{"id":5639,"date":"2015-12-03T00:00:00","date_gmt":"2015-12-03T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/urbanizacao-do-territorio\/"},"modified":"2026-08-31T18:03:33","modified_gmt":"2026-08-31T18:03:33","slug":"urbanizacao-do-territorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/geografia-2\/urbanizacao-do-territorio\/","title":{"rendered":"Urbaniza\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\n&nbsp;\n\nDurante s\u00e9culos, a urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira ocorreu em pontos isolados, como verdadeiras ilhas, tornando-se generalizada somente a partir do s\u00e9culo XX.\n\nPode-se dizer que Salvador comandou a primeira rede urbana do pa\u00eds, mantendo sua primazia at\u00e9 meados do s\u00e9culo XVIII, quando a capital da col\u00f4nia se transfere para a cidade do Rio de Janeiro. As rela\u00e7\u00f5es entre o litoral e o interior eram fr\u00e1geis neste per\u00edodo.\n\nO povoamento e as riquezas geradas pela agricultura e a minera\u00e7\u00e3o ensaiaram os primeiros passos rumo ao processo de urbaniza\u00e7\u00e3o.\n\nEm fins do s\u00e9culo XIX, o Brasil assiste ao crescimento do fen\u00f4meno de urbaniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. S\u00e3o Paulo, l\u00edder na produ\u00e7\u00e3o cafeeira, inicia a forma\u00e7\u00e3o de uma rede de cidades, envolvendo os estados do Rio Janeiro e de Minas Gerais.\n\nMas, ser\u00e1 apenas em meados do s\u00e9culo XX, quando ocorre a unifica\u00e7\u00e3o dos meios de transporte e comunica\u00e7\u00e3o, que as condi\u00e7\u00f5es se tornam prop\u00edcias para uma verdadeira integra\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Modificam-se substancialmente os fluxos econ\u00f4micos e demogr\u00e1ficos, conferindo um novo valor aos lugares.\n<p align=\"center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Urbaniza\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/urbani3a.jpg\" alt=\"Urbaniza\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio\" width=\"351\" height=\"223\" \/><strong>\nAlc\u00e2ntara, cidade hist\u00f3rica no Maranh\u00e3o &#8211; Lau Polin\u00e9sio<\/strong><\/p>\nA partir da d\u00e9cada de 70, ocorre a difus\u00e3o generalizada das moderniza\u00e7\u00f5es, tanto no campo como na cidade. A constru\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de estradas de rodagem e a cria\u00e7\u00e3o de um moderno sistema de telecomunica\u00e7\u00f5es possibilitaram maior fluidez no territ\u00f3rio, al\u00e9m de permitir a unifica\u00e7\u00e3o do mercado em escala nacional.\n\nCresce o consumo de bens materiais e imateriais, como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, transformando as fun\u00e7\u00f5es urbanas. A rede urbana torna-se mais complexa, pois tanto o campo como a cidade respondem \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es de realiza\u00e7\u00e3o da economia contempor\u00e2nea. Na atual fase, a urbaniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio tem m\u00faltiplas implica\u00e7\u00f5es, tais como o ritmo de crescimento mais lento das cidades milion\u00e1rias e, concomitante a essa tend\u00eancia, o crescimento das cidades locais e das cidades m\u00e9dias. Em 1980, o pa\u00eds contava com 142 cidades com mais de 100 mil habitantes e, em 1991, eram 187. A participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o brasileira cresce tamb\u00e9m nessas cidades m\u00e9dias, elevando-se de 13,7% em 1970 para 16,7% em 1991. A densidade econ\u00f4mica do territ\u00f3rio leva \u00e0 crescente especializa\u00e7\u00e3o das cidades, que t\u00eam um papel cada vez mais ativo no pa\u00eds.\n\n<strong>Urbaniza\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 o aumento proporcional da popula\u00e7\u00e3o urbana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o rural. Segundo esse conceito, s\u00f3 ocorre urbaniza\u00e7\u00e3o quando o crescimento da popula\u00e7\u00e3o urbana \u00e9 superior ao crescimento da popula\u00e7\u00e3o rural.\n\n<strong>Observa\u00e7\u00e3o:<\/strong> Os processos de industrializa\u00e7\u00e3o e de urbaniza\u00e7\u00e3o brasileiros est\u00e3o intimamente ligados, pois as unidades fabris eram instaladas em locais onde houvesse infraestrutura, oferta de m\u00e3o de obra e mercado consumidor. No momento que os investimentos no setor agr\u00edcola, especialmente no setor cafeeiro, deixavam de ser rent\u00e1veis, al\u00e9m das dificuldades de importa\u00e7\u00e3o ocasionadas pela Primeira Guerra Mundial e pela Segunda, passou-se a empregar mais investimentos no setor industrial.\n\n<strong>Segunda metade do s\u00e9culo XX:<\/strong>\n\nO Brasil tornou-se um pa\u00eds urbano, ou seja, mais de 50% de sua popula\u00e7\u00e3o passou a residir nas cidades.\n\nA partir da d\u00e9cada de 1950, o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o no Brasil tornou-se cada vez mais acelerado (processo de industrializa\u00e7\u00e3o).\n\nIntensificou-se o \u00eaxodo rural (migra\u00e7\u00e3o rural-urbana), devido \u00e0 perda de trabalho no setor agropecu\u00e1rio (moderniza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do trabalho rural, com a substitui\u00e7\u00e3o do homem pela m\u00e1quina e a estrutura fundi\u00e1ria concentradora), car\u00eancia de terras para a maioria dos trabalhadores rurais.\n\n<strong>Urbaniza\u00e7\u00e3o desordenada:<\/strong>\n\nMunic\u00edpios despreparados para atender \u00e0s necessidades b\u00e1sicas dos migrantes, causa uma s\u00e9rie de problemas sociais e ambientais.\n\n<strong>Problemas Urbanos:<\/strong>\n\n<strong>Sociais:<\/strong>\n<blockquote>Moradia (faveliza\u00e7\u00e3o)\n\nDesemprego\n\nDesigualdade social (qualidade de vida)\n\nSa\u00fade\n\nEduca\u00e7\u00e3o\n\nExclus\u00e3o social\n\nViol\u00eancia (assassinatos, assaltos, sequestros, agress\u00f5es, e outros tipos de viol\u00eancia).\n\nPol\u00edticas p\u00fablicas devem ser desenvolvidas para proporcionar uma distribui\u00e7\u00e3o de renda mais igualit\u00e1ria, diminuindo a disparidade entre a popula\u00e7\u00e3o. Investimentos em servi\u00e7os p\u00fablicos se fazem necess\u00e1rios (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia, seguran\u00e7a, etc.) de forma que eleve a qualidade de vida e, principalmente, dignidade para os cidad\u00e3os brasileiros.<\/blockquote>\n<strong>Ambientais:<\/strong>\n<blockquote>Aterros sanit\u00e1rios\n\nOcupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas inadequadas para moradia\n\nImpermeabiliza\u00e7\u00e3o dos solos\n\nDesmatamento\n\nPolui\u00e7\u00e3o atmosfera\n\nPolui\u00e7\u00e3o dos cursos de \u00e1gua\n\nProdu\u00e7\u00e3o de calor geram diversos efeitos sobre os aspectos do ambiente\n\nA expans\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o da rede urbana sem o devido planejamento ocasionou e ainda ocasiona v\u00e1rios problemas ambientais para a popula\u00e7\u00e3o que a habita. Esses transtornos s\u00e3o causados por diversos fatores antr\u00f3picos, diretamente ligados \u00e0 expans\u00e3o das atividades industriais e ao \u00eaxodo rural. \u00c9 necess\u00e1rio um planejamento urbano coerente, bem como a elabora\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas ambientais eficazes, al\u00e9m da conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o.<\/blockquote>\nA implanta\u00e7\u00e3o de medidas preventivas tende a evitar os preju\u00edzos vistos atualmente, com os quais toda a sociedade tem que arcar.\n\n<strong>Atualidade:<\/strong>\n\n<strong>Atualmente \u0096 <\/strong>Urbaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais acelerada em pa\u00edses em desenvolvimento, como o Brasil, ou pouco desenvolvidos. Desde 2008, a popula\u00e7\u00e3o urbana mundial \u00e9 maior que a rural, e essa propor\u00e7\u00e3o continua crescendo.\n\n<strong>Brasil urbano \u0096 <\/strong>Desde a d\u00e9cada de 1960, mais precisamente em 1965, a popula\u00e7\u00e3o brasileira passou a ser majoritariamente urbana. Hoje o pa\u00eds est\u00e1 entre ao mais urbanizados do mundo, com mais de 80% dos habitantes morando nas mais de 5,5 mil cidades brasileiras.\n\n<strong>Regi\u00f5es metropolitanas \u0096 <\/strong>O Brasil possui 31 regi\u00f5es metropolitanas, que abrigam um ter\u00e7o dos domic\u00edlios urbanos e 30% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A maior delas, a Grande S\u00e3o Paulo, \u00e9 uma megal\u00f3pole com 18 milh\u00f5es de habitantes.\n\nProblemas ligados \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o \u0096 A urbaniza\u00e7\u00e3o desordenada acentua a desigualdade social. O d\u00e9ficit habitacional de milh\u00f5es de moradias, por exemplo, contribui para o crescimento da popula\u00e7\u00e3o de rua e crescente faveliza\u00e7\u00e3o ou mesmo a cria\u00e7\u00e3o de movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST).\n\n<strong>A transi\u00e7\u00e3o urbana brasileira: trajet\u00f3ria, dificuldades e li\u00e7\u00f5es aprendidas<\/strong>\n\nO Brasil experimentou, na segunda metade do s\u00e9culo 20, uma das mais aceleradas transi\u00e7\u00f5es urbanas da hist\u00f3ria mundial. Esta transformou rapidamente um pa\u00eds rural e agr\u00edcola em um pa\u00eds urbano e metropolitano, no qual grande parte da popula\u00e7\u00e3o passou a morar em cidades grandes. Hoje, quase dois quintos da popula\u00e7\u00e3o total residem em uma cidade de pelo menos um milh\u00e3o de habitantes. Julgado em termos do n\u00famero e tamanho de cidades, do peso das cidades na gera\u00e7\u00e3o do PIB e do desenvolvimento da rede urbana, pode-se dizer que a urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 atingiu um grau elevado de maturidade.\n\nApesar da precocidade dessa transi\u00e7\u00e3o urbana, as cidades brasileiras ainda enfrentam desafios sociais, econ\u00f4micos e ambientais pesados. Essa muta\u00e7\u00e3o abrupta n\u00e3o se processou de forma harmoniosa, tendo sido particularmente dif\u00edcil para os contingentes mais pobres que, apesar de representar a parcela majorit\u00e1ria do crescimento urbano e um motor essencial do desenvolvimento nacional, raramente tiveram seu lugar contemplado na expans\u00e3o urbana. Esse descaso com as necessidades do maior grupo social est\u00e1 na raiz dos grandes problemas sociais e ambientais que afligem as cidades brasileiras no s\u00e9culo 21.\n\n<strong>Este artigo argumenta que as dificuldades urbanas atuais refletem a conflu\u00eancia de dois fatores principais interligados:<\/strong> a desigualdade profundamente arraigada na sociedade brasileira e a incapacidade de prever, aceitar e planejar de forma antecipada o crescimento urbano maci\u00e7o e inevit\u00e1vel. Pode-se dizer que a forte desigualdade que caracteriza at\u00e9 hoje a sociedade brasileira veio nos navios portugueses, os quais trouxeram a estratifica\u00e7\u00e3o social caracter\u00edstica do pa\u00eds colonizador, e foi logo fortalecida pelas sesmarias e pela ado\u00e7\u00e3o do sistema da escravatura. Atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, a desigualdade tem sido reproduzida e aprofundada pelas estruturas sociais e culturais que predominaram nos ciclos coloniais, imperiais, republicanos, militares e democr\u00e1ticos, chegando a mostrar sinais de arrefecimento apenas nos \u00faltimos anos.\n\nProfundamente arraigada na cultura e nas institui\u00e7\u00f5es, essa desigualdade tem contribu\u00eddo para imunizar a sociedade contra o reconhecimento do direito \u00e0 cidade da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda e tem deprimido sua capacidade para apreciar a dimens\u00e3o dos problemas enfrentados pelas massas populacionais que dinamizaram o crescimento urbano brasileiro. Essa aceita\u00e7\u00e3o impl\u00edcita e, de certa forma, inconsciente da desigualdade e da pobreza tamb\u00e9m explica a lentid\u00e3o dos pol\u00edticos e planejadores para apreender e reagir \u00e0 magnitude, velocidade e import\u00e2ncia do crescimento urbano. Essa lentid\u00e3o, por sua vez, impediu a ado\u00e7\u00e3o de atitudes proativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o, facilitando assim a propaga\u00e7\u00e3o da pobreza habitacional, da inadequa\u00e7\u00e3o fiscal e da degrada\u00e7\u00e3o ambiental que hoje marca tantas cidades brasileiras. Esses problemas t\u00eam dificultado o aproveitamento da urbaniza\u00e7\u00e3o precoce do pa\u00eds e a explora\u00e7\u00e3o do seu potencial para o desenvolvimento social e econ\u00f4mico do pa\u00eds.\n\nO atual trabalho visa analisar o crescimento urbano brasileiro no contexto do desenvolvimento nacional e extrair da\u00ed algumas li\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que possam servir para orientar as transi\u00e7\u00f5es urbanas que est\u00e3o se iniciando, com volumes populacionais muito maiores, nos pa\u00edses em desenvolvimento da \u00c1sia e da \u00c1frica. Muito se poderia aprender da experi\u00eancia brasileira para ajudar esses pa\u00edses a fazer uma transi\u00e7\u00e3o urbana mais equitativa e menos comprometida pelos problemas que marcam a trajet\u00f3ria da urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira.\n\n<strong>As etapas da urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira<\/strong>\n\nConforme pode ser observado no Gr\u00e1fico 1, em 1950 o Brasil j\u00e1 tinha avan\u00e7ado para um n\u00edvel de urbaniza\u00e7\u00e3o (i.e. &#8211; % da popula\u00e7\u00e3o total residindo em \u00e1reas urbanas) que somente hoje \u00e9 apresentado pelos continentes da \u00c1sia e da \u00c1frica. Por que essa disparidade temporal na trajet\u00f3ria da urbaniza\u00e7\u00e3o? Muitos pa\u00edses da \u00c1frica e da \u00c1sia tinham cidades milenares enquanto o Brasil, na \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, era praticamente tabula rasa em termos de localidades urbanas. O territ\u00f3rio brasileiro nem sequer se beneficiava de grandes cidades legadas pelas civiliza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, como ocorria em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.\n\n<strong>Por outro lado, os colonizadores portugueses tamb\u00e9m n\u00e3o tinham interesse na cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade urbana:<\/strong> as poucas cidades que foram constru\u00eddas no litoral brasileiro, durante a \u00e9poca da col\u00f4nia, serviam apenas para a defesa contra a invas\u00e3o de outros colonizadores e como entrepostos para a explora\u00e7\u00e3o do interior nos diversos ciclos extrativos e agr\u00edcolas que presenciou o pa\u00eds. Al\u00e9m disso, a classe dominante era eminentemente rural e anti-urbana. Ou seja, durante todo o per\u00edodo da col\u00f4nia e na maior parte do imp\u00e9rio, as cidades n\u00e3o eram componentes de uma rede urbana, mas eram pontos isolados no litoral, mais ligadas ao exterior do que a outras cidades, cada uma servindo ao seu hinterland espec\u00edfico.\n\nEmbora n\u00e3o existam informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis referentes ao crescimento urbano brasileiro antes de 1940, estima-se que em 1872 \u0096 mais de tr\u00eas s\u00e9culos e meio depois da chegada dos primeiros colonos \u0096 o Brasil tinha apenas dez localidades urbanas com uma popula\u00e7\u00e3o de pelo menos 20 mil habitantes.\n\nDestas dez cidades, apenas S\u00e3o Paulo n\u00e3o era localizada no litoral. Esta situa\u00e7\u00e3o se modificou radicalmente a partir do in\u00edcio do ciclo econ\u00f4mico do caf\u00e9, no \u00faltimo quarto do s\u00e9culo 19, per\u00edodo de grandes mudan\u00e7as econ\u00f4micas e sociais, tanto em n\u00edvel nacional como internacional. Localizada principalmente no interior de S\u00e3o Paulo, a produ\u00e7\u00e3o cafeeira teve que enfrentar a redu\u00e7\u00e3o do influxo de m\u00e3o de obra escrava e, logo em seguida, o fim da escravatura.\n\n<strong>Apoiado pelo governo, o estado recebeu um grande acervo de migrantes europeus:<\/strong> estima-se que entraram 4 milh\u00f5es de imigrantes entre 1880 e 1930, 70% dos quais se estabeleceram no estado de S\u00e3o Paulo.\n\nNa regi\u00e3o cafeeira, acompanhando o processo de moderniza\u00e7\u00e3o da economia europ\u00e9ia, introduziu-se a mecaniza\u00e7\u00e3o, o transporte ferrovi\u00e1rio e outros avan\u00e7os importantes nos processos de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o. A melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida, aliada \u00e0s iniciativas de saneamento e de sa\u00fade p\u00fablica reduziram a mortalidade e come\u00e7aram a aumentar as taxas de crescimento vegetativo. A cria\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado atraiu migrantes nacionais e internacionais, gerando mudan\u00e7as significativas no perfil da m\u00e3o de obra. Por sua vez, a exist\u00eancia de uma massa de trabalhadores assalariados deu origem a um mercado interno e \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de alimentos.\n\nDesta forma, observa-se que a economia brasileira, assim como a de outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, passou por um per\u00edodo de forte crescimento econ\u00f4mico e demogr\u00e1fico no final do s\u00e9culo 19 e nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20. Essa coincid\u00eancia da expans\u00e3o demogr\u00e1fica e econ\u00f4mica, est\u00e1 na raiz da r\u00e1pida urbaniza\u00e7\u00e3o experimentada pela regi\u00e3o latino-americana, explicando, pelo menos em parte, a precocidade do processo urbano nesta regi\u00e3o. Em compara\u00e7\u00e3o, a \u00c1frica e a \u00c1sia somente experimentaram esses surtos econ\u00f4micos e demogr\u00e1ficos coincidentes muito mais tarde, durante o s\u00e9culo 20.\n\nEste per\u00edodo de forte crescimento econ\u00f4mico e urbano no Brasil em torno da produ\u00e7\u00e3o cafeeira foi abruptamente interrompido pela quebra da bolsa de valores norte-americana, em 1929, e pela consequente crise econ\u00f4mica global.\n\nO baque s\u00fabito nos pre\u00e7os dos produtos agr\u00edcolas brasileiros e o tamanho da d\u00edvida externa contra\u00edda durante a alta da economia cafeeira obrigaram o Brasil a voltar-se para o mercado interno e a empreender uma nova organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, desta vez estruturada em torno \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o via a substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. A necessidade de integrar os diversos mercados regionais a essa nova realidade econ\u00f4mica incitou o governo a promover melhorias nos sistemas de transporte e comunica\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>A combina\u00e7\u00e3o dessas mudan\u00e7as provocou tamb\u00e9m dois tipos de migra\u00e7\u00e3o que iriam persistir lado a lado durante meio s\u00e9culo a partir de 1930: <\/strong>a ocupa\u00e7\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas (Paran\u00e1, Centro-Oeste e Amaz\u00f4nia) e a migra\u00e7\u00e3o de \u00e1reas rurais para \u00e1reas urbanas. A continua\u00e7\u00e3o da queda da mortalidade e o aumento do crescimento vegetativo contribu\u00edram fortemente para alimentar esses dois fluxos durante v\u00e1rias d\u00e9cadas.\n\nOs movimentos rural-urbanos foram adicionalmente estimulados pela intensifica\u00e7\u00e3o da industrializa\u00e7\u00e3o decorrente da Segunda Guerra Mundial. Apoiado tamb\u00e9m no aumento do crescimento vegetativo, o n\u00famero de cidades e a propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o residente em localidades urbanas cresceram rapidamente.\n\nO processo de industrializa\u00e7\u00e3o via a substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es foi favorecido pelo governo federal ao longo de diversas administra\u00e7\u00f5es seguidas e, com isso, cresceu o parque industrial e se fortaleceram os mecanismos de integra\u00e7\u00e3o nacional. Quando o governo militar, que tomou o poder em 1964, adotou um modelo de moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola conservador que visava aumentar a produtividade sem alterar a estrutura social predominante, utilizando para isso o cr\u00e9dito subsidiado, os pequenos produtores de todo tipo foram expulsos do campo em grandes n\u00fameros, provocando uma acelera\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o rural-urbana.\n\nUma das caracter\u00edsticas mais marcantes do processo de urbaniza\u00e7\u00e3o ao longo do per\u00edodo 1930-80 foi \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o progressiva da popula\u00e7\u00e3o urbana em cidades cada vez maiores. A grande maioria das novas cidades eram, evidentemente, pequenas ao entrar no rol de \u0093cidades\u0094, mas as grandes cidades sempre apresentaram o maior incremento absoluto de popula\u00e7\u00e3o. Apenas 5% das cidades tinham uma popula\u00e7\u00e3o de 500 mil ou mais; entretanto, essas cidades contabilizavam sempre a grande maioria de todos os habitantes urbanos, com parcelas que variavam entre 54 e 60% do total. A maioria destas pessoas residia, na realidade, em cidades de mais de um milh\u00e3o de habitantes. No ano 2000, 54,4% da popula\u00e7\u00e3o que vivia em localidades de mais de 20 mil habitantes residia em uma cidade de pelo menos um milh\u00e3o de habitantes.\n\nPortanto, o per\u00edodo 1930-80 foi marcado por um processo constante de crescimento urbano e de concentra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em cidades cada vez maiores.\n\nEsse processo era movido por diferentes etapas do processo de desenvolvimento nacional e nutrido pelo crescimento demogr\u00e1fico que alimentava o estoque de migrantes-em-potencial nas \u00e1reas rurais, assim como o crescimento vegetativo da popula\u00e7\u00e3o residente nas pr\u00f3prias cidades.\n\nEntretanto, depois de meio s\u00e9culo de urbaniza\u00e7\u00e3o concentradora, o Censo Demogr\u00e1fico de 1991 revelou uma interrup\u00e7\u00e3o significativa dessa tend\u00eancia que parecia, at\u00e9 ent\u00e3o, inexor\u00e1vel. Assim, a taxa de crescimento urbano caiu de 4,2% a.a. na d\u00e9cada de 70 para 2,6% na de 80. Todas as categorias de tamanho de cidades sofreram uma redu\u00e7\u00e3o, mas a queda foi mais significativa nas cidades metropolitanas. Na d\u00e9cada de 70, elas tinham se responsabilizado por 41% de todo o crescimento urbano nacional; na de 80, essa propor\u00e7\u00e3o caiu para 30%. O ritmo fren\u00e9tico de urbaniza\u00e7\u00e3o e de metropoliza\u00e7\u00e3o que tinha perdurado ao longo de meio s\u00e9culo, para surpresa de todos, havia sido finalmente interrompido. Essa queda na velocidade do crescimento e da concentra\u00e7\u00e3o urbana persistiu tamb\u00e9m durante a d\u00e9cada de 90.\n\n<strong>Entre os diversos fatores que podem ter contribu\u00eddo para essa mudan\u00e7a no padr\u00e3o de urbaniza\u00e7\u00e3o brasileiro, tr\u00eas merecem ser destacados:<\/strong> a queda acelerada da fecundidade, a crise econ\u00f4mica que assolou a regi\u00e3o na d\u00e9cada de 80 e em parte da d\u00e9cada de 90, e a culmina\u00e7\u00e3o de um processo natural de desconcentra\u00e7\u00e3o da atividade produtiva.\n\nAt\u00e9 meados da d\u00e9cada de 60, o Brasil apresentava n\u00edveis elevados de fecundidade, respons\u00e1veis pelo crescimento demogr\u00e1fico acelerado do pa\u00eds durante v\u00e1rias d\u00e9cadas. Entretanto, a pr\u00f3pria urbaniza\u00e7\u00e3o liderou e dinamizou uma s\u00e9rie de fatores conducentes \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de filhos. Nas cidades, as pessoas j\u00e1 n\u00e3o viam a prole numerosa como uma vantagem; ao contr\u00e1rio, representavam um \u00f4nus adicional nas condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o urbanas prec\u00e1rias e, frequentemente, um entrave a suas aspira\u00e7\u00f5es de melhoria social e econ\u00f4mica. Diversas pol\u00edticas modernizadoras adotadas pelo governo militar \u0096 nas \u00e1reas de sa\u00fade, previd\u00eancia e comunica\u00e7\u00f5es \u0096 combinaram com a disponibilidade de m\u00e9todos anti-natalistas mais efetivos (principalmente a esteriliza\u00e7\u00e3o) para provocar a acelera\u00e7\u00e3o dessa tend\u00eancia. O fato \u00e9 que a fecundidade brasileira teve uma queda vertiginosa de 6,3 para 1.8 (bem abaixo do n\u00edvel de reposi\u00e7\u00e3o) em apenas 40 anos. Essa redu\u00e7\u00e3o diminuiu tanto o estoque de migrantes-em-potencial nas \u00e1reas rurais como o ritmo de crescimento vegetativo da popula\u00e7\u00e3o residente nas cidades.\n\nO segundo fator importante na redu\u00e7\u00e3o do processo de concentra\u00e7\u00e3o e metropoliza\u00e7\u00e3o foi a crise econ\u00f4mica que assolou o pa\u00eds em seguida ao choque do petr\u00f3leo que acompanhou a Guerra do Yom Kippur. Os juros internacionais geraram uma d\u00edvida externa galopante, a produ\u00e7\u00e3o industrial sofreu um forte retrocesso e, pela primeira vez na hist\u00f3ria moderna brasileira, o PIB chegou a ser negativo. Sucederam-se planos e programas de estabiliza\u00e7\u00e3o, assim como ministros de finan\u00e7as, mas nada impediu que a \u0093D\u00e9cada Perdida\u0094 avan\u00e7asse para a d\u00e9cada de 90.\n\nOs problemas econ\u00f4micos acabaram gerando outras mudan\u00e7as de grande significado \u0096 o fim da ditadura militar e a re-introdu\u00e7\u00e3o da democracia, o fim do ciclo de industrializa\u00e7\u00e3o via substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, a privatiza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias grandes empresas nacionais, a abertura da economia e a redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado, incluindo o planejamento de longo prazo.\n\nMas o impacto mais importante para o processo de concentra\u00e7\u00e3o urbana foi o aumento do desemprego e da pobreza. As maiores cidades foram as mais afetadas, especialmente nos setores de ind\u00fastria e constru\u00e7\u00e3o. O setor formal foi o mais penalizado, resultando numa expans\u00e3o acelerada do setor informal. A redu\u00e7\u00e3o das oportunidades econ\u00f4micas nas grandes cidades chegou a inverter os fluxos migrat\u00f3rios tradicionais, gerando assim fortes correntes de migra\u00e7\u00e3o de retorno, e at\u00e9 as primeiras correntes importantes de emigra\u00e7\u00e3o para o exterior. Nesse contexto, as cidades n\u00e3o-metropolitanas registraram ganhos importantes, resultando em taxas de crescimento maiores nessas cidades.\n\nAntes mesmo de estourar essa crise econ\u00f4mica, o Brasil j\u00e1 havia iniciado um processo de desconcentra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial a partir do seu centro principal, em S\u00e3o Paulo. Este processo se acelerou na d\u00e9cada de 80 e, como resultado, a participa\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo na produ\u00e7\u00e3o industrial nacional baixou de 43% em 1970 para 25% em 2000. Visto em retrospecto, essas mudan\u00e7as refletiam uma tend\u00eancia bastante previs\u00edvel, particularmente quando se considera os esfor\u00e7os feitos por diversos governos para integrar as diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds via incentivos fiscais e outros investimentos governamentais. Os pr\u00f3prios empres\u00e1rios aproveitavam essas iniciativas para desconcentrar suas atividades, fugir dos problemas que se acumulavam na grande metr\u00f3pole e explorar novos mercados. Contudo, a Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo permaneceu como a capital dos servi\u00e7os administrativos, financeiros, educacionais e culturais modernos do pa\u00eds. Assim, o per\u00edmetro do polo dominante foi expandido mais do que desconcentrado. Inclusive, grande parte da desconcentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ocorreu para cidades relativamente pr\u00f3ximas, no pr\u00f3prio estado de S\u00e3o Paulo.\n\nPor outro lado, o processo de desconcentra\u00e7\u00e3o relativo observado nas d\u00e9cadas de 80 e 90 n\u00e3o deve ofuscar a continua\u00e7\u00e3o do predom\u00ednio das grandes metr\u00f3poles no cen\u00e1rio urbano nacional. Mesmo nessas duas d\u00e9cadas de crescimento reduzido, as nove Regi\u00f5es Metropolitanas tiveram um aumento populacional absoluto maior que o aumento verificado nas pr\u00f3ximas 52 cidades juntas, conforme mostra a Tabela 5. Vale observar tamb\u00e9m que o arrefecimento do crescimento metropolitano foi basicamente um fen\u00f4meno de estagna\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios-n\u00facleos, pois as periferias das grandes metr\u00f3poles continuaram crescendo num ritmo acelerado. Esses sub\u00farbios continuam atraindo migrantes de baixa renda at\u00e9 hoje, inclusive vindo de outras \u00e1reas da pr\u00f3pria cidade. N\u00e3o surpreende o fato de que as periferias concentram os maiores problemas de faveliza\u00e7\u00e3o, assentamentos informais, infra-estrutura prec\u00e1ria, conflitos ambientais, desorganiza\u00e7\u00e3o social e viol\u00eancia. Na m\u00e9dia, a popula\u00e7\u00e3o das periferias das nove Regi\u00f5es Metropolitanas tem uma renda equivalente a 56% da renda dos habitantes do munic\u00edpio n\u00facleo.\n\nA an\u00e1lise do processo e das etapas da urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira confirma o fato de que o pa\u00eds tem chegado a certo n\u00edvel de maturidade na sua transi\u00e7\u00e3o urbana. A maioria da sua popula\u00e7\u00e3o vive em cidades grandes que comp\u00f5em uma rede urbana extensa e diversificada. S\u00e3o cidades que j\u00e1 n\u00e3o crescem a ritmos alucinados, mas que geram 90% do PIB nacional. No contexto da economia mundial globalizada, na qual as cidades, especialmente as maiores, levam uma vantagem competitiva, essa concentra\u00e7\u00e3o deveria representar um ganho comparativo importante. Entretanto, essa vantagem pode estar sendo prejudicada pelas dificuldades sociais e ambientais que caracterizam muitas cidades brasileiras, conforme ser\u00e1 visto no pr\u00f3ximo segmento.\n\n<strong>O descaso com a habita\u00e7\u00e3o popular e os problemas sociais e ambientais <\/strong>\n\nOs problemas sociais e ambientais das cidades brasileiras est\u00e3o nitidamente interligados. Ambos t\u00eam suas origens na mesma ra\u00edz \u0096 a falta de uma atitude proativa e realista com rela\u00e7\u00e3o ao crescimento urbano e o descaso com os problemas do maior grupo social, isto \u00e9, a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda. O crescimento urbano r\u00e1pido, na falta de uma orienta\u00e7\u00e3o espacial e de um manejo ambiental adequado, acentua a degrada\u00e7\u00e3o de recursos naturais de terra, \u00e1gua e vegeta\u00e7\u00e3o. A falta de servi\u00e7os b\u00e1sicos nos assentamentos urbanos contribui para problemas de sa\u00fade ambiental, particularmente aqueles ligados \u00e0 \u00e1gua e ao saneamento.\n\nA maioria da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda no Brasil vive em lugares e moradias inadequados devido \u00e0 aus\u00eancia de medidas apropriadas para preparar e acomodar o crescimento urbano. Esse descaso caracteriza a expans\u00e3o urbana do \u00faltimo s\u00e9culo e ainda persiste nos dias de hoje. Apesar de muitas d\u00e9cadas de crescimento r\u00e1pido e da prolifera\u00e7\u00e3o de favelas em quase todas as cidades, os assentamentos informais t\u00eam sido tratados como problemas transit\u00f3rios de ordem p\u00fablica, os quais precisam ser eliminados ou que v\u00e3o desaparecer sozinhos com o \u0093desenvolvimento\u0094. Na maioria dos casos, o poder p\u00fablico somente se intromete para tentar impedir esse crescimento.\n\nMuitos anos depois, por\u00e9m, s\u00e3o frequentemente geradas press\u00f5es para tentar \u0093resolver\u0094 esse cancro e\/ou para angariar os votos da popula\u00e7\u00e3o que vive nele.\n\nEssas atitudes s\u00e3o coerentes com as normas e valores de uma sociedade desigual que, historicamente, raramente tem priorizado as necessidades e os problemas de sua popula\u00e7\u00e3o mais pobre.\n\nO Brasil tem uma longa hist\u00f3ria de fasc\u00ednio com planos diretores urbanos, desde o famoso Plano Agache encomendado pela Prefeitura do Rio de Janeiro no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, o ritmo do crescimento urbano no \u00faltimo s\u00e9culo sempre ultrapassou qualquer planejamento efetivo do uso do espa\u00e7o ou do solo. Parte do problema reside na oposi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica tradicional ao crescimento urbano. As iniciativas governamentais, seja em n\u00edvel federal, seja em n\u00edvel estadual ou local, sempre tenderam a retardar ou impedir o crescimento urbano em vez de orden\u00e1-lo. \u00c9 muito interessante observar na \u00faltima pesquisa realizada pela Divis\u00e3o de Popula\u00e7\u00e3o da ONU a respeito das atitudes pol\u00edticas do governo federal a respeito da distribui\u00e7\u00e3o espacial da popula\u00e7\u00e3o, o Brasil respondeu que gostaria de ver uma mudan\u00e7a \u0093major\u0094 nesse particular, incluindo uma redu\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o rural-urbana e da migra\u00e7\u00e3o para aglomera\u00e7\u00f5es urbanas (UNITED NATIONS, 2010b). Tais atitudes, num pa\u00eds que j\u00e1 tem mais de 80% da sua popula\u00e7\u00e3o residente em \u00e1reas urbanas e quase dois quintos em cidades de mais de um milh\u00e3o de habitantes, n\u00e3o somente surpreendem, mas refletem tamb\u00e9m um anti-urbanismo muito arraigado e superado pelos fatos.\n\nEssa atitude se reflete concretamente em a\u00e7\u00f5es pouco condizentes com o respeito do direito \u00e0 cidade em n\u00edvel local. Estudos recentes sugerem que, em muitos lugares, a aus\u00eancia de uma atitude proativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades de moradia dos pobres representa muito mais que apatia. Tem sido parte de um esfor\u00e7o expl\u00edcito e sistem\u00e1tico por parte de tomadores de decis\u00e3o locais para obstruir o assentamento e a perman\u00eancia de pobres, especialmente migrantes, nas suas cidades. Nesta linha, diversos munic\u00edpios t\u00eam adotado a pr\u00e1tica de dificultar o acesso \u00e0 compra de lotes, inclusive impondo regulamentos ut\u00f3picos e irrealistas com rela\u00e7\u00e3o ao tamanho m\u00ednimo do lote, com a clara inten\u00e7\u00e3o de afastar compradores de baixa renda. Outras medidas como recusar o acesso \u00e0 \u00e1gua, saneamento, transporte e outros servi\u00e7os s\u00e3o utilizadas para impedir a vinda de migrantes e o crescimento urbano (FELER; HENDERSON, 2008).\n\nEsse tipo de iniciativa de parte do poder p\u00fablico local tem implica\u00e7\u00f5es que extrapolam os seus efeitos imediatos sobre a migra\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>No curto prazo, os pobres t\u00eam que \u0093se virar\u0094 para encontrar um espa\u00e7o para morar:<\/strong> na melhor das hip\u00f3teses a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda \u00e9 obrigada a comprar terrenos a pre\u00e7os mais elevados de provedores \u0093informais.\u0094 Os outros menos afortunados estabelecem suas resid\u00eancias prec\u00e1rias em lugares ilegais, inadequados ou perigosos como em \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental, encostas de morros, terrenos contaminados ou \u00e0 beira de rios, sempre sujeitos \u00e0 instabilidade ou ao despejo e vulner\u00e1vel \u00e1s intemp\u00e9ries clim\u00e1ticas. A falta de uma moradia fixa num lugar adequado est\u00e1 na raiz da incapacidade de se beneficiar de tudo que a cidade pode oferecer em termos de emprego, servi\u00e7os e bem-estar.\n\nPr\u00e1ticas como essas que limitam a acesso da popula\u00e7\u00e3o mais pobre \u00e0 cidade infringem os direitos b\u00e1sicos desse grupo, mas tamb\u00e9m t\u00eam outras implica\u00e7\u00f5es not\u00e1veis de maior alcance. Favorecem o crescimento de bairros marginalizados e insalubres em qualquer parte da cidade. Isto contribui para a vulnerabilidade e para a multiplica\u00e7\u00e3o de ambientes insalubres, ao mesmo tempo que favorece a desorganiza\u00e7\u00e3o social e a criminalidade. Tamb\u00e9m contribui para a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e est\u00e1 na raiz das grandes calamidades p\u00fablicas. Tudo isto afeta a capacidade da cidade para competir por investimentos e, portanto, acaba reduzindo a gera\u00e7\u00e3o de emprego e a base fiscal nessa localidade.\n\nNas condi\u00e7\u00f5es da economia globalizada, a gera\u00e7\u00e3o de um clima de investimento est\u00e1vel \u00e9 t\u00e3o importante a n\u00edvel local quanto nacional. Nas cidades, a qualidade da infra-estrutura, as amenidades sociais e culturais e a exist\u00eancia de um ambiente institucional que demonstra interesse nos direitos dos seus cidad\u00e3os s\u00e3o caracter\u00edsticas que afetam as decis\u00f5es de investidores. Essas condi\u00e7\u00f5es dificilmente ser\u00e3o percebidas em cidades que deixam de considerar as necessidades do seu maior grupo social, ou pior, que tomam medidas expl\u00edcitas para excluir certos segmentos da popula\u00e7\u00e3o.\n\nQuando os tomadores de decis\u00e3o nessas cidades finalmente resolvem tentar torn\u00e1-las mais habit\u00e1veis e pr\u00f3speras, descobrem que t\u00eam muitas dificuldades para atrair investimentos e gerar emprego. Descobrem tamb\u00e9m que o esfor\u00e7o de oferecer servi\u00e7os e infra-estrutura para essas popula\u00e7\u00f5es pobres, depois de instalados esses bairros informais e favelas, tem um custo social e econ\u00f4mico muito mais elevado do que se tivesse sido tomada uma atitude proativa, preparando-se para o crescimento inevit\u00e1vel e proporcionando condi\u00e7\u00f5es decentes \u00e0s pessoas que queriam se instalar na cidade. Vale observar que oferecer condi\u00e7\u00f5es dignas n\u00e3o significa \u0093dar\u0094 uma moradia, pois existem diversas formas de fazer com que os custos de oferecer um assentamento digno sejam ressarcidos ao longo do tempo pelo poder p\u00fablico. A compra parcelada do terreno e a seguran\u00e7a da propriedade incentiva investimentos dos pr\u00f3prios moradores que acabam valorizando suas casas, seu bairro e a pr\u00f3pria cidade.\n\nPara reverter as tend\u00eancias atuais que favorecem a continuada expans\u00e3o de setores informais, teriam que ser adotadas duas iniciativas que s\u00e3o dif\u00edceis de implementar numa sociedade marcada pelo privil\u00e9gio e pela desigualdade e na qual se trata os bairros pobres como cancros que dever\u00e3o desaparecer por si mesmos. Primeiro, teriam que ser abolidas essas medidas que discriminam explicitamente contra o assentamento de popula\u00e7\u00f5es mais pobres. Ao mesmo tempo, os mercados de terra distorcidos que caracterizam as \u00e1reas urbanas teriam que ser regulados e a popula\u00e7\u00e3o pobre protegida de maneira positiva contra as pr\u00e1ticas abusivas de especuladores imobili\u00e1rios e de empres\u00e1rios do setor informal. Segundo e ainda mais importante, o setor p\u00fablico precisaria tomar uma atitude proativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades futuras de solo urbano para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre. A maioria das cidades disp\u00f5e de terras aptas que est\u00e3o sendo mantidas em reserva por especuladores. Medidas en\u00e9rgicas teriam que ser tomadas para taxar essas propriedades especulativas e viabilizar a sua integra\u00e7\u00e3o no mercado formal.\n\nEm suma, muitos dos problemas ambientais enfrentados pelas cidades brasileiras s\u00e3o intimamente ligados com quest\u00f5es sociais e os dois t\u00eam suas origens na falta de uma postura proativa da sociedade brasileira e do poder p\u00fablico com rela\u00e7\u00e3o ao crescimento urbano. Dentro desta atitude, o descaso com as dificuldades do grupo social maior \u0096 a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda \u0096 reflete uma toler\u00e2ncia secular com a desigualdade. Ou seja, trata-se de uma falta de vis\u00e3o t\u00e9cnica para lidar com uma das mais transcendentes transforma\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria brasileira, conjugado a uma cegueira pol\u00edtica derivada de uma estrutura social focada nos interesses dos ricos e poderosos, a qual impede enxergar os males causados por essa aus\u00eancia de proposta coerente para o crescimento urbano inevit\u00e1vel. O \u00eaxito de uma cidade depende de uma governan\u00e7a moderna, capaz de lidar efetivamente com o crescimento e gerando um ambiente social mais atrativo. Ponto de partida para esse \u00eaxito \u00e9 saber lidar de maneira positiva com o crescimento populacional e a integra\u00e7\u00e3o produtiva de diferentes setores na sociedade urbana.\n\n<strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong>\n\nA urbaniza\u00e7\u00e3o e o crescimento urbano acelerado podem ser vistos como os processos de maior influ\u00eancia na determina\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e ambientais dos pa\u00edses em desenvolvimento no s\u00e9culo 21. A escala do crescimento urbano nesses pa\u00edses, particularmente na \u00c1sia e na \u00c1frica, n\u00e3o tem precedentes na hist\u00f3ria da humanidade. A maneira em que a concentra\u00e7\u00e3o populacional vai se realizar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas vai afetar diretamente o desenvolvimento, a pobreza e as condi\u00e7\u00f5es ambientais desses pa\u00edses e, por \u00faltimo, do mundo todo.\n\nAt\u00e9 o atual momento, a maioria dos tomadores de decis\u00e3o t\u00eam se limitado a reagir ao crescimento urbano, inclusive de forma negativa, em vez de preparar-se para essa transforma\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel. Dada a escala das mudan\u00e7as em curso, a din\u00e2mica social e econ\u00f4mica dos processos urbanos e a dimens\u00e3o de suas consequ\u00eancias, este tipo de laissez-faire \u00e9 um convite para um desastre monumental. Bem orientado, dentro de uma governan\u00e7a mais efetiva, a urbaniza\u00e7\u00e3o pode ser uma for\u00e7a importante na redu\u00e7\u00e3o da pobreza, na estabiliza\u00e7\u00e3o do crescimento populacional e no forjamento de um futuro ambiental mais seguro. Mas se essa transforma\u00e7\u00e3o for deixado na m\u00e3o das for\u00e7as do mercado e da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, dentro de um contexto de desigualdade pol\u00edtica e social, ela vai avolumar a pobreza, multiplicar as favelas e aumentar a degrada\u00e7\u00e3o ambiental num ritmo nunca visto anteriormente.\n\nA experi\u00eancia da urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira pode oferecer li\u00e7\u00f5es importantes que podem ser aproveitadas por outros pa\u00edses que se encontram atualmente numa fase menos avan\u00e7ada de sua transi\u00e7\u00e3o urbana. Essas li\u00e7\u00f5es s\u00e3o particularmente cruciais tendo em vista a magnitude do crescimento urbano que est\u00e1 por vir na \u00c1frica e na \u00c1sia. Habitualmente, a primeira rea\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos e administradores urbanos \u00e9 de tentar impedir ou retardar o crescimento urbano, criando obst\u00e1culos para a chegada de migrantes. A hist\u00f3ria mostra que essas tentativas n\u00e3o funcionam. Primeiro porque os migrantes continuam vindo, sabendo que suas possibilidades de melhorar de vida tendem a ser melhores nas cidades.\n\nSegundo, porque a parcela maior do crescimento urbano adv\u00e9m, cada vez mais, do crescimento vegetativo das pr\u00f3prias cidades e n\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o.\n\nOs lideres dos pa\u00edses que est\u00e3o iniciando sua transi\u00e7\u00e3o urbana deveriam abra\u00e7ar as potencialidades da urbaniza\u00e7\u00e3o e planejar estrategicamente o crescimento urbano inevit\u00e1vel, em vez de tentar impedi-lo como t\u00eam feito muitos pol\u00edticos e administradores brasileiros. Aceitar que a popula\u00e7\u00e3o mais pobre tem o direito \u00e0 cidade \u00e9 um primeiro passo cr\u00edtico. O pr\u00f3ximo passo exige a formula\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica sobre o uso sustent\u00e1vel do espa\u00e7o para orientar a expans\u00e3o urbana. \u00c9 muito importante prever e orientar a expans\u00e3o espacial da cidade, de modo a reduzir a depreda\u00e7\u00e3o do capital ambiental, evitar desastres naturais e garantir a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.\n\nDentro desta vis\u00e3o, \u00e9 essencial prever as necessidades de solo e moradia para a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda. A maneira mais eficaz de conseguir isso \u00e9 de prever e oferecer, dentro de um plano economicamente sustent\u00e1vel que inclui o financiamento de lotes adequadas, a provis\u00e3o de servi\u00e7os b\u00e1sicos para essa popula\u00e7\u00e3o assim como a taxa\u00e7\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Esse planejamento proativo \u0096 que deve ser feito tamb\u00e9m com a participa\u00e7\u00e3o dos interessados \u0096 \u00e9, reconhecidamente, muito menos custoso, em termos sociais e econ\u00f4micos, que as tentativas de consertar assentamentos informais j\u00e1 instalados e dot\u00e1-los de servi\u00e7os e infra-estrutura b\u00e1sica. Essa atitude proativa \u00e9 parte essencial de uma boa governan\u00e7a e termina beneficiando a pr\u00f3pria cidade, melhorando a viv\u00eancia dos seus moradores e aumentando a sua prosperidade.\n\n<strong>George Martine<\/strong>\n\n<strong>Gordon McGranahan<\/strong>\n\n<strong>Fonte:<\/strong> www.geobrasil2001.hpg.ig.com.br\/renataterence.webnode.com.br\/www.unfpa.org.br\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Urbaniza\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio, Brasil, Brasileiro, Processo, Cidades, Popula\u00e7\u00e3o, Consequ\u00eancia, Caracter\u00edsticas, Industrializa\u00e7\u00e3o, Problema, Resumo, Urbaniza\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5640,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-5639","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geografia-2"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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