{"id":102539,"date":"2017-02-04T12:02:36","date_gmt":"2017-02-04T14:02:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=102539"},"modified":"2017-03-29T16:18:55","modified_gmt":"2017-03-29T18:18:55","slug":"amor-e-patria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/amor-e-patria","title":{"rendered":"Amor e P\u00e1tria"},"content":{"rendered":"<h2>Joaquim Manuel Macedo<\/h2>\n<h2>Ato \u00danico<\/h2>\n<p>O teatro representa uma sala ornada com luxo e esmero em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca. Duas portas ao fundo, uma dando sa\u00edda para a rua, e outra comunicando com uma sala; portas \u00e0 direita; janelas \u00e0 esquerda.<\/p>\n<h2>&#8211; Cena Primeira &#8211;<\/h2>\n<p>PL\u00c1CIDO, PRUD\u00caNCIO, LEON\u00cdDIA e AFONSINA, que observa curiosa uma caixa que est\u00e1 sobre uma cadeira, e a porta da sala do fundo que se acha fechada.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Ela j\u00e1 nem pode disfar\u00e7ar a curiosidade que a atormenta; tem andado em volta da caixa mais de quatro vezes.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Coitadinha! Aquilo \u00e9 t\u00e3o natural na sua idade&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Acrescente-lhe: e no seu sexo&#8230; Nunca vi pais t\u00e3o desfrut\u00e1veis!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Agora l\u00e1 vai ela direitinha olhar pelo buraco da fechadura da porta: ent\u00e3o que disse eu?&#8230;<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Faz-me pena v\u00ea-la assim martirizando-se.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; \u00c9 para que no fim ainda mais agrad\u00e1vel e completa lhe seja a surpresa.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; E voc\u00eas acham muito bonito o que est\u00e1 fazendo minha sobrinha?&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Ent\u00e3o que lhe acha, senhor tenente rabugento?&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Nada: apenas uma com\u00e9dia em que uma sala trancada e uma caixa fechada fazem lembrar o pomo vedado, e em que Afonsina representa o papel de Eva e minha irm\u00e3 e meu cunhado o da serpente tentadora ou do diabo, que \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Este meu irm\u00e3o tem lembran\u00e7as felizes!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Voc\u00eas h\u00e3o de acabar por perder completamente aquela menina! O senhor meu cunhado com as id\u00e9ias que trouxe da sua viagem \u00e0 Fran\u00e7a e a senhora minha irm\u00e3 com a sua cegueira de m\u00e3e extremosa, deram-lhe uma educa\u00e7\u00e3o como se a quisessem para doutora de borla e capelo: fizeram-na aprender tudo quanto ela podia ignorar, e a deixaram em jejum a respeito do que devia saber. Assim, minha sobrinha dan\u00e7a melhor do que as bailarinas do teatro de S. Jo\u00e3o; toca o seu cravo a ponto de admirar ao padre Jos\u00e9 Maur\u00edcio: canta e gorjeia que parece um dos italianos da capela real; conversa com os homens como se eles fossem mulheres; \u00e9 capaz de discutirsobre teologia com Frei Sampaio, e sobre arte militar com o general Corado; mais se lhe perguntarem como se toma ponto a uma das meias, como se prepara um bom jantar, como se governa uma casa, espicha-se completamente: eu at\u00e9 aposto que ela n\u00e3o sabe rezar.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Afonsina \u00e9 um tesouro de talentos e de virtudes, e voc\u00ea na passa de uma m\u00e1 l\u00edngua.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Oh! Pois n\u00e3o! Nem os sete s\u00e1bios da Gr\u00e9cia lhe d\u00e3o volta! Ela faz versos como o defunto padre Caldas; fala em pol\u00edtica e \u00e9 t\u00e3o eloq\u00fcente como o Ant\u00f4nio Carlos; \u00e9 t\u00e3o revolucion\u00e1ria como o Barata&#8230; N\u00e3o sei por que ainda n\u00e3o quis se deputado \u00e0s cortes!&#8230;<br \/>\nHavemos de l\u00e1 chegar: creio, por\u00e9m, que j\u00e1 escreve seus artigos para o Reverbero, e que para isso est\u00e1 de intelig\u00eancia com o Ledo e o padre Janu\u00e1rio: at\u00e9 bem pode ser que voc\u00eas j\u00e1 a tenham feito pedreira livre, e que a menina fale com o diabo \u00e0 meia-noite.<\/p>\n<p>Afonsina (Vem \u00e0 frente) &#8211; Minha m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Que tens, Afonsina? Pareces-me triste&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; \u00c9 verdade, minha filha: que quer dizer esse ar melanc\u00f3lico no dia dos teus anos, e quando te preparamos uma bela festa?&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; \u00c9 que &#8230;eu&#8230;meu pai, eu n\u00e3o posso mais&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Talis arbor, talis fructus! De um casal sem ju\u00edzo na podia nascer sen\u00e3o uma doidinha.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Mas que te falta, dize?<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Ah! Minha m\u00e3e, aquela sala e esta caixa atormentam-me, exasperam-me&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Andem depressa&#8230;andem&#8230;satisfa\u00e7am a curiosidade da menina, antes que ela arranje algum faniquito.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; E que tens que ver com aquela sala e com essa caixa?&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; \u00c9 uma curiosidade bem natural: esta caixa, que est\u00e1 fechada, talvez contenha algum objeto interessante, e aquela porta, que e sempre esteve aberta e que hoje amanheceu trancada, encerra necessariamente algum mist\u00e9rio, e portanto&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Vamos \u00e0 conseq\u00fc\u00eancia, que h\u00e1 se ser sublime!&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; A conseq\u00fc\u00eancia, meu tio?&#8230; Ei-la, a\u00ed vai:<\/p>\n<p>Deixar de ser curiosa<br \/>\nPor certo n\u00e3o est\u00e1 em mim:<br \/>\n\u00c9 pecado feminino,<br \/>\nPor for\u00e7a hei de ser assim.<\/p>\n<p>O que em todas se perdoa,<br \/>\nTamb\u00e9m se desculpe em mim:<br \/>\nMam\u00e3e sabe que as mulheres<br \/>\nS\u00e3o todas, todas assim.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e, aquela caixa,<br \/>\nPapai, aquela sala,<br \/>\nEncerram um segredo<br \/>\nQue o meu sossego abala.<\/p>\n<p>Juntamente<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Saber desejo<br \/>\nO qu&#8217;ali&#8217;st\u00e1;<br \/>\nEu sou teimosa,<br \/>\nSou curiosa<br \/>\nSou caprichosa,<br \/>\nSou ardilosa,<br \/>\nSerei vaidosa;<br \/>\nMas n\u00e3o sou m\u00e1.<br \/>\nPl\u00e1cido e Leon\u00eddia &#8211;<br \/>\nNingu\u00e9m lhe diga<br \/>\nO qu&#8217;ali&#8217;st\u00e1;<br \/>\nSer\u00e1 teimosa<br \/>\nE curiosa,<br \/>\nE caprichosa,<br \/>\nE ardilosa;<br \/>\nSer\u00e1 vaidosa:<br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9s m\u00e1.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211;<br \/>\nNingu\u00e9m lhe diga<br \/>\nO qu&#8217;ali&#8217;st\u00e1;<br \/>\nTu \u00e9s teimosa<br \/>\nE curiosa,<br \/>\nE caprichosa,<br \/>\nE ardilosa,<br \/>\nMuito vaidosa,<br \/>\nE tamb\u00e9m m\u00e1.<br \/>\nN\u00e3o foras tu mulher, minha rica sobrinha!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Meu tio, n\u00e3o \u00e9 muito que eu tenha um defeito que \u00e9 comum nas mulheres, quando falta \u00e0 vossa merc\u00ea uma das primeiras virtudes dos homens.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Afonsina!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Deixem falar a ret\u00f3rica; diga l\u00e1, minha senhora: qual \u00e9 ent\u00e3o essa virtude que me falta?<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; \u00c9 a coragem, meu tio.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Ora, fico-lhe muito obrigado! Sou um grand\u00edssimo poltr\u00e3o, porque n\u00e3o entro em revolu\u00e7\u00f5es nem em bernardas, e guardo a minha espada de tenente de ordenan\u00e7as para as grandes crises e os momentos supremos?<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Ent\u00e3o \u00e9 bem para recear que a sua espada fique eternamente na bainha.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Pode fazer o favor de dizer por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; \u00c9 bem simples: \u00e9 porque vossa merc\u00ea nem considera momento supremo aquele em que se trata da regenera\u00e7\u00e3o e da independ\u00eancia da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; E eu creio que era mais pr\u00f3prio da senhora ocupar-se com bilros e agulhas, do que com independ\u00eancias e regenera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas: uma mulher metida em neg\u00f3cios do Estado, \u00e9 capaz de transformar a na\u00e7\u00e3o em casa de Orates.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Por\u00e9m, meu tio, olhe que nem por isso o momento deixa de ser supremo, e \u00e9 preciso que nos d\u00ea provas do seu valor.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Provavelmente quer que eu deite a correr pelas ruas, dando vivas ao que n\u00e3o entendo e morras a quem nunca me fez mal, e que me exponha a ter a sorte do Tiradentes, como est\u00e1 fazendo o seu querido Luciano, que \u00e9 um doido de pedras.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Mano Prud\u00eancio, atenda ao que diz!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Luciano cumpre o seu dever: a causa que adotou \u00e9 a de sua p\u00e1tria, e se morrer por ela ser\u00e1 um m\u00e1rtir, um her\u00f3i; nunca, por\u00e9m, um louco.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Pode-se bem servir \u00e0 p\u00e1tria sem fazer traquinadas.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; \u00c9 verdade; meu tio tem raz\u00e3o: Luciano \u00e9 um louco, e ele um homem de muito ju\u00edzo, de uma bravura e de um patriotismo como nunca vi!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; A senhora parece que quer divertir-se comigo?<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Eu quero somente recordar agora alguns fatos. A nove de janeiro deste ano, o senado da c\u00e2mara foi, em nome do povo, representar ao pr\u00edncipe contra a sua retirada do Brasil; n\u00e3o houve um s\u00f3 patriota que n\u00e3o corresse ao largo do Pa\u00e7o; meu tio, o momento era supremo e quando se ouviu repetir o glorioso &#8211; Fico &#8211; do Pr\u00edncipe, o primeiro que o saudou com um viva entusi\u00e1stico foi Luciano, e entre aqueles que responderam a esse brado patri\u00f3tico, ouvi dizer que n\u00e3o se achava meu tio.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Estava retido em casa com um ataque de maleitas.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido (A Leon\u00eddia) &#8211; Afonsina esqueceu-se da sala e da caixa.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia (A Pl\u00e1cido) &#8211; Pois se foram ofender o seu Luciano!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Dois dias depois, a onze de janeiro, Avilez e as tropas lusitanas ocuparam o morro do Castelo; a luta parecia dever come\u00e7ar; os brasileiros correram para o campo de Santana e Luciano foi o chefe de uma companhia de volunt\u00e1rios. Meu tio, o momento era outra vez supremo, e ouvi dizer que vossa merc\u00ea n\u00e3o apareceu durante tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Estava de erisipela, sen\u00e3o veriam!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido (A Leon\u00eddia) &#8211; Olha a cara com que est\u00e1 o mano Prud\u00eancio.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia (A Pl\u00e1cido) &#8211; Bem feito: \u00e9 para n\u00e3o ser baz\u00f3fio.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Mas Avilez retirou-se com os seus para a Praia Grande; o perigo n\u00e3o tinha ainda passado, e no campo do Barreto reuniram-se as mil\u00edcias brasileiras e as falanges dos patriotas: Luciano, \u00e0 frente dos seus bravos companheiros, l\u00e1 se achou pronto para o combate e fiel \u00e0 causa da p\u00e1tria. Ah! Meu tio, o momento era de novo ou continuava a ser supremo, e eu ouvi dizer que n\u00e3o houve quem pudesse descobrir onde vossa merc\u00ea se escondia.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Achava-me atacado de reumatismo nas pernas.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Ah! \u00c9 que vossa merc\u00ea \u00e9 um comp\u00eandio de todas as mol\u00e9stias, e eu tenho reparado que sempre adoece a prop\u00f3sito!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Eu sou o que diz o meu nome: Prud\u00eancio! O homem da prud\u00eancia; n\u00e3o hei de nunca desonrar a minha espada de tenente de ordenan\u00e7as em bernardas de pouco mais ou menos; chegue, por\u00e9m, o dia de uma grande e verdadeira batalha, em que haja cargas de cavalaria, descargas de infantaria, trovoada de artilharia, e ver\u00e3o como brilho no meu elemento!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Com vossa merc\u00ea na batalha h\u00e1 de haver por for\u00e7a uma carnagem horrorosa!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido, Leon\u00eddia e Afonsina, juntamente.<\/p>\n<p>Se os tambores rufassem deveras,<br \/>\n\u00c0 peleja os guerreiros chamando,<br \/>\nO tenente Prud\u00eancio, chorando,<br \/>\nFugiria medroso e poltr\u00e3o.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; N\u00e3o!n\u00e3o! n\u00e3o!<\/p>\n<p>Se os tambores rufassem deveras,<br \/>\n\u00c0 peleja os guerreiros chamando,<br \/>\nMeu ginete veloz cavalgando,<br \/>\nEu voara com a espada na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Fa\u00e7am de conta<br \/>\nQue negra afronta<br \/>\nSem mais tardar<br \/>\nCorro a vingar.<br \/>\nA uns degolo,<br \/>\nOutros esfolo,<br \/>\nOutros imolo,<br \/>\nSem trepidar.<br \/>\nZ\u00e1s! Cutilada!<br \/>\nZ\u00e1s! Estocada!<br \/>\nZ\u00e1s! Pistolada!<br \/>\nSem descansar:<br \/>\nE derribando,<br \/>\nE cutilando,<br \/>\nE decepando<br \/>\nSem respirar,<br \/>\nS\u00f3 me detenho<br \/>\nNo fero empenho,<br \/>\nQuando n\u00e3o tenho<br \/>\nMais quem matar.<\/p>\n<p>(Ouve-se o rufar de tambores)<br \/>\n(Assusta-se) Miseric\u00f3rdia! Que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido, Leon\u00eddia e Afonsina &#8211; Avante! Avante! Prossiga!<br \/>\nChama o tambor os guerreiros!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Estou com dor de barriga.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Que tremor \u00e9 esse, mano Prud\u00eancio? dir-se-ia que tem medo!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; N\u00e3o \u00e9 medo, n\u00e3o; mas voc\u00eas sabem que eu sou muito nervoso, e assim&#8230;um rufar de repente&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina (Que tem ido \u00e0 janela) &#8211; Sossegue, meu tio: \u00e9 apenas a guarda do pa\u00e7o que se vai render.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; E quem foi que se assustou aqui?<\/p>\n<p>O rufo dos tambores<br \/>\nExalta o meu valor<br \/>\nCom a durindana em punho,<br \/>\nNas asas do furor,<br \/>\nEu levo aos inimigos<br \/>\nA morte e o terror.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido, Leon\u00eddia e Afonsina, juntamente<\/p>\n<p>O rufo dos tambores<br \/>\nAbate o seu valor;<br \/>\nN\u00e3o sabe mais da espada,<br \/>\nTem medo e n\u00e3o furor,<br \/>\nE em dores de barriga<br \/>\nDisfar\u00e7a o seu terror.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Realmente, meu tio, vossa merc\u00ea vale os doze Pares de Fran\u00e7a juntos!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Eu sou assim; sou o homem das grandes ocasi\u00f5es!<\/p>\n<h2>&#8211; Cena II &#8211;<\/h2>\n<p>Os precedentes e Luciano<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Mas o pior \u00e9, tio Prud\u00eancio, que as suas grandes ocasi\u00f5es n\u00e3o chegam nunca.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Ora, eis a\u00ed o senhor espalha-brasas conosco! Fa\u00e7a coro ali com a senhora, e venha tamb\u00e9m divertir-se comigo.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Nada de amofinar-se; o dia de hoje \u00e9 de festa, e portanto n\u00e3o se enfade.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Entretanto, vejo-te de chap\u00e9u na m\u00e3o, e disposto a roubar a Afonsina algumas horas de um dia, que deveria ser todo consagrado a ela.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Meu pai, eu conto com o perd\u00e3o de Afonsina e com o seu, asseverando que somente motivos da mais grave import\u00e2ncia me obrigam a sair por uma hora.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Oh! Pois n\u00e3o! O senhor anda sempre ocupado com assuntos da mais elevada transcend\u00eancia; n\u00e3o h\u00e1 bernarda em que n\u00e3o entre, nem revolucion\u00e1rio a quem n\u00e3o conhe\u00e7a; agora ent\u00e3o vive sempre pelas grimpas; freq\u00fcenta a casa do advogado Rocha, j\u00e1 \u00e9 ma\u00e7om, e ainda ontem foi duas vezes \u00e0 casa do ministro Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Muito bem, Luciano! Muito bem! Estas amizades fazem a tua gl\u00f3ria: vai, meu filho, e continua a proceder como at\u00e9 aqui. (Tocam cornetas)<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Pior vai ela! Que diabo de tempo em que a cada instante se ouvem os ecos das cornetas e o rufar dos tambores!<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Creio que hoje deve ter lugar algum acontecimento importante; o nosso magn\u00e2nimo Pr\u00edncipe est\u00e1 a chegar de S. Paulo; mas&#8230;tio Prud\u00eancio, por que n\u00e3o vai saber que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Pensa que tenho medo? &#8230; pois vou imediatamente. (\u00c0 parte) Hei de p\u00f4r a cabe\u00e7a na rua; mas, pelo sim, pelo n\u00e3o, deixarei o corpo no corredor. (Vai-se)<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Meu pai, procurei um meio de afastar o tio Prud\u00eancio, porque antes de sair preciso dizer-lhe duas palavras em particular.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Visto isso, tamb\u00e9m devemos retirar-nos?<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Por um instante s\u00f3, minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia ( A Pl\u00e1cido) &#8211; Acho Luciano hoje mais s\u00e9rio do que costuma mostrar-se.<\/p>\n<p>Luciano (A Afonsina) &#8211; Afonsina, eu voltarei nas asas do amor.<\/p>\n<p>Afonsina (A Luciano) &#8211; Nunca sem tardar muito para a minha saudade.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Vem, Afonsina. (Vai-se)<\/p>\n<p>Afonsina (\u00c0 parte) &#8211; E ainda n\u00e3o sei o que cont\u00e9m a caixa nem a sala. (Vai-se)<\/p>\n<h2>&#8211; Cena III &#8211;<\/h2>\n<p>Pl\u00e1cido e Luciano<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Estamos s\u00f3s, Luciano, e eu confesso que estou ansioso por saber que esp\u00e9cie de confid\u00eancia me queres fazer.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Meu pai, \u00e9 for\u00e7a que eu lhe dirija uma pergunta, que ali\u00e1s considero desnecess\u00e1ria. Oh! Por Deus o juro: n\u00e3o duvido, nem duvidei jamais da \u00fanica resposta que vossa merc\u00ea vai dar-me; mas&#8230; julgou-se&#8230;\u00e9 essencial que eu a ou\u00e7a da sua boca.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Excitas a minha curiosidade e come\u00e7as a desassossegar-me: Fala.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Algum dia&#8230; vossa merc\u00ea se pronunciou contra o Pr\u00edncipe e contra a causa do Brasil?&#8230;Mandou alguma vez socorros ou comunica\u00e7\u00f5es a Avilez quando ele esteve na Praia Grande, ou o aconselhou a resistir \u00e0s ordens do Pr\u00edncipe?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Luciano! \u00c9s tu que me devias fazer uma tal pergunta?<\/p>\n<p>Luciano &#8211; N\u00e3o&#8230;n\u00e3o&#8230;eu bem o sei, eu o conhe\u00e7o, meu pai sinto que o ofendo: mas acreite que era indispens\u00e1vel que eu lhe fizesse esta pergunta, como \u00e9 indispens\u00e1vel que eu ou\u00e7a um &#8211; n\u00e3o &#8211; pronunciado pela sua boca.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; \u00c9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Oh! Responda-me por compaix\u00e3o!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Pois bem: pela minha honra, pela honra de minha mulher, pela pureza de minha filha, eu te afirmo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Obrigado, meu pai! Mil vezes obrigado! Nestas \u00e9pocas violentas, nestes dias de crise, h\u00e1 \u00e0s vezes quem duvide da consci\u00eancia mais pura e da probidade mais ilibada; oh! mas a p\u00e1tria de seus filhos \u00e9 tamb\u00e9m a sua p\u00e1tria e&#8230;oh meu Deus! Que imensa felicidade me inunda o cora\u00e7\u00e3o! (Abra\u00e7a Pl\u00e1cido)<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Sim! Eu amo o Brasil, como o mais patriota dos seus filhos!<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Tocamos a hora suprema, meu pai! O Pr\u00edncipe chegar\u00e1 de S\u00e3o Paulo talvez hoje mesmo; a \u00faltima carta vai ser jogada, e o Brasil ser\u00e1 contado entre as na\u00e7\u00f5es do mundo. Oh! sinto abrasar-me a chama do patriotismo! O Grito de liberdade e da independ\u00eancia soa j\u00e1 em meus ouvidos e em meu cora\u00e7\u00e3o! Meu pai, um dia de gl\u00f3ria vai brilhar para a minha p\u00e1tria, e se combate houver, e se nele sucumbir teu filho, n\u00e3o o lamentes, porque morrerei a morte dos bravos, defendendo a mais santa das causas e mais bela das p\u00e1trias!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Sim! Avante! Avante! avante!(Abra\u00e7am-se; soam trombetas)<br \/>\nSoam de novo as trombetas&#8230;Que ser\u00e1?<\/p>\n<p>Luciano &#8211; A trombeta belicosa<br \/>\nChama os bravos \u00e0 peleja!<br \/>\nInfame, maldito seja<br \/>\nQuem recusa combater.<\/p>\n<p>Da liberdade da p\u00e1tria<br \/>\nA causa \u00e9 sagrada e bela;<br \/>\n\u00c9 honra vencer com ela,<br \/>\nHonra por ela morrer.<\/p>\n<p>Quebrar da p\u00e1tria o jugo<br \/>\n\u00c9 dos her\u00f3is a gl\u00f3ria:<br \/>\n\u00c0s armas, brasileiros;<br \/>\nA morte ou a vit\u00f3ria!<\/p>\n<h2>&#8211; Cena IV &#8211;<\/h2>\n<p>Pl\u00e1cido (S\u00f3) &#8211; Como \u00e9 sublime o grito do patriotismo! Mas esta pergunta que Luciano acaba de fazer-me envolve talvez algum sinistro mist\u00e9rio!&#8230;embora! tenho a minha consci\u00eancia tranq\u00fcila; para longe as id\u00e9ias tristes: o anivers\u00e1rio natal\u00edcio da minha Afonsina seja todo de alegria e de ventura&#8230;e \u00e9 j\u00e1 tempo de revelar o segredo da caixa e da sala: Leon\u00eddia! Afonsina! Ent\u00e3o que \u00e9 isso?&#8230;querem ficar l\u00e1 dentro dia inteiro?<\/p>\n<h2>&#8211; Cena V &#8211;<\/h2>\n<p>Pl\u00e1cido, Leon\u00eddia e Afonsina<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Pl\u00e1cido, Afonsina ainda n\u00e3o me deixou sossegar um instante, e quer por for\u00e7a que eu lhe revele o nosso segredo.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Tens ent\u00e3o muita vontade de saber o que encerra esta caixa e que se acha naquela sala?<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Oh! muita, meu pai&#8230; e tamb\u00e9m para mart\u00edrio j\u00e1 \u00e9 bastante.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Pois bem: eis aqui a chave da sala; abre a porta e olha. (D\u00e1 a chave, Afonsina vai ver) Que v\u00eas?&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Um altar!&#8230;para que se armou aqui um altar?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido (O mesmo) &#8211; Abre agora acaixa; aqui tens a chave.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Ah!<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Que encontraste na caixa, Afonsina!&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Um vestido&#8230;um v\u00e9u&#8230;e uma coroa de noiva&#8230;<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; E n\u00e3o sabes a quem devem pertencer?&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Minha m\u00e3e &#8230;eu n\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Afonsina, minha Afonsina: n\u00e3o te lembras que ao receber cheio de j\u00fabilo o pedido de tua m\u00e3o, que nos fez Luciano, eu exigi que o dia do casamento fosse marcado por mim?&#8230;Pois esse dia feliz \u00e9 hoje, hoje, que tamb\u00e9m \u00e9 o dia dos teus anos e que ser\u00e1 o mais belo da minha vida!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Meu pai!&#8230;minha m\u00e3e!&#8230;<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Est\u00e1s contente, Afonsina?&#8230;Oh! mas atua alegria n\u00e3o excede a que enche o cora\u00e7\u00e3o de tua m\u00e3e!&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio (Dentro) &#8211; Ent\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 descoberto o segredo?&#8230; Pode-se cumprimentar a noiva com todos os ff e rr do estilo?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Sim &#8230;sim&#8230;Afonsina j\u00e1 abriu a caixa e a sala.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; em tal caso, avan\u00e7o com o meu batalh\u00e3o&#8230;avante, camaradas!<\/p>\n<h2>&#8211; Cena VI &#8211;<\/h2>\n<p>Os precedentes, Prud\u00eancio, cavalheiros e senhoras Coro &#8211; Salve o ditoso<br \/>\nDia prop\u00edcio<br \/>\nDe natal\u00edcio<br \/>\nE de himeneu<\/p>\n<p>Salve, mil vezes,<br \/>\nNoiva adorada,<br \/>\nAben\u00e7oada<br \/>\nPor Deus no c\u00e9u<\/p>\n<p>(Pl\u00e1cido cumprimenta; as senhoras cercam Afonsina, etc)<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Obrigado, meus senhores, obrigado!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Muito bem! Excelentemente; e agora queira Deus que o encanto do casamento, que p\u00f5e a cabe\u00e7a \u00e0 roda a todas as mo\u00e7as, queira pelo contr\u00e1rio dar \u00e0 minha sobrinha a \u00fanica coisa que lhe falta, isto \u00e9, o ju\u00edzo no seu lugar.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Mano Prud\u00eancio, voc\u00ea esquece o respeito que deve \u00e0 princesa da festa.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Pois se eu tenho a cabe\u00e7a completamente aturdida com os tambores que rufam l\u00e1 fora, e com os parab\u00e9ns e alegrias que fervem c\u00e1 dentro!n\u00e3o sei como hei de haver! Na pra\u00e7a a guerra, que \u00e9 o meu elemento, e em casa um casamento que e faz encher a boca d&#8217;\u00e1gua. Olhe: at\u00e9 me havia esquecido de lhe entregar uma carta, que h\u00e1 pouco veio trazer um criado da nossa prima, a mulher do intendente da pol\u00edcia.<br \/>\nLeon\u00eddia &#8211; Uma carta do intendente?&#8230;Que novidade haver\u00e1?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Aposto que adivinhou o casamento de Afonsina&#8230;<\/p>\n<p>Leon\u00eddia (Lendo) &#8211; Meu Deus!&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Leon\u00eddia muda de cor e treme!&#8230;Que ser\u00e1?<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; A cartinha, pelo jeito, parece mais um convite de enterro, do que carta de parab\u00e9ns: quem sabe se n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia de alguma bernarda?&#8230;Ora, que n\u00e3o se pode ter sossego neste tempo de revolu\u00e7\u00f5es!&#8230;tomara que eu levasse o diabo a todo o patriota que n\u00e3o \u00e9 como eu amigo do c\u00f4modo.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Recebeste, por certo, uma not\u00edcia desagrad\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Minha m\u00e3e, que h\u00e1?<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Que h\u00e1 de ser?&#8230;Minha prima se mostra ressentida, porque n\u00e3o a prevenimos do teu casamento; queixa-se de mim, e declara-se enfadada; mas vou j\u00e1 obriga-la a fazer as pazes comigo; voltarei dentro em pouco; no entanto, minhas senhoras&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; As honras da casa ficam por minha conta: minhas senhoras, aquela porta d\u00e1 caminho para o jardim; aquela, meus senhores, abre-se para uma sala de jogo: \u00e0s senhoras as flores, aos homens as cartas! Vamos&#8230; (Repetem o canto e v\u00e3o-se)<\/p>\n<h2>&#8211; Cena VII &#8211;<\/h2>\n<p>Pl\u00e1cido e Leon\u00eddia<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Houve h\u00e1 pouco uma pessoa, a quem n\u00e3o conseguiste enganar, Leonidia.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Nem tive esse pensamento, meu amigo; l\u00ea esta carta; mas lembra-te de que hoje \u00e9 o dia do casamento de nossa filha: tem coragem e prud\u00eancia.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido (Lendo) &#8211; &#8220;Cumpro um dever de amizade e prevenindo-te de que teu marido foi denunciado como inimigo do Pr\u00edncipe e da causa do Brasil; o governo toma medidas a esse respeito; o denunciante, cujo nome n\u00e3o te posso confiar, \u00e9 um mo\u00e7o ingrato e perverso, que deve tudo a teu marido, que o acolheu em seu seio e tem sido o seu constante protetor. V\u00eas bem que este aviso, que te dou, pode, se chegar ao conhecimento do governo, comprometer ao intendente. Fala-se na deporta\u00e7\u00e3o do senhor Pl\u00e1cido; mas h\u00e1 quem trabalhe em seu favor. Adeus.&#8221; Inf\u00e2mia!<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Sil\u00eancio&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Mas \u00e9 uma horr\u00edvel cal\u00fania que me levanta!<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; S\u00ea prudente, meu amigo; conv\u00e9m que n\u00e3o transpire este segredo; eu vou imediatamente falar \u00e0 minha prima, e conto desfazer toda esta intriga. Deus h\u00e1 de ser por n\u00f3s..Promete-me ficar sossegado&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Sim&#8230;sim&#8230;vai&#8230;e sobretudo, e antes de tudo, traze-me o nome do infame caluniador.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Hei de trazer-te a alegria, mas n\u00e3o me lembrarei da vingan\u00e7a. (Vai-se)<\/p>\n<h2>&#8211; Cena VIII &#8211;<\/h2>\n<p>Pl\u00e1cido e logo Velasco<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Que abomin\u00e1vel trama! Quem ser\u00e1 o infame denunciante? (Lendo) &#8220;&#8230;Um ingrato que me deve tudo&#8221; Meu deus! Diz-me a consci\u00eancia que tenho estendido a m\u00e3o e socorrido a muitos infelizes&#8230; Qual seria ent\u00e3o dentre esses o que assim me calunia, e me faz passar p\u00f3 inimigo de um Pr\u00edncipe her\u00f3ico e do pa\u00eds aben\u00e7oado, que me deu felicidade e riqueza! Por inimigo da causa do Brasil, do Brasil, que \u00e9 a p\u00e1tria querida de minha mulher e de minha filha!&#8230; e \u00e9, em tal circunst\u00e2ncia, que nem Luciano me aparece? Oh! nem tenho um amigo a meu lado!<\/p>\n<p>Velasco &#8211; \u00c9 porque n\u00e3o quer voltar os olhos, senhor Pl\u00e1cido.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Velasco&#8230;senhor Velasco&#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Velasco, dizia bem; pode tratar-me como um filho, pois que tem sido meu pai.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Chamava um amigo seguro: eis-me aqui.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Senhor, n\u00e3o procuro arrebatar-lhe um segredo; sei que um negro pesar atormenta o seu cora\u00e7\u00e3o, e que um desejo ardente se agita no seu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Como?&#8230;que quer dizer?<\/p>\n<p>Velasco &#8211; O pesar nasceu de uma den\u00fancia caluniosa e malvada: o desejo \u00e9 de saber o nome do miser\u00e1vel denunciante.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; \u00c9 isso, \u00e9 isso mesmo: quero saber esse nome&#8230;diga e &#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Vou diz\u00ea-lo, senhor; antes, por\u00e9m, \u00e9 for\u00e7a que eu traga \u00e0 sua mem\u00f3ria os benef\u00edcios que lhe devo.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Perder\u00e1 assim um tempo muito precioso: diga-me o nome do meu denunciante.<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Ou\u00e7a primeiro, senhor: cheguei, h\u00e1 tr\u00eas anos, da ilha do Faial, minha p\u00e1tria, e desembarcando nas parias do Rio de Janeiro, achei-me s\u00f3, sem p\u00e3o, sem protetor, sem amparo; mas o senhor Pl\u00e1cido condoeu-se de mim, recebeu-me em sua casa, fez-me seu caixeiro, deu-me a sua mesa, deu-me o teto que me abrigou, e enfim abriu-me o caminho da fortuna: j\u00e1 estabelecido h\u00e1 um ano, chegarei um dia a ser talvez um rico negociante, gra\u00e7as unicamente ao seu patroc\u00ednio. A meus pais devi acidentalmente a vida; ao senhor Pl\u00e1cido devo tudo, tudo absolutamente, e portanto, \u00e9 vossa merc\u00ea para mim ainda mais do que s\u00e3o meus pais.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Senhor, antes dos pais, Deus, e a p\u00e1tria somente; mas a que vem essa hist\u00f3ria?&#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Repeti-a para perguntar-lhe agora se um homem que lhe deve tanto poderia procurar engan\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Senhor Velasco, nunca duvidei da sua honra, nem da sua palavra.<\/p>\n<p>Velasco &#8211; E se eu, pronunciando agora o nome do seu denunciante, quebrar uma das fibras mais delicadas do seu cora\u00e7\u00e3o? Se&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Embora&#8230;eu devo, eu quero saber esse nome&#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Pois bem: o seu denunciante&#8230;foi&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Acabe&#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; O senhor Luciano.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Mente!<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Senhor Pl\u00e1cido!&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Perdoe-me&#8230;fui precipitado; mas Luciano&#8230;n\u00e3o&#8230;n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>Velasco &#8211; E no entanto foi ele!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Est\u00e1 enganado: Luciano \u00e9 a honra&#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Tenho um patr\u00edcio empregado na pol\u00edcia, e dele recebi esta confid\u00eancia: vi a den\u00fancia escrita pela letra do senhor Luciano.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Meu Deus! \u00c9 incr\u00edvel! (Reflete) N\u00e3o&#8230; Luciano n\u00e3o pode ser; o noivo de minha filha&#8230;o meu filho adotivo&#8230;o meu&#8230;n\u00e3o, n\u00e3o: \u00e9 falso.<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Cumpri o meu dever; o mais n\u00e3o pe da minha conta; rogo-lhe somente que n\u00e3o comprometa o meu amigo, que perderia o seu emprego se se descobrisse que&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Pode sossegar&#8230;n\u00e3o o comprometerei; mas Luciano!&#8230; com que fim cometeria ele uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o indigna?<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Senhor Pl\u00e1cido, a sua pergunta n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de ser satisfeita: o senhor Luciano h\u00e1 dois dias que n\u00e3o deixa a casa do ministro Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio: uma deporta\u00e7\u00e3o pronta e imediata precipitaria o casamento desde tanto por ele suspirado, e ao mesmo tempo deixaria em suas m\u00e3os a riqueza imensa do deportado, ficando o segredo da trai\u00e7\u00e3o oculto nas sombras da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Quem poderia acredit\u00e1-lo!&#8230; Mas&#8230; realmente todas as presun\u00e7\u00f5es o condenam: h\u00e1 pouco ele tremeu e confundiu-se, ouvindo Prud\u00eancio dizer que o tinha visto ontem entrar duas vezes na casa do ministro: a carta da mulher do intendente diz que o denunciante \u00e9 um ingrato, que tudo me deve, que eu acolhi em meu seio, \u00e9 de quem tenho sido o constante protetor&#8230; Oh! mis\u00e9ria da humanidade!&#8230;oh! inf\u00e2mia sem igual! Foi ele! O caluniador, o infame; o denunciante foi Luciano!<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Ainda bem que a verdade brilha a seus olhos; mas&#8230; n\u00e3o se exaspere: a inoc\u00eancia triunfar\u00e1 e o crime deve ser condenado ao desprezo.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Ao desprezo? N\u00e3o: o seu castigo h\u00e1 de ser exemplar: juro, que um ingrato n\u00e3o ser\u00e1 o esposo de minha filha; o dem\u00f4nio n\u00e3o se h\u00e1 de unir a um anjo de virtudes: oh! o c\u00e9u me inspira ao mesmo tempo o castigo do crime e o pr\u00eamio do m\u00e9rito. Senhor Velasco, h\u00e1 dois meses pediu-me o senhor a m\u00e3o de minha fiha, e eu lha recusei, dizendo que Afonsina estava prometida em casamento a Luciano; pois bem, o motivo da recusa desapareceu: minha filha ser\u00e1 sua esposa.<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Senhor&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Recusa a m\u00e3o de minha filha?&#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Oh! n\u00e3o, mas a senhora Dona Afonsina ama ao senhor Luciano.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Aborrec\u00ea-lo-\u00e1 dentro em pouco: minha filha ama somente a virtude, e um ingrato h\u00e1 de inspira-lhe horror.<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Mas eu nem mesmo assim serei amado: e em tal caso&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Respondo pelo cora\u00e7\u00e3o de Afonsina; n\u00e3o pretendo coagi-lo&#8230;<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Senhor, \u00e9 a felicidade que me est\u00e1 oferecendo; abre-me as portas do c\u00e9u: e pensa que eu hesitarei em beijar-lhe a m\u00e3o, recebendo de sua boca o nome de filho?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Ainda bem! Oh! Luciano! Luciano! Mal sabes o que te espera!&#8230;Senhor Velasco, v\u00e1 reunir-se aos nossos amigos, e&#8230;sil\u00eancio. (Vai para dentro).<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Acabo de lan\u00e7ar-me em um caminho perigoso; embora: quem n\u00e3o arrisca, n\u00e3o ganha. Se eu perder no jogo, terei pelo menos feito beber fel e vinagre a esse revolucion\u00e1rio que detesto, a esta fam\u00edlia est\u00fapida que n\u00e3o me aprecia bastante, e ao senhor Pl\u00e1cido, que, sendo meu patr\u00edcio, me havia posto de lado para casar a filha e dar a sua riqueza a um brasileiro!&#8230; \u00c2nimo! O dia \u00e9 para mim de jogo forte. Vou jogar. (Entra).<\/p>\n<h2>&#8211; Cena IX &#8211;<\/h2>\n<p>Afonsina e logo Luciano<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Como sou feliz! O horizonte da minha vida \u00e9 um quadro de flores: amo, sou amada; meus pais aben\u00e7oam o meu amor e meus votos; meus juramento de envolta com os de Luciano v\u00e3o ser levados ao c\u00e9u nas asas dos anjos!Oh! Meu Deus! Meu Deus! O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pequeno para t\u00e3o grande felicidade.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Afonsina! Minha Afonsina!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Luciano&#8230;j\u00e1 sabes&#8230;<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Encontrei na casa do intendente nossa m\u00e3e, que tudo me disso, e vejo a coroa e o v\u00e9u de noiva em tua cabe\u00e7a patenteando a minha gl\u00f3ria: oh! de joelhos! de joelhos! Agrade\u00e7amos a Deus tanta ventura!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Sim&#8230; sim&#8230; \u00e9 imposs\u00edvel mais felicidade do que a nossa.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; E ainda \u00e9 maior do que pensas; errarei muito se n\u00e3o \u00e9 verdade que saudaremos hoje a um s\u00f3 tempo o triunfo sincero do amor e o triunfo her\u00f3ico da p\u00e1tria: Afonsina, os cantos de amor v\u00e3o misturar-se com os hinos da liberdade&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Como?<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Creio que um acontecimento grandioso teve lugar. O ministro Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio acaba de receber despachos e not\u00edcias do Pr\u00edncipe; oh! o meu cora\u00e7\u00e3o transborda de entusiasmo, e eu espero saudar hoje a p\u00e1tria da minha Afonsina, como na\u00e7\u00e3o livre e independente.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Oh! praza ao c\u00e9u que a gl\u00f3ria da p\u00e1tria venha refletir seus raios brilhantes sobre a pira do nosso himeneu.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; E a p\u00e1tria ser\u00e1 tua \u00fanica rival; a amada \u00fanica que terei al\u00e9m de ti!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Mas a essa minha rival eu amo, eu adoro tamb\u00e9m! Nem eu te quisera para meu esposo se n\u00e3o a amasses tanto! A essa minha rival&#8230;Oh! meu Luciano, amo-a! adoro-a tanto, como a mim! Ainda mais do que a mim!&#8230;<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Afonsina!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; (Correndo a abra\u00e7ar-se) &#8211; Luciano!<\/p>\n<h2>&#8211; Cena X &#8211;<\/h2>\n<p>Os precedentes, e Pl\u00e1cido aparecendo.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Separai-vos!&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Meu pai!&#8230;<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Senhor!&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Separai-vos, disse: Afonsina, o teu casamento s\u00f3 mais tarde ter\u00e1 lugar, e outro ser\u00e1 teu esposo, porque este senhor \u00e9&#8230;um&#8230;infame&#8230;<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Infame! Infame!&#8230;oh! meu Deus! Eu mataria outro qualquer homem que ousasse diz\u00ea-lo!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Luciano!&#8230; \u00e9 meu pai!<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Est\u00e1s vendo que o n\u00e3o esqueci.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Nada mais h\u00e1 de comum entre n\u00f3s: o senhor sabe que praticou uma inf\u00e2mia,e tanto basta. Seja feliz&#8230;suba&#8230;conquiste posi\u00e7\u00e3o&#8230;honras&#8230;fortuna; pressinto que ter\u00e1 um futuro imenso&#8230; \u00e9 h\u00e1bil&#8230;conseguir\u00e1 tudo, menos ser esposo de minha filha.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Meu pai, caluniaram a Luciano.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; N\u00e3o; foi ele que se desonrou.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; \u00c9 cal\u00fania, meu pai!<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Obrigado, Afonsina; juro-te pela nossa p\u00e1tria, que me faze justi\u00e7a. (A Pl\u00e1cido) Senhor, ningu\u00e9m no mundo, e nem vossa merc\u00ea, \u00e9 mais honrado do que eu.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Acabemos com isto (Falando para dentro). Venham todos, entrem, senhores!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Oh! meu Deus!&#8230;Luciano&#8230;<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Sossega.<\/p>\n<h2>&#8211; Cena XI &#8211;<\/h2>\n<p>Os precedentes, Prud\u00eancio, Velasco, Senhoras, Cavalheiros.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; S\u00e3o horas do casamento?&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Justi\u00e7a seja feita!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Justi\u00e7a! Tenho muito medo desta senhora, porque padece da vista, e \u00e0s vezes d\u00e1 pancada de cego.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Senhores, tenho de cumprir um ato de solene justi\u00e7a; ou\u00e7am-me.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Eu tremo!&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Sejam todos testemunhas do que vou dizer, e do que se vai passar. Senhores, acabo de romper o casamento que devia celebrar-se hoje. O senhor Luciano \u00e9 indigno da m\u00e3o de minha filha.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Ent\u00e3o como diabo foi isso?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Esse mancebo, a quem sempre servi de pai desvelado, atrai\u00e7oou-me, feriu-me com a mais perversa cal\u00fania. Esperando, sem d\u00favida, ficar de posse dos meus bens e riqueza, denunciou-me ao governo como inimigo do Pr\u00edncipe e da causa do Brasil, e pediu a minha imediata deporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Luciano? \u00e9 imposs\u00edvel, meu pai!&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 imposs\u00edveis no mundo, minha senhora: e ia esta pombinha sem fel cair nas garras daquele revolucion\u00e1rio!<\/p>\n<p>Velasco &#8211; (\u00c1 parte) &#8211; Chegamos ao fim do jogo: tenho esperan\u00e7as de ganha-lo; mas confesso que estou com receio da \u00faltima cartada.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; A perf\u00eddia do ingrato foi a tempo descoberta: espero em Deus n\u00e3o ser deportado; e ainda bem que posso salvar minha filha!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Apoiado! Nada de contempla\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; E agora, senhores, revelarei a todos um segredo de fam\u00edlia, que eu hoje tinha de confiar somente ao senhor Luciano. Sabem os meus amigos que eu tive um irm\u00e3o querido, meu s\u00f3cio nos prazeres e nas afli\u00e7\u00f5es da vida, e tamb\u00e9m meu s\u00f3cio no com\u00e9rcio; a morte roubou-me esse irm\u00e3o, cuja fortuna herdei, como seu \u00fanico parente. Pois bem, esse irm\u00e3o muito amado, ferido de s\u00fabito pelo mal que o devia levar em poucos instantes \u00e0 sepultura, reconhecendo o seu estado, e vendo que se aproximava do transe derradeiro, chamou-me para junto de seu leito e disse-me: &#8220;Pl\u00e1cido, sabes que tenho um filho, penhor de um amor infeliz e ileg\u00edtimo; ignorem todos este segredo, e tu recolhe meu filho, educa-o, zela a fortuna que deixo e que deve pertencer-lhe; e se ele se mostrar digno de n\u00f3s, se for um homem honrado , entrega-lhe a sua heran\u00e7a.&#8221; Concluindo estas palavras, meu irm\u00e3o expirou. Senhores, o filho de meu irm\u00e3o \u00e9 o senhor Luciano!<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Grande Deus!&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; \u00c9 me primo!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Esta \u00e9 de deixar um homem de boca aberta um dia inteiro!<\/p>\n<p>Velasco &#8211; (\u00c0 parte) &#8211; Complica-se o enredo&#8230;e&#8230;palavra de honra, creio que isto acaba mal.<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Senhor Luciano, creio que cumpri \u00e0 risca o meu dever; zelei os seus bens,a sua fortuna, amei-o e eduquei-o como&#8230;um filho. Hoje que sou v\u00edtima de sua ingratid\u00e3o, podia guardar para mim a heran\u00e7a que lhe pertence, pois que nenhum documento lha assegura, e todos ignoravam o que acabo de referir: quero, por\u00e9m, dar-lhe um \u00faltimo e in\u00fatil exemplo de probidade. (Dando pap\u00e9is) Eis aqui as minhas contas: pode mandar receber a sua heran\u00e7a; o senhor possui quinhentos mil cruzados.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Este meu cunhado \u00e9 doido!<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Como proceder\u00e1 agora Luciano?&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; eis as minhas contas, repito; examine-as e d\u00ea-me as suas ordens. Uma \u00faltima palavra: compreenda que fa\u00e7o um sacrif\u00edcio falando-lhe ainda, e que estou ansioso por concluir depressa. Senhor, sei que se ufana do nome de patriota; \u00e9 um belo nome, sem d\u00favida, e que exprime uma id\u00e9ia grandiosa; mas n\u00e3o basta ser valente para ser patriota, como ser bravo n\u00e3o\u00e9 ser honrado. O patriota \u00e9 aquele que al\u00e9m de estar pronto a dar a vida pela causa do seu pa\u00eds, sabe tamb\u00e9m honr\u00e1-lo com a pr\u00e1tica de virtudes, e com o exemplo da honestidade; o patriota prova que o \u00e9 no campo de batalha, nos com\u00edcios p\u00fablicos, no servi\u00e7o regular do estado e nos seio da fam\u00edlia; em uma palavra, quem n\u00e3o \u00e9 homem probo, n\u00e3o pode ser patriota. Eis o que pretendia dizer-lhe; agora separemo-nos para sempre: aqui tem as minhas contas, e d\u00ea-me as suas ordens. (Luciano fica im\u00f3vel)<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Oh! ele n\u00e3o aceita!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Receba-as, senhor, e deixei-nos em paz. (Luciano recebe os pap\u00e9is).<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; E aceitou&#8230;meu Deus!<\/p>\n<p>Velasco (\u00c0 parte) &#8211; Quinhentos mil cruzados de menos no bolo!<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Vou retirar-me; antes, por\u00e9m, de o fazer, tamb\u00e9m direi uma \u00fanica&#8230;e derradeira palavra. Fui condenado sem ser ouvido: transformou-se contra mim a cal\u00fania em verdade, e puniram-me com o insulto e com a humilha\u00e7\u00e3o. Curvo-me diante do \u00fanico homem que o podia fazer impunemente. Senhor, f\u00e1cil me fora desfazer em um instante todo esse indigno enredo em que me envolveram, mas o meu orgulho me cerra os l\u00e1bios, e n\u00e3o descerei a desculpar-me; ao insulto seguir\u00e1 em breve o arrependimento; no entanto&#8230;vou retirar-me; esta riqueza, por\u00e9m, que vossa merc\u00ea me atirou ao rosto em um tal momento&#8230;essa riqueza&#8230;oh! senhor, um patriota tamb\u00e9m prova que o \u00e9, levantando-se diante do opr\u00f3brio&#8230;<br \/>\nOh! vossa merc\u00ea definiu perfeitamente o patriota e o homem honrado: deu-me, por\u00e9m, a defini\u00e7\u00e3o e n\u00e3o me apresentou o exemplo; pois o exemplo quero eu dar-lho: Ei-lo aqui! (Rasga os pap\u00e9is)<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; \u00c9 o meu Luciano! Eu o reconhe\u00e7o!&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Senhor! Despreza a heran\u00e7a de seu pai?&#8230;<\/p>\n<p>Luciano &#8211; N\u00e3o desprezo a heran\u00e7a de meu pai; revolto-me contra a afronta de meu tio. Riquezas! Eu as terei; a terra aben\u00e7oada por Deus, o Brasil, minha bela e portentosa p\u00e1tria, abre ao homem que trabalha um seio imenso repleto de tesouros inesgot\u00e1veis; colherei, pois, esses tesouros por minhas m\u00e3os, enriquecerei com o meu trabalho, e ningu\u00e9m, ningu\u00e9m jamais ter\u00e1 o direito de humilhar-me!<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; \u00c9 outro doido! Creio que a loucura \u00e9 mol\u00e9stia heredit\u00e1ria nesta fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Vossa merc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 deportado, eu o juro; descanse; mas o seu denunciante, esse&#8230;esse miser\u00e1vel que se esconde nas trevas, esse&#8230;hei de conhec\u00ea-lo e curv\u00e1-lo de joelhos a meus p\u00e9s, e &#8230;adeus, senhor&#8230;Afonsina!&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; Luciano!<\/p>\n<p>Leon\u00eddia (Dentro) &#8211; Parab\u00e9ns! Parab\u00e9ns!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Leon\u00eddia&#8230;<\/p>\n<p>Velasco (\u00c1 parte) &#8211; Pior est\u00e1 essa!&#8230;<\/p>\n<h2>&#8211; Cena XII &#8211;<\/h2>\n<p>Os precedentes, e Leon\u00eddia<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Pl\u00e1cido!&#8230;(Abra\u00e7a-o) Cheguei tarde, meu amigo, tudo j\u00e1 estava feito: Luciano tinha assinado uma fian\u00e7a por ti e suspendido a tua deporta\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Luciano?! perd\u00e3o, meu filho! Perdoa a teu pai!<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Meu pai! O meu cora\u00e7\u00e3o nunca o acusou&#8230;<\/p>\n<p>Velasco (\u00c0 parte) &#8211; Chegou o momento de por-me longe daqui&#8230;vou sair sorrateiramente&#8230;<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Pois duvidaste de Luciano? dele, que h\u00e1 dois dias s\u00f3 se ocupa de salvar-te?<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Senhor Velasco!&#8230; (Voltando-se) Devo-lhe o ter feito a meu filho uma grande injusti\u00e7a; venha defender-me&#8230;(Tr\u00e1-lo pelo bra\u00e7o)<\/p>\n<p>Velasco &#8211; Segue-se que fui enganado tamb\u00e9m&#8230;palavra de honra&#8230;palavra de honra&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; N\u00e3o jure pela honra&#8230;n\u00e3o a tem para jurar por ela&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Mas que alma de Judas foi ent\u00e3o o denunciante?<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Negam-me o seu nome; mas eis aqui uma carta para Luciano.<\/p>\n<p>Luciano (Depois de ler) &#8211; O denunciante&#8230;Ei-lo! (Mostrando Velasco).<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Miser\u00e1vel!&#8230; (Luciano o suspende).<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Pois voc\u00eas ca\u00edram em acreditar naquele ilh\u00e9u?&#8230;<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Sirva-lhe de castigo a sua vergonha: os bons vingam-se de sobra do homem indigno, quando o expulsam da sua companhia&#8230;o denunciante \u00e9 baixo e vil, e o denunciante fals\u00e1rio um abjeto, a quem n\u00e3o se dirige a palavra, nem se concede a honra de um olhar. (Sem olh\u00e1-lo, aponta para a porta, e Velasco sai confuso e envergonhado) Afonsina!<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; \u00c9 tua, meu filho&#8230;o altar vos espera&#8230;n\u00e3o nos demoremos&#8230;vamos.<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; Vai, minha filha, vai e s\u00ea feliz! (Abre-se a porta da sala do fundo; os noivos e a companhia v\u00e3o para o altar: Leon\u00eddia s\u00f3 fica na cena, ajoelha-se e ora).<\/p>\n<p>Coro &#8211; Nas asas brancas o anjo da virtude<br \/>\nOs puros votos leve deste amor,<br \/>\nE aos p\u00e9s de Deus depositando-os, volte<br \/>\nE aos noivos traga a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Senhor.<\/p>\n<p>Afonsina e Luciano &#8211; Minha m\u00e3e!&#8230;<\/p>\n<p>Leon\u00eddia (Abra\u00e7ando-os) &#8211; Meus filhos!&#8230;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Agora ao banquete! Ao banquete! Estou no meu elemento!&#8230;(Ouve-se m\u00fasica e gritos de alegria) Miseric\u00f3rdia!&#8230;parece toque de rebate&#8230;<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Oh! \u00e9 a feliz nova que rebenta, sem d\u00favida! Meu pai! Minha m\u00e3e! Afonsina! \u00c9 a Independ\u00eancia&#8230;eu corro&#8230;(Vai-se)<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Os sinais n\u00e3o s\u00e3o de rebate, s\u00e3o de alegria&#8230;<\/p>\n<p>Leon\u00eddia &#8211; E Luciano&#8230;se ele se foi expor&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; N\u00e3o, minha m\u00e3e; meu esposo foi cumprir o seu dever.<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Esta minha sobrinha nasceu para general.<\/p>\n<h2>&#8211; Cena XIII &#8211;<\/h2>\n<p>Os precedentes, e Luciano ornado de flores<\/p>\n<p>Luciano &#8211; Salve!salve! o Pr\u00edncipe imortal, o paladim da liberdade chegou de S. Paulo, onde a 7 deste m\u00eas, nas margens do Ipiranga, soltou o grito &#8220;Independ\u00eancia ou Morte&#8221; grito her\u00f3ico, que ser\u00e1 doravante a divisa de todos os Brasileiros&#8230;ouvi!ouvi! (Aclama\u00e7\u00e3o dentro Sim! &#8211; Independ\u00eancia ou Morte!&#8221;<\/p>\n<p>Prud\u00eancio &#8211; Por minha vida! Este grito tem assim alguma coisa que parece fogo&#8230;faz ferver o sangue nas veias, e \u00e9 capaz de fazer de um medroso um her\u00f3i&#8230;O diabo leve o medo!&#8230;quando se escuta um destes gritos el\u00e9tricos, n\u00e3o h\u00e1, n\u00e3o pode haver Brasileiro, de cujo cora\u00e7\u00e3o e de cujos l\u00e1bios n\u00e3o rompa esse mote sagrado&#8230; &#8220;Independ\u00eancia ou Morte!&#8221;<\/p>\n<p>Vozes (Dentro) &#8211; Viva a Independ\u00eancia do Brasil!&#8230; Viva! Viva!<\/p>\n<h2>&#8211; Cena XIV &#8211;<\/h2>\n<p>Os precedentes e multid\u00e3o &#8211; Homens ornados de flores e folhas; um traz a bandeira nacional. Entusiasmo e alegria. Vivas \u00e0 Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Luciano &#8211; (Tomando a Bandeira) &#8211; Eis o estandarte nacional; Viva a na\u00e7\u00e3o brasileira!&#8230;<\/p>\n<p>Afonsina &#8211; D\u00e1-me essa nobre e generosa bandeira. (Toma-a) Meu pai: eis o estandarte da p\u00e1tria de teus filhos! Abra\u00e7a-te com ele, e adota por tua p\u00e1tria a na\u00e7\u00e3o brasileira, que vai engrandecer-se aos olhos do mundo!&#8230;<\/p>\n<p>Pl\u00e1cido &#8211; Terra de amor, terra de liberdade, terra de futuro e de gl\u00f3ria! Brasil querido! Aceita em mim um filho dedicado!&#8230;<\/p>\n<p>(Aclama\u00e7\u00f5es, vivas e o Hino da Independ\u00eancia)<\/p>\n<p><strong>FIM DO PRIMEIRO E \u00daNICO ATO<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joaquim Manuel Macedo Ato \u00danico O teatro representa uma sala ornada com luxo e esmero em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca. 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