{"id":25849,"date":"2015-12-17T00:00:00","date_gmt":"2015-12-17T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/companhias-de-comercio-4\/"},"modified":"2026-09-01T17:56:28","modified_gmt":"2026-09-01T17:56:28","slug":"companhias-de-comercio-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/companhias-de-comercio-4\/","title":{"rendered":"Companhias de Com\u00e9rcio"},"content":{"rendered":"\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio &#8211; Hist\u00f3ria<\/strong>\n\n<strong>Companhias mercantis<\/strong>\u00a0organizadas pelos Estados colonialistas para aumentar a produ\u00e7\u00e3o, enfrentar melhor a concorr\u00eancia estrangeira e tornar mais eficiente e lucrativo o com\u00e9rcio entre a col\u00f4nia e a metr\u00f3pole.\n\nO Estado entra com uma parte do capital dessas companhias, mas elas t\u00eam administra\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma. Entre os s\u00e9culos XVII e XVIII, Portugal cria quatro companhias.\n\nEm 1649 \u00e9 criada a\u00a0<strong>Companhia Geral do Com\u00e9rcio do Brasil\u00a0<\/strong>para auxiliar a resist\u00eancia pernambucana \u00e0s invas\u00f5es holandesas e apoiar a recupera\u00e7\u00e3o da agricultura canavieira do Nordeste depois dos conflitos.\n\nSeu papel principal \u00e9 fornecer escravos e garantir o transporte do a\u00e7\u00facar para a Europa.\n\nEm 1682 \u00e9 fundada a Companhia do Com\u00e9rcio do Maranh\u00e3o, que tamb\u00e9m atua na agricultura exportadora de a\u00e7\u00facar e algod\u00e3o com fornecimento de cr\u00e9dito, transporte e escravos aos produtores.\n\nNo s\u00e9culo XVIII s\u00e3o fundadas pelo marqu\u00eas de Pombal as companhias gerais do com\u00e9rcio do Gr\u00e3o-Par\u00e1 e do Maranh\u00e3o (1755) e de Pernambuco e Para\u00edba (1759).\n\nAmbas refor\u00e7am as atividades extrativistas e agroexportadoras do Norte e Nordeste da col\u00f4nia, um pouco abandonadas em raz\u00e3o do crescimento da minera\u00e7\u00e3o de ouro e de diamante na regi\u00e3o das \u201cminas gerais\u201d.\n\nAs\u00a0<strong>companhias<\/strong>\u00a0det\u00eam privil\u00e9gios como monop\u00f3lio de compra e venda de mercadorias em sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o, autonomia para organizar o transporte mar\u00edtimo, estabelecer pre\u00e7os e condi\u00e7\u00f5es de financiamento e pagamento.\n\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio &#8211; O que foram<\/strong>\n\nAs primeiras companhias de com\u00e9rcio, tamb\u00e9m chamadas\u00a0<strong>guildas, hansas, sociedades, fraternidades, corpora\u00e7\u00f5es, uni\u00f5es<\/strong>, eram associa\u00e7\u00f5es de comerciantes com o mesmo objetivo, possu\u00edam as mesmas formas de organiza\u00e7\u00e3o. Surgiram na Idade M\u00e9dia, a partir do s\u00e9culo XI-XII, para atender aos interesses durante o com\u00e9rcio de longa dist\u00e2ncia \u2013 principalmente mar\u00edtimo -, de algumas regi\u00f5es do mundo. Serviam ainda para garantir a seguran\u00e7a contra a pirataria e assaltos ou evitar a concorr\u00eancia desigual de outros comerciantes. Somente as despesas comuns eram divididas, tendo cada participante a liberdade total de comprar e vender o que e a quem quisesse.\n\nA primeira Companhia Regulamentada surgiu na Inglaterra, no s\u00e9culo XIII, fundada pela\u00a0<strong>Associa\u00e7\u00e3o dos Comerciantes do Entreposto<\/strong>\u00a0(nos pa\u00edses baixos) que comercializava l\u00e3 inglesa. A seguir vieram, dotadas de \u201ccartas\u201d (autoriza\u00e7\u00f5es) pela coroa,\u00a0<strong>a Carta dos Comerciantes do B\u00e1ltico<\/strong>\u00a0(1404),\u00a0<strong>a Carta dos Comerciantes Aventureiros<\/strong>\u00a0(inglesa-1407) e\u00a0<strong>a Carta dos Comerciantes da Noruega, Su\u00e9cia e Dinamarca<\/strong>\u00a0(1408). Na It\u00e1lia predominavam as\u00a0<strong>associa\u00e7\u00f5es de capitais e pessoas<\/strong>, incluindo os empr\u00e9stimos mar\u00edtimos assegurados pelo navio ou pela carga, que se desenvolveram em Veneza e G\u00eanova a partir do s\u00e9culo XIII.\n\nAs companhias de com\u00e9rcio desempenharam nos s\u00e9culos XVI-XVIII, durante a Era Mercantilista, um papel importante na expans\u00e3o comercial e colonial das pot\u00eancias mar\u00edtimas europeias, assumindo a forma das\u00a0<strong>Companhias de Carta<\/strong>\u00a0(Chartered Companies).\n\n<strong>Eram de dois tipos:<\/strong>\u00a0as Companhias Regulamentadas pelo Estado e as joint-stocks, de capital privado, por a\u00e7\u00f5es. Os investidores lucravam com os dividendos e a valoriza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o podendo ser responsabilizados pelos d\u00e9bitos da companhia.\n\nAs primeiras companhias de capital privado surgiram na Inglaterra, no s\u00e9culo XVI, entre elas a dos\u00a0<strong>Comerciantes Aventureiros<\/strong>, que foi transformada na\u00a0<strong>Cia. da Mosc\u00f3via ou Cia. Russa<\/strong>, em 1555. Outra foi a<strong>\u00a0Cia. de Veneza<\/strong>, em 1583, e a\u00a0<strong>Cia. das \u00cdndias Orientais<\/strong>, constitu\u00edda pelos ingleses em 1600. Essa companhia possu\u00eda o monop\u00f3lio, no Reino Unido, do com\u00e9rcio com as \u00cdndias Orientais e se tornou mais poderosa em 1763 (Tratado de Paris), quando as vit\u00f3rias de Clive fizeram os franceses abandonarem a \u00cdndia.\n\nAs primeiras companhias de com\u00e9rcio da Fran\u00e7a foram criadas por Henrique IV, entre elas a\u00a0<strong>Cia do Canad\u00e1<\/strong>, em 1599 e a\u00a0<strong>Sociedade para o Com\u00e9rcio das \u00cdndias Orientais<\/strong>\u00a0em 1604, e depois a\u00a0<strong>Cia. das Ilhas da Am\u00e9rica e a Cia. das \u00cdndias Ocidentais<\/strong>.\n\n<strong>As Companhias de Com\u00e9rcio da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica<\/strong>\u00a0foram constitu\u00eddas a partir do s\u00e9culo XVI. De Portugal destaca-se a\u00a0<strong>Cia. Geral de Com\u00e9rcio do Brasil<\/strong>\u00a0(1649), a\u00a0<strong>Cia. de Cacheu e Rios de Guin\u00e9<\/strong>\u00a0(1676) e a\u00a0<strong>Cia. do Com\u00e9rcio de Cabo Verde e Cacheu.<\/strong>\u00a0A Espanha criou, em 1728,\u00a0<strong>a Cia. de Caracas<\/strong>\u00a0e em 1747, a\u00a0<strong>das \u00cdndias Orientais<\/strong>, de curta dura\u00e7\u00e3o. O capitalismo antimonopolista veio acabar com o sistema das Companhias do Com\u00e9rcio.\n\nEntre as companhias da Holanda, destacou-se a\u00a0<strong>Cia. Holandesas das \u00cdndias Orientais<\/strong>, formada em 1602 pela uni\u00e3o de seis grupos que vinham, isoladamente, realizando o com\u00e9rcio com o Oriente.\n\nPassou a ter o monop\u00f3lio de navega\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio e administra\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es do Oriente, cabendo ao Estado supervision\u00e1-la. Possu\u00eda todos os poderes e privil\u00e9gios de um Estado Soberano, mas em nome da Rep\u00fablica das Sete Prov\u00edncias Unidas.\n\nEm 1621 foi fundada a\u00a0<strong>Cia. Holandesa das \u00cdndias Ocidentais<\/strong>, com o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio da Am\u00e9rica, (principalmente com o Brasil, devido \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio de a\u00e7\u00facar para Europa) costa ocidental da \u00c1frica e Oceano Pac\u00edfico a leste das Molucas. A sede era em Amsterd\u00e3, onde se cria, em 1609, o Banco de Amsterd\u00e3 para apoiar o com\u00e9rcio colonial, fonte de metais preciosos.\n\n\u00c9 na din\u00e2mica financeira dessa companhia neerlandesa que surgir\u00e1 o conceito atual de a\u00e7\u00f5es (aktien) por via da divis\u00e3o, em 1610, do seu capital em quotas iguais e transfer\u00edveis. Tornar-se-\u00e1, contudo, devido aos bons resultados, cada vez mais um organismo estatizado, com autoridade militar e poder b\u00e9lico, para administrar ou impor os seus direitos e pretens\u00f5es nos mares.\n\nOs impostos sobre as mercadorias e as rendas encher\u00e3o os cofres do Estado neerland\u00eas.\n\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio &#8211; Pol\u00edtica mercantilista<\/strong>\n\nPor interm\u00e9dio das companhias de com\u00e9rcio, o Estado portugu\u00eas busca garantir os impostos da Coroa e os lucros da burguesia com o bom funcionamento dos engenhos de a\u00e7\u00facar e das planta\u00e7\u00f5es de algod\u00e3o e fumo.\n\nEssas atividades dependem do transporte dos produtos entre Brasil e Portugal, do cr\u00e9dito para a compra de escravos e do fornecimento de utens\u00edlios, ferramentas, g\u00eaneros aliment\u00edcios e tecidos que a col\u00f4nia n\u00e3o produz. Mesmo n\u00e3o sendo uma experi\u00eancia muito bem-sucedida \u2013 por falta de capital suficiente ou m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o -, as companhias de com\u00e9rcio representam uma tentativa do Estado de dar maior efici\u00eancia \u00e0 pol\u00edtica mercantilista, orientando os investimentos para determinadas \u00e1reas e estimulando-os pela concess\u00e3o de privil\u00e9gios a comerciantes e acionistas.\n\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio &#8211; Movimentos nativistas<\/strong>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" title=\"Companhias de Com\u00e9rcio\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ccompan1.jpg\" alt=\"Companhias de Com\u00e9rcio\" \/>\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio<\/strong><\/p>\nEntre meados do s\u00e9culo XVII e come\u00e7o do s\u00e9culo XVIII, os abusos da Coroa na cobran\u00e7a de impostos e dos comerciantes portugueses na fixa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os come\u00e7am a gerar insatisfa\u00e7\u00e3o entre a elite agr\u00e1ria da col\u00f4nia.\n\n<strong>Surgem os chamados movimentos nativistas<\/strong>: contesta\u00e7\u00e3o de aspectos do colonialismo e primeiros conflitos de interesses entre os senhores do Brasil e os de Portugal.\n\nEntre esses movimentos destacam-se a revolta dos Beckman, no Maranh\u00e3o (1684); a Guerra dos Emboabas, em Minas Gerais (1708), e a Guerra dos Mascates, em Pernambuco (1710).\n\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio &#8211; Revolta dos Beckman<\/strong>\n\n<strong>Rebeli\u00e3o<\/strong>\u00a0promovida por propriet\u00e1rios rurais maranhenses contra a\u00a0<strong>Companhia de Com\u00e9rcio<\/strong>\u00a0do Estado do Maranh\u00e3o, em 1684. No centro da revolta, a quest\u00e3o do trabalho escravo dos \u00edndios e a quest\u00e3o dos pre\u00e7os das mercadorias, dos juros e dos impostos.\n\nEm 1682, Portugal cria a Companhia de Com\u00e9rcio do Maranh\u00e3o com o objetivo de estimular o desenvolvimento econ\u00f4mico do norte do Brasil.\n\nEm troca da concess\u00e3o do monop\u00f3lio do com\u00e9rcio do a\u00e7\u00facar e da arrecada\u00e7\u00e3o dos impostos, a empresa deveria fornecer escravos, utens\u00edlios, equipamentos e alimentos aos colonos a juros baixos.\n\nMas ela n\u00e3o cumpre o compromisso assumido, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao fornecimento de escravos africanos.\n\nA falta de m\u00e3o-de-obra desorganiza as planta\u00e7\u00f5es. Chefiados pelos irm\u00e3os Manuel e Tom\u00e1s Beckman, em 1684 os propriet\u00e1rios rurais revoltam-se contra a empresa, atacando suas instala\u00e7\u00f5es.\n\nExpulsam os padres jesu\u00edtas, que continuam a opor-se \u00e0 escraviza\u00e7\u00e3o de \u00edndios para trabalhar nas propriedades, na falta de negros africanos.\n\nA seguir, dep\u00f5em o governador e assumem o controle da capitania. A metr\u00f3pole interv\u00e9m, enviando uma frota armada para S\u00e3o Lu\u00eds. Manuel Beckman \u00e9 preso e decapitado e Tom\u00e1s, condenado ao desterro.\n\nOs demais l\u00edderes s\u00e3o condenados \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua. A Companhia de Com\u00e9rcio \u00e9 extinta em 1685, mas os jesu\u00edtas retornam a suas atividades.\n\nA\u00a0<strong>revolta dos Beckman<\/strong>\u00a0tem suas origens em problemas no com\u00e9rcio de escravos no Maranh\u00e3o. Para abastecer as grandes propriedades da regi\u00e3o, Portugal cria a Companhia de Com\u00e9rcio, em 1682, empresa que monopoliza o com\u00e9rcio de escravos e de g\u00eaneros aliment\u00edcios importados. Deve fornecer 500 escravos negros por ano, em m\u00e9dia, durante 20 anos e garantir o abastecimento de bacalhau, vinho e farinha de trigo. N\u00e3o consegue cumprir esses compromissos. A car\u00eancia de m\u00e3o-de-obra desorganiza as planta\u00e7\u00f5es e a escassez de alimentos revolta a popula\u00e7\u00e3o.\n\nRea\u00e7\u00e3o dos colonos \u2013 Em fevereiro de 1684 os habitantes de S\u00e3o Lu\u00eds decidem tomar os dep\u00f3sitos da Companhia de Com\u00e9rcio e acabar com o monop\u00f3lio. Chefiados por Manuel e Tom\u00e1s Beckman, grandes propriet\u00e1rios rurais, prendem o capit\u00e3o-mor Baltazar Fernandes e instituem um governo pr\u00f3prio, escolhido entre os membros da C\u00e2mara Municipal. Sem prop\u00f3sitos autonomistas, pedem a interven\u00e7\u00e3o da metr\u00f3pole. Portugal acaba com o monop\u00f3lio da Companhia de Com\u00e9rcio. O novo governador chega \u00e0 regi\u00e3o em 1685. Executa os principais cabe\u00e7as do movimento.\n\nOs demais s\u00e3o condenados \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua ou ao degredo.\n\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio &#8211; Guerra dos Emboabas<\/strong>\n\nAs disputas pela posse e explora\u00e7\u00e3o das minas de ouro s\u00e3o os motivos da Guerra dos Emboabas. Os portugueses, chamados de emboabas, reivindicam o privil\u00e9gio na explora\u00e7\u00e3o das minas. Por\u00e9m, paulistas e sertanejos tamb\u00e9m t\u00eam o direito de explor\u00e1-las. Explodem conflitos em toda a regi\u00e3o das minas. Um deles, que envolve paulistas comandados por Manuel de Borba Gato e emboabas apoiados por brasileiros de outras regi\u00f5es, assume grandes propor\u00e7\u00f5es.\n\nCap\u00e3o da Trai\u00e7\u00e3o \u2013 Sob o comando de Manuel Nunes Viana, proclamado governador de Minas, os emboabas decidem atacar os paulistas concentrados em Sabar\u00e1. No Arraial da Ponta do Morro, atual Tiradentes, um grupo de 300 paulistas investe contra os portugueses e seus aliados, mas acaba se rendendo. Bento do Amaral Coutinho, chefe dos emboabas, desrespeita garantias estabelecidas em casos de rendi\u00e7\u00e3o e, em fevereiro de 1709, chacina os paulistas no local que fica conhecido como Cap\u00e3o da Trai\u00e7\u00e3o. O governador-geral Ant\u00f4nio Coelho de Carvalho interv\u00e9m e obriga Nunes Viana a deixar Minas.\n\nPara melhor administrar a regi\u00e3o, \u00e9 criada em 9 de novembro de 1709 a capitania de S\u00e3o Paulo e Minas, governada por Ant\u00f4nio de Carvalho. Em 21 de fevereiro de 1720, Minas separa-se de S\u00e3o Paulo.\n\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio &#8211; Guerra dos Mascates<\/strong>\n\nO conflito de interesses entre os comerciantes portugueses instalados no Recife, chamados pejorativamente de mascates, e os senhores de engenho de Olinda d\u00e1 origem \u00e0 Guerra dos Mascates.\n\nOlinda \u00e9 a sede do poder p\u00fablico na \u00e9poca e os senhores de engenho t\u00eam grande influ\u00eancia nos rumos da capitania. No in\u00edcio de 1710, o governador de Pernambuco, Sebasti\u00e3o de Castro Caldas, decide promover Recife, onde concentram-se os comerciantes portugueses, a sede do governo.\n\nConfronto Olinda-Recife \u2013 A popula\u00e7\u00e3o de Olinda se rebela contra a decis\u00e3o e ataca Recife, dia 4 de mar\u00e7o. Destr\u00f3i o pelourinho da vila, s\u00edmbolo do poder pol\u00edtico municipal, expulsa o governador e entrega o poder ao bispo de Olinda, dom Manuel \u00c1lvares da Costa. A metr\u00f3pole envia outro governador a Pernambuco, F\u00e9lix Vasconcelos, que toma posse em 10 de janeiro de 1711.\n\n<strong>Os conflitos continuam at\u00e9 7 de abril de 1714, quando \u00e9 feito um acordo:\u00a0<\/strong>Recife permanece como capital e o governador passa a morar seis meses em cada vila.\n\n<strong>Companhias de Com\u00e9rcio &#8211; Revolta de Filipe dos Santos<\/strong>\n\nNa regi\u00e3o das minas, o ouro em p\u00f3 era utilizado como se fosse moeda corrente. Com a cria\u00e7\u00e3o das Casas de Fundi\u00e7\u00e3o em Minas Gerais, em 1719, a circula\u00e7\u00e3o de ouro em p\u00f3 foi proibida.\n\nAs casas de Fundi\u00e7\u00e3o foram criadas pelo governo portugu\u00eas para evitar o contrabando de ouro e obrigar o colono a pagar o quinto devido \u00e0 Coroa. Todo ouro descoberto deveria ser encaminhado a essas reparti\u00e7\u00f5es, onde era derretido e, depois de separada a parte do rei, transformado em barras. Foi contra essas condi\u00e7\u00f5es do governo que ocorreu a revolta de 1720, chefiada por Filipe dos Santos Freire.\n\nA Revolta de Filipe dos Santos foi motivada, portanto, apenas por fatores econ\u00f4micos. Seus objetivos eram impedir o estabelecimento das Casas de Fundi\u00e7\u00e3o e manter a legalidade da circula\u00e7\u00e3o de ouro em p\u00f3.\n\nEm 28 de junho de 1720 teve in\u00edcio a revolta em Vila Rica (atual Ouro Preto). Cerca de 2 000 revoltosos dirigiram-se para Ribeir\u00e3o do Carmo, atual Mariana, e pressionaram o governador de Minas, Dom Pedro de Almeida, Conde de Assumar, para que atendesse \u00e0s suas exig\u00eancias. Este concordou com os pedidos dos revoltosos, pois n\u00e3o contava com for\u00e7as armadas para enfrent\u00e1-los.\n\nAssim que conseguiu tropas suficientes, o governador esmagou a revolta, mandando prender os cabe\u00e7as do movimento. Filipe dos Santos foi enforcado (16 de julho de 1720), e seu corpo esquartejado ap\u00f3s a execu\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>A Companhia Geral do Com\u00e9rcio do Brasil &#8211; 1649-1720<\/strong>\n\n<b>&#8230; Ent\u00e3o um dos assistentes (a conselho, na presen\u00e7a de D. Jo\u00e3o IV), vestido da roupeta da Sociedade, em que o- pu\u00eddo e es- verdeado contrastava com o brilhante dos trajes cortez\u00f5es, levantou- -se para advertir que da f\u00e9 viviam os inquisidores, mas que os padres da Companhia por ela morriam:<\/b>\u00a0entre os dois gr\u00eamios a diferen\u00e7a era. essa.\n\nDaquele momento em diante a Inquisi\u00e7\u00e3o portuguesa tinha encontrado pode dizer-se que o -seu primeiro advers\u00e1rio&#8230; Esse advers\u00e1rio, t\u00e3o poderoso que chegou a p\u00f4r em perigo a pr\u00f3pria exist\u00eancia do Santo Of\u00edcio, \u2014 era Ant\u00f4nio Vieira\n\nA rivalidade entre a Inquisi\u00e7\u00e3o e a Companhia de Jesus vinha de longe \u2014 dos primeiros tempos da introdu\u00e7\u00e3o em Portugal do tribunal da f\u00e9. &#8220;Quest\u00f5es de primazia&#8221; os dividiam, diz o ilustre L\u00facio de Azevedo\n\nSim, aparentemente. Mas o diss\u00eddio era mais profundo, tinha ra\u00edzes na pr\u00f3pria natureza de cada um dos institutos.\n\nEm primeiro lugar, eram &#8220;os dois mais eficientes fatores da Contra-Reforma \u2014 oficiais do mesmo of\u00edcio&#8230; Rivais, pois. Comungando no objetivo, mas t\u00e3o diferentes no esp\u00edrito&#8217; e\u00a0 m\u00e9todos!\n\nUma integrada em ordem antiga, brasonada de velhas tradi\u00e7\u00f5es de primazia intelectual, s\u00e9ria, dogm\u00e1tica,. .como deposit\u00e1ria da verdade que o Doutor Ang\u00e9lico para sempre ordenara numa definitiva catedral.\n\n<strong>Moderna a Sociedade, em que, sob uma castrense se fundem, como no car\u00e1ter espanhol do seu criador, os contr\u00e1rios:<\/strong>\u00a0urna especula\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica desinteressada, um esp\u00edrito mission\u00e1rio que leva ao an\u00f4nimo sacrif\u00edcio no sert\u00e3o e um realismo que se adapta aos neg\u00f3cios do mundo corno a pele ao corpo. Quixote e _Sancho\u2026\n\nA urna e outra importava extinguir a heresia \u2014 o Santo Of\u00edcio cirurgicamente, extirpando-a corno se corta e extrai um tumor; o Jesu\u00edta medicamente, pela persuas\u00e3o, pela doutrina\u00e7\u00e3o, pela capta\u00e7\u00e3o e at\u00e9, homeopaticamente, pela transig\u00eancia e infiltra\u00e7\u00e3o no campo adverso&#8230;\n\nO Tribunal era r\u00edgido, severo, cego e fatal, como a triste figura da Justi\u00e7a que os homens inventaram. N\u00e3o, decerto, propositadamente cruel. E at\u00e9, \u00e0 sua maneira, benigno; mas autom\u00e1tico e inflex\u00edvel. Robot insaci\u00e1vel, que n\u00e3o podia parar, nem moer no vasio, que exigia sempre mat\u00e9ria prima.. . Fazedor de hereges, diziam os inimigos.\n\nA\u00a0<strong>Companhia de Jes\u00fas<\/strong>, internacional e mission\u00e1ria, filosofava, pregava, ensinava, confessava, jamais, ausente, sempre militante. Desse seu esp\u00edrito aberto a todos os horizontes, dessa sua vida multiforme e ativa, lhe vinha\u2019 certa toler\u00e2ncia nem sempre cautelosa, uma plasticidade tal que, por vezes, escandalizava, como no caso c\u00e9lebre dos ritos s\u00ednicos, e que o jansenista Pascal implacavelmente lhe verberou nas Provinciales.\n\nO que n\u00e3o exclu\u00eda, por\u00e9m, um nacionalismo vibrante.\n\nAntes, porque imiscu\u00eddos no s\u00e9culo, os jesu\u00edtas auscultavam, e sentiam, o sofrimento da na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 materialmente oprimida, mas moralmente vexada, pelo dom\u00ednio castelhano. Da\u00ed o. Seu papel na revolu\u00e7\u00e3o de 1640.\n\n<strong>Da\u00ed tamb\u00e9m que \u2014 enquanto o Santo Oficio fornecia um inquisidor \u00e0s cabalas castelhanas contra D. Jo\u00e3o IV \u2014 tanto concorressem para a consolida\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia reconquistada<\/strong>: j\u00e1 pela sua a\u00e7\u00e3o na defesa, recupera\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e unifica\u00e7\u00e3o do Brasil (a prote\u00e7\u00e3o do \u00edndio tinha, n\u00e3o s\u00f3 um car\u00e1ter humanit\u00e1rio e prosel\u00edtico, mas um resultado unificante), j\u00e1 pela inteligente atitude tomada no reino para com os crist\u00e3os novos, de congra\u00e7amento nacional e de preserva\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio.\n\n\u00c9 natural que, corno presume L\u00facio de Azevedo. a aproxima\u00e7\u00e3o entre jesu\u00edtas e judeus se tivesse dado com motivo imediato na questi\u00fancula dos inquisidores com os padres da Universidade de \u00c9vora por m\u00f4r de saber-se quem teria prefer\u00eancia na compra dum lote de ma\u00e7\u00e3s; conflito que, ali\u00e1s, n\u00e3o era j\u00e1, naquela cidade. o primeiro, com id\u00eanticos \u2014 e t\u00e3o graves&#8230; \u2014 fundamentos.\n\nE \u00e9 tamb\u00e9m de admitir que, sem Ant\u00f4nio Vieira, a Companhia se n\u00e3o atrevesse a patrocinar a causa dos hereges, nem a afrontar o Santo-Of\u00edcio nessa. mat\u00e9ria, sen\u00e3o dalguma forma t\u00edmida e indireta.\n\nJ\u00e1 em tempo de Filipe IV os defendera; mas os documentos estudados pelo Pe. Francisco Rodrigues mostram que os dirigentes da Sociedade antes se assustaram que exultaram com a ofensiva do grande pregador.\n\nE n\u00e3o sem fundamento j\u00e1 que eram os inquisidores -quem traduzia o sentimento nacional, impregnado de sarro medievo.\n\nCerto \u00e9 que na quest\u00e3o das ma\u00e7\u00e3s de \u00c9vora, que subiu a Roma e provocou uma en\u00e9rgica interven\u00e7\u00e3o do rei a favor da Inquisi\u00e7\u00e3o. foram os inacianos acusados de se socorrerem da ajuda da gente de na\u00e7\u00e3o; e que o Padre Ant\u00f4nio Vieira, atacando o Santo- Of\u00edcio no mais vivo do seu cerne, fazia chegar \u00e0s m\u00e3os de D. Jo\u00e3o IV um papel an\u00f4nimo advogando o perd\u00e3o geral dos crist\u00e3os novos, a igualdade de direitos para \u00eales e a modifica\u00e7\u00e3o das formas processuais do Tribunal \u2014 ao mesmo tempo que o Assistente da Companhia junto do Geral diligenciava obter do Pont\u00edfice esta mesma modifica\u00e7\u00e3o dos estilos inquisitoriai\n\nEstavam abertas as hostilidades. E, nelas, durante a maior parte da sua larga vida, n\u00e3o deixou quase nunca Vieira, com o seu g\u00e9nio impetuoso, de atacar, reluzida a Inquisi\u00e7\u00e3o, quase sempre, a UME defensiva mais ou menos eficaz, embora por fim vencedora.\n\n<strong>O g\u00eanio de Vieira\u2026<\/strong>\n\nNesta luta entre o Santo Of\u00edcio e a Companhia de Jesus, que logo foi acesa guerra entre o Tribunal e a \u201cgens\u201d hebraica, \u00e9 pe\u00e7a mestra dos acontecimentos a personalidade do Padre Ant\u00f4nio Vieira.\n\nInaciano por voca\u00e7\u00e3o, absolutamente dedicado \u00e0 Companhia, viveu, contudo, intensamente no s\u00e9culo, e o seu grande fraco foi a pol\u00edtica.\n\nPorque, te\u00f3logo e tribuno, era fundamentalmente um homem de a\u00e7\u00e3o, que ao servi\u00e7o da a\u00e7\u00e3o p\u00f4s o seu poderoso g\u00eanio verbal.\n\nHomem de a\u00e7\u00e3o, sim, mas n\u00e3o \u00e0 maneira, inglesa ou americana, do chefe de empresa ou do Ieader parlamentar, que empiricamente se dobra e amolda \u00e0 realidade qiiztidiana e com ela vai tecendo a sua teia ou fazendo o seu jogo.\n\n<b>Homem de a\u00e7\u00e3o no estilo aventureiro e heroico\u00a0do Cavaleiro da Triste Figura:<\/b>\u00a0grande criador de arquiteturas ideias, que audaciosamente ergue na imagina\u00e7\u00e3o os planos de ingente f\u00e1brica, e logo, a poder de tenac-dade, de persuas\u00e3o, dial\u00e9tica, busca imp\u00f4-los, faz\u00ea-la surgir no e contra o mundo das coisas sens\u00edveis.\n\n<b>Extraordin\u00e1rio poeta do agir, se falhou ou se enganou \u2014 por discord\u00e2ncia dos seus senhor\u00a0com as humildes realidades do espa\u00e7o e do tempo \u2014, em quase todas\u00a0as v\u00e1rias empresas pol\u00edticas ou diplom\u00e1ticas em que empenhou a sua prodigiosa atividade, numa coisa o seu g\u00e9nio prof\u00e9tico e o seu. amor da p\u00e1tria acertaram:<\/b>\u00a0no sentimento daquilo que Jaime Cortes\u00e3o veio a p\u00f4r no nosso tempo em evid\u00eancia \u2014 a saber, que a Restaura\u00e7\u00e3o se estrutura sobre uma realidade econ\u00f3mica, &#8220;o tr\u00e1fico mar\u00edtimo \u00e0 dist\u00e2ncia&#8221; com base no a\u00e7\u00facar do Brasil, que, pol\u00edtica, e moralmente, se traduz na f\u00f3rmula: Imp\u00e9rio Atl\u00e2ntico. Se deste fato medular tiveram consci\u00eancia mais que ningu\u00e9m os Jesu\u00edtas, como assevera Cortez\u00e3o, a Raz\u00e3o que teoriza essa consci\u00eancia e a Voz prof\u00e9tica que a explicita s\u00e3o as de Vieira.\n\nDesde o primeiro memorial de 1643, sempre o Jesu\u00edta insistiu em que \u00e1 manuten\u00e7\u00e3o e alargamento do com\u00e9rcio nos s\u00e3o indispens\u00e1veis, se queremos resistir \u00e0 procela e sobreviver como na\u00e7\u00e3o independente; ideia que n\u00e3o mais largou e teimosamente foi propugnando, at\u00e9 conseguir fazer vingar a sua express\u00e3o pr\u00e1tica, na constitui\u00e7\u00e3o da Companhia do Brasil.\n\n<strong>Parece oportuno pedir opini\u00e3o aos fatos e aos n\u00fameros que os simbolizam\u00a6<\/strong>\n\nPorque, enfim, as na\u00e7\u00f5es, como os indiv\u00edduos, t\u00eam uma vida espiritual, moral, intelectual e f\u00edsica, mas tamb\u00e9m urna vida econ\u00f4mica.\n\nQuando D. Jo\u00e3o IV sobe ao poder, a grande, a imediata realidade \u00e9 a guerra. A guerra fazem-na os homens \u2014 mas os homens comem, bebem, vestem e, para lutar, precisam armas e muni\u00e7\u00f5es.\n\nTudo coisas que se adquirem com dinheiro.\n\n<strong>Napole\u00e3o, que devia saber da mat\u00e9ria, tr\u00eas elementos s\u00f3 requeria para ganhar batalhas:<\/strong>\u00a0dinheiro, dinheiro e dinheiro..\n\nTudo coisas que se adquirem com dinheiro.\n\n<strong>Napole\u00e3o, que devia saber da mat\u00e9ria, tr\u00eas elementos s\u00f3 requeria para ganhar batalhas<\/strong>: dinheiro, dinheiro e dinheiro.. .\n\n<b>Ou, posta a quest\u00e3o em termos\u00a0militares:<\/b>\u00a0a &#8220;frente&#8221; depende da &#8220;retaguarda&#8221; \u2014 como um porto do seu &#8220;hinterland&#8221;.\n\nOra, n\u00e3o h\u00e1 na\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas; menos que nenhuma outra o Portugal de 1640.\n\nAssim que se senta no mal seguro trono, ainda n\u00e3o passada a euforia do milagroso triunfo, o Rei, por decreto de 24 de dezembro de 1640, &#8220;manda que o Conselho da Fazenda fa\u00e7a chamar os mercadores estrangeiros e os anime a continuar o seu com\u00e9rcio, segurando-lhes todo o bom acolhimento e favor; e que os convide outrossim a trazer armas, p\u00f3lvora e muni\u00e7\u00f5es, as quais se lhes pagar\u00e3o por justo pre\u00e7o nos direitos que deverem, al\u00e9m de se lhes fazer merc\u00ea&#8221;\n\n<strong>Pouco depois, por provis\u00e3o r\u00e9gia de 21 de janeiro de 1641, declara:<\/strong>\u00a0\u201cMe praz e hei por bem de conceder licen\u00e7a para que todas e quaisquer pessoas, de qualquer na\u00e7\u00e3o, estado, profiss\u00e3o e condi\u00e7\u00e3o que seja, possam livremente vir a estes Reinos com suas naus, embarca\u00e7\u00f5es, mercadorias e empregos, de todas as sortes, g\u00eaneros e f\u00e1bricas que forem, ou mand\u00e1-los em baixo de seus nomes pr\u00f3prios ou de outros terceiros e comiss\u00e1rios, dirigidas aos correspondentes que lhes parecer, e tirar destes Remos o procedido das ditas mercadorias e empregos, quando e como lhes estiver bem, sem embargo das proibi\u00e7\u00f5es que at\u00e9 agora havia, que levanto, e hei por levantadas, por esta minha Provis\u00e3o, para que o com\u00e9rcio seja franco e geral a iodos, sem que se lhes fa\u00e7a embargo, repres\u00e1lia ou mol\u00e9stia alguma; pagando somente \u00e0 minha Fazenda os direitos devidos e costumados. E prometo debaixo de minha palavra e f\u00e9 Real de cumprir e mandar cumprir e guardar inteira e infalivelmente tudo que nesta. Provis\u00e3o se cont\u00e9m\u2026\u201d.\n\nA 22 de fevereiro reduz a um, de 500 rs. por mo\u00ed-o, os 4 direitos, que os estrangeiros pagavam pelo sal que levavam de Portugal.\n\n<strong>Eis uma das primeiras, mais constantes preocupa\u00e7\u00f5es:<\/strong>\u00a0reatar, intensificar o tr\u00e1fico com o estrangeiro, sem o qual a na\u00e7\u00e3o, deficit\u00e1ria em alimentos (cereais. bacalhau) e sobretudo em produtos manufaturados, n\u00e3o poderia manter-se, viver, guerrear.\n\nMas o que se compra, paga-se. N\u00e3o t\u00ednhamos tesouro escondido \u2014 mas um er\u00e1rio sugado; n\u00e3o t\u00ednhamos minas de ouro ou de prata; n\u00e3o t\u00ednhamos capitais a render no estrangeiro; ainda se n\u00e3o inventara a exporta\u00e7\u00e3o invis\u00edvel pelo turismo&#8230;; s\u00f3 pod\u00edamos importar \u2014 exportando.\n\n<strong>E que ter\u00edamos n\u00f3s para exportar?<\/strong>\n\nLaranjas, lim\u00f5es, l\u00e3s, am\u00eandoas, figos, passas, presuntos, sebo, peixe salgado, sal, azeite e vinho.\n\nPor\u00e9m, de todos estes g\u00eaneros, os mais importantes (vinho \u00e0 parte), \u2014 sal, frutas, azeite &#8212; sa\u00edam em diminuto valor.\n\nDo vinho, que veio mais tarde a exportar-se em quantidades consider\u00e1veis, e que j\u00e1 seguramente era, em tempo de D. Jo\u00e3o IV, o nosso principal produto, podemos fazer ideia do que vender\u00edamos, sabendo que, entre 1678 e 1687, enviamos para Inglaterra, em m\u00e9dia, 7.700 pipas de vinho do Porto por ano.\n\n<strong>Ora pelo mapa do com\u00e9rcio com a Gr\u00e3-Bretanha de 1731 se v\u00ea que a propor\u00e7\u00e3o era ent\u00e3o a seguinte<\/strong>: 65 % de vinhos do Porto, 27 c\u00eda de vinhos da Madeira, e o restante de outros vinhos continentais\n\nNesta propor\u00e7\u00e3o teremos, para o per\u00edodo considerado de 1678-1687, urna exporta\u00e7\u00e3o total de 11.800 pipas para Inglaterra. IA roda desse n\u00famero era a capacidade consumidora do Brasil\u2026\n\nN\u00e3o ser\u00e1 disparatado calcular a exporta\u00e7\u00e3o de vinhos para os restantes mercados europeus em metade da que faz\u00edamos para a Gr\u00e3-Bretanha. Essa ser\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o em 1731, para a totalidade da exporta\u00e7\u00e3o do reino, segundo c\u00f4mputo da \u00e9poca.\n\nNa verdade, Fran\u00e7a e It\u00e1lia, pa\u00edses produtores, nenhum comprariam [o que, indiretamente, se pode, ali\u00e1s, deduzir das refer\u00eancias de D. Luiz da Cunha e a Holanda (por cujo interm\u00e9dio se faziam as sa\u00eddas para os mais pa\u00edses do norte) sacava de Portugal muito menos vinho do que a Inglaterra (como para um s\u00e9culo passado, se infere dos termos em que informa o mesmo diplomata).\n\nAtente-se, por\u00e9m, em que aquele n\u00famero de 11.800 pipas se refere ao \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XVII. Muit\u00edssimo outra havia de ser a situa\u00e7\u00e3o nos primeiros anos do reinado de D. Jo\u00e3o IV. Um ind\u00edcio nos \u00e9 fornecido pelo pre\u00e7o de vinho em Lisboa, que no 3.\u00b0 quartel do s\u00e9culo XVII se mantinha quase o mesmo que em 1605, havendo o custo da vida em geral subido mais de 100%.\n\nSe, pois, podemos calcular, para o \u00faltimo quartel do s\u00e9culo, uma exporta\u00e7\u00e3o total de cerca de 18.000 pipas de vinho, bem podemos, sem pessimismo supor uma exporta\u00e7\u00e3o de 10.000 pipas anuais entre 1640 e 1650.\n\nOu sejam 3.000.000 de canadas, que a 60 rs. a canada, perfaz 180 contos. Isto \u00e9, o total das sa\u00eddas de produtos metropolitanos n\u00e3o deve andar muito longe dos 200 contos.\n\nOra o valor das nossas importa\u00e7\u00f5es, no final do s\u00e9culo XVII, quando j\u00e1 em paz com a Espanha, oscilaria entre 250.000 e 450.000 libras.\n\nBem maiores haviam de ser as necessidades na quarta d\u00e9cada da cent\u00faria; imaginemos que da ordem das 500.000 libras t\u00e3o s\u00f3. Assim mesmo teremos uma importa\u00e7\u00e3o de mais de mil contos.\n\n<strong>Para pagar a diferen\u00e7a enorme entre o ativo e o passivo da balan\u00e7a comercial, s\u00f3 um recurso havia:<\/strong>\u00a0a venda dos produtos coloniais.\n\nDa \u00edndia, quase totalmente\u2019 perdida, n\u00e3o nos vinham, contudo, mais de entre 1 e 4 naus carregados por ano (o limite de 4 \u00e9 indicado por Jaime Cortes\u00e3o); os documentos e narrativas da \u00e9poca, referindo-se \u00e0 chegada a Lisboa, ou \u00e0 arribada ao Brasil, de naus da \u00edndia, falam sempre de 1 nau, 2 navetas, ou, excepcionalmente, 2 naus).\n\n<strong>Da \u00c1frica sabe-se que quase nada vinhas nesta \u00e9poca:<\/strong>\u00a0a ocidental fornecia escravos para o Brasil; o com\u00e9rcio da oriental era com a \u00edndia e Macau.\n\nRestava-nos o Brasil, donde chegavam, todos export\u00e1veis, o pau do nome da terra, o \u00f3leo de baleia, o tabaco, cujo valor ia avolumando, e, principalissimamente, o a\u00e7\u00facar que era ent\u00e3o &#8220;o mais importante artigo do escambo mar\u00edtimo internacional.\n\nEm 1640 o a\u00e7\u00facar exportado do Brasil para a Metr\u00f3pole computa-se em 1.800.000 arrobas, n\u00famero que se n\u00e3o deve ter por excepcionalmente elevado, mas por normal para a d\u00e9cada.\n\nO valor dessa partida era de 3398.860 libras, a um pre\u00e7o que se manteve sensivelmente estacion\u00e1rio de 1640 a 1650 (o mais alto da curva das cota\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os).\n\n<strong>Quanto de a\u00e7\u00facar seria solicitado pelo consumo metropolitano, e quanto ficaria livre para a exporta\u00e7\u00e3o?<\/strong>\n\nO consumo atual \u00e9 de menos de 12 quilos por pessoa e ano, em m\u00e9dia. Isto sendo o pre\u00e7o de uns 5500 por quilo, n\u00fameros redondos (a\u00e7\u00facar racionado).\n\nOra o gasto do a\u00e7\u00facar \u00e9 hoje enorme em compara\u00e7\u00e3o com o de h\u00e1 300 anos, per v\u00e1rios motivos, entre os quais avulta a generaliza\u00e7\u00e3o e populariza\u00e7\u00e3o do uso do caf\u00e9.\n\nNo meados do s\u00e9culo XVII, sem tal solicita\u00e7\u00e3o para o consumo, acrescia que o pre\u00e7o era proibitivo para a maioria das gentes. Cotava-se a arroba em Lisboa em por volta de 2500 rs. a 130 rs. o (Inflo. Valor atual de digamos 28S00.\n\nAssim, a capta\u00e7\u00e3o de 3 kg. por ano j\u00e1 ser\u00e1, decerto, bem favorecida. Para uma popula\u00e7\u00e3o de 1.200.000 pessoas, teremos 3.600.000 kg., cu sejam 240.000 arrobas.\n\nQue fossem 500.000. Ainda ficaria entre 1 milh\u00e3o e milh\u00e3o e meio de arrobas para colocar no estrangeiro. Qualquer coisa como um valor de 2 a 3 milh\u00f5es de libras, isto \u00e9, a, partir de 1642, mais de 4 a 6 mil contos de r\u00e9is.\n\n<b>Reduzamos ainda tudo metade, desconfiando, com L\u00facio de Azevedo, que haja exagero\u00a0nos n\u00fameros quer da produ\u00e7\u00e3o quer da exporta\u00e7\u00e3o:<\/b>\u00a0ainda o valor do a\u00e7\u00facar, como meio de troca no com\u00e9rcio externo, fica considerabil\u00edssimo.\n\nAcresce que o Brasil nos consumia, al\u00e9m de sal e azeite, vinho, que, havendo navega\u00e7\u00e3o para lev\u00e1-lo, n\u00e3o seria exagero computar em, nessa \u00e9poca. outro tanto como aquele que poder\u00edamos colocar nos mercados europeus, ou quase, vinho que n\u00e3o era j\u00e1 moeda de compra nos pa\u00edses do norte, porque excedia a sua capacidade de absor\u00e7\u00e3o, e que, trocado pelo curo branco ou mascavado brasileiro, passava a valer, por via deste, como instrumento de troca.\n\nPor outro lado, a parte do com\u00e9rcio brasileiro nas receitas fiscais do Estado era consider\u00e1vel.\n\n\u00c9 bem conhecida a pobreza do er\u00e1rio no s\u00e9culo XVII.\n\nD. Jo\u00e3o IV, sem embargo dos muitos e pesados impostos, da d\u00e9cima lan\u00e7ada para sustenta\u00e7\u00e3o da guerra e de. ter posto \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds os rendimentos da Casa de Bragan\u00e7a, vive em constante pen\u00faria.\n\nAs receitas nacionais estavam sempre consignadas, j\u00e1 para satisfa\u00e7\u00e3o de juros de empr\u00e9stimos, j\u00e1 para pagamento de ten\u00e7as, pens\u00f5es, servi\u00e7os, recompensas. Referindo-se embora \u00e0 \u00e9poca de D. Pedro II, e s\u00f3 aos direitos aduaneiros, todas os not\u00edcias dos documentos da \u00e9poca, concorrem para se receber por verdadeira, e tamb\u00e9m para o reinado do Restaurador, a asser\u00e7\u00e3o do an\u00f4nimo autor da Relaticn de la Cour de Portugal, de que os impostos, absorvidos pelas consigna\u00e7\u00f5es, &#8220;n\u00e3o chegam nunca at\u00e9 o Rei ou o Povo&#8221;.\n\nPara al\u00edvio da pobreza muito concorrida do Brasil.\n\nSegundo Figueiredo Falc\u00e3o, na receita total de 1607, de 1.672.270503 rs, entrava o Brasil com 66 contos (42 de rendimento dos d\u00edzimos e 24 de estanco do pau brasil). Em 1618 j\u00e1 a parte do Brasil \u00e9 de 78.000500 rs. Em 1619 de 78.400500 rs.\n\nN\u00e3o possu\u00edmos dados estat\u00edsticos id\u00eanticos para os anos seguintes; mas este s\u00e3o enganadores.\n\nO rendimento do pau brasil manteve-se estacion\u00e1rio nos.24 contos por ano.\n\n<strong>Acresceu depois a receita do estanco do tabaco:<\/strong>\u00a012.800500 em 1642. ..\n\n<b>Quanto aos d\u00edzimos, por\u00e9m, nada pode significar o montante deles porque ficavam no Brasil com todas\u00a0as mais receias que l\u00e1 se arrecadassem, e nunca chegavam<\/b>: nada sobrava para entrar no Tesouro, nada vinha &#8220;\u00e0 arca&#8221;, como ent\u00e3o se dizia.\n\nO lucro fiscal para a COT-6a s\u00f3 pode procurar-se, pois, no que rendam as imposi\u00e7\u00f5es no Reino sobre as mercadorias importadas do Brasil.\n\nOra, o a\u00e7\u00facar dava \u00e0 Fazenda, direitos e alcavalas, diretos e indiretos, 25% do seu valor, valor, ali\u00e1s, considerabil\u00edssimo, como se mostrou.\n\n<strong>Os n\u00fameros expostos s\u00e3o, por\u00e9m, meramente potenciais. Do racioc\u00ednio estat\u00edstico \u00e0 realidade interp\u00f5em-se v\u00e1rios obst\u00e1culos.<\/strong>\n\nDeixemos de parte a insufici\u00eancia e incerteza dos dados (quantas vezes contradit\u00f3rios) sobre que o historiador tem de trabalhar.\n\n<b>Abstraiamos das calamidades que, por vezes, impediam ou diminu\u00edam\u00a0a produ\u00e7\u00e3o do. Brasil:\u00a0<\/b>as m\u00e1s safras, as epidemias de var\u00edola devastadoras de negros, os ataques de inimigos, acompanhados de destrui\u00e7\u00e3o de engenhos, etc. Trata-se, afinal, de causas fortuitas ou acidentais.\n\n<strong>Mas alguma coisa de constante amea\u00e7ava seriamente o com\u00e9rcio do a\u00e7\u00facar brasileiro:<\/strong>\u00a0as condi\u00e7\u00f5es da navega\u00e7\u00e3o.\n\nDesde o reinado de D. Jo\u00e3o III que a navega\u00e7\u00e3o portuguesa para as Conquistas vinha sofrendo os insultos de piratas ingleses, franceses, flamengos.\n\nMas \u00e9 depois da perda da independ\u00eancia quando os pa\u00edses do Norte, em guerra com a Espanha, t\u00eam pretexto para considerar-nos inimigos que a pirataria se organiza e que, sobretudo com as companhias coloniais, tem a for\u00e7a suficiente para, quer em ataques isolados, quer em expedi\u00e7\u00f5es, destruir ou, apresar, sistematicamente, as frotas que fazem o com\u00e9rcio ultraMarino.\n\nAssim, nas costas do Brasil, nos tomaram os holandeses, em 1616, 28 navios, e, em 1623, 73, n\u00fameros averiguados por Oliveira Lima. Segundo Netscher, nos 13 anos anteriores \u00e0 chegada de Maur\u00edcio de Nassau ao Brasil, portugueses e espanh\u00f3is perderam, por a\u00e7\u00e3o dos holandeses, 300 barcos de com\u00e9rcio.\n\nDepois de 1640 n\u00e3o melhorou a situa\u00e7\u00e3o. Antes piorou. J\u00e1 veremos adiante em que assustadores termos.\n\n\u02dcPara obviar a estas perdas a que se somavam as causadas por naufr\u00e1gios e pelo desgaste das embarca\u00e7\u00f5es, existia unia constru\u00e7\u00e3o naval intensa; n\u00e3o fora ela, teriam paralisado o nosso com\u00e9rcio mar\u00edtimo e todo o contato com as Conquistas.\n\nEsta atividade de estaleiros portugueses foi afirmada por Jaime Cortes\u00e3o, com base na Descripci\u00f3n de las cestas y puertos de Espafia, de Pedro Teixeira Albernaz, escrita c\u00e9rea de 1630, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vulgarizada tese de decad\u00eancia da nossa marinha. Ora parece-nos que ambas as teses s\u00e3o parcialmente verdadeiras e at\u00e9 que uma comprova a outra.\n\nO ressurgimento da frota mercante nacional no primeiro quartel do s\u00e9culo XVII como Cortes\u00e3o pretende \u00e9 de admitir, gra\u00e7as a continuada f\u00e1brica em mais de uma dezena de estaleiros ao longo da costa..\n\nContinuada mesmo para al\u00e9m desse per\u00edodo, por todo o s\u00e9culo, ou, pelo menos (\u00e9 o que ora nos interessa), at\u00e9 meados. dele. Porque, de contr\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o ter\u00edamos podido manter-nos nas possess\u00f5es ultramarinas, nem do Brasil teria vindo uma \u00fanica grama de a\u00e7\u00facar, corno n\u00e3o poderiam os holandeses ter-nos feitos t\u00e3o avultadas presas, a menos que se admitisse uma marinha inicial, vinda de quinhentos, in\u00famera e de longevidade infinita &#8230; Mas decad\u00eancia existiu no sentido de que as unidades da nossa frota mercante tinham curt\u00edssima vida, j\u00e1 por defici\u00eancia de fabrico e de queren\u00e7as, j\u00e1, sobretudo, pela enorme percentagem de perdas que nela causava o inimigo, abrindo brechas que se colmatavam com novas constru\u00e7\u00f5es; e o que isto onerava a economia nacional pode supor-se.\n\n<strong>Quer dizer, de todas as solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e ventadas para impedir o desaparecimento da nossa navega\u00e7\u00e3o, s\u00f3 uma realmente era eficaz:<\/strong>\u00a0construir novos barcos.\n\n<b>O rem\u00e9dio, sobre\u00a0caro, tinha, contudo, ainda o inconveniente de n\u00e3o curar outro mal concomitante:<\/b>\u00a0o da perda das mercadorias que os navios transportassem.\u2019\n\n<b>Por isso<\/b><strong>, desde D. Jo\u00e3o VI, se buscam outras mezinhas:<\/strong>\u00a0aumentar a tonelagem dos barcos, diminuir a tonelagem deles, artilharem-se os navios, navegarem de conserva, navegarem livremente \u2026\n\n<strong>Mas a po\u00e7\u00e3o curativa era s\u00f3 uma:<\/strong>\u00a0marinha de guerra, sen\u00e3o bastantemente poderosa para vencer, destruir, expulsar dos mares todas as esquadras inimigas, ao menos suficientemente forte para proteger-nos os portos e as rotas comerciais mar\u00edtimas.\n\nPara a marinha de guerra, para que n\u00e3o basta construir barcos, mas \u00e9 mister arm\u00e1-los e prov\u00ea-los de gente do mar e guerra h\u00e1bil, e que h\u00e1 de ser paga pelo Estado essa, sim, estava em evidente decad\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos tempos \u00e1ureos do s\u00e9culo XVI ou, se se prefere n\u00e3o falar em termos comparativos, essa, sim, era praticamente inexistente, pois que nenhuma das indicadas miss\u00f5es podia cabalmente cumprir.\n\n<strong>Deixando de parte o que ao caminho do oriente respeita, precis\u00e1vamos tr\u00eas esquadras<\/strong>: uma na costa metropolitana, que a esta e \u00e0 navega\u00e7\u00e3o costeira defendesse, primeiro contra os piratas mouros, franceses, ingleses, flamengos, depois tamb\u00e9m contra os castelhanos &lt;60); outra que nas costas de Brasil exercesse fun\u00e7\u00e3o id\u00eantica; e outra que desse comboio \u00e0s frotas de com\u00e9rcio pois que ainda at\u00e9 hoje se n\u00e3o descobriu mais nenhum sistema eficaz contra cors\u00e1rios.\n\n<strong>Ora, em vez, dessas tr\u00eas armadas, que t\u00ednhamos n\u00f3s?<\/strong>\n\nDiscute-se se o desastre da Invenc\u00edvel Armada nos arruinou, ou n\u00e3o, a marinha de guerra. A divis\u00e3o portuguesa incorporada na infeliz expedi\u00e7\u00e3o compunha-se de 9 gale\u00f5es, 3 zebras, uma flotilha ligeira de 4 galea\u00e7as e algumas urcas de transporte. Que se \u2018perdessem s\u00f3 os 3 gale\u00f5es que averiguada mente se sabem perdidos, ou todos os navios, como assevera um testemunho contempor\u00e2neo, o golpe, sendo s\u00e9rio, n\u00e3o era de tal monta, que devesse privar-nos de marinha para todo o sempre\u2026\n\nO mal maior estaria em ser essa toda a nossa armada, ou, pelo menos, o grosso dela. Mas pod\u00edamos recompor-nos ? e recompusemo-nos. A prova \u00e9 (para n\u00e3o falar de outros fatos) que em 1622 t\u00ednhamos uma armada chamada do Mar Oceano, modesta, apesar do nome ambidoso, pois s\u00f3 de 4 gale\u00f5es, al\u00e9m de alguns barcos pequenos; que em 1626 perd\u00edamos outra armada, esta de 6 gale\u00f5es, de que s\u00f3 um p\u00f4de regressar a porto de salvamento, e que, em inicies de 1640, o Conde da Torre deixava destro\u00e7ar nas costas do Brasil a esquadra luso-espanhola de que faziam parte 8 gale\u00f5es portugueses (parece que quase tudo que t\u00ednhamos, pois em Lisboa s\u00f3 ficaram outros 2 gale\u00f5es, que -em breve seguiram para a Corunha).\n\nMas o que demonstra a insufici\u00eancia manifesta da marinha de guerra \u00e9 a sua absoluta incapacidade para defender a navega\u00e7\u00e3o mercante. E n\u00e3o s\u00e3o os Regimentos, decretos e alvar\u00e1s filipinos por muito boa vontade que traduzam que podem desmentir este fato irremov\u00edvel.\n\n<strong>Que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 aflitiva a partir de 1640 tudo o evidencia:\u00a0<\/strong>quer o crescendo das perdas dos barcos comerciais, quer v\u00e1rios outros ind\u00edcios\n\nEm 1 de dezembro\u2019 de 1640, D. Jo\u00e3o IV encontra no Tejo 11 ou 12 navios de guerra, que apressadamente aparelha. N\u00e3o seriam, decerto, gale\u00f5es, mas navios. mais pequenos. Eles constituiriam o n\u00facleo da armada de 17 velas que, em 9 de setembro, de 1641, sai de Lisboa unida a uma francesa, para atacar a frota castelhana.\n\nMas em 1642, de 11 navios aparelhados para ir em socorro da Terceira, s\u00f3 8 logram fazer-se ao mar, e logo deles naufraga uma nau por muito pesada e em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de navegabilidade. Nesse mesmo ano, a 25 de junho, o rei autoriza a quaisquer navios estrangeiros o corso Contra inimigos, e logo a 16 de abril do seguinte providencia sobre arma\u00e7\u00e3o de cors\u00e1rios para guardarem a costa.\n\nS\u00e3o conhecidas as laboriosas negocia\u00e7\u00f5es de estrangeiro para compra de navios, desde o come\u00e7o do reinado.\n\nAs C\u00f4rtes de 1641 queimavam-se da falta de migrantes e pediam que o Cosm\u00f3grafo-mor desse escola p\u00fablica e que se ensinasse a arte de marear aos meninos \u00f3rf\u00e3os asilados. O rei prometia\u2026\n\nPrometia e desejava, sem nenhuma d\u00favida, reconstituir a armada\n\nMas, se para isso lhe faltavam navios e gente treinada (a falta artilheiros era, e seguir\u00e1 sendo, particularmente sens\u00edvel), o que, mais que tudo, lhe faltava eram os meios financeiros necess\u00e1rios..\n\nDas tr\u00eas armadas precisas nunca conseguiu ter sen\u00e3o uma, e n\u00e3o famosa.\n\nDessa armada \u00fanica (n\u00e3o permanente, mas em cada caso de apuro constitu\u00edda e aparelhada ad hoc), houve de servir-se para todos os fins. Quando em 1644 ordena socorro a Angola, com 20 velas, manda-as passar pelo Brasil, de onde deveriam, na volta de \u00c1frica, comboiar at\u00e9 o reino a frota dos a\u00e7\u00facares.\n\nE a armada de Salvador Correia de S\u00e1 que partiu em fins de 1647 para o Brasil (com destino \u00e0 reconquista de Luanda) e de que parte s\u00f3 voltou em fins de 1650, deixou a metr\u00f3pole desguarnecida de defesa mar\u00edtima.\n\nQuando voltou, foi o Brasil que ficou ao desamparo.\n\n<strong>Ora, se as perdas da marinha mercante se vinham tornando cada vez mais dolorosas depois da Restaura\u00e7\u00e3o, em 1647, e mais ainda em 1648, s\u00e3o j\u00e1 decididamente insuport\u00e1veis.<\/strong>\n\n<b>Tivemos a boa estrela de encontrar um documento precioso,. at\u00e9 hoje in\u00e9dito e cremos que desconhecido, que fornece os n\u00fameros aut\u00eanticos das perdas da, massa\u00a0navega\u00e7\u00e3o mercante para o Brasil naqueles dois anos:<\/b>\u00a0chegam a ser inconceb\u00edveis. Pelos registros do. seguro se v\u00ea que por a\u00e7\u00e3o dos holandeses, em 1647, perdemos 108 e no ano seguinte 141 navios, ou sejam 249 em 2 anos., num tora\/ de navega\u00e7\u00e3o de 300! Gine) sextas partes!.\n\nEsta situa\u00e7\u00e3o absolutamente insustent\u00e1vel, desorientou os governantes. As mais diversas provid\u00eancias, algumas contradit\u00f3rias. e todas in\u00fateis, s\u00e3o sucessiva ou simultaneamente propostas e tomadas.\n\nEm 1646 ainda a gravidade d\u00e1 situa\u00e7\u00e3o se traduzia em pedidos de consulta ao Conselho Ultramarino sobre os meios. de \u201csegurar a navega\u00e7\u00e3o\u201d.\n\n<b>Mas agora ? manda-se a armada real ao Brasil; desguarnecendo a metr\u00f3pole; encomenda-se\u00a0navios em Fran\u00e7a; pede-se dinheiro emprestado aos crist\u00e3os-novos para compra de barcos na Holanda prende-se, pelo Santo Of\u00edcio, o dador do cr\u00e9dito, impossibilitando o neg\u00f3cio<\/b>: convidam-se os estrangeiros a mandarem eles barcos ao Brasil em ferinos que mostram o desespero:\n\n&#8220;Desejo (escreve D. Jo\u00e3o IV, em 24 de fevereiro de 1648, ao embaixador em Fran\u00e7a) que haja pessoas. que queiram ir ao Estado do Brasil na conformidade que assentou o Conselho Ultramarino com os mestres dos navios ingleses de que tratam. os despachos que ser\u00e3o em companhia desta carta, e sendo esta licen\u00e7a cousa t\u00e3o proibida pelas leis do Reino e t\u00e3o desejada pelos estranhos, veio o tempo a fazer nisto (?), e conveniente o que at\u00e9 agora pareceu encontrado com as utilidades desta Corda e suas Conquistas&#8221; &#8230;;pro\u00edbe-se o transporte em caravelas e susta-se de seguida a execu\u00e7\u00e3o da ordem; vedam-se o fabrico e a navega\u00e7\u00e3o de navios de menos de 350 toneladas e logo se baixa o limite para 250; e, para fechar o rol das proibi\u00e7\u00f5es, acaba por proibir-se a navega\u00e7\u00e3o dos a\u00e7ucares: e agora (6 de setembro de 1648) mandei de novo com maior aperto e geralmente ordenei que enquanto os holandeses tivessem tanto poder nos mares do Brasil se n\u00e3o navegassem a\u00e7ucares.\n\n<strong>Um homem tinha a coragem de ver claro:\u00a0<\/strong>o Padre Ant\u00f4nio Vieira.\n\nA sua tese, ainda um tanto vaga, da restaura\u00e7\u00e3o nacional por via do incremento mercantil, para o qual se fazia mister dar ao judeu a seguran\u00e7a individual no reino, porque o judeu era, aqui, e na Holanda (centro banc\u00e1rio e cremat\u00edstico da Europa), o traficante e o capitalista, essa tese concretiza-se em 1644 na ideia pr\u00e1tica da forma\u00e7\u00e3o de companhias coloniais.\n\n<strong>Diz, com o costumado desassombro e a habitual eloqu\u00eancia, embatendo, com o ar\u00edete duma dial\u00e9tica mais forense que sagrada, a opini\u00e3o preconceituosa de toda-a-gente, no c\u00e9lebre serm\u00e3o de S. Roque:\u00a0<\/strong>\u201cO rem\u00e9dio temido ou chamado perigoso s\u00e3o duas companhias mercantis, oriental uma, e outra ocidental, cujas frotas poderosamente armadas tragam seguras contra a Holanda as drogas da \u00cdndia e do Brasil.\n\nE Portugal, com as mesmas drogas, tenha todos os anos cabedais necess\u00e1rios para sustentar a guerra interior de Castela, que n\u00e3o pode deixar de durar alguns. Este \u00e9 o rem\u00e9dio por todas as suas circunst\u00e2ncias, n\u00e3o s\u00f3 aprovado, mas admirado das na\u00e7\u00f5es mais pol\u00edticas da Europa, exceta somente a portuguesa, na qual a experi\u00eancia de serem mal reputados na f\u00e9 alguns de seus comerciantes, n\u00e3o a uni\u00e3o das pessoas mas a Mistura do dinheiro menos crist\u00e3o com o cat\u00f3lico, faz suspeitoso todo o mesmo rem\u00e9dio e por isso perigoso\u201d.\n\nNa Proposta de 1646 teima no mesmo ponto de vista e sistematiza as 3 reinvindica\u00e7\u00f5es dos crist\u00e3os-novos, destacando a da isen\u00e7\u00e3o do confisco.\n\n<b>Nas Raz\u00f5es a El-Rei \u00e9 j\u00e1 s\u00f3 a isen\u00e7\u00e3o do confisco que defende (como quem se convenceu de que o \u00f3timo \u00e9 inimigo do bom), repete a ideia\u00a0das companhias de com\u00e9rcio e afirma lucidamente:<\/b>\u00a0\u201cEnfim, Portugal n\u00e3o poder\u00e1 continuar a guerra presente, e muito menos a que infalivelmente havemos de ter, sem muito dinheiro; para este dinheiro n\u00e3o h\u00e1 meio mais efetivo, nem Portugal tem outro, sen\u00e3o o com\u00e9rcio; e o com\u00e9rcio n\u00e3o pode ser consider\u00e1vel sem a liberdade e seguran\u00e7a das fazendas dos mercadores\u201d.\n\n<strong>E, apesar da oposi\u00e7\u00e3o do Santo Of\u00edcio, o Padre prossegue teimosamente:<\/strong>\u00a0ganha \u00e0 sua causa o embaixador em Paris, Marqu\u00eas de Niza, e o embaixador em Haia, Francisco de Sousa Coutinho; Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo; o te\u00f3logo Fr. Ricardo de S. Victor, que dar\u00e1 parecer favor\u00e1vel, e o pr\u00f3prio confessor do rei, Fr. Dion\u00edsia dos Anjos\u2026; negaceia com os crist\u00e3os-novos, faz surgir um projeto preciso, mais modesto, mas mais fact\u00edvel: urna s\u00f3 companhia, para o Brasil, a troco da s\u00f3 isen\u00e7\u00e3o do confisco.\n\n<strong>O afluxo de metais preciosos americanos, a multiplica\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional, por virtude dos descobrimentos. criam em m\u00e3os da burguesia um \u201cstock\u201d cada vez mais acrescido de esp\u00e9cies monet\u00e1rias, que, sobretudo nos pa\u00edses n\u00e3o cat\u00f3licos, libertos da interdi\u00e7\u00e3o can\u00f4nica do juro, se deseja fazer frutificar.<\/strong>\n\nO maior volume de neg\u00f3cio, o lucro mais elevado d\u00e1-os o com\u00e9rcio colonial; mas este \u00e9 tamb\u00e9m o que exige mais avultados capitais (demora das viagens, custo e risco do transporte, transa\u00e7\u00f5es a cr\u00e9dito).\n\nProlifera a riqueza; cada dia surgem novos ricos; mas os colossos financeiros do s\u00e9culo XVI, como es Fuggers, ou est\u00e3o arruinados, ou as suas grand\u00edssimas fortunas fazem j\u00e1 menor figura e s\u00e3o insuficientes para as atuais condi\u00e7\u00f5es d\u00f3 tr\u00e1fico mar\u00edtimo.\n\nOs estados constitu\u00eddas as na\u00e7\u00f5es, centralizado o poder, criada e aumentada a burocracia, multiplicados os servi\u00e7os p\u00fablicos, ampliada, a pol\u00edtica internacional (diplomacia, defesa militar) veem enormemente acrescidas as suas despesas, a que urna fiscalidade defeituosa e limitada pelos privil\u00e9gios mal logra prover. N\u00e3o disp\u00f5em; assim, de meios financeiros para um exerc\u00edcio estatal do grande com\u00e9rcio das col\u00f4nias, \u00e0 maneira do exclusivo da coroa portuguesa em quinhentos.\n\nOra, n\u00e3o s\u00f3 os perigos da navega\u00e7\u00e3o s\u00e3o grandes por raz\u00e3o dos fatores naturais e da relativa pobreza dos meios t\u00e9cnicos; acrescem os riscos d\u00e1 rivalidade e concorr\u00eancia das outras na\u00e7\u00f5es mercantes, a abund\u00e2ncia da pirataria, a barb\u00e1rie e hostilidade dos povos ind\u00edgenas com que se comercia, o poder, embora j\u00e1 diminu\u00eddo, dos pa\u00edses descobridores, que ciosamente defendem o seu monop\u00f3lio.\n\nDa conjun\u00e7\u00e3o destes fatores surgem a necessidade e a ideia da sociedade an\u00f3nima para a explora\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio colonial. S\u00f3 ela permite ajuntar os capitais em excesso dos particulares, suprir a car\u00eancia de poder Monet\u00e1rio do estado, realizar o neg\u00f3cio, obter os grandes lucros.\n\nOs governos apoiam a nova forma de sociedade, que permite praticar, em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses, atos de rapina, inimizade e conquista, enjeitando responsabilidades.\n\n<strong>Acrescente-se que h\u00e1 na Europa todo um clima de curiosidade, espanto, novidade, cobi\u00e7a e ilus\u00e3o \u00e0 cerca das terras long\u00ednquas descobertas:<\/strong>\u00a0lendas do bom selvagem, dos para\u00edsos terreais, das riquezas fabulosas, dos vales de ouro ou de pedras preciosas\u2026\n\nAssim nascem as companhias coloniais.\n\nE porque alguns primeiros resultados s\u00e3o extraordin\u00e1rios &#8211; lucros de centos por cento, a febre colonial sobe e alastra. As companhias tornam-se uma moda.\n\nS\u00e3o, nos meados do s\u00e9culo XVII, uma daquelas panaceias econ\u00f4mico-pol\u00edticas com que estadistas e povos se embriagam de ande em onde tanto a governa\u00e7\u00e3o, como a medicina, ou a arte, se fazem por vagas de gesto ou estilo, epid\u00eamicas e quantas vezes ilus\u00f3rias&#8230;\u00a6.\n\nPor isso os s\u00e9culos XVII e XVIII viram nascer e morrer &#8211; dezenas de companhias.\n\nEm Portugal, pondo de lado a impropriamente chamada Companhia de Lagos e as concess\u00f5es individuais dos s\u00e9culos XV e XVI, j\u00e1 os Filipes haviam feito esfor\u00e7os para a constitui\u00e7\u00e3o de companhias de com\u00e9rcio colonial, a exemplo das estrangeiras, sobretudo das holandesas, mas a raz\u00e3o fosse, principalmente, a de obviar \u00e0 fraqueza e pen\u00faria do Estado, que buscava aliviar-se de algumas cargas, sem perder os correspondentes benef\u00edcios.\n\nDa tentativa de urna Companhia para as \u00edndias Orientais, em 1587, n\u00e3o h\u00e1 mais que vest\u00edgios.\n\nEm 1621 falha o plano de Duarte Gomes de Solis de uma Companhia para o Brasil.\n\nEm 1619, e de novo em 1624, volta-se \u00e0 ideia de Companhia para o com\u00e9rcio da \u00edndia; chega a ser aprovado o Regimento, em 1628, mas o \u00fanico resultado vis\u00edvel do projeto parece terem sido alguns empr\u00e9stimos extorquidos pela rei \u00e0 C\u00e2mara de Lisboa, para aparelhamento de navios, \u00e0 conta do capit\u00e3o com que subscrevia\u2026\n\nO grande entusiasta das Companhias em Portugal foi, por\u00e9m, o Padre Ant\u00f4nio Vieira, que, al\u00e9m dos esfor\u00e7os, j\u00e1 referidos, para a cria\u00e7\u00e3o das companhias do Brasil e da \u00edndia, lan\u00e7ava em carta de 22 de junho da 1648 para o Marqu\u00eas de Niza, o projeto de uma companhia luso-franco-sueca para a explora\u00e7\u00e3o do nosso com\u00e9rcio colonial -e- ideia audaciosa, extravagante e t\u00e3o arriscada que D. Jo\u00e3o IV logo mandou p\u00f4r pedra sobre o assunto antes que dele chegasse vento aos holandeses, contra quem se dirigia.\n\n<strong>At\u00e9 ent\u00e3o sempre D. Jo\u00e3o IV apesar do cr\u00e9dito e audi\u00eancia deferentissirnos, excepcionais, que o Padre indefectivelmente lhe mereceu resistira \u00e0s sugest\u00f5es de Vieira (e Deus sabe como este diabo de homem, genial e verboso, era aliciante e convincente).<\/strong>\n\nPelo Santo Oficio era manifesta a sua estima. Na quest\u00e3o da primazia das ma\u00e7as do mercado de \u00c9vcra cortara cerce o pleito que parecia de mera disciplina e jurisdi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica dando, de ci\u00eancia certa e poder absoluto, raz\u00e3o aos dom\u00ednicos, e !amea\u00e7ando a Sociedade, se persistisse em impetrar breve do Papa a seu favor, de que se haveria de arrepender, pois ele, Rei, faria sobre isso &#8220;a maior demonstra\u00e7\u00e3o que pode ser imaginada&#8221;.\n\n<strong>Aos pedidos formulados em C\u00f4rtes contra os judeus n\u00e3o fornecera, \u00e9 verdade, mais que respostas algo evasivas, como notou L\u00facio de Azevedo; mas essas eram de regra, como se v\u00ea em muitos outros casos<\/strong>: o Rei evita comprometer-se, ou submeter-se. Mas, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o. derrogou nenhuma das disposi\u00e7\u00f5es legais ent\u00e3o em vigor limitativas d\u00f3s direitos civis e pol\u00edticos da gente da na\u00e7\u00e3o (e, porque em vigor, n\u00e3o havia lugar a promulgar outras, dizia ele \u00e0s C\u00f4rtes), como, sem embargo, voltou e. legislar confirmando algumas das antigas leis. Assim, por decreto de 26 de dezembro de 1642, manda observar a proibi\u00e7\u00e3o (de 1614) de casamentos entre nobres e crist\u00e3os-novos.\n\nE dessa atitude \u00e1nti-judaica do monarca [para cuja ascens\u00e3o ao trono, contudo, os hebreus haviam tamb\u00e9m contribuido I, \u00e9 bem expl\u00edcita amostra a carta de 31 de agosto de 1647 em que, ao seu agente em Roma, agradecendo-lhe ter impedido a provis\u00e3o de algumas conesias de, Portugal em pessoas da na\u00e7\u00e3o, encarece: \u201c\u2026 ser\u00e3o poucos os neg\u00f3cios deste Reino, que ir\u00e3o a essa C\u00faria, que tenha por de mais import\u00e2ncia que este\u201d.\n\nSabido e, demais, que, embora os judeus o houvessem salvo, mais de urna vez, de graves apuros de dinheiro, deixou (\u00e9 certo que n\u00e3o lhe seria f\u00e1cil impedi-lo) que os inquisidores deitas-\u2018 sem a m\u00e3o ao riqu\u00edssimo Duarte da Silva, que acabava de abrir-lhe, na Holanda, um cr\u00e9dito de 100.000 cruzados para compra de barcos de guerra.\n\nSubitamente, por\u00e9m, a atitude do rei muda.\n\nEm 1647 enviara ao Santo Of\u00edcio, para consulta, como era regular, o memorial dos hebreus, que Vieira apoiara nas Raz\u00f5es a O Santo Of\u00edcio respondera opondo-se, como seria de esperar. E o neg\u00f3cio murchara.\n\n<strong>Mas a 6 de setembro d\u00e8 1.648 o Rei escreve ao seu embaixador em Fran\u00e7a uma carta em que diz:<\/strong>\u00a0\u201cOs moradores de Pernambuco tiveram tanta ind\u00fastria que\u2019 fizeram por seus procuradores um assento com os mais grossos homens de neg\u00f3cio desta pra\u00e7a em que eles se obrigam a prover com 12 navios de for\u00e7a continuadamente pelo decurso de tempo de 4 em 4 cada 4 meses, ou de 6 em 6 cada 6 meses, as capitanias do norte de mantimentos, muni\u00e7\u00f5es, roupas e tudo o necess\u00e1rio para a vida humana, dando-lhes es moradores das mesmas capitanias o pagamento em a\u00e7\u00facares e pau, com pre\u00e7o certo a cada causa, \u00e0 semelhan\u00e7a, do que se usa nos lugares de \u00c1frica, com\u201d que \u2018se entende aqui ficam &#8211; aqueles homens socorridos de maneira que poder\u00e3o suportar por mais tempo a guerra; desejei impor-lhes esta conveni\u00eancia por me livrar das queixas da companhia e consequentemente dos estados, por\u00e9m, demais de o n\u00e3o permitirem as leis da conveni\u00eancia e da raz\u00e3o, tive por certo que o sofre o reino muito mal por ser todo t\u00e3o interessado no Brasil, como sabeis. ..\u201d\n\n<b>\u00c9 sabido como, restaurada a independ\u00eancia., Portugal busca apoio\u00a0internacional, com grandes e nem sempre justificadas esperan\u00e7as.<\/b>\n\nCom a Holanda s\u00e3o particularmente dif\u00edceis as rela\u00e7\u00f5es, porque, se a Holanda est\u00e1 em guerra com a Espanha o que dela faria nossa natural aliada est\u00e1 tamb\u00e9m demasiado interessada nos nossos imp\u00e9rio e com\u00e9rcio coloniais&#8230;\u00a6\n\nEm 1643 enviara D. Jo\u00e3o VI,\u00e0 Haia, como embaixador ordin\u00e1rio, Francisco de Sousa Cantinho, com instru\u00e7\u00f5es para negociar uma paz perp\u00e9tua e obter a devolu\u00e7\u00e3o \u2018dos territ\u00f3rios que os holandeses n\u00e3o haviam tomado.\n\nArrastam-se as negocia\u00e7\u00f5es por meses e anos.\n\n<strong>Em 1645 a situa\u00e7\u00e3o era esta:<\/strong>\u00a0uma parte, as duas Companhias holandesas haviam obtido (em mar\u00e7o de 1647) a renova\u00e7\u00e3o das suas concess\u00f5es por mais 25 anos; a paz entre a Holanda e a Espanha, assinada em 30 de janeiro, foi proclamada em 5 de junho: eram apresados navios portugueses com valiosos carregamentos de a\u00e7\u00facar; o que tudo levava Sousa Coutinho e o Pe. Ant\u00f4nio Vieira a aconselhar, e o Rei a pretender aceitar, uma paz em que ced\u00edamos Pernambuco e Luanda.\n\nDoutra parte, por\u00e9m, os colonos do Brasil (secretamente ajudados pelo governo portugu\u00eas) atacavam vitoriosamente os holandeses; e Salvador Correia de S\u00e1 partira \u00e0 reconquista de Angola, que realmente efetuou, expulsando os holandeses de Luanda em agosto de 1648; e estes fatos, e o forte sentimento nacional que se opunha ao abandono dos colonos e de qualquer parcela do Brasil, levaram os v\u00e1rios Conselhos, consultados, a repudiar o projeto, e D. Jo\u00e3o IV a, perante tal, o rejeitar.\n\nSe at\u00e9, ent\u00e3o, pais, o Rei evitava tudo que pudesse, ao menos ostensivamente, agravar a Holanda e impedir ou dificultar a paz, agora, perdida a esperan\u00e7a imediata desta, o que se impunha era. jogando o todo pelo todo, tomar uma atitude en\u00e9rgica de defesa do com\u00e9rcio brasileiro.\n\nAnt\u00f4nio, Vieira, que coadjuvara Coutinho nas negocia\u00e7\u00f5es e aconselhava o Rei, advogara calorosamente, em outubro e novembro de 1648, a paz, ainda com entrega de Pernambuco; fizera-o mesmo, com a habitual veem\u00eancia, num arrazoado de t\u00e3o convincente dial\u00e9tica que mereceu o titulo de Papel forte; mas quando viu que D. Jo\u00e3o IV se submetia \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, a sua incans\u00e1vel imagina\u00e7\u00e3o partiu logo fogosamente noutro sentido, retornando duas das suas velhas quimeras: a isen\u00e7\u00e3o dos judeus das garras do fisco inquisitorial e a forma\u00e7\u00e3o duma companhia colonial.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0EncBrasil\/www.conhecimentosgerais.com.br\/www.artigonal.com\/geocities.yahoo.com.br\n\n&nbsp;\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Companhias de Com\u00e9rcio, Mercantis, Brasil, Geral, Pol\u00edtica, Movimento, Revolta, Guerra, Estados, Europa, Hist\u00f3ria, Companhias de Com\u00e9rcio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8989,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-25849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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