{"id":100763,"date":"2017-02-02T10:40:27","date_gmt":"2017-02-02T12:40:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=100763"},"modified":"2017-02-14T10:38:50","modified_gmt":"2017-02-14T12:38:50","slug":"a-bela-madame-vargas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-bela-madame-vargas","title":{"rendered":"A Bela Madame Vargas"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Jo\u00e3o do Rio<\/h4>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>Primeiro Ato<\/h4>\n<p>O espl\u00eandido terra\u00e7o da vila de Mme. Vargas. \u00c1 direita,<br \/>\navan\u00e7ando sobre o terra\u00e7o entre grinaldas de rosas e trepadeiras<br \/>\nfloridas, a fachada da linda casa, com varanda e escadaria. Para essa varanda<br \/>\nd\u00e3o a larga janela e a porta do sal\u00e3o de m\u00fasica. No fundo<br \/>\nbalaustrada de m\u00e1rmore. Do terra\u00e7o domina-se um maravilhoso<br \/>\npanorama de florestas, deslizando para a ba\u00eda em baixo, ao fundo. Em<br \/>\nbaixo os jardins do palacete.<br \/>\nEntretanto, s\u00e3o cinco horas de um dia de inverno e h\u00e1 nesse<br \/>\nterra\u00e7o um ch\u00e1 ao ar livre. As pequenas mesas j\u00e1 est\u00e3o<br \/>\ndispostas, com gosto e com muitas flores. Os criados d\u00e3o os \u00faltimos<br \/>\ncuidados a organiza\u00e7\u00e3o geral. Ouve-se no sal\u00e3o de m\u00fasica<br \/>\nrisos, e peda\u00e7os de uma can\u00e7oneta parisiense. Quando abre o<br \/>\npano est\u00e3o em cena de casaca, a arrumar as mesas Ant\u00f4nio e Braz.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio &#8211; A id\u00e9ia de tomarem ch\u00e1 no terra\u00e7o c&#8217;est<br \/>\ntr\u00eas bien.<br \/>\nBraz &#8211; Pois sim. Desde que te d\u00eaem ares e haja palavras estrangeiras,<br \/>\nficas satisfeito. Eu \u00e9 que n\u00e3o. Estou aqui, estou a deixar isto.<br \/>\nOlha que \u00e9 trabalho. Ch\u00e1 no sal\u00e3o, ch\u00e1 nos quartos,<br \/>\nch\u00e1 no terra\u00e7o, ch\u00e1 em toda a parte, ch\u00e1 a toda<br \/>\nhora&#8230;<br \/>\nAnt\u00f4nio &#8211; \u00c9 a civiliza\u00e7\u00e3o, rapaz&#8230;<br \/>\nBraz &#8211; Mas de dinheiro, nem cheta. Preferia menos ch\u00e1 e mais massa.<br \/>\nTu a olhar-me com esses modos superiores. N\u00e3o sou eu s\u00f3. Na<br \/>\ncopa todos se queixam.<br \/>\nAnt\u00f4nio &#8211; Mas ficam?<br \/>\nBraz &#8211; A ver se recebem&#8230;<br \/>\nAnt\u00f4nio &#8211; C&#8217;est tr\u00e8s bien. As casas assim, ainda n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nas melhores. De repente vem o dinheiro. Olha, eu enquanto houver tapetes,<br \/>\nm\u00fasica, ch\u00e1, comedorias &#8211; vou esperando. \u00c7a me v\u00e1.<br \/>\nNasci para o luxo.<br \/>\nBraz &#8211; Palerma!<br \/>\nNeste momento aparece no alto da escada, vindo do sal\u00e3o de m\u00fasica,<br \/>\nD. Maria Miraflor.<br \/>\nD. Maria &#8211; Ent\u00e3o, meus rapazes. Tudo bem?<br \/>\nAnt\u00f4nio &#8211; Como V. Exa. v\u00ea muito bem. O homem das flores \u00e9<br \/>\nque n\u00e3o as queria deixar.<br \/>\nD. Maria &#8211; Muda aquela mesa para o canto. Mas deixou?<br \/>\nAnt\u00f4nio &#8211; Assim? Deixou. Prometi ir logo l\u00e1.<br \/>\nD. Maria &#8211; Braz, arranja o samovar.<br \/>\nBraz &#8211; Que samovar?<br \/>\nD. Maria &#8211; O aparelho de ch\u00e1. Digo-lhe todos os dias a mesma coisa.<br \/>\nAinda n\u00e3o sabe?<br \/>\nBraz &#8211; E eu tamb\u00e9m, senhora D. Maria, digo-lhe todos os dias o mesmo<br \/>\nsem ser atendido.<br \/>\nD. Maria &#8211; Braz, que \u00e9 isso? Comigo? V\u00e1, olhe que sou eu&#8230;<br \/>\nBraz parece resignar-se.<br \/>\nDe resto, chega nervoso e alacre Carlos Vilar.<br \/>\nCarlos &#8211; Boa tarde.<br \/>\nD. Maria &#8211; Oh! Carlos&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Muito ocupada?<br \/>\nD. Maria &#8211; Dando os \u00faltimos toques ao ch\u00e1.<br \/>\nCarlos &#8211; Sala cheia, n\u00e3o?<br \/>\nD. Maria &#8211; Os de costume.<br \/>\nCarlos &#8211; Parece estar contrariada.<br \/>\nD. Maria &#8211; Quem sabe?<br \/>\nCarlos &#8211; Comigo?<br \/>\nD. Maria &#8211; Ainda ontem no L\u00edrico voc\u00ea parecia um detetive americano,<br \/>\nsempre de bin\u00f3culo a varejar o nosso camarote. Por que faz isso?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o tinha raz\u00e3o?<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o tinha o direito. S\u00e3o coisas t\u00e3o diferentes<br \/>\na raz\u00e3o e o direito, que o direito foi feito para dar raz\u00e3o<br \/>\na quem n\u00e3o a tem. Voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 tem direito, como<br \/>\nn\u00e3o tem raz\u00e3o, nem ju\u00edzo.<br \/>\nCarlos &#8211; M\u00e1.<br \/>\nD. Maria &#8211; Conhe\u00e7o-o muito bem.<br \/>\nCarlos &#8211; Oh! D. Maria, seja minha amiga. Sinto qualquer coisa que parece me<br \/>\nanunciar uma grande transforma\u00e7\u00e3o das coisas.<br \/>\nD. Maria &#8211; E o mundo que vai acabar.<br \/>\nCarlos (pensativo) &#8211; Quem sabe?<br \/>\nD. Maria &#8211; Apenas comigo esses ares s\u00e3o menos \u00fateis. Seria muito<br \/>\nmelhor que n\u00e3o tivesse o desejo de prejudicar os outros.<br \/>\nCarlos &#8211; Est\u00e1 insuport\u00e1vel!<br \/>\nD. Maria &#8211; E voc\u00ea ent\u00e3o!<br \/>\nOs risos no jardim interrompem o di\u00e1logo. Entram Julieta Gomes, Carlota<br \/>\nPais, Gast\u00e3o Buarque, en coup de vent.<br \/>\nD. Maria &#8211; Sejam bem-vindos os retardat\u00e1rios!<br \/>\nJulieta &#8211; J\u00e1 acabou o ch\u00e1?<br \/>\nCarlota Pais &#8211; Good evening! N\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m?<br \/>\nD. Maria &#8211; Como voc\u00eas v\u00eam!<br \/>\nJulieta &#8211; Oh! Uma corrida louca pela montanha. O autom\u00f3vel do Gast\u00e3o<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o doido como o dono!<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Fala de prazer.<br \/>\nCarlota &#8211; Devo estar descabelada, pois n\u00e3o?<br \/>\nCarlos &#8211; Est\u00e1 ainda mais bonita!<br \/>\nCarlota &#8211; Obrigada. Sempre am\u00e1vel.<br \/>\nD. Maria &#8211; Todos no sal\u00e3o de m\u00fasica, jogando o puzzle.<br \/>\nCarlota &#8211; Vamos ver isso. (Sobe a escada e sai)<br \/>\nD. Maria &#8211; E h\u00e1 tamb\u00e9m a Baby ensaiando o Elle \u00e9tait<br \/>\nsouriante.<br \/>\nCarlos &#8211; Entremos. A Baby ensaiando! Deve estar aflita para que a interrompam.<br \/>\nO grupo sai subindo a escada. H\u00e1 risos.<br \/>\nDepois palmas. A can\u00e7oneta continua dentro. E no terra\u00e7o um<br \/>\nmomento deserto aparecem o Bar\u00e3o Andr\u00e9 de Belfort, Jos\u00e9<br \/>\nFerreira.<br \/>\nBelfort &#8211; Chegamos no melhor momento, meu caro Jos\u00e9. As mesas de bridge,<br \/>\nj\u00e1 devem estar organizadas e n\u00e3o falta ningu\u00e9m. Nas recep\u00e7\u00f5es<br \/>\ncariocas s\u00f3 \u00e9 prudente entrar quando a dona da casa j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o precisa de parceiros para o bridge, nem de figuras para os flertes.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Oh! Bar\u00e3o, recep\u00e7\u00f5es! Que grande palavra<br \/>\npara um ch\u00e1 simples, na mais simples intimidade;<br \/>\nBelfort &#8211; Mas onde viu voc\u00ea uma festa no Rio que n\u00e3o fosse \u00edntima?<br \/>\nComo somos sempre os mesmos, ainda n\u00e3o fomos apresentados e j\u00e1<br \/>\nnos conhecemos intimamente. Mesmo um grande baile \u00e9 uma festa \u00edntima.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Maldizente!<br \/>\nBelfort &#8211; De resto, vamos assim muito bem. A \u00fanica intimidade poss\u00edvel<br \/>\nhoje em dia \u00e9 fingir que sabemos da vida alheia. Com os amigos escapamos<br \/>\nde logros e com os indiferentes nada h\u00e1 que melhor nos coloque. A maioria<br \/>\ndas pessoas a quem cumprimento n\u00e3o me foi apresentada. Acontece a muitos<br \/>\no mesmo. E \u00e9 espl\u00eandido. Um homem que trata toda a gente de voc\u00ea<br \/>\ne pergunta pela fam\u00edlia dos desconhecidos \u00e9 um tremendo valor.<br \/>\nPor isso n\u00f3s nos tratamos todos por voc\u00ea.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; \u00c9 o que se chama exagerar.<br \/>\nBelfort &#8211; O exagero \u00e9 a personalidade da observa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Quando a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de um esp\u00edrito<br \/>\nt\u00e3o superior&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Jovem lisonjeiro!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Se entr\u00e1ssemos?<br \/>\nBelfort (sentando-se) &#8211; um minuto ainda. Mas que orgia floral, que encanto!<br \/>\nEstamos de fato muito bem. Decididamente Hort\u00eancia tem gosto.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Perd\u00e3o&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Hort\u00eancia ou a tia.<br \/>\nJos\u00e9 (acentuando) &#8211; Mme. Vargas tem de fato muito chic.<br \/>\nBelfort (encara-o um segundo) &#8211; Qu\u00ea? Ent\u00e3o \u00e9 verdade?<br \/>\nO meu jovem amigo est\u00e1 apaixonado?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Oh! Bar\u00e3o! Tamb\u00e9m?<br \/>\nBelfort &#8211; Perd\u00e3o. N\u00e3o quero com isso ofender ningu\u00e9m.<br \/>\nMas conhe\u00e7o Hort\u00eancia h\u00e1 largos anos e vejo-a sempre vitima<br \/>\nde paix\u00f5es. (Gesto de Jos\u00e9) V\u00edtima \u00e9 o termo,<br \/>\nporque as recebeu sempre com a mais glacial indiferen\u00e7a.<br \/>\nJos\u00e9 (alegre) &#8211; Com efeito?<br \/>\nBelfort &#8211; Talvez por isso seja levado a estim\u00e1-la mais, como quem a<br \/>\ndefende. N\u00e3o tem culpa a probezinha de causar paix\u00f5es. Mas quanto<br \/>\nmais g\u00e9lida se faz, mais amores.<br \/>\nProvoca Amores? N\u00e3o s\u00e3o amores, s\u00e3o loucuras. J\u00e1<br \/>\nlhe contaram que antes de casar com o Vargas, Hort\u00eancia foi a causa<br \/>\nde duas mortes?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Duas?<br \/>\nBelfort &#8211; A do estudante Theot\u00f4nio Rodrigues, que se precipitou de um<br \/>\npedreira, e a do velho conselheiro Gomide, que tomou lisol.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas o conselheiro n\u00e3o morreu.<br \/>\nBelfort &#8211; Acha voc\u00ea que um conselheiro, mesmo n\u00e3o morrendo, possa<br \/>\nsobreviver a um suic\u00eddio por lisol? O enterro \u00e9 no caso um ep\u00edlogo<br \/>\nsem import\u00e2ncia &#8211; como ali\u00e1s todos os enterros.<br \/>\nJos\u00e9 (rindo) &#8211; Pelo menos para os que s\u00e3o enterrados.<br \/>\nBelfort (continuando, tom de narrativa) &#8211; A terceira morte de Hort\u00eancia<br \/>\nfoi causa involunt\u00e1ria&#8230;<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Qu\u00ea? Mais uma?<br \/>\nBelfort &#8211; Aquela da qual ningu\u00e9m fala. o casamento.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; O bar\u00e3o est\u00e1 sempre a brincar.<br \/>\nBelfort &#8211; O fato \u00e9 que Hort\u00eancia nunca amou o marido. Creio que<br \/>\no pobre Vargas partiu para o outro mundo, descor\u00e7oado de realizar o<br \/>\nimposs\u00edvel. Era o bastante? Parece que n\u00e3o. A epidemia sentimental<br \/>\ncontinua. Teremos mais algum desastre.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; E Hort\u00eancia a dizer-me que o senhor \u00e9 o seu melhor<br \/>\namigo!<br \/>\nBelfort &#8211; Hort\u00eancia \u00e9 inteligente, percebe que, sendo eu o \u00fanico<br \/>\na n\u00e3o lhe fazer declara\u00e7\u00f5es, devo ser o mais amigo.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Oh! Bar\u00e3o!<br \/>\nBelfort &#8211; Claro. J\u00e1 viu voc\u00ea desastre maior do que uma pessoa<br \/>\nque tem amor por outra? Quando n\u00e3o \u00e9 a desgra\u00e7a de ambos,<br \/>\n\u00e9 pelo menos o desastre de um.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Do que ama ou do que \u00e9 amado?<br \/>\nBelfort &#8211; Do que tiver menos sorte. Hort\u00eancia, por exemplo, \u00e9<br \/>\nsempre obrigada ao papel de V\u00eanus destruidora, numa \u00e9poca que<br \/>\n\u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da mitologia.<br \/>\nJos\u00e9 (grave) &#8211; Como o bar\u00e3o labora em erro. Hort\u00eancia<br \/>\n\u00e9 T\u00e3o boa?<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o digo ao contr\u00e1rio.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Deve saber melhor do que eu, que se ela casou, casou por conveni\u00eancia<br \/>\nde fam\u00edlia e soube apesar disso honrar o nome de seu marido. (Pausa)<br \/>\nBelfort &#8211; Como o sinto diferente, Jos\u00e9, desta sociedade!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Ela ent\u00e3o \u00e9 muito m\u00e1, para que me admire<br \/>\ntanto?<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o. Todas as sociedades s\u00e3o mais ou menos assim.<br \/>\nA \u00fanica sociedade sem perigo seria a da pr\u00f3pria pessoa, se n\u00e3o<br \/>\nacabasse por aborrecer, o que leva \u00e1s vezes ao suic\u00eddio. Acho-o<br \/>\ndiverso, entretanto, porque se abst\u00e9m das intrigas, das cal\u00fanias,<br \/>\ndo debinage &#8211; por esta larga for\u00e7a de afirmar&#8230;<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Cheguei h\u00e1 quatro meses apenas. Ainda n\u00e3o tive<br \/>\ntempo de ser mau.<br \/>\nBelfort &#8211; Porque n\u00e3o chegou todo ele sen\u00e3o para ver Hort\u00eancia.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Como n\u00e3o a compreendem! Hort\u00eancia \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npuro, meigo, capaz de amar.<br \/>\nBelfort &#8211; Muito bem!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Falo s\u00e9rio.<br \/>\nBelfort &#8211; Eu tamb\u00e9m. Quando me falam com tamanha solenidade, tenho<br \/>\na impress\u00e3o de que me vou aborrecer. Ent\u00e3o digo muito bem. Digo<br \/>\nmuito bem, para refletir no que as<br \/>\npalavras escondem. Ora, neste momento sou capaz de jurar que j\u00e1 declarou<br \/>\na sua paix\u00e3o e que ela foi bem recebida.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; De fato.<br \/>\nBelfort (retraindo-se) &#8211; Ah!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Parece-lhe extraordin\u00e1rio?<br \/>\nBelfort &#8211; S\u00f3 as coisas sem import\u00e2ncia s\u00e3o extraordin\u00e1rias.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; N\u00e3o sou como os outros, bar\u00e3o. H\u00e1 muito<br \/>\ntempo guardava em segredo o meu amor. S\u00f3 depois de pensar muito, declarei-me.<br \/>\nE quando pedi a m\u00e3o de Hort\u00eancia, ela estava comovida; o seu<br \/>\nolhar foi t\u00e3o profundo, que nunca mais esquecerei esse instante imenso.<br \/>\nBelfort &#8211; Pobre Hort\u00eancia!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; N\u00e3o acha que se enganava?<br \/>\nBelfort &#8211; O amor vem quando menos o esperamos. Para quando o casamento?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Espero hoje falar a minha m\u00e3e. Sou maior, formado como<br \/>\ntoda a gente, possuidor de uma fortuna n\u00e3o pequena. O casamento ser\u00e1<br \/>\nlogo que queira Hort\u00eancia. Procurarei ser apaixonado, mas amigo.<br \/>\nBelfort &#8211; Ser\u00e1 espantoso se realizar essas duas coisas contradit\u00f3rias<br \/>\n&#8211; ao mesmo tempo.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas bar\u00e3o, pe\u00e7o-lhe o maior sigilo. Uma frase<br \/>\ncomprometer-me-ia. Hort\u00eancia fez\u00adme jurar segredo. Quer partir.<br \/>\nQuer casar fora daqui. Tamb\u00e9m tem medo da sociedade em que vive. \u00c9<br \/>\nde um nervoso. Tem sofrido tanto!<br \/>\nBelfort &#8211; Acho que faz bem.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Em esconder um ato honesto?<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 que ela o julga por demais grave. Que v\u00ea o Jos\u00e9<br \/>\naqui, em redor do seu amor? Senhoras, meninas, rapazes, a rir e a fletar.<br \/>\nParecem-lhe inofensivos? S\u00e3o perigos\u00edssimos, feitos de desrespeito,<br \/>\nde invejas, de ego\u00edsmos. \u00c9 uma sociedade que se forma de aluvi\u00e3o<br \/>\nem torno do dinheiro, &#8211; que a maioria tem por hip\u00f3tese. H\u00e1 gente<br \/>\nrica hoje e amanh\u00e3 sem real continuando a viver como quem tem dinheiro;<br \/>\nh\u00e1 damas que ca\u00e7am o amante como quem ca\u00e7a borboletas<br \/>\ne meninas que ca\u00e7am maridos como quem ca\u00e7a a raposa. Os rapazes,<br \/>\nalguns parecem milion\u00e1rios, numa idade em que poderiam jogar a pelota,<br \/>\ne outros n\u00e3o tem profiss\u00e3o no momento em que e preciso trabalhar.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; E de que vivem?<br \/>\nBelfort- Os que parecem ricos?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Os outros.<br \/>\nBelfort &#8211; Do cr\u00e9dito dos que parecem ricos, do nome das fam\u00edlias,<br \/>\nda complac\u00eancia geral. S\u00e3o esses rapazes encantadores, bem lavados,<br \/>\nbem vestidos, bem perfumados, que n\u00e3o renunciam a nenhum prazer devem<br \/>\na todos, e cometeriam crimes para beber champanha nos clubes, fletar, ter<br \/>\namantes, gozar &#8211; se n\u00e3o tivessem medo ao c\u00f3digo. Toda essa gente<br \/>\nacumula despeitos contra os que encontram a felicidade. Hort\u00eancia defende-se<br \/>\ndo ataque h\u00e1 muito tempo, a espera do Lohengrin. Tape os ouvidos e<br \/>\nfujam.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; O senhor \u00e9 fulminante.<br \/>\nBelfort &#8211; Digo apenas o que todos sabem. Sou banal; (mudando de tom) &#8211; Mas<br \/>\nestas flores: As flores anunciam sempre o desejo que tem a gente de ser ou<br \/>\nparecer feliz. estas s\u00e3o mais denunciadoras que uma declara\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Entretanto, s\u00f3 agora percebeu.<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 que eu s\u00f3 compreendo logo o que n\u00e3o \u00e9<br \/>\nposs\u00edvel. Entremos, meu caro Jos\u00e9, a conversar com essas damas.<br \/>\nDo alto da escada aparece D. Maria. Ouve-se a can\u00e7oneta sem compasso.<\/p>\n<p>D. Maria &#8211; Oh! Aqui? Por que n\u00e3o entram?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Acabamos de chegar. (Apertos de m\u00e3o)<br \/>\nD. Maria &#8211; Bem?<br \/>\nBelfort &#8211; Pessimamente bem.<br \/>\nD. Maria &#8211; Fala da can\u00e7oneta ou da sua sa\u00fade?<br \/>\nBelfort &#8211; De ambas.<br \/>\nD. Maria &#8211; Pois perdeu em n\u00e3o entrar. Fizeram um puzzle tout a fait<br \/>\nr\u00e9ussi.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Quem acertou mais?<br \/>\nD. Maria &#8211; A Renata d&#8217;Azambuja. (Ao criado Braz que entra com o aparelho de<br \/>\nch\u00e1) &#8211; Ponha o samovar na mesa do centro. Bem. Leve os chap\u00e9us<br \/>\ndos senhores. (Braz executa as ordens e sai). \u00c9 preciso repetir todo<br \/>\no dia a mesma coisa. Os criados s\u00e3o cada vez menos inteligentes.<br \/>\nBelfort &#8211; A raz\u00e3o \u00e9 simples: os inteligentes mudaram de profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Maria &#8211; Deram em vagabundos?<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o, deram em patr\u00f5es. A profiss\u00e3o de patr\u00e3o<br \/>\nainda \u00e9 a menos desacreditada das profiss\u00f5es, mesmo quando n\u00e3o<br \/>\npaga. Um criado deve desejar o que parece mais s\u00e9rio.<br \/>\nD. Maria (Rindo) &#8211; Onde est\u00e1 o seu ju\u00edzo bar\u00e3o?<br \/>\nBelfort &#8211; No bolso, D. Maria. O ju\u00edzo traz a gente no bolso para n\u00e3o<br \/>\nincomodar os conhecidos.<br \/>\nD. Maria &#8211; Ent\u00e3o, pe\u00e7o-lhe que o mostre agora. Temos no ch\u00e1<br \/>\nmeninas e velhas rabugentas.<br \/>\nBelfort &#8211; Que me diz? E a senhora ainda n\u00e3o perdeu o seu ju\u00edzo<br \/>\nem t\u00e3o respeit\u00e1vel companhia?<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o perdi e vou cham\u00e1-las at\u00e9.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Parece n\u00e3o ser preciso.<br \/>\nDe fato. Entram Hort\u00eancia de Vargas, D. Eufrosina Gomensoro, Baby Gomensoro,<br \/>\nCarlota Pais, Julieta Gomes, Carlos Villar, Gast\u00e3o Buarque, deputado<\/p>\n<p>Guedes &#8211; Essas pessoas v\u00e3o entrando aos poucos, sa\u00eddas do sal\u00e3o,<br \/>\na conversar com anima\u00e7\u00e3o. apertos de m\u00e3o. Beija-m\u00e3o.<br \/>\nTrocam-se as primeiras frases, ao sentarem-se segundo as simpatias. Os dois<br \/>\ncriados fazem discretamente o servi\u00e7o. H\u00e1 nos gestos de Carlos<br \/>\nlima permanente inquieta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Como vai o meu caro amigo?<br \/>\nBelfort &#8211; Receoso de perturbar a bela companhia.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Ficamos de fora a ouvir.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Oh! Dr. Ferreira!<br \/>\nBelfort &#8211; O Jos\u00e9, a Maria e eu. Um quadro rom\u00e2ntico: a beira<br \/>\ndo pal\u00e1cio, na estrada deserta, a Mocidade, a Velhice e a Mulher ouviam<br \/>\na can\u00e7\u00e3o do prazer.<br \/>\nD. Maria &#8211; Neste caso a mulher \u00e9 tamb\u00e9m a velhice.<br \/>\nBelfort &#8211; Nunca. A mulher est\u00e1 sempre para aqu\u00e9m da idade.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Dr. Ferreira, bons olhos o vejam.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Minha senhora, encantado.<br \/>\nBaby &#8211; Ent\u00e3o ouviu a can\u00e7oneta?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Logo vi que n\u00e3o era a senhora.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Minha filha tem o mau vezo de cantar can\u00e7onetas.<br \/>\nJulieta &#8211; Que tem isso mal?<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; N\u00e3o foi a educa\u00e7\u00e3o que lhe dei. No meu<br \/>\ntempo as meninas n\u00e3o cantavam can\u00e7onetas.<br \/>\nBaby &#8211; E lucraram muito com isso!<br \/>\nCarlos &#8211; Eu gostei imenso! Tem at\u00e9 filosofia.<br \/>\nBaby &#8211; N\u00e3o minta. Imaginem que era o Fiorelli o acompanhador. Fiorelli<br \/>\ns\u00f3 gosta de acompanhar m\u00fasicas aborrecidas: a \u00e1ria do<br \/>\nsuic\u00eddio da Gioconda o dueto da Tosca. A cada passo atrapalhava-se.<br \/>\nRi todo o tempo.<br \/>\nDeputado Guedes &#8211; &#8211; Mademoiselle canta com grande express\u00e3o. Eu preferiria<br \/>\ncontudo que deixasse o g\u00eanero franc\u00eas.<br \/>\nBaby &#8211; Por que?<br \/>\nBelfort &#8211; Como havia de ser se ningu\u00e9m mais compreende o portugu\u00eas?<\/p>\n<p>Carlos &#8211; S\u00f3 se cantasse em ingl\u00eas.<br \/>\nDeputado Guedes &#8211; &#8211; Perd\u00e3o. apesar da invas\u00e3o das l\u00ednguas<br \/>\nestrangeiras ainda h\u00e1 muita gente que resiste.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Sou da mesma opini\u00e3o.<br \/>\nD. Maria &#8211; Mas que gente \u00e9 essa?<br \/>\nBelfort &#8211; Onde encontr\u00e1-la? Na C\u00e2mara, no Senado, na Academia?<br \/>\n(Risos, conversa).<br \/>\nMadame Vargas &#8211; (A Jos\u00e9, baixo) &#8211; Veio t\u00e3o tarde&#8230;<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; A tanta gente, hoje&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Que importam os outros?<br \/>\nJulieta &#8211; Com que ent\u00e3o teremos o deputado<br \/>\nGuedes &#8211; batendo-se a favor da l\u00edngua portuguesa na C\u00e2mara?<br \/>\nBelfort &#8211; Ser\u00e1 de certo o \u00fanico. Vai ser uma tremenda campanha.<br \/>\nOs seus colegas fazem o contr\u00e1rio: batem-se sem tr\u00e9guas contra<br \/>\na gram\u00e1tica. \u00c9 a luta no pr\u00f3prio reduto.<br \/>\nDeputado Guedes &#8212; Os senhores esquecem que eu sou apenas candidato ao reconhecimento.<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Mas foi eleito?<br \/>\nDeputado Guedes &#8211; &#8211; A elei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma formalidade sem import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Gast\u00e3o &#8211; Est\u00e1 enganado. No meu club e definitiva.<br \/>\nBelfort &#8211; Mas no club da pol\u00edtica depende do banqueiro.<br \/>\nCarlos &#8211; D. Maria&#8230;<br \/>\nD. Maria (baixo) &#8211; Deixe de olhar assim Hort\u00eancia!<br \/>\nCarlos &#8211; Eu?<br \/>\nD. Maria &#8211; Est\u00e1 a enegrecer uma vida digna de melhor sorte.<br \/>\nCarlos &#8211; Mas s\u00e3o todos contra mim!<br \/>\nD. Maria &#8211; A seu favor, Carlos. Que interesse tem em aborrecer Hort\u00eancia!<\/p>\n<p>Carlos &#8211; Veja como conversa com o riqu\u00edssimo Ferreira.<br \/>\nD. Maria &#8211; Voc\u00ea perde a cabe\u00e7a. N\u00e3o seja infantil.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Onde se senta?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sente-se do outro lado.<br \/>\nBelfort (olhando Gast\u00e3o cada vez mais magro) &#8211; Ent\u00e3o Gast\u00e3o,<br \/>\ncomo vamos de esporte?<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Cada vez melhor, senhor bar\u00e3o. N\u00e3o me viu domingo<br \/>\nno time de futebol?<br \/>\nBelfort &#8211; Francamente? \u00c9 extraordin\u00e1rio o que este esporte tem<br \/>\nfeito de bem aos rapazes. D\u00e1-me a apar\u00eancia de que n\u00e3o<br \/>\nfaz exerc\u00edcio.<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; As apar\u00eancias enganam.<br \/>\nBelfort &#8211; Talvez n\u00e3o&#8230; O exerc\u00edcio \u00e9 o esporte que se<br \/>\npratica para a pr\u00f3pria higiene. E o esporte \u00e9 o exerc\u00edcio<br \/>\nque se faz para dar que falar da gente. O senhor ao que parece s\u00f3 faz<br \/>\nesporte.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Se esporte \u00e9 isso, ent\u00e3o bar\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 quem n\u00e3o seja esportivo agora.<br \/>\nCarlos &#8211; Todos mais ou menos tocam para o poste do vencedor.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Eu gosto imenso de esporte.<br \/>\nBelfort &#8211; E faz algum?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Nenhum.<br \/>\nBelfort &#8211; Imagine o Gast\u00e3o se o imitasse com que corpo estaria.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Estes bolos s\u00e3o muitos bons. Como os faz D. Hort\u00eancia?<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Os bolos? Oh! isso \u00e9 com a tia Eufrosina.<br \/>\nD. Maria &#8211; Mandamo-nos buscar fora.<br \/>\nBaby &#8211; Mam\u00e3e com id\u00e9ias de bolos feitos em casa!<br \/>\nJulieta &#8211; Eu n\u00e3o sei nem os de palmat\u00f3ria.<br \/>\nCarlota &#8211; Que coisa pouco chic.<br \/>\nBelfort &#8211; Clar\u00edssimo. A \u00fanica diferen\u00e7a entre a sociedade<br \/>\nd&#8217;agora e a que representa D. Eufrosina, \u00e9 que a de D. Eufrosina fazia<br \/>\nos bolos em casa e a atual como todos os bolos sem saber onde s\u00e3o feitos.<br \/>\nDeputado Guedes &#8211; &#8211; E um progresso.<br \/>\nCarlos &#8211; Ou pelo menos um aumento de despesa.<br \/>\nBelfort &#8211; E tamb\u00e9m a origem da neurastenia. Os bolos fazem a dispepsia,<br \/>\na dispepsia a neurastenia, a neurastenia a extravag\u00e2ncia. Enfim, procurando<br \/>\nbem, o mal fundamental est\u00e1 em n\u00e3o saber fazer bolos em casa.<br \/>\nMas tomemos o ch\u00e1. O amor \u00e9 como o ch\u00e1, dizia Ibsen.<br \/>\nCarlos &#8211; Por isso \u00e9 que tantas senhoras gostam de ch\u00e1.<br \/>\nD. Maria &#8211; Por que?<br \/>\nCarlos &#8211; Para mudar de x\u00edcara; sempre que podem.<br \/>\nCarlota &#8211; N\u00e3o me canso nunca de admirar este panorama do terra\u00e7o<br \/>\nde Hort\u00eancia. N\u00e3o acha bonito dr. Guedes -?<br \/>\nDeputado Guedes &#8211; &#8211; Muito. Eu gosto do mar&#8230;<br \/>\nJulieta &#8211; E eu!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; E Hort\u00eancia?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mais do que eles, acredite..<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 imposs\u00edvel deixar de ter uma grande paix\u00e3o<br \/>\npelo mar. Principalmente de terra, o mar \u00e9 um sugestionador poderoso.<br \/>\nBasta olhar para o mar para cair uma pessoa no largo dom\u00ednio das id\u00e9ias<br \/>\nvagas. E nada mais agrad\u00e1vel do que sonhar sentado num rochedo, como<br \/>\nos poetas das holografias rom\u00e2nticas, ou mesmo na areia como faz a maioria<br \/>\ndos contemplativos, no Leme. Um sujeito sem id\u00e9ias at\u00e9 sem ter<br \/>\ntido a id\u00e9ia de ter id\u00e9ias, chega a beira da praia, olha o mar<br \/>\ne tem logo meia d\u00fazia de pensamentos. \u00c9 fatal. O mar \u00e9<br \/>\num laborat\u00f3rio de imagina\u00e7\u00e3o e \u00e9 por isso que<br \/>\neu explico a superprodu\u00e7\u00e3o de poetas nacionais pela extens\u00e3o<br \/>\ndas costas&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tia, manda servir o ch\u00e1 aos que ficaram no sal\u00e3o.<br \/>\n(D. Maria vai at\u00e9 a porta do sal\u00e3o).<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Muita gente?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Uma mesa de bridge e outra de pocker.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; \u00c0 mesa do pocker, sempre a ganhar aquele insuport\u00e1vel<br \/>\nsenhor Jesu\u00edno.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas o senhor Jesu\u00edno \u00e9, segundo me disseram, seu<br \/>\nparente afastado.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Infelizmente;<br \/>\nCarlos &#8211; E \u00e9 muito rico?<br \/>\nBaby (rindo) &#8211; \u00c9 um parente afastado que quanto mais rico fica mais<br \/>\nafastado.<br \/>\nD. Maria (voltando) &#8211; Como todos os parentes ricos.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Acho o gracejo, menina de muito mau gosto&#8230;<br \/>\nBaby &#8211; S\u00e3o opini\u00f5es. Mam\u00e3e tem sempre opini\u00f5es<br \/>\nque eu n\u00e3o tenho.<br \/>\nBelfort (perto de Mme. Vargas) &#8211; Perece-me nervosa, Hort\u00eancia.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Realmente, um pouco.<br \/>\nBelfort &#8211; Tenha calma e prud\u00eancia.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Preciso de seu apoio, meu amigo.<br \/>\nBelfort &#8211; Pode contar com ele.<br \/>\nBaby &#8211; (indo ao grupo de Carlos e D. Maria) &#8211; Que conversam voc\u00eas?<br \/>\nBelfort (deixando Mme. Vargas) &#8211; A apostar que conspiram contra a tranq\u00fcilidade<br \/>\nde algu\u00e9m?<br \/>\nCarlos &#8211; Estamos a ver por quem se decide o Gast\u00e3o. Se pela Julieta<br \/>\nse pela Baby.<br \/>\nBaby &#8211; \u00c9 uma pilh\u00e9ria sem gra\u00e7a. Nesses casos eu e que<br \/>\ndecido e por ti \u00e9 que n\u00e3o me decidiria nunca.<br \/>\nCarlos &#8211; Muita pena.<br \/>\nBaby (rindo) &#8211; A n\u00e3o ser que o bar\u00e3o quisesse&#8230; (Carlos afasta-se)<\/p>\n<p>Belfort (a Carlota Pais) &#8211; Est\u00e1 hoje um pouco p\u00e1lida, D. Carlota.<br \/>\nCarlota &#8211; Palavra? Diga-me ent\u00e3o alguma coisa que me fa\u00e7a corar.<\/p>\n<p>Belfort &#8211; N\u00e3o posso. D. Maria recomendou-me que tivesse ju\u00edzo.<\/p>\n<p>D. Maria &#8211; Mas as suas inconveni\u00eancias s\u00e3o sempre interessantes.<\/p>\n<p>Belfort &#8211; Reputa\u00e7\u00e3o atroz.<br \/>\nCarlota &#8211; Parece-me que D. Maria foi de uma delicadeza&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Ao contr\u00e1rio. Coopera conscientemente para me criar uma reputa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA reputa\u00e7\u00e3o \u00e9 a opini\u00e3o alheia que s\u00f3 nos<br \/>\ncria embara\u00e7os, mesmo quando \u00e9 lisonjeira. Todos n\u00f3s<br \/>\nsomos, gra\u00e7as a ela, v\u00edtimas uns dos outros. S\u00f3 um homem<br \/>\ncumpriu o seu dever na terra porque ainda ignorava a reputa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJulieta &#8211; Quem?<br \/>\nBelfort &#8211; Ad\u00e3o! Horas depois tinha uma tal reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o fez mais nada digno de nota. E depois de Ad\u00e3o, D. Carlota,<br \/>\na reputa\u00e7\u00e3o \u00e9 que nos faz.<br \/>\nDeputado Guedes &#8211; &#8211; N\u00e3o apoiado.<br \/>\nCarlos &#8211; Ningu\u00e9m concorda com o bar\u00e3o.<br \/>\nCarlota &#8211; \u00c9 um monstro!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Que diz Hort\u00eancia?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Eu nunca sou da opini\u00e3o do bar\u00e3o.<br \/>\nBelfort &#8211; Mas no dia em que eu tiver a vossa opini\u00e3o, deixo de ter<br \/>\na vossa simpatia. O acordo foi sempre a tr\u00e9gua da antipatia&#8230;<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Pelo menos numa coisa o _senhor bar\u00e3o -concordar\u00e1<br \/>\nconosco. Est\u00e1. uma tarde linda!<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; De fato. Uma beleza. Tamb\u00e9m esta Tijuco \u00e9 um<br \/>\nencanto.<br \/>\nDeputado Guedes &#8211; &#8211; Um tanto perigoso para as fam\u00edlias agora.<br \/>\nJulieta &#8211; Como assim?<br \/>\nDeputado Guedes &#8211; &#8211; Muito mal freq\u00fcentada a noite.<br \/>\nCarlos &#8211; Gatunos?<br \/>\nD. Maria &#8211; Qual! O Dr. Guedes &#8211; refere-se aos autom\u00f3veis, \u00e0s<br \/>\nceias em m\u00e1s companhias.<br \/>\nCarlos (ironia) &#8211; Cocotes! Ceias! Autom\u00f3veis? Horror!<br \/>\nBaby &#8211; Como deve ser interessante!<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Menina!<br \/>\nBaby &#8211; Que tem de mal? Eu at\u00e9 agora s\u00f3 falei com uma cocotte<br \/>\nna minha vida. Mas gostei muito. Era uma senhora s\u00e9ria.<br \/>\nTodos &#8211; Oh! Qual! N\u00e3o! N\u00e3o!<br \/>\nBaby &#8211; Palavra. Foi no carnaval.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Menina, n\u00e3o conte isso.<br \/>\nBaby &#8211; Que tem mam\u00e3e, se j\u00e1 passou tanto tempo? D. Jesuina Praxedes<br \/>\ncom v\u00e1rias outras senhoras nossas amigas teve a id\u00e9ia de passar<br \/>\nuns trotes e de entrar nos clubes e bailes, onde os maridos pintam o sete.<br \/>\nMas precis\u00e1vamos de um guia e D. Jesuina n\u00e3o queria homem. Ent\u00e3o<br \/>\nCarlota Pais lembrou a Argentina.<br \/>\nCarlota &#8211; Eu, n\u00e3o!<br \/>\nBaby (teimando) &#8211; Voc\u00ea sim. Voc\u00ea tinha lido o nome dela nos jornais<br \/>\ne D. Jesuina exclamou at\u00e9 : &#8220;uma mulher que tem vinte amantes<br \/>\ne trezentos contos \u00e9 de confian\u00e7a&#8221;&#8230;<br \/>\nVozes &#8211; oh! oh!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Baby, voc\u00ea est\u00e1 dizendo inconveni\u00eancias.<\/p>\n<p>Baby &#8211; Mas se n\u00e3o tem nada de mal; D. Hort\u00eancia?<br \/>\nBelfort &#8211; E a Argentina foi?<br \/>\nBaby &#8211; Foram propor o caso ao palacete que ela habita. Ela custou muito a<br \/>\naceitar. Mas afinal acedeu. Sa\u00edmos todos de domin\u00f3 preto fazendo<br \/>\n&#8220;A M\u00e3o Negra&#8221;. Como nos divertimos! Pois quando uma de n\u00f3s<br \/>\nbrincava de mais, a Argentina dizia! nin\u00e3s tengan modos! e ferrava-nos<br \/>\num belisc\u00e3o. Parecia mais uma professora.<br \/>\nGuedes &#8211; (no riso geral) &#8211; Caspit\u00e9!<br \/>\nBelfort &#8211; Para mostrar como a moral e uma coisa, de que fazemos quest\u00e3o<br \/>\n&#8211; nos outros&#8230;<br \/>\nBaby &#8211; Est\u00e3o a rir? Pois a \u00fanica que n\u00e3o foi reconhecida<br \/>\nfoi a Argentina&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Como o nosso caro Guedes. Sabidamente eleito e n\u00e3o reconhecido!<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Essa brincadeira tem feito o sucesso da esta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJulieta &#8211; E a Argentina?<br \/>\nCarlota &#8211; Vai casar. Li os proclamas.<br \/>\nCarlos (a Hort\u00eancia) &#8211; Que pena!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Acha?<br \/>\nCarlos (impertinente) &#8211; Acho!<br \/>\nMadame Vargas (aos outros, nervosa) &#8211; Come\u00e7a a cair a noite. Se entr\u00e1ssemos?<\/p>\n<p>Carlota &#8211; Eu parto. Tenho hoje a \u00f3pera.<br \/>\nBaby &#8211; Eu prefiro descer ao jardim. Gast\u00e3o acompanha-me.<br \/>\nD. Eufrosina &#8211; Olha o sereno, minha filha. (Baby e Gast\u00e3o saem para<br \/>\no jardim).<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o quero que partam sem ouvir um pouco de m\u00fasica.<br \/>\n\u00c9 T\u00e3o cedo ainda. Se f\u00f4ssemos ver os jogadores? Dr. Ferreira<br \/>\no seu bra\u00e7o. (Baixo). Hoje a noite no teatro.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Muito obrigado.<br \/>\nMovimento geral. V\u00e3o saindo aos poucos, animada conversa. Ficara D.<br \/>\nMaria e Carlos.<br \/>\nCarlos &#8211; Bem. Vou-me embora.<br \/>\nD. Maria &#8211; J\u00e1 devia ter feito isso.<br \/>\nCarlos &#8211; A senhora viu o convite, a provoca\u00e7\u00e3o com que Hort\u00eancia?<br \/>\npediu o bra\u00e7o ao dr. Ferreira?<br \/>\nD. Maria &#8211; Carlos, voc\u00ea \u00e9 desolador. Leva a contrariar-se, contrariando<br \/>\nos outros. Hort\u00eancia? estava irritad\u00edssima.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o era por mim.<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o, era por mim.<br \/>\nCarlos &#8211; E se eu lhe falasse, D. Maria?<br \/>\nD. Maria &#8211; Se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 doido, faz o poss\u00edvel<br \/>\npor parecer. Para que falar a Hort\u00eancia?<br \/>\nCarlos &#8211; Porque ela est\u00e1 zangada.<br \/>\nD. Maria &#8211; V\u00e1-se embora, Carlos. \u00c9 melhor.<br \/>\nCarlos &#8211; A senhora sabe t\u00e3o bem que eu n\u00e3o vou! N\u00e3o vou<br \/>\nenquanto n\u00e3o falar com Hort\u00eancia. N\u00e3o me olhe assim. \u00c9<br \/>\nc\u00e1 uma coisa.<br \/>\nD. Maria &#8211; Paix\u00e3o ou pedido?<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 c\u00e1 uma coisa que me deu. Hort\u00eancia? \u00e9<br \/>\noutra. Eu n\u00e3o vivo bem desde que apareceu esse homem. \u00c9 idiota,<br \/>\nbem sei, mas n\u00e3o posso. Se a senhora soubesse como me incomoda! Hoje<br \/>\nn\u00e3o me continha. Hort\u00eancia? zangou-se. V\u00e1 cham\u00e1-la.<br \/>\nUm minutinho. Est\u00e3o a conversar. N\u00e3o reparar\u00e3o. Diga-lhe<br \/>\nque venha.<br \/>\nD. Maria &#8211; E se eu n\u00e3o disser?<br \/>\nCarlos (mais impertinente) &#8211; Chamo eu mesmo. N\u00e3o acha que fica mal?<br \/>\nD. Maria &#8211; Julgou-o capaz de mais. Vamos ver. (Ao entrar no sal\u00e3o).<br \/>\nAinda n\u00e3o se decidiu esse bridge? (Rumor de dentro. Carlos encosta-se<br \/>\nao bala\u00fastre. Um minuto. Depois aparece Mme. Vargas).<br \/>\nMadame Vargas (para dentro) &#8211; descanse, D. Eufrosina. Vou v\u00ea-los (Alto)<br \/>\nOh! Senhor Carlos.<br \/>\nCarlos (Alto) &#8211; Retiro-me D. Hort\u00eancia. A sua festa esteve encantadora.<\/p>\n<p>Madame Vargas (baixo) &#8211; Que me queres tu?<br \/>\nCarlos &#8211; A boas horas!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Temos alguma nova desagrad\u00e1vel?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ora temos. Devemos ter. O ar de censura, a impertin\u00eancia,<br \/>\na frase de d\u00favida&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Deve ser impress\u00e3o sua Anda nervosa demais!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E n\u00e3o tenho raz\u00e3o?<br \/>\nCarlos &#8211; Sei l\u00e1!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Levas-te a vigiar-me a tarde inteira.<br \/>\nCarlos &#8211; Talvez.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; S\u00f3 n\u00e3o viu quem n\u00e3o quis.<br \/>\nCarlos &#8211; Eu, por exemplo, por que tinha de a ver a vigiar-me a mim.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o me enerves, Carlos. Precisamos de tanta prud\u00eancia.<br \/>\nTu bem sabes que n\u00e3o deves proceder assim!<br \/>\nCarlos &#8211; Mas n\u00e3o fa\u00e7o nada, olho quando muito.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Compromete-mes de um modo perigoso. Todos reparam, hoje ningu\u00e9m<br \/>\nduvida!<br \/>\nCarlos &#8211; Salvo os que a viram comprometer-se com outro.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Eu?<br \/>\nCarlos &#8211; Nada de surpresas. Com o Ferreira.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Com o Jos\u00e9?<br \/>\nCarlos &#8211; Com o Jos\u00e9? Como as coisas caminham! J\u00e1 o trata por<br \/>\nJos\u00e9&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas acreditas que depois desta loucura contigo, eu arrisquei<br \/>\noutra loucura?<br \/>\nCarlos &#8211; Por que n\u00e3o? Nada de ilus\u00f5es. \u00c9 a vida. Preciso<br \/>\nsaber ao justo o grau dos seus<br \/>\nsentimentos por mim.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Se fazes o poss\u00edvel para me desgostar!<br \/>\nCarlos &#8211; Parece-lhe?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tu \u00e9 que te mostras mudar. Tomaste-me de assalto, creio<br \/>\nque s\u00f3 para me fazer sofrer! N\u00e3o dou um passo, n\u00e3o fa\u00e7o<br \/>\num gesto, que n\u00e3o te sinta a chamar-me, a dominar-me, a impor-me as<br \/>\ntuas mais loucas extravag\u00e2ncias.<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 que n\u00e3o gostei nunca de mulher nenhuma como de ti.<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Meu Deus!<br \/>\nCarlos &#8211; Deploras!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sinto como \u00e9 superior essa frase de amor&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Fazes ironia \u00e0s minhas frases: Realmente. N\u00e3o devem<br \/>\nter literatura como as do Ferreira.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Por que falas assim, Carlos? Agora, a cada instante, volta<br \/>\no Jos\u00e9 \u00e0 discuss\u00e3o. Tem t\u00e3o pouca import\u00e2ncia.<br \/>\nCarlos (Num \u00edmpeto) &#8211; tem t\u00e3o pouca import\u00e2ncia o que?<br \/>\nO Jos\u00e9? Eu? A minha loucura? Talvez tudo isso junto. Ningu\u00e9m<br \/>\npode adivinhar a inten\u00e7\u00e3o das tuas palavras. Continuas a mesma,<br \/>\na fazer sofrer, a torturar, a desgra\u00e7ar&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Oh! N\u00e3o me fales de fazer sofrer! \u00c9 tempo de<br \/>\nacabar com essa legenda. E tu bastas para redimir as maiores faltas!<br \/>\nCarlos &#8211; Queres dizer que sou eu quem te tortura?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Vamos a saber. Carlos, que queres?<br \/>\nCarlos &#8211; Eu?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mandaste chamar-me e n\u00e3o posso demorar. Que queres?<\/p>\n<p>Carlos &#8211; Mas por que esses ares de inimiga?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Pelo amor de Deus, dize o que desejas.<br \/>\nCarlos &#8211; Desejo apenas que expliques claramente a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Que situa\u00e7\u00e3o?<br \/>\nCarlos &#8211; A nossa. N\u00e3o ter\u00e1s coragem de acabar logo com isso,<br \/>\ne dizer francamente: aquele idiota comv\u00e9m-me, tem dinheiro. Ponha-se<br \/>\nfora voc\u00ea!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Carlos! Estas provocando uma cena _perigosa.<br \/>\nCarlos &#8211; Tu gostas dele, sim, tu gostas. Nada de subterf\u00fagios. Nada<br \/>\nde medo. Sim. tens a certeza de que eu perco a cabe\u00e7a, e adias. Mas<br \/>\neu te for\u00e7arei.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tu?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que em tr\u00eas meses tenha<br \/>\nacabado um amor t\u00e3o grande. Lembras\u00adte daquele teu bilhete, o \u00fanico<br \/>\nque me escreveste? J\u00e1 o li tanta vez, que at\u00e9 o decorei. &#8220;Espero-o<br \/>\nhoje \u00e1 noite. Deus perdoe a minha loucura. Venha \u00e0 1 hora.&#8221;<br \/>\nEssa loucura passou? N\u00e3o podia ter passado! Nunca mais me escrevestes,<br \/>\nmas as loucuras n\u00e3o acabam de repente. E estas cenas que reprovas,<br \/>\nque te contrariam, estes ci\u00fames s\u00e3o do amor que te tenho. \u00c9<br \/>\nsempre assim quando a gente gosta.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Em que sociedade?<br \/>\nCarlos &#8211; Em todas. Em amor somos sempre os mesmos. Quando a gente ama n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 diferen\u00e7as, n\u00e3o, convence-te. Mas se queres com isso<br \/>\nfazer alus\u00f5es aos clubes, aos meus h\u00e1bitos antigos, enganas-te.<br \/>\nA minha vida de alegria passou. Desde que te amei, nunca mais voltei a esses<br \/>\nlugares. S\u00f3 a ti amo e n\u00e3o quero, n\u00e3o quero que outro<br \/>\nte tome. S\u00f3 por isso, s\u00f3 por isso te chamei, s\u00f3 por isso<br \/>\nendoide\u00e7o.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas tu me falas como se eu fosse qualquer. Tu duvidas de mim.<br \/>\nN\u00e3o te bastou o que fiz por ti?<br \/>\nCarlos &#8211; Perdoa. \u00c9 a doidice, \u00e9 sem querer. Devo-te parecer<br \/>\nmuito mau?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Um pouco.<br \/>\nCarlos &#8211; Que queres? Bem procuro conter-me, mas n\u00e3o posso. Sei que<br \/>\nn\u00e3o tenho e quanto mais te tenho, mais receio de perder-te.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E fazes-me sofrer.<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 tua a culpa. Sim. Tratas-me mal, n\u00e3o me v\u00eas<br \/>\ndiante dos outros. Principalmente quando aparece esse mo\u00e7o rico, que<br \/>\naparece agora todos os dias.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Porque te fazes inconveniente! Ah! Carlos, n\u00e3o me contraries.<br \/>\nSabes l\u00e1 como vivo neste meio em que se espia com vol\u00fapia a<br \/>\nfalta alheia. Se soubesses! est\u00e1s estragando a minha vida. \u00c9<br \/>\ns\u00f3 por isso, ouves, \u00e9 s\u00f3 por isso que me desgosto.<br \/>\nCarlos &#8211; Hort\u00eancia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sim, sim. A nossa loucura deve ficar secreta. Dizes que me<br \/>\namas?<br \/>\nCarlos &#8211; Duvidas?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o, mas reflito. Ignoras por acaso a nossa situa\u00e7\u00e3o?<br \/>\nSabes t\u00e3o bem! N\u00e3o podes casar comigo. Nem queres.<br \/>\nCarlos &#8211; Tu \u00e9 que n\u00e3o querias.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Nem tu, nem eu podemos<br \/>\n&#8211; ou falha, cada vez mais falha de recursos. N\u00e3o \u00e9 justo que<br \/>\nme queiras exibir como tua amante, para que eu veja todas as portas fechadas.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 justo nem digno.<br \/>\nCarlos &#8211; A tua frieza a refletir na loucura. Eu n\u00e3o fa\u00e7o tal,<br \/>\neu n\u00e3o quero nada!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Reflito como a v\u00edtima que se defende. E tu fazes tudo<br \/>\nisso talvez sem querer, mas fazes.<br \/>\nCarlos &#8211; Est\u00e1s arrependida do nosso amor, Hort\u00eancia?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tu, insistindo num ponto que conheces, \u00e9 que me fazes<br \/>\narrepender. Tu \u00e9 que me apontas o arrependimento.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! Fa\u00e7o tudo sem sentir, sem querer.<br \/>\nTens raz\u00e3o, tens muita raz\u00e3o. Perdoa. N\u00e3o posso casar,<br \/>\nporque n\u00e3o tenho nem situa\u00e7\u00e3o, nem dinheiro. Mas sabes?<br \/>\n\u00c9 instintivo. Quando te vejo com outros, que te cobi\u00e7am, que<br \/>\nte acham bela, perco a cabe\u00e7a, desconfio. Sou capaz de tudo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas n\u00e3o tens raz\u00e3o de desconfiar.<br \/>\nCarlos &#8211; Se se casares?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Se eu casar?<br \/>\nCarlos &#8211; Sim.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Creio que n\u00e3o vais proibir que eu me case?<br \/>\nCarlos (num \u00edmpeto quase alto) &#8211; Mas ent\u00e3o \u00e9 verdade<br \/>\ntudo quanto desconfio! \u00c9 verdade que queres o outro, \u00e9 verdade<br \/>\nque me afastas, que me aborreces?<br \/>\nMadame Vargas (assustada) &#8211; Carlos, por piedade, n\u00e3o insistas, nesta<br \/>\ntriste situa\u00e7\u00e3o nossa, o teu cavalheirismo \u00e9, deve ser<br \/>\najudar-me. Queres perder a minha vida, porque cedi aos teus desejos? N\u00e3o<br \/>\npode ser bonito, n\u00e3o pode parecer digno.<br \/>\nCarlos &#8211; S\u00f3 pela maneira que falas, vejo a tua indiferen\u00e7a.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sou indiferente e dei-te o que n\u00e3o dei a nenhum outro<br \/>\nhomem, e fa\u00e7o conscientemente a loucura de te amar, e recebo-te aqui<br \/>\ncom risco de perder-me. Sou indiferente e entrego-me dou-me. Eu!<br \/>\nCarlos &#8211; Hort\u00eancia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sou indiferente, e sou o teu objeto, a tua vibra\u00e7\u00e3o<br \/>\ne ando no medo constante de ver que um dia acabas com tudo, e confio-te aquilo<br \/>\nque uma mulher preza mais que o corpo; a pr\u00f3pria reputa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTens raz\u00e3o. E por que? Porque queres estragar aos olhos de todos, egoistamente,<br \/>\npor vaidade, a minha salva\u00e7\u00e3o!<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o, Hort\u00eancia, n\u00e3o.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sabes as coisas, n\u00e3o ignoras nada da minha vida. Ainda<br \/>\nontem \u00e0 noite eu te dizia pela mil\u00e9sima vez.<br \/>\nCarlos &#8211; Ainda ontem&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ainda ontem. Eu te expliquei claramente. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\noutra solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. O verdadeiro<br \/>\namor \u00e9 aquele que se sujeita. Diante desse rapaz&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o! N\u00e3o! n\u00e3o me fales nele, ao recordar a nossa<br \/>\nnoite de ontem. Dou-te raz\u00e3o, aceito a frieza do teu bom senso, fa\u00e7o<br \/>\no que quiseres! Mas n\u00e3o me fales nele.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas se \u00e9s tu que o lembras?<br \/>\nCarlos &#8211; Oh! Hort\u00eansia, odeio-o tanto!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Para que? Por que? N\u00e3o desejo ouvir essas palavras.<br \/>\nNunca te falei dele, n\u00e3o te falo. \u00c9s injusto. E n\u00e3o te<br \/>\nfalarei nunca mais.<br \/>\nCarlos &#8211; Mesmo que venha ocupar na tua vida um grande lugar?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Na minha vida s\u00f3 ocupa lugar quem eu amo.<br \/>\nCarlos &#8211; E v\u00ea tu. Eu sinto que sou covarde, que sou um pobre diabo.<br \/>\nQuero reagir, quero ser homem, gritar. E diante de ti n\u00e3o sou mais<br \/>\nnada. Hei de fazer o que tu quiseres!&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Chamas a isso fazer o que eu quero!<br \/>\nCarlos &#8211; Sempre, sempre, irresistivelmente. O amor faz outros os homens. O<br \/>\nCarlos que tu conheces, \u00e9 um Carlos que ningu\u00e9m ouvistes? Ningu\u00e9m,<br \/>\nnem minha. m\u00e3e conhece.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 uma criancice&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; O amor fez-me crian\u00e7a, assim tolo, assim nervoso. Quero-te<br \/>\ntanto porque o meu desejo \u00e9 muito maior que o teu. Mas consolo-me porque<br \/>\naos outros ainda queres menos.N\u00e3o? N\u00e3o? (Aproxima-.se) Dize.<br \/>\nPois n\u00e3o? Ainda agora. Quanta crueldade! Quanta frieza! Quanto bom<br \/>\nsenso! E enquanto tu falas, eu sinto apenas o desejo, um desejo imenso que<br \/>\naumenta. Est\u00e1s t\u00e3o bonita! este teu vestido&#8230; Este teu cabelo&#8230;<br \/>\nHort\u00eancia! Perdoa. Escuta. Se hoje fosse como ontem?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Oh!<br \/>\nCarlos &#8211; Eu esque\u00e7o tudo, eu farei o que quiseres. Se fosse como ontem,<br \/>\numa noite encantada, a noite em que adormeceste todas as minhas d\u00favidas.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o! Carlos. Preciso voltar ao sal\u00e3o. N\u00e3o<br \/>\ninsistas.<br \/>\nCarlos &#8211; Pare\u00e7o-te muito miser\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o. Sabia que havias de terminar por isso. H\u00e1<br \/>\numa semana fazes assim. H\u00e1 uma semana exiges e me atormentas! Estou<br \/>\nfatigad\u00edssima.<br \/>\nCarlos &#8211; Mas ent\u00e3o est\u00e1 tudo acabado entre n\u00f3s? Queres<br \/>\ndeixar-me? Serias tu a primeira mulher que me abandonasse. N\u00e3o!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Digo-te apenas que hoje n\u00e3o. Estou cansada.<br \/>\nCarlos &#8211; Mas dizes sempre n\u00e3o.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E ainda ontem cedi!<br \/>\nCarlos &#8211; Quero hoje. Quero ainda hoje. Hort\u00eancia, concede.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Como me atormentas, Carlos!<br \/>\nCarlos &#8211; Dize de boa vontade: at\u00e9 logo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Oh! N\u00e3o!<br \/>\nCarlos &#8211; Hort\u00eancia, n\u00e3o sejas assim. Eu n\u00e3o posso. Vem<br \/>\nc\u00e1 (de repente, na exalta\u00e7\u00e3o do desejo). Se n\u00e3o<br \/>\nme deres um beijo, fa\u00e7o um esc\u00e2ndalo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Estas doido?<br \/>\nCarlos &#8211; Completamente. Fa\u00e7o o esc\u00e2ndalo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Deixa para outro dia! Hoje n\u00e3o.<br \/>\nCarlos &#8211; Assim por assim, \u00e9 teu desejo acabar, amar o outro. V\u00ea-se.<br \/>\nN\u00e3o queres, porque j\u00e1 amas outro. Mas eu grito, fa\u00e7o<br \/>\nesc\u00e2ndalo, e ver\u00e1s depois.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Carlos, por piedade.<br \/>\nCarlos &#8211; D\u00e1-me o beijo, ent\u00e3o. (Agarra-a).<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas \u00e9 mau. \u00c9 mau. Que horror! N\u00e3o! N\u00e3o!<\/p>\n<p>Carlos (puxando-a) &#8211; Mas d\u00e1-me duma vez?<br \/>\nMadame Vargas (presa, debate-se com horror e medo nos bra\u00e7os do amante)<br \/>\n&#8211; O que quiseres! O que quiseres! Eu n\u00e3o me perten\u00e7o mais. Sou<br \/>\ntua. Continua a ser tua!<br \/>\nCarlos (esmagando-lhe a boca num beijo) &#8211; Sim, minha!<br \/>\nE o pano cai enquanto mais alto a voz abaritonada canta o desejo do \u201cMadrigal\u201d.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>Segundo Ato<\/h4>\n<p>No dia seguinte, \u00e0s 2 horas da tarde<br \/>\n\u00c9 o sal\u00e3o de m\u00fasica. Pela janela aberta, v\u00ea-se<br \/>\na varanda e um trecho do espl\u00eandido panorama que \u00e9 o encanto<br \/>\ndo terra\u00e7o. Um piano de cauda ao fundo, com uma colcha de seda vermelha.<br \/>\nJarr\u00e3o da China entre a janela e a porta. Mob\u00edlia de laca vermelha<br \/>\ne palha dourada. \u00c0 direita, no primeiro plano, um bibel\u00f4 com<br \/>\nespelho, junto \u00e0 porta de comunica\u00e7\u00e3o com o interior.<br \/>\nAs paredes s\u00e3o forradas de tape\u00e7aria d&#8217;Araccio em lil\u00e1s<br \/>\ne prata velha, motivo: as nove Musas.<\/p>\n<p>Est\u00e3o em cena Fiorelli e D. Maria que vem entrando.<\/p>\n<p>Fiorelli &#8211; La signora?<br \/>\nD. Maria &#8211; Doente.<br \/>\nFiorelli &#8211; Como?<br \/>\nD. Maria &#8211; Uma leve indisposi\u00e7\u00e3o. Desde ontem, veio-lhe a migraine.<\/p>\n<p>Fiorelli &#8211; Com este lindo dia de primavera?<br \/>\nD. Maria &#8211; Infelizmente, n\u00e3o escolhemos o dia para adoecer. Mas sente-se,<br \/>\nFiorelli, descanse.<br \/>\nFiorelli &#8211; E Ia signora n\u00e3o me mandou dizer nada?<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o. Creio mesmo que n\u00e3o se lembrou de voc\u00ea.<br \/>\nCompreende, uma dor de cabe\u00e7a. Mas sente-se, Fiorelli, ao menos enquanto<br \/>\nespera condu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFiorelli (sem sentar-se, hesitando) &#8211; Com que ent\u00e3o, sempre, bem senhora<br \/>\nD. Maria?<br \/>\nD. Maria &#8211; Eu? Como Deus \u00e9 servido. Cuidando da vida dos outros desde<br \/>\nque a minha j\u00e1 vai no ep\u00edlogo.<br \/>\nFiorelli (distra\u00eddo) &#8211; Seriamente!<br \/>\nD. Maria &#8211; Este Fiorelli! Sempre distra\u00eddo! Sim, seriamente &#8211; s\u00e9ria<br \/>\ne tristemente. Mas fale-me de si. Que fez ontem \u00e0 noite?<br \/>\nFiorelli &#8211; Estive no Lino com a fam\u00edlia Gomes Pedreira. Cantavam a<br \/>\nBohemia.<br \/>\nD. Maria &#8211; Pobre Fiorelli!<br \/>\nFiorelli &#8211; Bela m\u00fasica, um tanto renitente, mas bela m\u00fasica.<br \/>\n(ouve-se o timbre el\u00e9trico rio interior). Mas chamam. \u00c9, de<br \/>\ncerto, Ia signora. Senza incomodo. (subtamente mais t\u00edmido). Quando<br \/>\nser\u00e1 ent\u00e3o? Eu preciso tanto!<br \/>\nD. Maria &#8211; Mando-lhe amanh\u00e3.<br \/>\nFiorelli &#8211; Veramente!<br \/>\nD. Maria &#8211; Sem falta.<br \/>\nFiorelli &#8211; Oh! Grazzie! Grazzie! (sai)<br \/>\nD. Maria (acompanhou o m\u00fasico at\u00e9 aporta, diz-lhe adeus. Volta)<br \/>\n&#8211; Pobre Fiorelli!<br \/>\nMadame Vargas (Aparecendo no interior) &#8211; Foi-se?<br \/>\nD. Maria &#8211; Com a resigna\u00e7\u00e3o de sempre. Est\u00e1 convencido<br \/>\nde que eu mando pagar amanh\u00e3. Devemos ao Fiorelli cinco meses de tocadas<br \/>\ne li\u00e7\u00f5es.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Outros devem mais. Tamb\u00e9m tu! Lembrar-me tal coisa,<br \/>\nna situa\u00e7\u00e3o em que estou!<br \/>\nD. Maria &#8211; Situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 de hoje&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ainda o dizes!<br \/>\nD. Maria &#8211; E que piora a cada dia. Ontem o copeiro despediu-se antes de jantar.<br \/>\nFoi preciso uma grande t\u00e1tica de que devia servir \u00e0 mesa. Dei-lhe<br \/>\nat\u00e9 o la\u00e7o na gravata com ar de quem o faz pelo menos comandante<br \/>\nde uma brigada estrat\u00e9gica.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E ainda brincas?<\/p>\n<p>D. Maria &#8211; Para que desanimar? Tenha f\u00e9 em ti. A nossa situa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 desesperadora. Tu mesmo n\u00e3o sabes quanto deves. Devemos a<br \/>\ntodos os fornecedores, aos criados e ainda por cima fazemos mais d\u00edvidas,<br \/>\ncom o mesmo louco trem de vida. \u00c9 delicado. Mas seria poss\u00edvel<br \/>\nparar agora, fazer leil\u00e3o, ir morar para uma casa qualquer? Que prazer<br \/>\nteriam os teus inimigos, isto \u00e9, a sociedade inteira! A bela Hort\u00eancia<br \/>\nVargas, a vi\u00fava do diplomata, a orgulhosa Hort\u00eancia que rejeita<br \/>\nas melhores propostas, descendo do seu pedestal.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Nem todos pensam assim.<br \/>\nD. Maria &#8211; A maioria n\u00e3o sabe que n\u00e3o temos mais dinheiro e<br \/>\nquer ver o fim. \u00c9 humano. Que fazer? Resistir. Esperar. Tenho virado<br \/>\num pouco financeira e devo dizer-te que esgotados os dinheiros da hipoteca<br \/>\nda casa come\u00e7o a liquidar as tuas j\u00f3ias. Belfort d\u00e1-me<br \/>\nconselhos e j\u00e1 aceitou duas letras minhas.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tia!<br \/>\nD. Maria &#8211; Ele \u00e9 t\u00e3o delicado, que \u00e9 imposs\u00edvel<br \/>\nrecusar. E h\u00e1 um ano vivemos nesta despesa de gr\u00e3o-duque sem<br \/>\nrendimento! Mas tenho f\u00e9 Resolves agora tudo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Resolvo?<br \/>\nD. Maria &#8211; Ent\u00e3o o Jos\u00e9? O casamento \u00e9 a \u00fanica<br \/>\nsolu\u00e7\u00e3o. Que esperavas tu? Um casamento rico. Vem-te rico, jovem<br \/>\ne apaixonado.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sim. \u00c9 rico, \u00e9 milion\u00e1rio, \u00e9 mo\u00e7o,<br \/>\namante. Seria minha felicidade. Ama-me&#8230;<br \/>\nD. Maria &#8211; Mas \u00e9 a tua felicidade.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Como, tia?<br \/>\nD. Maria &#8211; Como? Ent\u00e3o n\u00e3o aceitaste?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Aceitei sim, aceitei. N\u00e3o foi s\u00f3 pela quest\u00e3o<br \/>\nde dinheiro. Desde que Jos\u00e9 t\u00e3o humildemente me ofereceu a sua<br \/>\nm\u00e3o de esposo, uma imensa e submissa gratid\u00e3o me foi enchendo<br \/>\na alma. Aceitei. Mas querer-me ele e desejar eu esse enlace j\u00e1, \u00e9<br \/>\no mesmo.<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o pode deixar de ser j\u00e1. A demora \u00e9 o desastre.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; A quem o dizes! Ele quer, eu quero. Mas h\u00e1 de outro<br \/>\nlado as insinua\u00e7\u00f5es, as cartas an\u00f4nimas, os despeitos,<br \/>\ntudo quanto tem o r\u00f3tulo da sociedade. (Levanta-se). E h\u00e1, meu<br \/>\nDeus, e h\u00e1, para suprema infelicidade, Carlos.<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o se convence?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o se convence. Ao contr\u00e1rio. Amea\u00e7a<br \/>\nfazer um esc\u00e2ndalo, amea\u00e7a contar tudo.<br \/>\nD. Maria &#8211; Mas \u00e9 infame.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Infame, fui eu. Infame que me entreguei, ap\u00f3s tanto<br \/>\ntempo de honestidade a um rapaz sem escr\u00fapulos. \u00c9 louco? Mas<br \/>\nlouca sou eu que me deixei levar, arrastar por ele. N\u00e3o me olhes assim.<br \/>\nEu estava s\u00f3, s\u00f3, sem ter ningu\u00e9m que me amasse. Agora,<br \/>\nn\u00e3o. Agora sinto que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais, que<br \/>\nh\u00e1 uma grande, oh! Enorme diferen\u00e7a entre os dois. E quero realizar<br \/>\nminha vida; Quero e hei de realizar.<br \/>\nD. Maria &#8211; Realizar\u00e1s, estou certa. Mas que vais fazer?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Imagina o que \u00e9 preciso fazer! Que esfor\u00e7o,<br \/>\nque conten\u00e7\u00e3o de nervos. H\u00e1 oito dias, Carlos desconfiou;<br \/>\nsentiu que Jos\u00e9 era mais do que um partido. O seu ci\u00fame as suas<br \/>\ncenas! Aumentam hora a hora! Tia, se Carlos tiver a certeza do pedido de casamento,<br \/>\nestou perdida. E ele desconfia.<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mais do que isso. Tem quase a certeza. Est\u00e1 louco.<br \/>\nDisse-me ontem no ch\u00e1.<br \/>\nD. Maria &#8211; E cometeste a imprud\u00eancia de receb\u00ea-lo \u00e0 noite!<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Viste?<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o vi, mas tinha a certeza. N\u00e3o fosse eu mulher!<br \/>\nA mulher s\u00f3 tem um recurso contra o ci\u00fame: entregar-se. Esquece<br \/>\nque ainda complica a vida.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sim, sim. Foi pior. N\u00e3o imaginas que noite, que pavorosa<br \/>\nnoite de sofrimento. A insist\u00eancia sua, a terr\u00edvel insist\u00eancia,<br \/>\no nome do outro nos seus l\u00e1bios que me beijavam com brutalidade! Tinha<br \/>\n\u00edmpetos de escorra\u00e7\u00e1-lo e estreitava-o mais. \u00c9<br \/>\npreciso o ocultar, ocultar. No dia que souber, conta tudo ao Jos\u00e9 N\u00e3o<br \/>\ndormi. S\u00f3 h\u00e1 um recurso, fugir, casar fora daqui, ver-me livre<br \/>\ndele. Depois Jos\u00e9 defender-me-\u00e1!<br \/>\nD. Maria &#8211; Minha pobre Hort\u00eancia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E tenho de fingir, continuar a fingir sem que ningu\u00e9m<br \/>\nme ajude. Tia, j\u00e1 n\u00e3o se trata de dinheiro, trata-se da minha<br \/>\nhonra para um homem que me respeita a ponto de me oferecer sua m\u00e3o.<br \/>\nD. Maria &#8211; Por que n\u00e3o falas a Belfort?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ele vem hoje. Prometeu-me ontem. S\u00f3 ele que sabe de<br \/>\ntudo e \u00e9 bom e poder\u00e1 ajudar-me. (Aparece o criado).<br \/>\nAnt\u00f4nio &#8211; O Dr. Jos\u00e9 Ferreira.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mande entrar. (O criado sai). Deixai-nas s\u00f3s, tia.<br \/>\nV\u00ea que n\u00e3o nos interrompam. A todo o instante penso no outro_<br \/>\nComo eu leria vontade de dizer a este toda a verdade, e como \u00e9 imposs\u00edvel!<br \/>\n(Vai ao espelho, comp\u00f5e a fisionomia e volta-se a sorrir quando entra<br \/>\nJos\u00e9 Ferreira com um ramo de rosas, fica perto do puff). Seja bem\u00advindo<br \/>\ncom as suas lindas flores!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Como todos os dias as flores s\u00e3o suas.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; (vai por as flores no vaso sobre o piano) &#8211; Merci. Mas sabe<br \/>\nque \u00e9 escandaloso? Quem o vir chegar todo dia com um ramo de rosas<br \/>\no que n\u00e3o dir\u00e1?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Que importa, se \u00e9 para bom fim!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E a nossa combina\u00e7\u00e3o?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; O segredo? \u00c9 o de Polichinelo. Sabe que falei ontem \u00e0<br \/>\nmam\u00e3?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ah!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Era apenas uma formalidade, mas n\u00e3o podia deixar de a<br \/>\ncumprir.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Fez bem. Que disse ela?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Ficou contente. Tudo que parece ser a minha felicidade \u00e9<br \/>\nde resto sempre a vontade de mam\u00e3. Sou _filho \u00fanico e ela \u00e9<br \/>\ns\u00f3. Imagine que pensa em netos! Mas conhecia-a de vista e acha-a linda.<br \/>\nSabe que causa uma impress\u00e3o de rainha?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Lisonjeiro!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; A mam\u00e3 \u00e9 uma senhora muito ativa, de costumes<br \/>\nr\u00edgidos, bem a senhora antiga, esposa de fazendeiro, achando que ningu\u00e9m<br \/>\npode ser superior aos seus. Sabe entretanto a sua frase? Disse-me a sorrir<br \/>\n: &#8220;Aquela senhora t\u00e3o bonita gostou de ti, Jos\u00e9T&#8217;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Oh! Jos\u00e9!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Repito o que disse a mam\u00e3. E olhe que para falar francamente,<br \/>\nde vez enquanto ponho-me a pensar e indago a mim mesmo: como seria isso?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Senhor Dr. Jos\u00e9 Ferreira, se viesse sentar-se em vez<br \/>\nde dizer isso?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; \u00c9 a verdade. Quando h\u00e1 dois meses a vi no teatro<br \/>\ntive uma t\u00e3o esmagadora impress\u00e3o! O cora\u00e7\u00e3o se<br \/>\nfez pequeno, pequeno. J\u00e1 me disseram que s\u00f3 se fica assim diante<br \/>\ndas pessoas que nos v\u00e3o dar um grande bem ou mal irremedi\u00e1vel.<br \/>\nLembra-se? Ao entrar no seu camarote pelo bra\u00e7o do Guedes, n\u00e3o<br \/>\nsabia o que dizer. O cora\u00e7\u00e3o adivinhava e fazia-se pequeno com<br \/>\nmedo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; (rindo) &#8211; Felizmente, o medo durou pouco\u00ad<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Porque logo se fez amor. Mas nem calcula como esse seu ar t\u00e3o<br \/>\nsuperior, esse seu ar de imperatriz faz os outros se julgarem menores. Eu<br \/>\ntremo sempre de a perder&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ilus\u00e3o! A imperatriz j\u00e1 o vira na plat\u00e9ia<br \/>\ne indagava: quem ser\u00e1 aquele rapaz diverso dos outros que me olha na<br \/>\nquinta fila?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Hort\u00eancia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 bom gostar um pouco dos outros!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Amo-a tanto! Hort\u00eancia, que bem o sinto, o meu amor h\u00e1<br \/>\nde faz\u00ea-la feliz.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Jos\u00e9! Conhece-me. Deve-lhe ter dito tanto mal de mim!<br \/>\nA fria Hort\u00eancia, \u00e9 que despreza todos os pretendentes! Sim!<br \/>\n\u00e9 uma pouco verdade. Nunca amei. Entretanto, n\u00e3o sei porque<br \/>\nnesta minha vida, neste inferno de festas, de alegrias que s\u00e3o amargores<br \/>\ne amargores que n\u00e3o s\u00e3o alegrias, s\u00f3 uma pessoa d\u00e1-me<br \/>\numa impress\u00e3o de sossego, de paz d&#8217;alma, de apoio, de satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompleta &#8211; voc\u00ea. Quando voc\u00ea est\u00e1, sinto\u00adme t\u00e3o<br \/>\ncalma, t\u00e3o descansada, t\u00e3o bem! \u00c9 f\u00e9 &#8211; a f\u00e9<br \/>\nde que encontrei enfim o meu amigo, o meu protetor, o meu verdadeiro esposo.<br \/>\nE o meu cora\u00e7\u00e3o sente-se ent\u00e3o muito largo, muito largo,<br \/>\ne eu tenho uma grande vontade de chorar.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; \u00c9 bom falar-me assim, Hort\u00eancia. Se eu quisesse<br \/>\ndizer-lhe o que \u00e9 o meu amor, dir\u00adlhe-ia que desejava faz\u00ea-lo<br \/>\nforte e macio como de a\u00e7o coberto de veludo, para defender sem a magoar.<br \/>\nPorque \u00e9 superior \u00e1s outras, porque tem a alma t\u00e3o alta<br \/>\ne a beleza t\u00e3o altiva, \u00e9 que precisa de quem lhe abra o caminho,<br \/>\nde quem limpe a estrada da pedra e da erva daninha, de quem sob os seus passos<br \/>\nestenda o arminho e as rosas. Eu amo-a assim, Hort\u00eancia. Muito, muito.<br \/>\nSe n\u00e3o me desse aten\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o me quisesse ver,<br \/>\nteria desaparecido sem a criminar. Levaria comigo apenas a m\u00e1goa da<br \/>\nminha inferioridade, e n\u00e3o teria uma queixa e n\u00e3o diria nada.<br \/>\nSabendo que me aceita, que me agasalha, sinto que a vida se completa e que<br \/>\na sorte, trazendo-me a felicidade e fazendo-me bom, completou que a s\u00e9rie<br \/>\ndos seus bens, dando-me para conduzir a estrela que de longe eu seguia&#8230;<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Jos\u00e9! Jos\u00e9! Eu nunca tive me falasse assim.<br \/>\nEu nunca tive. Se tudo entre n\u00f3s tivesse de acabar, poderia levar a<br \/>\ncerteza de uma recorda\u00e7\u00e3o indel\u00e9vel, a certeza da revela\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 t\u00e3o delicado e t\u00e3o bom! D\u00e1-me flores e o seu<br \/>\namor. Quantos me ofereceram isso antes, eu recusei. Ofereciam? Sei l\u00e1!<br \/>\nQueriam. \u00c9 voc\u00ea o \u00fanico que oferta, e t\u00e3o bem que<br \/>\no perfume da sua alma entontece, e que uma grande vontade de ser boa faz da<br \/>\npobre Hort\u00eancia algu\u00e9m que s\u00f3 no mundo o quer. Mas \u00e9<br \/>\nsonho. Tudo quanto \u00e9 muito bom n\u00e3o pode ser verdade.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Por que?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tenho medo daqui, tenho medo de tudo. Enquanto n\u00e3o<br \/>\no conhecia, Jos\u00e9, enquanto a minha vida era lutar e resistir nesta<br \/>\nsociedade de invejas, de intrigantes e<br \/>\nde ego\u00edstas, era forte e queria. Tinha de ser. Diante de mim o horizonte<br \/>\nse definia sempre igual e pardacento. Agora n\u00e3o. Agora tenho medo,<br \/>\ntenho medo de tudo. A cada passo penso que v\u00e3o destruir a minha felicidade.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas quem?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Esta vida! Esta gente!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas se eu estou a seu lado?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; O meu desejo era um s\u00f3 &#8211; partir. Partir consigo.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; J\u00e1 agora est\u00e1 assentado o nosso casamento.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Seria t\u00e3o bom que n\u00e3o fosse aqui! escute, Jos\u00e9<br \/>\n\u00c9 uma estado de nervos, um receio vago inexplic\u00e1vel. Eu n\u00e3o<br \/>\nqueria que fosse aqui. Partir. Partir. Levar para longe dos curiosos a nossa<br \/>\nfelicidade e de l\u00e1 ent\u00e3o anunciar.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Sempre a mesma id\u00e9ia.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Guardar o segredo, o segredo imenso do meu primeiro amor.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 &#8211; N\u00e3o quer que ningu\u00e9m o saiba?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; O meu desejo era que o mundo o ignorasse, que fosse depois<br \/>\ncomo uma surpresa irrevog\u00e1vel.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Eu, ao contr\u00e1rio desejaria que todos soubessem.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Vaidoso!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Orgulhoso! Ando t\u00e3o alegre, t\u00e3o cheio de felicidade,<br \/>\nque s\u00f3 tenho o desejo de irradiar pelos que encontro o meu prazer.<br \/>\nO segredo sufoca-me.<br \/>\nMadame Vargas- Guarda-o por mim, Jos\u00e9, guarda-o. H\u00e1 tanta gente<br \/>\nque n\u00e3o suportaria a nossa alegria! Procurariam envenenar os nossos<br \/>\ninstantes de prazer, falando, inventando, caluniando. Seria o tormento nas<br \/>\nreuni\u00f5es, a curiosidade indiscreta nos teatros &#8211; coisas pior, quem<br \/>\nsabe&#8230;<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Que importa a opini\u00e3o dos outros?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Essa gente vive conosco na mais cordial simpatia, mas ao perceber<br \/>\na felicidade, \u00e9 uma raiva que lhes d\u00e1 de despeito e de inveja.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Dizendo-o a todos, ningu\u00e9m se atrever\u00e1. O mist\u00e9rio<br \/>\nd\u00e1-me a impress\u00e3o de que vamos cometer um crime.<br \/>\nMatame Vargas &#8211; E h\u00e1 maior crime para os outros de que organizarmos<br \/>\na pr\u00f3pria felicidade? N\u00e3o, Jos\u00e9 Como seria bom partir!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas parto. Sempre acedi aos seus desejos.<br \/>\nMadame Vargas (de s\u00fabito, rindo) &#8211; Tu partes num dia, eu parto no outro.<br \/>\nChegamos no mesmo dia. E depois de l\u00e1 chegar, eu rirei, eu rirei&#8230;<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Como est\u00e1 nervosa, Hort\u00eancia. Nunca a vi t\u00e3o<br \/>\nnervosa como hoje.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 que n\u00e3o posso mais, Jos\u00e9 N\u00e3o<br \/>\nposso mais aturar esta gente, esta sociedade. Tudo antes de voc\u00ea. Nada<br \/>\nagora, Nem mais um dia, porque um dia \u00e9 um s\u00e9culo. Eu iria,<br \/>\npartiria se n\u00e3o fosse primeiro.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 preciso tamanha exalta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJ\u00e1 tanto me-falou no mist\u00e9rio e nessa partida, que estou de<br \/>\nh\u00e1 muito resolvido.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Palavra?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Palavra. Desde que lhe declarei o meu amor, imagina inimigos<br \/>\npor todos os cantos. N\u00e3o \u00e9 tanto assim! Levei um m\u00eas.<br \/>\na ouvir o-~ fala~ de si. E o que diziam? Que era insens\u00edvel, que era<br \/>\nm\u00e1, que seria incapaz de amar? Vivem a verdade de tudo isso! De mim<br \/>\no que poder\u00e3o dizer? Nada ou tudo. Que importa se n\u00e3o acredita?<br \/>\nMas \u00e9 vontade sua.<br \/>\nPara que contrariar? Acabemos. Amo-a. Quer partir? Que seja j\u00e1. Mais<br \/>\ndepressa casaremos.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Jos\u00e9, Jos\u00e9!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas que nervos! Que nervos, Hort\u00eancia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Hoje \u00e9 ter\u00e7a. Partiria amanh\u00e3?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Como?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sim, embarcando amanh\u00e3, eu seguiria depois de amanh\u00e3<br \/>\nnoutro paquete, s\u00f3 com a criada. tia ficaria. Ningu\u00e9m saber\u00e1<br \/>\nsen\u00e3o depois de estarmos longe. tudo se esclarecer\u00e1 quando dois<br \/>\ndias depois os telegramas disserem o nosso casamento.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas \u00e9 uma-fugida.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Dir\u00e3o, que fugimos juntos.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Que importa?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas,_3ort\u00eancia, \u00e9 um estado de nervos&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o, \u00e9 medo. Medo de ver desfeita a \u00fanica<br \/>\nilus\u00e3o da minha vida. Sou s\u00f3 no mundo. S\u00f3 agora comecei<br \/>\na amar a um ente, quando o sofrimento j\u00e1 me fizera medrosa. Esta sociedade<br \/>\ndilacera-me. Enquanto n\u00e3o o conheci &#8211; n\u00e3o pensava. Agora cada<br \/>\nvez penso mais, cada vez desejo mais. Ter\u00e1 que anunciar uma felicidade<br \/>\na realizar-se. Realizamo-la antes para faz\u00ea-la depois conhecida. Para<br \/>\nque demorar?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; N\u00e3o me incomoda a opini\u00e3o alheia. Mas neste caso<br \/>\na maledic\u00eancia ser\u00e1 contra si. Hort\u00eancia.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Que importa, se sabe voc\u00ea bem o que \u00e9? O meu<br \/>\ndesejo \u00e9 impedir o travo da felicidade. Se eu n\u00e3o o amasse Jos\u00e9,<br \/>\njuro que n\u00e3o lhe pediria isso!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Como \u00e9 poss\u00edvel negar-lhe alguma coisa? Mas s\u00e3o<br \/>\nduas horas. E eu tenho de levar a m\u00e3e \u00e0 cidade. \u00c9 obriga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nLogo \u00e0 noite estarei c\u00e1.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ainda h\u00e1 tempo de partir amanh\u00e3?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; \u00c9 uma viagem de n\u00fapcias inteiramente nova!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Cada um no seu vapor e antes do casamento! Como vou rir! Como<br \/>\nvou rir!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas \u00e9 preciso n\u00e3o ficar assim nervosa&#8230; porque<br \/>\nent\u00e3o n\u00e3o vou nem mesmo \u00e0 cidade&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sim por mim, por mim (Pendendo no seu ombro). Nunca imaginar\u00e1,<br \/>\nJos\u00e9, como lhe quero bem!<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Seria dar-me for\u00e7a para quer\u00ea-la mais &#8211; se fosse<br \/>\nposs\u00edvel. Minha querida, sempre t\u00e3o nervosa!&#8230; At\u00e9 logo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Volta para dar-me a resposta?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Volto \u00e0 noite. Tranq\u00fcilize-se. J\u00e1 lho disse.<br \/>\nE juro que parto.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Meu querido! (Acompanha-o at\u00e9 a porta. Fica a dizer-lhe<br \/>\nadeus porque Jos\u00e9 passa pela varanda. Depois tem um grande suspiro,<br \/>\ndistende os bra\u00e7os. Infinita tristeza na face. Instante. Sil\u00eancio.<br \/>\nC,\u00e1i numa cadeira junto \u00e0 janela, meditando. Entra Belfort).<br \/>\nBelfort &#8211; Muito bom dia, Hort\u00eancia.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Oh! Bar\u00e3o.<br \/>\nBelfort &#8211; Como vamos de ontem?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Como fiquei ontem?<br \/>\nBelfort &#8211; Alguma coisa grave?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Infinitamente Grave. Encontrou Jos\u00e9?<br \/>\nBelfort &#8211; Vim do landaulet. N\u00e3o o vi. Trata-se dele?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Trata-se do drama da minha vida, desta minha desgra\u00e7ada<br \/>\nvida. N\u00e3o tenho ningu\u00e9m para desabafar, para me aconselhar num<br \/>\ngrave momento, a n\u00e3o ser a tia, que \u00e9 boa e n\u00e3o tem intelig\u00eancia,<br \/>\ne o senhor que \u00e9 inteligente&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Mas n\u00e3o sou bom.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 o melhor dos homens.<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o diga isso. Sabe bem que s\u00f3 pode ser bom para uns<br \/>\no que \u00e9 mau para outros. (Desce a ela) Mas como est\u00e1 nervosa!<br \/>\nPobre Hort\u00eancia! Que cora\u00e7\u00e3o o seu! Sabe a que a comparo?<br \/>\nA uma flor cujo vi\u00e7o depende de muito cuidado e que jaz para a\u00ed<br \/>\nsem esse cuidado \u00e0 merc\u00ea da intemp\u00e9rie. Diga-me. Vai casar<br \/>\nsempre?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Bar\u00e3o, sabe toda a minha vida. Nunca lhe ocultei nada<br \/>\nporque seria in\u00fatil. Sabe mesmo antes que lhe digam. Sim. Quero realizar<br \/>\nesse casamento. Que pensa ele?<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o, a \u00fanica mesmo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o lhe pergunto a opini\u00e3o que faz de Jos\u00e9<br \/>\nVejo que o acha melhor do que os outros.<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 raro. Bom, nobre, s\u00e9rio, escandalosamente s\u00e9rio.<br \/>\nS\u00f3 n\u00e3o me atrevo a rir da sua inveross\u00edmil seriedade<br \/>\npara que os outros seriamente n\u00e3o se conven\u00e7am de que n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 perigo em continuarem patifes.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E pensa como eu desta gente!<br \/>\nBelfort &#8211; Engana-se. N\u00e3o penso, classifico. No dia em que cada homem<br \/>\ns\u00e9rio quiser organizar-se um pouco \u00e0 maneira de um gabinete<br \/>\nde identifica\u00e7\u00e3o, a sociedade melhorar\u00e1 quase tanto como<br \/>\no desejam os socialistas. Ser\u00e1 apenas o uso intensivo da precau\u00e7\u00e3o,<br \/>\n&#8211; da ci\u00eancia da precau\u00e7\u00e3o. Mas em tudo isso, minha querida<br \/>\nHort\u00eancia, o essencial \u00e9 n\u00e3o sofrer. Todos n\u00f3s<br \/>\ndesejamos n\u00e3o sofrer. E parece que sofre pelo menos uma grande preocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 o Jos\u00e9? Esse ama-a leal e sinceramente&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 a minha vida.<br \/>\nBelfort &#8211; S\u00f3?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Estou incapaz de continuar, estou sim, cansada de sofrer.<br \/>\nN\u00e3o posso mais. Conhece-me h\u00e1 muito, bar\u00e3o. N\u00e3o<br \/>\nme queixo nunca. Mas j\u00e1 n\u00e3o posso.<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o se trata mais de lutar. Trata-se de um sentimento.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sim, talvez.<br \/>\nBelfort &#8211; A sua vida tem sido \u00e0 espera da felicidade.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Com que desejo a espero!<br \/>\nBelfort &#8211; Desta vez est\u00e1 a t\u00ea-la nas m\u00e3os&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Bar\u00e3o, sou muito infeliz! Nunca fiz mal a ningu\u00e9m<br \/>\npor vontade. E entretanto parece que tudo se revolta contra mim. Sabe o que<br \/>\nse passa?<br \/>\nBelfort &#8211; Q que n\u00e3o podia deixar de ser, minha boa Hort\u00eancia.<br \/>\nAcabou por amar deveras um homem digno que a pediu&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E de repente, quando tenho a felicidade, quando a sinto ao<br \/>\nalcance da m\u00e3o, ap\u00f3s uma vida de esfor\u00e7o, de sacrificio,<br \/>\nde tormento oculto, o \u00fanico momento de loucura, o \u00fanico instante<br \/>\nde esquecimento desta vida exemplar, ergue-se como o desastre.<br \/>\nBelfort &#8211; Como?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Lembra-me a sua frase, h\u00e1 dois meses, na lega\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Jap\u00e3o.. &#8220;H\u00e1 pequenas tolices que s\u00e3o grandes<br \/>\ndesastres&#8221;. O senhor olhava Carlos com um frieza terr\u00edvel. Compreendi<br \/>\nque sabia, que tinha sabido.<br \/>\nBelfort &#8211; A velhice torna infal\u00edvel a observa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Eu entretanto j\u00e1 antes o compreendera tamb\u00e9m.<br \/>\nAbandonara-me a um desvario de momento, a um desejo mais forte, e estava \u00e0<br \/>\nmerc\u00ea de uma criatura ego\u00edsta, seca, brutal, um rapaz que tem<br \/>\na pr\u00e1tica da maldade de um velho. Precisava dum consolo. Tive um aro<br \/>\nde ferro que me cerra, que me cinge, que me aperta. Antes de poder escapar\u00adlhe,<br \/>\nveio Jos\u00e9 \u00c9 t\u00e3o diferente!<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 n\u00e3o pensar sen\u00e3o no Jos\u00e9&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ah! n\u00e3o posso. Infelizmente n\u00e3o posso. Viu ontem<br \/>\nCarlos no ch\u00e1?<br \/>\nBelfort &#8211; Fazia acena do ci\u00fame insolente.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Desconfiou que h\u00e1 da minha parte mais do que simples<br \/>\ninteresse por Jos\u00e9. Desconfiou e eu neguei. Neguei por medo, neguei<br \/>\npor covardia. Quanto mais eu nego, por\u00e9m, mais o seu ci\u00fame quer,<br \/>\nmais exige. Vivo num tormento. N\u00e3o posso mais. Se confesso, sinto-o<br \/>\nbastante capaz de, por vingan\u00e7a, ir dizer ao outro a minha falta. Se<br \/>\nnego, tenho de fingir, de fingir amor por um ente, que n\u00e3o amo, que<br \/>\nn\u00e3o amei nunca, que apenas me entonteceu. Como \u00e9 f\u00e1tuo,<br \/>\ncomo \u00e9 mau, como \u00e9 cruel esse rapaz, meu amigo. N\u00e3o!<br \/>\n\u00c9 preciso acabar com isso j\u00e1. Mesmo que n\u00e3o case com<br \/>\no Jos\u00e9, n\u00e3o poderei mais suport\u00e1-lo!<br \/>\nBelfort &#8211; Tenha calma.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; S\u00f3 a um homem como o senhor falo como a mim mesmo.<br \/>\nSou bem uma infeliz. Sabe o meu orgulho de menina, a minha vaidade. Recalquei<br \/>\no desejo, com a ambi\u00e7\u00e3o de triunfar. Era bela, a intang\u00edvel.<br \/>\nCasaria com um grande nome. H\u00e1 dez anos &#8211; em torno de mim amontoaram-se<br \/>\nos desastres. Fugi do amor, e quando esse amor estava para chegar, ainda o<br \/>\ndesastre, o maior, o insuper\u00e1vel me fez ruir todas as esperan\u00e7as.<br \/>\nN\u00e3o quero! N\u00e3o quero, n\u00e3o! \u00c9 de mais. Porque preciso<br \/>\nvencer, porque quero ser digna &#8211; porque amo.<br \/>\nBelfort &#8211; Mas n\u00e3o se exalte.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Chegou ao auge, meu amigo. \u00c9 a tortura, estou nas m\u00e3os<br \/>\nde Carlos, sabe? Inteiramente nas suas m\u00e3os. Ele conta tudo se souber<br \/>\nque eu caso. \u00c9 o esc\u00e2ndalo. Pior. E o meu fim.<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o far\u00e1 isso.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Jurou-me. E faz. Sei que faz, para muito mais. Conhece-o?<\/p>\n<p>Belfort &#8211; Vi-o menino.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tem-se por chic, tem-me por prazer mau, tem-me como se tem<br \/>\numa tem uma presa. Dei-lhe o que uma mulher tem de mais caro: a reputa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nComo? N\u00e3o sei! Era a sua impertin\u00eancia, era a sua ci\u00eancia<br \/>\nde tenta\u00e7\u00e3o. Eu estava s\u00f3, havia tanto tempo&#8230; Se pudesse<br \/>\nser perdoada, teria apenas para o perd\u00e3o essa terr\u00edvel expia\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todos os momentos, sentindo-o a fingir amor, a gozar, a mandar, a dispor<br \/>\nda minha honra, da minha vida, por vaidade, por ego\u00edsmo, por maldade.<br \/>\nBelfort &#8211; Mas n\u00e3o far\u00e1 nada disso.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o o conhece.<br \/>\nBelfort &#8211; Mais do que sup\u00f5e. Quer ter confian\u00e7a em mim?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 a \u00fanica pessoa que me merece.<br \/>\nBelfort &#8211; Que pretende fazer?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Fingi at\u00e9 agora, fingi com pavor, com a id\u00e9ia<br \/>\n\u00fanica de salvar-me. Tudo, menos que o Jos\u00e9 venha-a saber. E<br \/>\nconsegui, consegui tudo. O Jos\u00e9 embarca amanh\u00e3. Eu sigo-o. Se<br \/>\nele n\u00e3o cometer a sua amea\u00e7a at\u00e9 amanh\u00e3, estou<br \/>\nsalva!<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 apenas uma criancice. E o Jos\u00e9 embarca?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Pedi-lhe tanto!<br \/>\nBelfort &#8211; Mas, minha querida Hort\u00eancia, fugir \u00e9 levar o tiro<br \/>\npelas costas.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Que fazer? Eu n\u00e3o sei! J\u00e1 n\u00e3o penso.<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 simples. Dizer-lhe tudo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Nunca!<br \/>\nBelfort &#8211; Carlos \u00e9 de uma fam\u00edlia honrada: refletir\u00e1.<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; N\u00e3o! N\u00e3o! Quero partir!<br \/>\nBelfort &#8211; Partir \u00e9 secund\u00e1rio. \u00c9 preciso apenas partir<br \/>\ncom a certeza de que esse rapaz n\u00e3o lhe far\u00e1 uma inf\u00e2mia<br \/>\nao saber do caso.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Fa-la-\u00e1, bar\u00e3o, fi\u00e1-la-\u00e1!<br \/>\nMaria (\u00e0 porta) &#8211; Hort\u00eancia. (Os dois voltam-.se, D. Maria faz<br \/>\num sinal significativo).<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ei-lo a\u00ed. V\u00ea? Volta! Est\u00e1 continuadamente<br \/>\naqui. Volta a amea\u00e7ar-me.<br \/>\nBelfort (resolu\u00e7\u00e3o.s\u00fabita) &#8211; Recebo-o eu.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Bar\u00e3o, por quem \u00e9!<br \/>\nBelfort &#8211; Deixe-nos s\u00f3s, Hort\u00eancia. \u00c9 muito grave o que<br \/>\nse passa. Sou eu quem lho diz. Juro que lhe darei a felicidade. Deixe-me conversar<br \/>\num pouco com ele. Bastar\u00e1 isso. Depois venha falar-lhe.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o me perca! N\u00e3o me perca!<br \/>\nBelfort &#8211; Nunca dou um passo sem a certeza do que vou fazer. V\u00e1. (Leva-a<br \/>\ncom autoridade at\u00e9 a porta, fecha-a. Senta-se numa poltrona). H\u00e1<br \/>\nquanto tempo n\u00e3o via um pequeno drama em pleno desenlace. Vai ser realmente<br \/>\ndelicioso! (Recosta-se com indiferen\u00e7a).<br \/>\nCarlos (entrando, surpreendido) &#8211; Oh! O senhor?<br \/>\nBelfort &#8211; Bom dia, jovem Carlos.<br \/>\nCarlos &#8211; Pensava tudo menos encontr\u00e1-lo agora.<br \/>\nBelfort &#8211; Goza voc\u00ea da mesma surpresa que eu. Tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\ncontava.<br \/>\nCarlos &#8211; Madame Vargas?<br \/>\nBelfort &#8211; Acaba de sair daqui.<br \/>\nCarlos &#8211; D. Maria?<br \/>\nBelfort &#8211; Ainda n\u00e3o a vi. Anda de certo nos arranjos da casa. Pobre<br \/>\nD. Maria!<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 uma boa senhora.<br \/>\nBelfort &#8211; Quem sabe? N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m bom nem mau completamente.<br \/>\nAs pessoas s\u00e3o como as a\u00e7\u00f5es. Tomam o aspecto do momento.<br \/>\nH\u00e1 a\u00e7\u00f5es que encaradas sob o prisma da rigorosa moral<br \/>\nparecem pouco apreci\u00e1veis, e que, entretanto, se pensarmos bem, sem<br \/>\nmoral, chegam a ser desculp\u00e1veis.<br \/>\nCarlos &#8211; Sempre moralista!<br \/>\nBelfort &#8211; E dos melhores, porque compreendo a imoralidade geral sem regener\u00e1-la.<br \/>\nMas como n\u00f3s divagamos!<br \/>\nCarlos &#8211; Talvez do calor!<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 que ambos temos uma preocupa\u00e7\u00e3o forte.<br \/>\nCarlos &#8211; 0 bar\u00e3o tem alguma?<br \/>\nBelfort &#8211; A de querer conversar com voc\u00ea.<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 o que fazemos.<br \/>\nBelfort &#8211; Conversar a s\u00e9rio. Em geral conversamos muito para n\u00e3o<br \/>\ndizer nada. Escondemos o terr\u00edvel di\u00e1logo do sil\u00eancio.<br \/>\nDesde que chegou, voc\u00ea pergunta: que me queres tu? E eu respondo; j\u00e1<br \/>\nte direi!<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 imaginoso.<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9, como v\u00ea, muito triste. N\u00e3o negue. O nervosismo<br \/>\nimpaciente da sua atitude parece tra\u00ed-lo. Que quer fazer?<br \/>\nCarlos &#8211; Mas&#8230; Nada.<br \/>\nBelfort &#8211; Ainda bem. H\u00e1 pouco, depois do almo\u00e7o, vim ver Hort\u00eancia<br \/>\ne soube de coisas muito interessantes.<br \/>\nCarlos &#8211; Ah!<br \/>\nBelfort &#8211; Sente-se aqui. Tenho por Hort\u00eancia uma grande amizade, a amizade<br \/>\nque se tem pelos que n\u00e3o conseguem realizar a felicidade, tendo todas<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es para obt\u00ea-la. Hort\u00eancia, n\u00e3o<br \/>\nsei se sabe? Continuando depois da morte do marido, a mesma vida de fausto,<br \/>\nest\u00e1 sem recursos. Ou antes tem pouco para manter uma vida que \u00e9<br \/>\na. raz\u00e3o de ser da sua exist\u00eancia. A apar\u00eancia! Como a<br \/>\napar\u00eancia leva \u00e0 ruina neste pa\u00eds! Hort\u00eancia so\u00e7obra,<br \/>\npor\u00e9m, sem salvamento. Falta-lhe um aux\u00edlio forte, falta-lhe<br \/>\num homem.<br \/>\nCarlos &#8211; Ah!<br \/>\nBelfort &#8211; Claro que com a sua altivez e a sua intang\u00edvel honestidade<br \/>\nela n\u00e3o aceitaria nem aceitar\u00e1 nunca aux\u00edlios de dinheiro<br \/>\nestranho. Qual a solu\u00e7\u00e3o que voc\u00ea apontaria \u00e0 nossa<br \/>\npobre amiga, que n\u00e3o sabe ser sen\u00e3o bela e gastadora &#8211; para<br \/>\na salvar do cataclismo?<br \/>\nCarlos &#8211; Francamente&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Ela est\u00e1 bem num dilema, n\u00e3o acha?<br \/>\nCarlos &#8211; Compreende, esta confid\u00eancia imprevista&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Da minha parte, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, deve espant\u00e1-lo.<br \/>\nMas n\u00f3s conversamos muito. E h\u00e1 de fato uma solu\u00e7\u00e3o<br \/>\nprovidencial, a solu\u00e7\u00e3o que noventa e nove vezes sobre cem acode<br \/>\nas pessoas acostumadas ao luxo, quando o luxo v\u00ea que as vai perder.<br \/>\nHort\u00eancia, no seu desastre financeiro, conserva a maior dignidade e<br \/>\na maior pureza. Dela at\u00e9 agora, nem suspeita. Quer um charuto?<br \/>\nCarlos &#8211; Obrigado, n\u00e3o fumo.<br \/>\nBelfort &#8211; Inibe-se com isso de dois prazeres; o de devancar e o de perder<br \/>\na mem\u00f3ria, o que em certos casos \u00e9 excelente. Mas onde estava<br \/>\neu?<br \/>\nCarlos &#8211; No dilema.<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o. Um pouco mais adiante. Na provid\u00eancia. Creio que<br \/>\no n\u00e3o fadigo.<br \/>\nCarlos &#8211; Ao contr\u00e1rio.<br \/>\nBelfort &#8211; E a provid\u00eancia, como sempre providencial, arranjou a solu\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Carlos (explodindo) &#8211; Bar\u00e3o, por que me tortura, h\u00e1 tanto tempo?<\/p>\n<p>Belfort &#8211; Mas n\u00e3o. Procuro as palavras. Quero apenas faz\u00ea-lo<br \/>\nrefletir.<br \/>\nCarlos &#8211; Ela vai casar, ela aceitou o casamento?<br \/>\nBelfort &#8211; Ela aceitar\u00e1.<br \/>\nCarlos &#8211; Com ele?<br \/>\nBelfort &#8211; Que importa que seja com ele ou com outro? \u00c9 a salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlos &#8211; E mandou cham\u00e1-lo para me dizer isso?<br \/>\nBelfort &#8211; Como amigo que a respeita e que deseja a sua felicidade.<br \/>\nCarlos &#8211; S\u00f3 isso, bar\u00e3o, s\u00f3 esse ato dela, mostra que<br \/>\neu tenho um pouco de raz\u00e3o. N\u00e3o teve coragem de me dizer face<br \/>\na face.<br \/>\nBelfort &#8211; Estima por voc\u00ea talvez.<br \/>\nCarlos &#8211; Estima! A ironia dessa palavra! Estima! Dou-me a ela, hipoteco-me<br \/>\n\u00e0 sua vontade, vivo por ela, pensando, sonhando nela, num sentimento<br \/>\nimenso de dedica\u00e7\u00e3o, de amor, escondendo-me, humilhando-me.<br \/>\nE quando ap\u00f3s tr\u00eas meses, ainda \u00e9 maior o meu sacrif\u00edcio,<br \/>\ncasa com outro e manda-me dizer que eu reflita. H\u00e1 de convir que \u00e9<br \/>\nc\u00f4mico.<br \/>\nBelfort (impass\u00edvel) &#8211; A vida \u00e9 uma dor cont\u00ednua que<br \/>\nse finge n\u00e3o sentir &#8211; como medo de n\u00e3o mais a sentir. Que se<br \/>\nh\u00e1 de fazer\/<br \/>\nCarlos &#8211; mas para que fingir.<br \/>\nBelfort &#8211; Voc\u00ea engana-se. N\u00e3o fingiu at\u00e9 agora nem finge.<br \/>\nOutra fosse a situa\u00e7\u00e3o e estou certo de que n\u00e3o a veria<br \/>\nsofrendo. Foi voc\u00ea a sua \u00fanica loucura.<br \/>\nCarlos &#8211; Uma loucura que passa \u00e0 passagem da primeira conta corrente.<br \/>\nBelfort (leve impaci\u00eancia) &#8211; Carlos, voc\u00ea esquece que eu respeito<br \/>\nmadame Vargas.<br \/>\nCarlos &#8211; Mas \u00e9 o senhor mesmo quem me d\u00e1 as suas raz\u00f5es.<br \/>\nBelfort &#8211; E esquece que eu o conhe\u00e7o muito bem.<br \/>\nCarlos &#8211; Trata-se de um caso diverso, trata-se de outra coisa.<br \/>\nBelfort &#8211; E esquece tamb\u00e9m que n\u00e3o a pode prejudicar, n\u00e3o<br \/>\ntem o direito de o fazer.<br \/>\nCarlos &#8211; Que me importa?<br \/>\nBelfort &#8211; E esquece at\u00e9 mesmo a sua situa\u00e7\u00e3o, que me<br \/>\nabstenho de definir.<br \/>\nCarlos &#8211; Diga. Continue. A minha situa\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel,<br \/>\na situa\u00e7\u00e3o que no primeiro momento envaidece, mas que s\u00f3<br \/>\nse compreende depois. Diga. Ela \u00e9 a grande dama, que esqueceu alguns<br \/>\nmeses o seu dever. Eu sou o rapaz sem conseq\u00fc\u00eancias. Bem vestido,<br \/>\nfilho de boa fam\u00edlia, mas sem profiss\u00e3o e sem dinheiro. Quando<br \/>\nvem o interesse, allons oust! Seja cavalheiro e passe muito bem. Simplesmente<br \/>\no inferior! Ah! Meu caro bar\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o compreender\u00e1<br \/>\nnunca a f\u00faria de amar, quando a gente se sente inferior. \u00c9 uma<br \/>\nmis\u00e9ria, \u00e9 um nojo, \u00e9 um desespero. A maioria dos desclassificados<br \/>\nvem do amor em que eram inferiores. Eu sou inferior. Eu n\u00e3o tenho dinheiro.<br \/>\nSe ela fosse rica, eu seria apenas o preferido, o mante\u00fado! Oh! Sim.<br \/>\nHavia de bater-lhe para mostrar que antes de ser dela, ela \u00e9 minha.<br \/>\nH\u00e1 mais por\u00e9m. Sou o preferido secreto que ela arreda para casar<br \/>\ncom outro. E ent\u00e3o tudo quanto ainda tenho de nobre, que \u00e9 um<br \/>\ndesesperado orgulho, me sobe \u00e0 cabe\u00e7a. Tenho ci\u00fames,<br \/>\nci\u00fames idiotas, sem raz\u00e3o de ser. \u00cb uma luta. Vou quase<br \/>\na ceder e de repente vem-me palp\u00e1vel a lembran\u00e7a dela e dele,<br \/>\nque \u00e9 est\u00fapido, que \u00e9 rico. Est\u00fapido, rico e forte&#8230;<br \/>\nPenso que ele sabe, que ele me despreza. Penso que ela acabar\u00e1 desprezando-me<br \/>\ntamb\u00e9m, satisfeita em tudo com um esp\u00edrito que se deixe dominar,<br \/>\ncom o dinheiro para gastar e al\u00e9m disso, com um homem forte e mo\u00e7o!<br \/>\nMeu Deus! Eu j\u00e1 sabia que ela ia casar. Ao ver esse pobre diabo, que<br \/>\ns\u00f3 a leva pelo dinheiro e pela posi\u00e7\u00e3o, adivinhei. Ent\u00e3o<br \/>\nagarrei-me aos \u00faltimos instantes de d\u00favida, desejei-a como quem<br \/>\nrouba, violei-lhe a fraqueza como um salteador, entontecia de.medo, de susto,<br \/>\nde pavor&#8230;<br \/>\nBelfort (frio) &#8211; E vai tranq\u00fcilamente deix\u00e1-la em paz!<br \/>\nCarlos &#8211; Como?<br \/>\nBelfort &#8211; Para que esse desespero? Voc\u00ea \u00e9 mo\u00e7o. A juventude<br \/>\npensa que tudo acaba, quando tudo continua. Para que tanto drama? Raramente<br \/>\nas mulheres valem uma loucura. Talvez por isso n\u00e3o h\u00e1 mulher<br \/>\nque n\u00e3o tenha enlouquecido um homem. Ou dois. Ou mesmo tr\u00eas.<br \/>\nMas n\u00e3o importa. As mulheres s\u00e3o pequenos vasos de cristal transparente.<br \/>\nN\u00e3o tem cor. N\u00f3s \u00e9 que lhes pomos a tinta da nossa ilus\u00e3o.<br \/>\nVemo-las azuis, rosas, ou negras. retirada a tinta, meu rapaz, os vasos continuam<br \/>\nsem cor. Voc\u00ea \u00e9 um temperamento que eu conhe\u00e7o bem. Ela<br \/>\npor\u00e9m \u00e9 um pouco diversa de voc\u00ea. Acabou. Acabou tudo.<br \/>\nRetire a tinta. Outros amores vir\u00e3o. E o que fizer sofrer a outras<br \/>\nmulheres compens\u00e1-lo-\u00e1 do que n\u00e3o pode mais fazer a Hort\u00eancia.<br \/>\nCarlos &#8211; O senhor n\u00e3o acredita na minha dor, bar\u00e3o?<br \/>\nBelfort &#8211; Meu caro Carlos, decididamente exagera.<br \/>\nCarlos &#8211; Exagero?<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o querer\u00e1 fazer-me crer numa paix\u00e3o fatal<br \/>\npor Hort\u00eancia. Conhe\u00e7o-o muito bem. Uma paix\u00e3o fatal \u00e9<br \/>\nprofundamente aborrecido_ Trata-se de uma conquista mundana, aquilo por que<br \/>\nvoc\u00eas todos almejam: a mulher bonita de sociedade, que se assalta uma<br \/>\nnoite de baile, que se envolve em lux\u00farias aprendidas nas pens\u00f5es,<br \/>\ne que se conserva mesmo \u00e0s escondidas como um bras\u00e3o, porque<br \/>\nposa bem. Oh! n\u00e3o! Interromper-me para qu\u00ea? \u00c9 exatamente<br \/>\nisso. depois a paix\u00e3o ocupa. Entra uma Ren\u00e9e e uma Gl\u00f3ria<br \/>\nqualquer e sempre elegante, o luxo gratuito de uma senhora a quem se domina<br \/>\npela revela\u00e7\u00e3o libidinosa, pelo pr\u00f3prio terror do esc\u00e2ndalo&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Bar\u00e3o! N\u00e3o me confunda com essa gente. O seu ceticismo<br \/>\naniquila a vontade que tenho de convenc\u00ea-lo! N\u00e3o! Eu n\u00e3o<br \/>\nquero impedir a felicidade dela, eu sei que sou transit\u00f3rio, que n\u00e3o<br \/>\ndevo ser levado em conta.-Ela pode casar. Mas n\u00e3o com aquele, n\u00e3o<br \/>\ncom ele. Esse n\u00e3o! n\u00e3o!<br \/>\nBelfort &#8211; Por que?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o sei! J\u00e1 n\u00e3o sei o que digo! Mas n\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 instintivo, \u00e9 uma revolta furiosa.<br \/>\nBelfort &#8211; Uma pequena revolta. Compreende-se. Outro qualquer n\u00e3o reuniria<br \/>\nas qualidades que tanto o incomodam no Jos\u00e9 \u00c9 por conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\numa quest\u00e3o de despeito, de vaidade. Tanto mais dolorosa quando \u00e9<br \/>\nna _sombra, sem que ningu\u00e9m saiba. Mas por isso mesmo nobre, mais nobre.<br \/>\nHort\u00eancia falou-me do receio que o seu ci\u00fame lhe causa. Teme<br \/>\ndesgra\u00e7as, horrores. Logo a tranq\u00fcilizei lembrando: Carlos \u00e9<br \/>\num cavalheiro. A nossa palestra tem esse fim. Voc\u00ea vai deixar de amea\u00e7as<br \/>\nque n\u00e3o s\u00e3o um prod\u00edgio de galanteria.<br \/>\nCarlos &#8211; Eu n\u00e3o amea\u00e7o, s\u00f3 eu fa\u00e7o.<br \/>\nBelfort &#8211; Voc\u00ea vai deixar de pensar em fazer.<br \/>\nCarlos &#8211; Veremos.<br \/>\nBelfort &#8211; Desejo convenc\u00ea-lo apenas.<br \/>\nCarlos &#8211; Que me importa a mim ela? O respeito \u00e9 rec\u00edproco. Tramou<br \/>\num casamento e p\u00f5e-me na rua sem satisfa\u00e7\u00e3o. Vingo-me.<br \/>\nestou no meu direito. N\u00e3o \u00e9 capaz de dizer-me que o procedimento<br \/>\ndela \u00e9 moral?<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o discuto o acaso, que tem conting\u00eancias. Nada \u00e9<br \/>\nmoral. Mas acho que tudo \u00e9 digno quando se procura conservar com sacrif\u00edcio<br \/>\nde um, de cem, ou de um milh\u00e3o de homens a honra de uma senhora.<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 uma opini\u00e3o de efeito para as mulheres.<br \/>\nBelfort &#8211; A melhor, Carlos, que, pe\u00e7o aceitar.<br \/>\nCarlos &#8211; Manda-me embora. \u00c9 a primeira mulher que me despede! Vingo-me.<br \/>\nBelfort \u2013 Mas sou eu quem lhe pe\u00e7o.<br \/>\nCarlos \u2013 Em nome de quem?<br \/>\nBelfort &#8211; Em seu nome, em nome de seu car\u00e1ter, primeiro: em meu nome<br \/>\ndepois. Sou um velho amigo da sua fam\u00edlia, de seu pai.<br \/>\nCarlos &#8211; Oh! meu pai!<br \/>\nBelfort &#8211; Por ser amigo de seu pai, encontrou-me voc\u00ea sempre&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Oh! bar\u00e3o. Creio que n\u00e3o vai trazer \u00e1 cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nuns pedidos de rapaz para peitar a minha consci\u00eancia.<br \/>\nBelfort (impaciente) &#8211; Se tem essa consci\u00eancia, deveria ter come\u00e7ado<br \/>\npor n\u00e3o amea\u00e7ar uma mulher sem defesa. Mas se a retoma agora,<br \/>\ndeve respeitar-me.<br \/>\nCarlos &#8211; Entre o respeito que possa ter pelo senhor e esta quest\u00e3o<br \/>\nem que o senhor nada tem, h\u00e1 um abismo.<br \/>\nBelfort &#8211; Carlos, seria melhor n\u00e3o azedar esta palestra. Pe\u00e7o-lhe<br \/>\nem meu nome ainda uma vez, em nome de um velho c\u00e9tico que j\u00e1<br \/>\nlhe pagou algumas contas.<br \/>\nCarlos &#8211; O senhor alega-me coisas que de certo n\u00e3o fez com o fim de<br \/>\nse fazer meu tutor em quest\u00f5es de mulheres?<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 um caminho errado esse. Est\u00e1s a mostrar a alma demais.<br \/>\nE se eu quisesse alegar?<br \/>\nCarlos &#8211; O que?<br \/>\nBelfort &#8211; Eu poderia lembrar h\u00e1 cinco anos a sua entrada na minha casa.<\/p>\n<p>Carlos (senta-se bruscamente) &#8211; Bar\u00e3o!Bar\u00e3o!<br \/>\nBelfort &#8211; Eu poderia recordar a sua fisionomia desmudada, o seu gesto nervoso,<br \/>\nos seus solu\u00e7os.<br \/>\nCarlos &#8211; Bar\u00e3o, \u00e9 pouco generosos o que faz. N\u00e3o \u00e9<br \/>\nde um homem como o senhor!<br \/>\nBelfort &#8211; Eu poderia dizer-lhe as minhas reflex\u00f5es diante dessa pequena<br \/>\nfalta, em que se mostrou com lucro t\u00e3o mau imitador&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 digno! N\u00e3o \u00e9 digno!<br \/>\nBelfort &#8211; Eu poderia lembrar que tenho todos as provas de um desvairamento<br \/>\nda sua juventude, fui t\u00e3o pouco generoso que guardei esse documento<br \/>\nnum canto e nunca mais dele me lembrei.<br \/>\nCarlos (prostrado) &#8211; Bar\u00e3o! \u00c9 o senhor o \u00fanico homem<br \/>\nque me pode falar assim. N\u00e3o! N\u00e3o continue. Eu n\u00e3o sei<br \/>\no que fa\u00e7o. Eu n\u00e3o sou mau, n\u00e3o, n\u00e3o sou! \u00c9<br \/>\na fatalidade. A fatalidade que me fez um gozador sem fortuna, um leviano,<br \/>\num pobre rapaz leviano. Tudo \u00e9 contra mim. At\u00e9 agora. At\u00e9<br \/>\nagora. \u00c9 o desespero que me leva a amea\u00e7ar Hort\u00eancia.<br \/>\nEu aceitaria tudo menos o outro. E at\u00e9 a\u00ed a minha desgra\u00e7a<br \/>\no faz ganhando a partida. Porque lembrar o que foi mau, por que lembrar o<br \/>\nque passou h\u00e1 tanto tempo?<br \/>\nBelfort &#8211; A nossa palestra termina.<br \/>\nCarlos &#8211; Eu sou-lhe muito grato, muito, muito. Aquilo o senhor fez, n\u00e3o<br \/>\npor mim mas pela minha fam\u00edlia. Para que recordar, se continua amigo<br \/>\nde meu pai? Esse desvario passou. Nunca mais. Nunca mais. N\u00e3o precisava<br \/>\nvir com o espectro do passado amea\u00e7ar, me.<\/p>\n<p>Belforf &#8211; N\u00e3o amea\u00e7o. Valorizo o meu pedido.<br \/>\nCarlos &#8211; Foi mau,.foi t\u00e3o mau! _Disso s\u00f3 o senhor e eu sabemos.<br \/>\nNada mais resta&#8230; N\u00e3o precisava lembrar tanta coisa. Eu sou eu. N\u00e3o<br \/>\nprecisava fazer valer em defesa de uma criatura que eu amo, esse processo<br \/>\nt\u00e3o esquisito, t\u00e3o policial&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Diga a palavra. Essa chantagem. Gra\u00e7as aos deuses a chantagem<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para as coisas ruins. Mas a nossa palestra findou.<br \/>\nLevou-me a excessos de que me arrependo.<br \/>\nPedia-lhe que refletisse. Ainda o pe\u00e7o. E tenho tanta confian\u00e7a<br \/>\nna sua prud\u00eancia que o deixo s\u00f3.<br \/>\nCarlos &#8211; Faz muito pouco do homem a que trata t\u00e3o mal!<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o. espero tudo do seu cavalheirismo. (consultando o rel\u00f3gio).<br \/>\nOh! Esperam\u00adme no clube para. uma partida s\u00e9ria. Carlos, vai ter<br \/>\ncom Hort\u00eancia uma \u00faltima palestra.. Seja um homem digno. E n\u00e3o<br \/>\nvolte mais aqui. Se precisar (p\u00f5e o chap\u00e9u, \u00e1 porta,<br \/>\nelegant\u00edssimo) uma esta\u00e7\u00e3o d&#8217;\u00e1guas, v\u00e1<br \/>\nfalar-me. N\u00e3o volte. (sai).<br \/>\nCarlos (anda nervosamente, morde os pulsos, est\u00e1 furioso).<br \/>\nMadame Vargas (abre a porta da direita de repente) &#8211; Belfort?<br \/>\nCarlos (estacando) &#8211; Foi-se.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ah! Carlos &#8211; Contou-me tudo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tudo?<br \/>\nCarlos &#8211; O teu casamento, o Jos\u00e9 Ferreira, a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; N\u00e3o s\u00e3o coisas definitivas.<br \/>\nCarlos &#8211; Mas v\u00e3o ser. \u00c9 in\u00fatil mais rodeios. Falou-me<br \/>\ncomo tu, friamente.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ai de mim!<br \/>\nCarios &#8211; Falou-me como um negociante. Convenceu-me.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; De que?<br \/>\nCarlos &#8211; De que somos todos do mesmo pano, assaz infames: ele, tu, o noivo<br \/>\ne eu. Cedemos um pouco cada um de n\u00f3s e as coisas ir\u00e3o da melhor<br \/>\nmaneira, no melhor dos mundos poss\u00edveis.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Se pensas assim&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Pensamos. Pensamos todos assim numa pe\u00e7a bem imoral&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Em que n\u00e3o tens o melhor papel.<br \/>\nCarios &#8211; Nem tu.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Acho esquisito que tivesses ficado para dizer insol\u00eancias.<\/p>\n<p>Carlos &#8211; N\u00e3o as direi mais.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Belfort falou-me. \u00c9 um amigo comum.<br \/>\nCarlos &#8211; Extraordin\u00e1rio, absolutamente extraordin\u00e1rio, \u00e9<br \/>\no que ele \u00e9<br \/>\nMadame Vargas &#8211; A tua insist\u00eancia, os teus ci\u00fames n\u00e3o<br \/>\nme davam coragem para te expor a salva\u00e7\u00e3o da minha vida. Chamei-o<br \/>\ncomo a \u00fanica pessoa capaz de te convencer.<br \/>\nCarlos &#8211; Convenceu-me. Mas por que cham\u00e1-lo? Que se deu? O que eu pensava?<br \/>\nBastava que me tivesse dito logo no primeiro dia. Sou um cavalheiro, sou ao<br \/>\nmenos teu amigo. Compreendo as necessidades. Compreendo muito bem. Para que<br \/>\nfingiste? Tu \u00e9 que andaste mal.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Eu? Se n\u00e3o tivesse estabelecido um cerco angustioso<br \/>\nem torno de mim, a espreitar, a entrar a todo o instante, a responderes quase<br \/>\ncom \u00f3dio, se n\u00e3o tivesse a cada passo uma cena terr\u00edvel<br \/>\nde amea\u00e7a, teria agido doutro modo. Mas tu viraste meu inimigo.<br \/>\nCarlos &#8211; O amor \u00e9 cego.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sabes que detesto frases vazias.<br \/>\nCarlos &#8211; Eu tamb\u00e9m. Principalmente ditas por n\u00f3s.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Esse tom de impertin\u00eancia vai-te mal.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o sei porque.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Devo lembrar-te que falas comigo.<br \/>\nCarlos &#8211; Estou certo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Eu \u00e9 que estou cansada, ouviste? Esses teus modos s\u00e3o<br \/>\npara outro lugar.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o se trata aqui da minha educa\u00e7\u00e3o. Trata-se<br \/>\nde um arranjo. Eu estava estorvando. vem o Belfort e eu c\u00e1 estou pronto.<br \/>\nNada de talon rouge-apaches!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Longe de me acalmar, tudo quanto dizes, mais me excita. Se<br \/>\ntivesses aceitado razoavelmente os. fatos, n\u00e3o dirias grosserias.<br \/>\nCarlos (rompendo) &#8211; Mas voc\u00eas s\u00e3o engra\u00e7adas! Voc\u00eas<br \/>\ns\u00e3o t\u00e3o boas como as outras, voc\u00eas t\u00eam amigos, voc\u00eas<br \/>\nt\u00eam protetores, com que combinam enganar a humanidade&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Carlos!<br \/>\nCarlos &#8211; E no momento em que lhe falamos como a iguais, ficam imensamente<br \/>\nofendidas.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Carlos! Carlos!<br \/>\nCarlos &#8211; Que temos?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 de mais. N\u00e3o me afrontes mais. \u00c9 indigno<br \/>\no que fazes.<br \/>\nCarlos &#8211; Somos iguais. Nada de poesia.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Nunca pensei que me humilhasses assim&#8230; N\u00e3o podias<br \/>\nfazer.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o se trata do que eu possa fazer.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 uma mis\u00e9ria! E dizer que me entreguei a um<br \/>\ngrosseir\u00e3o da tua ordem!<br \/>\nCarlos &#8211; O papel de v\u00edtima vai-te mal.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Esqueci todo o meu passado, o meu nome, o meu faturo.<br \/>\nCarlos &#8211; A bela lamenta\u00e7\u00e3o!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Meu Deus!<br \/>\nCarlos &#8211; Mas n\u00e3o perdes o futuro, fica certa. Que \u00e9 preciso<br \/>\nfazer? Desaparecer? acompanhar o casamento?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tenho pena de ti, Carlos!<br \/>\nCarlos &#8211; Em troca eu tenho-te inveja!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Para que cavar entre n\u00f3s o abismo das m\u00e1s palavras?<\/p>\n<p>Carlos &#8211; H\u00e1 um maior.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; H\u00e1 a fatalidade &#8211; o que n\u00e3o podia deixar de<br \/>\nser.<br \/>\nCarlos &#8211; Achas?<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Mas o que desejas tu, afinal? Que eu perca minha posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial? Que me denuncie publicamente tua amante? Que eu case contigo? Dize.<br \/>\nN\u00e3o podemos continuar definidamente nesta situa\u00e7\u00e3o, em<br \/>\nque me colocas. N\u00e3o te bastou o meu orgulho. Queres ver-me vilipendiada,<br \/>\ncorrida. O meu erro foi pensar um momento que tinhas por mim alguma fei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCarlos &#8211; Hort\u00eancia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o vens nunca sen\u00e3o com a amea\u00e7a. O<br \/>\nteu amor \u00e9 a viol\u00eancia e a afronta. Que queres tu afinal? Dize,<br \/>\nque eu fa\u00e7o. O bar\u00e3o falou-te. Estou arrependida de lho ter<br \/>\npedido. Era melhor, sem receio, desde que \u00e9 esta a minha situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\narrostar com tudo. Vamos a saber. Queres casar comigo?<br \/>\nCarlos &#8211; Hort\u00eancia.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Queres? Essa seria a melhor das hip\u00f3teses para mim<br \/>\ne \u00e9 irrealiz\u00e1vel. Sabes bem que \u00e9 E as outras? As outras<br \/>\ns\u00e3o o meu desastre apenas.<br \/>\nCarlos &#8211; Quando se ama n\u00e3o se reflete como tu refletes. O teu casamento<br \/>\n\u00e9 um pretexto para me afastar. J\u00e1 n\u00e3o me queres`<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o quero loucuras, n\u00e3o quero o meu sacrificio<br \/>\nin\u00fatil &#8211; in\u00fatil porque n\u00e3o o compreenderias. Por enquanto<br \/>\neu sou a Bela Madame Vargas que requestas numa linda vila na melhor sociedade.<br \/>\nSeria a mesma amanh\u00e3 seguindo-te na mis\u00e9ria?<br \/>\nCarlos &#8211; Para que frases?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Quero ao menos saber francamente o que desejas. Esta \u00e9<br \/>\na nossa \u00faltima explica\u00e7\u00e3o. Fala.<br \/>\nCarlos &#8211; Para que?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Fala, dize o que desejas, o que se poder\u00e1 fazer?<br \/>\nCarlos &#8211; Ora!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Dize sempre. Dize&#8230; Ficaremos com a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nclara.<br \/>\nCarlos &#8211; O amor-\u00e9 o sofrimento.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; O amor \u00e9 a dedica\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o<br \/>\nfales de amor!<br \/>\nCarlos &#8211; Falo, falo, sim. Queres saber? Sofres? Eu sofro muito mais. J\u00e1<br \/>\n-n\u00e3o vivo sen\u00e3o com a tua id\u00e9ia, id\u00e9ia de ego\u00edsmo,<br \/>\nde ambi\u00e7\u00e3o, de desejo, seja! Mas tu! Cada um ama como pode.<br \/>\nH\u00e1 tr\u00eas meses que me importava ires com outro&#8230; casares? H\u00e1<br \/>\ndois meses mesmo! Hoje eu n\u00e3o posso, eu n\u00e3o quero, oh! sim!<br \/>\nn\u00e3o quero, n\u00e3o! Ver-te com outro, s\u00f3 a lembran\u00e7a<br \/>\nme enche de sangue a cabe\u00e7a e me atordoa.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o divagues, Carlos. Fala a verdade.<br \/>\nCarlos &#8211; Digo o que sinto.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Dize inteiramente.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o quero que cases.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Que devo fazer ent\u00e3o? Casar contigo? Fugir contigo?<\/p>\n<p>Carlos &#8211; Hort\u00eancia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas completa o teu pensamento, tem a coragem de complet\u00e1-lo,<br \/>\ndize o que ambos sentimos h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o \u00e9 o meu<br \/>\ncasamento que te preocupa. Quantas vezes falas-te dele a rir como uma coisa<br \/>\nfatal.<br \/>\nCarios &#8211; Hort\u00eancia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o te incomodava eu ser de outro, n\u00e3o te aborrecia<br \/>\nisso, o sangue n\u00e3o te enchia a cabe\u00e7a nessa ocasi\u00e3o.<br \/>\nEu que te ouvia, tu que falavas como \u00e9ramos iguais! Tem pois a coragem<br \/>\nda verdade. N\u00e3o te aborreceria que eu desposasse fulano ou sicrano,<br \/>\no deputado Guedes ou o banqueiro Praxedes. O que te incomoda, o que tu n\u00e3o<br \/>\nqueres \u00e9 que seja o Jos\u00e9.<br \/>\nCarlos &#8211; Pois si. Confesso. \u00c9 verdade. Odeio-o, odeio-o. N\u00e3o<br \/>\nme revoltaria se casasse com outro. Mas com ele n\u00e3o! Com esse nunca!<br \/>\nCom ele \u00e9 que n\u00e3o quero.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Por que?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o sei, n\u00e3o sei!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Porque \u00e9 rico?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o -sei.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Porque \u00e9 mo\u00e7o?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o quero! N\u00e3o quero!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Porque \u00e9 digno?<br \/>\nCarlos &#8211; Como eu adivinhava! Antes de ser comerciante, es bem mulher. Sim,<br \/>\nn\u00e3o quero que cases com ele, confesso-o, porque \u00e9 rico, \u00e9<br \/>\nmo\u00e7o, \u00e9 digno, porque \u00e9 est\u00fapido, porque<br \/>\no amas. Sim. Gostas dele! \u00c9 o \u00fanico de quem tu gostas. Cada<br \/>\ndia gostas mais. Cada dia mais. Vi, senti, tive a certeza. Eu fui a loucura<br \/>\nque se recorda com horror. Ele \u00e9 o teu amor.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Est\u00e1s louco. Fala baixo.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o _negues, n\u00e3o mintas tamb\u00e9m. Acabemos com<br \/>\nisso. H\u00e1 um m\u00eas que lutamos eu e tu &#8211; eu querendo saber, tu a<br \/>\nfugir. Vieste. \u00c9 um bem. sabes o que eu penso. Mas eu sei o que tu<br \/>\nsentes. Esse imbecil conquistou-te! Todos n\u00f3s colaboramos para que<br \/>\nele ficasse em foco. E tu amaste-o ao v\u00ea-lo. E tu me abandonas por causa<br \/>\ndele.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o!<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o ocultarias, se o n\u00e3o amasses. E fingiste, fingiste!<br \/>\nPara que fingiste tanta raz\u00e3o, tu que \u00e9 t\u00e3o doida como<br \/>\nqualquer de n\u00f3s? Para que fostes buscar Belfort, para acabar as nossas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Pela tua exaspera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Com medo<br \/>\nde ti.<br \/>\nCarlos &#8211; Medo por ele! S\u00f3 por ele! Ele \u00e9 o alfenim a que tu<br \/>\nvais pertencer e n\u00e3o deve ser incomodado. A sociedade! os teus credores!<br \/>\nMas continuarias comigo apesar da sociedade e dos credores, se n\u00e3o<br \/>\nfosse ele. Tudo por ele, s\u00f3 por ele!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; medo por ti, por mim.<br \/>\nCarlos &#8211; Eu \u00e9 que grito agora: deixa de farsa! Mas escuta, vem c\u00e1.<br \/>\nH\u00e1 instantes lembrastes as minhas conversas cobre a possibilidade do<br \/>\nteu casamento. Pois bem. Dize-me c\u00e1: se casares com ele, continuar\u00edamos<br \/>\nos dois os mesmos?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas \u00e9 indecente o que fazes_ N\u00e3o est\u00e1s<br \/>\nno teu ju\u00edzo. Tudo o que dizes \u00e9 desvario.<br \/>\nCarlos &#8211; Porque eu sei que n\u00e3o ser\u00e1, compreendes? Eu sei. Ele<br \/>\nadquiriu-te completa com a estupidez e o dinheiro. J\u00e1 viste um imbecil<br \/>\nenganado pela mulher? Nem que case com uma meretriz!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 demais! \u00c9 demais! Carlos, vai-te. Tinha de<br \/>\nacabar assim a nossa afei\u00e7\u00e3o. pensar\u00e1s depois na grande<br \/>\ndor que me d\u00e1s! Vai-te. N\u00e3o posso mais! N\u00e3o posso mais!<br \/>\nEst\u00e1 tudo acabado!<br \/>\nCarlos &#8211; Como o amas! Como queres ver-te livre de mim para realizar com ele<br \/>\ntoda a tua ambi\u00e7\u00e3o! Atiras-me \u00e1 rua como um trapo, como<br \/>\numa bola de papel. Mas \u00e9 que n\u00e3o sabes que eu n\u00e3o quero.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o queres o que?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o quero que case contigo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 uma baixeza que n\u00e3o far\u00e1s.<br \/>\nCarlos &#8211; Nunca mulher nenhuma me abandonou. Vais ver.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o far\u00e1s. N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel!<br \/>\nCarlos &#8211; Nem tu, nem as conversas de Belfort, nem cem como tu.me poderiam<br \/>\ndeter_<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Dir-lhe-ei tudo, contar-lhe-ei tudo, antes de ti. Ele me perdoar\u00e1.<\/p>\n<p>Carlos &#8211; Antes de. lho dizeres, vou eu dizer-lho!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Carlos, n\u00e3o transformes o meu sentimento por ti em<br \/>\n\u00f3dio.<br \/>\nCarlos (pegando no chap\u00e9u) &#8211; O teu sentimento por mim agora \u00e9<br \/>\nmedo. Mas n\u00e3o creias que me dominar\u00e1s, que me vencer\u00e1s.<br \/>\nEle n\u00e3o casar\u00e1 contigo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ele \u00e9 um homem de bem. N\u00e3o te ouvir\u00e1.<\/p>\n<p>Carlos &#8211; Gritarei!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Correr-te-\u00e1!<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o o far\u00e1, ouviste? N\u00e3o o far\u00e1! N\u00e3o<br \/>\n-se trata mais de mulheres doidas e de velhos tolos. Trata-se de homens, est\u00e1s<br \/>\nouvindo?<br \/>\nMadame Vargas (precipitando-se) &#8211; Carlos! Carlos!<br \/>\nCarlos (no auge da f\u00faria, agarrando-lhe os pulsos) &#8211; Fica sabendo.<br \/>\nFica sabendo bem. Havemos de contar-lhe tudo, ouviste? Havemos de ver-lhe<br \/>\na decep\u00e7\u00e3o de idiota. E ele n\u00e3o correr\u00e1 ningu\u00e9m,<br \/>\nporque se der um passo &#8211; mato-o!<br \/>\n(Atira-a sobre as cadeiras, sai).<br \/>\nMadame Vargas (solu\u00e7ando) &#8211; Carlos! Carlos! Carlos! 0 pano cerra-se<br \/>\nbruscamente.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>Terceiro Ato<\/h4>\n<p>(O mesmo cen\u00e1rio do segundo ato, seis horas depois. E o sal\u00e3o<br \/>\nde m\u00fasica \u00e0 noite. H\u00e1 um extraordin\u00e1rio luar que<br \/>\ninunda os espa\u00e7os e se alastra fora pelo terra\u00e7o. Das janelas<br \/>\ne da porta v\u00ea-se bem o luar. A varanda est\u00e1 toda cheia de luz<br \/>\nda noite).<br \/>\nEst\u00e3o no sal\u00e3o:<br \/>\nMadame Vargas, Belfort, Baby Gomensoro, Madame Azambuja, D. Maria, Julieta,<br \/>\nCarlota Pais, Gast\u00e3o, Deputado Guedes e Jos\u00e9 Ferreira.<\/p>\n<p>(Quando levanta o pano todos em roda do piano d\u00e3o palmas e aplaudem<br \/>\nMme. Azambuja que termina o segundo noturno de Chopin).<\/p>\n<p>Baby &#8211; \u00c9 realmente admir\u00e1vel.<br \/>\nGuedes &#8211; V. Exa. toca divinamente.<br \/>\nCarlota &#8211; \u00c9 a alma de Chopin.<br \/>\nBelfort &#8211; Eu ficaria reconciliado com os pianos, se todos os amadores fossem<br \/>\ncomo Mme. Azambuja.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o sei, esse noturno deu-me vontade de chorar.<br \/>\nD. Maria &#8211; \u00c9 porque est\u00e1s nervosa.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Ainda tem dor de cabe\u00e7a?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ainda, um pouco.<br \/>\nBaby &#8211; Deixe de cuidados demasiados. D. Hort\u00eancia n\u00e3o podia deixar<br \/>\nde estar. nervosa.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ora esta. Por que?<br \/>\nBaby &#8211; Um noturno de Chopin com este luar!<br \/>\nCarlota (indo \u00e0 janela) &#8211; Est\u00e1 realmente um luar deslumbrante.<\/p>\n<p>Gast\u00e3o &#8211; Muito bonito.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Um luar para trag\u00e9dias.<br \/>\nBaby &#8211; O dr. Ferreira, avistamos a sua casa de c\u00e1?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; N\u00e3o, mademoiselle.<br \/>\nGuedes &#8211; Est\u00e1 uma claridade de dia&#8230;<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Fica a gente rom\u00e2ntica. Lembra Shakespeare.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Romeu e Julieta&#8230;<br \/>\nJulieta &#8211; Verona&#8230;<br \/>\nD. Maria &#8211; Urna escada de seda.<br \/>\nCarlota &#8211; E os versos do Bilac. (Madame Azambuja fica a tocar languidamente,<br \/>\nenquanto em torno e perto da porta conversam Madame Vargas e Belfort no primeiro<br \/>\nplano).<br \/>\nBelfort &#8211; Por que est\u00e1 t\u00e3o abatida?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; A cabe\u00e7a estala-me, j\u00e1 n\u00e3o posso ter<br \/>\nm\u00e3o em mim. \u00c9 o m\u00e1ximo da resist\u00eancia.<br \/>\nBelfort &#8211; Mas porque abandonar a coragem no \u00faltimo momento?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Por que \u00e9 o desastre.<br \/>\nBelfort &#8211; Que id\u00e9ia triste. Vai partir e tudo ser\u00e1 pelo melhor,<br \/>\nao contr\u00e1rio.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 que n\u00e3o pode imaginar o que se passou com<br \/>\nCarlos. A sua presen\u00e7a exarcebou-o.<br \/>\nBelfort (vinco na testa) &#8211; Hein?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Amea\u00e7ou-me de tal forma, que a todo o instante o espera.<br \/>\nCarlos \u00e9 capaz de tudo!<br \/>\nBelfort &#8211; Minha cara Hort\u00eancia, pode ter a certeza de que s\u00e3o<br \/>\nraros os capazes de tudo. Os capazes de tudo s\u00e3o os excepcionais. O<br \/>\nmundo \u00e9 uma grande reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Nessas<br \/>\nreparti\u00e7\u00f5es h\u00e1 sempre um ministro para centenas de funcion\u00e1rios.<br \/>\nNo mundo h\u00e1 um ser d&#8217;exce\u00e7\u00f5es para milhares de outros<br \/>\nque n\u00e3o passam de amanuenses da vida. Madame Vargas &#8211; Amanuense o Carlos!<br \/>\nBelfort &#8211; H\u00e1 amanuense e amanuense. H\u00e1 os que trabalham, casam,<br \/>\npagam a lavadeira, tem filhos e cometem regularmente outras coisas insignificantes;<br \/>\ne h\u00e1 os que indo \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o pretendem cometer<br \/>\na\u00e7\u00f5es de maior import\u00e2ncia e n\u00e3o fazem nada. O<br \/>\nCarlos pertence aos que n\u00e3o fazem nada \u00e9 amanuense da vida com<br \/>\na prote\u00e7\u00e3o do diretor e o medo dos credores.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Porque brincar ainda, bar\u00e3o, neste momento angustioso?<\/p>\n<p>Belfort &#8211; Porque tenho confian\u00e7a-no futuro.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Se escap\u00e1ssemos at\u00e9 amanh\u00e3 a cat\u00e1strofe<br \/>\nestaria adiada.<br \/>\nBelfort &#8211; S\u00f3 se d\u00e3o as cat\u00e1strofes pelas quais n\u00e3o<br \/>\nesperamos.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Eu \u00e9 que n\u00e3o posse mais. Se ele vem, se faz<br \/>\no esc\u00e2ndalo p\u00fablico!&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Esquece que estou aqui!<br \/>\nJos\u00e9 (no grupo junto \u00e0 janela) &#8211; Com essas disposi\u00e7\u00f5es,<br \/>\no luar deixa-a incapaz de resistir?<br \/>\nBaby &#8211; N\u00e3o sei. teria uma grande vontade de ser conquistada.. deve<br \/>\nser bom, n\u00e3o acham?<br \/>\nGuedes &#8211; Aquele grande palacete \u00e9 o do banqueiro Praxedes?<br \/>\nD. Maria &#8211; Conhece-o? \u00c9 um sujeito terr\u00edvel esse tal de Praxedes.<br \/>\nJ\u00e1 me explicaram porque quando conversa fecha os olhos.<br \/>\nJulieta &#8211; Por que \u00e9?<br \/>\nD. Maria &#8211; \u00c9 para ter tempo de fazer algumas somas entre as perguntas<br \/>\ne as respostas. Carlota (ao fundo) &#8211; Hort\u00eancia, venha ver os efeitos<br \/>\ndo luar. Parece ouro l\u00edquido.<br \/>\nMadame Vargas (caminhando) &#8211; H\u00e1 noites doidas.<br \/>\nBaby &#8211; Doidas \u00e9 o termo.<br \/>\nBelfort (baixo a Jos\u00e9) &#8211; Parab\u00e9ns.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; De que?<br \/>\nBelfort &#8211; Sei que parte amanh\u00e3.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Psiu, quem lho disse?<br \/>\nBelfort &#8211; Hort\u00eancia estava a pedir-me que tratasse da passagem dela.<br \/>\nGast\u00e3o (descendo) &#8211; \u00c9 esquisito. Todos n\u00f3s falamos do<br \/>\nluar. S\u00f3 o bar\u00e3o parece n\u00e3o o ver.<br \/>\nBelfort &#8211; Porque adoro as coisas simples e naturais.<br \/>\nD. Maria &#8211; Acha ent\u00e3o o luar pouco natural?<br \/>\nBelfort &#8211; O luar \u00e9 o artificio. Metemo-lhes tanta coisa, arrebicamo-lo<br \/>\ntanto, que nada mais resta do verdadeiro luar. A lua das cidades \u00e9<br \/>\numa inven\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Acho muito mais natural a D.<br \/>\nCarlota ou o Deputado Guedes.<br \/>\nGuedes &#8211; Mas j\u00e1 lhe tenho dito uma por\u00e7\u00e3o de vezes que<br \/>\nn\u00e3o sou reconhecido&#8230;<br \/>\nBaby -N\u00e3o \u00e9?<br \/>\nGuedes &#8211; Infelizmente!<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Mas o que vai ser ent\u00e3o?<br \/>\nBelfort \u2013 Sim, se n\u00e3o for deputado, o que vai ser ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Guedes &#8211; Ah! isso&#8230; Hoje, com a certeza do meu degolamento, o partido que<br \/>\nest\u00e1 no governo ofereceu-me a candidatura \u00e0 presid\u00eancia.<br \/>\nBaby &#8211; Bravo! Presidente!<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Mas s\u00e3o precisas muitas coisas para ser presidente?<\/p>\n<p>Guedes &#8211; Sim. Capacidade, energia, tino&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Tudo isso \u00e9 de mais.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Como assim?<br \/>\nBelfort &#8211; Para ser presidente de estado no Brasil s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1rio<br \/>\numa qualidade: a de saber preparar o buffet.<br \/>\nTodos &#8211; Hein? Como?<br \/>\nBelfort &#8211; Porque sendo a campanha das candidaturas uma noite de contradan\u00e7as,<br \/>\nos vencedores s\u00f3 t\u00eam uma preocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<br \/>\nadministrativa: avan\u00e7ar na ceia&#8230;<br \/>\nGuedes (riso geral) &#8211; V\u00ea-se que o bar\u00e3o gosta de brincar. N\u00e3o<br \/>\nrespondo a pilh\u00e9rias.<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 sempre assim que os presidentes come\u00e7am.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; E se sa\u00edssemos um pouco?<br \/>\nD. Maria &#8211; Com este sereno!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Vamos todos at\u00e9 \u00e0 estrada?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Que id\u00e9ia!<br \/>\nBelfort &#8211; Que nervos, diga antes. vai piorar a sua dor de cabe\u00e7a.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ao contr\u00e1rio. Talvez me fa\u00e7a bem. Venha da\u00ed<br \/>\ndoutor. Todos &#8211; vamos! N\u00e3o! Bela id\u00e9ia!<br \/>\nBelfort &#8211; Eu n\u00e3o_ Prefiro fumar um cigarro no terra\u00e7o.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; N\u00e3o. Estou cansad\u00edssima.<br \/>\nMovimento de sa\u00edda, saem todos: ficam apenas Mme. Azambuja e o deputado<br \/>\nGuedes.<br \/>\nGuedes &#8211; Esta vida mundana \u00e9 motivo de graves neurastenias.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Depois as preocupa\u00e7\u00f5es&#8230;<br \/>\nGuedes &#8211; Quais?<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; S\u00f3 sustentar este luxo e escolher os flertes.<br \/>\nGuedes &#8211; M\u00e1 l\u00edngua.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Eu? Ao contr\u00e1rio. Falo a verdade. S\u00f3 n\u00e3o<br \/>\nv\u00ea quem n\u00e3o quer. N\u00e3o lhe parece muito terno o Dr. Ferreira?<br \/>\nGuedes &#8211; Sempre pensei que fosse o outro, o Dr. Carlos.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; E depois diga que sou eu a m\u00e1 l\u00edngua. Pois<br \/>\ncontam-no tamb\u00e9m, o Sr., no rol dos apaixonados.<br \/>\nGuedes &#8211; Sabe bem que s\u00f3 tenho uma paix\u00e3o.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; A pol\u00edtica?<br \/>\nGuedes &#8211; Nunca se ama o que nos sustenta.<br \/>\nD. Maria entra.<br \/>\nD. Maria &#8211; Que imprud\u00eancia! L\u00e1 se foram!<br \/>\nGuedes &#8211; \u00c9 um passeio extravagante.<br \/>\nD. Maria &#8211; O Dr. Guedes \u00e9 que n\u00e3o iria, hein? A Tijuca mete-lhe<br \/>\nmedo.<br \/>\nGuedes &#8211; Perd\u00e3o. Mete-me medo quando vou com senhoras de respeito.<br \/>\nS\u00f3, ou com homens, acho at\u00e9 gra\u00e7a. J\u00e1 uma vez<br \/>\nvim c\u00e1 \u00e0 noite com um amigo do meu Estado e dei com uma ceia<br \/>\nde estalo na mesa do imperador. A ilumina\u00e7\u00e3o era a velas multicores.<br \/>\nD. Maria &#8211; Que esc\u00e2ndalo.<br \/>\nGuedes &#8211; S\u00f3 cocotes e rapazes, que diziam os maiores horrores!<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Atacaram-no?<br \/>\nGuedes &#8211; Felizmente n\u00e3o. Escapei, porque estava na roda o senador Policarpo.<br \/>\nD. Maria &#8211; A prop\u00f3sito, a senhora do senador Policarpo continua a enganar<br \/>\no marido?<br \/>\nGuedes &#8211; Absolutamente.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; \u00c9 l\u00e1 senhora para voltar atr\u00e1s. Nunca!<\/p>\n<p>Guedes &#8211; O Policarpo \u00e9 que enviuvou.<br \/>\nD. Maria &#8211; Foi o seu primeiro ato da satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade.<br \/>\nBaby e Belfort aparecem \u00e0 janela do lado da varanda.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; J\u00e1 acabou o cigarro?<br \/>\nBelfort &#8211; A apostar que falavam mal da vida alheia?<br \/>\nBaby &#8211; Enquanto n\u00e3o fal\u00e1vamos de amor.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Alguma declara\u00e7\u00e3o?<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o. A Baby confessava que precisa amar. Eu disse-lhe que<br \/>\ntrabalhasse em alguma coisa \u00fatil. O amor \u00e9 sempre uma resultante<br \/>\nda falta do que fazer. Ela ri e n\u00e3o acredita. Chamou-me crian\u00e7a.<br \/>\nD. Maria &#8211; O topete desta menina!<br \/>\nBelfort &#8211; Deus fala pela boca da inoc\u00eancia.<br \/>\nBaby (que j\u00e1 est\u00e1 na sala) &#8211; N\u00e3o me fa\u00e7a corar!<\/p>\n<p>Belfort &#8211; Imposs\u00edvel! Hoje tanto do rouge abusou, que est\u00e1 permanentemente<br \/>\nruborizada.<br \/>\n(Baby corre \u00e0 janela. O bar\u00e3o refira se)<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; A verdade \u00e9 que o bar\u00e3o, \u00e9 um inimigo<br \/>\ndo casamento.<br \/>\nBelfort (entrando) &#8211; Eu?<br \/>\nGuedes &#8211; Pelo menos n\u00e3o pensou nunca em casar.<br \/>\nBelfort &#8211; Apenas por influ\u00eancia de leituras. Em rapaz caiu-me nas m\u00e3o<br \/>\num livro antigo escrito em latim. Falava do casamento e dava o silogismo do<br \/>\nmatrim\u00f4nio segundo Bias.<br \/>\nBaby &#8211; Que Bias?<br \/>\nBelfort &#8211; Um sujeito muito antigo, que morreu antes de n\u00f3s nascermos.<br \/>\nBias diz: A mulher que escolhermos ser\u00e1 bela ou feia. Se for bela,<br \/>\nn\u00e3o ser\u00e1 s\u00f3 tua; se for feia, casar\u00e1s com uma<br \/>\nf\u00faria.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Oh! Bar\u00e3o!<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 verdade que logo depois o autor citava Favorinus, que aconselha<br \/>\no meio termo entre as duas, e Quintus Ennius que chama o meio termo stata.<br \/>\nAt\u00e9 hoje procuro a stata e n\u00e3o h\u00e1 meio de me resolver&#8230;<br \/>\nMadame Azambuja (indo ao piano corre uma escala) &#8211; Mas que extravag\u00e2ncia<br \/>\na de sua sobrinha D. Maria. Tanto mais quanto estou arrependida de n\u00e3o<br \/>\nter ido tamb\u00e9m.<br \/>\nBelfort &#8211; Obrigado, por todos n\u00f3s.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; N\u00e3o. \u00c9 que o luar me poe nervosa.<br \/>\nBelfort &#8211; O luar \u00e9 o inventor de todas as loucuras, segundo alguns<br \/>\nliteratos At\u00e9 o nosso Guedes, com um luar destes seria capaz de as<br \/>\nrealizar.<br \/>\nGuedes &#8211; N\u00e3o. Tenho sempre ju\u00edzo&#8230; N\u00e3o sou mais homem<br \/>\npara essas coisas.<br \/>\nBelfort &#8211; Por que? Porque vai ser presidente de Estado?<br \/>\nGuedes &#8211; Porque a espinha mo pro\u00edbe.<br \/>\nBaby &#8211; Sofre da espinha?<br \/>\nGuedes &#8211; Aqui onde me v\u00ea, D. Baby, sou um candidato a ataxia.<br \/>\nBaby &#8211; Ent\u00e3o respiremos.<br \/>\nD. Maria &#8211; \u00c9 uma mol\u00e9stia grave, Baby.<br \/>\nBaby &#8211; Mas basta que o Dr. Guedes seja candidato a ela para que a gente tenha<br \/>\na certeza de que n\u00e3o a apanha.<br \/>\nGuedes &#8211; M\u00e1! E o senhor bar\u00e3o a rir. Est\u00e1 a fazer da<br \/>\nBaby uma disc\u00edpula.<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o. Rio com sentimentos conservadores &#8211; com medo de perder<br \/>\na alegria. \u00c9 t\u00e3o raro encontrar algu\u00e9m alegre! Vejam<br \/>\nos transeuntes na rua. Cada fisionomia tem um vinco de preocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs mulheres olham-se com mal disfar\u00e7ado rancor. Os homens n\u00e3o<br \/>\nconseguem esconder a m\u00e1goa oculta. J\u00e1 ningu\u00e9m mais ri<br \/>\nfrancamente. O riso d\u00f3i a princ\u00edpio o prazer de devorar. Foi<br \/>\ndepois o prazer de viver. Hoje \u00e9 o desespero de n\u00e3o poder arrasar<br \/>\na gera\u00e7\u00e3o. A Baby rir por prazer, ao menos.<br \/>\nBaby &#8211; Obrigada pela confer\u00eancia. Vou colecionar anedotas.<br \/>\n(Mas pela varanda surgem a correr e a rir Madame Vargas, Jos\u00e9, Gast\u00e3o,<br \/>\nCarlota, Julieta. Irrup\u00e7\u00e3o na sala).<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Ora viva a companhia!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Uma corrida louca, minha filha!<br \/>\nCarlota &#8211; Fomos perseguidos.<br \/>\nGuedes &#8211; Que dizia eu?<br \/>\nJulieta &#8211; S\u00f3 o Gast\u00e3o nos salvaria.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Imaginem. Dois autom\u00f3veis cheios de cavalheiros e damas.<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Queriam por for\u00e7a reconhecer-nos.<br \/>\nD. Maria &#8211; Como assim?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 que t\u00ednhamos tapado o rosto com as \u00e9charpes.<br \/>\nJulieta &#8211; O Amaral Fata\u00e7a pegou-me o bra\u00e7o teimando que eu era<br \/>\na Liliane. Cariota &#8211; Felizmente, Gast\u00e3o conseguiu faz\u00ea-lo recuar.<br \/>\nJulieta &#8211; Traiu-nos.<br \/>\nBelfort &#8211; Mais uma vit\u00f3ria nos b\u00edceps, Gast\u00e3o?<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Qual b\u00edceps. Intelig\u00eancia.<br \/>\nBelfort &#8211; \u00c9 surpreendente!<br \/>\nBaby &#8211; Que fez voc\u00ea? Julieta &#8211; Disse o nosso nome \u00e9 claro.<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Juro que n\u00e3o. Foi tudo quanto h\u00e1 de mais simples.<br \/>\nDisse que as senhoras eram outras.<br \/>\nCarlota &#8211; Que outras?<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Outras senhoras com que eles flertam.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Foi um salve-se quem puder!<br \/>\nCarlota &#8211; E corremos at\u00e9 aqui.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas a cena aumentou-me ainda a dor de cabe\u00e7a.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; N\u00e3o ser\u00e1 coisa de gravidade?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o. Quando tenho uma forte emo\u00e7\u00e3o a<br \/>\ndor sempre vem.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Por que n\u00e3o toma uma pouco d&#8217;aspirina?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o, obrigada.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; \u00c9 uma dor tremenda essa. Eu nunca a tinha tido. Parece-lhes<br \/>\nimposs\u00edvel? Pois \u00e9. S\u00f3 h\u00e1 oito dias \u00e9 que<br \/>\na senti pela primeira vez. Quase morri!<br \/>\nBelfort &#8211; Que me diz?<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; S\u00e9rio. Foi depois de um jantar em casa de Madame<br \/>\nBraga, a esposa do homem de borracha.<br \/>\nCarlota &#8211; Aquela que d\u00e1 agora recep\u00e7\u00f5es?<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Uma senhora tremendamente gorda?<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Essa mesma. Nunca vi tanta gente feia reunida.<br \/>\nBaby &#8211; A dor de cabe\u00e7a talvez fosse disso.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; A Braga estava decotada, com um colar que o marido disse<br \/>\nter dado 200 contos.<br \/>\nCarlota &#8211; \u00c9 uma soma muito razo\u00e1vel. N\u00e3o acha, D. Maria?<\/p>\n<p>D. Maria &#8211; D&#8217;acordo. Tr\u00eas bien.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Mas \u00e9 que voc\u00eas n\u00e3o imaginam a Braga<br \/>\ndecotada!<br \/>\nBaby &#8211; Eu a vi ontem no L\u00edrico.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; N\u00e3o \u00e9 verdade? J\u00e1 viste decote igual?<br \/>\nBaby -Francamente em p\u00fablico, desde que perdi a minha ama de leite,<br \/>\nfoi a primeira vez&#8230;<br \/>\nGuedes &#8211; Mas o decote da senhora Braga \u00e9 que lhe causou dor de cabe\u00e7a?<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; N\u00e3o sei. Atribuo aos seringueiros, ao decote aquela<br \/>\ngente toda e a uma salada, \u00e1 moda do Par\u00e1, que serviram no fim.<br \/>\nEra de matar.<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; N\u00e3o_ h\u00e1 nada pior do que uma salada quando faz<br \/>\nmal.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; At\u00e9 agora n\u00e3o sei do que era. O senhor bar\u00e3o,<br \/>\nque sabe tudo, conhece por acaso a salada do Par\u00e1?<br \/>\nBelfort &#8211; Qual delas? Porque h\u00e1 muitas. Salada \u00e9 o termo que<br \/>\nse aplica admiravelmente a todas as coisas do Brasil. H\u00e1 a.salada pol\u00edtica,<br \/>\nde que por exemplo agora o Guedes \u00e9 o azeite. H\u00e1 a salada filos\u00f3fica,<br \/>\nem que ningu\u00e9m se entende. H\u00e1 a salada social, uma dessas saladas<br \/>\npanach\u00e9s que dariam indigest\u00e3o a um avestruz. A qual delas se<br \/>\nrefere?<br \/>\nJulieta &#8211; \u00c0s que se comem, est\u00e1 visto.<br \/>\nBelfort &#8211; Dessas n\u00e3o sei. \u00c9 verdade que o diplomata Schmidt<br \/>\npretendeu ensinar-me uma. Mas n\u00e3o conseguiu. Quando chegava a li\u00e7\u00e3o<br \/>\nestava sempre com champagne de mais.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Era apanh\u00e1-lo quando a tivesse de menos.<br \/>\nBelfort &#8211; Imposs\u00edvel. Schmidt apostou que o champagne n\u00e3o lhe<br \/>\nfez mal. de modo que quanto mais bebe mais vontade tem de beber para mostrar<br \/>\nque \u00e9 forte. Tem com isso um lucro. Apesar de morar \u00e0 beira<br \/>\nmar desconhece a ressaca&#8230;<br \/>\nD. Maria &#8211; Mas, pelo amor de Deus, n\u00e3o falemos mal da vida alheia!<\/p>\n<p>Belfort &#8211; Que havemos de fazer ent\u00e3o para sermos elegantes.<br \/>\nCarlota &#8211; Irmo-nos embora, por exemplo. Hort\u00eancia precisa descansar.<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Oh! n\u00e3o.<br \/>\nCarlota &#8211; Pois sim! N\u00e3o deseja voc\u00ea outra coisa.<br \/>\nGast\u00e3o &#8211; Est\u00e1 evidentemente doente.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; N\u00e3o diga!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Descanse. N\u00e3o tenho nada.<br \/>\nGuedes &#8211; Mas h\u00e1 de dar licen\u00e7a. (Cumprimenta). Julieta &#8211; \u00c9<br \/>\nisso mesmo. estamos insuport\u00e1veis.<br \/>\nCarlota &#8211; Vivemos quase na casa de Hort\u00eancia.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Hoje s\u00f3 faltou o Dr. Carlos.<br \/>\nBaby &#8211; \u00c9 verdade. O que andar\u00e1 fazendo aquele conquistador?<\/p>\n<p>Belfort &#8211; Dorme com certeza sobre os louros.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; At\u00e9 amanh\u00e3.<br \/>\nGuedes &#8211; Vai V.Exa. ao Lirico?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Talvez.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; \u00c9 \u00f3pera nova.<br \/>\nBelfort &#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o presta.<br \/>\nJulieta &#8211; Por que?<br \/>\nBelfort &#8211; Porque todas as \u00f3peras novas s\u00e3o sempre para os entendidos<br \/>\ndo Rio, borracheiras tremendas.<br \/>\nBaby &#8211; Se D. Hort\u00eancia for, eu quero um lugar no camarote.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Por causa do tenor?<br \/>\nBaby &#8211; Por causa do Bast\u00e3o. O camarote do pai \u00e9 pegado.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Para come\u00e7ar, quer voc\u00ea vir no meu autom\u00f3vel?<br \/>\ndeixo-a em casa.<br \/>\nBaby &#8211; Merci. Aceito.<br \/>\nP\u00f5em as capas. D. Maria ajuda-as. Cumprimentos, shaknands.<br \/>\nGuedes &#8211; E uma imprud\u00eancia vir \u00e0 porta, senhora D. Hort\u00eancia;<\/p>\n<p>Carlota &#8211; N\u00e3o venha, Hort\u00eancia.<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Melhoras. Nunca vi voc\u00ea t\u00e3o nervosa como esta<br \/>\nnoite.<br \/>\nBaby &#8211; \u00c9 verdade. Eu tamb\u00e9m. O Dr. Jos\u00e9, leve-nos at\u00e9<br \/>\nl\u00e1 em baixo.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Mas, vou tamb\u00e9m com as senhoras.<br \/>\nCarlota &#8211; Como, se mora para cima?<br \/>\nMadame Azambuja &#8211; Nada de flertes, Baby. \u00c9 tarde. (No sal\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3s, Belfort e Hort\u00eancia).<br \/>\nBelfort &#8211; Que lhe disse eu? N\u00e3o veio!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas onde estar\u00e1, que far\u00e1 ele?<br \/>\nBelfort &#8211; Tranq\u00fcilamente em qualquer clube.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; O bar\u00e3o n\u00e3o o conhece.<br \/>\nBelfort &#8211; Melhor do que a Hort\u00eancia.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ele faz alguma, ele disse que faria.<br \/>\nBelfort &#8211; Esta noite, pelo menos, parece ter adiado. Tenho a certeza. Foi<br \/>\na sua \u00faltima cena. Ele sabe quem eu sou, e sabe que o tenho&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Bar\u00e3o, salve-me! Mais algumas horas e eu terei evitado<br \/>\nessa desgra\u00e7ado empecilho. J\u00e1 come\u00e7aram a falar nele,<br \/>\nj\u00e1 o notam. Ouviu a Renata?<br \/>\nBelfort &#8211; Tenha confian\u00e7a. Eu quero e quando eu quero, raramente os<br \/>\noutros deixam de querer o que eu quero. Estou vigilante. se o que lhe disse<br \/>\nn\u00e3o bastar, agirei, e diante do que eu tenho, as veleidades desaparecer\u00e3o.<br \/>\nJos\u00e9 (voltando)- Ent\u00e3o at\u00e9 amanh\u00e3.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Meu bom Jos\u00e9&#8230; Vai, n\u00e3o \u00e9 assim?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Que se h\u00e1 de fazer, se \u00e9 vontade sua.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Jos\u00e9, v\u00e1. E saiba que nunca na minha vida estimei<br \/>\nalgu\u00e9m como o estimo.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Est\u00e1 nervosa, Hort\u00eancia. Continua nervosa. N\u00e3o<br \/>\nimagina como fico inquieto. Ainda h\u00e1 pouco quase comprometo o nosso<br \/>\nsegredo&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; Descanse, \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o da despedida. O \u00fanico<br \/>\nmeio de ser feliz \u00e9 n\u00e3o discutir os caprichos da dama dos nossos<br \/>\nsonhos.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Eu estou tamb\u00e9m muito alegre, e muito triste!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o! N\u00e3o! Deves ficar alegre, e s\u00f3 alegre!<\/p>\n<p>Belfort &#8211; Est\u00e1 bem, est\u00e1 bem, nada de nervos.<br \/>\nBelfort &#8211; Eu vou, Hort\u00eancia. At\u00e9 amanh\u00e3.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Adeus, meu querido Jos\u00e9. (D\u00e1-lhe a m\u00e3o<br \/>\na beijar).<br \/>\nBelfort (interrompe) &#8211; Vai para sua casa?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Claro. Arranjar as malas.<br \/>\nBelfort &#8211; Consente que o acompanhe? A noite est\u00e1 linda. Preciso dar<br \/>\num passeio. Leve-o no meu autom\u00f3vel e conversaremos.<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; N\u00e3o se incomode, por quem \u00e9&#8230; Estamos a duzentos<br \/>\nmetros se tanto&#8230;<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o. Quero ver como se comporta. J\u00e1 n\u00e3o o largo!<br \/>\nMinha cara Hort\u00eancia. Tenha f\u00e9! Est\u00e1 tudo acabado. At\u00e9<br \/>\namanh\u00e3. (A D. Maria que lhe d\u00e1 o sobretudo e o chap\u00e9u).<br \/>\nN\u00e3o, sem sobretudo. Obrigado. (A Jos\u00e9, saindo) Diga-me? Nunca<br \/>\nteve medo de bandidos? Eu gosto imenso. O bandido \u00e9 o covarde valente,<br \/>\nsem a coragem de afirmar. Sempre tive vontade de encontrar um bandido face<br \/>\na face. Se f\u00f4ssemos atacados?<br \/>\nJos\u00e9 &#8211; Sempre o mesmo bar\u00e3o. At\u00e9 amanh\u00e3, Hort\u00eancia!<br \/>\nDescanse. N\u00e3o fique mais nervosa. Adeus.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; At\u00e9 amanh\u00e3. (saem Jos\u00e9 e Belfort). Ah!<br \/>\nDia! Dia horr\u00edvel que n\u00e3o acaba! Mas algumas horas e salvo-me!<br \/>\nD. Maria &#8211; Queres partir?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Quero impedir que mais uma vez estraguem o meu futuro. S\u00f3!<br \/>\nQuero ser feliz, compreendes? Quero mostrar publicamente que eu tamb\u00e9m<br \/>\namo, que posso ser uma esposa que se inveje. Quero a claridade do dia! Basta<br \/>\nde escuro, basta de crime.<br \/>\nD. Maria &#8211; N\u00e3o te excites assim, com as.pr\u00f3prias palavras. Tens<br \/>\num pouco de culpa&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tia, n\u00e3o me censures.<br \/>\nD. Maria &#8211; Eu teria dito a esse pequeno c\u00ednico as coisas como elas<br \/>\ns\u00e3o, desde o come\u00e7o. Garanto que s\u00f3 amea\u00e7a vingar-se<br \/>\npor despeito.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; A quem o dizes! E a cada gesto seu, mais sobe Jos\u00e9<br \/>\nno meu conceito, mais vejo quanto desci, mais sinto a minha ignom\u00ednia,<br \/>\nmais amo o outro. Sim. N\u00e3o \u00e9 mais<br \/>\ninteresse, n\u00e3o \u00e9 mais, n\u00e3o_ Com esse que me ofereceu<br \/>\ntudo e n\u00e3o pediu nada, com esse eu iria. Porque o amo! Porque o amo!<br \/>\nE ter aquela criatura imaginando estragar a minha vida, perder-me no conceito<br \/>\nde Jos\u00e9, s\u00f3 porque me assaltou num _momento de _lassid\u00e3o<br \/>\ne de amargor! Oh! n\u00e3o sabe ele como me defenderei! Faltam apenas algumas<br \/>\nhoras. Depois j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e1 dizer nada, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\npoder\u00e1. fazer nada, estar\u00e1 sem os dentes de veneno e pe\u00e7onha&#8230;<br \/>\nD. Maria (indo apagar o lustre central) &#8211; Vem deitar-te. \u00c9 melhor.<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; N\u00e3o. Um instante. Quero repousar os nervos.<br \/>\nD. Maria (hesitante) &#8211; N\u00e3o fazes hoje nenhuma tolice?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Oh! Tia!<br \/>\nD. Maria &#8211; Ainda ontem, minha filha!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ontem&#8230; vai j\u00e1 t\u00e3o longe. Hoje preferiria morrer.<\/p>\n<p>D. Maria &#8211; Ainda bem. Tudo menos aquilo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Oh! tia, n\u00e3o insistas. At\u00e9 j\u00e1; vai-te<br \/>\ndeitar.<br \/>\nD. Maria &#8211; At\u00e9 j\u00e1, meu tesouro. H\u00e1s de ver. N\u00e3o<br \/>\nacontecer\u00e1 nada de mau. Ele n\u00e3o cometer\u00e1 as inf\u00e2<br \/>\nmias que disse. Repousa. Est\u00e1 para chegar a felicidade. N\u00e3o<br \/>\nte apoquentes mais. (sai).<br \/>\nMadame Vargas, um instante s\u00f3.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Como custa chegar a,felicidade!<br \/>\nTem um largo suspiro, fica um instante diante do espelho abatida. A porta<br \/>\ndo terra\u00e7o descerra-se. Entra por ela num golf\u00e3o de luar Carlos.<br \/>\nMadame Vargas v\u00ea a sua entrada pelo espelho. Volta-se aterrada.<br \/>\nCarlos &#8211; Boa noite.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tu? Tu aqui?<br \/>\nCarlos &#8211; Do que te admiras? N\u00e3o \u00e9 a primeira vez.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Voltaste? Voltaste depois do que se deu ontem conosco.<br \/>\nCarlos &#8211; Como v\u00eas. N\u00e3o incomodo? Andei por fora \u00e0 espera<br \/>\nque os outros. sa\u00edssem.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tens coragem de voltar, de entrar aqui, sem o meu consentimento,<br \/>\nalta hora?<br \/>\nCarlos &#8211; Deixei-te t\u00e3o doida hoje \u00e0 tarde! Precis\u00e1vamos<br \/>\nconversar, n\u00e3o te parece?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas n\u00e3o temos mais que dizer. Mais nada. Ser\u00e1<br \/>\no que tu quiseres. Tudo quanto quiseres.<br \/>\nCarlos &#8211; Finge calma! est\u00e1s convencida de garantias. O bar\u00e3o<br \/>\nencheu-te de confian\u00e7a. V\u00ea\u00adse!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o. Fizeste-me sofrer muito e perdeste com isso o<br \/>\nque me restava de afei\u00e7\u00e3o por ti. Podes fazer o que quiseres.<br \/>\ndesinteresso me.<br \/>\nCarlos &#8211; Ainda bem. Foi o que eu fiz, descansa.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Que fizeste?<br \/>\nCarlos &#8211; Preparei uma pequena vingan\u00e7a.<br \/>\nMadame Vargas -Vindo aqui mais uma vez, torturar-me e desgostar-me ainda mais<br \/>\nde ti?<br \/>\nCarlos &#8211; Seria isso uma vingan\u00e7a?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas que vingan\u00e7a? Vingan\u00e7a porqu\u00ea?<br \/>\nCarlos &#8211; Porque me deu na cabe\u00e7a.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sabes que come\u00e7o a perder a calma!<br \/>\nCarlos &#8211; Vais perd\u00ea-la de todo dentro de alguns momentos.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tu \u00e9 que te vais embora imediatamente.<br \/>\nCarlos &#8211; Tem tempo. depois de liquidarmos o nosso caso.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas afinal que queres tu? N\u00e3o creio que me v\u00e1s<br \/>\nexigir uma noite, depois do que me disseste hoje. Que queres tu? Discutir<br \/>\no que estamos fartos de saber? Amea\u00e7ar-me? Dize, fala. Que queres tu<br \/>\nafinal?<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o sei se recordas h\u00e1 tr\u00eas meses uma noite de<br \/>\nluar assim?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Desgra\u00e7ada Noite!<br \/>\nCarlos &#8211; H\u00e1 tr\u00eas meses era outro o teu pensar&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o pensava de forma alguma. Rolava para um abismo.<br \/>\nCarlos (sempre calmo, sentando-se) &#8211; Pois h\u00e1 tr\u00eas meses eu beijava<br \/>\ndoido de alegria um bilhete teu&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o tragas a hist\u00f3ria do bilhete. sempre a mesma,<br \/>\nsempre a mesma.<br \/>\nCarlos &#8211; Foi o \u00fanico que me escrevestes. Beijei-o muito. Tenho-o de<br \/>\ncor.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Devias restituir-mo.<br \/>\nCarlos &#8211; Acabo de o fazer.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Como?<br \/>\nCarlos &#8211; Recordas de certo as breves palavras sem nome algum, misteriosamente<br \/>\natiradas \u00e0 sombra &#8220;espero-o hoje \u00e0 noite. Deus perdoe a<br \/>\nminha loucura. Venha a 1 hora&#8221;.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Loucura! Desastrada loucura!<br \/>\nCarlos &#8211; Mas porque, se o bilhete sem o meu nome n\u00e3o era para mim?<\/p>\n<p>Madame Vargas &#8211; Hein?<br \/>\nCarlos &#8211; Era um bilhete que transitava pelas minhas m\u00e3os. S\u00f3<br \/>\nhoje compreendi, e ao sair daqui, meti-o num subscrito e mandei-o a quem de<br \/>\ndireito pertence agora. \u00c9 um bilhete talism\u00e3. Serve de passe.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o compreendo.<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 simples, caramba! Mandei o teu bilhete ao dr. Jos\u00e9<br \/>\nferreira.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tu fizeste isso?<br \/>\nCarlos &#8211; Com certeza lho entregaram agora, quando voltou para casa.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tu fizeste isso?<br \/>\nCarlos &#8211; Honestamente, sem uma palavra minha. Sou um homem que se preza. E<br \/>\ndepois a cena \u00e9 muito mais interessante como a imagino. A estas horas,<br \/>\no Dr. Ferreira deve estar doido de alegria, a olhar o rel\u00f3gio.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas para que fizeste isso? Por que n\u00e3o me deste o bilhete<br \/>\na mim? O Jos\u00e9 vir\u00e1, eu direi qualquer coisa&#8230; \u00c9 t\u00e3o<br \/>\nsimples mentir! N\u00e3o ter\u00e1s feito mais uma pequena inf\u00e2mia<br \/>\npara me aborrecer.<br \/>\nCarlos &#8211; Decididamente perdes a intelig\u00eancia com a perspectiva do casamento.<br \/>\nMandei-lhe o teu bilhete e vim esper\u00e1-lo contigo.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Tu?<br \/>\nCarlos &#8211; Ah! minha dona, pensavas ent\u00e3o que eu era qualquer trapo,<br \/>\na por de lado no melhor momento? Estavas crente que era poss\u00edvel enganar-me,<br \/>\narredar-me com cantigas e as amea\u00e7as do Belfort, esse velho rid\u00edculo<br \/>\nque n\u00e3o sei bem o que e aqui? Pensavas mesmo que realizarias o neg\u00f3cio<br \/>\nsem me prevenir, pondo-me no andar da rua? N\u00e3o! Ah! n\u00e3o! Eu<br \/>\nsou algu\u00e9m, sabes, eu sou algu\u00e9m. N\u00e3o sou homem que ponham<br \/>\na andar, n\u00e3o sou desses. C\u00e1 estou. Vamos esper\u00e1-lo juntos.<br \/>\nOu n\u00e3o tem vergonha, ou com ele n\u00e3o arranjas mais nada. Depois<br \/>\nser\u00e1 o que for!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Miser\u00e1vel! Como \u00e9s miser\u00e1vel!<br \/>\nCarlos &#8211; Isso. Chama-me nomes. Vamos ver depois. Com aquele ar de demoiselle<br \/>\nde Sion o Dr. Jos\u00e9 vai receber um golpe em pleno.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Indigno! Covarde! Perder assim uma mulher, perder pelo prazer<br \/>\nda inf\u00e2mia, sem outro fim sen\u00e3o o de fazer mal! Por que, meu<br \/>\ndeus? Por que? Mas pensas mas se acreditas que eu n\u00e3o resista.<br \/>\nCarlos &#8211; Vamos a ver como.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Sai, sai, j\u00e1 daqui.<br \/>\nCarlos &#8211; Muito bonito como teatro.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Covarde!<br \/>\nCarlos &#8211; Fala baixo, pode acordar algu\u00e9m.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ao contr\u00e1rio, gritarei. Vou chamar gente, chamo todos.<br \/>\nMando-te por fora, pelos criados.<br \/>\nCarlos &#8211; estou certo de que o n\u00e3o far\u00e1s. \u00e9 o esc\u00e2ndalo<br \/>\nj\u00e1. Ficar\u00e3o todos sabendo das nossas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\n&#8211; porque eu tamb\u00e9m gritarei, contarei. Talvez cheguemos a ter a pol\u00edcia.<br \/>\nHort\u00eancia, venha c\u00e1.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Larga-me!<br \/>\nCarlos &#8211; Seja! Mas vejo que j\u00e1 n\u00e3o queres gritar. Sempre prudente.<br \/>\nO melhor \u00e9 mesmo esperarmos o homem. \u00c9 meia-noite. Temos diante<br \/>\nde n\u00f3s uma hora, se ele n\u00e3o chegar antes.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o. Tudo o que quiserdes. Carlos, tudo, menos essa<br \/>\natroz mis\u00e9ria! Cham\u00e1-lo aqui, mostrar-me tal qual sou!<br \/>\nCarlos &#8211; Isso \u00e9 para os \u00edntimos, ou antes para aqueles a quem<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o queres&#8230;<br \/>\nMadame Vargas &#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!<br \/>\nN\u00e3o far\u00e1s isso!<br \/>\nCarlos &#8211; Vais ver.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Depende ainda dele. E ele n\u00e3o vem,. afirmo-te eu; n\u00e3o<br \/>\nvem porque compreende os perigos desta gente com que vivemos, porque desconfiar\u00e1<br \/>\nde uma trai\u00e7\u00e3o<br \/>\nCarlos &#8211; Talvez. Como \u00e9 homem, por\u00e9m, ter\u00e1 pelo menos<br \/>\na curiosidade de vir ver. \u00c9 escusado olhares as portas. (Dando volta<br \/>\n\u00e0 chave da porta da comunica\u00e7\u00e3o interna). N\u00e3o<br \/>\nsair\u00e1s sen\u00e3o para o esc\u00e2ndalo. E eu n\u00e3o desejo<br \/>\nque ningu\u00e9m nos perturbe. Dentro de 50 minutos: ele, tu.e eu. A apostar<br \/>\ncomo vem?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Que venha! Que venha! Devia vir, sim, deve vir, tem de vir!<br \/>\nH\u00e1 inf\u00e2mias que a fatalidade ajuda. Vem mesmo, esta a chegar.<br \/>\nE eu sei que vem, porque antes j\u00e1 lhe escrevera chamando-o. Pobre Jos\u00e9!<br \/>\nReceber\u00e1 duas cartas minhas. Sim. Escrevi. estou a ouvirte apenas como<br \/>\nli\u00e7\u00e3o s\u00f3 para sentir bem a tua baixeza, para ver quanto<br \/>\ndesci. Mas o Jos\u00e9, est\u00e1 a chegar. Contei-lhe tudo, tudo. Ele<br \/>\nsabe tudo. E vai-te expulsar, vai-te correr como um criado ordin\u00e1rio.<br \/>\nCarlos &#8211; Havemos de ver.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ver\u00e1s bem pago o teu cinismo. Um homem que tortura<br \/>\nassim uma mulher \u00e9 um covarde. Mas n\u00e3o \u00e9s tu que o esperas,<br \/>\nsou eu que te retenho para que ele te encontre. Que venha! Que venha! (Ru\u00eddo<br \/>\nfora, recua apavorada). Ah!<br \/>\nCarlos (dando um salto) &#8211; Sil\u00eancio! (Vai at\u00e9 a janela, espia<br \/>\no terra\u00e7o. Hort\u00eancia acompanha-o quase de rasto. Momento). Uf!<br \/>\nNada. Talvez o Braz, passando em baixo&#8230; (Olha Hort\u00eancia). Muito menos<br \/>\ndesejo de que eu, hein? D\u00ea-me o consolo ao menos de confessar que s\u00f3<br \/>\nescreveu a mim! Deixe-se de fingimentos, n\u00e3o delires. Sim. De fato.<br \/>\nH\u00e1 coisas pessoas na vida. Esta espera enerva. Tenha calma. _Ainda<br \/>\ntemos 40 minutos.<br \/>\nMadame Vargas (implorando)- Mas que vais fazer? Que vais fazer?<br \/>\nCarlos &#8211; Que vou fazer? O trepasso, minha filha!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Carlos!<br \/>\nCarlos &#8211; Aqui tem a minha amante: fa\u00e7a-a sua mulher. Hei de gozar-lhe<br \/>\na decep\u00e7\u00e3o!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas se n\u00e3o te fez mal algum?<br \/>\nCarlos &#8211; Por isso mesmo odeio-o. Odeio-o pelos seus ares superiores, pelo<br \/>\nseu dinheiro, por essa honestidade palerma que ele exibe como um cartaz, pelas<br \/>\nsuas id\u00e9ias, por tudo! Odeio-o visceralmente &#8211; odeio-o porque tu o<br \/>\namas! Honesto, rico, querendo casar! Pateta! Como se fosse dificil ser honesto<br \/>\ne casar, quando -se tem dinheiro! Tivesse-o eu! Tivesse-o eu! E verias em<br \/>\nvez deste &#8220;Capaz de tudo para viver&#8221; o teu honest\u00edssimo esposo.<br \/>\nPorque tu havias de amar-me. Oh! as mulheres! Havias de amar-me e enganar-me<br \/>\ndepois com outro. Aqui, por\u00e9m, d\u00e1-se o inverso. Enganas-me para<br \/>\ncasar com ele! Veremos a gargalhada final quem a d\u00e1!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; \u00c9 a mim que tu perdes, s\u00f3 a mim&#8230; Desmoronas<br \/>\npara sempre a minha vida&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Que importa, se me abandonastes antes, se por todos os lados me dizem<br \/>\nque eu n\u00e3o passo de um malandrim disfar\u00e7ado? Que importa se<br \/>\ndevo ceder o lugar aos honestos, que s\u00e3o ricos? Eu te ajudaria a engan\u00e1-lo<br \/>\nse mo tivesse dito. N\u00e3o mo dissestes sen\u00e3o quando era imposs\u00edvel<br \/>\nocultar mais tempo. \u00c9 porque s\u00f3 amas a ele. Eu vingo-me.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Ele \u00e9 forte. Ele tem coragem.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o se trata de coragem. Trata-se de fatos. (Neste instante,<br \/>\nbatem \u00e0 porta de dentro. Salto. Ang\u00fastia. Carlos agarra o bra\u00e7o<br \/>\nde Hort\u00eancia). Baixinho! Baixinho! Se deixar entrar algu\u00e9m aqui,<br \/>\no esc\u00e2ndalo \u00e9 amanh\u00e3 de toda a cidade. est\u00e1s perdida!<br \/>\n(Batem de novo). Anda. pergunta quem \u00e9_ Com calma.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; (Imenso esfor\u00e7o, vencida, olhando-o com \u00f3dio)<br \/>\n&#8211; Quem est\u00e1? \u00eb a tia?<br \/>\nD. Maria (dentro) &#8211; Sim, minha filha. \u00c9 quase uma hora. N\u00e3o<br \/>\nte vens deitar?<br \/>\nCarlos (baixo) &#8211; Tranq\u00fciliza-a, anda.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; J\u00e1 vou. N\u00e3o me aborre\u00e7as. Deita-te. (Num<br \/>\n\u00edmpeto). Feche a&#8230; (Carlos tapa-lhe a boca).<br \/>\nCarlos &#8211; Cala-te. (Ela debate-se. Rolam ambos no div\u00e3. Sil\u00eancio<br \/>\nangustioso). Tens que esperar. Quero que esperes. Ao menos hoje obedeces.<br \/>\nEu quero.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Odeio-te!<br \/>\nCarlos &#8211; E eu vingo-me! (O rel\u00f3gio bate meia hora dentro). Temos apenas<br \/>\ntrinta minutos. Pouco tempo.<br \/>\nMadame Vargas (Esfrega os olhos j\u00e1 secos de n\u00e3o poder chorar,<br \/>\nalisa os cabelos, como se convencendo) &#8211; Ele vem! Ele vem! (Desespero). N\u00e3o<br \/>\nfiques, oh! J\u00e1 te vingastes de mais. Sim. Confesso. Devia ter dito<br \/>\ntudo, devia ter falado. Mas j\u00e1 resgatei o meu crime. Sei que \u00e9<br \/>\nbrincadeira tua, que nada disso \u00e9 verdade, que n\u00e3o passa de<br \/>\numa tortura, uma grande tortura&#8230; Pelo amor de Deus, pelo nosso amor&#8230;<br \/>\nCarlos &#8211; Pelo nosso amor, ego\u00edsta! Pelo nosso amor, traidora! Pelo<br \/>\nnosso amor, vendida!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Vai-te! Vai-te! N\u00e3o fiques! N\u00e3o me tortures!<br \/>\nEu n\u00e3o quero que ele saiba! N\u00e3o que n\u00e3o! Nunca! Nunca!<br \/>\nSe tens ci\u00fames, mata-me! Mata-me! Anda, mata-me! Mas n\u00e3o lhe<br \/>\ndigas nada.<br \/>\nCarlos &#8211; Dentro de alguns minutos.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Canalha! Canalha! Canalha!<br \/>\nCarlos &#8211; Vem gente.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Cana&#8230; (Estaca, por\u00e9m. Carlos precipita-se para a<br \/>\njanela. Espia).<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 um vulto. Caminha entre as \u00e1rvores. Veio cedo. \u00c9<br \/>\nele.<br \/>\nMadame Vargas (Cai na poltrona sentada, batendo o queixo no auge o pavor)<br \/>\n&#8211; \u00c9 ele! \u00c9 ele! \u00c9 ele!<br \/>\nCarlos &#8211; (tirando o rev\u00f3lver do bolso da cal\u00e7a e colocando-o<br \/>\nno bolso do casaco) &#8211; Seja a Bela Mme. Vargas, sempre at\u00e9 o fim. Tenha<br \/>\n\u00e2nimo!<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Cr\u00e1pula! Eu direi tudo.<br \/>\nCarlos (abre todo um lado da porta) -Esperemos bem. (precipita-se na cadeira<br \/>\nem que est\u00e1 sentada Mme. Vargas. Torcendo-lhe a m\u00e3o). Sinto-lhe<br \/>\nos passos r\u00e1pidos na escada. tenha o ar de quem me presta aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAnde.<br \/>\nMadame Vargas (debatendo-se) &#8211; Larga-me! Larga-me! (faz um \u00faltimo esfor\u00e7o<br \/>\npara soltar-se).<br \/>\nBelfort (entra, l\u00edvido, r\u00e1pido, voz forte) &#8211; Afinal encontro-te!<br \/>\n(Carlos ergue-se at\u00f4nito. Mme. Vargas pende na cadeira. Belfort a Hort\u00eancia).<br \/>\nMil perd\u00f5es por entrar na sua casa t\u00e3o tarde. Mas vi luz e tive<br \/>\na certeza de que Carlos estava c\u00e1. Chegou de certo depois dos outros,<br \/>\ndisse eu. E subi. (A Carlos). Vim busc\u00e1-lo.<br \/>\nCarlos (entra arrogante e at\u00f4nito)- A mim?<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Preciso de voc\u00ea j\u00e1!<br \/>\nCarlos &#8211; Esquisito.<br \/>\nBelfort &#8211; Extremamente. Tanto que voc\u00ea vai sair j\u00e1.<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 o senhor quem manda?<br \/>\nBelfort &#8211; Nada de rodeios. \u00c9 tarde. Sai j\u00e1! Carlos- Manda tamb\u00e9m<br \/>\nc\u00e1?<br \/>\nBelfort &#8211; Mando onde devo mandar. \u00c9 in\u00fatil a bravata comigo,<br \/>\nmenino. Poupe-me um pouco a sua petul\u00e2ncia. cartas na mesa. _A senhora<br \/>\nHort\u00eancia Vargas vai casar com o Dr. Jos\u00e9 Ferreira. Eu quero.<br \/>\nVoc\u00ea \u00e9 demais. Disse-lhe que se afastasse. N\u00e3o quis. Repito-o.<br \/>\nCompreendeu? Perdeu a partida.<br \/>\nCarlos &#8211; Talvez. Esperemos por esse Ferreira. Mais alguns minutos e ele chega.<br \/>\nVeremos.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Bar\u00e3o, salve-me! salve-me!<br \/>\nBelfort &#8211; Eu \u00e9 que vou esperar sem voc\u00ea. Saia.<br \/>\nCarlos &#8211; N\u00e3o acredite que me aterroriza.<br \/>\nBelfort &#8211; Cale-se! Conhe\u00e7o-o bem. Ou voc\u00ea sai imediatamente,<br \/>\nsem encontrar o Dr. Jos\u00e9 Ferreira ou est\u00e1 amanh\u00e3 na pris\u00e3o.<br \/>\nDisse-lhe que pensasse. Quer brincar comigo. Engana\u00adse. Tenho-o no bolso,<br \/>\ne se fizer contra Hort\u00eancia mais um gesto est\u00e1 em mau lugar.<br \/>\nMadame Vargas (horrorizada)- Belfort!<br \/>\nBelfort &#8211; Nada como os grandes rem\u00e9dios.<br \/>\nCarlos &#8211; Caluniador.<br \/>\nBelfort &#8211; Por que? Tenho a sua carta pedindo-me perd\u00e3o, tenho a letra<br \/>\nem que t\u00e3o mal fingiu a minha e a firma de seu pai, e o denuncio com<br \/>\ntodas as provas como falsificador da minha firma.. Disse-lho j\u00e1 se<br \/>\nsabe que o fa\u00e7o. Fa\u00e7o-o \u00e0 primeira tentativa sua. A sua<br \/>\ncena \u00e9 bonita enquanto serve para contar nos clubes. \u00c9 moda<br \/>\ne d\u00e1 amantes at\u00e9, mas muda quando tem por fim um cub\u00edculo<br \/>\nda deten\u00e7\u00e3o, mesmo arejado. Saia!<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 indecente o que faz.<br \/>\nBelfort &#8211; N\u00e3o insista. O ar de fora far-lhe-\u00e1 bem. E note: mesmo<br \/>\no respeito que tenho por seu pai, n\u00e3o impedir\u00e1 que o declare<br \/>\npublicamente e o fa\u00e7o prender se disser uma palavra a respeito deste<br \/>\ncaso. Mando-o prender irrevogavelmente.<br \/>\nCarlos &#8211; H\u00e1 amizades suspeitas.<br \/>\nBelfort &#8211; E gente como voc\u00ea que n\u00e3o deixa d\u00favidas. Mas<br \/>\nsaia. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 rid\u00edcula. Cheguei no momento<br \/>\nem que ia cometer a sua maior torpeza. dessas torpezas que estragam vidas<br \/>\nmas n\u00e3o levam \u00e0 cadeia. Deixo-lhe o \u00faltimo insulto. Desabafe<br \/>\ne fuja da cadeia que pela sua demora amea\u00e7a come\u00e7ar aqui. Mais<br \/>\num segundo e est\u00e1 preso.<br \/>\nCarlos &#8211; \u00c9 capaz?<br \/>\nBelfort &#8211; Experimente!<br \/>\nCarlos (pega no chap\u00e9u, excita\u00e7\u00e3o, f\u00faria) &#8211; Velho<br \/>\npulha!<br \/>\n(Sai)<br \/>\nMadame Vargas (correndo ao bar\u00e3o) &#8211; Ele vai encontr\u00e1-lo. Ele<br \/>\ndir\u00e1 tudo! Estou perdida!<br \/>\nBelfort &#8211; Em homens como Carlos tenho a m\u00e1xima confian\u00e7a. S\u00f3<br \/>\nh\u00e1 contra esses apaches da nossa sociedade uma coisa respeit\u00e1vel:<br \/>\na cadeia. Ele sabe que eu o liquido. J\u00e1 n\u00e3o pensa mais em vingan\u00e7a.<br \/>\nVai daqui para um clube a passar o resto da noite com champagne pago pelos<br \/>\noutros.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Mas mandou ao Jos\u00e9 o \u00fanico bilhete que ele tinha<br \/>\nescrito. Jos\u00e9 vem a\u00ed.<br \/>\nBelfort &#8211; Esperaremos juntos o Jos\u00e9. O pobre rapaz ficar\u00e1 enternecido<br \/>\ncom a lembran\u00e7a. A\u00ed est\u00e1 um bilhete que o mau servi\u00e7o<br \/>\ndos correios levou tr\u00eas meses a entregar ao seu verdadeiro destinat\u00e1rio.<br \/>\nMadame Vargas &#8211; Meu amigo! Foi Deus que o mandou para salvar a minha vida!<br \/>\nBelfort &#8211; Deus, neste caso, foi apenas ter olhado, ao voltar da casa de Jos\u00e9,<br \/>\no seu terra\u00e7o e ver algu\u00e9m que a ele subia. Era o Carlos, esperei-o.<br \/>\nComo n\u00e3o sa\u00edsse, subi. Talvez fosse mesmo Deus, porque o devo<br \/>\nao luar, parece dia&#8230; Apesar da literatura (Caminha para a janela).<br \/>\nMadame Vargas (num \u00edmpeto beija-lhe a m\u00e3o)- Meu amigo! Meu amigo!<br \/>\nE perdoou, perdoou mesmo a minha falta, a minha loucura?<br \/>\nBelfort &#8211; Mas que \u00e9 isto, Hort\u00eancia? Ria, esteja alegre. Todos<br \/>\nn\u00f3s precisamos de perd\u00e3o. E o mundo seria a maior sensaboria<br \/>\nse as mulheres passassem por ele pensando em tudo quanto fazem&#8230;<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>cce.ufsc.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Jo\u00e3o do Rio Primeiro Ato O espl\u00eandido terra\u00e7o da vila de Mme. Vargas. \u00c1 direita, avan\u00e7ando sobre o terra\u00e7o entre grinaldas de rosas e trepadeiras floridas, a fachada da linda casa, com varanda e escadaria. Para essa varanda d\u00e3o a larga janela e a porta do sal\u00e3o de m\u00fasica. No fundo balaustrada de m\u00e1rmore. 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