{"id":25818,"date":"2015-12-17T00:00:00","date_gmt":"2015-12-17T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/abolicao-da-escravatura-no-brasil-4\/"},"modified":"2026-09-01T17:55:58","modified_gmt":"2026-09-01T17:55:58","slug":"abolicao-da-escravatura-no-brasil-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/abolicao-da-escravatura-no-brasil-4\/","title":{"rendered":"Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<strong>Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura no Brasil &#8211; O que foi<\/strong>\n\nNo dia 13 de maio de 1888 foi assinada pela Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II, a mais importante lei contra a escravid\u00e3o, a\u00a0<strong>Lei \u00c1urea<\/strong>, que acabaria legalmente de uma vez por todas com a escravid\u00e3o no Brasil, \u00faltimo pa\u00eds do mundo a acabar com a escravid\u00e3o moderna.\n\nPara que possamos entender esse processo, devemos ter em mente o papel da escravid\u00e3o para o pa\u00eds. Durante a\u00a0<strong>Idade Moderna<\/strong>, \u00e9poca das\u00a0<strong>Grandes Navega\u00e7\u00f5es<\/strong>\u00a0e per\u00edodo no qual os portugueses descobriram o Brasil, a escravid\u00e3o era considerada uma forma comum de explora\u00e7\u00e3o do Brasil.\n\nFoi devido a forte presen\u00e7a dos portugueses na \u00c1frica que ditou os rumos da escravid\u00e3o naquele per\u00edodo, gra\u00e7as \u00e0 predomin\u00e2ncia dos portugueses como principal pa\u00eds nos primeiros momentos das Grandes Navega\u00e7\u00f5es, ao lado apenas da Espanha,\u00a0 bem como da inexist\u00eancia de m\u00e3o-de-obra capaz de explorar suas col\u00f4nias, em especial, a sua mais importante, o Brasil.\n\nAp\u00f3s uma primeira tentativa portuguesa malfadada de utilizar os ind\u00edgenas como for\u00e7a motriz desse processo, devido ao choque de cultura daquelas popula\u00e7\u00f5es com \u201cconceitos\u201d como trabalho (para os \u00edndios este n\u00e3o deveria ser sistematizado), e ainda conflitos com religiosos que buscavam catequiz\u00e1-los, Portugal concentrou seus esfor\u00e7os no tr\u00e1fico negreiro cuja origem da captura era a \u00c1frica.\n\nDentre os anos de 1530 at\u00e9 1850 (ano da proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico negreiro) estima-se que cerca de 3,5 milh\u00f5es de africanos foram retirados violentamente de sua terra e adentraram ao Brasil; n\u00famero que demonstra a import\u00e2ncia e viol\u00eancia da escravid\u00e3o.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-127294 size-full\" title=\"Imagem de um dos jornais mais importantes \u00e0 \u00e9poca que foi as ruas do Rio de Janeiro um dia ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/abolicao-escravatura-brasil-01.jpg\" alt=\"Imagem de um dos jornais mais importantes \u00e0 \u00e9poca que foi as ruas do Rio de Janeiro um dia ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil\" width=\"450\" height=\"270\" \/>\n<strong>Imagem de um dos jornais mais importantes \u00e0 \u00e9poca que foi as ruas do Rio de Janeiro um dia ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil<\/strong><\/p>\nEsse quadro apenas viria a come\u00e7ar a mudar no s\u00e9culo XIX, devido a m\u00faltiplos fatores. As fugas e rebeli\u00e3o dos pr\u00f3prios negros, as press\u00f5es da Inglaterra para a ado\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra livre e assalariada em v\u00e1rios pa\u00edses com os quais ela realizava com\u00e9rcio, o Movimento Abolicionista que movimentou os ciclos intelectuais mais progressistas, etc.\n\nEm termos institucionais, deve-se compreender a Lei \u00c1urea como o \u00faltimo processo que se iniciou com a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico negreiro em 1850 com a lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3z, passou pela Lei do Ventre-Livre (1871) e Lei dos Sexagen\u00e1rios (1885) at\u00e9 chegarmos a 13 de maio de 1888, momento no qual a escravid\u00e3o deixaria de existir efetivamente no pa\u00eds.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-127295 size-full\" title=\"Representa\u00e7\u00e3o da princesa Isabel prestes a assinar a Lei \u00c1urea que revogava a aboli\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/abolicao-escravatura-brasil-02.jpg\" alt=\"Representa\u00e7\u00e3o da princesa Isabel prestes a assinar a Lei \u00c1urea que revogava a aboli\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.\" width=\"450\" height=\"321\" \/>\n<strong>Representa\u00e7\u00e3o da princesa Isabel prestes a assinar a Lei \u00c1urea que revogava a aboli\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">Apesar da euforia que esteve presente no momento da assinatura da\u00a0<strong>Lei\u00a0\u00c1urea,<\/strong>\u00a0n\u00e3o podemos esquecer que a mesma apresentava s\u00e9rios limites.<\/p>\n<p align=\"left\">Todos eles giram em torno do fato de que a lei n\u00e3o prop\u00f4s a inser\u00e7\u00e3o dos ex-escravos \u00e0 sociedade brasileira, uma vez que os mesmos antes da aboli\u00e7\u00e3o eram considerados meros bens, e, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o passaram a ser vistos como brasileiros. Nem mesmo a instaura\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica conseguiu tal fa\u00e7anha. Durante os anos iniciais da Rep\u00fablica, nossas elites buscavam apenas colocar o Brasil nos rumos do \u201cprogresso\u201d e da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d utilizando-se de caracteres exteriores como referenciais. Assim, em termos sociais, o povo deveria ser branco para ser evolu\u00eddo, ou seja, novamente os afrodescendentes se tornavam um problema a ser enfrentado.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-127293 size-full\" title=\"Retrato da princesa Isabel, respons\u00e1vel pela lei que aboliu oficialmente a escravid\u00e3o no Brasil.\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/abolicao-escravatura-brasil-03.jpg\" alt=\"Retrato da princesa Isabel, respons\u00e1vel pela lei que aboliu oficialmente a escravid\u00e3o no Brasil.\" width=\"302\" height=\"366\" \/>\n<strong>Retrato da princesa Isabel, respons\u00e1vel pela lei que aboliu oficialmente a escravid\u00e3o no Brasil.<\/strong><\/p>\nA solu\u00e7\u00e3o seria incentivar e migra\u00e7\u00e3o em massa de europeus, popula\u00e7\u00f5es brancas, em sua maioria italianos, que seriam respons\u00e1veis por embranquecer a na\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do mais, o ideal de progresso estava tamb\u00e9m alicer\u00e7ado em melhorias t\u00e9cnicas nas cidades e nas f\u00e1bricas, nas quais estas deveriam dispor de melhores condi\u00e7\u00f5es do competitividade e maquin\u00e1rio.\n\nO problema \u00e9 que toda essa moderniza\u00e7\u00e3o implicava em um oper\u00e1rio que soubesse manej\u00e1-las da melhor forma poss\u00edvel. Mais uma vez ao ficar lado a lado com os imigrantes, os afrodescendentes estavam em uma desvantagem maior ainda.\n\nOs s\u00e9culos ininterruptos de uma institui\u00e7\u00e3o t\u00e3o violenta e perniciosa socialmente quanto a escravid\u00e3o macularam profundamente a sociedade brasileira que ainda enxerga com estigmas de cor os segmentos da sociedade.\n\nTalvez o mais assustador seja pensar que estes tra\u00e7os ainda est\u00e3o presentes e medidas mais eficazes n\u00e3o foram tomadas at\u00e9 os dias atuais.\n\n<strong>Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura no Brasil &#8211; Causas<\/strong>\n\nPode-se examinar em v\u00e3o a hist\u00f3ria geral do Brasil em busca de explica\u00e7\u00f5es satisfat\u00f3rias para a aprova\u00e7\u00e3o da lei de 1888 que libertou tr\u00eas quartos de milh\u00e3o de escravos, arruinou muitos propriet\u00e1rios de terras e destruiu o sistema pol\u00edtico por eles criado.\n\nEmbora essas hist\u00f3rias mencionem alguns dos mesmos fatores, eles o fazem apenas de passagem e sem enfatizar sua import\u00e2ncia causal.\n\nFica-se com a impress\u00e3o geral de que o Parlamento brasileiro promulgou a lei libertando os escravos em resposta a sentimentos humanit\u00e1rios e \u00e0 press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica despertada por uma campanha de propaganda habilmente dirigida por um punhado de abolicionistas.\n\n\u00c9 verdade que o Parlamento aprovou a lei que pro\u00edbe a escravid\u00e3o por uma maioria esmagadora. Sabemos, por\u00e9m, que este Parlamento representava os grandes latifundi\u00e1rios do pa\u00eds, grupos que dependiam do trabalho dos escravos para o seu rendimento e modo de vida.\n\n<strong>\u00c9 poss\u00edvel sustentar que os representantes dos donos de escravos &#8211; em muitos casos os pr\u00f3prios donos de escravos &#8211; abandonaram seus interesses econ\u00f4micos mais claros e vitais em decorr\u00eancia de discursos brilhantes e do clamor da imprensa?<\/strong>\n\nSe a resposta a esta pergunta for \u201cn\u00e3o\u201d, ent\u00e3o outras respostas devem ser encontradas.\n\nAs id\u00e9ias propagadas pelos abolicionistas de fato desempenharam um papel decisivo em trazer o fim da escravid\u00e3o, mas n\u00e3o da maneira geralmente descrita.\n\nOs abolicionistas apelaram \u00e0s necessidades de novos grupos urbanos surgidos no Brasil ap\u00f3s a Guerra do Paraguai (1865-1870). Esses grupos, estimulados por essa propaganda, encorajaram e incitaram a revolta virtual dos escravos por meio da fuga em massa das planta\u00e7\u00f5es. Os fazendeiros, diante de um fato consumado, preferiram legaliz\u00e1-lo para evitar a deteriora\u00e7\u00e3o posterior de sua posi\u00e7\u00e3o.\n\nEm muitos casos, uma escassez cr\u00f4nica de escravos j\u00e1 os havia prejudicado gravemente.\n\nAs influ\u00eancias estrangeiras e mesmo as press\u00f5es foram as grandes respons\u00e1veis por essa escassez e pelas medidas tomadas em favor dos escravos antes de 1871. Quando a Lei do Rio Branco foi aprovada, embora os novos grupos urbanos ainda fossem fracos, os fazendeiros j\u00e1 come\u00e7avam a sentir a falta do trabalho.\n\nPara compreender a intera\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que levou \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil, \u00e9 necess\u00e1rio compreender duas grandes mudan\u00e7as na vida econ\u00f4mica e social brasileira.\n\nUm foi o aumento das exporta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 e a expans\u00e3o de novas regi\u00f5es produtoras de caf\u00e9; a outra era o tamanho e a import\u00e2ncia crescentes das cidades.\n\nDurante a segunda metade do s\u00e9culo XIX, o Brasil foi arrastado para o turbilh\u00e3o econ\u00f4mico europeu.\n\nO crescente \u00edmpeto da revolu\u00e7\u00e3o industrial na Europa e nos Estados Unidos significou n\u00e3o apenas um aumento da popula\u00e7\u00e3o urbana no mundo \u201cdesenvolvido\u201d e um aumento do lazer para desfrutar de itens de luxo como o caf\u00e9, mas tamb\u00e9m a aplica\u00e7\u00e3o de novas tecnologias ao mar e transporte terrestre, reduzindo significativamente o custo das commodities enviadas para e do Brasil.\n\nComo resultado, as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de caf\u00e9 aumentaram de forma t\u00e3o acentuada que perturbou as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais estabelecidas.\n\nA princ\u00edpio, o grosso dessa produ\u00e7\u00e3o concentrava-se no vale do Para\u00edba do Sul, mas a exporta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 estimulou um novo interesse pela constru\u00e7\u00e3o de ferrovias.\n\nEm 1868, novas linhas foram abertas do porto de Santos \u00e0s ricas terras do centro-oeste do estado de S\u00e3o Paulo, de onde outras ferrovias se espalharam pela nova \u00e1rea. Em meados da d\u00e9cada de 1880, a prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo produzia mais caf\u00e9 do que o Rio de Janeiro.\n\nCom as ferrovias, a fronteira econ\u00f4mica avan\u00e7ou e o centro-oeste de S\u00e3o Paulo foi incorporado pela primeira vez \u00e0 economia monet\u00e1ria do Brasil. Aonde a ferrovia chegava, aparecia a grande e moderna planta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9; n\u00edtidas fileiras de arbustos cintilantes para cima e para baixo no campo ondulante substitu\u00edram as manchas desordenadas de safras de subsist\u00eancia que anteriormente eram cultivadas na floresta virgem.\n\nN\u00e3o mais dependentes de trens de mulas para transportar seus produtos aos navios que esperavam em Santos, os fazendeiros agora podiam se deslocar com mais facilidade para terras cada vez melhores.\n\nEnquanto isso, o vale do Para\u00edba entrou em um per\u00edodo de decl\u00ednio econ\u00f4mico com mans\u00f5es decadentes revelando um passado mais grandioso.\n\nA turbulenta prosperidade da \u00e1rea cafeeira paulista trouxe \u00e0 tona um novo grupo de homens. Os grandes plantadores de caf\u00e9 aqui n\u00e3o eram dominados pelas tradi\u00e7\u00f5es de um passado senhorial, mas vinham de um grupo anteriormente desfavorecido de pequenos propriet\u00e1rios de terras e mercadores. Com o entusiasmo dos homens em sua ascens\u00e3o, eles se lan\u00e7aram \u00e0 terra, expulsando seus escravos insuficientes, pedindo dinheiro emprestado, travando batalhas por terras, adquirindo mais e avan\u00e7ando cada vez mais para o oeste.\n\nEles consideravam suas terras como capital e n\u00e3o como uma marca de status. Eles o adquiriam para produzir riqueza e, se os m\u00e9todos antigos n\u00e3o funcionassem, eles tentariam novos. Como empres\u00e1rios rurais, eles mostraram seu esp\u00edrito inovador ao adotar uma nova safra, ao usar novas t\u00e9cnicas para process\u00e1-la e ao apoiar com entusiasmo as ferrovias, que muitas vezes eles pr\u00f3prios constru\u00edram, e exigiram uma fonte de trabalho mais abundante e flex\u00edvel do que a institui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o poderia fornecer.\n\nO aumento do com\u00e9rcio de exporta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ajudou a provocar o surgimento de novos grupos urbanos e o crescimento comercial geral no Brasil. N\u00e3o eram mais apenas os estrangeiros que se tornavam mercadores.\n\nNovos estabelecimentos, como bancos, empresas de transporte, seguradoras e servi\u00e7os urbanos, surgiram rapidamente para atender \u00e0s demandas crescentes do com\u00e9rcio de caf\u00e9.\n\nEssas empresas contrataram um n\u00famero crescente de moradores urbanos em empregos de colarinho branco.\n\nA expans\u00e3o das receitas do caf\u00e9 tamb\u00e9m financiou uma prolifera\u00e7\u00e3o de burocracia nas capitais para lidar com os problemas cada vez mais complexos de administrar um pa\u00eds pr\u00f3spero. Cidades menores como It\u00fa, Sorocaba e Campinas ganharam import\u00e2ncia como centros distribuidores de alimentos e insumos em uma \u00e1rea de monocultura que antes era autossuficiente.\n\nCidades portu\u00e1rias menores como Santos e Niter\u00f3i compartilharam da nova prosperidade. O crescimento urbano tornou-se caracter\u00edstico.\n\nSimultaneamente, novas atitudes surgiram, divorciadas da terra e c\u00e9ticas em rela\u00e7\u00e3o aos valores aristocr\u00e1ticos. Esses eram homens de atitudes modernas.\n\nAs rela\u00e7\u00f5es pessoais come\u00e7aram a perder sua import\u00e2ncia nas cidades, e os homens logo come\u00e7aram a falar nostalgicamente sobre os bons e velhos tempos, em contraste com o &#8220;instinto mercen\u00e1rio de nosso tempo&#8221;.\n\nA ideia de que os homens devem ser recompensados de acordo com sua capacidade come\u00e7ou a receber uma aceita\u00e7\u00e3o mais ampla. O crescimento de uma economia de exporta\u00e7\u00e3o criou uma cultura distinta, orientada para a Europa. As cidades portu\u00e1rias tornaram-se as cabe\u00e7as de ponte da civiliza\u00e7\u00e3o europeia. Modas de roupas, h\u00e1bitos alimentares, estilos arquitet\u00f4nicos e opini\u00f5es refletiam as novas influ\u00eancias da Europa.\n\n<strong>Tr\u00eas tipos urbanos merecem men\u00e7\u00e3o especial:\u00a0<\/strong>oficiais militares, engenheiros e industriais.\n\nOs oficiais n\u00e3o eram oriundos da aristocracia latifundi\u00e1ria, mas sim das cidades, e durante a Guerra do Paraguai desenvolveram uma antipatia pela escravid\u00e3o e um desprezo pelos bachar\u00e9is produzidos pelas institui\u00e7\u00f5es de ensino tradicionais. Insatisfeitos com seu status, eles olhavam com esperan\u00e7a para o futuro. Intimamente ligado a eles estava um novo grupo de engenheiros, civis que haviam iniciado suas carreiras como engenheiros militares ou haviam sido treinados na Escola Central, criada em 1858 e rebatizada de Instituto Polytechnico em 1874.\n\n<strong>Um deles expressou sua comum insatisfa\u00e7\u00e3o quando chorou para fora:<\/strong>\u00a0\u201cOh, qu\u00e3o miser\u00e1vel \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o dos engenheiros no Brasil.\u201d O industrialismo no Brasil criou outro novo grupo.\n\nA Guerra do Paraguai havia estimulado grande parte da manufatura de consumo, que aumentou ap\u00f3s o fim da guerra. Em meados da d\u00e9cada de 1870, as fundi\u00e7\u00f5es de ferro, as f\u00e1bricas t\u00eaxteis e as f\u00e1bricas de sapatos e chap\u00e9us tiveram um crescimento significativo. A manufatura t\u00eaxtil mudou das decadentes \u00e1reas do norte da Bahia para a pr\u00f3spera regi\u00e3o centro-sul, onde a tradi\u00e7\u00e3o industrial realmente teve seu in\u00edcio. Homens profissionais juntaram-se aos oficiais do ex\u00e9rcito, engenheiros e industriais. Apesar de sua forma\u00e7\u00e3o no direito tradicional e nas faculdades de medicina, foram impelidos pelo contato com a sociedade urbana a adotar os novos valores da cidade e as novas ideias importadas da Europa.\n\nOs centros urbanos, ent\u00e3o, estavam ocupados n\u00e3o apenas por um n\u00famero crescente de mercadores e burocratas diretamente relacionados \u00e0 economia de exporta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m por empres\u00e1rios industriais, engenheiros, oficiais militares e os filhos da antiga aristocracia que absorveram os valores desses novos grupos. Eles compartilhavam um interesse em mudan\u00e7a e \u201cprogresso\u201d, uma cren\u00e7a em uma sociedade caracterizada pela mobilidade social e individualismo, e uma economia dominada pelo lucro.\n\nEles tamb\u00e9m se opunham quase invariavelmente \u00e0 escravid\u00e3o. Isso era especialmente verdadeiro para os homens ligados \u00e0 ind\u00fastria.\n\nTodo o seu modo de vida exigia a liberdade de todos os homens de serem livremente contratados, livremente demitidos, livremente vendidos, livremente movimentados &#8211; unidades a serem unidas e desconectadas onde e como os imperativos econ\u00f4micos exigissem. Os empres\u00e1rios brasileiros estavam geralmente comprometidos com a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.\n\nEles reclamaram que a escravid\u00e3o desacelerou a forma\u00e7\u00e3o de capital e o amarrou ao trabalho im\u00f3vel. Um industrial baiano disse que a melhor prote\u00e7\u00e3o que o governo poderia dar \u00e0 ind\u00fastria era acabar com a escravid\u00e3o. Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, promotor da doca, insistia que \u201csem liberdade n\u00e3o h\u00e1 ind\u00fastria. A liberdade \u00e9 a m\u00e3e, o anjo da guarda de toda a ind\u00fastria. \u201d\n\nO equivalente nascente de uma associa\u00e7\u00e3o de fabricantes juntou-se \u00e0s duas principais sociedades abolicionistas j\u00e1 em 1881 na defesa do fim da escravid\u00e3o. Alunos e professores da escola de engenharia &#8211; a sementeira da nova elite progressista e industrial &#8211; formaram uma sociedade abolicionista pr\u00f3pria, e foi &#8220;em nome da engenharia brasileira&#8221; que um deles saudou a aprova\u00e7\u00e3o final da aboli\u00e7\u00e3o lei.\n\nOs industriais acreditavam que a substitui\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a de trabalho livre por uma escrava era a solu\u00e7\u00e3o para o problema da m\u00e3o de obra no Brasil.\n\nOs principais cafeicultores paulistas que viraram construtores de ferrovias foram ativos na importa\u00e7\u00e3o de trabalhadores europeus para tomar o lugar do escravo.\n\nA crescente demanda por m\u00e3o-de-obra em uma economia cafeeira em expans\u00e3o e o surgimento de grupos urbanos insatisfeitos com a escravid\u00e3o como sistema tornaram a aboli\u00e7\u00e3o uma necessidade.\n\n<strong>Por que ent\u00e3o, podemos perguntar, os primeiros passos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o foram dados no final da d\u00e9cada de 1860 e no in\u00edcio da de 1870, antes que qualquer uma dessas for\u00e7as pudesse ser considerada muito forte? E por que o com\u00e9rcio de escravos africanos foi proibido j\u00e1 em 1850?<\/strong>\n\nA resposta a ambas as perguntas pode ser encontrada na press\u00e3o exercida pelos brit\u00e2nicos.\n\nOs esfor\u00e7os brit\u00e2nicos para destruir o com\u00e9rcio de escravos foram muito discutidos e n\u00e3o precisam nos deter aqui. Uma longa sucess\u00e3o de tratados, legisla\u00e7\u00e3o anti-tr\u00e1fico e, por fim, a pr\u00f3pria invas\u00e3o dos portos brasileiros por navios brit\u00e2nicos s\u00e3o evid\u00eancias claras do compromisso brit\u00e2nico com esse objetivo. Nem precisamos avaliar a responsabilidade brit\u00e2nica pelo fim do com\u00e9rcio de escravos. Provavelmente, ambas as na\u00e7\u00f5es merecem algum cr\u00e9dito.\n\nA Gr\u00e3-Bretanha pressionou em um momento em que o governo brasileiro estava orgulhoso de seu controle rec\u00e9m-estabelecido sobre toda a na\u00e7\u00e3o e estava preocupado com as dificuldades diplom\u00e1ticas e militares iminentes no R\u00edo de la Plata. Ao mesmo tempo, um excesso moment\u00e2neo de novos escravos ajudou a promover a aprova\u00e7\u00e3o e a aplica\u00e7\u00e3o rigorosa da lei antiescravo.8 Assim, as a\u00e7\u00f5es en\u00e9rgicas da Gr\u00e3-Bretanha combinaram-se com circunst\u00e2ncias prop\u00edcias no pr\u00f3prio Brasil para acabar com o com\u00e9rcio de escravos.\n\n\u00c9 menos conhecido que a Gr\u00e3-Bretanha continuou a pressionar o governo de Pedro II nas d\u00e9cadas de 1850 e 1860, at\u00e9 que o pr\u00f3prio Brasil deu provas de um firme compromisso com o fim da escravid\u00e3o.\n\nEnquanto a lei que liberta os filhos de escravos nascidos depois de 28 de setembro de 1871 costuma ser considerada a primeira evid\u00eancia de uma campanha abolicionista, ela foi na verdade a conclus\u00e3o da fase brit\u00e2nica da hist\u00f3ria, iniciada quarenta anos antes.\n\nOs movimentos brit\u00e2nicos para atacar a institui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o giraram em torno de tr\u00eas quest\u00f5es. Em primeiro lugar, milhares de africanos entraram no pa\u00eds desde 1831, em viola\u00e7\u00e3o das leis e tratados brasileiros.\n\nOutra quest\u00e3o dizia respeito aos negros encontrados a bordo de navios negreiros que o Tribunal da Comiss\u00e3o Mista do Rio supostamente havia libertado, mas que de alguma forma foram privados de sua liberdade.\n\nFinalmente e mais importante foi a quest\u00e3o abstrata da pr\u00f3pria escravid\u00e3o.\n\nO ministro brit\u00e2nico no Brasil no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1860, William D. Christie, manteve press\u00e3o constante sobre as tr\u00eas quest\u00f5es.\n\n<strong>Em 1862 ele escreveu ao Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Lord John Russell:<\/strong>\u00a0\u201cEm v\u00e1rias ocasi\u00f5es, sugeri a Vossa Senhoria a import\u00e2ncia de se esfor\u00e7ar, se poss\u00edvel, para. . . persuadir o governo brasileiro a tomar medidas que levem \u00e0 extin\u00e7\u00e3o definitiva da escravid\u00e3o e, entretanto, mitigando seus males \u201d.\n\nEle ficou particularmente excitado com o destino dos africanos supostamente libertados pelo Tribunal da Comiss\u00e3o Mista, e quando o governo brasileiro os libertou em 1864, ele atribuiu a a\u00e7\u00e3o \u00e0s repres\u00e1lias que havia cometido no ano anterior sob outro pretexto.\n\nAinda mais importante, essas repres\u00e1lias foram diretamente respons\u00e1veis pelo in\u00edcio de passos mais amplos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o.\n\nNo in\u00edcio de 1864, o imperador expressou temor de que, se o Brasil n\u00e3o se movesse nessa dire\u00e7\u00e3o, os brit\u00e2nicos tomassem a iniciativa como fizeram com o com\u00e9rcio de escravos.\n\nTemores semelhantes foram expressos no Senado. D. Pedro II pediu uma lei que liberasse todos os nascidos de m\u00e3es escravas a partir de certa data.\n\nSeus principais argumentos avaliados pelo Conselho de Estado foram o medo de uma eventual revolta de escravos e a probabilidade de interven\u00e7\u00e3o estrangeira. Durante 1865, uma lei nesse sentido foi submetida ao Conselho de Estado e, em maio de 1867, o imperador referiu-se \u00e0 quest\u00e3o da escravid\u00e3o no Discurso do Trono, a primeira indica\u00e7\u00e3o p\u00fablica de que o imp\u00e9rio poderia considerar a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. O Brasil reagiu com horror e sil\u00eancio, mas a Gr\u00e3-Bretanha se preparou para revogar sua legisla\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de com\u00e9rcio anti-escravos.\n\nO resultado final foi a lei brasileira de 1871, que libertou os filhos dos escravos nascidos a partir da\u00ed, embora eles tivessem que trabalhar para o patr\u00e3o da m\u00e3e at\u00e9 os 21 anos a t\u00edtulo de indeniza\u00e7\u00e3o.\n\nEmbora nada tenha sido dito sobre a eventual aboli\u00e7\u00e3o, estava claro que a escravid\u00e3o no Brasil estava condenada.\n\n\u00c9 claro que a press\u00e3o brit\u00e2nica foi a respons\u00e1vel por essa lei, na medida em que nem os cafeicultores de S\u00e3o Paulo nem os novos grupos urbanos haviam surgido para exercer influ\u00eancia pol\u00edtica nesse sentido.\n\nAlguns historiadores sugeriram que a influ\u00eancia brit\u00e2nica na aboli\u00e7\u00e3o surgiu menos do humanitarismo do que do desejo de aumentar o poder de compra do mercado brasileiro de produtos brit\u00e2nicos. Na verdade, as pessoas raramente t\u00eam tanta vis\u00e3o. Os resultados da aboli\u00e7\u00e3o eram incertos; pode ter mergulhado o Brasil em um per\u00edodo de caos e decl\u00ednio econ\u00f4mico.\n\nComerciantes brit\u00e2nicos no Rio e fabricantes de t\u00eaxteis em Manchester protestaram ruidosamente contra as a\u00e7\u00f5es en\u00e9rgicas de Christie, e ele n\u00e3o hesitou em dizer que estavam ajudando a escravid\u00e3o brasileira.\n\nUma explica\u00e7\u00e3o muito mais defens\u00e1vel e sofisticada \u00e9 que os valores da classe m\u00e9dia tendiam a dominar toda a na\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica e que a escravid\u00e3o e o com\u00e9rcio de escravos contradiziam esses valores.\n\nO direito de ser senhor de si mesmo era o mais b\u00e1sico de todos os direitos individuais e uma amea\u00e7a a esse direito em qualquer lugar do mundo era uma amea\u00e7a \u00e0 validade de todos os direitos que a classe m\u00e9dia brit\u00e2nica considerava essenciais. Para o brit\u00e2nico naquela \u00e9poca, n\u00e3o era mais uma quest\u00e3o de pesar pr\u00f3s e contras e medir as vantagens ou desvantagens econ\u00f4micas da escravid\u00e3o. Um princ\u00edpio essencial para seu modo de vida estava agora em jogo. Da mesma forma, a escravid\u00e3o gerou oposi\u00e7\u00e3o nos setores brasileiros que atacavam uma sociedade tradicional, pr\u00e9-industrial e n\u00e3o-individualista.\n\nNo final da d\u00e9cada de 1870, o cen\u00e1rio era favor\u00e1vel ao movimento abolicionista. Uma economia de exporta\u00e7\u00e3o em expans\u00e3o exigia mais m\u00e3o-de-obra. Era \u00f3bvio que a escravid\u00e3o acabaria mais cedo ou mais tarde e que nenhum novo escravo estaria dispon\u00edvel, nem da \u00c1frica, nem da procria\u00e7\u00e3o.\n\nFinalmente, novos grupos urbanos estavam descobrindo que a escravid\u00e3o era um impedimento n\u00e3o apenas para seu pr\u00f3prio sucesso financeiro, mas para a dissemina\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o de mundo.\n\nA maneira como essas for\u00e7as gerais foram traduzidas em a\u00e7\u00f5es concretas \u00e9 de crucial import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o desse per\u00edodo da hist\u00f3ria brasileira. Por uma quest\u00e3o de clareza, \u00e9 melhor saltar em frente, come\u00e7ar com as causas diretas da a\u00e7\u00e3o parlamentar que liberta os escravos e, em seguida, retroceder para mostrar a import\u00e2ncia dessas tend\u00eancias mais amplas.\n\nA causa imediata mais importante da aboli\u00e7\u00e3o foi a fuga dos escravos das fazendas de caf\u00e9 de S\u00e3o Paulo e do Rio. Nos dois anos anteriores \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da lei da aboli\u00e7\u00e3o, em maio de 1888, um enorme n\u00famero de escravos se revoltou contra a autoridade com os p\u00e9s, fugindo das plantations, a princ\u00edpio secretamente, um a um, e depois em massa e quase publicamente.\n\nOs propriet\u00e1rios nada podiam fazer por si pr\u00f3prios contra esse tipo de a\u00e7\u00e3o direta, e a dicotomia entre cidade e campo tornou-se agora evidente pela primeira vez, pois no sistema de fuga as cidades desempenhavam um papel essencial, como agentes das for\u00e7as de mudan\u00e7a. Rio, Niter\u00f3i, Petr\u00f3polis, Campos, Santos, S\u00e3o Paulo e cidades menores da regi\u00e3o cafeeira tornaram-se cidades virtualmente livres para o escravo, pois foram adotadas medidas para auxili\u00e1-lo a chegar ao estado do Cear\u00e1, onde a escravid\u00e3o j\u00e1 havia sido abolida 1884, ou iniciou uma a\u00e7\u00e3o legal para provar que ele foi detido ilegalmente, ou deu-lhe asilo permanente.\n\nEm S\u00e3o Paulo, Ant\u00f4nio Bento de Souza e Castro organizou um sistema em que escravos eram retirados das planta\u00e7\u00f5es, colocados em trens ou pastoreados a p\u00e9 at\u00e9 Santos e instalados em favelas.\n\nEle tamb\u00e9m teve a temeridade de oferecer escravos fugitivos aos propriet\u00e1rios de planta\u00e7\u00f5es como trabalhadores contratados durante a alta temporada da colheita.\n\nAs mesmas ferrovias que possibilitaram a expans\u00e3o da cafeicultura agora serviam aos escravos.\n\n<strong>Como disse um historiador:<\/strong>\u00a0\u201cN\u00e3o havia um passageiro ou trem de carga no qual um escravo fugitivo n\u00e3o pudesse encontrar meios de se esconder, e n\u00e3o havia uma esta\u00e7\u00e3o onde algu\u00e9m n\u00e3o o recebesse e ajudasse discretamente\u201d.\n\nQuase todos os funcion\u00e1rios das ferrovias eram considerados abolicionistas, e n\u00e3o menos entusiasmados eram os gerentes. Em Santos, onde todos os escravos locais haviam sido libertados em 1886 por assinatura p\u00fablica, os escravos que chegavam pela \u201cferrovia subterr\u00e2nea\u201d eram imediatamente abrigados na periferia da cidade. At\u00e9 dez mil \u00e0s vezes se reuniam l\u00e1.\n\nA hist\u00f3ria em outras cidades era quase a mesma. No Rio de Janeiro, centro do movimento abolicionista, n\u00e3o houve dificuldade em encontrar asilo tempor\u00e1rio nas casas dos interessados, de onde foram encaminhados para a periferia do Leblon. Petr\u00f3polis tamb\u00e9m se tornou um ref\u00fagio para fugitivos. Em Campos, a a\u00e7\u00e3o direta assumiu uma forma ainda mais aberta, pois aqui Luiz Carlos de Lacerda instou a revolta de escravos e foi responsabilizado pela queima de canaviais.\n\n<strong>Por que o governo n\u00e3o interrompeu a fuga em massa de escravos?<\/strong>\n\nEmbora os governos provincial e central agissem de tempos em tempos, logo ficou claro que seus agentes, muitos dos quais eram burocratas de segunda gera\u00e7\u00e3o com origens urbanas, n\u00e3o tinham o cora\u00e7\u00e3o na tentativa de reprimir a fuga de escravos. Era nas cidades que o governo estava localizado, e os esfor\u00e7os para conter a ferrovia subterr\u00e2nea encontraram oposi\u00e7\u00e3o civil a cada passo.\n\n\u00c9 especialmente significativo que as for\u00e7as armadas tenham sido recrutadas nas cidades, especialmente os oficiais.\n\nAs escolas militares foram durante anos o local de sociedades abolicionistas. Muitas s\u00e3o as provas da relut\u00e2ncia dos militares em atuar como ca\u00e7adores de escravos at\u00e9 que, finalmente, em outubro de 1887, o Clube Militar, composto pelos principais elementos do ex\u00e9rcito, pediu \u00e0 princesa regente que fosse dispensada da ca\u00e7a aos escravos.\n\nA aristocracia propriet\u00e1ria de terras ficava cada vez mais t\u00edmida diante das demandas dos oficiais cada vez mais auto-afirmativos, e os militares venciam. J\u00e1 foi sugerido que, se o legislador n\u00e3o tivesse aprovado a lei da aboli\u00e7\u00e3o em 1888, as cidades teriam se revoltado e os militares n\u00e3o teriam defendido o regime.\n\nA coopera\u00e7\u00e3o das classes urbanas pode ser observada em um epis\u00f3dio bem-humorado ocorrido em Santos. O governo da prov\u00edncia enviou um trem de tropas para capturar os escravos fugitivos.\n\nQuando o trem parou na esta\u00e7\u00e3o, os soldados se viram cercados pelas principais matronas da cidade, que trancaram as portas dos vag\u00f5es, impedindo-os de pousar.\n\nO superintendente da ferrovia convenceu o indiferente comandante da expedi\u00e7\u00e3o a se render por for\u00e7a maior e retornar \u00e0 capital provincial.\n\nNem os soldados nem esses representantes dos novos grupos urbanos estavam interessados em proteger a propriedade humana dos propriet\u00e1rios de terras.\n\nFinalmente, durante os primeiros meses de 1888, os fazendeiros come\u00e7aram a libertar seus pr\u00f3prios escravos para impedi-los de deixar as planta\u00e7\u00f5es. Em maio, estimava-se que metade dos escravos que haviam estado na \u00e1rea de Campos seis meses antes estava livre e que um ter\u00e7o das planta\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo estava sendo trabalhado por escravos rec\u00e9m-libertados.\n\nUma vez que o processo ent\u00e3o em pleno andamento acabaria com a escravid\u00e3o para todos os efeitos e prop\u00f3sitos dentro de alguns meses, a lei que aboliu a escravid\u00e3o foi em grande parte uma formalidade.\n\n<strong>Um anti-abolicionista perguntou: Para qu\u00ea, uma lei de aboli\u00e7\u00e3o?<\/strong>\n\nNa verdade, j\u00e1 est\u00e1 feito &#8211; e de forma revolucion\u00e1ria. Os senhores apavorados procuram conter o \u00eaxodo, dando liberdade imediata aos seus escravos.\n\nIsso n\u00e3o significa subestimar o papel das ideias dos abolicionistas em trazer o fim da escravid\u00e3o. Deu muito trabalho persuadir os escravos a deixar as planta\u00e7\u00f5es.\n\nA Confedera\u00e7\u00e3o Abolicionista carioca contratou mascates italianos para circular entre eles e distribuir folhetos pelo interior. Presumivelmente, eles foram lidos para os escravos analfabetos.\n\nCapatazes escravos assassinaram alguns dos mascates, mas a not\u00edcia continuou a se espalhar.\n\nOs abolicionistas tamb\u00e9m faziam quest\u00e3o de transmitir sua mensagem aos escravos que passavam pela cidade com seus senhores. Ao retornar, esses escravos carregavam consigo a ideia de fuga e o conhecimento de que eles e seus companheiros seriam ajudados e protegidos.\n\nUm tipo de prote\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m refletiu o sucesso dos abolicionistas em mudar as atitudes dos magistrados brasileiros.\n\nOs abolicionistas descobriram o artif\u00edcio de levar ao tribunal o caso de escravos importados desde 1831, acusando a escravid\u00e3o ilegal de pessoas livres. No in\u00edcio, esse esfor\u00e7o teve pouco sucesso, e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1880 os abolicionistas ainda podiam dizer, referindo-se \u00e0 lei de cinquenta anos, que &#8220;os ju\u00edzes deste pa\u00eds n\u00e3o sabem ler ou n\u00e3o sabem contar&#8221;. Logo, por\u00e9m, alguns ju\u00edzes, movidos pela pr\u00f3pria for\u00e7a da campanha abolicionista, come\u00e7aram a proferir decis\u00f5es favor\u00e1veis.\n\nDepois de 1883, poucos tribunais negariam a liberdade ao escravo que pudesse provar que ele ou seus pais haviam sido trazidos depois de 1831, e em uma ocasi\u00e3o um advogado garantiu a liberdade de 716 escravos invocando essa lei.\n\nMais tarde, os ju\u00edzes at\u00e9 colocaram o \u00f4nus da prova sobre o propriet\u00e1rio. A vigorosa campanha de palavras e ideias que precedeu e acompanhou a fuga das planta\u00e7\u00f5es deu frutos.\n\nFoi a for\u00e7a e a efic\u00e1cia da cruzada abolicionista que persuadiu grandes segmentos da popula\u00e7\u00e3o urbana a aquiescer ou contribuir para o sucesso do movimento.\n\nSe n\u00e3o fosse pelo constante esfor\u00e7o abolicionista de repelir o anacronismo da escravid\u00e3o em uma era de \u201cprogresso\u201d, \u00e9 duvidoso que os militares teriam se recusado a cooperar na preserva\u00e7\u00e3o do status quo.\n\nOutros grupos urbanos tamb\u00e9m cooperaram na fuga bem-sucedida dos escravos.\n\nEsta campanha abolicionista, que come\u00e7ou em 1879, foi examinada com algum detalhe por outros, de modo que pouco precisa ser dito sobre ela aqui. Ao longo da d\u00e9cada de 1880, jornalistas e publicit\u00e1rios levaram a mensagem \u00e0s casas das classes m\u00e9dias urbanas. Sociedades abolicionistas bem financiadas forneceram a dire\u00e7\u00e3o para a campanha multifacetada.\n\nEsses clubes apresentavam uma s\u00e9rie de palestras, uma quase todas as semanas, e tornou-se moda entre os aspirantes a modernistas participar. Com a desculpa mais fr\u00e1gil, uma demonstra\u00e7\u00e3o seria encenada, com desfiles, faixas e discursos. As sociedades publicaram diversos jornais e utilizaram todos os meios poss\u00edveis para divulgar a causa. No Parlamento, o movimento encontrou oradores brilhantes para levar a cabo as primeiras e cautelosas meias-medidas.\n\nDe 1884 a 1888, esse corpo esteve envolvido na discuss\u00e3o da escravid\u00e3o quase constantemente, e os oponentes da aboli\u00e7\u00e3o culparam o trabalho dos publicit\u00e1rios na cidade e a fuga dos escravos do pa\u00eds pela nova preocupa\u00e7\u00e3o. Ant\u00f4nio Prado, importante cafeicultor e empres\u00e1rio que podia falar pelos interesses do pa\u00eds mais esclarecido, assumiu a lideran\u00e7a das manobras parlamentares em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o e empurrou-as.\n\nOs abolicionistas conseguiram organizar as preocupa\u00e7\u00f5es da cidade para pressionar um novo grupo de fazendeiros a se posicionar ao lado do progresso.\n\nEm\u00a0<strong>13 de maio de 1888<\/strong>, a princesa regente assinou a lei abolindo a escravid\u00e3o no Brasil sem indeniza\u00e7\u00e3o. As comemora\u00e7\u00f5es de um m\u00eas aconteceram em quase todas as cidades do Brasil com fogos de artif\u00edcio, palestras e desfiles. No campo, por\u00e9m, houve pouca alegria. Os pr\u00f3prios escravos estavam desorientados, sem saber o que fazer com sua liberdade.\n\nMuitos se aglomeraram nas cidades para encontrar seus companheiros que j\u00e1 haviam fugido das planta\u00e7\u00f5es. Os mestres, mesmo aqueles que consentiram ou cooperaram nas etapas finais do movimento, ficaram naturalmente atordoados com a rapidez da transforma\u00e7\u00e3o. Seguiu-se uma depress\u00e3o geral no campo.\n\nOs esfor\u00e7os do governo para amenizar essa situa\u00e7\u00e3o emprestando fundos aos propriet\u00e1rios de terras apenas fortaleceram ainda mais os grupos urbanos de gerentes de bancos, promotores de empresas, manipuladores de a\u00e7\u00f5es e seus funcion\u00e1rios.\n\nOs efeitos da aboli\u00e7\u00e3o foram de longo alcance. Transferiu o poder da zona a\u00e7ucareira do Nordeste e da antiga regi\u00e3o cafeeira do vale do Para\u00edba para a nova zona cafeeira do estado de S\u00e3o Paulo.\n\nAumentou a confian\u00e7a dos novos grupos urbanos e, embora sua vit\u00f3ria parecesse ter vida curta, foi um passo significativo no longo caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m enfraqueceu seriamente a monarquia, cujos la\u00e7os com os propriet\u00e1rios de terras s\u00e3o bem conhecidos. At\u00e9 o ex-escravo, agora assalariado, mas privado da sensa\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria, deu pelo menos um passo mais perto do mundo moderno.\n\n<strong>Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura no Brasil &#8211; Resumo<\/strong>\n\nO Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds ocidental a abolir a escravid\u00e3o, o que aconteceu em 1888. Como institui\u00e7\u00e3o colonial, a escravid\u00e3o estava presente em todas as regi\u00f5es e em quase todas as camadas livres e libertas da popula\u00e7\u00e3o.\n\nA emancipa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se tornou um problema na esfera pol\u00edtica quando foi levantada pelo governo imperial na segunda metade da d\u00e9cada de 1860, ap\u00f3s a derrota da Confedera\u00e7\u00e3o na Guerra Civil dos Estados Unidos e durante a guerra contra o Paraguai. Em 1871, a nova legisla\u00e7\u00e3o, apesar da oposi\u00e7\u00e3o inicial dos propriet\u00e1rios de escravos e seus representantes pol\u00edticos, instaurou um processo de emancipa\u00e7\u00e3o gradual. No final do s\u00e9culo, a escravid\u00e3o teria desaparecido, ou teria se tornado residual, sem grandes perturba\u00e7\u00f5es para a economia ou o regime fundi\u00e1rio.\n\nNo final da d\u00e9cada de 1870, entretanto, a oposi\u00e7\u00e3o popular \u00e0 escravid\u00e3o, exigindo sua aboli\u00e7\u00e3o imediata sem qualquer tipo de compensa\u00e7\u00e3o aos ex-propriet\u00e1rios de escravos, cresceu no parlamento e como um movimento de massa. As organiza\u00e7\u00f5es abolicionistas espalharam-se pelo pa\u00eds durante a primeira metade da d\u00e9cada de 1880.\n\nEstimulada pela a\u00e7\u00e3o direta de algumas dessas organiza\u00e7\u00f5es abolicionistas, a resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o se intensificou e se tornou cada vez mais uma luta contra a pr\u00f3pria escravid\u00e3o e n\u00e3o apenas pela liberdade individual ou coletiva. Incapaz de controlar a situa\u00e7\u00e3o, o governo imperial finalmente aprovou uma lei no parlamento concedendo a aboli\u00e7\u00e3o imediata e incondicional em\u00a0<strong>13 de maio de 1888.<\/strong>\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0Vinicius Carlos da Silva\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura no Brasil &#8211; O que foi No dia 13 de maio de 1888 foi assinada pela Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II, a mais importante lei contra a escravid\u00e3o, a\u00a0Lei \u00c1urea, que acabaria legalmente de uma vez por todas com a escravid\u00e3o no Brasil, \u00faltimo pa\u00eds do mundo a acabar com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8692,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-25818","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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