{"id":26150,"date":"2015-12-29T00:00:00","date_gmt":"2015-12-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/comuna-de-paris-4\/"},"modified":"2026-09-01T17:59:58","modified_gmt":"2026-09-01T17:59:58","slug":"comuna-de-paris-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-geral\/comuna-de-paris-4\/","title":{"rendered":"Comuna de Paris"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"ads-cima\"><\/p>\n&nbsp;\n<h4>INSURREI\u00c7\u00c3O POPULAR<\/h4>\n<strong>Insurrei\u00e7\u00e3o popular <\/strong>ocorrida em Paris em 1871, quando, pela primeira vez na hist\u00f3ria, se instala um governo revolucion\u00e1rio de tend\u00eancia socialista.\n\nApesar da curta dura\u00e7\u00e3o, dois meses, influencia movimentos socialistas posteriores, como a Revolu\u00e7\u00e3o Russa.\n\nA derrota sofrida pela Fran\u00e7a na Guerra Franco-Prussiana (1870) provoca a derrubada do imperador Napole\u00e3o III e a proclama\u00e7\u00e3o da III Rep\u00fablica.\n\nO novo governo, chefiado por Adolphe Thiers, negocia a paz com Otto von Bismarck, da Pr\u00fassia, sob protestos da popula\u00e7\u00e3o.\n\nOs habitantes de Paris, sitiados pelo inimigo, revoltados com a capitula\u00e7\u00e3o francesa e castigados pelo alto custo de vida, organizam a resist\u00eancia.\n\nEm mar\u00e7o de 1871, os rebeldes tomam o poder em Paris com o apoio da Guarda Nacional e organizam a Comuna.\n\nO governo revolucion\u00e1rio, formado por um conselho de cidad\u00e3os eleitos pelo voto universal, conta com a participa\u00e7\u00e3o de representantes de v\u00e1rias tend\u00eancias socialistas.\n\nA administra\u00e7\u00e3o da cidade \u00e9 delegada a funcion\u00e1rios eleitos e as f\u00e1bricas passam a ser geridas por conselhos de trabalhadores. Em abril, a Comuna de Paris faz um manifesto \u00e0 na\u00e7\u00e3o, conclamando todos os cidad\u00e3os franceses a formar uma federa\u00e7\u00e3o de comunas livres e independentes. O\n\nTratado de Paz entre a Fran\u00e7a e a Alemanha \u00e9 assinado em maio de 1871 e, em seguida, as tropas do governo de Thiers invadem Paris. Em poucos dias a Comuna \u00e9 derrotada. Cerca de 20 mil pessoas s\u00e3o mortas e mais de 40 mil, presas. A\n\np\u00f3s a derrota da Comuna, as tropas alem\u00e3s deixam o pa\u00eds.\n\nA express\u00e3o<strong> Comuna de Paris<\/strong> tamb\u00e9m se refere ao governo institu\u00eddo em Paris em 1792, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.\n\nNa \u00e9poca, os sans-culotte, liderados pelos jacobinos, organizam tropas nacionais e assumem o governo da capital.\n<h4>MAR\u00c7O A MAIO DE 1871<\/h4>\nNome por que se tornou conhecida a revolta popular que instalou na capital francesa, de mar\u00e7o a maio de 1871, um governo revolucion\u00e1rio de tipo socialista.\n\nA humilhante derrota infligida \u00e0 Fran\u00e7a pela Pr\u00fassia foi a causa imediata da instala\u00e7\u00e3o do governo popular da Comuna de Paris, que para Karl Marx constituiu o primeiro modelo de estado socialista.\n\nPassou \u00e0 hist\u00f3ria com o nome de Comuna a revolta popular que, de 18 de mar\u00e7o a 27 de maio de 1871, instaurou em Paris um governo revolucion\u00e1rio.\n\nA Assembl\u00e9ia Nacional, eleita em fevereiro de 1871 para concluir um tratado de paz depois da queda do segundo imp\u00e9rio franc\u00eas (1852-1870), tinha uma maioria de monarquistas, reflexo do conservadorismo das prov\u00edncias. Os parisienses, republicanos, temeram que a assembl\u00e9ia restaurasse a monarquia.\n\nAdolphe Thiers, chefe do governo, transferiu as sess\u00f5es da Assembl\u00e9ia Nacional para Versalhes, onde adotou medidas impopulares, como a supress\u00e3o do soldo dos guardas nacionais &#8211; corpora\u00e7\u00e3o civil integrada em grande parte por desempregados &#8211; e a anula\u00e7\u00e3o da morat\u00f3ria dos alugu\u00e9is, o que trazia o risco de desalojamento para milhares de pessoas. Apesar das ondas de protesto que essas medidas suscitaram, a revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 explodiu em 18 de mar\u00e7o, quando a assembl\u00e9ia decidiu apoderar-se dos canh\u00f5es da guarda nacional. As tropas enviadas para confiscar essas armas passaram para o lado dos rebeldes e fuzilaram v\u00e1rios generais.\n\nAnte a ordem governamental de evacuar Paris, a guarda respondeu escolhendo um comit\u00ea central, constitu\u00eddo por delegados dos distritos parisienses. As elei\u00e7\u00f5es municipais de 26 de mar\u00e7o, organizadas por esse comit\u00ea, deram a vit\u00f3ria aos revolucion\u00e1rios, que formaram o governo da Comuna de Paris, integrado por noventa membros e dominado por diferentes ideologias.\n\nOs blanquistas, seguidores do socialista Auguste Blanqui, se pronunciavam pela luta aberta contra Versalhes. Os jacobinos pretendiam que a comuna fosse a condutora de uma nova Fran\u00e7a revolucion\u00e1ria, como em 1792, enquanto os socialistas proudhonianos propunham uma federa\u00e7\u00e3o de comunas de todo o pa\u00eds.\n\nEsta \u00faltima foi a orienta\u00e7\u00e3o predominante no manifesto de 18 de abril, que ratificava o esp\u00edrito republicano do regime revolucion\u00e1rio, abolia os subs\u00eddios \u00e0 igreja e a separava do estado, e proclamava uma jornada de trabalho de dez horas. A revolu\u00e7\u00e3o estendeu-se a outras cidades, como Lyon, Saint-\u00c9tienne, Toulouse e Marselha, mas nelas foi imediatamente reprimida.\n\nRestava somente Paris, com muitos de seus habitantes dispostos a defender encarni\u00e7adamente o que consideravam o governo do povo. As for\u00e7as leais a Thiers se concentraram em meados de maio no acampamento de Satory e foram refor\u00e7adas por soldados franceses oportunamente libertados pelos alem\u00e3es.\n\nA Comuna, embora tivesse canh\u00f5es e meio milh\u00e3o de fuzis, ressentia-se de grande indisciplina em suas for\u00e7as e seus chefes careciam de experi\u00eancia militar. Al\u00e9m disso, nem todos os habitantes de Paris estavam do lado dos revolucion\u00e1rios.\n<h4>A luta foi cruenta<\/h4>\nO general Mac-Mahon sitiou a cidade e, a partir de 11 de abril, iniciou um intenso bombardeio das posi\u00e7\u00f5es dos rebeldes. A defesa se manteve entre o dia 24 desse m\u00eas e 20 de maio. As tropas governamentais entraram na capital em 21 de maio e, durante uma semana, travaram uma terr\u00edvel batalha nas ruas de Paris, desesperadamente defendidas pelos insurretos, que incendiaram o pal\u00e1cio das Tulherias e a prefeitura. Depois da vit\u00f3ria, em 27 de maio de 1871, e durante anos, at\u00e9 a proclama\u00e7\u00e3o de uma lei de anistia em 11 de julho de 1880, o governo executou uma feroz repress\u00e3o, procedendo a deporta\u00e7\u00f5es e pris\u00f5es em massa, que praticamente aniquilaram o partido revolucion\u00e1rio.\n\nA heran\u00e7a da Comuna \u00e9 universal e permanece com uma extraordin\u00e1ria atualidade. Democr\u00e1tica e plural, tentou no seu tempo, resolver problemas que ainda hoje nos afligem. Sem tempo, inexperiente e sem meios, a Comuna so\u00e7obrou. Mas ficou o seu exemplo e a sua obra.\n\nPASSADOS 132 ANOS desde a sua eclos\u00e3o, a Comuna assume toda a sua modernidade, perfilando-se como um referencial revolucion\u00e1rio para os trabalhadores de todo o mundo. Tal como hoje nos quatro cantos do planeta, nos finais do s\u00e9culo XIX os prolet\u00e1rios parisienses clamaram bem alto que &#8220;outro mundo era poss\u00edvel&#8221;.\n\nV\u00e1rios fatores concorreram para o desencadear do 18 de Mar\u00e7o de 1871 &#8211; a riqueza extraordin\u00e1ria das tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias francesas (Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789, Constitui\u00e7\u00e3o de 1793 que proclamou o direito \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o, revolu\u00e7\u00f5es de 1830, de 1848&#8230;), a ascens\u00e3o do movimento oper\u00e1rio sob o Segundo Imp\u00e9rio Napole\u00f3nico (se\u00e7\u00e3o francesa da I Internacional, propaga\u00e7\u00e3o do marxismo, poderoso movimento grevista com destaque para os oper\u00e1rios de Creusot&#8230;), e a tremenda derrota e capitula\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito franc\u00eas de Napole\u00e3o III frente \u00e0 Pr\u00fassia. Procurando conservar o seu poder em perigo e com o objetivo de disputar a hegemonia na Europa, Napole\u00e3o III tinha declarado guerra \u00e0 Pr\u00fassia em Julho de 1870. O Imperador foi aprisionado em Sedan e os prussianos avan\u00e7aram at\u00e9 \u00e0s portas de Paris.\n\nA 4 de Setembro de 1870 o Imp\u00e9rio foi derrubado, em grande parte devido \u00e0 resist\u00eancia e ao combate dos trabalhadores de Paris. O novo Governo republicano, sabotou a guerra com medo do povo em armas (a Guarda Nacional encontrava-se dotada de canh\u00f5es comprados por subscri\u00e7\u00e3o popular). A burguesia, temendo o povo, assinou um armist\u00edcio a 28 de Janeiro de 1871, cedendo a Als\u00e1cia e a Lorena \u00e0 Pr\u00fassia, elegeu uma Assembleia Nacional maioritariamente realista e instalou o Governo em Versalhes sob a presid\u00eancia de Thiers. Na altura, o jornalista Francisque Sarcey observou de forma acertada que &#8220;a burguesia via-se, n\u00e3o sem uma certa melancolia, entre os Prussianos que lhe pisavam a garganta e aqueles a quem chamava vermelhos e que s\u00f3 via armados de punhais.\n\n<strong>N\u00e3o sei quais deles faziam mais medo:<\/strong> odiava mais os estrangeiros, mas temia mais os de Belleville&#8221;. A trai\u00e7\u00e3o estava em marcha.\n\nNo dia 18 de Janeiro de 1871 Thiers ordenou ao ex\u00e9rcito que retirasse os canh\u00f5es da Guarda Nacional das colinas de Montmartre. O povo do bairro mobilizou-se e confraternizou com as tropas. Os generais Cl\u00e9ment Thomas e Lecomte, que v\u00e1rias vezes ordenaram que se disparasse sobre a multid\u00e3o, foram fuzilados pelos seus pr\u00f3prios soldados. As for\u00e7as governamentais recuaram em desordem para Versalhes. A batalha na Pra\u00e7a Pigalle fora decisiva. Depois da liberta\u00e7\u00e3o de toda a cidade de Paris pelos prolet\u00e1rios insurrectos, nos Pa\u00e7os do Concelho passou a flutuar vitoriosamente a bandeira vermelha da revolu\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>A 21 de Mar\u00e7o o comit\u00e9 central da Guarda Nacional proclamou:<\/strong> &#8220;Os prolet\u00e1rios, no meio das tibiezas e trai\u00e7\u00f5es das classes governamentais, compreenderam que chegara a hora de salvarem a situa\u00e7\u00e3o tomando em m\u00e3os a dire\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica&#8221;. A Comuna de Paris come\u00e7ava.\n<h4>A primeira revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria mundial<\/h4>\nOs trabalhadores industriais constitu\u00edam a massa dos communards. O Conselho Geral da Comuna tinha 30% de oper\u00e1rios, um n\u00famero deveras significativo. Esta classe oper\u00e1ria revolucion\u00e1ria, era uma classe &#8220;filha da \u00e9poca&#8221;, de um capitalismo em plena ascens\u00e3o, por isso era uma classe oper\u00e1ria mal estruturada, inexperiente, o que contribuiu em parte, para as rivalidades paralisantes da Comuna. Apesar das debilidades, os oper\u00e1rios parisienses lan\u00e7aram-se &#8220;ao assalto dos c\u00e9us&#8221;.\n\nA Comuna tomou diversas medidas de car\u00e1cter social em rela\u00e7\u00e3o aos oper\u00e1rios. As multas patronais e o trabalho nocturno nas padarias foram abolidos, os alojamentos vagos requisitados. As oficinas, encerradas pelos patr\u00f5es que desertaram, foram entregues a oper\u00e1rios associados que retomaram a sua labora\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Frankel, ministro do Trabalho da Comuna, frisou: <\/strong>&#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o do 18 de Mar\u00e7o foi feita pela classe oper\u00e1ria. Se n\u00e3o fizermos nada por essa classe, n\u00e3o vejo a raz\u00e3o de ser da Comuna&#8221;.\n<h4>A democracia &#8211; o verdadeiro poder do povo<\/h4>\nProclamada a 28 de Mar\u00e7o na pra\u00e7a dos Pa\u00e7os do Concelho, (a 26 o povo de Paris elegeu os membros da Comuna em elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas sem precedentes na hist\u00f3ria), perante uma multid\u00e3o de milhares de pessoas que agitando bandeiras gritavam freneticamente &#8220;Viva a Comuna!&#8221;, o seu exemplo foi seguido pelos oper\u00e1rios de Saint-\u00c9tienne e de Lyon, que se rebelaram contra o poder e proclamaram igualmente a Comuna.\n\nA Comuna de Paris instaurou a mais aut\u00eantica das democracias, o verdadeiro poder do povo. Al\u00e9m das medidas de \u00e2mbito social j\u00e1 enunciadas, o programa dos communards tamb\u00e9m reivindicava a organiza\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito, da troca e da associa\u00e7\u00e3o, a fim de assegurar ao trabalhador o valor integral do seu trabalho. A instru\u00e7\u00e3o gratuita, laica e integral. O direito de reuni\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o, a liberdade da imprensa, bem como a do cidad\u00e3o. A organiza\u00e7\u00e3o do ponto de vista municipal dos servi\u00e7os de pol\u00edcia, for\u00e7as armadas, higiene, estat\u00edstica, etc.\n\nOs eleitos da Comuna encontravam-se sujeitos a um mandato imperativo, respondiam pelos seus atos e eram revog\u00e1veis. Os ju\u00edzes e funcion\u00e1rios tamb\u00e9m eram eleitos e revog\u00e1veis. A Guarda Nacional, que acumulava as fun\u00e7\u00f5es de ex\u00e9rcito e de pol\u00edcia (o ex\u00e9rcito permanente foi suprimido), elegia os seus oficiais e sargentos. Os pr\u00f3prios membros do Conselho da Comuna auferiam um sal\u00e1rio equivalente ao sal\u00e1rio m\u00e9dio de um oper\u00e1rio.\n\nA Comuna inventou a educa\u00e7\u00e3o popular, procurando alargar os horizontes culturais do povo. Foram reorganizadas as bibliotecas e reabertos os teatros e as \u00f3peras.\n\n<strong>Instaurou os cursos p\u00fablicos, levando Louise Michel a evocar com entusiasmo<\/strong>: &#8220;Quer\u00edamos tudo de uma vez, artes, ci\u00eancias, literatura, descobertas, os nossos olhos cintilavam&#8221;. Para o estabelecimento de uma escola laica e gratuita, a Comuna apelava \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos professores, pais e alunos e da sociedade para uma Educa\u00e7\u00e3o Nova.\n\nAs mulheres tiveram um papel de destaque na Comuna. Louise Michel esteve na linha da frente em Montmartre, a russa Elisabeth Dmitrieff e a oper\u00e1ria encadernadora Nathalie le Mel animaram uma Uni\u00e3o das Mulheres, organismo essencial para a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher, libertando-a assim das supersti\u00e7\u00f5es e do poder da Igreja. Importantes conquistas foram conseguidas por este primeiro movimento feminino de massas, como a obten\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio igual para trabalho igual.\n\nOs pr\u00f3prios estrangeiros adquiriram a cidadania de pleno direito, ocupando cargos dirigentes mesmo sem estarem naturalizados, o que n\u00e3o deixa de constituir um exemplo para os dias de hoje. Est\u00e3o neste caso o judeu h\u00fangaro, Leo Frankel, oper\u00e1rio joalheiro, ficando \u00e0 frente do minist\u00e9rio do Trabalho; Elisabeth Dmitrieff dirigiu a Uni\u00e3o das Mulheres; os generais polacos Dombrowski e Wroblewski assumiram comandos militares.\n\nA democracia communard funcionou com uma aut\u00eantica democracia, como o verdadeiro poder do povo, embora \u00e0 escala de uma cidade e durante apenas 72 dias.\n<h4>A Semana Sangrenta<\/h4>\nDurante a Semana Sangrenta, 21 a 28 de Maio de 1871, os revolucion\u00e1rios da Comuna tiveram de enfrentar o poderoso ex\u00e9rcito versalh\u00eas de Thiers, que aumentou consideravelmente com a cumplicidade dos prussianos, j\u00e1 que estes libertaram o ex\u00e9rcito franc\u00eas de Bazaine. As classes dirigentes, francesas, prussianas ou outras, nutriam um \u00f3dio visceral aos prolet\u00e1rios de Paris, que pretendiam construir um outro mundo, mais justo, fraterno e solid\u00e1rio. Por esse fato, erigiram a Rep\u00fablica Universal como bandeira da Comuna e demoliram a coluna Vend\u00f4me que simbolizava o militarismo de Napole\u00e3o e o chauvinismo da burguesia.\n\nMilhares de oper\u00e1rios, mulheres e filhos, enfrentaram as tropas versalhesas que cercaram a Comuna. Trabalharam dia e noite para cavar trincheiras, ergueram barricadas, consolidaram fortes e muralhas, distribu\u00edram canh\u00f5es e muni\u00e7\u00f5es. As trabalhadoras de Paris tamb\u00e9m pegaram em armas para participarem no combate. O Corpo Volunt\u00e1rio dos Cidad\u00e3os desempenhou um importante papel na luta para a defesa da Comuna.\n\nA 28 de Maio, entrincheirados no cemit\u00e9rio de P\u00e8re Lachaise, os \u00faltimos communards, cerca de 200, combateram corajosamente contra 5 000 soldados inimigos. Nenhum dep\u00f4s as armas ou se rendeu. Foram fuzilados contra o muro do cemit\u00e9rio, gritando &#8220;Viva a Comuna!&#8221;. Este muro, chamado mais tarde como o &#8220;Muro dos Federados&#8221;, lembra os princ\u00edpios da Comuna aos prolet\u00e1rios e ao povo de todo o mundo, encorajando-os a combater at\u00e9 ao fim pela liberta\u00e7\u00e3o do g\u00e9nero humano.\n\nOs versalheses transformaram Paris num matadouro, com a orgia de horrores, execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias, inc\u00eandios e pilhagens. As casamatas das fortifica\u00e7\u00f5es, cheias de cad\u00e1veres, funcionaram como fornos cremat\u00f3rios. Foram enterrados communards vivos. Foi um aut\u00eantico banho de sangue entre os prolet\u00e1rios parisienses &#8211; cerca de 30 000 fuzilados, 42 522 presos, 13 440 condena\u00e7\u00f5es em conselhos de guerra, entre as quais 270 a pena de morte (26 execu\u00e7\u00f5es) e 4 586 deporta\u00e7\u00f5es para a Nova Caled\u00f3nia, entre homens e mulheres.\n\n<strong>Depois de todo este banho de sangue, o tenebroso Thiers declarou:<\/strong> &#8220;Livr\u00e1mo-nos do socialismo&#8221;.\n<h4>O significado e a modernidade da Comuna<\/h4>\nConforme nos diz o grande escritor Prosper-Olivier Lissagaray em a Hist\u00f3ria da Comuna de 1871, &#8220;o massacre dos comuneiros n\u00e3o \u00e9 um momento de loucura de um punhado de reaccion\u00e1rios; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma daquelas &#8220;horas da verdade&#8221; da luta de classes, quando vem ao de cima o \u00f3dio latente dos que permanentemente vigiam, com um misto de desprezo e receio, aqueles sobre cuja desgra\u00e7a constroem os seus privil\u00e9gios&#8221;. Tratou-se de um furor coletivo de uma classe que reagiu de forma planeada \u00e0 amea\u00e7a ao seu estatuto. S\u00f3 assim se compreende que, na \u00e9poca, intelectuais, escritores e artistas tenham coberto os communards de insultos.\n\n\u00c0 excep\u00e7\u00e3o de Courbet, Verlaine, Rimbaud, e at\u00e9 certo ponto Victor Hugo, a grande maioria reagiu com \u00f3dio profundo \u00e0 Comuna. Grandes escritores como George Sand, Alphonse Daudet, Gustave Flaubert, Em\u00edlio Zola, Th\u00e9ophile Gautier e Dumas filho , aplaudiram a repress\u00e3o e lan\u00e7aram infames cal\u00fanias contra quem apenas pretendia construir um mundo novo.\n\n<strong>O jornal Figaro aplaudia: <\/strong>&#8220;Nunca mais teremos ocasi\u00e3o igual para curar Paris da gangrena mortal que a corr\u00f3i desde h\u00e1 vinte anos (&#8230;) Hoje, a clem\u00eancia seria dem\u00eancia (&#8230;) Vamos, gente honesta! Ajudai a acabar com a praga democr\u00e1tica e social!&#8221;.\n\nAfinal, quais foram os crimes da &#8220;canalha&#8221; \u00e0 solta que motivaram toda esta febre de vingan\u00e7a? A Comuna de Paris foi mais que uma insurrei\u00e7\u00e3o. Foi o surgimento de um princ\u00edpio novo e a afirma\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica nunca antes conhecida. Come\u00e7ando pela defesa da Rep\u00fablica, evoluiu inexoravelmente para a procura do socialismo. A Comuna baseava-se na gest\u00e3o coletiva e considerava que o Estado devia emanar diretamente do povo e manter-se sob o seu permanente controlo.\n\nDefendia a coletiviza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o como uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para a igualdade social, em que o trabalhador devia beneficiar do produto do seu trabalho por inteiro.\n\n<strong>Derrotada, a Comuna n\u00e3o morreu. Victor Hugo, dirigindo-se-lhe, referiu: <\/strong>&#8220;O cad\u00e1ver est\u00e1 na terra, mas a ideia est\u00e1 de p\u00e9&#8221;.\n\n<strong>Pottier cantou:<\/strong> &#8220;N\u00e3o importa, a Comuna n\u00e3o est\u00e1 morta&#8221;. O expectro da Comuna al\u00e9m de perseguir os &#8220;realistas&#8221; e impedir a restaura\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica em Fran\u00e7a, inspirou o movimento oper\u00e1rio mundial.\n\nA heran\u00e7a da Comuna \u00e9 universal e permanece com uma extraordin\u00e1ria atualidade. Democr\u00e1tica e plural, tentou no seu tempo, resolver problemas que ainda hoje nos afligem. Sem tempo, inexperiente e sem meios, a Comuna so\u00e7obrou. Mas ficou o seu exemplo e a sua obra. A Comuna passou a ocupar um importante lugar na evolu\u00e7\u00e3o do socialismo. L\u00e9nine disse que a Comuna &#8220;\u00e9 a forma &#8220;enfim descoberta&#8221; pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, que permite realizar a emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do Trabalho&#8221;.\n\nAl\u00e9m da modernidade da Comuna de Paris, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que tempos novos requerem novas solu\u00e7\u00f5es, num mundo onde domina o Imp\u00e9rio global das injusti\u00e7as. Por isso, continua a ser ainda muito atual o lema &#8220;Liberdade, Igualdade, Fraternidade&#8221;.\n<h4>A Comuna de Paris<\/h4>\nVista pela esquerda a <strong>Comuna<\/strong> foi a primeira experi\u00eancia moderna de um governo realmente popular. Um extraordin\u00e1rio acontecimento hist\u00f3rico resultante da iniciativa de grupos revolucion\u00e1rios e do espontane\u00edsmo pol\u00edtico das massas, combinando patriotismo, republicanismo e socialismo, em meio \u00e0 circunst\u00e2ncias dram\u00e1ticas de uma guerra perdida (Franco-Prussiana) e de uma guerra civil em curso.\n<blockquote><strong>Palavra-chave:<\/strong> criatividade instituinte.<strong>\nPressuposto:<\/strong> \u00c9 poss\u00edvel viver sob novas formas pol\u00edticas e sociais, mais justas e igualit\u00e1rias.<strong>\nMotiva\u00e7\u00e3o:<\/strong> tomar de assalto aos c\u00e9us.<\/blockquote>\n<strong>Vista pela direita tratou-se de uma aberra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, obra de fan\u00e1ticos revolucion\u00e1rios e de uma plebe ignorante que, ao afrontar as institui\u00e7\u00f5es, s\u00edmbolos e interesses burgueses-aristocr\u00e1ticos, mereceu o castigo exemplar:<\/strong> nada menos que um banho de sangue, para repor esta gentinha em seu lugar e pensar duas vezes antes de aventurar-se novamente a amea\u00e7ar a boa sociedade.\n<blockquote><strong>Palavra-chave:<\/strong> p\u00e2nico repressivo.<strong>\nPressuposto: <\/strong>A sociedade e seu governo \u00e9 uma prerrogativa (trans)hist\u00f3rica inextric\u00e1vel das elites propriet\u00e1rias.<strong>\nMotiva\u00e7\u00e3o: <\/strong>remeter os insurretos aos infernos.<\/blockquote>\n<h4>Reflex\u00e3o hist\u00f3rica<\/h4>\nDevemos nos precaver de duas vis\u00f5es distorcidas dos processos revolucion\u00e1rios.Tanto uma vis\u00e3o condescendente que tende \u00e0 idealiz\u00e1-los, quanto uma vis\u00e3o intransigente e raivosa, que tende a demoniz\u00e1-los. Fazer julgamentos perempt\u00f3rios depois da ocorr\u00eancia de tais eventos revela usualmente um conhecimento vulgar, ou ent\u00e3o obscuros preconceitos ideol\u00f3gicos. Al\u00e9m de in\u00fateis, tais concep\u00e7\u00f5es, pela distor\u00e7\u00e3o da verdade ou pela super-simplifica\u00e7\u00e3o dos acontecimentos tornam imposs\u00edvel aprender qualquer coisa da hist\u00f3ria.\n\nLer a hist\u00f3ria exige pois m\u00e9todo e mod\u00e9stia; aprender com a hist\u00f3ria requer estudo e reflex\u00e3o. Lembrar e celebrar acontecimentos demanda empatia e compromisso.\n\nInvestigar o processo hist\u00f3rico faz sentido para ajudar a compreender o presente. Atrav\u00e9s do materialismo hist\u00f3rico pode-se chegar \u00e0 compreens\u00e3o e \u00e0 cr\u00edtica da realidade social e ao desnudamento das suas contradi\u00e7\u00f5es.\n\nA partir destas reflex\u00f5es podemos agora rastrear o epis\u00f3dio da Comuna.\n<h4>Experi\u00eancia hist\u00f3rica<\/h4>\nA Comuna de Paris foi um dos mais gloriosos epis\u00f3dios na hist\u00f3ria da classe trabalhadora mundial. Pela primeira vez na hist\u00f3ria as massas populares, trabalhadores \u00e0 frente, derrubaram o velho Estado e come\u00e7aram a transformar a sociedade. Sem planos, sem lideran\u00e7a ou organiza\u00e7\u00e3o as massas demonstraram um elevado grau de coragem combativa, iniciativa revolucion\u00e1ria e de criatividade institucional e administrativa.\n\nNos dia 1 e 2 de setembro de 1870 o ex\u00e9rcito franc\u00eas \u00e9 derrotado em Sedan. No dia 4, em Paris os trabalhadores invadem o Pal\u00e1cio Bourbon e for\u00e7am a Assembl\u00e9ia Legislativa a proclamar a queda do Imp\u00e9rio de Napole\u00e3o III. \u00c1 noite, a Terceira Rep\u00fablica \u00e9 proclamada . Um governo provis\u00f3rio de defesa nacional \u00e9 estabelecido para continuar o esfor\u00e7o de guerra e para remover os prussianos da Fran\u00e7a. Na seq\u00fc\u00eancia de outras derrotas diante dos prussianos em 27 e 31 de outubro, o governo franc\u00eas decide abrir negocia\u00e7\u00f5es de paz. Em 31 de outubro oper\u00e1rios e se\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias da Guarda Nacional tomam o H\u00f4tel de Ville (sede do governo burgu\u00eas). Sob a press\u00e3o dos trabalhadores o governo promete renunciar e convocar elei\u00e7\u00f5es nacionais \u0096 o que n\u00e3o intencionava realizar. Os trabalhadores assim enganados acabam v\u00edtimas das artimanhas do governo, que restabelece sua domina\u00e7\u00e3o.\n\n\u00c0 28 de janeiro Paris sitiada pelos prussianos e esfomeada capitula. Depois de uma s\u00e9rie de concess\u00f5es aos vitoriosos (na pr\u00e1tica, trai\u00e7\u00e3o ao povo) o governo franc\u00eas de Thiers, em 18 de mar\u00e7o tenta desarmar os oper\u00e1rios (da Guarda Nacional) mas fracassa. Come\u00e7a uma guerra civil entre povo\/oper\u00e1rios de Paris e o governo instalado em Versalhes. Em 26 de mar\u00e7o um conselho municipal \u00e9 eleito e a 28 proclamada a Comuna de Paris. Tanto sua composi\u00e7\u00e3o quanto suas resolu\u00e7\u00f5es mostram um car\u00e1ter marcadamente prolet\u00e1rio. The London Times de 29 mar\u00e7o descreve os acontecimentos como uma revolu\u00e7\u00e3o em que predominou o proletariado sobre as classes ricas, o trabalhador sobre o seu patr\u00e3o, o trabalho sobre o capital.\n\nAs medidas e iniciativas da Comuna foram, no entanto, relativamente moderadas, mas suficientes para enfurecer a burguesia francesa e europ\u00e9ia.\n\nA Comuna suprimiu o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio e o ex\u00e9rcito permanente, substituindo-o pelo povo armado. Isentou os pagamentos de aluguel de moradias durante o per\u00edodo da guerra; suspendeu a venda de objetos empenhados nos estabelecimentos de empr\u00e9stimos (mais tarde ordena a supress\u00e3o das casas de penhor, pois estas eram uma forma de explora\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios); decretou a separa\u00e7\u00e3o da Igreja do Estado; estabeleceu um teto salarial para os funcion\u00e1rios p\u00fablicos que n\u00e3o deveria exceder ao dos trabalhadores; destruiu s\u00edmbolos do chauvinismo e de incita\u00e7\u00e3o do \u00f3dio entre as na\u00e7\u00f5es (a bandeira da Comuna era a bandeira da Rep\u00fablica mundial); ordenou a ocupa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas fechadas pelos patr\u00f5es e organizou o rein\u00edcio de suas atividades pelos oper\u00e1rios organizados em cooperativas; declarou extinto o trabalho noturno dos padeiros. A Comuna, por\u00e9m, n\u00e3o teve for\u00e7a ou clarivid\u00eancia para tomar e nacionalizar o Banco da Fran\u00e7a, o que a deixou economicamente nas m\u00e3os de seus inimigos.\n\nPoliticamente a Comuna come\u00e7ou a substituir a velha m\u00e1quina do Estado por uma democracia mais completa, pela substitui\u00e7\u00e3o gigantesca de umas institui\u00e7\u00f5es por institui\u00e7\u00f5es de tipo fundamentalmente diferentes. Tratava-se de uma viragem da democracia burguesa para a democracia oper\u00e1ria. Como escreveu Lenine \u0093A Comuna substitui o parlamentarismo venal e apodrecido da sociedade burguesa por institui\u00e7\u00f5es onde a liberdade de opini\u00e3o e de discuss\u00e3o n\u00e3o degenera em engano, porque os pr\u00f3prios parlamentares t\u00eam de trabalhar, executar eles pr\u00f3prios as suas leis, comprovar eles pr\u00f3prios o que se consegue na vida, responder eles pr\u00f3prios diretamente perante os seus eleitores. As institui\u00e7\u00f5es representativas permanecem, mas o parlamentarismo como sistema especial, como divis\u00e3o do trabalho legislativo e executivo, como situa\u00e7\u00e3o privilegiada para os deputados, n\u00e3o existe aqui.\u0094\n\nPrecaveu-se a Comuna contra abusos burocr\u00e1ticos e carreirismos de seus pr\u00f3prios funcion\u00e1rios e mandat\u00e1rios, declarando-os demiss\u00edveis, a qualquer tempo.\n\nPretendia-se evitar que o poder governamental, como tradicionalmente ocorre, se transformasse de servidor da sociedade em seu senhor. Preencheu todos os cargos administrativos, judiciais e do magist\u00e9rio atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es, mediante o sufr\u00e1gio universal, conferindo aos eleitores o direito de revogar a qualquer momento o mandato concedido.\n\nForam muitas medidas justas como essas que tornaram a experi\u00eancia da Comuna t\u00e3o significativa para as lutas posteriores dos trabalhadores. E tudo isto em t\u00e3o pouco tempo, numa cidade sitiada por ex\u00e9rcito estrangeiro, e submetida \u00e0 guerra civil internamente.\n\nA Comuna, por tudo isto, era intoler\u00e1vel para a antiga ordem burguesa-aristocr\u00e1tica, que tratou de esmag\u00e1-la com ferocidade jamais vista.\n\nOs oper\u00e1rios e o povo da Comuna foram finalmente abatidos diante da superioridade de recursos de seus inimigos de classe. \u00c9 certo que para esta derrota contribu\u00edram, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a fragilidade organizativa da Comuna, a aus\u00eancia de uma programa claro e objetivo, a inexperi\u00eancia pol\u00edtica de muitos de seus membros dirigentes.\n\nNo final de maio de 1871 o ex\u00e9rcito franc\u00eas passa oito dias massacrando os trabalhadores e atirando indiscriminadamente nos civis. Aproximadamente 30.000 foram sumariamente executados, 38.000 aprisionados e 7.000 deportados.\n\nConv\u00e9m lembrar que a Comuna se insere numa longa trajet\u00f3ria de lutas sociais. S\u00f3 para mencionar a Fran\u00e7a (mas de onde se irradiava para o resto do mundo) registre-se as Revolu\u00e7\u00f5es de 1789, 1830, 1848, 1871, e outras tantas revoltas e insurrei\u00e7\u00f5es abortadas. O que se constata \u00e9 uma continuada situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o capitalista, que tem gerado o seu contr\u00e1rio, uma tenaz resist\u00eancia dos povos, uma luta secular pela emancipa\u00e7\u00e3o que ainda est\u00e1 em curso.\n<h4>Refer\u00eancia te\u00f3rica<\/h4>\nDa derrota da Comuna muitas quest\u00f5es se colocaram para a reflex\u00e3o te\u00f3rica dos comprometidos com a supera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do capitalismo. Outros tantos desdobramentos se produziram sobre a organiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio internacional, quanto \u00e0 t\u00e1ticas de luta, formas pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas.\n\n<strong>Do ponto de vista marxista, duas principais quest\u00f5es se destacam:<\/strong> a primeira, um esbo\u00e7o de uma teoria de Estado, com o conceito de \u0093ditadura do proletariado\u0094, como instrumento e fase necess\u00e1ria para a transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, para uma sociedade sem classes e sem Estado.\n\n<strong>Como escreveu Marx: <\/strong>\u0093A Comuna era essencialmente um governo da classe oper\u00e1ria (&#8230;), a forma pol\u00edtica finalmente encontrada para permitir a realiza\u00e7\u00e3o da emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do trabalho.\u0094\n\nA segunda quest\u00e3o refere-se \u00e0 pol\u00edticas de alian\u00e7a, que evitassem o isolamento pol\u00edtico da classe oper\u00e1ria; alian\u00e7as a serem efetivadas com outros setores subalternos, especialmente com o campesinato para promoverem uma revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa.\n\nDo ponto de vista anarquista (fortemente presente na Comuna), se aprofundam e desdobram \u00eanfases no federalismo, na autogest\u00e3o e na a\u00e7\u00e3o organizada volunt\u00e1ria, m\u00faltipla e descentralizada para minar o monop\u00f3lio estatal, formando ent\u00e3o uma rede organizativa n\u00e3o-estatal de uma nova sociedade.\n<h4>Atualidade e perspectivas<\/h4>\nPor mais sugestiva que tenha sido a experi\u00eancia da Comuna para as lutas futuras dos trabalhadores, n\u00e3o conv\u00e9m tom\u00e1-la como paradigma para outros processos de tentativa de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo.\n\nComo se aprende com o materialismo hist\u00f3rico, o que conta em cada situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a din\u00e2mica que as lutas de classe imprimem ao processo hist\u00f3rico e n\u00e3o um modelo dado ou esbo\u00e7ado em outras circunst\u00e2ncias e por outros atores, que deveria ent\u00e3o ser tomado como prot\u00f3tipo.\n\n<strong>O que Marx escreveu sobre a derrota das revolu\u00e7\u00f5es em 1848 tamb\u00e9m caberia sobre a derrota da revolu\u00e7\u00e3o de 1871:<\/strong>\n\nA comuna est\u00e1 morta! Viva a Comuna.\n\nFonte: geocities.yahoo.com.br\n<h6>Comuna de Paris<\/h6>\n<p class=\"google\"><\/p>\n\n<h4>ENSINAMENTOS<\/h4>\nEla manteve o poder por apenas 72 dias, mas deixou um legado de hero\u00edsmo e li\u00e7\u00f5es que continuam v\u00e1lidos.\n\nAs avalia\u00e7\u00f5es dos acontecimentos revolucion\u00e1rios levam, em geral, a diferentes an\u00e1lises, algumas at\u00e9 mesmo contradit\u00f3rias. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Comuna de Paris, por seu car\u00e1ter de classe e socialista, h\u00e1 diferentes avalia\u00e7\u00f5es, colocando em posi\u00e7\u00f5es extremas os reacion\u00e1rios \u0096 com disposi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias, criticando-a radicalmente \u0096, e os \u0093idealistas\u0094, que a glorificam. Mas, uma an\u00e1lise menos apaixonada e mais objetiva nos permite compreender que sua resson\u00e2ncia e suas conseq\u00fc\u00eancias ultrapassam em muito seus limitados 72 dias de exist\u00eancia.\n\nAlgumas das debilidades explicitadas pela Comuna j\u00e1 haviam sido apontadas por Marx e pela Internacional que, ao considerar que as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas n\u00e3o comportavam naquele momento uma revolu\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter popular e socialista, chamavam a aten\u00e7\u00e3o para as debilidades organizativas, para o perigo do isolamento pol\u00edtico do proletariado de Paris e para a superioridade num\u00e9rica das tropas da rea\u00e7\u00e3o. Haviam, at\u00e9 mesmo, se manifestado contra a deflagra\u00e7\u00e3o da insurrei\u00e7\u00e3o parisiense.\n\nDo ponto de vista pol\u00edtico foram v\u00e1rios os erros cometidos, em geral pela benevol\u00eancia e \u0093liberalidade\u0094 diante do inimigo de classe e pela aus\u00eancia de uma organiza\u00e7\u00e3o e de um comando pol\u00edtico centralizado, que contribu\u00edram para a falta de unidade pol\u00edtica entre as diferentes iniciativas do Conselho da Comuna e de seu Comit\u00ea Central, o que repercutiu negativamente diante da unidade pol\u00edtica da rea\u00e7\u00e3o.\n<h4>Os erros pol\u00edticos da Comuna de Paris<\/h4>\nParte dos erros pol\u00edticos tiveram por conte\u00fado a vis\u00e3o ideol\u00f3gica de profundo respeito \u00e0 propriedade burguesa, especialmente ao Banco da Fran\u00e7a.\n<blockquote>\u0093Um dos maiores erros da Comuna foi a rever\u00eancia com que olhavam o Banco da Fran\u00e7a. E uma vez mais, grande parte deste erro foi devido \u00e0 minoria. O banco armazenava gigantescas reservas de ouro da burguesia francesa, que estavam servindo para manter aos inimigos de Versalhes, ou seja, a contra-revolu\u00e7\u00e3o. Na realidade conservou em seus postos o antigo diretor e os membros da antiga diretoria. Nomeou somente um comiss\u00e1rio que tinha a responsabilidade de resguardar a seguran\u00e7a do capital da burguesia francesa. O banco tinha um total de tr\u00eas bilh\u00f5es de francos em ouro, bilhetes e documentos. A quantidade representada somente em ouro e brilhantes era de 1,3 milh\u00f5es de francos. Sob os olhos da Comuna, o Banco da Fran\u00e7a fornecia dinheiro sem nenhuma dificuldade ao governo de Versalhes. Se a Comuna tivesse tomado posse do banco, a burguesia francesa teria exercido press\u00e3o sobre o governo de Versalhes para exigir que assinasse um acordo com a Comuna. Houve tamb\u00e9m muitas diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas: anarquistas, blanquistas, babeufistas e outras correntes pequeno-burguesas no seio da classe oper\u00e1ria da \u00e9poca, dificultando a unidade de decis\u00e3o em momentos cruciais do que se aproveitou a contra-revolu\u00e7\u00e3o para obter a vit\u00f3ria\u0094. (MOURA, 1991: 43)<\/blockquote>\nDo ponto de vista militar deve-se considerar que as inova\u00e7\u00f5es ocorridas nos instrumentos de destrui\u00e7\u00e3o \u0096 inven\u00e7\u00e3o da metralhadora, amplia\u00e7\u00e3o do di\u00e2metro dos canh\u00f5es, amplia\u00e7\u00e3o dos efeitos destrutivos das granadas \u0096 e a urbaniza\u00e7\u00e3o de Paris com a destrui\u00e7\u00e3o de muitas ruas estreitas e a constru\u00e7\u00e3o de avenidas amplas, faziam com que desde 1848, as insurrei\u00e7\u00f5es circunscritas aos espa\u00e7os urbanos isoladas pol\u00edtica e geograficamente j\u00e1 estivessem a priori destinadas ao fracasso. (BARBOSA, 1999: 5) A limita\u00e7\u00e3o da Comuna somente a Paris, a deflagra\u00e7\u00e3o da insurrei\u00e7\u00e3o sem um trabalho antecedente e sem sua amplia\u00e7\u00e3o a outras regi\u00f5es e a concentra\u00e7\u00e3o do poder destrutivo do Estado aristocr\u00e1tico-burgu\u00eas, condenou-a \u00e0 derrota, em que pese o hero\u00edsmo e a bravura dos communards.\n\nMas, apesar de suas debilidades e de sua derrota, aqueles que defendem uma perspectiva socialista n\u00e3o se limitam a apontar seus erros e buscam aprender com a experi\u00eancia e extrair o m\u00e1ximo de ensinamento proporcionado por essa her\u00f3ica insurrei\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria.\n\n<strong>Mesmo no limite da ordem aristocr\u00e1tico-burguesa \u00e9 poss\u00edvel detectar alguns resultados devidos \u00e0 Comuna:<\/strong> um diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria Fran\u00e7a e outro \u00e0 Alemanha unificada \u0096 aprendizado que proporcionou a Bismarck.\n\nAssim, os governos monarquistas e autorit\u00e1rios da Alemanha e \u00c1ustria-Hungria, preocupados com a possibilidade de subleva\u00e7\u00f5es generalizadas das classes trabalhadoras, buscaram promover condi\u00e7\u00f5es para uma media\u00e7\u00e3o entre o Capital e o Trabalho, para uma colabora\u00e7\u00e3o de classes em que o Estado tivesse importante papel, delinearam um \u0093Estado assistencial\u0094, que algumas d\u00e9cadas depois, caracterizaria o \u0093Estado de bem-estar social\u0094. Por \u0093ironia da hist\u00f3ria\u0094 s\u00e3o os governos monarquistas autorit\u00e1rios da Alemanha e \u00c1ustria-Hungria que, temerosos diante da \u0093onda vermelha\u0094 que amea\u00e7ava seus interesses de classe, iniciam a efetivar a presen\u00e7a e o controle estatal da quest\u00e3o oper\u00e1ria e social.\n<h4>A Comuna e o novo tipo de Estado<\/h4>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Comuna de Pari\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ccomuna26.jpg\" alt=\"Comuna de Pari\" width=\"235\" height=\"266\" \/><\/p>\nO proletariado, ao assumir o poder em Paris, frente \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o do aparato estatal, \u00e0 submiss\u00e3o de grande parte do funcionalismo ao governo burgu\u00eas-monarquista que se encontrava em Versalhes, e orientado por princ\u00edpios democr\u00e1ticos e igualit\u00e1rios, compreende a necessidade de organizar novas institui\u00e7\u00f5es, pois as existentes n\u00e3o correspondiam ao novo poder que se estabelecia. Era necess\u00e1rio organizar um novo tipo de democracia, qualitativamente diferente da liberal-burguesa, no fundamental destinada \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da sociedade de classes, da explora\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o sobre a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>O novo poder se baseava numa nova forma de democracia, ampliada, que se voltava ao atendimento dos interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o, onde podemos destacar os seguintes aspectos:<\/strong> elimina\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o de responsabilidades entre o Executivo e o Legislativo e organiza\u00e7\u00e3o de um \u00fanico \u00f3rg\u00e3o representativo; estabelecimento de elei\u00e7\u00f5es para todos os cargos p\u00fablicos; elimina\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico profissional \u0096 os representantes eleitos continuariam seus trabalhos profissionais \u0096 e estabelecimento do mandato revog\u00e1vel a qualquer momento, desde que o eleito n\u00e3o correspondesse \u00e0 responsabilidade assumida com seus eleitores; substitui\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia e do Ex\u00e9rcito permanentes pelo armamento popular; institui\u00e7\u00e3o dos tribunais populares; e organiza\u00e7\u00e3o das atividades pol\u00edtico-administrativas e burocr\u00e1ticas de forma a garantir o controle dos oper\u00e1rios e moradores em cada regi\u00e3o. Os sal\u00e1rios, nos diferentes n\u00edveis da administra\u00e7\u00e3o, foram estabelecidos segundo o sal\u00e1rio m\u00e9dio dos oper\u00e1rios, tornando-se uma eficaz barreira ao arrivismo e \u00e0 ca\u00e7a aos altos empregos \u0096 sem falar na revocabilidade dos mandatos dos delegados aos corpos representativos que a Comuna igualmente introduziu. (MARX, 1977: 167) Essas medidas democr\u00e1ticas permitem \u00e0s classes trabalhadoras exercer o controle de todas as atividades de governo.\n\nMarx e Engels j\u00e1 elaboravam, a partir de experi\u00eancias, revolucion\u00e1rias ou n\u00e3o, uma nova concep\u00e7\u00e3o de Estado. Com a Comuna de Paris formulam a compreens\u00e3o de que a efetiva\u00e7\u00e3o da democracia econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a elimina\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es e estruturas jur\u00eddico-pol\u00edticas, burocr\u00e1ticas e militares, que correspondem \u00e0 ditadura da burguesia.\n\n<strong>E, contrap\u00f5em \u00e0 ditadura (=democracia) burguesa um novo tipo de Estado:<\/strong> a ditadura (=democracia) do proletariado, que corresponde a uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o social, com a atribui\u00e7\u00e3o fundamental de criar condi\u00e7\u00f5es materiais necess\u00e1rias para a elimina\u00e7\u00e3o da sociedade de classes e para a constru\u00e7\u00e3o da sociedade sem classes \u0096 a sociedade comunista.\n\nMarx e Engels, com a an\u00e1lise da Comuna de Paris de 1871, formulam com base em estudos anteriores, as caracter\u00edsticas essenciais do conte\u00fado de classes do Estado e a possibilidade de extin\u00e7\u00e3o das classes e constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem classes. Compreendem que em todas as sociedades existentes at\u00e9 ent\u00e3o, ap\u00f3s o surgimento da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, s\u00e3o baseadas na divis\u00e3o em classes sociais antag\u00f4nicas, engendradas pela contradi\u00e7\u00e3o entre o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o; a infraestrutura e a superestrutura; a apar\u00eancia \u0096 mistificada \u0096, com a qual se apresenta, e a ess\u00eancia \u0096 real \u0096 de classes do modo de produ\u00e7\u00e3o.\n\nO Estado burgu\u00eas se apresenta assim, de forma sacralizada, como produto de um pacto social, um acordo t\u00e1cito entre iguais, consolidado na Constitui\u00e7\u00e3o, que estabelece direitos e deveres iguais, independente da cor de sua pele, sua ideologia, do poder aquisitivo \u0096 todos os indiv\u00edduos s\u00e3o \u0093livres e iguais\u0094 diante da lei. Assim sendo, a Constitui\u00e7\u00e3o, a Carta Magna \u0096 intoc\u00e1vel para alguns, quando expressa seus interesses de classe \u0096, fundada na igualdade jur\u00eddica de direitos como guardi\u00e3 da igualdade no abstrato, em princ\u00edpio \u00e9, de fato, a legaliza\u00e7\u00e3o \u0096 pol\u00edtico-jur\u00eddica \u0096 da desigualdade real; e um instrumento de mistifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u0096 reais \u0096 entre as classes; velando assim, para que, na apar\u00eancia, n\u00e3o seja explicitada sua ess\u00eancia, ou seja, as contradi\u00e7\u00f5es sobre as quais se fundam as sociedades de classes.\n\nO Estado, como express\u00e3o mistificadora dos antagonismos sociais, para manter-se, necessita de um conjunto de institui\u00e7\u00f5es aparentemente neutras e com fun\u00e7\u00f5es meramente administrativas, mas, no fundamental, colocadas a servi\u00e7o das classes propriet\u00e1rias e dominantes, benefici\u00e1rias da ordem existente.\n\n<strong>A centraliza\u00e7\u00e3o e a forma de organiza\u00e7\u00e3o \u0096 da hierarquia burocr\u00e1tica \u0096 do aparato estatal \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia e corresponde ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e da divis\u00e3o de trabalho \u0096 na f\u00e1brica, na organiza\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do Estado, nos servi\u00e7os \u0096 do que \u0093deriva todo car\u00e1ter desp\u00f3tico do exerc\u00edcio das tarefas do Estado:<\/strong> compartimentaliza\u00e7\u00e3o vertical descendente, oculta\u00e7\u00e3o do conhecimento dos funcion\u00e1rios (a preserva\u00e7\u00e3o de seu conhecimento como segredo de Estado)\u0094 (SAES, 1994: 41), criando condi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas \u0096 o burocratismo \u0096 necess\u00e1rias \u00e0 domina\u00e7\u00e3o e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es burguesas.\n\nA hegemonia burguesa se afirma e conquista \u0093legitimidade\u0094 quando incorpora em seu projeto reivindica\u00e7\u00f5es que superam seus interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos exclusivos e imediatos, exteriorizando-as como exemplos de universalidade de seu Estado. (GRAMSCI, 1978: 33) Ao incorporar e expressar essas reivindica\u00e7\u00f5es como \u0093igualizadoras a todos os homens, qualquer que seja sua condi\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mica, o Estado burgu\u00eas cria a forma ideol\u00f3gica da cidadania.\n\nIsto significa que, sob o Estado burgu\u00eas, todos os homens podem se sentir como se estivessem nas mesmas condi\u00e7\u00f5es diante do Estado; ou seja, eles passam a se sentir como iguais uns aos outros enquanto elementos relacionados com o Estado. E significa tamb\u00e9m que, sob o Estado burgu\u00eas, todos os homens se sentem envolvidos em uma rela\u00e7\u00e3o impessoal com o Estado. O efeito pol\u00edtico principal da imposi\u00e7\u00e3o de normas igualizadoras, assim como da cria\u00e7\u00e3o da forma-cidadania pelo Estado burgu\u00eas \u00e9 a individualiza\u00e7\u00e3o dos membros das classes sociais antag\u00f4nicas e a conseq\u00fcente atomiza\u00e7\u00e3o dessas classes sociais antag\u00f4nicas\u0094. (SAES, 1994: 129-130).\n\n<strong>De fato, o Estado burgu\u00eas, enquanto elemento de mistifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de desigualdade e do antagonismo de classes, \u00e9 um instrumento das classes propriet\u00e1rias que o utilizam para assegurar-se do monop\u00f3lio do poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico-jur\u00eddico, cultural e ideol\u00f3gico organizado para manter a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o da maioria da popula\u00e7\u00e3o:<\/strong> as classes trabalhadoras. Mas, o Estado cont\u00e9m em si diferentes contradi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o manifesta somente os aspectos abordados acima. \u0093Para Marx, pois, o Estado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 e exclusivamente um \u00f3rg\u00e3o da classe dominante; responde tamb\u00e9m aos movimentos do conjunto da sociedade e das outras classes sociais, segundo, \u00e9 \u00f3bvio, a determina\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas. Conforme o grau de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e das for\u00e7as pol\u00edticas da sociedade, o Estado pode adquirir contornos mais ou menos claros, revelar-se mais ou menos diretamente vinculado aos interesses exclusivos da burguesia. Inclusive, h\u00e1 ocasi\u00f5es em que pode ser totalmente capturado por uma fac\u00e7\u00e3o da burguesia, assim como, em outra ocasi\u00e3o, pode ser politicamente (n\u00e3o economicamente) capturado por setores da classe m\u00e9dia ou por militares\u0094. (IANNI, 1988: 39).\n\nO movimento popular e oper\u00e1rio e, principalmente o proletariado na Comuna, chega por sua experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e0 compreens\u00e3o de que o Estado, por mais democr\u00e1tico que seja sua forma de governo, n\u00e3o representa altera\u00e7\u00e3o essencial no tipo de Estado ou em sua ess\u00eancia de classe. Em mais de um s\u00e9culo de lutas, de revolu\u00e7\u00f5es e contra-revolu\u00e7\u00f5es, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, de uma Rep\u00fablica social, n\u00e3o se transformaram em realidade mesmo nos per\u00edodos de maior democracia.\n\n<strong>O \u0093tra\u00e7o essencial da democracia capitalista:<\/strong> os oprimidos s\u00e3o autorizados, uma vez cada tr\u00eas ou seis anos, a decidirem qual dentre os membros das classes dominantes ser\u00e1 o que, no Parlamento, os representar\u00e1 e os esmagar\u00e1!\u0094. (L\u00caNIN, 1987: 109) \u0093\u00c9 diretamente, atrav\u00e9s do voto universal, que a classe propriet\u00e1ria domina. Enquanto a classe oprimida \u0096 no nosso caso, o proletariado \u0096 n\u00e3o est\u00e1 madura para promover sua pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o, a maioria de seus membros considera a ordem social existente como a \u00fanica poss\u00edvel e, politicamente, forma a cauda da classe capitalista, sua ala de extrema esquerda. Entretanto, na medida em que vai amadurecendo para a auto-emancipa\u00e7\u00e3o, constitui-se como um partido independente e escolhe a seus pr\u00f3prios representantes e n\u00e3o os dos capitalistas. (&#8230;) No dia em que o term\u00f4metro do voto universal registrar para os trabalhadores o ponto de ebuli\u00e7\u00e3o, eles saber\u00e3o \u0096 tanto quanto os capitalistas \u0096 o que lhes cabe fazer.\u0094 (ENGELS, 1984: 231)\n<h4>A Comuna de Paris e a organiza\u00e7\u00e3o de um novo tipo de Estado<\/h4>\nO proletariado na Comuna de Paris, ao confrontar-se com a viol\u00eancia institucional e organizada das classes propriet\u00e1rias, elimina o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio, extingue o Ex\u00e9rcito permanente e proclama a Guarda Nacional prolet\u00e1ria como \u00fanica for\u00e7a armada, a que devem \u0093pertencer todos os cidad\u00e3os v\u00e1lidos\u0094. (MARX, 1977: 161) No esbo\u00e7o da organiza\u00e7\u00e3o estatal nacional, foi proposta a organiza\u00e7\u00e3o de Comunas em todo o pa\u00eds, as quais deveriam administrar as quest\u00f5es coletivas com a mais ampla participa\u00e7\u00e3o e substituir o Ex\u00e9rcito permanente por \u0093uma mil\u00edcia popular, com um tempo de servi\u00e7o extremamente curto. As Comunas rurais de cada distrito administrariam seus assuntos coletivos\u0094. (MARX, 1977: 197).\n\nEssa forma de organiza\u00e7\u00e3o comunal deve pressupor uma rela\u00e7\u00e3o de complementaridade entre a descentraliza\u00e7\u00e3o e a centraliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, como garantia da unidade nacional. \u0093A Comuna \u00e9 o primeiro esfor\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria para demolir a m\u00e1quina do Estado burgu\u00eas; \u00e9 a forma pol\u00edtica, \u0091finalmente encontrada\u0092, que pode e deve substituir o que foi demolido\u0094. (L\u00caNIN, 1987: 69-70)\n\nA <strong>Comuna de Paris<\/strong>, ao se posicionar contr\u00e1ria \u00e0 submiss\u00e3o da Fran\u00e7a e \u00e0 entrega de Paris \u00e0 domina\u00e7\u00e3o prussiana, n\u00e3o o faz movida simplesmente pelo sentimento nacional \u0096 forma em que se mostra concretamente a luta de classes \u0096, mas tamb\u00e9m por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, as quais, naquele momento, colocavam com grande evid\u00eancia que a luta de classes n\u00e3o se limita \u00e0s fronteiras nacionais, a apenas um pa\u00eds \u0096 ela \u00e9 internacional, conforme ficou demonstrado cristalinamente pelas posi\u00e7\u00f5es assumidas pelo proletariado de Paris e pelas classes propriet\u00e1rias francesas em alian\u00e7a com as tropas prussianas de ocupa\u00e7\u00e3o.\n\nA organiza\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria na Comuna, como primeiro passo \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, desapropia, e entrega \u0093\u00e0s organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, sob reserva de dom\u00ednio, todas as oficinas e f\u00e1bricas fechadas, tanto nos casos dos patr\u00f5es fugidos quanto de terem preferido suspender o trabalho\u0094. (MARX, 1977: 203)\n\nProgressivamente, \u0093a Comuna pretendia abolir essa propriedade de classe que convertia o trabalho de muitos na riqueza de alguns poucos. A Comuna aspirava \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o dos expropriadores. Pretendia fazer da propriedade individual uma realidade, transformando os meios de produ\u00e7\u00e3o, a terra e o capital, que hoje s\u00e3o fundamentalmente meios de escraviza\u00e7\u00e3o e de explora\u00e7\u00e3o do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. (&#8230;) A classe oper\u00e1ria n\u00e3o esperava da Comuna nenhum milagre. Os oper\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam nenhuma utopia j\u00e1 pronta para introduzir \u0093par d\u00e9cret du peuple\u0094. Eles sabem que para conseguir sua pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o, e com ela essa forma superior de vida para a que tende irresistivelmente a sociedade atual, por seu pr\u00f3prio desenvolvimento econ\u00f4mico, ter\u00e3o de enfrentar longas lutas, toda uma s\u00e9rie de processos hist\u00f3ricos que transformar\u00e3o as circunst\u00e2ncias e os homens. Eles n\u00e3o t\u00eam de realizar nenhum ideal, mas simplesmente libertar os elementos da nova sociedade que a velha sociedade burguesa agonizante traz em seu seio\u0094. (MARX, 1977: 200)\n\n<strong>A ditadura do proletariado, enquanto organiza\u00e7\u00e3o estatal transit\u00f3ria, expressa os interesses fundamentais da classe oper\u00e1ria e das classes trabalhadoras em geral, por ser o instrumento para a elimina\u00e7\u00e3o da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e do capital; a destrui\u00e7\u00e3o da sociedade de classes; a liquida\u00e7\u00e3o das classes exploradoras; e a constru\u00e7\u00e3o da sociedade sem classes:<\/strong> o comunismo. \u0093Assim, o conceito de \u0091ditadura do proletariado\u0092 significa, simplesmente, o poder de Estado (ditadura) da classe oper\u00e1ria (do proletariado), que comp\u00f5e junto com os outros trabalhadores, a maioria da sociedade. Como o objetivo maior da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e9 exatamente superar a divis\u00e3o da sociedade em classes, o Estado (como \u00f3rg\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o) tamb\u00e9m deve ser superado. O reconhecimento de que at\u00e9 o poder pol\u00edtico dos trabalhadores (como qualquer poder pol\u00edtico) \u00e9 uma ditadura, mant\u00e9m a perspectiva de que se trata de um Estado transit\u00f3rio a ser superado, e n\u00e3o perpetuado\u0094. (FERNANDES, 1990: 9)\n\nA dura\u00e7\u00e3o desse per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o \u00e9 determinada pela persist\u00eancia e pela necessidade de supera\u00e7\u00e3o de fatores econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos, culturais etc, que impedem o pleno desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e dificultam a supera\u00e7\u00e3o da escassez, da persist\u00eancia das diferen\u00e7as fundamentais entre a classe oper\u00e1ria e o campesinato, entre o campo e a cidade, entre trabalho f\u00edsico e trabalho intelectual; fatores que separam o capitalismo do comunismo.\n\nNesse sentido, pode-se afirmar que a ditadura do proletariado \u0096 forma prolet\u00e1ria do Estado socialista \u0096 corresponde \u00e0 mais ampla democracia \u0096 apar\u00eancia sob a qual \u00e9 exercido o poder pol\u00edtico \u0096 e \u00e9 um poder estatal que, ao explicitar seu conte\u00fado de classe, se afirma como n\u00e3o-Estado e possibilita a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para sua extin\u00e7\u00e3o. \u00c9 que democracia prolet\u00e1ria serve para designar n\u00e3o s\u00f3 o Estado socialista-prolet\u00e1rio, mas tamb\u00e9m, o componente n\u00e3o-estatal da domina\u00e7\u00e3o da classe prolet\u00e1ria, ou seja, a necessidade de, no pr\u00f3prio momento em que se implanta o Estado socialista-prolet\u00e1rio, come\u00e7ar a desestatiza\u00e7\u00e3o progressiva das tarefas administrativas e militares.\n\n<strong>Nesse n\u00edvel espec\u00edfico, democracia prolet\u00e1ria designa a esfera n\u00e3o-estatal:<\/strong> a gest\u00e3o de massa, efetivada para as organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores de cada unidade de produ\u00e7\u00e3o particular e do conjunto do aparato produtivo; o desempenho direto, pela popula\u00e7\u00e3o armada, das tarefas de defesa nacional; a resolu\u00e7\u00e3o pr\u00e9-judici\u00e1ria nos pr\u00f3prios lugares de trabalho (f\u00e1brica, fazenda) ou de habita\u00e7\u00e3o (bairros, quarteir\u00e3o) dos conflitos interindividuais etc. (SAES, 1987: 31)\n\nA persist\u00eancia dessas caracter\u00edsticas torna indispens\u00e1vel a planifica\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o estatal prolet\u00e1ria para eliminar as diferen\u00e7as e os restos das velhas rela\u00e7\u00f5es entre as classes; diminuir, minimizar e eliminar essas contradi\u00e7\u00f5es. A ditadura do proletariado, enquanto organiza\u00e7\u00e3o estatal necess\u00e1ria ao per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o do capitalismo ao comunismo, ser\u00e1 extinta gradualmente, na medida em que ocorre o pleno desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e sejam criadas as condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas para a extin\u00e7\u00e3o do Estado.\n\nO Estado n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno eterno. Surgiu e desaparecer\u00e1 em determinadas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas (econ\u00f4micas, sociais, pol\u00edticas). N\u00e3o de uma hora para outra, inesperadamente, por decreto ou desejo subjetivo, mas, gradualmente, na propor\u00e7\u00e3o em que forem criadas as condi\u00e7\u00f5es para a extin\u00e7\u00e3o das classes e a constru\u00e7\u00e3o da sociedade sem classes, o comunismo.\n\nSilvio Costa \u00e9 professor de Sociologia e Ci\u00eancia Pol\u00edtica na Universidade Cat\u00f3lica de Goi\u00e1s, doutorando na Universidad Complutense de Madrid.\n\n<strong>Este texto \u00e9 uma vers\u00e3o reduzida e com modifica\u00e7\u00f5es do artigo \u0093Concep\u00e7\u00e3o marxista de Estado\u0094, publicado como anexo no livro Comuna de Paris<\/strong>: o proletariado toma o c\u00e9u de assalto, publicado pelas editoras Anita Garibaldi e da UCG em 1998 e relan\u00e7ado neste ano.\n\nFonte: www.vermelho.org.br\n<h6>Comuna de Paris<\/h6>\nHerdeira das tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias francesas, a <strong>Comuna de Paris<\/strong> foi um governo popular organizado pelas massas parisienses em 18 de mar\u00e7o de 1871, sendo fortemente marcado por diversas tend\u00eancias ideol\u00f3gicas, populares e oper\u00e1rias. Tornou-se posteriormente, uma refer\u00eancia na hist\u00f3ria dos movimentos populares e revolucion\u00e1rios.\n<p class=\"imagem\" align=\"center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Comuna de Pari\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ccomuna27.jpg\" alt=\"Comuna de Pari\" width=\"205\" height=\"298\" \/><\/p>\nDe acordo com o escritor Prosper-Olivier Lissagaray, um communard que se tornou historiador da Comuna, esta teria sido &#8220;uma revolu\u00e7\u00e3o feita por homens comuns e que deu aos trabalhadores a consci\u00eancia de sua for\u00e7a, sem que esses pudessem desenvolver suas id\u00e9ias&#8221;. que, em suma, visavam melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos indiv\u00edduos que compunham aquela sociedade, t\u00e3o marcada por conflitos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais.\n\nEmbora a Comuna n\u00e3o deva ser pensada como uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, \u00e9 importante frisarmos que suas propostas traziam em si preocupa\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter social. Priorizando, pois, tais preocupa\u00e7\u00f5es, procuraremos em um segundo momento desta abordagem compreender o exemplo das propostas dos communards para educa\u00e7\u00e3o, considerando-as como parte importante de um programa que visava, entre outras coisas, garantir a gratuidade de todos os servi\u00e7os p\u00fablicos para a popula\u00e7\u00e3o e sem nenhuma distin\u00e7\u00e3o.\n\nA experi\u00eancia da Comuna, todavia, duraria pouco tempo (72 dias). Sob as ordens de Adolphe Thiers as tropas militares entraram em Paris e sufocariam a Comuna com feroz viol\u00eancia. Cerca de 20 mil pessoas foram mortas em uma \u00fanica semana \u0096 a Semana Sangrenta. Era, portanto, o fim da Comuna.\n<h4>\u00daltimos combates da Comuna de Paris<\/h4>\nSua lembran\u00e7a, no entanto, ficar\u00e1 na mem\u00f3ria.\n\n<strong>Um comovente texto escrito por Marx em 30 de maio de 1871, expressava o significado da Comuna:<\/strong> &#8220;Os trabalhadores de Paris, com sua comuna ser\u00e3o sempre considerados como gloriosos precursores de uma nova sociedade. A mem\u00f3ria de seus m\u00e1rtires ser\u00e1 cuidadosamente conservada no grande cora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Ahist\u00f3riaj\u00e1 prendeu seus exterminadores nesse eterno pelourinho, de onde n\u00e3o conseguir\u00e3o arranc\u00e1-los todas as ora\u00e7\u00f5es de seus sacerdotes&#8221;.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Comuna de Pari\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ccomuna28.jpg\" alt=\"Comuna de Pari\" width=\"349\" height=\"272\" \/><\/p>\n\n<h4>OS COMMUNARDS E A EDUCA\u00c7\u00c3O<\/h4>\nA proposta de supera\u00e7\u00e3o do Antigo Regime manifesta pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa assentaria as bases para o desenvolvimento de uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e nacional.\n\nCom ela se estabeleceriam princ\u00edpios que dariam a educa\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter popular, convertendo-a em um direito a todos os homens e garantido pelo Estado.\n\nSegundo a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o redigida em maio de 1793, &#8220;a instru\u00e7\u00e3o \u00e9 necessidade de todos os homens e a sociedade a deve igualmente a todos os seus membros&#8221;. Ao longo de sua hist\u00f3ria, por\u00e9m, a Fran\u00e7a revolucion\u00e1ria tornar-se-ia cada vez mais moderada em rela\u00e7\u00e3o a esses princ\u00edpios que, na pr\u00e1tica, n\u00e3o se estenderiam igualmente a todos os membros da sua sociedade.\n\nSeria na expectativa de construir uma sociedade que atendesse as necessidades dos setores populares que a compunham, que a Comuna de Paris assentaria as bases de suas propostas. O resgate da antiga proposta revolucion\u00e1ria de um ensino p\u00fablico, gratuito, laico e obrigat\u00f3rio seria, portanto, devidamente retomado como uma das dimens\u00f5es que atendessem as necessidades desses indiv\u00edduos.\n\nA proposta dos communards para educa\u00e7\u00e3o visava assim, modificar uma realidade que lhes era limitada, quando n\u00e3o excludente, a exemplo da educa\u00e7\u00e3o feminina.\n\n<strong>Nesse sentido, a Comuna tomou um conjunto decis\u00f5es e medidas que procuraram redefinir os objetivos educacionais e da escola, a saber:<\/strong> abertura de todas as institui\u00e7\u00f5es de ensino gratuitamente ao povo e emancipado da interfer\u00eancia da Igreja e do Estado; organiza\u00e7\u00e3o do ensino prim\u00e1rio e profissional; busca pela integra\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e trabalho; administra\u00e7\u00e3o gratuita pelos profissionais dos instrumentos de trabalho escolar; instru\u00e7\u00e3o para as mulheres.\n\nSeria assim criada pelo delegado do Ensino, o communard Edward Vaillant, em 23 de abril de 1871, uma comiss\u00e3o com a finalidade de ajudar a Delega\u00e7\u00e3o de Ensino a organizar o ensino prim\u00e1rio e profissional de um modo uniforme, al\u00e9m de transformar o ensino religioso em leigo. N\u00e3o tardou muito para que em 6 de maio a primeira escola profissional fosse aberta no local anteriormente ocupado pelos jesu\u00edtas. A 24 de maio, uma comiss\u00e3o feminina foi institu\u00edda com a responsabilidade de organizar e cuidar do ensino destinado \u00e0s mulheres.\n\nA Delega\u00e7\u00e3o de Ensino ainda solicitaria em 17 de maio, informa\u00e7\u00f5es \u00e0s municipalidades distritais acerca dos locais e estabelecimentos adequados \u00e0 pronta institui\u00e7\u00e3o de escolas profissionais. Estas deveriam instruir os alunos n\u00e3o s\u00f3 profissionalmente, mas tamb\u00e9m lhes oferecer uma instru\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e liter\u00e1ria.\n\nO fim prematuro da comuna impediu que essas propostas fossem levadas a cabo. No entanto, o resgate de uma proposta preocupada em garantir a instru\u00e7\u00e3o como um direito de todos naquela sociedade \u00e9 s\u00f3 um exemplo que a hist\u00f3ria nos mostra acerca da import\u00e2ncia de repensarmos as falhas produzidas por uma sociedade ao longo de sua constru\u00e7\u00e3o. A efic\u00e1cia da proposta de uma educa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria a todos os homens \u00e9, at\u00e9 nossos dias, um problema a ser resolvido e um desafio a ser conquistado por muitas sociedades.\n\nFonte: www.historia.uff.br\n<h6>Comuna de Paris<\/h6>\nPrimeira experi\u00eancia de ditadura do proletariado na hist\u00f3ria, governo revolucion\u00e1rio da classe oper\u00e1ria criada pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria em Paris.\n\n<strong>Durou 72 dias: <\/strong>de 18 de Mar\u00e7o a 28 de Maio de 1871.\n\nA Comuna de Paris foi resultado da luta da classe oper\u00e1ria francesa e internacional contra a domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da burguesia. A causa direta do surgimento da Comuna de Paris consistiu no agravamento das contradi\u00e7\u00f5es de classe entre o proletariado e a burguesia decorrente da dura derrota sofrida pela Fran\u00e7a na guerra contra a Pr\u00fassia (1870-1871). O empenho do governo reacion\u00e1rio de Thiers da fazer recair o fardo dos gastos da guerra perdida sobre os amplos setores da popula\u00e7\u00e3o originou um podereoso movimento das for\u00e7as democr\u00e1ticas.\n\nNo princ\u00edpio exerceu o poder um governo revolucion\u00e1rio provis\u00f3rio chamado Comit\u00ea Central da Guarda Nacional, ou seja, um \u00f3rg\u00e3o eleito pelos batalh\u00f5es da mil\u00edcia popular que haviam se formado para defender a cidade contra os ex\u00e9rcitos prussianos.\n\n<strong>Por\u00e9m em 28 de mar\u00e7o o poder passou \u00e0s m\u00e3os da Assembl\u00e9ia de Deputados do Povo:<\/strong> a Comuna.\n\nO papel governante cabia aos oper\u00e1rios, muitos dos quais eram membros da Primeira Internacional. Foram proclamadas, tamb\u00e9m, Comunas em Lion, Marselha, Tolouse e algumas outras cidades que, entretanto, existiram por pouco tempo.\n\nA Comuna de Paris destruiu a m\u00e1quina estatal burguesa (liquidou o ex\u00e9rcito permanente e a pol\u00edcia, separou a Igreja do Estado, etc) e criou um Estado de novo tipo, que foi a primeira forma de ditadura do proletariado da hist\u00f3ria.\n\n<strong>O novo aparato do poder se organizava de acordo com os princ\u00edpios democr\u00e1ticos: <\/strong>a elegibilidade, responsabilidade e a demissibilidade de todos os funcion\u00e1rios e o car\u00e1ter colegiado da dire\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Para dirigir os assuntos p\u00fablicos foram criados comiss\u00f5es eletivas que substituiram aos antigos minist\u00e9rios: <\/strong>comiss\u00e3o do trabalho, da ind\u00fastria e com\u00e9rcio, de servi\u00e7os p\u00fablicos, de alimentos, da fazenda, da seguran\u00e7a p\u00fablica, da justi\u00e7a, da educa\u00e7\u00e3o, de rela\u00e7\u00f5es exteriores e militar. O trabalho das comiss\u00f5es era coordenado por uma Comiss\u00e3o Executiva, que posteriormente incluiu todos os presidentes de todas as comiss\u00f5es. Essa Comiss\u00e3o Executiva foi substituida, em 1 de maio, pelo Comit\u00ea de Salva\u00e7\u00e3o P\u00fablica, \u00f3rg\u00e3o executivo superior da Comuna de Paris. Cada membro da Comuna se integrou em uma comiss\u00e3o conservando ao mesmo tempo os vinculos com seu distrito eleitoral e reunindo-se ali com os eleitores.\n\nFoi desmantelado o velho aparato estatal, se expulsou os burocratas e os altos funcion\u00e1rios; se reduziu os vencimentos e o sal\u00e1rio dos trabalhadores do aparato da Comuna e de seus membros foram fixados proporcionalmente ao sal\u00e1rio m\u00e9dio de um oper\u00e1rio. Os juizes reacion\u00e1rios foram substituidos por juizes eleitos. Foram demolidos os monumentos do militarismo e da rea\u00e7\u00e3o. Os nomes das ruas foram substituidos para eliminar os nomes de figuras odiosas. Foi eliminada a ajuda financeira do Estado \u00e0 Igreja.\n\nComo governo da classe oper\u00e1ria, a Comuna de Paris, exercia seu poder em benef\u00edcio do povo.\n\n<strong>Mostrou grande cuidado pelo melhoramento da situa\u00e7\u00e3o material das grandes massas: <\/strong>fixou a remunera\u00e7\u00e3o m\u00ednima do trabalho, foram tomadas medidas de prote\u00e7\u00e3o do trabalho e de luta contra o desemprego, de melhoramento das condi\u00e7\u00f5es de moradia e do abastecimento da popula\u00e7\u00e3o. A Comuna preparou a reforma escolar, fundamentada no princ\u00edpio da educa\u00e7\u00e3o geral, gratuita, obrigat\u00f3ria, laica e universal. Tiveram extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia os decretos da Comunsa sobre a organiza\u00e7\u00e3o de cooperativas de produ\u00e7\u00e3o nas empresas abandonadas por seus donos, a implanta\u00e7\u00e3o do controle oper\u00e1rio, a elegibilidade dos dirigentes de algumas empresas estatais. Na sua pol\u00edtica exterior, a Comuna se guiou pelo empenho de estabelecer a paz e a amizade entre os povos.\n\n<strong>As principais causas da derrota da Comuna de Paris foram:<\/strong>\n<blockquote><strong>1) <\/strong>a inexist\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas-sociais necess\u00e1rias a insuficiente maturidade da classe oper\u00e1ria, que n\u00e3o possuia seu pr\u00f3prio partido pol\u00edtico aparelhado com a doutrina da luta de classes do proletariado;\n<strong>2)<\/strong> a heterogeneidade da composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Comuna;\n<strong>3) <\/strong>a aus\u00eancia de alian\u00e7a combativa entre a classe oper\u00e1ria e o campesinato;<strong>\n4)<\/strong> o isolamento de Paris das outras zonas do pa\u00eds em consequ\u00eancia do bloqueio da cidade pelos versailheses e as tropas prussianas de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/blockquote>\nO breve per\u00edodo de exist\u00eancia da Comuna, seus erros t\u00e1ticos e sua derrota n\u00e3o reduzem a sua import\u00e2ncia na hist\u00f3ria do movimento de liberta\u00e7\u00e3o do proletariado.\n\n<strong>A experi\u00eancia da Comuna e seus ensinamentos instrutivos desempenharam importante papel no desenvolvimento da teoria marxista-leninista, na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio internacional, na prepara\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o da Grande Revolu\u00e7\u00e3o Socialista de Outubro, com uma s\u00e9rie de postulados importantes: <\/strong>confirmou a necessidade da destrui\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do poder dos exploradores e da instaura\u00e7\u00e3o da ditatuda do proletariado. a impossibilidade &#8211; nas condi\u00e7\u00f5es de ent\u00e3o &#8211; de tomar o poder sem insurrei\u00e7\u00e3o armada. Demonstrou qu a classe oper\u00e1ria n\u00e3o pode limitar-se a tomar em suas m\u00e3os e por em marcha a velha m\u00e1quina estatal, mas que deve acabar com ela e substitui-la por uma nova.\n\nOs ensinamentos da Comuna de Paris demonstraram a necessidade de defender com as armas as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o, a necessiadade da t\u00e1tica ofensiva na guerra revolucion\u00e1ria, a inadimissibilidade de se mostrar debilidade e ingenuidade frente aos inimigos.\n<h4>Sobre a Comuna<\/h4>\n<strong>Karl Marx e Friedrich Engels\n30 de Maio de 1871<\/strong>\n\n&#8220;Na alvorada de 18 de Mar\u00e7o (1871), Paris foi despertada por este grito de trov\u00e3o: VIVE LA COMMUNE! O que \u00e9 pois a Comuna, essa esfinge que p\u00f5e t\u00e3o duramente \u00e0 prova o entendimento burgu\u00eas?\n<blockquote>&#8220;Os prolet\u00e1rios da capital &#8211; dizia o Comit\u00e9 Central no seu manifesto de 18 de Mar\u00e7o &#8211; no meio das fraquezas e das trai\u00e7\u00f5es das classes governantes, compreenderam que chegara para eles a hora de salvar a situa\u00e7\u00e3o assumindo a dire\u00e7\u00e3o dos assuntos p\u00fablicos&#8230; O proletariado&#8230; compreendeu que era seu dever imperioso e seu direito absoluto tomar nas suas m\u00e3os o seu pr\u00f3prio destino e assegurar o triunfo apoderando-se do poder.&#8221;<\/blockquote>\nMas a classe oper\u00e1ria n\u00e3o se pode contentar com tomar o aparelho de Estado tal como ele \u00e9 e de o p\u00f4r a funcionar por sua pr\u00f3pria conta.\n\nO poder centralizado do Estado, com os seus \u00f3rg\u00e3os presentes por toda a parte: ex\u00e9rcito permanente, pol\u00edcia, burocracia, clero e magistratura, \u00f3rg\u00e3os moldados segundo um plano de divis\u00e3o sistem\u00e1tica e hier\u00e1rquica do trabalho, data da \u00e9poca da monarquia absoluta, em que servia \u00e0 sociedade burguesa nascente de arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo.&#8221;\n\n&#8220;Em presen\u00e7a de amea\u00e7a de subleva\u00e7\u00e3o do proletariado, a classe possidente unida utilizou ent\u00e3o o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como o engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua cruzada permanente contra as massas dos produtores, foi for\u00e7ada n\u00e3o s\u00f3 a investir o executivo de poderes de repress\u00e3o cada vez maiores, mas tamb\u00e9m a retirar pouco a pouco \u00e0 sua pr\u00f3pria fortaleza parlamentar, a Assembleia Nacional, todos os meios de defesa contra o executivo.&#8221;\n\n&#8220;O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era todavia, ele pr\u00f3prio, o maior esc\u00e2ndalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o foco de todas as corrup\u00e7\u00f5es.&#8221;\n\n&#8220;O primeiro decreto da Comuna foi pois a supress\u00e3o do ex\u00e9rcito permanente e a sua substitui\u00e7\u00e3o pelo povo em armas.\n\nA Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufr\u00e1gio universal nos diversos bairros da cidade. Eram respons\u00e1veis e revog\u00e1veis a todo o momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente oper\u00e1rios ou representantes reconhecidos da classe oper\u00e1ria. A Comuna devia ser, n\u00e3o um organismo parlamentar, mas um corpo ativo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a pol\u00edcia foi imediatamente despojada dos seus atributos pol\u00edticos e transformada num instrumento da Comuna, respons\u00e1vel e revog\u00e1vel a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcion\u00e1rios de todos os outros ramos da administra\u00e7\u00e3o. Desde os membros da Comuna at\u00e9 ao fundo da escala, a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica devia ser assegurada com sal\u00e1rios de oper\u00e1rios.&#8221;\n\n&#8221; Uma vez abolidos o ex\u00e9rcito permanente e a pol\u00edcia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objetivo quebrar o instrumento espiritual da opress\u00e3o, o &#8220;poder dos padres&#8221;; decretou a dissolu\u00e7\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o de todas as igrejas, na medida em que elas constitu\u00edam corpos possidentes.\n\nOs padres foram remetidos para o calmo retiro da vida privada, onde viveriam das esmolas dos fi\u00e9is, \u00e0 semelhan\u00e7a dos seus predecessores, os ap\u00f3stolos. Todos os estabelecimentos de ensino foram abertos ao povo gratuitamente e, ao mesmo tempo, desembara\u00e7ados de toda a inger\u00eancia da Igreja e do Estado. Assim, n\u00e3o s\u00f3 a instru\u00e7\u00e3o se tornava acess\u00edvel a todos, como a pr\u00f3pria ci\u00eancia era libertada das grilhetas com que os preconceitos de classe e o poder governamental a tinham acorrentado.\n\nOs funcion\u00e1rios da justi\u00e7a foram despojados dessa fingida independ\u00eancia que n\u00e3o servira sen\u00e3o para dissimular a sua vil submiss\u00e3o a todos os governos sucessivos, aos quais, um ap\u00f3s outro, haviam prestado juramento de fidelidade, para em seguida os violar. Assim como o resto dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos, os magistrados e os juizes deviam ser eleitos, respons\u00e1veis e revog\u00e1veis.&#8221;\n\n&#8220;Ap\u00f3s uma luta her\u00f3ica de cinco dias, os oper\u00e1rios foram esmagados. Fez-se ent\u00e3o, entre os prisioneiros sem defesa, um massacre como se n\u00e3o tinha visto desde os dias das guerras civis que prepararam a queda da Rep\u00fablica romana. Pela primeira vez, a burguesia mostrava a que louca crueldade vingativa podia chegar quando o proletariado ousa afront\u00e1-la, como classe \u00e0 parte, com os seus pr\u00f3prios interesses e as suas pr\u00f3prias reivindica\u00e7\u00f5es. E, no entanto, 1848 n\u00e3o passou de um jogo de crian\u00e7as, comparado com a raiva da burguesia em 1871.&#8221;\n\n&#8220;Proudhon, o socialista do pequeno campesinato e do artesanato, odiava positivamente a associa\u00e7\u00e3o. Dizia dela que comportava mais inconvenientes do que vantagens, que era est\u00e9ril por natureza e at\u00e9 mesmo prejudicial, pois entravava a liberdade do trabalhador; dogma puro e simples&#8230; E \u00e9 tamb\u00e9m por isso que a Comuna foi o t\u00famulo da escola proudhoniana do socialismo.&#8221;\n\n&#8220;As coisas n\u00e3o correram melhor aos blanquistas. Educados na escola da conspira\u00e7\u00e3o, ligados pela estrita disciplina que lhe \u00e9 pr\u00f3pria, partiam da ideia de que um n\u00famero relativamente pequeno de homens resolutos e bem organizados era capaz, chegado o momento, n\u00e3o s\u00f3 de se apoderar do poder, mas tamb\u00e9m, desenvolvendo uma grande energia e aud\u00e1cia, de se manter nele durante um tempo suficientemente longo para conseguir arrastar a massa do povo para a Revolu\u00e7\u00e3o e reuni-la \u00e0 volta do pequeno grupo dirigente. Para isso era preciso, antes de mais nada, a mais estrita centraliza\u00e7\u00e3o ditatorial de todo o poder entre as m\u00e3os do novo governo revolucion\u00e1rio. E que fez a Comuna que, em maioria, se compunha precisamente de blanquistas? Em todas as suas proclama\u00e7\u00f5es aos franceses da prov\u00edncia, convidava-os a uma livre federa\u00e7\u00e3o de todas as comunas francesas com Paris, a uma organiza\u00e7\u00e3o nacional que, pela primeira vez, devia ser efetivamente criada pela pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o. Quanto \u00e0 for\u00e7a repressiva do governo outrora centralizado, o ex\u00e9rcito, a pol\u00edcia pol\u00edtica, a burocracia, criada por Napole\u00e3o em 1798, retomada depois com prontid\u00e3o por cada novo governo e utilizada por ele contra os seus advers\u00e1rios, era justamente esta for\u00e7a que devia ser destru\u00edda por toda a parte, como o fora j\u00e1 em Paris.&#8221;\n\n&#8220;Para evitar esta transforma\u00e7\u00e3o, inevit\u00e1vel em todos os regimes anteriores, do Estado e dos \u00f3rg\u00e3os do Estado em senhores da sociedade, quando na origem eram seus servidores, a Comuna empregou dois meios infal\u00edveis. Primeiro, submeteu todos os lugares, da administra\u00e7\u00e3o, da justi\u00e7a e do ensino, \u00e0 escolha dos interessados atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00e3o por sufr\u00e1gio universal e, evidentemente, \u00e0 revoga\u00e7\u00e3o, em qualquer momento, por esses mesmos interessados. E segundo, retribuiu todos os servi\u00e7os, dos mais baixos aos mais elevados, pelo mesmo sal\u00e1rio que recebiam os outros oper\u00e1rios. O vencimento mais alto que pagou foi de 6000 francos. Assim, punha-se termo \u00e0 ca\u00e7a aos lugares e ao arrivismo, sem falar da decis\u00e3o suplementar de impor mandatos imperativos aos delegados aos corpos representativos.\n\nEsta destrui\u00e7\u00e3o do poder de Estado, tal como fora at\u00e9 ent\u00e3o, e a sua substitui\u00e7\u00e3o por um poder novo, verdadeiramente democr\u00e1tico, est\u00e3o detalhadamente descritas na terceira parte de A Guerra Civil.(Karl Marx) Mas era necess\u00e1rio voltar a referir aqui brevemente alguns dos seus tra\u00e7os, porque, precisamente na Alemanha, a supersti\u00e7\u00e3o do Estado passou da filosofia para a consci\u00eancia comum da burguesia e mesmo de muitos oper\u00e1rios. Na concep\u00e7\u00e3o dos fil\u00f3sofos, o Estado \u00e9 &#8220;a realiza\u00e7\u00e3o da Ideia&#8221; ou o reino de Deus na terra traduzido em linguagem filos\u00f3fica, o dom\u00ednio onde a verdade e a justi\u00e7a eternas se realizam ou devem realizar-se. Da\u00ed esta venera\u00e7\u00e3o que se instala tanto mais facilmente quanto, logo desde o ber\u00e7o, fomos habituados a pensar que todos os assuntos e todos os interesses comuns da sociedade inteira n\u00e3o podem ser tratados sen\u00e3o como o foram at\u00e9 aqui, quer dizer, pelo Estado e pelas suas autoridades devidamente estabelecidas. E julga-se que j\u00e1 se deu um passo prodigiosamente ousado ao libertarmo-nos da f\u00e9 na monarquia heredit\u00e1ria e ao jurarmos pela rep\u00fablica democr\u00e1tica.&#8221; (FRIEDRICH ENGELS: Introdu\u00e7\u00e3o \u00e1 Guerra Civil em Fran\u00e7a )\n\n&#8220;Em presen\u00e7a de amea\u00e7a de subleva\u00e7\u00e3o do proletariado, a classe possidente unida utilizou ent\u00e3o o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho&#8221;\n\n&#8220;A constitui\u00e7\u00e3o comunal restituiria ao corpo social todas as for\u00e7as at\u00e9 ent\u00e3o absorvidas pelo Estado parasita que se alimenta da sociedade e lhe paralisa o livre movimento&#8221;\n\n&#8220;A unidade da na\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria ser quebrada, mas, pelo contr\u00e1rio organizada pela Constitui\u00e7\u00e3o comunal; ela deveria tornar-se uma realidade pela destrui\u00e7\u00e3o do poder de Estado que pretendia ser a encarna\u00e7\u00e3o desta unidade mas que queria ser independentemente desta mesma na\u00e7\u00e3o e superior a ela, quando n\u00e3o era mais do que uma sua excresc\u00eancia parasit\u00e1ria.&#8221;\n\n&#8220;Em vez de se decidir de tr\u00eas em tr\u00eas, ou de seis em seis anos, qual o membro da classe dirigente que deveria &#8220;representar&#8221; e calcar aos p\u00e9s o povo no Parlamento, o sufr\u00e1gio universal devia servir um povo constitu\u00eddo em comunas, tal como o sufr\u00e1gio individual serve qualquer patr\u00e3o \u00e0 procura de oper\u00e1rios, de capatazes ou de contabilistas para a sua empresa.&#8221;\n\n&#8220;A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufr\u00e1gio universal nos diversos bairros da cidade. A maioria dos seus membros eram naturalmente oper\u00e1rios ou representantes reconhecidos da classe oper\u00e1ria. A Comuna devia ser, n\u00e3o um organismo parlamentar, mas um corpo ativo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a pol\u00edcia foi imediatamente despojada dos seus atributos pol\u00edticos e transformada num instrumento da Comuna, respons\u00e1vel e revog\u00e1vel a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcion\u00e1rios de todos os ramos da administra\u00e7\u00e3o. Desde os membros da Comuna at\u00e9 ao fundo da escala, a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica devia ser assegurada com sal\u00e1rios de oper\u00e1rios. Os benef\u00edcios habituais e os emolumentos de representa\u00e7\u00e3o dos altos dignat\u00e1rios do Estado desapareceram ao mesmo tempo que os altos dignat\u00e1rios. Os servi\u00e7os p\u00fablicos deixaram de ser propriedade privada das criaturas do governo central. N\u00e3o s\u00f3 a administra\u00e7\u00e3o municipal, mas toda a iniciativa at\u00e9 ent\u00e3o exercida pelo Estado, foi posta nas m\u00e3os da Comuna.&#8221;\n\n&#8220;Uma vez abolidos o ex\u00e9rcito permanente e a pol\u00edcia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objetivo quebrar o instrumento espiritual da opress\u00e3o, o &#8220;poder dos padres&#8221;; decretou a dissolu\u00e7\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o de todas as igrejas, na medida em que elas constitu\u00edam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da sua vida privada, onde viveriam das esmolas dos fi\u00e9is, \u00e0 semelhan\u00e7a dos seus predecessores, os ap\u00f3stolos.&#8221;\n\n&#8220;A Comuna realizou a palavra de ordem de todas as revolu\u00e7\u00f5es burguesas, um governo barato, abolindo essas duas grandes fontes de despesas que s\u00e3o o ex\u00e9rcito permanente e o funcionalismo de Estado.&#8221;\n\n&#8220;A supremacia pol\u00edtica do produtor n\u00e3o pode coexistir com a eterniza\u00e7\u00e3o da sua escravatura social. A Comuna devia pois servir de alavanca para derrubar as bases econ\u00f3micas em que se fundamenta a exist\u00eancia das classes e, por conseguinte, a domina\u00e7\u00e3o de classe. Uma vez emancipado o trabalho, todo o homem se torna um trabalhador e o trabalho produtivo deixa de ser o atributo de uma classe.&#8221;\n\n&#8220;A Comuna tinha perfeitamente raz\u00e3o ao dizer aos camponeses: &#8220;A nossa vit\u00f3ria \u00e9 a vossa \u00fanica esperan\u00e7a&#8221;.\n\n&#8220;O dom\u00ednio de classe j\u00e1 n\u00e3o se pode esconder sob um uniforme nacional, pois os governos nacionais formam um todo unido contra o proletariado.&#8221;\n\n&#8220;A Paris oper\u00e1ria, com a sua Comuna, ser\u00e1 para sempre celebrada como a gloriosa percursora de uma sociedade nova. A recorda\u00e7\u00e3o dos seus m\u00e1rtires conserva-se piedosamente no grande cora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria. Quanto aos seus exterminadores, a Hist\u00f3ria j\u00e1 os pregou a um pelourinho eterno, e todas as ora\u00e7\u00f5es dos seus padres n\u00e3o conseguir\u00e3o resgat\u00e1-los.\n\nKarl Marx (Guerra Civil em Fran\u00e7a &#8211; 30 de Maio de 1871)\n\nFonte: www.marxists.org\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comuna de Paris, Insurrei\u00e7\u00e3o, Popular, Fran\u00e7a, Governo, Estado, Combates, Capital, Causa, Socialista, Objetivo, Hist\u00f3ria, Comuna de Paris<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11372,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-26150","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-geral"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Comuna de Paris - 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