{"id":26052,"date":"2015-12-23T00:00:00","date_gmt":"2015-12-23T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/bolcheviques-4\/"},"modified":"2026-09-01T17:58:50","modified_gmt":"2026-09-01T17:58:50","slug":"bolcheviques-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-geral\/bolcheviques-4\/","title":{"rendered":"Bolcheviques"},"content":{"rendered":"\n<strong>Bolcheviques &#8211; O que \u00e9<\/strong>\n\n<strong>Bolchevismo<\/strong>\u00a0\u00e9 o termo usado para descrever as cren\u00e7as e pr\u00e1ticas dos bolcheviques, os membros de um movimento pol\u00edtico na R\u00fassia durante o in\u00edcio do s\u00e9culo XX.\n\nEste movimento, que foi fundado por Vladimir Lenin, levou os bolcheviques a tomarem o poder em outubro de 1917 como parte da Revolu\u00e7\u00e3o Russa.\n\nEsse evento foi o culminar de uma estrat\u00e9gia que estava em desenvolvimento desde 1903.\n\nOriginalmente, os termos &#8220;<strong>Bolchevismo<\/strong>&#8221; e &#8220;<strong>Bolchevique<\/strong>&#8221; eram usados em refer\u00eancia a uma fac\u00e7\u00e3o do Partido Trabalhista Socialista Democr\u00e1tico, que favorecia uma linha dura e a aceita\u00e7\u00e3o de apenas revolucion\u00e1rios de pleno direito para o partido. Desde ent\u00e3o, o bolchevismo passou a ser sin\u00f4nimo de comunismo de estilo sovi\u00e9tico.\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-157128 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Bolche1.jpg\" alt=\"\" width=\"184\" height=\"300\" \/><strong>O movimento bolchevique foi fundado por Vladimir Lenin no in\u00edcio do s\u00e9culo 20<\/strong><\/p>\n<strong>Bolcheviques e mencheviques<\/strong>\n\nO termo &#8220;<strong>bolchevismo<\/strong>&#8221; vem da palavra russa bolche, que significa &#8220;maior&#8221; ou &#8220;mais&#8221;. Na realidade, os bolcheviques n\u00e3o constitu\u00edam uma maioria clara em compara\u00e7\u00e3o com sua oposi\u00e7\u00e3o, os mencheviques, mas derrotaram por pouco os mencheviques ao decidir a quest\u00e3o que os dividia, que dizia respeito \u00e0 ades\u00e3o ao partido. Tanto os bolcheviques quanto os mencheviques compartilhavam uma filosofia pol\u00edtica geral, mas tendiam a operar mais ou menos independentemente uns dos outros.\n\n<strong>Marxismo<\/strong>\n\nA filosofia que eles compartilhavam era o marxismo, mais geralmente conhecido como comunismo. Ele favoreceu uma revolu\u00e7\u00e3o na qual a classe trabalhadora se levantaria e derrubaria a classe capitalista.\n\nO resultado de tal derrubada seria o amplo controle popular dos fatores de produ\u00e7\u00e3o, em vez de mant\u00ea-los nas m\u00e3os dos capitalistas. Os trabalhadores, em vez disso, dirigiriam o governo e a ind\u00fastria em algo chamado ditadura do proletariado.\n\n<strong>Dicotomia dentro do bolchevismo<\/strong>\n\nEmbora o partido ao qual os bolcheviques pertenciam se concentrasse nos esfor\u00e7os da classe trabalhadora russa, Lenin e os bolcheviques acabaram por ganhar o controle porque reconheceram o valor pol\u00edtico de apelar tamb\u00e9m para o campesinato.\n\nA maioria dos\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0eram intelectuais altamente qualificados ou oper\u00e1rios de f\u00e1brica. Essa dicotomia levaria a uma divis\u00e3o consider\u00e1vel mais tarde.\n\n<strong>Bolchevismo na pr\u00e1tica<\/strong>\n\nDurante a maior parte de sua hist\u00f3ria antes de 1917, os bolcheviques n\u00e3o tiveram sucesso em obter amplo apoio p\u00fablico. Em parte, isso acontecia porque eles tinham de lidar com suas pr\u00f3prias divis\u00f5es internas, mesmo depois de uma separa\u00e7\u00e3o formal dos mencheviques. Por exemplo, os oper\u00e1rios de f\u00e1brica, compreensivelmente, favoreciam os aspectos do bolchevismo que ajudariam suas fam\u00edlias, mas n\u00e3o aqueles que colocariam os intelectuais no poder. Al\u00e9m disso, embora Lenin acreditasse na ades\u00e3o estrita aos princ\u00edpios do marxismo, havia outros intelectuais do partido que consideravam o marxismo n\u00e3o tanto um conjunto de verdades, mas uma cole\u00e7\u00e3o de inverdades ou mitos que eram \u00fateis se os trabalhadores acreditassem neles.\n\nO movimento bolchevique eventualmente evoluiu para uma ditadura de partido \u00fanico. Para conseguir seus meios, o governo se engajou em atividades radicais e freq\u00fcentemente violentas, como coletivizar a agricultura e realizar expurgos de inimigos percebidos.\n\nMuitas de suas pr\u00e1ticas tornaram-no objeto de pelo menos tanto ressentimento e desconfian\u00e7a quanto o implac\u00e1vel sistema imperialista que precedeu o bolchevismo.\n\n<strong>Bolcheviques &#8211; Hist\u00f3ria<\/strong>\n\nNo ano de 1917, duas ondas revolucion\u00e1rias cobriram a R\u00fassia, varrendo a sociedade imperial como se esta fosse um castelo de cartas.\n\nDepois que o czar Nicolau abdicou (em fevereiro), tornou-se extremamente dif\u00edcil que algu\u00e9m conseguisse deter ou controlar os acontecimentos.\n\nAlexander Kerensky, o l\u00edder do primeiro governo provis\u00f3rio p\u00f3s-revolucion\u00e1rio, escreveria que, no v\u00e1cuo subsequente ao colapso do antigo regime, todos os programas pol\u00edticos e t\u00e1ticos existentes, n\u00e3o importando qu\u00e3o ousados e bem concebidos, pareciam flutuar no espa\u00e7o, sem rumo e sem utilidade.\n\nMas, embora o governo provis\u00f3rio fosse fraco, embora o descontentamento popular fosse generalizado, embora a raiva com a carnificina causada pela Primeira Guerra Mundial fosse grande, poucos contavam que o poder ca\u00edsse nas m\u00e3os dos\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>, um dos v\u00e1rios partidos socialistas radicais que agitavam a favor de mudan\u00e7as ainda mais r\u00e1pidas. Fora do pa\u00eds, eles eram muito pouco conhecidos.\n\n<strong>Uma narrativa ap\u00f3crifa ilustra muito bem a atitude estrangeira:<\/strong>\u00a0consta que, em 1917, um burocrata entrou \u00e0s pressas no gabinete do ministro do Exterior austr\u00edaco,\u00a0<strong>gritando<\/strong>: Excel\u00eancia, houve uma revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia.\n\n<strong>O ministro riu com desd\u00e9m:<\/strong>\u00a0Quem conseguiria fazer uma revolu\u00e7\u00e3o l\u00e1? Com certeza n\u00e3o esse inofensivo herr Trotski, l\u00e1 no Caf\u00e9 Central?.\n\nSe o car\u00e1ter dos\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0era um mist\u00e9rio, seu l\u00edder,Vladimir Iliich Ulianov (o homem que o mundo viria a conhecer pelo pseud\u00f4nimo revolucion\u00e1rio Lenin), o era ainda mais.\n\nDurante seus muitos anos de revolucion\u00e1rio refugiado no exterior, Lenin fora reconhecido por conta de seu brilhantismo, mas tamb\u00e9m antipatizado por causa de sua imodera\u00e7\u00e3o e seu sectarismo.\n\nVivia arrumando briga com outros l\u00edderes socialistas e tinha o pendor de transformar em grandes pol\u00eamicas as discord\u00e2ncias menores sobre quest\u00f5es dogm\u00e1ticas aparentemente irrelevantes.\n\nNos primeiros meses ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, Lenin esteve muito longe de ocupar uma posi\u00e7\u00e3o de autoridade inconteste, mesmo dentro de seu pr\u00f3prio partido. Ainda em meados de outubro de 1917, um punhado de lideran\u00e7as\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0se opunha a seu plano de desfechar um golpe de Estado contra o governo provis\u00f3rio; argumentavam que o Partido n\u00e3o estava pronto para tomar o poder e nem sequer tinha apoio popular. Lenin, por\u00e9m, ganhou a discuss\u00e3o, e, em 25 de outubro, ocorreu o golpe.\n\nSob a influ\u00eancia da agita\u00e7\u00e3o promovida por Lenin, uma turba saqueou o Pal\u00e1cio de Inverno. Os\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0prenderam os ministros do governo provis\u00f3rio. Num per\u00edodo de horas, Lenin se tornara o l\u00edder do pa\u00eds, que ele rebatizou de R\u00fassia Sovi\u00e9tica.\n\nNo entanto, embora Lenin houvesse logrado tomar o poder, seus cr\u00edticos\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0n\u00e3o estavam de todo errados. Os bolcheviques estavam mesmo muit\u00edssimo despreparados. Em conseq\u00fc\u00eancia, a maioria das decis\u00f5es iniciais deles, a\u00ed inclu\u00edda a cria\u00e7\u00e3o do Estado unipartid\u00e1rio, foi tomada para atender \u00e0s necessidades do momento. O apoio popular aos bolcheviques era realmente fraco, e quase de imediato eles come\u00e7aram a travar uma sangrenta Guerra Civil, apenas para que pudessem permanecer no poder. A partir de 1918, quando o Ex\u00e9rcito Branco (dos partid\u00e1rios do antigo regime) se reagrupou para combater o rec\u00e9m-criado Ex\u00e9rcito Vermelho (liderado pelo &#8220;herr Trotski&#8221; do &#8220;Caf\u00e9 Central&#8221;), ocorreram nas regi\u00f5es rurais da R\u00fassia alguns dos combates mais brutais e encarni\u00e7ados j\u00e1 vistos na Europa.\n\nE nem toda a viol\u00eancia se limitava aos campos de batalha. Os\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0se desdobravam para suprimir todo tipo de oposi\u00e7\u00e3o intelectual e pol\u00edtica, atacando n\u00e3o apenas os representantes do antigo regime, mas tamb\u00e9m outros socialistas mencheviques, anarquistas, social-revolucion\u00e1rios. S\u00f3 em 1921 o novo Estado sovi\u00e9tico conheceria relativa paz.\n\nNesse contexto de improvisa\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, nasceram os primeiros campos sovi\u00e9ticos de trabalhos for\u00e7ados. Assim como muitas outras institui\u00e7\u00f5es da URSS, foram criados de modo contingencial, \u00e0s pressas, como medida de emerg\u00eancia no calor da Guerra Civil. Isso n\u00e3o significa que a ideia j\u00e1 n\u00e3o se mostrara atraente.\n\nTr\u00eas semanas antes da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, o pr\u00f3prio Lenin esbo\u00e7ava um plano (vago, \u00e9 verdade) para organizar um servi\u00e7o laboral obrigat\u00f3rio, destinado a capitalistas ricos.\n\nEm janeiro de 1918, irado com a intensidade da resist\u00eancia antibolchevique, ele foi ainda mais veemente, escrevendo que veria com bons olhos a pris\u00e3o desses sabotadores bilion\u00e1rios que viajam em vag\u00f5es de primeira classe.\n\nSugiro sentenci\u00e1-los a seis meses de trabalhos for\u00e7ados nas minas.\n\nA vis\u00e3o de Lenin dos campos de trabalhos for\u00e7ados como forma especial de puni\u00e7\u00e3o para certo tipo de inimigo burgu\u00eas se coadunava com outras cren\u00e7as suas sobre o crime e os criminosos. Por um lado, o primeiro l\u00edder sovi\u00e9tico era ambivalente no que se referia ao encarceramento e puni\u00e7\u00e3o dos criminosos tradicionais (ladr\u00f5es, punguistas, homicidas), os quais considerava aliados em potencial. Na perspectiva de Lenin, a causa b\u00e1sica dos excessos sociais, ou seja, da criminalidade, era a explora\u00e7\u00e3o das massas. A elimina\u00e7\u00e3o dessa causa, acreditava ele, levar\u00e1 ao esvanecimento dos excessos.\n\n<strong>Assim, n\u00e3o era necess\u00e1rio impor nenhuma puni\u00e7\u00e3o especial para deter os criminosos:<\/strong>\u00a0com o tempo, a pr\u00f3pria Revolu\u00e7\u00e3o os faria desaparecer. Por isso, parte da linguagem no primeiro C\u00f3digo Penal bolchevique teria reconfortado os reformadores penais mais radicais e progressistas do Ocidente. Entre outras coisas, o C\u00f3digo estabelecia que n\u00e3o existe culpa individual e que a puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser encarada como vingan\u00e7a.\n\n<strong>Por outro lado, Lenin assim como os te\u00f3ricos jur\u00eddicos bolcheviques que o seguiram tamb\u00e9m supunha que a cria\u00e7\u00e3o do Estado sovi\u00e9tico daria origem a um novo tipo de inimigo:<\/strong>\u00a0o inimigo de classe.\n\nEste se opunha \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o e trabalhava \u00e0s claras (ou, mais freq\u00fcentemente, \u00e0s escondidas) para destru\u00ed-la. O inimigo de classe era mais dif\u00edcil de identificar que o inimigo comum, e muito mais dif\u00edcil de regenerar.\n\nDiferentemente do que acontecia com o criminoso comum, nunca se podia confiar no inimigo de classe para cooperar com o regime sovi\u00e9tico, e ele exigia puni\u00e7\u00e3o mais severa que a dada ao homicida ou ladr\u00e3o comum.\n\n<strong>Em maio de 1918, por conseguinte, o primeiro decreto da propina promulgado pelos bolcheviques determinava:<\/strong>\n<blockquote>Se o culpado de receber ou oferecer propina pertencer \u00e0s classes ricas e us\u00e1-la para conservar ou adquirir privil\u00e9gios relacionados aos direitos de propriedade, ele dever\u00e1 ser condenado aos trabalhos for\u00e7ados mais severos e rudes, e todas as suas posses dever\u00e3o ser confiscadas.<\/blockquote>\nEm outras palavras, desde os primeiros dias do Estado sovi\u00e9tico, as pessoas seriam condenadas a cumprir pena n\u00e3o pelo que fizessem, mas pelo que fossem.\n\nInfelizmente, ningu\u00e9m jamais forneceu uma explica\u00e7\u00e3o clara do que exatamente era um inimigo de classe. Como consequ\u00eancia, o n\u00famero de deten\u00e7\u00f5es de todo tipo aumentou em grau enorme ap\u00f3s o golpe bolchevique.\n\nA partir de novembro de 1917, tribunais revolucion\u00e1rios, compostos de partid\u00e1rios da Revolu\u00e7\u00e3o escolhidos de modo aleat\u00f3rio, come\u00e7aram a condenar de maneira tamb\u00e9m aleat\u00f3ria inimigos da Revolu\u00e7\u00e3o.\n\nPenas de pris\u00e3o, de trabalhos for\u00e7ados e at\u00e9 de morte se aplicavam arbitrariamente a banqueiros, esposas de comerciantes, especuladores (com o que se referiam a qualquer pessoa dedicada \u00e0 atividade econ\u00f4mica independente), ex-carcereiros czaristas e todo o mundo que parecesse suspeito.\n\nA defini\u00e7\u00e3o do que e de quem n\u00e3o era inimigo tamb\u00e9m variava de um lugar para outro, \u00e0s vezes coincidindo com a de prisioneiro de guerra. Ao ocupar uma cidade, o Ex\u00e9rcito Vermelho, de Trotski, frequentemente fazia ref\u00e9ns burgueses, que poderiam ser fuzilados caso o Ex\u00e9rcito Branco voltasse, como muitas vezes acontecia ao longo das linhas cambiantes da frente de batalha. Nesse \u00ednterim, tais ref\u00e9ns podiam ser postos para fazer trabalhos for\u00e7ados, com frequ\u00eancia abrindo trincheiras e construindo barricadas.A distin\u00e7\u00e3o entre presos pol\u00edticos e criminosos comuns era igualmente arbitr\u00e1ria.\n\nMembros sem instru\u00e7\u00e3o das comiss\u00f5es e tribunais revolucion\u00e1rios tempor\u00e1rios poderiam, por exemplo, resolver de s\u00fabito que um homem que fora apanhado ao viajar de trem sem ter pago passagem cometera delito contra a sociedade e conden\u00e1-lo por crimes pol\u00edticos. No fim das contas, muitas de tais decis\u00f5es eram deixadas aos policiais ou soldados que faziam as pris\u00f5es. Feliks Dzerzhinsky, fundador da Cheka (a pol\u00edcia secreta de Lenin, antecessora da KGB), mantinha um caderninho preto no qual anotava os nomes e endere\u00e7os de inimigos com os quais deparava aleatoriamente ao fazer seu trabalho.\n\nEssas distin\u00e7\u00f5es continuariam vagas at\u00e9 o pr\u00f3prio colapso da URSS, oitenta anos depois. No entanto, a exist\u00eancia de duas categorias de presos pol\u00edtico e comum teve profundo efeito sobre a forma\u00e7\u00e3o do sistema penal sovi\u00e9tico. Durante a primeira d\u00e9cada de dom\u00ednio bolchevique, as penitenci\u00e1rias sovi\u00e9ticas at\u00e9 se cindiram em dois tipos, um para cada categoria. A divis\u00e3o surgiu espontaneamente, como resposta ao caos do sistema prisional existente. Logo nos primeiros dias da Revolu\u00e7\u00e3o, todos os prisioneiros eram encarcerados sob a jurisdi\u00e7\u00e3o de alguma autoridade tradicional (primeiro o Comissariado da Justi\u00e7a, depois o Comissariado do Interior) e colocados no sistema prisional comum. Ou seja, eram jogados nos remanescentes do sistema czarista, em geral nas pris\u00f5es de pedra, sujas e sombrias, que ocupavam localiza\u00e7\u00e3o central em todos os grandes centros. Nos anos revolucion\u00e7\u00e1rios de 1917 a 1920, essas institui\u00e7\u00f5es ficaram em total confus\u00e3o.Turbas tinham invadido as cadeias, comiss\u00e1rios autodesignados haviam demitido os guardas, prisioneiros tinham recebido amplas anistias ou simplesmente ido embora.\n\nQuando os\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0assumiram o controle, as poucas pris\u00f5es que continuavam funcionando eram superlotadas e inadequadas. J\u00e1 algumas semanas ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio Lenin exigia medidas extremas para melhoria imediata do abastecimento de alimentos \u00e0s pris\u00f5es de Petrogrado. Alguns meses depois, um integrante da Cheka de Moscou visitou a pris\u00e3o Taganskaya e relatou um frio e uma sujeira terr\u00edveis, assim como tifo e fome.A maioria dos detentos n\u00e3o podia cumprir suas penas de trabalhos for\u00e7ados porque n\u00e3o tinha roupas. Uma mat\u00e9ria de jornal alegava que a pris\u00e3o Batyrka, tamb\u00e9m em Moscou, projetada para abrigar mil presos, j\u00e1 tinha 2.500. Outro jornal se queixava de que os Guardas Vermelhos prendem assistematicamente centenas de pessoas todos os dias e n\u00e3o sabem o que fazer com elas.\n\nA superlota\u00e7\u00e3o suscitava solu\u00e7\u00f5es criativas. Na falta de coisa melhor, as novas autoridades encarceravam presos em por\u00f5es, s\u00f3t\u00e3o, pal\u00e1cios vazios e velhas igrejas.\n\n<strong>Um sobrevivente recordaria que foi colocado no por\u00e3o de uma casa abandonada, num \u00fanico c\u00f4modo com cinq\u00fcenta pessoas, nenhuma mob\u00edlia e pouca comida:<\/strong>\u00a0quem n\u00e3o recebia alimento das pr\u00f3prias fam\u00edlias simplesmente morria de inani\u00e7\u00e3o.\n\nEm dezembro de 1917, uma comiss\u00e3o da Cheka discutiu o destino de 56 presos diversos (ladr\u00f5es, b\u00eabados e pol\u00edticos variados) que estavam sendo mantidos no por\u00e3o do Instituto Smolny, o quartel-general de Lenin em Petrogrado.\n\nNem todos sofriam com as condi\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas. Em 1918, Robert Bruce Lockhart, diplomata brit\u00e2nico acusado de espionagem (com justi\u00e7a, ali\u00e1s), foi aprisionado num por\u00e3o do Kremlin.\n\nEle se ocupava jogando paci\u00eancia e lendo Tuc\u00eddides e Carlyle. De tempos em tempos, um ex-servi\u00e7al imperial lhe trazia ch\u00e1 quente e jornais.Mas, mesmo nas cadeias tradicionais remanescentes, o regime prisional era imprevis\u00edvel, e os carcereiros, inexperientes. Na cidade de Vyborg, no norte da R\u00fassia, um preso descobriu que, no bagun\u00e7ado mundo p\u00f3s-revolucion\u00e1rio, seu antigo motorista se tornara guarda de pris\u00e3o. O homem ficou encantado em ajudar o ex-patr\u00e3o a ir para uma cela melhor (mais seca) e, por fim, a escapar.Um coronel do Ex\u00e9rcito Branco tamb\u00e9m lembraria que, em dezembro de 1917, na pris\u00e3o de Petrogrado, os detentos entravam e sa\u00edam \u00e0 vontade e os sem-teto dormiam nas celas durante a noite. Recordando aquele tempo, um alto funcion\u00e1rio sovi\u00e9tico diria que s\u00f3 os muito pregui\u00e7osos n\u00e3o fugiam.\n\nA confus\u00e3o obrigou a Cheka a apresentar solu\u00e7\u00f5es novas os bolcheviques n\u00e3o o podiam permitir que seus verdadeiros inimigos ficassem no sistema prisional comum.\n\nCadeias ca\u00f3ticas e guardas indolentes podiam servir para punguistas e delinquentes juvenis; mas, para os sabotadores, parasitas, especuladores, oficiais do Ex\u00e9rcito Branco, padres, capitalistas burgueses e outros que tanto assomavam na imagina\u00e7\u00e3o bolchevique, eram necess\u00e1rias solu\u00e7\u00f5es mais criativas.\n\nUma delas foi encontrada j\u00e1 em 4 de junho de 1918, quando Trotski requereu que um grupo de prisioneiros tchecos refrat\u00e1rios fosse pacificado, desarmado e colocado num konstlager \u2014 campo de concentra\u00e7\u00e3o.\n\nDoze dias depois, num memorando endere\u00e7ado ao governo sovi\u00e9tico, Trotski tornou a falar em campos de concentra\u00e7\u00e3o, pris\u00f5es ao ar livre nas quais\n<blockquote>a burguesia das cidades e vilarejos dever\u00e1 ser mobilizada e organizada em batalh\u00f5es de retaguarda para fazer servi\u00e7o bra\u00e7al limpar casernas, acampamentos e ruas, cavar trincheiras etc. Quem se recusar dever\u00e1 ser multado e mantido na cadeia at\u00e9 pagar a multa.<\/blockquote>\nEm agosto, Lenin tamb\u00e9m se utilizou do termo konstlager. Num telegrama aos comiss\u00e1rios de Penza (local de um levante antibolchevique), ele demandou que se empregasse terror em massa contra os kulaks, padres e Guardas Brancos e que os elementos indignos de confian\u00e7a fossem aprisionados num campo de concentra\u00e7\u00e3o fora da cidade.\n\n<strong>As instala\u00e7\u00f5es j\u00e1 existiam:<\/strong>\u00a0durante o ver\u00e3o de 1918 \u2014 na sequ\u00eancia do Tratado de Brest-Litovsk, que p\u00f4s fim \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia na Primeira Guerra Mundial, o regime libertou 2 milh\u00f5es de prisioneiros de guerra, e os campos vazios foram de imediato transferidos para a Cheka.\n\nNa \u00c9poca, a Cheka certamente pareceu a entidade ideal para assumir a tarefa de encarcerar inimigos em campos especiais. Organiza\u00e7\u00e3o totalmente nova, foi concebida para ser a espada e o escudo do Partido Comunista, n\u00e3o se subordinando ao governo sovi\u00e9tico oficial nem a nenhum departamento deste. N\u00e3o tinha nenhuma tradi\u00e7\u00e3o de legalidade, nenhuma obriga\u00e7\u00e3o de respeitar o Estado de direito, nenhuma necessidade de consultar a poli\u00adcia, os tribunais ou o comiss\u00e1rio da Justi\u00e7a.\n\n<strong>O pr\u00f3prio nome indicava sua condi\u00e7\u00e3o especial:<\/strong>\u00a0a Comiss\u00e3o Extraordin\u00e1ria de Combate \u00e0 Contra-revolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 Sabotagem, ou (usando as iniciais russas de Comiss\u00e3o Extraordin\u00e1ria) Ch-K, Cheka.\n\nEra extraordin\u00e1ria justamente porque existia fora da legalidade ordin\u00e1ria.\n\nQuase t\u00e3o logo foi criada, a Cheka recebeu uma dessas tarefas extraordin\u00e1rias. Em 5 de setembro de 1918, Dzerzhinsky foi instru\u00eddo a implementar a pol\u00edtica do Terror Vermelho, de Lenin.\n\nLan\u00e7ada ap\u00f3s um atentado contra a vida desse \u00faltimo, era uma onda de terror (deten\u00e7\u00f5es, encarceramentos, assass\u00ednios) mais organizada que o terror aleat\u00f3rio dos meses anteriores. Na realidade, tratava-se de um componente importante da Guerra Civil, sendo dirigido contra os suspeitos de atuarem para destruir a Revolu\u00e7\u00e3o na frente interna. O Terror Vermelho foi sangrento, impiedoso e cruel, tal qual pretendiam seus perpetradores.\n\n<strong>A Krasnaya Gazeta, \u00f3rg\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho, o descreveu:<\/strong>\n<blockquote>Sem piedade, sem modera\u00e7\u00e3o, mataremos nossos inimigos \u00e0s centenas e mais centenas. Ou melhor, aos milhares deixemos que se afoguem no pr\u00f3prio sangue. Pelo sangue de Lenin, deixemos que corram rios de sangue da burguesia o m\u00e1ximo poss\u00edvel<\/blockquote>\nA pol\u00edtica do Terror Vermelho foi crucial na luta de Lenin pelo poder. Os campos de concentra\u00e7\u00e3o, os chamados campos especiais, foram cruciais para o Ex\u00e9rcito Vermelho.\n\nEram mencionados j\u00e1 no primeiro decreto do Terror Vermelho, que determinava n\u00e3o apenas a captura e encarceramento de representantes importantes da burguesia, propriet\u00e1rios de terras, industriais, comerciantes, padres contra-revolucion\u00e1rios, oficiais anti-sovi\u00e9ticos, mas tamb\u00e9m o isolamento deles em campos de concentra\u00e7\u00e3o.\n\nEmbora n\u00e3o existam dados confi\u00e1veis sobre o n\u00famero de prisioneiros, havia 21 campos registrados na R\u00fassia no final de 1919.\n\nNo fim do ano seguinte, eram 107 cinco vezes mais.\n\nNaquele est\u00e1gio, contudo, o objetivo dos campos permanecia amb\u00edguo.\n\n<strong>Os prisioneiros deveriam trabalhar mas com que prop\u00f3sito? O trabalho se destinava a reabilit\u00e1-los? A humilh\u00e1-los? Ou a ajudar a construir o Estado sovi\u00e9tico?<\/strong>\n\nDiferentes l\u00edderes e institui\u00e7\u00f5es tinham diferentes respostas. Em fevereiro de 1919, o pr\u00f3prio Dzerzhinsky fez um discurso eloq\u00fcente para defender o papel dos campos na reabilita\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da burguesia.\n\nOs novos campos\n<blockquote>utilizar\u00e3o a m\u00e3o-de-obra dos detidos; dos senhores que vivem sem ter ocupa\u00e7\u00e3o; e dos que s\u00f3 trabalham quando for\u00e7ados.Tal puni\u00e7\u00e3o deveria ser aplicada aqueles que atuam em institui\u00e7\u00f5es sovi\u00e9ticas e demonstram atitudes inconscienciosas no que se refere ao trabalho, \u00e0 pontualidade etc. Dessa maneira, criaremos escolas de trabalho.<\/blockquote>\nMas na primavera de 1919, quando se publicaram os primeiros decretos sobre os campos especiais, prioridades ligeiramente diferentes pareceram assumir a preced\u00eancia.\n\nOs decretos (uma lista surpreendentemente longa de normas e recomenda\u00e7\u00f5es) sugeriam que cada capital regional estabelecesse um campo, para n\u00e3o menos que trezentas pessoas, no limite da cidade, ou em constru\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas como mosteiros, grandes propriedades, fazendas etc. Estipulavam uma jornada de trabalho de oito horas; horas extras e atividade noturna s\u00f3 seriam autorizadas quando seguissem a lei trabalhista. Os presos ficavam proibidos de receber comida de fora. Permitiam-se visitas de familiares imediatos, mas s\u00f3 nos domingos e feriados. Os presos que tentassem fugir uma vez teriam as penas multiplicadas por dez; os que tentassem de novo seriam punidos com a morte, procedimentos extremamente severos se comparados com a leniente legisla\u00e7\u00e3o czarista, que os bolcheviques conheciam t\u00e3o bem.\n\n<strong>O mais importante:\u00a0<\/strong>os decretos tamb\u00e9m deixavam claro que o trabalho dos presos se destinava n\u00e3o apenas a reabilit\u00e1- los, mas tamb\u00e9m a pagar pela manuten\u00e7\u00e3o dos campos.\n\nPresos com alguma incapacidade f\u00edsica deveriam ser mandados para outro lugar. Os campos deveriam ser auto-sustent\u00e1veis. De maneira otimista, os fundadores do sistema acreditavam que ele se pagaria.\n\nGra\u00e7as ao fluxo irregular de fundos estatais, quem administrava os campos logo se interessou pela id\u00e9ia de autofinancia-se ou, pelo menos, fazer algum uso pr\u00e1tico dos prisioneiros.\n\n<strong>Em setembro de 1919, um relat\u00f3rio secreto apresentado a Dzerzhinsky se queixava de que as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias num campo de tr\u00e2nsito estavam abaixo da cr\u00edtica, em grande parte porque deixavam tanta gente doente e incapaz para o trabalho:<\/strong>\u00a0Na umidade do outono, n\u00e3o ser\u00e3o lugares para reunir pessoas e empregar sua m\u00e3o-de-obra, mas viveiros de epidemias e outras enfermidades. Entre outras coisas, o autor propunha que os incapacitados de trabalhar deveriam ser enviados para outro local, assim tornando o campo mais eficiente, t\u00e1tica que depois seria muitas vezes utilizada pela lideran\u00e7a do Gulag.\n\nJ\u00e1 naquela \u00e9poca, os respons\u00e1veis pelos campos se preocupavam com a doen\u00e7a e a fome s\u00f3 na medida em que presos doentes e famintos n\u00e3o eram presos \u00fateis.\n\nA dignidade e a humanidade deles, para nem falar de sua sobreviv\u00eancia, praticamente n\u00e3o interessavam aos encarregados.\n\nNa pr\u00e1tica, ali\u00e1s, nem todos os comandantes se preocupavam com a reabilita\u00e7\u00e3o ou o autofinanciamento. Preferiam, isto sim, punir os ex-abonados, humilhando-os, dando-lhes um gostinho do sofrimento dos trabalhadores. Um relat\u00f3rio da cidade ucraniana de Poltava, redigido por uma comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito do Ex\u00e9rcito Branco ap\u00f3s a recaptura tempor\u00e1ria do lugar, observava que os burgueses aprisionados durante a ocupa\u00e7\u00e3o bolchevique haviam recebido tarefas que\n<blockquote>se destinavam a escarnecer deles, tentando avilt\u00e1-los. Um detento, por exemplo, foi obrigado a limpar com as m\u00e3os uma grossa crosta de terra num ch\u00e3o imundo. Mandaram outro limpar um sanit\u00e1rio e lhe deram uma toalha de mesa para fazer o servi\u00e7o.<\/blockquote>\n\u00c9 bem verdade que essas sutis diferen\u00e7as de inten\u00e7\u00e3o provavelmente faziam pouca diferen\u00e7a para as muitas dezenas de milhares de presos, muitos dos quais consideravam humilha\u00e7\u00e3o suficiente o simples fato de terem sido aprisionados por nenhum motivo. Elas provavelmente tamb\u00e9m n\u00e3o afetavam as condi\u00e7\u00f5es de vida dos detentos, as quais eram horrorosas em toda a parte. Um padre enviado para um campo na Sib\u00e9ria se recordaria da sopa de tripa, dos alojamentos sem eletricidade e do aquecimento praticamente inexistente no inverno.\n\nAleksandr Izgoev, pol\u00edtico de destaque no per\u00edodo czarista, foi mandado para um campo ao norte de Petrogrado. No caminho, seu grupo de prisioneiros parou na cidade de Vologda.\n\nEm vez de encontrarem a comida quente e as acomoda\u00e7\u00f5es aquecidas que lhes haviam sido prometidas, os presos foram conduzidos a p\u00e9 de um lugar para outro, em busca de abrigo.\n\nN\u00e3o se preparara nenhum campo de tr\u00e2nsito para eles. Por fim, foram alojados no que fora uma escola, com bancos compridos e paredes nuas. Quem tinha dinheiro acabou comprando a pr\u00f3pria comida na cidade.\n\nTodavia, esses tipos de maus-tratos ca\u00f3ticos n\u00e3o eram reservados apenas aos prisioneiros. Em momentos decisivos da Guerra Civil, as necessidades emergenciais do Ex\u00e9rcito Vermelho e do Estado sovi\u00e9tico se sobrepunham a tudo o mais, da reabilita\u00e7\u00e3o \u00c3 vingan\u00e7a, passando pelas considera\u00e7\u00f5es referentes ao que fosse justo ou injusto.\n\nEm outubro de 1918, o comandante da frente setentrional solicitou \u00e0 comiss\u00e3o militar de Petrogrado oitocentos trabalhadores, urgentemente necess\u00e1rios para abrir estradas e trincheiras. Como consequ\u00eancia, v\u00e1rios cidad\u00e3os das antigas classes mercantis foram convidados a comparecer ao quartel-general sovi\u00e9tico, supostamente para serem registrados para poss\u00edveis fun\u00e7\u00f5es de trabalho em alguma data futura.\n\nQuando esses cidad\u00e3os apareceram para fazer tal registro, foram presos e mandados ao quartel Semenovsky, onde esperariam at\u00e9 ser despachados para a frente de batalha.\n\nQuando nem isso resultou em n\u00famero suficiente de trabalhadores, o soviete (conselho governante local) de Petrogrado simplesmente cercou parte da Nevsky Prospekt (a principal rua comercial da cidade), prendeu todos os que n\u00e3o tinham carteirinha do Partido nem atestado de que trabalhavam para uma institui\u00e7\u00e3o do governo e os fez marchar para um quartel ali perto. Mais tarde, liberaram-se as mulheres, mas os homens foram despachados para o norte; nenhum dos que foram mobilizados dessa maneira estranha p\u00f4de antes resolver seus assuntos de fam\u00edlia, despedir-se dos parentes ou obter trajes e cal\u00e7ados adequados.\n\nEmbora certamente horr\u00edvel para os pedestres assim detidos, esse epis\u00f3dio pareceria menos esquisito aos trabalhadores de Petrogrado porque, mesmo naquele est\u00e1gio inicial da hist\u00f3ria sovi\u00e9tica, a distin\u00e7\u00e3o entre trabalhos for\u00e7ados e trabalho comum era pouco clara.\n\nTrotski falava abertamente em transformar o pa\u00eds inteiro num ex\u00e9rcito de trabalhadores ao estilo do Ex\u00e9rcito Vermelho. Desde cedo, os trabalhadores foram obrigados a registrar-se em reparti\u00e7\u00f5es centrais do trabalho, de onde podiam ser enviados para qualquer parte do pa\u00eds.\n\nAprovaram-se decretos especiais que proibiam certos tipos de trabalhador (os mineiros, por exemplo) de largar seus empregos. Nesse per\u00edodo de caos revolucion\u00e1rio, os trabalhadores livres tampouco desfrutavam condi\u00e7\u00f5es de vida muito melhores que as dos presos. Olhando de fora, nem sempre teria sido f\u00e1cil dizer qual era o local de trabalho e qual era o campo de concentra\u00e7\u00e3o\n\n<strong>Mas tamb\u00e9m isso era um pren\u00fancio:<\/strong>\u00a0durante a maior parte da d\u00e9cada seguinte, as defini\u00e7\u00f5es de pris\u00e3o, campo e trabalhos for\u00e7ados estariam permeadas de confus\u00e3o.\n\nO controle das institui\u00e7\u00f5es penais continuaria mudando constantemente de m\u00e3os. Os departamentos respons\u00e1veis seriam rebatizados e reorganizados sem cessar, \u00e0 medida que diferentes comiss\u00e1rios e outros burocratas tentavam assumir o controle do sistema.\n\nNo entanto, evidencia-se que, no final da Guerra Civil, j\u00e1 se estabelecera um padr\u00e3o. A URSS desenvolvera dois sistemas prisionais, com regras, tradi\u00e7\u00f5es e ideologias distintas. O Comissariado da Justi\u00e7a (e depois o Comissariado do Interior) administrava o sistema regular, que lidava principalmente com o que o regime sovi\u00e9tico denominava criminosos.\n\n<strong>Ainda que esse sistema tamb\u00e9m fosse ca\u00f3tico na pr\u00e1tica, seus presos eram mantidos em pris\u00f5es tradicionais, e os objetivos declarados de seus administradores, conforme apresentados num memorando interno, seriam perfeitamente compreens\u00edveis em pa\u00edses burgueses:<\/strong>\u00a0regenerar os criminosos pelo trabalho correcional os presos devem trabalhar para aprender habilidades que possam utilizar a fim de levar vida honesta e impedir que cometessem mais crimes.\n\nAo mesmo tempo, a Cheka (depois rebatizada GPU,OGPU,NKVD, MGB e, por fim, KGB) controlava outro sistema prisional, que de in\u00edcio era conhecido como sistema de campos especiais, ou campos extraordin\u00e1rios. Embora a Cheka usasse neles parte da mesma ret\u00f3rica de reabilita\u00e7\u00e3o e regenera\u00e7\u00e3o, esses campos n\u00e3o se destinavam mesmo a parecer institui\u00e7\u00f5es penais comuns.\n\nEstavam fora da jurisdi\u00e7\u00e3o das outras institui\u00e7\u00f5es sovi\u00e9ticas e n\u00e3o eram vis\u00edveis ao p\u00fablico.Tinham normas especiais, penalidades mais duras para quem tentava fugir, regimes mais severos.\n\nSeus presos n\u00e3o haviam necessariamente sido condenados por tribunais comuns se \u00e9 que algum tribunal os condenara. Tais campos, estabelecidos como medida emergencial, acabaram por tornar-se maiores e mais poderosos, \u00e0 medida que se ampliava a defini\u00e7\u00e3o de inimigo e aumentava o poder da Cheka. E, quando os dois sistemas penais, o ordin\u00e1rio e o extraordin\u00e1rio, enfim se juntaram, eles o fizeram sob as regras do segundo. A Cheka devorou seus rivais.\n\n<strong>Desde o in\u00edcio, o sistema prisional especial se destinava a lidar com prisioneiros especiais:<\/strong>\u00a0padres, antigos altos funcion\u00e1rios czaristas, especuladores burgueses, inimigos da nova ordem.\n\nMas uma categoria de presos pol\u00edticos em particular interessava \u00e0s autoridades mais que as outras. Tratava-se de membros dos partidos socialistas revolucion\u00e1rios n\u00e3o-bolcheviques, sobretudo os anarquistas, a esquerda e a direita social-revolucion\u00e1rias, os mencheviques e todos os outros que haviam lutado pela Revolu\u00e7\u00e3o,mas que n\u00e3o tiveram o tino de unir-se \u00e0 fac\u00e7\u00e3o bolchevique, de Lenin, e n\u00e3o tomaram parte por completo no golpe de outubro de 1917. Como ex-aliados no combate revolucion\u00e1rio contra o regime czarista, mereciam tratamento especial.\n\nO Comit\u00ea Central do Partido Comunista debateria repetidas vezes o destino deles, at\u00e1 o final dos anos 1930, quando a maioria dos que continuavam vivos foi presa ou fuzilada.\n\nEm parte, essa categoria espec\u00edfica de prisioneiro incomodava Lenin porque, assim como todos os l\u00edderes de seitas exclusivistas, ele reservava aos ap\u00f3statas o maior \u00f3dio de que era capaz. Durante um col\u00f3quio t\u00edpico, chamou um de seus cr\u00edticos socialistas de escroque, c\u00e3ozinho cego, adulador da burguesia e lacaio de sanguessugas e canalhas, que s\u00f3 servia para o esgoto dos renegados.\n\nAli\u00e1s, muito antes da Revolu\u00e7\u00e3o, Lenin j\u00e1 sabia o que faria com aqueles correligion\u00e1rios socialistas que se opunham a ele.\n\n<strong>Um de seus companheiros revolucion\u00e1rios recordou uma conversa sobre o assunto:<\/strong>\n<blockquote><strong>Eu lhe disse:<\/strong>\u00a0Vladimir Iliich, se voc\u00ea chegar ao poder, vai come\u00e7ar a enforcar os mencheviques no mesmo dia.\u00a0<strong>Ele me deu uma olhadela e respondeu:<\/strong>\u00a0S\u00f3 depois que tivermos enforcado o \u00faltimo social-revolucion\u00e1rio. A\u00ed, franziu as sobrancelhas e deu uma risada.<\/blockquote>\nContudo, os presos que pertenciam a essa categoria especial tamb\u00e9m eram bem mais dif\u00edceis de controlar. Muitos haviam passado anos em pris\u00f5es czaristas e sabiam como montar greves de fome, como pressionar seus carcereiros, como estabelecer comunica\u00e7\u00e3o entre as celas para trocar informa\u00e7\u00f5es, como organizar protestos em conjunto.\n\n<strong>O mais importante:<\/strong>\u00a0sabiam como contatar o exterior e quem contatar por l\u00e1. A maior parte dos partidos socialistas russos n\u00e3o-bolcheviques ainda tinha diret\u00f3rios de exilados (geralmente em Berlim ou Paris) cujos membros podiam causar grandes preju\u00edzos \u00e0 imagem mundial dos bolcheviques.\n\nEm 1921, no III Congresso da Internacional Comunista, representantes do diret\u00f3rio externo dos social-revolucion\u00e1rios, o partido ideologicamente mais pr\u00f3ximo dos bolcheviques (durante breve per\u00edodo, alguns de seus membros at\u00e9 chegaram a trabalhar em coaliz\u00e3o com esses \u00faltimos), leram em voz alta uma carta de seus camaradas encarcerados na R\u00fassia. A carta provocou sensa\u00e7\u00e3o no congresso, em grande parte porque afirmava que as condi\u00e7\u00f5es prisionais na R\u00fassia revolucion\u00e1ria eram piores que nos tempos do czar.\n<blockquote>Nossos camaradas est\u00e3o semimortos de fome, proclamava. Muitos deles se encontram presos h\u00e1 meses, sem visita de parentes, sem correspond\u00eancia, sem exerc\u00edcio f\u00edsico.<\/blockquote>\nOs socialistas exilados tinham condi\u00e7\u00f5es de agitar em favor dos prisioneiros, e o faziam, tal qual antes da Revolu\u00e7\u00e3o. Imediatamente ap\u00f3s o golpe bolchevique, v\u00e1rios revolucion\u00e1rios c\u00e9lebres, a\u00ed inclu\u00eddas Vera Figner (autora de mem\u00f3rias sobre a vida em pris\u00f5es czaristas) e Ekaterina Peshkova (mulher do escritor M\u00e1ximo Gorki), ajudaram a restabelecer a Cruz Vermelha Pol\u00edtica, uma organiza\u00e7\u00e3o de aux\u00edlio a presos que atuara clandestinamente antes da Revolu\u00e7\u00e3o. Ekaterina conhecia bem Dzerzhinsky e se correspondia com ele de modo regular e cordial.\n\nGra\u00e7as aos contatos e ao prest\u00edgio dela, a Cruz Vermelha Pol\u00edtica recebeu o direito de visitar locais de encarceramento, falar com presos pol\u00edticos, enviar-lhes remessas e at\u00e9 requerer a soltura daqueles que estavam enfermos, privil\u00e9gios que a organiza\u00e7\u00e3o manteve durante boa parte da d\u00e9cada de 1920.\n\nPosteriormente, essas atividades pareceriam t\u00e3o inveross\u00edmeis ao escritor Lev Razgon, aprisionado em 1937, que ele ouvia as hist\u00f3rias da Cruz Vermelha Pol\u00edtica contadas pela esposa (o pai dela fora um dos presos socialistas) como se fossem contos de fadas.\n\nA m\u00e1 publicidade gerada pelos socialistas ocidentais e pela Cruz Vermelha Pol\u00edtica incomodava um bocado os bolcheviques. Muitos tinham vivido anos no ex\u00edlio e, por conseguinte, eram sens\u00edveis \u00e0s opini\u00f5es de seus antigos camaradas internacionais.\n\nMuitos tamb\u00e9m ainda acreditavam que a Revolu\u00e7\u00e3o poderia propagar-se para o Ocidente a qualquer momento e n\u00e3o queriam que o progresso do comunismo fosse retardado pelas not\u00edcias negativas. Em 1922, as mat\u00e9rias da imprensa ocidental j\u00e1 os preocupavam o bastante para lan\u00e7arem a primeira do que seriam muitas tentativas de disfar\u00e7ar o terror comunista atacando o terror capitalista.\n\n<strong>Com esse prop\u00f3sito, criaram uma associa\u00e7\u00e3o alternativa de aux\u00edlio a prisioneiros:<\/strong>\u00a0a Sociedade Internacional de Ajuda \u00e0s V\u00edtimas da Revolu\u00e7\u00e3o (MOPR, conforme seu acr\u00f4nimo russo), que su, outros engoliram a hist\u00f3ria. Em 1924, a MOPR afirmava ter 4 milh\u00f5es de membros e at\u00e9 organizou sua primeira confer\u00eancia internacional, postamente trabalharia para assistir aos 100 mil presos do capitalismo.\n\nEmbora a se\u00e7\u00e3 berlinense da Cruz Vermelha Pol\u00edtica tenha de imediato atacado a MOPR por tentar silenciar os gemidos daqueles que est\u00e3o morrendo nas pris\u00f5es, campos de concentra\u00e7\u00e3o e locais de degredo da R\u00fassia, outros engoliram a hist\u00f3ria. Em 1924, a MOPR afirmava ter 4 milh\u00f5es de membros e at\u00e9 organizou sua primeira confer\u00eancia internacional, com representantes do mundo inteiro.\n\nA propaganda deixou sua marca.\n\n<strong>Quando pediram ao escritor franc\u00eas Romain Rolland que comentasse a publica\u00e7\u00e3o de uma colet\u00e2nea de cartas de socialistas encarcerados na R\u00fassia, ele respondeu afirmando o seguinte:<\/strong>\n<blockquote>H\u00e1 coisas quase id\u00eanticas acontecendo nas pris\u00f5es da Pol\u00f4nia; n\u00f3s as temos nas pris\u00f5es da Calif\u00f3rnia, onde est\u00e3o martirizando os trabalhadores da IWW;* n\u00f3s as temos nos calabou\u00e7os ingleses das ilhas Andaman [\u00c2\u2026].\n\nIndustrial Workers of the World [Trabalhadores Industriais do Mundo], o mais organizado movimento oper\u00e1rio revolucion\u00e1rio dos Estados Unidos, fundado em 1905 e influente at\u00e9 o final dos anos 10. (N.T.)<\/blockquote>\nA Cheka tamb\u00e9m procurou amenizar as not\u00edcias negativas, mandando os socialistas encrenqueiros para mais longe de seus contatos.\n\nAlguns foram enviados por decreto administrativo para o degredo em regi\u00f5es long\u00ednquas, tal qual o regime czarista fizera. Outros foram mandados para campos remotos perto da cidade boreal de Arcangel e, em especial, para um campo estabelecido no antigo mosteiro de Kholmogory, centenas de quil\u00f3metros ao norte de Petrogrado, pr\u00f3ximo ao mar Branco. Todavia, mesmo os desterrados para os locais mais distantes acabavam achando meios de comunicar-se. De Narim, long\u00ednqua regi\u00e3o da Sib\u00e9ria, um pequeno grupo de presos pol\u00edticos num min\u00fasculo campo de concentra\u00e7\u00e3o conseguiu mandar carta para um jornal socialista no ex\u00edlio, queixando-se de que estavam t\u00e3o categoricamente isolados do resto do mundo que apenas cartas referentes \u00e0 sa\u00fade de parentes ou \u00e0 nossa pr\u00f3pria podem ter a esperan\u00e7a de chegar aos destinat\u00e1rios.\n\nNenhum outro tipo de mensagem nos chega. Esses presos assinalavam que, entre eles, encontrava-se Olga Romanova, anarquista de dezoito anos que fora despachada para um lugar particularmente remoto da regi\u00e3o, onde a fizeram passar tr\u00eas meses a p\u00e3o e \u00e1gua.\n\nTampouco o degredo distante garantia sossego para os carcereiros.\n\nEm quase toda a parte, os presos socialistas, acostumados ao tratamento privilegiado outrora dado aos prisioneiros pol\u00edticos nas cadeias czaristas, exigiam jornais, livros, caminhadas, o direito ilimitado a correspond\u00eancia e, sobretudo, o direito de escolherem os pr\u00f3prios porta vozes ao lidarem com as autoridades.\n\nQuando os agentes locais da Cheka n\u00e3o entendiam e se negavam a conceder essas coisas (eles decerto n\u00e3o sabiam a diferen\u00e7a entre anarquista e baderneiro), os socialistas protestavam, \u00e0s vezes com viol\u00eancia.\n\nSegundo uma descri\u00e7\u00e3o do campo de Kholmogory, um grupo de prisioneiros descobriu que\n<blockquote>era necess\u00e1rio travar uma luta pelas coisas mais elementares, como a concess\u00e3o aos socialistas e anarquistas dos direitos comuns dos presos pol\u00edticos. Nessa luta, eram submetidos a todos os castigos conhecidos, como confinamento solit\u00e1rio, espancamento, fome, disparos concertados do destacamento militar contra o edif\u00edcio etc. Basta dizer que, no final do ano, a maioria dos detentos de Kholmogory podia acrescentar a seu hist\u00f3rico greves de fome que duravam de trinta a 35 dias.<\/blockquote>\nEsse mesmo grupo de presos acabou sendo transferido de Kholmogory para outro campo, em Petrominsk, tamb\u00e9m um mosteiro.\n\nDe acordo com a peti\u00e7\u00e3o que enviariam \u00e0s autoridades, foram recebidos ali com gritos e amea\u00e7as grosseiras, trancafiados seis de uma vez em min\u00fasculas celas de monge e proibidos de praticar exerc\u00edcio ou ter acesso a livros ou material de escrita. O camarada Bachulis, comandante de Petrominsk, tentou quebrar o \u00e2nimo dos presos privando-os de luz e calor e, de tempos em tempos, atirando contra as janelas deles.\n\nOs presos reagiram lan\u00e7ando outra rodada intermin\u00e1vel de greves de fome e cartas de protesto. No fim das contas, exigiram ser tirados do pr\u00f3prio campo, o qual afirmavam ser mal\u00e1rico.\n\nOutros chefes de campo tamb\u00e9m reclamavam de tais prisioneiros.\n\n<strong>Em carta a Dzerzhinsky, um deles escreveu que em seu campo os Guardas Brancos que se julgam presos pol\u00edticos se organizaram numa turma en\u00e9rgica, impossibilitando que os guardas trabalhassem:\u00a0<\/strong>eles difamam a administra\u00e7\u00e3o, caluniam-lhe o nome, desprezam o nome bom e honesto do trabalhador sovi\u00e9tico.\n\nAlguns guardas resolviam as coisas eles mesmos. Em abril de 1921, um grupo de prisioneiros de Petrominsk se recusou a trabalhar e exigiu mais ra\u00e7\u00f5es de comida. Fartas dessa insubordina\u00e7\u00e3o, as autoridades de Arcangel ordenaram que todos os 540 fossem condenados \u00e0 morte. Foram devidamente fuzilados.\n\nEm outros lugares, as autoridades tentavam manter a paz pelo caminho oposto, atendendo a todas as reivindica\u00e7\u00f5es dos socialistas.\n\nBerta Babina, membro dos social-revolucion\u00e1rios, recordaria sua chegada \u00e0 ala socialista da pris\u00e3o de Butyrka (em Moscou) como um reencontro jubiloso com amigos, gente da clandestinidade em S\u00e3o Petersburgo, dos meus anos de estudante e das muitas cidades e lugares menores onde morei durante minhas erran\u00e7as.\n\nOs presos podiam fazer o que quisessem na pris\u00e3o. Organizavam sess\u00f5es matinais de gin\u00e1stica, fundaram uma orquestra e um coro, criaram um gr\u00eamio que dispunha de peri\u00f3dicos estrangeiros e boa biblioteca.\n\nConforme a tradi\u00e7\u00e3o (remontando aos tempos pr\u00e9-revolucion\u00e1rios), todo preso deixava seus livros quando era solto. Um conselho dos prisioneiros designava celas para todos, algumas das quais eram muit\u00edssimo bem supridas de tapetes no ch\u00e3o e tape\u00e7arias nas paredes. Outro preso lembraria que flan\u00e1vamos pelos corredores como se fossem bulevares.\n\n<strong>Para Berta, a vida na pris\u00e3o parecia inveross\u00edmil:<\/strong>\u00a0Ser\u00e1 que eles n\u00e3o conseguem nos prender a s\u00e9rio?\n\nA lideran\u00e7a da Cheka se fazia a mesma pergunta. Num relat\u00f3rio a Dzerzhinsky datado de janeiro de 1921, um irado fiscal das pris\u00f5es se queixou de que, na Butyrka, homens e mulheres caminham juntos, e slogans anarquistas e contra-revolucion\u00e1rios ficam expostos nas paredes das celas.\n\nDzerzhinsky recomendou regime mais severo mas, quando este foi institu\u00eddo, os presos tornaram a protestar.\n\nO id\u00edlio da Butyrka terminou logo depois. Em abril de 1921, segundo carta que um grupo de social-revolucion\u00e1rios escreveu \u00e0s autoridades, entre tr\u00eas e quatro horas da manh\u00e3, um grupo de homens armados entrou nas celas e come\u00e7ou o ataque mulheres foram arrastadas pelos bra\u00e7os, pernas e cabelos para fora das celas; outras foram espancadas. A Cheka, em seus relat\u00f3rios posteriores, descreveu esse incidente como uma rebeli\u00e3o que ficara fora de controle e ela resolveu que nunca mais deixaria tantos presos pol\u00edticos se acumularem em Moscou.\n\nEm fevereiro de 1922, a ala socialista da pris\u00e3o de Butyrka j\u00e1 fora dissolvida.\n\nA repress\u00e3o n\u00e3o funcionara. As concess\u00f5es n\u00e3o haviam funcionado. Mesmo em seus campos especiais, a Cheka n\u00e3o conseguia controlar os presos especiais.Tampouco conseguia impedir que not\u00edcias deles chegassem ao exterior. Era evidente que outra solu\u00e7\u00e3o se fazia necess\u00e1ria, tanto para eles quanto para todos os outros contra-revolucion\u00e1rios insubordinados que haviam sido reunidos no sistema prisional especial.\n\n<strong>Na primavera de 1923, j\u00e1 se encontrara a solu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Solovetsky.\n\n<strong>Bolcheviques &#8211; Sistema Pol\u00edtico<\/strong>\n\nOs\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0iniciam a mudan\u00e7a do sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico da R\u00fassia.\n\nJ\u00e1 em novembro de 1917 o governo nacionaliza as terras 40% do solo era de propriedade da nobreza e cede aos camponeses o direito exclusivo de sua explora\u00e7\u00e3o.\n\nO controle das f\u00e1bricas \u00e9 transferido aos oper\u00e1rios, os estabelecimentos industriais s\u00e3o expropriados pelo governo e os bancos nacionalizados.\n\nMoscou passa a ser a capital do pa\u00eds.\n\nEm mar\u00e7o do ano seguinte os\u00a0<strong>bolcheviques<\/strong>\u00a0assinam a paz em separado com a Alemanha, em Brest-Litovsk, aceitando entregar a Pol\u00f4nia, a Ucr\u00e2nia e a Finl\u00e2ndia.\n\n<strong>Guerra Civil<\/strong>\n\nEm 1918, ap\u00f3s a assinatura da paz com a Alemanha, a R\u00fassia v\u00ea-se tomada por uma sangrenta guerra civil.\n\nCapitalistas e propriet\u00e1rios de terras, auxiliados por generais czaristas, pol\u00edticos liberais, social-revolucion\u00e1rios, mencheviques e setores do campesinato, tentam retomar o poder dos\u00a0<strong>bolcheviques.<\/strong>\n\nOs contra-revolucion\u00e1rios s\u00e3o chamados de Brancos e os bolcheviques de Vermelhos. \u00c9 uma oportunidade para o Reino Unido, Fran\u00e7a e Jap\u00e3o e, mais tarde, a Pol\u00f4nia tentarem derrubar o governo russo e colocar o pa\u00eds novamente na guerra contra a Alemanha. Para tanto, ajudam os contra-revolucion\u00e1rios Brancos com tropas, armas, muni\u00e7\u00f5es e provis\u00f5es.\n\n<strong>Fuzilamento da fam\u00edlia imperial<\/strong>\n\nA conseq\u00fc\u00eancia da vit\u00f3ria bolchevique \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o do Terror, com o fuzilamento sum\u00e1rio de milhares de pessoas.\n\nO czar Nicolau II e sua fam\u00edlia s\u00e3o executados pelos bolcheviques em Ekaterinburgo.\n\nAinda em 1918, uma socialista-revolucion\u00e1ria de direita, Fany Kaplan, comete um atentado contra Lenin, provocando um massacre em Petrogrado por parte da pol\u00edcia bolchevique.\n\nO processo revolucion\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o pode mais ser contido, as dissid\u00eancias s\u00e3o esmagadas e a amea\u00e7a da contra-revolu\u00e7\u00e3o afastada.\n\n<strong>Forma\u00e7\u00e3o da URSS<\/strong>\n\nA Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas \u00e9 criada em 1924 com a ado\u00e7\u00e3o de nova Constitui\u00e7\u00e3o.\n\nA cria\u00e7\u00e3o de uma Uni\u00e3o \u00e9 a f\u00f3rmula encontrada pelos bolcheviques para conseguir manter unidos nacionalidades, etnias e territ\u00f3rios que pouco t\u00eam em comum. Segundo a Constitui\u00e7\u00e3o de 1924, as rep\u00fablicas t\u00eam autonomia, proposta que nunca saiu do papel.\n\nO poder \u00e9 mantido por alguns l\u00edderes do Comit\u00ea Central por interm\u00e9dio do Partido Comunista.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.geocities.com\/www.wisegeek.com\/veja.abril.com.br\/\n\n&nbsp;\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolcheviques, Revolu\u00e7\u00e3o, Sistema, Pol\u00edtico, Governo, R\u00fassia, Guerra, Russa, Brancos, Vermelhos, Movimento, Hist\u00f3ria, Bolcheviques<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10399,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-26052","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-geral"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Bolcheviques - 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