{"id":20560,"date":"2015-12-22T00:00:00","date_gmt":"2015-12-22T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/missoes-jesuitas-3\/"},"modified":"2026-09-01T15:32:35","modified_gmt":"2026-09-01T15:32:35","slug":"missoes-jesuitas-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/missoes-jesuitas-3\/","title":{"rendered":"Miss\u00f5es Jesu\u00edtas"},"content":{"rendered":"\n<strong>Miss\u00f5es Jesu\u00edtas &#8211; Hist\u00f3ria Brasil<\/strong>\n\nPoucas d\u00e9cadas depois que os portugueses desembarcaram no Brasil, o rei Jo\u00e3o III de Portugal pediu ao Papa Paulo III para ajudar a evangelizar os novos territ\u00f3rios coloniais.\n\nUm grupo de jesu\u00edtas chefiados por Manuel de N\u00f3brega foi encarregado de levar a f\u00e9 crist\u00e3 ao Brasil.\n\nOs\u00a0<strong>jesu\u00edtas<\/strong>\u00a0eram uma sociedade cat\u00f3lica fundada por In\u00e1cio de Loyola. Os jesu\u00edtas estavam comprometidos com os ensinamentos de Jesus Cristo, mas operavam com disciplina militar \u2013 enfatizando educa\u00e7\u00e3o, evangelismo e trabalho mission\u00e1rio. Em meados do s\u00e9culo 16, mais de 1.000 jesu\u00edtas entraram nos campos mission\u00e1rios estrangeiros da Europa, \u00c1sia, \u00c1frica e Novo Mundo.\n\nEm 1549, os primeiros jesu\u00edtas chegaram ao Brasil. N\u00f3brega e sua equipe logo partiram para aprender a l\u00edngua dos nativos tupi, que os diferenciava dos demais portugueses que aqui moravam.\n\nEles tamb\u00e9m estabeleceram escolas para educar os habitantes locais e ensinar-lhes a f\u00e9 crist\u00e3. Isso conquistou o respeito dos povos nativos, que gostavam muito do estilo de contar hist\u00f3rias dos jesu\u00edtas.\n\nOs jesu\u00edtas tamb\u00e9m estabeleceram bibliotecas em todo o pa\u00eds. Ao longo dos s\u00e9culos, o sistema de bibliotecas no Brasil tornou-se o maior das Am\u00e9ricas, com as primeiras cole\u00e7\u00f5es jesu\u00edtas atuando como base.\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-159582 size-full\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Missoe8.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"255\" \/><strong>Miss\u00f5es Jesu\u00edtas<\/strong><\/p>\nEm poucos anos, outro grupo de mission\u00e1rios jesu\u00edtas chegou ao Brasil. Jos\u00e9 de Anchieta estava entre eles. Anchieta era um homem de profunda humildade e ora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m era formado em medicina e usava suas habilidades para servir aos nativos. Isso os tornou mais abertos ao cristianismo, pois acreditavam que somente aqueles que possu\u00edam o poder de curar poderiam se comunicar verdadeiramente com os esp\u00edritos. Por meio de homens como Anchieta, os jesu\u00edtas eram vistos como curandeiros, o que lhes dava uma plataforma para compartilhar o Evangelho tamb\u00e9m.\n\nAnchieta tornou-se o bra\u00e7o direito de N\u00f3brega. Juntos, eles constru\u00edram a primeira \u201caldeia\u201d \u2013 um grande assentamento onde Christian Tupi morava, cultivava e entregava seus filhos para serem educados pelos\u00a0<strong>jesu\u00edtas.<\/strong>\n\nO primeiro assentamento, Aldeia de Piratininga, \u00e9 hoje conhecido como S\u00e3o Paulo, a maior cidade do Brasil.\n\nAs regras de vida nas aldeias foram elaboradas para dificultar aos nativos a manuten\u00e7\u00e3o de suas culturas tradicionais. Canibalismo, poligamia e medicina tribal foram proibidos. Em vez disso, os moradores foram obrigados a se estabelecer em vidas est\u00e1veis, onde as roupas eram necess\u00e1rias e os princ\u00edpios crist\u00e3os governavam a vida social.\n\n<strong>Miss\u00f5es Jesu\u00edtas &#8211; O que foi<\/strong>\n\nNo Sul n\u00e3o existem somente praias, cidades serranas e belezas naturais \u00fanicas em todo o Brasil. No inverno ou no ver\u00e3o, pode ser visitado um \u201cpa\u00eds\u201d diferente, esquecido pelos livros de hist\u00f3ria, marginalizado pelos roteiros tur\u00edsticos tradicionais e muito pouco conhecido em quase todo o Brasil.\n\nOs seus contornos nunca foram muito bem definidos, embora bastante amplos. Antigamente entrava-se nele a partir do rio Paranapanema, na divisa com o Paran\u00e1, percorrendo-se suas fronteiras at\u00e9 o extremo meridional do continente, nas costas do atual Uruguai.\n\nCom o tempo, por\u00e9m, suas fronteiras foram sendo reduzidas e o acesso passou a se dar pelo m\u00e9dio rio Paran\u00e1 e rio Uruguai at\u00e9 que, simplesmente, desapareceu dos mapas e entrou na hist\u00f3ria, como uma prematura experi\u00eancia comunista, muito antes da revolu\u00e7\u00e3o russa e do pr\u00f3prio Marx.\n\nNos tempos modernos, foi tamb\u00e9m o mais revolucion\u00e1rio estado teocr\u00e1tico, que deu in\u00edcio \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, reunindo, ao mesmo tempo, uma extraordin\u00e1ria arte musical e pl\u00e1stica, com uma vigorosa disposi\u00e7\u00e3o para a luta, uma hora em defesa do Evangelho e outra ao lado das armas da Corona espanhola.\n\nTrata-se da Rep\u00fablica Guarani, que, por cerca de 200 anos, ocupou \u00e1reas dos atuais Estados do Paran\u00e1 e Rio Grande do Sul, e ainda do Paraguai, Argentina e Uruguai, onde foram edificadas dezenas de redu\u00e7\u00f5es \u2013 as miss\u00f5es -, que levaram, para as selvas do Cone-Sul, sob um duro comando dos padres\u00a0<strong>jesu\u00edtas<\/strong>, o esplendor da arte europeia e um desenvolvimento urbano que muitas cidades ainda n\u00e3o conhecem, j\u00e1 passado tanto tempo.\n\nAs redu\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram aldeias, mas verdadeiras cidades que se instalavam nas selvas, com toda a infra-estrutura; al\u00e9m da igreja, que era o centro de tudo, havia hospital, asilo, escolas, casa e comida para todos e em abund\u00e2ncia, oficinas e at\u00e9 pequenas ind\u00fastrias. Fabricavam-se todos os instrumentos musicais, t\u00e3o bem quanto na Europa, por exemplo. Imprimiam-se livros em plena selva, alguns at\u00e9 em alem\u00e3o.\n\nPossu\u00edam observat\u00f3rio astron\u00f4mico e at\u00e9 editavam uma carta astron\u00f4mica e um boletim meteorol\u00f3gico. Foi nessas redu\u00e7\u00f5es que se come\u00e7ou a industrializar o ferro, a produzir os primeiros tecidos, e a se criar gado no continente.\n\n<strong>Foi esse gado, espalhado pelos pampas de todo o Sul, que acabou definindo a voca\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Rio Grande do Sul:<\/strong>\u00a0a pecu\u00e1ria, de alguma forma ligada a todos os seus acontecimentos hist\u00f3ricos.\n\nOcupavam essas redu\u00e7\u00f5es os \u00edndios guaranis e tapes \u2013 do mesmo grupo -, atra\u00eddos pela prega\u00e7\u00e3o do Evangelho feita pelos padres jesu\u00edtas, decididos a criar uma s\u00e9rie de rep\u00fablicas teocr\u00e1ticas no continente, baseados na experi\u00eancia socialista dos incas, no Peru, onde, ali\u00e1s, haviam iniciado outro agrupamento semelhante, reunindo os \u00edndios chiquitos.\n\n<strong>LENDAS<\/strong>\n\nHavia uma lenda entre os \u00edndios, segundo a qual deveriam seguir os que, um dia, lhes aparecessem com uma cruz, falando de Deus. A orienta\u00e7\u00e3o teria sido dada, no in\u00edcio da era crist\u00e3, por um pregador confundido com o (suposto) ap\u00f3stolo Tom\u00e9, por um dos jesu\u00edtas que construiu a Rep\u00fablica Guarani. Foi o que ajudou os padres a sensibilizar os \u00edndios.\n\nFoi feita ainda uma tentativa de catequizar os guenoas e os charruas, mas n\u00e3o foi bem-sucedida. Eram inimigos dos guaranis e viviam em lutas com eles.\n\n<strong>Mas, com os guaranis, foi feita uma revolu\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>os mestres da pintura e da escultura eram imitados, nas redu\u00e7\u00f5es, com uma perfei\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria, avaliada em diversas oportunidades por europeus, que se impressionavam n\u00e3o somente com os trabalhos de artes pl\u00e1sticas ali realizados, mas tamb\u00e9m com o cuidado como, em estilo g\u00f3tico, os \u00edndios reproduziam documentos, igualando-se aos melhores copistas da Idade M\u00e9dia.\n\nDe tudo o que foi feito, resta muito pouco para ser apreciado. Mas, se \u00e9 pouco, \u00e9 suficiente para dar uma ideia do que aconteceu nas selvas do Sul, embora importantes s\u00edtios arqueol\u00f3gicos estejam escondidos sob centros urbanos e verdejantes planta\u00e7\u00f5es de milho e soja.\n\nA chamada Rep\u00fablica Guarani n\u00e3o chegou a se tornar independente e nem havia essa pretens\u00e3o, ao menos segundo os documentos dispon\u00edveis. Jesu\u00edtas e \u00edndios deviam obedi\u00eancia ao trono espanhol, pagavam-lhe seus impostos, e chegaram a ser importante bra\u00e7o armado n\u00e3o s\u00f3 para conter a expans\u00e3o portuguesa, como para dominar rebeli\u00f5es e amea\u00e7as de invas\u00e3o, surgidas em diversas oportunidades.\n\nApesar disso, a possibilidade de independ\u00eancia da Rep\u00fablica Guarani sempre foi a grande arma dos cr\u00edticos dos jesu\u00edtas. Em folhetos que circulavam na Europa, chegava a se apresentar o velho cacique Nicolau Nhenguir\u00fa, como Nicolau I, rei do Paraguai, procurando indispor o trono espanhol contra os jesu\u00edtas. Foi tanta a agress\u00e3o, que os padres acabaram sendo derrotados.\n\nTrocada a Col\u00f4nia de Sacramento \u2013 que os ex\u00e9rcitos guaranis ajudaram a conquistar para a Espanha \u2013 pelos Sete Povos das Miss\u00f5es, na margem esquerda do Rio Uruguai, atual territ\u00f3rio do Rio Grande do Sul, foi deflagrada a guerra guarani contra as coroas espanhola e portuguesa, porque os \u00edndios n\u00e3o aceitavam ter que abandonar suas terras e cruzarem o rio em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s redu\u00e7\u00f5es da margem direita, na atual Argentina.\n\n<strong>EXPULS\u00c3O<\/strong>\n\nDepois de grande conflito, com milhares de mortos, especialmente de \u00edndios, Portugal e Espanha voltaram atr\u00e1s, mas logo dariam o golpe definitivo contra as redu\u00e7\u00f5es, expulsando os jesu\u00edtas e deixando os guaranis sem qualquer coordena\u00e7\u00e3o.\n\nSeguiram-se administradores militares e os \u00edndios acabaram sendo transformados em guerreiros, nos diversos epis\u00f3dios militares ocorridos no Prata, sendo exterminados completamente nos 60 a 70 anos que se seguiram \u00e0 expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas.\n\nDestru\u00eddas primeiro pelos bandeirantes, depois pelas tropas de Portugal e Espanha e, no lado paraguaio, pelo pr\u00f3prio ditador do novo pa\u00eds, ap\u00f3s sua independ\u00eancia, restou pouco das redu\u00e7\u00f5es para ser visto nos dias atuais, mas, nas ru\u00ednas que ainda s\u00e3o mantidas, h\u00e1 alguma coisa da velha rep\u00fablica para apreciar, entrando-se num importante cap\u00edtulo da hist\u00f3ria do Sul, muito mal contado em nossos livros.\n\nOs<strong>\u00a0jesu\u00edtas<\/strong>\u00a0cerceavam completamente a liberdade dos \u00edndios, mas, \u00e0 luz da prega\u00e7\u00e3o do Evangelho, indiretamente intimidando-os com os conceitos sobre c\u00e9u e inferno e salva\u00e7\u00e3o da alma, conseguiram transplantar da Europa para o interior de nosso continente, h\u00e1 mais de 350 anos, costumes avan\u00e7ad\u00edssimos, uma arte refinada e um modelo ut\u00f3pico de administra\u00e7\u00e3o \u2013 com propriedade coletiva, sem classes e sem governo, e sem oposi\u00e7\u00e3o entre cidade e campo -, que Cl\u00f3vis Lugon, em seu livro \u201cA Rep\u00fablica Comunista Crist\u00e3 dos Guaranis\u201d, chegou a definir como \u201ca mais fervorosa das sociedades crist\u00e3s e a mais original das sociedades comunistas\u201d. E que foi, como assinalou, \u201ccomunista demais para os crist\u00e3os burgueses e crist\u00e3 demais para os comunistas da \u00e9poca burguesa\u201d.\n\nA Rep\u00fablica Guarani pode ser visitada com facilidade, por estradas de asfalto. Tr\u00eas ou quatro dias \u00e9 o suficiente para admirar o que restou. Igrejas e casas de pedra semidestru\u00eddas por inc\u00eandios, abandono e a depreda\u00e7\u00e3o dos moradores das vizinhan\u00e7as que ocorria at\u00e9 recentemente; algumas dezenas de imagens e de trabalhos nas pedras das constru\u00e7\u00f5es, s\u00e3o as \u00faltimas evid\u00eancias dessa experi\u00eancia teocr\u00e1tica.\n\n<strong>Passadas tantas batalhas<\/strong>\n\nNo sentido literal da palavra -, essas igrejas e obras de arte n\u00e3o t\u00eam mais a riqueza de antigamente, com trabalhos em ouro e prata, que os \u00edndios importavam do Peru, mas, com o que resta, pode se ter a certeza de encontrar na regi\u00e3o lembran\u00e7as inesquec\u00edveis.\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-159584 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Missoe9.jpg\" alt=\"\" width=\"227\" height=\"300\" \/><strong>Ru\u00ednas de S\u00e3o Miguel das Miss\u00f5es\nParte interna da Igreja<\/strong><\/p>\n<strong>A lenda de Pai Zum\u00e9<\/strong>\n\nEntre Santos e Assun\u00e7\u00e3o (Paraguai), e o Peru, os \u00edndios diziam existir, antigamente, pegadas de um pregador carism\u00e1tico, a quem chamavam de \u201cPai Zum\u00e9\u201d, na grande prov\u00edncia espanhola do Paraguai, e de \u201cPay Tum\u00e9\u201d, nas terras do atual Peru.\n\nContava-se que, de pai para filho, foram transmitidos alguns ensinamentos do pregador, como o de que \u201ca doutrina que eu agora vos prego, perd\u00ea-la-ei com o tempo. Mas, quando depois de muitos tempos, vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvir\u00e3o os vossos descendentes essa doutrina\u201d.\n\nA cita\u00e7\u00e3o foi feita em 1639 pelo padre jesu\u00edta Ant\u00f4nio Ruiz de Montoya, que, percorrendo o sert\u00e3o paraguaio e o atual Estado do Paran\u00e1, acompanhado de sua cruz, procurava remontar os passos de \u201cPai Zum\u00e9\u201d, visitando locais onde existiam pegadas centen\u00e1rias, que ele, unindo suspeitas pr\u00f3prias \u00e0s lendas dos ind\u00edgenas, acreditava ser do ap\u00f3stolo S\u00e3o Tom\u00e9 \u2013 aquele que quis ver as chagas de Cristo na primeira apari\u00e7\u00e3o deste aos ap\u00f3stolos, ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o, como ensina a B\u00edblia.\n\nOs \u00edndios que transmitiam a lenda ao longo do tempo foram os primeiros a sensibilizar-se com a causa crist\u00e3, ao ver os jesu\u00edtas aparecerem em suas aldeias, condenando os enormes har\u00e9ns e obrigando todos a se batizar, assistir missas, rezar, cantar etc.\n\nTendo ou n\u00e3o cruzado a regi\u00e3o h\u00e1 quase dois mil anos atr\u00e1s, pregando, S\u00e3o Tom\u00e9 e sua lenda ajudaram em muito a implanta\u00e7\u00e3o das primeiras redu\u00e7\u00f5es que iriam constituir a florescente rep\u00fablica que atualmente poucos conhecem \u2013 a dos guaranis, nosso primeiro estado industrial, cultural e militar na Am\u00e9rica Latina, com bases teocr\u00e1ticas.\n\n<strong>A chegada dos jesu\u00edtas \u00e0 Am\u00e9rica<\/strong>\n\nOs jesu\u00edtas chegaram \u00e0 Am\u00e9rica com algum atraso em rela\u00e7\u00e3o a outras ordens religiosas \u2013 existem registros de que aportaram pela primeira vez, em terras espanholas, na Fl\u00f3rida, atual Estados Unidos, em 1567, e, no Peru, um ano depois. Na Argentina chegaram em 1586 e, no Paraguai, em 1588, setenta e dois anos ap\u00f3s o in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o espanhola em \u00e1reas do atual pa\u00eds, que, antigamente, era o mais pr\u00f3spero do Cone Sul.\n\nAo Brasil, os jesu\u00edtas chegaram pouco antes, em 1549.\n\nTanto quanto aconteceu depois no Brasil, os espanh\u00f3is logo se interessaram por utilizar os \u00edndios como escravos, pois ainda n\u00e3o se institu\u00edra o tr\u00e1fego negreiro entre a \u00c1frica e a Am\u00e9rica.\n\nConta-se que somente um tenente subordinado ao governador de Assun\u00e7\u00e3o, Martinez de Irala, subjugou, em 1557, cerca de 40 mil \u00edndios. A ca\u00e7a foi t\u00e3o sistem\u00e1tica que, em 250 anos, at\u00e9 ao final do s\u00e9culo XVIII, a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena do Paraguai caiu de um milh\u00e3o para pouco mais de 8.200 pessoas.\n\nOs \u00edndios, obviamente, n\u00e3o se entregaram sem reagir. Em 1558, destru\u00edram parte de Assun\u00e7\u00e3o, acabando por ser massacrados dois anos depois.\n\nMas distantes da capital, em local de dif\u00edcil acesso que era conhecido como Guair\u00e1, numa vasta regi\u00e3o que ia da atual cidade de Gua\u00edra, no Paran\u00e1, \u00e0 conflu\u00eancia dos rios Paran\u00e1 e Paranapanema \u2013 ao norte das cidades de Londrina e Maring\u00e1 -, subsistiam, no entanto, pelo menos mais 150 mil guaranis, que se tornavam amea\u00e7a constante, e os espanh\u00f3is admitiam n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de enfrent\u00e1-los.\n\nQuase ao mesmo tempo em que os espanh\u00f3is de Assun\u00e7\u00e3o chegavam a essa conclus\u00e3o, o rei Felipe III, da Espanha, foi convencido pelos jesu\u00edtas a proibir a escraviza\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, permitindo que fossem reunidos em redu\u00e7\u00f5es para serem catequizados. A\u00ed eles passariam a produzir e, inclusive, a gerar impostos. Esta foi a origem das redu\u00e7\u00f5es e da chamada Rep\u00fablica Guarani.\n\n<strong>Primeiras redu\u00e7\u00f5es<\/strong>\n\nEmbora a Rep\u00fablica Guarani seja a experi\u00eancia mais importante de implanta\u00e7\u00e3o de um estado teocr\u00e1tico em tempos mais recentes, formaram-se, no continente americano, outras redu\u00e7\u00f5es, sempre sob o controle dos jesu\u00edtas, que pretendiam formar um cord\u00e3o de pequenas rep\u00fablicas at\u00e9 o Alto Amazonas.\n\nEles deram sequ\u00eancia ao seu ambicioso projeto formando as chamadas rep\u00fablicas Chiquita e dos Moxes, na Bol\u00edvia atual, outras redu\u00e7\u00f5es \u00e0s margens do rio Mamor\u00e9, e pretendiam que houvesse uma comunica\u00e7\u00e3o entre os diversos grupos, o que acabou, no entanto, nunca ocorrendo.\n\nO sistema de redu\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, antes mesmo da autoriza\u00e7\u00e3o real, havia sido institu\u00eddo ap\u00f3s o S\u00ednodo de 1603, em Assun\u00e7\u00e3o, que reuniu, al\u00e9m de jesu\u00edtas, autoridades e o pr\u00f3prio governador Hernand\u00e1rias de Saavedra.\n\nA primeira redu\u00e7\u00e3o, fundada perto de Assun\u00e7\u00e3o, foi a de San Ign\u00e1cio, identificada depois como San Ign\u00e1cio Guazu, pois, em 1612, os padres Jo\u00e3o Cataldino e Sim\u00e3o Maseta constitu\u00edram uma nova San Ign\u00e1cio \u2013 desconhecendo a primeira \u2013 que, no futuro, foi identificada como San Ign\u00e1cio Mini.\n\nNa \u00e9poca, quase todo o territ\u00f3rio paranaense, assim como o atual Rio Grande do Sul, se encontrava sob domina\u00e7\u00e3o espanhola.\n\n<strong>Na regi\u00e3o do atual Paran\u00e1, existiam somente duas vilas, que apoiavam as frentes de coloniza\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Ciudad Real Del Guair\u00e1, onde atualmente se situa Gua\u00edra, no Paran\u00e1; e Vila Rica do Esp\u00edrito Santo, mais ou menos onde est\u00e1 a atual cidade de F\u00eanix, no Norte do Paran\u00e1, a cerca de 90 quil\u00f4metros ao sul de Maring\u00e1.\n\nPara ir de Guair\u00e1 ou Ciudad Real at\u00e9 Vila Rica, seguia-se pelo rio Paran\u00e1, tomando-se o rio Iva\u00ed, na altura da atual cidade paranaense de Quer\u00eancia do Norte. Os padres Cataldino e Maseta, no entanto, em vez de seguir pelo rio Iva\u00ed, continuaram pelo Paran\u00e1 at\u00e9 o rio Paranapanema e, por este, seguiram at\u00e9 a conflu\u00eancia com o Pirap\u00f3, pr\u00f3ximo \u00e0s atuais cidades de Teodoro Sampaio (SP) e Jardim Olinda (PR). Ali, formaram, no final de 1610, a redu\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora de Loreto. Como esta logo ficou superpovoada, fundaram, em julho de 1612, a redu\u00e7\u00e3o de San Ign\u00e1cio, duas a quatro l\u00e9guas adiante, onde atualmente se situa a cidade paranaense de Santo In\u00e1cio, ao Sul de Itoror\u00f3 do Paranapanema (SP).\n\n<strong>Expans\u00e3o das redu\u00e7\u00f5es no Paran\u00e1<\/strong>\n\nSan Ign\u00e1cio Guazu havia sido fundada pelos padres Marcial de Lorenzana e Francisco de San Martin, pouco tempo depois substitu\u00eddos pelos padres Roque Gonzalez e Jo\u00e3o Romero, que tamb\u00e9m se encarregaram de expandir a redu\u00e7\u00e3o dos \u00edndios nas prov\u00edncias do chamado Tape, atual Rio Grande do Sul, e (do rio) Uruguai, em \u00e1reas do Rio Grande do Sul (margem esquerda) e da Argentina (margem direita). Essa expans\u00e3o no Tape e Uruguai ocorreu ao mesmo tempo que, em terras do Guair\u00e1 (rios Paranapanema, Iva\u00ed, Pirap\u00f3 e Tibagi adentro), se dava o desenvolvimento rumo ao Norte, comandado pelos padres Jo\u00e3o Cataldino e Sim\u00e3o Maseta.\n\nPor Prov\u00edncia do Uruguai entenda-se especialmente o Noroeste, Oeste e Sul do atual Rio Grande do Sul, onde habitavam principalmente os \u00edndios guenoas, charruas, minuanos, entre outros, que nunca foram catequizados. O Tape, reunindo os \u00edndios guaranis propriamente ditos (tapes e arachanes, principalmente), estendia-se de Norte a Sul pelo centro do atual Rio Grande do Sul, entre a Serra Geral e a Lagoa dos Patos. \u00c0 direita ficava a Prov\u00edncia de Ibia\u00e7a, concentrando diversas tribos dos \u00edndios ibirajaras \u2013 como os guaranis, um dos ramos do grupo j\u00ea -, inimigos dos guaranis, dos padres, e aliados dos bandeirantes e tupis nas bandeiras que, nos anos seguintes, devastaram as redu\u00e7\u00f5es.\n\n<strong>Entre 1612 (ano da funda\u00e7\u00e3o de San Ign\u00e1cio Mini) e 1630, os jesu\u00edtas fundaram no Guair\u00e1 (atual Estado do Paran\u00e1) mais 12 redu\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de Nossa Senhora de Loreto e San Ign\u00e1cio:<\/strong>\u00a0S\u00e3o Francisco Xavier (possivelmente entre as cidades de Santa Cec\u00edlia do Pav\u00e3o, Irer\u00ea e Londrina), Encarnaci\u00f3n (pr\u00f3ximo \u00e0 atual cidade de Tel\u00eamaco Borba); S\u00e3o Jos\u00e9 (possivelmente nas imedia\u00e7\u00f5es das atuais cidades de Bela Vista do Para\u00edso e Sertan\u00f3polis); S\u00e3o Paulo (em local desconhecido, mas possivelmente no centro do Paran\u00e1); Arcangeles (em local isolado e de dif\u00edcil acesso no centro do Paran\u00e1, possivelmente \u00e0 leste de Ivaipor\u00e3); S\u00e3o Miguel (possivelmente nas imedia\u00e7\u00f5es da localidade de Laranjeiras, ao noroeste de Castro, j\u00e1 pr\u00f3ximo a Ponta Grossa, no Sul do Estado); Santo Ant\u00f4nio, S\u00e3o Tom\u00e9, S\u00e3o Pedro (possivelmente nas imedia\u00e7\u00f5es dos munic\u00edpios de Ivaipor\u00e3, Manoel Ribas e Grandes Rios); Jesus Maria (possivelmente entre Portos Planaltina e S\u00e3o Carlos, \u00e0s margens do rio Iva\u00ed); e, finalmente, Santa Maria a Maior e Natividad, \u00fanicas no rio Igua\u00e7\u00fa e muito afastadas das demais. Estas foram as \u00faltimas a serem fundadas, em 1630, pouco antes das Cataratas do Igua\u00e7\u00fa, certamente em \u00e1reas do Parque Nacional do Igua\u00e7\u00fa.\n\nAcredita-se que, em 1630, as 14 redu\u00e7\u00f5es do Guair\u00e1 (ocupando, com suas est\u00e2ncias, quase todo o Estado do Paran\u00e1) reuniam entre 70 e 100 mil \u00edndios.\n\nNa primeira fase da Rep\u00fablica Guarani, antes dos ataques dos bandeirantes ocorridos ao Norte e Sul de suas redu\u00e7\u00f5es, a forma\u00e7\u00e3o de aldeamentos em \u00e1reas do atual Paraguai e da Argentina, foi pequena.\n\n<strong>Entre 1615 e 1627, gra\u00e7as, principalmente, \u00e0 a\u00e7\u00e3o do padre Roque Gonzalez, foram formadas entre os rios Uruguai e Paran\u00e1 somente umas poucas redu\u00e7\u00f5es:\u00a0<\/strong>Encarnaci\u00f3n ou Itapua, que, pelos mapas dispon\u00edveis, se situaria na margem esquerda do rio Paran\u00e1, mais ou menos onde atualmente est\u00e1 a cidade argentina de Posadas.\n\nDo outro lado do rio, em territ\u00f3rio paraguaio, existe hoje a cidade de Encarnaci\u00f3n, onde, numa fase posterior, se formou outra redu\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de Encarnaci\u00f3n fundou-se ainda Corpus Christi, que, pelos mapas dispon\u00edveis, estaria no lado paraguaio e n\u00e3o \u00e0 margem esquerda do rio Paran\u00e1 (em territ\u00f3rio argentino), onde no momento se encontra a cidade de Corpus, local a que foi transferida a redu\u00e7\u00e3o numa fase posterior.\n\nJ\u00e1 na margem direita do rio Uruguai, em atual territ\u00f3rio argentino, surgiram, ainda na primeira fase das redu\u00e7\u00f5es, os aldeamentos de Concepci\u00f3n (pr\u00f3ximo a San Javier) e Yapeyu (ou Los Reys, na foz do rio Ibicu\u00ed), onde ainda existem localidades com esses nomes.\n\nAs redu\u00e7\u00f5es fundadas no Rio Grande do Sul\n\nNo territ\u00f3rio do atual Rio Grande do Sul foram fundadas, entre 1626 e 1634, dezoito redu\u00e7\u00f5es, sendo a primeira delas a de S\u00e3o Nicolau, em 1626, seguindo-se, ainda na \u00e1rea de influ\u00eancia do rio Uruguai, \u00e0s margens dos rios Iju\u00ed e Piratini, as de S\u00e3o Francisco Xavier, Candel\u00e1ria do Piratini, Todos os Santos do Car\u00f3 ou M\u00e1rtires, Assun\u00e7\u00e3o do Iju\u00ed, Ap\u00f3stolos e S\u00e3o Carlos do Caapi.\n\nNo Tape propriamente dito, na \u00e1rea de influ\u00eancia dos rios Ibicu\u00ed e Jacu\u00ed, foram fundadas, \u00e0 margem do Ibicu\u00ed e afluentes, as redu\u00e7\u00f5es de Candel\u00e1ria do Ibicu\u00ed, S\u00e3o Tom\u00e9, S\u00e3o Jos\u00e9, S\u00e3o Miguel (que n\u00e3o \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Miguel das Miss\u00f5es, da qual ainda existem ru\u00ednas, no atual munic\u00edpio de S\u00e3o Miguel das Miss\u00f5es, pr\u00f3ximo a Santo Angelo, e que \u00e9 da segunda fase da expans\u00e3o das Miss\u00f5es no Estado); e S\u00e3o Cosme e S\u00e3o Dami\u00e3o.\n\n\u00c0s margens do Jacu\u00ed e afluentes, foram fundadas Santa Teresa (a mais setentrional), pr\u00f3ximo \u00e0 atual cidade de Passo Fundo), S\u00e3o Joaquim (mais ou menos pr\u00f3xima ao atual munic\u00edpio de Barros Cassal), Sant\u2019Ana, Jesus Maria e S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o \u2013 na \u00e1rea compreendida entre os atuais munic\u00edpios de Santa Maria, Santa Cruz do Sul e Cachoeira do Sul -, sendo a de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o a \u00faltima a ser fundada, e tamb\u00e9m a mais avan\u00e7ada para leste, a menos de 200 quil\u00f4metros da atual Porto Alegre.\n\nQuase todas as redu\u00e7\u00f5es do Tape repetem nomes que j\u00e1 haviam sido dados a redu\u00e7\u00f5es no Guair\u00e1, mas essa n\u00e3o \u00e9 somente uma coincid\u00eancia.\n\nQuase todas foram destru\u00eddas por bandeirantes nos anos seguintes e os \u00edndios sobreviventes deslocaram-se para novos lugares, concentrando-se especialmente entre os rios Uruguai e Paran\u00e1, em territ\u00f3rio argentino, onde poderiam proteger-se melhor e estariam mais bem garantidos pela Coroa espanhola. Com isso iniciou-se a segunda fase dos aldeamentos, a mais pr\u00f3spera economicamente, e da qual existem ainda algumas ru\u00ednas.\n\nOs \u00faltimos vest\u00edgios da primeira fase talvez possam ser encontrados apenas na cidade paranaense de Santo In\u00e1cio, ao Norte de Maring\u00e1. Nos outros locais foi tudo destru\u00eddo e, possivelmente, para as popula\u00e7\u00f5es dos munic\u00edpios onde antigamente se situaram as redu\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 uma novidade a informa\u00e7\u00e3o de sua inclus\u00e3o, no passado, em \u00e1reas da chamada Rep\u00fablica Guarani.\n\n<strong>O in\u00edcio do ataque dos bandeirantes<\/strong>\n\nA forma\u00e7\u00e3o das redu\u00e7\u00f5es n\u00e3o livrou os \u00edndios dos ataques dos chamados \u201cencomenderos\u201d que, no lado espanhol, procuravam aprision\u00e1-los para refor\u00e7ar os contingentes de escravos, especialmente de Buenos Aires e Assun\u00e7\u00e3o. E ainda atraiu os bandeirantes, que, procedentes de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m procuravam escravos para trabalhos no campo e nas cidades. Atacadas por todos os lados, as redu\u00e7\u00f5es n\u00e3o resistiriam muitos anos em sua primeira fase, tendo que alterar a sua geografia.\n\nOs \u00edndios n\u00e3o eram \u201cbons\u201d escravos. Historiadores da \u00e9poca calculavam que, de cada cem aprisionados, n\u00e3o mais do que um era de alguma utilidade.\n\nA maior parte morria no caminho entre as miss\u00f5es destru\u00eddas e S\u00e3o Paulo. Outra parte expressiva n\u00e3o resistia a pestes e doen\u00e7as e, dos sobreviventes aos primeiros tempos do cativeiro, poucos se prestavam a algum servi\u00e7o.\n\n<strong>Para n\u00e3o se tornarem escravos, recorriam, \u00e0s vezes, a gestos desesperados, como o verificado nos arredores de Buenos Aires, na primeira metade do s\u00e9culo XVI:<\/strong>\u00a0um grupo de guerreiros refugiado numa fortaleza, matou com as pr\u00f3prias m\u00e3os esposas e filhos, lan\u00e7ando-se depois para a morte, do alto de alguns rochedos.\n\nComo os ataques se intensificaram depois dos primeiros agrupamentos em redu\u00e7\u00f5es, os pr\u00f3prios jesu\u00edtas, em determinada \u00e9poca, passaram a ser vistos pelos \u00edndios com muita desconfian\u00e7a.\n\n<strong>Mas a hist\u00f3ria registra um epis\u00f3dio que eliminou completamente essas suspeitas:<\/strong>\u00a0depois da destrui\u00e7\u00e3o, em 1630, das redu\u00e7\u00f5es de Santo Ant\u00f4nio, S\u00e3o Miguel e S\u00e3o Francisco Xavier \u2013 todas elas na ent\u00e3o Prov\u00edncia do Guair\u00e1, atual Estado do Paran\u00e1 -, os padres Sim\u00e3o Maseta e Justo Marsilha decidiram acompanhar a caminhada de cerca de 15 mil \u00edndios que eram levados como escravos para S\u00e3o Paulo, procurando obter sua liberta\u00e7\u00e3o e socorrendo os necessitados.\n\nSalvaram apenas alguns, que devolveram \u00e0s redu\u00e7\u00f5es, mas prosseguiram a caminhada. Nos contatos que fizeram em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o conseguiram libert\u00e1-los; no Rio, quando o governador e capit\u00e3o-geral do Brasil mandou que fosse feita \u201cimediata justi\u00e7a\u201d, os \u00edndios j\u00e1 haviam sido vendidos. Procuraram ainda o governador-geral, na Bahia, mas tamb\u00e9m sem sucesso.\n\nDe volta \u00e0s miss\u00f5es, o problema cresceu.\n\nOs ataques de bandeirantes \u00e0s redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas no Guair\u00e1 \u2013 ou seja, em territ\u00f3rio do atual Paran\u00e1 \u2013 come\u00e7aram em 1618, apenas seis anos ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o dos primeiros povoamentos. A partir de 1628, no entanto, os ataques passaram a ser feitos por verdadeiros ex\u00e9rcitos, devastando-se primeiramente a redu\u00e7\u00e3o de Encarnaci\u00f3n (uma das mais pr\u00f3ximas S\u00e3o Paulo, mais ou menos onde se localiza a atual cidade de Tel\u00eamaco Borba, na regi\u00e3o central do Paran\u00e1), seguindo-se as demais.\n\nComo consequ\u00eancia dos ataques, dos cerca de cem mil \u00edndios que estavam reduzidos n\u00e3o restaram mais do que 12 mil, concentrados principalmente nas redu\u00e7\u00f5es de San Ign\u00e1cio Mini e Nossa Senhora de Loreto \u2013 que n\u00e3o chegaram a ser atacadas -, as mais afastadas. Com a ru\u00edna das miss\u00f5es, tamb\u00e9m as povoa\u00e7\u00f5es espanholas de Vila Rica e Ciudad Real n\u00e3o resistiram aos ataques e foram devastadas, passando todo o territ\u00f3rio paranaense ao controle da Coroa portuguesa. Vila Rica foi refundada pr\u00f3ximo a Assun\u00e7\u00e3o, onde ainda permanece.\n\n<strong>A epop\u00e9ia, Paran\u00e1 abaixo<\/strong>\n\nPara salvar o que restava dos \u00edndios, os jesu\u00edtas, sob o comando do padre Ant\u00f4nio Ruiz de Montoya, realizaram, em 1631, uma das mais dram\u00e1ticas e extraordin\u00e1rias fugas, para levar os mais de 12 mil sobreviventes das miss\u00f5es, no atual Paran\u00e1, para terras da atual Argentina.\n\nEles foram transportados inicialmente por cerca de 700 canoas, que, no entanto, n\u00e3o puderam transpor as quedas (inundadas para a forma\u00e7\u00e3o do lago da hidrel\u00e9trica de Itaipu) existentes no rio Paran\u00e1, na atual cidade de Gua\u00edra.\n\n<strong>Com a aproxima\u00e7\u00e3o dos bandeirantes, as canoas foram lan\u00e7adas nas quedas, e os \u00edndios seguiram a p\u00e9, dividindo-se em dois grupos:<\/strong>\u00a0o mais numeroso foi para as redu\u00e7\u00f5es de Santa Maria a Maior e Natividad, \u00e0s margens do Igua\u00e7\u00fa, pr\u00f3ximo \u00e0 atual cidade de Foz do Igua\u00e7\u00fa, aumentando a mis\u00e9ria que j\u00e1 existia por ali.\n\nO outro seguiu para a atual Argentina, reconstruindo as redu\u00e7\u00f5es de Loreto e San Ign\u00e1cio Mini \u00e0s margens do rio Jubaburu, depois de andarem entre 1.500 e dois mil quil\u00f4metros.\n\nOs \u00edndios que ficaram em Natividad e Santa Maria a Maior tamb\u00e9m tiveram que migrar pouco tempo depois, deslocando-se para as margens do rio Uruguai, em retirada menos dram\u00e1tica que a anterior, mas tamb\u00e9m muito dif\u00edcil, formando uma nova redu\u00e7\u00e3o de Santa Maria, no atual territ\u00f3rio argentino, pr\u00f3ximo a San Javier.\n\n<strong>A causa da migra\u00e7\u00e3o foi a mesma:<\/strong>\u00a0ataques dos bandeirantes.\n\nMuito bem sucedidas em seus primeiros ataques aos \u00edndios, as bandeiras continuaram rumando para o Sul. Em territ\u00f3rio do atual Rio Grande do Sul \u2013 nas antigamente conhecidas prov\u00edncias da margem esquerda do Uruguai e do Tape -, os ataques dos bandeirantes come\u00e7aram em 1636, quando foi tomada e totalmente destru\u00edda a redu\u00e7\u00e3o de Jesus Maria, a mais avan\u00e7ada para Leste, contendo o projeto dos jesu\u00edtas de ligar a Prov\u00edncia do Uruguai ao litoral.\n\nO padre Crist\u00f3v\u00e3o de Mendoza, que tamb\u00e9m havia participado da organiza\u00e7\u00e3o dos \u00edndios no Guair\u00e1, e da dram\u00e1tica fuga para a atual Argentina, encontrava-se nessa \u00e9poca no Tape e tentou organizar uma resist\u00eancia em Jesus Maria, mas foi morto e trucidado perto da atual cidade de Caxias do Sul pelos \u00edndios ibianguaras, da tribo dos ibirajaras, que dominavam a chamada Prov\u00edncia dos Ibia\u00e7as.\n\nPor nova coincid\u00eancia, Raposo Tavares, comandante das bandeiras que destru\u00edram as redu\u00e7\u00f5es no Guair\u00e1, tamb\u00e9m estava \u00e0 frente da bandeira que destruiu Jesus Maria, onde foi instalado uma esp\u00e9cie de quartel-general dos bandeirantes, do qual se comandou a destrui\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, S\u00e3o Joaquim, Sant\u2019Ana; e, pela bandeira de Andr\u00e9 Fernandes, as redu\u00e7\u00f5es de Santa Teresa, Ap\u00f3stolos, S\u00e3o Carlos e Candel\u00e1ria, embora os jesu\u00edtas tivessem amea\u00e7ado e depois concretizado a excomunh\u00e3o de todos os os envolvidos nos ataques.\n\n<strong>Destrui\u00e7\u00e3o completa no Tape<\/strong>\n\nPraticamente todas as redu\u00e7\u00f5es do Tape foram destru\u00eddas entre 1636 e 1639, quando os ind\u00edgenas conseguiram organizar-se melhor e terminar por derrotar os bandeirantes.\n\nAntes, por\u00e9m, transferiram-se maci\u00e7amente para o atual territ\u00f3rio argentino, formando novas redu\u00e7\u00f5es, algumas vezes com o mesmo nome, das quais ainda podem ser vistos vest\u00edgios no quadril\u00e1tero entre San Javier, Ap\u00f3stoles, Posadas e San Ign\u00e1cio Mini, entre os rios Uruguai e Paran\u00e1, localiza\u00e7\u00e3o que os jesu\u00edtas consideravam mais segura e f\u00e1cil de proteger dos ataques vindos de S\u00e3o Paulo.\n\nOs povos das redu\u00e7\u00f5es do Tape come\u00e7aram a cruzar o rio Uruguai em 1637, formando, do lado argentino, as redu\u00e7\u00f5es de Ap\u00f3stolos, Candel\u00e1ria, S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Carlos, S\u00e3o Jos\u00e9, S\u00e3o Miguel, Sant\u2019Ana, S\u00e3o Tom\u00e9, La Cruz (ou Santa Cruz) e Santos M\u00e1rtires do Jap\u00e3o.\n\nA grande desvantagem dos \u00edndios nos enfrentamentos com os bandeirantes era a falta de armas. Em 1639, no entanto, o padre Antonio Ruiz de Montoya resolveu solicitar, diretamente de Madri, autoriza\u00e7\u00e3o para armar os \u00edndios, que foi conseguida ao mostrar que a pr\u00f3pria Coroa espanhola vinha sendo prejudicada com o que acontecia, na medida em que perdia terras para a Coroa portuguesa.\n\nArmando um primeiro contingente, os jesu\u00edtas conseguiram, ainda no mesmo ano, reverter a situa\u00e7\u00e3o, e venceram a terceira bandeira enviada contra as redu\u00e7\u00f5es do Tape, comandada por Fern\u00e3o Dias Paes.\n\nA resist\u00eancia ind\u00edgena foi dirigida por Nicolau Nhenguir\u00fa, nome dado, em diversas gera\u00e7\u00f5es, a alguns dos mais bravos caciques da Rep\u00fablica Guarani. A primeira batalha vencida por eles ocorreu em Caa\u00e7apagua\u00e7u.\n\nA segunda, mais importante, foi em Mboror\u00e9, depois da qual as redu\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram mais perturbadas por cerca de cem anos.\n\n<strong>As redu\u00e7\u00f5es fundadas no atual Paraguai<\/strong>\n\nOe<strong>\u00a0jesu\u00edtas<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m procuraram formar algumas redu\u00e7\u00f5es no Norte do atual Paraguai, pr\u00f3ximo \u00e0s regi\u00f5es do Chaco e Pantanal, ao mesmo tempo que realizaram a expans\u00e3o rumo a Guair\u00e1 e Tape, sofrendo a resist\u00eancia de \u201cencomenderos\u201d, que dificultaram a implanta\u00e7\u00e3o do primeiro aldeamento em Guarambar\u00e9.\n\nContinuaram os esfor\u00e7os nos anos seguintes e, quando, em 1633, estavam prestes a formar quatro redu\u00e7\u00f5es na chamada Prov\u00edncia do Itatim, houve o ataque da bandeira de Ascenso Quadros, auxiliada por moradores locais de Santiago de Xerez, descontentes com o abandono do governo de Assun\u00e7\u00e3o. Muitos \u00edndios foram aprisionados, mas os padres conseguiram a liberta\u00e7\u00e3o de um dos principais l\u00edderes e, em 1634, formaram as redu\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora da F\u00e9 e San Ign\u00e1cio de Caagua\u00e7u (diferente de San Ign\u00e1cio Guazu, a primeira a surgir), por sua vez atacada em 1657 pela bandeira de Raposa Tavares, numa incurs\u00e3o que tinha o objetivo de chegar \u00e0 regi\u00e3o amaz\u00f4nica passando pelo Peru. Foi novamente grande o n\u00famero de \u00edndios aprisionados e outros fugiram, agraupando-se nas redu\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas daquelas.\n\nSem o apoio do governo de Assun\u00e7\u00e3o, que retirou os jesu\u00edtas do comando dessas redu\u00e7\u00f5es, colocando em seus lugares padres seculares, praticamente desapareceram os aldeamentos do Itatim, cujas redu\u00e7\u00f5es somente ressurgiram em 1669, mas mais ao Sul, pr\u00f3ximo a San Ign\u00e1cio Guazu, com os nomes de Santa Maria da F\u00e9 e Santiago.\n\nAinda em territ\u00f3rio do atual Paraguai foram constitu\u00eddas por volta de 1637 as redu\u00e7\u00f5es de La Sant\u00edssima Trinidad e San Cosme y San Damian, com ind\u00edgenas oriundos das redu\u00e7\u00f5es do Tape, no atual Rio Grande do Sul.\n\nEm 1685 foi fundada a redu\u00e7\u00e3o de Jesus, mudada de local quatro vezes; e, em 1698, a de Santa Rosa de Lima, com \u00edndios que se separaram de Santa Maria da F\u00e9.\n\nAnos antes, a redu\u00e7\u00e3o de Encarnaci\u00f3n, Itapua ou Nuestra Se\u00f1ora de la Encarnaci\u00f3n de Itapua, que originalmente se situou na margem direita do rio Paran\u00e1, no atual territ\u00f3rio argentino, se mudou para a margem esquerda, no atual territ\u00f3rio paraguaio, ficando assim completado o leque das oito redu\u00e7\u00f5es que se fixaram no Paraguai, com as quais se deu entrada, em \u00e1reas do atual pa\u00eds do Paraguai, \u00e0 segunda fase das redu\u00e7\u00f5es, mais calma e prolongada. Foi ainda nesse per\u00edodo que a redu\u00e7\u00e3o de Corpus passou de um lado ao outro do rio Paran\u00e1, deixando o atual Paraguai e se instalando na atual Argentina.\n\nOs ataques dos bandeirantes, todavia, j\u00e1 haviam feito grande devasta\u00e7\u00e3o em toda a \u00e1rea \u2013 destru\u00edram pelo menos 30 redu\u00e7\u00f5es no Guair\u00e1, Tape, Uruguai e Itatim, escravizando ou matando, at\u00e9 1650, pelo menos 300 mil \u00edndios, segundo c\u00e1lculos oficiais citados nos editos do rei espanhol Felipe V, em 1639 e 1668. A partir desse grande rombo \u00e9 que se construiu a segunda fase, n\u00e3o t\u00e3o preocupada com expans\u00e3o, concentrando-se mais na consolida\u00e7\u00e3o e fortifica\u00e7\u00e3o dos lugares conquistados.\n\n<strong>Come\u00e7a a Terceira Fase das Miss\u00f5es<\/strong>\n\nCom a derrota dos bandeirantes em Mboror\u00e9 e o per\u00edodo de calma que se sucedeu, a Rep\u00fablica Guarani passou a ganhar nova geografia, com parte dos povos que se situaram no atual territ\u00f3rio argentino (margem esquerda do rio Uruguai) voltando \u00e0s terras de origem, no lado brasileiro (margem direita).\n\n<strong>Antes desses movimentos, a situa\u00e7\u00e3o era a seguinte:<\/strong>\n<blockquote><strong>GUAIR\u00c1, ATUAL PARAN\u00c1:<\/strong>\u00a0nenhuma redu\u00e7\u00e3o. As que n\u00e3o foram destru\u00eddas, San Ign\u00e1cio Mini e Nossa Senhora de Loreto, ao Norte, e Santa Maria a Maior e Natividad, ao Sul, mudaram-se para territ\u00f3rio argentino.<strong>\nTAPE, ATUAL RIO GRANDE DO SUL:<\/strong>\u00a0nenhuma redu\u00e7\u00e3o. Foram todas destru\u00eddas pelos bandeirantes e os \u00edndios sobreviventes migraram para a margem direita do rio Uruguai, e margens esquerda (Argentina) e direita (Paraguai) do rio Paran\u00e1.<strong>\nMARGEM DIREITA DO RIO PARAN\u00c1, ATUAL PARAGUAI:<\/strong>\u00a0de Assun\u00e7\u00e3o, a capital, no sentido da atual cidade de Encarnaci\u00f3n, foram constitu\u00eddas, ap\u00f3s os diversos movimentos entre a forma\u00e7\u00e3o de San Ign\u00e1cio Guazu, a retirada do Itatim e a transmigra\u00e7\u00e3o do Tape, as seguintes redu\u00e7\u00f5es \u2013 al\u00e9m de San Ign\u00e1cio Guazu, as de Santa Maria de la F\u00e9, Santa Rosa de Lima, Santiago, Jesus, La Sant\u00edssima Trinidad, San Cosme y San Damian e Nuestra Se\u00f1ora de la Encarnaci\u00f3n de la Itapua ou, simplesmente, Encarnaci\u00f3n ou Itapua.<strong>\nENTRE-RIOS (ENTRE OS RIOS URUGUAI E PARAN\u00c1), ATUAL TERRIT\u00d3RIO ARGENTINO:<\/strong>\u00a0al\u00e9m de San Ign\u00e1cio Mini e Nuestra Se\u00f1ora de Loreto, transmigradas do Guair\u00e1 (Paran\u00e1) e Santa Maria la Mayor, transmigrada do Igua\u00e7u, existiam as redu\u00e7\u00f5es de Concepci\u00f3n de Nuestra Se\u00f1ora ou Concepci\u00f3n, San Miguel, Corpus ou Corpus Christi, Candel\u00e1ria, San Javier ou San Francisco Xavier; Santos Apostoles ou Apostoles San Pedro y San Pablo; M\u00e1rtires ou Santos M\u00e1rtires do Jap\u00e3o; La Cruz ou Santa Cruz; San Carlos, San Jos\u00e9, San Thom\u00e9, Yapey\u00fa ou Nuestra Se\u00f1ora de Yapey\u00fa ou Nuestra Se\u00f1ora de los Tr\u00eas Reyes de Yapey\u00fa e Assunci\u00f3n de Nuestra Se\u00f1ora de Mboror\u00e9 ou Assunci\u00f3n.<\/blockquote>\n<strong>Por que surgiram os Sete Povos das Miss\u00f5es<\/strong>\n\nAntes de se mostrar o retorno de parte dos povos ao territ\u00f3rio do atual Rio Grande do Sul, dando origem aos chamados Sete Povos das Miss\u00f5es, \u00e9 importante mostrar algumas das causas e justificativas poss\u00edveis para esse novo grande movimento populacional comandado pelos jesu\u00edtas.\n\nEm todas as redu\u00e7\u00f5es implantadas no Tape e na margem esquerda do Uruguai, havia j\u00e1, quando da transmigra\u00e7\u00e3o, boa infra-estrutura montada, especialmente a forma\u00e7\u00e3o de enormes est\u00e2ncias, que se estendiam at\u00e9 pr\u00f3ximo de Montevid\u00e9u, capital do Uruguai, com a cria\u00e7\u00e3o de milhares de cabe\u00e7as de bovinos e eq\u00fcinos, especialmente bovinos.\n\nO gado foi introduzido no Paraguai por volta de 1555, procedente de S\u00e3o Vicente, no Brasil, no in\u00edcio de sua forma\u00e7\u00e3o.\n\nChegou a ser levado para as redu\u00e7\u00f5es ao Norte do rio Uruguai nos primeiros anos de seu desenvolvimento, mas as primeiras cabe\u00e7as somente foram introduzidas na margem esquerda, ou seja, em atual territ\u00f3rio brasileiro, por volta de 1629, de acordo com a vers\u00e3o dos jesu\u00edtas. Alguns historiadores acreditam que a introdu\u00e7\u00e3o tenha sido feita por Jo\u00e3o de Garay, um dos primeiros governadores do Prata, e ampliada por seu genro Hernando Artas de Saavedra, ou Hernand\u00e1rias, depois governador do Paraguai, mas os jesu\u00edtas desmentem essa vers\u00e3o.\n\nSeja cmo for, os rebanhos cresceram muito. E, procriando nas grandes est\u00e2ncias das redu\u00e7\u00f5es que, efetivamente, se aproximavam de Montevid\u00e9u, proliferaram tranq\u00fcilamente ap\u00f3s a transmigra\u00e7\u00e3o para a margem direita do rio Uruguai. Mesmo depois da transmigra\u00e7\u00e3o, os jesu\u00edtas continuaram enviando reprodutores para as est\u00e2ncias das antigas redu\u00e7\u00f5es, proibindo que os \u00edndios vaqueassem nessas \u00e1reas, para que pudesse aumentar a reprodu\u00e7\u00e3o. Somente a partir de 1677 os jesu\u00edtas permitiram que os \u00edndios das redu\u00e7\u00f5es da margem direita do Uruguai come\u00e7assem a se abastecer com o gado da outra margem, nas pradarias do atual Rio Grande do Sul.\n\nApenas os \u00edndios e jesu\u00edtas conheciam o potencial das chamadas vacarias, mas logo o segredo foi descoberto.\n\nEm 1680 Portugal fundou a Col\u00f4nia de Sacramento, no atual Uruguai, defronte a Buenos Aires, criando um territ\u00f3rio totalmente isolado de sua Col\u00f4nia do Brasil, visto que o atual Rio Grande do Sul era \u00e1rea da Coroa espanhola.\n\nConcretizada a funda\u00e7\u00e3o, a fortifica\u00e7\u00e3o dos portugueses foi cercada por tropas espanholas enviadas de Buenos Aires, que ficaram ali por longo tempo, at\u00e9 receberem a ordem de ataque, afinal determinado e bem-sucedido.\n\n<strong>Durante o cerco, no entanto, as tropas de Buenos Aires tiveram contato com o enorme potencial bovino da regi\u00e3o, ao descobrirem como os portugueses atendiam em parte suas necessidades alimentares:<\/strong>\u00a0eles compravam gado dos \u00edndios charruas (inimigos do grupo guarani), que conseguiam burlar o cerco da parte oponente.\n\nNos anos seguintes houve grande press\u00e3o para explora\u00e7\u00e3o do potencial bovino da regi\u00e3o e, em 1716, os jesu\u00edtas tiveram que come\u00e7ar a dar concess\u00f5es a espanh\u00f3is, para captura de seus rebanhos.\n\nGra\u00e7as a isso, Montevid\u00e9u, Buenos Aires, Santa F\u00e9 e outras povoa\u00e7\u00f5es j\u00e1 eram abastecidas com o gado das vacarias das redu\u00e7\u00f5es nos anos que se seguiram, e at\u00e9 os portugueses da Col\u00f4nia de Sacramento, auxiliados por tribos de \u00edndios minuanos, se dedicaram \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e passaram a exportar, inclusive para a Europa, graxas obtidas a partir do gado capturado.\n\nA Col\u00f4nia de Sacramento mudou de m\u00e3os diversas vezes. Depois de ser tomada pelos espanh\u00f3is, voltou a ser devolvida aos portugueses em 1683, devido ao interesse das duas coroas em evitar uma guerra de maiores propor\u00e7\u00f5es.\n\nQuase ao mesmo tempo, como conta Alfeu Nilson Mallmann, em seu livro \u201cRetrato sem Retoque das Miss\u00f5es Guaranis\u201d, houve \u201ca decis\u00e3o dos jesu\u00edtas de novamente ocuparem as terras da margem esquerda do Uruguai, numa aparente atitude de se contrapor \u00e0 perman\u00eancia daquele enclave portugu\u00eas no Prata (a Col\u00f4nia de Sacramento) e que tornava clara a pol\u00edtica de Portugal em querer ocupar todo o litoral atl\u00e2ntico at\u00e9 o estu\u00e1rio\u201d. Ele mesmo levanta a possibilidade de que as autoridades espanholas podem ter for\u00e7ado os jesu\u00edtas a adotar essa atitude, de forma a que os \u00edndios missioneiros fossem um obst\u00e1culo ao avan\u00e7o portugu\u00eas.\n\nAtendendo ou n\u00e3o ao pedido da Coroa Espanhola, ou simplesmente retornando \u00e0s terras que julgavam de suas redu\u00e7\u00f5es e foram abandonadas depois dos ataques dos bandeirantes, os jesu\u00edtas comandaram o retorno \u00e0 margem esquerda do rio Uruguai (Rio Grande do Sul) de parte dos povos transmigrados, em 1687.\n\nNesse ano fundaram a redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco de Borja, atual cidade de S\u00e3o Borja, com \u00edndios oriundos da redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Tom\u00e9, do outro lado do rio, fundando, ainda no mesmo ano, as redu\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Nicolau, S\u00e3o Luiz Gonzaga e S\u00e3o Miguel, com \u00edndios oriundos de Ap\u00f3stoles, Concei\u00e7\u00e3o e S\u00e3o Miguel, na margem direita.\n\nS\u00e3o Miguel foi a \u00fanica que transmigrou totalmente, ocupando, no entanto, \u00e1rea diferente daquela onde se situam as ru\u00ednas de S\u00e3o Miguel, as quais ainda podem ser visitadas.\n\nEstabeleceu-se inicialmente nas margens do rio Jaguari, mas ainda antes de 1690 foi para sua \u00faltima localiza\u00e7\u00e3o, em raz\u00e3o de uma \u201cpraga de tigres\u201d. Em 1690 parte da redu\u00e7\u00e3o de Santa Maria la Mayor, na margem direita, forma na margem esquerda S\u00e3o Louren\u00e7o M\u00e1rtir; em 1697, parte de S\u00e3o Miguel, que j\u00e1 estava superpovoada na margem esquerda, forma S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista; e, em 1706, parte dos \u00edndios de Concepci\u00f3n forma Santo \u00c2ngelo Cust\u00f3dio (atual cidade de Santo Angelo).\n\n<strong>S\u00e3o esses os chamados Sete Povos das Miss\u00f5es, no lado brasileiro:<\/strong>\u00a0S\u00e3o Francisco de Borja, S\u00e3o Luiz Gonzaga, S\u00e3o Nicolau, S\u00e3o Miguel, S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista, S\u00e3o Louren\u00e7o M\u00e1rtir e Santo \u00c2ngelo Cust\u00f3dio.\n\nEm meados do s\u00e9culo XVIII ainda foram formadas mais tr\u00eas redu\u00e7\u00f5es ao Norte de Assun\u00e7\u00e3o, no Paraguai, completando o mapa da Rep\u00fablica Guarani numa terceira e derradeira fase.\n\nEssas redu\u00e7\u00f5es, de acordo com os objetivos dos jesu\u00edtas, deveriam servir de apoio para a liga\u00e7\u00e3o com a chamada Rep\u00fablica dos Chiquitos, no Peru, e existem muito poucas informa\u00e7\u00f5es sobre elas. Tratam-se das redu\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Joaquim, Santo Estinislau e Bel\u00e9m, fundadas, respectivamente, em 1746, 1749 e 1760.\n\n<strong>Completadas as implanta\u00e7\u00f5es dessas redu\u00e7\u00f5es, o mapa da Rep\u00fablica Guarani em sua terceira fase era o seguinte, em meados do s\u00e9culo XVIII:<\/strong>\n<blockquote><strong>NO ATUAL PARAGUAI, AO NORTE:<\/strong>\u00a0Bel\u00e9m, S\u00e3o Estanislau e S\u00e3o Joaquim; ao Sul, Santa Maria da F\u00e9, Santa Rosa, San Ign\u00e1cio Guazu, Santiago, S\u00e3o Cosme, Jesus, Trinidad e Encarnaci\u00f3n ou Itapua.\n<strong>NA ATUAL ARGENTINA:\u00a0<\/strong>Corpus, San Ign\u00e1cio Mini, Loreto, Sant\u2019Ana, Candel\u00e1ria, S\u00e3o Carlos, S\u00e3o Jos\u00e9, Ap\u00f3stoles, Concepci\u00f3n, Assunci\u00f3n, Santa Maria, San Javier, M\u00e1rtires, S\u00e3o Tom\u00e9, La Cruz e Yapey\u00fa.<strong>\nNO ATUAL RIO GRANDE DO SUL:<\/strong>\u00a0S\u00e3o Nicolau, S\u00e3o Luiz Gonzaga, S\u00e3o Louren\u00e7o, S\u00e3o Borja, S\u00e3o Miguel, S\u00e3o Jo\u00e3o e Santo \u00c2ngelo.<\/blockquote>\n<strong>A vasta \u00e1rea da Rep\u00fablica Guarani<\/strong>\n\nCada redu\u00e7\u00e3o tinha as suas est\u00e2ncias, onde havia planta\u00e7\u00f5es e se criava gado, o que ampliava consideravelmente a \u00e1rea sob seu controle. Para que se tenha uma id\u00e9ia dessa vastid\u00e3o, as redu\u00e7\u00f5es mais ao sul, em territ\u00f3rio do Rio Grande do Sul \u2013 S\u00e3o Borja e S\u00e3o Miguel -, se encontravam perto do paralelo 29, mas suas est\u00e2ncias entravam em territ\u00f3rio do atual Uruguai, at\u00e9 os limites do rio Negro, na altura do paralelo 32.\n\nA est\u00e2ncia da redu\u00e7\u00e3o de Yapey\u00fa \u2013 a mais meridional, em territ\u00f3rio argentino \u2013 passava um pouco da atual cidade de Paysandu, al\u00e9m do paralelo 32.\n\nA Rep\u00fablica Guarani estendia-se, assim, do Norte do Paraguai, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com o Mato Grosso do Sul, no Brasil, at\u00e9 o meio do territ\u00f3rio uruguaio, enquanto, de Leste a Oeste, ia da bacia do Jacu\u00ed, no centro do Rio Grande do Sul, at\u00e9 o Norte da Argentina. Essa era uma \u00e1rea de cerca de 400 mil quil\u00f4metros quadrados, tendo sido, no entanto, bem maior, quando, com as redu\u00e7\u00f5es do Guair\u00e1, na primeira fase, ainda abrangia praticamente quase todo o territ\u00f3rio paranaense.\n\nNo extremo meridional, a \u00e1rea da Rep\u00fablica Guarani se aproximava da Col\u00f4nia de Sacramento, uma esp\u00e9cie de cabe\u00e7a-de-ponte colocada por Portugal no Prata, o que acabou tumultuando as rela\u00e7\u00f5es de nossa antiga metr\u00f3pole com a Espanha.\n\nDesde o in\u00edcio as for\u00e7as espanholas utilizaram ex\u00e9rcitos guaranis para derrotar e expulsar, por diversas vezes, os portugueses, e isso acabou levando as duas coroas a responsabilizarem os jesu\u00edtas, que terminaram sendo expulsos dos dois imp\u00e9rios.\n\nCom isso, decretou-se o fim da Rep\u00fablica Guarani, que ainda agonizou por algumas dezenas de anos, sendo completamente desmantelada j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, e quase todos os seus \u00edndios exterminados.\n\nNo final do s\u00e9culo XVIII, a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena das redu\u00e7\u00f5es se aproximava de 600 mil pessoas. Depois da guerra guarani, em 1768, os c\u00e1lculos oficiais indicavam menos de 300 mil. Em 1801, a popula\u00e7\u00e3o oficial era de 42.885 \u00edndios.\n\nSomente no lado brasileiro, havia 30 a 40 mil \u00edndios quando do Tratado de Limites e, em 1827, n\u00e3o mais do que 1.874.\n\n<strong>O Tratado de Limites e o desmantelamento das Miss\u00f5es<\/strong>\n\nA tumultuada Col\u00f4nia de Sacramento, fundada por tropas portuguesas em 1680, tomada e devolvida em 1681 por for\u00e7as espanholas, voltou a ser atacada a partir de Buenos Aires em 1703, depois da deflagra\u00e7\u00e3o da guerra entre Espanha e Portugal.\n\nComo em todos os demais epis\u00f3dios militares do Prata desde meados do s\u00e9culo anterior, os \u00edndios missioneiros tiveram papel decisivo, lutando sempre ao lado das for\u00e7as espanholas, visto que deviam obedi\u00eancia e, inclusive, pagavam tributos \u00e0 Coroa de Espanha.\n\nTendo cercado completamente a Col\u00f4nia durante quatro meses, os espanh\u00f3is e guaranis receberam-na, sem luta, em mar\u00e7o de 1705.\n\n<strong>Mas, em 1716, foi novamente devolvida, e sem um encerramento dos incidentes:<\/strong>\u00a0por ordem do governo de Buenos Aires, os \u00edndios missioneiros atacaram a Col\u00f4nia nos anos seguintes e em 1735 voltaram a cerc\u00e1-la, tomando-a dos portugueses e procurando, nesse meio tempo, impedir que estes tamb\u00e9m colonizassem Montevid\u00e9u.\n\nOs \u00edndios missioneiros n\u00e3o s\u00f3 impediram a aproxima\u00e7\u00e3o dos portugueses da atual capital uruguaia como ajudaram a construir a cidade para a instala\u00e7\u00e3o de casais oriundos das Ilhas Can\u00e1rias. N\u00e3o puderam impedir, no entanto, que os portugueses se fortificassem na cidade de Rio Grande e, a partir da coloniza\u00e7\u00e3o de casais a\u00e7orianos, passassem a ocupar todo o atual litoral ga\u00facho.\n\nA maior amea\u00e7a contra a Rep\u00fablica Guarani, por\u00e9m, ainda seria a Col\u00f4nia de Sacramento.\n\nEm 1750 uma filha do rei da Espanha casou com um filho do rei de Portugal, uni\u00e3o suficiente para colocar um fim \u00e0s hostilidades entre os dois pa\u00edses.\n\n<strong>Antes mesmo da concretiza\u00e7\u00e3o do casamento, a celebra\u00e7\u00e3o do chamado Tratado de Madri, em janeiro de 1750, assegurava a paz com uma troca que colocaria abaixo a rep\u00fablica dos \u00edndios:<\/strong>\u00a0a Espanha ficaria com a Col\u00f4nia do Sant\u00edssimo Sacramento, uma pequena \u00e1rea de terras com uma fortaleza e modesta povoa\u00e7\u00e3o, e dava em troca os chamados Sete Povos das Miss\u00f5es, no atual Rio Grande do Sul, compreendendo sete cidades, algumas com ind\u00fastrias primitivas formadas pelos jesu\u00edtas e \u00edndios.\n\n<strong>Migra\u00e7\u00e3o e guerra<\/strong>\n\nO ponto mais importante do Tratado foi o que obrigou jesu\u00edtas e \u00edndios a abandonarem suas povoa\u00e7\u00f5es e, mais uma vez, cruzarem o rio Uruguai para se instalar novamente no lado da atual Argentina, podendo levar pertences, gado e o que conseguissem carregar.\n\nNem os jesu\u00edtas nem os povos das redu\u00e7\u00f5es foram consultados, mas Portugal e Espanha n\u00e3o queriam esperar muito para concretizar a troca e, de imediato, nomearam comiss\u00f5es para iniciar a demarca\u00e7\u00e3o de limites.\n\nAlguns dos povos das miss\u00f5es chegaram a deslocar-se para territ\u00f3rio argentino, de onde foram repelidos por \u00edndios charruas. Nesse meio tempo, a redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Nicolau rebelou-se, as outras terminaram por segui-la e os \u00edndios, j\u00e1 ent\u00e3o muito desconfiados com os jesu\u00edtas, decidiram assumir a responsabilidade pelo ataque contra as tropas portuguesas e espanholas.\n\nO primeiro confronto ocorreu em territ\u00f3rio do atual Uruguai, pouco depois da atual localidade de Chu\u00ed. Em 1753, no entanto, os comiss\u00e1rios portugu\u00eas e espanhol decidiram unir seus ex\u00e9rcitos para enfrentar os \u00edndios, deflagrando-se a guerra em 1756.\n\nOs \u00edndios enfrentaram os ex\u00e9rcitos portugu\u00eas e espanhol completamente desorganizados, sem um comando \u00fanico, e n\u00e3o conseguiram resistir muito tempo.\n\n<strong>Seu principal l\u00edder, o corregedor e alferes real de S\u00e3o Miguel, capit\u00e3o Jos\u00e9 ou Sep\u00e9 Tiaraj\u00fa, morreu numa das primeiras batalhas e tornou-se um mito, que, no entanto, n\u00e3o deu mais sorte a seus seguidores:<\/strong>\u00a0utilizando somente lan\u00e7as, arcos e flechas, e umas poucas \u201cbocas de fogo\u201d, eles sucumbiram na batalha de Caibat\u00e9 ante o poderio dos ex\u00e9rcitos das coroas, armados com in\u00fameros canh\u00f5es.\n\nSeguiu-se a ocupa\u00e7\u00e3o dos povos das miss\u00f5es, que os \u00edndios, ao abandonar, procuravam destruir, colocando fogo em tudo. Vitoriosos, portugueses e espanh\u00f3is \u00e9 que comandaram a transmigra\u00e7\u00e3o dos povos para o outro lado do rio Uruguai, mas, ent\u00e3o, confiscando quase todos os seus pertences.\n\n<strong>A expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas<\/strong>\n\nJ\u00e1 estavam os Sete Povos quase todos devastados, boa parte de seus guerreiros mortos e mulheres e crian\u00e7as transmigradas, quando, em 1761, Portugal e Espanha decidiram anular o Tratado de Madri, fazendo cessar todas as provid\u00eancias para sua implementa\u00e7\u00e3o.\n\nPuderam, ent\u00e3o, \u00edndios e jesu\u00edtas voltar a cruzar o rio Uruguai, retornando aos Sete Povos, que ficaram, todavia, somente com metade de sua popula\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Come\u00e7avam a reconstru\u00ed-los, nos mesmos lugares onde os haviam assentado, quando \u00e9 dado o golpe derradeiro na Rep\u00fablica Guarani:<\/strong>\u00a0a expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas.\n\nVeja as raz\u00f5es. Quando eclodiu a chamada Guerra dos Sete anos, a Espanha ficou em posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria a Portugal. Como a Col\u00f4nia de Sacramento havia sido devolvida a Portugal com o fim do Tratado de Madri, o governador do Prata recebeu ordens de atac\u00e1-la, assim que irrompeu o conflito, o que foi feito, novamente, com envolvimento de \u00edndios missioneiros, que mais uma vez deram a vit\u00f3ria \u00e0 Coroa espanhola.\n\nMas Espanha e Portugal voltaram a acertar-se, com Portugal recebendo de volta a Col\u00f4nia de Sacramento, em 1763, e os jesu\u00edtas acabaram sendo responsabilizados pelo \u00faltimo ataque, n\u00e3o obstante o apoio dos \u00edndios tenha sido expressamente solicitado.\n\n<strong>A verdade \u00e9 que a Rep\u00fablica Guarani j\u00e1 indomodava muita gente:<\/strong>\u00a0era apresentada na Europa pelos opositores da Companhia de Jesus como uma \u00e1rea independente, podendo resistir aos melhores ex\u00e9rcitos espanh\u00f3is e portugueses, armada e capaz, inclusive, de tomar as principais cidades da col\u00f4nia. Folhetos ap\u00f3crifos chegavam a fazer men\u00e7\u00e3o a um suposto Nicolau I, rei do Paraguai, referindo-se a um j\u00e1 velho cacique Nicolau Nhenguir\u00fa; e na pr\u00f3pria col\u00f4nia espanhola havia muitas resist\u00eancias contra os \u00edndios, as redu\u00e7\u00f5es e os jesu\u00edtas, pelo fato de terem lutado a favor da Espanha para desmantelar movimentos de emancipa\u00e7\u00e3o, de impedirem a entrada de espanh\u00f3is e colonos nas \u00e1reas das redu\u00e7\u00f5es e, enfim, por terem eliminado a grande fonte de escravos em toda a regi\u00e3o.\n\n<strong>Estrutura urbana e c\u00f3digo penal<\/strong>\n\nEmbora seus ex\u00e9rcitos tenham se envolvido em quase todos os incidentes militares ocorridos no Prata, sempre em defesa da Coroa Espanhola, a Rep\u00fablica Guarani n\u00e3o tinha, entretanto, objetivos militares.\n\nA militariza\u00e7\u00e3o foi uma decorr\u00eancia, primeiro, do ataque dos bandeirantes, e, posteriormente, da pr\u00f3pria solicita\u00e7\u00e3o geralmente do governo de Buenos Aires, uma hora para atacar revoltosos em Assun\u00e7\u00e3o, outra retirar os portugueses da Col\u00f4nia de Sacramento, e, em outras oportunidades, inclusive, para a defesa da pr\u00f3pria Buenos Aires.\n\nAs redu\u00e7\u00f5es geralmente se situavam \u00e0 margem de rios, devido \u00e0 facilidade de comunica\u00e7\u00e3o entre uma e outra, em pontos estrat\u00e9gicos e com solos bons para cultivos. Todas elas obedeciam a um plano b\u00e1sico, e tornaram-se verdadeiras cidades, com ruas em linhas retas, e se expandindo a partir da igreja. Ao lado da igreja geralmente se situava um asilo para velhos, o hospital, cemit\u00e9rio, escola, alojamento dos padres e a casa das vi\u00favas, que moravam juntas.\n\n<strong>Pr\u00f3ximo dali, oficinas para os mais diversos servi\u00e7os e, \u00e0s margens da pra\u00e7a central, defronte \u00e0 igreja, as casas dos \u00edndios:<\/strong>\u00a0de um lado os casados, de outro os solteiros. No in\u00edcio das redu\u00e7\u00f5es, as casas e as demais constru\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram de pedra, mas, no correr do tempo, passou-se a utilizar esse tipo de material, gra\u00e7as ao que as ru\u00ednas puderam chegar aos dias atuais.\n\nCl\u00f3vis Lugon, em seu livro \u201cA Rep\u00fablica Comunista Crist\u00e3 dos Guaranis\u201d, mostra que, embora a coordena\u00e7\u00e3o das redu\u00e7\u00f5es fosse dos jesu\u00edtas, cabia aos \u00edndios a a\u00e7\u00e3o de administra\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de um conselho, eleito em cada redu\u00e7\u00e3o, compreendendo um corregedor, que seria o presidente ou cacique; um comiss\u00e1rio administrativo; dois alcaides que exerciam o papel de \u201cju\u00edzes em mat\u00e9ria criminal\u201d e outros dois como oficiais de pol\u00edcia, entre outros assessores.\n\nPossu\u00edam uma esp\u00e9cie de c\u00f3digo penal, que previa, como pena m\u00e1xima, a pris\u00e3o perp\u00e9tua, depois reduzida para um m\u00e1ximo de dez anos.\n\n<strong>Se, nesse aspecto, o c\u00f3digo era relativamente brando, n\u00e3o o era para crimes de aborto e incesto:<\/strong>\u00a0al\u00e9m de dois meses a ferros, os implicados ainda eram submetidos a tr\u00eas s\u00e9ries de 25 a\u00e7oites, no per\u00edodo.\n\n<strong>O uso do solo era comunit\u00e1rio<\/strong>\n\nAs \u00e1reas de cada redu\u00e7\u00e3o eram demarcadas e, em caso de conflito de limites, a decis\u00e3o cabia a uma junta de tr\u00eas padres ligados a um provincialato diferente daquele onde o problema ocorria.\n\n<strong>Havia dois provinciais:<\/strong>\u00a0um ficava em Candel\u00e1ria, pr\u00f3ximo a San Ign\u00e1cio Mini, na atual Argentina, e o outro em Yapey\u00fa, na costa do rio Uruguai. O solo pertencia \u00e0 comunidade e era indivis\u00edvel.\n\nO mesmo ocorria com a produ\u00e7\u00e3o e todos os bens, que eram fornecidos a cada fam\u00edlia segundo suas necessidades, sistema que sempre funcionou muito bem. Percebia-se, ali\u00e1s, que o \u00edndio necessitava trabalhar em comunidade, situa\u00e7\u00e3o em que sua produtividade era muito melhor. Quando colocado para produzir em pequenas \u00e1reas que eram postas \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, para o atendimento das necessidades da fam\u00edlia, a produtividade n\u00e3o era a mesma.\n\n<strong>Primeiro estado industrial da Am\u00e9rica Latina<\/strong>\n\nTamb\u00e9m as oficinas e meios de transporte eram comunit\u00e1rios. A Rep\u00fablica Guarani foi o primeiro estado industrial da Am\u00e9rica Latina. Na redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista (atual RS) foi forjado o primeiro ferro das Miss\u00f5es, e temperado o a\u00e7o depois utilizado na fabrica\u00e7\u00e3o de sinos para as igrejas.\n\nNas redu\u00e7\u00f5es \u00e0s margens dos rios Uruguai e Paran\u00e1, havia estaleiros para a constru\u00e7\u00e3o dos barcos de transporte. Eram in\u00fameros os teares, moinhos, serrarias e curtumes.\n\nOs trabalhos com ferro acabaram evoluindo para a produ\u00e7\u00e3o de todo o tipo de armas, inclusive canh\u00f5es, para serem utilizados por seus ex\u00e9rcitos.\n\n<strong>Ainda de acordo com Lugon, havia nas redu\u00e7\u00f5es in\u00fameros profissionais, formados a partir da orienta\u00e7\u00e3o dos padres:<\/strong>\u00a0douradores, pintores, escultores, ourives, relojoeiros, serralheiros, carpinteiros, marceneiros, tecel\u00f5es, fundidores, sapateiros, alfaiates, padeiros, a\u00e7ougueiros, toneleiros, torneiros, corruiros, telhadores, violeiros, fabricantes de implementos agr\u00edcolas, ceramistas etc.\n\nO historiador conta que fabricavam rel\u00f3gios, clarinetes, trombetas e outros instrumentos t\u00e3o bem quanto os melhores da Europa e com excelente acabamento.\n\nOs trabalhos dos copistas guaranis chegaram a ser comparados aos melhores produzidos pelos monges da Idade M\u00e9dia, em caligrafia g\u00f3tica perfeita.\n\nEm 1705 foi instalada na redu\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora de Loreto (atual Argentina) uma gr\u00e1fica, cujo primeiro livro foi \u201cTemporal Y Eterno\u201d, de Euz\u00e9bio Nieremberg.\n\nOutras gr\u00e1ficas foram instaladas posteriormente nas redu\u00e7\u00f5es de Candel\u00e1ria, Santa Maria e San Javier, tamb\u00e9m na atual Argentina. Alguns trabalhos lingu\u00edsticos preciosos que foram impressos nas redu\u00e7\u00f5es, ainda podem ser encontrados no Museu Hist\u00f3rico de Buenos Aires.\n\nH\u00e1 informa\u00e7\u00f5es de que na Biblioteca da Universidade de Munich (Alemanha) h\u00e1 um exemplar de uma obra do padre Antonio Sepp sobre o Paraguai, impressa na \u00e9poca. Eram impressas cartas astron\u00f4micas, tendo sido montado em San Cosme y San Damian, inclusive, um observat\u00f3rio; e as redu\u00e7\u00f5es produziram ainda um boletim meteorol\u00f3gico, que chegava a ser utilizado no Peru.\n\n<strong>M\u00fasica como nas catedrais<\/strong>\n\nEm meados do s\u00e9culo XVII foi formada uma escola nacional de m\u00fasica. Existiam, nas redu\u00e7\u00f5es, cerca de tr\u00eas mil m\u00fasicos. Os \u00edndios utilizavam o \u00f3rg\u00e3o, violino, violoncelo, contrabaixo, clarinete, flauta, harpa, guitarra, viol\u00e3o, trombeta, trompa e tambor, instrumentos feitos por eles nas pr\u00f3prias redu\u00e7\u00f5es.\n\nUm viajante espanhol, citado pelo historiador Lugon, escreveu, ap\u00f3s ouvir a m\u00fasica dos \u00edndios, que \u201cdificilmente creio que se escute com maior prazer a m\u00fasica das catedrais da Espanha, ainda as mais c\u00e9lebres\u201d.\n\nVoltavam cantando dos trabalhos nos campos (para onde chegavam a levar imagens). De manh\u00e3, eram acordados com tambores, e chamados para a missa. No crep\u00fasculo, ao retornarem dos campos, rezavam o ros\u00e1rio e, depois, participavam da distribui\u00e7\u00e3o de carne \u00e0s mulheres, anunciada tamb\u00e9m por tambores.\n\n<strong>O \u00f3dio do Marqu\u00eas<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-159585 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Missoe10.jpg\" alt=\"\" width=\"255\" height=\"237\" \/><strong>Marqu\u00eas de Pombal<\/strong><\/p>\nA guerra guarani levou o\u00a0<strong>Marqu\u00eas de Pombal<\/strong>, em Portugal, a odiar os jesu\u00edtas \u2013 contam os historiadores -, responsabilizando-os por todos os incidentes.\n\nEm 1759 ele expulsou a Companhia de Jesus de terras portuguesas e, em 1767, foi a vez da Espanha seguir essa atitude, concretizando a retirada dos jesu\u00edtas da \u00e1rea das Miss\u00f5es em 1768.\n\nComo eram os jesu\u00edtas que comandavam a vida nas redu\u00e7\u00f5es e n\u00e3o prepararam os \u00edndios para sobreviver sem sua orienta\u00e7\u00e3o, destruiu-se em poucos anos o que se levou quase um s\u00e9culo e meio para construir.\n\nQuando isso ocorreu, as redu\u00e7\u00f5es da Argentina e do Paraguai \u2013 que anteriormente integravam a Prov\u00edncia do Prata \u2013 ainda estavam intactas, mas isso duraria pouco. Depois da sa\u00edda dos jesu\u00edtas, foi proibido o com\u00e9rcio entre as redu\u00e7\u00f5es (que lhes dava auto-sufici\u00eancia), abertas suas fronteiras \u00e0 entrada de espanh\u00f3is, que ocuparam as terras, corromperam e embebedaram os \u00edndios, levando-os \u00e0 pilhagem, deser\u00e7\u00e3o e abandono completo das redu\u00e7\u00f5es.\n\nOs guaranis foram semi-escravizados num primeiro momento e, a seguir, transformados em soldados e envolvidos em todos os conflitos do Prata.\n\n<strong>A destrui\u00e7\u00e3o completa<\/strong>\n\nA decad\u00eancia foi de tal ordem que, em 1801, quando eclodiu nova guerra entre Portugal e Espanha, o fazendeiro Manoel dos Santos Pedroso e o contrabandista Jos\u00e9 Borges do Canto, \u00e0 frente de somente 40 homens, conseguiram conquistar para Portugal os Sete Povos, na margem esquerda do Uruguai, atual Rio Grande do Sul. As Miss\u00f5es passaram a ser governadas por militares.\n\nDepois que em 1815 foi proclamada a independ\u00eancia das Prov\u00edncias Unidas do Rio da Prata, tendo Buenos Aires como capital, a Banda Oriental, ou seja, o atual Uruguai, rebelou-se sob o comando de Jos\u00e9 Artigas.\n\nDurante a campanha contra Buenos Aires, Artigas conheceu em S\u00e3o Borja um \u00edndio daquela redu\u00e7\u00e3o, Andr\u00e9s Guacurari, que tornou seu filho adotivo e passou a ser conhecido como Andresito Artigas, nomeado por Artigas para o comando das Miss\u00f5es, que pretendiam tornar independentes.\n\nOcorreram in\u00fameros conflitos entre for\u00e7as de Artigas e portugueses, em territ\u00f3rio das Miss\u00f5es, de onde Andresito tamb\u00e9m partiu para atacar o Paraguai. A essa altura as redu\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o se caracterizavam como tal.\n\nN\u00e3o tinham nada dos antigos aldeamentos e n\u00e3o passavam de quart\u00e9is e os \u00edndios estavam transformados em soldados, uma hora lutando a favor de um, outra de outro.\n\nComo repres\u00e1lia \u00e0s hostilidades de Andresito no lado brasileiro, em janeiro de 1817 o brigadeiro Francisco das Chagas Santos cruzou o rio Uruguai e destruiu completamente as redu\u00e7\u00f5es \u2013 que foram demolidas at\u00e9 os alicerces e saqueadas \u2013 de Yapey\u00fa, La Cruz, San Thom\u00e9, Santa Maria, San Javier, M\u00e1rtires e Concepci\u00f3n, saqueando ainda San Jos\u00e9, Ap\u00f3stoles e San Carlos, depois tamb\u00e9m destru\u00eddas.\n\n<strong>Em carta ao Marqu\u00eas do Alegrete, seu superior, o brigadeiro Chagas Santos, em fevereiro desse ano, orgulhava-se:<\/strong>\u00a0\u201c\u2026 percorremos e devastamos todos os campos adjacentes a esses povoados, num raio de 50 l\u00e9guas \u2026\u201d.\n\nEm 1818 Andresito foi derrotado e preso em S\u00e3o Nicolau. Levado para o Rio, apareceu morto na Fortaleza de Santa Cruz. Em 1820, Jos\u00e9 Artigas tamb\u00e9m foi vencido pelos brasileiros e refugiou-se no Paraguai, onde foi acolhido pelo ditador Jos\u00e9 Gaspar de Francia, um antigo aluno dos jesu\u00edtas.\n\nQuando foi proclamada a independ\u00eancia da Argentina, ficaram sob o controle de Francia \u2013 segundo acordo que chegou a ser firmado \u2013 as cinco redu\u00e7\u00f5es que estavam na margem esquerda do rio Paran\u00e1 (atual territ\u00f3rio argentino), as oito da margem direita e as tr\u00eas situadas ao Norte do Paraguai (as chamadas redu\u00e7\u00f5es do Tarum\u00e1).\n\n<strong>Em 1817, no entanto, quando o brigadeiro Francisco das Chagas Santos arrasou as redu\u00e7\u00f5es na margem direita do rio Uruguai, Francia, que n\u00e3o queria complica\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximo ao Paraguai e tamb\u00e9m n\u00e3o pretendia v\u00ea-las cair em m\u00e3os de Andresito Artigas, tomou a iniciativa de mandar arrasar completamente as cinco redu\u00e7\u00f5es da margem esquerda do rio Paran\u00e1, sob o seu controle:<\/strong>\u00a0Corpus, San Ign\u00e1cio Mini, Loreto, Sant\u2019Ana e Candel\u00e1ria.\n\nRestaram, assim, as 11 redu\u00e7\u00f5es ao Norte do rio Paran\u00e1, em territ\u00f3rio paraguaio, que eram governadas por um mordomo, o qual tamb\u00e9m descaracterizou completamente o sistema de administra\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas, a exemplo do que ocorrera nas margens esquerda e direita do rio Uruguai, respectivamente Brasil e Argentina atuais.\n\nRebeli\u00f5es surgidas foram esmagadas em 1832 nas redu\u00e7\u00f5es de Bel\u00e9m e Santa Rosa e os \u00edndios remanescentes foram levados ao sacrif\u00edcio, em massa, durante a chamada Guerra do Paraguai, empreendida nos anos seguintes pelo ditador Solano Lopez. Em 1848, Lopez tornou as redu\u00e7\u00f5es \u201ccidades livres\u201d, expropriou os \u00edndios e entregou-lhes unicamente um lote de terras. Os lotes foram abandonados, pois os \u00edndios n\u00e3o se acostumavam \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista. As antigas redu\u00e7\u00f5es transformaram-se em cidades e, delas, restou pouca coisa.\n\n<strong>Os Sete Povos terminam com uma nova rep\u00fablica<\/strong>\n\nNas margens do rio Uruguai, os Sete Povos das Miss\u00f5es ainda n\u00e3o estavam completamente destru\u00eddos. Os caudilhos da atual Argentina sempre pretenderam ocupar essa \u00e1rea, antes sob dom\u00ednio espanhol, entregando a miss\u00e3o ao general Frutuoso Rivera, que, em 1827, a concretizou, sem nenhuma rea\u00e7\u00e3o das for\u00e7as brasileiras (o Brasil j\u00e1 era independente).\n\nMas, antes de ocupar as Miss\u00f5es, Rivera terminou perseguido pelo pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito argentino, e, assim, ao inv\u00e9s de incorporar \u00e0 Argentina a \u00e1rea conquistada, constituiu nas Miss\u00f5es (do lado brasileiro) um governo regular, pretendendo fazer o projeto evoluir para a Rep\u00fablica Riograndense, que os liberais ga\u00fachos tamb\u00e9m queriam estabelecer.\n\nO sonho durou oito meses, depois dos quais Rivera foi for\u00e7ado a deixar a regi\u00e3o, o que, no entanto, somente fez depois de saquear tudo, inclusive igrejas, levando o que restava.\n\nAs popula\u00e7\u00f5es missioneiras transmigraram com Rivera para o atual Uruguai, onde, com esses \u00edndios, em 1829, ele fundou a cidade de Bella Union. Os \u00edndios, por\u00e9m, terminaram por se organizar em bandos armados e passaram a invadir o territ\u00f3rio brasileiro, de Quara\u00ed ao Alegrete, no Rio Grande do Sul, para assaltar fazendas.\n\nParte deles foi morta por Manuel Luiz Os\u00f3rio, que era tenente em Quara\u00ed. Em 1831, os restantes sublevaram-se contra o pr\u00f3prio Frutuoso Rivera, que ent\u00e3o presidia a constitu\u00edda Rep\u00fablica do Uruguai.\n\nUm grupo de \u00edndios chegou a deixar Bella Union para enfrentar Rivera, mas foi destro\u00e7ado e os sobreviventes distribu\u00eddos entre os moradores de Montevid\u00e9u e de outras cidades do Uruguai, para serem \u201ceducados\u201d e voltaram a ser \u201ccristianizados\u201d. Alguns ainda ficaram em Bella Union, e em 1834 foram enviados para as imedia\u00e7\u00f5es de Durazno, tamb\u00e9m no Uruguai, fundando um povoado que denominaram S\u00e3o Borja, mas que n\u00e3o durou muito. Era o fim melanc\u00f3lico dos remanescentes da Rep\u00fablica Guarani.\n\n<strong>Pintura, riqueza e controle de estranhos nas redu\u00e7\u00f5es<\/strong>\n\nOs guaranis eram excelentes pintores e escultores. Faziam c\u00f3pias perfeitas, segundo os padres.\n\nMuitas das est\u00e1tuas ainda podem ser vistas em museus nas ru\u00ednas das redu\u00e7\u00f5es que subsistem no Paraguai, Argentina e Brasil, imitando o estilo grego antigo e do Renascimento.\n\n<strong>Suas igrejas eram ricas e imponentes, tendo sobrado delas muito pouco, permanecendo uma parte maior de sua estrutura em somente quatro redu\u00e7\u00f5es<\/strong>: S\u00e3o Miguel (Brasil), San Ign\u00e1cio Mini (Argentina) e Trinidad e Jesus (Paraguai) \u2013 esta \u00faltima nem chegou a ser conclu\u00edda, pois estava em obras quando os jesu\u00edtas foram expulsos.\n\nEm todas trabalhadas e decoradas com objetos de prata e ouro. O ouro era importado do Peru, para onde as redu\u00e7\u00f5es vendiam outras mercadorias.\n\nCirculavam muitas lendas de que nas redu\u00e7\u00f5es existiam grandes minas de ouro e prata, mas n\u00e3o era verdade.\n\nN\u00e3o havia uma moeda nas redu\u00e7\u00f5es. O fumo, mel e milho faziam, \u00e0s vezes, o papel de mercadoria-moeda, o que, no entanto, era dispens\u00e1vel, pois todas as necessidades dos \u00edndios eram atendidas pelos centros comunit\u00e1rios de distribui\u00e7\u00e3o, por setor ou bairro.\n\nPermitia-se a entrada nas redu\u00e7\u00f5es somente de mascates estrangeiros, por um per\u00edodo m\u00e1ximo de tr\u00eas dias. O com\u00e9rcio exterior, todavia, era inexpressivo, mas feito atrav\u00e9s de mercados implantados nas redu\u00e7\u00f5es de San Ign\u00e1cio Guazu, Santa Maria da F\u00e9, Santiago, Santa Rosa (Paraguai), San Carlos, Yapey\u00fa e San Cosme (Argentina), e dos entrepostos de Buenos Aires e Santa F\u00e9. Com os lucros das vendas, pagava-se o imposto \u00e0 Coroa Espanhola e compravam-se materiais para as igrejas e instrumentos agr\u00edcolas.\n\n<strong>Produtos exportados, principalmente para buenos Aires (dali para a Europa), Corrientes, Santa F\u00e9, Assun\u00e7\u00e3o e Vila Rica<\/strong>: mate, fumo, algod\u00e3o, a\u00e7\u00facar, tecidos, pavios, c\u00edrios, mesas, arm\u00e1rios, ba\u00fas, esculturas, peles, mel, frutas, tinturas, cavalos, mulas, carneiros etc.\n\nImportava-se ouro, prata, cobre, a\u00e7o, ferramentas, agulhas, anz\u00f3ias, sal, papel, seda, vinho etc.\n\nEm meados do s\u00e9culo XVIII as importa\u00e7\u00f5es j\u00e1 eram muito pequenas e as redu\u00e7\u00f5es se tornaram praticamente autosuficientes.\n\n<strong>Controle de mercadorias<\/strong>\n\nAs redu\u00e7\u00f5es podiam comerciar entre si, mas os valores das trocas n\u00e3o inclu\u00edam lucros, levando em conta, unicamente, a soma de trabalho, necess\u00e1ria para sua produ\u00e7\u00e3o.\n\nOs regulamentos que disciplinavam a a\u00e7\u00e3o dos padres jesu\u00edtas nas redu\u00e7\u00f5es eram muito rigorosos e, o mais detalhado deles, de 1689, chegava a fixar os valores dos produtos que os padres poderiam pagar aos \u00edndios pelos excelentes de sua produ\u00e7\u00e3o individual, quando fosse o caso.\n\nO regulamento tamb\u00e9m fixava quais as redu\u00e7\u00f5es que poderiam se relacionar socialmente entre si. Nas festas, nunca poderia haver mais do que quatro dan\u00e7as, \u00e0s quais era proibido o acesso das mulheres. Os padres, a prop\u00f3sito, eram proibidos de falar \u00e0s mulheres, e nunca poderiam ficar a s\u00f3s com uma delas.\n\n<strong>Muitos incidentes armados no final da Rep\u00fablica<\/strong>\n\n<strong>As redu\u00e7\u00f5es possu\u00edam condi\u00e7\u00f5es de vida muito superiores \u00e0s de cidades que ainda existem na regi\u00e3o onde se desenvolveram:<\/strong>\u00a0as estradas eram bem conservadas, havia esgoto em algumas das cidades, todas as constru\u00e7\u00f5es inclu\u00edam varandas, eram arejadas, n\u00e3o faltavam casas e nem alimentos.\n\nAtacadas pelos bandeirantes \u201cencomendeiros\u201d e tribos inimigas, as redu\u00e7\u00f5es acabaram armando-se, gra\u00e7as ao que se tornaram um importante bra\u00e7o da Coroa Espanhola para interven\u00e7\u00e3o em diversos conflitos do Prata.\n\nCada redu\u00e7\u00e3o tinha um corpo de cavalaria, armado com sabres, lan\u00e7as e mosquetes; e outro de infantaria, com espadas, fuzis, fundas, arcos e flechas e macan\u00e1.\n\nSeiscentos a mil cavalos estavam sempre preparados, em cada redu\u00e7\u00e3o, para utiliza\u00e7\u00e3o imediata, e, em pouco tempo, poderiam ser mobilizados ao menos 30 mil \u00edndios, todos a cavalo, para qualquer tipo de opera\u00e7\u00e3o ofensiva ou defensiva.\n\nQuando houve a revolta da chamada Comuna de Assun\u00e7\u00e3o, as redu\u00e7\u00f5es, durante algum tempo, mantiveram permanentemente mobilizado um grupo de 12 a 14 mil homens, preparados para interven\u00e7\u00e3o imediata, em defesa da Coroa Espanhola.\n\nOs incidentes ocorreram entre 1721 e 1735. Dom Jos\u00e9 de Antequera, que poderia ser considerado o chefe do primeiro partido de independ\u00eancia formado na Am\u00e9rica Latina, queria que os colonos tivessem declarada sua liberdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Espanha. Como n\u00e3o pretendia o mesmo para os \u00edndios, os jesu\u00edtas das redu\u00e7\u00f5es ficaram contra ele, e apoiaram a candidatura de dom Balthasar Garcia Ros para governar o Paraguai.\n\nEste acabou sendo preso e os jesu\u00edtas foram expulsos de Assun\u00e7\u00e3o. Um pequeno ex\u00e9rcito guarani de quatro redu\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas foi atra\u00eddo para uma cilada nas proximidades da capital, e todos os \u00edndios foram mortos, o que chamou a aten\u00e7\u00e3o da Coroa. As autoridades coloniais nomearam um terceiro nome para governador, prenderam Antequera e o condenaram \u00e0 morte no Peru, o que resultou em forte rea\u00e7\u00e3o popular na capital do Paraguai, onde os revoltosos formaram uma comuna e armaram um contigente que passou a atacar as redu\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas.\n\nNos anos seguintes mataram um novo governador que pretendia restabelecer rela\u00e7\u00f5es com os guaranis, e, nesse momento, as autoridades espanholas decidiram enviar um ex\u00e9rcito de Buenos Aires para dominar os paraguaios. At\u00e9 a chegada do corpo armado, Assun\u00e7\u00e3o foi cercada por 12 mil \u00edndios das redu\u00e7\u00f5es, o que levou os revoltosos a se entregarem.\n\nEm 1702 os guaranis conseguiram impedir que os ingleses invadissem Buenos Aires, transportando, com suas barcas, todo um ex\u00e9rcito de Corrientes para a futura capital argentina.\n\nPouco antes, foram os \u00edndios missioneiros que patrulharam todo o litoral na altura da atual Montevid\u00e9u, para impedir a entrada de portugueses em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Col\u00f4nia de Sacramento.\n\nEm 1772, tamb\u00e9m foram os ganranis que constru\u00edram os fortes de Santa Teresa e Santa Tecla, ainda hoje existentes, pr\u00f3ximos \u00e0 fronteira com o Brasil, pouco al\u00e9m do Chu\u00ed, procurando, igualmente, impedir a entrada de portugueses a partir do atual territ\u00f3rio brasileiro.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0drivethruhistory.com\/www.riogrande.com.br\/geocities.com\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miss\u00f5es Jesu\u00edtas, Jesu\u00edticas, Brasil, Hist\u00f3ria, Companhia de Jesus, Padres, \u00cdndios, Fase, Guaranis, Portugal, Per\u00edodo, Miss\u00f5es Jesu\u00edtas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9680,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-20560","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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