{"id":20832,"date":"2015-12-23T00:00:00","date_gmt":"2015-12-23T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/anglicanismo-3\/"},"modified":"2015-12-23T00:00:00","modified_gmt":"2015-12-23T00:00:00","slug":"anglicanismo-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-geral\/anglicanismo-3\/","title":{"rendered":"Anglicanismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Anglicanismo &#8211; Movimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nasceu de um movimento de id\u00e9ias, n\u00e3o do estadismo religioso de Henrique VIII, cujos epis\u00f3dios do cotidiano conjugal incitaram um s\u00e9rio desentendimento com o papado. Religi\u00e3o oficial da Gr\u00e3 Bretanha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de influenciado pela Reforma e pelo Humanismo, o\u00a0<strong>Anglicanismo<\/strong>\u00a0foi institu\u00eddo na Inglaterra principalmente por raz\u00f5es de Estado e marcara a ruptura, em 1534, do rei Henrique VIII com o clero crist\u00e3o. Henrique VIII teve como pretexto para essa dissocia\u00e7\u00e3o a recusa do Papa Clemente VII. Este, pra variar, n\u00e3o concedera o div\u00f3rcio ao soberano-mor ingl\u00eas, que, por ironia, instituiu-se caudilho supremo da Igreja, separando o templo romano do cat\u00f3lico, do qual lhe confiscou alguns bens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cis\u00e3o de Henrique VIII com o prelado romano acabou por favorecer o debuxo luterano cuja influ\u00eancia se concretizara atrav\u00e9s do Book of Common Prayer (Livro de Ora\u00e7\u00e3o Comum).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este livro, mais tarde, isentou-se das influi\u00e7\u00f5es calvinistas. Foi quando fac\u00e7\u00f5es pr\u00f3-cat\u00f3licas e pr\u00f3-protestantes alternaram-se no dom\u00ednio da s\u00e9, gerando, com isso, conflitos que culminaram na Guerra Civil (1642) e na execu\u00e7\u00e3o do arcebispo William Laud e do Rei Carlos I, que professavam cultos crist\u00e3os. Na verdade, a Reforma Anglicana apareceu na Hist\u00f3ria como uma via, como um canal intermedi\u00e1rio entre o catolicismo, que conservava determinadas gradua\u00e7\u00f5es e mesclava diversas formas de liturgia, e o protestantismo, criado por Lutero, cujos princ\u00edpios doutrinais se mant\u00e9m fixos at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com esta dupla ambiguidade de valores o Anglicanismo se sustenta e tenta aproximar alcatoriamente as clerezias. Relatos hist\u00f3ricos d\u00e3o conta que a Revolu\u00e7\u00e3o Gloriosa (1688) estabelecera o predom\u00ednio da fac\u00e7\u00e3o pr\u00f3-protestante sobre as posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3-cat\u00f3licas ? mas sem se atrelar diretamente ao catolicismo ? e perduram at\u00e9 o s\u00e9culo XIX. No decorrer da Hist\u00f3ria, o Anglicanismo desdobrou-se em in\u00fameros motins. A\u00ed, um tal de John Wesley fundou (1738) a Igreja Metodista, e, a seguir, com o perd\u00e3o da redund\u00e2ncia, foram fundadas outras sec\u00e7\u00f5es de Igrejas, como, por exemplo, a Episcopal americana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A oposi\u00e7\u00e3o ao evangelismo de John Wesley levou a sua institui\u00e7\u00e3o (1791), a se desunir do clero romano ortodoxo. A catoliza\u00e7\u00e3o das capelas brit\u00e2nicas exacerbou a antipatia dos bispos e dos puritanos, e a cren\u00e7a religiosa foi um dos fatores cruciais de conflagra\u00e7\u00f5es no s\u00e9culo XVII. Apesar do Anglicanismo ser banido durante anos do Protetorado e da Commonwealth, a Rep\u00fablica Inglesa (1649), ele tornou a vigorar com a Restaura\u00e7\u00e3o (1660). O C\u00f3digo de Clarendon e os Atos de Teste levaram as bas\u00edlicas inglesas a um rompimento entre o Anglicanismo institucionalizado e os n\u00e3o-conformistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As causas do Rei Jaime II tiveram \u00ednclita relev\u00e2ncia em insurrei\u00e7\u00f5es. O Ato de Toler\u00e2ncia garantia uma condescend\u00eancia limitada aos n\u00e3o-conformistas, a despeito destes se recusarem a jurar compromissos ao episcopado. Isso fez com que Guilherme III fosse despojado das suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a emancipa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica se dera, mas somente (1829). O s\u00e9culo XVIII testemunhou disputas entre os High Anglicans, que escoravam o conservadorismo de Laud, e os Low Anglicans, ou latitudin\u00e1rios, que davam menos import\u00e2ncia \u00e0s formas dos ritos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outra coisa<\/strong>: a formula\u00e7\u00e3o dos preceitos anglicanos data do reinado de Elizabeth I. O Segundo Livro de Ora\u00e7\u00e3o Comum do reinado de Eduardo VI foi revisado e modificado (1559) e sua ado\u00e7\u00e3o se tornou obrigat\u00f3ria pelo Ato da Uniformidade. Os Trinta e Nove Artigos (1563) foram debatidos na Convoca\u00e7\u00e3o, a mais elevada tert\u00falia da Igreja, como uma declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo era instituir uma clerezia episcopal nacional. Essa clerezia teria como morubixaba o monarca \u2013 uma esp\u00e9cie de governante. As pessoas que se recusassem a participar dos servi\u00e7os eram multadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os puritanos, por exemplo, ficaram descontentes com as normas pr\u00e9-estabelecidas e a Rainha se op\u00f4s aos seus tent\u00e2mens de alterar o clero anglicano. N\u00e3o logrou \u00eaxito neste des\u00edgnio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Dentro do pr\u00f3prio Anglicanismo brit\u00e2nico existem duas correntes, a saber:<\/strong>\u00a0a dos modernistas, que defendem a vulgocracia e o subjetivismo religioso, e a dos n\u00e3o-conformistas, que se op\u00f5em aos ide\u00e1rios anglicanos de fus\u00e3o entre Estado e F\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O\u00a0<strong>Anglicanismo<\/strong>\u00a0contava com mais de 3 milh\u00f5es (1970) de adeptos na Gr\u00e3 Bretanha. E capelas anglicanas se espalhavam pelo Canad\u00e1, Nova Zel\u00e2ndia, \u00c1frica do Sul, Austr\u00e1lia, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa religi\u00e3o chegou ao Brasil no in\u00edcio do s\u00e9culo (1810) e na segunda metade do s\u00e9culo passado (em 1970) contava com aproximadamente 2 mil membros, distribu\u00eddos em 12 s\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Hist\u00f3ria do Anglicanismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00a0<strong>hist\u00f3ria do Anglicanismo<\/strong>\u00a0coincide, em grande parte, com a Hist\u00f3ria da Igreja da Inglaterra e a Hist\u00f3ria da Igreja, na Inglaterra, \u00e9 o resultado, o somat\u00f3rio, de experi\u00eancias religiosas de v\u00e1rios matizes, com caracter\u00edsticas bem espec\u00edficas e, tamb\u00e9m, da acomoda\u00e7\u00e3o cultural d e diferentes tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Isto faz da Hist\u00f3ria da Igreja na Inglaterra uma experi\u00eancia fascinante:<\/strong>\u00a0ora ela se desenvolve dentro dos seus pr\u00f3prios padr\u00f5es culturais, ora ela caminha sob autoridade externa, ora ela retoma seus direitos de ter os seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios, a sua a uto-determina\u00e7\u00e3o, dentro dos padr\u00f5es da Cristandade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso se desenvolve dentro de um contexto s\u00f3cio -pol\u00edtico-cultural pertinente ao momento hist\u00f3rico pelo qual o pa\u00eds es t\u00e1 passando e se desenvolvendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os per\u00edodos hist\u00f3ricos pelos quais a Inglaterra atravessa s\u00e3o determinantes, tamb\u00e9m, para a constru\u00e7\u00e3o do seu processo religioso, como vamos ver, na continuidade desse texto. Da\u00ed a necessidade de, para entender o desenvolvimento religioso do que viria a ser o Anglicanismo, conhecer, tamb\u00e9m o respectivo processo hist\u00f3rico. A partir dele, floresce, em suas v\u00e1rias fases, o desenvolvimento religioso c om os seus v\u00e1rios desdobramentos e caracter\u00edsticas. E isso \u00e9 t\u00e3o forte na Inglaterra, que at\u00e9 hoje, o pa\u00eds n\u00e3o conseguiu se desvencilhar da estre ita liga\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado, o que, entendemos, pode ser um fardo para a Igreja da Inglaterra, embora haja, ainda hoje, os defensores dessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e hist\u00f3rica do Anglicanismo, atualmente, ele n\u00e3o \u00e9 mais sin\u00f4nimo de ingl\u00eas ou Igreja ou religi\u00e3o dos ingleses. O grandioso desse processo evolutivo \u00e9 que, por muito tempo, Anglicanismo foi sin\u00f4nimo de comunh\u00e3o, de irmandade, de reuni\u00e3o de igrejas ou prov\u00edncias aut\u00f4nomas, no que concerne ao seu governo e administra\u00e7\u00e3o, com uma identidade doutrin\u00e1ria comum, embora adapta da \u00e0s variantes culturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No entanto, atualmente, a Comunh\u00e3o Anglicana est\u00e1 passando por uma grande crise interna, em que o sentido de unidade, de comunh\u00e3o est\u00e1 sendo questionado, por fatos que ocorreram no s\u00e9culo XX:\u00a0<\/strong>a ordena\u00e7\u00e3o feminina, e no XXI, a sagra\u00e7\u00e3o de um bispo homossexual assumido, pela Igreja dos Estados Unidos, e a b\u00ean\u00e7\u00e3o matrimonial de casais do mesmo sexo, por uma diocese canadense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas mudan\u00e7as em prov\u00edncias anglicanas gerou um processo de ruptura com outras, principalmente na \u00c1frica, \u00c1sia, Cone Sul, etc. A crise n\u00e3o \u00e9 mais ocasionada, como no passado, pelos movimentos pol\u00edticos do pa\u00eds Inglaterra, mas sim pelas tentativas de ajustes culturais aos dias contempor\u00e2neos, sem um processo pr\u00e9vio de consulta e reflex\u00e3o na Comunh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tens\u00e3o entre a liberdade interna de uma prov\u00edncia e o consenso de toda a Comunh\u00e3o est\u00e1 mais do que evidente, nos dias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Da Pr\u00e9-Hist\u00f3ria \u00e0 Domina\u00e7\u00e3o Romana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Gr\u00e3-Bretanha, nos per\u00edodos mais remotos de sua hist\u00f3ria, foi primeiramente habitada pelos homens das cavernas os quais, por n\u00e3o possu\u00edrem escrita, n\u00e3o deixaram registros de sua experi\u00eancia de vida (Pr\u00e9-Hist\u00f3ria).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o transcorrer do tempo, fala-se que o territ\u00f3rio foi ocupado pelos Ib\u00e9ricos ou Iv\u00e9ricos, que vieram do leste, e que tinham uma not\u00e1vel semelhan\u00e7a com os Bascos. \u00c9 poss\u00edvel que eles, vinculados a alguma tribo mong\u00f3lica em busca do oeste, guiada pelo instinto que dirigiu muitas migra\u00e7\u00f5es raciais, na dire\u00e7\u00e3o ocidental, tomaram os rumos do norte e do sul ? um grupo, para enfrentar os perigos do mar e habitar a futura Brit\u00e2nia e a Irlanda; outro, para atravessar os Pirineus e permanecer abrigado em suas profundas ravinas; ou, talvez, que os Bascos dos Pirineus, enfrentando as tormentas da Ba\u00eda de Biscaia em seus fr\u00e1geis barcos, se aventurassem \u00e0s praias da Brit\u00e2nia. Baixos e de pele escura seriam esses corajosos aventureiros, de aspecto cruel, com cabe\u00e7as grandes, adorando os poderes da Natureza com ritos misteriosos e cru\u00e9is, incluindo o sacrif\u00edcio humano, venerando totens e ancestrais e valorizando mais a ascend\u00eancia materna do que a paterna. Quando os Celtas, mais fortes e civilizados chegaram \u00e0s Ilhas Brit\u00e2nicas, encontraram esse povo pequeno, o qual escravizaram (os homens), ou se mesclaram (com as mulheres) e, por seu lado, ca\u00edram na pr\u00e1tica religiosa dos seus derrotados, o que inclu\u00eda o druidismo. Os celtas tamb\u00e9m v\u00e3o desenvolver um tipo de classe social, um misto de poetas e de religiosos, conhecidos como filidh. No in\u00edcio, eram considerados uma esp\u00e9cie de m\u00e1gicos, com poderes sobre as manifesta\u00e7\u00f5es da natureza. Com o tempo, seus poderes passaram para os druidas e para os brehons(uma esp\u00e9cie de homens da lei), concentrando suas atividades na poesia e na filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Provavelmente origin\u00e1rios do norte dos Alpes, os Celtas se espalharam por grande parte da Europa, chegando at\u00e9 \u00e0 Escandin\u00e1via, principalmente dos anos 500 a.C. ao ano 1 d.C, quando deixaram a sua terra natal na Europa Central. Nessas ondas migrat\u00f3rias e invasoras, provavelmente dois dos seus grupos atingiram as Ilhas Brit\u00e2nicas, os Bret\u00f5es e os Goidels.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Bret\u00f5es atravessaram o Canal da Mancha e se estabeleceram na atual Inglaterra e Gales, mas os Goidels, provavelmente no s\u00e9culo IV a.C., passaram diretamente da Fran\u00e7a para a Irlanda, onde chegaram a ser, rapidamente, a classe dominante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 desses grupos de Celtas que vai se ocupar a nossa narrativa. \u00c9 deles que os ingleses e irlandeses herdaram, bem como em algumas partes da Espanha (habitada pelos chamados Celtas Ib\u00e9ricos ou Celtiberos) as hist\u00f3rias de duendes, elfos, gnomos e lendas do tipo, que tamb\u00e9m existem na Espanha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando chegaram \u00e0s Ilhas Brit\u00e2nicas e dominaram os habitantes de ent\u00e3o, os pequeninos ib\u00e9ricos, os celtas impressionaram, n\u00e3o s\u00f3 pelas suas armas (dominavam o manuseio do ferro, perfeitamente), mas, tamb\u00e9m, pela apar\u00eancia, diferente daqueles homens diminutos, pois eram altos, muitos com olhos azuis, cabelo avermelhado e tatuagens (chegaram a ser confundidos, erradamente, com outro grupo invasor posterior, os pictos, os homens pintados). Suas armas, seus carros de guerra, seu modo de vida, de tratar as mulheres, eram muito similares aos dos gregos, \u00e0 \u00e9poca do poeta Homero, o que levantou a teoria de que os Celtas, Ga\u00e9licos e Gauleses teriam sofrido invas\u00e3o, em tempos anteriores, dos povos gregos. Por tudo isso, os ingleses e demais povos daquela regi\u00e3o, devem aos celtas uma civiliza\u00e7\u00e3o e uma cultura imperec\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A marca foi muito forte. Aos celtas, os ingleses devem a paix\u00e3o pelo passado, um patriotismo ardente, o desejo de uma beleza espiritual (tamb\u00e9m comum aos escoceses, galeses e irlandeses), que atenua o materialismo anglo-sax\u00f4nico que viria depois, tamb\u00e9m como heran\u00e7a. S\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o celta muitas hist\u00f3rias, \u00e9picos e romances, especialmente a saga do Rei Artur e do Santo Graal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos posteriores \u00e0s primeiras levas invasoras, quando os celtas foram para a atual Irlanda, eles chegaram a desenvolver uma esp\u00e9cie de escrita, chamada ogham, mas toda a sua obra liter\u00e1ria se desenvolveu, inicialmente, como em outras regi\u00f5es do mundo, pela tradi\u00e7\u00e3o oral. Dessa escrita primitiva, sobreviveram apenas algumas inscri\u00e7\u00f5es em pedra, mas n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que seus textos tenham sido copiados, posteriormente. Em todo o caso, eles demonstram o grau de cultura que o celtas chegaram a ter. H\u00e1 todo um acervo de lendas celtas, hoje resgatadas, que explicam a sua filosofia de vida, a sua compreens\u00e3o de mundo, os seus temores e as suas conquistas. Conhece-las \u00e9 um estudo interessante, pois, antropologicamente, permitem-nos compreender melhor esse povo, para tantos considerado t\u00e3o misterioso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00edngua celta sobrevive at\u00e9 hoje, com suas variantes faladas nas Ilhas Brit\u00e2nicas, mas \u00e9 muito dif\u00edcil de ser pronunciada, com seus sons guturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os celtas, os brit\u00e2nicos, no entanto, viram findar os seus dias de supremacia quando houve a ocupa\u00e7\u00e3o romana, que levou, mais ou menos, 100 anos para se completar na atual Inglaterra ( provavelmente dos anos 60 a.C. aos anos 60 d.C. de J\u00falio C\u00e9sar ao Imperador Cl\u00e1udio). A culmin\u00e2ncia desta conquista foi t\u00e3o importante para Cl\u00e1udio, que ele deu a seu filho o t\u00edtulo de Britanicus ( Brit\u00e2nico).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O surgimento do Cristianismo na Brit\u00e2nia a Igreja Celta-Brit\u00e2nica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com esse nome, Brit\u00e2nia, os romanos denominaram a prov\u00edncia rec\u00e9m-anexada ao Imp\u00e9rio Romano. Foi durante o apogeu de Roma, com o surgimento da dinastia dos C\u00e9sares como Imperadores (Augusto foi o primeiro), que se iniciou a Era Crist\u00e3. E foi durante a domina\u00e7\u00e3o romana que a Brit\u00e2nia recebeu o Cristianismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 certeza exata de quando, como e por quem esse fato aconteceu. A maioria dos historiadores n\u00e3o identifica nomes, datas e locais para o in\u00edcio da cristianiza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns atrevem-se a mencionar epis\u00f3dios lend\u00e1rios, como o de Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia, mas sem esquecer o qualificativo lend\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente o Vener\u00e1vel Bede relata em sua obra, intitulada A History of the English Church and People, o que segue. No ano 156 da Encarna\u00e7\u00e3o de N. S. Jesus Cristo, Marco Ant\u00f4nio Verus, 14\u00ba desde Augusto, tornou-se imperador juntamente com seu irm\u00e3o Aur\u00e9lio C\u00f4modo. Durante esse reinado e enquanto Santo Eleut\u00e9rio governava a Igreja Romana, L\u00facio, um rei brit\u00e2nico, mandou-lhe uma carta, pedindo para tornar-se crist\u00e3o sob sua lideran\u00e7a. Esse pedido foi prontamente atendido e os Brit\u00e2nicos receberam a f\u00e9 e a guardaram pacificamente em toda a sua pureza e integralidade, at\u00e9 o tempo do Imperador Diocleciano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bede continua a narrar a sua hist\u00f3ria, enfocando, com rela\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os brit\u00e2nicos, as persegui\u00e7\u00f5es, passando a contar a hist\u00f3ria do primeiro m\u00e1rtir ingl\u00eas, Santo Albano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Porque os demais historiadores n\u00e3o afirmam o que Bede menciona com tanta facilidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eis a\u00ed um mist\u00e9rio. Embora Bede seja mencionado, freq\u00fcentemente, como fonte bibliogr\u00e1fica de respeito, com rela\u00e7\u00e3o aos primeiros tempos do Cristianismo na atual Inglaterra, muitas vezes, ao l\u00ea-lo, tem-se a impress\u00e3o de que o seu relato \u00e9 marcado pelo misticismo, pela cren\u00e7a no miraculoso, no extraordin\u00e1rio, caracter\u00edsticas bem pr\u00f3prias, ali\u00e1s, da cultura celta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica, de conceitua\u00e7\u00e3o ilibada, seguindo a tend\u00eancia da maioria dos historiadores, afirma, enfaticamente, no seu vol. 8, sobre o assunto que:\u00a0<\/strong>O Cristianismo alcan\u00e7ou a Brit\u00e2nia durante o s\u00e9culo III, talvez mais cedo, provavelmente vindo da G\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nora Chadwick, pesquisadora eminente sobre a Igreja e a cultura celta, relata que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias definidas sobre a convers\u00e3o da Brit\u00e2nia ao Cristianismo, ou iniciativas mission\u00e1rias, durante a ocupa\u00e7\u00e3o romana, mas o romano Tertuliano, escrevendo de Cartago, no norte da \u00c1frica, cerca de 200 d.C., parece ter um certo conhecimento sobre a vida na Brit\u00e2nia, pois, enumerando uma lista de povos que acreditavam em Cristo, \u00e0quela \u00e9poca, acrescenta: ?Tamb\u00e9m h\u00e1 lugares na Brit\u00e2nia, os quais, embora inacess\u00edveis aos romanos, voltaram-se para Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros autores tamb\u00e9m mencionam como fonte desses primeiros tempos, a Or\u00edgenes de Alexandria que, em sua obra ?Contra os Judeus ? (cerca do ano 240), afirma que muitos brit\u00e2nicos ainda n\u00e3o tinham ouvido falar sobre o Evangelho, o que, por decorr\u00eancia, pressup\u00f5e que alguns j\u00e1 o conheciam. Ainda Or\u00edgenes, em outra obra, afirma a unidade da f\u00e9 crist\u00e3 entre esses brit\u00e2nicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma antiga tradi\u00e7\u00e3o, narrada em detalhes por Bede, conta sobre o mart\u00edrio e morte de um jovem, Albano, e mais dois crist\u00e3os. Albano \u00e9 considerado o primeiro m\u00e1rtir da Inglaterra e \u00e9 muito venerado por seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bede serve de fonte para todos os historiadores sobre Albano, narrando acontecimentos miraculosos sobre sua morte. Ele informa que Albano teria morrido durante a persegui\u00e7\u00e3o do imperador Diocleciano (304-305).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria diz que Albano, ent\u00e3o um jovem pag\u00e3o, morava em Verulamum e que, certa vez, deu abrigo a um sacerdote crist\u00e3o, que fugia dos soldados romanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus pais n\u00e3o estavam em casa e l\u00e1 o sacerdote ficou por um tempo. Durante esse per\u00edodo, o jovem e o fugitivo conversaram e Albano se converteu. Mais tarde, o sacerdote foi denunciado e os soldados foram \u00e0 casa de Albano prend\u00ea-lo. Albano, ent\u00e3o, para salv\u00e1-lo, trocou de roupas com ele, e com suas vestes, foi aprisionado. Ele foi levado, julgado e condenado a ser decapitado, porque n\u00e3o quis renunciar ao Cristianismo. Em seu caminho para a execu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode atravessar um rio, pois a ponte estava cheia de pessoas, chamadas pelo governador romano para assistir \u00e0 execu\u00e7\u00e3o.Albano, ent\u00e3o orou, e o rio secou. Na colina onde seria executado, Albano orou novamente e uma fonte jorrou a seus p\u00e9s.O seu executor estava t\u00e3o nervoso que a espada caiu ao ch\u00e3o e ele recusou-se a matar a Albano, jogando-se a seus p\u00e9s.Outro soldado foi, ent\u00e3o chamado e ele executou os c dois.Seu local de mart\u00edrio foi transformado em uma igreja, ampliada para uma abadia, a de Santo Albano. Seu dia comemorativo \u00e9 20 de junho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa primeira etapa do Cristianismo na Brit\u00e2nia \u00e9 destacada, tamb\u00e9m, por ocasi\u00e3o do s\u00e9culo IV, quando o imperador Constantino, em 314, convoca bispos para um conc\u00edlio em Arles, na G\u00e1lia (atual Fran\u00e7a ) e 3 bispos, de Londres, York e, provavelmente Lincoln, atendem ao chamado. No conc\u00edlio de Nic\u00e9ia, em 325, n\u00e3o houve a presen\u00e7a f\u00edsica de bispos, bispos brit\u00e2nicos, que se destacaram por sua pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ingleses, mas sim, a sua posterior ades\u00e3o \u00e0 f\u00e9 nicena, conforme atesta Atan\u00e1sio. Em 359, em Rimini, l\u00e1 estavam novamente presentes, bispos brit\u00e2nicos, que se destacaram por sua pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a desses bispos em conc\u00edlios da Igreja Crist\u00e3 mostra que, por volta do s\u00e9culo IV, j\u00e1 havia uma certa organiza\u00e7\u00e3o na Igreja Celta Brit\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto pode ter sido fruto da liberdade dada aos crist\u00e3os, enquanto express\u00e3o de uma religi\u00e3o, pelo Imperador Constantino, em 313, com o chamado ?Edito de Mil\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E essa liberdade de express\u00e3o de f\u00e9 chegou at\u00e9 as Ilhas Brit\u00e2nicas, o que poderia, muito bem, ter gerado um processo de expans\u00e3o do avan\u00e7o crist\u00e3o naquela regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devido ao fato de que, para comparecer ao Conc\u00edlio de Rimini, em 359, 3 dos bispos brit\u00e2nicos tenham aceitado ajuda financeira do Imperador, podemos pressupor que a Igreja na Brit\u00e2nia era muito pobre e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que muitos dos seus membros eram encontrados entre os celtas-brit\u00e2nicos semi-romanizados, o que n\u00e3o impedia que a f\u00e9 crist\u00e3 tamb\u00e9m se fortalecesse entre uns poucos, de camada social superior, conforme atestam algumas ru\u00ednas de resid\u00eancias ao estilo romano (vilas), onde foram encontrados, pintados nas paredes, s\u00edmbolos crist\u00e3os, como o CHI-RO (XP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Falamos, anteriormente, em um crist\u00e3o brit\u00e2nico martirizado, durante a persegui\u00e7\u00e3o de Diocleciano:\u00a0<\/strong>Albano. Ele projetou, positivamente, o Cristianismo brit\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ingl\u00eas, agora no final do s\u00e9culo IV, coloca a Igreja Celta-Brit\u00e2nica na mira da Igreja Ocidental, desta vez na forma de uma heresia. Este homem foi Pel\u00e1gio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele, um monge preparado, chocou-se com as id\u00e9ias r\u00edgidas e as duras doutrinas de Santo Agostinho, a respeito do pecado e da salva\u00e7\u00e3o. Para Pel\u00e1gio, as id\u00e9ias agostinianas diminu\u00edam a coragem moral e a dignidade humanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Encontrava dificuldade em aceitar a ideia do Pecado Original e era t\u00e3o grande a sua f\u00e9 no homem que acreditava ser poss\u00edvel a este alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o, sem a interven\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a de Deus. Com isso, ele obteve o rep\u00fadio de Agostinho e a condena\u00e7\u00e3o da Igreja, como herege.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A doutrina pelagiana atraiu adeptos na Brit\u00e2nia, e, por conseq\u00fc\u00eancia, os olhares da Igreja Continental, temendo uma quebra da unidade da Igreja. Como Pel\u00e1gio n\u00e3o residia na Brit\u00e2nia, mas sim na Europa Continental, medidas foram tomadas contra ele por Pr\u00f3spero, bispo da Aquit\u00e2nia (ducado franc\u00eas) e pelo papa Celestino. Ainda, o papa enviou Germano, bispo de Auxerre (Fran\u00e7a), para combater os aliados de Pel\u00e1gio e guiar os brit\u00e2nicos para a f\u00e9 cat\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Autores que escrevem literatura secular e de lazer sobre o per\u00edodo celta e sobre a expans\u00e3o do Cristianismo nas Ilhas Brit\u00e2nicas, particularmente na atual Inglaterra, t\u00eam evidenciado que o processo de cristianiza\u00e7\u00e3o foi bastante violento e duro contra a religi\u00e3o primitiva dos celtas. Ao ler esses textos, t\u00eam-se se a impress\u00e3o que os crist\u00e3os foram violentos e opressores, n\u00e3o deixando espa\u00e7o para a viv\u00eancia das antigas f\u00e9s pag\u00e3s. Pode haver um fundo de verdade nessas interpreta\u00e7\u00f5es, pois os primeiros mission\u00e1rios crist\u00e3os, em geral, eram bastante faltos de tato ou diplomacia em suas atividades mission\u00e1rias. A intoler\u00e2ncia era uma marca daqueles tempos, e o cristianismo n\u00e3o deixou de evidenciar essa caracter\u00edstica cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A expans\u00e3o do Cristianismo nas Ilhas Brit\u00e2nicas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse problema pelagiano gerou um fato positivo como conseq\u00fc\u00eancia. Devido \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o de Celestino com a ortodoxia da f\u00e9 nas Ilhas Brit\u00e2nicas, ele enviou a Pal\u00e1dio, para ser o primeiro bispo na Irlanda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Provavelmente na mesma \u00e9poca (aproximadamente 432), S. Patr\u00edcio tamb\u00e9m vai para a Irlanda, cristianizar aquela regi\u00e3o. Ele \u00e9 conhecido como o patrono da Irlanda, enquanto o trabalho de Pal\u00e1dio \u00e9 pouco conhecido. Pal\u00e1dio \u00e9 apresentado, \u00e0s vezes, como o prot\u00f3tipo de um bispo vaidoso e ambicioso, contrastando com a simplicidade e naturalidade de Patr\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conta-se de Patr\u00edcio que travou uma \u00e1rdua luta contra o paganismo das tribos irlandesas e, ao realizar o seu trabalho, tentou introduzir o sistema diocesano, como o conhecera antes, na G\u00e1lia, quando da sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, o Cristianismo Celta Irland\u00eas haveria de tornar-se uma for\u00e7a permanente, com enorme a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, nas Ilhas Brit\u00e2nicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O sistema diocesano, tentado por Patr\u00edcio, foi substitu\u00eddo por outro, caracter\u00edstico da Igreja Celta:\u00a0<\/strong>a funda\u00e7\u00e3o de mosteiros, irradiadores da f\u00e9 crist\u00e3 naquelas paragens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, a Irlanda, antigamente conhecida como Hibernia, pelos escritores gregos e romanos, nunca chegou a ser parte do Imp\u00e9rio de Roma. O general Agr\u00edcola, por volta do ano 80 d.C., planejou a sua conquista, a qual considerava tarefa f\u00e1cil, mas foi dissuadido dessa iniciativa pelo governo romano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes da Irlanda, outra regi\u00e3o das Ilhas Brit\u00e2nicas, a Esc\u00f3cia, j\u00e1 havia sido atingida pelo Cristianismo, ainda no s\u00e9culo IV. Segundo Moorman, em seu livro ?A History of the Church in England, o mais gentil ap\u00f3stolo de Cristo? realizava o seu trabalho nos vales do Cumberland e na Esc\u00f3cia meridional. Seu nome era N\u00ednian, o qual, depois de estudar para monge na G\u00e1lia, veio para a Brit\u00e2nia, aparentemente como mission\u00e1rio solit\u00e1rio, cerca do ano 397. Em Whithorn, Galloway, fundou um mosteiro, que passou a ser conhecido como White House ou C\u00e2ndida Casa, que tornou-se a base atrav\u00e9s da qual N\u00ednian e seus monges desenvolveram as jornadas evangel\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes do final do s\u00e9culo V, a Irlanda desempenhava um importante papel na hist\u00f3ria do Cristianismo nas Ilhas Brit\u00e2nicas, com algumas caracter\u00edsticas bem especiais. Por exemplo, os mosteiros irlandeses eram basicamente diferentes, em sua estrutura administrativa, dos demais da Europa Continental., principalmente por causa das rela\u00e7\u00f5es entre o abade e o bispo. No sistema europeu e romano, o bispo tinha a supervis\u00e3o de toda a sua diocese, inclusive os mosteiros nela existentes. Na Irlanda, o abade governava soberanamente o seu mosteiro, conforme o modelo c\u00e9ltico e at\u00e9 possu\u00eda, entre os membros do corpo dos monges, alguns bispos, que estavam, administrativamente, sob as suas ordens. O mosteiro funcionava como um sistema tribal, do qual o chefe era o abade, devido ao fato de que a regi\u00e3o era, ainda, muito rural. A organiza\u00e7\u00e3o, as finan\u00e7as e as terras da Igreja eram governadas, n\u00e3o pelos bispos, mas pelos abades. O bispo, ao contr\u00e1rio, geralmente n\u00e3o tinha jurisdi\u00e7\u00e3o territorial (diocese). Ele era elevado ao episcopado em fun\u00e7\u00e3o de uma santidade pessoal de vida e detinha os poderes de conferir ordens, confirmar e consagrar templos e cemit\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devido ao trabalho mission\u00e1rio, os mosteiros se desenvolveram e se tornaram o elemento mais importante na vida da primitiva Igreja Irlandesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles tamb\u00e9m foram importantes centros de conhecimento e de conserva\u00e7\u00e3o da cultura cl\u00e1ssica (greco-romana) e religiosa. Suas regras mon\u00e1sticas e suas pr\u00e1ticas religiosas reproduziam o rigoroso ascetismo oriental, principalmente do Egito e da S\u00edria. Tamb\u00e9m a liturgia e o estudo, bem como a pr\u00e1tica de uma penit\u00eancia rigorosa estavam mais para os padr\u00f5es orientais do que para os da Igreja Ocidental. No entanto, o seu sistema penitencial tornou-se um referencial respeitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 marcante na vida religiosa celta-crist\u00e3 a valoriza\u00e7\u00e3o da natureza, tanto na liturgia, como na viv\u00eancia di\u00e1ria da penit\u00eancia, do trabalho e do culto, como resultado da sua experi\u00eancia cultural. Os templos, seja no mosteiro ou, at\u00e9, em regi\u00f5es isoladas, geralmente eram pequenos, n\u00e3o porque, necessariamente as congrega\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m o fossem, mas, porque a adora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era feita, muitas vezes, ao ar livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 relatos de v\u00e1rios santos ou l\u00edderes religiosos celtas que oravam, recitavam salmos e faziam penit\u00eancia, sem maior abrigo, nas \u00e1guas geladas das praias irlandesas ou escocesas, com toda a simplicidade e naturalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Muito dos textos celtas falam das obras de Deus, na natureza<\/strong>: dos p\u00e1ssaros, do mar, da vegeta\u00e7\u00e3o. Muitos locais de adora\u00e7\u00e3o eram ao ar livre, sem nenhuma constru\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser a presen\u00e7a das famosas cruzes de pedra, emolduradas, em suas hastes, pela figura do c\u00edrculo, que simbolizava a amplitude da obra da cria\u00e7\u00e3o de Deus. A cruz e o c\u00edrculo s\u00e3o testemunhas vivas, at\u00e9 hoje, dessa ardente espiritualidade, porque muitas delas sobreviveram \u00e0 a\u00e7\u00e3o do tempo e, ainda em nossos dias, algumas s\u00e3o santu\u00e1rios de ora\u00e7\u00e3o e peregrina\u00e7\u00e3o. Esta \u00faltima era uma pr\u00e1tica de express\u00e3o religiosa comum, na Igreja Celta primitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No entanto, diferentemente das peregrina\u00e7\u00f5es a lugares santos, como na Igreja do Oriente e na Igrejas Ocidental, geralmente eram feitas, em prociss\u00f5es a lugares especiais, onde a natureza se mostrava pr\u00f3diga em beleza ou em significado:\u00a0<\/strong>assim, peregrina\u00e7\u00f5es podiam ser feitas em locais com colinas ou montanhas, ou com \u00e1rvores que mostravam a grandiosidade da cria\u00e7\u00e3o de Deus, como o carvalho, por exemplo. Tamb\u00e9m o mar chamava muito a aten\u00e7\u00e3o do povo celta. Enfim, a sua pr\u00e1tica religiosa n\u00e3o ficava confinada dentro das paredes dos muitos mosteiros (como era comum na Igreja romanizada), mas, a partir deles, a experi\u00eancia era a de ir para fora, para o mundo, para pregar o Evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto n\u00e3o quer dizer, no entanto, que n\u00e3o houvesse, na vida mon\u00e1stica, o tempo previsto para o trabalho e o estudo. Pelo contr\u00e1rio, muitos mosteiros ficaram famosos por serem centros de saber, de evangeliza\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Havia uma extensa troca de correspond\u00eancia entre muitos mosteiros celtas com os do Continente, principalmente da G\u00e1lia, e com o Oriente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A influ\u00eancia do Oriente foi marcante para a Igreja Celta, provavelmente, decorrente do interc\u00e2mbio acima mencionado, tendo como vias de acesso intermedi\u00e1rio a G\u00e1lia (Fran\u00e7a) e Espanha, chegando o retorno at\u00e9 as Ilhas Brit\u00e2nicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso, havia, por outro lado, marcantes diferen\u00e7as entre a Igreja Celta e a Igreja Gaulesa, por exemplo. Na G\u00e1lia, a Igreja era, essencialmente, urbana, por causa desse tipo de processo implantado nas prov\u00edncias romanas mais centrais. Por isso, o bispo tinha a sua sede nas cidades, as quais eram centros administrativos das prov\u00edncias romanas. Na Irlanda, ao contr\u00e1rio, talvez pelo fato de nunca ter sido romanizada, a realidade era outra. N\u00e3o havia quase cidades. A economia era, essencialmente, agr\u00edcola e pastoril. Na Irlanda e na Esc\u00f3cia ocidental, o movimento mon\u00e1stico tinha somente de ajustar-se a si mesmo, no sistema heredit\u00e1rio dos propriet\u00e1rios reais de terra, os reis locais. Na Igreja Celta, o sistema mon\u00e1stico era, essencialmente, adaptado a uma popula\u00e7\u00e3o rural, servindo de ponto de conv\u00edvio para essa popula\u00e7\u00e3o isolada. N\u00e3o havia sistema paroquial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Devido a esta \u00eanfase mon\u00e1stica, surgem as caracter\u00edsticas b\u00e1sicas da Igreja Celta:<\/strong>\u00a0pobre em recursos (os mosteiros eram constru\u00e7\u00f5es simples, rudes e nada confort\u00e1veis, geralmente feitos de madeira, asc\u00e9tica na sua forma de compreender a vida crist\u00e3, isolada, j\u00e1 que a sociedade celta era eminentemente rural e contemplativa (essencialmente m\u00edstica em sua concep\u00e7\u00e3o da vida crist\u00e3), tendo a sua for\u00e7a no estudo das Escrituras, por influ\u00eancia da Igreja Oriental, de quem ela conhecia textos teol\u00f3gicos, lit\u00fargicos e da vida di\u00e1ria e, ainda, como j\u00e1 foi dito antes, na sua valoriza\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O c\u00edrculo e a cruz acompanhavam a vida da Igreja Celta. \u00c9 poss\u00edvel de se cogitar que, se em vez do cristianismo romano, devido \u00e0 for\u00e7a pol\u00edtica de Roma, tivesse predominado a express\u00e3o crist\u00e3 oriental e celta, o Jesus celta poderia ter dado um outro formato e concep\u00e7\u00e3o ao Cristianismo, do que o Jesus latino, devido \u00e0s interfer\u00eancias culturais ocidentais, particularmente gregas, que influenciaram a nossa forma de sermos crist\u00e3os. Mas isto n\u00f3s nunca saberemos. O que podemos pressupor, no entanto, \u00e9 que alguns problemas de hoje talvez n\u00e3o existissem, como, por exemplo, a valoriza\u00e7\u00e3o das mulheres e a sua lideran\u00e7a na Igreja, o que os celtas crist\u00e3os apreciavam E isso \u00e9 uma fato, ainda, de cis\u00e3o na Igreja do ocidente, como vimos na repercuss\u00e3o que teve, na pr\u00f3pria Comunh\u00e3o Anglicana, a elei\u00e7\u00e3o de uma bispa para ser a primaz da Igreja dos Estados Unidos, sem falar nas dificuldades ecum\u00eanicas com a Igreja Cat\u00f3lica Romana, por causa da ordena\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por volta do s\u00e9culo V, a cat\u00e1strofe que j\u00e1 assolava outras regi\u00f5es do Imp\u00e9rio Romano se abateu sobre a atual Inglaterra:\u00a0<\/strong>as tropas romanas foram retiradas das Ilhas e os invasores germ\u00e2nicos, principalmente anglos e sax\u00f5es, invadem a Brit\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O dom\u00ednio anglo-sax\u00f4nico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o s\u00e9culo III d.C., os povos germ\u00e2nicos, chamados de ?b\u00e1rbaros? pela civiliza\u00e7\u00e3o greco-romana, rondavam, amea\u00e7avam e faziam pequenas incurs\u00f5es nas fronteiras do Reno e do Dan\u00fabio, parte leste do Imp\u00e9rio Romano. A Germ\u00e2nia ficava a oeste dessas fronteiras, fora do contorno do Imp\u00e9rio Ocidental de Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, com o tempo, essas incurs\u00f5es, antes chamadas de pac\u00edficas, e enfrentadas com v\u00e1rias estrat\u00e9gias pelos governantes romanos, tornaram-se, pouco a pouco, cada vez mais violentas e de car\u00e1ter imperialista, ou seja, de conquista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os governantes romanos, ent\u00e3o, com o intuito de proteger a capital ocidental do Imp\u00e9rio, Roma, come\u00e7aram a desmontar as suas estruturas de defesa nas prov\u00edncias mais distantes (a Brit\u00e2nia era a mais distante delas), chamando as tropas do ex\u00e9rcito para \u00e1reas consideradas mais importantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os celtas romanizados da Brit\u00e2nia, anteriormente guerreiros vitoriosos, como j\u00e1 vimos, haviam se acostumado com a vida mais tranquila que a Pax Romana trazia para as prov\u00edncias e se desmobilizaram militarmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais de 3 s\u00e9culos de domina\u00e7\u00e3o romana fizeram deles um povo despreparado para a guerra, embora a sua \u00edndole guerreira ainda fosse muito forte. Mas a pr\u00e1tica do exerc\u00edcio b\u00e9lico di\u00e1rio estava enfraquecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desta maneira, no s\u00e9culo V, tornaram-se presa f\u00e1cil dos guerreiros violentos, vindos de uma Germ\u00e2nia rude e primitiva, em que a guerra era a atividade principal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, em hordas sucessivas, povos como os anglos, os sax\u00f5es, os jutas, os pictos, os escotos, arrasaram a parte sul, leste e nordeste das Ilhas Brit\u00e2nicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gales, parte da Esc\u00f3cia e a Irlanda, devido a obst\u00e1culos da natureza, que dificultaram o avan\u00e7o do inimigo, praticamente n\u00e3o foram atingidas, mas a atual Inglaterra, em grande parte cercada pelo mar, foi praticamente destru\u00edda:\u00a0<\/strong>cidades, aldeias, igrejas, mosteiros, fortifica\u00e7\u00f5es e, principalmente, a popula\u00e7\u00e3o. E com isso, sofreu a Igreja, que viu perdida a sua lideran\u00e7a, o seu rebanho, as suas institui\u00e7\u00f5es. Assim, pois, ela, praticamente, desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conhecem-se poucos fatos hist\u00f3ricos relacionados com a conquista anglo-sax\u00e3 na Bretanha. Mas a escassa literatura dispon\u00edvel refer\u00eancias contempor\u00e2neas esparsas, tradi\u00e7\u00f5es recentes e descri\u00e7\u00f5es semilend\u00e1rias- permite uma reconstitui\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel. Parece que as primeiras incurs\u00f5es dos sax\u00f5es foram seguidas por diversas invas\u00f5es em torno do ano 450 e que as guerras continuaram intermitentemente por mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os celtas bret\u00f5es lutaram com o afinco que puderam, mas foram obrigados a ceder. Alguns fugiram para a G\u00e1lia e estabeleceram-se na costa do canal da Mancha, dando seu nome \u00e0 pen\u00ednsula francesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tronco principal dos bret\u00f5es resistiu valentemente, refugiando-se no sudoeste da atual Inglaterra, onde, finalmente, pode descansar, gra\u00e7as \u00e0 vit\u00f3ria obtida por seus bravo l\u00edder guerreiro, um certo Artur, cuja fama foi romanceada seis s\u00e9culos mais tarde, nos contos anacr\u00f4nicos do Rei Artur e seus Cavaleiros da T\u00e1vola Redonda. Por\u00e9m os celtas bret\u00f5es sofreram uma severa derrota na batalha de Deorham, em 577, e foram for\u00e7ados a recuar para Gales e a Cornu\u00e1lia. O avan\u00e7o de diversos grupos germ\u00e2nicos para o oeste havia terminado, e uma ordem prec\u00e1ria emergiu do caos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como decorr\u00eancia desse processo, caiu o poder pol\u00edtico celta-romano e, em seu lugar, s\u00e3o criados, com o tempo, 7 reinos na atual Inglaterra, independentes entre si, de inspira\u00e7\u00e3o principalmente anglia (os do norte e centro) e sax\u00f4nica (os mais ao sul, com exce\u00e7\u00e3o de um). Surgem, pois, os reinos de Kent (de inspira\u00e7\u00e3o juta), Sussex, Wessex e Essex (do centro para o sudeste e sudoeste, de inspira\u00e7\u00e3o sax\u00f4nica) e os da Nort\u00fambria, M\u00e9rcia e East Anglia (Anglia do Leste), respectivamente no norte, centro e leste. Apesar da falta de unidade pol\u00edtica, sempre havia um que se destacava mais do que os outros, em per\u00edodos diferentes, exercendo uma discreta lideran\u00e7a. Assim, no in\u00edcio do processo de implanta\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica, Kent \u00e9 que se destaca (s\u00e9culos V e VI). Mais adiante, encontramos a Nort\u00fambria exercendo uma lideran\u00e7a (s\u00e9culo VII) e, finalmente, no s\u00e9culo IX, especialmente, Wessex, quando se processa a unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ap\u00f3s um outro per\u00edodo de invas\u00f5es, desta vez dinamarquesas, danesas, escandinavas ou vikings(todos os qualificativos se reportam ao mesmo povo, do extremo norte da Europa, acima da Germ\u00e2nia, a atual Escandin\u00e1via).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais do que em qualquer outro lugar, foi na futura Inglaterra que os invasores germ\u00e2nicos impuseram \u00e0 popula\u00e7\u00e3o nativa sua l\u00edngua, suas leis e seus m\u00e9todos agr\u00edcolas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somente na atual Inglaterra desapareceram quase que completamente a l\u00edngua latina e a Igreja organizada. Isso tudo, somendo-se \u00e0s muitas atrocidades cometidas, fez com que os anglo-sax\u00f5es n\u00e3o fossem nada queridos naquela regi\u00e3o. Certo bret\u00e3o enfurecido escreveu sobre eles de maneira amarga, que eram ?uma ra\u00e7a odiosa para Deus e para os homens?.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os primeiros 150 anos do dom\u00ednio anglo-sax\u00f4nico na atual Inglaterra, (que, literalmente, significa terra dos anglos e s\u00f3 vai se tornar um \u00fanico pa\u00eds, aproximadamente, em tempos do reinado do rei Alfredo de Wessex), foram de regresso ao mais absoluto paganismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Igreja Celta-Brit\u00e2nica desaparece totalmente, na regi\u00e3o leste das Ilhas Brit\u00e2nicas. Alguns poucos crist\u00e3os, sobreviventes, fogem para oeste, para as regi\u00f5es da Cornu\u00e1lia (sudoeste) e para Gales, e l\u00e1 se estabelecem, continuando a Igreja Celta Brit\u00e2nica naquelas paragens. No entanto, por medo e \u00f3dio aos invasores, esses crist\u00e3os se recusaram a fazer trabalho mission\u00e1rio com aqueles e se confinaram num isolamento volunt\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nosso conhecimento sobre esta realidade nos vem de S\u00e3o Gildas, tamb\u00e9m historiador, que escreveu, no s\u00e9culo VI, sobre a Igreja Celta-Brit\u00e2nica do este. Ele \u00e9 um cr\u00edtico severo do clero brit\u00e2nico, a quem descreveu como ?cl\u00e9rigos indignos, chafurdando como su\u00ednos, em suas velhas e infelizes po\u00e7as de maldade intoler\u00e1vel?.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas embora Gildas tivesse pouco de bom a falar a respeito da sobreviv\u00eancia desta Igreja Brit\u00e2nica, a qual, evidentemente, tinha se deteriorado com o seu isolamento, a sua realidade n\u00e3o era, exatamente um caos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia bispos reunindo-se com o seu clero, em s\u00ednodos, para os quais eram convocados. Havia, tamb\u00e9m, mosteiros, onde um certo tipo de regra era mantido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, enquanto na atual Inglaterra, os deuses pag\u00e3os e germ\u00e2nicos Odin e Thor tinham usurpado o lugar de Cristo, a Igreja Crist\u00e3 mantinha acesa a chama da f\u00e9, em Gales e na Cornu\u00e1lia. Mas, segundo Moorman, ela pagou o custo do isolamento. Ela tendia a tornar-se cada vez mais uma ilha fechada em si mesma, auto-suficiente e, como Bede complementa, n\u00e3o se esfor\u00e7ou para converter os anglo-sax\u00f5es, o que lhe foi fatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, a Igreja Celta-Irlandesa subsistia com todo o seu vigor, na Esc\u00f3cia e na Irlanda, os mosteiros continuando a ser o centro da organiza\u00e7\u00e3o e da atividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A continuidade da Igreja Celta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No s\u00e9culo VI, a Irlanda continuava a viver um florescente cristianismo celta. No entanto, o isolamento das Ilhas Brit\u00e2nicas do resto do Continente Europeu e a domina\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica, no leste das mesmas, contribuiu, e muito, para que a Igreja Celta Irlandesa e Escocesa desenvolvesse alguns procedimentos diferentes dos da Igreja Crist\u00e3 Ocidental, liderada por Roma. Apesar disso, podemos afirmar, com firmeza, que a Igreja Celta nunca foi, em ess\u00eancia doutrinal, diferente da Igreja de Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nora Chadwick nos afirma, em seu livro; ?The Age of the Saints in the Early Celtic Church? o que segue:\u00a0<\/strong>A assim chamada Igreja Celta era, ainda, fundamentalmente, una com a Igreja Continental (Roma), que olhara, em seus primeiros tempos, para o seu prest\u00edgio eclesi\u00e1stico e, mais tarde, para a autoridade de Roma como sua lideran\u00e7a maior. Ela (a Igreja Celta), mantinha a mesma f\u00e9, foi fundada na mesma tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, e tinha a mesma esperan\u00e7a na Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era completamente ortodoxa. Devido a sua localiza\u00e7\u00e3o distante, sofreu a falta de contato regular com o pensamento e institui\u00e7\u00f5es continentais, durante as invas\u00f5es germ\u00e2nicas. Consequentemente, manteve algumas pr\u00e1ticas, em quest\u00f5es lit\u00fargicas e de ritual, que eram pertinentes \u00e0 Igreja Primitiva Continental, mas que tinham sido substitu\u00eddas, com o passar do tempo. Mesmo nos tempos primitivos, a Igreja Continental n\u00e3o tinha sido uniforme em suas pr\u00e1ticas. A uniformidade foi alcan\u00e7ada muito gradualmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O historiador Robert H. Nichols, em sua obra Hist\u00f3ria da Igreja Crist\u00e3, pg.45, diz o seguinte da a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria dos celtas:<\/strong>\u00a0Nenhuma narrativa da hist\u00f3ria crist\u00e3 primitiva tem mais brilho do que a hist\u00f3ria do trabalho dos monges escoceses e irlandeses. Seu ensino tinha uma simplicidade apost\u00f3lica, raramente encontrada em outra parte, e suas vidas eram de uma pureza e consagra\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1rias. Nora Chadwick acrescenta um outro ingrediente, assim como John Smith, em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, sobre a espiritualidade celta o da valoriza\u00e7\u00e3o da mulher. Muitos dos mosteiros tamb\u00e9m o eram para as mulheres, tornado-as aptas para a viv\u00eancia do Evangelho, dentro das caracter\u00edsticas celtas da simplicidade, da valoriza\u00e7\u00e3o da natureza, da espiritualidade e do preparo. Isso foi t\u00e3o significativo, que chegaram a haver abadias ou mosteiros mistos, muitos deles tendo mulheres como abadessas, com todos os compromissos que isso acarretava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando falarmos no S\u00ednodo de Whitby, vamos ver que ele se realizou em um mosteiro dirigido por uma mulher, Hilda. N\u00e3o vamos encontrar, com tanta expressividade, essa valoriza\u00e7\u00e3o da mulher, em outras partes da Igreja Crist\u00e3, ao menos \u00e0quele tempo. Outra distin\u00e7\u00e3o do trabalho mission\u00e1rio celta, j\u00e1 no alvorecer da Idade M\u00e9dia, \u00e9 a sua estrat\u00e9gia de convers\u00e3o, dirigida a todos, e n\u00e3o somente direcionada aos reis, para depois atingir aos outros, por decorr\u00eancia, como vai fazer a Igreja Continental, o que gerou uma evangeliza\u00e7\u00e3o superficial, de conseq\u00fc\u00eancias negativas, pois a maioria do povo europeu ocidental n\u00e3o estava preparado para a convers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As condi\u00e7\u00f5es internas locais, nos pa\u00edses celtas, tamb\u00e9m continuaram a produzir muitas modifica\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis no governo, na administra\u00e7\u00e3o da Igreja e nas suas formas de estabelecimento locais, e a predomin\u00e2ncia dos fundamentos mon\u00e1sticos na vida da Igreja dos pa\u00edses celtas desenvolveu diferen\u00e7as, tanto na organiza\u00e7\u00e3o como no ritual, diferentes dos da Igreja Continental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa diverg\u00eancia tornou-se uma quest\u00e3o de crescente desentendimento e dificuldade, com o tempo, e, especialmente no s\u00e9culo VIII, resultou em acusa\u00e7\u00f5es que beiravam o separatismo e at\u00e9 a heresia, embora essas acusa\u00e7\u00f5es n\u00e3o tivessem muito fundamento e eram, certamente, injustas. A maioria delas era de car\u00e1ter administrativo e visava a submiss\u00e3o total da Igreja Celta \u00e0 Igreja de Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 interessante observar a falta de uma autoridade central na Igreja Celta. Talvez isso tenha contribu\u00eddo, inclusive, para a sua absor\u00e7\u00e3o por Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por que isso acontecia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, como j\u00e1 falamos, a posi\u00e7\u00e3o dos bispos era peculiar e diferia daquelas dos bispados continentais, com suas sedes, suas popula\u00e7\u00f5es centralizadas e urbanas. A economia celta, com uma popula\u00e7\u00e3o pastoril espalhada e sem a presen\u00e7a quase de cidades, n\u00e3o oferecia uma base natural para o surgimento de sedes territoriais (dioceses).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O relato de Bede sobre Santo Aidan (morto em 651) \u00e9, talvez, a nossa melhor fotografia de um bispo (tamb\u00e9m um monge irland\u00eas). Seu local principal parece ter sido um mosteiro, em Lindisfarne, numa ilha do litoral da Nort\u00fambria, tamb\u00e9m chamada ?Ilha Santa?, onde ele vivia com sua comunidade. Aidan viajava, indo junto com o rei, Oswald, de um lado para o outro da Nort\u00fambria, e de tempos em tempos, retirava-se para a pequena ilha de Farne, duas milhas adiante, para ficar s\u00f3, contemplar a natureza e meditar. Ele tamb\u00e9m tinha uma igreja e aposento no pal\u00e1cio real, perto de Bamborough (a capital do reino), de onde podia sair e, misturando-se com o povo, pregar para ele. Aidan \u00e9 considerado o evangelizador do reino da Nort\u00fambria, e ele realizou esse trabalho contando com todo o apoio do rei..<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De Lindisfarne, monges sa\u00edram para edificar novas igrejas ao sul da Esc\u00f3cia e norte da atual Inglaterra. A atividade mission\u00e1ria de S\u00e3o Cutberto, outro famoso santo celta, bispo de Lindisfarne (685-87), espalhou a fama do mosteiro na Europa Ocidental. O famoso Evangelho de Lindisfarne, escrito cerca do ano 700, e agora guardado no Museu Brit\u00e2nico, \u00e9 dedicado a S\u00e3o Cutberto. Ali\u00e1s, s\u00e3o t\u00edpicas tamb\u00e9m da arte celta, as famosas iluminuras, ilustra\u00e7\u00f5es feitas nos in\u00edcios dos textos copiados nos mosteiros. A arte das iluminuras n\u00e3o se desenvolveu somente entre os Celtas, mas, de um modo geral, em toda a cristandade ocidental. No entanto, a Igreja Celta deu a sua grande contribui\u00e7\u00e3o nessa atividade, da qual o famoso ?Livro dos Celtas? \u00e9 um exemplar magn\u00edfico, bem como o j\u00e1 mencionado Evangelho de Lindisfarne.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltando \u00e0 quest\u00e3o da centraliza\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, da autoridade, n\u00e3o havia nenhum arcebispo na Igreja Celta de ent\u00e3o, e o bispo tinha a sua autoridade limitada pelo poder administrativo do abade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o Columba (521-97), outro famoso santo irland\u00eas, era abade de Iona e, por cortesia, o cabe\u00e7a da ampla organiza\u00e7\u00e3o interna da Igreja Celta, em seu tempo, mas ele nunca se tornou um bispo, e embora outras igrejas da federa\u00e7\u00e3o dirigida por Columba seguissem a mesma pr\u00e1tica da Igreja Irlandesa, a esse respeito, Columba permaneceu como presb\u00edtero at\u00e9 o fim dos seus dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando um bispo procedente da Irlanda visitava Iona, Columba lhe cedia o lugar, na celebra\u00e7\u00e3o da Santa Ceia. Mesmo em Iona, a fun\u00e7\u00e3o e a jurisdi\u00e7\u00e3o de um abade n\u00e3o acarretava nenhuma das fun\u00e7\u00f5es espirituais de um bispo, fossem elas ordena\u00e7\u00e3o de sacerdotes, confirma\u00e7\u00f5es ou consagra\u00e7\u00e3o de cemit\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 563, Columba foi obrigado a deixar a Irlanda, motivado por envolvimento em quest\u00f5es pol\u00edticas, ligadas a sua ascend\u00eancia real. Esse ex\u00edlio for\u00e7ado foi exigido pela Igreja Irlandesa. Assim, acompanhado de 12 companheiros, num pequeno bote, chegou a Hy ou Ioua, hoje conhecida como Iona, uma pequena ilha, fora da costa ocidental da Esc\u00f3cia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>L\u00e1, os viajantes ergueram um mosteiro de acordo com o padr\u00e3o celta, o j\u00e1 mencionado mosteiro de Iona, onde passaram a ter o mesmo modo de vida da Irlanda<\/strong>: duro, simples, austero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte do tempo era passado trabalhando a terra, pescando, ou ent\u00e3o, estudando e copiando os manuscritos importantes e realizando a ronda das horas, em ora\u00e7\u00e3o e prega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o seu trabalho n\u00e3o ficou confinado ao claustro. Iona logo se tornou um centro de irradia\u00e7\u00e3o de jornadas mission\u00e1rias, tanto para o interior da Esc\u00f3cia, como para regi\u00f5es ao norte da atual Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante cerca de 30 anos, Columba l\u00e1 trabalhou, n\u00e3o somente na atividade mon\u00e1stica, administrando Iona e suas filiais, que surgiram com o tempo, mas tamb\u00e9m, no trabalho mission\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele morreu em Iona, com a idade de 76 anos, exatamente 8 dias antes de Etelberto, rei de Kent, ter sido batizado por Agostinho de Cantu\u00e1ria. A segunda cristianiza\u00e7\u00e3o da futura Inglaterra tinha come\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A recristianiza\u00e7\u00e3o da Inglaterra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agostinho, um monge italiano, prior de um mosteiro em Roma, foi o homem escolhido pelo papa de ent\u00e3o, Greg\u00f3rio, para desenvolver uma tarefa aparentemente perigosa ? a da segunda cristianiza\u00e7\u00e3o da futura Inglaterra, ainda, no momento, dividida em seus 7 reinos pag\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Greg\u00f3rio Magno, como ficou conhecido na hist\u00f3ria, por suas qualidades espirituais, morais, vis\u00e3o de Igreja e compromisso com a mesma, estava a par da realidade da Europa Continental, tanto no aspecto pol\u00edtico, como, especialmente, no religioso, e sabia das conseq\u00fc\u00eancias das invas\u00f5es germ\u00e2nicas para o fortalecimento do paganismo em terras antes crist\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conta-se que era com estas preocupa\u00e7\u00f5es em mente que Greg\u00f3rio estava, quando ainda n\u00e3o era papa, mas o anterior prior do mesmo convento do nosso monge Agostinho e certa vez, encontrou no f\u00f3rum da cidade de Roma algumas crian\u00e7as loiras, para serem vendidas como escravas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Diz-se que Greg\u00f3rio teria perguntado ao mercador de escravos sobre quem seriam aquelas crian\u00e7as, tendo o homem respondido<\/strong>: S\u00e3o anglos e Greg\u00f3rio, retrucado, fazendo uma analogia com a apar\u00eancia f\u00edsica das mesmas: N\u00e3o s\u00e3o anglos, mas anjos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Moorman nos conta que essa hist\u00f3ria, se verdadeira, teria acontecido, provavelmente, no ano 586 e que, nos anos seguintes, Greg\u00f3rio n\u00e3o a teria esquecido, mas, ao contr\u00e1rio, no momento em que assumiu o papado, pensado em provid\u00eancias sobre o assunto. Assim, a partir de 590, quando chegou ao pontificado, destinou parte dos rendimentos do papado para comprar meninos-escravos anglos que encontrasse, a fim de que estes fossem educados na f\u00e9 crist\u00e3 e, na medida das possibilidades, devolvidos a sua terra natal, para iniciar um processo de evangeliza\u00e7\u00e3o. No entanto, a necessidade era urgente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegavam apelos a Roma, de algumas partes da Inglaterra ainda n\u00e3o atingidas pelo trabalho mission\u00e1rio dos monges celtas, em busca de professores crist\u00e3os, e o processo imaginado por Greg\u00f3rio demandaria muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devido \u00e0 dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica da Igreja Celta escocesa e Irlandesa da sede romana, e da vida independente e aut\u00f4noma da pr\u00f3pria Igreja Celta, que ainda n\u00e3o se submetera ao papado,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Greg\u00f3rio n\u00e3o tinha grande conhecimento sobre o seu trabalho. Assim, ele concebeu outro plano, desconhecendo uma outra estrat\u00e9gia que poderia ter sido mais f\u00e1cil, atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o dos monges celtas. Chama ent\u00e3o Agostinho, o seu substituto no convento romano, e determina, como papa, que ele v\u00e1 \u00e0 futura Inglaterra, mediante entrada pelo reino de Kent.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por que esse reino?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, geograficamente, ele era o mais pr\u00f3ximo da Europa Continental, atrav\u00e9s da Fran\u00e7a, e, tamb\u00e9m, porque o seu rei, Etelberto, havia se casado com uma princesa de origem francesa, j\u00e1 crist\u00e3, que havia levado para o seu novo lar sacerdotes crist\u00e3os, como confessores e orientadores pessoais. Etelberto, no entanto, era pag\u00e3o, e isso amedrontava demais a Agostinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele, pessoalmente, n\u00e3o tinha nenhum desejo pessoal de levar a cabo tal miss\u00e3o, pois n\u00e3o se sentia com voca\u00e7\u00e3o evangelizadora. No entanto, como um bom monge beneditino, ele era obediente. Pois Greg\u00f3rio, para toda a Igreja Ocidental, era o Vig\u00e1rio de Cristo, e, como tal, precisava ser obedecido. Por conseguinte, Agostinho aceitou o encargo ?em obedi\u00eancia e p\u00f4s-se a caminho, liderando um grupo de 40 monges. Mas, atravessando a ent\u00e3o G\u00e1lia, terr\u00edveis hist\u00f3rias lhe foram contadas sobre a selvageria do povo que iria encontrar, inclusive sobre epis\u00f3dios de canibalismo e, com isso, tanto a sua coragem e a sua obedi\u00eancia lhe falharam e ele e o grupo voltaram \u00e0 Roma. Greg\u00f3rio, no entanto, n\u00e3o era homem de desistir dos seus intentos, e Agostinho foi recomendado a criar \u00e2nimo e seguir em diante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O historiador franc\u00eas, Andr\u00e9 Mourois, ao escrever o seu livro sobre a Hist\u00f3ria da Inglaterra conta que, entre os conselhos que o papa, homem s\u00e1bio, deu ao vacilante Agostinho, estava o seguinte, sobre a necessidade que teria, no in\u00edcio, de fingir respeitar os costumes de Kent:<\/strong>\u00a0N\u00e3o \u00e9 aos pulos que se chega ao cume da montanha, mas pacientemente, passo a passo. Em primeiro lugar, n\u00e3o conv\u00e9m destruir os templos dos \u00eddolos; basta destruir os \u00eddolos, depois, benzer solenemente a \u00e1gua, aspergir os templos e colocar rel\u00edquias l\u00e1 dentro. Se estes templos est\u00e3o bem constru\u00eddos, \u00e9 bom e \u00fatil que passem do culto dos dem\u00f4nios para o culto do verdadeiro Deus; pois, enquanto existirem os velhos templos, o povo sentir-se-\u00e1 atra\u00eddo por eles; a\u00ed far\u00e1 as suas adora\u00e7\u00f5es, e por uma quest\u00e3o de h\u00e1bito, o verdadeiro Deus ser\u00e1 adorado \u2026. ( ) Esta t\u00e1tica conciliat\u00f3ria surtiu efeito. O pequeno grupo chegou a Kent no in\u00edcio de 597, e logo descobriu que os seus medos eram infundados. Berta, a princesa filha do rei de Paris, facilitou o trabalho. Moorman nos conta que o pr\u00f3prio Etelberto tinha receio de Agostinho e de seu Deus poderoso. Assim, n\u00e3o quis receb\u00ea-lo dentro de um recinto fechado, mas ao ar livre, por medo de uma eventual magia do visitante. Podemos imaginar Agostinho, com os seus monges, encontrando o rei, um com temor do outro, mas ambos escondendo seus medos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agostinho deve ter se cercado de uma certa pompa, pois isso marcaria impress\u00e3o num rei de costumes t\u00e3o diferentes. Bede nos conta que ele veio em prociss\u00e3o com seus monges, trazendo \u00e0 frente um crucifixo de prata, e a gentileza do Senhor em suas almas?. Sabemos que a sua a\u00e7\u00e3o teve resultado proveitoso e ele fez t\u00e3o r\u00e1pidos progressos que, em pouco tempo, tinha convertido o rei, batizando-o e a muitos de sua corte. Tudo isto aconteceu, sem receber uma oposi\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria. Etelberto tamb\u00e9m teve os seus m\u00e9ritos nesse processo, pois era um homem relativamente culto e suficientemente forte para liderar o seu povo, numa mudan\u00e7a t\u00e3o dr\u00e1stica, como a ado\u00e7\u00e3o de uma nova religi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As convers\u00f5es se sucediam t\u00e3o rapidamente, conta-nos Moorman, que Agostinho e seus monges tiveram dificuldades para manter as pessoas tranquilas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No outono de 597, Agostinho voltou \u00e0 G\u00e1lia para ser sagrado bispo e, no dia de Natal deste ano, conta-se, ele teria batizado, aproximadamente, 10.000 convertidos, em Cantu\u00e1ria. Agostinho estabeleceu, nas cercanias dessa regi\u00e3o, a sua catedral e fundou a\u00ed uma ?fam\u00edlia episcopal uma esp\u00e9cie de escola p\u00fablica para meninos, e semin\u00e1rio teol\u00f3gico e, mais tarde, fundou, por perto, um mosteiro beneditino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Greg\u00f3rio regozijou-se em ouvir t\u00e3o boas not\u00edcias de seus protegidos e cuidou da pequena miss\u00e3o com especial aten\u00e7\u00e3o. Assim, mandou livros, rel\u00edquias e paramentos para as igrejas que Agostinho constru\u00eda e estava sempre alerta com rela\u00e7\u00e3o aos problemas que os mission\u00e1rios enfrentavam. Em 598, Agostinho escreveu ao papa, encaminhando uma s\u00e9rie de quest\u00f5es para as quais necessitava de orienta\u00e7\u00e3o e Greg\u00f3rio respondeu-lhe pormenorizadamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A primeira quest\u00e3o era a respeito do uso do dinheiro da Igreja; Greg\u00f3rio utilizou, ent\u00e3o, o princ\u00edpio, que foi mantido durante toda a Idade M\u00e9dia, pelo qual a renda da Igreja deveria ser dividida em 4 partes:<\/strong>\u00a0uma para o bispo, outra para o sacerdote, uma para o socorro da pobreza e a outra para a manuten\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Essa carta de Greg\u00f3rio nos evidencia aquela diferen\u00e7a fundamental entre as experi\u00eancias celta e ocidental<\/strong>: um abade da Irlanda ou Esc\u00f3cia, mesmo se tornando bispo, saberia administrar sozinho essas quest\u00f5es, sem precisar da orienta\u00e7\u00e3o do papa, porque isso era parte da sua viv\u00eancia no mosteiro. Continuando a sua carta, Greg\u00f3rio aconselha Agostinho em quest\u00f5es lit\u00fargicas, alertando-o para construir o seu pr\u00f3prio rito, escolhendo aquilo que ele, Agostinho, considerasse ?o mais piedoso, religioso e correto ?, nos costumes de outras igrejas e adaptando-os \u00e0s necessidades dos novos convertidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos dos problemas sobre os quais Greg\u00f3rio aconselha eram de ordem matrimonial ou concernentes \u00e0 cerim\u00f4nia de purifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vida fechada de um mosteiro ocidental, certamente, n\u00e3o preparava um monge para a vida em contato com o povo, como nas Ilhas Brit\u00e2nicas. Logo em seguida, da qual encontramos uma reprodu\u00e7\u00e3o no livro Documentos da Igreja Crist\u00e3?, de Bettenson (Editora ASTE), Greg\u00f3rio escreve uma segunda carta a Agostinho, na qual enviava um projeto para a divis\u00e3o do territ\u00f3rio leste das Ilhas Brit\u00e2nicas, em duas prov\u00edncias (mesmo sabendo que atingiria outros reinos), cada uma com um arcebispo (de Cantu\u00e1ria e York) e bispos sufrag\u00e2neos. Com esta segunda carta, tamb\u00e9m \u00e9 enviado a Agostinho, por Greg\u00f3rio, o ?p\u00e1lio?, sinal da autoridade do papa, concedida a um bispo, para que ele tivesse autoridade sobre todos os outros de uma determinada regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma cr\u00edtica que se faz a Greg\u00f3rio, com rela\u00e7\u00e3o a sua orienta\u00e7\u00e3o pastoral para a Inglaterra, foi quando ele concedeu a Agostinho a autoridade sobre os bispos brit\u00e2nicos que, porventura, viesse a encontrar, os quais, com as limita\u00e7\u00f5es j\u00e1 mencionadas em cap\u00edtulo anterior, tinham mantido acesa a chama da f\u00e9, embora numa regi\u00e3o restrita (oeste), enquanto o resto do pa\u00eds tinha voltado ao paganismo. Talvez parecesse natural ao papa ignorar os direitos desses poucos, indistintos e distantes prelados. Mas isto foi um erro, pois os bispos brit\u00e2nicos ressentiram-se do completo desrespeito sobre eles, acrescido ao fato de que Agostinho tinha pouco tato para lidar com quem tivesse dificuldade de se submeter a ele, o que foi fatal para este processo de aproxima\u00e7\u00e3o. Por tudo isso, os bispos brit\u00e2nicos se recusaram a cooperar com a Miss\u00e3o Romana que tinha vindo, com prioridade, para evangelizar os odiados invasores e, depois, submeter toda a Igreja Crist\u00e3, l\u00e1 existente, \u00e0 Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Igreja Brit\u00e2nica tinha s\u00e9rios problemas, mas, tamb\u00e9m, era merecedora de considera\u00e7\u00e3o. Esta considera\u00e7\u00e3o foi ignorada e a chance de uma Igreja unida na Brit\u00e2nia foi perdida, por um s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Greg\u00f3rio morreu em 604,e nele, Agostinho perdeu o seu melhor amigo e o seu mais poderoso apoio; nem ele sobreviveu por muito mais tempo. Mas a miss\u00e3o estava indo bem. No reino de Kent, muitos milhares haviam aceito a f\u00e9 crist\u00e3 e a Igreja, rapidamente, tornou-se estabelecida em fortes bases. N\u00e3o somente uma nova diocese foi fundada em Rochester, em 604, mas foi feito um esfor\u00e7o para come\u00e7ar uma nova diocese para os sax\u00f5es do leste, com o seu centro em Londres. Em Cantu\u00e1ria, novas igrejas estavam sendo constru\u00eddas. A velha igreja de S\u00e3o Martim, que, provavelmente, remonta aos tempos da ocupa\u00e7\u00e3o romana, e que tinha sido usada pela rainha Berta, antes da vinda de Agostinho, foi restaurada. Nesse processo de restaura\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o, foram usados trabalhadores gauleses e italianos, trazidos do Continente, pois os trabalhadores ingleses tinham pouca ou nenhuma pr\u00e1tica em constru\u00e7\u00e3o de qualquer coisa que n\u00e3o fosse de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Bede, Agostinho morreu por volta do ano 604 (o mesmo de Greg\u00f3rio). Seu minist\u00e9rio como mission\u00e1rio n\u00e3o foi, pois, muito longo, mas, durante esse tempo, muito foi feito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O apoio de Greg\u00f3rio tinha sido crucial para ele. Enquanto vivo, o papa tinha feito tudo para apoiar o seu amigo, em terras distantes. Para facilitar o seu trabalho, tinha lhe dado orienta\u00e7\u00f5es pastorais, enviando-lhe colaboradores importantes, sendo alguns deles at\u00e9 bispos. Os nomes mais conhecidos s\u00e3o os do abade Melitus, o do bispo Paulinus, de Justo e Rufiano. Ainda, escreveu ao rei Etelberto, aconselhando-o a aceitar a orienta\u00e7\u00e3o religiosa de Agostinho, enviou paramentos e rel\u00edquias para o bispo primaz da Inglaterra (Agostinho, que inicia, assim, a sucess\u00e3o dos Arcebispos de Cantu\u00e1ria, como primazes daquele pa\u00eds e, mais tarde, da Comunh\u00e3o Anglicana, quando da expans\u00e3o mission\u00e1ria da Igreja da Inglaterra), para destacar a import\u00e2ncia da sua fun\u00e7\u00e3o e trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Preocupou-se, tamb\u00e9m, com a instru\u00e7\u00e3o do clero que come\u00e7ava a ser formado, enviando livros nas v\u00e1rias \u00e1reas de interesse da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o fato importante, que qualifica a miss\u00e3o de Agostinho, a assim chamada ?Miss\u00e3o Romana, \u00e9 que, como o nome j\u00e1 o diz, ela foi feita em nome do bispo de Roma, da autoridade romana que representava a unidade da Igreja Ocidental Continental. Por conseguinte, o in\u00edcio do alinhamento com Roma j\u00e1 come\u00e7ara, pelo menos nas \u00e1reas atingidas por Agostinho e seus colaboradores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 624, Paulinus, o bispo colaborador de Agostinho, foi acompanhar a princesa de Kent, Etelburga, para casar-se com Edwin, rei da Nort\u00fambria, ao norte da atual Inglaterra. Em l\u00e1 chegando (York), viu-se a si mesmo na mesma situa\u00e7\u00e3o de Agostinho, anos antes, em Kent. Paulinus contava somente com o apoio da rainha crist\u00e3, e de seu marido, o rei, ainda pag\u00e3o, mas, aparentemente, interessado na f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou, ent\u00e3o, a pregar o Evangelho para o rei e sua corte e, como Agostinho, seus sucessos apareceram, rapidamente. Coifi, o sumo-sacerdote da velha religi\u00e3o, converteu-se e o witan (Conselho de Anci\u00e3os), docilmente seguiu o rei. Edwin foi batizado na v\u00e9spera da P\u00e1scoa, em York, numa igreja de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paulinus, uma alta figura, ligeiramente inclinada, com cabelos ainda pretos, um fino nariz adunco e uma face p\u00e1lida, trabalhou, infatigavelmente, na Nort\u00fambria, como bispo de York.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele viajou por v\u00e1rios condados da regi\u00e3o, pregando o Evangelho nas aldeias e batizando o povo nas \u00e1guas claras dos arroios e dos rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e3o grande foi o seu sucesso que, em 634, ele foi feito arcebispo e o pallium lhe foi enviado de Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas, depois de ter recebido tal distin\u00e7\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o no norte tinha se modificado muito:\u00a0<\/strong>Edwin tinha sido assassinado e o seu sucessor n\u00e3o teve a mesma simpatia pelo cristianismo. Paulinus, ent\u00e3o, teve de voltar ao sul e a Igreja Crist\u00e3, praticamente, desapareceu na Nort\u00fambria, por um tempo. Possivelmente, o trabalho, feito com tanta rapidez, era superficial. De qualquer modo, l\u00e1 permaneceu uma alma cheia de f\u00e9, James, o Di\u00e1cono, ?a \u00fanica figura her\u00f3ica na miss\u00e3o romana?, que morava pr\u00f3ximo de Catterick e que, mesmo em perigo de morte, silenciosamente, continuou atendendo os necessitados da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00fanica tentativa que Santo Agostinho havia feito para estender a Igreja al\u00e9m das fronteiras de Kent, tinha sido o estabelecimento do bispado, em Londres, no territ\u00f3rio dos sax\u00f5es do leste, em 604. No entanto, a experi\u00eancia fracassou e foi somente em 630 que uma oportunidade para o trabalho evangel\u00edstico, em tal reino, aflorou. No entanto, a convers\u00e3o final da regi\u00e3o s\u00f3 vai acontecer mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Wessex, o Cristianismo chegou atrav\u00e9s de um romano, Birinus, que, em 634, para l\u00e1 se dirigiu, a fim de pregar aos sax\u00f5es do oeste. Por l\u00e1 esteve, at\u00e9, mais ou menos, 650, num trabalho que, apesar de dificuldades, teve \u00eaxito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edwin, o rei crist\u00e3o da Nort\u00fambria, j\u00e1 mencionado acima, foi morto por Cadwallon, na batalha de Heathfield, em 633 e, exceto pelo trabalho her\u00f3ico do nosso j\u00e1 conhecido James, o Di\u00e1cono, a f\u00e9 crist\u00e3 naquela regi\u00e3o faliu, durante um tempo. Por um ano o annus infaustus ou o ano desastroso? e Bede ? houve o caos, e parecia que todo o trabalho de Paulinus tinha sido em v\u00e3o. Mas, em 634, os crist\u00e3os remanescentes come\u00e7aram a se fortalecer, de novo. Bem longe, na nossa conhecida Iona, estava aquele mo\u00e7o de quem j\u00e1 ouvimos falar, Oswald, que foi mandado para l\u00e1 em crian\u00e7a, por ocasi\u00e3o da morte de seu pai, em 617, e que cresceu e foi educado entre os monges. Pouco tempo ap\u00f3s a morte de Edwin, ele, sendo membro da fam\u00edlia real da Nort\u00fambria, herdou os tronos conjugados de pequenos territ\u00f3rios, dentro da pr\u00f3pria Nort\u00fambria, Deira e Bern\u00edcia e, imediatamente, organizou um ex\u00e9rcito para derrotar o grupo de Cadwallon, que era pag\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de come\u00e7ar a batalha, Oswald levantou uma cruz de madeira e convidou seus soldados para orar, antes da luta. Travada a contenda, Oswald foi vencedor e Cadwallon derrotado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele, imediatamente, p\u00f4s-se a reparar o dano que havia sido feito \u00e0 causa crist\u00e3 e solicitou de Iona um bispo para evangelizar o seu povo e restaurar os lugares destru\u00eddos. O primeiro que veio, fugiu, em desespero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o segundo era o nosso conhecido Aidan, um dos mais santos e aben\u00e7oados monges de Iona, eminentemente celta em sua concep\u00e7\u00e3o de evangeliza\u00e7\u00e3o e da viv\u00eancia da f\u00e9, sobre quem j\u00e1 contamos o relato de Bede, que mesmo n\u00e3o sendo muito simp\u00e1tico \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o celta, n\u00e3o p\u00f4de deixar de reconhecer a obra de quem restaurou o cristianismo no norte, s\u00f3 que n\u00e3o em nome de Roma, mas de Iona, de quem partiam todas as orienta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conta-se que, de seu trabalho conjunto com o rei ( que, muitas vezes lhe servia de int\u00e9rprete), juntamente com os monges de Iona, estabelecidos em Lindisfarne, a Palavra do Senhor entrou nos ouvidos e no cora\u00e7\u00e3o daquele povo. Abst\u00eamio, trabalhador, fervoroso, Aidan estava constantemente em movimento. Diz-se que ele e seus companheiros, quando em jornada, recitavam os Salmos ou meditavam em voz alta sobre as Escrituras, a fim de n\u00e3o perderem tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse processo de evangeliza\u00e7\u00e3o do norte da Inglaterra vai gerar um problema que vamos falar logo a seguir. Acontece que havia, como j\u00e1 vimos, algumas diferen\u00e7as entre as tradi\u00e7\u00f5es celta e romana, al\u00e9m daquela de n\u00e3o aceitar o jugo do papado. Isso tudo vai levar a um clima de desentendimento e, at\u00e9, de desorienta\u00e7\u00e3o, entre pessoas que, eventualmente, estivessem em contato com as duas tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem tinha raz\u00e3o? Roma ou Iona?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 autores que, para desvalorizar o trabalho dos monges celtas, taxavam-nos de ?furiosos? na prega\u00e7\u00e3o do Evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, outras regi\u00f5es da atual Inglaterra tamb\u00e9m estavam sendo atingidas por mission\u00e1rios. Assim, no centro, o reino de M\u00e9rcia acabou sendo cristianizado, tamb\u00e9m por mission\u00e1rios de tradi\u00e7\u00e3o de Lindisfarne e Iona, e n\u00e3o, Roma ou Cantu\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m na Anglia do Leste a obra foi desenvolvida por mission\u00e1rios celtas, entre eles, um grande bispo monge, Cedd, que de acordo com sua tradi\u00e7\u00e3o, era um bispo itinerante, sem uma sede. No entanto, em suas viagens, n\u00e3o esqueceu, junto com seus companheiros, de fundar mosteiros, a marca da evangeliza\u00e7\u00e3o celta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Roma ou Iona?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por meados do s\u00e9culo VII, a situa\u00e7\u00e3o se tornara calamitosa, nas rela\u00e7\u00f5es entre os crist\u00e3os da Inglaterra. De um lado, no norte e centro, a tradi\u00e7\u00e3o celta, centrada em Lindisfarne e Iona, e de outro, a miss\u00e3o romana, forte no sul, e tamb\u00e9m querendo atuar com efici\u00eancia em outras \u00e1reas, em nome do Bispo de Roma. A quest\u00e3o n\u00e3o era, somente, de autoridade, pois haviam outras dificuldades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde os tempos de Agostinho quando, eventualmente, se encontrava com bispos brit\u00e2nicos de Gales e da Cornu\u00e1lia, essas diferen\u00e7as j\u00e1 apareciam. Apesar disto, a conselho de Greg\u00f3rio, Agostinho os tratou com prud\u00eancia, n\u00e3o os considerando hereges, por causa dessas diferen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ent\u00e3o, quais eram estas causas de entraves e dificuldades?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pr\u00e1ticas c\u00e9lticas de ent\u00e3o, vistas pela Igreja de Roma da \u00e9poca como irregulares, nada mais eram do que costumes que j\u00e1 tinham sido praticados em outras partes do Cristianismo, mas tinham sido abandonados, num processo natural de evolu\u00e7\u00e3o. Entre estes costumes considerados fora de moda, estava o ritual do batismo, do modo como os celtas o faziam. N\u00e3o se sabe, ao certo, em que consistia esta varia\u00e7\u00e3o, possivelmente recaindo na insist\u00eancia celta de s\u00f3 batizar por imers\u00e3o, o que foi um costume brit\u00e2nico at\u00e9 1620, e que prevaleceu, tamb\u00e9m, at\u00e9 o s\u00e9culo VI na Espanha, onde havia, provavelmente, um estabelecimento celta naquela regi\u00e3o. Outras diferen\u00e7as seriam algumas particularidades na liturgia e no ritual da missa, como, por exemplo, a recita\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias coletas. Ainda, a exist\u00eancia de v\u00e1rios ritos para a ordena\u00e7\u00e3o, talvez de origem brit\u00e2nica, tamb\u00e9m era outra diferen\u00e7a destacada, j\u00e1 que o rito latino n\u00e3o era usado pelos celtas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez um dos maiores pontos de discord\u00e2ncia debatidos nos usos celtas tenha sido o fato da sagra\u00e7\u00e3o de um bispo por um outro, somente, e n\u00e3o por tr\u00eas, como tinha se tornado exig\u00eancia para a Igreja, desde o Conc\u00edlio de Nic\u00e9ia (325). N\u00e3o se sabe, com certeza, se essa era uma praxe normal na Igreja Celta ou, se posta em pr\u00e1tica em situa\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o, como parece ter sido o teor da pergunta feita por Agostinho a Greg\u00f3rio, quando de sua troca de correspond\u00eancias. Numa regi\u00e3o agreste e assolada pelas invas\u00f5es, n\u00e3o seria extraordin\u00e1rio se tal fato acontecesse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o \u00e9 se esta pr\u00e1tica teria validade, ou n\u00e3o, e se seria cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia, tamb\u00e9m, diferen\u00e7as no uso de consagra\u00e7\u00e3o de igrejas e mosteiros, embora estivesse estabelecido que isto era fun\u00e7\u00e3o exclusiva do bispo, e, nunca do abade. Se alguma vez este a realizava, era porque era um bispo, tamb\u00e9m. Havia discuss\u00f5es, tamb\u00e9m, sobre o modelo de tonsura usado pelos monges celtas, que ia de orelha a orelha, enquanto o modelo romano era somente o corte de cabelo de um pequeno c\u00edrculo, no alto da cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o grande problema pr\u00e1tico, que vai desencadear a decis\u00e3o por um ou outro lado, vai ser a comemora\u00e7\u00e3o da data da P\u00e1scoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A data praticada por toda a Igreja Ocidental tinha sido definida por Vit\u00f3rio da Aquit\u00e2nia, em 457, e era calculada de uma maneira diferente da praticada pela Igreja Celta, que usava um antigo costume da Igreja do Oriente, baseado em informa\u00e7\u00f5es contidas no Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O desencadeador da busca da resposta<\/strong>: Iona ou Roma foi Oswy, rei da Nort\u00fambria, na segunda metade do s\u00e9culo VII. Quando Oswald morreu, seu irm\u00e3o Oswy lhe sucedeu, no trono, tendo sido, enquanto crian\u00e7a, educado na tradi\u00e7\u00e3o celta, como seu irm\u00e3o. Ocorreu, no entanto, que Oswy se havia casado com uma princesa, filha do antigo rei Edwin, que tinha se tornado crist\u00e3o, como vimos, por a\u00e7\u00e3o de Paulinus, da tradi\u00e7\u00e3o romana. Aconteceu, pois, que essa princesa, por ocasi\u00e3o da morte de seu pai, tinha fugido, junto com a m\u00e3e, os irm\u00e3os e Paulinus, para Kent, e l\u00e1, como era de se esperar, tinha sido educada na tradi\u00e7\u00e3o romana, pelo mesmo Paulinus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Assim, temos um impasse matrimonial:\u00a0<\/strong>um rei crist\u00e3o, Oswy, de tradi\u00e7\u00e3o e costumes religiosos celtas, casado com uma princesa de tradi\u00e7\u00e3o e costumes oriundos do cristianismo romano. Segundo Bede, enquanto o rei e a corte celebravam a P\u00e1scoa, a rainha, seu capel\u00e3o e seguidores ainda estavam no jejum da Quaresma ou observando o Domingo de Ramos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conflito entre essas duas lealdades culminou com o s\u00ednodo de Whitby, em 663, com o triunfo do partido romano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bede relata que o s\u00ednodo, ou conc\u00edlio, como tamb\u00e9m \u00e9 chamado, foi convocado pelo rei, que o presidiu, na abadia governada por Santa Hilda. As duas tradi\u00e7\u00f5es em discuss\u00e3o eram representadas por Colman, bispo e abade de Lindisfarne, como porta-voz da Igreja Celta, e o Bispo Wilfrido, pela tradi\u00e7\u00e3o romana. Wilfrido tinha sido preceptor do filho de Oswy, Alchfrith, e contava com o seu apoio e influ\u00eancia junto ao pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, apesar de ser de origem brit\u00e2nica, Wilfrido tinha se preparado para a fun\u00e7\u00e3o sacerdotal na tradi\u00e7\u00e3o romana, no Continente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Estavam junto a Colman, mais dois importantes l\u00edderes celtas:<\/strong>\u00a0Chadd e Cutberto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o rei, ouvidos os argumentos de ambos os lados, preferiu ficar com S\u00e3o Pedro, em vez de S\u00e3o Jo\u00e3o. H\u00e1 autores que dizem ter sido a resposta do rei, por Roma, uma decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele teria percebido que j\u00e1 seria hora da Nort\u00fambria sair do seu isolamento geogr\u00e1fico, e alinhar-se com a Igreja Continental, como j\u00e1 estava a igreja sax\u00f4nica do sul. Teria visto, tamb\u00e9m, todo o trabalho da Igreja Continental, liderado por muitos papas, em prol da restaura\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, depois do caos das invas\u00f5es germ\u00e2nicas, que tinham assolado, n\u00e3o somente as Ilhas Brit\u00e2nicas, mas toda a Europa Ocidental. Fosse por que raz\u00e3o fosse, Oswy deu a resposta pela Nort\u00fambria, porque s\u00f3 tinha autoridade naquela regi\u00e3o. Com o tempo, os demais reinos que ainda preservavam a tradi\u00e7\u00e3o celta, na Inglaterra, tamb\u00e9m optaram por Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a derrota, os celtas se retiraram, inicialmente para Lindisfarne, e mais tarde, para a Irlanda, na ilha de Mayo, onde a Igreja Celta continuou a existir independente, at\u00e9 que, tamb\u00e9m a Esc\u00f3cia e a Irlanda v\u00e3o se submeter \u00e0 tutela romana, nos s\u00e9culos subseq\u00fcentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No entanto, a perda da independ\u00eancia da Igreja Brit\u00e2nica Celta, neste per\u00edodo chamada de Igreja Sax\u00f4nica, n\u00e3o significou a perda total das marcas que o car\u00e1ter celta nela tinha impresso<\/strong>: o fervor religioso, a voca\u00e7\u00e3o m\u00edstica, o ascetismo, o ardor mission\u00e1rio, principalmente onde a Igreja Celta tinha sido mais forte: no norte da Inglaterra. Mas a s\u00edntese c\u00e9ltica e romana foi acontecendo, aos poucos, principalmente quando a Igreja Inglesa teve um arcebispo de Cantu\u00e1ria s\u00e1bio, piedoso e justo, naquele momento de transi\u00e7\u00e3o: Teodoro de Tarso, que em 669, chegou at\u00e9 as Ilhas Brit\u00e2nicas, j\u00e1 bastante idoso, mas portador de muitos dos dons de Greg\u00f3rio Magno e, tamb\u00e9m, do ardor de N\u00ednian, Patr\u00edcio, Columba e Aidan. O intervalo entre o s\u00ednodo de Oswy e a chegada de Teodoro foi marcado por muita intranq\u00fcilidade, j\u00e1 que n\u00e3o seria uma decis\u00e3o administrativa, como a de Oswy, que poderia aparar todas as dificuldades. Era preciso um s\u00e1bio, um conciliador, um homem de a\u00e7\u00e3o e com vis\u00e3o de mundo. Este homem foi Teodoro, a quem a Igreja da Inglaterra muito deve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A unidade pol\u00edtica inglesa, em torno de um s\u00f3 rei s\u00f3 vir\u00e1 mais tarde, com Alfredo de Wessex tamb\u00e9m com Cnut, mas a unidade religiosa j\u00e1 estava consolidada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No entanto, coisa curiosa<\/strong>: a independ\u00eancia, outra marca celta, estaria presente na Igreja Inglesa, que sempre teve dificuldade em se adaptar \u00e0s ordens vindas de Roma. Seus reis, quando podiam, contestavam e, at\u00e9, combatiam a interfer\u00eancia de Roma, nem sempre favor\u00e1vel aos interesses ingleses, durante a Idade M\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo contr\u00e1rio, a Inglaterra promulgou leis, como a que proibia apela\u00e7\u00f5es a Roma, a indica\u00e7\u00e3o ou a sa\u00edda de prelados, sem a autoriza\u00e7\u00e3o real, a limita\u00e7\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es a Roma, evitando-se, assim, a sangria dos cofres ingleses, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o tempo, a maioria das casas religiosas, que tinham sido t\u00e3o amadas e respeitadas em toda a Inglaterra (muito por ainda preservarem os costumes celtas) passaram por um per\u00edodo de decad\u00eancia, e o povo n\u00e3o mais as considerava como antes. Acrescido a isto, come\u00e7ou a se desenvolver um sentimento anti-clerical contra a maioria dos bispos, que deixaram de ser os pastores do povo, os Pais-em-Deus, para se tornarem cortes\u00e3os bajuladores e impiedosos, na corte de Londres (houve \u00e9pocas em que muitos passavam a maior parte do tempo na capital, na corte real, reservando somente 3 ou 4 meses do ano para as pr\u00e1ticas pastorais em suas dioceses ? chegavam a pagar ?bispos-vig\u00e1rios? para ficarem em seu lugar, enquanto gozavam as benesses financeiras que o povo da diocese lhes devia).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E mesmo o clero comum n\u00e3o era, mais, t\u00e3o bem visto. Muitos se embebedavam, ou murmuravam f\u00f3rmulas em latim, durante as missas, sem, muitas vezes, saber do seu significado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O advento do Humanismo e do Renascimento, ao final da Idade M\u00e9dia, muito fez para que os eruditos refletissem sobre os desvios da Igreja. Mesmo assim, ningu\u00e9m pensava num rompimento com a autoridade papal, que tamb\u00e9m era objeto de cr\u00edticas severas, dada a corrup\u00e7\u00e3o e a desmoraliza\u00e7\u00e3o porque passara, em muitas etapas da Idade M\u00e9dia. Os desejos de reforma eram compreendidos, de um modo geral, como uma reforma interna, dentro da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ent\u00e3o, no in\u00edcio da Idade Moderna, acontece o fato imprevis\u00edvel<\/strong>: Lutero, um monge agostiniano alem\u00e3o, fixa as suas 95 teses contra as indulg\u00eancias que a Igreja cobrava, no momento, para os que desejassem a salva\u00e7\u00e3o da sua alma ou de seus queridos, e a Cristandade Ocidental se rompe, na sua unidade monol\u00edtica ? come\u00e7ava a Reforma protestante, de reflexos marcantes na vida da Igreja da Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Henrique VIII<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Reforma Luterana, que n\u00e3o ser\u00e1 tema nosso, vai deixar marcas importantes em toda a Cristandade Ocidental, mesmo dentro da Igreja de Roma. Assim como em outros pa\u00edses, a Inglaterra tamb\u00e9m n\u00e3o deixou de sentir essa influ\u00eancia, como veremos constantemente, neste texto, e dos seus desdobramentos, como, por exemplo, a Reforma Zuingliana, os Anabatistas, e a Reforma Calvinista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esse tempo, s\u00e9culo XVI, a Inglaterra estava sendo governada, desde 1509, por um jovem brilhante, chamado Henrique. Neste ano, seu pai, Henrique VII, o unificador da Inglaterra, por ocasi\u00e3o da chamada Guerra das Duas Rosas, que havia sangrado o pa\u00eds por muitos anos (1455-85), havia falecido, deixando-lhe o trono, e uma dinastia rec\u00e9m inaugurada a dos Tudors, iniciada por ele e sua esposa, Elisabete de York, de ascend\u00eancia real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O casal Henrique e Elisabete teve 4 filhos<\/strong>: Artur, o mais velho, que casou-se com a princesa espanhola Catarina de Arag\u00e3o, Margarida, que se casou com o herdeiro do trono da Esc\u00f3cia, o futuro Jaime IV, o nosso jovem Henrique e a irm\u00e3 mais mo\u00e7a, Maria, a qual vai casar-se duas vezes ? com Lu\u00eds XII da Fran\u00e7a e, ao enviuvar, com Carlos Brandon, Duque de Suffolk. (Era praxe, naquela \u00e9poca, as princesas reais fazerem casamentos de conveni\u00eancia para a Coroa, inicialmente. Na oportunidade de um segundo casamento, poderiam escolher quem fosse do seu agrado, o que deve ter sido o caso de Maria Tudor).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o acima nos mostra que todos os casamentos dos pr\u00edncipes e princesas reais sempre tinham em vista alian\u00e7as pol\u00edticas, para fortalecer o trono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, \u00e0quele tempo, a Inglaterra n\u00e3o era uma na\u00e7\u00e3o das mais importantes, no cen\u00e1rio europeu. Ao contr\u00e1rio, a Guerra das Duas Rosas tinha desagregado e empobrecido o pa\u00eds. Henrique VII, o vencedor da contenda, havia feito de tudo para retomar o progresso do reino: casou-se com a herdeira da fam\u00edlia advers\u00e1ria (Elisabete representava a fam\u00edlia de York, simbolizada por uma rosa branca, e ele era parente distante da Casa de Lancaster, representada por uma rosa vermelha da\u00ed o nome da Guerra, pois a nobreza inglesa alinhou-se e, consequentemente os seus ex\u00e9rcitos, com uma ou a outra fam\u00edlia), pacificou o pa\u00eds, retomou o desenvolvimento econ\u00f4mico, fez conten\u00e7\u00e3o de gastos, etc. Henrique VII era um homem s\u00e9rio e fechado, que s\u00f3 pensava em pol\u00edtica e no bem do reino ingl\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus filhos, enquanto pequenos, viviam em castelos decadentes e com roupas pu\u00eddas, porque o tesouro real esteva vazio e precisava ser abastecido, novamente, para o bem-estar do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Todo esse contexto explica porque Henrique tentou fazer casamentos brilhantes para os filhos:<\/strong>\u00a0\u00e0 \u00e9poca, a Espanha era sen\u00e3o o mais importante, um dos mais importantes pa\u00edses europeus Artur, o herdeiro, precisava casar-se com uma espanhola; a Fran\u00e7a tamb\u00e9m era outra rival perigosa para a Inglaterra, e tamb\u00e9m se igualava com a Espanha em prest\u00edgio, na Europa; assim, Maria foi para l\u00e1, casar-se com o rei franc\u00eas; \u00e0 Margarida coube o herdeiro escoc\u00eas, para assegurar a paz nas fronteiras inglesas com a Esc\u00f3cia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E o que sobrava para Henrique?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O destino desse jovem foi marcado pela desgra\u00e7a do irm\u00e3o mais velho. Artur sempre fora enfermi\u00e7o e, talvez antes de consumar o seu casamento com Catarina, morreu, em 1502. Assim, a alian\u00e7a com a Espanha estava em perigo. Inicialmente, o pai havia pensado para o seu segundo filho homem uma carreira eclesi\u00e1stica ? talvez ele pudesse ser, at\u00e9, Arcebispo de Cantu\u00e1ria, e, assim, estaria selada, tamb\u00e9m, uma alian\u00e7a com outro importante poder: o da Igreja. Com a morte de Artur, no entanto, surgiu a necessidade de cas\u00e1-lo com a prometida do irm\u00e3o, seis anos mais velha do que ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, aos 17 anos, com a morte do pai, Henrique herda o trono, j\u00e1 casado, atrav\u00e9s de uma autoriza\u00e7\u00e3o especial do papa, com sua cunhada Catarina (na \u00e9poca, eram proibidos, em princ\u00edpio, os casamentos entre cunhados, porque estes eram considerados, por causa do casamento anterior, irm\u00e3os entre si). A dispensa papal, dada para este casamento, estaria baseada no princ\u00edpio de que, o primeiro de Catarina n\u00e3o teria sido consumado. Era muito comum, entre os casamentos reais, as noivas serem levadas, ainda meninas para as fam\u00edlias do noivo, sendo os casamentos realizados com os interessados ainda crian\u00e7as, esperando juntos, e convivendo entre si, para se terem afeto m\u00fatuo, at\u00e9 o momento em que poderiam completar o ato matrimonial. Catarina, pois, desde adolescente,fora levada para a Inglaterra, e nunca mais p\u00f4de retornar ao seu pa\u00eds. Seus pais eram os famosos Reis Cat\u00f3licos Isabel de Castela e Fernando de Arag\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diz-se que, quando Henrique VIII subiu ao trono, as luzes teriam se acendido na Inglaterra. Bem diferente do pai, ele gostava do luxo, da pompa, da alegria. Era, tamb\u00e9m, muito erudito para a sua idade e um bom m\u00fasico. Sua forma\u00e7\u00e3o inicial para ser padre, fizera dele um homem relativamente bem informado em quest\u00f5es teol\u00f3gicas, e fiel \u00e0 Santa Madre Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, os seus dons pessoais, a sua boa apar\u00eancia f\u00edsica, quando jovem, a sua popularidade na corte, ao tornar-se herdeiro do trono, quando o pai ainda vivia, a sua amizade com e a complac\u00eancia da esposa, fizeram dele um homem extremamente ego\u00edsta. Geralmente, Henrique conseguia o que queria, n\u00e3o por tirania, no in\u00edcio, mas por ast\u00facia extrema e pelo dom, que possu\u00eda, de persuadir as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do casamento com Catarina houve o nascimento de 6 filhos, sendo 2 meninos, mas s\u00f3 uma crian\u00e7a sobreviveu Maria, a futura rainha, com o nome de Maria Tudor. Os autores todos afirmam o amor, a lealdade de Catarina pelo marido (que lhe era extremamente infiel) e a sua verdadeira obsess\u00e3o por lhe dar um herdeiro masculino ao trono. Mas, com exce\u00e7\u00e3o da menina Maria, tudo havia falhado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ter uma herdeira mulher era um risco para qualquer trono, \u00e0 \u00e9poca, imagine-se para uma Inglaterra que fazia tudo para se firmar no cen\u00e1rio europeu, desde os tempos de Henrique VII.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto os problemas matrimoniais de Henrique VIII se agravavam, por falta de um herdeiro masculino, um grupo de homens jovens estava surgindo, os quais estavam come\u00e7ando a se interessar pelas novas id\u00e9ias vindas da Alemanha e, mais tarde, da Su\u00ed\u00e7a. As id\u00e9ias reformistas, tanto no plano pol\u00edtico como no teol\u00f3gico, logo come\u00e7aram a ser difundidas na Inglaterra, onde foram alegremente recebidas pelos remanescentes da velha tradi\u00e7\u00e3o Lolarda (os Lolardos eram disc\u00edpulos de John Wycliff, que tinha tido id\u00e9ias, no s\u00e9culo XIV, bastante pr\u00f3ximas das que seriam, posteriormente, assumidas e difundidas pela Reforma Protestante), que haviam sobrevivido, durante gera\u00e7\u00f5es, \u00e0 violenta persegui\u00e7\u00e3o de governos ingleses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m destes, no in\u00edcio de 1520 (a Reforma come\u00e7ara em 31 de outubro de 1517), ensinamentos luteranos come\u00e7aram a ser discutidos na Universidade de Cambridge, por um grupo de professores entusiastas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre eles, estaria um grupo de futuros bispos e arcebispos ingleses, incluindo Thomas Cranmer, Matthew Parker, Hugh Latimer e Nicholas Ridley. Reunindo-se numa taberna, White Horse, \u00e0 tardinha, discutiam os trabalhos de Lutero e outros. Discuss\u00f5es similares aconteceram em outras partes do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o movimento era visto como suspeito pelas autoridades. O rei se desgostou muito sobre o que ouvira sobre Lutero e replicou ao seu ataque sobre os Sacramentos, com um outro texto, que lhe granjeou, por parte do papa, gratid\u00e3o, e um t\u00edtulo: o de ?Defensor da F\u00e9?, o qual todos os soberanos ingleses preservaram e ainda usam, o que pode-se considerar uma ironia para com a Igreja de Roma. Mas, apesar do desfavor real, o movimento reformista continuou a crescer: e, como o desfavor forte sempre gera oposi\u00e7\u00e3o ativa, os reformadores tornaram-se mais fortes e determinados. A tem\u00e1tica n\u00e3o era muito clara, pois muitos dos reformadores estavam implicados, tanto com as id\u00e9ias pol\u00edticas como religiosas da \u00e9poca, e o rei estava inclinado a olhar a todos que n\u00e3o lhe prestassem juramento de fidelidade absoluta, como traidores em potencial. Come\u00e7aram, pois, as execu\u00e7\u00f5es, no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto pol\u00edtico e religioso, Henrique come\u00e7a a olhar com desagrado cada vez maior, para Catarina. No ano de 1527, os dois tinham completado 18 anos de casamento, e a \u00fanica herdeira continuava sendo Maria. Catarina tinha, agora, 40 anos, e estava se tornando \u00f3bvio que as chances de um herdeiro masculino eram m\u00ednimas. A chance da Inglaterra ser governada, em sucess\u00e3o. por uma mulher, era, cada vez mais, preocupante, e o rei n\u00e3o deixava de escutar as murmura\u00e7\u00f5es dos seus conselheiros e pensar que, talvez, a dispensa do papa J\u00falio II para o seu casamento com Catarina tivesse sido, afinal, um erro. Afinal, teria um papa poder suficiente para ultrapassar as leis de Deus, conforme estabelecido em Lev\u00edtico 20:21. Um dos que murmurava essa coisas em seus ouvidos era Thomas Cromwell, futuro tesoureiro real, e, talvez, o Cardeal Wolsey.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio de 1514, rumores de um div\u00f3rcio (que n\u00e3o era nada anormal, entre reis, desde que com autoriza\u00e7\u00e3o papal) come\u00e7aram a circular, mas a rainha, ent\u00e3o estava com idade, ainda, para gestar. Por\u00e9m, em 1527, a esperan\u00e7a estava, praticamente, morta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para complicar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o, Henrique se apaixonou por Ana Bolena, uma dama da rainha, extremamente jovem e bonita, e de importante fam\u00edlia na corte. Ele n\u00e3o poderia fazer, com ela, o que tinha feito com outros amores il\u00edcitos (tinha at\u00e9 um filho homem, bastardo), pois al\u00e9m do perigo de incorrer no desagrado da fam\u00edlia, a pr\u00f3pria Ana Bolena n\u00e3o o permitiria, pois tinha sonhos mais altos: desejava ser rainha. Assim, ela trouxe o rei enredado numa teia de paix\u00f5es e nega\u00e7\u00f5es. Henrique resolveu, ent\u00e3o, pedir a anula\u00e7\u00e3o do seu casamento com Catarina, desterrou-a para um castelo distante, o mesmo fazendo com Maria, pois declarou-a bastarda e separou-a da m\u00e3e. Assim, o sofrimento das duas foi duplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o procedimento da anula\u00e7\u00e3o, Henrique convocou o Cardeal Wolsey, o prelado mais importante do Reino, homem rico e poderoso, amigo pessoal do rei, e arcebispo de York, dizendo-lhe que fosse seu embaixador junto ao papa Clemente VII, com o argumento de que continuar casado com Catarina era continuar vivendo em pecado, e, por isso, Deus n\u00e3o o aben\u00e7oara com um filho homem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Wolsey, no desempenho de sua tarefa, encontrou dois obst\u00e1culos:<\/strong>\u00a0<strong>1)<\/strong>\u00a0o fato de que Clemente VII n\u00e3o podia, ou n\u00e3o queria anular uma dispensa de um papa anterior, J\u00falio II, pois isto significava que o papa podia errar, o que n\u00e3o era bom para a Igreja;\u00a0<strong>2)<\/strong>\u00a0no momento, Clemente VII n\u00e3o podia ofender a Carlos V, soberano da Espanha e Imperador do Imp\u00e9rio Alem\u00e3o e, para azar de Henrique, sobrinho de Catarina, a quem ela apelara, pedindo apoio em sua perigosa e delicada situa\u00e7\u00e3o na Inglaterra. No momento, Clemente VII era, virtualmente, prisioneiro pol\u00edtico de Carlos V e, estando em suas m\u00e3os, era dif\u00edcil para o papa desagrad\u00e1-lo, o que, certamente lhe dificultaria ainda mais a sua situa\u00e7\u00e3o com o Imperador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso, o papa pediu tempo. Se ele pudesse manter a quest\u00e3o em suspenso, por um ano ou dois, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em que estava envolvido poderia mudar, ou, o que seria muito bom para ele, Henrique poderia cansar-se de Ana Bolena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o jogo de sedu\u00e7\u00e3o e paix\u00e3o se acentuava e Henrique ficava cada vez mais ansioso. Depois de dois anos, em que Wolsey e o legado papal Campeggio iam e vinham de Roma, o rei perdeu a paci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pressionado pela fam\u00edlia de Ana Bolena e pela nobreza anti-clericalista (principalmente por Thomas Cromwell), ele decidiu livrar-se de Wolsey a quem, agora, olhava como um impedimento \u00e0 solu\u00e7\u00e3o do seu problema. Wolsey, do alto de seus poderes e insol\u00eancia, foi indiciado pelo Estatuto de Praemunire (uma lei do Parlamento, que beneficiava os soberanos e o pais, contra a interfer\u00eancia papal), por receber ordens de um poder estrangeiro, o papa. Em 1530, foi preso por alta trai\u00e7\u00e3o, n\u00e3o chegando a ser executado pelo rei, pois morreu enquanto estava em viagem para o sul, escapando, pois de enfrentar a justi\u00e7a real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Thomas Cromwell, muito naturalmente, exercendo poderosa influ\u00eancia, agora, sobre o rei, substituiu a Wolsey no Conselho Real. E Henrique continuava em sua saga de esperar pela resposta papal. Em 1531, ele estava desesperado. Deveria o rei da Inglaterra ficar frustrado e a seguran\u00e7a futura de seu pa\u00eds desconsiderada, por causa dos problemas pol\u00edticos de um papa italiano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa era a pergunta que o rei fazia e que Cromwell come\u00e7ava a responder, de um modo que agradasse a Henrique e que garantisse o prest\u00edgio dele pr\u00f3prio, Thomas. Assim, Henrique, tendo afastado Wolsey, logo come\u00e7ou a duelar contra quem, eventualmente, poderia critic\u00e1-lo o clero. Neste mesmo ano, 1531, acusou a todo o clero de infringir o Estatuto de Praemunire, ao aceitar as orienta\u00e7\u00f5es que Wolsey tinha dado, em nome do papa, um estrangeiro. Para liber\u00e1-los desta acusa\u00e7\u00e3o, permitiu aos cl\u00e9rigos se salvarem da puni\u00e7\u00e3o com duas condi\u00e7\u00f5es ? uma, o pagamento de uma soma de 10.000 libras; a outra, a concord\u00e2ncia em reconhec\u00ea-lo como Protetor e Suprema Cabe\u00e7a da Igreja e do Clero da Inglaterra. A primeira condi\u00e7\u00e3o, eles aceitaram. Mas a segunda, era outro assunto, pois para eles e, para a maioria dos crist\u00e3os, havia na Terra somente uma cabe\u00e7a na Igreja, e esta era a do Papa. Aceitar a proposta de Henrique significaria um insulto pessoal ao papa e um completo rompimento com o passado, desde Whitby. Mas a alternativa era perigosa ? a morte. Assim, um compromisso foi firmado pelo clero, reconhecendo Henrique como ?Protetor singular, \u00fanico e supremo senhor e, tanto quanto as leis de Cristo o permitem, tamb\u00e9m suprema Cabe\u00e7a da Igreja na Inglaterra, o que agradou ao rei. Agora, o poder papal estava em perigo, na Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rei havia conseguido que o clero admitisse responsabilidade por um crime que n\u00e3o tinha cometido (a quest\u00e3o relacionada a Wolsey e ao Praemunire) e persuadiu aos cl\u00e9rigos em aceitar a Coroa como parte essencial na Igreja da Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde 1529, havia aparecido uma nova figura em cena. O rei, alojado na Abadia de Walham, havia conhecido um professor de Cambridge, Thomas Cranmer, o qual tinha lhe atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o devido a uma sugest\u00e3o feita por esse desconhecido professor: a de que, na quest\u00e3o da legalidade ou n\u00e3o, do casamento de Henrique com Catarina, (mais tarde, na possibilidade de uma anula\u00e7\u00e3o), o assunto deveria ser estudado pelas universidades europ\u00e9ias, para emitirem a sua opini\u00e3o, o que tiraria do papa a responsabilidade pela resolu\u00e7\u00e3o do fato. (N\u00e3o esque\u00e7amos que Cranmer tinha se agradado das id\u00e9ias de Lutero, com rela\u00e7\u00e3o ao poder da Igreja portanto, a sua sugest\u00e3o era coerente com sua posi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e teol\u00f3gica). Diz-se que Henrique ficou grato a Cranmer por sua sugest\u00e3o e tomou nota do seu nome, para futuras refer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As universidades da Inglaterra e muitas do Continente foram consultadas e as respostas estavam chegando, muitas delas favor\u00e1veis ao rei, mas os meios pelos quais seriam obtidas n\u00e3o foram considerados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A causa de Henrique estava crescendo, dia-a-dia .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo a seguir, o Parlamento foi acionado por Henrique, sendo aprovadas uma s\u00e9rie de leis, entre 1532 e 1534, que cortavam, cada vez mais, as amarras da Inglaterra com o papado. Para Henrique, o que o clero ? decidira precisava ser implementado pelo Parlamento, para haver seguran\u00e7a no processo de rompimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro ato relacionava-se ao pagamento de anatas. Anatas eram os rendimentos do primeiro ano de uma diocese, que eram pagas a Roma. O ato, que restringia o pagamento das anatas, queixava-se da sa\u00edda do dinheiro ingl\u00eas para fora e declarava que isso precisava parar, a n\u00e3o ser por uma pequena parcela, de 5%. E para facilitar as coisas para os bispos, o ato tamb\u00e9m estabelecia que, no futuro, todos eles seriam sagrados na Inglaterra, pelo arcebispo de Cantu\u00e1ria ou York. Enquanto isso, a Convoca\u00e7\u00e3o (ou o s\u00ednodo deles), tinha concordado com a Supremacia Real, no sentido de que nenhum c\u00e2non seria feito sem permiss\u00e3o real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em agosto de 1532, morreu o arcebispo Warham, de Cantu\u00e1ria, e surgiu o problema do seu sucessor. Henrique queria Thomas Cranmer, que era sacerdote, e o papa concordou, embora n\u00e3o pudesse aprov\u00e1-lo integralmente, porque sabia de suas id\u00e9ias luteranas e, tamb\u00e9m, que ele era casado, embora mantivesse a esposa em segredo, al\u00e9m de ter dado um grande apoio na demanda real pelo div\u00f3rcio ou anula\u00e7\u00e3o do casamento do rei. Mas Henrique n\u00e3o estava preocupado com isso. Cranmer foi sagrado em mar\u00e7o de 1533 e validou o casamento secreto feito entre Henrique e Ana, em janeiro de 1533, estando ela j\u00e1 gr\u00e1vida. Era, pois, essencial que essa crian\u00e7a fosse legitimada, e, com a gra\u00e7a de Deus, certamente seria um menino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ainda o div\u00f3rcio n\u00e3o tinha sa\u00eddo e Henrique se encontrava na inc\u00f4moda posi\u00e7\u00e3o de ter duas esposas vivas, ao mesmo tempo: Catarina, contra quem ele nunca se atrevera a tomar uma atitude mais violenta, como morte, por exemplo, talvez porque ela fosse muito considerada pelo povo, fosse filha de quem era e, ainda que remotamente, gozasse de uma certa simpatia do pr\u00f3prio Henrique, e Ana, a amada do momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa ocasi\u00e3o, passou o segundo ato no Parlamento, o que restringia os apelos a Roma. Apesar de tudo, nas quest\u00f5es eclesi\u00e1sticas, o apelo final ainda era para Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto sempre tinha sido impopular e a transfer\u00eancia desses tipos de apela\u00e7\u00f5es para uma corte inglesa foi aceita, com naturalidade, pelo Parlamento. Mas este ato tamb\u00e9m declarava que ?estes dom\u00ednios da Inglaterra s\u00e3o um imp\u00e9rio? (quer dizer, um estado soberano, independente), e que o rei \u00e9 a cabe\u00e7a suprema, tanto da Igreja como do Estado. Neste pre\u00e2mbulo, repousa o princ\u00edpio fundamental da Reforma Inglesa ? o poder n\u00e3o est\u00e1, na Igreja, nas m\u00e3os do papa, mas nas do rei. A Supremacia Real enfatiza isto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a proibi\u00e7\u00e3o das apela\u00e7\u00f5es a Roma e o poder sobre a Igreja nas m\u00e3os de Henrique, ele p\u00f4de ir adiante em seus desejos. Em 23 de maio, Cranmer deu parecer favor\u00e1vel ao desejo real, ao declarar nulo e sem efeito o seu casamento com Catarina. Em 28, seu casamento com Ana Bolena foi tornado p\u00fablico e em 1\u00ba de junho, ela foi coroada rainha, sem a simpatia popular. Em 11 de julho, o papa excomungou a Henrique e, em 7 de setembro, nasceu a filha de Ana, Elisabete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da\u00ed em diante, sucederam-se v\u00e1rios atos do Parlamento, que selaram a ruptura definitiva com Roma, em 1534. O ato final, o Succession Act deu san\u00e7\u00e3o parlamentar ao div\u00f3rcio e tornou poss\u00edvel, ao rei, exigir um juramento para qualquer quest\u00e3o em favor da nova situa\u00e7\u00e3o. Recusar fazer este juramento era crime de alta trai\u00e7\u00e3o. Thomas More, o chanceler real e o bispo de Londres, Fisher, recusaram-se a faz\u00ea-lo, e Henrique condenou-os \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, em pouco tempo (menos de 3 anos), Henrique tinha liderado a maior revolu\u00e7\u00e3o. Por cerca de um mil\u00eanio, a Igreja da Inglaterra, mesmo muitas vezes sob protesto, tinha estado sob a dire\u00e7\u00e3o de Roma. Agora, por decreto, aquela antiga alian\u00e7a tinha sido rompida e todos os poderes que o papado tinha exercido foram transferidos para o rei e o Arcebispo de Cantu\u00e1ria. No desenvolvimento dessa revolu\u00e7\u00e3o, a Igreja tinha tido pouca participa\u00e7\u00e3o. A iniciativa tinha sido do rei, embora Henrique fosse esperto o suficiente para vincular o Parlamento a cada passo seu. N\u00e3o \u00e9, pois, exagero afirmar, que a Reforma Inglesa, em cada etapa dos seus primeiros passos, tinha sido uma transa\u00e7\u00e3o parlamentar ou um ato de estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E como ficava o povo, nisto tudo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da simpatia popular por Catarina, o carisma e o autoritarismo do rei era muito forte, e houve uma relativamente pequena rea\u00e7\u00e3o a esses procedimentos todos, por medo, por apatia, ou por simpatia com a causa real do rompimento com Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na pr\u00e1tica, tudo continuava como antes, nas quest\u00f5es di\u00e1rias da vida da Igreja. Esta pode ser uma explica\u00e7\u00e3o do fato de n\u00e3o ter havido grande rea\u00e7\u00e3o popular, pois o povo simples n\u00e3o tinha perdido nada: a liturgia continuava a ser em latim, a doutrina cat\u00f3lica continuava a mesma, enfim, o rei mudara o governo da Igreja, mas n\u00e3o a sua estrutura cotidiana, para desagrado daqueles que desejavam uma reforma avan\u00e7ada, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha ou \u00e0 Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua escolha de Cranmer como seu arcebispo, em 1533, Henrique encontrou o mais acomodado e fiel servidor, o qual serviu ao rei com uma verdadeira idolatria, apesar de saber que o soberano n\u00e3o concordava com suas tend\u00eancias protestantes. Assim, escondeu-as, para us\u00e1-las no devido momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca de Henrique, as mudan\u00e7as na vida da Igreja foram poucas, mas de import\u00e2ncia. Assim, o rei interessou-se pela tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, do latim para o ingl\u00eas e, em 1535, a tradu\u00e7\u00e3o de Coverdale, dedicada ao rei, foi concretizada e, no ano seguinte, Henrique elaborou um decreto para prover uma B\u00edblia em latiam e ingl\u00eas para cada par\u00f3quia. Em 1538, a Grande B\u00edblia, baseada na tradu\u00e7\u00e3o de Coverdale e de seu antecessor nesse trabalho, Tyndale, foi enviada, em c\u00f3pias, para as par\u00f3quias, como ponto de refer\u00eancia ao qual o povo podia recorrer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra quest\u00e3o importante foi a dissolu\u00e7\u00e3o dos mosteiros ingleses. Cerca de 1535, o rei necessitava, desesperadamente, de dinheiro, para financiar sua pol\u00edtica externa. Espalhadas pelo pa\u00eds, havia cerca de duas mil casas religiosas (tend\u00eancia celta), das quais metade eram, tamb\u00e9m, hospitais, de v\u00e1rios tamanhos e import\u00e2ncia, mas todas elas enriquecidas por doa\u00e7\u00f5es feitas por benfeitores piedosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rendimento potencial dessas casas era enorme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Precisariam os monges e freiras de tanto dinheiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o ano anterior, 1534, Henrique estava de olho da fonte de recursos que esses mosteiros e conventos lhe poderiam fornecer e, aconselhado por Cromwell (de novo, ele, o conselheiro astuto e imoral), resolveu avan\u00e7ar em cima das casas religiosas. Tinha poder para isso, conferido pela Convoca\u00e7\u00e3o e pelo Parlamento. Assim, sempre apoiado em leis emitidas por este, em pouco tempo, dissolveu todas as casas religiosas, primeiro as pequenas e, depois, as grandes, e se apropriou dos seus rendimentos. Os religiosos foram apoiados em suas futuras decis\u00f5es de vida, para que n\u00e3o morressem de fome, e, com isso, Henrique termina, temporariamente, com uma das mais consagradas cria\u00e7\u00f5es da Igreja: a vida mon\u00e1stica. Avan\u00e7ou, tamb\u00e9m, sobre santu\u00e1rios, como o de Thomas Becket, destruindo-o, e sobre tudo o que lembrasse a supremacia da Igreja sobre o Estado. Este precisava domin\u00e1-la. Novamente, houve pouca oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda, houve outras interfer\u00eancias do rei na vida da Igreja. Em 1536, ele fez promulgar os chamados Dez Artigos, junto com os quais vieram uma s\u00e9rie de determina\u00e7\u00f5es sobre o que os cl\u00e9rigos deveriam pregar e quando (n\u00e3o menos de 30 domingos sucessivos), e, regularmente, depois deles, contra o papa e\u00a0 sua jurisdi\u00e7\u00e3o e poder usurpadores. Conta-se que estas determina\u00e7\u00f5es geraram problemas de ordem doutrinal e homil\u00e9ticas, pois o clero n\u00e3o estava habituado a isto. Por isso, saiu, em 1537, o chamado livro\u00a0 The Institute of a Christian Man, mais conhecido como O Livro do Bispo. Elaborado, principalmente por Cranmer, foi uma tentativa de auxiliar os sacerdotes-paroquiais a respeito dos ensinamentos da Igreja e, tamb\u00e9m, ajud\u00e1-los em seu minist\u00e9rio. Mas a iniciativa teve curta dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1539, Henrique novamente agiu, em termos doutrin\u00e1rios. Divulgou os assim chamados Seis Artigos, descritos ?como um ato abolindo diversidade de opini\u00f5es. Tratava, o texto, dos seis temas mais controvertidos da \u00e9poca e n\u00e3o somente determinava o que as pessoas deveriam crer, como tamb\u00e9m declarava crimes a heresia e a d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estes seis temas eram a verdade da doutrina da transubstancia\u00e7\u00e3o, a adequa\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o em uma esp\u00e9cie, para o povo, a necessidade do celibato clerical, a obriga\u00e7\u00e3o para ex-freiras e ex-frades de conservar a castidade, a import\u00e2ncia das missas privadas e a necessidade da confiss\u00e3o sacramental. Para os que desejavam uma reforma doutrin\u00e1ria mais avan\u00e7ada, este documento foi chamado de ?uma chicotada sangrenta de seis tiras, e foi considerado um desastre cruel, atacando a maioria das suas mais queridas cren\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como resultado dele, os bispos Latimer e Shaxton resignaram a suas dioceses, a segunda esposa de Cranmer retornou para a Alemanha (ele era vi\u00favo, quando casou-se com uma filha dos reformadores alem\u00e3es) e um n\u00famero significativo de cl\u00e9rigos casados abandonaram as suas vidas na Igreja, e arranjaram empregos seculares, para n\u00e3o abandonarem suas esposas. Qualquer um que criticasse os Seis Artigos ? ou mostrasse alguma resist\u00eancia, seria morto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Henrique deu continuidade \u00e0 essa a\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria, determinando a publica\u00e7\u00e3o de outro livro, que recebeu o apelido de O Livro do Rei, mas que se chamava, na realidade,\u00a0 A Necessary Doctrine and Erudition for Any Christian Man, lan\u00e7ado em 1543. Nele, eram referendados os Seis Artigos e, da\u00ed por diante, os reformadores foram silenciados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os \u00faltimos anos de Henrique foram incr\u00edveis. Embriagado com o poder e riqueza, o pr\u00edncipe jovial e simp\u00e1tico tinha degenerado para um velho tirano mal-humorado. O casamento com Ana Bolena durou pouco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo depois, ela foi acusada de trai\u00e7\u00e3o, adult\u00e9rio, julgada e decapitada, na Torre de Londres (1536). A seguir, veio a gentil Jane Seymour, por quem Henrique se apaixonou, realmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De seu curto casamento resultou o t\u00e3o esperado menino, o futuro Eduardo VI, mas o nascimento do filho custou a morte da m\u00e3e (1537). A seguir, por tratativas desastradas de Cromwell, que desejava uma alian\u00e7a forte da Inglaterra com os pr\u00edncipes luteranos, veio o desastrado casamento de Henrique com Ana de Cleves, nunca consumado, porque o rei, embora a considerando uma boa amiga, nunca se interessou por ela, e o div\u00f3rcio logo foi promulgado. Ana, no entanto, nunca deixou a Inglaterra, residindo l\u00e1, confortavelmente, at\u00e9 a sua morte, em 1557 (dez anos ap\u00f3s a morte de Henrique). Em 1542, Henrique casou-se, pela quinta vez, com Catarina Howard, a qual tamb\u00e9m foi executada, por trai\u00e7\u00e3o, em 1542, sendo sua esposa uma outra Catarina, Parr, que morreu um ano ap\u00f3s o marido, acompanhando-o at\u00e9 o seu fim. Ana de Cleves e Catarina Parr foram as \u00fanicas esposas com quem Henrique teve um pouco de vida familiar, pois elas, devido a bondade pessoal que cultivavam, trataram de reuni-los com seus filhos, Maria, Elisabete e Eduardo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jane Seymour, que viveu muito pouco, ap\u00f3s o seu casamento, tamb\u00e9m era extremamente bondosa, e cultivava uma tend\u00eancia ao protestantismo, assim como Ana de Cleves e Catarina Parr. Apesar disso, Henrique, no \u00edntimo, sempre se manteve fiel ao catolicismo, mandando rezar 5 missas di\u00e1rias, privadas, em sua capela pessoal, durante um longo per\u00edodo de sua vida. Ainda, conservou o t\u00edtulo de Defensor da F\u00e9, pois a professava, realmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, o reinado de Henrique foi encerrado, em 1547, entre sentimentos de medo, d\u00favida e des\u00e2nimo. Durante 20 anos, desde a quest\u00e3o do div\u00f3rcio, muitas mudan\u00e7as aconteceram. A Inglaterra rompeu, administrativamente com Roma, os mosteiros, antes t\u00e3o familiares, estavam, agora, em deserto e ru\u00ednas. Surgira a figura eclesi\u00e1stica nova, do rei, ?como Suprema Cabe\u00e7a da Igreja da Inglaterra, com poderes t\u00e3o grandes que chegavam a incluir a defini\u00e7\u00e3o de dogmas, se ele assim o desejasse. No entanto, apesar de todas essas mudan\u00e7as fundamentais, a vida religiosa no pa\u00eds permaneceu como sempre fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os homens das aldeias, em suas vidas simples, as grandes mudan\u00e7as acontecidas no reinado representavam pouco. Constitucionalmente, tinha havido mudan\u00e7as, mas s\u00f3 nas altas esferas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mudan\u00e7a para o povo ainda estava por acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Eduardo VI e Maria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte do rei deixou o trono nas m\u00e3os de um menino d\u00e9bil e enfermi\u00e7o, o terceiro na ordem de nascimento, dos filhos que tinham sobrevivido: Maria, a mais velha, nascida em 1516, Elisabete, a segunda, nascida em 1533 e Eduardo, que recebeu o ordinal de VI, nascido em 1537.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na ocasi\u00e3o da morte de seu pai, o menino tinha 9 anos e precisava de um Conselho de Reg\u00eancia para que o poder real fosse exercido. A suprema ironia tinha perseguido Henrique, em toda a sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele tinha brigado com o papa, deixado de lado a primeira esposa, matado a segunda e perdido a terceira, a quem amava, tudo por um filho homem, que o sucedia ainda crian\u00e7a, e com um futuro incerto, devido \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A pergunta que muitos faziam era: a crian\u00e7a valia isso? Estava a sucess\u00e3o mais segura do que estaria, quando Henrique tinha somente uma filha viva?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m tinha resposta para essas quest\u00f5es, mas uma coisa era clara: ele desejava que o seu filho estivesse identificado com o partido reformista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece que Henrique pressentia que o futuro e a independ\u00eancia da pr\u00f3pria Inglaterra estavam mais vinculados \u00e0 Reforma do que a Roma, embora ele, pessoalmente, como vimos, n\u00e3o tivesse essas simpatias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ele n\u00e3o podia prever o que aconteceria com o reino e a Igreja, nas m\u00e3os d\u00e9beis do filho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, ap\u00f3s a morte do velho rei, o Conselho de Reg\u00eancia tomou posse e Eduardo Seymour, irm\u00e3o da m\u00e3e do rei-menino, e protestante moderado como ela, tomou o poder nas m\u00e3os, como tutor de Eduardo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele estava em vias de se tornar Duque de Somerset e ocupava, portanto, a fun\u00e7\u00e3o mais importante do reino, depois do rei, sobre quem tinha autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com Somerset, logo se tornou claro que as reformas doutrin\u00e1rias, h\u00e1 muito ansiadas pelo partido protestante, do qual Cranmer fazia parte, come\u00e7ariam a acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 esta \u00e9poca, conta-nos Moorman, as opini\u00f5es religiosas estavam divididas no pa\u00eds. Poucos tinham esperan\u00e7a ou algum desejo de uma volta para Roma, mas havia muitas controv\u00e9rsias sobre quest\u00f5es ligadas \u00e0s id\u00e9ias luteranas, como a Justifica\u00e7\u00e3o pela F\u00e9, ou, ent\u00e3o, em outras \u00e1reas, sobre o sentido da missa (com quest\u00f5es decorrentes, a respeito do celibato do clero e a comunh\u00e3o numa s\u00f3 esp\u00e9cie), imagens e rel\u00edquias, a infalibilidade da B\u00edblia, e assim por diante. Somerset come\u00e7ou a abra\u00e7ar opini\u00f5es avan\u00e7adas, apoiado por Cranmer (ainda Arcebispo de Cantu\u00e1ria). Os dois consideravam a minoridade do rei uma boa oportunidade para a introdu\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as religiosas mais fortes, usando os extensos poderes que Henrique VIII tinha usurpado para a Coroa. Nessas reformas, a Igreja Inglesa teve um papel pequeno: a Convoca\u00e7\u00e3o era raramente consultada e os bispos estavam bastante divididos, para organizar uma oposi\u00e7\u00e3o unificada. Assim, a reforma continuou a ser, no reinado de Eduardo VI, basicamente, um ?ato de estado. Bispos conservadores, que desejavam a volta ao romanismo ou a independ\u00eancia da Igreja da tutela real, como Gardiner e Bonner foram presos, imediatamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o reinado de Eduardo e mesmo ap\u00f3s Somerset ter deixado de ser o tutor e ca\u00eddo em desgra\u00e7a, sendo substitu\u00eddo na presid\u00eancia do Conselho de Reg\u00eancia e na tutoria por um advers\u00e1rio seu, tamb\u00e9m parente do rei, o Conde de Warwick, futuro Duque de Northumberland, sucederam-se as mudan\u00e7as doutrin\u00e1rias que levavam a Igreja da Inglaterra para o caminho do protestantismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ocorre que, em 1548, chegaram \u00e0 Inglaterra v\u00e1rios protestantes famosos, vindos do Continente, entre eles, Peter Martyr Vermigli, um ex-c\u00f4nego agostiniano, que veio para lecionar teologia em Oxford;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Francisco Dryander, um espanhol, para trabalhar em Cambridge; Martim Bucer, famoso reformista alem\u00e3o, tamb\u00e9m indicado para lecionar em Cambridge, e John \u00e0 Lasco, um polon\u00eas, que tamb\u00e9m tinha se identificado com o movimento alem\u00e3o. Esse grupo de te\u00f3logos teve um importante papel nas mudan\u00e7as que aconteceram, pois eram homens ligados a Cranmer, e, sem d\u00favidas, muito influenciaram o arcebispo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cranmer, por sua vez, estava ocupado com um plano lit\u00fargico que tinha, desde os tempos de Henrique, quando n\u00e3o pudera coloc\u00e1-lo em pr\u00e1tica. Agora chegara o momento. Tinha o apoio do governo, na pessoa do tutor do rei-menino, e o apoio ?log\u00edstico? (teol\u00f3gico), desses novos companheiros. Assim, ele consegue definir o seu esquema para suprimir o devocion\u00e1rio romano, por um livro de ora\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas. Em 1549, o trabalho estava pronto, e o Livro de Ora\u00e7\u00e3o Comum (LOC), foi imposto ao clero e ao povo por uma lei, o chamado Ato de Uniformidade, o qual determinava que, no passado, tinha havido uma variedade de usos lit\u00fargicos na Inglaterra mas, de agora em diante, todos os cl\u00e9rigos deveriam usar o novo livro, sob pena de pris\u00e3o. Ainda, foi autorizado o casamento de sacerdotes, o que pareceu agradar a muitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece que este LOC foi bem recebido pelo clero paroquial, pois continha lembran\u00e7as do velho livro de of\u00edcios, para satisfazer a todos, inclusive a uns poucos conservadores. No entanto, os advers\u00e1rios do novo regime n\u00e3o o aceitaram e, tamb\u00e9m, os protestantes mais extremados. H\u00e1 levantes populares, na ocasi\u00e3o, e Somerset \u00e9 aprisionado na Torre de Londres, sendo substitu\u00eddo, no poder e na tutoria, por Warwick.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da\u00ed, as mudan\u00e7as se sucedem r\u00e1pidas, porque Warwick, inescrupuloso e ladino, tinha se aliado aos progressistas mais extremados, como Nicholas Ridley e John Hooper, que, pressionando Cranmer, caminharam rapidamente para atos mais extremados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a subida ao trono de Eduardo, tinham se sucedido, em muitas partes da Inglaterra, verdadeiras agress\u00f5es \u00e0s igrejas e ornamentos que lembravam o passado romano. Assim, muitos altares foram destru\u00eddos, pratarias foram saqueadas, imagens destru\u00eddas e, em muitos lugares, aconteceram verdadeiras ?liquida\u00e7\u00f5es? ou feiras ao ar livre, para venda de objetos lit\u00fargicos. At\u00e9 os instrumentos musicais, como \u00f3rg\u00e3os de tubos, sofreram a a\u00e7\u00e3o dessa verdadeira onda iconoclasta?.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ano de 1550 iniciou com um Ato do Parlamento contra os livros sagrados dos antigos ritos e as imagens. Iniciou-se nova onda iconoclasta, do que ainda sobrara da devasta\u00e7\u00e3o anterior. Al\u00e9m disso, os progressistas foram muito mais adiante: Ridley sucedera a Bonner como bispo de Londres e determinou ao seu clero que os altares de pedra fossem removidos, j\u00e1 que o sacerdote ?n\u00e3o deve falsear a missa papista, beijando a mesa do Senhor, lavando os seus dedos antes do Evangelho, trocando o livro de um lugar para o outro, lambendo o c\u00e1lice, mostrando o Sacramento abertamente antes da distribui\u00e7\u00e3o, tocando a sineta ou colocando velas sobre o altar? e o pr\u00f3prio bispo determinou que as velas da Catedral de S\u00e3o Paulo fossem retiradas, antes que ele entrasse no coro. John Hooper, por sua vez, se recusava a usar uma sobrepeliz e uma capa em sua sagra\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o aceitaria nenhuma cerim\u00f4nia que n\u00e3o pudesse ser justificada pelo Novo Testamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os bispos que pudessem representar uma oposi\u00e7\u00e3o ao novo modelo de Igreja foram afastados, alguns at\u00e9 aprisionados, para facilitar a aceita\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as doutrinais e lit\u00fargicas que viriam com o ? Segundo Ato de Uniformidade e o novo LOC, de 1552. Esse ato identificava a Igreja e o Estado e apertava o rigorismo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de todos de assistirem aos of\u00edcios da Igreja da Inglaterra, sob pena de puni\u00e7\u00e3o. Segundo pensavam os reformistas, a Igreja seria o Estado em ora\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, o segundo LOC de Eduardo VI trouxe uma mudan\u00e7a mais radical, abandonando, de vez, os velhos costumes e cerim\u00f4nias de adora\u00e7\u00e3o, e, tamb\u00e9m, alterando palavras e frases que davam uma significa\u00e7\u00e3o muito mais protestante ao texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O novo livro passou a ser usado em 1\u00ba de Novembro de 1552, passando com bem menos oposi\u00e7\u00e3o. Todo e qualquer resqu\u00edcio de romanismo foi abolido, acompanhado por uma tentativa, no mesmo ano, de definir a doutrina da Igreja da Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 interessante de se observar que todas as Igrejas Reformadas passaram por um processo de ter de definir, em textos teol\u00f3gicos, o car\u00e1ter de suas doutrinas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todas elas se consideravam a verdadeira igreja (do mesmo modo que os cat\u00f3licos-romanos), com base escritur\u00edstica. No entanto, pela oposi\u00e7\u00e3o que sofriam, precisavam provar isso, e o faziam, elaborando as chamadas \u201cConfiss\u00f5es de F\u00e9. Isto aconteceu com os luteranos, com os calvinistas, e tamb\u00e9m a Igreja da Inglaterra, pelo menos na fase mais forte da influ\u00eancia protestante, tamb\u00e9m o fez, s\u00f3 que na forma de Artigos de F\u00e9. Cranmer tinha esbo\u00e7ado 45, mas estes foram reduzidos para 42, antes de receberem a aprova\u00e7\u00e3o real, em 1553.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os artigos, segundo Moorman, representavam, em parte, uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 doutrinas medievais e, por outro lado, tamb\u00e9m um ponto m\u00e9dio contra protestantes mais extremados, especialmente os chamados anabatistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os artigos tentavam dar uma ?plataforma doutrinal \u00e0 Igreja da Inglaterra, preparando-a para o que, no futuro, viria a ser conhecido como ?via m\u00e9dia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra mudan\u00e7a importante acontecida durante o reinado de Eduardo VI, foi o despertamento para um zelo na devo\u00e7\u00e3o. Os serm\u00f5es passaram a ser muito valorizados, e muitos deles, como os do bispo Latimer, representam o que de melhor podia haver, no incentivo \u00e0 uma vida piedosa, o afastamento das supersti\u00e7\u00f5es medievais, o aconselhamento ao clero e a cr\u00edtica aos bispos negligentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os males sociais tamb\u00e9m eram apontados, estimulava-se a caridade, faziam-se cr\u00edticas ao casamento de crian\u00e7as e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o dos Ju\u00edzes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso terminou, repentinamente, quando o filho t\u00e3o desejado de Henrique morreu de tuberculose, em 6 de julho de 1553, antes de completar dezesseis anos, \u00e9poca em que reinaria sem a necessidade de uma tutoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ocasi\u00e3o de sua morte, os protestantes tentaram um recurso extremo de colocar no trono uma parente de Eduardo, Lady Jane Grey, casada com um filho de Northumberland, e tamb\u00e9m protestante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o plano falhou e o jovem par foi sacrificado, enquanto subia ao trono a verdadeira herdeira, Maria, a filha mais velha de Henrique, e extremada cat\u00f3lica-romana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pref\u00e1cio do livro de Carolly Erickson sobre a vida de Maria Tudor, que tenta dar uma imagem mais humana e simp\u00e1tica da rainha, nos conta que esta filha de Henrique VIII n\u00e3o tem nenhum monumento erguido em sua mem\u00f3ria, na Inglaterra. Em seu testamento, ela solicitava um memorial que deveria ser constru\u00eddo para ela e sua m\u00e3e,<br>para uma decente lembran\u00e7a de n\u00f3s duas. O dia de sua morte, conforme continua relatando Carolly, l7 de novembro de 1558, \u2013 o dia em que sua outra meio-irm\u00e3 subiu ao trono foi feriado nacional por duzentos anos na Inglaterra. Gera\u00e7\u00f5es subsequentes passaram a conhec\u00ea-la como Maria, a Sanguin\u00e1ria, devido ao n\u00famero elevado de m\u00e1rtires protestantes que foram assados vivos, em fogueiras, durante o seu curto reinado de 5 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mem\u00f3ria dos m\u00e1rtires ainda aparece em qualquer avalia\u00e7\u00e3o sobre o reinado de Maria, mas h\u00e1 outras quest\u00f5es nessa hist\u00f3ria. Maria foi uma sobrevivente, como tamb\u00e9m Elisabete, de uma teia de intrigas, ex\u00edlios for\u00e7ados, amea\u00e7as de morte, medo e isolamento. Ela sobrevive a uma adolesc\u00eancia agonizante, marcada por doen\u00e7as, o mart\u00edrio conjugal de sua m\u00e3e, Catarina de Arag\u00e3o, e as afli\u00e7\u00f5es que o seu pai lhe ocasionava. Ela viveu perigos piores, durante o reinado de Eduardo VI, n\u00e3o por causa do irm\u00e3o, diretamente, mas pela a\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o contra ela por parte de seus conselheiros, e subiu ao trono quando os grupos eram, esmagadoramente, contra ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus partid\u00e1rios viram a sua subida ao trono como um milagre de Deus e ela pr\u00f3pria h\u00e1 muito tempo pensava que estava divinamente indicada para trazer a Inglaterra de volta ao catolicismo. Como rainha, freq\u00fcentemente enfrentou obst\u00e1culos e conflitos entre o seu ?status? pol\u00edtico (o de rainha), e a sua condi\u00e7\u00e3o de mulher, mantendo uma posi\u00e7\u00e3o de obedi\u00eancia a um marido indiferente (o futuro rei Felipe II, da Espanha) e sofreu constantes desapontamentos a respeito de situa\u00e7\u00f5es de falsa gravidez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maria nascera no in\u00edcio de 1516, depois de v\u00e1rias tentativas infrut\u00edferas de sua m\u00e3e, de \u201csegurar\u201d um beb\u00ea e o seu nascimento e batismo foi festejado em todo o reino com grandes festas, especialmente na corte, apesar de uma certa decep\u00e7\u00e3o do rei por ela n\u00e3o ter nascido homem. Mas a menina era uma Tudor leg\u00edtima, e isso tranq\u00fcilizava um pouco os preocupados com a sucess\u00e3o do trono. E como herdeira, ela viveu o in\u00edcio da adolesc\u00eancia, quando a cat\u00e1strofe se abateu sobre Catarina e ela, iniciando-se, para as duas, os longos dias de tormento. Catarina, cat\u00f3lica-romana ardente e fervorosa, exigiu de Henrique uma educa\u00e7\u00e3o em sua f\u00e9. E assim foi. Desde crian\u00e7a, Maria teve preceptores espanh\u00f3is que lhe deram uma forma\u00e7\u00e3o fundamentalista, estreita e r\u00edgida em todas as quest\u00f5es: sexual (a esposa devia obedi\u00eancia cega ao marido), moral (o mart\u00edrio era o destino dos crist\u00e3os de f\u00e9), e religioso (a verdade era uma s\u00f3 e pertencia ao romanismo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pouco acostumada \u00e0 vida social, devido a constante reclus\u00e3o, em diferentes castelos, para que n\u00e3o pudesse fomentar revoltas contra o reino, atraindo adeptos para si, n\u00e3o \u00e9 de se estranhar que, quando subiu ao trono, \u00e0 idade de 37 anos, seus estreitos l\u00e1bios finos n\u00e3o estavam acostumados a sorrir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica de Maria logo tornou-se clara: invalidar tudo o que seu pai e seu irm\u00e3o tinham feito e retornar \u00e0 velha ordem a vincula\u00e7\u00e3o com Roma. Esse era o seu destino, para o qual ela acreditava ser chamada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por conseguinte, os velhos bispos romanos foram restaurados em suas dioceses, enquanto que os reformadores que n\u00e3o fugiram foram aprisionados, entre eles, os l\u00edderes: Cranmer, Latimer e Ridley, s\u00edmbolos de tudo o que Maria odiava e a tinha feito sofrer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maria, embora n\u00e3o usasse o t\u00edtulo de Suprema Cabe\u00e7a da Igreja da Inglaterra, agia como se assim o fosse. Ela decidiu que pol\u00edtica religiosa o pa\u00eds deveria seguir e, como o pai, continuou levando o Parlamento atr\u00e1s de si. Portanto, em pouco tempo, o Parlamento tinha, mansamente, anulado toda a legisla\u00e7\u00e3o eduardina e se preparava para a aproxima\u00e7\u00e3o com Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para isso, ela contou com o clero romanista (conhecido como ?mariano). No in\u00edcio de 1554, publicou uma s\u00e9rie de leis, que requeriam de todos os bispos a restaura\u00e7\u00e3o do antigo modelo romanista, a remo\u00e7\u00e3o de todos os sacerdotes casados de suas par\u00f3quias, a verifica\u00e7\u00e3o que os dias santos deveriam ser observados e a destitui\u00e7\u00e3o de todos os cl\u00e9rigos que mantivessem suas opini\u00f5es vinculadas ao protestantismo herege. Sob o velho bispo Gardiner, de Londres, uma<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">limpeza foi feita e cerca de 20% do clero foi removido. As igrejas, tornadas despidas pela a\u00e7\u00e3o protestante, come\u00e7aram a ser, ou restauradas ou reconstru\u00eddas. Altares de pedra foram recolocados, para substituir as simples mesas de madeira; ornamentos e imagens que jaziam nos terrenos dos templos, e que n\u00e3o tinham sido vendidos ou estragados totalmente, foram restaurados ou reconduzidos; vestes que tinham resistido \u00e0 a\u00e7\u00e3o iconoclasta ou do tempo, foram reintroduzidas e houve uma grande busca de pratarias, enfeites e livros. Altares foram reconsagrados, num processo de purifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve alguns poucos dist\u00farbios, em rea\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que um significativo n\u00famero de pessoas via o retorno ao romanismo com pena e des\u00e2nimo; mas no todo, a pol\u00edtica da rainha parecia estar tendo sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grande erro da rainha foi o seu casamento com seu primo Felipe, o chamado ?desastrado casamento espanhol. Como j\u00e1 vimos antes, a Espanha era uma grande pot\u00eancia europ\u00e9ia, na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas uma coisa era uma alian\u00e7a com tal reino, atrav\u00e9s do casamento com uma princesa espanhola. Outra, era o casamento de uma rainha inglesa, com um futuro rei espanhol e dono de um grande imp\u00e9rio colonial, principalmente nas Am\u00e9ricas (N\u00e3o esque\u00e7amos que estamos no s\u00e9culo XVI). Logo que isso foi divulgado, o pa\u00eds foi jogado num sentimento de p\u00e2nico e depend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m desejava que a Inglaterra fosse instrumento da Espanha, em seus problemas pol\u00edticos europeus. O casamento aconteceu no dia 25 de junho de 1554 e, j\u00e1 que Felipe n\u00e3o podia ser rei de um pa\u00eds que n\u00e3o fosse romano, a Inglaterra, atrav\u00e9s da rainha e do esposo, do Parlamento, e de altos dignit\u00e1rios, pede humildemente perd\u00e3o a Roma, na pessoa do enviado papal Reginald Pole, um cardeal ingl\u00eas, primo de Maria, seu amigo pessoal, e que fugira para o Continente, durante o reinado de seu pai. O ato do Parlamento, em seu pre\u00e2mbulo \u00e9 extremamente degradante, pois descreve a vinda do cardeal Pole ?para chamar-nos, novamente, para casa, um caminho reto do qual nos afastamos por longo tempo e permanecemos fora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da\u00ed, se desencadeia a persegui\u00e7\u00e3o violenta, que granjeou o apelido j\u00e1 mencionado: Maria, a sanguin\u00e1ria. Em seguida, foram acesas fogueiras em Smithfield e longa fila de v\u00edtimas foi levada para l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde abril de 1554, Cranmer, Latimer e Ridley tinham sido aprisionados. Moorman nos conta que, em setembro de 1555, Cranmer foi citado perante um tribunal e, formalmente, acusado de heresia. Em 16 de outubro, Latimer e Ridley, depois de terem enfrentado os juizes e sido condenados, foram levados para execu\u00e7\u00e3o. O cunhado de Ridley amarrou pacotes de p\u00f3lvora de rev\u00f3lver, ao redor de seus pesco\u00e7os, na esperan\u00e7a de encurtar os tormentos, mas isto foi feito somente algum tempo antes deles 43 morrerem. No auge de sua agonia, Latimer ainda gritou ao amigo que n\u00e3o se afligisse, porque, naquele dia, com sua morte, eles estavam acendendo uma chama, na Inglaterra, que nunca mais ia se acabar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Latimer morreu logo depois, mas Ridley continuou por algum tempo, em grande agonia, at\u00e9 que o fogo o atingisse e a p\u00f3lvora explodisse, livrando-o dos seus tormentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, Cranmer permanecia na pris\u00e3o, sendo persuadido a se retratar da f\u00e9 protestante, o que seria um grande trunfo pol\u00edtico para a rainha, embora n\u00e3o o livrasse da morte. E ele o fez, num documento, negando aquilo que tinha feito e em que mais acreditava. Em sua confiss\u00e3o final, ele admitiu que tinha feito este ato de renegar a f\u00e9 porque estava cheio de medo e com esperan\u00e7a de salvar a sua vida. Cranmer tinha, agora, 65 anos, e, num certo sentido, o trabalho de sua vida se fora. Assim, ele vacilou mas, depois, a sua consci\u00eancia falou mais alto. Seus contempor\u00e2neos o desprezaram pela renega\u00e7\u00e3o da f\u00e9, mas, ao final, o admiraram, quando ele, ao enfrentar a fogueira, colocou em primeiro lugar, nas chamas, a m\u00e3o que tinha assinado a sua nega\u00e7\u00e3o da f\u00e9, gritando: ?cometeu ofensa?. E, como foi contado pelos cronistas da \u00e9poca, logo que o fogo come\u00e7ou, em seguida ele morreu, nunca gritando ou chorando, em seu final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia da morte de Cranmer, Reginald Pole rezou a sua primeira missa, tendo sido ordenado sacerdote no dia anterior (era di\u00e1cono, quando retornou \u00e0 Inglaterra). No dia seguinte, foi sagrado Arcebispo de Cantu\u00e1ria e, junto com Maria, sua grande companheira e aliada, restaurou, em sua plenitude, a Igreja de Roma na Inglaterra, inclusive com a volta dos mosteiros, que come\u00e7aram a ser criados em toda a parte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dois anos finais do reinado de Maria foram marcados por desastres e desgra\u00e7as: foi levada \u00e0 guerra contra a Fran\u00e7a, por seu marido; n\u00e3o teve o herdeiro desejado para o trono ingl\u00eas, como dela se esperava; as execu\u00e7\u00f5es continuavam: o desagrado e desapontamento popular aumentavam; os impostos cresciam, para sustentar todos os desastres do trono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, quando o povo soube de sua morte, em 1558, bem como a do cardeal Pole, exatamente no mesmo dia, ?ent\u00e3o, no mesmo dia, toda Londres cantou e rezou o Te Deum Laudamus em todas as suas igrejas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegara o momento de Elisabete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Elisabete I e a Mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elisabete, a filha de Ana Bolena, tamb\u00e9m como sua meio-irm\u00e3 Maria, tinha sofrido as mesmas prova\u00e7\u00f5es do medo, do isolamento, de ter sido criada sem m\u00e3e, que tinha sido executada com ep\u00edtetos de ?rameira\u201d; como Maria, tamb\u00e9m tinha sido olhado com suspeita, principalmente pela irm\u00e3, j\u00e1 que acusavam da possibilidade de armar conspira\u00e7\u00f5es, mediante a a\u00e7\u00e3o de aliados. Por isso, a mesma pol\u00edtica de isolamento e mudan\u00e7as constantes de lugar marcaram a sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Mas Elisabete tinha herdado de seu pai a for\u00e7a e a coragem para enfrentar situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, e, como ele, tamb\u00e9m tinha o gosto pelo poder e os seus desafios decorrentes. No entanto, a sua delicada situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ensinara-lhe prud\u00eancia e cautela, e, mesmo de longe, acompanhava o reinado de sua irm\u00e3, aprendendo com seus erros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos vinte e cinco anos sobe ao trono, em 1558, iniciando um longo mandato que s\u00f3 terminaria com sua morte, em 1603. Durante esse per\u00edodo, nunca se casou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era independente demais e sua forte personalidade n\u00e3o aceitava o modelo da \u00e9poca, de submiss\u00e3o total a um marido. Pelo contr\u00e1rio, era ela quem transformava os homens em joguetes em suas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como seu pai, ela colocava sempre os interesses da na\u00e7\u00e3o antes dos seus, e, por isso, geralmente gozava de forte simpatia popular. Henrique, por mais ego\u00edsta e interesseiro que fosse, sempre tinha em mente a Inglaterra. Elisabete fez o mesmo, com mais sucesso. Detestava guerras, pois as considerava perdas in\u00fateis de vidas e de recursos. Embora fosse autorit\u00e1ria e, \u00e0s vezes f\u00fatil, a sua prioridade era o reino. Isso explica, em parte, as raz\u00f5es de sua pol\u00edtica real e religiosa, buscando sempre a independ\u00eancia da Inglaterra e, por conseq\u00fc\u00eancia, de sua Igreja. Na verdade, com suas a\u00e7\u00f5es como chefe da Igreja da Inglaterra, Elisabete transformou-a em Igreja na Inglaterra para Igreja da Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elisabete encontrou o pa\u00eds, eclesiaticamente, dividido em 3 grupos: o dos romanistas e dos bispos marianos e que estavam, agora, no poder, devido \u00e0 pol\u00edtica religiosa de Maria o clero paroquial, excetuando-se os que tinham sido afastados, ou que tinham fugido, para n\u00e3o serem mortos, era, pelo menos, oficialmente, pr\u00f3 partido romano. Mas um bom n\u00famero estava preso, estes constitu\u00edam, em sua grande parte, o grupo protestante. Outros, como vimos, tinham escapado para outros lugares, mas agora, dependendo dos novos ventos, estavam prontos para voltar. Entre esses dois grupos, havia um terceiro, intermedi\u00e1rio, que n\u00e3o desejava, nem uma subservi\u00eancia \u00e0 Roma ou \u00e0 Genebra, na ocasi\u00e3o, o grande centro protestante do momento, com a Reforma Calvinista. Esse grupo desejava uma Igreja da Inglaterra, realmente cat\u00f3lica no que fosse essencial e, tamb\u00e9m, renovada e reformada dos abusos que tinham sido juntados \u00e0 Igreja, durante a Idade M\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Extremamente consciente do que estava em jogo, Elisabete foi cautelosa e prudente. Seu secret\u00e1rio, Sir William Cecil, um homem moderado, foi um passo em busca da concilia\u00e7\u00e3o, embora a rainha n\u00e3o abrisse m\u00e3o das suas prerrogativas. A decis\u00e3o final era, sempre, sua. Isto se refletiu, tamb\u00e9m na escolha de um protestante n\u00e3o extremado, para Arcebispo de Cantu\u00e1ria, Mateus Parker.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo que esses atos se tornaram p\u00fablicos, os moderados se alegraram, mas os romanistas e os extremados protestantes se prepararam para a luta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em janeiro de 1559, reuniu-se o primeiro Parlamento de Elisabete, o qual, como sempre, aprovou o que os reis desejavam ? aqui, no caso, dois atos da rainha o de Supremacia, que restabelecia muitos dos princ\u00edpios de Henrique contra Roma e reconhecia na rainha a suprema governante, tanto do Estado como da Igreja; e o de Uniformidade; restaurou pr\u00e1ticas lit\u00fargicas do tempo de Eduardo, especialmente o que era, praticamente, o LOC de 1552, com algumas altera\u00e7\u00f5es significativas: as palavras da administra\u00e7\u00e3o do sacramento de 1549 foram colocadas, lado a lado com a de 1552 e a restaura\u00e7\u00e3o dos ornamentos e vestes eucar\u00edsticas foi renovada, pela inser\u00e7\u00e3o do que ficou conhecido como a Rubrica dos Ornamentos, que determinava que tais ornamentos da Igreja e dos ministros, que foram usados em todos os tempos para as suas ministra\u00e7\u00f5es, devem ser mantidos e usados, tal como o foram nessa Igreja da Inglaterra, pela autoridade do Parlamento, no segundo ano do reinado do rei Eduardo VI, sendo que essa observa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma refer\u00eancia clara ao LOC de 1549.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outras determina\u00e7\u00f5es reais, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja foram: novas cl\u00e1usulas a respeito das vestimentas clericais, encorajamento para o ato de ajoelhar durante as ora\u00e7\u00f5es, de uma sauda\u00e7\u00e3o ao nome de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elisabete tamb\u00e9m enfatizou a necessidade de uma prega\u00e7\u00e3o mais regular, bem como a pr\u00e1tica da catequese. Suas determina\u00e7\u00f5es proibiam qualquer sacerdote ou di\u00e1cono de se casar, at\u00e9 que a mo\u00e7a de sua escolha tivesse sido entrevistada e aprovada pelo bispo e dois ju\u00edzes de paz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas determina\u00e7\u00f5es e o juramento de fidelidade \u00e0 rainha, que fazia parte do Ato de Supremacia, estavam intimamente ligadas com a visita\u00e7\u00e3o real do pa\u00eds, que teve lugar no ver\u00e3o de 1559.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tantas mudan\u00e7as tinham acontecido nos \u00faltimos anos, o que poderia ocasionar muita confus\u00e3o nas mentes, tanto do clero como do povo e, provavelmente, deveria haver um grande desejo de desobedi\u00eancia \u00e0s novas leis, de obedi\u00eancia \u00e0 rainha e uniformidade no culto. Assim, os comiss\u00e1rios da rainha, enviados para todo o pa\u00eds, veriam, por si mesmos, se as ordens estavam sendo obedecidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das grandes trag\u00e9dias da Reforma \u00e9 que ela repetiu, nos pa\u00edses onde aconteceu, o grande erro da Igreja Medieval, onde ser cidad\u00e3o era ser crist\u00e3o, ou, na nova situa\u00e7\u00e3o, pertencer, por obriga\u00e7\u00e3o, \u00e0 mesma op\u00e7\u00e3o religiosa dos governantes. N\u00e3o se concebia, na \u00e9poca, cidadania sem a vincula\u00e7\u00e3o religiosa oficial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o primeiro que tenha se apercebido disto tenha sido o rei Henrique IV, da Fran\u00e7a, que, durante um certo tempo, em seu reinado, deu toler\u00e2ncia religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas isto foi uma exce\u00e7\u00e3o. Tanto no mundo romano, como no protestante, a regra era a da obedi\u00eancia civil vinculada com a religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um grande problema, para Elisabete, foi o de estabelecer um episcopado de acordo com a realidade atual. As mudan\u00e7as religiosas dos \u00faltimos vinte anos tinham privado o pa\u00eds da maioria do seu episcopado. Assim, a rainha se viu \u00e0s voltas com a tarefa consider\u00e1vel de encontrar homens que estivessem de acordo com a sua linha de pensamento de modera\u00e7\u00e3o religiosa. Sabemos que escolheu para Cantu\u00e1ria a Mateus Parker.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele tinha sofrido a influ\u00eancia das id\u00e9ias luteranas a tempo de Cranmer, Ridley, Latimer, Barnes e outros reformadores. Mas, por outro lado, ele nunca tinha sido extremista. No per\u00edodo de Maria, n\u00e3o havia fugido para Genebra, mas permanecido escondido, na Inglaterra, entre os seus livros e escritos. Apesar de sua extrema relut\u00e2ncia em se envolver com quest\u00f5es p\u00fablicas, foi eleito e sagrado Arcebispo, em Lambeth, em 17 de dezembro de 1559, por Barlow, ex-bispo de Bath e Gales, Miles Coverdale, Scory de Chichester e Hodgkin, todos os que tinham sobrevivido ao per\u00edodo mariano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Igreja Cat\u00f3lica Romana n\u00e3o reconhece as ordens anglicanas, por achar que a sagra\u00e7\u00e3o de Parker n\u00e3o foi v\u00e1lida, por n\u00e3o ter sido mantida a sucess\u00e3o apost\u00f3lica nos seus termos. No entanto, para Elisabete e os seus, isto tinha sido garantido com a presen\u00e7a dos bispos mencionados, e, pela a\u00e7\u00e3o do novo primaz, outros bispos foram sagrados e as sedes vagas ocupadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro problema tinha sido resolvido com sucesso havia bispos, clero e laicato aparentemente conformados com a pol\u00edtica religiosa que ela desejava, fosse seguida. Mas, em seguida, os problemas come\u00e7aram a aparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos problemas vem com os cat\u00f3lico-romanos, os ent\u00e3o, chamados papistas. A rainha esperava encontrar uma certa resist\u00eancia por parte deles, desde que n\u00e3o se estendesse por muito tempo e que, aos poucos, eles fossem convencidos dos seus desejos: uma s\u00f3 f\u00e9, para um s\u00f3 pa\u00eds. Mas, ao passo que as rela\u00e7\u00f5es entre o poder se sucediam, com esses opositores, a situa\u00e7\u00e3o se deteriorava rapidamente, devido \u00e0 posi\u00e7\u00f5es dos romanistas favor\u00e1veis a poderes estrangeiros e hostis \u00e0 rainha. As circunst\u00e2ncias que propiciaram essas coisas surgiram atrav\u00e9s da atitude do papado face \u00e0 Elisabete (excomunh\u00e3o, compl\u00f4s contra ela e proibi\u00e7\u00e3o aos cat\u00f3licos de respeitarem \u00e0 rainha), \u00e0 Miss\u00e3o Jesu\u00edtica, extremamente comprometida numa a\u00e7\u00e3o evangelizadora, subterr\u00e2nea, na Inglaterra, para difundir o catolicismo-romano e incentivar levantes contra Elisabete, \u00e0 interfer\u00eancia espanhola, na pessoa de seu cunhado, Felipe II, que tamb\u00e9m tramou a destrui\u00e7\u00e3o da Inglaterra e da rainha e \u00e0s intrigas de Maria Stuart, rainha dos escoceses, que, ao final, terminou prisioneira de Elisabete e executada a seu mando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o nos cabe comentar, aqui, todas as vicissitudes de Elisabate com os papistas, e vice-versa. Resta-nos referir que o pr\u00f3prio papa estava empenhado em montar uma cruzada contra Elisabete, pois a Inglaterra, a este tempo, era o principal baluarte do protestantismo, entendido esse como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 Roma. Com isto, tiveram in\u00edcio planos para a montagem de uma armada, liderada pelos espanh\u00f3is de Felipe II, o campe\u00e3o do catolicismo, \u00e0quele tempo. Muito dinheiro foi levantado para isto e uma formid\u00e1vel frota foi organizada, para invadir a Inglaterra por seu lado mais vulner\u00e1vel, t\u00e3o oportuno para empreitadas como esta, no passado ? o mar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas os poderes envolvidos ficaram completamente equivocados com o estado da opini\u00e3o na Inglaterra e, praticamente, desconheciam a onda de patriotismo que estava surgindo no pa\u00eds. Nem eles sabiam, tamb\u00e9m, que a Inglaterra tamb\u00e9m se preparara nessa \u00e1rea ? a da marinha. Assim, quando a Armada velejou pelo Canal da Mancha, em 1588, os almirantes ingleses queimaram ou espantaram a frota invasora, e mandaram os sobreviventes encontrar os seus caminhos de volta \u00e0 Espanha, como pudessem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acrescido a isto, parte da chamada Invenc\u00edvel Armada havia sido destru\u00edda por uma terr\u00edvel tormenta. Isto pareceu aos ingleses, um sinal de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta r\u00e1pida e completa derrota da grande for\u00e7a que tinha sido reunida para conquistar a Inglaterra, e restaurar o poder do papado, marcou o fim de algum perigo real de interven\u00e7\u00e3o estrangeira no pa\u00eds, em assuntos eclesi\u00e1sticos, e deixou os cat\u00f3lico-romanos a se defenderem por si mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fracasso da tentativa levou o governo a aumentar as medidas contra os romanistas. Os descontentes foram obrigados a retornar aos locais de origem e n\u00e3o tinham permiss\u00e3o de mover-se mais do que 5 milhas de sua casa. Muitos foram suspeitos de subvers\u00e3o e aprisionados. Aqueles que desafiavam as leis e estavam preparados para sacrificar-se ao apelo papal, foram levados \u00e0 morte, cerca de 250, ao todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O outro problema s\u00e9rio foram os assim chamados puritanos. O perigo que eles representavam para a Igreja era diferente do dos cat\u00f3lico-romanos. Enquanto os \u00faltimos desejavam a implos\u00e3o da Igreja da Inglaterra, para transform\u00e1-la, novamente, na Igreja na Inglaterra, sob a autoridade papal, os puritanos queriam transform\u00e1-la de acordo com a sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora muitos deles estivessem em contato com Genebra, n\u00e3o eram impulsionados por nenhum poder estrangeiro e nenhum demonstrava hostilidade \u00e0 rainha, abertamente. Com essa estrat\u00e9gia, eles n\u00e3o podiam ser julgados como traidores e aprisionados; ao contr\u00e1rio: oficialmente, eles n\u00e3o podiam ser impedidos de assumir posi\u00e7\u00f5es de grande poder e responsabilidade, dentro da Igreja a que se sentiam chamados a mudar. Para eles, as decis\u00f5es de Elisabete eram insuficientes. A for\u00e7a por tr\u00e1s deles era Genebra. Muitos deles tinham se sentado aos p\u00e9s de Calvino, por ocasi\u00e3o do ex\u00edlio ao tempo de Maria. Por tudo isso, desejavam implantar o calvinismo na Igreja da Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, os ataques come\u00e7aram com rela\u00e7\u00e3o ao LOC de 1559, que, para eles, cheirava a papismo, pois preservava usos por eles considerados muito romanistas: a permiss\u00e3o para o sinal da cruz, a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os na Confirma\u00e7\u00e3o, a alian\u00e7a no casamento, a preserva\u00e7\u00e3o da venera\u00e7\u00e3o de santos e o ato de fazer v\u00eania ao nome de Jesus Cristo e ajoelhar-se na comunh\u00e3o. Al\u00e9m disso, permitia o uso de cantos antifonais, a utiliza\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os, como instrumento para a m\u00fasica, etc. Mas o maior problema residia no uso de vestes, pelos sacerdotes, como a casula na Eucaristia e a sobrepeliz nos of\u00edcios corais, sem falar no uso de capas, para os bispos. Muitos deles sentiam problemas de consci\u00eancia, ao us\u00e1-las, ou se recusavam a faz\u00ea-lo, como Edmund Grindal, que chegou a Arcebispo de Cantu\u00e1ria, tamb\u00e9m no reinado de Elisabete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o tempo, a querela aumentou, chegando os puritanos a questionarem as pr\u00f3prias cren\u00e7as da Igreja e o minist\u00e9rio que a apoiava, o episcopado. E se puseram a trabalhar, ardentemente, para conseguir os seus objetivos. Houve outros, que n\u00e3o suportaram mais a duplicidade dessa situa\u00e7\u00e3o e se tornaram ?separatistas?, oficialmente, da Igreja da Inglaterra, formando congrega\u00e7\u00f5es dos chamado n\u00e3o conformistas. Aos olhos do governo, no entanto, tais iniciativas eram vistas como cheias de perigo, e, em 1593, novas leis foram baixadas contra estes, impondo severas penas de pris\u00e3o, banimento e, at\u00e9, a morte, para todos os que se recusassem ir \u00e0 Igreja ou participassem destes grupos de rea\u00e7\u00e3o. No entanto, o silencioso e esquivo trabalho da maioria do grupo puritano continuava sem enfrentamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As leis elisabetanas em favor da Igreja, em 1559, come\u00e7avam com a seguinte rogat\u00f3ria: Vamos orar pela Santa e Cat\u00f3lica Igreja de Cristo, que \u00e9 para toda a congrega\u00e7\u00e3o do povo crist\u00e3o, disperso atrav\u00e9s do mundo e, especialmente, pela Igreja da Inglaterra e da Irlanda .Isto mostrava que, para os te\u00f3logos e liturgistas que davam o referencial para a Igreja da Inglaterra, n\u00e3o havia sentido na separa\u00e7\u00e3o com o resto da Igreja Cat\u00f3lica, pois esta Igreja, mesmo que tivesse repudiado a jurisdi\u00e7\u00e3o papal, continuava cat\u00f3lica. Portanto, n\u00e3o era uma Igreja nova. Mas, por outro lado, tamb\u00e9m tinha aceito alguns dos princ\u00edpios da Reforma, pois se despira de certas pr\u00e1ticas e id\u00e9ias que se tinham agregado \u00e0 Igreja, durante a Idade M\u00e9dia. Suas ra\u00edzes, que precisavam ser mantidas e refor\u00e7adas, o foram por te\u00f3logos, como Jewell e Hooker.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas as mudan\u00e7as tamb\u00e9m precisavam ser fortalecidas, pois eram importantes: a liturgia no vern\u00e1culo, a administra\u00e7\u00e3o da Eucaristia nas duas esp\u00e9cies, a permiss\u00e3o do casamento para o clero e a grande mudan\u00e7a constitucional, particular da Inglaterra: o(a) soberano(a) como supremo(a) governante da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este t\u00edtulo nunca tinha sido usado antes, embora muitos soberanos agissem como tal, mesmo sem considerar o qualificativo. Monarcas fortes, como Guilherme, o Conquistador, tinham indicado os seus bispos e controlado os neg\u00f3cios da Igreja, quase com a mesma liberdade que os Tudors.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que inquietava a muitos era: quanto tempo isso duraria? Seria Elisabete forte o suficiente para levar adiante os seus prop\u00f3sitos de uma Igreja Nacional, livre da autoridade estrangeira, e \u00fanica para todos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Owen Chadwick, em seu livro A Reforma, a rainha era um enigma, em mat\u00e9ria religiosa. Falava livremente aos embaixadores, mas menos livremente aos seus conselheiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O autor diz que ela mantinha o credo \u00edntimo de sua alma t\u00e3o secreto como as suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es sobre o casamento (sempre se esquivou ao mesmo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tend\u00eancia em dire\u00e7\u00e3o a um protestantismo moderado fazia parte de sua heran\u00e7a de vida: como filha de Ana Bolena, sofrera com os romanistas. Ainda, como filha de Henrique VIII, \u00e9 certo que se sentia pessoalmente atra\u00edda por uma decis\u00e3o religiosa como a de seu pai ? uma simpatia discreta pelo catolicismo, mas sem a interfer\u00eancia papal. A s\u00edntese de tudo isso, para a Igreja, com o desenrolar dos fatos e as press\u00f5es, internas e externas, deu no que conhecemos, em termos de Igreja da Inglaterra, como Via M\u00e9dia Parece que Elisabete n\u00e3o tinha outra sa\u00edda a seguir: lutar por uma Igreja Nacional (patriotismo t\u00edpico dos Tudors), que mantivesse a riqueza que a Igreja tinha constru\u00eddo durante os s\u00e9culos, principalmente os iniciais, mas que n\u00e3o aceitasse o que a Tradi\u00e7\u00e3o ou as Escrituras n\u00e3o referendassem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disto, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Europa era tensa: as na\u00e7\u00f5es se dividiam entre o catolicismo (as mais fortes, como a Espanha, a Fran\u00e7a, parte do Imp\u00e9rio Alem\u00e3o) ou o protestantismo (ali a rainha poderia achar um espa\u00e7o para tornar o seu pa\u00eds uma lideran\u00e7a respeitada). Todos esses fatores estavam em jogo, mas Elisabete usou uma outra heran\u00e7a de fam\u00edlia, herdada de seu av\u00f4 e de seu pai: o discernimento em situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, sempre pensando no bem do reino. Assim, as id\u00e9ias religiosas da rainha penderam para um catolicismo, sem o papa; mantiveram a supremacia real, do tempo do pai e do irm\u00e3o; incentivavam a exist\u00eancia de um clero, preferivelmente, celibat\u00e1rio (nisso, n\u00e3o exigia mais do que ela pr\u00f3pria fazia) e aceitavam a teoria da presen\u00e7a real de Cristo, na Eucaristia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1563, a Convoca\u00e7\u00e3o pusera-se a analisar as posi\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias da Igreja, ao examinar, novamente, os 42 Artigos de 1553, e reduziu-os para 39.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando estes foram apresentados \u00e0 rainha, esta alterou um ou dois deles, tamb\u00e9m tirou um outro, considerado ofensivo aos cat\u00f3lico-romanos. Houve, pois um tempo, em que vigoraram ?38 Artigos?, at\u00e9 que, em 1571, o de n\u00famero 29 (da reda\u00e7\u00e3o ao tempo de Eduardo) foi restaurado, e a Igreja passou a ter, oficialmente os famosos 39 Artigos, que, foram, \u00e0 \u00e9poca, a plataforma oficial da Igreja. Hoje, h\u00e1 discord\u00e2ncia sobre a real import\u00e2ncia dos mesmos h\u00e1 os que afirmam que eles s\u00e3o, atualmente, um referencial hist\u00f3rico, pois a ess\u00eancia doutrin\u00e1ria da Igreja Anglicana est\u00e1 contida nas Escrituras e, por extens\u00e3o, no LOC; outros ainda enfatizam a import\u00e2ncia dos 39 Artigos como os referenciais para a f\u00e9 anglicana, e questionam a sua n\u00e3o reprodu\u00e7\u00e3o no atual LOC brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve muitas outras caracter\u00edsticas importantes na igreja elisabetana, algumas negativas, outras positivas. Houve um incremento na adora\u00e7\u00e3o, um incentivo a uma melhor prepara\u00e7\u00e3o do clero, determina\u00e7\u00f5es de que a Eucaristia fosse celebrada ao povo, ao menos, uma vez por m\u00eas; desenvolvia-se, tamb\u00e9m, nas catedrais, uma escola de m\u00fasica lit\u00fargica inglesa, a qual marcou de maneira significativa o fim do reinado de Elisabete. A \u00eanfase sacramental tamb\u00e9m foi estimulada, na vida da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas continuaram a haver bispos e p\u00e1rocos mais preocupados com o mundo do que com as coisas de Deus; sobrevivia o pluralismo eclesi\u00e1stico (quando um sacerdote podia acumular mais de um ?benef\u00edcio eclesi\u00e1stico e receber os rendimentos, mesmo que n\u00e3o pudesse estar presente em 2 ou 3 lugares ao mesmo tempo, para desempenhar suas fun\u00e7\u00f5es sacerdotais).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1603, Elisabete morreu, deixando o trono para seu primo escoc\u00eas, Jaime Stuart, que recebe o ordinal de I, na Inglaterra. Uma nova era come\u00e7ava com ele, mas a Igreja da Inglaterra j\u00e1 estava suficientemente estabelecida em sua forma de ser independente. A era dos Stuarts trouxe muitos problemas pol\u00edticos para o povo ingl\u00eas e, at\u00e9, para a Igreja, mas o sentimento de uma Igreja Cat\u00f3lica Nacional estava bem forte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Citando textualmente Stephen Neill, em seu livro O Anglicanismo, edi\u00e7\u00e3o em espanhol, p\u00e1ginas 121 e 122, encontramos o que segue: Ao final deste longo estudo das tormentas do s\u00e9culo XVI, pode ser aconselh\u00e1vel fazer-se uma pausa e perguntar o que havia feito a Igreja Inglesa, e o que n\u00e3o havia feito, no transcorrer de sua Reforma:<\/strong><br><blockquote>Havia mantido a f\u00e9 cat\u00f3lica, como est\u00e1 estabelecida nas Escrituras, nos Credos e nas decis\u00f5es dos quatro primeiros conc\u00edlios gerais da Igreja; Havia restaurado a doutrina cat\u00f3lica da supremacia da Sagrada Escritura em todas as quest\u00f5es de doutrina e conduta;<br>Havia restaurado a pr\u00e1tica cat\u00f3lica na provid\u00eancia do culto na l\u00edngua do povo;<br>Havia restaurado a pr\u00e1tica cat\u00f3lica, convidando os leigos a lerem a B\u00edblia;<br>Na Santa Comunh\u00e3o, havia restaurado a ordem cat\u00f3lica, dando aos leigos a comunh\u00e3o em ambas as esp\u00e9cies, do p\u00e3o e do vinho, em vez de uma s\u00f3 esp\u00e9cie, como era a pr\u00e1tica da Igreja Medieval;<br>Na Confirma\u00e7\u00e3o e Ordena\u00e7\u00e3o, havia restaurado a ordem cat\u00f3lica, fazendo da imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os, pelo bispo, a parte essencial do rito; Pretendeu restaurar a pr\u00e1tica cat\u00f3lica da comunh\u00e3o regular por todos os fi\u00e9is;<strong><br>Reteve a tr\u00edplice ordem do minist\u00e9rio<\/strong>: bispos, presb\u00edteros e di\u00e1conos;<br>Reteve cuidadosamente a sucess\u00e3o do episcopado, desde o tempo dos ap\u00f3stolos;<br>Reteve a ordem lit\u00fargica do ano crist\u00e3o, mesmo que numa forma modificada e simplificada;<br>Repudiou a supremacia do papa, tal como havia se desenvolvido desde os tempos de Greg\u00f3rio VII;<br>Negou que o papa tivesse autoridade para interferir nos assuntos civis dos Estados e para depor soberanos;<br>Pretendeu liberdade para as Igrejas nacionais, dentro da Comunh\u00e3o da Santa Igreja Cat\u00f3lica de Cristo;<br>Recha\u00e7ou a filosofia escol\u00e1stica e as defini\u00e7\u00f5es medievais posteriores, especialmente a da transubstancia\u00e7\u00e3o, que havia estado baseada nela; Recha\u00e7ou as id\u00e9ias medievais posteriores do purgat\u00f3rio, das indulg\u00eancias e do m\u00e9rito dos santos;<br>Reteve, infelizmente, as id\u00e9ias medievais da propriedade, da jurisdi\u00e7\u00e3o e da administra\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica;<br>Manteve a continuidade da administra\u00e7\u00e3o; a maioria dos arquivos episcopais mostram que a obra da Igreja foi levada a cabo em meio dos dist\u00farbios, sem a s\u00f3 interrup\u00e7\u00e3o de um dia;<br>Pretendeu ser uma parte viva da Igreja universal de Cristo.<\/blockquote><br>Foi esta, pois, uma nova Igreja ou a antiga Igreja, reformada e restaurada Se \u00e9 necess\u00e1rio, como afirmou Bonif\u00e1cio VIII, para a salva\u00e7\u00e3o de toda a criatura humana que se submeta ao bispo de Roma, ent\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o da Igreja da Inglaterra \u00e9 insustent\u00e1vel. Mas, se olharmos as Escrituras, a vida da Igreja primitiva, a grande tradi\u00e7\u00e3o central da Igreja atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, podemos chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que a Igreja da Inglaterra, no reinado de Elisabete tinha raz\u00e3o em pretender, como ainda pretende hoje em dia, que ela, e nenhuma outra institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 a Igreja Cat\u00f3lica na Inglaterra. Indubitavelmente, um grande setor de cidad\u00e3os estavam apoiando a sua rainha, quando ela escreveu ao Imperador Alem\u00e3o Fernando, em 1563: N\u00f3s e nossos vassalos n\u00e3o seguimos nenhuma religi\u00e3o nova ou estranha, sen\u00e3o a mesma religi\u00e3o que Cristo manda, que sanciona a Igreja primitiva e Cat\u00f3lica, que aprovam a mente e a voz dos Pais mais antigos?.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Anglicanismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O reinado de Elisabete marcou o in\u00edcio da expans\u00e3o colonial brit\u00e2nica. Como revide \u00e0 pol\u00edtica agressiva de Felipe II, da Espanha, a Inglaterra iniciou uma verdadeira guerra com os espanh\u00f3is, pelas suas possess\u00f5es, principalmente na Am\u00e9rica do Norte. A poderosa marinha inglesa singrava os mares, tentando roubar todos os tesouros espanh\u00f3is que iam da Am\u00e9rica para a Espanha ( guerra de piratas e cors\u00e1rios) e, tamb\u00e9m, colocou as bases do estabelecimento ingl\u00eas na Am\u00e9rica do Norte, projeto que foi continuado pelos seus sucessores Stuarts. Assim, com o tempo, colonos ingleses, pelas mais variadas raz\u00f5es, inclusive em busca de liberdade religiosa, fixaram-se na zona leste dos atuais Estados Unidos, formando as famosas treze col\u00f4nias, onde as express\u00f5es de f\u00e9 variavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com esta coloniza\u00e7\u00e3o inglesa, foi junto, para algumas regi\u00f5es da Am\u00e9rica do Norte, a Igreja da Inglaterra, chamada pejorativamente, de Igreja Colonial. N\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de aqui, relatar o desenvolvimento dessa Igreja sofrida, sem o apoio de bispos ou da Coroa (representava o Estado Ingl\u00eas nos EUA), mas podemos mencionar que, o processo de independ\u00eancia foi muito positivo para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conseguiu sagrar o seu primeiro bispo, Samuel Seabury, na Igreja Episcopal da Esc\u00f3cia (j\u00e1 em comunh\u00e3o com a Igreja da Inglaterra, embora de administra\u00e7\u00e3o independente), e, com ele, teve in\u00edcio o episcopado anglicano na Am\u00e9rica. Por raz\u00f5es pol\u00edticas, a Igreja Colonial n\u00e3o podia chamar-se mais assim, pois n\u00e3o era mais o resultado de uma pol\u00edtica colonialista, e tomou o nome de Igreja protestante Episcopal dos Estados Unidos da Am\u00e9rica. Mais tarde, o qualificativo protestante foi retirado do nome oficial da Igreja Anglicana, que, juntamente com muitas outras, est\u00e1 em comunh\u00e3o com a Igreja da Inglaterra, no que se convencionou chamar Comunh\u00e3o Anglicana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, somos fruto do trabalho mission\u00e1rio da Igreja dos Estados Unidos. Temos condi\u00e7\u00f5es de conhecer a nossa hist\u00f3ria em detalhes. Temos pesquisadores e bibliografia para isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Comunh\u00e3o Anglicana est\u00e1 espalhada pelo mundo, unida por doutrina, tradi\u00e7\u00e3o, usos lit\u00fargicos (o LOC), mas sem a autoridade de um papa para administr\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada fam\u00edlia ou prov\u00edncia anglicana tem a sua pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o e autonomia. Mas h\u00e1 muitas coisas em comum, e um referencial que compromete a todas a cren\u00e7a nos credos hist\u00f3ricos, como o dos Ap\u00f3stolos e o Niceno, a consci\u00eancia de que tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para a salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 contido nas Escrituras, embora a Tradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m seja respeitada, a pr\u00e1tica necess\u00e1ria dos dois Sacramentos institu\u00eddos por Cristo o Batismo e a Eucaristia e a forma de governo que contempla o episcopado hist\u00f3rico. Esses quatro elementos essenciais, reunidos num documento chamado ?Quadril\u00e1tero de Chicago-Lambeth j\u00e1 foi objeto de estudo em eventos de nossa Igreja. Eles servem como base para o di\u00e1logo ecum\u00eanico da Comunh\u00e3o Anglicana com outras f\u00e9s, juntamente com as verdades doutrin\u00e1rias contidas no LOC, que \u00e9 uma das grandes riquezas de nossa Igreja a voca\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, acompanhada de um forte acento ecum\u00eanico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O curso posterior da Igreja da Inglaterra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ficamos, em nossa hist\u00f3ria do Anglicanismo, em termos de Inglaterra, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, com o advento dos Stuarts.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como em todo o seu processo de desenvolvimento hist\u00f3rico, a Inglaterra continuou a viver grandes momentos de dificuldade e intranquilidade pol\u00edtica e administrativa, e a Igreja Inglesa junto, pois, como j\u00e1 dissemos, era e \u00e9 uma Igreja Estatal. Passaram os Stuarts, outras dinastias se sucederam, com o transcorrer do tempo, mas s\u00f3 quer\u00edamos mencionar, como muito importantes para a vida da Igreja Inglesa, 3 movimentos: o Movimento Evangelical, liderado por John Wesley, no s\u00e9culo XVIII, que abalou as estruturas da Igreja de uma maneira tal, que dele derivou uma secess\u00e3o: o surgimento da Igreja Metodista. A Igreja da Inglaterra, vivendo as mudan\u00e7as da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, n\u00e3o teve, no momento, a habilidade de realizar, como institui\u00e7\u00e3o, um trabalho pastoral com os marginalizados dos centros urbanos ingleses, egressos do meio rural, em busca do trabalho nas f\u00e1bricas. Surge ent\u00e3o, um homem, marcado pelo antigo fervor religioso, de quem falamos tantos no in\u00edcio do nosso trabalho, e que desencadeou um processo sem volta, na vida da Igreja; sem o querer, ele fundou uma nova Igreja, mas o seu exemplo de zelo e amor ao pr\u00f3ximo encontraram seguidores no seio da pr\u00f3pria Igreja Inglesa, o que foi extremamente positivo para a sua vida espiritual e comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo movimento, que n\u00e3o poder\u00edamos deixar de mencionar, foi o de Oxford, acontecido na primeira metade do s\u00e9culo XIX e que sacudiu a Igreja da Inglaterra. Diz-se que ningu\u00e9m ficou indiferente a ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dif\u00edcil sintetiz\u00e1-lo, devido a sua complexidade, mas, em princ\u00edpio, ele foi uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Parlamento na vida da Igreja e, acima de tudo, uma busca da viv\u00eancia dos valores da Igreja primitiva e dos Pais Apost\u00f3licos. Buscava a pureza na Igreja na sua devo\u00e7\u00e3o e gerou conseq\u00fc\u00eancias muito positivas na sua vida, ao incentivar a pr\u00e1tica de uma espiritualidade mais consciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro movimento \u00e9 o de ordem social, o chamado ?Cristianismo Social?, tendo em vista as mudan\u00e7as sociais do s\u00e9culo XIX. Seu grande l\u00edder, entre outros, \u00e9 o te\u00f3logo F.D. Maurice.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os componentes desse grupo iniciaram uma cr\u00edtica crist\u00e3 a respeito da sociedade que permitia o desenvolvimento da pobreza e da iniquidade. O objetivo de Maurice era considerar o mercado, a f\u00e1brica, o lar, a universidade, as salas dos governantes, todas \u00e1reas de vida para Cristo. O Cristianismo Social declarava que o Evangelho de Cristo \u00e9 e Evangelho da Reden\u00e7\u00e3o, n\u00e3o meramente para as almas dos eleitos na vida por vir, mas em toda a vida e exist\u00eancia de todos os homens, nesta vida e no porvir. Nada mais atual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O s\u00e9culo XX viu a Igreja da Inglaterra ser atingida, como toda a na\u00e7\u00e3o, pelas duas Guerras Mundiais, e isso exigiu-lhe mudan\u00e7a de conceitos. A partir da\u00ed, as r\u00e1pidas mudan\u00e7as s\u00f3cio-pol\u00edtico-culturais e religiosas nos apontam para um mundo carente da palavra e da a\u00e7\u00e3o do Evangelho. Esse, o desafio da Igreja da Inglaterra, da Comunh\u00e3o Anglicana, da IEAB, das Igrejas Crist\u00e3s como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.igrejaanglicana.org.br\/www.saberhistoria.hpg.ig.com.br\/www.dec.ufcg.edu.br\/www.regiao1.ieab.org.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anglicanismo, Cristianismo, Igreja, Inglaterra, Hist\u00f3ria, Crist\u00e3, Anglicana, Reforma, Forma\u00e7\u00e3o, \u00c9poca, Brasil, Religi\u00e3o, Processo, Anglicanismo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10506,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-20832","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-geral"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Anglicanismo - 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