{"id":20505,"date":"2015-12-21T00:00:00","date_gmt":"2015-12-21T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/guerra-dos-mascates-livro-3\/"},"modified":"2026-09-01T15:32:12","modified_gmt":"2026-09-01T15:32:12","slug":"guerra-dos-mascates-livro-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/obras-literarias\/guerra-dos-mascates-livro-3\/","title":{"rendered":"Guerra dos Mascates &#8211; Livro"},"content":{"rendered":"\n&nbsp;\n<table width=\"546\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"7\" height=\"1\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar na parte desejada:<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td colspan=\"3\" align=\"center\"><a href=\"#primeira\"><strong>PARTE 1<\/strong><\/a><\/td>\n<td><\/td>\n<td colspan=\"3\" align=\"center\"><a href=\"#segunda\"><strong>PARTE 2<\/strong><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"93\"><a class=\"links\" href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#5\">Cap\u00edtulo V\n<\/a><a class=\"links\" href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/td>\n<td width=\"25\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/pontilhado2.png\" alt=\"\" \/><\/td>\n<td width=\"114\"><a class=\"links\" href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/td>\n<td width=\"5\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/pontilhado2.png\" alt=\"\" \/><\/td>\n<td width=\"119\"><a class=\"links\" href=\"#p21\">Cap\u00edtulo I<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p22\">Cap\u00edtulo II<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p23\">Cap\u00edtulo III<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p24\">Cap\u00edtulo IV<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p25\">Cap\u00edtulo V<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p26\">Cap\u00edtulo VI<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p27\">Cap\u00edtulo VII<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p28\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/td>\n<td width=\"5\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/pontilhado2.png\" alt=\"\" \/><\/td>\n<td width=\"119\"><a class=\"links\" href=\"#p29\">Cap\u00edtulo IX<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p210\">Cap\u00edtulo X<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p211\">Cap\u00edtulo XI<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p212\">Cap\u00edtulo XII<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p213\">Cap\u00edtulo XIII<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p214\">Cap\u00edtulo XIV<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p215\">Cap\u00edtulo XV<\/a>\n<a class=\"links\" href=\"#p216\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<strong>Guerra dos Mascates &#8211; Livro<\/strong>\n\n<strong>ADVERT\u00caNCIA<\/strong>\n\n<strong>INDISPENS\u00c1VEL CONTRA ENREDEIROS E MALDIZENTES<\/strong>\n\nAlinhavou-se esta cr\u00f4nica sobre uma papelada velha, descoberta de modo bem est\u00fardio.\n\nIa proceder-se \u00e0 elei\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em uma par\u00f3quia dos sub\u00farbios do Recife. Desde a v\u00e9spera que o r\u00e1bula pol\u00edtico do lugar tinha arranjado a cousa a bico de pena e conforme a senha; mas era preciso dar representa\u00e7\u00e3o e mostra oficial da farsa para emba\u00e7ar uns escr\u00fapulos rid\u00edculos do presidente calouro.\n\nPara esse fim um grupo de governistas, com o competente destacamento policial, acampou na Matriz, onde a oposi\u00e7\u00e3o, que tivera o cuidado de meter-se nas enc\u00f3spias, n\u00e3o apareceu.\n\nNa ocasi\u00e3o de come\u00e7ar a encamisada, deu-se por falta da urna de que ningu\u00e9m se lembrara. Felizmente l\u00e1 desencavaram no fundo do arm\u00e1rio da sacristia um cofre ou arca de jacarand\u00e1, que devia ter servido, no tempo de El-Rei Nosso Senhor, para guardar os pelouros da verean\u00e7a.\n\nHavia dentro da tal arca tr\u00eas antigualhas, dignas de uma mem\u00f3ria do Instituto Hist\u00f3rico. Eram: uma cabeleira de rabicho que naturalmente pertenceu ao \u00faltimo juiz do povo; uma liga de belbute com atacadores de prata em forma de cora\u00e7\u00f5es, adere\u00e7o casquilho de alguma Eg\u00e9ria dos tempos coloniais; e finalmente um grosso rolo de escrita enleado com um cadar\u00e7o de Lamego.\n\nSem o menor respeito atiraram essas preciosas rel\u00edquias a um canto, onde as descobriu dois dias depois o sacrist\u00e3o da freguesia.\n\nEra este o Sr. Beltr\u00e3o, que ao mister de enxota-c\u00e3es da matriz acumulava o of\u00edcio de meirinho do subdelegado, combina\u00e7\u00e3o esta que dava boa suma das habilidades do nosso homem. Sentia ele tamb\u00e9m suas c\u00f3cegas pela pol\u00edtica, e desde certo tempo andava chocando de longe, como jacar\u00e9, o lugar de inspetor de quarteir\u00e3o. At\u00e9 j\u00e1 lhe passara uma vez pela cachola a id\u00e9ia de trocar a opa vermelha por uma farda azul de alferes da Guarda Nacional; e saindo-lhe a cousa certa, por que n\u00e3o havia de entrar na lista de eleitores, e pilhar a subdelegacia?\n\nCometera o governo de ent\u00e3o o erro grav\u00edssimo de n\u00e3o prestar a considera\u00e7\u00e3o devida ao merecimento de um homem dessa marca e a seus relevantes servi\u00e7os, como f\u00f3sforo que era e da melhor f\u00e1brica. Justamente ofendido em seus brios, o Sr. Beltr\u00e3o decidiu virar a jaqueta, pois ainda n\u00e3o se tinha metido em casaca; e desandou em oposicionista de quatro costados.\n\nAchando os objetos no canto, o g\u00edrio do sacrista contemplou-os um instante com um sorriso manhoso e deitou-se a passo de rafeiro para a casa do escriv\u00e3o, que era ali o tombo e conselho do partido. Nesse mesmo dia partiu para a cidade um pr\u00f3prio, levando pesado embrulho e uma carta com endere\u00e7o ao redator do \u00f3rg\u00e3o oposicionista.\n\nO tarelo escritor andava a tinir com o malogro de sua candidatura. Ainda garraio em pol\u00edtica, tivera a ingenuidade de tomar ao s\u00e9rio a elei\u00e7\u00e3o e concebera a louca esperan\u00e7a de furar a chapa do governo, empresa mais dif\u00edcil do que a de brocar o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar.\n\nFoi receber a carta e pular o tarouco do publicista \u00e0 mesa, onde cortadas as tiras de papel alma\u00e7o, desandou um artigo em estilo de bomba, no qual trovejava deveras contra o despotismo que oprimia o pa\u00eds.\n\nNo outro dia apareceu o presidente com cara de demiss\u00e3o, o que logo se conheceu pelas cerdas revoltas do bigodinho, que o excelent\u00edssimo esmerava-se em trazer sempre com um torcido dos mais elegantes. Pudera n\u00e3o! Logo na cama tomara, \u00e0 guisa de mingau ou chocolate, a siribanda da folha oposicionista num artigo furibundo, sob a ep\u00edgrafe &#8211; Ubinam gentium sumus!&#8230; Era o tal sobre a elei\u00e7\u00e3o.\n\nDepois de uns rasgos eloq\u00fcentes acerca da deprava\u00e7\u00e3o do sistema representativo, e da corrup\u00e7\u00e3o que lastra como uma lepra oficial (isso \u00e9 l\u00e1 do publicista pernambucano), descrevia o retumbante artigo os atentados inauditos praticados pelo partido dominante para tomar de assalto as urnas. Esse partido ent\u00e3o dominante, confesso que n\u00e3o indaguei qual seria, mas cada um por\u00e1 o que for mais de seu gosto; assim ficaremos todos contentes, e n\u00e3o haver\u00e1 motivo de zanga entre conservadores e liberais.\n\nA\u00ed vai a amostra do tal artigo:\n\nChegou a ponto a ousadia, a impud\u00eancia, dessa horda de v\u00e2ndalos que n\u00e3o respeitaram as cousas mais sagradas, a santidade do templo, as c\u00e3s de uma velhice honrada e a virtude do sexo fr\u00e1gil!\n\n&#8211; O honrado capit\u00e3o-mor, o Sr. A***, esse benem\u00e9rito anci\u00e3o, acatado em todos os tempos como um tipo de sisudez e probidade, foi vitima dos insultos e apupadas dos energ\u00famenos, que depois de tentarem contra sua exist\u00eancia, tiveram a prot\u00e9rvia incr\u00edvel de calcar aos p\u00e9s a sua cabeleira, esse venerando s\u00edmbolo da velhice gloriosa do grande patriota.\n\nN\u00e3o escapou \u00e0 sanha dos bandidos a ilustre Sr.a D. B***, essa \u00ednclita matrona pernambucana, digna dos melhores tempos de Roma por sua virtude e austeridade. Talhada no molde de D. Maria de Sousa, a hero\u00edna brasileira, \u00e9 adorada como uma provid\u00eancia daqueles lugares por sua caridade inexaur\u00edvel. Estando na missa, foi ultrajada sem respeito \u00e0 santidade do lugar e ao recato do sexo. E por qu\u00ea&#8230; Pelo crime imperdo\u00e1vel de ser m\u00e3e de um nosso amigo, o Sr. C***, oposicionista importante. Para se avaliar quanto sofreu a ilustre matrona, bastar\u00e1 saber-se que no meio do tumulto caiu-lhe uma liga de pre\u00e7o, e esse penhor da castidade veio a servir &#8211; horresco!&#8230; de joguete \u00e0 canalha.\n\nNo dia seguinte o corpo da igreja onde se fez a elei\u00e7\u00e3o, apresentava aspecto igual ao teatro de uma bacanal. Rolavam pelo ch\u00e3o, de envolta com aqueles objetos respeit\u00e1veis, ma\u00e7os de c\u00e9dulas arrancados \u00e0 urna violada, e sobejos da op\u00edpara ceia com que banquetearam a seus jan\u00edzaros.\n\nE o governo, depois de se debochar nessa orgia, ousar\u00e1 ainda com o maior cinismo falar em liberdade de voto e pureza de elei\u00e7\u00e3o! Infeliz pa\u00eds, governado por lacaios a quem servem outros lacaios, e outros, desde a antec\u00e2mara at\u00e9 a cocheira.\n\nUm esquisit\u00e3o que havia em Pernambuco, republicano de 1817, convertido em comendador, ao ler aquele trecho saiu-se com estaque n\u00e3o era escrito de pena, mas de chu\u00e7o.\n\nTinha uma nota o artigo, e assim concebida:\n\nFicam em nosso poder, onde podem ser examinados, os objetos a que nos referimos, verdadeiro corpo de delito da saturnal representada pelos esbirros do governo.\n\nMuitas pessoas foram ao escrit\u00f3rio da folha ver a cabeleira, a liga e o ma\u00e7o a que aludia o artigo. Entanto era a toda pressa chamado a pal\u00e1cio o chefe do partido. A confer\u00eancia esteve tempestuosa.\n\nO presidente engrilou-se, declarando que estava disposto a fazer tudo, mas guardadas as apar\u00eancias. O chefe bateu-lhe o p\u00e9; deu-lhe tr\u00eas gritos, e acabou por dizer-lhe que n\u00e3o faltavam presidentes para Pernambuco. Da secretaria ouviu-se a alterca\u00e7\u00e3o; e horas depois assoalhou-se que as duas pot\u00eancias estavam desavindas.\n\nPor este tempo o capit\u00e3o-mor e a matrona, sabendo do artigo, quiseram protestar. O primeiro assegurava que sua cabeleira de rabicho h\u00e1 muitos anos fora ro\u00edda pelos ratos, e lamentava esse desastre. A segunda, furiosa contra o escritor e disposta a n\u00e3o aturar desaforos, jurava que tivera sempre sua perna bem grossa e carnuda para segurar a meia sem necessidade de ligas. Ambos declaravam que n\u00e3o tinham sa\u00eddo de casa no dia da elei\u00e7\u00e3o.\n\nInterpuseram-se, por\u00e9m, os or\u00e1culos da oposi\u00e7\u00e3o, e usaram de todos os meios de influ\u00eancia para obstar \u00e0 declara\u00e7\u00e3o. Exigiam as conveni\u00eancias do partido n\u00e3o se tirasse a for\u00e7a moral de um artigo, que produzira grande efeito e dera azo ao rompimento do chefe governista com o presidente.\n\nO subdelegado da freguesia, cabo da elei\u00e7\u00e3o, desmentiu em oficio e por cartas as acusa\u00e7\u00f5es do jornal oposicionista; mas ningu\u00e9m, nem os seus pr\u00f3prios amigos acreditaram nas assevera\u00e7\u00f5es do homem, que sabiam capaz de maiores fa\u00e7anhas, useiro e vezeiro nelas. N\u00e3o obstante, a imprensa do governo desfez-se em elogios \u00e0 imparcialidade e modera\u00e7\u00e3o do prestante cidad\u00e3o a quem estava confiada a autoridade do lugar.\n\nUm m\u00eas depois, c\u00e1 na corte, o ministro da Justi\u00e7a voltava do despacho azoado com uma sabatina que sofrera a respeito da elei\u00e7\u00e3o da tal par\u00f3quia, cuja exist\u00eancia ele ignorava, pois era homem do Sul. O oficial de gabinete ouviu no meio de um solil\u00f3quio tr\u00e1gico estas palavras inauditas:\n\n&#8211; N\u00e3o se pode ser ministro assim!&#8230;\n\nTirando ent\u00e3o da pasta um caderno de papel com o t\u00edtulo de extrato dos jornais, o pimpolho do estadista procurou um lugar marcado \u00e0 margem com uma cruz sinistra riscada a l\u00e1pis. Era nada menos do que o trecho elo quent\u00edssimo do publicista pernambucano.\n\nExpediu-se nesse mesmo dia um reservado ao presidente exigindo com urg\u00eancia informa\u00e7\u00f5es a respeito dos fatos escandalosos referidos pela folha. A oposi\u00e7\u00e3o em Pernambuco teve logo noticia do que havia, e compreendendo o partido que podia tirar do incidente, remeteu para a corte os objetos a que aludira o artigo, a fim de serem vistos por ALGU\u00c9M.\n\nFoi portador o nosso jornalista. Chegando \u00e0 corte fez-me o favor de procurar como colega, e pedir que preparasse a opini\u00e3o com um artigo de minha lavra, confiando-me para este fim o pacote onde estava o corpo de delito do grande esc\u00e2ndalo. H\u00e1 embrechadas de que ningu\u00e9m se livra: era esta uma das tais.\n\nAtirei o embrulho a um canto muito resolvido a desculpar-me com as minhas lidas, quando o homem viesse busc\u00e1-lo no s\u00e1bado pr\u00f3ximo, para a audi\u00eancia que esperava. Nesse \u00ednterim, por\u00e9m, caiu o minist\u00e9rio; e houve mudan\u00e7a na pol\u00edtica.\n\nDisseram nas c\u00e2maras que, tendo-se agravado os inc\u00f4modos do ministro do imp\u00e9rio, este insistira pela demiss\u00e3o, e o gabinete julgando inconveniente uma reorganiza\u00e7\u00e3o, resolvera retirar-se. O p\u00fablico ouviu estas explica\u00e7\u00f5es com o mesmo ar do homem da boa sociedade quando o amigo se desculpa de o n\u00e3o ter visitado ainda, por causa de inc\u00f4modos de sa\u00fade. Sabe-se que \u00e9 uma calva mentira; mas todos a aceitam e agradecem como uma prova de polidez.\n\nA verdadeira causa da queda do minist\u00e9rio s\u00f3 muito depois vim eu a sab\u00ea-la; e como n\u00e3o me pediram segredo, a\u00ed vai sem tirar nem p\u00f4r.\n\nRecebendo o reservado do ministro da Justi\u00e7a, o presidente de Pernambuco pressentiu que ali andava dedo de mestre; e desenvolveu um zelo digno dos maiores enc\u00f4mios. \u00c9 preciso notar que nessa mesma ocasi\u00e3o o fedelho administrativo fora honrado com uma particular do ministro do Imp\u00e9rio, na qual o novo Mazarin insinuara habilmente esta m\u00e1xima profunda: &#8211; Aos reis como \u00e0s crian\u00e7as, \u00e9 preciso engan\u00e1-los para seu pr\u00f3prio bem.\n\nApesar de t\u00e3o salutar advert\u00eancia, o presidente porventura j\u00e1 fascinado pelo irresist\u00edvel prestigio do absurdo, tomou ao s\u00e9rio o reservado. No mesmo dia foi demitido o subdelegado da tal freguesia com todos os seis suplentes; e o chefe de policia recebeu ordem de se dirigir imediatamente \u00e0quela localidade a fim de sindicar dos fatos graves ocorridos durante a elei\u00e7\u00e3o.\n\nEstes atos foram publicados na folha oficial. O chefe governista, que depois do rompimento resolvera contemporizar, bufou. No primeiro paquete veio o seu ultimato: A conserva\u00e7\u00e3o do atual presidente \u00e9 uma calamidade. Meus amigos est\u00e3o sendo sacrificados ao capricho deste mo\u00e7o enfatuado; e a lealdade exige que eu os acompanhe na adversidade.\n\nAndava o ministro do Imp\u00e9rio muito desgostoso com os colegas porque n\u00e3o conseguira fazer o genro bar\u00e3o. A carta do chefe pernambucano foi um pretexto magn\u00edfico. Instou pela demiss\u00e3o do presidente, o que n\u00e3o obteve, como de antem\u00e3o sabia; pediu ent\u00e3o respeitosamente v\u00eania para retirar-se do poder, e foi-lhe graciosamente recusada. N\u00e3o havia motivo para separar-se de seus colegas; devia continuar a prestar bons servi\u00e7os ao pa\u00eds, e juntos deixarem o governo quando lhes viesse a faltar o apoio do parlamento do que n\u00e3o havia receio. A sa\u00edda de um membro do gabinete isoladamente n\u00e3o era de boa pol\u00edtica.\n\nTais foram pelo menos as palavras que o ministro do Imp\u00e9rio trouxe a seus colegas reunidos em confer\u00eancia na casa do presidente do conselho. O secret\u00e1rio da Marinha, grumete de primeira viagem, expandiu-se como uma papoula, convencido de que o minist\u00e9rio estava mais firme que rocha, e tinha vida para cinco anos, sen\u00e3o dez.\n\nQual n\u00e3o foi seu pasmo, vendo que o matreiro do ministro do Imp\u00e9rio apesar daquelas palavras graciosas, insistia calculadamente pela retirada, mas a pretexto de mol\u00e9stia; e que o presidente do conselho anunciava com um riso j\u00e2mbico a resolu\u00e7\u00e3o de acompanhar seu colega: &#8220;Estava cansado e velho; devia passar o fardo a ombros mais robustos.&#8221;\n\nA bom entendedor meia palavra basta. A trempe do gabinete manobrava para alijar o colega do Imp\u00e9rio; mas aquela augusta solicitude manifestada pela solidariedade ministerial, abriu-lhe os olhos. Soara o buona sera; cumpria se despedirem logo, para n\u00e3o representarem o papel de D. Bas\u00edlio.\n\nAssim operou-se a mudan\u00e7a pol\u00edtica. Mal sabia a essa hora o maroto do sacrist\u00e3o que ele tivera a honra de servir de pretexto a um acontecimento t\u00e3o importante! Se o adivinhasse, n\u00e3o limitaria suas ambi\u00e7\u00f5es ao modesto lugar de inspetor, que arranjou-lhe o escriv\u00e3o, e \u00e0 patente. de alferes que o novo presidente prometeu-lhe.\n\nDecorreram oito ou nove meses.\n\nA c\u00e2mara fora dissolvida. O jovem escritor tinha sido eleito deputado, e estava com assento na c\u00e2mara. Um domingo por manh\u00e3 recebi sua visita, em retribui\u00e7\u00e3o do cart\u00e3o que lhe deixara \u00e0 chegada. Conversamos a respeito de pol\u00edtica; o autor do artigo sobre a cabeleira do capit\u00e3o-mor pensava que t\u00ednhamos demasia de liberdade; a imprensa especialmente carecia de um corretivo salutar.\n\nTrouxe-me \u00e0 mem\u00f3ria o embrulho que ainda atravancava uma gaveta de minha papeleira. Sem advertir que fazia um epigrama ao C\u00edcero pernambucano, perguntei-lhe:\n\n&#8211; Que destino devo dar aos objetos que 1&#8242;. Ex.a me confiou? Quer que os envie \u00e0 sua resid\u00eancia?\n\n&#8211; Oh! n\u00e3o vale a pena! respondeu com um rubor de primeira legislatura. A mudan\u00e7a, que se operou na pol\u00edtica, tirou a estes objetos sua import\u00e2ncia.\n\nAo sair encontrou-se a visita com um indiv\u00edduo esguio, que subia a escada. O feto ministerial n\u00e3o se dignou abaixar o augusto e dign\u00edssimo olhar para a zumbaia do desconhecido, cujo ar beguino cheirava de longe a morr\u00e3o de igreja.\n\nQuem havia de ser o sujeito?\n\nO marreco do sacrist\u00e3o, que j\u00e1 foi encaixado na Guarda Nacional vinha \u00e0 corte pretender um empregozinho para viver. Servia-lhe at\u00e9 mesmo o oficio de seu amigo, o escriv\u00e3o, arriscado a perd\u00ea-lo por certo desfalque no cofre de \u00f3rf\u00e3os.\n\n&#8211; Dizem, acrescentou ele; eu n\u00e3o creio; talvez n\u00e3o passem de cal\u00fanias; mas enfim tudo pode acontecer.\n\nTrazia-me o mir\u00edfico alferes uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o, que lhe dava o direito de importunar-me uma hora a contar sua genealogia, como pr\u00f3logo necess\u00e1rio e importante da biografia. Mas nunca um tagarela caiu-me t\u00e3o a prop\u00f3sito do c\u00e9u como aquele.\n\n&#8211; Sr. Beltr\u00e3o, meus pequenos servi\u00e7os est\u00e3o \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o; mas n\u00e3o tenho valimento. \u00c9 bom que procure os deputados de sua prov\u00edncia.\n\n&#8211; Qual, sr. doutor. S\u00e3o uns ingratos; j\u00e1 estou escarmentado deles. N\u00e3o viu este que sa\u00eda quando entrei? Depois que se encarrapitou, faz que n\u00e3o conhece a gente. N\u00e3o gosto de falar&#8230; Mas se n\u00e3o fosse eu, ele n\u00e3o estaria hoje &#8211; senhor deputado!\n\n&#8211; Trabalhou a favor de sua candidatura?\n\nO sacrist\u00e3o olhou-me com um sublime gesto de mod\u00e9stia:\n\n&#8211; Fui eu que derrubei o minist\u00e9rio passado.\n\n&#8211; Ah!&#8230;\n\nO Sr. Beltr\u00e3o tinha em um sagu\u00e3o ministerial travado conhecimento com o correio do ex-presidente do conselho, que lhe referiu a verdade verdadeira a respeito da queda do \u00faltimo minist\u00e9rio.\n\n&#8211; Ora, concluiu ele; quem meteu o capit\u00e3o-mor na dan\u00e7a fui eu..\n\n&#8211; Ent\u00e3o ele n\u00e3o perdeu a cabeleira na igreja?\n\n&#8211; Qual cabeleira, sr. doutor. Aqueles cacarecos velhos estavam escondidos numa caixa do defunto vig\u00e1rio, que a tinha metido no arm\u00e1rio da sacristia. Eu \u00e9 que arranje: a tram\u00f3ia com o escriv\u00e3o.\n\n&#8211; Pois Sr. Beltr\u00e3o, j\u00e1 vejo que h\u00e1 de ser bem sucedido em sua pretens\u00e3o. Um homem de seu talento deve ir longe.\n\nFoi-se afinal o sacrist\u00e3o. Tornando ao gabinete, depois de uma manh\u00e3 perdida, deu-me a curiosidade de examinar as antigualhas do embrulho, antes de mand\u00e1-las para o lixo. O rolo de papel, que o escritor pernambucano, jurando na palavra do escriv\u00e3o, qualificara de ma\u00e7o de c\u00e9dulas e como tal fora visto por v\u00e1rias pessoas; era nada menos do que um tesouro.\n\nEra o manuscrito de uma cr\u00f4nica in\u00e9dita da Guerra dos Mascates. Devorei o cartap\u00e1cio e desde logo fiz ten\u00e7\u00e3o de o tirar a lume, espanando-lhe de leve as roupagens do estilo, que me pareceram um tanto poentas. S\u00f3 agora, no remanso destas f\u00e9rias, \u00e0 sombra de umas jaqueiras que sem d\u00favida competem com as faias virgilianas, se p\u00f4de levar a cabo a grande empresa; e n\u00e3o sei como, l\u00e1 se meteram pela velha cr\u00f4nica uns cerzidos ou remendos de estofo moderno, que seguramente lhe tiram seu ar carran\u00e7a, o melhor sainete do manuscrito.\n\nEsta advert\u00eancia, bem se v\u00ea que era imprescind\u00edvel, para evitar certos comentos. N\u00e3o faltariam malignos que julgassem ter sido esta cr\u00f4nica inventada \u00e0 fei\u00e7\u00e3o e sabor dos tempos de agora, como quem enxerta borbulha nova em tronco seco; n\u00e3o quanto \u00e0 trama da a\u00e7\u00e3o, que versa de amores, mas no tocante \u00e0s cousas da governan\u00e7a da capitania.\n\nPois n\u00e3o lograr\u00e3o seu intento; que o p\u00fablico a\u00ed fica munido do documento preciso para julgar da autenticidade desta ver\u00eddica hist\u00f3ria.\n\nSe os tempos volvem como as vistas de uma marmota, e as figurinhas c\u00e1 do pres\u00e9pio da terra entram para sa\u00edrem, com os mesmos engon\u00e7os e geringon\u00e7as, embora metidas em trajos diferentes; disso n\u00e3o tem culpa o cronista. L\u00e1 se avenham com o mundo, que \u00e9 o titereiro-mor de tais bonecos.\n\nO que se tira agora \u00e0 estampa forma apenas a primeira parte da cr\u00f4nica, e bem se pode chamar o Pr\u00f3logo da com\u00e9dia, que a seu tempo, quando houver folga e pachorra, tamb\u00e9m vir\u00e1 a lume.\n\nTijuca, dezembro de 1870.\n\n<strong>NOTA<\/strong>\n\nSai tardio e j\u00e1 fora de saz\u00e3o este primeiro volume de uma obra que podia bem estar a esta hora no rol dos alcaides de livraria.\n\nTendo entrado nos prelos em 1871, como se v\u00ea do frontisp\u00edcio, s\u00f3 agora 1873 vem a lume, e ainda assim desacompanhado do outro tomo, que lhe serve de parelha.\n\nA culpa \u00e9 do autor e ele a confessa contrito.\n\nPoderia alegar em seu favor que logo depois de remetido \u00e0 tipografia o original, teve necessidade de ir a Baependi fazer uso das \u00e1guas de Caxambu, que lhe eram aconselhadas.\n\nNem venha o leitor com a sua contrariedade, lembrando que nesse decurso escrevia ele o Til, para o folhetim da Rep\u00fablica.\n\n\u00c9 o Til desses livros que se comp\u00f5em com material pr\u00f3prio, fornecido pela imagina\u00e7\u00e3o e pela reminisc\u00eancia; e que portanto se podem escrever em viagem, sobre a perna, ou num canto da mesa de jantar.\n\nN\u00e3o sucede o mesmo com um romance hist\u00f3rico, e ainda mais em nosso pa\u00eds onde as fontes do passado nos ficaram t\u00e3o escassas, sen\u00e3o muitas vezes exaustas.\n\nPara decrever a nossa sociedade colonial \u00e9 necess\u00e1rio reconstrui-la pelo mesmo processo de que usam os naturalistas com os animais antediluvianos. De um osso, eles recomp\u00f5em a carca\u00e7a, guiados pela analogia e pela ci\u00eancia.\n\nO escritor que no Brasil tenta o romance hist\u00f3rico, h\u00e1 de cometer antes de tudo essa \u00e1rdua tarefa de recompor com os fragmentos catados nos velhos cronistas a col\u00f4nia portuguesa da Am\u00e9rica, tal como ela existiu, a separar-se de dia em dia da m\u00e3e p\u00e1tria, e j\u00e1 preparando o futuro imp\u00e9rio.\n\nImagine o leitor a c\u00f3pia de livros de que tem de cercar-se o autor; o isolamento a que deve sujeitar seu esp\u00edrito a fim de identific\u00e1-lo com esses \u00f3rg\u00e3os do passado; a leitura incessante que lhe \u00e9 necess\u00e1ria para saturar-se da antiguidade que se exala dos velhos alfarr\u00e1bios.\n\nIsto n\u00e3o se faz em viagem, e ainda menos em viagem de terra, pelos caminhos que temos, e com as pocilgas que \u00e0s vezes servem de pouso a\u00ed por esse interior.\n\nBem saudades levava eu dos meus personagens da Guerra dos Mascates, com os quais me habituara a tratar, e a quem j\u00e1 conhecia t\u00e3o bem, que os distinguia de longe pelo gesto ou pelo andar.\n\nQuando, de volta de Caxambu, de novo os procurei, j\u00e1 n\u00e3o eram os conhecidos que eu tinha deixado; e custou-me a entrar de novo em sua conviv\u00eancia.\n\nEste inconveniente, eu o noto todas as vezes que interrompo alguma obra. Se ela ganha pela reflex\u00e3o, perde muito da energia e abund\u00e2ncia que tem o primeiro arrojo da concep\u00e7\u00e3o.\n\nA id\u00e9ia de um livro, para aqueles que o escrevem de inspira\u00e7\u00e3o, brota de uma ebuli\u00e7\u00e3o do pensamento, como a planta do germe que fermenta no solo.\n\nEssa ebuli\u00e7\u00e3o traz consigo toda a seiva do livro como no torr\u00e3o em que vem o broto h\u00e1 o sal da terra, que deve formar o lenho, as folhas e a flor da \u00e1rvore.\n\nUma vez apagada a efervesc\u00eancia d&#8217;alma, sem que o livro esteja conclu\u00eddo, \u00e9 muito dif\u00edcil reproduzir o fen\u00f4meno, e nunca ele volta com a mesma exuber\u00e2ncia e o brilho da primeira expans\u00e3o.\n\nMalfadada nasceu esta cr\u00f4nica, pois quando o autor se julgava tornado a ela, arrancou-o a enfermidade para lev\u00e1-lo outra vez em triste peregrina\u00e7\u00e3o, mas desta vez pelos arrabaldes da cidade.\n\nC\u00e1 ficaram as provas a rever, e os materiais do segundo volume outra vez fechados na pasta \u00e0 espera de uma folga, que s\u00f3 veio decorrido um ano, e depois de profundos desgostos.\n\nAcudir\u00e1 o leitor com o Garatuja, que h\u00e1 poucos dias foi dado \u00e0 estampa?\n\nO Garatuja estava feito; faltava-lhe apenas a forma. A cidade colonial de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, eu tenho-a tantas vezes estudado e discorrido por ela, que j\u00e1 a conhe\u00e7o melhor do que a cidade imperial em que habitamos.\n\nFoi para mim um an\u00f3dino ao t\u00e9dio da mol\u00e9stia, essa cr\u00f4nica despretensiosa, escrita sem esfor\u00e7o nem cuidado, com o maior desalinho. Outra sorte desejava eu para a Guerra dos Mascates, que todavia sai mau grado, tanto, se n\u00e3o mais, descuidada na composi\u00e7\u00e3o, como na revis\u00e3o.\n\nEra minha inten\u00e7\u00e3o acompanhar este volume de notas, com refer\u00eancia \u00e0 parte hist\u00f3rica da obra, mas sobre faltar-me o tempo, care\u00e7o da paci\u00eancia para esse trabalho t\u00e3o fastidioso, quanto em geral desdenhado.\n\nA Guerra dos Mascates \u00e9 talvez dos fatos da nossa hist\u00f3ria colonial aquele de que nos ficaram mais copiosos subs\u00eddios. Temos acerca dessa grotesca revolu\u00e7\u00e3o o informe dos dois partidos, os quais, como sempre acontece, exageraram cada um por sua conta.\n\nDos personagens, que a hist\u00f3ria memorou, o principal \u00e9 sem d\u00favida Sebasti\u00e3o de Castro Caldas, governador e capit\u00e3o-general de Pernambuco, posto ao qual foi promovido depois que deixou o governo da Capitania do Rio de Janeiro, onde serviu entre os anos de 1695 a 1697.\n\nDe seu car\u00e1ter, como dos fatos que referem os cronistas, n\u00e3o carecemos de ocupar-nos aqui, pois melhor se ver\u00e3o do texto da obra, especialmente do segundo volume, onde a a\u00e7\u00e3o se desenvolve.\n\nFoi este governador muito caluniado, em seu tempo, acabando por lhe faltarem os amigos e defensores, em qualquer dos partidos; at\u00e9 mesmo naquele a quem por \u00faltimo se entregara. \u00c9 a sorte dos caracteres d\u00fabios e perplexos, que dirigindo todo seu esfor\u00e7o a manter-se em equil\u00edbrio entre as id\u00e9ias e os homens, quando uma vez falseiam, n\u00e3o acham esteio e despenham-se.\n\nCopiando-lhe o vulto hist\u00f3rico, al\u00e9m de vingar sua mem\u00f3ria contra a injusti\u00e7a e o aleive dos coevos, erigi em vera ef\u00edgie, para exemplo dos p\u00f3steros, a est\u00e1tua dessa pol\u00edtica sorna, t\u00edbia, sorrateira e esconsa, que \u00e0 maneira da carcoma r\u00f3i e corrompe a alma do povo.\n\nQuanto aos outros personagens, tanto os que vieram \u00e0 tona da hist\u00f3ria, como os outros que a onda dos acontecimentos submergiu, n\u00e3o s\u00e3o mais do que os manequins da cr\u00f4nica, semelhantes \u00e0s figuras de pau e cera em que os alfaiates e cabeleireiros p\u00f5em \u00e0 mostra na vidra\u00e7a roupas e penteados.\n\nSe o leitor malicioso quiser divertir-se experimentando carapu\u00e7as, o autor desde j\u00e1 protesta contra semelhante abuso e pelos preju\u00edzos, perdas e danos que dai possam provir a seu livro, o mais inocente de quantos j\u00e1 foram postos em letra de f\u00f4rma, desde que se inventou esse g\u00eanio do bem e do mal chamado imprensa.\n\n12 de maio de 1873.\n<h4>GUERRA DOS MASCATES<\/h4>\n<h4><strong><a id=\"primeira\" name=\"primeira\"><\/a>PRIMEIRA PARTE<\/strong><\/h4>\n<strong>(O PR\u00d3LOGO)<\/strong>\n<h4><strong><a id=\"1\" name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/strong><\/h4>\n<strong>A JANELINHA REBU\u00c7ADA DO S\u00d3T\u00c3O DA CASA NOVA DO P\u00a3RERECA<\/strong>\n\nA tarde do dia 1\u00ba de outubro de 1710 n\u00e3o teve cousa de maior.\n\nFoi uma tarde como qualquer, em fazendo bom tempo. O sol tinha a cara dos mais dias, a\u00ed pela volta das quatro horas que seriam ent\u00e3o; nada mais, a n\u00e3o ser uma carapu\u00e7a de algod\u00e3o que l\u00e1 as nuvens haviam encasquetado na cabe\u00e7a do astro para guard\u00e1-lo de constipar-se com o relento.\n\nE o mais \u00e9 que assim encarapu\u00e7ado, Febo, como ainda o chamavam ent\u00e3o os poetas e os namorados, fazia a figura de um Xerxes trajado \u00e0 moda de rei constitucional, de casaca e chap\u00e9u redondo.\n\nO c\u00e9u estava azul mais ou menos; o mar pelo mesmo teor; levanta-se a vira\u00e7\u00e3o e as \u00e1rvores tinham o verde do costume, misturado com alguns ramos secos e folhas murchas. Tamb\u00e9m deviam de cantar pelos arredores alguns passarinhos; n\u00e3o falando das flores que sem d\u00favida estrelavam o campo.\n\nAgora, se era de cetim o manto do firmamento, e de safira a redoma do oceano; se as auras suspiravam amores nos seios das boninas, e arrulhavam saudades as rolas melanc\u00f3licas, enquanto as a\u00e7ucenas abriam as suas ca\u00e7oulas cheias de perfumes, n\u00e3o sei eu: que n\u00e3o o diz a cr\u00f4nica.\n\nMas por isso n\u00e3o haja queixa. Tome cada um de sedas, pedrarias, endeixas e fragr\u00e2ncias, quanta por\u00e7\u00e3o queira, e v\u00e1 enfeitando e arrebicando a minha descri\u00e7\u00e3o a seu gosto. Eu c\u00e1 prefiro a simplicidade, que \u00e9 o mais c\u00f4modo de todos os estilos; basta ver que forra-se a gente ao trabalho de fantasiar, e deixa isso ao leitor.\n\nH\u00e1 nada como aquele modo ch\u00e3o de principiar as hist\u00f3rias da carocha? &#8211; Foi um dia&#8230; E cada um que imagine o tal dia \u00e0 sua fei\u00e7\u00e3o, de inverno ou de ver\u00e3o, de outono ou primavera, como lhe saiba melhor.\n\nPois era uma tarde&#8230; e a janela do s\u00f3t\u00e3o, na casa do. Perereca, abria manso e manso fazendo uma fresta, onde se mostrou a medo a ponta arrebitada do mais lindo narizinho retorcido de que h\u00e1 not\u00edcia desde Aglaia, a qual o tinha de primor, valha a f\u00e1bula, como a gra\u00e7a que era do chiste e da mal\u00edcia, donde veio chamarem-na os gregos de espl\u00eandida.\n\nAgora vejo que n\u00e3o se conhece ainda a casa, nem o lugar em que estava situada, sem falar de outras particularidades, que n\u00e3o deixam de ser curiosas, com especialidade o dono; pois, e n\u00e3o digo novidade, se em geral os pr\u00e9dios s\u00e3o cousa de seu propriet\u00e1rio, tamb\u00e9m donos h\u00e1 que s\u00e3o acess\u00f3rios de sua casa.\n\nEstamos no Recife.\n\nAndando a Rua da Praia dos Coqueiros, no bairro de Santo Ant\u00f4nio, quem ia naquele tempo do Col\u00e9gio para as bandas das Cinco Pontas, quase a meio caminho encontrava um vasto edif\u00edcio que ficava fronteiro \u00e0 barra; ainda a Rua da Mar\u00e9 com sua casaria n\u00e3o se tinha prolongado at\u00e9 aquele ponto da ribeira.\n\nLarga e baixa, a casa terreira aca\u00e7apava-se entre o arvoredo do quintal que a beirava de um e outro lado; mas dava logo nas vistas pela especialidade da pintura extravagante com que a haviam lambuzado, pois outra qualifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o quadraria \u00e0 incr\u00edvel borradela.\n\nTinha cerca de quatro anos o edif\u00edcio. Acabada nele a obra de pedreiro e carapina, quando se teve de passar ao artigo pintura, vieram as tribula\u00e7\u00f5es para o dono, o digno Sr. Sim\u00e3o Ribas, mascate de peso e marca entre os principais do Recife.\n\nN\u00e3o sei se j\u00e1 ai por essa monarquia dom\u00e9stica tinham inventado o governo pessoal, e usavam as cal\u00e7as respons\u00e1veis meterem-se por baixo da saia inviol\u00e1vel. C\u00e1, no meu alfarr\u00e1bio, s\u00f3 vejo que houve muita rezinga e alterca\u00e7\u00e3o, acabando o bate-barba ou quest\u00e3o de alcova, como de costume, com o triunfo completo da trunfa, que era ent\u00e3o, como o coque \u00e9 hoje, a coroa dom\u00e9stica.\n\nSabidas as contas, decidira a Sr.a Rufina Ribas que a fachada fosse de uma cor farfante e para ver-se a l\u00e9guas, l\u00e1 do alto-mar. Antes de surdir o navio pelo Lameir\u00e3o adentro, queria a respeit\u00e1vel matrona que sua casa nova entrasse pelas vistas da gente que vinha da santa terrinha.\n\nNem por sombras ocorreu ao marido a id\u00e9ia de opor-se \u00e0 vontade de sua dona. Era um marido constitucional o Sr. Sim\u00e3o Ribas; e n\u00e3o h\u00e1 ai ministro cortes\u00e3o, a que ele n\u00e3o levasse as lampas na arte insigne de fundir-se, como cera, em figurinhas moldadas ao capricho mulheril. N\u00e3o foram, pois, assomos de resist\u00eancia que perturbaram a paz dom\u00e9stica; ao inverso, proveio tudo de excessos de zelo e obedi\u00eancia.\n\nChamado a conselho o ex\u00edmio borrador a fim de dar alvitre sobre o caso, foi de voto que n\u00e3o havia como o zarc\u00e3o, para fazer o gosto \u00e0 Sr.a Rufina. Dito e feito: no dia seguinte amanheceu a parede assanhada com uma crosta do mais coruscante vermelho.\n\nMuito ancho de si, o digno mascate j\u00e1 se regozijava de ter uma vez na a feito as cousas ao agrado da querida metade, quando lhe veio ela deitar \u00e1gua na fervura.\n\nEsguelhando \u00e0 parede um olhar impertinente, espevitou o nariz, torceu o bei\u00e7o, e deu um muxoxo, que erri\u00e7ou os cabelos ao marido.\n\nBarulh0 no caso: novo apelo ao borrador que gizou a combina\u00e7\u00e3o do verdete com o zarc\u00e3o; e assim, de rezinga em rezinga, chegou-se \u00e0quele espalha. fato de todas as cores, onde o azul brigava com o encarnado, o verde com o vermelho, e o roxo-terra com o amarelo da oca. Era cousa indescrit\u00edvel, que o prospeto de algumas tabernas de hoje ainda n\u00e3o conseguiu imitar.\n\nNos primeiros dias esteve a casa de mostra aos basbaques e pasc\u00e1cios que por l\u00e1 iam, para se pasmarem diante daquela maravilha. Por um m\u00eas n\u00e3o se falou no Recife doutra cousa; at\u00e9 que um dia l\u00e1 apareceu pela manh\u00e3 escrito a carv\u00e3o, na frente, este d\u00edstico maligno &#8211; Perereca.\n\nLavou-se da parede a tisna, mas a alcunha ficou ai fisgada \u00e0 casa, como se a tivessem gravado em bronze. Fora o brejeiro de um rapaz que, voltando a ave-maria da escola e ouvindo cantar a r\u00e3 numa tou\u00e7a de bananeiras, lembrou-se da semelhan\u00e7a que tinha com a frente da casa, e escreveu-lhe o nome na parede. Ao outro dia, antes que apagassem as letras, sucedeu passarem ai um frade, uma comadre e um soldado. Leu o franciscano em voz alta, se julgando a s\u00f3s, e riu-se: ouviram-no os dois que atinaram com a gra\u00e7a.\n\nTanto bastou para que ao meio-dia se soubesse em todo o Recife do acontecido; e, pelo plebiscito do motejo un\u00e2nime, a casa sarapintada ficou sendo conhecida pelo nome expressivo de &#8211; Casa do Perereca.\n\nCobria o edif\u00edcio um telhado de largas abas e alto cocuruto, que lan\u00e7ava em cada quina uma ponta de barro com pretens\u00f5es a figura de marreca. Nas duas faces laterais erguiam-se as \u00e1guas-furtadas do s\u00f3t\u00e3o, que rasgava duas janelas, uma para cada banda.\n\nNa janela da direita, que durante o dia estava aberta sempre, de costume estendiam em um cordel passado de uma \u00e0 outra ombreira certa colcha de chita de ramagens, que ao sopro do vento desfraldava-se \u00e0 guisa de estandarte. Quem tinha a dita de conhecer a Sra. Rufina Ribas, acertando de passar por aqueles s\u00edtios e dando com o espantalho da tal coberta, adivinhava logo que era da garrida matrona essa janela.\n\nTinha outro ar e outros modos a janela da esquerda. Come\u00e7ava logo por uma latada que lhe haviam armado em volta, e lhe servia como de capuz, com as ramadas do maracujazeiro, entrela\u00e7ada pelos escaques do caramanchel. Dava-lhe isso, \u00e0 tal janelinha, uns biocos de freira, mas de freira mo\u00e7a e bonita, que l\u00e1 do remanso do claustro enfia pela grade uma olhadela curiosa e \u00e1vida do burburinho do mundo.\n\nOutra diferen\u00e7a vinha de estarem as adufas da direita sempre cerradas, em horas soalheiras; nisso pareciam-se com o c\u00e1lice de certas flores e com os c\u00edlios da juriti, que fecham-se pela muita luz e s\u00f3 abrem ao doce toque do crep\u00fasculo. Todavia n\u00e3o eram elas t\u00e3o recatadas do sol, que n\u00e3o se descerrassem l\u00e1 uma ou outra vez, na calma do dia, sobretudo aos domingos, para deixar que entrasse algum raio fagueiro pela c\u00e2mara do s\u00f3t\u00e3o.\n\nNo estreito eirado, rente com o peitoril, havia tr\u00eas vasos de barro onde cresciam v\u00e1rias plantas. A m\u00e3o que reunira ai o alvo bogarim, a rubra cravina, o goivo amarelo e os bagos escarlates da pimenta, esse conjunto singular lhe estava denunciando a travessura. Se \u00e9 verdade, e eu creio, que a alma imprime nos objetos que a cercam a sua pr\u00f3pria fei\u00e7\u00e3o, podia-se ver naquele grupo de plantas o enigma de um cora\u00e7\u00e3o.\n\nN\u00e3o seria o alvo bogarim o reflexo da candidez, como as p\u00e9talas da cravina a imagem dos vivos rubores de uma petulante castidade? O goivo, ali na mans\u00e3o da juventude, n\u00e3o exprimia a descuidosa alegria, que orvalha de risos at\u00e9 as horas aziagas? E naqueles bagos vermelhos e brilhantes da pimenta, n\u00e3o havia qui\u00e7\u00e1 o emblema das unhas de n\u00e1car, habituadas a insinuar no afago o belisco trai\u00e7oeiro?\n\nAfinal de contas, quem sabe se apesar de todas as suas mostras encantadoras n\u00e3o estava a tal sonsa da janelinha enganando a gente que passava, como certas mo\u00e7as do tempo de hoje, cujo fraco \u00e9 porem-se \u00e0s vessas; quero eu dizer, e sem mal\u00edcia, que se empenham com todas as for\u00e7as para fazerem-se outras, das que as criou a natureza.\n\nAssim tosquia-se para fazer cachos, aquela que Deus ornou com a t\u00fanica mais bela, que \u00e9 uma soberba madeixa. Se n\u00e3o a possu\u00edsse, havia de esmagar a cabe\u00e7a com uma trouxa enorme de cabelos posti\u00e7os. Estufa-se a magra com enchimentos para simular contornos, como a gorda se espartilha e acocha para figurar de esbelta. E nesse teor, enganando-se a si e aos outros, vai o mundo a rolar como uma bola que \u00e9, levantando estes e abaixando aqueles, mas por fim esmoendo a todos.\n\nEis porque n\u00e3o seria caso de espantar, se naquela janelinha t\u00e3o lou\u00e7\u00e3 viesse a aparecer uma velha encarquilhada, descobrindo-se afinal que o nosso narizinho retorcido n\u00e3o passava da ponta fungada do cavalete setuagen\u00e1rio de um respeit\u00e1vel par de \u00f3culos de tartaruga.\n\nTudo pode ser.\n<h4><strong><a id=\"2\" name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/strong><\/h4>\n<strong>A LEBRE NA TOCA E O VEADO NA MOITA<\/strong>\n\nJ\u00e1 batia a sombra no peitoril, quando se entreabrira a adufa da janela, mostrando a ponta retorcida do gentil narizinho.\n\nDir-se-ia que ele farejava como uma lebre arisca, tal era sua volubilidade, se n\u00e3o fosse mais natural presumir um olhar, que ainda se n\u00e3o distinguia, coando pela fresta, a espreitar os arredores. Como nada aparecia de suspeito, as duas abas correram, escancarando-se de par em par com arrebatamento igual da timidez anterior.\n\nAssim abrem-se tamb\u00e9m as asas do passarinho, que h\u00e1 pouco titilava dentro do ninho, e j\u00e1 talha os ares com o v\u00f4o r\u00e1pido.\n\nNo v\u00e3o da janela mostrou-se o busto de uma menina; mas o que primeiro se viu, sen\u00e3o somente, pois arrebatava os olhos todos e a alma, foi a cabecinha cheia de papelotes, que se enroscavam entre os an\u00e9is do cabelo negro. Nunca flores, nem p\u00e9rolas, ornaram uma fronte fidalga como aqueles crespos de papel.\n\nTrazia a menina os bolsos do avental cheios de gomos de cana, cortados \u00e0 fei\u00e7\u00e3o de chupar; e naquele momento, seus dentes brancos e polidos como o jaspe mordiam uma talhada, que lhe arrega\u00e7ava graciosamente os l\u00e1bios purpurinos. No prazer com que ela trincava a fibra da cana, sugando-lhe o mel, adivinhava-se o segredo dessa boquinha faceira.\n\nN\u00e3o era boca para embeber-se na del\u00edcia de um beijo ardente, com a \u00e2nsia da paix\u00e3o que imbui uma alma na outra, fundindo-as em del\u00edquios de amor. N\u00e3o o era decerto; mas para trincar um cora\u00e7\u00e3o, como se fosse um gomo de cana, ou para esgar\u00e7ar a vida de um m\u00edsero amante, como o baga\u00e7o que segurava entre os dedos, isto sim: podia-se jurar.\n\nQuem admirou a fina polpa desse l\u00e1bio e n\u00e3o viu logo as semelhan\u00e7as da p\u00e9tala de rosa cobrindo o espinho, ou do bago da pitanga onde acaso insinua-se o farp\u00e3o da abelha? Desses l\u00e1bios, quando ele, alguma vez se abrocham em bot\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 fiar; s\u00e3o beijos de morder, os que eles sabem, caricias que pungem n&#8217;alma e a deixam em piques. Por isso est\u00e3o sempre a rir, n\u00e3o tanto de alegria, como pelo gosto de mostrar o dentezinho branco, sutil e afilado como o dardo da \u00e1spide que se escondesse em um alj\u00f4far.\n\nMas naquele rosto gracioso, o primor n\u00e3o eram nem a boca brejeira e os cabelos cacheados, nem os olhos pretos que faziam c\u00f3cegas no cora\u00e7\u00e3o, nem mesmo a covinha da barba, que um poeta chamaria o ninho das gra\u00e7as. Era&#8230; Adivinhem!&#8230; Era o narizinho retorcido, que no meio daquelas gentis fei\u00e7\u00f5es, parecia um anjo traquinas dentro de um ber\u00e7o de boninas.\n\nQuando encontro um desses narizes arrebitados, j\u00e1 se entende, em rosto de mo\u00e7a, cuido estar vendo um passarinho, que arrufa-se de c\u00f3lera e empina a cabe\u00e7a, pronto a lan\u00e7ar a bicada. Reparem bem; depois digam-me se nesse retorcido gracioso de uma ventinha r\u00f3sea e transparente, n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed esculpido na sua mais bela forma o capricho. E se n\u00e3o sabem o que seja capricho, posso confiar-lhes este segredo de minha inven\u00e7\u00e3o: \u00e9 um colibri que tem o ninho no cora\u00e7\u00e3o de certas mo\u00e7as, e chupa-lhes o mel de todas as flores d&#8217;alma.\n\nChupando os gomos de cana, ia-os a menina dos papelotes arranjando um perto do outro, em fileiras, sobre o batente da janela; no cuidado com que o fazia, e certo arzinho lesto, se estava denunciando o pensamento de uma travessura, de que ela j\u00e1 saboreava o gostinho.\n\nDe vez em quando relanceava um olhar pela praia fronteira do bairro do Recife, desde o Forte do Matos at\u00e9 \u00e0 ponte, que unia as duas margens, e da qual os tetos das casas e arvoredos dos quintais n\u00e3o lhe deixavam avistar sen\u00e3o a extremidade oposta. Entretanto, se acontecia farfalharem as folhas com alguma rajada mais fresca da brisa do mar ou com o arranco de alguma rola assustada, estremecia a fingida e punha-se alerta.\n\nReparando nas plantas dos vasos, que formavam seu jardim, o narizinho arrebitado achou-as l\u00e2nguidas e tristes com o calor do dia, e lembrou-se de reg\u00e1-las.\n\nFoi dentro buscar um moringue d&#8217;\u00e1gua, dos bojudos e pesados como os costumam fazer ainda hoje; e a custo, erguendo-o com ambas as m\u00e3os para vencer-lhe o peso, conseguiu deit\u00e1-lo no peitoril da janela. Da\u00ed inclinando-o, tomava ela os bochechos d&#8217;\u00e1gua, que deitava sobre as plantas, de bru\u00e7os ao parapeito para alcan\u00e7ar o vaso.\n\nUma carri\u00e7a, que tinha constru\u00eddo o ninho no v\u00e3o de uma telha, desde instantes folgava defronte da janela, tra\u00e7ando no ar os adejos, como costuma, a voar e revoar no mesmo lugar.\n\nConvidada pela frescura d&#8217;\u00e1gua, foi esconder-se entre as folhas rociadas do bogarim, e bebeu uma gota que tremulava dentro da n\u00edvea corola da flor. Invejou a menina dos papelotes aquela travessura, e sentiu n\u00e3o ser passarinho para faz\u00ea-la.\n\nQue \u00e9 isso? Temos novidade?\n\nErgueu-se r\u00e1pida a cabe\u00e7a dos papelotes; os olhos vivos lhe cintilaram de prazer, fitando um objeto, l\u00e1 da outra banda.\n\nSeria acaso um rapazola que desembocava apressado da Rua do Azeite na da Madre de Deus, e depois de quebrar a esquina, voltando a cabe\u00e7a para assegurar-se que o n\u00e3o seguiam, deitara a correr na dire\u00e7\u00e3o da ponte?\n\nBem pode ser, porque os olhos buli\u00e7osos, agora atados, vieram seguindo passo a passo pela praia o sujeitinho, at\u00e9 passar o arco e entrar na ponte onde o esconderam as casas. Todavia continuaram os olhinhos caminheiros a andarem pelo ar uma certa vereda que l\u00e1 eles conheciam de a terem batido muita vez, e que, era eu capaz de apostar, vinha cair a\u00ed perto, entre os cajueiros e mangues do areal da Penha, mesmo naquele claro para onde est\u00e1 olhando agora a curiosa.\n\nDebru\u00e7ada sobre o peitoril, com as m\u00e3os seguras ao batente onde apoiava o seio, o pesco\u00e7o estendido e o ouvido alerta, tinha a menina o jeito de uma lebre agachada \u00e0 boca da toca sobre as patas dianteiras, com as orelhas crespas, de espreita ao perigo. Este n\u00e3o andava longe.\n\nAtravessando a ponte e seguindo pela Rua da Mar\u00e9, o garoto ganhara o arvoredo al\u00e9m da coroa de areia onde se elevava o convento de Nossa Senhora da Penha de Fran\u00e7a. Ai parou um instante, com a ligeira hesita\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a que receia um malogro.\n\nEra ele um belo rapaz de dezessete anos; n\u00e3o obstante a pouca idade, mostrava no gentil parecer tal ardimento, e no talhe bem composto um donaire firme e resoluto, que imprimiam em sua gra\u00e7a adolescente uma encantadora bizama.\n\nCom um movimento que parecia habitual alisava um bigode ausente, o qual apenas se anunciava pela macia pubesc\u00eancia do l\u00e1bio superior. Em falta dos longos p\u00ealos que repuxasse em momentos de enfado, \u00e0 moda dos veteranos, pagavam os cantos da boca fresca e rosada.\n\nOutro sestro que se lhe notava era dar \u00e0 ilharga, em andando, certa desca\u00edda como o soldado que traz espada \u00e0 cinta e furta levemente o quadril para n\u00e3o embara\u00e7ar a marcha. Bem diverso era o instrumento de que vinha ele armado: sobra\u00e7ava um bast\u00e3o chanfrado de jacarand\u00e1 com a medida portuguesa de vara e c\u00f4vado, e trazia \u00e0s costas uma burjaca de couro de Mosc\u00f3via cheia de fazendas e miudezas, objetos estes de que n\u00e3o se pudera antes desvencilhar com receio de perd\u00ea-los; mas naquele momento vingou-se com usura.\n\n&#8211; Arre! N\u00e3o est\u00e1 longe o dia em que te hei de meter no fogo! exclamou atirando a vara ao ch\u00e3o e dando-lhe por cima um pontap\u00e9; e o saco foi pelo mesmo caminho e teor.\n\nVestia o rapaz, ao uso do tempo e de sua condi\u00e7\u00e3o, jaleco, v\u00e9stia e cal\u00e7iles de belbute da mesma cor parda, com meias cruas apertadas abaixo do joelho e sapatos grossos de couro acamur\u00e7ado, com fivela de estanho. Pelo trajo via-se que era filho da gente do meio, como se designava ent\u00e3o a classe que nem era a nobre, nem a mec\u00e2nica; mas. ficava entre ambas, e se compunha daqueles a quem o of\u00edcio ou arte liberal privilegiava com certa isen\u00e7\u00e3o. Deste n\u00famero eram os mercadores de tenda aberta.\n\nQuem, pois, visse passar pelas ruas do Recife naquele tempo o esperto garoto com a vara embaixo do bra\u00e7o e a burjaca ao ombro, reconhecia-o logo pelo mo\u00e7o de um mascate, ou seu caixeiro de rua e balc\u00e3o.\n\nE n\u00e3o se enganaria, pois tal era o mister que tinha o Nuno na loja de seu pai, o mercador Miguel Viana.\n\nCurta foi a hesita\u00e7\u00e3o do rapaz. Meteu-se entre as \u00e1rvores e aproximou-se sorrateiramente, afastando os ramos para aprochar a casa. Se do lado da casa-a lebre espiava, de c\u00e1 era o campeiro que passava sutil trav\u00e9s da folhagem, aspirando as baforadas do ar e pressentindo um h\u00e1lito suspeito de envolta com as emana\u00e7\u00f5es da brisa e os efl\u00favios das flores.\n\nAfinal, de espreita em espreita, l\u00e1 chofraram-se os olhares de ambos, a modo de p\u00e9las que se encontrassem no ar e retrocedessem. Como figurinhas de artif\u00edcio tocadas por mola oculta, tomaram de s\u00fabito v\u00e1ria postura. O rapaz, voltando costas \u00e0 janela, apanhava no ch\u00e3o um ramo seco e partia-o em peda\u00e7os, que lhe serviam para atirar \u00e0 copa das \u00e1rvores, com o disfarce de abater algum fruto. Quanto \u00e0 menina, de um \u00e1pice escondera-se atr\u00e1s da ombreira da janela, debulhando nos l\u00e1bios um riso malicioso, que ralhava com o rubor derramado pelas faces, da mesma forma que os dedos traquinas estavam \u00e0s voltas com os alamares do justilho.\n\nPassado um momento, como o Nuno parecia em verdade ocupado com as \u00e1rvores, o narizinho retorcido que se animara a espiar com o canto do olho pela quina da ombreira, foi a pouco e pouco, de susto em susto, j\u00e1 ousado, e j\u00e1 tr\u00eamulo, mostrando-se pela face interior, at\u00e9 que afinal surdiu fora de novo, embora um tanto arisco e desconfiado.\n\nA\u00ed a esperava o fingido mo\u00e7o, que tendo visto de esguelha toda a m\u00edmica, voltou-se de supet\u00e3o; mas, se ouviu um gritozinho semelhante ao da carri\u00e7a, n\u00e3o enxergou mais que uma sombra a desvanecer-se na obscuridade da recamara.\n\nT\u00e3o viva e ligeira como ele, a menina frustrou-lhe a travessura, escondendo-se de novo.\n\nDuas ou tr\u00eas vezes repetiu-se a pantomima, e o rapaz sempre logrado; at\u00e9 que amuou-se, e trepando em um galho d&#8217;\u00e1rvore, sentou-se de costas para a janela, a balan\u00e7ar as pernas e a repetir a cantiga de um folguedo muito em voga ent\u00e3o:\n<p align=\"center\">Uma, duas, argolinha,\nFinca o p\u00e9 na pepolinha;\nO rapaz que jogo faz,\nFaz o jogo do cap\u00e3o,\nO cap\u00e3o sobre o cap\u00e3o,\nConta bem, Manuel Jo\u00e3o;\nConta bem que vinte s\u00e3o;\nE recolhe este pezinho\nNa conchinha duma m\u00e3o.<\/p>\n<a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>\n<h4><strong>CAP\u00cdTULO III<\/strong><\/h4>\n<strong>ENTRAM EM CENA A RONHA E A BILIS DO GOVERNO DA CAPITANIA<\/strong>\n\nDebalde a faceira veio estouvadamente debru\u00e7ar-se \u00e0 janela; debalde come\u00e7ou a espantar os passarinhos com um certo ch\u00f3 dos l\u00e1bios que riam-se arremedando um psiu; debalde contrariada pela impassibilidade do rapaz, tirou do peito uma tosse fingida, que, se n\u00e3o me engano, acabou por um suspiro mavioso.\n\nN\u00e3o se abalava o rapaz, que era pirracento, sen\u00e3o ardiloso. Mas que bigode, quando mais bu\u00e7o a pungir, h\u00e1 a\u00ed que ven\u00e7a em manha e teima a um narizinho retorcido? Mostrem-mo, se s\u00e3o capazes.\n\nAcaso tocara a menina com o cotovelo na ruma de baga\u00e7os de cana, que alinhara sobre o peitoril, e dos quais se esquecera um instante. Segurou o primeiro na ponta dos dedos, e z\u00e1s, fez alvo no rapaz que n\u00e3o se mexeu. Ao quinto ou sexto tiro todavia, o inimigo inc\u00f3lume, pois nenhum dos proj\u00e9teis acertara nele, deu sinal de baleado, tombando de repente para tr\u00e1s.\n\nRodar sobre o galho como um corrupio, virar no ar uma cambalhota, e cair de p\u00e9, em frente da janela, foi para o rapaz neg\u00f3cio de esfregar um olho. Quando a travessa o procurava no ar, j\u00e1 estava ele quase embaixo da janela, fazendo-lhe por despique um momo de simulado espanto.\n\n&#8211; H\u00e3!&#8230;\n\nJ\u00e1 era tarde para fugir, se \u00e9 que ela nunca teve tal id\u00e9ia, e n\u00e3o se deixara muito de prop\u00f3sito apanhar dessa calculada surpresa. Contudo fez men\u00e7\u00e3o de hesitar, enleada no melhor partido; e foi ela soltar a risada gostosa que lhe estavam provocando os gatimanhos do mo\u00e7o.\n\nCome\u00e7ou ent\u00e3o o desafio das risadas e das ligeirezas; porque ela procurava acert\u00e1-lo com o baga\u00e7o de cana, que ele evitava com saltos e furtadelas de corpo; da\u00ed as nega\u00e7as e os enli\u00e7os de parte a parte, at\u00e9 que partia o tiro; se errava o alvo, como quase sempre acontecia, Nuno fazia uma careta:\n\n&#8211; Uh! Uh!&#8230;\n\nE eram gargalhadas da menina e trejeitos do mo\u00e7o, que se divertia com aquele folguedo apto ao seu g\u00eanio tr\u00eafego e petulante.\n\nAcabados os proj\u00e9teis, meteu a menina a m\u00e3o no bolso e tirou um gomo de cana, mas em vez de o jogar, come\u00e7ou com ele a fazer foscas ao mo\u00e7o, ora fingindo que o chupava, ora acenando que lho queria dar em m\u00e3o.\n\n&#8211; Quer? perguntou afinal.\n\n&#8211; Atire!\n\n&#8211; L\u00e1 vai!\n\nAparou o mo\u00e7o nas m\u00e3os o gomo de cana e chupou-o logo: depois outro e outro at\u00e9 o \u00faltimo.\n\n&#8211; N\u00e3o tem mais! dizia a menina virando os bolsos.\n\n&#8211; Que pena!\n\nDesde que n\u00e3o havia mais travessuras, sentiam-se os dois enleados; j\u00e1 n\u00e3o se animavam a olhar um para o outro, nem a trocar palavra.\n\nO rapaz estendia os olhos para o caminho e suspirava; a menina j\u00e1 n\u00e3o se debru\u00e7ava \u00e0 janela, e de vez em quando voltava-se para dentro.\n\nDesse lado da casa havia um tapume tosco e em muitos pontos aberto pela gente que, para encurtar caminho, atravessava os terrenos da quinta, na dire\u00e7\u00e3o dos Mogados. Favorecido pelos h\u00e1bitos dos moradores que deixavam essa parte da habita\u00e7\u00e3o deserta naquelas horas, Nuno se aproximara sem despertar a aten\u00e7\u00e3o, e como cada tarde ia conquistando mais terreno, estava ent\u00e3o junto ao tronco de uma pinheira que lan\u00e7ava os galhos para o telhado.\n\nLembrou-se de trepar; era uma travessura. Nisso uma voz aguda chamou do interior:\n\n&#8211; Marta!\n\nCorreu para dentro a menina, e com pouco voltou, comendo uma cocada que a m\u00e3e lhe dera, e com a qual se preparava para fazer figa ao camarada; mas n\u00e3o o viu. Cansada de procur\u00e1-lo entre as \u00e1rvores e despeitada da pe\u00e7a que lhe pregara, ia retirar-se murmurando: guerra dos mascates 171\n\n&#8211; Deixa-te estar, marotinho!\n\nEis que surge-lhe pela beirada do telhado a cabe\u00e7a do estouvado rapaz, trepado na pinheira, donde conseguira alcan\u00e7ar com a m\u00e3o as travessas ou cachorros, como lhes chamam os carpinteiros. Com o susto que sofrera e o receio de que descobrissem o rapaz naquela posi\u00e7\u00e3o, Marta acenou-lhe com a m\u00e3o que descesse:\n\n&#8211; Um ninho! disse Nuno olhando pelo interst\u00edcio das telhas.\n\n&#8211; Aonde? perguntou a menina j\u00e1 picada pela curiosidade.\n\n&#8211; Aqui. \u00c9 o da carri\u00e7a!\n\n&#8211; Tem ovos?\n\n&#8211; Dois!\n\n&#8211; Ah!&#8230;\n\n&#8211; Quer?\n\n&#8211; N\u00e3o!\n\nEsse n\u00e3o, disseram-no vivamente os l\u00e1bios de Marta, mas os olhos a desmenti-los estavam morrendo de desejos de ter o ninho com os ovos dentro. J\u00e1 este passara do v\u00e3o da telha para a m\u00e3o do rapaz que o mostrava:\n\n&#8211; Olhe!\n\n&#8211; Que bonito! exclamou a menina com o prazer supremo da crian\u00e7a, que se atira para o brinquedo e parece meter-se por ele para melhor o possuir. \u00c9 talvez por essa veem\u00eancia do gozo infantil, que os meninos quebram logo as tet\u00e9ias de que mais gostam.\n\n&#8211; Tome! disse Nuno fazendo men\u00e7\u00e3o de levar-lhe o ninho.\n\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! respondeu Marta com espanto, querendo fugir da janela.\n\n&#8211; Ent\u00e3o levo para Isabel.\n\n&#8211; Pois sim!\n\nDesconsolado metia Nuno o ninho no peito da v\u00e9stia, e preparava-se para descer, enquanto de seu lado Marta arrufada consigo mesma, olhava \u00e0 sorrelfa o camarada, com sorriso insosso. O rapaz cogitava um pretexto para ficar; a menina tinha medo que ele o achasse, mas sentia que se fosse t\u00e3o depressa.\n\nDe repente uma voz de tom imperioso soou perto, que produziu nos dois o natural espanto e so\u00e7obro de se verem surpreendidos em flagrante delito de travessura:\n\n&#8211; Que fazes tu a\u00ed, garoto?\n\nCom estas palavras, ressoou tamb\u00e9m o estr\u00e9pito de uma brilhante cavalgata, que se aproximara sem rumor por causa da areia, e estava agora parada na rua, aqu\u00e9m do canto da casa, onde passava a cena anterior.\n\nA figura proeminente do tro\u00e7o era um cavaleiro de grande porte e alta estatura, que ent\u00e3o ocupava o centro na testa do primeiro grupo. Or\u00e7aria pelos quarenta anos; tinha olhos pequenos e ornava-lhe o rosto alvo densa barba cinzenta, fina e macia, que disfar\u00e7ando a aspereza das linhas inferiores, corrigia-lhe o oval do semblante.\n\nDe perfil, por\u00e9m, acentuava-se a proje\u00e7\u00e3o do queixo, bem como a proemin\u00eancia da fronte, que se distinguia sob a aba do chap\u00e9u de castor, guarnecido a cairel de ouro. Nessas duas sali\u00eancias da fisionomia estava, como em relevo, desenhado um car\u00e1ter.\n\nA pertin\u00e1cia, n\u00e3o a da perseveran\u00e7a como a praticam os \u00e2nimos robustos que sabem querer, e sim a da obstina\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de naturezas t\u00edmidas, que se aferram ao pretexto; a resist\u00eancia da d\u00favida, alimentada pela \u00edndole da contradi\u00e7\u00e3o; o molde da parte posterior do rosto o estava retratando.\n\nAnunciava intelig\u00eancia a fronte aberta; e todavia a testa bombeada acusava nesse contorno arredondado do cr\u00e2nio um tra\u00e7o feminino. Via-se a\u00ed a f\u00f4rma do talento do detalhe, ou melhor, da maleabilidade do engenho, que se presta a v\u00e1rios misteres ao mesmo tempo, contanto que todos calhem na bitola.\n\nEra nobre e viril o parecer do cavaleiro, especialmente em repouso; mas desde que se punham em a\u00e7\u00e3o suas faculdades, desprendia-se delas um prurido de atividade s\u00f4frega e vol\u00fabil, que desconcertava a compostura do semblante, como do talhe. Falava r\u00e1pido, com a palavra difusa e a voz estridente; demasiava-se no gesto; e em todos os seus modos punha tal alacridade, que devia-lhe algumas vezes o esp\u00edrito titubear, enleado naquela meada de idas e vindas, de passos e voltas, em que se comprazia o seu g\u00eanio infatig\u00e1vel.\n\nCasaca de veludo castanho com mangas de bota e guarnecida, como o chap\u00e9u, de cairel de ouro; volta de renda, la\u00e7ada ao pesco\u00e7o, e da qual lhe ca\u00edam as duas pontas largas sobre o peito da v\u00e9stia de cetim azul com ramagens brancas estampadas; talim de veludo que suspendia a rica espada; broches de pedraria na presilha do chap\u00e9u, nos punhos do camisote e na atadura dos cal\u00e7\u00f5es de brocado amarelo: assim vestia o cavaleiro.\n\nTrajo esse para fidalgo de grande estado, novo e aprimorado da fazenda como do feitio, bem longe de sobressair na complei\u00e7\u00e3o bem proporcionada do cavaleiro, parecia, pelo desleixo com que o trazia ele, j\u00e1 amarrotado do muito uso.\n\nTal era Sebasti\u00e3o de Castro Caldas, governador e capit\u00e3o-general de Pernambuco.\n\n\u00c0 direita ficava-lhe o Capit\u00e3o Barbosa de Lima, secret\u00e1rio do governo; \u00e0 esquerda o Capit\u00e3o Negreiros, primeiro ajudante-de-ordens. Seguia-se o Tenente Bernardo Alem\u00e3o, segundo ajudante-de-ordens, com o alferes Andr\u00e9 Vieira, que mandava o piquete de cavalaria da guarda do governador; por \u00faltimo quatro criados em libr\u00e9 de seda amarela com forro verde dobrado nas golas, no canh\u00e3o e ponta das abas, tendo as armas dos Castro Caldas bordadas no alto da manga do gib\u00e3o \u00e0 guisa de dragona.\n\nEis a cavalgada que parara no canto da casa, com espanto do Nuno, que l\u00e1 de cima da sua pinheira, quase encarapitado no telhado, esgazeava uns olhos donde coava-se atrav\u00e9s do susto o chasco ardiloso do brejeiro.\n<h4><strong><a id=\"4\" name=\"4\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV<\/strong><\/h4>\n<strong>DO PERIGO DE TIRAR NINHOS DOS TELHADOS NO TEMPO DE EL-REI NOSSO SENHOR<\/strong>\n\nNo momento em que a luzida cavalgada, avan\u00e7ando a passo moderado, defrontou com a janela do s\u00f3t\u00e3o, Um ligeiro sorriso perpassara nos l\u00e1bios do governador, erri\u00e7ando de prazer o fino bigode, que sua m\u00e3o branca e esmerada alisou com um gesto r\u00e1pido.\n\nTinha percebido o vulto gracioso de Marta, que destacava no v\u00e3o da janela, como a figura de uma s\u00edlfide na tela escura de ex\u00edmio pintor. Ao sopro da brisa as roupas transparentes de gar\u00e7a verde-gaio lhe flutuavam em torno como asas de gaturamo, especialmente as mangas soltas, donde se lan\u00e7avam os lindos bra\u00e7os, imitando l\u00edrios hasteados entre a folhagem. Um justilho preto, curto e chanfrado, cerrava-lhe a cintura mimosa, que dobrava-se como a haste da flor, com as inflex\u00f5es do talhe.\n\nBreve se apagara nos l\u00e1bios do governador o sorriso, percebendo que a menina n\u00e3o estava s\u00f3, mas praticando com algu\u00e9m. Ao ver o intruso, a posi\u00e7\u00e3o em que se achava, e a casta de gente que era, carregou-se-lhe o sobrolho; e por uma leve depress\u00e3o do l\u00e1bio superior, dir-se-ia que mordera um fio do bigode.\n\nTodavia n\u00e3o se alterou em geral a calma de seu porte; e a ligeira perturba\u00e7\u00e3o passou desapercebida para todos, com exce\u00e7\u00e3o dos dois oficiais que ladeavam o governador.\n\nFoi ent\u00e3o que o Capit\u00e3o Negreiros, justamente irritado contra o temer\u00e1rio que ousara cair no desagrado do poderoso governador, n\u00e3o s\u00f3 lan\u00e7ou contra o Nuno aquela ap\u00f3strofe acentuada com a mais oca retumb\u00e2ncia de sua voz, por\u00e9m ficou-o fulminando com a sombria catadura.\n\nComo n\u00e3o respondesse o rapaz, e estivesse l\u00e1 de seu poleiro a mir\u00e1-lo com ares de mofa, arremessou-lhe de novo estas palavras:\n\n&#8211; N\u00e3o tens boca, mariola! Que fazes tu ai?\n\n&#8211; \u00c9 um ninho de carri\u00e7a, sim, meu senhor!&#8230; respondeu o menino atarantado.\n\n&#8211; Um ninho, grand\u00edssimo peralta! bradou o ajudante com suprema indigna\u00e7\u00e3o e a mais possante \u00eanfase orat\u00f3ria. Um ninho no telhado!&#8230;\n\nNo \u00e2nimo do nosso ajudante um crime de lesa-majestade dos cap\u00edtulos de primeira cabe\u00e7a n\u00e3o produziria tamanho horror, qual mostrava, e devemos crer que \u00e0s veras, diante da enormidade desse atentado inaudito contra a inocente prole da carri\u00e7a e a inviolabilidade do telhado do Perereca.\n\nEm verdade era grave o caso; assassinato em massa e invas\u00e3o na propriedade alheia. Se um rei ou um governador se lembrasse disso para distrair-se, inventando uma guerra ou algum monop\u00f3lio que dizimasse o povo na vida e na bolsa, avisaria o nosso ajudante a excel\u00eancia da medida; pois qual \u00e9 o fim da rep\u00fablica sen\u00e3o divertir aos pr\u00edncipes? Mas quando era um galopim que ousava atacar as telhas e os ninhos!&#8230; Oh! prot\u00e9rvia!&#8230;\n\nArremessou o capit\u00e3o o cavalo contra a cerca no intuito de alcan\u00e7ar o artelho do rapaz e derrub\u00e1-lo da \u00e1rvore; mas este que lhe adivinhou o plano apoiando-se na beirada, galgou o telhado e se p\u00f4s a salvo.\n\n&#8211; Safa rascada! gritou o brejeiro.\n\nAfastara-se o governador e entretinha-se \u00e0 parte com o prazenteiro secret\u00e1rio, parecendo de todo alheio \u00e0 cena que ali se passava. Mas quem o observasse atento, perceberia o olhar r\u00e1pido que a furto relanceava para a janela do s\u00f3t\u00e3o, onde se eclipsara a estrela, com o aparecimento da cavalgada.\n\n&#8211; Desce, biltre!&#8230; intimava furioso o ajudante.\n\nMas o marotinho do rapaz gingava no telhado, bamboleando o corpo e fazendo-lhe gatimanhos de zombaria:\n\n&#8211; Babau, sr. capit\u00e3o! Babau!\n\n&#8211; Eu te esbandalho, peda\u00e7o de um bargante! berrou o ajudante.\n\n&#8211; Isca! Isca!.\n\n&#8211; Ol\u00e1, um! Agarrem-me j\u00e1 este espirro de gato.\n\nApeou-se um dos lacaios para cumprir a ordem, o que compreendendo o Nuno e vendo a estreiteza do caso, lan\u00e7ou em torno uma vista indecisa; nisto sentiu que lhe puxavam a aba do gib\u00e3o. Voltando-se, deu com a carinha travessa de Marta um tanto amarrotada do susto, a mostrar-lhe a rec\u00e2mera como um asilo. N\u00e3o havia hesitar.\n\nCorriam-se as adufas da protetora janelinha, justamente quando aparecia a cabe\u00e7a do lacaio por cima das telhas. O ajudante estava no del\u00edrio da raiva; se a princ\u00edpio se mostrava irritado por conta do governador, agora era pela sua pr\u00f3pria que esbravejava como um possesso.\n\n&#8211; Marau, gambirra, fundilho de Judas, l\u00eandea do C\u00e3o-Tinhoso, fedelho de Satan\u00e1s!&#8230;\n\nPor este jeito vociferou durante algum tempo o ajudante, not\u00e1vel pela fertilidade dos ep\u00edtetos mais pitorescos e originais, com que nos seus momentos de sanhuda eloq\u00fc\u00eancia ele enriquecia o idioma das regateiras.\n\nObservando o governador que seu ajudante come\u00e7ava a exceder-se, deu de r\u00e9dea ao cavalo e passou adiante com o secret\u00e1rio, cujo eterno sorriso se encrespara com um ligeiro tom de ironia ao ver o destampat\u00f3rio do capit\u00e3o.\n\nQuando passavam pela frente da casa, abriu-se a porta, e saiu um hom\u00fanculo, armado com uma cabe\u00e7a de pitorra e enfaixado em um quim\u00e3o de primavera.\n\nDesbarretando-se at\u00e9 ao ch\u00e3o, desfazia-se em cortesias t\u00e3o rasteiras, que mais pareciam dirigidas ao cavalo do que ao cavaleiro.\n\n&#8211; Boa tarde, sr. almotac\u00e9.\n\n&#8211; Aos p\u00e9s da muito alta plosop\u00e9ia do exmo sl. govelnadol!\n\nA esse tempo por urna fresta da gelosia do meio, a Sr.a Rufina, que empurrara o marido pela porta, espreitava de dentro.\n\n&#8211; N\u00e3o sabe o que acontece? perguntou o governador.\n\n&#8211; Sabelei, meu senhol, se a bondade de V. Ex.a concedel-me essa gla\u00e7a.\n\n&#8211; Capit\u00e3o! disse o governador com os olhos no secret\u00e1rio.\n\nEste, compreendendo a inten\u00e7\u00e3o, tomou a palavra:\n\n&#8211; Agora mesmo, ao passar, vimos um galopim que trepou no telhado de sua casa e entrou pela janela do s\u00f3t\u00e3o.\n\nOuviu-se o estr\u00e9pido da gelosia que batera, e logo uma voz correndo para o interior:\n\n&#8211; Virgem Sant\u00edssima! No quarto de Marta! Acudam, gentes!&#8230; Quanto ao Sr. Sim\u00e3o Ribas, ficara estatelado com o caso; mas afinal, pondo as m\u00e3os na cabe\u00e7a, exclamou em tom pat\u00e9tico:\n\n&#8211; Um sic\u00e1lio, aflontando a minha autolidade! Que atlevimento!&#8230;\n\nVoltando-se depois a custo, porque as pernas lhe fugiam, disse para a casa:\n\n&#8211; A minha vala, Senhola Lufina!\n\nEntretanto Nuno e Marta espiavam pelas frestas bem conchegados pelo susto e tamb\u00e9m por esse gozo inef\u00e1vel de transviver-se em outro, o que j\u00e1 em crian\u00e7a todos pressent\u00edamos com o prazer de inocente folguedo. Qual, no jogo da manja, n\u00e3o procurava de prefer\u00eancia a parceria da menina mais bonita, para atracar-se com ela no cantinho e t\u00e3o apertados, como se quisessem esconder-se um no outro?\n\n&#8211; Que Caif\u00e1s t\u00e3o feio que \u00e9 aquele sujeito! dizia Marta mostrando o ajudante. Cruzes!\n\n&#8211; Ah! se eu tivesse j\u00e1 a minha durindana! dizia Nuno com recacho militar; voc\u00ea veria como eu havia de tosar o p\u00ealo \u00e0quele barba\u00e7as de centuri\u00e3o. Olhe: v\u00e1 a pequena l\u00e1 abaixo e busque-me o estoque do pai.\n\n&#8211; Deus me livre! Para a mam\u00e3 ralhar-me!&#8230;\n\n&#8211; Agora sim! exclamou o rapazinho batendo as palmas de prazer.\n\n&#8211; O que \u00e9? perguntou curiosa Marta, enfrestando o olhar.\n\n&#8211; C\u00e1 chega o Vital.\n\n&#8211; O primo?\n\nDe feito entrara na cena do quintal um novo personagem, bem disposto e elegante cavaleiro, no vi\u00e7o dos anos floridos, pois j\u00e1 andava nos trinta. Sombreavam-lhe o rosto oval fino bigode e pera que ele trazia contra a moda do tempo, e destacavam-se com donaire na tez de suave moreno. Os olhos, tinha-os grandes, cheios de brilho e ardimento, como lumes, que eram, de um cora\u00e7\u00e3o bravo e generoso. Nos cantos da boca, apagava-se o sorriso em uma plica ligeira, indicio da preocupa\u00e7\u00e3o constante que absorvia-lhe o pensamento.\n\nMuita lou\u00e7ania dava a essa fisionomia inteligente e ao garboso talhe o apuro das roupas que trazia com especial gentileza o cavaleiro. De lemiste com forro de cetim azul era a casaca bem talhada, que dobrava a gola sobre uma linda almilha de tela alcachofrada, e espalmava as abas pela anca tio brioso cavalo, mostrando os cal\u00e7\u00f5es estreitos de veludo cereja. Colarinhos e punhos de renda de Veneza atacados com rubis; luvas de pele acamur\u00e7ada; alva pluma de gar\u00e7a no chap\u00e9u de castor pardo; borzeguins altos com rosetas de filigrana de prata, iguais ao tope do chap\u00e9u e \u00e0s borlas do florete, completavam o casquilho vestu\u00e1rio.\n\nDesde algum tempo que o cavalheiro, parado a curta dist\u00e2ncia, observava oculto pela ramada das \u00e1rvores, a rid\u00edcula cena ali representada pelo Ajudante Negreiros. Aproximando-se afinal, saudou o oficial com um gesto de mofa.\n\n&#8211; \u00c9 certo, pois, sr. ajudante, que afinal romperam os de Olinda?\n\n&#8211; Donde o sabe? atalhou o Negreiros tomando a nova ao s\u00e9rio e j\u00e1 alvo ro\u00e7ado com o prazer de espatifar os do levante.\n\n&#8211; Agora vejo que me enganei. Ao chegar, dando com toda esta az\u00e1fama da gente de El-Rei, devia pensar que os nobres tinham assaltado a casa do meu parente Sim\u00e3o Ribas!\n\n&#8211; O caso n\u00e3o \u00e9 para chascos, nem eu sou homem para eles, bem o sabe o senhor! replicou o ajudante com cenho de amea\u00e7a.\n\n&#8211; Que se h\u00e1 de fazer \u00e0 com\u00e9dia, sen\u00e3o rir dela? Esbarra-se a gente no caminho com um ferrabr\u00e1s de espada desembainhada, a esgrimir contra os telhados, dando ca\u00e7a a um pirralho: e quer o sr. ajudante que se fique s\u00e9rio como um burl\u00e3o?\n\n&#8211; Sr. Vital Rebelo! exclamou o capit\u00e3o aceso em ira.\n\n&#8211; Sr. Ajudante Negreiros! disse o seu interlocutor sem alterar-se, como se respondesse a uma ben\u00e9vola interpela\u00e7\u00e3o.\n\nA ponto sobreveio um lance para atalhar a disputa que prometia azedar-se; e foi que a janela do s\u00f3t\u00e3o abriu-se de supet\u00e3o e dela espirrou o Nuno acossado por um inimigo que lhe tomara a retaguarda. Mal saltara o rapaz no telhado, que a Sr.a Rufina assomara ao postigo, empunhando \u00e0 guisa de lan\u00e7a um cabo de vassoura, armado da competente broxa de palha.\n\nConvencido de que, na estreiteza do caso, s\u00f3 uma resolu\u00e7\u00e3o pronta e destemida o podia salvar, o mascatinho atravessara de corrida, mais veloz do que um gato, a aba do telhado at\u00e9 a extremidade da casa, e a\u00ed de um pulo, travou os ramos de um cajueiro, donde alcan\u00e7ou facilmente o ch\u00e3o, e desapareceu entre o arvoredo.\n\nT\u00e3o r\u00e1pido foi o incidente, que deixou pasmado o Ajudante Negreiros; mas recobrando enfim o \u00edmpeto, arrancou no encal\u00e7o do fugitivo, e por certo o alcan\u00e7ara se n\u00e3o lhe atravessasse o passo Vital Rebelo.\n\n&#8211; Caminho!\n\n&#8211; N\u00e3o se passa.\n\n&#8211; \u00c0 ordem do sr. governador!\n\n&#8211; Da parte de El-Rei!\n\n&#8211; E quem, estando eu, fala aqui em nome de El-Rei Meu Senhor?\n\nPronunciara estas palavras Sebasti\u00e3o de Castro, que se aproximara advertido da alterca\u00e7\u00e3o.\n\n&#8211; Falo eu, disse Rebelo com um tom respeitoso e digno; e falo a V.S\u00aa a quem El-Rei p\u00f4s de governador nesta capitania para reger-lhe os povos e guardar-nos os forais; que n\u00e3o para montear os filhos de seus vassalos como ca\u00e7a bravia.\n\nPareceu o governador um instante perplexo ante aquela resposta, onde ressumbrava n\u00e3o s\u00f3 a altivez dos brios, como a consci\u00eancia de um direito; logo, por\u00e9m, replicou em tom moderado e conciliador:\n\n&#8211; Talvez tenha raz\u00e3o, Sr. Vital Rebelo; mas se algum excesso houve, que eu n\u00e3o creio, da parte de nosso ajudante, foi somente no zelo com que se emprega no servi\u00e7o de El-Rei Meu Senhor e da nossa pessoa.\n\nCortejando com a m\u00e3o a Vital, voltou-se para a comitiva, com estas palavras:\n\n&#8211; Vamos, senhores, que de sobra j\u00e1 nos demoramos.\n\nDesfilou a cavalgada pela frente da casa onde o digno almotac\u00e9, ainda engasgado com o caso que lhe acontecera, gritava pela vara para intimar a sua autoridade ao malfeitor.\n<h4><strong><a id=\"5\" name=\"5\"><\/a>CAP\u00cdTULO V<\/strong><\/h4>\n<strong>TR\u00c9S CANDIDATOS \u00c0 GL\u00d3RIA, UM RABISCA-PAPEL, UM FERE-FOLHA E UM ROEDOR DE UNHAS<\/strong>\n\nAo tempo em que Nuno escapava-se da embrechada, outro mancebo pouco mais idoso que ele assomou na extremidade da ponte que ent\u00e3o ligava ao Recife a Ilha dos Pescadores, onde era o bairro de Santo Ant\u00f4nio.\n\nJ\u00e1 n\u00e3o existe aquela ponte constru\u00edda no tempo da domina\u00e7\u00e3o holandesa pelo Conde Maur\u00edcio de Nassau. Em 1737 a reformou o Governador Henrique Lu\u00eds Pereira Freire, que teve a engenhosa id\u00e9ia de levantar ao longo dela dois renques de pequenas lojas para os quincalheiros, donde provinha ao real er\u00e1rio boas propinas. Desabando esta segunda ponte em 5 de outubro de 1815, foi substitu\u00edda por outra que chegou aos nossos dias.\n\nVinha o rapaz do Porto das Canoas onde acabava de desembarcar.\n\nRepresentava ele maior idade do que os 26 anos que tinha; era de mediana estatura e complei\u00e7\u00e3o fornida. Por cacoete ou vicio de conforma\u00e7\u00e3o faziam as esp\u00e1duas uma leve corcunda, que o privava de apresentar o rosto bem de face; o olhar do interlocutor encontrava um semblante escorregadio e resvalava por ele sem o penetrar.\n\nCaminhava com um piso miudinho, mas indeciso, imprimindo \u00e0 marcha certa sinuosidade. Percebia-se, reparando-lhe nos movimentos, que antes de abrir o passo hesitava em avan\u00e7ar; e que andando vacilava constantemente, como um p\u00eandulo, entre a direita e a esquerda.\n\nAo mesmo tempo os olhos quase redondos e espantadi\u00e7os enfrestavam-se pelas pestanas de uma \u00e0 outra banda e faziam um como crivo de olhadelas r\u00e1pidas e sutis. Dai lhe viera o apelido de Pisca-Pisca por que era mais conhecido do que pelo pr\u00f3prio nome de Cosme Borralho. Nesse estrabismo artificial estava o cunho do rapaz. Em tudo vesgava ele; na vista, no andar, na fisionomia e at\u00e9 na fala. Ressentia-se a voz de singular desafina\u00e7\u00e3o, pelo que ora saia-lhe machucha, ora menineira.\n\nSeu trajo compunha-se de roupeta, v\u00e9stia, cal\u00e7\u00f5es e pe\u00fagas, tudo preto, muito rapado e j\u00e1 cerzido em v\u00e1rios lugares. Mas a escova lhe espoara escrupulosamente o fato, e os fios mais desbotados do estofo pareciam retintos de fresco a bico de pena. O mesmo esmero se notava no velho casquete surrado e nos grossos sapat\u00f5es de couro alaranjado.\n\nIndicava esse vestu\u00e1rio um de tantos mo\u00e7os que ent\u00e3o escreviam para os tabeli\u00e3es do p\u00fablico, judicial e notas, e a\u00ed se amestravam na rabulice. O povo chamava-os pela alcunha expressiva de fuinhas de cart\u00f3rio, que lhes assentava \u00e0s mil maravilhas.\n\nEnterravam-se no sombrio aposento como em um buraco. Desde crian\u00e7as, curvados sobre o tel\u00f4nio e afeitos \u00e0 busca dos autos e pap\u00e9is velhos, adquiriam certa inflex\u00e3o e prolongamento de pesco\u00e7o acompanhado de furtivos esgares que lhes davam em verdade boas mostras do animalejo fur\u00e3o e bisbilhoteiro.\n\nSaiam-lhe do bolso da v\u00e9stia um rolo de papel cheio de garatujas e as ramas compridas de duas ou tr\u00eas penas de ganso, matizadas de v\u00e1rias cores. Semelhante garridice, \u00fanico vislumbre de vaidade naquela figura sombria e estramb\u00f3tica, a inspirara o carinho da profiss\u00e3o, que de ordin\u00e1rio cria os melhores oper\u00e1rios do esp\u00edrito como da mat\u00e9ria.\n\nDe quando em quando por um gesto r\u00e1pido passava pelos bei\u00e7os a unha polegar da m\u00e3o direita e a esfregava com sofreguid\u00e3o ao peito da roupeta. Parecia dominado da id\u00e9ia de umedecer a coroa do dedo, a fim de tirar pelo atrito uma n\u00f3doa de tinta, ali permanente desde muitos anos.\n\nN\u00e3o era pela gola, que atacava a gordura do casco, nem pelos cotovelos ro\u00e7ados no bufete de escrever, que ia-se a roupeta do Pisca-Pisca. Vinha-lhe a ru\u00edna do peito, onde trabalhava a unha impertinente. Homem de recursos, pusera em pr\u00e1tica todos os meios de vencer o terr\u00edvel cacoete. Chegara at\u00e9 a amarrar \u00e0 cinta o dedo rebelde; por\u00e9m quando a unha lhe come\u00e7ava a comer, e era justamente no meio de suas cogita\u00e7\u00f5es, l\u00e1 se ia o atilh\u00f3. Ao dar f\u00e9 de si, o escrevente via com desespero o brejeiro do dedo tocando viola no peito da roupeta.\n\nNo momento em que o avistamos sob o arco do Bom Jesus, vai ele sem d\u00favida muito preocupado; pois o atrito atingiu sua maior velocidade. Com efeito, assim atravessou a ponte, e j\u00e1 saia em Santo Ant\u00f4nio, quando o Nuno esbarrou-lhe a passagem.\n\n&#8211; Vem de Olinda, Cosme?\n\n&#8211; Agora chego.\n\n&#8211; Quando estoura o neg\u00f3cio?\n\n&#8211; De qual neg\u00f3cio fala voc\u00ea, Nuno? retorquiu o escrevente envesgando um olhar que fez ziguezague \u00e0 direita e \u00e1 esquerda e veio cair sobre o bolso da v\u00e9stia, onde aparecia o rolo de papel.\n\n&#8211; Vamos c\u00e1! disse o mascatinho puxando o fuinha pela aba da roupeta.\n\n&#8211; Pois n\u00e3o estamos bem aqui?\n\n&#8211; Nada, que n\u00e3o me faz conta me bispem os tais malandros! Se me pilham!&#8230;\n\nAssim falando, puxava o Nuno ao companheiro pala baixo do primeiro olhal da ponte, que a mar\u00e9 deixara em seco.\n\n&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o sabe que neg\u00f3cio \u00e9, hem?\n\n&#8211; Podia jurar que n\u00e3o!\n\n&#8211; Ora! Quer-se fazer de bom. Pois olhe, aqui est\u00e1 tudo cheio da nova; desde Fora de Portas at\u00e9 Arrombados n\u00e3o se fala sen\u00e3o do levante que os de Olinda pretendem fazer.\n\n&#8211; Muito h\u00e1 que se rosna a este respeito; mas s\u00e3o boatos que d\u00e3o em nada. H\u00e1 certa gentinha enredeira que inventa estas cousas para ter de que mexericar.\n\n&#8211; Desta vez a cousa \u00e9 s\u00e9ria, digo-lhe eu, Cosme; que tamb\u00e9m vou meter-me na dan\u00e7a. Oh! se vou; hei de ensinar a uns certos marrecos, inclusive um barbado c\u00e1 do meu conhecimento! Tomara j\u00e1 ver tudo no sarilho.\n\n&#8211; N\u00e3o acredite nessas caraminholas, Nuno. Que lucrar\u00e3o os de Olinda com o levante?\n\n&#8211; Ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 muito atrasado. O plano \u00e9 empolgar o marmanj\u00e3o do Sebasti\u00e3o de Castro como se fez h\u00e1 tempos com o Xumbregas, e recambi\u00e1-lo para Lisboa com uma queixa a El-Rei.\n\n&#8211; E conseguem l\u00e1 isto? N\u00e3o h\u00e1 de sair como pensam. Os do Recife s\u00e3o gente de peso, mercadores ricos, e t\u00eam por si o melhor povo da capitania.\n\n&#8211; E os nobres ent\u00e3o? N\u00e3o foram eles que conquistaram ao flamengo esta terra&#8217;\n\n&#8211; Assim apregoam; e contudo, pensando bem, Nuno, que valeria a terra, se n\u00e3o fossem os mercadores que a t\u00eam enriquecido? Mas nenhum como o Sr. Miguel Viana.\n\n&#8211; O pai tem juntado boa chelpa, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; mas tirante disso n\u00e3o serve para mais nada. Eu c\u00e1 \u00e9 que n\u00e3o estou pelo ajuste. Em come\u00e7ando a guerra, h\u00e3o de ver para quanto presta este fedelho, como dizia o mono h\u00e1 pouco.\n\n&#8211; Quem? perguntou curioso o fuinha.\n\n&#8211; Aquele focinho de caititu do tal de Negreiros&#8230; Mas isto c\u00e1 \u00e9 comigo.\n\n&#8211; Ent\u00e3o, vistos os autos, est\u00e1 voc\u00ea aborrecido de mascatear e prefere a mil\u00edcia!\n\n&#8211; Pois \u00e9 minha paix\u00e3o! N\u00e3o sei por que j\u00e1 n\u00e3o atirei no mangue esta burjaca.\n\nAssim \u00e9 a sorte. O que voc\u00ea rejeita, outros invejam. Eu, verbi gratia, eu que h\u00e1 sete anos garatujo do Matias, para ganhar uns magros tost\u00f5es&#8230; se pilhasse um arranjozinho de mascate, nalguma loja&#8230; Bem podia voc\u00ea, Nuno, se quisesse, arranjar-me em casa de seu pai para o lugar que vai deixar.\n\n&#8211; Est\u00e1 dito; voc\u00ea toma conta da albarda, e o pai ganha na troca, porque fica com um bom latag\u00e3o! Vamos a isto; eis a\u00ed o surr\u00e3o!\n\nPara fazer ao vivo a entrega do fardo, o Nuno chimpou com ele no touti\u00e7o do Cosme, que titubeou.\n\n&#8211; Arre l\u00e1! As cousas fazem-se com jeito. Voc\u00ea primeiro deve falar de mim ao velho; e para inquiri\u00e7\u00f5es ele pode tir\u00e1-las do Capit\u00e3o Miguel Correia e Padre Jo\u00e3o da Costa, o da Recoleta. Ambos h\u00e3o de assegurar que eu dou conta da obriga\u00e7\u00e3o, como se fosse devo\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 tarefa que me meta medo; e para remate, fui sempre pelos do Recife.\n\nJ\u00e1 n\u00e3o o escutava o Nuno, que esguardava na ribeira do Recife alguma cousa. Reparando nessa distra\u00e7\u00e3o, voltou-se o Pisca-Pisca e logo percebeu-lhe a causa.\n\nHavia daquela banda do bairro uns muros de quintais com serventia para a praia. O sol, transmontando, projetava larga sombra ao longo da parede. A\u00ed, na zona opaca, um sujeito ia e vinha em continuo giro, a n\u00e3o ser que o interrompia acercando-se do muro e gesticulando, como se estivera com ele em pr\u00e1tica animada.\n\n&#8211; O Lisardo!&#8230;\n\nMurmurou o escrevente este nome com um meio sorriso de mofa, pronto a se transformar de s\u00fabito em sorriso de prazer. Tudo neste rapaz era assim d\u00faplice. Nos olhos, como nos l\u00e1bios, sua alma s\u00f3 apresentava-se aos outros de perfil, para que n\u00e3o lhe vissem a diverg\u00eancia das duas faces.\n\n&#8211; Psiu!&#8230; Psiu!&#8230; fazia no entanto Nuno agitando a m\u00e3o.\n\n&#8211; \u00c9 debalde!&#8230; acudiu o Pisca-Pisca zombando.\n\n&#8211; Vamos bulir com ele?\n\n&#8211; J\u00e1 vai sendo tarde, e tenho de voltar a Olinda antes de Trindades.\n\n&#8211; Qual! para o escurecer ainda falta muito. Toca a avan\u00e7ar&#8230; Lan\u00e7a em riste. Arranca!\n\nVergou-se o petulante rapaz enristando a vara como se fora um virote, e empurrou para diante o escrevente em rota batida. Assim atravessaram rapidamente a ponte, e contornando a praia, foram sair no lugar onde arruava o solit\u00e1rio passeador.\n\nEra tamb\u00e9m um rapaz; e parecia n\u00e3o ter ainda vinte anos. Ia e vinha ao longo do muro, repetindo em tom soturno palavras sem nexo. Acompanhava o trabalho mental uma gesticula\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica. Todo o corpo concorria para aquela m\u00edmica, desde a cabe\u00e7a que pontuava a frase at\u00e9 ao p\u00e9 que batia a cad\u00eancia.\n\nTinha entre os dedos alguma cousa que se lobrigava confusamente no meio do gesto pat\u00e9tico. Quando parava para conversar com o muro, percebia-se ent\u00e3o perfeitamente que era um prego enferrujado. Servia-lhe de estilete para gravar na cali\u00e7a da parede as rimas de uma d\u00e9cima em cuja composi\u00e7\u00e3o suava o jovem \u00e1rcade.\n\nAli na p\u00e1gina aberta desse \u00e1lbum dos meninos de escola liam-se j\u00e1 algumas palavras alinhadas no fim de um risco..\n\n_______________ nascer\n\n_______________ instante\n\n_______________ inconstante\n\n_______________ sofrer.\n\nO s\u00edtio n\u00e3o era dos mais apropriados para a poesia. Al\u00e9m da sua j\u00e1 suspeita posi\u00e7\u00e3o nos fundos dos quintais, vizinhava com a praia suja e coberta de cisco. Havia ali uma transfus\u00e3o de cheiros terrestres e marinhos, capaz de asfixiar a mais robusta inspira\u00e7\u00e3o. Alguns velhos cascos de navios, que desmanchavam para lenha, ali amontoavam-se na vasa, fechando o horizonte.\n\nS\u00e3o os poetas uma esp\u00e9cie de caramujos, ainda mais admir\u00e1veis que os outros; pois estes apenas levam consigo a casa, e aqueles nada menos do que um mundo, no qual vivem. N\u00e3o se admirem pois, que apesar de tudo n\u00e3o estancasse a veia po\u00e9tica do nosso rimador. Ele tinha l\u00e1 na sua cachola, de sobressalente, uma tal provis\u00e3o de flores, de matizes e de perfumes, que debalde o assaltavam as impress\u00f5es exteriores.\n\nNaqueles olhos tudo eram prados; naquele olfato tudo recendia a jasmim.\n\nEstava o sujeito muito apurado a escrever a deixa do seu quinto verso, quando desastradamente apareceram Nuno e Cosme no cotovelo que formava a praia. A areia solta, abalando os passos, permitiu que se aproximassem, antes que os pressentisse o outro.\n\nSempre estabanado, anunciou o caixeiro sua vinda de uma maneira estrepitosa. Arremessou com for\u00e7a o surr\u00e3o, que foi esbarrar nas canelas do poeta.\n\n&#8211; Rende-te, cavaleiro das beldroegas!.\n\nO susto que teve o camarada, surpreendido por aquela imprevista surtida, n\u00e3o se imagina. Todo o indiv\u00edduo foi abalado, como se dentro dele puxassem um cordel para fazer dan\u00e7ar cabe\u00e7a, bra\u00e7os e pernas de arlequim. Logo, por\u00e9m, que tornou a si do choque, comp\u00f4s nos l\u00e1bios um sorriso de bondade extrema para saudar os rec\u00e9m-chegados.\n\n&#8211; Que maricas!&#8230; exclamou Nuno a rir-se. Quero ver como te aviar\u00e1s agora com a guerra.\n\n&#8211; Que diz voc\u00ea, Nuno? Pois temos guerra?\n\n&#8211; N\u00e3o acredite!&#8230; soprou o Pisca.\n\nO caixeiro levantou com a ponta do p\u00e9 o balote, pondo-o a prumo para lhe servir de tamborete.\n\n&#8211; Pois n\u00e3o sabes? Vai haver um levante dos de Olinda; e leva tudo a breca.\n\n&#8211; Quem lhe disse, Nuno? Ser\u00e1 s\u00e9rio?\n\n&#8211; N\u00e3o leva tr\u00eas dias a arrebentar&#8217;. Quem disse foi o Tunda-Cumbe.\n\n&#8211; O Manuel Gon\u00e7alves? acudiu o Pisca-Pisca.\n\n&#8211; Voc\u00ea bem sabe a gana que ele tem aos nobres, por causa da sova que lhe pregaram.\n\nHouve um instante de sil\u00eancio.\n\nO poeta cismava:\n\n&#8211; Estou bem avisado com estas brigas. Ou Ceres ou V\u00eanus!\n\nResmungava o escrevente:\n\n&#8211; Diabos me levem se entendo este mascatinho a cortar na s\u00facia do pai. Entretanto Nuno, lobrigando no muro as palavras escritas pelo companheiro, exclamara:\n\n&#8211; Oh! temos rima?\n\nFrustrada a esperan\u00e7a de apreciar a obra do Lisardo, apanhou na areia uma casca de marisco e p\u00f4s-se a garatujar naquela p\u00e1gina do \u00e1lbum popular, onde o galopim soberano exerce a liberdade da gaiatice.\n<h4><strong><a id=\"6\" name=\"6\"><\/a>CAP\u00cdTULO VI<\/strong><\/h4>\n<strong>COMO EM TODOS OS TEMPOS SE FORMAM OS PARTIDOS<\/strong>\n\nLisardo estava sucumbido.\n\nEra ele mancebo de vinte anos; tinha uma cabe\u00e7a grega em talhe \u00e1rabe. Os cabelos castanhos anelados caiam-lhe sobre as esp\u00e1duas, moldurando o belo semblante.\n\nSeu gib\u00e3o verde era do melhor veludo de Alcoba\u00e7a, mas j\u00e1 bastante usado; os cal\u00e7\u00f5es apenas de belbute de algod\u00e3o cor de azeitona. Contrastava, pela novidade e frescura, a v\u00e9stia escarlata, embora feita de uma serafina bem ordin\u00e1ria.\n\nSemelhante anomalia no trajo, n\u00e3o a deve estranhar quem sabe como viviam os rimadores daquele tempo. Se algum n\u00e3o se recorda, leia Nicolau Tolentino, o gr\u00e2o-mestre da ordem dos poetas mendicantes do s\u00e9culo XVIII. Que soma de engenho se n\u00e3o despendia ent\u00e3o para arrancar dos ricos uma propina que hoje se obt\u00e9m com uma simples folha de papel e a ep\u00edgrafe subscri\u00e7\u00e3o?\n\nFoi o Nuno quem reatou o fio \u00e0 pr\u00e1tica interrompida.\n\n&#8211; Ent\u00e3o, Lisardo, ficou voc\u00ea ai t\u00e3o murcho. Tudo isso \u00e9 medo?\n\n&#8211; Ou cousa que se parece! acrescentou o fuinha piscando.\n\n&#8211; Bem sabem voc\u00eas que eu n\u00e3o sou para estas cousas. A culpa, se h\u00e1, minha n\u00e3o \u00e9; mas de quem me fez assim.\n\n&#8211; Fique voc\u00ea descansado, que o ponho sob minha guarda, tornou o mascatinho em tom de import\u00e2ncia.\n\n&#8211; Estava eu bem aviado! respondeu o poeta sorrindo.\n\n&#8211; De uma cousa por\u00e9m ainda n\u00e3o cogitaram voc\u00eas, e me parece a principal, observou o escrevente.\n\n&#8211; V\u00e1 dizendo!\n\n&#8211; Demos que se embrulhem as cousas ainda mais do que j\u00e1 est\u00e3o e haja realmente um levante. Notem bem que eu n\u00e3o asseguro; \u00e9 uma simples suposi\u00e7\u00e3o.\n\n&#8211; Com a breca!&#8230; Asseguro eu, exclamou o Nuno.\n\n&#8211; Pois sim; caso apare\u00e7a o barulho, cada um de n\u00f3s h\u00e1 de tomar seu partido. O do Nuno j\u00e1 se sabe; h\u00e1 de ser o da fam\u00edlia.\n\n&#8211; Quem lhe disse?\n\n&#8211; Assim parece.\n\n&#8211; V\u00ea-lo-emos. E voc\u00ea, Lisardo, por quem h\u00e1 de ser?\n\nO poeta estremeceu; tinham-lhe tocado na tecla.\n\n&#8211; Eu?&#8230; Vejo o caso bem intrincado. Todo o meu indiv\u00edduo desde a raiz dos cabelos at\u00e9 a pontinha dos p\u00e9s devia ser pelos senhores de Olinda, pois s\u00e3o eles que abrigam e mant\u00eam este f\u00edsico. O verso l\u00e1 na cidade \u00e9 moeda corrente: paga o jantar na mesa dos Cavalcantis e Figueiredos, e de vez em quando rende um vestu\u00e1rio que o dono j\u00e1 n\u00e3o usa, porque desmereceu na cor, mas que ainda faz sua vista c\u00e1 no Recife. Os senhores mercadores s\u00e3o excelentes pessoas&#8230;\n\n&#8211; Todos reconhecem!&#8230; atalhou o escrevente.\n\n&#8211; Mas destas bandas os sonetos e d\u00e9cimas n\u00e3o valem um ceitil. Podia correr o bairro todo que n\u00e3o acharia por eles dez r\u00e9is de cominho.\n\n&#8211; Menos essa! interrompeu Nuno. Sei eu de certa pessoinha que tem seu fraco por umas rimas, especialmente por certo acr\u00f3stico&#8230; hem! certo acr\u00f3stico&#8230;\n\nE piscou o olho para o companheiro.\n\nPerturbou-se o poeta, e acrescentou logo para disfar\u00e7ar:\n\n&#8211; Os senhores mercadores, como \u00e9 de raz\u00e3o, preferem Merc\u00fario a Apolo e as nove irm\u00e3s.\n\nN\u00e3o escapou ao fuinha nem a alus\u00e3o de Nuno, nem o vexame de Lisardo.\n\n&#8211; Mas afinal de contas, disse ele, em que fica voc\u00ea?\n\n&#8211; Sim; dizia que todo eu estava em Olinda; mas c\u00e1 me ficou por meus pecados neste Recife um bocadinho do tal eu, que pelos modos pode tanto, se n\u00e3o for mais do que o resto, n\u00e3o obstante ser este um quase todo. Ora, por mais que eu fa\u00e7a para desatar este n\u00f3 daqui, creio que antes de o conseguir, primeiro me romperia a mim. Portanto o seguro \u00e9 concertar-me com as duas vontades, para que me deixem ficar neutro na contenda.\n\n&#8211; E caso n\u00e3o queiram elas estar pelo ajuste?\n\n&#8211; Por que n\u00e3o, se bem nem mal fa\u00e7o a qualquer das duas?\n\n&#8211; N\u00e3o gosto de ser leva-e-traz; mas olhe que j\u00e1 em casa do capit\u00e3o-mor um destes dias se cochichou: &#8220;Tenho notado que o Lisardo vai muito pelo Recife.&#8221; Bem entendido, contaram-me, que eu n\u00e3o ando l\u00e1 pela casa desses senhores. Mas no cart\u00f3rio sabe-se de tudo.\n\n&#8211; Pois se n\u00e3o houver outro meio que melhor acomode as cousas, nesse caso vencer\u00e1 a for\u00e7a maior.\n\n&#8211; A barriga? perguntou o Cosme com uma m\u00edmica expressiva.\n\n&#8211; Barriga n\u00e3o passa de vasilha: for\u00e7a \u00e9 a fome; mas vence a do cora\u00e7\u00e3o, por maior. Sen\u00e3o vejam: ainda n\u00e3o jantei hoje; e contudo estou bem contente de minha vida.\n\n&#8211; Assim pende voc\u00ea decididamente para o Recife! concluiu o Cosme.\n\n&#8211; Se n\u00e3o houver outro rem\u00e9dio?\n\n&#8211; Pois ent\u00e3o, atalhou Nuno, erguendo-se de um salto, comigo se h\u00e1 de haver o Sr. Lisardo de Albertim, poeta d&#8217;\u00e1gua doce, que me anda esgravatando versos no monturo para garatuj\u00e1-los nas paredes! Est\u00e1 entendendo?&#8230;\n\nAquele pequeno repouso de uma natureza impetuosa devia ter breve sua explos\u00e3o. Enquanto o macio poeta o contemplava maravilhado, e o escrevente lhe espreitava os movimentos por detr\u00e1s de uma cara sonsa, o caixeiro prorrompeu:\n\n&#8211; Que est\u00e3o ai voc\u00eas embasbacados a olhar-me? Cuidaram que por ser filho de mascate, e dos gra\u00fados, havia de entrar na s\u00facia? Pois enganaram-se, digo-lhes eu. Se fosse com outra gente, nada mais natural que ajudar os seus&#8230; Regra do Mateus! Mas com a tal mascataria&#8230; Pensam lazer neste Pernambuco com os filhos o mesmo que l\u00e1 na santa terrinha fizeram seus pais deles, que os empurraram para c\u00e1, no por\u00e3o de um navio, com uma r\u00e9stia de cebolas e um par de tamancos! Vejo cavalos que nascem da mesma besta, e uns s\u00e3o marchadores, outros chout\u00f5es; uns levam albarda, mas outros t\u00eam arneses de veludo! S\u00f3 o filho de mascate \u00e9 que h\u00e1 de ser mascate por for\u00e7a! Uma figa!&#8230; Este muro falar\u00e1, se me virem mais regatear!\n\nNeste ponto de sua vigorosa alocu\u00e7\u00e3o avistou Nuno o pacote, e travando-o com \u00edmpeto, imprimiu-lhe tal rota\u00e7\u00e3o que o arremessou na praia.\n\n&#8211; Vai-te, persegui\u00e7\u00e3o! Assim hei de eu fazer a todas as drogas que me ca\u00edrem nas m\u00e3os, e tamb\u00e9m aos donos e vendedores das ditas!\n\nAnimou-se o poeta a introduzir uma palavra no meio daquela impetuosa loq\u00fcela:\n\n&#8211; Mas&#8230;\n\n&#8211; Olhe! Eu n\u00e3o sou versista como voc\u00ea&#8230; N\u00e3o tenho veia para a cousa; mas cada um se arranja como pode. J\u00e1 fiz um mote para mim; h\u00e1 de ser minha divisa nesta guerra! Vejam!&#8230;\n\nAgarrando os dois cada um pelo bra\u00e7o, levou-os o caixeiro ao muro onde riscara o Lisardo suas rimas. Enchera as linhas o Nuno, tendo cuidado, para lhes dar igual comprimento, de graduar a letra. Saiu a seguinte composi\u00e7\u00e3o, que se remete aos modernos fabricadores de poemas em todos os metros:\n<p align=\"center\">Para mascate n\u00e3o valia a pena nascer\nN\u00e3o suporto mais um instante!\nOh!&#8230; sorte inconstante!\nArre! que estou cansado de tanto sofrer.<\/p>\n&#8211; E mais \u00e9 que tem seu jeito! exclamou o fuinha ext\u00e1tico ante a obra. Voc\u00ea d\u00e1 para poeta, Nuno!\n\n&#8211; Ent\u00e3o, que diz \u00e0 quadra, Lisardo?\n\nO poeta estava horrorizado:\n\n&#8211; Quadra!&#8230; Quadrada seria a sandice se a escrevesse de outra forma!\n\n&#8211; As que voc\u00ea tem mandado \u00e0 mana Belinha, s\u00f4 pateta, n\u00e3o s\u00e3o melhores!&#8230;\n\n&#8211; Nuno!&#8230; modulou o Albertim em dois tons, sustenido e bemol, ao mesmo tempo que lhe indicava com o olhar a presen\u00e7a do escrevente.\n\n&#8211; Ora! Que bem me importa?\n\nFelizmente Cosme naquele instante parecia muito apurado a reler a bela produ\u00e7\u00e3o de Nuno, a qual decididamente lhe dera no goto. Era de jurar que nada percebera, pois mostrou-se inteiramente alheio ao caso. Se por\u00e9m as observa\u00e7\u00f5es fossem cousas corp\u00f3reas, o bucho do escrevente j\u00e1 estaria t\u00e3o bojudo, que o n\u00e3o pudera ele decerto conter no c\u00f3s das bragas.\n\nSeguira-se naturalmente uma pausa no di\u00e1logo. Os nossos camaradas formavam ent\u00e3o um tri\u00e2ngulo, cujo v\u00e9rtice era o Cosme ao p\u00e9 do muro. Quando este se convenceu que estava de todo passado o epis\u00f3dio do namoro, voltou-se para os companheiros:\n\n&#8211; Lisardo, voc\u00ea h\u00e1 de ensinar-me tamb\u00e9m a fazer a minha quadrinha. \u00c9 bom a gente saber de tudo.\n\nN\u00e3o o atendeu o poeta, que estava ruminando, mas em prosa desta vez. Ao cabo saiu-se com esta:\n\n&#8211; Ou\u00e7a, Nuno; sou mais velho que voc\u00ea dois anos; e portanto estou no caso de lhe dar conselhos, como \u00e9 dever dos mais idosos para com os mais mo\u00e7os.\n\n&#8211; Que apoquenta\u00e7\u00e3o do diabo! gritou o Nuno. E todos eles a darem-me com a matraca!&#8230; Muito mo\u00e7o, muito mo\u00e7o!\n\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o pode tomar nesta contenda as partes de ningu\u00e9m mais, sen\u00e3o daqueles com que est\u00e3o os seus. N\u00e3o lhe parece, Cosme?\n\nO fuinha atento \u00e0 alterca\u00e7\u00e3o foi surpreendido por aquela interpela\u00e7\u00e3o direta, da qual bem desejava fugir. Mas Nuno de seu lado voltara-se para ele esperando seu alvitre: for\u00e7a era d\u00e1-lo.\n\n&#8211; Eu, sim, eu, quero dizer&#8230; pensando bem, entendo que&#8230; voc\u00ea (para o poeta) &#8230; voc\u00ea (para o caixeiro) tem raz\u00e3o.\n\n&#8211; Est\u00e1 ouvindo? exclamou Nuno.\n\n&#8211; Estou!&#8230; O Cosme concorda comigo!\n\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 tal.\n\n&#8211; Justa&#8230; mente!&#8230; disse o fuinha gaguejando e escandindo a palavra de modo a endere\u00e7ar cada s\u00edlaba a um dos companheiros.\n\nTinha o Cosme esse h\u00e1bito de gaguejar nas ocasi\u00f5es dif\u00edceis.\n\n&#8211; A primeira p\u00e1tria, continuou o poeta sentenciosamente, \u00e9 a nossa casa; pois est\u00e1 mais junto de n\u00f3s. Traz-nos dentro dela toda a meninice, como nos traz no ventre durante nove meses aquela que nos deu o ser. Que se diria de uma crian\u00e7a que rasgasse por vontade o seio materno para sair \u00e0 luz antes de tempo? Pois este \u00e9 o caso do filho menor que abandona a casa de seu pai. \u00c9 um mau filho: e Deus lhe retira a b\u00ean\u00e7\u00e3o.\n\nTais palavras ditas com sinceridade e energia n\u00e3o deixariam de comover o caixeiro em outra ocasi\u00e3o; mas naquela tarde estava ele tocado da f\u00faria guerreira.\n\n&#8211; Por que n\u00e3o fazes tu outro tanto do que dizes?\n\n&#8211; Bem atirado! murmurou em aparte o fuinha.\n\n&#8211; N\u00e3o tenho casa, nem pai, Nuno! respondeu o poeta com sorriso merenc\u00f3rio.\n\n&#8211; Mas tem l\u00e1 em Olinda quem lhe agasalha, e n\u00e3o obstante.\n\n&#8211; \u00c9 diferente!\n\n&#8211; Qual diferente! Diga que o cora\u00e7\u00e3o lhe puxa de c\u00e1!&#8230;\n\n&#8211; Ele o confessou! acudiu o Cosme.\n\n&#8211; Pois cora\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m eu tenho, que bem me puxa, e a arrebentar.\n\n&#8211; L\u00e1 para Olinda? replicou Lisardo pasmo.\n\n&#8211; Para l\u00e1 mesmo!&#8230; Ah! voc\u00ea n\u00e3o sabe ainda, que lhe n\u00e3o contei. Pois o almotac\u00e9 n\u00e3o teve o descoco de me dizer ontem quando lhe falei de casar com a filha, a Marta, que eu ainda era um crian\u00e7ola, e que havia de contar ao pai para ele ralhar comigo!&#8230;\n\n&#8211; Ora essa!&#8230; ponderou Cosme, e acabou a frase com um jeito que fez rir a um dos olhos, o do lado do poeta, e choramingar o outro, que pusera ao servi\u00e7o de Nuno.\n\n&#8211; Tamb\u00e9m voc\u00ea madrugou! disse o Lisardo.\n\n&#8211; Com os seiscentos! Ando nos dezoito anos!&#8230;\n\n&#8211; Dezesseis, Nuno!&#8230;\n\n&#8211; Que seja! J\u00e1 me nasceram todos os dentes, tenho mais um palmo de altura do que este carrapeta do Cosme!\n\n&#8211; Nem tanto! replicou o escrevente empertigando-se.\n\n&#8211; E n\u00e3o sou um homem?. . . Que me falta?&#8230; Barba?&#8230; N\u00e3o \u00e9 essencial; o Camar\u00e3o tem a cara lisa como uma melancia e j\u00e1 est\u00e1 madur\u00e3o!\n\n&#8211; E o primo, o grande Camar\u00e3o, dizem que era o mesmo. Nem um fio na cara; na cabe\u00e7a, sim, com fartura.\n\n&#8211; Com isso que nos conta, Nuno, mais me enche voc\u00ea de raz\u00e3o. Se o seu cuidado est\u00e1 c\u00e1 no Recife, n\u00e3o \u00e9 pelo caminho de Olinda que h\u00e1 de chegar.\n\n&#8211; Isso depende do modo de ca\u00e7ar de cada um. Voc\u00ea, Lisardo, vai se chegando devagarinho para n\u00e3o espantar a rola. Eu c\u00e1 atiro de longe, em campo aberto. O Perereca tem de haver-se comigo, e mais o pato choco do governador, com o seu ajudante. A p\u00e9, na estacada, \u00e0 lan\u00e7a ou \u00e0 espada, com o ferro na gorja os obrigarei a restituir-me a dama de meus pensamentos. Sempre desejei uma guerra; e a queixa que tenho de minha m\u00e3e \u00e9 n\u00e3o me haver parido no tempo dos holandeses. Aquilo, sim, \u00e9 que foi tempo!\n\n&#8211; Com esta me vou! disse a rir o escrevente.\n\n&#8211; Mas voc\u00ea, Cosme, ainda n\u00e3o disse por quem \u00e9? Olinda ou Recife?\n\n&#8211; Eu sou por ambos!\n\n&#8211; Como pode ser isso?\n\n&#8211; Se cada um de voc\u00eas vai para sua banda, que rem\u00e9dio sen\u00e3o dividir-me por ambos? Eu c\u00e1 n\u00e3o tenho quem me prenda a estes ou \u00e0queles, e nada espero de uns nem de outros. Pelo meu gosto deixava a terra. Mas voc\u00eas podem precisar de mim, e ent\u00e3o care\u00e7o de estar em posi\u00e7\u00e3o de lhes prestar.\n\nDois apertos cordiais cerraram ao mesmo tempo na m\u00e3o que o Cosme levantava para enxugar os cantos dos olhos, umedecidos por um l\u00edquido humoral que em anatomia se chama l\u00e1grima.\n<h4><strong><a id=\"7\" name=\"7\"><\/a>CAP\u00cdTULO VII<\/strong><\/h4>\n<strong>ENCANTOS QUE TINHAM PARA O NOSSO POETA UMA SAIA REMENDADA E DUAS CANELAS COR DE AZEVICHE<\/strong>\n\nSeriam 5 horas da tarde.\n\nOs dois companheiros se tinham ido; ficara o poeta de novo solit\u00e1rio na erma praia. Com pouco levou ele a cabo a d\u00e9cima principiada. Repassaudo-a ent\u00e3o uma e muitas vezes na mem\u00f3ria, tratava de a limar com uma pachorra horaciana.\n\nNesse trabalho, avan\u00e7ara contornando a praia na dire\u00e7\u00e3o de Fora de Portas. A\u00ed desdobrava-se um painel encantador. Na c\u00fapula, dossel magn\u00edfico de ouro franjado a p\u00farpura; embaixo, uma alcatifa imensa de chamalote azul recamada de brancos lises. No centro, um peristilo majestoso formado por grupos de elegantes colunas e rematado em ogiva pelas verdes arcadas.\n\nAs tintas deste deslumbrante painel dava-as o sol no ocaso, o mar em bonan\u00e7a e os ramalhetes dos coqueiros, que ensombravam a formosa ilha desse nome, tamb\u00e9m chamada do Nogueira. Esse ber\u00e7o gracioso de palmeiras,. com as oscila\u00e7\u00f5es que a brisa da tarde imprimia \u00e0s longas hastes e aos frondosos penachos, parecia embalar-se no seio das ondas.\n\nAqu\u00e9m apareciam as ribas arenosas onde brinca o travesso Capiberibe tecendo lindos meandros e cingindo as quintas pitorescas do Monteiro. Finalmente pelo mar estendia-se o negro cord\u00e3o do recife. Enroscando-se pelos abrolhos e cobrindo-os de grossos rolos de espuma, davam as vagas aquele dorso gran\u00edtico fei\u00e7\u00f5es de enorme serpente do mar, preposta \u00e0 guarda das formosas hesp\u00e9rides de Pernambuco.\n\nPassava o Sr. Lisardo de Albertim em face de todos estes primores da palheta divina, sem os ver sequer. N\u00e3o \u00e9 isso de estranhar em poetas, anomalias de carne e osso que fazem o desespero dos fisiologistas e dos alfaiates.\n\nMais deliciosos que todos esses lan\u00e7os de vista sobre o mar, achava ele uns tabuleiros de mata-pasto que bordavam a areia nessas abas da povoa\u00e7\u00e3o, destacando sobre as faxinas das cercas vizinhas. Aquelas varinhas ligadas com embiras tinham especial encanto para o nosso poeta, que enfiava por elas uns compridos olhos e deleitava-se na contempla\u00e7\u00e3o&#8230; do que, n\u00e3o sei eu; mas ali n\u00e3o havia sen\u00e3o umas galinhas a ciscar, umas goiabeiras encarquilhadas e umas panelas de borco no terreiro.\n\nPior foi quando bruxulearam entre a faxina as dobras de uma saia azul de algod\u00e3o tecido na costa da Mina, em \u00c1frica. Nunca vestu\u00e1rio de baile, apontoado por m\u00e3os francesas e recheado de meia d\u00fazia de ninharias parisienses, com esdr\u00faxulas designa\u00e7\u00f5es, objeto da pasmaceira da gente do tom, teve no sal\u00e3o do Cassino poder igual ao daquela saia, para excitar em t\u00e3o alto grau as emo\u00e7\u00f5es de um poeta.\n\nAquele azul era celeste; uns gadanhos de carv\u00e3o e gordura o tisnavam aqui. e ali, mas eram justamente esses laivos que traziam presa a alma do mancebo. Tinha a saia um remendo de serafina; quando o percebeu, ele n\u00e3o se p\u00f4de conter que n\u00e3o soltasse uma exclama\u00e7\u00e3o de j\u00fabilo e ficasse em um \u00eaxtase indefin\u00edvel.\n\nAssim, agachado entre o mata-pasto, com os olhos naquela bendita apari\u00e7\u00e3o esteve bom peda\u00e7o. A saia tinha-se entrouxado perto das marmitas; e pelo movimento destas, assim como pelo chiar do punhado de palha e coaxar d&#8217;\u00e1gua, parecia haver ali uma lavagem de panelas.\n\nDe repente o poeta come\u00e7ou a tremer; batia-lhe o cora\u00e7\u00e3o com palpita\u00e7\u00f5es violentas.\n\nDera causa a essa repentina como\u00e7\u00e3o um novo incidente. Observara o Lisardo que dois tornozelos pretos e suas competentes canelas moviam-se debaixo da tal saia, na dire\u00e7\u00e3o da cerca, onde havia uma portinha para o mata-pasto, bem defronte do nosso rimador. Em sobressalto, lan\u00e7ou ele os olhos ao redor para ver se o espreitavam e escondeu-se por tr\u00e1s das moitas.\n\nA faxina da porta entreabriu-se. Uma preta de meia-idade, que tinha jeitos de cozinheira, estirou o pesco\u00e7o pela fresta e olhou para fora. N\u00e3o vendo o que esperava ia a recolher, quando ouviu rumor na moita e cuidou ver um vulto agachado. Logo ap\u00f3s soou um psiu baixinho, e logo outro mais alto; afinal animou-se a aparecer o nariz do poeta e a m\u00e3o do mesmo acenando.\n\nPoupo ao leitor os trejeitos, nega\u00e7as e requebros que de parte a parte se trocaram os dois antes de chegarem finalmente \u00e0 fala.\n\n&#8211; Est\u00e1 bom, s\u00f4 mo\u00e7o, acabe com isso que eu tenho que fazer.\n\n&#8211; Ent\u00e3o, Benvinda&#8230;\n\nA l\u00edngua do poeta tremia como folha de bananeira.\n\n&#8211; Ent\u00e3o, voc\u00ea falou?&#8230;\n\n&#8211; Pois ent\u00e3o! N\u00e3o falara!&#8230;\n\n&#8211; E ela que disse?\n\n&#8211; Que sim.\n\nAqui teve o Lisardo um solu\u00e7o que de todo embargou-lhe a voz. S\u00f3 a muito custo recobrou a fala, n\u00e3o a natural, mas uma sumida e fanhosa, que era pena ouvir.\n\n&#8211; Deveras, Benvinda? Ela disse que sim? &#8230;\n\n&#8211; Disse, s\u00f4 Lisardinho.\n\n&#8211; Como foi que voc\u00ea falou? Onde estava ela?\n\n&#8211; Meio-dia, quando ela veio no quintal apanhar goiaba, eu cheguei devagarinho e perguntei assim: &#8220;A menina Belinhas sabe?&#8230; S\u00f4 Lisardo, aquele mo\u00e7o que lhe manda os versos, tem um segredinho para dizer \u00e0 menina.&#8221;\n\n&#8211; E que fez ela ent\u00e3o, Benvinda? Conte-me tudo, tintim por tintim.\n\nDeu uma risadinha gostosa e ficou vermelha que nem um tomatinho; depois deitou a correr para a cozinha.\n\n&#8211; E n\u00e3o respondeu?\n\n&#8211; Nem palavra.\n\n&#8211; Mas ent\u00e3o como disse voc\u00ea&#8230; Ah! Benvinda, que n\u00e3o imagina o mal que me fez.\n\n&#8211; Espere l\u00e1, mo\u00e7o, que ainda n\u00e3o acabei. Quando ela chegou na porta da cozinha, voltou-se, chamando pelo meu nome, e bateu tr\u00eas vezes com a cabe\u00e7a, assim!\n\n&#8211; Adorada Belisa! murmurou Lisardo engalfinhando as m\u00e3os e pondo os olhos no c\u00e9u.\n\nDe repente assaltou-o a d\u00favida:\n\n&#8211; Mas, Benvinda, est\u00e1 voc\u00ea bem certa que ela consentiu!\n\n&#8211; Pois, mo\u00e7o, a menina \u00e9 lagartixa para bater com a cabe\u00e7a \u00e0 toa?\n\n&#8211; Quem sabe se ela queria dizer Outra cousa! Talvez voc\u00ea n\u00e3o percebesse bem.\n\n&#8211; Pois eu n\u00e3o sei o que fa\u00e7o? S\u00f4 Lisardinho em casando com a Belinhas, me p\u00f5e forra logo, n\u00e3o \u00e9 assim?\n\n&#8211; Antes disso mesmo. Olhe; eu tenho um planozinho em que ando cogitando h\u00e1 dias. Vou mandar um memorial em verso ao Duque de Cadaval, pedindo a vara de meirinho do sert\u00e3o que est\u00e1 vaga. Em apanhando o provimento, como espero, trato logo de vender o of\u00edcio por boas patacas; e ent\u00e3o pode contar com a alforria. Se quer, empenho-lhe os meus sonetos, que j\u00e1 andam em cento e quarenta.\n\n&#8211; Nada; n\u00e3o precisa; basta que prometa!\n\n&#8211; Dou-lhe minha palavra.\n\n&#8211; Ent\u00e3o j\u00e1 se v\u00ea que eu hei de tratar do meu benef\u00edcio, fazendo que s\u00f4 Lisardinho fale c\u00e1 \u00e1 menina. Escute: n\u00e3o tardam trindades. V\u00e1-se chegando aqui pelo lado da casa, encostado \u00e0 \u00faltima janela, e espere um instantinho, que eu vou arranjar tudo.\n\n&#8211; Agora mesmo? exclamou o poeta espavorido.\n\n&#8211; J\u00e1; \u00e9 aproveitar a ocasi\u00e3o, enquanto as velhas est\u00e3o ocupadas fazendo fart\u00e9ns l\u00e1 dentro, porque esta noite ai vem cear muita gente. Se n\u00e3o for hoje, ningu\u00e9m sabe quando ser\u00e1.\n\n&#8211; Mas pode ela n\u00e3o gostar!&#8230;\n\n&#8211; Deixe por minha conta.\n\n&#8211; N\u00e3o, o melhor \u00e9&#8230;\n\nO di\u00e1logo foi interrompido por uma voz pachorrenta que chamava em escala crom\u00e1tica:\n\n&#8211; Benvinda!&#8230; Benvinda!&#8230; Benvinda!&#8230;\n\nO Lisardo quis meter-se pela terra adentro s\u00f3 de ouvir aquele chamado. preta acudiu \u00e0s pressas, acenando-lhe de longe que fosse para o lugar aprazado.\n\nCome\u00e7a agora um quarto de hora que eu desisto de historiar; um livro era m\u00ednimo espa\u00e7o para descrev\u00ea-lo. O c\u00e9lebre quarto de hora de Rabelais, em que a barriga cheia curtia o mart\u00edrio da bolsa vazia; e aquele outro chamado quarto de hora de pontualidade que, a t\u00edtulo de cortesia, suportam os convidados de certos jantares marcados para as quatro e postos \u00e0s sete; nada disso se compara ao transe referido.\n\nQuero ver contudo se por meio de uma imagem dou ligeira id\u00e9ia.\n\nN\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o tenha visto voar no seu terreiro uma pena de galinha. Ludibrio do vento, o sutil objeto sobe e desce, vai e vem, foge e torna, avan\u00e7a e recua, gira sobre si, p\u00e1ra e move-se, para afinal esbarrar-se contra algum obst\u00e1culo.\n\nPois em vez de pena, imaginem um rapaz enamorado; e ajuntem em alta dose os tremores nervosos, os s\u00fabitos calafrios, os suores gelados, de mistura com os repetidos fogachos; e ter\u00e3o uma id\u00e9ia do que foi o tal quarto de hora de espera para o nosso Lisardo.\n\nAfinal o encontramos na parede do oit\u00e3o, uma bra\u00e7a distante da janela, e oscilando ainda como uma p\u00eandula entre o desejo de ficar e o \u00edmpeto de fugir.\n\nDe repente a banda mais pr\u00f3xima da r\u00f3tula entreabriu-se; dois dedos mimosos enfiaram pela gelosia, e um olhar negro e aveludado filtrou das estreitas frestas como um esguicho de mil centelhas miudinhas, desferidas por todos os lados. Viu Lisardo o enxame de fa\u00edscas e ficou deslumbrado e quedo.\n\nV\u00e3o-se acabando aquelas antigas r\u00f3tulas que escondiam t\u00e3o guapos amores; se algumas ainda restam pelas grandes cidades, j\u00e1 perderam o suave perfume de castidade que dava a essas flores recatadas um arzinho de violetas. Agora a r\u00f3tula ser\u00e1 canteiro de arrudas e mentruzes.\n\nMuitos inventos modernos se introduziram em compensa\u00e7\u00e3o: os v\u00e9us de fil\u00f3, os crep\u00fasculos artificiais, as m\u00e1scaras de cetim, as gazes transparentes e outros engenhosos sistemas do ver e do n\u00e3o ver; mas a r\u00f3tula, c\u00e1 para mim, h\u00e1 de sempre deixar saudades. Uma linda mo\u00e7a atrav\u00e9s da gelosia \u00e9 a imagem das mais belas cria\u00e7\u00f5es de Deus, a flor entre a folhagem, a estrela entre o azul.\n\nMas nada como o encanto que a r\u00f3tula dava ao olhar! Quando se movia brandamente embalada por m\u00e3o descuidosa, parecia que estava peneirando aqueles relan\u00e7os d&#8217;olhos em um p\u00f3 sutil. Se Deus me concedesse pulverizar uma estrela e pass\u00e1-la por um crivo bem fino, pudera eu pintar a trepida\u00e7\u00e3o graciosa de uns olhos negros por entre a r\u00f3tula.\n\nEsquecia-me advertir. Olhos para r\u00f3tula deviam de ser negros. Os azuis, querem-se l\u00edmpidos, serenos e desnublados, como os puros c\u00e9us de uma alma ang\u00e9lica. Os outros, castanhos, pardos, verdes ou g\u00e1zeos, que arranjem-se como puderem e melhor lhes for; por\u00e9m, escusam de ter saudades da r\u00f3tula.\n\nEram pois uns olhos negros, do mais belo negro, que se coavam pela r\u00f3tula do oit\u00e3o.\n\nA princ\u00edpio derramaram-se em torno; mas logo recolheram para se atirarem ao mancebo, como uns punhados de alfinetes. Devia de ser assim realmente, porque o pobre Lisardo sentiu o rosto a fervilhar.\n\nT\u00e3o flex\u00edvel antes, qual folha de cana, estava agora o nosso poeta estatelado \u00e0 parede e rijo como estafermo. Fincava as costas ao muro, a ver se podia sumir-se por ele adentro; os olhares esparramados pelo mato fora tinham jeito de disparar; e de certo houveram j\u00e1 deitado a correr por a\u00ed al\u00e9m, caso n\u00e3o estivessem amarrados ao poste.\n\nOs olhos negros e os dedinhos brancos cuidaram que os n\u00e3o tinha percebido o poeta. Abriu-se um cantinho \u00e0 r\u00f3tula; tornou logo a cerrar, rangendo de leve; buliu a aldraba devagarinho; enfim ouviu-se um rufo mavioso de unhas rosadas no gradil.\n\nEstes rumores significativos mais espavoriam o poeta. O r\u00edspido som do gatilho de um arcabuz que lhe apontassem ao peito, n\u00e3o lhe causara por certo maior pavor.\n<h4><strong><a id=\"8\" name=\"8\"><\/a>CAP\u00cdTULO VIII<\/strong><\/h4>\n<strong>A DESTRA E A SINESTRA DO HOMEM EM MAI\u00daSCULO<\/strong>\n\nSEPARANDO-SE do nosso poeta, os dois companheiros se dirigiram para o lado da ponte.\n\nCosme tinha destino, embora n\u00e3o lhe fizesse conta confess\u00e1-lo. Quanto ao Nuno, esse aproveitava a companhia para pautear, e ter um pretexto de demorar-se fora da loja.\n\n&#8211; O que voc\u00ea disse, Nuno, n\u00e3o passa de brincadeira? insinuou o Cosme.\n\n&#8211; Pois ainda duvida? N\u00e3o tarda a estralada, e se n\u00e3o andarem com isso depressa, eu c\u00e1 darei jeito \u00e0 cousa.\n\n&#8211; De que modo?\n\n&#8211; Ainda n\u00e3o sei; mas hei de achar.\n\n&#8211; Em verdade nunca faltam meios de barulhar as cousas; o acomod\u00e1-las, sim, \u00e9 o dif\u00edcil.\n\nNesse ponto do di\u00e1logo, o Nuno deu um salto, arregalando os olhos para a ponte. Sem mais ambages, quebrou a esquina e barafustou pela rua afora, deixando surpreso o Cosme, mas contente, porque o forrava ao trabalho de se desvencilhar dele.\n\nO que assim espantara ao caixeiro era a cavalgada do governador, que j\u00e1 de volta das Cinco Pontas, atravessava para ir ao Forte do Mar, como costumava.\n\nVinha Sebasti\u00e3o de Castro pensativo; o que n\u00e3o deixava de inquietar ao secret\u00e1rio e ajudante, os dois bra\u00e7os do governo da capitania, colocados \u00e0 direita e esquerda do excelent\u00edssimo toro.\n\nN\u00e3o ser\u00e1 fora de prop\u00f3sito esbo\u00e7ar aquelas figuras de ministros coloniais; at\u00e9 mesmo porque podem servir para o paralelo com as ilustres cari\u00e1tides modernas, que a\u00ed andam em quadros de apoteoses.\n\nAlto, bem apessoado, o Capit\u00e3o Barbosa de Lima florescia, apesar dos anos que lhe tinham despovoado a fronte, sem fanar a rosada frescura do agrad\u00e1vel semblante, nem estancar o perene sorriso que manava dos l\u00e1bios suasivos, como fio de um favo; e ele o tinha na palavra insinuante.\n\nDos olhos pequenos e redondos lhe escapavam as chispas de um esp\u00edrito a cintilar, como lentejoula que era do seu engenho superior e adestrado no manejo dos neg\u00f3cios. A cavalo, as pernas mais compridas do que exigia a justa propor\u00e7\u00e3o do corpo dariam a outro postura ingrata, sen\u00e3o rid\u00edcula; mas o secret\u00e1rio com tal jeito conduzia esse trambolho, e tamanha sedu\u00e7\u00e3o crescia em torno de si, que lhe esqueciam a prorroga\u00e7\u00e3o das g\u00e2mbias, para somente verem a afabilidade das maneiras.\n\nAs mo\u00e7as, que todas t\u00eam no mindinho sua unha de Dalila e gostam da juba para a tosquiarem, todavia achavam bonita a calva do secret\u00e1rio; e os rapazes invejavam-lhe a estatura pernalta, a que se atribu\u00eda o ter galgado tanto pela escada da fortuna. Quanto aos homens bons da governan\u00e7a da terra, velhos e mo\u00e7os, nobres e plebeus, todos \u00e0 uma o afagavam e todos o queriam por companheiro. Raz\u00e3o tinham eles, pois era cavaleiro de boas manhas, como se dizia ent\u00e3o: e pagava os defeitos de que ningu\u00e9m est\u00e1 isento, com prendas de que poucos se ornam, ainda mais em vida de tamanha porfia como a tivera.\n\nFazia contraste com essa fei\u00e7\u00e3o prazenteira a fosca e sombria carranca do Ajudante Negreiros, coberta de l\u00edvido pergaminho e crivada por espesso molho de cerdas.\n\nDentre a barba hirsuta destacavam os grossos l\u00e1bios de nina boca fl\u00e1cida e lorpa que estava debuxando na balofa carnosidade a gula insaci\u00e1vel de todos os apetites. Se h\u00e1 nos tra\u00e7os fision\u00f4micos uma express\u00e3o, essa boca fora talhada, n\u00e3o s\u00f3 para inchar a palavra, arrotando petul\u00e2ncias e indigestos improp\u00e9rios, como para atolar-se no tarro da sensualidade.\n\nNesse homem de p\u00ealo h\u00edspido e couro adiposo, ressumbrava certa express\u00e3o e gesto su\u00edno, que chegava algumas vezes at\u00e9 o grunhir. O tronco parecia Di\u00f3genes puro, mas lardeado de D. Quixote, e trufado com Aretino. O todo afogado em grosso unto de Tartufo, mas com uma rija c\u00f4dea de Cat\u00e3o, que formava os folhos do grande pastel\u00e3o de carne e osso.\n\nO antagonismo dos elementos agregados no indiv\u00edduo o traziam em tamanha anarquia, que se lhe desarticulava o pesco\u00e7o a cada instante em torcicolos e trejeitos, como se a cabe\u00e7a lutasse por despegar-se do corpo estranho ao qual por engano a tinham ligado. Desse cacoete lhe proviera uma volta do congote, que o tornava um tanto corcunda.\n\nOs que mais de perto conheciam o ajudante tinham-no em conta de homem \u00e0s direitas, e fiavam tudo de sua inteireza. Tamb\u00e9m disso damos testemunho; mas era para lamentar que a natureza n\u00e3o tivesse virado ao avesso t\u00e3o excelente pessoa, mostrando-a antes pelo forro.\n\nDescendia o ajudante do ilustre Andr\u00e9 Vidal de Negreiros, do que muito se enfatuava; e havia arranjado para seu uso um extenso ros\u00e1rio de nomes, que apregoavam sua antiga e remota linhagem.\n\nAo avistar a cavalgada \u00e0 boca da Rua da Moeda que sa\u00eda na Ribeira, volveu D. Sebasti\u00e3o um olhar ao Ajudante Negreiros, e perguntou-lhe com ar que se n\u00e3o era, bem parecia distra\u00eddo e indiferente.\n\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 na Rua da Moeda que mora o mercador Miguel Viana?\n\n&#8211; A\u00ed mora, sr. governador, acudiu o ajudante atento ao menor gesto de D. Sebasti\u00e3o. E se V. Ex.a concede, vou-me j\u00e1 \u00e0 casa dele agarrar o mariola do filho!\n\n&#8211; Em casa do Miguel Viana? perguntou o governador no tom do maior espanto.\n\n&#8211; Pois que \u00e9 o pai do bigorrilhas!\n\n&#8211; Ah!\n\n&#8211; O sr. governador n\u00e3o sabia?\n\n&#8211; Deixe em paz o mo\u00e7o, Negreiros, tornou D. Sebasti\u00e3o esquivando a resposta.\n\n&#8211; Em paz o quero eu, atalhou o ajudante com um regougo de riso, mas \u00e9 no Forte do Brum, aos tirantes de uma pe\u00e7a de 64. N\u00e3o h\u00e1 como isso, para amansar o lombo desta canalha de birbantes.\n\n&#8211; Tamanho rigor n\u00e3o pede o caso. Uma rapazia de mo\u00e7o brejeiro&#8230; Basta que o pai lhe passe um repel\u00e3o e lhe traga tente as r\u00e9deas.\n\n&#8211; Aquele?&#8230; N\u00e3o toma caminho, a n\u00e3o ser o do pelourinho, onde certo vai parar, se n\u00e3o o amarrarem \u00e0 carreta e sem demora.\n\n&#8211; Se o mandassem a Lisboa estudar, n\u00e3o cuida o ajudante, que se havia de fazer gente? Lembre ao mercador, como cousa sua; ver\u00e1 que ele abra\u00e7a logo o alvitre. V\u00e1, v\u00e1 ter com o homem.\n\nFalara D. Sebasti\u00e3o com a habitual volubilidade; mas na leve resist\u00eancia que despontara atrav\u00e9s da \u00faltima r\u00e9plica, percebeu o Ajudante Negreiros o pulso da vontade oculta, que \u00e0 semelhan\u00e7a da odalisca de um serralho, nunca se mostrava a rosto descoberto.\n\nQuando por\u00e9m o fidalgo, sobre despedi-lo com a palavra e o gesto, voltou-se de todo para o secret\u00e1rio, impedindo assim qualquer r\u00e9plica, compreendeu nosso ajudante que a ordem era perempt\u00f3ria, e rasgando uma cortesia com a cabe\u00e7a inclinada a tocar as orelhas do cavalo e o chap\u00e9u desbarretado at\u00e9 a garupa, separou-se da comitiva para enfiar a Rua da Moeda.\n\nPouco faltava \u00e0 comitiva para enfrentar com a Rua do Azeite em cuja esquina ficara de plant\u00e3o o Cosme, depois da escapula do Nuno, esperando a passagem do governador para fazer-lhe a sua rever\u00eancia.\n\nRespondeu o fidalgo \u00e0 zumbaia do escrevente com um sorriso animador, e \u00e0 meia voz disse para o Capit\u00e3o Barbosa de Lima:\n\n&#8211; A\u00ed est\u00e1 um rapaz de recado, que bem merece ser aproveitado.\n\n&#8211; J\u00e1 tinha pensado nisso, respondeu o secret\u00e1rio que nem vira a sonsa figura do escrevente. Consta que \u00e9 de \u00e2nimo cordato; ainda que o suspeita o almotac\u00e9 de pender para os de Olinda.\n\n&#8211; Que mal vem da\u00ed? perguntou o governador com um sorriso mel\u00edfluo.\n\nLembrou-se o capit\u00e3o que tamb\u00e9m ele, antes de tom\u00e1-lo o governador a seu servi\u00e7o, andara extraviado e fora do bom caminho, tendo sido um dos mais respingados entre os do partido olindense.\n\nCom o barrete na m\u00e3o, e o espinha\u00e7o reverencialmente curvo, acompanhou Cosme a cavalgada at\u00e9 que a viu sumir-se por tr\u00e1s da Madre de Deus. Arrancando ent\u00e3o um suspiro que lhe estava entalado na garganta, deitou-se o rapaz a trote na mesma dire\u00e7\u00e3o da cavalgada, para atravessar a ponte e ganhar a outra banda donde j\u00e1 podia estar de volta, se n\u00e3o lho estorvasse o trapalh\u00e3o do Nuno.\n\nSeguindo de longe o governador, embalava-se o escrevente em fagueiras esperan\u00e7as, e sentia l\u00e1 dentro do cora\u00e7\u00e3o umas c\u00f3cegas deliciosas. Parecia-lhe que sua estrela ia enfim raiar do seio das \u00e1guas turvas que se estavam encapelando.\n\nA ocasi\u00e3o faz o homem, como o choco faz o pinto; sem ela, o homem \u00e9 um ovo goro.\n\nTal era o conceito em que se embebia o esp\u00edrito do nosso escrevente, pouco po\u00e9tico, se o quiserem, mas profundo na filosofia, n\u00e3o a especulativa, que se deleita em chilras utopias, mas a pr\u00e1tica e s\u00f3lida, que \u00e9 a verdadeira ci\u00eancia da vida.\n\nChegado \u00e0 outra banda, encaminhou-se o Cosme \u00e0 casa do almotac\u00e9, onde esteve de cochichos com a Sr.a Rufina, na janela do canto.\n\nDo que ai o levou, e da esp\u00e9cie de com\u00e9rcio que havia entre a matrona e o escrevente, saberemos a seu tempo; sendo que neste momento mal pudemos acompanhar o rapaz na disparada em que vai, j\u00e1 de volta para o Recife.\n\nEi-lo que enfia pela Rua da Cadeia, e chegado \u00e0 casa que procurava, encostou-se \u00e0 ombreira da porta, encolhido para que n\u00e3o \u00f3 avistassem de dentro; assim ficou a espreitar pelas fasquias da r\u00f3tula:\n\nNa c\u00e2mera servida por essa porta achavam-se em palestra animada duas pessoas, uma cuja voz fornida retumbava pelo teto, e outra de fala submissa embora rouquenha.\n\nO sujeito do verbo alto trazia as vestes dos recoletos, e esquadriava o pavimento de tijolo com umas pernadas, que nada tinham de eclesi\u00e1sticas, e mais pareciam guinadas de espadachim. As vezes parecia que a batina o tolhia, e dava-lhe tal safan\u00e3o acompanhado de um trejeito da boca e dos olhos, que bem se via quanto lhe custava a arrastar aquele trambolho. Se n\u00e3o fora a utilidade que lhe prestava, com certeza j\u00e1 o houvera lan\u00e7ado \u00e0s urtigas.\n\nO \u00e1rdego padre tinha a cabe\u00e7a batida; o rosto largo, olhos redondos e l\u00e1bios carnudos, que estavam denunciando a temul\u00eancia da carne n\u00e3o castigada convenientemente pela abstin\u00eancia, e menos pela disciplina. Apesar do freio de santarr\u00e3o com que ele havia bridado o car\u00e3o moreno, e do cuidado com que lhe amansava a braveza, n\u00e3o raro mostrava-se ao natural a catadura, e via-se ent\u00e3o que era homem de dar e tomar, como se dizia no sert\u00e3o.\n\nE no sert\u00e3o deixara o Padre Jo\u00e3o da Costa, no tempo que por l\u00e1 andara, mem\u00f3ria de suas proezas. Entre outras cousas dizia-se que na festa de uma freguesia, apresentara-se no largo, e puxando da faca, arremetera contra uni pimp\u00e3o para lhe bifar a rapariga com quem estava; e conseguiu, porque era o frade faquista de fama, e o outro sentiu bater-lhe a passarinha. Tomando ent\u00e3o a mo\u00e7a de garupa, saiu o fragueiro do reverendo pela povoa\u00e7\u00e3o afora, mui ancho de si.\n\n\u00c9 verdade que estas e outras anedotas vinham de Olinda, onde o Padre Jo\u00e3o da Costa era abominado, como a alma da conspira\u00e7\u00e3o dos mercadores, e o esp\u00edrito daninho que o estimulava contra os nobres e moradores da terra. Conv\u00e9m portanto dar a tais murmura\u00e7\u00f5es o devido desconto da paix\u00e3o partid\u00e1ria, t\u00e3o acesa naqueles tempos.\n\nO outro personagem era homem de seus trinta anos, bem fornido de carnes, com uma dessas constru\u00e7\u00f5es maci\u00e7as, que se podem bem comparar na arquitetura humana aos edif\u00edcios de pedra e cal, s\u00f3lidos e elegantes. Tinha bela presen\u00e7a; e uma compostura, a que dava realce a galhardia marcial, rara em um mercador, como ele era.\n\n&#8211; Ou\u00e7a o que lhe digo, Sr. Miguel Correia. Antes de tr\u00eas dias decide-se a cousa.\n\n&#8211; Pois eu aposto, Padre Jo\u00e3o, que ainda n\u00e3o \u00e9 desta vez!\n\nO frade soltou uma risadinha:\n\n&#8211; Veremos! Amanh\u00e3 \u00e0 noite em casa do Miguel Viana h\u00e1 de mudar de parecer!\n\n&#8211; Qual! Os mecos s\u00e3o espertos!\n\n&#8211; S\u00e3o! S\u00e3o!&#8230; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida!\n\nDestas frases ditas em tom claro e compassado, pilhou o escrevente algumas palavras. Infelizmente botando-se o Miguel Correia para a janela, n\u00e3o p\u00f4de ele escutar o mais. Bateu ent\u00e3o \u00e0 r\u00f3tula devagarinho, como quem acabasse de chegar.\n\n&#8211; Ah! \u00e9 voc\u00ea rapaz? disse o mercador levantando o postigo da r\u00f3tula que era de bater. Entre!\n\nEnquanto arredava a porta .para dar passagem ao gaguinho, voltou-se para anunci\u00e1-lo ao frade:\n\n&#8211; \u00c9 o Cosme Borralho, Reverendo!\n\n&#8211; Bem aparecido, mo\u00e7o, disse o Padre Jo\u00e3o; j\u00e1 sei que nos traz alguma nova importante!\n\n&#8211; O reverendo e mais o Sr. Miguel Correia dir\u00e3o, respondeu Cosme com mod\u00e9stia.\n\nSacando ent\u00e3o do bolso da sotaina o ma\u00e7o de pap\u00e9is, escolheu um cheio de garatujas que apresentou aos dois. Logo apoderou-se o frade do manuscrito e acercou-se da janela para o decifrar.\n\n&#8211; H\u00e1!&#8230; h\u00e1!&#8230; fazia o reverendo, durante a leitura. Bravo!&#8230; Que malandros!\n\nExultava o gaguinho por baixo da sonsa, vendo o efeito que produzia o papel. Quanto ao mercador, depois de ter debalde tentado soletrar as garatujas do escrevente por cima do ombro do frade, achou mais proveitoso consultar as reverendas bochechas; e como elas se espraiavam em riso gostoso que serpejava enroscando a papada, tamb\u00e9m o bom do mercador se p\u00f4s a gargalhar, esfregando as m\u00e3os de contente.\n\n&#8211; Aposto que s\u00e3o obras do matreiro do entrevado?\n\n&#8211; Foi o licenciado que o escreveu ainda esta manh\u00e3, respondeu Borralho.\n\n&#8211; O Davi de Albuquerque? perguntou o mercador.\n\n&#8211; Grande ronha!&#8230; Tem mais pe\u00e7onha por dentro do que lhe sai por fora das chagas do corpo! prosseguiu o reverendo tornando \u00e0 leitura.\n\nO mercador tentou segunda entrada nos gregotins do manuscrito, por\u00e9m debalde.\n\n&#8211; \u00d3timo!&#8230; continuava o Padre Jo\u00e3o.\n\n&#8211; Boas noticias, hem?&#8230; Bem dizia eu que o Borralho era um rapaz de truz. Mas ent\u00e3o as cousas v\u00e3o bem?&#8230;\n\n&#8211; As maravilhas, Sr. Miguel Correia, futuro procurador do Senado recifense! exclamou o frade com \u00eanfase, terminada a leitura.\n\nArrufou-se o mercador de prazer, como um peru de roda quando o garoto rapaz lhe assobia no terreiro.\n\n&#8211; Qual!&#8230;\n\n&#8211; Digo-lho eu. O m\u00eas se n\u00e3o acaba sem que tenhamos pelouros abertos neste Recife.\n\n&#8211; Pois j\u00e1 t\u00e3o pr\u00f3ximo?&#8230; tornou o Miguel. Pelo que vejo este papel \u00e9 algum arranjo que os p\u00e9s-rapados nos prop\u00f5em?\n\n&#8211; Este papel?&#8230;\n\nUm riso desdenhoso borrifou a respeit\u00e1vel belfa do frade, que inchou as bochechas, para soltar a palavra retumbante com a \u00eanfase do costume.\n\nAqui para n\u00f3s, leitor, o reverendo preparava-se para representar o papel de tribuno, que \u00e9 o apostolado pol\u00edtico; e por isso n\u00e3o perdia ensejo de p\u00f4r os pontos \u00e1 sua eloq\u00fc\u00eancia.\n\n&#8211; Este papel?&#8230; \u00c9 o mane, thecel, phares da orgulhosa Olinda!&#8230; Como Babil\u00f4nia cair\u00e1 para n\u00e3o se levantar mais, a famigerada cidade! Este papel?&#8230; \u00c9 o documento da conjura\u00e7\u00e3o que tramam os fariseus deste Pernambuco, contra a autoridade do Rei, na pessoa de seu governador, a quem trabalham com danada ten\u00e7\u00e3o por deitar fora da terra, a fim de porem a governan\u00e7a na m\u00e3o de seus apaniguados, embora se derrame o sangue de inocentes, contanto que satisfa\u00e7am ao seu nefando prop\u00f3sito de abater esta Si\u00e3o do Recife, o que tenho f\u00e9 n\u00e3o h\u00e3o de consegui-lo&#8230;\n\nO reverendo tomou f\u00f4lego, e enroscando no dedo \u00edndex o fim do longo per\u00edodo \u00e0 maneira de carapito, outra vez encheu os foles da bochecha para apontuar devidamente o fim daquela rajada de eloq\u00fc\u00eancia.\n\n&#8211; &#8230; jamais!&#8230;\n\nSaiu o gaguinho dos biocos humildes e silenciosos em que se metera, para manifestar por modos significativos sua admira\u00e7\u00e3o \u00e0 orat\u00f3ria do Padre Jo\u00e3o. Piscando os olhos de entusiasmo, e batendo a cabe\u00e7a como o lagarto, animou-se a murmurar \u00e0 meia voz:\n\n&#8211; Nem o Padre Vieira!\n\nLan\u00e7ou o frade ao gaguinho o olhar de prote\u00e7\u00e3o com que hoje em dia o ministro na C\u00e2mara afaga os \u00edntimos que engastam em &#8216;apoiados&#8221; e &#8220;muito bem&#8221; as p\u00e9rolas, por ele desfiadas na tribuna.\n\nEntretanto passava o Miguel Correia um momento bem atribulado. De todo aquele soberbo jacto da reverend\u00edssima eloq\u00fc\u00eancia, n\u00e3o tirara o seu bestunto sen\u00e3o uma cousa; mas essa de arrepiar.\n\nEra o t\u00f3pico de sangue derramado t\u00e3o junto ao nome do Recife. Ora, havia no digno mascate invenc\u00edvel repuls\u00e3o por tudo quanto atentava contra a integridade da pele humana, e sobretudo da que lhe forrava o indiv\u00edduo.\n\nN\u00e3o se conhecia ainda naquele tempo a causa de semelhante fen\u00f4meno. Medo; nem por sombras podemos conjeturar que o sentisse um homem da polpa do Sr. Miguel Correia Gomes, capit\u00e3o no ter\u00e7o dos brancos, e escolhido pelos mascates como um de seus cabe\u00e7as, para levar a cabo a grande empresa em que se haviam empenhado.\n\nAtualmente, aben\u00e7oado progresso, qualquer estudante de Medicina explicaria de uma maneira clara e decorosa aquela esquisitice, diagnosticando uma afec\u00e7\u00e3o nervosa. Fique pois assentado que o Sr. Correia, bem apessoado de corpo, era, n\u00e3o obstante a fartura de m\u00fasculo e f\u00eavera do seu todo, um organismo essencialmente nervoso.\n\nTal frouxid\u00e3o produziram nele as palavras referidas, que as pernas faltaram ao tronco; os ombros afundaram sob a cabe\u00e7a; e o homem se aboborou sobre o tamborete.\n<h4><strong><a id=\"9\" name=\"9\"><\/a>CAP\u00cdTULO IX<\/strong><\/h4>\n<strong>COMO A CONSPIRA\u00c7\u00c3O, POR MAIS RODEIOS QUE FA\u00c7A, VAI SEMPRE DAR NA R\u00d3TULA DOS OLHOS NEGROS<\/strong>\n\nAfinal recobrara o mascate a fala. que eles s\u00e3o capazes de praticar estas\n\n&#8211; Deveras, Padre Jo\u00e3o, voc\u00ea julga maldades?&#8230;\n\n&#8211; Capazes eram, e de mais, se os deix\u00e1ssemos! Mas eles que fa\u00e7am o levante, e lhes mostraremos!\n\n&#8211; Um levante?&#8230; conseguiu balbuciar o Correia com a l\u00edngua perra.\n\n&#8211; Pois ent\u00e3o, homem!&#8230; N\u00e3o est\u00e1 aqui a c\u00f3pia do manifesto que contam remeter para Lisboa, com o governador?\n\n&#8211; Virgem Sant\u00edssima!\n\n&#8211; De que se espanta voc\u00ea?\n\n&#8211; Ah! padre, que desgra\u00e7a!\n\n&#8211; Diga que fortuna!\n\nO mascate n\u00e3o tugiu; por\u00e9m a cara agalgada retorquiu por ele com uma eloq\u00fc\u00eancia irresist\u00edvel.\n\nQue mais desejamos n\u00f3s, os do Recife? Que os fariseus de Olinda ponham em pr\u00e1tica seus perversos intentos! Ent\u00e3o o senhor governador acreditar\u00e1 no que lhe havemos dito; e far\u00e1 respeitar a vontade de El-Rei, capturando os mais famosos entre os tais fidalgotes de meia-cara.\n\n&#8211; Mas o levante?\n\n&#8211; O levante, abate-se! respondeu com fleuma admir\u00e1vel o padre.\n\n&#8211; Mas quem? O padre, com os seus congregados da Madre de Deus?\n\n&#8211; Nada; l\u00e1 isso \u00e9 da sua compet\u00eancia, Miguel Correia, e dos outros da militan\u00e7a. N\u00f3s os acompanharemos com as nossas preces&#8230;\n\n&#8211; Sim; bem fechados no convento!\n\n&#8211; Porque assim o exige o meu santo minist\u00e9rio, que por gosto estaria a frente dos nossos guerreiros, para bater a brecha em Olinda.\n\n&#8211; A brecha!&#8230; A brecha!&#8230; Pois olhem: comigo n\u00e3o contem! gritou Miguel Correia furioso a medir de uma \u00e0 outra ponta a comprida sala com uma desencaderna\u00e7\u00e3o de passos inconceb\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 l\u00e1 por medo; mas eu n\u00e3o posso ver matar aos meus semelhantes. No fim de contas sou crist\u00e3o, antes de ser mercador; e uma vila de mais ou de menos na terra n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para se estar a gente a comer como c\u00e3es esfaimados!\n\nTendo neste solil\u00f3quio en\u00e9rgico feito sua declara\u00e7\u00e3o de voto, o nervoso mascate barafustou pela casa adentro, meio perempt\u00f3rio de impedir a r\u00e9plica do frade e assim melhor se convencer da verdade do pr\u00f3prio dito.\n\nO reverendo o acompanhou com um olhar de zanga:\n\n&#8211; Se todos forem deste jaez, estamos aviados. \u00c9 cada um ir tratando de arrumar a trouxa e deixar a terra aos senhores dela. Perder a melhor ocasi\u00e3o!\n\n&#8211; O reverendo, ent\u00e3o, acredita que os de Olinda fazem o levante!\n\n&#8211; Pois este papel? perguntou o padre surpreso.\n\n&#8211; Andr\u00e9 de Figueiredo, bem sabe o reverendo, que \u00e9 de todos o mais empenhado contra o Recife. Foi ele quem encomendou o manifesto ao licenciado Davi de Albuquerque, que o ditou, e eu tirei a jeito esta c\u00f3pia, quando o passava a limpo.\n\n&#8211; Ent\u00e3o?\n\n&#8211; Olhe, sr. padre, pelo voto dele, amanh\u00e3 j\u00e1 se punha o motim na rua; mas \u00e9 que a melhor gente est\u00e1 em d\u00favida por causa do velho Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti. Ent\u00e3o se emprazaram para um dia destes em casa do dito, a fim de acordar-se no melhor.\n\n&#8211; Pelo que vejo, ainda n\u00e3o \u00e9 neg\u00f3cio resolvido! Que pena!\n\n&#8211; Agora, uma cousa me parece a mim, que ao reverendo sem d\u00favida j\u00e1 lembrou. Se o governador, sabendo do manifesto, mandasse prender alguns&#8230;\n\n&#8211; \u00c9 verdade; ocorreu-me h\u00e1 pouco. \u00d3tima id\u00e9ia. Vou j\u00e1 tratar disto!\n\nErgueu-se o padre e despedindo o rapaz foi em procura do Miguel Correia no interior da casa. Conseguiu explicar-lhe o novo plano ou, como se diria atualmente em linguagem parlamentar, a \u00faltima fase da quest\u00e3o olindense.\n\nO mercador apoiou com entusiasmo a emenda substitutiva. O expediente da captura efetuada pela tropa de guarni\u00e7\u00e3o, em nome de El-Rei, al\u00e9m de n\u00e3o atacar os nervos do capit\u00e3o do ter\u00e7o, podia ser um poderoso t\u00f4nico, livrando-o dos constantes sobressaltos em que vivia.\n\nAssentaram pois de comunicar o plano aos amigos que se ajuntavam quase todas as noites na cal\u00e7ada do mercador Viana; e como j\u00e1 estavam a pingar trindades, foram de passeio se encaminhando para ali. A companhia de ordin\u00e1rio come\u00e7ava a reunir-se com o escuro; por\u00e9m o Miguel Correia tinha suas raz\u00f5es para chegar cedo.\n\nPuseram-se os dois a caminho pela praia fronteira \u00e0 Madre de Deus, quando os apanhou o toque de ave-maria. Depois de recitada a ora\u00e7\u00e3o, deram-se mutuamente as boas-noites e, continuando o passeio, foram sair nas imedia\u00e7\u00f5es da Rua da Moeda. Os quintais separados formavam um beco estreito por onde se entrava da praia para a cidade. Houvera ali outrora uma pequena porta, fabricada pelos holandeses, mas j\u00e1 em ru\u00ednas.\n\nA um dos lados da travessa estava o out\u00e3o com a r\u00f3tula dos olhos negros. O Miguel Correia estendendo os olhos naquela dire\u00e7\u00e3o, viu cousa que o p\u00f4s alerta. A gelosia estava entreaberta; e pr\u00f3ximo da janela, encostado \u00e0 parede, havia um indiv\u00edduo gesticulando. Tornou-se pensativo o homem; e seu companheiro teria reparado na torva\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o fosse uma figura de ret\u00f3rica das mais retumbantes, e cujo efeito naquele momento ensaiava o padre sobre o mascate, pensando que este o escutava.\n\nQuem era o indiv\u00edduo da r\u00f3tula, j\u00e1 o sabemos. Ainda ali est\u00e1 onde ficou, o nosso poeta; mas parece que n\u00e3o perdeu seu tempo, o magan\u00e3o. Quando o deixamos, estava ele em suores frios por causa de uns rebates de unhas rosadas que vinham da r\u00f3tula.\n\nIsso, por\u00e9m, nada era \u00e1 vista do que tinha de vir. De repente escapou-se dentre as persianas aquele som mavioso, que s\u00f3 t\u00eam duas cousas neste mundo: a brisa no seio da rosa e o h\u00e1lito nos l\u00e1bios de uma mo\u00e7a.\n\nUm suspiro!&#8230; Haver\u00e1 na mulher outra express\u00e3o que se lhe compare? O olhar \u00e9 a centelha; o sorriso a corola resplandecente; o beijo a polpa deliciosa. Nada, por\u00e9m, como essa fragr\u00e2ncia melodiosa a destilar no seio da flor celeste, que se abre n&#8217;alma da virgem.\n\nFelizmente para o Lisardo ca\u00edram do sino do Carmo as primeiras badaladas de trindades. O beato amante logo se p\u00f4s em atitude de cumprir com o dever religioso; nunca ele se desbarretara com tamanha presteza, nem rezara com tanto zelo como nesta ocasi\u00e3o. Tamb\u00e9m a gelosia se recolhera ao batente; e um sil\u00eancio respeitoso derramou-se por aqueles lugares j\u00e1 de si pouco ruidosos.\n\nQuando se desvaneceram ao longe pelos ares as \u00faltimas e gemedoras percuss\u00f5es do bronze, o Lisardo levou o arrojo ao ponto de voltar o canto do olho para a r\u00f3tula, prestes a retir\u00e1-lo com velocidade de rel\u00e2mpago. Continuava cerrada a gelosia. Esta observa\u00e7\u00e3o reanimou o mancebo, que se meteu a falar entre si.\n\n&#8211; Com certeza ela n\u00e3o volta mais; foi rezar junto das velhas. Portanto posso me ir escapulindo. Que mais fa\u00e7o eu aqui? Podem bispar-me e depois&#8230; Ela mesma talvez n\u00e3o goste, e tanto que j\u00e1 recolheu-se.\n\nN\u00e3o acabara; rangeu de leve o gonzo da r\u00f3tula, que se entreabriu; e os olhos negros come\u00e7aram de novo a cintilar de modo que faria crer estavam apostados com a estrela da tarde, \u00e0 qual luziria mais.\n\nLembrem-se daqueles moldes feitos em velho papel\u00e3o, que as rendeiras pregavam outrora na almofada com espinhos de maca\u00faba, e far\u00e3o id\u00e9ia justa da figura do meu pobre Lisardo cosido \u00e0 parede por aquele molho de crivos.\n\nInstante depois, ressoou ali um canto suave. Os olhos negros falavam:\n\n&#8211; J\u00e1 est\u00e1 escurecendo; s\u00e3o horas de ir para dentro!&#8230;\n\nFoi este aparte proferido com certa lentid\u00e3o pachorrenta de quem procura um pretexto para retardar o cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o; com o mesmo vagar come\u00e7ou a r\u00f3tula de fechar-se, e o Lisardo im\u00f3vel. Quando cuidava ele ouvir o correr do trinco, abriu-se de novo a banda da gelosia, e os olhos negros se puseram &#8211; \u00e0 janela, mas desta vez zangados, porque diziam:\n\n&#8211; Ah! tamb\u00e9m&#8230; J\u00e1 me vou!&#8230;\n\nEstiveram pouco tempo; de repente dali partiu um grito de susto, e a r\u00f3tula puxada batera com for\u00e7a o batente que a repeliu:\n\n&#8211; Ai, Jesus!&#8230; Um homem!&#8230;\n\nCome\u00e7ando na janela continuou a voz no interior:\n\n&#8211; E eu aqui sozinha!\n\nEntraram os olhos negros a jogar o esconde-esconde. Iam-se chegando \u00e0 r\u00f3tula, e de repente furtavam-se com uma timidez cheia de feiti\u00e7os.\n\nO medo e o acanhamento outra cousa n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o medo de certas ninharias; desaparece como por encanto quando se acha em face de outro maior. \u00c9 capaz ent\u00e3o de ir at\u00e9 a petul\u00e2ncia. Se os olhos negros sabiam disto, n\u00e3o posso afirm\u00e1-lo; mas que os olhos negros s\u00e3o melhores fisiologistas do que os doutores arvorados em mestres de tal ci\u00eancia, n\u00e3o haja d\u00favida.\n\nAssim foi que o Lisardo, vendo a mo\u00e7a ter medo e vergonha dele, se encheu logo de certa import\u00e2ncia. A coragem a pouco e pouco lhe aqueceu o \u00e2nimo; despregou-se a l\u00edngua do palato e recobrou alguma flexibilidade. Teve d\u00f3 dos olhos negros, lembrando-se da afli\u00e7\u00e3o que neles havia de produzir sua aud\u00e1cia.\n\nTossiu o nosso Lisardo; afinou de leve a garganta, e com o gesto mais arredondado, entrou a recitar para umas estrelas defronte:\n<p align=\"center\"><strong>D\u00c9CIMA!<\/strong><\/p>\ndisse ele com voz de ep\u00edgrafe e prosseguiu:\n<p align=\"center\">Entre um morrer e viver\nQue me assalta a todo instante,\nTraz-me sempre uma inconstante\nS\u00f3 constante em meu sofrer.\nQuando me cuido morrer,\nD\u00e1-me Belisa uns carinhos;\nTorno \u00e0 vida aos bocadinhos,\nEis logo me deita uns olhos\nQue o foram, mas j\u00e1 s\u00e3o molhos\nDe enfados por entre espinhos.<\/p>\nApenas come\u00e7ou o recitativo, os olhos negros bruxulearam atrav\u00e9s da gelosia, e foram a pouco e pouco se enfiando tanto pelo gradil, que j\u00e1 se via junto deles uma testa branca de leite e um narizinho afilado do mais puro tipo pernambucano.\n\n&#8211; Ai, ai!&#8230; murmuraram no fim os l\u00e1bios que se adivinhavam em uma sombra r\u00f3sea por entre o crep\u00fasculo da r\u00f3tula.\n\nCompreendeu Lisardo que este monoss\u00edlabo suspirado era a resposta eloq\u00fcente \u00e0 sua d\u00e9cima; e que devia ele, para travar o di\u00e1logo, replicar. Mas n\u00e3o se tendo preparado, ficaria em seco, se lhe n\u00e3o ocorresse uma lembran\u00e7a feliz. Repetiu os versos com um acionado mais correto.\n\nDesgra\u00e7adamente desembocava pelo beco o Miguel Correia com o padre. Ao espanto da r\u00f3tula que fechou-se de repente, percebeu o poeta a causa. Com tal cara de estatelado ficou ele, que o Miguel Correia sentiu uma agastura no est\u00f4mago, e coseu-se ao reverendo. Mas, a dist\u00e2ncia suficiente, voltou-se com um gesto mal-encarado e escarrou duas vezes.\n\n&#8211; Que lhe parece aquele sujeito encostado \u00e0 r\u00f3tula, Padre Jo\u00e3o? perguntou ao frade em dobrando o canto.\n\n&#8211; N\u00e3o reparei, n\u00e3o, homem. Mas ent\u00e3o desconfiou de alguma cousa?\n\n&#8211; Eu sei!. .. Se a menina estava na r\u00f3tula, o caso n\u00e3o \u00e9 para gra\u00e7as. \u00c9 preciso que indague disto?\n\n&#8211; Quer voc\u00ea meu conselho? N\u00e3o indague de cousa alguma.\n\n&#8211; Essa \u00e9 boa. Ent\u00e3o se a rapariga andar de namoricos pelo quintal, eu n\u00e3o devo curar disso?\n\n&#8211; Para qu\u00ea? respondeu o frade com um riso magano. Se por for\u00e7a voc\u00ea tem de casar, n\u00e3o \u00e9 melhor que ignore o mais? O que olhos n\u00e3o v\u00eaem, cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente. O Viana ajustou dar-lhe a m\u00e3o da menina quando ela entrar nos vinte anos; e eu, \u00e9 preciso que saiba, j\u00e1 me preparei para aben\u00e7oar o cons\u00f3rcio e trinchar o peru das bodas. Portanto, que mais quer o amigo?\n\n&#8211; Quero saber a casta da mulher que levo para casa.\n\n&#8211; L\u00e1 Isto nunca h\u00e1 de saber, nem que viva com ela cem anos.\n\n&#8211; Mas em todo o caso sempre ser\u00e1 bom advertir o pai.\n\n&#8211; Disso me incumbo eu, como capel\u00e3o da casa.\n<h4><strong><a id=\"10\" name=\"10\"><\/a>CAP\u00cdTULO X<\/strong><\/h4>\n<strong>TEM O I.EITOR A INESPERADA FORTUNA DE SE AVISTAR COM UMA NINFA OLINDENSE<\/strong>\n\nEnquanto passavam no Recife estas cenas, outras do mesmo drama se desdobravam na pr\u00f3xima cidade.\n\nEra Olinda ent\u00e3o a princesa daqueles mares. Reclinada sobre os verdes outeiros, ainda olhava ela com desd\u00e9m a nova povoa\u00e7\u00e3o que surgia-lhe aos p\u00e9s longe em uma nesga de terra s\u00e1fara. Ainda sorria altiva aos esfor\u00e7os da humilde serva, que tentava quebrar o preito e obedi\u00eancia devidas \u00e0 leg\u00edtima suserana.\n\nE tinha raz\u00e3o. Olinda, a fidalga, a cidade nobre e de mais antiga linhagem naquelas partes, sen\u00e3o em todo o Brasil, conservava nos princ\u00edpios do s\u00e9culo XVIII a flor de sua beleza. Incendiada embora em 1630 pelos holandeses, renascera das cinzas e aumentara com o novo influxo que recebeu a capitania depois de restaurada. Quem, pela vez primeira, a avistava do mar, emergindo do seio das ondas, compreendia como a absurda tradi\u00e7\u00e3o de seu nome tanto se vulgarizou. Realmente era para exclamar: &#8211; Oh!&#8230; linda, linda cidade!\n\nO outeiro se elevava como um tricl\u00ednio romano voltada a cabeceira para o sul, e os p\u00e9s estendidos pela dilatada campina. A\u00ed, nesse leito voluptuoso, se recostava a americana cidade. Suas ruas subiam as encostas e serpejavam pela esplanada, a cavaleiro do mar. Era este um dos encantos de Olinda, e que raras cidades possuem.\n\nDe ordin\u00e1rio o viajante que chega n\u00e3o v\u00ea logo sen\u00e3o o vulto indeciso das cidades; a sua fei\u00e7\u00e3o est\u00e1 no interior das ruas e pra\u00e7as para conhece-la \u00e9 preciso atravessar a orla de trapiches ou quintais que lhe formam a crosta. Com Olinda n\u00e3o era assim; a faceira, garbosa de sua formosura vinha ao encontro do viajante e abria o seio para recebe-lo. Quem se aproximava de suas ribas alcantiladas, logo via do primeiro lance o cora\u00e7\u00e3o da cidade bem como o fluxo e refluxo da vida no centro da povoa\u00e7\u00e3o.\n\nProvinha esta singularidade do corte abrupto da montanha pelo lado do mar. Parecia que a cidade fora fendida a meio pelo desabo da emin\u00eancia. Tinha esse aspecto alguma cousa de c\u00eanico que redobrava-lhe o encanto; como nas vistas do teatro, o ponto visual era no foco do sitio representado.\n\nOutra gra\u00e7a especial de Olinda era a garridice campestre com que ela, cidade nobre, se adornava. Os campan\u00e1rios erri\u00e7ados de suas belas igrejas, assim como os tetos vermelhos dos edif\u00edcios, surgiam de um maci\u00e7o de verdura. N\u00e3o havia grupo de casas que n\u00e3o tivesse uma cintura de ramagem e flores. O campo e a cidade, como dois amantes se uniam em apertado abra\u00e7o. A civiliza\u00e7\u00e3o, assim vestida \u00e0 americana, tinha uns ares de lou\u00e7ania e gentileza que a embelezavam.\n\nDizem que t\u00e3o bonita era Olinda de longe, quanto feia e inc\u00f4moda dentro. Se essa tradi\u00e7\u00e3o nasceu de gente invejosa, filha das outras terras, ou de algum cronista vendido aos mascates, \u00e9 cousa imposs\u00edvel j\u00e1 de averiguar-se. Mas em todo o caso n\u00e3o desabona a cidade; h\u00e1 belezas para serem admiradas de longe; outras se querem vistas de perto.\n\nInfelizmente, aquele vi\u00e7o da altiva formosura n\u00e3o tardava se desvanecer. L\u00e1 estava ao sul, numa orla de praia, a minguada povoa\u00e7\u00e3o de pescadores, que fora crescendo desde a invas\u00e3o holandesa; e devia em breve dominar essas regi\u00f5es.\n\nTinha Olinda todas as superioridades. Situa\u00e7\u00e3o magn\u00edfica, ares saud\u00e1veis, \u00e1gua em abund\u00e2ncia, terreno f\u00e9rtil, e vegeta\u00e7\u00e3o opulenta; esses eram os dons da natureza, aos quais o homem juntara outros: as tradi\u00e7\u00f5es da primeira coloniza\u00e7\u00e3o, os edif\u00edcios bem acabados, e os meios de defens\u00e3o.\n\nRecife era uma ponta de areia, est\u00e9ril, despida de arvoredo, f\u00e9tida e doentia, sem outra \u00e1gua pot\u00e1vel al\u00e9m da p\u00e9ssima fornecida por cacimbas. A pr\u00f3xima Ilha de Santo Ant\u00f4nio estava nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. Mas havia ali um ancoradouro, porta aberta ao com\u00e9rcio. A ind\u00fastria, que j\u00e1 se estreava para um dia se apoderar da civiliza\u00e7\u00e3o e subjug\u00e1-la, devia arrastar a popula\u00e7\u00e3o do alto das verdes e risonhas colinas \u00e0s praias sujas, e infetas do Mosqueiro.\n\nAssim, a pouco e pouco minguou a seiva \u00e0 altiva cidade; suas casas foram desamparadas; tornaram-se ermas as ruas; e o cad\u00e1ver da formosa Olinda permaneceu como seca m\u00famia entre a verdura das \u00e1rvores e as palmas dos coqueiros, \u00fanicas de suas galas antigas que n\u00e3o desbotaram ainda hoje. Para consolo dessa velhice prematura fizeram-na beata: deixaram-lhe a supremacia espiritual.\n\nQuando a vi de primeira vez, transiram-me o sil\u00eancio e melancolia que a habitavam. Pareceu-me penetrar o vasto \u00e2mbito de um templo crist\u00e3o. Tal era o profundo abatimento de Olinda, que n\u00e3o podiam reanim\u00e1-la a inexaur\u00edvel jovialidade e o habitual rumor da col\u00f4nia acad\u00eamica, ent\u00e3o para ali rejeitada.\n\nNaquela tarde de 11 de outubro de 1710 resplandecia Olinda entre os fulgores do ocaso. A r\u00f3sea vez das nuvens refletia na branca fachada dos edif\u00edcios, e algumas chispas do \u00faltimo raio do dia abrasavam os coruch\u00e9us das torres. Ao meio da rua principal que se prolonga pelo dorso da montanha, e ent\u00e3o como hoje se chamava de S\u00e3o Bento, do mosteiro situado em frente, sobressa\u00edam as outras duas casas nobres, da melhor apar\u00eancia naquele tempo.\n\nTinham sobrado ambas, com janelas de sacada, revestidas de altas cortinas de r\u00f3tulas, pintadas de vermelho. A primeira, mais larga e de cinco portas, pertencia ao Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti, pessoa da melhor nobreza de Pernambuco. A outra, de tr\u00eas portas somente, era da propriedade e resid\u00eancia do Capit\u00e3o Andr\u00e9 Dias de Figueiredo, morador dentre os principais de Olinda.\n\nNa primeira sacada da \u00faltima casa percebiam-se entre as gretas da r\u00f3tula, por onde coavam-se as derradeiras r\u00e9stias do sol cadente, dois vultos que pareciam de mulher; e o eram de feito. Estava sentada em cadeira e mais recolhida, uma j\u00e1 revelhusca; a outra, mo\u00e7a e formosa, em estrado e pendida para a sacada, a fim de aproveitar a claridade; pois trabalhava na trama de uma bolsa de retr\u00f3s.\n\n&#8211; N\u00e3o se amofine com isto, menina! dizia a matrona.\n\n&#8211; Pois, tia, n\u00e3o me hei de queixar de minha sorte, que me fez donzela e casada, sem que o seja nem uma, nem outra? N\u00e3o me perten\u00e7o a mim, que sou de quem me disse o cora\u00e7\u00e3o; n\u00e3o me perten\u00e7o ao meu marido, que dele me tem separada. Ah! soubera eu do que me esperava, que n\u00e3o teria consentido! Afinal de contas ele \u00e9 meu esposo e eu devia acompanh\u00e1-lo&#8230;\n\n&#8211; Que diz voc\u00ea, Leonor?&#8230; Queria ent\u00e3o ajuda-lo na guerra que faz aos nossos?\n\n&#8211; Quem fala disto, senhora? Sou t\u00e3o boa pernambucana, como a que melhor for; e tamb\u00e9m, lhe juro, ningu\u00e9m se desvela tanto de amores por esta Olinda, onde nasci e me criei, e parece que tudo me conhece, porque brincamos juntos, quando era eu crian\u00e7a; e vai a ponto que viver fora daqui, creio que n\u00e3o \u00e9 mais viver, e sim morrer-se em vida aos poucos.\n\n&#8211; Se pensa por esse teor, de que se arrepende ent\u00e3o?\n\n&#8211; Eu sei, tia? Tenho c\u00e1 uma cousa comigo a dizer-me que se n\u00e3o fossem ao Sr. Vital Rebelo, logo na mesma noite em que nos desposamos, a intimar-lhe para morar em Olinda, ele se n\u00e3o havia de agastar; e depois com o tempo, pedindo e rogando, como era meu dever, tudo alcan\u00e7ar\u00edamos dele. E agora!&#8230;\n\nCurvou Leonor ainda mais a cabe\u00e7a, dando ao colo alvo e flexuoso uma ondula\u00e7\u00e3o de cisne, a fim de esconder da tia a l\u00e1grima cristalina que tremia nos c\u00edlios e veio a cair no rega\u00e7o. Mas a voz n\u00e3o a p\u00f4de esconder; viera aquela \u00faltima palavra rociada de prantos.\n\n&#8211; Est\u00e1 bom, tornou a senhora; console-se que breve tudo isto acaba. Em vencendo n\u00f3s aos tais mascates&#8230;\n\n&#8211; Contanto que lhe n\u00e3o fa\u00e7am mal! replicou prontamente a mo\u00e7a.\n\n&#8211; Disso lhe dou fian\u00e7a, menina; basta ser seu marido e meu sobrinho.\n\n&#8211; Mas quando acabar\u00e1?\n\n&#8211; Qualquer destes dias.\n\n&#8211; Ah! Deus lhe ou\u00e7a, tiazinha de meu cora\u00e7\u00e3o, exclamou a donzela esposa, erguendo ao rosto as m\u00e3os juntas para o c\u00e9u.\n\nNesse movimento as madeixas do cabelo castanho descaindo para as esp\u00e1duas mostravam em toda a pureza natural o belo semblante de Leonor. Entre a l\u00edmpida alvura coavam uns reflexos de luz rosada que anunciavam a aurora da esperan\u00e7ada ventura.\n\nD. Severa lan\u00e7ou-lhe um olhar de castel\u00e3.\n\n&#8211; Ai! Quem me dera outra vez aqueles bons tempos em que as damas e donzelas sabiam arrostar os perigos e davam aos senhores homens o exemplo do hero\u00edsmo? Tamb\u00e9m por isso eram mais respeitadas e queridas do que s\u00e3o hoje, que vivem encostadas ao canto que nem traste velho e fora de uso. Se n\u00e3o era outra cousa bem diferente das de agora uma fidalga, ainda mesmo do tempo de minha av\u00f3, que pelejou em Porto Calvo com D. Clara? E por sinal que atravessou dois holandeses com uma s\u00f3 lan\u00e7ada!\n\n&#8211; Jesus!&#8230; Que mulherzinha!\n\n&#8211; E eu sou capaz de outro tanto; o ponto \u00e9 me acompanharem.\n\n&#8211; Ui! tia n\u00e3o se lembre disto. J\u00e1 estas cousas andaram t\u00e3o baralhadas sem n\u00f3s mulheres andarmos a\u00ed \u00e0s voltas, quanto mais se nos f\u00f4ssemos tamb\u00e9m meter com elas? Ent\u00e3o \u00e9 que ningu\u00e9m mais se entenderia; por for\u00e7a que havia de vir muita desgra\u00e7a, sem contar a que j\u00e1 estou prevendo de me ver casada e descasada t\u00e3o sem gra\u00e7a e de repente!\n\n&#8211; N\u00e3o digo! Para choramingas e rezas \u00e9 que servem hoje as mulheres. Se fosse uma dama do bom tempo, que se apartasse como voc\u00ea, Leonor, de seu esposo para seguir a seus parentes, em vez de ficar em casa a fazer meias ou bolsas, punha-se em campo com seus acostados e gente d&#8217;armas; e havia de n\u00e3o menos vencer o inimigo \u00e0 ponta de espada, do que render o esposo com um bote de lan\u00e7a, que n\u00e3o com um requebro d&#8217;olhos.\n\n&#8211; Nossa Senhora me defenda de tal tenta\u00e7\u00e3o!\n\n&#8211; Ai, saudades!&#8230; Aquilo \u00e9 que era viver! continuou D. Severa entusiasmada. A gente sempre adorada, cavaleiros de todas as partes que cercavam a dama de seus pensamentos, e bastava um aceno para que eles fossem ao fim do mundo, e isso s\u00f3 em troca de um sorriso de longe em longe, ou quando muito de uma flor, de modo que assim a formosura de uma fidalga podia chegar para fazer a tantos felizes; e n\u00e3o \u00e9 como hoje, que vive fechada dentro de casa para um s\u00f3, e este mesmo nem com ela se importa!&#8230; Ai, tempos, belos tempos dos torneios, das justas, das cruzadas! Tempos de const\u00e2ncia em que a gente n\u00e3o se dava de esperar dez, vinte, trinta anos, que seu esposo voltasse da Palestina! \u00c9 para se comparar!&#8230;\n\nAqui vejo-me obrigado a dizer alguma cousa sobre o f\u00edsico da Sr.a D. Severa de Sousa, para que o leitor n\u00e3o se deixe ir a suposi\u00e7\u00f5es arriscadas!\n\nTinha a fidalga cinq\u00fcenta anos bem puxados: os cabelos, ainda n\u00e3o grisalhos, mas de um preto ru\u00e7o, trazia-os ela em diadema enastrado de fitas verdes, amarelas e escarlates. Nas faces, onde a natureza p\u00f4s aquele doce pomo rubescente, que nossos pais com propriedade chamaram as ma\u00e7\u00e3s do rosto, havia outra variedade de fruto, duas nozes.\n\nFormavam estas sali\u00eancias em conjun\u00e7\u00e3o com o queixo n\u00e3o menos proeminente a triangula\u00e7\u00e3o da beleza de D. Severa, que se contava no rol das ninfas olindenses. E n\u00e3o era vaidosa, n\u00e3o. O nosso amigo Lisardo que tinha entradas no Parnaso e privava com as musas, lhe dedicara h\u00e1 tempos um madrigal neste gosto:\n<p align=\"center\">Onde vais correndo assim?\nPergunto \u00e0 Flora chorosa.\nDiz-me a deusa: &#8220;Busco a rosa\nQue fugiu do meu jardim.&#8221;<\/p>\n<p align=\"center\">Acode amor: &#8220;Oh! n\u00e3o penses,\nQue volte a ser flor mimosa,\nCl\u00e9lia, a ninfa mais formosa\nEntre as ninfas olindenses.<\/p>\nAh! poetas, poetas. Por que vos deu a natureza um est\u00f4mago?&#8230; Sem essa v\u00edscera exigente n\u00e3o ser\u00edeis for\u00e7ados, v\u00f3s, os sacerdotes do belo, a cantar as Donas Severas de todos os tempos; e a incensar as torpezas de ambos os sexos, que por ai pululam corno r\u00e3s, neste grande charco, chamado mundo!\n\nObservava Leonor com um arzinho zombeteiro o entusiasmo cavalheiresco da tia, e o sorriso que lhe brincava nos l\u00e1bios j\u00e1 abrochava para soltar algum remoque inocente, quando uni tropel de cavalo soou na rua, que a distraiu. Enfiando o olhar pela fresta da gelosia, teve um sobressalto e se arremessou de encontro \u00e0 r\u00f3tula com irresist\u00edvel impulso.\n\n&#8211; O que \u00e9? 0 que \u00e9? perguntou D. Severa estendendo o longo pesco\u00e7o, que no madrigal do Lisardo devera representar o ped\u00fanculo da rosa.\n<h4><strong><a id=\"11\" name=\"11\"><\/a>CAP\u00cdTULO XI<\/strong><\/h4>\n<strong>O PRIMEIRO SANGUE DERRAMADO NA FAMOSA GUERRA DOS MASCATES<\/strong>\n\nUm cavaleiro bem parecido e trajado com lindas roupas, que descia a rua na dire\u00e7\u00e3o da Miseric\u00f3rdia, fora causa do sobressalto da mo\u00e7a.\n\nQuase fronteiro \u00e0 janela, o fogoso cavalo em que montava caracolou-se voltando rapidamente sobre os p\u00e9s; e durante um momento lutou o mancebo, que mostrava ser excelente escudeiro, para subjugar o animal. Nesse tempo o tinha visto Leonor, que se lan\u00e7ara para a janela.\n\nDecerto percebera ele o vulto da mo\u00e7a e a reconhecera, porque fitou nela um olhar expressivo acompanhado por um gesto r\u00e1pido. Entreabrira a m\u00e3o direita erguida; e um pequeno objeto, mais alvo que as rendas do punho, apareceu na palma. Logo ap\u00f3s, dando de r\u00e9dea ao cavalo, seguiu a passo pela rua adiante.\n\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada, tia, disse Leonor ainda tr\u00eamula, sem retirar os olhos das restas.\n\nMas n\u00e3o se \u00e9 ninfa debalde. A esperta da D. Severa n\u00e3o pudera ver j\u00e1 as fei\u00e7\u00f5es do cavaleiro, mas admirando-lhe o talhe airoso que moldava a casaca de lemiste, induziu pela perturba\u00e7\u00e3o da sobrinha quem era o guapo mancebo.\n\n&#8211; Sonsa! Cuidas que n\u00e3o o conheci?\n\n&#8211; A quem, senhora?\n\nJ\u00e1 livre da surpresa, a mo\u00e7a volveu os olhos em torno como se procurasse alguma pessoa.\n\n&#8211; A quem mais, sen\u00e3o a teu marido que passou neste momento! Pior \u00e9 se me queres fazer de boneca!\n\n&#8211; Bem vi um cavaleiro, mas se era o Sr. Vital Rebelo n\u00e3o digo, porque n\u00e3o reparei; estava olhando para outra cousa.\n\n&#8211; E o susto que voc\u00ea teve?\n\n&#8211; Ah 1&#8230; Cuidei que me tinha ca\u00eddo o fio da seda, respondeu a mo\u00e7a mostrando o novelo.\n\n&#8211; Estes olhos n\u00e3o me enganam!\n\n&#8211; Est\u00e1 bom!\n\nDizendo isto com um tonzinho de arrufada, Leonor se absorveu completamente no trabalho, apesar de estar quase escuro. A matrona continuou:\n\n&#8211; Agora, porque nega voc\u00ea, n\u00e3o sei. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o natural que seu marido, vencido de saudades, quebre os protestos de esquivan\u00e7a e espie as ocasi\u00f5es de ver sua esposa e senhora? Assim praticava-se antigamente. As damas encerradas em seu castelo viam \u00e0s vezes passar um cavaleiro misterioso, de viseira ca\u00edda; ou ent\u00e3o \u00e0 noite calada, pelo claro da lua, ouviam alguma serenata embaixo da sua torre. Batia o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 castel\u00e3: &#8220;Quem ser\u00e1?&#8221; perguntava baixinho para a aia. E ficava naquele sobressalto da d\u00favida, se porventura seria o esposo que tornava, ou algum outro cavaleiro enamorado de sua beleza, que neste vai e vem da esperan\u00e7a \u00e9 que estava o maior gosto. Qual era naquele tempo o marido que depois de uma aus\u00eancia entrava em casa, como hoje, t\u00e3o sem gra\u00e7a, que a gente j\u00e1 sabe o dia e hora em que chegam e a cara que trazem?\n\n&#8211; Mas, ent\u00e3o, nesse tempo as esposas viviam sempre ausentes, ou ainda pior, desquitadas de seus maridos?\n\n&#8211; Pois a\u00ed estava a galanteria, menina! Amarrem um ao outro, como uma ca\u00e7amba na corda, duas criaturas, e agora vejam que aborrecimento n\u00e3o \u00e9 este de se aturarem a todo o instante, que por fim de contas ambos j\u00e1 se sabem um ao outro de cor e salteado; e de mais a mais, est\u00e1-se vendo que a gente n\u00e3o pode receber as finezas e requebros dos cavaleiros, mesmo nas barbas do homem?&#8230; N\u00e3o tem jeito nenhum. Como era, sim, que. os maridos nunca perdiam o garbo de namorados, e as damas viviam at\u00e9 morrer sempre requestadas com mil gentilezas. Minha bisav\u00f3 tinha setenta anos quando D. Jorge de Albuquerque, num torneio aqui mesmo. nesta Olinda, l\u00e1 no p\u00e1tio do pal\u00e1cio, com o punhal na gorja, obrigou tr\u00eas cavaleiros a confessarem que ela era um bogarim.\n\n&#8211; Por causa dos cabelos brancos? observou ingenuamente Leonor.\n\n&#8211; Fosse pelo que fosse. Ainda h\u00e1 quem ouvisse falar do quanto era formosa ent\u00e3o; e dizem que em mocinha se pareceu comigo.\n\nAs observa\u00e7\u00f5es sensatas de D. Severa suscitam uma reflex\u00e3o curiosa a respeito da semelhan\u00e7a entre os costumes cavalheirescos, na parte conjugal, e os atuais costumes realistas. Exce\u00e7\u00e3o feita de algumas circunst\u00e2ncias m\u00ednimas, e substitu\u00eddos os torneios pelos bailes, as serenatas pelos presentes, parece que o fundo \u00e9 o mesmo.\n\nEscutava Leonor a matrona somente com o ouvido esquerdo, porque o direito o tinha ela alerta ao menor rumor de fora. De repente a conchinha cor-de-rosa, meio oculta pelas madeixas castanhas, ardeu com s\u00fabito rubor. O som da pata de um cavalo batera ao longe o ch\u00e3o duro e seco da rua.\n\n&#8211; Ai, querida tia, me conte do torneio. Ent\u00e3o D. Jorge de Albuquerque&#8230; \u00e9 o donat\u00e1rio, o filho de D. Brites, o que pelejou na \u00cdndia, n\u00e3o \u00e9, tia?&#8230; Mas ent\u00e3o ele atirou a luva por minha tatarav\u00f3!&#8230; N\u00e3o \u00e9? Como havia de ficar a dama toda cheia de si!&#8230; As cores&#8230; Quais tinha D. Jorge?&#8230; Eram negras as armas, sem d\u00favida? E o mote?&#8230;\n\nTais perguntinhas ca\u00edram sobre a matrona como um enxame de abelhas, e a atordoaram um instante; recobrando logo seu ar solene e cheio de dignidade, come\u00e7ou D. Severa a narra\u00e7\u00e3o pitoresca das cenas do torneio, em que fora sua bisav\u00f3 proclamada o bogarim de Olinda.\n\nEntretanto se aproximara o tropel, que cessou de repente por baixo da janela. Se D. Severa estivesse menos preocupada com as reminisc\u00eancias cavalheirescas da fam\u00edlia, n\u00e3o lhe escapara decerto nem essa circunst\u00e2ncia, nem o curioso ponto de malha que a sobrinha apesar do escuro acabava de inventar.\n\nJulgo conveniente dar \u00e0s minhas am\u00e1veis leitoras, se as tiver, a explica\u00e7\u00e3o desse ponto elegante, porque estou certo a n\u00e3o encontrar\u00e3o em nenhum jornal de modas.\n\nFaz-se volta sobre a m\u00e3o direita, enfia-se a agulha sutilmente pela fresta da r\u00f3tula; um cavaleiro na rua amarra um bilhetinho na agulha e estica o retr\u00f3s; colhe-se ent\u00e3o docemente a volta, e de novo tran\u00e7ando as malhas, remata-se o ponto de la\u00e7ada. H\u00e1 atualmente muitos outros pontos de croque mais em voga; por\u00e9m nenhum t\u00e3o elegante como aquele.\n\nMuito antes de terminar D. Severa o epis\u00f3dio da bisav\u00f3, tinha Leonor rematado seu ponto; e sentindo a fazer-lhe c\u00f3cegas no seio um papelzinho dobrado, tornou-se inquieta e desassossegada. Nem mais escutava a narra\u00e7\u00e3o daquela famosa aventura do bogarim, que t\u00e3o viva curiosidade lhe despertara pouco antes.\n\nAfinal se n\u00e3o p\u00f4de conter:\n\n&#8211; Eu volto j\u00e1, tia D. Severa; um instantinho, enquanto arranjo meu toucado que se desmanchou, n\u00e3o sei como.\n\n&#8211; Pois juntas iremos.\n\n&#8211; Para que ter esse trabalho? N\u00e3o me demoro nada. Espere a tia.\n\n&#8211; Porventura, Leonor, quer voc\u00ea esconder de mim alguma cousa?\n\n&#8211; Eu?.. . Esconder!. .. Ora que lembran\u00e7a esta agora da tia!\n\n&#8211; Pois est\u00e1 voc\u00ea com tantas partes por uma cousa \u00e1-toa!\n\n&#8211; J\u00e1 n\u00e3o digo nada; a senhora tia fa\u00e7a como for de seu gosto.\n\n&#8211; Venha ent\u00e3o para a alcova se compor.\n\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 mais preciso; aqui mesmo arranjarei.\n\nContrariada, Leonor alisou os cabelos com as pontas dos dedos e deu pelo aposento alguns passos a esmo, indecisa sobre o que havia de fazer, e ao mesmo tempo impaciente de tomar uma resolu\u00e7\u00e3o.\n\nSoaram passos no corredor; entrou um escravo com uma candeia de garavato para acender o lampi\u00e3o da sala; e logo em seguida o dono da casa, que naquele momento chegara da rua.\n\nRepresentava o Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo ser homem de trinta e sete anos; toda a sua pessoa respirava exuber\u00e2ncia de energia e arrebatamento, que dizia com a organiza\u00e7\u00e3o musculosa e o adunco perfil.\n\nAo entrar, dardejou um a outro canto da sala, olhos que n\u00e3o buscavam somente, mas iam j\u00e1 cheios de iras para afrontar o objeto procurado. Reconhecendo que estavam s\u00f3s as duas senhoras, sofreou um tanto os \u00edmpetos; e se dirigiu para elas dando as boas-noites.\n\n&#8211; Traz-nos alguma boa nova, Capit\u00e3o Andr\u00e9?\n\n&#8211; Nenhuma, senhora prima.\n\n&#8211; Disso j\u00e1 eu sabia que era bem escusado perguntar-lhe, porque nada havia de saber. Os homens de agora assim \u00e9 que nos tratam, de resto. J\u00e1 se foi o tempo da galanteria, em que as damas eram as primeiras consultadas sobre os neg\u00f3cios; e n\u00e3o se saiam por isso os cavalheiros mal das empresas, antes n\u00e3o sei que diga, que muito melhor do que hoje em dia, e a prova ai est\u00e1 na nossa terra.\n\nAproveitou Leonor o ensejo para ganhar furtivamente a alcova. Como de costume crepitava na cantoneira aos p\u00e9s da Virgem a luzinha da griseta de prata, que era a devo\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, l\u00e1 por uma certa promessa que fizera.\n\nO bilhete que tantas c\u00f3cegas lhe fizera, continha poucas palavras:\n\nSenhora, que esposa n\u00e3o devo chamar quem se roubou ao Juramento que a fizera minha. For\u00e7oso \u00e9 que vos veja e fale pela derradeira vez. Se de todo ainda n\u00e3o se apagou em vosso cora\u00e7\u00e3o aquele afeto, que j\u00e1 vos mereci, e antes nunca o merecesse, por vosso bem e meu sossego, interceda ele em meu favor para que obtenha de vossa crueldade, essa merc\u00ea.\n\nDevorou a mo\u00e7a com os olhos primeiro, depois com um al\u00edvio de beijos, a carta; e cerrando-a entre as m\u00e3os cruzadas, levantou para a Virgem uma prece eloq\u00fcente, ainda que muda. Outro pensamento, por\u00e9m, a reclamou; desejava responder; e as dificuldades lhe ocorriam \u00e0 mente.\n\nAtualmente, n\u00e3o h\u00e1 mocinha de dez anos &#8211; outrora se chamavam meninas \u00e0s de vinte &#8211; n\u00e3o h\u00e1, dizia eu, bonecrinha de carne e osso, que n\u00e3o tenha sua papeterie com papel de v\u00e1rios tamanhos, desde o de palmo para cartas de neg\u00f3cio at\u00e9 o de polegada para os bilhetinhos a\u00e7ucarados. E n\u00e3o s\u00f3 papel como sobrecartas, fechos emblem\u00e1ticos, lacres perfumados, penas diamantinas, areia de ouro, enfim todo o arsenal de ninharias indispens\u00e1vel \u00e0 ci\u00eancia epistolar, a mais transcendente e sublime deste s\u00e9culo.\n\nA bem dizer, a carta \u00e9 a mais poderosa alavanca do progresso: nem o jornal lhe chega. Quem se propusesse a estudar sua fisiologia e sistemar as esp\u00e9cies de que s\u00e3o principais a carta de empenho, a circular dos candidatos, a de cr\u00e9dito, a de namoro, de felicita\u00e7\u00e3o, de cumprimentos, a reservada, reservad\u00edssima e confidencial, escreveria uma bela obra, um livro pr\u00e1tico, dos mais justamente apreciados na atualidade. E faria fortuna o autor, principalmente se o governo lhe ficasse com a metade dos exemplares, no intuito de promover a coloniza\u00e7\u00e3o.\n\nNo tempo desta hist\u00f3ria, a ci\u00eancia epistolar estava ainda no embri\u00e3o. Cada casa, e das fidalgas e abastadas, era mobiliada com um tinteiro \u00fanico, mas respeit\u00e1vel.\n\nEsse traste importante, acompanhado dos seus acess\u00f3rios, o areeiro, duas penas de ganso e uma h\u00f3stia ou obreia encarnada, estava debaixo de chave e sob a guarda imediata do dono da casa, como o respons\u00e1vel pela honra e seguran\u00e7a da fam\u00edlia.\n\nLembrou-se, portanto, Leonor da resposta por escrito, somente para reconhecer a impossibilidade em que estava de usar dela. O outro meio, mais corriqueiro, o dos recadinhos, bem sabia ser impratic\u00e1vel, assim de repente, em uma casa onde a traziam espiada. S\u00f4frega, correu os olhos por todos os cantos e m\u00f3veis do aposento, procurando um meio, ou pelo menos uma inspira\u00e7\u00e3o.\n\nCom a cabe\u00e7a inclinada em atitude pensativa, engastando entre os dentes de p\u00e9rola a unha rosada do polegar, e estremecendo de impaci\u00eancia, estava encantadora a donzela. Dir-se-ia que ela esperava tirar da coroa daquele dedinho mimoso o fio do enigma, como costumava puxar com os dentes a ponta da linha para desembara\u00e7ar a meada.\n\nEis que desperta com um pulinho de contentamento. Estende o seu len\u00e7o de batista sobre o donzel, e tirando uma agulha de bordar do a\u00e7afate de costura; picou a veia azul do bra\u00e7o esquerdo.\n\nUma gota, e da mais fina p\u00farpura, borbulhou na tez alva e acetinada. A\u00ed molhando a mi\u00fado a ponta da agulha, p\u00f4de escrever na cambraia estas palavras: amanh\u00e3 na cerca.\n\nMachucou o len\u00e7o na m\u00e3o, que mal o escondia, e disfar\u00e7ando esta entre os fofos da saia, voltou \u00e0 sala onde encontrou ainda em conversa animada D. Severa e o capit\u00e3o. As outras senhoras da casa estavam sentadas em roda de D. Louren\u00e7a, respeit\u00e1vel matrona pernambucana, que muito se avantajou nas letras e virtudes. Era irm\u00e3 de Andr\u00e9 de Figueiredo, e vi\u00fava.\n\nAchando j\u00e1 reunida na sala a fam\u00edlia, \u00e0 qual esperava antecipar-se, hesitou a mo\u00e7a; a resolu\u00e7\u00e3o por\u00e9m n\u00e3o se fez esperar. Acercou-se do grupo, dizendo:\n\n&#8211; Quem me d\u00e1 um lugar?\n\nE sem esperar resposta:\n\n&#8211; Est\u00e1 bom; tenho meu estrado.\n\nEncaminhou-se ent\u00e3o para a janela com o pretexto de arrastar o estradinho em que estivera sentada \u00e0 tarde. Do primeiro lance viu ela parado em frente da casa um vulto. Observando que n\u00e3o reparavam, abriu rapidamente a aldraba da r\u00f3tula e arremessou o len\u00e7o.\n\nAo voltar-se de todo para melhor empurrar com o p\u00e9 o estrado, viu em frente Andr\u00e9 de Figueiredo, que se aproximava dela:\n\n&#8211; Sabe quem andou hoje por Olinda, Leonor?\n\n&#8211; Como posso saber, eu que daqui n\u00e3o saio nunca? respondeu a mo\u00e7a tr\u00eamula.\n\n&#8211; O Vital Rebelo!\n\n&#8211; N\u00e3o disse eu? acudiu D. Severa.\n\n&#8211; Bem minha tia teimava que o tinha visto! continuou Leonor.\n\n&#8211; Que ter\u00e1 ele vindo buscar? perguntou D. Louren\u00e7a.\n\n&#8211; N\u00e3o sei; mas queira Deus n\u00e3o seja o que suspeito! replicou o capit\u00e3o com surda voz de amea\u00e7a.\n\n&#8211; Que vem fazer? acudiu D. Severa. Pois, Louren\u00e7a, n\u00e3o tem ele destas bandas a dama de seu cora\u00e7\u00e3o?\n\n&#8211; Tomara eu que me ele deixe sossegada! balbuciou Leonor.\n\nP\u00e1lida e demudada, foi a mo\u00e7a tomar lugar na roda das senhoras, disfar\u00e7ando para esconder seu terror. Mil vezes arrependida do que fizera, bem desejava, se fosse poss\u00edvel, resgatar com um ano de sua vida aquele momento de irreflex\u00e3o. Quantas desgra\u00e7as talvez n\u00e3o ia causar a sua imprud\u00eancia?\n<h4><strong><a id=\"12\" name=\"12\"><\/a>CAP\u00cdTULO XII<\/strong><\/h4>\n<strong>ONDE SE ENCONTRA NOT\u00cdCIA DO SOF\u00c1 QUE TIRAVA O SONO AO GOVERNADOR<\/strong>\n\nEra noite ca\u00edda.\n\nIluminou-se a rua com o clar\u00e3o dos fachos agitados pelos pajens, que precediam os nobres cavaleiros e suas damas.\n\nDas bandas da Miseric\u00f3rdia e Varadouro, retroava o ch\u00e3o com o estrupido de animais que se aproximavam; e com pouco levantou-se debaixo das sacadas o burburinho que produz o vozeio soturno de muitas pessoas.\n\nEram bandos de cavaleiros, que chegavam acompanhados de seus pajens, e alguns precedidos de palanquins, onde vinham as donas e filhas dos nobres moradores de Olinda, para o ser\u00e3o quotidiano das casas do Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti.\n\nFicavam estas casas \u00e0 direita e parede-meia das outras em que morava o Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo; eram, por\u00e9m, mais vastas e avantajadas, assim na forma da constru\u00e7\u00e3o, como no custo das alfaias e m\u00f3veis que a adere\u00e7avam.\n\nOcupava dois ter\u00e7os da frente a pe\u00e7a principal, a casa do sof\u00e1, larga sala em quadro, com as paredes revestidas no ter\u00e7o inferior de almofadas de brasilete e o resto de colgaduras de pano de r\u00e3s.\n\nDe meia volta em ab\u00f3bada, era o teto pintado a fresco, com tarjas douradas que cercavam os v\u00e1rios pain\u00e9is ovais dispostos em simetria pela precinta e representando epis\u00f3dios guerreiros da descoberta de Olinda, ou frutos e aves de Pernambuco.\n\nNo centro do teto, em obra de talha, via-se enroscada uma serpente, mastigando nas presas a corrente donde pendiam uma grande l\u00e2mpada de prata cinzelada com sete luzes, que bastavam para esclarecer o vasto aposento.\n\n\u00c0s quatro janelas rasgadas para a rua correspondiam tr\u00eas portas de comunica\u00e7\u00e3o interior, sendo a entrada pela c\u00e2mara da direita donde se descia ao vest\u00edbulo, e ficando \u00e0 esquerda, ao longo da parede, o sof\u00e1.\n\n\u00c0 noite de ordin\u00e1rio conservava-se fechada a porta larga do fundo, que era do orat\u00f3rio; salvo quando se tinha de festejar algum santo de particular devo\u00e7\u00e3o da casa, como era o Evangelista, seu padroeiro; ou quando celebravam-se casamentos e batizados de pessoas da fam\u00edlia.\n\nNos quatro \u00e2ngulos da ampla sala desciam at\u00e9 a meio da parede trof\u00e9us com lambeis volantes, em cuja apiciadura ressaltavam suspensos \u00e0 cornija quatro escudos em metal com os bras\u00f5es de alian\u00e7a que o capit\u00e3o-mor tinha o direito de trazer e eram os dos Coelhos, Barros, Sousas e Bezerras.\n\nDe jacarand\u00e1 preto, trabalhado a torno, e de sola vermelha com pregaria de metal amarelo, era toda a mob\u00edlia. Nos espaldares das cadeiras coroados pelo elmo aberto em obra de talha, esculpira destro art\u00edfice o escudo das armas do capit\u00e3o-mor.\n\nA essa casa concorriam regularmente todas as noites os moradores principais de Olinda, parentes pela maior parte ou aderentes do capit\u00e3o-mor, para colher informa\u00e7\u00e3o das cousas da governan\u00e7a e andamento da rep\u00fablica; e tamb\u00e9m combinarem os melhores alvitres na estreiteza em que se achavam, com os neg\u00f3cios da terra bem intrincados, e o governador t\u00e3o desviado do bom caminho pelo mau conselho dos que o cercavam.\n\nEra Jo\u00e3o Cavalcanti naquele tempo o chefe da grande fam\u00edlia Cavalcanti, que em Pernambuco data da funda\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia, e prov\u00e9m de troncos nobil\u00edssimos; pela linha materna sa\u00edram da estirpe dos Coelhos e Albuquerques, flor da fidalguia portuguesa, e pela linha paterna remontam a Arnaldo Cavalcanti, que se aliou na casa dos M\u00e9dicis, a mais ilustre de Floren\u00e7a; de cuja linhagem nasceu Filipe Cavalcanti que se passou a Pernambuco, nos primeiros tempos da povoa\u00e7\u00e3o.\n\nDe grandes posses, senhor de muitos engenhos, vivendo \u00e0 lei da grandeza, com todos os regalos da vida; bravo, cort\u00eas e generoso, embora presumido de sua fidalguia; liberal at\u00e9 \u00e0 prodigalidade, de bolsa aberta sempre para quem a ele recorria: era de raz\u00e3o que tivesse o capit\u00e3o-mor grande s\u00e9quito n\u00e3o s\u00f3 entre os moradores nobres, como na gente mi\u00fada da terra.\n\nN\u00e3o havia, entre os mazombos insignes daquele Pernambuco, outro mais acatado do que este, e t\u00e3o poderoso; pois s\u00f3 com os seus escravos e os acostados de seus engenhos, sem falar das suas ordenan\u00e7as e dos in\u00fameros sequazes que tinha pelos povoados, podia levantar da noite para o dia um bom ter\u00e7o de tropa mais decidida, sen\u00e3o melhor armada, do que a mil\u00edcia do governador.\n\nMazombo era o t\u00edtulo popular que tinham naquela \u00e9poca os principais, entre os nobres pernambucanos. A hist\u00f3ria, que nos conservou o voc\u00e1bulo, hoje caduco, descuidou-se de transmitir a origem; de modo que, a n\u00e3o ser o precioso manuscrito desta cr\u00f4nica, n\u00e3o poderia o Instituto Hist\u00f3rico, apesar de profundas e s\u00e1bias investiga\u00e7\u00f5es, assentar opini\u00e3o segura em t\u00e3o escabroso assunto.\n\nTinha a destrui\u00e7\u00e3o dos Palmares divulgado boa c\u00f3pia de nomes africanos, empregados pelos negros na sua rep\u00fablica. Zambi chamavam ao cabo supremo, a quem todos obedeciam; e muzambi, eram os grandes oficiais, do servi\u00e7o do maioral, e seus ministros.\n\nPor desprezo, entraram os mercadores portugueses a alcunharem os nobres pernambucanos de mazombos, como para inculc\u00e1-los de cabecilhas de negros, querendo com isso lan\u00e7ar-lhes o lab\u00e9u de gente de cor. \u00c9 peco esse de nossos irm\u00e3os, tine mais tarde inventaram com a mesma inten\u00e7\u00e3o o ep\u00edteto afrontoso de p\u00e9-de-cabra.\n\nRepetiu-se o que sempre sucede em tais casos. Os filhos de Pernambuco, e especialmente a gente de cor, trocando em honroso mote o nome que lhes haviam lan\u00e7ado os contr\u00e1rios como afronta, timbravam em designar por mazombos as pessoas principais da nobreza pernambucana; e tornou-se o titulo de mazombo insigne a maior gl\u00f3ria a que poderia aspirar um fidalgo na terra de seu nascimento.\n\nQuando entrou a fam\u00edlia de Andr\u00e9 de Figueiredo, j\u00e1 achou a sala povoada dos parentes e vizinhos que eram certos ao ser\u00e3o.\n\nAtravessando por entre as mais pessoas, que se moviam no aposento para tomar lugar, ou recostarem-se \u00e0s sacadas das janelas, o bando chegado por \u00faltimo aproximou-se do sof\u00e1.\n\nN\u00e3o era qualquer sof\u00e1 o da casa do capit\u00e3o-mor, nem se parecia em nada com o m\u00f3vel t\u00e3o conhecido e corriqueiro, que hoje em dia trasteja a mais pobre das salas de visitas, ou alfaia o rico pal\u00e1cio, com a diferen\u00e7a apenas da madeira e da forma elegante.\n\nNaquele tempo esse requinte de luxo oriental, que os portugueses trouxeram de seu com\u00e9rcio das \u00cdndias, poucos se animavam a goz\u00e1-lo; e n\u00e3o tanto pelo custo das alfaias, como pela esp\u00e9cie de pompa real, que tal uso comunicava ao aposento. Nas col\u00f4nias, por\u00e9m, nunca as pragm\u00e1ticas foram tomadas ao s\u00e9rio; os ricos moradores ou fidalgos das capitanias zombavam dos ci\u00fames da majestade e de suas leis suntu\u00e1rias.\n\nCorria no fundo e ao longo da parede um largo estrado, com alcatifa de veludo escarlate e ressalto de dois degraus sobre o soalho da casa, guardado todo ele por um esparavel de brocado azul, que se elevava em c\u00fapula suspensa \u00e0 parede com um flor\u00e3o de bronze.\n\nNa face exterior dessa c\u00fapula apainelava-se o escudo oval dos Cavalcantis, com as armas de prata coticadas de negro, em campo de pala, prata no fundo, vermelho em cima, floreteado tamb\u00e9m de prata. Por timbre um cavalo com asas, m\u00e3os suspensas, p\u00e9s sobre o elmo, volante por entre chamas.\n\nSobre o estrado havia uma camilha de couro rendado em arabescos e flores que deixavam coar-se o ar pelos recortes; fresco ripan\u00e7o que em clima ardente como o de Olinda convidava os lassos membros ao repouso. Era brasil a madeira do custoso m\u00f3vel, e as pregarias da melhor prata.\n\nEm frente \u00e0 camilha e tomando-lhe a vista, um bufete coberto por cima de char\u00e3o da \u00cdndia com embutidos ou marchetarias, e fechado dos tr\u00eas lados de fora por bambolins de couro de Mosc\u00f3via com ilumina\u00e7\u00f5es de prata. \u00c0 volta do bufete, algumas cadeiras e tamboretes rasos ofereciam assentos aos poucos admitidos nesse lugar de honra.\n\nNo momento em que se aproximavam D. Louren\u00e7a Cavalcanti e Andr\u00e9 de Figueiredo com os de sua casa, achava-se recostado na camilha, com o corpo derreado sobre a almofada de couro, um velho de sessenta anos, alto, magro, de fei\u00e7\u00f5es descarnadas, olhos vivos e cintilantes, cabelos grisalhos, e tez acobreada que denunciava o sangue americano.\n\nEra o Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti.\n\nNaquele instante acabava ele de apear-se \u00e0 porta da casa, donde partira quatro horas antes para acabar a tarefa come\u00e7ada pela manh\u00e3 de correr os engenhos pr\u00f3ximos da cidade: lida com que se entretinha, quando n\u00e3o havia outra cousa em que passar o tempo.\n\nDepois de cinco ou seis l\u00e9guas a cavalo pelas margens do Capiberibe, pode-se avaliar da boa fadiga e apetite que devia trazer. Assim ia ele acomodando-se na camilha, com as pernas estendidas pela prateleira do bufete, enquanto n\u00e3o lhe punham ali mesmo a ceia.\n\nNesse interm\u00e9dio, iam chegando os da obriga\u00e7\u00e3o de todas as noites, que logo se encaminhavam para o estrado a saud\u00e1-lo e desejar-lhe as boas-noites. Aos parentes mais mo\u00e7os dava ele por antigo costume a m\u00e3o a beijar; fossem descendentes ou simplesmente colaterais remotos e talvez improvisados, nenhum prescindia de lhe tomar a b\u00ean\u00e7\u00e3o, e julgariam ter deca\u00eddo do seu agrado, se lhes ele recusasse aquela mostra de submiss\u00e3o e respeito.\n\nAs pessoas mais qualificadas tomavam lugar no sof\u00e1, junto ao bufete; e a\u00ed durante a primeira parte da noite, praticava-se acerca das novas mais importantes do dia, e preparavam-se os futuros sucessos que deviam perturbar o sossego da capitania.\n\nJo\u00e3o Cavalcanti pouca parte tomava nos planos e alvitres; o mais do tempo ouvia, e quando instado para dar seu aviso, sempre eximia-se com a velhice, que j\u00e1 lhe tinha gasto a t\u00eampera. E n\u00e3o era por mod\u00e9stia, se n\u00e3o por um pressentimento da verdade que o dizia.\n\nDe feito, nesse car\u00e1ter de antes quebrar que torcer relaxara-se a r\u00edgida fibra e, qui\u00e7\u00e1, pela tens\u00e3o que lhe dera outrora uma vontade impetuosa e o g\u00eanio em extremo arrebatado. Chegara a ponto que, fora de seus h\u00e1bitos inveterados, os quais j\u00e1 tinham adquirido for\u00e7a mec\u00e2nica e materialidade de instintos, n\u00e3o era mais homem para decidir-se por si, no mais importante neg\u00f3cio da vida.\n\nN\u00e3o acudisse algu\u00e9m para incutir-lhe uma resolu\u00e7\u00e3o, que ele deixaria ao azar o encargo de remover a dificuldade.\n\n\u00c9 do homem perecer assim aos poucos, \u00e0 semelhan\u00e7a da \u00e1rvore, que em se aproximando do termo de sua dura\u00e7\u00e3o, come\u00e7am-lhe a tombar as folhas primeiro, ap\u00f3s os ramos, e por \u00faltimo fende-se o pr\u00f3prio tronco e esboroa carcomido pelo tempo. Da mesma sorte ao velho, morrem-lhe os cabelos, quando lhe despem a fronte, ou encanecem; despovoa-se a boca, e a obra melhor do Criador n\u00e3o \u00e9 mais do que uma ru\u00edna que de dia em dia se desmorona e desfaz no p\u00f3 de que se formou.\n\nConservara o capit\u00e3o-mor sua integridade f\u00edsica, e aos setenta anos era um velho ainda verde e rijo. A eiva ali penetrara no cerne; fora ao moral, e consumira as poderosas faculdades, que outrora animavam esse organismo, deixando-lhe apenas o exterior.\n\nCom especial demonstra\u00e7\u00e3o recebeu o capit\u00e3o-mor a sua sobrinha D. Louren\u00e7a Cavalcanti; era a pessoa de seus extremos.\n\nDepois que lhe deu a m\u00e3o a beijar, e a abra\u00e7ou com muito carinho, sentou-a perto de si na beira da camilha.\n\n&#8211; Ent\u00e3o, D. Louren\u00e7a, sempre quereis que se rompa, filha? perguntou a rir e com maneira afetuosa o velho.\n\n&#8211; O que eu quero, bem o sabe o senhor tio, que \u00e9 ver esta nossa terra livre da praga de aventureiros que a infestam, e restitu\u00edda a seus leg\u00edtimos senhores.\n\n&#8211; Bem falado, D. Louren\u00e7a! exclamou Leonardo Bezerra.\n\n&#8211; Melhor seria para todos que isto se fizesse sem briga, nem contendas. Mas se n\u00e3o pode ser por outra forma, e for\u00e7a \u00e9 defender e sustentar no campo nossos privil\u00e9gios e forais, os nobres de Pernambuco devem lembrar-se que descendem dos que restauraram a p\u00e1tria e \u00e0 liberdade esta capitania, muitos dos quais ainda a\u00ed est\u00e3o como o senhor tio, e Deus os conserve ao nosso amor por muitos e dilatados anos, para exemplo aos seus e estranhos.\n\n&#8211; Lembrem-se tamb\u00e9m as damas pernambucanas do que devem \u00e0 terra onde floresceram uma D. Clara Camar\u00e3o, e uma D. Maria de Sousa, acudiu em tom espevitado D. Severa.\n\n&#8211; Ai, que esta ainda \u00e9 mais guerreira que a D. Louren\u00e7a, pois n\u00e3o se contenta s\u00f3 com instigar, mas quer ela mesma sair a campo, e batalhar! Assim D. Severa! exclamou o velho capit\u00e3o-mor galhofando.\n\n&#8211; Por mim j\u00e1 teria lan\u00e7ado um cartel a D. Sebasti\u00e3o de Castro; e em vez de estar aqui todas as noites a levantar planos, que \u00e9 um n\u00e3o acabar, e nunca v\u00e3o por diante, eu houvera chamado o governador em repto de honra a p\u00e9, a cavalo, na estacada, ou em campo aberto&#8230;\n\n&#8211; Ol\u00e1 de dentro!&#8230; gritou D. Jo\u00e3o; tragam-me j\u00e1 da\u00ed sem deten\u00e7a a armadura de meu av\u00f4, para esta cavaleira andante. Quanto a n\u00f3s, senhores. vamos ver se nos d\u00e3o uma roca ou uns bilros, e nos arrumamos no estrado a dobar o algod\u00e3o e a fazer rendas. Porque, as cousas da Rep\u00fablica, c\u00e1 a D. Louren\u00e7a as destrin\u00e7a melhor que um letrado; e no que toca a assunto de guerra, l\u00e1 a D. Severa com tr\u00eas botes de lan\u00e7a p\u00f5e tudo em debandada.\n\nJ\u00e1 a esse tempo estavam os assentos pr\u00f3ximos ao sof\u00e1 ocupados pelas pessoas do costume.\n\nDas principais eram, al\u00e9m das j\u00e1 nomeadas, o Coronel Domingos Bezerra Monteiro, o Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti com os dois filhos, Cosme e Manuel, alferes ambos, o Sargento-Mor Crist\u00f3v\u00e3o de Holanda, o Capit\u00e3o-Mor Matias Coelho Barbosa e o licenciado Jos\u00e9 Tavares de Holanda, os quais todos aplaudiram com risadas a sa\u00edda do velho Cavalcanti e mofaram dos recachos marciais de D. Severa.\n\nApareceram na sala os pajens, mas n\u00e3o acudindo ao chamado, sen\u00e3o a porem a mesa para a ceia, que estava a pingar a hora can\u00f4nica.\n\nEstendida sobre o char\u00e3o uma colcha de damasco de seda franjada, pois o capit\u00e3o-mor n\u00e3o admitia, como j\u00e1 era uso, comer sobre roupas de linho ou algod\u00e3o, cobriu-se a mesa da fina lou\u00e7a de porcelana, com ramagens verdes e tarjas douradas. O servi\u00e7o era todo ele de prata lavrada, com o bras\u00e3o da casa.\n\nFoi lauta a ceia. V\u00e1rios assados de vitela, peixe e aves, pe\u00e7as de ca\u00e7a do monte e volateria, carvonadas de carneiro e galinhas, chacinas de porco e uma grande torta de mariscos, formavam a parte suculenta da refei\u00e7\u00e3o: o que bem se podia chamar a arma\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio culin\u00e1rio.\n\nHavia demais, para debicar-se nos intervalos e preparar o est\u00f4mago para novo assalto, morcelas de Arouca, enchovas, pastelinhos de cabidela, o picante caril, azeitonas, alcaparras, e outras gulosinas naquele tempo inventadas pela arte cib\u00e1ria para regalo dos glut\u00f5es.\n\nEntre essas iguarias da cozinha portuguesa apareciam os novos quitutes brasileiros, prim\u00edcias da nacionalidade que j\u00e1 despontava nesse t\u00e3o importante mister da vida, como em tudo o mais. Viam-se ali os covilhetes de pa\u00e7oca e inhames, as muquecas enfolhadas, os bolos de car\u00e1, acepipes ensinados pelos \u00edndios, sem falar das corbelhas de filigrana de prata cheias das mais saborosas frutas do pa\u00eds, ananases, pinhas, mangas e bananas.\n\nTamb\u00e9m a par dos bons vinhos das Can\u00e1rias e do Reino, figurava o mosto do jenipapo e a garapa; assim como n\u00e3o se desmerecia entre os p\u00e3es de v\u00e1rias formas e receitas quais o mimoso, o sovado e o comum, a nossa farinha d&#8217;\u00e1gua, e as alvas tapiocas, em lindas cestas de palha matizada, trabalho dos caboclos.\n\nAcabavam os pajens de p\u00f4r a ceia e preparavam-se para servir aos convivas, quando notou-se do lado da entrada certo alvoro\u00e7o, ainda que mui ligeiro, entre as pessoas ali agrupadas.\n\nDera causa a essa anima\u00e7\u00e3o a chegada de um cavaleiro, que reproduzia-se em mesuras a um e outro lado, para logo ap\u00f3s desfazer-se em mil abanicos e finezas acompanhadas de partes m\u00e1gicas. A cada um saudou com apuros de cortesia e umas inflex\u00f5es de talhe, por modo requebradas, que tinha jeito de se estar enroscando pela gente.\n\n&#8211; Ai. chega o Filipe Uchoa! disse o capit\u00e3o-mor que lobrigara o cavaleiro atrav\u00e9s de suas floretas. Ainda bem! Cuidei que o n\u00e3o ter\u00edamos hoje \u00e0 ceia!\n\n&#8211; N\u00e3o lhe falta que fazer, acudiu o Sargento-Mor Bezerra; mas de tudo se desempenha a tempo e pelo melhor. N\u00e3o sei de outro de mais conselho, nem capaz de tanto e em t\u00e3o poucos anos.\n\nExpandiu-se o Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti com o elogio feito ao sobrinho.\n\n&#8211; Chegais a ponto para a primeira investida, Uchoa, como bom cavaleiro que sois.\n\n&#8211; Aprendi em boa escola, como n\u00e3o quero que a haja melhor, em toda a cristandade, respondeu o Uchoa, afagando a vaidade do velho.\n<h4><strong><a id=\"13\" name=\"13\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIII<\/strong><\/h4>\n<strong>UM RASCUNHO D0 SECRETARIO DA CAPITANIA COM PRESUN\u00c7\u00c3O DE ESTAMPA<\/strong>\n\nArrastando os tamboretes, acercaram-se os convivas da mesa, ou t\u00e1bua, como diriam Jo\u00e3o de Barros e Frei Lu\u00eds de Sousa, com um de seus t\u00e3o freq\u00fcentes galicismos.\n\nFilipe Uchoa tomou o seu lugar do costume, \u00e0 esquerda. de D. Louren\u00e7a Cavalcanti; e passou logo a exercer o seu mister de trinchante, no que era de consumada per\u00edcia. Muitos lhe invejavam, mas nenhum ousava disputar-lhe o honroso mister, em que fazia as vezes do dono da casa, como o parente de seu especial afeto entre os homens, da mesma sorte que D. Louren\u00e7a entre as damas.\n\n&#8211; Senhores e parentes, assaltemos este castelo roqueiro que nos est\u00e1 afrontando. \u00c0 brecha, Filipe Uchoa! Depois veremos o que se h\u00e1 de fazer ao Brum e \u00e0s Cinco Pontas, que s\u00e3o os baluartes do governador.\n\nAfincara o bacharel a faca do trincho no empad\u00e3o de ca\u00e7a; e cortou para o tio uma naca formid\u00e1vel, servindo em seguida aos outros convivas, na propor\u00e7\u00e3o da valentia gastron\u00f4mica de cada um, o que ele conhecia pela pr\u00e1tica do of\u00edcio e experi\u00eancia adquirida.\n\n&#8211; N\u00e3o tivesse ele outros baluartes sen\u00e3o esses, que n\u00e3o seria fa\u00e7anha rend\u00ea-lo com os fronteiros que temos, observara o Uchoa.\n\n&#8211; E quais outros cuidais que ele tenha, senhor bacharel?\n\n&#8211; \u00c9 principal o ouro dos mascates, que. vai semeando a trai\u00e7\u00e3o entre os naturais, de sorte a n\u00e3o se poder j\u00e1 contar com a f\u00e9 do mais seguro.\n\n&#8211; Se at\u00e9 ao Sr. Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o de Barros, nosso tio, se atreveram os p\u00edcaros a fazer-lhe um, tiro \u00e0 queima-roupa, mas de mil cruzados, que doutra esp\u00e9cie de bala n\u00e3o entende nem quer saber a c\u00e1fila dos forasteiros, atalhou o Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo.\n\n&#8211; J\u00e1 n\u00e3o tornam os tempos, em que davam os naturais exemplo de uma const\u00e2ncia e hero\u00edsmo que n\u00e3o t\u00eam inveja aos mais decantados das antigas eras, exclamou com fervor o licenciado Jos\u00e9 de Holanda. Aqueles eram pernambucanos, e sabiam servir a p\u00e1tria e a religi\u00e3o, que livres desamparavam a casa e a fam\u00edlia para n\u00e3o se curvarem ao jugo de hereges, e cativos rejeitavam a liberdade, porque tinham em mais valia do que t\u00e3o precioso dom, guardar a f\u00e9 a seus senhores.\n\n&#8211; Depois que a ral\u00e9 da mascataria, mal pecado nosso, lastrou por esta terra, j\u00e1 ela n\u00e3o pode ser o que foi, o Pernambuco de nossos maiores; nem afogado como anda de m\u00e1s ervas e pragas, podem mais a\u00ed medrar as virtudes, que rebentavam outrora com tamanho vi\u00e7o.\n\nA pouco e pouco foi caindo a pr\u00e1tica, embargada da tarefa de destrin\u00e7ar no prato as v\u00e1rias iguarias, mais agrad\u00e1vel e avisada naquele momento do que a de razoar sobre cousas j\u00e1 t\u00e3o discursadas.\n\nTerminado o primeiro pasto, retiraram os pajens as iguarias que transportaram \u00e0 casa de jantar, onde j\u00e1 estava posta a mesa para o restante da companhia.\n\nEntrou ent\u00e3o a \u00faltima coberta dos doces e conservas de a\u00e7\u00facar para o dessert, como j\u00e1 se dizia nessa \u00e9poca \u00e0 moda francesa, em vez de postre.\n\nVeio o infal\u00edvel manjar-branco; em seguida as castanhas de caju confeitas, as tortas de maturi e creme, as trouxas d&#8217;ovos t\u00e3o decantadas pelo bom Filinto, as conservas de frutas e a deliciosa cocada em tigelinhas de cristal, tudo acompanhado de vinho Palhete e de C\u00e2ndia.\n\nNo centro campeava uma pir\u00e2mide de prata lavrada, formando por andainas uma pinha de beli\u00f5es de ab\u00f3bora e batata, pucarinhas finas de gel\u00e9ias de ara\u00e7\u00e1 e pitanga, trebelhos ou flores de alfenim, e as saborosas queijadinhas, preparadas pelas m\u00e3os mimosas de D. Louren\u00e7a para o velho capit\u00e3o-mor, o qual lambia os bei\u00e7os de gosto, depois que devorava uma boa d\u00fazia delas.\n\nEra nessa ocasi\u00e3o da sobremesa que. os principais dos parentes, conhecidos como os de melhor discurso e. conselho, ficavam s\u00f3s entre si; porque o mais da assembl\u00e9ia acudia por sua vez \u00e0 ceia, que j\u00e1 os estava esperando na casa de jantar, presidida por \u00c1lvaro Cavalcanti, o filho do capit\u00e3o-mor, um desbragado que levava a vida a pautear, n\u00e3o cuidando sen\u00e3o de jogo, mulheres e comezainas.\n\nPor isso achava-se mais a gosto ali em liberdade e fora das vistas do pai, do que no sof\u00e1, onde nada lhe interessava do que se tratava, e sentia-se tomado de uma como bebedeira de aborrecimento e sono.\n\nAntes que se entre a tratar de neg\u00f3cios graves, aproveitemos a curta pausa para assentar os tra\u00e7os mais salientes do bacharel Filipe Uchoa, que teve parte mui proeminente nos sucessos daquele tempo.\n\nA figura, serviria um furo abaixo, e com diferen\u00e7as m\u00ednimas, o mesmo molde por onde se tirara o secret\u00e1rio do governador, o Capit\u00e3o Barbosa de Lima. Por primeiro contraste logo se notava que neste a cabe\u00e7a era sobre o largo, enquanto no outro se alongava direita; no que porventura algu\u00e9m entendido na abstrusa ci\u00eancia do homem ver\u00e1 um sintoma de que no bacharel dominava exclusivamente o prurido de subir-se ao mais alto, ao passo que no secret\u00e1rio a ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe tolhia as expans\u00f5es generosas.\n\nAfora essa particularidade, no mais era Filipe Uchoa o escor\u00e7o de Barbosa de Lima, de modo que ver um, tanto valia como ter conhecido o outro em mo\u00e7o, antes que os anos bem surtidos lhe houvessem dado todo o corpo. Da mesma avantajada e pernalta estatura, com uma calva que no secret\u00e1rio chegara ao apogeu, e no bacharel se estreava t\u00e3o prometedora como a sua entrada nos neg\u00f3cios; dotados da mesma abund\u00e2ncia de gesto e mobilidade de compostura, bem podia-se tomar estes dois nobres pernambucanos como o primeiro e segundo esbo\u00e7o lavrado em gesso para servir \u00e0 fundi\u00e7\u00e3o de um molde.\n\nNas maneiras, em que ambos primavam \u00e0 lei de corteses, reparando-se bem, l\u00e1 se lobrigava um cambiante. Assim, no secret\u00e1rio a afabilidade espraiava-se como as ondas de um manancial perene; no. bacharel, ao contr\u00e1rio, sa\u00eda aos esguichos, quanto bastava para filtrar na vaidade alheia. Era sincero o primeiro, e obedecia ao impulso de sua natureza; ao passo que no segundo havia mais afeta\u00e7\u00e3o do que \u00edndole.\n\nN\u00e3o perdoava Filipe Uchoa ao Barbosa de Lima o ter este conseguido granjear a confian\u00e7a do governador e encartar-se no lugar t\u00e3o cobi\u00e7ado de secret\u00e1rio.\n\nTrabalhava pois, e com afinco, para derrib\u00e1-lo do posto, e rend\u00ea-lo nele, trazendo D. Sebasti\u00e3o \u00e0 boa causa, de que andava transviado. Se, por\u00e9m, fosse preciso, para entrar nas gra\u00e7as do homem, algum arranjo com os mascates, salvo o direito de meter-lhe os p\u00e9s a seu tempo, \u00e9 mui de crer que n\u00e3o hesitasse o bacharel, como h\u00e1bil pol\u00edtico.\n\nNesse empenho, muito se valia da boa sombra que lhe davam o nome e fama do tio, o Capit\u00e3o-Mor Cavalcanti; e para melhor o levar, n\u00e3o se esquecia de granjear a boa vontade de D. Louren\u00e7a, em quem o velho principalmente empregava o seu afeto.\n\nEra de ver como refinava galanterias no favonear as presun\u00e7\u00f5es da prima que se tinha na conta de uma Duquesa d&#8217;Alba, capaz de empunhar as r\u00e9deas do governo da capitania, se fosse necess\u00e1rio, para o que se julgava com mais letras e melhores bofes do que toda a parentela junta e refundida.\n\nPara acabar o paralelo entre os dois competidores, falta ainda um tra\u00e7o. Era o secret\u00e1rio homem de engenho superior e filho de suas obras; donde vinha o n\u00e3o sentir inveja do m\u00e9rito alheio. O bacharel, garfo de extensa parentela, tinha o talento preciso para manter-se na altura em que o plantara a fortuna, e desconfiado de que n\u00e3o podia subir al\u00e9m, cuidava que s\u00f3 abatendo os outros, conservaria a proemin\u00eancia.\n\nNingu\u00e9m se queixara jamais de um ato menos leal do secret\u00e1rio, embora n\u00e3o faltassem muitos a lan\u00e7ar-lhe a pecha de pendores e mobilidades nos alvitres, como modo de ver as cousas. Do bacharel nada se falava acerca de volubilidade, porque sempre esteve ele adstrito ao feudo da fam\u00edlia e jungido ao carro da fortuna; mas a c\u00f3pia que d\u00e1 a cr\u00f4nica quanto ao refolho, \u00e9 de t\u00e3o insigne, que chegava ao ponto de enganar-se a si pr\u00f3prio.\n\nTocava ao termo o pospasto no sof\u00e1, como bem o indicava a postura do capit\u00e3o-mor, j\u00e1 um tanto derreado sobre o espaldar do espreguiceiro, pelo qual. ia-lhe aos poucos resvalando o mal sustido corpo.\n\nAproveitou Andr\u00e9 de Figueiredo o ensejo da privan\u00e7a para tratar do assunto de pondera\u00e7\u00e3o, que o trazia preocupado desde o come\u00e7o da noite.\n\n&#8211; Meu tio e senhores parentes! Sabereis que tenho para propor \u00e0 vossa prud\u00eancia consumada, neg\u00f3cio de muita e grande monta.\n\nE com estas palavras que a todos p\u00f4s de aviso, tirou o capit\u00e3o do peito do gib\u00e3o um rolo de manuscrito, que empunhou na destra \u00e0 guisa de bast\u00e3o de comando.\n\nN\u00e3o escapou esse meneio do primo a Filipe Uchoa, que era perito na arte de tirar pelo semblante as inquiri\u00e7\u00f5es do que ia l\u00e1 dentro. E todavia o gesto de Figueiredo n\u00e3o era sen\u00e3o um assomo, rijo porventura, de seu \u00e2nimo franco e resoluto.\n\nDistra\u00eddo, como parecia, a contemplar o top\u00e1zio l\u00edquido de um c\u00e1lix de Palhete que ia gostando aos goles, relanceou o bacharel por cima dos \u00f3culos um olhar obl\u00edquo a uma e outra banda.\n\nEsqueceu esse pormenor, como porventura outros que se ir\u00e3o pelo diante tirando a limpo. Trazia \u00f3culos o bacharel; anda\u00e7o este, que a lermos por Montesquieu,. grassava naqueles tempos grandissimamente entre os portugueses, pela venera\u00e7\u00e3o que de todos granjeava.\n\nNariz cavalgado por um, par de cangalhas, no dizer do malicioso franc\u00eas, por for\u00e7a que era um nariz s\u00e1bio, credor do maior respeito, torre de ci\u00eancia e promont\u00f3rio de prodigioso engenho. Ora, a prob\u00f3scide do bacharel, se tais ep\u00edtetos n\u00e3o existissem, os inventaria.\n\n&#8211; N\u00e3o ignoram V.ces, meu tio e senhores parentes, como t\u00eam corrido os tempos na esperan\u00e7a traidora dum rem\u00e9dio que n\u00e3o chega e talvez nunca chegar\u00e1, pois n\u00e3o \u00e9 de hoje que est\u00e3o no costume em Lisboa de nos esquecerem quando carecemos de defender nossa liberdade e p\u00e1tria; mas havendo algum dote ou qualquer outro subsidio, sem falar das fintas ordin\u00e1rias, ent\u00e3o sim, \u00e9 de ver qu\u00e3o prontos se lembram, e os rendimentos e termos amistosos com que o fazem.\n\n&#8211; Tem carradas de raz\u00e3o, Andr\u00e9 de Figueiredo! disse o Sargento-Mor Bezerra.\n\n&#8211; \u00c9 tempo j\u00e1 que venhamos a uma congru\u00eancia feliz para os neg\u00f3cios de Pernambuco, amea\u00e7ado de completa ru\u00edna pela soberba e aleivosia dos mercadores do Recife. E como o lembrar \u00e9 para todos, enquanto que o avisar s\u00f3 cabe a poucos, e esses de muito conselho e experi\u00eancia, pareceu-me comunicar-vos o que entendo sobre estas cousas, em que andam. empenhados nossos brios de pernambucanos, t\u00e3o pisados nestes \u00faltimos tempos, e o respeito a uma p\u00e1tria ilustre, que n\u00e3o havemos de consentir se torne feitoria de mascates.\n\n&#8211; Qual \u00e9 pois vosso alvitre, Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo? disse o velho Cavalcanti j\u00e1 de todo derreado contra o espaldar. Dai-nos a saber; contanto que n\u00e3o seja algum partido extremo.\n\n&#8211; Para o sujeitar ao voto do tio e de todos os senhores e parentes, que ministros melhores n\u00e3o podem ter os neg\u00f3cios de Pernambuco, o trouxe eu; e n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o de rompermos de uma vez em defesa da p\u00e1tria e da liberdade pernambucana, intimando com anteced\u00eancia ao governador esta resolu\u00e7\u00e3o, para o caso de que prefira ele arrepiar do mau caminho e enxotar de ao redor de si a s\u00facia dos mascates. E fio-vos eu, que em tendo a cousa por certa, ele o far\u00e1. Se por\u00e9m persistir no seu erro, recambiemo-lo a Lisboa com um manifesto a El-Rei em o qual lhe exporemos nossos agravos e as raz\u00f5es maiores que nos levaram \u00e0 for\u00e7osa necessidade de despedirmos desta terra o mau ministro que lhe p\u00f4s por governador. O manifesto, senhores e parentes, aqui o tenho j\u00e1; f\u00ea-lo a rogo meu, nosso amigo, o licenciado Davi de Albuquerque.\n\nAbriu ent\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo o rolo de papel que tinha fechado na m\u00e3o esquerda enquanto falava; e mostrou em roda o manuscrito, do qual se preparava a dar leitura aos circunstantes.\n\nNesse momento o bacharel Uchoa, que ouvia ao capit\u00e3o com um sentido grave e atento, enfrestou por cima das vidra\u00e7as um olhar significativo a D. Louren\u00e7a, e temperando ao de leve a garganta, prop\u00f4s-se a dar seu voto:\n\n&#8211; Senhores meus e respeit\u00e1veis parentes, aqui reunidos \u00e0 sombra do vener\u00e1vel chefe de nossa fam\u00edlia, disse o bacharel fazendo com a cabe\u00e7a a v\u00eania do costume ao capit\u00e3o-mor, que j\u00e1 ent\u00e3o se achava em perfeita diagonal. Ningu\u00e9m que tenha meditado as cousas do governo, como elas merecem, desconhecer\u00e1 a verdade de quanto exp\u00f4s nosso primo, Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo, e a urg\u00eancia do mal que pede rem\u00e9dio pronto; pois se lhe tardamos com ele, \u00e9 perder logo toda esperan\u00e7a de cura.\n\nFoi este o ex\u00f3rdio da arenga que o bacharel trazia preparada para o caso. Pelo Cosme Borralho, que era da sua roda, tivera ele not\u00edcia e comunica\u00e7\u00e3o do manifesto encomendado por Andr\u00e9 de Figueiredo ao licenciado Davi de Albuquerque. Atinando desde logo com o pensamento do primo, e n\u00e3o lhe sofrendo a vaidade levasse outro nos conselhos da fam\u00edlia as lampas que pretendia somente para si, tratou de p\u00f4r cobro ao que julgava uma usurpa\u00e7\u00e3o.\n\nNesse prop\u00f3sito entendeu-se com D. Louren\u00e7a, que era nos \u00faltimos tempos a alma viva do capit\u00e3o-mor, seus olhos e seus ouvidos.\n\nSoberba, imperiosa, rendia-se contudo a matrona pernambucana \u00e0 admira\u00e7\u00e3o e enc\u00f4mios, de que a trazia constantemente incensada Filipe Uchoa, sem que entrasse nesse rendimento o mais remoto vislumbre de ternura. Tal encanto achava D. Louren\u00e7a em sentir-se adulada pelo mancebo apontado como o grande luminar da fam\u00edlia, que rar\u00edssimo era recusar-lhe sua condescend\u00eancia.\n\nDesta vez o caso parecia \u00e1rduo, pois cifrava-se em induzir D. Louren\u00e7a a contrariar um plano do pr\u00f3prio irm\u00e3o, e o de mais estima\u00e7\u00e3o. Mas t\u00e3o ao vivo lhe representou Uchoa os perigos com que o tra\u00e7o imprudente de Andr\u00e9 de Figueiredo amea\u00e7ava a ele primeiro, e a todos os seus, que nem hesitou a matrona, e tomou a seu cargo preparar o capit\u00e3o-mor.\n\nDepois do intr\u00f3ito, formalizara-se de novo o bacharel. Dando ao vulto mais outra camada de gravidade, come\u00e7ou a cortar o ar ante si com o impulso e retra\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o, como se preparasse um escoadouro \u00e0 exuber\u00e2ncia de sua palavra. Saiu ent\u00e3o uma dessas arrancadas de eloq\u00fc\u00eancia, nas quais se est\u00e3o mostrando os puxos da mem\u00f3ria para dar \u00e0 luz as id\u00e9ias, e o enfaixamento das pobres criaturinhas mal nascidas.\n\nServiu de tema ao bacharel a resenha dos acontecimentos, que se tinham sucedido desde a posse do Governador Sebasti\u00e3o de Castro; e isso com pormenores de fatigar e minud\u00eancias f\u00fateis que nada faziam ao caso; mas entendia l\u00e1 para si o bacharel, que fazia prova de engenho profundo e investigador, catando semelhantes argueiros para sopr\u00e1-los nos olhos dos outros.\n\n&#8211; Tal \u00e9 o estado a que chegaram as cousas em Pernambuco, e quanto mais grave, a n\u00e3o ser nossa prud\u00eancia e modera\u00e7\u00e3o! Em t\u00e3o grande estreiteza havemos de ficar indiferentes e entregar a pior azar a sorte nossa e da p\u00e1tria? Por nenhum modo; carecemos de voltar o rosto, e empenhar quanto pode e vale a nobreza pernambucana para repor as cousas no seu assento e trazer a bom termo as diferen\u00e7as que tamanho dano causam. Mas o meio de o alcan\u00e7ar?&#8230;\n\nNesse momento, \u00e0 porta de entrada fronteira ao sof\u00e1, apareceu o vulto do Lisardo e cresceu pela casa adentro. Ao que se via, o poeta da fam\u00edlia n\u00e3o estava nos seus eixos; alguma lhe acontecera que o trazia espantadi\u00e7o. Avan\u00e7ava, n\u00e3o com sua habitual macieza, mas inteiri\u00e7ado, aos trancos, \u00e0 guisa de maninelo de papel\u00e3o empurrado pela m\u00e3o do titereiro.\n\nEra este nem mais nem menos do que o garoto do Nuno, o qual levado da breca e decidido, fazia finca-p\u00e9 metendo os bra\u00e7os aos ombros do Lisardo, e aos bol\u00e9us introduzia em casa do capit\u00e3o-mor o nosso rimador, apesar da vis\u00edvel repugn\u00e2ncia que a este inspirava naquela noite o teto protetor e hospedeiro.\n\nDesta sorte tangido pelo caixeiro, atravessou Lisardo a casa do sof\u00e1, e sumiu-se na casa do jantar, sem que as personagens reunidas em torno do capit\u00e3o-mor fizessem grande reparo no incidente.\n\nA todo momento estavam entrando as pessoas de trato e conversa\u00e7\u00e3o da casa, e o Lisardo era bem conhecido a t\u00edtulo de comensal e trovista. Quanto ao Nuno, agachado por detr\u00e1s do camarada, n\u00e3o se lhe via do sof\u00e1 nem mesmo as pernas a mover-se por baixo do gib\u00e3o do outro.\n\nEsgotada, portanto, a pausa que o bacharel com jeito colocara diante de sua interroga\u00e7\u00e3o para avultar-lhe a for\u00e7a e o peso, prosseguiu na sua ora\u00e7\u00e3o:\n\n&#8211; &#8220;Quomodo?&#8230; Por que modo, ou por que modos? Somos entrados no labirinto mais intrincado das consci\u00eancias que s\u00e3o os modos, os tra\u00e7os, as artes, as inven\u00e7\u00f5es de negociar, de intrometer, de insinuar, de persuadir, de negar, de anular, de provar, de desviar, de encontrar, de preferir, de prevalecer; finalmente de conseguir para si, ou alcan\u00e7ar para outrem tudo quanto deixamos dito.&#8221;\n\nS\u00e3o do nosso Padre Ant\u00f4nio Vieira t\u00e3o discretas palavras, em que muito se pode aprender para o nosso caso. Se afrontarmos com as armas a D. Sebasti\u00e3o, carregamos com todas as culpas, porque em suma \u00e9 governador desta terra, nela posto por El-Rei, Nosso Senhor, como seu capit\u00e3o-general; e \u00e9 bem de ver que na pessoa dele desacatamos a majestade que o elegeu.\n\n&#8211; Em tal caso cruzemos os bra\u00e7os, e entreguemos duma vez o pesco\u00e7o \u00e0 canga dos mascates, interrompeu Andr\u00e9 de Figueiredo.\n\nFilipe Uchoa sorriu:\n\n&#8211; Aqui \u00e9 que se h\u00e1 mister todo o artif\u00edcio e sutileza de engenho com que estes modos se fiam e estas negocia\u00e7\u00f5es se tecem. J\u00e1 n\u00e3o temos que esperar sen\u00e3o de nossas armas, e for\u00e7a \u00e9 que venhamos \u00e0s m\u00e3os? E note-se que n\u00e3o o afirmo eu, sen\u00e3o que apenas o concedo por suposi\u00e7\u00e3o. Pois ainda nesse caso extremo, achemos tra\u00e7a de sermos n\u00f3s os provocados; de sorte que antes pare\u00e7a que fomos coagidos da dura necessidade de defender nossa vida e liberdade, do que levados de animosidade contra o governador. Este \u00e9 o meu voto; e assim tenha eu a fortuna de o ver aceito, que n\u00e3o me pouparei a p\u00f4-lo logo por obra, de sorte que saiamos quanto antes de t\u00e3o dif\u00edcil conjuntura.\n\nTerminada a arenga do bacharel, D Louren\u00e7a que se debru\u00e7ara como para melhor ouvir, mas principalmente com o fim de esconder o vulto do capit\u00e3o-mor, disfar\u00e7adamente acordou-o puxando-o pela barba pois j\u00e1 ressonava. Desperto, o velho ergue a cabe\u00e7a para dizer com voz tr\u00f4pega:\n\n&#8211; Bem falado, Filipe Uchoa. \u00c9 o que temos de melhor a fazer.\n\nDepois desta aprova\u00e7\u00e3o, se algu\u00e9m pretendia opor-se com outras raz\u00f5es ao alvitre do bacharel, desistiu do prop\u00f3sito A \u00faltima palavra acabava de ser proferida; e o conselho de fam\u00edlia estava encerrado por aquela noite.\n\nErgueram-se todos da mesa j\u00e1 despida e espalharam-se pela casa, enquanto D. Louren\u00e7a corria os reposteiros de sarja vermelha, que cerravam o sof\u00e1, transformando-o em pequena rec\u00e2mera, onde costumava o capit\u00e3o-mor dormir o primeiro sono.\n\nNessa ocasi\u00e3o ouviu-se grande rebuli\u00e7o na casa de jantar.\n<h4><strong><a id=\"14\" name=\"14\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIV<\/strong><\/h4>\n<strong>COMO D. SEVERA ACHOU T\u00c3O A PONTO O PAJEM DE QUE NECESSITAVA PARA\nESTREAR-SE NA CAVALARIA ANDANTE<\/strong>\n\nQuando \u00e0 tarde o Ajudante Negreiros apartou-se do governador, tomando pela Rua da Moeda, houve quem lhe bispasse a manobra.\n\nViam-se pela ribeira, pr\u00f3ximos \u00e0 jusante da mar\u00e9, jiraus cobertos de palha, onde costumavam os pescadores guardar as canoas, e tamb\u00e9m jangadas suspensas de um lado por espeques. A\u00ed, atr\u00e1s de uma dessas anteparas se metera o Nuno, com receio de que o avistasse de longe a comitiva do governador, e lhe pusesse o ajudante no encal\u00e7o os lacaios e guardas a cavalo.\n\nSucedeu esconder-se o rapaz a jeito de ouvir as palavras que trocaram o ajudante \u00e9 o governador, ao passarem rente com a palho\u00e7a onde se agachara.\n\nDesde que desapareceu a comitiva, surdiu o mascatinho sarapatando, e lobrigou o Negreiros que apeava-se na cal\u00e7ada da loja. Ali naquela hora se ia decidir de sua sorte, e sabendo do empenho que punha o mercador em agradar a D. Sebasti\u00e3o, tinha j\u00e1 como cousa assentada, a remessa para Lisboa.\n\nNo primeiro navio que se fizesse de vela para aquele porto, l\u00e1 ia ele encomendado a algum tio da outra banda; e t\u00e3o cedo n\u00e3o veria a sua Marta, nem de t\u00e3o longe a poderia disputar aos que se atrevessem a pretend\u00ea-la.\n\nLogo, sem mais deten\u00e7a, cuidou em evitar o golpe; e o \u00fanico meio que tinha era desaparecer da casa, e de modo que lhe n\u00e3o pudesse o pai seguir a pista e agarr\u00e1-lo.\n\n&#8211; N\u00e3o me pilham!&#8230; disse o mascatinho ao concluir a sua breve reflex\u00e3o. Vamos rondando do lado do quintal, a ver se posso apanhar-me dentro de casa e arranjar a trouxa. Depois raspo-me; e passem l\u00e1 muito bem.\n\nEra precavido o rapaz, no que mostrava a despontar entre os arreganhos marciais o sangue mascate. Como podia ter necessidade de ganhar o sert\u00e3o, lembrou-se que precisava da roupa, mas sobretudo de armas, sem as quais n\u00e3o o tomariam por homem de guerra; o que era todo o seu desejo.\n\nAo avizinhar-se dos fundos da casa, escondido entre o mata-pasto, deu com o Lisardo encostado \u00e0 parede da tacani\u00e7a, perto da gelosia, e n\u00e3o lhe custou adivinhar o que ali fazia o amigo.\n\nEnquanto afinava-se o trovista para recitar a sua d\u00e9cima, o esperto do Nuno penetrou na casa paterna, pelo quintal, onde s\u00f3 encontrou a Benvinda, que estava cochilando ao borralho, em companhia dos dois gatos da casa.\n\nBarafustou o rapaz a correr pelo corredor, at\u00e9 um compartimento que ficava nos fundos da loja, e lhe servia de armaz\u00e9m ou arca de No\u00e9. A\u00ed cuidou logo de escolher o mais fornido chifarote que suspendeu \u00e0. ilharga pelo talabarte; p\u00f4s \u00e0 bandoleira uma clavina; meteu no cintur\u00e3o um par de pistolas francesas e uma adaga flamenga, e na cabe\u00e7a uma velha cervilheira, que ali rolava de envolta com outros cacar\u00e9us.\n\nAssim reduzido a um cabide d&#8217;armas, tratou o garoto de entrouxar duas ou tr\u00eas mudas de roupa, que tirou do arm\u00e1rio das que j\u00e1 vinham em obra do Reino; feito o que, foi-se pondo ao fresco sem mais demora, pois no meio dos seus aprestos vinha-lhe a rajadas, l\u00e1 da entrada da loja, um certo rumor de vozes, que o tinham alerta.\n\nDesconfiava o rapaz, e n\u00e3o sem motivo, que esse sussurro provinha da pr\u00e1tica do pai e do ajudante, naturalmente sentados \u00e0 cal\u00e7ada da loja. Por maior que fosse a curiosidade de saber o que estavam os dois tramando contra sua liberdade, o medo de que o viesse encontrar o pai, armado em guerra dos p\u00e9s at\u00e9 a cabe\u00e7a, tirou-lhe. todo o gosto da escuta e lhe amolou os calcanhares.\n\nAo toque de ave-maria j\u00e1 estava o Nuno outra vez escondido no mata-pasto em frente \u00e0 r\u00f3tula, e a ruminar uma lembran\u00e7a que lhe acudira. Era nada menos do que sair ao encontro do ajudante, na volta deste, cham\u00e1-lo a desafio, e ali mesmo meter-lhe na pele duas boas cutiladas, para ensin\u00e1-lo a n\u00e3o se intrometer com a vida alheia.\n\nQuando tinha assentado levar por diante a tra\u00e7a, e j\u00e1 a trazia bem concertada, saiu-lhe o neg\u00f3cio burlado; pois o Negreiros com a pressa de tornar a D. Sebasti\u00e3o, portador de boas-novas, apenas saltou na sela fincou esporas no ginete, e lan\u00e7ou-o a todo o galope. Ningu\u00e9m o julgaria capaz de tal fa\u00e7anha, achacado como era de v\u00e1rias queixas, que todas lhe provinham dos destemperos de boca. Que hero\u00edsmos, por\u00e9m, n\u00e3o inspira a bajula\u00e7\u00e3o?\n\nAssim frustrada sua esperan\u00e7a de vingar-se no ajudante, se deixou ficar o Nuno oculto no mata-pasto, \u00e0 espreita do nosso poeta Lisardo, com quem contava para o plano que forjara.\n\nJ\u00e1 haviam passado o Rev. Jo\u00e3o da Costa em companhia de Miguel Correia, e o Lisardo n\u00e3o se resolvia a apartar-se da r\u00f3tula. Cansado de esperar, o Nuno que n\u00e3o primava pela paci\u00eancia, foi-se aproximando agachado entre o mata-pasto, e de repente surdiu em face do nosso poeta.\n\n&#8211; Defende-te, vil\u00e3o! gritou o mascatinho engrossando a voz e puxando do chanfalho.\n\nAo ver-se atacado por uma pan\u00f3plia, o Lisardo, que sofria de nervoso, ficou estatelado contra a parede, sem voz para proferir palavra; por\u00e9m maior foi a surpresa quando todo aquele fero se trocou em gargalhada, e ele reconheceu sob a viseira o rosto brejeiro do Nuno.\n\n&#8211; Sempre tens uns modos!&#8230; disse o nosso poeta arrufado.\n\n&#8211; Com que ent\u00e3o queria o Sr. Lisardo de Albertim que eu o deixasse muito de seu e sossegado estar aqui de requebros e segredinhos com a sonsa da senhora minha irm\u00e3, que aposto nos est\u00e1 escutando por detr\u00e1s daquela r\u00f3tula.\n\nOuviu-se um muxoxo entre as frestas.\n\n&#8211; Pois engana-se, tornou o mascatinho entonando-se outra vez no seu recacho guerreiro. \u00c0 espada ou lan\u00e7a, a p\u00e9 ou encarapitado, lhe mostrarei que&#8230; que voc\u00ea \u00e9 um poeta das d\u00fazias.\n\n&#8211; E voc\u00ea um espalha-brasas!&#8230; atalhou com impaci\u00eancia uma voz maviosa que vinha da r\u00f3tula.\n\nVoltou-se o Nuno para dar-lhe o troco; mas em vez do rostinho de alfenim que ele esperava encontrar, lobrigou atrav\u00e9s da r\u00f3tula entreaberta as marrafas de uma respeit\u00e1vel matrona, que se aproximava da janela com uma curiosidade suspeita.\n\nEssa matrona era nada menos do que a Senhora Rosaura, mulher do mercador Miguel Viana e m\u00e3e do nosso Nuno.\n\nPercebendo-lhe as pisadas, a menina dos olhos negros esgueirou-se da r\u00f3tula o mais depressa que p\u00f4de. Vendo o que, o Lisardo teve o palpite de amolar as canelas, escamando-se a bom correr pelo campo fora.\n\nPensou o Nuno que era esse o mais prudente alvitre, e apesar da durindana que lhe embara\u00e7ava as pernas e da cervilheira a dan\u00e7ar-lhe na cachola, l\u00e1 disparou pelo mata-pasto no encal\u00e7o do Lisardo, de quem n\u00e3o lhe fazia conta perder a pista.\n\nMomentos depois caminhavam os dois amigos pelo istmo, na dire\u00e7\u00e3o de Olinda.\n\nChegados \u00e3 altura do Brum, parou o Lisardo, pensando que o Nuno desejaria separar-se dele para tornar ao Recife. O mascatinho, por\u00e9m, tinha l\u00e1 sua tra\u00e7a, e foi despejando o caminho sem dar-se por entendido.\n\n&#8211; Olhe, n\u00e3o fique tarde para voc\u00ea recolher-se, Nuno! disse-lhe o nosso trovista.\n\n&#8211; N\u00e3o lhe d\u00ea cuidado, s\u00f4 mofino!\n\nAssim chegaram \u00e0s abas de Olinda, e o Lisardo ia despedir-se do companheiro. quando este perfilando-se disse-lhe com um tom que n\u00e3o admitia volta.\n\n&#8211; Fique sabendo o Sr. Lisardo de Albertim que vai deste passo levar-me \u00e0 casa do Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti.\n\n&#8211; Do&#8230; do capit\u00e3o-mor?&#8230; murmurou o poeta gago de surpresa.\n\n&#8211; De que se espanta voc\u00ea?\n\n&#8211; Pois, Nuno, o filho de um mascate do Recife&#8230;\n\n&#8211; Que tem isso?&#8230; D. Francisco de Sousa, que \u00e9 nobre e dos mais nobres, n\u00e3o est\u00e1 com os mascates?\n\nEmbatucou o Lisardo com o exemplo, mas n\u00e3o se deu por vencido:\n\n&#8211; E seu pai?\n\n&#8211; Ele que se arranje! N\u00e3o; que para Lisboa n\u00e3o me levam nem em postas.\n\n&#8211; Que me diz voc\u00ea, Nuno?\n\n&#8211; A tram\u00f3ia foi armada pelo manhoso do governador e mais o paparrot\u00e3o do ajudante que o leve o demo! Mas hei de pregar-lhes um mono, que n\u00e3o imaginam.\n\n&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 ponto decidido?\n\n&#8211; Com a breca!&#8230; Eu c\u00e1 n\u00e3o sou homem de voltar atr\u00e1s! Dito e feito!&#8230; Desembainhando o chifarote com um arreganho de ferrabr\u00e1s, o Nuno cresceu para o Lisardo gritando-lhe:\n\n&#8211; Leve-me j\u00e1 \u00e0 casa do capit\u00e3o-mor se n\u00e3o quer que o leve eu espetado na ponta desta espada!\n\nJ\u00e1 abalado pela noticia do desterro que amea\u00e7ava o amigo, o nosso poeta rendeu-se ante aquele argumento perfurante.\n\nEis porque momentos antes o Lisardo atravessava a casa do sof\u00e1 de um modo t\u00e3o original, e surdira na casa da ceia, no meio da surpresa geral dos convivas, que o viram entrar \u00e0 guisa de boneco de engon\u00e7o.\n\nPassada a primeira surpresa. as vistas se fitaram no vulto de Nuno, que atado ao formid\u00e1vel chanfalho e coberto pela enorme cervilheira, fazia uma figura grotesca. As risadas estrugiram pelo \u00e2mbito da sala de envolta com o tinir da lou\u00e7a e dos cristais.\n\nSusteve Nuno impass\u00edvel e sem pestanejar o fogo rolante daquela estrepitosa gargalhada, ainda que por seu gosto preferia afrontar uma descarga de mosquetaria.\n\nAfinal, passado o frouxo de riso, veio a curiosidade de saber por que artes aparecera ali aquela estramb\u00f3tica figura; e voltou-se a aten\u00e7\u00e3o para o Lisardo que, aproveitando a hilaridade, tratava de esgueirar-se pela copa, onde contava achar os remanescentes da op\u00edpara ceia.\n\n&#8211; Oh! Lisardo! N\u00e3o nos dir\u00e1 onde foi desencavar este palerma?\n\n&#8211; Querem ver que \u00e9 algum fedelho dos flamengos, que ai ficou enterrado no mangue!\n\n&#8211; Mais parece um bugio armado em guerra!\n\n&#8211; Ora qual! \u00c9 o Pan\u00e7a do D. Quixote do nosso Lisardo! Pois n\u00e3o sabiam! Enquanto assim os convivas trauteavam o nosso poeta, ele estava sobre espinhos; e n\u00e3o se animando a abrir a boca, encolhia-se de modo que parecia querer sumir-se dentro de si pr\u00f3prio.\n\nFoi o Nuno quem, revestindo-se de sua natural petul\u00e2ncia, p\u00f4s termo ao supl\u00edcio do amigo.\n\n&#8211; Querem saber quem eu sou; pois j\u00e1 lhes digo. Sou o filho do mercador Miguel Viana!\n\n&#8211; Do mascate!&#8230;\n\n&#8211; O mais atrevido da s\u00facia!\n\n&#8211; Que veio cheirar aqui, s\u00f4 mariola?\n\n&#8211; Oral Anda bisbilhotando para ir meter no bico dos labregos!\n\n&#8211; \u00c9 espi\u00e3o, n\u00e3o tem que ver!\n\n&#8211; Pois enganam-se, acudiu Nuno decidido. Deixei o Recife e o pai; porque sou por Olinda e quero combater com a nobreza, em pr\u00f3 de sua causa, que \u00e9 a dos leg\u00edtimos senhores de Pernambuco.\n\nAcolheram os convivas estas palavras do Nuno com um, sil\u00eancio cheio de suspeitas, apesar de serem elas proferidas em tom firme e sincero.\n\nN\u00e3o assim D. Severa, que atravessando o aposento, veio ao encontro do mascatinho:\n\n&#8211; Bravo, mo\u00e7o. Como se chama voc\u00ea?\n\n&#8211; Nuno! respondeu o caixeiro.\n\n&#8211; Nuno, doravante pertence \u00e0 minha casa. Fa\u00e7a-o meu pajem de estrado para o servi\u00e7o especial da minha pessoa.\n\nNessa ocasi\u00e3o entrava na casa de jantar o Filipe Uchoa; e consultado sobre o caso, aprovou com um riso j\u00e2mbico a resolu\u00e7\u00e3o de D. Severa.\n\n&#8211; N\u00e3o pod\u00edamos inventar melhor pol\u00e9 para o Miguel Viana, respondeu ele.\n\n<strong>FIM DA PRIMEIRA PARTE<\/strong>\n<h4><strong><a id=\"segunda\" name=\"segunda\"><\/a>SEGUNDA PARTE<\/strong><\/h4>\n<strong>ADVERT\u00caNCIA<\/strong>\n\nQuando a cerca de um ano veio a lume o primeiro tomo desta cr\u00f4nica, houve muito quem teimasse em ver personagens contempor\u00e2neos disfar\u00e7ados nessas figuras do s\u00e9culo passado.\n\nSemelhante personifica\u00e7\u00e3o, o autor n\u00e3o pode de modo algum admiti-la.\n\nOs atores da com\u00e9dia, que se chamou a Guerra dos Mascates, s\u00e3o antes de tudo hist\u00f3ricos: ou porque os anais do tempo fazem deles especial men\u00e7\u00e3o, ou porque representam as id\u00e9ias e os costumes da \u00e9poca.\n\nDemais, essas figuras t\u00eam cada uma seu papel no desenvolvimento da a\u00e7\u00e3o que o autor se incumbiu de narrar, conforme a li\u00e7\u00e3o do seu alfarr\u00e1bio.\n\nAdmitida a personifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poderia o escritor referir um fato ou circunst\u00e2ncia hist\u00f3rica, nem descrever um epis\u00f3dio qualquer da cr\u00f4nica sem que tais pormenores fossem logo referidos aos inculcados s\u00f3sias de seus personagens.\n\nOra, o autor n\u00e3o pretende certamente defender-se do pecado de uma ou outra alus\u00e3o, que lhe corre \u00e0s vezes sem querer dos bicos da pena. Mas essas demasias, n\u00e3o as tem sen\u00e3o sobre a pol\u00edtica, que e j\u00e1 de si um longo e intermin\u00e1vel epigrama.\n\nInsinua\u00e7\u00f5es \u00e0 vida privada, nunca as fez o autor, e espera que n\u00e3o cometer\u00e1 jamais t\u00e3o grande aleivosia apesar de ter sido ele muitas vezes a vitima de semelhantes emboscadas.\n\nN\u00e3o \u00e9 daqueles que muram a vida privada. Ao contr\u00e1rio, pensa como Alphonse Karr, que o homem publico n\u00e3o tem direito a esse asilo; pois deve \u00e0 opini\u00e3o que ele pretende dirigir, e ao pais a quem serve de exemplo, satisfa\u00e7\u00e3o plena de todos seus atos.\n\nMas e com a precisa coragem e franqueza, n\u00e3o com insinua\u00e7\u00f5es que se tem direito de atacar o procedimento repreens\u00edvel de qualquer cidad\u00e3o, de modo a provocar a defesa e habilitar a opini\u00e3o a pronunciar-se.\n\nCom estas id\u00e9ias, bem se v\u00ea que n\u00e3o podia o autor caricaturar ningu\u00e9m nos personagens de sua cr\u00f4nica, ali\u00e1s obrigados a desempenhar pap\u00e9is originais em uma com\u00e9dia de outros tempos e de outros costumes.\n\nCarreguem-lhe pois a culpa das malignidades pol\u00edticas, ainda mesmo daquelas de que n\u00e3o cogitou, mas deixem-lhe o direito de mover \u00e0 vontade as figuras do seu teatrinho; de cas\u00e1-las a jeito, e distribuir-lhes a cada um seu papel de pai, marido, filho, noivo, ou qualquer outro da com\u00e9dia social.\n\nCom isso, que \u00e9 do dom\u00ednio da fantasia, nada tem que ver a maledic\u00eancia.\n\nCorte, 1 de junho de 1874.\n\n<strong>SEGUNDA PARTE<\/strong>\n<h4><strong><a id=\"p21\" name=\"p21\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/strong><\/h4>\n<strong>CENAS ROMANTICAS DA VIDA CONJUGAL SEM O ADUBO DA IMORALIDADE<\/strong>\n\nEra por noite calada.\n\nA episcopal cidade de Olinda, envolta nas trevas, jazia em profundo sil\u00eancio. Desde muito que se tinham apagado os fogos, e apenas de longe em longe, pela praia, tremulava a chama do molho de palhas que servia de farol aos pescadores.\n\nA n\u00e3o ser o rolo das ondas, desdobrando-se ao longo do istmo, o sussurro do coqueiral rugido pela vira\u00e7\u00e3o da noite, ou o regougo da coruja \u00e0 ca\u00e7a dos morcegos, nenhum outro rumor quebrava a mudez da metr\u00f3pole pernambucana.\n\nTodavia, pela volta das nove horas, no alto da subida do Varadouro soaram passos, os quais se diriam de cavaleiro, pelo tinido das esporas batidas nas pedras soltas que lastravam o ch\u00e3o.\n\nQuem era desceu rua abaixo, com o andar r\u00e1pido, mas parando a trechos, tanto para verificar se porventura o espreitavam como para orientar-se no meio da escurid\u00e3o.\n\nChegado ao princ\u00edpio do muro de taipa, que fechava o quintal da casa de Andr\u00e9 de Figueiredo, o desconhecido redobrou de precau\u00e7\u00e3o at\u00e9 alcan\u00e7ar um ponto em que a copa frondosa do arvoredo, reclinando para a rua, tornava a escurid\u00e3o ainda mais densa.\n\nA\u00ed, julgando-se ao abrigo do mais penetrante olhar, j\u00e1 apoiava a m\u00e3o sobre o lombo do muro para formar o salto, quando ouviu um ro\u00e7ar de folhas na cerca fronteira.\n\nFitando pronto a vista, pareceu-lhe percebido entre a ramagem vulto humano, e sem a menor hesita\u00e7\u00e3o, atirando a longa capa em que se envolvia para os ombros, sacou a espada da bainha e p\u00f4s-se em guarda.\n\n&#8211; Enfim! murmurara ent\u00e3o resfolgando \u00e0 larga.\n\nComo, passado algum tempo, nada aparecesse de suspeito, pensou o desconhecido que ou se enganara na sua desconfian\u00e7a, ou o vulto n\u00e3o tinha neg\u00f3cio com ele, a quem talvez nem houvesse pressentido; tornando ao primeiro intento galgou com agilidade o muro, e sem dificuldade achou-se do outro lado, dentro do quintal.\n\nCom o perigo cresciam agora as precau\u00e7\u00f5es do cavalheiro receoso de dar rebate \u00e0 gente da casa. Esgueirando-se por entre o arvoredo at\u00e9 o terreiro donde avistava as janelas do oit\u00e3o e a porta da serventia do quintal, ali ficou oculto pelas folhas e \u00e0 espreita de alguma cousa de sua muita devo\u00e7\u00e3o, pois assim o trazia a afrontar perigos.\n\nAo cabo de algum tempo dessa espreita, percebeu o desconhecido que a aba de uma janela do sobrado se entreabria e o busto de uma pessoa reclinava-se ao balc\u00e3o, recolhendo logo ap\u00f3s uma r\u00e1pida pesquisa dos arredores.\n\nApesar do sobressalto que teve, o cavalheiro n\u00e3o desmentiu sua consumada prud\u00eancia. Conservou-se im\u00f3vel e oculto entre a folhagem, redobrando de vigil\u00e2ncia.\n\nSomente depois que a oscila\u00e7\u00e3o da janela repetiu-se por tr\u00eas vezes, e que na impaci\u00eancia como na sutileza do movimento ele pressentiu um gesto feminino, foi que o desconhecido resolveu-se a sair da sombra, destacando o vulto no descoberto do terreiro.\n\nOuviu-se ent\u00e3o o so\u00e7obro de uma respira\u00e7\u00e3o cortada de repente, e que mais parecia o solu\u00e7o intermitente da aura nas folhas da bananeira. Cerrou-se a janela, mas um objeto ca\u00edra aos p\u00e9s do cavaleiro.\n\nEra um fino len\u00e7o de batista, perfumado e ainda t\u00e9pido das m\u00e3os que o apertavam pouco antes; trazia atada a uma das pontas grossa chave de ferro, a qual o desconhecido sem mais demora buscou introduzir na porta fronteira.\n\nN\u00e3o se logrou da dilig\u00eancia, que a chave n\u00e3o servia e, afastando-se, aguardou que a janela se entreabrisse para obter a explica\u00e7\u00e3o de que precisava. Nova esperan\u00e7a frustrada, pois o vulto havia se recolhido de uma vez.\n\nCome\u00e7ava o desconhecido a impacientar-se, quando lhe acudiu a lembran\u00e7a. que tinha a casa mais de uma porta.\n\n&#8211; Em alguma h\u00e1 de servir.\n\nCosendo-se \u00e0 parede, foi experimentando a chave em quanta porta encontrava, at\u00e9 que afinal acertou. Ao ranger dos gonzos que obedeciam ao impulso,. escapou-se pela fresta um tr\u00eamulo psiu recomendando sil\u00eancio.\n\nAdiantando o desconhecido a m\u00e3o para sondar as trevas do aposento em que entrava, encontrou outra m\u00e3o, por\u00e9m pequena, suave, mimosa, que escapou-se arrufada e palpitante como uma rola apanhada no ninho.\n\n&#8211; N\u00e3o tendes que recear-vos de mim, senhora, pois ainda que vosso esposo pela b\u00ean\u00e7\u00e3o do Senhor e por vossa pr\u00f3pria escolha, um irm\u00e3o n\u00e3o respeitaria com maior desvelo vosso recato.\n\nNenhuma voz respondeu a estas palavras do cavaleiro, mas ouviu-se distintamente um profundo suspiro que parecia vir do mais rec\u00f4ndito d&#8217;alma.\n\nEsta cena passava-se na noite do dia seguinte \u00e0quele em que principiou. nossa cr\u00f4nica e para o qual D. Leonor tinha de v\u00e9spera emprazado Vital Rebelo por um bilhete escrito com o sangue de suas veias.\n\nDissipada a exalta\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo que a impelira \u00e0quela afoiteza, a m\u00edsera. mo\u00e7a caindo em si, ficou espavorida com a imprud\u00eancia que havia cometido.\n\nComo poderia ela, t\u00e3o guardada de sua pessoa, iludir a vigil\u00e2ncia que a cercava, e a defesa das casas de Andr\u00e9 de Figueiredo, que mais pareciam pres\u00eddio do que moradia?\n\nVital acudiria ao emprazamento; n\u00e3o a encontrando, se arrojaria para v\u00ea-la a alguma temeridade que o tra\u00edsse. E ela, esposa a quem traziam vi\u00fava do querido de sua alma; ela, que todos os dias rogava a Deus a restitu\u00edsse aos bra\u00e7os de que a tinham arrancado; ela, encerrada nas paredes de sua rec\u00e2mera, ouviria talvez o grito de ang\u00fastia de Vital, sucumbindo aos golpes de inimigos que, por maior infelicidade sua, ela era obrigada a acatar.\n\nEnt\u00e3o rezava para que o marido n\u00e3o viesse \u00e0 entrevista; mas quando enchia-se dessa esperan\u00e7a e achava-se mais animada, a vinha desconsolar a id\u00e9ia de que essa fria indiferen\u00e7a de Vital seria a prova do pouco afeto que lhe votava: e logo repelia um lenitivo que, se acalentava-lhe os sustos, excruciava-lhe o cora\u00e7\u00e3o.\n\nAssim nesta cruel absor\u00e7\u00e3o passou ela parte do dia, cogitando mil alvitres que a tirassem de t\u00e3o apertado transe, mas sem \u00e2nimo de tomar uma delibera\u00e7\u00e3o. Por tarde seus esp\u00edritos extenuados ca\u00edram em profundo abatimento, e nessa atonia esperou com g\u00e9lida impassibilidade a cat\u00e1strofe que via iminente.\n\nEstava a fam\u00edlia como de costume reunida na sala principal, quando entrou Andr\u00e9 de Figueiredo, que dirigiu-se \u00e0 irm\u00e3.\n\n&#8211; D. Louren\u00e7a, mande-me dar as chaves do trem.\n\nErgueu-se a dama e foi ela mesma tirar de uma arca, na pr\u00f3xima c\u00e2mera, duas chaves atadas em uma correia, que entregou ao capit\u00e3o.\n\n&#8211; Em tempos como estes, bom \u00e9 precatar-se cada um para o que pode acontecer. Ningu\u00e9m sabe o que nos trar\u00e1 o dia de amanh\u00e3.\n\nEstas palavras, que Andr\u00e9 de Figueiredo proferiu \u00e0 sa\u00edda, traspassaram o cora\u00e7\u00e3o de Leonor. Apoderou-se dela um pavor inexplic\u00e1vel.\n\nHavia ao r\u00e9s-do-ch\u00e3o e para os fundos da casa um vasto armaz\u00e9m onde se guardavam trastes fora do uso, ferramentas, utens\u00edlios, mas principalmente armas e petrechos de que todo morador principal daqueles tempos tinha cuidado de prover-se, para acudir, sendo preciso, \u00e0 defesa da cidade e da pr\u00f3pria habita\u00e7\u00e3o.\n\nFoi a esse repartimento, chamado casa do trem, que se dirigiu o capit\u00e3o; ali demorou-se at\u00e9 o escurecer.\n\nRecolhendo-se \u00e0 sua rec\u00e2mera, o viu Leonor que voltava. Vinha ele preocupado e distra\u00eddo a tal ponto que, parecendo n\u00e3o reparar na presen\u00e7a de algu\u00e9m, guardou as chaves em uma gaveta da mesa de jantar e desceu para a rua.\n\nSobressaltou-se Leonor e fugiu espavorida com a id\u00e9ia que a assaltara. Todo o ser\u00e3o correu para ela entre os assaltos da luta obstinada que haviam travado em sua alma a paix\u00e3o do marido e o terror da fam\u00edlia.\n\nVencera afinal o amor, que depois de mil hesita\u00e7\u00f5es a trouxera ao encontre do esposo, por quem se estava ali morrendo de pejo e de afeto.\n\n&#8211; N\u00e3o vim aqui, senhora, em requesta de vossas finezas, como cavalheiro namorado que implora favores \u00e0 sua dama. Ficai portanto descansada, que n\u00e3o terei palavra, nem a\u00e7\u00e3o, capaz de magoar vosso melindre. Se ainda uma vez busquei falar-vos, depois de tantas em que me recusastes esta merc\u00ea, foi para decidir afinal de nosso destino, e romper dum golpe, ou a fatalidade que vos arrebata a meu afeto, ou o la\u00e7o que ainda prende nossas almas. No ponto a que nos trouxe a sorte adversa, ou sois tudo para mim, ou nada sereis; se n\u00e3o vos fala agora, neste momento, o esposo a quem jurastes pertencer e a vos deveis de corpo e alma pela vida e pela eternidade, dizei-o, senhora, dizei-o pronto, que n\u00e3o serei mais do que um estranho que j\u00e1 n\u00e3o vos conhece e fugir\u00e1 \u00e0 vossa presen\u00e7a, como um fantasma que volta \u00e0 catacumba.\n\nProferidas estas palavras, Vital aguardou um instante a resposta; mas o sil\u00eancio que reinava naquela escurid\u00e3o apenas foi cortado por solu\u00e7os, cujo t\u00e9pido bafejo aqueceu a face do cavalheiro.\n\nEste abriu os bra\u00e7os e conchegou ao seio o corpo vacilante da esposa, que se rendia ao seu amor.\n\n&#8211; Leonor! murmurou Vital. Ainda me queres? Pensei que j\u00e1 se tinha de todo apagado em teu cora\u00e7\u00e3o aquela ternura que te mereci, e que tenho pago com tantas desesperan\u00e7as?\n\n&#8211; Mais que as desesperan\u00e7as doem as injusti\u00e7as, Senhor Vital, respondeu Leonor tragando o pranto. Que fiz eu para me acusarem de ingrata?\n\n&#8211; Ningu\u00e9m vos acusou; apenas queixei-me eu algumas vezes e a mim mesmo.\n\n&#8211; Mas de qu\u00ea?\n\n&#8211; Ainda o perguntais, D. Leonor? Depois deste ano, passado longe um do outro na viuvez de nossas almas, deste ano que devia ser a primavera florida de nosso amor, e que um mau fado transformou em torva borrasca?\n\n&#8211; Que podia eu contra a sorte?\n\n&#8211; Tudo. N\u00e3o t\u00ednheis um esposo cujo dever era proteger-vos, e cuja maior ventura seria obedecer-vos?\n\n&#8211; E minha m\u00e3e? replicou Leonor com desalento.\n\nVital calou-se.\n\n&#8211; Bem sabeis que a maldi\u00e7\u00e3o cairia sobre mim, se eu me revoltasse contra a tirania que nos separou; e por nenhum pre\u00e7o eu, que vos prezo e respeito acima de todos os homens, Senhor Vital Rebelo, vos daria uma esposa maldita e um afeto mal-agourado. Agora mesmo, quem sabe que perigos nos amea\u00e7am e que desgra\u00e7as n\u00e3o custar\u00e1 esta minha imprud\u00eancia?\n\n&#8211; N\u00e3o pode ser maldita a esposa que o ministro do Senhor uniu em face do altar pelo pr\u00f3prio voto e com o consentimento dos seus; nem ser\u00e1 mal-agourado este afeto porque desarrazoada obstina\u00e7\u00e3o de parentes se op\u00f5e \u00e0 sua felicidade.\n\n&#8211; Consentimento dos seus, dizeis; mas eles afirmam que esse consentimento o deram iludidos, e logo o retiraram, antes que deixasse eu a casa paterna para pertencer-vos, pelo que&#8230;\n\n&#8211; Prossegui, D. Leonor! acudiu Vital, percebendo a hesita\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a.\n\n&#8211; N\u00e3o vos queria afligir; por\u00e9m melhor \u00e9 saberdes logo, pois n\u00e3o tenho esperan\u00e7a de falar-vos outra vez.\n\n&#8211; Assim \u00e9 este o momento de nossa eterna despedida, senhora? tornou Rebelo com um termo grave e triste.\n\n&#8211; Ah! se soub\u00e9sseis!&#8230;\n\n&#8211; Sei tudo.\n\n&#8211; Sabeis que mandaram a Roma para dissolver o nosso despos\u00f3rio e que esperam receber o breve pela primeira embarca\u00e7\u00e3o do reino?\n\n&#8211; Sabia-o, sim, D. Leonor, respondeu o cavalheiro com a mesma grave placidez. O que n\u00e3o sabia, e preciso ouvir de vossa boca, \u00e9 se destes a isso vosso consentimento.\n\n&#8211; Eu?&#8230; balbuciou a dama.\n\n&#8211; Falai sem receio. De mim n\u00e3o tendes que temer maldi\u00e7\u00f5es, nem amea\u00e7as. Vosso querer \u00e9 a minha lei; eu, que zombo das fanfarronadas de vossos parentes e da bula que mandaram comprar a Roma, obedecerei submisso a uma palavra proferida por v\u00f3s, contanto que essa palavra seja a voz d&#8217;alma; porque, se me eu curvo ante vosso desejo, n\u00e3o terei, ficai certa, a mesma docilidade com as vontades alheias que abusam de sua posi\u00e7\u00e3o para insinuarem-se em vosso \u00e2nimo t\u00edmido e ing\u00eanuo. Pois que \u00e9 esta a \u00faltima vez que nos vemos, abri-me vosso cora\u00e7\u00e3o. Tivestes parte nesse trama da dissolu\u00e7\u00e3o de nosso casamento?\n\n&#8211; Eu assinei um papel, que me apresentaram, mas n\u00e3o o li.\n\n&#8211; E n\u00e3o vos disseram o que ele continha, nem o suspeitastes v\u00f3s?\n\n&#8211; Minha m\u00e3e tinha-me prevenido.\n\n&#8211; Portanto n\u00e3o ignor\u00e1veis de que se tratava, nem que influ\u00eancia devia ter em vossa exist\u00eancia aquela assinatura. Quando escrevestes ali vosso nome, renegastes o esposo que hav\u00edeis escolhido.\n\n&#8211; Obedeci \u00e0 minha m\u00e3e! solu\u00e7ou Leonor com a voz dilacerada.\n\n&#8211; Vossa m\u00e3e andou bem-avisada em vo-lo ordenar, D. Leonor.\n\n&#8211; Tamb\u00e9m v\u00f3s a aprovais?\n\n&#8211; Se n\u00e3o me tendes o menor afeto, por que ser\u00edeis minha mulher, e ficar\u00edeis com a vossa exist\u00eancia encadeada a um estranho, quando a podeis partilhar com quem melhor vos mere\u00e7a?\n\n&#8211; N\u00e3o me estejais apunhalando com estas palavras de desprezo; melhor \u00e9 acabar-me de uma vez, e a esta triste sina. N\u00e3o posso pertencer-vos como esposa, que minha m\u00e3e se interp\u00f5e entre n\u00f3s; mas perten\u00e7o-vos como quem se vos deu e n\u00e3o quer e n\u00e3o pode ser jamais de outro; aqui me tendes; ponde um termo a este resto de exist\u00eancia que ainda me sobra de tamanho sofrer.\n\nVital permaneceu calmo, apesar de abalado profundamente no \u00edntimo:\n\n&#8211; Dizeis que vos destes a mim, senhora; e eu vejo que n\u00e3o vos podeis dar a ningu\u00e9m, pois para isso era preciso que vos pertenc\u00easseis; o que n\u00e3o acontece. Nada mais sois do que o corpo que anima a alma de vossa m\u00e3e, ou antes a alma que lhe empresta vosso tio, Andr\u00e9 de Figueiredo, que ela n\u00e3o a tem e menos de m\u00e3e.\n\n&#8211; Senhor Vital! disse Leonor ressentida.\n\n&#8211; N\u00e3o quereis e n\u00e3o podeis ser jamais de outro&#8230;\n\n&#8211; Eu vos juro!\n\n&#8211; Tamb\u00e9m me jurastes a mim a f\u00e9 de esposa e bastou o sopro de vossa m\u00e3e para apagar esse juramento. Ordene-vos ela amanh\u00e3 que ameis a outro&#8230;\n\n&#8211; Nunca!\n\n&#8211; Haveis de obedecer-lhe, D. Leonor, disse Vital com amarga ironia, sen\u00e3o ela pode amaldi\u00e7oar-vos!.\n\n&#8211; N\u00e3o estou eu suplicando-vos que me mateis! exclamou a mo\u00e7a em um grito de desespero atirando-se de joelhos aos p\u00e9s do cavalheiro.\n\nErgueu-a Vital Rebelo nos bra\u00e7os, e pousou-lhe um beijo casto na fronte:\n\n&#8211; N\u00e3o, alma de minha vida, n\u00e3o morrer\u00e1s; que eu te salvarei contra todos e contra ti mesma, que \u00e9s o meu bem supremo; mas tens sido o meu e teu algoz. Eu te salvarei; e se Deus me negar essa dita, restar-nos-\u00e1 ent\u00e3o, Leonor minha, a de morrermos juntos.\n\nUm regougo de riso sarc\u00e1stico reboou no meio da escurid\u00e3o, acompanhado por uma voz zombeteira.\n\n&#8211; H\u00e1 de morrer, esteja descansado, mas sem companhia.\n\nLeonor desmaiara nos bra\u00e7os de Vital Rebelo.\n<h4><strong><a id=\"p22\" name=\"p22\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/strong><\/h4>\n<strong>UM CAP\u00cdTULO DE HIST\u00d3RIA QUE PARECE TER SIDO ESCRITO PARA O ROMANCE<\/strong>\n\nPor tal forma se travam os neg\u00f3cios da governan\u00e7a com os amores de Vital Rebelo, que para melhor compreens\u00e3o desta nossa cr\u00f4nica, vamos dar uma resenha do estado das cousas na Capitania de Pernambuco pelo correr do ano de 1710.\n\nJ\u00e1 pela rama se falou da rivalidade que existia entre a cidade de Olinda e a recente povoa\u00e7\u00e3o do Recife, por causa do incremento que esse bairro comercial importante ainda no dom\u00ednio dos holandeses, fora tomando com o volver dos tempos.\n\nDesde a \u00e9poca da restaura\u00e7\u00e3o que os mercadores, atra\u00eddos pela vantagem de um ancoradouro c\u00f4modo e seguro, se estabeleceram de prefer\u00eancia nessa povoa\u00e7\u00e3o e ocuparam os armaz\u00e9ns e tercenas constru\u00eddos pelos flamengos.\n\nOs senhores de engenho que eram os principais da capitania e aqueles que formavam a nobreza pernambucana, foram obrigados a suprirem-se do necess\u00e1rio para o custeio de suas f\u00e1bricas nas lojas e tendilh\u00f5es do Recife.\n\nDava-se ent\u00e3o o que ainda hoje acontece com pequena diferen\u00e7a. Onerado o agricultor com uma d\u00edvida avultada, que n\u00e3o podia pagar, tinha de sujeitar-se \u00e0 usura do credor ou de entregar-lhe a safra a pre\u00e7o e condi\u00e7\u00f5es lesivas. Assim a arroba de a\u00e7\u00facar, o mercador a pagava no Recife por 400 rs. para vend\u00ea-la no reino por l$400.\n\nMais de s\u00e9culo e meio \u00e9 decorrido, e ainda o tacanho esp\u00edrito que sob v\u00e1rias encarna\u00e7\u00f5es tem governado este pa\u00eds, n\u00e3o descobriu um meio de proteger a lavoura contra o monop\u00f3lio mercantil; antes parece que de todo a desamparou entregando-a \u00e0 sanguessuga do Banco do Brasil que lhe exaure a seiva em proveito de certa oligarquia financeira.\n\nUma circunst\u00e2ncia muito concorria para agravar a posi\u00e7\u00e3o da nobreza pernambucana. N\u00e3o permitindo as id\u00e9ias do tempo que os fidalgos se dessem \u00e0 mercancia por ser esse um of\u00edcio plebeu, resultava da\u00ed que os seus fornecedores eram gente inferior e animada do ci\u00fame que em todos os tempos, mas principalmente naquela \u00e9poca, dividia as classes.\n\nO que por\u00e9m mais fomentou a rivalidade entre os povos de Recife e Olinda foi o esp\u00edrito de bairrismo.\n\nOs moradores da capitania descendiam na m\u00e1xima parte de portugueses, ainda que j\u00e1 entrava a\u00ed grande mescla de sangue flamengo e outro de Europa, sem falar do ind\u00edgena e africano. Tinham, por\u00e9m, nascido ali, na terra americana, e consideravam-se herdeiros dessa p\u00e1tria que seus maiores haviam reivindicado do holand\u00eas pelo hero\u00edsmo e intrepidez de suas armas.\n\nPor isso chamavam-se eles pernambucanos, e \u00e0queles que vinham do reino se estabelecer na col\u00f4nia davam o nome de forasteiros, negando-lhes o foro de vizinhos e portanto o direito de tomar parte no governo da terra.\n\nCom poucas exce\u00e7\u00f5es, eram os mercadores do Recife desses portugueses europeus, que deixavam a sua aldeia para tentarem a fortuna no novo mundo.\n\nJ\u00e1 naqueles tempos, como nos de hoje, tinha a col\u00f4nia portuguesa duas virtudes, a que deve a sua prosperidade, e s\u00e3o: a perseveran\u00e7a e a uni\u00e3o, dotes de ra\u00e7a, que todavia por uma ignota raz\u00e3o desmerecem no solo brasileiro e n\u00e3o se transmitem \u00e0 prole aqui nascida.\n\nChegava um desses garotos sem outro fato mais do que a trouxa amarrada em len\u00e7o de Lamego; com a camisa de bertangil, preto de sujo, e cal\u00e7\u00f5es de lona besuntada de alcatr\u00e3o. A for\u00e7a de trabalho conseguiam uma d\u00fazia de patacas, com que se proviam de algumas r\u00e9stias de alho e cebola, al\u00e9m de outras drogas, e sa\u00edam a mercar pelas ruas do povoado e engenhos do interior. Nesse giro mesquinho ajudavam-nos os patr\u00edcios, fiando-lhes fazendas e drogas para estenderem o seu tr\u00e1fego, e assim arvorados em mascates aqueles labregos, que no reino nem para mo\u00e7os de servir prestavam, de repente se viam senhores de grosso cabedal.\n\nDeste modo, com pouca discord\u00e2ncia de termos, se exprime um mal\u00e9volo cronista pernambucano no intuito de rebaixar os mercadores do Recife, quando ao inv\u00e9s lhes tece o maior enc\u00f4mio, pondo em relevo o car\u00e1ter laborioso e paciente desses homens, filhos de seus trabalhos e obreiros da pr\u00f3pria fortuna.\n\nDe dia em dia, pois, ia crescendo o ci\u00fame entre os dois povoados, na medida em que o plebeu Recife medrava com o impulso de seu com\u00e9rcio florescente, e a aristocr\u00e1tica Olinda deca\u00eda pelo desbarato dos ricos patrim\u00f4nios outrora acumulados pelas fam\u00edlias pernambucanas.\n\nO primeiro choque dessa luta de supremacia pol\u00edtica datava do ano de 1685. Desde sua funda\u00e7\u00e3o padecera Olinda da falta de boa \u00e1gua pot\u00e1vel, reduzida a p\u00e9ssimas e raras cacimbas, pois o Beberibe, que lhe banha as fraldas e podia prove-la em abund\u00e2ncia, era ent\u00e3o alagado at\u00e9 muito acima pela enchente da mar\u00e9.\n\nDesvelados os moradores em remediar esse achaque, avisaram meios de trazer \u00e1gua de longe. Primeiro abriram um valado de l\u00e9gua para encanar uma levada do Paratibe; mas n\u00e3o surtiu bom efeito, porque era o terreno de muitas areias que frustravam o trabalho, sumindo a \u00e1gua.\n\nOutra vez intentaram obra semelhante no Beberibe, tomando-lhe a veia acima da mar\u00e9 e n\u00e3o tiveram melhor resultado, porque as enlameavam os gados soltos na v\u00e1rzea. Quando estavam empenhados em aperfei\u00e7oar a obra, substituindo a lavada por um aqueduto de pedra e cal; sucedeu a invas\u00e3o holandesa.\n\nDepois da restaura\u00e7\u00e3o, e logo que se restabeleceram os moradores dos maiores estragos de suas fazendas, curou a C\u00e2mara de Olinda de prover aquela necessidade de boa \u00e1gua, mas por um novo arb\u00edtrio que o engenho, ensinado das muitas li\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia, veio a sugerir.\n\nEm 1685 com boa dilig\u00eancia se levou a efeito o plano que consistia em tapar o rio Beberibe com um reparo de pedra no ponto onde ele costumava secar na baixa da mar\u00e9, e por isso chamado Varadouro.\n\nCom esse dique, em forma de ponte ou passadi\u00e7o, impedia-se a \u00e1gua salgada de subir al\u00e9m, enquanto que a represa do Beberibe formou um vistoso lago que despejava as sobras por dezoito canos, fartando a cidade de \u00e1gua doce, como da grande c\u00f3pia de peixe que ali se criava.\n\nDesta obra se aproveitaram tamb\u00e9m os do Recife, que mandavam em canoas encher as vasilhas nas bicas do Varadouro, especialmente para as aguadas dos navios; pois suas cacimbas, como as de Santo Ant\u00f4nio, eram salobras e cheias de limo.\n\nN\u00e3o obstante foi a ponte, na frase do cronista, uma figa para os mascates, os quais n\u00e3o podendo sofrer que Olinda se lograsse de tal vantagem sobre o Recife, buscaram tra\u00e7a para a desforra, que em m\u00e1 hora lhes trouxe a fortuna adversa.\n\nAconteceu, seis meses depois, que abrindo-se uns barris chegados de S\u00e3o Tom\u00e9 dias antes, estivesse a carne que traziam corrompida a ponto de matar logo ali de pronto com o ramo da peste o tanoeiro e mais quatro que o ajudavam, desenvolvendo-se em seguida uma devastadora epidemia.\n\nEntrou o povo do Recife a clamar que todo o mal proviera da tapagem do Beberibe, pois estagnadas as \u00e1guas onde cresciam tantas ervas, era de prever que se envenenassem aquelas com a podrid\u00e3o destas, infeccionando os ares de toda aquela redondeza.\n\nSem mais demora levaram os mercadores sua queixa a El-Rei, que mandou ouvir sobre o caso os m\u00e9dicos de sua real c\u00e2mara. Parece que naquele tempo a higiene p\u00fablica estava t\u00e3o adiantada em Lisboa como no Rio de Janeiro, c que os f\u00edsicos-mores do Senhor D. Pedro II de l\u00e1 n\u00e3o tinham que invejar aos do Senhor D. Pedro II de c\u00e1.\n\nReuniu-se em junta a mestran\u00e7a e conveio que efetivamente a peste provinha da represa do rio. Houve quem notasse a coincid\u00eancia de terem aparecido os primeiros casos da mol\u00e9stia na ocasi\u00e3o de abrirem-se os barris de carne, assim como a circunst\u00e2ncia de n\u00e3o se haver manifestado a epidemia em Olinda, que tinha o Varadouro \u00e0 beira.\n\nN\u00e3o toscanejaram os preclaros rabichos, e decidiram verbis magistri que era urgente romper-se o dique e deixar que o rio despejasse livremente como dantes a correnteza de suas \u00e1guas, com o que cessaria o cont\u00e1gio. E assim o mandou El-Rei em carta \u00e0 C\u00e2mara.\n\nImagine-se como receberiam os moradores de Olinda essa ordem estulta, que vinha destruir o fruto de tamanhos esfor\u00e7os e economias; e quanto podiam o respeito e obedi\u00eancia \u00e0 r\u00e9gia autoridade, pois sopitaram a revolta dos brios e dos direitos oprimidos desses povos leais.\n\nFicou, por\u00e9m, no cora\u00e7\u00e3o pernambucano um entranhado ressentimento, e crescendo todos os dias o desprezo com que os nobres tratavam a gente do Recife, passaram a design\u00e1-la pelo ep\u00edteto de mascates.\n\nEsse termo, derivado do nome de um reino da \u00cdndia cujos naturais eram dados ao com\u00e9rcio, significava em princ\u00edpio entre os portugueses de Goa o mesmo que mercador ambulante que percorria v\u00e1rias terras \u00e0 maneira do Oriente.\n\nCom o andar dos tempos veio a servir unicamente para exprimir o mister baixo e desprez\u00edvel de bufarinheiro ou regat\u00e3o que apregoa pelas ruas. T\u00e3o afrontoso era dar-se tal nome a um mercador desse tempo, como seria hoje em dia chamar em estilo cl\u00e1ssico de traficante a um homem de neg\u00f3cio.\n\nRetaliaram os do Recife com a alcunha de p\u00e9s-rapados que puseram aos naturais, n\u00e3o s\u00f3 pela circunst\u00e2ncia de andarem eles descal\u00e7os e \u00e0 ligeira, com o que se desembara\u00e7avam no manejo das armas e na celeridade da marcha entre o mato fechado, como por alus\u00e3o \u00e0 estreiteza de muitos fidalgos ca\u00eddos em completa pen\u00faria.\n\nSoberbos os mercadores com a primeira vit\u00f3ria na quest\u00e3o do Varadouro, puseram a mira em cousa de maior monta, como era o foral de vila para o Recite, o qual uma vez independente de Olinda e com governo pr\u00f3prio, n\u00e3o tardaria em derrotar a velha cidade que lhe estava sugando a seiva.\n\nRazoaram os advogados, pois j\u00e1 naquele tempo os havia pol\u00edticos e administrativos, como se v\u00ea da cr\u00f4nica desta guerra que talvez nunca rompesse, se eles n\u00e3o a tivessem por forma enredado, que n\u00e3o houve mais jeito de a desatar.\n\nForam procuradores a Lisboa com boas propinas e o preciso para azeitar as molas da m\u00e1quina r\u00e9gia, seguindo no mesmo navio uma representa\u00e7\u00e3o em que o governador D. Fernando de Lencastro expunha a El-Rei a conveni\u00eancia de erigir-se o Recife em vila.\n\nDesta vez, por\u00e9m, n\u00e3o lograram os mercadores a dilig\u00eancia. Ou porque D. Pedro II de Portugal tamb\u00e9m adotasse a m\u00e1xima pol\u00edtica &#8211; uma no cravo e outra na ferradura; ou porque ainda n\u00e3o se tinha de todo apagado na corte lusitana a mem\u00f3ria do hero\u00edsmo pernambucano na restaura\u00e7\u00e3o da capitania, resolveu Sua Majestade pela carta r\u00e9gia de 28 de janeiro de 1700 que de maneira alguma se devia por em pr\u00e1tica esse arb\u00edtrio de separar o Recife da cidade de Olinda, recomendando que para conserva\u00e7\u00e3o dela, ai fizessem assist\u00eancia o governador e ministros como em repetidas ordens havia determinado.\n\nTodavia n\u00e3o esmoreceram os mercadores; desenganados de obter por enquanto a realiza\u00e7\u00e3o do primeiro intento, cuidaram de se insinuar na governan\u00e7a da terra, esperando mais tarde com a popularidade de suas doblas e patac\u00f5es, apossarem-se dos cargos principais da verean\u00e7a.\n\nHoje em dia usa-se traficar \u00e0 boca do cofre com os t\u00edtulos e as comendas, naqueles tempos menos adiantados n\u00e3o se faziam as cousas com a simplicidade moderna. Os mercadores que juntavam grosso cabedal compravam os servi\u00e7os de algum fidalgo rafado de quem se justificavam parentes com testemunhas quejandas \u00e0s que ora servem para fazer mo\u00e7o fidalgo de quatro costados a qualquer beldroegas. Com essa papelada requeriam para Lisboa um h\u00e1bito de Cristo em que se enfunavam tanto como os excelent\u00edssimos de agora.\n\nAssim besuntados dessa nobreza posti\u00e7a, julgavam-se os mais ricos dos mascates id\u00f4neos para os cargos de oficiais da C\u00e2mara. Mas sa\u00edram-lhe os pernambucanos com embargos, pela raz\u00e3o de n\u00e3o serem naturais aos quais somente competia o governo das terras, n\u00e3o podendo nela ingerirem-se forasteiros que vinham de fora buscar fortuna.\n\nDurou este pleito at\u00e9 l703 em que mandou El-Rei admitir aos pelouros todos os habitantes da cidade, sem diferen\u00e7a de naturais e vindi\u00e7os, uma vez que estivessem nas condi\u00e7\u00f5es da Ord. do liv. 1\u00ba, tit. 67, e Leis de 12 de novembro de 1611 e 6 de maio de 1649.\n\nTriunfantes com a decis\u00e3o r\u00e9gia, os mercadores empenharam quanto podiam na primeira elei\u00e7\u00e3o e conseguiram alguns oficiais e almotac\u00e9s. A conseq\u00fc\u00eancia n\u00e3o se fez esperar: armado da vara branca, o Sr. Sim\u00e3o Ribas foi taxando por pre\u00e7o excessivo tudo que vendiam os taberneiros, seus patr\u00edcios; e as frutas e v\u00edveres que traziam os matutos, p\u00f4-los a real.\n\nFoi geral o clamor em Olinda. Reunido o Senado, representou sem mais tardan\u00e7a a El-Rei mostrando o perigo de se admitirem na governan\u00e7a os forasteiros.\n\nPor essa ocasi\u00e3o lembraram os pernambucanos a El-Rei que ainda estavam pagando os chapins da Senhora Infanta D. Catarina, e portanto se devia ter alguma contempla\u00e7\u00e3o com t\u00e3o leais vassalos, n\u00e3o os privando dos poucos meios de que tiravam para se quitarem dessa finta, com sacrif\u00edcio de sua subsist\u00eancia.\n\nEssa hist\u00f3ria dos chapins merece um comento. Costumavam os reis de Portugal, quando lhes nascia filho ou casavam filha, lan\u00e7arem um tributo sobre os povos de certas cidades ou vilas a pretexto de compor-lhes o enxoval.\n\nCasando-se a Infanta D. Catarina em 1661 com Carlos II da Inglaterra coube \u00e0s possess\u00f5es do ultramar fornecer \u00e0 noiva os chapins, o que ainda estavam fazendo os pernambucanos quarenta e dois anos depois.\n\nDignos filhos daqueles pais somos n\u00f3s brasileiros que nascemos, uns para trapaceiros e outros para cangueiros. Ainda hoje o nosso bom e paternal governo finta-nos com os impostos da Guerra do Paraguai; e j\u00e1 nos amea\u00e7am com outra guerrinha de que ficou pejada aquela.\n\nAcudiu D. Pedro II a seus vassalos pernambucanos, declarando que n\u00e3o podiam servir cargos da verean\u00e7a os mercadores, visto ser esse um of\u00edcio pe\u00e3o, na conformidade das leis do reino; depois, entrando a governar como regente na mol\u00e9stia de seu pai a Infanta D. Catarina, Rainha de Gr\u00e3-Bretanha, a tal senhora dos chapins, aproveitou a ocasi\u00e3o para agradecer a condescend\u00eancia dos pernambucanos.\n\nPela provis\u00e3o de 8 de.maio de 1705 declarou que por mercadores se havia de entender unicamente os que assistissem de loja aberta, vendendo, medindo e pesando ao povo.\n\nSendo em n\u00famero limitado os mercadores de grosso cabedal que j\u00e1 se n\u00e3o ocupavam com o meneio de seus neg\u00f3cios, mercando no balc\u00e3o ou trapiche, ficaram os de Olinda t\u00e3o superiores ainda, que j\u00e1 n\u00e3o podiam temer-se dos contendores na elei\u00e7\u00e3o.\n\nQuanto aos mascates, essa \u00faltima derrota n\u00e3o fez sen\u00e3o aferr\u00e1-los ainda mais \u00e0 primeira id\u00e9ia da separa\u00e7\u00e3o,. na qual desde ai trabalharam sem descanso, dispondo na capitania, como na metr\u00f3pole, os elementos para o favor\u00e1vel despacho de sua pretens\u00e3o.\n\nFoi nestas circunst\u00e2ncias que a 9 de junho de 1707 tomara conta do governo da capitania Sebasti\u00e3o de Castro Caldas.\n\nComo de costume, os nobres de Olinda e os mercadores do Recife porfiaram em obsequiar o novo governador \u00e0 sua chegada, com a mira de ganh\u00e1-lo a seu partido. Durou mais de ano essa cortesia hospitaleira, pelo jeito com que soube o fidalgo trazer ambas as parcialidades embaladas em esperan\u00e7as.\n\nA sali\u00eancia do car\u00e1ter pol\u00edtico de D. Sebasti\u00e3o de Castro Caldas era uma suscetibilidade de proemin\u00eancia. Elevado ao alto posto de capit\u00e3o-general de Pernambuco, sob uma apar\u00eancia de filosofia e abnega\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o tolerava em torno de sua pessoa vultos que pudessem disputar-lhe uma parcela m\u00ednima do respeito e at\u00e9 mesmo do embaimento p\u00fablico.\n\nQualquer superioridade fazia-lhe sombra, e sua preocupa\u00e7\u00e3o incessante era abat\u00ea-la, n\u00e3o derrocando-a, pois era avesso ao estrondo e a viol\u00eancia, mas aluindo-a aos poucos. Essa obra subterr\u00e2nea, seu esp\u00edrito a prosseguia com uma tenacidade fria e inflex\u00edvel, apesar da indecis\u00e3o e maleabilidade de que pareciam envoltos os seus atos.\n\nSe algum homem granjeava por seu merecimento a estima geral, cuidava logo D. Sebasti\u00e3o de o chamar a si, n\u00e3o s\u00f3 para que aos olhos da gente essa eleva\u00e7\u00e3o parecesse mero efeito de uma liberalidade que ele podia retirar quando lhe aprouvesse, como para respirar o puro incenso das almas superiores. Al\u00e9m de que assim ficavam-lhe essas papoilas a jeito de ceifar.\n\nDesde os primeiros tempos que atrav\u00e9s das mostras de respeito e termos corteses sentiu o governador a t\u00eampera do car\u00e1ter altivo e independente dos pernambucanos, os quais prezando-se de s\u00faditos leais, tinham o nobre e leg\u00edtimo orgulho de haverem pelo esfor\u00e7o de seu bra\u00e7o restitu\u00eddo \u00e0 coroa portuguesa esse importante estado ultramarino.\n\nBrios e escr\u00fapulos eram asperezas que arranhavam a c\u00fatis moral de Sebasti\u00e3o de Castro. Ele n\u00e3o se acomodava sen\u00e3o com as almas fl\u00e1cidas e d\u00facteis, que tomam todas as fei\u00e7\u00f5es e prestam-se \u00e0 guisa de pelica para uma luva como para um chinelo. Destas gostava de apossar-se, a ponto de torn\u00e1-las ader\u00eancias da sua.\n\nDe tal quilate, n\u00e3o faltavam exemplares entre os mascates, pois o balc\u00e3o era o ber\u00e7o onde se criavam, como o dinheiro o leite de que se amamentavam. Por isso, continuando a favonear a nobreza, o novo governador prelibava o suave prazer de fazer do Recife um espinho para crav\u00e1-lo no orgulho de Olinda.\n\nEm segredo representou a El-Rei mostrando a urg\u00eancia da separa\u00e7\u00e3o do Recife; e t\u00e3o avisadas foram suas raz\u00f5es que, finalmente, por carta r\u00e9gia de 19 de novembro de 1709 foi criada a vila.\n\nDigamos em abono da verdade que foi essa uma medida de toda justi\u00e7a. O Recife, a primeira pra\u00e7a de guerra do Estado do Brasil, como se pode ver do invent\u00e1rio feito em 1654, ao tempo da sua evacua\u00e7\u00e3o e entrega pelos holandeses; o ponto comercial mais importante ao norte do Cabo de Santo Agostinho, com uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de oito mil almas, e as melhorias que lhe tinham ficado do dom\u00ednio flamengo quando era corte do Conde de Nassau; o Recife n\u00e3o devia com a restaura\u00e7\u00e3o ter perdido o seu t\u00edtulo de cidade.\n\nMas apesar de todas estas raz\u00f5es pol\u00edticas, Sebasti\u00e3o de Castro descobriria alguma conveni\u00eancia para adiar a cria\u00e7\u00e3o da vila, se n\u00e3o estivesse nisso empenhado o seu amor-pr\u00f3prio.\n<h4><strong><a id=\"p23\" name=\"p23\"><\/a>CAP\u00cdTULO III<\/strong><\/h4>\n<strong>ONDE SE LOBRIGA O VULTO DO BISBILHOTEIRO QUE ESCREVEU O ALFARRABIO\nENCONTRADO PELO SACRIST\u00c3O<\/strong>\n\nA cria\u00e7\u00e3o da vila do Recife, t\u00e3o porfiada pelos mercadores, devia ser o desfecho dessa contenda em que os dois povos rivais andavam empenhados, havia mais de dez anos.\n\nCom outro governador assim teria acontecido; mas com Sebasti\u00e3o de Castro n\u00e3o passou de uma fase nova da luta, que tornou-se mais ardente pelo despeito de um partido e a arrog\u00e2ncia de outro.\n\nA indigna\u00e7\u00e3o dos moradores de Olinda, quando entre eles estourou a nova como uma bomba fulminante, n\u00e3o guardou termo e prorrompeu em amea\u00e7as e assuadas. O que mais revoltava aos pernambucanos era a falsa f\u00e9 com que o governador, adormecendo-os na confian\u00e7a inspirada por palavras insinuantes, havia sorrateiramente obtido do conselho ultramarino a separa\u00e7\u00e3o do Recife.\n\nEm verdade era completa a seguran\u00e7a dos pernambucanos. Conversando o velho Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti uma tarde em pal\u00e1cio com o governador, e trazendo a pr\u00e1tica para o ponto que mais lhe interessava, teve em resposta estas formais palavras: -&#8220;Sobre este particular pode ficar descansado, senhor capit\u00e3o-mor. O Recife, pelo que ouvi em Lisboa, t\u00e3o cedo n\u00e3o ser\u00e1 vila.&#8221;\n\nEstas palavras, referiu-as textualmente Jo\u00e3o Cavalcanti aquela mesma noite, no ser\u00e3o costumado, e ningu\u00e9m houve que se n\u00e3o tranq\u00fcilizasse com o penhor dado por Sebasti\u00e3o de Castro ao venerando anci\u00e3o. N\u00e3o conheciam ainda a polpa do homem que os governava.\n\nNo meio do geral espanto, causado pela noticia, interrogavam-se todos acerca daquela promessa; e os principais acercavam-se do capit\u00e3o-mor para ouvir dele os pormenores do caso e a repeti\u00e7\u00e3o fiel da assevera\u00e7\u00e3o do governador.\n\nN\u00e3o ocorria ao velho fidalgo que pudesse algu\u00e9m duvidar de sua palavra; mas incomodava-o a s\u00f3 id\u00e9ia de haverem faltado \u00e0 f\u00e9 por ele assegurada. Al\u00e9m de que essa f\u00e9 tamb\u00e9m lhe fora dada a ele por quem se prezava de cavalheiro e como cavalheiro lhe devia contas severas.\n\nRecobrando um assomo do antigo vigor, montou o capit\u00e3o-mor a cavalo e sem mais acompanhamento do que um pajem, deitou-se a galope para o pal\u00e1cio do Recife onde estava o governador inquieto com o alvoroto de Olinda.\n\nNessas ocasi\u00f5es em que se embrulhava a pol\u00edtica, se n\u00e3o mente a cr\u00f4nica, o f\u00edgado de Sebasti\u00e3o de Castro, como o de C\u00e9sar, sofria a repercuss\u00e3o do abalo moral; mas a b\u00edlis, prontamente corrigida, nunca perturbava a fleuma desse organismo.\n\nJ\u00e1 \u00e0quela hora andava o Ajudante Negreiros num corrupio, despejando ordens pelos fortes e quart\u00e9is, enquanto o governador em confer\u00eancia com o Secret\u00e1rio Barbosa de Lima combinava nos panos quentes e cataplasmas com que se devia acudir ao desmancho.\n\nPressuroso saiu Sebasti\u00e3o de Castro ao encontro do capit\u00e3o-mor a quem recebeu com desusada afabilidade, mas com isso n\u00e3o desarmou a carranca do velho, que foi direito e rijo ao ponto.\n\nN\u00e3o podia o governador ocultar a parte que tivera na cria\u00e7\u00e3o da vila, pois a carta r\u00e9gia se referia positivamente \u00e0 sua informa\u00e7\u00e3o; mas ainda quando houvessem omitido essa circunst\u00e2ncia, n\u00e3o a negaria ele. Em sua opini\u00e3o a mentira \u00e9 um expediente grosseiro, que somente empregam os esp\u00edritos frouxos e indolentes.\n\nOuvida a queixa, se n\u00e3o amarga exprobra\u00e7\u00e3o do velho Cavalcanti, respondeu-lhe o governador sem alterar-se:\n\n&#8211; O que disse ao senhor capit\u00e3o-mor e mantenho, foi ter ouvido em Lisboa a quem o devia saber, a assevera\u00e7\u00e3o de que t\u00e3o cedo n\u00e3o seria vila o Recife.\n\n&#8211; Mas n\u00e3o se dir\u00e1&#8230;\n\nImpetuoso como sempre interrompera Jo\u00e3o Cavalcanti ao fidalgo para retrucar-lhe sobre a contradi\u00e7\u00e3o de seu procedimento. Atalhou-o o governador:\n\n&#8211; Quanto a haver eu representado em favor da cria\u00e7\u00e3o da vila, compreende o senhor capit\u00e3o-mor, como cavalheiro que \u00e9 e leal s\u00fadito, que eu faltaria ao meu dever de governador desta capitania, n\u00e3o informando a El-Rei das necessidades da terra, para que Sua Majestade as proveja de rem\u00e9dio. Nem podia deter-me neste particular o muito que me merece a nobreza, pois contava infal\u00edvel o indeferimento.\n\nOs C\u00e9sares modernos que se deixam vencer pelos ministros quando lhes conv\u00e9m enfeitar-se de suas lentejoulas democr\u00e1ticas, n\u00e3o responderiam com maior dignidade e abnega\u00e7\u00e3o a algum favorito sacrificado: &#8220;Sou seu amigo, mas lembre-se que tamb\u00e9m sou rei constitucional.&#8221; O que em g\u00edria cortes\u00e3 quer dizer: &#8220;Se agora para guardar as apar\u00eancias fui obrigado a despedi-lo como um importuno, com jeito posso faz\u00ea-lo sota-rei mais tarde.&#8221;\n\n&#8211; O caso \u00e9 que os mascates lograram afinal o que em dez anos n\u00e3o puderam.\n\nEstas palavras soltou-as o capit\u00e3o-mor com um tom morno, pois dissipado o primeiro assomo, j\u00e1 se lhe relaxava a fibra.\n\nSorriu-se o governador:\n\n&#8211; Lograriam&#8230;? disse ele com uma entona\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se podia afirmar se era de interroga\u00e7\u00e3o, se de retic\u00eancia.\n\n&#8211; Pois Vossa Excel\u00eancia ainda o p\u00f5e em d\u00favida? exclamou o capit\u00e3o-mor.\n\n&#8211; Por linhas tortas escreve-se direito, em havendo arte.\n\n&#8211; Confesso que n\u00e3o atino.\n\n&#8211; Mandou-me El-Rei criar vila no Recife; mas a vila n\u00e3o est\u00e1 criada, e pode bem ser que se n\u00e3o chegue a criar; entretanto que, embalados nesta esperan\u00e7a, os mercadores se aquietar\u00e3o.\n\n&#8211; L\u00e1 diz o ditado &#8211; &#8220;que entre a boca e a m\u00e3o vai o bocado ao ch\u00e3o.&#8221; E assim acontecer\u00e1 se tivermos por n\u00f3s a Vossa Excel\u00eancia que em respeito a seus bras\u00f5es, como grande fidalgo, se deve \u00e0 nossa causa que \u00e9 a da nobreza contra a ral\u00e9.\n\n&#8211; Neste posto de governador, devo-me a El-Rei primeiro, e aos povos depois, sem distin\u00e7\u00e3o de nobreza e peonagem. Mas n\u00e3o careceis de escudo, com os t\u00edtulos que tendes. Do que precisais \u00e9 de modera\u00e7\u00e3o e toler\u00e2ncia para atrair \u00e0 nobreza pessoas abastadas e preponderantes.\n\n&#8211; N\u00e3o se costuma entre n\u00f3s, senhor governador, repelir os que v\u00eam como amigos, ainda quando n\u00e3o trazem cabedais, que merc\u00ea de Deus n\u00e3o cobi\u00e7amos.\n\n&#8211; Ser\u00e1 ent\u00e3o falso quanto me referiram?\n\n&#8211; Ignoro o que fosse.\n\n&#8211; Que o alferes Vital Rebelo requesta uma sobrinha vossa, a qual lhe corresponde ao afeto; mas v\u00f3s, ou os vossos, a tendes por modo defesa, que ao valente namorado custa-lhe um assalto d&#8217;armas cada vez que se avista de longe com a formosa dama?\n\n&#8211; H\u00e1 raz\u00f5es particulares, respondeu Jo\u00e3o Cavalcanti reservado.\n\n&#8211; Estas raz\u00f5es, senhor capit\u00e3o-mor, s\u00e3o desarrazoadas. Se o pai de Vital Rebelo ficou senhor do engenho e mais haveres do finado Lu\u00eds Barbalho, marido de vossa sobrinha, mais pela prodigalidade deste do que pela usura daquele, que melhor meio de reparar esse rev\u00e9s da fortuna do que devolver por rima acertada alian\u00e7a, ao casal donde sa\u00edram os bens dissipados?\n\nCalou-se o capit\u00e3o-mor.\n\n&#8211; Que dizeis a isto? insistiu o governador.\n\n&#8211; Digo que pode bem ser esteja a raz\u00e3o da parte de Vossa Excel\u00eancia.\n\n&#8211; Neste caso, por que n\u00e3o ma d\u00e1 o senhor capit\u00e3o-mor fazendo o que lhe aconselho?\n\n&#8211; \u00c9 do agrado do senhor governador o casamento?\n\n&#8211; Penso, respondeu o governador elevando a voz como para acentuar melhor o seu alvitre, que ser\u00e1 de grande proveito ao partido e \u00e0 fam\u00edlia a alian\u00e7a de sua sobrinha D. Leonor Barbalho com Vital Rebelo, pois \u00e9 este, al\u00e9m de cavalheiro de muitas prendas, homem de dotes superiores.\n\nDesde algum tempo, que um dos toma-larguras do pal\u00e1cio andava rondando s\u00f4frego de bispar alguma cousa da pr\u00e1tica. N\u00e3o escapou-lhe uma s\u00f3 das \u00faltimas palavras do governador, que alteara a voz a talho de ser escutado.\n\nNessa mesma tarde Vital Rebelo sabia do que a seu respeito dissera o governador.\n\nFoi extrema a surpresa do mancebo.\n\nApesar de filho de mercador e partid\u00e1rio do Recife, n\u00e3o era ele dos que estavam nas boas gra\u00e7as de Sebasti\u00e3o de Castro; bem ao contrario, tinha impulsos de dignidade e altivez que deviam beliscar o orgulho do fidalgo.\n\nAssim n\u00e3o lhe dava excel\u00eancia, tratamento que n\u00e3o competia aos governadores, mas que eles recebiam de todos com prazer em vez da chata senhoria, havendo-os que o impunham de preceito, bem como outras cortesias a que n\u00e3o podiam pretender, pois eram prerrogativas da majestade.\n\nGuardando ao governador a rever\u00eancia que julgava devida, o alferes cortejava-o com o chap\u00e9u quando o encontrava, mas n\u00e3o ficava de cabe\u00e7a ao tempo, como usava a gente principal, que n\u00e3o se cobria nem voltava as costas estando ele presente e at\u00e9 o perder de vista.\n\nTamb\u00e9m n\u00e3o era Vital ass\u00edduo em pal\u00e1cio onde compareciam habitualmente todos os que tinham oficio p\u00fablico ou posto de mil\u00edcia e ordenan\u00e7as. Alguma vez que l\u00e1 ia de longe em longe, levava&lt;) mera urbanidade e n\u00e3o lisonja.\n\nPassava Sebasti\u00e3o de Castro por fil\u00f3sofo e desabusado acerca dessas maneiras palacianas. do que muito se lastimavam os oficiais de sala, ent\u00e3o como agora mais realistas do que o rei. Todavia nunca se lembrou o fidalgo de acabar com tais pr\u00e1ticas, no que bem mostrava n\u00e3o lhe serem desagrad\u00e1veis e menos inc\u00f4modas.\n\nMas por cima dessas esquisitices veniais, tinha Vital Rebelo pecado mortal. Uma ou outra vez em discurso com o pr\u00f3prio Sebasti\u00e3o de Castro, e muitas nas pr\u00e1ticas dos mercadores, chegara a dizer que os governadores abusavam do, seu regimento, j\u00e1 ingerindo-se nas cousas de justi\u00e7a, j\u00e1 provendo postos que n\u00e3o cabiam em sua al\u00e7ada.\n\nE n\u00e3o andava ele mal informado, pois ao pr\u00f3prio Sebasti\u00e3o de Castro mandou El-Rei estranhar asperrissimamente por se intrometer nos neg\u00f3cios de justi\u00e7a, e tamb\u00e9m por exigir que a C\u00e2mara de Olinda lhe desse o tratamento de Senhor, a igual da majestade. Prova isto que o rei-povo \u00e9 menos que o rei-s\u00f3 zeloso de suas prerrogativas, e mais bonach\u00e3o com seus governadores e ministros.\n\nCom tais antecedentes n\u00e3o havia reparar na surpresa de Rebelo ao saber do conceito em que o tinha Sebasti\u00e3o de Castro e do empenho que tomava pela realiza\u00e7\u00e3o do mais ardente voto de sua alma.\n\n&#8211; Fui injusto! \u00c9 homem de \u00e2nimo generoso, e um nobre cora\u00e7\u00e3o! disse o mancebo penhorado da fineza.\n\nHavia ent\u00e3o no Recife um letrado que vivia dos provar\u00e1s, por\u00e9m mais da rigorosa economia, a que se acostumara. Chamava-se Carlos de En\u00e9ia e era homem de meia-idade, metido consigo, que o mais do tempo levava a rabiscar papel.\n\nH\u00e1 suspeitas de que seja o inc\u00f3gnito autor da cr\u00f4nica manuscrita donde extra\u00edram-se estas mem\u00f3rias, e na qual porventura se refugiava o advogado do nojo pelas mis\u00e9rias p\u00fablicas que o rodeavam.\n\nFora En\u00e9ia algum tempo secret\u00e1rio de Sebasti\u00e3o de Castro, quando este governara o Rio de Janeiro, bem que n\u00e3o se demorara no cargo, pois ele, como de D. Jo\u00e3o de Castro disse Jacinto Freire, &#8220;podiam sofr\u00ea-lo como vassalo, mas n\u00e3o como criado&#8221;.\n\nDo pouco tempo de servi\u00e7o lhe ficara larga experi\u00eancia do natural de Sebasti\u00e3o de Castro, de quem algumas vezes costumava dizer: &#8220;que era var\u00e3o insigne, por\u00e9m no posto a que o subira a fortuna, andava desencontrado, desgovernando tudo pela \u00e2nsia de muito governar&#8221;.\n\nLigava Rebelo ao letrado uma afei\u00e7\u00e3o que nascera da conformidade no temperamento de suas almas. Estando \u00e0 noite com o amigo, referiu-lhe o alferes o ocorrido, mostrando-se rendido \u00e0 galhardia de Sebasti\u00e3o de Castro.\n\nSorriu-se En\u00e9ia, citando um verso de S\u00edrus:\n\n&#8211; Nisi qui sit facere, insidias nescit metuere.\n\n&#8211; Que queres dizer com isto? tornou Vital.\n\n&#8211; Que v\u00eas a imagem alheia no espelho de tua alma; mas eu, que a vejo \u00e0 luz da experi\u00eancia, descubro sombras que te escapam.\n\n&#8211; E quais s\u00e3o elas, n\u00e3o me dir\u00e1s?\n\n&#8211; O elogio \u00e9 um meio muito usado, mas sempre novo, de render a vaidade; e neste caso tem outra serventia, qual \u00e9 convencer-te da gentileza de quem os faz. Se at\u00e9 agora nutrias uma preven\u00e7\u00e3o contra Sebasti\u00e3o de Castro, de hoje avante vai ele tentar-te pela mais perigosa das sedu\u00e7\u00f5es, que \u00e9 a da virtude. Acatando nele, j\u00e1 revestido das dignidades do governo, um modelo de honradez e s\u00edmbolo de justi\u00e7a, que n\u00e3o exigir\u00e1 de tua venera\u00e7\u00e3o que tenhas for\u00e7a para recusar? Ser\u00e3o em come\u00e7o cousas de pouca monta que n\u00e3o assustar\u00e3o teus escr\u00fapulos; mas esse caminho \u00e9 assim talhado, que em trope\u00e7ando nele, j\u00e1 ningu\u00e9m se pode erguer, e para subir n\u00e3o h\u00e1 outro jeito sen\u00e3o ir de rastos ou \u00e0s gatinhas.\n\n&#8211; Estou \u00e0 prova! disse Vital com sobranceria.\n\n&#8211; Ainda n\u00e3o; por ora pertences ao amor, que \u00e9 capaz de todos os raptos e entusiasmos como de todas as loucuras, que faz her\u00f3i ao cobarde e m\u00e1rtir ao ego\u00edsta. \u00c9 na idade da ambi\u00e7\u00e3o que se prova a t\u00eampera aos homens.\n\n&#8211; E qual \u00e9 essa idade? N\u00e3o dir\u00e1s que seja a tua, pois nela te condenas ao esquecimento.\n\n&#8211; N\u00e3o se trata de mim, que j\u00e1 n\u00e3o perten\u00e7o ao mundo, nem cuido sen\u00e3o de mirrar a m\u00famia deste esp\u00edrito para deix\u00e1-la \u00e0 posteridade. N\u00e3o que eu creia nisso que se chama pomposamente a justi\u00e7a da hist\u00f3ria; mas creio no sarcasmo retrospectivo do futuro; creio no desprezo p\u00f3stumo pelas torpezas que j\u00e1 n\u00e3o aproveitam, e nessa gargalhada eterna que desde o princ\u00edpio do mundo atravessa as idades fustigando como um l\u00e1tego todas as grandezas rid\u00edculas e grotescas.\n\nCaindo em si, o advogado reprimiu esse rasgo, como homem que j\u00e1 n\u00e3o permitia \u00e0 sua palavra austera as flores da eloq\u00fc\u00eancia:\n\n&#8211; E eu a falar de mim, quando \u00e9 de ti e do governador que me devo ocupar! Quer-te ele casado&#8230;\n\n&#8211; Tamb\u00e9m entra nisso um plano? perguntou Rebelo gracejando.\n\n&#8211; E o mais perigoso. Mo\u00e7o, rico, benquisto, brioso, ornado de prendas t\u00e3o luzidas que o pr\u00f3prio Sebasti\u00e3o de Castro n\u00e3o as pode esconder, \u00e9s um manjar de rei. Tua altivez j\u00e1 passa a esc\u00e2ndalo e faz sombra em pal\u00e1cio. Neste momento n\u00e3o tem o governador com que fascine teu cora\u00e7\u00e3o de namorado. Suas ins\u00edgnias de capit\u00e3o-general n\u00e3o valem para ti o requebro d&#8217;olhos e o sorriso de tua dama. Mas casado e com uma fidalga de Olinda, tu, mercador e filho de mercador, podes responder por tua isen\u00e7\u00e3o?\n\n&#8211; Juro-te que sim; e se me conhecesses, n\u00e3o o duvidarias.\n\n&#8211; N\u00e3o te conhece ele, e por isso espera que tua mulher ser\u00e1 a chave com que os Cavalcantis te abrir\u00e3o a consci\u00eancia e se apossar\u00e3o dela at\u00e9 fazerem de ti uma criatura sua. Eis por que Sebasti\u00e3o de Castro se empenha por teu casamento.\n\n&#8211; Tenho na melhor estima\u00e7\u00e3o o teu voto em tudo, mas neste ponto cuido que exageras a habilidade do homem; n\u00e3o o suponho capaz de tal arg\u00facia, e nisso fa\u00e7o menos justi\u00e7a \u00e0 sua virtude, do que ao seu engenho.\n\nEstavam os dois amigos no gabinete do advogado, que seguia a pr\u00e1tica andando de um a outro lado. Passava ele por diante da livraria e acertou de cair-lhe sob os olhos um volume.\n\n&#8211; Conheces este livro? perguntou apontando o r\u00f3tulo com o \u00edndex.\n\n&#8211; O Pr\u00edncipe?\n\n&#8211; Anda em moda compar\u00e1-lo com Sebasti\u00e3o de Castro; e j\u00e1 ouvi de algu\u00e9m, que o governador n\u00e3o era sen\u00e3o o livro encadernado em pergaminho humano. Com essa maledic\u00eancia cuidam deprimi-lo, e o absolvem. Maquiavel foi o pol\u00edtico de seu tempo, como este o \u00e9 de sua escola. Observa-se em ambos a estranha fus\u00e3o das m\u00e1ximas severas da moral com os manejos de uma ast\u00facia desabusada. Agora a dedica\u00e7\u00e3o ao bem p\u00fablico; logo ap\u00f3s um frio ego\u00edsmo. A raz\u00e3o disto, querem sab\u00ea-la? \u00c9 que para eles, que t\u00eam os povos em conta de crian\u00e7as, pois os conheceram assim, o governo do Estado n\u00e3o \u00e9 outra cousa sen\u00e3o a arte de enganar os homens para o bem de todos.\n\nEssa convic\u00e7\u00e3o robusta n\u00e3o deixou de abalar o mancebo, que movido em parte dela e em parte da defer\u00eancia com que tratava ao amigo, disse-lhe em ato de despedir-se:\n\n&#8211; Que me aconselhas ent\u00e3o?\n\n&#8211; Nada. Segue teu caminho; ser\u00e1s iludido por tua vez e aprender\u00e1s \u00e0 tua custa. Aqui h\u00e1s de tornar cedo, porque n\u00e3o \u00e9s dos que aprendem a grimpar e se agacham para subir.\n<h4><strong><a id=\"p24\" name=\"p24\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV<\/strong><\/h4>\n<strong>SISTEMA DE NAMORO QUE A POLICIA N\u00c3O CONSENTIRIA NOS TEMI&#8217;OS DE AGORA<\/strong>\n\nFoi um dia de Corpo de Deus que Vital Rebelo viu a primeira vez D. Leonor, e ali ficou preso de seus encantos.\n\nA gentil donzela, debru\u00e7ada ao balc\u00e3o da janela, acompanhava com os olhos a prociss\u00e3o que passava nesse momento; e o mancebo parado defronte enlevou-se na contempla\u00e7\u00e3o de seu formoso semblante.\n\nQuis o acaso que um la\u00e7o de fita se desprendesse do toucado da donzela e ca\u00edsse na rua alcatifada de lamb\u00e9is. Correu pressuroso o namorado mancebo a apanh\u00e1-la, e beijando-o cortesmente com os olhos na dama, pregou-o ao peito do gib\u00e3o como uma divisa.\n\nAcompanhara Leonor com a vista ao seu tope azul at\u00e9 o momento de o levar aos l\u00e1bios o cavalheiro; ent\u00e3o uma onda de rubor lhe subiu ao rosto. Foi quando tornou a si desse desmaio que reparou a furto no galante cavalheiro, e n\u00e3o se p\u00f4de esquivar de ach\u00e1-lo gentil e airoso.\n\nMas, agastada pela vergonha que lhe causava, n\u00e3o rep\u00f4s nele os lindos olhos negros, ainda que n\u00e3o deixou de volver-lhe uma e muitas vezes a vista de relance.\n\nNessa hora decidiu-se o destino de Vital Rebelo.\n\nOutras donzelas tinham o Recife e Olinda, e das mais formosas, que suspiravam entre as persianas do balc\u00e3o vendo passar no seu garboso ginete o prendado mancebo, e cuja m\u00e3o de esposa bastaria um desejo seu para obt\u00ea-la.\n\nMas havia ele de prender-se \u00e0queles negros olhos, que, se lhe prometiam meigos rendimentos, deviam custar-lhe tantas \u00e2nsias e afli\u00e7\u00f5es, como lhe estavam reservadas na triste sina de amante, que depois de esposo, tornou ao que era, por\u00e9m desventurado.\n\nDesde aquela tarde de Corpo de Deus avistou-se Vital muitas vezes com Leonor, ou no bak\u00e3o da casa, ou na S\u00e9 em hora de missa, ou na rua por entre as cortinas do palanquim; e parecia-lhe que de cada vez se apagava aquela esquivan\u00e7a, como que de princ\u00edpio fugiam os olhos da donzela de encontrarem-se com os seus.\n\nUma tarde em que ficou a donzela s\u00f3 por um instante no balc\u00e3o, Vital, que andava espreitando essa ocasi\u00e3o, chegou a todo o galope do ginete, o qual ao manejo do destro cavalheiro empinou-se quase direito apoiando as patas na parede.\n\nBaixos como eram naquele tempo os andares, pode o \u00e1gil mancebo erguer-se na sela a jeito de oferecer a Leonor um cravo encarnado menos formoso todavia que os dois abertos \u00e0quele instante nas aveludadas faces da donzela.\n\nN\u00e3o se animava a t\u00edmida mo\u00e7a a tomar a flor da m\u00e3o do cavalheiro, e foi preciso que este lha deixasse na manga do vestido que abria-se em volta do mimoso bra\u00e7o, como a folha a cingir o c\u00e1lice do l\u00edrio.\n\nNesse momento assomou \u00e0 janela Andr\u00e9 de Figueiredo, que suspeitoso observara de dentro a ousadia do cavalheiro e a indulg\u00eancia da dama. Lan\u00e7ando m\u00e3o \u00e0 flor arremessou-a contra o rosto de Vital, enquanto com o bra\u00e7o esquerdo arredava a sobrinha da janela, falando-lhe de um modo \u00e1spero:\n\n&#8211; Recolha-se, Leonor!\n\nEntretanto Rebelo que apanhara a flor no ar, trouxe outra vez o brioso ginete contra a parede.\n\nEnt\u00e3o com admir\u00e1vel agilidade alcan\u00e7ou o parapeito do balc\u00e3o e saltou na janela, ao lado de Figueiredo.\n\nQuando este apercebeu-se do lance, estava sujigado \u00e0 portada pela m\u00e3o robusta de Rebelo, que desembainhando a adaga disse para Leonor:\n\n&#8211; Tomai-me este cravo, senhora, e prendei-o ao peito de vosso justilho, por que se o deixais cair, \u00e0 f\u00e9 de Deus e da muita adora\u00e7\u00e3o que me mereceis, juro-vos que o plantarei no cora\u00e7\u00e3o deste cavalheiro com a ponta de meu punhal.\n\nLeonor espavorida obedeceu maquinalmente, e Rebelo, deixando o capit\u00e3o ainda sufocado da gargantilha viva que lhe cerrara o pesco\u00e7o, saltou na sela e afastou-se a galope.\n\nT\u00e3o r\u00e1pida correu esta fa\u00e7anha, que j\u00e1 o alferes desaparecera no fim da rua quando Andr\u00e9 de Figueiredo se debru\u00e7ava na sacada furioso, com os dentes a ranger e os l\u00e1bios tr\u00eamulos de ira.\n\nEstava temeroso assim o capit\u00e3o, que j\u00e1 de si era, ainda mesmo em sossego, de aspecto duro e carrancudo. Dobrando a meio sobre o parapeito a alta estatura, devorava com o fero olhar o espa\u00e7o em busca de Vital.\n\nEra Leonor filha \u00fanica de D. Ant\u00f4nia de Figueiredo, a qual depois da morte de seu marido Lu\u00eds Barbalho de Vasconcelos, viera habitar nas casas do irm\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo, onde tamb\u00e9m morava sua irm\u00e3 vi\u00fava, D. Louren\u00e7a de Holanda.\n\nFoi essa fam\u00edlia um ramo dos Holandas, a cujo tronco se prendia por Agostinho de Holanda Vasconcelos, terceiro filho var\u00e3o de Arnault de Holanda, que fundou em Pernambuco essa linhagem, casando-se com D. Brites Mendes de Vasconcelos.\n\nPelo casamento de Crist\u00f3v\u00e3o de Holanda, primeiro filho var\u00e3o de Arnault de Holanda com D. Catarina de Albuquerque, filha de Filipe Cavalcanti, fidalgo florentino, come\u00e7ou a alian\u00e7a das tr\u00eas casas dos Holandas, Cavalcantis e Albuquerques, a qual da\u00ed em diante se foi ainda mais estreitando com o volver dos tempos por novas uni\u00f5es.\n\nCom a morte do pai de Leonor, tomara-lhe a autoridade o Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo, como cabe\u00e7a da fam\u00edlia; pois al\u00e9m de tr\u00eas irm\u00e3s, ainda tinha de dois irm\u00e3os mais mo\u00e7os, o Tenente Ant\u00f4nio Tavares de Holanda e o bacharel Jos\u00e9 Tavares de Holanda, que j\u00e1 encontramos \u00e0 ceia do capit\u00e3o-mor.\n\nDeixou o finado Lu\u00eds Barbalho em pobreza mulher e filha, tendo-lhe devorado o jogo tudo quanto p\u00f4de apurar de seu patrim\u00f4nio e da fazenda que levara-lhe a esposa, pois para acudir \u00e0s perdas e d\u00edvidas de honra, fez barato das suas propriedades.\n\nO capit\u00e3o-mor que porventura poderia, com a autoridade dos anos e da chefia, p\u00f4r cobro a esse desmando, abstinha-se, apesar dos rogos da sobrinha D. Ant\u00f4nia de Figueiredo, m\u00e3e de Leonor.\n\nFoi sempre o jogo uma das fidalguias dos Cavalcantis; por isso o velho pecador, que n\u00e3o era homem de pregar como Frei Tom\u00e1s, desconversava o caso.\n\nSucedeu que os pr\u00e9dios queimados por Lu\u00eds Barbalho fossem comprados, uns diretamente e outros em segunda m\u00e3o, por Manuel Rebelo, pai de Vital e negociante de grande giro, que havendo acumulado cabedal, n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de dar-lhe seguro e vantajoso emprego.\n\nOutro, se ele n\u00e3o se propusesse, haveria os bens e por mais vil pre\u00e7o. N\u00e3o obstante, aquela coincid\u00eancia fortuita tornou-se crime aos olhos dos parentes propensos a buscar um bode expiat\u00f3rio para as culpas de seu conjunto.\n\nAinda Vital n\u00e3o era conhecido de Leonor, que j\u00e1 esta aprendera da m\u00e3e a abomin\u00e1-lo, como o herdeiro, no nome e no rancor, do usur\u00e1rio que arruinara seu pai, reduzindo \u00e0 extrema pobreza sua casa. Mas estas sementes de malqueren\u00e7a em cora\u00e7\u00e3o de menina s\u00e3o arriscadas, porque em vez dos abrolhos, acontece as mais das vezes brotarem rosas.\n\nJ\u00e1 se v\u00ea que Andr\u00e9 de Figueiredo n\u00e3o podia ver de boa sombra que sua sobrinha fosse requestada por um Rebelo, que al\u00e9m de p\u00edfio mercador, indigno de levantar os olhos para uma descendente dos Holandas e dos Cavalcantis, era figadal inimigo da fam\u00edlia.\n\nN\u00e3o disfar\u00e7ara Rebelo os obst\u00e1culos com que tinha de afrontar-se o seu afeto; e todavia n\u00e3o se abateu o \u00e2nimo esfor\u00e7ado.\n\nSua condi\u00e7\u00e3o de homem sem nascimento, ele a aceitara como uma injusti\u00e7a da sociedade; e desde muito mo\u00e7o foi seu timbre destruir essa barreira que os preju\u00edzos antepunham \u00e0s nobres e leg\u00edtimas aspira\u00e7\u00f5es de sua alma.\n\nPodia como outros comprar um h\u00e1bito de Cristo ou algum of\u00edcio dos que traziam nobreza. Mas sua fidalguia, n\u00e3o a queria ele mercada e somente conquistada por seus feitos. Assim foi que adquiriu todas as prendas e gentilezas de cavalheiro, e com tal realce, que n\u00e3o havia nobre em Pernambuco sen\u00e3o em todo o reino, capaz de lhe disputar a primazia em qualquer exerc\u00edcio de corpo ou de esp\u00edrito.\n\nDa\u00ed provinha o seu justo orgulho de se haver feito a si pr\u00f3prio grande fidalgo, sem necessidade de bras\u00e3o e linhagens, pelo \u00fanico est\u00edmulo de seus brios generosos. E tinha um pressentimento de que sua Leonor o estimaria mais assim, filho de suas obras, do que alapardado em rid\u00edculos pergaminhos.\n\nDesde aquela tarde do cravo, cada vez que Rebelo queria avistar-se com a dama de seus pensamentos, custava-lhe isso, como dissera o governador, um assalto d&#8217;armas ou uma batalha campal.\n\nTinha ele mensageiros que o traziam informado dos passeios de Leonor, e o avisavam das ocasi\u00f5es em que a m\u00e3e lhe consentia estar \u00e0 janela, ou a levava fora, em passeio e visitas.\n\nEnt\u00e3o corria o mancebo a Olinda, se j\u00e1 ali n\u00e3o estava oculto em casa do alvissareiro, e acompanhado de dois acostados de sua confian\u00e7a ia-se ao enconntro de Leonor, para cortej\u00e1-la com o respeito devido a uma rainha e significar-lhe com o gesto singelo da m\u00e3o esquerda sobre o cora\u00e7\u00e3o, que ela continuava a reinar ali como soberana.\n\nAs mais das vezes, antes de aproximar-se da donzela, tinha ele de romper atrav\u00e9s das espadas e adagas de Andr\u00e9 de Figueiredo e sua comitiva; outras tomava-os de surpresa, e era na retirada que se travava a peleja.\n\nNessa porfia andavam t\u00e3o tribulados amores, quando a carta r\u00e9gia da cria\u00e7\u00e3o da vila do Recife levou a pal\u00e1cio o capit\u00e3o-mor, donde resultou a interven\u00e7\u00e3o de Sebasti\u00e3o de Castro em favor dos dois amantes.\n\nBem que penhorado pela a\u00e7\u00e3o generosa do governador, n\u00e3o se deixou Rebelo afagar pela travessa esperan\u00e7a que lhe ro\u00e7ava o cora\u00e7\u00e3o com as asas verdes.\n\nSabia ele de que t\u00eampera era a soberba dos Cavalcantis, como o \u00f3dio de Andr\u00e9, de Figueiredo: n\u00e3o bastava para dobrar esse a\u00e7o o favor de algumas palavras. embora de pessoa de tamanha valia.\n\nTr\u00eas dias depois, sobre tarde, Vital Rebelo encaminhou-se a cavalo para Olinda, ansioso por ver Leonor, em cujos formosos olhos se n\u00e3o tinha mirado desde muitos dias.\n\nPassou a ponte do Varadouro, subiu a ladeira, e entrou na Rua de S\u00e3o Bento. Estava a donzela \u00e0 sacada, e debru\u00e7ou-se ao avistar o galante cavalheiro, pendendo-lhe da m\u00e3o mimosa uma c\u00e2ndida e formos\u00edssima teia de Cambray, cercada de rendas de Flandres.\n\nQuando passava o mancebo por baixo da janela, soltou-se o len\u00e7o que Vital Rebelo, recebeu na palma, beijando-o uma e muitas vezes, sobretudo nos emblemas que trazia bordados a fio de seda pelas m\u00e3os de Leonor, e eram um cravo encarnado ao qual servia de vaso um cora\u00e7\u00e3o.\n\nTornando a casa, ainda enlevado, agradecia o alferes a Sebasti\u00e3o de Castro sua ventura; pois aquela prenda. trabalhada por Leonor nas horas de saudade, n\u00e3o teria ela nem \u00e2nimo nem liberdade de oferecer-lha, se n\u00e3o houveram cessado a severidade e vigil\u00e2ncia de que a cercavam.\n\nDe feito, o que Vital n\u00e3o ousara esperar veio a realizar-se, ainda que n\u00e3o em muita relut\u00e2ncia e acerbas contesta\u00e7\u00f5es.\n\nRelatara o capit\u00e3o-mor aos principais da fam\u00edlia quanto passara em pal\u00e1cio, e para todos ficou evidente que o governador querendo proteger Vital Rebelo, por quaisquer motivos, fazia do casamento deste com Leonor a condi\u00e7\u00e3o do prometido favor de protelar a cria\u00e7\u00e3o da vila do Recife, e frustr\u00e1-la sendo poss\u00edvel.\n\nSebasti\u00e3o de Castro tinha para si que nada prometera, e ficara senhor de proceder como julgasse mais acertado de futuro, em face das circunst\u00e2ncias. Era essa uma das sutilezas do fidalgo: persuadir aos outros de empenhos que, al\u00e9m de n\u00e3o tomar, ele costumava ressalvar por umas palavras ou reservas mentais a que se n\u00e3o dava aten\u00e7\u00e3o.\n\nLargamente se discursou no sof\u00e1 acerca do que havia a fazer em tal emerg\u00eancia. Logo em princ\u00edpio preponderou o alvitre de repelir sem mais exame a possibilidade de uma alian\u00e7a degradante para a nobreza e em particular para os Cavalcantis; e as raz\u00f5es dos mais pol\u00edticos sobre a necessidade de derrogar um tanto no lustre da nobreza pernambucana para salvar-lhe a suma que eram as regalias e privil\u00e9gios, retrucavam que se n\u00e3o havia mister de tal sacrif\u00edcio, quando podiam fazer que o Senado de Olinda embargasse a execu\u00e7\u00e3o da carta r\u00e9gia obtida ob e sub-repticiamente.\n\nDestes \u00faltimos eram os mais assomados, como de raz\u00e3o, Andr\u00e9 de Figueiredo que as p\u00fablicas estima\u00e7\u00f5es juntava as particulares das afrontas recebidas, e tamb\u00e9m o ouvidor Arouche. No outro partido estava o Sargento-Mor Crist\u00f3v\u00e3o de Holanda, que era de natural brando e conciliador.\n\nAcudiu ent\u00e3o Filipe Uchoa com o seu peco de reduzir diferen\u00e7as e sugeriu o alvitre de se n\u00e3o embara\u00e7ar pelo enquanto o casamento, sem todavia aceit\u00e1-lo definitivamente, e assim ganhando-se tempo, o que era de toda import\u00e2ncia para o caso, diferia-se a dificuldade que mais tarde se resolveria como pedissem as circunst\u00e2ncias.\n\nEra o bacharel camarada de Vital Rebelo ou inculcava-se a\u00ed; mas esse favor de Sebasti\u00e3o de Castro pelo alferes estava-lhe fazendo c\u00f3cegas \u00e0 vaidade, pelo que maquinava cinzar ao governador o qual nessa bisca da pol\u00edtica era homem para dar-lhe sota e \u00e1s.\n\nT\u00e3o v\u00e1rios e encontrados pareceres, ouvia-os Jo\u00e3o Cavalcanti com semblante de juiz que pesa o pr\u00f3 e o contra. \u00c0s vezes, embora raras, cobrava esse \u00e2nimo alquebrado o vigor primitivo, e mostrava a ef\u00edgie do galhardo e leal cavalheiro que fora.\n\nTomou ele a palavra com autoridade, e todos o escutaram reverentes.\n\n&#8211; Se nesse casamento est\u00e1 o penhor de nossa vit\u00f3ria e portanto da conserva\u00e7\u00e3o de Olinda e de sua nobreza, que muito \u00e9 t\u00e3o pequeno rev\u00e9s em compara\u00e7\u00e3o da desafronta de nossos brios enxovalhados pela mascataria do Recife? E uma vez que havemos de passar por essa prova, cumpre sofr\u00ea-la com \u00e2nimo de cavalheiros, sem despeitos nem subterf\u00fagios.\n\nNeste ponto Filipe Uchoa corando ao de leve, enfrestou o olhar por cima dos \u00f3culos para examinar o efeito que produzira no semblante dos outros a indireta do tio.\n\n&#8211; Esse Rebelo, continuou o capit\u00e3o-mor, n\u00e3o \u00e9 nobre; mas tamb\u00e9m por seus cabedais e trato de vida j\u00e1 se n\u00e3o pode dizer um pe\u00e3o. E os descendentes dos Cavalcantis, Coelhos, Albuquerques e Holandas, temos fidalguia demais, que sobra sem d\u00favida para repartir com os maridos de nossas filhas e sobrinhas:\n\nFicou pois decidido que se deixaria o campo livre ao mancebo para cortejar a donzela, com o que ele infalivelmente se afoitaria a pedir-lhe a m\u00e3o, s\u00f4frego da honra insigne dessa alian\u00e7a, ainda mais do que dos arrebatamentos da paix\u00e3o.\n\nN\u00e3o se atreveu Andr\u00e9 de Figueiredo a opor-se de frente ao capit\u00e3o-mor. Arrancou desabridamente, como quem se n\u00e3o podia conter, e entrando por casa, foi-se \u00e0 irm\u00e3:\n\nQuerem casar Leonor com o filho do judeu que desgra\u00e7ou-lhe o pai. Com o meu Voto, nunca o fareis. E tamb\u00e9m vos digo que, eu vivo, aquele vil\u00e3o n\u00e3o passar\u00e1 a soleira desta casa. Nem jamais terei por meu sobrinho e vosso filho o perro que eu jurei de coser com esta adaga.\n\nParece que D. Ant\u00f4nia contou ao tio as amea\u00e7as do irm\u00e3o, pois nessa mesma tarde, antes de montar a cavalo, buscou o capit\u00e3o-mor a Andr\u00e9 de Figueiredo.\n\n&#8211; Sabereis, meu sobrinho e senhor Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo, que me veio ao conhecimento vossa inten\u00e7\u00e3o de desafiar-vos com Vital Rebelo; e ent\u00e3o ocorreu-me dizer-lhe que doravante, visto ser por minha vontade que o rapaz corteja Leonor, n\u00e3o \u00e9 com ele, mas comigo, que vos tereis de haver, do que vos dou aqui por ciente.\n\nEstas palavras as proferira o velho desempenando o grande talhe com o garbo marcial de outros tempos; e rematou-as batendo com a palma da m\u00e3o direita nos copos da espada suspensa ao quadril. Depois cortejou, tocando com donaire na aba do chap\u00e9u:\n\n&#8211; Ao seu dispor, senhor capit\u00e3o.\n\nAndr\u00e9 de Figueiredo, de cabe\u00e7a baixa, n\u00e3o abriu boca, temendo ao descerrar os l\u00e1bios que lhe rompessem, n\u00e3o palavras, mas todas as pragas do inferno que lhe ferviam no cora\u00e7\u00e3o. Quando se foi o tio, rugiu de c\u00f3lera, arrancando um punhado de barbas.\n\nDesde esse dia sumiu-se de casa. Soube-se depois que partira para seu engenho do Cair\u00e1, onde conservou-se por muito tempo fermentando sua ira.\n\nTais eram as ocorr\u00eancias que nos dias anteriores haviam conduzido os amores de Vital \u00e0 feliz conjun\u00e7\u00e3o em que ele os achara na sua ida a Olinda, e em que permaneceram at\u00e9 o dia dos despos\u00f3rios.\n<h4><strong><a id=\"p25\" name=\"p25\"><\/a>CAP\u00cdTULO V<\/strong><\/h4>\n<strong>UM ECLIPSE DA LUA-DE-MEL, COM QUE N\u00c3O CONTAVA O GOVERNADOR, O QUAL SE\nPRESUMIA DE SABER DE TUDO, AT\u00c9 DE ASTROLOGIA<\/strong>\n\nMarcou-se para as bodas o dia 1\u00ba de setembro de 1709, que veio a cair em domingo.\n\nFora preciso a Vital a muita paci\u00eancia que ele tirava de seu grande amor para suportar at\u00e9 aquele dia as impertin\u00eancias e arrog\u00e2ncias da fam\u00edlia Holanda. Come\u00e7ara pelo sim, que s\u00f3 lhe deram depois de mil nega\u00e7as, havendo o cuidado de encarecer-lhe sobre medida a honra que recebia com essa alian\u00e7a \u00e0 qual se tinham movido por comisera\u00e7\u00e3o \u00e0s s\u00faplicas de Leonor.\n\nDissimulando a revolta de seus brios, soube Rebelo, todavia sem quebra da cortesia, rebater-lhes a arrog\u00e2ncia.\n\n&#8211; Podeis guardar esta certeza, senhores. T\u00e3o precioso tesouro \u00e9 para mim, irm\u00e3o de D. Leonor, que a nobreza de Pernambuco n\u00e3o tem cousa que o valha, nem eu o trocaria por todas as fidalguias do mundo. Por isso n\u00e3o canso de agradecer a Deus, Nosso Senhor, a ventura de ma ter concedido.\n\nNo dia marcado, e \u00e0 noite, como era ent\u00e3o o costume, celebraram-se as bodas nas casas de Jo\u00e3o Cavalcanti, com a pompa e luzimento adequados \u00e0 fidalguia da noiva e riqueza do noivo.\n\nLeonor estava deslumbrante sob os c\u00e2ndidos v\u00e9us que lhe nublavam de t\u00eanue sombra di\u00e1fana a imagem formosa, tocada pelas vivas tintas do rubor, e lhe perfumavam a lindeza de uma gra\u00e7a ang\u00e9lica.\n\nO nosso amigo Lisardo de Albertim, no epital\u00e2mio que teve de recitar \u00e0 mesa do banquete, na sua qualidade de poeta familiar da casa, comparou a gentil noiva com a Aurora, a deusa da luz descendo dos c\u00e9us, aljofrada de orvalhos, para abrir com os cl\u00e1ssicos dedos de rosa as portas do Oriente:\n<p align=\"center\">Envolta nos puros v\u00e9us,\nQual Aurora prazenteira\nQue meiga desce dos c\u00e9us\nAo raiar da luz primeira,\nDe per&#8217;las vestindo o manto luzente\nPara abrir as do Oriente\nRijas portas de rubim;\nEla, a dr\u00edade formosa destes prados,\nCom seus dedos de rosa e de jasmim,\nAbre os p\u00f3rticos dourados\nDo templo do himeneu.<\/p>\nEra feliz o Albertim nas suas compara\u00e7\u00f5es. Ali, no meio da sala, se repimpava D. Severa, a ninfa olindense, que esticada por um vestido verde-gaio a ponto de verter sangue da cara, estava retratando o madrigal do poeta, como a viva imagem de uma roseira de Alexandria.\n\nDesde o principio da noite que se poderia observar na sala entre os parentes da noiva um continuo apuridar-se que n\u00e3o era consoante em companhia de amigos e para fim t\u00e3o prazenteiro como aquele.\n\nN\u00e3o deixou Vital Rebelo de fazer esse reparo, assim como de notar que o centro daquela trama de cochichos que se estava urdindo ali, era o bacharel Filipe Uchoa, pessoa a quem apesar de camarada ele j\u00e1 n\u00e3o via com boa sombra pela indiz\u00edvel repugn\u00e2ncia que lhe causavam aqueles ademanes refolhados.\n\nReclamado pela cerim\u00f4nia religiosa, que ia fixar a sua sorte e prende-lo por la\u00e7os indissol\u00faveis, n\u00e3o prestou mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0queles manejos sen\u00e3o \u00e0 hora do banquete em que eles se tornaram mais inquietos, porventura com a aproxima\u00e7\u00e3o do momento esperado.\n\nSentiu o mancebo um vago e indiz\u00edvel receio travar-lhe do cora\u00e7\u00e3o, que nesse instante se engolfava na ventura de achar-se unido para todo o sempre \u00e0 sua Leonor. Era como o pressentimento de uma nuvem que pudesse toldar de repente o c\u00e9u l\u00edmpido dessa felicidade t\u00e3o ansiada.\n\nO Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti, depois de ter rendido o preito que um bom fidalgo devia a t\u00e3o suntuoso banquete, levantou aos noivos o brinde de honra fazendo voto para que lograssem unidos muitos e longos anos de felicidade; no que foi acompanhado por todos os convivas, mas sem efus\u00e3o.\n\nPreenchido esse ato do cerimonial que lhe competia de juro como chefe da linhagem, eclipsou-se o capit\u00e3o-mor da casa do banquete e recolheu-se aos seus aposentos de dormir, pois era chegada a sua hora habitual.\n\nEra ent\u00e3o costume, que se acabou com a recente invas\u00e3o das modas francesas, continuar a festa das bodas at\u00e9 ao romper da alvorada.\n\nNo maior calor do baile e das folgan\u00e7as, os noivos iludindo a vigil\u00e2ncia e dicho dos convivas maliciosos buscavam esgueirar-se furtivamente, azo que nem sempre se lhes deparava.\n\nN\u00e3o sofria a gravidade dos Cavalcantis esses remoques ou. n\u00e3o o tinham por conveniente naquela ocasi\u00e3o. Assim que, pouco tempo n\u00e3o era passado desde a sa\u00edda do capit\u00e3o-mor, quando o Tenente-Coronel Ant\u00f4nio Tavares tomando a dire\u00e7\u00e3o da festa, falou alto do meio da casa:\n\n&#8211; \u00c9 hora, senhores, de acompanharmos os noivos.\n\nChegou-se Vital Rebelo, que viu a todos os convivas em alas \u00e0 espera que fosse ele dar o bra\u00e7o a Leonor, para tomar a frente do pr\u00e9stito.\n\n&#8211; N\u00e3o vejo \u00e0 porta o palanquim de D. Leonor, nem os nossos cavalos.\n\nOs parentes, a essa observa\u00e7\u00e3o, entreolharam-se um tanto confusos, e Filipe Uchoa desdobrando pichosamente o seu fino len\u00e7o de batista, passou a limpar o vidro dos \u00f3culos, com o apuro que ele punha em todas as minud\u00eancias.\n\nAfinal, como Vital se n\u00e3o movia, \u00e0 espera da resposta, decidiu-se Ant\u00f4nio Tavares a falar:\n\n&#8211; E para que palanquins e cavalgaduras?\n\n&#8211; Pois n\u00e3o vedes que a minha senhora D. Leonor e estas damas n\u00e3o podem ir a p\u00e9 at\u00e9 o Recife? tornou o mancebo surpreso.\n\n&#8211; Mas se n\u00e3o vamos ao Recife! acudiu o Tavares com despacho.\n\n&#8211; N\u00e3o vamos ao Recife?&#8230; E porventura n\u00e3o \u00e9 a\u00ed que moro eu, senhores, e que tenho casa preparada para receber-nos? exclamou Vital que sentia aproximar-se a tormenta.\n\nNesse momento adiantou-se o licenciado Jos\u00e9 Tavares, que era o lampi\u00e3o da irmandade e tomou a palavra. O Filipe Uchoa deixou-se ficar na penumbra, pondo os \u00f3culos para apreciar o modo por que o primo ia desempenhar o seu papel.\n\n&#8211; Assentamos, a senhora D. Ant\u00f4nia de Figueiredo Barbalho e seus irm\u00e3os, em que sua filha e nossa, pois como tios lhe fazemos as vezes de pai, ficasse estes primeiros tempos aposentada em nossa companhia, e nesta conformidade mandamos preparar na casa vizinha os alojamentos precisos, que est\u00e3o prontos para receb\u00ea-la e a seu noivo.\n\n&#8211; Ah! E a quem devo t\u00e3o fina lembran\u00e7a? Quero apostar que ao nosso amigo, o senhor bacharel Filipe Uchoa?\n\nProferindo estas palavras com um sorriso de ironia, Vital procurou com o olhar ao bacharel, o qual estava ent\u00e3o muito entretido em provar a D. Severa que os encantos nela aumentavam com os anos e que em vez de invernos a ninfa podia afoitamente contar cinq\u00fcenta primaveras.\n\nN\u00e3o se enganara Rebelo. Fora com eleito Filipe Uchoa quem urdira essa conspira\u00e7\u00e3o nupcial, com aquela destreza que Sebasti\u00e3o de Castro tanto prezara outrora, quando n\u00e3o havia ainda bem experimentado a do Barbosa de Lima.\n\nObrigados da necessidade e respeito ao capit\u00e3o-mor a consentir no casamento de Leonor com o filho do mascate, a m\u00e3e e tios da mo\u00e7a n\u00e3o podiam esconder o seu descontentamento. Deste se aproveitou o bacharel para tecer o seu plano cuja suma o Jos\u00e9 Tavares acabava de anunciar.\n\nFazendo que Vital Rebelo, rendido aos encantos da noiva, se deixasse ficar na companhia da sogra, seq\u00fcestrava-se o novo parente \u00e0 ral\u00e9 donde infelizmente procedia, e contava-se com a sedu\u00e7\u00e3o de Leonor e os conselhos dos tios. para essa regenera\u00e7\u00e3o, que se podia consumar com a merc\u00ea r\u00e9gia de algum h\u00e1bito de Cristo.\n\nDesta sorte transformado o mascate do Recife em nobre de Olinda, n\u00e3o somente se apagava a mancha nos bras\u00f5es da fam\u00edlia, mas ainda por cima se ganhava um partidista de grande valia, por seus dotes pessoais, como por seus na veres; e assim pelejariam o inimigo com esse forte reduto, que ele n\u00e3o soubera defender.\n\nA urdidura deste estratagema e o seu discurso foram, como dissemos, de Felipe. Uchoa que excedeu-se em p\u00f4-la por obra, encarecendo-lhe as vantagens e ensaiando os v\u00e1rios pap\u00e9is. Mas a inspira\u00e7\u00e3o ou tra\u00e7a primeira parece ter sa\u00eddo do Pa\u00e7o de Santo Ant\u00f4nio.\n\nEntre as boas manhas, de que era t\u00e3o prendado Sebasti\u00e3o de Castro, uma em que muito se apurou, foi a de insinuar no \u00e2nimo de outrem uma id\u00e9ia, mas de forma e com tal sutileza, que nem ele a exprimia, nem o seu interlocutor poderia asseverar que a ouvira.\n\nTinha ele diversos m\u00e9todos para esta sorte, sendo mais freq\u00fcente o de por exclus\u00e3o de partes sugerir no \u00e2nimo alheio, por modo que parecia espont\u00e2neo, aquilo que tinha em mente, e que n\u00e3o lhe convinha comunicar por palavras sempre arriscadas.\n\nAssim, querendo nomear certo sujeito para algum of\u00edcio, se lhe n\u00e3o fazia conta mostrar sua predile\u00e7\u00e3o, entrava a achar pecha em todos os indicados, dando uns sinais de quem serviria ao caso, at\u00e9 que o Ajudante Negreiros soletrava-lhe o nome do tal, e ele o acolhia como uma surpresa.\n\nA verdade \u00e9 que foi na volta do pal\u00e1cio, uma noite, que Filipe Uchoa concebeu o seu engenhoso plano.\n\nApesar da raiva que tinham a Sebasti\u00e3o de Castro e da linguagem solta que usavam a seu respeito, n\u00e3o deixavam os principais de Olinda de comparecer uma vez por semana no Pal\u00e1cio das Duas Torres, para cumprimentar o governador, pelo qual eram acolhidos com as mostras do mais especial agrado.\n\nComo bom pol\u00edtico, pensava o fidalgo que a nau do Estado devia por sua grande monta andar sempre a duas amarras. Com esta m\u00e1xima significava que se devem distribuir os favores entre os partidos, de modo que tocando a um as merc\u00eas, ao outro fiquem os afagos.\n\nPor isso era o governador o primeiro antagonista dos mascates, de quem se rodeava, assim como o primeiro apologista dos nobres, que n\u00e3o perdiam ocasi\u00e3o de feri-lo.\n\nEstando pois em pal\u00e1cio os principais de Olinda, acertou-se de falar do ajustado enlace de D. Leonor Barbalho com Vital Rebelo; e tomando o governador interesse na pr\u00e1tica, alongou-se esta pela noite adiante.\n\nHaver\u00e1 quem repare em ocupar-se longamente do casamento de uma mo\u00e7a, um governador, cujo pensamento deve estar sempre preocupado de neg\u00f3cios de suma gravidade. Mas, al\u00e9m de contar-se o talento das minud\u00eancias entre \u00e1pices r\u00e9gios, atenda-se a que naqueles tempos idos a arte da governan\u00e7a ainda se praticava por esse teor da pol\u00edtica de aldeia.\n\nDemais, tenho para mim que no alfarr\u00e1bio donde se vai extraindo esta cr\u00f4nica anda metida muita alegoria, com que o letrado Carlos de En\u00e9ia, seu ap\u00f3crifo autor, quis significar certos enredos de governo por contos de amor. figurando talvez interessado na sorte das damas quem somente se movia pela vaidade das honras e ambi\u00e7\u00e3o do mando.\n\nDe envolta com boa c\u00f3pia de banalidades, deixou Sebasti\u00e3o de Castro escapar a suposi\u00e7\u00e3o de que Vital, aliando-se \u00e0 fam\u00edlia Holanda, seria atra\u00eddo insensivelmente para o partido dos nobres com o que estes muito ganhavam.\n\nEsta semente lan\u00e7ada em t\u00e3o boa terra, e com o amanho de Filipe Uchoa, por for\u00e7a que havia de dar fruto. E a prova a\u00ed estava no plano t\u00e3o bem tecido para reter em Olinda o noivo de Leonor.\n\nCompreendeu Vital de pronto o des\u00edgnio dos novos parentes e a desvantagem de sua posi\u00e7\u00e3o. Como \u00faltima concess\u00e3o ao orgulho dos nobres, e tamb\u00e9m para n\u00e3o expor ao desd\u00e9m e motejo seus amigos mercadores, n\u00e3o os convidara o noivo a suas bodas, e se acompanhara nelas unicamente de um amigo, o Capit\u00e3o Eus\u00e9bio Monteiro, que estava a seu lado.\n\nN\u00e3o se deteve, por\u00e9m, o brioso mancebo, e erguendo a fronte com serena altivez, atirou aos nobres estas palavras:\n\n&#8211; Pois, senhores, com bastante m\u00e1goa vos digo eu que de D. Leonor Barbalho, enquanto donzela, podiam sua m\u00e3e e seus tios dispor a belprazer; de D. Leonor Rebelo, minha esposa e senhora, n\u00e3o disp\u00f5e ningu\u00e9m mais sen\u00e3o ela, e porque dando-me sua m\u00e3o, aceitou-se por minha companheira e dona de quanto me pertence, \u00e9 de raz\u00e3o que a conduza a sua casa.\n\nVoltando-se ent\u00e3o para o amigo:\n\n&#8211; Capit\u00e3o Eus\u00e9bio Monteiro, mandai vir o palanquim de D. Leonor e os cavalos que meus criados devem ter \u00e0 m\u00e3o aqui perto.\n\nEnquanto sa\u00eda o capit\u00e3o a satisfazer o pedido, Leonor aproximou-se t\u00edmida e vergonhosa de seu noivo para suplicar-lhe que fizesse a vontade \u00e0 m\u00e3e.\n\nPelos olhares que trocava a donzela com D. Louren\u00e7a, enquanto balbuciava palavras tr\u00eamulas, se estava conhecendo que ela desempenhava uma parte que lhe fora destinada naquele drama de fam\u00edlia.\n\nAo ver com que respeito Vital escutava Leonor e o mimo de suas maneiras buscando dissuadi-la da id\u00e9ia de condescender com a vontade da m\u00e3e, os parentes tinham por certa a vit\u00f3ria. Cuidavam eles que \u00e0s del\u00edcias de uma noite de noivado, n\u00e3o havia ten\u00e7\u00e3o que lhe resistisse.\n\nDa porta, Eus\u00e9bio Monteiro fez sinal ao amigo, que sua ordem estava cumprida.\n\n&#8211; Vamos, D. Leonor! disse Vital oferecendo a m\u00e3o \u00e0 sua noiva.\n\nAinda chegou a donzela a ro\u00e7ar os dedos afilados na palma do cavalheiro: mas retraiu-se logo sob o olhar de sua m\u00e3e e a um movimento da tia D. Louren\u00e7a, que lhe puxara pela manga.\n\nVoltou-se o mancebo, sentindo que a donzela retra\u00eda-se:\n\n&#8211; Ent\u00e3o, senhora?\n\n&#8211; N\u00e3o posso! balbuciou Leonor.\n\n&#8211; N\u00e3o podeis acompanhar-me \u00e0 vossa casa do Recife? insistiu Vital empalidecendo.\n\nP\u00f4s o mancebo os olhos cheios d&#8217;alma em sua amada e disse-lhe com a voz repassada de tristeza:\n\n&#8211; D. Leonor, acabastes de jurar a Deus neste mesmo momento de me acompanhar por toda a vida, como eu a v\u00f3s, e sermos eternamente um do outro; ainda se n\u00e3o apagou o eco destas palavras, e j\u00e1 em vossa alma se apagou a lembran\u00e7a delas, que recusais seguir o esposo e entrar em vossa casa para ficar na alheia?\n\n&#8211; Nunca lhe ser\u00e1 alheia a casa em que nasceu, acudiu D. Ant\u00f4nia de Figueiredo.\n\n&#8211; Sabe Deus, senhora, continuou Vital dirigindo-se \u00e0 noiva, quanto me mereceis; sabe o quanto fiz para obter vossa m\u00e3o e o muito mais que faria. Tudo pareceu-me pouco, e ainda me parece neste momento. S\u00f3 uma cousa vos n\u00e3o dei nem a posso dar, que sem ela n\u00e3o seria digno de vosso amor. Mas essa, que \u00e9 a honra, ningu\u00e9m a deve mais resguardar do que a por quem, sobre todos e sobre mim, a prezo e estimo.\n\n&#8211; Pretende o Senhor Rebelo que lhe \u00e9 desonra nossa companhia! observou Felipe Uchoa.\n\n&#8211; Desonra seria renegar dos meus e bandear-me a outros, tornou o mancebo indiferente \u00e0 ironia. N\u00e3o posso ficar em Olinda, D. Leonor, sem quebra de meu nome, que por n\u00e3o ser de nobre, n\u00e3o o \u00e9 menos para mim, pois vos pertence. Deixar-me-eis partir s\u00f3, e vos negareis desta sorte \u00e0quele a quem vos destinou e v\u00f3s mesma vos concedestes?\n\nDecorreu um instante no mais profundo sil\u00eancio. Com os olhos fitos em sua noiva, Vital esperava uma palavra, um gesto de aquiesc\u00eancia.\n\n&#8211; Adeus, senhora! disse afinal com uma voz em que se lhe partia a alma.\n\nE caminhou para a porta.\n\nEste desfecho n\u00e3o o esperavam os parentes que tomados de surpresa, se foram ao primeiro assomo de despeito. Ant\u00f4nio Tavares, primeiro, e os outros ap\u00f3s, arrancaram das espadas com brados de sanha:\n\n&#8211; Daqui n\u00e3o saireis!\n\nLan\u00e7ou-lhes Vital um olhar de frio desprezo.\n\n&#8211; Se eu n\u00e3o estivesse em casa de fidalgos, cuidara ter ca\u00eddo em uma emboscada. Quereis forrar-me ao desgosto de deixar-vos? Tendes um meio certo, que \u00e9 tirar-me este resto de vida, com o que me fareis grande amizade, pr\u00f3pria de parentes que sois.\n\nCom estas palavras amargas, cruzara os bra\u00e7os o mancebo afrontando sereno as amea\u00e7as dos nobres, que j\u00e1 cobrados do primeiro arranco, se retra\u00edam confusos e desconfiados.\n\nA agita\u00e7\u00e3o que houvera na sala n\u00e3o deixou ver o arrebatamento de Leonor, a qual no momento de sacarem seus tios das espadas, se arremessou para defender com o corpo o peito do marido. D. Ant\u00f4nia e D. Louren\u00e7a, lhe estavam ao lado, reprimiram este generoso movimento.\n\nComo se tivessem de todo reportado os nobres, deixando-lhe franco o passo, atravessou Vital vagarosamente a sala, e voltou-se do limiar da porta para dizer ainda uma vez:\n\n&#8211; Adeus, senhora!\n\nLeonor desmaiara, mas n\u00e3o o viu o marido, que j\u00e1 tinha desaparecido no corredor da sa\u00edda.\n<h4><strong><a id=\"p26\" name=\"p26\"><\/a>CAP\u00cdTULO VI<\/strong><\/h4>\n<strong>NO QUAL SEBASTI\u00c3O DE CASTRO P\u00d5E OS PONTOS NOS II, E D\u00c1 UMA LI\u00c7\u00c3O MESTRA NO ALFERES VITAL REBELO<\/strong>\n\nOs dias que seguiram-se \u00e0 noite das bodas, a vida de Vital Rebelo n\u00e3o foi sen\u00e3o a longa e aziaga modorra, em que apagou-se o sonho inef\u00e1vel de sua ventura.\n\nTodavia, um s\u00f3 instante n\u00e3o se arrependeu do que havia feito. Tinha ele uma alma dessas para quem a virtude n\u00e3o \u00e9 a cousa banal que o mundo chama dever; mas um supremo enlevo da consci\u00eancia, que sente-se divinal quando triunfa das pr\u00f3prias paix\u00f5es.\n\nPara os homens deste temperamento a honra n\u00e3o consiste em vangl\u00f3rias que insufla a vaidade; e sim no \u00edntimo contentamento de si mesmo, que \u00e9 a seiva robusta de que se nutre sua exist\u00eancia.\n\nResolvendo ficar em Olinda, Vital n\u00e3o teria rompido o fio dourado de sua felicidade, e estaria \u00e0quela hora gozando as prim\u00edcias do amor terno e mavioso de sua Leonor. Mas no estado das cousas, aquele passo o rebaixara em sua pr\u00f3pria consci\u00eancia; e desde ent\u00e3o, sob a vergonha dessa humilha\u00e7\u00e3o, j\u00e1 sua ventura n\u00e3o teria a pureza. imaculada que o enchia de j\u00fabilo; as car\u00edcias de sua noiva perderiam o sabor celeste com o travo deste pensamento, que ele as comprara por uma vileza.\n\nPerdera tudo quanto podia embelezar-lhe a exist\u00eancia, mas salvara-se a si, e podia-se dizer o homem que fora, e n\u00e3o um desses esp\u00f3lios d&#8217;alma que, abandonados de sua pr\u00f3pria individualidade, andam no mundo como vasilhas humanas, onde se despejam e fermentam as paix\u00f5es alheias.\n\nNos primeiros tempos o t\u00e9dio que tomara ao mundo, tornando-lhe grata a solid\u00e3o, o levara pelos s\u00edtios escusos onde parecia-lhe que o entendiam os rumores do bosque sussurrante.\n\nPor vezes na volta destes passeios encontrava-se com a cavalgada de Sebasti\u00e3o de Castro, que vinha tamb\u00e9m da sua costumada excurs\u00e3o. Respondia o governador com muita urbanidade \u00e0 cortesia do mancebo; e correspondia-lhe de um modo t\u00e3o afetuoso, que metia inveja aos da comitiva.\n\nEstas repetidas mostras de apre\u00e7o, significativo a ponto de traduzir-se nos apertos de m\u00e3o e zumbaias da gente de pal\u00e1cio, despertaram no esp\u00edrito aborrido de Vital Rebelo uma id\u00e9ia que, repelida \u00e0 primeira e outras vezes, tornava sempre com insist\u00eancia.\n\nFora o governador quem arranjara seu casamento pela recomenda\u00e7\u00e3o que fizera ao Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti; e pois bem podia ele, que vencera a maior dificuldade, cortar agora a m\u00ednima exig\u00eancia que sem prop\u00f3sito faziam os tios de Leonor.\n\nLogo, por\u00e9m, arredou este pensamento, pela avers\u00e3o que sempre tivera de solicitar favores. Mas tratava-se de sua felicidade, porventura de sua vida; quando o governador lhe dava tantas provas de apre\u00e7o, parecia-lhe demasiada sobranceria, sen\u00e3o desatino, desprezar os bons of\u00edcios que j\u00e1 uma vez tanto haviam aproveitado.\n\nNo meio desta perplexidade resolveu consultar Carlos de En\u00e9ia contando que o amigo o dissuadiria da id\u00e9ia. O contrario aconteceu.\n\n&#8211; N\u00e3o s\u00f3 procedes com acerto falando a Sebasti\u00e3o de Castro, como no teu caso \u00e9 o que de melhor podes fazer, respondeu o letrado.\n\n&#8211; Pensas ent\u00e3o que obterei por seu interm\u00e9dio chamar \u00e0 raz\u00e3o os tios de Leonor.\n\n&#8211; Alguma cousa com certeza obter\u00e1s deste passo, disse Carlos de En\u00e9ia com um leve sorriso de ironia que apagou-se logo na habitual express\u00e3o do semblante melanc\u00f3lico.\n\nNo seguinte dia foi Vital Rebelo a pal\u00e1cio.\n\nSebasti\u00e3o de Castro o recebeu afetuoso, e indagando com vivo interesse dos pormenores da cena que passara na noite das bodas, p\u00f4s o mancebo a caminho do pedido que lhe vinha fazer.\n\n&#8211; Fiado na muita bondade de Vossa Senhoria, que j\u00e1 uma vez foi servido interessar-se por minha sorte, venho rogar-lhe a continua\u00e7\u00e3o do favor que espontaneamente j\u00e1 mereci, na esperan\u00e7a de que t\u00e3o valiosa interven\u00e7\u00e3o por\u00e1 um termo \u00e0 birra malfadada dos parentes de D. Leonor.\n\nO prazenteiro semblante do governador fechava-se ouvindo o mancebo:\n\n&#8211; E por que recusa o senhor obstinadamente morar em Olinda, na companhia de sua mulher? N\u00e3o lhe acho raz\u00e3o; nem admira que os Cavalcantis se mostrem ofendidos com o seu procedimento.\n\n&#8211; Sabe Vossa Senhoria quem eu sou! respondeu Vital com altivez, e compreende que os meus brios n\u00e3o me permitem ficar em Olinda. \u00c9 ponto de honra e n\u00e3o acinte.\n\nTinham certas palavras a propriedade de arranhar o ouvido fidalgo de Sebasti\u00e3o de Castro; essa de brios era uma das tais.\n\nPelas colis\u00f5es freq\u00fcentes em que o colocava o seu sistema de governo, e pelo h\u00e1bito de transigir com as dificuldades em vez de as remover, adquirira ele a admir\u00e1vel maleabilidade com que sabia ajeitar-se a todas as circunst\u00e2ncias.\n\nDai provinha que as melhores t\u00eamperas d&#8217;alma, como o sejam a firmeza, a coer\u00eancia, a perseveran\u00e7a, eram cruezas de que se julgava ele isento, e que tachava nos outros como graves defeitos que os tornava in\u00e1beis para os cargos da Rep\u00fablica.\n\nTomara a sua fisionomia um gesto desdenhoso ao ouvir as \u00faltimas palavras do mancebo, a quem redarg\u00fciu nestes termos:\n\n&#8211; O senhor ainda est\u00e1 muito mo\u00e7o. Com os anos h\u00e3o de passar esses verdores do \u00e2nimo exaltado; e ent\u00e3o aprender\u00e1 por experi\u00eancia que se n\u00e3o sacrificam cousas de mor pondera\u00e7\u00e3o a melindres e enfados do \u00e2nimo por demais suscet\u00edvel.\n\n&#8211; A idade h\u00e1 de quebrar-me as for\u00e7as do corpo e do esp\u00edrito, que tal \u00e9 nossa humana condi\u00e7\u00e3o; mas esta isen\u00e7\u00e3o que Vossa Senhoria apelida melindres nasci com ela e com ela morrerei.\n\n&#8211; Quer um conselho de amigo? tornou Sebasti\u00e3o de Castro com um modo insinuante. Fa\u00e7a a vontade \u00e0 sua sogra; v\u00e1 para a companhia de seus parentes, e fio-lhe eu que se n\u00e3o arrepender\u00e1.\n\n&#8211; Esse alvitre \u00e9 imposs\u00edvel; e por estar disso bem convencido foi que resolvi buscar a interven\u00e7\u00e3o de Vossa Senhoria.\n\nFechou-se ent\u00e3o de todo o fidalgo:\n\n&#8211; Como governador desta capitania, encarregado de prover \u00e0s necessidades da Rep\u00fablica, veda-me o meu regimento intrometer-me no sagrado da fam\u00edlia, retrucou Sebasti\u00e3o de Castro.\n\n&#8211; Neste caso n\u00e3o devia o senhor governador ter trazido as cousas ao ponto a que chegaram.\n\n&#8211; Naquela ocasi\u00e3o o vosso casamento resolvia graves dificuldades, e acabava com uma rixa, que turbados como andavam os \u00e2nimos, podia ser o facho da guerra civil; estava pois na minha al\u00e7ada, pois que da\u00ed dependia a paz da capitania. Agora n\u00e3o \u00e9 assim; realizou-se a alian\u00e7a, e s\u00f3 do senhor depende mant\u00ea-la.\n\n&#8211; Todavia, esta semana passada, certo rapaz que desinquietara uma rapariga l\u00e1 para Santo Amaro, foi obrigado a casar por ordem de Vossa Senhoria.\n\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 tal. Seria por ordem do meu ajudante, e sem conhecimento meu.\n\nTinha Sebasti\u00e3o de Castro esta balda de lan\u00e7ar \u00e0 conta dos subalternos a culpa dos atos que praticava, quando sobre eles cala a censura. Por este modo arranjava para si o c\u00f4modo roj\u00e3o do rei constitucional, que n\u00e3o pode errar; mas pouco lhe valeu isso contra os ataques dos olindenses e mais tarde contra o achincalhe dos mascates.\n\nApesar do que dizia o discreto Secret\u00e1rio Barbosa de Lima, e do que trovejava o farfalhudo Ajudante Negreiros, era corrente que n\u00e3o se movia uma palha na governa\u00e7\u00e3o da capitania sem licen\u00e7a de Sebasti\u00e3o de Castro, o qual entendia com tudo, at\u00e9 com a ra\u00e7\u00e3o da tropa e o b\u00ea-a-b\u00e1 dos meninos na escola.\n\nDe volta de pal\u00e1cio, passou Vital por casa de Carlos de En\u00e9ia, para contar-lhe o malogro que ele em grande parte imputava ao amigo por hav\u00ea-lo animado a esse passo, longe de o dissuadir.\n\n&#8211; Disso que sucede agora, te preveni h\u00e1 tempos, mas n\u00e3o me quiseste crer.\n\n&#8211; Entretanto ainda ontem me prometias que alguma cousa eu obteria de ir ao governador, replicou Vital surpreso.\n\n&#8211; E avalias em pouco a li\u00e7\u00e3o que recebeste? Depois do que ouviste em pal\u00e1cio, j\u00e1 n\u00e3o duvidar\u00e1s que Sebasti\u00e3o de Castro quando arranjou o teu casamento com Leonor, s\u00f3 teve em mira quebrar-te o orgulho, amarrando-te ao cepo de humilha\u00e7\u00e3o que te preparavam os parentes de tua mulher; porque tem como certo, que essa conspira\u00e7\u00e3o de alcova \u00e9 obra insigne de nosso homem.\n\n&#8211; Presumes isso? exclamou Vital tomado de igual suspeita.\n\n&#8211; Ex ungula leonem; pela trama conhe\u00e7o a aranha que teceu a rede. Ele deu o fio e o teu bom amigo o urdiu com a sua consumada per\u00edcia.\n\n&#8211; Disso tenho certeza, ainda que n\u00e3o posso atinar com o interesse que pudesse ter ele em magoar-me.\n\n&#8211; O de agradar ao governador, ao passo que te privava de um bem de que ele n\u00e3o podia gozar; queres incentivo maior do que esse da ambi\u00e7\u00e3o abra\u00e7ada com a inveja?\n\nVital calou-se, tomado do t\u00e9dio que lhe inspiravam estes manejos, e Carlos de En\u00e9ia continuou:\n\n&#8211; Se aceitasses com a precisa coragem a prova a que Sebasti\u00e3o de Castro submeteu a tua docilidade, ficava teu amigo, e n\u00e3o tardaria muito que atirasse fora o ajudante como um sapato acalcanhado para cal\u00e7ar-te ao p\u00e9. Como por\u00e9m te mostraste exaltado, intolerante, sem traquejo e at\u00e9 malcriado, podes contar que doravante est\u00e1s no \u00edndex expurgat\u00f3rio.\n\nDesde ent\u00e3o Vital Rebelo n\u00e3o contou sen\u00e3o consigo, e buscou modo de falar a Leonor para concertar nos meios de tir\u00e1-la da casa de Andr\u00e9 de Figueiredo, onde se achava guardada com a maior vigil\u00e2ncia.\n\nAo recordar os acontecimentos da noite fatal de suas bodas, do\u00eda ao mancebo no fundo d&#8217;alma a fraqueza com que se houvera Leonor. Supunha-se querido com mais ardente afeto, desse que faz as heroinas do amor. Esperava, por\u00e9m, que a donzela, livre da sujei\u00e7\u00e3o em que a trazia a m\u00e3e, havia de ser a esposa carinhosa e terna que ele sonhara.\n\nUma tarde, Leonor, aproveitando um instante de liberdade, saiu \u00e0 cerca e estava a cismar \u00e0 sombra do arvoredo, quando apareceu-lhe de repente Vital Rebelo que ajoelhou a seus p\u00e9s.\n\nComo se ante ela houvera surgido um espectro, a m\u00edsera donzela espavorida e fora de si deitou a correr para a casa, sem dar tempo a que lhe dissesse o marido uma palavra.\n\nO abalo que sentiu Vital escureceu-lhe a vista; arrimou-se ele ao tronco de uma \u00e1rvore e permaneceu im\u00f3vel o espa\u00e7o de muitas horas, a ver se vinha algu\u00e9m que o acabasse ali onde se acabara a sua esperan\u00e7a. Quando dai tornou, era no seu pensar um vi\u00favo; e desde esse dia trouxe luto por seu amor. que se finara.\n\nIgnorava que Andr\u00e9 de Figueiredo, j\u00e1 de volta a Olinda, protestara a Leonor mat\u00e1-lo, a ele Vital Rebelo, \u00e0 sua vista, se ela tivesse a infelicidade de dirigir-lhe uma palavra ou consentir que ele se lhe aproximasse.\n\nEsta amea\u00e7a que n\u00e3o lhe sa\u00eda da mente, obrigara-a a repelir com horror o \u00fanico bem que lhe haviam deixado, a doce esperan\u00e7a de rever o marido. Assim que, no momento de avist\u00e1-lo depois de t\u00e3o longa aus\u00eancia, o que a dominou foi a id\u00e9ia atroz de que sucumbisse aos golpes trai\u00e7oeiros.\n\nCorreram os meses e completou-se um ano depois do casamento de Vital Rebelo; durante esse per\u00edodo, em vez de se disporem as causas para uma solu\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel, ao contr\u00e1rio mais se baralhavam com as complica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e as animosidades entre os nobres e os mascates.\n\nN\u00e3o era Rebelo e nunca fora dos empenhados na luta, porque cedo aprendera a desgostar-se dos partidos que s\u00e3o uma am\u00e1lgama de toda a casta de gente e de paix\u00e3o. Mas n\u00e3o obstante carregava para os nobres com a culpa dos mercadores, a quem n\u00e3o quisera renegar.\n\nPor esse tempo foi que veio \u00e0 noticia do mancebo um aviso de terem os Holandas mandado a Roma impetrar do Papa um breve de anula\u00e7\u00e3o do seu casamento.\n\nO pensamento cruel de que Leonor livre podia pertencer a outro venceu o ressentimento de Vital. Voltou a Olinda, onde n\u00e3o fora desde oito meses, e achou nos grandes olhos castanhos de Leonor a mesma ternura de outrora, ainda que tocada de uma sombra merenc\u00f3ria das saudades t\u00e3o longamente curtidas.\n\nTornou uma e mais vezes, e se nem sempre era t\u00e3o feliz que encontrasse Leonor \u00e1 janela, ou a visse de longe na cerca, com uma troca de sinais r\u00e1pidos e quase impercept\u00edveis chegaram os dois namorados esposos a combinar a entrega do bilhete em que Vital pedia a entrevista.\n\nAndr\u00e9 de Figueiredo soubera das vindas de Vital Rebelo a Olinda; mas o Capit\u00e3o-Mor Jo\u00e3o Cavalcanti, apesar do que havia ocorrido, proibira que se tirassem raz\u00f5es com o marido de sua sobrinha, que seu sobrinho era, salvo se ele formalmente as provocasse.\n\nPor isso o capit\u00e3o. roendo o freio com impaci\u00eancia, redobrava de vigil\u00e2ncia \u00e0 espreita do momento da desforra da vingan\u00e7a.\n<h4><strong><a id=\"p27\" name=\"p27\"><\/a>CAP\u00cdTULO VII<\/strong><\/h4>\n<strong>D. SEVERA ACOMPANHADA DE SEU PAJEM PROP\u00d5E-SE PELA PRIMEIRA VEZ A REI&#8217;ARAR\nUM TORTO DONDE IA SAINDO UMA TORTA<\/strong>\n\n\u00c9 tempo de voltarmos \u00e0 entrevista em que deixamos Vital Rebelo na casa do trem.\n\nO riso escarninho e a voz que amea\u00e7ara, bem os reconheceu o alferes, e compreendendo o passo arriscado em que se achava, cuidou em defender a vida, ou vend\u00ea-la caro aos inimigos.\n\nHouve um momento de sil\u00eancio t\u00e3o profundo, como era a treva que enchia o vasto armaz\u00e9m; mas com pouco rangeram os gonzos de uma porta, e apareceram dois escravos com tocheiros acesos.\n\nO seu ba\u00e7o clar\u00e3o que derramou-se pelo aposento mostrou a Vital o Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo \u00e0 frente de seis sequazes armados, com as espadas desembainhadas e prontos a atac\u00e1-lo ao primeiro sinal.\n\nO mancebo mal teve tempo de reclinar sobre um velho ba\u00fa que lia via ali perto, encostado \u00e0 parede, o corpo desmaiado de sua querida Leonor, e cair em guarda contra as seis catanas que o assaltavam.\n\nAndr\u00e9 de Figueiredo, de parte, com as m\u00e3os apoiadas na cruz da espada que fincara no ch\u00e3o, assistia ao combate im\u00f3vel; mas via-se-lhe no semblante a viol\u00eancia que fazia sobre si em conter os \u00edmpetos de seu g\u00eanio arrebatado.\n\n&#8211; Bem vejo que isto \u00e9 uma emboscada, disse Vital Rebelo com desprezo, defendendo-se galhardamente. Eu sabia que os fidalgos de Olinda eram peritos em arm\u00e1-las, desde os tempos dos judeus holandeses, seus ilustres antepassados; mas os daquele tempo usavam pelejar nelas, e n\u00e3o se resguardavam como os de agora.\n\nA l\u00e2mina da espada de Andr\u00e9 de Figueiredo vibrou com o estreme\u00e7\u00e3o que lhe imprimiram as m\u00e3os convulsas, mas ainda p\u00f4de o capit\u00e3o dominar este assomo, com a id\u00e9ia de humilhar seu inimigo pelo desprezo.\n\n&#8211; Estais enganado; isto n\u00e3o \u00e9 emboscada, mas obra de justi\u00e7a; \u00e9 execu\u00e7\u00e3o que se costuma fazer em r\u00e9u de morte, respondeu entre um riso de mofa.\n\nCom um corrupio da espada fez Rebelo recuar os assaltantes, alguns dos quais j\u00e1 tinham no corpo a marca do ferro; e aproveitou da aberta para replicar ao capit\u00e3o:\n\n&#8211; Ah! \u00e9 obra de justi\u00e7a? Mas parece que o carrasco n\u00e3o sai do of\u00edcio, pois est\u00e1 a\u00ed feito um estafermo em vez de manejar o seu cutelo.\n\n&#8211; N\u00e3o quero manchar a minha espada de cavalheiro; h\u00e1s de morrer \u00e0 m\u00e3o de tua laia, tornou o capit\u00e3o com gesto de asco.\n\n&#8211; Tem raz\u00e3o o nobre fidalgo; s\u00f3 esqueceu um ponto e \u00e9 que para dizer destas cousas, se precisa de ter a espada mais comprida do que a l\u00edngua, sen\u00e3o&#8230;\n\nNeste ponto, operou-se tal muta\u00e7\u00e3o da cena, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel descrev\u00ea-la sem cortar o fio \u00e0 palavra de Vital.\n\nDesde o primeiro assalto, curando o mancebo de tomar a melhor posi\u00e7\u00e3o para a defesa, aproximou-se de um grande arm\u00e1rio encostado ao fundo do aposento, cerca do qual havia algumas arcas e canastras espalhadas pelo pavimento.\n\nAssim, tendo as costas guardadas de qualquer surpresa com as canastras, que ia arranjando a m\u00e3o esquerda enquanto a direita combatia, fez ele uma esp\u00e9cie de trincheira que lhe resguardava meio corpo; e sobre ela debru\u00e7ava-se para atirar o bote certeiro da sua espada a algum dos sequazes menos prontos em recuar.\n\nQuando Andr\u00e9 de Figueiredo lan\u00e7ou-lhe o \u00faltimo insulto, ao recha\u00e7\u00e1-lo, mediu o mancebo com o olhar a dist\u00e2ncia que o separava do inimigo, e quase t\u00e3o r\u00e1pido como esse olhar, saltou em cima de uma das arcas, dela em outra mais alta, e arremessando-se com pasmosa agilidade, veio cair em face do capit\u00e3o, antes de aperceber-se este do que se havia passado.\n\nTudo isto por\u00e9m sucedeu com tamanha velocidade, que foi apenas uma retic\u00eancia na resposta de Vital.\n\n&#8211; Sen\u00e3o, acabou ele, corre-se o risco de sofrer logo em cima da palavra a corre\u00e7\u00e3o de sua insol\u00eancia.\n\nSoaram estas palavras ao mesmo tempo que a l\u00e2mina da espada de Vital, batendo de chapa no ombro do capit\u00e3o. Era \u00e0 face que a destinara o impetuoso mancebo aceso em ira; mas seu valente advers\u00e1rio, apesar do repente, logrou desviar-se a tempo.\n\nAl\u00e9m de mais pronto e destro, tinha Rebelo nesse momento sobre o capit\u00e3o a superioridade do enleio em que o pusera a sua investida. E foi aproveitando-se dessa vantagem que de um rev\u00e9s da espada ele desarmou o advers\u00e1rio e prostrando-o, calcou-lhe o p\u00e9 sobre o peito, em a\u00e7\u00e3o de traspassar-lhe a gorja.\n\nAtalhou-o por\u00e9m um grito de ang\u00fastia.\n\nLeonor, que pouco antes cobrara os esp\u00edritos, mas ainda no torpor do deI\u00edquio, via, sem compreender, aqueles vultos a agitarem-se ao clar\u00e3o ba\u00e7o das tochas, de s\u00fabito recordou-se do lance em que se achava, ao encarar o vulto amea\u00e7ador do seu marido prestes a desfechar em Andr\u00e9 de Figueiredo o golpe mortal.\n\nO sangue de seu tio, do irm\u00e3o de sua m\u00e3e e que lhe fazia as vezes de pai; esse sangue derramado pela m\u00e3o do marido, era a separa\u00e7\u00e3o eterna, e mais do que isso, a morte de seu amor, que ela j\u00e1 n\u00e3o poderia sentir, embora apartada, pelo homem que lan\u00e7asse o luto no seio de sua fam\u00edlia.\n\nEsta id\u00e9ia horr\u00edvel perpassou como um rel\u00e2mpago o \u00e2nimo da donzela, que arrojou-se para deter o bra\u00e7o de Vital; mas faltando-lhe as for\u00e7as ao impulso, caiu ali mesmo de joelhos, estalando-lhe a alma no grito da afli\u00e7\u00e3o.\n\nVoltou-se Vital; vendo sua mulher, com os cabelos em desordem, os olhos alucinados e o semblante convulso, adivinhou o pensamento que a espavoria. Poupar a vida ao inimigo naquela conjuntura, era entregar-lhe a sua; mas de que lhe servia esta, se cavasse um abismo de \u00f3dio entre ele e Leonor?\n\nUm instante n\u00e3o hesitou. Ergueu a ponta da espada, e recuou deixando o capit\u00e3o livre e escapo da morte.\n\nOs seis sequazes, que atacavam Rebelo, ficaram a princ\u00edpio at\u00f4nitos com o desaparecimento do mancebo, que alguns deles julgaram ter ca\u00eddo por detr\u00e1s das canastras. Outros por\u00e9m que haviam confusamente entrevisto o salto, cuidaram que fora um \u00edmpeto de fuga.\n\nQuando afinal descobriram o aperto em que se achava Andr\u00e9 de Figueiredo e corriam a acudi-lo, esbarraram-se com Rebelo que j\u00e1 de volta buscava a primeira posi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o a p\u00f4de alcan\u00e7ar, que os espoletas lhe cortavam a retirada, colocando-o dessa arte em um passo dif\u00edcil, pois atacado em n\u00famero t\u00e3o desigual pela frente, ia s\u00ea-lo de costas pelo capit\u00e3o.\n\n\u00c0 t\u00eampera d&#8217;alma sucede o mesmo que \u00e0 t\u00eampera do a\u00e7o; em sendo boa, quanto mais se lhe calca, mais forte ela brande. Com tamanha afouteza investiu Rebelo a tro\u00e7a, que abriu caminho atrav\u00e9s; e recuperou o primeiro posto junto ao arm\u00e1rio.\n\nA este tempo erguera-se Andr\u00e9 de Figueiredo; com a sanha de um tigre correu ao combate.\n\n&#8211; Arredem-se, que este vil\u00e3o me pertence; n\u00e3o quero que lhe toquem, pois ainda \u00e9 pequeno para me fartar de cort\u00e1-lo.\n\nRebelo n\u00e3o respondeu \u00e0 bravata, sen\u00e3o com um sorriso de desprezo. Tolhido como estava de matar este homem, e com a sa\u00edda embargada pelas grossas portas de jacarand\u00e1, o alferes reputava-se perdido; pois afinal se lhe esgotariam as for\u00e7as e seria obrigado a traspassar-se com a pr\u00f3pria espada, para se n\u00e3o render ao inimigo.\n\nTodavia n\u00e3o o abandonara ainda a confian\u00e7a que tinha na afouteza de seu \u00e2nimo, como na for\u00e7a de seu bra\u00e7o. Empenhando o combate com o capit\u00e3o, ele concentrou-se para dividir a aten\u00e7\u00e3o entre o manejo da espada e a pesquisa de algum meio de salva\u00e7\u00e3o.\n\nPor diversas vezes se precipitara Leonor para implorar o tio em favor do marido; mas a um aceno de Andr\u00e9 de Figueiredo, um dos sequazes conduzira a donzela a seu mau grado para o outro extremo do aposento, colocando-se por diante para tirar-lhe a vista do combate.\n\nEntretanto este prosseguia, sanhudo e furioso da parte de Andr\u00e9 de Figueiredo, sereno e atento da parte de Rebelo, que, pronto em parar os golpes, mas desdenhando as abertas que lhe oferecia a imprud\u00eancia do inimigo, n\u00e3o cessava de perscrutar os recantos do aposento.\n\nTinha este duas portas, uma de sa\u00edda exterior, por onde havia entrado o mancebo; outra de comunica\u00e7\u00e3o interior; por onde viera D. Leonor. Ambas estavam fechadas \u00e0 chave, com trancas atravessadas; e eram champr\u00f5es de lei imposs\u00edveis de arrombar. Por esse lado, pois, n\u00e3o havia esperan\u00e7a de escapula; menos por outro qualquer, pois n\u00e3o se via nas paredes, e nem mesmo no teto, qualquer fresta ou buraco por onde pudesse passar um homem, ainda que ele tivesse o privil\u00e9gio da enguia.\n\nNesta estreiteza, em que o \u00e2nimo de Vital j\u00e1 se repartia por tantos cuidados, o da sua Leonor a lamentar-se do outro lado, o da guarda a que o obrigavam os amiudados golpes do capit\u00e3o, e o da busca de um meio de salva\u00e7\u00e3o, ainda assim lhe n\u00e3o escaparam os movimentos dos cinco sequazes, que apuridavam-se conchegados entre si e apartados a um canto.\n\nSussurrou ao ouvido sutil do mancebo a palavra mosquete, e com ela uns ru\u00eddos significativos, que lembravam o tinir da vareta no cano de uma arma de fogo. Se lhe restasse d\u00favida, certos movimentos de um bra\u00e7o meio oculto pelo grupo lhe denunciariam a obra em que se mostravam t\u00e3o empenhados os sujeitos.\n\nO quer que era estava pronto, pois voltando-se continuaram os marotos a assistir ao combate como simples espectadores; mas notou Vital que o quinto ficara atr\u00e1s dos outros, e que no ombro do primeiro, mais \u00e0 frente, aparecia um \u00f3culo negro que lhe estava olhando o peito.\n\nNo \u00e2nimo do mancebo surgiu uma id\u00e9ia: saltear de repente a Andr\u00e9 de Figueiredo for\u00e7ando-o a recuar por modo que se interpusesse \u00e0 mira do mosquete, com o que n\u00e3o s\u00f3 o faria de escudo contra o tiro, mas livrava-se do inimigo sem o ferir nem tocar, sendo menos dif\u00edcil ent\u00e3o acabar com os outros.\n\nMas em todo o caso n\u00e3o lhe imputariam a ele s\u00f3 a morte do capit\u00e3o, e com ela n\u00e3o se levantaria um t\u00famulo para separ\u00e1-lo de sua Leonor?\n\nQuando ele cogitava nesta d\u00favida, de chofre bateu o c\u00e3o do mosquete, e ao disparar-se o tiro, ouviu-se grande estrondo, maior do que se devera esperar da explos\u00e3o da arma, ficando o aposento sepultado nas trevas.\n\nPara explica\u00e7\u00e3o deste acidente, que vinha complicar o caso, carecemos de ir em busca da cavalheiresca D. Severa.\n\nTinha-se a dona recolhido \u00e0 sua c\u00e2mera, e achava-se ent\u00e3o justamente em vestes de ninfa, com a insignificante diferen\u00e7a de uma an\u00e1gua em vez da faixa cl\u00e1ssica. Acabara de ler, como costumava, um capitulo do Palmeirim, e repassava na fantasia as aventuras do cavalheiro da fortuna.\n\nNisto ouviu grande rumor no pavimento t\u00e9rreo, e sobre curiosa, inquieta, vestiu as pressas uma cabaia amarela com que saiu fora a inquiri\u00e7\u00f5es, levando a candeia na m\u00e3o.\n\nSe a visse naquele instante, com a capa de seda que na aus\u00eancia das anqu\u00ednhas se lhe pregava ao corpo como um estojo amarelo do qual sa\u00edam os dois joelhos que serviam de cast\u00f5es aos cani\u00e7os das pernas, abandonaria com certeza o inspirado Lisardo a compara\u00e7\u00e3o da rosa, e buscaria no seu armaz\u00e9m po\u00e9tico outra imagem mais apropriada; por exemplo a flor da ab\u00f3bora, ainda que esta naquele tempo n\u00e3o tinha entrada no Parnaso.\n\nO corredor estava tranq\u00fcilo; pelo que animou-se a ninfa a chegar ao topo da escada por onde vinha o rumor.\n\n&#8211; Quem esta a\u00ed? perguntou com desplante, ouvindo passos.\n\nA pessoa que era galgou aos saltos a escada; e D. Severa reconheceu o Nuno, seu pajem desde a v\u00e9spera.\n\n&#8211; Acuda, senhora D. Severa, que sen\u00e3o acabam de matar o Vital Rebelo!\n\n&#8211; Pois ele est\u00e1 aqui?\n\n&#8211; Na casa do trem. N\u00e3o ouve? Estava a falar com a mulher, a D. Leonor, quando o Sr. Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo, que se pusera de espreita com os seus homens, deu sobre ele, e l\u00e1 andam aos botes de portas fechadas.\n\n&#8211; Leonor?\n\n&#8211; Tamb\u00e9m l\u00e1 est\u00e1 encerrada, que lhe ouvi as afli\u00e7\u00f5es, uma vez, no meio do barulho.\n\n&#8211; Coitada!\n\n&#8211; E o Rebelo, senhora, que gentil cavalheiro! Sete contra um! Ele s\u00f3 \u00e9 homem para fazer frente a todos, mas era preciso que estivesse em campo raso. Assim de emboscada, com certeza o acabam.\n\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 de acontecer essa desgra\u00e7a.\n\n&#8211; Se j\u00e1 n\u00e3o aconteceu agora mesmo que lhe falo. A senhora consente que se mate a trai\u00e7\u00e3o, aqui dentro da sua casa, a seu sobrinho, porque ele o \u00e9?\n\nEstava precisamente a D. Severa pensando que era aquele um dos casos em que uma dama, segundo as regras da cavalaria andante, devia intervir em favor do oprimido; pelo que tomando a generosa resolu\u00e7\u00e3o, disse para o Nuno, com o tom senhoril de uma castel\u00e3:\n\n&#8211; Ide armar-vos, pajem, enquanto me adere\u00e7o para amparar nossa formosa sobrinha e salvar-lhe o esposo.\n\n&#8211; Mas, senhora; se perdeis um momento, chegaremos tarde.\n\n&#8211; Quereis que me apresente neste desalinho, acudiu D. Severa pudicamente; e v\u00f3s sem armas, que ajuda podereis dar?\n\nS\u00f3 ent\u00e3o reparou Nuno no fresco atavio de ninfa em que se achava D. Severa; e pronto a replicar acerca da sua armadura da v\u00e9spera que o esperava embaixo, n\u00e3o achou argumento contra a necessidade que tinha a dama, de um traje mais avaro de seus encantos ser\u00f4dios.\n\nFor\u00e7a foi ao mo\u00e7o, resignar-se durante meia hora em que, ro\u00eddo pela impaci\u00eancia, descera dez vezes a escada para escutar \u00e0 porta do armaz\u00e9m, e dez vezes subira para espiar no camarim da dama se ela acabara de adornar-se.\n\nAfinal saiu D. Severa em grande paramento, de anquinhas, cauda, trunfa, pluma e leque, pois n\u00e3o dispensava em ocasi\u00f5es solenes nenhum desses atavios fidalgos.\n\nPodia o marido de Leonor ter morrido vinte vezes no tempo despendido com esse adere\u00e7o; mas ela \u00e9 que n\u00e3o podia derrogar nos seus deveres de dama da primeira nobreza pernambucana.\n\nDesceu a senhora com um andar pomposo ao r\u00e9s-do-ch\u00e3o, onde o Nuno enfiou apressado a coura\u00e7a e a cervilheira que deixara ao p\u00e9 da escada para mais ligeiro correr acima e abaixo.\n\nDepois que o pajem bateu debalde uma e muitas vezes na porta do armaz\u00e9m, lembrou-se D. Severa que do outro lado havia uma janela, por onde mais facilmente poderiam penetrar.\n\nDeram volta, e \u00e0 sumida luz da candeia, que o vento a\u00e7outava, acharam sem mais demora o que procuravam.\n\nPrecisamente nessa ocasi\u00e3o, Vital atento ao mosquete prestes a disparar, desviara-se para o lado esquerdo do arm\u00e1rio, a fim de no momento dado abrigar-se com a quina do m\u00f3vel.\n\nFeriu-lhe o ouvido o ceceio das vozes de D. Severa e seu pajem que avisavam no modo de penetrarem no aposento. Notando que esse murm\u00fario sa\u00eda da fresta que ficava entre o arm\u00e1rio e a parede, adivinhou o mancebo a exist\u00eancia de um v\u00e3o de janela ou porta naquele ponto. Com um olhar calculou a posi\u00e7\u00e3o de seus advers\u00e1rios, a dist\u00e2ncia em que se achavam os to cheiros, e tra\u00e7ou um plano.\n\nAo disparar o mosquete, arrojou-se ele ao canto do arm\u00e1rio, e metendo o bra\u00e7o entre o fundo e a parede, empurrou com tal for\u00e7a o pesado traste que este despenhou-se no ch\u00e3o, causando um temeroso estrondo e apagando as tochas com a violenta desloca\u00e7\u00e3o do ar.\n\nAproveitando-se da escurid\u00e3o, o. intr\u00e9pido mancebo encontrou \u00e0s apalpadelas a janela; cuja aldraba facilmente abriu. Com o baque do arm\u00e1rio, D. Severa soltara a candeia, ficando o corredor \u00e0s escuras; mas percebia-se no fundo uma nesga. de c\u00e9u.\n\nPor ali desapareceu Vital.\n\nAo saltar a janela, encontrou resist\u00eancia que logo cedeu, e ouviu um grito; mal suspeitava que duma peitada tinham virado de cambalhotas,. um sobre o outro, a respeit\u00e1vel D. Severa e seu pajem.\n\nMas o pior foi que, nesse rolo, a ponta do chifarote de Nuno ia vazando o olho direito da dama, que nessa ocasi\u00e3o provou a. vantagem de possuir um sofr\u00edvel nariz.\n<h4><strong><a id=\"p28\" name=\"p28\"><\/a>CAP\u00cdTULO VIII<\/strong><\/h4>\n<strong>UMA AMOSTRA DA GERINGON\u00c7A POL\u00cdTICA DE NOSSOS AV\u00d3S<\/strong>\n\nPouco faltava para soarem trindades na torre da Madre de Deus.\n\nEra um s\u00e1bado, 15 de outubro, e portanto dois dias depois da aventura de Vital Rebelo em Olinda.\n\nHavia essa tarde o ajuntamento do costume na cal\u00e7ada do mercador Viana, que morava como j\u00e1 se sabe \u00e0 Rua da Moeda, para as bandas do Forte de Matos.\n\nAos dois e tr\u00eas iam chegando os principais da mascataria, e outros que n\u00e3o tinham voz ativa, mas serviam para fazer n\u00famero.\n\nPercebia-se que era de pondera\u00e7\u00e3o o neg\u00f3cio, n\u00e3o s\u00f3 pela maior companhia, como pela preocupa\u00e7\u00e3o que se mostrava em todos os semblantes.\n\nJunto a uma das janelas estava sentado o Viana, pai do nosso Nuno, e com quem ainda n\u00e3o tivemos ocasi\u00e3o de avistar-nos.\n\nEra uma formid\u00e1vel amostra de homem, com sofr\u00edvel estampa, e uma dessas caras sedi\u00e7as, ornadas do cl\u00e1ssico passa-piolho, como se encontram a cada volta entre os nossos irm\u00e3os de al\u00e9m-mar, e que s\u00e3o vulgarmente conhecidas caras de mestre de barco.\n\nNo mais, boa pessoa, um tanto pachorrento e descansado na voz como nos gostos; marroaz, amigo da chelpa que para ele fora sempre a melhor pol\u00edtica, o Sr. Miguel Viana passava entre os amigos no f\u00edsico e no moral por um perfeito p\u00e9.de-boi.\n\nIncomodara ao mercador a peraltice do Nuno que j\u00e1 ele sabia estar metido com os nobres em Olinda; mas devemos confessar que o desgosto do pai com a marotice do filho n\u00e3o foi t\u00e3o grande quanto a mofina do patr\u00e3o, por ver-se de repente sem caixeiro na loja.\n\n\u00c0 medida que vinham chegando os parceiros, erguia-se o mercador para os saudar, e tamb\u00e9m para alcan\u00e7ar dentro da casa os tamboretes que oferecia aos rec\u00e9m-chegados, os quais se iam abancando em roda.\n\nA parte feminina da fam\u00edlia entrava para a sala, onde estava a Senhora Rosaura para as receber com mil requebros em que nestas ocasi\u00f5es se desfazia o seu corpo rechonchudo com s\u00e9rio risco de sua respeit\u00e1vel trunfa.\n\nJ\u00e1 havia chegado com sua cara-metade e a menina Marta o digno almotac\u00e9, o Sr. Sim\u00e3o Ribas, que estava abancado \u00e0 direita do Viana, e nesse momento apontara na esquina o importante almoxarife, Domingos da Costa Ara\u00fajo, que se aproximou com um andar grave e enf\u00e1tico.\n\nEra o Costa Ara\u00fajo um dos luminares da mascataria e sem contesta\u00e7\u00e3o o mais bem falante. Em arranjar um vistoso ramalhete de bonitas frases, ningu\u00e9m levava-lhe a palma. No mais n\u00e3o se cansava; toda a ci\u00eancia dos neg\u00f3cios, cifrava-a em ter por si o homem, fazendo-lhe como aos meninos se costuma as pequenas vontades.\n\nQuando mo\u00e7o, tinha ele tomado ao s\u00e9rio essa nigromancia apelidada pol\u00edtica, e prodigalizara grande soma de talento, de entusiasmo e de atividade, na defesa dos povos contra a prepot\u00eancia dos governadores. Fora um dos precursores da democracia brasileira, que um s\u00e9culo depois devia suscitar o Martins, o Miguelinho e outros m\u00e1rtires pernambucanos.\n\nNesse fervor dos anos escrevera uma fil\u00edpica, no g\u00eanero de Dem\u00f3stenes, contra a ra\u00e7a bragantina, o que lhe valeu a ira dos advers\u00e1rios, e o receio dos amigos que temiam-lhe o cont\u00e1gio.\n\nRecebeu a li\u00e7\u00e3o e aproveitou-a. Conheceu que os povos, por quem se havia sacrificado, eram animais dom\u00e9sticos: \u00e0 liberdade preferem o quente aprisco onde os reis os p\u00f5em \u00e0 ceva.\n\nDesde ent\u00e3o mudou de rumo; passou a. viver nos melhores termos com os governadores, que tinham em grande conta os seus conselhos; pelo que o proveram no cargo de almoxarife, al\u00e9m de outras merc\u00eas. Rosnavam os invejosos de um ato de contri\u00e7\u00e3o feito a D. Sebasti\u00e3o de Castro. Vinha o boato da mordacidade de um dos tais amigos, que se valem da intimidade para melhor beliscarem: s\u00e3o como os gorgulhos que se metem dentro do gr\u00e3o para lhe roerem a flor.\n\nNo f\u00edsico, n\u00e3o fora a natureza t\u00e3o liberal com o Costa Ara\u00fajo como no moral; mas sabia ele dar \u00e0 sua quadratura um tom apresent\u00e1vel. Se neste s\u00e9culo de espiritistas em que se tiram fotografias \u00e0s almas do outro mundo houvesse curioso que se lembrasse de pintar a estampa de alguma figura de ret\u00f3rica das mais bochechudas, como por exemplo a prosop\u00e9ia, ter\u00edamos o retrato ao vivo do nosso pomposo almoxarife.\n\nA seu lado o Sim\u00e3o Ribas fazia as vezes de um solecismo junto de uma ora\u00e7\u00e3o de C\u00edcero; e todavia n\u00e3o tinha o almotac\u00e9 menos engenho que ele, avantajando-se-lhe assaz na c\u00f3pia dos conhecimentos que havia colhido nas v\u00e1rias prov\u00edncias liter\u00e1rias; pois era de muito e constante labor, t\u00e3o versado nos livros qu\u00e3o pouco nos homens.\n\nTomou o Costa Ara\u00fajo assento \u00e0 esquerda do Viana, e depois das urbanidades usuais e de uma anedota contada pelo almoxarife, que apreciava esse acepipe liter\u00e1rio, assoou-se o almotac\u00e9 e temperou a garganta para abrir a confer\u00eancia:\n\n&#8211; Sabem os amigos e companheiros que se est\u00e1 seliamente cuidando no suplemo da clia\u00e7\u00e3o da nossa vila do Lecife; mas alguns senholes andam inquietos com a demola e ent\u00e3o quiselam que se fizesse uma junta para se avisal no que mais conv\u00e9m e conceltal os meios de aplessal o nosso tliunfo. \u00c9 pol isso que estamos aqui, cada um dos senholes melcadoles dil\u00e1 seu palecei; o meu \u00e9 que devemos confial no suplemo e espelai que a alta sabedolia da govelna\u00e7\u00e3o do Estado ploveja como entendel, que h\u00e1 de sel semple pelo melhol.\n\nCompreenderam os circunstantes o sentido da arenga, pois al\u00e9m de muito habituados ao lambdacismo do Sim\u00e3o Ribas, sabiam que suplemo era uma express\u00e3o m\u00edstica para designar o governador, tendo ele por m\u00edngua de respeito indic\u00e1-lo nominalmente.\n\nSeguiu-se uma pausa formada pela hesita\u00e7\u00e3o daqueles que desejavam tamb\u00e9m dar sua colherada, mas tolhia-os o enleio. Um desses era o marreco do Capit\u00e3o Miguel Correia Gomes que trazia decorado um farel\u00f3rio do Padre Jo\u00e3o da Costa, com a inten\u00e7\u00e3o de impingi-lo \u00e0 assembl\u00e9ia, mas agora suava como um caldeir\u00e3o a ferver.\n\nHavia chegado momentos antes o Vital Rebelo, que apeara-se do cavalo e recostado ao selim ouvira a fala do almotac\u00ea. Percebia-se no seu gesto a indiferen\u00e7a que lhe inspiravam essas assembl\u00e9ias, onde se burlava a sinceridade de muitos em proveito da ambi\u00e7\u00e3o ou comodismo de alguns.\n\n&#8211; Como seja l\u00edcito a cada um dar seu voto por mais desencontrado que pare\u00e7a, direi eu o que penso. Esta vila do Recife vai fazer em novembro um ano que El-Rei a criou; e pois que o governador por ele mandado a esta capitania tem deixado de cumprir a carta r\u00e9gia, mostrando-se rebelde, nosso dever de fi\u00e9is vassalos \u00e9 obrig\u00e1-lo \u00e0 obedi\u00eancia que deve a seu pr\u00edncipe e senhor; e sendo preciso, erigirmos n\u00f3s, os povos em conselho, o padr\u00e3o da vila. Se estais por isso, contai comigo; mas das nega\u00e7as em que andais \u00e0s voltas com o governador, n\u00e3o entendo, nem quero saber.\n\nO venerando almotac\u00e9, que tinha por costume ir todas as tardes ao benedicite em pal\u00e1cio, e que n\u00e3o punha taxa, nem julgava coima, sem levar antes a D. Sebasti\u00e3o de Castro um rascunho para receber a corre\u00e7\u00e3o do mestre, azoou com aquela ins\u00f3lita linguagem, e apuridou ao Viana que ficara impass\u00edvel, resguardado como estava contra esses sobressaltos pela espessa crosta de sua pachorra.\n\nO almoxarife, por\u00e9m, que viu retratada a sua petul\u00e2ncia de outrora naquela isen\u00e7\u00e3o do mancebo, sorriu-se de um modo significativo, e pensou consigo como aos cinq\u00fcenta anos se n\u00e3o havia de espantar o Rebelo de seus arrebatamentos juvenis.\n\nNisso \u00e9 que se enganava o Costa Ara\u00fajo. Homens h\u00e1, e ele era um, em quem o desengano gera o cepticismo. Em outros, por\u00e9m, a f\u00e9 \u00e9 t\u00e3o profunda e t\u00e3o de raiz que n\u00e3o h\u00e1 extirp\u00e1-la; n\u00e3o podendo arranc\u00e1-la, o que fazem a ingratid\u00e3o e deslealdade \u00e9 que, \u00e0 for\u00e7a de a abalarem, deixam ali uma chaga que se est\u00e1 magoando a cada instante contra as mis\u00e9rias do mundo. Era deste cadinho a alma de Vital.\n\n&#8211; Aquilo \u00e9 despeito! rosnou o Padre Jo\u00e3o da Costa.\n\n&#8211; Como o governador n\u00e3o o fez capit\u00e3o! &#8230; acrescentou o Miguel Correia , enfunado da sua gineta.\n\nTomou ent\u00e3o a palavra o Doutor Ant\u00f4nio de Sousa Magalh\u00e3es, que foi um dos letrados de maiores cr\u00e9ditos entre os mascates. Era me\u00e3o de corpo e estatura.\n\nN\u00e3o tinha fisionomia, mas uma cara insossa e desbotada sem a menor express\u00e3o. S\u00f3 num tra\u00e7o reparava-se: era nos olhos pequenos, por causa das p\u00e1lpebras sem pestanas e debruadas de vermelho que pareciam casas de bot\u00f5es.\n\nNos primeiros tempos dizia o Magalh\u00e3es que o seu lote neste mundo o queria em ouro. Com a experi\u00eancia, por\u00e9m, foi aprendendo que o ouro \u00e9 precioso sobretudo pela ductilidade, e conheceu quanto ele se prestava a todos os misteres, \u00e0 cobi\u00e7a, \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o e at\u00e9 \u00e0 beatice.\n\nEra o nosso advogado um dos que mirravam-se com o desejo de pilharem um lugar na secretaria do governador, mas como a sombra fugia-lhe, inculcava-se de imposs\u00edvel, e n\u00e3o perdia ensejo de rufar a sua abnega\u00e7\u00e3o.\n\nFoi insigne beato. Ouvia missa com exemplar devo\u00e7\u00e3o, e rezava todo o of\u00edcio da Semana Santa ajoelhado, de ripan\u00e7o em punho; at\u00e9 fazia novenas e ter\u00e7os em casa. Mas a sua carolice n\u00e3o se reduzia a essa parte asc\u00e9tica; freq\u00fcentava o refeit\u00f3rio da Madre de Deus nos dias da peixada e apreciava as moquecas e pastel\u00f5es que lhe mandavam de mimo em salvas de prata os padres Mendicantes do Ser\u00e1fico S\u00e3o Francisco.\n\nPassou o Dr. Magalh\u00e3es por grande ret\u00f3rico, e poucos no seu tempo tiveram tanto jeito para engordar essa simpleza do vulgacho, que hoje em dia se decora com o pomposo nome de opini\u00e3o p\u00fablica e que melhor se chamaria de pasmaceira p\u00fablica.\n\nO que distinguia especialmente a fac\u00fandia do nosso homem era a entona\u00e7\u00e3o com que ele pronunciava as palavras. Essa esp\u00e9cie de eloq\u00fc\u00eancia retumbante tem sido cultivada por outros, mas ningu\u00e9m ainda levou-lhe a palma. Darei aqui um exemplo de sua for\u00e7a nesse g\u00eanero.\n\nEm uma das arengas que ele freq\u00fcentemente fazia nas rodas dos mascates contra os nobres de Olinda, querendo pint\u00e1-los sob uma face odiosa que produzisse impress\u00e3o no audit\u00f3rio, exclamou: Vivem atolados no pir\u00e3o, na rapadura e na cacha\u00e7a.\n\nUm seu \u00eamulo diria esse rasgo com uma voz estent\u00f3ria capaz de estremecer os alicerces; outros lhe dariam inflex\u00f5es enf\u00e1ticas; mas nenhum era capaz de a pronunciar como o Magalh\u00e3es, percorrendo tr\u00eas escalas crom\u00e1ticas desde a primeira nota do tiple at\u00e9 a \u00faltima do baixo profundo.\n\nA frase, come\u00e7ada no nariz, descia-lhe pela garganta aos burburinhos e ia roncar nas profundezas do ventre. Assim, quem o ouvia falar conhecia logo que o homem n\u00e3o s\u00f3 tinha grande papo, embora invis\u00edvel, como que era insigne ventr\u00edloquo.\n\nQuando o Dr. Magalh\u00e3es e o Padre Jo\u00e3o da Costa se encontraram pela primeira vez, sentiram-se mutuamente atra\u00eddos por uma simpatia irresist\u00edvel. Agora achavam-se estremecidos; e dizia o reverendo que muito breve haviam de ver o advogado ao servi\u00e7o do Filipe Uchoa e da gente de Olinda.\n\nPara rebater o alvitre do Rebelo, desfiou o Magalh\u00e3es uma longa perlenga, cheia dos costumados borborigmos, e arrebicada de uns revirados de olhos com que ele pretendia dar \u00e0 fei\u00e7\u00e3o insulsa umas borradelas de ironia. Ao cabo, passada toda essa loq\u00fcela por um cantil, n\u00e3o ficava sen\u00e3o o baga\u00e7o do que havia dito o Sim\u00e3o Ribas.\n\nAssim o venerando almotac\u00e9 aplaudiu; o Viana remexeu os ombros, o que nele era sinal de grande como\u00e7\u00e3o, e o Costa Ara\u00fajo fez com a cabe\u00e7a um gesto gong\u00f3rico de aprova\u00e7\u00e3o.\n\nAqui terminou a junta, com o maior desprazer do Miguel Correia que foi obrigado a embuchar a perlenga, e do Campelo que n\u00e3o sofria lhe disputassem a gl\u00f3ria de incensar o governador, cujo paneg\u00edrico j\u00e1 tinha escrito, bem longe de pensar que teria de cantar-lhe a palin\u00f3dia.\n\nVital Rebelo fora-se, e com ele a maior parte dos que tinham acudido ao convite. Nada se resolvera, mas era esse precisamente, e n\u00e3o outro, o fim da junta que se fizera para acalentar as impaci\u00eancias de alguns s\u00f4fregos e exagerados. Falara o almotac\u00e9 que todos sabiam da privan\u00e7a de D. Sebasti\u00e3o; e os mais exigentes voltavam satisfeitos.\n\nReduzida a roda aos \u00edntimos, tornou-se geral a palestra, travando-se os col\u00f3quios a trecho.\n\n&#8211; Eu c\u00e1, disse o Campelo, do governador n\u00e3o suspeito, n\u00e3o; mas o Barbosa de Lima n\u00e3o \u00e9 homem em quem se possa a gente fiar.\n\n&#8211; E o tal ajudante, que me tem cara de coveiro? E com certeza o \u00e9, que ainda se n\u00e3o meteu em empresa que a n\u00e3o desandasse, acudiu o Br\u00e1s da Silva.\n\n&#8211; Est\u00e1 muito atrasado o Campelo! acudiu o Padre Jo\u00e3o da Costa a rir. Pois o Barbosa de Lima \u00e9 o que D. Sebasti\u00e3o quiser; que o seu grande talento \u00e9 este de ser todos, menos ele pr\u00f3prio, que nunca o soube, nem p\u00f4de.\n\n&#8211; \u00c9 a pura verdade, acudiu o Miguel Correia, que tinha por devo\u00e7\u00e3o apoiar o seu confessor e amigo.\n\n&#8211; E sen\u00e3o vejam, continuou o reverendo: o que disse o Padre Leit\u00e3o domingo passado quando pregou na festa de N. Senhora do Ros\u00e1rio?\n\n&#8211; O que foi ent\u00e3o? perguntou o Seara.\n\n&#8211; Que o secret\u00e1rio t\u00e3o f\u00e1cil qual Lucano se encarecia, como qual Proteu se fingia e transformava.\n\nParece que deu-lhe no goto ao Padre Ant\u00f4nio Gon\u00e7alves Leit\u00e3o a frase, pois ela se encontra textualmente na hist\u00f3ria da Guerra dos Mascates quando fala do Capit\u00e3o Barbosa de Lima, querendo aludir ao ouro dos mascates de que a inveja e a maledic\u00eancia o diziam cosido, bem como \u00e1 versatilidade de g\u00eanio.\n\n\u00c9 achaque este de todos os tempos, que s\u00e3o os amigos quem primeiro e com maior empenho se incumbem de dar voga aos aleives e epigramas dos contr\u00e1rios.\n\nAssim, n\u00e3o trazia o Cosme Borralho, de Olinda, nenhum desaforo contra este ou aquele dos mascates, para o insinuar \u00e0 esconsa no ouvido de alguns dos seus fregueses, que \u00e0 noite n\u00e3o tivesse corrido todo o Recife.\n\nInterviera no di\u00e1logo o Zacarias de Brito:\n\n&#8211; Pois para mim, o Capit\u00e3o Barbosa de Lima \u00e9 homem de muito conceito que vale o seu peso, e n\u00e3o s\u00f3 para mim como para todo o Recite.\n\n&#8211; Ningu\u00e9m diz o contr\u00e1rio, observou o Campelo, ressalvando em tempo o destempero da l\u00edngua.\n\n&#8211; Por certo. Quem o nega? acudiu o Miguel Correia.\n\n&#8211; Esses mexericos que por a\u00ed andam, donde v\u00eam sen\u00e3o da raiva que t\u00eam os de Olinda de o haver perdido, sem contar a inveja de outros que n\u00e3o podem sofrer as suas boas partes?\n\nEste Senhor Zacarias de Brito, seja aqui dito entre par\u00eanteses, queria ser contratador do sal, boa fatia que esperava arranjar.\n\nN\u00e3o havia naquele tempo a maquia dos agenciamentos de volunt\u00e1rios e privil\u00e9gios lucrativos, com que os ajudantes de um governador-fil\u00f3sofo recompensassem os obs\u00e9quios do amigo, as car\u00edcias de alguma bela dama, e a paci\u00eancia dos camaradas impertinentes; mas j\u00e1 ent\u00e3o existiam os estancos e monop\u00f3lios com que se esfomeava o povo para enricar aos mimosos da terra.\n\nNenhum dos circunstantes fizera reparo em uma velha de mantilha, que desde o come\u00e7o da palestra levara a passar pela frente da casa do Viana, quando n\u00e3o se escondia no canto do out\u00e3o. Embora n\u00e3o tivesse a confer\u00eancia cousa de comprometer, tanto que a faziam na cal\u00e7ada, todavia se percebessem o manejo da sujeita, \u00e9 de crer que n\u00e3o consentiriam nessa bisbilhotagem.\n\nCansada de espreitar, a velha deitou-se a trote mi\u00fado para as bandas do Corpo Santo e foi ter a uma r\u00f3tula, onde aparecia a mais emaranhada grenha que j\u00e1 lastrou em cabe\u00e7a de mulher. A dona deste cipoal mal se podia conter \u00e0 gelosia; pois lhe estavam saindo a l\u00edngua e as melenas pelas grades e o corpo pela adufa.\n\n&#8211; Deus me perdoe! Querem ver que foi esta excomungada que se alambazou com a minha mantilha! Ladra do inferno! Espera que eu te ensino!\n\nProferindo esta praga, a sujeita que deitara os gadanhos ao pesco\u00e7o da velha puxou-a para dentro onde, com espanto seu, desembrulhou-se da mantilha a cara velhaca do nosso muito conhecido Cosme Borralho.\n\n&#8211; Eu logo vi que eram artes deste peralta! Que anda voc\u00ea fazendo por a\u00ed com a minha mantilha?\n\n&#8211; Nada; foi para divertir-me com os rapazes.\n\n&#8211; E por causa das suas brejeiradas me deixa aqui presa quando me est\u00e3o esperando na casa da Rosaura a que prometi n\u00e3o faltar! Ai que n\u00e3o sei onde estou, marotinho, que te n\u00e3o arranco esses olhos de cabra morta!\n\n&#8211; Ora, n\u00e3o se zangue, prima Inacinha, disse o Cosme com ar magano, que eu tenho um segredinho para lhe contar.\n\n&#8211; De Olinda? perguntou a In\u00e1cia em c\u00f3cegas. O que \u00e9?\n\n&#8211; Escute!\n\nConchegaram-se os dois a um canto, e p\u00f4s-se o Cosme a cochichar no ouvido da prima, que estava num formigueiro com a pressa de ir-se ao ser\u00e3o ajustado, e o prazer da novidade que levava.\n\nAcompanhara o gaguinho o tal segredo de um acionado original, e de uns requebros de corpo, com que se enroscava pela Inacinha, a qual n\u00e3o se agastava com essas licen\u00e7as orat\u00f3rias do escrevente.\n\nAcabou o Cosme dando \u00e0 prima um papelinho, que ela meteu no cabe\u00e7\u00e3o e traspassando a mantilha, enfiou pela porta fora, como galinha poedeira \u00e0 cata do ninho onde largue o ovo.\n<h4><strong><a id=\"p29\" name=\"p29\"><\/a>CAP\u00cdTULO IX<\/strong><\/h4>\n<strong>DESCOBRE-SE O CASUS BELLI COM QUE N\u00c3O ATINARAM OS CRONISTAS DA GUERRA DOS MASCATES<\/strong>\n\nH\u00e1 quem pense que nada se move neste mundo sem licen\u00e7a da mulher.\n\nDo mais n\u00e3o sei; mas de guerra posso afirmar que nunca as houve, nem \u00e9 poss\u00edvel haver, quando n\u00e3o o queira a soberana saia.\n\nPodia desfiar aqui um ros\u00e1rio de provas tiradas da hist\u00f3ria, al\u00e9m de um milh\u00e3o de argumentos fisiol\u00f3gicos; mas isso nos levaria muito longe, e para o nosso caso basta o que se passava \u00e0quela hora a\u00ed na casa do Miguel Viana.\n\nA sala estava cheia do mulherio que se atulhara pelos estrados, como era uso naquele tempo, e n\u00e3o motejem as mo\u00e7as de agora dessa moda de sentarem-se as nossas bisavozinhas com as pernas cruzadas, que se elas c\u00e1 tornassem, n\u00e3o se haviam de rir menos vendo suas bisnetas ainda franguinhas e j\u00e1 repimpadas em cadeiras de alto espaldar como se fossem umas abadessas.\n\nSentada em tamborete baixo, a Senhora Rufina presidia ao are\u00f3pago feminino.\n\n&#8211; Mas, gentes, n\u00e3o acham que j\u00e1 \u00e9 tempo de dar uma esfrega nessa s\u00facia de p\u00e9s-rapados? dizia a Senhora Rosaura que estava mordida com a escapula do filho.\n\n&#8211; N\u00e3o se agonie, senhora, que havemos de ensin\u00e1-los em regra; mas \u00e9 preciso fazer as cousas com jeito, porque l\u00e1 de barulhos n\u00e3o me falem. S\u00e3o capazes de meter os nossos homens na alhada, e tirar-lhe por a\u00ed a cabe\u00e7a de uma cutilada! Ent\u00e3o o meu, que j\u00e1 \u00e9 tamaninho!\n\n&#8211; Enquanto isso, v\u00e3o os de Olinda roubando a seu salvo nossos filhos porque n\u00e3o t\u00eam quem lhes v\u00e1 \u00e0 m\u00e3o! retorquiu a Senhora Rosaura com azedume.\n\n&#8211; Ora, comadre, isto foi uma vadiagem do traquinas do rapaz que \u00e9 mesmo da pele do c\u00e3o. Outro dia, que n\u00e3o fez o demoninho l\u00e1 em casa? Se ele tem bicho carpinteiro, sou capaz de jurar. Pois n\u00e3o, senhora!\n\n&#8211; \u00c9 mesmo! O capetinha n\u00e3o \u00e9 capaz de assentar o sim-senhor um instante que seja, disse a velha Engr\u00e1cia.\n\nCarecemos de advertir ao leitor, que a Senhora Engr\u00e1cia tinha uma linguagem um tanto espevitada; costumava empregar alguns termos em uma acep\u00e7\u00e3o peculiar sua.\n\nMuitas locu\u00e7\u00f5es pitorescas que ainda hoje vogam pelo norte foram inventadas pela Senhora Engr\u00e1cia, que at\u00e9 do portugu\u00eas pouco sabia, e dizem certos sabich\u00f5es que para cunhar palavras, se precisa saber latim, grego, e ser versado nas l\u00ednguas vivas e mortas. Que tarelos!\n\nAgora o que ela chamava sim-senhor, adivinhem se puderem, que a cr\u00f4nica neste ponto \u00e9 omissa.\n\n&#8211; Mas deixe estar, continuou a Rufina, que tudo se remedeia; eu j\u00e1 falei ao primo. Rebelo, que prometeu-me traz\u00ea-lo pela orelha; por\u00e9m, n\u00e3o consinta que lhe ponha mais o p\u00e9 em casa; de l\u00e1 mesmo \u00e9 arrum\u00e1-lo no primeiro navio que sair para o reino.\n\n&#8211; \u00c9 o que o Sr. Miguel Viana ia fazer por conselho do Ajudante Negreiros, quando o capetinha parece que desconfiou, e escafedeu-se; e logo para meter-se com aquela gente! Assim o agarre eu, como vai direitinho para Lisboa.\n\nOuviu-se um suspiro, que fez a Senhora Rufina lan\u00e7ar uma olhadela para o canto donde se escapara aquela t\u00edmida queixa. Ali estavam juntinhas a Marta e a Belinhas, que encontravam-se essa tarde pela primeira vez depois dos importantes sucessos de que foram teatro a janelinha do s\u00f3t\u00e3o e a r\u00f3tula do beco.\n\nImagine-se pois o que n\u00e3o se tinham a contar as duas camaradas, e como eram curtos os momentos para sua garrulice. Cada uma come\u00e7ou dez vezes a hist\u00f3ria que a outra, impaciente, interrompia para continuar a sua; e assim aos peda\u00e7os, alinhavando aqui e cerzindo ali, conseguiram ambas dizer, n\u00e3o quanto queriam, mas bastante para o caso.\n\nAcabava Belinhas de comunicar \u00e0 amiga que o Lisardo \u00e0quela hora devia estar ao p\u00e9 da cerca esperando v\u00ea-la na r\u00f3tula; e Marta lembrava-se do Nuno que andava por longe, quando a amea\u00e7a da Senhora Rosaura de mandar o filho para Lisboa, arrancou-lhe aquele mavioso suspiro.\n\n&#8211; Eu c\u00e1, se o caso fosse comigo, havia de remeter o pequeno para Lisboa, mas era depois de ter dado o troco aos tais fidalgos de meia-tigela.\n\nEssa observa\u00e7\u00e3o vinha da velha Engr\u00e2cia, que era uma das mais decididas do mulherio recifense.\n\n&#8211; O troco, eles o h\u00e3o de ter, que lho h\u00e1 de dar o governador, e com usura, tornou a Rufina como quem lambia por dentro.\n\nN\u00e3o se rendeu a Engr\u00e1cia:\n\nO governador \u00e9 um trapalh\u00e3o que n\u00e3o ata nem desata. Olhe, senhora, o verdadeiro era untarem as unhas ao Camar\u00e3o, e ent\u00e3o veriam a pisa que lhes ele assentava, na cabralhada de Olinda, e n\u00e3o lhe doessem as m\u00e3os, que \u00e9 do que eles andam muito carecidos.\n\n&#8211; Que o governador \u00e9 remanch\u00e3o, isso \u00e9, acudiu a Josefa do Cartacho em tom de import\u00e2ncia. Fosse ele outra casta de homem que j\u00e1 o Recife estava cansado de ser vila.\n\n&#8211; Apelo eu! tornou Rufina. Que estas cousas assim de supet\u00e3o, senhora, sempre saem aferventadas. O D. Sebasti\u00e3o de Castro, fique com esta que eu lhe digo, \u00e9 manhoso, e sabe o nome aos bois, como diz o meu homem. De mais a mais, enquanto ele estiver por n\u00f3s, ainda que v\u00e1 empalhando, somos do partido do rei, que sempre serra de cima. Por isso \u00e9 que eu sustento, minha gente; nada de barulhos; que tudo se h\u00e1 de arranjar com jeito e paci\u00eancia. Quem \u00e9 que vai meter seu gadanho no fogo, quando pode tirar a sardinha com a m\u00e3o do gato?\n\nUm zumbido de aprova\u00e7\u00e3o acolheu o discurso da mulher do almotac\u00e9, prova de que predominava no conc\u00edlio feminino o partido da paz. Efetivamente as recifenses, apesar de seu vivo desejo de verem criada a sua vila, n\u00e3o dissimulavam que os maridos, pais e irm\u00e3os, destros em manejar a vara e o c\u00f4vado, fariam triste figura com as armas na m\u00e3o; al\u00e9m de que n\u00e3o eram de todo insens\u00edveis \u00e0 galhardia dos mancebos de Olinda, os quais preparando-se a vencer os mascates, se rendiam aos requebros dos olhos feiticeiros das lindas mercadoras.\n\n&#8211; T\u00e1, t\u00e1, t\u00e1! treplicou a Engr\u00e1cia, oposicionista ac\u00e9rrima. V\u00e1-se fiando no bicho, que depois eu lhe contarei uma hist\u00f3ria. Olhem, gentes, eu sempre enquijilei com homem sonso.\n\nNeste ponto barafustou pela casa dentro a Inacinha, a quem vinha comendo a l\u00edngua a novidade que trazia.\n\n&#8211; Ora muito bem chegada! disse a Rufina.\n\n&#8211; Mais vale tarde do que nunca! observou a Rosaura a rir.\n\n&#8211; Para a nova que trago, antes nunca chegasse! tornou a Inacinha com ar de import\u00e2ncia.\n\n&#8211; Que nova \u00e9 essa, mulher? perguntou a Rufina.\n\n&#8211; Que \u00e9?&#8230; Que \u00e9?&#8230; Ora adivinhem!\n\n&#8211; Despache-se de uma vez, criatura. N\u00e3o esteja ai a resmoer a gente! acudiu a Rosaura, que j\u00e1 se achava sobre brasas.\n\n&#8211; Que h\u00e1 de ser? Um desaforo!&#8230;\n\n&#8211; Da ral\u00e9 de Olinda?\n\n&#8211; De quem mais?\n\n&#8211; Mas ent\u00e3o que foi?\n\n&#8211; A cousa \u00e9 de cantiga. Eles mandaram p\u00f4r em trova&#8230; J\u00e1 me esquece o nome do cujo&#8230; Mandaram p\u00f4r em trova para andar na boca do mundo.\n\n&#8211; \u00d3 mulher de meus pecados, n\u00e3o falar\u00e1s?\n\n&#8211; Que estou eu fazendo, d\u00e9s que entrei? Agora se n\u00e3o me deixam acabar, n\u00e3o tenho eu a culpa.\n\n&#8211; Pois acabe..\n\n&#8211; Diga a trova.\n\n&#8211; Isso, n\u00e3o digo. Ent\u00e3o a gente mete assim no caco de repente uma embrulhada de versos?\n\n&#8211; Neste caso o que trouxe voc\u00ea, gente? perguntou a Rufina.\n\n&#8211; Est\u00e1 o que \u00e9! disse a Inacinha apresentando o bilhete que tirou do seio.\n\n&#8211; Ah!\n\nMurchou a. orelha ao mulherio que estava \u00e0 escuta, com as ou\u00e7as afiadas para a novidade. Naquele tempo ainda n\u00e3o se contava entre as prendas de uma boa dona de casa, o saber ler e escrever: era isso luxo fidalgo, que n\u00e3o chegava a todos. N\u00e3o se estranhe pois o logro que sofreu nesse momento a curiosidade feminina.\n\n&#8211; Marta! disse a Rufina, passado o primeiro pasmo. Toma este papel e l\u00ea o que est\u00e1 a\u00ed.\n\nErgueu-se a menina para obedecer \u00e0 m\u00e3e, e aproximou-se da cantoneira onde bruxuleava a candeia. Belinhas acompanhara a amiga e por cima do ombro a ajudava a soletrar as palavras escritas em bastardinho.\n\nEstavam ambas tr\u00eamulas e com as faces a arder; principalmente a que tinha de fazer a leitura.\n\nN\u00e3o era qualquer bagatela esta exibi\u00e7\u00e3o. A travessa Marta n\u00e3o sentiria t\u00e3o grande acanhamento, se mocinha de hoje, no dia seguinte ao deixar o col\u00e9gio e as cal\u00e7as curtas, fosse obrigada a cantar em sala de baile a mais dif\u00edcil cavatina de Rossini.\n\nDecorrido o tempo necess\u00e1rio para que as duas meninas soletrassem todas as palavras e chegassem ao fim do papel, a Rufina interpelou a filha:\n\n&#8211; Anda, menina!\n\n&#8211; Senhora m\u00e3e!&#8230; balbuciou Marta.\n\n&#8211; L\u00ea!\n\n&#8211; \u00c9 uma cousa muito feia!\n\n&#8211; Mas o que \u00e9? perguntaram as outras tinindo de curiosidade.\n\n&#8211; Eu n\u00e3o sei!\n\nQue fazes ai com os olhos no papel?\n\n&#8211; L\u00ea tu, Belinhas!\n\n&#8211; Eu! Deus me defenda!\n\n&#8211; Marta, deixa-te de dengos. L\u00ea, que te mando eu.\n\nQuis obedecer a menina; mas a palavra que lhe espontava no l\u00e1bio gentil, recolheu-se num assomo de pudor.\n\n&#8211; N\u00e3o posso!\n\n&#8211; Oh! buginica! disse Rufina amea\u00e7ando de longe a filha com um coque.\n\n&#8211; Olhem l\u00e1, gentes, n\u00e3o seja alguma brejeirada! observou prudentemente a Josefa.\n\n&#8211; \u00c9 mesmo! Pode sair da\u00ed uma sujidade!\n\n&#8211; Que partes s\u00e3o estas agora! acudiu a Inacinha. Eu c\u00e1 sou mulher de andar com porcarias?&#8230; AI o que tem demais \u00e9 uma hist\u00f3ria cabeluda!\n\n&#8211; Est\u00e3o vendo!&#8230; Tem hist\u00f3ria cabeluda, senhora! exclamou a Josefa.\n\n&#8211; Tenha o que tiver, h\u00e1 de ler, ou eu n\u00e3o me chamo Rufina, gritou a mulher do almotac\u00e9 levantando-se.\n\n&#8211; Eu pelo sim, pelo n\u00e3o, vou tapando meus ouvidos, disse a Josefa que estava latejando por saber.\n\n&#8211; Agora \u00e9 que te quero ver, sirigaita! dizia a Rufina amea\u00e7ando a filha com um belisc\u00e3o. Se tiveres o atrevimento de me respingar, com certeza te meto no convento, n\u00e3o sei que diga! Anda, deita j\u00e1 para a\u00ed.\n\nAfinal decidiu-se a Marta, que dum f\u00f4lego, antes que se arrependesse, leu de afogadilho o conte\u00fado do papel.\n<p align=\"center\">Todo o mascate \u00e9 patife,\nLabrego, cara de Judas;\nE as mulheres do Recife\nTem as pernas cabeludas.<\/p>\n&#8211; Desavergonhados! gritou a Senhora Rufina.\n\n&#8211; Desaforo!\n\n&#8211; J\u00e1 se viu um atrevimento igual?\n\nA grazinada de um bando de maritacas, em ro\u00e7ado de milho, quando lhe disparam um tiro, pode dar uma id\u00e9ia da algazarra que levantou no congresso feminino a quadra fatal, que ia conflagrar Pernambuco.\n\nChamar os mascates de patifes, labregos, judas e cousa pior, era sem d\u00favida uma insol\u00eancia; mas n\u00e3o havia estranhar na canalha de Olinda que ela se despicasse dos ep\u00edtetos afrontosos que tamb\u00e9m n\u00e3o lhe poupavam os recifenses.\n\nO que, por\u00e9m, n\u00e3o tinha nome e tomava as propor\u00e7\u00f5es de um atentado sem exemplo, era dizer-se que as damas do Recife tinham pernas cabeludas. Todos os tratos da inquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o bastavam para punir este crime inaudito, que s\u00f3 podia ser expiado na fogueira.\n\nEnquanto serena o alvoro\u00e7o produzido pela leitura, aproveitamos para dizer a origem daqueles versos.\n\nO Nuno, que era um grande abelhudo, certo dia espiando pelo buraco da fechadura, tinha visto na alcova da m\u00e3e uma perna t\u00e3o cabeluda que a princ\u00edpio lhe pareceu de tamandu\u00e1. Mas logo com espanto descobriu que pertencia a certa pessoa que nesse dia estava de visita em casa da comadre e fora ao quarto para concertar a saia.\n\nPassando-se a Olinda onde a D. Severa o atanazava de perguntinhas, escapuliu ao rapaz a descoberta da perna cabeluda, que a dama muito apreciou encarregando logo ao Lisardo de a p\u00f4r em verso. As torturas por que passou o nosso poeta nessa ocasi\u00e3o n\u00e3o se descrevem; tentou ele em princ\u00edpio descorar o epigrama, mas a ninfa olindense obrigou-o ponto por ponto a rimar aquela quadra em que ofendia a formosura sem par da sua adorada Belisa.\n\nA rima foi recitada no ser\u00e3o do Capit\u00e3o-Mor Cavalcanti e muito aplaudida. No outro dia teve o Cosme vento da cousa e logo tratou de a meter no bico da gente do Recife, na esperan\u00e7a de ir assim cada vez mais turbando as \u00e1guas onde contava pescar. Do como o fez, j\u00e1 sabemos.\n\n&#8211; S\u00f3 enforcados! dizia a Josefa.\n\n&#8211; Qual enforcados, senhora! Ainda picados como cabidela para fazer past\u00e9is, ou assados na grelha do Santo Oficio, n\u00e3o pagam esse desaforamento, exclamou a Rufina.\n\n&#8211; Eu como n\u00e3o tenho perna cabeluda!&#8230;. disse a Inacinha.\n\n&#8211; Quem fala nisso agora, mulher? exclamou a Rufina furiosa. Tenha ou n\u00e3o, \u00e9 o mesmo! H\u00e1 de andar como as outras na boca do mundo.\n\n&#8211; Mas quem foi o renegado que fez este verso?\n\n&#8211; Espere!&#8230; N\u00e3o me lembro mais do nome!\n\n&#8211; Pois indague, que ele \u00e9 quem h\u00e1 de tirar a prova do pelourinho de nossa vila. J\u00e1 me estou regalando de o ver a\u00e7oitar!\n\n&#8211; Eu, se o encontrasse, arrancava-lhe os olhos com estas unhas!\n\nNo meio da tempestade levantada pela rima do Lisardo, tinham-se esgueirado da sala as duas meninas, que foram direitas ao quarto de Belinhas.\n\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o disse que ele est\u00e1 esperando? perguntou a Marta.\n\n&#8211; Penso que est\u00e1! respondeu corando a outra.\n\n&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 chamar?\n\n&#8211; Eu, Marta?\n\n&#8211; Pois, Belinhas, quem h\u00e1 de ser?\n\n&#8211; Tenho vergonha!\n\n&#8211; Ent\u00e3o eu chamo por voc\u00ea.\n\nE a Marta caminhou para a r\u00f3tula com ar decidido.\n\n&#8211; Est\u00e1 bom; eu vou! tornou Belinhas mais animosa.\n\nCom efeito entreabriu a r\u00f3tula, e viu junto ao oit\u00e3o uma sombra.\n\n&#8211; Anda, Belinhas!\n\nA menina deu um psiu t\u00e3o sumido que n\u00e3o se ouviu a dois passos. Marta, por\u00e9m, repetiu o sinal com for\u00e7a muitas vezes.\n\nO nosso Lisardo, assim avisado de repente, esteve a abalar dali, tonto com a aventura. Mas a voz impaciente da filha do almotac\u00e9 o colou \u00e0 parede.\n\n&#8211; Venha!&#8230;\n\nO nosso poeta ficou im\u00f3vel.\n\n&#8211; Venha j\u00e1!&#8230;\n\nParou-lhe a respira\u00e7\u00e3o:\n\n&#8211; Sen\u00e3o fico zangada!\n\nFoi preciso despachar a Benvinda para trazer \u00e0 fala o poeta, que s\u00f3 depois de mil sustos e arrependimentos resolveu-se a acompanh\u00e1-la.\n\nQuando \u00f3 Lisardo penetrou na alcova, a Belinhas o esperava encostada na cabeceira da cama, e a Marta escondida por tr\u00e1s do cortinado ficara de espreita, para animar a amiga a quem ensinara o recado.\n\nSaiu por\u00e9m a cousa \u00e1s avessas; porque o Lisardo depois de duas topadas que deu ao entrar, e que o iam levando ao ch\u00e3o, embutiu-se no canto do trum\u00f3 como se fosse uma figura de pau; e a Belinhas repuxando as sanefas do cortinado, foi-se enrolando de modo que n\u00e3o se lhe via sen\u00e3o a ponta do p\u00e9.\n\nNesse jeito achou-se Marta descoberta, e vendo que os dois namorados n\u00e3o tugiam, assentou ela de tomar a si a tarefa e com a sua natural e graciosa petul\u00e2ncia dirigiu-se nestes termos ao Lisardo im\u00f3vel e cabisbaixo.\n\n&#8211; Saiba o Senhor Lisardo de Albertim que n\u00e3o veio aqui para ficar assim amuado num canto. Quando Belinhas o chamou foi para experimentar os seus extremos, porque tendo vindo l\u00e1 de Olinda uns versos em que se dizem cousas muito ruins das mo\u00e7as do Recife, ao senhor, que se rendeu \u00e0 formosura de uma dessas t\u00e3o maltratadas, cabe responder.\n\nEstremecera o Lisardo lembrando-se da quadra que a D. Severa o obrigara a fazer, e julgou-se perdido. Marta continuou, mostrando-lhe os aviamentos de escrever postos sobre o trum\u00f3.\n\n&#8211; Ai est\u00e1 a pena e todo o mais recado de escrita. Arranje-se, que daqui n\u00e3o sair\u00e1 sem estar pronta a rima. H\u00e1 de ser uma cousa que belisque as tais bug\u00ednicas de Olinda. O senhor h\u00e1 de dizer, ou\u00e7a bem, que elas s\u00e3o magras como um fuso; e que todo aquele espalhafato que mostram n\u00e3o \u00e9 nada sen\u00e3o uma gaiola coberta de panos. Est\u00e1 entendido, senhor poeta? Pois trate de desempenhar-se da obriga\u00e7\u00e3o; e veremos ent\u00e3o se os seus rendimentos por Belinhas s\u00e3o sinceros, e qual recompensa merece a sua fineza.\n\nInclinou-se o Lisardo ao trum\u00f3, e a musa da pirra\u00e7a, sob a figura travessa da gentil Marta, inspirou-lhe contra D. Severa estes versos que, embora alusivos a todas as olindenses, eram todavia mentalmente dedicados \u00e0 ninfa:\n<p align=\"center\">Escorridas como um fuso,\nAs damas de Olinda s\u00e3o;\nPor fora aquele esparrame,\nPor dentro \u00e9 s\u00f3 arma\u00e7\u00e3o\nDe pano, d&#8217;osso e arame.<\/p>\nTendo lido a quintilha, a Marta aplaudiu com uma risadinha brejeira, e puxando de dentro do cortinado a m\u00e3o de Belinhas, que resistiu de leve, a deu a beijar ao nosso poeta.\n\n&#8211; Isto \u00e9 para o senhor; agora para o Nuno.\n\nA menina tirou do seio um raminho de alecrim, que entregou ao poeta, mas logo pareceu arrepender-se:\n\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o lho d\u00ea; guarde para si.\n\nSentiu umas c\u00f3cegas a Belinhas, que entreabrindo o cortinado acudiu mui pronta:\n\n&#8211; D\u00ea ao Nuno, d\u00ea sim, senhor, que isso n\u00e3o lhe pertence.\n\n&#8211; Pois d\u00ea, se quiser; mas n\u00e3o que eu mande.\n\nPartiu afinal o Lisardo; e as meninas voltaram \u00e0 sala.\n\nQuando ali entraram, acabava o congresso feminino de resolver a guerra a todo transe, distinguindo-se entre as mais belicosas a Senhora Rufina, que pouco antes se mostrara t\u00e3o prudente e conciliadora.\n\nMas a hist\u00f3ria da perna cabeluda posta em verso tinha abespinhado a vener\u00e1vel matrona, que desde esse momento n\u00e3o respirou sen\u00e3o vingan\u00e7a, e tanto fez que terminou por desencadear a guerra dos mascates, apesar de todas as manhas de D. Sebasti\u00e3o.\n<h4><strong><a id=\"p210\" name=\"p210\"><\/a>CAP\u00cdTULO X<\/strong><\/h4>\n<strong>O COSME BORRALHO MOSTRA COMO J\u00c1 NAQUELE TEMPO SUAVA-SE PARA ARRANJAR\nUM TABELIONATOZINHO<\/strong>\n\nEnquanto se davam estas ocorr\u00eancias, a magna quest\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o da vila do Recife n\u00e3o adiantava uma polegada nos conselhos de. D. Sebasti\u00e3o.\n\n&#8220;Marcar o passo&#8221; &#8211; era a manobra favorita do novo F\u00e1bio, que dissipava o tempo em marchas e contramarchas, deixando-se no meio de suas irresolu\u00e7\u00f5es governar pelos acontecimentos, em vez de os governar, como devem e costumam os homens superiores.\n\nTinha Sebasti\u00e3o de Castro acenado aos nobres de Olinda com a protela\u00e7\u00e3o no cumprimento da carta r\u00e9gia que mandara criar a vila; e dessa pol\u00edtica de in\u00e9rcia contou ele tirar dois proveitos: o de engodar os pernambucanos, arrefecendo-lhes os assomos de revolta; e o de trazer pelo cabresto aos mascates, que o cumulariam de bajula\u00e7\u00f5es, para terem-no a favor.\n\nOrdenava a carta r\u00e9gia de 19 de novembro de 1709 que o governador da capitania com o ouvidor-geral fizessem o termo que entendessem podia caber ao distrito da vila. Essa interven\u00e7\u00e3o do magistrado era um freio salutar que o Rei pusera ao arb\u00edtrio de Sebasti\u00e3o de Castro.\n\nEste, por\u00e9m, achou jeito de iludi-lo, como fazem modernamente os reis constitucionais com os parlamentos, que se n\u00e3o deixam corromper de rosto alegre pelas tet\u00e9ias e boas propinas. Mandam-nos passear como importunos. Assim o fez D. Sebasti\u00e3o com o ouvidor, como veremos no decurso dos acontecimentos.\n\nServia ent\u00e3o o cargo de ouvidor-geral da Capitania de Pernambuco, o Dr. Jos\u00e9 In\u00e1cio de Arouche, que os de Olinda encareciam por honrad\u00edssimo, de \u00e2nimo reto e mui imparcial; mas n\u00e3o vem fora de saz\u00e3o advertir que o magistrado foi ac\u00e9rrimo sequaz dos pernambucanos.\n\nEra o Dr. Arouche sujeito me\u00e3o, seco, e teso de porte. Os ossos repuxavam-lhe a pele encarquilhada, porque desde mo\u00e7o que a inveja o mirrava. N\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de engramponar-se na sua integridade e longa pr\u00e1tica, o que n\u00e3o o impedia de render-se \u00e0s pr\u00f3prias paix\u00f5es.\n\nN\u00e3o atendia a amigos, porque n\u00e3o os tinha, nem os ego\u00edstas sabem a significa\u00e7\u00e3o dessa palavra, que para eles \u00e9 apenas um sin\u00f4nimo de criado. Mas costumava apaixonar-se de tal sorte nos feitos, que n\u00e3o era a sua consci\u00eancia, sen\u00e3o a sua irritabilidade quem julgava.\n\nPouco tempo depois de recebida a carta r\u00e9gia, chamou Sebasti\u00e3o de Castro a pal\u00e1cio o ouvidor para ouvi-lo sobre a demarca\u00e7\u00e3o do novo termo. Pediu o Dr. Arouche tempo para meditar o assunto; e dias depois apresentou seu parecer, opinando que se n\u00e3o podia dar \u00e0 vila maior termo do que do Forte do Brum \u00e0 Ponta dos Afogados.\n\nA antiga vila de Olinda, que ent\u00e3o abrangia quase todo o territ\u00f3rio da atual prov\u00edncia, se compunha de doze freguesias, das quais tr\u00eas urbanas. Ora, segundo o parecer do Dr. Arouche, vinha o Recife a criar-se em vila com sua \u00fanica freguesia, o que n\u00e3o estava no esp\u00edrito da carta r\u00e9gia, e menos no bem dos povos. Mas que se importava o ouvidor com os povos, desde que agradasse a seus amigos, os quais lhe conheciam o fraco e n\u00e3o se cansavam de proclam\u00e1-lo magistrado integ\u00e9rrimo, tipo e modelo de juizes?\n\nInteirado do parecer do ouvidor, e depois de o haver meditado em todas as suas partes, fez Sebasti\u00e3o de Castro ao magistrado esta observa\u00e7\u00e3o:\n\n&#8211; Noto que o senhor ouvidor-geral, pela demarca\u00e7\u00e3o que d\u00e1 ao termo, deixa apenas aos povos do Recife o direito de apanhar mariscos em s\u00f3 metade do rio!\n\n&#8211; Nem outro alvitre seria justo; pois tamb\u00e9m os povos de Olinda, que s\u00e3o t\u00e3o bons como os povos do Recife e como eles comem mariscos, s\u00f3 ficam com o direito de o apanhar em a outra metade do rio.\n\nO argumento era de estucha; mas D. Sebasti\u00e3o tinha sempre uma avenida por onde se espacava.\n\n&#8211; O rio pertence ao Recife, senhor ouvidor.\n\n&#8211; Pertencer\u00e1 se lho derem, e n\u00e3o h\u00e1 de ser com o meu voto, que por ora pertence a Olinda, cujo deve ser em parte igual.\n\n&#8211; Est\u00e1 bem. Ainda n\u00e3o tenho ju\u00edzo assentado sobre este particular, que se carece mui estudado e refletido, como objeto que toca t\u00e3o de perto \u00e0 pobreza.\n\nNesta conformidade resolveu Sebasti\u00e3o de Castro ouvir acerca da quest\u00e3o ao provedor da fazenda e outros ministros da capitania; porque era homem que se n\u00e3o decidia sem meter-se antes em uma barrela de conselho, para lavar da consci\u00eancia todos os escr\u00fapulos.\n\nOpinaram os informantes que se formasse o novo termo com as quatro freguesias do Recife, Cabo, Moribeca e Ipojuca; mas n\u00e3o era a por\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio e a comodidade dos povos o que mais preocupava o \u00e2nimo do governador, e sim a magna quest\u00e3o do marisco.\n\nParecia que, sendo o marisco objeto de tamanha import\u00e2ncia, era de justi\u00e7a, como dizia o ouvidor, reparti-lo entre a pobreza das duas vilas; mas isso que se figurava t\u00e3o simples, enredava-se com mil filigranas no esp\u00edrito do governador a ponto de tornar-se um inextric\u00e1vel labirinto ou outro n\u00f3 g\u00f3rdio imposs\u00edvel de desatar&#8230;\n\nAs consultas de tantos informantes consumiram os dez meses decorridos; para dar a \u00faltima dem\u00e3o ao neg\u00f3cio chamara Sebasti\u00e3o de Castro os ministros e principais a conselho para rever a mat\u00e9ria e assentar-se definitivamente no melhor alvitre.\n\nMas, durante esse lapso de tempo, n\u00e3o dormia o governador sobre o caso.\n\nPor ordem sua se lavraram \u00e0s ocultas e de noite no Forte do Matos as pedras de cantaria para o novo pelourinho; de modo que, sendo preciso, se pudesse erigir a vila de um dia para outro.\n\nNaquele tempo n\u00e3o se criavam cidades e vilas como hoje, com uma penada; era indispens\u00e1vel a picota, erguida na pra\u00e7a concelheira, \u00e0s aclama\u00e7\u00f5es do povo, como padr\u00e3o do governo da terra.\n\nCom o seu peco de ingerir-se em tudo, ia o governador regularmente nos passeios da tarde ao Forte do Matos examinar o andamento da obra, e ai entendia com os canteiros sobre o corte das pedras, a ferramenta e outras minud\u00eancias do of\u00edcio; pois foi ele um enciclop\u00e9dico, que em tudo falava de Cadeira e dava quinau.\n\nEsse neg\u00f3cio do pelourinho era um segredo que n\u00e3o passava do Secret\u00e1rio Barbosa de Lima, do Ajudante Negreiros, do almotac\u00e9, al\u00e9m dos canteiros, o. quais estavam prevenidos de que a menor indiscri\u00e7\u00e3o os lan\u00e7aria nos subterr\u00e2neos das Cinco Pontas.\n\nSucedeu por\u00e9m que na volta da casa do Viana, a Senhora Rufina, que vinha tinindo, disse para o marido:\n\n&#8211; Fique com esta que lhe digo, Senhor Sim\u00e3o: que o tal governador \u00e9 um papa-a\u00e7orda.\n\nA verdade hist\u00f3rica obriga-nos, bem a nosso pesar, a repetir as palavras descabeladas da virago recifense, sem que por isso deixemos de catar o respeito devido \u00e0 mem\u00f3ria de D. Sebasti\u00e3o.\n\nO almotac\u00e9, que nem por sombra suspeitava do epigrama feito \u00e0 perna cabeluda de sua cara-metade, ficou estupefato.\n\n&#8211; S\u00e3o modos, senhola, de falal do excelent\u00edssimo goveinadol, o bla\u00e7o de El-Lei nesta capitania?\n\n&#8211; Eu c\u00e1, tornou a matrona fincando o punho no quadril, n\u00e3o tenho papas na l\u00edngua, o senhor bem sabe; nem estou mais para aturar as l\u00e9rias do paspalh\u00e3o de seu amo; que t\u00e3o bom \u00e9 um como o outro!\n\nO Sr. Sim\u00e3o Ribas, zonzo com essa desenvoltura de l\u00edngua, de que apenas damos a amostra, assentou de aplacar o fogacho que amea\u00e7ava perturbar a paz conjugal; e n\u00e3o achou melhor meio do que revelar \u00e0 sua digna esposa o segredo do pelourinho, recomendando-lhe, por\u00e9m, inviol\u00e1vel sigilo.\n\nOra, a Rufina, que ruminava no modo de ati\u00e7ar o governador contra os olindenses, viu logo todo o partido que podia tirar do neg\u00f3cio do pelourinho, e no dia seguinte bem cedo aprontou-se para ir \u00e0 Inacinha.\n\nTratava-se de levar a Olinda a not\u00edcia do que se estava fazendo no Forte do Matos. Era uma pedra que metia no sapato dos nobres, com a esperan\u00e7a de os instigar contra o governador e assim obrigar este a deixar-se de panos quentes.\n\nAo entrar na cadeirinha que a esperava no corredor, correu a menina Marta dizendo:\n\n&#8211; Senhora m\u00e3e, veja uma cousa que agora mesmo atiraram da janela!\n\n&#8211; Que \u00e9 isto?\n\n&#8211; Um papel, respondeu a menina mostrando. Veio assim embrulhado, e tem umas cousas escritas.\n\n&#8211; Pois destrin\u00e7a l\u00e1 isso! ordenou a Senhora Rufina que estava com pressa; mas logo arrependendo-se estendeu a m\u00e3o para tomar o papel. N\u00e3o, que pode haver ai alguma brejeirada!\n\n&#8211; N\u00e3o tenha susto! respondeu Marta sorrindo.\n\n&#8211; Ent\u00e3o sabes o que est\u00e1 a\u00ed?\n\n&#8211; Se eu j\u00e1 li! disse a maliciosa menina. Quer a senhora m\u00e3e ouvir?\n\nE sem esperar resposta, leu a Marta desta vez com o maior desembara\u00e7o a redondilha que na v\u00e9spera fizera o Lisardo.\n\n&#8211; Da c\u00e1, da c\u00e1, menina! exclamou a Senhora Rufina nadando em j\u00fabilo. Agora \u00e9 que as tais remelosas se v\u00e3o esconjurar! Isso n\u00e3o passa de artes do Padre Jo\u00e3o da Costa. Ele n\u00e3o \u00e9 trovista; mas anda metido com o Tunda-Cumbe que tem o seu jeito, o diacho do galego! Eu s\u00f3 estou imaginando a cara da tal Severa! A arrenegada ent\u00e3o, que \u00e9 mesmo um pau de virar tripas!\n\nMeteu-se afinal a Rufina na cadeirinha que partiu levada por dois pretos carregadores; e pouco tempo depois parava \u00e0 r\u00f3tula da Inacinha. Quem acudiu ao bedelho foi o Cosme Borralho, que reconhecendo a mulher do almotac\u00e9, quis recolher-se; mas era tarde.\n\nFelizmente veio tir\u00e1-lo dos apertos a prima, correndo a receber na porta a Senhora Rufina, enquanto o Pisca-Pisca \u00e0 esconsa enfiava a garnacha que havia enforcado no garabato da candeia, e compunha um tanto a frescalhota, pois o nosso escrevente estava, com o devido respeito, de cuecas, e estas ornadas de dois rombos enormes nas partes mais rotundas do seu indiv\u00edduo.\n\nN\u00e3o escaparam \u00e0 mulher do almotac\u00e9 esses pormenores, que franziram-lhe a testa, afilando o nariz j\u00e1 de natureza pontudo e daquele molde que o povo na sua linguagem pitoresca chamou com muita propriedade nariz de sovela.\n\nVendo a Inacinha arriscada sua boa fama de vi\u00fava recatada, arranjou logo uma peta para explicar a presen\u00e7a do Cosme em sua casa \u00e0quela hora e com tamanha sem-cerim\u00f4nia,\n\n&#8211; Este \u00e9 meu primo, que est\u00e1 de escrevente de cart\u00f3rio; e como chegou agora muito cansado l\u00e1 do Monteiro, onde foi por uns pap\u00e9is, e como estava pingando de suor, coitado!&#8230; Ent\u00e3o eu lhe disse que tirasse a chimarra para refrescar.\n\nNesse momento n\u00e3o mentia a vi\u00fava, que o Pisca-Pisca suava deveras para acertar com a m\u00e3o na manga direita, cuja cava lhe fugia quando cuidava acertar, t\u00e3o atrapalhado estava ele com a presen\u00e7a da esposa do almotac\u00e9. Tamb\u00e9m de seu lado ele via perdida, n\u00e3o a fama, do que pouco se lhe dava, mas a prebenda que esperava alcan\u00e7ar dos mascates como pr\u00eamio de seus pr\u00e9stimos.\n\nA Senhora Rufina ouvira de pesco\u00e7o teso e ar empertigado a esfarrapada mentira que lhe pregara a vi\u00fava, sovelando com o canto do olho ao pobre do Cosme Borralho que estava em termos de desconjuntar o ombro e enfiar-se duma vez ele todo pela manga da garnacha, como o mais pronto meio de sumir-se!\n\n&#8211; Senhora desavergonhada!&#8230; gritou afinal a Rufina crescendo para a vi\u00fava.\n\nDesabava a borrasca, e bem o conheceu a Inacinha que, sem dar-se por achada do ep\u00edteto que a outra lhe acabava de pregar na bochecha, achou modos de arredar o temporal desfeito que vinha sobre ela.\n\nPondo-se na ponta dos p\u00e9s, alcan\u00e7ou o ouvido da Rufina, que n\u00e3o teve tempo de afastar-se.\n\n&#8211; Foi ele que trouxe o verso de ontem.\n\nOperou-se na atitude da mulher do almotac\u00e9 s\u00fabita mudan\u00e7a; n\u00e3o que ela desengatilhasse de todo o car\u00e3o engravitado pela sua pudic\u00edcia arrufada; mas j\u00e1 n\u00e3o amea\u00e7ava disparar numa descal\u00e7adeira, como as sabia dar a matrona recifense.\n\n&#8211; Ent\u00e3o este sujeito tem partes com os de Olinda? perguntou em tom de juiz, que ela tinha mais que o marido almotac\u00e9.\n\n&#8211; Pois se \u00e9 escrevente do cart\u00f3rio! E tamb\u00e9m copia os pap\u00e9is do licenciado, o Davi de Albuquerque, que \u00e9 o trampolineiro-mor dos tais p\u00e9s-rapados. A senhora n\u00e3o sabe?&#8230; O maldito do entrevado, que antes Nosso Senhor lhe tivesse mirrado a l\u00edngua e encarquilhado a m\u00e3o para n\u00e3o fazer o mal que est\u00e1 fazendo, e que o h\u00e1 de levar direitinho ao inferno. Oh! se h\u00e1 de!\n\nEnquanto falava a Inacinha, o Cosme que afinal se havia composto, fazia-lhe do canto sinais de sil\u00eancio; mas ela ia por diante sem importar-se com os esgares do rapaz.\n\nQuanto \u00e0 mulher do almotac\u00e9, prestando \u00e0 tagarelice da Inacinha ou\u00e7as distra\u00eddas, estava ruminando no caso.\n\nEra a Senhora Rufina um politic\u00e3o de primeira for\u00e7a; basta que, n\u00e3o tendo nada de bonita, antes sendo sofrivelmente feia, conseguia meter o seu gadanho na governan\u00e7a por meio do marido. Assim no tr\u00e1fego da sua quitanda entravam, com os coentros e repolhos da horta, uns oficiozinhos de justi\u00e7a ou fazenda, e patentes das ordenan\u00e7as.\n\nA resulta das cogita\u00e7\u00f5es da matrona foi que n\u00e3o devia transtornar o seu plano por causa de uma pouca vergonha que lhe estava inchando os bofes, mas que ao cabo n\u00e3o lhe tocava de perto. Fez ela o que atualmente est\u00e3o fazendo todos os dias os chefes de partido. que no interesse de sua ambi\u00e7\u00e3o servem-se do talento prostitu\u00eddo de um insigne tratante, com quem se atrelam e convivem na maior familiaridade, como amigos e compadres.\n\nPensam eles que mais tarde, quando deitarem fora esse torpe instrumento, podem lavar a m\u00e3o que o manejou; mas enganam-se, que essa lepra moral da corru\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 lix\u00edvia que lhe apague a m\u00e1cula.\n\n&#8211; Diz voc\u00ea, mulher, que foi o mo\u00e7o quem trouxe aquele desaforo da canalha de Olinda!\n\n&#8211; E juro, senhora! Pelas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, se n\u00e3o for verdade, eu n\u00e3o me arrede daqui! Ele est\u00e1 a\u00ed, que o diga!&#8230; terminou a vi\u00fava apontando para o Cosme, que encolheu-se como a ostra na casca.\n\n&#8211; Estas cousas n\u00e3o se falam t\u00e3o alto! observou o Pisca-Pisca em tom submisso, indo \u00e0 r\u00f3tula espreitar pelas reixas se algu\u00e9m estava \u00e0 escuta.\n\n&#8211; Pois ele que trouxe o desaforo h\u00e1 de levar a resposta, tornou a Rufina. Caiu-me a sopa no mel. Eu vinha mesmo por este particular. Chegue c\u00e1, mo\u00e7o!\n\nAproximou-se o Cosme ainda sarapantado; mas sempre embiocado na ronha, que n\u00e3o o abandonava nos transes mais arriscados.\n\n&#8211; Ora, exclamou a Senhora Rufina, \u00e9 o Cosme Borralho, o mo\u00e7o do entrevado!\n\n&#8211; O pr\u00f3prio. senhora de minha venera\u00e7\u00e3o.\n\n&#8211; Pois melhor. Ou\u00e7a c\u00e1!\n\nOuviu o Cosme sornamente o recado da Senhora Rufina.\n\n&#8211; Eu&#8230; eu&#8230; Cos&#8230; Cosme Borralho, disse o escrevente que gaguejava quando lhe fazia conta; eu sou o mais humilde servo&#8230; servo dos servos&#8230; da Senhora D. Rufina, muito digna e excelente esposa do senhor juiz almotac\u00e9; e sempre que precise da insignific\u00e2ncia do meu pr\u00e9stimo. me ver\u00e1 a seus p\u00e9s, como o \u00faltimo de seus cativos para receber as ordens, que \u00e9 uma honra servir a t\u00e3o virtuosa dama.\n\nAqui o Cosme deu um torcicolo e fez uma caramunha de l\u00e1stima:\n\n&#8211; Mas veja a senhora que eu, que n\u00e3o tenho eira nem beira, vivo da rasa do cart\u00f3rio e mais de alguns magros vint\u00e9ns que tiro de copista do licenciado. Ora, se l\u00e1 desconfiam que eu ando metido nas contendas dos senhores mercadores com os pernambucanos, com certeza me p\u00f5em na rua a ver navios, sem ter com que comprar um bocado para a boca.\n\n&#8211; N\u00e3o tenha medo, que n\u00e3o desconfiam, disse a Rufina.\n\n&#8211; Eu tamb\u00e9m acho! acrescentou a Inacinha.\n\n&#8211; Se j\u00e1 eles andam de orelha em p\u00e9 por certas cousas!&#8230; Agora se&#8230; se a Senhora D. Rufina, senhora da minha maior venera\u00e7\u00e3o, que pode tudo por seu honrado esposo, o qual \u00e9 pessoa principal da terra: se a minha rica senhora quisesse&#8230; quisesse ser madrinha deste pobre coitado, para lhe arranjar um dos of\u00edcios da vila que se vai criar, ent\u00e3o&#8230; ent\u00e3o&#8230; j\u00e1 eu estava mais descansado e podia fazer as cousas com jeito.\n\n&#8211; Est\u00e1 dito. Fa\u00e7a o que lhe mando, e conte com o oficio, que se h\u00e1 de arranjar.\n\nFeita a aven\u00e7a, o Cosme Borralho recebeu as \u00faltimas recomenda\u00e7\u00f5es da Senhora Rufina, e como fosse uma dessas a presteza, botou-se a r\u00f3tula para ganhar a rua.\n\n&#8211; Espere l\u00e1, mo\u00e7o! E a trova? disse a mulher do almotac\u00e9.\n\n&#8211; Pois a senhora n\u00e3o me deu para a levar? perguntou o escrevente espantado e metendo a m\u00e3o no peito da garnacha onde guardara o papel.\n\n&#8211; Dei, sim; mas \u00e9 que a gente fica sem saber o verso, e depois, como se h\u00e1 de espalhar?\n\n&#8211; Tira-se uma c\u00f3pia.\n\nSacou o Pisca-Pisca do bolso da garnacha um desses tinteiros port\u00e1teis, feitos de chifre, como usavam ent\u00e3o, e ainda se viam nas escolas pelos princ\u00edpios deste s\u00e9culo. Consistiam em uma boceta alta, que tinha no tampo um canudo onde se introduzia a pena para molhar-lhe os bicos.\n\nOs outros petrechos de escrever, trazia-os tamb\u00e9m naquele bolso, que era uma carteira ambulante. S\u00f3 a pena, aquela faceira pena com a rama matizada de v\u00e1rias cores, estava ali provisoriamente, pois o seu lugar era na orelha direita onde fazia as vezes de ins\u00edgnia ou bandeira.\n\nMas tendo de p\u00f4r-se \u00e0 fresca, segundo a vers\u00e3o da In\u00e1cia, ele acomodara a sua insepar\u00e1vel na algibeira.\n\nSentando-se no poial da janela, com a pena em cruz, e o joelho levantado para servir-lhe de banca, abriu o Cosme o papel que lhe dera a Rufina para o ler e copiar. Foi p\u00f4r-lhe os olhos e pestanejar de modo que bem justificava o apelido de Pisca-Pisca.\n\n&#8211; O que \u00e9? perguntou a Rufina desconfiada.\n\n&#8211; N\u00e3o&#8230; n\u00e3o \u00e9&#8230; n\u00e3o \u00e9 nada. Est\u00e1 engra\u00e7ado o remoque!\n\n&#8211; N\u00e3o&#8230; acha? Elas v\u00e3o arrenegar-se! \u00c9 bem-feito! Para que se metem?&#8230; Repita l\u00e1 para a Inacinha, que ainda n\u00e3o ouviu!\n\nAs duas aplaudiram e comentaram com muitas risadas os versos, enquanto os copiava o matreiro do Cosme, que tendo conhecido a letra do Lisardo, ficou-se com o original, dando \u00e0 Rufina o traslado.\n\n&#8211; Por que n\u00e3o leva o seu? perguntou a matrona.\n\n&#8211; Podem conhecer-me a letra.\n\nEsse receio n\u00e3o o tinha o Cosme porque dos tr\u00eas caracteres de letra que ele dava como seus, nenhum empregara na c\u00f3pia, tendo ao contr\u00e1rio o cuidado de imitar o do nosso Lisardo, que mal sabia da tormenta que estava-se armando.\n\n&#8211; Ah! outra cousa, mo\u00e7o!&#8230; disse de repente a Rufina atalhando a salda ao Cosme. Quem foi que fez o desaforo daquela trova que voc\u00ea trouxe?\n\n&#8211; Quem&#8230; quem&#8230; quem&#8230; fe&#8230; fe&#8230; fez&#8230; a&#8230; a&#8230; qua&#8230; qua&#8230; qua&#8230;\n\n&#8211; Sim, sim, a quadra! gritou a Senhora Rufina a quem estava agastando os nervos aquela amola\u00e7\u00e3o.\n\n&#8211; N\u00e3o&#8230; n\u00e3o sei!\n\n&#8211; Por for\u00e7a que h\u00e1 de saber. Voc\u00ea que a trouxe.\n\n&#8211; Eu&#8230; ju&#8230;ju&#8230; ju&#8230;. eu ju&#8230;\n\n&#8211; Estou vendo, homem, que voc\u00ea n\u00e3o serve para escriv\u00e3o; gagueja que n\u00e3o se entende! disse a Rufina em tom decidido.\n\n&#8211; Eu n\u00e3o sei, tornou o Cosme, cuja l\u00edngua desprendeu-se; mas ouvi dizer que foi um Lisardo de Albertim, um trovista, que \u00e9 todo l\u00e1 dos Cavalcantis.\n\n&#8211; Lisardo?&#8230; \u00c9 um camarada do Nuno?\n\n&#8211; Isso mesmo!\n\n&#8211; Conhe\u00e7o muito! acudiu a Inacinha. Um aluado que anda sempre a olhar as estrelas! Ele passa por aqui todos os dias com um gib\u00e3o de veludo j\u00e1 muito surrado, que perdeu a cor; por sinal tem dois batoques nos cotovelos. Logo vi que havia de ser um cousa \u00e0-toa.\n\n&#8211; Pois eu prometo-lhe fazer presente de um gib\u00e3o novo, mas h\u00e1 de ser de veludo verde de cansan\u00e7\u00e3o, que \u00e9 mais chibante.\n\n&#8211; Ele n\u00e3o fez por mal! observou o Cosme. Tanto que os seus rendimentos s\u00e3o c\u00e1 para o Recife, onde est\u00e1 a dama de seus afetos.\n\n&#8211; E quem \u00e9 esta buginica?\n\n&#8211; Ele a chama em verso Belisa, que \u00e9 o anagrama de Isabel.\n\n&#8211; A filha da Rosaura do Viana? perguntou a Inacinha.\n\n&#8211; Ah! ah!&#8230; \u00c9 a minha afilhada. E ela tem dado confian\u00e7a a esse malandro?&#8230; Diga-me, diga-me, que lhe quero j\u00e1 negar a b\u00ean\u00e7\u00e3o.\n\n&#8211; N\u00e3o; eu penso que ela nem sabe! retorquiu o Cosme apalpando no bolso o papel da redondilha.\n\nE antes que viesse novo aperto, abriu a r\u00f3tula, e p\u00f4s-se a trote.\n<h4><strong><a id=\"p211\" name=\"p211\"><\/a>CAP\u00cdTULO XI<\/strong><\/h4>\n<strong>COMO O NUNO FOI ACRESCENTADO DE PAJEM A ESCUDEIRO, E O LISARDO REBAIXADO DE\nPOETA A VAGABUNDO<\/strong>\n\nA sala principal da casa de Andr\u00e9 de Figueiredo est\u00e3o reunidas v\u00e1rias pessoas.\n\nDa banda fronteira \u00e0 entrada v\u00ea-se D. Louren\u00e7a Cavalcanti, sentada em cadeira de espaldar, tendo junto de si um bufete pequeno coberto de colgadura roxa que arrasta no ch\u00e3o. A\u00ed est\u00e3o os recados de que serve-se a dama naquele momento para escrever cartas.\n\nDo outro lado do bufete, a irm\u00e3 D. Ant\u00f4nia Barbalho, m\u00e3e de Leonor, fia em uma roca de bra\u00fana as alvas pastas de algod\u00e3o que enchem o cabaz de palha posto a seus p\u00e9s. Em seu benigno semblante est\u00e1 pintada a alma t\u00edbia e frouxa, que as irm\u00e3s dominam e afei\u00e7oam como uma cera.\n\n\u00c0 esquerda, no intervalo das janelas, l\u00e1 est\u00e1 em tamborete raso, para se dar ares de donzela, a ninfa olindense, a formosa Cl\u00e9lia, nome este por que era conhecida no Pindo a Senhora D. Severa de Sousa. Ocupava-se ela com a leitura de seu livro favorito, o Palmeirim de Inglaterra.\n\n\u00c0 direita, no longo estrado forrado de panos de arr\u00e1s com figuras e ramagens, est\u00e3o de tarefa as mo\u00e7as da casa e parentas, entre as quais distingue-se Leonor, pela formosura como pela melancolia; pois enquanto as outras v\u00e3o chilreando risos e segredinhos ao ouvido, ela, de cabe\u00e7a baixa, absorve-se no seu trabalho.\n\nUm escravo de libr\u00e9 postado em cada porta para qualquer chamado e o mais que for preciso espera as ordens.\n\nLeonor trabalha em uma touquinha de renda, que destina \u00e0 neta rec\u00e9m-nascida de sua velha ama, a Brites. Est\u00e1 agora enfeitando-a de rosas de maravalhas, e essa ocupa\u00e7\u00e3o lhe encaminha o esp\u00edrito para umas saudades, que ela esconde no ref\u00f3lho d&#8217;alma para n\u00e3o nas adivinharem, e que s\u00e3o menos o recordo de uma ventura fru\u00edda do que a viuvez de uma doce esperan\u00e7a.\n\nSem que ela se apercebesse, t\u00e3o distra\u00edda estava, come\u00e7ou-lhe o seio a desafogar em suspiros, e ap\u00f3s eles veio um como murm\u00fario de intenso queixume que se foi desprendendo a pouco e pouco em suave e tern\u00edssima endeixa. Cantava em voz submissa as coplas de um romance antigo que lhe trouxera. \u00e0 mem\u00f3ria certa conformidade de pensamentos:\n<p align=\"center\">Filha, filha da minha alma,\nCom que te batizaria?\nAs l\u00e1grimas de meus olhos\nTe sirvam d&#8217;\u00e1gua da pia.<\/p>\n<p align=\"center\">Chamar-te-ei minha Rosa,\nRosa, flor de Alexandria,\nQue assim se chamava d&#8217;antes\nUma irm\u00e3 que eu queria.<\/p>\nAqui a voz feneceu para tornar pouco depois repetindo j\u00e1 coplas de outra cantiga em que ent\u00e3o se enleava a fantasia da donzela:\n<p align=\"center\">Nada em dor, em dor criada,\nN\u00e3o sei isto onde ir\u00e1 ter.\nVejo-vos, filha, formosa,\nCom olhos verdes crescer.<\/p>\n<p align=\"center\">N\u00e3o era esta gra\u00e7a vossa\nPara viver em desterro;\nMal haja esta desventura,\nQue p\u00f4s mais nisso que o erro.<\/p>\n&#8211; Que h\u00e1 de voc\u00ea, Leonor, estar sempre a amofinar-se \u00e1 toa, com umas tristezas t\u00e3o sem prop\u00f3sito! disse D. Louren\u00e7a interrompendo a cantiga da sobrinha com um tom de repreens\u00e3o.\n\n&#8211; Eu?&#8230; exclamou a donzela confusa.\n\n&#8211; Ora, que tem que a menina desafogue suas m\u00e1goas, D. Louren\u00e7a? Antes cante ela suas endeixas, que os z\u00e9firos v\u00e3o desfolhando pelos ares, do que as congele no seio para se derreterem em alj\u00f4fares de sentido pranto.\n\nAssim falou a D. Severa, que bem mostrava na linguagem alambicada o com\u00e9rcio po\u00e9tico, que entretinha com o Lisardo.\n\n&#8211; Se j\u00e1 \u00e9 um sestro desta menina fingir-se desventurada e viver s\u00f3 a lastimar-se desde que o dia amanhece? N\u00e3o sabe outras cantigas sen\u00e3o essas que falam de desgra\u00e7as, de pranto, e de quanta cousa h\u00e1 de triste?\n\n&#8211; Nisso de cantiga n\u00e3o h\u00e1 para mim como a da Donzela Guerreira! exclamou D. Severa com entusiasmo; e soltando a voz de flautim come\u00e7ou a gargantear estas coplas:\n<p align=\"center\">Sete anos andei na guerra\nE fiz de filho bar\u00e3o,\nMas ningu\u00e9m me conheceu,\nS\u00f3 se foi meu capit\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"center\">Conheceu-me pelos olhos\nQue por outra cousa n\u00e3o;\nFoi meu capit\u00e3o na guerra,\nAgora o fiz meu bar\u00e3o.<\/p>\nOuviram-se uns risos abafados, de que n\u00e3o fez o menor caso a ninfa olindense.\n\nLeonor, que tivera tempo de recobrar-se da perturba\u00e7\u00e3o, cuidou em disfar\u00e7ar o verdadeiro motivo de sua m\u00e1goa.\n\n&#8211; Pois, minha tia, n\u00e3o temos n\u00f3s todos raz\u00e3o para afligir-nos com as desgra\u00e7as que amea\u00e7am esta terra?&#8230;\n\n&#8211; Que desgra\u00e7as s\u00e3o estas agora? perguntou D. Ant\u00f4nia \u00e0 filha.\n\n&#8211; Ainda ontem, minha m\u00e3e, a velha Brites me esteve contando que pela Quaresma, em noite clara, se viu a lua partida pelo meio em duas bandas, uma no seu natural alumiando o c\u00e9u, e a outra coberta de sombra que parecia um d\u00f3, no que bem estava mostrando as guerras que h\u00e3o de acontecer entre Olinda e o Recife, e o luto em que ficar\u00e1 uma das partes.\n\nEstas palavras da mo\u00e7a causaram viva como\u00e7\u00e3o no \u00e2nimo das pessoas ali reunidas.\n\n&#8211; Tal e qual sucedeu! disse D. Francisca, mulher de Andr\u00e9 de Figueiredo.\n\n&#8211; Eu vi com estes olhos! acrescentou D. Genoveva, casada com Ant\u00f4nio Tavares.\n\n&#8211; Que tem isto? acudiu D. Louren\u00e7a. Guerra havemos de fazer, que assim \u00e9 preciso para defender os foros da nobreza; e sem ela decerto que n\u00e3o poderemos ganhar a vit\u00f3ria e abater a grimpa dos mascates. Nem outra cousa significa essa conjun\u00e7\u00e3o dos astros, sen\u00e3o a gl\u00f3ria de Olinda por um lado, e a ru\u00edna do Recife pelo outro.\n\n&#8211; Mas h\u00e1 quem diga, minha tia, replicou Leonor, que a parte escura ficava para as bandas de Olinda.\n\n&#8211; N\u00e3o acredite em abus\u00f5es, menina; que esta lua \u00e9 pernambucana e n\u00e3o prognostica males aos filhos que nasceram em sua terra.\n\n&#8211; Olha, Leonor, que tua tia sabe estas cousas dos astros, como ningu\u00e9m.\n\n&#8211; Sei, minha m\u00e3e, sei que a tia D. Louren\u00e7a \u00e9 muito versada em todas as sete artes liberais, mas tenho uma cousa que est\u00e1 me dizendo&#8230; E ent\u00e3o quando me lembro da milagrosa imagem de Nossa Senhora do \u00d3, que o ano passado, na v\u00e9spera de Sant&#8217;Ana, suou sangue, o que todos disseram logo ser press\u00e1gio de grandes perturba\u00e7\u00f5es, com guerras, mortes e toda a sorte de desastres!.\n\n&#8211; E por sinal, que se passou a sua imagem do altar que teve na Igreja de S\u00e3o Jo\u00e3o para a Capela do Santo Cristo da S\u00e9, disse D. Francisca.\n\n&#8211; Para ver se a\u00ed, perto do Senhor Crucificado, ela intercedia com seu bento Filho para arredar de n\u00f3s estas calamidades, acrescentou D. Genoveva.\n\nOuvira D. Louren\u00e7a as raz\u00f5es da sobrinha e das cunhadas com o modo grave e refletido que lhe era natural; tanto mais porque os press\u00e1gios de que tratavam as damas eram tirados de fatos not\u00f3rios e atestados por pessoas de toda a f\u00e9.\n\nAinda hoje dura a tradi\u00e7\u00e3o, conservada por Sebasti\u00e3o da Rocha Pita e o Padre Manuel Leit\u00e3o, que deles d\u00e3o not\u00edcia pelo mesmo teor ou com pouca diferen\u00e7a.\n\n&#8211; Sem d\u00favida que muitos males est\u00e3o a cair sobre esta terra, disse D. Louren\u00e7a; e antes dos progn\u00f3sticos divinos, j\u00e1 era dado aos prudentes antev\u00ea-los nos humanos des\u00edgnios, pela soberba e arrog\u00e2ncia dos mascates nestes \u00faltimos, tempos. Mas esses males v\u00eam mandados do c\u00e9u para castigar a culpa de agasalhar miser\u00e1veis aventureiros, e para expurgar a nossa terra dessa praga vil de forasteiros, que a est\u00e1 danando. Nossa Senhora do O, que \u00e9 pernambucana e tem altar erguido nesta terra que regamos com o nosso sangue para a arrancar aos hereges e flamengos, e conserv\u00e1-la ao Padroado de Cristo; Nossa Senhora do \u00d3 e sua corte celeste n\u00e3o h\u00e3o de desamparar os defensores da f\u00e9 e cavaleiros da cristandade. Se ela suou, a milagrosa imagem, n\u00e3o foi de l\u00e1stima por n\u00f3s, mas sim de pesar e tristeza por ver que se est\u00e3o abatendo os antigos brios pernambucanos, por modo tal que j\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 quem preserve esta terra de ser presa dos franceses, se, como se afirma e eu creio, andam eles correndo a costa e preparando-se com grandes empresas a acomet\u00ea-la, que, isto dizem, j\u00e1 chegou aviso de Lisboa ao governador.\n\nPor esta amostra imagine-se o papel importante que devia representar D. Louren\u00e7a nas assembl\u00e9ias pol\u00edticas dos parentes. Se vivera em nossos dias, com a sua literatura e disposi\u00e7\u00f5es para a orat\u00f3ria, com certeza j\u00e1 se teria mandado anunciar a rufos de tambor para a pr\u00f3xima confer\u00eancia popular.\n\n&#8211; \u00c9 desenganar, senhora, acudira D. Severa. Enquanto n\u00e3o aparecer nesta terra de Olinda outra hero\u00edna como D. Clara, que arvore a gineta das damas, os neg\u00f3cios h\u00e3o de andar baralhados. Mas n\u00e3o tarda muito que n\u00e3o vejam aparecer aqui mesmo em Olinda uma Ala das Donzelas com seu capit\u00e3o, que h\u00e1 de escurecer a fama de Mem Rodrigues e da sua dos Namorados.\n\n&#8211; O capit\u00e3o, j\u00e1 se sabe quem \u00e9? tornou D. Louren\u00e7a com um sorriso em que a acompanharam as outras,.\n\nN\u00e3o lhe respondeu D. Severa, porque voltando-se para chamar o seu pajem de estrado, o qual como se devem recordar n\u00e3o era outro sen\u00e3o o brejeiro do Nuno, que de mascatinho virara donzel, apercebeu-se a dama da aus\u00eancia do rapaz. Levantou-se logo e foi-lhe na pista.\n\nPouco havia que sa\u00edra da sala, e ainda as outras se riam dos arreganhos marciais da ninfa, quando o lacaio da entrada veio com recado de segredo a D. Louren\u00e7a, a qual deitando os olhos para o corredor, viu aparecer no fio da porta fechada a meio, um peda\u00e7o de cara de fuinha que se havia de jurar ser a do Cosme Borralho.\n\n&#8211; Est\u00e1 a\u00ed o mo\u00e7o do senhor licenciado Davi de Albuquerque, disse o escravo \u00e0 puridade.\n\n&#8211; Leva-o para o orat\u00f3rio, que j\u00e1 ai vou, respondeu a dama.\n\nD. Louren\u00e7a deu tempo a executar-se sua ordem e saindo por uma porta do interior, dirigiu-se ao lugar indicado que era o mais reservado e onde se tratavam os neg\u00f3cios de monta.\n\nEntretanto D. Severa corria toda a casa \u00e1 busca do Nuno, mas n\u00e3o lhe viu nem a sombra.\n\nO brejeiro do rapaz, que era um azougue, aborrecido da esta\u00e7\u00e3o a que o obrigava a D. Severa, em p\u00e9 atr\u00e1s de sua cadeira como pajem de estrado, n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de escafeder-se e ganhar a rua ou quintal. Naquele dia achando aberta a casa do trem, aproveitou a ocasi\u00e3o t\u00e3o suspirada, e armando-se de uma grande catana, come\u00e7ou a esgrimir contra uma armadura completa que, posta no meio da casa e enfiada no seu cabide, parecia um guerreiro antigo armado de ponto em branco.\n\nSaltava o endemoniado mo\u00e7o como uma pulga em volta da pan\u00f3plia e desfechava-lhe cada cutilada, que feria logo na coira\u00e7a e sobretudo no capacete.\n\n&#8211; Defende-te, vil\u00e3o&#8230; gritava ele. Que sen\u00e3o te corto em talhadas com esta espada como uma melancia! Em guarda, ajudante das d\u00fazias! Olha este golpe ter\u00e7ado!&#8230; Z\u00e1s!&#8230; E este de ponta!&#8230; Traspassado, barbudo do inferno!&#8230; Rende-te ou morre, negro, negreiro, negr\u00e3o!&#8230;\n\nNo meio deste fero combate em que o Nuno imaginava estar pelejando com o Ajudante Negreiros, o homem de sua especial birra, ouviu ele um rumor do lado da escada, e receando que lhe andassem \u00e0 cata e o pilhassem na embrechada, foi espiar ao corredor, e bispou o Cosme que subia os primeiros degraus.\n\nVeio-lhe a curiosidade de saber que novidade trazia o Pisca-Pisca \u00e0quela casa, onde ele afirmava que n\u00e3o punha os p\u00e9s; e separando-se pesaroso da catana ficou de espreita ao escrevente a quem viu entrar para o orat\u00f3rio, onde com pouco foi ter a D. Louren\u00e7a.\n\nN\u00e3o podendo escutar o que passava dentro, p\u00f4s-se de plant\u00e3o na escada para cortar a retirada ao Cosme e falar-lhe; sobretudo desejava ter novas do que ia pelo Recife depois que de l\u00e1 se partira.\n\nInfelizmente a D. Severa que voltava desenganada de o achar, veio esbarrar com ele e arrecadou-o:\n\n&#8211; Ora, muito bonito! Estou eu a procur\u00e1-lo, e o senhor a peraltear! Fique sabendo que um pajem bem ensinado deve estar sempre junto da dama cujo \u00e9, como seu caudat\u00e1rio e donzel, para defend\u00ea-la e servi-la a um seu aceno.\n\nO Nuno recebeu o sabonete de cara murcha, mas assomando-lhe a natural petul\u00e2ncia, levantou a crista contra as pieguices da dama que pretendia faz\u00ea-lo de menino.\n\n&#8211; Saiba tamb\u00e9m a senhora que eu estou pronto a servi-la e tenho nisso muito gosto, mas h\u00e1 de ser como seu escudeiro e homem d&#8217;armas; que l\u00e1 essa hist\u00f3ria de pajem e donzel \u00e9 para os pirralhetes de quatorze anos, e eu c\u00e1 j\u00e1 sou um homem.\n\n&#8211; Quede a barba?\n\n&#8211; A barba! Isso arranja-se, ainda que se pode bem dispensar, e a prova \u00e9 que D. Ant\u00f4nio Filipe Camar\u00e3o, que foi insigne capit\u00e3o, n\u00e3o tinha um fio, nem a sua descend\u00eancia; e mais eu posso comprar dois mustachos bem fornidos para compor o rosto, como o mo\u00e7o que faz de Fer\u00e3o Brigoso, na farsa do Juiz da Beira.\n\n&#8211; Mas n\u00e3o v\u00ea voc\u00ea, Nuno, que um pajem \u00e9 mais pr\u00f3prio para uma dama?\n\n&#8211; Pois eu de pajem n\u00e3o fico, nem que me serrem!\n\n&#8211; Est\u00e1 bom! Fica sendo meu escudeiro.\n\n&#8211; Isso \u00e9 outra cousa.\n\nNisso esgueirou-se pelo corredor o Cosme que sa\u00eda do orat\u00f3rio, e desceu as escadas a trote mi\u00fado. Quando o Nuno se p\u00f4de desembara\u00e7ar e lhe foi no encal\u00e7o, j\u00e1 n\u00e3o o avistou.\n\nD. Severa entrou na sala ao tempo em que D. Louren\u00e7a, de volta do orat\u00f3rio e sentando-se de novo ao bufete, lia um papel que trouxera. Era a fatal redondilha que a menina Marta obrigara o Lisardo a escrever na c\u00e2mera de Isabel.\n\nD. Louren\u00e7a, n\u00e3o se podendo chamar gorda, era uma senhora refor\u00e7ada, que no seu porte cheio de dignidade dava uma id\u00e9ia da matrona romana. Os versos n\u00e3o se podiam pois referir a ela; o que a disp\u00f4s a achar-lhes chiste.\n\nOlhou sorrindo para a D. Severa que lhe andava sempre a disputar as primazias.\n\n&#8211; Quer ver, prima D. Severa, at\u00e9 onde chega o desaforo da ral\u00e9 dos mascates? Pois n\u00e3o mandaram pregar nas esquinas estas rimas desavergonhadas?\n\nOu\u00e7a:\n<p align=\"center\">Escorridas como um fuso,\nAs damas de Olinda s\u00e3o;\nPor fora aquele esparrame,\nPor dentro \u00e9 s\u00f3 arma\u00e7\u00e3o\nDe pano, d&#8217;osso e arame.<\/p>\nFoi grande o esc\u00e2ndalo das damas, especialmente das magras; nenhuma, por\u00e9m, como D. Severa, que erguendo-se de golpe e atirando para tr\u00e1s com um couce a longa cauda, enristou a trunfa e bateu o p\u00e9:\n\n&#8211; \u00c9 uma vingan\u00e7a daquele vil\u00e3o descort\u00eas!&#8230; Do tal Sebasti\u00e3o de Castro!&#8230; Como n\u00e3o achou entre as nobres damas de Olinda os requebros das descocadas l\u00e1 do Recife, manda-nos agora difamar por seus rimadores. Mas ele que n\u00e3o se meta!\n\nNesse instante soou na rua tropel de cavaleiros. Um tro\u00e7o de gente armada parou \u00e0 porta da casa de Andr\u00e9 de Figueiredo, e o Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti, com seu filho Manuel, subiram ao sobrado em busca do capit\u00e3o.\n\nEntretanto o Nuno, que voltava da ca\u00e7a que em pura perda tinha dado ao Pisca-Pisca, avistou l\u00e1 do outro lado, \u00e0 esquina da Ladeira do Varadouro, o Lisardo que vinha em busca da casa, mas que avistando a cavalgada, arrepiou caminho.\n\nEsperou o mascatinho que o poeta se resolvesse a ganhar a casa, cosendo-se \u00e0 parede; queria comunicar-lhe a grande nova de ter sido pela D. Severa acrescentado de pajem a escudeiro e homem d&#8217;armas.\n\nO Lisardo, por\u00e9m, vinha triste e abatido, para o que tinha sobras de raz\u00e3o. Na v\u00e9spera, \u00e0 ave-maria, fora como de costume fazer de p\u00e9 de muro no beco, em adora\u00e7\u00e3o \u00e0 r\u00f3tula de seus amores; mas quando ele esperava aquele rufo suav\u00edssimo de unhas rosadas nas reixas de madeira, e aquele coar da luz de uns olhos feiticeiros atrav\u00e9s das grades, abriu-se a gelosia com \u00edmpeto, para logo fechar-se, batendo-lhe tr\u00eas vezes com tanta ira, como se o estivesse castigando. Era o que se chama vulgarmente bater com a porta na cara.\n\nNessa manh\u00e3 repetira-se a crueldade da r\u00f3tula, mas com um suplemento que p\u00f4s o remate \u00e0 desventura do nosso trovador; e foi que, insistindo ele em abrandar com a humildade de sua paci\u00eancia e a melancolia de sua compostura os rigores da tirana gelosia, veio de embaixada a negra Benvinda despach\u00e1-lo por este teor:\n\n&#8211; Mo\u00e7o, siga seu caminho, aqui no Recife tudo tem perna cabeluda!\n\nFoi um rel\u00e2mpago que ofuscou a alma do Lisardo; quando caiu em si, a negra se tinha sumido e a r\u00f3tula fechada estava muda como uma campa, e o era, de seu finado amor.\n\nBelisa lera a quadra que ele havia feito por ordem de D. Severa, e com raz\u00e3o se julgava ofendida. Como, por\u00e9m, soubera ela do autor, \u00e9 o que n\u00e3o atinava o Lisardo, que estava bem longe de suspeitar das intelig\u00eancias do Cosme Borralho com a Senhora Rufina no Recife e com a D. Louren\u00e7a em Olinda.\n\n&#8211; Que te aconteceu por l\u00e1, que me pareces um farricoco, carregando tua pr\u00f3pria tumba, pois a cara que trazes n\u00e3o \u00e9 doutra cousa? disse o Nuno ao poeta com a sua costumada galhofa, que desta vez era o disfarce da como\u00e7\u00e3o ao ver o semblante abatido do amigo.\n\n&#8211; E n\u00e3o te enganas, Nuno! \u00c9 uma tumba, o que est\u00e1s vendo e n\u00e3o mais o infeliz que ontem era. \u00c9 a tumba de uma alma que nasceu para a dor, e n\u00e3o viveu sen\u00e3o para come\u00e7ar desde o primeiro instante a morrer aos poucos. Uma esperan\u00e7a a consolava na sua agonia e a prendia a este mundo por um t\u00eanue fio de ouro. Esse fio rompeu-se, e a alma acabou por finar-se.\n\nNuno abra\u00e7ou-o com efus\u00e3o.\n\n&#8211; Mas dize-me, que houve que assim te mortifica?\n\n&#8211; Belisa aborrece-me.\n\n&#8211; Juro eu que n\u00e3o!\n\n&#8211; Aborrece-me, e tem raz\u00e3o, porque a ofendi.\n\nIa o Lisardo referir ao amigo sua desventura, quando apareceu no sagu\u00e3o, onde j\u00e1 ent\u00e3o se achavam os dois mo\u00e7os, D. Louren\u00e7a, que andava no tr\u00e1fego da casa, dispondo o agasalho para os acostados de seu primo Leonardo Bezerra, que lhe pediu o aboletasse ali at\u00e9 a noite.\n\nAvistando o poeta, repuxou-se a barbelha de D. Louren\u00e7a, com o assomo imperioso que tomava o seu colo nos momentos de rigor; aproximou-se a dama com um modo t\u00e3o severo que os mo\u00e7os estremeceram:\n\n&#8211; Os ingratos s\u00e3o como as varejas, pois assim como estas empe\u00e7onham o corpo que as sustenta, eles vendem os protetores que os agasalham. Voc\u00ea, Lisardo, que tantos anos foi um familiar desta casa onde nunca lhe faltou o necess\u00e1rio, acolhido pelos nossos com bondade, esqueceu todos estes benef\u00edcios, e fez-se com suas rimas f\u00e2mulo e servi\u00e7al dos mascates, a troco de alguma vil esp\u00f3rtula.\n\nO Albertim, sucumbido, quis protestar neste ponto; n\u00e3o lho deixou a matrona.\n\n&#8211; T\u00e3o negro procedimento devia arred\u00e1-lo para sempre desta casa cujas portas dora em diante lhe est\u00e3o fechadas. Se foi para ouvi-lo que tornou, pode desde j\u00e1 ir-se; e \u00e9 o mais prudente, porque em chegando o Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo e sabendo da sua gentileza, n\u00e3o h\u00e1 de ter a modera\u00e7\u00e3o de que usei.\n\nAlbertim sorriu-se, como deviam sorrir os m\u00e1rtires atrav\u00e9s das chamas da fogueira e, curvando a cabe\u00e7a, afastou-se com a dignidade da resigna\u00e7\u00e3o, que \u00e9 mais respeit\u00e1vel do que a do orgulho.\n\nNuno estava at\u00f4nito; n\u00e3o atinava bem com o que se passava ali diante dele; parecia-lhe que expulsavam o Lisardo, mas por que motivo? Nesse estado apenas p\u00f4de balbuciar uma palavra ao ouvido do amigo quando este lhe passou junto:\n\n&#8211; Espera-me l\u00e1 foral\n\nLogo que D. Louren\u00e7a arredou-se, correu o rapaz \u00e0 rua; mas apesar de todas as pesquisas n\u00e3o descobriu Albertim.\n<h4><strong><a id=\"p212\" name=\"p212\"><\/a>CAP\u00cdTULO XII<\/strong><\/h4>\n<strong>NO QUAL SE DESEMBRULHA O EMARANHADO E PROFUNDISSIMO CASO DO MARISCO<\/strong>\n\nEstamos em frente ao Pal\u00e1cio das Torres.\n\nAssim chamava-se naquele tempo os pa\u00e7os que o Conde de Nassau, pr\u00edncipe da casa de Orange, fez construir para sua resid\u00eancia na cidade Maur\u00edcia, e que depois da restaura\u00e7\u00e3o ficaram para habita\u00e7\u00e3o de recreio dos governadores portugueses.\n\nOcupavam na ponta setentrional da antiga Ilha de Santo Ant\u00f4nio o mesmo s\u00edtio onde se acha atualmente o pal\u00e1cio da presid\u00eancia, em que sucessivas repara\u00e7\u00f5es e acr\u00e9scimos transformaram a primitiva constru\u00e7\u00e3o.\n\nNaquela \u00e9poca ainda apresentava o aspecto senhoril de um castelo torreado, no estilo flamengo e de arquitetura superior na eleg\u00e2ncia e solidez \u00e0 grosseira alvenaria que introduziram no Brasil nossos av\u00f3s, os portugueses, j\u00e1 na decad\u00eancia de sua ef\u00eamera civiliza\u00e7\u00e3o.\n\nCompunha-se o edif\u00edcio de um corpo quadrado, em dois altos pavimentos alumiados por grandes arcadas. A frente era defendida por um reduto com duas cintas de canh\u00f5es, uma ao longo da escarpa e outra a cavaleiro.\n\nDe cada lado projetavam-se dois pavilh\u00f5es com as suas canhoneiras tamb\u00e9m guarnecidas, e ap\u00f3s eles elevavam-se em quatro pavimentos as duas torres quadradas cujos coruch\u00e9us dominavam todo o vale do Beberibe, desde os outeiros de Olinda at\u00e9 as veigas de Santo Amaro.\n\nNo mais alto sobrado viam-se as atalaias; e logo abaixo nas ameias dormiam os morteiros que haviam defendido outrora contra o valor lusitano a cidadela flamenga.\n\nTal era o Pal\u00e1cio das Torres, como o pintam as estampas daquele tempo. A\u00ed, nas casas ainda adere\u00e7adas com luxo de pr\u00edncipe, faziam os governadores constante resid\u00eancia, o que foi o primeiro esc\u00e2ndalo para os nobres moradores de Olinda.\n\nO Senado representou a El-Rei, o qual expediu v\u00e1rias cartas r\u00e9gias ordenando que os governadores assistissem na cidade com os ministros; mas estas ordens do rei velho tiveram o mesmo efeito que hoje produz a soberania do povo menino.\n\nOs governadores continuaram a morar no Recife e s\u00f3 iam a Olinda para tomar ares ou para assistir \u00e0s festas de Estado que celebravam-se na catedral, e \u00e0 qual mais de um fez-se conduzir debaixo de p\u00e1lio.\n\nAtravessemos a ponte levadi\u00e7a abaixada sobre o largo fosso, e que mais parece dormente a julgar pela ferrugem das correntes que a prendem \u00e0s colunas da frontaria. Entremos o p\u00f3rtico do castelo e passando pelo sagu\u00e3o em ab\u00f3bada vamos ter \u00e0 sala d&#8217;armas. Deixando \u00e0 direita as portas de comunica\u00e7\u00e3o para o pavimento t\u00e9rreo e em frente \u00e0 arcada que abre sobre o p\u00e1tio, subamos a escada que fica \u00e0 direita, e que nos leva em dois lan\u00e7os a uma antec\u00e2mara do sobrado.\n\nA\u00ed est\u00e3o os lacaios do governador que dirigem os visitantes \u00e0 pr\u00f3xima alpendrada corrida em volta do p\u00e1tio sobre colunas de jacarand\u00e1 t\u00e3o bem torneadas e burnidas, que figuram basalto.\n\nTr\u00eas lados dessa galeria est\u00e3o desertos e silenciosos; no quarto, por\u00e9m, come\u00e7am a enxamear entre os oficiais de sala do governador, a gente da governan\u00e7a, e muita outra da principal da terra que vinham ao jube domine, sem falar da chusma intermin\u00e1vel de pedintes que nesses dias caiam sobre o governador como um mosqueiro sobre uma f\u00f4rma de a\u00e7\u00facar.\n\nS\u00e3o nove horas da manh\u00e3.\n\nA concorr\u00eancia era mais numerosa ainda que de costume, porque sendo este dia marcado pelo governador para a junta na qual se havia de decidir definitivamente a quest\u00e3o da vila, que era um caso de monta, ou como se diria hoje uma quest\u00e3o de gabinete, agu\u00e7ara-se a curiosidade, e todos que tinham entrada no pal\u00e1cio l\u00e1 foram na esperan\u00e7a de colher alguma cousa.\n\nEnquanto n\u00e3o aparece D. Sebasti\u00e3o, aproveitemos a ocasi\u00e3o para dar uma ligeira not\u00edcia do que eram ent\u00e3o as antec\u00e2meras de um pal\u00e1cio.\n\nNo lan\u00e7o da galeria franqueado aos estranhos viam-se grupos de moradores que rodeavam alguns dos oficiais de sala, para ouvir desse or\u00e1culo do governo as novas de import\u00e2ncia ou para simplesmente participar do contacto palaciano, o qual para certa gente \u00e9 um estofo indispens\u00e1vel.\n\nOficiais de sala chamavam-se ent\u00e3o certos indiv\u00edduos que os governadores nomeavam para ficarem de estado \u00e0 sua pessoa; e como esse oficio n\u00e3o tinha assento na folha, e por conseguinte n\u00e3o vencia sal\u00e1rio nem propinas, eram para ele escolhidos de prefer\u00eancia os que tinham pra\u00e7a na mil\u00edcia, ou que desfrutavam alguma ten\u00e7a e merc\u00ea.\n\nEsses oficiais tinham aposento no pa\u00e7o, serviam ao mesmo tempo de camareiros e escudeiros para fazerem sala ao governador, como para o acompanharem em qualquer cerim\u00f4nia e a passeio. Da\u00ed vinha sua designa\u00e7\u00e3o, a que eles correspondiam \u00e0 risca desfiando as longas horas do dia naquela galeria ou nos repartimentos baixos, sem ocupar-se em cousa, sen\u00e3o \u00fatil, ao menos s\u00e9ria.\n\nO tempo que lhes deixava de folga o plant\u00e3o da sala, despendiam-no em medir com o compasso das pernas os soalhos alcatifados, recontando pela cent\u00e9sima vez umas anedotas palacianas que j\u00e1 tinham mofo, mas em que eles achavam sempre um chiste particular que provinha de forte sabor cortes\u00e3o.\n\nA n\u00e3o ser que chegassem novas do reino, o \u00fanico assunto da pr\u00e1tica desses plastr\u00f5es era D. Sebasti\u00e3o de Castro. &#8211; &#8220;O homem acordou.&#8221; &#8211; &#8220;Est\u00e1 almo\u00e7ando.&#8221; &#8211; &#8220;Vai aos fortes&#8221;. &#8211; &#8220;Ainda n\u00e3o jantou.&#8221; &#8211; &#8220;Sai a passeio.&#8221; &#8211; &#8220;Entrou para o gabinete.&#8221; Tais eram os graves acontecimentos que preocupavam exclusivamente esses indiv\u00edduos, muitos dos quais tinham fam\u00edlia.\n\nSe acontecia que D. Sebasti\u00e3o espirrasse, esse fen\u00f4meno tornava-se o tema da palestra por muitos dias. &#8220;Estar\u00e1 enfermo o homem, cuja sa\u00fade robusta n\u00e3o conhece achaques?&#8221; &#8211; dizia um. &#8211; &#8220;Quem sabe se esse intempestivo defluxo n\u00e3o trar\u00e1 alguma perturba\u00e7\u00e3o grave no regime do pal\u00e1cio?&#8221; exclamava outro. &#8211; &#8220;A reuma \u00e9 trai\u00e7oeira, e n\u00e3o seria mau chamar-se logo o f\u00edsico em tempo&#8221;, opinava terceiro. &#8211; &#8220;Os grandes desastres nascem muitas vezes de pequenas causas, e deste catarro pode provir a perda da capitania, que os pichelingues andam na costa&#8221;, prognosticava o quarto. &#8211; &#8220;Fora com os agouros; o espirro sempre foi um sinal de boa sa\u00fade&#8221;, conclu\u00eda o quinto.\n\nD. Sebasti\u00e3o de Castro, afora os oficiais do costume de seus antecessores, nomeara mais uns dois ou tr\u00eas que tinham outra incumb\u00eancia especial, al\u00e9m de fazer sala. Esses espalhavam-se pelas ruas do Recife e Olinda, onde sua posi\u00e7\u00e3o lhes dava entrada em qualquer casa; correndo a coxia, iam colhendo quanta novidade e mexericos topavam no caminho, e com essa bagagem voltavam a pal\u00e1cio.\n\nEra pela dilig\u00eancia de tais alvissareiros que D. Sebasti\u00e3o andava sempre bem informado de tudo quanto ocorria nos dois povoados e do mais que inventava a maledic\u00eancia. Assim, \u00e0quela hora, j\u00e1 ele tinha de cor as duas trovas do Lisardo, e sorria-se do paralelo que faziam a perna cabeluda da Rufina com o cani\u00e7o da D. Severa.\n\nApreciava Sebasti\u00e3o de Castro em alto grau os seus oficiais da sala. N\u00e3o os podia dispensar. Quando sa\u00eda a cavalo a percorrer as fortifica\u00e7\u00f5es, para fazer mostra e alardo de sua atividade, levava-os de rold\u00e3o, \u00e0 desfilada, por barrocas e corcovas. Fazia-os apanhar sol e chuva, de cabe\u00e7a exposta ao tempo, sem a menor considera\u00e7\u00e3o. \u00e0 calva dos pelados ou \u00e0s c\u00e3s dos velhos. Deixava-os a curtir fome e sede, enquanto ele examinava uma frandulagem qualquer que encontrava em suas excurs\u00f5es.\n\nMas quem penetrasse no interior de Sebasti\u00e3o de Castro conheceria que para o fidalgo esses oficiais, com raras exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o eram homens, por\u00e9m uma cousa entre o criado e o animal: uma esp\u00e9cie de mob\u00edlia de pal\u00e1cio. N\u00e3o lhes tinha a menor estima; quando muito sentia por eles a afei\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito que tomamos a um traste pela comodidade que nos presta.\n\nSe algum morria, era uma contrariedade e nada mais. Mandava por um companheiro dar os p\u00easames \u00e0 fam\u00edlia, e \u00e0 noite para distrair-se comparecia ao sarau da nobreza ou dos mascates.\n\nEntretanto contava-se que, se acontecia adoecer algum dos seus criados de quarto, sa\u00eda ele com toda a comitiva, pondo de parte as cousas do Estado, para visit\u00e1-los ao leito. Estes fatos eram depois referidos e comentados com muitos louvores \u00e0 caridade do fidalgo.\n\nNa extremidade da galeria estava uma sala com as paredes cobertas de lamb\u00e9is e alcatifada com um tapete da Turquia e cadeiras estofadas de veludo de Utrecht: restos j\u00e1 rafados das galas primitivas. Para esta sala entravam os homens da governan\u00e7a, que deviam compor o conselho e iam ali esperar as ordens do governador.\n\nEstavam todos mais ou menos impados e repletos de sua import\u00e2ncia como homens que tinham de dar o seu voto sobre a profunda, intrincada e campanuda quest\u00e3o do marisco.\n\nD. Sebasti\u00e3o estava naquele momento \u00e0 mesa do almo\u00e7o, que ele despachava com a presteza de um soldado. Essa particularidade, junta a seus h\u00e1bitos frugais, apesar da profus\u00e3o e variedade do servi\u00e7o, tinha desde o princ\u00edpio de seu governo causado reparo.\n\nO Padre Jo\u00e3o da Costa, quando soube que o fidalgo tinha esse costume de que lhe resultava ficar afrontado depois da comida, augurou mal do governo porque em sua opini\u00e3o um homem que n\u00e3o comia bem, e n\u00e3o digeria melhor, n\u00e3o podia conduzir convenientemente a nau do Estado.\n\nSebasti\u00e3o de Castro, a quem freq\u00fcentemente damos o dom que ele n\u00e3o tinha, apesar de ser da primeira fidalguia dentre Douro e Minho, mas que de todos recebia por un\u00e2nime aclama\u00e7\u00e3o, era exemplar no seu viver privado. Das virtudes que fazem o homem de bem, nenhuma lhe negara a natureza, apesar de j\u00e1 lhe ter o atrito do governo gasto algumas.\n\nLogo ao romper d&#8217;alva estava a p\u00e9; e depois de composto fechava-se no gabinete que tinha em uma das torres, onde empregava no estudo as primeiras horas do dia. Se dermos cr\u00e9dito a Sebasti\u00e3o da Rocha Pita, era muito versado em cousas de guerra, que aprendera com seu tio Diogo de Caldas Barbosa, nas lutas da liberdade do reino.\n\n&#8211; Algumas vezes sa\u00eda muito cedo a visitar os fortes e prover sobre o regimento da terra, no que era de uma atividade incans\u00e1vel; mas com a sofreguid\u00e3o de tudo ver por si e remediar, acontecia, o que \u00e9 muito comum, catar os argueiros nos olhos dos pequenos e n\u00e3o enxergar as traves que lhe metiam pelos seus o secret\u00e1rio e o ajudante.\n\nNa mesa era s\u00f3brio. Seu prato usual consistia em um frang\u00e3o cozido com papas de arroz \u00e0 moda da \u00cdndia, e que l\u00e1 chamavam canjas, mas n\u00e3o entrava nelas caril ou alguma outra especiaria. Raro bebia vinho; e seu postre n\u00e3o passava de goiabas, confeitas \u00e0 maneira da marmelada, doce que j\u00e1 ent\u00e3o se fabricava em Pernambuco de superior qualidade.\n\nErgueu-se Sebasti\u00e3o de Castro da mesa, e dirigiu-se \u00e0 galeria. Um criado disparou para correr-lhe o reposteiro e anunci\u00e1-lo; mas n\u00e3o lhe deu tempo o fidalgo, que apareceu de repente no meio dos ministros reunidos para a junta, produzindo neles uma confus\u00e3o e atarantamento de que se n\u00e3o mostrou apercebido.\n\nRecebendo a cortesia que lhe vinha apresentar cada um deles, e retribuindo com igual aten\u00e7\u00e3o, passou \u00e0 galeria onde o esperava a chusma de visitas e pretendentes. Ai ouviu de p\u00e9 o recado ou pedit\u00f3rio de cada um, com uma pachorra, que raros teriam em sua posi\u00e7\u00e3o. Quando se p\u00f4de desvencilhar dessa intermin\u00e1vel audi\u00eancia, encaminhou-se \u00e0 sala do governo onde j\u00e1 estava reunida a junta a que ia presidir.\n\nEra um vasto aposento sobre o comprido, esclarecido por janelas que davam para o rio e das quais se gozava a pitoresca vista de Olinda. Uma longa mesa coberta de arr\u00e1s verde corria de uma \u00e0 outra ponta; na cabeceira via-se a cadeira de espaldar reservada para o governador e aos lados bancos rasos cobertos de estofo, onde j\u00e1 estavam sentados os ministros que se ergueram \u00e0 entrada de D. Sebasti\u00e3o.\n\n\u00c0 direita do governador ficava o Secret\u00e1rio Barbosa de Lima que expandia-se como uma papoula aos raios do sol. \u00c0 esquerda, o Ajudante Negreiros, sempre de viseira ca\u00edda. Seguiam-se desta e daquela banda uns escreventes ou amanuenses que o governador tinha a fantasia de chamar a pretexto de ajudarem ao secret\u00e1rio, e cujo real pr\u00e9stimo era tomar os rinzes ao Barbosa de Lima se, por um caso estupendo, ele se lembrasse de soltar os panos. Um desses era imberbe; os outros j\u00e1 tinham sua barbica; mas n\u00e3o se induza da\u00ed que saiam da adolesc\u00eancia, pois j\u00e1 estavam maduros.\n\nNesse tra\u00e7o havia sem duvida uma predestina\u00e7\u00e3o; pois a barba \u00e9 o emblema das virtudes viris, como sejam a independ\u00eancia e energia.\n\nSentado D. Sebasti\u00e3o, mandou ao Barbosa de Lima que expusesse a quest\u00e3o, e este desempenhou-se da tarefa com a sua habitual fac\u00fandia, mostrando a suma gravidade e pondera\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio do marisco, pois era o principal recurso da pobreza do Recife, que, em ocasi\u00f5es de pen\u00faria, da\u00ed somente tirava o alimento.\n\nAcabada a exposi\u00e7\u00e3o, fez o governador um leve sinal com a cabe\u00e7a; e os ministros, cada um por sua vez, come\u00e7ando pelo almotac\u00e9, disseram seu parecer acerca do caso. Enquanto falavam, D. Sebasti\u00e3o ocupava-se em encher uma folha de papel de grutescos de toda sorte, onde se viam de envolta ramagens esbo\u00e7adas, cabe\u00e7as de passarinhos e outras bobagens.\n\nN\u00e3o daremos aqui a \u00edntegra das ten\u00e7\u00f5es de cada ministro, como no-la transmitiu a cr\u00f4nica, pois consumiria muito papel. Basta saber-se que o almotac\u00e9 provou com farta c\u00f3pia de textos que, sendo o marisco aqu\u00e1tico de sua natureza, devia caber de direito aos povos do Recife, os quais habitavam as praias, e n\u00e3o aos povos de Olinda que era uma cidade montanhosa. O almoxarife, fundado na opini\u00e3o de Avincena e Trincaveili, foi de voto que o marisco era um alimento indigesto e pouco nutritivo, pelo que n\u00e3o tinham os povos de Olinda justo motivo para reclamarem a outra metade do rio; antes deviam agradecer o beneficio que lhes faria Sua Excel\u00eancia, preservando-os de cruezas de est\u00f4mago, flatos e outros achaques. O provedor tratou o caso ab ovo e demonstrou cabalmente com a autoridade de insignes gram\u00e1ticos, que o marisco era fruto do mar, como estava dizendo a palavra marisesca, \u00edsca do mar; e, estabelecido esse ponto, concluiu que todos os crust\u00e1ceos do rio provinham do oceano e entravam pela barra do Recife, pelo que s\u00f3 ao Recife competia apanh\u00e1-lo. Quanto ao Viana, na sua qualidade de provedor dos defuntos, discorreu largamente, com a tal voz de carret\u00e3o; mas ningu\u00e9m percebeu o que disse; devia ser cousa muito profunda e digna da maior pondera\u00e7\u00e3o, porquanto os ministros ali mesmo julgaram necess\u00e1rio dormir sobre o caso.\n\nNesse \u00ednterim o Ajudante Negreiros ouvindo desusado rumor na pra\u00e7a, obtida a v\u00eania do governador, ergueu-se da mesa e assomou-se \u00e0 janela para inquirir da causa dessa agita\u00e7\u00e3o.\n\nFronteiro a pal\u00e1cio estava postado um cavaleiro peti\u00e7o e magri\u00e7o, armado de todas as pe\u00e7as, capacete, gorjal, coura\u00e7a, grevas, espaldeira bra\u00e7ais e guante, com o ginete estacado e a lan\u00e7a em punho. No elmo trazia ele por timbre uma aspa de vermelho com cinco estrelas de ouro, e na cota de malha o escudo dos Barros, campo vermelho, tr\u00eas bandas de prata e sobre o campo nove estrelas de ouro.\n\nOutro cavaleiro tamb\u00e9m armado de todas as pe\u00e7as, e das mesmas cores, se adiantara at\u00e9 o p\u00f3rtico e batendo tr\u00eas vezes no escudo com o conto da lan\u00e7a, clamou em voz alta:\n\n&#8211; Ou\u00e7am todos este repto. O cavaleiro das estrelas, por mim, seu escudeiro, te desafia a ti D. Sebasti\u00e3o de Castro Caldas a combate singular, onde te provar\u00e1 \u00e0 lan\u00e7a e \u00e0 espada, a p\u00e9 e na estacada,. que \u00e9s um cavaleiro desleal, pois n\u00e3o sabes guardar a cortesia \u00e0s damas.\n\nO escudeiro, retrocedendo, foi colocar-se atr\u00e1s do cavaleiro das estrelas; donde com pouco avan\u00e7ou de novo para repetir o repto. Foi da terceira vez que o ajudante chegou e o ouviu.\n\nDepois disso o cavaleiro com o escudeiro deu tr\u00eas voltas \u00e0 pra\u00e7a, e de cada uma delas, parando em frente \u00e0 janela de pal\u00e1cio, gritou com uma voz esgani\u00e7ada:\n\n&#8211; Perante todos proclamo covarde D. Sebasti\u00e3o de Castro, que n\u00e3o se atreve a sustentar o seu dito em combate leal.\n\nEsta cena a principio passara desapercebida para os oficiais de sala e mais gente que estava em pal\u00e1cio; quando lhe deram aten\u00e7\u00e3o, foi tal a surpresa, que ningu\u00e9m se lembrou de intervir, e j\u00e1 se retiravam cavaleiro e escudeiro, quando o ajudante que descia as escadas de tropel, montou a cavalo e foi-lhes no encal\u00e7o.\n\nTomando a dianteira ao cavaleiro, gritou-lhe o ajudante:\n\n&#8211; Levanta a viseira!\n\n&#8211; Se vens da parte de D. Sebasti\u00e3o para conhecer o cavaleiro diante de quem ele fugiu, olha!\n\nE levantada a viseira, o Negreiros ao ver a cara bem sua conhecida de D. Severa, disparou \u00e0s gargalhadas, e deu de esporas ao cavalo para tornar a pal\u00e1cio e contar o caso grotesco ao governador. Mas entornou-se-lhe o caldo, porque ao passar rente com o escudeiro, este, que n\u00e3o era outro sen\u00e3o o brejeiro do Nuno, agarrou-o pelo tac\u00e3o da bota e o revirou da outra banda.\n\nAo mesmo tempo com a ponta da lan\u00e7a picava o rapaz a anca do cavalo de D. Severa, e partiam ambos \u00e0 disparada. Mas inda assim podia sair-lhes salgada a gra\u00e7a, se no momento em que o ajudante erguia-se do tombo, esbravejando como um touro, n\u00e3o desembocasse da ponte uma numerosa cavalgada. que se aproximava cercada de grande ajuntamento de gente a p\u00e9.\n\nDescobrindo \u00e0 frente da cavalgada o pend\u00e3o da cidade de Olinda, nas m\u00e3os do procurador do Senado, Est\u00eav\u00e3o Soares de Ara\u00fajo, conheceu o ajudante que havia novidade, e adiando para mais tarde a desforra do desacato inaudito que sofrera, tratou de inquirir do motivo do acompanhamento.\n\nAcabava Sebasti\u00e3o de Castro de levantar a junta, declarando que \u00e0 vista dos pareceres resolveria em tempo, quando chegou a\u00e7odado o ajudante a comunicar-lhe que a\u00ed vinha o Senado de Olinda com as varas dos of\u00edcios e pend\u00e3o al\u00e7ado para representar sobre neg\u00f3cio de urg\u00eancia, o qual ele suspeitava ser o pr\u00f3prio da cria\u00e7\u00e3o da vila do Recife.\n\nSaiu o governador a receber os juizes e oficiais; com eles vinha o Ouvidor Arouche e alguns nobres de Olinda dos mais exaltados, al\u00e9m do povo com seus procuradores em frente.\n\nEnt\u00e3o o Coronel Domingos Bezerra Monteiro, vereador mais velho que servia de juiz ordin\u00e1rio, adiantou-se e falou nestes termos:\n\n&#8211; Senhor governador, aqui vem o Senado da cidade de Olinda, com a nobreza e povo, por seus procuradores nomeados, representar contra a delibera\u00e7\u00e3o que tomou Vossa Senhoria de criar vila no Recife, para o que sabe-se com bom fundamento que se est\u00e3o lavrando em segredo no Forte da Madre de Deus as pedras do pelourinho.\n\nN\u00e3o p\u00f4de de todo ocultar Sebasti\u00e3o de Castro a contrariedade ao ver devassado o seu plano; mas sem desconcertar-se, ouviu impass\u00edvel e com uma compostura cheia de dignidade todo o arrazoado do juiz de fora.\n\nSua resposta foi breve e consoante com a autoridade de que se achava revestido:\n\n&#8211; Como governador desta capitania hei de cumprir as ordens de El-Rei, meu senhor, a quem o Senado e povo de Olinda devem obedi\u00eancia e sujei\u00e7\u00e3o, e o senhor juiz ordin\u00e1rio, primeiro que ningu\u00e9m. est\u00e1 na obriga\u00e7\u00e3o de encaminh\u00e1-los a este preceito.\n\nAqui o sargento-mor, Leonardo Bezerra Cavalcanti, rompeu com um desabrimento impr\u00f3prio do lugar e da pessoa a quem se dirigia.\n\n&#8211; Pois fique sabendo Vossa Senhoria que, se pode por seu arb\u00edtrio erguer o pelourinho do Recife, podemos n\u00f3s os pernambucanos com a justi\u00e7a que nos assiste derrub\u00e1-lo, e assim o protestamos.\n\nLogo acudiu o Alferes Manuel Bezerra em refor\u00e7o ao pai, e seguiram-se outros discursos sediciosos e palavras de arru\u00eddo, com ins\u00f3lito desacato \u00e0 autoridade do governador.\n\nSebasti\u00e3o de Castro recolheu-se ao interior do pal\u00e1cio, e logo ap\u00f3s quando retirava-se o Senado de Olinda, \u00e0 porta do pal\u00e1cio, apresentou-se o Ajudante Negreiros com uma ronda de soldados da guarda:\n\n&#8211; \u00c0 ordem do senhor governador e capit\u00e3o-general, prendo ao Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti e seu filho, o Alferes Manuel Bezerra Cavalcanti.\n\nMomentos depois do ajuntamento, que passava pela ponte de volta a Olinda, ergueu-se uma voz a cantarolar esta quadra muito conhecida ent\u00e3o:\n<p align=\"center\">O Mendon\u00e7a era Furtado,\nPois dos pa\u00e7os o furtaram;\nGovernador governado,\nPara o reino o despacharam.<\/p>\nA chusma repetiu a copia em coro, e outra voz alternou:\n<p align=\"center\">A peste j\u00e1 se acabou:\nAlv\u00edssaras, \u00f3 gente boa!\nO Xumbregas embarcou,\nEi-lo vai para Lisboa.<\/p>\nEstas coplas eram de uma cantiga popular, em voga uns quarenta anos atr\u00e1s, e alusiva ao Governador Jer\u00f4nimo de Mendon\u00e7a Furtado de cujo apelido os garotos e praceiros tinham feito remoques e trocadilhos.\n\nEsse, o quarto governador da capitania, se malquistara com a nobreza e povo pelas muitas extors\u00f5es que praticava; sobrevindo a peste das bexigas, a miu\u00e7alha entrou a cham\u00e1-la pela alcunha de xumbregas, que tinha o sujeito. Chegou a ponto a animosidade da gente da terra, que na tarde de 31 de julho de 1666 ao sair o governador do pal\u00e1cio de Olinda, tomou-lhe o passo o juiz ordin\u00e1rio que o prendeu, fazendo-o recolher a pal\u00e1cio em cust\u00f3dia, at\u00e9 que o remeteram para Lisboa com o sum\u00e1rio da devassa.\n\nFoi este fato que deu tema \u00e0 cantiga, a qual o popular nunca mais esquecera e gostava de repetir sempre que se desavinha com os governadores, como aviso do que podia suceder.\n<h4><strong><a id=\"p213\" name=\"p213\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIII<\/strong><\/h4>\n<strong>EM QUE O NUNO SE PREPAROU PARA CAVALARIAS ALTAS A CUSTA DO ENXOVAL DE D. SEVERA<\/strong>\n\nNo quintal de Andr\u00e9 de Figueiredo, para o Carmo um lan\u00e7o mais comprido da por baixo das janelas que deitava casa, havia grande rebuli\u00e7o.\n\nA\u00ed estavam cerca de dez homens. Todos eles dessa casta mesti\u00e7a de sangue ind\u00edgena e africano, com sua mescla de europeu, a qual pela petul\u00e2ncia e agilidade mereceu dos colonizadores o nome de cabras, de que fizeram depois os vindi\u00e7os um ep\u00edteto afrontoso para os naturais, os quais lhes responderam conforme a artinha no mesmo caso com a alcunha de chumbos, por alus\u00e3o ao pezunho do galego e \u00e0 sua chanca de meia arroba.\n\nFelizmente j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o longe estes ci\u00fames, e queira Deus que n\u00e3o tornem, para que possamos, ambos os povos, auxiliar-nos na obra do progresso da humanidade e da regenera\u00e7\u00e3o de nossa ra\u00e7a, a quem a Provid\u00eancia n\u00e3o reservou debalde a mais rica por\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica.\n\nVestiam estes homens bragas estreitas de lona, e sobre elas uma esp\u00e9cie de albornoz de bertangil sem capuz e de mangas curtas; por chap\u00e9u um cofo de palha de coco e por cal\u00e7ado a sola do p\u00e9, que sem d\u00favida n\u00e3o cedia na rijeza \u00e0 melhor alpercata de couro de anta.\n\nQuem estudasse bem esse trajo veria nele j\u00e1 muito pronunciada a transi\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico vestu\u00e1rio pe\u00e3o do s\u00e9culo dezessete para a camisa e ceroula do nosso matuto, mais em harmonia com o clima e os costumes ind\u00edgenas.\n\nEssa gente ocupava-se em v\u00e1rios misteres, mas an\u00e1logos; estes esfregavam com cinza, areia e lim\u00e3o o metal de velhos jaezes para tirar-lhes a espessa crosta de ferrugem, enquanto aqueles untavam de sebo o correame, que de seco e rijo menos parecia couro do que pau. Outros malhavam sobre uma bigorna port\u00e1til, desfazendo as mossas dos ter\u00e7ados e arneses, os quais bem mostravam o servi\u00e7o que tinham prestado na guerra holandesa.\n\n\u00c0 parte, alguns aparelhavam cabos que metiam nas choupas para fazer chu\u00e7os e virotes. Mais adiante os \u00faltimos pensavam os cavalos, e iam-nos arreando \u00e0 medida que os outros davam prontos os jaezes.\n\nAl\u00e9m dessa gente, havia ali, mais para dentro do alpendre, uns tr\u00eas rapazes que pelo jeito eram algibebes ou pelo menos arranhavam no of\u00edcio, porque um deles armado de enorme tesoura cortava sem d\u00f3 por uma pe\u00e7a de serafina vermelha que rolava pelo ch\u00e3o, e atirava os retalhos aos dois companheiros, os quais desunhavam-se a coser ou antes alinhavar com ponto de palmo.\n\nFinalmente no meio desta labuta\u00e7\u00e3o, dirigindo a faina e acudindo a todos os grupos, andava o nosso Nuno, arvorado em escudeiro de D Severa, e empenhado em mostrar que, apesar de filho, neto e bisneto de mascate, n\u00e3o nascera para caixeiro, mas sim para homem de armas e brigador. O brejeiro tomara uns ares de import\u00e2ncia e caminhava t\u00e3o empavonado na sua categoria de escudeiro, que ningu\u00e9m reconheceria nesse soldado arrogante e desempenado o antigo mo\u00e7o, que andava pelas ruas de borjaca ao lombo e c\u00f4vado embaixo do bra\u00e7o.\n\n&#8211; \u00d3 s\u00f4 homem dizia dali um cabra.\n\n&#8211; Escute c\u00e1, dom escudeiro! gritava outro.\n\n&#8211; Que \u00e9 isto l\u00e1? perguntava o Nuno.\n\n&#8211; Para que serve toda esta trapalhada de freio, brida e n\u00e3o sei que mais? Eu c\u00e1, d\u00ea-me um cabresto, e ver\u00e1 como tenteio o bicho, sem precisar disto.\n\n&#8211; Eu tamb\u00e9m n\u00e3o me ajeito com esta camisa de ferro. .. Parece que est\u00e1 a gente enfrascado!\n\n&#8211; Pois quem n\u00e3o quiser assim, bradou o Nuno impaciente, v\u00e1 despejando o beco. \u00c9 o que n\u00e3o falta por ai, mariolas que estejam morrendo por um pataco.\n\nEm vista deste argumento perempt\u00f3rio, os cabras embucharam as suas raz\u00f5es, mas ficaram resmungando contra essas inven\u00e7\u00f5es de arneses e coura\u00e7as de que eles n\u00e3o compreendiam o pr\u00e9stimo, destros como eram a cavalgar em p\u00ealo e a brigar quase nus.\n\nEsta az\u00e1fama em que estava o Nuno, carece de uma explica\u00e7\u00e3o.\n\nJ\u00e1 vimos como D. Severa, vestida de cavaleiro e acompanhada de seu escudeiro, lan\u00e7ara tr\u00eas vezes em frente de pal\u00e1cio um desafio a D. Sebasti\u00e3o de Castro pela afronta feita \u00e0s damas de Olinda, mandando pregar pelas esquinas do Recife a redondilha descort\u00eas e chocarreira: ato este que a ninfa olindense qualificara de vil\u00e3o, e de sua alta recrea\u00e7\u00e3o atribu\u00edra ao governador, pela raz\u00e3o de que na s\u00facia dos mascates nada se fazia sen\u00e3o por vontade dele.\n\nDessa fa\u00e7anha da ninfa olindense ningu\u00e9m soube em Olinda porque ela teve o cuidado de arranjar um passeio ao engenho da tia,. e em caminho, no casebre de uma velha cabocla, operou a sua transforma\u00e7\u00e3o com a. armadura e aviamentos que levara o Nuno \u00e0 garupa em uma burjaca.\n\nDe volta a Olinda, o Nuno se prop\u00f4s demonstrar a D. Severa que nesses tempos r\u00fasticos aquela cavalaria andante tornava-se muito arriscada, porquanto podia sair-lhes ao encontro um ter\u00e7o de gente armada, que sem nenhum respeito \u00e0s regras da nobre arte da esgrima, os iria monteando a tiro de arcabuz; e a prova ai estava no risco por que passaram de serem filados pela guarda do governador, que acudira em aux\u00edlio do ajudante.\n\nO melhor alvitre era armar D. Severa uma companhia de que ela seria o capit\u00e3o, e ele Nuno o alferes, e com a qual al\u00e9m de muitas outras proezas poderiam uma tarde prender o Sebasti\u00e3o de Castro, numa volta do passeio, como fizera outrora o tio da dama, o Andr\u00e9 do Rego Barros, com o Mendon\u00e7a Furtado.\n\nAchou D. Severa excelente a lembran\u00e7a. do mo\u00e7o escudeiro, e abrindo os cord\u00f5es da bolsa, tirou do mealheiro reservado para o enxoval do casamento tr\u00eas das doze moedas que l\u00e1 dormiam desde trinta anos e entregou-as ao Nuno para a leva da companhia. Com esse dinheiro assoldara o escudeiro os dez cabras, comprara em um armeiro aquela velha ferragem, e tratara um algibebe de Olinda para enroupar a sua gente.\n\nEnquanto o Nuno andava atarefado com os aprestos da companhia, D. Severa, debru\u00e7ada \u00e0 janela, assistia \u00e0 faina, deleitando-se j\u00e1 com a id\u00e9ia de comandar ela esse esquadr\u00e3o e reviver a fama de D. Clara Camar\u00e3o.\n\nAo lado da dama apareceu Leonor que ficou surpresa da lida em que achou a tia e assustada com os preparativos guerreiros.\n\n&#8211; N\u00e3o me dir\u00e1, minha tia, para que \u00e9 esta leva de gente armada?\n\n&#8211; \u00c9 para desagravar-nos a n\u00f3s, damas de Olinda, j\u00e1 que os cavaleiros de hoje esquecem o que devem a seus brios e \u00e1s regras da ilustre ordem da cavalaria, t\u00e3o desprezada agora em nossa terra!\n\n&#8211; Ent\u00e3o vamos ter briga?\n\n&#8211; Se tanto carecemos dela! A guerra, menina, \u00e9 que faz os her\u00f3is e as heroinas.\n\n&#8211; Jesus! tia, n\u00e3o diga tal. A guerra traz tantas desgra\u00e7as!\n\n&#8211; Maiores proviriam da relaxa\u00e7\u00e3o em que vivem os pernambucanos e que acabaria por entregar a terra aos hereges.\n\nNeste ponto foi o di\u00e1logo interrompido pelo s\u00fabito aparecimento de um velho que surgiu no terreiro, sem que soubesse algu\u00e9m donde sa\u00edra ele.\n\n&#8211; Deus o guarde, senhor escudeiro!\n\n&#8211; Que procura, meu velho?\n\n&#8211; Saber\u00e1 o senhor, que dizendo-me ali um rapaz da ribeira, que sua merc\u00ea anda assoldando gente para uma companhia, eu ent\u00e3o vim me oferecer tamb\u00e9m&#8230;\n\n&#8211; Para qu\u00ea? perguntou o Nuno.\n\n&#8211; Para o que for preciso.\n\n&#8211; Enganou-se, meu velho, n\u00f3s c\u00e1 precisamos de soldados e n\u00e3o de aio para crian\u00e7as.\n\nA resposta do Nuno tinha seu chiste, pois o velho, al\u00e9m das c\u00e3s que lhe cobriam as t\u00eamporas e o car\u00e3o bamboleava sobre as pernas tr\u00f4pegas, batendo com a cabe\u00e7a como um camele\u00e3o.\n\n&#8211; Ora o caruncho querendo fazer-se de duro! disse um dos cabras.\n\n&#8211; Sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, pai av\u00f4! acudiu o outro.\n\nE todos de rir e galhofar:\n\n&#8211; Folguem, rapazes, folguem; que est\u00e3o na sua vez. Tamb\u00e9m eu j\u00e1 fui mo\u00e7o. Este surr\u00e3o velho, que est\u00e3o vendo, no seu tempo, ningu\u00e9m lhe fazia frente. Pois a guerrilha do Capit\u00e3o Rebelo, chamado o Rebelinho, era toda de gente escolhida&#8230;\n\n&#8211; Visto isto, foi voc\u00ea soldado do Rebelinho? observou o Nuno.\n\n&#8211; Como diz, senhor escudeiro. Um dia, ainda me lembro como se fosse hoje, o capit\u00e3o tinha l\u00e1 sua aventura, que isso de mancebos, e mais ele que era um guapo cavalheiro, acerca de amores \u00e9 como rosa de Alexandria que nunca est\u00e1 sem flor.\n\n&#8211; \u00c9 galante o velho! disse D. Severa.\n\n&#8211; Mas o Rebelinho? perguntou o Nuno.\n\n&#8211; Sim, como ia dizendo, tinha l\u00e1 sua aventura; e ent\u00e3o uma noite chamou. me: &#8211; &#8220;Anda c\u00e1.&#8221; &#8220;Pronto, meu capit\u00e3o.&#8221; &#8211; Cal\u00e7ar as patas dos cavalos com botas de palha, foi um instante e toca a todo o galope. Era madrugada quando chegamos. Os flamengos andavam de refest\u00ealo. O capit\u00e3o n\u00e3o titubeou; foi um raio que passou entre eles. Quando correram sus, acharam a porta guardada, que l\u00e1 estava eu; e tr\u00e1s, z\u00e1s, z\u00e1s, era um sarilho de espada como nunca se viu. A dama, que tivera aviso, logo saiu da c\u00e2mera, j\u00e1 apercebida para a jornada, de sorte que o capit\u00e3o foi tomando-a nos bra\u00e7os, saltando a janela e cavalgando.\n\n&#8211; Disto j\u00e1 se n\u00e3o v\u00ea nestes tempos de agora! disse D. Severa para a sobrinha. Leonor que desde o princ\u00edpio ao ouvir o nome de Rebelo, sentira-se presa de uma como\u00e7\u00e3o estranha e n\u00e3o tirava a aten\u00e7\u00e3o do velho, estremecera mais de uma vez sob o relance d&#8217;olhos que lhe deitava aquele em certos pontos de sua narrativa.\n\n&#8211; Foi-se o capit\u00e3o com a dama, e voc\u00ea como safou-se?.\n\n&#8211; Dois botes de espada, um \u00e0 direita, outro \u00e0 esquerda; e um pontap\u00e9 na candeia! A\u00ed ficamos todos da cor de seu mestre&#8230;\n\n&#8211; L\u00e1 dele!\n\n&#8211; E eu, este \u00e9 meu caminho!\n\n&#8211; J\u00e1 vejo que voc\u00ea foi um Ferrabr\u00e2s de Alexandria.\n\n&#8211; N\u00e3o digo tanto; mas fui um soldado que sabia seu of\u00edcio, e ainda n\u00e3o o desaprendeu. Tome-me o senhor escudeiro a seu servi\u00e7o, que se n\u00e3o h\u00e1 de arrepender.\n\n&#8211; \u00c1guas passadas n\u00e3o movem moinho. Voc\u00ea, que \u00e9 antigo, deve de conhecer o rif\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 de ser com as bravatas do tempo dos holandeses que havemos de ensinar os mascates, sen\u00e3o com boas cutiladas&#8230;\n\n&#8211; Este bra\u00e7o, apesar da tremura, ainda arranha!\n\n&#8211; V\u00e1-se andando, meu velho, que temos mais que fazer.\n\n&#8211; Sempre quero mostrar que ainda n\u00e3o estou molambo que se bota fora.\n\nE o velho apanhando uma das catanas que rolavam pelo ch\u00e3o, apanhou-a como quem entendia do of\u00edcio e fez com a espada um molinete que ningu\u00e9m por certo esperaria de semelhante pod\u00e3o.\n\nRiu-se Nuno desses floreios, e levando a m\u00e3o \u00e0 cinta, cruzou o ferro, certo de em dois tempos desarmar o velho, mas saiu a cousa \u00e0s avessas, pois foi a sua espada que saltou-lhe da m\u00e3o.\n\n&#8211; Oh! senhor escudeiro, n\u00e3o d\u00ea barrigadal\n\n&#8211; E ent\u00e3o, o velhinho n\u00e3o \u00e9 da carepa?\n\nApanhou o Nuno a espada e vinha cego sobre o velho para despicar-se, mas este, como se o grande esfor\u00e7o que fizera o houvesse extenuado, se abordoara a um tronco d&#8217;\u00e1rvore para n\u00e3o cair, e mal podia tomar f\u00f4lego.\n\n&#8211; Eis em que d\u00e3o as fanfarronadas! disse o Nuno.\n\nO velho, como que envergonhado da sua bravata, foi-se esgueirando pelo corredor, n\u00e3o sem lan\u00e7ar um olhar significativo a Leonor cujas faces se cobriam de uma lividez mortal.\n\nSob aquele disfarce, reconhecera a donzela Vital Rebelo, sobretudo quando brandindo a espada, o velho perfilou o talhe; da aventura do tempo dos holandeses compreendeu ela que o marido se preparava a arranc\u00e1-la do poder de seus parentes, e dava-lhe aviso por aquele meio em falta de outro.\n\nE n\u00e3o se enganara. Vital n\u00e3o contando sen\u00e3o consigo, resolvera libertar sua mulher do cativeiro em que a traziam e, antes de levar a cabo a empresa, julgou prudente explorar o campo e dar aviso a Leonor. Com esse fito se disfar\u00e7ou, valendo-se do pretexto que lhe ofereceu a leva do Nuno.\n\nDeixando Olinda, foi o alferes em busca de seu cavalo, que ficara oculto em uma palho\u00e7a de pescador perto do Brum, e s\u00f3 \u00e0 tarde ganhou o Recife. Ia dispor as cousas para realizar o seu plano naquela mesma noite.\n\nVital receava que de um momento para outro as cousas pol\u00edticas se baralhassem de modo a trazer um rompimento entre os nobres e os mascates; o que n\u00e3o deixaria de estorvar-lhe a empresa, pelo refor\u00e7o de que se haviam de cercar os moradores de Olinda.\n\nNaqueles dias passados o neg\u00f3cio parecia ter chegado ao desenlace com a imprud\u00eancia do Leonardo Bezerra e seu filho, de que se tratou no capitulo anterior. Quando chegou a Olinda a not\u00edcia da pris\u00e3o dos dez pernambucanos, a voz geral foi pelo levante.\n\nMas um oficial de sala do governador fora a visita em casa do capit\u00e3o-mor, e ai afirmou que Sebasti\u00e3o de Castro n\u00e3o se tinha decidido ainda a favor dos mascates, pelo que fora rematada indiscri\u00e7\u00e3o dos olindenses o provocarem a medidas de rigor. Acrescentava que, ainda assim, a pris\u00e3o dos dois Bezerras n\u00e3o tivera por causa o desacato de pal\u00e1cio, mas um homic\u00eddio que eles haviam perpetrado na noite antecedente.\n\nA \u00faltima acusa\u00e7\u00e3o, sabia-se em Olinda que tinha todo o fundamento, pois fora para tomar uma vingan\u00e7a b\u00e1rbara de pretendidas ofensas que o coronel e seu filho tinham na v\u00e9spera chegado \u00e0 casa de Andr\u00e9 de Figueiredo com um tro\u00e7o de gente armada.\n\nEssas insinua\u00e7\u00f5es de pal\u00e1cio serenaram os \u00e2nimos, e os trouxeram \u00e0 conc\u00f3rdia. O sargento-mor e o filho tiveram carta de seguro para se livrarem soltos da querela, e as cousas voltaram ao p\u00e9 em que anteriormente se achavam, e nas quais as desejava por muito tempo ainda Sebasti\u00e3o de Castro que era avesso a toda complica\u00e7\u00e3o ou crise, como se diz na atual aravia pol\u00edtica.\n\nOs mascates, que j\u00e1 contavam infal\u00edvel o despique do governador contra a arrog\u00e2ncia dos nobres de Olinda, ficaram de orelha murcha. A Senhora Rufina, essa, quando soube que o seu plano tinha gorado, enfiou, e arrega\u00e7ando o vestido at\u00e9 \u00e0 canela, cal\u00e7ada com meia azul de Guimar\u00e3es, exclamou:\n\n&#8211; Aquilo \u00e9 um songamonga de um papa-a\u00e7orda! Mas deix\u00e1-lo comigo, que eu lhe chegarei a mostarda ao nariz!\n\nBem nos pesa trasladar para aqui estes destemperos de l\u00edngua da varoa recifense, mas a verdade hist\u00f3rica assim o exige.\n\n&#8211; Era a Senhora Rufina mulher decidida. Se ela tinha cabelo na perna, como o abelhudo do Nuno andou enredando das recifenses l\u00e1 por Olinda, n\u00e3o sabemos; mas que o tinha na venta, isso podemos assegur\u00e1-lo.\n\nSem mais rodeios mandou chamar o Tunda-Cumbe que lhe viesse falar \u00e0quela mesma tarde.\n\nEsse Tunda-Cumbe era um labrego, h\u00e1 anos chegado do reino, sem eira nem beira, nem ramo de figueira. Chamava-se ele Manuel Gon\u00e7alves, e tinha a cara lanhada por um gilvaz, trof\u00e9u de certas fa\u00e7anhas pelas quais deixara na terra fama de parteiro jubilado.\n\nApenas desembarcado, os patr\u00edcios o arranjaram de feitor para o engenho Cumbe, do Sargento-Mor Matias Vidal, em Goiana, e a\u00ed tais artes fez, que os negros um belo dia o amarraram a um toco de pau e assentaram-lhe tremenda pisa, que eles na sua l\u00edngua de Angola, chamam tunda. E dai veio ficar o Manuel Gon\u00e7alves batizado por Tunda-Cumbe.\n\nA sova de pau n\u00e3o o desgostou do oficio de feitor, que ainda serviu por algum tempo na V\u00e1rzea; depois fez-se almocreve de peixe, que ia comprar \u00e0 ribeira e andava pelas portas a vender em um cargueiro. Mas como era homem de dar e tomar, e dessa \u00faltima qualidade fazia prova plena a tunda de Goiana, ocupava-se o latag\u00e3o em outros neg\u00f3cios, que lhe rendiam mais que a regatice, embora lhe custassem \u00e0s vezes um arranh\u00e3o na pele ou alguma escovadela no lombo. Para isso tinha ele o couro rijo, e a f\u00eavera maci\u00e7a.\n\nEm todos os tempos agitados h\u00e1 dessa estofa de gente, que a fortuna se compraz de agarrar pela orelha e atirar no meio dos acontecimentos, donde n\u00e3o \u00e9 raro v\u00ea-los subir pelos degraus das honras e do poder. O nosso Manuel Gon\u00e7alves estava fadado a representar um papel importante na Guerra dos Mascates, e a hist\u00f3ria, que o viu almocreve de peixe naquele ano de 1710, devia dois anos mais tarde encontr\u00e1-lo coronel e cavaleiro do h\u00e1bito de Cristo, com as congratula\u00e7\u00f5es que da parte de El-Rei lhe dirigiu o governador.\n\nTal foi o homem com quem teve a Senhora Rufina larga pr\u00e1tica no telheiro da cacimba; do que a\u00ed se passou, n\u00e3o reza a cr\u00f4nica.\n\nIsto ocorria dias antes daquele em que Vital Rebelo disfar\u00e7ado em soldado velho fora a Olinda, e que se contava 17 de outubro.\n<h4><strong><a id=\"p214\" name=\"p214\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIV<\/strong><\/h4>\n<strong>DA ESP\u00c9CIE DE MOSTARDA QUE A SENHORA RUFINA LEVOU AO NARIZ DO GOVERNADOR,<\/strong>\n\n<strong>E DO ESPIRRO QUE SAIU<\/strong>\n\nQuando Vital chegou \u00e0 porta do Recife, pouco faltava para quatro horas.\n\nMorava ele da outra banda do rio, lugar que fora outrora o Carmo Velho, e que os holandeses chamavam Boa Vista, de uma quinta que a\u00ed construiu o Conde Maur\u00edcio de Nassau, nome esse que os nossos conservaram.\n\nPara ganhar a casa atravessou o Recife e veio sair \u00e0 Porta de Santo Ant\u00f4nio, donde passando a ponte tomou para o Ros\u00e1rio na dire\u00e7\u00e3o de Cinco Pontas, que era ent\u00e3o o caminho da Boa Vista, pois ainda n\u00e3o existia a ponte, e a passagem se fazia pelo aterro dos Afogados.\n\nAo voltar para o Ros\u00e1rio, avistou o mancebo uma cavalgada que atravessava de S\u00e3o Francisco para as Trincheiras.\n\nEra o Governador Sebasti\u00e3o de Castro e sua comitiva. Sa\u00eda ele ao costumado passeio da tarde e dirigia-se para as Cinco Pontas pela Rua das \u00c1guas Verdes.\n\nAo chegar por meio dessa rua. e no momento em que o fidalgo voltava-se para falar ao Barbosa de Lima, ouviu-se a detona\u00e7\u00e3o de dois tiros disparados de uma r\u00f3tula onde ainda se p\u00f4de ver um froco de fuma\u00e7a.\n\nOs oficiais e soldados da guarda arremeteram contra a r\u00f3tula, mas nada encontraram. A casa desabitada desde muito tempo, estava deserta.\n\nTodavia, se tivessem corrido logo ao quintal, ainda avistariam dois vultos de cara pintada que escaparam-se pela cerca com os mosquetes fumegantes, e que momentos depois eram vistos atravessarem de corrida da Rua do Horta para o Ros\u00e1rio na dire\u00e7\u00e3o da Praia, onde, a ser verdade o que espalhou-se mais tarde, os esperava uma canoa.\n\nO governador estava ferido; o que, derramando o susto e a consterna\u00e7\u00e3o nas pessoas da comitiva, dera azo \u00e0 fuga dos espoletas. Apenas se p\u00f4de obter uma liteira, foi ele transportado para pal\u00e1cio e entregue aos cuidados dos f\u00edsicos da terra.\n\nOs ferimentos eram na coxa direita, onde viam-se quatro escoria\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o pareciam ter a menor gravidade por serem quase superficiais. N\u00e3o pensavam por\u00e9m desta sorte os garnachas que abanavam magistralmente a doutoral guedelha resmungando um latina\u00e7o:\n\n&#8211; Vulnus intoxicatus!&#8230;\n\nCom o alicate, um dos da mestran\u00e7a, extraia das escoria\u00e7\u00f5es part\u00edculas brancas e cristalizadas, que aproximava \u00e0 luz da janela, onde cada um, limpando as canastras e cavalgando-as de novo no beque, procedia ao profundo e escrupuloso exame.\n\n&#8211; Mercurius sublimatus corrosivus! disse afinal o de\u00e3o dos guedelhas erri\u00e7ando as grossas sobrancelhas como dois acentos circunflexos.\n\n&#8211; Ita vero! afirmou o segundo, alongando \u00e0 guisa de ponto de admira\u00e7\u00e3o a j\u00e1 esguia cara\u00e7a.\n\n&#8211; Sane quidem! ecoou o terceiro esparramando as bochechas na mais doutoral interjei\u00e7\u00e3o.\n\nElucidado devidamente o abstruso caso com formid\u00e1vel refor\u00e7o de latim e suculentas ilustra\u00e7\u00f5es de Boheravio e outros luminares da cirurgia, foi decidido pela junta dos f\u00edsicos, e anunciado em boletim, &#8220;que o estado de Sua Excel\u00eancia, o Senhor Capit\u00e3o-General D. Sebasti\u00e3o de Castro, devia se considerar melindroso e grav\u00edssimo, visto como os ferimentos, embora rasos, eram feitos por balas ocas, cheias de um veneno terr\u00edvel, o sublimado corrosivo com que os sic\u00e1rios contavam empe\u00e7onhar o precioso sangue do excelent\u00edssimo governador, e assim assegurar por uma morte infal\u00edvel o \u00eaxito de seu nefando e sacr\u00edlego trama, mas a Divina Provid\u00eancia, que vela sobre os destinos dos povos, permitiu que os assassinos n\u00e3o empregassem nos mosquetes a carga suficiente, de modo que, sendo as feridas superficiais. restava essa esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o para o excelent\u00edssimo enfermo, sendo ela todavia t\u00e3o prec\u00e1ria que a sapient\u00edssima junta n\u00e3o se animava ainda a formular um diagn\u00f3stico favor\u00e1vel&#8221;.\n\nPara que o leitor possa aquilatar bem desta sandice doutoral, vamos confiar-lhe um segredo, que at\u00e9 agora escapou \u00e0s laboriosas investiga\u00e7\u00f5es do Instituto Hist\u00f3rico, deixando na sombra a verdade sobre o fato culminante da Guerra dos Mascates.\n\nO tal sublimado corrosivo que a mestran\u00e7a achou na perna de Sebasti\u00e3o de Castro, aqui \u00e0 puridade, n\u00e3o era outra cousa sen\u00e3o sal de cozinha, com que o Tunda-Cumbe e seu companheiro tinham carregado os mosquetes a mandado da Senhora Rufina. A mulher do Sim\u00e3o Ribas, que no fundo e apesar dos ep\u00edtetos um tanto pitorescos com que o mimoseava, n\u00e3o tinha raiva ao Sebasti\u00e3o de Castro, e s\u00f3 inquijilava com ele por quere-lo mais homem e mais governador, especialmente depois do desaforo da perna cabeluda; a digna almotac\u00e9, bem longe de atentar contra a vida do fidalgo, maquinara nesse meio de despertar-lhe os esp\u00edritos vitais, fustigando-lhe a pele. O sal a\u00ed fazia a vez da pimenta: com a diferen\u00e7a que a aplica\u00e7\u00e3o do primeiro era mais consoante com a dignidade do cargo.\n\nHoje em dia, dado o desconto aos costumes, ainda se usa do mesmo processo empregado pela Senhora Rufina para intrigar um partido com o supremo dispensador das gra\u00e7as. Em vez de tiros de sal dados de emboscada na esquina da rua, faz-se isso mais limpamente com artigos mascarados de gazetas an\u00f4nimas.\n\nAo tempo em que a mestran\u00e7a destrin\u00e7ava o caso cir\u00fargico, os estadistas jubilados proviam ao caso pol\u00edtico. Foi sum\u00e1ria a delibera\u00e7\u00e3o, pois urgiam as circunst\u00e2ncias melindrosas da rep\u00fablica, que \u00e9 a cousa de n\u00f3s todos.\n\nO Barbosa de Lima que por gosto e necessidade falava portugu\u00eas correntio, abriu a confer\u00eancia com um texto latino, res vestra agitur, que arregalou o olho ao Negreiros, o qual dando um pux\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria, sacou o exemplo da artinha do Padre Mestre Ant\u00f4nio Pereira: Vita, decus et anima nostra in dubio sunt. O almotac\u00e9 que era rigorista acrescentou &#8211; ou in dubio est. Quanto ao almoxarife, n\u00e3o ajustando-se ao caso o \u00fanico texto de T\u00e1cito que ele salvara do naufr\u00e1gio de seu latin\u00f3rio, apoiou com a cabe\u00e7a.\n\nFicou assentado que em desagravo do negro, infame e execrando insulto que sofrera a Majestade na excelent\u00edssima pessoa do senhor governador e capit\u00e3o-general, seu bra\u00e7o r\u00e9gio, cumpria dar um exemplo tremendo que ficasse para mem\u00f3ria; e como medida preliminar ordenou-se a pris\u00e3o imediata dos principais de Olinda. Esta provid\u00eancia era ainda reclamada pela salva\u00e7\u00e3o comum; pois quando os rebeldes ousavam atacar a primeira autoridade da capitania, o que n\u00e3o atentariam contra os subalternos?\n\nBem se v\u00ea que os estadistas n\u00e3o ficavam atr\u00e1s dos f\u00edsicos. Se estes haviam pressuposto a exist\u00eancia de balas para afirmarem que eram ocas e cheias de sublimado corrosivo, aqueles davam por averiguado que os autores do b\u00e1rbaro desacato eram os nobres de Olinda.\n\nEntretanto a not\u00edcia do atentado se havia derramado pelas ruas, incutindo na popula\u00e7\u00e3o o espanto, acompanhado do vago terror que pressagia as cat\u00e1strofes.\n\nOs animosos pensavam nas conseq\u00fc\u00eancias funestas desse crime que ia acender a guerra civil e cobrir de luto e ru\u00ednas a j\u00e1 decadente Capitania. Os pusil\u00e2nimes s\u00f3 pensavam na pr\u00f3pria seguran\u00e7a e estremeciam ao menor rumor, cuidando que os p\u00e9s-rapados, depois de terem ferido o governador, se espalhavam pelas ruas decididos a deixarem tudo raso.\n\nEntre estes \u00faltimos distinguia-se o nosso Capit\u00e3o Miguel Correia, que apesar do lombo maci\u00e7o e da gineta das ordenan\u00e7as, n\u00e3o podia de modo algum vencer a instintiva repugn\u00e2ncia por tudo quanto lhe cheirava a chamusco. Por isso, quando veio a primeira nova surpreend\u00ea-lo na rua, tratou de meter-se em casa do mercador Viana, onde al\u00e9m das paredes, contava ele com os esconderijos do vasto armaz\u00e9m.\n\nNa sala encontrou a Senhora Rosaura e a filha, que tamb\u00e9m estavam assustadas com a not\u00edcia, e espiavam pela r\u00f3tula \u00e0 espreita de algum conhecido para inquirir sobre os pormenores do caso. O mercador ao primeiro aviso correra a pal\u00e1cio, donde ainda n\u00e3o voltara; e assim, em falta do Nuno, tinham enviado como batedor a Benvinda.\n\nA chegada do capit\u00e3o foi pois acolhida com satisfa\u00e7\u00e3o at\u00e9 pela formosa Belinhas, que de ordin\u00e1rio o recebia de longe com uma graciosa carranca, mas nesse momento chegava-se perto com o rostinho alvoro\u00e7ado de curiosidade. Se n\u00e3o fossem uns calafrios que lhe corriam pelo fio do lombo e uns repuxamentos que lhe pregavam a barriga no espinha\u00e7o, o nosso Miguel Correia se animaria a desejar novos barulhos, que lhe trouxessem esses ares da gra\u00e7a de sua futura.\n\n&#8211; Diga-nos o que sabe, Sr. Miguel Correia? foi a pergunta com que a Rosaura lhe abriu a porta.\n\n&#8211; Eu, senhora, s\u00f3 sei dos tiros, e que o senhor governador l\u00e1 foi ferido .para pal\u00e1cio.\n\n&#8211; Talvez a esta hora esteja com Deus.\n\n&#8211; Que me diz, senhora? exclamou o capit\u00e3o cujas pernas come\u00e7aram a abanar.\n\n&#8211; N\u00e3o ouviu tocar ao Sant\u00edssimo? Pois foi para o senhor governador. Pelo que falava uma gente que passou, parece que envenenaram as balas.\n\n&#8211; Jesus! Que malvados!\n\n&#8211; O senhor ent\u00e3o ainda n\u00e3o foi a pal\u00e1cio? perguntou Belinhas com reparo.\n\n&#8211; Ainda n\u00e3o&#8230; Eu&#8230; eu quis ir&#8230; mas como havia de ter muita gente, pensei que&#8230; que n\u00e3o era bom&#8230; podia atrapalhar.\n\n&#8211; Pois deve ir! tornou a mo\u00e7a.\n\n&#8211; A senhora acha?\n\n&#8211; Um capit\u00e3o de ordenan\u00e7as! Para que serve ent\u00e3o esta espada se n\u00e3o \u00e9 para defender o seu general? disse a mo\u00e7a com desd\u00e9m.\n\nA Senhora Rosaura, que tinha corrido \u00e0 r\u00f3tula por ouvir um burburinho, exclamou:\n\n&#8211; Ai, minha Nossa Senhora, que l\u00e1 vem uma tropa!\n\n&#8211; E \u00e9 para c\u00e1! disse Belinhas lan\u00e7ando os olhos \u00e0 rua.\n\n&#8211; Para c\u00e1?&#8230; balbuciou o capit\u00e3o procurando com a vista a porta do interior.\n\n&#8211; Ser\u00e1 dos nossos? Deus o permita! tornou a Rosaura.\n\n&#8211; H\u00e1 de ser, h\u00e1 de ser, disse o Miguel Correia recobrando-se com essa id\u00e9ia Aposto que foi o Viana que pediu ao ajudante para guardar sua casa&#8230;\n\n&#8211; \u00d3 m\u00e3e, gritou Belinhas, \u00e9 de Olinda!&#8230; E estamos cercados.\n\nO bando de homens armados, em n\u00famero de vinte, desembocando na Rua da Moeda, dirigiu-se rapidamente \u00e0 casa do mercador Viana, onde acabava de p\u00f4r cerco, apeando-se logo um cavalheiro que parecia o cabo.\n\nEsta esquadra n\u00e3o era outra sen\u00e3o a que o Nuno estava na manh\u00e3 daquele mesmo dia esquipando e arreando no quintal da casa de Andr\u00e9 de Figueiredo. O que de mais not\u00e1vel havia nela eram os trajos. Vestiam os sujeitos uma pantalona, como ainda h\u00e1 pouco tempo se via nos palha\u00e7os dos circos, o que lhes dava o aspecto de marmanj\u00f5es de sungas vermelhas, marchetados de estrelinhas de amarelo fingindo ouro.\n\nA cabe\u00e7a traziam-na coberta com uma carapu\u00e7a de l\u00e3 azul, que esticada por dentro com arames, tomava a fei\u00e7\u00e3o de um funil. Quanto \u00e0s pernas e p\u00e9s, n\u00e3o usavam meias nem sapatos, mas uma esp\u00e9cie de polaina preta de original inven\u00e7\u00e3o.\n\nFora o caso que n\u00e3o querendo os cabras admitir cousa que se parecesse com cal\u00e7ado, pois era o mesmo que pe\u00e1-los, aventou o Nuno met\u00ea-los at\u00e9 o joelho em um tijuco preto que depois de seco fingia botas de longe, sem estropiar os seus soldados.\n\nTendo conclu\u00eddo os aprestos de sua companhia, lembrou-se o escudeiro da D. Severa de sair com ela para adestr\u00e1-la desde logo; e seriam quatro horas da tarde quando aquela mascarada desfilou pelas ruas de Olinda com grande alvoro\u00e7o da meninada, que tomou a cousa por festa mourisca.\n\nSeguiu o bando pelo istmo com dire\u00e7\u00e3o \u00e0s portas do Recife, onde o Nuno queria dar mostra da sua luzida esquadra.\n\nAntes de chegar ao Forte do Brum, h\u00e1 no istmo uma pilastra conhecida por Cruz do Patr\u00e3o que serve de baliza aos mareantes quando demandam o porto.\n\nPassando por ali, ouviu a tropa alguma cousa que excitou-lhe a aten\u00e7\u00e3o. Era uma esp\u00e9cie de salmo ou recitativo, pronunciado por uma voz d\u00e9bil e extenuada. Dir-se-ia um canto de igreja, talvez um responso, t\u00e3o l\u00fagubre eram os acentos daquele ritmo.\n\nOs cabras se benzeram, esconjurando o mau agouro; e Nuno, um tanto agitado apesar da sua temer\u00e1ria impetuosidade de rapaz, adiantou-se para averiguar o caso.\n\nSentado no respaldo da pilastra, pela face do mar, via-se um homem com o olhar engolfado no vasto horizonte que se abria pela imensidade do oceano. Seus olhos pasmos e hirtos pareciam exalar os \u00faltimos lampejos d&#8217;alma que se estava desatando do seu espojo mortal, para embeber-se no c\u00e9u. Moviam-se frouxamente os l\u00e1bios desatando aqueles salmos tristes, em que de perto se reconhecia a cad\u00eancia solu\u00e7ante de uma trova.\n\nEra s\u00f3 o que a vida ainda n\u00e3o desamparara nesse corpo j\u00e1 quase morto, que a n\u00e3o ser a pilastra onde se derreava, estaria rojando no ch\u00e3o. Mas esse mesmo crep\u00fasculo da vida, que ainda pairava nos olhos e nos l\u00e1bios do infeliz, bruxuleava j\u00e1, apagando-se intermitente como o clar\u00e3o de l\u00e2mpada a extinguir-se. Ao ver-lhe o semblante que jaspeava a lividez da morte, Nuno deu um grito, e apeando-se rijo correu ao moribundo.\n\n&#8211; Lisardo!\n\nO poeta n\u00e3o p\u00f4de volver os olhos para o amigo; mas um raio perpassou-lhe no rosto, como a luz de um sorriso.\n\n&#8211; Acudam! gritou o Nuno para sua gente. Depressa! \u00c9 preciso salv\u00e1-lo! V\u00e3o buscar o licenciado!\n\nUm dos cabras mais decididos aproximou-se, e tirou do c\u00f3s da pantalona uma borracha delgada e comprida que facilmente se acomodava ao corpo \u00e0 guisa de cinta, e na qual trazia a insepar\u00e1vel branca, sua fiel companheira. Para ele, como para muita gente, esse era o elixir milagroso capaz de ressuscitar um morto.\n\nAssim tratou sem mais cerim\u00f4nia de introduzir o gargalo da borracha na boca do poeta e despejar-lhe um gole. Reanimou-se de s\u00fabito a fisionomia do moribundo, mas logo ap\u00f3s caiu ele estorcendo-se de dores e soltando gemidos pungentes no meio dos quais escapou-se afinal uma palavra que parecia sair das entranhas dilaceradas:\n\n&#8211; Fome!.,. A fome!\n\n&#8211; Morto de fome, meu Deus! gritou o Nuno. Corram! A Olinda&#8230; Voem!&#8230; Ah! Lisardo!&#8230; Pois, n\u00e3o me tinhas a mim!\n<h4><strong><a id=\"p215\" name=\"p215\"><\/a>CAP\u00cdTULO XV<\/strong><\/h4>\n<strong>O NUNO ESTR\u00c9IA-SE NA CARREIRA DAS ARMAS PELO RAPTO DAS SABINAS<\/strong>\n\nCom pouco chegou um dos camaradas trazendo um coco verde, que apanhara ali perto. A \u00e1gua e depois a gel\u00e9ia reanimaram o Lisardo, e deram-lhe for\u00e7as para esperar a refei\u00e7\u00e3o que veio de Olinda, e constava de uma a\u00e7orda e vinho.\n\nInstado por Nuno, o poeta referiu-lhe em poucas palavras o segredo de sua desesperada posi\u00e7\u00e3o:\n\n&#8211; Naquele mesmo dia, em que \u00e0 tua vista me correram de Olinda, como um ingrato e falso, tornando ao Recife. para beber nos olhos dela um conforto de que precisava, fui tamb\u00e9m despedido a seu mandado como um mendigo importuno!\n\n&#8211; Belinhas?&#8230;\n\n&#8211; Ela!.\n\n&#8211; Soube n\u00e3o sei como, que eram meus os versos contra as damas de Olinda&#8230; E eram; mas tinha-os feito por ordem de D. Severa; e jamais com inten\u00e7\u00e3o de ofender aquela que eu adorava como a luz de minh&#8217;alma.\n\nNuno cogitava.\n\n&#8211; Ent\u00e3o, concluiu o poeta, pensei que j\u00e1 n\u00e3o tinha que fazer na terra e chegando aqui, me deixei morrer. Por que me chamaste de novo a este mundo, onde nada mais sou do que um espectro?\n\n&#8211; H\u00e1s de ser marido de Belinhas, que o mando eu! exclamou o Nuno com um entono picaresco.\n\nUm dos camaradas passou para a garupa do outro, e no cavalo devoluto acomodou-se o Lisardo, que apesar da fraqueza p\u00f4de manter-se na sela.\n\nPor ordem do azougado rapaz, seguiu a esquadra para o Recife, que achou em alvoroto com a nova do horroroso insulto feito ao governador.\n\nEm vez de hesitar no plano que tra\u00e7ara, o Nuno ao contr\u00e1rio mais se apressurou.\n\nJ\u00e1 vimos como chegou \u00e0 casa do pai, onde n\u00e3o o conheceram nem a m\u00e3e, nem a irm\u00e3, por causa da viseira que trazia descida; pois o escudeirinho n\u00e3o relaxava a coura\u00e7a e capacete, que apesar de j\u00e1 n\u00e3o serem da moda, davam-lhe ares mais guerreiros.\n\nFoi reconhecendo Lisardo, que a menina Belinhas soltara o grito de espanto, que afugentou da sala, como sombras que se evaporam, a Senhora Rosaura e o insigne Capit\u00e3o Miguel Correia.\n\nA. menina, por\u00e9m, deixou-se ficar ainda que tr\u00eamula e perturbada. Apesar do susto, sentia uma vontade irresist\u00edvel de saber o que desejava ali aquela tropa que tinha por um dos cabos o Lisardo.\n\nEntrou na sala o Nuno, com um tremendo espalhafato guerreiro, de arrastado de espada, batido de esporas e roncarias de peito, puxando pelo bra\u00e7o o Lisardo que fazia o poss\u00edvel por desvenc\u00edlhar-se da corriola.\n\n&#8211; A Senhora Isabel Viana, ou a menina Belinhas, que no Parnaso \u00e9 conhecida por Belisa, est\u00e1 presa \u00e0 minha ordem por ter praticado certa ingratid\u00e3o com o seu poeta e adorador aqui presente. E como t\u00e3o b\u00e1rbaro crime n\u00e3o h\u00e1 de ficar sem puni\u00e7\u00e3o, vai a r\u00e9 deste passo acompanhar o Senhor Lisardo de Albertim \u00e1 primeira igreja, onde conjugar\u00e1 com ele o verbo matrim\u00f4nio. Tenho dito.\n\nBelinhas, que havia conhecido a voz do irm\u00e3o, riu-se mau grado das garotices do rapaz; e consentiu, toda envergonhada, que ele pusesse na m\u00e3o fria e tr\u00eamula do Lisardo a ponta de seus dedos mimosos. Pensava ela que tudo aquilo n\u00e3o passava de uma com\u00e9dia, e tinha raz\u00e3o; mas. a com\u00e9dia n\u00e3o acabava ali.\n\nEnquanto na sala isto ocorria, os cabras, entrando no armaz\u00e9m por ordem de Nuno \u00e0 busca de uma liteira, deram com uma pipa de torneira assentada sobre o tendal a jeito de escorrer o l\u00edquido.\n\nUm dos cabras logo p\u00f4s-se de gatinhas a mamar naquela teta apojada e os outros impacientes esperavam sua vez. Um, por\u00e9m, mais s\u00f4frego deitou os olhos ao redor e descobriu um pichel de lata:\n\n&#8211; Isso de bica atrasa muito. Eu c\u00e1 vou com o. p\u00facaro \u00e0 fonte.\n\nDito e feito. Trepando no cavalete para deitar o tampo dentro, viu com surpresa que j\u00e1 a pipa fora arrombada; por\u00e9m maior foi seu espanto descobrindo ali uma cabe\u00e7a.\n\n&#8211; Ol\u00e1, temos conserva!\n\n&#8211; Que hist\u00f3ria \u00e9 essa?\n\n&#8211; Uma cabe\u00e7a de molho!\n\n&#8211; Um corpo inteiro!\n\n&#8211; Oh! diabo!\n\n&#8211; N\u00e3o me matem! murmurou a pipa. Eu prometo&#8230;\n\nSabidas as contas, era o nosso Capit\u00e3o Miguel Correia que se pusera de conserva na pipa do vinho.\n\nO que lhe valeu foi a pressa com que estava o Nuno, a quem n\u00e3o fazia conta a volta do pai. Bem desejava ele dar um abra\u00e7o \u00e0 m\u00e3e, por\u00e9m temia as ternuras da velha.\n\nDois cavalos da tropa foram metidos nos varais da liteira, que em poucos momentos ficou prestes.\n\n&#8211; Toca a andar. Senhor Lisardo de Albertim, ofere\u00e7a o bra\u00e7o \u00e1 sua dama.\n\nO nosso poeta, que ainda n\u00e3o proferira uma palavra, estava alheio a quanto se passava em torno e enlevado na contempla\u00e7\u00e3o de Belinhas.\n\n&#8211; Onde me quer voc\u00ea levar, Nuno?\n\n&#8211; \u00c0 casa de Marta.\n\n&#8211; Sem a m\u00e3e?&#8230; N\u00e3o vou.\n\n&#8211; Vais, te digo eu, que n\u00e3o estou para ver o Lisardo morrer segunda vez!\n\n&#8211; Ele?&#8230; balbuciou a menina lan\u00e7ando ao amante um olhar de exprobra\u00e7\u00e3o.\n\n&#8211; Quem traz dentro de si morta toda a esperan\u00e7a, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais homem., \u00e9 s\u00f3 fantasma de uma alma penada que pede a sepultura, disse Lisardo.\n\nA menina enxugou uma l\u00e1grima, e Nuno aproveitando-se da como\u00e7\u00e3o, tomou-a nos bra\u00e7os quase sem resist\u00eancia e levou-a \u00e0 liteira, que logo partiu para Santo Ant\u00f4nio.\n\nA menina gritou pela m\u00e3e; esta, por\u00e9m, escondida na cozinha, n\u00e3o a ouviu.\n\nA casa do Perereca estava fechada. Ao rijo bater da lan\u00e7a do Nuno acudiu um escravo, que ficou espantado vendo a patrulha.\n\n&#8211; Arreda, ti\u00e7\u00e3o, quero entrar.\n\n&#8211; O senhor n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed\n\n&#8211; E a mulher?\n\n&#8211; Tamb\u00e9m foi com ele para pal\u00e1cio.\n\n&#8211; E a filha?\n\n&#8211; Essa est\u00e1 ai, sim senhor.\n\n&#8211; \u00c9 quanto basta.\n\nEntrou o Nuno com o costumado arreganho e esparrame na sala onde estava Marta.\n\n&#8211; Venho buscar a menina por mandado de sua m\u00e3e.\n\n&#8211; Para pal\u00e1cio?\n\n&#8211; Sim! roncou o cavaleiro.\n\nMarta, aborrecida e assustada de estar sozinha em casa, preparou-se logo e entrou na liteira onde ainda mais contente ficou por encontrar Belinhas.\n\nNesse momento um vulto que viera da Penha e esbarrara com a casa cercada de gente armada se esgueirava ao longo da cerca. O Nuno o descobriu e deu ordem de agarr\u00e1-lo:\n\n&#8211; Que \u00e9 isto, Cosme? Foge dos amigos?\n\n&#8211; Eu&#8230; eu&#8230; Nuno&#8230;\n\n&#8211; Tenho que agradecer-lhe umas amizades que fez aqui ao nosso Lisardo. Ponham-no de garupa; e olho no meco.\n\nA tropa de novo p\u00f4s-se de marcha, mas em vez de tomar para o lado do pal\u00e1cio, seguiu pela praia na dire\u00e7\u00e3o dos Afogados; e pouco depois atravessava a Boa Vista, caminho de Santo Amaro. O Nuno preferira para voltar a Olinda esse rodeio que era mais seguro.\n\nMarta, que j\u00e1 sabia pela amiga quem era o fa\u00e7anhudo cavaleiro armado de ponto em branco, e desconfiava da embrechada, vendo assomarem as torres do pal\u00e1cio ao longe, pela esquerda, abriu a cortina da liteira:\n\n&#8211; Oh! senhor, este n\u00e3o \u00e9 o caminho do pal\u00e1cio.\n\n&#8211; N\u00e3o; mas \u00e9 o da Igreja de Santo Amaro.\n\n&#8211; E que vamos n\u00f3s l\u00e1 fazer?\n\n&#8211; A senhora vai desposar-se com o escudeiro Nuno, Peitod&#8217;A\u00e7o; sua amiga com Lisardo de Albertim, nobre trovador olindense.\n\n&#8211; Eu n\u00e3o quero, n\u00e3o quero, n\u00e3o quero! disse a menina batendo com a m\u00e3ozinha fechada na borda da liteira.\n\n&#8211; Quero eu; e basta.\n\n&#8211; Eu te mostrarei!\n\nE a gentil menina escondeu-se amuada dentro da liteira, para fugir ao olhar do Nuno, que nesse momento ela detestava.\n\nEntretanto chegava o pelot\u00e3o a Santo Amaro, e acampava em frente da ermida.\n\nTinha anoitecido, mas fazia um desses luares espl\u00eandidos do Norte que parecem auroras boreais.\n\nO Nuno despachou dois cabras em busca do capel\u00e3o, ou de qualquer outro padre mais pr\u00f3ximo, com ordem terminante de traz\u00ea-lo ali, ainda que fosse amarrado.\n\nEnquanto se fazia a dilig\u00eancia, deixou ele o Lisardo com alguns homens de guarda \u00e0 liteira, e afastou-se com o Cosme Borralho e um dos cabras para o mato vizinho. Ali chegando, mandou pelo camarada cortar um grande molho de cansan\u00e7\u00e3o.\n\n&#8211; Cosme Borralho, meu amigo, voc\u00ea desde certo tempo a esta parte anda cheio de maus humores.\n\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 tal!&#8230; acudiu o escrevente.\n\n&#8211; E por falta de mezinha, essa reima est\u00e1-lhe atacando a l\u00edngua com achaques de enredeiro e maldizente.\n\n&#8211; \u00c9 um falso testemunho, Nuno; n\u00e3o acredite!\n\n&#8211; Pois eu n\u00e3o hei de acreditar que voc\u00ea anda achacado? Se n\u00e3o fosse por mol\u00e9stia, o Cosme, nosso camarada, havia de andar intrigando o Lisardo aqui no Recife e em Olinda?\n\n&#8211; Juro que n\u00e3o fui eu!\n\n&#8211; \u00c9 doen\u00e7a, n\u00e3o digo? Sou seu amigo, Cosme; quero cur\u00e1-lo dessa ruim praga. Dispa-se at\u00e9 ficar em p\u00ealo para levar uma fric\u00e7\u00e3ozinha com que voc\u00ea sara logo.\n\n&#8211; De cansan\u00e7\u00e3o? exclamou o escrevente sarapantado.\n\n&#8211; \u00c9 uma planta medicinal; produz na pele umas coceiras que acabam com as comich\u00f5es da l\u00edngua.\n\n&#8211; Est\u00e1 bom, Nuno, j\u00e1 voc\u00ea se divertiu com suas chacotas; agora deixe-me ir.\n\n&#8211; Alto l\u00e1! Desate os cal\u00e7\u00f5es.\n\n&#8211; Nuno!\n\n&#8211; Deixe-se de sestros. Se voc\u00ea n\u00e3o quer que eu, seu amigo, lhe sirva de enfermeiro, e lhe aplique o emplastro com todo o cuidado, ent\u00e3o deixo-o nas m\u00e3os deste machacaz e com ele se avenha.\n\nO Cosme engrolou, sofismou, e remanchou quanto p\u00f4de; mas afinal fazendo boa cara \u00e0 m\u00e1 fortuna resignou-se a levar a surra de cansan\u00e7\u00e3o, que o Nuno administrou-lhe conscienciosamente.\n\n&#8211; V\u00e1 consolado, Cosme, que voc\u00ea agora fica s\u00e3o como um pero.\n\nO escrevente fez uma careta de raiva, mas n\u00e3o a viu o Nuno, cuja aten\u00e7\u00e3o nesse momento foi reclamada por clamores que partiam do lado da povoa\u00e7\u00e3o. Correu ele \u00e0 ermida, inquieto acerca da liteira.\n\nAo chegar \u00e0 pra\u00e7a a achou cercada por um bando armado; e viu que uma peleja renhida se travara junto \u00e0 liteira, onde o Lisardo esgrimia uma catana com o desespero de um cego. De um salto achou-se o rapaz ao lado do amigo, pronto a morrer com ele.\n\nNesse ponto, por\u00e9m, um cavaleiro que escoltava uma formosa dama apareceu na pra\u00e7a.\n\n&#8211; Que temos? perguntou o cavaleiro com o tom imperioso.\n\nOs assaltantes dominados por aquela voz recuaram, suspendendo o combate; e as cortinas da liteira abriram-se de repente, mostrando o lindo rostinho de Marta, amarrotado do susto:\n\n&#8211; Primo Vital Rebelo, acuda-nos!\n\n&#8211; A menina Marta?\n\n&#8211; A pr\u00f3pria.\n\n&#8211; Que faz por aqui?\n\n&#8211; Isso \u00e9 uma hist\u00f3ria.\n\nDo como ai se achava o Rebelo, vamos sab\u00ea-lo.\n\nTestemunha do insulto que sofrera o governador, Vital depois do primeiro momento dado \u00e0 surpresa e desgosto que lhe causava o triste acontecimento, pensou que seu plano ficaria frustrado se o n\u00e3o realizasse imediatamente. Correu \u00e0 sua casa da Boa Vista,, fez montar a gente que j\u00e1 tinha preparada, e correu a Olinda.\n\nA nota do desacato j\u00e1 ai tinha chegado e a todos deixara at\u00f4nitos. O bispo, os principais da nobreza, e entre eles Andr\u00e9 de Figueiredo, tinham acudido pressurosos a pal\u00e1cio para visitar o governador e dar solene testemunho de que n\u00e3o tinham a menor parte no criminoso intento.\n\nA escolta de Vital Rebelo chegou \u00e0 Rua de S\u00e3o Bento sem o menor contratempo. Leonor estava \u00e0 janela. Vital subiu, arrebatou a esposa nos bra\u00e7os e desceu \u00e0 rua. Ai montou-a no palafr\u00e9m que a esperava, e partiram de Olinda pelo caminho de dentro para evitar encontros.\n\nNa frente ia uma ronda para segurar o caminho, e evitar a Leonor o susto de achar-se envolvida em alguma peleja. Foi essa vanguarda que, vendo gente armada no p\u00e1tio, cercou-o com inten\u00e7\u00e3o de aproximar-se \u00e0 liteira, ao que se op\u00f4s o Lisardo.\n\nSabedor das fa\u00e7anhas do Nuno, o Vital mais ou menos atinou com a explica\u00e7\u00e3o daquela salsada; al\u00e9m de que o Nuno n\u00e3o se fez rogado para confessar. A pergunta do que ali fazia \u00e0quela hora respondeu:\n\n&#8211; Estou \u00e0 espera de um padre para casar Belinhas com Lisardo, e Marta comigo.\n\n&#8211; E o consentimento de meu primo Sim\u00e3o Ribas e do Senhor Viana, j\u00e1 o deram?\n\n&#8211; Em tempo de guerra, n\u00e3o h\u00e1 necessidade disso. Estas damas foram libertadas por mim e podem dispor livremente de sua m\u00e3o.\n\nRiu-se Vital.\n\n&#8211; Pois que estamos em tempo de guerra, declaro-os meus prisioneiros, e ponho estas damas sob a prote\u00e7\u00e3o de minha esposa. Vinde D. Leonor, que vos apresento uma linda priminha, a quem n\u00e3o conheceis, e sua amiga, que n\u00e3o \u00e9 menos formosa. Vereis que no Recife tamb\u00e9m como em Olinda vi\u00e7am, as rosas.\n\nA resist\u00eancia era imposs\u00edvel. Nuno o reconheceu vendo os seus sequazes agarrados pela gente de Vital, mais numerosa e melhor armada. Assim teve ele de entregar-se prisioneiro como o Lisardo, e acompanhou a liteira \u00e0 casa do alferes na Boa Vista.\n\nMarta, que estava desesperada com a diabrura do Nuno, ficou um tanto desconsolada por n\u00e3o ver at\u00e9 onde iria o atrevimento do rapaz, e Belinhas a acompanhava nesse pesar.\n\nPor aquele tempo eram presos ao sair de pal\u00e1cio o Capit\u00e3o Andr\u00e9 de Figueiredo e Lu\u00eds Barbalho, escapando de igual sorte muitos outros dos principais de Olinda, que lograram fugir a tempo.\n<h4><strong><a id=\"p216\" name=\"p216\"><\/a>CAP\u00cdTULO XVI<\/strong><\/h4>\n<strong>NO QUAL SE ACABA A CR\u00d4NICA JUSTAMENTE QUANDO IA COME\u00c7AR A GUERRA DOS MASCATES<\/strong>\n\nAmanhecera o Recife em alvoro\u00e7o.\n\nOs moradores desde o nascer do sol percorriam as ruas em bandos, com ares festivos e trajos domingueiros.\n\nA maior aflu\u00eancia era para o Largo da Cadeia, no centro do qual via-se uma f\u00e1brica recente, \u00e0 semelhan\u00e7a de coluna, que se havia erguido durante a noite, e ali estava coberta por um grande pano de r\u00e1s desde o cimo at\u00e9 a sapata.\n\nEsse objeto excitava no mais alto ponto a curiosidade da popula\u00e7a que parecia contempl\u00e1-lo corno um trof\u00e9u. Nesse momento, nenhum dos arruadores lembrava-se da inf\u00e2mia e dos tratos com que o amea\u00e7ava talvez o sinistro monumento.\n\nEra um pelourinho..\n\nDepois do desacato \u00e0 sua pessoa, decidiu-se o governador a castigar a rebeldia dos pernambucanos, a quem seus \u00edntimos injustamente imputavam o crime. Amea\u00e7ados de sorte igual \u00e0 de Andr\u00e9 de Figueiredo e outros os principais da nobreza tinham fugido de Olinda e andavam foragidos pelos engenhos, onde os buscavam as escoltas que Sebasti\u00e3o de Castro lhes mandara no encal\u00e7o.\n\nUma das medidas em que logo se cogitou como a mais pr\u00f3pria para bater a arrog\u00e2ncia dos nobres, foi a da imediata cria\u00e7\u00e3o da vila do Recite e como as pedras do pelourinho desde muito estavam lavradas no Forte da Madre de Deus, dispuseram-se as cousas para a cerim\u00f4nia.\n\nEra este o dia destinado para a festa da proclama\u00e7\u00e3o da vila e por isso o povil\u00e9u do Recife, ancho e presumido de si regozijava-se pelo triunfo que haviam alcan\u00e7ado sobre a velha e fidalga Olinda.\n\nPor volta das oito horas da manh\u00e3, desfilou pela Rua de S\u00e3o Francisco o pr\u00e9stito que sa\u00eda do pal\u00e1cio e dirigia-se a Pra\u00e7a da Cadeia. Abria a marcha, sobre o seu andor, a imagem de Santo Ant\u00f4nio, o padroeiro da futura vila a que se ia levantar a povoa\u00e7\u00e3o do Recife.\n\nSeguiram-se logo as irmandades das duas freguesias com seus gui\u00f5es e balandraus, e ap\u00f3s elas o Sant\u00edssimo Sacramento que o vig\u00e1rio de S\u00e3o Pedro Gon\u00e7alves conduzia debaixo do p\u00e1lio, acompanhado pelos ministros de El-Rei, oficiais, milicianos, e mais pessoas da governan\u00e7a da terra Sebasti\u00e3o de Castro, ainda enfermo dos ferimentos n\u00e3o assistia a cerimonia e fazia se representar pelo Secret\u00e1rio Barbosa de Lima e o Ajudante Negreiros.\n\nNo couce, os ter\u00e7os de infantaria, em um dos quais o dos homens brincos empunhava a gineta de capit\u00e3o o nosso Miguel Correia, bizarro e desempenado como devia ser um guerreiro curtido em vinho da Figueira.\n\nChegada a prociss\u00e3o em frente \u00e1 cadeia, deu tr\u00eas voltas ao redor do largo, e entrou a cerim\u00f4nia religiosa. Em um altar volante que se levantara em face do pelourinho, e onde foi depositado o sacr\u00e1rio, celebrou-se a missa que terminou com a b\u00ean\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o da vila.\n\nConcluindo a consagra\u00e7\u00e3o, o ministro segurou uma ponta do pano de r\u00e1s, que abrindo-se descobriu o pelourinho. Ent\u00e3o o Dr. Lu\u00eds de Valenzuela Ortiz que substitu\u00edra na ouvidoria ao Dr. Arouche, subiu. os degraus de pedra, e do alto aclamou a vila com as palavras do costume:\n\n&#8211; Real, real, por El-Rei de Portugal!\n\nRepetido mais duas vezes este brado, e em todas correspondido pela multid\u00e3o, disse afinal o ouvidor:\n\n&#8211; Est\u00e1 criada a vila de Santo Ant\u00f4nio do Recife!\n\nAi prorromperam os vivas e clamores festivos, subindo ao ar os fogos de artif\u00edcio que se dispararam de v\u00e1rios pontos da cidade, e os repiques alegres dos sinos de todas as igrejas.\n\nPassou-se a lavrar o auto da cria\u00e7\u00e3o, e para esse fim arrumaram junto ao pelourinho uma banca onde veio aboletar-se a figura sempre esconsa e refolhada do Cosme Borralho. O Pisca-Pisca tocara a meta, obtendo por empenho da Senhora Rufina a serventia do of\u00edcio de tabeli\u00e3o do novo concelho.\n\nNessa qualidade fora chamado para fazer na cerim\u00f4nia as vezes de escriv\u00e3o da C\u00e2mara, enquanto se n\u00e3o elegia quem servisse o of\u00edcio. J\u00e1 de todo livre dos efeitos do cansan\u00e7\u00e3o, o Cosme enfronhado em garnacha nova, trazia a cavalo na orelha direita uma pena de ganso com a rama t\u00e3o garrida e matizada, que parecia uma bandeira.\n\nLavrado o auto, lido perante o povo e assinado pelos ministros, oficiais e gente principal, mandou o ouvidor apregoar a conselho chamando os vizinhos e moradores para a elei\u00e7\u00e3o dos juizes, vereadores, almotac\u00e9s e mais oficiais da nova C\u00e2mara.\n\nJuntos na casa do concelho os homens bons da nobreza e povo, que se tinham dado a rol anteriormente, procedeu-se \u00e0 escolha dos eleitores que deviam formar os pelouros, servindo neste ato de juiz ordin\u00e1rio o Sim\u00e3o Ribas, por nomea\u00e7\u00e3o do ouvidor.\n\nTeremos outra vez ocasi\u00e3o de assistir a uma elei\u00e7\u00e3o do tempo do rei velho, e ent\u00e3o veremos que as tricas e manejos da cabala t\u00eam origem mais antiga do que geralmente se pensa.\n\nAs janelas est\u00e3o abertas; h\u00e1 dentro alegre burburinho, e toda a casa respira tal ar de festa que at\u00e9 a parede da frente parece mais sarapantada, ou para usar da frase do estudante, mais perereca do que de costume.\n\nSe a miu\u00e7alha que se apinha na frente e invade as portas e janelas, nos deixasse olhar para dentro da sala, ver\u00edamos duas filas de damas e meninas, todas no maior apuro, com roupas de seda e cintos broslados de prata e ouro.\n\nFelizmente abre-se neste momento a chusma para dar passagem ao Sr. Sim\u00e3o Ribas, o qual volta do conselho, onde acaba de ser eleito juiz ordin\u00e1rio, e vem entufado como um peru de roda. Acompanham-no seus amigos, o Viana e o Costa Ara\u00fajo, que tamb\u00e9m sa\u00edam do pelouro de vereadores, e o Rev. Padre Jo\u00e3o da Costa, al\u00e9m de outros mercadores da primeira plana.\n\nEntremos ap\u00f3s eles, com o nosso Cosme Borralho, o qual vem ao cheiro do banquete com que o chefe dos mascates se prop\u00f5e a festejar a sua elei\u00e7\u00e3o.\n\nPassada a primeira confus\u00e3o produzida pela entrada do dono da casa e a\u00e7odamento com que o foram receber \u00e0 porta seus h\u00f3spedes e parentes, podemos dar uma breve descri\u00e7\u00e3o da sala que apresenta todas as mostras de grave cerim\u00f4nia.\n\nEm frente acha-se o venerando almotac\u00e9, como seus dignos colegas e amigos, enfronhado em um gib\u00e3o carran\u00e7a de belbute, com uma volta de la\u00e7ada, cujas tiras pendentes ao peito t\u00eam as amplas propor\u00e7\u00f5es de toalhas.\n\nTraziam todos a indispens\u00e1vel cabeleira ru\u00e7a e alto bengal\u00e3o de rotim com cast\u00e3o de prata dourada, o que naquele tempo era um tra\u00e7o imprescind\u00edvel no trajo senatorial. Com essas cabeleiras e bengalas, a crermos o autor dos M\u00e1rtires Pernambucanos, tinham os respeit\u00e1veis senadores de serem escovados algumas semanas depois pelo Capit\u00e3o-Mor Pedro Ribeiro da Silva.\n\nA esquerda alinha-se pelo estrado uma fila de damas entre as quais, al\u00e9m de Leonor cuja formosura cativa a aten\u00e7\u00e3o, distinguem-se logo a Senhora Rufina pelo seu empertigamento, e a Senhora Rosaura pela pachorrenta gordura. Entre as respeit\u00e1veis matronas ficavam suas filhas, nesse dia mais lindas que nunca. Ambas tinham a cabe\u00e7a baixa, mas uma n\u00e3o tirava a vista do ch\u00e3o, e era Belinhas, enquanto os olhinhos travessos de Marta andavam bisbilhotando todos os cantos da casa.\n\n\u00c0 direita estava arrumada de p\u00e9 a chusma dos convidados Via-se a\u00ed toda a esp\u00e9cie de cara, como toda a casta de vestu\u00e1rio, desde o casquilho alfacinha e o folgaz\u00e3o do minhoto at\u00e9 o arrevesado galego, que ainda n\u00e3o tivera tempo de polir-se ao atrito da boa roda.\n\nTamb\u00e9m l\u00e1 apareciam no meio dessa galeria rein\u00edcola os tipos da terra, como fossem o sertanejo e o matuto, representados em alguns exemplares preciosos que os mascates haviam atra\u00eddo a seu partido.\n\nQuando o venerando ex-almotac\u00e9 e agora juiz ordin\u00e1rio tomou assento, Vital Rebelo que se achava na sala e havia saudado \u00e0 chegada, foi ao interior da casa, donde logo voltou, guiando dois mancebos, em que apesar do trajo garrido, f\u00e1cil era conhecer o Nuno e o Lisardo.\n\nO ex-escudeiro de D. Severa tinha perdido todo o seu arreganho marcial e caminhava sobre brasas, enquanto o t\u00edmido e sensitivo poeta expandia-se nessa atmosfera de sala para a qual nascera sua alma.\n\nSeria fazer pouco na perspic\u00e1cia do leitor, supor que ele j\u00e1 n\u00e3o percebeu do que se trata. Todavia sou capaz de apostar que ainda n\u00e3o atinou com a verdade inteira; e se assim n\u00e3o \u00e9, feche o livro, pois sabe mais do que ele.\n\nA noite em que Vital Rebelo de volta de Olinda com sua noiva aprisionou os dois casais de namorados em Santo Amaro, n\u00e3o cuidou sen\u00e3o em dar-lhes hospitalidade, e de t\u00e3o boa vontade e por modo sol\u00edcita, que se n\u00e3o lembrassem eles nas horas mortas de bater a linda plumagem, sobretudo o Nuno, afamado por suas estrepolias.\n\nO mais do tempo, consagrou-o \u00e0 sua felicidade. E quem, depois de um ano t\u00e3o curtido de amarguras e desesperos, lhe podia pedir conta dessas poucas horas de ego\u00edsmo? E demais, devia ele deixar s\u00f3 naquela noite a sua Leonor, a esposa querida que acabava de conquistar ao \u00f3dio dos parentes? N\u00e3o seria exp\u00f4-la a qualquer temer\u00e1rio arrojo dos nobres, excitados pelo sentimento da vingan\u00e7a e pelo rebramo do orgulho ofendido?\n\nNo outro dia, cedo; depois de tomar todas as precau\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para defender sua habita\u00e7\u00e3o de qualquer assalto de fora, como para guardar a sa\u00edda aos seus prisioneiros, partiu ele a cavalo para casa do primo Sim\u00e3o Ribas, com quem teve uma longa pr\u00e1tica.\n\nO resultado dessa pr\u00e1tica foi partirem imediatamente as Senhoras Rufina e Rosaura para a casa de Rebelo; e trazerem em cadeirinhas bem fechadas as filhas, que j\u00e1 choravam perdidas ambas, supondo-as roubadas pelos p\u00e9s-rapados, sedentos de vingan\u00e7a contra os mercadores.\n\nQuanto ao Nuno e ao Lisardo, continuaram h\u00f3spedes de Vital Rebelo at\u00e9 aquele dia em que o mancebo, fornecendo-lhes trajos de gala e cavalos ajaezados, os trouxera \u00e0 casa do Sim\u00e3o Ribas, onde os achamos neste momento.\n\nVital Rebelo tomou pela m\u00e3o ao Nuno e levou-o \u00e1 presen\u00e7a do Viana, que o esperava com severa carranca. Ajoelhou o filho aos p\u00e9s do pai, e balbuciou algumas palavras pedindo-lhe perd\u00e3o de sua culpa e a restitui\u00e7\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o.\n\n&#8211; Est\u00e1 perdoado, disse o Viana em bar\u00edtono, dando ao filho a m\u00e3o a beijar. Levante-se, e agrade\u00e7a ao Sr. Vital Rebelo que intercedeu em seu favor.\n\nVoltou-se o Nuno para o alferes o qual lhe deu um abra\u00e7o. O Viana continuou.\n\n&#8211; A pedido do mesmo Sr. Rebelo consinto que sente pra\u00e7a na mil\u00edcia com o posto de alferes que ele cede em seu benef\u00edcio.\n\nDesta vez foi o Nuno que abra\u00e7ou com entusiasmo seu protetor.\n\nAgora chegue-se c\u00e1, mo\u00e7o, disse a Senhora Rufina, e ou\u00e7a-me bem. Voc\u00ea est\u00e1 muito crian\u00e7a ainda para casar&#8230;\n\n&#8211; Dezoito anos&#8230; quis protestar o Nuno.\n\n&#8211; Dezesseis, menino! acudiu a Senhora Rosaura.\n\n&#8211; Est\u00e1 vendo. L\u00e1 para os vinte, se comportar-se como homem, n\u00e3o digo que n\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o pode ver sua noiva, na missa aos domingos, ou aqui em casa nas quatro festas do ano.\n\nMarta, ao ouvir falar em noiva, fez-se de lacre e Nuno escondeu a careta que lhe merecera o programa da Senhora Rufina.\n\nEntretanto Rebelo, que n\u00e3o conclu\u00edra ainda a sua miss\u00e3o de patrono dos namorados, fora buscar o Lisardo para apresent\u00e1-lo ao Viana.\n\n&#8211; Quanto ao senhor, disse o mercador, fica em minha loja no lugar de caixeiro que deixou o tonto de seu camarada, e nessa qualidade, se me servir bem e for regrado, trabalhador e econ\u00f4mico, prometo-lhe a m\u00e3o de minha filha Isabel aqui presente.\n\n-Poltanto, acrescentou gravemente o Sim\u00e3o Ribas, n\u00e3o plecisa mais fazel velsos.\n\n&#8211; Contra os de Olinda, pode fazer, acudiu a Senhora Rufina.\n\n&#8211; Nada de versos; tornou o Viana. Aprenda-me a fazer contas e a conhecer o valor dos algarismos. Com isso sabe-se tudo.\n\n&#8211; Tem laz\u00e3o, tem muita laz\u00e3o o meu lespeit\u00e1vel amigo. Vamos pala a mesa que nos espela.\n\nDeixemos que o excelente Senhor Sim\u00e3o Ribas e seus convidados festejem nas del\u00edcias do suculento banquete o triunfo alcan\u00e7ado pelos mascates com a cria\u00e7\u00e3o da vila; e aproveitemos estas \u00faltimas p\u00e1ginas para dar alguma breve noticia dos outros personagens da cr\u00f4nica.\n\nToda a nobreza abandonara Olinda e se refugiara nos engenhos, onde preparava-se n\u00e3o s\u00f3 para a resist\u00eancia, como para a desforra que em poucos dias ia come\u00e7ar com o levante do Capit\u00e3o-Mor de Santo Ant\u00e3o, Pedro Ribeiro da Silva.\n\nD. Severa acompanhara os parentes, inconsol\u00e1vel pela perda de seu poeta e de seu escudeiro, por\u00e9m ainda mais por n\u00e3o ter podido chamar Sebasti\u00e3o de Castro a combate singular, onde se despicasse da afronta que ele mandara fazer \u00e0 sua beleza.\n\nPoucos dias depois da cria\u00e7\u00e3o da vila do Recife, Vital Rebelo aproveitando a sa\u00edda de um navio para a Bahia, levou a sua querida Leonor \u00e0s pitorescas assomadas do Salvador, onde se deslizou serena e florida a sua primavera nupcial.\n\nInduziu-o a esta viagem, n\u00e3o somente o desejo de desvanecer no esp\u00edrito de Leonor a lembran\u00e7a da oposi\u00e7\u00e3o de seus parentes, como a previs\u00e3o dos sucessos que iam enlutar. a capitania, e nos quais, ele presente, n\u00e3o podia eximir-se de tomar uma parte dolorosa ao cora\u00e7\u00e3o de sua esposa.\n\nEfetivamente, a revolta dos pernambucanos tomara de dia em dia maior incremento.\n\nSebasti\u00e3o de Castro, j\u00e1 de todo restabelecido dos ferimentos, come\u00e7ava a sentir em pal\u00e1cio o isolamento, infal\u00edvel sintoma dos desastres iminentes. As catervas de homens t\u00eam o mesmo instinto dos rebanhos que pressentem o temporal, e fogem ao perigo.\n\nEle reconheceu, ent\u00e3o j\u00e1 tarde, o erro. Seu imenso poder e a sua pol\u00edtica dissolvente haviam tudo esmagado e dilu\u00eddo em torno dele; de modo que no dia da provan\u00e7a, quando se julgava cercado de amigos e aliados, n\u00e3o viu ao redor sen\u00e3o miragens de sua pr\u00f3pria vontade, que ele animara com seu prest\u00edgio e com este se apagavam.\n\nN\u00e3o eram homens aqueles vultos que ainda povoavam as salas do pal\u00e1cio; e sim os manequins do governo ainda movidos pela mola da ambi\u00e7\u00e3o e da cobi\u00e7a. Mas como a corda do maquinismo estava prestes a acabar, j\u00e1 os movimentos eram frouxos e incertos.\n\nO Barbosa de Lima acompanhou-o at\u00e9 o \u00faltimo instante com uma fidelidade nunca desmentida; mas continuou no cargo de secret\u00e1rio, e nele atravessou todo o per\u00edodo da guerra dos mascates, at\u00e9 1712 em que partiu para Lisboa.\n\nEspalharam ent\u00e3o que fora a mandado dos mascates e ganhando pingue esp\u00f3rtula, mas isso n\u00e3o passou de uma das muitas cal\u00fanias t\u00e3o freq\u00fcentes naquele tempo e a que n\u00e3o escapou o pr\u00f3prio Sebasti\u00e3o de Castro, apesar de seu proverbial desinteresse.\n\nN\u00e3o \u00e9 este o momento de referir os sucessos que puseram termo ao governo de Sebasti\u00e3o de Castro Caldas, e que pertencem \u00e0 cr\u00f4nica seguinte. Esta termina com o primeiro e ef\u00eamero triunfo dos mascates, e com a instala\u00e7\u00e3o da vila do Recife.\n\nAnteciparemos por\u00e9m este ponto: que Sebasti\u00e3o de Castro mostrou-se na adversidade o var\u00e3o forte de Hor\u00e1cio, a quem as ru\u00ednas de seu fast\u00edgio n\u00e3o esmagam, mas ao contr\u00e1rio exaltam, como um pedestal.\n\n\u00c9 o destino dos homens fadados para a domina\u00e7\u00e3o. O poder e a fortuna os expande; e eles absorvem ou repelem quantos se lhe aproximam. O rev\u00e9s e a desgra\u00e7a os concentra, e ent\u00e3o eles acham dentro em si um mundo onde se isolam.\n\nNa noite em que Sebasti\u00e3o de Castro embarcava na rampa de pal\u00e1cio para transportar-se a bordo do navio que devia conduzi-lo \u00e0 Bahia, diversas pessoas o acompanhavam.\n\nDestas, algumas eram os principais mercadores que, temendo as repres\u00e1lias dos nobres, fugiam \u00e0 m\u00e1 fortuna; outras eram gente da governan\u00e7a e oficiais de sala que desempenhavam pontualmente uma obriga\u00e7\u00e3o de seu of\u00edcio, vindo prestar ao fidalgo aquele \u00faltimo dever.\n\nS\u00f3 uma era estranha ao governo, e desconhecida para aquela gente. Sebasti\u00e3o de Castro Caldas reconheceu Carlos de En\u00e9ia, seu antigo secret\u00e1rio, e compreendeu que o trazia ali o desejo de render a homenagem de seu respeito \u00e0 adversidade, j\u00e1 que, n\u00e3o lhe era dado conjur\u00e1-la.\n\n<strong>FIM<\/strong>\n\n<strong>Jos\u00e9 de Alencar<\/strong>\n\nFonte: www.falares.hpg.com.br\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guerra dos Mascates &#8211; Livro, Jos\u00e9 de Alencar, Romance, Escritor, Brasileiro, Cr\u00f4nica, Tempos Coloniais, Obra Completa, Guerra dos Mascates &#8211; Livro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9386,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55],"tags":[],"class_list":["post-20505","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Guerra dos Mascates - Livro - Portal S\u00e3o Francisco<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Guerra dos Mascates - Livro - Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Guerra dos Mascates - Livro, Jos\u00e9 de Alencar, Romance, Escritor, Brasileiro, Cr\u00f4nica, Tempos Coloniais, Obra Completa, Guerra dos Mascates - Livro\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/guerra-dos-mascates-livro-3\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2015-12-21T00:00:00+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-09-01T15:32:12+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/pontilhado2.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"10\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"158\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"admin\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"admin\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"421 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisco\\\/uncategorized\\\/guerra-dos-mascates-livro-3\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisco\\\/uncategorized\\\/guerra-dos-mascates-livro-3\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"admin\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisco\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/809496378e7bdc3449a70c476cbf211c\"},\"headline\":\"Guerra dos Mascates &#8211; 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