{"id":26005,"date":"2015-12-22T00:00:00","date_gmt":"2015-12-22T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/revolta-da-vacina-4\/"},"modified":"2026-09-01T17:58:11","modified_gmt":"2026-09-01T17:58:11","slug":"revolta-da-vacina-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/revolta-da-vacina-4\/","title":{"rendered":"Revolta da Vacina"},"content":{"rendered":"\nEm 1904, a cidade do Rio de Janeiro no Brasil foi assolada por tumultos ao longo de quatro dias em novembro.\n\nO motivo do tumulto foi a resist\u00eancia a uma lei de vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria que havia sido aprovada pelo Congresso no in\u00edcio daquele ano.\n\nCidad\u00e3os que foram deslocados pela gentrifica\u00e7\u00e3o da cidade e estavam entre os grupos mais desfavorecidos se uniram a grupos antivacinas e antigovernamentais, incluindo alguns membros das for\u00e7as armadas.\n\nQuando o governo come\u00e7ou a tentar vacinar \u00e0 for\u00e7a contra a var\u00edola, a viol\u00eancia eclodiu.\n\nAo final dos tumultos, dezenas estavam mortos e centenas ficaram feridos. O governo de alguma forma conseguiu evitar um golpe, e o presidente brasileiro decidiu n\u00e3o pressionar mais com a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria.\n\nPouco mais de cem anos depois, os brasileiros fariam longas filas para tomar a vacina da Febre Amarela depois que uma epidemia varreu o pa\u00eds, demonstrando mais uma vez que a pol\u00edtica de vacinas \u00e9 inatamente pol\u00edtica.\n\n<strong>Revolta da Vacina &#8211; Hist\u00f3ria do Brasil<\/strong>\n\nRio de Janeiro, capital federal, ano de 1904.\n\nO povo amotinado levanta barricadas. Bondes s\u00e3o depredados e incendiados. Lojas saqueadas. O epis\u00f3dio fica conhecido como a\u00a0<strong>Revolta da Vacina<\/strong>.\n\nO Rio de Janeiro \u00e9 uma cidade com ruelas estreitas, sujas. Cheia de corti\u00e7os onde se amontoa a popula\u00e7\u00e3o pobre. A falta de saneamento b\u00e1sico e as condi\u00e7\u00f5es de higiene fazem da cidade um foco de epidemias, principalmente Febre Amarela, Var\u00edola e Peste.\n\nEm 1895, ao atracar no Rio de Janeiro, o navio italiano Lombardia perdeu 234 de seus 337 tripulantes, mortos por Febre Amarela.\n<p class=\"citacao\">\u201cViaje direto para Argentina sem passar pelos perigosos focos de epidemias do Brasil\u201d.<\/p>\nCom esta propaganda, uma companhia de viagem europeia tranquilizava seus clientes, no in\u00edcio do s\u00e9culo.\n\nRodrigues Alves (1902) assume a presid\u00eancia do Brasil com o programa de sanear e reformar o Rio de Janeiro, nos moldes das cidades europeias. Os motivos s\u00e3o manter o turismo e atrair investidores estrangeiros.\n\nMais de seiscentos corti\u00e7os s\u00e3o derrubados no centro da cidade para a constru\u00e7\u00e3o de avenidas.\n\nPopula\u00e7\u00f5es de bairros inteiros, sem ter para onde ir, s\u00e3o desalojadas \u00e0 for\u00e7a e se refugiam nos morros. As favelas come\u00e7am a se expandir.\n\nO m\u00e9dico sanitarista Oswaldo Cruz \u00e9 encarregado de combater as epidemias.\n\nPara atacar a Febre Amarela, Oswaldo Cruz segue uma teoria de m\u00e9dicos cubanos, que aponta um tipo de mosquito como o seu transmissor.\n\nPara acabar com a peste, transmitida pela pulga do rato, um esquadr\u00e3o de 50 homens percorre a cidade espalhando raticidas e removendo lixo.\n\n<strong>Um novo cargo p\u00fablico \u00e9 criado:<\/strong>\u00a0o dos compradores de ratos, que saem pelas ruas pagando trezentos r\u00e9is por rato capturado.\n\nBrigadas de Mata-Mosquitos desinfetam ruas e casas. A popula\u00e7\u00e3o acha uma maluquice responsabilizar um mosquito pela Febre Amarela.\n\nQuase toda a imprensa fica contra Oswaldo Cruz e ridiculariza sua campanha. Mas foi a Var\u00edola que p\u00f4s a cidade em p\u00e9 de guerra.\n\nApoiadas em uma lei federal, as Brigadas Sanit\u00e1rias entravam nas casas e vacinavam pessoas \u00e0 for\u00e7a. Setores de oposi\u00e7\u00e3o ao governo gritavam contra as medidas autorit\u00e1rias de Oswaldo Cruz.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Revolta da Vacina\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/rrevolt3.jpg\" alt=\"Revolta da Vacina\" width=\"222\" height=\"280\" \/>\n<strong>Oswaldo Cruz<\/strong><\/p>\nEm novembro de 1904, explode a revolta. Por mais de uma semana as ruas do Rio de Janeiro vivem uma guerra civil. A Escola Militar de Praia Vermelha, comandada por altos escal\u00f5es do Ex\u00e9rcito, alia-se aos revoltosos. Militares insatisfeitos com o presidente Rodrigues Alves armam um golpe de Estado.\n\nO governo reage. Tropas leais atacam os revoltosos. No centro da cidade, pelot\u00f5es disparam contra a multid\u00e3o. O n\u00famero de mortos da\u00a0<strong>Revolta da Vacina<\/strong>\u00a0\u00e9 desconhecido. O de feridos ultrapassa cem.\n\nMais de mil pessoas s\u00e3o presas e deportadas para o Acre.\n\nAs medidas sanit\u00e1rias continuam. Em 1903, 469 pessoas morrem de Febre Amarela. No ano seguinte, este n\u00famero cai para 39.\n\nEm 1904, a Var\u00edola havia matado cerca de 3.500 pessoas. Dois anos depois, esta doen\u00e7a faz apenas 9 v\u00edtimas. A cidade fica livre das epidemias. Mas come\u00e7a a sofrer com a prolifera\u00e7\u00e3o das favelas.\n\n<strong>Revolta da Vacina &#8211; Movimento<\/strong>\n\nA\u00a0<strong>Revolta da Vacina<\/strong>\u00a0foi um movimento que ocorreu no ano de 1904, no qual o governo\u00a0da cidade do Rio de Janeiro determinou que a vacina\u00e7\u00e3o contra a var\u00edola fosse obrigat\u00f3ria para a popula\u00e7\u00e3o.\n\nEssa revolta n\u00e3o aconteceu apenas pelo motivo da vacina\u00e7\u00e3o ser obrigat\u00f3ria, mas tamb\u00e9m porque as autoridades da \u00e9poca estavam reestruturando a cidade carioca para que houvesse uma melhor estrutura sanit\u00e1ria, com o intuito da contamina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o por doen\u00e7as diminu\u00edsse.\n\n<strong>Oswaldo Cruz foi a pessoa encarregada para combater as doen\u00e7as:<\/strong>\u00a0Var\u00edola, Febre Amarela e Peste Bub\u00f4nica. As doen\u00e7as Febre Amarela e Peste Bub\u00f4nica foram controladas de outras maneiras, mas Oswaldo Cruz n\u00e3o viu outra solu\u00e7\u00e3o se n\u00e3o utilizar vacinas para diminuir os casos com Var\u00edola.\n\nOficiais da Praia Vermelha se uniram \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e foram \u00e0s ruas do Rio de Janeiro para protestar com essas medidas, pois alegavam que essas \u201cacabariam com a estrutura tradicional da cidade\u201d al\u00e9m do deslocamento de moradores de suas moradias para outros bairros e locais. O governo respondeu \u00e0 altura, e mandou militares combaterem esses manifestantes.\n\nA vacina\u00e7\u00e3o se tornando obrigat\u00f3ria, dois anos\u00a0depois, Oswaldo Cruz percebeu que as mortes diminu\u00edram de 3.500 pessoas para apenas 9 pessoas.\n\nE desde ent\u00e3o Oswaldo Cruz se tornou um agente importante na sa\u00fade do Brasil e do mundo.\n\n<strong>Revolta da Vacina &#8211; Governo<\/strong>\n\n<strong>Pobreza. Preconceito. Desemprego. Os sintomas estavam todos l\u00e1 e combinados explodiram numa convuls\u00e3o que h\u00e1 exatos 100 anos tomou as ruas da capital do Brasil e ficou conhecida como Revolta da Vacina<\/strong>\n\nHavia alguma coisa diferente no ar naquela manha abafada e \u00famida de novembro. Nos \u00faltimos dias, boatos haviam tomado os bares, as conversas em fam\u00edlia depois que estudantes e oper\u00e1rios sa\u00edram em passeata pelo centro do Rio de Janeiro, gritando palavras de ordem e protestando contra o governo do presidente Rodrigues Alves.\n\nMas nem quem acompanhava de perto as not\u00edcias podia prever os acontecimentos que se seguiriam. De repente, sem que parecesse haver qualquer organiza\u00e7\u00e3o, grupos de pessoas come\u00e7aram a chegar ao centro.\n\nTomaram as ruas do Ouvidor, da Quitanda, da Assembleia e, quando chegaram \u00e0 pra\u00e7a Tiradentes, j\u00e1 eram milhares. Abaixo a vacina, gritavam. O com\u00e9rcio baixou as portas e a pol\u00edcia chegou.\n\n<strong>A multid\u00e3o respondeu em coro:\u00a0<\/strong>Morra a pol\u00edcia. Houve tiros. Correria. O centro virou campo de batalha. No meio de cacetadas, tiros e pernadas, talvez ningu\u00e9m do lado dos manifestantes ou dos homens da lei se lembrasse de como aquilo havia come\u00e7ado.\n\nPara entender melhor os sangrentos dias de novembro de 1904, vamos recuar um pouco mais no tempo e ver como andavam as coisas no Rio, na virada do s\u00e9culo 19 para o 20. Na \u00e9poca, a maioria dos moradores tinha motivos de sobra para reclamar da vida em geral e do governo em particular. Faltava tudo, desde empregos at\u00e9 esgoto, saneamento b\u00e1sico e moradia. Cerca de 50% da popula\u00e7\u00e3o vivia de bicos ou servi\u00e7os dom\u00e9sticos, se n\u00e3o era simplesmente desocupada. O censo de 1890 mostrou que havia 48,1 mil pessoas de profiss\u00e3o desconhecida ou desempregada quase 10% do total de habitantes.\n\n<strong>Capital da recente rep\u00fablica do Brasil, o Rio era a cidade para onde todos se mudavam:<\/strong>\u00a0ex-escravos libertados em 1888, imigrantes europeus em busca de emprego, desertores e excedentes das For\u00e7as Armadas e migrantes das fazendas de caf\u00e9, que n\u00e3o iam l\u00e1 muito bem das pernas. Entre 1872 e 1890, a popula\u00e7\u00e3o do Rio passou de 266 mil para 522 mil pessoas.\n\n<strong>N\u00e3o havia emprego para todos e a maioria se virava como podia:<\/strong>\u00a0carregava e descarregava navios, vendia tranqueiras, fazia pequenos servi\u00e7os. \u00c9 claro que ainda havia entre eles ladr\u00f5es, prostitutas e trambiqueiros.\n\nToda essa turma que as autoridades chamavam de ral\u00e9, malandros ou desocupados, mas que tamb\u00e9m se pode chamar de pobres, ou, simplesmente, de povo se acotovelavam nos corti\u00e7os.\n\n<strong>Essas habita\u00e7\u00f5es coletivas, al\u00e9m de serem uma op\u00e7\u00e3o barata de moradia, tinham boa localiza\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>ficavam no centro da cidade.\n\nA mais famosa delas, conhecida como Cabe\u00e7a de Porco, no n\u00famero 154 da rua Bar\u00e3o de S\u00e3o F\u00e9lix, chegou a ter 4 mil moradores. As autoridades consideravam os corti\u00e7os antros de doen\u00e7as e de pouca-vergonha.\n\n<strong>Para a mentalidade da \u00e9poca, que ali\u00e1s n\u00e3o mudou muito, as moradias pobres abrigavam as classes perigosas, sujas, de onde sa\u00edam as epidemias e toda sorte de ruindade, diz o historiador Sidney Chalhoub, da Unicamp, autor de Cidade Febril:<\/strong>\u00a0Corti\u00e7os e Epidemias na Corte Imperial.\n\n<strong>\u201cBota-abaixo\u201d<\/strong>\n\nQuando Rodrigues Alves assumiu a presid\u00eancia em 1902, prometendo trazer o pa\u00eds para o novo s\u00e9culo, viu naqueles corti\u00e7os um obst\u00e1culo a ser removido. A ideia era abrir novas avenidas, ruas e pra\u00e7as e, ao mesmo tempo, afastar do centro da cidade os moradores pobres. A inspira\u00e7\u00e3o vinha das obras realizadas, alguns anos antes, na capital da Fran\u00e7a. Em Paris, o bar\u00e3o Haussmann havia conduzido uma reforma geral que acabara com grande parte das antigas vias e constru\u00e7\u00f5es medievais. Grandes avenidas e parques tomaram o lugar dos bairros oper\u00e1rios, celeiros das revoltas populares que haviam chacoalhado o s\u00e9culo 19.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Revolta da Vacina\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/rrevolt4.jpg\" alt=\"Revolta da Vacina\" width=\"220\" height=\"256\" \/><strong>\nRodrigues Alves, presidente do Brasil de 15 de novembro de 1902 at\u00e9 15 de novembro de 1906<\/strong><\/p>\nMas se, em 1902, Paris j\u00e1 merecia o apelido de Cidade-Luz, o Rio estava longe de se tornar maravilhoso. E n\u00e3o era s\u00f3 uma quest\u00e3o est\u00e9tica. Com tanta gente desabrigada, vivendo de comercializar comida e bebida nas ruas, com pouqu\u00edssima infra-estrutura de esgoto e \u00e1gua encanada, as condi\u00e7\u00f5es de higiene eram para l\u00e1 de prec\u00e1rias. O Rio era uma cidade doente. Epidemias de peste, febre amarela e var\u00edola dizimavam a popula\u00e7\u00e3o. Isso sem falar nas doen\u00e7as end\u00eamicas, como a tuberculose. No ver\u00e3o de 1850 um ter\u00e7o dos cariocas contraiu febre amarela e 4160 pessoas morreram. Em 1855 foi a c\u00f3lera e em 1891 houve surtos de febre amarela e peste bub\u00f4nica. Em 1903 a var\u00edola atacou fazendo v\u00edtimas at\u00e9 o ano seguinte. S\u00f3 nos primeiros cinco meses de 1904, 1800 pessoas foram internadas com a doen\u00e7a.\n\nEssa situa\u00e7\u00e3o tinha consequ\u00eancias dr\u00e1sticas que iam al\u00e9m da sa\u00fade p\u00fablica. Por causa da imagem de ser reduto de doen\u00e7as, navios estrangeiros se recusavam a aportar no Brasil.\n\n<strong>E a fama n\u00e3o era injustificada:<\/strong>\u00a0em 1895, o navio italiano Lombardia, atracado no Rio, perdeu 234 de seus 340 tripulantes, v\u00edtimas de febre amarela.\n\nCompanhias europeias faziam quest\u00e3o de anunciar viagens diretas \u00e0 Argentina, garantindo aos interessados que seus navios passariam ao largo da costa brasileira. Uma trag\u00e9dia para um pa\u00eds que vivia da exporta\u00e7\u00e3o.\n\nA economia, que j\u00e1 n\u00e3o andava bem, n\u00e3o precisava de mais essa dor de cabe\u00e7a. O Brasil vivia \u00e0s voltas com a crise no mercado de caf\u00e9, \u00fanico produto de exporta\u00e7\u00e3o brasileiro, e tinha uma d\u00edvida externa crescente.\n\nO pa\u00eds passou a emitir cada vez mais papel-moeda, provocando uma infla\u00e7\u00e3o generalizada. Nos primeiros cinco anos do governo republicano, a coisa foi feia. Os pre\u00e7os subiram 300%, enquanto os sal\u00e1rios n\u00e3o aumentaram 100%, diz o historiador Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Os Bestializados.\n\nEra preciso agir. Rodrigues Alves ele pr\u00f3prio um grande fazendeiro de caf\u00e9 nomeou como prefeito da capital federal o engenheiro Pereira Passos, que havia morado em Paris e conhecia bem as reformas de Haussmann. Foi Passos que liderou a derrubada de 1 600 velhos edif\u00edcios, numa reforma radical que ficou conhecida como bota-abaixo.\n\nEm cerca de dois meses de obras, milhares de pessoas foram despejadas e empurradas morros acima, onde constru\u00edram barracos e casas improvisadas.\n\nSem dinheiro, sem emprego e sem ter onde morar, o cen\u00e1rio estava pronto para que o povo se rebelasse. S\u00f3 faltava um estopim.\n\n<strong>Medo de inje\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\nPara combater as doen\u00e7as que abatiam os cariocas, n\u00e3o bastariam as reformas urbanas no centro da cidade. Mesmo que (e muita gente duvida disso) esse fosse o objetivo principal das obras.\n\nMais uma vez apoiando-se no exemplo franc\u00eas, o governo brasileiro apostou nas t\u00e9cnicas de sa\u00fade p\u00fablica que estavam sendo colocadas em pr\u00e1tica por m\u00e9dicos como Louis Pasteur. Para apoia-lo nessa \u00e1rea, Rodrigues Alves convocou um jovem m\u00e9dico do interior de S\u00e3o Paulo que acabara de estagiar em Paris, Oswaldo Cruz.\n\nAssim que assumiu a diretoria de Sa\u00fade P\u00fablica, em 1903, Oswaldo encarou batalhas contra a peste bub\u00f4nica e formou brigadas sanit\u00e1rias que sa\u00edram pelo centro da cidade ca\u00e7ando ratos pelas casas e ruas.\n\nChegou a adotar o m\u00e9todo pouco ortodoxo de comprar ratos, para estimular a popula\u00e7\u00e3o a ca\u00e7ar o roedor. Apesar das inevit\u00e1veis fraudes houve gente que foi presa por criar ratos para vender \u00e0s autoridades a campanha contra a peste foi um sucesso.\n\nPara enfrentar a febre amarela, no entanto, Oswaldo encontrou oposi\u00e7\u00e3o. Nem o combate aos mosquitos era consenso. Na \u00e9poca, n\u00e3o se sabia que a doen\u00e7a era causada por um v\u00edrus nem se conhecia seu mecanismo de transmiss\u00e3o, e, embora o cubano Carlos Finley j\u00e1 houvesse publicado sua tese de que a doen\u00e7a era transmitida por um mosquito, um grande n\u00famero de m\u00e9dicos brasileiros acreditava que a febre amarela era causada por alimentos contaminados.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Revolta da Vacina\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/rrevolt5.jpg\" alt=\"Revolta da Vacina\" width=\"243\" height=\"158\" \/><strong>\nO v\u00edrus da var\u00edola<\/strong><\/p>\nEm 1904, seria a vez de combater a var\u00edola. J\u00e1 havia leis que tornavam obrigat\u00f3ria a vacina\u00e7\u00e3o desde 1884, mas essas leis n\u00e3o pegaram, diz Jos\u00e9 Murilo. O governo resolveu, ent\u00e3o, fazer uma nova lei obrigando toda a popula\u00e7\u00e3o a se vacinar, em novembro de 1904. O projeto, que permitia que os agentes sanit\u00e1rios entrassem na casa das pessoas para vacin\u00e1-las, foi aprovado na C\u00e2mara e no Senado, mas n\u00e3o sem antes quase levar aos sopapos os partid\u00e1rios de Rodrigues Alves e seus opositores, que n\u00e3o eram poucos.\n\nEntre eles havia os partid\u00e1rios do ex-presidente Floriano Peixoto, que n\u00e3o se conformavam com um governo civil, como o senador (e tenente-coronel) Lauro Sodr\u00e9 e, na C\u00e2mara, o major Barbosa Lima.\n\n<strong>O senador Ruy Barbosa se manifestou, em plen\u00e1rio, dizendo:\u00a0<\/strong>Assim como o direito veda ao poder humano invadir a consci\u00eancia, assim lhe veda transpor-nos a epiderme.\n\nCom a querela pol\u00edtica, o assunto chegou \u00e0 imprensa.\n\n<strong>Os jornais se dividiram:\u00a0<\/strong>o Commercio do Brazil, do deputado florianista Alfredo Varela, e O Correio da Manh\u00e3, de Barbosa Lima, atacavam a vacina\u00e7\u00e3o, enquanto o di\u00e1rio governista O Paiz defendia a ideia com unhas e dentes. Logo, n\u00e3o se falava em outra coisa no Rio. Os representantes dos trabalhadores n\u00e3o concordavam com a nova lei, que, entre outras coisas, exigia o atestado de vacina para conseguir emprego, e criaram a Liga Contra a Vacina Obrigat\u00f3ria, que em poucos dias arregimentou mais de 2 mil pessoas.\n\nN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender por que o povo ficou contra a vacina. Pela lei, os agentes de sa\u00fade tinham o direito de invadir as casas, levantar os bra\u00e7os ou pernas das pessoas, fosse homem ou mulher, e, com uma esp\u00e9cie de estilete (n\u00e3o era uma seringa como as de hoje), aplicar a subst\u00e2ncia. Para alguns, isso era uma invas\u00e3o de privacidade e, na sociedade de 100 anos atr\u00e1s, um atentado ao pudor.\n\nOs homens n\u00e3o queriam sair de casa para trabalhar, sabendo que suas esposas e filhas seriam visitadas por desconhecidos.\n\n<strong>E tem mais:<\/strong>\u00a0pouca gente acreditava que a vacina funcionava. A maioria achava, ao contr\u00e1rio, que ela podia infectar quem a tomasse. O pior \u00e9 que isso acontecia. A vacina n\u00e3o era t\u00e3o eficaz como hoje, diz Sidney.\n\nCom a popula\u00e7\u00e3o descontente, a imprensa colocando fogo e os pol\u00edticos protestando, uma hora a revolta ia tomar as ruas. Pronto, agora podemos voltar para aquela manh\u00e3 de novembro.\n\n<strong>Quebra-quebra<\/strong>\n\nQuando deixamos 1904, policiais e a popula\u00e7\u00e3o trocavam tiros e pauladas pelas ruas do centro da cidade. O corre-corre foi grande a multid\u00e3o se dispersou, deixando o centro para se reunir mais al\u00e9m, nos bairros populares. Naquele 13 de novembro, houve confus\u00e3o no M\u00e9ier, Engenho de Dentro e Andara\u00ed. Vinte e duas pessoas foram presas.\n\nMas o pior estava por vir. No dia seguinte, logo cedo, grupos aparentemente desarticulados vindos dos bairros rumaram para o Centro. No caminho viraram bondes, derrubaram postes de ilumina\u00e7\u00e3o, reuniram entulho no meio das ruas e se prepararam para enfrentar a pol\u00edcia. No bairro da Sa\u00fade, pr\u00f3ximo ao porto, a barricada reuniu 2 mil pessoas, segundo relato do Jornal do Comercio, que chamou o lugar de Porto Arthur, em alus\u00e3o a um forte na Manch\u00faria, onde japoneses e russos travavam uma sangrenta batalha. Liderados entre outros por Hor\u00e1cio Jos\u00e9 da Silva, o Prata Preta (leia quadro ao lado), os defensores de Porto Arthur estavam armados com rev\u00f3lveres e navalhas. Alguns marcharam com armas nos ombros e se espalhou que tinham at\u00e9 um canh\u00e3o. Por tr\u00eas dias conseguiram repelir a pol\u00edcia, mas no dia 16 o Ex\u00e9rcito, apoiado por tropas de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, invadiu o local, numa a\u00e7\u00e3o que contou ainda com bombardeios da Marinha. O suposto canh\u00e3o era um poste deitado sobre uma carro\u00e7a.\n\nNo dia 14, enquanto o pau ainda comia nas ruas, a confus\u00e3o chegou aos quart\u00e9is. O esfor\u00e7o conspirat\u00f3rio que duraria o dia todo come\u00e7ou logo cedo.\n\nO senador Lauro Sodr\u00e9 e o deputado Alfredo Varela reuniram-se no Clube Militar com a c\u00fapula dos militares. No entanto, o ministro da Guerra, marechal Argollo, conseguiu melar o encontro e mandou todo mundo para casa. \u00c0 noite, uma parte dos conspiradores tentou tomar a Escola Preparat\u00f3ria do Realengo, mas n\u00e3o conseguiu. Outro grupo, liderado pelo pr\u00f3prio Sodr\u00e9, invadiu a Escola Militar da Praia Vermelha e convenceu cerca de 300 cadetes comandados pelos generais Silva Travassos e Ol\u00edmpio Silveira a marcharem rumo ao Pal\u00e1cio do Catete. L\u00e1, deram de cara com cerca de 2 mil homens leais ao governo. Houve tiroteio, Lauro Sodr\u00e9 desapareceu, mas o general Travassos foi ferido e preso.\n\n<strong>Saldo da quartelada:<\/strong>\u00a0tr\u00eas golpistas mortos e 32 soldados feridos.\n\nNas ruas, a batalha s\u00f3 terminou no dia 23, quando o Ex\u00e9rcito tomou um dos \u00faltimos n\u00facleos da revolta, o morro da Favela. Pelos c\u00e1lculos do historiador Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, durante toda a revolta foram detidas 945 pessoas, sendo que 461, todas com antecedentes criminais, foram deportadas para locais distantes como o Acre e Fernando de Noronha. N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas oficiais, mas acredita-se que 23 pessoas tenham morrido, segundo as estimativas dos jornais da \u00e9poca, e pelo menos 67 ficaram feridas.\n\nA vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria foi suspensa. Mas o governo manteve a exig\u00eancia de atestado para casamentos, certid\u00f5es, contratos de trabalho, matr\u00edculas em escolas p\u00fablicas, viagens interestaduais e hospedagem em hot\u00e9is.\n\nNem todos esses cuidados, no entanto, impediram um novo surto de var\u00edola. Em 1908, quando a cidade do Rio de Janeiro registrou quase 10 mil casos, o povo fez fila, voluntariamente, para se vacinar.\n\n<strong>O m\u00e9dico da vacina<\/strong>\n\n<b>Oswaldo Cruz introduziu-os\u00a0conceitos da sa\u00fade p\u00fablica no Brasil<\/b>\n\nOswaldo Cruz n\u00e3o foi apenas um m\u00e9dico e sanitarista brilhante. O fundador da sa\u00fade p\u00fablica no Brasil era um entusiasta das artes e da escrita, e chegou a ser membro da Academia Brasileira de Letras.\n\nNo Rio de Janeiro do in\u00edcio do s\u00e9culo, era comum encontr\u00e1-lo nas estreias teatrais, nos saraus e em outras manifesta\u00e7\u00f5es culturais. Mas sua maior paix\u00e3o eram os micr\u00f3bios, que ele conheceu enquanto cursava a Faculdade de Medicina, no Rio de Janeiro. Logo ap\u00f3s se casar com sua namorada de inf\u00e2ncia Em\u00edlia, com quem teve seis filhos, Oswaldo fez as malas, e se mudou para Paris, para estudar microbiologia no prestigiado Instituto Louis Pasteur. Estava aberto o caminho para uma carreira brilhante, que at\u00e9 poucos anos antes ningu\u00e9m poderia imaginar.\n\nAfinal, Oswaldo sa\u00edra de uma pequena cidade do interior de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Lu\u00eds do Paraitinga, onde nasceu a 5 de agosto de 1872, esperando no m\u00e1ximo ganhar dignamente seu sustento ao se mudar para a capital.\n\n<strong>Mal sabia ele que ao colocar novamente os p\u00e9s no Brasil seria chamado para uma importante miss\u00e3o:<\/strong>\u00a0diagnosticar a misteriosa doen\u00e7a que, em 1899, atingiu a cidade de Santos. Junto com outros dois m\u00e9dicos c\u00e9lebres, Adolfo Lutz e Vital Brasil, integrou a comiss\u00e3o que identificou a peste bub\u00f4nica, transmitida por ratos, como a causadora das estranhas mortes.\n\nDa\u00ed para o reconhecimento nacional foi um passo. Quando o bar\u00e3o de Pedro Afonso resolveu criar o Instituto Soroter\u00e1pico do Rio de Janeiro, a dire\u00e7\u00e3o pediu uma indica\u00e7\u00e3o ao Instituto Pasteur, que prontamente deu o nome de Oswaldo Cruz. Poucos anos depois, ao ser convocado pelo prefeito Pereira Passos para erradicar as epidemias na capital, em 1903, o sanitarista se tornaria um dos personagens mais importantes do \u00faltimo s\u00e9culo, simplesmente o criador da sa\u00fade p\u00fablica brasileira.\n\nOswaldo Cruz reorganizou todo o servi\u00e7o de sa\u00fade no Rio de Janeiro. Ele estabeleceu a conjuga\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os, pela primeira vez, entre os servi\u00e7os de higiene municipais e federais, unificando a sa\u00fade no Brasil, diz o soci\u00f3logo Nilson do Ros\u00e1rio Costa. Depois de vencer as epidemias de febre amarela e var\u00edola na capital, foi convocado para combater as sucessivas epidemias de mal\u00e1ria na Amaz\u00f4nia nos anos 10, entre 1912 e 1915, quando a extra\u00e7\u00e3o da borracha atraiu milhares de brasileiros para a regi\u00e3o. L\u00e1, lan\u00e7ou uma ampla campanha de controle sanit\u00e1rio, que acabou n\u00e3o dando os efeitos desejados. Infelizmente, fracassou em sua \u00faltima grande cruzada a favor da sa\u00fade p\u00fablica.\n\n<strong>Oswaldo Cruz &#8211; Biografia<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-159845 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Revolt7-1.jpg\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"300\" \/><strong>Oswaldo Cruz<\/strong><\/p>\nEste perfil biogr\u00e1fico de\u00a0<strong>Oswaldo Cruz<\/strong>\u00a0destaca sua atua\u00e7\u00e3o \u00e0 frente da Dire\u00e7\u00e3o Geral de Sa\u00fade P\u00fablica de 1903 a 1909, quando liderou campanhas sanit\u00e1rias marcantes no Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital do pa\u00eds.\n\nDestaca tamb\u00e9m sua lideran\u00e7a no Instituto Oswaldo Cruz, onde atuou como diretor do final de 1902 a 1916, quando a sa\u00fade debilitada o obrigou a renunciar e se mudar para a cidade serrana de Petr\u00f3polis, n\u00e3o muito longe do Rio.\n\nO perfil tamb\u00e9m oferece vislumbres de sua vida privada, testemunhando sentimentos e feitos raramente divulgados quando o sujeito \u00e9 uma figura p\u00fablica \u2013 por exemplo, seu amor e devo\u00e7\u00e3o \u00e0 esposa e aos filhos, al\u00e9m de instant\u00e2neos prosaicos de sua vida cotidiana, onde vemos sua preocupa\u00e7\u00e3o com a gest\u00e3o do or\u00e7amento familiar, ano ap\u00f3s ano minuciosamente registrado em um caderno que ele sugestivamente intitulou \u201cO Livro da Verdade\u201d.\n\n<strong>Deve-se notar que algo est\u00e1 faltando em seus arquivos pessoais:<\/strong>\u00a0n\u00e3o h\u00e1 nenhum sinal de nefrite, a doen\u00e7a incur\u00e1vel que o assediou nos \u00faltimos dez anos de sua vida e que o levou aos 44 anos.\n\nMas \u00e9 f\u00e1cil imaginar o impacto dram\u00e1tico dessa doen\u00e7a e as emo\u00e7\u00f5es que despertou em sua fam\u00edlia e amigos, e na equipe de profissionais que liderou em Manguinhos.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.tvcultura.com.br\/historia.abril.com.br(Celso Miranda)\/Portal S\u00e3o Francisco\/oswaldocruz.fiocruz.br\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revolta da Vacina, Brasil, Hist\u00f3ria, Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Pol\u00edtica, Vacina\u00e7\u00e3o, Campanha, Causa, Revolta da Vacina<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10097,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-26005","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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