{"id":100732,"date":"2017-02-02T10:36:42","date_gmt":"2017-02-02T12:36:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=100732"},"modified":"2017-02-14T10:38:08","modified_gmt":"2017-02-14T12:38:08","slug":"alma-encantadora-das-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/alma-encantadora-das-ruas","title":{"rendered":"Alma Encantadora das Ruas"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"600\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#1\">A Rua<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Pequenas Profiss\u00f5es<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">Os Tatuadores<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#4\">Ora\u00e7\u00f5es<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#5\">Os Urubus<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">Os Mercadores de Livros e a Leitura das Ruas<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">A Pintura das Ruas<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#8\">Tabuletas<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#9\">Vis\u00f5es d&#8217;\u00d3pio<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#10\">M\u00fasicos Ambulantes<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#11\">Velhos Cocheiros<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#12\">Presepes<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#13\">Como se Ouve a Missa do &#8220;Galo&#8221; <\/a><\/strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"220\">\n<div align=\"center\"><strong><strong><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#14\">Cord\u00f5es<\/a><br \/>\n<a href=\"#15\">Tr\u00eas Aspectos da Mis\u00e9ria<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#16\">Os Trabalhadores de Estiva<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#17\">A Fome Negra<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#18\">Sono Calmo<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#19\">As Mulheres Mendigas<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#20\">Os Que Come\u00e7am&#8230; <\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#21\">Onde \u00e0s vezes termina a Rua<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#22\">A Galeria Superior<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#23\">O Dia das Visitas<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#24\">Versos de Presos<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#25\">As Quatro Id\u00e9ias Capitais dos Presos<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#26\">Mulheres Detentas<\/a><\/strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Jo\u00e3o do Rio<\/h4>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>A Rua<\/h4>\n<p>Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda \u00edntima n\u00e3o vos<br \/>\nseria revelado por mim se n\u00e3o julgasse, e raz\u00f5es n\u00e3o<br \/>\ntivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado \u00e9<br \/>\npartilhado por todos v\u00f3s. N\u00f3s somos irm\u00e3os, n\u00f3s<br \/>\nnos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, n\u00e3o<br \/>\nporque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a pol\u00edcia, mas<br \/>\nporque nos une, nivela e agremia o amor da rua. \u00c9 este mesmo o sentimento<br \/>\nimperturb\u00e1vel e indissol\u00favel, o \u00fanico que, como a pr\u00f3pria<br \/>\nvida, resiste \u00e0s idades e \u00e0s \u00e9pocas. Tudo se transforma,<br \/>\ntudo varia \u2013 o amor, o \u00f3dio, o ego\u00edsmo. Hoje \u00e9<br \/>\nmais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os s\u00e9culos passam, deslizam,<br \/>\nlevando as coisas f\u00fateis e os acontecimentos not\u00e1veis. S\u00f3<br \/>\npersiste e fica, legado das gera\u00e7\u00f5es cada vez maior, o amor<br \/>\nda rua.<\/p>\n<p>A rua! Que \u00e9 a rua? Um can\u00e7onetista de Montmartre f\u00e1-la<br \/>\ndizer:<\/p>\n<p>Je su\u00eds la rue, femme \u00eaternellement verte,<br \/>\nJe n\u2019ai jamais trouv\u00e9 d\u2019autre carri\u00e8re ouverte<br \/>\nSinon d\u2019\u00eatre la rue, et, de tout temps, depuis<br \/>\nQue ce p\u00e9nible monde est monde, je la suis&#8230;<\/p>\n<p>A verdade e o trocadilho! Os dicion\u00e1rios dizem: &#8220;Rua, do latim<br \/>\nruga, sulco. Espa\u00e7o entre as casas e as povoa\u00e7\u00f5es por<br \/>\nonde se anda e passeia&#8221;. E Domingos Vieira, citando as Ordena\u00e7\u00f5es:<br \/>\n&#8220;Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se<br \/>\nsom cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy<br \/>\ndas estradas e ruas pruvicas&#8221;. A obscuridade da gram\u00e1tica e da<br \/>\nlei! Os dicion\u00e1rios s\u00f3 s\u00e3o considerados fontes f\u00e1ceis<br \/>\nde completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo,<br \/>\nabri dez, vinte enciclop\u00e9dias, manuseei infolios especiais de curiosidade.<br \/>\nA rua era para eles apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ora, a rua \u00e9 mais do que isso, a rua \u00e9 um fator da vida das<br \/>\ncidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterd\u00e3o, em Londres ou<br \/>\nBuenos Aires, sob os c\u00e9us mais diversos, nos mais variados climas,<br \/>\na rua \u00e9 a agasalhadora da mis\u00e9ria. Os desgra\u00e7ados n\u00e3o<br \/>\nse sentem de todo sem o aux\u00edlio dos deuses enquanto diante dos seus<br \/>\nolhos uma rua abre para outra rua. A rua \u00e9 o aplauso dos med\u00edocres,<br \/>\ndos infelizes, dos miser\u00e1veis da arte. N\u00e3o paga ao Tamagno para<br \/>\nouvir berros atenorados de le\u00e3o avaro, nem \u00e0 velha Patti para<br \/>\nadmitir um fio de voz velho, fraco e legend\u00e1rio. Bate, em compensa\u00e7\u00e3o,<br \/>\npalmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegr\u00e1-la<br \/>\ne para comer. A rua \u00e9 generosa. O crime, o del\u00edrio, a mis\u00e9ria<br \/>\nn\u00e3o os denuncia ela. A rua \u00e9 a transformadora das l\u00ednguas.<br \/>\nOs C\u00e2ndido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas<br \/>\npara enclausurar express\u00f5es; os prosadores bradam contra os C\u00e2ndido.<br \/>\nA rua continua, matando substantivos, transformando a significa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos termos, impondo aos dicion\u00e1rios as palavras que inventa, criando<br \/>\no cal\u00e3o que \u00e9 o patrim\u00f4nio cl\u00e1ssico dos l\u00e9xicons<br \/>\nfuturos. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. D\u00e1-lhe<br \/>\nluz, luxo, bem-estar, comodidade e at\u00e9 impress\u00f5es selvagens<br \/>\nno adejar das \u00e1rvores e no trinar dos p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>A rua nasce, como o homem, do solu\u00e7o, do espasmo. H\u00e1 suor humano<br \/>\nna argamassa do seu cal\u00e7amento. Cada casa que se ergue \u00e9 feita<br \/>\ndo esfor\u00e7o exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros<br \/>\ne canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de<br \/>\nsuor, uma melop\u00e9ia t\u00e3o triste que pelo ar parece um arquejante<br \/>\nsolu\u00e7o. A rua sente nos nervos essa mis\u00e9ria da cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne por isso \u00e9 a mais igualit\u00e1ria, a mais socialista, a mais niveladora<br \/>\ndas obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi<br \/>\nela que fez a majestade dos rif\u00f5es, dos brocardos, dos anexins, e foi<br \/>\ntamb\u00e9m ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua<br \/>\nn\u00e3o passam os s\u00e1bios, e os charlat\u00e3es, que a lisonjeiam<br \/>\nlhe resumem a banalidade, s\u00e3o da primeira ocasi\u00e3o desfeitos<br \/>\ne soprados como bolas de sab\u00e3o. A rua \u00e9 a eterna imagem da ingenuidade.<br \/>\nComete crimes, desvaria \u00e0 noite, treme com a febre dos del\u00edrios,<br \/>\npara ela como para as crian\u00e7as a aurora \u00e9 sempre formosa, para<br \/>\nela n\u00e3o h\u00e1 o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre<br \/>\nos olhos esquecida das pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es, \u00e9, no encanto<br \/>\nda vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nost\u00e1lgico dos<br \/>\npreg\u00f5es \u2013 t\u00e3o modesta, t\u00e3o lavada, t\u00e3o risonha,<br \/>\nque parece papaguear com o c\u00e9u e com os anjos&#8230;<\/p>\n<p>A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo<br \/>\nque vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada pra\u00e7a, tipo<br \/>\ndiab\u00f3lico que tem dos gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme,<br \/>\nfeito de risos e de l\u00e1grimas, de patifarias e de crimes irrespons\u00e1veis,<br \/>\nde abandono e de in\u00e9dita filosofia, tipo esquisito e amb\u00edguo<br \/>\ncom saltos de felino e risos de navalha, o prod\u00edgio de uma crian\u00e7a<br \/>\nmais sabida e c\u00e9tica que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade<br \/>\n\u00e9 perp\u00e9tua, voz que d\u00e1 o apelido fatal aos potentados<br \/>\ne nunca teve preocupa\u00e7\u00f5es, criatura que pede como se fosse natural<br \/>\npedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido<br \/>\ntodos os males da cidade, poeira d\u2019ouro que se faz lama e torna a ser<br \/>\npoeira \u2013 a rua criou o garoto!<\/p>\n<p>Essas qualidades n\u00f3s as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia<br \/>\nda rua n\u00e3o basta gozar-lhe as del\u00edcias como se goza o calor<br \/>\ndo sol e o lirismo do luar. \u00c9 preciso ter esp\u00edrito vagabundo,<br \/>\ncheio de curiosidades mals\u00e3s e os nervos com um perp\u00e9tuo desejo<br \/>\nincompreens\u00edvel, \u00e9 preciso ser aquele que chamamos fl\u00e2neur<br \/>\ne praticar o mais interessante dos esportes \u2013 a arte de flanar. \u00c9<br \/>\nfatigante o exerc\u00edcio?<\/p>\n<p>Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Hor\u00e1cio, a p\u00e9,<br \/>\nn\u00e3o fez outra coisa nos quarteir\u00f5es de Roma. Sterne e Hoffmann<br \/>\nproclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados<br \/>\nflanando. Flanar! A\u00ed est\u00e1 um verbo universal sem entrada nos<br \/>\ndicion\u00e1rios, que n\u00e3o pertence a nenhuma l\u00edngua! Que significa<br \/>\nflanar? Flanar \u00e9 ser vagabundo e refletir, \u00e9 ser basbaque e<br \/>\ncomentar, ter o v\u00edrus da observa\u00e7\u00e3o ligado ao da vadiagem.<br \/>\nFlanar \u00e9 ir por a\u00ed, de manh\u00e3, de dia, \u00e0 noite,<br \/>\nmeter-se nas rodas da popula\u00e7a, admirar o menino da gaitinha ali \u00e0<br \/>\nesquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar<br \/>\nnas pra\u00e7as os ajuntamentos defronte das lanternas m\u00e1gicas, conversar<br \/>\ncom os cantores de modinha das alfurjas da Sa\u00fade, depois de ter ouvido<br \/>\ndilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do L\u00edrico numa \u00f3pera<br \/>\nvelha e m\u00e1; \u00e9 ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas,<br \/>\nap\u00f3s ter acompanhado um pintor afamado at\u00e9 a sua grande tela<br \/>\npaga pelo Estado; \u00e9 estar sem fazer nada e achar absolutamente necess\u00e1rio<br \/>\nir at\u00e9 um s\u00edtio l\u00f4brego, para deixar de l\u00e1 ir,<br \/>\nlevado pela primeira impress\u00e3o, por um dito que faz sorrir, um perfil<br \/>\nque interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.<\/p>\n<p>\u00c9 vagabundagem? Talvez. Flanar \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nde perambular com intelig\u00eancia. Nada como o in\u00fatil para ser art\u00edstico.<br \/>\nDa\u00ed o desocupado fl\u00e2neur ter sempre na mente dez mil coisas necess\u00e1rias,<br \/>\nimprescind\u00edveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma<br \/>\njanela como Paul Adam, admira o caleidosc\u00f3pio da vida no ep\u00edtome<br \/>\ndelirante que \u00e9 a rua; \u00e0 porta do caf\u00e9, como Poe no Homem<br \/>\nda Multid\u00f5es, dedica-se ao exerc\u00edcio de adivinhar as profiss\u00f5es,<br \/>\nas preocupa\u00e7\u00f5es e at\u00e9 os crimes dos transeuntes. \u00c9<br \/>\numa esp\u00e9cie de secreta \u00e0 maneira de Sherlock Holmes, sem os<br \/>\ninconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontr\u00e1-lo numa bela<br \/>\nnoite numa noite muito feia. N\u00e3o vos saber\u00e1 dizer donde vem,<br \/>\nque est\u00e1 a fazer, para onde vai. Pensareis decerto estar diante de<br \/>\num sujeito fatal? Coitado! O fl\u00e2neur \u00e9 o bonhomme possuidor de<br \/>\numa alma igualit\u00e1ria e risonha, falando aos not\u00e1veis e aos humildes<br \/>\ncom do\u00e7ura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais<br \/>\nse convence da inutilidade da c\u00f3lera e da necessidade do perd\u00e3o.<\/p>\n<p>O fl\u00e2neur \u00e9 ing\u00eanuo quase sempre. P\u00e1ra diante dos<br \/>\nrolos, \u00e9 o eterno &#8220;convidado do sereno&#8221; de todos os bailes,<br \/>\nquer saber a hist\u00f3ria dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo<br \/>\ncada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um peda\u00e7o da hist\u00f3ria,<br \/>\ncomo se sabe a hist\u00f3ria dos amigos (quase sempre mal), acaba com a<br \/>\nvaga id\u00e9ia de que todo o espet\u00e1culo da cidade foi feito especialmente<br \/>\npara seu gozo pr\u00f3prio. O bal\u00e3o que sobe ao meio-dia no Castelo,<br \/>\nsobe para seu prazer; as bandas de m\u00fasica tocam nas pra\u00e7as para<br \/>\nalegr\u00e1-lo; se num beco perdido h\u00e1 uma serenata com viol\u00f5es<br \/>\nchorosos, a serenata e os viol\u00f5es est\u00e3o ali para diverti-lo.<br \/>\nE de tanto ver que os outros quase n\u00e3o podem entrever, o fl\u00e2neur<br \/>\nreflete. As observa\u00e7\u00f5es foram guardadas na placa sens\u00edvel<br \/>\ndo c\u00e9rebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando<br \/>\no fl\u00e2neur deduz, ei-lo a concluir uma lei magn\u00edfica por ser para<br \/>\nseu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia,<br \/>\na alma das ruas. E \u00e9 ent\u00e3o que haveis de pasmar da futilidade<br \/>\ndo mundo e da inconceb\u00edvel futilidade dos pedestres da poesia de observa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua \u00e9<br \/>\npara mim um ser vivo e im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Balzac dizia que as ruas de Paris nos d\u00e3o impress\u00f5es humanas.<br \/>\nS\u00e3o assim as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos<br \/>\ndo homem.<\/p>\n<p>Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colmeias sociais,<br \/>\nde interesses comerciais, dizem. Mas ningu\u00e9m o sabe. Um belo dia, alinha-se<br \/>\num tarrascal, corta-se um trecho de ch\u00e1cara, aterra-se lameiro, e a\u00ed<br \/>\nest\u00e1: nasceu mais uma rua. Nasceu para evoluir, para ensaiar primeiros<br \/>\npassos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade. Os homens t\u00eam<br \/>\nno c\u00e9rebro a sensa\u00e7\u00e3o dessa semelhan\u00e7a, e assim<br \/>\ncomo dizem de um rapag\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Quem h\u00e1 de pensar que vi este menino a engatinhar!<\/p>\n<p>Murmuram:<\/p>\n<p>\u2013 Quem h\u00e1 de dizer que esta rua h\u00e1 dez anos s\u00f3<br \/>\ntinha uma casa!<\/p>\n<p>Um cavalheiro not\u00e1vel, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas,<br \/>\nn\u00e3o se conteve:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 imposs\u00edvel passar por aqui sem lembrar que a velhice<br \/>\ncome\u00e7a a chegar. Quando vim da prov\u00edncia esta rua tinha apenas<br \/>\nduas casas no antigo jardim do Convento, e eu tomava chopps no Guarda Velha<br \/>\na tr\u00eas vint\u00e9ns!<\/p>\n<p>Eu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os<br \/>\ndois primeiros dentes de um homenzarr\u00e3o, com uma dentadura capaz atualmente<br \/>\nde morder as algibeiras de uma sociedade inteira. Era a recorda\u00e7\u00e3o,<br \/>\na saudade do passado come\u00e7o. H\u00e1 nada mais enternecedor que o<br \/>\nprinc\u00edpio de uma rua? \u00c9 ir v\u00ea-lo nos arrabaldes. A princ\u00edpio<br \/>\ncapim, um bra\u00e7o a ligar duas art\u00e9rias. Percorre-o sem pensar<br \/>\nmeia d\u00fazia de criaturas. Um dia cercam \u00e0 beira um lote de terreno.<br \/>\nSurgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra.<br \/>\nUm combustor tremeluz indicando que ela j\u00e1 se n\u00e3o deita com<br \/>\nas primeiras sombras. Tr\u00eas ou quatro habitantes proclamam a sua salubridade<br \/>\nou o seu sossego. Os vendedores ambulantes entram por ali como por terreno<br \/>\nnovo a conquistar. Aparece a primeira reclama\u00e7\u00e3o nos jornais<br \/>\ncontra a lama ou o capim. \u00c9 o batismo. As notas policiais contam que<br \/>\nos gatunos deram num dos seus quintais. \u00c9 a estr\u00e9ia na celebridade,<br \/>\nque exige o cal\u00e7amento ou o prolongamento da linha de bondes. E insensivelmente,<br \/>\nh\u00e1 na mem\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o, bem n\u00edtida,<br \/>\nbem pessoal, uma individualidade topogr\u00e1fica a mais, uma individualidade<br \/>\nque tem fisionomia e alma.<\/p>\n<p>Algumas d\u00e3o para malandras, outras para austeras; umas s\u00e3o<br \/>\npretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz<br \/>\no homem, misteriosamente, fazendo-as nascer sob uma boa estrela ou sob um<br \/>\nsigno mau, dando-lhes gl\u00f3rias e sofrimentos, matando-as ao cabo de<br \/>\num certo tempo.<\/p>\n<p>Oh! sim, as ruas t\u00eam alma! H\u00e1 ruas honestas, ruas amb\u00edguas,<br \/>\nruas sinistras, ruas nobres, delicadas, tr\u00e1gicas, depravadas, puras,<br \/>\ninfames, ruas sem hist\u00f3ria, ruas t\u00e3o velhas que bastam para<br \/>\ncontar a evolu\u00e7\u00e3o de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas,<br \/>\nmedrosas, spleen\u00e9ticas, snobs, ruas aristocr\u00e1ticas, ruas amorosas,<br \/>\nruas covardes, que ficam sem pinga de sangue&#8230;<\/p>\n<p>Vede a Rua do Ouvidor. \u00c9 a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo,<br \/>\ntomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras \u00e0<br \/>\nmais leve sombra de perigo. Esse beco inferno de pose, de vaidade, de inveja,<br \/>\ntem a especialidade da bravata. E fatalmente oposicionista, criou o boato,<br \/>\no &#8220;diz-se&#8230;&#8221; aterrador e o &#8220;fecha-fecha&#8221; prudente. Come\u00e7ou<br \/>\npor chamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios<br \/>\nmuita gente boa. No tempo em que os seus melhores pr\u00e9dios se alugavam<br \/>\nmodestamente por dez mil r\u00e9is, era a Rua do Gadelha. Podia ser ainda<br \/>\nhoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao n\u00famero prodigioso de poetas nefelibatas<br \/>\nque a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do Ouvidor<br \/>\nsem que o senado da c\u00e2mara fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia,<br \/>\ncomo insulta e aplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos<br \/>\nfalam de lugar do que ouve; e parece que cada nome usado foi como a antecipa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoral de um dos aspectos atuais dessa irrespons\u00e1vel art\u00e9ria<br \/>\nda futilidade.<\/p>\n<p>A Rua da Miseric\u00f3rdia, ao contr\u00e1rio, com as suas hospedarias<br \/>\nl\u00f4bregas, a mis\u00e9ria, a desgra\u00e7a das casas velhas e a cair,<br \/>\nos corredores bafientos, \u00e9 perpetuamente lament\u00e1vel. Foi a primeira<br \/>\nrua do Rio. Dela partimos todos n\u00f3s, nela passaram os vice-reis malandros,<br \/>\nos gananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imund\u00edcie,<br \/>\nnela desabotoou a flor da influ\u00eancia jesu\u00edtica. \u00cdndios<br \/>\nbatidos, negros presos a ferros, dom\u00ednio ignorante e bestial, o primeiro<br \/>\nbalbucio da cidade foi um grito de miseric\u00f3rdia, foi um estertor, um<br \/>\nai! tremendo atirado aos c\u00e9us. Dela brotou a cidade no antigo esplendor<br \/>\ndo Largo do Pa\u00e7o, dela decorreram, como de um corpo que sangra, os<br \/>\nbecos humildes e os coalhos de sangue, que s\u00e3o as pra\u00e7as, ribeirinhas<br \/>\ndo mar. Mas, solu\u00e7o de espancado, primeiro esfor\u00e7o de uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde infelizes, ela continuou pelos s\u00e9culos afora sempre lament\u00e1vel,<br \/>\ne t\u00e3o augustiosa e franca e verdadeira na sua dor que os patriotas<br \/>\nlisonjeiros e os governos, ningu\u00e9m, ningu\u00e9m se lembrou nunca<br \/>\nde lhe tirar das esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha:<br \/>\n\u2013 Miseric\u00f3rdia!<\/p>\n<p>H\u00e1 ruas que mudam de lugar, cortam morros, v\u00e3o acabar em certos<br \/>\npontos que ningu\u00e9m dantes imaginara \u2013 a Rua dos Ourives; h\u00e1<br \/>\nruas que, pouco honestas no passado, acabaram tomando vergonha \u2013 a da<br \/>\nQuitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-se do A\u00e7ougue<br \/>\nVelho, do ln\u00e1cio Castanheira, do Sucusarrar\u00e1, do Tom\u00e9<br \/>\nda Silva, que sei eu? At\u00e9 mesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda<br \/>\ndo Marisco, mas, como certos indiv\u00edduos que organizam o nome conforme<br \/>\na posi\u00e7\u00e3o que ocupam, cortou o marisco e ficou s\u00f3 Quitanda.<br \/>\nH\u00e1 ruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas<br \/>\nconservadoras \u2013 a das Laranjeiras; h\u00e1 ruas l\u00fagubres, por<br \/>\nonde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte \u2013 o Largo do<br \/>\nMoura por exemplo. Foi sempre assim. L\u00e1 existiu o Necrot\u00e9rio<br \/>\ne antes do Necrot\u00e9rio l\u00e1 se erguia a Forca. Antes da aut\u00f3psia,<br \/>\no enforcamento. O velho largo macabro, com a alma de Tropmann e de Jack, depois<br \/>\nde matar, avaramente guardou anos e anos, para escalpel\u00e1-los, para<br \/>\ncham\u00e1-los, para goz\u00e1-los, todos os corpos dos desgra\u00e7ados<br \/>\nque se suicidam ou morrem assassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha<br \/>\ntamb\u00e9m. Mesmo hoje, aberta, alargada com pr\u00e9dios novos e a trepida\u00e7\u00e3o<br \/>\ncont\u00ednua do com\u00e9rcio, h\u00e1 de vos dar uma impress\u00e3o<br \/>\nde vago horror. \u00c0 noite s\u00e3o mais densas as sombras, as luzes<br \/>\nmais vermelhas, as figuras maiores. Por que ter\u00e1 essa rua um aspecto<br \/>\nassim? Oh! Porque foi sempre m\u00e1, porque foi sempre ali o Aljube, ali<br \/>\npadeceram os negros dos tr\u00eas primeiros trapiches do sal, porque tamb\u00e9m<br \/>\nali a forca espalhou a morte!<\/p>\n<p>H\u00e1 entretanto outras ruas, que nascem \u00edntimas, familiares,<br \/>\nincapazes de dar um passo sem que todas as vizinhas n\u00e3o saibam. As<br \/>\nruas de Santa Teresa est\u00e3o nestas condi\u00e7\u00f5es. Um cavalheiro<br \/>\nsalta no Curvelo, vai a p\u00e9 at\u00e9 o Fran\u00e7a, e quando volta<br \/>\nj\u00e1 todas as ruas perguntam que deseja ele, se as suas ten\u00e7\u00f5es<br \/>\ns\u00e3o puras e outras impertin\u00eancias \u00edntimas. Em geral, procura-se<br \/>\no mist\u00e9rio da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso.<br \/>\nAs ruas de Santa Teresa, \u00e9 descobrir o par e \u00e9 deitar a rir<br \/>\nproclamando aos quatro ventos o acontecimento. Uma das ruas, mesmo, mais leviana<br \/>\ne tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo Rua do Amor, e a Rua<br \/>\ndo Amor l\u00e1 est\u00e1 na freguesia de S. Jos\u00e9. Ser\u00e1<br \/>\nexatamente um lugar escolhido pelo Amor, deus decadente? Talvez n\u00e3o.<br \/>\nH\u00e1 tamb\u00e9m na freguesia do Engenho Velho uma rua intitulada Feliz<br \/>\nLembran\u00e7a e parece que n\u00e3o a teve, segundo a opini\u00e3o<br \/>\nrespeit\u00e1vel da poesia an\u00f4nima:<\/p>\n<p>Na Rua Feliz Lembran\u00e7a<br \/>\nEu escapei por um triz<br \/>\nDe ser mandado \u00e0 t\u00e1bua.<br \/>\nAi! que lembran\u00e7a infeliz<br \/>\nTal nome p\u00f4r nesta rua!<\/p>\n<p>H\u00e1 ruas que t\u00eam as bland\u00edcias de Goriot e de Shylock<br \/>\npara vos emprestar a juro, para esconder quem pede e paga o explorador com<br \/>\nar humilde. N\u00e3o vos lembrais da Rua do Sacramento, da rua dos penhores?<br \/>\nUma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte \u00e0 igreja, casas<br \/>\nvelhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de<br \/>\nferro, uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as j\u00f3ias,<br \/>\nque pobres entes angustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada<br \/>\nde solu\u00e7os; era ali que reflu\u00edam todas as paix\u00f5es e todas<br \/>\nas tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 ruas oradoras, ruas de meeting \u2013 o Largo do Capim que assim<br \/>\nfoi sempre, o Largo de S. Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem<br \/>\nsorrir com honestidade \u2013 a Rua de Haddock Lobo; ruas em que n\u00e3o<br \/>\nse arrisca a gente sem volver os olhos para tr\u00e1s a ver se nos v\u00eaem<br \/>\n\u2013a Travessa da Barreira; ruas melanc\u00f3licas, da tristeza dos poetas;<br \/>\nruas de prazer suspeito pr\u00f3ximo do centro urbano e como que dele muito<br \/>\nafastadas; ruas de paix\u00e3o rom\u00e2ntica, que pedem virgens loiras<br \/>\ne luar.<\/p>\n<p>Qual de v\u00f3s j\u00e1 passou a noite em claro ouvindo o segredo de<br \/>\ncada rua? Qual de v\u00f3s j\u00e1 sentiu o mist\u00e9rio, o sono, o<br \/>\nv\u00edcio, as id\u00e9ias de cada bairro?<\/p>\n<p>A alma da rua s\u00f3 \u00e9 inteiramente sens\u00edvel a horas tardias.<br \/>\nH\u00e1 trechos em que a gente passa como se fosse empurrada, perseguida,<br \/>\ncorrida \u2013 s\u00e3o as ruas em que os passos reboam, repercutem, parecem<br \/>\ncrescer, clamam, ecoam e, em breve, s\u00e3o outros tantos passos ao nosso<br \/>\nencal\u00e7o. Outras que se envolvem no mist\u00e9rio logo que as sombras<br \/>\ndescem \u2013 o Largo de Pa\u00e7o. Foi esse largo o primeiro esplendor<br \/>\nda cidade. Por ali passaram, na pompa dos p\u00e1lios e dos baldaquins d\u2019ouro<br \/>\ne p\u00farpura, as prociss\u00f5es do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos<br \/>\nPassos; por ali, ao lado da Praia do Peixe, simples vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde palho\u00e7as, o com\u00e9rcio agitava as suas primeiras eleg\u00e2ncias<br \/>\ne as suas ambi\u00e7\u00f5es mais fortes. O largo, apesar das reformas,<br \/>\nparece guardar a tradi\u00e7\u00e3o de dormir cedo. \u00c0 noite, nada<br \/>\no reanima, nada o levanta. Uma grande revolu\u00e7\u00e3o morre no seu<br \/>\nbojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os pr\u00f3prios rev\u00e9rberos<br \/>\nparece dormitarem, e as sombras que por ali deslizam s\u00e3o trapos da<br \/>\nexist\u00eancia almejando o fim pr\u00f3ximo, ladr\u00f5es sem pousada,<br \/>\nimigrantes esfaimados&#8230; Deixai esse largo, ide \u00e0s ruelas da Miseric\u00f3rdia,<br \/>\ntrechos da cidade que lembram o Amsterd\u00e3o sombrio de Rembrandt. H\u00e1<br \/>\nhomens em esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. N\u00e3o<br \/>\nnos admiremos. Somos reflexos. O Beco da M\u00fasica ou o Beco da Fidalga<br \/>\nreproduzem a alma das ruas de N\u00e1poles, de Floren\u00e7a, das ruas<br \/>\nde Portugal, das ruas da \u00c1frica, e at\u00e9, se acreditarmos na fantasia<br \/>\nde Her\u00f3doto, das ruas do antigo Egito. E por qu\u00ea? Porque s\u00e3o<br \/>\nruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a vis\u00e3o de outros horizontes.<br \/>\nAbri uma dessas pocilgas que s\u00e3o a parte do seu organismo. Haveis de<br \/>\nver chineses b\u00eabados de \u00f3pio, marinheiros embrutecidos pelo \u00e1lcool,<br \/>\nfeiticeiras ululando can\u00e7\u00f5es sinistras, toda a estranha vida<br \/>\ndos portos de mar. E esses becos, essas betesgas t\u00eam a perf\u00eddia<br \/>\ndos oceanos, a mis\u00e9ria das imigra\u00e7\u00f5es, e o v\u00edcio,<br \/>\no grande v\u00edcio do mar e das col\u00f4nias&#8230;<\/p>\n<p>Se as ruas s\u00e3o entes vivos, as ruas pensam, t\u00eam id\u00e9ias,<br \/>\nfilosofia e religi\u00e3o. H\u00e1 ruas inteiramente cat\u00f3licas,<br \/>\nruas protestantes, ruas livres-pensadoras e at\u00e9 ruas sem religi\u00e3o.<br \/>\nTrafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, n&amp;atilatilde;o tem uma opini\u00e3o<br \/>\nteol\u00f3gica definitiva. O mesmo se pode dizer da Pra\u00e7a da Conc\u00f3rdia<br \/>\nde Paris ou da Pra\u00e7a Tiradentes. H\u00e1 criatura mais sem miolos<br \/>\nque o Largo do Rocio? Devia ser respeit\u00e1vel e austero. L\u00e1, Pedro<br \/>\nI, trepado num belo cavalo e com um belo gesto, mostra aos povos a carta da<br \/>\nindepend\u00eancia, fingindo dar um grito que nunca deu. Pois bem: n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 sujeito mais p\u00e2ndego e menos s\u00e9rio do que o velho ex-Largo<br \/>\ndo Rocio. Os seus sentimentos religiosos oscilam entre a deprava\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a roleta. Felizmente, outras redimem a sociedade de pedra e cal, pelo seu<br \/>\nculto e o seu fervor. A Rua Benjamin Constant est\u00e1 neste caso, \u00e9<br \/>\nentre n\u00f3s um tremendo exemplo de confus\u00e3o religiosa. Solene,<br \/>\ngrave, guarda tr\u00eas templos, e parece dizer com circunspec\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o ar compenetrado de certos senhores de todos n\u00f3s conhecidos:<\/p>\n<p>\u2013 Fa\u00e7o as obras do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, creio em<br \/>\nDeus, nas ora\u00e7\u00f5es, nos bentinhos e s\u00f3 n\u00e3o sou<br \/>\npositivista porque \u00e9 tarde para mudar de cren\u00e7a. Mas respeito<br \/>\nmuito e admiro Teixeira Mendes&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s, os homens nervosos, temos de quando em vez alucina\u00e7\u00f5es<br \/>\nparciais da pele, dores fulgurantes, a sensa\u00e7\u00e3o de um contacto<br \/>\nque n\u00e3o existe, a certeza de que chamam por n\u00f3s. As ruas t\u00eam<br \/>\nos rolos, as casas mal assombradas, e h\u00e1 at\u00e9 ruas possessas,<br \/>\ncom o diabo no corpo. Em S. Lu\u00eds do Maranh\u00e3o h\u00e1 uma rua<br \/>\nson\u00e2mbula muito menos cacete que a \u00f3pera c\u00e9lebre do mesmo<br \/>\nnome. Essa rua \u00e9 a Rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia.<br \/>\nDeu-se l\u00e1 um crime horr\u00edvel. \u00c0s dez horas, a rua cai<br \/>\nem estado sonamb\u00falico e \u00e9 s\u00f3 gritos, clamores: sangue!<br \/>\nsangue!<\/p>\n<p>Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham maiores del\u00edrios,<br \/>\nmas s\u00e3o como os homens normais \u2013 guardam dentro do c\u00e9rebro<br \/>\ntodos os pensamentos extravagantes. Quem se atreveria a resumir o que num<br \/>\nminuto pensa de mal, de inconfess\u00e1vel, o mais honesto cidad\u00e3o?<br \/>\nEntre as ruas existem tamb\u00e9m as falsas, as hip\u00f3critas, com a<br \/>\nalma de Tartufo e de Iago. Por isso os grandes m\u00e1gicos do interior<br \/>\nda \u00c1frica Central, que dos sert\u00f5es adustos levavam \u00e0s<br \/>\ncidades inglesas do litoral sacos d\u2019ouro em p\u00f3 e grandes macacos<br \/>\ntremendos, t\u00eam uma cantiga estranha que vale por uma senten\u00e7a<br \/>\nbreve de Cat\u00e3o:<\/p>\n<p>O di ti a u\u00ea, ch\u00ea<br \/>\nF\u2019u, a u\u00e1 ny<br \/>\nOd\u00e9, od\u00e1, bi ej\u00f4<br \/>\nSa lo d\u00ea<\/p>\n<p>Senten\u00e7a que em eub\u00e1, o esperanto das hordas selvagens, quer<br \/>\ndizer apenas isto: rua foi feita para ajuntamentos. Rua \u00e9 como cobra.<br \/>\nTem veneno. Foge da rua!<\/p>\n<p>Mas o importante, o grave, \u00e9 ser a rua a causa fundamental da diversidade<br \/>\ndos tipos urbanos. N\u00e3o sei se lestes um curioso livro de E. Demolins,<br \/>\nComment la route cr\u00e9e le type social. \u00c9 uma revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nno ensino da Geografia. &#8220;A causa primeira e decisiva da diversidade das<br \/>\nra\u00e7as, diz ele, \u00e9 a estrada, o caminho que os homens seguirem.<br \/>\nFoi a estrada que criou a ra\u00e7a e o tipo social. Os grandes caminhos<br \/>\ndo globo foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos que transformaram<br \/>\nos povos. Os caminhos das grandes estepes asi\u00e1ticas, das tundras siberianas,<br \/>\ndas savanas da Am\u00e9rica ou das florestas africanas insensivelmente e<br \/>\nfatalmente criaram o tipo t\u00e1rtaro-mongol, o lap\u00e3o-esquim\u00f3,<br \/>\no pele-vermelha, o \u00edndio, o negro&#8221;.<\/p>\n<p>A rua \u00e9 a civiliza\u00e7\u00e3o da estrada. Onde morre o grande<br \/>\ncaminho come\u00e7a a rua, e, por isso, ela est\u00e1 para a grande cidade<br \/>\ncomo a estrada est\u00e1 para o mundo. Em embri\u00e3o, \u00e9 o princ\u00edpio,<br \/>\na causa dos pequenos agrupamentos de uma ra\u00e7a id\u00eantica. Da\u00ed,<br \/>\nem muitos s\u00edtios da terra as aldeias terem o \u00fanico nome de rua.<br \/>\nQuando aumentam e crescem depois, ou pela devo\u00e7\u00e3o da maioria<br \/>\ndos habitantes ou por uma impress\u00e3o de local, acrescentam ao substantivo<br \/>\nrua o complemento que das outras as deve diferen\u00e7ar. Em Portugal esse<br \/>\nfato \u00e9 comum. H\u00e1 uma aldeia de 700 habitantes no Minho que se<br \/>\nchama modestamente Rua de S. Jorge, uma outra no Douro que \u00e9 a Rua<br \/>\nda Lapela, e existem at\u00e9 uma Rua de Cima e uma Rua de Baixo.<\/p>\n<p>Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos<br \/>\nseus habitantes, a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, h\u00e1bitos,<br \/>\nmodos, opini\u00f5es pol\u00edticas. V\u00f3s todos deveis ter ouvido<br \/>\nou dito aquela frase:<\/p>\n<p>\u2013 Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! H\u00e1<br \/>\nmeninas que cheiram a Botafogo, a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como h\u00e1<br \/>\nvelhas em id\u00eanticas condi\u00e7\u00f5es, como h\u00e1 homens tamb\u00e9m.<br \/>\nA rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social.<br \/>\nTodos n\u00f3s conhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo \u00e0<br \/>\namericana, roupas amplas \u00e0 inglesa, lencinho min\u00fasculo no punho<br \/>\nlargo, bengala de volta, pretens\u00f5es \u00e0s l\u00ednguas estrangeiras,<br \/>\ncal\u00e7as dobradas como Eduardo VII e toda a snobopolis do universo. Esse<br \/>\nmesmo rapaz, dadas id\u00eanticas posi\u00e7\u00f5es, \u00e9 no Largo<br \/>\ndo Est\u00e1cio inteiramente diverso. As botas s\u00e3o de bico fino,<br \/>\nos fatos em geral justos, o len\u00e7o no bolso de dentro do casaco, o cabelo<br \/>\n\u00e0 meia cabeleira com muito \u00f3leo. Se formos ao Largo do Dep\u00f3sito,<br \/>\nesse mesmo rapaz usar\u00e1 len\u00e7o de seda preta, forro na gola do<br \/>\npaletot, casaquinho curto e cal\u00e7as obedecendo ao molde corrente na<br \/>\nnavega\u00e7\u00e3o a\u00e9rea \u2013 cal\u00e7as \u00e0 bal\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses tr\u00eas rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada, \u00e0s<br \/>\nvezes at\u00e9 parentes, n\u00e3o h\u00e1 escolas, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\ncontactos passageiros, n\u00e3o h\u00e1 academias que lhes tranformem<br \/>\no gosto por certa cor de gravatas, a maneira de comer, as express\u00f5es,<br \/>\nas id\u00e9ias \u2013 porque cada rua tem um stock especial de express\u00f5es,<br \/>\nde id\u00e9ias e de gostos. A gente de Botafogo vai \u00e0s &#8220;primeiras&#8221;<br \/>\ndo L\u00edrico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de Haddock Lobo tem dinheiro<br \/>\nmas raramente vai ao L\u00edrico. Os moradores da Tijuca aplaudem Sarah<br \/>\nBernhardt como um prod\u00edgio. Os moradores da Sa\u00fade amam enternecidamente<br \/>\no Dias Braga. As meninas das Laranjeiras valsam ao som das valsas de Strauss<br \/>\ne de Berger, que lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos kursaals.<br \/>\nAs meninas dos bailes de Catumbi s\u00f3 conhecem as novidades do senhor<br \/>\nAur\u00e9lio Cavalcante. As conversas variam, o amor varia, os ideais s\u00e3o<br \/>\ninteiramente outros, e at\u00e9 o namoro, essa encantadora primeira fase<br \/>\ndo eclipse do casamento, essa meia a\u00e7\u00e3o da simpatia que se funde<br \/>\nem desejo, \u00e9 abolutamente diverso. Em Botafogo, \u00e0 sombra das<br \/>\n\u00e1rvores do parque ou no grande port\u00e3o, Julieta espera Romeu,<br \/>\nelegante e solit\u00e1ria; em Haddock Lobo, Julieta garruleia em bandos<br \/>\npela cal\u00e7ada; e nas casas humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou<br \/>\ntodo o dia pensando nessa hora fugace, pende \u00e0 janela o seu busto formoso&#8230;<\/p>\n<p>Oh! sim, a rua faz o indiv\u00edduo, n\u00f3s bem o sentimos. Um cidad\u00e3o<br \/>\nque tenha passado metade da exist\u00eancia na Rua do Pau Ferro n\u00e3o<br \/>\nse habitua jamais \u00e0 Rua Marqu\u00eas de Abrantes! Os intelectuais<br \/>\nsentem esse tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem.<br \/>\nEu conheci um elegante bar\u00e3o da monarquia, diplomata em perp\u00e9tua<br \/>\ndisponibilidade, que a necessidade for\u00e7ara a aceitar de certo propriet\u00e1rio<br \/>\no quarto de um corti\u00e7o da Rua Bom Jardim. O pobre homem, com as suas<br \/>\nposes \u00e0 Brummell, sempre de mon\u00f3culo entalado, era o esc\u00e2ndalo<br \/>\nda rua. Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca ningu\u00e9m<br \/>\nse lembrava de o tratar sen\u00e3o com desconfian\u00e7a assustada. O<br \/>\nbar\u00e3o sentia-se desesperado e resumira a vida num gozo \u00fanico:<br \/>\nsempre que podia, tomava o bonde de Botafogo, acendia um charuto, e ia por<br \/>\nali altivo, airoso, com a velha redingote abotoada, a &#8220;caramela&#8221;<br \/>\nde cristal cintilante&#8230; Estava no seu bairro. At\u00e9 parece, dizia ele,<br \/>\nque as pedras me conhecem!<\/p>\n<p>As pedras! As pedras s\u00e3o a coura\u00e7a da rua, a resist\u00eancia<br \/>\nque elas apresentam ao novo transeunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira<br \/>\nvez uma rua de arrabalde sem que o vosso passo fosse hesitante como que, inconscientemente,<br \/>\nse habituando ao terreno; refleti nessas coisas sutis que a vida cria, e haveis<br \/>\nde compreender ent\u00e3o a raz\u00e3o por que os humildes limitam todo<br \/>\no seu mundo \u00e0 rua onde moram, e por que certos tipos, os tipos populares,<br \/>\ns\u00f3 o s\u00e3o realmente em determinados quarteir\u00f5es.<\/p>\n<p>As ruas s\u00e3o t\u00e3o humanas, vivem tanto e formam de tal maneira<br \/>\nos seus habitantes, que h\u00e1 at\u00e9 ruas em conflito com outras.<br \/>\nOs malandros e os garotos de uma olham para os de outra como para inimigos.<br \/>\nEm 1805, h\u00e1 um s\u00e9culo, era assim: os capoeiras da Praia n\u00e3o<br \/>\npodiam passar por Santa Luzia. No tempo das elei\u00e7\u00f5es mais \u00e0<br \/>\nnavalha que \u00e0 pena, o Largo do Machadinho e a Rua Pedro Am\u00e9rico<br \/>\neram inimigos irreconcili\u00e1veis. Atualmente a sugest\u00e3o \u00e9<br \/>\ntal que eles se intitulam povo. H\u00e1 o povo da Rua do Senado, o povo<br \/>\nda Travessa do mesmo nome, o povo de Catumbi. Haveis de ouvir, \u00e0 noite,<br \/>\num grupo de pequenos valentes armados de vara:<\/p>\n<p>\u2013 Vamos embora! O povo da Travessa est\u00e1 conosco.<\/p>\n<p>\u00c9 a Rua do Senado que, aliada \u00e0 Travessa, vai sovar a Rua Frei<br \/>\nCaneca&#8230;<\/p>\n<p>Como outrora os homens, mais ou menos not\u00e1veis, tomavam o nome da<br \/>\ncidade onde tinham nascido \u2013 Tales de Mileto, Luciano de Samosata, Epicarmo<br \/>\nde Alexandria \u2013 os chefes da capado\u00e7agem juntam hoje ao nome<br \/>\nde batismo o nome da sua rua. H\u00e1 o Jos\u00e9 do Senado, o Juca da<br \/>\nHarmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime, tornaram-se<br \/>\nc\u00e9lebres dois homens, Carlito e Cardosinho, s\u00f3 temidos em toda<br \/>\na cidade, cheia de Cardosinhos e de Carlitos, porque eram o Carlito e o Cardosinho<br \/>\nda Sa\u00fade. Direis que \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o puramente<br \/>\nlocal? N\u00e3o, cem vezes n\u00e3o! Em Paris, a Ville-Lumi\u00e8re,<br \/>\nos bandos de assassinos tomam freq\u00fcentemente o nome da rua onde se organizaram;<br \/>\nem Londres h\u00e1 ruas dos bairros tr\u00e1gicos com esse predom\u00ednio,<br \/>\ne na pr\u00f3pria hist\u00f3ria de Biz\u00e2ncio haveis de encontrar<br \/>\nruas t\u00e3o guerreiras que os seus habitantes as juntavam ao nome como<br \/>\num distintivo.<\/p>\n<p>E assim os tipos populares.<\/p>\n<p>Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais vivamente se exteriorizava<br \/>\na influ\u00eancia psicol\u00f3gica da rua: o Pai da Crian\u00e7a e a<br \/>\nPerereca.<\/p>\n<p>O Pai da Crian\u00e7a estava deslocado, na decad\u00eancia. Esse ser repugnante<br \/>\nnascera como uma deprava\u00e7\u00e3o da Rua do Ouvidor. Quando o vi doente,<br \/>\nnas tascas da Rua Frei Caneca, como j\u00e1 n\u00e3o estava na sua rua,<br \/>\nn\u00e3o era mais not\u00e1vel. Os garotos j\u00e1 n\u00e3o riam dele,<br \/>\nningu\u00e9m o seguia, e o nojento sujeito conversava nas bodegas, como<br \/>\nqualquer mortal, da gatunice dos governos. S\u00f3 fui descobrir a sua celebridade<br \/>\nquando o vi em plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindo insol\u00eancias,<br \/>\ninconceb\u00edvel de descaro e de n\u00e1usea. A Perereca, ao contr\u00e1rio.<br \/>\nNa Rua do Ouvidor seria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo,<br \/>\no del\u00edrio, a extravag\u00e2ncia. Os malandrins corriam-lhe ao encal\u00e7o<br \/>\natirando-lhe pedras, os negociantes chegavam \u00e0s portas, todas as janelas<br \/>\niluminavam-se de gargalhadas. E por qu\u00ea? Porque esses tipos s\u00e3o<br \/>\no riso das ruas e assim como n\u00e3o h\u00e1 duas pessoas que riam do<br \/>\nmesmo modo n\u00e3o h\u00e1 duas ruas cujo riso seja o mesmo.<\/p>\n<p>Se a rua \u00e9 para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social,<br \/>\n\u00e9 claro que a preocupa\u00e7\u00e3o maior, a associada a todas<br \/>\nas outras id\u00e9ias do ser das cidades, \u00e9 a rua. N\u00f3s pensamos<br \/>\nsempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os<br \/>\nideais, os mais confusos, os mais antag\u00f4nicos, os mais estranhos, desde<br \/>\na no\u00e7\u00e3o de liberdade e de difama\u00e7\u00e3o \u2013 id\u00e9ias<br \/>\ngerais \u2013 at\u00e9 a aspira\u00e7\u00e3o de dinheiro, de alegria<br \/>\ne de amor, id\u00e9ias particulares. Instintivamente, quando a crian\u00e7a<br \/>\ncome\u00e7a a engatinhar, s\u00f3 tem um desejo: ir para a rua! Ainda<br \/>\nn\u00e3o fala e j\u00e1 a assustam: se voc\u00ea for para a rua encontra<br \/>\no bicho! Se voc\u00ea sair apanha palmadas! Qual! N\u00e3o h\u00e1 nada!<br \/>\n\u00c9 pilhar um port\u00e3o aberto que o petiz n\u00e3o se lembra mais<br \/>\nde bichos nem de pancadas!<\/p>\n<p>Sair s\u00f3 \u00e9 a \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as<br \/>\nat\u00e9 uma certa idade. Depois continuar a sair s\u00f3. E quando j\u00e1<br \/>\npara n\u00f3s esse prazer se usou, a rua \u00e9 a nossa pr\u00f3pria<br \/>\nexist\u00eancia. Nela se fazem neg\u00f3cios, nela se fala mal do pr\u00f3ximo,<br \/>\nnela mudam as id\u00e9ias e as convic\u00e7\u00f5es, nela surgem as<br \/>\ndores e os desgostos, nela sente o homem a maior emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando se encontra o amor Na rua, sem o saber&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da f\u00faria.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 a rua como express\u00e3o da maior calamidade.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 em casa, venha para a rua se \u00e9 gente!<\/p>\n<p>A\u00ed temos a rua indicando s\u00edtio livre para a valentia a substituir<br \/>\no campo de torneio medieval.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 mais deslavado que as pedras da rua!<\/p>\n<p>Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconceb\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 mais velho que uma rua!<\/p>\n<p>Conceito talvez errado porque h\u00e1 ruas que morrem mo\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes at\u00e9 a rua \u00e9 a arma que fere e serve de elogio<br \/>\nconforme a opini\u00e3o que dela se tem.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! minha amiga! Meu filho \u00e9 muito comportado. J\u00e1 vai<br \/>\n\u00e0 rua sozinho&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Ah! meninas, o filho de d. Alice est\u00e1 perdido! Pois se at\u00e9<br \/>\nanda sozinho na rua!<\/p>\n<p>E a rua, impass\u00edvel, \u00e9 o mist\u00e9rio, o esc\u00e2ndalo,<br \/>\no terror&#8230;<\/p>\n<p>Os pol\u00edticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu, na<br \/>\nFran\u00e7a; os presidentes de rep\u00fablica, os reis, os papas, no pavor<br \/>\nde uma surpresa da rua \u2013 a bomba, a revolta; os chefes de pol\u00edcia<br \/>\ns\u00e3o os alucinados permanentes das ruas; todos quantos querem subir,<br \/>\ngalgar a in\u00fatil e movedi\u00e7a montanha da gl\u00f3ria, anseiam<br \/>\npelo ju\u00edzo da rua, pela aprova\u00e7\u00e3o da via p\u00fablica,<br \/>\ne h\u00e1 na patologia nervosa uma vasta parte em que se trata apenas das<br \/>\nmol\u00e9stias produzidas pela rua, desde a neurastenia at\u00e9 \u00e0<br \/>\nloucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsess\u00e3o em que se condensam<br \/>\ntodas as nossas ambi\u00e7\u00f5es. O homem, no desejo de ganhar a vida<br \/>\ncom mais abund\u00e2ncia ou maior celebridade, precisava interessar \u00e0<br \/>\nrua. Come\u00e7ou pois fazendo discursos em plena \u00e1gora, discursos<br \/>\nque, desde os tempos mais remotos aos meetings contempor\u00e2neos da est\u00e1tua<br \/>\nde Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, falam sempre de coisas altivas, generosas<br \/>\ne nobres. Um belo dia, a rua proclamou a excelente verdade: que as palavras<br \/>\nleva-as o vento. Logo, n\u00f3s assustados, imaginamos o homem-sandwich,<br \/>\no cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme, com muita goma e<br \/>\nmuita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o doce mais<br \/>\ngostoso, o ideal pol\u00edtico mais austero, o vinho mais generoso, n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 em letras impressas mas com figuras aleg\u00f3ricas, para poupar-lhe<br \/>\no trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignor\u00e2ncia, para alegr\u00e1-la.<br \/>\nComo se n\u00e3o bastassem o cartaz, a lanterna m\u00e1gica, o homem-sandwich,<br \/>\ndesveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a hist\u00f3ria e fizemos<br \/>\no jornal \u2013 esse formid\u00e1vel folhetim-romance permanente, composto<br \/>\nde verdades, mentiras, lisonjas, insultos e da fantasia dos Gaboriau que somos<br \/>\ntodos n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma est\u00e9tica da rua, afirmou Bulls. Sim. H\u00e1. Porque<br \/>\nas atrizes de fama, os oradores mais populares, os h\u00e9rcules mais cheios<br \/>\nde for\u00e7a, os produtos mais evidentes dos blocos comerciais, vivem de<br \/>\nprocurar agrad\u00e1-la. Desse orgulho transit\u00f3rio surgiu para a<br \/>\nrua a gl\u00f3ria policroma da arte. O temor de serem esquecidos criou para<br \/>\ncada uma a roupagem variada, encheu-as como Melusinas de pedra, como fadas<br \/>\ncru\u00e9is que se teme e se satisfaz, de vestidos m\u00faltiplos, de<br \/>\ncores variegadas, de fanfreluches de papel, da ard\u00eancia fulgurante das<br \/>\nmontras de cambiantes luzentes; deu-lhes uma perp\u00e9tua apoteose de sacrif\u00edcio<br \/>\n\u00e0 espera do milagre do lucro ou da popularidade. A est\u00e9tica,<br \/>\na ornamenta\u00e7\u00e3o das ruas, \u00e9 o resultado do respeito e<br \/>\ndo medo que lhes temos&#8230;<\/p>\n<p>No esp\u00edrito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a todos<br \/>\nos sentimentos e serve para todas as compara\u00e7\u00f5es. Basta percorrer<br \/>\na poesia an\u00f4nima para constatar a flagrante verdade. \u00c9 quase<br \/>\nsempre na rua que se fala mal do pr\u00f3ximo. Folheemos uma cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nde fados. L\u00e1 est\u00e1 a id\u00e9ia:<\/p>\n<p>Adeus, \u00f3 Rua Direita<br \/>\n\u00d3 Rua da Murmura\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOnde se faz audi\u00eancia<br \/>\nSem juiz nem escriv\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s muito t\u00edmida, como devendo ser cantada por quem tem culpa<br \/>\nno cart\u00f3rio. Mas, se um apaixonado quer descrever o seu peito, s\u00f3<br \/>\nencontra uma compara\u00e7\u00e3o perfeita.<\/p>\n<p>O meu peito \u00e9 uma rua<br \/>\nOnde o meu bem nunca passa,<br \/>\n\u00c9 a rua da amargura<br \/>\nOnde passeia a desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Se sente o apetite de descrever, os esp\u00e9cimens s\u00e3o sem conta.<\/p>\n<p>Na rua do meu amor<br \/>\nN\u00e3o se pode namorar:<br \/>\nDe dia, velhas \u00e0 porta,<br \/>\nDe noite, c\u00e3es a ladrar.<\/p>\n<p>E \u00e9 suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da amada<br \/>\ne desejando realizar o imposs\u00edvel para lhe ser agrad\u00e1vel, s\u00f3<br \/>\np\u00f4de sussurrar esta vontade meiga:<\/p>\n<p>Se esta rua fosse minha<br \/>\nEu mandava ladrilhar<br \/>\nDe pedrinhas de brilhante<br \/>\nPara meu bem passar.<\/p>\n<p>O povo observa tamb\u00e9m, e diz mais numa quadra do que todos n\u00f3s<br \/>\na armar o efeito de per\u00edodos brilhantes. Sempre recordarei um tocador<br \/>\nde viol\u00e3o a cantar com l\u00e1grimas na voz como diante do inexor\u00e1vel<br \/>\ndestino:<\/p>\n<p>Vista Alegre \u00e9 rua morta<br \/>\nA Formosa \u00e9 feia e brava<br \/>\nA Rua Direita \u00e9 torta<br \/>\nA do Sab\u00e3o n\u00e3o se lava&#8230;<\/p>\n<p>Toda a psicologia das constru\u00e7\u00f5es e do alinhamento em quatro<br \/>\nversos! A rua chega a preocupar os loucos. Nos hosp\u00edcios, onde esses<br \/>\ncavalheiros andam doidos por se ver c\u00e1 fora, encontrei planos de ruas<br \/>\nideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me um longo poema<br \/>\nque come\u00e7ava assim:<\/p>\n<p>A rua&#8230;<br \/>\nCumprida, cumprida, atua&#8230;<br \/>\nOl\u00ea! complicada, complicada, alua<br \/>\nA rua<br \/>\nNua!<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia reflete-se nas religi\u00f5es, nos livros sagrados, na<br \/>\narte de todos os tempos, cada vez mais afiada, cada vez mais sens\u00edvel.<br \/>\nNa literatura atual a rua \u00e9 a inspira\u00e7\u00e3o dos grandes<br \/>\nartistas, desde Victor Hugo, Balzac e Dickens, at\u00e9 \u00e0s epop\u00e9ias<br \/>\nde Zola, desde o funambulismo de Banville at\u00e9 o humorismo de Mark Twain.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 um escritor moderno que n\u00e3o tenha cantado a rua.<br \/>\nOs sonhadores levam mesmo a exager\u00e1-la, e hoje, devido certamente \u00e0<br \/>\ncorrente socialista, h\u00e1 toda uma literatura em que a alma das ruas<br \/>\nsolu\u00e7a. Os poetas refinados levam a m\u00f3rbida inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\na cantar os aspectos parciais da rua. Como os rom\u00e2nticos cantavam os<br \/>\np\u00e9s, os olhos, a boca e outras partes do corpo das apaixonadas, eles<br \/>\ncantam o semblante das casas vazias, os rev\u00e9rberos de g\u00e1s como<br \/>\nRodenbach:<\/p>\n<p>Le dimanche, en semaine, et par tous les temps<br \/>\nL\u2019un est debout, un autre, il semble, s\u2019agenouille.<br \/>\nEt chacun se sent seul comme dans une foule.<br \/>\nLes rev\u00e9rb\u00e9res des banlieues<br \/>\nSont des cages o\u00fa des oiseaux d\u00e9plient leurs queues.<\/p>\n<p>Os preg\u00f5es, as cal\u00e7adas, e houve at\u00e9 um \u2013 M\u00e1rio<br \/>\nPederneiras \u2013que nos deu a sutil\u00edssima e admir\u00e1vel psicologia<br \/>\ndas \u00e1rvores urbanas:<\/p>\n<p>Com que magoado encanto<br \/>\nCom que triste saudade<br \/>\nSobre mim atua<br \/>\nEsta estranha fei\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores da rua.<br \/>\nE elas s\u00e3o, entretanto,<br \/>\nA \u00fanica ilus\u00e3o rural de uma cidade!<\/p>\n<p>As \u00e1rvores urbanas<br \/>\nS\u00e3o, em geral, conselheiras e frias<br \/>\nSem as grandes expans\u00f5es e as grandes alegrias<br \/>\nDas provincianas.<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00eam sequer os pl\u00e1cidos carinhos<br \/>\nDessas largas manh\u00e3s provinciais e enxutas.<br \/>\nNem a orquestra dos ninhos<br \/>\nNem a gra\u00e7a vegetal das frutas.<\/p>\n<p>Os artistas modernos j\u00e1 n\u00e3o se limitam a exprimir os aspectos<br \/>\nproteiformes da rua, a analisar tra\u00e7o por tra\u00e7o o perfil f\u00edsico<br \/>\ne moral de cada rua. V\u00e3o mais longe, sonham a rua ideal, como sonharam<br \/>\num mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas de parte<br \/>\nalguma a rua socialista e rara, com edif\u00edcios magn\u00edficos, sem<br \/>\nmendigos e sem dinheiro. Rimbaud, nas Illuminations, teve a id\u00e9ia da<br \/>\nrua bab\u00e9lica, reproduzindo nos edif\u00edcios, sob o c\u00e9u cinzento,<br \/>\ntodas as maravilhas cl\u00e1ssicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockward,<br \/>\nj\u00e1 sonhava o agrupamento dos grandes armaz\u00e9ns; e hoje, entre<br \/>\nessas ruas de sonho, que Gustavo Khan considera as ruas ut\u00f3picas e<br \/>\nque talvez se tornem realidade um dia, \u00e9 o estranho e infernal sulco<br \/>\ndescrito por Wells na Hist\u00f3ria dos tempos futuros, rua em que tudo<br \/>\ndepender\u00e1 de sindicatos formid\u00e1veis, em que tudo ser\u00e1<br \/>\nel\u00e9trico, em que os homens, escravos de meia d\u00fazia, ser\u00e3o<br \/>\ncomo os elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho atrav\u00e9s<br \/>\ndos casar\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, a quem n\u00e3o far\u00e1 sonhar a rua? A sua influ\u00eancia \u00e9<br \/>\nfatal na palheta dos pintores, na alma dos poetas, no c\u00e9rebro das multid\u00f5es.<br \/>\nQuem criou o reclamo? A rua! Quem inventou a caricatura! A rua! Onde a expans\u00e3o<br \/>\nde todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para dar a express\u00e3o<br \/>\nda dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:<\/p>\n<p>A Avenida assombrada e triste da saudade<br \/>\nOnde vem passear a prociss\u00e3o chorosa<br \/>\nDos \u00f3rf\u00e3os do carinho e da felicidade.<\/p>\n<p>E certo poeta \u00e1rabe, reconhecendo com a presci\u00eancia dos vates<br \/>\nque s\u00f3 a rua nos pode dar a express\u00e3o do sofrimento absoluto<br \/>\ncomo da alegria completa, escreveu a celebrada Pra\u00e7a do riso ao nascer<br \/>\nda aurora; o riso de cristal das crian\u00e7as, o riso perlado das mulheres,<br \/>\no riso grave dos homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as \u00e1rvores<br \/>\ntamb\u00e9m riam no canto dos p\u00e1ssaros, e a pr\u00f3pria umbela<br \/>\nazul do c\u00e9u se estriava d\u2019ouro no imenso riso do sol..<\/p>\n<p>Neste elogio, talvez f\u00fatil, considerei a rua um ser vivo, t\u00e3o<br \/>\npoderoso que consegue modificar o homem insensivelmente e faz\u00ea-lo o<br \/>\nseu perp\u00e9tuo escravo delirante, e mostrei mesmo que a rua \u00e9<br \/>\no motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda<br \/>\num valor de sangue e de sofrimento: criou um s\u00edmbolo universal. H\u00e1<br \/>\nainda uma rua, constru\u00edda na imagina\u00e7\u00e3o e na dor, rua<br \/>\nabjeta e m\u00e1, detest\u00e1vel e detestada, cuja travessia se faz contra<br \/>\na nossa vontade, cujo tr\u00e2nsito \u00e9 um doloroso arrastar pelo enxurro<br \/>\nde uma cidade e de um povo. Todos acotovelam-se e vociferam a\u00ed, todos,<br \/>\nvindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz, atravessando as betesgas do Saco<br \/>\ndo Alferes ou descendo de autom\u00f3vel dos bairros civilizados, encontram-se<br \/>\na\u00ed e a\u00ed se arrastam, em lamenta\u00e7\u00f5es, em solu\u00e7os,<br \/>\nem \u00f3dio \u00e0 vida e ao Mundo. No tra\u00e7ado das cidades ela<br \/>\nn\u00e3o se ostenta com as suas impreca\u00e7\u00f5es e os seus rancores.<br \/>\n\u00c9 uma rua esconsa e negra, perdida na treva, com pal\u00e1cios de<br \/>\ndor e choupanas de pranto, cuja exist\u00eancia se conhece n\u00e3o por<br \/>\num letreiro \u00e0 esquina, mas por uma vaga apreens\u00e3o, um irredut\u00edvel<br \/>\nsentimento de ang\u00fastia, cuja travessia n\u00e3o se pode jamais evitar.<br \/>\nCorrei os mapas de Atenas, de Roma, de N\u00ednive ou de Babil\u00f4nia,<br \/>\no mapa das cidades mortas. Termas, canais, fontes, jardins suspensos, lugares<br \/>\nonde se fez neg\u00f3cio, onde se amou, lugares onde se se cultuaram os<br \/>\ndeuses \u2013 tudo desapareceu. Olhai o mapa das cidades modernas. De s\u00e9culo<br \/>\nem s\u00e9culo a transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 quase radical. As<br \/>\nruas s\u00e3o perec\u00edveis como os homens. A outra, por\u00e9m, essa<br \/>\nhorr\u00edvel rua de todos conhecida e odiada, pela qual diariamente passamos,<br \/>\nessa \u00e9 eterna como o medo, a inf\u00e2mia, a inveja. Quando Jerusal\u00e9m<br \/>\nfulgia no seu m\u00e1ximo esplendor, j\u00e1 ela l\u00e1 existia. Enquanto<br \/>\nem Atenas artistas e guerreiros recebiam ova\u00e7\u00f5es, enquanto em<br \/>\nRoma a multid\u00e3o aplaudia os gladiadores triunfais e os c\u00e9sares<br \/>\ndevassos, na rua aflitiva cuspinhava o opr\u00f3brio e chorava a inoc\u00eancia.<br \/>\nCartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a t\u00eam,<br \/>\ncortando a sua alegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos<br \/>\ne todas as belezas. Qual de v\u00f3s n\u00e3o quebrou, inesperadamente,<br \/>\no \u00e2ngulo em arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes a cal\u00fania,<br \/>\nse vos sentistes ferido pela maledic\u00eancia, podereis ter a certeza de<br \/>\nque entrastes na obscura via! Ah! N\u00e3o procureis evita-la! Jamais o<br \/>\nconseguireis. Quanto mais se procura dela sair mais dentro dela se sofre.<br \/>\nE n\u00e3o espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 uma rua onde sofrem apenas alguns entes, \u00e9 a rua intermin\u00e1vel,<br \/>\nque atravessa cidades, pa\u00edses, continentes, vai de p\u00f3lo a p\u00f3lo;<br \/>\nem que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas as verdades,<br \/>\nonde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo,<br \/>\napagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista,<br \/>\ne os seus solu\u00e7os sinistramente ecoem na total ru\u00edna, rua das<br \/>\nl\u00e1grimas, rua do desespero \u2013 intermin\u00e1vel rua da Amargura.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>Pequenas Profiss\u00f5es<\/h4>\n<p>O cigano aproximou-se do catraieiro. No c\u00e9u, muito azul, o sol derramava<br \/>\ntoda a sua luz dourada. Do cais via-se para os lados do mar, cortado de lanchas,<br \/>\nde velas brancas, o desenho multiforme das ilhas verdejantes, dos navios,<br \/>\ndas fortalezas. Pelos boulevards sucessivos que v\u00e3o dar ao cais, a<br \/>\nvida tumultu\u00e1ria da cidade vibrava num rumor de apoteose, e era ainda<br \/>\nmais intensa, mais brutal, mais gritada, naquele trecho do Mercado, naquele<br \/>\npeda\u00e7o da rampa, viscoso de imund\u00edcies e de v\u00edcios. O<br \/>\ncigano, de frack e chap\u00e9u mole, j\u00e1 falara a dois carroceiros<br \/>\nmo\u00e7os e fortes, j\u00e1 se animara a entrar numa taberna de freguesia<br \/>\nretumbante. Agora, pelos seus gestos duros, pelo brilho do olhar, bem se percebia<br \/>\nque o catraieiro seria a v\u00edtima, a v\u00edtima definitiva, que ele<br \/>\ntalvez procurasse desde manh\u00e3, como um milhafre esfomeado.<\/p>\n<p>Eduardo e eu caminhamos para a rampa, na aragem fina da tarde que se embebia<br \/>\nde todos aqueles cheiros de maresia, de gordura, de aves presas, de verduras.<br \/>\nO catraieiro batia negativamente com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Uma cal\u00e7a, apenas uma, em muito bom estado.<\/p>\n<p>\u2013 Mas eu n\u00e3o quero.<\/p>\n<p>\u2013 Ningu\u00e9m lhe vende mais barato, palavra de honra. E a fazenda?<br \/>\nVeja a fazenda.<\/p>\n<p>Desenrolou com cuidado um embrulho de jornal. De dentro surgiu um peda\u00e7o<br \/>\nde cal\u00e7a cor de castanha.<\/p>\n<p>\u2013 Para o servi\u00e7o! Dois mil r\u00e9is, s\u00f3 dois!&#8230;Eu<br \/>\ntenho fam\u00edlia, m\u00e3e, esposa, quatro filhos menores. Ainda n\u00e3o<br \/>\ncomi hoje! Olhe, tenho aqui uns an\u00e9is&#8230;n\u00e3o gosta de an\u00e9is?<\/p>\n<p>O catraieiro ficara, sem saber como, com o embrulho das cal\u00e7as, e<br \/>\no seu gesto fraco de negativa bem anunciava que iria ficar tamb\u00e9m com<br \/>\num dos an\u00e9is. O cigano desabotoara o frack, cheio de s\u00fabito<br \/>\nreceio.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 um anel de ouro que eu achei, ouro leg\u00edtimo. Vendo<br \/>\nbarato: oito mil r\u00e9is apenas. Tudo dez mil r\u00e9is, conta redonda!<\/p>\n<p>O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agita\u00e7\u00e3o estranha,<br \/>\nagarrando a v\u00edtima pelo bra\u00e7o, pela camisa, dando pulos, para<br \/>\nlhe cochichar ao ouvido palavras de maior tenta\u00e7\u00e3o; ningu\u00e9m<br \/>\nnaquele perp\u00e9tuo tumulto, ningu\u00e9m no rumor do est\u00f4mago<br \/>\nda cidade, olhava sequer para o neg\u00f3cio desesperado de cigano. Eduardo,<br \/>\nque nessa tarde passeava comigo, arrastou-me pelo ex-Largo do Pa\u00e7o,<br \/>\ncosteando o cais at\u00e9 a velha esta\u00e7\u00e3o das barcas.<\/p>\n<p>\u2013 Admiraste aquele negociante ambulante?<\/p>\n<p>\u2013 Admirei um refinado &#8220;vigarista&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Oh! meu amigo, a moral \u00e9 uma quest\u00e3o de ponto de vista.<br \/>\nAquele cigano faz parte de um ex\u00e9rcito de infelizes, a que as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nda vida ou do pr\u00f3prio temperamento, a fatalidade, enfim, arrasta muita<br \/>\ngente. Lembras-te de La romera de Santiago, de Velez de Guevara? H\u00e1<br \/>\nl\u00e1 uns versos que bem exprimem o que s\u00e3o essas criaturas:<\/p>\n<p>Estos son algunos hombres<br \/>\nDe obligaciones, que pasan<br \/>\nNecesidad, y procuran<br \/>\nDe esta suerte remediarla<br \/>\nSaliendose a los caminos&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 quanto basta como moral. N\u00e3o sejamos excessivos para os humildes.<\/p>\n<p>O Rio tem tamb\u00e9m as suas pequenas profiss\u00f5es ex\u00f3ticas,<br \/>\nproduto da mis\u00e9ria ligada \u00e0s f\u00e1bricas importantes, aos<br \/>\nadelos, ao baixo com\u00e9rcio; o Rio, como todas as grandes cidades, esmi\u00fa\u00e7a<br \/>\nno pr\u00f3prio monturo a vida dos desgra\u00e7ados. Aquelas cal\u00e7as<br \/>\ndo cigano, deram-lhas ou apanhou-as ele no monturo, mas como o cigano n\u00e3o<br \/>\nfaz outra coisa na sua vida sen\u00e3o vender cal\u00e7ar velhas e an\u00e9is<br \/>\nde plaquet, a\u00ed tens tu uma profiss\u00e3o da mis\u00e9ria, ou se<br \/>\nquiseres, da malandrice \u2013 que \u00e9 sempre a pior das mis\u00e9rias.<br \/>\nMuito pobre diabo por a\u00ed pelas pra\u00e7as parece sem of\u00edcio,<br \/>\nsem ocupa\u00e7\u00e3o. Entretanto, coitados! o of\u00edcio, as ocupa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o lhes faltam, e honestos, trabalhosos, ingl\u00f3rios, exigindo<br \/>\no faro dos c\u00e3es e a arg\u00facia dos reporters.<\/p>\n<p>Todos esses pobres seres vivos tristes vivem do cisco, do que cai nas sarjetas,<br \/>\ndos ratos, dos magros gatos dos telhados, s\u00e3o os her\u00f3is da utilidade,<br \/>\nos que apanham o in\u00fatil para viver, os inconscientes aplicadores \u00e0<br \/>\nvida das cidades daquele axioma de Lavoisier: nada se perde na natureza. A<br \/>\npol\u00edcia n\u00e3o os prende, e, na bo\u00eamia das ruas, os desgra\u00e7ados<br \/>\ns\u00e3o ainda explorados pelos adelos, pelos ferros-velhos, pelos propriet\u00e1rios<br \/>\ndas f\u00e1bricas&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 As pequenas profiss\u00f5es!&#8230; \u00c9 curioso!<\/p>\n<p>As profiss\u00f5es ignoradas. Decerto n\u00e3o conheces os trapeiros<br \/>\nsabidos, os apanha-r\u00f3tulos, os selistas, os ca\u00e7adores, as ledoras<br \/>\nde buena dicha. Se n\u00e3o fossem o nosso horror, a Diretoria de Higiene<br \/>\ne as blagues das revistas de ano, nem os ratoeiros seriam conhecidos.<\/p>\n<p>\u2013 Mas, senhor Deus! \u00e9 uma infinidade, uma infinidade de profiss\u00f5es<br \/>\nsem academia! At\u00e9 parece que n\u00e3o estamos no Rio de Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Coitados! Andam todos na dolorosa academia da mis\u00e9ria, e,<br \/>\nv\u00ea tu, at\u00e9 nisso h\u00e1 voca\u00e7\u00f5es! Os trapeiros,<br \/>\npor exemplo, dividem-se em duas especialidades \u2013 a dos trapos limpos<br \/>\ne a de todos os trapos. Ainda h\u00e1 os cursos suplementares dos apanhadores<br \/>\nde pap\u00e9is, de cavacos e de chumbo. Alguns envergonham-se de contar<br \/>\na exist\u00eancia esfor\u00e7ada. Outros abundam em pormenores e s\u00e3o<br \/>\num mundo de velhos desiludidos, de mulheres gastas, de garotos e de crian\u00e7as,<br \/>\nfilhos de fam\u00edlia, que saem, por ordem dos pais, com um saco \u00e0s<br \/>\ncostas, para cavar a vida nas horas da limpeza das ruas.<\/p>\n<p>De todas essas pequenas profiss\u00f5es a mais rara e a mais parisiense<br \/>\n\u00e9 a dos ca\u00e7adores, que formam o sindicato das goteiras e dos<br \/>\njardins. S\u00e3o os apanhadores de gatos para matar e levar aos restaurants,<br \/>\nj\u00e1 sem pele, onde passam por coelho. Cada gato vale dez tost\u00f5es<br \/>\nno m\u00e1ximo. Uma s\u00f3 das costelas que os fregueses rendosos trincam,<br \/>\n\u00e0 noite, nas salas iluminadas dos hot\u00e9is, vale muito mais. As<br \/>\noutras profiss\u00f5es s\u00e3o comuns. Os trapeiros existem desde que<br \/>\nn\u00f3s possu\u00edmos f\u00e1bricas de papel e f\u00e1bricas de<br \/>\nm\u00f3veis. Os primeiros apanham trapos, todos os trapos encontrados na<br \/>\nrua, remexem o lixo, arrancam da poeira e do esterco os peda\u00e7os de<br \/>\npano, que ser\u00e3o em pouco alvo papel; os outros t\u00eam o servi\u00e7o<br \/>\nmais especial de procurar panos limpos, trapos em perfeito estado, para vender<br \/>\naos lustradores das f\u00e1bricas de m\u00f3veis. As grandes casas desse<br \/>\ng\u00eanero compram em por\u00e7\u00e3o a traparia limpa. A uns n\u00e3o<br \/>\nprejudica a intemp\u00e9rie, aos segundos a chuva causa preju\u00edzos<br \/>\nenormes. Imagina essa pobre gente, quando chove, quando n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nsol, com o c\u00e9u aberto em cataratas e, em cada rua, uma inunda\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Falaste, entretanto, dos sabidos?<\/p>\n<p>\u2013 Ah! os sabidos dedicam-se a pesquisar nos montes de cisco as botas<br \/>\ne os sapatos velhos, e batem-se por duas botas iguais com f\u00faria, porque<br \/>\nem geral s\u00f3 se encontra uma desirmanada. Esses infelizes t\u00eam<br \/>\npre\u00e7o fixo para o trabalho, uma tarifa geral combinada entre os compradores,<br \/>\nos italianos remend\u00f5es. Um par de botas, por exemplo, custa 400 r\u00e9is,<br \/>\num par de sapatos 200 r\u00e9is. As classes pobres preferem as botas aos<br \/>\nsapatos. Uma bota s\u00f3, por\u00e9m, n\u00e3o se vende por mais de<br \/>\n100 r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2013 Mas \u00e9 bem pago!<\/p>\n<p>\u2013 Bem pago? Os italianos vendem as botas, depois de consertadas, por<br \/>\nseis e sete mil r\u00e9is! E o mesmo que acontece aos molambeiros ambulantes<br \/>\ncomo o cigano que acabamos de ver \u2013 os belchiores compram as roupas<br \/>\npara vend\u00ea-las com quatrocentos por cento de lucro. H\u00e1 ainda<br \/>\nos selistas e os ratoeiros. Os selistas n\u00e3o s\u00e3o os mais esquadrinhadores,<br \/>\nos agentes sem lucro do desfalque para o cofre p\u00fablico e da falsifica\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o burgu\u00eas incauto. Passam o dia perto das charutarias pesquisando<br \/>\nas sarjetas e as cal\u00e7adas \u00e0 cata de selos de ma\u00e7os de<br \/>\ncigarros e selos com an\u00e9is e os r\u00f3tulos de charutos. Um cento<br \/>\nde selos em perfeito estado vende-se por 200 r\u00e9is. Os das carteiras<br \/>\nde cigarros t\u00eam mais um tost\u00e3o. Os an\u00e9is dos charutos<br \/>\nservem para vender uma marca por outra nas charutarias e s\u00e3o pagos<br \/>\ncem por 200 r\u00e9is. Imagina uns cem selistas \u00e0 cata de selos intactos<br \/>\ndas carteirinhas e dos charutos; avalia em 5% os selos perfeitos de todos<br \/>\nos ma\u00e7os de cigarros e de todos os charutos comprados neste pa\u00eds<br \/>\nde fumantes; e calcula, ap\u00f3s este pequeno trabalho de estat\u00edstica,<br \/>\nem quanto \u00e9 defraudada a fazenda nacional diariamente s\u00f3 por<br \/>\numa das pequenas profiss\u00f5es ignoradas.<\/p>\n<p>\u2013 Gente pobre a morrer de fome, coitados&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Oh! n\u00e3o. O pessoal que se dedica ao of\u00edcio n\u00e3o<br \/>\nse comp\u00f5e apenas do doloroso bando de p\u00e9s descal\u00e7os,<br \/>\nda agonia risonha dos pequenos mendigos. Trabalham tamb\u00e9m na profiss\u00e3o<br \/>\nos malandros de gravata e roupa alheia, cuja vida passa em parte nos botequins<br \/>\ne \u00e0 porta das charutarias.<\/p>\n<p>\u2013 E \u00e9 rendoso?<\/p>\n<p>\u2013 Rendoso, propriamente, n\u00e3o; mas os selistas contam com o natural<br \/>\nsentimento de todos os seres que, em vez de romper, preferem retirar o selo<br \/>\ndo charuto e rasgar a parte selada das carteirinhas sem estragar o selo.<\/p>\n<p>\u2013 Mas os an\u00e9is dos charutos?<\/p>\n<p>\u2013 Oh! isso ent\u00e3o \u00e9 de primeir\u00edssima. Os selistas<br \/>\nt\u00eam lugar certo para vender os r\u00f3tulos dos charutos Bismarck<br \/>\n\u2013 em Niter\u00f3i, na Travessa do Senado. H\u00e1 casas que passam<br \/>\ncaixas e caixas de charutos que nunca foram dessa marca. A mais nova, por\u00e9m,<br \/>\ndessas profiss\u00f5es, que saltam dos ralos, dos buracos, do cisco da grande<br \/>\ncidade, \u00e9 a dos ratoeiros, o agente de ratos, o entreposto entre as<br \/>\nratoeiras das estalagens e a Diretoria de Sa\u00fade. Ratoeiro n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 um cavador \u2013 \u00e9 um negociante. Passeia pela Gamboa, pelas<br \/>\nestalagens da Cidade Nova, pelos corti\u00e7os e bibocas da parte velha<br \/>\nda urbs, vai at\u00e9 ao sub\u00farbio, tocando um cornetinha com a lata<br \/>\nna m\u00e3o. Quando est\u00e1 muito cansado, senta-se na cal\u00e7ada<br \/>\ne espera tranq\u00fcilamente a freguesia, soprando de espa\u00e7o a espa\u00e7o<br \/>\nno cornetim.<\/p>\n<p>N\u00e3o espera muito. Das r\u00f3tulas h\u00e1 quem os chame; \u00e0<br \/>\nporta das estalagens afluem mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 ratoeiro, aqui tem dez ratos!<\/p>\n<p>\u2013 Quanto quer?<\/p>\n<p>\u2013 Meia pataca.<\/p>\n<p>\u2013 At\u00e9 logo!<\/p>\n<p>\u2013 Mas, \u00f4 diabo, olhe que voc\u00ea recebe mais do que isso por<br \/>\num s\u00f3 l\u00e1 na Higiene.<\/p>\n<p>\u2013 E o meu trabalho?<\/p>\n<p>\u2013 Uma figa! Eu c\u00e1 n\u00e3o vou na hist\u00f3ria de micr\u00f3bio<br \/>\nno p\u00ealo do rato.<\/p>\n<p>\u2013 Nem eu. Dou dez tost\u00f5es por tudo. Serve?<\/p>\n<p>\u2013 Heim?<\/p>\n<p>\u2013 Serve?<\/p>\n<p>\u2013 Rua!<\/p>\n<p>\u2013 Mais fica!<\/p>\n<p>E quando o ratoeiro volta, traz o seu dia fartamente ganho&#8230;<\/p>\n<p>T\u00ednhamos parado \u00e0 esquina da Rua Fresca. A vida redobrava a\u00ed<br \/>\nde intensidade, n\u00e3o de trabalho, mas de deboche.<\/p>\n<p>Nos botequins, fon\u00f3grafos roufenhos esgani\u00e7avam can\u00e7\u00f5es<br \/>\npicarescas; numa taberna escura com turcos e fuzileiros navais, dois viol\u00f5es<br \/>\ne um cavaquinho repinicavam. Pelas cal\u00e7adas, paradas \u00e0s esquinas,<br \/>\n\u00e0 beira do quiosque, meretrizes de galho de arruda atr\u00e1s da<br \/>\norelha e chinelinho na ponta do p\u00e9, carregadores espapa\u00e7ados,<br \/>\nrapazes de camisa de meia e cal\u00e7a branca bombacha com o corpo flex\u00edvel<br \/>\ndos birbantes, marinheiros, bombeiros, t\u00fanicas vermelhas e fuzileiros<br \/>\n\u2013 uma confus\u00e3o, uma mistura de cores, de tipos, de vozes, onde<br \/>\na lux\u00faria crescia.<\/p>\n<p>De repente o meu amigo estacou. Alguns metros adiante, na Rua Fresca, um<br \/>\nrapaz doceiro arriara a caixa, e sentado num portal, entregava o bra\u00e7o<br \/>\naos exerc\u00edcios de um petiz da altura de um metro. Junto ao grupo, o<br \/>\ncigano, com outro embrulho, falava.<\/p>\n<p>\u2013 V\u00eas? Aquele pequeno \u00e9 marcador, faz tatuagens, ganha<br \/>\na sua vida com tr\u00eas agulhas e um pouco de graxa, metendo coroas, nomes<br \/>\ne cora\u00e7\u00f5es nos bra\u00e7os dos vendedores ociosos. O cigano<br \/>\nmolambeiro aproveita o estado de semi-dor e semi-in\u00e9rcia do rapaz para<br \/>\nlhe impingir qualquer um dos seus trapos&#8230;um psic\u00f3logo, como todos<br \/>\nos da sua ra\u00e7a, psic\u00f3logo como as suas irm\u00e3s que l\u00eaem<br \/>\na buena dicha por um tost\u00e3o e amam por dez com consentimento deles.<\/p>\n<p>Oh! essas pequenas profiss\u00f5es ignoradas, que s\u00e3o partes integrantes<br \/>\ndo mecanismo das grandes cidades!<\/p>\n<p>O Rio pode conhecer muito bem a vida do burgu\u00eas de Londres, as pe\u00e7as<br \/>\nde Paris, a geografia da Manch\u00faria e o patriotismo japon\u00eas. A<br \/>\napostar, por\u00e9m, que n\u00e3o conhece nem a sua pr\u00f3pria planta,<br \/>\nnem a vida de toda essa sociedade, de todos esses meios estranhos e ex\u00f3ticos,<br \/>\nde todas as profiss\u00f5es que constituem o progresso, a dor, a mis\u00e9ria<br \/>\nda vasta Babel que se transforma. E entretanto, meu caro, quanto solu\u00e7o,<br \/>\nquanta ambi\u00e7\u00e3o, quanto horror e tamb\u00e9m quanta compensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nna vida humilde que estamos a ver.<\/p>\n<p>Estos son algunos hombres<br \/>\nDe obligaciones, que pasan<br \/>\nNecesidad, y procuran<br \/>\nDe esta suerte remediarla<br \/>\nSaliendose a los caminos&#8230;<\/p>\n<p>Mas o meu amigo n\u00e3o continuou o fio luminoso de sua filosofia. O catraieiro<br \/>\napareceu rubro de c\u00f3lera, e sutilmente cosia-se com as paredes, ao<br \/>\naproximar-se do cigano.<\/p>\n<p>De repente deu um pulo e caiu-lhe em cima de chofre.<\/p>\n<p>\u2013 Apanhei-te, gatuno!<\/p>\n<p>O cigano voltara-se l\u00edvido. Ao grito do catraieiro acudiam, numa sarabanda<br \/>\nde chinelas, f\u00fafias, rufi\u00f5es, soldados, ociosos, vendedores<br \/>\nambulantes.<\/p>\n<p>\u2013 Gatuno! Ent\u00e3o vendes como ouro um anel de plaquet? Espera<br \/>\nque te vou quebrar os queixos. Sacudiu-o, atirou-o no ar para apanh\u00e1-lo<br \/>\ncom uma bofetada. O cigano por\u00e9m caiu num bolo, distendeu-se e partiu<br \/>\ncomo um raio por entre a aglomera\u00e7\u00e3o da gentalha, que ria. O<br \/>\ncatraieiro, mais corpulento, mais pesado, precipitou-se tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Os vagabundos, com o selvagem instinto da ca\u00e7a, que persiste no homem<br \/>\n\u2013 acompanharam-no. E pelos boulevards, onde se acendiam os primeiros<br \/>\nrev\u00e9rberos, \u00e0 disparada entre os squares sucessivos, a ral\u00e9<br \/>\ndos botequins, aos gritos, deitou na persegui\u00e7\u00e3o do pobre cigano<br \/>\nmolambeiro, da pobre profiss\u00e3o ignorada, que, como todas as profiss\u00f5es,<br \/>\ntem tamb\u00e9m malandros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Eduardo sentenciou.<\/p>\n<p>\u2013 Tu n\u00e3o conhecias as pequenas profiss\u00f5es do Rio. A vida<br \/>\nde um pobre sujeito deu-te todos esses \u00fateis conhecimentos. Mas, se<br \/>\nesse pobre sujeito n\u00e3o fosse um malandro, n\u00e3o conhecerias da<br \/>\nprofiss\u00e3o at\u00e9 mesmo os birbantes.<\/p>\n<p>A moral \u00e9 uma quest\u00e3o de ponto de vista. Para julgar os homens<br \/>\nbasta a gente defini-los segundo os seus sucessivos estados. Se te aprouver<br \/>\ndefinir os profissionais humildes pela tua \u00faltima impress\u00e3o,<br \/>\nemprega os mesmos versos de Guevara com uma pequena modifica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Estos son algunos hombres<br \/>\nDe obligaciones, que pasan<br \/>\nNecesidad, y procuran<br \/>\nDe esta suerte remediarla<br \/>\nCorriendo por los caminos..<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>Os Tatuadores<\/h4>\n<p>\u2013 Quer marcar?<\/p>\n<p>Era um petiz de doze anos talvez. A roupa em frangalhos, os p\u00e9s nus,<br \/>\nas m\u00e3os pouco limpas e um certo ar de dignidade na pergunta. O interlocutor,<br \/>\num rapazola louro, com uma dourada carne de adolescente, sentado a uma porta,<br \/>\nindagou:<\/p>\n<p>\u2013 Por quanto?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 conforme, continuou o petiz. \u00c9 inicial ou coroa?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 um cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Com nome dentro?<\/p>\n<p>O rapaz hesitou. Depois:<\/p>\n<p>\u2013 Sim, com nome: Maria Josefina.<\/p>\n<p>\u2013 Fica tudo por uns seis mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>Houve um momento em que se discutiu o pre\u00e7o, e o petiz estava inflex\u00edvel,<br \/>\nquando vindo do quiosque da esquina um outro se acercou.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 mo\u00e7o, fa\u00e7o eu; n\u00e3o escute embroma\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>\u2013 Pagar\u00e1 o que quiser, mo\u00e7o.<\/p>\n<p>O rapazola sorria. Afinal resignou-se, arrega\u00e7ou a manga da camisa<br \/>\nde meia, pondo em relevo a musculatura do bra\u00e7o. O petiz tirou do bolso<br \/>\ntr\u00eas agulhas amarradas, um p\u00e9 de c\u00e1lix com fuligem e come\u00e7ou<br \/>\no trabalho. Era na Rua Clapp, perto do cais, no s\u00e9culo XX&#8230; A tatuagem!<br \/>\nSer\u00e1 ent\u00e3o verdade a frase de Gautier: &#8220;o mais bruto homem<br \/>\nsente que o ornamento tra\u00e7a uma linha indel\u00e9vel de separa\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre ele e o animal, e quando n\u00e3o pode enfeitar as pr\u00f3prias<br \/>\nroupas recama a pele&#8221;?<\/p>\n<p>A palavra tatuagem \u00e9 relativamente recente. Toda a gente sabe que<br \/>\nfoi o navegador Loocks que a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou,<br \/>\ntermo da Polin\u00e9sia de tatou ou to tahou, desenho. Muitos dizem mesmo<br \/>\nque a palavra surgiu no ru\u00eddo percept\u00edvel da agulha da pele:<br \/>\ntac, tac. Mas como \u00e9 ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder<br \/>\no p\u00ealo, descobriu a tatuagem.<\/p>\n<p>Desde os mais remotos tempos v\u00eamo-la a transformar-se: distintivo honor\u00edfico<br \/>\nentre uns homens, ferrete de ignom\u00ednia entre outros, meio de assustar<br \/>\no advers\u00e1rio para os bret\u00f5es, marca de uma classe para selvagens<br \/>\ndas ilhas Marquesas, vestimenta moralizadora para os \u00edncolas da Oce\u00e2nia,<br \/>\nsinal de amor, de desprezo, de \u00f3dio, b\u00e1rbara tortura do Oriente,<br \/>\nbaixa usan\u00e7a do Ocidente. Na Nova Zel\u00e2ndia \u00e9 um enfeite;<br \/>\na Inglaterra universaliza o adorno dos selvagens que colhem o phormium tenax<br \/>\npara lhe aumentar a renda, e Eduardo com a \u00e2ncora e o drag\u00e3o<br \/>\nno bra\u00e7o esquerdo \u00e9 s\u00f3 por si um problema de psicologia<br \/>\ne de atavismo.<\/p>\n<p>Da tatuagem no Rio faz-se o mais variado estudo da crendice. Por ele se reconstr\u00f3i<br \/>\na vida amorosa e social de toda a classe humilde, a classe dos ganhadores,<br \/>\ndos viciados, das f\u00fafias de porta aberta, cuja alegria e cujas dores<br \/>\nse desdobram no estreito espa\u00e7o das alfurjas e das chombergas, cujas<br \/>\ntrag\u00e9dias de amor morrem nos cochicholos sem ar, numa praga que se<br \/>\nfaz de l\u00e1grimas. A tatuagem \u00e9 a inviolabilidade do corpo e a<br \/>\nhist\u00f3ria das paix\u00f5es. Esses riscos nas peles dos homens e das<br \/>\nmulheres dizem as suas aspira\u00e7\u00f5es, as suas horas de \u00f3cio<br \/>\ne a fantasia da sua arte e a cren\u00e7a na eternidade dos sentimentos \u2013<br \/>\ns\u00e3o a exterioriza\u00e7\u00e3o da alma de quem os traz.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas casos de tatuagem no Rio, completamente diversos na<br \/>\nsua significa\u00e7\u00e3o moral: os negros, os turcos com o fundo religioso<br \/>\ne o bando das meretrizes, dos rufi\u00f5es e dos humildes, que se marcam<br \/>\npor crime ou por ociosidade. Os negros guardam a forma fetiche; al\u00e9m<br \/>\ndos golpes sarados com o p\u00f3 preservativo do mau olhado, usam figuras<br \/>\ncomplicadas. Alguns, como o Rom\u00e3o da Rua do Hosp\u00edcio, t\u00eam<br \/>\ntatuagens feitas h\u00e1 cerca de vinte anos, que se conservam n\u00edtidas,<br \/>\napesar da sua cor \u2013 com que se confunde a tinta empregada.<\/p>\n<p>Quase todos os negros t\u00eam um crucificado. O feiticeiro Ononen\u00ea,<br \/>\nmorador \u00e0 Rua do Alc\u00e2ntara, tem do lado esquerdo do peito as<br \/>\narmas de Xang\u00f4, e Felismina de Oxum a figura complicada da santa d\u2019\u00e1gua<br \/>\ndoce. Esses negros explicam ingenuamente a raz\u00e3o das tatuagens. Na<br \/>\ncoroa imperial hesitam, co\u00e7am a carapinha e murmuram, num arranco de<br \/>\ntoda a ra\u00e7a, num arranco mil vezes secular de servilismo inconsciente:<\/p>\n<p>\u2013 Eh! Eh! Pedro II n\u00e3o era o dono?<\/p>\n<p>E n\u00e3o se fotografam com um pavor surdo, como se fosse crime usar essas<br \/>\nmarcas simb\u00f3licas.<\/p>\n<p>Os turcos s\u00e3o mu\u00e7ulmanos, maronitas, cism\u00e1ticos, judeus,<br \/>\ne nestas religi\u00f5es diversas n\u00e3o h\u00e1 gente mais cheia de<br \/>\nabus\u00f5es, de receios, de medos. Nas casas da Rua da Alf\u00e2ndega,<br \/>\nN\u00fancio e Senhor dos Passos, existem, sob o soalho, feiti\u00e7arias<br \/>\nestranhas, e a tatuagem forra a pele dos homens como amuletos. Os maronitas<br \/>\npintam iniciais, cora\u00e7\u00f5es; os cism\u00e1ticos t\u00eam verdadeiros<br \/>\neikones primitivos nos peitos e nos bra\u00e7os; os outros trazem para o<br \/>\ncorpo peda\u00e7os de paramentos sagrados. \u00c9 por exemplo muito comum<br \/>\nturco com as m\u00e3os franjadas de azul, cinco franjas nas costas da m\u00e3o,<br \/>\ncorrespondendo aos cinco dedos. Essas cinco franjas s\u00e3o a simboliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas franjas da taleth, vestimenta dos Khasan, nas quais est\u00e1 entran\u00e7ado<br \/>\na fio de ouro o grande nome de Ihaveh.<\/p>\n<p>A outra camada \u00e9 a mais numerosa, \u00e9 toda a classe baixa do<br \/>\nRio \u2013 os vendedores ambulantes, os oper\u00e1rios, os soldados, os<br \/>\ncriminosos, os rufi\u00f5es, as meretrizes. Para marcar tanta gente a tatuagem<br \/>\ntornou-se uma ind\u00fastria com chefes, subchefes e praticantes.<\/p>\n<p>Quase sempre as primeiras li\u00e7\u00f5es vieram das horas de inatividade<br \/>\nna cadeia, na penitenci\u00e1ria e nos quart\u00e9is; mas eu contei s\u00f3<br \/>\nna Rua Bar\u00e3o de S. F\u00e9lix, perto do Arsenal de Marinha, e nas<br \/>\nruelas da Sa\u00fade, cerca de trinta marcadores. H\u00e1 pequenos de<br \/>\ndez, doze anos, que saem de manh\u00e3 para o trabalho, encontram os carregadores,<br \/>\nos doceiros sentados nos portais.<\/p>\n<p>\u2013 Quer marcar? perguntam; e tiram logo do bolso um vidro de tinta e<br \/>\ntr\u00eas agulhas.<\/p>\n<p>Muitos portugueses, cujos bra\u00e7os musculosos guardam coroas da sua<br \/>\nterra e o seu nome por extenso, deixaram-se marcar porque n\u00e3o tinham<br \/>\nque fazer.<\/p>\n<p>\u2013 Que quer V.S.? O pequeno estava a arreliar. Marca, mo\u00e7o, marca!<br \/>\nE tanto pediu que p\u00f4s pra a\u00ed os risquinhos.<\/p>\n<p>Os pequenos, os outros marcadores ambulantes, t\u00eam um chefe, o Madruga,<br \/>\nque s\u00f3 no m\u00eas de abril deste ano fez trezentas e dezenove marca\u00e7\u00f5es.<br \/>\nMadruga \u00e9 o exemplo da versatilidade e da significa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmiri\u00f4nima da tatuagem. Tem estado na cadeia v\u00e1rias vezes por<br \/>\nquest\u00f5es e barulhos, vive nas Ruas da Concei\u00e7\u00e3o e S.<br \/>\nJorge, tem amantes, comp\u00f5e modinhas sat\u00edricas e \u00e9 poeta.<br \/>\n\u00c9 dele este primor, que julga verso:<\/p>\n<p>Venha quanto antes d. Elisa<br \/>\nEnquanto o Chico Passos n\u00e3o ati\u00e7a<br \/>\nFogo na cidade&#8230;<\/p>\n<p>Homem t\u00e3o interessante guarda no corpo a s\u00edntese dos emblemas<br \/>\ndas marca\u00e7\u00f5es \u2013 um Cristo no peito, uma cobra na perna,<br \/>\no signo de Salom\u00e3o, as cinco chagas, a sereia, e no bra\u00e7o esquerdo<br \/>\no campo das pr\u00f3prias conquistas. Esse bra\u00e7o \u00e9 o prolongamento<br \/>\nideogr\u00e1fico do seu monte de V\u00eanus onde a quiromancia v\u00ea<br \/>\nas batalhas do amor. Quando a mulher lhe desagrada e acaba com a chelpa, Madruga<br \/>\nemprega leite de mulher e sal de azedas, fura de novo a pele, fica com o bra\u00e7o<br \/>\ninchado, mas arranca de l\u00e1 a cor do nome.<\/p>\n<p>Enquanto andou a fornecer-me o seu profundo saber, Madruga teve tr\u00eas<br \/>\ndessas senhoras \u2013 a Jandira, a Josefa e a Maria. A primeira a figurar<br \/>\ndebaixo de um cora\u00e7\u00e3o foi a Jandira. Um belo dia a Jandira desaparecia,<br \/>\ndando lugar \u00e0 Josefa, que triunfava em cima, entre as chamas. Um m\u00eas<br \/>\ndepois a letra J sumira-se e um M dominava no meio do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os marcadores t\u00eam uma tabela especial, o pre\u00e7o fixo do trabalho.<br \/>\nAs cinco chagas custam 1$000, uma rosa 2$000, o signo de Salom\u00e3o,o<br \/>\nmais comum e o menos compreendido porque nem um s\u00f3 dos que interroguei<br \/>\no soube explicar, 3$000, as armas da Monarquia e da Rep\u00fablica 6$ a<br \/>\n8$, e h\u00e1 Cristos para todos os pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Os tatuadores t\u00eam v\u00e1rias maneiras de tatuar: por picadas, incis\u00e3o,<br \/>\npor queimadura subepid\u00e9rmica. As conhecidas entre n\u00f3s s\u00e3o<br \/>\nincisivas nos negros que trouxeram a tradi\u00e7\u00e3o da \u00c1frica<br \/>\ne, principalmente, as por picadas que se fazem com tr\u00eas agulhas amarradas<br \/>\ne embebidas em graxa, tinta, anil ou fuligem, p\u00f3lvora, acompanhando<br \/>\no desenho pr\u00e9vio. O marcador trabalha como as senhoras bordam.<\/p>\n<p>Lombroso diz que a religi\u00e3o, a imita\u00e7\u00e3o, o \u00f3cio,<br \/>\na vontade,o esp\u00edrito de corpo ou de seita, as paix\u00f5es nobres,<br \/>\nas paix\u00f5es er\u00f3ticas e o atavismo s\u00e3o as causas mantenedoras<br \/>\ndessa usan\u00e7a. H\u00e1 uma outra \u2013 a sugest\u00e3o do ambiente.<br \/>\nHoje toda a classe baixa da cidade \u00e9 tatuada \u2013 tatuam-se marinheiros,<br \/>\ne em alguns corpos h\u00e1 o romance imageogr\u00e1fico de invers\u00f5es<br \/>\ndram\u00e1ticas; tatuam-se soldados, vagabundos, criminosos, barreg\u00e3s,<br \/>\nmas tamb\u00e9m portugueses chegados da aldeia com a pele sem mancha, que<br \/>\ninflu\u00eancia do meio obriga a incrustar no bra\u00e7o coroas do seu<br \/>\npa\u00eds.<\/p>\n<p>Andei com o Madruga tr\u00eas longos meses pelos meios mais primitivos,<br \/>\nentre os atrasados morais, e nesses atrasados a camada que trabalha bra\u00e7almente,<br \/>\nos carroceiros, os carregadores, os filhos dos carroceiros deixaram-se tatuar<br \/>\nporque era bonito, e s\u00e3o no fundo incapazes de ir parar na cadeia por<br \/>\nqualquer crime. A outra, a perdida, a maior, o oceano malandragem e da prostitui\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 que me proporcionou o ensejo de estudar ao ar livre o que se pode<br \/>\nestudar na abafada atmosfera das pris\u00f5es. A tatuagem tem nesse meio<br \/>\na significa\u00e7\u00e3o do amor, do desprezo, do amuleto, posse, do preservativo,<br \/>\ndas id\u00e9ias patri\u00f3ticas do indiv\u00edduo, da sua qualidade<br \/>\nprimordial.<\/p>\n<p>Quase todos os rufi\u00f5es e os rufistas do Rio t\u00eam na m\u00e3o<br \/>\ndireita entre o polegar e o indicador, cinco sinais que significam as chagas.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nenhum que n\u00e3o acredite derrubar o advers\u00e1rio<br \/>\ndando-lhe uma bofetada com a m\u00e3o assim marcada. O marinheiro Joaquim<br \/>\ntem um Senhor cruficificado no peito e uma cruz negra nas costas. Mandou fazer<br \/>\nesse s\u00edmbolo por esperteza. Quando sofre castigos, os guardi\u00f5es<br \/>\nsentem-se apavorados e sem coragem de sov\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Parece que est\u00e3o dando em Jesus!<\/p>\n<p>A sereia d\u00e1 l\u00e1bia, a cobra atra\u00e7\u00e3o, o peixe significa<br \/>\nligeireza na \u00e1gua, a \u00e2ncora e a estrela o homem do mar, as armas<br \/>\nda Rep\u00fablica ou da Monarquia a sua compreens\u00e3o pol\u00edtica.<br \/>\nPelo n\u00famero de coroas da Monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal<br \/>\n\u00e9 monarquista.<\/p>\n<p>Os lugares preferidos s\u00e3o as costas, as pernas, as coxas, os bra\u00e7os,<br \/>\nas m\u00e3os. Nos bra\u00e7os est\u00e3o em geral os nomes das amantes,<br \/>\nfrases inteiras, como por exemplo esta frase de um soldado de um regimento<br \/>\nde cavalaria: viva o marechal de ferro!&#8230; desenhos sensuais, cora\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO tronco \u00e9 guardado para as coisas importantes, de saudade, de lux\u00faria<br \/>\nou de religi\u00e3o. Hei de lembrar sempre o Madruga tatuando um funileiro,<br \/>\ndesejoso de lhe deixar uma estrela no peito.<\/p>\n<p>\u2013 No peito n\u00e3o! cuspiu o mulato, no peito eu quero Nossa Senhora!<\/p>\n<p>A sociedade, obedecendo \u00e0 corrente das modernas id\u00e9ias criminalistas,<br \/>\nolha com desconfian\u00e7a a tatuagem. O curioso \u00e9 que \u2013 e<br \/>\nesses estranhos problemas de psicologia talvez n\u00e3o sejam nunca explicados<br \/>\n\u2013 o curioso \u00e9 que os que se deixam tatuar por n\u00e3o terem<br \/>\nmais que fazer, em geral, o elemento puro das aldeias portuguesas, o \u00fanico<br \/>\nquase incontamin\u00e1vel da baixa classe do Rio, mostram sem o menor receio<br \/>\nos bra\u00e7os, enquanto os criminosos, os assassinos, os que j\u00e1<br \/>\ndeixaram a ficha no gabinete de antropometria, fazem o poss\u00edvel para<br \/>\nocult\u00e1-los e escondem os desenhos do corpo como um crime. Por qu\u00ea?<br \/>\nReceio de que sejam sinais por onde se fa\u00e7a o seu reconhecimento? Isso<br \/>\ncom os da pol\u00edcia talvez. Mas mesmo com pessoas, cujos intentos conhecem,<br \/>\no receio persiste, porque decerto eles consideram aquilo a marca de fogo da<br \/>\nsociedade, de cuja tenta\u00e7\u00e3o foram incapazes de fugir, levados<br \/>\npela inexor\u00e1vel fatalidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 tatuagens religiosas, de amor, de nomes, de vingan\u00e7a, de<br \/>\ndesprezo, de profiss\u00e3o, de beleza, de ra\u00e7a, e tatuagens obscenas.<\/p>\n<p>A vida no seu feroz ego\u00edsmo \u00e9 o que mais nitidamente ideografa<br \/>\na tatuagem.<\/p>\n<p>As meretrizes e os criminosos nesse meio de becos e de facadas t\u00eam<br \/>\nindel\u00e9veis id\u00e9ias de perversidade e de amor. Um corpo desses,<br \/>\nnu, \u00e9 um estudo social. As mulheres mandam marcar cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom o nome dos amantes, brigam, desmancham a tatuagem pelo processo do Madruga,<br \/>\ne marcam o mesmo nome no p\u00e9, no calcanhar.<\/p>\n<p>\u2013 Olha, n\u00e3o venhas com presepadas, meu macacuano. Tenho-te aqui,<br \/>\ndesgra\u00e7a! E mostram ao malandro, batendo com o chinelo, o seu nome<br \/>\nodiado.<\/p>\n<p>\u00c9 a maior das ofensas: nome no calcanhar, ro\u00e7ando a poeira,<br \/>\namassado por todo o peso da mulher&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a vaidade imitativa. As barreg\u00e3s das vielas baratas<br \/>\nt\u00eam sempre um sinalzinho azul na face. \u00c9 a pacholice, o grain<br \/>\nde beaut\u00e9, a gracinha, principalmente para as mulatas e as negras fulas<br \/>\nque o consideram o seu maior atrativo. Quando envelhecem, as pobres mulheres<br \/>\nmandam apagar os sinais \u2013 porque querem ir limpas para o outro mundo,<br \/>\ne a Florinda, h\u00e1 pouco falecida, que rolara quarenta anos nos bord\u00e9is<br \/>\nde S. Jorge e da Concei\u00e7\u00e3o, dizia-me antes de morrer:<\/p>\n<p>\u2013 Ai, meu senhor, isto \u00e9 para os homens! Quando se fica velho<br \/>\narranca-se, porque a terra n\u00e3o v\u00ea e Deus n\u00e3o perdoa.<\/p>\n<p>Grande parte desses homens e dessas mulheres t\u00eam o del\u00edrio mais<br \/>\nsensual, fazem os nomes queridos em partes melindrosas, marcam os membros<br \/>\ndelicados com punhais, l\u00e2mpadas e outros s\u00edmbolos. Neste caso<br \/>\neu tenho o Ant\u00f4nio Doceiro, um lindo rapazito que foi bombeiro depois<br \/>\nde ter rolado pelo mundo, e a Anita Pau. Ambos t\u00eam desenhos curiosos<br \/>\npor todo o corpo, e a pobre Anita mostra no calcanhar por extenso o nome do<br \/>\npai seus filhos e traz em cada seio a inicial dos dois pequenos como numa<br \/>\noferenda \u2013 a sua \u00fanica oferenda de m\u00e3e aos desgra\u00e7ados<br \/>\nperdidos&#8230;<\/p>\n<p>Num meio de t\u00e3o fraca ilus\u00e3o, onde as mi\u00e7angas substituem<br \/>\nos pendentifs d\u2019arte e a vida ruge entre o desejo e o crime, depois<br \/>\nde muito os pobres entes marcados como uma cavalhada \u2013 a cavalhada da<br \/>\nlux\u00faria e do assass\u00ednio \u2013, come\u00e7a a gente a sentir<br \/>\numa concentrada emo\u00e7\u00e3o e a imaginar com inveja o prazer humano,<br \/>\no prazer carnal, que eles ter\u00e3o ao sentir um nome e uma figura debaixo<br \/>\nda pele, inalter\u00e1veis e para todo o sempre.<\/p>\n<p>Aquele pequeno impressionou-me de novo na sua profiss\u00e3o estranha.<br \/>\nIndaguei:<\/p>\n<p>\u2013 Quanto fizeste hoje?<\/p>\n<p>\u2013 Hoje fiz doze mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>E eu compreendi que afinal tatuador deve ser uma profiss\u00e3o muito mais<br \/>\ninteressante que a de amanuense de secretaria&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a>Ora\u00e7\u00f5es<\/h4>\n<p>\u2013 Que est\u00e1 voc\u00ea a vender?<\/p>\n<p>\u2013 Ora\u00e7\u00f5es, sim senhor.<\/p>\n<p>\u2013 Novas?<\/p>\n<p>\u2013 Uma nova, sim \u2013 a ora\u00e7\u00e3o dos nove.<\/p>\n<p>Era num canto de rua, por uma tarde de chuva. O pobre garoto, muito magro,<br \/>\ncom o pesco\u00e7o muito comprido, sobra\u00e7ava o ma\u00e7o de ora\u00e7\u00f5es,<br \/>\na sorrir.<\/p>\n<p>\u2013 Mas, criatura, a ora\u00e7\u00e3o dos nove foi desmoralizada!<\/p>\n<p>\u2013 E agora \u00e9 que se vende mais. Olhe, eu hoje vendi quatrocentos<br \/>\nfolhetos. S\u00f3 de ora\u00e7\u00e3o dos nove, trezentos e vinte cinco.<\/p>\n<p>Eu acredito nos prod\u00edgios. \u00c9 uma opini\u00e3o individual<br \/>\nmas definitiva. Se a ora\u00e7\u00e3o dos nove, depois de assustar toda<br \/>\na cidade e de incomodar o arcebispo, ainda continuava com um t\u00e3o grande<br \/>\nn\u00famero de crentes, era porque tinha prodigiosas virtudes. Comprei a<br \/>\nora\u00e7\u00e3o e estuguei o passo. Que \u00e9 afinal uma ora\u00e7\u00e3o?<br \/>\n\u00c9 um levantamento da alma a Deus com o desejo de o servir e gozar,<br \/>\ne S. Jo\u00e3o de Damasco j\u00e1 a definia um pedido de coisas convenientes,<br \/>\ncom medo de que os fi\u00e9is pedissem tamb\u00e9m inconveni\u00eancias.<br \/>\nAquele menino magro, naquela esquina de rua, era um dos insignificantes agentes<br \/>\ndesse tremendo micr\u00f3bio da alma.<\/p>\n<p>Si I\u2019on en croit les savants<br \/>\nPour qui toute la Nature<br \/>\nN\u2019est qu\u2019un bouillon de culture<br \/>\nMortel aux pauvres vivants.<\/p>\n<p>Quantas ora\u00e7\u00f5es andam por a\u00ed impressas em folhetinhos<br \/>\nmaus,vendidas nas grandes livrarias e nos alfarrabistas, exportadas para a<br \/>\nprov\u00edncia em grossos ma\u00e7os, ou simplesmente manuscritas, de<br \/>\nm\u00e3o em m\u00e3o, amarradas ao pesco\u00e7o dos mortais em forma<br \/>\nde breve! H\u00e1 nessa estranha literatura edi\u00e7\u00f5es raras,<br \/>\nexemplares \u00fanicos que se compram a peso de ouro; ora\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00e1rabes dos negros mu\u00e7ulmins, cuja tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nse vende nem por cinq\u00fcenta mil r\u00e9is; ora\u00e7\u00f5es de<br \/>\npragas africanas, para dizer tr\u00eas vezes com um obi na boca; ora\u00e7\u00f5es<br \/>\npara todas as coisas poss\u00edveis e imposs\u00edveis. O homem \u00e9<br \/>\no animal que acredita \u2013 principalmente no absurdo. Levei muito tempo<br \/>\na colecionar essas s\u00faplicas bizarras. H\u00e1 mais de mil: de S.<br \/>\nBento, de Santa Luzia, de Santa Helena, Monserrate, S. Jo\u00e3o Batista,<br \/>\nMilagre de Jesus Cristo, Maria Eterna, Santa B\u00e1rbara, Menino Deus,<br \/>\nSanta Catarina, Senhora do Socorro, Santa Teresa, S. Ant\u00f4nio, S. Jorge,<br \/>\nNossa Senhora da Guia, S. Marcos, S. Benedito, Santo Sepulcro, Nossa Senhora<br \/>\ndo Ros\u00e1rio, Magnificat, Anjo Cust\u00f3dio, S. Louren\u00e7o, S.<br \/>\nJoaquim, S. Estev\u00e3o, Bom Parto, Anuncia\u00e7\u00e3o para defumar<br \/>\na casa, Santa Filomena, Concei\u00e7\u00e3o, S. Roque, S. Sebasti\u00e3o,<br \/>\nS. Anast\u00e1cio, S. Sim\u00e3o, Menino Deus contra o sol e o mar salgado,<br \/>\nMaria Madalena, Dores, S. Pedro e S. Paulo, S. Em\u00eddio, S. Tiago pelos<br \/>\nagonizantes, Sonhos de Nossa Senhora, Ju\u00edzo Divinal, Perd\u00e3o<br \/>\nEterno, Senhor dos Passos, S. Cosme e S. Dami\u00e3o, Nossa Senhora da Gl\u00f3ria,<br \/>\nque sei eu? H\u00e1 at\u00e9 ora\u00e7\u00f5es a santos que o Papa<br \/>\ndesconhece e nunca foram canonizados, como a ora\u00e7\u00e3o de S. Gurmim,<br \/>\nboa para a dor de calos, e a de S. Pui\u00fana, infal\u00edvel nas nevralgias.<br \/>\nOs homens vivem no mist\u00e9rio das palavras conciliadoras.<\/p>\n<p>Antes de nascer tem logo a ora\u00e7\u00e3o do Bom Parto, em que se suplica<br \/>\n\u00e0 Virgem, apelando para o nascimento de Jesus, um bom sucesso. Toda<br \/>\na mulher que trouxer consigo esta ora\u00e7\u00e3o no pesco\u00e7o,<br \/>\nrezando todos os dias 7 ave-marias, e uma salve-rainha, 7 dias antes de parir,<br \/>\nter\u00e1 sempre junto a seu leito a Virgem Sant\u00edssima do Bom Parto.<\/p>\n<p>Acompanham-na a ora\u00e7\u00e3o para a denti\u00e7\u00e3o e a de<br \/>\nNossa Senhora dos Rem\u00e9dios, logo depois de nascido. Quando j\u00e1<br \/>\nfala, decora a ora\u00e7\u00e3o para ao deitar na cama: &#8220;Nesta cama<br \/>\nme deito, desta cama me levanto, a Virgem Nossa Senhora me cubra com o seu<br \/>\nmanto. Se eu coberto com ele for n\u00e3o terei medo nem pavor, nem coisa<br \/>\nque deste ou outro mundo for&#8221; e a ora\u00e7\u00e3o para levantar<br \/>\nda cama, que se pronuncia mesmo ao ruminar os mais horrendos delitos.<\/p>\n<p>Depois come\u00e7am os contratos extravagantes, as rezas covardes em que<br \/>\nse lisonjeia os santos para obter deles altos favores e at\u00e9 clamorosas<br \/>\nmaldades. T\u00eam a forma de padre-nossos, s\u00e3o \u00e0s vezes assinadas<br \/>\npor homenzinhos que as precedem de palavras contando o milagre do seu achado.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 em todo esse baixo mundo de cren\u00e7a uma ora\u00e7\u00e3o<br \/>\ninteiramente altru\u00edstica ou desfeita dos ego\u00edsmos terrenos.<br \/>\nS\u00f3 duas existem defendendo apenas a Igreja \u2013 a de S. Pedro e<br \/>\nS. Paulo e a de S. Miguel, que por sinal come\u00e7a neste violento estilo:<\/p>\n<p>\u00d3 arcanjo S. Miguel, meu poderoso protetor, a quem Deus onipotente<br \/>\nencarregou a defesa geral de todos os homens, apesar de terem o Anjo da Guarda,<br \/>\ne que sois capit\u00e3o dos nove casos ang\u00e9licos, cuja prerrogativa<br \/>\nme animo a suplicar-vos que me perdoeis o atrevimento com que vos falo apontando-vos<br \/>\na relaxa\u00e7\u00e3o, atrevimento, altivez e desenvoltura, falta de religi\u00e3o<br \/>\ne v\u00edcios de que est\u00e3o possu\u00eddos os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ncrist\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>As outras pedem pelo menos o c\u00e9u, e est\u00e3o neste caso modesto<br \/>\na do Ros\u00e1rio e a de S\u00e3o Benedito. Os autores, por\u00e9m,<br \/>\nprudentemente, numa nota \u00e0 parte, comunicam aos crentes os bens de<br \/>\ntais rezas:<\/p>\n<p>Quem usar desta ora\u00e7\u00e3o e rezar com viva f\u00e9, ao menos<br \/>\numa vez por semana, n\u00e3o ser\u00e1 mordido por c\u00e3o danado;<br \/>\nse for \u00e0 guerra n\u00e3o morrer\u00e1 nem ser\u00e1 vencido,<br \/>\nn\u00e3o se afogar\u00e1 nem morrer\u00e1 queimado, sua casa estar\u00e1<br \/>\nem paz, tudo lhe ir\u00e1 bem, os invejosos, os maus olhos, os mal intencionados,<br \/>\nnem os que usam de mal\u00e9ficos e feiti\u00e7arias lhe far\u00e3o<br \/>\ndano algum.<\/p>\n<p>E ainda por cima, se rezar umas ave-marias, ter\u00e1 indulg\u00eancias.<\/p>\n<p>As outras s\u00e3o verdadeiros requerimentos ou cartas de empenho.<\/p>\n<p>O sujeito reza como vai ao ministro do Interior pedir um lugar de guarda-civil.<br \/>\nA bajula\u00e7\u00e3o \u00e9 quase id\u00eantica. Diante do altar,<br \/>\na humanidade trata de viver da mesma maneira por que vive diante dos c\u00e9sares,<br \/>\ndos senhores feudais ou do chefe de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u00d3 incompar\u00e1vel Senhora da Concei\u00e7\u00e3o Aparecida,<br \/>\nm\u00e3e de meu Deus, Rainha dos Anjos, Advogada dos Pecadores. Ref\u00fagio<br \/>\ne Consola\u00e7\u00e3o dos Aflitos e dos Atribulados \u00f3 Virgem Sant\u00edssima<br \/>\ncheia de bondade, lan\u00e7ai sobre n\u00f3s um olhar favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>E como um poeta sem emprego diante de um oligarca estadual:<\/p>\n<p>Lembrai-vos, Clement\u00edssima M\u00e3e Aparecida, n\u00e3o constar<br \/>\nde todos que a v\u00f3s t\u00eam recorrido e implorado vossa singular prote\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfosse por v\u00f3s algum abandonado. Animado por esta confian\u00e7a,<br \/>\na v\u00f3s recorro e vos tomo de hoje para sempre por minha m\u00e3e,<br \/>\nminha protetora, minha consola\u00e7\u00e3o, meu guia&#8230;<\/p>\n<p>Algumas, talvez duvidando do poder dos santos no \u00f3cio perp\u00e9tuo<br \/>\ndo para\u00edso, v\u00e3o diretamente a Deus, levando-os como simples<br \/>\nadvogados. H\u00e1, por exemplo, a ora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Elesb\u00e3o<br \/>\ne Santa Efig\u00eania reunidas n\u00e3o sei por qu\u00ea. Pois bem. A<br \/>\nora\u00e7\u00e3o come\u00e7a assim:<\/p>\n<p>Atendei, \u00f3 Deus onipotente, \u00e0s nossas s\u00faplicas, e porque<br \/>\nnos confessar r\u00e9us de muitos pecados, permiti que sejamos absolvidos<br \/>\ndeles pelas intercess\u00f5es dos gloriosos m\u00e1rtires S. Elesb\u00e3o<br \/>\ne Santa Efig\u00eania e que o precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo<br \/>\nfiquemos lavado e relavado das nossas culpas; limpo e puro mais do que quando<br \/>\nnascemos.<\/p>\n<p>Esta peti\u00e7\u00e3o \u00e9 um modelo de lisonjearia, de adula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde humildade posti\u00e7a, de engrossamento ao velho potentado de todos<br \/>\nos tempos, infinitamente multiplicado nesta democr\u00e1tica \u00e9poca<br \/>\nde potentados! \u00c9 o supra-sumo do r\u00e9s-do-ch\u00e3o, \u00e9<br \/>\na flor perfeita da maneira de pedir!<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o, entretanto, Santa Efig\u00eania e S\u00e3o Elesb\u00e3o<br \/>\nos \u00fanicos atirados ao secund\u00e1rio papel de advogados, S. Jer\u00f4nimo,<br \/>\nadvogado contra os tremores subterr\u00e2neos, tamb\u00e9m o \u00e9,<br \/>\ntendo como compensa\u00e7\u00e3o um hino.<\/p>\n<p>Jer\u00f4nimo santo, m\u00e1ximo penitente,<br \/>\nRogai por n\u00f3s a Deus eficazmente.<br \/>\nJer\u00f4nimo santo, s\u00e1bio e forte,<br \/>\nAssiste-nos agora e na hora da morte.<\/p>\n<p>E S. Sim\u00e3o, que livra do raio, n\u00e3o faz outra coisa sen\u00e3o<br \/>\npedir a Deus que fulmine apenas os p\u00e1ra-raios, e Santa B\u00e1rbara,<br \/>\ncoitada, logo que come\u00e7a a trovejar tem que pedir a Deus menos barulho<br \/>\npara n\u00e3o ouvir este hino fant\u00e1stico:<\/p>\n<p>Salve, virgem gloriosa<br \/>\nE B\u00e1rbara generosa<br \/>\nDo para\u00edso fresca rosa<br \/>\nL\u00edrio de castidade<br \/>\nSalve \u00f3 virgem toda formosa<br \/>\nLavada na fonte da castidade.<\/p>\n<p>Mas as ora\u00e7\u00f5es s\u00e3o antes de tudo um meio de remediar<br \/>\no mal. Que faz a ora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Lu\u00eds Gonzaga, praticada<br \/>\npelas meninas do Rio desde o tempo em que a Rua Te\u00f3filo Otoni era musicalmente<br \/>\na Rua das Violas? Remedeia os males de amor. Quando uma rapariga cai de joelhos<br \/>\ne solu\u00e7a:<\/p>\n<p>\u00d3 Luis santo, adorado de ang\u00e9licos costumes, eu, indign\u00edssima<br \/>\ndevota vossa, vos recomendo singularmente a castidade da minha alma e do meu<br \/>\ncorpo. Rogo por vossa ang\u00e9lica pureza que intercedais por mim ante<br \/>\no cordeiro imaculado Cristo Jesus e sua m\u00e3e Sant\u00edssima Virgem<br \/>\ne que me preserveis de todo o passado grave, n\u00e3o permitindo que eu<br \/>\nsaia manchada com alguma n\u00f3doa de impureza&#8230;<\/p>\n<p>Podeis ter a certeza, \u00f3 mortais, que a tenta\u00e7\u00e3o anda<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o da donzela de tal forma que S. Lu\u00eds, apesar<br \/>\nde ang\u00e9lico e de santo, chegar\u00e1 fatalmente tarde para a salvar.<br \/>\nE assim uma velha senhora solteira que recitar convictamente a ora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde S. Louren\u00e7o:<\/p>\n<p>Onipotente Deus, que ao Vosso bem-aventurado m\u00e1rtir S. Louren\u00e7o<br \/>\ndestes esfor\u00e7o para triunfar dos inc\u00eandios e dos seus tormentos,<br \/>\nconcedei que se extinga em n\u00f3s o fogo&#8230;<\/p>\n<p>Ah! Deus de bondade! esta pobre senhora, assim velha e assim solteira, est\u00e1<br \/>\nmuito mal!<\/p>\n<p>S. Luis e S. Louren\u00e7o, entretanto, gozam da relativa liberdade de<br \/>\nvir quando querem. Santo Onofre por\u00e9m, pequeno e barbadinho, vive estrangulado<br \/>\nno c\u00f3s das saias das senhoras para ouvir todas as manh\u00e3s esta<br \/>\nsuprema ironia s\u00faplice:<\/p>\n<p>Meu glorioso Santo Onofre bispo, confessor de meu senhor Jesus Cristo, em<br \/>\nRoma fostes aos p\u00e9s do padre santo vos ajoelhar, pedistes p\u00e3o<br \/>\npara as solteiras, p\u00e3o para as casadas, p\u00e3o para as vi\u00favas,<br \/>\np\u00e3o para as donzelas. Pedi para mim tamb\u00e9m que sou sua inquilina.<br \/>\nMeu glorioso Santo Onofre, vos pe\u00e7o que me deis comida para comer,<br \/>\nroupa para vestir, dinheiro para gastar e gra\u00e7a para vos servir. Am\u00e9m!<\/p>\n<p>E Santo Onofre n\u00e3o protesta, n\u00e3o grita, n\u00e3o foge, como<br \/>\nS. Silvestre, educado na humildade evang\u00e9lica, tolera este lament\u00e1vel<br \/>\npedido:<\/p>\n<p>Valha-me o senhor S. Silvestre, pelas tr\u00eas camisas que veste, no ano<br \/>\nde trinta e sete, matastes e feristes e abrandastes os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos mouros, as bocas das serpentes. Assim eu abrandarei o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos meus inimigos que venham ajoelhar-se aos meus p\u00e9s, porque Deus<br \/>\nque \u00e9 Deus pode e acaba com tudo que quer, traga teu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndebaixo de teu p\u00e9 esquerdo&#8230;<\/p>\n<p>Que diz o vener\u00e1vel Santo a esse cora\u00e7\u00e3o sem concord\u00e2ncia<br \/>\npronominal metido miseravelmente debaixo de um p\u00e9? Talvez nem saiba<br \/>\na m\u00edsera crendice, e ande l\u00e1 por cima no azul, esquecido da<br \/>\nmaldade humana&#8230;As almas, apesar de benditas, por\u00e9m, j\u00e1 por<br \/>\naqui andaram, j\u00e1 sentiram o amor, o ci\u00fame e o medo, e a ora\u00e7\u00e3o<br \/>\nque as incensa \u00e9 tamb\u00e9m velhaca e cheia de sandices:<\/p>\n<p>Minhas almas santas benditas, aquelas que s\u00e3o do mesmo senhor Jesus<br \/>\nCristo, por aquelas que morreram enforcadas, por aquelas tr\u00eas almas<br \/>\nque morreram degoladas, por aquelas tr\u00eas almas que morreram a ferro<br \/>\nfrio, juntas todas tr\u00eas, todas seis a todas nove, para darem tr\u00eas<br \/>\npancadas no cora\u00e7\u00e3o dos inimigos, que eles ficar\u00e3o humildes<br \/>\na mim debaixo de paz e consola\u00e7\u00e3o, a ponto de terem olhos e<br \/>\nn\u00e3o me ver, pernas e n\u00e3o me alcan\u00e7arem, bra\u00e7os<br \/>\ne n\u00e3o me agarrarem \u2013 para sempre e sem fim.<\/p>\n<p>Os homens, \u00e0 solta, no recato das alcovas deliram calmamente. H\u00e1<br \/>\ngente que antes de sair reza a ora\u00e7\u00e3o de S. Jorge, para n\u00e3o<br \/>\nser ofendida pelos seus inimigos, e a de Santa Catarina para alcan\u00e7ar<br \/>\no perd\u00e3o dos pecados; h\u00e1 senhoras que aspergem os cantos da<br \/>\ncasa com \u00e1gua benta, dizendo a ora\u00e7\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas casas, que consta de 382 palavras, e a ora\u00e7\u00e3o de Santo Anast\u00e1cio<br \/>\ncontra os dem\u00f4nios; h\u00e1 seres pensantes que trazem ao pesco\u00e7o<br \/>\na ora\u00e7\u00e3o de S. Roberto contra os feiti\u00e7os, ora\u00e7\u00e3o<br \/>\nque, segundo o editor, estava junto a uma &#8220;milagrosa carta, achada em<br \/>\num lugar tr\u00eas l\u00e9guas distante de S. Marcos, escrita com letras<br \/>\nde ouro e pela m\u00e3o de Deus Nosso Senhor, Filho da Virgem Maria&#8221;!<\/p>\n<p>\u00c9 pois natural que as almas n\u00e3o se ofendam com um mau pedido<br \/>\ne que S. Marcos \u2013 pobre santo! sorria quando ouvia \u00e0 meia-noite<br \/>\nesta tremenda ora\u00e7\u00e3o brava, que lembra as cenas de enfeiti\u00e7amento<br \/>\nmedievo:<\/p>\n<p>Chamo S. Marcos e S. Man\u00e7os e seu confidente o anjo mau em meu aux\u00edlio<br \/>\npara se apoderar do meu esp\u00edrito e vida, juntamente com a pessoa que<br \/>\ndesejo fazer o mal, ou bem e com o dedo polegar da m\u00e3o esquerda fa\u00e7o<br \/>\ntr\u00eas vezes o Sinal da Cruz e com uma faca de ponta espetada na porta<br \/>\nda rua ou mesa, com um len\u00e7o ou guardanapo bem alvo direi as seguintes<br \/>\npalavras: Cristo morreu, Cristo sofreu, Cristo padeceu: assim pe\u00e7o-vos<br \/>\nmeu glorioso S\u00e3o Marcos e S\u00e3o Man\u00e7os que sofra e pade\u00e7a<br \/>\nos maiores tormentos e torturas deste mundo a pessoa que eu quero para mim<br \/>\ne pegando na faca com toda a f\u00e9 e coragem que me d\u00e1 esta Ora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndarei quatro golpes na porta, ou mesa e pela quarta vez chamarei S\u00e3o<br \/>\nMarcos e S\u00e3o Man\u00e7os e o anjo mau, para me dar for\u00e7a e<br \/>\ncoragem de dizer: &#8220;Credo em Cruz&#8221; em c\u00edrculo onde se acha<br \/>\na faca! Am\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Oh! o poder da palavra pronunciada misteriosamente! Os homens de todos os<br \/>\npa\u00edses, de todas as terras t\u00eam-lhe um terror sagrado. Essas ora\u00e7\u00f5es<br \/>\nainda guardam um sentido mais ou menos claro. A maior parte por\u00e9m \u00e9<br \/>\napenas um estranho jogo de disparates, uma trapalhada alucinante. H\u00e1<br \/>\numa ora\u00e7\u00e3o contra o sol, que ao l\u00ea-la sente a gente a<br \/>\nvertigem do desequil\u00edbrio:<\/p>\n<p>Deus quando pelo mundo andou muito sol e calor apanhou, encontrou com Nossa<br \/>\nSenhora com que o sol se tiraria com um guardanapo de olhos e copo d\u2019\u00e1gua<br \/>\nfria. Sim, como falo verdade torna o sol a seu lugar, vai esta senhora pelo<br \/>\nmar abaixo com o copinho de \u00e1gua fria, o mal que ela tem no corpo e<br \/>\nna cabe\u00e7a tire de Deus e da Virgem Maria.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente a maneira r\u00edtmica, o disparate deduzido dos literatos<br \/>\ndo Hosp\u00edcio e at\u00e9 hoje, se eu percebi que tais palavras s\u00e3o<br \/>\ncontra o calor, n\u00e3o me foi poss\u00edvel ainda saber o que quer dizer<br \/>\nesta formid\u00e1vel ora\u00e7\u00e3o do mar sagrado:<\/p>\n<p>Mar sagrado, eu te venho salvar, a tua \u00e1gua te venho pedir para fortuna<br \/>\npor Deus para minha casa levar; para que me d\u00ea ouro para guardar e prata<br \/>\npara gastar, cobre para dar aos pobres.<\/p>\n<p>Como exemplo de estilo desvairado h\u00e1, entretanto, outras quase t\u00e3o<br \/>\nlindas como as poesias nefelibatas, pela sua dolorosa e obtusa ingenuidade.<br \/>\nEst\u00e1 neste caso &#8220;O Perd\u00e3o Eterno.&#8221;<\/p>\n<p>S. Jos\u00e9 que caminhava com a Virgem Maria<br \/>\nTanto caminha de noite como de dia<br \/>\nAbre a porta porteiro<br \/>\nQue aqui est\u00e1 a Virgem Maria<br \/>\nN\u00e3o quis parir na cama<br \/>\nNem na cortina.<br \/>\nPariu na manjedoura<br \/>\nOnde o bento boi comia.<br \/>\nDesceram os anjos dos c\u00e9us, cantando Ave Maria<br \/>\nSubiu para o c\u00e9u rezando Santa Maria.<br \/>\nO eterno lhe perguntou, como ficou a parida?<br \/>\nFicou coberto de ouro o seu bento filho<br \/>\nE o ber\u00e7o em que ele embalava era de ouro e lat\u00e3o<br \/>\nAqui se acaba esta santa ora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuem esta ora\u00e7\u00e3o rezar 7 sexta-feira, da paix\u00e3o,<br \/>\nE outras tantas carnais,<br \/>\nTem cem anos de perd\u00e3o,<br \/>\nSe for seu pai, sua m\u00e3e, mais toda a sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 na Il\u00edada um trecho muito citado e rico de verdades. Homero<br \/>\nfala das ora\u00e7\u00f5es e diz &#8220;As ora\u00e7\u00f5es s\u00e3o<br \/>\nfilhas do grande Zeus, filho de Cronos. Capengas, zarolhas, feiarronas ocupam-se<br \/>\nem seguir a fatalidade. A fatalidade \u00e9 robusta e \u00e1gil. Vai muito<br \/>\nadiante fazendo aos homens um mal que as ora\u00e7\u00f5es remedeiam.&#8221;<br \/>\n\u00c9 destino do homem rezar, pedir o aux\u00edlio do desconhecido para<br \/>\no bem e para o mal, \u00e9 sina deste pobre animal, mais carregado de trabalhos<br \/>\nque qualquer outro bicho da terra ou do mar, ter medo e desconfiar das pr\u00f3prias<br \/>\nfor\u00e7as. A fatalidade o vai conduzindo por caminhos que s\u00e3o despenhadeiros<br \/>\n\u00e0s vezes e campos de risos raramente. O homem chora, ergue os olhos<br \/>\npara o azul do c\u00e9u, a menor das suas ilus\u00f5es povoa-o de for\u00e7as<br \/>\ninvis\u00edveis e fala, e pede, e suplica. Que importa que diga tolices<br \/>\nou frases lapidares, horrores ou pensamentos suaves? \u00c9 preciso remediar<br \/>\na fatalidade.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que enquanto existir na terra um farrapo de humanidade,<br \/>\nesse farrapo ser\u00e1 um moinho de ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso, talvez, que os vendedores de ora\u00e7\u00f5es acabam<br \/>\nmais ou menos supersticiosos dessa supersti\u00e7\u00e3o teimosa que acredita<br \/>\napesar de tudo; \u00e9 por isso que um pobrezinho vendedor dessas fantasias<br \/>\ndo pavor ignorante n\u00e3o sai de casa sem recitar \u00e0 estrela dos<br \/>\npastores estas precavidas frases:<\/p>\n<p>Desta casa me<br \/>\naparto em boa<br \/>\npaz boa viagem.<br \/>\nDeus adiante, a<br \/>\nbela cruz atr\u00e1s eu no meio, altos e<br \/>\nmontes para mim sejam. Oremos<br \/>\nbocas de c\u00e3es e lobos sejam fecha-<br \/>\ndas, tenham olhos e n\u00e3o me vejam,<br \/>\ntenham pernas e n\u00e3o me sigam<br \/>\ntenham boca e n\u00e3o me falem,<br \/>\ntenham bra\u00e7os<br \/>\ne n\u00e3o me pe-<br \/>\nguem, t\u00e3o guar-<br \/>\ndado me vejam<br \/>\ncomo a Virgem<br \/>\nMaria guardou<br \/>\no seu amado<br \/>\nfilho desde as<br \/>\nportas de Be-<br \/>\nl\u00e9m at\u00e9 Jeru-<br \/>\nsal\u00e9m. \u2013<br \/>\nAm\u00e9n&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a>Os Urubus<\/h4>\n<p>\u2013 Estou esperando!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o quero!<\/p>\n<p>\u2013 Deix\u00e1-lo passar!<\/p>\n<p>\u2013 Naufragou!<\/p>\n<p>Eu vinha vindo com o frescor da manh\u00e3 por aquele trecho da praia de<br \/>\nSanta Luzia, t\u00e3o suave e t\u00e3o formoso, onde se amontoam as coisas<br \/>\nl\u00fagubres da cidade \u2013 a Santa Casa, o Necrot\u00e9rio, o servi\u00e7o<br \/>\nde enterramentos. Entre as \u00e1rvores fronteiras ao hospital vendedores<br \/>\nambulantes vociferavam os preg\u00f5es de canjica, de mingau, de p\u00e3es<br \/>\ndoces; dos bondes pejados de gente saltavam criaturas doentes, paral\u00edticas<br \/>\nalgumas, de \u00f3culos outras. Pelas escadas de pedra lavada formigava<br \/>\nconstantemente a turba doente, mostrando as mazelas, como um insulto e uma<br \/>\nafronta aos que estavam s\u00e3os, entre os enfermeiros do hospital, de<br \/>\ncal\u00e7a de zuarte azul e d\u00f3lm\u00e3 pardo, n\u00e9dios e sadios.<br \/>\nEu vinha precisamente pensando como gozam sa\u00fade os enfermeiros, e aquelas<br \/>\nfrases ma\u00e7\u00f4nicas fizeram-me mal. Parei, consultei o rel\u00f3gio.<br \/>\nOs quatro tipos n\u00e3o se ralavam mais com a minha presen\u00e7a. Dois<br \/>\nolhavam com avidez os bondes que vinham da Rua do Passeio; dois estavam totalmente<br \/>\nvoltados para o lado da Faculdade. Ao aparecer um bonde, um magrinho bradou:<\/p>\n<p>\u2013 Largo!<\/p>\n<p>Prestei aten\u00e7\u00e3o. Do tramway em movimento saltou um cavalheiro<br \/>\ndefronte do Necrot\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2013 De cima! bradou outro tipo.<\/p>\n<p>\u2013 \u00daltima! regougou o terceiro.<\/p>\n<p>E cercaram o cavalheiro.<\/p>\n<p>\u2013 V. Sa. h\u00e1 de aceitar um cart\u00e3ozinho da nossa casa.<br \/>\nN\u00e3o precisa de se incomodar. Tratamos de tudo! Fa\u00e7a neg\u00f3cio<br \/>\ncomigo!<\/p>\n<p>A um tempo falavam todos, e o cavalheiro, coberto de luto, com o len\u00e7o<br \/>\nempapado de suor e de l\u00e1grimas, murmurava, como se estivesse a receber<br \/>\np\u00easames:<\/p>\n<p>\u2013 Muito obrigado! Muito obrigado!<\/p>\n<p>Aproximei-me de um dos funcion\u00e1rios do servi\u00e7o mortu\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2013 Que esp\u00e9cie de gente \u00e9 essa?<\/p>\n<p>\u2013 Oh! n\u00e3o conhece? S\u00e3o os urubus!<\/p>\n<p>\u2013 Urubus?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, os corvos.. . \u00c9 o nome pelo qual s\u00e3o conhecidos<br \/>\naqui agenciadores de coroas e fazendas para luto. N\u00e3o \u00e9 muito<br \/>\nnumerosa a classe, mas que faro, que atividade!<\/p>\n<p>Totalmente interessado, tive uma dessas exclama\u00e7\u00f5es de pasmo<br \/>\nque lisonjeiam sempre os informantes e nada exprimem de definitivo. E sorriu,<br \/>\ntossiu e falou. Foi prodigioso.<\/p>\n<p>\u2013 Os agenciadores de coroas levantam-se de madrugada e compram todos<br \/>\nos jornais para ver quais os homens importantes falecidos na v\u00e9spera.<br \/>\nDefunto pobre n\u00e3o precisa de luxo, e coroa \u00e9 luxo. Logo que<br \/>\ntomam as notas disparam para a casa do morto e prop\u00f5em adiantar o que<br \/>\nfor necess\u00e1rio para o enterro, com a condi\u00e7\u00e3o de se lhes<br \/>\ncomprarem as coroas. Algumas casas t\u00eam mesmo nos cart\u00f5es os seguintes<br \/>\ndizeres \u2013 encarregam-se de tratar de enterros sem cobrar comiss\u00e3o<br \/>\nde esp\u00e9cie alguma. E os t\u00edtulos dessas casas davam para um tratado<br \/>\nde psicologia recreativa. H\u00e1 os po\u00e9ticos os delicados, os floridos,<br \/>\nos babosos, os f\u00fanebres \u2013 &#8220;Tributo da Saudade, &#8220;Coroa<br \/>\nde Violetas&#8221;, &#8220;Flor de Lis&#8221;, &#8220;Bogari&#8221;, &#8220;A Jardineira&#8221;,<br \/>\n&#8220;Coroa de Rosas&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Mas&#8230;e estes homens aqui?<\/p>\n<p>\u2013 Estes homens s\u00e3o os urubus de Santa Luzia, servi\u00e7o<br \/>\nespecial e ma\u00e7\u00f4nico. Tr\u00eas ficam \u00e0 entrada principal<br \/>\nda Santa Casa. Quando avistam um tipo, brada o primeiro: estou esperando!<\/p>\n<p>Se o tipo n\u00e3o tem cara de enterro: n\u00e3o quero! Deix\u00e1-lo<br \/>\npassar. Se o homem vem de t\u00edlburi, correm at\u00e9 aqui a acompanh\u00e1-lo&#8230;<br \/>\nSe o t\u00edlburi segue, bradam: naufragou! E voltam ao lugar donde n\u00e3o<br \/>\nsa\u00edram os outros. \u00c9 interessante ouvir-lhes o di\u00e1logo.<br \/>\nTu \u00e9 que n\u00e3o correste! Conhe\u00e7o o homem; antes fosse,<br \/>\nera meu o neg\u00f3cio&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Mas \u00e9 horr\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a vida, meu caro. Aqui estacionam sete agentes; o assalto<br \/>\nao fregu\u00eas vai pela vez, como aos s\u00e1bados, nos barbeiros. Quatro<br \/>\noferecem grinaldas aos passageiros que saltam dos bondes; tr\u00eas aos que<br \/>\nv\u00eam a p\u00e9. Ao ver o bando ao longe h\u00e1 a frase: De cima!<br \/>\nque \u00e9 o sinal. Do lado de l\u00e1! quando ele salta do lado oposto.<br \/>\n\u00daltima! quando salta no Necrot\u00e9rio. um dos urubus acerta, grita:<br \/>\nEstou empregado! E feito o neg\u00f3cio o outro avan\u00e7a, dizendo:<br \/>\nGrinalda! para obter como resposta: A tua \u00e9 minha&#8230;<\/p>\n<p>Quando aparece por acaso algum fregu\u00eas conhecido de um agenciadores<br \/>\nd\u00e1-se o &#8220;combate&#8221;. Os tr\u00eas que ficaram &#8220;desempregados&#8221;,<br \/>\ndesejando &#8220;furar&#8221; o agenciador amigo, quando n\u00e3o conseguem<br \/>\nconvenc\u00ea-lo arranjam meio de o cacetear at\u00e9 que o neg\u00f3cio<br \/>\nn\u00e3o se realize. Nessa ocasi\u00e3o assistimos a cenas calorosas,<br \/>\na conflitos s\u00e9rios, em que se faz sentir a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\nda pol\u00edcia. Mas \u00e0 noite, gra\u00e7as aos deuses, acabado o<br \/>\ntrabalho, v\u00e3o todos para a venda do Ant\u00f4nio, \u00e0 Rua da<br \/>\nMiseric\u00f3rdia, beber cerveja.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o estes ent\u00e3o? fiz, voltando-me.<\/p>\n<p>\u2013 Estes s\u00f3, n\u00e3o. H\u00e1 outros, os que fazem ponto<br \/>\nno Largo da Batalha e rendem estes \u00e0 hora do almo\u00e7o e que s\u00f3<br \/>\nt\u00eam o posto depois de ter todas as notas dos tipos que est\u00e3o<br \/>\nna secretaria e tratar de enterros.<\/p>\n<p>\u2013 Como os agentes de pol\u00edcia?<\/p>\n<p>\u2013 Tal qual. E terminam sempre com a nota policial: quarenta anos presum\u00edveis.<\/p>\n<p>Rimos ambos. O sol est\u00e1 brilhante e o c\u00e9u, inteiramente azul,<br \/>\nd\u00e1-nos desejos de viver e de compreender a vida pelos seus mais ridentes<br \/>\naspectos.<\/p>\n<p>\u2013 Os urubus devem ter nome?<\/p>\n<p>\u2013 T\u00eam, s\u00e3o urubus urbanos. V\u00ea o senhor aquele? \u00c9<br \/>\no Chico Bas\u00edlio. H\u00e1 cerca de 30 anos exerce a profiss\u00e3o.<br \/>\nEst\u00e1 vendo aquele grupo? Encontra l\u00e1 o Brasilino, o Caranguejo,<br \/>\no Bilu, o Espanhol da Sa\u00fade, o Mangonga. Os outros s\u00e3o o Joaquim,<br \/>\no Tatu\u00ed, o Paulino, o C\u00e1 e L\u00e1, o Buriti, o Manduca.<\/p>\n<p>Neste momento um mocinho de l\u00e1pis e linguado de papel na m\u00e3o<br \/>\nindagou, entrando:<\/p>\n<p>\u2013 Alguma coisa de novo?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, pode entrar.<\/p>\n<p>O mocinho desapareceu. O complacente informante sorria.<\/p>\n<p>\u2013 Outro urubu.<\/p>\n<p>\u2013 Outro?<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o os que parecem reporters. V\u00eam para a secretaria<br \/>\nda Santa Casa munidos de tiras de alma\u00e7o para copiar dos livros os<br \/>\nnomes e resid\u00eancias das pessoas mortas, isto \u00e9, s\u00f3 copiam<br \/>\nos daquelas cujo enterro custar mais de 100$. Saem daqui para o lugar indicado<br \/>\ne ficam \u00e0s portas \u00e0 espera que o corpo saia, um, dois, cinco<br \/>\n\u00e0s vezes. Quando o cad\u00e1ver sai e a fam\u00edlia ainda est\u00e1<br \/>\naos solu\u00e7os, embarafustam com as amostras de luto. Contaram-me que<br \/>\nchegam \u00e0 concorr\u00eancia, a ver quem faz o luto em 24 horas mais<br \/>\nem conta. Neste servi\u00e7o conhe\u00e7o o Ferraz, o Saul, o Guedes,<br \/>\no Matos, o Ara\u00fajo, o Campos, o Mesquita.<\/p>\n<p>Eu ouvia o meu informante um pouco melanc\u00f3lico. Que diabo! Por que<br \/>\nurubus, naquele peda\u00e7o da cidade que cheira a cad\u00e1veres e a<br \/>\nmorte?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 terra onde prospere como nesta a flora dos sem-of\u00edcio<br \/>\ne dos parasitas que n\u00e3o trabalham. Esses sujeitinhos vestem bem, dormem<br \/>\nbem, chegam a ter opini\u00f5es, sistema moral, id\u00e9ias pol\u00edticas.<br \/>\nNingu\u00e9m lhes pergunta a fonte inexplic\u00e1vel do seu dinheiro.<br \/>\nAqueles pobres rapazes, lutando pela vida, naquele ambiente atroz da morte,<br \/>\nvestindo a libr\u00e9 das pompas f\u00fanebres, impingindo com um sorriso<br \/>\n\u00e0 tristeza coroas e crepes, s\u00f3 para ganhar honestamente a vida,<br \/>\neram dignos de respeito. Por que urubus? Ma\u00e7onaria da m\u00e1 sorte,<br \/>\npelot\u00e3o dos tristes, seres sem o conforto de uma simpatia, no limite<br \/>\ndo nada, encarregados de fornecer os s\u00edmbolos de uma dor que cada vez<br \/>\na humanidade sente menos.<\/p>\n<p>Despedi-me, comecei a andar devagar. Um dos urubus aproximou-se.<\/p>\n<p>\u2013 Estiveram contando coisas a nosso respeito?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, absolutamente.<\/p>\n<p>\u2013 Que se h\u00e1 de fazer? A comiss\u00e3o \u00e9 t\u00e3o<br \/>\npequena! Quando quiser uma coroa&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Deus queira que n\u00e3o! fiz assustado.<\/p>\n<p>E apertei a m\u00e3o do homem urubu com um tremor de supersti\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de susto<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>Os Mercadores de Livros e a Leitura das Ruas<\/h4>\n<p>Exatamente na esquina do teatro S. Pedro, h\u00e1 dez anos, Arcanjo, italiano,<br \/>\nanalfabeto, vende jornais e livros. \u00c9 gordo, desconfiado e pan\u00e7udo.<br \/>\nAo parar outro dia ali, tive curiosidade de ver os volumes dessa biblioteca<br \/>\npopular. Havia algumas patriotadas, a Quest\u00e3o da Bandeira, o Holocausto,<br \/>\na d. Carmen de B. Lopes, a Vida do Mercador e de Ant\u00f4nio de P\u00e1dua,<br \/>\no Evangelho de um Triste e os Desafogos L\u00edricos. Estavam em exposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncheios de p\u00f3, com as capas entortadas pelo sol.<\/p>\n<p>\u2013 Vende-se tudo isso?<\/p>\n<p>\u2013 Oh! n\u00e3o. H\u00e1 quase um ano que os tenho. Os outros sim<br \/>\n\u2013 modinhas, ora\u00e7\u00f5es, livros de sonhos, a Hist\u00f3ria<br \/>\nda Princesa Magalona, o Carlos Magno, os testamentos dos bichos.<\/p>\n<p>Levantei as m\u00e3os para o c\u00e9u como pedindo testemunho do alto.<br \/>\nAs obras vend\u00e1veis ao povo deste come\u00e7o de s\u00e9culo eram<br \/>\nas mesmas devoradas pelo povo dos meados do s\u00e9culo passado!<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Pode perguntar aos outros vendedores.<\/p>\n<p>Atirei-me a esse inqu\u00e9rito psicol\u00f3gico. Os vendedores de livros<br \/>\ns\u00e3o uma chusma incont\u00e1vel que todas as manh\u00e3s se espalha<br \/>\npela cidade, entra nas casas comerciais, sobe aos morros, percorre os sub\u00farbios,<br \/>\nestaciona nos lugares de movimento. H\u00e1 alguns anos, esses vendedores<br \/>\nn\u00e3o passavam de meia d\u00fazia de africanos, espapa\u00e7ados<br \/>\npregui\u00e7osamente como o Jo\u00e3o Brand\u00e3o na Pra\u00e7a do<br \/>\nMercado. Hoje, h\u00e1 de todas as cores, de todos os feitios, desde os<br \/>\nvelhos man\u00edacos aos rapazolas indolentes e aos propagandistas da f\u00e9.<br \/>\nA venda n\u00e3o \u00e9 franca sen\u00e3o em alguns pontos onde se exibem<br \/>\nos tabuleiros com as edi\u00e7\u00f5es falsificadas do Melro de Junqueiro<br \/>\ne da Noite na Taverna. Os outros batem a cidade, oferecendo as obras. E h\u00e1<br \/>\nent\u00e3o toda uma gama de maneiras para passar a fazenda. Os mais atilados,<br \/>\nos mais argutos, os mais incans\u00e1veis s\u00e3o os vendedores de B\u00edblias<br \/>\nprotestantes, com os bolsos das velhas sobrecasacas ajoujados de brochuras<br \/>\nedificantes.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 rapaz, por que n\u00e3o fica com esta B\u00edblia? Dou-lha<br \/>\npor dez tost\u00f5es. \u00c9 o livro de Deus, onde est\u00e3o as eternas<br \/>\nverdades. E se ficar com ela, vai mais este volume de quebra sobre as feras<br \/>\nque devoram o homem, as feras morais&#8230;<\/p>\n<p>Os outros n\u00e3o pairam em regi\u00f5es t\u00e3o espirituais. H\u00e1<br \/>\nos solenes \u2013 o velho Maia, que aprecia as encaderna\u00e7\u00f5es<br \/>\nvermelhas; foi guarda-livros e virou para a infelicidade quando, um dia, se<br \/>\nlembrou de decorar todo o dicion\u00e1rio latino de Saraiva. H\u00e1 os<br \/>\nque t\u00eam apelido \u2013 Espelho de Psych\u00e9, pobre homem, negociante,<br \/>\nque a m\u00e1 sorte faz andar agora de cesta ao bra\u00e7o, com uma fita<br \/>\nverde no chapelinho. H\u00e1 os escandalosos relapsos \u2013 o Conegundes,<br \/>\nnegralh\u00e3o de cavanhaque, gritador. H\u00e1 os que durante o trabalho<br \/>\npercorrem as tabernas, e para impingir aos caixeiros um dos volumes ingerem<br \/>\nem cada uma dois da branca \u2013 o Artur. H\u00e1 os que t\u00eam admira\u00e7\u00f5es<br \/>\nliter\u00e1rias \u2013 o Cam\u00f5es, zanaga, que vos recita o I Canto<br \/>\ndos Lus\u00edadas de cor. H\u00e1 os alegres, um turbilh\u00e3o deles,<br \/>\nque apregoam dois dias na semana para descansar os outros cinco. H\u00e1<br \/>\nos que t\u00eam a arte do preg\u00e3o e, longe de ir com um embrulhinho<br \/>\nperguntar \u00e0 casa do comprador se quer ficar com a Hist\u00f3ria de<br \/>\nCarlos Magno, soltam a voz em gorjeios estent\u00f3ricos, como o Noite Sonorosa:<\/p>\n<p>Meu Deus, que noite sonorosa!<br \/>\nO c\u00e9u est\u00e1 todo estrelado.<br \/>\nEu com o cavaquinho na m\u00e3o<br \/>\nE a morena ao lado.<\/p>\n<p>Isto em pleno dia.<\/p>\n<p>Cada sujeito desses pode passar a vida bem. As livrarias vendem barat\u00edssimo<br \/>\nos livrecos procurados. Em cada um, os vendedores ganham, no m\u00ednimo,<br \/>\nseiscentos por cento. H\u00e1 alguns que, trabalhando com vontade e sabendo<br \/>\nlan\u00e7ar \u2013 as ora\u00e7\u00f5es, as modinhas ou a inef\u00e1vel<br \/>\nHist\u00f3ria da Donzela Teodora, arranjam uma di\u00e1ria de dez mil<br \/>\nr\u00e9is, sem grande esfor\u00e7o. Da\u00ed, todo dia aumentar o n\u00famero<br \/>\nde camelots de livros, vir come\u00e7ando a formar-se essa pr\u00f3spera<br \/>\nprofiss\u00e3o da mis\u00e9ria que todas as cidades t\u00eam, \u00e1vida<br \/>\ne lament\u00e1vel, num arregimentar de pobres propagandistas do Evangelho<br \/>\ne do Espiritismo, de homens que a sorte deixou de proteger, de malandros c\u00ednicos,<br \/>\nde rapazes vadios.<\/p>\n<p>Os livros, por\u00e9m, de grande venda ficam sempre os mesmos.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o gostamos de mudar em coisa nenhuma, nem no teatro,<br \/>\nnem na paisagem, nem na literatura. \u00c9 prov\u00e1vel que o div\u00f3rcio<br \/>\ntenha ca\u00eddo por esse inveterado e extraordin\u00e1rio amor de n\u00e3o<br \/>\nmudar, que nos obceca. Desde 1840, o fundo das livrarias ambulantes, as obras<br \/>\nde venda dos camelots t\u00eam sido a Princesa Magalona, a Donzela Teodora,<br \/>\na Hist\u00f3ria de Carlos Magno, a Despedida de Jo\u00e3o Brand\u00e3o<br \/>\ne a Conversa\u00e7\u00e2o do Pai Manuel com o Pai Jos\u00e9 \u2013 ao<br \/>\ntodo uns vinte folhetos sarrabulhentos de crimes e de sandices. Como esfor\u00e7o<br \/>\nde inven\u00e7\u00e3o e permanente \u00eaxito, apareceram, exportados<br \/>\nde Portugal, os testamentos dos bichos, o Conselheiro dos Amantes e uma sonolenta<br \/>\nDisputa divertida das grandes bulhas que teve um homem com sua mulher por<br \/>\nn\u00e3o lhe querer deitar uns fundilhos nos cal\u00e7\u00f5es velhos.<\/p>\n<p>Essa literatura, vorazmente lida na deten\u00e7\u00e3o, nos centros de<br \/>\nvadiagem, por homens primitivos, balbuciada \u00e0 luz dos candeeiros de<br \/>\nquerosene nos casebres humildes, piegas, hip\u00f3crita e mal feita, \u00e9<br \/>\na sugestionadora de crimes, o impulso \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de<br \/>\ndegenera\u00e7\u00f5es sopitadas, o abismo para a gentalha. Contam na<br \/>\nPenitenci\u00e1ria que o Carlito da Sa\u00fade, preso a primeira vez por<br \/>\ndesordens, ao chegar ao cub\u00edculo, mergulhou na leitura do Carlos Magno.<br \/>\nSobreveio-lhe uma agita\u00e7\u00e3o violenta. Ao terminar a leitura anunciou<br \/>\nque mataria um homem ao deixar a deten\u00e7\u00e3o. E no dia da sa\u00edda,<br \/>\nalguns passos adiante, esfaqueou um tipo inteiramente desconhecido. S\u00f3<br \/>\nesse Carlos Magno tem causado mais mortes que um batalh\u00e3o em guerra.<br \/>\nA leitura de todos os folhetos deixa, entretanto, a mesma impress\u00e3o<br \/>\nde sangue, de crime, de julgamento, de tribunal. H\u00e1, por exemplo, uma<br \/>\nobra cuja tiragem deixa numa retaguarda lament\u00e1vel as consecutivas<br \/>\nedi\u00e7\u00f5es do Cyrano de Bergerac. Intitula-se Maria Jos\u00e9,<br \/>\nou a filha que assassinou, degolou e esquartejou sua pr\u00f3pria m\u00e3e,<br \/>\nMatilde do Ros\u00e1rio da Luz, e come\u00e7a como nas feiras: \u2013<br \/>\n&#8220;Atendei, e vereis um crime espantoso, um crime novo, o maior de todos<br \/>\nos crimes!&#8221; Essa Maria ainda era s\u00f3 a matar uma s\u00f3 pessoa.<br \/>\nNo Carlos Magno um tal Reinaldos, ensanduichado em frases de louvor a Nosso<br \/>\nSenhor, mete-se num rolo doido com os turcos, e o livro louva-o por ir degolando<br \/>\na cada passo um homem.<\/p>\n<p>Tudo quanto \u00e9 inferior \u2013 a cal\u00fania, o falso testemunho,<br \/>\no \u00f3dio \u2013 serve de entrecho a esses romances mal escritos. Quando<br \/>\na coisa \u00e9 em verso, toma propor\u00e7\u00f5es de puff carnavalesco.<br \/>\nA Despedida do Jo\u00e3o Brand\u00e3o \u00e0 sua mulher, filhos e colegas,<br \/>\ncom um ap\u00eandice em que se convence o leitor de que Jo\u00e3o podia<br \/>\nser um her\u00f3i crist\u00e3o, \u00e9 lida nos corti\u00e7os com<br \/>\ntemor e pena. A primeira quadra da despedida \u00e9 assim:<\/p>\n<p>Andando eu a passear,<br \/>\nCom amiga do cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDois passos \u00e0 retaguarda:<br \/>\nEstais preso, Jo\u00e3o Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>Que se h\u00e1 de fazer diante destes quatro versos nefelibatas? A Despedida<br \/>\ntem quarenta e nove quadras, fora a resposta da esposa. Uma mistura paran\u00f3ica<br \/>\nde remorso, de tolices de religi\u00e3o, saudade e covardia, faz destas<br \/>\nquadras o supra-sumo da est\u00e9tica emotiva da turba \u2013 cujos sentimentos<br \/>\noscilam entre o temor e a ambi\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o Brand\u00e3o<br \/>\nsolu\u00e7a:<\/p>\n<p>Adeus, Jo\u00e3o Brand\u00e3o,<br \/>\nEspelho de eu me vestir,<br \/>\nTu mataste o menino<br \/>\nQue para ti se ficou a rir.<\/p>\n<p>Agora vou degredado,<br \/>\nA paix\u00e3o \u00e9 que me mata;<br \/>\nAdeus, Carolina Augusta,<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o vale a tua prata.<\/p>\n<p>Para alegrar os leitores, esses criminosos an\u00f4nimos cultivaram o testamento<br \/>\ndos bichos. J\u00e1 testamento \u00e9 uma id\u00e9ia inteiramente l\u00fagubre.<br \/>\nO testamento da pulga, do mosquito ou da saracura, n\u00e3o seria para fazer<br \/>\nrebentar de riso os mortais, nem mesmo agora, neste mortal per\u00edodo<br \/>\nde desinfec\u00e7\u00f5es e higiene \u00e0 outrance. Mas que pensam<br \/>\nos senhores dessas quadrinhas, das quais j\u00e1 se venderam mais de cem<br \/>\nmil folhetos, das quais diariamente e perpetuamente se vendem mais volumes<br \/>\nque da Cana\u00e3 de Gra\u00e7a Aranha? Os testamentos s\u00e3o uma<br \/>\nlament\u00e1vel rela\u00e7\u00e3o de legados, sem uma gra\u00e7a,<br \/>\nsem uma piada, sem um riso.<\/p>\n<p>O galo leva quarenta quadras a deixar coisas; a saracura diz que levava,<br \/>\nprazenteira, a cantar todo o dia dentro do brejo; o macaco fala de hora extrema<br \/>\nsem uma careta. S\u00f3 no testamento do papagaio h\u00e1 esta observa\u00e7\u00e3o<br \/>\npessoal, sempre aplic\u00e1vel \u00e0s c\u00e2maras:<\/p>\n<p>H\u00e1 no mundo papagaios<br \/>\nQue falam todos os dias<br \/>\nE nunca sofrem desmaios<br \/>\nComendo grossas maquias.<br \/>\nEstes s\u00e3o de Pernambuco,<br \/>\nFalam muito, s\u00e3o mitrados;<br \/>\nEu falei, mas fui maluco,<br \/>\nLogo paguei meus pecados.<\/p>\n<p>E falam do veneno da literatura francesa, que perde o c\u00e9rebro das<br \/>\nmeninas nervosas e aumenta o nosso crescido n\u00famero de poetas! Que se<br \/>\ndir\u00e1 dessa literatura \u2013 pasto mental dos caixeiros de botequim,<br \/>\ndos rapazes do povo, dos vadios, do grosso, enfim, da popula\u00e7\u00e3o?<br \/>\nQue se dir\u00e1 desses homens que v\u00e3o inconscientemente ministrando<br \/>\nem grandes doses aos c\u00e9rebros dos simples a admira\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo esfaqueamento e o respeito da tolice?<\/p>\n<p>Como eu clamasse contra essa teimosa mania de n\u00e3o mudar as suas predile\u00e7\u00f5es,<br \/>\num dos vendedores ambulantes, o cantante Meu Deus que noite sonorosa, esticou<br \/>\na perna e disse-me:<\/p>\n<p>\u2013 Talvez fosse para pior.<\/p>\n<p>Parei convencido, o curso das interroga\u00e7\u00f5es. J\u00e1 outro<br \/>\nfil\u00f3sofo seu rival, Montaigne, assegurava que mudar \u00e9 quase<br \/>\nsempre uma probabilidade para o pior. Os vendedores de testamentos passaram<br \/>\na vend\u00ea-los como palpites do jogo do bicho, transformando a saracura<br \/>\nem avestruz e a mosca em borboleta. Os jogadores n\u00e3o l\u00eaem, mas<br \/>\narru\u00ednam as algibeiras. E de qualquer forma o mal continua a florescer<br \/>\nneste baixo mundo, na literatura e fora dela, como o mais gostoso dos bens.<br \/>\nSe nas obras populares aparecer alguma coisa de novo, com certeza teremos<br \/>\ntolices maiores que as anteriores &#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"7\"><\/a>A Pintura das Ruas<\/h4>\n<p>H\u00e1 duas coisas no mundo verdadeiramente fatigantes: ouvir um tenor<br \/>\nc\u00e9lebre e conversar com pessoas not\u00e1veis. Eu tenho medo de pessoas<br \/>\nnot\u00e1veis. Se a notabilidade reside num cavalheiro dado \u00e0 poesia,<br \/>\nele e Lecomte de Lisle, ele e Baudelaire, ele e Apolonius de Rodes desprezam<br \/>\na cr\u00edtica e o Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo; se o sucesso acompanha<br \/>\no indiv\u00edduo dado \u00e0 cr\u00edtica, este pa\u00eds \u00e9<br \/>\numa cavalari\u00e7a sem palafreneiros; e se por acaso a fama, que os romanos<br \/>\ns\u00e1bios confundiam com o falso boato, louva os trabalhos de um pintor,<br \/>\nele como Mantegna, ele como Leonardo Da Vinci, ele como todos os grandes,<br \/>\ntem uma vida de tormentos, de sacrif\u00edcios, de ataque aos seus processos;<br \/>\ne jamais se julga recompensado pelo governo, pelo pa\u00eds, pelos contempor\u00e2neos,<br \/>\nde ter nascido numa terra de bugres e numa \u00e9poca de revoltante mercantilismo.<br \/>\n\u00c9 fatigante e talvez pouco \u00fatil. Um homem absoluta, totalmente<br \/>\nnot\u00e1vel s\u00f3 \u00e9 aceit\u00e1vel atrav\u00e9s do cart\u00e3o-postal<br \/>\n\u2013 porque afinal fala de si, mas fala pouco. Foi, pois, com susto que<br \/>\nontem, domingo, recebi a proposta de um amigo:<\/p>\n<p>\u2013 Vamos ver as grandes decora\u00e7\u00f5es dos pintores da cidade?<\/p>\n<p>\u2013 Heim? Est\u00e1s decididamente desvairando. As grandes decora\u00e7\u00f5es?<br \/>\nUma visita aos ateliers?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o; a outros locais.<\/p>\n<p>\u2013 E havemos de encontrar celebridades?<\/p>\n<p>\u2013 Pois est\u00e1 claro. N\u00e3o h\u00e1 cidade no mundo onde<br \/>\nhaja mais gente c\u00e9lebre que a cidade de S. Sebasti\u00e3o. Mas n\u00e3o<br \/>\npenses que te arrasto a ver algum V\u00edtor Meireles, alguns Castagnetto<br \/>\nap\u00f3crifos ou os trabalhos aclamados pelos jornais. N\u00e3o! N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 isso. Vamos ver, levemente e sem custo, os pintores an\u00f4nimos,<br \/>\nos pintores da rua, os her\u00f3is da tabuleta, os artistas da arte pr\u00e1tica.<br \/>\n\u00c9 curios\u00edssimo. H\u00e1 li\u00e7\u00f5es de filosofia<br \/>\nnos borr\u00f5es sem perspectiva e nas &#8220;botas&#8221; sem desenho. Encontrar\u00e1s<br \/>\na confus\u00e3o da popula\u00e7a, os germes de todos os g\u00eaneros,<br \/>\ntodas as escolas e, por fim, muito menos vaidade que na arte privilegiada.<\/p>\n<p>Era domingo, dia em que o trabalho \u00e9 castigar o corpo com as divers\u00f5es<br \/>\nmenos divertidas. Sa\u00ed, devagar e a p\u00e9, a visitar bodegas reles,<br \/>\nlugares bizarros, botequins inconceb\u00edveis, e vim arrasado de confus\u00e3o<br \/>\ncerebral e de encanto. Quantos pintores pensa a cidade que possui? A estat\u00edstica<br \/>\nda Escola \u00e9 fals\u00edssima. Em cada canto de rua depara a gente<br \/>\ncom a obra de um pintor, cuja exist\u00eancia \u00e9 ignorada por toda<br \/>\na gente.<\/p>\n<p>O meu amigo come\u00e7ou por pequenas amostras da arte popular, que eu<br \/>\nvira sempre sem prestar aten\u00e7\u00e3o: os macacos trepados em pipas<br \/>\nde parati, homens de olho esbugalhado mostrando, sob o verde das parreiras,<br \/>\na excel\u00eancia de um quinto de vinho, umas mulheres com molhos de trigo<br \/>\nna m\u00e3o apainelando interiores de padarias e talvez recordando Ceres,<br \/>\na fecunda. Depois iniciou a parte segunda:<\/p>\n<p>\u2013 Vamos entrar agora nas composi\u00e7\u00f5es das marinhas. Os<br \/>\npintores populares afirmam a sua individualidade pintando a Guanabara e a<br \/>\npraia de Icara\u00ed. Por essas pinturas \u00e9 que se v\u00ea quanto<br \/>\no &#8220;ponto de vista&#8221; influi. H\u00e1 o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar<br \/>\nredondo como uma bola, no Est\u00e1cio; h\u00e1 o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar<br \/>\ndo feitio de uma valise no Andara\u00ed; e encontras o mesmo P\u00e3o,<br \/>\ncomprido e fino, em S. Crist\u00f3v\u00e3o. O povo tem uma alta no\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos nossos destinos navais; a sua opini\u00e3o \u00e9 exatamente a mesma<br \/>\nque a do ministro da marinha \u2013 rumo ao mar! Por isso, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nGuanabara pintada pelos cen\u00f3grafos da cal\u00e7ada que n\u00e3o<br \/>\ntenha \u00e0 entrada da barra um vaso de guerra. A parreira como o b\u00eabado<br \/>\ntem uma conclus\u00e3o fatal: carga ao mar!<\/p>\n<p>\u2013 E depois?<\/p>\n<p>\u2013 Depois entramos nas grandes telas, as grandes telas que a cidade<br \/>\nignora.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos na Rua do N\u00fancio. O meu excelente amigo fez-me entrar<br \/>\nnum botequim da esquina da Rua de S. Pedro e os meus olhos logo se pregaram<br \/>\nna parede da casa, alheio ao ru\u00eddo, ao vozear, ao estr\u00e9pito<br \/>\nda gente que entrava e sa\u00eda. Eu estava diante de uma grande pintura<br \/>\nmural comemorativa. O pintor, naturalmente agitado pelo orgulho que se apossou<br \/>\nde todos n\u00f3s ao vermos a Avenida Central, resolveu pint\u00e1-la,<br \/>\ntorn\u00e1-la imorredoura, da Rua do Ouvidor \u00e0 Prainha. A concep\u00e7\u00e3o<br \/>\nera grandiosa, o assunto era vasto\u2013o advento do nosso progresso estatelava-se<br \/>\nali para todo o sempre, enquanto n\u00e3o se demolir a Rua do N\u00fancio.<br \/>\nReparei que a Casa Colombo e o Primeiro Barateiro eram de uma nitidez de primeiro<br \/>\nplano e que aos poucos, em tal arejamento, os pr\u00e9dios iam fugindo numa<br \/>\nconfus\u00e3o precipitada.<\/p>\n<p>Talvez esse grande trabalho tivesse defeitos. Os dos &#8220;sal\u00f5es&#8221;<br \/>\nde toda a parte do mundo tamb\u00e9m os t\u00eam. Mas quantos artigos admir\u00e1veis<br \/>\num cr\u00edtico poderia escrever a respeito! Havia decerto naquele deboche<br \/>\nde casaria o in\u00edcio da pintura moral, da pintura intuitiva, da pintura<br \/>\npol\u00edtica, da pintura aleg\u00f3rica&#8230; Indaguei, rouco:<\/p>\n<p>\u2013 Quem fez isto?<\/p>\n<p>\u2013 O Paiva, pintor cuja fama \u00e9 extraordin\u00e1ria entre os<br \/>\ncolegas.<\/p>\n<p>Voltei-me e de novo fiquei maravilhado. Aquele caf\u00e9 n\u00e3o era<br \/>\ncaf\u00e9, era uma catedral dos grandes fatos. Na parede fronteira, entre<br \/>\nondas tremendas de um mar muito cinzento rendado de branco, alguns destroyers<br \/>\nrasgavam o azul denso do c\u00e9u com proje\u00e7\u00f5es de holofotes<br \/>\ncolossais.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 coisas piores nos museus.<\/p>\n<p>\u2013 Mas isto \u00e9 digno de uma pinacoteca naval.<\/p>\n<p>O amador, que \u00e9 o dono do botequim, e o artista cheio de imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque \u00e9 o Paiva, n\u00e3o se haviam contentado, por\u00e9m, com essas<br \/>\nduas vis\u00f5es do progresso: a avenida e o holofote. Na outra parede havia<br \/>\nmais uma verdadeira orgia de paisagem: grutas, cascatas, rios marginados de<br \/>\nflores vermelhas, palmas emaranhadas, um pandem\u00f4nio de cores.<\/p>\n<p>Quando me viu inteiramente assombrado, esse excelente amigo levou-me ao caf\u00e9<br \/>\nPara\u00edso, na Avenida Floriano.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 viste a arte-reclamo, a arte social. Vamos ver a arte patri\u00f3tica.<\/p>\n<p>\u2013 E depois?<\/p>\n<p>\u2013 Depois ainda h\u00e1s de ver os artistas que se repetem, a arte<br \/>\nrom\u00e2ntica e infernal.<\/p>\n<p>A arte patri\u00f3tica, ou antes regional, dos pintores da cal\u00e7ada<br \/>\n\u00e9 o desejo, ali\u00e1s louv\u00e1vel, de reproduzir nas paredes<br \/>\ntrechos de aldeia, trechos do estado, trechos da terra em que o propriet\u00e1rio<br \/>\nda casa, ou o pintor, viu a luz. No caf\u00e9 Para\u00edso, o artista,<br \/>\nque se chama Viana, pintou a cidade de Louren\u00e7o Marques, vista em conjunto,<br \/>\nmas, como qualquer sentimento de amor naquela elabora\u00e7\u00e3o dif\u00edcil<br \/>\nbrotasse de s\u00fabito no seu cora\u00e7\u00e3o, Viana colocou \u00e0<br \/>\nentrada de Louren\u00e7o Marques um coura\u00e7ado desfraldando ao vento<br \/>\nafricano o pavilh\u00e3o do Brasil. Dessas pinturas h\u00e1 uma infinidade<br \/>\n\u2013 e eu vi n\u00e3o sei quantas pontes met\u00e1licas do Douro ao<br \/>\natravessar algumas ruas.<\/p>\n<p>\u2013 Entremos neste botequim, aqui \u00e0 esquina da Rua da Concei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVais conhecer o Colon, pintor espanhol. Colon tem estilo: este painel \u00e9<br \/>\num exemplo. Que v\u00eas? Uma paisagem campestre, arvoredo muito verde, e<br \/>\nl\u00e1 ao fundo um castelo com a bandeira da nacionalidade do dono da casa.<br \/>\n\u00c9 sempre assim. H\u00e1 outros mais curiosos. O Oliveira completa<br \/>\nos trabalhos sempre com cortinas iguais \u00e0s que se usavam nos antigos<br \/>\npanos de boca dos teatros. O trabalho \u00e9 o abuso do azul, desde o azul<br \/>\nclaro ao azul negro.<\/p>\n<p>\u2013 Mas est\u00e1s a contar os tiques de grandes pintores.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o parecidos. Eu conhe\u00e7o muitos mais: o velho Marcelino,<br \/>\nque tem a especialidade de pintar os homens no pif\u00e3o; o Henrique da<br \/>\nGama, o primeiro dos nossos fingidores, que faz um metro de m\u00e1rmore<br \/>\nem cada cinco minutos; o Francisco de Paula, que adora os papagaios e faz<br \/>\ncaricaturas; o Malheiros, que re\u00fane gatos, cachorros, cascatas e caboclos<br \/>\nem cada tela. \u00c9 o ideal da arte! S\u00e3o eles os autores dos estandartes<br \/>\ndos cord\u00f5es; s\u00e3o eles que enriquecem! J\u00e1 entraste num<br \/>\ndesses ateliers, no Cunha dos PP, no Garcia Fernandes da Rua do Senhor dos<br \/>\nPassos? Pois \u00e9 como um desses studios da Flandres antiga, em que os<br \/>\ngrandes artistas assinavam os trabalhos dos disc\u00edpulos, \u00e9 como<br \/>\nse entrasse na grande manufatura da pintura assinada. Vamos ao Cunha.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, n\u00e3o, por hoje basta.<\/p>\n<p>\u2013 Mas pelo menos vem admirar na Rua Frei Caneca 1660 famoso trabalho<br \/>\ndo Xavier.<\/p>\n<p>\u2013 O famoso trabalho?<\/p>\n<p>Se os outros, que n\u00e3o eram famosos e n\u00e3o eram de Xavier, tanta<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o me haviam causado, imaginem esse, sendo de Xavier<br \/>\ne sendo famoso. Precipitei-me num bonde, saltei comovido como se me assegurassem<br \/>\nque eu iria ver a Joconda de Da Vinci, e, quando os meus olhos s\u00f4fregos<br \/>\npousaram na cria\u00e7\u00e3o do pintor, uma exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nabriu-me os l\u00e1bios e os bra\u00e7os. Era simplesmente um inc\u00eandio,<br \/>\no inc\u00eandio de uma cidade inteira, a chama ardente, o fogo queimando,<br \/>\ntorcendo, destruindo, desmoronando a cidade do v\u00edcio. Tudo desaparecia<br \/>\nnuma violenta\u00e7\u00e3o rubra de fornalha candente. Seria o fogo sagrado,<br \/>\na purificar como em Gomorra, ou o fogo da lux\u00faria, o s\u00edmbolo<br \/>\ndevastador das paix\u00f5es carnais, a reprodu\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica<br \/>\nde como a licen\u00e7a dos instintos devora e queima a vida?<\/p>\n<p>Xavier fora mais longe. Aquele mar de inc\u00eandio, aquele braseiro desesperado<br \/>\ne perene era a fixa\u00e7\u00e3o do fogo maldito da lux\u00faria, era<br \/>\no fogo de Satan\u00e1s, porque Satan\u00e1s, em pessoa, no primeiro plano,<br \/>\ncompletamente cor de pitanga, com as pernas tortas e o ar furioso, abatia<br \/>\na seus p\u00e9s, vestida de azul celeste, uma pobre senhora.<\/p>\n<p>Esse \u00faltimo painel punha-me inteiramente tonto. Mas n\u00e3o \u00e9<br \/>\numa das grandes preocupa\u00e7\u00f5es da Arte comover os mortais, comov\u00ea-los<br \/>\nat\u00e9 mais n\u00e3o poder? Xavier comovia, eu estava comovido. Nem<br \/>\nsempre \u00e9 poss\u00edvel obter tanta coisa nas exposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nanuais. O meu amigo levou o excesso a apresentar-me o ilustre artista.<\/p>\n<p>\u2013 Aqui est\u00e1 o Xavier.<\/p>\n<p>Voltei-me.<\/p>\n<p>\u2013 Os meus sinceros cumprimentos. H\u00e1 sopro rom\u00e2ntico, h\u00e1<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o, h\u00e1 ard\u00eancia nesta decora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfiz com o ar dogm\u00e1tico dos cr\u00edticos ignorantes de pintura.<\/p>\n<p>Ingenuamente, Xavier olhou para mim e, primeiro homem que n\u00e3o se julga<br \/>\nc\u00e9lebre neste pa\u00eds, balbuciou:<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o sei nada&#8230;Isso est\u00e1 para a\u00ed&#8230;Se soubesse<br \/>\nfazer alguma coisa de valor at\u00e9 ficava triste \u2013 s\u00f3 com<br \/>\na id\u00e9ia de que um dia talvez a levassem do meu pa\u00eds&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"8\"><\/a>Tabuletas<\/h4>\n<p>Foi um poeta que considerou as tabuletas \u2013 os bras\u00f5es da rua.<br \/>\nAs tabuletas n\u00e3o eram para a sua vis\u00e3o apurada um encanto, uma<br \/>\nfaceirice, que a necessidade e o reclamo incrustaram na via p\u00fablica;<br \/>\neram os escudos de uma complicada her\u00e1ldica urbana, do armorial da<br \/>\ndemocracia e do agudo arrivismo dos s\u00e9culos. Desde que um homem realiza<br \/>\na sua obra \u2013 a termina\u00e7\u00e3o de uma epop\u00e9ia ou a abertura<br \/>\nde uma casa comercial \u2013 imediatamente o homem batiza-a. No come\u00e7o<br \/>\nda vida, por instinto, guiado pelos deuses, a sua id\u00e9ia foi logo a<br \/>\ntabuleta. Quem inventou a tabuleta? Nigu\u00e9m sabe.<\/p>\n<p>\u00c9 o mesmo que perguntar quem ensinou a crian\u00e7a a gritar quando<br \/>\ntem fome. J\u00e1 no Oriente elas existiam, j\u00e1 em Atenas, j\u00e1<br \/>\nem Roma, simples, modestas, mas sempre reclamistas. Depois, como era de prever,<br \/>\nevolu\u00edram: evolu\u00edram de acordo com a evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo homem, e hoje, que se fazem concursos de tabuletas e h\u00e1 tabuletas<br \/>\ncompostas por artistas c\u00e9lebres, hoje, na \u00e9poca em que o reclamo<br \/>\ndomina o asfalto, as tabuletas s\u00e3o como reflexos de almas, s\u00e3o<br \/>\ntodo um tratado de psicologia urbana. Que desejamos todos n\u00f3s? Aparecer,<br \/>\nvender, ganhar.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a tomou propor\u00e7\u00f5es tremendas, cresceu, alastrou-se,<br \/>\ninfeccionou todos os meios, como um poder corrosivo e fatal. Os pr\u00f3prios<br \/>\ndoentes tamb\u00e9m a exploram numa f\u00faria convulsiva de contamina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nReparai nos jornais e nas revistas. Andam repletos de fotogravuras e de nomes<br \/>\n\u2013nomes e caras, muitos nomes e muitas caras! A gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nfaz por conta pr\u00f3pria a sua identifica\u00e7\u00e3o antropom\u00e9trica<br \/>\npara o futuro. Mas o curioso \u00e9 ver como a publica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesses nomes \u00e9 pedida, \u00e9 implorada nas salas das reda\u00e7\u00f5es.<br \/>\nTodos os pretextos s\u00e3o plaus\u00edveis, desde a festa a que se n\u00e3o<br \/>\nfoi at\u00e9 \u00e0 mol\u00e9stia inconveniente de que foi operada com<br \/>\nfeliz \u00eaxito a esposa. O interessante \u00e9 observar como se almeja<br \/>\num retrato nas folhas, desde as escuras alamedas do jardim do crime at\u00e9<br \/>\n\u00e0s garden-parties de caridade, desde os criminosos \u00e0s almas<br \/>\nang\u00e9licas que s\u00f3 pensam no bem. Aparecer! Aparecer!<\/p>\n<p>E na rua, que se v\u00ea? O senhor do mundo, o reclamo. Em cada pra\u00e7a<br \/>\nonde demoramos os nossos passos, nas janelas do alto dos telhados, em mudos<br \/>\njogos de luz, os cinemat\u00f3grafos e as lanternas m\u00e1gicas gritam<br \/>\natrav\u00e9s do \u00e9cran de um pano qualquer o reclamo de melhor alfaiate,<br \/>\ndo melhor livreiro, do melhor rev\u00f3lver. Basta levantar a cabe\u00e7a.<br \/>\nAs tabuletas contam a nossa vida. E nessa babel de apelos \u00e0 aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\nressaltam, chocam, vivem estranhamente os reclamos, extravagantes, as tabuletas<br \/>\ndisparatadas. Quantas haver\u00e1 no Rio? Mil, duas mil, que nos fazem rir.<br \/>\nVai um homem num bonde e v\u00ea de repente, encimando duas portas em grossas<br \/>\nletras estas palavras: Armaz\u00e9m Teoria.<\/p>\n<p>Teoria de que, senhor Deus? H\u00e1 um outro t\u00e3o bizarro quanto<br \/>\neste: Casa Tamoio, Grande Armaz\u00e9m de l\u00edquidos comest\u00edveis<br \/>\ne miudezas. Como saber que l\u00edquidos ser\u00e3o esses comest\u00edveis,<br \/>\nde que a falta de uma v\u00edrgula fez um assombro? Faltou a esse pintor<br \/>\no esmero da padaria do mesmo nome que fez a sua tabuleta em letras de antigo<br \/>\nmissal para mostrar como se esmera, ou talvez o descaro deste outro: o maduro<br \/>\ncura infalivelmente todas as mol\u00e9stias nervosas&#8230;<\/p>\n<p>Mas as tabuletas extravagantes s\u00e3o as do pequeno com\u00e9rcio,<br \/>\nsem a influ\u00eancia de Paris, a importa\u00e7\u00e3o direta e caixeiros<br \/>\nelegantes de len\u00e7o no punho: as vendas, esta cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional, os botequins baratos, os a\u00e7ougues, os bazares, as hospedarias&#8230;Na<br \/>\nRua do Catete h\u00e1 uma venda que se intitula O Le\u00e3o na Gruta.<br \/>\nPor qu\u00ea? Que tem a batata com o le\u00e3o que nem ao menos \u00e9<br \/>\nconhecido de Daniel? Defronte dessa venda h\u00e1, entretanto, um caf\u00e9<br \/>\nque \u00e9 apenas Caf\u00e9 de Ambos Mundos. E se n\u00e3o vos bastar<br \/>\num caf\u00e9 t\u00e3o completo, a\u00ed temos um mais modesto, na Rua<br \/>\nda Sa\u00fade o Caf\u00e9 B.T.Q. E sabem que vem a ser o B.T.Q., segundo<br \/>\no propriet\u00e1rio? Botequim pelas iniciais! Essa nevrose das abrevia\u00e7\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o atacou felizmente o dono da casa de pasto da Rua de S. Crist\u00f3v\u00e3o,<br \/>\nque encheu a parede com as seguintes palavras: Restaurant dos Dois lrm\u00e3os<br \/>\nUnidos Por&#8230;<\/p>\n<p>Unidos por&#8230; Pelo qu\u00ea? Pelo amor, pelo \u00f3dio, pela vit\u00f3ria?<br \/>\nN\u00e3o! Unidos Portugueses. Apenas faltou a parede e ficou s\u00f3 o<br \/>\npor \u2013 para atestar que havia boa vontade. A quest\u00e3o, \u00e0s<br \/>\nvezes, \u00e9 de haver muita coisa na parede. Assim \u00e9 que uma casa<br \/>\nda Rua do Senhor dos Passos tem este an\u00fancio: Dep\u00f3sito de aves<br \/>\nde penas. \u00c9 pouco? Um outro assegura: Dep\u00f3sito de galinhas,<br \/>\novos e outras aves de penas \u2013 o que \u00e9, evidentemente, muito mais.<br \/>\nTal excesso chega a prejudicar, e andasse a higiene a olhar tabuletas, of\u00edcio<br \/>\nde vadiagem incorrig\u00edvel, mandaria fechar uma casa de frutas da Rua<br \/>\nSete, que pespegou esta inconveni\u00eancia: Grande sortimento de frutas<br \/>\nverdes e secas.<\/p>\n<p>A origem desses t\u00edtulos \u00e9 sempre curiosa. Uma casa chama-se<br \/>\nPr\u00edncipe da Beira porque o seu propriet\u00e1rio \u00e9 da Beira,<br \/>\numa venda de Campo Grande tem o t\u00edtulo feroz de Grande Cabace\u00edro<br \/>\nporque perto h\u00e1 uma planta\u00e7\u00e3o de caba\u00e7as; h\u00e1<br \/>\na\u00e7ougue Alian\u00e7a e Fidelidade porque \u00e9 um h\u00e1bito<br \/>\np\u00f4r alian\u00e7a como t\u00edtulo com duas m\u00e3os apertadas<br \/>\ne fidelidade com um cachorro de l\u00edngua de fora, bem no meio da parede.<br \/>\nMuitos tomam o t\u00edtulo de pe\u00e7as de teatro: Colchoaria Rio Nu,<br \/>\nCasa Guanabarina, venda Cabana do Pai Tom\u00e1s. A coisa, por\u00e9m,<br \/>\ntoma propor\u00e7\u00f5es assombrosas quando o propriet\u00e1rio \u00e9<br \/>\npern\u00f3stico. Assim, na Rua Visconde do Rio Branco h\u00e1 um armaz\u00e9m<br \/>\nPlaneta Provis\u00f3rio, e noutra rua Planeta dos Dois Destinos, um t\u00edtulo<br \/>\nocultista sibilino; noCatete, um A\u00e7ougue Celestial. Essa depend\u00eancia<br \/>\ndo firmamento na terra produz um p\u00e9ssimo efeito e os anjos t\u00eam<br \/>\ncada bra\u00e7o de meter medo a uma legi\u00e3o da pol\u00edcia. Outro,<br \/>\npor\u00e9m, \u00e9 o A\u00e7ougue Despique dos Invejosos, e h\u00e1<br \/>\nna Rua da Constitui\u00e7\u00e3o uma casa de bilhetes intitulada Casa<br \/>\nIdealista, naturalmente porque quem compra bilhetes vive no mundo da lua,<br \/>\ne h\u00e1 uma casa de coroas, o L\u00edrio Imperme\u00e1vel e uma outra,<br \/>\nAo Vulc\u00e3o das 49 Flores. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3. Uns madeireiros<br \/>\npuseram no seu dep\u00f3sito este letreiro filos\u00f3fico, que naturalmente<br \/>\nincomodar\u00e1 o arcebispado: Madeireiros e Materialistas; e h\u00e1<br \/>\numa taberna muito ordin\u00e1ria, centro de malandr\u00f5es, em Sapopemba,<br \/>\nque se apossou de um t\u00edtulo exclusivamente nefelibata: A Tebaida&#8230;<\/p>\n<p>E os afrancesados que denominam as casas de Au Bijou de la Mode; Au Dernier<br \/>\nChic, Queima Chefe, Maison Moderne da Cidade Nova? E os patri\u00f3ticos<br \/>\nque fazem quest\u00e3o da casa de pasto ser 1o de Dezembro, do a\u00e7ougue<br \/>\nser 1o de Janeiro? do restaurante ser Lu\u00eds de Cam\u00f5es ou Fagundes<br \/>\nVarela? E os engrossadores que intitulam as casas de Afonso Pena durante quatro<br \/>\nanos? E os engra\u00e7ados, os da laracha boa, que fazem as tabuletas propositalmente<br \/>\nerradas, como um negociante da Rua Chile: Colxoaria de primera Colx\u00e3es<br \/>\ncontra purgas e precevejos?<\/p>\n<p>Mas as tabuletas t\u00eam uma estranha filosofia; as tabuletas fazem pensar.<br \/>\nH\u00e1, por exemplo, na Rua Senador Eus\u00e9bio, perto da ex-ponte dos<br \/>\nMarinheiros, uma hospedaria com este t\u00edtulo: Hotel Livre C\u00e2mbio.<br \/>\nQuanta coisa pensa a gente conhecendo o neg\u00f3cio e olhando a tabuleta!<\/p>\n<p>A s\u00e9rie \u00e9 nesse ramo curios\u00edssima. H\u00e1 o Locomotora,<br \/>\nque \u00e9 naturalmente r\u00e1pido; h\u00e1 Os Dois Destinos, h\u00e1<br \/>\na Lua de Prata, h\u00e1 o ir\u00f4nico Fidelidade, tendo pintado uma senhora<br \/>\na pender dos l\u00e1bios de um senhor&#8230; Quantos!<\/p>\n<p>Na Rua Dr. Jo\u00e3o Ricardo h\u00e1 um restaurante com este t\u00edtulo:<br \/>\nRestaura\u00e7\u00e3o da Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2013 Por que &#8220;restaura\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria&#8221;?<br \/>\nindagamos do propriet\u00e1rio, o Sr. Cola\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 Eu explico, diz ele. H\u00e1 cerca de 30 anos, os espanh\u00f3is<br \/>\ninvadiram a ilha Terceira. Como eram poucos os soldados para repelirem o castelhano,<br \/>\nos lavradores soltaram todos os touros bravos na praia da Vit\u00f3ria e<br \/>\ndessa maneira os espanh\u00f3is fugiram. Os paraguaios resistiram tamb\u00e9m<br \/>\ntanto tempo por causa dos touros importados da Argentina.<\/p>\n<p>\u2013 Tudo tem uma explica\u00e7\u00e3o neste mundo!<\/p>\n<p>\u2013 All right!<\/p>\n<p>Alll right, sim! Os t\u00edtulos das casas, por mais absurdos, como Filhos<br \/>\ndo C\u00e9u, por exemplo, t\u00eam uma explica\u00e7\u00e3o que convence.<br \/>\nH\u00e1 os nefelibatas, os patri\u00f3ticos 19 de Janeiro, d. Carlos;<br \/>\no diplom\u00e1tico Uni\u00e3o Ib\u00e9rica, os que engrossam uma certa<br \/>\nclasse, e at\u00e9 um, na Rua Frei Caneca, pertencente ao riqu\u00edssimo<br \/>\nPinho, cujo t\u00edtulo \u00e9 uma profunda li\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica.<br \/>\nO hotel intitula-se Com\u00e9rcio e Arte&#8230;<\/p>\n<p>Os pintores desse g\u00eanero criaram uma especialidade: s\u00e3o os moralistas<br \/>\nda decad\u00eancia e usam tamb\u00e9m tabuletas. Um mesmo, talvez por ter<br \/>\nsofrido muito de cara alegre, p\u00f4s na Rua de S. Pedro este an\u00fancio:<br \/>\nFulano de Tal, Pintor de Fingimentos. E realmente eles aturam tanto dos propriet\u00e1rios!<br \/>\nUm deles, rapazito inteligente, era encarregado de fazer a fachada da Casa<br \/>\ndo Pinto. Fez as letras e pintou um pintainho. O propriet\u00e1rio enfureceu:<\/p>\n<p>\u2013 Que tolice \u00e9 esta?<\/p>\n<p>\u2013 Um pinto.<\/p>\n<p>\u2013 E que tenho eu com isso?<\/p>\n<p>\u2013 O senhor n\u00e3o \u00e9 Pinto?<\/p>\n<p>\u2013 O meu nome \u00e9 Pinto, mas eu sou galo, muito galo.<\/p>\n<p>Pinte-me a\u00ed um galo \u00e0s direitas!<\/p>\n<p>E outro, encarregado de fazer as letras de uma casa de m\u00f3veis, vendem-se<br \/>\nm\u00f3veis quando o negociante veio a ele:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 maluco ou a mangar comigo!<\/p>\n<p>\u2013 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Que plural \u00e9 esse? Vendem-se, vendem-se&#8230; Quem vende sou<br \/>\neu e sem s\u00f3cios, ouviu? Corte o m, ande!<\/p>\n<p>As letras custam dinheiro, custam aos pobres pintores&#8230; O rapaz ficou sem<br \/>\no m que fizera com tanta per\u00edcia. Mas tamb\u00e9m, por que estragar?<br \/>\nEm S. Crist\u00f3v\u00e3o havia uma Pharmacia S. Crist\u00f3v\u00e3o.<br \/>\nDesapareceu. Foi a primeira que fez isso na terra, desde que h\u00e1 farm\u00e1cias.<br \/>\nForam para l\u00e1 outros negociantes. Como aproveitar algumas letras? Lembraram<br \/>\nfoco, e, como a Academia n\u00e3o chega os seus cuidados ortogr\u00e1ficos<br \/>\n\u00e0s tabuletas, arrumaram Phoco de S. Crist\u00f3v\u00e3o. Estava<br \/>\numa tabuleta nova s\u00f3 com tr\u00eas letras novas.<\/p>\n<p>Os pintores de tabuletas resignam-se. Eles, os escritores desse grande livro<br \/>\ncolorido da cidade, t\u00eam a paci\u00eancia lend\u00e1ria dos iluministas<br \/>\nmedievos, eles fazem parte da grande massa para que o Reclamo foi criado \u2013<br \/>\ns\u00e3o pobres. Talvez por isso, um mais ousado, de acordo com certo a\u00e7ougueiro<br \/>\nantigo da Pra\u00e7a da Aclama\u00e7\u00e3o, pintando uma vez o letreiro<br \/>\nA\u00e7ougue Pai dos Pobres, p\u00f4s bem no meio uma cabe\u00e7a de<br \/>\nboi colossal, arregalando os olhos, que Homero achava belos, como o s\u00edmbolo<br \/>\nde todas as resigna\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>E \u00e9 decerto este o lado mais triste das tabuletas \u2013 bras\u00f5es<br \/>\nda democracia, escudos bizarros da cidade.<\/p>\n<h4><a name=\"9\"><\/a>Vis\u00f5es d&#8217;\u00d3pio<\/h4>\n<p>\u2013 Os comedores de \u00f3pio?<\/p>\n<p>Era \u00e0s seis da tarde, defronte do mar. J\u00e1 o sol morrera e os<br \/>\nespa\u00e7os eram p\u00e1lidos e azuis. As linhas da cidade se ado\u00e7avam<br \/>\nna claridade de opala da tarde maravilhosa. Ao longe, a bruma envolvia as<br \/>\nfortalezas, escalava os c\u00e9us, cortava o horizonte numa longa barra<br \/>\ncor de malva e, emergindo dessa agonia de cores, mais negros ou mais vagos,<br \/>\nos montes, o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, S. Bento, o Castelo apareciam<br \/>\nnum tranq\u00fcilo esplendor. N\u00f3s est\u00e1vamos em Santa Luzia,<br \/>\ndefronte da Miseric\u00f3rdia, onde t\u00ednhamos ido ver um pobre rapaz<br \/>\neter\u00f4mano, encontrado \u00e0 noite com o cr\u00e2nio partido numa<br \/>\nrua qualquer. A aragem rumorejava em cima a trama das grandes mangueiras folhudas,<br \/>\ndos tamarindeiros e dos flamboyants, e a paisagem tinha um ar de sonho. N\u00e3o<br \/>\nera a praia dos pescadores e dos vagabundos t\u00e3o nossa conhecida, era<br \/>\num trecho de Argel, de Nice, um panorama de vis\u00e3o sob as estrelas doiradas.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, dizia-me o amigo com quem eu estava, o \u00e9ter \u00e9<br \/>\num v\u00edcio que nos evola, um v\u00edcio de aristocracia. Eu conhe\u00e7o<br \/>\noutros mais brutais \u2013 o \u00f3pio, o desespero do \u00f3pio.<\/p>\n<p>\u2013 Mas aqui!<\/p>\n<p>\u2013 Aqui. Nunca freq\u00fcentou os chins das ruas da cidade velha, nunca<br \/>\nconversou com essas caras cor de goma que param detr\u00e1s do Necrot\u00e9rio<br \/>\ne s\u00e3o perseguidos, a pedrada, pelos ciganos exploradores? Os senhores<br \/>\nn\u00e3o conhecem esta grande cidade que Est\u00e1cio de S\u00e1 defendeu<br \/>\num dia dos franceses. O Rio \u00e9 o porto de mar, \u00e9 cosm\u00f3polis<br \/>\nnum caleidosc\u00f3pio, \u00e9 a praia com a vaza que o oceano lhe traz.<\/p>\n<p>H\u00e1 de tudo \u2013 v\u00edcios, horrores, gente de variados matizes,<br \/>\nniilistas rumaicos, professores russos na mis\u00e9ria, anarquistas espanh\u00f3is,<br \/>\nciganos debochados. Todas as ra\u00e7as trazem qualidades que aqui desabrocham<br \/>\nnuma seiva delirante. Porto de mar, meu caro! Os chineses s\u00e3o o resto<br \/>\nda famosa imigra\u00e7\u00e3o, vendem peixe na praia e vivem entre a Rua<br \/>\nda Miseric\u00f3rdia e a Rua d. Manuel. As 5 da tarde deixam o trabalho<br \/>\ne metem-se em casa para as tremendas fumeries. Quer v\u00ea-los agora?<\/p>\n<p>N\u00e3o resisti. O meu amigo, a p\u00e9, num passo calmo, ia sentenciando:<\/p>\n<p>\u2013 Tenho a indica\u00e7\u00e3o de quatro ou cinco casas. N\u00f3s<br \/>\nentramos como fornecedores de \u00f3pio. Voc\u00ea veio de Londres, tem<br \/>\num quilo, cerca de 600 gramas de \u00f3pio de Bombaim. Eu levo as amostras.<\/p>\n<p>Caminh\u00e1vamos pela Rua da Miseric\u00f3rdia \u00e0quela hora cheia<br \/>\nde um movimento febril, nos corredores das hospedarias, \u00e0 porta dos<br \/>\nbotequins, nas furnas das estalagens, \u00e0 entrada dos velhos pr\u00e9dios<br \/>\nem ru\u00ednas.<\/p>\n<p>O meu amigo dobrou uma esquina. Est\u00e1vamos no Beco dos Ferreiros, uma<br \/>\nruela de cinco palmos de largura, com casas de dois andares, velhas e a cair.<br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o desse beco mora em magotes em cada quarto e pendura<br \/>\na roupa lavada em bambus nas janelas, de modo que a gente tem a perene impress\u00e3o<br \/>\nde chitas festivas a flamular no alto. H\u00e1 portas de hospedarias sempre<br \/>\nfechadas, linhas de fachadas tombando, e a mis\u00e9ria besunta de sujo<br \/>\ne de gordura as antigas pinturas. Um cheiro nauseabundo paira nessa ruela<br \/>\ndesconhecida.<\/p>\n<p>O meu amigo p\u00e1ra no no 19, uma r\u00f3tula, bate. H\u00e1 uma<br \/>\ncomplica\u00e7\u00e3o de vozes no interior, e, passados instantes, ouve-se<br \/>\nalgu\u00e9m gritar:<\/p>\n<p>\u2013 Que quer?<\/p>\n<p>\u2013 Jo\u00e3o, Jo\u00e3o est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o e Afonso s\u00e3o dois nomes habituais entre os chins ocidentalizados.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o n\u00e3o mora mais&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Venha abrir, brada o meu guia com autoridade.<\/p>\n<p>Imediatamente a r\u00f3tula descerra-se e aparece, como tapando a fenda,<br \/>\numa figura amarela, cor de gema de ovo batida, com um riso idiota na face,<br \/>\num riso de pavor que lhe deixa ver a dentu\u00e7a suja e negra.<\/p>\n<p>\u2013 Que quer, senhor?<\/p>\n<p>Tomamos um ar de bonomia e falando como a querer enterrar as palavras naquele<br \/>\ncr\u00e2nio j\u00e1 trabucado.<\/p>\n<p>\u2013 Chego de Londres, com um quilo de \u00f3pio, bom \u00f3pio.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3pio?&#8230; N\u00f3s compramos em farm\u00e1cia&#8230; Rua S.<br \/>\nPedro&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Vendo barato.<\/p>\n<p>Os olhos do celeste arregalam-se amarelos, na amarelid\u00e3o da face.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o compreende.<\/p>\n<p>\u2013 Decida, homem&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Dinheiro, n\u00e3o tem dinheiro.<\/p>\n<p>Desconfiar\u00e1 ele de n\u00f3s, n\u00e3o acreditar\u00e1 nas nossas<br \/>\npalavras? O mesmo sorriso de medo lhe escancara a boca e l\u00e1 dentro<br \/>\nh\u00e1 cochichos, vozes l\u00edvidas&#8230;O meu amigo bate-lhe no ombro.<\/p>\n<p>\u2013 Deixa ver a casa.<\/p>\n<p>Ele recua tr\u00eamulo, agarrando a r\u00f3tula com as duas m\u00e3os,<br \/>\ndispara para dentro um fluxo cuspinhado de palavrinhas r\u00e1pidas. Outras<br \/>\npalavrinhas em tonalidades esquisitas respondem como pizzicatti de instrumentos<br \/>\nde madeira, e a cara reaparece com o sorriso emplastrado:<\/p>\n<p>\u2013 Pode entrar, meu senhor.<\/p>\n<p>Entramos de esguelha, e logo a r\u00f3tula se fecha num quadro in\u00e9dito.<br \/>\nO no 19 do Beco dos Ferreiros \u00e9 a vis\u00e3o oriental das l\u00f4bregas<br \/>\nbodegas de Xangai. H\u00e1 uma vasta sala estreita e comprida, inteiramente<br \/>\nem treva. A atmosfera pesada, oleosa, quase sufoca. Dois renques de mesas,<br \/>\ncom as cabeceiras coladas \u00e0s paredes, estendem-se at\u00e9 o fundo<br \/>\ncobertas de esteirinhas. Em cada uma dessas mesas, do lado esquerdo, tremeluz<br \/>\na chama de uma candeia de azeite ou de \u00e1lcool.<\/p>\n<p>A custo, os nossos olhos acostumam-se \u00e0 escurid\u00e3o, acompanham<br \/>\na candel\u00e1ria de luzes at\u00e9 ao fim, at\u00e9 uma alta parede<br \/>\nencardida, e descobrem em cada mesa um cachimbo grande e um corpo amarelo,<br \/>\nnu da cintura para cima, corpo que se levanta assustado, contorcionando os<br \/>\nbra\u00e7os moles. H\u00e1 chins magros, chins gordos, de cabelo branco,<br \/>\nde caras despeladas, chins trigueiros, com a pele cor de manga, chins cor<br \/>\nde oca, chins com a amarelid\u00e3o da cera nos c\u00edrios.<\/p>\n<p>As l\u00e2mpadas tremem, esticam-se na \u00e2nsia de queimar o narc\u00f3tico<br \/>\nmortal. Ao fundo um velho idiota, com as pernas cruzadas em torno de um balde,<br \/>\natira com dois pauzinhos arroz \u00e0 boca. O ambiente tem um cheiro inenarr\u00e1vel,<br \/>\nos corpos movem-se como larvas de um pesadelo e essas quinze caras est\u00fapidas,<br \/>\narrancadas ao b\u00e1lsamo que lhes cicatriza a alma, olham-nos com o susto<br \/>\ncovarde de coolies espancados. E todos murmuram medrosamente, com os p\u00e9s<br \/>\nnus, as m\u00e3os sujas:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tem dinheiro&#8230; n\u00e3o tem dinheiro&#8230; faz mal!<\/p>\n<p>H\u00e1 um mist\u00e9rio de explora\u00e7\u00f5es e de horrores nesse<br \/>\npavor dos pobres celestes. O meu amigo interroga um que parece ter vinte e<br \/>\nparece ter sessenta anos, a cara cheia de pregas, como papel de arroz machucado.<\/p>\n<p>\u2013 Como se chama voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Tchang&#8230; Afonso.<\/p>\n<p>\u2013 Quanto pode fumar de \u00f3pio?<\/p>\n<p>\u2013 S\u00f3 fuma em casa&#8230; um bocadinho s\u00f3&#8230; faz mal! Quanto<br \/>\npode fumar? Duzentas gramas, pouquinho&#8230; N\u00e3o tem dinheiro.<\/p>\n<p>Sinto n\u00e1useas e ao mesmo tempo uma nevrose de crime. A treva da sala<br \/>\ntorna-se l\u00edvida, com tons azulados. H\u00e1 na escurid\u00e3o uma<br \/>\nnuvem de fumo e as bolinhas pardas, queimadas \u00e0 chama das candeias,<br \/>\np\u00f5em uma tontura na furna, d\u00e3o-me a imperiosa vontade de apertar<br \/>\ntodos aqueles pesco\u00e7os nus e exangues, pesco\u00e7os viscosos de<br \/>\ncad\u00e1ver onde o veneno gota a gota dessora.<\/p>\n<p>E as caras continuam emplastradas pelo mesmo sorriso de susto e de s\u00faplica,<br \/>\nmultiplicado em quinze bei\u00e7os amarelos, em quinze dentaduras nojentas,<br \/>\nem quinze olhos de tormento!<\/p>\n<p>\u2013 Senhor, pode ir, pode ir? N\u00f3s vamos deitar; pode ir? \u2013<br \/>\nsuplica Tchang.<\/p>\n<p>Arrasto o guia, fujo ao horror do quadro. A r\u00f3tula fecha-se sem rumor.<br \/>\nEstamos outra vez num beco infecto de cidade ocidental. Os chins pelas persianas<br \/>\nespiam-nos. O meu amigo consulta o rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>\u2013 Este \u00e9 o primeiro quadro, o come\u00e7o. Os chins preparam-se<br \/>\npara a intoxica\u00e7\u00e3o. Nenhum deles tinha uma hora de cachimbo.<br \/>\nAgora, por\u00e9m, em outros lugares devem ter chegado ao embrutecimento,<br \/>\n\u00e0 excita\u00e7\u00e3o e ao sonho. Tenho duas casas no meu booknotes,<br \/>\numa na Rua da Miseric\u00f3rdia, onde os celestes se espancam, jogando o<br \/>\nmonte com os bei\u00e7os rubros de mastigar folhas de b\u00e9tel, e \u00e0<br \/>\nRua d. Manuel no 72, onde as fumeries tomam propor\u00e7\u00f5es infernais.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o com assombro, duvidando intimamente desse fervilhar de v\u00edcio,<br \/>\nde ningu\u00e9m ainda suspeitado. Mas acompanho-o.<\/p>\n<p>A Rua d. Manuel parece a rua de um bairro afastado. O Necrot\u00e9rio com<br \/>\num capinzal cercado de arame, por tr\u00e1s do qual os ciganos confabulam,<br \/>\ntem um ar de sub\u00farbio. Parece que se chegou, nas pedras irregulares<br \/>\ndo mau cal\u00e7amento, olhando os pardieiros seculares, ao fim da cidade.<br \/>\nNas esquinas, onde lar\u00e1pios, de len\u00e7o no pesco\u00e7o e andar<br \/>\ngingante, estragam o tempo com rameiras de galho de arruda na carapinha, v\u00eaem-se<br \/>\npequenas ruas, nascidas dos socalcos do Castelo, estreitas e sem luz. A noite,<br \/>\nna opala do crep\u00fasculo, vai apagando em treva o velho casaredo.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 aqui.<\/p>\n<p>O 72 \u00e9 uma casa em ru\u00edna, estridentemente caiada, pendendo<br \/>\npara o lado. Tem dois pavimentos. Subimos os degraus gastos do primeiro, uns<br \/>\ndegraus quase obl\u00edquos, caminhamos por um corredor em que o soalho<br \/>\nbalan\u00e7a e range, vamos at\u00e9 uma esp\u00e9cie de caverna fedorenta,<br \/>\ndonde um italiano fazedor de botas mastiga explica\u00e7\u00f5es entre<br \/>\nduas crian\u00e7as que parecem fetos sa\u00eddos de frascos de \u00e1lcool.<br \/>\nVoltamos \u00e0 primeira porta, junto \u00e1 escada, entramos num quarto<br \/>\nforrado imoralmente com um esfarripado tapete de padr\u00e3o rubro. A\u00ed,<br \/>\num homenzinho, em mangas de camisa, indaga com a voz aflautada e sibilosa:<\/p>\n<p>\u2013 Os mo\u00e7os desejam?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 voc\u00ea o encarregado?<\/p>\n<p>\u2013 Para servir os mo\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2013 Desejamos os chins.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! isso, l\u00e1 em cima, sala da frente. Os porcos est\u00e3o<br \/>\nse opiando.<\/p>\n<p>Vamos aos porcos. Subimos uma outra escada que se divide em dois lances,<br \/>\num para o nascente outro para o poente. A escada d\u00e1 num corredor que<br \/>\ntermina ao fundo numa porta, com peda\u00e7os de pano branco, \u00e0 guisa<br \/>\nde cortina. A atmosfera \u00e9 esmagadora. Antes de entrar \u00e9 violenta<br \/>\na minha repulsa, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel recuar. Uma voz alegre<br \/>\nindaga:<\/p>\n<p>\u2013 Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>O guia suspende a cortina e n\u00f3s entramos numa sala quadrada, em que<br \/>\ncerca de dez chins, reclinados em esteirinhas diante das l\u00e2mpadas acesas,<br \/>\nse narcotizam com o veneno das dormideiras.<\/p>\n<p>A cena \u00e9 de um l\u00fagubre exotismo. Os chins est\u00e3o inteiramente<br \/>\nnus, as l\u00e2mpadas estrelam a escurid\u00e3o de olhos sangrentos, das<br \/>\nparedes pendem peda\u00e7os de ganga rubra com senten\u00e7as filos\u00f3ficas<br \/>\nrabiscadas a nanquim. O ch\u00e3o est\u00e1 atravancado de bancos e roupas,<br \/>\ne os chins mergulham a plenos estos na estufa dos del\u00edrios.<\/p>\n<p>A intoxica\u00e7\u00e3o j\u00e1 os transforma. Um deles, a cabe\u00e7a<br \/>\npendente, a l\u00edngua roxa, as p\u00e1lpebras apertadas, ronca estirado,<br \/>\ne o seu pesco\u00e7o amarelo e longo, quebrado pela ponta da mesa, mostra<br \/>\na papeira mole, como a espera da l\u00e2mina de uma faca. Outro, de c\u00f3coras,<br \/>\nmastigando peda\u00e7os de massa cor de azinhavre, enraivece um c\u00e3o<br \/>\ngordo, sem cauda, um c\u00e3o que mostra os dentes, espumando. E h\u00e1<br \/>\nmais: um com as pernas cruzadas, lambendo o \u00f3pio l\u00edquido na<br \/>\nponta do cachimbo; dois outros deitados, queimando na chama das candeias as<br \/>\npor\u00e7\u00f5es do sumo enervante. Estes tentam erguer-se, ao ver-nos,<br \/>\ncom um id\u00eantico esfor\u00e7o, o semblante transfigurado.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o se levantem, \u00e0 vontade!<\/p>\n<p>Sussurram palavras de encanto, tombam indiferentes, esticam com o mesmo movimento<br \/>\na m\u00e3o cadav\u00e9rica para a l\u00e2mpada e fios de n\u00e9voa<br \/>\nazul sobem ao teto em espirais t\u00eanues.<\/p>\n<p>Tr\u00eas, por\u00e9m, deste bando est\u00e3o no per\u00edodo da excita\u00e7\u00e3o<br \/>\nalegre, em que todas as franquezas s\u00e3o permitidas. Um deles passeia<br \/>\nagitado como um homem de neg\u00f3cio. \u00c9 magro, seco, duro.<\/p>\n<p>\u2013 Vem vender \u00f3pio? Bom, muito bom&#8230; Compro. \u00d3pio bom<br \/>\nque n\u00e3o seja de Bengala. Compro.<\/p>\n<p>Logo outro salta, enfiando uma camisola:<\/p>\n<p>\u2013 Ah! ah! Traz \u00f3pio? Donde?<\/p>\n<p>\u2013 Da Sonda&#8230;<\/p>\n<p>Os tr\u00eas grupam-se amea\u00e7adoramente em torno de n\u00f3s, estendendo<br \/>\nos bra\u00e7os t\u00e3o estranhos e t\u00e3o molemente mexidos naquele<br \/>\nambiente que eu recuo como se os tent\u00e1culos de um polvo estivessem<br \/>\nmovendo na escurid\u00e3o de uma caverna. Mas do outro lado ouve-se o solu\u00e7o<br \/>\nintercortado de um dos opiados. A sua voz chora palavras vagas.<\/p>\n<p>\u2013 Sapan&#8230; sapan&#8230; Hanoi&#8230; tahi&#8230;<\/p>\n<p>O chin magro revira os olhos:<\/p>\n<p>\u2013 Ele est\u00e1 sonhando. Affal est\u00e1 sonhando. \u00d3pio<br \/>\nsonho&#8230;terra da gente namorada&#8230; bonito! bonito!&#8230; Deixa ver amostra.<\/p>\n<p>O meu amigo recua, um corpo baqueia \u2013 o do chin\u00eas adormecido<br \/>\n\u2013 e os outros bradam:<\/p>\n<p>\u2013 Amostra&#8230; voc\u00ea traz amostra!<\/p>\n<p>Sem perder a calma, esse meu esquisito guia mete a m\u00e3o no bolso da<br \/>\ncal\u00e7a, tira um peda\u00e7o de massa envolvido em folhas de dormideira,<br \/>\ndesdobra-o. Ent\u00e3o o del\u00edrio propaga-se. O magro chin ajoelha,<br \/>\nos outros tamb\u00e9m, raspando a massa com as unhas, mergulhando os dedos<br \/>\nnas bocas escuras, num queixume de mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2013 D\u00e1 a amostra&#8230;n\u00e3o tem dinheiro&#8230;deixa a amostra!<\/p>\n<p>Miseravelmente o clamor de s\u00faplica enche o quarto na n\u00e9voa<br \/>\nparda estrelejada de h\u00f3stias sangrentas. Os chins curvam o dorso, mostram<br \/>\nos pesco\u00e7os compridos, como se os entregassem ao cutelo, e os bra\u00e7os<br \/>\nsem m\u00fasculos raspam o ch\u00e3o, pegando-nos os p\u00e9s, implorando<br \/>\na d\u00e1diva tremenda. N\u00e3o posso mais. C\u00e3imbras de est\u00f4mago<br \/>\nfazem-me um enorme desejo de vomitar. S\u00f3 o cheiro do veneno desnorteia.<br \/>\nVejo-me nas ruas de Tien-Tsin, \u00e0 porta das cagnas, perseguido pela<br \/>\nguarda imperial, tremendo de medo; vejo-me nas bodegas de Cingapura, com os<br \/>\ncorpos dos celestes arrastados em djinrickchas, entre malaios loucos brandindo<br \/>\nkriss assassinos! Oh! o veneno sutil, l\u00e1grima do sono, resumo do para\u00edso,<br \/>\ngrande matador do oriente! Como eu o ia encontrar num pardieiro de Cosm\u00f3polis,<br \/>\nestra\u00e7alhando uns pobres trapos das prov\u00edncias da China!<\/p>\n<p>Apertei a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os, abri a boca numa \u00e2nsia.<\/p>\n<p>\u2013 Vamos, ou eu morro!<\/p>\n<p>O meu amigo, ent\u00e3o, empurrou os tr\u00eas chins, atirou-se \u00e0<br \/>\njanela, abriu-a. Uma lufada de ar entrou, as l\u00e2mpadas tremeram, a nuvem<br \/>\nde \u00f3pio oscilou, fendeu, esgueirou-se, e eu ca\u00ed de bru\u00e7os,<br \/>\na tremer diante dos chins apavorados e nus.<\/p>\n<p>Fora, as estrelas recamavam de ouro o c\u00e9u de ver\u00e3o&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"10\"><\/a>M\u00fasicos Ambulantes<\/h4>\n<p>M\u00fasicos ambulantes! Um momento houve em que todos desapareceram, arrastados<br \/>\npor uma s\u00fabita voragem. Os caf\u00e9s viviam sem as harpas cl\u00e1ssicas<br \/>\ne nas ruas, de raro em raro, um realejo aparecia. Por qu\u00ea? Teriam sido<br \/>\nabsorvidos pelos caf\u00e9s-cantantes, dominados pelos prod\u00edgios<br \/>\ndo gramofone \u2013 essa maravilha do s\u00e9culo XIX, que n\u00e3o deixa<br \/>\nde ser uma calamidade para o s\u00e9culo XX? N\u00e3o. Fora apenas uma<br \/>\ns\u00fabita pausa t\u00e3o comum na circula\u00e7\u00e3o das cidades.<\/p>\n<p>Apesar dos gramofones nos hot\u00e9is, nos botequins, nas lojas de cal\u00e7ados,<br \/>\napesar da intensa multiplica\u00e7\u00e3o dos pianos, eles foram voltando,<br \/>\num a um ou em bandos, como as andorinhas imigrantes, e, de novo, as tascas,<br \/>\nas bai\u00facas, os caf\u00e9s, os hot\u00e9is baratos, encheram-se<br \/>\nde can\u00e7\u00f5es, de vozes de viol\u00e3o e de guitarra e, de novo,<br \/>\npelas ruas os realejos, os violinos, as gaitas, recome\u00e7aram o seu triunfo.<\/p>\n<p>H\u00e1 j\u00e1 alguns meses mesmo, uma banda alem\u00e3, com instrumentos,<br \/>\nestantes e desafina\u00e7\u00f5es, atormenta as grandes pra\u00e7as,<br \/>\ne eu lobriguei outro dia ainda um bicho lend\u00e1rio por mim julgado t\u00e3o<br \/>\ndesaparecido como o megat\u00e9rio \u2013 o homem dos sete instrumentos!<br \/>\nE esse homem, cheio de instrumentos, ia por a\u00ed fora, satisfeito e corado,<br \/>\ncomo se tivesse realizado uma agrad\u00e1vel receita.<\/p>\n<p>Os m\u00fasicos vieram todos! N\u00e3o perde a cidade os seus foros de<br \/>\nmusical \u2013 o Rio, onde tudo \u00e9 m\u00fasica, desde a po\u00e9tica<br \/>\nm\u00fasica dos beijos \u00e0 decisiva m\u00fasica de pancadaria.<\/p>\n<p>Novamente \u00e0 beira das cal\u00e7adas a Valsa dos Sinos e O Guarani<br \/>\nse desarticulam em velhos pianos; novamente sujeitos, que parecem cegos, rodam<br \/>\na manivela dos realejos, estendendo a m\u00e3o s\u00faplice, numa \u00e2nsia<br \/>\nde mis\u00e9ria; novamente, depois de alguns trechos da sonante Bo\u00eamia,<br \/>\num piresinho de metal se vos oferecer\u00e1, desejoso de n\u00edqueis.<br \/>\nE todos v\u00f3s, que sois bons, e todos v\u00f3s, que gostais de m\u00fasica,<br \/>\nhaveis de deplorar os coitados que alegram os outros para viver na mis\u00e9ria,<br \/>\ncom a alma varada de dor, e todos v\u00f3s sofrereis a crise de harmonia.<br \/>\nOh! a m\u00fasica!<\/p>\n<p>Elle mouille comme la pluie, Elle br\u00fble comme le feu.<\/p>\n<p>Uma sanfona faria Harpagon generoso e Lady Macbeth boa.<\/p>\n<p>Esta cidade \u00e9 essencialmente musical; era imposs\u00edvel passar<br \/>\nsem os m\u00fasicos ambulantes. A m\u00fasica preside \u00e0 nossa vida,<br \/>\na m\u00fasica auxilia at\u00e9 a gesta\u00e7\u00e3o, e, consista apenas<br \/>\nna voz como diz S\u00f3crates, consista, pretende Aristoxeno, na voz e nos<br \/>\nmovimentos do corpo, ou re\u00fana \u00e0 voz os movimentos da alma e<br \/>\ndo corpo como pensa Teofrasto, tem os caracteres da divindade e comove as<br \/>\nalmas. Pit\u00e1goras, para que a sua alma constantemente estivesse penetrada<br \/>\nde divindade, tocava c\u00edtara antes de dormir e logo ao acordar de novo<br \/>\n\u00e0 c\u00edtara se apegava. Asclep\u00edades, m\u00e9dico, acalmava<br \/>\nos esp\u00edritos fren\u00e9ticos empregando a sinfonia, e Her\u00f3filo<br \/>\npretendia que as pulsa\u00e7\u00f5es das veias se fazem de acordo com<br \/>\no ritmo musical. Os m\u00fasicos ambulantes s\u00e3o os descendentes dos<br \/>\ntocadores da flauta, caros aos deuses da H\u00e9lade.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensemos, por\u00e9m, romanticamente, que todos os m\u00fasicos<br \/>\nmorrem de fome ao cair das ilus\u00f5es. Antes pelo contr\u00e1rio. A<br \/>\nbiografia de cada um serve de assunto a todo o bo\u00eamio desejoso de ser<br \/>\nfeliz. Quem conhece o Saldanha, um velho portugu\u00eas baixo, gordo e cego,<br \/>\nque viola h\u00e1 mais de vinte anos com um negro tamb\u00e9m cego da<br \/>\nilha da Madeira, flautista em\u00e9rito? Esses dois cegos eram acompanhados<br \/>\npor um guitarrista escovado, que tocava, fazia a cobran\u00e7a e ainda por<br \/>\ncima era poeta, compunha as can\u00e7onetas. Um momento a cidade inteira<br \/>\ncantou a sua c\u00e9lebre quadra:<\/p>\n<p>Z\u00e1s-tr\u00e1s, z\u00e1s-tr\u00e1s<br \/>\nMalagueta no cabaz<br \/>\nCom jeito tudo se arranja<br \/>\nCom jeito tudo se faz<\/p>\n<p>o que n\u00e3o o recomenda muito ao senso est\u00e9tico do Rio. Quando<br \/>\nos cegos e esse z\u00e1s-tr\u00e1s amolavam muito, l\u00e1 havia sempre<br \/>\nalgum para gritar:<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 L\u00edrico ambulante!<\/p>\n<p>E o Saldanha, pan\u00e7udo, grave, imperturb\u00e1vel:<\/p>\n<p>\u2013 Obrigado pelo elogio!<\/p>\n<p>Pois todo o pessoal enriqueceu. O negro casou em Portugal , o Z\u00e1s-tr\u00e1s<br \/>\nconseguiu tudo com jeito, e eu fui encontrar o Saldanha aposentado, considerado<br \/>\ncomo um velho artista diante de um copo de cerveja.<\/p>\n<p>\u2013 Fizemos v\u00e1rias tourn\u00e9es, disse-me ele, percorremos<br \/>\no Brasil, do Rio Grande ao Par\u00e1. Ajuntamos alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p>E n\u00e3o se trata de um caso espor\u00e1dico. O resultado \u00e9<br \/>\ngeral. O Jos\u00e9, italiano capenga, que chegou ao Rio em 1875, alugou,<br \/>\npara n\u00e3o trabalhar, um piano de manivela. Em seguida, o seu esp\u00edrito<br \/>\ninventivo foi at\u00e9 comprar um realejo com bonecos mec\u00e2nicos, entre<br \/>\nos quais havia um de m\u00e3o estendida, que engolia as moedas e punha fora<br \/>\noutra qualquer coisa. Esse boneco, a valsa dos Sinos de Corneville, o Caballero<br \/>\nde Gracia e o Bendeng\u00f3 deram-lhe uma fortuna. E Jos\u00e9 resolveu<br \/>\njogar, \u00e0 farta, jogar forte.<\/p>\n<p>Jogou tanto que teve de arranjar um s\u00f3cio, personagem fant\u00e1stico,<br \/>\nque d\u00e1 pela alcunha de Cavali\u00e8re Midaglia.<\/p>\n<p>O Cavali\u00e8re gosta tamb\u00e9m da batota e principalmente do bicho.<br \/>\nAt\u00e9 duas horas, dinheiro para o avestruz; nas primeiras horas da noite,<br \/>\ncervejinha na f\u00e1brica Santa-Maria; depois, la mare dos baralhos e dados.<br \/>\nParece incr\u00edvel que um realejo, moendo os sinos, d\u00ea dinheiro<br \/>\npara tantos v\u00edcios. Pois Jos\u00e9 tem ainda dinheiro para ir \u00e0<br \/>\nIt\u00e1lia ver N\u00e1poles e depois voltar. J\u00e1 l\u00e1 foi<br \/>\nmais de vinte vezes.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que a m\u00fasica, tendo por fim ado\u00e7ar os costumes,<br \/>\nn\u00e3o arrasta todos os seus cultores aos desvarios do monte e da roleta.<br \/>\nH\u00e1 realejos que sustentam numerosas fam\u00edlias, como o do Vicente,<br \/>\nitaliano falsamente cego, que desconfia dos filhos, joga a bisca a milho nos<br \/>\nbotequins das Ruas Formosa e do Areal e j\u00e1 adquiriu alguns pr\u00e9dios;<br \/>\nh\u00e1 realejos escravizadores, como o do Ant\u00f4nio Capenga, da esta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Mangue, que espanca os dois pequenos cobradores se por acaso deixam passar<br \/>\num bonde sem lhes dar nada, embora o bonde v\u00e1 vazio \u2013 porque<br \/>\nAnt\u00f4nio tem amantes e, \u00e0 custa de sons que na sua algibeira retinem<br \/>\nem moedas, resolveu a vida epicuristamente nos tr\u00eas princ\u00edpios<br \/>\nfundamentais: mulheres, jogo e vinho; h\u00e1 realejos solteiros malandros,<br \/>\nrealejos virgens prontos para a fuga.<\/p>\n<p>A m\u00fasica chega mesmo em certos casos a harmonizar dissabores num acorde<br \/>\nfeliz. \u00c9 o caso do Amaral carpinteiro. Este Amaral cortou certa vez<br \/>\na m\u00e3o com uma enx\u00f3. Meteu a dita m\u00e3o em ataduras e resolveu<br \/>\nnunca mais trabalhar. Ao contr\u00e1rio do pastor Jac\u00f3, sete anos<br \/>\nlevantou de papo para o ar compondo versinhos; dedicou-se em seguida a vender<br \/>\nmodinhas \u2013 era o Araruama. E nesse servi\u00e7o descobriu-se voca\u00e7\u00f5es<br \/>\nmusicais.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 sumidade, \u00e9 o Caruso das Ruas de S. Jorge e Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\ne n\u00e3o h\u00e1 botequim de caf\u00e9 a tr\u00eas vint\u00e9ns<br \/>\na x\u00edcara, onde a sua voz n\u00e3o requebre o<\/p>\n<p>Ol\u00e9 l\u00e9 l\u00e9<br \/>\nCandonga Sinh\u00e1.<\/p>\n<p>Nas mesmas condi\u00e7\u00f5es est\u00e1 o Miguel de Brito. Apesar<br \/>\nde portugu\u00eas, foi inferior do ex\u00e9rcito. Quando deu baixa, comprou<br \/>\num Gramofone para ganhar, como dizia, a vida na ro\u00e7a. Partiu para o<br \/>\nRio Bonito, alugou um sal\u00e3o e estava exatamente pregando um cartaz<br \/>\n\u00e0 porta, quando ouviu na casa fronteira tocar um gramofone muito mais<br \/>\naperfei\u00e7oado que o seu. Era a musa da m\u00fasica decerto que o prevenia,<br \/>\ndesejosa de evitar um confronto desagrad\u00e1vel. Brito arrancou o cartaz,<br \/>\nvendeu o Gramofone, agradeceu \u00e0 musa e s\u00f3 com sua garganta veio<br \/>\ntriunfar nas bodegas do Rio.<\/p>\n<p>As bodegas, como os botequins do tom, toleram de vez em quando os m\u00fasicos,<br \/>\ncom a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o lhes pagar nada. Em geral s\u00e3o<br \/>\nsempre tr\u00eas \u2013 os tercetos c\u00e9lebres. H\u00e1 na Rua do<br \/>\nSenhor dos Passas o do Amadeu com as duas irm\u00e3s, que, por sinal, j\u00e1<br \/>\nfugiram; na Avenida Passos chefiado pelo Barradas, cego \u2013 terceto famoso,<br \/>\npor ter percorrido todas as cidades de Espanha, de Portugal, do Chile, do<br \/>\nUruguai, da Argentina e do Brasil; o da f\u00e1brica de cerveja Oriente,<br \/>\no da cervejaria Minerva, cujo chefe, o Ant\u00f4nio rabequista, gosta de<br \/>\nser acompanhado de canto. A cervejaria enche-se de trabalhadores atra\u00eddos<br \/>\npela alegria dos sons. Sempre uma can\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica<br \/>\nabre um hiato sentimental entre os fandangos e os cakewalks.<\/p>\n<p>Tanto penar, tanto sofrer.<br \/>\nAmor me mata,<br \/>\nAmor me mata.<br \/>\nEu vou morrer.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m morre, e um portugu\u00eas do Minho que l\u00e1 passa a<br \/>\nnoite, brada:<\/p>\n<p>\u2013 Eu c\u00e1 dinheiro n\u00e3o dou, mas se tocar a cana-verde pago<br \/>\na cerveja!<\/p>\n<p>E a cana-verde conclui a can\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica.<\/p>\n<p>Oh! eu conheci nessas bai\u00facas rumorejantes, onde a popula\u00e7a<br \/>\nvive atra\u00edda pela m\u00fasica, at\u00e9 um globe-trotter! Era um<br \/>\nveneziano de vinte e tr\u00eas anos, Rafael Angelo, tenor. Nos botequins<br \/>\nem que os propriet\u00e1rios eram portugueses cantava o rebola a bola, nos<br \/>\nestabelecimentos espanh\u00f3is, o caballero di gracia me llaman, e, lindo,<br \/>\nconquistador, com olhares mortos para as mulheres, era uma del\u00edcia<br \/>\nouvi-lo, derreando os bra\u00e7os para os lados, como cansado de abra\u00e7ar,<br \/>\na cantar:<\/p>\n<p>Fra le donne tu sei la pi\u00fa bella,<br \/>\nFra le rose tu sei la pi\u00fa fina<br \/>\nE nel cielo brilhante stella<br \/>\nNella terra sei nata regina.<\/p>\n<p>A segunda vez que me viu entre os carregadores descal\u00e7os, Rafael inaugurou<br \/>\no seu mais belo gesto e disse-me:<\/p>\n<p>\u2013 Noto a V. Exa. que isto \u00e9 apenas uma extravag\u00e2ncia bo\u00eamia.<br \/>\nResolvi percorrer o mundo em quatros anos, sem ter um vint\u00e9m de capital.<br \/>\nJ\u00e1 estive em Londres, em New York, em Chicago&#8230; Estou no Rio de Janeiro<br \/>\nh\u00e1 um m\u00eas. Che belleza.<\/p>\n<p>Era o Phileas Fogg da can\u00e7oneta e arranjava dez a quinze mil r\u00e9is<br \/>\ndi\u00e1rios, fora as paix\u00f5es das damas.<\/p>\n<p>Quase todos esses m\u00fasicos ambulantes e aventureiros ganham rios de<br \/>\ndinheiro, vivendo uma vida quase lament\u00e1vel. No forro dos casacos velhos<br \/>\nh\u00e1 ma\u00e7os de notas, nos cintur\u00f5es sebentos, vales ao portador.<br \/>\nO p\u00fablico p\u00e1ra, olha aquela tristeza, imagina no automatismo<br \/>\ndos gestos, na face que pede, no sorriso posti\u00e7o, a fome dos artistas,<br \/>\na mis\u00e9ria dos deserdados da sorte, e sonha as agonias, como nas \u00f3peras,<br \/>\nem que os tenores morrem ao sol, sob um c\u00e9u lindo, cantando.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dessa fachada h\u00e1 tanto interesse como no negociante<br \/>\nmais avaro e tanta vaidade como num artista l\u00edrico mais vaidoso \u2013<br \/>\nporque esses m\u00fasicos ambulantes, humanos como todos n\u00f3s, nascidos<br \/>\nneste mesmo s\u00e9culo de vaidade, regulam os seus ideais entre a pretens\u00e3o,<br \/>\no alto ju\u00edzo do pr\u00f3prio valor e o n\u00famero de moedas da<br \/>\ncoleta. Oh! a m\u00fasica, as \u00e1rias perdidas no ru\u00eddo das<br \/>\nruas&#8230;Algu\u00e9m j\u00e1 assegurou que a alma do homem conhece sua natureza<br \/>\npelo canto. Cheguemos \u00e0 suave conclus\u00e3o de que conhece a natureza<br \/>\ne o resto. De que serviria um realejo sen\u00e3o assegurasse ao seu possuidor,<br \/>\nal\u00e9m do conhecimento da pr\u00f3pria alma, a satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo est\u00f4mago? H\u00e1 talvez em outras terras, mais gastas e mais frias,<br \/>\na mis\u00e9ria dos m\u00fasicos ambulantes, sem fogo, sem p\u00e3o,<br \/>\ncaindo sob a neve, depois de uma dolorosa vida. Aqui n\u00e3o; os m\u00fasicos<br \/>\nprosperam, o realejo \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o, e do alto azul,<br \/>\na harmonia bondosa da natureza, musa da vida e da alegria, derrama o consolo<br \/>\nincompar\u00e1vel do calor e da luz.<\/p>\n<h4><a name=\"11\"><\/a>Velhos Cocheiros<\/h4>\n<p>Outro dia, ao saltar de um t\u00edlburi no antigo Largo do Pa\u00e7o,<br \/>\nvi na bol\u00e9ia de um vis-\u00e0-vis pr\u00e9-hist\u00f3rico a ventripot\u00eancia<br \/>\ncolossal de um velho cocheiro. As duas m\u00e3os gorduchas \u00e0 altura<br \/>\ndo peito como quem vai rezar, enfiado numa roupa esverdinhada, o automedonte<br \/>\nroncava. Seria uma recorda\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ou a mem\u00f3ria<br \/>\nde uma fisionomia de inf\u00e2ncia? Seria o cocheiro da Safo, o irm\u00e3o<br \/>\nmais velho de Simeon, ou simplesmente um velho cocheiro que eu tivesse visto<br \/>\nna doce idade em que todas as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o novas? Era<br \/>\ndif\u00edcil adivinhar. Para os c\u00e9rebros cheios de literatura, a<br \/>\nverdade obumbra-se tanto que \u00e9 sempre preciso perguntar por ela como<br \/>\no fez Poncius Pilatos diante de Deus.<\/p>\n<p>Fui para perto do vis-\u00e0-vis, bati na perna do velho. Estava feio.<br \/>\nO ventre, um ventre fabuloso, parecia uma talha que lhe tivessem entalhado<br \/>\nao tronco; as pernas, sem movimento, pendiam como traves; os bra\u00e7os,<br \/>\nextremamente desenvolvidos, eram quase maiores que as pernas; e a cara\u00e7a<br \/>\nvermelha, com tons viol\u00e1ceos, lembrava os car\u00f5es alegres do<br \/>\nCarnaval. Abriu, entretanto, uma das p\u00e1lpebras com mau humor e resmungou:<\/p>\n<p>\u2013 Pronto!<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o me conhece mais?<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2013 Pois eu conhe\u00e7o a voc\u00ea desde menino.<\/p>\n<p>Ele abriu de todo as p\u00e1lpebras pesadas, um sorriso de alegre bondade<br \/>\npassou-lhe pelo l\u00e1bio.<\/p>\n<p>\u2013 Saiba vossa senhoria que bem pode ser! Toda essa gente importante<br \/>\nde hoje eu conheci meninos de col\u00e9gio!<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que estava meio emocionado.<\/p>\n<p>\u2013 E j\u00e1 fez ponto na Estrada de Ferro?<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 vinte anos, eu e o Bamba.<\/p>\n<p>Encostei-me \u00e0 bol\u00e9ia do antigo vis-\u00e0-vis. Havia vinte<br \/>\nanos sim, havia vinte anos que no passar pela esta\u00e7\u00e3o de carros<br \/>\nos meus olhos de crian\u00e7a se fixaram curiosamente na fisionomia jocunda<br \/>\nde um velho, que j\u00e1 naquele tempo era velho e j\u00e1 naquele tempo<br \/>\ngravemente roncava na bol\u00e9ia de um carro! Havia vinte anos.<\/p>\n<p>\u00c9 como lhe digo, afirmava ele. Conhece a filha do bar\u00e3o de<br \/>\nCotegipe? Eu vi aquela santa criatura menina. Conhece o filho do grande ministro<br \/>\nJo\u00e3o Alfredo? \u00c9 meu amigo, d\u00e1-me dinheiro sempre que<br \/>\nvem ao Rio. Olhe, h\u00e1 de conhecer o Dr. Fernando Mendes de Almeida e<br \/>\nmais o irm\u00e3o Dr. C\u00e2ndido. Pois quando eu servia o pai, eles eram<br \/>\nmeninos de col\u00e9gio. H\u00e1 meses eu disse ao Dr. Fernando tudo isso<br \/>\ne ele foi dar um passeio no meu carro e deu-me doces, vinho do Porto, dinheiro.<br \/>\nEstava admirado e ria&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Como se chama voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Braga, eu sou o Braga.<\/p>\n<p>Pobre velho cocheiro a quem se d\u00e1 como \u00e0s crian\u00e7as doces<br \/>\nde confeitaria! Eu continuava encostado ao vis-\u00e0-vis, imensamente triste<br \/>\ne com a mesma curiosidade de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Trabalho neste of\u00edcio desde 1870. Tinha vinte anos, quando<br \/>\ncomecei. Toda a minha mocidade foi acabada aqui.<\/p>\n<p>\u2013 E n\u00e3o est\u00e1s rico?!<\/p>\n<p>\u2013 Rico?<\/p>\n<p>Soltou uma gargalhada sonora que lhe balan\u00e7ou o ventre e envermelheceu<br \/>\nmais. Os seus olhos pequenos olhavam-me da bol\u00e9ia com superioridade<br \/>\ncompassiva. \u00c9 dif\u00edcil encontrar um cocheiro de carro que tenha<br \/>\nfeito fortuna. Enriquecem os de carro\u00e7a, os de caminh\u00f5es. De<br \/>\ncarro, se citam dois ou tr\u00eas em trinta anos. O of\u00edcio, longe<br \/>\nde tornar \u00e1geis os corpos, faz les\u00f5es card\u00edacas, atrofia<br \/>\nas pernas, hipertrofia os bra\u00e7os, de modo que quinze anos de bol\u00e9ia,<br \/>\nde vis\u00e3o elevada do mundo, ao sol e \u00e0 chuva, estragam e usam<br \/>\num homem como a ferrugem estraga o a\u00e7o mais fino. O Braga era um velho<br \/>\ntrapo encharcado. Tanto \u00e1dipo dava-me a impress\u00e3o de que o pobre<br \/>\nvelho devia ter \u00e1gua nos tecidos.<\/p>\n<p>Eu continuava a ouvi-lo. Naquela bol\u00e9ia falava um cultor do quietismo,<br \/>\num renanista que tivesse compreendido o nirvana. Nem uma ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnem um \u00f3dio: apenas um sorriso de quem n\u00e3o se rala com a vida<br \/>\ne vem para a rua almejando n\u00e3o encontrar fregueses, para dormir mais<br \/>\n\u00e0 vontade.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! este carro! murmurei. Quanta hist\u00f3ria podia voc\u00ea<br \/>\ncontar. Quantas cenas de amor, quantos beijos, quantas ang\u00fastias e<br \/>\nquantos crimes!<\/p>\n<p>\u2013 Este carro n\u00e3o; outros, ou antes, eu. Fui de cocheira, fui<br \/>\nde casa particular e trabalhei por minha conta. Quando caiu o minist\u00e9rio<br \/>\nJo\u00e3o Alfredo fui eu quem o levou ao Pa\u00e7o. Agora essas coisas<br \/>\nde beijos \u2013 noutro tempo era nas berlindas.<\/p>\n<p>\u2013 Tinha vontade de saber a sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele arregalou muito os olhos.<\/p>\n<p>\u2013 A respeito de beijos? Sei l\u00e1!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, a respeito da Monarquia e da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Ele sorriu, pensou.<\/p>\n<p>\u2013 A Monarquia tinha as suas vantagens. Era mais bonito, era mais solene.<br \/>\nN\u00e3o v\u00e1 talvez pensar que eu sou inimigo da Rep\u00fablica.<br \/>\nMas recorde por exemplo um dia de audi\u00eancia p\u00fablica do imperador.<br \/>\nQue bonito! At\u00e9 era um garbo levar os fregueses l\u00e1. \u00d3<br \/>\nBraga, onde estiveste? Fui \u00e0 Boa Vista! Hoje todo o mundo entra no<br \/>\npal\u00e1cio do Catete. N\u00e3o tem import\u00e2ncia&#8230; \u00c9 verdade<br \/>\nque o Ob\u00e1 entrava no Pa\u00e7o. Mas era pr\u00edncipe. E ent\u00e3o<br \/>\npara conhecer homens importantes! N\u00e3o precisava saber-lhes o nome.<br \/>\nOs ministros tinham uma farda bonita, o imperador sa\u00eda de papo de tucano.<br \/>\nBom tempo aquele! Hoje a gente tem de suar para conhecer um ministro. Parecem-se<br \/>\ntodos com os outros homens.<\/p>\n<p>\u2013 Talvez n\u00e3o sejam, Braga.<\/p>\n<p>\u2013 Quanto \u00e0s capacidades n\u00e3o digo nada&#8230;Mas veja. Por<br \/>\nestar perto da secretaria \u00e9 que conhe\u00e7o o M\u00fcller, um magro,<br \/>\nque reforma a cidade. E de todo o minist\u00e9rio s\u00f3 ele. Se isso<br \/>\nera poss\u00edvel em 1880! Depois, quer saber? A Rep\u00fablica trouxe<br \/>\na Bolsa, uma por\u00e7\u00e3o de cocheiros estrangeiros, uns gringos e<br \/>\ningleses de cara raspada, com uns carros que at\u00e9 nem eu lhes sabia<br \/>\no nome!<\/p>\n<p>Despegou as m\u00e3os de sobre o peito.<\/p>\n<p>\u2013 E v\u00e3o morrendo todas as pessoas not\u00e1veis, j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m not\u00e1vel. S\u00f3 restam<br \/>\no sr. visconde de Barbacena, o sr. marqu\u00eas de Paranagu\u00e1 e mais<br \/>\ndois outros.<\/p>\n<p>Houve uma longa pausa. Como este cocheiro estava do outro lado da vida! Quinze<br \/>\nanos apenas tinham levado o seu mundo e o seu carro para a velha poeira da<br \/>\nhist\u00f3ria! Ele falava como um eco, e estava ali, olhando o boulevard<br \/>\nreformado, pensando nos bons tempos das missas na catedral e das moradas reais,<br \/>\nhoje ocupadas pela burocracia republicana. . .<\/p>\n<p>\u2013 O Braga \u00e9 o mais velho cocheiro do Rio?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o senhor; \u00e9 o Bamba, que come\u00e7ou em 1864.<\/p>\n<p>Neste momento, outros cocheiros mo\u00e7os, limpos, de grandes cal\u00e7as<br \/>\nabombachadas foram aproximando os carros, com vontade de saber o que retinha<br \/>\num cavalheiro tanto tempo a prosar com o velho. Logo se fez um barulho de<br \/>\nrodas e de vozes.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 Braga, \u00f3 velho, despacha o fregu\u00eas! tem aqui<br \/>\num carro bom, vossa senhoria! O Braga, posso servir?<\/p>\n<p>Braga cruzou outra vez as m\u00e3os no peito, com um sereno olhar indiferente.<br \/>\nQue dor o havia de trespassar! Murmurei com pena:<\/p>\n<p>\u2013 Bom, adeus, meu Braga. E onde p\u00e1ra o Bamba?<\/p>\n<p>\u2013 Na Estrada, p\u00e1ra na Estrada. \u00c0s ordens do menino, respondeu<br \/>\nele do alto.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora era imposs\u00edvel deixar de ver o outro, de conhecer<br \/>\no mais antigo cocheiro do Rio! Tomei um bonde da Central. A tarde morria em<br \/>\nlento e vermelho crep\u00fasculo. No c\u00e9u brilhava a primeira estrela<br \/>\ntr\u00eamula e luminosa, e os combustores acendiam a sua luz azul quando<br \/>\nsaltei na Pra\u00e7a da Aclama\u00e7\u00e3o. E foi um grande trabalho.<br \/>\nEu ia de carro em carro.<\/p>\n<p>\u2013 Pode informar onde p\u00e1ra o Bamba?<\/p>\n<p>Uns diziam que o Bamba ca\u00edra e fora para o hospital, outros, os mo\u00e7os,<br \/>\nriam de que se fosse procurar um cocheiro in\u00fatil como o Bamba, outros<br \/>\nasseguravam que o velho n\u00e3o trabalhava mais. Afinal, quase defronte<br \/>\nda porta do Quartel, encontrei um landau empoeirado, desses que parecem arcas<br \/>\ne acomodam \u00e0 vontade seis pessoas.<\/p>\n<p>Da bol\u00e9ia um mulato velho falava para um gordo anci\u00e3o, muito<br \/>\ngordo, muito estragado&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Sabe voc\u00ea dizer quem \u00e9 e onde est\u00e1 o Bamba?<\/p>\n<p>O mulato riu.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 este, patr\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O gorduch\u00e3o abriu a boca, onde faltavam os dentes.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 n\u00e3o trabalho de noite: tenho 70 anos. N\u00e3o<br \/>\nvejo. Desde 1864 que estou no servi\u00e7o. Outro dia quase morro; ca\u00ed<br \/>\nda bol\u00e9ia. Tenho as pernas duras.<\/p>\n<p>\u2013 Bamba, meu velho&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Sou o primeiro cocheiro, o mais velho, n\u00e3o h\u00e1 nenhum<br \/>\nmais velho&#8230;<\/p>\n<p>Eu voltei-me para o mulato, interroguei-o quase em segredo:<\/p>\n<p>\u2013 Mas que diabo vem ele fazer aqui, assim?<\/p>\n<p>O mulato sorriu com tristeza.<\/p>\n<p>\u2013 Sei l\u00e1! \u00c9 o cheiro, vossa senhoria, \u00e9 o cheiro!<br \/>\nQuando a gente come\u00e7a nesta vida, n\u00e3o pode viver sem ela&#8230;\u00c9<br \/>\no cheiro.<\/p>\n<p>A pra\u00e7a vibrava numa estrepitosa anima\u00e7\u00e3o, os combustores<br \/>\nreverberavam em ilumina\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas, e, s\u00f3,<br \/>\nno c\u00e9u calmo, como uma h\u00f3stia de tristeza, a velha lua esticava<br \/>\na triste foice do seu crescente.<\/p>\n<h4><a name=\"12\"><\/a>Presepes<\/h4>\n<p>Deus vos salve casa santa<br \/>\nOnde Deus fez a morada<br \/>\nOnde mora o bento c\u00e1lix<br \/>\nE a h\u00f3stia consagrada.<\/p>\n<p>Que sabemos n\u00f3s da Epifania? Homens de leve erudi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de f\u00e9 sem vigor, andamos a sutilizar velhos textos e antigos costumes,<br \/>\ne tanto sutilizamos que a d\u00favida acomete o nosso esp\u00edrito e<br \/>\na confus\u00e3o perturba a viagem dos tr\u00eas Reis com os vest\u00edgios<br \/>\ndas saturnais e das bodas de Can\u00e1. Nem os sacerdotes nos altares nem<br \/>\nos eruditos em livros fartos, ningu\u00e9m hoje conseguir\u00e1 explicar<br \/>\nclaramente a suave apari\u00e7\u00e3o e a festa simples que o povo realiza,<br \/>\nfazendo vir de alta montanha, guiados por uma estrela loira, Gaspar, Melchior<br \/>\ne Baltasar com a oferenda de ouro, incenso e mirra para o menino que Herodes<br \/>\nperseguir\u00e1.<\/p>\n<p>H\u00e1 os vers\u00edculos de Mateus: &#8220;Jesus nasceu em Bel\u00e9m<br \/>\nde Jud\u00e1, nos tempos do rei Herodes. Vimos a sua estrela no Oriente<br \/>\ne viemos ador\u00e1-lo&#8221;; sabe-se que presepe significa etimologicamente<br \/>\nestrebaria ou jaula. Os gn\u00f3sticos v\u00eam, com esses dois elementos,<br \/>\nsimb\u00f3licos, confusos; os s\u00e1bios indagam de mais e, enquanto<br \/>\nestes esterilmente escrevem p\u00e1ginas est\u00e9reis, os povos criam<br \/>\na legenda suave, e a legenda perdura, cresce, aumenta, esplende numa doce<br \/>\napoteose de perfumes e de bem.<\/p>\n<p>Os presepes s\u00e3o uma cria\u00e7\u00e3o popular. Antes dos artistas<br \/>\nde Paris e Viena, que exp\u00f5em nos sal\u00f5es do Campo de Marte e<br \/>\nno Kunstlerhaus, o povo criou nos presepes o anacronismo religioso, o anacronismo<br \/>\nque, segundo la Sizeranne, \u00e9 a f\u00e9; p\u00f4s, como Breughel<br \/>\nnos Peregrinos de Ema\u00fas e Beraud na Madalena entre os Fariseus, homens<br \/>\nde hoje nas cenas do Velho Testamento.<\/p>\n<p>Os presepes, como as telas do Renascimento, s\u00e3o as reconstitui\u00e7\u00f5es<br \/>\nreligiosas com a cor local contempor\u00e2nea. Os psic\u00f3logos podem<br \/>\npsicologar num reisado a alma nacional e a intensidade da cren\u00e7a. Cristo<br \/>\npara os homens simples est\u00e1 sempre, \u00e9 a perene luz salvadora.<br \/>\nPor isso cada presepe \u00e9 um mundo onde homens e animais de todas as<br \/>\n\u00e9pocas renovam anualmente a admira\u00e7\u00e3o de um suave milagre.<\/p>\n<p>Fui ver numa das \u00faltimas noites de chuva alguns desses mundos de religi\u00e3o<br \/>\ne de tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel para os que viram o bumba-meu-boi realizado pelo<br \/>\nvener\u00e1vel Melo Morais e o belicoso Dr. Silvio Romero, quase como uma<br \/>\nreconstitui\u00e7\u00e3o de costumes, imaginar o n\u00famero de presepes<br \/>\nque este ano tem o Rio. H\u00e1 para mais de quarenta.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos pelo presepe da Rua Frei Caneca, o Centro Pastoril, que<br \/>\ntem uma diretoria composta dos Srs. Liberato Serra, presidente honor\u00e1rio;<br \/>\nManuel Novela, presidente; mais dos Srs. Pedro Hugo, Faria, Alfredo Belfort,<br \/>\nManuel de Macedo, Francisco de Paula Azevedo e Raul Machado. Os ensaios do<br \/>\nreisado realizaram-se na Rua Formosa e os diretores alugaram a sala e a primeira<br \/>\nalcova da casa da Rua Frei Caneca apenas para que a festa redobrasse de brilho.<\/p>\n<p>A sala est\u00e1 toda enfeitada, com dois pequenos estrados feitos de madeira,<br \/>\nonde devem sentar a pol\u00edcia e os reporters, um defronte da outro, sempre<br \/>\njuntos e sempre adulados.<\/p>\n<p>Ao fundo ergue-se o presente que toma a alcova. O c\u00e9u deste amea\u00e7a<br \/>\nchuva; grossas nuvens algodoam a sua celestial vastid\u00e3o. As estrelas,<br \/>\nentretanto, mais o sol e mais a lua, numa doce confraterniza\u00e7\u00e3o,<br \/>\natravessam nuvens e azul com o brilho fulgurante das malacachetas e das velas<br \/>\n\u2013 porque s\u00e3o de malacachetas as estrelas, e t\u00eam por tr\u00e1s<br \/>\numa vela providencial tanto a lua como o sol.<\/p>\n<p>Da montanha a pico, por caminhos asp\u00e9rrimos, v\u00eam descendo os<br \/>\ntr\u00eas reis lend\u00e1rios com um ar a\u00e7odado de bedu\u00ednos<br \/>\nem fuga, e nessa descida, os seus olhos pintados v\u00e3o vendo chalets<br \/>\nsu\u00ed\u00e7os, animais no pasto, militares posteriores ao imp\u00e9rio<br \/>\ndo Tetrarca, mulherinhas gordas de avental e a luz da estrela que os guia<br \/>\nescorrendo do c\u00e9u em dois grossos fios de prata. Embaixo, no primeiro<br \/>\nplano, h\u00e1 um grande movimento. De um lado, ardendo na sombra do milagre<br \/>\ne de alguns copinhos coloridos, est\u00e1 o est\u00e1bulo, onde se d\u00e1<br \/>\no mist\u00e9rio do nascimento de Deus; de outro, uma fachada de papel de<br \/>\nseda, em que eu imagino ver Jerusal\u00e9m, cujas portas ca\u00edram ao<br \/>\nsom das trombetas.<\/p>\n<p>O Centro Pastoril tem um reisado em 3 atos, interpretado pela sras. lrma<br \/>\nSerra, Georgina do Nascimento, Maria Fernandes, Elvira de Almeida, Elisa,<br \/>\nAdelina, Esmeralda, Constan\u00e7a, Lauriana e outras meninas. Esse reisado<br \/>\n\u00e9 exatamente um auto como os fazia mestre Gil Vicente. Os personagens<br \/>\ns\u00e3o o Guia, o Pastor Mestre, o Pastor, a Cigana, Diana Pastorinha,<br \/>\nGaleguinho, Galego e Galega. O Natal \u00e9 apenas o motivo da cena. Trepado<br \/>\nna gaiola destinada \u00e0 imprensa ausente, diante de gaiola policial deserta,<br \/>\napreciei com sabor a evolu\u00e7\u00e3o do auto e, batendo palmas, parecia<br \/>\n\u00e0 minha alma que remont\u00e1ramos quatrocentos anos, ao tempo em<br \/>\nque d. Manuel oferecia ao Papa elefantes brancos ajaezados d\u2019ouro e<br \/>\no povo acreditava com temor em Deus.<\/p>\n<p>No primeiro ato trata-se da chegada dos pastores e h\u00e1 o canto do dia:<\/p>\n<p>Salve estrela radiante<br \/>\nDoce infante de alegria,<br \/>\nSalve infante, salve aos homens,<br \/>\nE a doce Virgem Maria.<\/p>\n<p>Depois a Cigana, no 2o ato, tem o papel preponderante: esmola, pede, abre<br \/>\na sacola para que as oferendas caiam, entre as gra\u00e7olas do Galeguinho,<br \/>\ne no fim ficam os pastores todos sabendo que Jesus nasceu.<\/p>\n<p>Mas ou\u00e7o por estes montes<br \/>\nBrandas vozes a cantar<br \/>\nJ\u00e1 daqui n\u00e3o me vou<br \/>\nSem estes sons escutar.<\/p>\n<p>A\u00ed, no Centro Pastoril, a diretoria indica outros presepes. H\u00e1<br \/>\nmuitos: na Rua Frei Caneca mais dois; na Rua de Santana tr\u00eas, os nos<br \/>\n130 e 27; na Rua Bom Jardim mais dois, em S. Diogo tr\u00eas, e ainda em<br \/>\nS. Clemente, em S. Cristov\u00e3o, no Est\u00e1cio, em Itapagipe, em Catumbi<br \/>\n\u2013 pobres, humildes, cheios de pompa, modestos, numa diversidade curiosa<br \/>\ne estranha. Conto numa noite s\u00f3 mais de quarenta.<\/p>\n<p>O reisado faz-se em geral aos s\u00e1bados, mas os propriet\u00e1rios,<br \/>\nque t\u00eam Deus na sala, conservam as casas abertas e iluminadas.<\/p>\n<p>\u2013 D\u00e1-me licen\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a casa de Deus, pode entrar.<\/p>\n<p>Em alguns, senhoras e crian\u00e7as olham, sonolentas, o presepe ao fundo,<br \/>\nem outros a sala est\u00e1 inteiramente vazia ou os vigilantes dormem na<br \/>\ncrepita\u00e7\u00e3o das velas. Oh! a est\u00e9tica dos presepes! Que<br \/>\nassombroso charivari de datas, que fonte de id\u00e9ias e de observa\u00e7\u00f5es!<br \/>\nEm S. Clemente vem ao est\u00e1bulo um batalh\u00e3o franc\u00eas, no<br \/>\nda Rua de Santana, 130, h\u00e1 um lago com repuxo e peixes do tamanho dos<br \/>\nreis magos, no da Rua da Imperatriz alguns ca\u00e7adores e um padre conversam<br \/>\ncom S. Jos\u00e9; em Itapagipe encontrei uma montanha su\u00ed\u00e7a<br \/>\ncom uma vaqueira perto do rei Gaspar.<\/p>\n<p>\u2013 Por que fazem presepes? indago.<\/p>\n<p>Uns respondem que por promessa, outros sorriem e n\u00e3o dizem palavra.<br \/>\nS\u00e3o os mais numerosos. E a galeria continua a desfilar \u2013 presepes<br \/>\nque parecem pombais, feitos de arminho e penas de aves; presepes todos de<br \/>\nbolas de prata com bonequinhos de biscuit; presepes armados com folhas de<br \/>\nlat\u00e3o, casti\u00e7ais com velas acesas e fotografias contempor\u00e2neas,<br \/>\ntendo por lagos, peda\u00e7os de espelho e o burro da Virgem com um selim<br \/>\n\u00e0 moderna; presepes em que no meio do capim h\u00e1 casas de dois<br \/>\nandares com venezianas e caras de raparigas \u00e0 janela \u2013 uma infinidade<br \/>\ninacredit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O mais interessante, por\u00e9m, fui encontrar na praia Formosa, centro<br \/>\nde um cord\u00e3o carnavalesco de negros baianos. Essas criaturas d\u00e3o-me<br \/>\na honra da sua amizade. O presepe est\u00e1 armado no quarto da sala de<br \/>\nvisitas.\u00c9 inaudito, todo verde com lantejoulas de prata.<\/p>\n<p>O c\u00e9u, pintado por um artista espont\u00e2neo, tem, entre nuvens,<br \/>\nsol com uma cara raspada de americano truster, a lua, maior que o sol, a imagem<br \/>\nda Virgem M\u00e3e. Dois raios de fil\u00f3 prata bambamente pendem do<br \/>\nazul sob o est\u00e1bulo divino, iluminado a giorno. Descendo a montanha,<br \/>\nmontados em camelos, v\u00eam os tr\u00eas reis magos, vestidos \u00e0<br \/>\nturca e o rei apressado \u00e9 Baltasar, o preto. Pela encosta do monte<br \/>\nas majestades lend\u00e1rias encontram, sem pasmo, \u00e2nimos imperiais<br \/>\nquase atuais: Napole\u00e3o na tr\u00e1gica atitude de Santa Helena, a<br \/>\ndefunta imperatriz do Brasil, Bismarck com a sua focinheira de molosso desacorrentado,<br \/>\numa bailarina com a perna no ar, e um boneco de cacete, cal\u00e7as abombachadas<br \/>\ne chap\u00e9u ao alto&#8230; Iluminando a agrad\u00e1vel confus\u00e3o,<br \/>\nvelas de estearina morrem em casti\u00e7ais de cobre.<\/p>\n<p>O grupo carnavalesco chama-se Rei de Ouros. Logo que eu apare\u00e7o e<br \/>\ndas janelas escancaradas a tropa me v\u00ea, entoa a can\u00e7\u00e3o<br \/>\nda entrada:<\/p>\n<p>Tu-tu-tu quem bate \u00e0 porta<br \/>\nMenina vai ver quem \u00e9<br \/>\n\u00c9 o triunfo Rei de Ouros<br \/>\nCom a sua pastora ao p\u00e9.<\/p>\n<p>Dentro move-se, numa alegria carnavalesca, o bando de capoeiras perigosos<br \/>\nda Rua da Concei\u00e7\u00e3o, de S. Jorge e da Sa\u00fade. A sala tem<br \/>\ncadeiras em roda, ornamentadas de cetim vermelho, cortinas de renda com la\u00e7arotes<br \/>\nestridentes. As matronas espapa\u00e7am-se nas cadeiras, suando, e, em movimentos<br \/>\nnervosos, agitam-se \u00e0 sua vista mulatinhas de saiote vermelho, brutamontes<br \/>\nde sapatos de entrada baixa e cal\u00e7\u00e3o de fantasia de velho e<br \/>\nde rei dos diabos. H\u00e1 um cheiro impertinente de suor e \u00e9ter<br \/>\nfloral.<\/p>\n<p>\u2013 Uma calamistran\u00e7a pra seu dout\u00f4! brada o Dudu, um magro,<br \/>\nconhecido por inventar nomes engra\u00e7ados, o Bruant da popula\u00e7a<\/p>\n<p>E a gente do reisado logo batendo palmas, pandeiros e berimbaus:<\/p>\n<p>Ora venha ver o que temos di d\u00e1<br \/>\nGarrafas de vinho, doce de ara\u00e7\u00e1.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o satisfaz. Dudu leva-me quase \u00e0 for\u00e7a<br \/>\npara um lugar de honra e eu vejo uma mulatinha com o cabelo \u00e0 Cl\u00e9o<br \/>\nde Merod, enfiada numa confusa roupagem rubra.<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9 aquela?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 Etelvina. T\u00e1 servindo de porta-bandeira&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o era necess\u00e1ria a explica\u00e7\u00e3o. O pessoal, quebrando<br \/>\ntodo em saracoteios ex\u00f3ticos, cantava com as veias do pesco\u00e7o<br \/>\nsaltadas:<\/p>\n<p>Porta-bandeira deu sin\u00e1,<br \/>\nDeu sin\u00e1 no Humait\u00e1,<br \/>\nPorta-bandeira deu sin\u00e1,<br \/>\nDeu s\u00edn\u00e1 tulou, tulou!<\/p>\n<p>Aproveito a considera\u00e7\u00e3o do Dudu para compreender o presepe:<\/p>\n<p>\u2013 Por que diabo p\u00f5em voc\u00eas o retrato da imperatriz ali?<\/p>\n<p>\u2013 A imperatriz era m\u00e3e dos brasileiros e est\u00e1 no c\u00e9u.<\/p>\n<p>\u2013 Mas Napole\u00e3o, homem, Napole\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, gente, ele n\u00e3o foi rei do mundo? Tudo est\u00e1<br \/>\nali para honrar o menino Deus.<\/p>\n<p>\u2013 A bailarina tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>\u2013 A bailarina \u00e9 enfeite.<\/p>\n<p>\u2013 Guardo religiosamente esta profunda resposta.<\/p>\n<p>Os do reisado cantam agora uma certa marcha que faz c\u00f3cegas. Os versinhos<br \/>\ns\u00e3o errados, mas \u00edntimos e, sibilizados por aquela gente ingenuamente<br \/>\nferoz, d\u00e3o impress\u00f5es de car\u00edcias:<\/p>\n<p>Sussu sossega<br \/>\nVai dromi teu sono<br \/>\nEst\u00e1 com medo diga,<br \/>\nQuer dinheiro, tome!<\/p>\n<p>Que tem Sussu com a Epifania? Nada. Essas can\u00e7\u00f5es, por\u00e9m,<br \/>\ns\u00e3o toda a psicologia de um povo, e cada uma delas bastaria para lhe<br \/>\ncontar o servilismo, a car\u00edcia temerosa, o instinto da fatalidade que<br \/>\no amolece, e a ironia, a despreocupada ironia do malandro nacional.<\/p>\n<p>\u2013 Mas por que, continuo eu curioso, p\u00f5em voc\u00eas junto do<br \/>\nrei Baltasar aquele boneco de cacete?<\/p>\n<p>\u2013 Aquele \u00e9 o rei da capoeiragem. Est\u00e1 perto do Rei Baltasar<br \/>\nporque deve estar. Rei preto tamb\u00e9m viu a estrela. Deus n\u00e3o<br \/>\nesqueceu a gente. Ora n\u00e3o sei se V. Sa conhece que Baltasar \u00e9<br \/>\npai da ra\u00e7a preta. Os negros da Angola quando vieram para a Bahia trouxeram<br \/>\numa dan\u00e7a chamada cungu, em que se ensinava a brigar. Cungu com o tempo<br \/>\nvirou mandinga e S. Bento.<\/p>\n<p>\u2013 Mas que tem tudo isso?&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Isso, gente, s\u00e3o nomes antigos da capoeiragem. Jogar capoeira<br \/>\n\u00e9 o mesmo que jogar mandinga.<\/p>\n<p>Rei da capoeiragem tem seu lugar junto de Baltasar. Capoeiragem tem sua religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Abri os olhos pasmados. O negro riu.<\/p>\n<p>\u2013 V. Sa n\u00e3o conhece a arte? Hoje est\u00e1 por baixo. Valente<br \/>\nde verdade s\u00f3 h\u00e1 mesmo uns dez: Jo\u00e3o da S\u00e9, Tito<br \/>\nda Praia, Chico Bolivar, Marinho da Silva, Manuel Piquira, Ludgero da Praia,<br \/>\nManuel Tolo, Mois\u00e9s, Mariano da Piedade, C\u00e2ndido Baianinho, outros&#8230;Esses<br \/>\n&#8220;cabras&#8221; sabiam jogar mandinga como homens&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o os capoeiras est\u00e3o nos presepes para acabar com<br \/>\nas presepadas&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Sim senhor. Capoeiragem \u00e9 uma arte, cada movimento tem um<br \/>\nnome. \u00c9 mesmo como sorte de jogo. Eu agacho, prendo V. Sa pelas pernas<br \/>\ne viro \u2013 V. Sa virou bal\u00e3o e eu entrei debaixo. Se eu cair virei<br \/>\nboi. Se eu lan\u00e7ar uma tesoura eu sou um porco, porque tesoura n\u00e3o<br \/>\nse usa mais. Mas posso arrastar-lhe uma tarrafa mestra.<\/p>\n<p>\u2013 Tarrafa?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 uma rasteira com for\u00e7a. Ou esperar o degas de galho,<br \/>\nassim duro, com os bra\u00e7os para o ar e se for rapaz da luta, passar-lhe<br \/>\no tronco na queda, ou, se for arara, arrumar-lhe mesmo o bau\u00fa, pontap\u00e9<br \/>\nna pan\u00e7a. Ah! V. Sa n\u00e3o imagina que por\u00e7\u00e3o de<br \/>\nnomes tem o jogo. S\u00f3 rasteira, quando \u00e9 deitada, chama-se banda,<br \/>\nquando com for\u00e7a tarrafa, quando no ar para<\/p>\n<p>bater na cara do cabra meia-lua.<\/p>\n<p>\u2013 Mas \u00e9 um jogo bonito! fiz para content\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Vai at\u00e9 o au\u00f4, salto mortal, que se inventou na Bahia.<\/p>\n<p>Para aquela li\u00e7\u00e3o t\u00e3o intempestiva, j\u00e1 se havia<br \/>\nformado um grupo de temperamentos b\u00e9licos. Um rapazola falou.<\/p>\n<p>\u2013 E a encruzilhada?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade, n\u00e3o disseste nada de encruzilhada?<\/p>\n<p>E a discuss\u00e3o cresceu. Parecia que iam brigar.<\/p>\n<p>Fora, a chuva jorrava torrencial. Um rel\u00f3gio p\u00f4s-se a bater<br \/>\npregui\u00e7osamente meia-noite. As mulatinhas cantavam tristes:<\/p>\n<p>Meu rei de Ouros quem te matou?<br \/>\nFoi um pobre ca\u00e7ad\u00f4.<\/p>\n<p>Mas Dudu saltou para o meio da sala. Houve um choque de palmas. E diante<br \/>\ndo quarto, onde se confundia o mundo em adora\u00e7\u00e3o a Deus, o negro<br \/>\ncantou, acompanhado pelo coro:<\/p>\n<p>J\u00e1 deu meia-noite<br \/>\nO sol est\u00e1 pendente<br \/>\nUm quilo de carne<br \/>\nPara tanta gente!<\/p>\n<p>Oh! suave ironia dos malandros! Na bai\u00faca havia alegria, parati, \u00e1lcool,<br \/>\nfantasia, talvez o amor nascido de todas aquelas dan\u00e7as e do insuport\u00e1vel<br \/>\ncheiro do \u00e9ter floral.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia, por\u00e9m, com que comer. Diante de Jesus, que s\u00f3<br \/>\nlhes dera o dia de amanh\u00e3, a queixa se desfazia num quase riso. Um<br \/>\nquilo de carne para tanta gente!<\/p>\n<p>Talvez nem isso! Sa\u00ed, deixei o \u00faltimo presepe.<\/p>\n<p>De longe, a casinhola com as suas ilumina\u00e7\u00f5es tinha um ar de<br \/>\nsonho sob a chuva, um ar de milagre, o milagre da cren\u00e7a, sempre eterna<br \/>\ne vivaz, saudando o natal de Deus atrav\u00e9s da ingenuidade dos pobres.<br \/>\nComo seria bom dar-lhes de comer, \u00f3 Deus poderoso!<\/p>\n<p>Como lhes daria eu um farto jantar se, como eles, n\u00e3o tivesse apenas<br \/>\na esperan\u00e7a de amanh\u00e3 obter um quilo de carne s\u00f3 para<br \/>\nmim!<\/p>\n<h4><a name=\"13\"><\/a>Como se Ouve a Missa do &#8220;Galo&#8221;<\/h4>\n<p>A missa do &#8220;galo&#8221; n\u00e3o come\u00e7a precisamente \u00e0<br \/>\nmeia-noite e n\u00e3o tem a obriga\u00e7\u00e3o de acabar antes de uma<br \/>\nda manh\u00e3. A missa s\u00f3, sem galo, o divino sacrif\u00edcio de<br \/>\nque os casu\u00edstas espanh\u00f3is do s\u00e9culo XIII faziam a anatomia<br \/>\n\u2013 talvez tivesse em tempos remotos uma hora precisa, exata, confirmada<br \/>\npelo dogma. O galo, por\u00e9m, varia e canta, ou adiantado ou com atraso.<br \/>\nOra, o chamar a missa do Natal de Cristo missa do galo \u00e9 ainda um costume<br \/>\nlatino. Os romanos contavam as horas com uma certa poesia. Logo depois da<br \/>\nmedia nocte, chamavam eles ao tempo gallicinium, hora em que o galo come\u00e7a<br \/>\na cantar. A missa realizada, assim, ap\u00f3s a media nocte, ficou sendo<br \/>\na missa do galo, e \u00e9 ainda o velho e desusado gallic\u00ednium que<br \/>\nse recorda quando os sacerdotes levantam a h\u00f3stia nos altares, e de<br \/>\ncapoeira em capoeira, sonoro e glorioso, se propaga o di\u00e1logo dos galos:<br \/>\nCristo nasceu! Onde? Em Bel\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Eu estava exatamente defronte da igreja de Santana, dispondo de um autom\u00f3vel<br \/>\npossante. Era a mais que alegre hora da meia-noite que alguns temperamentos<br \/>\nrom\u00e2nticos ainda julgam sinistra. Aquele trecho da cidade tinha um aspecto<br \/>\nfestivo, um estranho aspecto de anormalidade. Das ruas laterais vindo em fila<br \/>\nfam\u00edlias da Cidade Nova, primeiro as crian\u00e7as, depois as mocinhas,<br \/>\n\u00e0s vezes ladeadas de mancebos am\u00e1veis, depois as matronas agasalhadas<br \/>\nem fichus; vinham marchando como quem vai para a ceifa, grossos machacares,<br \/>\nde chapel\u00e3o e casaco grosso; vinham gingando negrinhas de vestido gomado;<br \/>\n&#8220;cabras&#8221; de cal\u00e7a bombacha, velhas pretas embrulhadas em<br \/>\nxales. Era como uma s\u00e9rie de prociss\u00f5es em que as irmandades<br \/>\nse separavam segundo as classes. No adro, repleto, havia uma mistura de popula\u00e7a<br \/>\nem festa. Grupos de rapazes berravam gra\u00e7as, bondes paravam despejando<br \/>\ngente, vendedores ambulantes apregoavam doces e comest\u00edveis; todos<br \/>\nos rostos abriam-se em fraterna alegria, e naquela sarabanda humana, naquele<br \/>\nvozear estonteante, uma nota predominava \u2013 a do namoro. Os rapazes estavam<br \/>\nali para namorar, para aproveitar a ocasi\u00e3o. Os encontros tinham sido<br \/>\nde antem\u00e3o combinados. Quando um grupo familiar encontrava um rapaz<br \/>\no \u2013 oh! seu Antenor! Tamb\u00e9m por aqui! a resposta: oh! d. Belinha,<br \/>\nent\u00e3o tamb\u00e9m veio! \u2013 soavam como quem diz: oh! n\u00e3o<br \/>\nfaltaste&#8230; Havia de resto pares de bra\u00e7o dado, meninas que murmuravam<br \/>\nfrases ao lado dos mocet\u00f5es, sob o olhar protetor das mam\u00e3es&#8230;A<br \/>\nmissa era um alegre pretexto e, se na classe burguesa o namoro tinha uma cor<br \/>\nt\u00e3o suave, nas outras irmandades o entusiasmo era maior. Entrei no<br \/>\ntemplo atr\u00e1s de um grupo de mocinhos entusiasmados, um dos quais teimava<br \/>\nque havia de apertar, enquanto outro, com uma carta de alfinetes, asseverava<br \/>\nestar disposto a pregar alguns pares. O grupo ria, a igreja estava repleta,<br \/>\nquente, ardendo na nave de humanidade pouco crente, ardendo de do\u00e7ura<br \/>\nsuperior nas velas dos altares. Mocinhas irrequietas, rindo, abriam passagem;<br \/>\nrapazes lamentavelmente espirituosos estabeleciam o arrocho, empurrando o<br \/>\ncorpo como quem vai dan\u00e7ar o cakewalk e pretalh\u00f5es de pastinhas,<br \/>\nerguendo alto os chap\u00e9us de palha, violentavam a massa com os cotovelos<br \/>\npara chegar ao altar-mor. No ar parado um sino bateu. Houve uma interjei\u00e7\u00e3o<br \/>\nprolongada da multid\u00e3o, ia come\u00e7ar a missa. Era a missa do galo<br \/>\nnos bairros&#8230;<\/p>\n<p>Sa\u00ed suando, tomei o autom\u00f3vel, nervoso. Ao lado da m\u00e1quina,<br \/>\nna aglomera\u00e7\u00e3o, uma voz de mulher fez de repente:<\/p>\n<p>\u2013 Ai!<\/p>\n<p>\u2013 Que \u00e9? que foi? bradou um vozeir\u00e3o formid\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2013 Cocoric\u00f3! cantou um gaiato.<\/p>\n<p>E entre as gargalhadas de mofa escandalosa, o autom\u00f3vel rodou.<\/p>\n<p>Parei na catedral. A enchente era t\u00e3o colossal que havia gente at\u00e9<br \/>\nna rua.<\/p>\n<p>O templo ardia em luzes. De fora viam-se os sacerdotes de sobrepeliz dourada,<br \/>\na candel\u00e1ria luminosa, os santos, e toda a igreja vibrava das graves<br \/>\nharmonias do \u00f3rg\u00e3o, real\u00e7adas por um coro abaritonado.<br \/>\nA turba tinha outro aspecto. Senhoras de chap\u00e9u, cavalheiros sempre<br \/>\ncom esse am\u00e1vel ar conquistador que o homem se arroga nas festas p\u00fablicas,<br \/>\nde mistura com fuzileiros navais, marinheiros alcoolizados, caixeirinhos do<br \/>\ncom\u00e9rcio de roupa nova e com os olhos cheios de sono.<\/p>\n<p>Toda essa gente conseguia entrar e sair, fazer como um torvelinho \u00e0<br \/>\nporta, onde duas senhoras vestidas de negro, esticando uma sacola, diziam<br \/>\nmaquinalmente: \u2013 para a cera! para a cera! Ningu\u00e9m dava, ningu\u00e9m<br \/>\nse ralava. O sopro de excita\u00e7\u00e3o dos sentidos parecia recrudescido<br \/>\npelo sopro musical do org\u00e3o. Figuras que sa\u00edam da igreja vinham<br \/>\nalgumas congestas; as que entravam tinham uma viol\u00eancia agu\u00e7ada<br \/>\nno olhar. Na rua, como que farejando, sujeitos iam e vinham entre os grupos<br \/>\nde malandros \u00e9brios, de negros de capa no bra\u00e7o com um ar de<br \/>\ncopeiros de casa rica, de mulheres conversadeiras. Encontro um rep\u00f3rter<br \/>\nde jornal.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! tu tamb\u00e9m! que p\u00e2ndega, filho! Mas espera&#8230;<\/p>\n<p>Indagou com o olhar a rua, sorriu, apertou-me o bra\u00e7o, apressado:<\/p>\n<p>\u2013 At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>Dou de frente com um bando de gente de teatro. Uma das atrizes assegura:<\/p>\n<p>\u2013 Estou com os bra\u00e7os doendo&#8230;<\/p>\n<p>E logo depois, deixando a atriz, encontro o protetor.<\/p>\n<p>\u2013 Viste-a por a\u00ed? Olha s\u00f3 aquela fam\u00edlia com crian\u00e7as.<br \/>\nS\u00f3 nesta terra! Eu n\u00e3o! Ceei com meus filhos: \u00e0s dez<br \/>\nhoras tudo na cama, e \u00e0s onze deixei de ser pai-de-fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem.<\/p>\n<p>Era a missa do galo na cidade&#8230;Que tinha eu? Desgosto? Tristeza? Dor de<br \/>\ncabe\u00e7a? Sei l\u00e1! Despedi-me do ex-pai-de-fam\u00edlia, tomei<br \/>\nde novo o autom\u00f3vel que logo deslizou pela Rua da Assembl\u00e9ia<br \/>\npara cair numa vertiginosa carreira pela Avenida Central.<\/p>\n<p>\u2013 Que \u00e9 aquilo?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a missa do convento da Ajuda.<\/p>\n<p>Saltei. A rua estava negra de gente. Os focos el\u00e9tricos da Avenida<br \/>\nmais de sombra enchiam aquele canto \u2013 a porta t\u00e3o triste onde<br \/>\na turba se acotovelava.<\/p>\n<p>Um sujeito valente pisou tr\u00eas ou quatro p\u00e9s, barafustou. Acompanhei-o.<br \/>\nEra a missa l\u00e1 dentro imersa em tristeza infinda. At\u00e9 os altares<br \/>\npareciam mais agourentos, at\u00e9 as imagens guardavam na face uma dor<br \/>\nmais amarga. E a missa trespassava a alma, porque, enquanto o sacerdote ia<br \/>\ne vinha no altar, por tr\u00e1s, na sombra, perpetuamente na sombra, morta,<br \/>\nenterrada, perdida para o mundo, a voz das monjas varava o ar como o som de<br \/>\num cristal quebrado, retorcia-se no sacrif\u00edcio do louvor do deus que<br \/>\nnascera de um seio humano, espiralava como uma contor\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica,<br \/>\nsolu\u00e7ava cantando&#8230;<\/p>\n<p>Ia mais adiante, mas na minha frente um latag\u00e3o bocejou:<\/p>\n<p>\u2013 Que cacetada!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade, vamo-nos, respondeu a companheira.<\/p>\n<p>\u2013 Ainda temos tempo de ir a Copacabana.<\/p>\n<p>Consultou o rel\u00f3gio e come\u00e7ou a sair, imprimindo tal movimento<br \/>\n\u00e0 massa de gente, que eu, com outros mais, de recuar tanto, me achei<br \/>\nde novo na porta triste e humilde.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 Jos\u00e9, vamos a Copacabana?<\/p>\n<p>\u2013 Anda da\u00ed.<\/p>\n<p>Copacabana devia ser divertido. Tomei de novo o autom\u00f3vel e disse<br \/>\nao chauffeur:<\/p>\n<p>\u2013 Para Copacabana.<\/p>\n<p>Naquele delicioso percurso da Avenida Beira-Mar, toda ensopada de luz el\u00e9trica,<br \/>\noutros autom\u00f3veis de toldo arriado, outros carros, outras condu\u00e7\u00f5es<br \/>\ncorriam na mesma dire\u00e7\u00e3o. Homens espapa\u00e7ados nas almofadas<br \/>\ndavam vivas, mulheres de grandes chap\u00e9us estralejavam risos, era uma<br \/>\nestrepitosa e in\u00e9dita corrida para C\u00edtera. Quando, no fim da<br \/>\navenida, os autom\u00f3veis seguiram pelas antigas ruas, cada encontro de<br \/>\nbonde era uma cat\u00e1stofre. Os tramways, apesar de comboiarem tr\u00eas<br \/>\ncarros, iam com gente at\u00e9 aos tejadilhos, e essa gente furiosa, numa<br \/>\nf\u00faria que lembrava bem a vertigem de Dion\u00edsios, berrava, apostrofava,<br \/>\natirava bengaladas num despejo de corpos e de conveni\u00eancias. Entretanto,<br \/>\npelas mesmas ruas, a corrida aumentava e era uma disparada louca entre vocifera\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsons de corneta, tren-ten-tens de bondes, estalar de chicote. Quando passamos<br \/>\no t\u00fanel num fracasso de metralha e demos nos campos de Copacabana,<br \/>\na velocidade foi vertiginosa, e era apenas vagamente que se divisavam, fugindo<br \/>\n\u00e0 sanha dos fon-fons, ao estr\u00e9pito das rodas, a linha de fi\u00e9is<br \/>\nda redondeza marginando o capinzal e, \u00e0 esquerda, num diadema de estrelas,<br \/>\na ilumina\u00e7\u00e3o da Igrejinha. Recostei-me. O autom\u00f3vel saltava<br \/>\ncomo um orango \u00e9brio, no piso mau. De repente fez uma curva e entrou<br \/>\nnuma rua cheia de gente, de carros, de outros autom\u00f3veis. Est\u00e1vamos<br \/>\nno grande s\u00edtio.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 aqui?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9.<\/p>\n<p>Cerca de tr\u00eas mil pessoas \u2013 pessoas de todas as classes, desde<br \/>\na mais alta e a mais rica \u00e0 mais pobre e \u00e0 mais baixa, enchia<br \/>\naquele trecho, subia promont\u00f3rio acima. E o aspecto era edificante.<br \/>\nGrupos de rapazes apostavam em altos berros subir \u00e0 igreja pela rocha;<br \/>\nmulheres em desvario galgavam a correr por outro lado, patinhando a lama viscosa.<br \/>\nTodos os trajes, todas as cores se confundiam num am\u00e1lgama formid\u00e1vel,<br \/>\ntodos os temperamentos, todas as taras, todos os excessos, todas as pervers\u00f5es<br \/>\nse entrela\u00e7avam. Quis notar o elemento predominante. Num trecho havia<br \/>\nmais pretas com soldados. Adiante logo, o dom\u00ednio era de gente de servi\u00e7o<br \/>\nbra\u00e7al, um pouco mais longe a tropa se fazia de rapazelhos do com\u00e9rcio<br \/>\ne, se d\u00e1vamos um passo, outro grupo de mocinhas com senhores conquistadores<br \/>\nse nos antolhava. Todo esse pessoal gritava.<\/p>\n<p>Logo na subida encontrei um meninote engolindo uns restos de vinho do Porto<br \/>\npelo gargalo da garrafa. Em meio do caminho um grupo do Clube dos Democr\u00e1ticos,<br \/>\nde guarda-chuva branco e preto, tocava guitarras e assobios.<\/p>\n<p>De todos os lados partiam cantos de galo. Os cocoric\u00f3s cl\u00e1ssicos<br \/>\nvinham finos, grossos, roufenhos, em falsete: \u2013 Cocoric\u00f3! Cocoric\u00f4!<\/p>\n<p>\u2013J\u00e1 ouviste cantar o galo?<\/p>\n<p>\u2013 Pois hoje n\u00e3o \u00e9 a missa dele?<\/p>\n<p>\u2013 Cocoric\u00f3! pega ele pra capar!<\/p>\n<p>\u2013 Pega!<\/p>\n<p>A igrejinha estava toda iluminada exteriormente \u00e0 luz el\u00e9trica.<br \/>\nDefronte de sua fachada lateral haviam armado um botequim. A turba arfava<br \/>\na\u00ed, presa entre a bodega e o templo. Quando eu passei, por\u00e9m,<br \/>\na bodega fora devorada e bebida. Os caixeiros tinham trepado para os balc\u00f5es<br \/>\nno desejo de apreciar a cena. Fiz um violento esfor\u00e7o para entrar na<br \/>\nigreja. \u00c0 porta havia uma verdadeira luta e dentro ningu\u00e9m se<br \/>\npodia mexer. Divisei apenas como indica\u00e7\u00e3o humilde do dia \u2013<br \/>\num presepe no lado esquerdo, um presepe com pano de fundo representando fielmente<br \/>\num trecho de Cascadura, e estava assim embebido, quando de repente estalou<br \/>\no rolo, o rolo r\u00e1pido e habitual. Um sujeito apanhara uma bengalada,<br \/>\nlevantara o guarda-chuva, uma menina gritara: \u2013 nunca mais venho \u00e0<br \/>\nmissa! E no rold\u00e3o da turba medrosa, de novo ca\u00ed na ladeira,<br \/>\nouvindo os cocoric\u00f3s, as chufas, as gra\u00e7as s\u00f3rdidas:<\/p>\n<p>\u2013 Pega pra capar! Cocoric\u00f3! J\u00e1 ouviste o galo?<\/p>\n<p>No c\u00e9u cor de chumbo, amea\u00e7ador de temporais, espocavam gir\u00e2ndolas<br \/>\nde foguetes. E todo aquele trecho, mais aquecido, mais feroz, mais cheio de<br \/>\ngente redobrava de deboche, de frenesi p\u00e2ndego, de loucura, quebrando<br \/>\ncopos, cantando, assobiando, praguejando, ganindo.<\/p>\n<p>Atirei-me dentro do autom\u00f3vel, exausto. A m\u00e1quina disparou<br \/>\noutra vez, lutando agora contra a massa dos carros, dos autom\u00f3veis,<br \/>\ndos tramways que chegavam.<\/p>\n<p>\u2013 Onde \u00e9 a Lapa do Desterro?<\/p>\n<p>\u2013 Quer ir l\u00e1? \u00c9 uma igreja de gente pobre. E na Lapa.<\/p>\n<p>\u2013 Pois vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel quebrou pela Rua da Lapa, parou defronte da velha igreja.<br \/>\nEram duas horas da manh\u00e3. Havia \u00e0 porta a mesma matula de homens<br \/>\nendomingados \u00e0 espera da conquista, a mesma sarabanda de sirigaitas.<br \/>\nEntrei. O tapete do templo, velho, esfarripado, tinha por cima, em alguns<br \/>\ntrechos, folhas de mangueira. No altar-mor, dos lados, entre panos azuis,<br \/>\nardiam dois bicos auer, e aquela luz azul como transfigurava o reb\u00e1tulo,<br \/>\nos acess\u00f3rios, os ouros despolidos. A concorr\u00eancia era menor,<br \/>\nna nave, mulheres de xale formavam roda conversando. Andei por ali tristemente.<br \/>\nAo sair, por\u00e9m, vi de joelhos um homem.<\/p>\n<p>De joelhos? Na missa do galo? Deus! Quem seria aquele pobre coitado? Aproximei-me.<br \/>\nEra um rapaz \u2013 teria no m\u00e1ximo vinte anos. Ao lado o seu chapel\u00e3o<br \/>\nde coco repousava junto \u00e0 grossa bengala. No seu corpo ajustava-se<br \/>\ndemais um grosso fato de inverno alde\u00e3o. De m\u00e3os postas, a face<br \/>\ning\u00eanua voltada para o altar, esse ser, numa noite b\u00e1quica, era<br \/>\nt\u00e3o anormal, t\u00e3o extraordin\u00e1rio, que eu cheguei bem perto,<br \/>\nolhei bem, fui ao ponto de curvar-me para lhe espiar os olhos. O pobre sobressaltou-se.<\/p>\n<p>\u2013 Meu senhor!<\/p>\n<p>\u2013 Que est\u00e1 voc\u00ea a fazer a\u00ed?<\/p>\n<p>\u2013 Que estava? Ah? perd\u00e3o&#8230;Estava a rezar, estava a pedir ao<br \/>\nMenino Deus que d\u00ea sa\u00fadinha aos pais l\u00e1 na terra e que<br \/>\nme proteja.<\/p>\n<p>\u2013 Donde \u00e9 voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Saber\u00e1 V. Sa que do Douro, sim senhor.<\/p>\n<p>Falava de joelhos, a sorrir para mim; pobre alma ing\u00eanua e pura de<br \/>\naldeia, pobre alma que se ia putrefazer na grande cidade, \u00fanico cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nque adorara Deus entre as dez mil pessoas vistas por mim!<\/p>\n<p>Oh! Tive um \u00edmpeto, o desejo de abra\u00e7\u00e1-lo, a sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde quem, ap\u00f3s uma longa desilus\u00e3o, sente viva no abismo fundo<br \/>\na flor maravilhosa. Mas j\u00e1 em torno se fazia roda de ociosos, j\u00e1<br \/>\num sujeito surgira com um riso de tro\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Pois faz muito bem. Adeus.<\/p>\n<p>\u2013 Adeus, meu senhor!<\/p>\n<p>\u2013 E continuou \u2013 \u00f3 coisa incr\u00edvel! \u2013 de joelhos,<br \/>\nvoltado para Deus, lembrando a sua aldeia, lembrando os paizinhos, pedindo<br \/>\no bem \u2013 enquanto pela cidade inteira as ceatas e as p\u00e2ndegas desencadeavam<br \/>\nos \u00edmpetos desa\u00e7aimados..<\/p>\n<h4><a name=\"14\"><\/a>Cord\u00f5es<\/h4>\n<p>Oh! abre ala!<br \/>\nQue eu quero pass\u00e1<br \/>\nEstrela d\u2019Alva<br \/>\nDo Carnav\u00e1!<\/p>\n<p>Era em plena Rua do Ouvidor. N\u00e3o se podia andar. A multid\u00e3o<br \/>\napertava-se, sufocada. Havia sujeitos congestos, for\u00e7ando a passagem<br \/>\ncom os cotovelos, mulheres afogueadas, crian\u00e7as a gritar, tipos que<br \/>\nberravam pilh\u00e9rias. A pletora da alegria punha desvarios em todas as<br \/>\nfaces. Era prov\u00e1vel que do Largo de S. Francisco \u00e0 Rua Direita<br \/>\ndan\u00e7assem vinte cord\u00f5es e quarenta grupos, rufassem duzentos<br \/>\ntambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinq\u00fcenta mil pessoas. A<br \/>\nrua convulsionava-se como se fosse fender, rebentar de lux\u00faria e de<br \/>\nbarulho. A atmosfera pesava como chumbo. No alto, arcos de g\u00e1s besuntavam<br \/>\nde uma luz de a\u00e7afr\u00e3o as fachadas dos pr\u00e9dios. Nos estabelecimentos<br \/>\ncomerciais, nas reda\u00e7\u00f5es dos jornais, as l\u00e2mpadas el\u00e9tricas<br \/>\ndespejavam sobre a multid\u00e3o uma luz \u00e1cida e galv\u00e2nica,<br \/>\nque enlividescia e parecia convulsionar os movimentos da turba, sob o panejamento<br \/>\nmulticolor das bandeiras que adejavam sob o esfarelar constante dos confetti,<br \/>\nque, como um irisamento do ar, ca\u00edam, voavam, rodopiavam. Essa ilumina\u00e7\u00e3o<br \/>\nviolenta era ainda aquecida pelos bra\u00e7os de luz auer, pelas vermelhid\u00f5es<br \/>\nde inc\u00eandio e as s\u00fabitas explos\u00f5es azuis e verdes dos<br \/>\nfogos de Bengala; era como que arrepiada pela corrida diab\u00f3lica e incessante<br \/>\ndos archotes e das pequenas l\u00e2mpadas port\u00e1teis. Serpentinas riscavam<br \/>\no ar; homens passavam empapados d\u2019\u00e1gua, cheios de confetti; mulheres<br \/>\nde chap\u00e9u de papel curvavam as nucas \u00e0 etila dos lan\u00e7a-perfumes,<br \/>\nfrases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros, uivos, guinchos.<br \/>\nUm cheiro estranho, misto de perfume barato, fartum, poeira, \u00e1lcool,<br \/>\naquecia ainda mais o baixo instinto de promiscuidade. A rua personalizava-se,<br \/>\ntornava-se uma e parecia, toda ela policromada de serpentinas e confetti,<br \/>\narlequinar o pincho da loucura e do deboche. N\u00f3s \u00edamos indo,<br \/>\neu e o meu amigo, nesse pandem\u00f4nio. Atr\u00e1s de n\u00f3s, sem<br \/>\ncolarinho, de pijama, bufando, um grupo de rapazes acad\u00eamicos, futuros<br \/>\ndiplomatas e futuras gl\u00f3rias nacionais, berrava furioso a cantiga do<br \/>\ndia, essas cantigas que s\u00f3 aparecem no Carnaval:<\/p>\n<p>H\u00e1 duas coisa<br \/>\nQue me faz chor\u00e1<br \/>\n\u00c9 n\u00f3 nas tripa<br \/>\nE batai\u00e3o nav\u00e1!<\/p>\n<p>De repente, numa esquina, surgira o pavoroso abre-alas, enquanto, acompanhado<br \/>\nde urros, de pandeiros, de xequer\u00eas, um outro cord\u00e3o surgia.<\/p>\n<p>Sou eu! Sou eu!<br \/>\nSou eu que cheguei aqui<br \/>\nSou eu Mina de Ouro<br \/>\nTrazendo nosso Bogari.<\/p>\n<p>Era intimativo, definitivo. Havia por\u00e9m outro. E esse cantava adul\u00e7orado:<\/p>\n<p>Meu beija-flor<br \/>\nPediu para n\u00e3o contar<br \/>\nO meu segredo<br \/>\nA Iai\u00e1.<br \/>\nS\u00f3 conto particular.<br \/>\nIai\u00e1 me deixe descansar<br \/>\nRema, rema, meu amor<br \/>\nEu sou o rei do pescador.<\/p>\n<p>Na turba compacta o alarma correu. O cord\u00e3o vinha assustador. A frente<br \/>\num grupo desenfreado de quatro ou cinco caboclos adolescentes com os sapatos<br \/>\ndesfeitos e grandes arcos pontudos corria abrindo as bocas em berros roucos.<br \/>\nDepois um negralh\u00e3o todo de penas, com a face lustrosa como piche,<br \/>\na gotejar suor, estendia o bra\u00e7o musculoso e nu sustentando o tacape<br \/>\nde ferro. Em seguida gargolejava o grupo vestido de vermelho e amarelo com<br \/>\nlantejoulas d\u2019ouro a chispar no dorso das casacas e grandes cabeleiras<br \/>\nde cachos, que se confundiam com a epiderme num empastamento nauseabundo.<br \/>\nLadeando o bolo, homens em tamancos ou de p\u00e9s nus iam por ali, trope\u00e7ando,<br \/>\nerguendo archotes, carregando serpentes vivas sem os dentes, lagartos enfeitados,<br \/>\njabutis aterradores com grandes gritos roufenhos.<\/p>\n<p>Abriguei-me a uma porta. Sob a chuva de confetti, o meu companheiro esfor\u00e7ava-se<br \/>\npor alcan\u00e7ar-me.<\/p>\n<p>\u2013 Por que foges?<\/p>\n<p>\u2013 Oh! estes cord\u00f5es! Odeio o cord\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e9rio!<\/p>\n<p>Ele parou, sorriu:<\/p>\n<p>\u2013 Mas que pensas tu? O cord\u00e3o \u00e9 o carnaval, o cord\u00e3o<br \/>\n\u00e9 vida delirante, o cord\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo elo das<br \/>\nreligi\u00f5es pag\u00e3s. Cada um desses pretos ululantes tem por sob<br \/>\na belbutina e o reflexo discr\u00f4mico das lantejoulas, tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nmilenares; cada preta b\u00eabada, desconjuntando nas tarlatanas amarfanhadas<br \/>\nos quadris largos, recorda o del\u00edrio das prociss\u00f5es em Biblos<br \/>\npela \u00e9poca da primavera e a f\u00faria r\u00e1bida das bacantes.<br \/>\nEu tenho vontade, quando os vejo passar zabumbando, chocalhando, berrando,<br \/>\narrastando a apoteose incomensur\u00e1vel do rumor, de os respeitar, entoando<br \/>\nem seu louvor a &#8220;pros\u00f3dia&#8221; cl\u00e1ssica com as frases<br \/>\nde P\u00edndaro \u2013 salve grupos floridos, ramos floridos da vida&#8230;<\/p>\n<p>Parei a uma porta, estendo as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a loucura, n\u00e3o tem d\u00favida, \u00e9 a loucura.<br \/>\nPois \u00e9 poss\u00edvel louvar o agente embrutecedor das cefalgias e<br \/>\ndo horror?<\/p>\n<p>\u2013 Eu adoro o horror. \u00c9 a \u00fanica fei\u00e7\u00e3o verdadeira<br \/>\nda humanidade. E por isso adoro os cord\u00f5es, a vida paroxismada, todos<br \/>\nos sentimentos tendidos, todas as c\u00f3leras a rebentar, todas as ternuras<br \/>\n\u00e1vidas de torturas.<\/p>\n<p>Achas tu que haveria carnaval se n\u00e3o houvesse os cord\u00f5es? Achas<br \/>\ntu que bastariam os pr\u00e9stitos idiotas de meia d\u00fazia de senhores<br \/>\nque se julgam engra\u00e7ad\u00edssimos ou esse pesadelo dos tr\u00eas<br \/>\ndias gordos intitulado \u2013 m\u00e1scaras de esp\u00edrito? Mas o Carnaval<br \/>\nteria desaparecido, seria hoje menos que a festa da Gl\u00f3ria ou o &#8220;bumba-meu-boi&#8221;<br \/>\nse n\u00e3o fosse o entusiasmo dos grupos da Gamboa, do Saco, da Sa\u00fade,<br \/>\nde S. Diogo, da Cidade Nova, esse entusiasmo ardente, que meses antes dos<br \/>\ntr\u00eas dias vem queimando como pequenas fogueiras crepitantes para acabar<br \/>\nno formid\u00e1vel e total inc\u00eandio que envolve e estorce a cidade<br \/>\ninteira. H\u00e1 em todas as sociedades, em todos os meios, em todos os<br \/>\nprazeres, um n\u00facleo dos mais persistentes, que atrav\u00e9s do tempo<br \/>\nguarda a chama pura do entusiasmo. Os outros s\u00e3o mariposas, aumentam<br \/>\nas sombras, fazem os efeitos.<\/p>\n<p>Os cord\u00f5es s\u00e3o os n\u00facleos irredut\u00edveis da folia<br \/>\ncarioca, brotam como um fulgor mais vivo e s\u00e3o antes de tudo bem do<br \/>\npovo, bem da terra, bem da alma encantadora e b\u00e1rbara do Rio.<\/p>\n<p>Quantos cord\u00f5es julgas que h\u00e1 da Urca ao Caju? Mais de duzentos!<br \/>\nE todos, mais de duas centenas de grupos, s\u00e3o inconscientemente os<br \/>\nsacr\u00e1rios da tradi\u00e7\u00e3o religiosa da dan\u00e7a, de um<br \/>\ncostume hist\u00f3rico e de um h\u00e1bito infiltrado em todo o Brasil.<\/p>\n<p>\u2013 Explica-te! bradei eu, fugindo para outra porta, sob uma avalanche<br \/>\nde confetti e velhas serpentinas varridas de uma sacada.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s de mim, todo sujo, com fitas de papel velho pelos ombros, o<br \/>\nmeu companheiro continuou:<\/p>\n<p>\u2013 Eu explico. A dan\u00e7a foi sempre uma manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncultual. N\u00e3o h\u00e1 dan\u00e7as novas; h\u00e1 lentas transforma\u00e7\u00f5es<br \/>\nde antigas atitudes de culto religioso. O bailado cl\u00e1ssico das bailarinas<br \/>\ndo Scala e da \u00d3pera tem uma s\u00e9rie de passos do culto bram\u00e2nico,<br \/>\no minueto \u00e9 uma degeneresc\u00eancia da rever\u00eancia sacerdotal,<br \/>\ne o cakewalk e o maxixe, dan\u00e7as delirantes, t\u00eam o seu nascedouro<br \/>\nnas correrias de Dion\u00edsios e no pavor dos orixal\u00e1s da \u00c1frica.<br \/>\nA dan\u00e7a saiu dos templos; em todos os templos se dan\u00e7ou, mesmo<br \/>\nnos cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>O meu amigo falava intercortado, gesticulando. Come\u00e7ava desconfiar<br \/>\nda sua raz\u00e3o. Ele, entretanto, esticando o dedo, bradava no torvelinho<br \/>\nda rua:<\/p>\n<p>\u2013 O Carnaval \u00e9 uma festa religiosa, \u00e9 o misto dos dias<br \/>\nsagrados de Afrodita e Dion\u00edsios, vem coroado de p\u00e2mpanos e cheirando<br \/>\na lux\u00faria. As mulheres entregam-se; os homens abrem-se; os instrumentos<br \/>\nrugem; estes tr\u00eas dias ardentes, coruscantes s\u00e3o como uma enorme<br \/>\nsangria na congest\u00e3o dos maus instintos. Os cord\u00f5es sa\u00edram<br \/>\ndos templos! Ignoras a origem dos cord\u00f5es? Pois eles v\u00eam da festa<br \/>\nde N. S\u00aa do Ros\u00e1rio, ainda nos tempos coloniais. N\u00e3o sei<br \/>\npor que os pretos gostam da N. Sa do Ros\u00e1rio&#8230; J\u00e1 naquele tempo<br \/>\ngostavam e sa\u00edam pelas ruas vestidos de reis, de bichos, pajens, de<br \/>\nguardas, tocando instrumentos africanos, e paravam em frente \u00e0 casa<br \/>\ndo vice-rei a dan\u00e7ar e cantar. De uma feita, pediram ao vice-rei um<br \/>\ndos escravos para fazer de rei. O homem recusou a lisonja que dignificava<br \/>\no servo, mas permitiu os folguedos. E estes folguedos ainda subsistem com<br \/>\nsimulacros de batalha, e quase transformados, nas cidades do interior. Havia<br \/>\numa certa conex\u00e3o nas frases do cavalheiro que me acompanhava; mas,<br \/>\ncada vez mais receoso da apologia, eu andava agora quase a correr. Tive, por\u00e9m,<br \/>\nde parar. Era o &#8220;Gr\u00eamio Carnavalesco Destemidos do lnferno&#8221;,<br \/>\narrastando seis estandartes cobertos de coroas de louro. Os homens e as mulheres,<br \/>\nvestidos de preto, amarelo e encarnado, pingando suor, z\u00e9-pereiravam:<\/p>\n<p>Os roxin\u00f3is est\u00e3o a cantar<br \/>\nPor cima do carramanch\u00e3o<br \/>\nOs Destemidos do Inferno<br \/>\nTenho por eles paix\u00e3o.<\/p>\n<p>E logo vinha a chula:<\/p>\n<p>Como \u00e9s t\u00e3o linda!<br \/>\nComo \u00e9s formosa!<br \/>\nOlha os destemidos<br \/>\nNo galho da rosa.<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 idiota!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 admir\u00e1vel. Os poetas simbolistas s\u00e3o ainda<br \/>\nmais obscuros. Ora escuta este, aqui ao lado.<\/p>\n<p>Vinte e sete bombos e tambores rufavam em torno de n\u00f3s com a f\u00faria<br \/>\nmacabra de nos desparafusar os t\u00edmpanos. Voltei-me para onde me guiava<br \/>\no dedo conhecedor do P\u00edndaro daquele desespero e vi que cerca de quarenta<br \/>\nseres humanos cantavam com o l\u00e1bio grosso, \u00famido de cuspo, estes<br \/>\nversos:<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes nove<br \/>\nVinte e sete<br \/>\nBela morena<br \/>\nMe empresta seu leque<br \/>\nEu quero conhecer<br \/>\nQuem \u00e9 o treme terra?<br \/>\nNo campo de batalha<br \/>\nRepentinos d\u00e1 sinal da guerra.<\/p>\n<p>Entretanto, os Destemidos tinham parado tamb\u00e9m. Vinham em sentido<br \/>\ncontr\u00e1rio, fazendo letras complicadas pela rua forrada de papel policromo,<br \/>\nsob a ard\u00eancia das l\u00e2mpadas e dos arcos, o grupo da &#8220;Rainha<br \/>\ndo Mar&#8221; e o grupo dos &#8220;Filhos do Rel\u00e2mpago do Mundo Novo&#8221;.<br \/>\nOs da Rainha cantavam em bamboleios de onda:<\/p>\n<p>Moreninha bela<br \/>\nHei de te amar<br \/>\nSonhando contigo<br \/>\nNas ondas do mar.<\/p>\n<p>Os do Rel\u00e2mpago, chocalhando chocalhos, riscando xequed\u00eas, berravam<br \/>\nmais apressados:<\/p>\n<p>No trin\u00e1 das ave<br \/>\nVem rompendo a aurora<br \/>\nEla de saudades<br \/>\nSuspirando chora.<br \/>\nSou o Ferramenta<br \/>\nVim de Portug\u00e1<br \/>\nO meu bal\u00e3o<br \/>\nChama Nacion\u00e1.<\/p>\n<p>Senhor Deus! Era a loucura, o pandem\u00f4nio do barulho e da sandice. O<br \/>\nfragor por\u00e9m aumentava, como se concentrando naquele ponto, e, esticando<br \/>\nos p\u00e9s, eu vi por tr\u00e1s da &#8220;Rainha do Mar&#8221; uma serenata,<br \/>\numa aut\u00eantica serenata com cavaquinhos, viol\u00f5es, vozes em ritornelo<br \/>\nsustentando fermatas langorosas. Era a &#8220;Papoula do Jap\u00e3o&#8221;:<\/p>\n<p>Toda a gente pressurosa<br \/>\nProcura flor em bot\u00e3o<br \/>\n\u00c9 uma flor rec\u00e9m-nascida<br \/>\nA papoula do Jap\u00e3o<br \/>\nDocemente se beijava<br \/>\nUma&#8230; rola<br \/>\nAtra\u00edda pelo aroma<br \/>\nDa&#8230; papoula&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Vamos embora. Acabo tendo uma vertigem.<\/p>\n<p>\u2013 Admira a confus\u00e3o, o caos ululante. Todos os sentimentos todos<br \/>\nos fatos do ano reviravolteiam, esperneiam, enlanguescem, revivem nessas quadras<br \/>\nfeitas apenas para acertar com a toada da cantiga. Entretanto, homem frio,<br \/>\n\u00e9 o povo que fala. V\u00ea o que \u00e9 para ele a maior parte dos<br \/>\nacontecimentos.<\/p>\n<p>\u2013 Quantos cord\u00f5es haver\u00e1 nesta rua?<\/p>\n<p>\u2013 Sei l\u00e1 \u2013 quarenta, oitenta, cem, dan\u00e7ando em<br \/>\nfrente \u00e0 reda\u00e7\u00e3o dos jornais. Mas, caramba! olha o brilho<br \/>\ndos grupos, louva-lhes a prosperidade. O cord\u00e3o da Senhora do Ros\u00e1rio<br \/>\npassou ao cord\u00e3o de Velhos. Depois dos Velhos os Cucumbis. Depois dos<br \/>\nCucumbis os Vassourinhas. Hoje s\u00e3o duzentos.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade, com a fei\u00e7\u00e3o feroz da ironia que<br \/>\nesfaqueia os deuses e os c\u00e9us \u2013 fiz eu recordando a frase apologista.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, porque a origem dos cord\u00f5es \u00e9 o Afox\u00e9 africano,<br \/>\nem que se debocha a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 O Afox\u00e9? insisti, pasmado.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, o Afox\u00e9. \u00c9 preciso ver nesses bandos mais do que<br \/>\numa correria alegre \u2013 a psicologia de um povo. O cord\u00e3o tem antes<br \/>\nde tudo o sentimento da hierarquia e da ordem.<\/p>\n<p>\u2013 A ordem na desordem?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 um lema nacional. Cada cord\u00e3o tem uma diretoria.<br \/>\nPara as dan\u00e7as h\u00e1 dois fiscais, dois mestres-sala, um mestre<br \/>\nde canto, dois porta-machados, um achinag\u00fa ou homem da frente, vestido<br \/>\nricamente. Aos t\u00edtulos dos cord\u00f5es pode-se aplicar uma das leis<br \/>\nde filosofia primeira e concluir da\u00ed todas as id\u00e9ias dominantes<br \/>\nna popula\u00e7a. H\u00e1 uma infinidade que s\u00e3o caprichosos e<br \/>\noutros teimosos. Perfeitamente pessoal da lira: \u2013 Agora \u00e9 capricho!<br \/>\nQuando eu teimo, teimo mesmo!<\/p>\n<p>Nota depois a preocupa\u00e7\u00e3o de maravilhar, com ouro, com prata,<br \/>\ncom diamantes, que infundem o respeito da riqueza \u2013 Caju de Ouro, Chuveiro<br \/>\nde Ouro, Chuva de Prata, Rosa de Diamantes, e \u00e0s vezes coisas excepcionais<br \/>\ne \u00fanicas \u2013 Rel\u00e2mpago do Mundo Novo. Mas o da grossa popula\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 a flor da gente, tendo da harmonia a constante impress\u00e3o das<br \/>\ngaitas,<br \/>\ncavaquinhos, dos viol\u00f5es, desconhecendo a palavra, talvez apenas sentindo-a<br \/>\ncomo certos animais que entendem discursos e sofrem a a\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nsons. H\u00e1 quase tantos cord\u00f5es intitulados Flor e Harmonia, como<br \/>\nh\u00e1 Teimosos e Caprichosos. Um mesmo chama-se Flor da Harmonia, como<br \/>\nh\u00e1 outro intitulador Flor do Caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o te parece? Vai-se aos poucos detalhando a alma nacional<br \/>\nnos estandartes dos cord\u00f5es. Oliveira Gomes, esse ironista sutil, foi<br \/>\nmais longe, estudou-lhes a zoologia. Mas, se h\u00e1 Flores, Teimosos, Caprichosos<br \/>\ne Harmonias, os que querem espantar com riquezas e festas nunca vistas, h\u00e1<br \/>\ntamb\u00e9m os preocupados com as vit\u00f3rias e os triunfos, os que<br \/>\nantes de sair j\u00e1 s\u00e3o Filhos do Triunfo da Gl\u00f3ria, Vitoriosos<br \/>\ndas Chamas, Vit\u00f3ria das Belas, Triunfo das Morenas.<\/p>\n<p>\u2013 Acho gentil essa preocupa\u00e7\u00e3o de deixar vencer as mulheres.<\/p>\n<p>\u2013 A morena \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o fundamental da canalha.<br \/>\nE h\u00e1 ainda mais, meu amigo, nenhum desses grupos intitula-se republicano,<br \/>\nRepublicanos da Sa\u00fade, por exemplo. E sabe por qu\u00ea? Porque a<br \/>\nmassa \u00e9 monarquista. Em compensa\u00e7\u00e3o abundam os reis,<br \/>\nas rainhas, os vassalos, reis de ouro, vassalos da aurora, rainhas do mar,<br \/>\nh\u00e1 patriotas tremendos e a ode ao Brasil vibra infinita.<\/p>\n<p>Neste momento t\u00ednhamos chegado a uma esquina atulhada de gente. Era<br \/>\nimposs\u00edvel passar. Dan\u00e7ando e como que rebentando as fachadas<br \/>\ncom uma &#8220;pancadaria&#8221; formid\u00e1vel, estavam os do &#8220;Prazer<br \/>\nda Pedra Encantada&#8221; e cantavam:<\/p>\n<p>Tanta folia, Nen\u00ea!<br \/>\nTanto namoro;<br \/>\nA &#8220;Pedra Encantada&#8221;, ai! ai!<br \/>\nCoberta de ouro!<\/p>\n<p>E o coro, furioso:<\/p>\n<p>Chegou o povo, Nen\u00ea Floreada<br \/>\n\u00c9 o pessoal, ai! ai!<br \/>\nDa &#8220;Pedra Encantada&#8221;.<\/p>\n<p>Mas a multid\u00e3o, sufocada, ficava em derredor da &#8220;Pedra&#8221;<br \/>\nentaipada por outros quatro cord\u00f5es que se encontravam numa conflu\u00eancia<br \/>\nperigosa. Apesar do calor, corria um frio de medo; as batalhas de confetti<br \/>\ncessavam; os gritos, os risos, as piadas apagavam-se, e s\u00f3, convulsionando<br \/>\na rua, como que sacudindo as casas, como que subindo ao c\u00e9us, o batuque<br \/>\nconfuso, epil\u00e9ptico, dos atabaques, &#8220;xequed\u00e9s&#8221;, pandeiros<br \/>\ne tambores, os pancad\u00f5es dos bombos, os urros das cantigas berradas<br \/>\npara dominar os rivais, entre trilos de apitos, sinais misteriosos cortando<br \/>\na zabumbada delirante como a chamar cada um dos tipos \u00e0 realidade de<br \/>\num compromisso anterior. Eram a &#8220;Rosa Branca&#8221;, negros lantejoulantes<br \/>\nda Rua dos Cajueiros, os &#8220;Destemidos das Chamas&#8221;, os &#8220;Amantes<br \/>\ndo Sereno&#8221; e os &#8220;Amantes do Beijaflor&#8221;! Os negros da &#8220;Rosa&#8221;,<br \/>\nabrindo muito as mand\u00edbulas, cantavam:<\/p>\n<p>No Largo de S. Francisco<br \/>\nQuando a corneta tocou<br \/>\nEra o triunfo &#8220;Rosa Branca&#8221;<br \/>\nPela Rua do Ouvid\u00f4.<\/p>\n<p>Os &#8220;Destemidos&#8221;, em contraposi\u00e7\u00e3o, eram patriotas:<\/p>\n<p>Rapaziada, bate,<br \/>\nBate com maneira<br \/>\nVamos dar um viva<br \/>\n\u00c0 bandeira brasileira<\/p>\n<p>Os &#8220;Amantes do Sereno&#8221;, dengosos, suavizavam:<\/p>\n<p>Aonde vais, Sereno<br \/>\nAonde vais, com teu amor?<br \/>\nVou ao Campo de Santana<br \/>\nVer a batalha de fl\u00f4.<\/p>\n<p>E no meio daquela balb\u00fardia infernal, como uma nota \u00e1cida de<br \/>\nturba que chora as suas desgra\u00e7as divertindo-se, que solu\u00e7a<br \/>\ncantando, que se mata sem compreender, este solu\u00e7o mascarado, esta<br \/>\ncareta d\u2019Arlequim choroso elevava-se do &#8220;Beija-Flor&#8221;:<\/p>\n<p>A 21 de janeiro<br \/>\nO &#8220;Aquidab\u00e3&#8221; incendiou<br \/>\nExplodiu o paiol de p\u00f3lvora<br \/>\nCom toda gente naufragou<\/p>\n<p>E o coro:<\/p>\n<p>Os filhinhos choram<br \/>\nPelos pais queridos.<br \/>\nAs vi\u00favas solu\u00e7am<br \/>\nPelos seus maridos.<\/p>\n<p>Era horr\u00edvel. Fixei bem a face intumescida dos cantores. Nem um deles<br \/>\nsentia ou sequer compreendia a sacr\u00edlega menip\u00e9ia desvairada<br \/>\ndo ambiente, S\u00f3 a alma da turba consegue o prod\u00edgio de ligar<br \/>\no sofrimento e o gozo na mesma lei de fatalidade, s\u00f3 o povo diverte-se<br \/>\nn\u00e3o esquecendo as suas chagas, s\u00f3 a popula\u00e7a desta terra<br \/>\nde sol encara sem pavor a morte nos sambas macabros do Carnaval.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1s atristado pelos versos do &#8220;Beija-Flor&#8221;? H\u00e1<br \/>\numa por\u00e7\u00e3o de grupos que comentam a cat\u00e1stofre. Ainda<br \/>\nh\u00e1 instantes passou a &#8220;Mina de Ouro&#8221;. Sabes qual \u00e9<br \/>\na marcha dessa sociedade? Esta sandice t\u00e9trica:<\/p>\n<p>Corremos, corremos<br \/>\nPovo brasileiro<br \/>\nPara salvar do &#8220;Aquidab\u00e2&#8221;<br \/>\nOs patriotas marinheiros.<\/p>\n<p>Isto no carnaval quando todos n\u00f3s sentimos irrepar\u00e1vel a desgra\u00e7a.<br \/>\nMas o cord\u00e3o perderia a sua superioridade de vivo reflexo da turba<br \/>\nse n\u00e3o fosse esse misto indecifr\u00e1vel de dor e pesar. Todos os<br \/>\nanos as suas cantigas comemoram as fatalidades culminantes.<\/p>\n<p>Neste momento, por\u00e9m, os &#8220;Amantes de Sereno&#8221; resolveram<br \/>\nvoltar. Houve um trilo de apito, a turba fendeu-se. Dois rapazinhos vestidos<br \/>\nde belbutina come\u00e7aram a fazer &#8220;letra&#8221; com grandes espadas<br \/>\nde pau prateado, dando pulos quebrando o corpo. Depois, o achinag\u00fa<br \/>\nou homem da frente, todo coberto de lantejoulas, deu uma volta sob a luz clara<br \/>\nda luz el\u00e9trica e o bolo todo golfou \u2013 diabos, palha\u00e7os,<br \/>\nmulheres, os pobres que n\u00e3o tinham conseguido fantasias e carregavam<br \/>\nos archotes, os fogos de bengala, as l\u00e2mpadas de querosene. A multid\u00e3o<br \/>\naproveitou o vazio e precipitou-se. Eu e meu amigo ca\u00edmos na corrente<br \/>\nimpetuosa.<\/p>\n<p>Oh! sim! ele tinha raz\u00e3o! O cord\u00e3o \u00e9 o carnaval, \u00e9<br \/>\no \u00faltimo elo das religi\u00f5es pag\u00e3s, \u00e9 bem o conservador<br \/>\ndo sagrado dia do deboche ritual; o cord\u00e3o \u00e9 a nossa alma ardente,<br \/>\nluxuriosa, triste, meio escrava e revoltosa, babando lasc\u00edvia pelas<br \/>\nmulheres e querendo maravilhar, fanfarrona, meiga, b\u00e1rbara, lament\u00e1vel.<br \/>\n.<\/p>\n<p>Toda a rua rebentava no estridor dos bombos. Outras can\u00e7\u00f5es<br \/>\nse ouviam. E, agarrado ao bra\u00e7o do meu amigo, arrastado pela impetuosa<br \/>\ncorrente aberta pela passagem dos &#8220;Amantes do Sereno&#8221;, eu continuei<br \/>\nrua abaixo, amarrado ao triunfo e \u00e0 f\u00faria do cord\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"15\"><\/a>Tr\u00eas Aspectos da Mis\u00e9ria<\/h4>\n<p><strong>As Mariposas do Luxo<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Olha, Maria&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade! Que bonito!<\/p>\n<p>As duas raparigas curvam-se para a montra, com os olhos \u00e1vidos, um<br \/>\nvinco estranho nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do vidro polido, arrumados com arte, entre estatuetas que<br \/>\napresentam pratos com bugingangas de fantasia e a fantasia policroma de cole\u00e7\u00f5es<br \/>\nde leques, os desdobramentos das sedas, das plumas, das guipures, das rendas.<\/p>\n<p>\u00c9 a hora indecisa em que o dia parece acabar e o movimento febril<br \/>\nda Rua do Ouvidor relaxa-se, de s\u00fabito, como um delirante a gozar os<br \/>\nminutos de uma breve acalmia. Ainda n\u00e3o acenderam os combustores, ainda<br \/>\nn\u00e3o ardem a sua luz galv\u00e2nica os focos el\u00e9tricos. Os rel\u00f3gios<br \/>\nacabaram de bater, apressadamente, seis horas. Na art\u00e9ria estreita<br \/>\ncai a luz acinzentada das primeiras sombras \u2013 uma luz muito triste,<br \/>\nde saudade e de m\u00e1goa. Em algumas casas correm com fragor as cortinas<br \/>\nde ferro. No alto, como o teto custoso do beco intermin\u00e1vel, o c\u00e9u,<br \/>\nde uma pureza admir\u00e1vel, parecendo feito de esmaltes transl\u00facidos<br \/>\nsuperpostos, rebrilha, como uma j\u00f3ia em que se tivessem fundido o azul<br \/>\nde N\u00e1poles, o verde perverso de Veneza, os ouros e as p\u00e9rolas<br \/>\ndo Oriente.<\/p>\n<p>J\u00e1 passaram as professional beauties, cujos nomes os jornais citam;<br \/>\nj\u00e1 voltaram da sua hora de costureiro ou de joalheiro as damas do alto<br \/>\ntom; e os nomes condecorados da finan\u00e7a e os condes do Vaticano e os<br \/>\nrapazes elegantes e os deliciosos vestidos claros airosamente ondulantes j\u00e1<br \/>\nse sumiram, levados pelos &#8220;autos&#8221;, pelas parelhas fidalgas, pelos<br \/>\nbondes burgueses. A rua tem de tudo isso uma vaga impress\u00e3o, como se<br \/>\nestivesse sob o dom\u00ednio da alucina\u00e7\u00e3o, vendo passar um<br \/>\npr\u00e9stito que j\u00e1 passou. H\u00e1 um hiato na feira das vaidades:<br \/>\nsem literatos, sem poses, sem flirts. Passam apenas trabalhadores de volta<br \/>\nda faina e oper\u00e1rias que mourejaram todo o dia.<\/p>\n<p>Os oper\u00e1rios v\u00eam talvez mal-arranjados, com a lata do almo\u00e7o<br \/>\npresa ao dedo m\u00ednimo. Alguns v\u00eam de tamancos. Como s\u00e3o<br \/>\nfeios os oper\u00e1rios ao lado dos mocinhos bonitos de ainda h\u00e1<br \/>\npouco! V\u00e3o conversando uns com os outros, ou calados, metidos com o<br \/>\npr\u00f3prio eu. As raparigas ao contr\u00e1rio: v\u00eam devagar, muito<br \/>\ndevagar, quase sempre duas a duas, parando de montra em montra, olhando, discutindo,<br \/>\nvendo.<\/p>\n<p>\u2013 Repara s\u00f3, Jesu\u00edna.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! minha filha. Que lindo!&#8230;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m as conhece e ningu\u00e9m nelas repara, a n\u00e3o ser<br \/>\num ou outro caixeiro em mal de amor ou algum p\u00edcaro sacerdote de conquistas.<\/p>\n<p>Elas, coitaditas! passam todos os dias a essa hora indecisa, parecem sempre<br \/>\np\u00e1ssaros assustados, tontos de luxo, inebriados de olhar. Que lhes<br \/>\ndestina no seu mist\u00e9rio a vida cruel? Trabalho, trabalho; a perdi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque \u00e9 a mais f\u00e1cil das hip\u00f3teses; a tuberculose ou o<br \/>\nalquebramento numa ninhada de filhos. Aquela rua n\u00e3o as conhecer\u00e1<br \/>\njamais. Aquele luxo ser\u00e1 sempre a sua quimera.<\/p>\n<p>S\u00e3o mulheres. Apanham as migalhas da feira. S\u00e3o as an\u00f4nimas,<br \/>\nas fulanitas do gozo, que n\u00e3o gozam nunca. E ent\u00e3o, todo dia,<br \/>\nquando c\u00e9u se rocalha de ouro e j\u00e1 andam os rel\u00f3gios<br \/>\npelas seis horas, haveis v\u00ea-las passar, algumas loiras, outras morenas,<br \/>\nquase todas mesti\u00e7as. A idade d\u00e1-lhes a elasticidade dos gestos,<br \/>\no jeito bonito do andar e essa beleza passageira que chamam \u2013 do diabo.<br \/>\nOs vestidos s\u00e3o pobres: saias escura sempre as mesmas; blusa de chitinha<br \/>\nrala. Nos dias de chuva um par\u00e1gua e a indefect\u00edvel pelerine.<br \/>\nMas essa mis\u00e9ria \u00e9 limpa, escovada. As botas brilham, a saia<br \/>\nn\u00e3o tem uma poeira, as m\u00e3os foram cuidadas. H\u00e1 nos l\u00f3bulos<br \/>\nde algumas orelhas brincos simples, fechando as blusas lavadinhas, broches<br \/>\n&#8220;montana&#8221;, donde escorre o fio de uma chatelaine.<\/p>\n<p>H\u00e1 mesmo an\u00e9is \u2013 correntinhas de ouro, pedras que custam<br \/>\nbarato; coralinas, l\u00e1pis-laz\u00fali, turquesas falsas. Quantos sacrif\u00edcios<br \/>\nessa limpeza n\u00e3o representa? Quantas concess\u00f5es n\u00e3o atestam,<br \/>\ntalvez, os modestos pechisbeques!<\/p>\n<p>Elas acordaram cedo, foram trabalhar. Voltam para o lar semconforto, com<br \/>\ntodas as ard\u00eancias e os desejos indom\u00e1veis dos vinte anos.<\/p>\n<p>A rua n\u00e3o lhes apresenta s\u00f3 o amor, o namoro, o desvio&#8230;Apresenta-lhes<br \/>\no luxo. E cada montra \u00e9 a hipnose e cada rayon de modas \u00e9 o<br \/>\nfoco em torno do qual reviravolteiram e anseiam as pobres mariposas.<\/p>\n<p>\u2013 Ali no fundo, aquele chap\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 O que tem uma pluma?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, uma pluma verde&#8230; Deve ser caro, n\u00e3o achas?<\/p>\n<p>S\u00e3o duas raparigas, ambas morenas. A mais alta alisa instintivamente<br \/>\nos band\u00f3s, sem chap\u00e9u, apenas com pentes de ouro falso. A montra<br \/>\nreflete-lhe o perfil entre as plumas, as rendas de dentro; e enquanto a outra<br \/>\nafunda o olhar nos veludos que real\u00e7am toda a espetaculiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo luxo, enquanto a outra sofre aquela tortura de T\u00e2ntalo, ela mira-se,<br \/>\nafina com as duas m\u00e3os a cintura, parece pensar coisas graves. Chegam,<br \/>\npor\u00e9m, mais duas. A pobreza feminina n\u00e3o gosta dos flagrantes<br \/>\nde curiosidade invejosa. O par que chega, por \u00faltimo, p\u00e1ra hesitante.<br \/>\nA rapariga alta agarra o bra\u00e7o da outra:<\/p>\n<p>\u2013 Anda da\u00ed! Pareces crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Que v\u00e9us, menina! que v\u00e9us!&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Vamos. J\u00e1 escurece.<\/p>\n<p>Param, passos adiante, em frente \u00e0s enormes vitrinas de uma grande<br \/>\ncasa de modas. As montras est\u00e3o todas de branco, de rosa, de azul;<br \/>\ndesdobram-se em sinfonias de cores suaves e claras, dessas cores que alegram<br \/>\na alma. E os tecidos s\u00e3o todos leves \u2013 irlandas, guipures, pong\u00e9es,<br \/>\nrendas. Duas bonecas de tamanho natural \u2013 as deusas do &#8220;Chiffon&#8221;<br \/>\nnos altares da frivolidade \u2013 vestem com uma eleg\u00e2ncia sem par;<br \/>\numa de branco, robe Empire; outra de rosa, com um chap\u00e9u cuja pluma<br \/>\nnegra deve custar talvez duzentos mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>Quanta coisa! quanta coisa rica! Elas v\u00e3o para a casa acanhada jantar,<br \/>\naturar as rabugices dos velhos, despir a blusa de chita \u2013 a mesma que<br \/>\nh\u00e3o de vestir amanh\u00e3&#8230;E est\u00e3o tristes. S\u00e3o os<br \/>\np\u00e1ssaros sombrios no caminho das tenta\u00e7\u00f5es. Morde-lhes<br \/>\na alma a grande vontade de possuir, de ter o esplendor que se lhes nega na<br \/>\npolidez espelhante dos vidros.<\/p>\n<p>Por que pobres, se s\u00e3o bonitas, se nasceram tamb\u00e9m para gozar,<br \/>\npara viver?<\/p>\n<p>H\u00e1 outros pares g\u00e1rrulos, alegres, doidivanas, que riem, apontam,<br \/>\nesticam o dedo, comentam alto, divertem-se, talvez mais felizes e sempre mais<br \/>\nacompanhadas. O par alegre entontece diante de uma casa de flores, vendo as<br \/>\ngrandes corbeilles, o arranjo sutil das avencas, dos cravos, das ang\u00e9licas,<br \/>\na gra\u00e7a ornamental dos copos de leite, o horror atraente das parasitas<br \/>\nraras.<\/p>\n<p>\u2013 Sessenta mil r\u00e9is aquela cesta! Que caro! N\u00e3o \u00e9<br \/>\npara enterro, pois n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Aquilo \u00e9 para as mesas. Olhe aquela florzinha. S\u00f3 uma,<br \/>\npor vinte mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea acha que comprem?<\/p>\n<p>\u2013 Ora, para essa mo\u00e7as&#8230;os homens s\u00e3o malucos.<\/p>\n<p>As duas raparigas alegres encontram-se com as duas tristes defronte de uma<br \/>\ncasa de objetos de luxo, porcelanas, tape\u00e7arias. Nas montras, com as<br \/>\nmesmas atitudes, as est\u00e1tuas de bronze, de prata, de terracota, as<br \/>\ncer\u00e2micas de cores mais variadas repousam entre tapetes estranhos, tapetes<br \/>\nnunca vistos, que parecem feitos de plumas de chap\u00e9u. Que engra\u00e7ado!<br \/>\nComo deve ser bom p\u00f4r os p\u00e9s na maciez daquela plumagem! As quatro<br \/>\ntrocam id\u00e9ias.<\/p>\n<p>\u2013 De que ser\u00e1?<\/p>\n<p>A mais pequena lembra perguntar ao caixeiro, muito importante, \u00e0 porta.<br \/>\nAs outras tremem.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o v\u00e1 dar uma resposta m\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Que tem?<\/p>\n<p>Hesita, sorri, indaga:<\/p>\n<p>\u2013 O senhor faz favor de dizer&#8230; Aqueles tapetes?&#8230;<\/p>\n<p>O caixeiro ergue os olhos ir\u00f4nicos.<\/p>\n<p>\u2013 Bonitos, n\u00e3o \u00e9? S\u00e3o de cauda de avestruz. Foram<br \/>\nprecisos quarenta avestruzes para fazer o menor. A senhora deseja comprar?<\/p>\n<p>Ela fica envergonhad\u00edssima; as outras tamb\u00e9m. Todas riem tapando<br \/>\nos l\u00e1bios com o len\u00e7o, muito coradas e muito nervosas.<\/p>\n<p>Comprar! N\u00e3o ter dinheiro para aquele tapete extravagante parece-lhes<br \/>\nao mesmo tempo humilhante e engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, senhor, foi s\u00f3 para saber. Desculpe&#8230;<\/p>\n<p>E partem. Seguem como que enleadas naquele enovelamento de coisas capitosas<br \/>\n\u2013 montras de rendas, montras de perfumes, montras toilettes, montras<br \/>\nde flores \u2013 a cham\u00e1-las, a tent\u00e1-las, a entontec\u00ea-las<br \/>\ncom corrosivo desejo de gozar. Afinal, param nas montras dos ourives.<\/p>\n<p>Toda a atmosfera j\u00e1 tomou um tom de cinza escuro. S\u00f3 o c\u00e9u<br \/>\nde ver\u00e3o, no alto, parece um dossel de para\u00edso, com o azul transl\u00facido<br \/>\na palpitar uma luz misteriosa. J\u00e1 come\u00e7aram a acender os combustores<br \/>\nna rua, j\u00e1 as estrelas de ouro ardem no alto. A rua vai de novo precipitar-se<br \/>\nno del\u00edrio.<\/p>\n<p>Elas fixam a aten\u00e7\u00e3o. Nenhuma das quatro pensa em sorrir. A<br \/>\nj\u00f3ia \u00e9 a suprema tenta\u00e7\u00e3o. A alma da mulher exterioriza-se<br \/>\nirresistivelmente diante dos adere\u00e7os. Os olhos cravam-se ansiosos,<br \/>\nnuma aten\u00e7\u00e3o comovida que guarda e quer conservar as min\u00facias<br \/>\nmais insignificantes. A prud\u00eancia das crian\u00e7as pobres f\u00e1-las<br \/>\nreservadas.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! aquelas pedras negras!<\/p>\n<p>\u2013 Tr\u00eas contos!<\/p>\n<p>Depois, como se ao lado um pr\u00edncipe invis\u00edvel estivesse a querer<br \/>\nrecompensar a mais modesta, comentam as j\u00f3ias baratas, os objetos de<br \/>\nprata, as bolsinhas, os broches com cora\u00e7\u00f5es, os an\u00e9is<br \/>\ninsignificantes.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! se eu pudesse comprar aquele!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 s\u00f3 quarenta e cinco! E aquele reloginho, v\u00eas?<br \/>\nde ouro&#8230;<\/p>\n<p>Mas, l\u00e1 dentro, o joalheiro abre a comunica\u00e7\u00e3o el\u00e9trica,<br \/>\ne de s\u00fabito, a vitrina, que morria na penumbra, acende violenta, crua,<br \/>\nbrutalmente, fazendo faiscar os ouros, cintilar os brilhantes, coriscar os<br \/>\nrubis, explodir a luz veludosa das safiras, o verde das esmeraldas, as opalas,<br \/>\nos esmaltes, o azul das turquesas. Toda a montra \u00e9 um tesouro no brilho<br \/>\ncegador e alucinante das pedrarias.<\/p>\n<p>Elas olham s\u00e9rias, o peito a arfar. Olham muito tempo e, ali, naquele<br \/>\ntrecho de rua civilizada, as pedras preciosas operam, nas sedas dos escr\u00ednios,<br \/>\nos sortil\u00e9gios cru\u00e9is dos antigos ocultistas. As m\u00e3ozinhas<br \/>\nbonitas apertam o cabo da sombrinha como querendo guardar um pouco de tanto<br \/>\nfulgor; os l\u00e1bios pendem no esfor\u00e7o da aten\u00e7\u00e3o;<br \/>\num vinco \u00e1vido acentua os semblantes. Onde estar\u00e1 o pr\u00edncipe<br \/>\nencantador? Onde estar\u00e1 o velho d. Jo\u00e3o?<\/p>\n<p>Um suspiro mais forte \u2013 a coragem da que se libertou da hipnose \u2013<br \/>\nf\u00e1-las despegar-se do lugar. \u00c9 noite. A rua delira de novo.<br \/>\n\u00c0 porta dos caf\u00e9s e das confeitarias, homens, homens, um estridor,<br \/>\numa vozeria. J\u00e1 se divisam perfeitamente as pessoas no Largo de S.<br \/>\nFrancisco \u2013 onde est\u00e3o os bondes para a Cidade Nova, para a Rua<br \/>\nda Am\u00e9rica, para o Saco. Elas tomam um ar honesto. Os tac\u00f5es<br \/>\ndas botinas batem no asfalto. V\u00e3o como quem tem pressa, como quem perdeu<br \/>\nmuito tempo.<\/p>\n<p>Da Avenida Uruguaiana para diante n\u00e3o olham mais nada, caladas, sem<br \/>\ncoment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Afinal chegam ao Largo. Um adeus, dois beijos, &#8220;at\u00e9 amanh\u00e3!&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 amanh\u00e3! Sim, elas voltar\u00e3o amanh\u00e3, elas voltam<br \/>\ntodo dia, elas conhecem nas suas particularidades todas as montras da feira<br \/>\ndas tenta\u00e7\u00f5es; elas continuar\u00e3o a passar, \u00e0 hora<br \/>\ndo desfalecimento da art\u00e9ria, mendigas do luxo, eternas fulanitas da<br \/>\nvaidade, sempre com a ambi\u00e7\u00e3o enganadora de poder gozar as j\u00f3ias,<br \/>\nas plumas, as rendas, as flores.<\/p>\n<p>Elas h\u00e3o de voltar, pobrezinhas \u2013 porque a esta hora, no canto<br \/>\ndo bonde, tendo talvez ao lado o conquistador de sempre, arfa-lhes o peito<br \/>\ne t\u00eam as m\u00e3os frias com a id\u00e9ia desse luxo corrosivo.<br \/>\nH\u00e3o de voltar, caminho da casa, parando aqui, parando acol\u00e1,<br \/>\nna embriaguez da tenta\u00e7\u00e3o \u2013 porque a sorte as fez mulheres<br \/>\ne as fez pobres, porque a sorte n\u00e3o lhes d\u00e1, nesta vida de engano,<br \/>\nsen\u00e3o a miragem do esplendor para perd\u00ea-las mais depressa.<\/p>\n<p>E haveis ent\u00e3o de v\u00ea-las passar, as mariposas do luxo, no seu<br \/>\npassinho modesto, duas a duas, em pequenos grupos, algumas loiras, outras<br \/>\nmorenas&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Olha, Maria&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade! Que bonito!<\/p>\n<p>As duas raparigas curvam-se para a montra, com os olhos \u00e1vidos, um<br \/>\nvinco estranho nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do vidro polido, arrumados com arte, entre estatuetas que<br \/>\napresentam pratos com bugingangas de fantasia e a fantasia policroma de cole\u00e7\u00f5es<br \/>\nde leques, os desdobramentos das sedas, das plumas, das guipures, das rendas.<\/p>\n<p>\u00c9 a hora indecisa em que o dia parece acabar e o movimento febril<br \/>\nda Rua do Ouvidor relaxa-se, de s\u00fabito, como um delirante a gozar os<br \/>\nminutos de uma breve acalmia. Ainda n\u00e3o acenderam os combustores, ainda<br \/>\nn\u00e3o ardem a sua luz galv\u00e2nica os focos el\u00e9tricos. Os rel\u00f3gios<br \/>\nacabaram de bater, apressadamente, seis horas. Na art\u00e9ria estreita<br \/>\ncai a luz acinzentada das primeiras sombras \u2013 uma luz muito triste,<br \/>\nde saudade e de m\u00e1goa. Em algumas casas correm com fragor as cortinas<br \/>\nde ferro. No alto, como o teto custoso do beco intermin\u00e1vel, o c\u00e9u,<br \/>\nde uma pureza admir\u00e1vel, parecendo feito de esmaltes transl\u00facidos<br \/>\nsuperpostos, rebrilha, como uma j\u00f3ia em que se tivessem fundido o azul<br \/>\nde N\u00e1poles, o verde perverso de Veneza, os ouros e as p\u00e9rolas<br \/>\ndo Oriente.<\/p>\n<p>J\u00e1 passaram as professional beauties, cujos nomes os jornais citam;<br \/>\nj\u00e1 voltaram da sua hora de costureiro ou de joalheiro as damas do alto<br \/>\ntom; e os nomes condecorados da finan\u00e7a e os condes do Vaticano e os<br \/>\nrapazes elegantes e os deliciosos vestidos claros airosamente ondulantes j\u00e1<br \/>\nse sumiram, levados pelos &#8220;autos&#8221;, pelas parelhas fidalgas, pelos<br \/>\nbondes burgueses. A rua tem de tudo isso uma vaga impress\u00e3o, como se<br \/>\nestivesse sob o dom\u00ednio da alucina\u00e7\u00e3o, vendo passar um<br \/>\npr\u00e9stito que j\u00e1 passou. H\u00e1 um hiato na feira das vaidades:<br \/>\nsem literatos, sem poses, sem flirts. Passam apenas trabalhadores de volta<br \/>\nda faina e oper\u00e1rias que mourejaram todo o dia.<\/p>\n<p>Os oper\u00e1rios v\u00eam talvez mal-arranjados, com a lata do almo\u00e7o<br \/>\npresa ao dedo m\u00ednimo. Alguns v\u00eam de tamancos. Como s\u00e3o<br \/>\nfeios os oper\u00e1rios ao lado dos mocinhos bonitos de ainda h\u00e1<br \/>\npouco! V\u00e3o conversando uns com os outros, ou calados, metidos com o<br \/>\npr\u00f3prio eu. As raparigas ao contr\u00e1rio: v\u00eam devagar, muito<br \/>\ndevagar, quase sempre duas a duas, parando de montra em montra, olhando, discutindo,<br \/>\nvendo.<\/p>\n<p>\u2013 Repara s\u00f3, Jesu\u00edna.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! minha filha. Que lindo!&#8230;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m as conhece e ningu\u00e9m nelas repara, a n\u00e3o ser<br \/>\num ou outro caixeiro em mal de amor ou algum p\u00edcaro sacerdote de conquistas.<\/p>\n<p>Elas, coitaditas! passam todos os dias a essa hora indecisa, parecem sempre<br \/>\np\u00e1ssaros assustados, tontos de luxo, inebriados de olhar. Que lhes<br \/>\ndestina no seu mist\u00e9rio a vida cruel? Trabalho, trabalho; a perdi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque \u00e9 a mais f\u00e1cil das hip\u00f3teses; a tuberculose ou o<br \/>\nalquebramento numa ninhada de filhos. Aquela rua n\u00e3o as conhecer\u00e1<br \/>\njamais. Aquele luxo ser\u00e1 sempre a sua quimera.<\/p>\n<p>S\u00e3o mulheres. Apanham as migalhas da feira. S\u00e3o as an\u00f4nimas,<br \/>\nas fulanitas do gozo, que n\u00e3o gozam nunca. E ent\u00e3o, todo dia,<br \/>\nquando c\u00e9u se rocalha de ouro e j\u00e1 andam os rel\u00f3gios<br \/>\npelas seis horas, haveis v\u00ea-las passar, algumas loiras, outras morenas,<br \/>\nquase todas mesti\u00e7as. A idade d\u00e1-lhes a elasticidade dos gestos,<br \/>\no jeito bonito do andar e essa beleza passageira que chamam \u2013 do diabo.<br \/>\nOs vestidos s\u00e3o pobres: saias escura sempre as mesmas; blusa de chitinha<br \/>\nrala. Nos dias de chuva um par\u00e1gua e a indefect\u00edvel pelerine.<br \/>\nMas essa mis\u00e9ria \u00e9 limpa, escovada. As botas brilham, a saia<br \/>\nn\u00e3o tem uma poeira, as m\u00e3os foram cuidadas. H\u00e1 nos l\u00f3bulos<br \/>\nde algumas orelhas brincos simples, fechando as blusas lavadinhas, broches<br \/>\n&#8220;montana&#8221;, donde escorre o fio de uma chatelaine.<\/p>\n<p>H\u00e1 mesmo an\u00e9is \u2013 correntinhas de ouro, pedras que custam<br \/>\nbarato; coralinas, l\u00e1pis-laz\u00fali, turquesas falsas. Quantos sacrif\u00edcios<br \/>\nessa limpeza n\u00e3o representa? Quantas concess\u00f5es n\u00e3o atestam,<br \/>\ntalvez, os modestos pechisbeques!<\/p>\n<p>Elas acordaram cedo, foram trabalhar. Voltam para o lar semconforto, com<br \/>\ntodas as ard\u00eancias e os desejos indom\u00e1veis dos vinte anos.<\/p>\n<p>A rua n\u00e3o lhes apresenta s\u00f3 o amor, o namoro, o desvio&#8230;Apresenta-lhes<br \/>\no luxo. E cada montra \u00e9 a hipnose e cada rayon de modas \u00e9 o<br \/>\nfoco em torno do qual reviravolteiram e anseiam as pobres mariposas.<\/p>\n<p>\u2013 Ali no fundo, aquele chap\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 O que tem uma pluma?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, uma pluma verde&#8230; Deve ser caro, n\u00e3o achas?<\/p>\n<p>S\u00e3o duas raparigas, ambas morenas. A mais alta alisa instintivamente<br \/>\nos band\u00f3s, sem chap\u00e9u, apenas com pentes de ouro falso. A montra<br \/>\nreflete-lhe o perfil entre as plumas, as rendas de dentro; e enquanto a outra<br \/>\nafunda o olhar nos veludos que real\u00e7am toda a espetaculiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo luxo, enquanto a outra sofre aquela tortura de T\u00e2ntalo, ela mira-se,<br \/>\nafina com as duas m\u00e3os a cintura, parece pensar coisas graves. Chegam,<br \/>\npor\u00e9m, mais duas. A pobreza feminina n\u00e3o gosta dos flagrantes<br \/>\nde curiosidade invejosa. O par que chega, por \u00faltimo, p\u00e1ra hesitante.<br \/>\nA rapariga alta agarra o bra\u00e7o da outra:<\/p>\n<p>\u2013 Anda da\u00ed! Pareces crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Que v\u00e9us, menina! que v\u00e9us!&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Vamos. J\u00e1 escurece.<\/p>\n<p>Param, passos adiante, em frente \u00e0s enormes vitrinas de uma grande<br \/>\ncasa de modas. As montras est\u00e3o todas de branco, de rosa, de azul;<br \/>\ndesdobram-se em sinfonias de cores suaves e claras, dessas cores que alegram<br \/>\na alma. E os tecidos s\u00e3o todos leves \u2013 irlandas, guipures, pong\u00e9es,<br \/>\nrendas. Duas bonecas de tamanho natural \u2013 as deusas do &#8220;Chiffon&#8221;<br \/>\nnos altares da frivolidade \u2013 vestem com uma eleg\u00e2ncia sem par;<br \/>\numa de branco, robe Empire; outra de rosa, com um chap\u00e9u cuja pluma<br \/>\nnegra deve custar talvez duzentos mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>Quanta coisa! quanta coisa rica! Elas v\u00e3o para a casa acanhada jantar,<br \/>\naturar as rabugices dos velhos, despir a blusa de chita \u2013 a mesma que<br \/>\nh\u00e3o de vestir amanh\u00e3&#8230;E est\u00e3o tristes. S\u00e3o os<br \/>\np\u00e1ssaros sombrios no caminho das tenta\u00e7\u00f5es. Morde-lhes<br \/>\na alma a grande vontade de possuir, de ter o esplendor que se lhes nega na<br \/>\npolidez espelhante dos vidros.<\/p>\n<p>Por que pobres, se s\u00e3o bonitas, se nasceram tamb\u00e9m para gozar,<br \/>\npara viver?<\/p>\n<p>H\u00e1 outros pares g\u00e1rrulos, alegres, doidivanas, que riem, apontam,<br \/>\nesticam o dedo, comentam alto, divertem-se, talvez mais felizes e sempre mais<br \/>\nacompanhadas. O par alegre entontece diante de uma casa de flores, vendo as<br \/>\ngrandes corbeilles, o arranjo sutil das avencas, dos cravos, das ang\u00e9licas,<br \/>\na gra\u00e7a ornamental dos copos de leite, o horror atraente das parasitas<br \/>\nraras.<\/p>\n<p>\u2013 Sessenta mil r\u00e9is aquela cesta! Que caro! N\u00e3o \u00e9<br \/>\npara enterro, pois n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Aquilo \u00e9 para as mesas. Olhe aquela florzinha. S\u00f3 uma,<br \/>\npor vinte mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea acha que comprem?<\/p>\n<p>\u2013 Ora, para essa mo\u00e7as&#8230;os homens s\u00e3o malucos.<\/p>\n<p>As duas raparigas alegres encontram-se com as duas tristes defronte de uma<br \/>\ncasa de objetos de luxo, porcelanas, tape\u00e7arias. Nas montras, com as<br \/>\nmesmas atitudes, as est\u00e1tuas de bronze, de prata, de terracota, as<br \/>\ncer\u00e2micas de cores mais variadas repousam entre tapetes estranhos, tapetes<br \/>\nnunca vistos, que parecem feitos de plumas de chap\u00e9u. Que engra\u00e7ado!<br \/>\nComo deve ser bom p\u00f4r os p\u00e9s na maciez daquela plumagem! As quatro<br \/>\ntrocam id\u00e9ias.<\/p>\n<p>\u2013 De que ser\u00e1?<\/p>\n<p>A mais pequena lembra perguntar ao caixeiro, muito importante, \u00e0 porta.<br \/>\nAs outras tremem.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o v\u00e1 dar uma resposta m\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Que tem?<\/p>\n<p>Hesita, sorri, indaga:<\/p>\n<p>\u2013 O senhor faz favor de dizer&#8230; Aqueles tapetes?&#8230;<\/p>\n<p>O caixeiro ergue os olhos ir\u00f4nicos.<\/p>\n<p>\u2013 Bonitos, n\u00e3o \u00e9? S\u00e3o de cauda de avestruz. Foram<br \/>\nprecisos quarenta avestruzes para fazer o menor. A senhora deseja comprar?<\/p>\n<p>Ela fica envergonhad\u00edssima; as outras tamb\u00e9m. Todas riem tapando<br \/>\nos l\u00e1bios com o len\u00e7o, muito coradas e muito nervosas.<\/p>\n<p>Comprar! N\u00e3o ter dinheiro para aquele tapete extravagante parece-lhes<br \/>\nao mesmo tempo humilhante e engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, senhor, foi s\u00f3 para saber. Desculpe&#8230;<\/p>\n<p>E partem. Seguem como que enleadas naquele enovelamento de coisas capitosas<br \/>\n\u2013 montras de rendas, montras de perfumes, montras toilettes, montras<br \/>\nde flores \u2013 a cham\u00e1-las, a tent\u00e1-las, a entontec\u00ea-las<br \/>\ncom corrosivo desejo de gozar. Afinal, param nas montras dos ourives.<\/p>\n<p>Toda a atmosfera j\u00e1 tomou um tom de cinza escuro. S\u00f3 o c\u00e9u<br \/>\nde ver\u00e3o, no alto, parece um dossel de para\u00edso, com o azul transl\u00facido<br \/>\na palpitar uma luz misteriosa. J\u00e1 come\u00e7aram a acender os combustores<br \/>\nna rua, j\u00e1 as estrelas de ouro ardem no alto. A rua vai de novo precipitar-se<br \/>\nno del\u00edrio.<\/p>\n<p>Elas fixam a aten\u00e7\u00e3o. Nenhuma das quatro pensa em sorrir. A<br \/>\nj\u00f3ia \u00e9 a suprema tenta\u00e7\u00e3o. A alma da mulher exterioriza-se<br \/>\nirresistivelmente diante dos adere\u00e7os. Os olhos cravam-se ansiosos,<br \/>\nnuma aten\u00e7\u00e3o comovida que guarda e quer conservar as min\u00facias<br \/>\nmais insignificantes. A prud\u00eancia das crian\u00e7as pobres f\u00e1-las<br \/>\nreservadas.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! aquelas pedras negras!<\/p>\n<p>\u2013 Tr\u00eas contos!<\/p>\n<p>Depois, como se ao lado um pr\u00edncipe invis\u00edvel estivesse a querer<br \/>\nrecompensar a mais modesta, comentam as j\u00f3ias baratas, os objetos de<br \/>\nprata, as bolsinhas, os broches com cora\u00e7\u00f5es, os an\u00e9is<br \/>\ninsignificantes.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! se eu pudesse comprar aquele!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 s\u00f3 quarenta e cinco! E aquele reloginho, v\u00eas?<br \/>\nde ouro&#8230;<\/p>\n<p>Mas, l\u00e1 dentro, o joalheiro abre a comunica\u00e7\u00e3o el\u00e9trica,<br \/>\ne de s\u00fabito, a vitrina, que morria na penumbra, acende violenta, crua,<br \/>\nbrutalmente, fazendo faiscar os ouros, cintilar os brilhantes, coriscar os<br \/>\nrubis, explodir a luz veludosa das safiras, o verde das esmeraldas, as opalas,<br \/>\nos esmaltes, o azul das turquesas. Toda a montra \u00e9 um tesouro no brilho<br \/>\ncegador e alucinante das pedrarias.<\/p>\n<p>Elas olham s\u00e9rias, o peito a arfar. Olham muito tempo e, ali, naquele<br \/>\ntrecho de rua civilizada, as pedras preciosas operam, nas sedas dos escr\u00ednios,<br \/>\nos sortil\u00e9gios cru\u00e9is dos antigos ocultistas. As m\u00e3ozinhas<br \/>\nbonitas apertam o cabo da sombrinha como querendo guardar um pouco de tanto<br \/>\nfulgor; os l\u00e1bios pendem no esfor\u00e7o da aten\u00e7\u00e3o;<br \/>\num vinco \u00e1vido acentua os semblantes. Onde estar\u00e1 o pr\u00edncipe<br \/>\nencantador? Onde estar\u00e1 o velho d. Jo\u00e3o?<\/p>\n<p>Um suspiro mais forte \u2013 a coragem da que se libertou da hipnose \u2013<br \/>\nf\u00e1-las despegar-se do lugar. \u00c9 noite. A rua delira de novo.<br \/>\n\u00c0 porta dos caf\u00e9s e das confeitarias, homens, homens, um estridor,<br \/>\numa vozeria. J\u00e1 se divisam perfeitamente as pessoas no Largo de S.<br \/>\nFrancisco \u2013 onde est\u00e3o os bondes para a Cidade Nova, para a Rua<br \/>\nda Am\u00e9rica, para o Saco. Elas tomam um ar honesto. Os tac\u00f5es<br \/>\ndas botinas batem no asfalto. V\u00e3o como quem tem pressa, como quem perdeu<br \/>\nmuito tempo.<\/p>\n<p>Da Avenida Uruguaiana para diante n\u00e3o olham mais nada, caladas, sem<br \/>\ncoment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Afinal chegam ao Largo. Um adeus, dois beijos, &#8220;at\u00e9 amanh\u00e3!&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 amanh\u00e3! Sim, elas voltar\u00e3o amanh\u00e3, elas voltam<br \/>\ntodo dia, elas conhecem nas suas particularidades todas as montras da feira<br \/>\ndas tenta\u00e7\u00f5es; elas continuar\u00e3o a passar, \u00e0 hora<br \/>\ndo desfalecimento da art\u00e9ria, mendigas do luxo, eternas fulanitas da<br \/>\nvaidade, sempre com a ambi\u00e7\u00e3o enganadora de poder gozar as j\u00f3ias,<br \/>\nas plumas, as rendas, as flores.<\/p>\n<p>Elas h\u00e3o de voltar, pobrezinhas \u2013 porque a esta hora, no canto<br \/>\ndo bonde, tendo talvez ao lado o conquistador de sempre, arfa-lhes o peito<br \/>\ne t\u00eam as m\u00e3os frias com a id\u00e9ia desse luxo corrosivo.<br \/>\nH\u00e3o de voltar, caminho da casa, parando aqui, parando acol\u00e1,<br \/>\nna embriaguez da tenta\u00e7\u00e3o \u2013 porque a sorte as fez mulheres<br \/>\ne as fez pobres, porque a sorte n\u00e3o lhes d\u00e1, nesta vida de engano,<br \/>\nsen\u00e3o a miragem do esplendor para perd\u00ea-las mais depressa.<\/p>\n<p>E haveis ent\u00e3o de v\u00ea-las passar, as mariposas do luxo, no seu<br \/>\npassinho modesto, duas a duas, em pequenos grupos, algumas loiras, outras<br \/>\nmorenas&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"16\"><\/a>Os Trabalhadores de Estiva<\/h4>\n<p>\u00c0s 5 da manh\u00e3 ouvia-se um grito de m\u00e1quina rasgando<br \/>\no ar. J\u00e1 o cais, na claridade p\u00e1lida da madrugada, regurgitava<br \/>\nnum vai-e-vem de carregadores, catraieiros, homens de bote e vagabundos maldormidos<br \/>\n\u00e0 beira dos quiosques. Abriam-se devagar os botequins ainda com os<br \/>\nbicos de g\u00e1s acesos; no interior os caixeiros, pregui\u00e7osos,<br \/>\nerguiam os bra\u00e7os com bocejos largos. Das ruas que vazavam na cal\u00e7ada<br \/>\nrebentada do cais, aflu\u00eda gente, sem cessar, gente que surgia do nevoeiro,<br \/>\ncom as m\u00e3os nos bolsos, tremendo, gente que se metia pelas bodegas<br \/>\ne parava \u00e0 beira do quiosque numa grande az\u00e1fama. Para o cais<br \/>\nda alf\u00e2ndega, ao lado, um grupo de ociosos olhava atrav\u00e9s das<br \/>\nfrinchas de um tapume, rindo a perder; um carregador, encostado aos umbrais<br \/>\nde uma porta, lia, de \u00f3culos, o jornal, e todos gritavam, falavam,<br \/>\nriam, agitavam-se na frialdade daquele acordar, enquanto dos botes policr\u00f4micos<br \/>\nhomens de camisa de meia ofereciam, aos berros, um passeiozinho pela ba\u00eda.<br \/>\nNa curva do horizonte o sol de maio punha manchas sangrentas e a luz da manh\u00e3<br \/>\nabria, como desabrocha um l\u00edrio, no c\u00e9u p\u00e1lido.<\/p>\n<p>Eu resolvera passar o dia com os trabalhadores da estiva e, naquela confus\u00e3o,<br \/>\nvia-os vir chegando a balan\u00e7ar o corpo, com a comida debaixo do bra\u00e7o,<br \/>\nmuito modestos. Em pouco, a beira do cais ficou coalhada. Durante a \u00faltima<br \/>\ngr\u00e9ve, um delegado de pol\u00edcia dissera-me:<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o criaturas ferozes! Nem a tiro.<\/p>\n<p>Eu via, por\u00e9m, essas fisionomias resignadas \u00e0 luz do sol e<br \/>\nelas me impressionavam de maneira bem diversa. Homens de excessivo desenvolvimento<br \/>\nmuscular, eram todos p\u00e1lidos \u2013 de um p\u00e1lido embaciado<br \/>\ncomo se lhes tivessem pregado \u00e0 epiderme um papel amarelo, e assim,<br \/>\nencolhidos, com as m\u00e3os nos bolsos, pareciam um baixo-relevo de desilus\u00e3o,<br \/>\numa frisa de ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Acerquei-me do primeiro, estendi-lhe a m\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Posso ir com voc\u00eas, para ver?<\/p>\n<p>Ele estendeu tamb\u00e9m a m\u00e3o, m\u00e3o degenerada pelo trabalho,<br \/>\ncom as falanges recurvas e a palma calosa e partida.<\/p>\n<p>\u2013 Por que n\u00e3o? Vai ver apenas o trabalho, fez com amarga voz.<\/p>\n<p>E quedou-se, outra vez, fumando.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 agora a partida?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9.<\/p>\n<p>Entre os botes, dois saveiros enormes, rebocados por uma lancha, esperavam.<br \/>\nMetade dos trabalhadores, aos pulos, bruscamente, saltou para os fardos. Saltei<br \/>\ntamb\u00e9m. Acostumados, indiferentes \u00e0 travessia, eles sentaram-se<br \/>\ncalados, a fumar. Um vento frio cortava a ba\u00eda. Todo um mundo de embarca\u00e7\u00f5es<br \/>\nmovia-se, coalhava o mar, riscava a superf\u00edcie das ondas; lanchas oficiais<br \/>\nem disparada, com a bandeira ao vento; botes, chatas, saveiros, rebocadores.<br \/>\nPassamos perto de uma chata parada e inteiramente coberta de oleados. Um homem,<br \/>\nno alto, estirou o bra\u00e7o, saudando.<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9 aquele?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 o Jos\u00e9. \u00c9 chateiro-vigia. Passou todo o dia<br \/>\nali para guardar a mercadoria dos patr\u00f5es. Os ladr\u00f5es s\u00e3o<br \/>\nmuitos. Ent\u00e3o, fica um respons\u00e1vel por tudo, toda a noite, sem<br \/>\ndormir, e ganha seis mil r\u00e9is. As vezes, os ladr\u00f5es atacam os<br \/>\nvigias acordados e o homem, s\u00f3, tem que se defender a rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>Civilizado, tive este coment\u00e1rio frio:<\/p>\n<p>\u2013 Deve estar com sono, o Jos\u00e9.<\/p>\n<p>\u2013 Qual! Esse \u00e9 dos que dobra dias e dias. Com mulher e oito<br \/>\nfilhos precisa trabalhar. Ah! meu senhor, h\u00e1 homens, por este mar afora<br \/>\ncujos filhos de seis meses ainda os n\u00e3o conhecem. Saem de madrugada<br \/>\nde casa. O Jos\u00e9 est\u00e1 \u00e0 espera que a alf\u00e2ndega tire<br \/>\no termo da carga, que n\u00e3o \u00e9 estrangeira.<\/p>\n<p>Outras chatas perdiam-se paradas na claridade do sol. N\u00f3s pass\u00e1vamos<br \/>\nentre as lanchas. Ao longe, bandos de gaivotas riscavam o azul do c\u00e9u<br \/>\ne o Cais dos Mineiros j\u00e1 se perdia distante da n\u00e9voa vaga. Mas<br \/>\nn\u00f3s avist\u00e1vamos um outro cais com um armaz\u00e9m ao fundo.<br \/>\n\u00c0 beira desse cais, saveiros enormes esperavam mercadorias; e, em cima,<br \/>\nformando um c\u00edrculo ininterrupto, homens de bra\u00e7os nus sa\u00edam<br \/>\na correr de dentro da casa, atiravam o saco no saveiro, davam a volta \u00e0<br \/>\ndisparada, tornavam a sair a galope com outro saco, sem cessar, cont\u00ednuos<br \/>\ncomo a correia de uma grande m\u00e1quina. Eram sessenta, oitenta, cem,<br \/>\ntalvez duzentos. N\u00e3o os podia contar. A cara escorrendo suor. Os pobres<br \/>\nsurgiam do armaz\u00e9m como flechas, como flechas voltavam. Um clamor subia<br \/>\naos c\u00e9us apregoando o servi\u00e7o:<\/p>\n<p>\u2013 Um, dois, tr\u00eas, vinte e sete; cinco, vinte, dez, trinta!<\/p>\n<p>E a ronda continuava diab\u00f3lica.<\/p>\n<p>\u2013 Aquela gente n\u00e3o cansa?<\/p>\n<p>\u2013 Qual! trabalham assim horas a fio. Cada saco daqueles tem sessenta<br \/>\nquilos e para transport\u00e1-lo ao saveiro pagam 60 r\u00e9is. Alguns<br \/>\npagam menos \u2013 d\u00e3o s\u00f3 30 r\u00e9is, mas, assim mesmo,<br \/>\nh\u00e1 quem tire dezesseis mil r\u00e9is por dia.<\/p>\n<p>O trabalho da estiva \u00e9 complexo, variado; h\u00e1 a estiva da aguardente,<br \/>\ndo bacalhau, dos cereais, do algod\u00e3o; cada uma tem os seus servidores,<br \/>\ne homens h\u00e1 que s\u00f3 servem a certas e determinadas estivas, sendo<br \/>\npor isso apontados.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 muito, fiz.<\/p>\n<p>\u2013 Passam dias, por\u00e9m, sem ter trabalho e imagine quantas corridas<br \/>\ns\u00e3o necess\u00e1rias para ganhar a quantia fabulosa.<\/p>\n<p>A lancha fizera-se ao largo. Caminh\u00e1vamos para o po\u00e7o onde<br \/>\no navio que devia sair naquela noite fundeava, todo de branco. Era o come\u00e7o<br \/>\ndo dia. A bordo ficou um terno de homens, e eu com eles. O terno divide-se<br \/>\nassim: um no guincho, quatro na embarca\u00e7\u00e3o, oito no por\u00e3o<br \/>\ne quatro no conv\u00e9s. Isso quando a carga \u00e9 seca. Carregava caf\u00e9<br \/>\no vapor.<\/p>\n<p>Logo que o saveiro atracou, eles treparam pelas escadas, r\u00e1pidos;<br \/>\noito homens desapareceram na face aberta do por\u00e3o, despiram-se, enquanto<br \/>\nos outros rodeavam o guincho e as correntes de ferro come\u00e7avam a ir<br \/>\ne vir do por\u00e3o para o saveiro, do saveiro para o por\u00e3o, carregadas<br \/>\nde sacas de caf\u00e9. Era regular, matem\u00e1tico, a oscila\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um lento e formid\u00e1vel rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>Aqueles seres ligavam-se aos guinchos; eram parte da m\u00e1quina; agiam<br \/>\ninconscientemente. Quinze minutos depois de iniciado o trabalho, suavam arrancando<br \/>\nas camisas. S\u00f3 os negros trabalhavam de tamancos. E n\u00e3o falavam,<br \/>\nn\u00e3o tinham palavras in\u00fateis. Quando a ruma estava feita, erguiam<br \/>\na cabe\u00e7a e esperavam a nova carga. Que fazer? Aquilo tinha que ser<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s 5 da tarde!<\/p>\n<p>Desci ao por\u00e3o. Uma atmosfera de caldeira sufocava. Era as correntes<br \/>\nca\u00edrem do bra\u00e7o de ferro um dos oito homens precipitava-se,<br \/>\nalargava-as, os outros puxavam os sacos.<\/p>\n<p>\u2013 Eh! l\u00e1!<\/p>\n<p>De novo havia um rolar de ferros no conv\u00e9s, as correntes subiam enquanto<br \/>\neles arrastavam os sacos. Do alto a claridade ca\u00eda fazendo uma bolha<br \/>\nde luz, que se apagava nas trevas dos cantos. E a gente, olhando para cima,<br \/>\nvia encostados cavalheiros de pijama e bonezinho, com ar de quem descansa<br \/>\ndo banho a apreciar a faina alheia. \u00c0s vezes, as correntes ficavam<br \/>\num pouco alto. Eles agarravam-se \u00e0s paredes de ferro com os passos<br \/>\nvacilantes entre os sacos e, estendendo o tronco nu e suarento, as suas m\u00e3os<br \/>\npre\u00eanseis puxavam a carga em esfor\u00e7os tit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>\u2013 Eh! l\u00e1!<\/p>\n<p>Na embarca\u00e7\u00e3o, fora, os mesmos movimentos, o mesmo gasto de<br \/>\nfor\u00e7as e de tal forma regular que em pouco eram movimentos correspondentes,<br \/>\nregulados pela trepida\u00e7\u00e3o do guincho, os esfor\u00e7os dos<br \/>\nque se esfalfavam no por\u00e3o e dos que se queimavam ao sol.<\/p>\n<p>At\u00e9 horas tardes da manh\u00e3 trabalharam assim, indiferentes aos<br \/>\nbotes, \u00e0s lanchas, \u00e0 anima\u00e7\u00e3o especial do navio.<br \/>\nQuando chegou a vez da comida, n\u00e3o se reuniram. Os do por\u00e3o<br \/>\nficaram por l\u00e1 mesmo, com a respira\u00e7\u00e3o intercortada,<br \/>\nresfolegando, engolindo o p\u00e3o, sem vontade.<\/p>\n<p>Decerto pela minha face eles compreenderam que eu os deplorava. Vagamente,<br \/>\no primeiro falou; outro disse-me qualquer coisa e eu ouvi as id\u00e9ias<br \/>\ndaqueles corpos que o trabalho rebenta. A principal preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesses entes s\u00e3o as firmas dos estivadores. Eles as t\u00eam de cor,<br \/>\ncitam de seguida, sem errar uma: Carlos Wallace, Melo e Fran\u00e7ois, Bernardino<br \/>\nCorreia Albino, Empresa Estivadora, Picasso e C., Rom\u00e3o Conde e C.,<br \/>\nWilson, Sons, Jos\u00e9 Viegas Vaz, Lloyd Brasileiro, Capton Jones. Em cada<br \/>\numa dessas casas o terno varia de n\u00famero e at\u00e9 de vencimentos,<br \/>\ncomo por exemplo \u2013o Lloyd, que paga sempre menos que qualquer outra<br \/>\nempresa.<\/p>\n<p>Os homens com quem falava t\u00eam uma for\u00e7a de vontade incr\u00edvel.<br \/>\nFizeram com o pr\u00f3prio esfor\u00e7o uma classe, impuseram-na. H\u00e1<br \/>\ndoze anos n\u00e3o havia malandro que, pegado na Gamboa, n\u00e3o se desse<br \/>\nlogo como trabalhador de estiva. Nesse tempo n\u00e3o havia a associa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o havia o sentimento de classe e os pobres estrangeiros pegados na<br \/>\nMar\u00edtima trabalhavam por tr\u00eas mil r\u00e9is dez horas de sol<br \/>\na sol. Os oper\u00e1rios reuniram-se. Depois da revolta, come\u00e7ou<br \/>\na se fazer sentir o elemento brasileiro e, desde ent\u00e3o, foi uma longa<br \/>\ne pertinaz conquista. Um homem preso, que se diga da estiva, \u00e9, horas<br \/>\ndepois, confrontado com um s\u00f3cio da Uni\u00e3o, tem que apresentar<br \/>\no seu recibo de m\u00eas. Hoje, est\u00e3o todos ligados, exercendo uma<br \/>\nm\u00fatua policia para a moraliza\u00e7\u00e3o da classe. A Uni\u00e3o<br \/>\ndos Oper\u00e1rios Estivadores consegue, com uns estatutos que a defendem<br \/>\nhabilmente, o seu nobre fim. Os defeitos da ra\u00e7a, as disputas, as rusgas<br \/>\ns\u00e3o consideradas penas; a extin\u00e7\u00e3o dos tais pequenos<br \/>\nroubos, que antigamente eram comuns, merece um cuidado extremado da Uni\u00e3o,<br \/>\ne todos os s\u00f3cios, tendo como diretores Bento Jos\u00e9 Machado,<br \/>\nAnt\u00f4nio da Cruz, Santos Valen\u00e7a, Mateus do Nascimento, Jer\u00f4nimo<br \/>\nDuval, Miguel Rosso e Ricardo Silva, esfor\u00e7am-se, estudam, sacrificam-se<br \/>\npelo bem geral.<\/p>\n<p>Que querem eles? Apenas ser considerados homens dignificados pelo esfor\u00e7o<br \/>\ne a diminui\u00e7\u00e3o das horas de trabalho, para descansar e para<br \/>\nviver. Um deles, magro, de barba inculta, partindo um p\u00e3o empapado<br \/>\nde suor que lhe gotejava da fronte, falou-me, num grito de franqueza:<\/p>\n<p>\u2013 O problema social n\u00e3o tem raz\u00e3o de ser aqui? Os senhores<br \/>\nn\u00e3o sabem que este pa\u00eds \u00e9 rico, mas que se morre de fome?<br \/>\n\u00c9 mais f\u00e1cil estourar um trabalhador que um lar\u00e1pio?<br \/>\nO capital est\u00e1 nas m\u00e3os de grupo restrito e h\u00e1 gente<br \/>\ndemais absolutamente sem trabalho. N\u00e3o acredite que nos baste o discurso<br \/>\nde alguns senhores que querem ser deputados Vemos claro e, desde que se come\u00e7a<br \/>\na ver claro, o problema surge complexo e terr\u00edvel. A greve, o senhor<br \/>\nacha que n\u00e3o fizemos bem na greve? Eram nove horas de trabalho. De<br \/>\ntoda a parte do mundo os embarcadi\u00e7os diziam que trabalho da estiva<br \/>\nera s\u00f3 de sete!<\/p>\n<p>Fizemos mal? Pois ainda n\u00e3o temos o que desejamos.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina, no conv\u00e9s, recome\u00e7ara a trabalhar.<\/p>\n<p>\u2013 Os patr\u00f5es n\u00e3o querem saber se ficamos in\u00fateis<br \/>\npelo excesso de servi\u00e7o. Olhe, v\u00e1 \u00e0 Mar\u00edtima,<br \/>\nao Mercado. Encontrar\u00e1 muitos dos nossos arrebentados, esmolando, apanhando<br \/>\nos restos de comida. Quando se aproximam das casas \u00e0s quais deram toda<br \/>\na vida correm-nos!<\/p>\n<p>Que foi fazer l\u00e1? Trabalhou? Pagaram-no; rua! Toda a fraternidade<br \/>\nuniversal se cifra neste horror!<\/p>\n<p>Do alto ca\u00edram cinco sacas de caf\u00e9 mal presas \u00e0 corrente.<br \/>\nEle sorriu, amargurado, precipitou-se, e, de novo, ouviu-se o pavor do guincho<br \/>\nsacudindo as correntes donde pendiam dezoito homens estrompados. At\u00e9<br \/>\n\u00e0 tarde, encostado aos sacos, eu vi encher a vastid\u00e3o do por\u00e3o<br \/>\nbafioso e escuro. Eles n\u00e3o pararam. Quando deu cinco horas um de barba<br \/>\nnegra tocou-me no bra\u00e7o:<\/p>\n<p>\u2013 Por que n\u00e3o se vai? Est\u00e3o tocando a sineta. N\u00f3s<br \/>\nficamos para o ser\u00e3o \u00e0 noite&#8230; Trabalhar at\u00e9 \u00e0<br \/>\nmeia-noite.<\/p>\n<p>Subi. Os ferros retiniam sempre a m\u00fasica sinistra. Encostados \u00e0<br \/>\namurada, damas ro\u00e7agando sedas e cavalheiros estrangeiros de smoking,<br \/>\ndebochavam, em ingl\u00eas, as belezas da nossa ba\u00eda; no bar, literalmente<br \/>\ncheio, ao estourar do champagne, um mo\u00e7o vermelho de \u00e1lcool<br \/>\ne de calor levantava um copo dizendo:<\/p>\n<p>\u2013 Saudemos o nosso caro amigo que Paris receber\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Em derredor do paquete, lanchas, malas, cargas, impreca\u00e7\u00f5es,<br \/>\ngente querendo empurrar as bagagens, carregadores, assobios, um brouhaha formid\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um cavalheiro cheio de brilhantes, no portal\u00f3, perguntou-me se eu<br \/>\nn\u00e3o vira a Lola. Desci, meti-me num bote, fiz dar a volta para ver<br \/>\nmais uma vez aquela morte lenta entre os pesos. A tarde ca\u00edra completamente.<br \/>\nRitmados pelo arrastar das correntes, os quatro homens, dirigidos do conv\u00e9s<br \/>\ndo steamer, carregavam, tiravam sempre de dentro do saveiro mais sacas, sempre<br \/>\nsacas, com as m\u00e3os disformes, as unhas roxas, suando, arrebentando<br \/>\nde fadiga.<\/p>\n<p>Um deles, por\u00e9m, rapaz, quando o meu bote passava por perto do saveiro,<br \/>\ncurvou-se, com a fisionomia angustiada, golfando sangue.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! diabo! fez o outro, voltando-se. O Jos\u00e9 que n\u00e3o<br \/>\npode mais!<\/p>\n<h4><a name=\"17\"><\/a>A Fome Negra<\/h4>\n<p>De madrugada, escuro ainda, ouviu-se o sinal de acordar. Raros ergueram-se.<br \/>\nTinha havido ser\u00e3o at\u00e9 a meia-noite. Ent\u00e3o, o feitor,<br \/>\num homem magro, corcovado, de tamancos e bei\u00e7os finos, o feitor, que<br \/>\nganha duzentos mil r\u00e9is e acha a vida um para\u00edso, o sr. Correia,<br \/>\nentrou pelo barrac\u00e3o onde a manada de homens dormia com a roupa suja<br \/>\ne ainda empapada do suor da noite passada.<\/p>\n<p>\u2013 Eh! l\u00e1! rapazes, acorda! Quem n\u00e3o quiser, roda. Eh<br \/>\nl\u00e1! Fora!<\/p>\n<p>Houve um rebuli\u00e7o na furna sem ar. Uns sacudiam os outros amedrontados,<br \/>\ncom os olhos s\u00f3 a brilhar na face cor de ferrugem; outros, prostrados,<br \/>\nnada ouviam, com a boca aberta, babando.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 Jo\u00e3o, olha o caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u2013 Olha o caf\u00e9 e olha o trabalho! Ai, raios me partam! Era capaz<br \/>\nde dormir at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Mas, j\u00e1 na luz incerta daquele quadril\u00e1tero, eles levantavam-se,<br \/>\nimpelidos pela necessidade como as feras de uma m\u00e9nagerie ao chicote<br \/>\ndo domador. N\u00e3o lavaram o rosto, n\u00e3o descansaram. Ainda estremunhados,<br \/>\nsorviam uma \u00e1gua quente, da cor do p\u00f3 que lhes impregnava a<br \/>\npele, partindo o p\u00e3o com escaras da mesma fuligem met\u00e1lica,<br \/>\ne poucos eram os que se sentavam, com as pernas em compasso, tristes.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos na ilha da Concei\u00e7\u00e3o, no trecho hoje denominado<br \/>\n\u2013 a Fome Negra. H\u00e1 ali um grande dep\u00f3sito de mangan\u00eas<br \/>\ne, do outro lado da pedreira que separa a ilha, um dep\u00f3sito de carv\u00e3o.<br \/>\nDefronte, a algumas bra\u00e7adas de remo, fica a Ponta da Areia com a Cantareira,<br \/>\nas obras do porto fechando um largo trecho coalhado de barcos. Para al\u00e9m,<br \/>\nno mar tranq\u00fcilo, outras ilhas surgem, onde o trabalho escorcha e esmaga<br \/>\ncentenas de homens.<\/p>\n<p>Logo depois do caf\u00e9, os pobres seres saem do barrac\u00e3o e v\u00e3o<br \/>\npara a parte norte da ilha, onde a pedreira refulge. H\u00e1 grandes pilhas<br \/>\nde blocos de mangan\u00eas e montes de piquiri em p\u00f3, em lascas finas.<br \/>\nNo solo, coberto de uma poeira negra com reflexos de bronze, h\u00e1 rails<br \/>\npara conduzir os vagonetes do min\u00e9rio at\u00e9 ao lugar da descarga.<br \/>\nO mangan\u00eas, que a lnglaterra cada vez mais compra ao Brasil, vem de<br \/>\nMinas at\u00e9 \u00e0 Mar\u00edtima em estrada de ferro; da\u00ed<br \/>\n\u00e9 conduzido em batel\u00f5es e saveiros at\u00e9 \u00e0s ilhas<br \/>\nB\u00e1rbaras e da Concei\u00e7\u00e3o, onde fica em dep\u00f3sito.<\/p>\n<p>Quando chega vapor, de novo removem o pedregulho para os saveiros e de l\u00e1<br \/>\npara o por\u00e3o dos navios. Esse trabalho \u00e9 cont\u00ednuo, n\u00e3o<br \/>\ntem descanso. Os dep\u00f3sitos cheios, sem trabalho de carga para os navios,<br \/>\nos trabalhadores atiram-se \u00e0 pedreira, \u00e0 rocha viva. Trabalha-se<br \/>\ndez horas por dia com pequenos intervalos para as refei\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne ganha-se cinco mil r\u00e9is. H\u00e1, al\u00e9m disso, o desconto<br \/>\nda comida, do barrac\u00e3o onde dormem, mil e quinhentos; de modo que o<br \/>\nordenado da totalidade \u00e9 de oito mil r\u00e9is, Os homens gananciosos<br \/>\naproveitam ent\u00e3o o servi\u00e7o da noite, que \u00e9 pago at\u00e9<br \/>\nde manh\u00e3 por tr\u00eas mil e quinhentos e at\u00e9 meia-noite pela<br \/>\nmetade disso, tendo naturalmente, o desconto do p\u00e3o, da carne e do<br \/>\ncaf\u00e9 servido durante o labor,<\/p>\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de gente essa que serve \u00e0s descargas do<br \/>\ncarv\u00e3o e do min\u00e9rio e povoa as ilhas industriais de ba\u00eda,<br \/>\nseres embrutecidos, apanhados a dedo, incapazes de ter id\u00e9ias. S\u00e3o<br \/>\nquase todos portugueses e espanh\u00f3is que chegam da aldeia, ing\u00eanuos.<br \/>\nAlguns saltam da proa do navio para o saveiro do trabalho tremendo, outros<br \/>\naparecem pela Mar\u00edtima sem saber o que fazer e s\u00e3o arrebanhados<br \/>\npelos agentes. S\u00f3 t\u00eam um instinto: juntar dinheiro, a ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\nvoraz que os arrebenta de encontro \u00e0s pedras inutilmente. Uma vez apanhados<br \/>\npelo mecanismo de a\u00e7os, ferros e carne humana, uma vez utens\u00edlio<br \/>\napropriado ao andamento da m\u00e1quina, tornam-se aut\u00f4matos com a<br \/>\nteimosia de objetos movidos a vapor. N\u00e3o t\u00eam nervos, t\u00eam<br \/>\nmolas; n\u00e3o t\u00eam c\u00e9rebros, t\u00eam m\u00fasculos hipertrofiados.<br \/>\nO superintende do servi\u00e7o berra, de vez em quando:<\/p>\n<p>\u2013 Isto \u00e9 para quem quer! Tudo aqui \u00e9 livre! As coisas<br \/>\nest\u00e3o muito ruins, sujeitemo-nos. Quem n\u00e3o quiser \u00e9 livre!<\/p>\n<p>Eles vieram de uma vida de ge\u00f3rgicas paup\u00e9rrimas. T\u00eam<br \/>\na saudade das vinhas, dos pratos suaves, o pavor de voltar pobres e, o que<br \/>\n\u00e9 mais, ignoram absolutamente a cidade, o Rio; limitam o Brasil \u00e0s<br \/>\nilhas do trabalho, quando muito aos recantos primitivos de Niter\u00f3i.<br \/>\nH\u00e1 homens que, anos depois de desembarcar, nunca pisaram no Rio e outros<br \/>\nque, quase uma exist\u00eancia na ilha, voltaram para a terra com algum dinheiro<br \/>\ne a certeza da morte.<\/p>\n<p>Vivem quase nus. No m\u00e1ximo, uma cal\u00e7a em frangalhos e camisa<br \/>\nde meia. Os seus conhecimentos reduzem-se \u00e0 marreta, \u00e0 p\u00e1,<br \/>\nao dinheiro; o dinheiro que a p\u00e1 levanta para o bem-estar dos capitalistas<br \/>\npoderosos; o dinheiro, que os recurva em esfor\u00e7os desesperados, lavados<br \/>\nde suor, para que os patr\u00f5es tenham carros e bem-estar. Dias inteiros<br \/>\nde bote, estudando a engrenagem dessa vida esfalfante, saltando nos pai\u00f3is<br \/>\nardentes navios e nas ilhas in\u00fameras, esses pobres entes fizeram-me<br \/>\npensar num pesadelo de Wells, a realidade da Hist\u00f3ria dos Tempos Futuros,<br \/>\no pobre a trabalhar para os sindicatos, m\u00e1quina incapaz de poder viver<br \/>\nde outro modo, aproveitada e esgotada. Quando um deles \u00e9 despedido,<br \/>\ncom a lenta prepara\u00e7\u00e3o das palavras s\u00f3rdidas dos feitores,<br \/>\nsente um t\u00e3o grande v\u00e1cuo, v\u00ea-se de tal forma s\u00f3,<br \/>\nque vai rogar outra vez para que o admitam.<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que eu os interrogava e o sol acendia labaredas<br \/>\npor toda a ilha, a minha sentimentalidade ia fenecendo. Parte dos trabalhadores<br \/>\natirou-se \u00e0 pedreira, rebentando as pedras. As marretas ca\u00edam<br \/>\ndescompassadamente em retintins met\u00e1licos nos blocos enormes. Os outros<br \/>\nperdiam-se nas rumas de mangan\u00eas, agarrando os pedregulhos pesados com<br \/>\nas m\u00e3os. As p\u00e1s raspavam o ch\u00e3o, o piquiri ca\u00eda<br \/>\npesadamente nos vagonetes, outros puxavam-nos at\u00e9 a beira d\u2019\u00e1gua,<br \/>\nonde as tinas de bronze os esvaziavam nos saveiros.<\/p>\n<p>Durante horas, esse trabalho continuou com uma regularidade alucinante. N\u00e3o<br \/>\nse distinguiam bem os seres das pedras do mangan\u00eas: o raspar das p\u00e1s<br \/>\nreplicava ao bater das marretas, e ningu\u00e9m conversava, ningu\u00e9m<br \/>\nfalava! A certa hora do dia veio a comida. Atiraram-se aos pratos de folha,<br \/>\nonde, em \u00e1gua quente, boiavam vagas batatas e vagos peda\u00e7os<br \/>\nde carne, e um momento s\u00f3 se ouviu o s\u00f4frego sorver e o mastigar<br \/>\nesfomeado.<\/p>\n<p>Acerquei-me de um rapaz.<\/p>\n<p>\u2013 O teu nome?<\/p>\n<p>\u2013 O meu nome para qu\u00ea? N\u00e3o digo a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era a desconfian\u00e7a incutida pelo gerente, que passeava ao lado, abrindo<br \/>\na chaga do l\u00e1bio num sorriso s\u00f3rdido.<\/p>\n<p>\u2013 Que tal achas a sopa?<\/p>\n<p>\u2013 Bem boa. C\u00e1 uma pessoa come. O corpo est\u00e1 acostumado,<br \/>\ntem tr\u00eas p\u00e3es por dia e tr\u00eas vezes por semana bacalhau.<\/p>\n<p>Engasgou-se com um osso. Meteu a m\u00e3o na goela e eu vi que essa negra<br \/>\nm\u00e3o rebentava em sangue, rachava, porejando um l\u00edquido amarelado.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1s ferido?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 do trabalho. As m\u00e3os racham. Eu estou s\u00f3 h\u00e1<br \/>\ntr\u00eas meses. Ainda n\u00e3o acostumei.<\/p>\n<p>\u2013 Vais ficar rico?<\/p>\n<p>Os seus olhos brilhavam de \u00f3dio, um \u00f3dio de escravo e de animal<br \/>\nsovado.<\/p>\n<p>\u2013 At\u00e9 j\u00e1 nem chegam os ba\u00fas para guardar o ouro.<br \/>\nDepois, numa franqueza: ganha-se uma mis\u00e9ria. O trabalho faz-se, o<br \/>\nmestre diz que n\u00e3o h\u00e1&#8230;Mas, o dinheiro mal chega, homem, vai-se<br \/>\ntodo no vinho que se manda buscar.<\/p>\n<p>Era horrendo. Fui para outro e ofereci-lhe uma moeda de prata.<\/p>\n<p>\u2013 Isso \u00e9 para mim?<\/p>\n<p>\u2013 E, mas se falares a verdade.<\/p>\n<p>\u2013 Ai! que falo, meu senhor&#8230;<\/p>\n<p>Tinha um olhar verde, perturbado, um olhar de v\u00edcio secreto.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 quanto tempo aqui?<\/p>\n<p>\u2013 Vai para dois anos.<\/p>\n<p>\u2013 E a cidade n\u00e3o conheces?<\/p>\n<p>\u2013 Nunca l\u00e1 fui, que a perdi\u00e7\u00e3o anda pelos ares..<\/p>\n<p>Este tamb\u00e9m se queixa da falta de dinheiro porque manda buscar sempre<br \/>\noutro almo\u00e7o. Quanto ao trabalho, est\u00e3o convencidos que neste<br \/>\npa\u00eds n\u00e3o h\u00e1 melhor. Vieram para ganhar dinheiro, \u00e9<br \/>\npreciso ou morrer ou fazer fortuna. Enquanto falavam, olhavam de soslaio para<br \/>\no Correia e o Correia torcia o cigarro, \u00e0 espreita, arrastando os sacos<br \/>\nno p\u00f3 carbon\u00edfero.<\/p>\n<p>\u2013 Deixe que v\u00e1 tratar do meu servi\u00e7o, segredavam eles<br \/>\nquando o feitor se aproximava. Ai! que n\u00e3o me adianta nada estar a<br \/>\ncontar-lhe a minha vida.<\/p>\n<p>O trabalho recome\u00e7ou. O Correia, cozido ao sol, bamboleava a perna,<br \/>\nfeliz. Como a vida \u00e9 banal! Esse Correia \u00e9 um tipo que existe<br \/>\ndesde que na sociedade organizada h\u00e1 o intermedi\u00e1rio entre o<br \/>\npatr\u00e3o e o servo, Existir\u00e1 eternamente, vivendo de migalhas<br \/>\nde autoridade contra a vida e independ\u00eancia dos companheiros de classe.<\/p>\n<p>\u00c0s 2 horas da tarde, nessa ilha negra, onde se armazenam o carv\u00e3o,<br \/>\no mangan\u00eas e a pedra, o sol queimava. Vinha do mar, como infestado de<br \/>\nluz, um sopro de brasa; ao longe, nas outras ilhas, o trabalho curvava centenas<br \/>\nde corpos, a pele ardia, os pobres homens encobreados, com olhos injetados,<br \/>\nesfalfavam-se, e mestre Correia, dan\u00e7arinando o seu passinho:<\/p>\n<p>\u2013 Vamos gente! Eh! nada de perder tempo. V. Sa n\u00e3o imagina.<br \/>\nNingu\u00e9m os prende e a ilha est\u00e1 cheia. Vida boa!<\/p>\n<p>Foram assim at\u00e9 a tarde, parando minutos para logo continuar. Quando<br \/>\nescureceu de todo, acenderam-se as candeias e a cena deu no macabro.<\/p>\n<p>Do alto, o c\u00e9u coruscava, incrustado de estrelas, um vento glacial<br \/>\npassava, fogo-fatuando a chama t\u00eanue das candeias e, na sombra, sombras<br \/>\nvagas, de olhar incendido, raspavam o ferro, arrancando da alma gemidos de<br \/>\nesfor\u00e7o. Como se estivesse junto do cabo e um batel\u00e3o largasse<br \/>\nsaltei nele com um punhado de homens.<\/p>\n<p>\u00cdamos a um vapor que partia de madrugada. No mar, a treva mais intensa<br \/>\nenvolvia o steamer, um transporte ingl\u00eas com a carga especial do min\u00e9rio.<br \/>\nO comandante fora ao Casino; alguns boys pouco limpos pendiam da murada com<br \/>\num cozinheiro chin\u00eas, de \u00f3culos. Uma luz morti\u00e7a iluminava<br \/>\no conv\u00e9s. Tudo parecia dormir. O batel\u00e3o, por\u00e9m, atracava,<br \/>\nfincavam-se as candeias; quatro homens ficavam de um lado, quatro de outro,<br \/>\ndirigidos um preto que corria pelas bordas do barco, de tamancos, dando gritos<br \/>\nguturais. Os homens nus, suando apesar do vento, come\u00e7avam a encher<br \/>\nenormes tinas de bronze que o bra\u00e7o de ferro levantava num barulho<br \/>\nde trovoada, despejava, deixava cair outra vez.<\/p>\n<p>Entre a subida e a descida da tina fatal, eu os ouvia:<\/p>\n<p>\u2013 O min\u00e9rio! \u00c9 o mais pesado de todos os trabalhos. Cada<br \/>\npedra pesa quilos. Depois de se lidar algum tempo com isso, sentem-se os p\u00e9s<br \/>\ne as m\u00e3os frios; e o sangue, quando a gente se corta, aparece amarelo&#8230;<br \/>\n\u00c9 a morte.<\/p>\n<p>\u2013 De que nacionalidade s\u00e3o voc\u00eas?<\/p>\n<p>\u2013 Portugueses&#8230; Na ilha h\u00e1 poucos espanh\u00f3is e homens<br \/>\nde cor. Somos n\u00f3s os fortes.<\/p>\n<p>O fraco, deviam dizer; o fraco dessa lenta agonia de rapazes, de velhos,<br \/>\nde pais de fam\u00edlias numerosas.<\/p>\n<p>Para os contentar, perguntei:<\/p>\n<p>\u2013 Por que n\u00e3o pedem a diminui\u00e7\u00e3o das horas de<br \/>\ntrabalho?<\/p>\n<p>As p\u00e1s ca\u00edram bruscas. Alguns n\u00e3o compreendiam, outros<br \/>\ntinham um risinho de descren\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2013 Para que, se quase todos se sujeitam?<\/p>\n<p>Mas, um homem de barbas ruivas, tisnado e velho, trepou pelo monte de pedras<br \/>\ne estendeu as m\u00e3os:<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 de chegar o dia, o grande dia!<\/p>\n<p>E rebentou como um doido, aos solu\u00e7os, diante dos companheiros at\u00f4nitos.<\/p>\n<h4><a name=\"18\"><\/a>Sono Calmo<\/h4>\n<p>Os delegados de pol\u00edcia s\u00e3o de vez em quando uns homens am\u00e1veis.<br \/>\nEsses cavalheiros chegam mesmo, ao cabo de certo tempo, a conhecer um pouco<br \/>\nda sua profiss\u00e3o e um pouco do tr\u00e1gico horror que a mis\u00e9ria<br \/>\ntece na sombra da noite por essa misteriosa cidade. Um delegado, outro dia,<br \/>\nconversando dos aspectos s\u00f3rdidos do Rio, teve a amabilidade de dizer:<\/p>\n<p>\u2013 Quer vir comigo visitar esses c\u00edrculos infernais?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se o delegado quis dar-me apenas a nota mundana de visitar<br \/>\na mis\u00e9ria, ou se realmente, como Virg\u00edlio, o seu desejo era<br \/>\nguiar-me atrav\u00e9s de uns tantos c\u00edrculos de pavor, que fossem<br \/>\noutros tantos ensinamentos. Lembrei-me que Oscar Wilde tamb\u00e9m visitara<br \/>\nas hospedarias de m\u00e1 fama e que Jean Lorrain se fazia passar aos olhos<br \/>\ndos ing\u00eanuos como tendo acompanhado os gr\u00e3o-duques russos nas<br \/>\nperegrina\u00e7\u00f5es perigosas que Goron guiava.<\/p>\n<p>Era tudo quanto h\u00e1 de mais liter\u00e1rio e de mais batido. Nas<br \/>\npe\u00e7as francesas h\u00e1 dez anos j\u00e1 aparece o jornalista que<br \/>\nconduz a gente chique aos lugares macabros; em Paris os rep\u00f3rteres<br \/>\ndo Journal andam acompanhados de um apache aut\u00eantico. Eu repetiria apenas<br \/>\num gesto que era quase uma lei. Aceitei.<\/p>\n<p>\u00c0 hora da noite quando cheguei \u00e0 delegacia, a autoridade ordenara<br \/>\numa ca\u00e7a aos pivettes, pobres garotos sem teto, e preparava-se para<br \/>\na excurs\u00e3o com dois amigos, um bacharel e um adido de lega\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntagarela e ing\u00eanuo.<\/p>\n<p>O bacharel estava comovido. O adido assegurava que a mis\u00e9ria s\u00f3<br \/>\nna Europa \u2013 porque a mis\u00e9ria \u00e9 proporcional \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAmbos de casaca davam ao reles interior do posto um aspecto estranho. O delegado<br \/>\nsorria, preparando com o interesse de um ma\u00edtre-h\u00f4tel o card\u00e1pio<br \/>\ndas nossas sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Afinal ergueu a bengala.<\/p>\n<p>\u2013 Em marcha!<\/p>\n<p>Descemos todos, acompanhados de um cabo de policia e de dois agentes secretos<br \/>\n\u2013 um dos quais zanaga, com o rosto grosso de calabr\u00eas. \u00c9<br \/>\nperigoso entrar s\u00f3 nos covis horrendos, nos tr\u00e1gicos asilos<br \/>\nda mis\u00e9ria. \u00cdamos caminhando pela Rua da Miseric\u00f3rdia,<br \/>\nhesitantes ainda diante das lanternas com vidros vermelhos. \u00c0s esquinas,<br \/>\ngrupos de vagabundos e desordeiros desapareciam ao nosso apontar e, afundando<br \/>\no olhar pelos becos estreitos em que a rua parece vazar a sua imund\u00edcie,<br \/>\npor aquela rede de becos, v\u00edamos outras lanternas em forma de foice,<br \/>\nalumiando portas equ\u00edvocas. Havia casas de um pavimento s\u00f3,<br \/>\nde dois, de tr\u00eas; negras, fechadas, hermeticamente fechadas, pegadas<br \/>\numa \u00e0 outra, fronteiras, confundindo a luz das lanternas e a sombra<br \/>\ndos balc\u00f5es. Os nossos passos ressoavam num desencontro nos lajedos<br \/>\nquebrados. A rua, mal iluminada, tinha candeeiros quebrados, sem a capa Auer,<br \/>\nde modo que a brancura de uns focos envermelhecia mais a chama pisca dos outros.<br \/>\nOs pr\u00e9dios antigos pareciam ampararem-se mutuamente, com as fachadas<br \/>\nesborcinadas, arrebentadas algumas. De repente porta abria, tragando, num<br \/>\nsom cavo, algum retardat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Trechos inteiros da cal\u00e7ada, imersos na escurid\u00e3o, encobrian<br \/>\ncafajestes de bombacha branca, gingando, e constantemente o mon\u00f3tono<br \/>\napito do guarda noturno trilava, corria como um arrepio na art\u00e9ria<br \/>\ndo susto para logo outro responder mais longe e mais longe ainda outro ecoar<br \/>\no seu \u00e1spero trilo. No alto, o c\u00e9u era misericordiosamente estrelado<br \/>\ne uma doce tranq\u00fcilidade parecia escorrer do infinito.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 muitos desses covis espalhados pela cidade? indagou advogado,<br \/>\nabotoando o mac-farlane.<\/p>\n<p>\u2013 Em todas as zonas, meu caro.<\/p>\n<p>\u2013 Em cinco noites, visitando-os depressa, informou o agente, V. Sa<br \/>\nn\u00e3o d\u00e1 cabo deles. \u00c9 por aqui, pela Gamboa, nas ruas<br \/>\ncentrais, nos bairros pobres. S\u00f3 na Cidade Nova, que quantidade! Isso<br \/>\nn\u00e3o contando as casas particulares, em que moram vinte e mais pessoas,<br \/>\ne n\u00e3o querendo falar das hospedarias s\u00f3 de gatunos, os &#8220;zungas&#8221;.<\/p>\n<p>\u2013 &#8220;Zungas&#8221;? fez o adido de lega\u00e7\u00e3o, curioso.<\/p>\n<p>\u2013 As hospedarias baratas t\u00eam esse nome&#8230;Dorme-se at\u00e9<br \/>\npor cem r\u00e9is. Saiba V. Sa que a v\u00eddinha dava para uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas debaixo de uma das foices de luz, o delegado parara. Estacamos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O soldado bateu \u00e0 porta com a m\u00e3o espalmada. Houve um longo<br \/>\nsil\u00eancio. O soldado tornou a bater. De dentro ent\u00e3o uma voz sonolenta<br \/>\nindagou:<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2013 Abra! \u00c9 a pol\u00edcia! Abra!<\/p>\n<p>O sil\u00eancio continuou. Nervoso, o delegado atirou a bengala \u00e0<br \/>\nporta.<\/p>\n<p>\u2013 Abra j\u00e1! \u00c9 o dr. delegado! Abra j\u00e1!<\/p>\n<p>A porta abriu-se. Barafustamos na meia-luz de um corredor com areia no soalho.<br \/>\nO homem que viera abrir, corpulento, de camisa de meia, esfregou os olhos,<br \/>\ndeu for\u00e7a ao bico de g\u00e1s, encostou-se \u00e0 mesa forrada<br \/>\nde jornais, onde se alinhavam casti\u00e7ais.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 o propriet\u00e1rio? indagou o delegado.<\/p>\n<p>\u2013 Saiba V. Sa que n\u00e3o. Sou o encarregado.<\/p>\n<p>\u2013 Muita gente?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o h\u00e1 mais lugares.<\/p>\n<p>\u2013 Deixe ver o livro.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 uma formalidade c\u00f4mica. A autoridade virou-lhe as<br \/>\np\u00e1ginas, r\u00e1pido, enquanto os secretas descansavam as bengalas.<br \/>\nO mau cheiro era intenso.<\/p>\n<p>\u2013 Mostre-nos isso! fez a autoridade, minutos depois.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o h\u00e1 acusa\u00e7\u00e3o contra a casa, h\u00e1<br \/>\nsr. doutor?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei, ande.<\/p>\n<p>O encarregado, tr\u00eamulo, seguiu \u00e0 frente, erguendo o casti\u00e7al.<br \/>\nAbriu uma porta de ferro, fechou-a de novo, ap\u00f3s a nossa passagem.<br \/>\nE come\u00e7amos a ver o r\u00e9s-do-ch\u00e3o, salas com camas enfileiradas<br \/>\ncomo nos quart\u00e9is, tarimbas com len\u00e7\u00f3is encardidos, em<br \/>\nque dormiam de bei\u00e7o aberto, babando, marinheiros, soldados, trabalhadores<br \/>\nde face barbuda. Uns cobriam-se at\u00e9 o pesco\u00e7o. Outros espapa\u00e7avam-se<br \/>\ncompletamente nus.<\/p>\n<p>A mando da autoridade superior, os agentes chegavam a vela bem perto das<br \/>\ncaras, passavam a luz por baixo das camas, sacudiam os homens do pesado dormir.<br \/>\nN\u00e3o havia surpresa. Os pobres entes acordavam e respondiam, quase a<br \/>\nroncar outra vez, a raz\u00e3o por que estavam ali, lamentavelmente. O bacharel<br \/>\nestava varado, o adido tinha um ar desprendido. N\u00e3o tivesse ele visitado<br \/>\na mis\u00e9ria de Londres e principalmente a de Paris! O delegado, entretanto,<br \/>\ngozava aquele espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>\u2013 Subamos! murmurou.<\/p>\n<p>Trepamos todos por uma escada \u00edngreme. O mau cheiro aumentava. Parecia<br \/>\nque o ar rareava, e, parando um instante, ouvimos a respira\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todo aquele mundo como o afastado resfolegar de uma grande m\u00e1quina.<br \/>\nEra a se\u00e7\u00e3o dos quartos reservados e a sala das esteiras. Os<br \/>\nquartos estreitos, asfixiantes, com camas largas antigas e len\u00e7\u00f3is<br \/>\npor onde corriam percevejos. A respira\u00e7\u00e3o tornava-se dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Quando as camas rangiam muito e custavam a abrir, o agente mais forte empurrava<br \/>\na porta, e, \u00e0 luz da vela, encontr\u00e1vamos quatro e cinco criaturas,<br \/>\nemborcadas, suando, de l\u00edngua de fora; homens furiosos, cobrindo com<br \/>\no len\u00e7ol a nudez, mulheres tapando o rosto, marinheiros &#8220;que haviam<br \/>\nperdido o bote&#8221;, um mundo v\u00e1rio e sombrio, gargulejando desculpas,<br \/>\ncom a garganta seca. Alguns desses quartos, as dormidas de luxo, tinham entrada<br \/>\npela sala das esteiras, em que se dorme por oitocentos r\u00e9is, e essas<br \/>\nquatro paredes impressionavam como um pesadelo.<\/p>\n<p>Completamente nua, a sala podia conter trinta pessoas, \u00e0 vontade,<br \/>\ne tinha pelo menos oitenta nas velhas esteiras atiradas ao soalho.<\/p>\n<p>Os fregueses dormiam todos \u2013 uns de barriga para o ar, outros de costas,<br \/>\ncom o l\u00e1bio no ch\u00e3o negro, outros de lado, recurvados como arcos<br \/>\nde pipa. Estavam alguns vestidos. A maioria inteiramente nua, fizera dos andrajos<br \/>\ntravesseiros. Erguendo a vela, o encarregado explicava que ali o pessoal estava<br \/>\nmuito bem, e no palor em halo da luz que ele erguia, eu via p\u00e9s disformes,<br \/>\nm\u00e3os de dedos recurvos, troncos suarentos, cabe\u00e7as numa estranha<br \/>\nlassid\u00e3o \u2013 galeria tr\u00e1gica de cabe\u00e7as embrutecidas,<br \/>\ncongestas, bufando de boca aberta&#8230; De vez em quando um bra\u00e7o erguia-se<br \/>\nno espa\u00e7o, tombava; faces, em que mais de perto o raio de luz batia,<br \/>\ntinham tremores s\u00fabitos \u2013 e todos roncavam, afogados em sono.<\/p>\n<p>Um dos agentes sacudiu um rapazola.<\/p>\n<p>\u2013 Hein? J\u00e1 quatro horas? fez o rapaz acordando.<\/p>\n<p>\u2013 Que faz aqui?<\/p>\n<p>\u2013 Espero a hora do bote para a ilha. Sou carvoeiro, sim senhor&#8230; Ai!<br \/>\nminha m\u00e3e! V\u00e3o levar-me preso!<\/p>\n<p>Subitamente, por\u00e9m, apalpou as algibeiras, olhou-nos ansioso. Tinha<br \/>\nsido roubado! Houve um rebuli\u00e7o. Como por encanto, homens, havia ainda<br \/>\nminutos, a dormir profundamente, acordavam-se. O sr. delegado, alteando a<br \/>\nvoz, deu ordem para n\u00e3o deixar sair ningu\u00e9m sem ser revistado.<br \/>\nO encarregado, com perd\u00e3o do sr. delegado e das outras senhorias, descompunha<br \/>\no pequeno.<\/p>\n<p>\u2013 Trouxe dinheiro, maricas? J\u00e1 n\u00e3o lhe tenho dito que<br \/>\nentregue? \u00c9 l\u00e1 poss\u00edvel ter confian\u00e7a nesta s\u00facia.<br \/>\nE a minha casa agora, e eu? Besta de uma figa, que n\u00e3o sei onde estou&#8230;<\/p>\n<p>Os agentes faziam levantar a canalha, arreliada com o incidente e na luz<br \/>\nvaga os perfis patibulares emergiam com gestos c\u00ednicos de espregui\u00e7amento.<\/p>\n<p>Tanto o bacharel como o adido mostravam na face um leve susto. O delegado<br \/>\ncontemplava-os.<\/p>\n<p>\u2013 Que lhes dizia eu? Uma sensa\u00e7\u00e3o, meus caros, admir\u00e1vel.<br \/>\nSubamos ao \u00faltimo andar!<\/p>\n<p>Havia com efeito mais um andar, mas quase n\u00e3o se podia chegar, estando<br \/>\na escada cheia de corpos, gente enfiada em trapos, se estirava nos degraus,<br \/>\ngente que se agarrava aos bala\u00fastres do corrim\u00e3o \u2013 mulheres<br \/>\nreceosas da promiscuidade , de saias enrodilhadas. Os agentes abriam caminho,<br \/>\nacordando a canalha com a ponta dos cacetes. Eu tapava o nariz. A atmosfera<br \/>\nsufocava. Mais um pavimento e arrebentar\u00edamos. Parecia que todas as<br \/>\nrespira\u00e7\u00f5es subiam, envenenando as escada e o cheiro, o fedor,<br \/>\num fedor fulminante, impregnava-se nas nossas pr\u00f3prias m\u00e3os,<br \/>\ndesprendia-se das paredes, do assoalho carcomido, do teto, dos corpos sem<br \/>\nlimpeza. Em cima, ent\u00e3o, era a vertigem. A sala estava cheia. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o havia divis\u00f5es, tabiques, n\u00e3o se podia andar sem<br \/>\nesmagar um corpo vivo. A metade daquele gado humano trabalhava; rebentava<br \/>\nnas descargas dos vapores, enchendo pai\u00f3is de carv\u00e3o, carregando<br \/>\nfardos. Mais uma hora e acordaria para esperar no cais os batel\u00f5es<br \/>\nque a levassem ao cepo do labor, em que empedra o c\u00e9rebro e rebenta<br \/>\nos m\u00fasculos.<\/p>\n<p>Grande parte desses pobres entes fora atirada ali, no esconderijo daquele<br \/>\ncovil, pela falta de fortuna. Para se livrar da pol\u00edcia, dormiam sem<br \/>\nar, sufocados, na mais repugnante promiscuidade. E eu, o adido, o bacharel,<br \/>\no delegado am\u00e1vel est\u00e1vamos a gozar dessa gente o doloroso espet\u00e1culo!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o se emocione, disse o delegado. H\u00e1 por aqui gatunos,<br \/>\nassassinos, e coisas ainda mais nojentas.<\/p>\n<p>Desci. Do\u00edam-me as t\u00eamporas. Era imposs\u00edvel o cheiro<br \/>\nde todo aquele entulho humano. O adido precipitou-se tamb\u00e9m e os outros<br \/>\no seguiram. Embaixo, a vistoria aos fregueses n\u00e3o dera resultado. O<br \/>\nencarregado ainda gritava e o cabo estava nervoso, j\u00e1 tendo dado alguns<br \/>\nmurros. O dr. delegado teve uma \u00faltima id\u00e9ia \u2013 a vis\u00e3o<br \/>\nde uma cena ainda mais cruel.<\/p>\n<p>\u2013 Vamos ver os fundos!<\/p>\n<p>Foi a\u00ed ent\u00e3o que vimos o sofrer inconsciente e o \u00faltimo<br \/>\ngrau da mis\u00e9ria. O hospedeiro torpe dizia que por ali dormiam alguns<br \/>\nde favor, mas pelo corredor estreito, em derredor da sentina, no trecho do<br \/>\nquintal, cheio de trapos e de lama, nas lajes, os mendigos, faces escaveiradas<br \/>\ne sujas, acordavam num clamor erguendo as m\u00e3os para o ar. E de tal<br \/>\nforma a treva se ligava a esses espectros da vida que o quadro parecia formar<br \/>\num todo homog\u00eaneo e irreal.<\/p>\n<p>\u2013 Tudo gr\u00e1tis aos desgra\u00e7adinhos, sibilava o homem musculoso.<\/p>\n<p>Curvei-me, perto da latrina. Era uma velha embiocada num capuz preto.<\/p>\n<p>\u2013 Quanto pagou v., minha velha?<\/p>\n<p>\u2013 O que tinha, filho, o que tinha, dois tost\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Dei-lhe qualquer coisa, e mais \u00edntima, esticando o pesco\u00e7o,<br \/>\nela indagou, tr\u00eamula:<\/p>\n<p>\u2013 Por que ser\u00e1 tudo isso? V\u00e3o levar-nos presos?<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 o delegado sa\u00edra com os seus convidados. \u00c0 porta<br \/>\no encarregado esperava. Sa\u00ed. A escurid\u00e3o afogava os pr\u00e9dios,<br \/>\nencapuchava os combustores, alongava a rua. N\u00e3o se sabia onde acabara<br \/>\no pesadelo, onde come\u00e7ara a realidade.<\/p>\n<p>\u2013 Basta, dizia o adido, basta. J\u00e1 tenho uma dose suficiente.<\/p>\n<p>\u2013 Tamb\u00e9m \u00e9 tudo a mesma coisa. \u00c9 ver uma, \u00e9<br \/>\nver todas.<\/p>\n<p>\u2013 E quem diria? concluiu o bacharel, at\u00e9 ent\u00e3o mudo.<\/p>\n<p>Neste momento ouviu-se o grito de pega! Um garoto corria. O cabo precipitou-se.<\/p>\n<p>J\u00e1 outros dois soldados vinham em disparada. Era a ca\u00e7ada aos<br \/>\ngarotos, a &#8220;canoa&#8221;. A &#8220;canoa&#8221; vinha perto. Tinham pegado<br \/>\nuns vinte vagabundos, e pela cal\u00e7ada, presos, seguidos de soldados,<br \/>\nvia-se, como uma serpente macabra, desenrolar-se a s\u00e9rie de miser\u00e1veis<br \/>\ntr\u00eamulos de pavor.<\/p>\n<p>\u2013 Canalhas! bradou o dr. delegado. E ainda se queixam que os mande<br \/>\nprender para dormir na esta\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00f3s dev\u00edamos ter asilos, instruiu o adido.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade, os asilos, a higiene, a limpeza. Tudo isso \u00e9<br \/>\nbonito. Havemos de ter. Por enquanto nosso Senhor, l\u00e1 em cima, que<br \/>\nolhe por eles!<\/p>\n<p>As suas m\u00e3os, maquinalmente esticaram-se, e os nossos olhos acompanhando<br \/>\naquele gesto elegante de ceticismo mundano, deram no c\u00e9u, recamado<br \/>\nde ouro. Todas as estrelas palpitavam, por cima da casaria estendia-se uma<br \/>\npoeira de ouro. Naquela chaga incur\u00e1vel, chaga lament\u00e1vel da<br \/>\ncidade, a luz gotejava do infinito como um b\u00e1lsam.<\/p>\n<h4><a name=\"19\"><\/a>As Mulheres Mendigas<\/h4>\n<p>A mendicidade \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o mais regular, mais tranq\u00fcila<br \/>\ndesta cidade. Pedir, exclusivamente pedir, sem ambi\u00e7\u00e3o aparente<br \/>\ne sem vergonha, assim \u00e0 beira da estrada da vida, parece o mais rendoso<br \/>\nof\u00edcio de quantos tenham aparecido; e a pr\u00f3pria mis\u00e9ria,<br \/>\nno que ela tem de doloroso e de pungente, sofre com essa explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso estudar a sociedade complicada e diversa dos que pedem esmola,<br \/>\nadivinhar at\u00e9 onde vai a verdade e at\u00e9 onde chega a malandrice,<br \/>\npara compreender como a pol\u00edcia descura o agasalho da invalidez e a<br \/>\ntoleima incauta dos que d\u00e3o esmolas.<\/p>\n<p>Entre os homens mendigos h\u00e1 irm\u00e3os da opa, agentes de deprava\u00e7\u00e3o<br \/>\nviciados, profissionais de doen\u00e7as falsas, mascarando um formid\u00e1vel<br \/>\ncen\u00e1rio de dores e de aniquilamento. S\u00f3 depois de um longo conv\u00edvio<br \/>\n\u00e9 que se pode assistir \u00e0 inicia\u00e7\u00e3o da ma\u00e7onaria<br \/>\ndos miser\u00e1veis, os estudos de extors\u00e3o pelo rogo, toda a t\u00e1tica<br \/>\nlenta do pedido em nome de Deus que, \u00e0s vezes, acaba em pancada. Os<br \/>\nhomens exploradores n\u00e3o tem brio. As mulheres, s\u00f3 quando s\u00e3o<br \/>\nrealmente desgra\u00e7adas \u00e9 que n\u00e3o mentem e n\u00e3o fantasiam.<br \/>\nS\u00e3o, entretanto, as mais incr\u00edveis.<\/p>\n<p>Foi Pietro Mazzoli, um mendigo c\u00ednico, que p\u00e1ra sempre no Largo<br \/>\ndo Capim, quem me apontou o meio diverso da mendicidade das mulheres. Pietro<br \/>\n\u00e9 baixo, refor\u00e7ado, corado. Puxa sempre a sui\u00e7a potente,<br \/>\ncom o min\u00fasculo chapeuzinho posto ao lado, sobre a juba enorme e cheia<br \/>\nde l\u00eandeas. \u00c9 mendigo por desfastio e comodidade. Soldado, fugiu<br \/>\ndo servi\u00e7o militar como criado de bordo. Em Buenos Aires fez-se inculcador<br \/>\nde casas suspeitas, porteiro do mesmo g\u00eanero, caften, bar\u00edtono<br \/>\nde caf\u00e9 cantante, preso. No Rio, sendo-lhe habitual a pris\u00e3o,<br \/>\nj\u00e1 foi cego, torto das pernas, aleijado de carrinho, corcunda, maneta,<br \/>\natacado do mal de S. Guido. \u00c9 o Fr\u00e9goli da mis\u00e9ria. Antes<br \/>\nde se estabelecer mendigo, andou pelo Estado do Rio fazendo dan\u00e7ar<br \/>\num urso que era um companheiro de malandragens. Essa pilh\u00e9ria do urso<br \/>\nnada aut\u00eantico valeu-lhe uma sova e tr\u00eas anos de pris\u00e3o.<br \/>\nHomem de tal jaez conhece todos os truques, a falsa mis\u00e9ria e a verdadeira,<br \/>\na explora\u00e7\u00e3o e a dor sentida. \u00c9 ele quem nos inicia.<\/p>\n<p>H\u00e1 mendigas burguesas, mendigas m\u00e3es de fam\u00edlia, alugadas,<br \/>\ndirigidas por caftens, cegas que v\u00eaem admiravelmente bem, chaguentas<br \/>\nl\u00e9pidas, cartomantes ambulantes, vagabundas, e uma s\u00e9rie de<br \/>\nmulheres perdidas cuja estrela escureceu na mais aflitiva desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Nos pontos dos bondes, pelas ruas, guiadas sempre por crian\u00e7as de<br \/>\nfaces inexpressivas, vemos tristes criaturas com as m\u00e3os estendidas,<br \/>\nmastigando desejos para a nossa salva\u00e7\u00e3o, com a ajuda de Deus<\/p>\n<p>H\u00e1 a Ant\u00f4nia Maria, a Zulmira, a vi\u00fava Justina, a d.<br \/>\nAmbrosina, a excelente e anafada tia Josefa; umas magras, amparadas aos bord\u00f5es,<br \/>\nchorando humildades; outras gordas, movendo a mole do corpo com tremidinhos<br \/>\nde creme. \u00c0s portas das igrejas param, indagam quem entra, a ver se<br \/>\na missa \u00e9 de gente rica; postam-se nas escadarias, agachadas, salmodiando<br \/>\nfunerariamente, olhando com rancor os mendigos \u2013 negros ro\u00eddos<br \/>\nde alcoolismo, velhos a tremer de s\u00edfilis. A lista dessas senhoras<br \/>\n\u00e9 intermin\u00e1vel, e h\u00e1 entre elas, neg\u00f3cios \u00e0<br \/>\nparte, uma interessante sociabilidade. Cada uma tem o seu bairro a explorar,<br \/>\na sua igreja, o seu ponto livre de inc\u00f4modos imprevistos. Quando aparece<br \/>\nalguma ne\u00f3fita, olham-na furiosas e martirizam-na como nas escolas<br \/>\naos estudantes calouros.<\/p>\n<p>T\u00eam, naturalmente, uma vida regrada a cron\u00f4metro su\u00ed\u00e7o,<br \/>\ncriaturas t\u00e3o convencidas do seu of\u00edcio. Saem de casa \u00e0s<br \/>\n6 da manh\u00e3, ouvem missa devotamente porque acreditam em Deus e usam<br \/>\nao peito medalhinhas de santos.<\/p>\n<p>Depois, postam-se \u00e0 porta at\u00e9 que a \u00faltima missa tenha<br \/>\ndado a receita suficiente \u00e0s v\u00e1rias depend\u00eancias do templo,<br \/>\nv\u00e3o almo\u00e7ar e come\u00e7am a peregrina\u00e7\u00e3o pelos<br \/>\nbondes, de porta em porta, at\u00e9 \u00e0 hora de jantar. Uma, a Isabel<br \/>\nFerreira, cabocla esguia e m\u00e1, pede \u00e0 noite e confessa que isso<br \/>\nd\u00e1 uma nota mais l\u00fagubre, mais emocionante ao pedido.<\/p>\n<p>Ao passar por essa gente sentem todos o fraco ego\u00edsmo da bondade e,<br \/>\ncinco ou seis dias depois de as conversar, percebe-se que esmolar \u00e9<br \/>\napenas uma profiss\u00e3o menos fatigante que coser ou lavar \u2013 e sem<br \/>\nresponsabilidades, na sombra, na p\u00e2ndega. A maior parte dessas senhoras<br \/>\nn\u00e3o tem mol\u00e9stia alguma; sustenta a casa arrumadinha, canja<br \/>\naos domingos, fatiotas novas para os grandes dias. S\u00e3o, ou dizem-se,<br \/>\nquase sempre vi\u00favas.<\/p>\n<p>Algumas, embrulhadas em xales pretos, acompanhadas de dois ou tr\u00eas<br \/>\npetizes, as mais das vezes alugados \u2013 como uma certa mulher cor de cera,<br \/>\nchamada Rosa \u2013 percorrem os estabelecimentos comerciais, ou lugares<br \/>\nde agita\u00e7\u00e3o; sobem \u00e0s reda\u00e7\u00f5es dos jornais,<br \/>\nfor\u00e7ando a esmola, agarrando, implorando. A d. Rosa, para dizer o seu<br \/>\nnome e a inaudita felicidade da vida numa rede de mentiras, arrancou-me cinco<br \/>\nmil r\u00e9is, com precipita\u00e7\u00e3o, arte e destreza tais que,<br \/>\nquando dei por mim, j\u00e1 ia longe com os petizes e a nota.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 cuja coleta di\u00e1ria seja menor de<br \/>\ndez mil r\u00e9is, e, cada qual pede a seu modo, invadindo at\u00e9 as<br \/>\nsacristias das igrejas. A Francisca Soares, da igreja de S. Francisco, envolta<br \/>\nem uma mantilha de velho merin\u00f3, come\u00e7a sempre louvando os irm\u00e3os<br \/>\nbenfeitores pintados pelo sr. Petit.<\/p>\n<p>Que retratos! Est\u00e3o tal qual, certinhos! Depois, pergunta-nos se n\u00e3o<br \/>\ntemos coupons de volta dos bondes, arrisca-se a implorar o tost\u00e3o em<br \/>\ntroca do coupon e, quando v\u00ea a moeda, fala mais do sr. Petit e acha<br \/>\npouco. Outras, dotadas de grande voca\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, sussurram,<br \/>\ncom a face decomposta, a ang\u00fastia de um irm\u00e3o morto em casa,<br \/>\nsem dinheiro para o caix\u00e3o. O resto, sem inventiva, macaqueia o multiformismo<br \/>\nda invalidez, rezando.<\/p>\n<p>A esmola, apesar da crise econ\u00f4mica que os jornais proclamam, subiu.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 quem d\u00ea moeda de cobre a um mendigo sem o temor<br \/>\nde desgost\u00e1-lo ou de levar uma descompostura cheia de pragas, que nessas<br \/>\nbocas repuxadas causam uma dolorosa impress\u00e3o de dor e de confrangimento.<\/p>\n<p>Logo de manh\u00e3, quando nas torres os sinos tangem, a tropa sobe para<br \/>\na igreja.<\/p>\n<p>\u2013 Bom dia, d. Guilhermina.<\/p>\n<p>\u2013 Bom dia, d. Ant\u00f4nia. Como vai dos seus inc\u00f4modos?<\/p>\n<p>\u2013 O reumatismo n\u00e3o me deixa. \u00c9 desta laje fria.<\/p>\n<p>\u2013 Que se h\u00e1 de fazer? \u00c9 a vontade de Deus. Ent\u00e3o,<br \/>\nhoje, missas boas?<\/p>\n<p>\u2013 Li no jornal: \u00e0s nove e meia a do general&#8230; Mas, n\u00e3o<br \/>\ncontemos. Os rica\u00e7os est\u00e3o cada vez mais sovinas.<\/p>\n<p>Aconchegam-se, tomam posi\u00e7\u00e3o e, pouco depois, os n\u00edqueis<br \/>\ncome\u00e7am a cair e as vozes de dentro dos xales a sussurrar:<\/p>\n<p>\u2013 Deus vos acompanhe! Deus lhe pague! Deus lhe d\u00ea um bom fim!<\/p>\n<p>H\u00e1 at\u00e9 certos lugares rendosos que s\u00e3o vendidos como<br \/>\nas cadeiras de engraxate e os fauteuils de teatro.<\/p>\n<p>As mendigas alugadas s\u00e3o em geral raparigas com disposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nlamurientas, velhas cabulosas aproveitadas pelos agentes da falsa mendicidade,<br \/>\ncom ordenado fixo e porcentagem sobre a receita. Encontrei duas mo\u00e7as<br \/>\n\u2013 uma de Minas, outra da Bahia \u2013 Albertina e Josefa, e um bando<br \/>\nde velhas nesse emprego. As raparigas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de pupilas<br \/>\nda sra. Genoveva que mora na Gamboa. Josefa, picada de bexiga, s\u00f3 espera<br \/>\no meio de se ver fora do jugo; Albertina, t\u00edsica, tossindo e escarrando,<br \/>\napresenta um atestado que a d\u00e1 por m\u00e3e de tr\u00eas filhos.<\/p>\n<p>O atestado \u00e9, de resto, um dos meios de emba\u00e7amento p\u00fablico.<\/p>\n<p>Certo caften, morador nos sub\u00farbios, chamado Alfredo, tem por sua<br \/>\nconta um par de raparigas \u2013 a Jovita italiana, e a parda Maria. A Jovita<br \/>\nfoi, a princ\u00edpio, criada; fugiu com um rapaz, abandonou-o e caiu na<br \/>\nexplora\u00e7\u00e3o da mendicidade com o sr. Alfredo. Maria \u00e9<br \/>\na hist\u00f3ria de Jovita, um pouco mais escurecida. Ambas t\u00eam atestado<br \/>\nem bela letra, dizendo as gra\u00e7as que lhes v\u00e3o por casa e o cad\u00e1ver<br \/>\n\u00e0 espera do caix\u00e3o.<\/p>\n<p>Como Jovita \u00e9 bonita, os subscritores s\u00e3o t\u00e3o numerosos<br \/>\nque pode fazer, sem cuidado, alguns enterramentos por semana. As 7 da noite,<br \/>\ntomam as duas o trem na Central e quando se sentem seguidas, saltam em esta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiferentes, metem-se nos bondes \u2013 tudo isso muito alegres e defendendo<br \/>\no sr. Alfredo com grande dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O g\u00eanero \u00e9 relativamente agrad\u00e1vel, \u00e0 vista dos<br \/>\noutros \u2013 o das vagabundas ladras e das pitonisas ambulantes, grupo de<br \/>\nque s\u00e3o figuras principais as sras. Concha e Natividad, espanholas,<br \/>\ne a sra. Eul\u00e1lia \u2013 cigana ex\u00f3tica. A sra. Concha, por<br \/>\nexemplo, \u00e9 clept\u00f4mana, e, dessa tara lhe vem a profiss\u00e3o<br \/>\n\u2013 da tara e da in\u00e9pcia policial. Quando cocotte, Concha teve<br \/>\namantes ricos e roubava-lhes o rel\u00f3gio, os len\u00e7os, os alfinetes,<br \/>\npor divers\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi presa por um ingl\u00eas sisudo, e partiu para Lisboa onde repetiu a<br \/>\ncena tantas vezes que aos poucos se viu na necessidade de voltar ao Brasil<br \/>\ncomo criada. Roubou de novo, foi outra vez presa e resolveu ser cartomante<br \/>\nandarilha, ler a buena dicha pelos bairros pobres, pelas estalagens, para<br \/>\nroubar. \u00c9 gordinha, anda arrimada a um cacete, fingindo ter \u00falceras<br \/>\nnas pernas. Aproxima-se, pede a esmola como quem pergunta se as coisas v\u00e3o<br \/>\nmal.<\/p>\n<p>\u2013 Deus a favore\u00e7a!<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea tem cara de ser feliz! Vamos ver a suerte del barajo.<\/p>\n<p>E tira do seio um ma\u00e7o de cartas. Quem nestas \u00e9pocas dispersivas<br \/>\ncren\u00e7as, deixar\u00e1 de saber da pr\u00f3pria sorte? Mandam-na<br \/>\nentrar e ela conta hist\u00f3rias \u00e0s fam\u00edlias enquanto empalma<br \/>\nobjetos e alguns n\u00edqueis agradecidos.<\/p>\n<p>Natividad e Eul\u00e1lia seguem o mesmo processo, mas Eul\u00e1lia, aduncamente<br \/>\ncigana, l\u00ea nas m\u00e3os deformadas e calosas dos trabalhadores, enquanto<br \/>\nas suas apalpam os bolsos do cliente.<\/p>\n<p>Do fundo desse emaranhamento de v\u00edcio, de malandragem, gatunice, as<br \/>\nmulheres realmente miser\u00e1veis s\u00e3o em muito maior n\u00famero<br \/>\nque se pensa, criaturas que rolaram por todas as inf\u00e2mias e j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o sentem, j\u00e1 n\u00e3o pensam, despidas da gra\u00e7a e<br \/>\ndo pudor. Para estas basta um p\u00e3o enlameado e um n\u00edquel; basta<br \/>\num copo de \u00e1lcool para as ver taramelar, recordando a exist\u00eancia<br \/>\npassada.<\/p>\n<p>Vivem nas pra\u00e7as, no Campo da Aclama\u00e7\u00e3o; dormem nos<br \/>\nmorros, nos sub\u00farbios, passam \u00e0 beira dos quiosques, na Sa\u00fade,<br \/>\nem S. Diogo, nos grandes centros de multid\u00f5es baixas, apanhando as<br \/>\nmigalhas dos pobres e olhando com avidez o caf\u00e9 das companheiras. Eu<br \/>\nencheria tiras de papel sem conta, s\u00f3 com o nome dessas desgra\u00e7as<br \/>\na quem ningu\u00e9m pergunta o nome, sen\u00e3o nas esta\u00e7\u00f5es,<br \/>\nentre cacha\u00e7\u00f5es de soldados e a pose pantafa\u00e7uda dos<br \/>\ninspetores; e seria um livro horrendo, aquele que contasse com a simples verdade<br \/>\ntodas as vidas an\u00f4nimas desses fant\u00e1sticos seres de agonia e<br \/>\nde mis\u00e9ria! Andam por a\u00ed ulceradas, sujas, desgrenhadas, com<br \/>\nas faces intumescidas e as bocas arrebentadas pelos socos, corridas a varadas<br \/>\ndos quiosques, vaiadas pela garotada. Nas noites de chuva, sob os a\u00e7oites<br \/>\nda ventania, aconchegam-se pelos portais, metem-se pelos socav\u00f5es,<br \/>\ntiritando&#8230; \u00c0s vezes, para c\u00famulo de desgra\u00e7a, aparecem<br \/>\ngr\u00e1vidas, sem saber como, \u00e0 merc\u00ea da horda de vagabundos<br \/>\nque as viola, que as tortura, que as bate, sem lhes conceder ao menos a piedade<br \/>\ndo nojo; e os filhos morrem, desaparecem, levados na tristura do seu solu\u00e7ante<br \/>\nexistir, estrangulados, talvez, nos in\u00fameros recantos que a mil\u00edcia<br \/>\ndo nosso duplo policiamento ignora.<\/p>\n<p>Acompanhado do c\u00ednico Mazzoli, ouvi-lhes as confiss\u00f5es inauditas.<br \/>\nPela noite alta, \u00edamos os dois para o Largo da S\u00e9, para as beiradas<br \/>\nda Santa Casa, e, diante de n\u00f3s, esses semblantes alanhados de sofrimento,<br \/>\nos olhos em pranto, como um bando de espertos, desvendaram-nos os paroxismos<br \/>\nda vida antiga.<\/p>\n<p>Eram amorosas exploradas, ardendo ainda em raiva passional, eram v\u00edtimas<br \/>\ndo caftismo sentindo no l\u00e1bio o freio de lenoc\u00ednio, eram cocottes<br \/>\ndo chic, escalavradas de s\u00edfilis, na dor do luxo passado, e velhas,<br \/>\nvelhas sem pecado, que a mis\u00e9ria, a ingratid\u00e3o e a misteriosa<br \/>\nfatalidade desfaziam nos mais amargurados transes. Nunca os descabelados rom\u00e2nticos<br \/>\nimaginaram t\u00e3o torvos quadros.<\/p>\n<p>J\u00e1 quando se lhes pergunta o nome com bondade, a surpresa estala em<br \/>\nchoro.<\/p>\n<p>\u2013 Chamo-me Zoarda. Sou cubana. Vim para o Rio com um pelotari. Ao chegar<br \/>\naqui, outro conquistou-me. Fui explorada por ambos. Eram bonitos, eram fortes!<br \/>\nAdoeci; eles tomaram outra. Quando sa\u00ed do hospital s\u00f3 pensava<br \/>\nem mat\u00e1-la!<\/p>\n<p>\u2013 A quem?<\/p>\n<p>\u2013 A ela, a outra. Fui, entretanto, presa e novamente segui para a Gamboa,<br \/>\nonde cheguei a ser enfermeira. Quando de l\u00e1 sa\u00ed, ro\u00edda<br \/>\npela mol\u00e9stia, estava este trapo \u00e0 espera do Z\u00e9-Maria.<\/p>\n<p>\u2013 O Z\u00e9-Maria?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, da morte!<\/p>\n<p>Zoarda vive a fingir que tem barriga-d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2013 Josefina Veral, sim, senhor. Vim como criada. Um homem raptou-me;<br \/>\nvivi com ele seis anos. Entreguei-me \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o explorada<br \/>\npor dois malandros. Roubavam-me, a mol\u00e9stia acabou a obra&#8230; N\u00e3o<br \/>\nposso trabalhar.<\/p>\n<p>E de dentro de sua negra boca saem descri\u00e7\u00f5es sat\u00e2nicas<br \/>\nda vida que a inutilizara.<\/p>\n<p>\u2013 Ema Rosnick, nascida em Budapeste em 1874. Fui enjeitada num corredor.<br \/>\nOs moradores levaram-me \u00e0 pol\u00edcia que cuidou de mim. Aos 18<br \/>\nanos casei com Rosnick, um debochado. Uma vez atirou-me aos bra\u00e7os<br \/>\nde um amigo, a quem matou depois por quest\u00f5es de jogo; vim para o Brasil&#8230;Oh!<br \/>\nos exploradores. Estou neste estado.<\/p>\n<p>Esta mulher de trinta anos parece ter sessenta.<\/p>\n<p>E outras e outras, floristas ainda mo\u00e7as, velhas que tiveram lar,<br \/>\nmulheres passionais ou v\u00edtimas do amor, como nas prosas byronianas<br \/>\nde 1830, como nos dramalh\u00f5es do Recreio, um mundo de solu\u00e7os,<br \/>\nque, visto, ao nosso cepticismo parece falso.<\/p>\n<p>Certa noite, no Largo da S\u00e9, encontramos junto ao quiosque, cheia<br \/>\nde latas velhas e coberta de andrajos, uma cara de velha boneca aureolada<br \/>\nde farripas louras. A cara sinistra falava franc\u00eas.<\/p>\n<p>\u2013 D\u00e1-me uma cigarreta, fez com o seu melhor sorriso. Turco?<br \/>\nIl y a longtemps!&#8230; Oh! Oh! fuma gianaclis?<\/p>\n<p>Arredou as latas, puxou a traparia e os sacos com o ar de m\u00edmica Dayn\u00e8s<br \/>\nGrassot.<\/p>\n<p>\u2013 Afaste o mendigo, disse baixo, e para a soleira suja: Asseyez-vous.<br \/>\nVous \u00eates journaliste?<\/p>\n<p>Eu vinha encontrar \u00e0 espera dos restos de p\u00e3o uma das mundanas<br \/>\ndo Alcazar; eu estava falando com Fran\u00e7oise D\u2019Albigny; a Fran,<br \/>\na levada Fran, que tivera carros e agora discorria, com um arzinho posti\u00e7o,<br \/>\nda Suzane Castera, de um deputado do norte que ainda hoje figura na C\u00e2mara,<br \/>\nde um conhecido jornalista seu amigo!<\/p>\n<p>\u2013 Desgra\u00e7as, mon petit! Tenho 65 anos. Casei, sabes, uma loucura!<br \/>\nCasei com Maconi, que me p\u00f4s neste estado!<\/p>\n<p>Representando logo, o pobre trapo da lux\u00faria elegante, bateu-me a<br \/>\ncaixa de cigarretas e dinheiro, que com um sorriso atroz dizia ser para bonbons.<\/p>\n<p>Eram dez horas da noite. O dono do quiosque fechava as persianas, apagando<br \/>\nos bicos de g\u00e1s. E, vendo-a naquele gozo, na pantomima do prazer, berrou,<br \/>\nde longe:<\/p>\n<p>\u2013 Eh! l\u00e1, lambisg\u00f3ia velha, se n\u00e3o te apressas<br \/>\nn\u00e3o levas o p\u00e3o!<\/p>\n<h4><a name=\"20\"><\/a>Os Que Come\u00e7am&#8230;<\/h4>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 decerto explora\u00e7\u00e3o mais dolorosa que a<br \/>\ndas crian\u00e7as. Os homens, as mulheres ainda pantomimam a mis\u00e9ria<br \/>\npara lucro pr\u00f3prio. As crian\u00e7as s\u00e3o lan\u00e7adas no<br \/>\nof\u00edcio torpe pelos pais, por criaturas indignas, e crescem com o v\u00edcio<br \/>\nadaptando a curvil\u00ednea e acovardada alma da mendicidade malandra. Nada<br \/>\nmais pavoroso do que este meio em que h\u00e1 adolescentes de dezoito anos<br \/>\ne pirralhos de tr\u00eas, garotos amarelos de um lustro de idade e mo\u00e7oilas<br \/>\np\u00faberes sujeitas a todas as passividades. Essa crian\u00e7ada parece<br \/>\nn\u00e3o pensar e nunca ter tido vergonha, amoldadas para o crime de amanh\u00e3,<br \/>\npara a prostitui\u00e7\u00e3o em grande escala. H\u00e1 no Rio um n\u00famero<br \/>\nconsider\u00e1vel de pobrezinhos sacrificados, petizes que andam a guiar<br \/>\nsenhoras falsamente cegas, punguistas sem prote\u00e7\u00e3o, paral\u00edticos,<br \/>\namputados, escrofulosos, gatunos de sacola, apanhadores de pontas de cigarros,<br \/>\ncrias de fam\u00edlias necessitadas, simples vagabundos \u00e0 espera<br \/>\nde complac\u00eancias escabrosas, um mundo v\u00e1rio, o olhar de crime,<br \/>\no broto das \u00e1rvores que ir\u00e3o obumbrar as galerias da deten\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntodo um ex\u00e9rcito de desbriados e de bandidos, de prostitutas futuras,<br \/>\ngalopando pela cidade \u00e0 cata do p\u00e3o para os exploradores. Interrogados,<br \/>\nmentem a princ\u00edpio, negando; depois exageram as falcatruas e acabam<br \/>\na chorar, contando que s\u00e3o o sustento de uma s\u00facia de criminosos<br \/>\nque a pol\u00edcia n\u00e3o persegue.<\/p>\n<p>A metade desse bando conhece as leis do prefeito, os delegados de pol\u00edcia<br \/>\ne acompanha o movimento da pol\u00edtica ind\u00edgena, oposicionista<br \/>\ne vendo em cada homem importante uma roubalheira. S\u00e3o em geral os mendigos<br \/>\nclaramente defeituosos a que falta uma perna, um bra\u00e7o.<\/p>\n<p>A perda que os tornou inv\u00e1lidos \u00e9 uma esp\u00e9cie de felicidade,<br \/>\na indol\u00eancia e o sustento garantidos.<\/p>\n<p>\u00c0 beira das cal\u00e7adas o dia inteiro t\u00eam tempo de se tornarem<br \/>\nhomens e de ler os jornais. Fazem tudo isso com vagar. Quando um ponto se<br \/>\ntorna insustent\u00e1vel v\u00e3o para outros, e h\u00e1 entre eles<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es, morf\u00e9ias que se ligam \u00e0s \u00falceras,<br \/>\nolhos em pus que olham com ternura companheiros sem bra\u00e7os, e todos<br \/>\nguardando a data do desastre que os mutilou, que os fez entrar para a nova<br \/>\nvida com a saudade da vida passada.<\/p>\n<p>Fui encontrar na ponte das barcas Ferry alguns de volta de Niter\u00f3i.<br \/>\nVinham alegres, batendo com as muletas, a sacolejar os fartos sacos, na tarde<br \/>\n\u00e1lgida. S\u00f3 nessa tarde interroguei seis: Francisco, antigo peralta<br \/>\nda Sa\u00fade; Ant\u00f4nio, jovem de dezoito anos, que, gra\u00e7as<br \/>\n\u00e0 falta de uma perna, trabalha desde os doze; Pedro, pardinho crispinhento,<br \/>\nque ri como um su\u00edno e \u00e9 o curador de uma senhora idosa; Jo\u00e3o<br \/>\nJustino, sem um bra\u00e7o, e pequenos Felismino e Aur\u00e9lio. Voltavam<br \/>\nde mendigar.<\/p>\n<p>Francisco \u00e9 atroz. M\u00edope, com a cara cheia de sulcos, a boca<br \/>\nenorme e sem dentes, fuma cigarros empapados de saliva e tagarela sem descontinuar.<\/p>\n<p>\u2013 Qual! Niter\u00f3i n\u00e3o d\u00e1 nada. \u00c0s vezes tenho<br \/>\nque pedir emprestado para voltar. O xar\u00e1 n\u00e3o permite por\u00e9m<br \/>\nmendigo sem realejo. Eu sou fino. Vou para outro lugar.<\/p>\n<p>\u2013 Quantas vezes estiveste na cadeia?<\/p>\n<p>\u2013 Eu? n\u00e3o senhor! nunca! \u00c9 verdade que uma vez fui preso<br \/>\npor um inspetor viciado&#8230; Mas n\u00e3o estava fazendo nada. Tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o me incomodo. Vou, torno a sair. E, sem transi\u00e7\u00e3o:<br \/>\nn\u00e3o imagina as vezes que tenho sido pegado. O Dr. Paula Pessoa, quando<br \/>\nera delegado, j\u00e1 dizia: para pegar essas inutilidades? E eu s\u00f3<br \/>\nesperando. Olhe \u2013 morrer de fome \u00e9 que eu n\u00e3o morro.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o j\u00e1 estiveste preso?<\/p>\n<p>Quantas vezes! \u00c9 prefer\u00edvel a cadeia ao tal Asilo. Ant\u00f4nio<br \/>\n\u00e9 outro g\u00eanero, o g\u00eanero dul\u00e7oroso, cheio de humildades<br \/>\na\u00e7ucaradas. Repete logo como uma nota policial o esmagamento da perna.<br \/>\nFoi a 11 de novembro de 1897, na esquina da Rua da Uruguaiana. Caiu \u00e0s<br \/>\n2 e 20 da tarde, quando passava o bonde chapa tanto.<\/p>\n<p>E diz essas coisas vagamente magoado como se chorasse sem sentir. Mas mente,<br \/>\ninventa nomes, faz-me jurar que n\u00e3o lhe farei mal, entrega-se \u00e0<br \/>\nminha prote\u00e7\u00e3o, de que depende a sua vida, com uma detest\u00e1vel<br \/>\ne beata hipocrisia. Era ajudante de pedreiro. Ap\u00f3s o desastre mandaram-no<br \/>\nesmolar no Passeio P\u00fablico. O pai \u00e9 trabalhador, ganha quatro<br \/>\nmil e quinhentos, tem oito filhos e a mulher doente.<\/p>\n<p>Ele ajuda com o dinheiro das esmolas. \u00c9 um dos casos de forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde car\u00e1ter, de invers\u00e3o moral. Adolescente, forte, musculosa,<br \/>\na perman\u00eancia na mendicidade deu-lhe \u00e0 voz melop\u00e9ias suspirosas<br \/>\ne um recheio de votos pela sorte alheia. N\u00e3o fala um segundo sem pedir<br \/>\na Deus que nos ajude, sem agradecer em nome de Deus a nossa bondade.<\/p>\n<p>\u2013 Ai! Nossa Senhora, juro por Deus que todo o desejo que tenho \u00e9<br \/>\ntrabalhar. .<\/p>\n<p>Simples blague. D\u00eaem-lhe um emprego e rejeitar\u00e1, inutilizado<br \/>\npela vida de sarjeta, de desbrio, de inconsciente sem-vergonhice a que o for\u00e7ou<br \/>\no pai.<\/p>\n<p>Esse bando, por\u00e9m, \u00e9 evidentemente defeituoso; ganha dinheiro,<br \/>\ncomo se estivesse empregado para sustentar a fam\u00edlia. H\u00e1 o outro,<br \/>\no maior, o infind\u00e1vel, que a pol\u00edcia parece ignorar, a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncapaz de emocionar os delegados nos dramalh\u00f5es, a ind\u00fastria<br \/>\nda esmola infantil exercida por um grupo de matronas indignas e de homens<br \/>\ncriminosos, as criancinhas implumes, piolhentas e sujas, que saem para a rua<br \/>\n\u00e0s varadas, obrigadas ao sustento de casas inteiras; h\u00e1 a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nlenta, que ensina os pequenos a roubar e as meninas a se prostituirem; o caftismo<br \/>\ndisfar\u00e7ado, que espanca, maltrata e extorque. \u00c9 um vasto tremedal<br \/>\na que a ret\u00f3rica sentimental nada adianta, cujo mal a seguran\u00e7a<br \/>\np\u00fablica n\u00e3o quer remediar. Basta ter a simples curiosidade para<br \/>\nmergulhar nesse caleidosc\u00f3pio infinito de cenas torturantes de uma<br \/>\nmesma a\u00e7\u00e3o, basta parar a uma esquina e ouvir a narra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndessas trag\u00e9dias vulgares e de f\u00e1cil rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie de meninas \u00e9 enorme, desde as c\u00ednicas de face<br \/>\nterrosa \u00e0s ing\u00eanuas e lindas.<\/p>\n<p>\u2013 Como se chama voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Elisinha, sim senhor.<\/p>\n<p>\u00c9 parda: tem nove anos.<\/p>\n<p>Embrulhada nuns farrapos, a tremer com os beicinhos roxos e as m\u00e3os<br \/>\nno ar, muito aflita, parece que lhe v\u00e3o bater. Mora na Rua Frei Caneca.<\/p>\n<p>N\u00e3o vai para a casa, n\u00e3o pode ir. A madrinha bate-lhe, tem<br \/>\no corpo cheio de equimoses.<\/p>\n<p>\u2013 Quando n\u00e3o arranjo bastante para a madrinha e as filhas, d\u00e3o-me<br \/>\nsovas!<\/p>\n<p>Destes casos h\u00e1 muitos com diversas modalidades. Jovita, por exemplo,<br \/>\npede esmola com uma bandeja dizendo que \u00e9 missa pedida ou promessa<br \/>\nfeita. A mulher que a criou e a explora, a terr\u00edvel megera Maria Trapo<br \/>\nVelho, mora na Rua S\u00e3o Diogo e d\u00e1-lhe conselhos de roubo.<\/p>\n<p>\u2013 Ela diz que, quando encontrar roupas ou outros objetos, meta no saco.<br \/>\nQuando passo uma semana sem levar nada, p\u00f5e-me de castigo, com os joelhos<br \/>\nem cima do milho e sem comer.<\/p>\n<p>Rosinha mora na Rua Formosa. Sai acompanhando uma senhora que finge de cega.<br \/>\nA m\u00e3e \u00e9 negra; ela \u00e9 alva e todos ficam admirados!<\/p>\n<p>Judite, com oito anos, moradora \u00e0 Rua da Lapa, andava com o pai pelo<br \/>\nsub\u00farbio, tocando realejo. O pai fingia-se de cego, e como um cidad\u00e3o<br \/>\ndescobrisse a patifaria, \u00e9 ela s\u00f3 quem esmola, atacando as senhoras,<br \/>\npedindo algum dinheiro para a m\u00e3e moribunda. Laura e Am\u00e9lia,<br \/>\nfilhas da senhora Josefina, t\u00eam um irm\u00e3o que aprende o of\u00edcio<br \/>\nde carpinteiro, moram na Rua da Provid\u00eancia e passam o dia a arranjar<br \/>\ndinheiro para a mam\u00e3 mais o padrasto.<\/p>\n<p>\u2013 E o padrasto, que faz?<\/p>\n<p>\u2013 D\u00e1 pancada na gente quando n\u00e3o se anda direito.<\/p>\n<p>Estela, mulatinha, vive com uma dama que se diz sua av\u00f3, na Rua Senador<br \/>\nEus\u00e9bio. As vezes fica at\u00e9 \u00e0s dez horas da noite \u00e0<br \/>\nporta da Central, esmolando. Nicota, moradora no Pedregulho, tem treze anos<br \/>\ne perigosa viveza de olhar. A puberdade, a languidez dos membros rijos d\u00e3o-lhe<br \/>\nreceitas grandes. \u00c9 mandada pelo padrasto, um portugu\u00eas chamado<br \/>\nJer\u00f4nimo, que a industria. Explora a mis\u00e9ria no jardim de Eros,<br \/>\nfazendo tudo quanto a n\u00e3o prejudica definitivamente, \u00e0 porta<br \/>\ndos quart\u00e9is, pelos bairros comerciais, ao escurecer. Confessa que<br \/>\nvai abandonar o Jer\u00f4nimo pelo sargento Gomes, a quem ama. A lista n\u00e3o<br \/>\ntem fim, \u00e9 o mesmo fato com variantes secund\u00e1rias.<\/p>\n<p>Se nessas crian\u00e7as encontramos o abismo da perdi\u00e7\u00e3o<br \/>\na trag\u00e1-las, nos pequenos vemos um grande esbo\u00e7o de todos os<br \/>\ncrimes.<\/p>\n<p>Em quatro dias interrogamos noventa e seis garotos, estrangeiros, negros,<br \/>\nmulatos, uma sociedade movedi\u00e7a e dolorosa. H\u00e1 desde os pequenos<br \/>\nque sustentam fam\u00edlias at\u00e9 os gatunos precoces que se deixam<br \/>\nroubar na vermelhinha \u00e0 beira do cais, entre murros e cacha\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro a encontrarmos \u00e9 o negrinho F\u00e9lix, morador \u00e0<br \/>\nRua do Costa, \u00f3rf\u00e3o, que vive na casa de uma fam\u00edlia.<br \/>\nComo as coisas est\u00e3o m\u00e1s, sai de sacola, a esmolar e a roubar.<br \/>\nJ\u00e1 esteve preso por apanhar v\u00e1rias amostras de uma loja, mas<br \/>\num mo\u00e7o da pol\u00edcia, que gosta de uma das meninas da casa, soltou-o.<\/p>\n<p>\u2013 Que fazes hoje?<\/p>\n<p>\u2013 Hoje tenho que roubar um queijo. Sinhazinha diz que n\u00e3o apare\u00e7a<br \/>\nsem um queijo.<\/p>\n<p>Armando, petiz de dez anos, diz-se italiano por causa das d\u00favidas.<br \/>\nP\u00e1ra no Largo da S\u00e9 e, ingenuamente, conta que a fam\u00edlia<br \/>\nn\u00e3o faz comida h\u00e1 tr\u00eas anos. \u00c9 ele que arranja<br \/>\ntudo, fora os cobres. Jos\u00e9 Vizuvi, tamb\u00e9m italiano, \u00e9<br \/>\nfilho do conhecido mendigo Vizuvi. Sai da Rua do Alc\u00e2ntara, onde mora,<br \/>\n\u00e0s 5 da manh\u00e3, \u00e0 procura dos p\u00e3es que os padeiros<br \/>\ncostumam deixar nas janelas e \u00e0 porta de certas casas. Quando a janela<br \/>\n\u00e9 alta serve-se de um pau em forma de ferr\u00e3o. O pai ensina-o<br \/>\na roubar. Dudu de Oliveira passa o dia no Mercado e nos bairros centrais.<br \/>\nA m\u00e3e, fingindo-se de cega, esmola no Largo do Machado. Ele leva recados<br \/>\nsuspeitos e prop\u00f5e-se a misteres ign\u00f3beis.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Silva, morador \u00e0 Rua Senador Pompeu, com treze anos, tamb\u00e9m<br \/>\nserve para esses servi\u00e7os pouco asseados. A m\u00e3e, sem emprego,<br \/>\n\u00e9 espancada pelo amante que lhe arranca todo o dinheiro. Franzino,<br \/>\ndoloroso, esse pretinho na \u00e2nsia da vida sustenta um caften reles. Todos<br \/>\nesses nomes ignorados escondem dramas pungentes, cenas de horror, vidas perdidas.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o de tantos casos n\u00e3o me dava o tipo do explorador,<br \/>\nn\u00e3o me mostrava os peralvilhos que vivem \u00e0 custa das pobres<br \/>\ncrian\u00e7as, receosas de me mostrar as casas onde s\u00e3o torturadas.<br \/>\nEncontrei-o, por\u00e9m, o tipo ideal, o drama resumo de um estado social,<br \/>\na trag\u00e9dia solu\u00e7ante que cada vez mais se alastra.<\/p>\n<p>Logo no come\u00e7o da Rua Uruguaiana h\u00e1 uma mulher de cor branca,<br \/>\nfisionomia torva, sempre embiocada em panos pretos. Chamam-na a Camele\u00e3o,<br \/>\nalcunha que lhe ficou do peralta do filho. Esse ente repelente tem uma estalagem,<br \/>\num pr\u00e9dio; \u00e9 rica e pede esmola, provando ser vi\u00fava pobre.<br \/>\nQuando encontra crian\u00e7as, leva-as para a casa, um doloroso centro de<br \/>\nlenoc\u00ednio e velhacaria, a extorqui-las. Presentemente tem cinco petizes,<br \/>\ntodos menores de doze anos; tr\u00eas meninos, Alfredo, Felipe e Narciso,<br \/>\ne duas meninas, Gertrudes e Madalena. As criancinhas saem pela manh\u00e3,<br \/>\nvoltam para almo\u00e7ar, tornam a sair e s\u00f3 voltam \u00e0 noite,<br \/>\npara o interrogat\u00f3rio e a palmat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um dos pequenos mostrou-me o ogre horrendo. Arrastava-se com uma voz pastosa<br \/>\ne, quando me viu, tr\u00eamula curvou-se.<\/p>\n<p>\u2013 Pelo amor de Deus! uma esmola para os desgra\u00e7adinhos!<\/p>\n<p>Os desgra\u00e7adinhos, na tarde chuvosa, pareciam transidos.<\/p>\n<p>O vento fustigava-lhes as carnes seminuas e eles, agarrados uns aos outros,<br \/>\nna fraternidade do sofrimento, sem pai, sem m\u00e3e, sem amparo, erguiam<br \/>\nos olhos para o c\u00e9u numa angustiosa s\u00faplica.<\/p>\n<h4><a name=\"21\"><\/a>Onde \u00e0s vezes termina a Rua<\/h4>\n<p><strong>Crimes de Amor<\/strong><\/p>\n<p>Ao entrar no seu gabinete, severamente mobiliado de canela escura, o capit\u00e3o<br \/>\nMeira Lima disse:<\/p>\n<p>\u2013 Meu caro amigo, tem voc\u00ea ampla liberdade. Pode ver, interrogar,<br \/>\nexaminar. H\u00e1 agora na deten\u00e7\u00e3o quatrocentos e cinq\u00fcenta<br \/>\ne quatro detentos, dos quais trezentos e noventa e cinco homens e cinq\u00fcenta<br \/>\ne nove mulheres. Antigamente, era maior o n\u00famero. N\u00f3s conseguimos<br \/>\nque se n\u00e3o mantivessem aqui presos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos delegados sem processo. Mas, ainda assim, o ex\u00e9rcito do crime est\u00e1<br \/>\nbem representado. H\u00e1 gatunos, desordeiros, incendi\u00e1rios, defloradores,<br \/>\nmulheres perdidas, v\u00edtimas da sorte, criminosos por amor \u2013 toda<br \/>\numa flora estranha e curiosa. Estude voc\u00ea os crimes de amor. Lembra-se<br \/>\nde um dramalh\u00e3o do repert\u00f3rio da Ism\u00eania: Aim\u00e9e,<br \/>\nou o assassino por amor? N\u00e3o \u00e9 do seu tempo nem do meu, mas<br \/>\ncomoveu a gera\u00e7\u00e3o passada e tem cont\u00ednuos exemplos nas<br \/>\npenitenci\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u2013 E nas literaturas.<\/p>\n<p>\u2013 Pois v\u00e1 ver esses criminosos. O assassino por amor \u00e9<br \/>\no \u00fanico delinq\u00fcente que confessa o crime.<\/p>\n<p>Alguns chegam mesmo a reviver detalhes insignificantes. Ao passo que os gatunos,<br \/>\nos incendi\u00e1rios e os homicidas vulgares, mesmo tendo a cumprir senten\u00e7as<br \/>\nlongas, negam sempre o crime; essas v\u00edtimas da paix\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nse cansam de contar a sua hist\u00f3ria, cada vez com maior n\u00famero<br \/>\nde min\u00facias e mais abund\u00e2ncia de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2013 Pois, vejamos as v\u00edtimas do amor!<\/p>\n<p>O capit\u00e3o mandou chamar o chefe dos guardas, Ant\u00f4nio Barros,<br \/>\ne sa\u00edmos para o p\u00e1tio, onde os presos serventes mourejavam.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 uns cinco casos not\u00e1veis, informava-se o guarda.<br \/>\nVamos entrar na primeira galeria.<\/p>\n<p>A galeria \u00e9 um enorme corredor, ladeado de cub\u00edculos engradados.<br \/>\nA m\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o de luz, com a claridade da frente e dos<br \/>\nfundos e a claridade das pris\u00f5es, d\u00e1 a esse corredor uma perp\u00e9tua<br \/>\natmosfera de meia sombra. Atrav\u00e9s dos muros brancos ouve-se o sussurro<br \/>\ndas conversas murmuradas. Barros aponta-me silenciosamente uma das jaulas.<br \/>\nAproximo-me e do fundo vejo surgir um velho preto, magro, seco, com o olhar<br \/>\nardente e a cabe\u00e7a branca. Pergunto receoso:<\/p>\n<p>\u2013 Por que est\u00e1 aqui?<\/p>\n<p>\u2013 Porque matei.<\/p>\n<p>Nas pris\u00f5es h\u00e1 duas coisas revoltantes: o cinismo do que nega<br \/>\ne o que confessa como uma afronta. Aquela frase breve tinha, por\u00e9m,<br \/>\ncunho de uma dolorosa sinceridade.<\/p>\n<p>\u2013 Eu sou do crime da Estrada Real, continuou o pobre agarrando-se aos<br \/>\nvar\u00f5es de ferro. Chamo-me Salvador Firmino, tenho sessenta e tr\u00eas<br \/>\nanos.<\/p>\n<p>\u2013 E matou?<\/p>\n<p>\u2013 Porque ela quis.<\/p>\n<p>E de repente, como se a lembran\u00e7a da cena o for\u00e7asse a se desculpar,<br \/>\na sua cabe\u00e7a branca curvou-se, os seus olhos lampejaram:<\/p>\n<p>\u2013 Quando eu encontrei Silv\u00e9ria, era casado e feliz. Abandonei<br \/>\na mulher, s\u00f3 para viver com ela. Silv\u00e9ria tinha dois filhos.<br \/>\nEduquei-os eu, dei-lhes o sustento, o ensino. Uma casa que consegui comprar<br \/>\nlogo passei para o seu nome, e de tudo eu me lembrava que a tornasse feliz.<br \/>\nSilv\u00e9ria tinha quarenta anos e eu gostava dela. Foi quando apareceu<br \/>\no outro. A mulher ficou com a cabe\u00e7a virada, j\u00e1 n\u00e3o lhe<br \/>\nbastava o meu carinho. Sa\u00eda s\u00f3, para passear com ele, n\u00e3o<br \/>\nse importava com o passado, n\u00e3o me falava. O desaforo chegou ao ponto<br \/>\ndo outro vir traz\u00ea-la at\u00e9 \u00e0 porta de casa. As vezes, eu<br \/>\nos via de longe e entrava no mato para os n\u00e3o encontrar. Que dor! Eu<br \/>\ntinha tanto medo de acabar&#8230; Uma noite, ela saiu, esteve na festa de Nossa<br \/>\nSenhora e voltou acompanhada at\u00e9 \u00e0 porta pelo outro. Eu bem<br \/>\nque os vira, mas fingi n\u00e3o saber de nada quando entrei em casa. Silv\u00e9ria<br \/>\nconversava com a vizinha e dizia: &#8220;Mas se eu j\u00e1 lhe disse que<br \/>\npodia vir&#8230;&#8221; N\u00e3o pude comer a sopa; fui logo deitar-me. Do quarto<br \/>\nvia-se a sala, onde dormia o pequeno filho dela,e n\u00e3o demorou muito<br \/>\ntempo que a vizinha n\u00e3o colocassse na cama outro travesseiro. Eu estava<br \/>\nolhando, \u00e0 luz da lamparina. Deixei passar alguns minutos e disse:<br \/>\n&#8220;\u00d3 Silv\u00e9ria, vem-te deitar.&#8221; Ela n\u00e3o respondeu.<br \/>\n&#8220;Silv\u00e9ria, j\u00e1 disse que viesses dormir!&#8221; &#8220;J\u00e1<br \/>\nvou.&#8221; De repente, os c\u00e3es, no terreiro, come\u00e7aram a ladrar.<br \/>\nEra um alarido. Saltei da cama, agarrei o rev\u00f3lver. &#8220;Quem est\u00e1<br \/>\na\u00ed?&#8221; Ela apareceu ent\u00e3o: &#8220;Deita-te, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nnada.&#8221; &#8220;Qual! Pois se os c\u00e3es est\u00e3o ladrando&#8230;\u00c9<br \/>\nalgu\u00e9m.&#8221; &#8220;Que vais fazer?&#8221; &#8220;Ver&#8221;. &#8220;N\u00e3o<br \/>\nv\u00e1s, Firmino n\u00e3o v\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 nada!&#8221;<br \/>\nE agarrava-se ao meu bra\u00e7o. &#8220;Como n\u00e3o hei de ir? Se for<br \/>\ngatuno? Talvez esteja a roubar a cria\u00e7\u00e3o.&#8221; &#8220;Firmino,<br \/>\nmeu velho, n\u00e3o v\u00e1s!&#8221; Dei-lhe um empurr\u00e3o, abri a<br \/>\ntranca. Na moita, s\u00f3 a lua aclarava as moitas e os c\u00e3es arfavam<br \/>\ncansados. Voltei. Ela estava sentada, chorando. &#8220;Tu desconfias de mim!&#8221;<br \/>\n&#8220;Eu? que falso!&#8221; &#8220;Tu pensavas que era o Herculano!&#8221; &#8220;Eu?<br \/>\nNem pensava nisso!&#8221; &#8220;Pensavas, sim! E o melhor \u00e9 acabar com<br \/>\nisso. Vou-me embora!&#8221; Ela estava \u00e0 espera de um pretexto. Para<br \/>\nque discuss\u00f5es? Deitei-me outra vez, sem poder dormir. Silv\u00e9ria<br \/>\ncontinuava na sala, remexendo os m\u00f3veis. Pela madrugada, j\u00e1<br \/>\nos galos tinham cantado e o luar estava desmaiado, ouvi que abriam a porta.<br \/>\nErgui-me, corri. Ela ia pela estrada, com a trouxa da roupa, ia sem se despedir<br \/>\nde mim, que lhe dera tudo, ia embora&#8230; Deitei a gritar: &#8220;Silv\u00e9ria!<br \/>\nSilv\u00e9ria! N\u00e3o v\u00e1s.&#8221; &#8220;Adeus!&#8221; &#8220;Mas<br \/>\ntu est\u00e1s maluca, mulher.&#8221; &#8220;N\u00e3o me fales, estou farta.&#8221;<br \/>\n&#8220;Vais para o Herculano?&#8221; &#8220;Vou, sim, e agora?&#8221; &#8220;Um<br \/>\nhomem que podia ser teu filho!&#8221; &#8220;Talvez seja mais feliz.&#8221; &#8220;Silv\u00e9ria!<br \/>\nSilv\u00e9ria!&#8221; &#8220;Basta de conversa fiada&#8230;&#8221; Eu ent\u00e3o<br \/>\nsenti um desespero que me sacudia os nervos e n\u00e3o pude mais&#8230;<\/p>\n<p>Para ouvir a hist\u00f3ria, encostara a cabe\u00e7a na pedra em que os<br \/>\nvar\u00f5es de ferro se encravavam. O pobre velho tremia num solu\u00e7o<br \/>\nsem fim. Ent\u00e3o, eu lhe estendi a m\u00e3o sem uma palavra, e segui,<br \/>\ncomo se tivesse acordado de um horr\u00edvel pesadelo. O guarda Barros acompanhava-me.<\/p>\n<p>\u2013 Pobre homem! Tentou suicidar-se e \u00e9 preciso uma vigil\u00e2ncia<br \/>\nextrema para que aqui n\u00e3o tente outra vez contra a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>J\u00e1 os sinais misteriosos com os quais se correspondem os detentos<br \/>\nhaviam anunciado uma pessoa estranha ao estabelecimento. Em todos os cub\u00edculos,<br \/>\nnas galerias, correra o som anunciador, e nas grades amontoavam-se as caras<br \/>\ndos que n\u00e3o ser\u00e3o em breve da sociedade. Barros parou pouco<br \/>\nadiante, apontando-me um homem magro, p\u00e1lido, com o pesco\u00e7o<br \/>\nembrulhado num cache-nez. O homem corcovava tossindo, e os seus dois olhos<br \/>\nbrilhavam como os de um t\u00edsico. Ao lado, um portugu\u00eas bem disposto<br \/>\nsorria.<\/p>\n<p>\u2013 O seu crime?<\/p>\n<p>\u2013 Umas rusgas, tentativa de morte, n\u00e3o fui eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 E o seu?<\/p>\n<p>\u2013 Matei minha mulher.<\/p>\n<p>Esse tamb\u00e9m confessava. Ent\u00e3o era verdade? O crime de amor<br \/>\n\u00e9 o \u00fanico confess\u00e1vel? Acerquei-me cheio de simpatia,<br \/>\ne o sujeito magro n\u00e3o esperou que eu lhe perguntasse mais nada. Antes,<br \/>\nna \u00e2nsia de desabafar, atirou o cache-nez \u00e0s costas e come\u00e7ou:<\/p>\n<p>\u2013 Chamo-me Ab\u00edlio Sarano, sou barbeiro. Sempre fui honesto.<br \/>\n\u00c9 a primeira vez que entro aqui por causa do crime do Catete. N\u00e3o<br \/>\nsabe? V. Sa n\u00e3o sabe? Eu namorei uma mo\u00e7a, d. Geraldina, e com<br \/>\nela casei-me. Dias depois do nosso casamento minha esposa confessou-me que<br \/>\ntinha sido gozada por um negociante, amante de sua pr\u00f3pria m\u00e3e.<br \/>\nEsse homem voltava a persegui-la. Era de noite, eu voltara do trabalho e amava<br \/>\nminha senhora. Foi como se o mundo todo se desmoronasse. Ela, coitadinha,<br \/>\nca\u00edra de joelhos; eu interrogava, querendo saber tudo. &#8220;Anda,<br \/>\nfala, dize como foi.&#8221; O negociante, o biltre for\u00e7ara-a numa cadeira,<br \/>\ne ningu\u00e9m soubera. Quando acabou, eu estava sem for\u00e7as e chorava.<br \/>\n&#8220;E agora, Geraldina, que ser\u00e1 de n\u00f3s? que vai ser de n\u00f3s?&#8221;<br \/>\nEla consolava-me. Agora, era esquecer esse sujeito odioso. Acreditei e come\u00e7amos<br \/>\na viver a triste vida da d\u00favida. A m\u00e3e infame e a fam\u00edlia<br \/>\ncontinuavam, por\u00e9m, a seduzi-la. Uma noite, apesar de ser s\u00e1bado,<br \/>\neu fui cedo para casa. Geraldina estava nervosa. Convers\u00e1vamos na sala<br \/>\nquando a criada veio dizer que um homem procurava a patroa. &#8220;Um homem?<br \/>\nEspera, vou eu mesmo ver quem \u00e9.&#8221; No topo da escada estava um<br \/>\ncidad\u00e3o robusto. &#8220;d. Geraldina est\u00e1?&#8221;. Num rel\u00e2mpago<br \/>\ncompreendi que era ele. &#8220;d. Geraldina? Ah! canalha, espera que eu te<br \/>\nvou dar a Geraldina!&#8221; Saquei do rev\u00f3lver, e minha senhora apareceu<br \/>\nassustada: &#8220;Fuja, seu \u00c1lvaro, fuja! Fuja!&#8221;. Ela mandava-o<br \/>\nfugir. Como um louco, ergui a arma. Ele descia os degraus da escada e Geraldina<br \/>\ntapara-me a passagem. Detonei uma, duas vezes, descemos de rold\u00e3o.<br \/>\nNo patamar, o corpo dele jazia. Matei-o, pensei, acabei a minha vida! E deitei<br \/>\na correr. .. S\u00f3 mais tarde, soube a verdade. As balas tinham ferido<br \/>\nminha mulher. Ele fingira-se morto e escapara s\u00e3o e salvo. \u00c9<br \/>\npor isso que estou aqui.<\/p>\n<p>O chefe dos guardas chamara-me ao fundo, para a mesa que fica entre as escadas<br \/>\ndas galerias superiores.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 ainda dois casos interessantes: um menino e uma mulher.<br \/>\nQuer ver? Vou mandar buscar o menino. Sente-se.<\/p>\n<p>Eu sentei-me. Por todas as janelas gradeadas, o sol entrava claro e benfazejo.<br \/>\nMinutos depois, surgia, trazido pelo guarda, um pardinho cor de azeitona,<br \/>\ndessas fisionomias honestas, alheias a devassid\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2013 Como se chama?<\/p>\n<p>Ele tomou uma posi\u00e7\u00e3o respeitosa, falando bem, com desembara\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 Chamo-me Alfredo Paulino, sim, senhor. Tenho dezoito anos.<\/p>\n<p>\u2013 E j\u00e1 casado?<\/p>\n<p>\u2013 Casei aos dezesseis. Os meus parentes n\u00e3o queriam, mas depois<br \/>\no pai disse: &#8220;\u00c9 melhor mesmo. Ao menos, n\u00e3o ficas perdido&#8221;.<br \/>\nEu j\u00e1 ganhava o suficiente para sustentar dignamente a minha fam\u00edlia.<br \/>\nCasei. Foi nessa ocasi\u00e3o que o Dr. Constantino N\u00e9ri me ofereceu<br \/>\no emprego de copeiro no pal\u00e1cio de Manaus. Aceitei, e volt\u00e1vamos<br \/>\npara o Rio quando a bordo encontramos um rapaz de dezoito anos, chamado Jos\u00e9.<\/p>\n<p>\u2013 Era bonito o Jos\u00e9?<\/p>\n<p>\u2013 Era simp\u00e1tico, sim, senhor, n\u00e3o posso negar. Ficamos<br \/>\nt\u00e3o amigos que, ao chegar, ele foi morar conosco. Primeiro, tudo andou<br \/>\ndireito, mas depois come\u00e7aram os cochicos, as frases, as cartas an\u00f4nimas.<br \/>\nEra preciso tomar uma resolu\u00e7\u00e3o. Disse ao Jos\u00e9 que n\u00e3o<br \/>\no podia ter mais em casa \u2013 por certas dificuldades. Ele saiu, mas eu<br \/>\nsabia que a Ad\u00e9lia lhe falava. Passaram-se meses nessa tortura. De<br \/>\nvez em quando eu a interrogava e sempre obtinha respostas negativas. Certo<br \/>\ndia passei pelo Jos\u00e9 na rua e ele riu. Em casa pus Ad\u00e9lia em<br \/>\nconfiss\u00e3o, e ela disse: &#8220;\u00c9 mesmo, fizeste bem em p\u00f4r<br \/>\nesse homem na rua. Andava-me tentanto e foi t\u00e3o ingrato que nem se<br \/>\ndespediu da gente direito.&#8221; De outra feita, encontrei-os na esquina,<br \/>\nconversando e afinal, em casa. Foi ent\u00e3o que eu fiquei desatinado.<\/p>\n<p>Oh! o amor! Eu ouvira o amor sexagen\u00e1rio, o amor doloroso, o amor<br \/>\nlilliput desse m\u00e9nage de crian\u00e7as! Todos tinham chegado ao mesmo<br \/>\nfim tr\u00e1gico, ontem criaturas dignas, hoje com as m\u00e3os vermelhas<br \/>\nde sangue, amanh\u00e3 condenados por um juiz indiferente. Fiz um gesto.<br \/>\nO pequeno insistiu.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 que estou aqui, quero trabalhar. Nunca passei sem trabalhar.<br \/>\nPe\u00e7o a V. Sa para ver se entro como servente. N\u00e3o quero estar<br \/>\nno cub\u00edculo com aquela gente.<\/p>\n<p>Neste momento traziam uma negra roli\u00e7a, de dentes afiados, com um<br \/>\nsorriso alvar a iluminar-lhe a cara. Era a Herculana, a autora de um crime<br \/>\nc\u00e9lebre. Matara o amante enquanto este dormia, acendera todas as velas<br \/>\nque encontrara e come\u00e7ara a cantar. O amante tinha vinte e tr\u00eas<br \/>\nanos.<\/p>\n<p>\u2013 E por que foi?<\/p>\n<p>\u2013 Ora, n\u00f3s brigamos. Eu gostava dele. N\u00f3s brigamos. Um<br \/>\ndia, ele me disse uma por\u00e7\u00e3o de nomes. Eu fiquei calada, mas<br \/>\nquando o vi deitado, com o pesco\u00e7o \u00e0 mostra, roncando, parece<br \/>\nque o diabo me tentou. Eu fui ent\u00e3o, com a faca&#8230;<\/p>\n<p>Aproximei-me, e bem perto, quase murmurando as palavras:<\/p>\n<p>\u2013 Diga: era capaz de fazer o mesmo outra vez, de abrir o pesco\u00e7o<br \/>\ndo pobre rapaz, de acender as velas, de cantar? diga: era?<\/p>\n<p>Ela riu como uma fera boceja, e disse num arranco de todo o ser:<\/p>\n<p>\u2013 Eu era, sim, senhor&#8230;<\/p>\n<p>Que estranha psicologia a dessas flores magn\u00edficas do jardim do crime!<br \/>\nQue poderoso transformador o amor! Bem dizia Tennyson ao evoc\u00e1-lo:<br \/>\nThou madest Life, in man and brute, thou madest Death&#8230; Eu come\u00e7ara<br \/>\na minha visita \u00e0 beira do desespero, na p\u00farpura de uma moita<br \/>\nde l\u00edrios vermelhos.<\/p>\n<p>Com os cora\u00e7\u00f5es em sangue, vi uma cole\u00e7\u00e3o de<br \/>\nassassinos, desde um velho lament\u00e1vel at\u00e9 uma crian\u00e7a<br \/>\nhonesta, postos fora da sociedade pelo desvario, pela loucura que a paix\u00e3o<br \/>\nsopra no mundo. A mulher, que os poetas levam a cantar, V\u00eanus inconsciente<br \/>\ne perversa, Lilith, lend\u00e1ria, surgia nessa ru\u00edna, perdendo,<br \/>\nestragando, corroendo, matando, e eu sentia, no olhar e no gesto de cada uma<br \/>\ndas v\u00edtimas do amor, o desejo de guardar o perfil das suas destruidoras.<br \/>\nOh! esses seres, que Schopenhauer denominava animais de cabelos compridos<br \/>\ne id\u00e9ias curtas, que formid\u00e1vel obra de destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\ncometem! S\u00e3o a torrente a que ningu\u00e9m pode resistir, a for\u00e7a<br \/>\ndominadora da maldade, os molochs da alegria. As gera\u00e7\u00f5es futuras,<br \/>\nlivres dos nossos velhos deuses, devem, para que a harmonia as guie, levantar<br \/>\nnas cidades um altar votivo onde os adolescentes possam sacrificar, todas<br \/>\nas manh\u00e3s \u00e0 ira de V\u00eanus sanguissedenta.<\/p>\n<p>Mas as minhas reflex\u00f5es pararam. Como tocasse um sino, pela escada<br \/>\nda direita desceu um cavalheiro elegante que tapava o rosto com o len\u00e7o.<br \/>\nE logo depois, gr\u00e1cil e airosa, com um rico vestido preto, caminhou<br \/>\npela galeria, olhando altivamente os presos, uma mulher cuja fronte parecia<br \/>\na pura fronte da inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>O guarda curvou-se:<\/p>\n<p>\u2013 O Dr. Saturnino e a esposa&#8230;<\/p>\n<p>Eu vira o \u00faltimo crime de amor da deten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4><a name=\"22\"><\/a>A Galeria Superior<\/h4>\n<p>A galeria superior \u00e9 dividida por um tapume, com portas de espa\u00e7o<br \/>\na espa\u00e7o para o livre tr\u00e2nsito dos guardas. Os presos n\u00e3o<br \/>\npodem ver os cub\u00edculos fronteiros. Os olhos abrangem apenas os muros<br \/>\nbrancos e a divis\u00e3o de madeira que barra a cal das paredes. Quando<br \/>\na vigil\u00e2ncia diminui, falam de cub\u00edculo para cub\u00edculo,<br \/>\natiram por cima do tapume jornais, cartas, recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Est\u00e3o atualmente na galeria duzentos e trinta e oito detentos. A aglomera\u00e7\u00e3o<br \/>\ntorna-os hostis. H\u00e1 confabula\u00e7\u00f5es de \u00f3dio, murm\u00farios<br \/>\nde raiva, risos que cortam como navalhas. Com o sentido auditivo educad\u00edssimo,<br \/>\nbasta que se dirija a palavra baixo a algu\u00e9m do primeiro cub\u00edculo<br \/>\npara que o saibam no \u00faltimo. E ent\u00e3o surgem todos, agarram-se<br \/>\n\u00e0s grades, com o olhar escarninho dos bandidos e a curiosidade m\u00e1<br \/>\nque lhes decomp\u00f5e a cara.<\/p>\n<p>Ah! essa galeria! Tem qualquer coisa de sinistro e de canalha, um ar de hospedaria<br \/>\nda inf\u00e2mia \u00e0 beira da vida. Nos cub\u00edculos h\u00e1, \u00e0s<br \/>\nvezes, dezenove homens condenados por crimes diversos, desde os defloradores<br \/>\nde senhoras de dezoito anos at\u00e9 os ladr\u00f5es assassinos. A promiscuidade<br \/>\nenoja. No espa\u00e7o estreito, uns lavam o ch\u00e3o, outros jogam, outros<br \/>\nmanipulam, com miolo de p\u00e3o, santos, flores e pedras de domin\u00f3,<br \/>\ne h\u00e1 ainda os que escrevem planos de fuga, os professores de roubo,<br \/>\nos iniciadores dos v\u00edcios, os \u00edntimos passando pelos ombros<br \/>\ndos amigos o bra\u00e7o caricioso&#8230; Quantos crimes se premeditam ali? Quantas<br \/>\nperversidades rebentam na luz suja dos c\u00e1rceres preventivos? Saciados<br \/>\nda premedita\u00e7\u00e3o, h\u00e1 os jornais que lhes citam os nomes,<br \/>\nh\u00e1 o desejo de possuir uma arma, desejo capaz de os fazer agu\u00e7ar<br \/>\nasas de caneca, o a\u00e7o que prende a pia\u00e7ava das vassouras, as<br \/>\ncolheres de sopa, e h\u00e1 ainda o jogo. Nesses cub\u00edculos joga-se<br \/>\nmais de quarenta esp\u00e9cies de jogos. Eu s\u00f3 contei trinta e sete,<br \/>\ndos quais os mais originais \u2013 o camale\u00e3o, a mosca, o periquito,<br \/>\no tigre, a escova, o osso, a sueca, o la\u00e7o, as tr\u00eas chapas \u2013<br \/>\ns\u00e3o prod\u00edgios de malandragem. E nenhum deles se recusa aos parceiros.<br \/>\nQuando algum desconhecido passa, deixam tudo, precipitam-se, alguns nus, outros<br \/>\nem ceroulas, e h\u00e1 como um panorama sinistro e ca\u00f3tico, \u2013<br \/>\nnegros degenerados, mulatos com contra\u00e7\u00f5es de s\u00edmios,<br \/>\ncaras de velhos solenes, caras torpes de gatunos, cretinos babando um riso<br \/>\nalvar, agitados delirantes, e m\u00e3os, m\u00e3os estranhas de delinq\u00fcentes,<br \/>\nfinas e tortas umas, grossas algumas, moles e tenras outras, que se grudam<br \/>\naos var\u00f5es de ferro com o embate furioso de um vagalh\u00e3o.<\/p>\n<p>Vive naquela jaula o crime multiforme. O guarda aponta o Cec\u00edlio Orbano<br \/>\nReis, assassino, na Sa\u00fade, de uma mulher que lhe resistira; o Jo\u00e3o<br \/>\nDedone, fac\u00ednora c\u00ednico; matadores ocasionais, como Joaquim<br \/>\nSantana Ara\u00fajo, quase demente; o Mirandinha, mulato, passador de moeda<br \/>\nfalsa, se faz passar por advogado; o Bar\u00e3ozinho, gatuno; Bou\u00e7as<br \/>\nPassos, ladr\u00e3o assassino, Salvador Machado, o \u00edntimo criado<br \/>\nda Tina Tatti; negros capangas com as bocas sujas, que resistem \u00e0 pris\u00e3o<br \/>\ncom f\u00faria; desordeiros tem\u00edveis como o Eduardinho da Sa\u00fade,<br \/>\nretorcendo os bigodes, cheio de langores; s\u00e1tiros mo\u00e7os e velhos<br \/>\nvioladores; o c\u00e9lebre Pitoca, que tem sessenta e seis entradas; rapazes<br \/>\nestelionat\u00e1rios e at\u00e9 desvairados, como Jo\u00e3o Manuel Soares,<br \/>\nacusado de tentativa de morte na pessoa do Sr. Cantu\u00e1ria, que leva,<br \/>\nnuma agita\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua, a dizer:<\/p>\n<p>\u2013 Eu sei, foi o bicho&#8230; foi por causa do bicho, hein? Est\u00e1<br \/>\nclaro!<\/p>\n<p>Dois baixos-relevos alucinadores, dois frisos da hist\u00f3ria do crime<br \/>\nde uma cidade, ora alegres, ora sinistros, como se fossem nascidos da colabora\u00e7\u00e3o<br \/>\nmacabra de um Forain e de um Goya, dois grandes pain\u00e9is a gotejar sangue,<br \/>\ntreva, pus, onde perpassam, com um aspecto de bichos lend\u00e1rios, os<br \/>\nestupradores de duas crian\u00e7as, de sete e de dez anos.<\/p>\n<p>E em meio do charco, fatalmente destinada a desaparecer, a inoc\u00eancia,<br \/>\natirada ali pela inc\u00faria das autoridades, floresce.<\/p>\n<p>Encontro ao lado de respeit\u00e1veis assassinos, de gatunos conhecidos,<br \/>\nna tropa lament\u00e1vel dos recidivos, crian\u00e7as ing\u00eanuas,<br \/>\nrapazes do com\u00e9rcio, vendedores de jornais, uma enorme quantidade de<br \/>\nseres que o desleixo das pretorias torna criminosos. Quase todos est\u00e3o<br \/>\ninclusos, ou no artigo 393 (crime de vadiagem), ou no 313 (ofensas f\u00edsicas).<br \/>\nOs primeiros n\u00e3o podem ficar presos mais de trinta dias, os segundos,<br \/>\nsendo menores, mais de sete meses. Os processos, por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\nd\u00e3o custas, e as pretorias deixam dormir em paz a forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda culpa, enquanto na indol\u00eancia dos cub\u00edculos, no contacto do<br \/>\ncrime, rapazes, dias antes honestos, fazem o mais completo curso de delitos<br \/>\ne inf\u00e2mias de que h\u00e1 mem\u00f3ria. Chega a revoltar a inconsci\u00eancia<br \/>\ncom que a sociedade esmaga as criaturas desamparadas. Nessa enorme galeria,<br \/>\nonde uma eterna luz l\u00edvida espalha um vago horror, vejo caixeiros portugueses<br \/>\ncom o l\u00e1pis atr\u00e1s da orelha, os olhos cheios de ang\u00fastia;<br \/>\nitalianos vendedores de jornais, encolhidos; gar\u00e7ons de restaurant;<br \/>\noper\u00e1rios, entre as caras c\u00ednicas dos pivettes reincidentes<br \/>\ne os porqueiros do v\u00edcio que s\u00e3o os chefes dos cub\u00edculos.<br \/>\nTodos invariavelmente t\u00eam uma frase dolorosa:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a primeira vez que eu entro aqui!<\/p>\n<p>E apelam para os guardas, s\u00f4fregos, interrogam os outros, trazem o<br \/>\ntestemunho dos chefes.<\/p>\n<p>Por que est\u00e3o presos? Jos\u00e9, por exemplo, deu com uma correia<br \/>\nna m\u00e3o de um filho do cabo de um delegado; Pedro e Joaquim, ao sa\u00edrem<br \/>\ndo caf\u00e9 onde est\u00e3o empregados, discutiram um pouco mais alto;<br \/>\nAnt\u00f4nio atirou uma tapona \u00e0 cara de Jorge. H\u00e1 na nossa<br \/>\nsociedade mo\u00e7os valentes, cujo sport preferido \u00e9 provocar desordens:<br \/>\ndiariamente, senhores respeit\u00e1veis atacam-se a sopapo; jornalistas<br \/>\nvelho-g\u00eanero amea\u00e7am de vez em quando pelas gazetas, falando<br \/>\nde chicote e de pau a prop\u00f3sito de problemas sociais ou est\u00e9ticos,<br \/>\ninteiramente opostos a esses aviltantes instrumentos de raz\u00e3o b\u00e1rbara.<br \/>\nNem os mo\u00e7os valentes, nem os senhores respeit\u00e1veis, nem os<br \/>\njornalistas v\u00e3o sequer \u00e0 delegacia.<\/p>\n<p>Os desprotegidos da sorte, trabalhadores humildes, entram para a deten\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom raz\u00f5es ainda menos fundadas.<\/p>\n<p>E a deten\u00e7\u00e3o \u00e9 a escola de todas as perdi\u00e7\u00f5es<br \/>\ne de todas as degeneresc\u00eancias.<\/p>\n<p>O \u00f3cio dos cub\u00edculos \u00e9 preenchido pelas li\u00e7\u00f5es<br \/>\nde roubo, pelas pervers\u00f5es do instinto, pelas hist\u00f3rias exageradas<br \/>\ne mentirosas. Um negro, assassino e gatuno, pertencente a qualquer quadrilha<br \/>\nde ladr\u00f5es, perde um cub\u00edculo inteiro, inventando crimes para<br \/>\nimpressionar, imaginando armas de asas de lata, criando jogos, armando rolos.<br \/>\nOito dias depois de dar entrada numa dessas pris\u00f5es, as pobres v\u00edtimas<br \/>\nda justi\u00e7a, quase sempre esp\u00edritos incultos, sabem a t\u00e9cnica<br \/>\ne o palavreado dos chicanistas de porta de xadrez para iludir o j\u00fari,<br \/>\nl\u00eaem com avidez as not\u00edcias de crimes romantizados pelos rep\u00f3rteres<br \/>\ne o pavor da pena \u00e9 o mais intenso sugestionador da reincid\u00eancia.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 um ladr\u00e3o que, interrogado sobre as origens da<br \/>\nvoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o responda:<\/p>\n<p>\u2013 Onde aprendi? foi aqui mesmo, no cub\u00edculo.<\/p>\n<p>Recolhida \u00e0 sombra, nesse venenoso jardim, onde desabrocham todos<br \/>\nos del\u00edrios, todas as nevroses, \u00e9 certo que a crian\u00e7a<br \/>\nsem apoio l\u00e1 fora, hostilizada brutalmente pela sorte, acabar\u00e1<br \/>\nvoltando. Mais de uma vez, na cerim\u00f4nia indiferente e glacial da sa\u00edda<br \/>\ndos presos, eu ouvi o chefe dos guardas dizer:<\/p>\n<p>\u2013 V\u00e1, e vamos a ver se n\u00e3o voltas.<\/p>\n<p>Como mais de uma vez ouvi o mesmo guarda, quando chegavam novas levas, dizer<br \/>\npara umas caras j\u00e1 sem vergonha:<\/p>\n<p>\u2013 Outra vez, seu patife, hein?<\/p>\n<p>Mas que fazer, Deus misericordioso? Nunca, entre n\u00f3s, ningu\u00e9m<br \/>\nse ocupou com o grande problema da penitenci\u00e1ria. H\u00e1 bem pouco<br \/>\ntempo, a deten\u00e7\u00e3o, suja e imunda, com cerca de novecentos presos<br \/>\n\u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de bachar\u00e9is delegados, era horr\u00edvel.<br \/>\nPassear pelas galerias era passear como o Dante pelos c\u00edrculos do Inferno,<br \/>\ne antes do Sr. Meira Lima, cuja compet\u00eancia n\u00e3o necessita mais<br \/>\nde elogio, o cargo de administrador estava destinado a cidad\u00e3os protegidos,<br \/>\nsem a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o do que vem a ser um estabelecimento<br \/>\nde deten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual deve ser o papel da pol\u00edcia numa cidade civilizada? Em todos<br \/>\nos congressos penitenci\u00e1rios, at\u00e9 agora t\u00e3o \u00fateis<br \/>\ncomo o nosso \u00faltimo latino-americano, ficou claramente determinado.<br \/>\nA pol\u00edcia \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o preventiva, agindo<br \/>\ncom o seu poder de intimida\u00e7\u00e3o, e o Dr. Guillaume e o Dr. Baker<br \/>\nchegaram, em Estocolmo, \u00e0s conclus\u00f5es de que uma boa pol\u00edcia<br \/>\ntem mais for\u00e7a que o c\u00f3digo penal e mais influ\u00eancia que<br \/>\na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>A nossa pol\u00edcia \u00e9 o contr\u00e1rio. Para que a deten\u00e7\u00e3o<br \/>\nd\u00ea resultados, faz-se necess\u00e1rio seja conforme ao fim predominante<br \/>\nda pena, com o firme desejo de reformar e erguer a moral do culpado. Que fazemos<br \/>\nn\u00f3s? Agarramos uma crian\u00e7a de catorze anos porque deu um cascudo<br \/>\nno vizinho, e calma, indiferente, cinicamente, come\u00e7amos a levantar<br \/>\na moral desse petiz dando-lhe como companheiros, durante os dias de uma deten\u00e7\u00e3o<br \/>\npouco s\u00e9ria, o Velhinho, punguista conhecido, o Bexiga Fraga, batedor<br \/>\nde carteira e um punhado de desordeiros da Sa\u00fade!<\/p>\n<p>A princ\u00edpio tomei-lhes os nomes: Manuel Fernandes, Ant\u00f4nio Oliveira,<br \/>\nFrancisco Queir\u00f3s, Martins, Francisco Visconti, Ant\u00f4nio Gomes.<\/p>\n<p>Mas era in\u00fatil. Para que, se o crime est\u00e1 na pr\u00f3pria<br \/>\norgarniza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia? Est\u00e1 marcado! E eu ia<br \/>\ndeixar esse canto do jardim sinistro quando vi uma pobre criancinha, magra,<br \/>\nencostada \u00e0 parede, o olhar j\u00e1 a se encher de sombra.<\/p>\n<p>\u2013 Como te chamas?<\/p>\n<p>\u2013 Jos\u00e9 Bento.<\/p>\n<p>Tinha catorze anos e era acusado de crime de morte. Fora por acaso, o outro<br \/>\ndissera-lhe um palavr\u00e3o&#8230; Quem sabe l\u00e1?<\/p>\n<p>Talvez fosse. E, cheio de piedade, perguntei:<\/p>\n<p>\u2013 Vamos l\u00e1, diga o que o menino quer. Prometo dar.<\/p>\n<p>\u2013 Eu? Ah! os outros s\u00e3o maus&#8230; s\u00e3o valentes sim, senhor&#8230;<br \/>\nmetem raiva \u00e0 gente&#8230; At\u00e9 t\u00eam armas escondidas! A gente<br \/>\ntem que se defender&#8230; Eu tinha vontade&#8230; de uma faca&#8230;<\/p>\n<p>E cobriu o rosto com as m\u00e3os tr\u00eamulas.<\/p>\n<h4><a name=\"23\"><\/a>O Dia das Visitas<\/h4>\n<p>A for\u00e7a de policia \u00e9 aumentada. Quatro ou cinco guardas cont\u00eam<br \/>\na multid\u00e3o ao lado do porteiro, que distribui os cart\u00f5es. A<br \/>\nonda dos visitantes cresce a cada momento, impaciente e tumultuosa. S\u00e3o<br \/>\n11 horas da manh\u00e3. O sol queima. H\u00e1 no ar uma poeira sufocadora.<br \/>\nO sagu\u00e3o est\u00e1 cheio, a cal\u00e7ada est\u00e1 cheia. Do<br \/>\noutro lado da rua, doceiros, homens de refrescos, vendedores de frutas estabeleceram<br \/>\nas caixas e as latas e mercadejam em alta voz.<\/p>\n<p>Nas soleiras das portas, mulheres gordas \u00e0 espera, criancinhas choramingas<br \/>\nt\u00eam o semblante desolado e triste, mas h\u00e1 tamb\u00e9m sujeitos<br \/>\nalegres, peralvilhos de cal\u00e7a bal\u00e3o mastigando tangerinas e<br \/>\nrindo; h\u00e1 curiosos olhando a cena, como no espet\u00e1culo, e soldados,<br \/>\nsoldados da brigada, que passeiam gingando, com os tac\u00f5es altos e o<br \/>\nquepe do lado, por cima da pastinha; dois turcos vendem imagens de santos,<br \/>\nbot\u00f5es, canivetes e f\u00f3sforos; um italiano, que finge de cego,<br \/>\ninstala o realejo, e o filho come\u00e7a a remoer velhos trechos de \u00f3pera,<br \/>\ndolorosamente angustiosos. De vez em quando passa uma carro\u00e7a ou um<br \/>\nenterro, alastrando a rua de poeira. Mais ao longe, trabalham os condenados<br \/>\nda corre\u00e7\u00e3o na nova fachada, e cada passo que algum deles d\u00e1<br \/>\n\u00e9 logo acompanhado por dois policiais de carabinas embaladas.<\/p>\n<p>O sol \u00e9 esmagador, pesa como chumbo. Todos esses semblantes t\u00eam<br \/>\nqualquer coisa de revoltado e de t\u00edmido, de desafio e medo. Percebe-se<br \/>\no terror das pessoas importantes e o desejo secreto de apedrej\u00e1-las,<br \/>\nessa mistura antag\u00f4nica que faz o respeito da ral\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c0 porta da deten\u00e7\u00e3o, o movimento torna-se cada vez mais<br \/>\ndif\u00edcil e o rumor cresce. Vista de fora, na semi-sombra, a multid\u00e3o<br \/>\ntem um aspecto estranho e uniforme, parece um quadro violentamente espatulado<br \/>\npela mesma m\u00e3o delirante. Os olhos raiados de sangue, alegres ou chorosos,<br \/>\nt\u00eam um mesmo desejo \u2013 entrar; os corpos, corpos de mulheres, fr\u00e1geis<br \/>\ncorpos de crian\u00e7as, corpos musculosos de homens, uma s\u00f3 vontade<br \/>\n\u2013 for\u00e7ar a entrada; e todos os gestos, lentos, dificultosos,<br \/>\npresos em encontr\u00f5es de rancor, exprimem o mesmo anelo, que \u00e9<br \/>\no de entrar.<\/p>\n<p>H\u00e1 pragas, frases violentas, m\u00e3os que se agarram \u00e0s<br \/>\nroupas de outros, interjei\u00e7\u00f5es furiosas; e de dentro, do mist\u00e9rio<br \/>\ndo p\u00e1tio da pris\u00e3o, vem um clamor formid\u00e1vel e indistinto,<br \/>\nque aquece e fustiga ainda mais o desejo de entrar e de ver. O porteiro, um<br \/>\nsenhor velho de cavaignac branco, distribui os cart\u00f5es irritado e a<br \/>\nsuar.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o deixem passar sem cart\u00e3o! N\u00e3o entra ningu\u00e9m<br \/>\nsem cart\u00e3o!<\/p>\n<p>E os cart\u00f5es, sebentos, passam das m\u00e3os dos guardas para m\u00e3os<br \/>\ns\u00f4fregas dos visitantes, enquanto na porta de ferro, desesperadamente<br \/>\nos que os obtiveram antes procuram entrar todos a um tempo. Um cheiro especial,<br \/>\nmisto de fartum de negros e de perfumes baratos, de suores de mulheres e de<br \/>\nroupa suja, enerva, d\u00e1-nos vis\u00f5es de pesadelo, crispa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde raiva.<\/p>\n<p>Dentro, o p\u00e1tio est\u00e1 limpo de serventes. Das janelas da secretaria,<br \/>\nalguns funcion\u00e1rios deitam olhares distra\u00eddos. Duas filas de<br \/>\ncriaturas parece ligarem a porta de ferro aos dois port\u00f5es das galerias.<br \/>\nE nessas galerias o espet\u00e1culo \u00e9 medonho. Dias antes, os presos<br \/>\ncontam as horas, \u00e0 espera desse instante. Uns querem matar saudades,<br \/>\noutros contam com os amigos para mandar vender as suas obras \u2013 flores<br \/>\nde p\u00e3o, coura\u00e7ados de pau; outros escreveram toda a noite cartas<br \/>\nan\u00f4nimas ao chefe de pol\u00edcia, denunciando companheiros ou inimigos,<br \/>\ne anseiam por algu\u00e9m para as p\u00f4r no correio; e todos, absolutamente<br \/>\ntodos, acicateados pelo ego\u00edsmo, esperam os presentes, o fumo, o dinheiro,<br \/>\nas prendas, como uma obriga\u00e7\u00e3o dos que os v\u00e3o ver. Os<br \/>\ndois port\u00f5es fecham-se antes de se abrirem os cub\u00edculos, e no<br \/>\ncorredor da grande galeria \u00e9 um alarido, um desespero de jaula, com<br \/>\ngritos, impreca\u00e7\u00f5es gargalhadas, perguntas, risos, o pandem\u00f4nio<br \/>\ndas vozes, enquanto, como uma matilha de lobos, acuada, agarrando-se aos grossos<br \/>\nvar\u00f5es, uns por cima outros, os assassinos, os incendi\u00e1rios,<br \/>\nos estupradores, os desordeiros e os inocentes obrigados \u00e0 inf\u00e2mia<br \/>\nnuma confus\u00e3o, arquejam na \u00e2nsia da liberdade. De fora, os visitantes<br \/>\nn\u00e3o chegam \u00e0s vezes a se fazer compreender, esmagados uns nos<br \/>\noutros, irritados, sem poder apertar a m\u00e3o dos amigos. S\u00e3o em<br \/>\ngeral homens de len\u00e7o de seda preta e chap\u00e9u mole, adolescentes<br \/>\narrastando as chinelas, mulheres perdidas, velhos tr\u00eamulos. No alarido,<br \/>\nouvem-se frases breves \u2013 \u00d3 Juca, trouxeste os cigarros? \u2013<br \/>\nAi, meu filho, que saudades do nosso tempo de cub\u00edculo! \u2013 Sabes<br \/>\nquem foi preso ontem? \u2013 V\u00ea se me arranjas um habeas com o Benjamim!<br \/>\n\u2013 Estou aqui j\u00e1 h\u00e1 um m\u00eas e tr\u00eas dias! Fala<br \/>\npor mim a seu Irineu! Algumas dessas palavras s\u00e3o vociferadas de longe.<br \/>\nOs que tiveram a felicidade de chegar primeiro unem as m\u00e3os entre os<br \/>\nferros, falam devagar. H\u00e1 amantes tr\u00eamulas, vendo o ci\u00fame<br \/>\nnos olhos dos detentos, h\u00e1 pobres esposas, h\u00e1 crian\u00e7as<br \/>\ne h\u00e1 velhos respeit\u00e1veis com a face triste, todos os sentimentos<br \/>\nescachoando, borbulhando, barulhando naquele v\u00f3rtice de desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Na outra galeria est\u00e3o as mulheres. Essas s\u00f3 s\u00e3o visitadas<br \/>\npor homens, os mesmos sujeitos de lencinho preto e cal\u00e7a bal\u00e3o,<br \/>\nque \u00e0s vezes visitam num s\u00f3 dia quatro e cinco amigos na deten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs conversas s\u00e3o mais calmas. Algumas est\u00e3o l\u00e1 por causa<br \/>\ndos que as visitam, por ci\u00fame e pancadas. T\u00eam quase todas esse<br \/>\nsorriso estereotipado de resigna\u00e7\u00e3o e amargura, dos infelizes<br \/>\nque ainda n\u00e3o mediram a extens\u00e3o da pr\u00f3pria inf\u00e2mia.<br \/>\nDo outro lado, os homens parece estarem ali por obriga\u00e7\u00e3o. S\u00f3<br \/>\num eu vi, menino ainda, magro, t\u00edsico, com um olho afundado em pus,<br \/>\nque segurava, como para se aquecer, a m\u00e3o de uma pequena mulatinha.<br \/>\nEla conversava com outro, sem lhe dar aten\u00e7\u00e3o. Afinal, teve<br \/>\num sorriso de piedade.<\/p>\n<p>\u2013 E tu, Jo\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 As voltas com o Z\u00e9-Maria. Nem voc\u00ea imagina como eu ando.<br \/>\nEstou s\u00f3 esperando que voc\u00ea saia, para tirar um pensamento da<br \/>\ncabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>E as suas m\u00e3os agarravam a m\u00e3o da outra, num gesto de medo<br \/>\ne de paix\u00e3o.<\/p>\n<p>O clamor continuava, fragorava como um oceano que se debatesse contra os<br \/>\naltos muros brancos. O administrador j\u00e1 mandara ordem para dar fim<br \/>\n\u00e0 visita. Ainda havia os serventes e os abastados. De vez em quando,<br \/>\ndestoando dos casacos-sacos dos malandros, entrava uma sobrecasaca, algum<br \/>\nadvogado de porta de xadrez, a farejar a di\u00e1ria de peti\u00e7\u00f5es<br \/>\nde habeas-corpus, lambiscando delicadezas aos guardas.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 alguns desses sujeitos, dizem-me, que at\u00e9 j\u00e1<br \/>\nestiveram presos. E conhe\u00e7o um que, tendo contratado um habeas-corpus<br \/>\npor trinta mil r\u00e9is, n\u00e3o queria que o administrador soltasse<br \/>\no preso enquanto n\u00e3o o tivesse pago dessa import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A nossa aten\u00e7\u00e3o voltou-se, por\u00e9m, para uma austera senhora<br \/>\nque descia da secretaria gravemente, com um embrulho debaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o conhece? perguntou-me um dos guardas. \u00c9 mission\u00e1ria<br \/>\nprotestante. Vem, naturalmente, pedir ao sr. capit\u00e3o Meira Lima para<br \/>\nfalar aos presos. Antigamente vinha mais vezes. Ah! o senhor nem imagina o<br \/>\nque os detentos faziam com ela. Eram tro\u00e7as, pilh\u00e9rias, arremedavam-na<br \/>\nna bochecha, diziam-lhe desaforos. Por \u00faltimo, sopravam-lhe nos olhos<br \/>\npimenta em p\u00f3, atrav\u00e9s das grades do cub\u00edculo. Ela continuou,<br \/>\nimpass\u00edvel, a distribuir folhetos da religi\u00e3o, que o pessoal<br \/>\ntransforma em baralhos.<\/p>\n<p>Tenho aqui um para o senhor. Venha c\u00e1. \u00c9 preciso que ela n\u00e3o<br \/>\nveja.<\/p>\n<p>Vamos para o sagu\u00e3o. O guarda desdobra por tr\u00e1s da jarra Tiradentes,<br \/>\nde Benedito Machado, um embrulho, e eu vejo valetes, ases e damas admiravelmente<br \/>\npintados em peda\u00e7os dos livros de edifica\u00e7\u00e3o moral. H\u00e1<br \/>\nmesmo um rei de paus que tem nas costas S. Paulo. E no p\u00e1tio, a inglesa,<br \/>\nna sua obra regeneradora, espera com calma que o administrador consinta em<br \/>\nmais uma distribui\u00e7\u00e3o de folhetos, para o fabrico de futuros<br \/>\nbaralhos!<\/p>\n<p>O clamor das galerias parecia diminuir, enquanto \u00e0 porta do p\u00e1tio<br \/>\nhavia o mesmo atropelo de pessoas, agora querendo sair. Os protestos prorrompiam<br \/>\nentre frases de c\u00f3lera surda e frases de deboche. Uma rapariga com<br \/>\no filhinho nos bra\u00e7os bradava: \u2013 N\u00e3o volto mais! N\u00e3o<br \/>\nfalei ao Jos\u00e9. \u00c9 imposs\u00edvel chegar perto da grade! \u2013<br \/>\nContente-se comigo, dona! \u2013 A mulherzinha vinha com sede! \u2013 \u00d3<br \/>\nAnt\u00f4nio, vamos tomar uma lambada! \u2013 Ih! menino, j\u00e1 quebrei<br \/>\n\u00e1gua hoje como qu\u00ea! E as vozes al\u00e7avam-se, cruzavam-se;<br \/>\nfaziam naquela porta, como a ornamenta\u00e7\u00e3o da raiva e da sem-vergonhice<br \/>\num baixo-relevo vivo de entrada de penitenci\u00e1ria, enquanto, suando,<br \/>\nbufando, com os cart\u00f5es na m\u00e3o, aquela gente \u2013 mulatos,<br \/>\npretos, italianos, portugueses, f\u00fafias e rufi\u00f5es, tristes mulheres<br \/>\ne trabalhadores de fato endomingado \u2013 dava cotoveladas e empurr\u00f5es,<br \/>\nno desejo cada qual de sair em primeiro lugar.<\/p>\n<p>Um sino p\u00f4s-se a tocar. Era o fim da visita. Os sons vibravam, duros,<br \/>\ncomo uma ordem. H\u00e1 sinos que choram, sinos que cantam, sinos que s\u00e3o<br \/>\ntristes; h\u00e1 sinos feitos para dobrar a finados, como os h\u00e1 para<br \/>\ncantar missas em a\u00e7\u00f5es de gra\u00e7a. Aquele sino era um aguilh\u00e3o.<br \/>\nO p\u00e1tio esvaziava. A tropa partia, tropa desoladora, amiga do v\u00edcio<br \/>\ne do crime.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que eu vi aparecer, carregada de embrulhos, com a coifa<br \/>\nbranca a ondular as duas grandes asas, a figura de bondade da irm\u00e3<br \/>\nPaula. O guarda tirara o bon\u00e9, cheio de um carinhoso respeito. Os malandros<br \/>\ne os desgra\u00e7ados, ainda \u00e0 porta, tinham nos olhos uma express\u00e3o<br \/>\nde timidez e de alegria.<\/p>\n<p>\u2013 Bonjour, meu filho, fez a irm\u00e3 com um gesto cansado. O Sr.<br \/>\nadministrador? O guarda disse qualquer coisa, comovido. Ela arrumou embrulhos,<br \/>\nenxugou as m\u00e3os, subiu as escadas da secretaria. A sua coifa alva parecia<br \/>\numa grande borboleta branca.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a \u00fanica visita que consola os presos, \u00e9 a<br \/>\n\u00fanica que eles respeitam, murmurava o guarda. Quando ela fala, t\u00e3o<br \/>\nsimples e t\u00e3o meiga, at\u00e9 as pedras parece quererem-lhe bem.<br \/>\nQuando Jesus passou por este mundo, devia ter sido assim bom para todos os<br \/>\ndesgra\u00e7ados.<\/p>\n<p>De novo a coifa apareceu, borboleta de esperan\u00e7a adejando as grandes<br \/>\nasas brancas e, como se fizesse a obra mais natural deste mundo, a irm\u00e3<br \/>\nPaula disse:<\/p>\n<p>\u2013 Vamos ver os desgra\u00e7adinhos. Trago-lhes hoje umas coisas.<br \/>\nO Sr. administrador \u00e9 muito bom, permite.<\/p>\n<p>E assim, tocado pela sua presen\u00e7a, a mim me pareceu que o doloroso<br \/>\ncanto do jardim do crime se transformava no horto das rosas de que fala S.<br \/>\nTom\u00e1s de Kempis&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"24\"><\/a>Versos de Presos<\/h4>\n<p>O criminoso \u00e9 um homem como outro qualquer. No primeiro momento, sob<br \/>\no pavor dos grandes muros de pedra, com um guarda que nos mostra os indiv\u00edduos<br \/>\ncomo se mostrasse as feras de um domador, a impress\u00e3o \u00e9 esmagadora.<br \/>\nV\u00ea-se o crime, a a\u00e7\u00e3o tremenda ou infame; n\u00e3o se<br \/>\nv\u00ea o homem sem o movimento anormal, que p\u00f4s \u00e0 margem da<br \/>\nvida. Quando a gente se habitua a v\u00ea-los e a falar-lhes todo o dia,<br \/>\no terror desaparece. H\u00e1 sempre dois homens em cada detento \u2013<br \/>\no que cometeu o crime e o atual, o preso. Os atuais s\u00e3o perfeitamente<br \/>\nhumanos, S\u00f3 uma variedade da esp\u00e9cie causa sempre n\u00e1useas;<br \/>\nos ladr\u00f5es, os &#8220;punguistas&#8221;, os &#8220;escrunchantes&#8221;,<br \/>\nporque dissimulam, mentem e t\u00eam, constante no riso e na palavra, um<br \/>\ntravo de cinismo. Os outros n\u00e3o. Conversam, contam fatos e pilh\u00e9rias,<br \/>\narranjam o pretexto de ir lavar a roupa para apanhar um pouco de sol no lavadouro,<br \/>\ns\u00e3o homens capazes at\u00e9 de sentimentos am\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ora, este pa\u00eds \u00e9 essencialmente po\u00e9tico. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 cidad\u00e3o, mesmo maluco, que n\u00e3o tenha feito versos.<br \/>\nFazer versos \u00e9 ter uma qualidade am\u00e1vel. Na deten\u00e7\u00e3o,<br \/>\nabundam os bardos, os trovadores, os repentistas e os inspirados. S\u00e3o<br \/>\nquase todos brasileiros ou portugueses, criados na malandragem da Sa\u00fade.<br \/>\nA m\u00e9dia po\u00e9tica \u00e9 forte. Desordeiros perigosos, assassinos<br \/>\nvulgares comp\u00f5em quadras ardentes, e h\u00e1 poetas de todos os g\u00eaneros,<br \/>\ndesde os plagi\u00e1rios at\u00e9 os incompreens\u00edveis. N\u00e3o<br \/>\nsei se a timidez ou outra raz\u00e3o mais obscura os faz assinar as composi\u00e7\u00f5es<br \/>\npo\u00e9ticas apenas com as iniciais e quando muito com as iniciais precedidas<br \/>\ndo nome de batismo.<\/p>\n<p>\u2013 Assine voc\u00ea o seu nome por extenso! dizia o guarda.<\/p>\n<p>O poeta detento hesitava, punha as iniciais e, por baixo, entre par\u00eantesis,<br \/>\nescrevia o nome. As iniciais t\u00eam que vir fatalmente, s\u00e3o o complemento<br \/>\nnecess\u00e1rio ao fim da obra, Por qu\u00ea? E misterioso, mas verdadeiro.<\/p>\n<p>Os assuntos escolhidos pelas iniciais superiores da deten\u00e7\u00e3o<br \/>\nabrangem todas as modalidades do sentir. Como h\u00e1 plagi\u00e1rios<br \/>\n\u2013 o Ant\u00f4nio, crime de ferimentos, que se intitula autor da modinha<br \/>\nNasci para te Amar, \u2013 h\u00e1 simbolistas que escrevem coisas destas:<\/p>\n<p>Pobre flor que mal nasceste, fatal<br \/>\nFoi a tua sorte, que o primeiro<br \/>\nPasso que deste com a morte deste.<br \/>\nDeixar-te \u00e9 coisa triste. Cortar-te?<br \/>\n\u00c9 coisa forte, pois deixar-te com vida<br \/>\n\u00c9 deixar-te com a morte.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m poetas er\u00f3ticos, o Chico Bentevi, autor do<br \/>\npoema Os Amores de Carlos:<\/p>\n<p>Chiquinha abriu sorrindo<br \/>\nA porta da sua alcova<br \/>\nE Carlos foi logo indo<br \/>\nCom a sede&#8230;<\/p>\n<p>Uma sede excessiva! H\u00e1 poetas descritivos, trovadores simples, can\u00e7onet\u00edstas<br \/>\nocasionais, todos com um sentimento insistente: s\u00e3o patriotas e sofrem<br \/>\ninjusti\u00e7a porque nasceram brasileiros.<\/p>\n<p>O preso Carlos, por exemplo, que se assina Carlos F. P. Nas suas trovas \u00e9<br \/>\ninsistente a preocupa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 preso porque \u00e9<br \/>\nbrasileiro. Escolho na sua consider\u00e1vel obra po\u00e9tica uma modinha<br \/>\ncheia de m\u00e1goas:<\/p>\n<p>Meus senhores, venham ouvir<br \/>\nDo meu peito uma can\u00e7\u00e3o<br \/>\nTirada por um condenado<br \/>\nNa casa de deten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0s m\u00e1goas segue-se o estribilho.<\/p>\n<p>S\u00e3o mart\u00edrios que se passam<br \/>\nSofrendo profunda dor<br \/>\nSer preso e condenado<br \/>\nPor vingan\u00e7a \u00e9 um horror.<\/p>\n<p>Se os mart\u00edrios fossem enormes, era natural que o Petrarca novo n\u00e3o<br \/>\ncompusesse quadras; mas Carlos F. P. \u00e9 feroz e continua:<\/p>\n<p>Fui preso sem nenhum crime<br \/>\nRemetido para a deten\u00e7\u00e3o<br \/>\nFui condenado a trinta anos<br \/>\nOh! que dor de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E surge afinal a preocupa\u00e7\u00e3o, a id\u00e9ia fixa:<\/p>\n<p>Sou um triste brasileiro<br \/>\nV\u00edtima de persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\nSou preso, sou condenado<br \/>\nPor ser filho da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma por\u00e7\u00e3o de modinhas neste g\u00eanero. A id\u00e9ia<br \/>\nconstante aparece sempre, ou na primeira ou na \u00faltima quadra.<\/p>\n<p>Outro poeta, Jos\u00e9 Domingos Cidade, \u00e9 descritivo. Como toda<br \/>\na gente sabe, o poema \u00e9pico passou literalmente \u00e0 can\u00e7oneta.<br \/>\nVirg\u00edlio, Lucano, Voltaire e Lu\u00eds de Cam\u00f5es, se vivessem<br \/>\nhoje, decerto comporiam os trabalhos de En\u00e9ias, a Farsala, a Henriade<br \/>\ne os feitios de Vasco da Gama com refrains ao fim dos versos de mais efeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m com coragem para ler um poema her\u00f3ico,<br \/>\napesar de haver ainda neste mundo de contradi\u00e7\u00f5es \u2013 her\u00f3is<br \/>\nguerreiros. S\u00f3 o povo, a massa ignara, ainda acha prazer em ver, em<br \/>\nrimas, batalhas ou arrua\u00e7as. Jos\u00e9 Domingos, no cub\u00edculo<br \/>\nque o veda \u00e0 admira\u00e7\u00e3o dos contempor\u00e2neos, escreveu<br \/>\nOs Sucessos, can\u00e7oneta repinicada, para viol\u00e3o e cavaquinho.<\/p>\n<p>Vejam o poder de descritiva de Domingos:<\/p>\n<p>Dia quinze de novembro.<br \/>\nAntes de nascer o sol<br \/>\nVi toda a cavalaria<br \/>\nDe clavinote a tiracol.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 incontestavelmente mais belo que o antigo e cl\u00e1ssico<br \/>\ncome\u00e7o \u00e9pico: &#8220;Eu canto os feitos, ou as armas, ou as guerras<br \/>\ncivis&#8221;, de todos os vates e de Lucano, que por sinal come\u00e7a dizendo:<br \/>\n&#8220;Eu canto as nossas guerras mais que civis nos campos de Ematia. . .&#8221;<br \/>\nCidade foi mais urbano, mais imediato: cantou a refrega civil da Rua da Passagem<br \/>\ncom exagero apenas. Na segunda quadra, a descri\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\nsolu\u00e7ante:<\/p>\n<p>As pobres m\u00e3es choravam<br \/>\nE gritavam por Jesus;<br \/>\nO culpado disso tudo<br \/>\n\u00c9 o Dr. Osvaldo Cruz!<\/p>\n<p>Quando o homem predestinado que se chama Osvaldo Cruz pensou que Jos\u00e9<br \/>\nDomingos o amarrasse ao papel de carrasco em plena deten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Para o fim, mesmo em verso, o autor \u00e9 modesto e patriota:<\/p>\n<p>O autor desta modinha<br \/>\n\u00c9 um pobre sem dinheiro<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o declaro-lhe o nome,<br \/>\nSou patriota brasileiro.<\/p>\n<p>Os companheiros do Prata Preta, pessoal da Sa\u00fade, s\u00e3o naturalmente<br \/>\nrepentistas, tocadores de viol\u00e3o, cabras de serestas e, antes de tudo,<br \/>\ngarotos, mesmo aos quarenta anos. O malandro brasileiro \u00e9 o animal<br \/>\nmais curioso do universo, pelas qualidades de indol\u00eancia, de sensualidade,<br \/>\nde riso, de vivacidade de esp\u00edrito. As quadras pornogr\u00e1ficas<br \/>\ns\u00e3o em n\u00famero extraordin\u00e1rio; as que exprimem paix\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o constantes, posto que o malandro n\u00e3o as fa\u00e7a sen\u00e3o<br \/>\npara ser admirado pelos outros e independente de amar quer senhora das suas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es. Um gatuno afirmou-me que a modinha A Cor Morena era<br \/>\nde seu amigo. Na Cor Morena h\u00e1 este pensamento de um perfume oriental:<\/p>\n<p>Fui condenado<br \/>\nPela a\u00e7ucena<br \/>\nPor exaltar<br \/>\nA cor morena&#8230;<\/p>\n<p>Onde se v\u00ea o bom humour dos presos \u00e9 principalmente nas quadras<br \/>\nsobre acontecimentos pol\u00edticos. O guarda Ant\u00f4nio Barros, que<br \/>\nse dava ao trabalho de acompanhar as minhas horas de penitenci\u00e1ria<br \/>\nvolunt\u00e1ria, forneceu-me as seguintes remetidas por um dos detentos:<\/p>\n<p>Meus amigos e camaradas<br \/>\nAs coisas n\u00e3o andam boas<br \/>\nTomaram Porto-Artur<br \/>\nNa conhecida Gamboa<\/p>\n<p>Logo o Cardoso de Castro<br \/>\nAo seu Seabra foi falar<br \/>\nPara deportar desordeiros<br \/>\nPara o alto Juru\u00e1<\/p>\n<p>Mas eu que n\u00e3o sou de ferro<br \/>\nMeu corpo colei com lacre<br \/>\nQue n\u00e3o gosto de chala\u00e7as<br \/>\nL\u00e1 nos borrachas do Acre.<\/p>\n<p>O exibicionismo, o reclamo, a vaidade, estas coisas que enlouquecem Sarah<br \/>\nBernhardt e talvez a todos n\u00f3s, enlouquecem tamb\u00e9m presos. H\u00e1<br \/>\na princ\u00edpio uma hesita\u00e7\u00e3o. Depois, os documentos s\u00e3o<br \/>\nabundantes. Ser poeta \u00e9 ser alguma coisa mais do que preso, e um negralh\u00e3o<br \/>\ncapoeira, um assassino como o Bueno ou o Jos\u00e9 do Senado, ap\u00f3s<br \/>\no testemunho da rima, falam mais livremente e com maior franqueza. Em duas<br \/>\nsemanas de deten\u00e7\u00e3o colecionei versos para publicar um copioso<br \/>\ncancioneiro da cadeia. H\u00e1 poesias de todos os g\u00eaneros, desde<br \/>\no lundu sensual at\u00e9 \u00e0 n\u00eania chorosa.<\/p>\n<p>Este lundu do famoso Carlos F. P. chega a ser comovente:<\/p>\n<p>C\u00e9us&#8230;meus! por piedade<br \/>\nTirai-me desta afli\u00e7\u00e3o!<br \/>\nV\u00f3s!&#8230; socorrei os meus filhos<br \/>\nDas garras da maldi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>E o estribilho mais amargo ainda:<\/p>\n<p>S\u00e3o horas, s\u00e3o horas<br \/>\nS\u00e3o horas de teu embarque<br \/>\nSinto n\u00e3o ver a partida<br \/>\nDos desterrados do Acre.<\/p>\n<p>O Dr. Melo Morais, que conhece os segredos do viol\u00e3o, deve decerto<br \/>\nimaginar o efeito destas palavras, \u00e0 noite, na escurid\u00e3o com<br \/>\nos bord\u00f5es a vibrar at\u00e9 \u00e0s estrelas do c\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>O Amor, de resto, inunda o verso detento. H\u00e1 por todos os lados choros,<br \/>\nsolu\u00e7os, l\u00e1bios de coral, saudades, recorda\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndesesperos, rogos:<\/p>\n<p>N\u00e3o sejas t\u00e3o inclemente,<br \/>\nAtende aos gemidos meus.<\/p>\n<p>E um encontrei eu que me repetiu, com os olhos fechados, o seu \u00faltimo<br \/>\nrepente:<\/p>\n<p>Se eu pudesse desfazer<br \/>\nTudo aquilo que est\u00e1 feito,<br \/>\nS\u00f3 assim teu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nN\u00e3o veria contrafeito.<\/p>\n<p>Era um rapaz p\u00e1lido, como os rapazes fatais nos romances de 1850,<br \/>\nmas com uns biceps de lutador.<\/p>\n<p>Quantos poetas perdidos para sempre, quanta rima destinada ao olvido da humanidade!<br \/>\nCheio de interesse, um papel que me caia nas m\u00e3os, com erros de ortografia,<br \/>\nera para mim precioso. Mas afinal, um dia, ao sair da deten\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom os bolsos cheios de quadras penitenci\u00e1rias, remoendo frases de<br \/>\npsicologia triste, encontrei no bonde um poeta dos novos, que, h\u00e1 vinte<br \/>\ne cinco anos, ataca as escolas velhas.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o uns animais! bradou ele, logo ap\u00f3s um aperto de<br \/>\nm\u00e3o imperativo. Este pa\u00eds est\u00e1 todo errado. H\u00e1<br \/>\nmais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos,<br \/>\nali, com castigos corporais uma vez por m\u00eas!<\/p>\n<p>Mal sabia ele que a deten\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 cheia.<\/p>\n<h4><a name=\"25\"><\/a>As Quatro Id\u00e9ias Capitais dos Presos<\/h4>\n<p>\u00c0s vezes, numa volta pelo p\u00e1tio, a conversar com Obed Cardoso,<br \/>\neu via o elegante Dr. Saturnino de Matos passar, como se fosse dar milho \u00e0s<br \/>\npombas. E, se depois de admirar o Dr. Saturn\u00edno apontavam-me, enfiado<br \/>\nno zuarte do estabelecimento, com o n\u00famero de metal \u00e0 cinta,<br \/>\num modesto gatuno ou um simples assassino cujo comportamento exemplar os transformava<br \/>\nem serventes, eu deixava o gentil Obed e gozava o cal\u00e3o dessas interessantes<br \/>\nflores de patifaria.<\/p>\n<p>H\u00e1 na deten\u00e7\u00e3o reincidentes exemplares e casos de psicologia<br \/>\ncurios\u00edssimos. O Sargento da Meia-Noite, ladr\u00e3o tem\u00edvel,<br \/>\numa esp\u00e9cie de transformista da inf\u00e2mia, \u00e9 passar os umbrais<br \/>\ndo jardim onde descansa o crime, para se tornar um cordeiro artista, uma esp\u00e9cie<br \/>\nde frade medievo. Recolhido ao cub\u00edculo, inaugura logo a sua arte de<br \/>\nmiolo de p\u00e3o. Faz flores, bonecos, santos, animais; pinta-os, remira-os,<br \/>\nmanda-os vender. Parece regenerado. Todos sabem, entretanto, que, uma vez<br \/>\nlivre, o Sargento n\u00e3o resistira \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de<br \/>\ninvadir a casa alheia. Os &#8220;punguistas&#8221;, inofensivos l\u00e1 dentro,<br \/>\nt\u00e3o certos est\u00e3o de continuar a roubar que o Braga Bexiga me<br \/>\ndizia:<\/p>\n<p>\u2013 No dia em que sair, tomo logo um bonde e limpo a primeira carteira.<\/p>\n<p>\u2013 Mas \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u2013 Para quem conhece a arte n\u00e3o h\u00e1 dificuldades. Eu trabalho<br \/>\ndesde crian\u00e7a e tive como professor o Zezinho.<\/p>\n<p>\u2013 Vamos a ver esse trabalho.<\/p>\n<p>\u2013 Se V. Sa me d\u00e1 licen\u00e7a, eu vou tirar duas notas de<br \/>\nduzentos que o sr. Obed p\u00f4s agora no bolso da cal\u00e7a.<\/p>\n<p>Na outra extremidade da sala, Obed, sem que ningu\u00e9m desse por isso,<br \/>\nacabara de contar o seu dinheiro e de met\u00ea-lo no bolso da cal\u00e7a.<br \/>\nBexiga, tr\u00eamulo, com os olhinhos piscos, continuava ali a exercitar<br \/>\nas suas criminosas observa\u00e7\u00f5es. Capoeiras, assassinos, como<br \/>\nCarlito e outros, reincidentes, condenados a trinta anos, exprimem a certeza<br \/>\nde que continuar\u00e3o l\u00e1 fora a vida anterior. Carlito, mesmo,<br \/>\ndisse-me um dia:<\/p>\n<p>\u2013 Deus aperta, mas n\u00e3o enforca!<\/p>\n<p>M\u00e1xima muito mais profunda que quantas escritas pelo desfastio erudito<br \/>\ndo defunto Marqu\u00eas de Maric\u00e1.<\/p>\n<p>Os cientistas da penitenci\u00e1ria veriam nisso um problema a resolver,<br \/>\no problema de emendar o criminoso. Um, a quem eu contava o desplante dos recidivos,<br \/>\nassegurou-me:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 preciso aplicar o m\u00e9todo ingl\u00eas, as senten\u00e7as<br \/>\ncumulativas, sistema de penas progressivas cuja dura\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\ncalculada pelo quociente das reincid\u00eancias. Um preso condenado por ladroeira,<br \/>\nse entrar outra vez pelo mesmo crime, tem a pena duplicada; se entrar terceira,<br \/>\ntriplicada, e assim por diante. Isto acabaria com a falha do c\u00f3digo,<br \/>\no broquel de defesa dos gatunos, que nos seus artigos admir\u00e1veis tem<br \/>\na generalidade da pena para toda a sorte de escapat\u00f3rias. Leia o dr.<br \/>\nMonat, antigo diretor geral pris\u00f5es na \u00cdndia; leia Baker, juiz<br \/>\nde paz em Gloucester; leia Browne. As reincid\u00eancias, eles o provam,<br \/>\ndiminu\u00edram em toda a Inglaterra.<\/p>\n<p>Outros perdiam-se em frases confusas, falando da necessidade urgente de reformar<br \/>\no nosso sistema de deten\u00e7\u00e3o, de p\u00f4r em a\u00e7\u00e3o<br \/>\nos dois meios definitivos de corrigir: moralizar e intimidar. Eu achei mais<br \/>\ninteressante estudar as id\u00e9ias e os estados da alma dos detentos.<\/p>\n<p>A deten\u00e7\u00e3o tem id\u00e9ias gerais. A primeira, a fundamental,<br \/>\ndefinitiva, \u00e9 a id\u00e9ia mon\u00e1rquica. Com rar\u00edssimas<br \/>\nexce\u00e7\u00f5es, que talvez n\u00e3o existam, todos os presos s\u00e3o<br \/>\nradicalmente monarquistas. Passadores moeda falsa, incendi\u00e1rios, assassinos,<br \/>\ngatunos, capoeiras, mulheres abjetas, s\u00e3o ferventes ap\u00f3stolos<br \/>\nda restaura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o falam, n\u00e3o fazem meetings,<br \/>\nn\u00e3o escrevem artigos como o Dr. C\u00e2ndido de Oliveira ou o conselheiro<br \/>\nAndrade Figueira \u2013 sentem intensamente, sem saber explicar a raz\u00e3o<br \/>\ndesse amor.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade; qual o governo que prefere? Eles riem, meio t\u00edmidos.<\/p>\n<p>\u2013 Eu prefiro a monarquia.<\/p>\n<p>\u2013 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Sim! Por que malandros da Sa\u00fade, menores vagabundos, raparigas de<br \/>\nvinte anos que n\u00e3o podem se recordar do passado regime, s\u00e3o<br \/>\nmonarquistas? Por que gatunos amestrados preferiam sua majestade ao dr. Rodrigues<br \/>\nAlves? \u00c9 um mist\u00e9rio que s\u00f3 poder\u00e1 ter explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nno pr\u00f3prio sangue da ra\u00e7a, sangue cheio de revoltas e ao mesmo<br \/>\ntempo servil; sangue \u00e1vido por gritar n\u00e3o pode! mas desejoso<br \/>\nde ter a certeza de um senhor perp\u00e9tuo.<\/p>\n<p>O fato curioso \u00e9 que para esta gente, de outro lado da sociedade,<br \/>\nn\u00e3o basta pensar, \u00e9 preciso trazer a marca das pr\u00f3prias<br \/>\nopini\u00f5es no lombo. Rar\u00edssimos s\u00e3o os presos que na deten\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o tatuados; raros s\u00e3o aqueles que entre as tatuagens<br \/>\n\u2013 lagartos, cora\u00e7\u00f5es, sereias, estrelas \u2013 n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam no bra\u00e7o ou no peito a coroa imperial.<\/p>\n<p>A outra id\u00e9ia \u00e9 a cren\u00e7a de Deus \u2013 uma verdadeira<br \/>\ncrise religiosa. Rezar, pedir a Deus a sua salva\u00e7\u00e3o, trazer<br \/>\nbentinhos ao pesco\u00e7o, ter entre os seus pap\u00e9is imagens sagradas,<br \/>\nn\u00e3o significa, de resto, regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Homens da esp\u00e9cie do Carlito ou do Cardosinho fazem o sinal da cruz<br \/>\nao levantar da cama para matar um homem horas depois; Serafim Bueno, um criminoso<br \/>\nrepugnante, tem uma f\u00e9 surda no milagre e em Nosso Senhor; o Carrasco,<br \/>\ngatuno torpe, treme quando se fala no castigo do c\u00e9u \u2013 mas nenhum<br \/>\ndeles se regenera. Deus \u00e9 apenas a salva\u00e7\u00e3o das suas<br \/>\npatifarias na terra, e tanto \u00e9 assim que n\u00e3o h\u00e1 desordeiro<br \/>\nassassino em cuja m\u00e3o direita n\u00e3o apontem, tatuadas, as cinco<br \/>\nchagas de Cristo. Sabem a interpreta\u00e7\u00e3o dada a este sinal?<\/p>\n<p>A piedosa interpreta\u00e7\u00e3o de que com a m\u00e3o, ajudada por<br \/>\nt\u00e3o grande s\u00edmbolo, n\u00e3o se atira \u00e0 cara de um<br \/>\nsujeito uma tapona sem que o contendor n\u00e3o caia ao ch\u00e3o!<\/p>\n<p>Esses pobres entes s\u00e3o o normal. H\u00e1, entretanto, verdadeiras<br \/>\ncrises m\u00edsticas como a desse convulsivo tratante Afonso Coelho. Afonso<br \/>\nescreve diariamente cartas fervorosas de regenera\u00e7\u00e3o; reza,<br \/>\nmanda ep\u00edstolas insultuosas a outros detentos, verberando-os porque<br \/>\na sua f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 forte. Em todas as cartas h\u00e1 erros<br \/>\nde ortografia lament\u00e1veis e um sopro de milagre. Ao mesmo tempo, por\u00e9m,<br \/>\nAfonso Coelho esgaravata no pobre c\u00e9rebro o meio de fugir. Arranja<br \/>\nlimas e corta var\u00f5es de ferro. O administrador, atento, quando o trabalho<br \/>\nest\u00e1 pronto, muda-o de cub\u00edculo. Vai ao tribunal e, em caminho,<br \/>\nainda na deten\u00e7\u00e3o, atira-se como um tigre, tentando escalar<br \/>\num port\u00e3o. Os guardas t\u00eam que o puxar pelas pernas e lutar com<br \/>\nele, bra\u00e7o a bra\u00e7o. Tra\u00e7a planos de fuga, escreve indica\u00e7\u00f5es<br \/>\na amigos para abrirem portas num muro, combina fugas estranhas. O administrador<br \/>\nguarda uma por\u00e7\u00e3o destas cartas, interceptadas por sua ordem.<br \/>\nUltimamente, visitado por um jornalista a quem d\u00e1 a honra de falar,<br \/>\ndepois de discutir direitos, de meter os p\u00e9s pelas m\u00e3os com<br \/>\na sua vaidosa mania de querer ser inteligente, acabou dizendo:<\/p>\n<p>\u2013 Qual, meu amigo, j\u00e1 estou muito conhecido aqui. Se sair, embarco<br \/>\npara a Europa. L\u00e1 o meio \u00e9 maior.<\/p>\n<p>E, cheio de do\u00e7ura, enquanto desesperadamente a sua esperteza se arremete<br \/>\ncontra as grades preventivas, esse mesmo homem sonha com a Virgem, bate nos<br \/>\npeitos e faz crer aos ing\u00eanuos ou aos interessados reformadores que<br \/>\n\u00e9 um santo no caminho de Damasco.<\/p>\n<p>A terceira id\u00e9ia quase obsessiva \u00e9 a imprensa. H\u00e1 os<br \/>\nque t\u00eam medo de desprez\u00e1-la, h\u00e1 os que fingem desprez\u00e1-la,<br \/>\nh\u00e1 os que a esperam aflitos. O jornal \u00e9 a hist\u00f3ria di\u00e1ria<br \/>\nda outra vida, cheia de sol e de liberdade; \u00e9 o meio pelo qual sabem<br \/>\nda pris\u00e3o dos inimigos, do que pensa o mundo a seu respeito. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 cub\u00edculo sem jornais. Um reporter \u00e9 para essa gente<br \/>\ninferior o poder independente, uma necessidade como a monarquia e o c\u00e9u.<br \/>\nAnunciar um reporter nas galerias \u00e9 agitar loucamente os presos. Uns<br \/>\nesticam pap\u00e9is, provando inoc\u00eancia; outros bradam que as locais<br \/>\nde jornais estavam erradas, outros escondem-se, receando ser conhecidos, e<br \/>\n\u00e9 um alarido de ronda infernal, uma \u00e2nsia de olhos, de clamores,<br \/>\nde mis\u00e9ria&#8230; Os desordeiros acusados de ferimentos graves, com muitas<br \/>\nmortes na consci\u00eancia s\u00e3o, por sua natureza, vingativos e conhecem<br \/>\nbem os reporters. E, entretanto, apesar das not\u00edcias cru\u00e9is,<br \/>\nnunca nenhum se atreveu a tentar uma agress\u00e3o. Jos\u00e9 do Senado<br \/>\npede:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 com a imprensa que eu conto. O senhor foi cruel, porque<br \/>\nn\u00e3o sabia&#8230;<\/p>\n<p>Carlito teve, nesse dia, uma frase completa:<\/p>\n<p>\u2013 Eu sei que foi o senhor o autor daquela descompostura contra mim,<br \/>\nno jornal. Mas tamb\u00e9m estou vingado. Se n\u00e3o fosse eu, o sr.<br \/>\nn\u00e3o escrevia tanto.<\/p>\n<p>Os outros rojam, como as beatas nos altares dos santos impass\u00edveis.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o fale de mim, seu reporter; deixe o meu nome sossegado,<br \/>\nn\u00e3o fale!<\/p>\n<p>E no dia seguinte percorrem, loucos, a folha para ver negrejar no papel poderoso<br \/>\na sua celebridade.<\/p>\n<p>H\u00e1 mesmo um preso, Ant\u00f4nio F., que me entregou um artigo de<br \/>\npsicologia da imprensa. Ant\u00f4nio acha que, sendo o papel da imprensa<br \/>\neducar os povos, ensinar os homens a serem at\u00e9 bons esposos, o nosso<br \/>\njornalismo \u00e9 tudo quanto h\u00e1 de errado, de imbecil e de vazio.<br \/>\n&#8220;Nada!&#8221; brada ele; &#8220;que aproveitam \u00e0 nobreza, ou \u00e0<br \/>\nplebe, estas banalidades! Nada! Que valem, portanto? Nada!&#8230; E nada, nada<br \/>\ne nada milh\u00f5es de vezes nada repercutia o eco do Prata ao Par\u00e1,<br \/>\nse n\u00e3o corrigirem a grande for\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>A quarta id\u00e9ia, a \u00faltima, \u00e9 a id\u00e9ia fixa, a id\u00e9ia<br \/>\nconstante de todos os detentos \u2013 escapar, ficar livre, burlar a pris\u00e3o,<br \/>\napanhar novamente a liberdade. Os reincidentes conhecem as coisas do foro<br \/>\ntanto quanto com os advogados de porta de xadrez: sabem chicanas, artigos<br \/>\ndo c\u00f3digo, contam os dias de pris\u00e3o, fazem peti\u00e7\u00f5es<br \/>\nde habeas-corpus, assinam declara\u00e7\u00f5es de inoc\u00eancia de<br \/>\noutros, para que outros assinem declara\u00e7\u00f5es id\u00eanticas,<br \/>\nvivem numa tens\u00e3o nervosa extraordin\u00e1ria. A religi\u00e3o,<br \/>\nque lhes d\u00e1 a esperan\u00e7a, o jornal, que lhes lembra a rua, acendem<br \/>\na labareda desse desejo, e \u00e9 principalmente a id\u00e9ia da liberdade<br \/>\nque modifica o humor dos presos, que faz freq\u00fcentadas as solit\u00e1rias,<br \/>\nque os torna ora alegres, de uma extrema bondade, ora agitados e terrivelmente<br \/>\nmaus.<\/p>\n<p>Esses quatro ideais da generalidade dos presos fizeram-me pensar num pa\u00eds<br \/>\ndirigido por eles. Um rei perp\u00e9tuo governaria os vassalos, por vontade<br \/>\nde Deus. Os vassalos teriam a liberdade de cometer todos os desatinos, confiantes<br \/>\nna prote\u00e7\u00e3o divina, e a imprensa continuaria impass\u00edvel<br \/>\nno seu louv\u00e1vel papel de fazer celebridades. Seria muito interessante?<br \/>\nSeria quase a mesma coisa que os governos normais \u2013 apenas com diferen\u00e7a<br \/>\nda pol\u00edcia na cadeia, como medida de precau\u00e7\u00e3o. Tanto<br \/>\nas id\u00e9ias do povo s\u00e3o id\u00eanticas, quer seja ele criminoso<br \/>\nquer seja honesto!<\/p>\n<h4><a name=\"26\"><\/a>Mulheres Detentas<\/h4>\n<p>Quando entramos, algumas detentas lavavam a primeira sala, sob o olhar severo<br \/>\nde um guarda.<\/p>\n<p>\u2013 Tudo limpo?<\/p>\n<p>\u2013 Saiba V. Sa que ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Pois apresse, apresse estas mulheres.<\/p>\n<p>O ch\u00e3o de pedra estava cheio de lama. A \u00e1gua suja escorria<br \/>\nda soleira da sala em dois grossos fios e as mulheres, de saia arrega\u00e7ada,<br \/>\ncom pulos estranhos, davam gritinhos estridentes. Um cheiro especial, esquisito,<br \/>\npairava naquela galeria batida de sol, em que os metais reluziam. Os guardas<br \/>\ntinham a fisionomia fechada.<\/p>\n<p>\u2013 Quantas presas?<\/p>\n<p>H\u00e1 atualmente cinq\u00fcenta e oito, divididas por tr\u00eas salas,<br \/>\numa das quais \u00e9 enfermaria. \u00c0 falta de lugares, a promiscuidade<br \/>\n\u00e9 ign\u00f3bil nesses compartimentos transformados em cub\u00edculos.<br \/>\nA maioria das detentas, mulatas ou negras, f\u00fafias da \u00faltima<br \/>\nclasse, s\u00e3o reincidentes, alco\u00f3licas e desordeiras. Olho as<br \/>\nduas salas com as portas de par em par abertas e fico aterrado. H\u00e1<br \/>\ncaras vivas de mulatinhas com olhos libidinosos dos macacos, h\u00e1 olhos<br \/>\namortecidos de bode em faces balofas de aguardente, h\u00e1 perfis esquel\u00e9ticos<br \/>\nde antigas belezas de cal\u00e7ada, sorrisos est\u00fapidos navalhando<br \/>\nbocas desdentadas, rostos brancos de medo, bei\u00e7os tr\u00eamulos, e<br \/>\nno meio dessa caricatura do abismo as cabe\u00e7as oleosas das negras, os<br \/>\nnarizes chatos, as carapinhas imundas das negras alco\u00f3licas. Alguns<br \/>\ndesses entes, lembra-me t\u00ea-los visto noutra pris\u00e3o, no p\u00e1tio<br \/>\ndos del\u00edrios, no hosp\u00edcio. \u00c9 poss\u00edvel? Haver\u00e1<br \/>\nloucas na deten\u00e7\u00e3o como h\u00e1 agitados e imbecis? O Dr.<br \/>\nAfr\u00e2nio Peixoto, o psiquiatra eminente, dissera-me uma vez, apontando<br \/>\no p\u00e1tio do hosp\u00edcio, onde, presas de agita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nas negras corriam clamando horrores aos c\u00e9us: \u2013 H\u00e1 algumas<br \/>\nque t\u00eam quatro e cinco entradas aqui. Saem, tornam a beber e voltam<br \/>\nfatalmente.<\/p>\n<p>As mulheres tinham corrido todas para os fundos das salas, casquinando risinhos<br \/>\nde medo. Naquela tropa, as alc\u00f3olicas andavam tr\u00f4pegas, erguendo<br \/>\nas saias com um ar palerma. Indiquei ao guarda uma delas.<\/p>\n<p>\u2013 Venha c\u00e1, gritou ele.<\/p>\n<p>As mulheres agitaram-se. Eu? Sou eu? Seu guarda, posso ir? O guarda tornou<br \/>\na chamar a massa abjeta e foi quase empurrada pelas outras que ela veio, meio<br \/>\nenvergonhada.<\/p>\n<p>\u2013 Quantas vezes esteve no hosp\u00edcio?<\/p>\n<p>A negra olhou para n\u00f3s. Os seus olhos amarelos, raiados de sangue,<br \/>\nabriram-se num esfor\u00e7o e ela balbuciou.<\/p>\n<p>\u2013 Duas, sim senhor.<\/p>\n<p>O \u00e1lcool ou a preparava para a t\u00edsica r\u00e1pida ou, dias<br \/>\ndepois, atiraria \u00edrremiss\u00edvelmente para o manic\u00f4mio.<\/p>\n<p>As outras criaturas, dotadas de curiosidade irresist\u00edvel, tinham-se<br \/>\naproximado das portas entre risadinhas e cochichos depravados, e eu pude assim,<br \/>\ncom calma e tranq\u00fcilidade, apreciar e interrogar todas as flores de enxurrada,<br \/>\ntodas essas venenosas parasitas do amor torpe num campo perdido do jardim<br \/>\ndo crime. Essas mulheres est\u00e3o na deten\u00e7\u00e3o por coisas<br \/>\nf\u00fateis, coisas que cometem diariamente at\u00e9 \u00e0 c\u00f3lera<br \/>\nfinal dos inspetores tolerantes ou a vingan\u00e7a de algum soldadinho apaixonado.<\/p>\n<p>S\u00e3o moradoras do morro da Favela, das ruelas pr\u00f3ximas ao quartel<br \/>\ngeneral, dos becos que des\u00e1guam no Largo da Lapa, das Ruas da Concei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nS. Jorge e N\u00fancio. Quase sempre brigavam por causa de uma &#8220;tenta\u00e7\u00e3o&#8221;<br \/>\nque tentava e pretendia satisfazer as duas. Outras atiraram-se \u00e0 cara<br \/>\ndos apaixonados num desespero de bebedeira.<\/p>\n<p>\u2013 Saiba V. Sa que da outra vez que estive aqui foi por causa do inspetor.<br \/>\nEu tinha o meu bajoujo; o bobo cheio de &#8220;fob\u00f3&#8221; estava-se<br \/>\nendireitando. Mas veio de carrinho. O diabo vingou-se!<\/p>\n<p>E logo outra, apopl\u00e9tica:<\/p>\n<p>\u2013 C\u00e1 comigo \u00e9 nove. N\u00e3o gosto de presepadas. Ele<br \/>\nera um rodelista. Quando a gente gosta de um homem, gosta mesmo, nem que bata<br \/>\no trinta e um.<\/p>\n<p>Falavam uma l\u00edngua imprevista e curiosa, cuspinhando; e olhando as<br \/>\npobres coitadas, n\u00e3o sabia eu bem se falava a mulheres velhas ou a<br \/>\nmulheres novas, de tal forma aquelas faces e aqueles corpos estavam arruinados.<br \/>\nPerguntei a uma pardinha cujos dentes eram brancos e que devia Ter sido bonita:<\/p>\n<p>\u2013 Como se chama?<\/p>\n<p>\u2013 Quantos anos tem?<\/p>\n<p>\u2013 Francisca Maria.<\/p>\n<p>\u2013 Tenho vinte.<\/p>\n<p>E estava havia cinco naquela vida de horror. E assim a Carmem da Rua Morais<br \/>\ne Vale, e assim a Carmelina com uma navalhada na face, vibrada pela rival<br \/>\nenquanto dormia, e assim a velha Rosa Maria \u00e0 espera da liberdade apenas<br \/>\npara continuar o seu fad\u00e1rio e voltar \u00e0 deten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTodas est\u00e3o tatuadas, tatuadas nos seios, ombros, tatuadas nos bra\u00e7os,<br \/>\nnas pernas, no ventre, tatuadas nas m\u00e3os, algumas at\u00e9 tatuadas<br \/>\nna testa. Esses riscos azuis e essas manchas negras d\u00e3o-lhes um aspecto<br \/>\nb\u00e1rbaro, um ar selvagem. Nenhuma decerto tem mais fam\u00edlia ou<br \/>\namizades duradouras. A tatuagem para os seus pobres cora\u00e7\u00f5es<br \/>\napodrecidos \u00e9 como a exterioriza\u00e7\u00e3o da saudade. Muitas<br \/>\nt\u00eam, entre espadas, cristos, sereias, peixes, coroas imperiais, o nome<br \/>\ndos que lhes deram o ser, o nome dos irm\u00e3os, o dos filhos perdidos<br \/>\ne dos amantes que se foram: muitas, nas horas de solid\u00e3o, t\u00eam<br \/>\nna pr\u00f3pria pele a recorda\u00e7\u00e3o da eterna dor.<\/p>\n<p>Cavalhada da lux\u00faria, correndo nos recantos da cidade ao lado da morte<br \/>\ne do assassinato, destinada aos fins tr\u00e1gicos da mis\u00e9ria, da<br \/>\ns\u00edfilis ou do ci\u00fame feroz, os seus pr\u00f3prios corpos s\u00e3o<br \/>\ncomo o perp\u00e9tuo s\u00edmbolo das suas adora\u00e7\u00f5es, os<br \/>\naltares onde se confundem todos os sentimentos. A cabocla Carmelina, uma das<br \/>\nmais tatuadas, tem de tudo no corpo e at\u00e9 as falanges formam com iniciais<br \/>\no nome do irm\u00e3o. Os bra\u00e7os, ela os dedicou ao amor. H\u00e1<br \/>\nnomes e nomes, uns por cima dos outros, alguns apenas em iniciais, outros<br \/>\npor extenso. Examinando esses dois bra\u00e7os de V\u00eanus asquerosa,<br \/>\nque com o mesmo del\u00edrio e a mesma alma apertaram na chama da paix\u00e3o<br \/>\napaixonados diversos, o guarda perguntou, como quem quer decifrar um enigma:<\/p>\n<p>\u2013 E qual destes \u00e9 querido agora?<\/p>\n<p>Carmelina esticou o bra\u00e7o esquerdo, e todos n\u00f3s lemos, enquanto<br \/>\nela sorria, o nome de Narciso, com uma cedilha de mais por baixo do c. A criatura<br \/>\namava um Narciso, e decerto naquele momento aos seus olhos surgia a imagem<br \/>\ndesse seu deus tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Eu por\u00e9m j\u00e1 me nauseara, e Ant\u00f4nio Barros, chefe dos<br \/>\nguardas, sempre sol\u00edcito, levou-me \u00e0 enfermaria, onde havia<br \/>\napenas tr\u00eas doentes \u2013a Herculana assassina, a negrinha Gabriela<br \/>\ndo Pontes e uma pequena, feia, magra, olheirenta, espapa\u00e7ada na cama<br \/>\ncomo uma das m\u00famias americanas que o museu guarda na sua se\u00e7\u00e3o<br \/>\nde etnografia. Essa criaturinha tem quinze anos e parece ter mil. \u00c9<br \/>\ndolorosamente irreal. Est\u00e1 condenada por crime de infantic\u00eddio.<br \/>\nMatou o pr\u00f3prio filho ao nascer, mas antes devia ter matado outros,<br \/>\ncomo matar\u00e1 os futuros com o seu olhar de c\u00edrio perpetuamente<br \/>\nardendo na negrid\u00e3o das olheiras. Ao v\u00ea-la, lembra-se a gente<br \/>\ndas teorias dos criminalistas passados e principalmente das id\u00e9ias<br \/>\nde Maudsley sobre o crime e a loucura.<\/p>\n<p>\u2013 Como te chamas?<\/p>\n<p>\u2013 Ol\u00edvia.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o gosta das crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Um gesto negativo de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Antes j\u00e1 procurara tomar rem\u00e9dios para abortar, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 uma pergunta sem raz\u00e3o de ser. A menina curva a cabe\u00e7a<br \/>\ne desata a chorar. Tudo quanto se lhe perguntar sobre o seu horror \u00e0<br \/>\nmaternidade, Ol\u00edvia \u00e9 incapaz de negar. N\u00e3o deve estar<br \/>\nnessa enfermaria de deten\u00e7\u00e3o, mas num dos p\u00e1tios do hosp\u00edcio.<br \/>\nE, encolhida, com os cabelos esparsos nos travesseiros, a pele ressequida<br \/>\ncomo um pergaminho muito tempo esfregado por \u00f3leos b\u00e1rbaros,<br \/>\nessa infanticida de quinze anos arreganha a face num ricto de ang\u00fastia<br \/>\ncomo um cad\u00e1ver de asteca ao ressurgir \u00e0 face da terra.<\/p>\n<p>Neste momento, por\u00e9m, houve um rebuli\u00e7o. Chegavam os presos<br \/>\nda col\u00f4nia de Dois Rios \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do chefe.<br \/>\nFora ouviam-se os rugidos de um negro abjeto, o Bronze, enleado numa camisola-de-for\u00e7a,<br \/>\nesperneando, espumando. Dois outros adolescentes bem dispostos, de chinelos<br \/>\nnovos que sorriam perfeitamente contentes com a sorte, perfilavam-se ao longe<br \/>\nentre os guardas.<\/p>\n<p>N\u00e3o tivemos tempo de chegar \u00e0 janela. Pelo corredor vinham<br \/>\nvindo tr\u00eas mulheres. Traziam toda a roupa de zuarte e um len\u00e7o<br \/>\ncobrindo o cr\u00e2nio pelado. A primeira era magra, magr\u00edssima, tossindo<br \/>\na cada instante, com as m\u00e3os em cruz sobre o peito. De vez em quando<br \/>\nparava e a sua face exprimia a horrenda e inexprim\u00edvel dor de uma agonia<br \/>\nsem fim. A segunda, apagada, com os bra\u00e7os abertos, parecia n\u00e3o<br \/>\nsentir mais as pernas. A \u00faltima, com uma face de burguesa honesta na<br \/>\nmis\u00e9ria, tinha um ventre enorme, um ventre hidr\u00f3pico, um ventre<br \/>\ncolossal. Os guardas iam-nas tocando.<\/p>\n<p>\u2013 Eia! pra diante! eia!<\/p>\n<p>As duas primeiras passaram sem ver, com o olhar insens\u00edvel. A \u00faltima<br \/>\nparou.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o posso mais. Vim para fazer opera\u00e7\u00e3o. Oh!<br \/>\no meu mart\u00edrio! De qualquer forma, sr. guarda, eu morro, mas deixe-me<br \/>\nao menos morrer quando chegar a hora definitiva.<\/p>\n<p>\u2013 Mas esta mulher \u00e9 inteligente!<\/p>\n<p>\u2013 Pois se at\u00e9 ensina a ler.<\/p>\n<p>Aproximei-me:<\/p>\n<p>\u2013 Ah! meu caro senhor, por piedade, pe\u00e7a ao ministro o meu perd\u00e3o.<br \/>\nH\u00e1 tr\u00eas anos que sofro. O \u00f3dio de um inspetor, a falta<br \/>\nde amigos e de prote\u00e7\u00e3o reduziram-me a este lament\u00e1vel<br \/>\nestado. Venho da col\u00f4nia. N\u00e3o me trataram como uma presa, trataram-me<br \/>\ncomo uma pessoa digna de piedade. E apesar disso eu estou assim. Perd\u00e3o<br \/>\npara mim!<\/p>\n<p>\u2013 E a senhora chama-se?<\/p>\n<p>\u2013 Maria Jos\u00e9 Correia. Fui professora p\u00fablica. .<\/p>\n<p>Deus misericordioso! Que fatalidade sinistra arremessara aquele pobre ente<br \/>\ninteligente, descendente de uma fam\u00edlia honesta, \u00e0 tropilha<br \/>\nde uma col\u00f4nia correcional? Que destino inclemente impele na sombra<br \/>\no homem, forma os vagalh\u00f5es da popularidade, afoga uns, atira outros<br \/>\n\u00e0s estrelas e emaranha no dissabor e na tristeza a marcha do maior<br \/>\nn\u00famero? A essa mulher bastara perder o apoio da sociedade, para acabar<br \/>\nno horizonte fechado de correcional todos os sonhos de ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntodas as id\u00e9ias felizes que os pais depositaram no seu esp\u00edrito.<br \/>\nQue lhe servia a vis\u00e3o superior do mundo na cloaca do crime e da lux\u00faria?<br \/>\nQue lhe servia ter ensinado \u00e0s crian\u00e7as o amor das coisas dignas,<br \/>\nse o seu fim era acabar no eito da col\u00f4nia, cavando a terra entre as<br \/>\ndesordeiras e as perdidas varridas da cidade?<\/p>\n<p>Tomou-se uma esp\u00e9cie de medo, de fobia neurast\u00eanica. Recuei.<\/p>\n<p>O guarda dizia:<\/p>\n<p>\u2013 Deixa de lamban\u00e7a, Maria. Todos te conhecem. Saiba V. Sa que<br \/>\n\u00e9 popular nos quiosques da Estrada de Ferro Central. Vai \u00e0s<br \/>\ncinco da manh\u00e3, e s\u00f3 deixa de beber quando os quiosques fecham.<br \/>\nAntigamente servia-se da barriga para dizer que estava gr\u00e1vida e ser<br \/>\nbem tratada na delegacia. Agora n\u00e3o h\u00e1 mais disso. \u00c9<br \/>\numa alco\u00f3lica mais malcriada que qualquer outra.<\/p>\n<p>A mulher calou-se. As outras tinham parado e de repente a t\u00edsica,<br \/>\na que tinha na face a express\u00e3o horrenda de uma agonia sem fim, caiu<br \/>\nde joelhos solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>\u2013 Se eu tivesse o meu perd\u00e3o. Nossa Senhora! n\u00e3o morreria<br \/>\naqui! Se eu tivesse o meu perd\u00e3o, eu ia morrer sossegada.<\/p>\n<p>Fora o sol enchia todo o p\u00e1tio de um esplendor de puro l\u00edquido<\/p>\n<p>A musa das ruas \u00e9 a musa que viceja nos becos e rebenta nas pra\u00e7as,<br \/>\nentre o barulho da popula\u00e7a e a \u00e2nsia de todas as nevroses, \u00e9<br \/>\na musa igualit\u00e1ria, a musa-povo, que desfaz os fatos mais graves em<br \/>\nlundus e can\u00e7onetas, \u00e9 a \u00fanica sem pretens\u00f5es<br \/>\nporque se renova como a pr\u00f3pria Vida. Se o Brasil \u00e9 a terra<br \/>\nda poesia, a sua grande cidade \u00e9 o armaz\u00e9m, o ferro-velho, a<br \/>\naduana, o belchior, o grande emp\u00f3rio das formas po\u00e9ticas. Nesta<br \/>\nCosm\u00f3polis, que \u00e9 o Rio, a poesia brota nas classes mais heterog\u00eaneas.<br \/>\nA c\u00e2mara regurgita de vates, o hosp\u00edcio tem d\u00fazias de<br \/>\nversejadores, as escolas grosas de nefelibatas, a cadeia fornadas de eleg\u00edacos.<br \/>\nOnde for o homem l\u00e1 estar\u00e1 \u00e0 sua espera, definitiva e<br \/>\nteimosa, a musa. Se tomardes um bonde modesto, encontrareis o palpite do bicho<br \/>\nem verso nas costas do recibo; se entrais nos tramways de Botafogo, o recibo<br \/>\nconvida V. Exa numa quadra a ir a Copacabana. Os caf\u00e9s s\u00e3o focos<br \/>\nde micr\u00f3bio r\u00edtmico, os blocos de folhinha, as balas de estalo,<br \/>\nas adivinha\u00e7\u00f5es dos p\u00e1ssaros s\u00e1bios, as poliant\u00e9ias,<br \/>\nesse curioso g\u00eanero de engrossamento tipogr\u00e1fico e indireto,<br \/>\nas tabuletas, os reclamos, os jornais proclamam incessantemente a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica da cidade, o an\u00f4nimo mas formid\u00e1vel anseio de<br \/>\num milh\u00e3o de almas pelo ritmo, que \u00e9 a pulsa\u00e7\u00e3o<br \/>\narterial da palavra. O verso domina, o verso rege, o verso \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda urbs, o verso est\u00e1 em toda a parte como o resultado absoluto das<br \/>\ncircunvolu\u00e7\u00f5es da cidade. E a musa urbana, a musa an\u00f4nima,<br \/>\n\u00e9 como o riso e o solu\u00e7o, a chala\u00e7a e o suspiro dos sem-nome<br \/>\ne dos humildes.<\/p>\n<p>A musa urbana! Ela \u00e9 a can\u00e7\u00e3o, come\u00e7a com os<br \/>\npovos na hist\u00f3ria, e talvez tivesse, como o homem, a sua pr\u00e9-hist\u00f3ria.<br \/>\nContar-lhe a idade \u00e9 tentar um mergulho int\u00e9rmino na cl\u00e1ssica<br \/>\nnoite dos tempos. O primeiro homem, para dar a express\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia,<br \/>\ndeu-lhe o ritmo; a primeira tribo, para exprimir os sentimentos mais complexos,<br \/>\ndescobriu a cad\u00eancia. A civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a apoteose<br \/>\ndo verso popular, porque mais nitidamente acentua a facilidade de exprimir<br \/>\nda massa ignorante. Os gregos faziam modinhas a todo o instante e a todo o<br \/>\nprop\u00f3sito, e davam para cada uma denomina\u00e7\u00e3o especial.<br \/>\nAntes de saber ler tinham o sentimento do metro po\u00e9tico, e \u00e9<br \/>\no grave Arist\u00f3teles que nos faz sentir esta ridente id\u00e9ia: can\u00e7\u00e3o<br \/>\ne lei eram uma mesma palavra entre os helenos.<\/p>\n<p>A modinha \u00e9 o instinto b\u00e1rbaro de independ\u00eancia e de<br \/>\nmaravilha no homem. Louva aos deuses, incita \u00e0 guerra, canta a mesa,<br \/>\nchora desejos de carne, e \u2013 \u00f3 coisa admir\u00e1vel! \u2013<br \/>\nfoi ela que trouxe desde Atenas para os superficiais prazeres de civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nesses sons fr\u00edvolos que nos caf\u00e9s-cantantes nos fazem tanto<br \/>\nbem, foi ela que modificou a onomatop\u00e9ia selvagem, no delicioso tralal\u00e1.<\/p>\n<p>Quando a musa an\u00f4nima inventou o tralal\u00e1, jocunda insignific\u00e2ncia,<br \/>\nmais vasta, mais profunda que um etc. na conversa de um embaixador, a musa<br \/>\nassegurara para todo o sempre a imortalidade, e v\u00e9mo-la zurzir os c\u00e9sares<br \/>\nem Roma e bajul\u00e1-los tamb\u00e9m; v\u00eamo-la em plena Idade M\u00e9dia<br \/>\nesconder-se nas pedras das catedrais e florir sob as espadas nuas dos cavaleiros;<br \/>\nv\u00eamo-la irradiar pelo universo in\u00edcio de literaturas, semente<br \/>\nde grandes id\u00e9ias, e nos tempos modernos fazer-se clava destruidora,<br \/>\nbomba revolucion\u00e1ria, impondo a f\u00f3rmula \u2013 igualdade, liberdade,<br \/>\nfraternidade.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o \u00e9 a sobreviv\u00eancia alegre de um g\u00eanero<br \/>\ncomprido e l\u00fagubre chamado poema \u00e9pico, que j\u00e1 entre<br \/>\nn\u00f3s n\u00e3o tem cultores; a musa do povo tem esse aspecto infinito<br \/>\n\u2013 \u00e9 o cont\u00ednuo ep\u00edtomeda hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Cada na\u00e7\u00e3o moderna pode esquissar s\u00e9culos da sua vida<br \/>\nmental, pol\u00edtica e art\u00edstica, apenas com uma cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nde cantigas. A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa que todos teimam em considerar<br \/>\na base do mundo come\u00e7ou por modas sat\u00edr\u00edcas contra Lu\u00eds<br \/>\nXIV, Richelieu e Mazarino, acentuou-se contra os favoritos de Lu\u00eds<br \/>\nXV, tornou-se brasa, l\u00e1tego, fogo, vergasta quando Maria Antonieta<br \/>\nenfeitara carneirinhos nos prados cuidados, explodiu em quadras e estribilhos<br \/>\nque lembram o embate de cargas de baionetas e afinal concluiu numa can\u00e7\u00e3o<br \/>\nguerreira, a Marselhesa, que n\u00e3o se ouve sem se sentir a irresist\u00edvel<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o do triunfo, da vit\u00f3ria, da apoteose.<\/p>\n<p>As artes s\u00e3o por excel\u00eancia ci\u00eancias de luxo. A modinha,<br \/>\na can\u00e7oneta, o verso cantado n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 arte pela sua natureza an\u00f4nima, defeituosa e manca: \u00e9<br \/>\ncomo a voz da cidade, como a express\u00e3o de justiceira de uma entidade<br \/>\na que emprestamos a nossa vida \u2013 colossal agrupamento, a formid\u00e1vel<br \/>\naglomera\u00e7\u00e3o, a urbs, \u00e9 uma necessidade de alma urbana<br \/>\ne espont\u00e2nea vibra\u00e7\u00e3o da cal\u00e7ada. Se quiserdes<br \/>\nsaber o que pensou o boulevard durante vinte anos, comprai esses papeluchos<br \/>\nde um sou que os camelots vendem. H\u00e1 desde a hist\u00f3ria do Panam\u00e1<br \/>\n\u00e0 quest\u00e3o dos cultos, desde a ren\u00fancia de Perier at\u00e9<br \/>\na condena\u00e7\u00e3o de Sarah Bernhardt.<\/p>\n<p>E se os gregos asseguravam que a poesia \u00e9 um del\u00edrio inspirado<br \/>\npelas musas \u00e0s almas simples e virgens, se o Evangelho afirma pretender<br \/>\no c\u00e9u \u00e0s crian\u00e7as e aos que lhes parecem \u2013 por<br \/>\nque teimaremos n\u00f3s em dizer que a poesia preferiu o nosso c\u00e9rebro<br \/>\nensanduichado em literaturas estrangeiras \u00e0 alma simples do povo ignorante?<br \/>\nOs poetas da cal\u00e7ada s\u00e3o as flores de todo o ano da cidade,<br \/>\ns\u00e3o a sua gra\u00e7a an\u00f4nima, a sua coquetterie, a sua vaidade<br \/>\nan\u00f4nima e sua sagra\u00e7\u00e3o \u2013 porque afinal o pr\u00f3prio<br \/>\nPlat\u00e3o, que julgava Homero um envenenador p\u00fablico, considerava<br \/>\no poeta um ser leve, alado e sagrado.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente assim a nossa musa urbana. Disp\u00e9pticos intelectuais,<br \/>\nv\u00eamo-la tristemente \u00e0 margem da poesia. Que idade tem ela? Tem<br \/>\ns\u00e9culos e parece nascida ontem, passou por todas as vicissitudes e<br \/>\nchalra como uma crian\u00e7a. Conhecem-lhe a origem? Pois decerto.<\/p>\n<p>A musa renovou aqui o s\u00edmbolo do filho pr\u00f3digo. Teve pais not\u00e1veis,<br \/>\nprinc\u00edpios s\u00e9rios, e viveu no pal\u00e1cio dos reis, freq\u00fcentou<br \/>\nos g\u00eanios e os sal\u00f5es fidalgos. Mas um belo dia, sem dizer \u00e1gua-vai,<br \/>\nfoi-se, degenerou, pintou o sete, embebedou-se, vive pelas alfurjas e chombergas,<br \/>\nafina o viol\u00e3o em s\u00edtios escusos, e \u2013 \u00f3 acontecimento!<br \/>\n\u2013 est\u00e1 forte, est\u00e1 sacudida, \u00e9 a \u00fanica musa<br \/>\nque n\u00e3o tem cefal\u00e9ias e n\u00e3o sofre de artritismo. Quem<br \/>\na criou? Greg\u00f3rio de Matos ao norte fez o lundu; S. Paulo ao sul o<br \/>\nviradinho. A fus\u00e3o dos dois \u00e9 a alma do Brasil. Logo que a teve<br \/>\nassim com todos seus encantos, Caldas Barbosa, mulato arcadiano, levou-a para<br \/>\nPortugal.<\/p>\n<p>A modinha entrou no pa\u00e7o dos reis, ensandeceu os peraltas e as s\u00e9cias<br \/>\nda decad\u00eancia rocalhante do XIX s\u00e9culo lusitano. As damas fechavam-se<br \/>\nnos quartos e respiravam as endechas com o prazer de uma a\u00e7\u00e3o<br \/>\ncapitosa; os homens eram convidados para tais atos como hoje se convida para<br \/>\nos five o\u2019c\/ock onde h\u00e1 flirt. O versinho ing\u00eanuo e babado<br \/>\ndelirava os baldaquins de trono real e a gracilidade das grandes damas. E<br \/>\ncomo resistir? Como lhe poderiam resistir meridionais da terra do fado? A<br \/>\nModinha era o solu\u00e7o, era o gemido, era o riso, era o suspiro ardente<br \/>\nda selva ardente. Nem Lord Beckford, um ingl\u00eas frio e fatalmente de<br \/>\ngelo, como todos os ingleses, pode resistir, e esquenta e derrete. \u00c9<br \/>\ndele a mais fogosa descri\u00e7\u00e3o de machucado da nossa can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;Quem nunca ouviu&#8221;, diz, &#8220;este original g\u00eanero de m\u00fasica,<br \/>\nignorar\u00e1 para sempre as mais feiticeiras melodias que t\u00eam existido<br \/>\ndesde o tempo dos sibaritas. Consistem em l\u00e2nguidos e interrompidos<br \/>\ncompassos, como se faltasse o f\u00f4lego por excesso de enlevo e a alma<br \/>\nanelasse se unir a outra alma id\u00eantica de algum objeto querido.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Uma ou duas horas correram quase \u00edmperceptivelmente no deleitoso<br \/>\ndel\u00edrio que aquelas notas de sereia inspiravam, e n\u00e3o foi sem<br \/>\nm\u00e1goa que eu vi a companhia dispersa e o encanto desfeito.&#8221;<\/p>\n<p>Depois os poetas que sabiam ler continuaram a dar o seu prest\u00edgio<br \/>\n\u00e0s sibar\u00edticas melodias que punham Lord Beckford em del\u00edrio<br \/>\ne em deleite, e n\u00f3s vemos toda a escola rom\u00e2ntica tomar inconscientemente<br \/>\nna maioria dos seus versos a fei\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica, o metro<br \/>\nmodinheiro; vemos aquele pern\u00f3stico elegante, o Magalh\u00e3es dos<br \/>\nSuspiros Po\u00e9ticos, escrever em Roma versos que est\u00e3o pedindo<br \/>\ncavaquinho, gaforinha e unha grande; vemos Castro Alves criar para esse g\u00eanero<br \/>\ncan\u00e7\u00f5es de uma frescura eterna como a Tirana:<\/p>\n<p>Minha Maria \u00e9 bonita<br \/>\nT\u00e3o bonita assim n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nO beija-flor quando passa<br \/>\nJulga ver o manac\u00e1<br \/>\nMinha Maria \u00e9 morena<br \/>\nComo as tardes de ver\u00e3o<br \/>\nTem as tran\u00e7as da palmeira<br \/>\nQuando sopra a vira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E Casimiro de Abreu e Gon\u00e7alves Dias e Bittencourt da Silva, Ezequiel,<br \/>\nMelo Morais, a leva dos ex-acad\u00eamicos atuais conselheiros, e esse estranho<br \/>\n\u00c1lvares de Azevedo, o \u00fanico genial do bando rom\u00e2ntico,<br \/>\no \u00fanico predestinado como os grandes vates, o \u00fanico que no choro<br \/>\nde praxe desamargurados de estilo tinha o solu\u00e7o presciente de uma<br \/>\ntumba a abrir-se, o \u00fanico que conservava no torvelinho das paix\u00f5es<br \/>\numa alma de rosa cujo perfume desejava o c\u00e9u, o \u00fanico que hoje,<br \/>\namanh\u00e3, ningu\u00e9m ler\u00e1 sem sentir o solu\u00e7o, o travo<br \/>\nda morte, o ai! das agonias e a tristeza que nos causa o desaparecer de um<br \/>\nastro, o murchar de uma flor, o tombar de um p\u00e1ssaro cujo breve cantar<br \/>\nn\u00e3o passou de uma alegria em torno do pr\u00f3prio ninho&#8230;<\/p>\n<p>Ainda um instante, ligando \u00e0 sua dualidade, arma de dois gumes, s\u00e1tira<br \/>\ne lirismo, a musa foi a senhora capaz de entrar num sal\u00e3o e se conservar<br \/>\nnum ambiente respeit\u00e1vel. A sua paix\u00e3o por\u00e9m levou-a<br \/>\na acompanhar Laurindo Rabelo a maus lugares, o Laurindo cigano dos repentes,<br \/>\ncantador em\u00e9rito, de quem se tem dito tanto mal, tanto bem e tanta<br \/>\nmentira. E de repente quando se falou num sal\u00e3o de modinhas, as damas<br \/>\ncoraram e os de fam\u00edlia mudaram de conversa, arredando esse assunto<br \/>\nfescenino, imoral, prejudicial \u00e0 pureza do lar. A modinha dera na gandaia,<br \/>\na modinha era vagabunda, a modinha descera \u00e0 ral\u00e9, integralmente<br \/>\nan\u00f4nima, desprezada. Melo Morais empresta a sua companhia de homem s\u00e9rio<br \/>\na tamanha bambochata, precipita-se nas vielas e bodegas para apanhar a hist\u00f3ria<br \/>\ndos mais c\u00e9lebres e mais not\u00e1veis poetas, que ningu\u00e9m<br \/>\nconhece, e traz-nos naquele seu estilo, t\u00e3o seu, t\u00e3o complexo,<br \/>\nt\u00e3o bizarro, esses curiosos per\u00edodos:<\/p>\n<p>&#8220;No Olimpo das serenatas do tempo, percebemos neste momento desfilar<br \/>\nespectralmente, orvalhados dos relentos daquelas noites, vultos de transcendente<br \/>\nnomeada, excelentes rapazes que passaram neste mundo para deixar lampejos<br \/>\nfugazes e duradouras recorda\u00e7\u00f5es. E foram eles pelo crisma popular<br \/>\nconhecidos por Zuzu Cavaquinho, Lulu do Saco, Manezinho da Cadeia Nova ou<br \/>\nManezinho da Guitarra, Z\u00e9 Menino, Vieira Barbeiro, ainda o Caladinho,<br \/>\no ln\u00e1cio Ferreira, o Clementino Lisboa, o Rangel, o Saturnino, o Luisinho,<br \/>\nDomingos dos Reis, que l\u00e1 desceram para os t\u00famulos, que ora<br \/>\nvolteio, agitando os ciprestes que os resguardam sob o c\u00e9u sem eco<br \/>\ndas necr\u00f3poles.&#8221;<\/p>\n<p>A modinha tinha por cultores o Manezinho do Saco e o Zuzu Cavaquinho. Pobre<br \/>\nmodinha!<\/p>\n<p>Hoje, vinte ou trinta anos depois, \u00e9 ainda mais abundante, mais popular<br \/>\ne mais estranha ao nosso paladar de est\u00e9tica elevada. Cada can\u00e7oneta<br \/>\ntem uma por\u00e7\u00e3o de pais. A musa urbana, a musa das ruas, que<br \/>\nri dos grandes fatos e canta os seus amores pelas esquinas, nas noites de<br \/>\nluar, a musa \u00e9 a de todo um milh\u00e3o de indiv\u00edduos. Nessas<br \/>\nquadras mancas vivem o patriotismo, a f\u00e9, a pilh\u00e9ria e o desejo<br \/>\nda popula\u00e7a, desses versos falhos faz-se a sinfonia da cidade, proteiforme<br \/>\ne sentimental. A modinha e a can\u00e7oneta nascem de um balan\u00e7o<br \/>\nde rede, de uma not\u00edcia de jornal, de fato do dia \u2013 assunto geral<br \/>\n\u2013, do namoro e da noite \u2013 assunto particular. Se em Paris \u00e9<br \/>\na raps\u00f3dia da mis\u00e9ria e a vergasta ir\u00f4nica, no Rio \u00e9<br \/>\na hist\u00f3ria viva do carioca, a evoluir na cal\u00e7ada, rom\u00e2ntico,<br \/>\ngozador e peralta. A gargalhada da rua faz-se de uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde risos, o solu\u00e7o da paix\u00e3o de muitos solu\u00e7os \u2013<br \/>\na musa \u00e9 policroma, reflete a popula\u00e7\u00e3o confusa e bab\u00e9lica<br \/>\ntal qual ela \u00e9. J\u00e1 se n\u00e3o encontram modinhas com a beleza<br \/>\nde forma do Talvez n\u00e3o creias.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o creias que por ti sou louco<br \/>\nTens feito pouco porque tu \u00e9s m\u00e1<br \/>\nTalvez duvides, mas, donzela, eu juro<br \/>\nQue amor t\u00e3o puro como o meu n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>Ou com a gra\u00e7a meio infantil no Tipe-ti:<\/p>\n<p>Cora\u00e7\u00e3o, que tens com L\u00edlia?<br \/>\nDesde que seus olhos vi<br \/>\nPulas e bates no peito<br \/>\nTape, tepi, tipi, ti<br \/>\nCora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o gostes dela<br \/>\nQue ela n\u00e3o gosta de ti.<\/p>\n<p>Os grandes poetas n\u00e3o fazem mais versos para toda gente \u2013 o<br \/>\nn\u00edvel intelectual da classe m\u00e9dia subiu assim como a propor\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeom\u00e9trica da sua pretens\u00e3o, e os vates s\u00e3o parnasianos,<br \/>\ns\u00e3o simbolistas, procuram a forma sens\u00edvel e a ess\u00eancia<br \/>\noculta.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o brotam na cal\u00e7ada, como cogumelos, os<br \/>\nbardos ocasionais da s\u00e1tira e da paix\u00e3o; e, varejando botequins<br \/>\ne ruelas de Suburra outros Zuzus vamos encontrar em pleno triunfo. Esses vates<br \/>\nt\u00eam uma s\u00f3 preocupa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria \u2013 cantar.<br \/>\nCantam como as cigarras e o canto d\u00e1-lhes para viver no eterno ver\u00e3o<br \/>\ndesta terra abundante. Quando n\u00e3o h\u00e1 dinheiro, inventam para<br \/>\numa certa m\u00fasica conhecida os versos do Ferramenta ou Sobe ou Arrebenta,<br \/>\nO Roca da Rua da Carioca, a cantiga Ah! se Fosses Minha, mandam imprimir e<br \/>\nvendem tudo por dois tost\u00f5es. Admiram-se que eles imprimam e, o que<br \/>\n\u00e9 mais, esgotem edi\u00e7\u00f5es, milheiros e milheiros de exemplares?<br \/>\nPois imprimem como qualquer poeta. Apenas eles vendem, e a maioria dos poetas<br \/>\noferece gr\u00e1tis aos amigos&#8230;<\/p>\n<p>Mas os poetas da cal\u00e7ada n\u00e3o imprimem e vendem s\u00f3. O<br \/>\nesp\u00edrito pr\u00e1tico \u00e9, evidentemente, um progresso. Eles,<br \/>\nentretanto, progrediram mais. H\u00e1 trinta anos o bardo tinha uma gaforinha<br \/>\noleada e uma unha \u2013 desapareceram. Ao come\u00e7o, logo que a musa<br \/>\ncaiu na popula\u00e7a, resolvida a n\u00e3o voltar jamais aos sal\u00f5es,<br \/>\nos versos \u00e0 margem da poesia eram ainda uma qualidade especial de certo<br \/>\ngrupo limitado. Hoje a musa \u00e9 de todo o g\u00eanero, o bardo deixou<br \/>\nde ser um tipo porque todos cantam, e a sua hist\u00f3ria, que ningu\u00e9m<br \/>\nquer saber, \u00e9 um conjunto de elementos para a an\u00e1lise da vida<br \/>\nurbana.<\/p>\n<p>A musa tem preferidos e tem estetas, tem cr\u00edticos. Como chovesse muito<br \/>\num dia, acolheu-se a um desv\u00e3o de porta. Dentro bebiam. Para beber<br \/>\ntamb\u00e9m, ela cantou, e criou-se o cabaret nacional, esses estabelecimentos<br \/>\nin\u00e9ditos chamados chopps. Quando o chopp percebeu que perdia a gra\u00e7a<br \/>\nsem ela, a musa da cal\u00e7ada tinha invertido o seu sistema rom\u00e2ntico.<br \/>\nOutrora ela bebia para cantar. Agora canta para beber. A ind\u00fastria,<br \/>\no interesse, o lucro, o lucro, essa miragem que tanto faz progredir os povos<br \/>\ncomo as literaturas, propagou-a, espalhou-a, tornou-a torrencial. A musa delira<br \/>\nhoje numa p\u00e2ndega infrene, de bodega em bodega, de chopp em chopp, de<br \/>\ntablado em tablado. Nesse turbilh\u00e3o de bardos e de cantares surgiam<br \/>\nalguns mais dados \u00e0 evid\u00eancia \u2013 o Geraldo, o Eduardo das<br \/>\nNeves, o esteta Catulo da Paix\u00e3o Cearense! O Geraldo deitou eleg\u00e2ncia<br \/>\ne botinas de polimento; o Eduardo das Neves tinha bombeiro, antes de ser not\u00e1vel.<br \/>\nQuando foi n\u00famero de music-hall, perdeu a tramontana e andava de smoking<br \/>\nazul e chap\u00e9u de seda. A sua fantasia foi mais longe: chegou a publicar<br \/>\num livro intitulado Trovador da Malandragem, e esse Trovador tem um pref\u00e1cio<br \/>\ncheio de c\u00f3lera contra pessoas que duvidam da autoria das suas obras.<\/p>\n<p>&#8220;Por que duvidais, diz ele, isto \u00e9, n\u00e3o acreditais quando<br \/>\naparece qualquer choro, qualquer composi\u00e7\u00e3o minha que cai no<br \/>\ngoto do p\u00fablico e \u00e9 decorada, por toda a gente e em toda a parte,<br \/>\ndesde nobres sal\u00f5es at\u00e9 pelas esquinas nas horas mortas da noite?&#8221;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ouviu os choros do Sr. Eduardo nos sal\u00f5es fidalgos<br \/>\nmas o Sr. Eduardo tem essa convic\u00e7\u00e3o definitiva, al\u00e9m<br \/>\nde muitas outras. Depois de cantar algumas intimidades da sua vida, chegou<br \/>\nmesmo, num lundu intitulado O crioulo, a desvendar o mist\u00e9rio de uma<br \/>\nsenhora loucamente apaixonada pela sua voz. No final do neg\u00f3cio a dama<br \/>\nmurmura:<\/p>\n<p>Diga-me ao menos<br \/>\nComo se chama<\/p>\n<p>E ele, complacente:<\/p>\n<p>Sou o crioulo<br \/>\nDudu das Neves<\/p>\n<p>Dudu, entretanto canta apenas as suas obras. H\u00e1 um outro sujeito,<br \/>\nchamado Baiano, que sabe de cor mais de mil modinhas, e para o qual trabalham<br \/>\na oito mil r\u00e9is por n\u00famero, meia d\u00fazia de poetas que<br \/>\nnunca sa\u00edram nos suplementos dominicais dos jornais. E se baiano tem<br \/>\nessa prodigiosa mem\u00f3ria, o Sr. Catulo, \u00faltimo trovador velho-g\u00eanero,<br \/>\n\u00e9 o esteta da trova popular. V\u00ea-lo recitar O Poeta e a Fidalga,<br \/>\ncom um copo de chopp na m\u00e3o, \u00e9 um desses espet\u00e1culos<br \/>\nde brasserie inesquec\u00edvel. Catulo emaranhou-se no dogma da moda, corrigiu<br \/>\nos versos de tudo quanto era quadra, estudou Bellini, Donnizetti, Verdi, adaptou<br \/>\nos nossos versos a trechos de \u00f3peras e, finalmente, comp\u00f4s tradu\u00e7\u00f5es<br \/>\nlivres de Leconte de Lisle para serem recitadas ao piano! H\u00e1 no pref\u00e1cio<br \/>\nda Lira dos Sal\u00f5es, o livro em que se encontra Leconte no pelourinho<br \/>\ndo recitativo, a est\u00e9tica fundamental da modinha:<\/p>\n<p>&#8220;Julgo dif\u00edcil, diz ele, e escabroso o trabalho de escrever poesias<br \/>\npara adaptar a m\u00fasicas que j\u00e1 preexistem de h\u00e1 muito,<br \/>\ne com extrema raz\u00e3o quando essas composi\u00e7\u00f5es musicais<br \/>\nforam escritas por quem nunca presumiu que elas fossem sacrificadas, isto<br \/>\n\u00e9, cantadas com letras.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Canto valsas, schottischs, mazurcas, polcas, romances, \u00e1rias<br \/>\nde \u00f3peras, e j\u00e1 cheguei ao esquisitismo de cantar at\u00e9<br \/>\numa quadrilha inteira.&#8221;<\/p>\n<p>E mais adiante, no mesmo tom, depois dessa coisa espantosa e pern\u00f3stica:<\/p>\n<p>&#8220;V\u00f3s me pedis, suponde, que eu fa\u00e7a a poesia para certa<br \/>\nm\u00fasica. Crede que eu, imediatamente, sem mais reflex\u00e3o, empunhe<br \/>\na pluma e a vaze no papel? N\u00e3o. H\u00e1 algumas dessas m\u00fasicas<br \/>\nque me fazem levar horas inteiras a interpretar-lhes os sentimentos, os queixumes,<br \/>\nas m\u00e1goas de que sofrem os seus autores.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Leitor! ascende a tal culmin\u00e2ncia o orgulho que tenho de saber<br \/>\npoetar para o canto que, sem acanhamento, teria o desaforo de vos dizer que<br \/>\no dia em que um competente me dissesse: esta ou aquela frase n\u00e3o foi<br \/>\nbem adaptada, n\u00e3o diz o que diz a m\u00fasica, est\u00e1 incolor,<br \/>\nesse dia seria o \u00faltimo da minha vida, porque ou suicidar-me-ia ou<br \/>\nsucumbiria de pesar por ver aquele meu orgulho destronado.&#8221;<\/p>\n<p>Catulo, hiperestesia da musa urbana, \u00e9, apesar de tanta trapalhada,<br \/>\ncapaz de fazer c\u00e9lebres v\u00e1rios poetas, quase desconhecido e<br \/>\nvive \u00e0 margem da poesia, poeta da musa an\u00f4nima, poeta da cal\u00e7ada&#8230;<\/p>\n<p>Porque a musa n\u00e3o se rala com a interpreta\u00e7\u00e3o de partituras.<\/p>\n<p>Basta-lhe o fato, o sucesso do dia, tr\u00eas gotas de paix\u00e3o e um<br \/>\nviol\u00e3o. Vibra acordes patri\u00f3ticos, a d\u00favida, o desejo,<br \/>\ne \u00e9 o necess\u00e1rio para ser compreendida.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica principal dos poetas da cal\u00e7ada \u00e9 o<br \/>\npatriotismo, mas um patriotismo muito diverso do nosso e mesmo do da popula\u00e7a<br \/>\n\u2013\u00e9 o amor da p\u00e1tria escoimado de \u00f3dios, o amor<br \/>\njacobino, o amor esterilizado para os de casa e virulento para os de fora.<br \/>\nO homem do povo \u00e9 no Brasil discursadoramente patriota. A sua quest\u00e3o<br \/>\nprincipal \u00e9 o Brasil melhor do que qualquer outro pa\u00eds. O sucesso<br \/>\ne a popularidade de Santos Dumont s\u00e3o devidos menos aos seus trabalhos<br \/>\nde avia\u00e7\u00e3o que ao ter causado a admira\u00e7\u00e2o de Paris.<br \/>\nPara o patriota ele n\u00e3o se fez admirado \u2013 dominou. A popular\u00edssima<br \/>\ncan\u00e7oneta do Beranger das Neves \u00e9 um atestado:<\/p>\n<p>A Europa curvou-se ante o Brasil<br \/>\nE aclamou parab\u00e9ns em meigo tom<br \/>\nBrilhou l\u00e1 no c\u00e9u mais uma estrela<br \/>\nApareceu Santos Dumont.<\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos duas tolices em tal moxinifada. O music hall ficava,<br \/>\nentretanto, apinhado de jovens soldados, de marinheiros, de mocinhos patriotas;<br \/>\ne eu hei de lembrar sempre certa vez em que, passando pelo caf\u00e9-cantante,<br \/>\nouvi o barulho da apoteose e entrei. Estava o Dudu das Neves, suado, com a<br \/>\ncara de piche a evidenciar trinta e dois dentes de uma alvura admir\u00e1vel,<br \/>\nno meio do palco e em todas as outras depend\u00eancias do teatros a turba<br \/>\naclamava. O negro j\u00e1 estava sem voz.<\/p>\n<p>Assinalou para sempre o s\u00e9culo vinte<br \/>\nO her\u00f3i que assombrou o mundo inteiro<br \/>\nMais alto que as nuvens, quase Deus<br \/>\n\u00c9 Santos Dumont um brasileiro<\/p>\n<p>E ap\u00f3s essa rajada de hip\u00e9rboles ao Dumont que todos n\u00f3s<br \/>\nconhecemos, sportman, elegante, acionista da Mogiana, bem homem da sua \u00e9poca,<br \/>\neu vi no estridor das aclama\u00e7\u00f5es Fausto Cardoso, poeta, pol\u00edtico,<br \/>\npatriota, agitar freneticamente um len\u00e7o, p\u00e1lido de emo\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nEra a vit\u00f3ria da cal\u00e7ada, era a poesia alma de todos n\u00f3s,<br \/>\nera o sentimento que brota entre os paralelep\u00edpedos com a seiva e a<br \/>\nvida da p\u00e1tria. Esse patriotismo \u00e9 a nota persistente dos poetas<br \/>\nsem nome, patriotismo que quer dominar o estrangeiro e jamais exibe, como<br \/>\nexibem os jornalistas, a inf\u00e2mia dos pol\u00edticos e as fraquezas<br \/>\ndos partidos. A musa urbana enaltece sempre os seus homens e quando odeia<br \/>\noculta o \u00f3dio para n\u00e3o o mostrar aos de fora. Todos os epis\u00f3dios<br \/>\nda revolta foram postos em verso. Floriano tem entre outras aquela quadra:<\/p>\n<p>Quando ele apareceu, altivo e sobranceiro<br \/>\nValente como as armas, beijando o pavilh\u00e3o<br \/>\nA p\u00e1tria suspirou dizendo: ele \u00e9 o guerreiro<br \/>\n\u00c9 marechal de ferro, escudo da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 de imaginar por a\u00ed que a p\u00e1tria suspirosa tinha medo<br \/>\ndas granadas e odiava Saldanha? Pois n\u00e3o! Saldanha tamb\u00e9m tem<br \/>\nquadras em que se canta o seu valor \u00e9pico. Na guerra de Canudos os<br \/>\ngarotos diziam a prop\u00f3sito do Conselheiro<\/p>\n<p>Quem ser\u00e1 esse selvagem<br \/>\nEsse vulgo santarr\u00e3o<br \/>\nQue encoberto de coragem<br \/>\nFere luta no sert\u00e3o?<\/p>\n<p>para cantar em estilo majest\u00e1tico a morte de Moreira C\u00e9sar.<br \/>\nA musa tem dignidade \u2013 a quantos jornais ensinaria ela! Basta que o<br \/>\nsangue apare\u00e7a para que a vejamos solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>5 de novembro<br \/>\nData fatal<br \/>\nEm que deu-se a morte<br \/>\nDesse marechal&#8230;<\/p>\n<p>Basta que algu\u00e9m suba para que ela aplauda. Por qu\u00ea? Porque,<br \/>\nal\u00e9m de chorosa, al\u00e9m de digna, ela tamb\u00e9m recebeu o<br \/>\nv\u00edrus que corrompe as camadas superiores, o v\u00edrus do engrossamento.<br \/>\nApenas nela \u00e9 espont\u00e2neo e sem lucro. \u00c9 o patriotismo<br \/>\nbizarro.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia pro\u00edbe as agress\u00f5es \u00e0s autoridades.<br \/>\nFurcy seria um mito na Maison Moderne, imposs\u00edvel em qualquer brasserie.<\/p>\n<p>O povo, por\u00e9m, que, como se sabe, \u00e9 sempre oposicionista, decorou<br \/>\na can\u00e7\u00e3o dos presidentes:<\/p>\n<p>1\u00ba de mar\u00e7o<br \/>\nFoi o dia da elei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nFoi eleito o Campos Sales<br \/>\nPresidente da na\u00e7\u00e3o.<br \/>\nParab\u00e9ns ao novo chefe,<br \/>\nSeus passos ser\u00e3o leais,<br \/>\nComo foram os do nosso<br \/>\nBom Prudente de Morais.<\/p>\n<p>Era bom Floriano, era bom Prudente, foi bom Campos Sales, s\u00e3o bons<br \/>\nRodrigues Alves e j\u00e1 o conselheiro Afonso Pena! Um outro versinho diz:<\/p>\n<p>Mostrou que o Brasil n\u00e3o dorme<br \/>\nDa presid\u00eancia o bom paulista<br \/>\nE se quer que o mineiro informe<br \/>\nCom ele \u00e9 tudo fogo, ling\u00fci\u00e7a!<\/p>\n<p>A musa acaba at\u00e9 com a m\u00e1 fama antiga, e se n\u00e3o faz<br \/>\nversos diz verdades. Qual de v\u00f3s teria a coragem de conservar quand<br \/>\nm\u00eame essa atitude de bondade para com todos os pol\u00edticos? Esse<br \/>\nesquisito sentimento dos poetas da cal\u00e7ada tem uma seq\u00fc\u00eancia<br \/>\nl\u00f3gica \u2013 o jacobinismo p\u00e2ndego, a cr\u00edtica acerba,<br \/>\ntoda de alto, com desprezo das coisas estrangeiras. A guerra hispano-americana<br \/>\nfoi motivo de um milheiro de can\u00e7onetas. Todas afinam por este diapas\u00e3o:<\/p>\n<p>La Union Espa\u00f1ola<br \/>\nLembrou-se de oferecer<br \/>\nPassagens a seus s\u00faditos<br \/>\nPara a p\u00e1tria defender.<br \/>\nMas eles, que nem l\u00e1 v\u00e3o,<br \/>\nPassam c\u00e1 vida folgada<br \/>\nQuase todos pelotaris<br \/>\nNos boliches, nas touradas.<\/p>\n<p>Quando por acaso o capad\u00f3cio ama uma estrangeira, confessa, mas arreliando<br \/>\no seu bem:<\/p>\n<p>Tomei amores com uma argentina<br \/>\nOutro melhor jamais vi no mundo<br \/>\n\u00c9 terno, gringo, profundo<br \/>\n\u00c9 tamb\u00e9m das mais sensuais.<\/p>\n<p>E a volubilidade, a despreocupa\u00e7\u00e3o, a ironia complacente do<br \/>\nmalandro nacional exterioriza-se nas can\u00e7\u00f5es resultantes de<br \/>\ngrandes agita\u00e7\u00f5es como as causadas pela lei do selo, a reforma<br \/>\nda higiene, a vacina obrigat\u00f3ria. A musa n\u00e3o se encoleriza,<br \/>\nri. O selo s\u00f3 fez compreender ao malandro que os fornecedores podiam<br \/>\nser multados:<\/p>\n<p>Sapateiro j\u00e1 n\u00e3o pode<br \/>\nBater sola sossegado<br \/>\nSe n\u00e3o selar as botinas.<br \/>\nCatrapuz! est\u00e1 multado.<\/p>\n<p>Uma das can\u00e7\u00f5es mais populares sobre a peste bub\u00f4nica<br \/>\ntem este estribilho:<\/p>\n<p>Os ratos fazem qui, qui, qui,<br \/>\nQui, qui, qui, qui, qui<br \/>\nAs pulgas pulam daqui<br \/>\nPra ali, dali praqui, daqui prali<br \/>\nOs gatos fazem miau<br \/>\nMiau, miau, miau<br \/>\nQuem inventou a peste bub\u00f4nica<br \/>\nMerece muito pau.<\/p>\n<p>E a vacina obrigat\u00f3ria, que quase apeia o governo do conselheiro Alves,<br \/>\ndeu uma infinita s\u00e9rie de quadras livres. Patriota, jacobino, p\u00e2ndego,<br \/>\no atual bardo da cal\u00e7ada gosta exatamente dessas tolices fesceninas<br \/>\n\u2013 \u00e9 a tara da modinha desde Greg\u00f3rio de Matos \u2013<br \/>\ngosta mesmo de rimar sandices, assim como se v\u00ea, abandonado \u00e0<br \/>\nmargem da poesia, mas todos esses sentimentos se fundem na sua extrema liberdade,<br \/>\ne o bardo abre o cora\u00e7\u00e3o como uma represa de lirismo.<\/p>\n<p>Oh! o lirismo das modinhas! Como \u00e9 poss\u00edvel na mis\u00e9ria<br \/>\nda urbs, no p\u00f3, na secura, na sujeira das vielas s\u00f3rdidas, nas<br \/>\nescuras alcovas das hospedarias reles, vibrar tamanha luz de poesia?<\/p>\n<p>O lirismo \u00e9 uma torrente, uma catadupa a escachoar espumante entre<br \/>\nas id\u00e9ias dos bardos. Todos os estilos da veia l\u00edrica do povo<br \/>\nsolu\u00e7am e choram nas cal\u00e7adas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel<br \/>\ndeixar de sentir uma infinita amargura, quando nos becos s\u00f3rdidos,<br \/>\n\u00e0 porta de miser\u00e1veis casas, os soldados consentem que os trovadores<br \/>\ncantem, loucos de amor, a pureza da mulher transviada.<\/p>\n<p>Virgem casta eu j\u00e1 fui como tu<br \/>\nJ\u00e1 vivi como os anjos no c\u00e9u<br \/>\nEsta fronte que v\u00eas humilhada<br \/>\nFoi coberta de c\u00e2ndido v\u00e9u.<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia l\u00edrica e adquirida, id\u00e9ia datando dos conselheiros<br \/>\nrom\u00e2nticos e da Dama das Cam\u00e9lias, n\u00e3o desaparece nunca<br \/>\n\u2013 \u00e9 a roca em que a musa fia o sentimento nas ruas. A\u00ed<br \/>\nos modinheiros perdem-se num estu\u00e1rio de amor. Tudo \u00e9 paix\u00e3o.<br \/>\nH\u00e1 o amor tr\u00e1gico:<\/p>\n<p>\u00c9 meia-noite; o triste bronze chora<br \/>\nA lua oculta numa nuvem escura.<br \/>\nCalou-se a flauta numa longa queixa<br \/>\nO pobre louco morreu de amargura!<\/p>\n<p>o ir\u00f4nico:<\/p>\n<p>Zombaste, mulher com riso de esc\u00e1rnio<br \/>\nDe pobre artista todo fogo e ardor<br \/>\nAmava-o, dizias, julgando talvez<br \/>\nQue do mundo fosse algum rico senhor.<\/p>\n<p>o l\u00edrico:<\/p>\n<p>Amo-te, \u00f3 virgem, como ama o nauta<br \/>\n\u00c0 luz da estrela que lhe guia o lar&#8230;<\/p>\n<p>o desconsolado:<\/p>\n<p>Nem toda a \u00e1rvore d\u00e1 fruta<br \/>\nNem toda a erva d\u00e1 flor<br \/>\nNem toda a mulher bonita<br \/>\nPode dar constante amor.<\/p>\n<p>ou ainda mais desconsolado:<\/p>\n<p>Perd\u00e3o, Em\u00edlia, mas chorar n\u00e3o posso<\/p>\n<p>o triste:<\/p>\n<p>Quisera amar-te mas n\u00e3o posso, Elvira.<br \/>\nPorque gelado tenho o peito meu<\/p>\n<p>o zangado:<\/p>\n<p>A mulher \u00e9 diabo de saias<br \/>\nQue nasceu para os homens tentar.<br \/>\n\u00c9 perversa, \u00e9 maldosa e tem l\u00e1bia<br \/>\nQue nos faz a cabe\u00e7a girar.<\/p>\n<p>o id\u00edlico:<\/p>\n<p>Chiquinha, se eu te pedisse<br \/>\nDe modo que ningu\u00e9m visse<br \/>\nUm beijo, tu mo negavas?<br \/>\nAi dava! eu dava&#8230;<\/p>\n<p>Id\u00edlio que bem se podia comparar \u00e0s mimas de Herondas, se n\u00e3o<br \/>\nfosse a cal\u00e7ada o seu autor&#8230; Todos os tangos, os sambas, os lundus<br \/>\nem que se canta a mulata:<\/p>\n<p>\u00c9 quitute saboroso<br \/>\n\u00c9 melhor que vatap\u00e1<br \/>\n\u00c9 n\u00e9ctar delicioso<br \/>\n\u00c9 bom como n\u00e3o h\u00e1<\/p>\n<p>os acanalhadamente amorosos:<\/p>\n<p>Gosto de ti, porque gosto<br \/>\nPorque meu gosto \u00e9 gostar<br \/>\nMas tu de mim n\u00e3o te lembras<br \/>\nPor que me fazes penar?<\/p>\n<p>o descritivo:<\/p>\n<p>Numa conchinha de prata<br \/>\nNavegavam dois amantes<br \/>\nBeijando-se docemente<br \/>\nAo som de magos descantes.<\/p>\n<p>o trocista:<\/p>\n<p>O amor da mulher \u00e9 cacha\u00e7a<br \/>\nQue se bebe por frio e calor<br \/>\nO amor da mulher \u00e9 chala\u00e7a<br \/>\nE\u2019 cantiga de mau trovador.<\/p>\n<p>at\u00e9 o ideal:<\/p>\n<p>Poesia, era esse o nome<br \/>\nDessa mulher ideal<br \/>\nE amando-a sem ser poeta<br \/>\nFui louco, pequei, fiz mal.<\/p>\n<p>O amor proteiforme, o eterno amor feito de solu\u00e7os e risos, que Tennyson<br \/>\ndizia senhor da vida e senhor da morte.<\/p>\n<p>H\u00e1 nessas modinhas e nessas can\u00e7onetas, de par com a paix\u00e3o,<br \/>\na tristeza e a tro\u00e7a, um milh\u00e3o de erros de gram\u00e1tica<br \/>\ne de metrifica\u00e7\u00e3o. O verso \u00e9 quase ignorado pelo trovadores<br \/>\nocasionais. Mas que lhes importa isso, se n\u00e3o se importam com a honra,<br \/>\no bem-estar, a gl\u00f3ria? Os poetas n\u00e3o t\u00eam versos, t\u00eam<br \/>\ncavaquinhos, viol\u00f5es e a voz para dobrar e quebrar os nossos nervos.<br \/>\nAo povo basta a cad\u00eancia, o som sugestionador que chega a atrair os<br \/>\ncrocodilos. Uma hist\u00f3ria sem sentido como esta<\/p>\n<p>Bolim bolacho, bole em cima,<br \/>\nBolim bolacho por causa do bole embaixo<br \/>\nQuem n\u00e3o come da castanha caruru<br \/>\nN\u00e3o percebe do caju<br \/>\nQuem n\u00e3o come do caju<br \/>\nN\u00e3o percebe do fub\u00e1<\/p>\n<p>entusiasma fatalmente os audit\u00f3rios. Eles, os trovadores, tenham ou<br \/>\nn\u00e3o alegria, acham que tudo tem compensa\u00e7\u00e3o at\u00e9<br \/>\nna morte:<\/p>\n<p>Vai o pobre para a cova<br \/>\nE o rico para a carneira<br \/>\nMas ao fim de cinco anos<br \/>\nAo abrir a salgadeira<br \/>\nQuer do pobre, quer do rico<br \/>\nH\u00e1 s\u00f3 ossos e caveira.<\/p>\n<p>A despreocupa\u00e7\u00e3o dessa gente parece viver com uma estranha<br \/>\nverdade no lundu popular:<\/p>\n<p>Eu vivo triste como sapo na lagoa<br \/>\nCantando triste, escondido pelas matas.<br \/>\nPara ver se endireito a minha vida<br \/>\nVou deixar das malditas serenatas.<br \/>\nO meu nome na Gazeta de Not\u00edcias<br \/>\nAinda hoje eu vi bem declarado:<br \/>\nOntem, \u00e0 noite foi preso um vagabundo&#8230;<\/p>\n<p>Vagabundo sim! A musa da cidade, a musa constante e an\u00f4nima, que tange<br \/>\ntodas as cordas da vida e \u00e9 como a alma da multid\u00e3o, a musa<br \/>\ntriste \u00e9 vagabunda, \u00e9 livre, \u00e9 pobre, \u00e9 humilde.<br \/>\nE por isso todos lhe sofrem a ingente fascina\u00e7\u00e3o, por isso a<br \/>\nvoz de um vagabundo, nas noites de luar, enche de l\u00e1grimas os olhos<br \/>\ndos mais frios, por isso ningu\u00e9m h\u00e1 que n\u00e3o a ame \u2013<br \/>\nflor de ideal nascida nas sarjetas, sonho perp\u00e9tuo da cidade \u00e0<br \/>\nmargem da poesia, riso e l\u00e1grima, poesia da encantadora alma das ruas!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: A Rua Pequenas Profiss\u00f5es Os Tatuadores Ora\u00e7\u00f5es Os Urubus Os Mercadores de Livros e a Leitura das Ruas A Pintura das Ruas Tabuletas Vis\u00f5es d&#8217;\u00d3pio M\u00fasicos Ambulantes Velhos Cocheiros Presepes Como se Ouve a Missa 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