{"id":101337,"date":"2017-02-02T17:24:04","date_gmt":"2017-02-02T19:24:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=101337"},"modified":"2017-02-14T10:47:31","modified_gmt":"2017-02-14T12:47:31","slug":"sagarana-resumo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/sagarana-resumo","title":{"rendered":"Sagarana &#8211; Resumo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa<\/h2>\n<p>O livro principia por uma ep\u00edgrafe, extra\u00edda de uma quadra de desafio, que sintetiza os elementos centrais da obra : Minas Gerais, sert\u00e3o , bois vaqueiros e jagun\u00e7os , o bem e o mal:<\/p>\n<p>&#8220;L\u00e1 em cima daquela serra,<br \/>\npassa boi , passa boiada,<br \/>\npassa gente ruim e boa<br \/>\npassa a minha namorada&#8221;.<\/p>\n<p><b>Sagarana , comp\u00f5e-se de nove contos, com os seguintes t\u00edtulos:<\/b><\/p>\n<p>&#8211; &#8220;O BURRINHO PEDR\u00caS&#8221;<br \/>\n&#8221; A VOLTA DO MARIDO PR\u00d3DIGO&#8221;<br \/>\n&#8220;SARAPALHA&#8221;<br \/>\n&#8220;DUELO&#8221;<br \/>\n&#8220;MINHA GENTE&#8221;<br \/>\n&#8220;S\u00c3O MARCOS&#8221;<br \/>\n&#8220;CORPO FECHADO<br \/>\n&#8220;CONVERSA DE BOIS&#8221;<br \/>\n&#8220;A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA&#8221;<\/p>\n<p>Em sua primeira vers\u00e3o , os contos de Sagarana foram escritos em 1937, e submetidos a um concurso liter\u00e1rio (o pr\u00eamio) &#8220;Gra\u00e7a Aranha&#8221;, institu\u00eddo pela Editora Jos\u00e9 Olympio, onde n\u00e3o obtiveram premia\u00e7\u00e3o, apesar de Graciliano Ramos, membro do j\u00fari, ter advogado para o livro de Rosa (sob o pseud\u00f4nimo de Viator) o primeiro lugar (ficou em segundo).<\/p>\n<p>Com o tempo, Guimar\u00e3es Rosa foi depurando (&#8220;enxugando&#8221;) o livro , at\u00e9 a vers\u00e3o que veio \u00e0 luz em 1946, reduzindo-a das quinhentas p\u00e1ginas originais, para cerca de trezentas na vers\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do livro, Sagarana, remete-nos a um dos processos de inven\u00e7\u00e3o de palavras mais caracter\u00edsticos de Rosa- o hibridismo. Saga \u00e9 radical de origem germ\u00e2nica e significa &#8220;canto her\u00f3ico&#8221;, &#8220;lenda&#8221; ; rana vem da l\u00edngua ind\u00edgena e quer dizer &#8220;\u00e0 maneira de &#8221; ou &#8220;esp\u00e9cie de &#8221;<\/p>\n<p>As est\u00f3rias desembocam sempre numa alegoria e o desenrolar dos fatos prende-se a um sentido ou &#8220;moral&#8221;, \u00e0 maneira das f\u00e1bulas. As ep\u00edgrafes que encabe\u00e7am cada conto condensam sugestivamente a narrativa e s\u00e3o tomadas da tradi\u00e7\u00e3o mineira , dos prov\u00e9rbios e cantigas do sert\u00e3o.<\/p>\n<h2>1. O BURRINHO PEDR\u00caS<\/h2>\n<p>Sete de Ouro, um burrinho j\u00e1 idoso \u00e9 escolhido para servir de montaria num transporte de gado. Um dos vaqueiros, Silvino , est\u00e1 com \u00f3dio de Badu , que anda namorando a mo\u00e7a de quem Silvino gostava . Corre o boato entre os vaqueiros, de que Silvino pretende vingar-se do rival.<\/p>\n<p>De fato Silvino ati\u00e7a um touro e o faz investir contra Badu que , por\u00e9m, consegue domin\u00e1-lo. Os vaqueiros continuam murmurando que Silvino vai matar Badu. A caminho de volta, este , b\u00eabado , \u00e9 o \u00faltimo a sair do bar e tem que montar no burro. Anoitece e Silvino revela a seu irm\u00e3o o plano de morte.<\/p>\n<p>Contudo, na travessia do C\u00f3rrego da Fome, que pela cheia transformara-se em rio perigoso, vaqueiros e cavalos se afogam . Salvam-se apenas Badu e Francolim , um montado e outro pendurado no rabo do burrinho.<\/p>\n<p>&#8220;Sete de Ouros&#8221;, burro velho e desacreditado, personifica a cautela, a prud\u00eancia e a muito mineira no\u00e7\u00e3o de que nada vale lutar contra a correnteza.<\/p>\n<h2>2. A VOLTA DO MARIDO PR\u00d3DIGO<\/h2>\n<p><b>Personagens :<\/b><\/p>\n<p>-Seu Waldemar Encarregado (Mulher tem aulas de viol\u00e3o com Lalino)<br \/>\n-Seu Marra Chefe de Turma<br \/>\n-Lalino Laio, Eul\u00e1lio De Souza Sal\u00e3thiel<br \/>\n-Maria Rita<br \/>\n-Major Anacleto<br \/>\n-Oscar<\/p>\n<p><b>Narrativa :<\/b><\/p>\n<p>-Lalino \u201ctrabalha\u201d no corte de terra para o aterro de uma estrada<br \/>\n-Resolve ir para o Rio de Janeiro (Vai e se esbalda)<br \/>\n-Volta e encontra a mulher (Maria Rita) amasiada com Ramiro um espanhol que lhe emprestrou um dinheiro para a viagem<br \/>\n-Pede ajuda a Oscar, filho do Major Anacleto, que lhe arranja um emprego de cabo eleitoral na campanha do Major.<\/p>\n<p>-Lalino usa toda a sua l\u00e1bia para convencer os eleitores e consegue<br \/>\n-O Major acaba expulsando os espanh\u00f3is e unindo Maria Rita e Lalino.<\/p>\n<h2>3. SARAPALHA<\/h2>\n<p><b>Personagens :<\/b><\/p>\n<p>-Primo Argemiro das bandas do rio<br \/>\n-Primo Ribeiro das bandas do mato<br \/>\n-Prima Lu\u00edsa Mulher de Ribeiro<br \/>\n-Cei\u00e7\u00e3o Preta velha<br \/>\n-Jil\u00f3 &#8211; cachorro<\/p>\n<p><b>Narrativa:<\/b><\/p>\n<p>-A saz\u00e3o (febre\/mal\u00e1ria) avan\u00e7a por um povoado \u00e0s margens do Rio Par\u00e1<br \/>\n-As pessoas abandonam o povoado deixando tudo para tr\u00e1s, as que n\u00e3o se v\u00e3o morrem<br \/>\n-O Mato toma conta do povoado<br \/>\n-Primo Argemiro e Primo Ribeiro observam a doen\u00e7a avan\u00e7ar em si mesmos<br \/>\n-Ribeiro faz Argemiro prometer enterr\u00e1-lo no cemit\u00e9rio do povoado.<\/p>\n<p>-Ribeiro come\u00e7a lembrar da esposa (que era sua prima Lu\u00edsa) que fugiu com um boiadeiro<br \/>\n-Argemiro amava a mulher do primo e desejava ter sido ele a fugir com ela<br \/>\n-Argemiro confessa ao primo que amava sua mulher e foi morar com eles por causa dela<br \/>\n-Ribeiro expulsa o primo enquanto o tremor da maleita lhe atinge<\/p>\n<h2>4. DUELO<\/h2>\n<p><b>Personagens:<\/b><\/p>\n<p>-Tur\u00edbio Todo<br \/>\n-Cassiano Gomes<br \/>\n-Timpim Vinte-e-um<\/p>\n<p><b>Narrativa:<\/b><\/p>\n<p>-Tur\u00edbio \u00e9 tra\u00eddo pela mulher com o ex-pra\u00e7a Cassiano Gomes<br \/>\n-Tur\u00edbio quer vingar-se mas mata por engano o inocente irm\u00e3o de Cassiano<br \/>\n-Cassiano persegue Tur\u00edbio durante meses<br \/>\n-Tur\u00edbio vai para S\u00e3o Paulo<br \/>\n-Cassiano morre do cora\u00e7\u00e3o, por ter exigido demais de si mesmo durante a persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\n-Antes de morrer contrata os servi\u00e7os de um caboclo que lhe devia favores, um tal Timpim Vinte-e-um<br \/>\n-Ao voltar de S\u00e3o Paulo, acompanhado por um sujeito franzino, ansioso para rever a mulher \u00e9 assassinado pelo acompanhante que ero o pr\u00f3prio Timpim que o acompanhava para ter certeza da identidade da v\u00edtima.<\/p>\n<h2>5. MINHA GENTE<\/h2>\n<h5>PERSONAGENS:<\/h5>\n<p>Doutor: O narrador \u00e9 o protagonista. S\u00f3 sabemos que \u00e9 um &#8220;Doutor&#8221; por interm\u00e9dio da fala de Jos\u00e9 Malvino, logo no in\u00edcio da narrativa: ( \u201cSe o senhor doutor est\u00e1 achando qlguma boniteza&#8230;&#8221;), fora isso, nem mesmo seu nome \u00e9 mencioando.<\/p>\n<p>Santana : Inspetor escolar intinerante. Bonach\u00e3o e culto. Tem mem\u00f3ria prodigiosa. \u00c9 um tipo de servidor p\u00fablico facilmente encontr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Malvino: Roceiro que acompanha o protagonista na viagem para a fazenda do Tio Em\u00edlio. Conhece os caminhos e sabe interpretar os sinais que neles encontra. Atencioso, desconfiado, prestitavo e supersticioso.<\/p>\n<p>Tio Em\u00edlio: Fazendeiro e chefe pol\u00edtico, para ele \u00e9 uma forma de afirma\u00e7\u00e3o pessoal. \u00c9 a satisfa\u00e7\u00e3o de vencer o jogo para tripudiar sobre o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Maria Irma: Prima do protagonista e primeiro objeto de seu amor. \u00c9 inteligente, determinada, sibilina. Elabora um plano de a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se afasta dele at\u00e9 atingir seus objetivos. N\u00e3o abre seu cora\u00e7\u00e3o para ningu\u00e9m, mas sabe e faz o que quer.<\/p>\n<p>Bento Porf\u00edrio : Empregado da fazendo de Tio Em\u00edlio. \u00c9 companheiro de pescaria do protagonista e termina assassinado pelo marido da mulher com quem mantinha um romance.<\/p>\n<h5>O CONTO<\/h5>\n<p>O protagonista-narrador vai passar uma temporada na fazenda de seu tio Em\u00edlio, no interior de Minas Gerais. Na viagem \u00e9 acompanhada por Santana, inspetor escolar, e Jos\u00e9 Malvino. na fazenda, seu tio est\u00e1 envolvido em uma campanha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O narrador testemunha o assassinato de Bento Porf\u00edrio, mas o crime n\u00e3o interfere no andamento da rotina da fazenda. O narrador tenta conquistar o amor da prima Maria Irma e acaba sendo manipulado pro ela e termina casando-se com Armanda, que era noiva de Ramiro Gouvea.<\/p>\n<p>Maria Irma casa-se com Ramiro. Hist\u00f3rias entrecruzam-se na narrativa: a do vaqueiro que buscava uma r\u00eas desgarrada e que provocara os marimbondos contra dois ajudantes; o moleque Nicanor que pegava cavalos usando apenas artimanhas; Bento Porf\u00edrio assassinado por Alexandre Caba\u00e7a; o plano de Maria Irma para casar-se com Ramiro.<\/p>\n<p>Mesmo contendo os elementos usuais dos outros contos analisados at\u00e9 aqui, este conto difere no foco narrativo na linguagem utilizada nos demais. O autor utiliza uma linguagem mais formal, sem grandes concess\u00f5es aos coloquialismos e onomatop\u00e9ias sertanejas. Alguns neologismos aparecem: suaviloq\u00fc\u00eancia, filiforme, sossegovitch, sapatogorof &#8211; mas longe da melop\u00e9ia vaqueira t\u00e3o gosto do autor.<\/p>\n<p>A novidade do foco narrativo em primeira pessoa faz desaparecer o narrador onisciente cl\u00e1ssico, entretanto quando a a\u00e7\u00e3o \u00e9 centrada em personagens secund\u00e1rias \u2013 Nicanor, por exemplo &#8211; a onisci\u00eancia fica transparente.<\/p>\n<p>\u00c9 um conto que fala mais do apego \u00e0 vida, fauna, flora e costumes de Minas Gerais que de uma hist\u00f3ria plana com princ\u00edpios, meio e fim. Os &#8220;causos&#8221; que se entrela\u00e7am para compor a trama narrativa s\u00e3o meros pretextos para dar corpo a um sentimento de integra\u00e7\u00e3o e encantamento com a terra natal.<\/p>\n<h2>6 S\u00c3O MARCOS<\/h2>\n<p><b>Personagens :<\/b><br \/>\n-S\u00e1 Nh\u00e1 Rita Preta Cozinheira do narrador<br \/>\n-Jos\u00e9 Narrador<br \/>\n-Jo\u00e3o Mangol\u00f4 Feiticeiro (Preto V\u00e9io)<\/p>\n<p><b>Narrativa:<\/b><\/p>\n<p>-Calango Frito \u00e9 o nome do povoado<br \/>\n-Jos\u00e9 gosta de entrar na mata para ca\u00e7ar, observar a natureza e sempre que passa pela casa de Jo\u00e3o Mangol\u00f4 provoca-o<br \/>\n-Um dia caminhando pela mata encontra Aur\u00edsio Manquitola. Os dois comentam sobre a \u201cOra\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Marcos\u201d que \u00e9 capaz de atrair coisas ruins. Aur\u00edsio para provar esta teoria conta alguns causos :<\/p>\n<p>\u2022 Gestal da Gaita : Silv\u00e9rio teve de pernoitar com Gestal. Gestal reza a Ora\u00e7\u00e3o e parte para cima de Silv\u00e9rio com uma peixeira, Silv\u00e9rio desvia e Gestral come\u00e7a a subir pelas paredes at\u00e9 bater a cabe\u00e7a no teto e cair no ch\u00e3o sem lembrar de nada.<br \/>\n\u2022 Ti\u00e3o Tranj\u00e3o : Amigado de mulherzinha; espezinhado por Cypriano que era amante de sua am\u00e1sia. Gestal da Gaita com d\u00f3 ensina a ora\u00e7\u00e3o a Ti\u00e3o. Ti\u00e3o \u00e9 acusado de ofender Filipe Turco e na cadeia apanha dos policiais. A meia-noite Ti\u00e3o reza a ora\u00e7\u00e3o e consegue escapar, ir para casa e bater na amante, no amante da amante e quebrar a casa toda.<\/p>\n<p>-Jos\u00e9, depois deste enontro com Aur\u00edsio, continua andando e se lembra da hist\u00f3ria dos bambus :<\/p>\n<p>\u2022 Jos\u00e9 troca poesias com um \u201cQuem-Ser\u00e1?\u201d, usando os n\u00f3s dos bambus para deixar as mensagem para seu interlocutor an\u00f4nimo, chamado por ele de \u201cQuem ser\u00e1?\u201d<\/p>\n<p>-Jos\u00e9 segue caminhando pela floresta, descansa debaixo de uma \u00e1rvore e repentinamente fica cego.<\/p>\n<p>-Caminha desesperado pela mata e resolve rezar a ora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Marcos. Feito isso deixa a floresta e chega a cabana de Mangol\u00f4 descobrindo que este fizera um feiti\u00e7o para deixa-lo cego a fim de lhe ensinar respeito.<\/p>\n<p>-Jos\u00e9 amea\u00e7a matar o velho , mas volta a enxergar e resolve ter mais respeito pelo velho feiticeiro.<\/p>\n<h2>7. CONVERSA DE BOIS<\/h2>\n<p>O conto Conversa de Bois est\u00e1 inserido entre aqueles que comp\u00f5em o primeiro livro do autor: \u00e9 o pen\u00faltimo entre os nove contos que se encontram em SAGARANA, livro publicado em 1946.<\/p>\n<p>A marca roseana de contador de &#8220;causos&#8221; aparece logo no primeiro par\u00e1grafo: &#8220;Que j\u00e1 houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, \u00e9 certo e discut\u00edvel, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas ( ..) &#8221;<\/p>\n<p>O narrador abre a hist\u00f3ria contando um fato: houve um tempo em que os bichos conversavam entre eles e com os homens e p\u00f5e em d\u00favida se ainda podem faz\u00ea-lo e serem entendidos por todos : &#8220;por voc\u00ea, por mim, por todo mundo, por qualquer filho de Deus?!&#8221;<\/p>\n<p>Manuel Timborna diz que sim, e indagado pelo narrador se os bois tamb\u00e9m falam, afirma que &#8220;Boi fala o tempo todo&#8221;, dispondo-se a contar um caso acontecido de que ele pr\u00f3prio sabe not\u00edcia. O<\/p>\n<p>narrador disp\u00f5e-se a escut\u00e1-lo, mas &#8221; s\u00f3 se eu tiver licen\u00e7a de recontar diferente, enfeitado e acrescentando pouco a pouco.&#8221; Timborna concorda e inicia sua narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O narrador nos dir\u00e1 que o fato come\u00e7ou na encruzilhada de Ibi\u00fava, logo ap\u00f3s a cava do Mata-Quatro, em plena manh\u00e3, por volta das dez horas, quando a irara Risoleta fez rodopiar o vento. A cantiga de um carro de bois come\u00e7ou a chegar, deixando ouvir-se de longe.<\/p>\n<p>Ti\u00e3ozinho, o menino guia, aparece na estrada: &#8220;(&#8230;) um peda\u00e7o de gente, com a comprida vara no ombro, com o chap\u00e9u de palha furado, as cal\u00e7as arrega\u00e7adas, a camisa grossa de riscado, aberta no peito(&#8230;) Vinha triste, mas batia ligeiro as alpercatinhas, porque, a dois palmos da sua cabe\u00e7a, avan\u00e7avam os belfos babosos dos bois de guia &#8211; Buscap\u00e9, bi-amarelo (&#8230;) Namorado, carac\u00fa sapiranga, castanho-vinagre tocado a vermelho.(&#8230;) Capit\u00e3o, salmilhado, mais em branco que amarelo, (&#8230;) Brabagato, mirim malhado de branco e de preto. ( &#8230;) Dan\u00e7ador, todo branco (&#8230;) Brilhante, de pelagem bra\u00fana, ( &#8230;) Realejo, laranjo-botineiro, de polainas de l\u00e3 branca e Canind\u00e9, bochechudo, de chifres semilunares(&#8230;).&#8221;<\/p>\n<p>O carreiro Agenor Soronho, &#8220;Homenzarr\u00e3o ruivo, (&#8230;) muito mal encarado&#8221; \u00e9 apresentado aos leitores. L\u00e1 vai o carro de bois, carregado de rapaduras, dirigido por Soronho que tinha um orgulho danado de nunca ter virado um carro, desviado uma rota.<\/p>\n<p>Quem ia triste era Ti\u00e3ozinho, fungando o tempo inteiro, semi-adormecido pela vig\u00edlia do dia anterior, deixava um fio escorrendo das narinas. Ia cabisbaixo e infeliz: o pai morrera na v\u00e9spera e estava sendo levado de qualquer jeito:<\/p>\n<p>&#8220;Em cima das rapaduras, o defunto. Com os balan\u00e7os, ele havia rolado para fora do esquife, e estava espichado, horrendo. O len\u00e7o de amparar o queixo, atado no alto da cabe\u00e7a, n\u00e3o tinha valido nada : da boca, dessorava um mingau pardo, que ia babujando e empestando tudo. E um ror de moscas, encantadas com o carregamento duplamente precioso, tinham vindo tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<h2>Conclus\u00e3o<\/h2>\n<p>Os bois conversam, tecem considera\u00e7\u00f5es sobre os homens: &#8220;- O homem \u00e9 um bicho esmochado, que n\u00e3o devia haver.&#8221; Para os bois, Agenor \u00e9 um bicho : &#8220;homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta&#8221;. Comentam dele as covardias e desprop\u00f3sitos, sabem que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte quanto um boi.<\/p>\n<p>O carreiro Soronho p\u00e1ra para conversar com uns cavaleiros, entre eles uma mo\u00e7a, que ficam sabendo sobre a morte do pai do menino. Ti\u00e3ozinho, que j\u00e1 come\u00e7ara a espantar a tristeza, recebe-a toda de volta. Despedem-se e Agenor usa de novo o aguilh\u00e3o contra os animais. Os bois recome\u00e7am a conversa : &#8220;Mas \u00e9 melhor n\u00e3o pensar como o homem&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Reconhecem que Agenor Soronho \u00e9 mau; o carreiro grita com eles. Come\u00e7am a distinguir como trata o menino ( &#8220;Falta de justi\u00e7a, ruindade s\u00f3.&#8221;). Encontram Jo\u00e3o Bala que teve o carro acidentado no Morro do Sab\u00e3o; a falta de fraternidade de Soronho n\u00e3o permite que o outro carreiro seja ajudado.<\/p>\n<p>Ti\u00e3ozinho, debaixo do sol escaldante, agora se recorda do pai: h\u00e1 anos vinha cego e entrevado, por cima do jirau: &#8220;\u00c0s vezes ele chorava , de noite, quando pensava que ningu\u00e9m n\u00e3o estava escutando.<\/p>\n<p>Mas Ti\u00e3ozinho, que dormia ali no ch\u00e3o, no mesmo c\u00f4modo da cafua, ouvia, e ficava querendo pegar no sono, depressa, para n\u00e3o escutar mais&#8230; Muitas vezes chegava a tapar os ouvidos, com as m\u00e3os. Mal-feito! Devia de ter, nessas horas, puxado conversa com o pai, para consolar&#8230; Mas aquilo era penoso&#8230;<\/p>\n<p>Fazia medo, tristeza e vergonha, uma vergonha que ele n\u00e3o sabia nem por que, mas que dava vontade na gente de querer pensar em outras coisas&#8230; E que impunha, at\u00e9, ter raiva da m\u00e3e&#8230; ( &#8230;) Ah, da m\u00e3e n\u00e3o gostava! Era nova e bonita, mas antes n\u00e3o fosse&#8230; M\u00e3e da gente devia de ser velha, rezando e sendo s\u00e9ria, de outro jeito&#8230; Que n\u00e3o tivesse mexida com outro homem nenhum&#8230; Como \u00e9 que ele ia poder gostar direito da m\u00e3e? &#8230; &#8221;<\/p>\n<p>O leitor compreender\u00e1 , ent\u00e3o, na continuidade do Discurso Indireto Livre que a m\u00e3e de Ti\u00e3ozinho era amante de Agenor Soronho: &#8220;S\u00f3 n\u00e3o embocava era no quartinho escuro, onde o pai ficava gemendo; mas n\u00e3o gemia enquanto o Soronho estava l\u00e1, sempre perto da m\u00e3e, cochichando os dois, fazendo dengos&#8230; Que \u00f3dio!&#8230;&#8221; Os bois se apiadem daquele &#8220;bezerro- de- homem&#8221; t\u00e3o judiado e sofredor.<\/p>\n<p>\u00d3rf\u00e3o, sozinho, a recorda\u00e7\u00e3o da m\u00e3e n\u00e3o traz conforto. O carreiro, que j\u00e1 fora patr\u00e3o do pai e seria o patr\u00e3o do menino, exige-lhe muito mais que suas for\u00e7as podiam oferecer: &#8220;- Entra p\u00b9ra o lado de l\u00e1, que a\u00ed est\u00e1 embrejando fundo&#8230; Mais, dianho!&#8230; Mas n\u00e3o precisa de correr, que n\u00e3o \u00e9 sangria desatada!&#8230;<\/p>\n<p>Tu n\u00e3o vai tirar o pai da forca, vai?&#8230; Teu pai j\u00e1 est\u00e1 morto, tu n\u00e3o pode p\u00f4r vida nele outra vez!&#8230; Deus que me perdoe de falar isso, pelo mal de meus pecados, mas tamb\u00e9m a gente cansa de ter paci\u00eancia com um guia assim, que n\u00e3o aprende a trabalhar&#8230; Oi, seu mocinho, tu agora mesmo cai de nariz na lama! &#8230; &#8211; E Soronho ri, com estr\u00e9pito e satisfa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Os bois observam, conversam, tramam. Resolvem matar Soronho, livrando, portanto, o menino de toda a injusti\u00e7a futura&#8221;: &#8220;- E o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois? &#8211; O bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-adiante vai caminhandodevagar&#8230; Ele est\u00e1 babando \u00e1gua dos olhos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Percebendo que Soronho est\u00e1 dormindo, que descansa o aguilh\u00e3o ao seu lado, combinam derrub\u00e1-lo do carro, num solavanco repentino. Matam o carreiro, livram o menino. Quase degolado pela roda esquerda, l\u00e1 est\u00e1 o carreiro: menos for\u00e7a que os bois, menos intelig\u00eancia que eles. Ti\u00e3ozinho est\u00e1 livre, Agenor quase degolado jaz no ch\u00e3o.<\/p>\n<h2>8. CORPO FECHADO<\/h2>\n<p>O narrador , m\u00e9dico num vilarejo do interior , \u00e9 convidado por Man\u00e9 Ful\u00f4, para ser padrinho de casamento. Man\u00e9 detesta qualquer tipo de trabalho e passa o tempo a contar hist\u00f3rias para o doutor: de valent\u00f5es; de ciganos que ele, Man\u00e9, teria ludibriado na venda de cavalos; de sua rivalidade com Antonico das Pedras, o feiticeiro. Man\u00e9 possui um cavalo, Beija- Ful\u00f4, e Antonico \u00e9 dono de uma bela sela mexicana; cada um dos dois gostaria muito de adquirir a pe\u00e7a complementar.<\/p>\n<p>Aparece Targino o valent\u00e3o do lugar, e anuncia cinicamente que vai passar a noite antes do casamento com a noiva de Man\u00e9. Este fica desesperado, ningu\u00e9m pode ajud\u00e1-lo, pois Targino domina o lugarejo. Aparece ent\u00e3o Antonico e prop\u00f5e um trato a Man\u00e9 : vai fechar-lhe o corpo, mas exige em pagamento o cavalo. Man\u00e9 s\u00f3 p\u00f4de consentir. Em seguida, enfrenta Targino e o mata.<\/p>\n<p>O casamento realiza-se sem problema e Man\u00e9 Ful\u00f4 assume o posto de valent\u00e3o, por ter matado Targino apenas com uma faquinha.<\/p>\n<h2>9. A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA<\/h2>\n<p>Nh\u00f4 Augusto \u00e9 o maior valent\u00e3o de todo o lugar, gosta de briga e de deboche, tira as namoradas e mulheres de outros, n\u00e3o se preocupa nem com sua mulher nem com sua filha e deixa sua fazenda arruinar-se, Um dia sobrev\u00e9m o castigo : A mulher o abandona, seus capangas, mal pagos, p\u00f5em-se a servi\u00e7o de seu maior inimigo. Nh\u00f5 Augusto quer vingar-se mas n\u00e3o morre.<\/p>\n<p>Todo ferido, \u00e9 encontrado por um casal de pretos que o tratam; aos poucos se restabelece. Matraga come\u00e7a, ent\u00e3o uma vida penit\u00eancia, com os velhinhos vai longe at\u00e9 um lugarejo bem afastado e l\u00e1 trabalha duramente de manh\u00e3 a noite, \u00e9 manso servidor para todo mundo, reza e se arrepende de sua vida anterior.<\/p>\n<p>Um dia , passa o bando do destemido jagun\u00e7o Jo\u00e3ozinho Bem- Bem, que \u00e9 hospedado por Matraga com grande dedica\u00e7\u00e3o. Quando o chefe dos jagun\u00e7os lhe faz a proposta de integrar-se \u00e0 tropa e reber ajuda deles, Matraga vence a tenta\u00e7\u00e3o e recusa. Quer ir para o c\u00e9u, &#8220;nem que seja a porrete&#8221; , e sonha com um &#8220;Deus valent\u00e3o&#8221; .<\/p>\n<p>Um dia, j\u00e1 recuperada a sua for\u00e7a, despede-se dos velhinhos. Chega a um lugarejo onde reencontra o bando de Jo\u00e3ozinho Bem- Bem, prestes a executar uma cruel vingan\u00e7a contra a fam\u00edlia de um assassino que fugira. Augusto Matraga op\u00f5e-se ao chefe dos jagun\u00e7os. No duelo ambos se matam. Nessa hora , Nh\u00f5 Augusto \u00e9 identificado por seus antigos conhecidos.<\/p>\n<p>O fragmento que vai se vai ler \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o de Nh\u00f5 Augusto. Observe que o personagem tem tr\u00eas nomes: Matraga, Augusto Esteves e Nh\u00f5 Augusto. S\u00e3o tr\u00eas os lugares , em que trascorrem as fases de sua vida- Murici, onde vive inicialmente como bandoleiro; O Tombador, onde faz penit\u00eancia e se arrepende da vida de perversidade ; e o Rala Coco , onde encontra sua hora e vez, duelando com Jo\u00e3ozinho Bem- Bem.<\/p>\n<p>Pela estrutura narrativa, pela riqueza de sua simbologia e pelo tratamento exemplar concedido \u00e0 luta entre o bem e o mal e \u00e0s ang\u00fastias, que essa luta provoca em cada homem durante toda a vida , este conto \u00e9 considerado o mais importante de Sagarana.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sou pobre, pobre, pobre,<br \/>\nvou-me embora, vou- me embora.<br \/>\nEu sou rica, rica, rica<br \/>\nvou-me embora, daqui&#8230;&#8221;<br \/>\n(Cantiga Antiga)<\/p>\n<p>&#8220;Sapo n\u00e3o pula por boniteza,<br \/>\nmas por\u00e9m, por precis\u00e3o!&#8221;<br \/>\n(Prov\u00e9rbio Capiau)<\/p>\n<p>Matraga n\u00e3o \u00e9 Matraga, n\u00e3o \u00e9 nada. Matraga \u00e9 Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afons\u00e3o Esteves das Pinda\u00edbas e do Saco da Embira . Ou Nh\u00f4 Augusto &#8211; O homem &#8211; nessa noitinha de novena, nim lil\u00e3o de atr\u00e1s de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do C\u00f3rrego do Murici.<\/p>\n<p><b>Por: <\/b>Jo\u00e3o Am\u00e1lio Ribas<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa O livro principia por uma ep\u00edgrafe, extra\u00edda de uma quadra de desafio, que sintetiza os elementos centrais da obra : Minas Gerais, sert\u00e3o , bois vaqueiros e jagun\u00e7os , o bem e o mal: &#8220;L\u00e1 em cima daquela serra, passa boi , passa boiada, passa gente ruim e boa passa a minha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-101337","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Sagarana - Resumo, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Obra, Sagarana - Resumo Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Sagarana - Resumo, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Obra, Liter\u00e1ria, Literatura Sagarana - Resumo Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Sagarana - Resumo, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Obra, Sagarana - Resumo Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Sagarana - Resumo, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Obra, Liter\u00e1ria, Literatura Sagarana - Resumo Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/sagarana-resumo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-02-02T19:24:04+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-02-14T12:47:31+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"17 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/sagarana-resumo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/sagarana-resumo\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Sagarana &#8211; 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