e2mpada de Aladino,<br \/>\nrealizar esses grandes desejos, o primeiro dos quais eu j\u00e1 adivinhei.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<br \/>\n&#8211; \u00c9 tir\u00e1-la da sombra implac\u00e1vel de um monstro verde-gaio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Eu j\u00e1 nem me lembrava disso.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; j\u00e1 vejo que n\u00e3o sou forte na adivinha\u00e7\u00e3o;<br \/>\no melhor \u00e9 escutar.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o interromper; porque j\u00e1 estamos perto de casa. Quem<br \/>\nsabe se n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m diplomacia para ganhar tempo?<br \/>\n&#8211; Estou mudo como um reposteiro.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ou\u00e7a. O primeiro desejo era, note que eu n\u00e3o digo \u00e9;<br \/>\nera que o &#8220;Galgo&#8221; fosse meu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vejo a impossibilidade.<\/p>\n<p>&#8211; Eu lhe mostro. Se papai quisesse compr\u00e1-lo, o senhor recusaria<br \/>\nvend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Certamente.<\/p>\n<p>&#8211; Era o \u00fanico meio.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o; h\u00e1 outro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 mais nenhum. O senhor n\u00e3o podia nem pensar<br \/>\nem oferec\u00ea-lo a pessoas com quem n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00edntimas; e menos agora, depois desta confiss\u00e3o. Portanto \u00e9<br \/>\nimposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Assim, decerto.<\/p>\n<p>&#8211; Passemos ao segundo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, ainda restam dois desejos.<\/p>\n<p>&#8211; O meu segundo desejo&#8230; Promete n\u00e3o desconfiar? disse Guida voltando-se<br \/>\npara ele com gentileza.<\/p>\n<p>Ricardo teve uma suspeita de que a filha do banqueiro o estava debicando,<br \/>\ncomo costumam as mo\u00e7as bonitas e prendadas, para mostrarem esp\u00edrito<br \/>\ne darem expans\u00e3o \u00e0 natural petul\u00e2ncia de um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde dezoito anos. O primeiro impulso foi retrair-se; mas n\u00e3o se deixou<br \/>\nlevar dele; seu car\u00e1ter s\u00e9rio n\u00e3o o inibia de aceitar<br \/>\ncom a mo\u00e7a esse desafio de garrulice.<\/p>\n<p>A borboleta queria voejar, ostentando suas roupagens magn\u00edficas e<br \/>\nfarfalhando as asas sussurrantes. N\u00e3o havia ali flor, que libasse;<br \/>\npois seria ele o pretexto desse inocente devaneio, do qual tamb\u00e9m de<br \/>\nsua parte contava participar.<\/p>\n<p>&#8211; Desconfiar?&#8230; Fique descansada; n\u00e3o quero passar por provinciano<br \/>\nduas vezes no mesmo dia.<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-se da primeira vez em que nos encontramos? perguntou Guida.<\/p>\n<p>E fitou no mo\u00e7o um olhar, que esperava a resposta da interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Foi aqui mesmo na Tijuca! disse Ricardo.<\/p>\n<p>Assomou \u00e0 face um leve rubor, que o olhar de Guida evitou, mal o<br \/>\npercebeu.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor estava muito embebido a olhar a florzinha amarela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim; a da Pedra Bonita?<br \/>\n&#8211; Essa mesma.<\/p>\n<p>&#8211; Admirava. \u00c9 um mimo essa flor.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma j\u00f3ia, \u00e9; mas deixemos a flor por enquanto.<br \/>\nEu tamb\u00e9m tenho paix\u00e3o por ela e a admiro. Mas o senhor admirava<br \/>\ne fazia outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me recordo.<\/p>\n<p>&#8211; Eis um recurso de que n\u00e3o precisa.<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o. E por que hei de negar? Beijava-a: est\u00e1 satisfeita?<br \/>\nGuida fez com a fronte um aceno afirmativo.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidei que essa poesia do sentimento, que faz conversar com uma estrela,<br \/>\nbeijar uma flor, adorar uma lembran\u00e7a, j\u00e1 n\u00e3o se encontrava<br \/>\nhoje em dia, a n\u00e3o ser nos romances. Se alguma vez se misturava com<br \/>\no prosa\u00edsmo desta nossa vida fluminense, era a moda de com\u00e9dia<br \/>\nde sala: para divertir as mo\u00e7as da moda, que chegaram aos dez anos<br \/>\ne j\u00e1 n\u00e3o podem mais suportar as bonecas. Ora, desta \u00faltima<br \/>\nsuposi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 claro que n\u00e3o se trata. A causa<br \/>\nportanto \u00e9 seria.<\/p>\n<p>&#8211; Muito s\u00e9ria, acudiu Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Confessa?<br \/>\n&#8211; H\u00e1 nada mais s\u00e9rio e real do que a fragilidade humana? Eu<br \/>\nlhe conto a hist\u00f3ria dos &#8220;Sonhos d&#8217;ouro&#8221;. \u00c9 assim<br \/>\nque chamo a florzinha amarela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O nome \u00e9 bonito!<br \/>\n&#8211; Se tem outro, n\u00e3o sei, dei-lhe este. \u00c9 bonito e lembra uma<br \/>\ncoisa muito agrad\u00e1vel. &#8220;Sonhos d&#8217;ouro&#8221;!&#8230; A senhora n\u00e3o<br \/>\npode ter esse prazer; Deus, dando aos ricos a opul\u00eancia, negou-lhes<br \/>\na ardente esperan\u00e7a de a obter, e reservou-a como uma compensa\u00e7\u00e3o<br \/>\npara n\u00f3s, os pobres. \u00c9 somente para n\u00f3s que essa fada<br \/>\nincompar\u00e1vel levanta os suntuosos castelos, os jardins encantados,<br \/>\nos para\u00edsos na terra. Quando a senhora me viu, eu entrava no mais belo<br \/>\nde meus castelos, \u00e0 vista do qual o rico pal\u00e1cio que seu pai<br \/>\ntem nas Laranjeiras \u00e9 um albergue; subia as escadas de p\u00f3rfiro<br \/>\nmarchetadas de ouro. Abriam-se de par em par as portas de rubi da sala da<br \/>\nsaudade; e minha m\u00e3e aparecia-me sobre um trono de safiras. Atirei-me<br \/>\na ela, que recebeu-me em seus bra\u00e7os, beijei-lhe os olhos, coalhados<br \/>\nde l\u00e1grimas, e&#8230; A senhora acordou-me.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Compreendo. Lembrava-se de sua m\u00e3e. Nessa poesia tamb\u00e9m<br \/>\neu creio, disse Guida com terna express\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Dir\u00e1 a senhora que \u00e9 uma infantilidade cair assim um homem<br \/>\nfeito, um doutor, a sonhar com o sol alto e os passarinhos a cantar. Mas a<br \/>\nisso respondo, que a natureza humana \u00e9 esta mesma contradi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO menino tem &#8220;homenices&#8221;&#8230; N\u00e3o repare no termo; tenho um<br \/>\nmau costume de inventar uma palavra quando n\u00e3o acho outra j\u00e1<br \/>\nfeita para exprimir meu pensamento. Mas dizia eu que o menino tem suas &#8220;homenices&#8221;<br \/>\nque o tornam insuport\u00e1vel; portanto era preciso que o homem tivesse<br \/>\nsuas &#8220;meninices&#8221;, que o tornam rid\u00edculo.<\/p>\n<p>&#8211; Pensar em sua m\u00e3e ausente \u00e9 uma coisa t\u00e3o santa!<br \/>\n&#8211; Mas creio que ainda falta um desejo?<br \/>\n&#8211; Ainda; n\u00e3o me esqueci. Ia perguntar-lhe o que representa o desenho&#8230;<br \/>\nSabe; aquele que o senhor fazia \u00e0 janela?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o adivinhou?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Quis mandar \u00e0 minha m\u00e3e uma lembran\u00e7a de meu sonho.<br \/>\nSe eu tivesse talento de retratista reproduziria suas fei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nFantasiei uma mo\u00e7a da corte.<\/p>\n<p>&#8211; Favoreceu o original, observou Guida. Galanteria de artista.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o era poss\u00edvel. Ainda que eu fosse Rafael.<\/p>\n<p>&#8211; O melhor juiz sou eu. \u00c0 vista do desenho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eis a dificuldade. J\u00e1 ele est\u00e1 em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Foi interrompida a conversa pelo encontro com o rancho dos passeantes, a<br \/>\npoucos passos de dist\u00e2ncia da casa.<\/p>\n<p>Talvez tenha algu\u00e9m a curiosidade de saber o que era feito do impert\u00e9rrito<br \/>\nSr. Ben\u00edcio durante todo esse tempo.<\/p>\n<p>Em posi\u00e7\u00e3o e a jeito de proteger os dois mo\u00e7os com<br \/>\no formid\u00e1vel guarda-sol verde-gaio, acompanhou-os passo a passo sempre<br \/>\nda banda do poente.<\/p>\n<p>Refocilando no gosto incompar\u00e1vel de obsequiar o pr\u00f3ximo,<br \/>\nca\u00edra numa esp\u00e9cie de \u00eaxtase. Imaginava-se, n\u00e3o<br \/>\nem cima do machinho a trotar, mas recostado nas almofadas de um coche, acompanhando<br \/>\num casamento.<\/p>\n<p>Que gl\u00f3ria n\u00e3o seria a dele, quando dissesse aos convidados:<br \/>\n&#8211; Eu os resguardei com o meu chap\u00e9u de sol, no primeiro dia do seu<br \/>\nnamoro!<\/p>\n<h4><a id=\"20\" name=\"20\"><\/a>XX<\/h4>\n<p>Terminara o jantar em casa do Soares.<\/p>\n<p>O crep\u00fasculo da tarde cambiava-se com o frouxo lampejo da lua que<br \/>\nassomava por tr\u00e1s das serras.<\/p>\n<p>Erguendo-se da mesa, os convidados espalharam-se pelo jardim, uns para gozarem<br \/>\nda frescura e beleza da ave-maria campestre; outros para se recrearem com<br \/>\no passeio e o movimento; alguns maquinalmente, por imita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mrs. Trowshy tra\u00e7ando o bra\u00e7o de Guida e recitando-lhe uns<br \/>\nversos de Shakespeare atravessou o jardim:<\/p>\n<p>Come, gentle night, come, loving, black brow&#8217;d night,<br \/>\nGive me my Romeo, and when he shall die,<br \/>\nTake him, and cut him out in little stars,<br \/>\nAnd he will make the face of heaven so fine,<br \/>\nThat the world will be in love with night<br \/>\nAnd pay no worship to the garish sun.<\/p>\n<p>Encontrando Ricardo, a mestra parou para dizer-lhe em franc\u00eas:<br \/>\n&#8211; Veja que injusti\u00e7a, senhor doutor, Guida n\u00e3o gosta destes<br \/>\nversos.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a! disse Guida, e repetiu os versos.<\/p>\n<p>&#8211; Se os lesse, poderia dizer alguma coisa, respondeu Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu pensava que tinha excelente pron\u00fancia, acudiu a mo\u00e7a<br \/>\ncom ar zombeteiro. Minha mestra diz que pare\u00e7o uma inglesa; salvo quando<br \/>\neu repito o nome dela &#8211; &#8220;missis Trixa&#8221;. A\u00ed acha-me horr\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Trowshy! emendou gravemente a mestra que pouco entendia de portugu\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a culpa n\u00e3o \u00e9 de sua pron\u00fancia: \u00e9 do meu<br \/>\nouvido que ainda n\u00e3o se habituou, nem creio que se habitue nunca, a<br \/>\nessa l\u00edngua mais de engolir que de falar!<br \/>\n&#8211; Pois eu vou traduzir-lhe os versos ao p\u00e9 da letra, se me permite;<br \/>\n&#8220;Vem, gentil noite, vem, am\u00e1vel noite, vem, am\u00e1vel e escura<br \/>\nnoite; d\u00e1-me o meu Romeu e quando ele morrer, tomai-o, cortai-o em<br \/>\nestrelinhas, e ele tornar\u00e1 o c\u00e9u t\u00e3o belo, que todo o<br \/>\nmundo se apaixonar\u00e1 pela noite, e n\u00e3o pagar\u00e1 mais tributo<br \/>\nao garrido sol&#8221;. N\u00e3o s\u00e3o magn\u00edficos?<br \/>\nRicardo sorriu:<br \/>\n&#8211; S\u00e3o originais, pelo menos.<\/p>\n<p>&#8211; Suponha o senhor que um poeta brasileiro fizesse alguma \u00edndia falar<br \/>\nsemelhante linguagem, e pedir \u00e0 noite que picasse o seu amado em estrelinhas,<br \/>\nn\u00e3o de massa, mas de papel dourado. Que risadas n\u00e3o dariam os<br \/>\ningleses e como n\u00e3o encheriam a boca de nonsense? Mas \u00e9 Shakespeare&#8230;<br \/>\no grande mestre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; The immense, the prodigious Shakespeare!&#8230; interrompeu Mrs. Trowshy no<br \/>\nplenil\u00fanio de seu entusiasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez o poeta quisesse exprimir por esse modo a ingenuidade infantil<br \/>\nde Julieta, que era quase uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o achou um modo mais delicado? O senhor escreveria semelhantes<br \/>\nversos?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sou poeta.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Quem n\u00e3o o \u00e9 hoje em dia? O senhor conceberia Julieta<br \/>\npedindo a Deus para fazer duas estrelas dos olhos de Romeu; ou para mudar<br \/>\nos seus cabelos em raios de luz, como os de Berenice; mas para cort\u00e1-lo<br \/>\na ele em pedacinhos&#8230; Shocking! disse a menina pedindo ao ingl\u00eas a<br \/>\nexpress\u00e3o de seu sarcasmo.<\/p>\n<p>A rir afastou-se Guida com Mrs. Trowshy, pelo caminho da &#8220;Cascatinha&#8221;<br \/>\nque era o ponto do passeio.<\/p>\n<p>O Dr. Nogueira aproximara-se de Ricardo e lhe oferecera um dos seus &#8220;regalias&#8221;<br \/>\nconvidando-o a fumar no canto mais afastado. Ali via-se uma fonte de ferro<br \/>\nesmaltado representando a n\u00e1iade do jardim dentro duma concha, e banhar-se<br \/>\nnas pr\u00f3prias \u00e1guas que vertiam-lhe dos olhos como torrentes<br \/>\nde l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Desde o primeiro dia Ricardo notara o Dr. Nogueira, cujo nome j\u00e1<br \/>\nconhecia pela reputa\u00e7\u00e3o de talento que o cercava, e desejou<br \/>\naproximar-se dele. Deteve-o por\u00e9m a express\u00e3o de fria arrog\u00e2ncia<br \/>\nque esticava o perfil e o talhe do candidato. Esse empertigamento moral revelava<br \/>\na afinidade que havia entre a alma do candidato e a vaidade feminina. Era<br \/>\nalma que n\u00e3o dispensava os arrebiques e espartilhos ainda mesmo em<br \/>\ncasa.<\/p>\n<p>Foi pois com prazer que Ricardo aceitou o charuto e a palestra, que lhe<br \/>\noferecera o Dr. Nogueira.<\/p>\n<p>O candidato, como alguns homens de talento, longe de desdenhar os gozos<br \/>\nmateriais, entendia que \u00e9 a carne que faz o esp\u00edrito, o apura<br \/>\ne lhe d\u00e1 o nervo. Assim apreciava ele depois de um excelente jantar<br \/>\na febre sibar\u00edtica, perfumada com as fuma\u00e7as do melhor tabaco<br \/>\nde Havana, e embalada pelo burburinho da \u00e1gua trepidando na fonte ou<br \/>\npelo ruge-ruge das folhas das palmeiras.<\/p>\n<p>E na forma do preceito de Hor\u00e1cio &#8211; miscuit utile dulci &#8211; aproveitou<br \/>\naquelas horas voluptuosas do quilo, para conhecer o advers\u00e1rio com<br \/>\nque tinha de bater-se na campanha matrimonial, em que se achava empenhado.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui estaremos perfeitamente, disse Nogueira sentando-se na ponta do banco<br \/>\ne indicando a seu lado um lugar ao mo\u00e7o. Gosto de fumar neste canto<br \/>\no meu charuto depois de jantar. O barulho da fonte, misturado com o dos coqueiros,<br \/>\nderrama uma ligeira sonol\u00eancia, quanto basta para n\u00e3o pensar;<br \/>\nmas n\u00e3o tanto, que se deixe de sentir e gozar.<\/p>\n<p>Notou Ricardo que o devaneio desse esp\u00edrito, como a sua amabilidade,<br \/>\ntinham \u00e0s vezes umas quinas \u00e1speras: eram como tela de painel,<br \/>\nque uma lasca da madeira estofa. Uma circunst\u00e2ncia m\u00ednima lhe<br \/>\nrevelou esse tra\u00e7o fisiol\u00f3gico. O termo &#8220;barulho&#8221;<br \/>\npara indicar o burburinho d&#8217;\u00e1gua, empregado por homem de tribuna e<br \/>\neloq\u00fcente, mostrava um defeito de educa\u00e7\u00e3o. Como sucede<br \/>\n\u00e0 maior parte dos talentos que figuram em nosso pa\u00eds, n\u00e3o<br \/>\ntinha Nogueira o polimento liter\u00e1rio, e embora sentisse depois de certo<br \/>\ntempo a necessidade de dar \u00e0 sua palavra certo verniz de estilo, contudo<br \/>\nnotava-se ainda muita falha, em que atrav\u00e9s da arrog\u00e2ncia do<br \/>\nfigur\u00e3o, percebia-se a crosta do filho das ervas. A palavra \u00e9<br \/>\npara esses mercen\u00e1rios o instrumento do of\u00edcio, a trolha de<br \/>\npedreiro.<\/p>\n<p>&#8211; Temos demais a vantagem de livrar-nos da algazarra, que por l\u00e1<br \/>\nvai. Esta gente avalia do esp\u00edrito, como do champanha, pelo estouro;<br \/>\ne ent\u00e3o desafiam-se a quem dar\u00e1 as mais descompostas gargalhadas,<br \/>\npara chamar a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; No fim das contas, parece que eles t\u00eam raz\u00e3o. \u00c9 o<br \/>\nrumor quem governa o mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer a opini\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 mesma coisa?<br \/>\n&#8211; H\u00e1 a sua diferen\u00e7a, imp\u00f4s dogmaticamente o Nogueira,<br \/>\ne passou adiante. A tarde est\u00e1 quente!&#8230; A estas horas costuma correr<br \/>\nalguma brisa, mas hoje est\u00e1 abafado. Neste ponto Petr\u00f3polis<br \/>\n\u00e9 prefer\u00edvel \u00e0 Tijuca. Eu, se n\u00e3o estivesse preso<br \/>\na esta gleba da cidade, \u00e9 onde passaria o ver\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; V. Ex.\u00aa \u00e9 advogado? perguntou Ricardo para dizer alguma coisa<br \/>\ne encher a pausa que lhe deixara o Nogueira.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho um escrit\u00f3rio com o nome na porta, mas \u00e9 para constar&#8230;,<br \/>\nserve de ponto de palestra aos amigos. A advocacia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9<br \/>\numa profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o; eu a conto entre as mais nobres.<\/p>\n<p>&#8211; Assim devia ser. Mas a\u00ed, como em tudo, o fato insurge-se contra<br \/>\no princ\u00edpio. N\u00e3o \u00e9 esta a hist\u00f3ria do s\u00e9culo<br \/>\ndezenove, ao contr\u00e1rio do s\u00e9culo dezoito, que foi a revolta<br \/>\nda id\u00e9ia contra o abuso e o preju\u00edzo? A advocacia n\u00e3o<br \/>\npassa de um pretexto; \u00e9 um t\u00edtulo de apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nna sociedade. No foro inventou-se outrora um nome decente para certas ind\u00fastrias,<br \/>\nque se n\u00e3o confessam; certos r\u00e9us ou testemunhas interrogados<br \/>\naos costumes, declaram que vivem de &#8220;suas ag\u00eancias&#8221;. Pois<br \/>\na palavra &#8220;advogado&#8221; tem o mesmo pr\u00e9stimo, com a diferen\u00e7a<br \/>\nde serem os agentes mais graduados e as ag\u00eancias mais gordas.<\/p>\n<p>&#8211; E V. Ex.\u00aa pertence a esta classe? observou Ricardo com ironia.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o? Charles Nodier dizia no princ\u00edpio deste s\u00e9culo<br \/>\n&#8211; Je ne connais qu&#8217;un m\u00e9tier \u00e0 d\u00e9crier, celui de Dieu!<br \/>\nO Nogueira, que tinha presun\u00e7\u00e3o de falar bem as l\u00ednguas<br \/>\nestrangeiras, pronunciou a cita\u00e7\u00e3o francesa com uma afeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nrid\u00edcula e um sotaque que devia ferir o ouvido normando.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu creio que em Fran\u00e7a nenhum of\u00edcio ca\u00edra em<br \/>\nmaior descr\u00e9dito, observou com muito a prop\u00f3sito o paulista.<\/p>\n<p>&#8211; Deixemos de parte a religi\u00e3o. \u00c9 ponto que n\u00e3o discuto,<br \/>\natalhou categoricamente o candidato e prosseguiu.<\/p>\n<p>Mas Ricardo interrompeu:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o chamo religi\u00e3o essa explora\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia<br \/>\na que o escritor franc\u00eas dava com muita propriedade o nome de of\u00edcio.<\/p>\n<p>Custou a Ricardo inserir no discurso do Nogueira esta pequena observa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFoi necess\u00e1rio cortar-lhe a palavra, e arrostar o gesto desdenhoso<br \/>\ne magistral do candidato que desviava a r\u00e9plica, dum rev\u00e9s do<br \/>\nrosto.<\/p>\n<p>&#8211; Em pa\u00eds algum \u00e9 t\u00e3o verdadeiro o dito de Nodier como<br \/>\nem o nosso, continuou o Dr. Nogueira com o tom amplo e sobranceiro de que<br \/>\nservia-se para abafar as interrup\u00e7\u00f5es. H\u00e1 coisa que mais<br \/>\nse tenha ridicularizado do que sejam as altas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas,<br \/>\ne sobretudo o cargo de ministro? E n\u00e3o obstante todos caminhamos para<br \/>\nl\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Nem todos! constestou Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Sou advogado, pois, como serei deputado amanh\u00e3 e mais tarde ministro<br \/>\ne senador. Em toda a parte onde se re\u00fanem i animali parlanti, por for\u00e7a<br \/>\nque h\u00e1 de haver o deus e a besta. Ensinam as Santas Escrituras que<br \/>\no Criador formou o homem do lodo, amassando o barro e inspirando-lhe a centelha<br \/>\ndivina. Pois n\u00e3o \u00e9 de admirar que em se chocando uns com outros,<br \/>\na lama de certas figuras se desmanche, e ent\u00e3o que rem\u00e9dio t\u00eam<br \/>\nos outros homens, sen\u00e3o patinarem nela, se querem passar adiante?<br \/>\n&#8211; Os ambiciosos vulgares, n\u00e3o duvido que tenham pressa de chegar e<br \/>\nn\u00e3o escolham caminho, nem companheiros de jornada. Mas h\u00e1 quem<br \/>\nse desvie com asco do charco, embora se resigne a n\u00e3o passar adiante.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor formou-se ultimamente? perguntou o Nogueira com um sorriso protetor.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 cinco anos.<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e9 advogado tamb\u00e9m?<br \/>\nO protesto que em tom veemente acabava de fazer contra as doutrinas do Nogueira,<br \/>\nn\u00e3o o pudera conter o jovem e brioso paulista. Mas, arrependido, prometeu-se<br \/>\nn\u00e3o tomar ao s\u00e9rio as excentricidades do Dr. Nogueira, o qual<br \/>\nsem d\u00favida sofria de um sestro, que ataca muito os homens vaidosos<br \/>\nde seu talento, o sestro do paradoxo.<\/p>\n<p>Assim como as damas, desvanecidas de sua formosura, inventam modas esquisitas<br \/>\ne farfalhadas, penteados incr\u00edveis, anquinhas atentat\u00f3rias da<br \/>\nmoral p\u00fablica, escandalosos falbal\u00e1s e cinturas extravagantes,<br \/>\nassim os talentos f\u00e1tuos se deleitam em provar absurdos.<\/p>\n<p>&#8211; Aspiro a s\u00ea-lo; mas n\u00e3o como V. Ex.\u00aa o entende, respondeu<br \/>\nRicardo com polida ironia \u00e0 pergunta do Nogueira.<\/p>\n<p>&#8211; Pensa ent\u00e3o o senhor, que a ci\u00eancia do mundo aprende-se nas<br \/>\nescolas e academias? Se conhe\u00e7o hoje a nossa sociedade, n\u00e3o<br \/>\nfoi pelo que me ensinaram em Olinda, mas pelo que aprendi em um curso mais<br \/>\nlongo, em cerca de vinte anos de experi\u00eancia. Na sua idade tamb\u00e9m<br \/>\ntinha a cabe\u00e7a cheia de utopias, e o cora\u00e7\u00e3o abarrotado<br \/>\nde ilus\u00f5es. A advocacia representava para mim o sacerd\u00f3cio da<br \/>\njusti\u00e7a, a nobre independ\u00eancia do talento. A imprensa, eu a considerava<br \/>\ncomo uma realeza, e a mais leg\u00edtima, porque tinha o seu trono na opini\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas isso n\u00e3o passava de uma abus\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Completa, meu colega. Quando tiver alguma pr\u00e1tica do foro, h\u00e1<br \/>\nde reconhecer que s\u00e3o as boas causas as que mais freq\u00fcentemente<br \/>\nse perdem. Quem sustenta um pleito justo, confia no direito; mas o seu advers\u00e1rio<br \/>\nemprega todos os recursos: e ganha. Quanto \u00e0 independ\u00eancia, n\u00e3o<br \/>\npassa de uma burla; todos n\u00f3s, que mais somos do que uma cadeia de<br \/>\nfuzis? Cada um segura-se ao anel de cima, e por sua vez suspende o anel de<br \/>\nbaixo; e assim trabalha a corrente do guindaste.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o confunda V. Ex.\u00aa a independ\u00eancia com a barbaria,<br \/>\nou ainda com a misantropia. A sua virtude consiste justamente em manter o<br \/>\ncar\u00e1ter no meio das colis\u00f5es e embates que o abalam. A\u00ed<br \/>\nest\u00e1 a dignidade do homem, lutar e vencer; isolar-se do mundo, parece<br \/>\nmais covardia.<\/p>\n<p>&#8211; Devaneios, replicou Nogueira com desd\u00e9m. Isso que chama dignidade,<br \/>\nmeu colega, \u00e9 nada menos que um crime e grave; vale tanto como uma<br \/>\ninsurrei\u00e7\u00e3o, ou uma revolta. Todos a condenam; ningu\u00e9m<br \/>\nperdoa. Se o caluniarem, aparecer\u00e1 um poder chamado moderador, que<br \/>\nfar\u00e1 presente de sua honra ao pasquineiro; mas para o insulto que o<br \/>\nsenhor fizer a uma cidade corrompida, afrontando-a com os seus brios, para<br \/>\nesse delito de lesa-sociedade n\u00e3o h\u00e1 gra\u00e7a; ao contr\u00e1rio,<br \/>\ntoda a severidade amassada nas altas regi\u00f5es desfechar\u00e1 sobre<br \/>\no r\u00e9u convicto do pundonor e integridade!<br \/>\n&#8211; Neste ponto n\u00e3o duvido que tenha raz\u00e3o. Como Circe que transformava<br \/>\nos seus amantes em barr\u00f5es, a pol\u00edtica namora os mais belos<br \/>\ntalentos, e nada lhes recusa, contanto que fossem.<\/p>\n<p>&#8211; Gosta da f\u00e1bula? disse o candidato com um leve toque de pedantismo.<br \/>\nPois eu prefiro a hist\u00f3ria, a grande mestra. A pol\u00edtica \u00e9<br \/>\nem nosso pa\u00eds o mesmo que tem sido em toda a parte, uma cortes\u00e3.<br \/>\nQuando recebe na alcova&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; No gineceu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Na alcova os P\u00e9ricles e os S\u00f3crates, torna-se Asp\u00e1sia;<br \/>\nmas, se entrega-se aos gladiadores e servos, cai em Messalina.<\/p>\n<p>&#8211; Se V. Ex.\u00aa permite uma observa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foi P\u00e9ricles quem fez Asp\u00e1sia; ao contr\u00e1rio,<br \/>\ndepois que morreu o grande Ateniense, ela casou-se com uma casta de bar\u00e3o<br \/>\ndaqueles tempos, um rico marchante, e conseguiu tirar desse lixo de ouro um<br \/>\ngrande orador.<\/p>\n<p>O Nogueira, que n\u00e3o se deixava derrotar, ainda mesmo nos seus eclipses,<br \/>\nacudiu pronto:<br \/>\n&#8211; Acredita nisso? \u00c9 uma galantaria do historiador, se n\u00e3o foi<br \/>\ndo pr\u00f3prio Lisicles, que para lisonjear a mulher, atribuiu-lhe o que<br \/>\ns\u00f3 devia a seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Acredito, sim; porque n\u00e3o o dizem somente as tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Atenas: \u00e9 a hist\u00f3ria eterna da humanidade. Por toda a parte<br \/>\na mulher \u00e9 a alma do homem.<\/p>\n<p>Deixou o candidato cair a conversa um instante para repousar a palavra,<br \/>\ne ao mesmo tempo imprimir outra dire\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo.<\/p>\n<h4><a id=\"21\" name=\"21\"><\/a>XXI<\/h4>\n<p>Tiradas as \u00faltimas fuma\u00e7as do &#8220;regalia&#8221;, e metida<br \/>\na ponta do charuto em um talo da palmeira, com o respeito que o verdadeiro<br \/>\nfumante vota \u00e0s cinzas desse companheiro e confidente de m\u00e1goas<br \/>\ncomo de prazeres, ergueu-se o candidato, deu alguns passos pelo jardim e voltou<br \/>\npara o mancebo que o esperava apoiado ao esteio do caramanch\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Uma coisa lhe asseguro, meu colega. Se os mo\u00e7os de talento, que v\u00e3o<br \/>\ncome\u00e7ar a sua carreira, ouvissem o conselho de minha experi\u00eancia,<br \/>\nn\u00e3o desbotariam por certo a flor de sua intelig\u00eancia nesse mister<br \/>\ningrato, de urdir enredos forenses, e desbastar autos, consumindo a mocidade<br \/>\nna incessante labuta\u00e7\u00e3o de borrar o papel e a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; O que fariam ent\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Para que se matarem a construir pedra a pedra uma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0s vezes bem med\u00edocre, se podem tomar de assalto o futuro, e<br \/>\nconquistar a reputa\u00e7\u00e3o d&#8217;un coup de main, como fazem por a\u00ed<br \/>\nos espertos? O processo \u00e9 simpl\u00edssimo. Marca-se entre os vultos<br \/>\nnot\u00e1veis do pa\u00eds aquele que mais conv\u00e9m \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pretendente: um estadista, se o fu\u00e3o destina-se \u00e0 pol\u00edtica;<br \/>\num literato, se o fu\u00e3o aspira a escritor. Escolhido o alvo, assesta<br \/>\no sujeito contra ele toda sua metralha: a mentira, a inj\u00faria, o insulto<br \/>\ngrosseiro. A cidade ocupa-se imediatamente do esc\u00e2ndalo. &#8220;Quem<br \/>\n\u00e9?&#8230; Quem \u00e9 que ousa atacar o homem eminente?&#8221; Conhecidos,<br \/>\nmas principalmente os amigos, correm a\u00e7odados \u00e0 compra do pasquim;<br \/>\ncomentam as insol\u00eancias e v\u00e3o com uma caramunha de jesu\u00edta<br \/>\npropalando a not\u00edcia&#8230; O autor, de fu\u00e3o que era na v\u00e9spera,<br \/>\ntorna-se personagem; todos inquirem dele, apontam-no quando passa, repetem<br \/>\nseu nome como um ep\u00edteto do car\u00e1ter por ele agredido e atassalhado.<br \/>\nAssim abre-se caminho at\u00e9 \u00e0 celebridade, que \u00e9 a base<br \/>\nde toda a grandeza. Obtido esse pedestal, &#8220;o tem\u00edvel&#8221;, ou<br \/>\no parvenu, como o chamam os franceses, pode-se deitar \u00e0 espera das<br \/>\nhonras e pepineiras que lhe chovem a mancheias. S\u00f3 lhe falta um casamento<br \/>\nrico, para coroar a obra de sua r\u00e1pida fortuna. O casamento rico \u00e9<br \/>\nem verdade um achado da maior import\u00e2ncia. Se o indiv\u00edduo n\u00e3o<br \/>\ntem p\u00e1tria, nem fam\u00edlia, d\u00e1-lhe uma apresent\u00e1vel;<br \/>\nse j\u00e1 possui esses trastes, ficam-lhe duas, o que n\u00e3o \u00e9<br \/>\npara desprezar. S\u00e3o duas amarras para tudo; l\u00e1 e c\u00e1,<br \/>\ndiz-se com toda a cerim\u00f4nia, &#8220;nosso pa\u00eds&#8221;. Al\u00e9m<br \/>\ndisso traz o casamento a fortuna patrimonial, que tem sempre uma certa respeitabilidade,<br \/>\ne serve para decorar umas vergonhas e mis\u00e9rias do passado. Ora, a um<br \/>\nhomem de recurso n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, desde que trepou ao pedestal<br \/>\nda celebridade, ou por outra, desde que se tornou um &#8220;tem\u00edvel&#8221;,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil arranjar uma alian\u00e7a nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sustando a palavra um instante para observar-lhe o efeito na fisionomia<br \/>\nde Ricardo, que o escutava com repugn\u00e2ncia, concluiu o Nogueira:<br \/>\n&#8211; Eis, meu colega, como um h\u00e1bil pelotiqueiro de um passe escamoteia<br \/>\nparte da reputa\u00e7\u00e3o por outros laboriosamente adquirida; e com<br \/>\nesta sorte edifica um brilhante futuro. Experimente!<br \/>\nRicardo at\u00e9 ali escutara apenas com t\u00e9dio o que ele tomava por<br \/>\nsarcasmo pungente; \u00e0 \u00faltima palavra alteou a fonte com indigna\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; O senhor n\u00e3o fala seriamente!<br \/>\nDesfechou o Nogueira uma gargalhada crom\u00e1tica:<br \/>\n&#8211; Decerto! Como se h\u00e1 de falar seriamente, quando \u00e9 t\u00e3o<br \/>\ngrotesca a verdade? N\u00e3o lhe expendi opini\u00e3o minha; referi o<br \/>\nfato; olhe ao redor de si, e v\u00ea-lo-\u00e1 talvez bem de perto.<\/p>\n<p>&#8211; Explique-se V. Ex.\u00aa; n\u00e3o o compreendo.<\/p>\n<p>&#8211; Quando abrir os olhos, compreender\u00e1.<\/p>\n<p>E Nogueira solfejando a sua risada dirigiu-se para a casa.<\/p>\n<p>Enquanto a um canto retirado do jardim se travara t\u00e3o interessante<br \/>\nconversa entre os dois colegas, do lado oposto se havia formado uma roda,<br \/>\na que servia de eixo ao Bastos.<\/p>\n<p>O piquenique derrotara o nosso corretor, que mostrava-se um tanto amarrotado,<br \/>\nnas fei\u00e7\u00f5es e nas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>As barbas j\u00e1 n\u00e3o tinham aquela simetria irrepreens\u00edvel<br \/>\nque dava-lhes a imobilidade do posti\u00e7o. Uma bomba na pra\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nhouvera estrompado nosso pretendente, como aquele maldito passeio \u00e0<br \/>\n&#8220;Vista dos chins&#8221;.<\/p>\n<p>Quando, adiantando-se \u00e0 comitiva, chegara \u00e0 casa na esperan\u00e7a<br \/>\nde ali encontrar a filha do banqueiro, achou-se em branco. Retrocedeu j\u00e1<br \/>\num tanto azoado, e de todo ficou, vendo aparecer na volta da estrada Guida<br \/>\ne Ricardo em conversa animada.<\/p>\n<p>Foi um golpe para o corretor que viu a bancarrota iminente sobre sua empresa<br \/>\nmatrimonial, que na v\u00e9spera ainda parecia-lhe t\u00e3o pr\u00f3spera!<\/p>\n<p>Jantou mal, pensando no quanto \u00e9 v\u00e1ria a fortuna, e incerta<br \/>\na carreira do comerciante.<\/p>\n<p>Contudo n\u00e3o descoro\u00e7oava ainda o Bastos; tinha f\u00e9 no<br \/>\njeito e habilidade do Soares, que bem sucedido sempre em todas as transa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o havia de errar a boa m\u00e3o, justo em neg\u00f3cio t\u00e3o<br \/>\ndo peito, e do qual dependia a sorte de sua filha.<\/p>\n<p>Ao levantar da mesa, tratou o corretor de colher informa\u00e7\u00f5es<br \/>\nexatas acerca do passeio; queria saber ao certo o ponto a que j\u00e1 tinham<br \/>\nchegado as coisas, para desde logo pedir a interven\u00e7\u00e3o paterna,<br \/>\nse as circunst\u00e2ncias reclamassem esse extremo curso, ultima ratio dos<br \/>\npretendentes repelidos pela noiva.<\/p>\n<p>Os companheiros de passeio, mo\u00e7os do com\u00e9rcio, ou porque em<br \/>\nverdade nada tivessem observado de suspeito, ou para consolarem o corretor,<br \/>\nmostraram-se convencidos de que n\u00e3o havia da parte de Guida para Ricardo<br \/>\nmais do que amabilidade de uma mo\u00e7a espirituosa e, quando muito, uma<br \/>\npequena dose de coquetterie. Assim falavam eles; eu diria: coquetismo em linguagem<br \/>\nda moda, e faceirice, \u00c0 nossa maneira.<\/p>\n<p>O Guimar\u00e3es n\u00e3o tomou a coisa ao s\u00e9rio:<br \/>\n&#8211; Ora, est\u00e3o voc\u00eas a\u00ed com hist\u00f3rias! A Guida o<br \/>\nque fez hoje no passeio, assim como no Domingo passado, foi debicar o tal<br \/>\ncaipira de S\u00e3o Paulo. Aquilo \u00e9 um pratinho soberbo, nem voc\u00eas<br \/>\nimaginam!&#8230;<\/p>\n<p>E soltando um ritornelo da sua implicante risada, l\u00e1 se foi o mo\u00e7o<br \/>\nbonito a borboletear entre o c\u00edrculo das mo\u00e7as, amolando as<br \/>\nguias do bigodinho assassino, e mirando-se em falta de espelho n&#8217;\u00e1gua<br \/>\ncristalina que enchia a bacia de m\u00e1rmore dos repuxos.<\/p>\n<p>Convencido de estarem todas aquelas meninas morrendo por possu\u00ed-lo,<br \/>\npassava l\u00e1 consigo que era uma crueldade causar tantos infort\u00fanios<br \/>\npara satisfazer a paix\u00e3o de uma s\u00f3, de Guida. Mas n\u00e3o<br \/>\nobstante o desengano, sabia que n\u00e3o podendo resistir \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nardiam em desejos de se fartarem de beijos naquela boca tentadora; imaginando<br \/>\nque j\u00e1 o perseguiam as m\u00edseras namoradas sem ventura, por faceirice<br \/>\nfurtava-se o rapaz \u00e0s suas car\u00edcias. E com efeito, \u00e0s<br \/>\nvezes interrompendo o giro pelo jardim, fazia uma pirueta \u00e0 vista das<br \/>\nsenhoras.<\/p>\n<p>Entretanto na roda do Bastos, continuava a investiga\u00e7\u00e3o dos<br \/>\npormenores do passeio com rela\u00e7\u00e3o ao ponto importante. Chegara-se<br \/>\no Lima e sabendo do que se tratava, quis tamb\u00e9m das a sua opini\u00e3o,<br \/>\nfundada em informa\u00e7\u00f5es ver\u00eddicas:<br \/>\n&#8211; Esteja descansado, disse ele ao Bastos. N\u00e3o h\u00e1 nada!<br \/>\n&#8211; Deveras! Voc\u00ea me assegura?<br \/>\n&#8211; Pode escrever.<\/p>\n<p>&#8211; Mas como sabe? perguntou o visconde da Aljuba, que at\u00e9 a\u00ed<br \/>\nse tinha contentado em ouvir.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade. Voc\u00ea n\u00e3o foi do passeio.<\/p>\n<p>&#8211; Eu lhe digo o como sei melhor do que todos que l\u00e1 foram. Conversando<br \/>\ncom D. Guilhermina, antes do jantar, falei a respeito dessa novidade que os<br \/>\nsenhores trouxeram.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o! repetiu meia d\u00fazia de vozes.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que foi o Sr. visconde!<br \/>\n&#8211; Se fui eu, do que n\u00e3o me lembro, \u00e9 que algu\u00e9m me disse,<br \/>\nrespondeu sem desconcertar-se o hom\u00fanculo.<\/p>\n<p>&#8211; Quer saber o que respondeu D. Guilhermina? &#8211; &#8220;Qual, Lima, n\u00e3o<br \/>\nacredite! Deixe-os falar! A Guida nem pensa nisso. Pois n\u00e3o v\u00ea<br \/>\nque se houvesse alguma coisa, ele n\u00e3o trataria o Ricardo com tanta<br \/>\nfamiliaridade e sem acanhamento, como eu trato o F\u00e1bio, por exemplo?&#8221;<br \/>\n&#8211; Esta \u00faltima raz\u00e3o, acrescentou sonsamente o visconde, n\u00e3o<br \/>\nme tinha lembrado. \u00c9 de arromba! Est\u00e1 decidido que n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 nada absolu&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o acabou o Aljuba de debulhar tranq\u00fcilamente as s\u00edlabas<br \/>\ndo seu adv\u00e9rbio, porque foi de repente arrebatado \u00e0 terra, e<br \/>\ndepois de uma ascens\u00e3o curta e r\u00e1pida se achou sentado no jardim,<br \/>\nsem compreender ainda como isso acontecera.<\/p>\n<p>A causa do fen\u00f4meno ali estava em carne e osso. Era o Sr. Ben\u00edcio<br \/>\nque, passando casualmente pela pr\u00f3xima alameda, a farejar no jardim<br \/>\no que n\u00e3o descobrira na sala, isto \u00e9, &#8220;uma pessoa a obsequiar&#8221;,<br \/>\nbispou de longe a figurinha do visconde aprumada sobre a base.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. visconde de p\u00e9!&#8230; exclamou o Ben\u00edcio.<\/p>\n<p>O incompar\u00e1vel obsequiador possuiu-se de um horror que talvez n\u00e3o<br \/>\nlhe causasse o visconde, se em vez de ter-se direito, como a a natureza o<br \/>\nfizera, pusesse as m\u00e3os na areia, e fazendo cauda d&#8217;aba da casaca,<br \/>\nimitasse o gamb\u00e1, de que tinha seus tra\u00e7os fision\u00f4micos.<\/p>\n<p>Em dois saltos o homem servi\u00e7al galgou a escadaria de pedra, arrebatou<br \/>\nda sala uma cadeira, e arremessando-se com ela ao jardim, foi cair precisamente<br \/>\nno meio da roda. A\u00ed fincando com a m\u00e3o esquerda a cadeira na<br \/>\nareia, com a direita empunhou o ex\u00edguo visconde pelo pesco\u00e7o,<br \/>\ncomo o faria ao gargalo de um moringue, e assentou-o em cheio na cadeira .<\/p>\n<p>Esta r\u00e1pida opera\u00e7\u00e3o foi acompanhada da seguinte jaculat\u00f3ria:<br \/>\n&#8211; V. Ex\u00aa. de p\u00e9, Sr. visconde! E eu sem ver! Oh! desculpe-me,<br \/>\nexcelent\u00edssimo. Aqui tem V. Ex\u00aa. uma cadeira! Mas n\u00e3o se<br \/>\nincomode, excelent\u00edssimo, por quem \u00e9! Deixe, eu mesmo o sento!<br \/>\nPra que ter este trabalho! Assim; esteja a gosto; n\u00e3o precisa mais<br \/>\nnada?<br \/>\n&#8211; Nada, nada! obrigado, muito obrigado, Sr. Ben\u00edcio, mil vezes obrigado!<br \/>\np\u00f4de afinal responder o visconde, fincado na cadeira, e desdobrando-se<br \/>\ncomo um couro amarrotado.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est\u00e1 quem pode dar boas informa\u00e7\u00f5es! disse um<br \/>\nda roda.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! o Ben\u00edcio deve saber. Pois era ele quem os acompanhava, acudiu<br \/>\no outro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o v\u00eaem como est\u00e1 bem penteadinho! tornou o primeiro<br \/>\nalisando as falripas do amanuense.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? O qu\u00ea, homem? Dizia no entanto o Ben\u00edcio.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1vamos aqui numa d\u00favida de que s\u00f3 voc\u00ea pode<br \/>\nnos tirar.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos a ver! Para o que \u00e9 servir aos amigos, eu estou pronto sempre.<\/p>\n<p>&#8211; O que acha o senhor? A Guidinha est\u00e1 deveras mordida?<br \/>\n&#8211; Heim?<br \/>\n&#8211; Deu corda ao bicho?<br \/>\n&#8211; Ai, que os amigos querem se divertir \u00e0 minha custa!<br \/>\nInterveio o visconde:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o seja desconfiado, homem. Estes senhores desejam saber se pelo<br \/>\nque observou esta manh\u00e3 no passeio, especialmente quando acompanhou<br \/>\na D. Guida, percebeu que ela tinha sua quedinha pelo tal Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9 isso?&#8230;<\/p>\n<p>O homem servi\u00e7al n\u00e3o tinha observado coisa alguma, nem era<br \/>\ncapaz de semelhante exer\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito. Acompanhara<br \/>\nos dois mo\u00e7os absorvido na satisfa\u00e7\u00e3o de obsequiar dois<br \/>\nmortais a um tempo; e isto bastava para ocupar toda a atividade moral de que<br \/>\nera capaz o seu indiv\u00edduo. \u00c9 certo que l\u00e1 num refolho<br \/>\nescuro daquele miolo animal despontava um grelo de id\u00e9ia. O homem tinha<br \/>\numa bronca intui\u00e7\u00e3o de estar obsequiando os dois mo\u00e7os,<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 com a sombra do chap\u00e9u de sol, mas com a sombra<br \/>\nda cabeleira.<\/p>\n<p>Agora, metido na roda, entre as galhofas dos rapazes, e com as explica\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo visconde, o grelo da id\u00e9ia lhe abrolhara no c\u00e9rebro; percebeu<br \/>\ndo que se tratava, ainda mais dando com a cara amarrada do Bastos.<\/p>\n<p>O amanuense tinha especial birra ao corretor. A emula\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\nachaque de que padecem os talentos. O empenho do Bastos em incumbir-se das<br \/>\nencomendas de D. Paulina, de Guida e outras senhoras, despertara justo zelo<br \/>\nno amanuense, que tomava aquelas obsequiosidades por verdadeiras usurpa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde suas ocupa\u00e7\u00f5es privativas. Entendia o &#8220;homem servi\u00e7al&#8221;,<br \/>\nque, dando-lhe uma sinecura, o governo lhe concedera privil\u00e9gio exclusivo<br \/>\npara obsequiar o pr\u00f3ximo, e ningu\u00e9m podia priv\u00e1-lo dessa<br \/>\nhonra.<\/p>\n<p>Em sua qualidade de animal daninho tem o homem um faro para vingan\u00e7a.<br \/>\nDoutro modo n\u00e3o se explica o que passou na cachola do Ben\u00edcio:<br \/>\n&#8211; C\u00e1 pra mim \u00e9 neg\u00f3cio decidido, respondeu impavidamente<br \/>\no amanuense. Esta manh&amp;atatilde; quando tive a honra de segurar o chap\u00e9u<br \/>\nde sol para os noivos, bem me estava lembrando que amanh\u00e3 tenho de<br \/>\nvisitar o meu amigo monsenhor. \u00c9 bom a gente andar prevenido; e como<br \/>\neu \u00e9 que hei de ser incumbido de arranjar os pap\u00e9is na Concei\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o hist\u00f3rias do Ben\u00edcio, atalhou o visconde metendo<br \/>\n\u00e0 bulha o amanuense. Que o magan\u00e3o n\u00e3o pilha a mo\u00e7a,<br \/>\nnem o dote, por essa fico eu, e se quiserem uma apostazinha&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a confian\u00e7a na sagacidade do Aljuba e sobretudo<br \/>\nem sua avareza, que n\u00e3o havia de arriscar a aposta sem plena certeza<br \/>\nde a ganhar, a balela do casamento da filha do banqueiro continuou a correr<br \/>\nentre os convidados, e n\u00e3o se falava em outra coisa no sal\u00e3o,<br \/>\nquando ali entrou Ricardo.<\/p>\n<p>Todas as vistas fitaram-se nele procurando-lhe no semblante a ufania do<br \/>\ntriunfo; e tal \u00e9 o poder da imagina\u00e7\u00e3o, que muitos a<br \/>\nviram desdenhada em uma fisionomia onde os paradoxos do Nogueira haviam deixado<br \/>\ntra\u00e7os bem expressivos de t\u00e9dio e desgosto.<\/p>\n<p>Notou Guida essa express\u00e3o de Ricardo, que distraidamente e sem preceb\u00ea-la,<br \/>\nsentara-se a seu lado.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe a novidade? perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Qual?<br \/>\n&#8211; Ainda n\u00e3o lhe deram os parab\u00e9ns?<br \/>\n&#8211; Por que motivo?<br \/>\n&#8211; Deveras n\u00e3o sabe?<br \/>\n&#8211; Entrei agora mesmo na sala.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o, deve-me as alv\u00edssaras. O senhor est\u00e1<br \/>\npara casar comigo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o entendo! respondeu Ricardo fugindo ao gracejo.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que \u00e9 bem claro. Depois do jantar n\u00e3o se tem falado<br \/>\naqui de outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 uma indignidade! Exclamou o mancebo, mal contendo a revolta<br \/>\ndos brios.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a como eu! acudiu Guida sorrindo. N\u00e3o se importe! A princ\u00edpio<br \/>\ntamb\u00e9m me incomodavam essas impertin\u00eancias; agora estou habituada;<br \/>\ne ainda agrade\u00e7o quando n\u00e3o me d\u00e3o por noivo algum bobo<br \/>\nou algum traste, como j\u00e1 tem sucedido.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu n\u00e3o lhes dei o direito de se divertirem com meu nome!<br \/>\n&#8211; E dei-lhes eu acaso? tornou Guida. Tenha paci\u00eancia; amanh\u00e3<br \/>\nme inventar\u00e3o outro noivo; e o senhor ficar\u00e1 descansado. Eu<br \/>\n\u00e9 que infelizmente n\u00e3o tenho quem me tire da berlinda.<\/p>\n<p>Ditas estas palavras em tom que flutuava entre o motejo e a contrariedade,<br \/>\na filha do banqueiro ergueu-se para dirigir-se ao piano, onde a chamara D.<br \/>\nClarinha.<\/p>\n<h4><a id=\"22\" name=\"22\"><\/a>XXI<\/h4>\n<p>Ter\u00e7a-feira seguinte, estava Ricardo como de costume em seu escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Seriam dez horas passadas. Reinava na pequena sala, dividida a meio em dois<br \/>\ncub\u00edculos por um tabique de pinho, um sil\u00eancio desanimador, sem<br \/>\nd\u00favida prop\u00edcio \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, por\u00e9m<br \/>\npouco prometedor a respeito de clientela.<\/p>\n<p>Sentado \u00e0 cl\u00e1ssica mesa de vinh\u00e1tico inteiramente limpa<br \/>\nde autos, Ricardo, trabalhador infatig\u00e1vel, escrevia desde as nove<br \/>\nhoras da manh\u00e3 em que habitualmente chegava ao escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Lembrara-se de fazer algumas tradu\u00e7\u00f5es para distrair as horas<br \/>\nenfadonhas do est\u00e9ril plant\u00e3o, nutrindo a esperan\u00e7a de<br \/>\ntirar da\u00ed alguns parcos recursos com que fosse atamancando as necessidades.<\/p>\n<p>Ricardo bem sentia que n\u00e3o tinha real voca\u00e7\u00e3o para<br \/>\na profiss\u00e3o forense; a aridez desses estudos, que os r\u00e1bulas<br \/>\ncostumam amenizar com desbragadas verrinas, n\u00e3o conformava por certo<br \/>\n\u00e0 sua intelig\u00eancia brilhante, colorida por<br \/>\numa imagina\u00e7\u00e3o de artista.<\/p>\n<p>Mas o mancebo, n\u00e3o obstante, aceitava essa carreira como um dever,<br \/>\npela impossibilidade de escolher outra que lhe proporcionasse os meios de<br \/>\nsubsist\u00eancia e os recursos para manter a sua fam\u00edlia, que se<br \/>\nachava em circunst\u00e2ncias<br \/>\nprec\u00e1rias.<\/p>\n<p>Um camarada de S\u00e3o Paulo se lhe oferecera para obter alguma colabora\u00e7\u00e3o<br \/>\nem um dos jornais da corte. Mas at\u00e9 ent\u00e3o nada conseguira; as<br \/>\npequenas empresas n\u00e3o podiam pagar; as grandes entendem que o verdadeiro<br \/>\nredator de uma folha que se respeita, \u00e9 o soberano p\u00fablico \u00e0<br \/>\nraz\u00e3o de tantos r\u00e9is por linha.<\/p>\n<p>O livro que Ricardo traduzia era de Balzac: Eug\u00eania Grandet. Esperava<br \/>\nachar um editor para a obra-prima do ilustre romancista franc\u00eas; coisa<br \/>\nbem duvidosa.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes deitava a pena sobre a bandeja do tinteiro, e derreando contra<br \/>\no recosto da cadeira, perdia-se em cogita\u00e7\u00f5es que o trabalho<br \/>\ninterrompera, e agora com a pausa voltavam a eito.<\/p>\n<p>Conhecia-se-lhe pelo aspecto que tristes eram aquelas cismas; ressumbrava<br \/>\nem seu olhar apagado o desalento que iam derramando-lhe nos seios d\u2019alma.<\/p>\n<p>A express\u00e3o habitual do mancebo era a sisudez af\u00e1vel, que<br \/>\nnem se arruga na carranca, nem se descomp\u00f5e no frouxo do riso. Nesse<br \/>\ndia por\u00e9m mostrava-se grave e preocupada sua fisionomia.<\/p>\n<p>O dinheiro, esse azoto social, sem o qual n\u00e3o se vive nas cidades:<br \/>\neis a grande quest\u00e3o, que se debate nas ruas e pra\u00e7as, desde<br \/>\no mendigo at\u00e9 o rei, um esmolando os magros vint\u00e9ns, o outro<br \/>\ndistribuindo os milh\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>Era essa tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o de Ricardo naquele momento.<br \/>\nAs circunst\u00e2ncias do mancebo de dia em dia se tornavam mais estreitas.<\/p>\n<p>Morava ele com a m\u00e3e de F\u00e1bio, que o agasalhara como o futuro<br \/>\ncunhado de seu filho; j\u00e1 essa posi\u00e7\u00e3o de h\u00f3spede<br \/>\no constrangia, apesar dos cont\u00ednuos protestos da boa senhora, a repetir<br \/>\ntodos os dias, que a despesa de casa n\u00e3o<br \/>\naumentara um real por sua causa, e que longe de incomodar-se, tinha ela ao<br \/>\ncontr\u00e1rio o maior prazer com t\u00e3o agrad\u00e1vel companhia.<\/p>\n<p>Ainda quando assim fosse, e Ricardo procurava tornar-se o menos pesado, acanhava-o<br \/>\nessa depend\u00eancia de alheio favor, e repugnava-lhe viver a expensas de<br \/>\noutrem, apesar da amizade de F\u00e1bio e dos la\u00e7os que breve deviam<br \/>\nligar as duas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Mas o que exacerbara naquele dia estas nobres suscetibilidades de Ricardo,<br \/>\nera a posi\u00e7\u00e3o especial em que se achava com rela\u00e7\u00e3o<br \/>\na F\u00e1bio, desde o \u00faltimo domingo.<\/p>\n<p>J\u00e1 anteriormente n\u00e3o gostara do desembara\u00e7o com que<br \/>\no noivo de sua irm\u00e3 se portara em casa do Soares; disfar\u00e7ara<br \/>\ncontudo, fazendo-lhe apenas ao de leve alguns reparos, a que o outro n\u00e3o<br \/>\ndeu import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Foi por\u00e9m no dia do passeio \u00e0 \u201cVista Chinesa\u201d que<br \/>\nRicardo se recolheu contrariado ao \u00faltimo ponto, n\u00e3o s\u00f3<br \/>\npela semcerim\u00f4nia com que se intrometera o F\u00e1bio na roda dos<br \/>\nconvidados, filando o cavalo do Lima, como pelo namoro<br \/>\nescandaloso que travara com D. Guilhermina.<\/p>\n<p>Sentia Ricardo a necessidade de ter com o amigo uma pr\u00e1tica s\u00e9ria,<br \/>\nna esperan\u00e7a de coibir a tempo aqueles \u00edmpetos e evitar futuros<br \/>\ndissabores, sen\u00e3o verdadeiros desregramentos, que trariam a infelicidade<br \/>\nde duas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>F\u00e1bio por\u00e9m evitava as ocasi\u00f5es em que o assunto pudera<br \/>\nmuito naturalmente vir a talho, trazido pela divaga\u00e7\u00e3o de uma<br \/>\npalestra entre amigos. Um emprazamento emprestaria \u00e0 conversa ares<br \/>\nde solenidade que seriam de mau<br \/>\npren\u00fancio.<\/p>\n<p>Podia o noivo de Lu\u00edsa enxergar nas palavras do amigo uma exproba\u00e7\u00e3o<br \/>\nde quem j\u00e1 se arrogava autoridade de chefe de fam\u00edlia; e irritando-se,<br \/>\npersistir no caminho que levava.<\/p>\n<p>Raz\u00e3o tinha Ricardo para recear esse resultado; pois desde a primeira<br \/>\nvisita \u00e0 casa do Soares sentia que o esp\u00edrito de F\u00e1bio,<br \/>\narrastado pela sedu\u00e7\u00e3o daquela sociedade, subtra\u00eda-se<br \/>\n\u00e0 sua influ\u00eancia.<\/p>\n<p>O menor arrefecimento nas rela\u00e7\u00f5es dos dois mo\u00e7os teria<br \/>\nconseq\u00fc\u00eancias graves, pois determinaria a retirada de Ricardo para<br \/>\nS\u00e3o Paulo, desvanecendo a esperan\u00e7a por tanto tempo afagada<br \/>\nde fazer carreira na corte, e preparando para Lu\u00edsa uma decep\u00e7\u00e3o<br \/>\ncruel.<\/p>\n<p>Tais eram os pensamentos que nessa manh\u00e3 carregavam a fronte do jovem<br \/>\nadvogado de uma nuvem de tristeza. Eram dez horas e meia, e F\u00e1bio ainda<br \/>\nn\u00e3o chegara ao escrit\u00f3rio. A sua mesa, colocada do outro lado<br \/>\nda sala, estava intacta como ele a deixara s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Nos dois cantos viam-se as rimas de autos velhos, que o mo\u00e7o pedira<br \/>\naos escriv\u00e3es a pretexto de estudar certas quest\u00f5es; mas realmente<br \/>\npara dar \u00e0 sua banca o aspecto forense.<\/p>\n<p>Esses cartap\u00e1cios faziam as vezes de uma tabuleta.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 capaz de n\u00e3o vir hoje, como j\u00e1 n\u00e3o veio<br \/>\nontem, disse consigo Ricardo.<\/p>\n<p>E ia voltar \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o, quando ouviu passos na escada;<br \/>\nmomentos depois na porta de comunica\u00e7\u00e3o entre os dois repartimentos<br \/>\nsurdiu a figurinha encarquilhada do Visconde de Aljuba:<\/p>\n<p>&#8211; Pode-se entrar?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Sr. visconde!&#8230; Fa\u00e7a favor.<\/p>\n<p>Ricardo, surpreso da visita, ergueu-se para oferecer ao Aljuba uma cadeira<br \/>\na seu lado.<\/p>\n<p>&#8211; Custou-me a dar com o escrit\u00f3rio. Tamb\u00e9m foi procurar uma<br \/>\nrua t\u00e3o esquisita. Nada; isto n\u00e3o serve. \u00c9 preciso arranjarmos<br \/>\nquanto antes uma sala a\u00ed na rua Direita, ou mesmo na da Quitanda&#8230;<br \/>\n&#8211; Ainda n\u00e3o \u00e9 para mim, e quem sabe se o ser\u00e1 algum dia.<\/p>\n<p>&#8211; Ora qual! disse o visconde com seu riso fagoteado e batendo no ombro do<br \/>\nmo\u00e7o. Voc\u00ea breve est\u00e1 a\u00ed recheado! Veja o que lhe<br \/>\ndigo.<\/p>\n<p>Uma das particularidades do visconde era familiarizar-se com as pessoas<br \/>\nque tratava a ponto de cham\u00e1-las por voc\u00ea desde o primeiro dia.<br \/>\nEntendia que o dinheiro lhe dava essa liberdade, como lhe dera a excel\u00eancia<br \/>\ncom que o<br \/>\nabarrotavam a cada canto.<\/p>\n<p>Ricardo n\u00e3o gostou do modo achavascado; mas disfar\u00e7ou.<\/p>\n<p>&#8211; Dito por V. Ex\u00aa., \u00e9 um bom agouro.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Eu c\u00e1 nunca me engano. Sujeito que tem de ser apatacado, eu<br \/>\no descubro logo pela pinta. Olhe o Soares. Foi v\u00ea- lo, e conhecer logo<br \/>\nque aquele patife acabava podre de rico.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o acha-me com jeito de homem apatacado?<\/p>\n<p>&#8211; Tem todos os sinais.<\/p>\n<p>&#8211; Quais s\u00e3o eles?<\/p>\n<p>&#8211; Eu c\u00e1 sei. Mas vamos ao que serve. Para come\u00e7ar, temos aqui<br \/>\nuns dois negocinhos&#8230; Meu procurador h\u00e1 de passar por c\u00e1 depois.<br \/>\nTrouxe os pap\u00e9is para explicar-lhe bem a coisa.<\/p>\n<p>Tirou o visconde do bolso um ma\u00e7o de pap\u00e9is preso por um el\u00e1stico,<br \/>\ne p\u00f4-lo na ponta da mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Este \u00e9 uma escritura de hipoteca dum sujeito que me deve seis contos.<br \/>\nA casa h\u00e1 de valer uns vinte; ainda tem uns escravinhos; bem tangida<br \/>\na embroma, como os senhores sabem fazer, podemos passar a m\u00e3o em tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Engana-se; eu n\u00e3o sei fazer desse milagres, disse Ricardo, j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o podendo conter o sarcasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Ande l\u00e1, ande l\u00e1! Isto agora \u00e9 uma letrinha dum rapaz,<br \/>\num peralta que j\u00e1 esbanjou a leg\u00edtima do pai, e est\u00e1<br \/>\n\u00e0 espera da heran\u00e7a da m\u00e3e. \u00c9 preciso p\u00f4r-lhe<br \/>\nem cima o ano do nascimento e andar com a tram\u00f3ia depressa para arranjar<br \/>\numa senten\u00e7azinha, que fique na gaveta bem guardada \u00e0 espera<br \/>\ndo bolo. Enquanto o marreco anda na pinga, n\u00e3o olha para estas coisas,<br \/>\nnem d\u00e1 o cavaco, sobretudo caindo eu com uns cobres, que ele anda seco.<br \/>\nMas assim que meter-se na heran\u00e7a, \u00e9 capaz de vir com hist\u00f3rias<br \/>\nde que s\u00e3o falsas as letras, que ele as aceitou quando j\u00e1 estava<br \/>\ndeclarado pr\u00f3digo, e outras petas.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe-me, Sr. visconde, n\u00e3o posso me encarregar destes neg\u00f3cios,<br \/>\ndisse Ricardo com fria gravidade, carregando sobre a \u00faltima palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Por que ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Permita-me que reserve para mim os motivos de meu procedimento, tornou<br \/>\nRicardo no mesmo tom.<\/p>\n<p>&#8211; Ora j\u00e1 sei! \u00c9 sobre isso mesmo que eu vinha falar-lhe; mas<br \/>\nprecisava antes de apalpar o terreno&#8230; Compreende, heim!<\/p>\n<p>Foi Ricardo quem dessa vez ficou surpreso do desembara\u00e7o do usur\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; A coisa est\u00e1 bem encaminhada! Voc\u00ea \u00e9 um fin\u00f3rio!<br \/>\ncontinuou o visconde apertando o joelho de Ricardo. Mas, olho vivo, que anda<br \/>\numa s\u00facia de galfarros \u00e0 cola da rapariga. Ent\u00e3o o Nogueira<br \/>\ne o Bastos? Dois velhacos de marca.<br \/>\nDeixe-os por minha conta, que os conhe\u00e7o; t\u00eam de haver-se com<br \/>\num macaco velho. L\u00e1 o Guimar\u00e3es n\u00e3o mete medo, \u00e9<br \/>\num pateta.<\/p>\n<p>&#8211; Explique-se melhor, Sr. visconde, eu n\u00e3o o entendo.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a-se de inocente! Ah! manag\u00e3o?! Quem n\u00e3o sabe<br \/>\nque a rapariga est\u00e1 pelo bei\u00e7o! Voc\u00ea \u00e9 um ladr\u00e3o<br \/>\nfeliz!<\/p>\n<p>&#8211; De que rapariga me fala o senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Ora de quem h\u00e1 de ser sen\u00e3o da Guida, a filha do tratante<br \/>\ndo Soares? Domingo na Tijuca, todos conheceram como ela se derretia&#8230; E tinha<br \/>\nraz\u00e3o! Ol\u00e9 se tinha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o admito gracejos a este respeito, Sr. visconde.<\/p>\n<p>&#8211; E esta! N\u00e3o costumo gracejar com os neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio que o senhor veio propor-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que neg\u00f3cio!&#8230; Magn\u00edfico!&#8230; Olhe; um namoro com uma<br \/>\nrapariga como a Guida, custa caro! Eu conhe\u00e7o aquela sujeitinha! Est\u00e1<br \/>\nacostumada a atirar fora as notas do banco como se fossem pap\u00e9is de<br \/>\nbala! Al\u00e9m disso h\u00e1 de ser<br \/>\npreciso sustentar por muito tempo, um ano seguramente, a tam\u00f3ia, o<br \/>\nque fica um tanto salgadete.<\/p>\n<p>O visconde hesitou um momento, calculando uma \u00faltima vez as probabilidades<br \/>\nda especula\u00e7\u00e3o. Ricardo, mantendo com esfor\u00e7o a calma<br \/>\nde um frio desprezo, desviava com desgosto o olhar da fisionomia grosseira<br \/>\ne astuta do usur\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, meu amigo, eu forne\u00e7o todo o dinheiro necess\u00e1rio para<br \/>\no nosso negocinho&#8230; J\u00e1 sabe, com a condi\u00e7\u00e3o de tirar<br \/>\na minha fatia do bolo. Que diz? Vamos ao ajuste; sempre \u00e9 bom.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que terminou a sua proposta? perguntou Ricardo com a voz contida.<br \/>\nCabe-me agora responder.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho pretens\u00f5es \u00e0 filha do Sr. Soares; nem existe<br \/>\nentre n\u00f3s mais do que rela\u00e7\u00f5es do acaso, que v\u00e3o<br \/>\ncomo v\u00eam. Enganou-se, pois, Sr. visconde; n\u00e3o \u00e9 a mim<br \/>\nque devia dirigir-se, para a sua especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deu o aljuba um saltinho na cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; Ahn! N\u00e3o quer? Percebo a embroma. Fia-se na rapariga? Olhe l\u00e1,<br \/>\nn\u00e3o se arrependa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Queira poupar-me \u00e0 necessidade de dar-lhe a resposta que merecia<br \/>\nsua proposi\u00e7\u00e3o; mas o senhor for\u00e7a-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso de mulher, n\u00e3o h\u00e1 que fiar, insistiu o visconde receoso<br \/>\nde que lhe escapasse a pechincha. Ent\u00e3o aquela que \u00e9 o diabo<br \/>\nde saia, ou o pai, o Soares, que tudo \u00e9 um. Aposto que j\u00e1 o<br \/>\nengazopou&#8230;<\/p>\n<p>Ergueu-se Ricardo afinal ao impulso da indigna\u00e7\u00e3o que por<br \/>\nmuito tempo recalcara; abotoou o visconde pela gola do casaco, e arrastou-o<br \/>\nat\u00e9 a porta da rua. Executada esta expuls\u00e3o em sil\u00eancio,<br \/>\napenas interrompido por algumas interjei\u00e7\u00f5es do visconde, Ricardo,<br \/>\nvendo que lhe ficara sobre a mesa o chap\u00e9u do miser\u00e1vel, atirou-lho<br \/>\ndo alto da escada. S\u00f3 ent\u00e3o reparou ele na presen\u00e7a de<br \/>\nF\u00e1bio, que se ocultara na janela para deix\u00e1-lo passar com o<br \/>\nvisconde a reboque.<\/p>\n<p>&#8211; Ouviste?<\/p>\n<p>&#8211; Tudo! O sujeito esteve impag\u00e1vel!<\/p>\n<p>&#8211; E sabes quem \u00e9 o culpado do que acontece?<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu, se te parece!&#8230; Ora, pois, arranja-me da\u00ed j\u00e1 um<br \/>\nprocesso. Servir\u00e1 para praticares no crime. C\u00f3digo, artigo 264.<br \/>\nMete-me nessa tarrafa policial! Anda; um estelionato, de cumplicidade com<br \/>\no visconde!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estou de veias para gracejos. Conversemos seriamente, F\u00e1bio.<br \/>\nDesde ontem que desejo esta ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s dif\u00edcil de contentar. Queres coisa ainda mais grave do<br \/>\nque o C\u00f3digo Criminal e um bom processo de estelionato? Sem atender<br \/>\n\u00e0s fac\u00e9ias do amigo, Ricardo continuou:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o estas as conseq\u00fc\u00eancias do passo errado que me obrigaste<br \/>\na dar, indo \u00e0 casa do Soares.<\/p>\n<p>&#8211; Com esta l\u00f3gica sou capaz de Ter provar que, se n\u00e3o viesses<br \/>\nde S\u00e3o Paulo, n\u00e3o estarias aqui; e portanto o visconde n\u00e3o<br \/>\nte pilhava.<\/p>\n<p>&#8211; Se todo o mal reca\u00edsse unicamente sobre mim!&#8230; Por\u00e9m a<br \/>\nminha pobre irm\u00e3 Lu\u00edsa tamb\u00e9m tem o seu quinh\u00e3o.<br \/>\nMal sabe ela que as suas meigas saudades andam aqui desfolhadas ao vento do<br \/>\nprazer, e quem sabe se j\u00e1 n\u00e3o calcadas aos p\u00e9s de alguma<br \/>\nfalsa deidade!<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro Ricardo, est\u00e1s hoje t\u00e9trico, como o Sai\u00e3o<br \/>\nLobato na C\u00e2mara. Aparece-te de repente o Vasques, disfar\u00e7ado<br \/>\nem visconde, para representar uma cena c\u00f4mica, e tu em vez de dares<br \/>\nboas gargalhadas e te divertires \u00e0 custa do velho ginja, tomas o caso<br \/>\nao s\u00e9rio, e cais no dram\u00e1tico! At\u00e9 a\u00ed, enfim passe.<\/p>\n<p>Na cena da \u201cejacula\u00e7\u00e3o\u201d tocaste o sublime. Farme-ias<br \/>\nlembrar o Rossi, se eu o tivesse ouvido. Mas depois de te haveres levantado<br \/>\na essas alturas \u00e9picas, desceres assim ao sentimentalismo corriqueiro<br \/>\nde um poeta de sala, eis o que eu na minha qualidade de cr\u00edtico, de<br \/>\namigo, e de futuro irm\u00e3o, n\u00e3o posso tolerar.<\/p>\n<p>&#8211; Queres fazer o favor de me ouvir? disse Ricardo, atalhando aquela volubilidade<br \/>\njovial, que em outra ocasi\u00e3o o faria rir de boa vontade.<\/p>\n<p>&#8211; Espera; deixa acabar. O patife do visconde \u00e9 um refinado tratante,<br \/>\num velhaco de tal quilate, que logo ao nascer logrou a natureza fazendo-se<br \/>\nhomem em vez da ratazana, para que ela o destinara. Mas para ter boas id\u00e9ias,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1<br \/>\ncomo essa gente. Aproveita a que ele te deu, que \u00e9 excelente, e logra-o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; F\u00e1bio! exclamou Ricardo com severidade.<\/p>\n<p>&#8211; Que maior prazer pode ter um homem honesto do que o de \u201cflambar\u201d<br \/>\num velhaco?&#8230; Pensa nisso, que aproveitas mais o tempo do que lendo o farel\u00f3rio<br \/>\ndo Lob\u00e3o. At\u00e9 logo!<\/p>\n<p>Ditas estas palavras, o peralta do rapaz ganhou a porta da escada, e desapareceu.<\/p>\n<h4><a id=\"23\" name=\"23\"><\/a>XXIII<\/h4>\n<p>Havia grande banquete no palacete do Soares, \u00e0 praia de Botafogo.<\/p>\n<p>Era dia de anos. Guida entrava nos dezenove; o que anunciava para breve<br \/>\num grande acontecimento.<\/p>\n<p>Sabia-se que o pai prometera deixar \u00e0 filha toda a liberdade para<br \/>\nse divertir at\u00e9 dezoito anos com a condi\u00e7\u00e3o de casarse<br \/>\nlogo depois. Chegado o dia, Guida sofismou a promessa, declarando que se deviam<br \/>\nentender os anos completos: pois at\u00e9 a v\u00e9spera de fazer dezenove,<br \/>\nela se considerava na casa dos dezoito.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 assim que n\u00f3s as mo\u00e7as contamos os anos, disse<br \/>\nela para o pai.<\/p>\n<p>O pai condescendera, e a \u00e9poca do grande acontecimento foi prorrogada<br \/>\nat\u00e9 o dia em que fizesse os dezenove anos. Esta circunst\u00e2ncia<br \/>\nproduzia nos convidados certa emo\u00e7\u00e3o se a mo\u00e7a tivesse<br \/>\nde fixar naquele dia a sua escolha.<br \/>\nQuando a curiosidade excitava tais abalos, imagine-se do que n\u00e3o sentiriam<br \/>\nos pretendentes, receando ver de repente se desmoronar o edif\u00edcio de<br \/>\nsuas fagueiras esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Corria o m\u00eas de abril.<\/p>\n<p>Uma semana antes deixara a fam\u00edlia do Soares a Tijuca, e voltara<br \/>\n\u00e0 sua resid\u00eancia habitual de Botafogo, onde com a passagem para<br \/>\no inverno j\u00e1 n\u00e3o havia a temer os grandes calores. N\u00e3o<br \/>\nse esquecera Guida de convidar F\u00e1bio, que tinha continuado a freq\u00fcentar<br \/>\na casa; e nessa ocasi\u00e3o pediu-lhe transmitisse o convite a Ricardo,<br \/>\nporque este n\u00e3o voltara \u00e0 Tijuca desde o passeio \u00e0 \u201cVista<br \/>\nchinesa\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Ele est\u00e1 mal conosco? disse a mo\u00e7a a rir.<\/p>\n<p>&#8211; Era preciso que fosse um herege, D. Guidinha.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o pe\u00e7a-lhe que n\u00e3o falte.<\/p>\n<p>&#8211; Prometo traz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Os sal\u00f5es enchiam-se de convidados; mas eram em geral parentes, \u00edntimos<br \/>\ne pessoas de pouca cerim\u00f4nia, com quem o Soares n\u00e3o se constrangia.<br \/>\nA festa aristocr\u00e1tica, \u00e0 qual concorria todo o alto coturno<br \/>\nfluminense, era o baile \u00e0 noite. F\u00e1bio acabava de entrar e aproximou-se<br \/>\npara cumprimentar Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Seu amigo? perguntou-lhe a menina.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o veio, murmurou o mancebo.<\/p>\n<p>No rosto gentil da filha do banqueiro pintou-se uma faceira express\u00e3o<br \/>\nde desd\u00e9m e enfado.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o devia apresentar-me aqui sem uma certid\u00e3o de \u00f3bito<br \/>\nem devida forma, acudiu F\u00e1bio em tom galhofeiro; mas ainda creio que<br \/>\nme seria mais f\u00e1cil trazer o sujeito a modo de convidado de pedra do<br \/>\nque em carne e osso.<br \/>\n&#8211; Ele ter\u00e1 suas raz\u00f5es, disse a mo\u00e7a com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; O que ele tem \u00e9 uma sem-raz\u00e3o, tornou F\u00e1bio no mesmo<br \/>\ntom.<\/p>\n<p>No jantar achou-se F\u00e1bio colocado \u00e0 esquerda de D. Guilhermina,<br \/>\ncomo de costume. Havia entre os dois um arruo, que j\u00e1 durava alguns<br \/>\ndias.<\/p>\n<p>&#8211; Sinto me tivessem reservado este lugar, que outrora era minha ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndisse o mancebo com sentimento.<\/p>\n<p>&#8211; E que hoje lhe aborrece! tornou D. Guilhermina.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade; pela certeza que tenho de a estar incomodando.<\/p>\n<p>&#8211; Engana-se!<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o; uma criatura de todo indiferente n\u00e3o pode incomodar<br \/>\naqueles que nem se apercebem de sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 muito injusto! murmurou a mo\u00e7a com inflex\u00e3o<br \/>\nqueixosa.<\/p>\n<p>&#8211; Que direi eu? ser\u00e1 justo roubar a alma e a vida de um homem, e<br \/>\nn\u00e3o conceder-lhe sequer a m\u00ednima consola\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Uma entrevista s\u00f3, \u00e0 noite, no jardim&#8230; Se eu me prestasse<br \/>\na esse capricho, o senhor havia de ser o primeiro a reprovar consigo mesmo<br \/>\nessa imprud\u00eancia e a condenar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Para que fingir, D. Guilhermina? A causa, eu a conhe\u00e7o! Est\u00e1<br \/>\ndefronte de n\u00f3s! E o olhar do mo\u00e7o fitou-se no Lima, s\u00f3cio<br \/>\ndo conselheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o senhor pensa?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o penso. \u00c9 o que se ouve por toda a parte; \u00e9<br \/>\no que diz todo o mundo, tornou F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Assim, o senhor tamb\u00e9m acredita?&#8230; balbuciou D. Guilhermina com<br \/>\nl\u00e1grimas na voz. O mancebo, comovido, receou que o solu\u00e7o rompesse<br \/>\ndo seio opresso da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; D. Guilhermina! exclamou com voz submissa e suplicante. Podem reparar!<\/p>\n<p>&#8211; Que mal faz!&#8230; Para eles, como para o senhor, n\u00e3o sou uma&#8230; desgra\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; Para mim!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o confessou que tamb\u00e9m cr\u00ea no que se diz por toda<br \/>\na parte?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 diferente!&#8230; Pode-se ter uma afei\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 falso!<\/p>\n<p>&#8211; Assegura-me?<\/p>\n<p>&#8211; Juro!<\/p>\n<p>&#8211; Em vez do juramento, d\u00ea uma prova.<\/p>\n<p>&#8211; Qual deseja?<\/p>\n<p>&#8211; A que eu lhe pedi.<\/p>\n<p>D. Guilhermina hesitou.<\/p>\n<p>&#8211; Quer me perder em vez de salvar-me? disse a senhora com a voz repassada<br \/>\nde tristeza.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero prova alguma; acredito, atalhou F\u00e1bio.<\/p>\n<p>Acabado o jantar, quando os convidados derramaram-se pela sala de bilhar<br \/>\ne jardim, F\u00e1bio encontrou-se com Guida:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor h\u00e1 de me dizer uma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Muitas e com o maior prazer.<\/p>\n<p>&#8211; Que raz\u00e3o \u00e9 essa pela qual o Dr. Nunes deixou de freq\u00fcentar<br \/>\na nossa casa?<\/p>\n<p>&#8211; Pois h\u00e1 uma raz\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; O senhor disse-me quando chegou.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, D. Guidinha; se bem me lembro, eu disse que havia uma \u201csem-raz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Ou isso! tornou Guida a rir.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 muito diferente.<\/p>\n<p>&#8211; E essa sem-raz\u00e3o n\u00e3o se pode saber?<\/p>\n<p>&#8211; Guarda segredo?<\/p>\n<p>&#8211; Inviol\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Eu desconfio que \u00e9 o visconde da Aljuba.<\/p>\n<p>&#8211; Como? exclamou Guida na maior surpresa.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o compreendia de que modo pudesse o usur\u00e1rio arredar<br \/>\na Ricardo de sua casa.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed est\u00e1 o enigma!<\/p>\n<p>&#8211; Brigou com o visconde?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; briga n\u00e3o houve. Apenas Ricardo enxotou-o do escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Guida aplaudiu com riso franco.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Decifre. N\u00e3o lhe disse que \u00e9 um enigma?<\/p>\n<p>&#8211; Vamos a ver.<\/p>\n<p>&#8211; O tal visconde \u00e9 um especulador terr\u00edvel. De tudo faz neg\u00f3cio.<br \/>\nNascimentos e \u00f3bitos, casamentos e div\u00f3rcios, heran\u00e7as<br \/>\ne dotes, nada lhe escapa. N\u00e3o foi debalde que ele come\u00e7ou por<br \/>\nbelchior! Pois o homem parece que lembrouse de propor um dos seus \u201cnegocinhos\u201d<br \/>\na Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Paulistas, a senhora sabe como s\u00e3o desconfiados. Ricardo n\u00e3o<br \/>\nquis ouvi-lo; mas como o homem valeu-se de seu nome&#8230; disse F\u00e1bio<br \/>\nhesitando.<\/p>\n<p>&#8211; Acabe! Instou Guida com autoridade.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 acabado. Ricardo apanhou-o pela gola e sacudiu-o na rua, como<br \/>\nse faz com uma barata, para n\u00e3o sujar as m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que j\u00e1 decifrei. Mas vou pensar ainda, respondeu Guida com<br \/>\num sorriso, onde borbulhava o desprezo pela inf\u00e2mia do usur\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me comprometa!<\/p>\n<p>&#8211; Esteja descansado.<\/p>\n<p>O Soares conversava no terra\u00e7o com o conselheiro Bastos, o bar\u00e3o<br \/>\ndo Sa\u00ed, o visconde da Aljuba, Nogueira e outros.<\/p>\n<p>&#8211; Papai, escute!<\/p>\n<p>Soares afastou-se com a filha.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje \u00e9 dia de meus anos, creio que n\u00e3o se esqueceu?<\/p>\n<p>&#8211; Tu terias o cuidado de lembrar-me?<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto ainda n\u00e3o me deu o presente de anos!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! E esta pulseira de esmeraldas que a\u00ed tens no bra\u00e7o?<br \/>\nAposto que nem imaginas quanto custou no Farani? Eu tenho vergonha de confessar!<br \/>\nCinco&#8230; N\u00e3o digas que foram contos&#8230; Cinco hist\u00f3rias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isto foi presente do banqueiro; e o pai?<\/p>\n<p>&#8211; Nada de espertezas!&#8230; Eu c\u00e1 sou um s\u00f3; a obra n\u00e3o<br \/>\ntem dois volumes. Por conseguinte deixa essa rabulice para o fisco, que reparte<br \/>\num homem em v\u00e1rios inquilinos para cobrar-lhes diversos impostos pessoais.<\/p>\n<p>&#8211; Neste caso, aqui tem sua pulseira, disse Guida calcando a mola do bracelete<br \/>\npara tir\u00e1-lo. De meu papai eu quero amor e n\u00e3o dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! O que tu queres \u00e9 pedir-me alguma coisa, e est\u00e1s com<br \/>\nestes rodeios. O que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Faz?<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o for um imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o deixe que o visconde venha \u00e0 nossa casa.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Insultou-me!<\/p>\n<p>&#8211; Que fez ele, Guida?<\/p>\n<p>&#8211; Especulou com meu nome.<\/p>\n<p>&#8211; Como sabes?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 meu segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Tens certeza?<\/p>\n<p>&#8211; Toda.<\/p>\n<p>Um instante depois o Soares tran\u00e7ando o bra\u00e7o ao visconde<br \/>\nlevou-o at\u00e9 o quarto dos chap\u00e9us, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Visconde, voc\u00ea sabe o prov\u00e9rbio: \u201cDuro com duro n\u00e3o<br \/>\nfaz bom muro\u201d. N\u00f3s somos dois espertalh\u00f5es; n\u00e3o<br \/>\npodemos emba\u00e7ar-nos um ao outro; portanto cada um seu rumo. Aqui est\u00e1<br \/>\nseu chap\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Isto quer dizer que me despede?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 conforme a maneira de entender. Sou em quem se despede de suas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es. Boa noite.<\/p>\n<p>Meia hora depois F\u00e1bio tornava \u00e0 casa onde ia preparar-se<br \/>\npara o baile. Ao passar pela rua da Ajuda, lembrou-se o mo\u00e7o de alguma<br \/>\ncoisa, que o fez retroceder o espa\u00e7o de dois ou tr\u00eas edif\u00edcios,<br \/>\ne penetrar em um corredor escuro. No fim havia uma escada, que chegada ao<br \/>\ntope no primeiro andar, voltava para cima. Subindo a correr os dois lan\u00e7os,<br \/>\nachou-se em um s\u00f3t\u00e3o baixo e pequeno, composto de duas pe\u00e7as,<br \/>\numa das quais abria<br \/>\npara a escada. Estava apenas cerrada a porta; n\u00e3o foi preciso bater.<\/p>\n<p>Ricardo escrevia \u00e0 luz de uma lamparina de querosene.<\/p>\n<p>Uma semana havia que Ricardo se instalara em sua nova habita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA fortuna lhe enviara um sorriso, bem escasso ainda, que n\u00e3o obstante<br \/>\nluziu como aurora na sombria perspectiva de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Conseguira ao cabo de muita paci\u00eancia a tradu\u00e7\u00e3o de um<br \/>\nfolhetim, que lhe deixava uns setenta mil-r\u00e9is por m\u00eas; e tivera<br \/>\nuns dois processos policiais que, pagos mesquinhamente, lhe tinham metido<br \/>\nno bolso uma nota de duzentos.<br \/>\nFinalmente, procurando um c\u00f4modo, achara na Rua da Ajuda aquela metade<br \/>\nde s\u00f3t\u00e3o mobiliado, a trinta mil-r\u00e9is por m\u00eas inclu\u00edda<br \/>\na comida; mas a dona da casa, uma senhora vi\u00fava, vendo que tratava<br \/>\ncom pessoa instru\u00edda, prop\u00f4s-lhe como pagamento ensinar suas<br \/>\ntr\u00eas meninas e dois rapazes; o que Ricardo prontamente aceitou.<\/p>\n<p>F\u00e1bio op\u00f4s-se \u00e0 mudan\u00e7a, na id\u00e9ia de que<br \/>\no amigo fosse levado pelo receio de ser pesado; mas Ricardo demonstroulhe<br \/>\nque daquele modo promovia seus interesses. Al\u00e9m de n\u00e3o custar-he<br \/>\no c\u00f4modo nada, sen\u00e3o trabalho, g\u00eanero de que tinha boa<br \/>\nprovis\u00e3o, podia entre os conhecidos da vi\u00fava obter novos disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>&#8211; E te sujeitas a isso? perguntara-lhe F\u00e1bio admirado.<\/p>\n<p>&#8211; O trabalho honesto honra; e este de ensinar \u00e9 dos mais nobres,<br \/>\nrespondera simplesmente o paulista.<\/p>\n<p>No momento em que entrava o amigo, Ricardo escrevia \u00e0 sua m\u00e3e,<br \/>\ne confirmava-lhe as boas not\u00edcias que at\u00e9 ent\u00e3o apenas<br \/>\nlhe deixara entrever, receoso de afag\u00e1-la com falaz esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Trabalhando sempre! disse o tr\u00eafego fluminense recostando-se na<br \/>\nmarquesa de vinh\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8211; Estou escrevendo para S\u00e3o Paulo, respondeu Ricardo com uma inflex\u00e3o<br \/>\ntriste na voz.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! diabo!&#8230; \u00c9 verdade, amanh\u00e3 sai o vapor. Espera!<\/p>\n<p>De um salto chegou-se \u00e0 mesa, tomou uma pena, e escreveu no primeiro<br \/>\nbocado de papel que achou, estas palavras: La vita uniti<\/p>\n<p>Transcorreremo.<\/p>\n<p>&#8211; Toma; mete isso em tua carta!<\/p>\n<p>E acendendo o charuto, voltou \u00e0 marquesa, onde espichou-se cantarolando<br \/>\no dueto da Traviata. Passado um instante ergueu-se; olhou indeciso para Ricardo<br \/>\nque lhe dava as costas escrevendo; passeou a esmo pelo estreito aposento,<br \/>\ne aproximou-se da mesa:<\/p>\n<p>&#8211; Queres um charuto?&#8230; \u00c9 fazenda superfina!&#8230; Duque!&#8230; J\u00e1<br \/>\nv\u00eas que para fum\u00e1-los \u00e9 preciso ser pr\u00edncipe pelo<br \/>\nmenos. Mas o Soares, que trata este mundo de resto, abarrota com eles aquela<br \/>\ns\u00facia acostumada ao trabuco de vint\u00e9m! Fazia d\u00f3 ver como<br \/>\natolavam as m\u00e3os nas bandejas de prata dourada!&#8230; Toma, n\u00e3o<br \/>\nqueres provar?<\/p>\n<p>&#8211; Deita-o a\u00ed, respondeu Ricardo metendo a cara na capa, e pondo-lhe<br \/>\no sobrescrito.<\/p>\n<p>Secou-se a musa ao F\u00e1bio com aquela indiferen\u00e7a do amigo;<br \/>\ndeu outra vez algumas voltas pela casa, e afinal decidiuse:<\/p>\n<p>&#8211; Podes ouvir-me um instante?<\/p>\n<p>&#8211; Acabada esta carta; \u00e9 a de Lu\u00edsa e Bela.<\/p>\n<p>F\u00e1bio fez um trejeito de homem pilhado na esparrela.<\/p>\n<p>&#8211; Podes falar.<\/p>\n<p>&#8211; Sem pre\u00e2mbulos. Queres fazer tua felicidade?<\/p>\n<p>&#8211; Para isso trabalho eu h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o \u00e9 preciso mais trabalhar: basta que estendas a<br \/>\nm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Achaste a l\u00e2mpada de Aladino, e me queres fazer presente dela?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; mas descobri que o anel da Guida que \u00e9 mais precioso<br \/>\ndo que o de Giges, foi feito para teu dedo. Ah! Assim me servisse ele!<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te pedi que n\u00e3o repitas esse gracejo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estou gracejando; falo s\u00e9rio, mais s\u00e9rio que<br \/>\na burra de bronze de teu futuro escrit\u00f3rio. A Guida gosta de ti, acabei<br \/>\nde convencer-me hoje.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o suspeites da pureza de uma menina sisuda, e com m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndisse Ricardo abrindo um livro para cortar a conversa.<\/p>\n<p>&#8211; Assim recusas! Quando a riqueza e a felicidade te procuram e v\u00eam<br \/>\ntirar-te desta boceta que por uma met\u00e1fora atrevida e arriscada, como<br \/>\ndizia o Padre Fid\u00e9lis, chamam s\u00f3t\u00e3o, e onde vives empalado,<br \/>\ntu a enxotas como uma<br \/>\nimportuna? E n\u00e3o te lembras de tua m\u00e3e, de tua irm\u00e3,<br \/>\ndos teus, sobre quem se derramaria a tua felicidade como um benef\u00edcio<br \/>\ndo c\u00e9u?&#8230; \u00c9s um ego\u00edsta, Ricardo!<\/p>\n<p>Ricardo ergueu-se.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 pena realmente que o anel n\u00e3o sirva em teu dedo, F\u00e1bio!<br \/>\nPois tu n\u00e3o hesitarias em sacrificar-te para a felicidade de todos<br \/>\nn\u00f3s, inclusive a de Lu\u00edsa!<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida!<\/p>\n<p>&#8211; Ao menos tens o m\u00e9rito da franqueza, tornou Ricardo com ironia<br \/>\nrepassada de desgosto.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! tu n\u00e3o me pareces um advogado da corte! N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nestudante de S\u00e3o Paulo que n\u00e3o saiba ao terceiro ano o que \u00e9<br \/>\num caso de for\u00e7a maior, e quais s\u00e3o os seus efeitos jur\u00eddicos.<br \/>\nPois, meu caro Ricardo, um dote de um milh\u00e3o com a perspectiva de outro<br \/>\npor heran\u00e7a, em mat\u00e9ria de amor n\u00e3o \u00e9 s\u00f3<br \/>\nfor\u00e7a maior, \u00e9 uma fatalidade.<\/p>\n<p>&#8211; Vejo que aproveitaste bem o teu curso!<\/p>\n<p>&#8211; Se que que amo Lu\u00edsa, e estou na obriga\u00e7\u00e3o de am\u00e1-la<br \/>\ntoda a vida, salvo o caso de for\u00e7a maior, a esquecesse para casar-me<br \/>\na\u00ed com qualquer outra mo\u00e7a, seria decerto um ingrato, um monstro<br \/>\nde perf\u00eddia. Mas sendo para casar sem amor, por c\u00e1lculo, com<br \/>\numa boneca do valor de um milh\u00e3o, daria um exemplo sublime sacrificando<br \/>\na paix\u00e3o aos ditames da raz\u00e3o. Os her\u00f3is da hist\u00f3ria<br \/>\ne da f\u00e1bula s\u00e3o todos feitos por esse modo. O cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nfica intacto; e dentro dele, como a l\u00e2mpada do santu\u00e1rio, arde<br \/>\nsempre o primeiro e eterno amor. Eis como eu penso.<\/p>\n<p>&#8211; E Luisinha pensar\u00e1 do mesmo modo?<\/p>\n<p>&#8211; Deve, porque me ama.<\/p>\n<p>&#8211; A raz\u00e3o \u00e9 original!<\/p>\n<p>&#8211; Julgo-a por mim. Sabes que amo tua irm\u00e3. Pois bem; aparecesse um<br \/>\ncasamento milion\u00e1rio para ela, e eu seria o primeiro a dizer-lhe: \u201cLu\u00edsa,<br \/>\neu n\u00e3o sou o nec plus ultra dos homens; mas um pobre mortal com algumas<br \/>\nqualidades e<br \/>\nmuitos defeitos. Como eu, se encontram a\u00ed pelas ruas \u00e0s d\u00fazias.<br \/>\nUm milion\u00e1rio por\u00e9m, meu anjo, \u00e9 uma esp\u00e9cie rara,<br \/>\num animal ex\u00f3tico, um fen\u00f4meno social; vale a pena dar a gente<br \/>\num molho de esperan\u00e7as que afinal murcham como o alecrim, para ter<br \/>\no prazer de possu\u00ed-lo\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me admira essa linguagem da parte de um homem que ama \u00e0<br \/>\ntua maneira.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 outro ponto em que discordamos. Tu tens a fidelidade do frade,<br \/>\neu a do soldado; tu foges, eu combato. Quando um homem conta \u00e0 mulher<br \/>\namada suas conquistas e as sedu\u00e7\u00f5es que sacrificou \u00e0<br \/>\nsua beleza, ela deve ter leg\u00edtimo orgulho.<\/p>\n<p>&#8211; Guarda o teu esp\u00edrito para o baile, F\u00e1bio; n\u00e3o o estejas<br \/>\nesperdi\u00e7ando nesta cela, onde s\u00f3 cabem as tristezas e preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda vida. Melhor farias se me respondesses seriamente a uma pergunta. F\u00e1bio<br \/>\ncalou-se surpreso da severidade do olhar de Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Donde te vem o dinheiro que despendes nesta vida de luxo?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Uma ninharia!<\/p>\n<p>&#8211; V\u00eas; tu coras e evitas responder-me.<\/p>\n<p>&#8211; Emprestaram-me.<\/p>\n<p>&#8211; Quem?&#8230; Ela?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ricardo!&#8230; Que id\u00e9ia fazes de mim?<\/p>\n<p>&#8211; Desculpa-me!&#8230; Conhe\u00e7o teu car\u00e1ter; mas no mundo em que<br \/>\nandas agora, \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil um deslumbramento, um eclipse!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o! Prometo abandonar semelhante vida&#8230; Irei ao baile<br \/>\ndesta noite porque estou obrigado.<\/p>\n<p>&#8211; Vai e diverte-te, disse Ricardo, que desejava apagar no esp\u00edrito<br \/>\ndo amigo o travo de sua injusta suspeita.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o queres vir tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho muito o que fazer.<\/p>\n<p>E despediram-se<\/p>\n<h4><a id=\"24\" name=\"24\"><\/a>XXIV<\/h4>\n<p>Estamos em junho.<\/p>\n<p>\u00c0s onze horas sa\u00eda Ricardo de seu escrit\u00f3rio, j\u00e1<br \/>\nmelhor situado, na Rua do Ros\u00e1rio, e dirigia-se \u00e0 casa da Rela\u00e7\u00e3o,<br \/>\nonde dava audi\u00eancia a 3\u00aa vara municipal.<\/p>\n<p>Tratava-se de um processo-crime importante; uma falsifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde firma. O negociante, v\u00edtima da fraude, tinha procurado Ricardo para<br \/>\nincumbi-lo de promover a acusa\u00e7\u00e3o com energia, pois era mister<br \/>\num exemplo.<br \/>\nPor avan\u00e7o dos honor\u00e1rios deixara-lhe sobre a mesa naquela manh\u00e3<br \/>\num conto de r\u00e9is.<\/p>\n<p>N\u00e3o era este o primeiro cliente importante que o jovem paulista vira<br \/>\naparecer-lhe de repente. De um lado chegavam as propostas, que exigiam para<br \/>\nresolv\u00ea-las um jurisconsulto, ou pelo menos um provecto advogado. Do<br \/>\noutro, minutas de contratos e escrituras. Sentia Ricardo, que seu nome granjeava<br \/>\nentre os comerciantes um favor, que n\u00e3o sabia explicar.<\/p>\n<p>Agora mesmo, descendo a Rua do Ouvidor, perscrutava ele debalde a causa do<br \/>\nconceito que subitamente adquirira como advogado na corte, onde tantos existem<br \/>\ne t\u00e3o ilustres.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia atribuir o fato ao seu m\u00e9rito, ou \u00e0 voga<br \/>\nartificial que se arranja por meio de an\u00fancios, e at\u00e9 de esc\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se oferecera para advogado de alguma benefic\u00eancia<br \/>\nestrangeira, com o fim de captar a clientela dos s\u00f3cios.<\/p>\n<p>Lembrava-se de ter visto muitos desses novos clientes em casa do Soares;<br \/>\ne quis supor um instante fosse tudo efeito da amizade de F\u00e1bio, que<br \/>\nnaturalmente falava naquela roda a seu respeito com o entusiasmo do costume.<br \/>\nMas n\u00e3o tardava em repelir essa suposi\u00e7\u00e3o. Ricardo tinha<br \/>\nexperi\u00eancia e sabia que a palavra sincera e convencida \u00e9 pedra<br \/>\nsolta e n\u00e3o edifica neste pa\u00eds; \u00e9 preciso p\u00f4r-lhe<br \/>\num comento: o medo, a comodidade, o lucro, a paix\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Quando, fatigado de excogitar em v\u00e3o, punha o \u00e2nimo \u00e0<br \/>\nlarga, espraiando a vista pela Pra\u00e7a de S\u00e3o Francisco de Paula,<br \/>\naonde sa\u00eda naquele instante, deu com os olhos em Guida. Diante dele<br \/>\nacabava de parar uma meia vit\u00f3ria, tirada por duas mulas possantes.<\/p>\n<p>O lacaio, saltando da almofada, em vez de correr a abrir a portinhola, foi<br \/>\ntirar quest\u00e3o com o cocheiro de uma dilig\u00eancia, que impedia a<br \/>\nvit\u00f3ria de chegar \u00e0 boca da Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>&#8211; Psiu, ol\u00e1, patr\u00e3o, deu fundo a\u00ed?<\/p>\n<p>&#8211; O largo \u00e9 bem grande, respondeu o outro empoleirado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o v\u00ea que \u00e9 o carro do Sr. comendador Soares? Retorquiu<br \/>\no moleque com a insol\u00eancia do lacaio de um milion\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 melhor que os outros?&#8230; Se tem muito dinheiro, guarde-o, que<br \/>\npassa-se muito bem sem ele.<\/p>\n<p>&#8211; Dobre a l\u00edngua, s\u00f4 atrevido, gritou o moleque pronto a saltar-lhe<br \/>\n\u00e0s bochechas.<\/p>\n<p>D. Paulina e a filha debalde chamavam o pajem, receando que a rezinga desse<br \/>\nem briga; Guida por\u00e9m julgou que o mais expedito era descerem ali mesmo,<br \/>\nfazendo cessar a causa da alterca\u00e7\u00e3o e obrigando o lacaio a<br \/>\nacompanh\u00e1-las.<\/p>\n<p>Reclinou para abrir a portinhola, mas Ricardo antecipara-se:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o Dr. Nunes, mam\u00e3e!<\/p>\n<p>Apearam-se as duas senhoras e receberam os cumprimentos do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Ora estimei muito encontr\u00e1-lo, disse D. Paulina com sua habitual<br \/>\nsingeleza. Quero fazer um presente ao Soares; mas ele n\u00e3o gosta que<br \/>\nlhe d\u00eaem coisas de luxo, que n\u00e3o tenham utilidade. Incomoda-se!<\/p>\n<p>&#8211; Acho-lhe raz\u00e3o! disse Ricardo por delicadeza e para mostrar interesse<br \/>\nna conversa.<\/p>\n<p>&#8211; E eu n\u00e3o lhe acho nenhuma, acudiu Guida voltando-se: um presente<br \/>\n\u00e9 uma lembran\u00e7a, e n\u00e3o um fornecimento de v\u00edveres,<br \/>\nroupa ou qualquer outro necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ricardo fitou a mo\u00e7a para conhecer-lhe pelo rosto se fora sua inten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndar-lhe uma li\u00e7\u00e3o de urbanidade; mas ela dobrava distra\u00edda<br \/>\no canto da Rua do Ouvidor, deixando sozinha a m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Disse-me o Bastos que a \u201cNotre Dame\u201d tem camisas de homem<br \/>\nmuito bonitas. Quero ver o seu gosto. Vamos, \u00e9 perto.<\/p>\n<p>Lembrou-se o advogado da inquiri\u00e7\u00e3o; mas tinha meia hora e<br \/>\no recurso do t\u00edlburi. Condescendeu, pois, tanto mais que seria pouco<br \/>\ndelicado deixar ali s\u00f3 no meio da rua a mulher do banqueiro, sem a<br \/>\nfilha que desaparecera, e o pajem que ainda grazinava com o conheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Com muito prazer, minha senhora, ainda que n\u00e3o me posso demorar<br \/>\nmuito.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um instante!<\/p>\n<p>Entraram na Rua do Ouvidor, onde Guida os esperava.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 tanto tempo que o senhor n\u00e3o aparece, Sr. doutor; est\u00e1<br \/>\nmal conosco?<\/p>\n<p>&#8211; As minhas ocupa\u00e7\u00f5es, D. Paulina, n\u00e3o me permitem.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Dr. Nunes trabalha muito, mam\u00e3e! observou Guida voltando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Seu amigo gosta mais de se divertir. Como vai ele?&#8230; Ah! aqui est\u00e3o<br \/>\nas camisas.<\/p>\n<p>E D. Paulina mostrou a Ricardo a vidra\u00e7a do \u201cNotre Dame\u201d,<br \/>\nonde se viam as caixas de camisas francesas com toda a sorte de punhos e colarinhos.<\/p>\n<p>A casa da \u201cNotre Dame\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de secretaria<br \/>\nda moda fluminense; h\u00e1 naquele minist\u00e9rio do luxo diversas se\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne diretorias, melhor regidas talvez do que a dos correios, dos tel\u00e9grafos,<br \/>\ne outras.<\/p>\n<p>D. Paulina e Ricardo entraram na sala da roupa branca, lingerie; e apesar<br \/>\nda condescend\u00eancia do advogado, disposto a conformar-se plenamente com<br \/>\na escolha de D. Paulina, para mais depressa libertar-se, um quarto de hora<br \/>\nfoi<br \/>\nconsumido no cotejo, nas indecis\u00f5es, e mil rodeios, com que as senhoras<br \/>\ncostumam deliberar em conselho de estado pleno sobre a magna quest\u00e3o<br \/>\nda compra de uma fita, por exemplo.<\/p>\n<p>Durante esse tempo, Guida na pr\u00f3xima reparti\u00e7\u00e3o, a<br \/>\ndas sedas, soierie, fazia desmoronar-se, a um aceno da ponteira de seu chapelinho<br \/>\nde sol, as rimas de caixas e pacotes, que atopetavam os arm\u00e1rios.<\/p>\n<p>Tinha prazer em ver se desdobrarem assim aquelas ondas de seda e veludo;<br \/>\nem contemplar as galas da moda, examinar as mais espl\u00eandidas sedu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo luxo, e sentir-se calma e indiferente.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me agrada!<\/p>\n<p>Esse dito desdenhoso, o repetia ela de cada vez que afeitavam-lhe diante<br \/>\ndos olhos um corte de nobreza rutilando aos toques da luz, os nimbos da tarlatana<br \/>\norvalhados de pingos de cristal, ou os flocos da gaze de Chambery flutuando<br \/>\ncomo nuvens d\u2019ouro.<\/p>\n<p>Debalde os caixeiros excediam-se na l\u00e1bia francesa, com a qual n\u00e3o<br \/>\ncompete nem o puff ingl\u00eas, nem o humbug americano.<\/p>\n<p>Foi imposs\u00edvel excitar na mo\u00e7a a cobi\u00e7a por qualquer<br \/>\ndas \u00faltimas novidades e fantasias da moda.<\/p>\n<p>&#8211; Quero comprar alguma coisa, para n\u00e3o dar-lhes trabalho \u00e0-toa.<\/p>\n<p>Nesse momento aproximaram-se D. Paulina, e Ricardo que vinha despedir-se.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vai? perguntou a mo\u00e7a com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Se me permite!&#8230; Devo achar-me \u00e0s onze horas na Rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! O senhor j\u00e1 sabe? acudiu a mo\u00e7a pondo-se a contraluz<br \/>\nde um rico vestido de gorgor\u00e3o para ver-lhe o efeito: o visconde da<br \/>\nAljuba n\u00e3o freq\u00fcenta mais a nossa casa. Qual acha mais bonito,<br \/>\no azul ou o verde?&#8230; Este?&#8230; \u00c9 tamb\u00e9m o meu gosto.<\/p>\n<p>Voltou-se para o caixeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Mande-me este a Comait\u00e1.<\/p>\n<p>Depois tornou a Ricardo:<\/p>\n<p>&#8211; Como algumas pessoas n\u00e3o gostavam de encontrar-se com ele&#8230; por<br \/>\nisso lhe previno.<\/p>\n<p>&#8211; Eu nunca lhe dei aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! pensei.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, acudiu D. Paulina. O senhor h\u00e1 de jantar conosco<br \/>\nS\u00e1bado. N\u00e3o falte; promete?<\/p>\n<p>&#8211; Terei esse prazer, disse Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas olhe que \u00e9 segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9 um banquete pol\u00edtico?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma conspira\u00e7\u00e3o, observou Guida.<\/p>\n<p>Saindo de \u201cNotre Dame\u201d, n\u00e3o viu Ricardo duas pessoas<br \/>\nrecostadas no guarda-vidra\u00e7as de metal dourado.<\/p>\n<p>Eram o visconde da Aljuba e o Dr. Nogueira, que enfiando os olhos pela vidra\u00e7a,<br \/>\nacompanhavam os movimentos da Guida, fazendo a prop\u00f3sito algumas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; O farsola \u00e9 capaz de lograr-nos! dizia o visconde designando Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 lhe tomei o pulso, respondeu o Nogueira com a peculiar jact\u00e2ncia:<br \/>\nest\u00e1 muito calouro ainda!<\/p>\n<p>&#8211; E a sua candidatura, como vai? \u00c9 uma coisa que havia de ajud\u00e1-lo<br \/>\nmuito.<\/p>\n<p>&#8211; As coisas est\u00e3o bem dispostas, mas sem algum dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>O visconde pulou \u00e0 semelhan\u00e7a dum martelinho de piano, quando<br \/>\nlhe tocam na tecla:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o creia nisso. Elei\u00e7\u00e3o, meu doutor, \u00e9 o<br \/>\ngoverno que a faz; o mais s\u00e3o petas. Quando ele perde, \u00e9 de<br \/>\nprop\u00f3sito para pregar o mono a certos sujeitos. Se o senhor tem o governo<br \/>\npor si, deite-se a dormir, n\u00e3o precisa de mais nada; se n\u00e3o<br \/>\no tem perde seu tempo e seu cobre. \u00c9 cuidar noutra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim&#8230;<\/p>\n<p>Nesse momento sa\u00edra Ricardo da loja.<\/p>\n<p>&#8211; Chegou a sua vez, disse o visconde ao Nogueira empurrando-o amigavelmente.<br \/>\nV\u00e1 emgambelar a rapariga. Arde, ponha para fora toda a saben\u00e7a<br \/>\ne desbanque-me o tal bonifrate! Eh!eh!&#8230;<br \/>\nE trinando o seu riso em falsete, o Aljuba l\u00e1 se foi a trote miudinho,<br \/>\nrua acima, para o escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Entretanto cismava Ricardo no segredo do jantar para que fora convidado;<br \/>\ne dois dias depois, na manh\u00e3 de s\u00e1bado, ainda ocupava-se com<br \/>\nesse capricho de senhoras, muito inclinado a abster-se do convite, apesar<br \/>\nde o haver aceitado por delicadeza.<\/p>\n<p>Achou por\u00e9m em seu esp\u00edrito boas raz\u00f5es, que o dispuseram;<br \/>\ne \u00e0s quatro horas da tarde apeava-se do t\u00edlburi no palacete<br \/>\nde Botafogo. A reuni\u00e3o era mais numerosa que de costume. Al\u00e9m<br \/>\ndos infal\u00edveis, notava-se grande n\u00famero de capitalistas e negociantes,<br \/>\na creme da pra\u00e7a. A\u00ed estavam todos os nossos conhecidos, menos<br \/>\no visconde da Aljuba.<\/p>\n<p>Havia na sala a atmosfera moral que se forma pela expectativa e curiosidade<br \/>\ndo desconhecido. Os amigos encontrando-se inquiriam da novidade e perdiam-se<br \/>\nem conjeturas acerca da reserva com que se tinham feito os<br \/>\nconvites, do segredo recomendado, e da surpresa que sem d\u00favida estava<br \/>\npreparada para o banquete. Sintoma bem significativo da import\u00e2ncia<br \/>\ndessa reuni\u00e3o, que sob a apar\u00eancia de festa ocultava talvez um<br \/>\nacontecimento, era a presen\u00e7a de D. Leonarda Torres, a av\u00f3 materna<br \/>\nde Guida, ou a \u201cavozinha\u201d como a chamava a menina.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de D. Paulina, velha de sessenta anos, nunca aparecia na sociedade;<br \/>\no defeito de uma perna proveniente de reumatismo gotoso, e o g\u00eanio a<br \/>\nretinham constantemente em casa.<\/p>\n<p>Nesse dia, Guida conseguira arranc\u00e1-la de seu retiro para faz\u00ea-la<br \/>\nassistir \u00e0 festa. E o que n\u00e3o obteria a gentil menina da velha,<br \/>\nque morria-se de amores por ela?<\/p>\n<p>\u00c0 chegada de Ricardo, Guida o levou para junto da velha, sentada<br \/>\n\u00e0 parte em uma cadeira de roldanas:<\/p>\n<p>&#8211; Avozinha, aqui lhe trago uma pessoa para conversar. \u00c9 o Dr. Nunes.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 m\u00e9dico? perguntou a velha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, respondeu Guida sorrindo-se por adivinhar o pensamento da<br \/>\nav\u00f3, que era falar de seus achaques. Mas \u00e9 filho de S\u00e3o<br \/>\nPaulo.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom!<\/p>\n<p>&#8211; Fale-lhe de sua terra! disse Guida voltando-se para Ricardo. Ela passou<br \/>\nl\u00e1 muitos anos, quando menina; e ainda tem saudades.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! morou em S\u00e3o Paulo algum tempo? disse Ricardo. Na capital mesmo?<\/p>\n<p>&#8211; No Br\u00e1s. N\u00e3o conheces a casa de D. Belmira de Leme Torres?<\/p>\n<p>&#8211; Muito; minha fam\u00edlia e a sua visitam-se.<\/p>\n<p>&#8211; Pois estimo bem. \u00c9 minha prima.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, disse Guida alisando os cabelos brancos da velha, n\u00e3o se<br \/>\nh\u00e1 de aborrecer mais. Tem quem a distraia; n\u00e3o \u00e9 assim?<br \/>\nE deixou os dois em conversa.<\/p>\n<p>De todas as pessoas na sala nenhuma estava t\u00e3o desnorteada, como<br \/>\nficou o Soares que ao voltar do escrit\u00f3rio para o jantar caseiro e<br \/>\no repouso da sesta, encontrou o palacete em festa, cheio de amigos com que<br \/>\ndecerto n\u00e3o contava achar-se naquele dia.<\/p>\n<p>&#8211; Que hist\u00f3ria \u00e9 esta? perguntou o banqueiro que tudo levava<br \/>\nem ar de brincadeira. Querem ver que o Aljuba espalhou que eu ia p\u00f4r-me<br \/>\nao fresco, e voc\u00eas pelo seguro vieram cercar-me a casa? Fin\u00f3rios!&#8230;<br \/>\nTamb\u00e9m tu, conselheiro! Vieste agarrar o teu velho camarada!<\/p>\n<p>&#8211; Que dizes?&#8230; N\u00e3o v\u00e3o bem os teus neg\u00f3cios? acudiu<br \/>\no Barros amornando a sua fria e pachorrenta gravidade. Bem sabes que at\u00e9<br \/>\nonde eu puder!&#8230;<\/p>\n<p>Soares abra\u00e7ou-o com efus\u00e3o, mas logo afogou esse impulso<br \/>\nna perene galhofa:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s sonhando, meu velho! Nunca me correram tanto \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nos neg\u00f3cios, como depois que o farsola do visconde me anda a agourar.<br \/>\nTu sabes, praga de urubu&#8230; Mas deveras que vieram voc\u00eas a fazer? Quem<br \/>\nos chamou c\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 boa! Pois n\u00e3o nos convidaste para jantar!<\/p>\n<p>&#8211; Eu! Voc\u00eas querem divertir-se.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o recado que recebemos.<\/p>\n<p>&#8211; Hum!&#8230; N\u00e3o passa de inven\u00e7\u00f5es da senhora minha filha!<br \/>\nN\u00e3o resta d\u00favida!<\/p>\n<p>O banqueiro levou o dedo \u00e0 boca:<\/p>\n<p>&#8211; Esperem que vou tente\u00e1-la.<\/p>\n<p>Nisto apareceu Guida:<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, papai, muito bonito! convida a cidade do Rio de Janeiro em<br \/>\npeso para jantar, sem prevenir a mam\u00e3e, nem dizer a pessoa alguma!<br \/>\nPois isto se faz?<\/p>\n<p>&#8211; Henh! est\u00e3o vendo, voc\u00eas! disse o Soares disparando a rir.<\/p>\n<p>&#8211; Ora n\u00e3o disfarce, papai. Todos estes senhores receberam seu convite,<br \/>\ne com a recomenda\u00e7\u00e3o de guardar segredo!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade?<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o!&#8230; Mam\u00e3e e eu \u00edamos sair, quando come\u00e7am<br \/>\na chegar convidados. Os senhores h\u00e3o de ter paci\u00eancia e desculpar.<br \/>\nUm banquete n\u00e3o \u00e9 um discurso, que se improvisa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 pena que n\u00e3o se possa mudar de sexo, Guida. Tu serias<br \/>\no primeiro banqueiro do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Esse lugar j\u00e1 est\u00e1 tomado, papai.<\/p>\n<p>&#8211; O jantar!&#8230; gritou o Daniel na porta.<\/p>\n<p>&#8211; Brejeira! murmurou Soares fazendo c\u00f3cegas nas faces de Guida.<\/p>\n<p>Sentaram-se os convidados \u00e0 mesa, onde o cozinheiro teve o talento<br \/>\nde concentrar os esp\u00edritos na mais s\u00e9ria das preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda vida \u00e0quela hora cr\u00edtica do jantar. Assim j\u00e1 poucos<br \/>\nse lembravam que ali tinham ido para outra coisa<br \/>\nque n\u00e3o fosse apreciar a boa mesa do Soares.<\/p>\n<p>&#8211; Aposto que est\u00e1 muito curioso de saber o segredo? disse Guida a<br \/>\nRicardo que lhe ficava ao lado.<\/p>\n<p>&#8211; Confesso que tenho alguma curiosidade; mas por um motivo que n\u00e3o<br \/>\nsup\u00f5e.<\/p>\n<p>&#8211; E se eu adivinhar?<\/p>\n<p>&#8211; Tem muitas prendas para que lhe desse mais essa a natureza.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor suspeita que o segredo \u00e9 uma brincadeira, um logro.<\/p>\n<p>&#8211; Pior do que isso. Antes de ter o prazer de conhec\u00ea-la, ouvi falar<br \/>\nda anedota de um m\u00e9dico, que se mandou chamar de madrugada a toda a<br \/>\npressa para ver uma cachorrinha.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! contaram-lhe isso? tornou Guida a rir; mas sem d\u00favida n\u00e3o<br \/>\ndisseram que foi uma aposta!<\/p>\n<p>&#8211; Em todo o caso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Papai duvidou que eu fosse capaz de fazer o doutor ir a um baile ou coisa<br \/>\nque se lhe parecesse; eu apostei. Arranjei uma partida em nossa casa, mas<br \/>\ncom o maior segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Como o jantar de hoje.<\/p>\n<p>&#8211; Tal e qual; \u00e0s onze horas, quando as salas estavam cheias escrevi<br \/>\nao doutor, em nome de meu pai, a carta chamandoo para ver minha querida \u201cSofia\u201d,<br \/>\nque estava gravemente enferma. Ele veio; levou a coisa de brincadeira; e ao<br \/>\nretirarse teve de sair pelas salas, pois n\u00e3o havia outro caminho. A\u00ed<br \/>\nas minhas amigas, que j\u00e1 estavam prevenidas, rodearamno com muitas<br \/>\nfestas, e tanto fizeram que o velho dan\u00e7ou uma quadrilha para recobrar<br \/>\na liberdade. Eu ganhei a minha aposta e meu pai deu-me \u201cEdgard\u201d.<br \/>\nBem v\u00ea que lucrei com a travessura.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 n\u00e3o me admira que fa\u00e7a tantas.<\/p>\n<p>&#8211; Fiz; tinha dezesseis anos apenas; \u00e9 verdade que, se n\u00e3o<br \/>\nas fa\u00e7o ainda hoje, n\u00e3o \u00e9 por falta de vontade, mas por<br \/>\nacanhamento. J\u00e1 tenho dezenove e contudo ainda me sinto menina. Nesse<br \/>\nmomento ergueu-se comovido o bar\u00e3o de Sa\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; Meus senhores, vou fazer um brinde.<\/p>\n<p>Compreenderam todos como por uma repercuss\u00e3o moral que era chegado<br \/>\no momento da explica\u00e7\u00e3o; e abriu-se profundo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Guida e Clarinha, a filha do bar\u00e3o, trocaram um olhar de intelig\u00eancia<br \/>\nque n\u00e3o passou desapercebido a Ricardo. O bar\u00e3o prop\u00f4s<br \/>\na sa\u00fade nestes termos:<\/p>\n<p>&#8211; Ao meu velho amigo Soares, ao homem honrado que se fez por seu trabalho,<br \/>\ne a quem o povo despachou comendador por aclama\u00e7\u00e3o, antes que<br \/>\nsua Majestade houvesse por bem nome\u00e1-lo. Aqui est\u00e1 o decreto.<\/p>\n<p>O velo com gesto solene abriu o pergaminho, onde se via uma assinatura de<br \/>\nquatro contos de r\u00e9is; as outras eram bagatela.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo D. Clarinha, a filha do bar\u00e3o, prendia ao peito do<br \/>\nSoares a venera da Rosa cravejada de brilhantes. Patenteou-se o segredo; e<br \/>\nas explica\u00e7\u00f5es correram ao redor da mesa.<\/p>\n<p>Uma semana havia que no Jornal do Com\u00e9rcio come\u00e7ara a aparecer<br \/>\numa mofina concebida nestes termos:<\/p>\n<p>\u201cCOMENDADOR CHENCH\u00c9M\u201d<\/p>\n<p>\u201cUm marreco bem conhecido na pra\u00e7a, por suas especula\u00e7\u00f5es<br \/>\ne trapa\u00e7as, assentou de fazer-se comendador de meiacara. O t\u00edtulo<br \/>\n\u2018soa\u2019 e n\u00e3o custa cinco \u2018r\u00e9s\u2019 ou \u2018r\u00e9is\u2019.<\/p>\n<p>O banqueiro, quando lhe mostraram o jornal, riu-se:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o as unhas do tratante do Aljuba&#8230; N\u00e3o resta d\u00favida.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um desaforo! diziam-lhe os amigos.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu tomo a coisa \u00e0s avessas. \u00c9 uma fineza, que ele me<br \/>\nfaz diferen\u00e7ando-nos.<\/p>\n<p>Quem mais se incomodou com o caso foi o bar\u00e3o de Sa\u00ed, que<br \/>\nno maior segredo tratou de comprar a comenda para seu velho amigo, a fim de<br \/>\nmalograr a vil mofina. D. Paulina e Guida, de combina\u00e7\u00e3o com<br \/>\nele, prepararam a surpresa, a cujo desfecho acabamos de assistir.<\/p>\n<p>Muitos dos convivas n\u00e3o se tinham apercebido da mofina, pela indiferen\u00e7a<br \/>\ncom que passam os olhos por essa arena da imprensa, onde se esgrime, de envolta<br \/>\ncom id\u00e9ias e sentimentos nobres, toda a casta de paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Valeu-lhes o Ben\u00edcio, que ningu\u00e9m jamais apanhou desprevenido.<br \/>\nSubmergindo a m\u00e3o pelas profundezas do bolso, tirou dois ou tr\u00eas<br \/>\nretalhinhos de jornal; eram exemplares da mofina que tinha o cuidado de cortar<br \/>\ncada dia para apresent\u00e1-la cheio de pesar e indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\na quantos encontrava, aproveitando a ocasi\u00e3o para fazer o pomposo elogio<br \/>\nde seu \u00edntimo amigo, o Soares, que, isto \u00e9 dele, \u201cmetia<br \/>\nno chinelo todos os comendadores havidos e por haver\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; A mofina?&#8230; Querem ver o desaforo?&#8230; Aqui est\u00e1, essa pouca-vergonha!<br \/>\ndizia o homem servi\u00e7al obsequiando aos vizinhos.<\/p>\n<p>Erguera-se o Soares:<\/p>\n<p>&#8211; Meus amigos. Isto nada vale por si, disse com o chasco habitual, pondo<br \/>\no dedo na venera; nada, nem como comenda, nem como j\u00f3ia. Como \u201ccomenda\u201d,<br \/>\n\u00e9 uma \u201cencomenda\u201d, que j\u00e1 n\u00e3o \u201crecomenda\u201d<br \/>\nningu\u00e9m. Como j\u00f3ia, eu tenho no cora\u00e7\u00e3o do meu<br \/>\nvelho Jo\u00e3o, e dos amigos aqui presentes, um diamante de melhor \u00e1gua<br \/>\ne quilate do que qualquer destes. Mas a inten\u00e7\u00e3o, essa \u00e9<br \/>\num tesouro; \u00e9 a alma de um homem honrado e amigo dedicado.<br \/>\nSentiu-se que o Soares estava comovido.<\/p>\n<p>&#8211; Guida, minha filha, vem c\u00e1. Toma esta j\u00f3ia; ela te h\u00e1<br \/>\nde servir de broche. Em teu colo todos h\u00e3o de admir\u00e1-la; e tu<br \/>\npodes ter orgulho, minha filha, de adornar-te com a probidade de teu pai!<br \/>\nGuida lan\u00e7ou os bra\u00e7os ao pesco\u00e7o do Soares.<\/p>\n<p>Romperam os aplausos. A como\u00e7\u00e3o era geral. Havia na reuni\u00e3o<br \/>\na eletricidade moral dos esp\u00edritos em ebuli\u00e7\u00e3o, que s\u00f3<br \/>\nesperam uma centelha, para se inflamarem. A cena a\u00ed estava aberta;<br \/>\ndesenhada a situa\u00e7\u00e3o; faltava s\u00f3 a palavra<br \/>\neloq\u00fcente, que a exprimisse.<\/p>\n<p>Algumas vozes proferiram o nome do Dr. Nogueira, como o homem do momento.<br \/>\nEle hesitou: n\u00e3o tinha previsto o lance; podia arriscar a sua reputa\u00e7\u00e3o;<br \/>\nera mais prudente deixar-se ficar na penumbra desdenhosa de seu incontest\u00e1vel<br \/>\ntalento. Foi ent\u00e3o que Ricardo exaltando-se com aquela cena onde vibravam<br \/>\nas cordas mais nobres e generosas do cora\u00e7\u00e3o, ergueu-se num<br \/>\nassomo de entusiasmo, e sua voz sonora, palpitando aos impulsos do sentimento,<br \/>\narrebatou a aten\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<h4><a id=\"25\" name=\"25\"><\/a>XXV<\/h4>\n<p>Trila o piano. As notas frescas, brilhantes e vivazes de um romance de Schubert<br \/>\nse escapam em enxames pelas janelas, voluteando, como os coleiros que esvoa\u00e7am<br \/>\npelo jardim, entre os ramos floridos dos resed\u00e1s.<\/p>\n<p>Eram onze horas.<\/p>\n<p>Mrs. Trowshy, sentada junto \u00e0 mesa carregada de livros, mapas e outros<br \/>\nobjetos, espera gravemente que Guida se resolva a come\u00e7ar a li\u00e7\u00e3o;<br \/>\nmas a menina inteiramente embebida na execu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica,<br \/>\nnem se lembra da mestra.<\/p>\n<p>&#8211; Alons, Guida.<\/p>\n<p>Afinal conhecendo, depois de tr\u00eas advert\u00eancias in\u00fateis,<br \/>\nque perdia seu tempo, aproximou-se do piano e abriu o livro da m\u00fasica<br \/>\nsobre a estante, para evitar que a disc\u00edpula tocasse de cor.<\/p>\n<p>Guida levantou-se logo do tamborete; e a mestra pensando que ela cedia-lhe<br \/>\no lugar para v\u00ea-la tocar a pe\u00e7a e corrigir algum engano, sentou-se<br \/>\nao piano e executou, com o maior escr\u00fapulo, a linda composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Schubert.<\/p>\n<p>Mas Guida que ela supunha \u00e0 sua beira, acompanhando atenta a sua<br \/>\nli\u00e7\u00e3o, estava bem sentada \u00e0 mesa, onde abrira a sua caixa<br \/>\nde tintas e coloria uma aquarela, mas a seu moo, pintando a folhagem de encarnado,<br \/>\nos bois e os carneiros de verde, e a \u00e1gua de amarelo.<\/p>\n<p>Dando a mestra por falta da disc\u00edpula a seu lado, tornou \u00e0<br \/>\nmesa para observar a pintura da mo\u00e7a:<br \/>\n&#8211; What horror!&#8230; exclamou ela espantada com o disparate das cores.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora n\u00e3o tem bom gosto, Mrs. Trowshy, disse Guida. N\u00e3o<br \/>\nsabe apreciar a originalidade!<br \/>\nA inglesa disparou a rir, passando com extrema volubilidade do horror \u00e0<br \/>\ngargalhada:<br \/>\n&#8211; How funny!&#8230; How funny!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se ria, Mrs. Trowshy! Isto que a senhora est\u00e1 vendo<br \/>\n\u00e9 uma obra-prima! Que vigor de colorido! Que tons brilhantes!&#8230; Os<br \/>\nversos de certos poetas, se fosse poss\u00edvel pint\u00e1-los, sa\u00edam<br \/>\nassim.<\/p>\n<p>A mestra divertida com a travessura da menina, tomou t\u00e3o vivo interesse,<br \/>\nque segundo o seu costume entrou logo em colabora\u00e7\u00e3o. Mas Guida<br \/>\nn\u00e3o estava de veia nesse dia, pois abandonando-lhe o pincel e a cadeira,<br \/>\nesqueceu aquele divertimento e foi \u00e0 cata de outro.<\/p>\n<p>Deu duas voltas pela saleta, sem lembrar-se de coisa em que esperdi\u00e7asse<br \/>\no tempo, porque de li\u00e7\u00e3o, n\u00e3o queria ela saber naquele<br \/>\ndia, e tinha resolvido na sua fantasia um sueto.<\/p>\n<p>No fim de contas foi &#8220;Sofia&#8221; quem deu o tema para a nova travessura.<br \/>\nSentou-a Guida em uma cadeira defronte de si, com as patas dianteiras erguidas;<br \/>\ne abrindo seu costureiro de pau-de-cetim embutido de \u00e9bano, disp\u00f4s-se<br \/>\na cortar para a felpuda cachorrinha um vestido de cauda \u00e0 Pompadour,<br \/>\ncom dois tremendos pufos.<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1 fazendo, Guida?<br \/>\n&#8211; O enxoval para &#8220;Sofia&#8221;. \u00c9 verdade: ainda n\u00e3o lhe<br \/>\ncomuniquei o seu pr\u00f3ximo casamento com um gentledog que est\u00e1<br \/>\napaixonad\u00edssimo do seu dote!<br \/>\nNesse momento Soares apareceu \u00e0 porta e chamou:<br \/>\n&#8211; Guida!<br \/>\n&#8211; Papai ainda n\u00e3o foi para o escrit\u00f3rio?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Chegaram visitas, quando ia sair, e trouxeram umas novidades que te h\u00e3o<br \/>\nde interessar!<br \/>\n&#8211; Ah! S\u00e3o figurinos? perguntou Guida ocultando sob um remoque a s\u00fabita<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 outra esp\u00e9cie de novidade.<\/p>\n<p>Travando-lhe da m\u00e3o, Soares levou-a at\u00e9 o gabinete, e a\u00ed<br \/>\nf\u00ea-la sentar perto dele na sua secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8211; Lembras-te da conversa que tivemos aqui neste mesmo lugar h\u00e1 perto<br \/>\nde quatro anos?<br \/>\n&#8211; Era t\u00e3o crian\u00e7a ent\u00e3o!&#8230; Se ainda hoje sou! atalhou<br \/>\nGuida gentilmente.<\/p>\n<p>&#8211; Esperta! acudiu Soares beliscando-lhe o bei\u00e7o; j\u00e1 estas<br \/>\npreparando a retirada!<br \/>\n&#8211; Ah! ent\u00e3o \u00e9 um ataque? Foi bom prevenir-me!<br \/>\n&#8211; Pois defende-te! Essa conversa, que tivemos h\u00e1 quatro anos, veio,<br \/>\nrecordo-me bem, por causa do susto que te causaram, com a inven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que eu ia te casar antes de um m\u00eas com o Bastos.<\/p>\n<p>&#8211; Susto que ainda me faz estremecer, observou em aparte Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o eu te prometi duas coisas: primeira, que antes de completares<br \/>\ndezoito anos, eu n\u00e3o te falaria nem por sombras em casamento; segunda,<br \/>\nque tu mesma, de tua livre vontade e a teu gosto, escolherias um marido.<\/p>\n<p>&#8211; Disso me lembro perfeitamente, e o trago bem guardado; pois \u00e9 a<br \/>\nmaior prova do bem que me quer e da confian\u00e7a que tem em sua filha.<\/p>\n<p>&#8211; Ela merece tudo e mais, tornou Soares; mas a essas duas obriga\u00e7\u00f5es<br \/>\ncontra\u00eddas por mim correspondiam duas cl\u00e1usulas a que de teu<br \/>\nlado te submeteste.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos a ver.<\/p>\n<p>&#8211; De tua parte, me prometeste que em completando os dezoito anos farias<br \/>\nlogo tua escolha; e no caso de n\u00e3o concordar eu, por estar um de n\u00f3s<br \/>\nenganado, te sujeitarias durante um ano \u00e0s provas a que eu submetesse<br \/>\no escolhido, para conhecer-lhe o car\u00e1ter a arrancar a minha ou a tua<br \/>\nilus\u00e3o. Foi isto?<br \/>\n&#8211; Literalemnte.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Os dezoito anos se completaram h\u00e1 perto de tr\u00eas meses:<br \/>\ne a escolha?&#8230; Est\u00e1 feita?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, papai.<\/p>\n<p>&#8211; E quando se faz?<br \/>\n&#8211; Quando aparecer aquele a quem eu devo escolher. N\u00e3o posso inventar<br \/>\num noivo, papai! Tenho eu culpa se todos esses que me cercam nos bailes, e<br \/>\nme perseguem com sua corte, me s\u00e3o indiferentes? Se nenhum desperta<br \/>\nem mim a menor emo\u00e7\u00e3o, que se pare\u00e7a com a afei\u00e7\u00e3o<br \/>\nterna e pura da mulher por seu marido? Se os acho banais e rid\u00edculos,<br \/>\ne me fazem rir, quando n\u00e3o me aborrecem?<br \/>\n&#8211; Eis a\u00ed, replicou Soares; tu dizes que n\u00e3o podes inventar um<br \/>\nnoivo, no que eu plenamente concordo; e entretanto n\u00e3o cuidas de outra<br \/>\ncoisa sen\u00e3o desse invento. Fantasiaste como toda a mo\u00e7a um homem<br \/>\n\u00e0 tua id\u00e9ia, como n\u00e3o se encontra neste mundo; e cotejando<br \/>\nos outros de carne e osso com o teu exemplar, os achas a todos uns bonecos<br \/>\nsem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 isto, papai; n\u00e3o sou rom\u00e2ntica; bem ao<br \/>\ncontr\u00e1rio; se h\u00e1 coisa rid\u00edcula para mim, \u00e9 o<br \/>\nideal desses her\u00f3is de romance que sabem tudo, podem tudo, e tudo adivinham.<br \/>\nPara uma pobre mo\u00e7a como eu, seria um traste bem inc\u00f4modo. O<br \/>\nque desejo \u00e9 um homem de car\u00e1ter nobre, que me ame, e por quem<br \/>\neu sinta verdadeira estima e afei\u00e7\u00e3o, para desculpar seus defeitos<br \/>\ne n\u00e3o ver suas fraquezas. Parece que n\u00e3o pe\u00e7o muito!<br \/>\n&#8211; Mas, Guida, at\u00e9 agora n\u00e3o pudeste encontrar este homem? Em<br \/>\nnossa casa vem a flor do Rio de Janeiro; e se falta algu\u00e9m, \u00e9<br \/>\nporque assim o queres. Bastava uma palavra tua. Tu freq\u00fcentas os melhores<br \/>\nbailes, conheces toda a sociedade escolhida da corte.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda \u00e9 cedo! disse Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Cedo!&#8230; Agora vive-se depressa, minha filha; essa palavra quase que est\u00e1<br \/>\neliminada do vocabul\u00e1rio da \u00e9poca. Dezoito anos \u00e9 a mocidade<br \/>\nda mulher, como os cinq\u00fcenta e cinco que j\u00e1 est\u00e3o c\u00e1,<br \/>\ns\u00e3o a velhice do homem. Amanh\u00e3 pode ser tarde para n\u00f3s<br \/>\nambos.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-se dessas id\u00e9ias, papai!<br \/>\n&#8211; H\u00e1 quinze dias, me pediste para romper com o visconde por andar ele<br \/>\nespeculando com teu nome. N\u00e3o me quiseste dizer de quem se tratava.<br \/>\nOntem me avisaram de um infame ajuste feito entre ele e o Nogueira, sob a<br \/>\ngarantia de teu dote.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 sabia, disse Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Tu sabias, sim; mas pensa qual deve ser a minha tristeza lembrando-me<br \/>\nque te posso deixar s\u00f3 no mundo, \u00e0 merc\u00ea de semelhantes<br \/>\ninf\u00e2mias. Se fosses pobre, a tua virtude bastava para defender-te; mas<br \/>\nrica!&#8230; Serias o pr\u00eamio da especula\u00e7\u00e3o, a v\u00edtima<br \/>\ndas trapa\u00e7as, o alvo de todas as ambi\u00e7\u00f5es, que te disputariam<br \/>\ncomo um privil\u00e9gio de bondes, ou um monop\u00f3lio d&#8217;\u00e1gua.<br \/>\nN\u00e3o te horroriza esta id\u00e9ia, e n\u00e3o avalias das inquieta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde teu pai?<br \/>\nGuida reclinou sobre a m\u00e3o a fronte pensativa e Soares ergueu-se ao<br \/>\nimpulso da como\u00e7\u00e3o que o abalava:<br \/>\n&#8211; Essa imensa riqueza, que me invejam, de que me serve, pois em vez de garantir,<br \/>\ncompromete o futuro de minha filha? Se com um milh\u00e3o, dois, tudo quanto<br \/>\npossuo, pudesse criar um homem digno de ti&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se aflija! disse Guida meigamente passando-lhe a m\u00e3o<br \/>\nao pesco\u00e7o. Prometo escolher.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio?&#8230; E quando?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em um m\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Deus te aben\u00e7oe, como eu, e te inspire.<\/p>\n<p>O pai estreitou a filha ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, tornou Soares de s\u00fabito, \u00e9 por tua vontade!<br \/>\n&#8211; Inteiramente!<br \/>\n&#8211; Sem constrangimento!<br \/>\n&#8211; Nenhum.<\/p>\n<p>&#8211; Vou descansado.<\/p>\n<p>Guida acompanhou o pai at\u00e9 o port\u00e3o, onde o esperava o carro<br \/>\npara lev\u00e1-lo ao escrit\u00f3rio. Pelo caminho folgavam os dois como<br \/>\ncamaradas de col\u00e9gio ao sair da aula em v\u00e9spera de feriado.<\/p>\n<p>Ficando s\u00f3, a mo\u00e7a foi esconder-se a um recanto do jardim,<br \/>\nem um nicho de trepadeiras; e a\u00ed ficou cismando cerca de uma hora.<br \/>\nA m\u00e1goa que disfar\u00e7ara em presen\u00e7a do pai, derramava-lhe<br \/>\nagora no lindo semblante uma doce tinta de melancolia.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde Guida lembrou-se de ir ver a av\u00f3 no Andara\u00ed.<\/p>\n<p>A\u00ed vivia D. Leonarda retirada na ch\u00e1cara, onde nascera, no<br \/>\nmeio de uma r\u00e9cua de crioulas e um bando de moleques de todos os topes<br \/>\ne de todas as cores. Aquela cria\u00e7\u00e3o pululava e crescia \u00e0<br \/>\nmanga lassa, como bezerros do sert\u00e3o sem freio e sem educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Leonarda, desde que a serviam nos poucos misteres para os quais bastava<br \/>\numa criada diligente, deixava a tro\u00e7a das mucamas na mais completa<br \/>\nliberdade, at\u00e9 nove horas, em que punha-as todas, m\u00e3es e av\u00f3s<br \/>\nde filhos, debaixo de chave, como donzelas recatadas; e nessa conta tinha-as<br \/>\na todas, crendo realmente enjeitados pelas vizinhan\u00e7as os moleques<br \/>\nque lhe enchiam a casa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da sua perna e das contas do seu procurador, D. Leonarda n\u00e3o<br \/>\nse ocupava doutra coisa sen\u00e3o dos moleques, de coser para eles, distribuir-lhes<br \/>\num vint\u00e9m para cocada, e ensinar-lhes a rezar.<\/p>\n<p>Quando o carro de Guida parou na frente da ch\u00e1cara, correu ao port\u00e3o<br \/>\no enxame de moleques e a tro\u00e7a das mucamas, gritando e saltando para<br \/>\nfestejar a chegada da menina.<\/p>\n<p>Era sempre assim.<\/p>\n<p>A entrada de Guida na casa da av\u00f3 produzia o mesmo efeito que um<br \/>\nsol de abril rompendo a bruma depois de uma manh\u00e3 de chuva, ou para<br \/>\nempregar imagem menos r\u00fastica e po\u00e9tica, o de uma m\u00fasica<br \/>\nde batalh\u00e3o passando em rua escura e retirada.<\/p>\n<p>O rancho das raparigas e moleques corria ao port\u00e3o. D. Leonarda,<br \/>\na coxear, arrastava-se com o arrimo de uma bengala at\u00e9 a porta, onde<br \/>\nacabava de aparecer. N\u00e3o se pinta a express\u00e3o de j\u00fabilo<br \/>\nque afogava o semblante da velhinha, com as alv\u00edssaras da chegada de<br \/>\nGuida.<\/p>\n<p>Para a velha, aquela crian\u00e7a era todo o amor, como toda a alegria;<br \/>\nou antes, a crian\u00e7a era ela, que se deixava acalentar pelas car\u00edcias<br \/>\ne meiguices da neta; e bebia-lhe nos l\u00e1bios mimosos o doce riso que<br \/>\nainda iluminava-lhe as faces p\u00e1lidas, e o prazer que lhe orvalhava<br \/>\nas tristezas e achaques de velhice.<\/p>\n<p>Subiu Guida ligeiramente os degraus da escada de pedra e apertou nos bra\u00e7os<br \/>\na av\u00f3, beijando-lhe os cabelos brancos e amimando-a com a gra\u00e7a<br \/>\nque espargia-se em seu menor gesto, mas com uma ternura, que mui rara transpirava,<br \/>\ncomo perfume de flor cerrada, a qual s\u00f3 rescende na soledade.<\/p>\n<p>Entretando Mrs. Trowshy, ao descer do carro, como de costume tapou os ouvidos<br \/>\ncom as m\u00e3os para tornar-se impenetr\u00e1vel \u00e0 algazarra da<br \/>\nmolecada, e soltando um espl\u00eandido brrrrrr da genu\u00edna escola<br \/>\ninglesa, foi acab\u00e1-lo numa cadeira de balan\u00e7o da saleta, onde<br \/>\narreou-se como uma bala de algod\u00e3o no bojo dum saveiro.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 que tempo, ingrata! disse a velha.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! avozinha! N\u00e3o tinha com quem vir! Mrs. Trowshy andava com os<br \/>\nseus faniquitos.<\/p>\n<p>Depois de ter acarinhado a seu gosto a avozinha, Guida levou-a na sua cadeira<br \/>\nde roldanas para o v\u00e3o de janela que abria sobre o jardim, e a\u00ed<br \/>\nde joelhos sobre a ponta do banquinho, o busto reclinado ao bra\u00e7o da<br \/>\npoltrona, come\u00e7ou a falar baixinho ao ouvido da velha com extrema vivacidade.<br \/>\nDir-se-ia que receava encontrar-se com suas pr\u00f3prias palavras, pois<br \/>\nas despedia mui depressa, e \u00e0s escondidas.<\/p>\n<p>Algumas vezes parava para observar a fisionomia de D. Leonarda, onde atrav\u00e9s<br \/>\ndo embevecimento que lhe causava a voz querida, espontava uma leve surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Como h\u00e1 de ser? perguntou a velha uma vez.<\/p>\n<p>&#8211; Escute, respondeu Guida.<\/p>\n<p>E tomando entre as m\u00e3os a cabe\u00e7a da velha com um gesto gracioso,<br \/>\nconchegou-a a seus l\u00e1bios, no intento de tornar ainda mais \u00edntima<br \/>\ne reservada essa confid\u00eancia, que se n\u00e3o roseava-lhe a face n\u00edvea<br \/>\nimaculada, alvoro\u00e7ava-lhe os esp\u00edritos, a arder nos olhos e<br \/>\na arfar no seio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim! disse a velha dando-lhe um beijo. Arranja tudo.<\/p>\n<p>Guida chamou um pajem:<br \/>\n&#8211; V\u00e1 \u00e0 casa do Sr. Ben\u00edcio, sabe?<br \/>\n&#8211; \u00c9 o procurador de sinh\u00e1 velha?<br \/>\n&#8211; Esse mesmo. Dize-lhe que venha falar com a avozinha amanh\u00e3 \u00e0<br \/>\nnoite sem falta.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, nhanh\u00e3 Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o vens amanh\u00e3? Perguntou a velha contente.<\/p>\n<p>&#8211; Por for\u00e7a!<\/p>\n<h4><a id=\"26\" name=\"26\"><\/a>XXVI<\/h4>\n<p>Meio dia.<\/p>\n<p>Abrasa o sol a rech\u00e3 onde se desdobra o bairro do Andara\u00ed,<br \/>\nprecintado por um cord\u00e3o de montanhas que lhe interceptam a passagem<br \/>\ndas brisas do largo.<\/p>\n<p>\u00c9 um desses dias de ver\u00e3o, que chofram de repente no meio<br \/>\nde frias temporadas como vedetas ou postos avan\u00e7ados do estio a explorar<br \/>\nas n\u00e9voas do inverno, e fazer experi\u00eancias no bar\u00f4metro<br \/>\ndos calos e reumatismos dos velhos fluminenes.<\/p>\n<p>Um t\u00edlburi p\u00e1ra no port\u00e3o da ch\u00e1cara de D. Leonarda;<br \/>\ne dele apeia-se um mancebo trajado com a severa eleg\u00e2ncia, que revela<br \/>\no esp\u00edrito superior, irisado pelo prisma brilhante da imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas contido pelo recato da dignidade.<\/p>\n<p>No fim do curto passeio de murtas apareceu um negrinho que dobrava o out\u00e3o<br \/>\nde casa; logo ap\u00f3s outro pirralho, e outro, at\u00e9 que formou-se<br \/>\numa pinha dos tais diabretes.<\/p>\n<p>O mancebo caminhou a eles para confiar a um o seu cart\u00e3o de visita;<br \/>\nmas n\u00e3o tinha dado tr\u00eas passos, que a alcat\u00e9ia alvori\u00e7ou,<br \/>\ndispersando-se pelo terreiro afora e escondendo-se por tr\u00e1s da casa.<\/p>\n<p>Abrira-se por\u00e9m a porta de entrada, e apareceu no patamar uma mucama:<br \/>\n&#8211; O senhor \u00e9 S. doutor Ricardo?<br \/>\n&#8211; Ricardo Nunes, confirmou o advogado.<\/p>\n<p>&#8211; Pode entrar.<\/p>\n<p>Acha-se o mancebo na sala de visitas, extensa pe\u00e7a, embora um tanto<br \/>\nestreita, com cinco janelas rasgadas sobre o jardim, cujas ramadas lhe cobriam<br \/>\nas portadas de verdes sanefas, por onde envolta com a fragr\u00e2ncia do<br \/>\njasmim coava-se a luz, peneirada no crivo das folhas e roseada pelo reflexo<br \/>\ndos lilases.<\/p>\n<p>Esta sombra luminosa, como a chamara M\u00edlton, derramava no aposento<br \/>\numa tinta de serena e doce quietude, que repassava a alma de um indefin\u00edvel<br \/>\nenlevo, especialmente ao surdir-se das torrentes de um sol tropical. Sentou-se<br \/>\no mancebo \u00e0 espera, com alguma curiosidade de conhecer ao justo o fim<br \/>\nde sua vinda ali.<\/p>\n<p>Dois dias antes lhe aparecera no escrit\u00f3rio o obsequioso Sr. Ben\u00edcio;<br \/>\ndepois dos usuais oferecimentos, sacara do bolso as tr\u00eas cl\u00e1ssicas<br \/>\ne enormes carteiras, colocara-as diante de si em cima da mesa, esvaziara dois<br \/>\ndos profund\u00edssimos bolsos, tornara a atopet\u00e1-los baldeando a<br \/>\ncarga da direita para a esquerda, e afinal depois de toda essa pesquisa como<br \/>\nn\u00e3o a faria melhor a pol\u00edcia aduaneira, desenterrou das cavernas<br \/>\nde uma algibeira uma nota de que deu leitura ao advogado:<br \/>\n&#8211; &#8220;Dr. Ricardo de Melo Nunes, advogado. Escrit\u00f3rio, rua do Ros\u00e1rio,<br \/>\n27.&#8221; \u00c9 isto?<br \/>\n&#8211; Deve ser! respondeu Ricardo a rir, sen\u00e3o o senhor c\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nchegaria.<\/p>\n<p>&#8211; Eu c\u00e1 trago estas coisas em ordem, tornou o amanuense; e acabou<br \/>\nde ler a nota. &#8211; &#8220;Neg\u00f3cio de D. Leonarda.&#8221;<br \/>\nDepois dessa formalidade explicou Ben\u00edcio ao mancebo que a sogra do<br \/>\nSoares o incumbira de pedir-lhe o favor de achar-se em sua casa ter\u00e7a-feira<br \/>\nao meio-dia em ponto, para na qualidade de advogado aconselh\u00e1-la em<br \/>\nneg\u00f3cio importante e at\u00e9 mesmo arranjar certos pap\u00e9is<br \/>\nnecess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Assegurou Ricardo que as ordens de D. Leonarda seriam cumpridas; e ali estava<br \/>\nexato no dia e hora que lhe fora designado. Viera o mancebo com certa emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nincompreens\u00edvel, que ainda naquele momento n\u00e3o pudera dominar<br \/>\nao todo, e menos assinar-lhe a causa.<\/p>\n<p>Atribu\u00eda \u00e0 curiosidade. Que lhe queria a senhora? Teria ele<br \/>\nde penetrar nos segredos de sua vida? Pretendia a velha incumbi-lo de redigir<br \/>\nseu testamento? Ia ele tornar-se o confidente de alguma dessas dissens\u00f5es<br \/>\nintestinas que \u00e0s vezes lavram no seio das fam\u00edlias?<br \/>\nAbriu-se a porta; e Guida apareceu em companhia de Mrs. Trowshy.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a trajava nesse dia com extrema simplicidade. Estava toda de<br \/>\nbranco, e a alvura de suas vestes de cambraia sob a n\u00edvea c\u00fatis<br \/>\ndava-lhe a serena transpar\u00eancia da luz mate. Sua bela est\u00e1tua<br \/>\nparecia flutuar nesse \u00e9ter di\u00e1fano onde brilhavam com vivo fulgor<br \/>\nos olhos negros e as tran\u00e7as opulentas de seus cabelos. O l\u00e1bio<br \/>\ntalvez p\u00e1lido em outro semblante menos puro, no seu era folha de rosa<br \/>\nnadando em leite; e por ele perpassava um sorriso merenc\u00f3rio como deve<br \/>\nser a p\u00e9tala aveludada da flor quando se despede da luz, de que embebia-se.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-la entrar na sala como uma doce vis\u00e3o de manh\u00e3<br \/>\nde abril, Ricardo, imagina\u00e7\u00e3o de artista, com o culto da forma<br \/>\ne o entusiasmo do belo, n\u00e3o p\u00f4de conter os raptos de seu esp\u00edrito;<br \/>\ne esteve por alguns momentos no enlevo da admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 cansado de esperar? disse Guida saudando o advogado.<\/p>\n<p>Feitos os cumprimentos, Mrs. Trowshy foi sentar-se na outra parte da sala,<br \/>\nno v\u00e3o duma janela, com um volume de Dickens. Os dois mo\u00e7os<br \/>\nficaram onde estavam, Guida no sof\u00e1, e Ricardo na cadeira do lado.<\/p>\n<p>&#8211; Minha av\u00f3 est\u00e1 arranjando sua papelada. Talvez se demore,<br \/>\ne por isso incumbiu-me de uma coisa bem dif\u00edcil; distrair-lhe a impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora dispensa o cumprimento? perguntou Ricardo gracejando.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto; cumprimentos a esta hora entre o advogado e seu cliente&#8230; Porque<br \/>\neu estou aqui representando minha av\u00f3. N\u00e3o \u00e9 verdade?<br \/>\n&#8211; Assim o entendo; e eu n\u00e3o seria advogado se n\u00e3o houvera aprendido<br \/>\na fundo a paci\u00eancia; al\u00e9m de que, n\u00e3o tenho pressa. Consagrei<br \/>\no dia de hoje \u00e0 Sr\u00aa. D. Leonarda.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o lhe incomoda esperar?<br \/>\n&#8211; De modo algum; antes me d\u00e1 o prazer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ai! ai!&#8230; que l\u00e1 se vai o advogado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade!<br \/>\n&#8211; Estimo bem que n\u00e3o estivesse aflito por ir-se, porque minha av\u00f3<br \/>\n\u00e9 muito vagarosa, coitada, t\u00e3o doente; e eu n\u00e3o sabia<br \/>\ncomo fazer-lhe passar desapercebido esse tempo. O piano&#8230; Se ainda tivesse<br \/>\ncordas, podia tocar-lhe o Capenga n\u00e3o forma. Mrs. Trowshy quando se<br \/>\nagarra com seu romance, ningu\u00e9m conte com ela. Ent\u00e3o Dickens!<br \/>\n&#8211; \u00c9 o seu autor favorito?<br \/>\nAcenou a mo\u00e7a que sim.<\/p>\n<p>N\u00e3o estava Guida, essa manh\u00e3, no seu natural, que era uma<br \/>\ndoce jovialidade, salpicada \u00e0s vezes de ironia, e outras de meiga afabilidade.<br \/>\nEm seu vulto perpassava, como na face cristalina de um lago, as muta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo pensamento.<\/p>\n<p>Ao entrar tinha ela a atitude s\u00e9ria e concentrada, por\u00e9m ao<br \/>\nmesmo tempo decidida e serena, de quem atravessa um momento dif\u00edcil<br \/>\nda vida, mas arrima-se, para transp\u00f4-lo, a uma resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ninabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>A conversa tirou-a dessa reserva, sem contudo dissipar-lhe de todo na fronte<br \/>\na sombra da preocupa\u00e7\u00e3o. Buscou reassumir o seu gentil e g\u00e1rgulo<br \/>\nsorriso, mas a harmonia e a gra\u00e7a dessa mimosa express\u00e3o ressentia-se<br \/>\nde uma ligeira crispa\u00e7\u00e3o. As fibras nervinas desse delicado<br \/>\norganismo, alguma forte como\u00e7\u00e3o as tinha percutido.<\/p>\n<p>Agora, em meio de um gracejo, deixava-se colher por s\u00fabita distra\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo se o pensamento, transformado em uma borboleta, lhe fugisse pela janela<br \/>\na farfalhar entre as flores do jardim; mas, a ser assim, depressa achara a<br \/>\nid\u00e9ia que buscava, pois tornou logo \u00e0 conversa.<\/p>\n<p>&#8211; Dickens?&#8230; \u00c9 o autor de sua paix\u00e3o, disse afinal confirmando<br \/>\no aceno, e com uma ligeira confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Delicadamente Ricardo fingia observar Mrs. Trowshy, para n\u00e3o se mostrar<br \/>\napercebido do enleio da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Gosta dos romances ingleses? perguntou Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Poucos tenho lido. A literatura francesa nos invadiu; e por algum tempo<br \/>\nfoi nosso \u00fanico fornecedor de id\u00e9ias. Das outras apenas conhec\u00edamos<br \/>\nas obras-primas, os grandes poetas. Ultimamente j\u00e1 entramos em com\u00e9rcio<br \/>\ncom outras literaturas; mas a mim falta-me o tempo e o gosto.<\/p>\n<p>&#8211; Alguns acham os romances ingleses muito ins\u00edpidos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 natural. Somos uma ra\u00e7a t\u00e3o diversa! Eles h\u00e3o<br \/>\nde achar os nossos extravagantes.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! quanto \u00e0 extravag\u00e2ncia, quero contar-lhe o desfecho de<br \/>\num que li h\u00e1 tempos; creio que \u00e9 de&#8230; N\u00e3o me lembro!<br \/>\ndisse Guida com certo assomo nervoso.<\/p>\n<p>Fitou a mo\u00e7a os olhos nas grinaldas que pendiam da janela, acompanhando<br \/>\no volutear de um colibri que chupava o mel das flores. Deste modo n\u00e3o<br \/>\nse podia cruzar o seu olhar com o do advogado.<\/p>\n<p>&#8211; O t\u00edtulo&#8230; n\u00e3o me lembro. Era uma mo\u00e7a, filha de<br \/>\num banqueiro muito rico. Quanto \u00e0 descri\u00e7\u00e3o, imagine<br \/>\no senhor, que sabe desenhar: o romancista a d\u00e1 como bonitinha; n\u00e3o<br \/>\nera nenhum primor; bem longe disso.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed est\u00e1-se revelando a escola inglesa, observou Ricardo.<\/p>\n<p>Riu-se Guida maliciosamente da observa\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o,<br \/>\ne continuou:<br \/>\n&#8211; O pai tinha declarado \u00e0 filha quando ela tornou-se mo\u00e7a, que<br \/>\na n\u00e3o constrangeria, mas ao contr\u00e1rio lhe deixava plena liberdade<br \/>\npara escolher um marido; contanto que chegando aos dezoito anos se casasse.<br \/>\nTamb\u00e9m \u00e9 ingl\u00eas, n\u00e3o lhe parece?<br \/>\n&#8211; Genu\u00edno.<\/p>\n<p>&#8211; Vai ver o resto. Chegou a mo\u00e7a aos dezoito anos; e completou os<br \/>\ndezenove. O pai exige o cumprimento da promessa.<\/p>\n<p>&#8211; E ela casa-se! exclamou Ricardo com vivacidade, levado por estranho impulso.<\/p>\n<p>Retraiu-se por\u00e9m o mo\u00e7o e desfolhou dos l\u00e1bios um ir\u00f4nico<br \/>\nsorriso. Guida, que deixara suspensa um instante a exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mo\u00e7o, continuou galanteando:<br \/>\n&#8211; O senhor quer precipitar o desenlace. N\u00e3o seja t\u00e3o s\u00f4frego.<br \/>\nOu\u00e7a; temos muito tempo. Avozinha n\u00e3o vem t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>Guida parecia recobrar sua habitual isen\u00e7\u00e3o a garridice:<br \/>\n&#8211; O pai exigiu o casamento; mas a mo\u00e7a n\u00e3o tinha escolhido.<\/p>\n<p>-Ah!<br \/>\n&#8211; E n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tinha, como n\u00e3o podia escolher.<br \/>\nA ningu\u00e9m amava; n\u00e3o conhecia um homem por quem sentisse as<br \/>\ndoces emo\u00e7\u00f5es, os estremecimentos, que fazem a felicidade conjugal.<br \/>\nDonde provinha isto, n\u00e3o sabia explicar o romancista, e menos eu. N\u00e3o<br \/>\nteria cora\u00e7\u00e3o essa mo\u00e7a, ou se lhe havia cegado? Era<br \/>\nisso feito da educa\u00e7\u00e3o, ou da sociedade em que vivia, cercada<br \/>\nde galanteios rid\u00edculos, de c\u00e1lculos vis, e de grosseiras afei\u00e7\u00f5es?<br \/>\nPode ser que sucedesse \u00e0 alma da mo\u00e7a o mesmo que a um bot\u00e3o<br \/>\nde cacto, quando h\u00e1 tempestade: choca e n\u00e3o abre em flor. Pode<br \/>\nser!<br \/>\n&#8211; Mais tarde. Quem sabe! disse Ricardo sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a minha&#8230;<\/p>\n<p>Atalhou-se Guida em cujas faces espontava um vislumbre de p\u00farpura.<br \/>\nRicardo olhava-a com emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;\u00c9 minha esperan\u00e7a&#8221;, repetiu Guida pausadamente.<br \/>\nAssim disse a mo\u00e7a, uma vez que lhe acudiu esse mesmo pensamento. Mas<br \/>\nos dezoito anos eram passados; fugia o tempo, e seu pai que a amava extremosamente,<br \/>\nafligia-se com a id\u00e9ia de a deixar s\u00f3 no mundo \u00e0 merc\u00ea<br \/>\nda especula\u00e7\u00e3o. Reconheceu a mo\u00e7a que era for\u00e7oso<br \/>\no sacrif\u00edcio; e n\u00e3o hesitou em jogar seu destino ao azar, para<br \/>\nsossego de quem morria-se por ela. Escolheu.<\/p>\n<p>Ricardo recolheu-se todo em si como se tivesse de assistir a uma importante<br \/>\nrevela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o careceu escolher, continuou Guida. Conhecia o mo\u00e7o,<br \/>\nque fora algumas vezes \u00e0 sua casa; tinha plena confian\u00e7a em<br \/>\nseu car\u00e1ter e na sua educa\u00e7\u00e3o. Era um homem probo e delicado.<br \/>\nPodia confiar-lhe o seu destino. A primeira vez que o encontrou, confessou-lhe<br \/>\ntudo; disse-lhe que, se n\u00e3o lhe tinha afei\u00e7\u00e3o, ou nunca<br \/>\na teria por ningu\u00e9m, ou s\u00f3 ele a podia inspirar.<\/p>\n<p>Guida que falava s\u00f4frega, moderou-se.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Se pois n\u00e3o lhe repugna aceitar a m\u00e3o de uma mulher<br \/>\nnestas condi\u00e7\u00f5es, e pensa que ela vale a pena de arriscar a<br \/>\nsua independ\u00eancia, o senhor me salva da maior humilha\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\nEis o que ela disse, concluiu Guida.<\/p>\n<p>Os olhares dos dois mo\u00e7os se encontraram e fugiram-se.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o considera extravagante este procedimento? disse Guida rindo,<br \/>\npara disfar\u00e7ar a emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 fora do comum; \u00e9 novo, excepcional, como as circunst\u00e2ncias<br \/>\nque o determinaram; mas n\u00e3o h\u00e1 nele que repreender. Admiro a<br \/>\nenergia e esp\u00edrito dessa mo\u00e7a, que em t\u00e3o dif\u00edcil<br \/>\nconjuntura de sua vida, n\u00e3o sucumbiu \u00e0 debilidade de seu sexo<br \/>\ne teve coragem para decidir ela mesma e deliberadamente de sua sorte. Surpreende-me<br \/>\nesta iniciativa, que atribuo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o; e ainda assim<br \/>\nparece dif\u00edcil de v\u00ea-la produzir-se na vida real.<\/p>\n<p>&#8211; Pois h\u00e1 de ver, disse Guida meia voz.<\/p>\n<p>&#8211; Como?<br \/>\n&#8211; Mas o senhor que aprova o procedimento da mo\u00e7a, no caso de ser a<br \/>\npessoa por ela escolhida, o que responderia?<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o podia ser essa pessoa, disse gravemente Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? perguntou Guida com af\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; O homem a quem essa mo\u00e7a se dirigiu estava livre; podia dispor<br \/>\nde seu cora\u00e7\u00e3o e de sua vida!<br \/>\n&#8211; Ah!<br \/>\nDescaiu-lhe, \u00e0 Guida, a fronte abatida, Ricardo olhou-a um instante<br \/>\ncom uma ternura melanc\u00f3lica. Depois, reclinando para n\u00e3o arranc\u00e1-la<br \/>\n\u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o, fez-lhe a confid\u00eancia de sua vida<br \/>\nem breves palavras:<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma afei\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia. Brincamos juntos,<br \/>\ne aprendemos a amar-nos. Esperava formar-me, mas tendo falecido meu pai, fiquei<br \/>\n\u00fanico arrimo de uma fam\u00edlia pobre e endividada. Meu tio, o pai<br \/>\nde Bela, adiou o nosso casamento, apelando para minha honra. Que futuro reservava<br \/>\neu para sua filha, pobre tamb\u00e9m? Parti para a corte; vim pedir ao trabalho<br \/>\nos recursos indispens\u00e1veis para desempenhar a velha casa onde mora<br \/>\nminha m\u00e3e, e que \u00e9 nosso \u00fanico patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e9 preciso muito dinheiro? perguntou Guida com interesse. Quanto?<\/p>\n<p>&#8211; Acanho-me de falar-lhe dessas particularidades.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o adquiri esse direito fazendo-lhe minha confid\u00eancia? tornou<br \/>\na mo\u00e7a com meiga exprobra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>E Ricardo completou a breve hist\u00f3ria de sua vida; e contou-lhe, como<br \/>\no faria \u00e0 sua m\u00e3e, as \u00e2nsias dos seis longos meses passados<br \/>\nno Rio de Janeiro, os des\u00e2nimos que tantas vezes dele se apoderavam;<br \/>\nat\u00e9 lhe escaparam as m\u00e1goas causadas pela volubilidade de F\u00e1bio,<br \/>\ne os receios epla ventura de Lu\u00edsa, sacrificada com tamanha ingratid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Avozinha est\u00e1-se demorando. Com licen\u00e7a, vou saber a causa,<br \/>\ndisse Guida.<\/p>\n<p>Ficando s\u00f3 na sala, pois Mrs. Trowshy continuava ausente, na Inglaterra<br \/>\nonde se passa a a\u00e7\u00e3o do romance que lia, buscou Ricardo compenetrar-se<br \/>\nda realidade dos fatos em que tomara parte, e n\u00e3o p\u00f4de. Seu esp\u00edrito,<br \/>\nainda at\u00f4nito pela estranheza do epis\u00f3dio em que se envolvera<br \/>\nimprevistamente sua exist\u00eancia, n\u00e3o recobrara a reflex\u00e3o;<br \/>\ntudo quanto podia no meio da surpresa, era recordar-se.<\/p>\n<p>A espera foi breve. D. Leonarda veio finalmente \u00e0 sala, acompanhada<br \/>\npor Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tem os pap\u00e9is, senhor doutor, disse a velha depois dos cumprimentos<br \/>\nusuais, e volvendo a mi\u00fado os olhos para Guida. Quero que examine bem<br \/>\npara ver quem tem direito, porque n\u00e3o desejo quest\u00f5es, sobretudo<br \/>\ncom vizinhos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ent\u00e3o uma quest\u00e3o de limites? Perguntou o advogado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei&#8230; \u00c9 isso mesmo, respondeu a velha corrigindo-se<br \/>\nao aceno da menina.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor me permite? Eu lhe explico. O vizinho da esquerda pretende apoderar-se<br \/>\nde um peda\u00e7o de terreno, que foi sempre de minha av\u00f3. O senhor<br \/>\ndoutor leva os pap\u00e9is, para examin\u00e1-los; depois dar\u00e1<br \/>\nsua opini\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 melhor, avozinha?<br \/>\n&#8211; Eu acho que \u00e9! disse a velha batendo com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o de se despedirem disse Guida ao advogado, em cujo semblante<br \/>\nn\u00e3o se apagara a tinta de melancolia que derramara a cena anterior:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se aflija. O romance que eu lhe contei, acaba alegre.<\/p>\n<p>E para confirmar o dito, o seu lindo semblante banhou-se em um riso feiticeiro.<\/p>\n<h4><a id=\"27\" name=\"27\"><\/a>XXVII<\/h4>\n<p>Logo depois que Ricardo saiu, mandou Guida prepara o carro para voltar \u00e0<br \/>\nsua casa.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o est\u00e1 decidido? perguntou a velha ao ouvido da menina.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o, avozinha. Ficou para outro dia.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! fez a velha com um gesto displicente.<\/p>\n<p>No carro Mrs. Trowshy, que tamb\u00e9m era curiosa, indagou nestes termos<br \/>\ndo \u00eaxito da confer\u00eancia a que assistira de parte.<\/p>\n<p>&#8211; Que disse o advogado? Ganha o processo?<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 perdido, respondeu Guida a rir.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Completamente.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! que pena!<br \/>\nChegando a Botafogo, \u00e0s tr\u00eas e meia, esperou Guida na saleta<br \/>\nque seu pai voltasse do escrit\u00f3rio, para receber o beijo que lhe costumava<br \/>\ndar na face, em retribui\u00e7\u00e3o das festas e carinhos com que era<br \/>\nacolhido.<\/p>\n<p>&#8211; Que milagre; est\u00e1-me nascendo uma rosa entre meus jasmins! Exclamou<br \/>\no Soares reparando no vislumbre de p\u00farpura que roseava a face da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ser do calor; cheguei do Andara\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! e como vai a avozinha?<br \/>\n&#8211; Na mesma.<\/p>\n<p>Subiu o Soares ao sobrado brincando com a filha, que ria-se das pilh\u00e9rias<br \/>\ndo pai, e tornava-lhe os folguedos e as meiguices com o mesmo contentamento.<\/p>\n<p>No topo da escada separaram-se.<\/p>\n<p>Foi ao entrar no seu toucador, que o esto d&#8217;alma rompeu, como a onda por<br \/>\nmuito tempo comprimida. A mo\u00e7a levou as m\u00e3os ao seio que arfava<br \/>\na estalar na \u00e2nsia, e caiu sobre o leito, escondendo o rosto nas fronhas<br \/>\nde cambraia, comprimindo nas almofadas os quebros solu\u00e7os.<\/p>\n<p>No seu desespero, espeda\u00e7ou o vestido que a estringia como uma forma<br \/>\nde bronze, e arremessou para longe de si os trapos da seda. Sobre as esp\u00e1duas<br \/>\nnuas desdobraram-se as cascatas dos opulentos cabelos negros, com que ela<br \/>\nenvolveu o colo e os seios, conchegando-se com um gesto pudico.<\/p>\n<p>Afinal saltaram-lhe as l\u00e1grimas ardentes dos olhos, que logo debulharam-se<br \/>\nem pranto abundante. Foi serenando a violenta como\u00e7\u00e3o, que subvertera<br \/>\nos seios dessa alma; e Guida ergueu-se a custo, abatida pelo abalo que sofrera,<br \/>\nmas surpresa e at\u00f4nita da crise que de repente a acometera.<\/p>\n<p>Apoiando sobre a almofada a curva do bra\u00e7o mimoso, reclinou a face<br \/>\nna m\u00e3o, e ficou pensativa:<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 isso o amor? perguntou a si mesma.<\/p>\n<p>E entrando de novo em si, penetrando nos refolhos d&#8217;alma, sentindo vibrarem<br \/>\nnovas cordas no seu cora\u00e7\u00e3o, e derramar-se no \u00edntimo<br \/>\numa luz que nunca at\u00e9 aquele dia resplandecera em seus sonhos de menina<br \/>\ne mo\u00e7a, Guida compreendeu que era realmente amor, essa agita\u00e7\u00e3o<br \/>\nindefin\u00edvel que perturbara sua vida serena e tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>A alegria inef\u00e1vel, o j\u00fabilo que teve, n\u00e3o os podem<br \/>\nconceber aqueles que nunca duvidaram de si, nem jamais em horas de des\u00e2nimo<br \/>\nse tiveram por deserdados do cora\u00e7\u00e3o. Parecia \u00e0 mo\u00e7a<br \/>\nque outra vida, n\u00e3o essa de flor ou de passarinho que vivera, mas a<br \/>\nda poesia e da paix\u00e3o, a vida da mulher, acabava de surgir para ela<br \/>\nnaquele instante.<\/p>\n<p>Estas l\u00e1grimas aljofradas, que seus dedos mimosos estalavam nas faces,<br \/>\neram os orvalhos de uma aurora. Raiasse ela embora entre os abalos de uma<br \/>\ntormenta, era bem-vinda; era a luz criadora, o raio celeste, que afinal luzia<br \/>\nem sua alma.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de Guida n\u00e3o se demorou na id\u00e9ia da impossibilidade<br \/>\nde seu amor. Que valia isso na hist\u00f3ria de sua exist\u00eancia, sen\u00e3o<br \/>\num pequeno acidente material? O grande acontecimento era o despertar de seu<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o virgem e indiferente, era a revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se acabava de consumar em seu organismo, selando enfim a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A magia das novas e deliciosas sensa\u00e7\u00f5es que iam acordando<br \/>\nem seu ser, o infindo prazer de se lhe povoarem de flores, de magnific\u00eancias,<br \/>\nde harmonias e perfumes, o ermo ingrato e s\u00e1faro que poucos momentos<br \/>\nantes assolava sua alma, a possu\u00edam tanto e t\u00e3o intimamente,<br \/>\nque n\u00e3o bastavam as for\u00e7as de sua natureza para essa ventura<br \/>\nsuprema de sentir-se outra e saciar-se dessa nova exist\u00eancia, ainda<br \/>\nn\u00e3o vivida.<\/p>\n<p>Eram horas do jantar.<\/p>\n<p>Vestiu-se a mo\u00e7a rapidamente, com a costumada simplicidade, mas sem<br \/>\no esmero costumado, para o qual n\u00e3o havia tempo. Entretanto nunca o<br \/>\nseu bom gosto combinou melhor o traje, nem este real\u00e7ou-lhe tanto a<br \/>\nbeleza nativa, como naquela tarde.<\/p>\n<p>Mas o encanto desse vestu\u00e1rio n\u00e3o estava no delicado padr\u00e3o<br \/>\ndo simples vestido de organdi, e na forma elegante e original do penteado.<br \/>\nO que a ornava era sobretudo o brilho suave dos olhos, a meiga aur\u00e9ola<br \/>\nda fronte, o sorriso delicioso dos l\u00e1bios, e a gra\u00e7a inef\u00e1vel<br \/>\ndo gesto.<\/p>\n<p>Essa beleza at\u00e9 agora mimosa, gentil e garrida, tinha trocado o seu<br \/>\nlirismo pela brilhante epop\u00e9ia do cora\u00e7\u00e3o. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 o colibri borboleteando entre as flores, ou o raio de<br \/>\nluz irisando-se na gota de orvalho. Agora \u00e9 a mulher; \u00e9 o anjo,<br \/>\nque agita as asas de fogo, com os olhos no c\u00e9u e a voragem a seus p\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; Como est\u00e1s bonita! exclamou Soares vendo a filha.<\/p>\n<p>&#8211; Ela sempre foi! disse D. Paulina.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre; mas hoje!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Foi o passeio! disse Guida com um sorriso, que era um enlevo de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; O passeio&#8230; repetiu o banqueiro. N\u00e3o duvido.<\/p>\n<p>E fitou o olhar vivo e perscrutador da filha, cujo enleio velou-a com uma<br \/>\nencantadora express\u00e3o de melindre que lhe dava um encanto irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>Depois do jantar desceu Guida ao jardim, e percorrendo lentamente as alamedas,<br \/>\nseus olhos acariciavam as flores, que dantes a deleitavam apenas como as fitas<br \/>\ne outros enfeites.<\/p>\n<p>Lembrou-se da flor r\u00fastica da Tijuca, a que Ricardo dera o nome de<br \/>\n&#8220;Sonhos d&#8217;ouro&#8221;. Havia o jardineiro trazido mudas, que arranjara<br \/>\nem um alegrete, ao lado da casa. N\u00e3o tivera a mo\u00e7a ainda a curiosidade<br \/>\nde ver a planta, depois da sua volta a Botafogo.<\/p>\n<p>Nessa tarde, por\u00e9m, apertaram-lhe as saudades. N\u00e3o tinha flores<br \/>\no arbusto, que s\u00f3 em novembro cobre-se de bot\u00f5es; alisou-lhe<br \/>\na mo\u00e7a com a m\u00e3o as folhas glabras, afagou-as com o olhar; e<br \/>\ntamanha era a efus\u00e3o de ternura, que teve \u00edmpetos de beij\u00e1-las,<br \/>\ne arrancando uma, colou-a aos l\u00e1bios ardentes.<\/p>\n<p>Pungiu-lhe o cora\u00e7\u00e3o uma dor viva e intensa, como o cravar<br \/>\nde uma l\u00e2mina. Recordou-se da primeira vez que vira Ricardo; e compreendeu<br \/>\nent\u00e3o o arroubo e veem\u00eancia de sua alma na contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\nda florinha agreste.<\/p>\n<p>&#8211; Ele amava!&#8230; balbuciou Guida. Lembrava-se de Bela!&#8230;<\/p>\n<p>E invejou a felicidade de sua rival, sem contudo querer-lhe mal. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\nsentia curiosidade de conhec\u00ea-la; e acreditava que havia de Ter-lhe<br \/>\namizade.<\/p>\n<p>Durante alguns dias viveu Guida no embevecimento de sua paix\u00e3o. Sentava-se<br \/>\nao piano, e escolhia as m\u00fasicas ternas e sentimentais, que tocava com<br \/>\nmuita alma e express\u00e3o. As notas, que tantas vezes tinham ressoado<br \/>\na seus ouvidos apenas como agrad\u00e1vel harmonia, feriam-lhe agora as<br \/>\ncordas mais \u00edntimas, e percutiam todo seu organismo, como uma vibra\u00e7\u00e3o<br \/>\nel\u00e9trica.<\/p>\n<p>Outras vezes esquecia-se a cismar, com os olhos engolfados no azul do c\u00e9u,<br \/>\nonde rutilavam as primeiras estrelas; ou enlevada a contemplar uma flor, cujos<br \/>\nperfumes derramavam-se dentro d&#8217;alma com uma fragr\u00e2ncia celeste e cujo<br \/>\nmatiz aveludado afagava-lhe a vista, como um beijo da luz.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro se tingiam esses devaneios de uma sombra de melancolia,<br \/>\nquando o esp\u00edrito da mo\u00e7a voltava-se para o futuro e o via t\u00e3o<br \/>\nespl\u00eandido submergir-se em um abismo inexor\u00e1vel, o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas amava, sentia-se viver no seu amor; e o pensamento, recolhendo-se a<br \/>\nesse limbo suave de sua nova exist\u00eancia, esquecia o mundo, o tempo,<br \/>\na sorte, para embeber-se de felicidade e exaurir-se nesse gozo supremo da<br \/>\npaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi Soares que a arrancou a esse longo \u00eaxtase.<\/p>\n<p>Uma tarde que ela cismava no jardim, o pai viu-a da janela, e foi-lhe ao<br \/>\nencontro com ar brinc\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Ai, minha sonsinha!&#8230; Temos novidade, hem! E n\u00e3o me queres dizer?<br \/>\n&#8211; O qu\u00ea, papai? perguntou Guida arrancada \u00e0 sua cogita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como disfar\u00e7a! Pediste um m\u00eas para escolher; mas creio que<br \/>\nestes olhinhos andaram mais depressa. Nessa idade eles pulam&#8230; Desconfiei<br \/>\nlogo; quando te vi pelos cantos, toda sorumb\u00e1tica, percebi. O bichinho<br \/>\nest\u00e1 fazendo artes l\u00e1 no cora\u00e7\u00e3ozinho da minha<br \/>\nGuida. N\u00e3o \u00e9 verdade?<br \/>\nEstas palavras brincadas, e envoltas na ternura risonha do pai, retalharam<br \/>\na alma da mo\u00e7a. No meio do enlevo de seu amor, quando n\u00e3o vivia<br \/>\nsen\u00e3o desse afeto, por ele e para ele, vinha surpreend\u00ea-la a<br \/>\nrealidade e reclamar sua exist\u00eancia, para vot\u00e1-la ao mais atroz<br \/>\ndos sacrif\u00edcios, que pode sofrer a mulher: para at\u00e1-la como<br \/>\na um poste de inf\u00e2mia, ao homem a quem ela despreza.<\/p>\n<p>&#8211; Adivinhei, confessa. Tu j\u00e1 escolheste.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1, papai, disse com veem\u00eancia; infelizmente j\u00e1; mas<br \/>\naquele a quem amo, n\u00e3o me pode amar.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! fez o Soares com o sorriso de um homem que sabe quanto pode.<\/p>\n<p>Guida abanou a cabe\u00e7a:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel! Todo o dinheiro do mundo n\u00e3o<br \/>\nbastaria para comprar-me a felicidade.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 ele? perguntou Soares, sentindo apoderar-se de si o des\u00e2nimo<br \/>\nda filha.<\/p>\n<p>Contou Guida ao pai a simples hist\u00f3ria de seu amor, bot\u00e3o<br \/>\nque desabrochara recentemente em flor, ainda impregnado de vivos perfumes.<\/p>\n<p>&#8211; Estava resolvida a casar-me j\u00e1 para seu sossego e tranq\u00fcilidade,<br \/>\npapai; a saudade, que eu teria de minha vida de solteira, me havia de pagar<br \/>\ncom usura e felicidade de o ver contente.<\/p>\n<p>&#8211; Guida! exclamou o velho enternecendo-se.<\/p>\n<p>&#8211; Mas com esta afei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso, papai; o sacrif\u00edcio<br \/>\nexcede minhas for\u00e7as. Parece-me que me insultaria a mim mesma, casando-me<br \/>\ncom outro homem. Seria uma degrada\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falemos mais disso, minha filha!<br \/>\n&#8211; Deixe-me esquecer, deixe-me sufocar esse cora\u00e7\u00e3o que eu julgava<br \/>\nmorto, e que reanimou-se por meu mal. Daqui a um ano ter\u00e1 passado.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo o que tu quiseres, respondeu Soares, contanto que n\u00e3o fiques<br \/>\ntriste. Brinca, diverte-te bem. Inventa novas travessuras. Ainda que me custem<br \/>\nmuito dinheiro, muito&#8230; Para que prestar\u00e1 ele, se n\u00e3o for para<br \/>\nte distrair?<br \/>\n&#8211; H\u00e1 uma coisa que, eu sinto, me havia de fazer muito bem, disse Guida<br \/>\ntimidamente.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9?<br \/>\n&#8211; Ele \u00e9 pobre&#8230; Sua felicidade depende de vinte contos&#8230; Eu daria<br \/>\nmeus alfinetes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Crian\u00e7a. N\u00e3o estou eu aqui? A dificuldade, desconfio que<br \/>\nser\u00e1 obter dele que aceite&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>Nesse momento parou um carro ao port\u00e3o; e com pouco apareceram D.<br \/>\nGuilhermina e o marido.<\/p>\n<p>&#8211; Havemos de achar um meio; pensa tu de teu lado, que eu n\u00e3o me descuidarei.<\/p>\n<p>O banqueiro foi ao encontro do conselheiro e subiu com ele \u00e0 varanda,<br \/>\nenquanto D. Guilhermina passeava no jardim com Guida.<\/p>\n<h4><a id=\"28\" name=\"28\"><\/a>XXVIII<\/h4>\n<p>Depois de algumas voltas pelo jardim, as duas amigas sentaram-se em um banco<br \/>\nde grama, pr\u00f3ximo ao gradil da rua, onde enramava-se uma trepadeira<br \/>\nde flores escarlates.<\/p>\n<p>Houve na conversa breve pausa. D. Guilhermina espreitava disfar\u00e7adamente<br \/>\npelos claros do gradil; e Guida com o sobrolho levemente rugado parecia refletir<br \/>\nobservando distra\u00edda o gesto da amiga.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe, D. Guilhermina, esse mo\u00e7o&#8230; o Dr. Nunes&#8230;, disse Guida<br \/>\ncom indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; O amigo do F\u00e1bio?<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 justo para se casar com uma prima em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8211; E anda por aqui divertindo-se?<br \/>\n&#8211; Que injusti\u00e7a! Veio na esperan\u00e7a de ganhar alguma coisa para<br \/>\npagar as d\u00edvidas da m\u00e3e, e casar-se ent\u00e3o; porque a noiva<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o pobre como ele.<\/p>\n<p>&#8211; Coitadinha!<br \/>\n&#8211; E n\u00e3o \u00e9 muito dinheiro de que precisam. Vinte contos apenas!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 qualquer bagatela, Guida!<br \/>\n&#8211; Ora! Voc\u00ea n\u00e3o gasta mais do que isso por ano?<br \/>\n&#8211; Sim; mas em minha posi\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois esse dinheiro que n\u00f3s deitamos fora em vestidos, j\u00f3ias<br \/>\ne luxo durante um ou dois anos, bastava para fazer a felicidade de tanta gente<br \/>\ne por toda a vida.<\/p>\n<p>&#8211; Que gente?<br \/>\n&#8211; O Ricardo tem uma irm\u00e3, D. Luisinha que tamb\u00e9m est\u00e1<br \/>\npara casar com o amigo&#8230;<\/p>\n<p>Guida sentindo a inquisi\u00e7\u00e3o suspeitosa do olhar de D. Guilhermina,<br \/>\ndisfar\u00e7ou a colher uma flor e concluiu:<br \/>\n&#8211; Com o F\u00e1bio!<br \/>\n&#8211; Ah!&#8230; Quem lhe disse? exclamou a mulher do Barros mordendo os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; O Dr. Nunes!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sabia que estava t\u00e3o \u00edntimo com voc\u00ea, Guida!<br \/>\n&#8211; Eu o estimo pelas suas qualidades e sisudez.<\/p>\n<p>Erguera-se D. Guilhermina, e a pretexto de olhar para a rua, afastou-se<br \/>\num momento para dominar a como\u00e7\u00e3o produzida pelas palavras da<br \/>\namiga, e que no primeiro instante contida, a estava sufocando.<\/p>\n<p>De seu lado favorecendo-lhe os desejos, Guida aproximara-se da casa, fingindo<br \/>\nque a chamavam; mas realmente para deixar a outra em liberdade.<\/p>\n<p>Quando de novo se encontraram, os olhos de D. Guilhermina estavam magoados,<br \/>\ne as faces conservavam a marugem das l\u00e1grimas. Guida que se teria rido<br \/>\num m\u00eas antes, compreendeu aquela dor e respeitou-lhe a mudez, mostrando-se<br \/>\ninteiramente alheia.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, se pudesse, disse Guida reatando a conversa, teria um prazer imenso<br \/>\nfazendo-os felizes e realizando de repente os seus lindos sonhos!&#8230; Deve<br \/>\na gente sentir-se no c\u00e9u, quando faz-se instrumento da gra\u00e7a<br \/>\ne miseric\u00f3rdia de Deus!&#8230;<\/p>\n<p>O profundo sentimento que ressumbrava nestas palavras de Guida, o fervor<br \/>\nde seu gesto e o esplendor que iluminou seu lindo perfil, surpreenderam D.<br \/>\nGuilhermina que fitou admirada o rosto da amiga; a cintila\u00e7\u00e3o<br \/>\ndessa luz que manava o cora\u00e7\u00e3o, filtrou-lhe n&#8217;alma; ela compreendera.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m eu! murmurou corando.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ajude-me!<br \/>\n&#8211; Como?<br \/>\n&#8211; \u00c9 preciso conhecer as particularidades da fam\u00edlia&#8230; O Dr.<br \/>\nNunes, se eu lhe perguntar, desconfiar\u00e1 e com certeza h\u00e1 de<br \/>\nrecusar, mas o F\u00e1bio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ele nunca me falou na fam\u00edlia do Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o lhe tocou nisso.<\/p>\n<p>&#8211; Hei de perguntar-lhe!<br \/>\n&#8211; Talvez ele apare\u00e7a aqui esta tarde.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o deve tardar&#8230; Isto \u00e9, creio que ele vem, corrigiu a<br \/>\ntempo a mo\u00e7a com vexame.<\/p>\n<p>Mas Guida n\u00e3o fez reparo; e afastou-se na dire\u00e7\u00e3o do<br \/>\ngradil, olhando para a rua atrav\u00e9s dos recortes da folhagem. Momentos<br \/>\ndepois voltou pressurosa ao lugar onde ficara D. Guilhermina triste e pensativa:<br \/>\n&#8211; A\u00ed est\u00e1 ele.<\/p>\n<p>Efetivamente chegava F\u00e1bio ao port\u00e3o; e avistando as senhoras<br \/>\nao atravessar o jardim, foi-lhes ao encontro.<\/p>\n<p>Depois dos cumprimentos e banalidades usuais, Guida trocando com a amiga<br \/>\num olhar de intelig\u00eancia, procurou um disfarce para deix\u00e1-la<br \/>\ns\u00f3 com o F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor nunca me disse que seu amigo F\u00e1bio tinha uma irm\u00e3?<br \/>\nforam as primeiras palavras que D. Guilhermina dirigiu ao mo\u00e7o, interrogando-lhe<br \/>\na fisionomia com o olhar.<\/p>\n<p>Ficou passado o F\u00e1bio. Apesar de sua leviandade, evitava com o maior<br \/>\ncuidado tocar no que tinha rela\u00e7\u00e3o com sua vida de S\u00e3o<br \/>\nPaulo, pelo receio de divulgar o seu ajuste de casamento com Luisinha.<\/p>\n<p>Imagine-se pois do atordoado que estaria, vendo a pessoa de quem mais desejava<br \/>\nesconder essas particularidades, t\u00e3o ao corrente, e sentindo assim<br \/>\nevaporar-se de repente o seu castelo encantado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia que a senhora tomava tanto interesse por meu amigo! respondeu<br \/>\no mo\u00e7o buscando uma evasiva nessa ponta de ci\u00fame.<\/p>\n<p>&#8211; Mais do que o senhor pensa; e tanto que desejo pedir-lhe certas informa\u00e7\u00f5es<br \/>\na respeito dele.<\/p>\n<p>&#8211; A mim!<br \/>\n&#8211; Sem d\u00favida. N\u00e3o \u00e9 o senhor amigo \u00edntimo do Dr.<br \/>\nNunes?<br \/>\n&#8211; Por isso mesmo, deve compreender quanto as suas palavras me fazem sofrer.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vejo motivo. Conhe\u00e7o uma pessoa, que, sendo infeliz<br \/>\nno seu casamento, consola-se quando pode fazer a felicidade dos que se amam.<\/p>\n<p>Vinham estas palavras envoltas em um suspiro e perfumadas de suave melancolia.<\/p>\n<p>&#8211; E recusa fazer a minha, quando sabe a paix\u00e3o com que a adoro!<br \/>\n&#8211; Essa pessoa soube, n\u00e3o sei como, que o Ricardo tinha um casamento<br \/>\najustado em S\u00e3o Paulo com uma mo\u00e7a a quem ama; mas sua felicidade<br \/>\ndepende de uma soma necess\u00e1ria para o pagamento de certas d\u00edvidas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sua felicidade dependia de um escr\u00fapulo. Hoje nem isso!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-me acabar. O que eu desejo que o senhor me diga, pois est\u00e1<br \/>\nno segredo da fam\u00edlia, \u00e9 o modo de pagar essas d\u00edvidas,<br \/>\nsem que seu amigo saiba, nem desconfie, sen\u00e3o depois de tudo acabado.<br \/>\nAssim n\u00e3o haver\u00e1 mais impedimento \u00e0 felicidade dele&#8230;<\/p>\n<p>A voz da bela senhora afogou-se na retic\u00eancia de uma l\u00e1grima.<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e0 sua! disse afinal com emo\u00e7\u00e3o. O senhor poder\u00e1<br \/>\ncasar-se com aquela a quem ama, Lu\u00edsa, n\u00e3o \u00e9 o nome?<br \/>\nO primeiro assomo de F\u00e1bio foi a negativa; mas \u00e0 sua alma, nobre<br \/>\nno meio da volubilidade e extravag\u00e2ncia da mocidade folgaz\u00e3,<br \/>\nrepugnou essa apostasia de sua primeira afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Eu amo Luisinha, confesso; mas tamb\u00e9m a amo, D. Guilhermina, e<br \/>\ncom paix\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Essa paix\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Porque a senhora a despreza.<\/p>\n<p>&#8211; Eu devo-lhe as \u00fanicas alegrias de minha vida, condenada a um triste<br \/>\ndesencanto. Deixe-me guardar estas recorda\u00e7\u00f5es doces e puras<br \/>\ndos dias passados; n\u00e3o devemos envenen\u00e1-las com um crime que<br \/>\nfaria a infelicidade de duas pessoas e a nossa.<\/p>\n<p>F\u00e1bio travara da m\u00e3o da senhora e a beijava. D. Guilhermina<br \/>\nretirando-a enternecida, chamou a amiga para romper o a s\u00f3s que a estava<br \/>\ncomovendo:<br \/>\n&#8211; Guida!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cruel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o satisfez o meu pedido sobre a d\u00edvida de seu amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! isso \u00e9 f\u00e1cil. O pai de Ricardo deixou a ch\u00e1cara<br \/>\nhipotecada na casa banc\u00e1ria de Gavi\u00e3o Peixoto pela quantia de<br \/>\ndez ou doze contos de r\u00e9is; mas com os juros j\u00e1 monta a d\u00edvida<br \/>\na vinte. Desembara\u00e7ada a casa, podia D. Benvinda viver com a fam\u00edlia<br \/>\nmodestamente sem pesar sobre o filho.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor me h\u00e1 de dar por escrito uma lembran\u00e7a de tudo<br \/>\nisto, com os nomes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea? tornou o mo\u00e7o com escr\u00fapulo.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 lhe disse.<\/p>\n<p>&#8211; Para apressar o casamento de Ricardo com Bela?&#8230; Mas \u00e9 in\u00fatil.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras? perguntou D. Guilhermina lan\u00e7ando um olhar para Guida<br \/>\nque se aproximava.<\/p>\n<p>&#8211; Foi uma surpresa! Ontem, quando menos esperava, recebeu Ricardo uma carta<br \/>\nde S\u00e3o Paulo. Abriu; era de Bela, que lhe participava seu casamento<br \/>\ncom o Lemos, outro primo.<\/p>\n<p>Ouviu Guida essa not\u00edcia, ao aproximar-se; e vacilou com a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nque abalou o seu talhe esbelto. Felizmente passava naquele momento por uma<br \/>\nest\u00e1tua de bronze representando Flora, cujo pedestal lhe serviu de<br \/>\napoio e tamb\u00e9m de ref\u00fagio para esconder a altera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo gesto, pois F\u00e1bio colocado do lado oposto n\u00e3o podia perceber-lhe<br \/>\no vulto.<\/p>\n<p>Notando o so\u00e7obro da amiga, a arfagem violenta do seio, que se expandira<br \/>\ncom o \u00edmpeto d&#8217;alma, e a contra\u00e7\u00e3o do rosto ao esfor\u00e7o<br \/>\nda vontade a reprimir o grito que rompia do seio, D. Guilhermina voltou-se<br \/>\npara o outro lado, o que obrigava o mo\u00e7o a imit\u00e1-la, desviando<br \/>\nassim os olhos da est\u00e1tua.<\/p>\n<p>&#8211; O que dizia a carta? perguntou a mulher do Barros.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o devia Ter dado a not\u00edcia, disse F\u00e1bio arrependido;<br \/>\nmas como sempre se havia de saber&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Decerto. Que mal faz?<br \/>\n&#8211; Quanto \u00e0 carta, n\u00e3o posso. Ricardo n\u00e3o me perdoaria.<\/p>\n<p>&#8211; Essa \u00e9 a confian\u00e7a que lhe mere\u00e7o? disse D. Guilhermina<br \/>\nqueixosa.<\/p>\n<p>&#8211; Se fosse meu, n\u00e3o hesitaria. Mas este segredo n\u00e3o me pertence.<\/p>\n<p>&#8211; E pertencia-me a mim a afei\u00e7\u00e3o que lhe dei?<br \/>\n&#8211; Direi, com uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Por neg\u00f3cio, dispenso.<\/p>\n<p>E a mo\u00e7a deu ao talhe uma l\u00e2nguida inflex\u00e3o que era<br \/>\no irresist\u00edvel cond\u00e3o de sua beleza.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, \u00e0 senhora eu conto, disse o mo\u00e7o correndo o olhar<br \/>\nem torno.<\/p>\n<p>Guida, j\u00e1 sobre si, tivera o cuidado de colher a cauda do vestido<br \/>\ne ocultar-se por tr\u00e1s do pedestal de bronze, de modo que F\u00e1bio<br \/>\nn\u00e3o se apercebeu de sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Pode falar, disse D. Guilhermina. Ningu\u00e9m nos ouve.<\/p>\n<p>&#8211; A carta era muito curta. Bela dizia a Ricardo que, n\u00e3o podendo<br \/>\nfazer sua felicidade, cedia aos desejos do pai aceitando o esposo que tinha<br \/>\nescolhido.<\/p>\n<p>&#8211; E o Ricardo, como recebeu a not\u00edcia?<br \/>\n&#8211; Tem sentido muito. Ele amava sinceramente a prima; era uma afei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas h\u00e1 de consolar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Que rem\u00e9dio!<br \/>\n&#8211; Os homens esquecem depressa!<br \/>\n&#8211; As injusti\u00e7as que lhes fazem aquelas a quem adoram.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ver que daqui a um m\u00eas o Ricardo amar\u00e1 outra.<\/p>\n<p>&#8211; Duvido, disse F\u00e1bio. Eu o conhe\u00e7o; \u00e9 dessas almas<br \/>\nconcentradas, onde tudo, afei\u00e7\u00e3o, id\u00e9ia, lembran\u00e7a,<br \/>\ncria raiz funda. \u00c9 preciso tempo!<br \/>\n&#8211; Veremos!<br \/>\nDeixara D. Guilhermina cair essa palavra do lado da est\u00e1tua, afastando-se<br \/>\npara deixar a Guida retirar-se sem que a percebesse F\u00e1bio. Aproveitou<br \/>\na mo\u00e7a o momento, e deu uma volta para encontrar-se mais longe com<br \/>\nos dois.<\/p>\n<p>Ao tomar pela alameda que prolonga-se com o gradil, viu uma pessoa que entrava<br \/>\no port\u00e3o e que dirigindo-se \u00e0 escada de m\u00e1rmore, parou<br \/>\nde repente em meio caminho.<\/p>\n<p>Reconheceu Ricardo, e notou sua perturba\u00e7\u00e3o; no gesto e olhar<br \/>\ntra\u00eda-se a perplexidade do esp\u00edrito. Ap\u00f3s breve luta,<br \/>\nvoltou ele sobre os passos; e saindo novamente o port\u00e3o, afastou-se<br \/>\napressado para o lado de S\u00e3o Clemente.<\/p>\n<p>Teve Guida \u00edmpetos de cham\u00e1-lo; mas faltou-lhe o \u00e2nimo.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o possu\u00eda a sua antiga isen\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegaram D. Guilhermina com F\u00e1bio:<br \/>\n&#8211; Sabe quem passou por aqui? disse Guida com uma voz que apesar do esfor\u00e7o<br \/>\ntremia: seu amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Ricardo?<br \/>\nAcenou Guida que sim, fitando um olhar fagueiro em D. Guilhermina.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o vai cham\u00e1-lo? disse a mulher do conselheiro<br \/>\na F\u00e1bio. Se ele soubesse que o senhor estava aqui, com certeza entrava.<\/p>\n<p>&#8211; Ma\u00e7ado como anda?<br \/>\n&#8211; \u00c9 bom que se distraia, disse a senhora, e voltou-se para Guida:<br \/>\n&#8211; O Dr. Nunes teve um desgosto.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<br \/>\n&#8211; Mas n\u00e3o quer que se saiba, acudiu F\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Esteja descansado, que ningu\u00e9m vai tocar-lhe nisso. N\u00e3o<br \/>\nse demore.<\/p>\n<p>&#8211; De que lado tomou?<br \/>\n&#8211; Seguiu para S\u00e3o Clemente, respondeu Guida.<\/p>\n<p>F\u00e1bio saiu naquela dire\u00e7\u00e3o. A pequena dist\u00e2ncia<br \/>\nencontrou o amigo, que naturalmente j\u00e1 vinha de volta, pois n\u00e3o<br \/>\ntardou que as duas mo\u00e7as, atrav\u00e9s da folhagem, os avistassem<br \/>\na ambos, passando em frente ao gradil.<\/p>\n<p>Em um irresist\u00edvel assomo de j\u00fabilo, Guida abra\u00e7ou<br \/>\na D. Guilhermina, que retribuiu-lhe afetuosamente a car\u00edcia, murmurando:<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea pode ser feliz!<br \/>\nSentiu Guida o ego\u00edsmo de sua alegria, e apagou com um beijo o sorriso<br \/>\ntriste que abrira nos l\u00e1bios da amiga.<\/p>\n<h4><a id=\"29\" name=\"29\"><\/a>XXIX<\/h4>\n<p>Na linda v\u00e1rzea do Br\u00e1s, onde se desdobra um dos mais pitorescos<br \/>\narrabaldes da capital de S\u00e3o Paulo, h\u00e1 uma ch\u00e1cara extensa,<br \/>\ncujos terrenos bordam a margem esquerda da estrada de ferro.<\/p>\n<p>A casa \u00e9 grande, abarracada, ao gosto paulista, e bem antiga. Cercam-na<br \/>\nvastas hortas e largos tabuleiros de flores.<\/p>\n<p>No mesmo dia em que Ricardo recusava a m\u00e3o de Guida, por volta de<br \/>\nseis horas da tarde estavam reunidas v\u00e1rias pessoas na varanda daquela<br \/>\ncasa, em volta da mesa de jantar, onde acabavam de colocar dois casti\u00e7ais<br \/>\ncom velas de estearina.<\/p>\n<p>A senhora idosa, de agrad\u00e1vel parecer e porte refeito, que sentava-se<br \/>\n\u00e0 cabeceira da mesa, era a m\u00e3e de Ricardo, D. Benvinda. Com<br \/>\nas m\u00e3os cruzadas ao peito, no trepasse do len\u00e7o vermelho que<br \/>\ntrazia aos ombros, escutava com religiosa aten\u00e7\u00e3o a leitura<br \/>\nde uma carta.<\/p>\n<p>A seu lado estava uma linda mo\u00e7a, tipo dessa beleza pl\u00e1stica<br \/>\ne serena, que distingue as paulistas, e \u00e0 qual s\u00f3 falta um nada<br \/>\nda petul\u00e2ncia que t\u00eam as fluminenses \u00e0s vezes em demasia.<br \/>\nEra bela, essa mo\u00e7a; e ao v\u00ea-la no repouso de sua formosura correta<br \/>\ne imaculada, compreendia-se o culto de Ricardo que tinha em alto grau o sentimento<br \/>\nart\u00edstico.<\/p>\n<p>A Bela seguia-se Luisinha, e depois os irm\u00e3os e irm\u00e3s. Era<br \/>\na fisionomia de Ricardo, reproduzida sete vezes, em tra\u00e7os mais indecisos;<br \/>\nneste perfil, com a suavidade do contorno feminino; naquele, com a alacridade<br \/>\nda travessura infantil.<\/p>\n<p>E dias de chegada de paquete, como esse, Bela que morava perto da matriz,<br \/>\nvinha passar a tarde com a tia, para receber not\u00edcias da corte, e ouvir<br \/>\nas longas cartas que Ricardo escrevia com recados para todos, especialmente<br \/>\npara ela.<\/p>\n<p>Acabava Juca, um dos filhos de D. Benvinda, de chegar do correio, trazendo<br \/>\nduas cartas, uma delas bastante volumosa e portulada com um batalh\u00e3o<br \/>\nde estampilhas. Pelo sobrescrito conheceu logo a velha que a do filho era<br \/>\na mais pequena.<\/p>\n<p>Abriu-a, e disse com um suspiro ao pass\u00e1-la \u00e0 Luisinha para<br \/>\nler:<br \/>\n&#8211; T\u00e3o curta!<br \/>\n&#8211; \u00c9 mesmo! repetiu Luisinha com a doce voz arrastada. Ele sempre escreve<br \/>\ntanto!<br \/>\nA carta continha apenas estas palavras:<\/p>\n<p>&#8220;Minha boa e querida m\u00e3e.<\/p>\n<p>De preven\u00e7\u00e3o e \u00e0 pressa lhe envio estas linhas. Estou<br \/>\nocupado com um trabalho importante, que devo concluir at\u00e9 amanh\u00e3;<br \/>\ne receio me roube o tempo que eu destino para conversar com aquelas a quem<br \/>\namo.<\/p>\n<p>Mas trabalhando, n\u00e3o tenho eu sempre vivas em minha alma, para dar-lhe<br \/>\ncoragem, a sua imagem, minha querida m\u00e3e, a de Bela, de Luisinha, de<br \/>\ntodos aqueles por cuja felicidade eu rogo a Deus todos os dias?<br \/>\nAben\u00e7oe-me, querida m\u00e3e; e d\u00ea a Bela o santo beijo que<br \/>\neu de longe n\u00e3o posso receber.<\/p>\n<p>Seu filho<br \/>\nRicardo<br \/>\n18 de agosto de 1871.&#8221;<\/p>\n<p>Quando Luisinha terminou a leitura da breve carta duas l\u00e1grimas rolavam<br \/>\npelas faces de D. Benvinda, que parecia absorvida na imagem do filho ausente.<br \/>\nBela se erguera, e enxugando com o len\u00e7o de cambraia as faces da velha,<br \/>\ndobrou os joelhos para receber na fronte o beijo de Ricardo, ungido pela b\u00ean\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaterna.<\/p>\n<p>Entretanto Luisinha voltava de todos os lados a carta volumosa, em cujo<br \/>\nsobrescrito reconhecera admirada a letra de F\u00e1bio, o qual raras vezes<br \/>\nescrevia e sempre de afogadilho, por desencargo de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; E esta \u00e9 de F\u00e1bio? perguntou D. Benvinda.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, respondeu Luisinha vermelha como lacre. Creio que \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Basta ver a letra, disse Bela.<\/p>\n<p>&#8211; Desta vez desforrou-se! observou D. Benvinda contando as laudas da carta<br \/>\nque tinha aberto. Toma, Luisinha; vamos ver o palavreado do rapaz. J\u00e1<br \/>\nestou-me rindo!<br \/>\n&#8211; Leia voc\u00ea, Bela, murmurou Luisinha com as faces a arderem.<\/p>\n<p>Era o costume. As duas noivas trocavam a vez nessa leitura.<\/p>\n<p>A carta de F\u00e1bio era uma garrulice de estr\u00f3ina, mas n\u00e3o<br \/>\ndestitu\u00edda de chiste e boas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Suprimidos os nomes pr\u00f3prios, e metida em meia d\u00fazia de colunas,<br \/>\naquela prosa caseira e do cote, podia bem gozar das honras do folhetim, e<br \/>\nn\u00e3o teria que invejar aos mais asseados e domingueiros que a\u00ed<br \/>\naparecem.<\/p>\n<p>Ao escrever essa carta passava o noivo de Luisinha por um desses momentos<br \/>\nde plenitude moral, em que o esp\u00edrito, como o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntransbordam, e carecem de vazar a aflu\u00eancia de vida. Durante seis meses<br \/>\nfartara-se de prazeres, divertira-se a n\u00e3o poder mais, gozara do mundo,<br \/>\nera amado por uma mulher bonita e do grande tom. Estava cheio.<\/p>\n<p>Retido em casa \u00e0 espera de uma resposta que devia trazer-lhe dinheiro,<br \/>\no mo\u00e7o lembrou-se, para disfar\u00e7ar a impaci\u00eancia, de escrever<br \/>\n\u00e0 sua futura sogra, e come\u00e7ou neste belo teor:<\/p>\n<p>&#8220;Minha futura m\u00e3e e respeit\u00e1vel senhora.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos recebi uma carta sua em que me perguntava como ia na advocacia.<br \/>\nDeixei passar alguns meses, antes de responder, para dar-lhe uma informa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais segura.<\/p>\n<p>Agora posso dizer-lhe tudo que h\u00e1 a tal respeito e n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmuito. O nosso Ricardo est\u00e1 com um escrit\u00f3rio j\u00e1 bastante<br \/>\nacreditado; tem clientes magn\u00edficos; e vai ganhando sofrivelmente.<br \/>\nEu s\u00f3 apare\u00e7o l\u00e1, de longe em longe, para n\u00e3o<br \/>\nespantar a ca\u00e7a; mas vou-lhe mandando as causas que posso. Sou um jornal<br \/>\nvivo; mas jornal de sala, que \u00e9 mais aristocr\u00e1tico, e mais barato.&#8221;<\/p>\n<p>Neste gosto continuava a carta, que Bela ia lendo no meio das risadas de<br \/>\nD. Benvinda e dos muxoxos de Luisinha. Chegou, por\u00e9m, um ponto, em<br \/>\nque redobrara a aten\u00e7\u00e3o das tr\u00eas senhoras:<\/p>\n<p>&#8220;A Bela deve estar orgulhosa do noivo que tem. Se ela soubesse at\u00e9<br \/>\nque ponto Ricardo a ama!&#8230; Ele, estou certo que nada lhe dir\u00e1; mas<br \/>\neu \u00e9 que n\u00e3o sou caixeta de segredos; e este me est\u00e1<br \/>\nfazendo c\u00f3cegas.<\/p>\n<p>A\u00ed vai, no ouvido, de cochicho, que n\u00e3o o ou\u00e7a uma<br \/>\ncerta sonsinha, cujo pecado \u00e9 a curiosidade.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 com Luisinha! Disse D. Benvinda.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que ele sabe me dizer.<\/p>\n<p>Imagine-se a curiosidade com que foi ouvido o trecho seguinte, que leu Bela<br \/>\ncom a voz palpitante de emo\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 aqui na corte uma mo\u00e7a, que \u00e9 a rainha da moda;<br \/>\nchama-se Guida; \u00e9 filha de um homem que n\u00e3o sabe quanto possui;<br \/>\ntem dezenove anos e muito esp\u00edrito; a respeito de beleza e eleg\u00e2ncia,<br \/>\nn\u00e3o se fala; \u00e9 o tipo: ningu\u00e9m a excede.<\/p>\n<p>Imagine quantos sujeitinhos andam-lhe arrastando a asa, apaixonados ao mesmo<br \/>\ntempo pelos olhos pretos e os milh\u00f5es amarelos dessa peregrina formosura.<\/p>\n<p>Todo o alto coturno comercial, pol\u00edtico, liter\u00e1rio, inscreveu-se<br \/>\nneste concurso; e cada um espera que lhe toque o anel.<\/p>\n<p>Mas ela n\u00e3o faz caso de nenhum destes pretendentes; e o seu fraco<br \/>\n\u00e9 por um certo advogado paulista, que nem d\u00e1 f\u00e9 das provoca\u00e7\u00f5es,<br \/>\nt\u00e3o voltado anda para essas bandas da \u00ednclita Paulic\u00e9ia,<br \/>\nonde lhe ficaram os olhos e o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bastava-lhe querer para em pouco tempo estar senhor de uma riqueza colossal<br \/>\ne marido da mais bonita mo\u00e7a do Brasil, j\u00e1 se sabe, depois das<br \/>\nduas que n\u00e3o \u00e9 preciso mencionar. Mas ele sacrifica tudo \u00e0<br \/>\nconst\u00e2ncia.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bem meu filho! Interrompeu D. Benvinda com assomo de orgulho materno.<\/p>\n<p>&#8221; \u00c9 verdade que n\u00e3o \u00e9 ele o \u00fanico; pois<br \/>\ntamb\u00e9m outra pessoa tem sofrido sem pestanejar o fogo rolante dos mais<br \/>\nfeiticeiros olhos do Rio de Janeiro; mas, etc., etc., o resto pelo seguinte<br \/>\nvapor.&#8221;<\/p>\n<p>Terminada a leitura, quanto Luisinha e a m\u00e3e se inclinaram para acariciar<br \/>\nBela e regozijar-se com ela por mais essa prova do profundo amor de Ricardo,<br \/>\nviram, ao retirar-lhe o papel ainda aberto diante dos olhos, que tinha o rosto<br \/>\nbanhado de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 chorando, Bela! exclamou Luisinha.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 de felicidade, menina; tamb\u00e9m eu tenho os olhos cheios<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua, disse D. Benvinda.<\/p>\n<p>Desde crian\u00e7a, de envolta ainda com os brincos da inf\u00e2ncia,<br \/>\ncome\u00e7ara Bela a amar Ricardo, com a efus\u00e3o de uma alma que se<br \/>\nentrega sem reservas de todo e para sempre. Estava em sua natureza querer<br \/>\ncom esse abandono de si mesma, sem pedir nem esperar retribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Ricardo formou-se, n\u00e3o lhe permitindo as apertadas circunst\u00e2ncias<br \/>\nda fam\u00edlia realizar desde logo seu casamento, Bela resignou-se a esperar,<br \/>\ncom pl\u00e1cida confian\u00e7a, e possu\u00edda da inalter\u00e1vel<br \/>\nconvic\u00e7\u00e3o de fazer a felicidade daquele que a amava.<\/p>\n<p>Freq\u00fcentes vezes insistiu seu pai em convenc\u00ea-la da necessidade<br \/>\nde casar-se com o Fel\u00edcio Lemos, outro primo seu, tamb\u00e9m formado,<br \/>\nque desde a inf\u00e2ncia a disputava a Ricardo, mas preterido sempre. Aos<br \/>\nreiterados pedidos opunha a mo\u00e7a uma repulsa doce, magoada, quase s\u00faplica,<br \/>\nmas inflex\u00edvel. Ela julgava-se um bem de Ricardo; acreditava que deus<br \/>\na reservara para fazer a ventura desse cora\u00e7\u00e3o, que ela admirava.<br \/>\nN\u00e3o discutia pois, n\u00e3o se defendia; refugiava-se em seu amor.<\/p>\n<p>Ao ler a carta de F\u00e1bio, no meio do espanto que produzia-lhe o tom<br \/>\nleviano do estouvado a profanar as coisas mais santas, pela primeira vez uma<br \/>\nd\u00favida cruel traspassou-lhe a alma. &#8220;N\u00e3o era ela a \u00fanica<br \/>\nmulher do mundo que podia fazer a felicidade de Ricardo? Havia para esse homem<br \/>\noutra ventura, outro futuro, outra exist\u00eancia, al\u00e9m que de lhe<br \/>\ndevia dar o seu amor?&#8221;<br \/>\nCom o so\u00e7obro causado por essa primeira percuss\u00e3o d&#8217;alma, arrasaram-se-lhe<br \/>\nos olhos de l\u00e1grimas sem que ela mesma soubesse por que chorava. Assim,<br \/>\nquando ouviu a explica\u00e7\u00e3o que D. Benvinda deu a seu pranto,<br \/>\ndisse com um sorriso contrafeito:<br \/>\n&#8211; H\u00e1 de ser de alegria mesmo!<br \/>\nMomentos depois recolhia-se Bela \u00e0 sua casa e achou na sala o pai,<br \/>\no Dr. Lopes, em companhia de Fel\u00edcio Lemos.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1vamos falando em voc\u00ea, Bela, disse o pai que dobrava<br \/>\num papel.<\/p>\n<p>&#8211; Meu tio! Vm. prometeu-me que n\u00e3o contaria a Bela, disse o Lemos<br \/>\ncom exprobra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 necess\u00e1rio que ela saiba, para perder a ilus\u00e3o<br \/>\nem que vive; portanto dispense-me da palavra que lhe dei.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, meu tio, eu o respeito muito, mas neste ponto n\u00e3o<br \/>\ndevo condescender. Bela pode suspeitar que s\u00e3o meios empregados para<br \/>\ndemov\u00ea-la de sua resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Todos sabem que voc\u00ea \u00e9 incapaz disso.<\/p>\n<p>&#8211; Embora; n\u00e3o quero ser portador de m\u00e1s novas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que \u00e9, meu pai? perguntou Bela. Alguma not\u00edcia triste?<br \/>\n&#8211; Eu lhe digo. Ao passo que voc\u00ea espera com uma const\u00e2ncia nunca<br \/>\ndesmentida ao homem a quem prefere sem raz\u00e3o, o ingrato l\u00e1 na<br \/>\ncorte est\u00e1 tratando de arranjar um casamento rico.<\/p>\n<p>&#8211; Ricardo? disse Bela com sublime confian\u00e7a. \u00c9 imposs\u00edvel,<br \/>\nmeu pai.<\/p>\n<p>O Dr. Lopes desdobrou a carta que tinha em m\u00e3o e apresentou-a \u00e0<br \/>\nfilha.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda duvida? pois leia, Bela!<br \/>\n&#8211; O senhor me compromete! disse Fel\u00edcio com reproche, afastando-o do<br \/>\nlado da janela.<\/p>\n<p>Surpresa, e cerrado o cora\u00e7\u00e3o de pressentimentos, correu Bela<br \/>\nos olhos pelo papel.<\/p>\n<p>A carta escrita ao Fel\u00edcio por um colega da corte, repetia os boatos<br \/>\nda Rua do Ouvidor que davam Ricardo como pretendente ass\u00edduo da filha<br \/>\ndo banqueiro Soares e o preferido entre todos pela mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o? perguntou o Dr. Lopes \u00e0 filha quando esta acabou<br \/>\nde ler.<\/p>\n<p>&#8211; Ricardo n\u00e3o falta \u00e0 sua palavra, meu pai.<\/p>\n<p>E deitando a carta sobre a mesa, recolheu-se \u00e0 alcova.<\/p>\n<p>&#8211; Breve se h\u00e1 de desenganar! exclamou o pai irritado com aquela cega<br \/>\nconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Decorreu uma semana, durante a qual a alma de Bela, como um vaso de jaspe<br \/>\nonde a custo filtra a ess\u00eancia, levou a embeber-se dos acontecimentos,<br \/>\nque vieram perturbar o sereno remanso da sua vida de amor e saudades.<\/p>\n<p>Outra vez chegou o correio, mas nesse dia a mo\u00e7a n\u00e3o foi como<br \/>\nde costume para a casa da tia esperar cartas; e desculpou-se com uma enxaqueca,<br \/>\nesse grande recurso diplom\u00e1tico das mulheres. Por volta de &#8220;ave-maria&#8221;<br \/>\ntrouxeram-lhe da parte de D. Benvinda uma carta.<\/p>\n<p>De longe, apenas a viu na m\u00e3o do portador, Bela adivinhou que era<br \/>\nde Ricardo.<\/p>\n<p>\u00c0 frouxa luz do crep\u00fasculo, recostada \u00e0 ombreira da<br \/>\njanela, com os olhos \u00famidos e a alma tomada de um indefin\u00edvel<br \/>\nsobressalto, leu a mo\u00e7a as palavras afetuosas que lhe dirigia o noivo.<\/p>\n<p>&#8220;Minha querida Bela.<\/p>\n<p>Deus ouviu suas preces, as preces de um anjo, e aben\u00e7oou os meus<br \/>\nesfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Breve estaremos reunidos e para sempre. Viveremos na pobreza, a que a sorte<br \/>\nnos condena; mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a opul\u00eancia que tem o<br \/>\ndireito de ser feliz neste mundo; ao contr\u00e1rio, muitas vezes ela n\u00e3o<br \/>\nacha no meio de seu luxo um instante da alegria que enche a casinha do pobre.<\/p>\n<p>Teremos de passar ainda por grandes provan\u00e7as, minha querida Bela;<br \/>\nn\u00e3o devo iludi-la. A vida \u00e9 dif\u00edcil para aqueles que<br \/>\ntrilham a \u00e1spera vereda, e n\u00e3o se deixam arrastar pelas brilhantes<br \/>\nequipagens, que passam cobrindo-os de p\u00f3!<br \/>\nN\u00e3o me assusta a luta; conto, para dar-me coragem, com o nosso amor,<br \/>\nque tem sido e h\u00e1 de ser o conforto de minha vida.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes perdido neste turbilh\u00e3o da corte, minha querida Bela,<br \/>\nt\u00eam-me vindo tamb\u00e9m a mim sonhos d&#8217;ouro, castelos encantados<br \/>\ncomo fazem todos que t\u00eam imagina\u00e7\u00e3o. A riqueza para certos<br \/>\nindiv\u00edduos n\u00e3o passa de uma indigest\u00e3o de dinheiro, \u00e9<br \/>\nna m\u00e3o de quem compreende um dom sublime, quase celeste, porque transmite<br \/>\nao homem um influxo da Provid\u00eancia: enxuga as l\u00e1grimas da mis\u00e9ria,<br \/>\nfortalece a virtude vacilante, e anima os nobres cometimentos.<\/p>\n<p>Mas eu os espanco, a esses silfos tentadores, que agitam sussurrando suas<br \/>\nasas de ouro, e me refugio nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas,<br \/>\ne me refugio nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas, meu anjo da<br \/>\nguarda, estou com Deus; e posso desafiar o mundo. Sei para sempre. Ricardo.&#8221;<\/p>\n<p>Soavam trindades na torre fronteira da matriz.<\/p>\n<p>Ajoelhou-se Bela para rezar a &#8220;ave-maria&#8221;. As andorinhas esvoa\u00e7avam<br \/>\npela fachada da igreja, retalhando os ares com v\u00f4os intermitentes. J\u00e1<br \/>\nca\u00eda a noite quando duas se encontraram diante da janela, beijando-se<br \/>\ncom alegres chilidos, que assustaram a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Ainda Bela n\u00e3o tinha rezado, t\u00e3o absorvida estava em seus<br \/>\npensamentos.<\/p>\n<h4><a id=\"30\" name=\"30\"><\/a>XXX<\/h4>\n<p>No dia em que Ricardo recusara a m\u00e3o de Guida, espontaneamente oferecida,<br \/>\nchegou \u00e0 casa de volta de Andara\u00ed, atordoado ainda pelo procedimento<br \/>\nsingular, como pela decis\u00e3o de car\u00e1ter dessa mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Eram tr\u00eas horas.<\/p>\n<p>O jantar o esperava, e durante ele, a conversa com a dona da casa e a tagarelice<br \/>\ndas crian\u00e7as o distra\u00edram da preocupa\u00e7\u00e3o que trazia<br \/>\ne \u00e0 qual desejava arrancar o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, fumando um charuto e sentado \u00e0 janela do s\u00f3t\u00e3o<br \/>\ndonde avistava as verdes encostas de Santa Teresa e mais longe o Corcovado,<br \/>\no mo\u00e7o deixou-se ir \u00e0 discri\u00e7\u00e3o do pensamento<br \/>\nque o levava para os acontecimentos daquela manh\u00e3. N\u00e3o tardou<br \/>\no envolvesse um desses castelos encantados de que falava na carta a Bela.<\/p>\n<p>Imaginou-se outro homem, que n\u00e3o ele. Um mo\u00e7o pobre, de alguma<br \/>\nintelig\u00eancia, lutando corajosamente com a sorte, mas sem o v\u00ednculo<br \/>\nde uma afei\u00e7\u00e3o, que o prendesse para sempre. Caminhava curvado<br \/>\nao peso do trabalho, quando uma voz celeste o chama. Ergue os olhos, e v\u00ea<br \/>\ndescer das nuvens a mo\u00e7a mais gentil, deslumbrante de beleza, cintilando<br \/>\ngra\u00e7a e esp\u00edrito que lhe diz:<br \/>\n&#8220;Minha alma \u00e9 virgem e pura, como o sorriso de que Deus a formou.<br \/>\nNunca amei; n\u00e3o sei que mist\u00e9rio \u00e9 esse da cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEnsinai-me v\u00f3s a amar; acordai em mim as doces emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ndessa felicidade que eu n\u00e3o conhe\u00e7o. A linguagem dos anjos que<br \/>\neu falava no c\u00e9u \u00e9 doce; mas quero aprender em vossos l\u00e1bios<br \/>\noutra linguagem mais suave e maviosa, a que entende o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu sou a flor que nasce, cheia de fragr\u00e2ncia, que toda guardei para<br \/>\nderramar em vosso seio: colhei-me.&#8221;<br \/>\nE o mo\u00e7o ficava enlevado a admirar a espl\u00eandida formosura, n\u00e3o<br \/>\npodendo crer que Deus houvesse formado aquela sublime criatura e a conservasse<br \/>\nimaculada no rega\u00e7o do c\u00e9u, para envi\u00e1-la de repente<br \/>\na ele, como um anjo, que o inundasse de felicidade. Mas interrompendo um instante<br \/>\no af\u00e3, ajoelhava para admirar a peregrina imagem.<\/p>\n<p>&#8220;Erguei-vos, dizia-lhe a mo\u00e7a. Meu senhor n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nde calcar o p\u00f3 da terra. Tenho riquezas sem conta para dar-lhe. Quero<br \/>\nser querida em um pal\u00e1cio, entre as magnific\u00eancias do luxo, cercada<br \/>\nde tudo quanto seduz e deslumbra. Quero ser amada assim para que, no meio<br \/>\nde todos esses esplendores, ele s\u00f3 busque meus olhos, s\u00f3 deseje<br \/>\nmeu sorriso.&#8221;<br \/>\nDesfraldando as asas, a imagina\u00e7\u00e3o de Ricardo bordou sobre o<br \/>\ngracioso tema um desses arabescos orientais, cheios de encantamentos e fascina\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncomo s\u00e3o os contos \u00e1rabes.<\/p>\n<p>Quando ele surpreendeu-se no meio desse devaneio, teve um remordimento;<br \/>\ne para fugir aos enlevos da fantasia, asilou-se nas recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\ndas puras afei\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia e dos santos amores de<br \/>\nsua inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Tomou a pena e escreveu a Bela a carta que este lera \u00e0 janela, na<br \/>\nhora da ave-maria; depois conversou longamente com sua m\u00e3e, em duas<br \/>\nfolhas de papel, renovando as reminisc\u00eancias dos tempos que tinham passado<br \/>\njuntos em S\u00e3o Paulo antes da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia seguinte recome\u00e7ou Ricardo a lida do escrit\u00f3rio; e<br \/>\no trabalho, que \u00e9 o mais forte detersivo do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\napagou os vest\u00edgios da alucina\u00e7\u00e3o que sofrera. Todavia,<br \/>\nquando uma circunst\u00e2ncia lhe recordava Guida, sentia-se o mancebo tomado<br \/>\npor um terror indiz\u00edvel, e estremecia com a id\u00e9ia de cair outra<br \/>\nvez no sonho, ou antes no pesadelo d&#8217;ouro, que j\u00e1 uma vez fizera presa<br \/>\nnele.<\/p>\n<p>Antes de findar a semana, estando Ricardo em seu escrit\u00f3rio, recebeu<br \/>\ndo carteiro sua correspond\u00eancia de S\u00e3o Paulo. Dentro da carta<br \/>\nde D. Benvinda, que dava not\u00edcias de todos os seus, achou uma de Bela;<br \/>\ne guardou-a para a ler em casa, a s\u00f3s, sem risco de o interromperem.<\/p>\n<p>Avalia-se do espanto de Ricardo ao ler estas poucas linhas:<\/p>\n<p>&#8220;Meu primo.<\/p>\n<p>Um pressentimento, que n\u00e3o engana, diz-me que sou um obst\u00e1culo<br \/>\nem sua vida; e portanto o meu dever \u00e9 afastar-me para que voc\u00ea<br \/>\npossa livremente seguir a brilhante carreira que lhe prometem seus talentos<br \/>\ne virtudes.<\/p>\n<p>Outra, mais prendada e escolhida por Deus, far\u00e1 sua felicidade, oferecendo-lhe<br \/>\ntoda a sorte de alegrias e encantos, que eu n\u00e3o poderia dar, eu que<br \/>\napenas tenho um cora\u00e7\u00e3o. Esse o acompanhar\u00e1 de longe<br \/>\ncom seus votos; e creia, meu primo, que outros n\u00e3o haver\u00e1 mais<br \/>\nardentes pela sua ventura.<\/p>\n<p>Desde que nos separamos, meu querido pai insta para que aceite uma uni\u00e3o,<br \/>\nque ele sempre desejou. Ocultei-lhe este segredo de fam\u00edlia para n\u00e3o<br \/>\nafligi-lo, em compensa\u00e7\u00e3o de tantos sacrif\u00edcios que voc\u00ea<br \/>\na\u00ed sofria s\u00f3; era justo que tomasse para mim unicamente essa<br \/>\ncontrariedade.<\/p>\n<p>Enquanto me julguei necess\u00e1ria \u00e0 sua felicidade, tive for\u00e7as<br \/>\npara resistir a meu pai; agora faltam-me, e tamb\u00e9m o direito de opor-me<br \/>\n\u00e0 sua vontade, e recusar o destino tra\u00e7ado por ele, quando outro<br \/>\nn\u00e3o me resta, nem eu tenho mais que esperar do mundo.<\/p>\n<p>Quando receber esta carta, j\u00e1 estar\u00e1 partido o v\u00ednculo<br \/>\nque nos unia; pois vou dar a meu pai o consentimento que me pede h\u00e1<br \/>\ntanto tempo.<\/p>\n<p>Sua prima e amiga<br \/>\nIsabel Lopes<br \/>\n20 de agosto de 1871.&#8221;<\/p>\n<p>Por diversas vezes, Ricardo retrocedeu ao princ\u00edpio da carta e releu<br \/>\nos per\u00edodos, para compenetrar-se do pensamento, que exprimiam essas<br \/>\npalavras. A surpresa e pasmo produzidos por t\u00e3o inesperado teor tinham-lhe<br \/>\nembotado a compreens\u00e3o; com os olhos fitos no papel, havia momentos<br \/>\nem que n\u00e3o via as letras, ou vendo-as, n\u00e3o sabia soletr\u00e1-las.<\/p>\n<p>Passado o primeiro abalo, quando o mancebo p\u00f4de coligir as id\u00e9ias<br \/>\ne refletir sobre o caso, sua mente procurou naturalmente a a explica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo estranho acontecimento; e certo de a ter encontrado, deleitou-se em pass\u00e1-la<br \/>\ne repass\u00e1-la no esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Foi um consolo.<\/p>\n<p>Para Ricardo a carta de Bela n\u00e3o era sen\u00e3o um engenhoso meio<br \/>\nde justificar sua ingratid\u00e3o e perf\u00eddia. Cansada de esperar,<br \/>\na mo\u00e7a de cora\u00e7\u00e3o vol\u00favel, resolvera casar com<br \/>\no Fel\u00edcio Lemos, que al\u00e9m de arranjado, estava \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o do mancebo, a revolta do seu car\u00e1ter em<br \/>\nface de tal procedimento, sobrepujou a m\u00e1goa de se ver esquecido, e<br \/>\na dor de perder as mais doces ilus\u00f5es de sua vida.<\/p>\n<p>&#8211; E foi por essa mulher, que eu recusei um cora\u00e7\u00e3o virgem,<br \/>\ne o futuro mais brilhante que podia sonhar em meus arroubos de imagina\u00e7\u00e3o!<br \/>\n\u00c0 noite Ricardo saiu \u00e0 procura de F\u00e1bio, a quem encontrou<br \/>\nna Rua do Ouvidor. Conseguiu traz\u00ea-lo \u00e0 casa, para mostrar-lhe<br \/>\na carta de Bela, e vazar em seio amigo a exuber\u00e2ncia de sua alma.<\/p>\n<p>F\u00e1bio informou-se do que havia, tratou o ocorrido com a sua habitual<br \/>\nleviandade, consolando Ricardo dessa insignificante derrota, que \u00e0s<br \/>\nvezes, dizia ele, era o princ\u00edpio dos mais espl\u00eandidos triunfos.<\/p>\n<p>&#8211; Vem dar um passeio comigo ao Carceler. Um sorvete e um charuto de Havana,<br \/>\ns\u00e3o os melhores espec\u00edficos para esses achaques. O primeiro<br \/>\napaga um inc\u00eandio mais chibantemente do que o coronel dos bombeiros;<br \/>\no segundo desfaz em fumo a paix\u00e3o a mais descabelada. Ontem ouvindo<br \/>\no Rossi, fiz esta reflex\u00e3o, que tem escapado aos mais profundos pensadores:<br \/>\nSe Otelo fumasse, n\u00e3o estrangulava Desd\u00eamona, e Shakespeare n\u00e3o<br \/>\npoderia escrever aquela cena sublime do final; ficaria reduzido ao soco ingl\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o ouvia Ricardo as pilh\u00e9rias do amigo, nem deu f\u00e9<br \/>\nquando ele, no meio da sua parolice, eclipsou-se pela escada do s\u00f3t\u00e3o,<br \/>\npara ir pautear pela cal\u00e7ada do Carceler e Rua do Ouvidor, na esperan\u00e7a<br \/>\nde encontrar a mulher do conselheiro Barros.<\/p>\n<p>No dia seguinte, recordando o golpe que na v\u00e9spera sofrera, e estava<br \/>\nainda aberto dentro n&#8217;alma, teve Ricardo uma veleidade, um desejo, um impulso&#8230;<br \/>\nVer Guida. Para qu\u00ea? Sob que pretexto? Em que intuito? Nem ele o sabia;<br \/>\nnem lembrou-se de inquirir de si pr\u00f3prio; pois logo repeliu essa id\u00e9ia<br \/>\ncomo uma extravag\u00e2ncia do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Durante as horas do trabalho, a agita\u00e7\u00e3o da cidade, o movimento<br \/>\ndos neg\u00f3cios, o rumor das ruas, distra\u00edram o mo\u00e7o. \u00c0<br \/>\ntarde, por\u00e9m, a lembran\u00e7a que despontara pela manh\u00e3,<br \/>\ntornou-se em necessidade imperiosa: e ele n\u00e3o p\u00f4de resistir.<\/p>\n<p>Deixou-se levar \u00e0 toa, como um batel que voga ao fluxo das \u00e1guas.<br \/>\nChegando \u00e0 praia de Botafogo, apeou-se do bonde e seguiu a p\u00e9<br \/>\nat\u00e9 o port\u00e3o do palacete. Foi depois de entrar, que se lhe apresentou<br \/>\na estranheza do passo.<\/p>\n<p>S\u00f3 a convite, e de longe em longe, viera \u00e0 casa do Soares;<br \/>\nnunca tinha freq\u00fcentado as reuni\u00f5es de todas as noites, nem mesmo<br \/>\nas partidas semanais do banqueiro. Que explica\u00e7\u00e3o tinha pois<br \/>\nessa visita avulsa e sem causa?<br \/>\nO resultado da reflex\u00e3o foi sair apressadamente, receoso de que o vissem.<br \/>\nN\u00e3o tinha por\u00e9m dado cem passos, que j\u00e1 se arrependera<br \/>\nde n\u00e3o haver realizado o primeiro intento, e moderou o andar, pensando<br \/>\nem retroceder.<\/p>\n<p>Avistou F\u00e1bio que sa\u00eda nessa ocasi\u00e3o; foi-lhe ao encontro.<br \/>\nA\u00ed estava o pretexto da visita.<\/p>\n<p>&#8211; Vi-te passar. Estava em casa do Soares, no jardim; vem comigo; passaremos<br \/>\nl\u00e1 a noite.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o, respondeu Ricardo apertando-lhe a m\u00e3o. Neste<br \/>\nmomento preciso muito daquele gramo de loucura, com que o poeta manda temperar<br \/>\no ju\u00edzo; e que realmente \u00e9 o melhor sal da raz\u00e3o, pois<br \/>\na preserva de corromper-se.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava o crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>Apesar da sombra que j\u00e1 havia no jardim, sobretudo onde copava o<br \/>\narvoredo, perceberam as duas mo\u00e7as a profunda altera\u00e7\u00e3o<br \/>\nda fisionomia de Ricardo, n\u00e3o que estivessem descompostas suas fei\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmas havia nelas a impress\u00e3o digna e fria da dor vencida ap\u00f3s<br \/>\numa luta her\u00f3ica.<\/p>\n<p>Guida envolveu em seu olhar compassivo o rosto do mancebo e murmurou dentro<br \/>\nd&#8217;alma:<br \/>\n&#8211; Como ele a amava!<br \/>\nEntretanto, D. Guilhermina procurava reanimar a conversa:<br \/>\n&#8211; \u00c9 um milagre, v\u00ea-lo, j\u00e1 n\u00e3o digo em nossa casa,<br \/>\nporque a n\u00e3o ser uma visita de cart\u00e3o, n\u00e3o lhe merece<br \/>\nmais; mas aqui! Nem passando lembrou-se de entrar.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho desculpa, minha senhora. Falta-me o tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Agora n\u00e3o a tem!<br \/>\n&#8211; Agora, por qu\u00ea? perguntou Ricardo volvendo um olhar suspeitoso para<br \/>\nF\u00e1bio, que se eclipsou.<\/p>\n<p>Guida estremeceu; e D. Guilhermina mordendo o bei\u00e7o com um riso malicioso,<br \/>\nafastou-se do lado que tomara F\u00e1bio, tanto para evitar um novo lapso,<br \/>\ncomo para deixar os dois em liberdade.<\/p>\n<p>Apoderou-se de Guida um enleio invenc\u00edvel, quando se viu a s\u00f3s<br \/>\ncom Ricardo, no jardim; e mais crescia sua perturba\u00e7\u00e3o com o<br \/>\nsil\u00eancio do mo\u00e7o, que de seu lado tamb\u00e9m parecia tomado<br \/>\nde s\u00fabito constrangimento.<\/p>\n<p>Nesse momento, as salas iluminadas derramaram sobre o jardim o clar\u00e3o<br \/>\ndas janelas; e um murm\u00fario de vozes na entrada anunciou a chegada das<br \/>\nvisitas habituais, que vinham passar a noite em casa do Soares.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 melhor entrarmos, disse Guida; e correu ao encontro de Clarinha,<br \/>\nque passava com o bar\u00e3o de Sa\u00ed.<\/p>\n<p>Ricardo a acompanhou de longe, e instantes depois procurava nas conversas<br \/>\ne burburinhos da sala, aquele gr\u00e3o de sal de que ele carecia para serenar<br \/>\na sua tristeza.<\/p>\n<p>Mais de uma vez chegou-se para a filha do banqueiro com inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde lhe dirigir a palavra; mas alguma for\u00e7a oculta o tolhia, que afastava-se,<br \/>\ndisfar\u00e7ando o primeiro movimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o escapou a Guida esta perplexidade. Convencida de que Ricardo<br \/>\nlhe desejava falar, mas retra\u00eda-se na presen\u00e7a das pessoas que<br \/>\na cercavam, afastou-se um instante da roda das mo\u00e7as e cavalheiros<br \/>\na pretexto de ir ao interior; na volta chegou-se ao piano, e demorou-se em<br \/>\nescolher uma pe\u00e7a para tocar.<\/p>\n<p>Ricardo, recostado nesse momento ao v\u00e3o de uma janela, foi talvez<br \/>\na \u00fanica pessoa que seguiu os movimentos da mo\u00e7a, enquanto ela<br \/>\nfolheava o \u00e1lbum, e n\u00e3o chamava a aten\u00e7\u00e3o ferindo<br \/>\nas teclas do instrumento.<\/p>\n<p>Guida colocou o livro na estante, e afastando o banco com a ponta do p\u00e9,<br \/>\nvolveu os olhos para Ricardo. Encontrando os dele, sentiu expandir-se a alma,<br \/>\nque veio abrir-se em flor num sorriso fagueiro.<\/p>\n<p>Esperou ainda um momento e sentou-se. Debaixo de seus dedos mimosos cantaram<br \/>\nas teclas a s\u00faplica maviosa do dueto final de Romeu, escrito por Vaccai:<br \/>\n&#8220;Vieni, ah! vieni,<br \/>\nMio bene, mia speme;<br \/>\nFugiamo insiemi,<br \/>\nAmor ci condurra&#8221;.<\/p>\n<p>Ricardo n\u00e3o ouviu as notas, como n\u00e3o vira o sorriso.<\/p>\n<p>Vexado de que lhe surpreendesse a mo\u00e7a o olhar ansioso, dissimulara,<br \/>\ncom inten\u00e7\u00e3o de aproximar-se logo depois, como atra\u00eddo<br \/>\npela m\u00fasica.<\/p>\n<p>Com efeito assim fez, mas ao mesmo tempo que ele, chegava Clarinha, o Guimar\u00e3es,<br \/>\ne todo o enxame de adoradores cercava o piano, levando o advogado a arredar-se,<br \/>\no que ali\u00e1s fez de bom grado.<\/p>\n<p>Pouco depois era meia-noite. As fam\u00edlias se retiravam; D. Paulina<br \/>\ncom a filha as foram acompanhar at\u00e9 o port\u00e3o, como de costume,<br \/>\npor fineza aos h\u00f3spedes e por passeio.<\/p>\n<p>Guida, de bra\u00e7o com Mrs. Trowshy, aproximou-se de Ricardo:<br \/>\n&#8211; Como est\u00e1 a noite serena! disse a mo\u00e7a. Havemos de Ter uma<br \/>\nbonita manh\u00e3 para ir a Andara\u00ed, Mrs. Trowshy.<\/p>\n<p>&#8211; E a li\u00e7\u00e3o de harpa?<br \/>\n&#8211; Que tem isso?<br \/>\nVoltou-se para Ricardo:<br \/>\n&#8211; \u00c9 verdade! Quando leva aqueles pap\u00e9is \u00e0 avozinha? Creio<br \/>\nque ela precisa deles.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 devia ter ido&#8230; Talvez amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Eu a prevenirei para esper\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Este curto di\u00e1logo passou desapercebido no meio do gorjeio das mo\u00e7as<br \/>\nque se despediam.<\/p>\n<h4><a id=\"31\" name=\"31\"><\/a>XXXI<\/h4>\n<p>No dia seguinte, \u00e0s onze horas e meia, chegou Ricardo no Andara\u00ed.<\/p>\n<p>Achou na sala de visitas D. Leonarda recostada no sof\u00e1; Guida sentada<br \/>\na seus p\u00e9s na almofada desenhava \u00e0 aquarela sobre uma mesinha<br \/>\nde char\u00e3o para divertir a av\u00f3; e Mrs. Trowshy fazia &#8220;frivolidade&#8221;<br \/>\n( frivolit\u00e9).<\/p>\n<p>Guida estava triste.<\/p>\n<p>A efus\u00e3o de alegria que tivera na v\u00e9spera a ver Ricardo, quando<br \/>\nj\u00e1 o sabia desobrigado da promessa que o separava dela, essa primeira<br \/>\nexpans\u00e3o de sua alma desvanecera-se mais tarde, durante a vig\u00edlia.<\/p>\n<p>Como uma gota de fel, caiu-lhe do esp\u00edrito no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\numa id\u00e9ia, que a amargurou. O af\u00e3 com que Ricardo aproximava-se<br \/>\ndela, logo depois da decep\u00e7\u00e3o, e sem dar tempo \u00e0 alma<br \/>\nn\u00e3o j\u00e1 de esquecer, mas de acalmar-se, n\u00e3o estava revelando<br \/>\no plano de uma vingan\u00e7a ou de um c\u00e1lculo s\u00f4frego?<br \/>\nEsteve a n\u00e3o ir ao Andara\u00ed; mas pensou que o melhor era n\u00e3o<br \/>\ndemorar essa crise de sua vida.<\/p>\n<p>Viera; n\u00e3o com a alma cheia de enlevos e ternuras como a tinha na<br \/>\nv\u00e9spera quando tocava Romeu, por\u00e9m no desencantamento de um<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o que sente fanar-se morno bafo do aquil\u00e3o, a primeira<br \/>\nbonina, que apenas come\u00e7ava a florir.<\/p>\n<p>Desculpou-se o advogado na demora da restitui\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is;<br \/>\nelogiou a aquarela de Guida, o que levou a conversa para os desenhos de Ricardo<br \/>\ne as recorda\u00e7\u00f5es do ver\u00e3o passado na Tijuca. Falou-se<br \/>\nda beleza das pitorescas montanhas, dos encantos de s\u00edtios t\u00e3o<br \/>\napraz\u00edveis; e uma doce tinta de saudade ressumbrava nessa conversa<br \/>\nde passatempo.<\/p>\n<p>Depois de um quarto de hora ou mais, vendo Ricardo que n\u00e3o havia<br \/>\nmuta\u00e7\u00e3o de cena, e perdendo a esperan\u00e7a de uma longa<br \/>\ne \u00edntima efus\u00e3o, como ali tivera Guida com ele vinte dias antes,<br \/>\nergueu-se com inten\u00e7\u00e3o de sair.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor ainda n\u00e3o viu a ch\u00e1cara da avozinha? \u00c9 muito<br \/>\nbonita.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! disse a velha. J\u00e1 foi, agora est\u00e1 maltratada.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dar um passeio? perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Com muito gosto! respondeu Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, Mrs. Trowshy.<\/p>\n<p>A mestra estava pronta sempre para passear.<\/p>\n<p>Querendo facilitar a Ricardo a entrevista, que ele desejava, e sentindo<br \/>\nao mesmo tempo vexame de achar-se de todo a s\u00f3s com o mancebo, Guida<br \/>\nescolhera o passeio, que lhe deixava toda a liberdade de movimentos para dissimular<br \/>\nas emo\u00e7\u00f5es e interromper a conversa a prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>O bando de moleques disparou adiante, como um rebanho de cabritos, quando<br \/>\no soltam do redil pela manh\u00e3, e espalhou-se pela ch\u00e1cara, a<br \/>\npretexto de apanhar frutas para nhanh\u00e3 Guida, mas realmente para as<br \/>\ncomerem eles e fazerem mil diabruras.<\/p>\n<p>Mrs. Trowshy, que despedira da cancela pela rua afora, como bala de canh\u00e3o,<br \/>\ne l\u00e1 se fora em passo de carabineiro ingl\u00eas assaltando um reduto,<br \/>\ndepois de tr\u00eas voltas sentara-se esbaforida \u00e0 sombra de uma jaqueira,<br \/>\na debulhar um cacho de uva para refrescar-se.<\/p>\n<p>Em frente da jaqueira passava uma rua de mangueiras, por onde vinham Guida<br \/>\ne Ricardo a par, em um sil\u00eancio que os embara\u00e7ava a ambos; mas<br \/>\nnenhum queria romp\u00ea-lo com banalidades, receando afastar o momento da<br \/>\nconfid\u00eancia e talvez impedi-lo.<\/p>\n<p>Animou-se Ricardo afinal:<br \/>\n&#8211; Lembra-se do que me disse aqui nesta casa, h\u00e1 quase um m\u00eas,<br \/>\nquando nos despedimos? Que seu romance acabava alegre.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade! respondeu Guida. Eu disse e&#8230;<\/p>\n<p>A mo\u00e7a conteve-se, receando lhe escapasse o segredo das l\u00e1grimas<br \/>\nque tinham orvalhado seu amor ao nascer.<\/p>\n<p>Ricardo esperou um instante, mas vendo que o sil\u00eancio ia outra vez<br \/>\nenvolv\u00ea-los, continuou:<br \/>\n&#8211; Pois o meu acabou triste, bem triste.<\/p>\n<p>&#8211; Conte-me, disse Guida com bondade.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vale a pena. Uma afei\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia, que<br \/>\nlutou anos contra a adversidade para ser tra\u00edda e ludibriada no momento<br \/>\nem que lhe sorria a esperan\u00e7a! Quem d\u00e1 valor a estas futilidades<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o? concluiu o mancebo em tom amargo.<\/p>\n<p>&#8211; Compreendo quanto deve doer a perda de uma ilus\u00e3o, observou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 a perda de uma ilus\u00e3o, mas a ru\u00edna de<br \/>\nminha vida inteira. O cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 morto; \u00e9 uma<br \/>\nterra s\u00e1fara onde n\u00e3o brotar\u00e1 nunca mais a flor de uma<br \/>\nafei\u00e7\u00e3o. E \u00e9 esta a maior felicidade que Deus me pode<br \/>\nconceder ainda neste mundo!<br \/>\nVolveu Guida um olhar t\u00edmido e queixoso.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Amar outra vez? Seria mart\u00edrio incessante. N\u00e3o me animaria<br \/>\njamais a oferecer \u00e0quela a quem eu amasse os destro\u00e7os de uma<br \/>\nvida despeda\u00e7ada pela trai\u00e7\u00e3o, os bocejos de uma alma<br \/>\ndevorada pela d\u00favida. Oh! n\u00e3o! Se isso acontecesse por minha<br \/>\ndesgra\u00e7a, eu havia de ador\u00e1-la em sil\u00eancio, no mais rec\u00f4ndito<br \/>\nde minha consci\u00eancia, quando n\u00e3o conseguisse arrancar do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nesse espinho doloroso.<\/p>\n<p>Com a fronte inclinada e o seio palpitante, escutava Guida as palavras de<br \/>\nRicardo, que as proferia com o olhar vago, receando pous\u00e1-lo no semblante<br \/>\nda mo\u00e7a. Timidamente observou:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o os mist\u00e9rios do cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas penso que n\u00e3o pode haver maior j\u00fabilo do que seja esse de<br \/>\nreviver um cora\u00e7\u00e3o morto, de apagar um passado triste, e criar<br \/>\npara aquele a quem se&#8230; estima, uma nova exist\u00eancia!<br \/>\n&#8211; Quantos encontraram no mundo um anjo como esse? perguntou Ricardo.<\/p>\n<p>Guida n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Quando recebi a carta, que deu o golpe \u00e0 minha vida, a princ\u00edpio<br \/>\nn\u00e3o pude entender. Pensei estar louco. Li e reli; aquilo excedia minha<br \/>\ncompreens\u00e3o. Enfim a certeza penetrou-me como um raio, e senti-me como<br \/>\narremessado do alto de um rochedo, que me dilacerara a alma. Reneguei tudo<br \/>\nquanto respeitava; descri das coisas mais santas; cheguei a duvidar de minha<br \/>\nm\u00e3e!&#8230; Era a vertigem; a dor veio depois, e atroz. Carecia de um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\namigo, com quem desabafasse. Aqui s\u00f3 tinha F\u00e1bio; mas com ele<br \/>\nera profanar a minha desgra\u00e7a. Lembrei-me da senhora. Talvez n\u00e3o<br \/>\ndevesse; mas acreditei que me havia de compreender.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se enagnou.<\/p>\n<p>&#8211; E, n\u00e3o sei por qu\u00ea, tinha um pressentimento de que isso me<br \/>\nhavia de fazer bem: e fez. Estas poucas palavras que trocamos restitu\u00edram<br \/>\na calma a meu esp\u00edrito. Sentia vacilar-me a raz\u00e3o a modo de<br \/>\n\u00e9brio; parecia-me que a consci\u00eancia faltava-me, como a terra<br \/>\nembaixo dos p\u00e9s; e agora estou outra vez seguro de mim; perdi as ilus\u00f5es<br \/>\ne as cren\u00e7as, mas conservo a possess\u00e3o do eu; j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nreceio que uma paix\u00e3o ou um v\u00edcio me arrebate na correnteza<br \/>\ncomo \u00e0s alforrecas, que o mar lan\u00e7a \u00e0 praia.<\/p>\n<p>&#8211; Mostre-me a carta! murmurou Guida.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui a tem; eu a trouxe pensando que desejasse v\u00ea-la.<\/p>\n<p>Recebeu Guida o papel com a m\u00e3o tr\u00eamula, e procurou o abrigo<br \/>\nde uma mangueira, cujo grosso tronco a escondia, para ler sem despertar a<br \/>\ncuriosidade da mestra. Ricardo voltou-se para n\u00e3o vex\u00e1-la.<\/p>\n<p>Estava a mo\u00e7a comovida e palpitante. Aquele momento ia decidir de<br \/>\nseu destino; e era preciso que ela tivesse ainda uma vez a energia de curvar<br \/>\na fortuna a seu imp\u00e9rio, e vencer ela mesma, de iniciativa pr\u00f3pria,<br \/>\nos obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>Sua alma superior compreendia agora o assomo confuso, obscuro, travado de<br \/>\nhesita\u00e7\u00f5es e arrojos, que desde a v\u00e9spera impelia Ricardo<br \/>\npara ela, s\u00f4frego de abrir-lhe o cora\u00e7\u00e3o. O fen\u00f4meno<br \/>\nque o mancebo n\u00e3o podia bem discernir em sua pr\u00f3pria consci\u00eancia,<br \/>\nela o penetrava com a luz pura de seu nobre cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com as m\u00e3os apertadas ao seio para recalcar a efus\u00e3o de seu<br \/>\nj\u00fabilo, murmurou consigo:<br \/>\n&#8211; Ele me ama, sem o pensar. Quando viu-se livre, lembrou-se que nada o separava<br \/>\nde mim. Mas eu sou rica e o mundo n\u00e3o acredita que se possa amar uma<br \/>\nm\u00edsera criatura de carne, de prefer\u00eancia a uma barra de ouro!&#8230;<br \/>\nRicardo duvidou de si, ele mo disse h\u00e1 pouco; julgou-se arrastado para<br \/>\nmim, n\u00e3o pelo afeto mas pelo interesse. Ent\u00e3o, revoltando-se<br \/>\ncontra si mesmo, em vex de me dizer: &#8211; &#8220;Sou livre, aceito&#8221; &#8211; ao<br \/>\ncontr\u00e1rio, procura cavar um abismo que o separe para sempre de mim,<br \/>\na fim de n\u00e3o sucumbir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pode<br \/>\nmais amar? Pertence \u00e0 outra para sempre? Pois bem! Assim \u00e9 que<br \/>\neu o quero, para afast\u00e1-lo tanto desse pesadelo vivido sem mim, que<br \/>\nn\u00e3o se lembre de ter jamais amado a outra mulher.<\/p>\n<p>Estes pensamentos n\u00e3o os alinhou Guida em palavras na mente, mas<br \/>\ndesenhavam-se como figuras de painel iluminadas de repente por um jato de<br \/>\nluz. Tamb\u00e9m n\u00e3o duraram sen\u00e3o o tempo de abrir a carta<br \/>\nde Bela, que a mo\u00e7a amarrotara entre as m\u00e3os, quando comprimira<br \/>\na arfagem do seio.<\/p>\n<p>Leu Guida uma e duas vezes. Na Segunda, sua m\u00e3o caiu-lhe desfalecida.<br \/>\nCompreendera tudo: divisara naquele papel mudo o pensamento de Bela como perscrutara<br \/>\npouco antes o segredo do advogado atrav\u00e9s de suas palavras confusas.<\/p>\n<p>Dobrou a mo\u00e7a a carta enquanto se dominava e aproximou-se de Ricardo:<br \/>\n&#8211; Bela o ama, como eu pressinto que havia de amar, se Deus n\u00e3o me houvesse<br \/>\nretirado sua gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; E esta carta?<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma sublime abnega\u00e7\u00e3o. Bela acreditou que era ela<br \/>\nquem a condenava \u00e0 pobreza e \u00e0 obscuridade. Enganaram-na certo,<br \/>\nasseverando que o senhor tinha outra afei\u00e7\u00e3o; fez o que devia:<br \/>\nrenunciou \u00e0 sua felicidade para n\u00e3o sacrificar aquele a quem<br \/>\nama.<\/p>\n<p>Ricardo abriu a carta que a mo\u00e7a lhe restitu\u00edra, e leu-a de<br \/>\nnovo. Ali estava a alma de Bela, a santidade daquele cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nem todo esplendor. Fora preciso que a palavra pura e nobre de Guida lhe dissipasse<br \/>\na n\u00e9voa dos olhos para que ele visse.<\/p>\n<p>Erguendo os olhos, pousou-os brandamente no rosto de Guida.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora que l\u00ea no cora\u00e7\u00e3o de Bela, inspire-me! Que<br \/>\ndevo fazer?<br \/>\nGuida voltou-se e colheu uma folha de avenca, nas fendas de um velho muro.<br \/>\nEra um disfarce para ocultar o solu\u00e7o que rompia-lhe o seio.<\/p>\n<p>&#8211; O seu dever. Bela espera a resposta; \u00e9 ela que vai decidir de sua<br \/>\nsorte. V\u00e1, v\u00e1 a S\u00e3o Paulo e&#8230;<\/p>\n<p>Pareceu que a voz de Guida afogava-se num solu\u00e7o. Ricardo olhou,<br \/>\ne viu-a sorrindo acabar a frase:<br \/>\n&#8211; E seja feliz!<br \/>\nA mo\u00e7a foi ter com Mrs. Trowshy e instantes depois, terminado o passeio,<br \/>\nretirava-se Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Ela n\u00e3o pode amar-me!&#8230; pensou o mo\u00e7o em caminho para a<br \/>\ncidade. E eu&#8230; eu tenho medo de am\u00e1-la!<br \/>\nDois dias depois partia o vapor de Santos. Ir a S\u00e3o Paulo, como lhe<br \/>\ndissera Guida, foi id\u00e9ia em que n\u00e3o se demorou o \u00e2nimo<br \/>\ndo advogado; n\u00e3o o permitia o escrit\u00f3rio, nem o estado de seu<br \/>\nesp\u00edrito. Resolveu por\u00e9m escrever a Bela em termos que a demovessem<br \/>\nda suspeita de n\u00e3o ser amada, como o fora sempre.<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu quem me sacrifique \u00e0 sua felicidade.<\/p>\n<p>No momento de p\u00f4r a pena no papel corou: nunca poderia escrever o<br \/>\nque n\u00e3o sentisse; n\u00e3o falou a linguagem do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas a da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Bela<\/p>\n<p>A vida \u00e9 uma coisa bem s\u00e9ria, que n\u00e3o se deve fazer tema<br \/>\nde caprichos e arrufos.<\/p>\n<p>Amamo-nos desde a inf\u00e2ncia, e juramos unir-nos para sempre. Pertencemo-nos<br \/>\npois um ao outro, e nada neste mundo a n\u00e3o ser a viol\u00eancia pode<br \/>\njamais separar-nos.<\/p>\n<p>Vi em sua carta uma suspeita, que n\u00e3o devia demorar-se em seu esp\u00edrito.<br \/>\nConsidero-me seu marido perante Deus; e conhe\u00e7o meu dever.<\/p>\n<p>Adeus, etc.<\/p>\n<p>Ricardo&#8221;<\/p>\n<p>Esta carta fria e austera ainda mais confirmou Bela na convic\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que j\u00e1 n\u00e3o era amada como o fora outrora. Documento do nobre<br \/>\ncar\u00e1ter de Ricardo, tinha a secura do pergaminho.<\/p>\n<p>Contudo a mo\u00e7a n\u00e3o precipitou o desfecho do drama \u00edntimo<br \/>\nde sua vida, e deixou escoar-se o tempo, at\u00e9 que decorridos uns tr\u00eas<br \/>\nmeses e insistindo seu pai em favor do Fel\u00edcio, arrancou-lhe o consentimento<br \/>\npara essa uni\u00e3o.<\/p>\n<h4><a id=\"32\" name=\"32\"><\/a>XXXII<\/h4>\n<p>Depois da entrevista de Andara\u00ed, Guida e Ricardo encontraram-se freq\u00fcentemente<br \/>\nna sociedade.<\/p>\n<p>O advogado, cujo escrit\u00f3rio rendia para lhe permitir mais que a dec\u00eancia,<br \/>\nsem sacrif\u00edcio de alguma economia, procurava nas salas e reuni\u00f5es<br \/>\no sossego de esp\u00edrito que n\u00e3o encontrava em seu gabinete de<br \/>\ntrabalho, e nos passeios solit\u00e1rios pela calada da noite.<\/p>\n<p>N\u00e3o via Guida sem emo\u00e7\u00e3o; e se n\u00e3o cedia \u00e0<br \/>\natra\u00e7\u00e3o que a gentil menina exercia sobre ele, tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o a evitava como anteriormente, quando o acaso os aproximava. Ao<br \/>\ncontr\u00e1rio, nessas ocasi\u00f5es, se alguma circunst\u00e2ncia n\u00e3o<br \/>\no vinha distrair, ou se a mo\u00e7a n\u00e3o se afastava, ele se esquecia<br \/>\ncom ela em alguma dessas conversas cintilantes, que lembrava-lhe o seu passeio<br \/>\n\u00e0 &#8220;Vista dos Chins&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o se falava por\u00e9m mais entre eles da mat\u00e9ria sentimental;<br \/>\nesse cap\u00edtulo estava cancelado. Nenhum se animava a folhe\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Como um homem, que tem consci\u00eancia de sua for\u00e7a, e conta com<br \/>\numa vontade inflex\u00edvel para sofrear os mais veementes impulsos, Ricardo<br \/>\npermitia-se aquele inocente devaneio, que lhe ca\u00eda nos seios d&#8217;alma<br \/>\ncomo orvalho celeste. N\u00e3o tinha receio de trair-se; e pois bebia o<br \/>\ndoce cordial como um enfermo, que precisa restaurar as for\u00e7as.<\/p>\n<p>Sabia retrair-se a tempo, e afastar a ta\u00e7a dos l\u00e1bios, quando<br \/>\nsentia a primeira n\u00e9voa da ebriedade desse amor imposs\u00edvel,<br \/>\nque ele rejeitara, mas n\u00e3o podia extirpar.<\/p>\n<p>De seu lado Guida, se algumas vezes cedia ao embevecimento dessas conversa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o despia a reserva com que tratava ultimamente a Ricardo; reserva<br \/>\nque era t\u00e3o-somente o pudor de sua afei\u00e7\u00e3o, como o receio<br \/>\nde afagar um amor condenado, que devia morrer desconhecido, como tinha vivido.<\/p>\n<p>Assim decorreram tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>A not\u00edcia do casamento de Bela, que se realizou em poucos dias, produziu<br \/>\nnas rela\u00e7\u00f5es de Guida e Ricardo uma altera\u00e7\u00e3o<br \/>\nsens\u00edvel.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio a mo\u00e7a deixou-se influir um assomo de altivez.<br \/>\nEntendeu que n\u00e3o devia aceitar o sacrif\u00edcio de Bela, por lhe<br \/>\nparecer humilhante. Preferia matar seu amor, sufoc\u00e1-lo no seio, a profan\u00e1-lo<br \/>\nem um casamento frio, e rejeitado por outra.<\/p>\n<p>Mais tarde, mudou completamente. N\u00e3o vendo Ricardo, adivinhou que<br \/>\nera a dor da perda de Bela que o afastava dela, e teve ci\u00fames. Outra<br \/>\nvez sentiu o impulso generoso de disputar esse nobre cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nao des\u00e2nimo e \u00e0 descren\u00e7a, de povoar com seu imenso amor<br \/>\no deserto daquela alma assolada pela desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Ricardo por\u00e9m sucumbia ante a perda irrepar\u00e1vel da mulher<br \/>\na quem amara; e s\u00f3 ent\u00e3o conheceu a profundeza do golpe que<br \/>\nsofrera. Por muito tempo ele pertenceu exclusivamente \u00e0 m\u00e1goa<br \/>\nque enlutara sua vida e \u00e0 saudade do passado amor.<\/p>\n<p>Quando Guida o viu, desfigurado e p\u00e1lido, respeitou a santidade dessa<br \/>\ndor, e aprendeu nela a resignar-se.<\/p>\n<p>A continua\u00e7\u00e3o de se tratarem freq\u00fcentemente, depois de<br \/>\ngastas as primeiras expans\u00f5es da m\u00fatua, m\u00e3o n\u00e3o<br \/>\ncorrespondia afei\u00e7\u00e3o, tornou-os ao cabo de algum tempo indiferentes.<br \/>\nEncontravam-se j\u00e1 em emo\u00e7\u00e3o, como sem enleio.<\/p>\n<p>No ver\u00e3o passado Guida passou em Petr\u00f3polis os dois meses<br \/>\nde mais forte calor. O pai deixou-lhe a escolha; ela n\u00e3o quis a Tijuca,<br \/>\nde que tanto gostava anteriormente.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o espalhou-se a not\u00edcia de estar justo o casamento<br \/>\nde Guida com o Bastos. O Soares interpelado riu-se; e Guida j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ncorrespondeu \u00e0s perguntinhas das amigas com um remoque, segundo o seu<br \/>\ncostume.<\/p>\n<p>Grande mudan\u00e7a se tinha operado no corretor. O Soares uma vez depois<br \/>\ndo jantar enfiara-lhe o bra\u00e7o, e lhe dissera brincando:<br \/>\n&#8211; Meu caro Bastos, o que seduz as borboletas s\u00e3o as flores e n\u00e3o<br \/>\nos frutos. J\u00e1 tens bastante dinheiro. Trabalha menos, e agrada mais.<\/p>\n<p>&#8211; De que modo?<br \/>\n&#8211; V\u00eas esta pedrinha? disse o Soares apontando para um seixo reluzente<br \/>\nentre a areia do passeio. Foi a correnteza d&#8217;\u00e1gua que a poliu; atira-te<br \/>\nna correnteza dos homens. A massa \u00e9 boa, por for\u00e7a que h\u00e1<br \/>\nde sair alguma coisa.<\/p>\n<p>Saiu um homem elegante, de bom senso e intelig\u00eancia elevada, que,<br \/>\nembora n\u00e3o dado a estudos te\u00f3ricos, p\u00f4de desenvolver-se<br \/>\ncom acerto e superioridade em qualquer assunto.<\/p>\n<p>O Guimar\u00e3es foi \u00e0 Europa gastar a henran\u00e7a do pai;<br \/>\ne o Nogueira, atordoado com a dissolu\u00e7\u00e3o inesperada que lhe<br \/>\ngorou a candidatura, vai-se consolando na advocacia administrativa da sua<br \/>\ndupla derrota, a pol\u00edtica e a matrimonial.<\/p>\n<p>Mrs. Trowshy anda muito contente com a esperan\u00e7a de voltar breve<br \/>\n\u00e0 Inglaterra na companhia de Guida, a qual naturalmente logo depois<br \/>\ndo seu casamento far\u00e1 uma viagem \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>F\u00e1bio casou-se; mora em S\u00e3o Paulo, e tem um projeto de estrada<br \/>\nde ferro para Santo Amaro, primitiva col\u00f4nia alem\u00e3, onde se faz<br \/>\nboa manteiga fresca, igual \u00e0 de Petr\u00f3polis. J\u00e1 requereu<br \/>\no privil\u00e9gio, e conta ganhar uma centena de contos, para vir gozar<br \/>\nda corte, de que tem saudades.<\/p>\n<p>O visconde da Aljuba, consta que anda arranjando um escritor para zurzir<br \/>\no autor deste livro, por t\u00ea-lo copiado t\u00e3o ao vivo; portanto<br \/>\nprepare-se o p\u00fablico para ler as rajadas que n\u00e3o tardam a aparecer<br \/>\npor a\u00ed em estilo de n\u00edquel.<\/p>\n<p>Informaram-me tamb\u00e9m que o Sr. Ben\u00edcio j\u00e1 foi \u00e0<br \/>\ncocheira do Porto, examinar o mais rico dos cup\u00eas de gala, a fim de<br \/>\nestar preparado para encomend\u00e1-lo apenas se marque o dia do casamento<br \/>\nde Guida.<\/p>\n<p>Por seu gosto n\u00e3o seria Bastos o noivo; pois o bom do amanuense n\u00e3o<br \/>\nperdeu ainda o teir\u00f3 que tomara ao corretor pela concorr\u00eancia<br \/>\nativa que este lhe fazia antigamente no artigo das encomendas. Mas, quando<br \/>\nse tratava de obsequiar, n\u00e3o havia sacrif\u00edcio que fizesse recuar<br \/>\no her\u00f3ico Sr. Ben\u00edcio.<\/p>\n<p>Assim terminaram estes &#8220;sonhos d&#8217;ouro&#8221;, t\u00e3o parecidos com<br \/>\nos outros que a cada instante por a\u00ed acendem e se apagam, como os arreb\u00f3is<br \/>\nda tarde.<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n<h4><a id=\"33\" name=\"33\"><\/a>CARTA AO EDITOR<\/h4>\n<p>Ilmo. Sr. Garnier<\/p>\n<p>Se ainda n\u00e3o tirou a lume a Segunda parte dos Sonhos d&#8217;ouro, pe\u00e7o-lhe<br \/>\no favor de mandar imprimir o incluso p\u00f3s-escrito que leva a \u00faltima<br \/>\nnot\u00edcia de nossos personagens.<\/p>\n<p>Amigo e atento venerador<\/p>\n<p>S\u00caNIO<\/p>\n<p>S.C. 6 setembro, 1872<\/p>\n<h4><a id=\"34\" name=\"34\"><\/a>P\u00d3S-ESCRITO<\/h4>\n<p>H\u00e1 quinze dias teve Ricardo de assistir a uma vistoria, em quest\u00e3o<br \/>\nde terras, para o lado de Jacarepagu\u00e1.<\/p>\n<p>Na volta lembrou-se de visitar D. Joaquina, a quem n\u00e3o via desde<br \/>\nmuito. Achou a casinha e a dona no mesmo estado: velhas como as deixara, mas<br \/>\ncontentes e sossegadas.<\/p>\n<p>A tia de F\u00e1bio recebeu o advogado com muita festa e agasalho; perguntou<br \/>\nnot\u00edcias do sobrinho e da nova sobrinha; e pediu a Ricardo que lhes<br \/>\nmandasse muitas e muitas recomenda\u00e7\u00f5es, quando escrevesse.<\/p>\n<p>Eram duas horas. J\u00e1 D. Joaquina tinha jantado; mas havia carne assada<br \/>\ne improvisou-se uma fritada, que Ricardo aceitou de bom grado, para Ter o<br \/>\nprazer de passar com a velha o resto da tarde. O advogado comeu com apetite;<br \/>\ne n\u00e3o trocaria o copo d&#8217;\u00e1gua cristalina, que bebeu depois do<br \/>\nmelado, pelo mais esquisito champanha.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 que ainda n\u00e3o quis casar? disse D. Joaquina,<br \/>\npreparando-lhe uma ch\u00e1vena de caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que fiquei para tio, disse Ricardo sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Qual!&#8230; A dificuldade \u00e9 encontrar a\u00ed algum peix\u00e3ozinho<br \/>\nque lhe ponha um feiti\u00e7o; como um que veio aqui outro dia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenha receio, trago uma figa, que me livram do quebranto, tornou<br \/>\nRicardo no mesmo tom.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe ver, disse a velha.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e3o l\u00e1 dentro, no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A velha riu-se. E o advogado acendendo o charuto saiu a dar uma volta de<br \/>\npasseio a p\u00e9, enquanto se ia buscar ao pasto o &#8220;Galgo&#8221;, que<br \/>\nnaturalmente andava tamb\u00e9m matando saudades, pois desde muito tempo<br \/>\nresidia na corte \u00e0 Travessa do Esp\u00edrito Santos, n. 19, cocheira<br \/>\ndo Viana.<\/p>\n<p>Tomou Ricardo pelo mesmo caminho em que \u00e0 primeira vez o encontramos,<br \/>\ne n\u00e3o tinha dado vinte passos que as recorda\u00e7\u00f5es de outros<br \/>\ntempos surgiram para envolv\u00ea-lo como o aparato de uma cena armada de<br \/>\nimproviso.<\/p>\n<p>Ouviu tropel de animal; reconheceu o &#8220;Galgo&#8221;; viu passar F\u00e1bio;<br \/>\ntrocou palavras com ele; perdeu-se entre os tufos do arvoredo; sentiu o sobressalto<br \/>\nque tivera outrora, despertado por um riso argentino; e contemplou com entusiasmo<br \/>\nde artista, e um enlevo que ent\u00e3o n\u00e3o sentira, o gracioso vulto<br \/>\nda gentil amazona.<\/p>\n<p>Depois correram as vistas; novas cenas sucediam-se; e a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nas povoava de recorda\u00e7\u00f5es vivazes, que entretanto pareciam extintas.<\/p>\n<p>Este volver ao passado incomodava Ricardo, que pensou escapar-lhe fugindo<br \/>\n\u00e0quele s\u00edtio.<\/p>\n<p>Ao voltar uma curva descobriu duas senhoras, que se aproximavam lentamente<br \/>\npelo mesmo caminho; e qual n\u00e3o foi seu espanto reconhecendo Guida acompanhada<br \/>\nde Mrs. Trowshy.<\/p>\n<p>Desde certo tempo a sa\u00fade de Guida se alterara. N\u00e3o se queixava,<br \/>\nnem tinha mesmo inc\u00f4modo ou mal determinado. Perdera a alegre vivacidade;<br \/>\ne sentia invadi-la um abatimento indefin\u00edvel. Sua vida nos meses \u00faltimos<br \/>\nn\u00e3o era mais do que um lento del\u00edquio; parecia-lhe que estava<br \/>\ndesmaiada. As flores, se \u00e9 que t\u00eam sensibilidade, devem experimentar<br \/>\numa impress\u00e3o igual quando murcham.<\/p>\n<p>Ultimamente o desfalecimento chegara ao ponto de inquietar a fam\u00edlia;<br \/>\nos m\u00e9dicos receitaram as duas panac\u00e9ias do costume, o casamento<br \/>\ne o campo. Pobres dos m\u00e9dicos! Queixam-se deles. Ah! Se tivessem na<br \/>\nsua farmacop\u00e9ia certas drogas preciosas, como o amor, a ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\na gl\u00f3ria, que de curas milagrosas n\u00e3o fariam!<br \/>\nQuando se tratou de escolher o arrabalde, Guida pediu a Tijuca; n\u00e3o<br \/>\nque ela esperasse tirar proveito para a sa\u00fade. Bem longe disso; era<br \/>\num desejo rec\u00f4ndito de rever aqueles s\u00edtios, e saciar-se das<br \/>\nreminisc\u00eancias que eles guardavam. Matassem embora essas \u00e1rvores,<br \/>\ncomo a mancenilha; queria embriagar-se de seus perfumes.<\/p>\n<p>Lembrava-se da Africana que vira representar ultimamente; e invejava aquela<br \/>\nmorte, ela que dois anos antes, naquelas mesmas montanhas, zombava de Safo,<br \/>\na mais ilustre entre as m\u00e1rtires do amor.<\/p>\n<p>Guida trajava naquela tarde um vestido cinzento e, sobre ele, um casaco<br \/>\npreto guarnecido de marta. A alvura imaculada de seu rosto destacava-se nesse<br \/>\ntrajo escuro, entre os negros cabelos, com uma lividez que assustava: parecia<br \/>\no perfil de uma est\u00e1tua em alabastro.<\/p>\n<p>Reconhecendo Ricardo, teve a mo\u00e7a uma violenta como\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne tomou para suster-se o bra\u00e7o da mestra, que atribuiu o choque a susto<br \/>\ne debilidade da mol\u00e9stia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia que estava na Tijuca, disse Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Viemos h\u00e1 oito dias.<\/p>\n<p>&#8211; Ela tem andado doente; o doutor mandou tomar ares, disse Mrs. Trowshy<br \/>\nem portugu\u00eas arrevesado.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de fazer-lhe bem a Tijuca, tornou Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 sa\u00fade?&#8230; perguntou Guida.<\/p>\n<p>E abanou a cabe\u00e7a desfolhando um triste sorriso. Foi ent\u00e3o<br \/>\nque Ricardo reparou o estado de abatimento da mo\u00e7a. O talhe, t\u00e3o<br \/>\nesbelto e gr\u00e1cil, retra\u00eda-se como o c\u00e1lix do l\u00edrio<br \/>\ndo vale quando fana-se, e os olhos de embaciados, s\u00f3 intercadentes,<br \/>\ncomo o trepidar da estrela, rutilavam para desferir lampejo febril.<\/p>\n<p>N\u00e3o se concebe a comisera\u00e7\u00e3o que sentiu Ricardo notando<br \/>\naquele deperecimento lento de uma beleza, que ele vira t\u00e3o espl\u00eandida.<br \/>\nL\u00e1grimas umedeceram-lhe os olhos; e teve impulso de ajoelhar-se aos<br \/>\np\u00e9s da m\u00e1rtir, sacrificada ao paganismo social.<\/p>\n<p>Lembrou-se da conversa que tivera com a mo\u00e7as dois anos antes, pouco<br \/>\ndistante daquele s\u00edtio. Guida era uma das v\u00edtimas desse martirol\u00f3gio<br \/>\nda fam\u00edlia, que poucos sabem e ningu\u00e9m compreende. Nascera rica;<br \/>\neducaram-na para a opul\u00eancia; e a grandeza sufocava.<\/p>\n<p>Havia um meio de salvar-se; era esfarfalhar sua alma pelas salas em afei\u00e7\u00f5es<br \/>\nef\u00eameras; tornar-se a mo\u00e7a da moda, faceira, namorada, perseguida<br \/>\ne disputada por um enxame de adoradores. A dignidade inata fechou-lhe essa<br \/>\nv\u00e1lvula do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guida o guardara virgem e intacto para o seu primeiro amor; por\u00e9m<br \/>\neste n\u00e3o o encontrara no mundo. Por qu\u00ea? N\u00e3o havia um<br \/>\nhomem que a merecesse? Guida estimava o homem, mais do que ele valia, por\u00e9m<br \/>\nna pureza do ideal; por isso os indiv\u00edduos da esp\u00e9cie lhe pareciam<br \/>\nescor\u00e7os, sen\u00e3o caricaturas.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o sou eu o homem que ela sonha, disse Ricardo; por que<br \/>\nn\u00e3o me deu o criador um raio do fogo sagrado para reanimar esta vida<br \/>\nque se extingue, para reter na terra esta bela mulher que se est\u00e1 transformando<br \/>\nem anjo?<br \/>\nGuida sentara-se \u00e0 beira do caminho, numa leiva coberta de relva, e<br \/>\nacompanhava o recorte das nuvens com o olhar m\u00f3rbido, que \u00e0s<br \/>\nvezes eclipsava sob os longos c\u00edlios e volvia r\u00e1pida e sutilmente<br \/>\nao rosto de Ricardo.<\/p>\n<p>&#8211; Deve passear! disse Ricardo para romper o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Ela n\u00e3o gosta mais de sair como dantes, observou Mrs. Trowshy.<\/p>\n<p>&#8211; Fatiga-me tanto! tornou Guida. J\u00e1 tr\u00eas vezes viemos para<br \/>\neste lado; e ainda n\u00e3o pude chegar at\u00e9 a outra volta.<\/p>\n<p>&#8211; Quando estiver mais forte.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho tanta vontade! Mas hoje hei de ir; j\u00e1 descansei. Venha conosco!<br \/>\ndisse pousando o olhar s\u00faplice no semblante do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o era longe a volta a que a mo\u00e7a desejava chegar.<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-se? perguntou a Ricardo. Aqui nos encontramos pela primeira vez.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o esqueceu?<br \/>\n&#8211; E a nossa flor&#8230; Ainda estar\u00e1 no mesmo lugar?<br \/>\nRicardo rompeu o arvoredo, e procurou:<br \/>\n&#8211; Aqui est\u00e1 ela!<br \/>\nGuida aproximou-se.<\/p>\n<p>O arbusto, reverdecido com as \u00e1guas do inverno, come\u00e7ava a<br \/>\nfloresc\u00eancia. Nas pontas dos renovos germinavam j\u00e1 os lindos<br \/>\nc\u00e1lices de n\u00e1car, com os pjngos d&#8217;ouro.<\/p>\n<p>Ro\u00e7ou Guida as m\u00e3os pelas folhas glabras do arbusto como para<br \/>\nsentir-se acariciada pelo doce frolido:<br \/>\n&#8211; Sonhos d&#8217;ouro! murmurou.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade! exclamou Ricardo sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Nem se lembrava! disse Guida com leve exprobra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o culpe a pobre florinha, se o vento da tempestade a mirrou e<br \/>\ncobriu de p\u00f3, tornou Ricardo apanhando os secos despojos da passada<br \/>\nflora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Estes morreram, murmurou Guida olhando as flores murchas, mas v\u00e3o<br \/>\nnascer. E os meus?<br \/>\nA voz da mo\u00e7a expirou nos l\u00e1bios, e exalou-se em um suspiro:<br \/>\n&#8211; Os meus nasceram aqui tamb\u00e9m, por\u00e9m morreram para sempre!<br \/>\nErgueu Ricardo surpreso os olhos, e viu o semblante da mo\u00e7a banhado<br \/>\nem l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Guida! exclamou ele.<\/p>\n<p>E cingiu-lhe a cintura com o bra\u00e7o para ampar\u00e1-la, porque<br \/>\na via desfalecer.<\/p>\n<p>&#8211; Eu queria morrer aqui! balbuciou ela descaindo-lhe a fronte ao ombro de<br \/>\nRicardo, e reclinando o talhe ao peito onde conchegou-se hirta, sem movimento.<\/p>\n<p>Mudo e est\u00e1tico, Ricardo n\u00e3o sabia o que fizesse; n\u00e3o<br \/>\ntinha for\u00e7as para separa de si o corpo desfalecido, nem ousava observar-lhe<br \/>\no semblante, temendo nele ver a m\u00e1scara da morte.<\/p>\n<p>Foi r\u00e1pido o lance, e durou enquanto Mrs. Trowshy, que duas vezes<br \/>\ninvestira com o arvoredo, mas fora repelida por causa da sua rotundidade,<br \/>\nfazia volta para aproximar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Guida! repetiu Ricardo aflito.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ergueu a fronte e engolfando-se no olhar que banhou o rosto<br \/>\ndo mancebo, sorriu:<br \/>\n&#8211; Cuidei que morria&#8230; e era feliz!<br \/>\nRicardo pousou um beijo casto na fronte da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de viver!<br \/>\n&#8211; Para quem?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para mim!<br \/>\n&#8211; Por ele e para ele, meu Deus! disse ela ajoelhando com as m\u00e3os erguidas<br \/>\nao c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; What!&#8230; gritou a mestra vendo Guida naquela posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ergueu-se Guida com um sorriso:<br \/>\n&#8211; Estava agradecendo a Deus a b\u00ean\u00e7\u00e3o que me enviou.<\/p>\n<p>E abra\u00e7ando-a com efus\u00e3o, cobriu-a de beijos.<\/p>\n<p>&#8211; Child! Dear child!&#8230; exclamava a inglesa esmagando as l\u00e1grimas<br \/>\nnos olhos.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>\u00c0 \u00faltima hora.<\/p>\n<p>O casamento de Guida com Ricardo efetua-se qualquer destes dias.<\/p>\n<p>O Bastos consolou-se com a sociedade que lhe deu o Soares em sua casa banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Ben\u00edcio anda em uma dobadoura: da modista para o Carceler, da florista<br \/>\npara a cocheira. Ningu\u00e9m lhe encomendou cousa alguma; mas ele se julgaria<br \/>\ndesonrado se n\u00e3o tomasse parte ativa no grande acontecimento.<\/p>\n<p><strong>FIM DO FIM<\/strong><\/p>\n<p><strong>OS SONHOS D&#8217;OURO<\/strong><\/p>\n<p>Suscitou este livro, recentemente publicado, duas censuras ao distinto folhetista<br \/>\ndo Di\u00e1rio do Rio.<\/p>\n<p>Nada aproveita mais \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o das boas letras do<br \/>\nque seja a cr\u00edtica leal e inspirada pelo sentimento art\u00edstico.<br \/>\nA mim deleitam os certames liter\u00e1rios.<\/p>\n<p>Arg\u00fai o ilustrado cr\u00edtico de personagens estrangeiros as duas<br \/>\nfiguras principais do romance.<\/p>\n<p>&#8220;Guida, a jovem caprichosa e aristocr\u00e1tica, Ricardo, o homem<br \/>\ndos devaneios e do orgulho intelectual, s\u00e3o tipos naturais da nossa<br \/>\nsociedade \u00edntima, t\u00e3o franca e democr\u00e1tica?&#8221;<br \/>\nEis sob a forma da interroga\u00e7\u00e3o a primeira censura.<\/p>\n<p>Antes de tudo, n\u00e3o disse o autor que ia esbo\u00e7ar os seus personagens<br \/>\npelo prisma da vida \u00edntima. Bem ao contr\u00e1rio, os apresenta ele<br \/>\na maior parte das vezes fora da intimidade da fam\u00edlia, em passeio ou<br \/>\nna conviv\u00eancia de pessoas estranhas.<\/p>\n<p>Feita esta observa\u00e7\u00e3o, entro com a cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Por que raz\u00e3o n\u00e3o apresentar\u00e1 nossa sociedade, a mundana<br \/>\nou a \u00edntima, o tipo de uma menina caprichosa e aristocr\u00e1tica?<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 capricho no Brasil?<br \/>\nAqui as rosas s\u00e3o, como dizia M\u00edlton das do \u00c9den, sem<br \/>\nespinhos (without thorn)?<br \/>\nTamb\u00e9m ser\u00e1 deserdada de toda superioridade esta ra\u00e7a<br \/>\nbrasileira, a ponto de n\u00e3o sentirem os esp\u00edritos elevados quaisquer<br \/>\nassomos da aristocracia natural que n\u00e3o vem da linhagem, mas de alguma<br \/>\npreemin\u00eancia social, chame-se esta dinheiro, talento ou posi\u00e7\u00e3o?<br \/>\nDesconhece a vida fluminense quem negar a exist\u00eancia do que se chama<br \/>\nentre n\u00f3s a &#8220;alta sociedade&#8221;, embora sem o esplendor do grand<br \/>\nmonde em Paris e da high life em Londres.<\/p>\n<p>Se o ilustrado cr\u00edtico chegasse \u00e0 janela da sua tipografia<br \/>\nem um dia de festa, veria passar-lhe diante dos olhos n\u00e3o uma, sen\u00e3o<br \/>\nmuitas mo\u00e7as mais caprichosas e aristocr\u00e1ticas do que a Guida.<\/p>\n<p>Mas onde est\u00e1 a aristocracia de Guida?<br \/>\nN\u00e3o nos diz o ilustrado cr\u00edtico, e pois for\u00e7a-nos a conjeturar,<br \/>\no que ser\u00e1 longo e fastidioso. Podia forrar-nos a esse trabalho apontando<br \/>\nos fatos.<\/p>\n<p>Estar\u00e1 a aristocracia de Guida no passear na Tijuca em cavalo do<br \/>\nCabo? Em trazer roup\u00e3o de caxemira e luvas de peau de Su\u00e8de?<br \/>\nEm Ter uma governanta e criado estrangeiro para acompanh\u00e1-la?<br \/>\nCreio que a sociedade fluminense em peso protestaria contra semelhante apoucamento<br \/>\nde nossa corte. N\u00e3o \u00e9 preciso ser filha de capitalista para<br \/>\nter semelhante tratamento.<\/p>\n<p>Talvez que o severo cr\u00edtico sentisse o ressaibo de estrangeirismo<br \/>\nno fato de trazer Guida em sua carteira uma nota de cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is<br \/>\npara fazer com ela uma esmola disfar\u00e7ada por uma travessura.<\/p>\n<p>Se ainda n\u00e3o desapareceu em todas as zonas da sociedade fluminense<br \/>\no tempo do &#8220;papai me d\u00e1 um vint\u00e9m&#8221;, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmenos certo que um melhor princ\u00edpio de educa\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica<br \/>\nj\u00e1 condenou aquela tacanha e mesquinha inquisi\u00e7\u00e3o familiar,<br \/>\nque excedia-se em preparar a massa dos hip\u00f3critas, dos avaros e dos<br \/>\nperdul\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00c9 indispens\u00e1vel habituar um homem desde crian\u00e7a a lidar<br \/>\ncom esse t\u00f3xico perigoso, que se chama dinheiro; do contr\u00e1rio<br \/>\ncorre o inexperiente o risco de embriagar-se com ele; e essa embriaguez produz<br \/>\nem de dous efeitos: o delirium tremens da prodigalidade, ou o idiotismo da<br \/>\navareza.<\/p>\n<p>Atualmente \u00e9 comum das fam\u00edlias ricas terem as filhas seus<br \/>\nalfinetes, e nas pobres, quando as posses dos pais n\u00e3o chegam para<br \/>\nessa verba, as mo\u00e7as laboriosas formam com os seus trabalhos de agulha<br \/>\nos pequenos pec\u00falios, com que v\u00e3o acudindo \u00e0s exig\u00eancias<br \/>\ndo toucador, sem a necessidade e o vexame de estarem a cada instante importunando<br \/>\nos pais com o pedido de dinheiro para uma fita, um grampo, um crochete. (Deixem<br \/>\npassar essa aclima\u00e7\u00e3o que \u00e9 irm\u00e3 do colch\u00eate,<br \/>\nmelhor do que croch\u00ea.)<br \/>\nQue resta da inculcada aristocracia de Guida?<br \/>\nUns desperd\u00edcios feitos pela mo\u00e7a, que dava chocolate a comer<br \/>\nao seu cavalo e mandava-o lavar com vinho em vez de aguardante.<\/p>\n<p>Estas e outras extravag\u00e2ncias n\u00e3o s\u00e3o ditas pelo autor,<br \/>\nmas referidas por uma das personagens, em cujas palavras ele por certo n\u00e3o<br \/>\njura. Bastava este simples reparo para n\u00e3o se tomar a rigor aquelas<br \/>\ncoisas, dando ao contr\u00e1rio o desconto \u00e0 exagera\u00e7\u00e3o<br \/>\nhabitual dessa murmura\u00e7\u00e3o social que serve de tema \u00e0s<br \/>\npalestras.<\/p>\n<p>Mas prescinda-se da atenua\u00e7\u00e3o. Em um pa\u00eds onde tanto<br \/>\nse esbanja com extravag\u00e2ncias, onde homens s\u00e9rios queimam centenas<br \/>\nde contos em baboseiras, n\u00e3o se concebe que a filha de um banqueiro<br \/>\npudesse ter quejando capricho? Ser\u00e1 necess\u00e1rio ir \u00e0s<br \/>\nsociedades da velha fidalguia para encontrar exemplos dessas dissipa\u00e7\u00f5es?<br \/>\nAo contr\u00e1rio, o tra\u00e7o brasileiro est\u00e1 a\u00ed se revelando.<br \/>\nDesses caprichos n\u00e3o se lembraria Guida se, apesar de rica, n\u00e3o<br \/>\nse ocupasse com os arranjos de casa e n\u00e3o tivesse as chaves da despensa.<\/p>\n<p>Passemos a Ricardo.<\/p>\n<p>Em que \u00e9 que os devaneios e o orgulho intelectual repugnam com a<br \/>\nsociedade brasileira, aponto de n\u00e3o poderem germinar em seu seio?<br \/>\nN\u00e3o nos disse a cr\u00edtica e era o essencial.<\/p>\n<p>Neste pa\u00eds dos tr\u00f3picos, onde a pr\u00f3pria natureza devaneia<br \/>\nnas cambiantes da luz, no capricho das formas, nos contrastes do belo; nestas<br \/>\nnaturezas meridionais de imagina\u00e7\u00e3o vagabunda, cismar ser\u00e1<br \/>\nacaso uma aberra\u00e7\u00e3o?<br \/>\nO orgulho da intelig\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o vinga nesta terra<br \/>\nonde ele se ostenta todos os dias desde o leg\u00edtimo brio do talento<br \/>\nlaborioso at\u00e9 a fofa vaidade da &#8220;sufici\u00eancia&#8221; lerda<br \/>\ne obesa, que refocila na reputa\u00e7\u00e3o mal ganha?<br \/>\nNem um nem outro destes dois sen\u00f5es tinha-os Ricardo que entretanto,<br \/>\ncomo homem ou como personagem, n\u00e3o estava isento de defeitos.<\/p>\n<p>Longe de ser o &#8220;homem dos devaneios&#8221;, Ricardo \u00e9 o homem<br \/>\npr\u00e1tico, preocupado dos interesses positivos da vida, compenetrado<br \/>\nde sua grave responsabilidade como chefe de uma fam\u00edlia n\u00e3o<br \/>\npequena e paup\u00e9rrima que tem nele o \u00fanico arrimo.<\/p>\n<p>Professa a advocacia, donde espera tirar recursos; luta com uma corajosa<br \/>\ntenacidade contra as dificuldades do tiroc\u00ednio. Nas horas de lazer<br \/>\nn\u00e3o faz verso, desenha, como eu costumo fazer \u00e0s vezes, \u00e0<br \/>\ntoa e por desfastio, sem nunca ter aprendido; e confesso que esses grosseiros<br \/>\nempastes me divertem.<\/p>\n<p>A\u00ed vai esse neologismo, feito com a nossa mob\u00edlia c\u00e1<br \/>\nde casa (do verbo empastar) para traduzir o pastiche, que os franceses trouxeram<br \/>\ndo italiano pasticcio.<\/p>\n<p>Quanto a orgulho de intelig\u00eancia, \u00e9 coisa de que o mo\u00e7o<br \/>\nn\u00e3o tinha nem sombras. Em suas palavras n\u00e3o h\u00e1 uma alus\u00e3o<br \/>\n\u00e0 sua capacidade; n\u00e3o trai aspira\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias<br \/>\nnem pol\u00edticas; n\u00e3o sonha com a gl\u00f3ria. Sua preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9, para o cora\u00e7\u00e3o, o amor da fam\u00edlia e a afei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma mo\u00e7a; para a raz\u00e3o, a posse de vinte contos, necess\u00e1ria<br \/>\npara assegurar o bem-estar dos seus.<\/p>\n<p>S\u00e3o dois colegas que de passagem e em ocasi\u00f5es diversas fazem<br \/>\nalus\u00e3o &#8220;a seu talento&#8221;; pois ele o tinha, se o autor n\u00e3o<br \/>\nse enganou em dar o nome a alguma dessas fosforesc\u00eancias que usurpam<br \/>\na\u00ed pelo mundo esse t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Creio ter exaurido a primeira pecha de estrangeirismo; e se alonguei-me<br \/>\nfoi pelo sistema da cr\u00edtica, inc\u00f4modo e laborioso para o autor,<br \/>\nque deseja defender o seu livro, pois, al\u00e9m da tarefa de arcar com<br \/>\na habilidade do cr\u00edtico, \u00e9 obrigado a adivinhar-lhe os motivos.<\/p>\n<p>Tachando as duas personagens principais de estrangeiras, deu a entender<br \/>\nque destoavam da nossa &#8220;sociedade franca e democr\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o ser\u00e1 franca e democr\u00e1tica a sociedade onde<br \/>\nse passam as cenas do romance? Onde dois mo\u00e7os pobres e desconhecidos<br \/>\ns\u00e3o convidados a jantar, logo depois de r\u00e1pido conhecimento,<br \/>\nfeito pela manh\u00e3 em um encontro? Onde a fidalguia \u00e9 representada<br \/>\npor titulares de carrega\u00e7\u00e3o, como um bar\u00e3o que foi tropeiro,<br \/>\num visconde que foi belchior, e um conselheiro que tem casa de consigna\u00e7\u00f5es?<br \/>\nUma observa\u00e7\u00e3o ainda.<\/p>\n<p>No romance de costumes, e n\u00e3o sei se os Sonhos d&#8217;ouro podem levar<br \/>\nt\u00e3o alto suas pretens\u00f5es, nem todas as personagens s\u00e3o<br \/>\ntipos, nem todas figuram na &#8220;com\u00e9dia social&#8221;, de que o autor<br \/>\naproveita um ato ou um trecho.<\/p>\n<p>As principais na grande parte dos casos s\u00e3o atores no drama, que<br \/>\nformam o esqueleto do livro, e lhe tecem o enredo, fibra vital dessa esp\u00e9cie<br \/>\nde obra cujo fim \u00e9 antes de tudo o conto, a f\u00e1bula, que pretende<br \/>\no esp\u00edrito e o deleita.<\/p>\n<p>Divaguem como queiram os modernos disc\u00edpulos de Arist\u00f3teles:<br \/>\naquele \u00e9 o escopo do romance, o mais n\u00e3o passa de acess\u00f3rios<br \/>\ne ornatos, \u00e0s vezes \u00e9 certo, de t\u00e3o subido pre\u00e7o,<br \/>\nque sobrepujam o todo, como os diamantes de que se bordam as vestes.<\/p>\n<p>Nem Guida, nem Ricardo s\u00e3o tipos, mas caracteres formados pelas nossas<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es sociais, idiossincrasias, como outras que a\u00ed<br \/>\nest\u00e3o se reproduzindo ao infinito, sob a influ\u00eancia de um concurso<br \/>\nqualquer de circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre um tipo e um car\u00e1ter n\u00e3o care\u00e7o<br \/>\nde a determinar, pois n\u00e3o a ignora o ilustrado cr\u00edtico. O tipo<br \/>\n\u00e9 moral; o car\u00e1ter \u00e9 psicol\u00f3gico. Este s\u00f3<br \/>\ncontraste basta: d\u00e1-nos ela outra importante aferi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO tipo forma-se exteriormente pelo molde social; o car\u00e1ter \u00e9<br \/>\numa cria\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, que se produz internamente pelas<br \/>\nmodalidades da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O marinheiro, o soldado, o estudante, o advogado, etc., s\u00e3o tipos<br \/>\nde maior ou menor relevo. O avaro, o ego\u00edsta, o ambicioso, s\u00e3o<br \/>\ncaracteres que variam como as folhas de uma \u00e1rvore e os logaritmos<br \/>\nde uma mesma forma natural.<\/p>\n<p>Fazendo aplica\u00e7\u00e3o destes proleg\u00f4menos da cr\u00edtica<br \/>\na nossas personagens, n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil discernir o que<br \/>\npertence ao car\u00e1ter e o que ao tipo, em cada uma delas.<\/p>\n<p>Em Guida a altivez do g\u00eanio, a eleg\u00e2ncia fidalga, os caprichos<br \/>\ndissipadores, a isen\u00e7\u00e3o da alma, tudo isto \u00e9 do car\u00e1ter,<br \/>\nno qual sente-se a leve impress\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o inglesa.<br \/>\nO que h\u00e1 de t\u00edpico nessa figura \u00e9 a forma de que se revestem<br \/>\nsuas travessuras, a garrulice brasileira desse l\u00e1bio malicioso, o impulso<br \/>\nde caridade que se expande traquinando, o modo por que apesar da riqueza vive<br \/>\nsem luta no meio de uma sociedade que lhe n\u00e3o conv\u00e9m.<\/p>\n<p>Em Ricardo o car\u00e1ter revela-se nos escr\u00fapulos de probidade<br \/>\ne no pudor da pobreza, que os afasta dos c\u00edrculos onde arrota-se ouro,<br \/>\nn\u00e3o por orgulho ou inveja, mas pelo recato da dignidade.<\/p>\n<p>O homem que n\u00e3o jantou, curte sua fome em casa e n\u00e3o vai espiar<br \/>\na mesa farta dos ricos, sob pena de ser um mendigo de casaca. A vida \u00e9<br \/>\num banquete, onde nem todos s\u00e3o convivas, como disse com l\u00fagubre<br \/>\nironia o infeliz Gilbert; por\u00e9m muitos ficam \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Ricardo pensava por esta forma; se bem, se mal, \u00e9 o que a cr\u00edtica<br \/>\nfilos\u00f3fica devia decidir, mas absteve-se.<\/p>\n<p>A profiss\u00e3o de advogado, \u00fanica esperan\u00e7a de decente<br \/>\nganha-p\u00e3o para ele que n\u00e3o tinha prote\u00e7\u00f5es, nem<br \/>\nse encaminhara a outras profiss\u00f5es igualmente independentes, como o<br \/>\ncom\u00e9rcio e a ind\u00fastria; as recorda\u00e7\u00f5es de S. Paulo<br \/>\ne as amizades e os amores ali tecidos com as noitadas do tempo de estudante;<br \/>\no tom da amizade escol\u00e1stica e fraternal que o liga a F\u00e1bio;<br \/>\no seu modo de viver; eis o que h\u00e1 de t\u00edpico em Ricardo, e n\u00e3o<br \/>\no viu o ilustre cr\u00edtico por estar sob o dom\u00ednio de uma preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Havemos de chegar a ela, a seu tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: &nbsp; Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII &nbsp; Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo 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