{"id":26010,"date":"2015-12-22T00:00:00","date_gmt":"2015-12-22T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/revolta-do-vintem-4\/"},"modified":"2026-09-01T17:58:16","modified_gmt":"2026-09-01T17:58:16","slug":"revolta-do-vintem-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/revolta-do-vintem-4\/","title":{"rendered":"Revolta do Vint\u00e9m"},"content":{"rendered":"\n<strong>Revolta do Vint\u00e9m &#8211; O que foi<\/strong>\n\nA \u201c<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u201c, como ficou conhecida, teve como consequ\u00eancia a destrui\u00e7\u00e3o de bondes, no centro da cidade, e uma repress\u00e3o policial violenta que resultou em mortos e feridos.\n\nEla marcou profundamente o in\u00edcio da d\u00e9cada, pois favoreceu a participa\u00e7\u00e3o de novos atores no cen\u00e1rio pol\u00edtico da Corte e do Imp\u00e9rio.\n\nAs discuss\u00f5es pol\u00edticas, at\u00e9 ent\u00e3o restritas ao Parlamento, ganharam as ruas e pra\u00e7as p\u00fablicas.\n\nOs jornais abolicionistas apoiaram a revolta. Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, redator da \u201cGazeta de Not\u00edcias\u201d, um dos l\u00edderes, juntamente com outros militantes antiescravistas como Lopes Trov\u00e3o, propriet\u00e1rio do jornal \u201cO Combate\u201d, e Ferreira de Menezes, dono da \u201cGazeta da Tarde\u201d, foram amea\u00e7ados de pris\u00e3o.\n\nA import\u00e2ncia da \u201cRevolta do Vint\u00e9m\u201d relaciona-se com a atua\u00e7\u00e3o dos abolicionistas do Rio de Janeiro, privilegiando, a partir daquele acontecimento, um p\u00fablico mais engajado, atrav\u00e9s de passeatas, palestras, confer\u00eancias e com\u00edcios, al\u00e9m de uma imprensa mais atuante.\n\nO abolicionismo ganhou as ruas, tornando-se um reflexo tamb\u00e9m da insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o da cidade.\n\n<strong>Revolta do Vint\u00e9m &#8211; Movimento<\/strong>\n\nOcorrida entre os meses de dezembro de 1879 e janeiro de 1880 na cidade do Rio de Janeiro, a\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u00a0constituiu-se num movimento de contesta\u00e7\u00e3o popular que reivindicava o fim da cobran\u00e7a do imposto no valor de 20 r\u00e9is, o equivalente a 1 vint\u00e9m, moeda corrente no final do s\u00e9culo XIX no Brasil e que inspirou o nome da revolta, para o tr\u00e2nsito de passageiros pelas vias f\u00e9rreas da cidade.\n\nMarcando a passagem do ano, a revolta foi liderada pelo jornalista e republicano Lopes Trov\u00e3o e \u00e9 um demonstrativo das possibilidades de contesta\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es reais nas \u00faltimas d\u00e9cadas da monarquia no Brasil.\n\nEssas reivindica\u00e7\u00f5es giram em torno das reformas empreendidas pelo Estado que interferiam na vida cotidiana dos indiv\u00edduos.\n\nOcorrida num contexto posterior \u00e0 Guerra do Paraguai (1870-1875) e tamb\u00e9m marcado pelo maior desenvolvimento de uma identidade nacional, a\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u00a0ainda \u00e9 muito pouco estudada pela historiografia que trata dos movimentos populares e urbanos no Brasil, por isso n\u00e3o contamos com um grande n\u00famero de obras publicadas a seu respeito, com exce\u00e7\u00e3o de alguns artigos e verbetes publicados em dicion\u00e1rios hist\u00f3ricos.\n\nMesmo pouco analisado atualmente ocorre que o imposto provocou os \u00e2nimos e levou os indiv\u00edduos \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica a fim de apresentar ao imperador suas insatisfa\u00e7\u00f5es, incluindo em suas discuss\u00f5es quest\u00f5es em torno dos direitos e da cidadania no Brasil.\n\nPropomos como reflex\u00e3o pensar como foi poss\u00edvel, num contexto mon\u00e1rquico, que a popula\u00e7\u00e3o iniciasse uma manifesta\u00e7\u00e3o intensa e violenta como foi a\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>, de modo a pressionar o Estado e os donos das companhias de bondes a ponto de em poucos meses a cobran\u00e7a do imposto ser extinta.\n\nPara al\u00e9m disto, propomos analisar que quest\u00f5es eram discutidas pelos manifestantes neste momento e se nestas discuss\u00f5es encontravam-se presentes as no\u00e7\u00f5es de direitos e cidadania e, assim, como, ent\u00e3o, eles eram percebidos.\n\n<strong>Deste modo, como se deu a Revolta do Vint\u00e9m e que quest\u00f5es pol\u00edticas estavam presentes em suas discuss\u00f5es?<\/strong>\n\n<strong>Revolta do Vint\u00e9m &#8211; Cronologia<\/strong>\n<blockquote><strong>31 de outubro de 1879:\u00a0<\/strong>Aprova\u00e7\u00e3o pelo Parlamento da lei que institu\u00eda a cobran\u00e7a de imposto no valor de 25 r\u00e9is, o equivalente a 1 vint\u00e9m, sobre o tr\u00e2nsito de passageiros de vias f\u00e9rreas na cidade do Rio de Janeiro. A lei aumentaria em 20% o valor das tarifas pagas pelos passageiros dos bondes.<strong>\n15 de novembro de 1879:\u00a0<\/strong>Lopes Trov\u00e3o, republicano e l\u00edder da revolta que se instalaria, aconselha o povo a n\u00e3o se submeter \u00e0 cobran\u00e7a do imposto.<strong>\n13 de dezembro de 1879:\u00a0<\/strong>\u00c9 expedido o regulamento para a arrecada\u00e7\u00e3o da taxa, os \u00e2nimos j\u00e1 se encontravam exaltados.<strong>\n28 de dezembro de 1879:\u00a0<\/strong>A not\u00edcia da cobran\u00e7a do imposto se espalha e Lopes Trov\u00e3o convoca a popula\u00e7\u00e3o a se concentrar no campo de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o a fim de manifestar-se contra o mesmo. A manifesta\u00e7\u00e3o re\u00fane cerca de cinco mil pessoas por volta das 5 horas da tarde.<strong>\n1 de janeiro de 1880:\u00a0<\/strong>Lopes Trov\u00e3o convoca novo com\u00edcio no Largo do Pa\u00e7o e a multid\u00e3o mais uma vez comparece em manifesto. A pol\u00edcia reage a tiros iniciando um conflito sangrento que resulta em 3 mortos e 28 feridos.<strong>\n4 de janeiro de 1880:\u00a0<\/strong>A partir deste dia a tranquilidade da cidade do Rio de Janeiro passa a ser mantida \u00e0s custas do acionamento do batalh\u00e3o naval, dos imperiais marinheiros e do ex\u00e9rcito. As manifesta\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o foram contidas e o imposto continuou a existir, mas muitas discuss\u00f5es em torno de sua arbitrariedade foram mantidas.<strong>\n20 de mar\u00e7o de 1880:\u00a0<\/strong>Ainda sob os efeitos da revolta, o ministro Cansan\u00e7\u00e3o de Sinimb\u00fa \u00e9 destitu\u00eddo do cargo e substitu\u00eddo por Jos\u00e9 Antonio Seabra.<strong>\nAbril de 1880:\u00a0<\/strong>Em consequ\u00eancia da grande demanda social, as companhias de bondes pedem a revoga\u00e7\u00e3o do imposto.<strong>\nSetembro de 1880:\u00a0<\/strong>A cobran\u00e7a do imposto do vint\u00e9m \u00e9 suspensa.<\/blockquote>\n<strong>A Movimenta\u00e7\u00e3o nas Ruas<\/strong>\n\nOs jornais da \u00e9poca descrevem uma intensa movimenta\u00e7\u00e3o nas ruas do Rio de Janeiro durante a<strong>\u00a0Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>, movimenta\u00e7\u00f5es estas que como veremos mais adiante geraram grande preocupa\u00e7\u00e3o para os governantes e a pol\u00edcia que foi acionada em vista de sua conten\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Tendo em m\u00e3os os seguintes trechos um de um destes jornais e o outro de autoria de Mello Barreto Filho e Hermeto Lima que descrevem alguns momentos da revolta reflita sobre os diferentes posicionamentos de cada um deles em torno da revolta e, em seguida, produza um breve artigo para um jornal no qual estejam contidos os principais acontecimentos da revolta e as reivindica\u00e7\u00f5es dos manifestantes:<\/strong>\n<blockquote>Ontem pelas 5 horas da tarde, reuniram-se em frente ao palacete Mau\u00e1, no campo de S. Christov\u00e3o, cerca de quatro ou cinco mil pessoas. De uma das janelas do palacete, o Sr. Dr. Lopes Trov\u00e3o dirigiu a palavra ao povo, esclarecendo-o de que era-lhe licito levar \u00e0 S.M. o Imperador uma peti\u00e7\u00e3o, pedindo que fosse revogado o regulamento do imposto do vint\u00e9m.(\u2026) Rio de Janeiro, Gazeta de Not\u00edcias, 29\/12\/1879. Refer\u00eancia ao com\u00edcio realizado no dia anterior por Lopes Trov\u00e3o no Pal\u00e1cio de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. [fonte prim\u00e1ria]\n\nAs 5 horas da tarde os \u00e2nimos j\u00e1 estavam exacerbados, na rua Uruguaiana, onde cada vez mais aumentava a onda popular. A cada bonde que vinha, os mais exaltados armavam lutas com os cocheiros e condutores, at\u00e9 que resolveram arrancar os trilhos existentes nessa rua. Foi crescendo o tumulto. No dia seguinte, o povo virava os bondes que trafegavam pela cidade, sendo j\u00e1 impotente o n\u00famero de soldados da Pol\u00edcia para conter a ira popular.FILHO, Melo Barreto e LIMA, Hermeto. Hist\u00f3ria da Pol\u00edcia do Rio de Janeiro- aspectos da cidade e da vida carioca (1870-1889). RJ: A Noite, 1942. p. 105 [fonte secund\u00e1ria]<\/blockquote>\n<strong>Direitos<\/strong>\n\nPensando os direitos divididos em tr\u00eas formas fundamentais, sendo elas os direitos pol\u00edticos, civis e sociais, \u00e9 preciso dizer que h\u00e1 diferentes vers\u00f5es em torno do desenvolvimento destes no Brasil. Alguns historiadores, como Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, acreditam que no Brasil do s\u00e9culo XIX os direitos civis estariam fora da cena social e pol\u00edtica, j\u00e1 que \u00e9 incompat\u00edvel com a limita\u00e7\u00e3o das liberdades individuais oriunda da escravid\u00e3o.\n\nOutros historiadores, como Keila Grinberg, ao contr\u00e1rio, defendem que j\u00e1 havia neste momento a exist\u00eancia de um debate acirrado em torno dos direitos civis no Brasil. Mesmo por que, se os escravos tinham seu espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o limitado pelo senhor, n\u00e3o eram raros os casos daqueles que conseguiam escapar do controle senhorial e tecer suas pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es na esfera urbana.\n\nPensando a possibilidade de exist\u00eancia de uma reivindica\u00e7\u00e3o destes direitos no per\u00edodo aqui analisado e as diverg\u00eancias de opini\u00e3o em torno de seu desenvolvimento, \u00e9 preciso enfatizar o quanto a<strong>\u00a0Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u00a0trouxe de discuss\u00f5es de alguns destes direitos e o que seriam exatamente estes direitos na sociedade brasileira do final do s\u00e9culo XIX se \u00e9 que todos eles j\u00e1 eram ent\u00e3o pensados.\n\n<strong>Considerando-se a import\u00e2ncia de se pensar as discuss\u00f5es acerca dos direitos individuais numa sociedade mon\u00e1rquica como a que aqui abordamos, leia o trecho a seguir do jornal Gazeta de Not\u00edcias e discuta as quest\u00f5es que o seguem:<\/strong>\n<blockquote>O Sr. Dr. Lopes Trov\u00e3o (\u2026), dirigiu-se ao povo que tentava resistir e disse que o povo usava de um leg\u00edtimo direito pedindo ao primeiro magistrado do paiz, a revoga\u00e7\u00e3o de um regulamento(\u2026) Rio de Janeiro, Gazeta de Not\u00edcias, 29\/12\/1879. Com\u00edcio organizado por Lopes Trov\u00e3o no Pal\u00e1cio de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. [fonte prim\u00e1ria]<\/blockquote>\n<strong>Povo e Cidadania<\/strong>\n\nOs jornais da \u00e9poca que participaram ativamente da Revolta do Vint\u00e9m incentivavam, no in\u00edcio da mesma, o povo \u00e0 luta, convidando-o a agir contra a a\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria do governo.\n\nA Gazeta de Not\u00edcias \u00e9 bastante representativa neste sentido. Em reportagem publicada a 29 de dezembro de 1879 este jornal descreve a manifesta\u00e7\u00e3o realizada pela popula\u00e7\u00e3o sob a lideran\u00e7a de Lopes Trov\u00e3o no pal\u00e1cio de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Aqui ele enfatiza ao longo de todo o texto o papel do povo no protesto.\n\nO povo aplaudia Lopes Trov\u00e3o, o povo o seguiu em perfeita ordem, o povo resistiu usando o direito leg\u00edtimo de se manifestar, o povo gritava e o povo ficou impressionado por ter sido proibido pela pol\u00edcia de adentrar o Pa\u00e7o Imperial. Esta exalta\u00e7\u00e3o ao povo esteve presente, ao mesmo tempo, no artigo sobre a Revolta do Vint\u00e9m escrito por Moreira D Azevedo para a Revista do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro em 1895.\n\n<strong>Neste sentido, leia atentamente os trechos abaixo:<\/strong>\n<blockquote>Depois de expor o fim do meeting, o orador [Lopes Trov\u00e3o] na sua perora\u00e7\u00e3o convidou o povo a que ao mesmo momento se dirigisse ao pa\u00e7o da Boa Vista. O povo respondeu por uma salva estrepitosa de palmas, e por um viva unisono ao Dr. Lopes Trov\u00e3o. O orador leu ent\u00e3o a peti\u00e7\u00e3o, que foi estrondosamente applaudida. Deixando a tribuna o orador, o povo seguiu ap\u00f3s ele na mais perfeita ordem dando vivas ao orador, \u00e1 imprensa livre, \u00e1 soberania nacional. Rio de Janeiro, Gazeta de Not\u00edcias, 29\/12\/1879. Refer\u00eancia ao com\u00edcio realizado no dia anterior por Lopes Trov\u00e3o no Pal\u00e1cio de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. [fonte prim\u00e1ria]<\/blockquote>\n<blockquote>O povo resisti-o tenazmente \u00e1 for\u00e7a publica, que teve de fazer fogo, resultando, da luta a morte de quatro cidad\u00e3os e ferimento de muitos DAZEVEDO, Moreira. Imposto do Vint\u00e9m. In: Revista do IHGB, 58. Ano 1895. [fonte secund\u00e1ria]<\/blockquote>\n<h4>Na\u00e7\u00e3o e Soberania Nacional<\/h4>\n<blockquote>Viva o povo brasileiro, viva a soberania nacional! Rio de Janeiro, Gazeta de Not\u00edcias, 29\/12\/1879. [fonte prim\u00e1ria] Frase de incentivo \u00e0 revolta ainda em seu in\u00edcio.\n\nDurante seu trajeto a p\u00e9 a multid\u00e3o levantava estrondosos vivas \u00e0 soberania do povo, \u00e0 dignidade nacional, aos estrangeiros residentes no Brasil, \u00e0 na\u00e7\u00e3o portuguesa, ao ex\u00e9rcito e a armada nacional, ao Dr. Lopes Trov\u00e3o (\u2026). Rio de Janeiro, Gazeta de Not\u00edcias, 29\/12\/1879. [fonte prim\u00e1ria]<\/blockquote>\nPensar a Revolta do Vint\u00e9m \u00e9 tamb\u00e9m inseri-la neste contexto de discuss\u00f5es em torno da soberania nacional e da imagem de na\u00e7\u00e3o que se buscava construir sobre o Brasil.\n\nNum momento posterior \u00e0 Guerra do Paraguai, na qual o historiador Jos\u00e9 Murilo de Carvalho identifica um papel fundamental, j\u00e1 que a identidade nacional brasileira teria sido constru\u00edda em consequ\u00eancia da guerra, pois produziu-se uma certa unidade entre os brasileiros e uma maneira da popula\u00e7\u00e3o se identificar com o que seria a na\u00e7\u00e3o brasileira, a Revolta do Vint\u00e9m n\u00e3o deixou de trazer em seu bojo esta discuss\u00e3o.\n\nNeste sentido, \u00e9 preciso refletir mais sobre que elementos foram relevantes na forma\u00e7\u00e3o destas exalta\u00e7\u00f5es \u00e0 soberania nacional que vimos acima por meio de trechos da imprensa da \u00e9poca.\n\n<strong>O Papel e o Posicionamento da Imprensa<\/strong>\n\nA participa\u00e7\u00e3o dos jornais na\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u00a0fora not\u00e1vel. Os jornalistas tiveram papel essencial em sua conflagra\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o e foram eles, liderados por Lopes Trov\u00e3o, que organizaram os com\u00edcios, passeatas e manifesta\u00e7\u00f5es pelas ruas do Rio de Janeiro. As passeatas se davam no caminho entre as reda\u00e7\u00f5es dos jornais da cidade, sendo realizados discursos em cada parada discursos proferidos por jornalistas.\n\nEsses jornalistas n\u00e3o protestavam apenas contra o imposto do vint\u00e9m, mas contra o governo imperial como um todo, j\u00e1 que muitos deles, principalmente Lopes Trov\u00e3o, eram republicanos.\n\nRefletindo sobre este acentuado papel da imprensa na revolta, discuta as quest\u00f5es propostas a partir dos seguintes trechos de diferentes destes jornais.\n\n<b>Um do Jornal do Comercio\u00a0e outro da Revista Illustrada:<\/b>\n<blockquote><strong>Concidad\u00e3os:\u00a0<\/strong>voltai aos vossos labores quotidianos; n\u00e3o mais seja esta cidade theatro de scenas tumultuarias. Mostrai-vos dignos filhos do Brasil, e dai ao mundo o grande exemplo de um povo que sabe zelar a sua liberdade sem sahir da ordem. Jornal do Comercio O Cruzeiro Gazeta de Not\u00edcias. Rio de Janeiro, Jornal do Commercio, 4\/1\/1880. [fonte prim\u00e1ria] Pedido direcionado aos manifestantes em nome da Tr\u00edplice Alian\u00e7a, formada pelos \u00f3rg\u00e3os de imprensa Jornal do Commercio, O Cruzeiro e Gazeta de Noticias, que pretendia acabar com a revolta.<\/blockquote>\n<blockquote>As partes officiaes publicadas ante-hontem pela folha do governo anunciam a ordem restabelecida e a popula\u00e7\u00e3o bem disposta a pagar o imposto do vint\u00e9m. Infelizmente s\u00e3o mais duas mentiras atiradas na circula\u00e7\u00e3o pelo Di\u00e1rio Official, tristemente condemnado a desdizer-se hoje do que ontem asseverou nas columnas destinadas \u00e1 palavra do governo e aos decretos da coroa. A verdade \u00e9 que o povo contin\u00faa a reagir contra o novo imposto e, irritado perante as viol\u00eancias praticadas pela pol\u00edcia liberal, sobressalta-o justamente o receio de novos attentados por parte de um governo que inaugurou a cobran\u00e7a \u00e1 m\u00e3o armada: Ou a bol\u00e7a ou a vida! Revista Illustrada, n\u00ba 189, 1880. [fonte prim\u00e1ria]<\/blockquote>\n<strong>Repress\u00e3o \u00e0 Revolta<\/strong>\n\nA repress\u00e3o \u00e0\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u00a0foi bastante rigorosa contando com a pol\u00edcia armada avan\u00e7ando sobre a popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas a pol\u00edcia agiu em prol de aplac\u00e1-la.\n\nO ex\u00e9rcito e o batalh\u00e3o naval tamb\u00e9m exerceram fun\u00e7\u00e3o de conten\u00e7\u00e3o dos \u00e2nimos durante as manifesta\u00e7\u00f5es. Os resultados foram assustadores, somando-se nos tr\u00eas primeiros dias da revolta 28 feridos e 3 mortos, de acordo com o que nos falam Mello Barreto Filho e Hermeto Lima em 1942. Outro fato representativo desta dura forma de repress\u00e3o foi a entrada violenta da pol\u00edcia na reda\u00e7\u00e3o do jornal A Gazeta da Noite, principal \u00f3rg\u00e3o de imprensa incentivador da revolta. Nesta a\u00e7\u00e3o v\u00e1rios jornalistas terminaram feridos ou mortos, pois a pol\u00edcia atirou contra todos eles.\n\nA pol\u00edcia aqui exerceu o papel de repressora da revolta em vista de restituir a almejada ordem social que ent\u00e3o se via abalada.\n\nOs embates entre a multid\u00e3o e a pol\u00edcia foram frequentes e esta n\u00e3o mediu esfor\u00e7os na conten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que queimava os bondes da cidade.\n\nO seguinte trecho demonstra a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia em repress\u00e3o \u00e0 revolta.\n\n<strong>Com base nele e em pesquisas complementares discuta as quest\u00f5es que o seguem:<\/strong>\n<blockquote>Reuniu-se o minist\u00e9rio e ouvido o chefe de Pol\u00edcia, foi resolvido que se mandasse o 1\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria para a rua Uruguaiana, onde o povo, j\u00e1 armado, tinha feito uma barricada. Entretanto, os tumultos n\u00e3o se limitavam a esse ponto da cidade. Em v\u00e1rios lugares, o povo queimava ou virava os bondes. E nos dias 2, 3 parte de 4 continuaram os conflitos, at\u00e9 que, na rua Uruguaiana, houve um combate s\u00e9rio do qual resultaram a morte de 3 pessoas e ferimentos em 28. J\u00e1 ent\u00e3o a cidade se achava policiada por pra\u00e7as do Batalh\u00e3o Naval, pelos imperiais marinheiros e por quase toda a f\u00f4r\u00e7a do Ex\u00e9rcito. FILHO, Melo Barreto e LIMA, Hermeto. Hist\u00f3ria da Pol\u00edcia do Rio de Janeiro- aspectos da cidade e da vida carioca (1870-1889). RJ: A Noite, 1942. p. 105 [fonte secund\u00e1ria]<\/blockquote>\n<strong>Revolta do Vint\u00e9m &#8211; Revolta do Bonde<\/strong>\n\nA\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>, ou revolta do bonde aconteceu no final de 1879, na cidade do Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil Imperial.\n\nQuase 5 mil manifestante se posicionaram em frente ao campo de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, para exigir a diminui\u00e7\u00e3o da taxa cobrada pelo transporte p\u00fablico.\n\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Revolta do Vint\u00e9m\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/rrevolt21.jpg\" alt=\"Revolta do Vint\u00e9m\" width=\"295\" height=\"275\" \/>\n<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\n\nOs revoltosos foram contidos pelas autoridades policiais e permaneceram a espera de uma resposta do jornalista republicano Lopes Trov\u00e3o, um dos principais lideres do protesto. O imperador prometeu negociar, a fim de resolver a disputa, mas Trov\u00e3o rejeitou o seu pedido e convocou a popula\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do jornal Gazeta da Noite, a reagir com viol\u00eancia contra a medida imperial.\n\nEm 1\u00ba de janeiro de 1880, data em que a nova taxa seria oficializada, a popula\u00e7\u00e3o incitada por Lopes Trov\u00e3o, se dirigiu at\u00e9 o Largo S\u00e3o Francisco, local de partida e chegada da maioria dos bondes da cidade.\n\nA presen\u00e7a das autoridades policiais s\u00f3 aumentou o clima de tens\u00e3o, e os revoltosos impacientes come\u00e7aram a gritar fora o vint\u00e9m, matar as mulas que carregavam os bontes e bater nos condutores.\n\nOs policiais precisaram da ajuda do Ex\u00e9rcito para acalmar os \u00e2nimos daquela confus\u00e3o, mas em vez disso a popula\u00e7\u00e3o ficou ainda mais nervosa e passou a lan\u00e7ar pedras contra a cavalaria oficial.\n\nOs oficiais abriram fogo contra a multid\u00e3o fazendo com que os manifestantes fossem dispersos a custa de muitos mortos e feridos. Em alguns dias o motim j\u00e1 havia cessado.\n\nA revolta pode ser considerada um sucesso, apesar dos mortos e feridos, pois as autoridades mantiveram os pre\u00e7os antigos das passagens do transporte.\n\n<strong>A REVOLTA DO VINT\u00c9M E A CRISE NA MONARQUIA<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-159863 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Revolt10-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" \/><strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong><\/p>\nO <strong>imposto do vint\u00e9m<\/strong>\u00a0foi institu\u00eddo pelo ministro da Fazenda como medida de conten\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio da coroa, anunciado em treze de dezembro de 1879 e marcado para vigorar em 1 o de janeiro de 1880.\n\nConsistia na cobran\u00e7a da taxa de um vint\u00e9m, ou vinte r\u00e9is, sobre o valor das passagens dos bondes que circulavam na cidade do Rio de Janeiro. Temendo a impopularidade da medida, a companhia Botanical Garden chegou a sugerir que o imposto fosse cobrado junto \u00e0s empresas de transporte, pela estimativa do movimento de passageiros, sendo posteriormente repassado para as passagens. Por\u00e9m, as outras companhias de bondes alegavam a impossibilidade de efetuar o pagamento por estimativa. A solu\u00e7\u00e3o do governo, corroborada pelo parlamento, foi cobrar o tributo diretamente dos usu\u00e1rios.\n\nDesde o an\u00fancio do novo imposto, mobiliza\u00e7\u00f5es de protesto foram encabe\u00e7adas por publicistas e pol\u00edticos, especialmente os republicanos, em geral membros dos setores m\u00e9dios urbanos nascentes da sociedade carioca, que tentavam capitalizar a favor de seus objetivos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos o descontentamento generalizado da popula\u00e7\u00e3o mais humilde da corte, assolada pela carestia, pelo desemprego, pelas prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e pela falta de moradia. Mesmo antes da data marcada para entrar em vigor o novo imposto, uma multid\u00e3o se reuniu para expressar em pra\u00e7a p\u00fablica seu descontentamento com a medida governamental alegando o baixo n\u00edvel de vida da maioria dos habitantes da capital do imp\u00e9rio.\n\nForam contidos e a mobiliza\u00e7\u00e3o dispersada pela for\u00e7a policial quando tentavam entregar ao imperador um manifesto por escrito, de rep\u00fadio \u00e0 taxa\u00e7\u00e3o.\n\nPoucos dias depois, com o in\u00edcio da cobran\u00e7a do vint\u00e9m, eclodiriam focos de protestos violentos em v\u00e1rios pontos da cidade, principalmente nas ruas do centro, que duraram pelo menos quatro dias, marcados pela f\u00faria da popula\u00e7\u00e3o que depredava os bondes e armava barricadas para enfrentar a pol\u00edcia.\n\nAs manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas coletivas de protesto popular conhecidas como Revolta do Vint\u00e9m estenderam-se entre 28 de dezembro de 1879 e 4 de janeiro de 1880.\n\nO sentido mais geral atribu\u00eddo pela historiografia ao motim do Vint\u00e9m remete \u00e0s consequ\u00eancias do epis\u00f3dio sobre a din\u00e2mica das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na capital do imp\u00e9rio. Sandra L. Graham destaca que os moradores da corte envolvidos na revolta, mesmo estando em certa medida afastados das inst\u00e2ncias partid\u00e1rias, teriam se convertido numa fonte de poder at\u00e9 ent\u00e3o nunca utilizada, capaz de transformar a viol\u00eancia da rua em parte integrante da equa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e, assim, arrastar a pol\u00edtica das salas do parlamento para as pra\u00e7as da cidade, promovendo o colapso da cultura pol\u00edtica dominante vigente at\u00e9 1880. (GRAHAM: 220-221). De outro modo, para Carlos E. Libano Soares a Revolta do Vint\u00e9m j\u00e1 ocorrera inserida em um novo contexto, posterior a 1870, no qual cada vez mais a massa popular urbana adquiria import\u00e2ncia decisiva nos conflitos partid\u00e1rios, especialmente na cidade do Rio de Janeiro e ap\u00f3s a guerra contra o Paraguai, com destaque para a atua\u00e7\u00e3o dos capoeiras. (SOARES: 241-242).\n\nContudo, para al\u00e9m das marcas profundas que deixou na vida pol\u00edtica da cidade do Rio de Janeiro, podemos observar a Revolta do Vint\u00e9m em sua din\u00e2mica cultural e social, mais que pol\u00edtica, com o intuito de ampliar o entendimento acerca da rela\u00e7\u00e3o entre a coroa e as classes subalternas no per\u00edodo final da monarquia escravista. Para tanto, ser\u00e1 necess\u00e1rio retornarmos um pouco mais detidamente aos acontecimentos.\n\nLogo nos primeiros dias do m\u00eas de dezembro de 1879, ainda na fase de discuss\u00e3o sobre o novo imposto pela coroa e no parlamento, surgiram na imprensa os primeiros argumentos contra a cobran\u00e7a do vint\u00e9m, alegando que se tratava de um tributo que incidiria de modo indiscriminado sobre cidad\u00e3os e s\u00faditos com rendimentos desiguais. Alguns publicistas argumentavam, por exemplo, que os propriet\u00e1rios de im\u00f3veis pagavam impostos na propor\u00e7\u00e3o de seus rendimentos de loca\u00e7\u00e3o, os funcion\u00e1rios p\u00fablicos de acordo com seus vencimentos, os industriais e comerciantes conforme seus lucros, e assim sucessivamente. De tal modo, a taxa\u00e7\u00e3o do vint\u00e9m viria subverter este princ\u00edpio, na medida em que n\u00e3o fazia distin\u00e7\u00e3o em cobrar a mesma quantia, hipoteticamente, de um rico comerciante que habitava uma ch\u00e1cara em Botafogo, ou de um oper\u00e1rio humilde residente num casebre na Cidade Nova. 1 Assim, ressaltavam que os bondes serviam a dois tipos de passageiros cujos recursos, condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o e interesses no transporte coletivo se revelavam diametralmente opostos.\n\nPor um lado a popula\u00e7\u00e3o mais abastada procurava os bairros afastados por prazer ou luxo, optando por ocupar os recantos long\u00ednquos mais apraz\u00edveis da cidade. E dependia, em parte, dos bondes como meio de transporte. Por outro, a gente pobre da corte procurava estabelecimento nos bairros mais distantes, em geral mais insalubres, porque os pre\u00e7os das casas permitiam uma certa comodidade no or\u00e7amento familiar. Nestes \u00faltimos, os bondes eram indispens\u00e1veis para o deslocamento di\u00e1rio dos trabalhadores para o centro da cidade. Diante dessa duplicidade, para certos setores da opini\u00e3o p\u00fablica, cada vez mais parecia absurda a equipara\u00e7\u00e3o impl\u00edcita na cobran\u00e7a do mesmo valor de um vint\u00e9m para pobres e ricos.\n\nJ\u00e1 \u00e0s v\u00e9speras do Natal de 1879 o imposto do vint\u00e9m era considerado por toda imprensa uma medida extremamente impopular.\n\nQuando fosse implementado haveria aumento no valor das passagens e a necessidade de se apresentar um cupom para os agentes do fisco que passariam a atuar nos bondes. Por\u00e9m, mesmo depois de aprovado o imposto pelo parlamento, pairavam muitas d\u00favidas sobre os procedimentos relativos \u00e0 cobran\u00e7a e \u00e0s puni\u00e7\u00f5es que afetariam aqueles que se recusassem a pagar o vint\u00e9m.\n\nA imprensa mais conservadora falava na convoca\u00e7\u00e3o de mobiliza\u00e7\u00f5es de protesto, apelava para a manuten\u00e7\u00e3o da lei e da ordem, lembrava que o governo havia tolerado sempre a manifesta\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es respeitosas e, finalmente, pedia para que os descontentes, ao inv\u00e9s de protestar, direcionassem sua energia para a elei\u00e7\u00e3o de bons pol\u00edticos que se ocupassem em defender os verdadeiros interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o.\n\nCom a intensa circula\u00e7\u00e3o de boatos a respeito de uma grande manifesta\u00e7\u00e3o popular marcada para o dia de entrada em vigor do novo imposto, em primeiro de janeiro de 1880, alguns jornais come\u00e7aram a pedir calma e reflex\u00e3o para aqueles decididos em contestar as medidas do governo. Alegavam tristeza e constrangimento diante o fato da popula\u00e7\u00e3o menos ilustrada da capital do imp\u00e9rio pensar em se contrapor aos atos legais dos poderes constitu\u00eddo.\n\nLogo ap\u00f3s o Natal, uma nota oficial proibia as reuni\u00f5es p\u00fablicas e a manifesta\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o na corte, al\u00e9m de colocar em alerta os contingentes da pol\u00edcia, as tropas de linha e os marinheiros.\n\nNeste momento tamb\u00e9m a imprensa situacionista come\u00e7ava a recha\u00e7ar a intransig\u00eancia do poder p\u00fablico, alertando para a imin\u00eancia de dist\u00farbios graves gerados pela decis\u00e3o do governo em manter o imposto, afastando-se, assim, do ju\u00edzo da opini\u00e3o p\u00fablica e direcionando contra si os rancores populares.\n\nEm 28 de dezembro ocorreu a primeira manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica coletiva contra o imposto do vint\u00e9m. N\u00e3o houve viol\u00eancia. \u00c0s cinco horas da tarde, cerca de cinco mil pessoas se reuniram no Campo de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o para ouvir o Doutor Lopes Trov\u00e3o. Da janela de um sobrado o principal porta-voz da indigna\u00e7\u00e3o popular fez um breve discurso para a multid\u00e3o, explicou ao povo que seria l\u00edcito levar uma peti\u00e7\u00e3o ao imperador solicitando ao primeiro magistrado da na\u00e7\u00e3o a revoga\u00e7\u00e3o do imposto. Ao t\u00e9rmino do discurso, por volta das seis horas da tarde, o orador convidou a popula\u00e7\u00e3o aglomerada a se dirigir imediatamente para o Pa\u00e7o da Boa Vista, onde se encontrava Sua Majestade.\n\nOs manifestantes responderam com vivas e palmas interrompidas apenas pela leitura da peti\u00e7\u00e3o que foi, tamb\u00e9m, calorosamente aplaudida.\n\nA multid\u00e3o come\u00e7ou a se deslocar pela rua S\u00e3o Luiz Gonzaga quando Lopes Trov\u00e3o foi intimado a interromper o percurso pelo 2 o delegado de pol\u00edcia da corte, \u00e0 frente de uma linha de cavalaria e mais de cem agentes armados de longos e grossos cassetetes conhecidos como bengalas de Petr\u00f3polis.\n\nLopes Trov\u00e3o ensaiou um breve discurso e respondeu conclamando os manifestantes a n\u00e3o ceder \u00e0s intimida\u00e7\u00f5es, justificando se tratar de uma mobiliza\u00e7\u00e3o pac\u00edfica.\n\nA multid\u00e3o continuou a caminhada ignorando as provoca\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia secreta que ensaiava passos de capoeiragem e amea\u00e7ava com armas os integrantes do protesto.\n\nDepois de atravessar o Campo de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, entrar pela rua da Feira, rua de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o e rua do Imperador, a multid\u00e3o, que caminhava para a Cancela em dire\u00e7\u00e3o ao Pal\u00e1cio da Boa Vista, encontrou o port\u00e3o da coroa guardado por um pelot\u00e3o de cavalaria que a impediu de levar a peti\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3os do monarca. Momentos depois, quando as pessoas come\u00e7avam a dispersar, chegava um mensageiro da coroa dizendo que D. Pedro II aceitaria receber t\u00e3o-somente uma comiss\u00e3o formada pelos representantes do povo. Por\u00e9m era tarde.\n\nOs s\u00faditos e cidad\u00e3os em retirada resolveram ignorar a aten\u00e7\u00e3o tardia do imperador e a comiss\u00e3o formada por Lopes Trov\u00e3o, Ferro Cardoso, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e Joaquim Piero da Costa, se recusou a voltar atr\u00e1s.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Revolta do Vint\u00e9m\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/rrevolt1.jpg\" alt=\"Revolta do Vint\u00e9m\" width=\"216\" height=\"303\" \/>\n<strong>Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, um dos l\u00edderes da Revolta do Vint\u00e9m.<\/strong><\/p>\nDemonstrando certo desconforto mas fazendo a apologia da ordem estabelecida, da conduta da pol\u00edcia e da atitude do monarca, a grande imprensa insistia em afirmar que o \u00fanico incidente grave ocorrido em 28 de dezembro teria sido a recusa da comiss\u00e3o de representantes do povo em aceitar o chamado, ainda que vacilante, de D. Pedro II. Contudo, a calma aparente seria abalada poucos dias depois com a chegada do ano novo e do novo imposto. O movimento de protesto passaria a incluir outros segmentos da popula\u00e7\u00e3o carioca menos ordeiros, e a civilidade no epis\u00f3dio da tentativa de entrega da peti\u00e7\u00e3o ao imperador ficaria definitivamente para tr\u00e1s.\n\nNo dia 1 o de janeiro de 1880 algumas empresas de bondes instru\u00edram os condutores para que n\u00e3o insistissem em cobrar o vint\u00e9m dos passageiros que se recusassem a pagar, evitando assim maiores transtornos.\n\nA manh\u00e3 correu sem que houvesse problemas com o recolhimento, ou n\u00e3o, do vint\u00e9m. Por volta do meio-dia, no chafariz do Largo do Pa\u00e7o, Lopes Trov\u00e3o conclamava a popula\u00e7\u00e3o a resistir pacificamente \u00e0 cobran\u00e7a do imposto. Ao t\u00e9rmino de um breve discurso, as pessoas que se aglomeravam seguiram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 rua Direita e do Ouvidor, entre vaias e manifesta\u00e7\u00f5es de descontentamento. Os grupos populares se formavam rapidamente e se dispersavam pelo centro da cidade, pela rua Uruguaiana, da Carioca, Visconde do Rio Branco e Largo de S\u00e3o Francisco, atingindo finalmente a esta\u00e7\u00e3o de Vila Isabel ao final da rua do Aterro e as linhas dos Carris Urbanos e de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o.\n\nCome\u00e7ava assim a depreda\u00e7\u00e3o dos bondes e o conflito direto com as for\u00e7as policiais que percorriam a cidade.\n\nA multid\u00e3o agia conforme uma l\u00f3gica quase id\u00eantica, que se repetia em v\u00e1rios logradouros. Em sinal de protesto contra a cobran\u00e7a do vint\u00e9m os manifestantes tomavam os bondes, espancavam os condutores, esfaqueavam os animais usados como for\u00e7a de tra\u00e7\u00e3o, despeda\u00e7avam os carros, retiravam os trilhos e, com eles, arrancavam as cal\u00e7adas. Em seguida, utilizando os destro\u00e7os constru\u00edam barricadas e passavam a responder \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o da pol\u00edciab com insultos, pedradas, garrafadas e at\u00e9 com tiros de rev\u00f3lver.\n\nOs bondes atravessados no ch\u00e3o tinham praticamente a mesma largura das ruas do centro da cidade e, cheios de paralelep\u00edpedos, formavam barricadas que fecharam, por exemplo, o quarteir\u00e3o da rua Uruguaiana, entre a do Ouvidor e a Sete de Setembro. No decorrer do dia, os soldados da pol\u00edcia entraram em conflito com v\u00e1rios focos de protesto, quase sempre atirando contra a multid\u00e3o. Somente depois das 21 horas \u00e9 que as ruas puderam ser percorridas sem que se assistisse a enfrentamentos. A pol\u00edcia recolheu tr\u00eas cad\u00e1veres de manifestantes, tombados \u00e0 rua Uruguaiana, e os identificou como sendo de um polaco, um franc\u00eas e um pernambucano. Entre os feridos, a maioria por arma de fogo, havia brasileiros e imigrantes, sobretudo portugueses.\n\nNa manh\u00e3 do dia seguinte tendo em vista a viol\u00eancia descontrolada do protesto no dia anterior e, principalmente, a morte de manifestantes, tanto os pol\u00edticos mais conservadores e intransigentes na defesa da execu\u00e7\u00e3o da lei como os publicistas mais exaltados contra o imposto do vint\u00e9m come\u00e7aram a recuar em suas posi\u00e7\u00f5es para chegar a um acordo com o governo e, se poss\u00edvel, mediado pela interven\u00e7\u00e3o do imperador. Nos gabinetes dos parlamentares e pol\u00edticos, nas casas dos publicistas, nas sedes dos jornais e nas agremia\u00e7\u00f5es civis se iniciava uma profus\u00e3o de reda\u00e7\u00e3o de cartas abertas, boletins e solicita\u00e7\u00f5es tentando conter as manifesta\u00e7\u00f5es violentas e, ao mesmo tempo, conseguir a suspens\u00e3o da cobran\u00e7a do vint\u00e9m. No entanto, pelas ruas o protesto popular continuava, j\u00e1 sem o apoio de seus principais idealizadores.\n\nRepresentado pelo conselheiro Paranagu\u00e1 o governo insistia que o imposto do vint\u00e9m era uma lei e que, portanto, deveria ser cumprida at\u00e9 que fosse revogada pelo poder legislativo. Sendo assim, n\u00e3o cederia diante das manifesta\u00e7\u00f5es sediciosas, procurando manter a ordem e o poder \u00e0 for\u00e7a da lei.\n\n<strong>Quanto ao protesto popular, o conselheiro afirmava:\u00a0<\/strong>[\u2026] estava o governo pronto a receber reclama\u00e7\u00f5es, comiss\u00f5es e assim tamb\u00e9m anunciava que Sua Majestade estava nas mesmas disposi\u00e7\u00f5es e abriria seu pal\u00e1cio a quem fosse procurar; mas que o governo n\u00e3o permitiria entretanto grandes massas de povo ante o pal\u00e1cio de Sua Majestade, pois que poderia isso parecer imposi\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Acerca dos manifestantes mortos no dia primeiro, cujos corpos permaneciam recolhidos \u00e0 pol\u00edcia, deliberava que:\u00a0<\/strong>[\u2026] pelo que diz respeito ao enterramento das v\u00edtimas do dia, consentiria que o fizessem e que as levassem \u00e0 sepulturamas observava entretanto que n\u00e3o se fizessem manifesta\u00e7\u00f5es iguais a que em caso id\u00eantico se fizera em Fran\u00e7a e fora o princ\u00edpio da revolu\u00e7\u00e3o.,\n\nMais tarde surgiram den\u00fancias de deputados e senadores mencionando que, na tentativa de ocultar da opini\u00e3o p\u00fablica as mortes ocorridas na rua Uruguaiana, a pol\u00edcia tentou sepultar clandestinamente os cad\u00e1veres recolhidos \u00e0quela noite.\n\nNa madrugada de dois de janeiro foram arrancados os trilhos da rua Princesa dos Cajueiros e, mais tarde, cinco trilhos foram retirados da rua Uruguaiana.\n\nAs chaves dos bondes foram roubadas por manifestantes em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. De um sobrado localizado a rua Escobar, moradores atiraram pedras e fundos de garrafas nos passageiros dos bondes que por ali passavam.\n\nOcorreram enfrentamentos com a pol\u00edcia na linha Sacco do Alferes, em Andara\u00ed e na rua Mariz e Barros. Durante os tumultos tr\u00eas indiv\u00edduos aproveitaram para assaltar um armaz\u00e9m de madeira no porto.\n\nPela noite um grupo de manifestantes arrancou um bonde da linha Catumbi e o colocou sobre os trilhos dos trens, na esquina da rua Conde DEu com Visconde de Sapuca\u00ed.\n\nAo decorrer o dia v\u00e1rias pessoas foram presas no largo de S\u00e3o Francisco, nas ruas Uruguaiana, do Ouvidor e da Carioca. As aglomera\u00e7\u00f5es nesses pontos foram dispersadas pelo 1 o Batalh\u00e3o de Infantaria, 1 o Batalh\u00e3o de Cavalaria e pela Cavalaria da Pol\u00edcia.\n\nSegundo o relat\u00f3rio da pol\u00edcia da corte, no dia dois de janeiro \u00e0 noite um indiv\u00edduo \u00e9brio e outros armados de cassetetes, refugiados dentro de um botequim, iniciaram um ataque \u00e0 for\u00e7a p\u00fablica com tiros de arma de fogo e garrafadas. Na rua do Pr\u00edncipe foi preso Jo\u00e3o Batista de Oliveira que, sozinho e munido de uma alavanca, arrancava os trilhos dos bondes da companhia S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o.\n\n<strong>E mais:\u00a0<\/strong>Na praia de Santa Luzia, pelas 10 da noite, cerca de 300 indiv\u00edduos portugueses e italianos, moradores das estalagens n os 26, 36 e 38, achavamse ali aglomerados rolando pedras sobre os trilhos, lan\u00e7ando garrafas contra os bondes, injuriando os respeitosos passageiros e condutores, e projetando arrancar os trilhos se n\u00e3o cessasse o tr\u00e1fego.\n\nNa rua da Alf\u00e2ndega, Jos\u00e9 Duarte Chausea, acompanhado de outros, foi preso depois de assaltar e atear fogo com querosene na casa de neg\u00f3cio de armas da Vi\u00fava Laport, localizada na rua dos Ourives. Imediatamente ap\u00f3s o incidente todas as casas de armamentos da corte fecharam as portas e passaram a ser protegidas pelos fuzileiros navais.\n\nNo dia seguinte o n\u00famero de incidentes diminuiu, limitando-se a uma insignificante desordem na rua do Ouvidor. Pela manh\u00e3, o senador Silveira Motta reuniu em sua casa, \u00e0 rua do Carmo, outros senadores e deputados de oposi\u00e7\u00e3o para redigir um manifesto contra o vint\u00e9m, contando com a participa\u00e7\u00e3o de Lopes Trov\u00e3o, Ferro Cardoso e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio.\n\n\u00c0s duas da tarde a pol\u00edcia teve que dispersar os curiosos que se aglomeravam em frente da casa. Na reuni\u00e3o deliberouse proclamar ao povo aconselhando paz e ordem. Em 4 de janeiro, \u00e0s cinco horas da tarde, cerca de cem pessoas reunidas no Largo de S\u00e3o Francisco foram abordadas pela for\u00e7a policial e responderam com pedradas, pauladas e garrafadas. Eram, em sua maioria, caixeiros das casas comerciais do centro da cidade que se portavam inconvenientemente, fazendo alarido, segundo as autoridades. \u00c0s seis horas, um novo grupo armado de cassetetes tentava impedir, sem sucesso, a circula\u00e7\u00e3o dos bondes na rua Sete de Setembro. 13 Terminava assim a Revolta do Vint\u00e9m.\n\n<strong>Mediante as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre as classes populares da corte e o Estado mon\u00e1rquico quando refletimos acerca do significado mais amplo do protesto popular contra o imposto do vint\u00e9m, podemos afirmar, sinteticamente, que:<\/strong>\n<blockquote><strong>1.\u00a0<\/strong>Os cidad\u00e3os inativos pelo crit\u00e9rio constitucional revelavam-se, ent\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 profundamente atentos a aspectos do exerc\u00edcio do poder que lhes afetavam a vida cotidiana como, tamb\u00e9m, dispostos a ir at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias para defender o que consideravam seus direitos;<strong>\n2.<\/strong>\u00a0A oposi\u00e7\u00e3o [revolta] perpassou a sociedade de alto a baixo. Sua natureza, no entanto, mudou de acordo com as v\u00e1rias camadas que nela se envolveram. No que se refere ao povo, que nos interessa de modo especial, a oposi\u00e7\u00e3o adquiriu, aos poucos, car\u00e1ter moralista;<strong>\n3.<\/strong>\u00a0A tend\u00eancia geral [na grande imprensa conservadora], refletindo a posi\u00e7\u00e3o governista moderada, era ver a Revolta como explora\u00e7\u00e3o inescrupulosa da popula\u00e7\u00e3o ignorante por parte de pol\u00edticos ambiciosos e atribuir a a\u00e7\u00e3o de rua \u00e0s classes perigosas;<strong>\n4.\u00a0<\/strong>Desde o in\u00edcio, e cada vez mais, os principais alvos da ira popular, expressos sejam por palavras ou por a\u00e7\u00f5es, foram os servi\u00e7os p\u00fablicos e os representantes do governo;<strong>\n5.\u00a0<\/strong>Aparecia a\u00ed a sensa\u00e7\u00e3o generalizada entre parte da elite e entre o povo de que o regime, como era praticado, n\u00e3o abria espa\u00e7o para a manifesta\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica e n\u00e3o fornecia canais de participa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima.<\/blockquote>\n<strong>E, principalmente:<\/strong>\n<blockquote><strong>6.\u00a0<\/strong>Era uma revolta fragmentada de uma sociedade fragmentada. A fragmenta\u00e7\u00e3o social tinha como contrapartida a aliena\u00e7\u00e3o quase completa da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao sistema pol\u00edtico que n\u00e3o lhe abria espa\u00e7os. Havia, no entanto, uma esp\u00e9cie de pacto informal, de entendimento impl\u00edcito sobre o que constitu\u00eda leg\u00edtima interfer\u00eancia do governo na vida das pessoas. Quando parecia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que os limites tinham sido ultrapassados, ela reagia por conta pr\u00f3pria, por via de a\u00e7\u00e3o direta. Os limites podiam ser ultrapassados seja no dom\u00ednio material, como nos casos de cria\u00e7\u00e3o ou aumento de impostos, seja no dom\u00ednio dos valores coletivos.<\/blockquote>\nEstas seis assertivas, embora sejam de car\u00e1ter bastante gen\u00e9rico e apare\u00e7am aqui de forma at\u00e9 certo ponto imprecisa, ilustrariam de modo satisfat\u00f3rio alguns dentre os aspectos mais importantes que perpassam a rela\u00e7\u00e3o entre o povo da corte e o Estado mon\u00e1rquico durante a Revolta do Vint\u00e9m, conforme procuraremos ressaltar.\n\nEvidentemente, digo ilustrariam, porque se trata de coment\u00e1rios acerca da rela\u00e7\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o mais humilde da capital federal e o Estado republicano feitos por Jos\u00e9 Murilo de Carvalho relativos \u00e0 Revolta da Vacina de 1904. (Cf. CARVALHO: 91, 115, 131, 133,137-138).\n\nDe todo modo, a similaridade gritante entre as atitudes coletivas e as representa\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o acerca do Estado presente nos dois movimentos de protesto popular, automaticamente nos induz a refletir sobre os elementos comuns, mais concretos, observ\u00e1veis em ambos os contextos, mon\u00e1rquico e republicano.\n\nCertamente existiram elementos de diferencia\u00e7\u00e3o entre os dois movimentos. Talvez o mais importante deles a partir do qual poder\u00edamos atribuir maior complexidade e alcance hist\u00f3rico \u00e0 Revolta da Vacina, seja o fato de que nesta se tenha processado de forma mais vis\u00edvel e completa o fen\u00f4meno de fus\u00e3o de uma ideologia inerente aos setores populares com a ideologia pr\u00f3pria das classes dominantes, amalgamando, assim, valores que acabariam por gerar uma ideologia espec\u00edfica do protesto popular, pr\u00f3xima da acep\u00e7\u00e3o do termo formulada por George Rud\u00e9. N\u00e3o obstante, h\u00e1 uma linha de continuidade ligando a\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m \u00e0 Revolta da Vacina<\/strong>, passando por outros movimentos de protesto popular ocorridos na cidade tais como a quebra de lampi\u00f5es (1882), a quebra de bondes (1901), o assalto aos trens da Central do Brasil (1902) e o ataque aos registros de \u00e1gua (1902). Nesse sentido, pelo menos, dois aspectos parecem bastante vis\u00edveis e fundamentais.\n\nEm primeiro lugar notamos que prevalece tanto na Revolta do Vint\u00e9m como na\u00a0<strong>Revolta da Vacina<\/strong>, uma din\u00e2mica de expans\u00e3o conc\u00eantrica dos grupos sociais participantes do protesto; iniciado entre as lideran\u00e7as pol\u00edticas (liberais radicais, republicanas, reformistas ou socialistas) e os setores m\u00e9dios urbanos, e espalhando-se de modo incontrol\u00e1vel e violento entre os setores subalternos da popula\u00e7\u00e3o carioca.\n\nEm 1880 a grande maioria das pessoas mais pobres da corte n\u00e3o dispunha de poder aquisitivo suficiente para utilizar com regularidade os bondes, o que nos leva a concluir que o protesto contava, inicialmente sobretudo, com a participa\u00e7\u00e3o de pessoas de rendimentos modestos mas regulares, decentemente vestidas e alfabetizadas. (CHALHOUB: 201). Assim sendo, presumimos que, inicialmente, al\u00e9m dos l\u00edderes pol\u00edticos e publicistas de classe m\u00e9dia, a multid\u00e3o que reclamava contra o imposto do vint\u00e9m seria composta por pequenos comerciantes, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, artes\u00e3os e oper\u00e1rios. No entanto, o movimento evoluiu rapidamente para o embate entre a pol\u00edcia e a classe baixa de nossa popula\u00e7\u00e3o, quer dizer, as pessoas de pouca import\u00e2ncia, no vocabul\u00e1rio das autoridades da \u00e9poca.\n\nAlgo semelhante ocorreria na\u00a0<strong>Revolta da Vacina.<\/strong>\n\nEm segundo, observamos a exist\u00eancia de certo padr\u00e3o nas atitudes e representa\u00e7\u00f5es das pessoas comuns diante do Estado, estabelecido na cultura popular com limites fortemente marcados, para al\u00e9m dos quais n\u00e3o era permitido ao Estado, seja mon\u00e1rquico ou republicano, avan\u00e7ar sem que provocasse movimentos coletivos de protesto. Devemos afirmar, portanto, e mais uma vez nos termos apresentados por Carvalho, que entre as pessoas comuns que compunham a maioria dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro tanto sob o regime mon\u00e1rquico-escravista quanto sob o regime republicano em sua primeira fase, o Estado era percebido como imposs\u00edvel de ser influenciado ou minimamente moldado, a partir dos interesses dos simples s\u00faditos ou cidad\u00e3os. (Cf. CARVALHO: 140-160).\n\nEra uma inst\u00e2ncia a qual eventualmente recorriam, mas que, no entanto, permanecia distante do entendimento completo e do controle da gente comum.\n\nEra visto como produto de um concerto pol\u00edtico do qual a maioria dos moradores da cidade n\u00e3o fazia parte. Consequentemente, prevalecia entre os setores populares a atitude de distanciamento perante os poderes constitu\u00eddos e as inst\u00e2ncias superiores e mais vis\u00edveis do poder pol\u00edtico.\n\nPor\u00e9m, ocasionalmente essa indiferen\u00e7a ou aparente apatia diante do Estado podia se transformar em movimento de oposi\u00e7\u00e3o, caracter\u00edstico de uma popula\u00e7\u00e3o que se colocava relativamente distante do poder estatal.\n\nDe tal modo que o protesto popular violento surgia apenas como resposta aos abusos da interven\u00e7\u00e3o do Estado no cotidiano da gente comum, a exemplo da cobran\u00e7a do imposto do vint\u00e9m.\n\nHavia assim uma esp\u00e9cie de pacto informal impl\u00edcito que equacionava, dentro do universo das representa\u00e7\u00f5es e do imagin\u00e1rio pol\u00edtico popular, aquilo que constitu\u00eda a interfer\u00eancia leg\u00edtima, ou ileg\u00edtima, do governo na vida das pessoas.\n\nIsso fica bastante evidente na an\u00e1lise que Carvalho fez da Revolta da Vacina. Como nos indicam as principais caracter\u00edsticas da Revolta do Vint\u00e9m, este pacto impl\u00edcito que informava o comportamento da gente comum diante do Estado parece, portanto, preexistente a 1904, podendo ser estendido retroativamente \u00e0 \u00faltima fase do regime mon\u00e1rquico. Portanto, somos levados a afirmar que havia um limite coletivamente aceit\u00e1vel desde meados da segunda metade do s\u00e9culo XIX, para a interfer\u00eancia estatal na vida da gente comum, demarcando a exist\u00eancia de uma grada\u00e7\u00e3o, para a interfer\u00eancia do Estado ser considerada leg\u00edtima. Para al\u00e9m desse limite, tanto no dom\u00ednio material como no dom\u00ednio dos valores \u00e9ticos coletivos, a popula\u00e7\u00e3o responderia com viol\u00eancia. Seria uma esp\u00e9cie de economia moral da indiferen\u00e7a, que estabelecia em termos coletivos n\u00e3o-formulados, e inconscientes, o ponto em que o distanciamento e a aparente apatia da popula\u00e7\u00e3o diante do Estado se transformaria em protesto popular. (THOMPSON, 1989; 1998). Toda vez que o Estado transpusesse esse ponto, a popula\u00e7\u00e3o reagiria pela via da a\u00e7\u00e3o direta, passando rapidamente da indiferen\u00e7a \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o violenta contra autoridades institu\u00eddas contra o poder estatal e contra o regime pol\u00edtico.\n\n<strong>Podemos ainda perguntar:<\/strong>\u00a0qual teria sido o impacto deste movimento de oposi\u00e7\u00e3o sobre as vis\u00f5es da monarquia difundidas entre as pessoas comuns na corte?\n\nNos dias que se seguiram \u00e0 Revolta do Vint\u00e9m, depois de interrompida a arrecada\u00e7\u00e3o pelo protesto popular, a regulariza\u00e7\u00e3o do imposto seria revogada e os principais integrantes do governo ligados ao epis\u00f3dio seriam substitu\u00eddos. Entre os monarquistas, liberais e conservadores, a revolta era vista como fruto do oportunismo de alguns e da ingenuidade da maioria da popula\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Ao avaliar quais eram os segmentos sociais envolvidos nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua relacionavam:<\/strong>\n<blockquote><strong>1.\u00a0<\/strong>a juventude das escolas, cheia de nobre mais indefinido entusiasmo por tudo que lhe agita a fibra sens\u00edvel das generosas paix\u00f5es (poder\u00edamos incluir aqui a maioria dos publicistas de oposi\u00e7\u00e3o);<strong>\n2.<\/strong>\u00a0os descontentes com a incapacidade do Estado em se ocupar de seus servi\u00e7os (leia-se incapacidade de favorec\u00ea-los em seus neg\u00f3cios) e<strong>\n3.<\/strong>\u00a0aqueles que ao longo dos anos tiveram o seu sonho de bem estar destru\u00eddo pela pol\u00edtica dominante.<\/blockquote>\nTodos esses pertencentes aos setores m\u00e9dios urbanos e \u00e0 elite da corte, encabe\u00e7ando a turba dos desesperados e descontentes de todos matizes.\n\n<strong>Por fim, arrebanhado pela elite descontente e comungando aquilo que parecia uma vis\u00e3o ing\u00eanua, porque ut\u00f3pica, da organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica do imp\u00e9rio, vinha o segmento popular presente na revolta, formado por aqueles que:\u00a0<\/strong>[\u2026] na sinceridade de sua crassa ignor\u00e2ncia e sob o agulh\u00e3o das priva\u00e7\u00f5es diurnas, est\u00e3o sempre prontos a condenar os governos, sejam quais forem, que n\u00e3o realizem o ideal imposs\u00edvel e sobrenatural de dirigirem a sociedade de modo que n\u00e3o se pague impostos e que todos vivam contentes no seio de uma abund\u00e2ncia f\u00e1cil e sem trabalho.\n\nComo n\u00e3o poderia deixar de ser, por seu turno, publicistas e pol\u00edticos antimonarquistas atribu\u00edam as causas da\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u00a0\u00e0 impopularidade do regime imperial e ao desgaste da imagem de D. Pedro II entre a maior parte da popula\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro. Encontramos nos jornais uma quantidade imensa de material ironizando a coroa e o monarca.\n\n<strong>Por exemplo, este poema de Mathias Carvalho:<\/strong>\n\n<strong>O Imposto do Vint\u00e9m<\/strong>\n<blockquote>E o rei sentiu-se mal fora sinistro o dia!\nPassou-lhe no frontal a contra\u00e7\u00e3o sombria\nQue marcava a convuls\u00e3o tempestuosa, interna!\nPois que! leproso o c\u00e3o ousar a sujar-lhe a perna!\nA sombra dar um passo! o diamante r\u00e9gio\nSentir manchas na luz de sua grande esfera!\nO verme avolumou-se em propor\u00e7\u00e3o de fera!\nTer o arrojo brutal, o grande atrevimento\nDe contestar a cifra do Dogma-Or\u00e7amento\nE tirar-lhe em cheio ao seu sagrado rosto:\nEste imposto \u00e9 ilegal: eu n\u00e3o pago esse imposto!\nOh! isto era demais!<\/blockquote>\nNo contexto da Revolta do Vint\u00e9m, insistiam na fragilidade institucional do governo come\u00e7ando pela constru\u00e7\u00e3o de uma imagem bastante negativa do imperador. Nos folhetins sat\u00edricos a imagem do rei pai dos pobres algo generoso, atencioso e ilustrado, come\u00e7ava, definitivamente, a perder espa\u00e7o para a figura do monarca incompetente, velho, cansado e alheio aos verdadeiros interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Dizia-se que o rei andava angustiado:<\/strong>\n<blockquote>S. M. agora anda cabisbaixo e triste\u2026\nTriste e cabisbaixo porque o Z\u00e9 Povinho, de quem ele sempre esperou a mais passiva obedi\u00eancia, pondo de lado umas certas conveni\u00eancias, deu-lhe uma vaia mesmo na bochecha.\nEm que constituiu a vaia\nO povo chamou-o de tipo, s\u00e1bio de contrabando, caj\u00fa, banana e outras poucas vergonhas deste jaez.\nD. Pedro ouviu tudo muito caladinho e voltou para S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, dizendo com seus bot\u00f5es:\nN\u00e3o h\u00e1 nada como cada um em sua casa com sua mulher e os seus filhos\u2026<\/blockquote>\nAssim, ao longo dos anos da d\u00e9cada de 1880, cada vez mais o outrora rei majest\u00e1tico, cidad\u00e3o, mecenas, generoso e pai dos pobres, seria representado como Pedro Banana. (Cf. SCHWARCZ). Obviamente, no decorrer dos conflitos e imediatamente ap\u00f3s, se acentuavam os elementos negativos do Estado imperial entre os \u00f3rg\u00e3os de opini\u00e3o p\u00fablica. Mas isso n\u00e3o implicava, automaticamente, que logo em seguida, de volta ao contexto cotidiano de distanciamento e aparente apatia, as vis\u00f5es da Monarquia tivessem sofrido grandes altera\u00e7\u00f5es.\n\nOu ainda que tivesse sido modificada radicalmente a figura do imperador para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Assim sendo, certamente a\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u00a0ocasionou muito mais a altera\u00e7\u00e3o radical e moment\u00e2nea das atitudes e expectativas diante do regime pol\u00edtico e do imperador, do que uma mudan\u00e7a significativa e duradoura no imagin\u00e1rio popular, nas representa\u00e7\u00f5es das pessoas comuns acerca da Monarquia. Poucos anos mais tarde, em meio ao movimento abolicionista, o rei ainda apareceria como aliado importante, embora fosse evidente o processo cont\u00ednuo de degrada\u00e7\u00e3o de sua imagem. Por fim, podemos supor que para as estrat\u00e9gias mais pragm\u00e1ticas da gente comum na abordagem da coroa, do imperador e da fam\u00edlia real, fazia pouca diferen\u00e7a recorrer ao Pedro pai dos pobres ou ao Pedro Banana.\n\nDe todo modo, 1880 inauguraria uma nova fase na hist\u00f3ria do segundo reinado, uma fase de crise cada vez mais acentuada, na qual as imagens de D. Pedro II e da Monarquia sofreriam um desgaste cont\u00ednuo.\n\nE como nos ensina Emilia Viotti da Costa, tempos de crises s\u00e3o aqueles em que v\u00eam \u00e0 luz conflitos que permaneceram ao longo do tempo ocultos sob as regras e rotinas do protocolo social, impercept\u00edveis, por detr\u00e1s dos atos autom\u00e1ticos de significado e finalidades inconscientes. Momentos hist\u00f3ricos que exp\u00f5em as contradi\u00e7\u00f5es existentes por tr\u00e1s da ret\u00f3rica de consenso e hegemonia social. (COSTA: 13-14).\n\nNeste sentido a\u00a0<strong>Revolta do Vint\u00e9m<\/strong>\u00a0foi um marco evidente. Em seguida, no decorrer dos anos 1880, o movimento abolicionista em sua fase mais radical e popular seria o vetor mais importante neste processo em que, cada vez mais, os conflitos e contradi\u00e7\u00f5es da sociedade mon\u00e1rquica escravista ficariam expostos, com efeitos diretos sobre as vis\u00f5es da Monarquia entre a gente comum da corte.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.historiabrasileira.com\/www.ifch.unicamp.br(Ronaldo Pereira de Jesus)\/www.ceo.historia.uff.br(Ana Paula Barcelos Ribeiro da Silva)\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revolta do Vint\u00e9m, Brasil, Hist\u00f3ria, Imposto, Rio de Janeiro, 1879, Motim, Direitos, Protesto, Movimento, Revolta do Vint\u00e9m<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10125,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-26010","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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