{"id":105989,"date":"2017-02-07T11:52:02","date_gmt":"2017-02-07T13:52:02","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=105989"},"modified":"2017-03-29T16:00:09","modified_gmt":"2017-03-29T18:00:09","slug":"a-pata-da-gazela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-pata-da-gazela","title":{"rendered":"A Pata da Gazela"},"content":{"rendered":"<h2>Jos\u00e9 de Alencar<\/h2>\n<h4>I<\/h4>\n<p>Estava parada na Rua da Quitanda, pr\u00f3ximo \u00e0 da Assembl\u00e9ia, uma linda vit\u00f3ria, puxada por soberbos cavalos do Cabo.<\/p>\n<p>Dentro do carro havia duas mo\u00e7as; uma delas, alta e esbelta, tinha uma presen\u00e7a encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de talhe, era talvez mais linda que sua companheira.<\/p>\n<p>Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das compras que j\u00e1 tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.<\/p>\n<p>&#8212; Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roxo claro.<\/p>\n<p>&#8212; Ao escrit\u00f3rio de papai: talvez ele queira vir conosco. Na volta passaremos pela Rua do Ouvidor, respondeu a mais esbelta, cujo talhe era desenhado por um roup\u00e3o cinzento.<\/p>\n<p>O vestido roxo debru\u00e7ou-se de modo a olhar para fora, no sentido contr\u00e1rio \u00e0quele em que seguia o carro, enquanto o roup\u00e3o, recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembran\u00e7as, onde naturalmente escrevera a nota de suas encomendas.<\/p>\n<p>&#8212; O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roxo com um movimento de impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 verdade! respondeu distraidamente a companheira.<\/p>\n<p>Estas palavras confirmavam o que ali\u00e1s indicava o simples aspecto da carruagem: as senhoras estavam \u00e0 espera do lacaio, mandado a algum ponto pr\u00f3ximo. A impaci\u00eancia da mo\u00e7a de vestido roxo era partilhada pelos fogosos cavalos, que dificilmente conseguia sofrear um cocheiro agaloado.<\/p>\n<p>Depois de alguns momentos de espera, sobressaltou-se o roup\u00e3o cinzento, e conchegando-se mais \u00e0s almofadas, como para ocultar-se no fundo da carruagem, murmurou:<\/p>\n<p>&#8212; Laura!&#8230; Laura!&#8230;<\/p>\n<p>E como sua amiga n\u00e3o a ouvisse, puxou-lhe pela manga.<\/p>\n<p>&#8212; O que \u00e9, Am\u00e9lia?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o v\u00eas? Aquele mo\u00e7o que est\u00e1 ali defronte nos olhando.<\/p>\n<p>&#8212; Que. tem isto? disse Laura sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o gosto! replicou Am\u00e9lia com um movimento de contrariedade. H\u00e1 quanto tempo est\u00e1 ali e sem tirar os olhos de mim?<\/p>\n<p>&#8212; Volta-lhe as costas!<\/p>\n<p>&#8212; Vamos para diante.<\/p>\n<p>&#8212; Como quiseres.<\/p>\n<p>Avisado o cocheiro, avan\u00e7ou alguns passos, de modo a tirar ao curioso a vista do interior do carro; mas o mancebo n\u00e3o desanimou por isso, e passando de uma a outra porta, tomou posi\u00e7\u00e3o conveniente para contemplar a mo\u00e7a com admira\u00e7\u00e3o franca e apaixonada.<\/p>\n<p>Simples no traje, e pouco favorecido a respeito de beleza; os dotes naturais que excitavam nesse mo\u00e7o alguma aten\u00e7\u00e3o eram uma vasta fronte meditativa e os grandes olhos pardos, cheios do brilho profundo e fosforescente que naquele momento derramavam pelo semblante de Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>Havia minutos que, percorrendo a Rua da Quitanda em sentido oposto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do carro, avistara a mo\u00e7a recostada nas almofadas, e sentira a seu aspecto viva impress\u00e3o. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se \u00e0 ombreira de uma porta de escrit\u00f3rio, esqueceu-se naquela ardente contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um solo. Vale onde brotam as paix\u00f5es, como os outros vales da natureza inanimada, ele tem suas esta\u00e7\u00f5es, suas quadras de aridez ou de seiva, de esterilidade ou de abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol produzem na terra uma fermenta\u00e7\u00e3o, que forma o h\u00famus; a semente, caindo a\u00ed, brota com rapidez. Depois das grandes dores e das l\u00e1grimas torrenciais, forma-se tamb\u00e9m no cora\u00e7\u00e3o do homem um h\u00famus poderoso, uma exuber\u00e2ncia de sentimento que precisa de expandir-se. Ent\u00e3o um olhar, um sorriso, que a\u00ed penetre, \u00e9 semente de paix\u00e3o, e pulula com vigor extremo.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o parecia estar nessas condi\u00e7\u00f5es: ele trajava luto pesado, n\u00e3o somente nas roupas negras, como na cor macilenta das faces nuas, e na m\u00e1goa que lhe escurecia a fronte.<\/p>\n<p>Notando Am\u00e9lia a insist\u00eancia do mancebo, ficou vivamente contrariada. Aquele olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma labareda oculta, incutia nela um desassossego \u00edntimo. Agitava-se impaciente, como uma criatura no meio de um sono inquieto ou mesmo de um ligeiro pesadelo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que abriu o chapeuzinho-de-sol, para interceptar a contempla\u00e7\u00e3o apaixonada de que era objeto. Nesta ocasi\u00e3o, Laura, que freq\u00fcentemente se debru\u00e7ava para ver quando vinha o lacaio, retraiu o corpo com vivacidade:<\/p>\n<p>&#8212; Enfim; a\u00ed vem!<\/p>\n<p>&#8212; Felizmente! disse Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>O lacaio aproximava-se a passos medidos; trazia na m\u00e3o um embrulho de papel azul, que o atrito dos dedos e a oscila\u00e7\u00e3o dos objetos envoltos desfizera, obrigando o portador a apert\u00e1-lo de vez em quando.<\/p>\n<p>Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio j\u00e1 tocava o estribo da carruagem, Am\u00e9lia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:<\/p>\n<p>&#8212; Vamos! vamos!<\/p>\n<p>Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o embrulho na caixa da vit\u00f3ria, rodear em dois saltos e galgar o estribo da almofada, foi para o criado, habituado a essa manobra, neg\u00f3cio de um instante. N\u00e3o percebera ele, por\u00e9m, que abrindo-se o papel com a corrida, um dos objetos nele contidos escorregara e, justamente na ocasi\u00e3o de deitar o embrulho na caixa do carro, ca\u00edra na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das m\u00e3os do lacaio, tivera um pressentimento do acidente, ao ver o papel desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo-o por baixo do assento da vit\u00f3ria, ela debru\u00e7ou-se ainda uma vez para verificar se com efeito alguma coisa havia ca\u00eddo. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com estas palavras de contrariedade:<\/p>\n<p>&#8212; Como ele manda isto! Por mais que se lhe recomende!<\/p>\n<p>Laura nada viu, porque j\u00e1 a vit\u00f3ria rodava ligeiramente sobre os paralelep\u00edpedos.<\/p>\n<p>Nesse momento, por\u00e9m, dobrando a Rua da Assembl\u00e9ia, se aproximara um mo\u00e7o elegante n\u00e3o s\u00f3 no traje do melhor gosto, como na gra\u00e7a de sua pessoa: era sem d\u00favida um dos pr\u00edncipes da moda, um dos le\u00f5es da Rua do Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distinto que n\u00e3o tinha usurpado o t\u00edtulo.<\/p>\n<p>O mancebo viu casualmente o lacaio quando passara por ele correndo, e percebeu que um objeto ca\u00edra do embrulho. Naturalmente n\u00e3o se dignaria abaixar para apanh\u00e1-lo, nem mesmo deitar-lhe um olhar, se n\u00e3o visse aparecer ao lado da vit\u00f3ria o rosto de uma senhora, que o aspecto da carruagem indicava pertencer \u00e0 melhor sociedade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o apressou-se, para ter ocasi\u00e3o de fazer uma fineza, e pretexto de conhecer a senhora, que lhe parecera bonita. Os le\u00f5es s\u00e3o apaixonad\u00edssimos de tais encontros; acham-lhes um sainete que destr\u00f3i a monotonia das rela\u00e7\u00f5es habituais.<\/p>\n<p>Quando o mo\u00e7o ergueu-se com o objeto na m\u00e3o, j\u00e1 o carro dobrava a Rua Sete de Setembro. Ficou ele um momento indeciso, olhando em torno, como se esperasse alguma informa\u00e7\u00e3o a respeito da pessoa a quem pertencia o carro. Sem d\u00favida a senhora era conhecida em alguma loja de fazendas; talvez tivesse a\u00ed feito compras.<\/p>\n<p>N\u00e3o obtendo, por\u00e9m, informa\u00e7\u00f5es, nem colhendo resultado da pergunta que fizera a um caixeiro pr\u00f3ximo, resolveu-se a meter o objeto no bolso e seguir seu caminho.<\/p>\n<h4>II<\/h4>\n<p>Hor\u00e1cio de Almeida, o nosso le\u00e3o, voltou a casa \u00e0 hora do costume, quatro da tarde.<\/p>\n<p>Os sucessivos encontros da Rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a visita indispens\u00e1vel ao alfaiate; as anedotas do Alc\u00e1zar na noite antecedente; a cr\u00f4nica anacre\u00f4ntica do Rio de Janeiro, chistosamente comentada; algumas rajadas de maledic\u00eancia, que \u00e9 a pimenta social; todas essas ocupa\u00e7\u00f5es importantes, que absorvem a vida do le\u00e3o, distra\u00edram Hor\u00e1cio a ponto de se esquecer ele do objeto guardado no bolso do palet\u00f3.<\/p>\n<p>Como admitir que um pr\u00edncipe da moda n\u00e3o aproveitasse a aventura do carro, para sobre ela bordar um romance de rua, com que excitasse a curiosidade dos amigos? Realmente \u00e9 admir\u00e1vel; e seria incompreens\u00edvel se n\u00e3o fosse a circunst\u00e2ncia de ter poucos passos adiante encontrado uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso le\u00e3o arrastava&#8230; ia dizer a asa, mas isso seria anacronismo; dizia-se no tempo em que os le\u00f5es se chamavam galos; hoje deve dizer-se arrastar a juba; \u00e9 mais bonito e indica mais submiss\u00e3o. Arrastar a asa \u00e9 enfunar-se; arrastar a juba \u00e9 prostrar-se.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 quando, encostado em sua otomana, descansava para o jantar, que Hor\u00e1cio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque, lembrou-se do objeto. Teve ent\u00e3o curiosidade de examin\u00e1-lo: sabia o que era; na ocasi\u00e3o de apanh\u00e1-lo reconhecera o p\u00e9 de uma botina de senhora; mas n\u00e3o fizera grande reparo.<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, que de novo o tinha diante dos olhos, a s\u00f3s em seu aposento, e despreocupado da id\u00e9ia de o restituir, Hor\u00e1cio achou o objeto digno de s\u00e9ria aten\u00e7\u00e3o; e aproximando-se da janela, come\u00e7ou um exame consciencioso.<\/p>\n<p>Era uma botina, j\u00e1 o sabemos; mas que botina! Um primor de pelica e seda, a concha mimosa de uma p\u00e9rola, a faceira irm\u00e3 do lindo chapim de ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flor, sob a inspira\u00e7\u00e3o de algum artista ignoto, de algum poeta de ceir\u00f3 e torqu\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o era, por\u00e9m, a perfei\u00e7\u00e3o da obra, nem mesmo a excessiva delicadeza da forma, o que seduzia o nosso le\u00e3o; eram sobretudo os debuxos suaves, as ondula\u00e7\u00f5es voluptuosas que tinham deixado na pelica os contornos do pezinho desconhecido. A botina fora servida, e muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua primitiva cor bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante uso.<\/p>\n<p>Se fosse um cal\u00e7ado em folha, sa\u00eddo da loja, n\u00e3o teria grande valor aos olhos do nosso le\u00e3o, habituado n\u00e3o s\u00f3 a ver, como a cal\u00e7ar, as obras primas de Milli\u00e8s e Camp\u00e0s. Talvez reparando muito naquela pe\u00e7a que tinha nas m\u00e3os, notasse maior eleg\u00e2ncia no corte, e um apuro escrupuloso na execu\u00e7\u00e3o; por\u00e9m mais natural seria escapar-lhe essa m\u00ednima circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mas a botina achada j\u00e1 n\u00e3o era um artigo de loja, e sim o traste mimoso de alguma beleza, o gentil companheiro de uma mo\u00e7a formosa, de quem ainda guardava a impress\u00e3o e o perfume. O rosto estufava mostrando o firme relevo do pezinho arqueado. Na sola se desenhava a curva graciosa da planta sutil, que s\u00f3 nas extremidades beijava o ch\u00e3o, como o silfo que frisa a superf\u00edcie do lago com a ponta das asas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um aroma, que s\u00f3 tem uma flor na terra, o aroma da mulher bonita: fragr\u00e2ncia voluptuosa que se exala ao mesmo tempo do corpo e da alma; perfume inebriante que penetra no cora\u00e7\u00e3o como o amor volatilizado. A botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda, que se elevava como a corola de um l\u00edrio, derramava, como a flor, ondas suaves.<\/p>\n<p>O mancebo colocara longe de si o charuto para n\u00e3o desvanecer com o fumo os bafejos daquele odor suave. N\u00e3o havia a\u00ed o menor laivo de ess\u00eancia artificial preparada pela arte do perfumismo; era a pura exala\u00e7\u00e3o de uma c\u00fatis acetinada, esse h\u00e1lito de sa\u00fade que perspira atrav\u00e9s da fina e macia tez, e como atrav\u00e9s das p\u00e9talas de uma rosa.<\/p>\n<p>De repente uma id\u00e9ia perpassou no esp\u00edrito do mo\u00e7o, que o fez estremecer. Essa botina gr\u00e1cil, em que mal caberia sua m\u00e3o aristocr\u00e1tica, essa botina mais mimosa do que sua luva de pelica, n\u00e3o podia ter um n\u00famero maior do que o de seus anos, vinte e nove!<\/p>\n<p>&#8212; Ser\u00e1 de uma menina! murmurou ele um tanto desconsolado.<\/p>\n<p>Examinou novamente a obra-prima, voltou-a de todos os lados, apalpou docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da concha, que servira de rega\u00e7o ao feiticeiro pezinho. Depois de alguns instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o semblante de Hor\u00e1cio<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 de mo\u00e7a, \u00e9 de mulher! murmurou ele. Aqui est\u00e3o os sinais evidentes; n\u00e3o podem falhar. A f\u00e1bula de \u00c9dipo \u00e9 uma verdade eterna. no enigma da esfinge est\u00e1 realmente o mito da vida. O homem \u00e9 o animal que de manh\u00e3 anda sobre quatro p\u00e9s; ao meio-dia sobre dois; \u00e0 tarde sobre tr\u00eas. Na inf\u00e2ncia, a criatura, como a planta, conserva-se rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda a nutri\u00e7\u00e3o; as m\u00e3os servem-lhe de p\u00e9s. Depois da juventude, na \u00e9poca da expans\u00e3o, a criatura se lan\u00e7a para o espa\u00e7o, exalta-se; \u00e9 a \u00e1rvore que hasteia e procura as nuvens; a planta pede ao c\u00e9u os orvalhos e a luz do sol; a alma pede a cren\u00e7a, a f\u00e9, a esperan\u00e7a, de que se geram as flores, que n\u00f3s chamamos paix\u00f5es. Na velhice, o homem se inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; \u00e9 o p\u00f3, que, depois de revoar no espa\u00e7o, deposita-se outra vez no ch\u00e3o. Ent\u00e3o o velho precisa do bord\u00e3o; uma das m\u00e3os torna-se p\u00e9 e cal\u00e7a esse coturno da mais triste das trag\u00e9dias humanas, a decrepitude.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio observou de novo atentamente o objeto que tinha entre as m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8212; A menina de quinze anos j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a cor\u00e7a de quatro patas; n\u00e3o est\u00e1 mais na alvorada da vida, na puer\u00edcia; tamb\u00e9m ainda n\u00e3o chegou ao meio-dia do qual aproxima-se. Contudo, seu andar conserva ainda aquela atra\u00e7\u00e3o para a terra; \u00e9 pesado; calca o ch\u00e3o com for\u00e7a; tem o quer que seja de sacudido, que revela os impulsos da alma para desprender-se do p\u00f3 e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que ora se levanta, ora se submerge. Se esta botina fosse de uma menina, aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto cambado. \u00c9 uma observa\u00e7\u00e3o que todo sapateiro confirmaria: o menino gasta o cal\u00e7ado pela sola, o homem pelo couro; a raz\u00e3o, o sapateiro a ignora, mas o fil\u00f3sofo a conhece: o menino \u00e9 o inseto que rasteja, a larva; o homem \u00e9 o inseto que voa, o besouro; aquele anda com o ventre, este com a asa.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio sorriu.<\/p>\n<p>&#8212; Esta botina \u00e9 de mo\u00e7a; e mo\u00e7a em todo o vi\u00e7o da juventude: a sola apenas ro\u00e7ada junto \u00e0 ponta, o salto quase intato, n\u00e3o est\u00e3o descrevendo com a maior eloq\u00fc\u00eancia a sutileza do passo ligeiro? Eu sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa, como disse o poeta; a deusa, a V\u00eanus deste olimpo em que vivemos, a mulher. S\u00f3 quando toda seiva se precipita para o cora\u00e7\u00e3o, quando germinam os bot\u00f5es que mais tarde abrir\u00e3o em flor, s\u00f3 nesse momento de assun\u00e7\u00e3o \u00e9 que a mulher tem este andar sublime e augusto. \u00c9 o andar do passarinho que, ro\u00e7ando a relva, sente o impulso das asas; \u00e9 o andar do astro nascente, caminhando para a ascens\u00e3o; \u00e9 o andar do anjo que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao c\u00e9u; e \u00e9, finalmente, a ela\u00e7\u00e3o d&#8217;alma que aspira de Deus os efl\u00favios do amor, do amor, \u00fanico ambiente do cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Nisto o mo\u00e7o descobriu na fivela do la\u00e7o da botina alguma coisa que lhe excitou vivo reparo; chegando-se \u00e0 luz, viu as voltas de um fio, que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de le\u00e3o da moda. Com alguma paci\u00eancia retirou um longo cabelo castanho e muito crespo.<\/p>\n<p>&#8212; Outra prova de que ali\u00e1s n\u00e3o carecia! Este cabelo \u00e9 de mulher; n\u00e3o h\u00e1 menina que possa ter. Quatro palmos, al\u00e9m do que se partiu naturalmente! Bem se v\u00ea que \u00e9 uma palmeira frondosa, e n\u00e3o um arbusto! Tem o cabelo castanho e crespo, duas coisas lindas sem d\u00favida, embora minha paix\u00e3o seja a tran\u00e7a basta e lisa, negra como uma asa de corvo. Esse negrume d\u00e1 \u00e0 mulher o quer que seja de sat\u00e2nico: lembra que ela tamb\u00e9m gerou se da terra; n\u00e3o \u00e9 anjo somente; n\u00e3o \u00e9 somente filha do c\u00e9u. Eu n\u00e3o posso suportar a mulher-serafim, que parece desdenhar do mundo onde vive, e do p\u00f3 de que \u00e9 feita.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio voltou a botina.<\/p>\n<p>&#8212; Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que \u00e9 uma cor ins\u00edpida de cabelo! Que me importa isto? Tenho alguma coisa com seu cabelo? O que amo nela \u00e9 o p\u00e9: este p\u00e9 silfo, este p\u00e9 anjo, que me fascina, que me arrebata, que me enlouquece!&#8230;<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio, que at\u00e9 ent\u00e3o se contentava com olhar e apalpar a botina, inclinou-se e beijou-a no rosto; mas t\u00edmida e respeitosamente. N\u00e3o era essa a imagem do p\u00e9 sedutor, que ele adorava como um \u00eddolo?<\/p>\n<p>&#8212; Mas onde encontr\u00e1-lo? como reconhec\u00ea-lo? exclamou dolorosamente Hor\u00e1cio, sentindo a realidade da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nenhum ind\u00edcio que lhe revelasse o nome da mulher a quem pertencia essa gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os tra\u00e7os de sua passagem A lembran\u00e7a vaga de libr\u00e9 de um lacaio era o \u00fanico vest\u00edgio que restava, mas com este dificilmente poderia descobrir o objeto de sua adora\u00e7\u00e3o H\u00e1 tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas libr\u00e9s que se confundem! Talvez nunca mais encontrasse aquele que procurava; e encontrando, nem o reconhecesse<\/p>\n<p>&#8212; Desgra\u00e7ado! dizia o le\u00e3o. Quase nem o olhaste; mas podias tu adivinhar, Hor\u00e1cio, que tesouro deixara cair aquele bruto?<\/p>\n<p>O mancebo inclinara ao peito a bela cabe\u00e7a esmorecida; a ventura lhe tinha sorrido de longe, para escarnecer dele, o le\u00e3o mais querido das belezas fluminenses, o \u00c1tila do Cassino, o Genserico da Rua do Ouvidor<\/p>\n<p>De repente ergueu-se dum \u00edmpeto:<\/p>\n<p>&#8212; Hei de possu\u00ed-lo!&#8230; exclamou ele com o tom com que Alexandre se prometeu o imp\u00e9rio da \u00c1sia.<\/p>\n<h4>III<\/h4>\n<p>Ningu\u00e9m imagina que belos talentos sorve essa voragem do mundo que chamam a vida elegante.<\/p>\n<p>S\u00e3o como as \u00e1rvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e consomem toda a seiva nessa gala est\u00e9ril e ef\u00eamera. Nunca elas d\u00e3o fruto, nem sequer flor.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio de Almeida era uma de tantas intelig\u00eancias desperdi\u00e7adas no incessante bul\u00edcio da moda.<\/p>\n<p>Muitos poetas, dos que t\u00eam seu nome estampado em rosto de livro n\u00e3o empregaram na f\u00e1brica de seus versos o aticismo, a inspira\u00e7\u00e3o e a gra\u00e7a com que o nosso le\u00e3o torneava no baile um galanteio, ou agu\u00e7ava um epigrama.<\/p>\n<p>Pintores s\u00e3o festejados, que n\u00e3o sabem o segredo dos toques delicados, e do supremo gosto, que Hor\u00e1cio imprimia no la\u00e7o de sua gravata, em suas maneiras distintas, nos m\u00ednimos acidentes de seu traje apurado.<\/p>\n<p>E a fisiologia?<\/p>\n<p>Poucos homens conheciam como Hor\u00e1cio o cora\u00e7\u00e3o da mulher; porque bem raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais s\u00e1bio professor ficaria estupefato da lucidez admir\u00e1vel, com que o le\u00e3o costumava ler nesse caos da paix\u00e3o, que a anatomia chamou cora\u00e7\u00e3o de mulher.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras dos mestres, coligiu observa\u00e7\u00f5es alheias, e arranjou um sistema sobre o que n\u00e3o sofre regras: sobre a paix\u00e3o cuja ess\u00eancia \u00e9 o imprevisto, o an\u00f4malo, o indefin\u00edvel.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, Hor\u00e1cio tinha estudado na realidade da vida; devassara os refolhos do p\u00f3lipo, lhe sentira as pulsa\u00e7\u00f5es, e fizera experi\u00eancias in anima Vili. N\u00e3o fatigou sua mem\u00f3ria com a in\u00fatil bagagem dos termos t\u00e9cnicos e das no\u00e7\u00f5es cient\u00edficas: lia os hier\u00f3glifos do amor com a linguagem garrida do homem da moda.<\/p>\n<p>A perspic\u00e1cia do olhar, a profundeza da investiga\u00e7\u00e3o e a certeza de observa\u00e7\u00e3o, com que o nosso le\u00e3o sondava o abismo do cora\u00e7\u00e3o e rastreava no semblante da mulher os vagos sintomas de uma inclina\u00e7\u00e3o nascente, ou de uma afei\u00e7\u00e3o expirante, s\u00f3 os grandes m\u00e9dicos possuem t\u00e3o altos dotes.<\/p>\n<p>Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu belo talento pelas salas e pontos de reuni\u00e3o. As riquezas de sua elevada intelig\u00eancia, as ia ele esparzindo nas elegantes futilidades de um \u00f3cio t\u00e3o laborioso, como \u00e9 o far niente de um le\u00e3o.<\/p>\n<p>Consumir o tempo n\u00e3o se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo pesado das horas sem ocupa\u00e7\u00e3o; h\u00e1 nada mais dif\u00edcil para o homem que ignora o trabalho?<\/p>\n<p>Se o Almeida poupasse desse tempo t\u00e3o esperdi\u00e7ado alguns momentos no dia para dedic\u00e1-los a um fim s\u00e9rio e \u00fatil, \u00e0 ci\u00eancia, \u00e0 literatura, \u00e0 arte, que belos triunfos n\u00e3o obteria sua rica imagina\u00e7\u00e3o servida por um esp\u00edrito cintilante?<\/p>\n<p>Mas o nosso le\u00e3o tinha a este respeito id\u00e9ias exc\u00eantricas.<\/p>\n<p>&#8212; A pol\u00edtica, dizia ele, quando n\u00e3o d\u00e1 em especula\u00e7\u00e3o, passa a mistifica\u00e7\u00e3o. A ci\u00eancia, se escapa de mania, torna-se uma gleba em que o s\u00e1bio trabalha para o n\u00e9scio. Literatura e arte s\u00e3o pl\u00e1gios; quem pode fazer poesia e romance ao vivo, n\u00e3o se d\u00e1 ao trabalho de reproduzi-los; nem contempla est\u00e1tuas, quem lhes admira os modelos animados e palpitantes.<\/p>\n<p>Com tais paradoxos, Hor\u00e1cio n\u00e3o achava emprego mais digno para a intelig\u00eancia, do que a dif\u00edcil ci\u00eancia de consumir gradualmente a vida e atravessar sem fadiga e sem reflex\u00e3o por este vale de l\u00e1grimas, em que todos peregrinamos<\/p>\n<p>A mulher era para ele a obra suprema, o verbo da cria\u00e7\u00e3o. Toda a religi\u00e3o como toda a felicidade, toda a ci\u00eancia como toda a poesia, Deus a tinha encarnado nesse misto incompreens\u00edvel do sublime e do torpe, do celeste e do sat\u00e2nico: am\u00e1lgama de luz e cinzas, de lodo e n\u00e9ctar.<\/p>\n<p>&#8212; Amar \u00e9 adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar \u00e9 estudar a lei da cria\u00e7\u00e3o em seu mais profundo mist\u00e9rio, a mulher. Amar \u00e9 admirar o belo em sua mais espl\u00eandida revela\u00e7\u00e3o; \u00e9 fazer poemas e est\u00e1tuas como nunca as realizou o g\u00eanio humano.<\/p>\n<p>Mas o que sentia Hor\u00e1cio era apenas o culto da forma, o fanatismo do prazer.<\/p>\n<p>O amor, o verdadeiro amor consiste na possess\u00e3o m\u00fatua de duas almas; e essa, pode o homem iludir-se alguma vez, mas quando se realiza, \u00e9 indissol\u00favel. Nada separa duas almas g\u00eameas que prende o v\u00ednculo de sua origem divina.<\/p>\n<p>O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, ele procurava um tipo. Durante dez anos atravessara os sal\u00f5es, como uma galeria de est\u00e1tuas animadas e vivos pain\u00e9is, parando um instante em face dessas obras-primas da natureza.<\/p>\n<p>Vieram uns ap\u00f3s outros todos os tipos: a beleza ardente das regi\u00f5es t\u00e9pidas, ou a suave gentileza da rosa dos Alpes; o moreno voluptuoso ou a alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; o talhe opulento e garboso ou as formas esbeltas e flex\u00edveis.<\/p>\n<p>Seu gosto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se dif\u00edcil. A beleza comum j\u00e1 n\u00e3o o satisfazia; era preciso a obra-prima para excitar-lhe a aten\u00e7\u00e3o e comov\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura ca\u00edram na monotonia. J\u00e1 o le\u00e3o n\u00e3o sentia pela mais bela mulher aqueles entusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo como o de um cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, come\u00e7ou o mo\u00e7o a amar, ou antes a admirar, a mulher em detalhe. Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a princ\u00edpio uma boca bonita, cofre de p\u00e9rolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veio depois uma tran\u00e7a densa e negra, como a asa da procela que se inflama. Uma cintura de s\u00edlfide, um colo de cisne, um requebro sedutor, um sinal da face, uma gra\u00e7a especial, um n\u00e3o sei que: tudo recebeu culto do nosso le\u00e3o.<\/p>\n<p>Como um conviva, a quem as iguarias do banquete j\u00e1 n\u00e3o excitam, sua alma babujava na sala essas gulosinas. Mas afinal embotou-se; e o prazer n\u00e3o foi para ela mais do que a vulgar satisfa\u00e7\u00e3o de um h\u00e1bito.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o cortejava as senhoras como uma ocupa\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e0 sua vida, como o desempenho da tarefa di\u00e1ria; mas sem a menor como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Amar era um entretenimento do esp\u00edrito, como passear a cavalo, freq\u00fcentar o teatro, jogar uma partida de bilhar.<\/p>\n<p>O amor j\u00e1 n\u00e3o tinha novidades nem segredos para ele, que o gozara em todas as formas; na com\u00e9dia e no drama; no id\u00edlio e na ode. Como Richelieu, diziam at\u00e9 que ele j\u00e1 o havia calcado com o tac\u00e3o da bota.<\/p>\n<p>Nestas circunst\u00e2ncias bem se compreende a impress\u00e3o profunda que nele produzia a mimosa botina, achada naquela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Almeida tinha admirado a mulher em todos os tipos e em todos os seus encantos; mas nunca a tinha amado sob a forma sedutora de um pezinho faceiro. Era realmente para surpreender. Como lhe passara despercebido esse cond\u00e3o m\u00e1gico da mulher, a ele que julgava ter esgotado todas as emo\u00e7\u00f5es do amor?<\/p>\n<p>Sucedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa alma enervada por longa apatia, a rea\u00e7\u00e3o foi violenta. Inflamou-se a imagina\u00e7\u00e3o e especialmente com o toque do mist\u00e9rio que trazia a aventura. Se o dono da botina, o sonhado pezinho, se mostrasse desde logo, n\u00e3o produziria o mesmo efeito; n\u00e3o teria o sabor do desconhecido, que \u00e9 irm\u00e3o do proibido.<\/p>\n<p>Imagine, quem conhecer o cora\u00e7\u00e3o humano, a veem\u00eancia dessa paix\u00e3o, excitada pelo t\u00e9dio do passado e alimentada por uma imagina\u00e7\u00e3o ociosa. De que loucuras n\u00e3o \u00e9 capaz o homem que se torna lud\u00edbrio de sua fantasia?<\/p>\n<p>As extravag\u00e2ncias de Hor\u00e1cio, contemplando a botina, verdadeiras infantilidades de homem feito, bem revelavam a agita\u00e7\u00e3o dessa exist\u00eancia, embotada para o verdadeiro amor e gasta pelo prazer.<\/p>\n<p>N\u00e3o se riam, homens s\u00e9rios e graves, n\u00e3o zombem de semelhantes extravag\u00e2ncias; s\u00e3o elas o del\u00edrio da febre do materialismo que ataca o s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Essa paix\u00e3o de Hor\u00e1cio, o que \u00e9 sen\u00e3o aberra\u00e7\u00e3o da alma, consagrada ao culto da mat\u00e9ria? A voracidade insaci\u00e1vel do desejo vai criando dessas monstruosidades incompreens\u00edveis.<\/p>\n<p>Sucede a esta embriaguez do amor o mesmo que \u00e0 embriaguez do \u00e1lcool. A princ\u00edpio basta-lhe o vinho fino e aristocr\u00e1tico; depois carece da aguardente; e por fim j\u00e1 n\u00e3o a satisfaz a infus\u00e3o do gengibre em rum, isto \u00e9, a larva de um vulc\u00e3o preparada \u00e0 guisa de grogue.<\/p>\n<h4>IV<\/h4>\n<p>Ao mesmo tempo que o nosso le\u00e3o, entrava Leopoldo de Castro na modesta habita\u00e7\u00e3o que ent\u00e3o ocupava na Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando lhe fugira a celeste vis\u00e3o, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa \u00e0quele rosto encantador. O passo era r\u00e1pido e o olhar ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela for\u00e7a da paix\u00e3o, pelo \u00edm\u00e3 das centelhas magn\u00e9ticas que desferia a alma.<\/p>\n<p>Fosse ilus\u00e3o dos sentidos perturbados pela como\u00e7\u00e3o interior, ou breve e confusa percep\u00e7\u00e3o da realidade, julgou o mo\u00e7o ver, no momento do dobrar o carro pela Rua Sete de Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e aparecer de relance um rosto alvo, donde escapou-se vivo e r\u00e1pido olhar.<\/p>\n<p>Leopoldo n\u00e3o tinha o intento de alcan\u00e7ar, nem mesmo seguir, o carro que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperan\u00e7a de que um obst\u00e1culo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe permitisse outra vez contemplar a mo\u00e7a. Quando, por\u00e9m, isso n\u00e3o sucedesse, consolava-o a id\u00e9ia de conhecer a dire\u00e7\u00e3o que tomaria a linda vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8212; Se eu soubesse ao menos para que lado mora ela!&#8230; Esse ponto seria o meu horizonte, o meu c\u00e9u. Me voltaria para ali quando adorasse a Deus e quando conversasse com ela. Amaria as estrelas, as nuvens e at\u00e9 as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as cal\u00e7adas e at\u00e9 a poeira desse arrabalde da cidade.<\/p>\n<p>O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem destino. N\u00e3o era tanto a esperan\u00e7a de ver a mo\u00e7a, ou somente o carro, como a necessidade de ocupar seu esp\u00edrito, o que o impelia nessa persegui\u00e7\u00e3o de uma sombra.<\/p>\n<p>&#8212; Eu tornarei a v\u00ea-la, pensava ele consigo; e ela me h\u00e1 de amar, tenho convic\u00e7\u00e3o. O amor \u00e9 um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se resume nele; que a lei da atra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a lei da simpatia; os p\u00f3los s\u00e3o a cabe\u00e7a e o cora\u00e7\u00e3o, na terra como no homem. Se ela for a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a mesma que se revelou \u00e0 minha paix\u00e3o, aquela a que devo unir-me eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ela, como ela para mim, impelidos por uma for\u00e7a misteriosa, por m\u00fatua aspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o animo repousado por essa convic\u00e7\u00e3o que nele se derramara, entrou Leopoldo em casa. A\u00ed o esperava o isolamento em que se ia escoando sua vida, depois da perda de uma irm\u00e3 a quem adorava.<\/p>\n<p>Nessa irm\u00e3 tinha ele resumido todas as afei\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia, prematuramente arrebatada \u00e0 sua ternura; o amor filial, que n\u00e3o tivera tempo de expandir-se, a amizade de um irm\u00e3o, seu companheiro de inf\u00e2ncia, todos esses sentimentos cortados em flor, ele os transportara para aquele ente querido, que era a imagem de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Essa perda deixara um v\u00e1cuo imenso no cora\u00e7\u00e3o de Leopoldo; a princ\u00edpio enchera-o a dor, depois a saudade; agora essa mesma terna saudade sentia-se desamparada na profunda solid\u00e3o daquele cora\u00e7\u00e3o ermo. O mancebo carecia de uma afei\u00e7\u00e3o para povoar esse deserto de sua alma, de uma voz que repercutisse nesse l\u00fagubre sil\u00eancio. \u00c9 t\u00e3o doce partilhar sua melancolia, ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. S\u00e3o dois ombros para a cruz, e dois peitos para a alegria; alivia-se o peso, mas duplica-se o gozo.<\/p>\n<p>Ao cair da tarde, quando o crep\u00fasculo j\u00e1 desdobrava sobre a cidade o v\u00e9u de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado \u00e0 janela de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolfados no azul di\u00e1fano do c\u00e9u, onde cintilava a primeira estrela. A seus p\u00e9s desdobrava-se a ba\u00eda pl\u00e1cida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas, caprichosamente recortadas.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito do mo\u00e7o n\u00e3o se embebia decerto na perspectiva dessa encantadora natureza, sempre admirada e sempre nova. Ao contr\u00e1rio, abandonava-se todo \u00e0s recorda\u00e7\u00f5es de seu encontro pela manh\u00e3 e aos enlevos que lhe deixara a contempla\u00e7\u00e3o da linda mo\u00e7a. Passava e repassava em sua mem\u00f3ria, como em um cadinho, todas as circunst\u00e2ncias m\u00ednimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que assomou a vis\u00e3o at\u00e9 que desapareceu por \u00faltimo ao dobrar o canto da rua.<\/p>\n<p>Achava nisso o mesmo prazer que um menino guloso experimenta em chupar novamente os favos j\u00e1 saboreados: l\u00e1 ficou um raio de mel, que o l\u00e1bio \u00e1vido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da mo\u00e7a, avivados pela maior contens\u00e3o do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Houve uma ocasi\u00e3o em que o mancebo quis representar em sua lembran\u00e7a a imagem da mo\u00e7a; naturalmente come\u00e7ou interrogando sua mem\u00f3ria a respeito dos tra\u00e7os principais. Como era ela? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou morena? Que cor tinham seus olhos?<\/p>\n<p>A nenhuma dessas interroga\u00e7\u00f5es satisfez a mem\u00f3ria; porque n\u00e3o recebera a impress\u00e3o particular de cada um dos tra\u00e7os da mo\u00e7a. N\u00e3o obstante, a apari\u00e7\u00e3o encantadora ressurgia dentro de sua alma; ele a revia tal como se desenhara a seus olhos algumas horas antes. Era a imagem di\u00e1fana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me lembro de seus tra\u00e7os, n\u00e3o posso lembrar-me!&#8230; murmurava no \u00edntimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: v\u00ea-se a chama, o esplendor, e nem se repara no espectro que a flama envolve como uma roupagem. Ela \u00e9 minha luz; n\u00e3o sei a cor e a forma que tem, mas sei que cintila, que me deslumbra; que inunda meu ser de uma aurora celeste. N\u00e3o poderia descrev\u00ea-la, como um poeta&#8230; Mas que importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>As p\u00e1lpebras do mancebo cerraram-se coando apenas uma r\u00e9stia de olhar, que se embebia nas alvas espirais da fuma\u00e7a do charuto. Percebia-se que naquela n\u00e9voa se debuxava \u00e0 sua imagina\u00e7\u00e3o a sedutora imagem, diante da qual ele ca\u00eda em \u00eaxtases de uma do\u00e7ura inef\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8212; Quem sabe? Talvez n\u00e3o seja ela o que nos bailes se chama uma mo\u00e7a bonita; talvez n\u00e3o tenha as fei\u00e7\u00f5es lindas e o talhe elegante. Mas eu a amo!&#8230; O amor \u00e9 sol do cora\u00e7\u00e3o; imprime-lhe o brilho e o matiz! V\u00eanus, a deusa da formosura, surgindo da espuma das ondas, n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o o mito da mulher amada, surgindo dentre as puras ilus\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o! O que eu admiro nela, o que me enleva, \u00e9 sua beleza celeste; \u00e9 o anjo que transparece atrav\u00e9s do inv\u00f3lucro terrestre; \u00e9 a alma pura e imaculada que se derrama de seus l\u00e1bios em sorrisos, e a envolve como a cintila\u00e7\u00e3o de uma estrela.<\/p>\n<p>Leopoldo j\u00e1 n\u00e3o estava s\u00f3 na exist\u00eancia; tinha para acompanh\u00e1-lo na esperan\u00e7a essa doce apari\u00e7\u00e3o, como para partilhar a saudade tinha a mem\u00f3ria querida de sua irm\u00e3. O cora\u00e7\u00e3o aproximou as duas imagens; ligou-as por algum v\u00ednculo misterioso; e criou assim uma fam\u00edlia ideal, em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.<\/p>\n<p>Nas horas do trabalho, o mo\u00e7o absorvia-se completamente nas ocupa\u00e7\u00f5es habituais e cerrava sua alma para n\u00e3o deixar que as mis\u00e9rias do mundo a\u00ed penetrando profanassem o templo de sua adora\u00e7\u00e3o, o templo da esperan\u00e7a e da saudade. Fora dessas longas horas, encerrava-se naquele asilo e a\u00ed vivia.<\/p>\n<p>Alguns dias depois do encontro da Rua da Quitanda, o Castro percorrendo distraidamente os jornais da manh\u00e3, deu com os olhos sobre os an\u00fancios de espet\u00e1culo, coisa que desde muito tempo n\u00e3o existia para ele. Representava-se no Teatro L\u00edrico a L\u00facia de Lamermoor, o mais sublime poema de melancolia, que j\u00e1 se escreveu na l\u00edngua dos anjos.<\/p>\n<p>O mancebo teve um desejo irresist\u00edvel de ir aquela noite ao espet\u00e1culo, apesar de conservar ainda o luto pesado. N\u00e3o compreendia esse capricho de seu cora\u00e7\u00e3o; atribuiu-o ao encanto das reminisc\u00eancias daquela m\u00fasica t\u00e3o triste, e tamb\u00e9m daquele amor t\u00e3o estremecido, que os homens quiseram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no t\u00famulo. Ele ia saturar-se de tristeza; n\u00e3o havia, portanto, profana\u00e7\u00e3o de uma dor santa.<\/p>\n<p>Eram perto de dez horas; cantava-se o final do segundo ato da \u00f3pera, e Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, por\u00e9m, ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote de segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e ba\u00e7o que se escapava de sua pupila iluminou-se de fogos sombrios e ardentes.<\/p>\n<p>Vira a mulher amada.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia estava nessa noite em uma de suas horas de inspira\u00e7\u00e3o, a mulher bela tem, como o homem de intelig\u00eancia, em certos momentos influi\u00e7\u00f5es en\u00e9rgicas de poesia; nessas ocasi\u00f5es ambos irradiam- a mulher fica espl\u00eandida, o homem sublime.<\/p>\n<p>O talhe esbelto da mo\u00e7a desenhava-se atrav\u00e9s da n\u00edvea transpar\u00eancia de um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a fronte o diadema de suas belas tran\u00e7as, donde resvalavam dois cachos soberbos, que brincavam sobre o colo. Os cabeleireiros chamam esses cachos de arrependimentos, repentirs. Por que motivo? A alma que se arrepende envolve-se daquela forma; o pesar a confrange. J\u00e1 se v\u00ea que os cabeleireiros tamb\u00e9m s\u00e3o poetas.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi, por\u00e9m, o suave perfil da mo\u00e7a, nem os contornos maci\u00e7os de suas formas gentis, o que arrebatou o esp\u00edrito do mancebo. Ele s\u00f3 viu a luz, o brilho d&#8217;alma, rorejando do sorriso. Contemplava a rosa, embebia-se nela, sem contar-lhe as p\u00e9talas.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia, que apoiava o lindo bra\u00e7o sobre a almofada de veludo da balaustrada, prestava aten\u00e7\u00e3o \u00e0 cena, recolhendo `as vezes a vista para discorr\u00ea-la vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o pano caiu, conservou-se na mesma posi\u00e7\u00e3o, conversando com sua m\u00e3e e Laura que ali estava de visita. Ent\u00e3o voltou rapidamente o rosto, e deixou cair sobre a plat\u00e9ia um olhar s\u00fabito e vivo. Foi uma centelha el\u00e9trica, listrando no espa\u00e7o, para logo apagar-se.<\/p>\n<p>Revelou-se no semblante da mo\u00e7a alguma inquieta\u00e7\u00e3o e vis\u00edvel inc\u00f4modo. Quis disfar\u00e7ar, mas afinal ergueu-se, para ocultar-se no interior do camarote, por detr\u00e1s de Laura, a qual ocupava o outro lugar da frente.<\/p>\n<p>O olhar que deitara \u00e0 plat\u00e9ia encontrou o olhar profundo e ardente de Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como estilete para feri-la no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a coluna e o busto de Laura ele via a sombra da mulher a quem amava, n\u00e3o se interrompeu seu enlevo. De vez em quando passava-lhe pelo rosto um lampejo sutil, no qual pressentia o olhar furtivo da mo\u00e7a.<\/p>\n<h4>V<\/h4>\n<p>Estava a subir o pano.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia resolvera ficar onde estava, e n\u00e3o tomar o lugar da frente, apesar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolu\u00e7\u00e3o, t\u00e3o solidamente calcada em seu cora\u00e7\u00e3o, caiu de repente: bastou um olhar. Vira na plat\u00e9ia, encostado \u00e0 balaustrada da orquestra, um elegante cavalheiro.<\/p>\n<p>Era Hor\u00e1cio.<\/p>\n<p>O sorriso brando que manava dos l\u00e1bios da mo\u00e7a, como a onda pura e cristalina de um ribeiro, desapareceu ent\u00e3o sob outro sorriso mais brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da vaidade, como o outro era da inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a colocou-se na frente, fazendo real\u00e7ar com a gra\u00e7a de seus movimentos a suprema eleg\u00e2ncia do talhe. Demorou-se mais do que era preciso nesse ato; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quase impercept\u00edvel de misteriosa expans\u00e3o. Dir-se-ia que ela se queria debuxar no quadro iluminado do camarote.<\/p>\n<p>A causa desse elance n\u00e3o o adivinham? O le\u00e3o tinha assestado seu bin\u00f3culo de marfim; e a mo\u00e7a com um irresist\u00edvel assomo de faceirice abandonava-se ao olhar do mancebo.<\/p>\n<p>Durante o ato, Am\u00e9lia distraiu mais a aten\u00e7\u00e3o do semblante p\u00e1lido de Leopoldo. Enleava os olhos na figura elegante de Hor\u00e1cio; prendia-se ao fino bu\u00e7o negro que sombreava o l\u00e1bio desdenhoso do le\u00e3o; embebia-se toda na gra\u00e7a de sua atitude, tentando assim resistir \u00e0 curiosidade inc\u00f4moda que atra\u00eda sua aten\u00e7\u00e3o para o importuno desconhecido.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que, Leopoldo, cuja adora\u00e7\u00e3o era infatig\u00e1vel como a emana\u00e7\u00e3o de uma chama perene, sentiu naquela ocasi\u00e3o a necessidade de dar um repouso \u00e0 sua contempla\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o como se a luz que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, ele p\u00f4de ver destacar-se o perfil gracioso da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Tem o cabelo castanho! E pena! Acreditava que a mulher a quem amasse algum dia. havia de ser loura. \u00c9 a cor do reflexo da luz, deve ser a cor desse v\u00e9u casto que Deus fez para o pudor. A madeixa foi dada \u00e0 mulher para recatar a face que enrubesce e o seio que palpita; essa gaza preciosa deve ser de ouro, ou antes de gra\u00e7a e esplendor.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o j\u00e1 n\u00e3o olhava para Am\u00e9lia; com as p\u00e1lpebras cerradas estava agora vendo-a na penumbra d&#8217;alma.<\/p>\n<p>&#8212; Mas para mim \u00e9 indiferente que tenha o cabelo castanho; podia t\u00ea-lo negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua ess\u00eancia pura e imaculada! Se Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha afli\u00e7\u00e3o, para amparar-me em meu isolamento, para encher de inef\u00e1veis j\u00fabilos meu ser saturado de amarguras, posso eu queixar-me porque o Senhor o vestiu de uma simples t\u00fanica de la, e n\u00e3o de um suntuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabelos louros: pois agora s\u00f3 gosto, s\u00f3 quero, s\u00f3 vejo uns cabelos castanhos, porque pertencem a ela, se impregnam de seu perfume e respiram seu h\u00e1lito!<\/p>\n<p>Terminara o ato. Leopoldo, contemplando a mo\u00e7a, pela primeira vez lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquela mulher que lhe pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consider\u00e1-la como uma coisa sua; parecia-lhe que ningu\u00e9m mais existia sen\u00e3o eles dois.<\/p>\n<p>Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a pergunta. N\u00e3o encontrou; mas ao cabo de alguns instantes descobriu o le\u00e3o em seu posto.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! l\u00e1 est\u00e1 Hor\u00e1cio que pode me informar, ele conhece todo o mundo! Justamente agora p\u00f4s o binoculo para o camarote.<\/p>\n<p>Como desejava sair, dirigiu-se para aquele lado; mas o le\u00e3o, inquieto e preocupado, sa\u00edra a\u00e7odadamente, e subia de um pulo as escadas que o separavam da segunda ordem.<\/p>\n<p>&#8212; Aquela m\u00e3o \u00e9 irm\u00e3 do meu adorado pezinho! N\u00e3o tem a gra\u00e7a dele, sem d\u00favida, nem se compara com aquele mimo de amor; mas h\u00e1 um certo ar de fam\u00edlia, um quer que seja!&#8230;<\/p>\n<p>Assim cogitando, Hor\u00e1cio chegara \u00e0 porta de um camarote, e pela fresta fitara com disfarce o olhar em Laura, cuja m\u00e3o, excessivamente pequena e cal\u00e7ada por uma luva muito justa, custava a segurar o bin\u00f3culo de madrep\u00e9rola.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o, apenas reconheceu o vestido de seda violeta e a m\u00e3ozinha que lhe servira de fanal, abaixou o olhar para a f\u00edmbria do vestido a ver se descobria alguma coisa, o peito, a ponta, a sombra ao menos do pezinho mimoso, do \u00eddolo de sua alma. Mas n\u00e3o foi poss\u00edvel: o vestido arrastava no ch\u00e3o; nenhum movimento fazia ondular a seda; e contudo o mancebo ali ficou im\u00f3vel, palpitante de emo\u00e7\u00e3o, como se esperasse dos l\u00e1bios da mulher amada o monoss\u00edlabo que devia decidir de seu destino.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o que o mancebo concebera pela dona inc\u00f3gnita da botina<br \/>\nachada, longe de se desvanecer, adquirira uma veem\u00eancia extrema. Hor\u00e1cio,<br \/>\no feliz conquistador, o cora\u00e7\u00e3o fogoso e inflam\u00e1vel,<br \/>\nnunca ardera por mulher alguma como agora ardia por aquele pezinho idolatrado.<br \/>\nEra um verdadeiro amor de le\u00e3o, terr\u00edvel e ind\u00f4mito; era<br \/>\num del\u00edrio, uma raiva.<\/p>\n<p>Seus amigos j\u00e1 n\u00e3o o reconheciam; ele aparecia nos bailes,<br \/>\nnos teatros, nos pontos de reuni\u00e3o, de relance, como um meteoro, seguindo<br \/>\nap\u00f3s uma id\u00e9ia fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus<br \/>\npassos. Conversou-se muito na Rua do Ouvidor a este respeito. Uns atribu\u00edam<br \/>\no fato inaudito \u00e0 primeira derrota.<\/p>\n<p>&#8212; Hor\u00e1cio, dizia um de seus amigos, como Napole\u00e3o, s\u00f3<br \/>\ndevia ser derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!<\/p>\n<p>&#8212; Que pensa ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa<br \/>\na\u00ed com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.<\/p>\n<p>Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma veleidade<br \/>\npol\u00edtica, para explicar o mist\u00e9rio. Mas sabia-se que o mo\u00e7o<br \/>\ntinha bom e seguro rendimento; e quanto \u00e0 pol\u00edtica, ele a comparava<br \/>\na uma embriaguez causada pela mais ordin\u00e1ria zurrapa de taberna.<\/p>\n<p>Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:<\/p>\n<p>&#8212; Quando me quiser embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. \u00c9<br \/>\nmais fino, e tamb\u00e9m mais barato, porque n\u00e3o deixa uma irrita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde est\u00f4mago, cujo pre\u00e7o \u00e9 muito melhor ao de uma caixa<br \/>\nde superior clicquot.<\/p>\n<p>A causa real da mudan\u00e7a do le\u00e3o, ningu\u00e9m pois a sabia<br \/>\nnem a suspeitava.<\/p>\n<p>Depois do achado da botina, sua vida tomara um aspecto muito diferente. Naquela<br \/>\nmesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo, terminado o jantar,<br \/>\nmandou aprontar o t\u00edlburi e voltou \u00e0 cidade. Seu aparecimento<br \/>\n\u00e0quela hora na Rua do Ouvidor causou estranheza: um le\u00e3o de<br \/>\nra\u00e7a, como ele, n\u00e3o passeia ao escurecer, sobretudo no centro<br \/>\ndo com\u00e9rcio, onde s\u00f3 ficam os que trabalham. Seria misturar-se<br \/>\ncom os leopardos que aproveitam a aus\u00eancia dos reis da moda, para restolhar<br \/>\nalguma ca\u00e7a retardada.<\/p>\n<p>Correu Hor\u00e1cio todas as lojas de cal\u00e7ado \u00e0 procura de<br \/>\ninforma\u00e7\u00f5es. Para disfar\u00e7ar sua paix\u00e3o, inventara<br \/>\numa aposta, como pretexto \u00e0 sua curiosidade. A um fregu\u00eas como<br \/>\nele, n\u00e3o se recusava t\u00e3o pequeno favor, sobretudo quando levava<br \/>\no sainete de uma anedota de bom-tom. A todos eles o le\u00e3o se dirigia<br \/>\nmais ou menos nestes termos:<\/p>\n<p>&#8212; Fiz uma aposta com uma senhora: que em todo o Rio de Janeiro n\u00e3o<br \/>\nse encontram tr\u00eas mo\u00e7as de 18 anos que calcem n\u00b0 29. Tenho<br \/>\ntodo o empenho em ganhar a aposta, n\u00e3o tanto pelos bot\u00f5es de<br \/>\npunho, como porque, se ela perder, h\u00e1 de ser obrigada a mostrar-me<br \/>\nseu p\u00e9, para eu verificar se \u00e9 realmente desse tamanho. Pe\u00e7o-lhe,<br \/>\npois, que me d\u00ea uma nota das freguesas a quem costuma vender cal\u00e7ado<br \/>\ndeste n\u00famero.<\/p>\n<p>Nesta pesquisa gastou Hor\u00e1cio muitos dias, sem colher o menor resultado.<br \/>\nOs poucos pares de cal\u00e7ado n\u00b0 29, vendidos pelas diferentes lojas,<br \/>\neram destinados a meninas de doze anos ou a pessoas desconhecidas, cuja idade<br \/>\nse ignorava. Apesar de tudo o le\u00e3o n\u00e3o desanimava; todas as<br \/>\nmanh\u00e3s, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em pr\u00e1tica<br \/>\ndurante o dia.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio sentira-se de repente tomado de indefin\u00edvel ternura<br \/>\npor uma classe, de que antes s\u00f3 se lembrava para amaldi\u00e7o\u00e1-la:<br \/>\na classe dos sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovela,<br \/>\no le\u00e3o sentia-se atra\u00eddo para aquele indiv\u00edduo, que talvez<br \/>\nencerrasse o segredo de sua felicidade, seu futuro, sua exist\u00eancia.<br \/>\nOutras vezes, por\u00e9m, tinha de repente uns acessos de ci\u00fame selvagem.<br \/>\nLembrando-se que esse oper\u00e1rio talvez j\u00e1 houvesse tomado medida<br \/>\nao adorado pezinho; que essas m\u00e3os calosas teriam tocado a c\u00fatis<br \/>\nacetinada do anjo de seus pensamentos, o mancebo sentia em si o furor de Otelo<br \/>\ne procurava um punhal no seio; felizmente s\u00f3 achava a carteira, a adaga<br \/>\nde ouro com que neste s\u00e9culo se assassina mais cruelmente.<\/p>\n<p>Depois de consumir as horas em suas indaga\u00e7\u00f5es, ia contemplar<br \/>\na botina, prenda querida de seu amor, e prosseguia \u00e0 noite sua porfia<br \/>\nincans\u00e1vel. Corria os espet\u00e1culos e bailes, com o olhar rastejando<br \/>\npara descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas adora\u00e7\u00f5es.<br \/>\nN\u00e3o dan\u00e7ava para observar melhor o arrega\u00e7ado dos vestidos;<br \/>\nde ordin\u00e1rio andava pelas escadas e portas, a fim de aproveitar o ensejo<br \/>\nda subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao lugar onde se colocavam<br \/>\nos lacaios, na esperan\u00e7a de conhecer o portador da botina.<\/p>\n<p>Quando as rainhas da moda, as deusas do sal\u00e3o, surpresas e at\u00f4nitas,<br \/>\no viam passar sem distingui-las com uma palavra ou uma fineza, ele, atirando-lhes<br \/>\num olhar de compaix\u00e3o, dizia consigo.<\/p>\n<p>&#8212; Coitadas! n\u00e3o sabem que o le\u00e3o viu A Pata da Gazela e fareja-lhe<br \/>\no rastro. Que lhe importam as garras da pantera?&#8230;<\/p>\n<p>Recolhendo, Hor\u00e1cio acendia duas velas transparentes e colocava-as<br \/>\na um e outro lado da almofada de veludo escarlate, sobre uma mesinha de char\u00e3o,<br \/>\nembutida de madrep\u00e9rolas. Tirava de um elegante cofre de platina a<br \/>\nmimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a almofada, de<br \/>\nmodo que se visse perfeitamente a graciosa forma do p\u00e9 que habitara<br \/>\naquele ninho de amor.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o acendia o charuto, sentava-se numa cadeira de espregui\u00e7ar,<br \/>\ndefronte, por\u00e9m distante, para que o fumo n\u00e3o se impregnasse<br \/>\nna botina, e ficava em muda e arrebatada contempla\u00e7\u00e3o at\u00e9<br \/>\nalta noite.<\/p>\n<p>Sobre aquela botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de est\u00e1tua,<br \/>\nmas vago, indistinto; e contudo esse esbo\u00e7o sem formas sedutoras, aquela<br \/>\nsombra sem alma e sem calor, lhe parecia de uma beleza deslumbrante. N\u00e3o<br \/>\nera ela a mulher a que pertencia o mais formoso p\u00e9 do mundo, o mimo,<br \/>\na obra-prima da natureza?<\/p>\n<p>Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas senhoras<br \/>\na quem amara com paix\u00e3o, e sua mem\u00f3ria as trazia todas, uma<br \/>\nap\u00f3s outra, para as colocar ao lado daquela figura vaga e desvanecida,<br \/>\nque planava sobre a almofada como sobre uma nuvem de ouro. Como elas fugiam<br \/>\nabatidas e humilhadas diante de seu impetuoso desd\u00e9m!<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o s\u00e3o dignas, murmurava ele, nem de beijarem o ch\u00e3o<br \/>\npisado pela fada desta botina!<\/p>\n<p>Eis qual tinha sido a vida de Hor\u00e1cio at\u00e9 o momento em que<br \/>\no vamos encontrar no mesmo lugar defronte da porta entreaberta do camarote.<br \/>\nLaura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo rei da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.<\/p>\n<p>Fitando com mais for\u00e7a o olhar na pupila da mo\u00e7a como para<br \/>\ntravar-lhe da vontade, Hor\u00e1cio abaixou lentamente esse olhar at\u00e9<br \/>\na f\u00edmbria do vestido de chamalote com uma insist\u00eancia significativa.<br \/>\nLaura fez-se escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtraiu<br \/>\n\u00e0s vistas ardentes do le\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 ela! exclamou o cora\u00e7\u00e3o do mancebo afogado em j\u00fabilo.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Para sentir esse pudor exagerado e incompreens\u00edvel<br \/>\n\u00e9 preciso ter ali oculto um p\u00e9 como aquele que eu sonhei. Um<br \/>\np\u00e9?&#8230; N\u00e3o; um mimo,<\/p>\n<p>uma maravilha, um tesouro, um c\u00e9u!&#8230; \u00c9 o pudor da violeta,<br \/>\nque se esconde na sombra; \u00e9 o pudor da p\u00e9rola, oculta na concha;<br \/>\n\u00e9 o pudor do diamante, sumido no seio da terra; \u00e9 o pudor da<br \/>\nestrela, imergindo-se no azul.<\/p>\n<p>O le\u00e3o desceu as escadas murmurando:<\/p>\n<p>&#8212; V\u00ea-lo e morrer.<\/p>\n<p>Pouco depois terminou o espet\u00e1culo. Am\u00e9lia com um ressaibo<br \/>\nde melancolia na fronte, embu\u00e7ou-se na peli\u00e7a e desceu. Ela<br \/>\nperdera de vista Hor\u00e1cio, e s\u00f3 o tornara a ver parado em frente<br \/>\n\u00e0 porta do camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo,<br \/>\nsofrera todo o resto do espet\u00e1culo o desassossego que lhe incutia o<br \/>\nolhar de Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto, sentia a fosforesc\u00eancia<br \/>\nestranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, mau grado seu.<\/p>\n<p>Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da mo\u00e7a, quando<br \/>\navistou a seu lado Hor\u00e1cio. O le\u00e3o s\u00f4frego e impaciente<br \/>\nvolvia o olhar em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es; naturalmente procurava<br \/>\nalgu\u00e9m, e receava que lhe escapasse.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus, Hor\u00e1cio.<\/p>\n<p>&#8212; Boa noite, Leopoldo.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia apareceu nesse momento.<\/p>\n<p>&#8212; Conheces aquela mo\u00e7a, Hor\u00e1cio?<\/p>\n<p>&#8212; Qual?&#8230; Espera!<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio tinha avistado Laura, que descia o lan\u00e7o da escada<br \/>\noposta, e correra pressuroso, com os olhos fitos na f\u00edmbria de seda.<br \/>\nSeu olhar tinha tal for\u00e7a que parecia um croque a levantar a orla do<br \/>\nvestido. Debalde; nem a sombra do p\u00e9: o encorpado estofo arrastava<br \/>\npesadamente pelo ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegou a mo\u00e7a \u00e0 porta, onde o carro a esperava. Hor\u00e1cio<br \/>\nteve um vislumbre de esperan\u00e7a, por\u00e9m nova decep\u00e7\u00e3o<br \/>\no esperava. N\u00e3o viu mais do que uma nuvem de sedas ondular e sumir-se.<\/p>\n<p>O le\u00e3o fez um movimento de desespero.<\/p>\n<p>&#8212; Senhor! por que em vez de homem n\u00e3o me fizeste estribo de um carro!<br \/>\nTeria a felicidade de ser pisado por aquele pezinho.<\/p>\n<h4>VI<\/h4>\n<p>Seriam duas horas da tarde.<\/p>\n<p>Durante a manh\u00e3 tinha ca\u00eddo sobre a cidade uma forte neblina,<br \/>\nque molhara as cal\u00e7adas.<\/p>\n<p>Leopoldo dirigia-se a casa pela Rua dos Ourives. Naturalmente vinha pensando<br \/>\nna desconhecida que n\u00e3o vira desde a noite do teatro. Sua paix\u00e3o<br \/>\nera intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da pr\u00f3pria<br \/>\nseiva. Esperava com plena confian\u00e7a de seu amor.<\/p>\n<p>A pequena dist\u00e2ncia do canto da Rua do Ouvidor viu ele de repente a<br \/>\nmo\u00e7a que passava na companhia de outras pessoas. Am\u00e9lia voltara<br \/>\no rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela estremeceu<br \/>\ncom o costumado calafrio, e acelerou o passo.<\/p>\n<p>Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo tamb\u00e9m se apressou<br \/>\npara acompanh\u00e1-la; mas chegou tarde. A mo\u00e7a e as pessoas, que<br \/>\niam em sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante vit\u00f3ria<br \/>\nque j\u00e1 conhecemos. Leopoldo apenas vira um p\u00e9, que na precipita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde subir, levantara demais a saia.<\/p>\n<p>Sem consci\u00eancia do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro.<br \/>\nO lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o carro<br \/>\npartiu na dire\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco de Paula, Am\u00e9lia<br \/>\ninclinou-se e lan\u00e7ou de esguelha um olhar vivo para a esquina.<\/p>\n<p>Leopoldo ficara na cal\u00e7ada im\u00f3vel e ext\u00e1tico de surpresa.<\/p>\n<p>O p\u00e9 que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um<br \/>\naleij\u00e3o. Ao tamanho descomunal para uma senhora, juntava a disformidade.<br \/>\nPesado, chato, sem arquea\u00e7\u00e3o e perfil, parecia mais uma base,<br \/>\numa prancha, um tronco, do que um p\u00e9 humano e sobretudo o p\u00e9<br \/>\nde uma mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Os tra\u00e7os especiais da beleza de Am\u00e9lia n\u00e3o tinham deixado<br \/>\nna mem\u00f3ria de Leopoldo a m\u00ednima impress\u00e3o, da primeira<br \/>\nvez que a vira, apesar de contempl\u00e1-la demoradamente. Entretanto o<br \/>\ndefeito n\u00e3o lhe escapou, embora passasse de relance diante de seus<br \/>\nolhos.<\/p>\n<p>Parece uma singularidade; mas n\u00e3o \u00e9. Ningu\u00e9m conta as<br \/>\np\u00e9talas da flor que admira; ningu\u00e9m repara na forma especial<br \/>\nde cada uma das partes de que se comp\u00f5e um todo gracioso; por\u00e9m<br \/>\na menor m\u00e1cula se destaca imediatamente.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que certos homens, n\u00e3o podendo distinguir-se entre<br \/>\na gente sisuda e honesta, fazem-se n\u00f3doas da sociedade; tornam-se v\u00edcios<br \/>\ne torpezas. Assim adquirem a celebridade, que n\u00e3o obteriam com sua<br \/>\nvirtude amb\u00edgua e seu mesquinho talento.<\/p>\n<p>O Castro, que n\u00e3o admirara o matiz da rosa, notou a m\u00e1cula<br \/>\ne desgostou-se dela. Ele sentia-se com for\u00e7as para amar o feio e o<br \/>\ndesgracioso, mas n\u00e3o o disforme, o horr\u00edvel. Essa aberra\u00e7\u00e3o<br \/>\nda figura humana, embora em um ponto s\u00f3, lhe parecia o sintoma, sen\u00e3o<br \/>\no efeito, de uma monstruosidade moral.<\/p>\n<p>Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o mo\u00e7o continuou seu<br \/>\ncaminho pela Rua dos Ouvires em dire\u00e7\u00e3o a casa. Mal havia andado<br \/>\nalguns passos, arrependeu-se; n\u00e3o queria levar \u00e0 sua habita\u00e7\u00e3o<br \/>\nesse primeiro transbordamento de um dissabor t\u00e3o profundo; era melhor<br \/>\ndeix\u00e1-lo escoar-se antes de recolher \u00e0 solid\u00e3o habitual.<br \/>\nSe tivesse alguma coisa a fazer! Qualquer ocupa\u00e7\u00e3o bem aborrecida<br \/>\ne ma\u00e7ante, que lhe servisse de ant\u00eddoto ao desgosto \u00edntimo!<\/p>\n<p>Excogitou. Havia ali perto, na Rua Sete de Setembro, uma pequena loja de<br \/>\nsapateiro, ou antes uma tenda, porque al\u00e9m do balc\u00e3o via-se<br \/>\napenas uma tosca vidra\u00e7a, contendo a obra de tr\u00eas oficiais que<br \/>\na\u00ed trabalhavam.<\/p>\n<p>A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhara por algum tempo na<br \/>\ncasa do Guilherme e do Camp\u00e0s, e se iniciara portanto em todos os segredos<br \/>\nda arte. Ningu\u00e9m a exercia com mais habilidade, esmero e entusiasmo<br \/>\ndo que ele; sua obra, quando queria, n\u00e3o tinha que invejar ao produto<br \/>\ndas melhores f\u00e1bricas de Paris, se n\u00e3o o excedia na eleg\u00e2ncia<br \/>\ne delicadeza.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o cardeal de toda a superioridade humana \u00e9 sem d\u00favida<br \/>\na vontade. O poder nasce do querer. Sempre que o homem aplique a veem\u00eancia<br \/>\ne perseverante energia de sua alma a um fim, ele vencer\u00e1 os obst\u00e1culos,<br \/>\ne se n\u00e3o atingir o alvo, far\u00e1 pelo menos coisas admir\u00e1veis.<br \/>\nMas para que o homem se entregue assim a uma id\u00e9ia e se cative a um<br \/>\npensamento, \u00e9 necess\u00e1rio ser atra\u00eddo irresistivelmente,<br \/>\nser impelido pelo entusiasmo.<\/p>\n<p>\u00c9 o entusiasmo que faz o poeta e o artista, o s\u00e1bio e o guerreiro;<br \/>\n\u00e9 o entusiasmo que faz o homem-id\u00e9ia diferente do homem-m\u00e1quina.<br \/>\nA f\u00e1bula de Prometeu&#8217; n\u00e3o exprime sen\u00e3o a alegoria desse<br \/>\nfogo celeste d&#8217;alma, que anima as est\u00e1tuas de Galat\u00e9ia, embora<br \/>\ndepois dilacere o cora\u00e7\u00e3o como a \u00e1guia do rochedo. Uma<br \/>\nfa\u00edsca dessa eletricidade moral opera maravilhas iguais \u00e0 centelha<br \/>\ndo raio. O que \u00e9 o tel\u00e9grafo a par com a eloq\u00fc\u00eancia?<\/p>\n<p>O Matos tinha o entusiasmo de sua arte; descobrira nela segredos e encantos<br \/>\ndesconhecidos aos mercen\u00e1rios. Para ele o cal\u00e7ado era uma escultura;<br \/>\ncopiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso e m\u00e1rmore.<br \/>\nOs outros artistas da forma reproduzem todo o vulto humano ou pelo menos o<br \/>\nbusto; ele s\u00f3 tinha um assunto, o p\u00e9. Mas que import\u00e2ncia<br \/>\nn\u00e3o tomava a seus olhos esta parte do corpo! Era preciso ouvi-lo, em<br \/>\nalgum momento de arroubo, para fazer id\u00e9ia de sua admira\u00e7\u00e3o<br \/>\npor esse membro da criatura racional.<\/p>\n<p>Depois de trabalhar muitos anos em casas francesas, o mestre fluminense resolveu<br \/>\nestabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas portas, onde<br \/>\ntrabalhava com dois oficiais. A necessidade de ganhar o p\u00e3o o obrigava<br \/>\na tornar-se mercen\u00e1rio, fazendo obra de carrega\u00e7\u00e3o para<br \/>\nvender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha ele suas del\u00edcias<br \/>\nde artista. Meia d\u00fazia de fregueses, conhecedores da habilidade do<br \/>\nsapateiro, preferiam seu cal\u00e7ado ao melhor de Paris, e o pagavam generosamente.<br \/>\nEssas raras encomendas, o Matos as executava com enlevo; revia-se em sua obra,<br \/>\nverdadeiro primor.<\/p>\n<p>Leopoldo n\u00e3o era um fregu\u00eas da \u00faltima classe; ele n\u00e3o<br \/>\nconhecia a voluptuosidade de um cal\u00e7ado macio, antes luva do que sapato;<br \/>\nseu p\u00e9 n\u00e3o era um enfant gat\u00e9, um benjamim acostumado<br \/>\na essas del\u00edcias; desde a inf\u00e2ncia o habituara a uma vida rude<br \/>\ne austera entre a sola rija e o bezerro. Al\u00e9m de que seus haveres n\u00e3o<br \/>\nchegavam para tais prodigalidades.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o pertencia \u00e0 classe dos fregueses da obra de carrega\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne preferia a loja do Matos pela modicidade do pre\u00e7o, e boa qualidade<br \/>\ndo cabedal, como do trabalho.<\/p>\n<p>Que misteriosa associa\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias trouxera \u00e0<br \/>\nlembran\u00e7a de Leopoldo, naquele momento, a tenda do sapateiro? E por<br \/>\nque motivo se dirigiu ele para ali onde estivera na v\u00e9spera, e n\u00e3o<br \/>\npara qualquer outro lugar, em que poderia melhor espancar seu dissabor?<\/p>\n<p>O motivo, nem ele mesmo o sabia naquele instante.<\/p>\n<p>&#8212; Bom dia! As botinas est\u00e3o prontas? disse entrando.<\/p>\n<p>O Matos, que atendia a alguns fregueses perto da vidra\u00e7a, olhou-o<br \/>\nsurpreso:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o disse ontem a V. Sa que s\u00f3 para o fim da semana?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 verdade!<\/p>\n<p>&#8212; Tinha entre m\u00e3os esta encomenda. Mas j\u00e1 acabei; agora posso<br \/>\najudar os companheiros.<\/p>\n<p>O Matos indicara alguns pares de cal\u00e7ado que estavam no mostrador<br \/>\nsobre folhas de papel e prontos a serem embrulhados.<\/p>\n<p>Leopoldo, chegando-se para o balc\u00e3o, principiou a examinar a obra<br \/>\nacabada, com a distra\u00edda curiosidade de quem deseja esperdi\u00e7ar<br \/>\nalguns momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer.<br \/>\nEra trabalho fino do mestre, e contudo n\u00e3o excitaria grande aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nda parte do mo\u00e7o, se n\u00e3o fosse um par de botinas de senhora<br \/>\nj\u00e1 usadas e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era<br \/>\nenorme no comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe<br \/>\nreparo.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera quando viera \u00e0 loja, casualmente observara a obra<br \/>\nque o Matos estava acabando. Vendo h\u00e1 pouco na Rua do Ouvidor o p\u00e9<br \/>\nmonstruoso da mo\u00e7a, tivera uma confusa e t\u00eanue reminisc\u00eancia<br \/>\ndas botinas da loja. Fora esse o fio misterioso que o conduzira insensivelmente<br \/>\n\u00e0quela casa. Agora compreendia a encadea\u00e7\u00e3o: a botina<br \/>\nmonstro pertencia sem d\u00favida ao p\u00e9 aleij\u00e3o.<\/p>\n<p>Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o p\u00e9 da mo\u00e7a,<br \/>\nainda alimentava uma d\u00favida, que pretendia cevar com todas as sutilezas<br \/>\ne arg\u00facias de seu esp\u00edrito. Talvez ele visse mal; talvez a sombra,<br \/>\no estribo do carro, qualquer outro objeto o tivesse iludido. O aleij\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 existia em<\/p>\n<p>sua imagina\u00e7\u00e3o; fora um desvario dos sentidos. Com efeito,<br \/>\ncomo supor que uma senhora pudesse andar graciosamente com semelhante pata<br \/>\nde elefante?<\/p>\n<p>Mas as botinas a\u00ed estavam sobre o balc\u00e3o que n\u00e3o lhe<br \/>\ndeixavam a menor d\u00favida. O p\u00e9 disforme existia; era aquele o<br \/>\nseu molde, o seu corpo de delito, e por ele se podia ver quanto devia ser<br \/>\nhorr\u00edvel a realidade. Agora Leopoldo podia apreciar os tra\u00e7os<br \/>\nparciais que lhe tinham escapado pela manh\u00e3; esse p\u00e9 era cheio<br \/>\nde bossas como um tub\u00e9rculo; n\u00e3o arremedava nem de longe o contorno<br \/>\ndessa parte do corpo humano: era uma posta de carne, um cepo!<\/p>\n<p>Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva,<br \/>\nhavia outra obra que chamara a aten\u00e7\u00e3o do mancebo por sua singularidade.<br \/>\n\u00c0 primeira vista era um volume semelhante ao das botinas monstruosas<br \/>\nembora de linhas regulares: parecia uma ligeira almofada preta sobre a qual<br \/>\nse elevasse uma botina de senhora, muito elegante apesar de comprida. O tubo<br \/>\ncinzento ficava oculto sob frocos de cetim escarlate. Do rosto ao bico descia<br \/>\num galho de rosas, cujas hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda,<br \/>\ntoda a volta do p\u00e9 at\u00e9 o calcanhar.<\/p>\n<p>Uma das botinas ainda tinha dentro a f\u00f4rma; enquanto a outra j\u00e1<br \/>\nestava sem ela. Naturalmente o Matos procedia \u00e0quela opera\u00e7\u00e3o<br \/>\nquando foi distra\u00eddo pelos fregueses e compradores; deixara-a pois<br \/>\nem meio, deitando em cima da obra, para encobri-la, uma folha de papel.<\/p>\n<p>A f\u00f4rma n\u00e3o podia passar despercebida ao observador. Vendo pouco<br \/>\nantes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exato do p\u00e9<br \/>\nmonstruoso, que ele avistara. Enganara-se: a botina era j\u00e1 o disfarce,<br \/>\na m\u00e1scara do aleij\u00e3o. Sua c\u00f3pia ali estava em horr\u00edvel<br \/>\nnudez, no grosseiro toco de pau, cheio de buracos e protuber\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Mas se essa observa\u00e7\u00e3o acabou de esmagar o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mancebo, levou insensivelmente seu esp\u00edrito a apreciar pela primeira<br \/>\nvez a superioridade do Matos em sua arte. Ali estava a imagem do aleij\u00e3o,<br \/>\no cal\u00e7ado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a monstruosidade,<br \/>\nsem a dissimular. Entretanto, o mestre fluminense conseguira, por um esfor\u00e7o<br \/>\nfeliz, desvanecer a deformidade sob a apar\u00eancia de uma botina elegante.<\/p>\n<p>A almofada sobre que parecia descansar a botina, era um solado alto por\u00e9m<br \/>\noco, onde as carnes moles do p\u00e9 monstruoso, comprimidas pela botina<br \/>\nsuperior, podiam abrigar-se.<\/p>\n<p>Os frocos de cetim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e desvaneciam<br \/>\nas protuber\u00e2ncias \u00f3sseas, com muita delicadeza, sem avolumar<br \/>\no tamanho do coturno. Na sola negra se debuxava, em propor\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 botina superior, a alva palmilha com seus contornos harmoniosos;<br \/>\nde modo que olhando-se andar a pessoa, n\u00e3o se perceberia facilmente<br \/>\no tamanho do cal\u00e7ado.<\/p>\n<p>Acabara o Matos de aviar os fregueses, e chegando-se para o balc\u00e3o,<br \/>\nincomodou-se com ver o mo\u00e7o a observar a obra; ia talvez interromp\u00ea-lo<br \/>\nrispidamente, quando percebeu em seu rosto uma express\u00e3o viva de ardente<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o. O artista ficou lisonjeado com esse elogio t\u00e3o<br \/>\neloq\u00fcente em sua mudez; e \u00e0 contrariedade sucedeu a satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo amor-pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se<br \/>\ndo balc\u00e3o, receando ter sido indiscreto. Ia sair, quando entrou na<br \/>\nloja um lacaio de libr\u00e9 azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo<br \/>\no reconheceu pelas fei\u00e7\u00f5es; era o mesmo que o impedira de chegar<br \/>\n\u00e0 portinhola do carro, na Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! exclamou o Matos, avistando o criado. Est\u00e1 quase pronto.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o posso esperar! replicou o lacaio com a insol\u00eancia do<br \/>\nrafeiro de casa rica.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 s\u00f3 embrulhar.<\/p>\n<p>Leopoldo disfar\u00e7ava; fingindo olhar o cal\u00e7ado exposto na vidra\u00e7a,<br \/>\nviu de esguelha o sapateiro tirar a f\u00f4rma da outra botina, bater o ponto<br \/>\ne dar o \u00faltimo polimento \u00e0 sua obra; feito o que arranjou o<br \/>\nembrulho.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez j\u00e1<br \/>\nse perdeu uma botina por sua causa, e eu \u00e9 que levei a culpa.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o tenha susto; desta vez est\u00e1 bem seguro, respondeu o<br \/>\nMatos.<\/p>\n<p>Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza, despediu-se,<br \/>\narrependido de ter ido \u00e0 loja. Que saudades tinha da sua d\u00favida!<\/p>\n<p>&#8212; A d\u00favida, pensava ele, \u00e9 ainda um raio de esperan\u00e7a!<\/p>\n<h4>VII<\/h4>\n<p>A esse tempo Hor\u00e1cio, sentado em uma poltrona na casa de Bernardo,<br \/>\nfumava o seu conchita, com o olhar, ora na cal\u00e7ada, ora no espelho<br \/>\nfronteiro, \u00e0 espreita do menor vulto de mulher.<\/p>\n<p>O le\u00e3o pensava:<\/p>\n<p>&#8212; Choveu; as ruas ainda est\u00e3o molhadas. Qual \u00e9 a senhora que<br \/>\ntendo um p\u00e9 mimoso e uma perna bonita, n\u00e3o aproveita um destes<br \/>\ndias para atravessar a Rua do Ouvidor? Se deixarem escapar estes pretextos<br \/>\nde mostrar semelhantes maravilhas, morrer\u00e3o elas desconhecidas, apenas<br \/>\nvistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admira\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 sentimento que precisa da luz plena, da grande expans\u00e3o. Se<br \/>\na V\u00eanus de Prax\u00edteles existisse, mas s\u00f3 para mim, palavra<br \/>\nde honra que sua beleza n\u00e3o excitaria em minha alma o menor entusiasmo.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o Am\u00e9lia passava diante da loja, e voltando-se<br \/>\nrecebeu a cortesia do le\u00e3o, a quem respondeu com um sorriso am\u00e1vel.<br \/>\nParando na vidra\u00e7a, achou ela pretexto para entrar, e comprou uma galanteria<br \/>\nDurante esse tempo Hor\u00e1cio recebeu por diversas vezes o olhar e o sorriso<br \/>\nda mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Acompanhando com a vista o passo airoso e sutil de Am\u00e9lia, Hor\u00e1cio<br \/>\nexclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:<\/p>\n<p>&#8212; Que passo gracioso! \u00c9 o andar da gar\u00e7a!<\/p>\n<p>Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a mo\u00e7a ouvisse;<br \/>\num ligeiro estremecimento que se notou na suave ondula\u00e7\u00e3o do<br \/>\ntalhe revelou que o le\u00e3o lograra seu desejo. A mo\u00e7a ouvira com<br \/>\nefeito a fineza.<\/p>\n<p>Recostado de novo na poltrona o le\u00e3o continuou a pensar:<\/p>\n<p>&#8212; Realmente, que eleg\u00e2ncia no andar! Eu seria capaz de apostar que<br \/>\nesse andar era do pezinho, do meu adorado pezinho, se j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntivesse descoberto a dona do primor. Mas Laura n\u00e3o vem!&#8230; O criado<br \/>\nme disse que ao meio-dia, e \u00e9 quase uma hora! Ter\u00e1 mudado de<br \/>\nresolu\u00e7\u00e3o?&#8230; N\u00e3o duvido, com aquele zelo feroz que tem<br \/>\npor sua j\u00f3ia, talvez n\u00e3o quisesse vir para n\u00e3o ser obrigada<br \/>\na mostr\u00e1-la. Um avaro n\u00e3o fecha com mais cuidado a burra, do<br \/>\nque ela esconde seu tesouro. Que pecado! Subtrair ao mundo essa maravilha<br \/>\nque Deus fez para ser admirada! Ah! eu desejava ser uma na\u00e7\u00e3o;<br \/>\nassim como h\u00e1 dem\u00f4nios-legi\u00f5es, por que n\u00e3o pode<br \/>\nhaver homens-povos? Se o fosse, daria um trono a essa mulher, somente para<br \/>\nque ela institu\u00edsse o beija-p\u00e9. Como eu seria cortes\u00e3o!<br \/>\nComo eu a beijaria por minhas cem bocas de s\u00fadito!<\/p>\n<p>O mancebo sobressaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho fronteiro.<br \/>\nEra Laura. Que devia fazer? Correr \u00e0 porta para ser visto pela mo\u00e7a<br \/>\nou deixar-se ficar na poltrona para melhor descobrir o p\u00e9 adorado?<\/p>\n<p>A atitude do le\u00e3o revelava a hesita\u00e7\u00e3o de seu esp\u00edrito;<br \/>\ncom o corpo lan\u00e7ado \u00e0 frente parecia fazer um esfor\u00e7o<br \/>\npara se conservar sentado. Laura, que de seu lado j\u00e1 o tinha avistado<br \/>\nno espelho, ficara em um estado de perturba\u00e7\u00e3o indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8212; Que tem, prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava.<\/p>\n<p>&#8212; Nada! balbuciou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se<br \/>\navan\u00e7ou com afoiteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem<br \/>\nvolver um olhar para dentro. Por mais que o le\u00e3o se derreasse na poltrona,<br \/>\nn\u00e3o logrou ver coisa alguma; a senhora arrastava a f\u00edmbria do<br \/>\nvestido pela cal\u00e7ada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria<br \/>\nse caminhasse sobre rico tapete.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 zangada comigo; est\u00e1 furiosa! Desde a noite do teatro<br \/>\nque n\u00e3o me pode ver; e parece que preparou-se para o assalto, porque<br \/>\nachei as avenidas da pra\u00e7a j\u00e1 tomadas e vigorosamente defendidas.<br \/>\nA mucama \u00e9 uma G\u00f3rgona, o porteiro um C\u00e9rbero; apenas<br \/>\nconsegui abrandar o moleque, porque \u00e9 um idiota!&#8230; Nunca vi uma ferocidade<br \/>\nigual; creio que a leoa da floresta n\u00e3o defende seu cachorrinho com<br \/>\nsanha igual \u00e0 desta leoa de sala. Parece incr\u00edvel; mas eu conhe\u00e7o<br \/>\nde quanto \u00e9 capaz a vaidade da mulher. Todo este furor n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmais do que um assomo de faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pezinho<br \/>\nmimoso, e quer-me trazer atado como um cativo ao seu carro de triunfo. Realmente<br \/>\numa mo\u00e7a bonita n\u00e3o pode ter maior satisfa\u00e7\u00e3o:<br \/>\nver-me a mim, Hor\u00e1cio de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de<br \/>\nJaneiro, curvar-se humilde, n\u00e3o a seu olhar, a seu sorriso, \u00e0<br \/>\nbeleza de seu rosto, ou \u00e0 gra\u00e7a de seu talhe, mas \u00e0 planta<br \/>\nde seus p\u00e9s divinos! Fazer-me tapete de seus passos!&#8230; Que pode mais<br \/>\ndesejar a rainha dos sal\u00f5es fluminenses?<\/p>\n<p>O mo\u00e7o mordeu a ponta do bigode negro e ficou alguns instantes muito<br \/>\npensativo.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 preciso mudar o plano de ataque! Comecei \u00e0 maneira de<br \/>\nC\u00e9sar, atacando com impetuosidade. Vou contemporizar conforme a escola<br \/>\nde F\u00e1bio; simulo uma retirada; o inimigo avan\u00e7a, eu o envolvo;<br \/>\ncorto-lhe a retirada, e ele rende-se. Arraso o Humait\u00e1 daquele vestido<br \/>\nque defende o meu pezinho adorado como uma casamata. A indiferen\u00e7a<br \/>\n\u00e9 a serpente tentadora da mulher.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia destas reflex\u00f5es, Hor\u00e1cio deixou-se<br \/>\nficar onde estava, e n\u00e3o seguiu a mo\u00e7a. Quando sup\u00f4s que<br \/>\nela j\u00e1 ia distante, foi procurar algures, em um bilhar, o preservativo<br \/>\ncontra a tenta\u00e7\u00e3o de cortej\u00e1-la, ou antes o seu pezinho.<\/p>\n<p>&#8212; Ela h\u00e1 de reparar no meu eclipse! murmurou com certa confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Entretanto Laura, descendo a Rua do Ouvidor, encontrara pouco adiante, na<br \/>\ncasa do Masset, Am\u00e9lia em companhia da m\u00e3e. As duas amigas n\u00e3o<br \/>\npodendo vir juntas, tinham ajustado seu encontro para aquele ponto. O primo<br \/>\ndespediu-se, e as senhoras continuaram seu itiner\u00e1rio pelas diferentes<br \/>\nlojas e casas de modas.<\/p>\n<p>Ao cabo de duas ou tr\u00eas horas, tomaram o carro que estava parado pr\u00f3ximo<br \/>\n\u00e0 Rua dos Ouvires e partiram na dire\u00e7\u00e3o do Catete. A<br \/>\npoucos passos dali, Am\u00e9lia perguntou ao lacaio sentado na almofada:<\/p>\n<p>&#8212; Trouxe?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhora; est\u00e1 a\u00ed dentro.<\/p>\n<p>&#8212; Bem!<\/p>\n<p>O carro aproximava-se do Largo da Lapa, quando Am\u00e9lia disse:<\/p>\n<p>&#8212; Pod\u00edamos ir agora ao Passeio P\u00fablico?<\/p>\n<p>&#8212; T\u00e3o tarde! replicou Laura.<\/p>\n<p>&#8212; Deixa-te disso! observou a m\u00e3e da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu\u00ea, mam\u00e3e? H\u00e1 tanto tempo que l\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nvamos.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o h\u00e1 nada de novo.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, eu queria ver a gar\u00e7a. Ainda n\u00e3o a vi.<\/p>\n<p>&#8212; Viste, sim!<\/p>\n<p>&#8212; Mas n\u00e3o reparei numa coisa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Em qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; Uma coisa. Depois direi.<\/p>\n<p>Tanto insistiu que a m\u00e3e cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro<br \/>\nque chegasse at\u00e9 o port\u00e3o do Passeio P\u00fablico. As senhoras<br \/>\ndesapareceram na curva de uma das alamedas do parque, em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nao lago. Am\u00e9lia queria ver o andar da gar\u00e7a, que Hor\u00e1cio<br \/>\ntinha comparado ao seu.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o passava o t\u00edlburi do nosso le\u00e3o, que vinha<br \/>\ndo lado da Ajuda. Um atropelo, produzido por uma g\u00f4ndola mal conduzida,<br \/>\nia atirando o t\u00edlburi sobre o carro parado no port\u00e3o do Passeio<br \/>\nP\u00fablico. Este incidente chamou a aten\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o<br \/>\npara o cocheiro, que derreado sobre a almofada n\u00e3o se movera.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria apresenta \u00e0s vezes um fen\u00f4meno curioso; conserva<br \/>\npor muito tempo oculta e sopitada uma impress\u00e3o de que n\u00e3o temos<br \/>\na menor consci\u00eancia. De repente, por\u00e9m, uma circunst\u00e2ncia<br \/>\nqualquer evoca essa reminisc\u00eancia apagada; e ela ressurge com vigor<br \/>\ne fidelidade.<\/p>\n<p>Foi o que sucedeu a Hor\u00e1cio. Minutos antes, por maiores esfor\u00e7os<br \/>\nque fizesse para recordar-se da libr\u00e9 do lacaio, portador da botina<br \/>\nperdida, n\u00e3o o conseguiria decerto. Entretanto bastou-lhe ver a roupa<br \/>\ndo cocheiro, para acudir-lhe imediatamente ao esp\u00edrito a imagem desvanecida.<br \/>\nEra esse o carro, que vira quinze dias antes na Rua da Quitanda; n\u00e3o<br \/>\nhavia d\u00favida.<\/p>\n<p>O le\u00e3o mandou parar o t\u00edlburi e entrou no Passeio P\u00fablico;<br \/>\ndepois de percorrer inutilmente v\u00e1rias alamedas, afinal descobriu entre<br \/>\nas \u00e1rvores, al\u00e9m do lago, as ondula\u00e7\u00f5es dos vestidos<br \/>\nde algumas senhoras acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquela<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O terreno estava \u00famido da chuva da manh\u00e3; e por isso o p\u00e9<br \/>\ndos passeadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das alamedas.<br \/>\nNotando esta circunst\u00e2ncia, Hor\u00e1cio procurou o vest\u00edgio<br \/>\nde alguma botina irm\u00e3 da que achara, e guardava como uma rel\u00edquia;<br \/>\nficou \u00e9brio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve<br \/>\ndebuxo que deixara no ch\u00e3o o mimoso pezinho.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse o anelo de alcan\u00e7ar as senhoras e reconhecer a<br \/>\ndona inc\u00f3gnita do tesouro, Hor\u00e1cio se houvera ajoelhado a beijar<br \/>\no rasto da fada de seus amores; mas as senhoras caminhavam rapidamente para<br \/>\no port\u00e3o.<\/p>\n<p>Por mais que se apressasse o le\u00e3o, chegando \u00e0 sa\u00edda,<br \/>\napenas viu o carro que partia. Felizmente adiantando-se p\u00f4de reconhecer<br \/>\nAm\u00e9lia, que lhe sorriu e inclinou-se para acompanh\u00e1-lo com os<br \/>\nolhos.<\/p>\n<p>&#8212; E ela! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. H\u00e1 pouco, vendo-a<br \/>\npassar pela Rua do Ouvidor, tive um pressentimento! Aquele andar cheio de<br \/>\ngra\u00e7a n\u00e3o podia enganar.<\/p>\n<p>No dia. seguinte o le\u00e3o fez-se apresentar ao pai de Am\u00e9lia,<br \/>\nabastado consignat\u00e1rio de caf\u00e9, estabelecido \u00e0 Rua Direita.<br \/>\nO encontro deu-se na Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio. Hor\u00e1cio a\u00ed<br \/>\nfoi a pretexto de comprar ap\u00f3lices; e um amigo, corretor de fundos,<br \/>\nprestou-lhe aquele servi\u00e7o. O negociante ofereceu a casa ao mo\u00e7o<br \/>\nque aceitou a fineza com efus\u00e3o de contentamento.<\/p>\n<p>O Sr. Pereira Sales habitava nas Laranjeiras uma bela ch\u00e1cara. Am\u00e9lia<br \/>\nera filha \u00fanica, e seu dote, convertido em cem ap\u00f3lices, s\u00f3<br \/>\nesperava o noivo. Quanto \u00e0 mulher, tinha uma boa pens\u00e3o institu\u00edda<br \/>\nno montepio geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza,<br \/>\neconomizando pouco ou nada de seus lucros anuais.<\/p>\n<p>Quando Hor\u00e1cio teve conhecimento destas particularidades dom\u00e9sticas,<br \/>\nsorriu.<\/p>\n<p>&#8212; Bem! O meu pezinho tem um dote para seu cal\u00e7ado. Pode andar com<br \/>\nluxo!<\/p>\n<p>A primeira vez que Hor\u00e1cio visitou a fam\u00edlia de Pereira Sales,<br \/>\nencontrou Laura na sala; a mo\u00e7a fora passar a noite com a amiga, e<br \/>\nconversava jovialmente. Apenas viu o le\u00e3o, demudou-se; e instantes<br \/>\ndepois, inventou um pretexto para retirar-se, apesar das inst\u00e2ncias<br \/>\nde Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio pouca ou nenhuma aten\u00e7\u00e3o deu \u00e0 mudan\u00e7a<br \/>\nque se tinha operado em Laura, em sua retirada repentina. Desde que a mo\u00e7a<br \/>\nn\u00e3o era a dona feliz do mais lindo p\u00e9 do mundo, tornava-se para<br \/>\nele uma criatura indiferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo<br \/>\nbeijando a f\u00edmbria de seda, que lhe ocultava o t\u00e3o ansiado tesouro.<\/p>\n<p>Em Am\u00e9lia, v\u00e1rias impress\u00f5es produziu a apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mo\u00e7o. No primeiro momento acreditou que o le\u00e3o viera atra\u00eddo<br \/>\npor ela; mais tarde, lembrando-se do teatro, suspeitou que fosse apenas um<br \/>\nmeio de aproximar-se de Laura; finalmente ocorreu-lhe que podia n\u00e3o<br \/>\npassar de um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Hor\u00e1cio.<\/p>\n<p>Suas d\u00favidas por\u00e9m se dissiparam poucos dias depois.<\/p>\n<p>Uma noite a mo\u00e7a, impelida por um movimento de faceirice, soltou estas<br \/>\npalavras, no meio de uma conversa com o le\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Laura est\u00e1 uma ingrata! H\u00e1 tanto tempo que n\u00e3o vem<br \/>\npassar uma noite comigo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo fitava os olhos no mo\u00e7o para ver a express\u00e3o<br \/>\nde sua fisionomia.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 uma fineza de sua amiga, que eu agrade\u00e7o de cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nrespondeu Hor\u00e1cio.<\/p>\n<p>&#8212; Uma fineza?&#8230; perguntou Am\u00e9lia pressentindo laivos de ironia.<\/p>\n<p>&#8212; Quando sua amiga est\u00e1 aqui, a senhora sem d\u00favida n\u00e3o<br \/>\na deixa!<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 muito natural.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 v\u00ea pois que eu tenho raz\u00e3o. Se ela viesse&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eu teria ci\u00fames, D. Am\u00e9lia,<\/p>\n<p>A mo\u00e7a corou.<\/p>\n<p>&#8212; Pois amanh\u00e3 Laura h\u00e1 de passar a noite comigo.<\/p>\n<p>Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura disfar\u00e7ar<br \/>\num prazer sob a m\u00e1scara da contrariedade. Mas a m\u00e1scara \u00e9<br \/>\nt\u00e3o risonha, que n\u00e3o ilude.<\/p>\n<p>&#8212; Quer-me tanto mal assim? perguntou Hor\u00e1cio. N\u00e3o admira;<br \/>\numa paix\u00e3o ardente e impetuosa, como eu sinto pela senhora, n\u00e3o<br \/>\ndevia ter outra sorte. O verdadeiro amor foi e ser\u00e1 sempre infeliz;<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 mulher que o compreenda.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia com as faces a arder n\u00e3o sabia que fizesse; sua m\u00e3o<br \/>\ntr\u00eamula brincava com as flores de um vaso, que vacilou sobre o consolo<br \/>\ne caiu no ch\u00e3o. O fracasso da porcelana, despeda\u00e7ando-se, chamou<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o das pessoas que estavam na sala; assim rompeu-se o<br \/>\nenleio de Am\u00e9lia<\/p>\n<p>A mo\u00e7a retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois<br \/>\nentrou de novo na sala, j\u00e1 serena e prazenteira. Seus olhos procuraram<br \/>\nHor\u00e1cio, para oferecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Esse sorriso dizia em sua eloq\u00fc\u00eancia muda o seguinte:<\/p>\n<p>&#8212; Se nunca a mulher soube compreender a verdadeira paix\u00e3o, serei<br \/>\neu a primeira.<\/p>\n<p>Foi esta pelo menos a tradu\u00e7\u00e3o de Hor\u00e1cio, perfeito<br \/>\nfil\u00f3logo do amor, e habituado a decifrar esses hier\u00f3glifos dos<br \/>\nl\u00e1bios de mulher.<\/p>\n<h4>VIII<\/h4>\n<p>N\u00e3o abandonemos o pobre Leopoldo \u00e0 sua amarga decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o chegara a casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre ele<br \/>\nderramaram os acontecimentos da manh\u00e3. Talvez a morte de Am\u00e9lia<br \/>\nn\u00e3o lhe causasse tamanho pesar, como o daquela cruel decep\u00e7\u00e3o<br \/>\nque estava presentemente curtindo.<\/p>\n<p>O aleij\u00e3o excita geralmente uma invenc\u00edvel repugn\u00e2ncia,<br \/>\nrepassada de terror. A aberra\u00e7\u00e3o da forma humana abate o orgulho<br \/>\ndo b\u00edpede implume, fazendo-o descer abaixo do orangotango. Ao mesmo<br \/>\ntempo, \u00e9 amea\u00e7a viva a uma das mais caras aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo homem: a esperan\u00e7a de renascer em outra criatura, gerada de seu<br \/>\nser. Se a fatalidade pesar sobre a prole querida?<\/p>\n<p>Imagine-se que dor era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de repente<br \/>\npara esmagar em seu cora\u00e7\u00e3o a imagem da mulher amada, da virgem<br \/>\nde seus castos sonhos?<\/p>\n<p>O contraste sobretudo era terr\u00edvel. Se Am\u00e9lia fosse feia, o<br \/>\nsen\u00e3o do p\u00e9 n\u00e3o passara de um defeito; n\u00e3o quebraria<br \/>\na harmonia do todo. Mas Am\u00e9lia era linda, e n\u00e3o somente linda;<br \/>\ntinha a beleza regular, suave e pura que se pode chamar a melodia da forma.<br \/>\nA despropor\u00e7\u00e3o grosseira de um membro tornava-se pois, nessa<br \/>\nest\u00e1tua perfeita, uma verdadeira monstruosidade. Era um berro no meio<br \/>\nde uma sinfonia; era um disparate da natureza, uma superfeta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo horr\u00edvel no belo. Fazia lembrar os \u00eddolos e fetiches do Oriente,<br \/>\nonde a imagina\u00e7\u00e3o doentia do povo re\u00fane em uma s\u00f3<br \/>\nimagem o s\u00edmbolo dos maiores contrastes.<\/p>\n<p>Nessa ang\u00fastia passou Leopoldo o resto daquele dia e os que se lhe<br \/>\nseguiram.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o amo a sua beleza material, oh, n\u00e3o! pensava o mancebo.<br \/>\nO que eu adoro nela \u00e9 a beleza moral, a alma nobre e pura, a criatura<br \/>\nceleste, a luz, o anjo. Qualquer que fosse o inv\u00f3lucro de seu esp\u00edrito<br \/>\nimaculado, creio que havia de ador\u00e1-la tanto, como a adorei desde o<br \/>\nmomento em que primeiro a vi.<\/p>\n<p>&#8220;Fosse ela feia para os outros, que chamam formosura o que lhes encanta<br \/>\nos sentidos, para mim seria sempre bela, porque meus olhos haviam de v\u00ea-la<br \/>\natrav\u00e9s de seu espl\u00eandido sorriso. O que \u00e9 o corpo humano<br \/>\nno fim de contas? O que \u00e9 o contorno suave de um talhe elegante, e<br \/>\na c\u00fatis acetinada de um rosto ou de um colo mimoso? Um pouco de mat\u00e9ria<br \/>\na que a luz transmite a cor, o esp\u00edrito e a vida. Tirem-lhe esses dois<br \/>\nalentos, e ver\u00e3o que lodo impuro e nauseante ficam sendo aquelas formas<br \/>\nsedutoras.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Pois luz e esp\u00edrito n\u00e3o eram a ess\u00eancia da alma<br \/>\nde Am\u00e9lia? Quando essa alma a vestia com uma t\u00fanica resplandecente,<br \/>\nque mulher se lhe podia comparar em lindeza? Ent\u00e3o n\u00e3o era somente<br \/>\nformosa, flutuava em um \u00e9ter de beleza deslumbrante.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mas ela n\u00e3o \u00e9 feia, \u00e9 aleijada!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Um solu\u00e7o afogou as tristes lucubra\u00e7\u00f5es do mancebo.<br \/>\nEle repassou outra vez na mente as circunst\u00e2ncias de sua triste descoberta;<br \/>\nquis duvidar, combateu pertinazmente sua pr\u00f3pria raz\u00e3o que lhe<br \/>\napresentava a realidade, e afinal sucumbiu, curvando-se \u00e0 implac\u00e1vel<br \/>\ncerteza. Tinha visto uma vez, e como essa n\u00e3o bastasse, o acaso lhe<br \/>\noferecera ocasi\u00e3o de apalpar a verdade e saciar-se dela.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o se admira a V\u00eanus de Milo, uma est\u00e1tua mutilada?<br \/>\ndizia o mancebo relutando contra sua viva repugn\u00e2ncia. N\u00e3o se<br \/>\nadmira o primor da arte grega, apesar de n\u00e3o restar dela mais do que<br \/>\numa cabe\u00e7a e um torso de mulher? Essa beleza truncada n\u00e3o vale<br \/>\na beleza aleijada? A mutila\u00e7\u00e3o n\u00e3o repugna tanto ou mais<br \/>\ndo que a deformidade?<\/p>\n<p>A raz\u00e3o de Leopoldo n\u00e3o o deixava embalar-se muito tempo nesse<br \/>\npensamento consolador Replicava logo, refutando vigorosamente as arg\u00facias<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; A est\u00e1tua mutilada, que excita a admira\u00e7\u00e3o do mundo,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 a c\u00f3pia integral da beleza que lhe servia de tipo,<br \/>\nmas um fragmento apenas dessa c\u00f3pia. A alma, que se extasia na contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesse fragmento, recomp\u00f5e o ideal do artista. Admira-se a V\u00eanus<br \/>\nde Milo, como se admira um esbo\u00e7o n\u00e3o acabado de Rafael; como<br \/>\nse admira a p\u00e9tala de uma rosa, arrancada da corola. Mas, fosse embora<br \/>\naquele primor de estatu\u00e1ria a reprodu\u00e7\u00e3o exata de uma<br \/>\nmulher, a mutila\u00e7\u00e3o respeita a beleza; o aleij\u00e3o a deturpa.<br \/>\nSe a mulher que se ama perdesse um p\u00e9, seria desgra\u00e7ada; com<br \/>\num p\u00e9 monstruoso, \u00e9 mais do que desgra\u00e7ada, \u00e9<br \/>\nrepulsiva.<\/p>\n<p>Leopoldo deixava-se convencer por estas sugest\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8212; Infelizmente assim \u00e9. Mas por que h\u00e1 de ser assim? A mutila\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 um fato humano; o aleij\u00e3o \u00e9 um fato natural. Essa aberra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo princ\u00edpio criador, esse desvio da forma primitiva, indicam sem d\u00favida<br \/>\num v\u00edcio na ess\u00eancia do organismo. N\u00e3o se tem verificado<br \/>\nque nos corpos mal conformados de nascen\u00e7a habita sempre uma alma enferma?<br \/>\nNos corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal \u00e9 o tronco da intelig\u00eancia.<br \/>\nA deformidade de um membro, de um ramo apenas, n\u00e3o denota eiva t\u00e3o<br \/>\nprofunda do esp\u00edrito, \u00e9 certo, mas revela que a alma n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 nobre e superior. N\u00e3o se concebe o anjo dentro de um aleij\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado destas cogita\u00e7\u00f5es era a gota de fel espremido,<br \/>\nque ia filtrando a pouco e pouco no cora\u00e7\u00e3o e acabaria por saturar<br \/>\ntodas as doces reminisc\u00eancias dos \u00faltimos dias. Leopoldo convenceu-se<br \/>\nque n\u00e3o devia amar a desconhecida; mas, ao contr\u00e1rio, arrancar<br \/>\nde sua alma os germes da paix\u00e3o nascente.<\/p>\n<p>Tomando esta.resolu\u00e7\u00e3o, o mo\u00e7o, que vivia muito retirado<br \/>\ndepois de suas desgra\u00e7as de fam\u00edlia, esteve a lembrar-se de<br \/>\nalgumas antigas rela\u00e7\u00f5es. Veio-lhe o desejo de cultiv\u00e1-las<br \/>\nde novo. Um instinto lhe dizia que para gastar as prim\u00edcias de um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nvirgem, n\u00e3o h\u00e1 como o atrito do mundo.<\/p>\n<p>Entre as casas que outrora freq\u00fcentava, escolheu para a primeira noite<br \/>\na de D. Clementina, amiga \u00edntima de sua irm\u00e3. Era uma senhora<br \/>\nj\u00e1 no decl\u00ednio da idade e da formosura; gostava muito de dan\u00e7ar,<br \/>\ne por isso reunia constantemente em sua sala as mo\u00e7as de sua amizade.<br \/>\nLogo que se achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o sinal, o<br \/>\nmarido arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze anos, sentava-se<br \/>\nao piano e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Chass\u00e9-crois\u00e9! gritava D. Clementina.<\/p>\n<p>Nesta casa Leopoldo tinha certeza, n\u00e3o s\u00f3 de ser bem recebido,<br \/>\ncomo de encontrar bastante arru\u00eddo para aturdir-se e abafar uns gemidos<br \/>\nque sentia \u00e0s vezes repercutirem no cora\u00e7\u00e3o. Tinham decorrido<br \/>\ncinco dias depois da decep\u00e7\u00e3o; \u00e0s oito horas da noite<br \/>\nentrou o mo\u00e7o na sala de D. Clementina, que o recebeu com surpresa<br \/>\ncheia de amabilidades.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de estimado, acontecia que ele era justamente o quarto par. Tirado<br \/>\no dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e tr\u00eas velhas, inv\u00e1lidas<br \/>\nda dan\u00e7a, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros; servindo<br \/>\numa senhora de cavalheiro, ainda faltava metade de um par.<\/p>\n<p>Quando a campainha anunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos fitos<br \/>\nna porta da sala, disp\u00f4s-se a receber o rec\u00e9m-chegado com o seu<br \/>\nmais af\u00e1vel sorriso. Vendo Leopoldo, correu a ele, e desfolhando-lhe<br \/>\num ramalhete de amabilidades, tran\u00e7ou-lhe o bra\u00e7o; antes que<br \/>\no mo\u00e7o tomasse p\u00e9 na sala, era arrebatado pela quadrilha, a<br \/>\ncompasso de galope.<\/p>\n<p>Realmente ele n\u00e3o podia escolher melhor. A agita\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquela dan\u00e7a r\u00e1pida, sem pausa; a confus\u00e3o que os pares<br \/>\ncriavam de prop\u00f3sito para aumentar a anima\u00e7\u00e3o; os risos<br \/>\ne gracejos que provocavam os menores incidentes da quadrilha; todo esse rumor<br \/>\ne atropelo tinham por tal forma sacudido o esp\u00edrito de Leopoldo, que<br \/>\nas id\u00e9ias e recorda\u00e7\u00f5es tristes lhe ca\u00edram, como<br \/>\nas folhas secas de uma \u00e1rvore, abalada pelo vento rijo do outono.<\/p>\n<p>Sentiu o cora\u00e7\u00e3o vazio, por\u00e9m tranq\u00fcilo; o prazer<br \/>\nvivo e cintilante daquela reuni\u00e3o, apenas ro\u00e7ava-lhe pela superf\u00edcie;<br \/>\nn\u00e3o penetrava, mas tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o transudavam-lhe<br \/>\ndo \u00edntimo as amarguras de que nos \u00faltimos dias se tinha saturado.<\/p>\n<p>De repente operou-se na perspectiva da sala uma transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\ninesperada. Am\u00e9lia entrara; e sua gra\u00e7a difundiu-se com um influxo<br \/>\nceleste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na irradia\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seus olhares.<\/p>\n<p>Leopoldo embebeu-se naquela suave apari\u00e7\u00e3o, como da primeira<br \/>\nvez que a vira, mas para percorrer em um \u00e1pice, as fases de seu amor,<br \/>\ne cair de novo na esmagadora decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De repente aquela est\u00e1tua luminosa escureceu a seus olhos deixando<br \/>\napenas um res\u00edduo negro: esqueleto calcinado que arrastava uma deformidade.<br \/>\nDebalde Am\u00e9lia se ostentava no fulgor de sua beleza, toucada pelos<br \/>\nprimeiros arreb\u00f3is do amor; debalde as ondula\u00e7\u00f5es de<br \/>\nseu corpo debuxavam formas encantadoras, e o sorriso de seus l\u00e1bios<br \/>\ndestilava uma fragr\u00e2ncia m\u00edstica de beijos puros; os olhos de<br \/>\nLeopoldo n\u00e3o viam nenhum desses encantos. Atrav\u00e9s dos folhos<br \/>\ndo vestido ro\u00e7agante, sua vista fitava-se implac\u00e1vel no p\u00e9<br \/>\nmonstruoso que lhe esmagava o cora\u00e7\u00e3o como a pata grosseira<br \/>\nde um animal.<\/p>\n<p>Todos os encantos dessa criatura, ele os despia de seu manto sedutor e dissecava-os<br \/>\ncom frio rancor. A inflex\u00e3o voluptuosa do talhe provinha da resist\u00eancia<br \/>\nque opunha ao andar o enorme p\u00e9; o passo ligeiro era um esfor\u00e7o<br \/>\nsupremo para disfar\u00e7ar o aleij\u00e3o, o sorriso gracioso um enleio<br \/>\npara prender os olhos estranhos, n\u00e3o permitindo que eles se abaixassem<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 f\u00edmbria do vestido.<\/p>\n<p>E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexor\u00e1vel,<br \/>\nse tinha cravado na orla da saia elegante, donde n\u00e3o havia for\u00e7as<br \/>\npara arranc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia sentiu esse olhar cruciante e estremeceu, tomada de um vago<br \/>\nterror. Imediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido, procurou<br \/>\ndisfar\u00e7ar; mas em v\u00e3o: o olhar do mo\u00e7o continuava fito<br \/>\nno mesmo ponto e produzia nela uma sensa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 D. Am\u00e9lia, filha de um negociante, chamado Sales. N\u00e3o<br \/>\nconhece?<\/p>\n<p>Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que sentando-se<br \/>\na seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, minha senhora.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o vou apresent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigado, D. Clementina; depois.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o acha muito galante?<\/p>\n<p>Leopoldo hesitou:<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Muito !<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>XVI<\/h4>\n<p>Fazia uma semana que Hor\u00e1cio n\u00e3o aparecia em casa de Sales.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira contentou-se<br \/>\ncom um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade.<\/p>\n<p>O negociante de sua parte havia passado por casa do mo\u00e7o, que pretextou<br \/>\num defluxo para justificar sua aus\u00eancia; e prometeu aparecer no dia<br \/>\nseguinte.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio compreendia a necessidade de sair da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndif\u00edcil em que se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de<br \/>\ncogitar, entendeu que o melhor era confiar-se \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo momento.<\/p>\n<p>No dia seguinte \u00e0 noite, dirigiu-se \u00e0 casa do negociante.<\/p>\n<p>As duas senhoras estavam sentadas junto \u00e0 mesa; a m\u00e3e lia,<br \/>\na filha pensava. Am\u00e9lia estava triste, sua m\u00e3e supunha que eram<br \/>\nsaudades.<\/p>\n<p>Quando Hor\u00e1cio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer.<br \/>\nAm\u00e9lia sentiu um vislumbre de esperan\u00e7a, que iluminou o sorriso<br \/>\nde seus l\u00e1bios.<\/p>\n<p>&#8212; Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos suspiros!<\/p>\n<p>A conversa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou friamente, e foi se arrastando<br \/>\npor algum tempo. &#8212; N\u00e3o tem sa\u00eddo? perguntou Hor\u00e1cio<br \/>\ndepois de uma pausa.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o; Am\u00e9lia n\u00e3o tem querido.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu\u00ea? perguntou o mo\u00e7o voltando-se para a noiva.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o n\u00e3o sabe? acudiu D. Leonor.<\/p>\n<p>&#8212; Porque n\u00e3o se ofereceu ocasi\u00e3o, disse Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>&#8212; Mas tem recebido visitas?<\/p>\n<p>&#8212; Algumas.<\/p>\n<p>&#8212; O Leopoldo n\u00e3o apareceu?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o freq\u00fcenta nossa casa, respondeu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!&#8230; cuidei.<\/p>\n<p>&#8212; Se ele nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas vezes. &#8212;<br \/>\nPod\u00edamos nos desencontrar, disse Hor\u00e1cio com um sorriso motejador.<br \/>\nAm\u00e9lia percebeu que o mo\u00e7o estava procurando um pretexto para<br \/>\ndespeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida, estava alheia<br \/>\n\u00e0 conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Foi em casa do Azevedo que o apresentaram \u00e0 senhora?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o; conhe\u00e7o-o de muito tempo; h\u00e1 perto de dois meses.<\/p>\n<p>&#8212; De onde, se n\u00e3o \u00e9 segredo?<\/p>\n<p>&#8212; Segredo, por qu\u00ea? Ele freq\u00fcenta a casa de D. Clementina que<br \/>\nrecebe \u00e0s quintas-feiras. Constantemente nos encontramos a\u00ed.<br \/>\n\u00c9 uma reuni\u00e3o muito agrad\u00e1vel; estamos quase em fam\u00edlia,<br \/>\nsem a menor cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! nunca me convidou para essas reuni\u00f5es; eu teria muito prazer<br \/>\nem acompanh\u00e1-la, mas talvez fosse importuno, como j\u00e1 vou sendo<br \/>\naqui.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor est\u00e1 habituado a viver na alta sociedade; havia de aborrecer-se.<\/p>\n<p>&#8212; Mas a senhora n\u00e3o se aborrecia; ao contr\u00e1rio divertia-se<br \/>\nbastante.<\/p>\n<p>&#8212; Alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8212; E Leopoldo era seu par?<\/p>\n<p>&#8212; Era.<\/p>\n<p>&#8212; Par constante?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei se era constante ou n\u00e3o; quase sempre ele dan\u00e7ava<br \/>\ncomigo, porque l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 muito onde escolher; os pares<br \/>\ns\u00e3o poucos.<\/p>\n<p>&#8212; \u00d3timo sistema! Assim n\u00e3o se repara.<\/p>\n<p>&#8212; Em qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma mo\u00e7a j\u00e1 tenha<br \/>\nnoivo arranjado, h\u00e1 gente que exige da parte dessa mo\u00e7a certa<br \/>\nreserva, porque enfim o outro pode n\u00e3o querer aceitar a responsabilidade<br \/>\nde tudo! \u00c9 uma impertin\u00eancia, concordo, mas o mundo tem destes<br \/>\ncaprichos.<\/p>\n<p>&#8212; Isso se entende naturalmente com as mo\u00e7as que t\u00eam noivo arranjado,<br \/>\nretorquiu Am\u00e9lia frisando a palavra, e n\u00e3o com aquelas, cuja<br \/>\nm\u00e3o se pediu talvez para satisfazer uma simples fantasia.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a levantou-se da mesa lan\u00e7ando ao le\u00e3o um olhar<br \/>\ndesdenhoso, e foi sentar-se ao piano. Enquanto ela tocava uma varia\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Thalberg, Hor\u00e1cio para fazer alguma coisa, se entreteve em arranjar<br \/>\nas figuras chinesas de um jogo de paci\u00eancia. Nunca ele precisara tanto<br \/>\nde prover-se dessa virtude evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Decorridos alguns instantes o le\u00e3o ergueu-se da mesa, deu algumas<br \/>\nvoltas pela sala, e aproximou-se do piano, como para ver a eleg\u00e2ncia<br \/>\ncom que a mo\u00e7a dedilhava.<\/p>\n<p>&#8212; A senhora acha muito natural, D. Am\u00e9lia, que uma noiva freq\u00fcente<br \/>\nassiduamente uma casa onde n\u00e3o tem entrada o homem com quem vai casar-se;<br \/>\nacha natural que essa mo\u00e7a tenha em tais reuni\u00f5es um par efetivo<br \/>\nque provavelmente cultiva uma dessas amizades c\u00e2ndidas dos romances<br \/>\nde Balzac, verdadeiros l\u00edrios do vale, que vivem de orvalhos e de sombras.<br \/>\nEu, por\u00e9m, sou um esp\u00edrito prosaico e material; tenho a infelicidade<br \/>\nde n\u00e3o acreditar na atra\u00e7\u00e3o misteriosa dos esp\u00edritos,<br \/>\nno cons\u00f3rcio ideal ias almas irm\u00e3s, nos sonhos et\u00e9reos,<br \/>\nnos efl\u00favios celestes, em toda essa g\u00edria<\/p>\n<p>sentimental. Para mim, intelig\u00eancia grosseira, tudo isso n\u00e3o<br \/>\npassa de uma hipocrisia do primeiro tartufo deste mundo, o amor. \u00c9<br \/>\num tiranete que toma todas as figuras e posi\u00e7\u00f5es; faz-se menino<br \/>\nou velho, anjo ou dem\u00f4nio, poeta ou banqueiro&#8230; Estou incomodando-a<br \/>\ntalvez?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o; acabe.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras<br \/>\ndo le\u00e3o; mas \u00e0 \u00faltima frase, ela retirou as m\u00e3os<br \/>\ndo teclado. Foi esse o motivo da pergunta de Hor\u00e1cio.<\/p>\n<p>&#8212; A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior raz\u00e3o, de serem<br \/>\nprivados de uma distra\u00e7\u00e3o que tanto lhes agrada!<\/p>\n<p>&#8212; Compreendo, replicou Am\u00e9lia. O senhor me pro\u00edbe que eu v\u00e1<br \/>\n\u00e0 casa de D. Clementina?<\/p>\n<p>&#8212; Que id\u00e9ia! N\u00e3o tenho direito de proibir; ainda n\u00e3o<br \/>\nsou seu marido; a senhora \u00e9 completamente livre de suas a\u00e7\u00f5es,<br \/>\npode ir \u00e0 casa de D. Clementina, ou onde lhe aprouver; assim como eu<br \/>\nposso, querendo, passar as noites no Clube ou no Alc\u00e1zar.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia soltou uma risada.<\/p>\n<p>&#8212; Pensava que os le\u00f5es estavam isentos dessa fragilidade do ci\u00fame.<\/p>\n<p>&#8212; Perd\u00e3o; n\u00e3o se trata de ci\u00fame, nem sei o que isso<br \/>\n\u00e9. A quest\u00e3o reduz-se a uma antipatia de caracteres, a uma contradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde g\u00eanios, que deve ter para o futuro graves conseq\u00fc\u00eancias.<br \/>\nA senhora \u00e9 idealista, eu sou materialista. Um quisera viver no mundo<br \/>\ndos sonhos, outro neste vale das l\u00e1grimas e das realidades. A senhora<br \/>\nprocurando-me no c\u00e9u entre as estrelas e os anjos, e n\u00e3o me<br \/>\nachando a\u00ed, sofreria uma cruel decep\u00e7\u00e3o; entretanto que<br \/>\neu na terra, ficarei reduzido \u00e0 sombra da mulher que amei.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pouco, para quem se contentava com um p\u00e9<br \/>\nde crian\u00e7a, disse Am\u00e9lia com ironia.<\/p>\n<p>&#8212; Mas esse p\u00e9 era a realidade, a express\u00e3o a mais sublime<br \/>\ndela!<\/p>\n<p>&#8212; Custa-lhe pouco a possuir essa realidade. Mande fabric\u00e1-la em cera:<br \/>\nsair\u00e1 ainda mais perfeita.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n\u00e3o perdi a esperan\u00e7a de encontr\u00e1-la.<\/p>\n<p>O ch\u00e1 interrompeu o di\u00e1logo. Os dois noivos aproximaram da<br \/>\nmesa oval, onde o criado acabava de colocar a bandeja.<\/p>\n<p>A fisionomia de Am\u00e9lia perdera a express\u00e3o de tristeza e des\u00e2nimo<br \/>\nque tinha a princ\u00edpio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons<br \/>\nvivos.<\/p>\n<p>Ocupada em dispor as x\u00edcaras para ench\u00ea-las, os gestos sempre<br \/>\nmacios da mo\u00e7a revelavam certa crispa\u00e7\u00e3o nervosa.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio ficara contrariado, porque n\u00e3o tivera tempo de precipitar<br \/>\no casus belli. Receava que se demorasse ainda o rompimento que ele tanto desejava.<\/p>\n<p>&#8212; Mam\u00e3e, disse Am\u00e9lia com inten\u00e7\u00e3o, amanh\u00e3<br \/>\n\u00e9 quinta-feira. Vamos passar a noite em casa de D. Clementina?<\/p>\n<p>&#8212; Se quiseres.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o devemos faltar; deixamos de ir a semana passada.<\/p>\n<p>&#8212; Foi logo depois do baile do Azevedo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o o convido, disse Am\u00e9lia voltando-se para Hor\u00e1cio,<br \/>\nporque o senhor n\u00e3o freq\u00fcenta essas reuni\u00f5es de gente pobre.<\/p>\n<p>&#8212; Sem d\u00favida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros,<br \/>\nrespondeu Hor\u00e1cio, cruzando com a mo\u00e7a um olhar de desafio.<\/p>\n<p>Ele sentiu que Am\u00e9lia o provocava, e exultou. A mo\u00e7a estava<br \/>\ndisposta a resistir; o rompimento era infal\u00edvel e pronto.<\/p>\n<p>&#8212; Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa t\u00e3o agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Hor\u00e1cio<br \/>\natirou \u00e0 mo\u00e7a rapidamente estas palavras:<\/p>\n<p>&#8212; Pois se a senhora voltar \u00e0 casa de D. Clementina, eu n\u00e3o<br \/>\nvoltarei mais aqui.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia estremeceu.<\/p>\n<p>Um quarto de hora depois, Hor\u00e1cio retirou-se. Quando se despedia das<br \/>\nsenhoras, disse o le\u00e3o \u00e0 mo\u00e7a apertando-lhe a m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Desejo que se divirta muito amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8212; Aonde? perguntou D. Leonor.<\/p>\n<p>&#8212; Em casa de D. Clementina. N\u00e3o vai, D. Am\u00e9lia?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a hesitou um instante. O ofego de seu colo traiu uma luta violenta,<br \/>\nmas r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Sua resolu\u00e7\u00e3o, antes que ela a exprimisse, manifestou-se na<br \/>\naltivez do porte, que uma vibra\u00e7\u00e3o \u00edntima erigira.<\/p>\n<p>&#8212; Vou sem falta!<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio, soltando a m\u00e3o da mo\u00e7a, que foi bater inerte<br \/>\nnos folhos do vestido, cortejou profundamente:<\/p>\n<p>&#8212; Seja muito feliz.<\/p>\n<p>Apenas o le\u00e3o desapareceu na porta, Am\u00e9lia abra\u00e7ando<br \/>\ne beijando a m\u00e3e, subiu precipitadamente a sua alcova; atirou-se a<br \/>\numa conversadeira, e desafogou em pranto e solu\u00e7os a dor que tinha<br \/>\nrecalcado desde muitos dias.<\/p>\n<p>A maior parte da noite foi para ela de vig\u00edlia. Viu correrem as horas;<br \/>\ncada momento que se escoava era uma esperan\u00e7a, uma ilus\u00e3o que<br \/>\nse desfolhava da flor vi\u00e7osa de sua alma.<\/p>\n<p>Aqueles que se separam das pessoas ou dos s\u00edtios queridos, conhecem<br \/>\nbem esse travo de cora\u00e7\u00e3o que chamamos saudade; e sabem quanto<br \/>\n\u00e9 cruel o momento da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 despedida cruciante como seja a da alma pelo amor<br \/>\nque nutriu durante muito tempo. H\u00e1 a\u00ed mais do que uma separa\u00e7\u00e3o:<br \/>\n\u00e9 quase a mutila\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia compreendera que tudo acabara entre Hor\u00e1cio e ela. Desde<br \/>\no dia do jantar receara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperan\u00e7a.<br \/>\nNaquela noite a esperan\u00e7a murchara, se n\u00e3o foi ela pr\u00f3pria,<br \/>\nAm\u00e9lia, quem a desfolhara.<\/p>\n<p>Agora na calada da noite, em sua alcova que lhe parecia um ermo, ela tinha<br \/>\nmedo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma sentia-se como<br \/>\nque asfixiada pelo sil\u00eancio e pela treva que a submergiam.<\/p>\n<h2>XVII<\/h2>\n<p>Como dissera a Am\u00e9lia, na sua \u00faltima visita, Hor\u00e1cio<br \/>\nn\u00e3o tinha perdido a esperan\u00e7a de encontrar o que ele chamava<br \/>\na realidade de seu amor: o pezinho gentil e mimoso do qual ele possu\u00eda<br \/>\na botina.<\/p>\n<p>Iludira-se nas suas investiga\u00e7\u00f5es; era preciso recome\u00e7ar.<\/p>\n<p>Tal era o pensamento que preocupava o le\u00e3o, recostado naquela mesma<br \/>\npoltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos de fuma\u00e7a<br \/>\ndo puro havana, rasteava nas espirais di\u00e1fanas a imagem confusa de<br \/>\nseus pensamentos.<\/p>\n<p>Tinham decorrido tr\u00eas dias depois do seu rompimento com Am\u00e9lia.<br \/>\nLogo na seguinte manh\u00e3, o le\u00e3o para n\u00e3o dar tempo ao<br \/>\narrependimento da mo\u00e7a, escreveu uma carta ao Sales, manifestando seu<br \/>\nreceio de que a antipatia de g\u00eanios tornasse infeliz uma uni\u00e3o<br \/>\nque todos ardentemente desejavam.<\/p>\n<p>O negociante mostrou a carta \u00e0 filha, que lhe disse com um sorriso<br \/>\nfor\u00e7ado:<\/p>\n<p>&#8212; Ele tem raz\u00e3o!<\/p>\n<p>A carta de Hor\u00e1cio teve resposta no mesmo dia. O Sales encontrando-o<br \/>\nna Rua do Ouvidor recusou-lhe o cumprimento.<\/p>\n<p>O le\u00e3o, satisfeito com esse pronto desenlace que evitava longas explica\u00e7\u00f5es,<br \/>\nachou-se a poucos passos de dist\u00e2ncia em frente de Leopoldo.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o le\u00e3o, apertando-lhe a m\u00e3o.<br \/>\nSempre que nos encontramos, ou est\u00e1 para acontecer ou j\u00e1 tem<br \/>\nacontecido alguma coisa de bom para mim.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sabes quanto estimo!&#8230; Assim eu sou uma esp\u00e9cie de<br \/>\nastro prop\u00edcio, sob cuja influ\u00eancia nasceste.<\/p>\n<p>&#8212; Queres ver? Havia muito tempo que n\u00e3o te via, quando nos encontramos<br \/>\nno baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! e sob o meu influxo ben\u00e9fico?<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos<br \/>\nos sacrif\u00edcios at\u00e9 o do casamento para possuir aquele pezinho!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Lembro-me.<\/p>\n<p>&#8212; O \u00fanico obst\u00e1culo era uma esp\u00e9cie de promessa ou<br \/>\narranjo de fam\u00edlia. Felizmente a menina, a tal Am\u00e9lia, compreendeu<br \/>\nque perdia seu tempo, e arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu<br \/>\naproveitei o pretexto; escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo<br \/>\nele me acaba de responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz<br \/>\nque sai do col\u00e9gio.<\/p>\n<p>&#8212; Neste caso dou-te meus parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>&#8212; E tu como vais com o sorriso?<\/p>\n<p>&#8212; Sem novidade.<\/p>\n<p>&#8212; Dize-me uma coisa, no dia em que a viste pela primeira vez, ela estava<br \/>\ns\u00f3 ou com outra mo\u00e7a? Fa\u00e7o-te esta pergunta porque foi<br \/>\nna Rua da Quitanda e quase pelo mesmo tempo que eu achei a botina.<\/p>\n<p>&#8212; Eram duas, respondeu Leopoldo sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Em uma vit\u00f3ria?<\/p>\n<p>&#8212; Sim.<\/p>\n<p>&#8212; A outra era mais baixa?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o afirmo.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus.<\/p>\n<p>O le\u00e3o separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua<br \/>\nconversa com Am\u00e9lia perto do bastidor e no dia do jantar, come\u00e7ou<br \/>\na combin\u00e1-las com as informa\u00e7\u00f5es de Leopoldo e com as<br \/>\ncircunst\u00e2ncias do encontro no Passeio P\u00fablico, onde vira o sinal<br \/>\nimpresso na areia pelo mimoso pezinho.<\/p>\n<p>Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o le\u00e3o resumia todas<br \/>\nas suas reflex\u00f5es, e chegava a este resultado:<\/p>\n<p>&#8212; Decididamente o pezinho \u00e9 de uma mo\u00e7a que ia com Am\u00e9lia,<br \/>\nno dia em que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no Passeio<br \/>\nP\u00fablico. Essa mo\u00e7a, cuja inicial \u00e9 um L, n\u00e3o \u00e9<br \/>\noutra sen\u00e3o Laura. Aquele pudor feroz era um ind\u00edcio infal\u00edvel.<br \/>\nAm\u00e9lia procurava imit\u00e1-lo por motivo bem diverso: mas n\u00e3o<br \/>\no conseguiu.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o chegou-se \u00e0 banquinha onde estava o cofre de pau-rosa<br \/>\ne contemplou a botina.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, o le\u00e3o foi a uma partida. Sua estrela o favorecia.<br \/>\nLaura l\u00e1 estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ela<br \/>\na princ\u00edpio recebeu com manifesta esquivan\u00e7a, mas depois com<br \/>\ntimidez.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio compreendia a raz\u00e3o do procedimento da mo\u00e7a.<br \/>\nPara tranq\u00fciliz\u00e1-la, teve o cuidado de nunca abaixar a vista \u00e0<br \/>\nf\u00edmbria do vestido, e mostrar-se enlevado pelo colo gracioso da gentil<br \/>\nsenhora. A li\u00e7\u00e3o que recebera anteriormente, o tornou de uma<br \/>\nprud\u00eancia consumada.<\/p>\n<p>No fim da noite o le\u00e3o conseguira restabelecer a confian\u00e7a<br \/>\nno esp\u00edrito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela cena<br \/>\ndo teatro. Era o essencial; com os meios de sedu\u00e7\u00e3o de que dispunha,<br \/>\ne a inclina\u00e7\u00e3o que a mo\u00e7a revelava por ele, contava certa<br \/>\na conquista. A quest\u00e3o era de tempo.<\/p>\n<p>Antes de quinze dias freq\u00fcentava a casa da mo\u00e7a e estava na intimidade<br \/>\nda fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Laura perdera o marido aos 17 anos, pouco tempo depois de casada. Era rica;<br \/>\nn\u00e3o lhe faltavam pretendentes atra\u00eddos pelo dote e pela beleza;<br \/>\nmas ela n\u00e3o parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade conjugal,<br \/>\nembora n\u00e3o tivesse passado da lua-de-mel. \u00c9 natural que o desejo<br \/>\nlhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando os apaixonados<br \/>\nque a cercavam.<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3, Hor\u00e1cio passando a p\u00e9, como costumava, pela<br \/>\ncasa da mo\u00e7a, viu-a, por entre as grades, sentada no jardim ocupada<br \/>\nem fazer um ramo de flores. Entrou e foi ter com ela, \u00e0 sombra de uma<br \/>\nlatada de madressilvas.<\/p>\n<p>Laura deu-lhe lugar perto de si; e come\u00e7aram a conversar sobre flores,<br \/>\nmodas e mil futilidades.<\/p>\n<p>Eram dez horas do dia. O sol brilhava em c\u00e9u l\u00edmpido; uma aragem<br \/>\nfresca sussurrava entre as folhas; os coleiros trinavam nas ramas das laranjeiras.<br \/>\nEsse concerto de perfumes e harmonias convidava o cora\u00e7\u00e3o a<br \/>\nabrir-se e cantar o seu hino de amor.<\/p>\n<p>Laura reclinou a fonte e emudeceu, com os olhos embebidos no seio de uma<br \/>\nrosa, que tinha no rega\u00e7o. Hor\u00e1cio tomou-lhe a m\u00e3o, que<br \/>\nela cedeu com t\u00eanue resist\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8212; Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela primeira<br \/>\nvez passar em um carro. Foi, se n\u00e3o me engano, na Rua da Quitanda;<br \/>\nia com a filha do Sales. Lembra-se?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a fez um gesto afirmativo.<\/p>\n<p>&#8212; Depois encontrei-a no teatro. A princ\u00edpio seus olhos me deixaram<br \/>\nconceber alguma esperan\u00e7a; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como<br \/>\nsofri! Cuidei que n\u00e3o houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar<br \/>\n\u00e0s ingenuidades dos 18 anos. Um dia ainda me lembro, via-a de longe<br \/>\nentrar no Passeio P\u00fablico; apressei-me para ter o prazer de cortej\u00e1-la,<br \/>\nreceber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei \u00e0 porta<br \/>\nfiquei desesperado. A senhora tinha sa\u00eddo, sempre com a filha do Sales.<br \/>\nRecorda-se?<\/p>\n<p>&#8212; Recordo-me, respondeu a mo\u00e7a. Mas era por mim que fazia tudo<\/p>\n<p>isso?<\/p>\n<p>&#8211; Duvida, Laura?<\/p>\n<p>&#8212; Nega que esteve apaixonado por Am\u00e9lia? At\u00e9 diziam que j\u00e1<br \/>\na tinha pedido.<\/p>\n<p>&#8212; Que ingratid\u00e3o! N\u00e3o sabe ent\u00e3o por que me fiz apresentar<br \/>\nem casa do Sales? Para v\u00ea-la; era preciso procurar um meio; a senhora<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o se lembra da dureza com que me tratava.<\/p>\n<p>&#8212; E por isso consolava-se com Am\u00e9lia?<\/p>\n<p>&#8212; Se amasse, Laura, havia de saber o que \u00e9 o ci\u00fame, e as loucuras<br \/>\nque ele nos obriga a fazer! Mas a senhora n\u00e3o ama!<\/p>\n<p>&#8212; Quem lhe disse?<\/p>\n<p>&#8212; Essa frieza.<\/p>\n<p>&#8212; E o que eu sofri?&#8230; balbuciou a moca pondo os olhos languidos no semblante<br \/>\ndo mancebo.<\/p>\n<p>&#8212; Perd\u00e3o, Laura, exclamou Hor\u00e1cio ajoelhando. Eu era um louco,<br \/>\nindigno de teu amor; e n\u00e3o mere\u00e7o tanta felicidade. Mas deixa-me<br \/>\nimplorar o meu perd\u00e3o; deixa-me beijar teus p\u00e9s, que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! .. .<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio proferiu aquelas palavras apaixonadas, de joelhos diante da<br \/>\nmoca que sorria inclinada para ele; de repente abaixou-se para beijar-lhe<br \/>\nos p\u00e9s, esse objeto de sua adora\u00e7\u00e3o. Foi ent\u00e3o<br \/>\nque ela soltando um grito de espanto, o repeliu para longe de si com horror.<\/p>\n<p>Contudo, o mo\u00e7o, que preparara toda aquela cena para chegar \u00e0<br \/>\nrealiza\u00e7\u00e3o do desejo por tanto tempo afagado, conseguira ver&#8230;<br \/>\nmas n\u00e3o o que esperava: um pezinho mimoso e gentil; e sim dois p\u00e9s<br \/>\ningleses de sofr\u00edvel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma<br \/>\nalmofada preta.<\/p>\n<p>O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas<br \/>\nfaces intumescidas respirava uma express\u00e3o feroz de \u00f3dio e vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio compreendeu que naquele momento qualquer explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nera imposs\u00edvel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim<br \/>\nde contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades<br \/>\nda retirada.<\/p>\n<p>Cortejou e saiu.<\/p>\n<p>A alguns passos da casa, o le\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de conter uma gargalhada,<br \/>\nque lhe estava a sufocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas<br \/>\nvezes mistificado em sua paix\u00e3o, ele, o rei da moda, o conquistador<br \/>\nsempre feliz.<\/p>\n<p>Insensivelmente come\u00e7ou a refletir sobre o ocorrido. Por mais que<br \/>\nse desse tratos \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia decifrar<br \/>\no enigma. A botina que achara fora perdida por uma das duas mo\u00e7as;<br \/>\nmas n\u00e3o pertencia a nenhuma. Seria encomenda de outra amiga, e talvez<br \/>\npara alguma menina de dez anos?<\/p>\n<p>De repente surgiu no esp\u00edrito de Hor\u00e1cio uma id\u00e9ia t\u00e3o<br \/>\noriginal, como a situa\u00e7\u00e3o em que se achava.<\/p>\n<p>&#8212; Eu vi os dois p\u00e9s de Laura; mas de Am\u00e9lia, s\u00f3 vi<br \/>\num; \u00e9 verdade que esse valia por tr\u00eas. Mas&#8230; N\u00e3o resta<br \/>\nd\u00favida. A natureza tem destes caprichos. A maravilha a par do monstro,<br \/>\no mimo em face da deformidade! \u00c9 o princ\u00edpio do contraste, que<br \/>\nrege o mundo. Eu vi o direito, o aleij\u00e3o. O esquerdo ficou oculto como<br \/>\na p\u00e9rola e o diamante.<\/p>\n<p>Compenetrado dessa id\u00e9ia, de que o pezinho adorado pertencia a Am\u00e9lia,<br \/>\na quem a natureza em compensa\u00e7\u00e3o aleijara o outro, Hor\u00e1cio<br \/>\nadmitiu a possibilidade de que sua paix\u00e3o pela mo\u00e7a revivesse,<br \/>\nembora menos ardente, ou mais positiva.<\/p>\n<p>Ter aquele pezinho em suas m\u00e3os, senti-lo estremecer e palpitar de<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o, cobri-lo de beijos, acariciar a r\u00f3sea c\u00fatis<br \/>\ndi\u00e1fana tecida de veias azuis, brincar-lhe com as unhas crespas, como<br \/>\nconchinhas de n\u00e1car, cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de<br \/>\namor e vol\u00fapia!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o podia haver para o le\u00e3o maior del\u00edcia neste mundo.<br \/>\nEle daria por ela todo o quinh\u00e3o de prazer que porventura lhe estava<br \/>\nreservado para o resto da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Foi engolfado nestes devaneios que Hor\u00e1cio apeou-se \u00e0 Rua Direita<br \/>\nde um t\u00edlburi, que tomara no Largo do Machado.<\/p>\n<p>Seguindo para a Rua do Ouvidor, a passo lento e descuidado, o le\u00e3o<br \/>\naspirava o ar da cidade, como o ocioso que n\u00e3o sabe em que h\u00e1<br \/>\nde consumir o dia e fareja uma aventura qualquer.<\/p>\n<p>De repente avistou coisa que o p\u00f4s alerta. Um carro que subia a Rua<br \/>\ndo Ouvidor passou por ele; era o cup\u00ea do Sales. O rosto encantador de<br \/>\nAm\u00e9lia apareceu-lhe a princ\u00edpio de relance na penumbra que azulava<br \/>\no acolchoado de damasco, e depois em plena luz moldurado pelo quadro do postigo.<\/p>\n<p>Acompanhando com o olhar a carruagem, Hor\u00e1cio a viu rodar por algum<br \/>\ntempo vagarosamente por causa de embara\u00e7o no transito e parar pr\u00f3ximo<br \/>\n\u00e0 esquina da Rua dos Ourives. O lacaio, com a m\u00e3o na aldraba,<br \/>\nesperava naturalmente ordem para abrir.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Am\u00e9lia<br \/>\ncoroada com um chapeuzinho de palha da It\u00e1lia, assomando no postigo,<br \/>\na fim de percorrer a rua com o olhar. A id\u00e9ia de que a mo\u00e7a<br \/>\nlhe desejava falar passou pela mente do le\u00e3o, que a repeliu, sem contudo<br \/>\nconsider\u00e1-la imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Em todo caso ele acreditou que mais ou menos tinha parte naquela parada do<br \/>\ncarro, e n\u00e3o se enganava.<\/p>\n<p>&#8212; Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.<\/p>\n<p>&#8212; Quero comprar luvas no Masset, respondeu a filha.<\/p>\n<p>&#8212; Ficou atr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8212; Podemos ir a p\u00e9.<\/p>\n<p>Quando o le\u00e3o chegou a dez bra\u00e7as do carro, a portinhola abriu-se,<br \/>\ne Am\u00e9lia, em companhia de sua m\u00e3e, saltou na cal\u00e7ada.<br \/>\nA mo\u00e7a tinha um roup\u00e3o cor de caf\u00e9, de extrema simplicidade,<br \/>\npor\u00e9m muito elegante; as luvas eram da mesma cor de cinza das fitas<br \/>\ndo chap\u00e9u de palha.<\/p>\n<p>As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Hor\u00e1cio procurou<br \/>\ncortej\u00e1-las na passagem, mas elas n\u00e3o lhe deram ocasi\u00e3o.<br \/>\nContudo o le\u00e3o reparou que a mo\u00e7a disfar\u00e7adamente voltou<br \/>\no rosto para olh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Enquanto as senhoras compravam luvas, Hor\u00e1cio as esperava em frente<br \/>\nda casa do Valais, a alguns passos do carro. Pouco tardaram. Am\u00e9lia<br \/>\nvinha s\u00f3 na frente. Felizmente o transito pela cal\u00e7ada diminuiu<br \/>\nnaquele instante, de modo que o conquistador p\u00f4de ver a gosto a mo\u00e7a<br \/>\naproximar-se dele. Levados por impulso irresist\u00edvel os olhares do mancebo<br \/>\nabaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no ch\u00e3o que<br \/>\na mo\u00e7a pisava.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia percebeu a insist\u00eancia do olhar, e um ligeiro sorriso<br \/>\nfugiu-lhe dos l\u00e1bios. Imaginando que na cal\u00e7ada havia lama,<br \/>\ncolheu com ambas as m\u00e3os a frente da saia, e com tanto estouvamento<br \/>\nque descobriu os p\u00e9s at\u00e9 o colo da perna.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio ficou fulminado.<\/p>\n<p>Vira pousados na cal\u00e7ada dois pezinhos mimosos que palpitavam dentro<br \/>\nde botinas de merin\u00f3 cor de cinza. Pareciam um par de rolinhas, arrulhando<br \/>\nna praia e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o r\u00e1pido instante,<br \/>\nque seus olhos puderam admirar esses primores de gra\u00e7a e gentileza,<br \/>\nn\u00e3o escaparam a Hor\u00e1cio as ondula\u00e7\u00f5es voluptuosas<br \/>\ne os contornos suaves dos dois silfos. Nunca ele observara no talhe elegante<br \/>\nda mais formosa mulher requebros t\u00e3o aveludados, como tinha aquele<br \/>\ndorso arqueado e aquela palmilha sutil.<\/p>\n<p>Tamanho foi o pasmo de Hor\u00e1cio, que sr deu por si quando a mo\u00e7a,<br \/>\npassando por ele, entrou na carruagem. Voltou-se ent\u00e3o precipitadamente,<br \/>\nsem consci\u00eancia do que ia fazer; mas a parelha j\u00e1 tinha partido<br \/>\na trote largo.<\/p>\n<p>Momentos depois o le\u00e3o descia a Rua do Ouvidor completamente absorto.<br \/>\nSeu l\u00e1bio distra\u00eddo ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos<br \/>\ndos lindos versos do conselheiro Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio:<\/p>\n<p>&#8220;Padres, n\u00e3o me negueis, se estais em calma, &#8220;Um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nno p\u00e9, na perna um&#8217;alma!&#8221;<\/p>\n<h2>XVIII<\/h2>\n<p>Laura e Am\u00e9lia eram primas e amigas de inf\u00e2ncia; havia entre<br \/>\nelas apenas a diferen\u00e7a de dezoito meses.<\/p>\n<p>Desde a idade de tr\u00eas ou quatro anos, isto \u00e9, desde que deixou<br \/>\nas faixas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a todos<br \/>\nque viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam extravagante e<br \/>\nrid\u00edculo o capricho e censuravam a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e<br \/>\ncalava-se; mas n\u00e3o alterava o vestu\u00e1rio da menina. A ternura<br \/>\ne piedade materna lhe davam a paci\u00eancia necess\u00e1ria para arrostar<br \/>\ncom as zombarias do mundo.<\/p>\n<p>Laura tinha um aleij\u00e3o; nascera com os p\u00e9s disformes. Para<br \/>\nmais agravar o desgosto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada a uma beleza<br \/>\nang\u00e9lica. A senhora avaliou do infort\u00fanio de sua filha, e preparou-se<br \/>\npara todos os sacrif\u00edcios. Consultas foram dirigidas aos melhores m\u00e9dicos<br \/>\nda Europa; chegou a empreender uma viagem para tentar os recursos da ci\u00eancia;<br \/>\nforam todos ineficazes.<\/p>\n<p>Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgra\u00e7a de sua filha,<br \/>\na fim de que ela n\u00e3o fosse obrigada a envergonhar-se na sociedade.<br \/>\nDurante muito tempo Laura n\u00e3o teve outra criada, al\u00e9m de sua<br \/>\nm\u00e3e. \u00c0 custa de esfor\u00e7os constantes, de uma vigil\u00e2ncia<br \/>\nincessante de cada dia e cada hora, conseguiu a senhora manter esse segredo<br \/>\nde fam\u00edlia, do qual dependia a felicidade da filha.<\/p>\n<p>Atingindo a idade de oito anos, a menina com o instinto da mulher, compreendera<br \/>\nseu infort\u00fanio; e desde ent\u00e3o descansou a m\u00e3e daquele<br \/>\ncuidado incessante. Ficando mo\u00e7a casou-se, e seu marido que a amava<br \/>\nestremecidamente, morreu ignorando o segredo.<\/p>\n<p>Com bastante m\u00e1goa sua, Am\u00e9lia surpreendeu o segredo da prima<br \/>\ne amiga.<\/p>\n<p>A filha de Sales tinha dois pezinhos de fada, breves, arqueados, com uns<br \/>\ndedos que pareciam bot\u00f5es de rosa. O desgosto e vexame que isso causava<br \/>\n\u00e0 mo\u00e7a, ningu\u00e9m o imagina. Ela supunha-se aleijada; apesar<br \/>\nde seus 18 anos, seus p\u00e9s eram de menina.<\/p>\n<p>Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha<br \/>\nela em ocultar essa gra\u00e7a e prenda da natureza. Naquele tempo n\u00e3o<br \/>\nse tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contr\u00e1rio,<br \/>\no tom era arrastar desdenhosamente pelo ch\u00e3o a longa f\u00edmbria<br \/>\ndo vestido.<\/p>\n<p>Um dia que Laura passou em sua casa, Am\u00e9lia teve curiosidade de comparar<br \/>\nseu pezinho com o da prima, para saber se a diferen\u00e7a era excessiva.<br \/>\nEnquanto a outra endireitava o penteado no toucador, realizou ela seu intento.<\/p>\n<p>Avalie-se da vergonha e afli\u00e7\u00e3o de Laura; o desespero de Am\u00e9lia<br \/>\nfoi maior ainda. N\u00e3o perdoava a si mesma o ter causado t\u00e3o grande<br \/>\npesar \u00e0 prima, a quem ela queria muito bem. Para mitigar essa dor profunda,<br \/>\nLaura esqueceu a sua.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava<br \/>\no pezinho de Am\u00e9lia; esta, ou sinceramente, ou para atenuar a m\u00e1goa<br \/>\nda prima, chegava a invejar o seu infort\u00fanio.<\/p>\n<p>Aborrecida de n\u00e3o encontrar nas lojas cal\u00e7ado que lhe servisse,<br \/>\nAm\u00e9lia tinha descoberto por acaso o sapateiro da Rua Sete de Setembro.<br \/>\nConhecendo a habilidade do Matos, pensou que ele pudesse disfar\u00e7ar<br \/>\no defeito da prima. N\u00e3o se enganou; o artista realizara a obra-prima<br \/>\nde paci\u00eancia, que Leopoldo tivera ocasi\u00e3o de apreciar por um<br \/>\nacaso.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia fez a Laura o sacrif\u00edcio de expor-se para n\u00e3o<br \/>\ncomprometer o segredo da amiga. O sapateiro n\u00e3o a conhecia, nunca a<br \/>\ntinha visto, recebia as encomendas por interm\u00e9dio de um criado que<br \/>\npagava \u00e0 vista. F\u00e1cil foi portanto iludi-lo.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o em que as duas primas esperavam de carro na Rua da Quitanda,<br \/>\no lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a pressa, esquecera<br \/>\nas recomenda\u00e7\u00f5es de fechar bem o embrulho.<\/p>\n<p>As pretens\u00f5es de Hor\u00e1cio vieram pouco depois arrefecer a amizade<br \/>\ndas duas primas: j\u00e1 n\u00e3o se viam t\u00e3o ami\u00fade; mas<br \/>\nn\u00e3o obstante Am\u00e9lia continuou a prestar a Laura o mesmo servi\u00e7o,<br \/>\ne essa, coagida pela necessidade, foi obrigada a aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Iam as coisas por esse teor, quando teve lugar o baile do Azevedo.<\/p>\n<p>Depois da primeira quadrilha, Am\u00e9lia foi ao toucador. Era este em<br \/>\numa sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janela entreaberta,<br \/>\nobscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a mo\u00e7a os dois amigos<br \/>\nno momento em que eles vieram sentar-se no banco, justamente colocado por<br \/>\nbaixo da janela.<\/p>\n<p>A casa era abarracada. Am\u00e9lia encostada no portal da janela, descobria<br \/>\nos dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distintamente suas palavras.<\/p>\n<p>A\u00ed, im\u00f3vel, mas agitada por como\u00e7\u00f5es diversas,<br \/>\nescutou ela a hist\u00f3ria do p\u00e9 e a hist\u00f3ria do sorriso.<br \/>\nJ\u00e1 os dois amigos se tinham afastado, e a mo\u00e7a permanecia no<br \/>\nmesmo lugar como est\u00e1tica.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o de Hor\u00e1cio, e as observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nque fizera Leopoldo a esse respeito, revelaram \u00e0 mo\u00e7a uma coisa<br \/>\nque j\u00e1 anteriormente se havia apresentado, embora indistinta, vaga<br \/>\ne confusa a seu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>O que Hor\u00e1cio amava nela, n\u00e3o era mais do que uma forma, um<br \/>\ncapricho, um sonho de sua imagina\u00e7\u00e3o enferma. Ela compreendeu<br \/>\nessa aberra\u00e7\u00e3o dos sentidos em um homem gasto para o amor e<br \/>\nsaciado de prazeres. A mulher era para o le\u00e3o uma coisa comum e vulgar,<br \/>\nincapaz de produzir-lhe emo\u00e7\u00f5es fortes. Tinha-as admirado de<br \/>\ntodos os tipos e de todos os caracteres. Seu cora\u00e7\u00e3o exausto<br \/>\nprecisava de alguma coisa nova, original e extravagante.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia compreendeu isto, n\u00e3o por uma an\u00e1lise, que seu<br \/>\nesp\u00edrito casto n\u00e3o poderia fazer, mas por uma intui\u00e7\u00e3o<br \/>\nd,alma.<\/p>\n<p>Quando de novo encontrou Hor\u00e1cio no baile, suas maneiras n\u00e3o<br \/>\npodiam que se n\u00e3o ressentissem do estado de seu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTratou o le\u00e3o secamente; mas logo tornou-se am\u00e1vel; ocorreu-lhe<br \/>\numa id\u00e9ia; quis p\u00f4r \u00e0 prova o amor do noivo, antes de<br \/>\nconfiar-lhe seu destino.<\/p>\n<p>Foi na sua alcova, durante a ins\u00f4nia, que ela recordou-se da hist\u00f3ria<br \/>\nde Leopoldo, e comparou seu amor ao de Hor\u00e1cio. Repassando na mente<br \/>\nas palavras comovidas do primeiro, pensando naquele afeto t\u00e3o desprendido<br \/>\ndas mis\u00e9rias humanas, t\u00e3o d,alma, Am\u00e9lia sentia-se como<br \/>\npurificada dos desejos do sedutor.<\/p>\n<p>Esse amor puro e imaterial era um batismo para seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nvirgem.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a conheceu que o engano de Leopoldo provinha de uma ilus\u00e3o<br \/>\nda vista, no momento de entrar no carro com Laura; ilus\u00e3o confirmada<br \/>\npela presen\u00e7a do lacaio na loja do sapateiro. Chegou a estimar esse<br \/>\nincidente que p\u00f4s em relevo a alma nobre e generosa do mancebo.<\/p>\n<p>Acudiu-lhe \u00e0 lembran\u00e7a sua primeira conversa em casa de D.<br \/>\nClementina. As palavras que ent\u00e3o lhe pareceram inintelig\u00edveis,<br \/>\ntinham agora um sentido. Compreendia toda a sublimidade do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nque dizia com uma profunda convic\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Sinto-me capaz de amar o horr\u00edvel, sinto-me capaz de nutrir uma<br \/>\ndessas paix\u00f5es m\u00e1rtires, de amar o anjo ainda mesmo encarnado<br \/>\nno aleij\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Esse me ama realmente, a mim, e n\u00e3o \u00e0 sua fantasia! murmurou<br \/>\na mo\u00e7a com tristeza.<\/p>\n<p>No dia seguinte, depois de uma noite de ins\u00f4nia, preparou-se para receber<br \/>\nHor\u00e1cio e submet\u00ea-lo \u00e0 prova. O Matos conservava um par<br \/>\ndas antigas botinas de Laura, o qual lhe fora para modelo. Mandou Am\u00e9lia<br \/>\nbusc\u00e1-lo; e encheu-o de algod\u00e3o para acomodar nessa enormidade<br \/>\no seu mimoso pezinho.<\/p>\n<p>O bordado do bastidor foi expressamente inventado. Procurando uma letra para<br \/>\nindicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente, insensivelmente tra\u00e7ou<br \/>\num L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira \u00e0 mente; ou era a lembran\u00e7a<br \/>\nde Leopoldo, que lhe esvoa\u00e7ava ainda na imagina\u00e7\u00e3o? Foi<br \/>\numa e outra coisa. Serviu-se do pretexto da amiga para evocar o nome do homem,<br \/>\nque t\u00e3o profundamente a amava.<\/p>\n<p>Depois da cena que teve lugar na tarde do jantar, Am\u00e9lia arrependeu-se.<br \/>\nReceava ter-se excedido; bastava-lhe matar a ilus\u00e3o do mancebo, n\u00e3o<br \/>\ndevia ter excitado o horror. Mas o afeto de Leopoldo a tornara exigente; ela<br \/>\nqueria ser amada por Hor\u00e1cio da mesma forma, com aquela sublime abnega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante alguns dias, alimentou a esperan\u00e7a de conservar a afei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo noivo, e regozijava-se com a id\u00e9ia da surpresa que lhe guardava.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia do le\u00e3o a foi desenganando de dia em dia. Travou-se<br \/>\nent\u00e3o uma luta em seu esp\u00edrito. Devia esquecer o homem que n\u00e3o<br \/>\namava nela sen\u00e3o uma fantasia?<\/p>\n<p>O tom de Hor\u00e1cio na \u00faltima noite a irritou. Seu amor-pr\u00f3prio<br \/>\nindignou-se com o menoscabo do mo\u00e7o, e s\u00fabita revela\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sua alma lhe advertiu que esse casamento causaria sua desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>No dia seguinte ao do rompimento, Am\u00e9lia foi, como havia dito na v\u00e9spera,<br \/>\n\u00e0 casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a ver Leopoldo<br \/>\ndepois do baile.<\/p>\n<p>Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo falou, e a mo\u00e7a<br \/>\nembebeu-se daquelas palavras apaixonadas como de um efl\u00favio suave.<\/p>\n<p>Em um momento de pausa, disse Am\u00e9lia:<\/p>\n<p>&#8212; O senhor passou por nossa casa na ter\u00e7a-feira?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 verdade. Por que pergunta?<\/p>\n<p>&#8212; Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me animava.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu\u00ea?&#8230; Mam\u00e3e j\u00e1 lhe ofereceu nossa casa.<\/p>\n<p>&#8212; Tenho receio de ser importuno.<\/p>\n<p>&#8212; Pouco sa\u00edmos agora; \u00e0 exce\u00e7\u00e3o das noites que<br \/>\npassamos aqui, estamos sempre s\u00f3s; mam\u00e3e lendo e eu tocando<br \/>\nou fazendo algum trabalho de l\u00e3.<\/p>\n<p>&#8212; E ningu\u00e9m mais? perguntou Leopoldo, fitando na mo\u00e7a um olhar<br \/>\ninterrogador.<\/p>\n<p>&#8212; Ningu\u00e9m! respondeu Am\u00e9lia em tom grave.<\/p>\n<p>Leopoldo ficou suspenso, buscando compreender o pensamento da mo\u00e7a.<br \/>\nEra m\u00e1goa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe<br \/>\nanuviara a fisionomia?<\/p>\n<p>Mas o sorriso prazenteiro iluminou o semblante da mo\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8212; Sabe? Naquela noite do baile, me contaram uma hist\u00f3ria muito interessante,<br \/>\ndisse ela.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o se pode saber?<\/p>\n<p>&#8212; O senhor pode. Foi a hist\u00f3ria de um sorriso, disse Am\u00e9lia<br \/>\nsublinhando a palavra com um gesto faceiro.<\/p>\n<p>&#8212; Quem lhe contou? Foi ele?<\/p>\n<p>&#8212; Foi o senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Eu?<\/p>\n<p>&#8212; O senhor mesmo. J\u00e1 n\u00e3o se lembra?<\/p>\n<p>&#8212; Quer gracejar?<\/p>\n<p>&#8212; O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janela do<br \/>\ntoucador.<\/p>\n<p>Leopoldo adivinhou.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o ouviu tudo?<\/p>\n<p>&#8212; Tudo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E&#8230; perdoou-me?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o; n\u00e3o tinha de qu\u00ea, mas&#8230;<\/p>\n<p>E seus belos olhos l\u00edmpidos repousaram no semblante do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas compreendi!<\/p>\n<p>Nesse momento D. Leonor chamou Am\u00e9lia.<\/p>\n<h2>XIX<\/h2>\n<p>Quando recobrou-se da surpresa em que tinha ficado, Hor\u00e1cio n\u00e3o<br \/>\nachou em si mais do que o desejo veemente e irresist\u00edvel de possuir<br \/>\no \u00eddolo por tanto tempo sonhado.<\/p>\n<p>&#8212; Ser\u00e3o meus! murmurou consigo. Ser\u00e3o meus a todo pre\u00e7o.<br \/>\nSe for necess\u00e1rio um esc\u00e2ndalo, n\u00e3o hesitarei. Mas Am\u00e9lia<br \/>\nn\u00e3o deve ter-se esquecido de mim j\u00e1 t\u00e3o depressa; ela<br \/>\nme tinha afei\u00e7\u00e3o. Vou pedir-lhe perd\u00e3o de meu engano.<br \/>\nSujeitar-me-ei a todas as condi\u00e7\u00f5es. Que sacrif\u00edcios<br \/>\ns\u00e3o bastantes para pagar a felicidade de beijar aqueles dois mimos<br \/>\nda natureza!<\/p>\n<p>Instintivamente Hor\u00e1cio seguiu na dire\u00e7\u00e3o da casa do<br \/>\nSales, com inten\u00e7\u00e3o de restabelecer as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ninterrompidas. N\u00e3o sabia ele de que modo se houvesse em tal empenho;<br \/>\nfiava da inspira\u00e7\u00e3o do momento.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o estava o negociante no escrit\u00f3rio; nesse dia<br \/>\nse retirara mais cedo.<\/p>\n<p>Malograda sua esperan\u00e7a, o le\u00e3o foi caminhando pela Rua Direita<br \/>\nsem dire\u00e7\u00e3o, como quem n\u00e3o sabe o que fazer. O instinto<br \/>\nque no deserto guia o rei dos animais \u00e0 sebe odor\u00edfera onde<br \/>\nretou\u00e7am as gazelas, o conduzia naturalmente para a Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>Tinha chegado \u00e0 esquina, quando passou defronte um mo\u00e7o, que<br \/>\nseguiu pela cal\u00e7ada Carceler. Hor\u00e1cio acompanhou-o com a vista,<br \/>\nquerendo nele reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um m\u00eas<br \/>\nn\u00e3o vira.<\/p>\n<p>Se com efeito o mo\u00e7o era Leopoldo, tinha ele sofrido grande transforma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm vez do rapaz descuidado no seu traje, brusco em suas maneiras, sempre de<br \/>\ncabelos arrepiados e barba revolta, aparecia um cavalheiro de boa presen\u00e7a,<br \/>\ncom a s\u00f3bria eleg\u00e2ncia que t\u00e3o bem assenta nos homens<br \/>\nsisudos. Essa esp\u00e9cie de eleg\u00e2ncia \u00e9 apenas um ligeiro<br \/>\nperfume, e n\u00e3o uma incrusta\u00e7\u00e3o como a que usam os mo\u00e7os<br \/>\n\u00e0 moda.<\/p>\n<p>Com seu fino tato e longa experi\u00eancia, Hor\u00e1cio, reconhecendo<br \/>\no amigo, adivinhou o segredo daquela s\u00fabita metamorfose. Ele sabia<br \/>\nque s\u00f3 h\u00e1 um cond\u00e3o capaz de produzir tais encantos:<br \/>\n\u00e9 o olhar da mulher amada e amante.<\/p>\n<p>Ame algu\u00e9m e n\u00e3o saiba se \u00e9 retribu\u00eddo. Toda<br \/>\nsua exist\u00eancia se projeta nesse impulso d&#8217;alma, que se arroja para outro<br \/>\nser e anseia por nele infundir-se. Vive-se fora de si mesmo, alheio a seu<br \/>\npr\u00f3prio eu; como o peregrino perdido longe da p\u00e1tria, o homem<br \/>\nexilado de sua pessoa erra no espa\u00e7o, em demanda de um abrigo.<\/p>\n<p>Desde, por\u00e9m, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de expandir-se,<br \/>\nrecolhe-se e concentra-se para saturar-se de felicidade. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nse alheia e esquece de si; ao contr\u00e1rio, sente-se elevado acima do<br \/>\nque era; respeita em sua pessoa o homem amado.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o \u00e9 natural a cada um observar-se constantemente<br \/>\ne julgar de si com extrema severidade. Surgem aspira\u00e7\u00f5es estranhas;<br \/>\no fraco lembra-se de ser um her\u00f3i; o fil\u00f3sofo inveja a beleza<br \/>\ndo casquilho; o esp\u00edrito positivo habituado a voar terra a terra bate<br \/>\no coto das asas para remontar-se ao ideal da poesia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no homem que se opera essa metamorfose: mas<br \/>\nem toda a natureza. Quando se arreiam os p\u00e1ssaros de sua mais bela<br \/>\nplumagem, quando gorjeiam as melodias mais brilhantes, se n\u00e3o \u00e9<br \/>\nna quadra dos amores?<\/p>\n<p>Vendo Leopoldo parado na cal\u00e7ada Carceler, Hor\u00e1cio dirigiu-se<br \/>\ncom disfarce para aquela parte, com inten\u00e7\u00e3o de travar conversa<br \/>\ne esclarecer de todo em todo o mist\u00e9rio. Foi trabalho perdido; o mo\u00e7o<br \/>\nacabava de saltar em um t\u00edlburi, que rodava j\u00e1 pela Pra\u00e7a<br \/>\nde Pedro II.<\/p>\n<p>Desapontado, voltou Hor\u00e1cio sobre os passos.<\/p>\n<p>&#8212; Am\u00e9lia o ama!&#8230; Ou pelo menos ele o acredita!<\/p>\n<p>Sorriu-se o le\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Que fen\u00f4meno curioso produz o despeito na mulher! \u00c9 uma semelhan\u00e7a<br \/>\nda luz reflexa. Irritado pela decep\u00e7\u00e3o, humilhado em sua vaidade,<br \/>\no amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repelido por corpo<br \/>\nbrilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ela cuida sentir por esse plast\u00e3o<br \/>\numa paix\u00e3o ardente, que nada mais \u00e9 do que o \u00edmpeto de<br \/>\nseu despeito. Seria capaz de conceder a esse comparsa o que recusaria \u00e0<br \/>\nafei\u00e7\u00e3o mais terna e extremosa. O assomo do ci\u00fame, sup\u00f5e<br \/>\nela ser veem\u00eancia da afei\u00e7\u00e3o, e confunde com os extremos<br \/>\nde amor o del\u00edrio da vingan\u00e7a. Am\u00e9lia est\u00e1 passando<br \/>\npor esta crise naturalmente. Leopoldo foi o plast\u00e3o; ela o ama com<br \/>\ntodo o furor do \u00f3dio que me tem.<\/p>\n<p>Outro sorriso frisou o l\u00e1bio do le\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Ela me odeia! Ora!&#8230; O \u00f3dio o que \u00e9 sen\u00e3o a efervesc\u00eancia<br \/>\ndo amor? O afeto suave e terno \u00e9 como o moscatel de Set\u00fabal<br \/>\nou o vinho de Constan\u00e7a. O amor fero e irado \u00e9 como o champanhe<br \/>\nque ferve e espuma.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 casa, Hor\u00e1cio escreveu a Am\u00e9lia uma carta,<br \/>\nque apenas continha estas palavras:<\/p>\n<p>&#8220;Deve estar satisfeita, pois me tem de novo a seus p\u00e9s, e desta<br \/>\nvez humilde e suplicante. A melhor coroa do triunfo \u00e9 o perd\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Saindo o le\u00e3o a espairecer, dirigiu os passos para a casa do Sales;<br \/>\nesperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta.<\/p>\n<p>Quem sabe? Talvez nessa mesma ocasi\u00e3o se decidisse de sua sorte. A<br \/>\nmo\u00e7a lhe permitiria falar-lhe.<\/p>\n<p>Era noite fechada; o c\u00e9u, carregado de nuvens, anunciava pr\u00f3xima<br \/>\nborrasca. A frente da casa do negociante estava \u00e0s escuras; contudo<br \/>\nquem observasse bem, perceberia a coar-se pelos interst\u00edcios das janelas<br \/>\num t\u00eanue reflexo de luz interior. No port\u00e3o da ch\u00e1cara<br \/>\na meio cerrado, ningu\u00e9m aparecia.<\/p>\n<p>O le\u00e3o penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou \u00e0 porta<br \/>\nda casa: tr\u00eas pessoas sa\u00edram dele. Em um Hor\u00e1cio viu,<br \/>\nestremecendo, roupas de sacerdote. S\u00f3 ent\u00e3o refletiu o mo\u00e7o<br \/>\nno aspecto soturno do edif\u00edcio. Inquieto, sobressaltado, adiantou-se<br \/>\npelo jardim na esperan\u00e7a de encontrar pessoa a quem interrogasse.<\/p>\n<p>As janelas laterais estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no quadro<br \/>\niluminado, conheceu o mo\u00e7o que reinava no interior alguma agita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passara, e antes de qualquer<br \/>\nexplica\u00e7\u00e3o. n\u00e3o era razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham fabricado<br \/>\numa esp\u00e9cie de belveder ou caramanch\u00e3o. Conduzia ao alto uma<br \/>\nescadinha de caracol cingindo o tronco da \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Por acaso avistou o le\u00e3o a mangueira, e subindo sem hesitar, achou-se<br \/>\njustamente fronteiro \u00e0s janelas iluminadas. Em princ\u00edpio a claridade<br \/>\ns\u00fabita ofuscou-lhe a vista, e n\u00e3o p\u00f4de ele distinguir<br \/>\no que se passava no interior.<\/p>\n<p>Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d&#8217;alma.<\/p>\n<p>Ele via, e duvidava.<\/p>\n<p>Um altar erguido, c\u00edrios acesos, o sacerdote oficiando, Am\u00e9lia<br \/>\ne Leopoldo de joelhos, ao lado Sales, D. Leonor, e dois amigos que serviam<br \/>\nde testemunhas: eis o quadro que se ofereceu aos olhos de Hor\u00e1cio.<br \/>\nTinha visto na com\u00e9dia da vida muitos lances dram\u00e1ticos, mas<br \/>\nnenhum t\u00e3o imprevisto e curioso.<\/p>\n<p>A surpresa do le\u00e3o provinha de um engano seu. Ele acreditava que Am\u00e9lia<br \/>\no tinha amado, quando a mo\u00e7a n\u00e3o sentira por ele mais do que<br \/>\no desvanecimento de ver cativo de seus encantos o rei da moda, o feliz conquistador<br \/>\ndos sal\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem Am\u00e9lia amou desde o princ\u00edpio, foi Leopoldo. A vaidade,<br \/>\no galanteio que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos,<br \/>\ne rendiam ao capricho de Hor\u00e1cio. Mas passado esse enlevo, sua alma<br \/>\nsentia a atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel que a impelia para o seu<br \/>\np\u00f3lo.<\/p>\n<p>Disso que durante dois meses passava na vida \u00edntima da mo\u00e7a,<br \/>\nela pr\u00f3pria n\u00e3o se apercebia; foi depois da cena do baile, que<br \/>\nela entrou em si, e compreendeu as subleva\u00e7\u00f5es rec\u00f4nditas<br \/>\nde sua alma, e o drama que a\u00ed se agitava desde muito.<\/p>\n<p>Leopoldo come\u00e7ara a freq\u00fcentar a casa de Sales poucos dias depois<br \/>\nda partida de D. Clementina. As duas almas, por tanto tempo separadas, s\u00f3<br \/>\nesperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na outra.<br \/>\n\u00c0s tardes, no jardim, entre cortinas de flores, elas celebravam esse<br \/>\nm\u00edstico himeneu do amor, \u00fanico eterno e indissol\u00favel,<br \/>\nporque se faz no seio do Criador.<\/p>\n<p>Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos exigiram<br \/>\nse fizesse inteiramente \u00e0 capucha, e sem pr\u00e9via participa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA raz\u00e3o desse empenho, s\u00f3 Am\u00e9lia a sabia e nunca a disse.<br \/>\nEram escr\u00fapulo de seu pudor: depois do que tinha acontecido, n\u00e3o<br \/>\nqueria que lhe dessem outra vez o t\u00edtulo de noiva.<\/p>\n<p>Terminada a cerim\u00f4nia, e feitas as felicita\u00e7\u00f5es do costume,<br \/>\ncorreram os minutos em agrad\u00e1vel conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram onze horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o esperava.<br \/>\nSentada em uma conversadeira, Am\u00e9lia sorriu para seu marido; por\u00e9m<br \/>\natrav\u00e9s das largas dobras do roup\u00e3o de cambraia, percebia-se<br \/>\no tremor involunt\u00e1rio que agitava seu lindo talhe.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 meu presente! disse ela com timidez.<\/p>\n<p>E apresentou ao noivo um objeto envolto em papel de seda, atado com fita<br \/>\nazul.<\/p>\n<p>Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de cetim branco, os mesmos<br \/>\nque Am\u00e9lia come\u00e7ara a bordar no dia seguinte ao baile.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o enleado, n&amp;aatilde;o compreendia. Insensivelmente seu olhar<br \/>\ndesceu \u00e0 f\u00edmbria do roup\u00e3o. Sobre a almofada de veludo<br \/>\ne entre os folhos da cambraia, apareciam as unhas rosadas de dois pezinhos<br \/>\ndivinos.<\/p>\n<p>Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da mo\u00e7a, cujos l\u00e1bios<br \/>\nbalbuciaram uma palavra.<\/p>\n<p>&#8212; Calce!<\/p>\n<p>Leopoldo ajoelhou aos p\u00e9s da noiva.<\/p>\n<p>O temporal, desabando nesse momento, bateu com viol\u00eancia nos vidros<br \/>\nda janela, que fechou-se.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio desceu do seu observat\u00f3rio, e escalando a grade de<br \/>\nferro do jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Enquanto filosoficamente<br \/>\nesperava que seu criado lhe preparasse uma x\u00edcara de caf\u00e9, abriu<br \/>\num livro, que acertou ser La Fontaine.<\/p>\n<p>Leu ao acaso: era a f\u00e1bula do le\u00e3o amoroso.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 verdade! murmurou soltando uma fuma\u00e7a de charuto. O le\u00e3o<br \/>\ndeixou que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pelA Pata da Gazela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 de Alencar I Estava parada na Rua da Quitanda, pr\u00f3ximo \u00e0 da Assembl\u00e9ia, uma linda vit\u00f3ria, puxada por soberbos cavalos do Cabo. Dentro do carro havia duas mo\u00e7as; uma delas, alta e esbelta, tinha uma presen\u00e7a encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de talhe, era talvez mais linda que sua companheira. 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