{"id":100912,"date":"2017-02-02T11:52:41","date_gmt":"2017-02-02T13:52:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=100912"},"modified":"2017-02-14T10:46:49","modified_gmt":"2017-02-14T12:46:49","slug":"manuelzao-e-miguelim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/manuelzao-e-miguelim","title":{"rendered":"Manuelz\u00e3o e Miguelim"},"content":{"rendered":"<h4>Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa<\/h4>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>A obra de fic\u00e7\u00e3o mais conhecida de Guimar\u00e3es Rosa consta de contos, novelas e um romance monumental, publicado em 1956, que \u00e9 Grandes Sert\u00e3o: Veredas &#8211; livro que desconcertou a cr\u00edtica. Entre os livros de contos, destaca-se Sagarana, seu livro de estr\u00e9ia, publicado em 1946, que foi recebido como &#8220;uma das mais importantes obras aparecidas no Brasil contempor\u00e2neo&#8221;; Primeiras Est\u00f3rias (1962); Tutam\u00e9ia (Terceiras est\u00f3rias), de 1967; e o livro p\u00f3stumo Estas est\u00f3rias (1969).<\/p>\n<p>Corpo de Baile cont\u00e9m v\u00e1rias novelas e, a partir de 1964, foi desdobrado em tr\u00eas volumes: &#8220;Manuelz\u00e3o e Miguilim&#8221;, &#8220;No Urubuqu\u00e1qu\u00e1, no Pinh\u00e9m&#8221;, e &#8220;Noites do Sert\u00e3o&#8221;. As duas primeiras, tamb\u00e9m conhecidas como &#8220;Uma est\u00f3ria de amor&#8221; e &#8220;Campo Geral&#8221;. Como observa Beth Brait, em &#8220;Literatura Comentada&#8221;, da Abril Editora, &#8220;Campo Geral \u00e9 uma narrativa profundamente l\u00edrica que traduz a habilidade de Guimar\u00e3es Rosa para recriar o mundo captado pela perspectiva de uma crian\u00e7a.&#8221; Pode-se dizer que Campo Geral \u00e9 uma esp\u00e9cie de biografia, em que muitos cr\u00edticos v\u00eaem tra\u00e7os autobiogr\u00e1ficos do autor.<\/p>\n<p>O tema do livro \u00e9 a inf\u00e2ncia &#8211; a inf\u00e2ncia de um menino da ro\u00e7a, com usas descobertas da vida. Como sempre, tudo vem trabalhado com o inconfund\u00edvel estilo de Guimar\u00e3es Rosa numa linguagem estonteante nos seus recursos expressivos. Quanto a &#8220;Uma est\u00f3ria de amor&#8221;, que focaliza a outra ponta da vida, de forma igualmente l\u00edrica, relata-se, ao mesmo tempo que se vai reconstituindo a vida do vaqueiro sessent\u00e3o Manuelz\u00e3o, a festa de consagra\u00e7\u00e3o de uma capela que ele faz construir na fazenda que administra.<\/p>\n<p>Toda a narrativa desenvolve-se na v\u00e9spera de sair uma boiada, o tema boi serve de liga\u00e7\u00e3o entre as cenas, reaparecendo aqui e ali, dominante, ora como o pr\u00f3prio animal, ora como vaqueiro ou instrumento de trabalho (contracapa). As duas novelas complementam-se como hist\u00f3rias de um come\u00e7o e de um fim de vida. Enquanto a do menino \u00e9 uma constante e por vezes dolorosa descoberta do mundo, a do vaqueiro sessent\u00e3o \u00e9 um relembrar tamb\u00e9m por vezes doloroso do que foi a sua vida, em que as recorda\u00e7\u00f5es se misturam com os fatos do presente, como se aquela festa fosse a pr\u00f3pria s\u00famula de seus dias (contracapa).<\/p>\n<p><strong>A NOVELA COMO ESP\u00c9CIE LITER\u00c1RIA<\/strong><\/p>\n<p>Como esp\u00e9cie liter\u00e1ria, a novela n\u00e3o se distingue do romance, evidentemente, pelo crit\u00e9rio quantitativo, mas pelo essencial e estrutural. Tradicionalmente, a novela \u00e9 uma modalidade liter\u00e1ria que se caracteriza pela linearidade dos caracteres e acontecimentos, pela sucessividade epis\u00f3dica e pelo gosto das perip\u00e9cias. Contrariamente ao romance, a novela n\u00e3o tem a complexidade dessa esp\u00e9cie liter\u00e1ria, pois n\u00e3o se det\u00e9m na an\u00e1lise minuciosa e detalhada dos fatos e personagens.<\/p>\n<p>A novela condensa os elementos do romance: os di\u00e1logos s\u00e3o r\u00e1pidos e a narrativa \u00e9 direta, sem muitas divaga\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, muita coisa que chamamos de romance n\u00e3o passa de novela. Naturalmente a novela moderna, como tudo que \u00e9 moderno, evoluiu e n\u00e3o se sujeita a regras preestabelecidas. Tal como o conto, parodiando M\u00e1rio de Andrade, &#8220;sempre ser\u00e1 novela aquilo que seu autor batizou com o nome de novela&#8221;.<\/p>\n<p>Como autor (p\u00f3s)-modernista, Guimar\u00e3es Rosa procurou ser original, imprimindo, em suas cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, a sua marca pessoal, o seu estilo inconfund\u00edvel. Suas novelas, contudo, apesar das inova\u00e7\u00f5es, sempre apresentam aquela ess\u00eancia b\u00e1sica dessa modalidade liter\u00e1ria, que \u00e9 o apego a uma fabula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua como um rio, de caso-puxa-caso.<\/p>\n<p><strong>MIGUILIM: ESTRUTURA\/ENREDO<\/strong><\/p>\n<p>Campo Geral \u00e9 uma novela narrada em terceira pessoa. A est\u00f3ria, entretanto, \u00e9 filtrada pelo ponto de vista de Miguilim, uma crian\u00e7a de oito anos. Por essa raz\u00e3o, a vis\u00e3o de mundo apresentada pelo autor \u00e9 organizada a partir desta expectativa: a viv\u00eancia de um menino sens\u00edvel e delicado, empenhado em compreender as pessoas e coisas que o cercam. A est\u00f3ria se desenvolve no Mutum, um remoto lugarejo das Gerais, e envolve v\u00e1rias personagens. Como \u00e9 pr\u00f3prio da novela: a m\u00e3e, o pai, os irm\u00e3os, o tio, a av\u00f3 e outras que t\u00eam relacionamento demorado ou passageiro com essa fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Com cerca de 150 p\u00e1ginas, a novela se organiza \u00e0 semelhan\u00e7a de Grande Sert\u00e3o; Veredas, ou seja, a narrativa n\u00e3o \u00e9 dividida em cap\u00edtulos e as falas, nos di\u00e1logos, n\u00e3o se sujeitam \u00e0s normas convencionais. <strong>A narrativa, entretanto, pode ser dividida em alguns n\u00facleos b\u00e1sico que passamos a descrever:<\/strong><\/p>\n<p>1) Ao completar sete anos, Miguilim \u00e9 levado pelo tio Ter\u00eaz at\u00e9 um lugarejo distante para ser crismado. Nessa viagem, uma lembran\u00e7a que o marcou e que jamais esqueceu foi o dito de um mo\u00e7o que j\u00e1 estivera no Mutum: &#8220;\u00c9 um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e l\u00e1 chove sempre&#8230;&#8221; Essa opini\u00e3o opunha-se \u00e0 da m\u00e3e, que ali morava e vivia queixando-se do triste recanto. Ao voltar, esta ser\u00e1 a sua primeira preocupa\u00e7\u00e3o: dizer \u00e0 m\u00e3o &#8220;que o Mutum era lugar bonito&#8221;. A m\u00e3e, evidentemente, n\u00e3o lhe deu import\u00e2ncia, apontando o morro como causa do seu infort\u00fanio e da sua tristeza. &#8220;Estou sempre pensando que l\u00e1 por detr\u00e1s dele acontecem outras coisas, que o morro est\u00e1 tapando de mim, e que eu nunca hei de poder ver&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>2) A fam\u00edlia de Miguilim \u00e9 numerosa e comp\u00f5em-se de pai, m\u00e3e, irm\u00e3os, av\u00f3, tios, empregados, gatos e cachorros.<\/p>\n<p>Inicialmente, o seu relacionamento \u00e9 bom como todos eles, aos poucos, vai-se percebendo a sua maior predile\u00e7\u00e3o pelo irm\u00e3ozinho Dito. Mais novo do que Miguilim, Dito se destaca pela sabedoria e esperteza: &#8220;O Dito menor, muito mais menino, e sabia em adiantado as coisas com uma certeza, descarecia de perguntar&#8221;. &#8220;Dava at\u00e9 raiva, aquele ju\u00edzo sisudo, o poder do Dito, de saber e entender, sem as necessidades&#8221;. Grande era a amizade que unia os dois. Boa parte da novela concentra-se nessa amizade e nas conversas de ambos: &#8220;Era capaz de brinca com o Dito a vida inteira, o Ditinho era a melhor pessoa, de repente, sempre sem desassossego&#8221;.<\/p>\n<p>3) A morte prematura de Dito vai provocar nele um impacto doloroso e chocante &#8211; exatamente Dito que n\u00e3o pensava em morrer e tra\u00e7ava planos para o futuro. &#8220;?Eu gosto de todos. Por isso que eu quero n\u00e3o morrer e crescer, tomar conta do Mutum, criar um gad\u00e3o enorme. Mas Dito morre, e a desola\u00e7\u00e3o de Miguilim \u00e9 total: &#8220;Miguilim doidava de n\u00e3o chorar mais e de correr por um socorro&#8221;. &#8220;Solu\u00e7ava de engasgar, sentia as l\u00e1grimas quentes, maiores do que os olhos&#8221;. &#8220;Miguilim sentou no ch\u00e3o, num canto, chorava, n\u00e3o queria esbarrar de chorar, nem podia &#8211; Dito! Dito!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>4) O relacionamento com o pai, a princ\u00edpio, bom e cordial, vai-se deteriorando e chega ao cl\u00edmax, quando, numa briga com um parente que os visitava, Miguilim \u00e9 surrado violentamente por ele. A revolta det\u00e9m-lhe as l\u00e1grimas e Miguilim nutre um \u00f3dio mortal pelo pai: &#8220;N\u00e3o chorava, porque estava com um pensamento: quando ele crescesse, matava Pai&#8221;. A m\u00e3e, sempre preocupada e zelosa, afasta-o de casa, mandando-o passar algum tempo com o vaqueiro Sal\u00faz. Miguilim retorna carrancudo e ainda mal-humorado: &#8220;Chegou e n\u00e3o falou nada. N\u00e3o tomou b\u00ean\u00e7\u00e3o&#8221;. A partir dessa cena, Miguilim come\u00e7a a ajudar na capina da ro\u00e7a, quando passa mal e p\u00f5e-se a vomitar. Estava doente, muito doente. O pai se desespera e \u00e9 tomado de profunda como\u00e7\u00e3o: &#8220;Pai chorava, demordia de morder os bei\u00e7os&#8221;. Acabou perdendo a cabe\u00e7a e &#8220;se enforcou com um cip\u00f3&#8221;, e Miguilim se restabeleceu.<\/p>\n<p>5) O conflito gerado pelo relacionamento existente entre o pai, a m\u00e3e e o tio Ter\u00eaz, irm\u00e3o do Pai, \u00e9 outro n\u00facleo que se destaca na narrativa. Tudo indicava que havia alguma coisa entre a m\u00e3e e o tio Ter\u00eaz, e o pai certamente sabia. Uma vez, Miguilim viu-o bater na m\u00e3e e foi surrado tamb\u00e9m. A partir da\u00ed, o tio Ter\u00eaz, t\u00e3o amigo de Miguilim afasta-se da casa. O ambiente estava carregado. Um temporal est\u00e1 prestes a desabar, o que fazia o Dito dizer s\u00e9rio: &#8220;? Por causa de Mam\u00e3e, Papai e Tio Ter\u00eaz, Papai-do-C\u00e9u est\u00e1 com raiva de n\u00f3s de surpresa&#8230;&#8221; Tempos depois, quando levava comida para o pai no ro\u00e7ado, tio Ter\u00eaz aparece a Miguilim e pede-lhe que entregue um bilhete \u00e0 m\u00e3e. Esse bilhete, segredo n\u00e3o revelado nem a Dito, torna-se, por muito tempo, o seu tormento, pois adivinhava o seu conte\u00fado. Acaba devolvendo-o ao tio. Ter\u00eaz entende o seu dilema. No final da narrativa, com a morte do pai, tio Ter\u00eaz retorna e tudo acaba bem: &#8220;?Se daqui a uns meses m\u00e3o se casar com o tio Ter\u00eaz, Miguilim, isso \u00e9 do seu gosto? &#8211; indagava a m\u00e3e&#8221;. &#8220;?Tio Ter\u00eaz, o senhor parece com Pai&#8230;&#8221; &#8211; dizia Miguilim.<\/p>\n<p>6) A novela se encerra com uma cena altamente simb\u00f3lica: a descoberta de que era m\u00edope e a possibilidade de uma nova vida em outro lugar. Foi assim: De repente, chega ao Mutum, um senhor de \u00f3culos (Dr. Louren\u00e7o) e a amizade se estabelece: Deus te aben\u00e7oe, pequeninho. Como \u00e9 teu nome? Miguilim. Eu sou irm\u00e3o do Dito. E o homem de \u00f3culos logo foi percebendo (era doutor): &#8220;Por que voc\u00ea aperta os olhos assim? Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 limpo de vista?&#8221; Era isto mesmo: Miguilim era piticego, tinha vista curta, e n\u00e3o sabia. E ent\u00e3o o senhor (que era doutor) tirou os \u00f3culos e deu-os a Miguilim: &#8220;?Olha, agora! Miguilim olhou. Nem n\u00e3o podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as \u00e1rvores, as caras das pessoas. O Mutum era bonito! &#8211; agora Miguilim via claramente. E ent\u00e3o veio o convite: -O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, l\u00e1 ele comprava uns \u00f3culos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia of\u00edcio. E, assim, Miguilim teria uma nova perspectiva na vida: a crian\u00e7a de cal\u00e7a curta ia penetrar, agora, em um novo mundo.<\/p>\n<h4>PERSONAGENS<\/h4>\n<p>Al\u00e9m de Miguilim, protagonista da est\u00f3ria., o qual se revela um menino sens\u00edvel, delicado e inteligente ao longo da narrativa, o universo da novela &#8220;Campo Geral&#8221; \u00e9 composto de v\u00e1rias outras personagens:<\/p>\n<p>1) A fam\u00edlia de Miguilim \u00e9 constitu\u00edda do pai (Nh\u00f4 Berno), meio seco autorit\u00e1rio; a m\u00e3e (Nhanina), que &#8220;era linda e tinha cabelos pretos e compridos&#8221;; os irm\u00e3os Tomezinho e Dito; as irm\u00e3s Chica e Drelina; a av\u00f3 Izidra; e o tio Ter\u00eaz.<\/p>\n<p>2) Fazendo parte da fam\u00edlia, como empregadas da casa, destacam-se a preta M\u00e3itina, Rosa Maria e Pretinha. Ligados \u00e0 fam\u00edlia, mas com alguma independ\u00eancia, destacam-se aqui tamb\u00e9m, os vaqueiros Sal\u00faz e J\u00e9. 3) Ainda no universo da fam\u00edlia, podemos inserir aqui os cachorros (sempre individualizados com um nome pr\u00f3prio), o gato Soss\u00f5e e o papagaio Papaco-o-Paco. 4) Entre os conhecidos e amigos, destacam-se o alegre e simp\u00e1tico seu Luisaltino, que veio morar com a fam\u00edlia e ajudava o Pai no ro\u00e7ado. Para finalizar, \u00e9 importante observar que, ao contr\u00e1rio da cidade grande onde as pessoas praticamente s\u00e3o an\u00f4nimas, no mundo roseano tudo e todos t\u00eam um nome que os caracteriza e individualiza.<\/p>\n<p><strong>MANUELZ\u00c3O &#8211; S\u00cdNTESE<\/strong><\/p>\n<p>Mais conhecida como Manuelz\u00e3o, o verdadeiro nome da novela \u00e9 Uma est\u00f3ria de amor e se passa na Samara, &#8220;nem fazenda, s\u00f3 um reposto, um currais-de-gado, pobre e novo ali entre o Rio e a Serra dos Gerais&#8221;. A novela se abre com a expectativa de uma festa que reuniu muito povo e o padre para benzer a capela &#8220;-templozinho, nem mais que uma guarita, feita a dois quil\u00f4metros da Casa&#8221;, que Manuelz\u00e3o faz construir, a pedido de sua m\u00e3e (dona Quilina) , j\u00e1 falecida,. Que \u00e9 bastante lembrada ao longo da narrativa. Num discurso indireto livre, em que o narrador parece falar pela boca de Manuelz\u00e3o (tudo \u00e9 filtrado pela sua \u00f3tica), a novela vai sendo conduzida sem divis\u00e3o em cap\u00edtulos, tangida como uma boiada, meio caoticamente, a lembrar o mundo in\u00f3spito e selvagem do sert\u00e3o. Tudo gira em torno de Manuelz\u00e3o, senhor da festa e da novela, que desbrava aquelas terras, cujo verdadeiro dono (Frederico Freyre) raramente aparecia por l\u00e1. De cima de seu cavalo e dos seus quase 60 anos, Manuelz\u00e3o contempla a az\u00e1fama do povo nos preparativos da festa e vai reconstituindo o seu passado de &#8220;porfia&#8221;, &#8220;fazendo outros sert\u00f5es, comboiando boiadas, produzindo retiros provis\u00f3rios&#8221;. &#8220;Na Samara, Manuelz\u00e3o conduzira o in\u00edcio de tudo, havia quatro anos, desde quando Frederico Freyre gostou do rinc\u00e3o e ali adquiriu seus mil e mil alqueires de terra asselvajada &#8211; Te entrego, Manuelz\u00e3o, isto te deixo em m\u00e3o, por desbravar! E enviou o gado.&#8221; Sessent\u00e3o solit\u00e1rio do sert\u00e3o, que n\u00e3o destila o fel da casmurrice nem da solid\u00e3o, Manuelz\u00e3o busca no passado distante o Adel\u00e7o, &#8220;filho natural, nascido de um curto caso&#8221;, agora j\u00e1 com 30 anos, casado com a Leon\u00edsia, e pais de sete filhos, seus netinhos. Entretanto, embora &#8220;mouro trabalhador&#8221;, o Adel\u00e7o n\u00e3o \u00e9 bem visto por ele, Manuelz\u00e3o. De repente, na calada da madrugada, quando todos dormiam, o inesperado: o riacho, dito &#8220;Seco Riacho&#8221;, que abastecia a casa com sua \u00e1gua e formosura, cessou. &#8220;Foi no meio duma noite, indo para a madrugada, todos estavam dormindo. Mas cada um sentiu, de repente, no cora\u00e7\u00e3o, o estalo do silenciozinho que ele fez, a pontuda falta da toada, do barulhinho. Acordaram, se falaram. At\u00e9 as crian\u00e7as. At\u00e9 os cachorros latiram. A\u00ed, todos se levantaram, ca\u00e7aram o quintal, sa\u00edram com luz, para espiar o que n\u00e3o havia (&#8230;).O riacho solu\u00e7o se estancara, sem resto, e talvez para sempre. Secara-se a lagrimal, sua boquinha serrana. Era como se um menino sozinho tivesse morrido&#8221;. Criatura boa e humilde, talqualmente a m\u00e3e, dona Quilina, era o velho Camilo, que ali viera aportar a sua velhice, depois de &#8220;asilar-se em ranchos ou cafuas mal abandonadas no campo sujo&#8221;. Seo Camilo &#8220;era apenas uma esp\u00e9cie dom\u00e9stica de mendigo, recolhido, inv\u00e1lido, que ali viera Ter e fora adotado por bem-fazer, surgido do mundo do Norte: Ele ass\u00e9ste mais \u00e9 aqui, \u00e0s vezes descasca um milhozinho, busca um balde d&#8217;\u00e1gua. Mas tudo na vontade dele. Ningu\u00e9m manda, n\u00e3o&#8230;. A festa tem in\u00edcio realmente, na v\u00e9spera, com chegada do padre (frei Petroaldo), que \u00e9 recebido com foguetes e muita alegria. &#8220;A voz do povo levantou um louvor, prazeroso. Via-se, quando se via, era muito mais gente, aquela chegan\u00e7a, que modo que sombras. Gente sem desordem, capazes de muito tempo calados, mesmo n\u00e3o tinham viso para as surpresas&#8221;. Outras pessoas iam chegando para a festa: Jo\u00e3o Ur\u00fagem, homem estranho que vivia isolado como bicho; o senhor de Vilam\u00e3o, &#8220;homem de muitas possas, de longes dist\u00e2ncias dentro de suas terras&#8221;, j\u00e1 alquebrado e velhinho, &#8220;o cabelo total embranquecido, trajado de vestimenta que n\u00e3o se usava mais em parte nenhuma- o cavour&#8221;; &#8220;chegava tamb\u00e9m o L\u00f3i, ex-vaqueiro, vestido com a baeta &#8211; um capote feito de baeta&#8221; e, fazendo muita algazarra , como se estivessem tangendo uma boiada, o Sim\u00e3o Fa\u00e7o mais seu irm\u00e3o Jenu\u00e1rio e outros: &#8220;? Eh, Manuelz\u00e3o, j\u00e1 fomos, j\u00e1 viemos&#8230;&#8221;. Chegou ainda &#8220;seo Vevelho, com seus filhos, tocadores de m\u00fasica&#8221;. Assim, tocando a sua narra\u00e7\u00e3o (mais dele do que do narrador que se mistura), Manuelz\u00e3o vai ruminando casos e mais casos, ali em meio \u00e0quele pov\u00e3o, na animada festa: &#8220;?Est\u00f3ria! &#8211; ele disse, ent\u00e3o. Pois, minhamente: o mundo era grande. Mas tudo ainda era muito maior quando a gente ouvia contada, a narra\u00e7\u00e3o dos outros, de volta de viagens&#8221;. Na calda da noite, dando uma tr\u00e9gua na festa, ecoam, por entre sil\u00eancios atentos e n\u00e3o dormidos, as est\u00f3rias de Joana Xaviel, &#8220;essa que morava desperdida, por a\u00ed, ora uma ora noutra chapada&#8221;: &#8220;O seguinte \u00e9 este&#8230;&#8221; Joana ia contando suas est\u00f3ria de reis, rainhas e vaqueiros, que Manuelz\u00e3o escutava, deitado, na espreita de o sono chegar: &#8220;Se furtivava o sono, e no lugar dele manavam as nega\u00e7as de voz daquela mulher Joana Xaviel, o urdume das est\u00f3rias. As est\u00f3rias &#8211; tinham amarugem e docice. A gente escutava, se esquecia de coisas que n\u00e3o sabia&#8221;. Nas elocubra\u00e7\u00f5es de Manuelz\u00e3o, vira-e-mexe, a beleza de Leon\u00edsia, sua nora: &#8220;Leon\u00edsia era linda sempre, era a bondade formosa. O Adel\u00e7o merecia uma mulher assim? Seu cismado, soturno calad\u00e3o, ele encabruava por ela cobi\u00e7as de exagero, um amuo de amor; a ela com todas as grandes m\u00e3os se agarrava&#8221;. Manuelz\u00e3o ruminava: bem que o Adel\u00e7o, depois da festa podia ir no seu lugar conduzindo a boiada, no comando, para longes dist\u00e2ncias. Afinal, n\u00e3o j\u00e1 estava sessent\u00e3o? N\u00e3o era ele quem mandava? &#8220;Eh, Manuel J. Ro\u00edz n\u00e3o bambeia!&#8230;&#8221; &#8220;Ele Manuelz\u00e3o nunca respirara de lado, nunca refugara de sua obriga\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;Montado no meu cavalo eu abri este sert\u00e3o&#8230;&#8221; No dia seguinte, a festa coma a missa celebrada. &#8220;A Capelinha estava s\u00f3 de Deus: Fazendo parte da manh\u00e3 lambuzada de sol, contra o azul, mel em branca, parecia sa\u00edda de um gear&#8221;. Manuelz\u00e3o, &#8220;a frente de todos, admirado por tantos olhos&#8221;, dirige-se ao altar para beijar a Santa e dizer um padre nosso. Depois saiu, pois a capelinha era muito pequena, e &#8220;o aperto dava afli\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;O povoame enchia a ch\u00e3, sem confus\u00e3o nenhuma. Mesmo aqueles com os rev\u00f3lveres na cintura, armas, facas. Ao que Manuelz\u00e3o, c\u00e1 bem atr\u00e1s ficou, no coice. Gostava todos aprovassem essa simplicidade sem baz\u00f3fia, e vissem que ele fiscalizava&#8221;. Ap\u00f3s a celebra\u00e7\u00e3o, a festa prossegue com dan\u00e7as, contradan\u00e7as e muita alegria. Quadras ecoam dos violeiros do sert\u00e3o, numa anima\u00e7\u00e3o cheia de brincadeira, com o Pruxe, seo Vevelhoi e Chico Br\u00e0ab\u00f3z no comando: Seu subi pelo c\u00e9u arriba numa linha de pescar: preguntar Nossa Senhora se \u00e9 pecado namorar!&#8230; -Oler\u00ea, canta! O Rio de S\u00e3o Francisco faz quest\u00e3o de me matar: pra cima corre ligeiro, pra baixo bem devagar&#8230; -Oler\u00ea, canta! Depois de muita festan\u00e7a e alguma comilan\u00e7a, a festa vai-se acabando. Ainda n\u00e3o. O velho Camilo, &#8220;todo vivido e desprovido&#8221;, ia contar um caso &#8211; o fant\u00e1stico &#8220;Romance do Boi Bonito, que vaqueiro nenhum n\u00e3o ag\u00fcentava trazer no curral&#8230;&#8221; At\u00e9 que assucedeu, brotado de repentemente, um vaqueiro encantado, por enquanto chamado apenas de Menino, que, montado num Cavalo de conto de fada, domou o Boi Bonito: &#8230;O Boi estava amarado, chifres altos e orvalhados. Nos campos o sol brilhava. Nos brancos que o Boi vestia, linda mais luz se fazia. Boi Bonito desse um berro, n\u00e3o ag\u00fcentavam a maravilha. E esses p\u00e1ssaros cantavam. O vaqueiro Menino foi &#8220;dino&#8221; (= digno): n\u00e3o quis dote nem nenhum pr\u00eamio pela proeza &#8211; queria t\u00e3o-somente que livre Boi Bonito pastasse naquelas pairagens: &#8220;Vosmec\u00ea, meu Fazendeiro, h\u00e1-de me atender primeiro, dino. Meu nome hei: Seunavino&#8230; N\u00e3o quero dote em dinheiro. Pe\u00e7o que o Boi seja soltado. E se me d\u00ea esse Cavalo. Atendido, meu Vaqueiro, refiro nesta palavra. O Boi, que ter\u00e1 por seus os pastos do fazendado. Ao Cavalo, \u00e9 j\u00e1 vosso. Beija a m\u00e3o, meu Vaqueiro. Deus vos salve, Fazendeiro. Vaqueiros, meus companheiros. Violeiros&#8230; Fim Final. Cantem este Boi e o Vaqueiro, com belo palavreado&#8230;&#8221; Inebriado pela est\u00f3ria de seo Camilo, Manuelz\u00e3o se revigora: apesar de seus 60 anos quase, ele est\u00e1 pronto para mais uma proeza &#8211; conduzir a boiada desbravando bravamente os caminhos do sert\u00e3o das Gerais.<\/p>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Muguilim, em que se focaliza um universo bastante limitado, coerente com a faixa et\u00e1ria do protagonista, em &#8220;Manuelz\u00e3o&#8221;, por estar a personagem na outra ponta da vida, tendo, portanto, passado por lugares v\u00e1rios, conhecendo gente e mais gente, o universo \u00e9 bem maior.,. Aqui, pois, sugestivamente, a novela \u00e9 povoada de gente que n\u00e3o acaba mias, reunida na Samarra para a festa de Manuelz\u00e3o. Tudo gira, sem d\u00favida, em torno de Manuelz\u00e3o, cuja trajet\u00f3ria de vaqueiro desbravador do sert\u00e3o vai sendo reconstitu\u00edda em meio \u00e0 festa do presente. Ao contr\u00e1rio de Dom Casmurro, em que a velhice \u00e9 marcada por m\u00e1goas e ressentimentos, aqui a vida \u00e9 uma festa, movida por muita alegria e poesia, n\u00e3o obstante haver na novela tamb\u00e9m alguns lampejos de baqueamento. Apesar de vaqueiro sessent\u00e3o, Manuelz\u00e3o vai em frente, resistindo \u00e0 idade, pois &#8220;de todo n\u00e3o queria parar&#8221;. No final, sugestivamente, a novela se encerra com o in\u00edcio de uma nova jornada: &#8220;A boiada vai sair&#8221;. Como \u00e9 pr\u00f3prio da gente do sert\u00e3o, o perfil de Manuelz\u00e3o marca-se pela dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho de vaqueiro e administrador da Samarra, tudo fazendo de uma forma abnegada e obstinada: &#8220;Eh, Manuel J. Roiz n\u00e3o bambeia!&#8230;&#8221; &#8220;Ele Manuelz\u00e3o nunca respirara de lado, nunca refugara de sua obriga\u00e7\u00e3o&#8221;. Por outro lado, ao longo da narrativa, percebe-se como tra\u00e7o de sua personagem, al\u00e9m da pr\u00f3diga hospitalidade demonstrada com a festa, uma necessidade obsessiva de ser reconhecido e admirado como homem de valor: &#8220;Ah, todo o mundo, no longe do redor, iam ficar sabendo quem era ele, Manuelz\u00e3o, falariam depois com respeito&#8221;. Quanto \u00e0s outras personagens, as que mais se destacam j\u00e1 ficaram esparramadas pela s\u00edntese que se fez da novela.<\/p>\n<h2>LINGUAGEM<\/h2>\n<p>Filtrado pelo ponto de vista de uma crian\u00e7a, a narrativa de Miguilim apresenta, coerentemente, uma linguagem que utiliza recursos morfol\u00f3gicos, sint\u00e1ticos e sem\u00e2nticos, que reproduzem bem a expressividade da linguagem infantil, o mesmo acontecendo em Manuelz\u00e3o, em que tudo \u00e9 visto pela \u00f3tica do adulto. Por outro lado, tamb\u00e9m coerentemente, com o mundo apresentado, o registro da linguagem coloquial, tal como \u00e9 falada pelo sertanejo, combina bem com a gente simples e rude que povoa as duas novelas.<\/p>\n<p>1) Como \u00e9 pr\u00f3prio da linguagem infantil, s\u00e3o constantes os diminutivos reduzidos em &#8220;-im&#8221;, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio nome Miguilim. &#8220;&#8230;tretava coragem de chegar pertim&#8221;. &#8220;Miguilim, me d\u00e1 umm beijim!&#8221; Algumas vezes o diminutivo \u00e9 usado indevidamente, em fun\u00e7\u00e3o da expressividade. &#8220;E agorinha, agora, que ele carecia tanto de qualquer assinzinho de socorro&#8221;. &#8220;Voc\u00ea me ensinazinho a dan\u00e7ar, Chica?&#8221; Em Manuelz\u00e3o, expressando a \u00f3tica do adulto e combinado com o mundo apresentado, ocorre, com freq\u00fc\u00eancia, o aumentativo, expresso n\u00e3o s\u00f3 no nome do protagonista como ao longo de toda a narrativa: &#8220;La\u00e7o, la\u00e7\u00e3o! Eu gosto de ver a argolar estalar no p\u00e9-do-chifre e o trem pular pra riba!&#8221;<\/p>\n<p>2) Como \u00e9 pr\u00f3prio da linguagem popular, \u00e9 muito freq\u00fcente, em ambas as novelas, o uso duplo de negativas (&#8220;Mas nem n\u00e3o valia&#8221;) e o emprego do adv\u00e9rbio n\u00e3o no final (&#8220;Ningu\u00e9m manda, n\u00e3o&#8221;).<\/p>\n<p>3) Outra coisa freq\u00fcente \u00e9 o uso constante de sufixo -mente em situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o convencionais: &#8220;Mesmamente que acabavam a arranca\u00e7\u00e3o de inhame&#8221; &#8220;S\u00f3 um caxinguel\u00ea ruivo se azougueou, de repentemente&#8221; &#8220;Pois, minhamente: o mundo era grande&#8221;<\/p>\n<p>4) Como \u00e9 pr\u00f3prio da linguagem interiorana, a presen\u00e7a de arca\u00edsmo \u00e9 freq\u00fcente: &#8220;Menino, eu te amostro!&#8221; &#8220;Escuta, Miguilim, voc\u00ea alembra&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>5) Tamb\u00e9m constantes s\u00e3o as invers\u00f5es, como nos exemplos abaixo: &#8220;se co\u00e7ando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase&#8221; &#8220;&#8230;touro do dem\u00f4nio, sem ra\u00e7a nenhuma quase&#8221;<\/p>\n<p>6) Reflexo da sintaxe popular, a silepse, caso de concord\u00e2ncia ideol\u00f3gica aparece com freq\u00fc\u00eancia: &#8220;A gente vamos l\u00e1!&#8221; &#8220;Ah, todo o mundo, no longe do redor, iam ficar sabendo quem era ele&#8221;<\/p>\n<p>7) Outra coisa que se destaca na linguagem roseana \u00e9 a alian\u00e7a com a poesia, em que o autor explora recursos pr\u00f3prios da poesia, como alitera\u00e7\u00f5es, ecos, sonoridades, rimas, etc: &#8220;Teu lume, vaga-lume?&#8221; &#8220;Miguilim, me d\u00e1 um beijim!&#8221; Refletindo a vis\u00e3o altamente l\u00edrica que ocorre em ambas as novelas, h\u00e1 passagens de oura poesia, como esta de &#8220;Manuelz\u00e3o&#8221;: &#8220;Fizeram noite, dan\u00e7ando. As iai\u00e1s tamb\u00e9m. O quando o dia j\u00e1 estava pronto pra amanhecer, c\u00e9u j\u00e1 se desestrelando. No seguinte, na rompidinha do dia, a vaqueirama se formou&#8221;. A esse prop\u00f3sito, Beth Brait, em &#8220;Literatura Comentada&#8221;, afirma que &#8220;a l\u00edrica e a narrativa fundem-se e confundem-se, abolindo intencionalmente os limites existentes entre os g\u00eaneros.&#8221;<\/p>\n<p>8) Em suma, Guimar\u00e3es Rosa &#8220;n\u00e3o se submete \u00e0 tirania da gram\u00e1tica&#8221;, fazendo largo uso da sem\u00e2ntica, da sintaxe e da morfologia populares. Nesse sentido, em fun\u00e7\u00e3o da expressividade, s\u00e3o freq\u00fcentes na sua linguagem erros de coloca\u00e7\u00e3o, de reg\u00eancia, de concord\u00e2ncia etc. &#8220;N\u00e3o truxe os \u00f3culos, Manuelz\u00e3o. Assim, n\u00e3o dletreio&#8230;&#8221; &#8220;O que eu n\u00e3o posso agora \u00e9 campear ela&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>9) Por outro lado destaca-se no estilo de Guimar\u00e3es Rosa a inventividade &#8211; o gosto para criar palavras novas, usando sempre os recursos e possibilidades que a l\u00edngua oferece: &#8220;Vezes que sucede de um adormorrer na estrada&#8221; &#8220;Tinha vergonha de saberem que estava l\u00e1 em sua casa, em luadem\u00e9is&#8221; &#8220;&#8230;ia ter m\u00e3ezice de tolerar os casos, coisas que a todos desapraz?&#8221; &#8220;&#8230;mas insofria por ter de esperar&#8221; &#8220;O cachorrinho era com-cor com a Pingo&#8221; &#8220;O cachorro Gig\u00e3o caminhara para a cozinha, devagaroso&#8221; &#8220;O vaqueiro J\u00e9 est\u00e1 dizendo que j\u00e1 vai dechover&#8221; &#8220;Mas agora o Gig\u00e3o parava ali, bebelambendo \u00e1gua na po\u00e7a&#8221; &#8220;Se encontrou com padrinho Sim\u00e3o, correu ensebado, veadal&#8221; &#8220;Tinha de ser lealdoso, obedecer com ele mesmo&#8221; &#8220;&#8230; enquanto Pai estivesse raiv\u00e1vel&#8221; &#8220;As est\u00f3rias &#8211; tinham amarugem e docice&#8221; &#8220;Carecia de um filho, prosseguinte&#8221;<\/p>\n<p>10) Outro aspecto que reflete bem o mundo sertanejo e sabedoria popular \u00e9 o suo constante ditados ditos populares, sempre, com rimas e musicalidade: &#8220;L\u00e1 chove, e c\u00e1 corre&#8230;&#8221; &#8220;Eh mund\u00e3o! Quem me mata \u00e9 Deus, quem me come \u00e9 o ch\u00e3o&#8230;&#8221; &#8220;Chuva vesprando, cachorro soneja muito&#8221; &#8220;Estou triste mas n\u00e3o choro. Morena dos olhos tristes, esta vida \u00e9 caipora&#8221; &#8220;Mour\u00e3o, mour\u00e3o, toma este dente mau, me d\u00e1 um dente s\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>11) Comun\u00edssimo tamb\u00e9m em ambas as novelas, em mais alian\u00e7a com a poesia, \u00e9 o uso da frase nominal, sem estrutura oracional, desguarnecida de verbo: &#8220;Os violeiros desnudavam, Seo Vevelho, mais os filhos. A sanfona. Chico Br\u00e0ab\u00f3z, preto cores pretas, mas com fei\u00e7\u00f5es. \u00d4 homem da p\u00f3lvora quente!&#8221;<\/p>\n<p>12) Combinando com a atmosfera festiva de &#8220;Manuelz\u00e3o&#8221;, s\u00e3o freq\u00fcentes, sobretudo nessa novela, quadras e versos, que refletem bem o gosto popular: O galo cantou na serra da meia-noite p&#8217;r&#8217;o dia. O touro berrou na margem no meio da vacaria. Cora\u00e7\u00e3o se amanheceu de saudade, que do\u00eda&#8230;<\/p>\n<p>13) Sempre em busca de originalidade, uma constante na fic\u00e7\u00e3o roseana, s\u00e3o comuns os jogos de palavras com verdadeiros achados como estes: &#8220;L\u00e1 \u00e9 Cristo, c\u00e1 \u00e9 isto&#8230;&#8221; &#8220;Os bois todos andando, p&#8217;r&#8217;acol\u00e1, p&#8217;r&#8217;acoli&#8221; Como se p\u00f4de ver, o mundo ficcional roseano n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pois a linguagem sai do convencional, do j\u00e1-feito, buscando um maneira nova de express\u00e3o: &#8220;O impulso primeiro \u00e9 desistir&#8221;, diz Beth Braitm que desafia: &#8220;Quem se atreve a adentrar espa\u00e7o de eleitos?&#8221;<\/p>\n<h2>ESTILO DE \u00c9POCA<\/h2>\n<p>A originalidade da linguagem de Guimar\u00e3es Rosa, a sua inventividade e criatividade configuram bem o estilo de \u00e9poca (p\u00f3s)-modernista. Essa preocupa\u00e7\u00e3o em fazer diferente, saindo do convencional, \u00e9, sem d\u00favida, uma das grandes caracter\u00edstica do estilo de \u00e9poca contempor\u00e2neo. \u00c9 o pr\u00f3prio Guimar\u00e3es quem fala: &#8220;Disso resultam meus livros, escritos em um idioma pr\u00f3prio, meu, e pode-se deduzir da\u00ed que n\u00e3o me submeto \u00e0 tirania da gram\u00e1tica e dos dicion\u00e1rios dos outros&#8221;. Outra coisa que marca bem o estilo de \u00e9poca na obra \u00e9 a capacidade revelada pelo escritor (p\u00f3s)-modernista para refletir sobre problemas universais, partindo de uma realidade regional. \u00c9 o que diz a contracapa de &#8220;Literatura Comentada&#8221;: &#8220;Nele , quanto mais &#8211; aparentemente &#8211; particularizado o tema, mais universal ele \u00e9. Quanto mais simpl\u00f3rios seus personagens, mais ricas sua personalidades. Assim, rudes sertanejos refletem de forma peculiar e extremamente sutil os grandes dramas metaf\u00edsicos e existenciais da humanidade&#8221;. \u00c9 isto que se v\u00ea em Guimar\u00e3es Rosa e outro grandes escritores na nossa Literatura: h\u00e1 sempre uma dimens\u00e3o universal no aparentemente regional. &#8220;O sert\u00e3o que vem de Guimar\u00e3es Rosa n\u00e3o se restringe aos limites geogr\u00e1ficos brasileiros, ainda que dele extrais a sua mat\u00e9ria-prima. O sert\u00e3o aparece como uma forma de aprendizado sobre a vida, sobre a exist\u00eancia, n\u00e3o apenas do sertanejo, mas do homem&#8221;. Como dizia o pr\u00f3prio Guimar\u00e3es: &#8220;o sert\u00e3o \u00e9 o mundo&#8221;.<\/p>\n<h2>ASPECTOS TEM\u00c1TICOS MARCANTES<\/h2>\n<p>Al\u00e9m de apresentar o mundo sertanejo nos seus costumes, crendice e maneira pr\u00f3prio de ser, &#8220;Campo Geral&#8221; retrata basicamente a inf\u00e2ncia de um menino da ro\u00e7a nas suas incertezas, d\u00favida, ang\u00fastias, crendices e descobertas do mundo e da vida.<\/p>\n<p>1) Ao longo da novela, n\u00e3o s\u00e3o poucas as cenas e passagens em que se pode perceber a ruindade adulta em oposi\u00e7\u00e3o ao sentimento puro e nobre da crian\u00e7a. Revela-o n\u00e3o s\u00f3 a hist\u00f3ria de cadela Pingo-de-Ouro, quase cega, que \u00e1 doado aos outros pelo pai, como tamb\u00e9m a cena da ca\u00e7a ao tatu em que as pessoas grandes s\u00e3o recriminadas pela crian\u00e7a, na sua inoc\u00eancia e pureza. &#8220;Ent\u00e3o, mas por que \u00e9 que Pai e os outros se apraziam t\u00e3o risonhos, doidavam, t\u00e3o animados alegres, na hora de ca\u00e7ar \u00e0toa, de matar tatu e os outro bichinhos desvalidos? &#8221; Miguilim via essas coisas e n\u00e3o compreendia. Na sua inoc\u00eancia de crian\u00e7a ficava a n\u00f3doa da imagem perversa: &#8220;Miguilim inventava outra esp\u00e9cie de nojo das pessoas grandes.&#8221; &#8220;Miguilim n\u00e3o tinha vontade de crescer, de ser pessoa grande, a conversa das pessoas grandes era sempre as mesmas coisas secas, com aquela necessidade de ser brutas, coisas assustadas&#8221;.<\/p>\n<p>2) Como j\u00e1 deixamos claro no enredo, dif\u00edcil e doloroso foi-se tornando o relacionamento de Miguilim com o pai. A cena da surra revela bem o sadismo e a prepot\u00eancia do adulto ao espancar uma crian\u00e7a pequenina e indefesa: &#8220;(Pai) pegou o Miguilim, e o levou para casa, debaixo de pancadas. Levou para o alpendre. Bateu de m\u00e3o, depois resolveu: tirou a roupa toda de Miguilim e come\u00e7ou a bater com a correia da conta. Batia e xingava, mordia a ponta da l\u00edngua, enrolada, se comprazia. Batia tanto, que M\u00e3e, Drelina e a Chica, a Rosa, Tomezinho, e at\u00e9 Vov\u00f3 Izidra, choravam, pediam que n\u00e3o desse mais, que j\u00e1 chegava. Batia. Batia&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>3) A cena do bilhete, em que tio Ter\u00eaz pede a Miguilim para entreg\u00e1-lo \u00e0 m\u00e3e, evidencia outro drama crucial para a crian\u00e7a: a ang\u00fastia gerada pela d\u00favida entrer entregar ou n\u00e3o entregar o bilhete. Angustiava-se ante o compromisso assumido com o tio e a consci\u00eancia de que estava fazendo alguma coisa errada. Nem mesmo Dito, com toda a sua sabedoria, p\u00f4de dar-lhe uma resposta que pudesse aliviar-lhe o tormento: nem mesmo a m\u00e3e, nem mesmo o vaqueiro J\u00e9 p\u00f4de tirar-lhe a d\u00favida que ro\u00eda a alma: &#8220;M\u00e3e, o que a gente faz, se \u00e9 mal, se \u00e9 bem, ver quando \u00e9 que a gente sabe? Vaqueiro J\u00e9: malfeito como \u00e9, que a gente se sabe? Menino n\u00e3o carece de saber Miguilim. Menino, o todo quanto faz, tem de ser \u00e9 malfeito&#8230;&#8221; Ainda bem que o tio Ter\u00eaz foi bom e compreensivo e aceitou o bilhete de volta: &#8220;Miguilim, Miguilim, n\u00e3o chora, n\u00e3o te importa, voc\u00ea \u00e9 um menino bom, menino direto, voc\u00ea \u00e9 meu amigo!&#8221;<\/p>\n<p>4) O mundo da crian\u00e7a \u00e9 sempre povoado de supersti\u00e7\u00f5es e crendices que refletem o adulto. Algumas dessas crendices e supersti\u00e7\u00f5es revelam bem o poder e a influ\u00eancia da religi\u00e3o com seu conceito de pecado, al\u00e9m de expressar tamb\u00e9m aspectos da cultura popular. Em &#8220;Campo Geral&#8221;, v\u00e1rias passagens podem ser destacadas como exemplos: &#8220;Contavam que esse seo Deogr\u00e1cias estava excomungado, porque um dia ele tinha ficado agachado dentro da igreja&#8221;. &#8220;Ah, n\u00e3o fosse pecado, e a\u00ed ele havia de ter uma raiva enorme, de Pai, deles todos, raiva mesmo de \u00f3dio, ele estava com raz\u00e3o&#8221;. &#8220;Entre chuva e outra, o arco-da-velha aparecia bonito, bebedor; quem atravessasse debaixo dele &#8211; fu&#8221; &#8211; menino virava mena, menina virava menino: ser\u00e1 que depois desvirava?&#8221; &#8220;Por paz, n\u00e3o estava querendo tamb\u00e9m brincar junto com o Patori, esse era um menino maldoso, diabrava. Ele tem olho ruim, &#8211; a Rosa dizia &#8211; quando a gente est\u00e1 comendo, e ele espia, a gente pega dor-de-cabe\u00e7a&#8230;&#8221; &#8220;Ali no orat\u00f3rio, embrulhados e recosidos num saquinho de pano, eles guardavam os umbiguinho secos de todos os meninos, os dois irm\u00e3ozinhos, das irm\u00e3s, o de Miguilim tamb\u00e9m &#8211; rato nenhum n\u00e3o pudesse roer, caso roendo o menino ent\u00e3o crescia para ser s\u00f3 ladr\u00e3o&#8221; &#8220;Quando a est\u00f3ria da Cuca, o Dito um dia perguntou: ?Quem sabe \u00e9 pecado a gente ter saudade de cachorro?&#8221;<\/p>\n<p>5) Por meio do contato com seo Aristeu e sobretudo atrav\u00e9s das conversas com Dito, muitas li\u00e7\u00f5es de vida Miguilim vai aprendendo: &#8220;O Dito dizia que o certa era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, n\u00e3o se importando demais com coisa nenhuma&#8221;. Era uma bela li\u00e7\u00e3o essa que o Dito ensinava a Miguilim: a alegria de viver. Ali\u00e1s, a mesma li\u00e7\u00e3o \u00e9 transmitida a ele por seo Aristeu, quando estava doente sem estar, e pensava em morrer. Foi s\u00f3 seo Aristeu fazer umas gra\u00e7as e Miguilim se restabeleceu da enfermidade. &#8220;Vai, o que voc\u00ea tem \u00e9 sa\u00fade grande e ainda mal empenada.&#8221; No final, com o happy-end provocado pelo destino, Miguilim chorava de emo\u00e7\u00e3o: &#8220;Sem alegre, Miguilim&#8230; Sempre alegre, Miguilim&#8221;, Miguilim, de \u00f3culos nos olhos m\u00edopes, agora enxergavam diferente &#8211; tinha uma nova vis\u00e3o do mundo e da vida. Tendo tamb\u00e9m o mundo do sert\u00e3o como pano de fundo, a ponto de parecer uma obra tipicamente regionalista, &#8220;Manuelz\u00e3o&#8221; focaliza esse universo nos seus costumes, nas suas crendices, nas suas labutas, no seu sentimento religiosos e, sobretudo, na sua espontaneidade. Aqui certamente porque ainda n\u00e3o foi corro\u00eddo pela civiliza\u00e7\u00e3o, o sertanejo se revela bom e puro, aproximando-se do bon sauvage dos rom\u00e2nticos.<\/p>\n<p>1) Maunelz\u00e3o, como expressa o t\u00edtulo, \u00e9 realmente &#8220;uma est\u00f3ria de amor&#8221;, em que tudo vem lindamente misturado: gente, bichos, coisas &#8211; a natureza. Aqui, gente rica e gente pobre, brancos e negros, homens e mulheres, reunidos numa capelinha min\u00fascula, se irmanam numa festa de confraterniza\u00e7\u00e3o. Tal como em &#8220;Miguilim&#8221;, tamb\u00e9m aqui a vis\u00e3o que se passa \u00e9 positiva, alegre, apesar da rudeza do sert\u00e3o in\u00f3spito. &#8220;Seo Camilo, a est\u00f3ria \u00e9 boa! Manuelz\u00e3o, sua festa \u00e9 boa!&#8221;<\/p>\n<p>2) Diferente de Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que a velhice \u00e9 apresentada como uma fase amarga da vida, marcada pela solid\u00e3o e pelo desencanto, aqui, apesar de algumas incertezas, Manuelz\u00e3o e outros velhos da novela n\u00e3o sentem esse drama ou, pelo menos, n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia dele Solteiro a vida toda, largado pelo mundo como vaqueiro desbravador do sert\u00e3o, \u00e9 bem verdade que Manuelz\u00e3o, aos 60 anos, come\u00e7a a sentir saudade da estabilidade dom\u00e9stica que nunca teve, sentimento que se desperta sobretudo com a presen\u00e7a de Leon\u00edsia, sua nora, casada com o Adel\u00e7o: &#8220;Nem havia de ter coragem: e a Leon\u00edsia sendo t\u00e3o bonita &#8211; mulher para conceder qualquer felicidade sincera&#8221;. Entretanto, a velhice era uma realidade a que n\u00e3o podia fugir. Ali estava o velho Camilo e o senhor Vilam\u00e3o, j\u00e1 no ocaso da exist\u00eancia, que esperavam, com paci\u00eancia e sem revolta, o adormorrer inevit\u00e1vel: &#8220;A gente olhava aquela lamparina se esprivitando no arder, no umbral da porta, e daqui a pouco, no empretecer das estrelas, era o fim da festa se executando&#8221;.<\/p>\n<p>3) N\u00e3o obstante, Manuelz\u00e3o vais resistindo como pode. &#8220;De todo n\u00e3o queria parar, n\u00e3o quereria suspeitar em sua natureza pr\u00f3pria de um an\u00fancio de desando, o desmancho, no ferro do corpo. Resistiu. Temia tudo na morte&#8221;. Mas agora nem n\u00e3o carecia ter medo do adormorrer. Enquanto n\u00e3o chegava, ele, Manuel Ro\u00edz, bravamente ia desbravar mais de uma boiada pela Gerais imensas do sert\u00e3o sem fim. 4) Bonita tamb\u00e9m e altamente positiva \u00e9 a vis\u00e3o da vida envelhecida sem envilecer, que \u00e9 mostrada como manancial de sabedoria, em que v\u00eam beber as gera\u00e7\u00f5es do porvir a fim de se dar continuidade \u00e0 festa, que deve ser a vida de cada um. Entretanto, como ensina o final do livro, &#8220;a festa n\u00e3o \u00e9 pra se consumir &#8211; mas para depois se lembrar&#8230;&#8221; Esse lembrar, sem d\u00favida, \u00e9 o que fica e \u00e9 o grande consolo dos que se aproximam da dimens\u00e3o maior, que se conquista com o adormorrer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa INTRODU\u00c7\u00c3O A obra de fic\u00e7\u00e3o mais conhecida de Guimar\u00e3es Rosa consta de contos, novelas e um romance monumental, publicado em 1956, que \u00e9 Grandes Sert\u00e3o: Veredas &#8211; livro que desconcertou a cr\u00edtica. 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