{"id":100776,"date":"2017-02-02T10:58:55","date_gmt":"2017-02-02T12:58:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=100776"},"modified":"2017-03-24T12:54:54","modified_gmt":"2017-03-24T14:54:54","slug":"as-religioes-no-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-religioes-no-rio","title":{"rendered":"As Religi\u00f5es no Rio"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"414\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#1\">No Mundo dos Feiti\u00e7os<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">As Iau\u00f4<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">O Feiti\u00e7o<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#4\">A Casa das Almas <\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#5\">Os Feiti\u00e7os de Sanin<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">A Igreja Positivista<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">Os Maronitas<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#8\">Os Fisi\u00f3latras<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#9\">A Igreja Fluminense<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#10\">A Igreja Presbiteriana<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#11\">A Igreja Metodista<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#12\">Os Batistas<\/a><\/strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#13\">A A.C.M.<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#14\">Irm\u00e3os e Adventistas<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#15\">O Satanismo<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#16\">A Missa-Negra<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#17\">Os Exorcismos<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#18\">As Sacerdotisas do Futuro<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#19\">A Nova Jerusal\u00e9m<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#20\">O Culto do Mar<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#21\">O Espiritismo entre os Sinceros<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#22\">Os Exploradores<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#23\">As Sinagogas<\/a><\/strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Jo\u00e3o do Rio<\/h4>\n<p><b>Cecy est un livre de bonne foy.<\/b><\/p>\n<p><b>MONTAIGNE<\/b><\/p>\n<p><b> A<br \/>\nMANUEL JORGE DE OLIVEIRA ROCHA<br \/>\nmeu amigo.<\/b><\/p>\n<p>A religi\u00e3o? Um misterioso sentimento, misto de terror e de esperan\u00e7a,<br \/>\na simboliza\u00e7\u00e3o l\u00fagubre ou alegre de um poder que n\u00e3o<br \/>\ntemos e almejamos ter, o desconhecido avassalador, o equ\u00edvoco, o medo,<br \/>\na perversidade.<\/p>\n<p>O Rio, como todas as cidades nestes tempos de irrever\u00eancia,<br \/>\ntem em cada rua um templo e em cada homem uma cren\u00e7a diversa.<\/p>\n<p>Ao ler os grandes di\u00e1rios, imagina a gente que est\u00e1<br \/>\nnum pais essencialmente cat\u00f3lico, onde alguns matem\u00e1ticos s\u00e3o<br \/>\npositivistas. Entretanto, a cidade pulula de religi\u00f5es. Basta parar<br \/>\nem qualquer esquina, interrogar. A diversidade dos cultos espantar-vos-\u00e1.<br \/>\nS\u00e3o swendeborgeanos, pag\u00e3os liter\u00e1rios, fisi\u00f3latras,<br \/>\ndefensores de dogmas ex\u00f3ticos, autores de reformas da Vida, reveladores<br \/>\ndo Futuro, amantes do Diabo, bebedores de sangue, descendentes da rainha de<br \/>\nSab\u00e1, judeus, cism\u00e1ticos, esp\u00edritas, babala\u00f4s de<br \/>\nLagos, mulheres que respeitam o oceano, todos os cultos, todas as cren\u00e7as,<br \/>\ntodas as for\u00e7as do Susto. Quem atrav\u00e9s da calma do semblante<br \/>\nlhes adivinhar\u00e1 as trag\u00e9dias da alma? Quem no seu andar tranq\u00fcilo<br \/>\nde homens sem paix\u00f5es ir\u00e1 descobrir os reveladores de ritos<br \/>\nnovos, os m\u00e1gicos, os nevr\u00f3patas, os delirantes, os possu\u00eddos<br \/>\nde Satan\u00e1s, os mistagogos da Morte, do Mar e do Arco-\u00cdris? Quem<br \/>\npoder\u00e1 perceber, ao conversar com estas criaturas, a luta fratricida<br \/>\npor causa da interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, a luta que faz<br \/>\nmil religi\u00f5es \u00e0 espera de Jesus, cuja reapari\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 marcada para qualquer destes dias, e \u00e0 espera do Anti-Cristo,<br \/>\nque talvez ande por a\u00ed? Quem imaginar\u00e1 cavalheiros distintos<br \/>\nem intimidade com as almas desencarnadas, quem desvendar\u00e1 a conversa<br \/>\ncom os anjos nas chombergas f\u00e9tidas?<\/p>\n<p>Eles v\u00e3o por a\u00ed, papas, profetas, crentes e<br \/>\nreveladores, orgulhosos cada um do seu culto, o \u00fanico que \u00e9<br \/>\na Verdade. Falai-lhes boamente, sem a ten\u00e7\u00e3o de agredi-los,<br \/>\ne eles se confessar\u00e3o &#8211; por que s\u00f3 uma coisa \u00e9 imposs\u00edvel<br \/>\nao homem: enganar o seu semelhante, na f\u00e9.<\/p>\n<p>Foi o que fiz na reportagem a que a Gazeta de Not\u00edcias<br \/>\nemprestou uma t\u00e3o larga hospitalidade e um t\u00e3o grande ru\u00eddo;<br \/>\nfoi este o meu esfor\u00e7o: levantar um pouco o mist\u00e9rio das cren\u00e7as<br \/>\nnesta cidade<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um trabalho completo. Longe disso. Cada<br \/>\numa dessas religi\u00f5es daria farta messe para um volume de revela\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEu apenas entrevi a bondade, o mal e o bizarro dos cultos, mas t\u00e3o<br \/>\nconvencido e com tal desejo de ser exato que bem pode servir de ep\u00edgrafe<br \/>\na este livro a frase de Montaigne:<\/p>\n<p>Cecy est un livre de bonne foy.<\/p>\n<p><b>Jo\u00e3o do Rio<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>No Mundo dos Feiti\u00e7os<\/h4>\n<p><strong>Os Feiticeiros <\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f4nio \u00e9 como aqueles adolescentes africanos de que fala o<br \/>\nescritor ingl\u00eas. Os adolescentes sabiam dos deuses cat\u00f3licos<br \/>\ne dos seus pr\u00f3prios deuses, mas s\u00f3 veneravam o u\u00edsque<br \/>\ne o schilling. Ant\u00f4nio conhece muito bem N. S.\u00aa das Dores, est\u00e1<br \/>\nfamiliarizado com os orix\u00e1las da \u00c1frica, mas s\u00f3 respeita<br \/>\no papel-moeda e o vinho do Porto. Gra\u00e7as a esses dois poderosos agentes,<br \/>\ngozei da intimidade de Ant\u00f4nio, negro inteligente e vivaz; gra\u00e7as<br \/>\na Ant\u00f4nio, conheci as casas das ruas de S\u00e3o Diogo, Bar\u00e3o<br \/>\nde S. Felix, Hosp\u00edcio, N\u00fancio e da Am\u00e9rica, onde se realizam<br \/>\nos candombl\u00e9s e vivem os pais-de-santo. E rendi gra\u00e7as a Deus,<br \/>\nporque n\u00e3o h\u00e1 decerto, em toda a cidade, meio t\u00e3o interessante.<\/p>\n<p>Vai V.S. admirar muita coisa! &#8211; dizia Ant\u00f4nio a sorrir; e dizia a verdade.<\/p>\n<p>Da grande quantidade de escravos africanos vindos para o Rio no tempo do<br \/>\nBrasil col\u00f4nia e do Brasil monarquia, restam uns mil negros. S\u00e3o<br \/>\ntodos das pequenas na\u00e7\u00f5es do interior da \u00c1frica, pertencem<br \/>\nao iges\u00e1, oi\u00e9, eb\u00e1, aboum, hauss\u00e1, itaqua, ou<br \/>\nse consideram filhos dos ibouam, ix\u00e1u dos g\u00eage e dos cambindas.<br \/>\nAlguns ricos mandam a descend\u00eancia brasileira \u00e0 \u00c1frica<br \/>\npara estudar a religi\u00e3o, outros deixam como dote aos filhos cruzados<br \/>\ndaqui os mist\u00e9rios e as feiti\u00e7arias. Todos, por\u00e9m, falam<br \/>\nentre si um idioma comum: &#8211; o eub\u00e1.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio, que estudou em Lagos, dizia:<\/p>\n<p>&#8211; O eub\u00e1 para os africanos \u00e9 como o ingl\u00eas para os povos<br \/>\ncivilizados. Quem fala o eub\u00e1 pode atravessar a \u00c1frica e viver<br \/>\nentre os pretos do Rio. S\u00f3 os cambindas ignoram o eub\u00e1, mas<br \/>\nesses ignoram at\u00e9 a pr\u00f3pria l\u00edngua, que \u00e9 muito<br \/>\ndif\u00edcil. Quando os cambindas falam, misturam todas as l\u00ednguas&#8230;<br \/>\nAgora os orix\u00e1s e os aluf\u00e1s s\u00f3 falam o eub\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Orix\u00e1s, aluf\u00e1s? &#8211; fiz eu, admirado.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o duas religi\u00f5es inteiramente diversas. Vai ver.<\/p>\n<p>Com efeito. Os negros africanos dividem-se em duas grandes cren\u00e7as:<br \/>\nos orix\u00e1s e os aluf\u00e1s.<\/p>\n<p>Os orix\u00e1s, em maior n\u00famero, s\u00e3o os mais complicados<br \/>\ne os mais animistas. Lit\u00f3latras e fit\u00f3latras, t\u00eam um enorme<br \/>\narsenal de santos, confundem os santos cat\u00f3licos com os seus santos,<br \/>\ne vivem a vida dupla, encontrando em cada pedra, em cada casco de tartaruga,<br \/>\nem cada erva, uma alma e um esp\u00edrito. Essa esp\u00e9cie de polite\u00edsmo<br \/>\nb\u00e1rbaro tem divindades que se manifestam e divindades invis\u00edveis.<br \/>\nOs negros guardam a id\u00e9ia de um Deus absoluto como o Deus cat\u00f3lico:<br \/>\nOrixa-al\u00fam. A lista dos santos \u00e9 infind\u00e1vel. H\u00e1<br \/>\no orixal\u00e1, que \u00e9 o mais velho, Axum, a m\u00e3e d\u00e1gua<br \/>\ndoce, Ie-man- j\u00e1, a sereia, Exu, o diabo, que anda sempre detr\u00e1s<br \/>\nda porta, Sapanam, o Sant\u00edssimo Sacramento dos cat\u00f3licos, o<br \/>\nIroc\u00f4, cuja apari\u00e7\u00e3o se faz na \u00e1rvore sagrada da<br \/>\ngameleira, o Gunoc\u00f4, tremendo e grande, o Ogum, S. Jorge ou o Deus da<br \/>\nguerra, a Dad\u00e1, a Orainha, que s\u00e3o invis\u00edveis, e muitos<br \/>\noutros, como o santo do trov\u00e3o e o santo das ervas. A juntar a essa<br \/>\ncole\u00e7\u00e3o complicada, t\u00eam os negros ainda os esp\u00edritos<br \/>\nmaus e os heled\u00e1s ou anjos da guarda.<\/p>\n<p>\u00c9 natural que para corresponder \u00e0 hierarquia celeste seja necess\u00e1ria<br \/>\numa hierarquia eclesi\u00e1stica. As criaturas vivem em poder do invis\u00edvel<br \/>\ne s\u00f3 quem tem estudos e preparo pode saber o que os santos querem.<br \/>\nH\u00e1 por isso grande quantidade de autoridades religiosas. \u00c0s<br \/>\nvezes encontramos nas ruas negros retintos que mastigam sem cessar. S\u00e3o<br \/>\nbabala\u00f4s, matem\u00e1ticos geniais, sabedores dos segredos santos<br \/>\ne do futuro da gente; s\u00e3o bab\u00e1s que atiram o endilogum; s\u00e3o<br \/>\nbabalox\u00e1s, pais-de-santos vener\u00e1veis. Nos lanhos da cara puseram<br \/>\no p\u00f3 da salva\u00e7\u00e3o e na boca t\u00eam sempre o obi, noz<br \/>\nde cola, boa para o est\u00f4mago e asseguradora das pragas.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio, que conversava dos progressos da magia na \u00c1frica, disse-me<br \/>\num dia que era como Renan e Shakespeare: vivia na d\u00favida. Isso n\u00e3o<br \/>\no impedia de acreditar nas pragas e no trabalh\u00e3o que os santos africanos<br \/>\nd\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; V. s. n\u00e3o imagina! Santo tem a festa anual, aparece de repente \u00e0<br \/>\npessoa em que se quer meter e esta \u00e9 obrigada logo a fazer festa; santo<br \/>\ncomparece ao juramento das Iau\u00f4 e passa fora, do Carnaval \u00e0 Semana<br \/>\nSanta; e logo quer mais festa&#8230; S\u00f3 descansa mesmo de fevereiro a abril.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e3o veraneando.<\/p>\n<p>&#8211; No carnaval os negros fazem eb\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; Que vem a ser eb\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; Eb\u00f3 \u00e9 despacho. Os santos v\u00e3o todos para o campo e<br \/>\nficam l\u00e1 descansando.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez estejam em Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Santo deixa a cidade pelo mato, est\u00e1 mesmo entre as<br \/>\nervas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quais s\u00e3o os cargos religiosos?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 os babala\u00f4s, os a\u00e7oba, os abor\u00e9, grau m\u00e1ximo,<br \/>\nas m\u00e3es-pequenas, os ogan, as agibonam&#8230;<\/p>\n<p>A lista \u00e9 como a dos santos, muito comprida, e cada um desses personagens<br \/>\nrepresenta papel distinto nos sacrif\u00edcios, nos candombl\u00e9s e<br \/>\nnas feiti\u00e7arias. Ant\u00f4nio mostra-me os mais not\u00e1veis, os<br \/>\npais-de-santo: Oluou, Eruosaim, Alamijo, Ad\u00e9-Oi\u00e9, os babala\u00f4s<br \/>\nEm\u00eddio, Olo\u00f4-tet\u00e9, que significa treme-treme, e um bando<br \/>\nde feiticeiros: Torquato requip\u00e1 ou fogo p\u00e1ra-chuva, Obitai\u00f4,<br \/>\nVag\u00f4, Apotij\u00e1, Veridiana, Crioula Capit\u00e3o, Rosenda, Nosuanan,<br \/>\na c\u00e9lebre Chica de Vav\u00e1, que um pol\u00edtico economista protege&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A Chica tem prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/p>\n<p>&#8211; Ora se tem! Mas que pensa o senhor? H\u00e1 homens importantes que devem<br \/>\nquantias avultadas aos aluf\u00e1s e babala\u00f4s que s\u00e3o grau<br \/>\n32 da Ma\u00e7onaria.<\/p>\n<p>Dessa gente, poucos l\u00eaem. Outrora ainda havia s\u00e1bios que destrin\u00e7avam<br \/>\no livro sagrado e sabiam porque Exu \u00e9 mau &#8211; tudo direitinho e claro<br \/>\ncomo \u00e1gua. Hoje a aprendizagem \u00e9 feita de ouvido. O africano<br \/>\nego\u00edsta pai-de-santo, ensina ao abor\u00e9, as iau\u00f4 quando<br \/>\nlhes entrega a navalha, de modo que n\u00e3o s\u00f3 a arte perde muitas<br \/>\ndas suas fases curiosas como as hist\u00f3rias s\u00e3o adulteradas e<br \/>\nesquecidas.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m agora n\u00e3o \u00e9 preciso saber o Sa\u00f3 Hauin.<br \/>\nNegro s\u00f3 olhando e sabendo o nome da pessoa pode fazer mal, diz Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Os orix\u00e1s s\u00e3o em geral pol\u00edgamos. Nessas casas das ruas<br \/>\ncentrais de uma grande cidade, h\u00e1 homens que vivem rodeados de mulheres,<br \/>\ne cada noite, como nos sert\u00f5es da \u00c1frica, o leito do babalox\u00e1s<br \/>\n\u00e9 ocupado por uma das esposas. N\u00e3o h\u00e1 ci\u00fames,<br \/>\na mais velha anuncia quem a deve substituir, e todas trabalham para a tranq\u00fcilidade<br \/>\ndo pai. Olo\u00f4-Tet\u00e9, um velho que tem noventa anos no m\u00ednimo,<br \/>\nainda conserva a companheira nas del\u00edcias do himeneu, e os mais sacudidos<br \/>\ntransformam as filhas-de-santo em huris de serralhos.<\/p>\n<p>Os alul\u00e1s t\u00eam um rito diverso. S\u00e3o maometanos com um<br \/>\nfundo de misticismo. Quase todos d\u00e3o para estudar a religi\u00e3o,<br \/>\ne os pr\u00f3prios malandros que lhes usurpam o t\u00edtulo sabem mais<br \/>\nque os orix\u00e1s.<\/p>\n<p>Logo depois do suma ou batismo e da circuncis\u00e3o ou kola, os aluf\u00e1s<br \/>\nhabilitam-se \u00e0 leitura do Alcor\u00e3o. A sua obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 o kissium, a prece. Rezam ao tomar banho, lavando a ponta dos dedos,<br \/>\nos p\u00e9s e o nariz, rezam de manh\u00e3, rezam ao p\u00f4r-do-sol.<br \/>\nEu os vi, retintos, com a cara reluzente entre as barbas brancas, fazendo<br \/>\no aluma gariba, quando o crescente lunar aparecia no c\u00e9u. Para essas<br \/>\npreces, vestem o abad\u00e1, uma t\u00fanica branca de mangas perdidas,<br \/>\nenterram na cabe\u00e7a um fil\u00e1 vermelho, donde pende uma faixa branca,<br \/>\ne, \u00e0 noite, o kissium continua, sentados eles em pele de carneiro ou<br \/>\nde tigre.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 os aluf\u00e1s ricos sentam-se em peles de tigre, diz-nos Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Essas criaturas contam \u00e0 noite o ros\u00e1rio ou tessub\u00e1,<br \/>\nt\u00eam o preceito de n\u00e3o comer carne de porco, escrevem as ora\u00e7\u00f5es<br \/>\nnumas taboas, as at\u00f4, com tinta feita de arroz queimado, e jejuam como<br \/>\nos judeus quarenta dias a fio, s\u00f3 tomando refei\u00e7\u00f5es de<br \/>\nmadrugada e ao p\u00f4r-do-sol.<\/p>\n<p>Gente de cerimonial, depois do assumy, n\u00e3o h\u00e1 festa mais importante<br \/>\ncomo a do ramadan, em que trocam o sak\u00e1 ou presentes m\u00fatuos.<br \/>\nTanto a sua administra\u00e7\u00e3o religiosa como a judici\u00e1ria<br \/>\nest\u00e3o por inteiro independentes da terra em que vivem.<\/p>\n<p>H\u00e1 em v\u00e1rias tribos vig\u00e1rios gerais ou ladamos, obedecendo<br \/>\nao lemano, o bispo, e a parte judici\u00e1ria est\u00e1 a cargo dos alikaly,<br \/>\nJuizes, sagabamo, imediatos de juizes, e assivaji\u00fa, mestre de cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>Para ser aluf\u00e1 \u00e9 preciso grande estudo, e esses pretos que<br \/>\nse fingem s\u00e9rios, que se casam com gravidade, n\u00e3o deixam tamb\u00e9m<br \/>\nde fazer amur\u00e9 com tr\u00eas e quatro mulheres.<\/p>\n<p>&#8211; Quando o jovem aluf\u00e1 termina o seu exame, os outros dan\u00e7am<br \/>\no opasuma e conduzem o iniciado a cavalo pelas ruas, para significar o triunfo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas essas passeatas s\u00e3o imposs\u00edveis aqui, brado eu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o s\u00e3o. As cerim\u00f4nias realizam-se sempre nas esta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos sub\u00farbios, em lugares afastados, e os aluf\u00e1s, vestem as<br \/>\nsuas roupas brancas e o seu gorro vermelho.<\/p>\n<p>Naturalmente Ant\u00f4nio fez-me conhecer os aluf\u00e1s:<\/p>\n<p>Alikali; o lemano atual, um preto de pernas tortas, morador \u00e0 rua<br \/>\nBar\u00e3o de S. F\u00e9lix, que incute respeito e terror; o Chico Mina,<br \/>\ncuja filha estuda violino, Alufap\u00e3o, Oj\u00f3, Abacajeb\u00fa,<br \/>\nGinj\u00e1, Man\u00ea, brasileiro de nascimento, e outros muitos.<\/p>\n<p>Os aluf\u00e1s n\u00e3o gostam da gente de santo a que chamam auauad\u00f3-chum;<br \/>\na gente de santo despreza os bichos que n\u00e3o comem porco, tratando-os<br \/>\nde mal\u00e9s. Mas acham-se todos relacionados pela l\u00edngua, com costumes<br \/>\nexteriores mais ou menos id\u00eanticos e vivendo da feiti\u00e7aria. Os<br \/>\norix\u00e1s fazem sacrif\u00edcios, afogam os santos em sangue, d\u00e3o-lhes<br \/>\ncomidas, enfeites e azeite-de-dend\u00ea.<\/p>\n<p>Os aluf\u00e1s, superiores, apesar da proibi\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a,<br \/>\nusam dos aligenum, esp\u00edritos diab\u00f3licos chamados para o bem<br \/>\ne o mal, num livro de sortes marcado com tinta vermelha e alguns, os maiores,<br \/>\ncomo Alikali, fazem at\u00e9 idams ou as grandes m\u00e1gicas, em que<br \/>\na uma palavra cabal\u00edstica a chuva deixa de cair e obis aparecem em<br \/>\npratos vazios.<\/p>\n<p>Antes de estudar os feiti\u00e7os, as pr\u00e1ticas por que passam as<br \/>\niau\u00f4 nas camarinhas e a maneira dos cultos, quis ter uma impress\u00e3o<br \/>\nvaga das casas e dos homens.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio levou-me primeiro \u00e0 resid\u00eancia de um feiticeiro<br \/>\naluf\u00e1. Pelas mesas, livros com escrituras complicadas, ervas, coelhos,<br \/>\nesteiras, um calamo de bambu fin\u00edssimo.<\/p>\n<p>Da porta o guia gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Salamaleco.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Salamaleco!<\/p>\n<p>&#8211; Maneco Lassalama!<\/p>\n<p>No canto da sala, sentado numa pele de carneiro, um preto desfiava o ros\u00e1rio,<br \/>\ncom os olhos fixos no alto.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar agora. Ele est\u00e1 rezando<br \/>\ne n\u00e3o quer conversar. Sa\u00edmos, e logo na rua encontramos o Xico<br \/>\nMina. Este veste, como qualquer de n\u00f3s, ternos claros e usa su\u00ed\u00e7as<br \/>\ncortadas rentes. J\u00e1 o conhecia de o ver nos caf\u00e9s concorridos,<br \/>\nconversando com alguns deputados. Quando nos viu, passou r\u00e1pido.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 com medo de perguntas. Chico gosta de fingir.<\/p>\n<p>Entretanto, no trajeto que fizemos do Largo da Carioca \u00e0 pra\u00e7a<br \/>\nda Aclama\u00e7\u00e3o, encontramos, a fora um esverdeado disc\u00edpulo<br \/>\nde Alikali, Omancheo, como eles dizem, duas m\u00e3es-de-santo, um velho<br \/>\nbabala\u00f4 e dois babalox\u00e1s.<\/p>\n<p>N\u00f3s \u00edamos \u00e0 casa do velho matem\u00e1tico Olo\u00f4-Tet\u00e9.<\/p>\n<p>As casas dos minas conservam a sua apar\u00eancia de outrora, mas est\u00e3o<br \/>\ncheias de negros baianos e de mulatos. S\u00e3o quase sempre r\u00f3tulas<br \/>\nlobregas, onde vivem com o personagem principal cinco, seis e mais pessoas.<br \/>\nNas salas, m\u00f3veis quebrados e sujos, esteirinhas, bancos; por cima<br \/>\ndas mesas, terrinas, pucarinhos de \u00e1gua, chap\u00e9us de palha, ervas,<br \/>\npastas de oleado onde se guarda o opel\u00e9; nas paredes, atabaques, vestu\u00e1rios<br \/>\nesquisitos, vidros; e no quintal, quase sempre jabotis, galinhas pretas, galos<br \/>\ne cabritos.<\/p>\n<p>H\u00e1 na atmosfera um cheiro carregado de azeite-de-dend\u00ea, pimenta-da-costa<br \/>\ne catinga. Os pretos falam da falta de trabalho, fumando grossos cigarros<br \/>\nde palha. N\u00e3o fosse a credulidade, a vida ser-lhes-ia dif\u00edcil,<br \/>\nporque em cada um dos seus gestos revela-se uma lombeira secular.<\/p>\n<p>Alguns velhos passam a vida sentados, a dormitar.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 pensando! &#8211; dizem os outros.<\/p>\n<p>De repente, os pobres velhos ing\u00eanuos acordam, com um sonho mais forte<br \/>\nnessa confusa exist\u00eancia de pedras animadas e ervas com esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&#8211; Xang\u00f4 diz que eu tenho de fazer sacrif\u00edcio!<\/p>\n<p>Xang\u00f4, o deus do trov\u00e3o, ordenou no sono, e o opel\u00ea, feito<br \/>\nde cascas de tartaruga e batizado com sangue, cai na mesa enodoada para dizer<br \/>\ncom que sacrif\u00edcio se contenta Xang\u00f4.<\/p>\n<p>Outros, os mais malandros, passam a exist\u00eancia deitados no sof\u00e1.<br \/>\nAs filhas-de-santo, prostitutas algumas, concorrem para lhes descansar a exist\u00eancia,<br \/>\na gente que as vai procurar d\u00e1-lhes o sup\u00e9rfluo. A preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndestes \u00e9 saber mais coisas, os feiti\u00e7os desconhecidos, e quando<br \/>\nentra o que sabe todos os mist\u00e9rios, ajoelham assustados e beijam-lhe<br \/>\na m\u00e3o, solu\u00e7ando:<\/p>\n<p>&#8211; Diz como se faz a cantiga e eu te dou todo o meu dinheiro!<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, chegam as mulheres, e os que por acaso trabalham em alguma<br \/>\npedreira. Os feiticeiros conversam de casos, criticam-se uns aos outros, falam<br \/>\ncom intimidade das figuras mais salientes, do pa\u00eds, do imperador, de<br \/>\nque quase todos t\u00eam o retrato, de Cotegipe, do bar\u00e3o de Mamanguape,<br \/>\ndos presidentes da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>As mulheres ouvem mastigando obi e cantando melop\u00e9as sinistramente<br \/>\ndoces. Essas melop\u00e9as s\u00e3o quase sempre as preces, as evoca\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne repetem sem modalidade, por tempo indeterminado, a mesma frase.<\/p>\n<p>S\u00f3 pelos candombl\u00e9s ou sess\u00f5es de grande feiti\u00e7aria,<br \/>\nem que os babala\u00f4s est\u00e3o atentos e os pais-de-santo trabalham<br \/>\ndia e noite nas camarinhas ou fazendo evoca\u00e7\u00f5es diante dos fogareiros<br \/>\ncom o tessub\u00e1 na m\u00e3o, \u00e9 que a vida dessa gente deixa<br \/>\na sua calma amolecida de acass\u00e1 com azeite-de-dend\u00ea.<\/p>\n<p>Quando entramos na casa de Olo\u00f4-Tet\u00e9, o matem\u00e1tico macr\u00f3bio<br \/>\ne sensual, uma velha mina, que cantava sonambulicamente, parou de repente.<\/p>\n<p>&#8211; Pode continuar.<\/p>\n<p>Ela disse qualquer coisa de incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 perguntando se o senhor lhe d\u00e1 dois tost\u00f5es,<br \/>\nensina-nos Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p>A preta escancara a boca, e, batendo as m\u00e3os, p\u00f5e-se a cantar:<\/p>\n<p>Baba ounl\u00f4, \u00f3 xocot\u00e1m, o il\u00e9l\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Que vem a ser isso?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o final das festas, quando o santo vai embora. Quer dizer: papai<br \/>\nj\u00e1 foi, j\u00e1 fez, j\u00e1 acabou; vai embora!<\/p>\n<p>Eu olhava a r\u00e9stia estreita do quintal onde dormiam jabotis.<\/p>\n<p>&#8211; O jaboti \u00e9 um animal sagrado?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, diz-nos o s\u00e1bio Ant\u00f4nio. Cada santo gosta do seu<br \/>\nanimal. Xang\u00f4, por exemplo, come jaboti, galo e carneiro. Abaluai\u00e9,<br \/>\npai de var\u00edola, s\u00f3 gosta de cabrito. Os pais-de-santo s\u00e3o<br \/>\nobrigados pela sua qualidade a fazer cria\u00e7\u00e3o de bichos para<br \/>\nvender e t\u00ea-los sempre \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o quando precisam<br \/>\nde sacrif\u00edcio. O jaboti \u00e9 apenas um bicho que d\u00e1 felicidade.<br \/>\nO sacrif\u00edcio \u00e9 simples. Lava-se bem, \u00e0s vezes at\u00e9<br \/>\ncom champanha, a pedra que tem o santo e p\u00f5e-se dentro da terrina.<br \/>\nO sangue do animal escorre; algumas das partes s\u00e3o levadas para onde<br \/>\no santo diz e o resto a roda come.<\/p>\n<p>&#8211; Mas h\u00e1 sacrif\u00edcios maiores para fazer mal \u00e0s pessoas?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1! para esses at\u00e9 se matam bois.<\/p>\n<p>&#8211; Feiti\u00e7o pega sempre, sentencia o ilustre Olo\u00f4-Tet\u00ea,<br \/>\ncom a sua pr\u00e1tica vener\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 corpo-fechado.<br \/>\nS\u00f3 o que tem \u00e9 que uns custam mais. Feiti\u00e7o para pegar<br \/>\nem preto \u00e9 um instante, para mulato j\u00e1 custa, e ent\u00e3o<br \/>\npara cair em cima de branco a gente sua at\u00e9 n\u00e3o poder mais.<br \/>\nMas pega sempre. Por isso preto usa sempre o assiqui, a cobertura, o breve,<br \/>\ne n\u00e3o deixa de mastigar obi, noz de cola preservativa.<\/p>\n<p>Para mim, homem am\u00e1vel, presentes alguns companheiros seus, Olo\u00f4-Tet\u00ea<br \/>\ntirou o opel\u00e9 que h\u00e1 muitos anos foi batizado e prognosticou<br \/>\no meu futuro.<\/p>\n<p>Este futuro vai ser interessante. Segundo as cascas de tartaruga que se voltavam<br \/>\nsempre aos pares, serei felic\u00edssimo, ascendendo com a rapidez dos autom\u00f3veis<br \/>\na escada de Jac\u00f3 das posi\u00e7\u00f5es felizes. \u00c9 verdade<br \/>\nque um inimigozinho malandro pretende perder-me. Eu, por\u00e9m, o esmagarei,<br \/>\nviajando sempre com cargos elevados e sendo admirado.<\/p>\n<p>Abracei respeitoso o matem\u00e1tico que resolvera o quadrado da hipotenusa<br \/>\ndo desconhecido.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f5e dinheiro aqui &#8211; fez ele.<\/p>\n<p>Dei-lhe as notas. Com as m\u00e3os tr\u00eamulas, o s\u00e1bio a apalpou<br \/>\nlongamente.<\/p>\n<p>&#8211; Pega agora nesta pedra e nesta concha. Pede o que tiveres vontade \u00e0<br \/>\nconcha, dizendo sim, e \u00e0 pedra dizendo n\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim fiz. O opel\u00e9 caiu de novo no encerado. A concha estava na m\u00e3o<br \/>\ndireita de Ant\u00f4nio, a pedra na esquerda, e Olo\u00f4 tremia falando<br \/>\nao santo, com os negros dedos tr\u00eamulos no ar.<\/p>\n<p>&#8211; Abra a m\u00e3o direita! ordenou.<\/p>\n<p>Era a concha.<\/p>\n<p>&#8211; Se acontecer, ossumc\u00ea d\u00e1 presente a Olo\u00f4?<\/p>\n<p>&#8211; Mas decerto.<\/p>\n<p>Ele correu a consultar o opel\u00e9. Depois sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1, sim, santo diz que d\u00e1. &#8211; E receitou-me os preservativos<br \/>\ncom que eu serei invulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eu sorria. Pobre velho malandro e ing\u00eanuo! Eu perguntara<br \/>\napenas, modestamente, \u00e0 concha do futuro se seria imperador da China&#8230;<br \/>\nEnquanto isso, a negra da cantiga entoava outra mais alegre, com grande gestos<br \/>\ne risos.<\/p>\n<p>O lo\u00f4-r\u00e9, xa-la-r\u00e9<br \/>\nCamur\u00e1-rid\u00e9<br \/>\nO lo\u00f4-r\u00e9, xa-la-r\u00e9<br \/>\nCamur\u00e1-rid\u00e9<\/p>\n<p>&#8211; E esta, o que quer dizer?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma cantiga de Orixal\u00e1. Significa: O homem do dinheiro<br \/>\nest\u00e1 a\u00ed. Vamos ergu\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>Apertei-lhe a m\u00e3o jubiloso e reconhecido. Na alus\u00e3o da ode<br \/>\nselvagem a lisonja vivia o encanto da sua vida eterna&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>As Iau\u00f4<\/h4>\n<p>A recorda\u00e7\u00e3o de um fato triste &#8211; a morte de uma rapariga que<br \/>\nfora \u00e0 Bahia fazer-santo &#8211; deu-me \u00e2nimo e curiosidade para estudar<br \/>\num dos mais b\u00e1rbaros e inexplic\u00e1veis costumes dos fetiches do<br \/>\nRio.<\/p>\n<p>Fazer-santo \u00e9 a renda direta dos babalox\u00e1s, mas ser filha-de-santo<br \/>\n\u00e9 sacrificar a liberdade, escravizar-se, sofrer, delirar.<\/p>\n<p>Os transeuntes honestos, que passeiam na rua com indiferen\u00e7a, n\u00e3o<br \/>\nimaginam sequer as cenas de Salpetri\u00e8re africana passadas por tr\u00e1s<br \/>\ndas r\u00f3tulas sujas.<\/p>\n<p>As iau\u00f4 abundam nesta Babel da cren\u00e7a, cruzam-se com a gente<br \/>\ndiariamente, sorriem aos soldados \u00e9brios nos prost\u00edbulos baratos,<br \/>\nmercadejam doces nas pra\u00e7as, \u00e0s portas dos estabelecimentos<br \/>\ncomerciais, fornecem ao Hosp\u00edcio a sua quota de loucura, propagam a<br \/>\nhisteria entre as senhoras honestas e as cocottes, exploram e s\u00e3o exploradas,<br \/>\nvivem da crendice e alimentam o caftismo inconsciente. As iau\u00f4, s\u00e3o<br \/>\nas demon\u00edacas e as grandes farsistas da ra\u00e7a preta, as obsedadas<br \/>\ne as delirantes. A hist\u00f3ria de cada uma delas, quando n\u00e3o \u00e9<br \/>\numa sinistra pantomima de \u00e1lcool e mancebia, \u00e9 um tecido de<br \/>\nfatos cru\u00e9is, anormais, in\u00e9ditos, feitos de invis\u00edvel,<br \/>\nde sangue e de morte. Nas iau\u00f4 est\u00e1 a base do culto africano.<br \/>\nTodas elas usam sinais exteriores do santo, as vestimentas simb\u00f3licas,<br \/>\nos ros\u00e1rios e os colares de contas com as cores preferidas da divindade<br \/>\na que pertencem; todas elas est\u00e3o ligadas ao rito selvagem por mist\u00e9rios<br \/>\nque as obrigam a gastar a vida em festejos, a sentir o santo e a respeitar<br \/>\no pai-de-santo.<\/p>\n<p>Fazer-santo \u00e9 colocar-se sobre o patroc\u00ednio de um fetiche qualquer,<br \/>\n\u00e9 ser batizado por ele, e por espont\u00e2nea vontade dele. As negras,<br \/>\ninsens\u00edveis a quase todas as delicadezas que produzem ataques na haute-gomme,<br \/>\ns\u00e3o, entretanto, de uma impressionabilidade m\u00f3rbida por tudo<br \/>\nquanto \u00e9 abus\u00e3o. Da conviv\u00eancia com os maiores nesse horizonte<br \/>\nde chumbo, de atmosfera de feiti\u00e7arias e pavores, nasce-lhes a necessidade<br \/>\ninilud\u00edvel de fazer tamb\u00e9m o santo; e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel<br \/>\ndemov\u00ea-las, umas porque a miragem da felicidade as cega, outras porque<br \/>\nj\u00e1 est\u00e3o votadas \u00e0 loucura e ao alcoolismo. Entre as<br \/>\ntribos do interior da \u00c1frica, h\u00e1 o sacrif\u00edcio do agamum,<br \/>\nem que se esmagam vivas as crian\u00e7as de seis meses. Ao Moloch das ves\u00e2nias<br \/>\na ra\u00e7a preta sacrifica aqui uma quantidade assustadora de homens e<br \/>\nde mulheres.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio, que me mostrara a maior parte das casas-de-santo, disse-me<br \/>\num dia:<\/p>\n<p>&#8211; Vou lev\u00e1-lo hoje a ver o 16.\u00ba dia de uma iau\u00f4.<\/p>\n<p>Para que uma mulher saiba a vinda do santo, basta encontrar na rua um fetiche<br \/>\nqualquer, pedra, peda\u00e7o de ferro ou concha do mar. De tal maneira est\u00e3o<br \/>\nsugestionadas, que v\u00e3o logo aos babala\u00f4s indagar do futuro. Os<br \/>\nbabala\u00f4s, a troco de dinheiro, jogam o edilogum, os b\u00fazios, e<br \/>\nservem-se tamb\u00e9m por aproxima\u00e7\u00e3o dos signos do zod\u00edaco.<\/p>\n<p>&#8211; O m\u00eas do Capric\u00f3rnio &#8211; diz Ant\u00f4nio &#8211; compreende todos<br \/>\nos animais parecidos, a cabra, o carneiro, o cabrito, e segundo o c\u00e1lculo<br \/>\ndo dia e o animal preferido pelo santo, os matem\u00e1ticos descobrem quem<br \/>\n\u00e9.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 sabe o santo, babala\u00f4 atira a sorte no obel\u00ea<br \/>\npara perguntar se \u00e9 de dever faz\u00ea-lo. A natureza mesmo do culto,<br \/>\na necessidade de conservar as cerim\u00f4nias e a avidez de ganho da pr\u00f3pria<br \/>\nindol\u00eancia fazem o s\u00e1bio obter uma resposta afirmativa.<\/p>\n<p>Algumas criaturas paup\u00e9rrimas batem ent\u00e3o nas faces e pedem:<\/p>\n<p>&#8211; Eu quero ter o santo assentado!<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil. Os pais-de-santo d\u00e3o-lhe ervas, uma pedra<br \/>\nbem lavada, em que est\u00e1 o santo, um ros\u00e1rio de contas que se<br \/>\nusa no pesco\u00e7o depois de purificado o corpo por um banho. Nessas ocasi\u00f5es<br \/>\no vadio invis\u00edvel contenta-se com o eb\u00f3, despacho, algumas comedorias<br \/>\ncom azeite-de-dend\u00ea, ervas e sangue, deixadas na encruzilhada dos caminhos.<\/p>\n<p>Quase sempre, por\u00e9m, as vitimas sujeitam-se, e n\u00e3o \u00e9<br \/>\nraro, mesmo quando s\u00e3o pobres os pais, a aceitarem o trabalho com a<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o de as vender em leil\u00e3o ou serem servidos por<br \/>\nelas durante longo tempo. Como as despesas s\u00e3o grandes, as futuras<br \/>\niau\u00f4 levam meses fazendo economias, poupando, sacrificando-se. E de<br \/>\nobriga\u00e7\u00e3o levar comidas, presentes, dinheiro ao pai-de-santo<br \/>\npara a sua estada no yl\u00ea ache-\u00f3-yl\u00ea-orix\u00e1, estada<br \/>\nque regula de 12 a 30 dias.<\/p>\n<p>&#8211; Isto acontece s\u00f3 para as iau\u00f4 dos orix\u00e1s, &#8211; diz Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 outras?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 as dos negros cambindas. Tamb\u00e9m essa gente \u00e9 ordin\u00e1ria,<br \/>\ncopia os processos dos outros e est\u00e1 de tal forma ignorante que at\u00e9<br \/>\nas cantigas das suas festas t\u00eam peda\u00e7os em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas entre os cambindas tudo \u00e9 diferente?<\/p>\n<p>&#8211; Mais ou menos. Olhe por exemplo os santos.<\/p>\n<p>Orixal\u00e1 \u00e9 Ganga-Zumba, Obaluaci, Cangira-Mungongo, Exu, Cubango,<br \/>\nOrix\u00e1-oco, Pombagira, Oxum, a m\u00e3e d&#8217;\u00e1gua, Sinh\u00e1<br \/>\nRenga, Sapanam, Cargamela. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aos santos dos<br \/>\norix\u00e1s que os cambindas mudam o nome, \u00e9 tamb\u00e9m aos santos<br \/>\ndas igrejas. Assim S. Benedito \u00e9 chamado Lingongo, S. Ant\u00f4nio,<br \/>\nVerequete, N. Senhora das Dores, Sinh\u00e1 Samba.<\/p>\n<p>Para os cambindas serve para santo qualquer pedra, os paralelep\u00edpedos,<br \/>\nas lascas das pedreiras e esses pretos sem-vergonha adoram a flor do girassol<br \/>\nque simboliza a lua&#8230;<\/p>\n<p>Eu estava at\u00f4nito. Positivamente Ant\u00f4nio achava muito inferiores<br \/>\nos cambindas.<\/p>\n<p>&#8211; As iau\u00f4?<\/p>\n<p>&#8211; As filhas-de-santo macumbas ou cambindas chegam a ter uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde santos de cada vez, manifestando-se na sua cabe\u00e7a. Sabe V.S. o que<br \/>\ncantam eles quando a yau\u00f4 est\u00e1 com a crise?<\/p>\n<p>Maria Mucangu\u00e9<br \/>\nLava roupa de sinh\u00e1,<br \/>\nLava camisa de chita,<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 dela, \u00e9 de yay\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Quer ouvir outra?<\/p>\n<p>Bumba, bumba, \u00f3 calunga,<br \/>\nTanto quebra cadeira como quebra sof\u00e1<br \/>\nBumba, bumba, \u00f3 calunga.<\/p>\n<p>Houve uma pausa e Ant\u00f4nio concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Por negro cambinda \u00e9 que se compreende que africano foi escravo<br \/>\nde branco.<\/p>\n<p>Cambinda \u00e9 burro e sem-vergonha!<\/p>\n<p>Disse e voltou \u00e0 narrativa da inicia\u00e7\u00e3o das iau\u00f4.<\/p>\n<p>Antes de entrar para camarinha, a mulher, predisposta pela fixidez da aten\u00e7\u00e3o<br \/>\na todas as sugest\u00f5es, presta juramento de guardar o segredo do que<br \/>\nviu, toma um banho purificador e \u00e0 meia-noite come\u00e7a a cerim\u00f4nia.<br \/>\nA iau\u00f4 senta-se numa cadeira vestida de branco com o oj\u00e1 apertando<br \/>\na cintura. Todos em derredor entoam a primeira cantiga a Exu.<\/p>\n<p>Echu tiriri, l\u00f4-nam bar\u00e1 \u00f4 beb\u00ea.<br \/>\nTiriri lo-nam Echu tiriri.<\/p>\n<p>O babalox\u00e1 pergunta ao santo para, onde deve ir o cabelo que vai cortar<br \/>\n\u00e0 futura filha, e, depois de ardente medita\u00e7\u00e3o, indica<br \/>\ncom aparato a ordem divina. Essas descobertas s\u00e3o fatalmente as mesmas<br \/>\nno centro de uma cidade populosa como a nossa. Se o santo \u00e9 a m\u00e3e<br \/>\nd&#8217;agua doce, Oxum, o cabelo vai para a Tijuca, a F\u00e1brica das Chitas;<br \/>\nse \u00e9 I\u00e9-man-ja fica na praia do Russel, em Santa Luzia; se \u00e9<br \/>\noutro santo qualquer, basta um trecho de pra\u00e7a em que as ruas se cruzem.<\/p>\n<p>As rezas come\u00e7am ent\u00e3o; o pai-de-santo molha a cabe\u00e7a<br \/>\nda iau\u00f4 com uma composi\u00e7\u00e3o de ervas e com afiad\u00edssima<br \/>\nnavalha faz-lhe uma coroa, enquanto a roda canta triste.<\/p>\n<p>Orixal\u00e1 ot\u00f4 \u00f4 yau\u00f4!<\/p>\n<p>Essa parte do cabelo \u00e9 guardada eternamente e a iau\u00f4 n\u00e3o<br \/>\ndeve saber nunca onde a guardam, porque lhe acontece desgra\u00e7a. Em seguida,<br \/>\no l\u00fagubre barbeiro raspa-lhe circularmente o cr\u00e2nio, e quando<br \/>\na carapinha cai no alguidar, a operada j\u00e1 perdeu a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Babalox\u00e1, lava-lhe ainda a cabe\u00e7a com o sangue dos animais<br \/>\nesfaqueados pelos ogans, e as iau\u00f4 antigas levam-na a mudar a roupa,<br \/>\nenquanto se preparam com ervas os cabelos do alguidar.<\/p>\n<p>Da\u00ed a momentos a iniciada aparece com outros fatos, pega no alguidar<br \/>\ne sai acompanhada das outras, que a amparam e cantam baixo o ofert\u00f3rio<br \/>\nao santo. Em chegando ao lugar indicado, a hipnotizada deixa a vaso, volta<br \/>\ne \u00e9 recebida pelo pai, que entorna em frente \u00e0 porta um copo<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>A nova iau\u00f4 vai ent\u00e3o descansar, enquanto os outros rezam na<br \/>\ncamarinha em frente ao estado-maior.<\/p>\n<p>&#8211; O estado-maior? &#8211; indago eu, assustado com o ex\u00e9rcito misterioso.<br \/>\nO estado-maior \u00e9 a cole\u00e7\u00e3o de terrinas e sopeiras colocadas<br \/>\nnuma esp\u00e9cie de prateleiras de bazar. Nas sopeiras est\u00e3o todos<br \/>\nos santos pequenos e grandes. H\u00e1 desde as terrinas de granito \u00e0s<br \/>\nde porcelanas com frisos de ouro, rodeando arma\u00e7\u00f5es de ferro,<br \/>\nonde se guarda o Ogum, o S\u00e3o Jorge da \u00c1frica.<\/p>\n<p>No dia seguinte \u00e0 cerim\u00f4nia, a iau\u00f4 lava-se e vai \u00e0<br \/>\npresen\u00e7a do pai para ver se tem esp\u00edritos contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>Se os esp\u00edritos existem, o pai poderoso afasta a influ\u00eancia<br \/>\nnefasta por meio de eb\u00f3s e ogunguns. A iau\u00f4 \u00e9 obrigada<br \/>\na n\u00e3o falar a ningu\u00e9m: quando deseja alguma coisa, bate palmas<br \/>\ne s\u00f3 a ajuda nesses dias a m\u00e3e-pequena ou Iaque-que-r\u00ea.<br \/>\nAs dan\u00e7as para preparo de santo realizam-se nos 1.\u00ba, 3.\u00ba,<br \/>\n7.\u00ba, 12.\u00ba, e no 16.\u00ba dia o santo revela-se.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que adianta isso \u00e0s iau\u00f4?<\/p>\n<p>&#8211; Nada. O pai-de-santo domina-as. O er\u00f4 ou segredo que lhe d\u00e1,<br \/>\npode retir\u00e1-lo quando lhe apraz; o poder de as transformar e fazer-lhes<br \/>\nmal est\u00e1 em virar o santo sempre que tem vontade.<\/p>\n<p>&#8211; E quando essas criaturas morrem?<\/p>\n<p>&#8211; Faz-se a obriga\u00e7\u00e3o raspando um pouco de cabelo para saber<br \/>\nse o santo tamb\u00e9m vai, e o babalox\u00e1 procura um colega para lhe<br \/>\ntirar a m\u00e3o do finado.<\/p>\n<p>As cerim\u00f4nias das iau\u00f4 renovam-se de resto de seis em seis meses,<br \/>\nde ano em ano, at\u00e9 \u00e0 morte. S\u00e3o elas que em grande parte<br \/>\nsustentam o culto.<\/p>\n<p>Quando a iau\u00f4 n\u00e3o tem dinheiro, ou o pai vende-a em leil\u00e3o<br \/>\nou a guarda como serva. Desta conviv\u00eancia \u00e9 que algumas chegam<br \/>\na ser m\u00e3es-de-santo, para o que basta dar-lhe o babalox\u00e1 uma<br \/>\nnavalha.<\/p>\n<p>&#8211; E h\u00e1 muita m\u00e3e-de-santo?<\/p>\n<p>&#8211; Umas cinq\u00fcenta, contando com as falsas. S\u00f3 agora lembro-me<br \/>\nde v\u00e1rias: a Josefa, a Calu Boneca, a Henriqueta da Praia, a Maria<br \/>\nMarota, que vende \u00e0 porta do Glacier, a Maria do Bonfim, a Martinha<br \/>\nda rua do Regente, a Zebinda, a Chica de Vav\u00e1, a Aminam p\u00e9-de-boi,<br \/>\na Maria Luiza, que \u00e9 tamb\u00e9m sedutora de senhoras honestas, a<br \/>\nFlora Coco Podre, a Dudu do Sacramento, a Bitai\u00f4, que est\u00e1 agora<br \/>\nguiando seis ou oito filhas, a Assiata.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 de for\u00e7a. N\u00e3o tem navalha, finge de m\u00e3e-de-santo<br \/>\ne trabalha com tr\u00eas ogans falsos &#8211; Jo\u00e3o Rat\u00e3o, um moleque<br \/>\nchamado Mac\u00e1rio e certo cabra pern\u00f3stico, o Germano. A Assiata<br \/>\nmora na rua da Alf\u00e2ndega, 304. Ainda outro dia houve l\u00e1 um esc\u00e2ndalo<br \/>\ndos diabos, porque a Assiata meteu na festa de Iemanj\u00e1 algumas iau\u00f4<br \/>\nfeitas por ela. Os pais-de-santo protestaram, a negra danou, e teve que pagar<br \/>\na multa marcada pelo santo. Essa \u00e9 uma das feiticeiras de embroma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia Ant\u00f4nio veio buscar-me \u00e0 tarde.<\/p>\n<p>&#8211; A casa a que vai V.S. \u00e9 de um grande feiticeiro; ver\u00e1 se<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 fatos verdadeiros.<\/p>\n<p>Quando chegamos, a sala estava enfeitada. Em derredor sentavam-se muitos<br \/>\nnegros e negras mastigando olob\u00f3, ou cola amargosa, com as roupas lavadas<br \/>\ne as faces reluzentes. A um canto, os m\u00fasicos, fisionomias estranhas,<br \/>\nfaziam soar, com sacolejos compassados, o xequer\u00eae, os atabaques e ubat\u00e1s,<br \/>\ncom movimentos de bra\u00e7os desvairadamente regulares. N\u00e3o se respirava<br \/>\nbem.<\/p>\n<p>A cacha\u00e7a, circulando sem cessar, ensang\u00fcentava os olhos amarelos<br \/>\ndos assistentes.<\/p>\n<p>&#8211; As vezes tudo \u00e9 mentira, \u00e0 custa de cacha\u00e7a e fingimento<br \/>\n&#8211; diz Ant\u00f4nio. Quando o santo n\u00e3o vem, o pai fica desmoralizado.<br \/>\nMas aqui \u00e9 de verdade&#8230;<\/p>\n<p>Olhei o c\u00e9lebre pai-de-santo, cujas filhas s\u00e3o sem conta. Estava<br \/>\nsentado \u00e0 porta da camarinha, mas levantou-se logo, e a negra iniciada<br \/>\nentrou, de camisola branca, com um leque de metal chocalhante. Fula, com uma<br \/>\nextraordin\u00e1ria fadiga nos membros lassos, os seus olhos brilhavam sat\u00e2nicos<br \/>\nsob o capacete de pinturas bizarras com que lhe tinham brochado o cr\u00e2nio.<br \/>\nDiante do pai estirou-se a fio comprido, bateu com as faces no assoalho, ajoelhou<br \/>\ne beijou-lhe a m\u00e3o. Babalox\u00e1 fez um gesto de b\u00ean\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne ela foi, rojou-se de novo diante de outras pessoas. O som do agog\u00f3<br \/>\narrastou no ar os primeiros batuques e os arranhados do xequer\u00e9. A<br \/>\nnegra ergueu-se e, estendendo as m\u00e3os para um e para outro lado, come\u00e7ou<br \/>\na tra\u00e7ar passos, sorrindo idiotamente. S\u00f3 ent\u00e3o notei<br \/>\nque tinha na cabe\u00e7a uma esquisita esp\u00e9cie de cone.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o ado-ch\u00fa, que faz vir o santo &#8211; explica Ant\u00f4nio.<br \/>\n&#8211; \u00c9 feito com sangue e ervas. Se o ado-ch\u00fa cai, santo n\u00e3o<br \/>\nvem.<\/p>\n<p>A negra, parecia aos poucos animar-se, sacudindo o leque de metal chocalhante.<\/p>\n<p>Em derredor, a m\u00fasica acompanhava as cantigas, que repetiam indefinidamente<br \/>\na mesma frase.<\/p>\n<p>As dan\u00e7a dessas cerim\u00f4nias \u00e9 mais ou menos precipitada,<br \/>\nmas sem os pulos sat\u00e2nicos dos Cafres e a vertigem diab\u00f3lica<br \/>\ndos negros da Luisiania. \u00c9 simples, cont\u00ednua e insistente, horrendamente<br \/>\ninsistente. Os passos constantes s\u00e3o o aluj\u00e1, em roda da casa,<br \/>\ndando com as m\u00e3os para a direita e para a esquerda, e o j\u00eaqued\u00ea,<br \/>\nem que ao compasso dos atabaques, com os p\u00e9s juntos, os corpos se quebram<br \/>\naos poucos em remexidos sinistros. N\u00e3o sei se o enervante som da m\u00fasica<br \/>\ndestilando aos poucos desespero, se a cacha\u00e7a, se o exerc\u00edcio,<br \/>\no fato \u00e9 que, em pouco, a iau\u00f4 parecia reanimar-se, perder a<br \/>\nfadiga numa raiva de louca. De cada xequex\u00e9-xequex\u00e9 que a m\u00e3o<br \/>\nde um negro sacudia no ar, vinha um espica\u00e7amento de urtiga, das bocas<br \/>\ncusparinhentas dos assistentes escorria a alucina\u00e7\u00e3o. Aos poucos,<br \/>\noutros negros, n\u00e3o podendo mais, saltaram tamb\u00e9m na dan\u00e7a,<br \/>\ne foi ent\u00e3o entre as vozes, as palmas e os instrumentos que repetiam<br \/>\nno mesmo compasso o mesmo som, uma teoria de cara b\u00eabedas cabriolando<br \/>\nprecedidas de uma cabe\u00e7a colorida que esgareiava lugubremente. A loucura<br \/>\npropagou-se. No meio do pandem\u00f4nio vejo surgir o babalox\u00e1 com<br \/>\num desses vasos furados em que se assam castanhas, cheio de brasas.<\/p>\n<p>&#8211; Que vai ele fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Cala, cala&#8230; \u00e9 o pai, \u00e9 o pai grande &#8211; balbucia Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>As cantigas redobram com um furor que n\u00e3o se apressa. S\u00e3o como<br \/>\numa \u00e2nsia de desesperado essas cantigas, como a agonia de um mesmo gesto<br \/>\narrancando dos olhos a mesma l\u00e2mina de faca, s\u00e3o atrozes! O babalox\u00e1<br \/>\ncoloca o cangir\u00e3o ardente na cabe\u00e7a da iau\u00f4, que n\u00e3o<br \/>\ncessa de dan\u00e7ar delirante, insens\u00edvel, e, alteando o bra\u00e7o<br \/>\ncom um gesto dominador e um sorriso que lhe prende o bei\u00e7o aos ouvidos,<br \/>\nentorna nas brasas fumegantes um alguidar cheio de azeite-de-dend\u00ea.<\/p>\n<p>Ouve-se o chiar do azeite nas chamas, a negra, bem no meio da sala, sacoleja-se<br \/>\nnum jequed\u00e9 lancinante, e pela sua cara suada, do cangir\u00e3o ardente,<br \/>\ne que n\u00e3o lhe queima a pele, escorrem fios amarelos de azeite&#8230;<\/p>\n<p>Ie-man-j\u00e1 at\u00f4 cua\u00f4.<\/p>\n<p>continuava a turba.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o queimou, n\u00e3o queimou, ele \u00e9 grande &#8211; fez Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Eu abrira os olhos para ver, para sentir bem o mist\u00e9rio da inaudita<br \/>\nselvageria. Havia uma hora, a negra dan\u00e7ava sem parar; pela face o<br \/>\ndend\u00ea quente escorria ben\u00e9fico aos santos. De repente, por\u00e9m<br \/>\nela estacou, caiu de joelhos, deu um grande grito.<\/p>\n<p>&#8211; Emim oi\u00e1 bonmim&#8217;. &#8211; Bradou.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o nome dela, o santo disse pela sua boca o nome que vai ter.<\/p>\n<p>A sala rebentou num del\u00edrio infernal. O babalox\u00e1 gritava, com<br \/>\nos olhos arregalados, palavras guturais.<\/p>\n<p>&#8211; Que diz ele?<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 grande, que vejam como \u00e9 grande!<\/p>\n<p>Criaturas rojavam-se aos p\u00e9s do pai, beijando-lhes os dedos, negras<br \/>\nuivavam, com as m\u00e3os empoladas de bater palmas; dois ou tr\u00eas<br \/>\npretos aos sons dos xequer\u00eas sacudiam-se em dan\u00e7as com o santo,<br \/>\ne a iau\u00f4 revirava os olhos, idiota, como se acordasse de uma grande<br \/>\ne estranha mol\u00e9stia.<\/p>\n<p>&#8211; Que vai ela fazer agora, Deus de miseric\u00f3rdia! &#8211; murmurei saindo.<\/p>\n<p>&#8211; Vai trabalhar, pagar no fim de tr\u00eas meses a sua obriga\u00e7\u00e3o,<br \/>\nochu meta, dar dinheiro a pai-de-santo, ganhar dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sempre o dinheiro! &#8211; fiz eu olhando a velha casaria.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio parou e disse:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se engana V.S.<\/p>\n<p>E limpando o suor do rosto, o negro concluiu com esta reflex\u00e3o profunda:<\/p>\n<p>&#8211; Neste mundo, nem os esp\u00edritos fazem qualquer coisa sem dinheiro<br \/>\ne sem sacrif\u00edcio!<\/p>\n<p>Fomos pela rua estreita com a vis\u00e3o sinistra da pobre m\u00e1rtir<br \/>\naos pulos, dessa cabe\u00e7a pintada, entre os chocalhos e os atabaques,<br \/>\nque dan\u00e7ava e gritava horrendamente&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>O Feiti\u00e7o<\/h4>\n<p>N\u00f3s dependemos do Feiti\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um paradoxo, \u00e9 a verdade de uma observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nlonga e dolorosa. H\u00e1 no Rio magos estranhos que conhecem a alquimia<br \/>\ne os filtros encantados, como nas m\u00e1gicas de teatro, h\u00e1 esp\u00edritos<br \/>\nque incomodam as almas para fazer os maridos incorrig\u00edveis voltarem<br \/>\nao t\u00e1lamo conjugal, h\u00e1 bruxas que abalam o invis\u00edvel<br \/>\ns\u00f3 pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses<br \/>\nhomens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscut\u00edvel<br \/>\nvalor do Feiti\u00e7o, do misterioso preparado dos negros.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que muita gente n\u00e3o acredite nem nas bruxas,<br \/>\nnem nos magos, mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m cuja vida tivesse decorrido<br \/>\nno Rio sem uma entrada nas casas sujas onde se enrosca a indol\u00eancia<br \/>\nmalandra dos negros e das negras. \u00c9 todo um problema de hereditariedade<br \/>\ne psicologia essa atra\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida. Os nossos ascendentes<br \/>\nacreditaram no arsenal complicado da magia da idade m\u00e9dia, na pompa<br \/>\nde uma ci\u00eancia que levava \u00e0 forca e \u00e0s fogueiras s\u00e1bios<br \/>\nestranhos, derramando a loucura pelos campos; os nossos av\u00f3s, portugueses<br \/>\nde boa fibra, tremeram diante dos encantamentos e amuletos com que se presenteavam<br \/>\nos reis entre diamantes e esmeraldas. N\u00f3s continuamos fetiches no fundo,<br \/>\ncomo dizia o fil\u00f3sofo, mas rojando de medo diante do Feiti\u00e7o<br \/>\nafricano, do Feiti\u00e7o importado com os escravos, e indo buscar tr\u00eamulos<br \/>\na sorte nos antros, onde gorilas manhosos e uma s\u00facia de pretas c\u00ednicas<br \/>\nou hist\u00e9ricas desencavam o futuro entre c\u00e1gados estrangulados<br \/>\ne penas de papagaio!<\/p>\n<p>Vivi tr\u00eas meses no meio dos feiticeiros, cuja vida se finge desconhecer,<br \/>\nmas que se conhece na alucina\u00e7\u00e3o de uma dor ou da ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne julgo que seria mais interessante como patologia social estudar, de prefer\u00eancia,<br \/>\naos mercadores da paspalhice, os que l\u00e1 v\u00e3o em busca de consolo.<\/p>\n<p>Vivemos na depend\u00eancia do Feiti\u00e7o, dessa caterva de negros e<br \/>\nnegras, de babalox\u00e1s e iau\u00f4, somos n\u00f3s que lhe asseguramos<br \/>\na exist\u00eancia, com o carinho de um negociante por uma amante atriz. O<br \/>\nFeiti\u00e7o \u00e9 o nosso v\u00edcio, o nosso gozo, a degenera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nExige, damos-lhes; explora, deixamo-nos explorar, e, seja ele maitre-chanteur,<br \/>\nassassino, lar\u00e1pio, fica sempre impune e forte pela vida que lhe empresta<br \/>\no nosso dinheiro.<\/p>\n<p>Os feiticeiros formigam no Rio, espalhados por toda a cidade, do cais \u00e0<br \/>\nEstrada de Santa Cruz.<\/p>\n<p>Os pretos, aluf\u00e1s ou orix\u00e1s, degeneram o maometismo e o catolicismo<br \/>\nno pavor dos aligenum, esp\u00edritos maus, e do exu, o diabo, e a lista<br \/>\ndos que praticam para o p\u00fablico n\u00e3o acaba mais. Conheci s\u00f3<br \/>\nnum dia a Isabel, a Leonor, a Maria do Castro, o Tintino, da rua Frei Caneca;<br \/>\no Miguel Pequeno, um negro que parece os an\u00f5es de D. Juan de Byron;<br \/>\no Ant\u00f4nio, mulato conhecedor do idioma africano; Obitai\u00f4, da rua<br \/>\nBom Jardim; o Juca Abor\u00e9, o Alamijo, o Abede, um certo Maur\u00edcio,<br \/>\nogan de outro feiticeiro &#8211; o Brilhante, pai-macumba dos santos cabindas; o<br \/>\nRodolfo, o Virg\u00edlio, a Dudu do Sacramento, que mora tamb\u00e9m na<br \/>\nrua do Bom Jardim; o Higino e o Breves, dois famosos tipos de Niter\u00f3i,<br \/>\ncuja cr\u00f4nica \u00e9 sinistra; o Oto Ali, Ogan-Didi, jogador da rua<br \/>\nda Concei\u00e7\u00e3o; Armando Ginja, Abubaca Caolho, Egidio Abor\u00e9,<br \/>\nHor\u00e1cio, Oiabumin, filha e m\u00e3e-de-santo atual da casa de Abed\u00e9;<br \/>\nIeusimin, Torquato Arequip\u00e1, Cipriano, Rosendo, a Justa de Obaluaei,<br \/>\nApotij\u00e1, mina famoso pelas suas malandragens, que mora na rua do Hosp\u00edcio,<br \/>\n322 e finge de feiticeiro falando mal do Brasil; a Assiata, outra exploradora,<br \/>\na Maria Luiza, sedutora reconhecida, e at\u00e9 um empregado dos Tel\u00e9grafos,<br \/>\no famoso pai Deolindo&#8230;<\/p>\n<p>Toda essa gente vive bem, \u00e0 farta, joga no bicho como Olo\u00f4-Tet\u00e9,<br \/>\ndeixa dinheiro quando morre, \u00e0s vezes fortunas superiores a cem contos,<br \/>\ne achincalha o nome de pessoas eminentes da nossa sociedade, entre conselhos<br \/>\n\u00e0s meretrizes e goles de parati. As pessoas eminentes n\u00e3o deixam,<br \/>\nentretanto, de ir ouvi-los \u00e0s baiucas infectas, porque os feiticeiros<br \/>\nque podem dar riqueza, pal\u00e1cios e eternidade, que mudam a dist\u00e2ncia,<br \/>\ncom uma simples mistura de sangue e de ervas, a exist\u00eancia humana, moram<br \/>\nem casinholas s\u00f3rdidas, de onde emana um nauseabundo cheiro.<\/p>\n<p>Para obter o segredo do feiti\u00e7o, fui a essas casas, estive nas salas<br \/>\nsujas, vendo pelas paredes os elefantes, as flechas, os arcos pintados, trope\u00e7ando<br \/>\nem montes de ervas e lagartos secos, pegando nas terrinas sagradas e nos ob\u00e9l\u00eas,<br \/>\ncheios de suor.<\/p>\n<p>&#8211; V. S., se deseja saber quais s\u00e3o os principais feiti\u00e7os,<br \/>\n\u00e9 preciso acostumar-se antes com os santos, dizia-me o africano.<\/p>\n<p>Acostumei-me. S\u00e3o inumer\u00e1veis. As velhas que lhes discutem<br \/>\no pre\u00e7o em conversa, at\u00e9 confundem as hist\u00f3rias. Em pouco<br \/>\ntempo estava relacionado com Exu, o diabo, a que se sacrifica no come\u00e7o<br \/>\ndas fun\u00e7anatas, Obaluai\u00ea, o santo da var\u00edola, Ogum, o<br \/>\ndeus da guerra, Ox\u00f3oc\u00ed, E\u00edul\u00e9, Oloro-qu\u00ea,<br \/>\nObalufan, Orix\u00e1-ag\u00f4, Exu-mar\u00e9, Orix\u00e1-ogrinha A\u00edra,<br \/>\nOrominha, Ogod\u00f4, Oganju, Baru, Orixal\u00e1, Bainha, Dad\u00e1,<br \/>\nPercu\u00e3, Coricot\u00f3, Do\u00fa, Alab\u00e1, Ari e as divindades<br \/>\nbei\u00e7udas, esposas dos santos &#8211; Aquar\u00e1, Oxum-gimoun, A\u00ed\u00e1-c\u00f3,<br \/>\na m\u00e3e da noite, Inhansam, Obi-am, esposa de Orix\u00e1-l\u00e1;<br \/>\nOrainha, Ogango, Jen\u00e1, mulher de El\u00f4qu\u00ea; Io-m\u00e1o-j\u00e1,<br \/>\na dona de Orix\u00e1oc\u00f4; Oxum de Xang\u00f4 e at\u00e9 Ob\u00e1,<br \/>\nque, pr\u00edncipe neste mundo, \u00e9 no \u00e9ter hetairia do formid\u00e1vel<br \/>\nsanto Ogod\u00f4.<\/p>\n<p>Os fetiches contaram-me a hist\u00f3ria de Orix\u00e1-alum, o maior dos<br \/>\nsantos que aparece raras vezes s\u00f3 para mostrar que n\u00e3o \u00e9<br \/>\nde brincadeiras, e eu assisti \u00e0s cerim\u00f4nias do culto, em que<br \/>\nquase sempre predomina a farsa pueril e sinistra. Diante dos meus olhos de<br \/>\ncivilizado, passaram negros vestidos de Xang\u00f4, com cal\u00e7a de cor,<br \/>\nsaiote encarnado enfeitado de b\u00fazios e lantejoulas, avental, babadouro<br \/>\ne gorro; e esses negros dan\u00e7avam com Oxum, v\u00e1rias negras fantasiadas,<br \/>\nde ventarolas de metal na m\u00e3o esquerda e espadinha de pau na direita.<br \/>\nConcorri para o sacrif\u00edcio de Obaluai\u00ea, o santo da var\u00edola,<br \/>\num negro de bigode preto com a roupa de Polichinelo e uma touca branca orlada<br \/>\nde urtigas. O santo agitava uma vassourinha, o seu xaxar\u00e1, e n\u00f3s<br \/>\ntodos em derredor do babalox\u00e1 v\u00edamos morrer sem aux\u00edlio<br \/>\nde faca, apenas por estrangulamento, uma bicharada que faria inveja ao Jardim<br \/>\nZool\u00f3gico.<\/p>\n<p>Os africanos por\u00e9m continuavam a guardar o mist\u00e9rio da prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l\u00e1, dizia eu, camar\u00e1rio, como \u00e9 que faz para<br \/>\nmatar uni cidad\u00e3o qualquer?<\/p>\n<p>Eles riam, voltavam o rosto com uns gestos quase femininos.<\/p>\n<p>&#8211; Sei l\u00e1!<\/p>\n<p>Outros por\u00e9m tagarelavam:<\/p>\n<p>&#8211; V. S. n\u00e3o acredita? \u00c9 que ainda n\u00e3o viu nada. Aqui<br \/>\nest\u00e1 quem fez um deputado! O&#8230;<\/p>\n<p>Os nomes conhecidos surgiam, tumultuavam, empregos na pol\u00edcia, na<br \/>\nC\u00e2mara, rela\u00e7\u00f5es no Senado, interfer\u00eancias em desaguisados<br \/>\nde fam\u00edlias not\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8211; Mas como se faz isso?<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o senhor pensa que a gente diz assim o seu meio de vida?<\/p>\n<p>E imediatamente aquele com quem eu falava, descompunha o vizinho mais pr\u00f3ximo<br \/>\n&#8211; porque, membros de uma ma\u00e7onaria de defesa geral, de que \u00e9<br \/>\nchefe o Oj\u00f3 da rua dos Andradas, os pretos odeiam-se intimamente, formam<br \/>\npartidos de feiticeiros africanos contra feiticeiros brasileiros, e empregam<br \/>\ntodos os meios imagin\u00e1veis para afundar os mais conhecidos.<\/p>\n<p>Acabei julgando os babalox\u00e1s s\u00e1bios na ci\u00eancia da feiti\u00e7aria<br \/>\ncomo o Papa Jo\u00e3o XXII e n\u00e3o via negra mina na rua sem recordar<br \/>\nlogo o bizarro saber das feiticeiras de d&#8217;Annunzio e do Sr. Sardou. A lisonja,<br \/>\npor\u00e9m, e o dinheiro, a moeda real de todas as maquina\u00e7\u00f5es<br \/>\ndessa \u00f3pera pregada aos incautos, fizeram-me sabedor dos mais complicados<br \/>\nfeiti\u00e7os.<\/p>\n<p>H\u00e1 feiti\u00e7os de todos os matizes, feiti\u00e7os l\u00fagubres,<br \/>\npo\u00e9ticos, risonhos, sinistros. O feiticeiro joga com o Amor, a Vida,<br \/>\no Dinheiro e a Morte, como os malabaristas dos circos com objetos de pesos<br \/>\ndiversos. Todos entretanto s\u00e3o de uma ignor\u00e2ncia absoluta e afetam<br \/>\nintimidades superiores, colocando-se logo na alta pol\u00edtica, no clero<br \/>\ne na magistratura. Eu fui saber, aterrado, de uma conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica com os feiticeiros, nada mais nada menos que a morte de um<br \/>\npassado presidente da Rep\u00fablica. A principio achei imposs\u00edvel,<br \/>\nmas os meus informantes citavam com simplicidade nomes que estiveram publicamente<br \/>\nimplicados em conspira\u00e7\u00f5es, homens a quem tiro o meu chap\u00e9u<br \/>\ne aperto a m\u00e3o. Era imposs\u00edvel a d\u00favida.<\/p>\n<p>&#8211; O presidente est\u00e1 bem com os santos, disse-me o feiticeiro, mas<br \/>\nbastava v\u00ea-lo \u00e0 janela do pal\u00e1cio para que dois meses<br \/>\ndepois ele morresse.<\/p>\n<p>&#8211; Como?!<\/p>\n<p>&#8211; E dif\u00edcil dizer. Os trabalhos dessa esp\u00e9cie fazem-se na ro\u00e7a,<br \/>\ncom ora\u00e7\u00f5es e grandes matan\u00e7as. Precisa a gente passar<br \/>\nnoites e noites a fio diante do fogareiro, com o tessub\u00e1 na m\u00e3o,<br \/>\na rezar. Depois matam-se os animais, \u00e0s vezes um boi que representa<br \/>\na pessoa e \u00e9 logo enterrado. Garanto-lhe que dias depois o esp\u00edrito<br \/>\nvem dizer ao feiticeiro a doen\u00e7a da pessoa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que n\u00e3o matou?<\/p>\n<p>&#8211; Porque os caiporas n\u00e3o me quiseram dar sessenta contos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se voc\u00ea tivesse recebido esse dinheiro e um amigo do governo<br \/>\ndesse mais?<\/p>\n<p>&#8211; O feiti\u00e7o virava. A balan\u00e7a pesa tudo e pesa tamb\u00e9m<br \/>\ndinheiro. Se Deus tivesse permitido a essa hora, os som\u00edticos estariam<br \/>\nmortos.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o feiti\u00e7o maior, o envoutement solene e caro. H\u00e1<br \/>\noutros, por\u00e9m, mais em conta.<\/p>\n<p>Para matar um cavalheiro qualquer, basta torrar-lhe o nome, d\u00e1-lo<br \/>\ncom algum milho aos pombos e solt\u00e1-los numa encruzilhada. Os pombos<br \/>\nlevam a morte&#8230; \u00c9 po\u00e9tico. Para ulcerar as pernas do inimigo<br \/>\num punhado de terra do cemit\u00e9rio \u00e9 suficiente. Esse misterioso<br \/>\nservi\u00e7o chama-se etu, e os babalox\u00e1s resolvem todo o seu m\u00e9todo<br \/>\ndepois de conversar com os iff\u00e1, uma cole\u00e7\u00e3o de 12 pedras.<br \/>\nQuando os iff\u00e1 est\u00e3o teimosos, sacrifica-se um cabrito metendo<br \/>\nas pedras na boca do bicho com alfavaca de cobra.<\/p>\n<p>Os homens s\u00e3o em geral vol\u00faveis. H\u00e1 o meio de os reter<br \/>\nper eternum sujeitos \u00e0 mesma paix\u00e3o, o effif\u00e1, uma forquilha<br \/>\nde pau preparada com besouros, algod\u00e3o, linhas e ervas, sendo que durante<br \/>\na opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deve deixar de dizer o oj\u00f3,<br \/>\nora\u00e7\u00e3o. Se eu amanh\u00e3 desejar a desuni\u00e3o de um<br \/>\ncasal, enrolo o nome da pessoa com pimenta-da-costa, malagueta e linha preta,<br \/>\ndeito isso ao fogo com sangue, e o casal dissolve-se; se resolver transformar<br \/>\nCat\u00e3o, o honesto, no mais desbriado gatuno, arranjo todo esse neg\u00f3cio<br \/>\napenas com um bom tira, um rato e algumas ervas! E maravilhoso.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m feiti\u00e7os porcos, o mantuc\u00e1, por exemplo,<br \/>\npreparado com excremento de v\u00e1rios animais e coisas que a dec\u00eancia<br \/>\nn\u00f3s salva de dizer; e feiti\u00e7os c\u00f4micos como o terr\u00edvel<br \/>\nxuxuguruxu&#8230; Esse faz-se com um espinho de Santo Ant\u00f4nio besuntado<br \/>\nde ovo e enterra-se \u00e0 porta do inimigo, batendo tr\u00eas vezes e<br \/>\ndizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Xuxuguruxu io le bar\u00e1&#8230;.<\/p>\n<p>Para \u00f4 homem ser absolutamente fatal, D. Juan, Rotschild, Nicolau II<br \/>\ne Morny, recolhi com carinho uma receita infal\u00edvel; \u00c9 mastigar<br \/>\norob\u00f3 quando pragueja, trazer alguns tiras ou breves escritos em \u00e1rabe<br \/>\nna cinta, usar do ori para o feiti\u00e7o n\u00e3o pegar, ter al\u00e9ni<br \/>\ndo xor\u00e1, defesa pr\u00f3pria, o essiqui, cobertura e o iroc\u00f3,<br \/>\ndefuma\u00e7\u00e3o das roupas, num fogareiro cm que se queima azeite-de-dend\u00ea,<br \/>\ncabe\u00e7as de bichos e ervas, visitar os babalox\u00e1s e jogar de vez<br \/>\nem quando o at\u00e9 ou a praga. Se apesar de tudo isso a amante desse homem<br \/>\nfugir, h\u00e1 um supremo recurso: espera-se a hora do meio-dia e crava-se<br \/>\num punhal detr\u00e1s da porta.<\/p>\n<p>Mas o que n\u00e3o sabem os que sustentam os feiticeiros, \u00e9 que<br \/>\na base, o fundo de toda a sua ci\u00eancia \u00e9 o Livro de S. Cipriano.<br \/>\nOs maiores aluf\u00e1s, os mais complicados pais-de-santo, t\u00eam escondida<br \/>\nentre os tiras e a bicharada uma edi\u00e7\u00e3o nada fant\u00e1stica<br \/>\ndo S. Cipriano. Enquanto criaturas chorosas esperam os quebrantos e as misturadas<br \/>\nfatais os negros soletram o S. Cipriano, \u00e0 luz dos candeeiros&#8230;<\/p>\n<p>O feiti\u00e7o comp\u00f5e-se apenas de ervas arrancadas ao campo depois<br \/>\nde l\u00e1 deixar dinheiro para o saci, de sangue, de ora\u00e7\u00f5es,<br \/>\nde galos, cabritos, c\u00e1gados, azeite-de-dend\u00ea e do livro idiota.<br \/>\n\u00c9 o desmoronamento de um sonho!<\/p>\n<p>Os feiticeiros, por\u00e9m, pedem retratos, exigem dos clientes coisas<br \/>\nde uma deprava\u00e7\u00e3o sem nome para agir depois fazendo o egum,<br \/>\nou evoca\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos, o maior mist\u00e9rio e<br \/>\na maior p\u00e2ndega dos pretos; e quase todos roubam com descaro, dando<br \/>\nem troco de dinheiro sardinhas com p\u00f3-de-mico, cebolas com quatro pregos<br \/>\nespetados, cabe\u00e7as de pombo em salmoura para fortalecer o amor, uma<br \/>\ninfinita s\u00e9rie de extravag\u00e2ncias. Os trabalhos s\u00e3o tratados<br \/>\ncomo nos consult\u00f3rios m\u00e9dicos: a simples consulta de seis a<br \/>\ndez mil r\u00e9is, a morte de homem segundo a sua import\u00e2ncia social<br \/>\ne o recebimento da import\u00e2ncia por partes. Quando \u00e9 doen\u00e7a,<br \/>\npaga-se no ato &#8211; porque os babalox\u00e1s s\u00e3o m\u00e9dicos, e curam<br \/>\ncom cacha\u00e7a, urubus, penas de papagaio, sangue e ervas.<\/p>\n<p>A policia visita essas casas como consultante. Soube nesses antros que um<br \/>\nantigo delegado estava amarrado a uma paix\u00e3o, gra\u00e7as aos prod\u00edgios<br \/>\nde um galo preto. A pol\u00edcia n\u00e3o sabe pois que alguns desses<br \/>\ncovis ficam defronte de casas suspeitas, que h\u00e1 um tecido de patifarias<br \/>\ninconscientes ligando-as. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a uma seguran\u00e7a<br \/>\ntransit\u00f3ria acabar com um grande v\u00edcio como o Feiti\u00e7o.<br \/>\nSe um inspetor vasculhar amanh\u00e3 os jabotis e as figas de uma das bai\u00facas,<br \/>\n\u00e0 tarde, na delegacia os pedidos chover\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Eu vi senhoras de alta posi\u00e7\u00e3o saltando, \u00e0s escondidas,<br \/>\nde carros de pra\u00e7a, como nos folhetins de romances, para correr, tapando<br \/>\na cara com v\u00e9us espessos, a essas casas; eu vi sess\u00f5es em que<br \/>\nm\u00e3os enluvadas tiravam das carteiras ricas notas e notas aos gritos<br \/>\ndos negros malcriados que bradavam.<\/p>\n<p>&#8211; Bota dinheiro aqui!<\/p>\n<p>Tive em m\u00e3os, com susto e pesar, fios longos de cabelos de senhoras<br \/>\nque eu respeitava e continuarei a respeitar nas festas e nos bailes, como<br \/>\nas deusas do Conforto e da Honestidade. Um babalox\u00e1 da costa da Guin\u00e9<br \/>\nguardou-me dois dias \u00e0s suas ordens para acompanh\u00e1-lo aos lugares<br \/>\nonde havia servi\u00e7o, e eu o vi entrar misteriosamente em casas de Botafogo<br \/>\ne da Tijuca, onde, durante o inverno, h\u00e1 recep\u00e7\u00f5es e<br \/>\nconversationes \u00e0s 5 da tarde como em Paris e nos pal\u00e1cios da<br \/>\nIt\u00e1lia. Alguns pretos, bebendo comigo, informavam-me que tudo era embroma\u00e7\u00e3o<br \/>\npara viver, e, noutro dia, t\u00edlburis paravam \u00e0 porta, cavalheiros<br \/>\nsaltavam, pelo corredor estreito desfilava um resumo da nossa sociedade, desde<br \/>\nos homens de posi\u00e7\u00e3o \u00e0s prostitutas derrancadas, com<br \/>\nescala pelas criadas particulares. De uma vez mostraram-me o retrato de uma<br \/>\nmenina que eu julgo honesta.<\/p>\n<p>&#8211; Mas para que isso?<\/p>\n<p>&#8211; Ela quer casar com este.<\/p>\n<p>Era a fotografia de um advogado.<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00eas?<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o quer dar mais dinheiro, o servicinho est\u00e1 parado.<br \/>\nA pequena j\u00e1 deu trezentos e cinq\u00fcenta.<\/p>\n<p>Tremi romanticamente por aquela ingenuidade que se perdia nos po\u00e7os<br \/>\ndo crime \u00e0 procura do Amor&#8230;<\/p>\n<p>Mas esse caso \u00e9 comum. Encontrei papelinhos escritos em cursivo ingl\u00eas,<br \/>\npuro Cora\u00e7\u00e3o-de-Jesus, cart\u00f5es-bilhetes, peda\u00e7os<br \/>\nde seda para misteres que a moralidade n\u00e3o pode desvendar. Eles diziam<br \/>\nos nomes com retic\u00eancias, sorrindo, e eu acabei humilhado, envergonhado,<br \/>\ncomo se me tivessem insultado.<\/p>\n<p>&#8211; A curiosidade tem limites, disse a Ant\u00f4nio que desaparecera havia<br \/>\ndias para levar aos sub\u00farbios umas negras. Se eu dissesse metade do<br \/>\nque vi, com as provas que tenho!&#8230; Continuar \u00e9 descer o mesmo abismo<br \/>\nvendo a mesma cidade misteriosamente rojar-se diante do Feiti\u00e7o&#8230;<br \/>\nBasta!<\/p>\n<p>&#8211; V. S. n\u00e3o passou dos primeiros quadros da revista. \u00c9 preciso<br \/>\nver as loucuras que o Feiti\u00e7o faz, as beberagens que matam, os homic\u00eddios<br \/>\nnas camarinhas que nunca a pol\u00edcia soube; \u00e9 preciso chegar \u00e0<br \/>\napoteose. Venha&#8230;<\/p>\n<p>E Ant\u00f4nio arrastou-me pela rua, do General Gomes Carneiro<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a>A Casa das Almas<\/h4>\n<p>Os negros &#8220;cambindas&#8221; do Rio guardam com terror a hist\u00f3ria<br \/>\nde um branco que lhes apareceu certa vez em pleno sert\u00e3o africano.<br \/>\nQuando o rei deu por ele, que por ali vinha calmo, com as suas barbas de sol,<br \/>\nprecipitou-se mais a tribo em atitude feroz. O branco tirou da cinta um pequeno<br \/>\nfeiti\u00e7o de metal e prostrou morto, golfando sangue, o babal\u00e1o.<\/p>\n<p>&#8211; Exu! Exu! ganiu a tribo, recuando de chofre.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9s tu, santo que eu n\u00e3o conhe\u00e7o? perguntou tr\u00eamulo<br \/>\no poderoso rei.<\/p>\n<p>&#8211; Sou o que pode tudo, bradou o branco. V\u00ea.<\/p>\n<p>Estendeu a m\u00e3o de novo e matou outros negros.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 te deixarei em paz se me mostrares todos os teus feiti\u00e7os.<\/p>\n<p>Sua Majestade, apavorada, levou-o \u00e0 tenda real e durante o dia e durante<br \/>\na noite, sem parar, lhe deu tudo quanto sabia.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00f4o-te, disse o branco. Adeus! Levo para o mist\u00e9rio a rainha.<\/p>\n<p>Aconchegou o feiti\u00e7o, que parecia egum, o deus da guerra, no seio<br \/>\nda preferida, deixou-a cair, e partiu devagar pela estrada a fora&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o precisei dos meios violentos do Caramuru da \u00c1frica, para<br \/>\nsaber do mais terr\u00edvel mist\u00e9rio da religi\u00e3o dos minas:<br \/>\n&#8211; o egum ou evoca\u00e7\u00e3o das almas. Naquela mesma noite em que encontrara<br \/>\nAnt\u00f4nio, o negro servi\u00e7al levou-me a uma casa nas imedia\u00e7\u00f5es<br \/>\nda praia de Santa Luzia.<\/p>\n<p>&#8211; Em tudo \u00e9 preciso mist\u00e9rio, dizia ele. V. S. vai \u00e0<br \/>\ncasa do babalox\u00e1, finge acreditar e depois \u00e9 convidado para<br \/>\numa cerim\u00f4nia na casa das almas. Poder\u00e1 ent\u00e3o ver o segredo<br \/>\nda pantomima. Quem descobre o segredo do egum, morre. Eu me arrisco a morrer.<\/p>\n<p>A sua voz era tr\u00eamula.<\/p>\n<p>&#8211; Tens medo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, mas se morrer amanh\u00e3, todos os feiticeiros dir\u00e3o<br \/>\nque foi o feiti\u00e7o. Do egum depende toda a trafic\u00e2ncia. O negro<br \/>\nparou. N\u00e3o imagina! Abub\u00e1ca Caolho, que mora na rua do Resende,<br \/>\n\u00e9 um dos tais. Quando h\u00e1 uma morte, vai logo dizer que foi quem<br \/>\na fez. Se f\u00f4ssemos acreditar nas suas mentiras, Abub\u00e1ca tinha<br \/>\nmais mortes no costado que cabelos na cabe\u00e7a. V. S. j\u00e1 o viu.<br \/>\n\u00c9 um negro que usa gravata do lado e pontas &#8211; as roupas velhas dos<br \/>\noutros&#8230; Apotij\u00e1 \u00e9 outro.<\/p>\n<p>&#8211; Mas h\u00e1 desse g\u00eanero de morte, Ant\u00f4nio? indaguei eu acendendo<br \/>\no cigarro com um gesto shakespereano.<\/p>\n<p>&#8211; Ora se h\u00e1! Vou provar quando quiser. De morte misteriosa lembro<br \/>\na Maria Rosa Duarte, sogra do mama P\u00e3o Baltazar, aluf\u00e1 muito<br \/>\namigo de um pol\u00edtico conhecido; o Salvador Tapa, a Esperan\u00e7a<br \/>\nLaninia, Lar\u00ea-qu\u00ea, Fantuch\u00ea, o Jorge da rua do Est\u00e1cio,<br \/>\nOugu-olusaim&#8230; Todos morreram por ter descoberto o egum. Na Bahia, ent\u00e3o,<br \/>\nesses assassinatos s\u00e3o comuns. Hei de lembrar sempre o velho feiticeiro<br \/>\nAguidi, coitado! Era dos que sabem. Um dia, farto de viver, descobriu a trafic\u00e2ncia<br \/>\ne logo depois morria no inc\u00eandio do Tab\u00e3o, com os bra\u00e7os<br \/>\ncruzados, impass\u00edvel e a sorrir. Aguidi na minha l\u00edngua significa:<br \/>\n&#8211; o que quer morrer&#8230; Ele quis.<\/p>\n<p>Pela praia de Santa Luzia o luar escorria silenciosamente, e de leve o vento,<br \/>\nsacudindo as folhas das \u00e1rvores em melanc\u00f3lico sussurro, entristecia<br \/>\nAnt\u00f4nio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! meu senhor. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa do egum que negro<br \/>\nmata. Quando as iau\u00f4 n\u00e3o andam direito, quando n\u00e3o fingem<br \/>\nbem, quase nunca escapam de morrer. H\u00e1 v\u00e1rios processos de morte,<br \/>\na morte lenta, com beberagens e feiti\u00e7os diretos, a morte na camarinha<br \/>\npor sufoca\u00e7\u00e3o&#8230; Muitos negros apertam uma veia que a gente<br \/>\ntem no pesco\u00e7o e dentro de um minuto qualquer pessoa est\u00e1 morta.<br \/>\nOutros dependuram as criaturas e elas ficam bracejando no ar com os olhos<br \/>\narregalados.<\/p>\n<p>A Morte e a Loucura nem sempre se limitam ao estreito meio dos negros. As<br \/>\nbeberagens e o pavor atuam suficientemente nas pessoas que os freq\u00fcentam.<br \/>\nA Assiata, uma negra baixa, fula e presun\u00e7osa, moradora \u00e0 rua<br \/>\nda Alf\u00e2ndega, dizem os da sua roda que p\u00f4s doida na Tijuca uma<br \/>\nsenhora distinta, dando-lhe misturadas para certa mol\u00e9stia do \u00fatero.<br \/>\nApotij\u00e1, o malandro da rua do Hosp\u00edcio, que aproveita os momentos<br \/>\nde \u00f3cio para descompor o Brasil, tem tamb\u00e9m uma vast\u00edssima<br \/>\ncole\u00e7\u00e3o de casos sinistros.<\/p>\n<p>A Morte e todas as ves\u00e2nias n\u00e3o s\u00e3o apenas os sustent\u00e1culos<br \/>\ndos seus ritos e das suas transa\u00e7\u00f5es religiosas, s\u00e3o<br \/>\ntamb\u00e9m o meio de vida extra-cultual, o processo de apanhar heran\u00e7as.<br \/>\nAlikali, lemamo atual dos aluf\u00e1s, e Amando Ginja, cujo nome real \u00e9<br \/>\nFortunato Machado, quando morre negro rico v\u00e3o logo \u00e0 pol\u00edcia<br \/>\nparticipar que n\u00e3o deixou herdeiros. Alikali \u00e9 testamenteiro<br \/>\nde quase todos e bicho capaz de fazer amur\u00e9 com as negras velhas, s\u00f3<br \/>\npara lhes ficar com as casas. A certid\u00e3o de \u00f3bito \u00e9 dada<br \/>\nsem muitas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, voc\u00ea conhece mais feiticeiros, Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o! O Jo\u00e3o Muss\u00ea, aluf\u00e1 feiticeiro tremendo,<br \/>\nque mora na rua Senhor dos Passos, 222 e \u00e9 respeitado por todos; Obalei-i\u00e9,<br \/>\nObio Jamin, Ochu-Toqui, Ochu-Bumin, Emin-Ochun, Oumigi, Obitai\u00f4-homem,<br \/>\nObitai\u00f4-mulher, Ochu Taiod\u00e9, a Ochu-bohei\u00f3, da rua do<br \/>\nCatete, Si\u00ea, Xang\u00f4-Logreti, Ajagum-baru, E\u00e7u-hemin, Angelina,<br \/>\no ogan Conrado&#8230; Mais de cem feiticeiros, mais cem.<\/p>\n<p>&#8211; Quase todos com os nomes dos santos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Os negros usam sempre o nome do santo que t\u00eam no corpo&#8230;<\/p>\n<p>Mas de repente Ant\u00f4nio parou entre as \u00e1rvores.<\/p>\n<p>&#8211; Temos eb\u00f3 de i\u00ea-man-j\u00e1. A negralhada vem &#8230;.. Se quer<br \/>\nver, esconda-se detr\u00e1s de algum tronco.<\/p>\n<p>Com efeito, sentiam-se vozes surdas ao longe, cantando.<\/p>\n<p>O despacho, ou eb\u00f3, da m\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua salgada, \u00e9<br \/>\num alguidar com pentes, alfinetes, agulhas, peda\u00e7os de seda, dedais,<br \/>\nperfumes, linhas, tudo o que \u00e9 feminino.<\/p>\n<p>Detr\u00e1s da \u00e1rvore, pouco depois eu vi aparecer no plenil\u00fanio<br \/>\na teoria dos pretos. \u00c0 frente vinha uma com o alguidar na cabe\u00e7a,<br \/>\ne cantavam baixo.<\/p>\n<p>Ba\u00f4 de r\u00e9 se equi je-man-j\u00e1<br \/>\nPel\u00e9 b\u00e9 Apot\u00e1 auo yo t\u00f4 toro fym la cho<br \/>\nEre&#8230;<\/p>\n<p>Era o ofert\u00f3rio. Ao chegar \u00e0 praia, na parte em que h\u00e1<br \/>\nuns rochedos, a negra desceu, depositou o alguidar. Uma onda mais forte veio,<br \/>\nbateu, virou o vaso de barro, quebrou-o, levou as linhas e todos balbuciaram,<br \/>\nrojando:<\/p>\n<p>&#8211; I\u00ea-man- j\u00e1!<\/p>\n<p>A santa aparecera na fosforesc\u00eancia lunar, agradecendo&#8230;<\/p>\n<p>Depois os sacerdotes ergueram-se, reuniram e n\u00f3s ficamos de novo s\u00f3s,<br \/>\nenquanto o oceano rugia e, ao longe, tristemente a canzoada ladrava.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda apanhamos o candombl\u00e9, disse Ant\u00f4nio. \u00c9 preciso<br \/>\nque o babalox\u00e1 convide V. S. para o egum&#8230;<\/p>\n<p>Noutro dia, pouco mais ou menos \u00e0 meia-noite, est\u00e1vamos no<br \/>\nil\u00ea-saim ou casa das almas.<\/p>\n<p>O egum \u00e9 uma cerim\u00f4nia quase p\u00fablica, a que os feiticeiros<br \/>\nconvidam certos brancos para presenciar a pantomima do seu extraordin\u00e1rio<br \/>\npoder. Esses curiosos fetiches, que para fazer o guincho de santo Ossaim amarram<br \/>\nnas pernas bonecas de borracha, com assobio; cujos santos s\u00e3o uni produto<br \/>\nde bebedeiras e de hipnose, t\u00eam na evoca\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos<br \/>\na m\u00e1xima encena\u00e7\u00e3o da sua for\u00e7a sobre o invis\u00edvel.<br \/>\nQuando morre algu\u00e9m, quando todos est\u00e3o diante do corpo, um<br \/>\ndos pretos esconde-se e d\u00e1 um grito. No meio da confus\u00e3o geral,<br \/>\nent\u00e3o, mudando a voz, esse negro grita:<\/p>\n<p>&#8211; Emim, toculoni mop\u00e9, c\u00e1-um-p\u00e9, emim! Eu que morri<br \/>\nhoje, quero que chamem por mim.<\/p>\n<p>Os donos do defunto arranjam o dinheiro para a evoca\u00e7\u00e3o, pessoas<br \/>\nestranhas ajudam tamb\u00e9m com a sua quota para aproveitar e saber do<br \/>\nfuturo. O babalox\u00e1 n\u00e3o faz o egum enquanto n\u00e3o tem pelo<br \/>\nmenos trezentos mil r\u00e9is. Arranjada a quantia, come\u00e7a a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Quando entramos na sala das almas, \u00e0 luz fumarenta dos candeeiros<br \/>\na cena era estranha. Havia brancas, meretrizes de grandes rodelas de carmim<br \/>\nnas faces, mulatas em camisa, mostrando os bra\u00e7os com desenhos e iniciais<br \/>\nem azul dos propriet\u00e1rios do seu amor, e negros, muitos negros. Estes<br \/>\n\u00faltimos, sentados em roda do assoalho, estavam quase nus, e algumas<br \/>\nnegras mesmo inteiramente nuas com os seios pendentes e a carapinha cheia<br \/>\nde banha.<\/p>\n<p>&#8211; Por que est\u00e3o eles assim?<\/p>\n<p>&#8211; Para mais facilmente receber o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Junto \u00e0 porta do fundo, tr\u00eas negros de vara em punho quedavam-se<br \/>\nest\u00e1ticos. Eram os annichans, que faziam guarda ao saluin ou quarto-dos-esp\u00edritos.<br \/>\nOuvi dentro do saluin um barulho de pratos, de copos tocados, de garrafas<br \/>\ndesarrolhadas; um momento pareceu-me ouvir at\u00e9 o estouro forte do champanha<br \/>\nbarato.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 gente l\u00e1 dentro?<\/p>\n<p>&#8211; As almas. Est\u00e1-se banqueteando. O banquete foi pago pelos presentes.<br \/>\nMas, psiu! Daqui a pouco come\u00e7ar\u00e3o as cantigas, que ningu\u00e9m<br \/>\ncompreende. Os africanos inventam nomes para a cena parecer mais fant\u00e1stica.<\/p>\n<p>Com efeito, minutos depois, aos primeiros sons dos atabaques, as negras bradaram:<\/p>\n<p>&#8211; Alu\u00e1! o esp\u00edrito! e romperam uma cantiga assustadora e tr\u00f4pega.<\/p>\n<p>Anu-ha, a o ry au od \u00e1<br \/>\nSan-n\u00e1-el\u00ea-o ou baba<br \/>\nLoc\u00e1-al\u00f3<\/p>\n<p>A porta continuava fechada, mas eu vi surgir de repente um negro vestido<br \/>\nde domin\u00f3 com os p\u00e9s amarrados em panos. Os tr\u00eas annichans<br \/>\nergueram as varas, o domin\u00f3 macabro come\u00e7ou a bater a sua no<br \/>\nch\u00e3o, os xegued\u00eas sacudiram-se, e outra cantiga estalou medrosa:<\/p>\n<p>Lou-\u00e2 g\u00e9ge ou-rou \u00f3 u\u00e1<br \/>\nX\u00f3 la-ry la-ry lary<br \/>\nQue qu\u00e8 oura \u00f4 uch\u00f4<br \/>\nLa-ry la mamau r\u00fa nam bab\u00e1<\/p>\n<p>Quando o santo aos pulos aproximava-se de alguma mulher, ela recuava bradando<br \/>\ncom desespero:<\/p>\n<p>&#8211; Afap\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o aparecer as almas, avisou Ant\u00f4nio, a cantiga diz: Procuramos<br \/>\na alma de Fulano e de Sicrano e n\u00e3o a encontramos dormindo. Cansamos<br \/>\nsem saber o mist\u00e9rio que a envolvia. A alma est\u00e1 aqui e entrou<br \/>\npela porta do quintal.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem \u00e9 este domin\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 Baba-Egum. As almas t\u00eam v\u00e1rios cargos. O que traz<br \/>\numa gamela chama-se Ala-t\u00e9-orum, o 2.\u00ba Opoc\u00f3-echi, o 3.\u00ba<br \/>\nEguninhansan, e no meio de sete esp\u00edritos aparece o invocado.<\/p>\n<p>Entretanto o domin\u00f3 Baba-Egum batia furiosamente no ch\u00e3o com<br \/>\na sua vara de marmelo, e no alarido aumentado apareceu aos pulos outro domin\u00f3,<br \/>\no Alab\u00e1, que por sua vez tamb\u00e9m se p\u00f4s a bater. Era o<br \/>\nritual da entrega das almas. Por fim apareceu Ousaim, enfiado numa fantasia<br \/>\nde beb\u00ea, de xadrez variado, com duas m\u00e1scaras: uma nas costas,<br \/>\noutra tapando o rosto.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 esse?<\/p>\n<p>&#8211; O Bonif\u00e1cio da Piedade, um malandro de cavaignac, que faz sempre<br \/>\nde Eruosaim.<\/p>\n<p>Eruosaim tamb\u00e9m dan\u00e7ava. Entre as cantigas, os annichans ergueram<br \/>\nde novo as varas, a porta abriu-se, dois negros ficaram um de cada lado, o<br \/>\natafim, ou confidente, e o anuxam, secreta. De dentro sa\u00edram mais tr\u00eas<br \/>\ndomin\u00f3s cheios de figas e espelhinhos, com os p\u00e9s embrulhados<br \/>\nnos trapos. As negras aterrorizadas uivavam, com o amarelo dos olhos virados<br \/>\ne os esp\u00edritos, naquela algazarra, pareciam cambalear. Havia gente<br \/>\npor\u00e9m que os reconhecia.<\/p>\n<p>&#8211; Eles fingem os gestos dos mortos, segredou-me Ant\u00f4nio. Palmas ressoavam<br \/>\nestridentes saudando a chegada do invis\u00edvel, as varas de marmelo lanhavam<br \/>\no ar e as almas, e naquele c\u00edrculo silvante, ao som dos xegued\u00e9s<br \/>\ne dos atabaques batiam surdamente no ch\u00e3o aos pulos da dan\u00e7a<br \/>\ndemon\u00edaca.<\/p>\n<p>Um dos esp\u00edritos, por\u00e9m, sentiu-se numa esp\u00e9cie de trono<br \/>\nde m\u00e1gica. Como por encanto a dan\u00e7a cessou e naquela p\u00e1vida<br \/>\natmosfera, em que o medo gemia, as mulheres de borco, os homens contorsionados,<br \/>\no negro fantasiado guinchou do alto.<\/p>\n<p>&#8211; Guilhermina oc\u00ea percisa gost\u00e1 de Ant\u00f4nio&#8230; Jos\u00e9<br \/>\ntem que faz\u00ea eb\u00f4 para esp\u00edrito mau.<\/p>\n<p>Chica, um home h\u00e1 de vi a\u00ed, oc\u00ea vai com ele&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Veja V. S. a chantage, murmurou Ant\u00f4nio. Os negros recebem dinheiro<br \/>\nantes dos homens e obrigam as criaturas pelo terror a tudo quanto quiserem.<br \/>\nPor isso quem descobre o egum, morre.<\/p>\n<p>A Chica, uma mulatinha, coitada! tremia convulsivamente, mas j\u00e1 outras,<br \/>\nnuas, em camisa, sacudindo os membros lassos, ganiam de longe, batendo as<br \/>\nvaras num terror exaustivo.<\/p>\n<p>&#8211; E eu? e eu?<\/p>\n<p>&#8211; E eu? e eu?<\/p>\n<p>&#8211; Oc\u00ea t\u00e1 dereita, sua vida vai pr&#8217;a frente.<\/p>\n<p>&#8211; E eu? e eu? gargolejaram outras bocas em estertores.<\/p>\n<p>&#8211; Oc\u00ea est\u00e1 pra traz, percisa eb\u00f4.<\/p>\n<p>Aproximei-me de um dos esp\u00edritos; cheirava a esp\u00edrito de vinho;<br \/>\nestava literalmente b\u00eabedo.<\/p>\n<p>Quando a cerim\u00f4nia atingia ao desvario e j\u00e1 os esp\u00edritos<br \/>\ntinham pastosidade na voz, caiu na sala, como um bedeng\u00f3, Inhansam,<br \/>\num negro fingindo de santo materializado e, em meio do pavor geral, ao som<br \/>\ndas cantigas, esticou a m\u00e3o sinistra, foi pedindo a cada criatura 16<br \/>\nobis, 16 orob\u00f4s, 16 galos, 16 galinhas, 16 pimentas-de-costa, 16 mil<br \/>\nr\u00e9is, um cabrito, um carneiro. Ao chegar \u00e0s meretrizes brancas,<br \/>\nInhansam ferozmente exigia pe\u00e7as de chita, fazendas e objetos caros.<br \/>\nA turba gritava toda: Inhansam! Inhansam! gente nova entrava na sala, e de<br \/>\nrepente, como todos se voltassem a um grito da porta, os esp\u00edritos<br \/>\ndesapareceram&#8230; Tinham fugido tranq\u00fcilamente pelo corredor.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 acabado, fez Ant\u00f4nio. Os esp\u00edritos v\u00e3o<br \/>\nse despir, e voltam da\u00ed a pouco para ver se o pessoal acreditou mesmo&#8230;<\/p>\n<p>A cena mudara entretanto. Dissipado o sud\u00e1rio apavorado, todas aquelas<br \/>\ncarnes hiperestizadas erguiam-se ainda vibrantes para a bacanal.<\/p>\n<p>O \u00e1lcool e a queda na realidade estabeleciam o desejo. Negros arrastavam-se<br \/>\npara quintal, para os cantos, longos sorrisos l\u00fabricos abriam em bocejos<br \/>\nas bocas espumantes, risinhos rebentavam e negros fortes, estendidos no ch\u00e3o,<br \/>\nrolavam as cabe\u00e7as numa sede de gozo.<\/p>\n<p>H\u00e1 entre as negras uma propens\u00e3o sinistra para o tribadismo.<br \/>\nEm pouco, naquela casinhola suja e mal-cheirosa, eu via como uma caricatura<br \/>\nhorrenda as cenas de deboche dos romances hist\u00f3ricos em moda. Mais<br \/>\ndois negros entraram.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o egum esteve bom?<\/p>\n<p>&#8211; E eu que n\u00e3o cheguei em tempo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Veja, mostrou Ant\u00f4nio, l\u00e1 est\u00e1 o Bonif\u00e1cio Eruosaim,<br \/>\nvendo se causou efeito fantasiado de beb\u00ea. Venha at\u00e9 o quarto<br \/>\ndo banquete.<\/p>\n<p>Fomos. Ant\u00f4nio empurrou uma porta e logo nos achamos numa sala com<br \/>\ngarrafas pelo ch\u00e3o, pratos servidos, copos entornados, rolhas, os destro\u00e7os<br \/>\nde uma fome voraz. Num canto a Chica dizia baixinho para um lindo rapaz de<br \/>\ncal\u00e7as bombachas:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 voc\u00ea que o esp\u00edrito disse?&#8230;<\/p>\n<p>Quando reaparecemos o babalox\u00e1 murmurava:<\/p>\n<p>&#8211; A festa est\u00e1 acabada, companheiros&#8230; \u00c9 n\u00e3o deixar<br \/>\nde trazer o que Inhansam pediu.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos ent\u00e3o. Vinha pelo c\u00e9u raiando a manh\u00e3.<br \/>\nPalidamente, na calote cor de p\u00e9rola, as estrelas tremiam e desmaiavam.<br \/>\nAnt\u00f4nio cambaleava. Chamei um carro que passava, meti-o dentro. Em torno<br \/>\ntudo dizia o mist\u00e9rio e a incompreens\u00e3o humana, o \u00e9ter<br \/>\npuro, os vagalh\u00f5es do mar, as \u00e1rvores calmas. Tinha a cabe\u00e7a<br \/>\noca, e, apesar dos assassinatos, dos roubos, da loucura, das evoca\u00e7\u00f5es<br \/>\nsinistras, vinha da casa das almas julgando babala\u00f4s, babalox\u00e1s,<br \/>\nm\u00e3es-de-santo e feiticeiros os arquitetos de uma religi\u00e3o completa.<br \/>\nQue fazem esses negros mais do que fizeram todas as religi\u00f5es conhecidas?<\/p>\n<p>O culto precisa de mentiras e de dinheiro. Todos os cultos mentem e absorvem<br \/>\ndinheiro. Os que nos desvendaram os segredos e a maquina\u00e7\u00e3o<br \/>\nmorreram. Os africanos tamb\u00e9m matam.<\/p>\n<p>E eu, perdoando o crime desse sacerd\u00f3cio mina, que se imp\u00f5e<br \/>\ne vive regaladamente, tive vontade de ir entregar Ant\u00f4nio negro e a<br \/>\ndormir \u00e0 casa de Oj\u00f4, para que nunca mais desvendasse a ningu\u00e9m<br \/>\no sinistro segredo da casa das almas.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a>Os Feiti\u00e7os de Sanin<\/h4>\n<p>Pois seja! disse Ant\u00f4nio, tomando coragem. V. S. pode ir, mas n\u00e3o<br \/>\ncuspa, n\u00e3o fume e n\u00e3o coma nessa casa. Eu n\u00e3o vou.<\/p>\n<p>&#8211; Acompanhas-me at\u00e9 a porta?<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 \u00e0 esquina. Ficarei de alcat\u00e9ia. Sanin e Oj\u00f4<br \/>\ns\u00e3o capazes de me acabar com a vida.<\/p>\n<p>A vida de Ant\u00f4nio \u00e9 uma vida, sob todos os t\u00edtulos, preciosa,<br \/>\ne naquele momento ainda o era mais, porque a sustentava eu. Refleti e concordei.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 direito, ficas \u00e0 esquina.<\/p>\n<p>Chovia a c\u00e2ntaros. Ant\u00f4nio, sem guarda-chuvas, metido num capote<br \/>\nque lhe ia at\u00e9 aos p\u00e9s, acendia constantemente um charuto, que<br \/>\napagava.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, que \u00e9 esse Sanin, afinal?<\/p>\n<p>&#8211; Um feiticeiro danado!<\/p>\n<p>&#8211; Mas babalox\u00e1, babala\u00f4, traficante?.<\/p>\n<p>&#8211; Babala\u00f4, n\u00e3o senhor. Para ser babala\u00f4 \u00e9 preciso<br \/>\nmuita coisa. S\u00f3 de noviciado, leva-se muito tempo, anos a fio, e a<br \/>\ncerim\u00f4nia \u00e9 dific\u00edlima. Quando um iniciado quer ser babala\u00f4,<br \/>\ntem que levar ao babala\u00f4 que o sagra, dois cabritos pretos, duas galinhas<br \/>\nd&#8217;Angola, duas galinhas da terra, dois patos, dois pombos, dois bagres, duas<br \/>\npre\u00e1s, um quilo de limo, um ori, um peda\u00e7o de ossum, um peda\u00e7o<br \/>\nde giz, dois gansos, dois galos, uma esteira, dois caramujos e uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde penas de papagaio encarnadas.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o \u00e9 tudo. Tem que levar tamb\u00e9m um quilo de sab\u00e3o-da-costa,<br \/>\nque se chama och\u00ea-i-luai\u00ea, e n\u00e3o entra para o ibodoiff\u00e1<br \/>\nou quarto dos santos sem estar de roupa nova e levar na algibeira pelo menos<br \/>\n200$OOO. O futuro babala\u00f4 fica sete dias no ibod\u00f4, onde n\u00e3o<br \/>\nentra ningu\u00e9m para n\u00e3o ver o segredo.<\/p>\n<p>&#8211; O segredo?<\/p>\n<p>&#8211; O segredo \u00e9 um ovo de papagaio. V. S. j\u00e1 viu um ovo de papagaio?<br \/>\nNunca! \u00c9 dif\u00edcil. E quem v\u00ea um ovo desses, arrisca-se<br \/>\na ficar cego. O ovo em africano chama-se \u00e9iu, o papagaio odid\u00e9.<br \/>\n\u00c9 o ovo que guardam dentro de uma cuia ou ybadu. O iniciado fica inteiramente<br \/>\nnu, senta-se na esteira, e o velho babala\u00f4 indaga se \u00e9 de seu<br \/>\ngosto fazer o iffa. Se a resposta for afirmativa, lavam-se quarenta e dois<br \/>\ncaro\u00e7os de dend\u00ea com diversas ervas, e nessa \u00e1gua o babala\u00f4<br \/>\nnovo toma banho.<\/p>\n<p>Depois raspa-se-lhe a carapinha, guardando-a para o grande despacho, pinta-se-lhe<br \/>\no cr\u00e2nio com giz e faz-se a matan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Todos os animais?<\/p>\n<p>&#8211; Todos caem ao golpe das navalhas afiadas, o sangue enche os alguidares,<br \/>\nescorre pela casa, mas ningu\u00e9m sabe, porque l\u00e1 dentro, de vivos,<br \/>\ns\u00f3 h\u00e1 os dois babala\u00f4s e o ac\u00f3lito. O primeiro<br \/>\nsacrif\u00edcio \u00e9 para exu. Mistura-se o sangue do galo com tabatinga,<br \/>\nforma-se um boneco recheado com os p\u00e9s, o f\u00edgado, o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a cabe\u00e7a dos bichos; metem-se em forma de olhos, nariz e boca, quatro<br \/>\nb\u00fazios e est\u00e1 feito o exu. Em seguida esfaqueiam-se os outros<br \/>\nbichos, sacrificando aos iff\u00e1. O novo babala\u00f4 recebe na cabe\u00e7a<br \/>\num pouco desse sangue, o ac\u00f3lito ou ogibanam amarra-lhe na testa uma<br \/>\npena de papagaio com linha preta e, assim pronto, o novo matem\u00e1tico<br \/>\nfica seis dias aprendendo a pr\u00e1tica de alguns feiti\u00e7os tem\u00edveis<br \/>\ne rezando aos odu jil\u00e1.<\/p>\n<p>Os iff\u00e1 s\u00e3o dezesseis: &#8211; eidi-ob\u00e9, oj\u00e9cu-meigi,<br \/>\njori-meigi, uri-meigi, \u00f4ros\u00ea-meigi, nani-meigi, obar\u00e1-meigi,<br \/>\nocair\u00e1-meigi, egund\u00e1-meigi, os\u00e9-meigi, otur\u00e1-meigi,<br \/>\noret\u00e9-meigi, ic\u00e1-meigi, etur\u00e1fan-meigi, achemeigi e ogio-ofum.<br \/>\nNo fim dos sete dias juntam-se os ossos, as cabe\u00e7as, os p\u00e9s<br \/>\ndos animais com os restos de comida, a pena de papagaio do jovem professo,<br \/>\nas ervas dos servi\u00e7os anteriores, coloca-se tudo num alguidar para<br \/>\njogar onde o opel\u00e9 disser, no mar, num lago, em qualquer rio. O iniciado<br \/>\n\u00e9 quem leva o alguidar, sem perder a raz\u00e3o, e canta no trajeto<br \/>\ntr\u00eas cantigas&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no largo do Capim. A chuva era tanta que nos obrigara a<br \/>\nrecolher a um botequim qualquer, e Ant\u00f4nio, j\u00e1 sentado, bebendo<br \/>\nvinho do Porto e acendendo pela trig\u00e9sima vez a horrenda ponta do seu<br \/>\ncharuto, preparava-se para entoar as maviosas cantigas. Chegou mesmo a perpetrar<br \/>\numa, a segunda, a mais curta.<\/p>\n<p>O-ch\u00e9-ytur\u00e1 a nar\u00ea praqu\u00ea<br \/>\nAb\u00e1 gun-nem-gum gebo<br \/>\nOury \u00f4c\u00fa ou-myn-nan<br \/>\nEss\u00e9 ouxy-c\u00e1 g\u00f4-x\u00ea-nan l\u00f3 nan.<\/p>\n<p>Esta apavorada ora\u00e7\u00e3o significa: sab\u00e3o-da-Costa serve<br \/>\npara resguardar-se a gente do rei que come urubu e limo-da-costa. N\u00f3s,<br \/>\nse comermos limo ou urubu pelo p\u00e9, hoje mesmo morreremos. Ele n\u00e3o<br \/>\ndefende filho como filho.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, o Sanin?<\/p>\n<p>&#8211; V. S. n\u00e3o quer aprender mesmo? Deixe o Sanin. Est\u00e1 chovendo<br \/>\ntanto!<\/p>\n<p>&#8211; O Sanin \u00e9 ou n\u00e3o um s\u00e1bio?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 malandro.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda melhor.<\/p>\n<p>Quando sa\u00ed, de dentro do botequim, Ant\u00f4nio esticou a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Orum-my-l\u00e1 bor\u00fa yb\u00f3, ye, yb\u00f3, yb\u00f3, xix\u00e9!<\/p>\n<p>Negro am\u00e1vel!! Com aquele seu gesto sacerdotal dizia-me:<\/p>\n<p>&#8211; Satisfa\u00e7a ao Deus que faz tudo e tudo entorta, am\u00e9m!<\/p>\n<p>Abri o guarda-chuva e respondi j\u00e1 de longe.<\/p>\n<p>&#8211; Yb\u00f3-xix\u00e9!<\/p>\n<p>Sanin mora agora na casa do famoso Oj\u00f4, o diretor social da feiti\u00e7aria.<br \/>\nA casa de Oj\u00f4 fica na rua dos Andradas, quase no come\u00e7o, com<br \/>\num aspecto pobre e um cheiro desagrad\u00e1vel. Quando batemos, a chuva<br \/>\nrufava em torno um barulho ensurdecedor. N\u00e3o nos responderam. Batemos<br \/>\nde novo. Algu\u00e9m decerto nos espiava. Afinal abriu-se a r\u00f3tula<br \/>\ne uma mulher apareceu.<\/p>\n<p>&#8211; Baba Sanin?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Venho mandado por um conhecido. Sem receio.<\/p>\n<p>&#8211; A casa \u00e9 de Emanuel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oj\u00f4, sei bem. Foi o Miguel Pequeno que me mandou. Abre.<\/p>\n<p>De novo a r\u00f3tula fechou. A mulher ia consultar, mas n\u00e3o demorou<br \/>\nmuito que voltasse abrindo de esguelha e dizendo misteriosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Entre.<\/p>\n<p>A sala tinha areia no assoalho, os m\u00f3veis consertados indicavam que<br \/>\nOj\u00f4 vive bem. Numa cadeira um fato branco engomado, e mais longe o chap\u00e9u<br \/>\nde palha atestava a presen\u00e7a do feiticeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o Sanin?<\/p>\n<p>&#8211; Vem j\u00e1.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois apareceu Sanin, de blusa azul e gorro vermelho, o tipo<br \/>\ncl\u00e1ssico do mina desaparecido, andando meio de lado, com o olhar desconfiado.<br \/>\nO pobre-diabo vive assustado com a pol\u00edcia, com os jornais, com os<br \/>\nagentes. Para o seu c\u00e9rebro restrito de africano, desde que chegou,<br \/>\no Rio passa por transforma\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas. \u00c9<br \/>\num malandro, orgulhoso do feiti\u00e7o e com um medo danado da cadeia. Fora<br \/>\ndecerto quase \u00e0 for\u00e7a que aparecera, e s\u00f3 muito lentamente<br \/>\no pavor o deixou falar.<\/p>\n<p>&#8211; Baba Sanin, o Miguel Pequeno mandou-me aqui para um neg\u00f3cio muito<br \/>\ngrave. Baba tem uns feiti\u00e7os novos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei que tem. Abri a carteira, uma carteira de efeito, como usam os homens<br \/>\nda pra\u00e7a, enorme, com fechos de prata. N\u00e3o tenha medo. Se o<br \/>\nBaba n\u00e3o me faz o trabalho, estou perdido. \u00c9 a minha \u00faltima<br \/>\nesperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Que trabalho?<\/p>\n<p>Revolvi as notas da carteira, devagar, para mostr\u00e1-las, tirei um papelzinho<br \/>\ne misteriosamente murmurei:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tem o nome dela&#8230;<\/p>\n<p>Na cara do feiticeiro deslizou um sorriso diab\u00f3lico:<\/p>\n<p>&#8211; Aha! Aha&#8230; Est\u00e1 bom.<\/p>\n<p>&#8211; Sanin, eu tenho f\u00e9 nos santos, mas os outros feiticeiros n\u00e3o<br \/>\nd\u00e3o volta ao neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea vai acabar. Olhe, pode contar&#8230;<\/p>\n<p>Tudo neste mundo \u00e9 esperan\u00e7a de dinheiro, de felicidade, de<br \/>\npaz, e tanto vive de esperan\u00e7a o feiticeiro que a d\u00e1 como as<br \/>\npobres criaturas que com ele a v\u00e3o procurar.<\/p>\n<p>Sanin come\u00e7ou a falar dos feiti\u00e7os dos outros, lembrou-se dos<br \/>\nseus aos bocados, e em pouco, com a esperan\u00e7a de ganhar mais, fazia-me<br \/>\nrevela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cada feiticeiro tem feiti\u00e7os pr\u00f3prios. Abubaca Caolho, o alco\u00f3lico<br \/>\nda rua do Resende, tem o ib\u00e1, cuia com pimenta-da-costa e ervas para<br \/>\nfazer mal. Quando se fala do ib\u00e1, diz-se simplesmente: o feiti\u00e7o<br \/>\ndo Abubaca. Gia, cabe\u00e7a de pato com lesmas e o cabelo da pessoa, \u00e9<br \/>\numa descoberta de Oj\u00f4 e serve para enlouquecer. Quem quer enlouquecer<br \/>\no pr\u00f3ximo, arranja ou falsifica a obra de Oj\u00f4.<\/p>\n<p>&#8211; Mas Baba Sanin, como \u00e9 que sabe tudo isso?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, n\u00e3o aprendi? Eu sei tudo.<\/p>\n<p>E como sabe tudo, d\u00e1-me receitas. Fico sabendo, sem pasmo, sentado<br \/>\nnuma cadeira, que giba de camelo com corpo de macaco e um cabrito preto em<br \/>\nervas matam a gente e que esta descoberta \u00e9 do celebrado Jo\u00e3o<br \/>\nAlab\u00e1, negro rico e sabich\u00e3o da rua Bar\u00e3o de S. F\u00e9lix,<br \/>\n76. N\u00e3o \u00e9 tudo. Sanin faz-me vagarosamente dar a volta ao armaz\u00e9m<br \/>\ndo feiti\u00e7o. Eu tomo notas curiosas dessa medicina moral e f\u00edsica.<\/p>\n<p>Para matar, ainda h\u00e1 outros processos. O malandr\u00e3o Bonif\u00e1cio<br \/>\nda Piedade acaba um cidad\u00e3o pacato apenas com cuspo, sobejos e treze<br \/>\nora\u00e7\u00f5es; Jo\u00e3o Alab\u00e1 conseguir\u00e1 matar a<br \/>\ncidade com um porco, um carneiro, um bode, um galo preto, um jaboti e a roupa<br \/>\ndas criaturas, auxiliado apenas por dois negros nus com o tessub\u00e1,<br \/>\nros\u00e1rio, na m\u00e3o, \u00e0 hora da meia-noite; pipocas, bra\u00e7o<br \/>\nde menino, pimenta-malagueta e p\u00e9-de-anjo arrancados ao cemit\u00e9rio<br \/>\nmatam em tr\u00eas dias; dois jabotis e dois caramujos, dois abis, dois orob\u00f3s<br \/>\ne terra de defunto sob sete ora\u00e7\u00f5es que demorem sete minutos<br \/>\nchamando sete vezes a pessoa, \u00e9 a receita do Em\u00eddio para expedir<br \/>\ndesta vida os inimigos..<\/p>\n<p>H\u00e1 feiti\u00e7os para tudo. Sobejo de cavalo com ervas e duas ora\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsegundo Aluf\u00e1 Ginja, produz ataques hist\u00e9ricos; um par de meias<br \/>\ncom o rastro da pessoa, ervas e duas ora\u00e7\u00f5es, tudo dentro de<br \/>\numa garrafa, f\u00e1-la perder a tramontana; cabelo de defunto, unhas, pimenta-da-costa<br \/>\ne ervas obrigam o indiv\u00edduo a suicidar-se; cabe\u00e7as de cobras<br \/>\ne de c\u00e1gado, terra do cemit\u00e9rio e caramujos atrasam a vida tal<br \/>\nqual como os pombos com ervas daninhas, e n\u00e3o h\u00e1 como pombas<br \/>\npara fazer um homem andar para tr\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas para dar sorte, caro tio?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 m\u00e3o de anjo roubada ao cemit\u00e9rio em dia de sexta-feira.<\/p>\n<p>&#8211; E para tornar um homem ladr\u00e3o, por exemplo?<\/p>\n<p>&#8211; Um rato, cabe\u00e7a de gato, ervas, o nome da pessoa e ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; E para fazer um casal brigar?<\/p>\n<p>&#8211; Cabe\u00e7a de macaco, aranha e uma faca nova.<\/p>\n<p>&#8211; E para amarr\u00e1-los por toda a vida?<\/p>\n<p>O negro pensou, olhando-me fixamente:<\/p>\n<p>&#8211; Um obi, um orob\u00f4, unhas dos p\u00e9s e das m\u00e3os, pestanas<br \/>\ne lesmas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tudo isso?<\/p>\n<p>&#8211; Preparado por mim.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Sanin fala-me dos seus feiti\u00e7os. Sanin \u00e9 poeta<br \/>\ne \u00e9 fantasista.<\/p>\n<p>Sob a depend\u00eancia de Oj\u00f4, quase seu escravo, esse negro forte,<br \/>\nde quarenta anos, trouxe do centro da \u00c1frica a capacidade po\u00e9tica<br \/>\ndaquela gente de miolos torrados, as \u00faltimas novidades da fantasia<br \/>\nfeiticeira. Para conquistar, Sanin tem um breve, que se p\u00f5e ao pesco\u00e7o.<br \/>\nO breve cont\u00e9m dois tiras, uma cabe\u00e7a de pav\u00e3o e um colibri<br \/>\ntudo colorido e brilhante; para amar eternamente, cabe\u00e7as de rola em<br \/>\nsaquinhos de veludo; para apagar a saudade, pedras roxas do mar.<\/p>\n<p>Quando lhe pagam para que torne um homem judeu errante, o preto prepara cabe\u00e7as<br \/>\nde coelho, a presteza assustada; pombos pretos, a dor; ervas do campo, e enterra<br \/>\nem frente \u00e0 porta do novo Ashaverus; quando pretende prender para sempre<br \/>\numa mulher, faz um breve de ess\u00eancias que o apaixonado sacode ao avist\u00e1-la.<br \/>\nSanin \u00e9 tamb\u00e9m mau &#8211; mas de maneira interessante.<\/p>\n<p>Os seus trabalhos de morte s\u00e3o os mais dif\u00edceis. Sanin ao meio-dia<br \/>\nlevanta no terreiro uma vara e reza. Pouco tempo depois sai da vara um maribondo<br \/>\ne o maribondo parte, vai procurar a v\u00edtima, e n\u00e3o p\u00e1ra<br \/>\nenquanto n\u00e3o lhe inocula a morte.<\/p>\n<p>O maribondo \u00e9 vulgar \u00e0 vista do boto vivo metido dentro de<br \/>\numa caveira humana; em presen\u00e7a do feiti\u00e7o do morcego, a asa<br \/>\nque ro\u00e7a e mata, a raposa e o len\u00e7o, e eu o fui encontrar pondo<br \/>\nem execu\u00e7\u00e3o o maior feiti\u00e7o: baiacu de espinho com ovo<br \/>\nde jacar\u00e9 &#8211; que \u00e9 o babala\u00f4 da \u00e1gua, baiacu que<br \/>\nfaz secar e inchar \u00e0 vontade das rezas e domina as almas para todo<br \/>\no sempre.<\/p>\n<p>Mas por que voc\u00ea, um homem t\u00e3o poderoso, n\u00e3o me queria<br \/>\nreceber?<\/p>\n<p>&#8211; Por que andam a falar de n\u00f3s, porque a pol\u00edcia vem a\u00ed.<br \/>\nFizemos outro dia at\u00e9 um despacho no campo de Santana com os dentes,<br \/>\nos olhos de um carneiro, jabotis, ervas e duas ora\u00e7\u00f5es para<br \/>\nquem fala de n\u00f3s deixar de falar.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que um carneiro?<\/p>\n<p>&#8211; Porque o carneiro morre calado. Foi o Ant\u00f4nio Mina quem fez o despacho<br \/>\ne todos n\u00f3s rezamos de bru\u00e7os e todos n\u00f3s demos para<br \/>\no despacho, que custou cento e oitenta e tr\u00eas mil reis.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu apanhei o meu chap\u00e9u, apertei a m\u00e3o do fantasista<br \/>\nSanin.<\/p>\n<p>&#8211; Pois fez mal, Baba, fez muito mal em dar o seu dinheiro, porque quem fala<br \/>\nde voc\u00eas sou eu.<\/p>\n<p>E como o negro aterrado abrisse a boca enorme, eu abri a carteira e o convenci<br \/>\nde que todas as suas fantasias, arrancadas ao sert\u00e3o da \u00c1frica,<br \/>\nn\u00e3o valem o prazer de as vender bem.<\/p>\n<p>Dinheiro, mortes, e inf\u00e2mia as bases desse templo formid\u00e1vel<br \/>\ndo feiti\u00e7o!<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>A Igreja Positivista<\/h4>\n<p>O amor por principio<br \/>\nE a ordem por base.<br \/>\nO progresso por fim.<\/p>\n<p>Era domingo, \u00e0 porta do templo da Humanidade, na rua Benjamim Constant.<\/p>\n<p>Com o c\u00e9u luminosamente azul e o sol t\u00e9pido, havia muita concorr\u00eancia<br \/>\nnessa rua, de ordin\u00e1rio deserta: &#8211; senhoras, cavalheiros de sobrecasaca,<br \/>\nmilitares, crian\u00e7as. Uns subiam logo as escadas do templo, cuja fachada<br \/>\nrecorda um templo grego; outros mais \u00edntimos, seguiam para o fundo,<br \/>\npelo lado direito. Teixeira Mendes fazia a sua pr\u00e9dica dominical.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos ido a conversar com um velho positivista. A princ\u00edpio<br \/>\nele anunciara um profundo desprezo pela frivolidade jornal\u00edstica e<br \/>\na imprensa. Mas depois, como eu risse sem rancor, permitiu-se levar-me at\u00e9<br \/>\na Igreja e foi t\u00e3o bondoso que ali est\u00e1vamos, tagarelando de<br \/>\ncoisas superiores, enquanto ao templo continuava a afluir a onda de fardas,<br \/>\nde senhoras e de cavalheiros solenes.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel negar a influ\u00eancia positivista<br \/>\nna nossa pol\u00edtica, sobre os brasileiros cultos, ia eu dizendo, mas<br \/>\no p\u00fablico..<\/p>\n<p>&#8211; Os jornais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; o grande p\u00fablico n\u00e3o compreende e irrita-se. O meu amigo<br \/>\npode falar de Spencer, de Kant, de outros fil\u00f3sofos. Passa por erudito<br \/>\ne \u00e9 respeitado. Basta, por\u00e9m, falar de Comte para que o tomem<br \/>\npor um esquisit\u00e3o e perguntem injuriosamente se essa \u00e9 a religi\u00e3o<br \/>\nde Clotilde de Vaux.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 natural. \u00c9 a gentinha que n\u00e3o conhece o culto, adulterado<br \/>\npor esp\u00edritos an\u00e1rquicos. Mas voc\u00ea v\u00ea que os honestos<br \/>\nj\u00e1 come\u00e7am a compreender a doce religi\u00e3o que submeteu<br \/>\na intelig\u00eancia ao sentimento.<\/p>\n<p>&#8211; Tem-lhes custado.<\/p>\n<p>&#8211; O positivismo tem quarenta anos de propaganda no Brasil. Em 1864, o Dr.<br \/>\nBarreto de Arag\u00e3o publicava urna aritm\u00e9tica dando a hierarquia<br \/>\ncient\u00edfica de Comte e o Dr. Brand\u00e3o escrevia a Escravid\u00e3o<br \/>\nno Brasil. Foram esses os primeiros livros positivistas, hoje quase desconhecidos.<br \/>\nDepois \u00e9 que o positivismo come\u00e7ou a ser falado entre matem\u00e1ticos<br \/>\ne que os professores da Central e da Escola Militar deram em citar a Astronomia<br \/>\ne o primeiro volume da Filosofia.<\/p>\n<p>&#8211; Era o tempo em que se considerava a Pol\u00edtica um livro \u00edmpio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o se fizera sentir a necessidade de dispensar os servi\u00e7os<br \/>\nprovis\u00f3rios de Deus. O car\u00e1ter religioso do positivismo n\u00e3o<br \/>\nera conhecido. Isso n\u00e3o impediu que Benjamim Constant, fazendo concurso<br \/>\nna Escola Militar, declarasse ser positivista ortodoxo e republicano, e que<br \/>\no pr\u00f3prio Benjamim, com os Drs. Oliveira Guimar\u00e3es e Abreu Lima,<br \/>\nconstitu\u00edsse o n\u00facleo dos ortodoxos em 1872.<\/p>\n<p>&#8211; A influ\u00eancia foi nula&#8230; &#8211; interrompi eu, olhando uma senhora loura<br \/>\nque entrava com o catecismo encadernado em veludo verde.<\/p>\n<p>&#8211; Nada se perde. Oliveira Guimar\u00e3es deixou um disc\u00edpulo, Oscar<br \/>\nde Ara\u00fajo; Benjamim levou \u00e0s escolas a palavra religiosa do<br \/>\nmestre, regenerou o ensino da matem\u00e1tica e foi o primeiro brasileiro<br \/>\nque teve no seu quarto o retrato de Clotilde de Vaux. Os trabalhos adotados<br \/>\nna Escola Militar s\u00e3o quase todos de disc\u00edpulos seus. No meio<br \/>\ninteligente desses \u00faltimos surgiram Raimundo e Miguel Lemos; era um<br \/>\nmomento de agita\u00e7\u00e3o. Pereira Barreto publicava o 1.\u00ba volume<br \/>\nda obra As tr\u00eas filosofias, e tanto Miguel como Teixeira Mendes eram<br \/>\nlitr\u00e9istas, considerando a parte religiosa de Comte como obra de louco.<\/p>\n<p>Foi com eles que Oliveira Guimar\u00e3es fez alian\u00e7a para fundar<br \/>\na biblioteca positivista e abrir cursos cient\u00edficos.<\/p>\n<p>&#8211; Era a filosofia da Academia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sem jardins. O come\u00e7o do positivismo no Brasil \u00e9 absolutamente<br \/>\nacad\u00eamico. Em 1876 a Escola de Medicina manifestou-se com a tese Da<br \/>\nNutri\u00e7\u00e3o, de Ribeiro de Mendon\u00e7a, e a primeira sociedade<br \/>\npositivista foi feita de professores ortodoxos e de estudantes litr\u00e9istas.<\/p>\n<p>&#8211; Seria curioso saber como estes mudaram.<\/p>\n<p>&#8211; As pequenas causas t\u00eam \u00e0s vezes grandes efeitos. Uma censura<br \/>\nao diretor da escola motivou serem suspensos, por dois anos, Teixeira Mendes<br \/>\ne Miguel Lemos, que foram para a Europa; e enquanto s\u00f3, Benjamim propagava<br \/>\naqui, os dois em Paris litr\u00e9izavam. Mendes veio o mesmo, achando o<br \/>\nComte da Pol\u00edtica maluco. Miguel ficou, e l\u00e1, sponte sua, abandonou<br \/>\nLittr\u00e9 e relacionou-se com Laffite.<\/p>\n<p>&#8211; E converteu-se?<\/p>\n<p>&#8211; A 4 de julho de 1879.<\/p>\n<p>Solenemente, o meu amigo positivista apanhava sol. Levei-o com carinho para<br \/>\no jardim, onde devia florir o bosque sagrado com as sepulturas dos homens<br \/>\ndignos. N\u00e3o havia bosques, nem sepulturas. Apenas algumas \u00e1rvores.<br \/>\nO positivista acendeu o cigarro, depois de o fazer com um forte fumo Rio Novo.<br \/>\nEu perguntei pasmado:<\/p>\n<p>&#8211; Toma caf\u00e9?<\/p>\n<p>Ele riu.<\/p>\n<p>&#8211; Como toda a gente! Essa hist\u00f3ria de n\u00e3o tomar caf\u00e9<br \/>\ne n\u00e3o fumar \u00e9 apenas uma l\u00e9ria. Ent\u00e3o voc\u00ea<br \/>\npensa que Augusto Comte imaginasse, de mau, fazer o mundo deixar o caf\u00e9<br \/>\ne o fumo, s\u00f3 para arruinar o Brasil? O fato \u00e9 outro. O grande<br \/>\nfil\u00f3sofo n\u00e3o fumava nem bebia excitantes, porque lhe faziam<br \/>\nmal; Miguel Lemos, doente como \u00e9, n\u00e3o se atira a esses excessos;<br \/>\nTeixeira Mendes, um homem que reflete dezesseis horas a fio, n\u00e3o se<br \/>\npode dar aos devaneios da fuma\u00e7a&#8230; N\u00e3o h\u00e1 proibi\u00e7\u00f5es<br \/>\nformais para o horrendo v\u00edcio; h\u00e1 apenas medo&#8230;<\/p>\n<p>Puxei com vigor uma baforada.<\/p>\n<p>&#8211; A propaganda desapareceu com a estada de Miguel Lemos em Paris?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. A sociedade passou a chamar-se Sociedade Positivista do Rio<br \/>\nde Janeiro, sendo aclamado presidente o Dr. Ribeiro de Mendon\u00e7a, que<br \/>\nse filiou a Laffite:<\/p>\n<p>&#8211; Come\u00e7ou a era do lafitismo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E com excesso. Concorr\u00edamos at\u00e9 pecuniariamente para o subs\u00eddio<br \/>\nsacerdotal da igreja em Paris. Lemos influiu de tal modo sobre Teixeira Mendes,<br \/>\nque pouco tempo depois este tamb\u00e9m se convertia. Foi, ligada a Laffite,<br \/>\nque a nossa igreja iniciou as comemora\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter<br \/>\nreligioso com a festa de Cam\u00f5es em 1886; que se comemorou o 22.\u00ba<br \/>\npassamento de Comte e a festa da Humanidade; e \u00e9 dessa \u00e9poca<br \/>\nque data a primeira prociss\u00e3o c\u00edvica no Rio de Janeiro, com<br \/>\nandores e o busto de Cam\u00f5es esculpido por Almeida Reis.<\/p>\n<p>&#8211; Quando Miguel voltou, aspirante ao Apostolado, as reuni\u00f5es tornaram-se<br \/>\nregulares aos domingos, na rua do Carmo, n.0 14, e Ferreira de Ara\u00fajo<br \/>\nabriu uma se\u00e7\u00e3o na Gazeta com o t\u00edtulo Centro Positivista,<br \/>\ncujo primeiro artigo dava a teoria cient\u00edfica do calend\u00e1rio.<br \/>\nEm 1881, j\u00e1 presidente Miguel Lemos, o Centro passou para a rua Nova<br \/>\ndo Ouvidor, as exposi\u00e7\u00f5es da religi\u00e3o tornaram-se regulares,<br \/>\ne Raimundo fez no Liceu um curso do catecismo, interrompido pelas suas c\u00e9lebres<br \/>\nconfer\u00eancias de antigo litr\u00e9ista contra o sofisma de Littr\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Era a prosperidade.<\/p>\n<p>&#8211; Nesse ano, em que se comemorou a Tomada da Bastilha, Lemos foi a S\u00e3o<br \/>\nPaulo, fez nove confer\u00eancias, fundou uma filial com Ferreira Souto,<br \/>\nCarvalho de Mendon\u00e7a, Oliveira Marcondes, Godofredo Martins e Silva<br \/>\nJardim, e as interven\u00e7\u00f5es do Centro na nossa vida pol\u00edtica<br \/>\nacentuaram-se contra a imoralidade da coloniza\u00e7\u00e3o chinesa, tra\u00e7ando<br \/>\no programa do candidato positivista, protestando contra as loterias, exigindo<br \/>\no registro civil, a aboli\u00e7\u00e3o, opondo-se \u00e0s universidades&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 nesse tempo?<\/p>\n<p>&#8211; Os artigos foram publicados na Gazeta de Not\u00edcias e fizeram que<br \/>\no imperador se opusesse \u00e0 id\u00e9ia, aconselhando ao ministro que<br \/>\nreformasse o ensino por outro qualquer meio que n\u00e3o fosse as universidades.<\/p>\n<p>O meu velho amigo andou alguns passos pelo futuro bosque sagrado. Acompanhei-o.<\/p>\n<p>Ouvia-se l\u00e1 dentro o som m\u00faltiplo de uma orquestra. Raros retardat\u00e1rios<br \/>\nentravam.<\/p>\n<p>&#8211; Neste ano tamb\u00e9m, continuou com calma, uma circular instituiu o<br \/>\nsubs\u00eddio sacerdotal, o que deu lugar \u00e0 retirada de Benjamim<br \/>\nConstant, e foram conferidos os primeiros sacramentos aos filhos de Miguel<br \/>\nLemos, Teixeira Mendes e do Dr. Coelho Barreto.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje esses sacramentos s\u00e3o comuns?<\/p>\n<p>&#8211; Como os do matrim\u00f4nio, em grande n\u00famero.<\/p>\n<p>&#8211; A ruptura com Laffite deu-se logo depois?<\/p>\n<p>&#8211; Em 1883. Lemos ficou o \u00fanico respons\u00e1vel do positivismo no<br \/>\nBrasil, continuando a ingerir-se na vida p\u00fablica da sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>&#8211; Mas este templo como foi feito?<\/p>\n<p>&#8211; O Apostolado deixou a sede da rua Nova do Ouvidor para a rua do Lavradio.<br \/>\nA mudan\u00e7a determinou o lan\u00e7amento de um empr\u00e9stimo em<br \/>\n1891 para a constru\u00e7\u00e3o do templo, no que muito concorreram Pereira<br \/>\nReis, Otero, Rufino de Almeida, D\u00e9cio Vilares. A inaugura\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoi em 1894, e a igreja custou 250 contos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 mais uma prova da import\u00e2ncia do Centro no regime republicano.<\/p>\n<p>&#8211; A nossa interven\u00e7\u00e3o no in\u00edcio da Rep\u00fablica<br \/>\nfoi de primeira ordem. Basta citar a Bandeira Nacional, a separa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Igreja do Estado, a liberdade dos professores, a reforma do c\u00f3digo<br \/>\nno caso da tutela de filhos menores.<\/p>\n<p>&#8211; O Centro tamb\u00e9m tem uma casa em Paris?<\/p>\n<p>O semblante do positivista anuviou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, a casa em que morreu Clotilde. Foi comprada por 70 mil francos. \u00c9<br \/>\ntriste. Em Paris n\u00e3o estavam preparados para compreender Teixeira Mendes.<br \/>\nEra tarde para a campanha&#8230; Mas venha ver a nossa tipografia.<\/p>\n<p>Caminhamos com intimidade pela avenida estreita. De vez em quando ouvia-se<br \/>\no som de uma voz acre. Era a pr\u00e9dica.<\/p>\n<p>A tipografia fica embaixo, correspondendo a toda a extens\u00e3o da nave<br \/>\nem cima. \u00c9 completa. Pergunto respeitoso o n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es<br \/>\ndessa oficina.<\/p>\n<p>&#8211; As obras de maior valor s\u00e3o o Ano sem Par, a Biografia de Benjamim<br \/>\nConstant, a Visita aos Lugares Santos do Positivismo, a Qu\u00edmica Positiva,<br \/>\nas \u00daltimas Concep\u00e7\u00f5es de A. Comte (onde se acha a teoria<br \/>\ndos n\u00fameros sagrados), todas obras de Raimundo Mendes. A publica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde folhetos \u00e9 talvez superior a 600.<\/p>\n<p>&#8211; Mas os subescritores s\u00e3o muitos?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o suficientes. A Igreja do Brasil tem recebido tamb\u00e9m aux\u00edlios<br \/>\nde Londres.<\/p>\n<p>O pavimento embaixo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ocupado pela tipografia.<br \/>\nH\u00e1 tamb\u00e9m o gabinete luxuoso de Miguel Lemos e a sala Daniel<br \/>\nEncontre, onde Teixeira Mendes exp\u00f5e aos jovens disc\u00edpulos da<br \/>\nhumanidade, e a quem quiser ouvi-lo, as sete ci\u00eancias. Ouvem-no lentes<br \/>\nde academias e professores not\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 grande o n\u00famero de positivistas?<\/p>\n<p>&#8211; No Brasil os ortodoxos devem ser uns 700. Os simp\u00e1ticos n\u00e3o<br \/>\nse podem mais contar. As gera\u00e7\u00f5es que saem da nossa Escola Militar<br \/>\ns\u00e3o quase que compostas de simp\u00e1ticos.<\/p>\n<p>&#8211; E a influ\u00eancia moral aumenta?<\/p>\n<p>O positivista confessou com tristeza.<\/p>\n<p>&#8211; Vai-se tornando fraca. N\u00e3o se admire. Ser\u00e1 por fraqueza dos<br \/>\nap\u00f3stolos? Ser\u00e1 porque o p\u00fablico se afasta da realidade,<br \/>\ncorrompido moralmente? O fato \u00e9 patente. Ainda h\u00e1 pouco o privil\u00e9gio<br \/>\nfuner\u00e1rio foi uma campanha perdida&#8230; Mas entremos.<\/p>\n<p>Com o chap\u00e9u na m\u00e3o, n\u00f3s entramos. Havia luxo e conforto.<br \/>\nDe um lado a secret\u00e1ria, onde se vendem as obras editadas pela igreja,<br \/>\nde outro, a sala onde est\u00e1 a escada para o coro, com orquestra e uma<br \/>\nrica biblioteca de carvalho lavrada. Degraus atapetados d\u00e3o acesso<br \/>\n\u00e0 nave.<\/p>\n<p>O templo da humanidade \u00e9 lindo. Ao alto, junto ao teto correm janelas<br \/>\nque arejam o ambiente. Todo pintado de verde-mar, est\u00e1-se dentro como<br \/>\nnum suave banho de esperan\u00e7a. Sentam-se os homens na nave, que tem<br \/>\ncatorze capelas; &#8211; colunas de pau negro sustentando em portais abertos bustos<br \/>\nesculturados por D\u00e9cio Vilares. Os bustos representam os meses do calend\u00e1rio:<br \/>\nMois\u00e9s ou Teocracia inicial, Homero, Arist\u00f3teles, Arquimedes<br \/>\nou a poesia, filosofia e a ci\u00eancia antiga; C\u00e9sar ou a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nmilitar; S\u00e3o Paulo, ou o catolicismo; Carlos Magno ou a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nfeudal: Dante, Gutenberg, Shakespeare, Descartes, Frederico Bichat, ou a epop\u00e9ia,<br \/>\na ind\u00fastria, o drama, a filosofia, a pol\u00edtica, a ci\u00eancia<br \/>\nmoderna, e Heloisa, a santa entre as santas, que fica na \u00faltima capela,<br \/>\nvoltando o seu semblante magoado para a porta.<\/p>\n<p>Na capela-mor, rica de tapetes e de madeiras esculpidas, h\u00e1 uma c\u00e1tedra,<br \/>\nonde se senta Teixeira Mendes com as vestes sacerdotais negras debruadas de<br \/>\nverde. Por tr\u00e1s fica um busto de bronze de A. Comte, e, dominando toda<br \/>\na sala, o quadro de carvalho lavrado com letras de ouro, de onde surge a figura<br \/>\ndelicada de Clotilde, a humanidade simbolizada por D\u00e9cio numa das suas<br \/>\nmir\u00edficas atmosferas sonhadoras.<\/p>\n<p>A voz de Raimundo corre com a continuidade de uma queda de \u00e1guas;<br \/>\nna nave cheia cintilam gal\u00f5es e lunetas graves; na capela-mor, senhoras<br \/>\nouvem com aten\u00e7\u00e3o essa palavra, que n\u00e3o deixa de ser<br \/>\ndemolidora.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 positivismo? sussurro eu, sentando-me.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma religi\u00e3o que respeita as religi\u00f5es passadas<br \/>\ne substitui a revela\u00e7\u00e3o pela demonstra\u00e7\u00e3o. Nasceu<br \/>\nda ruptura do catolicismo e da evolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do<br \/>\ns\u00e9culo XVII para c\u00e1. De Maistre dizia que o catolicismo ia passar<br \/>\npor muitas transforma\u00e7\u00f5es para ligar a ci\u00eancia a religi\u00e3o.<br \/>\nComte descobriu a lei dos tr\u00eas estados, a chave da sociologia, e quando<br \/>\nera o grande<\/p>\n<p>fil\u00f3sofo, Clotilde apareceu e ensinou que a intelig\u00eancia \u00e9<br \/>\napenas o ministro do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agir por afei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nPensar para agir.<\/p>\n<p>Comte proclamou que o homem e a mulher se completam sob o tr\u00edplice<br \/>\naspecto: sentimento, intelig\u00eancia e atividade. A religi\u00e3o divide-se<br \/>\nem Culto, Dogma e Regime, o que vem a ser bem amar, bem conhecer e bem servir<br \/>\na humanidade, o Grande Ser, o conjunto das gera\u00e7\u00f5es passadas<br \/>\ne futuras pela gera\u00e7\u00e3o presente. A exist\u00eancia do Grande<br \/>\nSer est\u00e1 ligada \u00e0 terra, o Grande-Fetiche, e ao espa\u00e7o,<br \/>\no Grande Meio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas quantas senhoras!<\/p>\n<p>&#8211; As mulheres devem amar o positivismo. Comte dignificou-as. A mulher \u00e9<br \/>\na for\u00e7a moderadora, o sentimento puro do amor que faz a sociabilidade,<br \/>\n\u00e9 a sacerdotiza espont\u00e2nea da Humanidade que modifica pela afei\u00e7\u00e3o<br \/>\no orgulho v\u00e3o e o reino da for\u00e7a: a mulher \u00e9 a humildade,<br \/>\no fogo do culto no lar, \u00e9 Beatriz, \u00e9 Clotilde, \u00e9 Heloisa,<br \/>\nm\u00e3e, esposa e filha, a Venera\u00e7\u00e3o, a Do\u00e7ura e o<br \/>\nBem. As mulheres deviam ser todas positivistas.<\/p>\n<p>Enquanto o meu amigo assim falava, Raimundo Mendes, do alto da c\u00e1tedra,<br \/>\nrelampejava. Na catadupa das palavras faltavam rr, havia repeti\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo pensamento, de frases, mas na explica\u00e7\u00e3o cultual, de repente,<br \/>\ninconoclastamente, o azorrague partia contra os fatos, contra a anarquia atual:<br \/>\ne um esto de amor, de amor indiz\u00edvel, de amor pela Vida, subia, como<br \/>\num incens\u00f3rio, \u00e0 alma das mulheres.<\/p>\n<p>Fiquei enlevado a ouvi-lo. Esse mesmo homem, puro como um cristal, que tem<br \/>\no saber nas m\u00e3os, eu j\u00e1 o vira uma vez, de manh\u00e3, carregando<br \/>\ncom dignidade um embrulho de carv\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>As mulheres sorriam; em toda a transl\u00facida claridade parecia vibrar<br \/>\na alma do grande fil\u00f3sofo terno e bom, e do alto, Clotilde, a Humanidade,<br \/>\nabria como um l\u00edrio a gra\u00e7a suave do seu l\u00e1bio.<\/p>\n<h4><a name=\"7\"><\/a>Os Maronitas<\/h4>\n<p>O povo maronita, dizia o papa Benedito, \u00e9 como uma flor entre os espinhos.<br \/>\nSe o pont\u00edfice not\u00e1vel tinha esta doce frase para pintar os<br \/>\nhomens do monte L\u00edbano, os que lhe sucederam guardaram t\u00e3o perfumada<br \/>\nimagem, e hoje, quando se fala dos maronitas, logo se recorda a flor e os<br \/>\nespinhos antigos. Tudo, por\u00e9m, neste mundo tem o vinco fatal do destino.<br \/>\nA frase dos papas tornou-se prof\u00e9tica e atrav\u00e9s da vida imensa,<br \/>\nos de Marun continuam a perfumar a cren\u00e7a impoluta entre os espinhos<br \/>\ndas hostilidades.<\/p>\n<p>Os maronitas, gente extremamente religiosa, habitam a S\u00edria e descendem<br \/>\ndos Aramilas, filhos de Aram, de Sem, de No\u00e9.<\/p>\n<p>Ascend\u00eancia t\u00e3o digna de respeito s\u00f3 os preparou para<br \/>\num longo e pungente sofrer. Desde os tempos dos Ap\u00f3stolos, dizem os<br \/>\nAtos no vers\u00edculo 22 do cap\u00edtulo XV, eram crist\u00e3os, conservando<br \/>\na f\u00e9 ortodoxa havida do pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos no ano<br \/>\n38 da era de Jesus Cristo. Quando no quarto s\u00e9culo come\u00e7aram<br \/>\na aparecer no Oriente as heresias e as doutrinas falsas, protegidas pelos<br \/>\nsoberanos coroados de pedrarias, impostas pelas armas, e a f\u00e9 e a soberania<br \/>\nao mesmo tempo vacilavam, S. Marun, chefe dos eremitas da S\u00edria, saiu<br \/>\nde sua toca de cil\u00edcios e ora\u00e7\u00f5es e veio salv\u00e1-los.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 esse homem de grandes barbas, meio roto? indagavam os homens,<br \/>\nvendo a figura ressurgida do santo sem pecado.<\/p>\n<p>S. Marun n\u00e3o respondia; seguia pelas estradas cheias de sol, na atmosfera<br \/>\nde milagre do azul sem mancha, e pregava a doutrina pura, exortava o povo<br \/>\na conservar a sua verdadeira f\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Acredita sempre em Deus, tal qual te ensinaram os Ap\u00f3stolos, e conservar\u00e1s<br \/>\na tua liberdade!<\/p>\n<p>A gente, que dos seus l\u00e1bios ouvia as palavras ungidas pela medita\u00e7\u00e3o<br \/>\ncont\u00ednua, seguia num novo esplendor de cren\u00e7a, em cada cora\u00e7\u00e3o<br \/>\na esperan\u00e7a brotava, e em pouco tempo o povo da prov\u00edncia do<br \/>\nmonte L\u00edbano era chamado maronita. Os heresiarcas quiseram caluni\u00e1-lo,<br \/>\nmas Marun era puro como o cristal. S. Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, o boca-d&#8217;oiro,<br \/>\nna carta que lhe escrevia, rogava que por ele orasse, e a ironia como a cal\u00fania<br \/>\nfenderam-se de encontro ao seu broquel de bondade.<\/p>\n<p>Quando a sua alma irradiou, deixando o inv\u00f3lucro terreno, o povo maronita<br \/>\ntinha inabal\u00e1vel a cren\u00e7a para suportar todas as sangrentas<br \/>\npersegui\u00e7\u00f5es, e tem sido desde ent\u00e3o o mesmo ordeiro<br \/>\ne persistente auxiliar da obra divina.<\/p>\n<p>Durante as cruzadas combateu ao lado dos crist\u00e3os contra os \u00edmpios.<br \/>\nAo aproximarem-se os ex\u00e9rcitos, desciam da montanha, alimentavam e<br \/>\nvestiam os cruzados nus e com fome. Sempre que os turcos entravam sedentos<br \/>\nde sangue pelo seu territ\u00f3rio, sofriam como m\u00e1rtires o sacrif\u00edcio<br \/>\nsem protestar. O \u00f3dio do Maometano seguia-os, entretanto, na vida simples<br \/>\ne indolente dos mosteiros. Em 1860 os druzos, povo pag\u00e3o e feroz, recordando<br \/>\nvelhos \u00f3dios religiosos, atiraram-se subitamente sobre os pobres maronitas,<br \/>\ntra\u00eddos e abandonados.<\/p>\n<p>A carnificina foi horrenda. A Fran\u00e7a ent\u00e3o, sempre benevolente<br \/>\npara os crist\u00e3os do Oriente, mandou uma esquadra \u00e0s \u00e1guas<br \/>\ndo Levante, for\u00e7ando o Turco a modificar o governo do L\u00edbano<br \/>\ne a dar-lhe uma certa autonomia. Desde essa \u00e9poca o governo \u00e9<br \/>\ncrist\u00e3o nomeado pelas sete grandes pot\u00eancias europ\u00e9ias,<br \/>\na c\u00e2mara dos representantes faz-se por elei\u00e7\u00e3o livre e<br \/>\no chefe da policia deve ser crist\u00e3o. O chefe da pol\u00edcia em todos<br \/>\nos povos do Oriente representa um papel formid\u00e1vel.<\/p>\n<p>Extremamente religiosos, os maronitas dependem civil, militar e religiosamente,<br \/>\nem qualquer parte em que se achem, dos sacerdotes, e a hierarquia da sua igreja<br \/>\ncomp\u00f5e-se de um prelado, com o t\u00edtulo de Patriarca de Anti\u00f3quia<br \/>\ne de todo o Oriente, de doze bispos diretores de doze dioceses e de um n\u00famero<br \/>\ninfind\u00e1vel de sacerdotes inteligentes e bons.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, entretanto, espalhou pelo mundo<br \/>\na flor pontif\u00edcia. A imigra\u00e7\u00e3o esvazia aos poucos o L\u00edbano.<br \/>\nN\u00e3o se pode viver com farturas em terras t\u00e3o antigas, as autoridades<br \/>\nconservam a influ\u00eancia aterradora do Sult\u00e3o. Os que primeiro<br \/>\nsa\u00edram, com os ortodoxos e outros crentes de Jesus, escreveram chamando<br \/>\nos que ficavam, a perspic\u00e1cia maometana facilitou a emigra\u00e7\u00e3o<br \/>\npara enfraquecer os libertos da sua prepot\u00eancia e os maronitas v\u00eam<br \/>\npara os Estados Unidos, para a Argen\u00fana, para o Brasil, num lento \u00eaxodo&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s temos uma consider\u00e1vel p\u00e9tala da celebrada flor.<br \/>\nUma das nossas maiores col\u00f4nias hoje \u00e9 incontestavelmente a col\u00f4nia<br \/>\ns\u00edria. H\u00e1 oitenta mil s\u00edrios no Brasil, dos quais cinq\u00fcenta<br \/>\nmil maronitas. S\u00f3 o Rio de Janeiro possui para mais de cinco mil.<\/p>\n<p>Quando os primeiros apareceram aqui, h\u00e1 cerca de vinte anos, o povo<br \/>\njulgava-os antrop\u00f3fagos, hostilizava-os e na prov\u00edncia muitos<br \/>\nfugiram corridos \u00e0 pedra. At\u00e9 hoje quase ningu\u00e9m os separa<br \/>\ndesse qualificativo geral e deprimente de turcos. Eles, todos os que aparecem,<br \/>\ns\u00e3o turcos!<\/p>\n<p>Os s\u00edrios, arrastados na sua imensa necessidade de amizade e amparo,<br \/>\ndavam com a muralha de uma l\u00edngua estranha, num pa\u00eds que os<br \/>\nn\u00e3o suportava. Agremiaram-se, fizeram vida \u00e0 parte e, como a<br \/>\ncol\u00f4nia aumentava, foram por a\u00ed, mascates a cr\u00e9dito, fiando<br \/>\na toda a gente, montaram botequins, armarinhos, fizeram-se negociantes. Quem<br \/>\nos amparou? Ningu\u00e9m! S\u00f3, por um acaso, Ferreira de Ara\u00fajo,<br \/>\no Mestre admir\u00e1vel, escreveu defendendo-os. Os sacerdotes maronitas<br \/>\nrespeitam-lhe a mem\u00f3ria, e na data da sua morte rezam-lhe missas por<br \/>\nalma, guardando delicadamente uma gratid\u00e3o duradoura.<\/p>\n<p>No mais, a hostilidade, os espinhos da frase papal.<\/p>\n<p>H\u00e1 nessa gente oper\u00e1rios h\u00e1beis, m\u00e9dicos, doutores,<br \/>\nhomens instru\u00eddos que discutem com clareza quest\u00f5es de pol\u00edtica<br \/>\ninternacional, jornalistas e at\u00e9 oradores. A vida \u00e9 dura, por\u00e9m;<br \/>\njornalistas e doutores vendem alfinetes e linhas em casas pouco claras da<br \/>\nrua da Alf\u00e2ndega, do Senhor dos Passos, do N\u00fancio e dos sub\u00farbios.<br \/>\nA totalidade ainda ignora o portugu\u00eas!<\/p>\n<p>Conversei com alguns maronitas, sempre de uma amabilidade penetrante. Um<br \/>\ndeles, dando-me a satisfa\u00e7\u00e3o da sua prosa torrencial, falou<br \/>\ncomo um estrategista da guerra russo-japonesa. Esse homem n\u00e3o falava,<br \/>\nredigia um artigo de jornal com a ret\u00f3rica empolada que fez a del\u00edcia<br \/>\ndos nossos pais e ainda hoje \u00e9 a for\u00e7a do jornalismo dogm\u00e1tico.<br \/>\nEu ouvia-o de l\u00e1bios entreabertos.<\/p>\n<p>&#8211; Se a justi\u00e7a de Deus n\u00e3o desapareceu, se a vida humana decorre<br \/>\ndos desejos da divindade, \u00e9 poss\u00edvel crer que os japoneses possam<br \/>\nvencer?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! n\u00e3o!<\/p>\n<p>Eu respondera, como no teatro, mas estava interessado por esses organismos<br \/>\nsimples, criados na chama de uma cren\u00e7a inabal\u00e1vel, desses rom\u00e2nticos<br \/>\ndo Oriente.<\/p>\n<p>Todos s\u00e3o feitos de exagero, de entusiasmo, de amor e de ilus\u00e3o.<br \/>\nOs dois jornais s\u00edrios t\u00eam os t\u00edtulos simb\u00f3licos<br \/>\ne extremos: &#8211; A Justi\u00e7a, A Raz\u00e3o. Os homens naturalmente perdem<br \/>\no limite do natural. Numa outra casa em que sou recebido, um gordo cavalheiro<br \/>\npreocupa-se com o problema da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; A coloniza\u00e7\u00e3o s\u00edria, diz, \u00e9 a melhor para o<br \/>\nBrasil. Os brasileiros ainda n\u00e3o a compreenderam. O s\u00edrio n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 s\u00f3 o comerciante, \u00e9 tamb\u00e9m agricultor, oper\u00e1rio.<br \/>\nDesprezam-nos? Este pa\u00eds n\u00e3o v\u00ea que conosco, povo tranq\u00fcilo<br \/>\ne d\u00f3cil, n\u00e3o poderia haver complica\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas?<br \/>\nOs espanh\u00f3is, os portugueses, os italianos enriquecem, partem, pedem<br \/>\nindeniza\u00e7\u00f5es. N\u00f3s, pobres de n\u00f3s! n\u00e3o pedimos<br \/>\nnada, queremos ser apenas do Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondo. Talvez bem cedo os s\u00edrios sejam assimilados \u00e0<br \/>\nfam\u00edlia heterog\u00eanea da nossa p\u00e1tria. Estas criaturas t\u00eam<br \/>\nqualidades muito parecidas com as dos brasileiros.<\/p>\n<p>V\u00e1rios negociantes que comigo discutem, porque os s\u00edrios discutem<br \/>\nsempre, s\u00e3o como jornais ret\u00f3ricos e brandos; diziam naturalmente:<\/p>\n<p>&#8211; No Amazonas perdi h\u00e1 pouco 400 contos. A col\u00f4nia s\u00edria<br \/>\nteve na baixa do caf\u00e9 um preju\u00edzo de 70 mil contos. As \u00faltimas<br \/>\nremessas de fazendas elevam-se a 200 contos.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio eu os acreditei um bando de Vanderbilts, falando com desprendimento<br \/>\ndo ouro e das riquezas. Mas n\u00e3o. Um sacerdote amigo nos desfaz o sonho.<br \/>\nH\u00e1 fortunas restritas. A totalidade por\u00e9m tem rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom o alto com\u00e9rcio, compra a cr\u00e9dito para vender a cr\u00e9dito<br \/>\naos mercadores ambulantes do interior e \u00e0s vezes a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomplica-se, quando lhes falta o pagamento dos \u00faltimos, tudo por causa<br \/>\ndo exagero, a mania de aparentar riqueza. Cada c\u00e9rebro oriental tem<br \/>\num Potosi nas circunvolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Os s\u00edrios chegam, ganham dois mil r\u00e9is por dia e j\u00e1<br \/>\nest\u00e3o contentes. Nunca ser\u00e3o verdadeiramente ricos, porque aparentam<br \/>\nter oito quando apenas t\u00eam dois.<\/p>\n<p>Este feitio os h\u00e1 de fazer compreendidos dos brasileiros.<\/p>\n<p>Mas os maronitas, sob a prote\u00e7\u00e3o do velho santo austero, s\u00e3o<br \/>\nessencialmente bons, de uma bondade \u00e0 flor da pele, que se desfaz em<br \/>\ngentilezas ao primeiro contacto com um bombom. Os homens falam sempre, as<br \/>\nmulheres olham com os seus l\u00edquidos olhos insond\u00e1veis e por<br \/>\ntodas essas casas, h\u00e1, insepar\u00e1vel da vida, o mist\u00e9rio<br \/>\nda religi\u00e3o, no amor que as mulheres, algumas inefavelmente belas,<br \/>\nproporcionam, nos neg\u00f3cios, nas id\u00e9ias e nas refei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nQuando um maronita enferma, a primeira coisa que faz \u00e9 chamar um padre<br \/>\npara se confessar; quando um neg\u00f3cio vai mal, aconselha-se com o sacerdote,<br \/>\ns\u00f3 casa pelo seu rito, o \u00fanico verdadeiro, e trabalhando para<br \/>\nviver, funda irmandades, col\u00e9gios e pensa em edificar capelas.<\/p>\n<p>De 1900 data a funda\u00e7\u00e3o da Irmandade Maronita, posterior a<br \/>\noutras duas que se desfizeram. Foram s\u00f3cios fundadores: Dieb Aical,<br \/>\nArsanius Mandur Galep Toyam, Seba Preod Curi, Miguel Carmo, Acle Miguel, Jo\u00e3o<br \/>\nFacad, Antonio Nicob\u00e1, Antonio Kairur, Bichara Bueri, Gabriel Ranie,<br \/>\nSalbab, Jos\u00e9 Chalhub e Bichara Duer. Brevemente abrir\u00e1 as suas<br \/>\nportas o col\u00e9gio dos Jovens S\u00edrios.<\/p>\n<p>Apesar da permiss\u00e3o para dizer missa em todas as igrejas cat\u00f3licas<br \/>\ne de celebrarem aos domingos na Sa\u00fade e em Cascadura, j\u00e1 compraram<br \/>\no terreno na rua do Senhor dos Passos para edificar a capela maronita, e a<br \/>\npropaganda se faz mesmo entre os s\u00edrios ortodoxos e maometanos, porque<br \/>\numa ordem do Papa lhes indica que pela bondade fa\u00e7am voltar \u00e0<br \/>\ncren\u00e7a \u00fanica as ovelhas tresmalhadas.<\/p>\n<p>Atualmente h\u00e1 tr\u00eas padres maronitas em S\u00e3o Paulo e quatro<br \/>\nno Rio, os Revs. Pedro Abigaedi, Pedro Zaghi, Luiz Trah e Luiz Chediak. Andam<br \/>\ntodos de barba cerrada, usam \u00f3culos e s\u00e3o suavemente eruditos.<br \/>\nTrah, por exemplo, esteve oito anos na B\u00e9lgica e discursa como um regato<br \/>\ntranq\u00fcilo; Chediak \u00e9 professor, e cada palavra sua vem repassada<br \/>\nde do\u00e7ura. \u00c9 sabido que a reconcilia\u00e7\u00e3o dos maronitas<br \/>\ncom a igreja romana data de 1182. A reconcilia\u00e7\u00e3o foi incompleta<br \/>\na princ\u00edpio, mas hoje \u00e9 quase integral. Os padres, podendo casar,<br \/>\nabandonam essa id\u00e9ia; h\u00e1 o maior respeito pelo Sumo Pont\u00edfice,<br \/>\ne a pol\u00edtica do Vaticano consegue aos poucos outras reformas.<\/p>\n<p>Como os padres me levassem a ver o terreno donde a igreja maronita surgir\u00e1,<br \/>\ninterroguei-os a respeito do rito da sua seita.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 quase id\u00eantico ao romano, dizem-me. A liturgia \u00e9<br \/>\nredigida em sir\u00edaco. \u00c9 uma necessidade. H\u00e1 s\u00edrios<br \/>\nque sabem de cor o sacrif\u00edcio da missa. Talvez o mesmo n\u00e3o aconte\u00e7a<br \/>\nnuma igreja romana, que conserva o latim.<\/p>\n<p>&#8211; A come\u00e7ar pelos sacrist\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 al\u00e9m disso as missas privadas, a regra \u00e9 a de Santo<br \/>\nAnt\u00f4nio e seguimos o martirol\u00f3gio de S. Marun.<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que os maronitas foram a princ\u00edpio monotelistas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Dizem tanta coisa no mundo!<\/p>\n<p>Eles tinham parado diante de uns velhos muros.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 aqui a igreja?<\/p>\n<p>&#8211; Querendo Deus!<\/p>\n<p>E n\u00e3o sei porque, vendo-os t\u00e3o simples diante das paredes carcomidas,<br \/>\nesses sacerdotes de um povo religiosamente bom, eu recordei a frase prof\u00e9tica<br \/>\ndos papas. O povo maronita \u00e9 como uma flor entre espinhos, mas uma<br \/>\nflor cujo vi\u00e7o \u00e9 eterno. Os espinhos continuam persistentes<br \/>\nmas a velha flor espalha-se pelo mundo, recendendo a mais doce ternura e a<br \/>\nmais profunda cren\u00e7a&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"8\"><\/a>Os Fisi\u00f3latras<\/h4>\n<p>Quando resolvi interrogar o hierofante Magnus Sondhal, sabia da fisiolatria<br \/>\no que os pros\u00e9litos deixavam entrever em artigos de jornal cheios de<br \/>\nnomes arrevezados e nos comunicados, nos copiosos comunicados trazidos aos<br \/>\ndi\u00e1rios por homens apressados e radiantes. Pelos artigos ficara imaginando<br \/>\na fisiolatria um conjunto de positivismo, ocultismo e socialismo; pelos comunicados<br \/>\nvira que os fisi\u00f3latras, quase todos doutores, criavam cooperativas<br \/>\ne academias. Entretanto o Sr. Magnus Sondhal certa vez \u00e0 porta de um<br \/>\ncaf\u00e9 definira para meu espanto a sua religi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; A fisiolatria n\u00e3o \u00e9 um culto no sentido vulgar da palavra,<br \/>\nmas uma verdadeira cultura mental. \u00c9, antes, a sistematiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nracional do processo espont\u00e2neo da educa\u00e7\u00e3o dos seres<br \/>\nvivos, donde resultaram todas as aptid\u00f5es, mesmo f\u00edsicas e fisiol\u00f3gicas,<br \/>\nrespectivamente adquiridas.<\/p>\n<p>Pus as m\u00e3os na cabe\u00e7a assombrado. Magnus tossiu, revirou os<br \/>\nolhos azuis.<\/p>\n<p>&#8211; A fisiolatria baseia-se, como toda a reforma sociocr\u00e1tico-libert\u00e1ria,<br \/>\nna sistematiza\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica universal ou natural que<br \/>\no hierofonte + SUN intitula ortologia.<\/p>\n<p>&#8211; Ortologia? fiz sem compreender.<\/p>\n<p>&#8211; Do grego orthos, logos &#8211; reta raz\u00e3o.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 chamada ortolatria, ou verdadeira<br \/>\ncultura, como ortodoxia significa verdadeira doutrina. Os fisi\u00f3latras<br \/>\npretendem fazer uma remodela\u00e7\u00e3o de todas as coisas humanas,<br \/>\nn\u00e3o limitando a sua a\u00e7\u00e3o \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos conceitos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o remodelamento geral \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Sondhal sorriu com calma:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s somos onibondosos, oniscientes e onipotentes.<\/p>\n<p>&#8211; Os atributos de Deus.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s nos intitulamos os verdadeiros deuses. A reforma abrange as<br \/>\nopini\u00f5es, os costumes, o Homem e a pr\u00f3pria Terra.<\/p>\n<p>Arregalei os olhos, pus o p\u00e9 bem firme no ch\u00e3o, passei o len\u00e7o<br \/>\ntr\u00eamulo na fronte e olhei os verdadeiros deuses. Para o que falava,<br \/>\nenvolto na sobrecasaca, com uma barbinha rala e o nariz ao vento, escavoquei<br \/>\na religi\u00e3o do ideal divino e n\u00e3o lhe achei compara\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO outro torcia um bigode sensual por cima do l\u00e1bio rosado.<\/p>\n<p>&#8211; Com que ent\u00e3o deuses? Dera-me de repente a vontade de ser tamb\u00e9m<br \/>\nonisciente e onipotente. Mas que \u00e9 preciso para eu ser tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; A propaganda toma um cunho secreto. Os aspirantes \u00e0 Ortologia t\u00eam<br \/>\nde passar pela inicia\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica, que custa, al\u00e9m<br \/>\ndas provas morais, quinhentos mil r\u00e9is em moeda corrente.<\/p>\n<p>Era relativamente barato, e eu pensava em fazer uma redu\u00e7\u00e3o<br \/>\nshilockeana, quando Magnus come\u00e7ou a desdobrar a beleza \u00fatil<br \/>\nda vida fisi\u00f3latra.<\/p>\n<p>A inicia\u00e7\u00e3o d\u00e1 entrada na Universidade Ortol\u00f3gica<br \/>\nresumida no hierofante, a qual se intitula Ma\u00e7onaria + Cat\u00f3lica.<br \/>\nA Ma\u00e7onaria Cat\u00f3lica divide-se em lojas, cujo conjunto, em tr\u00eas<br \/>\ngraus, constitui o respectivo templo. Os aspirantes representam as lojas,<br \/>\no templo s\u00f3 pode ser representado pelo hierofante ou por um areopagita.<\/p>\n<p>&#8211; Onde esse templo?<\/p>\n<p>&#8211; Os fisi\u00f3latras, os que praticam a magia ortol\u00f3gica, n\u00e3o<br \/>\nprecisam de local determinado. S\u00e3o os novos homens, fazem excurs\u00f5es<br \/>\npelos prados, montes e lagos em Fraterias Est\u00e9ticas, Filos\u00f3ficas<br \/>\nou Ortol\u00f3gicas, conforme o grau do lud\u00e2mbulos.<\/p>\n<p>&#8211; Lud\u00e2mbulos?<\/p>\n<p>&#8211; Uma palavra da l\u00edngua universal!<\/p>\n<p>&#8211; O volapuck? O esperanto?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, uma l\u00edngua inventada por mim, o Al-t\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que vem a ser o Al-t\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Aplicando a Ortologia (ou L\u00f3gica Universal) aos fatos da Linguagem,<br \/>\nverifica-se que os elementos fon\u00e9ticos, sons e entona\u00e7\u00f5es<br \/>\n(ou consoantes e vogais) s\u00e3o por toda a parte id\u00eanticos. Deduz-se<br \/>\nque s\u00e3o oriundos das mesmas impress\u00f5es e resultantes das mesmas<br \/>\naptid\u00f5es expressionais. Colocando em s\u00ednese, descobre-se que<br \/>\nos sons, que exprimem rela\u00e7\u00f5es, formam uma escala semitonal,<br \/>\ncomo a da m\u00fasica, e composta de treze notas, ou graves prim\u00e1rias<br \/>\ncomo todas as escalas, ali\u00e1s: &#8211; U (grave fundamental) A (dominante<br \/>\ne geratriz) e I (sens\u00edvel superior) estabelecem todas as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nsin\u00e9sicas:<\/p>\n<p>U A I (e U)<\/p>\n<p>G\u00eanese Megaforema Metaforema<\/p>\n<p>Origem Crescimento Transforma\u00e7io<\/p>\n<p>Passado Presente Futuro<\/p>\n<p>Corpo Espa\u00e7o Movimento<\/p>\n<p>Sentir Pensar Agir<\/p>\n<p>Opressio Liberta\u00e7io Aspira\u00e7ao<\/p>\n<p>Escuro Amarelo Rubro e Branco<\/p>\n<p>etc. etc. etc.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s Entona\u00e7\u00f5es, essas formam tr\u00eas teclas,<br \/>\ndonde tr\u00eas escalas, tamb\u00e9m, anal\u00f3gicas mas distintas:<\/p>\n<p>H (Geratriz)<\/p>\n<p>TECLA GUTURAL TECLA DENTAL TECLA LABIAL<\/p>\n<p>Metafonias Metafonias Metafonias<\/p>\n<p>K (Chave) T (Chave) P (Chave)<\/p>\n<p>G (gu\u00ea) D B<\/p>\n<p>Ch R F<\/p>\n<p>J r (brando) V<\/p>\n<p>&#8211; L &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Lh &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; S &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Z &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; N &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Nh M<\/p>\n<p>Aplicando a S\u00ednese ortol\u00f3gica \u00e0s Teclas orais, como<br \/>\nse fez relativamente aos Sons, temos:<\/p>\n<p>TECLA GUTURAL TECLA DENTAL TECLA LABIAL<\/p>\n<p>G\u00eanese Megaforema Metaforema<\/p>\n<p>Objetivo Subjetivo Ativo<\/p>\n<p>Eidonomia Eimologia Ergonomia<\/p>\n<p>e<\/p>\n<p>Erostergia<\/p>\n<p>Detalhando, enfim, o valor fracional dos fonemas em geral, obt\u00e9m-se,<br \/>\npor dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, a express\u00e3o natural; &#8211; de<br \/>\nqualquer esp\u00e9cie de impress\u00e3o: &#8211; sensacional, emocional ou acional&#8230;<br \/>\ne a L\u00edngua Universal est\u00e1, enfim, racionalmente institu\u00edda.<\/p>\n<p>Exemplo perfunct\u00f3rio:<\/p>\n<p>K \u00e9 a raiz de Corpo, concreto, etc.<\/p>\n<p>A significa o atual e a\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>donde:<\/p>\n<p>Ativo: K A &#8211; O Corpo que se apresenta e se move.<\/p>\n<p>e<\/p>\n<p>Passivo: A K &#8211; O Corpo que \u00e9 impelido ou sofre a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>M \u00e9 o s\u00edmbolo do sentir e agir, donde:<\/p>\n<p>Passivo A M=Eu=amo=sou&#8230;<\/p>\n<p>e<\/p>\n<p>Ativo: M A=Mu=mover=m\u00e3e, mulher&#8230; criar.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o compreendera muito bem, n\u00e3o compreendera mesmo nada.<br \/>\nMagnus Sondhal por\u00e9m foi \u00edntimo e educador.<\/p>\n<p>&#8211; Vou dar-lhe alguns nomes esot\u00e9ricos dos iniciados da Ma\u00e7onaria<br \/>\nCat\u00f3lica. Sobem a milhares, al\u00e9m de alguns que foram condenados<br \/>\nao olvido, ao au-t\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Fez uma pausa, depois como quem se confessa:<\/p>\n<p>&#8211; Eu devo dizer esotericamente, o esp\u00edrito que preside \u00e0 Propaganda<br \/>\nda Raz\u00e3o. A minha emancipa\u00e7\u00e3o de Ort\u00f3logo, vai<br \/>\na um extremo inacess\u00edvel para a totalidade dos homens coevos. Por isso,<br \/>\ntudo que eu fa\u00e7o toma o aspecto joco-s\u00e9rio, desde o deboche<br \/>\nat\u00e9 o sagrado, desde a Orgia at\u00e9 o Culto da Natureza!&#8230; De<br \/>\nfato estou exterminando pelo rid\u00edculo todas as velhas e caducas cren\u00e7as<br \/>\ne institui\u00e7\u00f5es e todos os preconceitos, mesmo cient\u00edficos<br \/>\ne filos\u00f3ficos! Em mim a Consci\u00eancia superior, a dignidade e a<br \/>\nnobreza destru\u00edram por completo toda esp\u00e9cie de Venera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nRespeito ou Toler\u00e2ncia!&#8230; Mas, voltemos aos nomes esot\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Todo Iniciado na Ma\u00e7onaria Cat\u00f3lica toma um Nome, por sua pr\u00f3pria<br \/>\nescolha, em substitui\u00e7\u00e3o ao nome, sem sentido, que lhe deram<br \/>\nseus pais Gorilhas. Esse novo Nome \u00e9 a s\u00edntese de seu verdadeiro<br \/>\nIdeal ou Aspira\u00e7\u00e3o superior para o Progresso. Em torno desse<br \/>\nnovo S\u00edmbolo o Iniciado constr\u00f3i a sua nova Exist\u00eancia<br \/>\nSubjetiva, isto \u00e9, o seu KARMA. Quem souber identificar-se com o seu<br \/>\nNome de Regenerado, est\u00e1, ipso facto, isento de toda e qualquer perturba\u00e7\u00e3o<br \/>\nsubjetiva, causada habitualmente pelos ataques mal\u00e9volos da Canalha<br \/>\nhumana. Mas a ado\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria do novo Nome \u00e9,<br \/>\nal\u00e9m disso, um ato belamente revolucion\u00e1rio, e um protesto solene<br \/>\ncontra todas as velharias e conven\u00e7\u00f5es hip\u00f3critas e perversivas.<br \/>\nQuem escolheu o seu pr\u00f3prio NOME, tamb\u00e9m rompeu, ipso facto,<br \/>\ncom todas as imposi\u00e7\u00f5es e Imposturas que tendam a tiranizar<br \/>\na sua Vontade e tolher a sua Liberdade de Indiv\u00edduo!&#8230; Mil outros<br \/>\nmotivos h\u00e1 que advogam esse Rito da Ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Os nomes esot\u00e9ricos! supliquei, vendo que se eternizava num misterioso<br \/>\nfalar.<\/p>\n<p>Ele sentou-se com um papel e um l\u00e1pis.<\/p>\n<p>&#8211; Antes de tudo, \u00e9 preciso conhecer o esquema da figura da Lei Universal,<br \/>\nou Ciclo da Mat\u00e9ria, donde se deduz a Ortologia, ou a Sabedoria Universal.<\/p>\n<p>Diante daquele l\u00e1pis hostil, tremi.<\/p>\n<p>&#8211; Os nomes sem figuras, Magnus.<\/p>\n<p>Ele co\u00e7ou a ponta do nariz.<\/p>\n<p>&#8211; Ei-los:<\/p>\n<p>SUN, nome do HIEROFONTE (+) atual; Significa: &#8211; sol no NADIR, ou Sol posto<br \/>\ne, por extens\u00e3o, Luz Invis\u00edvel, isto \u00e9, Sol subjetivo.<\/p>\n<p>Etimologia: &#8211; S &#8230; s\u00edmbolo de Fonte e de Brilho em sua m\u00e1xima<br \/>\nintensidade e, portanto, s\u00edmbolo de SOL; &#8211; N&#8230; . s\u00edmbolo de<br \/>\ninfinito e indefinido, de espa\u00e7o e de esp\u00edrito, portanto: num<br \/>\nponto indefinido do Espa\u00e7o. A quer dizer: presente, ou vis\u00edvel,<br \/>\ndonde SAN &#8211; Sol acima da horizonte visual. I significa o que est\u00e1 para<br \/>\nvir e o que sobe, donde SIN &#8211; o Sol que vai nascer ou nascituro. U quer dizer<br \/>\no que est\u00e1 embaixo, donde &#8211; SUN o Sol no Nadir.<\/p>\n<p>BLUM-SAN-UR &#8211; A Flor que o Sol gerou. Nome de um Areopagita, cujo s\u00edmbolo<br \/>\n\u00e9 a cruz.<\/p>\n<p>AM-VA &#8211; Viver para o Amor. Nome de outro Areopagita em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>UN-AN &#8211; O esp\u00edrito de Origem, engerador. Nome de outro Areopagita,<br \/>\nem Minas.<\/p>\n<p>GVAM-IL &#8211; Viver, Amar e ser Livre. Nome de um iniciado do 2.\u00ba grau.<\/p>\n<p>AL-GAI &#8211; Aquele que quer que todos folguem. Nome de um cientista bom e inteligente.<br \/>\nIniciado do 2.\u00ba grau.<\/p>\n<p>VAR-UN &#8211; A vida que palpita imperceptivelmente no seio da Mat\u00e9ria.<br \/>\nNome de um distinto iniciado do 1.\u00ba grau.<\/p>\n<p>SIR-US &#8211; O Filho da Aurora Boreal. Nome de um companheiro dedicad\u00edssimo<br \/>\nque propulsionou a Propaganda da Raz\u00e3o no Estado do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>GAM-AR &#8211; Aquele que vai alegrar-se e folgar agindo com entusiasmo pela Regenera\u00e7\u00e3o<br \/>\nHumana.<\/p>\n<p>Um instante calamo-nos. O hierofante Sun limpava o suor. Mas dentro em pouco<br \/>\ncontinuou a falar.<\/p>\n<p>&#8211; Temos, disse, idealizados quatro templos para serem erigidos no centro<br \/>\nde cada uma das quatro partes em que dividimos a terra. Os templos chamam-se<br \/>\nos templos da Raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em \u00e9pocas que todos chamam das grandes transforma\u00e7\u00f5es,<br \/>\nos homens deram templos \u00e0 Raz\u00e3o encarnada.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 muita gente iniciada? indaguei, afundando em amargas compara\u00e7\u00f5es<br \/>\nhist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>&#8211; Muita. S\u00f3 agora, por\u00e9m, \u00e9 que a inicia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeixou de ser gr\u00e1tis. N\u00e3o imagina como progredimos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quatro ou cinco anos que em Minas Gerais se fazem festas sociol\u00e1tricas.<br \/>\nAs peripat\u00e9ias ou excurs\u00f5es cultuais s\u00e3o comuns em todos<br \/>\nos Estados, m\u00e1xime no Paran\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; E aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Vamos entre as \u00e1rvores discutindo e conversando.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o! Arist\u00f3teles! Jesus! Dellile! Procurei acalmar o meu<br \/>\nestado nervoso. Assistira \u00e0 missa-negra, vivera entre os negros orixal\u00e1s,<br \/>\nque sobre o opel\u00ea dizem a vida da gente, ouvira os esp\u00edritas,<br \/>\no ocultistas, os gn\u00f3sticos cat\u00f3licos. Essa reforma desorganizava-me.<\/p>\n<p>&#8211; Mas isso tudo foi inventado pelo senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Foi.<\/p>\n<p>&#8211; E desde quando pensa na reforma?<\/p>\n<p>&#8211; Desde a idade de cinco anos, em que aprendia a ler sozinho. S\u00f3 por\u00e9m<br \/>\nem 1884 \u00e9 que cheguei aos resultados pr\u00e1ticos em Cataguazes.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 brasileiro?<\/p>\n<p>&#8211; Descendente de islandeses, os verdadeiros descobridores da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Recolhi meditando a quest\u00e3o. Aquele homem que aprendera a ler com<br \/>\nten\u00e7\u00f5es de reformar a sociedade, a ortologia, as peripat\u00e9ias,<br \/>\na reforma da terra &#8211; tudo isso assustava. Refleti entretanto. Magnus era um<br \/>\nvasto saber, calmo e pr\u00e1tico, formado em Cabala, tendo viajado o mundo<br \/>\ninteiro.<\/p>\n<p>Se apenas nessa qualidade dissesse ter inventado o motocont\u00ednuo nas<br \/>\nasas das borboletas, eu, deplorando-o, lev\u00e1-lo-ia ao hosp\u00edcio.<br \/>\nMas Sondhal inventara uma religi\u00e3o, a religi\u00e3o que \u00e9<br \/>\no b\u00e1lsamo das almas, uma religi\u00e3o brasileira, e, como Jesus<br \/>\n\u00e0 beira do lago Tiber\u00edade, ensinava aos iniciados \u00e0 beira<br \/>\nda lagoa Rodrigo de Freitas e da lagoa dos Patos. Era mais um profeta, venerei-o;<br \/>\ne assim fazendo quis saber quem comigo o venerava. A fisiolatria \u00e9<br \/>\numa religi\u00e3o de doutores; numa lista de 200 ort\u00f3logos, sessenta<br \/>\npor cento s\u00e3o bachar\u00e9is.<\/p>\n<p>As listas s\u00e3o feitas com pompa, e em cada uma eu li: &#8211; Drs. Toledo<br \/>\nde Loiola, Tavares Bastos, Jango Fischer, Fl\u00e1vio de Moura, Lu\u00eds<br \/>\nCaetano de Oliveira, Ant\u00f4nio Ribeiro da Silva Braga, Adolfo Gomes de<br \/>\nAlbuquerque, Floripes Rosas J\u00fanior, Jos\u00e9 Vicente Valentim, Ulisses<br \/>\nFaro, Barbosa Rodrigues J\u00fanior&#8230; Uma s\u00e9rie intermin\u00e1vel<br \/>\nde bachar\u00e9is!<\/p>\n<p>Tantos doutores devem assegurar a doutrina dout\u00edssima. Fui ent\u00e3o<br \/>\nprocurar o hierofante no seu templo, que tem percorrido v\u00e1rias casas<br \/>\nna Cidade Nova. Magnus Sondhal recebeu-me com o seu inalter\u00e1vel sorriso<br \/>\ne o seu inalter\u00e1vel pince-nez.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 tantos doutores na sua religi\u00e3o, hierofante, que eu a<br \/>\nconsidero.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, ergonte, uma das id\u00e9ias da minha religi\u00e3o \u00e9<br \/>\nacabar com os doutores!<\/p>\n<p>Sentamo-nos divinamente e eu o interroguei:<\/p>\n<p>&#8211; A sua religi\u00e3o tem qualquer coisa de positivismo?<\/p>\n<p>&#8211; Fui ap\u00f3stolo da Humanidade seis anos. S\u00f3 depois \u00e9<br \/>\nque comecei a propaganda da Uni\u00e3o Universal, a princ\u00edpio com<br \/>\num fil\u00f3sofo dinamarqu\u00eas, depois com os Drs. Adolfo de Albuquerque,<br \/>\nSilva Braga e outros Areopagistas. A fisiolatria transforma as palavras e<br \/>\nexpress\u00f5es das outras l\u00ednguas, transformando as institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nhumanas existentes e inexistentes em fatos positivos. Os fen\u00f4menos sobrenaturais<br \/>\ntornam-se at\u00e9 sens\u00edveis.<\/p>\n<p>&#8211; A reforma \u00e9 ent\u00e3o geral?<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 no vestu\u00e1rio. Acredita o senhor que no futuro continuaremos<br \/>\na usar sobrecasasa? Pois, n\u00e3o!<\/p>\n<p>As roupas dos ergontes ser\u00e3o determinadas pelas esta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo ano com um cunho simb\u00f3lico e as cores tiradas da figura universal.<br \/>\nNo ver\u00e3o, por exemplo, 1.\u00aa esta\u00e7\u00e3o, macrof\u00edsica<br \/>\ne que representa o dia da vida, usar-se-\u00e3o as tr\u00eas cores fundamentais;<br \/>\nno outono, 2.\u00aa esta\u00e7\u00e3o, a tarde da vida, cores sombrias;<br \/>\nno inverno, 3.\u00aa esta\u00e7\u00e3o, microf\u00edsica, a noite da<br \/>\nvida, roupas negras, e na primavera, a 4.\u00aa esta\u00e7\u00e3o, roupas<br \/>\nbrancas para corresponder ao albor da exist\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito po\u00e9tico. As nossas casacas passar\u00e3o a ser empregadas<br \/>\napenas nos bailes de m\u00e1scaras, como fantasias de gosto. Tamb\u00e9m,<br \/>\nque seria do vestido de Maria Stuart se n\u00e3o fosse o carnaval? Consolemo-nos<br \/>\ncom a homenagem dos futuros ergontes!<\/p>\n<p>Enquanto essas loucuras eram ditas, Magnus Sondhal sorria.<\/p>\n<p>&#8211; Uma religi\u00e3o t\u00e3o nova deve ter o seu custo especial.<\/p>\n<p>&#8211; Tem, com efeito: o kratu, ou culto p\u00fablico, e a magia, ou culto<br \/>\n\u00edntimo.<\/p>\n<p>O kratu tem um quadro sin\u00f3tico.<\/p>\n<p>Ei-lo:<\/p>\n<p>KARMA<\/p>\n<p>(ou: &#8211; a Cria\u00e7\u00e3o e Transforma\u00e7\u00e3o Eterna, geradas<br \/>\ne contempladas pelo Amor).<\/p>\n<p>__________________________ _______________________<\/p>\n<p>KOSMOS ONTOS | ETOS<\/p>\n<p>| e<\/p>\n<p>| ESTETOS<\/p>\n<p>____________________________<\/p>\n<p>EIDONOMIA E EIMOLOGIA | ERGONOMIA<\/p>\n<p>| e<\/p>\n<p>| EROSTERGIA<\/p>\n<p>1.\u00ba Grau 2.\u00ba Grau 3.\u00ba Grau<\/p>\n<p>__________________________ _______________________<\/p>\n<p>FISIOLATRIA<\/p>\n<p>__________________________ ___________________________<\/p>\n<p>IDOLATRIA BIOLATRIA PSICOLATRIA<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;- &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>1.\u00ba Dia SOL Fecunda\u00e7\u00e3o Sentir Amor<\/p>\n<p>2.\u00ba Dia LUA Gesta\u00e7\u00e3o Conceber Sabedoria<\/p>\n<p>3.\u00ba Dia TERRA Procria\u00e7\u00e3o Construir Poesia<\/p>\n<p>4.\u00ba Dia MAR Nutri\u00e7\u00e3o Mec\u00e2nica Sensualismo<\/p>\n<p>5.\u00ba Dia AR Respira\u00e7\u00e3o Qu\u00edmica Vitalismo<\/p>\n<p>6.\u00ba Dia C\u00c9U Lh\u00f4mi\u00e7\u00e3o Al-Qu\u00edmia Animismo<\/p>\n<p>7.\u00ba Dia NOITE Subjetiva\u00e7\u00e3o Hiper-Qu\u00edmia Idealismo<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Donde REFLEX\u00c3O&#8230; CONSCI\u00caNCIA&#8230; MAGIA<\/p>\n<p>A palavra MAGIA \u00e9 empregada no sentido de sua etimologia Alta\u00edca,<br \/>\nisto \u00e9, derivada de MAC &#8211; For\u00e7a ou A\u00e7\u00e3o e I &#8211;<br \/>\nsobre ou para o Futuro. Representa o estado superior da Vida, em que o Esp\u00edrito<br \/>\nou a Raz\u00e3o dirige a For\u00e7a Inconsciente.<\/p>\n<p>A magia come\u00e7a a revelar-se nas pr\u00f3prias inicia\u00e7\u00f5es<br \/>\nma\u00e7\u00f4nicas pela ado\u00e7\u00e3o de um nome esot\u00e9rico<br \/>\nque liberta das m\u00e1s influ\u00eancias. S\u00f3 eu a posso empregar,<br \/>\nporque sou o \u00fanico a conhecer a hiperqu\u00edmica ortol\u00f3gica,<br \/>\nou as leis naturais das influ\u00eancias ps\u00edquicas.<\/p>\n<p>A hiperqu\u00edmica, de hyper e da l\u00edngua universal kim, que significa<br \/>\na parte invis\u00edvel e indestrut\u00edvel da mat\u00e9ria, tem duas<br \/>\nci\u00eancias preliminares: a alquimia, ou tratado da rea\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas mat\u00e9rias em estado das correntes puras, e a qu\u00edmia. O princ\u00edpio<br \/>\nalqu\u00edmico \u00e9 que a mat\u00e9ria \u00e9 una, vive, evolui<br \/>\ne se transforma. O princ\u00edpio unit\u00e1rio Lh\u00f4ma entra como<br \/>\ncausa em todas as rea\u00e7\u00f5es e por ele se explicam o fen\u00f4meno<br \/>\nmicrof\u00edsico das fun\u00e7\u00f5es cerebrais, a fun\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas imagens interiores e a influ\u00eancia da moral sobre o f\u00edsico.<\/p>\n<p>Mas tudo isso est\u00e1 nos nossos livros: &#8211; A Reforma Sociocr\u00e1tica<br \/>\ne a maior evolu\u00e7\u00e3o do mundo, o Catecismo Ortol\u00f3gico a<br \/>\nArte de Enriquecer ou extin\u00e7\u00e3o do pauperismo pela institui\u00e7\u00e3o<br \/>\nda plutometria em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 plutocracia, a Explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Deus ao Papa, a Pr\u00e9-hist\u00f3ria segundo a Ortologia e outros<br \/>\nvolumes. O essencial acha-se por\u00e9m num livro manuscrito, que n\u00e3o<br \/>\nse imprime: &#8211; o Catecismo Esot\u00e9rico.<\/p>\n<p>Depois paternalmente o hierofante disse:<\/p>\n<p>&#8211; Venha hoje ver uma sess\u00e3o de magia. N\u00f3s comemoramos a morte<br \/>\nde um iniciado. O templo \u00e9 uma sala, mas \u00e9 de dever deduzi-lo<br \/>\nda figura da Lei Universal ou Al-Miz: ao norte a loja azul, ou do 1.\u00ba<br \/>\ngrau; a este a loja amarela, ou do 2.\u00ba grau; ao sul a loja rubra, ou<br \/>\ndo 3.\u00ba grau; a oeste o dumma, ou sala negra, no canto o templo ou emp\u00edreo.<br \/>\nO dumma e o emp\u00edreo significam o branco e o negro, dois elementos antit\u00e9ticos<br \/>\ndo Bin\u00e1rio Universal&#8230; Venha \u00e0s 11\u00bd.<\/p>\n<p>Eu fui. Era uma noite \u00famida, de chuva, no dia 5 de agosto. O iniciado<br \/>\nque morrera, meu amigo, um g\u00eanio musical, passara pela vida agarrado<br \/>\na todas as fantasias. Eu fui e delirei tranq\u00fcilamente. T\u00ednhamos<br \/>\ncombinado estar na pens\u00e3o de Sondhal. Quando l\u00e1 cheguei, encontrei<br \/>\ntreze homens de chapel\u00e3o desabado e manto negro. Pareciam conspiradores.<br \/>\nAbri o manto de um deles e vi que estava forrado de seda roxa; abri o de outro,<br \/>\ntamb\u00e9m, e todos tinham varinhas na m\u00e3o, onde brilhavam ametistas,<br \/>\na pedra da magia! Reparei ent\u00e3o que o hierofante era um deles.<\/p>\n<p>&#8211; De que \u00e9 feita essa bagueta? inquiri.<\/p>\n<p>&#8211; De uma liga met\u00e1lica que \u00e9 um segredo alqu\u00edmico! respondeu<br \/>\numa voz. E com o hierofante \u00e0 frente, todos deslizaram pelo corredor<br \/>\nescuro. Eu os seguia como a sombra dos seus mantos. De repente, pararam a<br \/>\num sinal seco e eu retive um grito. Na extremidade superior do cetro do hierofante,<br \/>\ncome\u00e7ava a bruxulear uma luz fosforescente.<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te, \u00e9 a luz f\u00edsica, e o au-lis!<\/p>\n<p>Todos os magos ergueram verticalmente as baguetas estendendo o bra\u00e7o<br \/>\ndireito para o ar, e na extremidade de cada uma, como uma misteriosa gambiarra<br \/>\nde vagalumes, o au-lis acendia a sua fulgura\u00e7\u00e3o indiz\u00edvel.<br \/>\nNas copas dos chap\u00e9us dos magos vibrava o telegormo, que transmite<br \/>\nas palavras pensadas.<\/p>\n<p>A luz por\u00e9m cessou, as varas abateram-se e os treze sa\u00edram<br \/>\npara a rua como simples transeuntes.<\/p>\n<p>No curto trajeto do hotel \u00e0 sala do templo, eu tive a impress\u00e3o<br \/>\nde um ser \u00e0 parte num mundo \u00e0 parte, e quando cavamente a porta<br \/>\nse fechou num cavo reb\u00f4o e subimos aos trope\u00e7os as escadas, pareceu-me<br \/>\ncair outra vez, na amada vida. A luz reaparecera.<\/p>\n<p>Na sala, cheia dessa luz, o hierofante subiu os tr\u00eas degraus do altar,<br \/>\nvoltou-se para os magos, deu na ara tr\u00eas pancadas e falou. Era a prece<br \/>\nda Evoca\u00e7\u00e3o. Agarrei-me a um portal, tremendo. Com toda a solenidade<br \/>\no homem foi ao outro canto e fez a segunda prece, a Invoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDepois, voltado para o oriente disse a Efus\u00e3o. Terminado que foi, sentou-se.<br \/>\nReparei ent\u00e3o que havia um estrado e em cada canto sentavam-se quatro<br \/>\nmagos.<\/p>\n<p>&#8211; Aquele estrado? fiz num sopro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o palco dos Fantasmas, ou lig-\u00f4ma!<\/p>\n<p>De novo tr\u00eas pancadas bateram. O hierofante, em p\u00e9, fez um gesto<br \/>\nsagrado, colocando a m\u00e3o esquerda sobre o cora\u00e7\u00e3o, fonte<br \/>\ndo Viver e do Sentir, e a direita, ou da a\u00e7\u00e3o, na fronte, centro<br \/>\nps\u00edquico. Depois um gesto para o ar e para a fronte indicou o porvir<br \/>\ne o ideal.<\/p>\n<p>Todos os magos bradaram:<\/p>\n<p>&#8211; Au-\u00e1r! An-\u00e1r!<\/p>\n<p>E a voz do hierofante abriu na treva:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Pobre e triste humanidade de mortos!&#8230; Pressentiste o poder da alma<br \/>\nhumana, e inventaste a invoca\u00e7\u00e3o, o culto e a prece!&#8230; Mas,<br \/>\na quem te dirigias tu? &#8211; As fic\u00e7\u00f5es impotentes!<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o conhecias a mat\u00e9ria no seu estado unit\u00e1rio<br \/>\nde Lh\u00f4ma, embora teus grandes fil\u00f3sofos chegassem quase a determinar<br \/>\nsua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Que era o culto do Lh\u00f4ma na P\u00e9rsia antiga e o do S\u00f4ma,<br \/>\nna \u00cdndia, sen\u00e3o o grande vislumbre da grande magia fisiol\u00e1trica!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Mas agora o Universo nos est\u00e1 revelado, em todas as suas maravilhosas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es: &#8211; aqu\u00edmicas, qu\u00edmicas e hiperqu\u00edmicas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Pelo C\u00e9rebro, abalamos o Lh\u00f4ma, que penetra toda a Mat\u00e9ria<br \/>\norg\u00e2nica ou inorg\u00e2nica!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;E o C\u00e9rebro \u00e9 um universo microf\u00edsico, onde os<br \/>\n\u00e1tomos valem os astros do espa\u00e7o sideral!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;E l\u00e1 dentro do cr\u00e2nio h\u00e1 luz, por que \u00e9<br \/>\ndo Lh\u00f4ma tenebroso que, por toda parte, ela se gera?&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Que mais pode surpreender ao Ort\u00f3logo?!&#8230; Onde pode haver um<br \/>\ncanto no Universo que sua Vontade n\u00e3o penetre?!&#8230; Onde um Ser ou Fato<br \/>\nque sua Microtagia n\u00e3o desvende?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Homens mortos!&#8230; V\u00edtimas da Feiti\u00e7aria teol\u00e1trica<br \/>\ne da negra magia das for\u00e7as brutas e inconscientes da Mat\u00e9ria!&#8230;<br \/>\nSede eternamente malditos!&#8230; Mostrai-vos ali! no palco dos fantasmas, em<br \/>\ntoda nudez do vosso hediondo Sofrimento!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Eu bati os dentes com um frio que traspassava os ossos. A luz acendia de<br \/>\nvez em quando, e naquele estrado, onde os esp\u00edritos mais deviam estar,<br \/>\neu via o vazio, o vazio horr\u00edvel, o vazio doloroso.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Surgi. V\u00f3s tamb\u00e9m, \u00f3 Her\u00f3is do Bem &#8211;<br \/>\ncontinuara o mago &#8211; que vivereis eternamente, impulsionando os Progressos<br \/>\nque s\u00f3 a Raz\u00e3o inspira!<\/p>\n<p>&#8220;Ei-los!&#8230;<\/p>\n<p>Eis os quadros da vida humana!&#8230; torpe, miser\u00e1vel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Quem \u00e9 aquele sublime LIC-UR, cercado de Amores e de Harmonias,<br \/>\ne cuja presen\u00e7a de Luz dissipa e dissolve os tenebrosos e est\u00fapidos<br \/>\nNUROS corruptores?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 o SAN-A&#8217;R&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Ei-lo, sorridente e vitorioso!&#8230; vitorioso da pr\u00f3pria Morte!<\/p>\n<p>&#8220;Ei-lo sublime que nos aponta o Futuro, onde fulgura tamb\u00e9m a<br \/>\nnossa suprema Vit\u00f3ria!<\/p>\n<p>&#8220;Assim como ele anulou a corrup\u00e7\u00e3o dos Mortos, nos quadros<br \/>\ntelef\u00eanicos do Espa\u00e7o sideral, n\u00f3s tamb\u00e9m anularemos<br \/>\na corrup\u00e7\u00e3o dos Vivos decadentes, que s\u00e3o de mais na<br \/>\nsuperf\u00edcie do Planeta&#8217;<\/p>\n<p>De mais! os que s\u00e3o de mais! eu ali dentro estava de mais! Ent\u00e3o<br \/>\nabri a porta, sa\u00ed, olhando para tr\u00e1s, aterrado do san-\u00e1r;<br \/>\ndos nuros, desci agarrado aos bala\u00fastres da escada e quando sentei<br \/>\nna soleira da porta, fatigado, com o c\u00e9rebro vazio, senti que suava<br \/>\ne que me ardiam as faces.<\/p>\n<p>No outro dia encontrei o fisi\u00f3latra Magnus acompanhado de v\u00e1rios<br \/>\niniciados.<\/p>\n<p>&#8211; Vou fundar uma Universidade no Liceu de Artes e Of\u00edcios. N\u00e3o<br \/>\ndeixe de ir assistir \u00e0s confer\u00eancias preparat\u00f3rias.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ontem, ontem que fizeram voc\u00eas?<\/p>\n<p>Houve uma pausa.<\/p>\n<p>&#8211; Meditamos at\u00e9 de manh\u00e3 \u00e0 beira da Sabedoria para que<br \/>\na Sabedoria viesse.<\/p>\n<p>E Magnus Sondhal, com um volume de Nietzsche debaixo do bra\u00e7o, seguiu<br \/>\ncom os iniciados pela rua a fora, como se fosse um ser natural&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"9\"><\/a>A Igreja Fluminense<\/h4>\n<p>A Igreja Fluminense data de 1858. Foi a primeira congrega\u00e7\u00e3o<br \/>\nevang\u00e9lica estabelecida no Brasil, gra\u00e7as ao esp\u00edrito<br \/>\nde um homem rico e feliz.<\/p>\n<p>O Sr. Robert Reid Kalley trabalhava na ilha da Madeira, quando, em 1855,<br \/>\nlembrou-se de vir ao Rio de Janeiro. Era escoc\u00eas, m\u00e9dico, ministro<br \/>\nevang\u00e9lico e possu\u00eda bens da fortuna. Ao deixar o clima delicioso<br \/>\nda ilha por esta cidade, naquele tempo foco de algumas mol\u00e9stias terr\u00edveis,<br \/>\nn\u00e3o o enviava nenhum board estrangeiro, vinha espontaneamente apenas<br \/>\npor amor do evangelho de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>O Brasil sempre foi um centro de reuni\u00e3o de col\u00f4nias diversas<br \/>\npraticando as suas cren\u00e7as com a mais inteira liberdade.<\/p>\n<p>Entre a pr\u00e1tica da religi\u00e3o, por\u00e9m, e a prega\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 grande massa vai uma diferen\u00e7a radical. Robert Kalley vinha<br \/>\npara uma monarquia cat\u00f3lica, em que a Igreja era um desdobramento do<br \/>\nEstado; aportara a uma terra em que cada data festiva fazia repicar no ar<br \/>\nos sinos das catedrais e desdobrava por sobre a cidade os p\u00e1lios e<br \/>\nas sedas roxas dos paramentos sacros; vinha pregar ao povo, amante de prociss\u00f5es,<br \/>\nque rojava na poeira das ruas quando passavam as imagens seguidas de soldados.<br \/>\nE Kalley veio e pregou contra os p\u00e1lios, contra as imagens e contra<br \/>\no povo a rojar, escudado na doce cren\u00e7a de Jesus&#8230;<\/p>\n<p>\u00cdamos os dois, eu e o Rev. Marques, pelo asfalto do campo da Aclama\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMuito cedo ainda, os p\u00e1ssaros cantavam indiferentes ao bul\u00edcio<br \/>\nda grande pra\u00e7a, e eu, cada vez mais encantado, ia a ouvir t\u00e3o<br \/>\nsuave conversa.<\/p>\n<p>Era o diletantismo da evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Era o conforto moral que a religi\u00e3o d\u00e1. Se at\u00e9 hoje<br \/>\nos nossos evangelizadores s\u00e3o apedrejados, se nos fecham as igrejas,<br \/>\nimagine a impress\u00e3o do protestante naquele tempo. Kalley, o ousado<br \/>\ncapaz de afirmar meia d\u00fazia de id\u00e9ias desconhecidas, teve uma<br \/>\ns\u00e9rie infind\u00e1vel de inimigos.<\/p>\n<p>&#8211; O protestante! Que recorda\u00e7\u00e3o de \u00e9pocas hist\u00f3ricas.<br \/>\nCarlos IX, os huguenotes, o \u00eaxodo para a Am\u00e9rica, o horror das<br \/>\nimagens&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Os populares naquele tempo n\u00e3o admitiam o funcionamento regular,<br \/>\ncom entrada franca, das igrejas evang\u00e9licas. KalIey, tr\u00eas anos<br \/>\ndepois da sua chegada, fundava sem bulha, com alguns adeptos, o primeiro templo<br \/>\nevang\u00e9lico, que chamou Fluminense.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 temperamentos de mission\u00e1rios. Kalley era um desses. Olhe<br \/>\nque podia viver muito bem na Esc\u00f3cia, \u00e0 beira dos lagos, entre<br \/>\nos verdes lindos dos vales. Preferiu a nossa cidade de h\u00e1 meio s\u00e9culo,<br \/>\nb\u00e1rbara, feia, cheia de calor; esteve vinte anos no Rio, e s\u00f3<br \/>\nvoltou \u00e0 p\u00e1tria quando teve a certeza de deixar uma igreja completamente<br \/>\norganizada.<\/p>\n<p>&#8211; E deixou?<\/p>\n<p>&#8211; Ao partir, em 1876, a igreja tinha uns cem membros, havia um pastor substituto,<br \/>\nJo\u00e3o Manuel Gon\u00e7alves dos Santos, eram presb\u00edteros Francisco<br \/>\nda Gama, Francisco da Silva Jardim e Bernardo Guilherme da Silva e di\u00e1conos<br \/>\nJo\u00e3o Severo de Carvalho, Ant\u00f4nio Soares de Oliveira, Manuel Ant\u00f4nio<br \/>\nPires de Melo, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Dias Fran\u00e7a, Manuel Joaquim<br \/>\nRodrigues, Manuel Jos\u00e9 da Silva Viana e Ant\u00f4nio Vieira de Andrade.<br \/>\nO esfor\u00e7o fora recompensado. Frutificara a semente, e j\u00e1 outras<br \/>\nigrejas iam nascendo.<\/p>\n<p>&#8211; A Igreja Fluminense tem muitas filiais?<\/p>\n<p>&#8211; Tem. H\u00e1 outras Igrejas organizadas por ela, e a essas seria mais<br \/>\napropriado chamar igrejas congregacionais. S\u00e3o essas a de Niter\u00f3i,<br \/>\ncujo pastor \u00e9 o Rev. Le\u00f4nidas da Silva, e que possui um belo<br \/>\nedif\u00edcio na rua da Praia, tendo cerca de cem membros; a de Pernambuco,<br \/>\na de Passa-Tr\u00eas, a de S\u00e3o Jos\u00e9 de Bonjardim e a que eu<br \/>\npastoreio no Encantado, organizada a 10 de maio, com 56 membros.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Marques terminara a sua frase com tal carinho que o interrompi:<\/p>\n<p>&#8211; Vejo que ama o seu rebanho!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 melhor!&#8230; gente simples, boa, capaz de ouvir a palavra<br \/>\ndo Senhor&#8230;<\/p>\n<p>Fez uma pausa, sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Devo-lhe dizer que essas igrejas t\u00eam tamb\u00e9m as suas miss\u00f5es.<br \/>\nS\u00f3 a de Passa-Tr\u00eas tem no Cip\u00f3, no Arrozal de S\u00e3o<br \/>\nJo\u00e3o Batista e em toda a zona mais pr\u00f3xima do Estado do Rio.<\/p>\n<p>&#8211; A Igreja Fluminense \u00e9 s\u00f3 de nacionais?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a \u00fanica no Brasil que n\u00e3o tem prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nestrangeira, que vive dos seus pr\u00f3prios recursos apenas; &#8211; \u00e9<br \/>\no completo atestado do nosso esfor\u00e7o moral. J\u00e1 educou tr\u00eas<br \/>\njovens para o mist\u00e9rio, sustenta tr\u00eas mission\u00e1rios, acabou<br \/>\nde construir um templo e, apesar disso, ainda o ano passado teve no seu &#8220;budget&#8221;<br \/>\num saldo de oito contos. Sendo nacional, recebe entretanto na sua comunh\u00e3o<br \/>\npessoas de ambos os sexos crentes em Cristo.<\/p>\n<p>&#8211; E tem uma escola?<\/p>\n<p>&#8211; Tem duas: a dominical, de leitura b\u00edblica, e uma outra di\u00e1ria<br \/>\npara as crian\u00e7as, dirigida pelo Sr. Joaquim Alves e D. Carlota Pires.<br \/>\nA caracter\u00edstica da igreja \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o da<br \/>\ncidade, uma evangeliza\u00e7\u00e3o que vai de porta em porta, levando<br \/>\naux\u00edlios, carinhos, paz moral. H\u00e1 a Sociedade de Evangeliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\na Uni\u00e3o B\u00edblica Auxiliadora de Mo\u00e7os, a Uni\u00e3o<br \/>\ndas Senhoras, a Uni\u00e3o das Mo\u00e7as, das Crian\u00e7as&#8230; Os templos<br \/>\ncongregacionais tamb\u00e9m t\u00eam id\u00eanticas sociedades.<\/p>\n<p>No Encantado, al\u00e9m de duas outras, n\u00f3s, que estamos em caminho<br \/>\nde ter um templo, vamos organizar agora o Esfor\u00e7o Crist\u00e3o Juvenil.<\/p>\n<p>&#8211; Mas uma evangeliza\u00e7\u00e3o assim constante?<\/p>\n<p>&#8211; Os rapazes distribuem folhetos, fazem a expedi\u00e7\u00e3o pelo Correio,<br \/>\nv\u00e3o de porta em porta com subscri\u00e7\u00f5es para mandar companheiros<br \/>\nestudar na Europa. Eu lhe posso citar os nomes de Jo\u00e3o Menezes, Isaac<br \/>\nGon\u00e7alves, Luiz Fernandes Braga, Ant\u00f4nio Maria de Oliveira&#8230;<br \/>\nS\u00e3o tantos! E todos brasileiros.<\/p>\n<p>Havia na voz do pastor um justo orgulho. Eu emudeci um instante, acompanhando-o.<br \/>\nNesta cidade de com\u00e9rcio, em que o dinheiro parece o \u00fanico deus,<br \/>\nhomens mo\u00e7os e fortes pregam a bondade de porta em porta, como os pobrezinhos<br \/>\npedem p\u00e3o! Ou eu delirava, ou aquele cavalheiro calmo, de redingote<br \/>\nde alpaca, dava-me o favo da ilus\u00e3o, como outrora Plat\u00e3o entre<br \/>\n\u00e1rvores mais belas e disc\u00edpulos mais argutos.<\/p>\n<p>&#8211; A igreja tem hoje um patrim\u00f4nio grande? &#8211; fiz com o desejo de voltar<br \/>\n\u00e0 realidade.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre aumentado, mas regulado ainda pelos estatutos de 1886, aprovados<br \/>\npelo governo imperial, quando ministro o Bar\u00e3o Homem de Melo. O patrim\u00f4nio<br \/>\ncriado com donativos e legados consiste em pr\u00e9dios e t\u00edtulos<br \/>\nda d\u00edvida p\u00fablica. A administra\u00e7\u00e3o \u00e9 eleita<br \/>\nanualmente dentre os membros da igreja, comp\u00f5e-se de um presidente,<br \/>\ndois secret\u00e1rios, um tesoureiro e um procurador, que t\u00eam a seu<br \/>\ncargo representar a igreja em todos os seus neg\u00f3cios. Deus tem aben\u00e7oado<br \/>\na nossa obra.<\/p>\n<p>&#8211; As igrejas evang\u00e9licas abundam entre n\u00f3s, pastor. Falam-me<br \/>\nagora numa seita, os miguelistas, que dizem ter Jesus Cristo voltado ao mundo,<br \/>\nencarnado no Dr. Miguel Vieira Ferreira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; As verdadeiras igrejas evang\u00e9licas do Rio s\u00e3o a Fluminense,<br \/>\na Metodista, a Presbiteriana, a Batista e a Episcopal para os ingleses e os<br \/>\nalem\u00e3es. N\u00f3s propriamente, filhos da Fluminense, somos congregacionistas.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o \u00e9 uma s\u00f3, havendo apenas diferen\u00e7a<br \/>\nno ritual e na forma do governo eclesi\u00e1stico.<\/p>\n<p>O nosso governo \u00e9 congregacionista, composto de pastor, presb\u00edtero<br \/>\ne di\u00e1conos. Atualmente na Igreja Fluminense o pastor \u00e9 Gon\u00e7alves<br \/>\ndos Santos, os presb\u00edteros Jos\u00e9 Novais, Jos\u00e9 Fernandes<br \/>\nBraga e Gon\u00e7alves Lopes, os di\u00e1conos Ant\u00f4nio de Assun\u00e7\u00e3o,<br \/>\nGuilherme T\u00e2ner, Jos\u00e9 Valen\u00e7a e Jos\u00e9 Martins.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 uma tal subdivis\u00e3o de ritos entre os evangelistas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s nos regulamos por 28 artigos de f\u00e9. Cremos na exist\u00eancia<br \/>\nde um Deus, na trindade de pessoas, na divindade de Jesus Cristo, na sua encarna\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnascendo de Maria e sendo verdadeiro Deus e homem.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos \u00e0 esquina da rua Floriano Peixoto. Verdadeiro homem!<br \/>\nIa perguntar, aprofundar a inten\u00e7\u00e3o da frase. O pastor, por\u00e9m,<br \/>\ncontinuava.<\/p>\n<p>&#8211; A B\u00edblia foi escrita por inspira\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 acreditamos em doutrinas que por ela possam ser provadas. E por<br \/>\nisso cremos na imortalidade da alma, na vida futura, na puni\u00e7\u00e3o<br \/>\neterna dos que n\u00e3o pensam em Jesus, na ressurrei\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nmortos, no julgamento do tribunal de Deus.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Marques parara defronte da igreja, um casar\u00e3o que tem<br \/>\nem letras grandes este apelo convidativo. &#8211; Vinde e vede!<\/p>\n<p>&#8211; Custou muito?<\/p>\n<p>&#8211; Uns setenta contos.<\/p>\n<p>&#8211; E o pastor ainda \u00e9 o substituto de Kelley?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda. Conhece-o?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um anci\u00e3o de maneiras secas.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! tem-se esfor\u00e7ado tanto. H\u00e1 vinte e sete anos que trabalha<br \/>\nsem cessar. Foi a Londres estudar o minist\u00e9rio, voltou e nunca mais<br \/>\nnos deixou. \u00c9 o mais antigo ministro evang\u00e9lico do Brasil, e<br \/>\nhoje os seus sessenta e dois anos curvam-se a um trabalho insano. Entre; hoje<br \/>\n\u00e9 o dia da comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Entrei. Uma sombra tranq\u00fcila aquietava-se na sala. Os ru\u00eddos<br \/>\nde fora, da alegria movimentada da rua, chegavam apagados. No coro, nem viva<br \/>\nalma; pelos bancos, alguns perfis emergindo da sombra, muitos atentos e calmos;<br \/>\nao fundo, em derredor de uma mesa onde havia garrafas e pratos de prata, v\u00e1rios<br \/>\nsenhores. E naquela paz vozes cantavam:<\/p>\n<p>Disposta a mesa, \u00f3 Salvador,<br \/>\nVem presidir aqui,<br \/>\nMinistra o vinho, parte o p\u00e3o<br \/>\nTipos, Jesus, de ti!<\/p>\n<p>Depois, no sil\u00eancio que se fizera, o pastor disse:<\/p>\n<p>&#8211; Bendito Deus! e a prece evolu\u00eda-se direta, pedindo para que se retificasse<br \/>\no fato em mem\u00f3ria da morte de Cristo. Era a consagra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves dos Santos tomou do p\u00e3o e o partiu, os presb\u00edteros<br \/>\nforam pela sala com os pratos lavrados de prata, onde branquejavam os peda\u00e7os<br \/>\ndo bolo sem fermento.<\/p>\n<p>&#8211; Tomai isso e comei!<\/p>\n<p>Sentei-me humilde no \u00faltimo banco. Como nos evangelhos, eu via os<br \/>\nhomens darem de comer o p\u00e3o de Deus, e darem a beber o sangue de Jesus.<br \/>\nEra tocante, naquele mist\u00e9rio, na paz da vasta sala, quase deserta.<br \/>\nE, com gula, a cada um que eu seguia no gozo da suprema felicidade, parecia-me<br \/>\nver o seu olhar, &#8211; o olhar, a janela da alma! &#8211; voltar-se para o c\u00e9u<br \/>\nna certeza tranq\u00fcila de um repouso celeste.<\/p>\n<p>Quando a cerim\u00f4nia terminou, como um ruflo de asas brancas, de novo<br \/>\nas vozes sussurraram.<\/p>\n<p>Eu trouxe a salva\u00e7\u00e3o<br \/>\nDos altos c\u00e9us louvor,<br \/>\n\u00c9 livre o meu perd\u00e3o,<br \/>\n\u00c9 grande o meu amor.<\/p>\n<p>&#8211; Que faz t\u00e3o triste a\u00ed? &#8211; disse-me o pastor Ant\u00f4nio.<br \/>\n&#8211; Aos mo\u00e7os quer Deus alegres! E eu que lhe fora buscar uma B\u00edblia<br \/>\ne o Crist\u00e3o, o nosso jornalzinho! Venha falar ao pastor.<\/p>\n<p>Ergui-me. Manuel Gon\u00e7alves dos Santos, com a sua barba alvadia e o<br \/>\nseu duro olhar, fitava-me.<\/p>\n<p>Voltei do sonho para reflorir uma lisonja. Eu j\u00e1 o sabia um probo,<br \/>\npraticando o minist\u00e9rio sem remunera\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie<br \/>\nalguma. Santos conservava-se de gelo. Falei da coes\u00e3o das igrejas,<br \/>\nda propaganda, do evidente progresso do evangelismo no Brasil, com a sua simples<br \/>\ness\u00eancia de f\u00e9, gabei o hospital que est\u00e3o a concluir.<\/p>\n<p>O pastor ent\u00e3o discorreu. A \u00fanica religi\u00e3o compat\u00edvel<br \/>\ncom a nossa Rep\u00fablica \u00e9 exatamente o evangelismo crist\u00e3o.<br \/>\nSubmete-se \u00e0s leis, prega o casamento civil, obedece ao c\u00f3digo<br \/>\ne \u00e9, pela sua pureza, um esteio moral. A propaganda torna cada vez<br \/>\nmais clara essas id\u00e9ias, no esp\u00edrito p\u00fablico aos poucos<br \/>\nse cristaliza a n\u00edtida compreens\u00e3o do dever religioso. Os evangelistas<br \/>\nser\u00e3o muito brevemente uma for\u00e7a nacional, com chefes intelectuais,<br \/>\ndispondo de uma grande massa. E, de repente, com convic\u00e7\u00e3o,<br \/>\no velho reverendo concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Havemos de ter muito breve na representa\u00e7\u00e3o nacional um deputado<br \/>\nevangelista.<\/p>\n<p>Apertei a m\u00e3o do mais antigo ministro evang\u00e9lico do Brasil.<br \/>\nDiante dos esfor\u00e7os que me contara Ant\u00f4nio Marques, a minha alma<br \/>\nse extasiara; durante a comunh\u00e3o, vendo o grave grupo beber o sangue<br \/>\nde Jesus, eu sentira o b\u00e1lsamo do sonho. Mas enquanto meus olhos olhavam<br \/>\ncom inveja o outro lado da vida, a margem diamantina da Cren\u00e7a, o pastor<br \/>\nsonhava com o dom\u00ednio temporal e a C\u00e2mara dos Deputados&#8230;<\/p>\n<p>Eterna contradi\u00e7\u00e3o humana, que n\u00e3o se explicar\u00e1<br \/>\nnunca, nem mesmo com o aux\u00edlio daquele que no Apocalipse sonda o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne os rins e anda entre sete candeeiros de ouro!<\/p>\n<p>Eterna contradi\u00e7\u00e3o, que cativa a alma de uns e faz as religi\u00f5es<br \/>\ntriunfarem atrav\u00e9s dos s\u00e9culos!<\/p>\n<h4><a name=\"10\"><\/a>A Igreja Presbiteriana<\/h4>\n<p>A sede da Igreja Presbiteriana fica na rua Silva Jardim, n.0 15.<\/p>\n<p>\u00c9 um dos mais lindos templos evang\u00e9licos do Rio. A sala pode<br \/>\nconter oitocentas pessoas. Tudo reluz, as paredes banhadas de sol, as portas<br \/>\nenvernizadas, as fechaduras niqueladas, o p\u00falpito severo. Pelas al\u00e9ias<br \/>\ndo jardim, brunidas, anda-se sob o desfolhar das rosas e da montanha a pique<br \/>\nque lhe fica aos fundos, desce um intenso perfume de mata. A primeira vez<br \/>\nque eu l\u00e1 estive, a sala estava apinhada, n\u00e3o havia um lugar;<br \/>\ne, por tr\u00e1s de sobrecasacas, severas, de fatos sombrios, na luz crua<br \/>\ndos focos, eu via apenas o gesto de um homem de larga fronte, descrevendo<br \/>\na del\u00edcia da moral impec\u00e1vel. Perguntei a um cavalheiro que<br \/>\no ouvia embevecido, quase nas escadas.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>O cavalheiro passou o len\u00e7o pela testa alagada.<\/p>\n<p>&#8211; Admira n\u00e3o o conhecer: \u00e9 o Dr. \u00c1lvaro Reis.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro Reis \u00e9 o pastor atual da Igreja Presbiteriana do Rio,<br \/>\nessa igreja produto de uma propaganda tenaz e de um longo esfor\u00e7o de<br \/>\nquase meio s\u00e9culo. N\u00e3o h\u00e1 de certo na hist\u00f3ria<br \/>\ndos nossos cultos exemplo t\u00e3o frisante de quanto vale o querer como<br \/>\nessa vasta igreja. Fundada em 1861 pelos Revs. Green Simonton, Alexandre Blackford<br \/>\ne Francisco Shneider, tr\u00eas mission\u00e1rios mandados pelo board da<br \/>\nigreja Presbiteriana dos Estados Unidos para a evangeliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil, quarenta e tantos anos depois tornou-se realidade; e a semente<br \/>\nguardada no celeiro do Senhor, sob o seu divino olhar, brotou e floriu em<br \/>\n\u00e1rvore estrondosa. Quanto custou isso! Simonton ensinava gr\u00e1tis<br \/>\no ingl\u00eas para, aprendendo o portugu\u00eas, inocular nos disc\u00edpulos<br \/>\nos s\u00e3os princ\u00edpios da B\u00edblia; cada serm\u00e3o era<br \/>\num acontecimento, marcava-se com carinho o dia em que professava um novo simp\u00e1tico.<br \/>\nOs puritanos pregavam em salas estreitas e sem conforto. Algumas vezes, um<br \/>\npadre cat\u00f3lico surgia intolerante, protestava; os pastores interrompiam-se<br \/>\ne as duas igrejas combatiam, a ver quem pela palavra melhor parecia estar<br \/>\ncom Deus.<\/p>\n<p>Como a seita Positivista, a propaganda come\u00e7ou numa sala da rua Nova<br \/>\ndo Ouvidor, com dezesseis ouvintes. Passou depois \u00e0 rua do Cano, desceu<br \/>\n\u00e0 rua do Regente, \u00e0 pra\u00e7a da Aclama\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 rua de Santa Ana, comprou com sacrif\u00edcios e recursos americanos<br \/>\no barrac\u00e3o da f\u00e1brica de velas de cera da travessa da Barreira,<br \/>\ne ali orou, pediu a Deus e continuou a propagar. Os meios eram os usuais de<br \/>\ntoda a f\u00e9 que quer predominar. Os evang\u00e9licos faziam versos,<br \/>\nfaziam o bem e eram tenazes. Foi uma evolu\u00e7\u00e3o segura e lenta.<\/p>\n<p>A Igreja teve m\u00e1rtires. O s\u00e1bio padre romano Manuel da Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\nabjurou e ordenou-se presb\u00edtero.<\/p>\n<p>Era uma alma antiga. Ordenou-se e logo come\u00e7ou a evangelizar a p\u00e9<br \/>\npelas estradas. N\u00e3o levava uma moeda na bolsa, e de porta em porta,<br \/>\ncom a B\u00edblia na m\u00e3o, revelava aos homens a verdade. Atravessou<br \/>\nMinas assim, trope\u00e7ando pelos caminhos ardentes, quase sem comer, e,<br \/>\nonde parava, o seu l\u00e1bio abria falando do prazer de ser puro. Em Campanha<br \/>\ncorreram-no \u00e0 pedra. Concei\u00e7\u00e3o, com a B\u00edblia de<br \/>\nencontro ao peito, trope\u00e7ando, fugia sob a saraivada, e a turba s\u00f3<br \/>\no deixou fora da cidade, quando o viu em sangue cambalear e cair. Ao chegar<br \/>\na Sorocaba, o m\u00e1rtir estava andrajoso, quase a morrer, e, morto, os<br \/>\nseus ossos foram exumados, por ordem do bispo D. Lacerda, para serem atirados<br \/>\nfora do cemit\u00e9rio, ao vento.<\/p>\n<p>Os pastores trabalhavam tanto que Simonton morrera, aos trinta e quatro anos,<br \/>\nde cansa\u00e7o. Eram os primeiros tempos! A ades\u00e3o religiosa vem<br \/>\nda tenacidade. A tenacidade dessas criaturas de a\u00e7o que atraiu os fi\u00e9is,<br \/>\ndesde os analfabetos aos homens ilustres; a igreja recebeu no seu seio m\u00e9dicos,<br \/>\nengenheiros, literatos, arquitetos, professoras p\u00fablicas, homens rudes,<br \/>\nlentes de escolas superiores e cada um que daqui sa\u00eda, levava para<br \/>\nas igrejas dos Estados com a carta demiss\u00f3ria um elemento de propaganda.<br \/>\nPor \u00faltimo, os pastores foram brasileiros, a derradeira etapa estava<br \/>\nganha, a igreja, ponto inicial da evangeliza\u00e7\u00e3o brasileira,<br \/>\nfoi constru\u00edda luxuosamente, e o Rev. Trajano, com verdade e poesia,<br \/>\no afirmou: &#8211; depois de peregrinar por seis tetos estrangeiros, s\u00f3 no<br \/>\ns\u00e9timo a nossa igreja descansou.<\/p>\n<p>Foi nesse descanso que eu dias depois voltei a conversar com o Dr. \u00c1lvaro<br \/>\nReis. A casa do pastor fica ao lado esquerdo do templo, oculta nos roseirais.<br \/>\nO protestantismo trouxe para os nossos costumes latino-americanos n\u00e3o<br \/>\nsei se a pureza da alma, de que o mundo sempre desconfia, mas o asseio ingl\u00eas,<br \/>\no regime ingl\u00eas, a satisfa\u00e7\u00e3o de bem cumprir os deveres<br \/>\nreligiosos e de viver com conforto.<\/p>\n<p>Logo que vieram abrir a porta, eu tive essa impress\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; O Pastor?<\/p>\n<p>O pastor n\u00e3o estava, mas isso n\u00e3o impedia que um homem de Deus<br \/>\nentrasse a refrescar das agruras do sol. O Dr. \u00c1lvaro Reis \u00e9<br \/>\npaulista: na sua resid\u00eancia encontrei alguns amigos seus, paulistas,<br \/>\nque me receberam entre as cortinas e os tapetes, com uma franqueza encantadora.<br \/>\nQuando me sentei na doce paz de uma poltrona, como um velho camarada irm\u00e3o<br \/>\nem Cristo, estava convencido de que ia beber caf\u00e9 e conversar largamente.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 como os evangelistas e os evangelistas brasileiros, para<br \/>\ngentilezas. \u00c0 bondade ordenada pela escritura re\u00fanem essa especial<br \/>\ne \u00edntima car\u00edcia do brasileiro, que, quando quer ser bom, \u00e9<br \/>\nsempre mais que bom.<\/p>\n<p>&#8211; A Igreja Presbiteriana &#8211; disse-me o substituto do Dr. \u00c1lvaro Reis<br \/>\n&#8211; realiza, como sabe, o trabalho de propaganda nesta cidade, h\u00e1 42<br \/>\nanos. Atualmente, al\u00e9m do templo, tem congrega\u00e7\u00f5es pr\u00f3speras<br \/>\nna rua da Passagem, em Botafogo, na rua do Riachuelo e na Ponta do Caju, onde<br \/>\nexistem salas de culto muito freq\u00fcentadas. Foi com elementos nossos que<br \/>\nse organizou a igreja de Niter\u00f3i.<\/p>\n<p>&#8211; E nos Estados?<\/p>\n<p>&#8211; A Igreja Presbiteriana do Rio ramificou-se por todos os Estados do Brasil.<br \/>\nH\u00e1 presbiterianos no Rio Grande do Sul, no Par\u00e1, em Minas, em<br \/>\nGoi\u00e1s, no Piau\u00ed e at\u00e9 nos confins de Mato Grosso. A propaganda<br \/>\nficou ao cuidado da Igreja Evang\u00e9lica Episcopal. O n\u00famero de<br \/>\ncongrega\u00e7\u00f5es e de templos que se organizaram depois do nosso,<br \/>\nsobe a 300.<\/p>\n<p>&#8211; E h\u00e1 v\u00e1rios col\u00e9gios?<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1rios? H\u00e1 muitos. A Igreja Presbiteriana conseguiu estabelecer<br \/>\nno Brasil os seguintes col\u00e9gios: o Mackenz e a Escola Americana, em<br \/>\nS\u00e3o Paulo; o Col\u00e9gio de Lavas, em Minas; o de Curitiba, no Paran\u00e1;<br \/>\no da Bahia, da Feira de Santa Ana e o da Cachoeira, na Bahia; o das Laranjeiras,<br \/>\nem Sergipe; o do Natal, no Rio Grande do Norte; e ainda v\u00e1rias escolas<br \/>\ngratuitas.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 natural que uma t\u00e3o copiosa propaganda tenha uma forma<br \/>\nde governo? &#8211; fiz vagamente.<\/p>\n<p>&#8211; Tem. A igreja \u00e9 governada por unia sess\u00e3o de igreja, presidida<br \/>\npelo pastor e composta de seis oficiais, que t\u00eam o t\u00edtulo de<br \/>\npresb\u00edteros. A sess\u00e3o da igreja apresenta anualmente atas e<br \/>\nrelat\u00f3rios ao presbit\u00e9rio do Rio, conc\u00edlio superior composto<br \/>\nde todos os ministros presbiterianos que trabalham no Rio, no sul de Minas<br \/>\ne no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>No Presbit\u00e9rio, cada sess\u00e3o se faz representar pelo pastor<br \/>\ne um presb\u00edtero. Al\u00e9m do Presbit\u00e9rio do Rio h\u00e1<br \/>\no de S\u00e3o Paulo, o de Minas, o do oeste de S\u00e3o Paulo, o de Pernambuco<br \/>\ne o do Sul do Brasil. Esses seis presbit\u00e9rios, reunidos de tr\u00eas<br \/>\nem tr\u00eas anos em uma s\u00f3 assembl\u00e9ia, formam o supremo conc\u00edlio<br \/>\nda igreja, com o nome de S\u00ednodo Presbiteriano Brasileiro. E a\u00ed<br \/>\nque se discutem os interesses gerais da causa.<\/p>\n<p>&#8211; A defesa tem jornais?<\/p>\n<p>&#8211; Alguns. Venha ver.<\/p>\n<p>Entramos na biblioteca de \u00c1lvaro Reis, uma sala confort\u00e1vel,<br \/>\nforrada de altas estantes de canela. Por toda a parte, em ordem, livros, pap\u00e9is,<br \/>\nbrochuras, cartas, fotografias.<\/p>\n<p>&#8211; Veja. Aqui no Rio temos o Presbiteriano e o Puritano. H\u00e1 em S\u00e3o<br \/>\nPaulo a Revista das Miss\u00f5es Nacionais, em Araquati o Evangelista, o<br \/>\nDespertador em Rio Claro, a Vida em Florian\u00f3polis e o S\u00e9culo<br \/>\nno Natal.<\/p>\n<p>&#8211; E com tantos jornais os senhores n\u00e3o vivem em guerra constante?<\/p>\n<p>&#8211; Contra quem?<\/p>\n<p>&#8211; Contra as outras igrejas, os batistas, os metodistas&#8230; Um jornal s\u00f3<br \/>\nbasta para fazer a disc\u00f3rdia; dez jornais fazem o conflito universal!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o &#8211; fez o meu interlocutor a sorrir -, n\u00e3o. Reina completa<br \/>\nharmonia. A Igreja Fluminense j\u00e1 existia quando come\u00e7amos a<br \/>\nnossa campanha. As rela\u00e7\u00f5es conservam-se cordiais. O pastor<br \/>\nSantos ministra aqui a palavra de Deus sempre que \u00e9 convidado. Enquanto<br \/>\no templo esteve em constru\u00e7\u00e3o, a Igreja Fluminense permitiu-nos<br \/>\no uso da sua vasta sala para o nosso servi\u00e7o religioso. Com os metodistas<br \/>\ne batistas a mesma cordialidade existe. Os pastores de l\u00e1 falam no<br \/>\nnosso p\u00falpito, como n\u00f3s falamos nos seus.<\/p>\n<p>Depois, com tristeza:<\/p>\n<p>&#8211; Talvez entre os de casa n\u00e3o existisse essa harmonia h\u00e1 bem<br \/>\npouco tempo&#8230; \u00c9 simples. Na \u00faltima reuni\u00e3o do S\u00ednodo<br \/>\nPresbiteriano houve, uma cis\u00e3o que se refletiu francamente na igreja<br \/>\ndo Rio. Um membro do conc\u00edlio imaginou que a ma\u00e7onaria fazia<br \/>\npress\u00e3o nas delibera\u00e7\u00f5es do S\u00ednodo, propondo logo<br \/>\nque a igreja banisse do seu seio a heresia ma\u00e7\u00f4nica. N\u00e3o<br \/>\nera verdade a press\u00e3o. O conc\u00edlio discutiu largamente e aprovou<br \/>\na seguinte resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;O S\u00ednodo julga inconveniente legislar sobre o assunto!&#8221;<br \/>\nA tolerante aprova\u00e7\u00e3o deu em resultado separarem-se sete ministros,<br \/>\nque formaram uma igreja independente e antima\u00e7\u00f4nica. \u00c0<br \/>\nnova igreja ligaram-se ex-membros da nossa.<\/p>\n<p>Ele falava simplesmente. Em torno, faces tranq\u00fcilas aprovavam e naquela<br \/>\natmosfera agrad\u00e1vel eu n\u00e3o pude deixar de dizer:<\/p>\n<p>&#8211; Como o grande p\u00fablico os ignora, como a popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\na verdadeira, a massa, os confunde numa complicada reuni\u00e3o de cultos!<\/p>\n<p>Todos sorriam perdoando.<\/p>\n<p>&#8211; Sabemos disso. \u00c9 natural! Oh! os protestantes! Passam pela porta,<br \/>\npensam coisas incr\u00edveis&#8230; Mas alguns entram e encontram a tranq\u00fcilidade.<br \/>\nQual \u00e9, afinal, secamente, em poucas palavras, o modo por que a Igreja<br \/>\nPresbiteriana difere da Igreja Romana? N\u00e3o considera o Papa como chefe,<br \/>\nnem tolera a sua infalibilidade, n\u00e3o cr\u00ea na intercess\u00e3o<br \/>\ndos santos, que est\u00e3o na gl\u00f3ria e nenhum poder tem neste mundo,<br \/>\nn\u00e3o aceita o celibato clerical, considerando uma inova\u00e7\u00e3o<br \/>\nfunesta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Funest\u00edssima!<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; de Greg\u00f3rio VII, no s\u00e9culo XI; n\u00e3o admite o culto<br \/>\ndas imagens, uma infra\u00e7\u00e3o ao 2.\u00ba mandamento do Dec\u00e1logo;<br \/>\ncr\u00ea que Jesus Cristo ressuscitou e est\u00e1 vivo e reina como \u00fanico<br \/>\nchefe da sua igreja; cr\u00ea no \u00fanico fundamento, na \u00fanica<br \/>\nregra da Religi\u00e3o Crist\u00e3, a Palavra de Deus, a B\u00edblia,<br \/>\ne prega que Deus, onipotente, onisciente e onipresente, \u00e9 \u00fanico<br \/>\napto a ouvir as ora\u00e7\u00f5es dos homens. S\u00f3 aceita dois sacramentos,<br \/>\no Batismo e a Comunh\u00e3o, os \u00fanicos institu\u00eddos por Jesus<br \/>\nCristo; s\u00f3 reconhece o casamento civil, sobre o qual impetra a b\u00ean\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Deus; n\u00e3o admite o purgat\u00f3rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O absurdo purgat\u00f3rio!<\/p>\n<p>&#8211; Diante das santas escrituras.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Pro\u00edbe as missas em sufr\u00e1gio das almas, porque Jesus nunca<br \/>\nrezou missas, e cr\u00ea que o homem \u00e9 salvo de gra\u00e7a pela<br \/>\nf\u00e9 viva, como cr\u00ea na ressurrei\u00e7\u00e3o, na regenera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nna vida eterna e no ju\u00edzo final. Todo o seu culto se resume na leitura<br \/>\ndas escrituras, em serm\u00f5es explicativos, em ora\u00e7\u00f5es a<br \/>\nDeus, e no primeiro domingo de cada m\u00eas na celebra\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Eucaristia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 sociedades na igreja?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 o Esfor\u00e7o Crist\u00e3o e uma de acordo com todas as<br \/>\nigrejas, o Hospital Evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>Nessa mesma noite eu ouvi, no templo cheio, \u00c1lvaro Reis. A sua larga<br \/>\nfronte parecia inspirada e ele, desfazendo sutilmente as frases diamantinas<br \/>\nda B\u00edblia, num polvilho de bem, falava da Caridade, da Caridade que<br \/>\nsustenta todos os que cr\u00eaem em Jesus, &#8211; da Caridade suavemente doce<br \/>\nque protege e esquece.<\/p>\n<h4><a name=\"11\"><\/a>A Igreja Metodista<\/h4>\n<p>&#8211; Amados irm\u00e3os, estamos reunidos aqui \u00e0 vista de Deus, e na<br \/>\npresen\u00e7a destas testemunhas, para unir este homem e esta mulher em<br \/>\nsanto matrim\u00f4nio, que \u00e9 um estado honroso, institu\u00eddo<br \/>\npor Deus no tempo da inoc\u00eancia do homem, significando-nos a uni\u00e3o<br \/>\nm\u00edstica que existe entre Cristo e a sua Igreja. Esse estado santo,<br \/>\nCristo adornou-o com a beleza da sua presen\u00e7a, fazendo o primeiro milagre<br \/>\nem Canan\u00e9ia da Galil\u00e9ia; S\u00e3o Paulo o recomenda como um<br \/>\nestado honroso entre os homens; e por isso n\u00e3o deve ser empreendido<br \/>\nou contra\u00eddo sem reflex\u00e3o, mas, sim, reverente, discreta, refletidamente,<br \/>\ne no temor de Deus.<\/p>\n<p>No ar pairava um suave perfume, senhoras de rara eleg\u00e2ncia tinham fisionomias<br \/>\nim\u00f3veis, cavalheiros graves pareciam ouvir com aten\u00e7\u00e3o<br \/>\na palavra do pastor e tudo cintilava ao brilho dos focos luminosos. Era um<br \/>\ncasamento na Igreja Metodista, na pra\u00e7a Jos\u00e9 de Alencar. Ao<br \/>\nfundo, via-se, \u00e0 m\u00e3o direita do pastor, o noivo, \u00e0 esquerda<br \/>\na noiva, e por tr\u00e1s dos vitrais, l\u00e1 fora, naquele recanto onde<br \/>\ncorre de vagar um rio, a turba dos curiosos que n\u00e3o entram nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Estas duas pessoas apresentam-se &#8211; continuava o ministro evang\u00e9lico<br \/>\n&#8211; para serem unidas nesse estado santo. Se algu\u00e9m sabe coisa que possa<br \/>\nser provada como causa justa, pela qual estas pessoas n\u00e3o devam legalmente<br \/>\nser unidas, queira dizer agora, ou do contr\u00e1rio &#8211; nunca mais fale sobre<br \/>\nisso.<\/p>\n<p>Houve um sussurro como se entrasse pela porta ogival uma lufada de ar. O<br \/>\npastor voltou-se para as pessoas que casavam.<\/p>\n<p>&#8211; Exijo e ordeno de v\u00f3s ambos (como respondereis no terr\u00edvel<br \/>\ndia de ju\u00edzo, quando os segredos de todos os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nforem desvendados) que se algum de v\u00f3s souber de impedimento pelo qual<br \/>\nn\u00e3o podeis legalmente ser unidos pelos la\u00e7os do matrim\u00f4nio,<br \/>\nqueira dizer agora, pois, ficai bem certos disso, que aqueles que se unem<br \/>\nde um modo diferente daquele que \u00e9 autorizado pela palavra de Deus<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o unidos por Deus, nem o seu matrim\u00f4nio \u00e9<br \/>\nlegal.<\/p>\n<p>Nem o noivo nem a noiva responderam. Ela parecia tranq\u00fcila, ele sorria,<br \/>\num sorriso mais ou menos ir\u00f4nico entre as cerdas do bigode. O ministro<br \/>\nent\u00e3o disse ao noivo:<\/p>\n<p>&#8211; Queres casar com esta mulher para viverdes juntos, segundo a ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Deus, no estado santo do matrim\u00f4nio? Am\u00e1-la-\u00e1s, confort\u00e1-la-\u00e1s,<br \/>\nhonr\u00e1-la-\u00e1s e guard\u00e1-la-\u00e1s na doen\u00e7a e<br \/>\nna sa\u00fade; e deixando tudo o mais guardar-te-\u00e1s para ela somente,<br \/>\nenquanto ambos viverem?<\/p>\n<p>&#8211; Sim! &#8211; fez o noivo.<\/p>\n<p>&#8211; Queres casar com este homem para viver, segundo a ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Deus, no estado santo do matrim\u00f4nio? Obedece-lo-\u00e1s, servi-lo-\u00e1s,<br \/>\nhonr\u00e1-lo-\u00e1s e guard\u00e1-lo-\u00e1s na doen\u00e7a e<br \/>\nna sa\u00fade, e deixando todos os outros guardar-te-\u00e1s somente para<br \/>\nele, enquanto ambos viverdes?<\/p>\n<p>&#8211; Quero &#8211; disse a linda senhora.<\/p>\n<p>Houve a cerim\u00f4nia do anel, enquanto os assistentes abanavam-se. O ministro<br \/>\ntomou-o, deu-o ao noivo, que o enfiou no quarto dedo da m\u00e3o esquerda<br \/>\nda noiva, repetindo as palavras do pastor:<\/p>\n<p>&#8211; Com este anel eu me caso contigo e doto-te de todos os meus bens terrestres:<br \/>\nem nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo, Am\u00e9m!<\/p>\n<p>&#8211; Oremos! Pai nosso que est\u00e1s no c\u00e9u&#8230; Era um Padre-nosso&#8230;<br \/>\nDepois, juntando as m\u00e3os do noivo, o ministro disse:<\/p>\n<p>&#8211; O que Deus ajuntou n\u00e3o o separe o homem. Visto como t\u00eam consentido<br \/>\nunir-se, e t\u00eam assim testemunhado diante de Deus e das pessoas aqui<br \/>\npresentes, e portanto t\u00eam prometido fidelidade um ao outro e assim declarado,<br \/>\njuntando as m\u00e3os, eu os declaro casados no nome do Pai, do Filho, e<br \/>\ndo Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Deus o pai, Deus o filho, Deus o Esp\u00edrito aben\u00e7oe, preserve<br \/>\ne guarde-os; o Senhor misericordiosamente com o seu favor olhe para v\u00f3s;<br \/>\ne assim vos encha de todas as b\u00ean\u00e7\u00e3os e gra\u00e7as<br \/>\nespirituais, para que no mundo por vir tenhais vida eterna. Am\u00e9m!<\/p>\n<p>Estava terminada a cerim\u00f4nia. Houve um movimento, como nos templos<br \/>\ncat\u00f3licos, para felicitar o feliz par, capaz de jurar em t\u00e3o<br \/>\npouco tempo tantos juramentos de eternidade. As senhoras afiavam um sorrizinho<br \/>\ne os homens iam em fila tocantemente indiferentes.<\/p>\n<p>E da f\u00e9erie do templo, por cima d\u00e1gua, do mais lindo templo<br \/>\nevangelista, onde as luzes ardiam por tr\u00e1s dos vitrais numa confusa<br \/>\nirradia\u00e7\u00e3o de cores, come\u00e7aram a sair os convidados.<br \/>\nCarros estacionavam na escurid\u00e3o da pra\u00e7a com os far\u00f3is<br \/>\nacesos carbunculando&#8230; Eu assistira a um casamento sensacional.<\/p>\n<p>No dia seguinte fui \u00e0 resid\u00eancia do pastor Camargo.<\/p>\n<p>No ano de 1739 falaram com John Wesley, em Londres, oito pessoas que estavam<br \/>\nconvencidas do pecado e ansiosas pela reden\u00e7\u00e3o. Essas criaturas<br \/>\ntementes da ira futura desejavam que com elas John gastasse algum tempo em<br \/>\nora\u00e7\u00e3o. Wesley marcou um dia na semana e da\u00ed surgiu a<br \/>\nsociedade unida. Aos que desejam entrar para a sociedade s\u00f3 se exige<br \/>\numa condi\u00e7\u00e3o: o desejo de fugirem da ira vindoura e de serem<br \/>\nsalvos de seus pecados.<\/p>\n<p>Muita gente h\u00e1 no Brasil receosa da dita ira. A Igreja Metodista,<br \/>\nque \u00e9 um desdobramento da episcopal, come\u00e7ou os seus trabalhos,<br \/>\nh\u00e1 vinte e sete anos, no Catete, na casa onde est\u00e1 hoje instalada<br \/>\na pens\u00e3o Almeida. Tinha apenas sete membros e os mission\u00e1rios<br \/>\nmandados pelo board americano, os Revs. Ransom, Cowber, Tarbou Kennedy, sabiam<br \/>\nque desses sete j\u00e1 quatro eram metodistas nos Estados Unidos. Hoje<br \/>\na Igreja conta cinco mil membros, todos os anos o n\u00famero aumenta, as<br \/>\nigrejas surgem, fundam-se col\u00e9gios, e as miss\u00f5es levam aos recessos<br \/>\ndo pais, perseguidas, corridas \u00e0 pedra, a palavra de Cristo. S\u00f3<br \/>\no templo da pra\u00e7a Jos\u00e9 de Alencar custou 107 contos; h\u00e1<br \/>\nmiss\u00f5es e igrejas em Petr\u00f3polis, na Para\u00edba, em S\u00e3o<br \/>\nPaulo, em Itapecerica, S\u00e3o Roque, Piracicaba, Capivari, Taubat\u00e9,<br \/>\nCunha, Amparo; todo o Estado de Minas e o Rio Grande est\u00e3o cheios de<br \/>\nmetodistas, e os mission\u00e1rios chegaram at\u00e9 Cruz Alta e Forqueta,<br \/>\nno desejo tenaz de prolongar a f\u00e9.<\/p>\n<p>Os metodistas t\u00eam um grande disp\u00eandio anual. No Rio contribuem<br \/>\npara as despesas do pastor em cargo, presb\u00edtero-presidente, bispos,<br \/>\nmiss\u00f5es dom\u00e9sticas, miss\u00f5es estrangeiras, educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pension\u00e1rios, Sociedade B\u00edblica Americana, pobres, atas,<br \/>\nconstru\u00e7\u00f5es, casa publicadora, ligas Epworth, escolas dominicais,<br \/>\nsociedade auxiliadora de senhoras, de modo que, sendo a m\u00e9dia de cada<br \/>\ncontribuinte de vinte e nove mil r\u00e9is, a despesa geral eleva-se anualmente<br \/>\na quantia superior a vinte contos. H\u00e1 cinq\u00fcenta e seis sociedades<br \/>\ne dezesseis casas de culto, cujo valor \u00e9 de trezentos e dezenove contos,<br \/>\noito resid\u00eancias e nove col\u00e9gios, e o valor desses \u00e9 de<br \/>\nquatrocentos e sessenta contos.<\/p>\n<p>Quando cheguei \u00e0 resid\u00eancia de Jovenilo Camargo, ordenado presb\u00edtero<br \/>\nh\u00e1 dois anos, estava edificado da situa\u00e7\u00e3o financeira<br \/>\nda igreja, dessa excelente situa\u00e7\u00e3o. Camargo \u00e9 paulista,<br \/>\nsimples e am\u00e1vel. Recebeu-me no seu gabinete de trabalho, donde se<br \/>\ndescortina todo um trecho belo da praia de Botafogo.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 quanto tempo est\u00e1 aqui?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 dois anos; os pregadores metodistas n\u00e3o levam mais de<br \/>\nquatro anos em cada igreja.<\/p>\n<p>&#8211; Quais s\u00e3o os pregadores atualmente no Rio?<\/p>\n<p>&#8211; Rev. Parker, da Igreja Evang\u00e9lica; Guilherme da Costa, que prega<br \/>\nem Vila Isabel e no Jardim Bot\u00e2nico, e eu.<\/p>\n<p>Os metodistas t\u00eam uma grande quantidade de ministros e de oficiais<br \/>\nde igreja, bispos, presb\u00edteros, pregadores em cargo e em circuito,<br \/>\ndi\u00e1conos itinerantes, presb\u00edteros itinerantes, pregadores supranumer\u00e1rios,<br \/>\nlocais, exortadores, ec\u00f4nomos, deposit\u00e1rios.<\/p>\n<p>&#8211; Para cada distrito; na cidade propriamente h\u00e1 apenas os pregadores<br \/>\nlocais e os ec\u00f4nomos que tratam das quest\u00f5es financeiras, uma<br \/>\njunta de sete membros, que atualmente \u00e9 composta dos Srs. Joaquim Dias,<br \/>\nJo\u00e3o Medeiros, Manuel Esteves de Almeida, Jos\u00e9 Pinto de Castro,<br \/>\nAnt\u00f4nio Joaquim e Elesb\u00e3o Sampaio.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 v\u00e1rios jornais metodistas?<\/p>\n<p>&#8211; A Revista da Escola Dominical, em S\u00e3o Paulo; O Expositor Crist\u00e3o,<br \/>\n\u00f3rg\u00e3o da confer\u00eancia anual brasileira, dirigido pelos<br \/>\nSrs. Kennedy e Guilherme da Costa; O Juvenil, O Testemunho. Como as outras<br \/>\nigrejas evang\u00e9licas, a Metodista tem sociedades internas que a propagam;<br \/>\na Sociedade Mission\u00e1ria das Senhoras no Estrangeiro, a Sociedade de<br \/>\nMiss\u00f5es Dom\u00e9sticas das Senhoras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A liga Epworth&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A liga Epworth \u00e9 um meio de gra\u00e7a como o culto, a ora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nas escolas dominicais, as festas do amor. Temos 34 ligas Epworth. As ligas<br \/>\norganizam-se em nossas congrega\u00e7\u00f5es para a promo\u00e7\u00e3o<br \/>\nda piedade e lealdade \u00e0 nossa igreja entre a mocidade, para a sua instru\u00e7\u00e3o<br \/>\nna B\u00edblia, na literatura crist\u00e3, no trabalho mission\u00e1rio<br \/>\nda igreja.<\/p>\n<p>A junta comp\u00f5e-se de um bispo, seis pregadores itinerantes e seis<br \/>\nleigos, sendo todos eleitos de quatro em quatro anos pela confer\u00eancia<br \/>\ngeral, sob a nomea\u00e7\u00e3o da comiss\u00e3o permanente das ligas<br \/>\nEpworth. As ligas locais est\u00e3o sob a dire\u00e7\u00e3o do pastor<br \/>\ne da confer\u00eancia trimensal.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o meio da propaganda?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 quase todo liter\u00e1rio; a liga \u00e9 propriamente a difus\u00e3o<br \/>\nda literatura evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>&#8211; O mais admir\u00e1vel entre os metodistas \u00e9 o maquinismo, o funcionamento<br \/>\nda sua igreja.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 governada por confer\u00eancias, pode-se dizer. H\u00e1<br \/>\nconfer\u00eancias da igreja, mensais, trimensais, distritais, anuais e gerais<br \/>\nde quatro em quatro anos.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, Jovelino Camargo ofereceu-me caf\u00e9, e sorvendo<br \/>\no n\u00e9ctar precioso, eu indaguei:<\/p>\n<p>&#8211; Muitos casamentos na capela do Catete?<\/p>\n<p>&#8211; Alguns. Para esses atos os pastores procuram sempre os templos mais belos.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 muita gente que acredita o vosso casamento uma v\u00e1lvula<br \/>\nque a nossa lei n\u00e3o permite.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 absolutamente falso, \u00e9 uma cal\u00fania formid\u00e1vel.<br \/>\nOs evangelistas respeitam antes de tudo a lei do pa\u00eds em que est\u00e3o.<br \/>\nA totalidade dos nossos pastores n\u00e3o casam sem ver antes a certid\u00e3o<br \/>\ndo ato civil. Ah! meu caro, a cal\u00fania tem corrido, os pedidos s\u00e3o<br \/>\nfreq\u00fcentes aos ministros evang\u00e9licos para a realiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo casamento de pessoas divorciadas, mas n\u00f3s nos furtamos sempre; e<br \/>\nainda este m\u00eas C. Tacker, \u00c1lvaro dos Reis, Ant\u00f4nio Marques<br \/>\ne Franklin do Nascimento fizeram p\u00fablico pelos jornais que n\u00e3o<br \/>\npodiam lan\u00e7ar a b\u00ean\u00e7\u00e3o religiosa sobre nenhum casal<br \/>\nque n\u00e3o tenha antes contra\u00eddo matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Os meus companheiros Kennedy e Guilherme da Costa comentaram esse manifesto<br \/>\nque o momento exigia. N\u00f3s temos uma lei que nos inibe esse crime. Quer<br \/>\nver?<\/p>\n<p>Ergueu-se, foi \u00e0 estante, abriu um pequeno livro de capa preta.<\/p>\n<p>&#8211; Esta \u00e9 nossa disciplina, leia.<\/p>\n<p>Ambos curvamos a cabe\u00e7a, procurando os caracteres \u00e0 luz fugace<br \/>\ndo anoitecer e ambos na mesma p\u00e1gina lemos: &#8211; &#8220;Os ministros de<br \/>\nnossa igreja ser\u00e3o proibidos de celebrarem os ritos do matrim\u00f4nio<br \/>\nentre pessoas divorciadas, salvo o caso de pessoas inocentes, que t\u00eam<br \/>\nsido divorciadas pela \u00fanica causa de que fala a Escritura&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Houve um longo sil\u00eancio. As sombras da noite entravam pelas janelas.<\/p>\n<p>&#8211; A causa \u00fanica de que fala a B\u00edblia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso afinal compreender que nem todas as igrejas denominadas<br \/>\ncrist\u00e3s e protestantes, pertencem \u00e0 Alian\u00e7a Evang\u00e9lica<br \/>\nBrasileira e que n\u00f3s n\u00e3o podemos em nome de Cristo pregar, por<br \/>\nassim dizer, a dissolu\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>Ergui-me.<\/p>\n<p>&#8211; Apesar das injusti\u00e7as dos homens, a Igreja Metodista caminha.<\/p>\n<p>&#8211; E os casamentos honestos s\u00e3o em grande n\u00famero.<\/p>\n<p>Jovelino Camargo desceu comigo a praia de Botafogo. Vinha, como sempre, calmo,<br \/>\ninteligente e simples.<\/p>\n<p>&#8211; Aonde vai?<\/p>\n<p>&#8211; A uma festa de amor.<\/p>\n<p>Estaquei. Mas, Senhor Deus, os metodistas davam-me uma excessiva quota de<br \/>\namor. No dia anterior um casamento, minutos antes o casamento de novo, e agora<br \/>\nali, na sombra da noite, o pastor que me dizia, como um velho noceur, o lugar<br \/>\nperigoso para onde ia!<\/p>\n<p>&#8211; A uma festa de amor? &#8211; interroguei, feroz.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, \u00e9 uma festa nossa, trimensal, fez a sorrir o puro mo\u00e7o.<br \/>\nVou fazer ora\u00e7\u00e3o e participar do p\u00e3o e da \u00e1gua<br \/>\nem sinal de amor fraternal.<\/p>\n<p>E simplesmente Jovelino Camargo desapareceu na sombra, enquanto eu, olhando<br \/>\no c\u00e9u, onde as estrelas palpitavam, rendia gra\u00e7as a Deus por<br \/>\nhaver ainda neste tormentoso mundo quem, por seu amor, ame, respeite e seja<br \/>\nhonesto.<\/p>\n<h4><a name=\"12\"><\/a>Os Batistas<\/h4>\n<p>E disse o eunuco: Eis aqui est\u00e1 a \u00e1gua. Que embara\u00e7o<br \/>\nh\u00e1 para que eu n\u00e3o seja batizado? E disse Felipe: Se cr\u00eas<br \/>\nde todo o teu cora\u00e7\u00e3o, bem podes&#8230; E desceram os dois, Felipe<br \/>\ne o eunuco, \u00e0 \u00e1gua, e o batizou&#8230;<\/p>\n<p>Estava na rua de Santana, no templo batista, severo e r\u00edgido nas suas<br \/>\nlinhas g\u00f3ticas. Era de noite. \u00c0 porta um certo movimento, caras<br \/>\ncuriosas, gente a sair, gente a entrar, e um velho blandicioso distribuindo<br \/>\nfolhetos.<\/p>\n<p>&#8211; Os batistas? Exatamente.<\/p>\n<p>Pego de um folheto, enquanto l\u00e1 dentro parte um coro louvando a gl\u00f3ria<br \/>\nde Deus. Trata do purgat\u00f3rio perante as Escrituras Sagradas e est\u00e1<br \/>\nna 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Leio na primeira p\u00e1gina: &#8220;Entre<br \/>\nas diferentes religi\u00f5es existentes distinguem-se a religi\u00e3o<br \/>\nde Jesus, que nos oferece o c\u00e9u, e a religi\u00e3o do Papa, que aponta<br \/>\no purgat\u00f3rio. O Papa prega o purgat\u00f3rio porque ama o nosso dinheiro&#8230;&#8221;<br \/>\nCom um pouco mais ter\u00edamos a Velhice do Padre Eterno!<\/p>\n<p>A Igreja Batista \u00e9, entretanto, um dos ramos em que se divide o que<br \/>\no vulgo geralmente chama protestantismo, \u00e9 uma das muitas divergentes<br \/>\ninterpreta\u00e7\u00f5es dos Evangelhos.<\/p>\n<p>H\u00e1 seis s\u00e9culos chamava-se anabatista.<\/p>\n<p>Seita antiq\u00fc\u00edssima, com grandes solu\u00e7\u00f5es de continuidade,<br \/>\ndesaparecendo muita vez na hist\u00f3ria sob o mart\u00edrio das persegui\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsem deixar documentos, mas nunca de todo se perdeu.<\/p>\n<p>Hoje, como as outras seitas que asseguram ser as \u00fanicas e verdadeiras<br \/>\nint\u00e9rpretes da B\u00edblia, o seu foco principal s\u00e3o os Estados<br \/>\nUnidos, mas o mundo est\u00e1 cheio de anabatistas e um magn\u00edfico<br \/>\nservi\u00e7o de propaganda na China, no Jap\u00e3o, na \u00c1frica,<br \/>\nna It\u00e1lia, no M\u00e9xico e no Brasil aumenta diariamente o n\u00famero<br \/>\nde adeptos.<\/p>\n<p>O movimento das miss\u00f5es \u00e9 t\u00e3o intenso que at\u00e9<br \/>\ntem um jornal informativo: The Yorking Mission Journal.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o impede que a controv\u00e9rsia os selecione e que a cr\u00edtica<br \/>\nos divida. Nos Estados Unidos a igreja est\u00e1 dividida em batistas crist\u00e3os,<br \/>\nnovos batistas, batistas rigorosos, batistas separados, batistas liberais,<br \/>\nbatistas livres, anabatistas batistas, crian\u00e7as batistas gerais, batistas<br \/>\nparticulares, batistas escoceses, batistas nova comunh\u00e3o geral, batistas<br \/>\nnegros, batistas do bra\u00e7o de ferro, batistas do s\u00e9timo dia e<br \/>\nbatistas pac\u00edficos.<\/p>\n<p>Aos batistas daqui, pac\u00edficos, crist\u00e3os e misturados, bem se<br \/>\npode chamar: &#8211; do bra\u00e7o de ferro, desde que bra\u00e7o signifique<br \/>\na decis\u00e3o e a for\u00e7a com que arredam as nuvens da Luz. A hist\u00f3ria<br \/>\nda igreja do Rio come\u00e7a em 1884 com a chegada do Sr. e da Sra. Bagby.<\/p>\n<p>O Sr. Bagby foi o patriarca. Quatro dias depois de chegar, organizou a igreja<br \/>\nna pr\u00f3pria casa, com quatro ovelhas, isto \u00e9, com quatro cidad\u00e3os.<br \/>\nUm ano depois mudava-se para a rua do Senado j\u00e1 com outros recursos,<br \/>\npassava a pregar na rua Frei Caneca, na rua Bar\u00e3o de Capanema, quase<br \/>\nsem abandonar o rebanho, durante anos a fio, e, passado o d\u00e9cimo primeiro,<br \/>\ninstalava-se num templo pr\u00f3prio, edif\u00edcio que custou cinq\u00fcenta<br \/>\ne um contos.<\/p>\n<p>Era nesse templo que eu estava, defronte da igreja da Senhora Sant&#8217;Ana, lendo<br \/>\ntrechos do tal Purgat\u00f3rio, em que uma igreja solapa a outra por amor<br \/>\ndo mesmo Cristo misericordioso. O velho blandicioso, por\u00e9m, apertando<br \/>\num ma\u00e7o de Purgat\u00f3rios debaixo do bra\u00e7o, empurrava-me<br \/>\ncom um ar de cambista depois do 2.\u00ba ato.<\/p>\n<p>&#8211; Entre, entre, o senhor vai perder!<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que eu entrei. Todos os bicos de g\u00e1s silvavam, enchendo<br \/>\nde luz amarela as paredes nuas. No fundo, em letras largas, que pareciam alongar-se<br \/>\nna cal da parede, esta inscri\u00e7\u00e3o solene negrejava: &#8211; &#8220;Deus<br \/>\namou o mundo de tal maneira que deu a seu filho unig\u00eanito para que todo<br \/>\naquele que nele crer n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha vida eterna.&#8221;<br \/>\nNa c\u00e1tedra ningu\u00e9m. Do lado esquerdo, o \u00f3rg\u00e3o<br \/>\ne diante dele uma senhora com a fisionomia paciente, e um cavalheiro irrepreens\u00edvel,<br \/>\nsem uma ruga no fato, sem um cabelo fora da pasta severa. Pelos bancos uma<br \/>\nsociedade complexa, uma parcela de multid\u00e3o, isto \u00e9, o resumo<br \/>\nde todas as classes. H\u00e1 senhoras que parecem da vizinhan\u00e7a,<br \/>\nem cabelo e de matin\u00e9e, crian\u00e7as tr\u00eafegas, burgueses convictos,<br \/>\ns\u00e9rios e limpos, nas primeiras filas, oper\u00e1rios, malandrins<br \/>\nde tamancos de bico revirado, com o cabelo empastado em cheiros suspeitos,<br \/>\nsoldados de pol\u00edcia, um bombeiro de cavanhaque, velhas pretas a dormir,<br \/>\nnegros atentos, uma dama de chap\u00e9u com uma capa crispante de lentejoulas,<br \/>\ncabe\u00e7as sem express\u00e3o, e para o fim, na porta, gente que subitamente<br \/>\nentra, olha e sai sem compreender. O templo est\u00e1 cheio.<\/p>\n<p>O pastor parece concentrado, olhando o rebanho de ovelhas, a maior parte<br \/>\nignorante do aprisco. Nessa noite n\u00e3o se perde em erudi\u00e7\u00f5es<br \/>\nteol\u00f3gicas; nesta noite chama com o \u00f3rg\u00e3o do Senhor os<br \/>\ncarneiros sem f\u00e9. E \u00e9 uma coisa que se nota logo. A propaganda,<br \/>\na atra\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 a m\u00fasica. Ganham-se mais<br \/>\nfi\u00e9is entoando um hino que fazendo um s\u00e1bio discurso cheio de<br \/>\nvirtudes. O Sr. Soren, o pastor calmo, irrepreens\u00edvel, parece compreender<br \/>\nos que o freq\u00fcentam, sem esquecer sua miss\u00e3o evang\u00e9lica.<br \/>\nE positivamente o professor. Sem o perfume dos hin\u00e1rios e sem aquelas<br \/>\nletras negras da parede, a gente est\u00e1 como se estivesse numa aula de<br \/>\ncanto do Instituto de M\u00fasica, ouvindo o ensaio de um coro para qualquer<br \/>\nch\u00eache mundana&#8230;<\/p>\n<p>Vamos mais uma vez, diz ele com um leve acento ingl\u00eas. Este hino \u00e9<br \/>\nmuito bonito! Cantado por duzentas vozes faz um efeito! Sabem a letra? Vamos&#8230;<br \/>\nA dama, com um ar de bondade indiferente, corre o teclado, acordando no \u00f3rg\u00e3o<br \/>\ngraves e profundos sons que se perdem no ar vagarosamente. Depois, receosa,<br \/>\nacompanhando cada acorde, a sua voz, seguida da do pastor, come\u00e7a:<\/p>\n<p>Oh! Se-e-nhor!&#8230;<\/p>\n<p>Muitos l\u00eaem os versos, acompanhando a voz do pastor, outros, nervosos,<br \/>\nprecipitam o andamento. Mas naquele ensaio, logo me prende a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\num preto de casaco de brim sem colarinho. O \u00f3rg\u00e3o domina-o como<br \/>\num som de violino domina os crocodilos. Nos seus dentes brancos, nos olhos<br \/>\nbrancos, de um branco albuminoso, correm risos de prazer. Sentado na ponta<br \/>\ndo banco, os longos bra\u00e7os escorrendo entre os joelhos, a cabe\u00e7a<br \/>\nmarcando o compasso, ele segue, com as mand\u00edbulas abertas, os sons<br \/>\ne as vozes que os acompanham. Depois, como o Sr. Soren diz:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos repetir. J\u00e1 se adiantaram. Um, dois, tr\u00eas!<\/p>\n<p>Oh! Se-e-e-nhor!&#8230;<\/p>\n<p>o negro tamb\u00e9m, abrindo a fauce num repuxamento da face inteira, cantou:<\/p>\n<p>Oh! Se-e-e-nhor!<\/p>\n<p>E todo o seu ser irradiou no contentamento de ter decorado o verso bonito.<\/p>\n<p>Eu curvei-me para o velho, que passava com outro ma\u00e7o de Purgat\u00f3rios<br \/>\ndebaixo do bra\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; Vem sempre aqui, aquele?<\/p>\n<p>&#8211; Vem sim, \u00e9 fiel. Eu \u00e9 que n\u00e3o sou&#8230;<\/p>\n<p>E, confidencialmente, desapareceu.<\/p>\n<p>Entretanto o hino acabara bem. Quase que houve palmas. Estavam contentes.<\/p>\n<p>O Sr. Soren consultou o rel\u00f3gio e aproveitou a boa vontade dos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, mais um hino. \u00c9 lindo! Estudemos s\u00f3 a primeira parte.<br \/>\nDe Deus at\u00e9 Salvador.<\/p>\n<p>A organista tocou primeiro a m\u00fasica para que os batistas aprendessem<br \/>\no tom, e todos come\u00e7aram o novo hino, as crian\u00e7as, as senhoras,<br \/>\nos homens graves, enquanto o negro abria as mand\u00edbulas e uma velha<br \/>\nfechava os olhos enlevados e sonolentos. Quando as vozes pararam num \u00faltimo<br \/>\nacorde, o Sr. Soren disse algumas palavras sobre a gl\u00f3ria do Senhor<br \/>\ne estendeu as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Am\u00e9m! Estava acabado o estudo. Alguns crentes demoraram-se ainda,<br \/>\no negro saiu dando grandes pernadas, outros estremunhavam. Mandei ent\u00e3o<br \/>\no meu cart\u00e3o ao Sr. Soren, que se apoiava ao \u00f3rg\u00e3o rodeado<br \/>\nde damas vener\u00e1veis.<\/p>\n<p>Esse homem \u00e9 amabil\u00edssimo. Nascido no Rio, de uma fam\u00edlia<br \/>\nfrancesa que fugia \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es religiosas da Fran\u00e7a,<br \/>\nestudou nos Estados Unidos e \u00e9 bacharel. No seu gabinete, ao fundo,<br \/>\nlimpo e brunido, onde se move com pausa, tudo respira asseio e austeridade.<br \/>\nSoren mostra a biblioteca, encaderna\u00e7\u00f5es americanas de percaline<br \/>\ne couro, bate nos livros recordando as dificuldades do estudo, a aridez, o<br \/>\nque certos autores custavam.<\/p>\n<p>&#8211; Para tudo isso h\u00e1 a compensa\u00e7\u00e3o da verdade que conforta<br \/>\n&#8211; diz.<\/p>\n<p>A verdade deve confortar como um beef. Guardo, por\u00e9m, essa compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os batistas, firmados na B\u00edblia, assim como praticam o batismo por<br \/>\nimers\u00e3o, n\u00e3o comem carne com sangue&#8230; Limito-me a dizer.<\/p>\n<p>&#8211; A sua cren\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00f3s cremos que a B\u00edblia foi escrita por homens, divinamente<br \/>\ninspirados, que t\u00eam Deus como autor e a salva\u00e7\u00e3o como<br \/>\nfim; cremos que a salva\u00e7\u00e3o dos pecados \u00e9 totalmente de<br \/>\ngra\u00e7a pelos of\u00edcios medianeiros do filho de Deus; cremos que<br \/>\na grande b\u00ean\u00e7\u00e3o do Evangelho que Cristo assegurou \u00e9<br \/>\na justifica\u00e7\u00e3o; e cremos na perseveran\u00e7a, no Evangelho,<br \/>\nno prop\u00f3sito de gra\u00e7a, na satisfa\u00e7\u00e3o que come\u00e7a<br \/>\nna regenera\u00e7\u00e3o e \u00e9 sustentada no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos crentes.<\/p>\n<p>O Sr. Soren p\u00e1ra um instante.<\/p>\n<p>&#8211; Cremos tamb\u00e9m &#8211; continuou -, que o governo civil \u00e9 de autoridade<br \/>\ndivina, para o interesse e boa ordem da sociedade e que devemos orar pelos<br \/>\nmagistrados.<\/p>\n<p>&#8211; E cr\u00eaem no fim do mundo?<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Que se aproxima.<\/p>\n<p>Enquanto, por\u00e9m, o fim n\u00e3o aparece, a propaganda batista \u00e9<br \/>\nfeita com calor no Brasil: em S\u00e3o Paulo, na Bahia, em Pernambuco, no<br \/>\nPar\u00e1, no Amazonas. No Rio existem os Srs. Entznimger e esposa, Deter<br \/>\ne esposa e o Sr. Soren, criaturas de pureza exemplar. Na cidade h\u00e1<br \/>\nquatro congrega\u00e7\u00f5es. Os pastores, dos quais foi sempre o principal<br \/>\no Sr. Bagby, que se retirou em 1900, t\u00eam pregado na rua D. Feliciana,<br \/>\nno Est\u00e1cio de S\u00e1, em Madureira, no morro do Livramento, em S\u00e3o<br \/>\nCrist\u00f3v\u00e3o, na ladeira do Barroso, em Paula Matos, em Santa Teresa,<br \/>\nna Piedade, no Engenho de Dentro, na rua Bar\u00e3o de S\u00e3o F\u00e9lix.<\/p>\n<p>O Evangelho caminha.<\/p>\n<p>E s\u00e3o grandes os progressos?<\/p>\n<p>&#8211; Ricamente aben\u00e7oado o trabalho. Pelos dados que tenho, realizaram-se<br \/>\nem 1903 cerca de mil batismos, foram organizadas dez igrejas novas, edificaram-se<br \/>\ntr\u00eas templos novos e a contribui\u00e7\u00e3o das igrejas foi de<br \/>\n50:000$000. H\u00e1 dois anos que estamos no Brasil. Os batistas aumentaram<br \/>\nde 500 a 5.000, de 5 igrejas a 60. A nossa casa publicadora j\u00e1 editou,<br \/>\nal\u00e9m do Jornal Batista e do Infantil, mais de um milh\u00e3o de p\u00e1ginas<br \/>\nem folhetos.<\/p>\n<p>&#8211; Qual a publica\u00e7\u00e3o que tem agradado mais?<\/p>\n<p>&#8211; O Cantor Crist\u00e3o!<\/p>\n<p>A m\u00fasica, o som que convence, a cren\u00e7a em harmonia!<\/p>\n<p>Os gregos admir\u00e1veis j\u00e1 tinham no seu divino saber descoberto<br \/>\na propriedade sutil, e na Lacedem\u00f4nia os rapazes recebiam o amor da<br \/>\np\u00e1tria ao som das flautas, em odes puras! J\u00e1 nos \u00edamos<br \/>\ndespedir. O pastor deu-nos o seu jornal, com um artigo de D. Arquimina Barreto,<br \/>\numa erudita senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Somos todos iguais perante Deus. No templo pode falar o mais ignorante<br \/>\ncomo o mais s\u00e1bio&#8230; Deus deseja a virtude antes de tudo. D. Arquimina<br \/>\nalia as virtudes a um grande saber.<\/p>\n<p>&#8211; E, a prop\u00f3sito, aquela senhora organista \u00e9 sua esposa?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, eu ainda me vou casar nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>E eu sa\u00ed encantado com a clara intelig\u00eancia desse pastor, que<br \/>\nespera calmo e virtuoso o fim do mundo, enquanto, \u00e0 porta, o velho<br \/>\nblandicioso distribui Purgat\u00f3rios contra os padres e as mo\u00e7as.<\/p>\n<h4><a name=\"13\"><\/a>A A.C.M.<\/h4>\n<p>&#8211; Olhe as terras onde se propaga o Evangelho.<\/p>\n<p>Desde um ao outro p\u00f3lo,<br \/>\nDa China ao Panam\u00e1,<br \/>\nDo africano solo<br \/>\nAo alto Canad\u00e1<\/p>\n<p>a A.C.M. conquista, suaviza, prestigia e guia&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s acab\u00e1vamos de jantar e o meu ilustre amigo, com um copo<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua pura na m\u00e3o, dizia-me coisas excelentes.<\/p>\n<p>&#8211; O nosso movimento, continuou, conta entre os seus amigos Eduardo da Inglaterra,<br \/>\no pr\u00edncipe Bernadotte da Su\u00e9cia, o presidente dos Estados Unidos<br \/>\ne Guilherme II. Na Fran\u00e7a, ministros de Estado aceitam cargos de administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nda A.C.M.; na Inglaterra os seus edif\u00edcios erguem-se em todas as cidades<br \/>\ncomo os grandes lares da juventude honesta, e por toda a parte ela reforma<br \/>\nos costumes e purifica as almas dos mo\u00e7os, tornando-os sim\u00e9tricos<br \/>\ne bons. Voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 uma id\u00e9ia integral do movimento<br \/>\ndas cinco igrejas evang\u00e9licas do Rio sem ir apreciar de perto o capitel<br \/>\nmagn\u00edfico dessa coluna de branco m\u00e1rmore. A A.C.M. \u00e9<br \/>\no remate admir\u00e1vel da nossa obra de propaganda.<\/p>\n<p>Finquei os cotovelos na mesa com curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a origem da A. C. M. no mundo?<\/p>\n<p>&#8211; Shuman, secret\u00e1rio-geral em Buenos Aires, disse-nos na conven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde 1903 essa origem. Em 1836 apareceu na cidade de Bridgewater, na Inglaterra,<br \/>\num rapazola de 15 anos, chamado George Wiliams. Mandava-o o pai do campo para<br \/>\naprender um of\u00edcio. George viu que os seus sessenta companheiros eram<br \/>\nde moral duvidosa e sem cren\u00e7a e que de um meio t\u00e3o grande s\u00f3<br \/>\ndois ou tr\u00eas oravam ao Redentor. Orou tamb\u00e9m no seu m\u00edsero<br \/>\nquarto, por tr\u00e1s da oficina, durante uma hora. A princ\u00edpio fazia<br \/>\ns\u00f3 esses exerc\u00edcios, depois convidou os companheiros, e cinco<br \/>\nanos depois estava em Londres. Londres! a cidade mais populosa do mundo!<\/p>\n<p>Conhece voc\u00ea os perigos das cidades, o desvario, a lux\u00faria,<br \/>\na perdi\u00e7\u00e3o, o jogo, a ambi\u00e7\u00e3o desmedida dos grandes<br \/>\ncentros? Onde se congregam mais os homens, a\u00ed entra com mais certeza<br \/>\nSatan\u00e1s, a\u00ed grassa mais terr\u00edvel a epidemia da perdi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nWiliams na f\u00e1brica em que se empregou, n\u00e3o encontrou um s\u00f3<br \/>\ncrist\u00e3o. Ao cabo de um m\u00eas, por\u00e9m, apareceu um novo empregado,<br \/>\nChristofer Smith, e os dois ligados pela amizade, resolveram a convers\u00e3o<br \/>\ndos companheiros, convidando-os para estudar a B\u00edblia e orar. Em pouco<br \/>\ntempo as reuni\u00f5es cresceram, e a 10 de junho de 1844 representantes<br \/>\ndessas reuni\u00f5es efetuaram a organiza\u00e7\u00e3o da primeira Associa\u00e7\u00e3o<br \/>\nCrist\u00e3 de Mo\u00e7os. Foi seu fundador uma crian\u00e7a de 20 anos,<br \/>\nmandada pelo Salvador a um meio cheio de v\u00edcios e de tenta\u00e7\u00f5es<br \/>\npara lhe dar o b\u00e1lsamo da honestidade.<\/p>\n<p>A pequena associa\u00e7\u00e3o estendeu-se a todos os pa\u00edses do<br \/>\nmundo. Hoje h\u00e1 mais de 1.500 na Inglaterra, de 1851 at\u00e9 agora<br \/>\n1.600 fundaram-se s\u00f3 nos Estados Unidos. \u00c0 primeira conven\u00e7\u00e3o<br \/>\ninternacional compareceram 39 delegados de 38 associa\u00e7\u00f5es em<br \/>\nsete pa\u00edses; em 1902 em Cristiania assistiram 2.508 delegados de 31<br \/>\npa\u00edses. H\u00e1 60 anos a A.C.M. iniciou os seus trabalhos; hoje<br \/>\ns\u00f3 na Am\u00e9rica do Norte h\u00e1 mais de 25.000 mo\u00e7os<br \/>\nestudando a B\u00edblia nas classes das associa\u00e7\u00f5es e num<br \/>\ns\u00f3 ano 3.560 professaram a sua f\u00e9 convertidos na Associa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne 9.600 outros se dedicaram ao servi\u00e7o do Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; As A.C.M. n\u00e3o admitem apenas crentes professos?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o de Londres resolveu, em 1848, receber<br \/>\ncomo s\u00f3cios auxiliares os mo\u00e7os de boa moral. Atualmente metade<br \/>\ndos nossos s\u00f3cios, cerca de 250.000, pertence a essa classe. Mas, meu<br \/>\ncaro, \u00e9 esta uma base luminosa da propaganda, chamar a si os olhos<br \/>\ndo mundo, mostrar a pureza num s\u00e9culo de impurezas, tolerar e purificar.<br \/>\nEntre os estudantes das escolas, na profiss\u00e3o borboletante do jornalismo,<br \/>\nnas ra\u00e7as mais estranhas, entre chins e caboclos selvagens, na classe<br \/>\nuniversalmente conhecida pela sua intemperan\u00e7a, nos empregados das<br \/>\nestradas de ferro da Am\u00e9rica, a propaganda al\u00e7a por esse meio<br \/>\na branca fl\u00e2mula da Associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O meu ilustre amigo calou-se. No restaurante o burburinho crescia, senhoras<br \/>\ncom toilettes caras, homens contentes, curvavam-se no prazer de comer. Havia<br \/>\nrisos, criados passavam com os pratos de cristofle brilhando \u00e0 luz<br \/>\ndos focos, em baldes de metal as garrafas gelavam e das jarras de cristal<br \/>\nas flores de pano pendiam desoladas ao peso do p\u00f3 e do tempo. Todos<br \/>\nali conversavam de interesse, de ambi\u00e7\u00e3o, de amor, de si mesmos&#8230;<br \/>\nSenti-me superior, mandei vir um copo d&#8217;\u00e1gua, bebi-o com pureza. Naquela<br \/>\ngrande feira n\u00f3s convers\u00e1vamos da alma e do bem universal!<\/p>\n<p>&#8211; E a A.C.M. do Rio?<\/p>\n<p>&#8211; A nossa Associa\u00e7\u00e3o tem tamb\u00e9m a sua evolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs primeiros mo\u00e7os crist\u00e3os reuniram-se para ouvir Simonton<br \/>\ne Kalley na travessa das Partilhas. Foi a\u00ed que germinou a id\u00e9ia<br \/>\nde uma sociedade evang\u00e9lica de mo\u00e7os. Em junho de 1866 cerca<br \/>\nde vinte crentes organizaram a Sociedade Evang\u00e9lica Amor \u00e0 Verdade,<br \/>\nque se manteve durante quatro anos.<\/p>\n<p>Em 1871 apareceu uma outra sociedade com fins id\u00eanticos, funcionando<br \/>\nna travessa das Partilhas e na travessa da Barreira. Esta chamava-se o Gr\u00eamio<br \/>\nEvang\u00e9lico, tinha uma oficina de impress\u00e3o da qual eram tip\u00f3grafos<br \/>\ne impressores os pr\u00f3prios s\u00f3cios, dirigidos por Ant\u00f4nio<br \/>\nTrajano, Azaro de Oliveira, Carvalho Braga e Ricardo Holden.<\/p>\n<p>Myron Clark, que fez o hist\u00f3rico desse movimento, conta ainda mais,<br \/>\nantes da atual Associa\u00e7\u00e3o, a Boa Nova, dirigida por A. Seabra,<br \/>\nM. Diel e Ant\u00f4nio Meireles, em 1875; o Gr\u00eamio Evang\u00e9lico<br \/>\nFluminense organizado por Ant\u00f4nio de Oliveira, Severo de Carvalho, No\u00e9<br \/>\nRocha e Benjamin da Silva, na rua de S. Pedro, 97, com o fim de manter um<br \/>\njornal de propaganda, uma classe de m\u00fasica, biblioteca, sess\u00f5es<br \/>\nliter\u00e1rias; a Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 dos Mo\u00e7os,<br \/>\nfundada na mesma rua de S. Pedro com uma diretoria composta pelos Srs. Jo\u00e3o<br \/>\ndos Santos, Ant\u00f4nio Andrade, Jos\u00e9 Luiz Fernandes Braga e Salom\u00e3o<br \/>\nGuisburgo, que publicaram o B\u00edblia, primeiro jornal evang\u00e9lico<br \/>\na ocupar-se da mocidade no Brasil; e a Sociedade Evang\u00e9lica de S\u00e3o<br \/>\nPaulo.<\/p>\n<p>A A.C.M. do Rio foi fundada a 31 de maio de 1893. Vinte e dois mo\u00e7os,<br \/>\nrepresentantes das igrejas Metodistas, Presbiteriana, Fluminense e Batista,<br \/>\nreuniram-se na rua Sete de Setembro, 79 e Myron Clark e Tucker expuseram o<br \/>\nfim da reuni\u00e3o. Dias depois aprovaram os estatutos e elegiam a diretoria:<br \/>\nNicolau do Conto, Ant\u00f4nio Meireles, Lu\u00eds de Paula e Silva Myron<br \/>\nClark e Irvine. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter feito tanto em t\u00e3o<br \/>\npouco tempo! Em 8 de agosto a Associa\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava instalada<br \/>\nna rua da Assembl\u00e9ia e come\u00e7ava a p\u00f4r em atividade os<br \/>\ndiversos departamentos do trabalho social.<\/p>\n<p>Nem a revolta, nem os bombardeios, nem a agita\u00e7\u00e3o apavorada<br \/>\nda cidade conseguiram esfriar o santo entusiasmo. Quando os tiros eram muitos,<br \/>\na Associa\u00e7\u00e3o fechava as suas salas, para no outro dia abri-las;<br \/>\nas aulas funcionavam; e no dia 12 de outubro, quando toda a gente s\u00f3<br \/>\nfalava em tiroteios, os mo\u00e7os crist\u00e3os iam a Copacabana, iniciando<br \/>\num dos seus ramos de trabalho, a excurs\u00e3o social.<\/p>\n<p>&#8211; Como se realizou a compra do pr\u00e9dio?<\/p>\n<p>O evangelista limpou o l\u00e1bio seco.<\/p>\n<p>&#8211; Em 1895, o secret\u00e1rio-geral sugeria a conveni\u00eancia do projeto.<br \/>\nA diretoria aprovou-o; na reuni\u00e3o da vig\u00edlia os Revs. Le\u00f4nidas<br \/>\nda Silva e Domingos Silveira falaram, pedindo donativos e compromissos mensais<br \/>\npara criar-se um fundo especial, e nesta ocasi\u00e3o come\u00e7aram os<br \/>\ntrabalhos da comiss\u00e3o dos compromissos. A Associa\u00e7\u00e3o<br \/>\ntem tido poderosos aux\u00edlios estrangeiros, tem em Fernandes Braga, uma<br \/>\nalma pura e nobre, um grande esteio, mas no fim da reuni\u00e3o da comiss\u00e3o<br \/>\nverificou-se que a soma total dos compromissos era de 65$000 mensais.<\/p>\n<p>&#8211; Deus do C\u00e9u!<\/p>\n<p>&#8211; O patrim\u00f4nio da Associa\u00e7\u00e3o eleva-se hoje a mais de<br \/>\ncem contos. Fernandes Braga comprou o terreno, James Lawson ofereceu-se para<br \/>\nemprestar o dinheiro das obras, abriu-se uma subscri\u00e7\u00e3o, Braga<br \/>\ndeu dez contos e Lawson dois; a comiss\u00e3o, composta de Fernandes Braga<br \/>\nJ\u00fanior, Lis\u00e2nias Cerqueira Leite, Lu\u00eds Fernandes Braga,<br \/>\nDomingos de Oliveira e Oscar Jos\u00e9 de Marcenes, multiplicou-se. Dois<br \/>\nanos depois inaugurava-se o edif\u00edcio, a casa dos mo\u00e7os, a obra<br \/>\nde Deus, como diz o Rvdm. Trajano. A nossa satisfa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m,<br \/>\nmeu caro, n\u00e3o vem apenas da realiza\u00e7\u00e3o desse tentamen.<\/p>\n<p>A A.C.M. do Rio acendeu nos evangelistas do Brasil o desejo de associa\u00e7\u00f5es<br \/>\nid\u00eanticas. Eu, s\u00f3, posso citar a Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3<br \/>\nde Mo\u00e7os de Belo Horizonte, a Sociedade de Mo\u00e7os Crist\u00e3os<br \/>\nde Castro (do Paran\u00e1), a A.C.M. de Sorocaba, a Associa\u00e7\u00e3o<br \/>\nEducadora da Bahia, a de Taubat\u00e9, a Legi\u00e3o da Cruz, a Mil\u00edcia<br \/>\nCrist\u00e3, a Associa\u00e7\u00e3o de Santo Andr\u00e9 no Rio Grande,<br \/>\na Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 dos Estudantes no Brasil, filiada<br \/>\n\u00e0 Federa\u00e7\u00e3o dos Estudantes no Universo, de S\u00e3o<br \/>\nPaulo, a do Natal e a de Nova Friburgo.<\/p>\n<p>Dentro em pouco estaremos como os Estados Unidos.<\/p>\n<p>&#8211; Prouvera a Deus!<\/p>\n<p>T\u00ednhamo-nos erguido.<\/p>\n<p>&#8211; Onde vai?<\/p>\n<p>&#8211; Por a\u00ed, passear, ver.<\/p>\n<p>&#8211; Pois venha comigo \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o, agora. S\u00e3o<br \/>\n7 horas, est\u00e3o funcionando as aulas. Venha e ter\u00e1 uma impress\u00e3o<br \/>\ndo que \u00e9 o centro do evangelismo no Brasil.<\/p>\n<p>E sa\u00edmos pelas ruas pouco iluminadas, em que a chuva mi\u00fada<br \/>\npunha um v\u00e9u de n\u00e9voas.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nem uma igreja nem uma sociedade<br \/>\nmundana, embora possua caracter\u00edsticos profanos e seculares; \u00e9<br \/>\na casa dos mo\u00e7os, o segundo lar que supre as necessidades intelectuais<br \/>\ncom biblioteca, cursos, aulas, confer\u00eancias; mant\u00e9m a sociabilidade<br \/>\nda juventude em sal\u00f5es de divers\u00f5es, desenvolve-lhe o f\u00edsico<br \/>\ncom gin\u00e1sticas, jogos atl\u00e9ticos, passeios, piqueniques e, conjuntamente,<br \/>\nlhe faz sentir a necessidade da religi\u00e3o. H\u00e1 nessa institui\u00e7\u00e3o<br \/>\nde fonte inglesa o desejo de um equil\u00edbrio, a vontade de criar o mo\u00e7o<br \/>\nsim\u00e9trico, o desenvolvimento harmonioso, num ser vivo, da intelig\u00eancia,<br \/>\ndo f\u00edsico, da natureza social e da alma.<\/p>\n<p>O homem nas grandes cidades perde-se. A Associa\u00e7\u00e3o ampara-o,<br \/>\nserve-lhe de escola, de clube, de lar, de templo, d\u00e1-lhe banho, conversas<br \/>\nmorais, pingue-pongue, dan\u00e7as, aulas noturnas, ensina-lhe a B\u00edblia,<br \/>\np\u00f5e-lhe \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o os jornais do mundo, f\u00e1-lo<br \/>\nassistir a confer\u00eancias sobre assuntos diversos. O mo\u00e7o deixa<br \/>\no lar paterno e, enquanto por sua vez n\u00e3o forma outro lar, fica nesse<br \/>\nambiente de honestidade, n\u00e3o s\u00f3 se tornando o tipo admir\u00e1vel<br \/>\ndo equil\u00edbrio, como preservando das avarias e dos sofrimentos a prole<br \/>\nfutura.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o \u00e9 o conforto, a paz e broquel da honestidade<br \/>\npor estes turvos tempos. Tudo quanto ensina \u00e9 \u00fatil, tudo quanto<br \/>\ndiz \u00e9 honesto, tudo quanto faz \u00e9 para o bem.<\/p>\n<p>Ao subir as altas escadarias, recordei a frase do meu amigo. A Associa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 o capitel, \u00e9 a raz\u00e3o de ser da futura propaganda, \u00e9<br \/>\no centro do evangelismo, a maneira eficaz por que todas as igrejas evangelistas<br \/>\ndemonstram na sua perfeita integridade a vida do crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando chegamos l\u00e1 em cima, funcionavam as aulas: na sala de divers\u00f5es<br \/>\njogava-se o crokinole e o carroms; a um canto conversava-se. Todos estavam<br \/>\nbem dispostos e riam com prazer. O meu ilustre amigo apresentou-me ao presidente,<br \/>\nBraga J\u00fanior, um mo\u00e7o inteligente, extremamente modesto; ao<br \/>\nsecret\u00e1rio, de uma distin\u00e7\u00e3o perfeita; e os dois mostraram-me,<br \/>\nsimples e sem exageros, os vastos sal\u00f5es, o de gin\u00e1stica, o<br \/>\ndas confer\u00eancias, o de estudos b\u00edblicos, aulas, a secretaria,<br \/>\na biblioteca.<\/p>\n<p>A gentileza peculiar aos evangelistas cativava naquele vasto pr\u00e9dio,<br \/>\ncheio de vida e de mocidade. Cada frase do secret\u00e1rio era uma no\u00e7\u00e3o<br \/>\nexata, cada reflex\u00e3o do presidente tinha um grande ar de bondade e<br \/>\nde mod\u00e9stia. As mob\u00edlias eram novas e por toda a parte os conselhos<br \/>\ncrist\u00e3os abundavam.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o admire aqui, disse o meu amigo, sen\u00e3o a vida do civilizado<br \/>\ne do honesto. Voc\u00ea conversou com os pastores, esteve com os mission\u00e1rios,<br \/>\nassistiu ao culto nas nossas igrejas, viu o esfor\u00e7o das miss\u00f5es.<br \/>\nVeja agora apenas a vida. Estes que aqui est\u00e3o, meu amigo, livres est\u00e3o<br \/>\ndos tr\u00eas horrendos animais da vis\u00e3o dantesca. N\u00e3o os aterram<br \/>\na pantera da literatura pornogr\u00e1fica, o le\u00e3o do jogo da bola<br \/>\ne a loba da lasc\u00edvia. E, por isto, salvos por Cristo, ser\u00e3o<br \/>\nmaiores amanh\u00e3 e mais fortes.<\/p>\n<p>Senhor! parecia uma convers\u00e3o! Apertei-lhe a m\u00e3o, deixei-o<br \/>\njogando pingue-pongue, desci os dois andares. Na rua ventava uma chuva fria<br \/>\ne penetrante. A loba, a lasc\u00edvia, a pantera, a pornografia, o le\u00e3o,<br \/>\no jogo, a eterna vida! Quantos neste mundo se salvaram dos animais simb\u00f3licos<br \/>\nna grande banalidade da exist\u00eancia, quantos?<\/p>\n<p>Como apertasse a chuva, embrulhei-me mais no palet\u00f3, atravessei as<br \/>\nruas escuras recordando a apari\u00e7\u00e3o que fizera recuar o Dante<br \/>\nat\u00e9 l\u00e1 dove&#8217;l sol tace.<\/p>\n<p>Mas sem gritar e sem ver o vulto da salva\u00e7\u00e3o, porque talvez<br \/>\na tivesse deixado no sal\u00e3o de divertimentos, na doce paz daquelas almas<br \/>\nfortes e tranq\u00fcilas<\/p>\n<h4><a name=\"14\"><\/a>Irm\u00e3os e Adventistas<\/h4>\n<p>Na pr\u00f3pria A.C.M. eu soube que o evangelismo ainda tinha duas igrejas<br \/>\nno Rio, os irm\u00e3os e os sabatistas. Dos irm\u00e3os, apesar dessa<br \/>\nclassifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o parternal, o meu informante s\u00f3<br \/>\nconhecia um probo negociante da rua do Hosp\u00edcio.<\/p>\n<p>Esse negociante era um homem baixo, simples e modesto, vendendo rel\u00f3gios<br \/>\ne amando a Deus. Recebeu-me por tr\u00e1s do mostrador, e quando soube que<br \/>\ntinha sob os olhos um curioso, pasmou.<\/p>\n<p>&#8211; Interessa-lhe muito saber o que s\u00e3o os crist\u00e3os?<\/p>\n<p>&#8211; Os irm\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, os crist\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Era para mim um grande favor.<\/p>\n<p>Ele co\u00e7ou a cabe\u00e7a, alegou uma grande ignor\u00e2ncia, com<br \/>\nhumildade. Depois, como eu continuava diante dele, resolvido a n\u00e3o<br \/>\nsair, resignou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Os irm\u00e3os que se re\u00fanem \u00e0 rua Senador Pompeu, n.0<br \/>\n121 denominam-se crist\u00e3os.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisa perguntar porque. Leia os atos dos Ap\u00f3stolos cap\u00edtulo<br \/>\n11, vers\u00edculo 26. Existem no Rio, h\u00e1 vinte e cinco anos. N\u00e3o<br \/>\ntem templo pr\u00f3prio, re\u00fanem-se em casa de um irm\u00e3o como<br \/>\ndeve ser. Leia a Ep\u00edstola de S\u00e3o Paulo aos Romanos, cap\u00edtulo<br \/>\n16, vers\u00edculo 5. Os seus estatutos, a sua regra de f\u00e9 s\u00e3o<br \/>\nas Escrituras e a sua divisa \u00e9 n\u00e3o ir al\u00e9m delas. Leia<br \/>\na 1 a Ep\u00edstola aos Cor\u00edntios, cap\u00edtulo 4, vers\u00edculo<br \/>\n6.<\/p>\n<p>&#8211; E o pastor, quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Reconhecemos como \u00fanico pastor a Jesus Cristo. Leia S\u00e3o Jo\u00e3o,<br \/>\ncap\u00edtulo 10, vers\u00edculos 11 a 16. O governo da igreja est\u00e1<br \/>\nao cuidado dos anci\u00e3os ou mais velhos, que fazem esse servi\u00e7o<br \/>\nsem outra remunera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sejam o respeito e a honra<br \/>\nda igreja. Leia os Atos&#8230; Como n\u00e3o nos achamos autorizados pelas Escrituras,<br \/>\nn\u00e3o celebramos casamentos, reconhecemos o institu\u00eddo pelas potestades<br \/>\nlegalmente constitu\u00eddas, a quem buscamos obedecer, desde que n\u00e3o<br \/>\ncontrariem as determina\u00e7\u00f5es de Deus. Leia a Ep\u00edstola<br \/>\naos Romanos vers\u00edculos 1 a 6. Naturalmente cuidamos dos pobres e dos<br \/>\nenfermos, fazendo coletas e seguindo o ensino das Escrituras. Veja a Ep\u00edstola<br \/>\naos Cor\u00edntios.<\/p>\n<p>&#8211; Como se pratica o culto?<\/p>\n<p>&#8211; No primeiro dia da semana congregamo-nos para celebrar a festa da P\u00e1scoa<br \/>\ncrist\u00e3, ou a Ceia do Senhor, \u00e0s 11 da manh\u00e3 com p\u00e3o<br \/>\ne vinho. Nessa ocasi\u00e3o adoramos a Deus, entoando hinos e lendo as Escrituras,<br \/>\ninterpretando-as e edificando a alma com muitos outros dons do Esp\u00edrito<br \/>\nSanto. Basta ler a neste respeito S\u00e3o Paulo e os Atos e o Evangelho<br \/>\nsegundo S\u00e3o Mateus. Reunimo-nos tamb\u00e9m aos domingos das 5\u00bd<br \/>\n\u00e0s 6\u00bd da tarde para estudar as Escrituras. Das 6\u00bd \u00e0s<br \/>\n7\u00bd prega-se o Evangelho.<\/p>\n<p>Era simples, puro, primitivo. Aquele relojoeiro, que a cada palavra parecia<br \/>\namparar a sua autoridade na palavra da B\u00edblia, enternecia.<\/p>\n<p>&#8211; E que se diz nessa hora de domingo aos pobres pecadores e irm\u00e3os?<\/p>\n<p>&#8211; Vede os Atos, S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Jo\u00e3o&#8230; S\u00f3 h\u00e1<br \/>\num Salvador, s\u00f3 h\u00e1 um meio para o perd\u00e3o dos pecados<br \/>\ne s\u00f3 existe um mediador entre Deus e os homens &#8211; \u00e9 nascer de<br \/>\nnovo, \u00e9 nascer do Esp\u00edrito Santo. Esperemos a sua chegada.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Cristo est\u00e1 para chegar.<\/p>\n<p>Gravemente o honesto irm\u00e3o olhou-me.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez demore. Talvez venha a\u00ed&#8230; A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\ntanta que s\u00f3 ele a pode extinguir.<\/p>\n<p>Sa\u00ed meio aflito. \u00c9 poss\u00edvel que ainda se encontre um<br \/>\ncrist\u00e3o de conto cat\u00f3lico em plena cidade do v\u00edcio, \u00e9<br \/>\nposs\u00edvel essa candura?<\/p>\n<p>Estava de tal forma nervoso que, sabendo obter de um crente em Niter\u00f3i<br \/>\ninforma\u00e7\u00f5es sobre os adventistas, escrevi logo uma carta espetaculosa,<br \/>\npedindo-lhe uma nota de efeito.<\/p>\n<p>No dia seguinte lia esta resposta lac\u00f4nica e seca: &#8211; &#8220;I;mo. Sr.<br \/>\n&#8211; Se quiser compreender a verdade de Deus, venha V. S. at\u00e9 ao nosso<br \/>\ntemplo, em Cascadura.&#8221;<\/p>\n<p>Era uma recusa? Era uma li\u00e7\u00e3o? Guardei a carta humilhado, porque<br \/>\ngrande crime \u00e9 para mim magoar a cren\u00e7a de qualquer, e estava,<br \/>\ndomingo, tristemente lendo, quando \u00e0 porta surgiu um homem de negra<br \/>\nbarba cerrada, vestido numa roupa de xadrez. Olhou-me fixamente, limpamente,<br \/>\ne a sua voz, de uma in\u00e9dita do\u00e7ura, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou o crente a quem h\u00e1 tempos escreveu!<\/p>\n<p>Levantei-me nervoso. A tarde de inverno, caindo, punha pela sala uma aragem<br \/>\n\u00e1lgida, e a minha pobre alma estava num desses momentos de sensibilidade<br \/>\nem que se cr\u00ea no maravilhoso e nos espa\u00e7os. Fui excessivo de<br \/>\ngentileza. Pedia perd\u00e3o, de n\u00e3o ter obedecido ao convite, mas<br \/>\nera t\u00e3o longe, t\u00e3o vago, em Cascadura&#8230;<\/p>\n<p>O crente fervoroso sentou-se, pousou a sua mala no ch\u00e3o, encostou<br \/>\no velho guarda-chuva \u00e0 parede.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 bem em Cascadura, fica entre Cupertino e essa esta\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndeixei de mandar-lhe as notas porque n\u00e3o me achava com compet\u00eancia<br \/>\npara as dar. S\u00e3o Jo\u00e3o disse. Temei a Deus e dai-lhe Gl\u00f3ria.<br \/>\nEu sou muito humilde, s\u00f3 lhe posso dar a minha cren\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Mas uma simples informa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Era preciso consultar os meus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Eu ficara na sombra, a luz batia-lhe em cheio no rosto. Reparei ent\u00e3o<br \/>\nnos tra\u00e7os dessa fisionomia. O l\u00e1bio era quase infantil, os<br \/>\ndentes brancos, pequenos, cerrados, e toda aquela espessa barba negra parecia<br \/>\nselar potentemente a inef\u00e1vel bondade do seu perfil. De resto o crente<br \/>\nera t\u00edmido, cada palavra sua vinha como um apostolado que se desculpa<br \/>\ne a sua voz persuasiva ciciava baixinho a cren\u00e7a do Infinito, com um<br \/>\nconhecimento dos livros sagrados extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a origem dos adventistas? &#8211; indaguei eu.<\/p>\n<p>O crente puxou a cadeira.<\/p>\n<p>Uma discuss\u00e3o que se levantou na Am\u00e9rica em 1840 e na qual<br \/>\nGuilherme Miller ocupou lugar saliente. Os adventistas esperavam o fim do<br \/>\nmundo em 1844, porque a profecia de Daniel, no capitulo 8 vers\u00edculo<br \/>\n14, diz que o santu\u00e1rio ser\u00e1 justificado ou purificado ao fim<br \/>\ndo decurso do per\u00edodo prof\u00e9tico de 2.300 dias.<\/p>\n<p>&#8211; Deus! em t\u00e3o pouco tempo?<\/p>\n<p>&#8211; Dias prof\u00e9ticos equivalentes a um ano. Os adventistas julgavam que<br \/>\no 2.300 era o ano de 1.844 e que a justifica\u00e7\u00e3o ou purifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo santu\u00e1rio importaria em ser queimada a terra com a vinda de Cristo.<\/p>\n<p>Esperavam pois a vinda de Jesus.<\/p>\n<p>Olhei o crente. Os seus olhos eram beatos como os olhos dos puros.<\/p>\n<p>&#8211; Ora o tempo passou e Cristo n\u00e3o veio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim &#8211; fez ele -, e claro ficou o erro. Ou houve falta na contagem dos 2.300<br \/>\ndias ou a purifica\u00e7\u00e3o do santu\u00e1rio n\u00e3o era purifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda terra na segunda vinda de Cristo. Mas a quest\u00e3o agitara o estudo.<br \/>\nA coisa foi examinada e duas opini\u00f5es se formaram. Uns julgavam que<br \/>\no per\u00edodo prof\u00e9tico ainda n\u00e3o decorrera, outros, com<br \/>\nlento trabalho, chegaram \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que o erro existia<br \/>\nna palavra santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o santu\u00e1rio?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 terra, mas verdadeiramente<br \/>\nao c\u00e9u, onde Jesus Cristo entrou no fim desse per\u00edodo de tempo,<br \/>\npara purific\u00e1-lo com o seu pr\u00f3prio sangue, conforme est\u00e1<br \/>\ndescrito.<\/p>\n<p>A classe que aceitou essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a que se chama<br \/>\nadventistas do 7.\u00ba dia. N\u00e3o marcamos tempo nem cremos que qualquer<br \/>\nper\u00edodo prof\u00e9tico assinalado na B\u00edblia se estenda at\u00e9<br \/>\nn\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o aceitam como base da f\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; A B\u00edblia Sagrada, a palavra de Deus, sem tradi\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne a autoridade de qualquer igreja. Cristo \u00e9 o Messias prometido, s\u00f3<br \/>\npor ele se obt\u00e9m a salva\u00e7\u00e3o. As pessoas salvas observam<br \/>\nos dez mandamentos inclusive o 4.\u00ba, celebram a Santa Ceia do Senhor,<br \/>\nem conex\u00e3o com o ato de humildade praticado por Jesus Cristo, cr\u00eaem<br \/>\nna ressurrei\u00e7\u00e3o, que os mortos dormem at\u00e9 esse momento,<br \/>\nconforme as palavras do Salvador em S\u00e3o Jo\u00e3o..<\/p>\n<p>&#8211; A ressurrei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, a dos justos far-se-\u00e1 na segunda vinda de Cristo, a dos \u00edmpios<br \/>\nmil anos depois, com um grande fogo que os queimar\u00e1 e purificar\u00e1<br \/>\na terra!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 cedo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Infelizmente, parece. N\u00f3s fazemos o bem, temos uma miss\u00e3o<br \/>\nm\u00e9dica, que envia facultativos a toda a parte do mundo, fundamos sanat\u00f3rios,<br \/>\ne, crendo que a educa\u00e7\u00e3o intelectual n\u00e3o basta, conseguimos<br \/>\nescolas industriais.<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a do cristianismo nos tempos apost\u00f3licos<br \/>\no adventismo tomou um r\u00e1pido incremento, elevando-se o n\u00famero<br \/>\nde crentes a 80.000, segundo as profecias sagradas.<\/p>\n<p>&#8211; E a obra no Brasil?<\/p>\n<p>&#8211; A obra no Brasil come\u00e7ou em 1893, contando hoje um n\u00famero<br \/>\nde membros leigos de 800 a 900 espalhados na maioria pelos Estados de Paran\u00e1,<br \/>\nSanta Catarina, Rio Grande do Sul, contando o seu corpo eclesi\u00e1stico:<br \/>\ntr\u00eas pregadores ordenados, tr\u00eas licenciados, dois mission\u00e1rios<br \/>\nm\u00e9dicos, dois professores diretores de escolas mission\u00e1rias<br \/>\ne onze professores de escolas paroquiais, sete colportores evangelistas, uma<br \/>\nrevista O Arauto da Verdade e um redator.<\/p>\n<p>Na sua organiza\u00e7\u00e3o outros membros ocupam cargos segundo os<br \/>\ndons manifestados e conforme a necessidade do trabalho na obra de Deus.<\/p>\n<p>Tem quinze igrejas organizadas.<\/p>\n<p>O atual presidente do trabalho \u00e9 um m\u00e9dico mission\u00e1rio<br \/>\nDr. H. F. Graf, residente em Taquari &#8211; Rio Grande do Sul &#8211; e o secret\u00e1rio-tesoureiro,<br \/>\no irm\u00e3o A . B. Stauffer, residente no Distrito Federal, em Cascadura.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma comiss\u00e3o administrativa composta de sete pessoas,<br \/>\nduas escolas mission\u00e1rias, uma em Taquari no Rio Grande do Sul, outra<br \/>\nem Brusque, Santa Catarina, e onze escolas paroquiais.<\/p>\n<p>Ele levantara-se. Terminada a informa\u00e7\u00e3o, partia como um personagem<br \/>\nde lenda. Pegou da mala, do guarda-chuva.<\/p>\n<p>&#8211; Bernardino Loureiro, quando quiser&#8230;<\/p>\n<p>Apertei-lhe a m\u00e3o com reconhecimento. Se h\u00e1 no mundo momentos<br \/>\nfugazes de sinceridade, a presen\u00e7a desse var\u00e3o mos tinha dado<br \/>\ncom a extrema paz que vinha da sua palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Diga-me uma coisa, uma \u00faltima. E Cristo? Quando vem Cristo?<\/p>\n<p>&#8211; Os sinais que deviam preceder a sua vinda, conforme Ele mesmo predisse<br \/>\nem Mateus, cumpriram-se. \u00c9 de crer que a sua vinda esteja pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>&#8211; Quando?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda nesta gera\u00e7\u00e3o, talvez amanh\u00e3, quem sabe?<\/p>\n<p>Tornou a apertar-me a m\u00e3o, sumiu-se. Passara como o anunciador, apagara-se<br \/>\ncomo um raio de sol.<\/p>\n<p>A noite ca\u00edra de todo. As trevas subiam lentamente pelas paredes,<br \/>\ne a brisa \u00famida, entrando pelas janelas, sacudia as folhas de papel<br \/>\nesparsas, num tremor assustado.<\/p>\n<h4><a name=\"15\"><\/a>O Satanismo<\/h4>\n<p><strong>Os Satanistas <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Satan\u00e1s! Satan\u00e1s!<\/p>\n<p>&#8211; Che vuoi?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o o sabes tu? Quero o amor, a riqueza, a ci\u00eancia, o poder.<\/p>\n<p>&#8211; Como as crian\u00e7as, as bruxas e os doidos &#8211; sem fazer nada para os<br \/>\nconquistar.<\/p>\n<p>O filos\u00f3fico Tinhoso tem nesta grande cidade um ululante punhado de<br \/>\nsacerdotes, e, como sempre que o seu nome aparece, arrasta consigo o galope<br \/>\nda lux\u00faria, a \u00e2nsia da vol\u00fapia e do crime, eu, que j\u00e1<br \/>\no vira Exu, pavor dos negros feiticeiros, fui encontr\u00e1-lo poluindo<br \/>\nos ret\u00e1bulos com o seu deboche, enquanto a teoria b\u00e1quica dos<br \/>\ndepravados e das demon\u00edacas estorcia-se no paroxismo da orgia&#8230; Satan\u00e1s<br \/>\n\u00e9 como a flecha de Zenon, parece que partiu, mas est\u00e1 parado<br \/>\n&#8211; e firme nos cora\u00e7\u00f5es. Surgem os cultos, desaparecem as cren\u00e7as,<br \/>\nesmaga-se a sua recorda\u00e7\u00e3o, mas, impalp\u00e1vel, o Esp\u00edrito<br \/>\ndo Mal espalha pelo mundo a mordacidade de seu riso c\u00ednico e ressurge<br \/>\nquando menos se espera no infinito poder da tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conheci alguns dos satanistas atuais na casa de Sai\u00e3o, o ex\u00f3tico<br \/>\nherban\u00e1rio da rua Larga de S\u00e3o Joaquim, o tal que tem \u00e0<br \/>\nporta as armas da Rep\u00fablica. Sai\u00e3o \u00e9 um doente. Atordoa-o<br \/>\na loucura sensual. Faceirando entre os molhos de ervas, cuja propriedade quase<br \/>\nsempre desconhece, o amb\u00edguo homem discorre, com gestos megal\u00f4manos,<br \/>\ndas mortes e das curas que tem feito, dos seus amores e do ass\u00e9dio<br \/>\ndas mulheres em torno da sua gra\u00e7a. A conversa de Sai\u00e3o \u00e9<br \/>\num coleio de lesmas com urtigas. Quando fala cuspinhando, os olhitos atacados<br \/>\nde satir\u00edasis, tem a gente vontade de espanc\u00e1-lo. A casa de<br \/>\nSai\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, um centro de observa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nL\u00e1 v\u00e3o ter as cartomantes, os magos, os negros dos eb\u00f4s,<br \/>\nas mulheres que partejam, todas as gamas do crime religioso, do sacerd\u00f3cio<br \/>\nl\u00fagubre.<\/p>\n<p>Como, uma certa vez, uma negra estivesse a contar-me as propriedades misteriosas<br \/>\nda cabe\u00e7a do pav\u00e3o, eu recordei que o pav\u00e3o no Curdist\u00e3o<br \/>\n\u00e9 venerado, \u00e9 o p\u00e1ssaro maravilhoso, cuja cauda em leque<br \/>\nreproduz o esquema secreto do deus \u00fanico dos iniciados pag\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor conhece a magia? &#8211; fez a meu lado um homem esqu\u00e1lido, com<br \/>\nas abas da sobrecasaca a adejar.<\/p>\n<p>Imediatamente Sai\u00e3o apresentou-nos.<\/p>\n<p>&#8211; O Dr. Justino de Moura.<\/p>\n<p>O homem abancou, olhando com desprezo para o erban\u00e1rio, limpou a testa<br \/>\ninundada de suor e murmurou liricamente.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! a \u00c1sia! a \u00c1sia&#8230;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o conhecia a magia, a n\u00e3o ser algumas formas de satanismo.<br \/>\nO Dr. Justino puxou mais o seu banco e conversamos. Dias depois estava relacionado<br \/>\ncom quatro ou cinco frustes, mais ou menos instru\u00eddos, que confessavam<br \/>\ncom descaro v\u00edcios horrendos. Justino, o mais esquisito e o mais sincero,<br \/>\nguarda avaramente o dinheiro para comprar carneiros e chupar-lhes o sangue;<br \/>\noutro rapaz magr\u00edssimo, que foi empregado dos Correios, satisfaz apetites<br \/>\nmais inconfess\u00e1veis ainda, quase sempre cheirando a \u00e1lcool;<br \/>\num outro moreno, de grandes bigodes, \u00e9 uma figura das pra\u00e7as,<br \/>\nque se pode encontrar \u00e0s horas mortas&#8230; Se de Satan\u00e1s eles<br \/>\nfalavam muito, quando lhes pedia para assistir \u00e0 missa-negra, os homens<br \/>\ntomavam atitudes de romance e exigiam o pacto e a cumplicidade.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o do Diabo sempre existiu entre n\u00f3s, mais ou menos.<br \/>\nNas cr\u00f4nicas documentativas dos satanistas atuais encontrei de envoutement<br \/>\ne de malef\u00edcios, anteriores aos feiti\u00e7os dos negros e a Pedro<br \/>\nI. A Europa do s\u00e9culo XVII praticava a missa-negra e a missa-branca.<br \/>\n\u00c9 natural que algum feiticeiro fugido plantasse aqui a semente da adora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mal. Os documentos &#8211; documentos esparsos sem concatena\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o Dr. Justino me mostrava de vez em quando &#8211; contam as evoca\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Papa Aviano em 1745. Os avianistas deviam ser nesse tempo apenas clientes,<br \/>\ncomo \u00e9 hoje a maioria dos freq\u00fcentadores dos esp\u00edritas,<br \/>\ndos magos e das cartomantes. No s\u00e9culo passado o n\u00famero dos<br \/>\nfan\u00e1ticos cresceu, o avianismo transformou-se, adaptando correntes<br \/>\nestrangeiras. A princ\u00edpio surgiram os paladistas, os luciferistas que<br \/>\nadmiravam L\u00facifer, igual de Adonai, inicial do Bem e deus da Luz.<\/p>\n<p>Esses faziam uma franco-ma\u00e7onaria, com um culto particular, que explicava<br \/>\na vida de Jesus dolorosamente. Guardam ainda os satanistas contempor\u00e2neos<br \/>\nalguns nomes da confraria que insultava a Virgem com palavras estercor\u00e1rias:<br \/>\n&#8211; Eduardo de Campos, Hamilcar Figueiredo, T\u00e9opompo de Sonsa, Teixeira<br \/>\nWerneck e outros, usando pseud\u00f4nimos e compondo um ros\u00e1rio de<br \/>\nnomes com significa\u00e7\u00f5es ocultistas e simb\u00f3licas. Os paladistas<br \/>\nn\u00e3o morreram de todo, antes se transfusaram em formas po\u00e9ticas.<br \/>\nNo Paran\u00e1, onde h\u00e1 um movimento ocultista acentuado &#8211; como h\u00e1<br \/>\ntodas as formas da cren\u00e7a, sendo o povo de poetas impression\u00e1veis<br \/>\n-, existem atualmente escritores luciferistas que est\u00e3o dans le train<br \/>\ndos processos da cren\u00e7a na Europa. A franco-ma\u00e7onaria, morto<br \/>\no seu antigo chefe, um padre italiano Vit\u00f3rio Sengambo, fugido da It\u00e1lia<br \/>\npor crimes contra a moral, desapareceu. No Brasil n\u00e3o andam assim os<br \/>\nap\u00f3statas e, apesar do desejo de fortuna e de satisfa\u00e7\u00f5es<br \/>\nmundanas, \u00e9 dif\u00edcil se encontrar um caso de apostasia no clero<br \/>\nbrasileiro. Os luciferistas ficaram apenas curiosos relacionados com o supremo<br \/>\ndiret\u00f3rio de Charleston, donde partir\u00e1 o novo dom\u00ednio<br \/>\ndo mundo e a sua descristiali\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os satanistas ao contr\u00e1rio imperam, sendo como s\u00e3o mais modestos.<\/p>\n<p>Sabem que Sat\u00e3 \u00e9 o proscrito, o infame, o mal, o conspurcador,<br \/>\nfazem apenas o catolicismo inverso, e s\u00e3o supersticiosos, depravados<br \/>\nmentais, ou ignorantes apavorados das for\u00e7as ocultas. O n\u00famero<br \/>\nde crentes convictos \u00e9 curto; o n\u00famero de crentes inconscientes<br \/>\n\u00e9 infinito.<\/p>\n<p>Seria curioso, neste acordar do espiritualismo em que os fil\u00f3sofos<br \/>\nmaterialistas s\u00e3o abandonados pelos m\u00edsticos, ver como vive<br \/>\nSat\u00e3, como goza sa\u00fade o Tentador.<\/p>\n<p>Nunca esse esp\u00edrito interessante deixou de ser adorado. No in\u00edcio<br \/>\ndos s\u00e9culos, na idade-m\u00e9dia, nos tempos modernos contemporaneamente,<br \/>\nos cultos e os incultos veneram-no como a encarna\u00e7\u00e3o dos deuses<br \/>\npag\u00e3os, como o poder contr\u00e1rio \u00e0 cata de almas, como<br \/>\no Renegado. As almas das mulheres tremem ao ouvir-lhe o nome, as cria\u00e7\u00f5es<br \/>\nliter\u00e1rias fazem-no de id\u00e9ias frias e brilhantes como floretes<br \/>\nde a\u00e7o, no tempo do roman<\/p>\n<p>tismo o Sr. Diabo foi saliente. Hoje Satan\u00e1s dirige as literaturas<br \/>\nperversas, as pornografias, as filosofias avariadas, os misticismos perigosos,<br \/>\nassusta a Igreja Cat\u00f3lica, e cada homem, cada mulher, por momentos<br \/>\nao menos, tem o desejo de o chamar para ter amor, riqueza, ci\u00eancia e<br \/>\npoder. Bem dizem os padres: Satan\u00e1s \u00e9 o Tentador; bem o pintou<br \/>\nTintoreto na Tenta\u00e7\u00e3o, bonito e loiro como um anjo&#8230;<\/p>\n<p>A nossa terra sofre cruelmente da crendice dos negros, agarra-se aos feiticeiros<br \/>\ne faz a prosperidade das seitas desde que estabele\u00e7am o milagre. Satan\u00e1s<br \/>\nfaz milagres a troco de almas. Quem entre n\u00f3s ainda n\u00e3o teve<br \/>\na esperan\u00e7a ing\u00eanua de falar ao Diabo, \u00e0 meia-noite, mesmo<br \/>\nacreditando em Deus e crendo na trapa\u00e7a de Fausto? Quantos, por conselhos<br \/>\nde magos falsos, em noites de trovoada, n\u00e3o se agitaram em lugares<br \/>\ndesertos \u00e0 espera de ver surgir o Grande Rebelde? H\u00e1 no ambiente<br \/>\numa predisposi\u00e7\u00e3o para o satanismo, e como, segundo o Apocalipse,<br \/>\n\u00e9 talvez neste s\u00e9culo que Satan\u00e1s vai aparecer, o n\u00famero<br \/>\ndos satanistas aut\u00eanticos, conhecedores da Cabala, dos fios imantados,<br \/>\nprostituidores da missa, aumentou. H\u00e1 hoje para mais de cinq\u00fcenta.<\/p>\n<p>Quarta-leira santa encontrei o Dr. Justino no Sai\u00e3o. O pobre estava<br \/>\nmais p\u00e1lido, mais magro e mais sujo, levando sempre o len\u00e7o<br \/>\n\u00e0 boca, como se sentisse gosto de sangue.<\/p>\n<p>Continua nas suas cenas de vampirismo? &#8211; sussurrei eu. Nos olhos do Dr. Justino<br \/>\numa luz de \u00f3dio brilhou.<\/p>\n<p>&#8211; Infelizmente o senhor n\u00e3o sabe o que diz! Deu dois passos agitados,<br \/>\nvoltou-se, repetiu: infelizmente n\u00e3o sabe o que diz! O vampirismo!<br \/>\nalgu\u00e9m sabe o que isto \u00e9? N\u00e3o se fa\u00e7a de c\u00e9tico.<br \/>\nEnquanto ri, a morte o envolve. Agora mesmo est\u00e1 sentado num molho<br \/>\nde solan\u00e9as.<\/p>\n<p>Eu o deixara dizer, subitamente penalizado. Nunca o vira t\u00e3o nervoso<br \/>\ne com um cheiro t\u00e3o pronunciado de \u00e1lcool.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o ria muito. O vampirismo como a sua filosofia cooperam para a<br \/>\nvit\u00f3ria definitiva de Satan\u00e1s&#8230; Conhece o Diabo?<\/p>\n<p>A pergunta feita num restaurant bem iluminado seria engra\u00e7ada. Naquele<br \/>\nambiente de herban\u00e1rio, e na noite em que Jesus sofria, fez-me mal.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Tamb\u00e9m como o conhecer, sem o pacto?<\/p>\n<p>&#8211; O pacto \u00e9 conhecimento de causa.<\/p>\n<p>Passeou febrilmente, olhando-me como a relutar com um desejo sinistro. Por<br \/>\nfim agarrou-me o pulso.<\/p>\n<p>&#8211; E se lhe mostrasse o Diabo, guardaria segredo?<\/p>\n<p>&#8211; Guardaria! &#8211; murmurei.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o venha.<\/p>\n<p>E bruscamente sa\u00edmos para o luar fant\u00e1stico da rua. Esta cena<br \/>\nabriu-me de repente um mundo de horrores. O Dr. Justino, m\u00e9dico instru\u00eddo,<br \/>\nera simplesmente um louco. No bonde, aconchegando-se a mim, a estranha criatura<br \/>\ndisse o que estivera a fazer antes do nosso encontro. Fora beber o seu sanguezinho,<br \/>\nao escurecer, num a\u00e7ougue conhecido. Como todos os degenerados, abundou<br \/>\nnos detalhes. Mandava sempre o carneiro antes; depois, quando as estrelas<br \/>\nluziam, entrava no p\u00e1tio, fazia uma incis\u00e3o no pesco\u00e7o<br \/>\ndo bicho e chupava, sorvia gulosamente todo o sangue, olhando os olhos v\u00edtreos<br \/>\ndo animal agonizante.<\/p>\n<p>N\u00e3o teria eu lido nunca o livro sobre o vampirismo, a possess\u00e3o<br \/>\ndos corpos? Pois o vampirismo era uma conseq\u00fc\u00eancia fatal dessa<br \/>\nlegi\u00e3o de antigos deuses pag\u00e3os, os s\u00e1tiros e os faunos,<br \/>\nque Satan\u00e1s atirava ao mundo com a forma de s\u00facubos e incubos.<br \/>\nO Dr. Justino era perseguido pelos incubos, n\u00e3o podia resistir, entregava-se&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o tinha espinha, j\u00e1 n\u00e3o podia respirar,<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o podia mais e sentia-se varado pelos s\u00edmbolos fecundos<br \/>\ndos incubos como as feiticeiras em \u00eaxtase, nos grandes dias de sabbat.<\/p>\n<p>Sacudi a cabe\u00e7a como quem faz um supremo esfor\u00e7o para n\u00e3o<br \/>\nso\u00e7obrar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o com quem falava era um doido atacado do solit\u00e1rio<br \/>\nv\u00edcio astral! Ele, entretanto, febril, continuava a descrever o poder<br \/>\nde Sat\u00e3 sobre os cad\u00e1veres, a legi\u00e3o que acompanhou o<br \/>\nSupremo e o inebriamento sab\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, doutor, compreendamos. O sabbat em plena cidade? As feiticeiras de<br \/>\nShakespeare no Engenho Novo?<\/p>\n<p>&#8211; Sat\u00e3 continua cultuado, por mais que o mundo se transforme. O sabbat<br \/>\nj\u00e1 se fez at\u00e9 nos telhados. Os gatos e os morcegos, animais<br \/>\nde Sat\u00e3, vivem entre as telhas.<\/p>\n<p>Lembrei-me de um caso de loucura, um estudante que recebia o diabo pelos<br \/>\ntelhados, e morrera furioso. N\u00e3o me pareceu de todo falso. O sabbat,<br \/>\npor\u00e9m, o sabbat cl\u00e1ssico, a festa horrenda da noite, o del\u00edrio<br \/>\nnos bosques em que as \u00e1rvores parecem dem\u00f4nios, a ronda detest\u00e1vel<br \/>\ndas mulheres nuas, subindo aos montes, descendo as montanhas, a f\u00faria<br \/>\nnecr\u00f3fila que desenterrava cad\u00e1veres e bebia \u00e1lcool com<br \/>\nsangue extinguiu-se. A antiga orgia, a comunica\u00e7\u00e3o imunda com<br \/>\no Diabo n\u00e3o passa de contos de demon\u00f3grafos, de fantasias de<br \/>\ncuriosos. Sat\u00e3 vive hoje em casa como qualquer burgu\u00eas. Esse<br \/>\ncavalheiro poderoso, o Tinhoso, n\u00e3o vai mais para tr\u00e1s das ermidas<br \/>\noficiar, as f\u00farias desnudas n\u00e3o espremem mais o suco da vida,<br \/>\nrolando nas pedras, sob a ventania do cio. Todo o mal que a Deus fazem \u00e9<br \/>\nem casa, nos deboches e na prostitui\u00e7\u00e3o da missa.<\/p>\n<p>E que vida a deles! Agora que o bonde passava pelo canal do Mangue e a lua<br \/>\nbatia na coma das palmeiras, o pobre homem, tremendo, contava-me as suas noites<br \/>\nde agonia. Sim, o Dr. Justino temia os l\u00eamures e as larvas, dormia com<br \/>\numa navalha debaixo do travesseiro, a navalha do Cambuc\u00e1, um assassino<br \/>\nque morrera de um tiro. As larvas s\u00e3o fragmentos de id\u00e9ias,<br \/>\nembri\u00f5es de c\u00f3leras e \u00f3dios, restos de raivas danadas<br \/>\nque sobem do sangue dos criminosos e do sangue regular das esposas e virgens<br \/>\naos astros para envolver as criaturas, s\u00e3o os desesperos que se transformam<br \/>\nem touros e elefantes, s\u00e3o os animais da lux\u00faria. E esses animais<br \/>\nesmagavam-no, preparando-o para o grande esc\u00e2ndalo dos incubos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas certamente, fiz para acalm\u00e1-lo, Sat\u00e3, desde que se faz<br \/>\ncom o inferno um pacto e uma alian\u00e7a com a morte, d\u00e1 o supremo<br \/>\npoder de magia, o quebranto, a bruxaria, o malef\u00edcio, o envolver das<br \/>\nvontades&#8230;<\/p>\n<p>Ele sorriu tristemente, tiritando de febre.<\/p>\n<p>&#8211; A magia est\u00e1 muito deca\u00edda, eivada de costumes africanos<br \/>\ne misturadas de pag\u00e9s. Conhece o malef\u00edcio do \u00f3dio, a<br \/>\nboneca de cera virgem? Esmagava-se a cera, modelava-se um boneco parecido<br \/>\ncom o odiado, com um dente, unhas e cabelos seus. Depois vestiam-lhe as roupas<br \/>\nda pessoa e no batismo dava-se-lhe o seu pr\u00f3prio nome. Por sobre a<br \/>\nboneca o mago estendia uma corda com um n\u00f3, s\u00edmbolo da sua resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ne exclamava: &#8211; Arator, Lepidator, Tentador, Soniator, Ductor, Comestos, Devorator,<br \/>\nSeductor, companheiros da destrui\u00e7\u00e3o e do \u00f3dio, semeadores<br \/>\nda disc\u00f3rdia que agitam livremente os mal\u00e9ficos, pe\u00e7o-vos<br \/>\ne conjuro-vos que admitais e consagreis esta imagem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a cera morna&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Animado do seu \u00f3dio, o mago dominava as part\u00edculas flu\u00eddicas<br \/>\ndo odiado, e praguejando acabava atirando a boneca ao fogo, depois de trespass\u00e1-la<br \/>\ncom uma faca. Nessa ocasi\u00e3o o odiado morria.<\/p>\n<p>&#8211; E o choque de volta?<\/p>\n<p>&#8211; Quando o enfeiti\u00e7ado percebia, em lugar de consentir nas perturba\u00e7\u00f5es<br \/>\nprofundas do seu ser, aproveitava os flu\u00eddos contra o assassino e havia<br \/>\nconflagra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O m\u00e1gico, por\u00e9m, podia envenenar o dente da pessoa, distender-se<br \/>\nno \u00e9ter e ir toc\u00e1-la.<\/p>\n<p>Havia ainda o envoutement retangular&#8230;<\/p>\n<p>Hoje, os feiticeiros s\u00e3o negros, os flu\u00eddos de uma ra\u00e7a<br \/>\ninferior destinados a um dom\u00ednio r\u00e1pido. Os malef\u00edcios<br \/>\nsat\u00e2nicos est\u00e3o inundados de azeite-de-dend\u00ea e de ervas<br \/>\nde caboclos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, encostado a mim, com mau h\u00e1bito, enquanto o bonde corria,<br \/>\no Dr. Justino deu-me v\u00e1rias receitas. Como se estuda nesse receitu\u00e1rio<br \/>\nmacabro o temor de v\u00e1rias ra\u00e7as, desde os ciganos bo\u00eamios<br \/>\nat\u00e9 os brancos assustadi\u00e7os! O sangue \u00e9 o seu grande<br \/>\nfator: cada feiti\u00e7o \u00e9 um misto de imund\u00edcie e de inf\u00e2mia.<br \/>\nPara possuir, para amar, para vencer, os satanistas usam, al\u00e9m das<br \/>\nreceitas da clav\u00edcula, de morcegos, porcos-da-\u00edndia, p\u00f3s,<br \/>\nervas, sangue mensal das mulheres, ratos brancos, produto de espasmos, camundongos,<br \/>\nrabos de gatos, moedas de ouro, fluidos, carnes, bolos de farinha com \u00f3leos,<br \/>\ne para abrir uma chaga empregam, por exemplo, o \u00e1cido sulf\u00farico&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com o poder do Horrendo, fez subitamente o m\u00e9dico numa nova crise,<br \/>\n\u00e9 l\u00e1 poss\u00edvel temer esse idiota que morreu na cruz? Sabe<br \/>\nque os talmudistas negam a ressurrei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Levantou-se titubeante, saltamos. O bonde desapareceu. Embaixo, no leito<br \/>\ndo caminho de ferro, os rails de a\u00e7o branquejavam, e, no ar, morcegos<br \/>\nfaziam curvas sinistras. O Dr. Justino ardia em febre. De repente ergueu os<br \/>\npulsos.<\/p>\n<p>&#8211; Impostor! Torpe! Salafr\u00e1rio! &#8211; ganiu aos c\u00e9us estrelados.<\/p>\n<p>&#8211; Onde vamos?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 missa-negra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Onde?<\/p>\n<p>&#8211; Ali.<\/p>\n<p>&#8211; Estendeu a m\u00e3o, veio-lhe um v\u00f4mito, emborcou no meu bra\u00e7o<br \/>\nque o amparava, golfando num estertor peda\u00e7os de sangue coagulado.<\/p>\n<p>Ao longe ouviu-se o silvo da locomotiva.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como possu\u00eddo do Diabo nos bra\u00e7os eu bati \u00e0<br \/>\nporta dos satanistas, ouvindo a sua desgra\u00e7ada vida e a dor infind\u00e1vel<br \/>\nda morte.<\/p>\n<h4><a name=\"16\"><\/a>A Missa-Negra<\/h4>\n<p>Atravessamos uma al\u00e9ia de sapucaias. O terreno enlameado pegava na<br \/>\nsola dos sapatos. Justino ia \u00e0 frente, com um preto que assobiava,<br \/>\ndois c\u00e3es sujos e magros. Por entre os canteiros incultos crescia a<br \/>\nerva daninha, e os troncos das \u00e1rvores, molhados de luar, pareciam<br \/>\ncurvar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Entramos no inferno?<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ao sabbat moderno.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos chegado ao velho pr\u00e9dio, que emergia da sombra. O<br \/>\nnegro empurrou a porta e todos tr\u00eas, misteriosamente, penetramos numa<br \/>\nsaleta quase escura, onde n\u00e3o havia ningu\u00e9m. Justino lavou as<br \/>\nm\u00e3os, respirou forte e, abrindo uma outra porta, sussurrou:<\/p>\n<p>&#8211; Entre.<\/p>\n<p>Dei numa vasta sala cheia de gente. Candeeiros de querosene com refletores<br \/>\nde folha pregados \u00e0s paredes pareciam uma fileira de olhos, de focos<br \/>\nde locomotiva golpeando as trevas numa pertinaz interroga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA atmosfera, impregnada de cheiros maus de p\u00f3 de arroz e de suor, sufocava.<br \/>\nEncostei-me ao portal indeciso. Remexia e gania entre aquelas quatro paredes<br \/>\no mundo estercor\u00e1rio do Rio. Velhos viciados \u00e0 procura de emo\u00e7\u00f5es<br \/>\nnovas, fufias hist\u00e9ricas e ninfoman\u00edacas, mulatas perdidas,<br \/>\na ral\u00e9 da prostitui\u00e7\u00e3o, tipos amb\u00edguos de cal\u00e7as<br \/>\nlargas e meneios de quadris, caras l\u00edvidas de r\u00f4deurs das pra\u00e7as,<br \/>\nhomens desbriados, toda essa massa heter\u00f3clita cacarejava impaciente<br \/>\npara que come\u00e7asse a orgia. Os velhos tinham olhares c\u00fapidos,<br \/>\nmelosos, os tipos d\u00fabios tratavam-se entre si de comadres, com as faces<br \/>\npintadas, e a um canto o empregado dos Correios, esticando o pesco\u00e7o<br \/>\ndepenado de condor, fixava na penumbra a presa futura. N\u00e3o era uma<br \/>\nreligi\u00e3o; era um come\u00e7o de saturnal.<\/p>\n<p>Senti que me tocavam no bra\u00e7o. Voltei-me. Era um poeta muito vermelho,<br \/>\nque cultivara outrora, numa revista de arte, o satanismo liter\u00e1rio.<br \/>\nDesequilibrado, mat\u00f3ide, o Carolino estava ali em parada \u00edntima<br \/>\nde pervers\u00e3o po\u00e9tica.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m tu? &#8211; fez apertando-me a m\u00e3o entre as suas viscosas<br \/>\nde suor. &#8211; Curioso, hein? Mas palha\u00e7ada, filho, palha\u00e7ada. \u00c9<br \/>\na segunda a que eu assisto. Uma missa-negra de jornal de Paris com ilustra\u00e7\u00f5es<br \/>\nao vivo&#8230; Imagina que nem h\u00e1 padres. O oficiante \u00e9 o degenerado<br \/>\nque anda \u00e0 noite pelas pra\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; E as h\u00f3stias?<\/p>\n<p>&#8211; As h\u00f3stias, essas ao menos s\u00e3o aut\u00eanticas, roubadas<br \/>\n\u00e0s igrejas. Dizem at\u00e9&#8230; &#8211; esticou-se, colocou a boca ao meu<br \/>\nouvido como quem vai fazer uma espantosa revela\u00e7\u00e3o: &#8211; dizem<br \/>\nat\u00e9 que h\u00e1 um sacrist\u00e3o na cidade a mercadej\u00e1-las.<br \/>\n\u00c9 para quem quer&#8230; h\u00f3stias a dez tost\u00f5es. \u00c9 boa!<\/p>\n<p>Mas que diferen\u00e7a, meu caro, da missa antiga, da verdadeira!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se mata ningu\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 l\u00e1 poss\u00edvel! E a pol\u00edcia? J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nestamos no tempo de Gilles de Rais nem de Montespan&#8230; Bom tempo esse!<\/p>\n<p>Pousou os dedos no peito, revirou os olhos saudosos. Era como se tivesse<br \/>\ntido rela\u00e7\u00f5es pessoais com o Gilles e a Montespan.<\/p>\n<p>A turba entretanto continuava a piar. Todas as janelas fechadas faziam da<br \/>\nsala um forno. Carolino encostou-se tamb\u00e9m e deu-me informa\u00e7\u00f5es<br \/>\ncuriosas. Estava vendo eu uma rapariga loura, com uma f\u00edstula no queixo<br \/>\ne \u00f3culos azuis? Era uma troteuse da pra\u00e7a Tiradentes. Certo<br \/>\nhomem p\u00e1lido, que corcovava abanando-se, era artista peladanista, outro<br \/>\ngordo e fl\u00e1cido fazia milagres e intitulava-se membro da Sociedade<br \/>\nde Estudos Ps\u00edquicos. Havia de tudo&#8230; Uma senhora, vestida de negro,<br \/>\npassou por n\u00f3s grave, como cansada.<\/p>\n<p>&#8211; E esta?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a princesa&#8230; Uma mulher original, estranha, que j\u00e1 adorou<br \/>\no fogo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc\u00ea est\u00e1 fazendo romance. Isso \u00e9 literatura.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo \u00e9 literatura! A literatura \u00e9 o mir\u00edfico agente<br \/>\ndo v\u00edcio. Porque estou eu aqui? A literatura, Huysmans, o c\u00f4nego<br \/>\nDoere do L\u00e0-Bas, os livros enervadores. Os que arranjaram estas cenas,<br \/>\no rapaz dos Correios, o Justino, o Bode&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Bode?<\/p>\n<p>\u00c9 o nome sat\u00e2nico do sacerdote&#8230; tem o c\u00e9rebro como<br \/>\num sandu\u00edche de literatura.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o resto, estas quarenta pessoas que eu vejo, tenho a certeza de ver<br \/>\ne que encontrarei talvez amanh\u00e3 nas ruas?<\/p>\n<p>&#8211; Em ruas m\u00e1s&#8230; S\u00e3o depravados, pervertidos, doentes, endemoinhados!<br \/>\nSat\u00e3, meu amigo, Sat\u00e3, que os padres arrancam dos corpos das<br \/>\nmulheres no Rio de Janeiro, a varadas.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 sempre o melhor meio.<\/p>\n<p>&#8211; O \u00fanico eficaz &#8211; mas que nos tira a ilus\u00e3o e a fantasia&#8230;<br \/>\nConfesse. \u00c9 um gozo a descida ao abismo da perdi\u00e7\u00e3o como<br \/>\nDeus do Mal, este banho de gosma em que, de irreais as cenas, n\u00e3o as<br \/>\nacreditam os nossos olhos, ao v\u00ea-las, nem os nossos ouvidos ouvindo-as.<br \/>\nCome\u00e7a a cerim\u00f4nia&#8230; Entremos. S\u00f3 falta aqui o falecido<br \/>\ncoronel&#8230;<\/p>\n<p>Abrira-se uma porta, a da casa de jantar, e a cr\u00e1pula entrava aos<br \/>\nencontr\u00f5es dando-se belisc\u00f5es, com o olhar guloso e devasso.<br \/>\nEntramos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Como era razo\u00e1vel a desilus\u00e3o de Carolino! A missa-negra a<br \/>\nque eu assisti, era uma par\u00f3dia carnavalesca e s\u00e1dica, uma mistura<br \/>\nde v\u00e1rias missas com inven\u00e7\u00f5es pessoais do sacerdote.<br \/>\nHavia frases do of\u00edcio da Observ\u00e2ncia, trechos sacr\u00edlegos<br \/>\ndo abade Guibourg, a missa de Vintras, esse doido formid\u00e1vel, aparatos<br \/>\ncopiados aos Ansan\u00e9s da S\u00edria e um desmedido deboche, o deboche<br \/>\ndo teatro S\u00e3o Pedro em noite de carnaval, se \u00e0 pol\u00edcia<br \/>\nn\u00e3o contivesse o desejo e as portas se fechassem. Carolino tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O erotismo ambicioso de outrora devia ser mais interessante. Guibourg aspergindo<br \/>\nde \u00e1gua benta o corpo nu da Montespan deitada nos evangelhos dos reis,<br \/>\nos pombos queimados, a paix\u00e3o de Nossa Senhora lida com os p\u00e9s<br \/>\ndentro de \u00e1gua, o cib\u00f3rio cheio de sangue inocente no centro<br \/>\ndas sensa\u00e7\u00f5es, tinham um fim. A missa de Ezequiel, o of\u00edcio<br \/>\nsupremo em que, al\u00e9m de Sat\u00e3, aparecem Belzebu, Astarob, Asmodeu,<br \/>\nBelial, Moloch e Baal-Phagor, era religiosamente terr\u00edvel. A que os<br \/>\nmeus olhos viam, n\u00e3o passava de fantasia de debochadas e hist\u00e9ricas<br \/>\nnecessitando do rifle policial e do chicote.<\/p>\n<p>A casa de jantar estava transformada numa capela. Ao fundo levantava-se o<br \/>\naltar-mor, ladeado de um pav\u00e3o empalhado com a cauda aberta &#8211; o pav\u00e3o<br \/>\nsimb\u00f3lico do V\u00edcio Triunfal. Nos quatro cantos do teto, morcegos,<br \/>\ndeitados em cora\u00e7\u00f5es de papel\u00e3o vermelho, pareciam assustados.<br \/>\nPanos pretos com cruzes de prata voltadas cobriam as janelas e as portas.<\/p>\n<p>Do altar-mor, que tinha tr\u00eas degraus cobertos por um pelego encarnado,<br \/>\ndescia, abrindo em forma de leque, um duplo renque de casti\u00e7ais altos,<br \/>\nsustentando tochas acesas de cera vermelha. Era essa toda a luz da sala. O<br \/>\nbando tomou posi\u00e7\u00f5es. Alguns riam; outros, por\u00e9m, tinham<br \/>\nas faces p\u00e1lidas, olheirentas, dos apavorados. N\u00f3s, eu e o poeta,<br \/>\nficamos no fim. Um sil\u00eancio caiu. Do alto, pregado a cruz tosca, uma<br \/>\nescultura infame pretendia representar Cristo, o doce Jesus! Era um boneco<br \/>\ntorpe, de bigodes retorcidos, totalmente excitado, que olhava os fi\u00e9is<br \/>\ncom um olhar trocista e o beicinho revirado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 horrendo.<\/p>\n<p>&#8211; Se estamos na casa do horrendo! Guarde a sua emo\u00e7\u00e3o. Tudo<br \/>\nisso \u00e9 religi\u00e3o. O mesmo fazem com Iscariote no s\u00e1bado<br \/>\nde Aleluia os meninos cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>Guardei. Vinham aparecendo aos saltinhos, num andar de marrecos presos, quatro<br \/>\nsacrist\u00e3os com as sotainas em cima da pele. Esses efebos diab\u00f3licos,<br \/>\nde faces carminadas e sorrizinhos equ\u00edvocos, passeavam pela sala como<br \/>\nm\u00e9nag\u00eares preocupadas com um jantar de cerim\u00f4nia, dando<br \/>\na \u00faltima de m\u00e3o \u00e0 mesa. Depois surgiu um negrinho de<br \/>\nbatina amarela, com os p\u00e9s nus, e as unhas pintadas de ouro. Trazia<br \/>\nos braseiros para o incenso e quando passava pelos homens erguia devagar o<br \/>\nbalandrau cor de enxofre. A princesa, adoradora do fogo, olhou-o com gula<br \/>\ne ia talvez falar, quando apareceu o sacerdote acompanhado de um outro sacrist\u00e3o<br \/>\nex\u00f3tico. \u00c0 luz dos c\u00edrios que estalidavam, nessa luz<br \/>\nvacilante e ag\u00f4nica, o mulato era teatral. Alto, grosso, com o bigode<br \/>\ntrincado, as olheiras papudas, os bei\u00e7os sensuais pendentes, fez a<br \/>\napari\u00e7\u00e3o de capa encarnada e b\u00e1culo de prata, com os<br \/>\ns\u00edmbolos de Shiva potente.<\/p>\n<p>&#8211; Esse homem \u00e9 doido?<\/p>\n<p>&#8211; Um s\u00e1dico inteligente. Tem como prazer \u00fanico o crime de um<br \/>\npr\u00edncipe que h\u00e1 um ano agitou a moral arquiduvidosa de Londres&#8230;<br \/>\nAinda n\u00e3o conversou com ele? Muito interessante. H\u00e1 tempos inventou<br \/>\na divina jun\u00e7\u00e3o dos sexos num tipo \u00fanico, o andr\u00f3gino<br \/>\nsat\u00e2nico. \u00c9 admir\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A literatura! &#8211; fiz.<\/p>\n<p>&#8211; O Mal! retrucou o poeta c\u00ednico, e apontou o Dr. Justino.<\/p>\n<p>O pobre m\u00e9dico encostado a uma das cruzes batia palmas clamando.<\/p>\n<p>&#8211; Satan\u00e1s! Satan\u00e1s! Nosso Senhor! Acode!<\/p>\n<p>O sacerdote virou-se. A cauda estrelada de um pav\u00e3o cobria-lhe o peito<br \/>\nda t\u00fanica.<\/p>\n<p>Curvou-se, juntou as m\u00e3os, e a par\u00f3dia da missa cat\u00f3lica<br \/>\ncome\u00e7ou, em latim, mudando apenas Deus pelo Diabo. Era tal qual, curvaturas,<br \/>\ngestos, toques de campainha, resposta de sacrist\u00e3os, tudo. De repente,<br \/>\npor\u00e9m, o homem desceu os tr\u00eas degraus, Os sacrist\u00e3os surgiram<br \/>\ncom tur\u00edbulos enormes, e ele, despregando a casula surgiu inteiramente<br \/>\nnu, com o cavanhaque revidado, a m\u00e3o na anca, cruel como o pr\u00f3prio<br \/>\nRebelde. As mulheres, os pequenos equ\u00edvocos, o ocultista arrancaram<br \/>\nas roupas, rasgaram-se enquanto o seu dorso reluzente e suado curvava-se diante<br \/>\ndos incensos. Depois de novo, com uma voz do metal bradou:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor! Sat\u00e3! Gl\u00f3ria da terra! Tu que aclaras os pobres homens,<br \/>\nFonte de ouro, misterioso Guarda das criptas e dos antros; Tu que moras na<br \/>\nterra onde o ouro vive; Causa dos pecados; Amparo da carne; Del\u00edrio<br \/>\n\u00fanico; Fim da vida; &#8211; deixa que te adoremos! N\u00e3o te exterminaram<br \/>\nas sotainas baratas, n\u00e3o te perdeu o Outro, n\u00e3o se acabar\u00e1<br \/>\nnunca o teu poderoso imp\u00e9rio, \u00f3 L\u00f3gica da Exist\u00eancia!<br \/>\nSatan\u00e1s, est\u00e1s em toda a parte, \u00e9s o Desejo, a Raz\u00e3o<br \/>\nde Ser, o Espasmo! Ouve-nos, aparece, impera! N\u00e3o v\u00eas na cruz<br \/>\no lar\u00e1pio que roubou a tua l\u00e1bia e o teu saber?<\/p>\n<p>&#8211; Deus! &#8211; murmurei.<\/p>\n<p>&#8211; Guarde a sua emo\u00e7\u00e3o, meu amigo. \u00c9 do rito. Eles dizem<br \/>\nque Jesus foi a principio, de L\u00facifer.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso encarnar o m\u00e1gico &#8211; continuava o homem &#8211; neste<br \/>\npeda\u00e7o de p\u00e3o; \u00e9 preciso mago\u00e1-lo, faz\u00ea-lo<br \/>\nsofrer, mostrar-lhe que \u00e9s \u00fanico, impass\u00edvel e admir\u00e1vel.<br \/>\nQue seria da humanidade se n\u00e3o fosse o teu Aux\u00edlio, \u00f3<br \/>\nPortador dos gozos, \u00f3 Desmascarador das hipocrisias? Todo o mundo solu\u00e7a<br \/>\no teu Nome, a P\u00e9rsia, a Caldeia, o Egito, a Gr\u00e9cia, a Roma dos<br \/>\nroubadores da tua Pompa. Olha pelo mundo a vit\u00f3ria, os fil\u00f3sofos,<br \/>\nos s\u00e1bios, os m\u00e9dicos, as mulheres. Os fil\u00f3sofos desviam<br \/>\no amor do Outro, os s\u00e1bios alugam a cren\u00e7a, os m\u00e9dicos<br \/>\narrancam dos ventres a maternidade, fazem as assexuadas delirantes, esmagam<br \/>\nas crian\u00e7as, as mulheres escorrem a lasc\u00edvia e o ouro! N\u00f3s<br \/>\ntodos prostrados adoramos-te, diante do impostor, do mentiroso, desse que<br \/>\naconselha a renunciar \u00e0 Carne! Que venha o dinheiro, que venha a Carne!<br \/>\nque se esmague os seios das mulheres e se lhes crave o punhal da lux\u00faria<br \/>\nem frente ao impostor&#8230; Jesus h\u00e1 de descer \u00e0 h\u00f3stia;<br \/>\ntu queres!<\/p>\n<p>Deixou cair o bra\u00e7o. Na face dos erot\u00f4manos a loucura punha<br \/>\nritos de ang\u00fastia.<\/p>\n<p>O sacerdote espumava, e a fuma\u00e7a dos incens\u00e1rios de t\u00e3o<br \/>\nespessa parecia envolver-lhe a indecorosa nudez numa clamide de cinza, estrelada<br \/>\nde c\u00edrios.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Rei poderoso das satisfa\u00e7\u00f5es, os que te acreditam,<br \/>\nabandonam as cobardias da vergonha, as pregas do pavor e a estupidez da resigna\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEnvia-nos Astaroh, d\u00e1-nos o amor, faze-nos gozar o prazer, faze-nos.<\/p>\n<p>Um palavr\u00e3o silvou, sagrado como a B\u00edblia. Houve um complexo<br \/>\nde urros e guinchos.<\/p>\n<p>&#8211; Am\u00e9m! &#8211; cacarejavam os pequenos.<\/p>\n<p>&#8211; Tu que \u00e9s o V\u00edcio Amplo, ajuda-nos a violar o Nazareno para<br \/>\na gl\u00f3ria imensa.<\/p>\n<p>Outro palavr\u00e3o estalou. Metade do grupo n\u00e3o compreendia o galimatias<br \/>\nblasfemo, mas as frases indignas eram como varadas acendendo a lubricidade,<br \/>\ne a gentalha ent\u00e3o, como o gesto l\u00fabrico dos macacos, cuspinhava<br \/>\nimprop\u00e9rios.<\/p>\n<p>O sacerdote n\u00e3o descansou. Atirada a palavra, trepou os degraus, colocou<br \/>\numa mitra imoral no cr\u00e2nio, e, estendendo entre os dedos uma h\u00f3stia<br \/>\nbranca de neve, encostou-se ao altar vacilante.<\/p>\n<p>&#8211; Que vai ele fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Vai ao sinistro banal&#8230;<\/p>\n<p>Que Deus seria esse? Ia perguntar ao poeta, mas n\u00e3o tive tempo. Um<br \/>\ndos sacrist\u00e3os trepara ao altar, com o c\u00e1lice na m\u00e3o.<br \/>\nComo coroado pelos p\u00e9s do Cristo, o pequeno com tremores pelo corpo,<br \/>\ntiques bruscos, garr\u00f5es de nervos, o olhar embaciado sujeitava-se \u00e0<br \/>\nestripa\u00e7\u00e3o do batismo da h\u00f3stia, e enquanto o bra\u00e7o<br \/>\ndo sacerdote num movimento cruel sacudia-o, a sua voz ia dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Que Sat\u00e3 o fa\u00e7a encarnar.<\/p>\n<p>De repente o bra\u00e7o estacou. O pequeno tombara babando. Houve ent\u00e3o<br \/>\na apoteose. Com a h\u00f3stia polu\u00edda, o homem nu desceu gritando;<br \/>\nos braseiros ca\u00edram por terra, os homens amb\u00edguos com gargalhadas<br \/>\ninfames rolavam; mulheres estr\u00e1bicas trepavam pelo altar de quatro<br \/>\np\u00e9s, querendo comer as migalhas da h\u00f3stia \u00famida. A rapariga<br \/>\nde \u00f3culos azuis com os cabelos presos a um c\u00edrio estendia o<br \/>\ncorpo convulsionado; o ocultista gordo gania, em torno do malandro nu, o sacerdos;<br \/>\numa teoria de s\u00e1tiros e f\u00farias hidr\u00f3fobas mastigava enojada<br \/>\nos peda\u00e7os de h\u00f3stia que o rapaz de pesco\u00e7o de condor<br \/>\ncuspinhara. A fuma\u00e7a dos c\u00edrios sufocava, alguns casti\u00e7ais<br \/>\ntinham ca\u00eddo.<\/p>\n<p>&#8211; Hein? &#8211; fez o poeta, por pose. Mas tinha os olhos injetados e tremia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, agarrei-o, passamos \u00e0 sala em que os corpos redemoinhavam<br \/>\npromiscuamente no mais formid\u00e1vel dos deboches entre os c\u00edrios<br \/>\ntombados. Dois sinetas puxaram-no. Claudino amparou-o no pedestal do pav\u00e3o,<br \/>\no V\u00edcio Triunfal rolou. Demos na sala dos refletores, desesperados.<br \/>\nA sala parecia na sua solid\u00e3o uma gare de crime deserta. Entramos na<br \/>\noutra em que Justino rolava num canap\u00e9 sob a press\u00e3o de incubos<br \/>\nsuficientes e reais. O negro abriu meia porta:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o querem a \u00e1gua maldita?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; V. S. vai assustado. N\u00e3o diga nada, meu senhor. Deus l\u00e1 em<br \/>\ncima \u00e9 que lhes d\u00e1 esse castigo.<\/p>\n<p>Deixei-o falar, deitei a correr como um doido, na noite enluarada. Ouro,<br \/>\nprostitui\u00e7\u00e3o, inf\u00e2mia, canalhice, sacril\u00e9gio, vergonha!<br \/>\nMas que \u00e9 tudo isso diante da castidade imaculada dos elementos? Dos<br \/>\naltos c\u00e9us imensos que as estrelas cravejam de gl\u00f3ria, a lua<br \/>\nderramava por sobre a calma da noite um manto incons\u00fatil de cristal<br \/>\ne ouro, e a terra inteira, cheia de paz e do\u00e7ura, abria em perfume<br \/>\nsob o sud\u00e1rio de luz, infinitamente casta&#8230;<\/p>\n<p>E foi como se, arrancado ao inferno de um pesadelo l\u00f4brego de nojo<br \/>\ne pervers\u00e3o, eu voltasse \u00e0 realidade misericordiosa de bondade<br \/>\nda vida.<\/p>\n<h4><a name=\"17\"><\/a>Os Exorcismos<\/h4>\n<p>&#8211; &#8220;Houve um grande combate nos c\u00e9us. Miguel e os anjos combatiam<br \/>\ncontra o drag\u00e3o que lutava com os seus. Estes, por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\ntiveram a vit\u00f3ria e desde ent\u00e3o foi imposs\u00edvel reachar<br \/>\no lugar nos c\u00e9us. O drag\u00e3o, a antiga serpente chamada diabo<br \/>\nou sedutor do universo, foi precipitado com os maus anjos sobre a terra. E<br \/>\nesse drag\u00e3o tinha sete cabe\u00e7as, dez cornos, sete diademas e<br \/>\na sua cauda arrastou a ter\u00e7a parte das estrelas<\/p>\n<p>Assim fala S\u00e3o Jo\u00e3o de Patimos. O drag\u00e3o e as estrelas<br \/>\nfazem o mundo diab\u00f3lico, inspiram o mal, arrastam a teoria furiosa<br \/>\ndas hist\u00e9ricas e mais do que em qualquer outra terra fazem aqui as<br \/>\nendemoninhadas. Pela classe baixa, nas ruas escusas, as possessas abundam.<br \/>\nDe repente criaturas perfeitamente boas caem com ataques, escabujam, arquejam,<br \/>\ncusparam uma baba espessa, com os cabelos tesos e os olhos ardentes. V\u00eam<br \/>\nos m\u00e9dicos chamam a isso histeria, v\u00eam os esp\u00edritas, d\u00e3o<br \/>\noutra explica\u00e7\u00e3o, mas as criaturas s\u00f3 tornam \u00e0<br \/>\nvida natural quando um sacerdote as exorcisma. J\u00e1 vi na Gamboa uma<br \/>\nmulher que ficava dois palmos acima do solo, com os bra\u00e7os em cruz,<br \/>\ngargolejando inj\u00farias ao Criador; tenho a hist\u00f3ria de uma outra<br \/>\nque babava verde e passava horas e horas enrodilhada, com solu\u00e7os secos,<br \/>\ne atirava punhadas aos crucifixos numa \u00e2nsia incr\u00edvel. S\u00e3o<br \/>\nsem conta os casos de possessas.<\/p>\n<p>&#8211; E toda essa gente \u00e9 exorcismada?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s vezes.<\/p>\n<p>O amigo com quem eu falava era um m\u00e9dico cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>&#8211; O exorcismo pode ser feito por qualquer?<\/p>\n<p>&#8211; Hoje n\u00e3o. Atualmente \u00e9 preciso ser um homem destitu\u00eddo<br \/>\ndas vaidades do mundo, \u00e9 preciso ser velho e puro, dotado de uma for\u00e7a<br \/>\nimperec\u00edvel. O bispo faz tocar ao padre exorcista o livro das f\u00f3rmulas,<br \/>\ndizendo: &#8220;Accipe et commenda memorae, et habem potestatem imponendi manus<br \/>\nsuper energumenos&#8230;&#8221; Aqui no Rio h\u00e1 exorcistas falsos, malandros<br \/>\nexploradores, h\u00e1 os jesu\u00edtas, alguns lazaristas e o superior<br \/>\nda ordem dos Capuchos que t\u00eam licen\u00e7a do bispo. Conhece frei<br \/>\nPiazza? \u00c9 uma excelente criatura, feita de bondade e de paz. Nunca<br \/>\nrecebe mal. Para cada inj\u00faria tem um carinho e guarda como m\u00e1xima<br \/>\na grande verdade de que um frade vale por um ex\u00e9rcito. Que figuras!<br \/>\nEle pelo menos vale por um ex\u00e9rcito com a sua car\u00edcia e a sua<br \/>\nfor\u00e7a. \u00c9 um desses entes que n\u00e3o param, um militante.<br \/>\nAnda, sai, indaga, conversa, protege, ajuda, converte, exorcisma. J\u00e1<br \/>\no vi uma vez vaiado por alunas de uma escola e rapazes grosseiros, \u00e0<br \/>\ntoa, sem raz\u00e3o de ser, apenas porque era frade. Frei Piazza, muito<br \/>\ncalmo, agradecia com beijos a vaia e cada beijo seu no ar petrificava a boca<br \/>\nde um dos impudentes insultadores. \u00c9 o nosso primeiro exorcista, o<br \/>\ngrande combatente dos Diabos&#8230; V\u00e1 interrog\u00e1-lo de prefer\u00eancia<br \/>\na outro qualquer.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 diabos?<\/p>\n<p>&#8211; Um recrudescimento apenas. O catolicismo explica o inexplic\u00e1vel.<br \/>\nQuem faz a cosmolatria? Satan\u00e1s! a necrolatria, o mal de Deus enfim?<br \/>\nSatan\u00e1s, sempre Satan\u00e1s! Qual o meio de acabar com o Diabo?<br \/>\no exorcismo.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro \u00e9 uma tenda de feiticeiros brancos e negros, de religi\u00f5es<br \/>\nde animais, de pedras animadas, o rojar de um povo inteiro diante do amanh\u00e3,<\/p>\n<p>Spectre toujours mas qu\u00e9 qui nous suit cote a cote<br \/>\nEt qu&#8217;on nomme Demam&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0s cenas da missa-negra, dos satanistas, dos magos, \u00e9 preciso<br \/>\njuntar a missa vermelha, e os exorcismos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00f3s estamos no s\u00e9culo XX!<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro, o mundo n\u00e3o varia olhando o invis\u00edvel. H\u00e1<br \/>\nsempre de um lado os esp\u00edritos bons, os anjos que se demonstram pela<br \/>\nteurgia, e os esp\u00edritos maus, as larvas, os dem\u00f4nios, isto \u00e9,<br \/>\nde um lado as teofanias, de outro as f\u00farias. Ultimamente, por\u00e9m,<br \/>\ncasos incr\u00edveis, lendas antiq\u00fc\u00edssimas deram para reaparecer.<br \/>\nOs agentes do Diabo, as sereias, os faunos, os gigantes, os trit\u00f5es<br \/>\nsurgem de novo. O Jo\u00e3o catraeiro, ali do cais dos Mineiros, j\u00e1<br \/>\nviu passeando na \u00e1gua uma dama de vermelho com homens de barbas verdes<br \/>\nque riam e assobiavam&#8230; Porque havemos de banir fatos? Eu, e dou-lhe como<br \/>\ntestemunha o Dr. Rafael Pinheiro e outras pessoas conhecidas, j\u00e1 tive<br \/>\numa doente que frei Piazza p\u00f4s boa. A mulher delirava, tinha ataques<br \/>\nformid\u00e1veis, eu tratava-a segundo Charcot. Uma vez ela disse: eu tenho<br \/>\no diabo no corpo. Pois v\u00e1 ao Castelo! Foi e ficou boa. Era um m\u00e9dico<br \/>\nque me dizia o assombro. Nesse mesmo dia subi ao Castelo.<\/p>\n<p>Pelas pedras do morro iam homens carregando baldes de \u00e1gua; mulherios<br \/>\nestendiam roupas na relva; embaixo, a cidade num vapor branco parecia uma<br \/>\nmiragem sob o chuveiro de luz. Em torno do convento saltavam cabras. Pendurei-me<br \/>\nde um cond\u00e3o \u00e0 porta carcomida, como um viajante medieval. Muito<br \/>\ntempo depois apareceu um frade italiano de barba negra.<\/p>\n<p>&#8211; O Superior?<\/p>\n<p>Abriu a porta, fez-me entrar para uma sala paup\u00e9rrima, onde havia<br \/>\num altar com imagens grosseiras e paramentos de missa. Pelas paredes, ordens<br \/>\ndo arcebispo, tabelas dos dias de jejum. Atrav\u00e9s das outras portas<br \/>\nabertas viam-se salas abobadadas, onde as alpercatas sacerdotais punham um<br \/>\nbrando rumor de intimidade.<\/p>\n<p>Dois minutos depois, frei Piazza aparecia. Muito jovial e muito simples.<br \/>\nEu queria uma informa\u00e7\u00e3o; ele dava-a. Sempre que Deus lhe fazia<br \/>\na gra\u00e7a de poder ser \u00fatil, ficava contente. A impress\u00e3o<br \/>\ndesse homem, com os flocos de neve de sua barba escorrendo de uma face cheia<br \/>\nde vitalidade, \u00e9 a de um ser definitivamente certo de seu fim, a quem<br \/>\nas inj\u00farias, as intrigas, os elogios ou os males n\u00e3o atingem.<br \/>\nViu-me um curioso mundano, imp\u00f4s-me a sua cren\u00e7a com delicadeza.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 jornalista! ah! os jornalistas!&#8230; Se eles dissessem<br \/>\napenas o que v\u00eam, seriam os melhores homens do universo&#8230; Mas quase<br \/>\nnunca dizem. O pr\u00edncipe de Crayemberg tinha um temor muito justo. Olhe<br \/>\no que ainda h\u00e1 pouco fizeram com a princesa russa.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos sentados num duro banco, diante de Deus e dos santos, como<br \/>\nem poltronas confort\u00e1veis. Ele tinha entre as barbas um sorriso de<br \/>\nsutil ironia.<\/p>\n<p>&#8211; Superior &#8211; confessei eu -, tenho nestes \u00faltimos tempos visto de<br \/>\nperto os males do Diabo.<\/p>\n<p>Disseram-me que frei Piazza exorcisma.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, filho, h\u00e1 alguns anos. Todas as sextas-feiras das 4 da manh\u00e3<br \/>\n\u00e0s 4 da tarde, trabalho sem descanso. S\u00f3 no ano de 1903 exorcismei<br \/>\nmais de 300 demon\u00edacas. Esses exorcismos s\u00e3o feitos de prefer\u00eancia<br \/>\nna igreja, mas quando me chamam, vou tamb\u00e9m \u00e0 casa dos pacientes.<br \/>\nSat\u00e3 mais do que nunca amea\u00e7a Deus. Esse macaco do Divino, como<br \/>\ndiz o padre Goud, arrasta as criaturas para as profundas do inferno, que a<br \/>\nci\u00eancia considera um centro de fogo no meio da terra, autor dos vulc\u00f5es<br \/>\ne do abalo das montanhas&#8230; Ah! meu filho, \u00e9 uma vida bem dura!<\/p>\n<p>&#8211; O exorcismo \u00e9 p\u00fablico?<\/p>\n<p>&#8211; Nem sempre. O diabo pela boca dos possessos conta a vida de todos, injuria<br \/>\nos presentes. N\u00e3o \u00e9 conveniente. Ficam alguns amigos que sejam<br \/>\ns\u00e9rios e piedosos.<\/p>\n<p>&#8211; E como se praticam os exorcismos?<\/p>\n<p>&#8211; Segundo o Rituale.<\/p>\n<p>&#8211; Contam tanta coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bem simples. Leio-lhe a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Foi-se com o seu passo apressado, voltou trazendo os \u00f3culos e um livro<br \/>\nde marroquim vermelho com letras de ouro.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 escrito que o homem n\u00e3o viver\u00e1 s\u00f3 de p\u00e3o,<br \/>\nmas das palavras de Deus, disse S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Sentamo-nos. Frei Piazza abriu o Rituale, escrito em vermelho e negro&#8230;<\/p>\n<p>O of\u00edcio de exorcismo come\u00e7a com as litanias normais e o salmo<br \/>\nLII. Depois, o sacerdote dirige-se ao Energ\u00fameno.<\/p>\n<p>&#8211; Quem quer que sejas, ordeno-te, esp\u00edrito imundo, como aos teus companheiros,<br \/>\nque obede\u00e7am a este servidor de Deus, em nome dos mist\u00e9rios<br \/>\nda Encarna\u00e7\u00e3o, da Paix\u00e3o, da Ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da Ascens\u00e3o de Nosso Senhor Jesus Cristo, em nome do Esp\u00edrito<br \/>\nSanto, que digas o teu nome e indiques por um sinal qualquer o dia e a hora<br \/>\nem que entraste neste corpo, ordeno-te que me obede\u00e7as, a mim, ministro<br \/>\nindigno de Deus, e pro\u00edbo-te que ofendas esta criatura assim como aos<br \/>\npresentes.<\/p>\n<p>Depois o exorcista procede \u00e0 leitura dos Evangelhos, segundo S\u00e3o<br \/>\nJo\u00e3o, S\u00e3o Marcos, S\u00e3o Lucas, evoca o Cristo, faz o sinais-da-cruz<br \/>\nno possesso, envolve-lhe o pesco\u00e7o num peda\u00e7o de estola e com<br \/>\na m\u00e3o direita na cabe\u00e7a do rebelde, diz:<\/p>\n<p>&#8211; Eu te exorcismo, imundo esp\u00edrito, fantasma legi\u00e3o, em nome<br \/>\nde N. S. J. C., ordeno-te que abandones esta criatura feita por Deus com terra.<br \/>\nDeus, o mesmo que do alto dos C\u00e9us te precipitou nas profundezas, \u00e9<br \/>\nquem te ordena. Aquele que manda nos mares, nos ventos e na terra. Ouve e<br \/>\ntreme de pavor, Sat\u00e3, inimigo da f\u00e9, inimigo do g\u00eanero<br \/>\nhumano, mensageiro da morte, ladr\u00e3o da vida, opressor da justi\u00e7a,<br \/>\nraiz de todos os males, sedutor dos homens, traidor de todas as na\u00e7\u00f5es,<br \/>\norigem da avareza, inventor da inveja, causa das disc\u00f3rdias e das dores.<br \/>\nPor que ficas? por que resiste? Temes o que te imolou por Isaac vendido por<br \/>\nJos\u00e9, morto por um anho e que acabou por triunfar do Inferno?<\/p>\n<p>E fazendo sinais-da-cruz na cabe\u00e7a, no ventre, no peito e no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo paciente, o sacerdote, com os paramentos roxos, continua:<\/p>\n<p>&#8211; Abjuro-te, serpente antiga, em nome dos julgamentos dos vivos e em nome<br \/>\ndos mortos, em nome do teu Criador e do Criador dos mundos, Daquele que tem<br \/>\no poder de te enviar ao Inferno, &#8211; de sair imediatamente com o teu furor desse<br \/>\nservidor de N. S., refugiado no seio da Igreja. Esconjuro-te de novo, n\u00e3o<br \/>\nem nome da minha fraqueza, mas em nome do Esp\u00edrito Santo. Sai desse<br \/>\nservidor de Deus, criado \u00e0 sua imagem; obedece, n\u00e3o a mim, mas<br \/>\nao ministro de Cristo. A for\u00e7a Daquele que te submeteu \u00e0 sua<br \/>\ncruz, ordena-te. Teme o bra\u00e7o do que conduz as almas \u00e0 luz,<br \/>\nap\u00f3s ter vencido os gemidos do inferno. Que o corpo dessa criatura<br \/>\nte cause medo, que a imagem de Deus te apavore. N\u00e3o resistas. Apressa-te,<br \/>\nporque Cristo deseja habit\u00e1-lo. Deus, a majestade do Senhor, o Esp\u00edrito<br \/>\nSanto, o sacramento da cruz, a f\u00e9 dos santos ap\u00f3stolos Pedro<br \/>\ne Paulo e dos outros santos, o sangue dos m\u00e1rtires, a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos santos e das santas, os mist\u00e9rios da f\u00e9 crist\u00e3, ordenam-te<br \/>\nque obede\u00e7as. Sai, violador da lei, sai, sedutor cheio de manhas e<br \/>\nde enganos, inimigo da virtude, perseguidor dos inocentes. Por que resistes?<br \/>\nPor que temerariamente recusas?<\/p>\n<p>A impreca\u00e7\u00e3o continua formid\u00e1vel at\u00e9 o hiato<br \/>\nsuave de uma nova ora\u00e7\u00e3o. Depois o padre l\u00ea o \u00faltimo<br \/>\ne mais tremendo exorcismo.<\/p>\n<p>&#8211; Abjuro-te, omnis immundissime, deerissime, fantasma, enviado de Sat\u00e3,<br \/>\nem nome de J. C., o Nazareno, que foi, conduzido ao Deserto depois do Batismo<br \/>\nde S\u00e3o Jo\u00e3o e que te venceu na tua habita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCessa de obsedar esta criatura, que Deus, para sua honra, tirou do limo da<br \/>\nterra. Treme, n\u00e3o da sua fragilidade humana, mas da imagem do Todo<br \/>\nPoderoso. Cede a Deus que te precipitou no abismo a ti e a tua inf\u00e2mia,<br \/>\nna pessoa de Fara\u00f3, por interm\u00e9dio do seu servidor Mois\u00e9s;<br \/>\ncede a Deus que te condenou no traidor Iscariote.<\/p>\n<p>A impreca\u00e7\u00e3o torna-se de uma solenidade colossal. O sacerdote<br \/>\nergue o livro sobre o desventurado possu\u00eddo:<\/p>\n<p>&#8211; Os vermes esperam-te a ti e aos teus. Um fogo devorador est\u00e1 preparado<br \/>\npor toda a eternidade, porque tu \u00e9s a causa do homic\u00eddio maldito,<br \/>\no organizador do incesto, o organizador dos sacril\u00e9gios, o instigador<br \/>\ndas piores a\u00e7\u00f5es, o que ensina a heresia, o inventor de tudo<br \/>\nquanto \u00e9 obsceno. Sai, \u00edmpio, sai, celerado, sai com as tuas<br \/>\nmentiras, porque Deus quis fazer seu templo deste corpo. Obedece ao Deus diante<br \/>\ndo qual se ajoelham os homens: cede o lugar a N. S. J. C. que derramou o seu<br \/>\nsangue sagrado pela humanidade; cede ao Esp\u00edrito Santo, que pelos seus<br \/>\nbem-aventurados ap\u00f3stolos venceu-te no mago Simon, que condenou as<br \/>\ntuas inf\u00e2mias em Ananias e Safira, que te curvou em Herodes, que te<br \/>\ncegou no mago Elima. Sai agora, sai, sedutor. O deserto \u00e9 a tua morada,<br \/>\na serpente a tua habita\u00e7\u00e3o. Eis que aparece Deus, o Senhor;<br \/>\no fogo arder\u00e1 os inimigos se n\u00e3o fugirem. Se pudeste enganar<br \/>\num homem, n\u00e3o poder\u00e1s embair Deus. Escorra\u00e7ar-te-\u00e1<br \/>\nO que tem tudo em seu poder, far-te-\u00e1 sair. O que preparou a geena<br \/>\neterna. Aquele de cuja boca sai o gl\u00e1dio agudo, que vir\u00e1 julgar<br \/>\nos vivos, os mortos e o s\u00e9culo pelo fogo.<\/p>\n<p>E, enquanto as endemoninhadas, flexuosas, praguejando, batendo com o cr\u00e2nio,<br \/>\nexpectoram Satan\u00e1s, os pater, os salmos envolvem-na. Quando ela cai<br \/>\nprostrada, salva, o triunfador grita:<\/p>\n<p>&#8211; Eis-te refeita santa. Deixa de pecar para que te n\u00e3o aconte\u00e7am<br \/>\noutros desastres. Vai para casa e anuncia aos teus as grandes coisas que Deus<br \/>\nfez por ti e toda a sua miseric\u00f3rdia..<\/p>\n<p>Eu tinha acabado de ler o latim iluminado. Frei Piazza, muito doce, murmurava:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 outras formas de exorcismo que invocam os Santos, a Virgem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Superior, h\u00e1 mesmo muitos casos aqui?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o imagina! Principalmente nas classes baixas, sem limpeza. O diabo<br \/>\nama a imund\u00edcie. \u00c9 quase incr\u00edvel. Esses fen\u00f4menos,<br \/>\nque a espiritolatria tem por novos, s\u00e3o nossos conhecidos, h\u00e1<br \/>\nmuito tempo explicados. H\u00e1 criaturas que se dobram em dois, que se<br \/>\ntornam s\u00e1bias de repente, gritam em l\u00ednguas desconhecidas, t\u00eam<br \/>\numa for\u00e7a enorme. Ainda h\u00e1 dias tive dois casos. N\u00e3o<br \/>\nacredita?<\/p>\n<p>&#8211; Se eu conhe\u00e7o o caso da Gamboa em que um sacerdote n\u00e3o se<br \/>\npode aproximar da possessa, de tal modo ela coleava!<\/p>\n<p>&#8211; A mim aconteceu fato id\u00eantico. Era uma virgem. Cuspia no Crucificado,<br \/>\ncom os bra\u00e7os em cruz, dobrava em dois, dizia a vida dos outros e de<br \/>\nrepente come\u00e7ou a arregalar os olhos&#8230; Ficaram como duas brasas os<br \/>\nolhos, as p\u00e1lpebras a dilatarem-se, dilatarem-se. Eu estava-as vendo<br \/>\narrebentar, mas t\u00e3o horr\u00edvel era o quadro que n\u00e3o tive<br \/>\ncoragem&#8230; Cada palavra do Ritual arregalava-lhe mais o olhar pavoroso. \u00c9<br \/>\num capitulo infind\u00e1vel a peregrina\u00e7\u00e3o pelos bairros pobres.<br \/>\nCasos estranhos! N\u00e3o conhece a Cabocla, uma mulher que comanda 250<br \/>\nesp\u00edritos? Esta criatura, onde est\u00e1, os m\u00f3veis caem,<br \/>\nh\u00e1 rumores, quebram-se os vasos. Tamb\u00e9m n\u00e3o p\u00e1ra.<br \/>\nEla diz que j\u00e1 nasceu com os esp\u00edritos e n\u00e3o os quer<br \/>\ntirar. Ainda outro dia encontrei-a em Catumbi&#8230;<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 conhecia esse ser sat\u00e2nico e in\u00e9dito, a Cabocla,<br \/>\nj\u00e1 a vira escabujando enquanto os m\u00f3veis ca\u00edam e as portas<br \/>\nfechadas abriam-se com estridor. Era verdade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas h\u00e1 amuletos preservativos do Diabo? &#8211; perguntei tremendo.<\/p>\n<p>&#8211; Basta a cruz de S\u00e3o Bento. As iniciais da medalha dizem ao alto:<br \/>\nIpse Venena Bibus; do lado esquerdo; sunt mal, quae libas; do lado direito:<br \/>\nvade retro, Satan\u00e1s; em baixo: non suads mihi vana. Ao centro a frase:<br \/>\nnon draco sit mihi dux &#8211; da esquerda para a direita, em forma vertical, de<br \/>\ncima para baixo: crux sancta mihi lux, e nos quatro cantos: crux, sanctis,<br \/>\npatris, benedicti&#8230;<\/p>\n<p>Estava dando uma hora. Atrav\u00e9s do convento os rel\u00f3gios repetiam<br \/>\ninterminavelmente a hora solit\u00e1ria. Erguemo-nos, e ainda algum tempo<br \/>\nouvi embevecido a pureza da cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Na sexta-feira, por\u00e9m, de madrugada, fui outra vez ao Castelo certificar-me.<br \/>\nVinha nascendo o dia. No \u00e9ter puro os sinos desfiavam as notas claras<br \/>\ne era como se os sons fossem acordando pela montanha os ecos da vida. Cabras<br \/>\nsurgiam das sombras, mastigando a relva \u00famida, e no alto uma estrela<br \/>\nardia a morrer. Vi ent\u00e3o subindo a encosta, desde essa hora, a teoria<br \/>\ndas beatas, homens amparando mulheres de faces maceradas, mantilhas pretas<br \/>\nescondendo rostos dolorosos, corpos dobrados em dois tremendo, o bando das<br \/>\npossessas modernas galgando o cimo do monte para arrancar a alma a Satan\u00e1s,<br \/>\no del\u00edrio diab\u00f3lico, a f\u00e9, a ang\u00fastia, o mal&#8230;<br \/>\nE na Cor suave da aurora, aquele convento simples, donde sa\u00eda a harmonia<br \/>\ndos sinos, surgiu-me como o b\u00e1lsamo do Bem, o gl\u00e1dio do Senhor<br \/>\nsolit\u00e1rio e \u00fanico em meio da Descren\u00e7a Universal &#8211; \u00faltimo<br \/>\nauxilio de Deus \u00e0s almas do Diabo&#8230;<\/p>\n<p>Quando descia, outros crentes, outras demon\u00edacas iam subindo na luz<br \/>\ndo sol para a Lourdes espiritual que os sinos proclamavam. E, recordando a<br \/>\nvis\u00e3o tenebrosa desse turbilh\u00e3o angustioso que escabuja nas<br \/>\ncasas esp\u00edritas e nas igrejas sob o dom\u00ednio de Satan\u00e1s,<br \/>\nergui os olhos ao c\u00e9u, e louvei a gl\u00f3ria de Deus no seu imperec\u00edvel<br \/>\nfulgor&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"18\"><\/a>As Sacerdotisas do Futuro<\/h4>\n<p>O futuro \u00e9 o deus vago e polimorfo que preside aos nossos destinos<br \/>\nentre as estrelas, o incompreens\u00edvel e assustador deus dos bo\u00eamios<br \/>\nnas caravanas da \u00c1sia, a For\u00e7a oculta, o perigo invis\u00edvel.<br \/>\nHugo e Alencar acreditavam nessa divindade, e n\u00e3o h\u00e1 entre os<br \/>\ndeuses quem maior n\u00famero tenha de sacerdotes e de sacerdotisas.<\/p>\n<p>S\u00f3 os cultores do Futuro, podem modificar a fatalidade, afastar a<br \/>\nmorte, sacudir o saco de ouro da fortuna, soltar o riso da alegria na tristeza<br \/>\ndos s\u00e9culos. As sacerdotisas do Deus tremendo infestam a nossa cidade,<br \/>\ntomam conta de todos os bairros, predizem a sorte aos ricos, comp\u00f5em<br \/>\num mundo ex\u00f3tico e complexo de cartomantes, nigromantes, son\u00e2mbulas<br \/>\nvidentes, quiromantes, graf\u00f3logas, feiticeiras e bruxas.<\/p>\n<p>Essa gente cura, salva, desfaz as desgra\u00e7as, ergue o v\u00e9u da<br \/>\nfortuna, faz esperar, faz crer, vive em pr\u00e9dios lindos, em taperas,<br \/>\nem casinholas &#8211; \u00e9 o conjunto das pitonisas modernas, as distribuidoras<br \/>\nde or\u00e1culos. Em meio t\u00e3o variado h\u00e1 de haver ignorantes<br \/>\n&#8211; a maioria &#8211; cartomantes que v\u00eaem nas cartas caminhos estreitos e caminhos<br \/>\nlargos e n\u00e3o sabem nem distribuir o baralho, son\u00e2mbulas falsificadas,<br \/>\nportuguesas e mulatas que se apropriam dos moldes dos africanos, e mulheres<br \/>\ninteligentes que conversam e discutem.<\/p>\n<p>Freq\u00fcentei os templos do futuro. S\u00f3 em uma semana visitei oitenta,<br \/>\nencontrando-os sempre cheios de fi\u00e9is. O caleidosc\u00f3pio alucinante<br \/>\ndas adivinhas faz a vida livremente. Em algumas casas encontrei tr\u00eas<br \/>\ne quatro, girando sob uma \u00fanica firma.<\/p>\n<p>S\u00f3 na rua do Hosp\u00edcio, por exemplo, h\u00e1 cinco ou seis.<br \/>\nNos outros pontos conversei com Mme. Jorge na rua da Ajuda, a Liberata na<br \/>\nrua da Alf\u00e2ndega, a Joana Maria da Concei\u00e7\u00e3o na rua Figueira<br \/>\nde Melo, a Am\u00e9lia de Arag\u00e3o, a Luiza Barbada na rua Bar\u00e3o<br \/>\nde S. Felix, a Am\u00e9lia do Pedregulho, a Am\u00e9lia Portuguesa, a<br \/>\nC\u00e2ndida, a Mme&#8230; da rua dos Arcos, 4, a Ximenes da rua da Prainha,<br \/>\n19, Maria de Jesus na rua Dr. Maciel, 7, Castorina Pires em S. Diogo, a Am\u00e9lia<br \/>\nda rua do Lavradio, dona Martins na rua Mariz e Barros, a Alexandrina na rua<br \/>\nda Am\u00e9rica, Mme. Herm\u00ednie na rua Senador Pompeu, Maria Baiana<br \/>\nna rua do Costa, a Genoveva da rua do Visconde de Ita\u00fana, Dona da rua<br \/>\nda Imperatriz, 15, a Corcundinha c\u00e9lebre adivinha de atores e de rep\u00f3rteres,<br \/>\nna deixa um rol infind\u00e1vel. Todas falam do seu desinteresse exigindo<br \/>\ndinheiro e algumas vendo o futuro nas m\u00e3os, nem ao menos sabem as linhas<br \/>\nessenciais segundo o engra\u00e7ad\u00edssimo Desbarolles. A observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nnessas casinholas \u00e9 incolor. Fica-se entre os feiti\u00e7os dos minas<br \/>\ne a magia medieva, numa atmosfera de burla.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 l\u00e1 poss\u00edvel n\u00e3o acertar \u00e0s vezes?<br \/>\nA vida humana tem uma linha geral. Tanto amam as hero\u00ednas de Bourget<br \/>\ncomo as lavadeiras, gozam e gostam de ser gozados os freq\u00fcentadores da<br \/>\nhaute-gomme com os dan\u00e7arinos dos becos esconsos. As vidas t\u00eam<br \/>\numa parecen\u00e7a em bloco, uma uniformidade de sentimentos. Por mais ignorantes<br \/>\nque sejam, as sacerdotisas t\u00eam o h\u00e1bito da observa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nindagam da vida antes, em conversa. Muitas chegam a perguntar:<\/p>\n<p>&#8211; Vem por dor ou por amor?<\/p>\n<p>E como sabem perfeitamente quando se dirigem a um cavalheiro, a uma dama,<br \/>\n\u00e0s coccottes ou aos rufi\u00f5es, as suas respostas acertam. \u00c9<br \/>\num exerc\u00edcio de aten\u00e7\u00e3o, antes de tudo, com cen\u00e1rios<br \/>\ne pedidos sugestivos. Uma delas recebe velas de sebo, terminada a consulta;<br \/>\noutras, pe\u00e7as de chita. A turba d\u00e1-lhes dinheiro, e sussurra<br \/>\nos seus segredos nos ouvidos dessa gente que s\u00e3o como abismos de discreto<br \/>\nsil\u00eancio.<\/p>\n<p>Na peregrina\u00e7\u00e3o pelos templos do Deus Futuro guardo como originais<br \/>\numa casa de cartomancia na rua do Ouvidor entre as modistas do tom e a eleg\u00e2ncia<br \/>\nm\u00e1xima, a Ceguinha vidente da rua da Miseric\u00f3rdia, a Rosa que<br \/>\nolha n\u00e1gua e \u00e9 astr\u00f3loga, Mme. de F. son\u00e2mbula<br \/>\nnuma rua paralela \u00e0 praia de Botafogo, a Corcundinha da rua General<br \/>\nC\u00e2mara e a esquisita Mme. Matilde do Catete.<\/p>\n<p>A Ceguinha tem a face macerada e \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o de quatro<br \/>\nou cinco. Vive numa cadeira, com os olhos cheios de pus. O grande Deus fez-lhe<br \/>\na treva em torno, para melhor ler a sorte dos outros nos meandros do c\u00e9u.<br \/>\nDizem que os agentes da pol\u00edcia v\u00e3o l\u00e1 para saber o paradeiro<br \/>\ndos gatunos e que os gatunos tamb\u00e9m v\u00e3o a ver se escapam. Im\u00f3vel<br \/>\ncomo um santo indiano \u00e0 porta da imortalidade, a Ceguinha, com a mesma<br \/>\ndutilidade, desvenda-lhes o Futuro. \u00c0s vezes aparecem senhoras. A Ceguinha<br \/>\ncurva-se, e pinta o Destino com a mesma calma dolorosa.<\/p>\n<p>A Rosa, com as fontes saltadas, o que em magia se chama cornos de Mois\u00e9s,<br \/>\n\u00e9 um assombro de observa\u00e7\u00e3o. Esse exemplar \u00fanico<br \/>\nde astrologia conhece mesmo algumas pr\u00e1ticas antigas. Quando a fomos<br \/>\nprocurar, olhou-nos bem.<\/p>\n<p>&#8211; Por que veio, se nunca acreditar\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Estou numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a a voz de Deus.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a minha alma sofre.<\/p>\n<p>&#8211; O homem tem muitas almas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas se posso saber o futuro n\u00e1gua?<\/p>\n<p>&#8211; A \u00e1gua \u00e9 onde se miram os astros que t\u00eam a vida da<br \/>\ngente.<\/p>\n<p>&#8211; Como se consulta?<\/p>\n<p>&#8211; Vendo&#8230; Alguns astros de outrora n\u00e3o t\u00eam mais import\u00e2ncia<br \/>\nhoje: outros receberam-lhe a for\u00e7a. Os meus hor\u00f3scopos s\u00e3o<br \/>\ncertos; o Destino ordena-me. Mas eu s\u00f3 falo com os homens que a dor<br \/>\nfaz tristes e crentes.<\/p>\n<p>A Corcundinha, disc\u00edpula de uma Josefina, tem uma fama t\u00e3o<br \/>\ngrande que chega a deitar cartas por dia, \u00e0s vezes para mais de cinq\u00fcenta<br \/>\npessoas. Cada consulta custa cinco mil r\u00e9is e ela s\u00f3 anuncia<br \/>\ncoisas l\u00fagubres.<\/p>\n<p>Mme. de F&#8230; esteve na Inglaterra; em estado natural discute o psiquismo,<br \/>\ne quando sonambulizada aparece numa t\u00fanica preta. Dizem que predisse<br \/>\nos acontecimentos da nossa pol\u00edcia e prev\u00ea um futuro desagrad\u00e1vel<br \/>\nda pend\u00eancia brasileira com o Peru. E l\u00fagubre. A roda que a freq\u00fcenta,<br \/>\nd\u00e1-se como ultrachique.<\/p>\n<p>Mme. Matilde, a cartomante do high-life, j\u00e1 teve criados de casaca<br \/>\ne possui uma linda galeria de quadros. De todos os templos, o dessa senhora<br \/>\n\u00e9 o mais exc\u00eantrico. Mme. Matilde, para os \u00edntimos a princesa<br \/>\nMatilde, \u00e9 uma criatura que fala com volubilidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos foi a Paris, onde estudou com Papus e Mme. de Th\u00e8bes.<br \/>\nConhece a cartomancia, a telepatia, o sonambulismo, a metaf\u00edsica das<br \/>\nestrelas, a quiromancia, coisas complicadas de que faz uma interessante confus\u00e3o.<br \/>\nAl\u00e9m de tudo isso, a princesa \u00e9 cr\u00edtica de pintura e<br \/>\ninteressa-se pelo movimento universal. Quando me anunciei, a agrad\u00e1vel<br \/>\ndama mandou iluminar o seu sal\u00e3o de visitas, e entre as colchas japonesas,<br \/>\nos quadros de valor, os bibel\u00f4s do Oriente e as peles de tigres, fez<br \/>\na sua apari\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vinha de vestido vermelho, um vestido de mangas perdidas, donde os seus bra\u00e7os<br \/>\nsurgiam cor de ouro, e vinha com ela a ess\u00eancia capitosa de vinte frascos<br \/>\nde perfume. Mme. Matilde embalsamava. Deixou-se cair num div\u00e3, passeou<br \/>\ncom as m\u00e3os pelo ar e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Estou cansad\u00edssima. Se n\u00e3o me mandasse dizer quem era, n\u00e3o<br \/>\no teria recebido. Simpatizo com o seu ser.<\/p>\n<p>Curvei-me comovido.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o podia falar das sacerdotisas do Futuro, sem ouvi-la.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 tem percorrido os templos do grande Deus?<\/p>\n<p>&#8211; Alguns. Visitei oitenta, e h\u00e1 para mais de duzentos.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 templos de ouro, de prata, de cobre e de lat\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Guardei para o fim o melhor.<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro, os verdadeiros templos do Futuro s\u00e3o de data recente entre<br \/>\nn\u00f3s. A sorte come\u00e7ou a ser descoberta aqui por negros da \u00c1frica<br \/>\nimbecis e por ciganos exploradores. Depois apareceram as varia\u00e7\u00f5es<br \/>\nesp\u00edritas, os adivinhos que montavam casinholas receosas, reunindo<br \/>\nao estudo das cartas a necessidade dos despachos africanos. Uma crendice!<br \/>\nAs verdadeiras sacerdotisas datam de pouco tempo, s\u00e3o de importa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne anunciam. Essas n\u00e3o se ocultam mais e d\u00e3o consultas claramente.<\/p>\n<p>&#8211; Como em Paris?<\/p>\n<p>&#8211; Como em Paris. N\u00e3o lhe falo de Papus, de quatro ou cinco son\u00e2mbulas<br \/>\nde fama universal, mas apenas da minha ilustre professora Mme. de Th\u00e8bes.<br \/>\nMme. de Th\u00e8bes em Paris \u00e9 uma necessidade mundana como o clube,<br \/>\nas premi\u00e8res, o grandprix.<\/p>\n<p>Vai-se a Mmc. de Th\u00e8bes como se joga uma partida de boston. \u00c9<br \/>\numa necessidade elegante. Mme. de Th\u00e8bes tem hoje uma fortuna.<\/p>\n<p>&#8211; E erra sempre.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 sacerdotisa por voca\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Sempre estudei as ci\u00eancias ocultas por diletantismo. Das ci\u00eancias<br \/>\nocultas sa\u00edram as ci\u00eancias exatas, disse um grande mestre. Desde<br \/>\ncrian\u00e7a amei a antiguidade, tive o desejo de remontar ao Zoroastro,<br \/>\nao Zend-Avesta e aos Magos, com o prazer de descansar \u00e0 beira do Nilo,<br \/>\nde conhecer Plotino e os livros herm\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Depois, sempre fui dotada de uma grande for\u00e7a nervosa. Uma vez, levando<br \/>\namigas \u00e0 casa de uma son\u00e2mbula, resolvi estudar os truques das<br \/>\nmercadorias e da\u00ed a minha convers\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse momento, como a profetisa ria, estendendo as m\u00e3os, vi-lhe na<br \/>\nsinistra v\u00e1rios an\u00e9is complicados, e prendi-lhe os dedos, curioso<br \/>\ndas j\u00f3ias e da m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 vendo os meus an\u00e9is? Este \u00e9 africano, partido.<br \/>\nTem os signos do zod\u00edaco &#8211; o tempo. Este outro guarda no fundo um berilo,<br \/>\npor onde se enxerga a alma. Naturalmente \u00e9 descrente?<\/p>\n<p>&#8211; Sou filho de uma civiliza\u00e7\u00e3o muito parecida com a daquele<br \/>\nimperador que precavidamente levantava templo aos deuses desconhecidos. H\u00e1<br \/>\nem tudo alguma coisa a temer &#8211; o inexplic\u00e1vel. A hist\u00f3ria \u00e9<br \/>\numa afirma\u00e7\u00e3o de or\u00e1culos, de sonambulismo, de predi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Eu guardara com religi\u00e3o a m\u00e3o da pitonisa; Mme. Matilde, por\u00e9m,<br \/>\nergue-se agitando os seus perfumes.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o teme? e n\u00e3o lhe parece sugestivo este interior? N\u00e3o<br \/>\nreceia que daquele canto escuro surjam fantasmas, que, agarrando a sua m\u00e3o,<br \/>\nleia nessas linhas a desgra\u00e7a irremedi\u00e1vel?<\/p>\n<p>&#8211; Se for assim &#8211; disse docemente -, que se h\u00e1 de fazer? \u00c9 a<br \/>\nvontade do Futuro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois, meu caro, pode ter a certeza de que n\u00e3o somos s\u00f3 as<br \/>\nsacerdotisas do terr\u00edvel Destino, somos as Consoladoras, a Teoria do<br \/>\nBem, as Sofredoras da Ilus\u00e3o. N\u00e3o sorria.<\/p>\n<p>Sem n\u00f3s, que seria das cidades? Os senhores andam \u00e0 cata do<br \/>\ndocumento humano. N\u00f3s temos \u00e0 m\u00e3o, todos os dias, as<br \/>\ntrag\u00e9dias, os dramas e as com\u00e9dias de que se faz o mundo. \u00c0<br \/>\nnossa casa v\u00eam as mulheres ciumentas, os que desejam a morte e os que<br \/>\ndesejam amor. Os adult\u00e9rios, os crimes, os remorsos, a lux\u00faria,<br \/>\nas vergonhas fervilham. N\u00f3s consolamos.<\/p>\n<p>Diariamente, nas casas de que tomou o n\u00famero para indic\u00e1-las<br \/>\n\u00e0 pol\u00edcia, encontram-se os conquistadores, os homens bem vestidos<br \/>\nde que a pol\u00edcia ignora os meios de vida; os senadores, os deputados,<br \/>\nas pessoas not\u00e1veis, as atrizes, as cocottes, as senhoras casadas,<br \/>\nos imbecis propondo coisas indecorosas e as almas dolorizadas.<\/p>\n<p>N\u00f3s a todos damos o favo da ilus\u00e3o&#8230; Quando morre meu pai?<br \/>\nMeu marido abandona-me? Ser\u00e1 minha a mulher de Sicrano? Fulana \u00e9<br \/>\nfiel? Realiza-se o neg\u00f3cio? E n\u00f3s aquietamos os instintos com<br \/>\no lenitivo do bem. Ainda h\u00e1 pouco tempo, entrou por esta sala uma menina<br \/>\nem prantos. Era domingo. N\u00e3o deito cartas aos domingos.<\/p>\n<p>Neguei-me. Solu\u00e7ou, pediu, ajoelhou. Logo que a vi, percebendo a sua<br \/>\nagita\u00e7\u00e3o, espalhei as cartas ao acaso. A menina vai cometer<br \/>\num desatino! Ela olhou-me espantada. Sim, ia dali suicidar-se, porque a abandonara<br \/>\no amante, gr\u00e1vida e sem trabalho. Fiz as cartas dizerem que o amante<br \/>\nvoltava e a pequena n\u00e3o morreu.<\/p>\n<p>&#8211; Cartas salvadoras!<\/p>\n<p>&#8211; Dias antes aparecera um marido a interrogar-me a respeito do seu m\u00e9nage,<br \/>\nderru\u00eddo por incompatibilidade de g\u00eanios. Ela escrevia-lhe cartas<br \/>\npedindo para voltar. Que devo fazer? Voltar! Mas teve amantes! \u00c9 boa.<br \/>\nAbandonada sem saber trabalhar e sem recursos queria o senhor que a pobre<br \/>\nmorresse? Depois foi-lhe o Sr. fiel? N\u00e3o! Era l\u00e1 poss\u00edvel<br \/>\na ela deixar de ter um amante?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ou mesmo dois?<\/p>\n<p>&#8211; Ou tr\u00eas, n\u00e3o vai ao caso. Ele refletiu e vivem os dois bem.<br \/>\nQuantos desmandos evitamos, quantas desgra\u00e7as, quantos esc\u00e2ndalos!<br \/>\nRecorda-se da hist\u00f3ria do or\u00e1culo de Delfos? \u00c9 a hist\u00f3ria<br \/>\nda prud\u00eancia, de ser amb\u00edguo para n\u00e3o se enganar. A nossa<br \/>\n\u00e9 muito mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8211; Mente com franqueza.<\/p>\n<p>&#8211; Diz verdades e consola. Muitas das minhas clientes v\u00eam aqui apenas<br \/>\ncomo um consolo. Contam as m\u00e1goas e v\u00e3o-se.<\/p>\n<p>&#8211; Que trabalho deve ter!<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7o experi\u00eancias at\u00e9 altas horas com o meu criado<br \/>\nJ\u00falio, e vou \u00e0s estalagens, aos corti\u00e7os, ler gr\u00e1tis<br \/>\nnas m\u00e3os dos pobres. N\u00e3o imagina como sou recebida!<\/p>\n<p>Deito cartas, leio nas m\u00e3os. \u00c9 o estudo em que procedo sem<br \/>\nperguntar para ter a certeza. E \u00e9 certo! Adivinho coisas de h\u00e1<br \/>\nquatro e cinco anos passados, chego a descrever as roupas das pessoas distantes<br \/>\ne prevejo. A previs\u00e3o \u00e9 de resto uma faculdade que desenvolvi.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 feliz?<\/p>\n<p>&#8211; Tudo quanto quero, fa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Tem talvez a alma de algum m\u00e1gico antigo&#8230;<\/p>\n<p>Mme. Matilde recostou o seu corpo elegante.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o: tive tr\u00eas vidas apenas. Da primeira fui f\u00edsico,<br \/>\nda segunda advogado e na terceira odalisca&#8230;<\/p>\n<p>Oh! mist\u00e9rio! A sacerdotisa possu\u00eda o saber dos f\u00edsicos,<br \/>\nfalava como um advogado e naquele momento tinha a inebriante do\u00e7ura<br \/>\ndas odaliscas.<\/p>\n<p>Peguei-lhe a m\u00e3o e disse baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 um ocultista me afirmou que fui Nero e depois Ponce de Leon&#8230;<\/p>\n<p>Ela riu um riso penado.<\/p>\n<p>&#8211; Ponce atra\u00eddo pelo mist\u00e9rio das m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Pela beleza.<\/p>\n<p>&#8211; Todos n\u00f3s temos a atra\u00e7\u00e3o das m\u00e3os. A m\u00e3o<br \/>\n\u00e9 um resumo do C\u00e9u. Cada astro tem a sua parte. J\u00fapiter<br \/>\n\u00e9 o \u00edndex, Saturno o m\u00e9dio, o Sol o anular, Merc\u00fario<br \/>\nHerm\u00e9s o m\u00ednimo. A Lua tem a regi\u00e3o do Sul, Marte todo<br \/>\no meio, onde se d\u00e3o os combates da vida e V\u00eanus o grande monte.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 este o mais trabalhoso?<\/p>\n<p>&#8211; Quase sempre.<\/p>\n<p>Ergui-me, e vi numa outra sala, forrada de esteiras da \u00cdndia, um orat\u00f3rio<br \/>\nonde ardiam lamparinas. Os santos, sob o halo de luz, que a ci\u00eancia<br \/>\nexplica pelo raio n, como o esfor\u00e7o da aten\u00e7\u00e3o &#8211; tinham<br \/>\num olharzinho redondo e inexpressivo. Que diriam os coitados, santo Deus do<br \/>\nFuturo?<\/p>\n<p>&#8211; Neste meio de adivinhas, quiromantes e son\u00e2mbulas \u00e9 melhor<br \/>\nser impass\u00edvel &#8211; dizia Mme. Matilde. &#8211; \u00c0s vezes protegem amores,<br \/>\ns\u00e3o casas amb\u00edguas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas as suas experi\u00eancias?<\/p>\n<p>&#8211; Pratico o sonambulismo como as cartas, a telepatia e a quiromancia, indo<br \/>\ndiretamente \u00e0 alma que n\u00f3s temos no fundo. Tudo \u00e9 dom\u00ednio.<br \/>\nAs \u00faltimas experi\u00eancias do meu dom\u00ednio tive-as com o conhecido<br \/>\npintor H\u00e9lios Seelunger. Curei o uma vez com \u00e1gua magnetizada.<br \/>\nDesde ent\u00e3o dizia-lhe \u00e0s 2 horas de tal dia o senhor sofrer\u00e1<br \/>\num choque. Era tal qual.<\/p>\n<p>Noutro dia sofria o choque. Fui eu de resto que lhe desvendei o futuro e<br \/>\na sorte nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; E a transmiss\u00e3o de pensamento?<\/p>\n<p>J\u00e1 em Botafogo transmiti id\u00e9ias a criaturas no Engenho Novo.<br \/>\nConhecem essas experi\u00eancias poetas como Lu\u00eds Edmundo, o padre<br \/>\nSeveriano de Resende, pintores como Amoedo. A minha amiga D. Adelina Lopes<br \/>\nVieira tamb\u00e9m as conhece.<\/p>\n<p>Lembrei-me ent\u00e3o de que Mme. Matilde era tamb\u00e9m literata.<\/p>\n<p>&#8211; Mas as cartas?<\/p>\n<p>&#8211; Quer v\u00ea-las?<\/p>\n<p>Tocou o t\u00edmpano, apareceu um pequeno loiro com um sarc\u00f3fago<br \/>\nde prata em relevo. Mme. Matilde &#8211; a princesa para os \u00edntimos &#8211; abriu-o<br \/>\ncom cuidado, e de dentro numa sombria apoteose de ouros e cores, as cartas<br \/>\ndo tarot, a papesse, o doido, o \u00e1s de ouro, o enforcado, o bateleur<br \/>\nescamoteador surgiram tenebrosamente.<\/p>\n<p>M\u00e3os estendiam moedas de ouro, o ouro cintilava, em altos montes figuras<br \/>\nsinistras apareciam. E estava ali a consola\u00e7\u00e3o universal, a<br \/>\nconsola\u00e7\u00e3o dos pobres e dos potentados! Nas m\u00e3os delicadas<br \/>\nda feiticeira \u00faltimo grito rolava numa s\u00e9rie de iluminuras a<br \/>\nmiragem enganadora do Futuro. Ela estendia as cartas nas luzes e eu recordava<br \/>\na origem antiga dessa doce ilus\u00e3o, a vinda dos Bo\u00eamios.<\/p>\n<p>&#8211; Quem sois v\u00f3s?<\/p>\n<p>&#8211; Sou o duque do Egito e venho com os condes e bar\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Quem vos traz?<\/p>\n<p>&#8211; A que precede o nosso cortejo e l\u00ea nos livros coloridos de Herm\u00e9s<br \/>\no destino do mundo, a rainha das Cabalas, a sublime senhora do fogo e do metal!<br \/>\nE em frente \u00e0 multid\u00e3o abriam o tarot como quem rasga o c\u00e9u,<br \/>\no consolo infinito dos bo\u00eamios.<\/p>\n<p>Eu estava ali como os camponeses da \u00e9poca de Carlos VI diante da senhora<br \/>\ndo metal &#8211; apenas, tanto a rainha como eu, um tanto mais descrentes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o curvei-me, depus o beijo que h\u00e1 muito sentia nos l\u00e1bios,<br \/>\no beijo da devo\u00e7\u00e3o, na sua m\u00e3o perfumada.<\/p>\n<p>&#8211; Como em Paris! &#8211; fez ela, deixando que os meus l\u00e1bios ro\u00e7assem<br \/>\na extremidade dos seus dedos.<\/p>\n<p>&#8211; Como na hora de sempre &#8211; murmurei -, o Medo, diante do Futuro.<\/p>\n<h4><a name=\"19\"><\/a>A Nova Jerusal\u00e9m<\/h4>\n<p>A sede da Nova Jerusal\u00e9m, anunciada pelo Apocalipse, fica na rua Maria<br \/>\nJos\u00e9, n.0 10. \u00c9 uma casa de dois pavimentos, muito alta, pintada<br \/>\nde vermelho-escuro, que assenta \u00e0 beira da rua Colina como uma fortaleza.<\/p>\n<p>De longe parece formid\u00e1vel aos reflexos do sol, que queima todas as<br \/>\nvidra\u00e7as, e reverbera nas escadas de pedra; de perto \u00e9 solene.<br \/>\nAbre-se um port\u00e3o, sobe-se uma das escadas, abre-se outro port\u00e3o,<br \/>\nd\u00e1-se num p\u00e1tio que termina para a frente em estreitas arcarias<br \/>\nogivais e perde-se ao fundo num jardim obumbroso. Desse p\u00e1tio v\u00ea-se<br \/>\no declive das ruas que descem, e vagos trechos da cidade.<\/p>\n<p>Antes de bater, olhamos ainda a casa alta. Detr\u00e1s daqueles muros viceja<br \/>\na religi\u00e3o de Swedenborg, a nova igreja, a verdadeira compreens\u00e3o<br \/>\nda B\u00edblia; detr\u00e1s daqueles muros, iluminados da luz da tarde,<br \/>\nguarda-se a chave com que tudo se pode explicar neste mundo. &#8220;Eu sou<br \/>\no Deus &#8211; disse Jesus a Swedenborg -, o Senhor, o Criador e o Redentor, e te<br \/>\nelegi para explicares aos homens o sentido interior e espiritual das Escrituras<br \/>\nSantas. Ditar-te-ei o que escreveres!&#8221;<\/p>\n<p>Subimos mais uma escada de pedra nua, no patamar da qual nos recebe o Sr.<br \/>\nFrederico Braga. Esse cavalheiro am\u00e1vel \u00e9 uma esp\u00e9cie<br \/>\nde &#8220;diletante&#8221; dos cultos. Dizem que j\u00e1 foi at\u00e9 faquir,<br \/>\nfazendo crescer bananeiras de um momento para outro. Neste momento, por\u00e9m,<br \/>\nlimita-se a fazer-nos entrar para uma sala simples e, enquanto n\u00f3s<br \/>\nvagamente o interrogamos, passeia da porta para a janela.<\/p>\n<p>&#8211; O pastor est\u00e1 a\u00ed &#8211; diz de repente. &#8211; Ningu\u00e9m melhor<br \/>\ndo que ele pode informar.<\/p>\n<p>O pastor \u00e9 o Sr. Levindo Castro de la Fayette, que aparece logo. Homem<br \/>\nde fisionomia inteligente, falando bem, com o ar de quem est\u00e1 sempre<br \/>\nna perora\u00e7\u00e3o de um discurso interrompido por apartes, o pastor<br \/>\nagrada. H\u00e1 decerto nos seus gestos um pouco de morgue, o \u00edntimo<br \/>\norgulho de ser profeta de uma religi\u00e3o de intelectuais, de espalhar<br \/>\npela terra a palavra do maior homem do mundo, que tudo descobrira na ci\u00eancia<br \/>\nterrestre e vira Deus na terra celeste.<\/p>\n<p>O Sr. la Fayette consulta o \u00f3culo brilhante, fala da conquista da<br \/>\nNova Igreja atrav\u00e9s do mundo, fala torrencialmente. \u00c9 a hist\u00f3ria<br \/>\ndo swedenborgismo desde a morte de grande vision\u00e1rio, desde a defesa<br \/>\nde Tom\u00e1s Wright e Roberto Hindmarsh, que demonstraram o perfeito estado<br \/>\nmental do mestre, at\u00e9 \u00e0 reuni\u00e3o dos adeptos de Swedenborg<br \/>\nem Londres em 1788, donde come\u00e7ou a expans\u00e3o do culto novo que<br \/>\nagora aumenta diariamente na \u00c1ustria, na Fran\u00e7a, na Inglaterra,<br \/>\nna Austr\u00e1lia, nos Estados Unidos, com igrejas novas e novos adeptos.<br \/>\nPode-se calcular em cento e vinte mil o n\u00famero de crentes.<\/p>\n<p>O Sr. Frederico Braga mostra-nos as revistas alem\u00e3s e inglesas, o<br \/>\nNew Church Messenger a New Church Review, onde v\u00eam reproduzidas em fotogravura<br \/>\nas fachadas dos novos templos atrav\u00e9s do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; A verdade caminha! &#8211; diz o pastor -, e leva-nos \u00e0 sala onde se realizam<br \/>\nas reuni\u00f5es dos swedenborgeanos. \u00c9 no 1.\u00ba pavimento, na<br \/>\nfrente, uma sala nua. Ao centro uma grande mesa, rodeada de cadeiras com uma<br \/>\ncadeira mais alta para o pastor. Ao lado a biblioteca, onde se empilha a obra<br \/>\nintermin\u00e1vel de Swedenborg desde os Arcania Ca&#8217;lestia at\u00e9 o<br \/>\nTratado do Cavalo Branco do Apocalipse.<\/p>\n<p>A Nova Jerusal\u00e9m do Brasil data de 1898. Foi seu fundador o pr\u00f3prio<br \/>\nSr. de la Fayette, e isto devido a revela\u00e7\u00f5es que recebera em<br \/>\nParis alguns anos antes. \u00c9 o caso que o pastor, nesse tempo simples<br \/>\nprofessor de portugu\u00eas num instituto parisiense, foi nomeado chanceler<br \/>\ndo consulado-geral do Brasil na Fran\u00e7a. Essa fun\u00e7\u00e3o f\u00ea-lo<br \/>\ndesejoso de conhecer a verdade espiritual, e, para que a verdade brilhasse,<br \/>\nde la Fayette observou logo um rigoroso regime de temperan\u00e7a em todas<br \/>\nas coisas&#8230; Swedenborg, cavaleiro da ordem eq\u00fcestre da Su\u00e9cia,<br \/>\nque de tudo escrevera e falara, s\u00f3 em 1745 teve a revela\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que estava talhado para explicar os s\u00edmbolos da B\u00edblia. Mas<br \/>\nSwedenborg comia muito. A primeira vez que os esp\u00edritos invis\u00edveis<br \/>\nlhe falaram foi durante um jantar. O fil\u00f3sofo engolia vorazmente no<br \/>\nquarto reservado de um hotel, onde \u00e0 vontade devorava e pensava, quando<br \/>\nsentiu a vista se lhe empanar e r\u00e9pteis horr\u00edveis arrastarem-se<br \/>\npelo soalho. Os olhos pouco tempo depois recobraram a vis\u00e3o perfeita<br \/>\ne Swedenborg viu, distintamente, no \u00e2ngulo da sala, um homem com o seio<br \/>\nem luz que lhe dizia, paternalmente:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o comas tanto, meu filho!<\/p>\n<p>De la Fayette n\u00e3o precisou desse celeste conselho. Praticou-o antes<br \/>\nda revela\u00e7\u00e3o; &#8211; e foi por isso que meses depois, come\u00e7ou,<br \/>\ndurante o sono, a receber ensinamentos do mundo espiritual a respeito da palavra<br \/>\nde Deus. Desde esse tempo o Sr. Levindo foi guiado pelo c\u00e9u, e chegou<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 Biblioteca Nacional.<\/p>\n<p>&#8211; Que livro hei de pedir? &#8211; interrogou aos seus bot\u00f5es o homem feliz.<\/p>\n<p>&#8211; Pede Swedenborg! &#8211; bradaram os esp\u00edritos bons de dentro do Sr. Levindo.<\/p>\n<p>O iluminado pediu os Arcania Caelestia, em latim, porque al\u00e9m de cinco<br \/>\nl\u00ednguas vivas, l\u00ea correntemente a l\u00edngua em que Catulo<br \/>\nescreveu t\u00e3o belos versos e t\u00e3o sugestivas patifarias. Leu os<br \/>\nArcania, foi \u00e0 igreja da rua Thouin, conversou com Mme. Humann que<br \/>\no recebeu inefavelmente doce, e meses depois, era batizado na nova igreja.<\/p>\n<p>Em agosto de 1893, o Sr. de la Fayette, que \u00e9 mineiro, veio para o<br \/>\nRio, mas quando aqui chegou a revolta estalara, havia estado de sitio, e n\u00e3o<br \/>\nteve rem\u00e9dio sen\u00e3o abalar para as montanhas do seu Estado. A<br \/>\ncidade de Lamim, em Minas, foi onde primeiro se falou no Brasil da Nova Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>De volta ao Rio, o pastor fez um adepto, o Sr. Carlos Frederico Braga, tamb\u00e9m<br \/>\nmineiro. A ades\u00e3o foi r\u00e1pida. O Sr. Carlos concordou logo com<br \/>\no Sr. de la Fayette, como concordava naquele instante em que eu os ouvia.<br \/>\nDa\u00ed por diante Levindo foi o texto do credo e Carlos Frederico o coment\u00e1rio<br \/>\nentusiasmado. Esses dois homens atiraram-se pela cidade a explicar a Nova<br \/>\nJerusal\u00e9m, a fazer compreender pelos homens inteligentes as sagradas<br \/>\ninterpreta\u00e7\u00f5es do prolixo Swedenborg, escritas sob as vistas<br \/>\nde Cristo Deus, que \u00e9 s\u00f3. Quatro anos depois reuniram na rua<br \/>\nMinervina cinq\u00fcenta swedenborgianos, fundando duas sociedades: &#8211; a Associa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Propaganda da Nova Jerusal\u00e9m, pela imprensa, confer\u00eancia e<br \/>\nleitura das obras do mestre, e uma sociedade de benefic\u00eancia para auxiliar<br \/>\nos irm\u00e3os brasileiros.<\/p>\n<p>Um jornal, a Nova Jerusal\u00e9m, foi logo publicado e existe h\u00e1<br \/>\noito anos; o c\u00edrculo da propaganda aumentou, amigos em viagem levaram<br \/>\na not\u00edcia ao Par\u00e1, ao Rio Grande do Sul, \u00e0 Minas e, afora<br \/>\nesses adeptos, cerca de duzentos swedenborgianos re\u00fanem-se aos domingos<br \/>\npara ouvir de la Fayette narrar o s\u00edmbolo de Ad\u00e3o, explicar<br \/>\no sentido \u00fanico de cada palavra em todos os livros da B\u00edblia<br \/>\ne louvar Swedenborg.<\/p>\n<p>&#8211; Swedenborg! eu n\u00e3o preciso dizer-lhe quem foi esse extraordin\u00e1rio<br \/>\nesp\u00edrito que tudo descobriu da terra e do c\u00e9u. Na sua \u00e9poca,<br \/>\nchamou a aten\u00e7\u00e3o de grandes c\u00e9rebros como Goethe, Kant,<br \/>\nWesley, de Wieland, Klopstock&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s batemos as p\u00e1lpebras, gesto que Swedenborg considera sinal<br \/>\nde entendimento e sabedoria. Goethe pusera o fil\u00f3sofo no Fausto com<br \/>\no pseud\u00f4nimo de Pater Seraphicus, Kant falando dele recorda o cumprimento<br \/>\ndo seu cocheiro a Tycho Brahe: &#8220;o Sr. pode ser muito entendido nas coisas<br \/>\ndo c\u00e9u, mas neste mundo n\u00e3o passa de um doido&#8221;. Os outros<br \/>\nn\u00e3o tinham sido mais am\u00e1veis. Mas para que discutir? O ministro<br \/>\nda Nova Jerusal\u00e9m continuava contando a aten\u00e7\u00e3o e curiosidade<br \/>\ndos povos modernos pelo extraordin\u00e1rio profeta do Norte. Depois parou.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9, em s\u00edntese, a Nova Jerusal\u00e9m? &#8211; perguntei.<\/p>\n<p>Swedenborg, ao morrer em casa de um barbeiro, achava desnecess\u00e1rio<br \/>\nreceber os sacramentos por ser de h\u00e1 muito cidad\u00e3o do outro<br \/>\nmundo. A respeito dessa regi\u00e3o o cidad\u00e3o escreveu enormes volumes<br \/>\nex auditis et visis, isto \u00e9, sobre o que vira e ouvira.<\/p>\n<p>Os Arcania, o tratado do C\u00e9u e do inferno, o tratado das Representa\u00e7\u00f5es<br \/>\ne Correspond\u00eancias, a Sabedoria Ang\u00e9lica sobre o divino Amor<br \/>\ne a divina Sabedoria, a Doutrina Novae Hierrosalymae, as terras do nosso mundo<br \/>\nsolar e no c\u00e9u astral, at\u00e9 o Amor Conjugal, com umas m\u00e1ximas<br \/>\narriscadas sobre o amor escortat\u00f3rio, explicaram bem as suas extraordin\u00e1rias<br \/>\nviagens.<\/p>\n<p>Swedenborg esteve no inferno e conversou com tanta gente que Mater para simplificar<br \/>\nfez uma lista cronol\u00f3gica desde os deuses gregos at\u00e9 os contempor\u00e2neos;<br \/>\nteve rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas com os esp\u00edritos de J\u00fapiter,<br \/>\nde Merc\u00fario, de Marte e at\u00e9 da Lua, apesar de n\u00e3o simpatizar<br \/>\nmuito com esses que eram pequenos e faziam barulho. N\u00e3o foi s\u00f3.<br \/>\nO extraordin\u00e1rio homem viu o para\u00edso, ouviu os anjos, esteve<br \/>\ncom Deus em pessoa. Era natural que compreendesse o sentido das correspond\u00eancias<br \/>\nentre os esp\u00edritos dos planetas e o m\u00e1ximo homem, que revelasse<br \/>\nao mundo o sentido \u00edntimo espiritual ou celeste das revela\u00e7\u00f5es<br \/>\nque at\u00e9 ent\u00e3o ficara ignorado.<\/p>\n<p>&#8220;A doutrina da Igreja atual \u00e9 viciosa, deve desaparecer&#8221;<br \/>\ne Swedenborg, com os olhos espirituais abertos, n\u00e3o inovou, elucidou<br \/>\nos textos sagrados.<\/p>\n<p>A nova igreja tem um catecismo que explica e resume a Nova Jerusal\u00e9m<br \/>\ne a sua doutrina celeste. Assim o homem foi criado por Deus para amar a Deus<br \/>\ne fazer o bem ao pr\u00f3ximo. Quem faz mal, vai para o inferno, quem faz<br \/>\nbem, vive com luxo e conforto no reino do c\u00e9u que, segundo Swedenborg,<br \/>\ntem edif\u00edcios magn\u00edficos, parques encantadores e vestidos bonitos.<br \/>\nO homem aprende a fazer o bem nos dez mandamentos. \u00c9 simples e f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O Senhor, deve o homem julg\u00e1-lo o \u00fanico Deus, em que est\u00e1<br \/>\nencarnada a Sant\u00edssima Trindade do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito<br \/>\nSanto. A trindade perfaz numa s\u00f3 pessoa a alma, o corpo e o ato da<br \/>\nobra. Na Trindade Divina, o Pai \u00e9 a alma, o Filho o corpo, o Esp\u00edrito<br \/>\nSanto a opera\u00e7\u00e3o condensados numa s\u00f3 pessoa: &#8211; Jesus.<br \/>\n\u00c9 esta a diverg\u00eancia capital do Catolicismo. A Nova Jerusal\u00e9m<br \/>\n\u00e9 o cristianismo primitivo. Os seus membros n\u00e3o t\u00eam ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\ne ajudam-se uns aos outros, praticando a caridade, o \u00fanico amor capaz<br \/>\nde nos desprender de n\u00f3s mesmos para nos aproximar de Deus. A regenera\u00e7\u00e3o<br \/>\nvem da ora\u00e7\u00e3o. O homem ora s\u00f3 a Jesus, porque o mais<br \/>\n\u00e9 idolatria. Todas as ci\u00eancias e religi\u00f5es nada s\u00e3o<br \/>\nsem o conhecimento de Deus. Possuidores desse conhecimento, os swedenborgeanos<br \/>\nt\u00eam a chave da interpreta\u00e7\u00e3o exata de tudo e explicam<br \/>\ncom harmonia espiritual todas as ci\u00eancias e todas as religi\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se podia voltar ao Cristianismo, ao tempo em que come\u00e7ou<br \/>\na ser falsificado &#8211; diz-nos o Sr. de la Fayette. &#8211; Seria desconhecer as leis<br \/>\nda ordem divina, que teria desse modo perdido quinze s\u00e9culos, quando<br \/>\nesse per\u00edodo serviu para a execu\u00e7\u00e3o das suas obras sempre<br \/>\nmisericordiosas. O Senhor anunciou que, na consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos,<br \/>\nisto \u00e9, no fim da igreja atual, viria, &#8220;nas nuvens do c\u00e9u,<br \/>\ncom poder e gl\u00f3ria&#8221; fundar outra igreja que n\u00e3o ter\u00e1<br \/>\nfim. Esta igreja \u00e9 a Nova Jerusal\u00e9m, que o Senhor instaurou,<br \/>\nretirando o v\u00e9u que ocultava o Verbo&#8230;<\/p>\n<p>Escurecia. As trevas entravam pela sala onde o Verbo \u00e9 revelado. Em<br \/>\nderredor, quanto abrangia o olhar, via-se a cidade reclinada por vales e montes,<br \/>\npregui\u00e7osamente. No c\u00e9u pur\u00edssimo as estrelas palpitavam<br \/>\ndevagar; pela terra estrelavam os combustores um infinito recamo de luzes.<\/p>\n<p>&#8211; Vou aos Estados Unidos &#8211; disse o ministro &#8211; comprar livros, editar obras<br \/>\nminhas para franquear a biblioteca ao povo. A regenera\u00e7\u00e3o far-se-\u00e1!<\/p>\n<p>E n\u00f3s descemos o monte, onde, naquela casa de pedra, duzentos homens,<br \/>\ncompenetrados do secreto sentido das correspond\u00eancias, louvam todos<br \/>\nos domingos Swedenborg que gozou o C\u00e9u, e Jesus que \u00e9 a caridade<br \/>\ne o supremo Amor.<\/p>\n<h4><a name=\"20\"><\/a>O Culto do Mar<\/h4>\n<p>O Culto do Mar \u00e9 praticado pelos pescadores das nossas praias. \u00c9<br \/>\num culto variado, cosm\u00f3latra e fantasista, cm que entram a lua e alguns<br \/>\nelementos divinizados.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conhece os nossos pescadores? Gente tranq\u00fcila. Raramente<br \/>\nse agridem e sempre por quest\u00e3o de pesca.<\/p>\n<p>Os pescadores formam um corpo distinto, diverso dos catraeiros, dos mar\u00edtimos,<br \/>\ndessa popula\u00e7\u00e3o amb\u00edgua e viciada que anda no cais \u00e0<br \/>\nbeira das ondas perturbadoras. N\u00e3o h\u00e1 canto da nossa baia que<br \/>\nn\u00e3o tenha uma col\u00f4nia de pescadores. Vivem todos muito calmos,<br \/>\nsem saber do resto do mundo. Enfim, uma classe \u00e0 parte, com festas<br \/>\npr\u00f3prias, que n\u00e3o se afasta do oceano e \u00e9 unida pelo<br \/>\nculto do mar. Os pescadores s\u00e3o os \u00faltimos id\u00f3latras<br \/>\ndas vagas. Conversar com eles \u00e9 ter impress\u00f5es absolutamente<br \/>\nin\u00e9ditas de moral, de filosofia e de religi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas essas col\u00f4nias s\u00e3o brasileiras? &#8211; indaguei do meu informante.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. H\u00e1 col\u00f4nias s\u00f3 de portugueses, como a de<br \/>\nSanta Luzia e de Santo Cristo, de portugueses e brasileiros, como em Sepetiba,<br \/>\nde italianos apenas, de brasileiros s\u00f3. Uma s\u00e9rie de n\u00facleos<br \/>\nligados pela cren\u00e7a. S\u00e3o outros homens. Nascem de m\u00e3es<br \/>\npescadoras, partejadas quase sempre por curiosas, vivem nas praias, nunca<br \/>\nas abandonam. Aos quatro anos nadam, aos dez remam e acompanham os parentes<br \/>\n\u00e0s pescarias, e assim passam a exist\u00eancia, familiarizados apenas<br \/>\ncom as redes, os apetrechos de pesca e o cal\u00e3o, o pitoresco cal\u00e3o<br \/>\nmar\u00edtimo.<\/p>\n<p>O oceano imprime-lhe um cunho especial, s\u00e3o propriedades do mar. Nunca<br \/>\nreparaste nos pescadores? T\u00eam os p\u00e9s diferentes de todos, uns<br \/>\np\u00e9s contr\u00e1teis que se crispam nas pranchas como os dos macacos;<br \/>\nandam a bambolear, balou\u00e7ando como um barco, e a sua pele lustrosa<br \/>\ntem o macio grosso dos veludos. A alma dessa gente conserva-se ondeante, maravilhosa<br \/>\ne simples.<\/p>\n<p>&#8211; Mas os pescadores s\u00e3o crist\u00e3os?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 claro. Mas crist\u00e3os puros \u00e9 dif\u00edcil encontrar<br \/>\nhoje afora os evangelistas e os s\u00edrios.<\/p>\n<p>&#8211; Lembro-me da festa de Nossa Senhora, na Lapa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Vi em Santa Luzia a devo\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p>&#8211; Era promessa de um rapaz que, por falta de meios n\u00e3o a continua.<br \/>\nDeixemos N. Senhora e S\u00e3o Pedro. Falo de um culto que emana no intimo<br \/>\nrespeito das ondas. Todos os pesca-dores das praias e das ilhas pr\u00f3ximas<br \/>\nfestejam, sacrificam ao mar e t\u00eam um objeto especial de devo\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nenhum que n\u00e3o tema a M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua,<br \/>\na Sereia, os Trit\u00f5es e n\u00e3o respeite a Lua. Conhe\u00e7o tr\u00eas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es desse culto. A M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua entre<br \/>\nos pescadores de Santo Cristo e de Santa Luzia, a da Lua, e do Mar e a do<br \/>\nArco-\u00cdris.<\/p>\n<p>&#8211; O Arco-\u00cdris?<\/p>\n<p>&#8211; Em Sepetiba. \u00c9 dos mais completos e dos mais belos, tendo como sacerdote<br \/>\numa mulher.<\/p>\n<p>O Arco-\u00cdris, a adora\u00e7\u00e3o de um deus que se curva nas<br \/>\nnuvens policromo e vago, que ergue das ondas um facho de luzes brandas e desaparece,<br \/>\no terror daquilo que se desfaz, sem que se saiba como! Era uma fantasia! Mas<br \/>\nos cosm\u00f3latras inventam tanta coisa para perfumar a sua ignor\u00e2ncia,<br \/>\nque bem podia ser.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas &#8211; disse o meu amigo. &#8211; O arco-\u00edris,<br \/>\n\u00e9 uma antiq\u00fc\u00edssima divindade, um an\u00fancio dos c\u00e9us.<br \/>\nLembra-te disso e acompanha-me.<\/p>\n<p>Acompanhei-o, durante um inverno, muito \u00famido e muito estrelado. Os<br \/>\npescadores t\u00eam um temor incalcul\u00e1vel da pol\u00edcia. Desde<br \/>\nque um curioso aparece, guardam segredo das suas cren\u00e7as e negam toda<br \/>\ne qualquer co-participa\u00e7\u00e3o em religi\u00e3o que n\u00e3o<br \/>\nseja a cat\u00f3lica. Como s\u00e3o primitivos e rudimentares, por\u00e9m,<br \/>\na bondade que t\u00eam \u00e9 fundamental, transforma-os e n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nnenhum que n\u00e3o acabe confiante e falador, exagerando para espantar<br \/>\nos mist\u00e9rios cosmol\u00f3gicos. Esses mist\u00e9rios s\u00e3o<br \/>\nde uma beleza delicada e antiga, de uma beleza de rapsodos que relembra as<br \/>\nfantasias escandinavas e helenas, um mont\u00e3o de lendas e de ritos enervantes.<br \/>\nH\u00e1 nas pr\u00e1ticas e nas id\u00e9ias trechos de Hes\u00edodo,<br \/>\nde Cristo e dos pretos-minas e a gente afunda-se, quando os quer guardar,<br \/>\nnum banho de cristal batido pelo sol.<\/p>\n<p>Quase sempre os diretores das festas, os sacerdotes n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\npescadores. Em Santo Cristo \u00e9 o padeiro Carvalho, homem de posses &#8211;<br \/>\ndiz o meu amigo. Os sacrif\u00edcios s\u00e3o feitos geralmente \u00e0<br \/>\nnoite.<\/p>\n<p>Vamos os dois interrogar os pescadores. Essa gente teme a M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua,<br \/>\ntendo a long\u00ednqua recorda\u00e7\u00e3o de que ela aparece vestida<br \/>\nde branco seguida de homens barbados de verde. A apari\u00e7\u00e3o feminina<br \/>\ngrita de repente, apaga as luzes na barca, faz as cerra\u00e7\u00f5es,<br \/>\nafasta os peixes, e \u00e0s vezes canta.<\/p>\n<p>&#8211; Como a Darcl\u00e9e?<\/p>\n<p>&#8211; Como as sereias meu caro. Os pescadores t\u00eam que cair no fundo da<br \/>\nbarca tapando os ouvidos. Ulisses amarrava-se&#8230;<\/p>\n<p>Para aplacar a deusa do mar, ser impalp\u00e1vel e lindo, os pescadores<br \/>\nfazem o sacrif\u00edcio de um carneiro. Matam o bicho \u00e0 beira do<br \/>\noceano; o sangue cai numa cova aberta na areia. Depois partem canoas levando<br \/>\npeda\u00e7os do animal com presentes que deixam cair no fundo da ba\u00eda<br \/>\ncom uma ora\u00e7\u00e3o votiva.<\/p>\n<p>Um rapazola, lindo como o Apolo do Belveder, responde \u00e0s nossas perguntas:<\/p>\n<p>&#8211; Eu fui batizado, patr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas sabe a hist\u00f3ria da M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua?<\/p>\n<p>&#8211; Sei, sim. Aqui, para M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua ser boa fazem-se despachos.<br \/>\nNa ilha do Governador compram tudo do mais fino, p\u00f5em a mesa \u00e0<br \/>\nbeira da praia, com talheres de prata, copos bonitos, a toalha alva e galinhas<br \/>\nsem cabe\u00e7a, para a santa comer.<\/p>\n<p>&#8211; Que diferen\u00e7a h\u00e1 entre Nossa Senhora e a M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua?<br \/>\n&#8211; indago interessado.<\/p>\n<p>&#8211; Nossa Senhora est\u00e1 no c\u00e9u. M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua \u00e9<br \/>\ndiferente; \u00e9 a devo\u00e7\u00e3o, \u00e9 como um santo do Mar&#8230;<br \/>\nE sopra-me na cara uma baforada de fumo mau.<\/p>\n<p>O meu amigo, cheio de literatura, declama logo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o compreendes! A \u00e1gua \u00e9 em toda a parte uma religi\u00e3o.<br \/>\nO Nilo foi feito das l\u00e1grimas de Isis, o Ganges \u00e9 o fator da<br \/>\ncren\u00e7a da imortalidade, os gregos povoaram o mar de habitantes sagrados.<\/p>\n<p>Lembra-te dos ar\u00edas ao descer do planalto: &#8211; &#8220;\u00f3 mar, grande<br \/>\nlaborat\u00f3rio!&#8230;&#8221; Laborat\u00f3rio da vida da cren\u00e7a.<\/p>\n<p>E leva-me a uma outra praia, a compreender como tudo depende do mar e da<br \/>\nlua. Ele conhecia um velho pescador, Jos\u00e9 Belchior. O velho recebe-o<br \/>\ncom intimidade e conta-me o que pensa deste mundo. \u00c9 curios\u00edssimo.<\/p>\n<p>Para Jos\u00e9 o mar representa o homem, o princ\u00edpio ativo. Por<br \/>\nisso o mar \u00e9 superior em tudo \u00e0 terra, que como a mulher s\u00f3<br \/>\nserve para o descanso. O oceano circunda a terra num longo abra\u00e7o.<br \/>\nO mar s\u00f3 sofre uma influ\u00eancia, a da lua, que mostra a sua face<br \/>\nde trinta em trinta dias e o faz inquieto e a arfar. Nela mora Nossa Senhora<br \/>\ncom o seu filho Jesus, e esse doce alampad\u00e1rio de ouro desencadeia<br \/>\nos ventos, faz as tempestades, esconde os peixes, baixa as mar\u00e9s e<br \/>\nguia as naves. Se Nossa Senhora quisesse, parava a lua quando ela vem cheia,<br \/>\ne tudo seria ent\u00e3o magn\u00edfico. Como as coisas n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nassim, fazem-se promessas, pede-se aos santos para interceder e, nas noites<br \/>\nde luar, fazem uma passeata em embarca\u00e7\u00f5es com velas de cera<br \/>\nacesas na m\u00e3o e rezando baixinho.<\/p>\n<p>Todas essas pequenas modalidades re\u00fanem-se em Sepetiba no culto geral<br \/>\ndo Arco-\u00cdris. H\u00e1 festas de tr\u00eas em tr\u00eas meses, despachos<br \/>\nsimples e uma grande solenidade, que j\u00e1 foi feita a 2 de fevereiro<br \/>\ne atualmente se realiza em junho, no dia de S. Pedro.<\/p>\n<p>Estive l\u00e1 nesse dia. A sacerdotisa \u00e9 uma portuguesa refor\u00e7ada,<br \/>\nque se chama Maria Matos da Silva. S\u00f3 s\u00e3o permitidos na festa<br \/>\npescadores, e os pescadores v\u00e3o de toda a parte ao culto singular.<br \/>\nA casa de Maria da Silva fica mesmo no ponto dos bondes, e nos dias de festa<br \/>\nest\u00e1 toda adornada de folhagens e galhardetes. Todos, lavados e de<br \/>\nroupas claras, a dona da devo\u00e7\u00e3o manda buscar os negros feiticeiros<br \/>\npara preparar os eb\u00f3s e fazer a matan\u00e7a dos animais.<\/p>\n<p>Ela pr\u00f3pria deita as cartas para saber quem deve ir levar os sacrif\u00edcios<br \/>\ne os desejos sutis do Arco-\u00edris.<\/p>\n<p>No interior da casa, onde ardem velas, \u00e9 proibida a entrada com exce\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas que tomam parte nos sacrif\u00edcios. Em frente os pescadores bebem,<br \/>\ncantam e dan\u00e7am o cateret\u00ea. Se por acaso no c\u00e9u se curvam<br \/>\nas cores do espectro, prosternam-se todos radiosos clamando pelo milagre.<br \/>\nO milagre por\u00e9m, como todo o milagre, \u00e9 raro.<\/p>\n<p>Maria da Silva tem sempre a seu lado o coronel Rodrigues, velho guarda nacional,<br \/>\nque com os p\u00e9s metidos em grossos tamancos, sentencia m\u00e1ximas<br \/>\nmorais para a assembl\u00e9ia. Os pescadores que apanham na rede um boto,<br \/>\nlevam-no \u00e0 mulher do culto para preparo do azeite das festas sagradas.<\/p>\n<p>Vou pela praia, alanhada por um vento \u00e1lgido. No c\u00e9u aparecem<br \/>\nnuvens, na areia descansam tr\u00eas barcas enfeitadas. Um rapazola guarda-as.<br \/>\nE ele quem nos d\u00e1 informa\u00e7\u00f5es a respeito da gente que<br \/>\ndan\u00e7a. Reina entre estas criaturas uma perfeita amoralidade. Como n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 barulhos graves, n\u00e3o se vai \u00e0 pol\u00edcia. Conselhos<br \/>\nd\u00e3o os velhos. A mulher serve para procriar, obedece cegamente ao homem,<br \/>\ncose, trabalha, \u00e9 inferior. O macho domina. O respeito aos anci\u00e3os<br \/>\nexiste, porque estes sabem das manhas dos peixes, anunciam as tempestades,<br \/>\nensinam. Quanto ao amor, deve ser muito diverso do nosso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E as festas, quem as faz?<\/p>\n<p>&#8211; Para as festas concorrem todos.<\/p>\n<p>Das tr\u00eas barcas que eu via, a primeira era para o Arco-\u00edris,<br \/>\na segunda para a M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua e a terceira acompanharia as duas<br \/>\nformando a trilogia, duas na frente e uma atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O meu amigo, lembrando mitologias diversas, quis saber a raz\u00e3o desse<br \/>\ntri\u00e2ngulo. O rapaz respondeu apenas:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 costume.<\/p>\n<p>\u00c9 costume tamb\u00e9m pagar em todas as religi\u00f5es. Tanto<br \/>\nos feiticeiros como os condutores das barcas recebem dinheiro. Os remadores<br \/>\npertencentes ao Arco-\u00cdris t\u00eam seis mil r\u00e9is, os da M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua<br \/>\ntr\u00eas e os acompanhadores nove. \u00c0 noite, j\u00e1 no c\u00e9u<br \/>\nnegro o crescente lunar, depois dos b\u00fazios e dos baralhos terem indicado<br \/>\nos dias em que n\u00e3o se poder\u00e1 pescar, come\u00e7a o sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>For\u00e7ado a ficar de longe, embrulhado num palet\u00f3 em que tiritava,<br \/>\nvi sair da casa da Maria uma teoria de camisolas brancas com as lanternas<br \/>\nde azeite de boto na m\u00e3o, acompanhando dois homens, um vestido de seda,<br \/>\noutro de cetim.<\/p>\n<p>O primeiro era o voga da canoa do Arco-\u00edris, o segundo ia dirigir<br \/>\na da M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua. As canoas foram arrastadas para o mar. Na do<br \/>\nArco-\u00cdris iam os mais finos presentes com os despachos, na da M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua<br \/>\nobjetos caros e femininos. Quando as canoas partiram em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nao Norte, levando aqueles estranhos remadores vestidos de morim branco, os<br \/>\nque ficaram na praia levantaram os bra\u00e7os, e a Maria da Silva, na turba,<br \/>\nsorria como quem se desobriga de uma promessa sagrada.<\/p>\n<p>&#8211; E ao voltarem, que h\u00e1? &#8211; indaguei ao rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; Voltam de costas, de frente para o mar, entram assim em casa; os remadores,<br \/>\nmenos os do Arco-\u00edris, batem com a cabe\u00e7a no ch\u00e3o, e<br \/>\na festa continua.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que \u00e9 o Arco-\u00edris, afinal?<\/p>\n<p>&#8211; O Arco-\u00edris indica se a gente est\u00e1 bem com Deus. \u00c9<br \/>\num aviso, o sinal da uni\u00e3o, o \u00fanico meio por que o mar se deixa<br \/>\nver&#8230; e a cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Olhei mais o oceano solu\u00e7ante sob o vento \u00e1lgido.<\/p>\n<p>As barcas todas acesas de luzes frouxas perdiam-se na fosfor\u00eancia lunar;<br \/>\nos remadores cantavam, e eu ouvia como a copla de uma barcarola nost\u00e1lgica.<br \/>\nEm frente da casa de Maria, o cateret\u00ea delirava e sombras de adolescentes<br \/>\ndesciam a praia \u00e1geis e finas.<\/p>\n<p>A Maria, sentada, sorrindo, era indecifr\u00e1vel.<\/p>\n<p>E para que decifr\u00e1-la? O seu culto era o culto de todas as \u00e9pocas<br \/>\ne de todos os homens. O mar continua a ser o grande mist\u00e9rio. Para<br \/>\nos esp\u00edritos simples que temem o diabo e guardam na alma cren\u00e7as<br \/>\nacumuladas, s\u00f3 a Lua com a imagem de Nossa Senhora pode explicar a<br \/>\nang\u00fastia do mar e s\u00f3 as sete cores do arco do c\u00e9u podem<br \/>\nsimbolizar o vago mist\u00e9rio da uni\u00e3o do oceano e do homem.<\/p>\n<h4><a name=\"21\"><\/a>O Espiritismo entre os Sinceros<\/h4>\n<p>O marechal Ewerton Quadros esperava um bonde para a cidade, quando um bonde<br \/>\npassou inteiramente vazio.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o toma este? &#8211; perguntaram-lhe.<\/p>\n<p>O marechal mergulhou mais a face adunca nas barbas matusal\u00eamicas:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Est\u00e1 cheio de esp\u00edritos<br \/>\nmaus! &#8211; e, como aparecesse outro inteiramente cheio, agarrou-se ao bala\u00fastre<br \/>\ne veio de p\u00e9 at\u00e9 \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Desde que se deixa a trafic\u00e2ncia do baixo espiritismo, que se conversa<br \/>\nnas rodas intelectuais cultivadas, esse estado alucinante torna-se normal.<\/p>\n<p>Ao subirmos as escadas da Federa\u00e7\u00e3o, o meu amigo ia dizendo.<\/p>\n<p>There are more things in heaven and earth, Horatio,<br \/>\nThere are more dreams in your philosophy.<\/p>\n<p>Esses melanc\u00f3licos versos temerosos, do mundo invis\u00edvel, resumem<br \/>\no nosso estado mental.<\/p>\n<p>Muita coisa h\u00e1 no mundo de que n\u00e3o cuida a nossa v\u00e1<br \/>\nfilosofia, muita coisa h\u00e1 neste mundo invis\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o se conta o n\u00famero de esp\u00edritos ortodoxos,<br \/>\nconta-se a atra\u00e7\u00e3o dos nossos c\u00e9rebros mais l\u00facidos<br \/>\npela ci\u00eancia da revela\u00e7\u00e3o. A Marinha, o Ex\u00e9rcito,<br \/>\na advocacia, a medicina, o professorado, o grande mundo, a imprensa, o com\u00e9rcio<br \/>\nt\u00eam milhares de esp\u00edritas. H\u00e1 homens que n\u00e3o fazem<br \/>\nmist\u00e9rio da sua cren\u00e7a. Os generais Girard e Piragibe, o major<br \/>\nIvo do Prado, o almirante Manh\u00e3es Barreto, Quintino Bocai\u00fava,<br \/>\nEduardo Salamonde, os Drs. Geminiano Brasil, Celso dos Reis, Monte Godinho,<br \/>\nAlberto Coelho, Maia Barreto, Oliveira Menezes, Alfredo Alexander proclamam<br \/>\na pureza da sua f\u00e9. A Federa\u00e7\u00e3o tem 800 s\u00f3cios<br \/>\ne ainda o ano passado expediu 48 mil receitas.<\/p>\n<p>Os que n\u00e3o praticam a moral, aceitam a parte fenomenal. E ao chegar<br \/>\na essa esfera que se come\u00e7a a temer a frase do cat\u00f3lico: &#8220;O<br \/>\nespiritismo \u00e9 um abismo encantador; foge ou de l\u00e1 nunca mais<br \/>\nsair\u00e1s&#8221;. Se na sociedade baixa, centenas de traficantes enganam<br \/>\na credulidade com uma inconsciente mistura de feiti\u00e7aria e catolicismo,<br \/>\nentre a gente educada h\u00e1 um n\u00famero talvez maior de salas onde<br \/>\nestudam o fen\u00f4meno ps\u00edquico e a adivinha\u00e7\u00e3o do<br \/>\nfuturo, com correspond\u00eancia para Londres e um ar superiormente convencido.<\/p>\n<p>Decerto, em parte, a frivolidade que faz senhoras elegantes citarem poetas<br \/>\nfranceses e conversarem de ocultismo nos gutters invernais, faz de algumas<br \/>\ndessas sess\u00f5es um divertimento id\u00eantico \u00e0 lanterna m\u00e1gica<br \/>\ne ao laun-tennis; decerto h\u00e1 entre os mais convictos Bouvard, P\u00e9cuchet<br \/>\ne mesmo o conselheiro Ac\u00e1cio; mas, fr\u00edvolos e tolos foram sempre<br \/>\nos meios inconscientes de expans\u00e3o de uma cren\u00e7a, e o espiritismo<br \/>\ncient\u00edfico deles se serve para triunfar.<\/p>\n<p>Nas rodas mais elegantes, entre sportsmen inteligentes, lavra o desespero<br \/>\ndas comunica\u00e7\u00f5es esp\u00edritas, como em Paris o automobilismo.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 alguns meses senhores do tom, ao voltarem do L\u00edrico,<br \/>\nencasacados e de gard\u00eania ao peito, comunicavam-se no Hotel dos Estrangeiros<br \/>\ncom as almas do outro mundo, por interm\u00e9dio de uma cantora, medium<br \/>\nultra-assombroso.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde na Colombo, esses senhores combinavam a partie de plaisir,<br \/>\ne \u00e0 noite nos corredores do L\u00edrico, enquanto o Caruso rouxinoleava<br \/>\ncorpulentamente para encanto das almas sentimentais, eles prelibavam as revela\u00e7\u00f5es<br \/>\nsonamb\u00falicas da medium musical.<\/p>\n<p>Esses fatos s\u00e3o raros, por\u00e9m, e as experi\u00eancias assombrosas<br \/>\nmultiplicam-se; os mediuns curam criaturas a morrer. Le\u00f4ncio de Albuquerque,<br \/>\nque tratava caridosamente a Sa\u00fade em peso, anuncia, sem tocar no doente,<br \/>\no primeiro caso de peste bub\u00f4nica, e cada vez mais aumenta o n\u00famero<br \/>\nde crentes.<\/p>\n<p>O meu amigo dizia-me:<\/p>\n<p>&#8211; Nunca se viu uma cren\u00e7a que com tal rapidez assombrasse crentes.<br \/>\nSe o Figaro dava para Paris cem mil esp\u00edritas, o Rio deve ter quase<br \/>\nigual soma de fi\u00e9is. O Brasil, pela jun\u00e7\u00e3o de uma ra\u00e7a<br \/>\nde sonhadores como os portugueses com a fantasia dos negros e o pavor indiano<br \/>\ndo invis\u00edvel, est\u00e1 fatalmente \u00e0 beira dos abismos de<br \/>\nonde se entreve o al\u00e9m. A Federa\u00e7\u00e3o publicou uma estat\u00edstica<br \/>\nde jornais esp\u00edritas no inundo inteiro. Pois bem: existe no mundo 96<br \/>\njornais e revistas, sendo que 56 em toda a Europa e 19 s\u00f3 no Brasil.<\/p>\n<p>&#8211; Como se reconhecem as nossas aptid\u00f5es liter\u00e1rias!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o ria. Tudo na terra tem a sua dupla significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E quais s\u00e3o essas revistas e jornais?<\/p>\n<p>&#8211; Mensageiro, em Manaus (Amazonas); Luz e F\u00e9 e Sofia, em Bel\u00e9m<br \/>\n(Par\u00e1); A Cruz, em Amarante (Piau\u00ed); Doutrina de Jesus, em Maranguape<br \/>\n(Cear\u00e1); A Semana (ci\u00eancias e letras), no Recife (Pernambuco),<br \/>\nA Verdade, em Palmares (Pernambuco); O Esp\u00edrita Alagoano, A Ci\u00eancia,<br \/>\nem Macei\u00f3, (Alagoas); Revista Esp\u00edrita, em S. Salvador (Bahia);<br \/>\nReformador, no Rio de Janeiro; Fraterniza\u00e7\u00e3o, Verdade e Luz,<br \/>\nA Nova Revela\u00e7\u00e3o, O Alvi\u00e3o e A Doutrina, em Curitiba<br \/>\n(Paran\u00e1); Revista Esp\u00edrita, em Porto Alegre (Rio Grande do Sul);<br \/>\nA Reencarna\u00e7\u00e3o, no Rio Grande; O Allan Kardec, em Cataguazes<br \/>\n(Minas Gerais).<\/p>\n<p>&#8211; Como come\u00e7ou esta propaganda no Brasil?<\/p>\n<p>&#8211; Homem, o Sr. Cat\u00e3o da Cunha diz que os primeiros esp\u00edritas<br \/>\nbrasileiros apareceram no Cear\u00e1 ao mesmo tempo que em Fran\u00e7a.<br \/>\nA propaganda propriamente s\u00f3 come\u00e7ou na Bahia, no ano de 1865,<br \/>\ncom o Grupo Familiar do Espiritismo.<\/p>\n<p>Era o espiritismo em fam\u00edlia, ab ovo, porque aos quatro anos depois<br \/>\nsurgiu o primeiro jornal, dirigido pelo Dr. Lu\u00eds Ol\u00edmpio Teles<br \/>\nde Menezes, membro do Instituto Hist\u00f3rico da Bahia. Esse jornal intitulava-se<br \/>\nO Eco de Al\u00e9m T\u00famulo. A propaganda tem sido r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Ainda em 1900 no seu relat\u00f3rio ao Congresso Esp\u00edrita e Espiritualista<br \/>\nde Paris, a Federa\u00e7\u00e3o acusava ades\u00f5es de setenta e nove<br \/>\nassocia\u00e7\u00f5es e o aparecimento de trinta e dois jornais e revistas<br \/>\nde propaganda, entre os quais o Reformador, que conta vinte e quatro anos<br \/>\nde exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Basta esse relat\u00f3rio para afirmar a for\u00e7a latente da cren\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o, o centro onde se praticam todas<br \/>\nas virtudes do espiritismo. Ver\u00e1 com os seus pr\u00f3prios olhos.<\/p>\n<p>A Federa\u00e7\u00e3o fica na rua do Ros\u00e1rio, 97. \u00c9 um<br \/>\ngrande pr\u00e9dio, cheio de luz e de claridade. Cumprem-se a\u00ed os<br \/>\npreceitos da ortodoxia esp\u00edrita; n\u00e3o h\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o<br \/>\nde trabalho e nada se recebe pelas consultas. A diretoria gasta parte do dia<br \/>\na servir os irm\u00e3os, tratando da contabilidade, da biblioteca, do jornal,<br \/>\ndos doentes. A instala\u00e7\u00e3o \u00e9 magn\u00edfica. No primeiro<br \/>\npavimento ficam a biblioteca, a sala de entrega do receitu\u00e1rio, a secretaria,<br \/>\no sal\u00e3o de espera dos consultantes e os consult\u00f3rios. Seis mediuns<br \/>\npsicogr\u00e1ficos prestam-se duas horas por dia a receitar, e as salas<br \/>\nconservam-se sempre cheias de uma multid\u00e3o de doentes, mulheres, homens,<br \/>\ncrian\u00e7as, figuras dolorosas com um laivo de esperan\u00e7a no olhar.<\/p>\n<p>A casa est\u00e1 sonora do rumor cont\u00ednuo, mas tudo \u00e9 simples,<br \/>\ncaridoso e sem espalhafato. Quando entramos n\u00e3o se lhe altera a vida<br \/>\nnervosa. A Federa\u00e7\u00e3o parece um banco de caridade, instalado<br \/>\n\u00e0 beira do outro mundo. Os homens agitam-se, andam, conversam, os doentes<br \/>\nesperam que os esp\u00edritas venham receitar pelo bra\u00e7o dos mediuns,<br \/>\nsob a a\u00e7\u00e3o psicogr\u00e1fica, falam e conversam enquanto o<br \/>\nbra\u00e7o escreve.<\/p>\n<p>Atravessamos a sala dos clientes, entramos no consult\u00f3rio do Sr. Richard.<br \/>\nH\u00e1, uma hora que esse honrado cavalheiro, esp\u00edrita convencido,<br \/>\nescreve e j\u00e1 receitou para quarenta e sete pessoas.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 curas? &#8211; perguntamos n\u00f3s, olhando as fileiras de doentes.<\/p>\n<p>&#8211; Muitas. N\u00f3s, por\u00e9m, n\u00e3o tomamos nota.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o senhor n\u00e3o se lembra de ter curado ningu\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; A mim me dizem que pus boa uma pessoa da fam\u00edlia do general Argolo.<br \/>\nMas n\u00e3o sei nem devo dizer. \u00c9 o preceito de Deus.<\/p>\n<p>Deixamo-lo receitando, j\u00e1 perfeitamente normalizados com aquele ambiente<br \/>\nestranho, e interrogamos. H\u00e1 milhares de curas. A Sra. Georgina, esposa<br \/>\ndo Sr. C\u00e9sar Pacheco, depois de louca e cega, ficou boa em dez dias;<br \/>\no Sr. J\u00falio C\u00e9sar Gon\u00e7alves, morador \u00e0 rua de<br \/>\nSantana, n. 26, que tinha o corpo num s\u00f3 dartro, curou-se em dois meses<br \/>\ncom passes magn\u00e9ticos; D. Jesu\u00edna de Andrade, vi\u00fava,<br \/>\nquase t\u00edsica, em trinta dias salva, e outros muitos.<\/p>\n<p>Que valor t\u00eam essas declara\u00e7\u00f5es? Os doentes enfileirados<br \/>\nparece crerem e o Sr. Richard \u00e9 a f\u00e9 em pessoa. \u00c9 quanto<br \/>\nbasta talvez.<\/p>\n<p>No segundo pavimento, encontramos desenhos de homens ignorantes inspirados<br \/>\npelos grandes pintores. Rafael guia a m\u00e3o de oper\u00e1rios em movimentados<br \/>\nquadros de batalhas, e outros pintores mortos, sob inc\u00f3gnito, fazem<br \/>\ndesenhos extraordin\u00e1rios por interm\u00e9dio de maquinistas da Armada&#8230;<\/p>\n<p>Essas coisas nos eram explicadas simplesmente, como se trat\u00e1ssemos<br \/>\nde coisas naturais.<\/p>\n<p>&#8211; Quando h\u00e1 sess\u00e3o? &#8211; perguntou o nosso amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje, \u00e0s 7 horas. Podem ver, \u00e9 a sess\u00e3o de estudo.<\/p>\n<p>N\u00f3s ainda olhamos fotografias de esp\u00edritos, o retrato de D.<br \/>\nRomualdo, um sacerdote que de al\u00e9m-t\u00famulo vem sempre visitar<br \/>\na Federa\u00e7\u00e3o, e esperamos a sess\u00e3o de estudo, atra\u00eddos,<br \/>\nquerendo ver, querendo ter a doce paz daqueles entes.<\/p>\n<p>A sess\u00e3o come\u00e7ou \u00e0s 7\u00bd, na sala do 2.\u00ba andar,<br \/>\ntoda mobiliada de canela cir\u00e9e com frisos de ouro. Nas cadeiras, cavalheiros<br \/>\nde sobrecasaca, senhoras, demoiselles. Os bicos Auer acesos banhavam de luz<br \/>\nclara toda a sala, e pelas janelas abertas ouviam-se na rua o estalar de chicotes<br \/>\ne gritos de cocheiros.<\/p>\n<p>Sem as visitas do irm\u00e3o Samuel, ningu\u00e9m diria uma sess\u00e3o<br \/>\nesp\u00edrita. Depois de lida e aprovada a ata da sess\u00e3o anterior,<br \/>\ncomo na C\u00e2mara dos Deputados, Leopoldo Cirne, o presidente, que ao come\u00e7o<br \/>\nnos dissera um adeusinho, perfeitamente mundano, transfigura-se e a sua voz<br \/>\ntoma suavidades in\u00e9ditas.<\/p>\n<p>&#8211; Concentremo-nos, irm\u00e3os!<\/p>\n<p>Imediatamente todos fechamos os olhos, como querendo concentrar o pensamento<br \/>\nnuma \u00fanica id\u00e9ia. As senhoras tapam o rosto com o leque e t\u00eam<br \/>\nos olhos cerrados. De repente, como movida por todas aquelas vontades, a m\u00e3o<br \/>\ndo psic\u00f3grafo cai, apanha o papel, o l\u00e1pis, e escreve rapidamente<br \/>\nlinhas adelgadas. No sil\u00eancio ouve-se o l\u00e1pis ro\u00e7ando<br \/>\no papel de leve; e \u00e9 nesse sil\u00eancio que o l\u00e1pis p\u00e1ra,<br \/>\no medium esfrega os olhos e come\u00e7a a leitura da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Paz! Irm\u00e3os. Deus seja convosco. As palavras do fil\u00f3sofo<br \/>\ngrego: conhece-te a ti mesmo&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 Samuel o esp\u00edrito que fala, achando que para compreender<br \/>\na vida e o bem \u00e9 necess\u00e1rio antes de tudo conhecermo-nos a n\u00f3s<br \/>\nmesmos. Leopoldo Cirne n\u00e3o se move.<\/p>\n<p>Quando Samuel termina, ouve-se ent\u00e3o a sua voz delicada, tr\u00eamula<br \/>\nde humildade.<\/p>\n<p>\u00c9 ele quem faz o coment\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Meus irm\u00e3os, essas palavras que S\u00f3crates mandou inserir no<br \/>\ntemplo de Delfos&#8230;<\/p>\n<p>E esse homem, que n\u00f3s vemos t\u00e3o correto e t\u00e3o mundano,<br \/>\ngostando de E\u00e7a de Queir\u00f3s e lendo Verlaine, surge-nos o pastor,<br \/>\no rabi, o iniciador. O seu semblante espiritualiza-se em atitudes ext\u00e1ticas,<br \/>\na sua voz \u00e9 a bland\u00edcia mesma que nos acaricia a alma pregando<br \/>\na bondade e a demoli\u00e7\u00e3o das vaidades. As senhoras ouvem-no ansiosas;<br \/>\nao nosso lado dizem-no inspirado, atuado pelos esp\u00edritos. De tal forma<br \/>\n\u00e9 sutil o seu racioc\u00ednio, de tal forma desfaz velhas cren\u00e7as<br \/>\nno incens\u00e1rio de um Deus espiritual que, decerto, se o atuam esp\u00edritos,<br \/>\nfala pela sua boca Ponce de L\u00e9on.<\/p>\n<p>Ele cala, enxuga a face. Depois, no estudo do Evangelho, no trecho de Jesus<br \/>\ncom os escribas e fariseus sobre o alimento da alma, de novo a sua voz corre<br \/>\ncomo um fio d&#8217;\u00e1gua entre sombras macias, sorvida por toda aquela gente<br \/>\natenta e s\u00f4frega. Leopoldo Cirne acaba num sopro, t\u00e3o baixo que<br \/>\nmais parece uma vaga harmonia.<\/p>\n<p>Em seguida fala o Sr. Richard, que condena alguns dos nossos males, entre<br \/>\nos quais o patriotismo &#8211; porque n\u00e3o se pode amar uns mais do que outros,<br \/>\nquando todos, s\u00e3o iguais perante Deus.<\/p>\n<p>&#8211; Terminamos o nosso estudo. N\u00e3o h\u00e1 mais quem queira falar?<\/p>\n<p>Leopoldo Cirne ergueu a loira cabe\u00e7a de Salvador, fixando os olhos<br \/>\nna minha pobre pessoa. Era a atra\u00e7\u00e3o do abismo, uma explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nindireta, feita como quem, muito cansado da travessia por mundos ignorados,<br \/>\nviesse a conversar \u00e0 beira da estrada com o viandante descrente.<\/p>\n<p>&#8220;O Espiritismo, fez ele, ou revela\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos,<br \/>\nsistematizada em doutrina por Allan Kardec, que recolheu os seus ensinos acerca<br \/>\ndo universo e da vida e das leis que os regem, e com os quais formou as obras<br \/>\nditas fundamentais O Livro dos Esp\u00edritos &#8211; O Livro dos m\u00e9diuns<br \/>\n&#8211; O C\u00e9u e o Inferno &#8211; A G\u00eanese &#8211; O Evangelho segundo o Espiritismo,<br \/>\nre\u00fane o tr\u00edplice aspecto de ci\u00eancia, filosofia e moral<br \/>\nou religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Como ci\u00eancia de observa\u00e7\u00e3o, estuda, n\u00e3o somente<br \/>\nos fen\u00f4menos esp\u00edritas, desde os mais simples, como os ru\u00eddos<br \/>\ne perturba\u00e7\u00f5es (casas mal-assombradas) e os efeitos f\u00edsicos<br \/>\n(desloca\u00e7\u00e3o de objetos sem contato) etc., at\u00e9 os mais<br \/>\ntranscendentes, como as materializa\u00e7\u00f5es de esp\u00edritos<br \/>\n(observa\u00e7\u00f5es de Crookes, Aksakoff, Zoellner, Dr. Gibier etc.),<br \/>\ncomo tamb\u00e9m todos os fen\u00f4menos da natureza, investigando a g\u00eanese<br \/>\nde todos os seres, numa vasta s\u00edntese, e neles buscando a origem do<br \/>\nprinc\u00edpio espiritual, dos estados mais rudimentares aos mais complexos<br \/>\npois que um germe, um esbo\u00e7o dessa natureza parece constituir a ess\u00eancia<br \/>\nde toda forma. Em tais condi\u00e7\u00f5es, relaciona-se com todos os<br \/>\nramos das ci\u00eancias humanas: a f\u00edsica, a qu\u00edmica, a biologia,<br \/>\na hist\u00f3ria natural etc., sem esquecer a pr\u00f3pria astronomia,<br \/>\npor isso que igualmente sonda o universo sideral, &#8220;as diversas moradas<br \/>\nda casa do Pai&#8221; de que falou Jesus, e que s\u00e3o os mundos habitados,<br \/>\ndisseminados no infinito.<\/p>\n<p>Ao lado de tais observa\u00e7\u00f5es, procura fixar as leis do universo<br \/>\ne da vida, das quais a da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave, estando<br \/>\ntudo submetido ao progresso, na ordem f\u00edsica, moral e intelectual.<\/p>\n<p>Como filosofia, sobre esses dados da observa\u00e7\u00e3o desdobra as<br \/>\nmais l\u00f3gicas indu\u00e7\u00f5es, partindo do infinitamente pequeno<br \/>\ne dos racioc\u00ednios mais elementares para o infinitamente grande e at\u00e9<br \/>\n\u00e0s mais transcendentes conseq\u00fc\u00eancias, isto \u00e9, at\u00e9<br \/>\n\u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>Sobre aquele princ\u00edpio da evolu\u00e7\u00e3o universal, prova<br \/>\ncom a pluralidade dos mundos a pluralidade das exist\u00eancias da alma,<br \/>\na iman\u00eancia da lei eterna de justi\u00e7a, em virtude da qual o esp\u00edrito,<br \/>\ndepois de cada exist\u00eancia, colhe as li\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia<br \/>\n(de resto, permanente na vida quotidiana) e sofre as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nde seus atos bons ou maus, sendo assim feliz ou desgra\u00e7ado, trazendo<br \/>\npara a outra exist\u00eancia, em uma nova encarna\u00e7\u00e3o, as suas<br \/>\naquisi\u00e7\u00f5es do passado, que se denunciam nas tend\u00eancias<br \/>\ne aptid\u00f5es inatas, guardando assim latente a reminisc\u00eancia substancial<br \/>\ndesse passado, com esquecimento apenas do circunstancial, isto \u00e9, dos<br \/>\nfatos concretos e dos incidentes, al\u00e9m de tudo porque no c\u00e9rebro<br \/>\natual s\u00f3 se acham gravadas as impress\u00f5es dessa nova vida. Tudo<br \/>\no mais est\u00e1 guardado nas profundezas da subconsci\u00eancia, podendo<br \/>\nreaparecer nos estados de sonambulismo e, em geral, em todos os casos de desdobramento<br \/>\n&#8211; experi\u00eancia do magnetismo e de psicologia transcendental.<\/p>\n<p>Assim prossegue, de vida em vida, a evolu\u00e7\u00e3o insefinitae do<br \/>\nesp\u00edrito, sendo-lhe acess\u00edveis todas as perfei\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque conquistar\u00e1 pelo pr\u00f3prio esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Com a evolu\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos e, por conseguinte, das<br \/>\nhumanidades, coincide a evolu\u00e7\u00e3o dos mundos fisicamente, devendo<br \/>\na nossa terra, como todas as do espa\u00e7o, ao aperfei\u00e7oamento j\u00e1<br \/>\nassinalado das \u00e9pocas pr\u00e9-hist\u00f3ricas aos nossos dias<br \/>\nacrescentar novos e constantes aperfei\u00e7oamentos, em harmonia com essas<br \/>\nmaravilhosas leis da cria\u00e7\u00e3o, que constituem o lado mais belo<br \/>\ndo estudo filos\u00f3fico do Espiritismo.<\/p>\n<p>Como moral ou religi\u00e3o e no sentido de favorecer a realiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu ideal filos\u00f3fico, o Espiritismo se prop\u00f5e o restabelecimento<br \/>\ndo Evangelho de Jesus, que a igreja deturpou e fez cair no olvido.<\/p>\n<p>O seu lema \u00e9: &#8220;Fora da caridade n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E por conseguinte tolerante e, fiel \u00e0s m\u00e1ximas crist\u00e3s<br \/>\nfundamentais: &#8220;N\u00e3o fa\u00e7as aos outros o que n\u00e3o queres<br \/>\nque te fa\u00e7am&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Ama o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo&#8221;, n\u00e3o hostiliza<br \/>\nnenhuma cren\u00e7a, respeitando todas as convic\u00e7\u00f5es sinceras.<\/p>\n<p>E, sob qualquer dos seus aspectos, partid\u00e1rio do livre exame, nada<br \/>\nrecomendando que seja aceito e admitido sem a san\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio,<br \/>\nporque sabe, com o Mestre Allan Kardec, que &#8220;a \u00fanica f\u00e9<br \/>\ninabal\u00e1vel \u00e9 aquela que pode encarar a raz\u00e3o face a face,<br \/>\nem todas as \u00e9pocas da humanidade&#8221;.<\/p>\n<p>O Espiritismo, em suma, sobre explicar todas as aparentes anomalias da vida,<br \/>\nvem oferecer o conforto e a esperan\u00e7a aos que sofrem, aos que erram<br \/>\ne se transviam no mal, cedendo \u00e0s suas m\u00faltiplas ciladas; vem<br \/>\nesclarecer acerca das suas responsabilidades, dando \u00e0 vida um objetivo<br \/>\nalto, nobre e digno, sobranceiro \u00e0s torpes materialidades e \u00e0s<br \/>\ntransit\u00f3rias vicissitudes; aos que procuram lealmente a verdade proporciona<br \/>\num ideal que ultrapassa as mais exigentes aspira\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia<br \/>\ne da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>A todos oferece a calma interior, a paz, a resigna\u00e7\u00e3o, a paci\u00eancia<br \/>\ne a f\u00e9 inabal\u00e1vel no futuro. \u00c9, pois, o problema da regenera\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da felicidade humana que vem resolver.<\/p>\n<p>Houve um longo sil\u00eancio. Um homem magro levanta-se e conta que veio<br \/>\nda casa de um irm\u00e3o agonizante. O irm\u00e3o deseja uma ora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne pede aos amigos n\u00e3o o deixem de ver.<\/p>\n<p>&#8211; Concentremo-nos! &#8211; diz de novo a voz expirante do presidente.<\/p>\n<p>As frontes curvam-se, o medium toma o l\u00e1pis. \u00c9 Samuel que volta.<\/p>\n<p>&#8211; Paz! &#8211; diz ele &#8211; a vaidade \u00e9 um monte que nos separa do bem. Entretanto,<br \/>\nirm\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>Com a presen\u00e7a do esp\u00edrito de Samuel, levantam-se todos e Richard<br \/>\nfaz a ora\u00e7\u00e3o pelo irm\u00e3o agonizante para que o guarde<br \/>\nem bons c\u00e9us.<\/p>\n<p>Depois um arrastar de cadeiras, apertos de m\u00e3o, riso, conversa. Est\u00e1<br \/>\nacabada a sess\u00e3o. Leopoldo Cirne volta da sua transfigura\u00e7\u00e3o,<br \/>\nrecobrando a voz habitual e a cortesia de sempre.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o, receoso, um cumprimento aos seus dotes sagrados.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! &#8211; sim? faz ele, pasmado, como se nunca se tivesse ouvido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o peguei no chap\u00e9u sorrateiramente. Esse constante estado<br \/>\nflutuante entre a realidade e o invis\u00edvel, essas fugidas ao espa\u00e7o<br \/>\npara conversar com os esp\u00edritos, a caridade evang\u00e9lica do homem<br \/>\n\u00e0 beira do real eram alucinantes. Desci as escadas devagar, aquelas<br \/>\nescadas por onde subia sempre a romaria dos enfermos; na rua enxuguei a fronte,<br \/>\nolhando o edif\u00edcio, menos misterioso que qualquer clube pol\u00edtico.<br \/>\nE como passasse um bonde inteiramente vazio, refleti que esse bonde podia<br \/>\nser como o do marechal Quadros e voltei, a p\u00e9, devagar, para n\u00e3o<br \/>\ndar encontr\u00f5es nas pessoas que talvez comigo tivessem passado todo<br \/>\naquele dia do outro mundo.<\/p>\n<h4><a name=\"22\"><\/a>Os Exploradores<\/h4>\n<p>False Sphinx! False Sphinx! by reedy Styx<br \/>\nOld Charon, learning on his oar<br \/>\nWaits for my coin. Go thou before&#8230;<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 pra\u00e7a Onze, tomamos por uma das ruas transversais,<br \/>\nescura e l\u00f4brega. Ventava.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 aqui &#8211; murmurou cansado o nosso amigo, parando \u00e0 porta<br \/>\nde um sobrado de apar\u00eancia duvidosa.<\/p>\n<p>Havia oito dias j\u00e1 and\u00e1vamos n\u00f3s em peregrina\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo baixo espiritismo. Ele, inteligente e esclarecido, dissera:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 pelo menos cem mil esp\u00edritas no Rio. \u00c9 preciso,<br \/>\npor\u00e9m, n\u00e3o confundir o espiritismo verdadeiro com a explora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom a falsidade, com a crendice ignorante. O espiritismo data de 1873 entre<br \/>\nn\u00f3s, da cria\u00e7\u00e3o da Sociedade de Conf\u00facio. Talvez<br \/>\nde antes; data de umas curiosas sess\u00f5es da casa do Dr. Melo Morais<br \/>\nPai, a bondade personificada, um homem que andava de cal\u00e7\u00f5es<br \/>\ne sapatos com fivelas de prata. Mas, desde esse tempo, a religi\u00e3o sofre<br \/>\nda incompreens\u00e3o de quase todos, substitui a feiti\u00e7aria e a<br \/>\nmagia.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que come\u00e7amos ambos a percorrer os centros, os focos<br \/>\ndessa tristeza.<\/p>\n<p>O Rio est\u00e1 minado de casas esp\u00edritas, de pequenas salas misteriosas<br \/>\nonde se exploram a morte e o desconhecido. Esta pacata cidade, que h\u00e1<br \/>\n50 anos festejava apenas a corte celeste e tinha como supremo mist\u00e9rio<br \/>\na mandinga, o preto escravo, \u00e9 hoje como Biz\u00e2ncio, a cidade das<br \/>\ncem religi\u00f5es, lembra a Roma de Heliog\u00e1balo, onde todas as seitas<br \/>\ne todas as cren\u00e7as existiam. O espiritismo difundiu-se na popula\u00e7a,<br \/>\nenraizou-se, substituindo o bruxedo e a feiti\u00e7aria. Al\u00e9m dos<br \/>\nraros grupos onde se procede com relativa honestidade, os desbriados e os<br \/>\nvelhacos s\u00e3o os seus agentes. Os m\u00e9diuns exploram a credulidade,<br \/>\nas sess\u00f5es mascaram coisas torpes e de cada um desses viveiros de fetichismo<br \/>\na loucura brota e a histeria surge. Os ing\u00eanuos e os sinceros, que se<br \/>\njulgam com qualidades de mediunidade, acabam presas de patifes com armaz\u00e9ns<br \/>\nde cura para a explora\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9dulos; e a velhacaria<br \/>\ne a sem-vergonhice encobrem as chagas vivas com a capa santa do espiritualismo.<br \/>\nQuando se come\u00e7a a estudar esse mundo de desequilibrados, \u00e9<br \/>\ncomo se vagarosamente se descesse um abismo torturante sem fundo.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia sabe mais ou menos as casas dessa gente suspeita, mas n\u00e3o<br \/>\nas observa, n\u00e3o as ataca, porque a maioria das autoridades t\u00eam<br \/>\nmedo e f\u00e9. Ainda h\u00e1 tempos, um delegado mo\u00e7o freq\u00fcentava<br \/>\na casa de um esp\u00edrita da praia Formosa para se curar da s\u00edfilis.<br \/>\nSe os delegados s\u00e3o assim apavorados do futuro, reduzindo a mentalidade<br \/>\n\u00e0 cren\u00e7a numa panac\u00e9ia misteriosa, o pessoal subalterno<br \/>\ndelira.<\/p>\n<p>&#8211; Veja voc\u00ea &#8211; disse-nos o amigo esp\u00edrita -, toda a nossa religi\u00e3o<br \/>\nresume-se nas palavras de Cristo \u00e0 Samaritana: &#8220;Deus \u00e9<br \/>\nesp\u00edrito e em esp\u00edrito quer ser adorado&#8221;. Essa gente n\u00e3o<br \/>\ncompreende nada disso, maravilha-se apenas com a parte fenomenal, com a canalhice<br \/>\ne a magia. \u00c9 horr\u00edvel. Os propriet\u00e1rios dos estabelecimentos<br \/>\nde cura an\u00edmica a pre\u00e7o reduzido exploram; o povar\u00e9u<br \/>\nvai todo, aliando as crendices do novo \u00e0s bagagens antigas. S\u00e3o<br \/>\ncat\u00f3licos ou perdidos a servirem-se dos esp\u00edritos como de um<br \/>\nbaralho de cartomante.<\/p>\n<p>Com efeito, todas as casas em que entramos, estavam sempre cheias. Na maioria<br \/>\nfreq\u00fcentam-nas pessoas de baixa classe, mas se pud\u00e9ssemos citar<br \/>\nas senhoras, as damas do high-l\u00edfe que se arriscam at\u00e9 l\u00e1,<br \/>\na lista abrangeria talvez metade das criaturas radiosas que freq\u00fcentam<br \/>\nas r\u00e9citas do L\u00edrico. Alguns desses lugares equ\u00edvocos<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 engodos da credulidade, servem de m\u00e1scaras<br \/>\na outras conveni\u00eancias. A sess\u00e3o fica na sala da frente, mas<br \/>\no resto da casa, com camas largas, \u00e9 alugado por hora a alguns pares<br \/>\nde irm\u00e3os. O m\u00e9dium, nesses momentos, deixa o estado sonamb\u00falico<br \/>\npara servir o fregu\u00eas, e um centro esp\u00edrita revestido de mist\u00e9rio,<br \/>\ncom o aparato das portas fechadas, dos passes e das velas acesas, transforma<br \/>\na cren\u00e7a, cuja oblata \u00e9 a virtude m\u00e1xima, numa n\u00f3doa<br \/>\nde descaro sem nome.<\/p>\n<p>N\u00f3s visitamos uns cinq\u00fcenta desses milhares de centros. A cidade<br \/>\nest\u00e1 coalhada deles. H\u00e1 em algumas ruas dois e tr\u00eas. Estivemos<br \/>\nno Andara\u00ed Grande, na rua Formosa, na esta\u00e7\u00e3o do Rocha,<br \/>\nna rua da Imperatriz, no morro do Pinto, na praia Formosa, no Engenho de Dentro,<br \/>\nna rua Frei Caneca, na rua Francisco Eug\u00eanio, assistindo \u00e0s sess\u00f5es<br \/>\ne ouvindo a vizinhan\u00e7a, que \u00e9 sempre o term\u00f4metro da moralidade<br \/>\nde qualquer casa.<\/p>\n<p>Um pouco de ceticismo ou de simples cren\u00e7a basta para compreender<br \/>\na pulhice dessas pantomimas l\u00fagubres.<\/p>\n<p>Assim, h\u00e1 uma tropa de mulheres, a Galdina da rua da Alf\u00e2ndega,<br \/>\na negra Rosalina da rua da Am\u00e9rica, a Aquilina da rua do Cunha, a Am\u00e9lia<br \/>\ndo Arag\u00e3o, a Zizinha Vi\u00fava da rua Senhor de Matozinhos, a Augusta<br \/>\nda rua Presidente Barroso, a Tom\u00e1sia da rua Torres Homem, n.0 14, que<br \/>\nestabelecem o com\u00e9rcio com consultas de 500 r\u00e9is para cima e<br \/>\npraticam coisas horrendas, abortos, viola\u00e7\u00f5es a pre\u00e7o<br \/>\nfixo e t\u00eam trabalhos em que s\u00e3o acompanhadas de secret\u00e1rias;<br \/>\nh\u00e1 esp\u00edritas ambulantes, como o negro Samuel, que j\u00e1<br \/>\nfoi cozinheiro, mora na rua Senador Pompeu, n.0 157, e vai de casa em casa<br \/>\nfazer passes; h\u00e1 mulatos pern\u00f3sticos, o Zizinho da rua de S.<br \/>\nJanu\u00e1rio, o Claudino da rua de Santana, o Jo\u00e3ozinho da rua Sorocaba,<br \/>\ncom consultas noturnas; h\u00e1 portugueses como um tal Sr. Carneiro, da<br \/>\nPraia Formosa, e o Sim\u00f5es, da rua Visconde de Ita\u00fana, que exigem<br \/>\n20$000 por consulta e mandam os doentes comprar uma vela de cera e tomar um<br \/>\nbanho de cevada. H\u00e1 de tudo, at\u00e9 sinetas, rapazes de passinho<br \/>\nrebolado, que quando n\u00e3o prestam mais para o com\u00e9rcio p\u00fablico<br \/>\nestabelecem-se nas ruas do meretr\u00edcio com adivinha\u00e7\u00f5es<br \/>\nesp\u00edritas!<\/p>\n<p>E nesse complexo notam-se os centros familiares, uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde centros, alguns dos quais d\u00e3o bailes mensais e, quando n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o casas de fabrica\u00e7\u00e3o de loucuras levando \u00e0<br \/>\nhisteria senhoras indefesas, servem para a mais desfa\u00e7ada imoralidade<br \/>\ne a mais ousada explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No morro do Pinto a feiti\u00e7aria impera. Numa sala baixa, iluminada<br \/>\na querosene, assentam-se os fi\u00e9is, mulheres desgrenhadas, mulatinhas<br \/>\nbamboleantes, negras de len\u00e7o na cabe\u00e7a com o olhar alco\u00f3lico,<br \/>\nhomens de cal\u00e7as abombachadas, valentes com medo das almas do outro<br \/>\nmundo, que ao sair dali ou ali mesmo n\u00e3o trepidariam em enfiar a faca<br \/>\nnas entranhas do pr\u00f3ximo. As luzes deixam sombras nos cantos sujos.<br \/>\nNo momento em que entramos, o m\u00e9dium, em chinelas, \u00e9 presa de<br \/>\num tremor convulso. Diante do estrado, uma portuguesa, com o olhar de gazela<br \/>\nassustada na face velut\u00ednea, espera. A pobre casou, o marido deu para<br \/>\nbeber e, desgra\u00e7a da vida! bate-lhe de manh\u00e3, \u00e0 noite,<br \/>\ndeixa-a derreada.<\/p>\n<p>\u00c9 a m\u00e3e dessa mulher que est\u00e1 dentro do m\u00e9dium.<br \/>\nTodos tremem, de olhos arregalados.<\/p>\n<p>De repente, o m\u00e9dium estarrece e por tr\u00e1s dos seus dentes,<br \/>\nouve-se uma voz de palha\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; Como est\u00e1s, minha filha, vais bem?<\/p>\n<p>&#8211; A m\u00e3e! A m\u00e3e! &#8211; murmura a portuguesita infeliz, aterrada,<br \/>\nem meio o palpitante sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Que deve fazer sua filha? &#8211; pergunta o evocador.<\/p>\n<p>&#8211; Ter confian\u00e7a em Deus. Eu devia estar no inferno. A misordia perdoou<br \/>\na m\u00e3e dela. Toda a desgra\u00e7a vem de um bruxedo que puseram na<br \/>\nsoleira da porta.<\/p>\n<p>&#8211; Quem foi? &#8211; faz a portuguesa, numa voz de medo.<\/p>\n<p>&#8211; Uma mulata escura que gosta do seu homem. Ele vai ficar bom. D\u00ea-lhe<br \/>\no rem\u00e9dio que eu receitar e crave um punhal no travesseiro tr\u00eas<br \/>\nnoites a fio.<\/p>\n<p>Um homem magro, parecido com o general Quintino, faz uns passes; o m\u00e9dium<br \/>\nvolta a si num sorriso imbecil.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 satisfeita? &#8211; pergunta o espertalh\u00e3o dos passes.<\/p>\n<p>&#8211; A m\u00e3e! a pobre da m\u00e3e t\u00e3o boa! A portuguesa rebenta<br \/>\nnum choro convulso; uma negra epil\u00e9tica, velha, esqu\u00e1lida, come\u00e7a<br \/>\na gritar numa crise tremenda, enquanto o homem magro brada:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 com o esp\u00edrito mau! Est\u00e1 mesmo!<\/p>\n<p>Essas cenas sinistras s\u00e3o compensadas por outras mais alegres. Num<br \/>\ndos nossos bairros, o m\u00e9dium d\u00e1 sess\u00f5es de manh\u00e3,<br \/>\nevoca os esp\u00edritos para saber qual \u00e9 o bicho que ganha e, como<br \/>\n\u00e9 vidente, v\u00ea os esp\u00edritos com formas de animais.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o burro, \u00e9 o burro! &#8211; grita em estado sonamb\u00falico,<br \/>\ne a rodinha toda joga no burro.<\/p>\n<p>No Andara\u00ed Grande o curandeiro \u00e9 divertido e bailarino. Em<br \/>\nv\u00e9speras de S. Jo\u00e3o d\u00e1 um br\u00f3dio de estalo com<br \/>\nceia copiosa e vinha\u00e7a de primeira. Este tem a especialidade das mulheres<br \/>\nbaratas. A rua de S. Jorge, a da Concei\u00e7\u00e3o, a do Senhor dos<br \/>\nPassos, a do Visconde de Ita\u00fana l\u00e1 extravasam a alma sentimental<br \/>\ndas meretrizes, dos soldados e dos rufi\u00f5es. O nosso homem cura tudo:<br \/>\ndartros, feridas m\u00e1s, constipa\u00e7\u00f5es, amores mal retribu\u00eddos,<br \/>\n\u00f3dios. \u00c9 fant\u00e1stico! As mulheres t\u00eam-lhe uma f\u00e9<br \/>\ndoida. O espiritismo para elas \u00e9 o milagre, a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos esp\u00edritos junto de um poder superior. Antes de ir \u00e0 consulta,<br \/>\najoelham no orat\u00f3rio e v\u00e3o com todos os seus bentinhos, as figas<br \/>\nde Guin\u00e9, o espanta mau-olhado das negras minas. Mas o cavalheiro do<br \/>\nAndara\u00ed \u00e9 sagrado. Toda essa f\u00e9 emana, dizem, de uma<br \/>\nsua predi\u00e7\u00e3o feliz. Uma mulher que voltava da Miseric\u00f3rdia<br \/>\nrecebeu por seu interm\u00e9dio comunica\u00e7\u00e3o de que seria honesta;<br \/>\ne tr\u00eas meses depois um homem s\u00e9rio levou-a. A suburra do Rio<br \/>\nvenera-o, freq\u00fcenta-lhe as festas e sustenta-o.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o infames. O lema do esp\u00edrita \u00e9: sem caridade n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Seja a caridade deles. Quando n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o isso, fazem das sess\u00f5es, como o Torterolli, sess\u00f5es<br \/>\nde orgia p\u00fablica&#8230; N\u00e3o posso mais!<\/p>\n<p>Afinal, naquela noite t\u00ednhamos resolvido acabar a travessia pelos<br \/>\nbas-fonds da cren\u00e7a, com a alma entristecida pela vis\u00e3o de salas<br \/>\nid\u00eanticas, onde o espiritismo substitu\u00eda a bisca, os esp\u00edritos<br \/>\nservem de feiticeiros e d\u00e3o rem\u00e9dios para pescar amantes; das<br \/>\nsalas que, como na rua de S. Diogo, mascaram as casas de quartos por hora.<br \/>\nA casa da rua transversal \u00e0 pra\u00e7a Onze seria a \u00faltima<br \/>\na visitar.<\/p>\n<p>&#8211; Entre &#8211; disse o meu amigo.<\/p>\n<p>Enfiamos por um corredor escuro, subimos. No patamar um bico de g\u00e1s<br \/>\nsilvava, batido pelo vento da rua.<\/p>\n<p>&#8211; Papai, dois homens &#8211; bradou uma voz de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Logo apareceu, em mangas de camisa, um mulato de bigodes compridos, que se<br \/>\ndesmanchou em riso e amabilidades para o meu companheiro.<\/p>\n<p>&#8211; A que devo as honras? &#8211; disse sibilando os ss.<\/p>\n<p>&#8211; As honras &#8211; como diz &#8211; deve-as ali ao irm\u00e3o. \u00c9 um simp\u00e1tico<br \/>\nque quer crer e anda, na d\u00favida, \u00e0 procura da verdade. Que diz<br \/>\nvoc\u00ea da verdade?<\/p>\n<p>&#8211; Verdade? Ora esta! Verdade \u00e9 o esp\u00edrito!<\/p>\n<p>&#8211; Bravo!<\/p>\n<p>Fomos entrando para a sala de jantar, com m\u00f3veis de vinh\u00e1tico<br \/>\ne garrafas por todos os aparadores.<\/p>\n<p>&#8211; Nem de prep\u00f3sito &#8211; fez o cabra. &#8211; O m\u00e9dium est\u00e1 ali<br \/>\nproseando com a gente.<\/p>\n<p>O m\u00e9dium \u00e9 um tipo de h\u00e9b\u00e8t\u00e9, de quase<br \/>\ncretino. Lourinho, de um louro de estopa, com a face cor de oca e as gengivas<br \/>\nsem dentes, \u00e9 carteiro de 2.\u00aa classe dos Correios. Tem a farda<br \/>\nsuja e a gravata de lado. Durante todo o tempo em que o mulato nos conta as<br \/>\nsuas curas, ele sopra monoss\u00edlabos e remexe a cabe\u00e7a, dolorosamente,<br \/>\ncomo se lhe estivessem enterrando alfinetes na nuca.<\/p>\n<p>Um mal-estar nos invade, como o an\u00fancio de uma grande desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 tipos que usam ervas para fingir que \u00e9 esp\u00edrito<br \/>\n&#8211; diz o curandeiro. &#8211; Eu n\u00e3o; c\u00e1 comigo \u00e9 a verdade.<br \/>\nUm desses oraras p\u00f5e noz-v\u00f4mica na \u00e1gua para os doentes<br \/>\nlan\u00e7arem e diz que \u00e9 o esp\u00edrito limpando l\u00e1 dentro.<br \/>\nPecado! Apre! Eu agora tenho um doentinho. Veio-lhe uma febre de queimar.<br \/>\nA m\u00e3e n\u00e3o tem quase dinheiro, mas n\u00e3o o gasta na farm\u00e1cia.<br \/>\nEu o curo logo&#8230;<\/p>\n<p>De repente parou. Pela escada subia um tropel, e uma mulher magra, l\u00edvida,<br \/>\naos solu\u00e7os, entrou na sala.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que h\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; O pequeno est\u00e1 mal, muito mal, revirando os olhos. Salve-mo! Salve-mo!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o tal que eu lhes dizia. N\u00e3o se assuste, D. Aninha. Eu<br \/>\nj\u00e1 lhe disse que o pequeno ficava bom; os esp\u00edritos querem.<br \/>\nE para n\u00f3s: venham ver.<\/p>\n<p>Levou-nos ao terra\u00e7o, ao fundo, mergulhou um litro vazio numa tina<br \/>\nde \u00e1gua, encheu-o, colocou-o em cima da mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Durma, Zez\u00e9, durma!<\/p>\n<p>E esfregou as m\u00e3os na cara do carteiro, subitamente em pranto. O homem<br \/>\nrevirava os olhos, sacudia a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o esp\u00edrito; veio, quer que seu filho fique bom&#8230; E de<br \/>\nrepente o diab\u00f3lico come\u00e7ou a estender as m\u00e3os do carteiro<br \/>\nchoroso ao gargalo do litro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1 vendo o esp\u00edrito entrar? Olhe&#8230; No litro<br \/>\ncheio bolhas de oxig\u00eanio subiam vagarosamente e a pobre mulher, agarrando<br \/>\na mesa, com os olhos j\u00e1 enxutos, seguia ansiada o milagre que lhe ia<br \/>\nsalvar o filho.<\/p>\n<p>De repente, por\u00e9m, uma voz estalou embaixo, na ventania:<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e! Mam\u00e3e! Depressa! Jo\u00e3ozinho est\u00e1 morrendo,<br \/>\nJo\u00e3ozinho morre!<\/p>\n<p>Essas palavras produziram um tal choque que n\u00f3s sa\u00edmos desvairados,<br \/>\nde rold\u00e3o, com o mulato e a mulher, sentindo um travor de morte nos<br \/>\nl\u00e1bios, angustiados, lembrando-nos dessa crian\u00e7a que a inconsci\u00eancia<br \/>\ndeixara morrer. E na ventania cortada de chuva, entre as variadas recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\ndessa vida de oito dias horrendos pelos antros escuros onde viceja o espiritismo<br \/>\nfalso, a vis\u00e3o dessa crian\u00e7a perseguia-nos cruciantemente, como<br \/>\no remorso de um grande e infinito mal.<\/p>\n<h4><a name=\"23\"><\/a>As Sinagogas<\/h4>\n<p>Ontem, 14 de Hadar de 1664, eu assisti \u00e0s cerim\u00f4nias do carnaval<br \/>\nnas sinagogas da Sion fluminense. O esperto Mardocheu, que tudo conseguira<br \/>\ncom a perfumada beleza de Ester, ao comunicar de Suza a sua luminosa vit\u00f3ria,<br \/>\nordenara para todo o sempre divers\u00f5es e alegria nesse dia. Os filhos<br \/>\nde Israel obedecem e, como a p\u00e1tria de Israel \u00e9 o mundo, nenhuma<br \/>\ncidade ainda sofreu por n\u00e3o festejar data t\u00e3o preciosa. No Rio,<br \/>\ntamb\u00e9m ontem, cerca de quatro mil fam\u00edlias divertiram, riram<br \/>\ne beberam. Divertiram com discri\u00e7\u00e3o, \u00e9 certo, beberam<br \/>\nsem viol\u00eancia, riram com calma, exatamente porque a gente do pa\u00eds<br \/>\nde Jud\u00e1 tem a tristeza nalma e a tenacidade na vida.<\/p>\n<p>As festas do peisan foram copiadas dos persas pelos romanos. Os povos modernos<br \/>\ncopiaram dos romanos, aumentando os dias de prazer e destruindo a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\ncultual da cerim\u00f4nia. Quem assistiu \u00e0 orgia continua dos batuques<br \/>\ncarnavalescos, talvez n\u00e3o possa compreender como cerca de dez mil judeus<br \/>\ncomemoram o 14 de Hadar, com tanta mod\u00e9stia e tanta corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses dez mil judeus divertiram-se, trocaram presentes, cantaram, ouviram<br \/>\nmais uma vez a hist\u00f3ria da linda Ester, lida pela hhas\u00e0n nos<br \/>\nsagrados livros, e cada um recolheu um momento o esp\u00edrito para pensar<br \/>\nem Mardocheu, no rei Assu\u00e9ro e na maneira por que 60 milh\u00f5es<br \/>\nde antepassados foram salvos da morte e do pat\u00edbulo.<\/p>\n<p>Entretanto, pela vasta cidade, ningu\u00e9m desconfiou que tanta gente<br \/>\ntivesse a alegria nalma.<\/p>\n<p>\u00c9 que os olhos de Israel s\u00e3o receosos, sempre curvados ao sopro<br \/>\ndas persegui\u00e7\u00f5es, sempre s\u00e1bios. Festejaram sem que ningu\u00e9m<br \/>\ndesse por tal&#8230;<\/p>\n<p>O Rio tem uma vasta col\u00f4nia semita ligada \u00e0 nossa vida econ\u00f4mica,<br \/>\npresa ao alto com\u00e9rcio, com diferentes classes sem rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nentre elas e diferentes ritos.<\/p>\n<p>H\u00e1 os judeus ricos, a col\u00f4nia densa dos judeus arm\u00eanios<br \/>\ne a parte ex\u00f3tica; a gente amb\u00edgua, os centros onde o lenoc\u00ednio,<br \/>\nmulheres da vida airada e caftens, cresce e aumenta; h\u00e1 israelitas<br \/>\nfranceses, quase todos da Als\u00e1cia Lorena; marroquinos, russos, ingleses,<br \/>\nturcos, \u00e1rabes, que se dividem em seitas diversas, e h\u00e1 os Asknenazi<br \/>\ncomuns na R\u00fassia, na Alemanha, na \u00c1ustria, os falachas da \u00c1frica,<br \/>\nos rabbanitas, os Karaitas, que s\u00f3 admitem o Antigo Testamento, os<br \/>\narg\u00f4nicos e muitos outros.<\/p>\n<p>Os semitas ricos n\u00e3o t\u00eam no Rio liga\u00e7\u00e3o com os<br \/>\nhumildes nem os protegem como em Paris e Londres os grandes banqueiros da<br \/>\nfor\u00e7a de Hirsch e dos Rottchilds. S\u00e3o todos negociantes, jogam<br \/>\nna Bolsa, veraneiam em Petr\u00f3polis, vestem-se bem.<\/p>\n<p>Muitos s\u00e3o joalheiros, com a arte de fazer brilhar mais as j\u00f3ias<br \/>\ne de serem am\u00e1veis. Franceses, ingleses, alem\u00e3es, o culto desses<br \/>\ncavalheiros apresent\u00e1veis e mundanos reveste-se de uma discri\u00e7\u00e3o<br \/>\nabsoluta. Uns praticam o culto \u00edntimo, outros n\u00e3o precisam do<br \/>\nhhasan e fazem juntos apenas as duas grandes cerim\u00f4nias: a Ion-Kipur<br \/>\nou dia das lamenta\u00e7\u00f5es e do perd\u00e3o, e o ano novo ou Rasch-Haschana.<\/p>\n<p>Algumas sinagogas j\u00e1 t\u00eam sido estabelecidas nas salas de pr\u00e9dios<br \/>\ncentrais para receber esses senhores. Atualmente n\u00e3o h\u00e1 nenhuma,<br \/>\nestando na Europa quem mais se preocupava com isso.<\/p>\n<p>As riquezas das na\u00e7\u00f5es est\u00e3o nas m\u00e3os dos judeus,<br \/>\nbrada o anti-semita Drumont, ao vociferar os seus artigos. A nossa tamb\u00e9m<br \/>\nest\u00e1, n\u00e3o por\u00e9m nas dos judeus daqui, que s\u00e3o<br \/>\napenas homens ricos bem instalados nos bancos e na vida.<\/p>\n<p>O outro meio, extraordinariamente numeroso, \u00e9 onde vicejam o v\u00edcio<br \/>\ne a inconsci\u00eancia, os rufi\u00f5es e as simples mulheres que fazem<br \/>\nprofiss\u00e3o do meretr\u00edcio. Essa gente vem em grandes levas da<br \/>\n\u00c1ustria, da R\u00fassia, de Marselha, de Buenos Aires, e habita na<br \/>\nmaior parte na pra\u00e7a Tiradentes, nas ruas Lu\u00eds de Cam\u00f5es,<br \/>\nTobias Barreto, Sete de Setembro, Esp\u00edrito Santo, Senhor dos Passos<br \/>\ne nas ruelas transversais \u00e0 rua da Constitui\u00e7\u00e3o. Comem<br \/>\nquase todas numas pens\u00f5es especiais dessas ruas equivocas, pens\u00f5es<br \/>\nsujas em que se re\u00fanem homens e mulheres discutindo, bradando, gritando.<br \/>\nO alarido \u00e9 \u00e0s vezes infernal, porque, quase sempre numa briga<br \/>\nde casal, ela explorada por ele, todos interv\u00eam, d\u00e3o raz\u00e3o,<br \/>\nestabelecem contendas. Nestas casas guardam n\u00e3o raro uma sala para<br \/>\ncostura e outra destinada \u00e0 sinagoga.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais mulheres do que homens. Os homens s\u00e3o inteligentes,<br \/>\nespertos, sabem e explicam com clareza, as mulheres s\u00e3o profundamente<br \/>\nignorantes da pr\u00f3pria cren\u00e7a. Quase nenhuma sabe a data exata<br \/>\ndas festas, a sua dura\u00e7\u00e3o, a sua raz\u00e3o de ser. \u00c9<br \/>\ninteressante interrog\u00e1-las, gastar algumas horas visitando as alfurjas<br \/>\napartadas desta babel americana.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o vai \u00e0 sinagoga?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! aqui n\u00e3o h\u00e1 nada direito; em Buenos Aires sim.<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc\u00ea vai sempre a estas reuni\u00f5es?<\/p>\n<p>&#8211; Vou. Ent\u00e3o podia deixar de ir?<\/p>\n<p>&#8211; Por que vai?<\/p>\n<p>&#8211; Porque tenho que ir. Quando saio de casa, deixo uma vela acesa.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 costume.<\/p>\n<p>&#8211; A festa do ano novo quantos dias dura?<\/p>\n<p>Uma nos diz tr\u00eas dias, outra oito, outras respondem vagamente. Entretanto,<br \/>\nrussas, inglesas, francesas fazem quest\u00e3o de se dizer judias e obedecem<br \/>\n\u00e1 f\u00e9. No dia do Kipur, ou dia do perd\u00e3o, do arrependimento<br \/>\ne das lamenta\u00e7\u00f5es, fecham-se os prost\u00edbulos, todas elas<br \/>\nv\u00e3o \u00e0s sinagogas improvisadas solu\u00e7ar os pecados do ano<br \/>\ninteiro, os pecados sem conta. \u00c0s 4 da tarde fazem uma refei\u00e7\u00e3o<br \/>\nsem p\u00e3o, sem carne e desde que no c\u00e9u palpita a primeira estrela,<br \/>\nat\u00e9 ao outro dia, quando de novo L\u00facifer brilha, n\u00e3o<br \/>\nse alimentam mais, limpas de todos os desejos e de todas as necessidades humanas.<\/p>\n<p>Estes judeus re\u00fanem-se em qualquer parte, o mais letrado l\u00ea<br \/>\na hist\u00f3ria no t\u00f3pico necess\u00e1rio, e choram e riem ou cantam,<br \/>\nconforme \u00e9 necess\u00e1rio, crentes ignorantes. As sinagogas ambulantes<br \/>\nest\u00e3o cada ano numa rua. As \u00faltimas reuni\u00f5es deram-se<br \/>\nna rua do Esp\u00edrito Santo, na rua da Constitui\u00e7\u00e3o, e na<br \/>\nrua do Hosp\u00edcio. \u00c9 chefe do culto, dirigindo os convites e organizando<br \/>\nas festas, uma meretriz, a Norma, que ultimamente introduziu no Rio o ent\u00f4lage,<br \/>\no roubo aos fregueses.<\/p>\n<p>A outra sociedade, a mais densa, \u00e9 a dos arm\u00eanios e dos marroquinos.<br \/>\nEssa fez-se de grandes levas de imigra\u00e7\u00e3o para o amanho de terra,<br \/>\nem que o Brasil gastou muito dinheiro. Os agentes em Gibraltar aceitavam n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 fam\u00edlias como homens solteiros. As col\u00f4nias n\u00e3o<br \/>\nderam resultados; no Igua\u00e7u os colonos fugiam aos poucos, e em outros<br \/>\nlugares foi imposs\u00edvel estabelec\u00ea-los, porque o povo at\u00e9<br \/>\nos julgava com chifres de luz como Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>Os judeus \u00e1rabes apareceram por aqui na mis\u00e9ria, mas aos poucos,<br \/>\npela pr\u00f3pria energia, tomaram o com\u00e9rcio ambulante, viraram<br \/>\ncamelots, montaram armarinhos e acabaram prosperando. H\u00e1 ruas inteiras<br \/>\nocupadas por eles, naturalmente ligados aos turcos maometanos, aos gregos<br \/>\ncism\u00e1ticos e a outras religi\u00f5es e ritos degenerados, que pululam<br \/>\nnos quarteir\u00f5es centrais.<\/p>\n<p>Nas levas de imigrantes vieram homens inteligentes e cultos. O hhasan David<br \/>\nHornstein \u00e9 um exemplo. Esse homem cursou doze anos a Universidade<br \/>\nTalm\u00fadica, \u00e9 poliglota, professor, correspondente de v\u00e1rios<br \/>\njornais escritos em hebreu e rabino diplomado da religi\u00e3o judaica.<br \/>\nDavid estava na Palestina, na col\u00f4nia Rishon l&#8217;Sion, uma esp\u00e9cie<br \/>\nde companhia que o falecido bar\u00e3o B. Rothschild instalara em terrenos<br \/>\ncomprados ao sult\u00e3o, com grande \u00f3dio dos bedu\u00ednos. Nessa<br \/>\ncol\u00f4nia havia m\u00e9dicos, advogados, russos niilistas. O resultado<br \/>\nfoi a subleva\u00e7\u00e3o, que o am\u00e1vel bar\u00e3o, depois da<br \/>\nmorte do administrador, acabou, dispersando-os amotinados. Vinte e dois desses<br \/>\nhomens, entre os quais David e o erudito Kulek\u00f3f, que acabou rico em<br \/>\nS\u00e3o Paulo, partiram para Beirute, depois para Paris. Hirsch deu-lhe<br \/>\n500 francos, fazendo um discurso camar\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os judeus revolucion\u00e1rios foram para Gibraltar e a\u00ed embarcaram<br \/>\npara o Brasil. Todos acabaram com fortuna, menos o rabino, que ficou ensinando<br \/>\nl\u00ednguas, porque o sacerdote judeu n\u00e3o vive do seu culto.<\/p>\n<p>E esta parte densa da col\u00f4nia judaica que tem duas sinagogas est\u00e1veis,<br \/>\numa na rua Lu\u00eds de Cam\u00f5es, 59 e outra na rua da Alf\u00e2ndega,<br \/>\n369.<\/p>\n<p>A sinagoga da rua Luis de Cam\u00f5es \u00e9 do rito arg\u00f4nico.<br \/>\nEntra-se num corredor sujo, onde crian\u00e7as brincam. Aos fundos fica<br \/>\na resid\u00eancia da fam\u00edlia. Na sala da frente est\u00e1 o templo,<br \/>\nque quase sempre tem camas e redes por todos os lados.<\/p>\n<p>As t\u00e1buas de Mois\u00e9s negrejam na parede; a um canto est\u00e1<br \/>\no altar, e na extremidade oposta fica a arca onde se guarda a sagrada hist\u00f3ria,<br \/>\nresumo de toda a ci\u00eancia universal, escrita em pele de carneiro e enrolada<br \/>\nem formid\u00e1veis rolos de carvalho. S\u00f3 nos dias solenes se transforma<br \/>\no templo. David Hornstein faz as cerim\u00f4nias no meio da sala, no altar,<br \/>\nenvolto na sua t\u00fanica branca riscada nas extremidades de vivos negros,<br \/>\ncom um gorro de veludo enterrado na cabe\u00e7a. Muito m\u00edope, o hhasan<br \/>\n\u00e9 acompanhado por tr\u00eas pequenos que entoam o coro.<\/p>\n<p>No altar David retira a capa de veludo roxo dos rolos, abre-os da esquerda<br \/>\npara a direita. Ao lado guiam-lhe a leitura com uma m\u00e3o de prata. A\u00ed,<br \/>\nim\u00f3vel, sem se mexer, faz a ora\u00e7\u00e3o secreta para que Deus<br \/>\no atenda e o perdoe de ser enviado e ousar rogar pelo seu povo.<\/p>\n<p>Jeov\u00e1 naturalmente atende e perdoa. O hhasan infatig\u00e1vel j\u00e1<br \/>\ntem desenhado cento e cinq\u00fcenta sepulturas, j\u00e1 praticou a circuncis\u00e3o<br \/>\nem cerca de setecentos pequenos, j\u00e1 batizou, mergulhando em tr\u00eas<br \/>\nbanhos consecutivos, muitas meninas, j\u00e1 casou muitos judeus e prospera<br \/>\nfalando dos nossos pol\u00edticos e citando os deputados com familiaridade.<\/p>\n<p>A sinagoga da rua da Alf\u00e2ndega \u00e9 muito mais interessante. Ocupa<br \/>\ntodo o sobrado do pr\u00e9dio 363, que \u00e9 vulgar e acanhado, como<br \/>\nem geral os do fim daquela rua. Sobe-se uma escada \u00edngreme, d\u00e1-se<br \/>\nnum corredor que tem na parede as t\u00e1buas de Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>A\u00ed vive outro Mois\u00e9s, o hhasan, com uma face espanhola e um<br \/>\nar bondoso. Na sala de jantar est\u00e3o as paredes ornadas de s\u00edmbolos,<br \/>\nrepresentando as doze tribos de Jud\u00e1, e a\u00ed passam Mois\u00e9s,<br \/>\nela de len\u00e7o na cabe\u00e7a, ele com um chap\u00e9u de palha velho.<\/p>\n<p>A sala da frente \u00e9 destinada \u00e0s cerim\u00f4nias. Quase n\u00e3o<br \/>\nse pode a gente mover, t\u00e3o cheia est\u00e1 de bancos. No meio colocam<br \/>\no altar de vinh\u00e1tico envernizado, em que o hhasan fica de p\u00e9<br \/>\nlendo ou cantando.<\/p>\n<p>Nas paredes apenas as t\u00e1buas, ao fundo a arca com cortinas de seda,<br \/>\nonde se guarda o sagrado livro. Do teto pendem presos de correntes brancas<br \/>\nvasos de vidros, cheios de \u00e1gua onde 1amparinas colossais queimam crepitando.<br \/>\nSobre o altar desce o lustre de cristal, chispando luzes nos seus m\u00faltiplos<br \/>\npingentes. Al\u00e9m de Mois\u00e9s, h\u00e1 outro sacerdote, Salom\u00e3o,<br \/>\nt\u00e3o devoto, que \u00e9 o hhassidim&#8230;<\/p>\n<p>Foi nesta sinagoga, indicada por um negro falacha, cuja origem vem dos tempos<br \/>\nde Salom\u00e3o e da rainha de Sab\u00e1, que eu assisti ao peisan.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! eles s\u00e3o bons e se protegem uns aos outros &#8211; dizia o negro assombroso.<br \/>\n&#8211; A vida do judeu pobre \u00e9 a do pouco comer, do pouco gozar, do muito<br \/>\nsofrer. Agora, fizeram a Irmandade de Prote\u00e7\u00e3o Israelita.<\/p>\n<p>Eu olhava a turba colorida, a s\u00e9rie de perfis ex\u00f3ticos, de<br \/>\ncaras espanholas e \u00e1rabes, de olhos luminosos brilhando \u00e0 luz<br \/>\ndos lampad\u00e1rios. Havia gente morena, gente clara; mulheres vestidas<br \/>\n\u00e0 moda hebraica de t\u00fanica e alpercata, mostrando os p\u00e9s,<br \/>\nhomens de chap\u00e9us enterrados na cabe\u00e7a, caras femininas de len\u00e7o<br \/>\namarrado na testa e crian\u00e7as lindas. O hhasan, paramentado, lia solenemente<br \/>\ne toda aquela esquisita ilumina\u00e7\u00e3o de baldes de vidro, fazendo<br \/>\nhalos de luz e mergulhando na \u00e1gua transl\u00facida as mechas das<br \/>\nlamparinas, aquele lustre, onde as luzes ardiam, eram como uma vis\u00e3o<br \/>\nde sonho estranho.<\/p>\n<p>Enquanto o hhasan lia, com os p\u00e9s juntos, sem mover sequer os olhos,<br \/>\ncom uma voz \u00e1cida tremendo no ar, todos tinham nas faces sorrisos de<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As cidades ser\u00e3o destru\u00eddas a ferro e fogo se n\u00e3o festejarem<br \/>\neste dia no m\u00eas de Hadar. N\u00f3s festejamos. E diante das l\u00e2mpadas,<br \/>\npara aquele punhado de judeus, a hist\u00f3ria desenrolava a maravilha de<br \/>\nAssuero, que reinou desde a \u00cdndia at\u00e9 \u00e0 Eti\u00f3pia<br \/>\nsobre cento e vinte cidades. Era Suza, a capital maravilhosa, Ester suave<br \/>\ne c\u00e2ndida, substituindo a rainha Vashi, Mardocheu sentado \u00e0 porta<br \/>\ndo templo sem adorar Aman, a quem Assuero tudo dava, Aman for\u00e7ado a<br \/>\nlevar Mardocheu em triunfo, tudo por causa de uma mulher tr\u00eamula e t\u00edmida,<br \/>\nque desmaiava, salvando 60 milh\u00f5es de judeus e mandava matar quinhentos<br \/>\ninimigos, pedindo concess\u00f5es id\u00eanticas para as prov\u00edncias.<\/p>\n<p>Era a data dessa matan\u00e7a; festejava-se o dia em que Aman foi para<br \/>\no pat\u00edbulo que preparara para Mardocheu, e o momento em que se espatifara<br \/>\nArisai Frasandata, Delfon, Ebata, Forata, Adalia, Aridata, Fermesta, Aridai<br \/>\ne Jerata.<\/p>\n<p>Mas daquele livro sagrado, entre aquelas ilumina\u00e7\u00f5es, a f\u00e9<br \/>\ndestilava a suprema del\u00edcia. Era como se cada palavra recordasse os<br \/>\nbanquetes dados aos pr\u00edncipes nos \u00e1trios do pal\u00e1cio ornado<br \/>\nde pavilh\u00f5es da cor do c\u00e9u da cor do jacinto e da cor da a\u00e7ucena;<br \/>\nera como se cada per\u00edodo abrisse a vis\u00e3o das colunas de m\u00e1rmore,<br \/>\ndos leitos de prata e ouro e dos pavimentos embutidos, onde esmeraldas rolavam&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s est\u00e1vamos apenas numa sala estreita que fingia de sinagoga,<br \/>\nno fim da rua da Alf\u00e2ndega.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: No Mundo dos Feiti\u00e7os As Iau\u00f4 O Feiti\u00e7o A Casa das Almas Os Feiti\u00e7os de Sanin A Igreja Positivista Os Maronitas Os Fisi\u00f3latras A Igreja Fluminense A Igreja Presbiteriana A Igreja Metodista Os Batistas&nbsp; A A.C.M. 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