{"id":20488,"date":"2015-12-18T00:00:00","date_gmt":"2015-12-18T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/historia-do-contestado-3\/"},"modified":"2015-12-18T00:00:00","modified_gmt":"2015-12-18T00:00:00","slug":"historia-do-contestado-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/historia-do-contestado-3\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria do Contestado &#8211; Livro"},"content":{"rendered":"\n<strong>Parte I<\/strong>\n\n<strong>A Guerra<\/strong>\n\nOs anos de 1912 a 1915 marcam a Hist\u00f3ria de Santa Catarina com uma convuls\u00e3o social armada que escreveu p\u00e1ginas de horror e de \u00f3dio no Vale do Igua\u00e7u, ao Norte; pelo Planalto de Lages, no Centro-Sul; e nas terras de todo o Meio-Oeste.\n\nAs bases do conflito sangrento se estruturaram ao redor de uma legi\u00e3o de fan\u00e1ticos religiosos composta por agregados das fazendas dos coron\u00e9is; por ex-oper\u00e1rios demitidos ao terminar a constru\u00e7\u00e3o de uma estrada de ferro; por &#8220;sem-terra&#8221;, ex-posseiros varridos dos seus lotes; por ervateiros sem erva para colher; por dezenas de pequenos propriet\u00e1rios expulsos de seus pinheirais; e por gente que perdeu seu pequeno neg\u00f3cio.\n\nToda essa gente cabocla, fora das leis da economia agropastoril, vive na regi\u00e3o do Contestado, uma &#8220;terra de ningu\u00e9m&#8221;, marcada pela persist\u00eancia de uma velha rixa de 150 anos entre o Paran\u00e1 e Santa Catarina, com a autoridade discutindo se os limites geogr\u00e1ficos devem ou n\u00e3o ser molhados pela margem esquerda dos rios Negro e Igua\u00e7u.\n\n<strong>Dilemas de um confronto armado<\/strong>\n\n<strong>Conflito social, revolu\u00e7\u00e3o, banditismo<\/strong>\n\nNos primeiros anos deste s\u00e9culo, o Vale do Igua\u00e7u, o Planalto de Lages e o territ\u00f3rio do Meio-Oeste de Santa Catarina s\u00e3o atingidos por uma convuls\u00e3o social armada que aniquila a conviv\u00eancia entre os diferentes grupos humanos e desmonta a vida econ\u00f4mica de toda a regi\u00e3o.\n\nAs bases do conflito se estruturam ao redor de uma legi\u00e3o de agregados nas fazendas dos coron\u00e9is; de ex-oper\u00e1rios demitidos da constru\u00e7\u00e3o de uma estrada de ferro; de posseiros varridos do lote que ocupam; de ervateiros sem erva para colher; de pequenos propriet\u00e1rios que perderam seus pinheirais. E de toda a esp\u00e9cie de gente fora-da-lei porque vive nas terras contestadas pela velha rixa de 150 anos entre o Paran\u00e1 e Santa Catarina, por conta dos limites geogr\u00e1ficos.\n\nTodos esses miser\u00e1veis, filhos de Caim, encontram esperan\u00e7as e abrigo nas pr\u00e9dicas e nos rem\u00e9dios que o andarilho Jos\u00e9 Maria vai distribuindo pelas veredas empoeiradas de todo o Contestado.\n\nUm dia, o andarilho, transformado em monge, e um grupo de devotos resolvem acampar no cant\u00e3o de uma fazenda cedida pelo propriet\u00e1rio, entre Curitibanos e Campos Novos.\n\nA inc\u00f4moda presen\u00e7a dessa pequena legi\u00e3o de exclu\u00eddos socialmente \u00e9 tomada como o in\u00edcio de um poss\u00edvel conflito social e coloca em sobressalto as autoridades de Florian\u00f3polis, de Curitiba e do Rio de Janeiro.\n\nCuritiba conclui que o acampamento \u00e9 uma estrat\u00e9gia de Santa Catarina para garantir a posse de um territ\u00f3rio que n\u00e3o lhe pertence.\n\nO Ex\u00e9rcito Nacional, por sua vez, se apavora diante da perspectiva do surgimento de um Canudos aqui no Sul. E Florian\u00f3polis teme um enfrentamento entre os coron\u00e9is e os caboclos.\n\nA t\u00e1tica de dissolver a organiza\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria pela for\u00e7a das metralhadoras e das balas do canh\u00e3o transforma o presumido conflito social e pol\u00edtico numa revolu\u00e7\u00e3o entre as For\u00e7as Armadas e o povo.\n\nE descamba na l\u00f3gica de um banditismo descontrolado, uma guerra de guerrilhas que ainda n\u00e3o foi devidamente bem-contada.\n\n<strong>Resistindo a fac\u00e3o<\/strong>\n\nDepoimento de Jo\u00e3o Maria Palhano, filho de jagun\u00e7o, gente valente.\n\nA guerra quase nos matou de tanta fome. N\u00e3o fosse a ca\u00e7a e o gado encontrado nas propriedades ningu\u00e9m tinha resistido.\n\nDo jeito que os mais velhos contaram, aqui em Taquaru\u00e7u tinha um acampamento igual aos dos colonos sem-terra que andam por a\u00ed ocupando fazendas. Era gente chegando de todas as partes.\n\nAs for\u00e7as do Ex\u00e9rcito queimaram tudo \u2013 a igreja, as casas, o armaz\u00e9m. Foi tudo pelos ares. N\u00e3o ficou quase nada. Dentro da capelinha tinha uns parentes nossos. Eles arderam no fogo.\n\nTamb\u00e9m tive uns tios que morreram no combate do Irani.\n\nSe meu pai n\u00e3o se escondesse no mato, todos n\u00f3s ter\u00edamos sido fuzilados pelos soldados. Eles n\u00e3o poupavam ningu\u00e9m. Morreu gente barbaridade. At\u00e9 bucha de canh\u00e3o encontramos l\u00e1 no local do reduto. Dentro tinha 157 bolas de chumbo. Cada bola que s\u00f3 vendo. Onde estourava aquilo, Nossa Senhora. Imagina o estrago que fazia. E os caboclos resistindo a fac\u00e3o. Como \u00e9 que pode??\n\n<strong>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\nA extensa regi\u00e3o de Santa Catarina, serra acima e planalto afora, entre os rios do Peixe e o Peperigua\u00e7u, continua praticamente despovoada at\u00e9 come\u00e7os do s\u00e9culo XX. Fazendas e pastagens s\u00e3o disputadas pelo gado, pelo agregado \u2013 o trabalhador que cuida das pastagens. Mas tamb\u00e9m pelo coronel, dono das terras, das pastagens e do agregado.\n\nTerras sem Deus, sem lei e sem rei \u2013 apesar de muitos coron\u00e9is -, nos anos 10 deste s\u00e9culo, incendeiam a paisagem e todos os homens do lugar, com a revolta armada de uma legi\u00e3o de exclu\u00eddos.\n\nDesde o come\u00e7o da d\u00e9cada a regi\u00e3o \u00e9 percorrida pelo andarilho Jos\u00e9 Maria. Ele distribui rem\u00e9dios, prega as verdades do Evangelho e prev\u00ea o fim do mundo para quem n\u00e3o se dedicar a Deus.\n\nCentenas de devotos grudam-se nos passos e nos serm\u00f5es do andarilho transformado em monge.\n\nO monge e o grupo de fan\u00e1ticos e seguidores instalam-se no quadro santo de Taquaru\u00e7u, munic\u00edpio de Curitibanos.\n\nAs autoridades se assustam com a reuni\u00e3o de tantos pequenos fazendeiros e pe\u00f5es e com o estranho comportamento do monge, que exige deles uma disciplina de convento e de quartel.\n\nJos\u00e9 Maria e os fi\u00e9is seguidores cruzam o Rio do Peixe e se transferem para o Irani, nas terras que o Paran\u00e1 afirma serem parte do seu territ\u00f3rio. As autoridades policiais e militares insistem que o grupo se desfa\u00e7a.\n\nA rea\u00e7\u00e3o \u00e9 ostensiva e explode o enfrentamento armado.\n\nDurante quatro anos o Ex\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o reage, derrota, mata e morre. Em desespero, o Ex\u00e9rcito e a Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina e do Paran\u00e1 aplicam o princ\u00edpio da terra arrasada e da solu\u00e7\u00e3o final, inclusive com a utiliza\u00e7\u00e3o de avi\u00f5es.\n\nA\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>\u00a0acabou como termina a noite: sem tratados, sem acordos, sem ata de rendi\u00e7\u00e3o, sem vit\u00f3ria e sem gl\u00f3rias. O soldado regressa ao quartel. O revoltoso \u2013 sobrevivente aniquilado \u2013 ainda hoje se espalha pelas terras que lhe haviam custado quase todo o sangue.\n\nA\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>\u00a0ser\u00e1 apresentada pelo Di\u00e1rio Catarinense em 12 cadernos, veiculados sempre na \u00faltima sexta-feira de cada m\u00eas, em 10 cap\u00edtulos intitulados:\n\nI \u2013 Povoamento nos limites;\nII \u2013 Terras confrontadas;\nIII \u2013 Caminhos da mis\u00e9ria;\nIV \u2013 Monges e devotos;\nV \u2013 Estopins e labaredas;\nVI \u2013 Irani: inc\u00eandio mal-apagado;\nVII \u2013 Taquaru\u00e7u: o facho do inc\u00eandio;\nVIII \u2013 Caragoat\u00e1. Jagun\u00e7os guerrilheiros; IX \u2013 Planalto Norte na viol\u00eancia \u2013 desespero; X \u2013 Uma guerra sem-fim.\n\n<strong>A guerra in\u00fatil<\/strong>\n\nDepoimento de Jo\u00e3o Paes de Andrade, o Jo\u00e3o Ventura.\n\nEu falo a verdade sobre a\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>\u00a0porque estive l\u00e1. Com os meus olhos avistei o povo, as lutas. Presenciei a organiza\u00e7\u00e3o dos redutos, onde os devotos do monge se abrigavam para uma esp\u00e9cie de vida em comunidade, obedecendo a uma disciplina misto de quartel e de convento. Bati tambor, puxei c\u00e2nticos, ouvi rezas.\n\nPassei a vida contando esta hist\u00f3ria para meus filhos e meus netos. Espero que eles passem os fatos adiante para que os seus descendentes conhe\u00e7am a hist\u00f3ria da nossa gente.\n\nA luta n\u00e3o valeu os sacrif\u00edcios. N\u00e3o prestou para nenhum dos dois lados. Foi um banditismo. O governo com aquelas armas de fogo. Os caboclos com paus e fac\u00f5es. Algumas vezes se conseguia armas de fogo. E, a\u00ed, os estragos n\u00e3o respeitavam ningu\u00e9m.\n\nMeu pai era um homem rico. Foi morto numa tocaia. Mesmo depois de tudo passado, ficava a raiva entre as pessoas. Eu, pelo menos, n\u00e3o consigo esquecer. O fim da guerra n\u00e3o acabou com o \u00f3dio entre as pessoas.\n\nMuita gente ficou do lado dos caboclos. Mas muitos outros ficaram com o governo.\n\nNossa fam\u00edlia perdeu tudo o que tinha. Meu irm\u00e3o foi capit\u00e3o a favor dos jagun\u00e7os. Ele chamava-se Guilherme. Era um homem valente.\n\nTudo n\u00e3o adiantou nada.\n\n<strong>D\u00favidas e incerteza<\/strong>\n\nDe uma cr\u00f4nica do Jornal do Com\u00e9rcio, de Curitiba, 5 novembro, 1864.\n\nMuitos paulistas empreendedores, depois de insano fatigante trabalho, depois de repetidas tentativas, descobriram afinal os Campos de Palmas, que lhes aumentaram as posses.\n\nQuais Colombos em miniatura hastearam no solo virgem das pegadas da civiliza\u00e7\u00e3o o estandarte da conquista feita aos selvagens.\n\nEstabelecido o direito de propriedade, dividiram proporcionalmente o achado e entraram na posse das novas terras.\n\nN\u00e3o edificaram por l\u00e1 &#8220;novo imp\u00e9rio que tanto sublimaram&#8221;, mas constru\u00edram palho\u00e7as que s\u00e3o hoje, se n\u00e3o sublimes, pelo menos importantes fazendas de cria\u00e7\u00e3o de gado.\n\nCom o suceder dos anos, as posses foram transferidas a outros, divididas e subdivididas. E os campos povoaram-se com rapidez.\n\nSe para a descoberta dos Campos de Palmas s\u00f3 concorreram os paulistas, a que prov\u00edncia dever\u00e3o eles ficar pertencendo, especialmente n\u00e3o existindo limites?\n\nO bom senso responde. Os habitantes ali domiciliados ficaram sujeitos \u00e0s autoridades de S\u00e3o Paulo e, a partir de 1853, \u00e0s do Paran\u00e1.\n\nA presun\u00e7\u00e3o de direito, proveniente da posse sobre as terras de Palmas, tem que ser respeitada, porquanto, o que existe s\u00e3o d\u00favidas e incertezas sobre os verdadeiros, os justos e os convenientes limites, ainda n\u00e3o firmados.?\n\n<strong>O Estado-Ilha<\/strong>\n\nParte de um discurso pronunciado na Assembl\u00e9ia Legislativa Provincial de Santa Catarina, na sess\u00e3o de 10 de mar\u00e7o de 1880, pelo deputado Eliseu Guilherme da Silva.\n\nO assunto principal, cada vez mais importante, cada vez mais vital e inadi\u00e1vel, porque o adiamento importa em longos anos de atraso e de mis\u00e9ria para a nossa pobre terra, prende de h\u00e1 muito a aten\u00e7\u00e3o desta prov\u00edncia, clamando por uma solu\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma quest\u00e3o clamorosa e que brada aos c\u00e9us pela injusti\u00e7a altamente revoltante que encerra contra n\u00f3s. \u00c9 a velha quest\u00e3o de limites com a Prov\u00edncia do Paran\u00e1.\n\n\u00c9 essa espolia\u00e7\u00e3o, \u00e9 essa tentativa de esbulho do nosso territ\u00f3rio, atentado inaudito, que fez um representante do Paran\u00e1, juntando o esc\u00e1rnio \u00e0 afronta, exclamar em plena C\u00e2mara dos Deputados:\n\nA Prov\u00edncia de Santa Catarina seria muito feliz se o seu territ\u00f3rio se limitasse ao Desterro?. Esta proposi\u00e7\u00e3o demonstra at\u00e9 que ponto levam os paranaenses as suas pretens\u00f5es de absor\u00e7\u00e3o.\n\nEles julgam-nos t\u00e3o miser\u00e1veis, ou t\u00e3o desprotegidos que entendem que seremos muito felizes se o nosso territ\u00f3rio se limitar somente \u00e0 Ilha onde est\u00e1 localizada a Capital.\n\nRealmente, esbulhada a Prov\u00edncia de Santa Catarina do seu centro em favor do Paran\u00e1, ela ser\u00e1 muito feliz se a limitarem s\u00f3 ao Desterro. Figurai-vos, por\u00e9m, a prov\u00edncia circunscrita a esta Capital ou pouco mais, depois da absor\u00e7\u00e3o, e vede se ela poder\u00e1 continuar a ocupar a categoria de prov\u00edncia, se ter\u00e1 recursos para isso, se n\u00e3o ter\u00e1 de desaparecer. Aquele deputado, pois, concluiu muito bem dizendo que seremos muito felizes se, ap\u00f3s a absor\u00e7\u00e3o do centro pelo Paran\u00e1, ficar a prov\u00edncia reduzida somente ao territ\u00f3rio da Capital, ser\u00e1 ela muito feliz se de todo n\u00e3o desaparecer.\n\nAnte t\u00e3o terr\u00edvel amea\u00e7a n\u00e3o podemos cruzar os bra\u00e7os; trata-se de defesa pr\u00f3pria, trata-se de manter o imp\u00e9rio da lei. \u00c9 a lei, e principalmente a lei fundamental do Estado, a Constitui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio, que garante \u00e0 Prov\u00edncia de Santa Catarina a integridade de seu ex\u00edg\u00fco territ\u00f3rio, como j\u00e1 o demonstrou brilhante numa importante s\u00e9rie de artigos, que correm impressos, o nosso distinto colega doutor Mafra.\n\nCumpro, pois, um dever vindo a esta tribuna, para tratar de t\u00e3o grave assunto, reclamar o cumprimento da lei em prol de nossa desditosa prov\u00edncia, que se fosse grande e poderosa, se ela se impusesse, como suas vizinhas, n\u00e3o se veria t\u00e3o menosprezada, nem sob o terr\u00edvel vatic\u00ednio, a que h\u00e1 pouco me referi, do deputado paranaense. Infelizmente parece uma verdade que, at\u00e9 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s prov\u00edncias, a lei deixa de ser igual em seus efeitos quando se trata de grandes e pequenas.?\n\n<strong>A clareza das confus\u00f5es<\/strong>\n\nFelipe Schmidt assume o governo do Estado em 28 de setembro de 1898 disposto a encontrar uma definitiva solu\u00e7\u00e3o para o eterno problema dos limites com o Paran\u00e1.\n\nComo primeira medida, o novo chefe do Poder Executivo autoriza a Procuradoria-Geral do Estado a contratar o advogado Manoel da Silva Mafra para dar entrada no Supremo, com uma a\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00e3o, obrigando o Paran\u00e1 a afastar-se do territ\u00f3rio em lit\u00edgio.\n\nNa segunda mensagem de governo ao Congresso Representativo, em 11 de agosto de 1900, Felipe Schmidt informa: O Paran\u00e1 n\u00e3o tem toda a necess\u00e1ria calma para aguardar a solu\u00e7\u00e3o legal \u00e0 quest\u00e3o.\n\nAutoridades invadem o nosso Estado; concedem terras; assaltam uma f\u00e1brica de r\u00f3tulos em Papanduva; criam ag\u00eancia fiscal na Estrada Dona Francisca.\n\nEm 6 de janeiro de 1901, Manoel da Silva Mafra entra no Supremo Tribunal Federal com a a\u00e7\u00e3o reivindicat\u00f3ria na qual o jurista comprova a clareza dos t\u00edtulos legais com que Santa Catarina confirma seus limites, pelos tr\u00eas rios, desde os tempos da Col\u00f4nia. E demonstra a confus\u00e3o em que anda metido o vizinho, com respeito aos seus limites, que nunca foram caracterizados concretamente: ora \u00e9 um rio; ora, outro; \u00e0s vezes, uma serra; outras vezes, uma outra.\n\nPara o conselheiro Mafra, \u00e0s terras que o Paran\u00e1 exige n\u00e3o se aplica o direito de propriedade pela posse mansa e pac\u00edfica. A posse, pela for\u00e7a, dos territ\u00f3rios em lit\u00edgio, sempre fora contestada por Santa Catarina.\n\nPelo Ac\u00f3rd\u00e3o de 6 de junho de 1904, o Tribunal entendeu ser competente para tomar conhecimento da quest\u00e3o porque os limites, desejados por Santa Catarina, foram estabelecidos, atrav\u00e9s dos tempos, por quem podia faz\u00ea-lo.\n\nO Tribunal resolve a quest\u00e3o nos termos em que foi proposta. Trata-se de fazer respeitar limites que sempre existiram e n\u00e3o determinar limites, ainda n\u00e3o amparados em lei.\n\nOs catarinenses se baseiam em t\u00edtulos hist\u00f3ricos e jur\u00eddicos. E o Estado tem a seu favor os marcos naturais abertos pelos rios Negro e Igua\u00e7u, ao Norte, e o Uruguai, ao Sul.Assim sendo, este Tribunal julga procedente a a\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00e3o de Santa Catarina e condena o r\u00e9u nas custas.\n\nCom a decis\u00e3o do Supremo, o Paran\u00e1 permanece com um territ\u00f3rio de 221.139 quil\u00f4metros quadrados, e Santa Catarina, com 114.436. Se tiv\u00e9ssemos perdido a quest\u00e3o, aos catarinenses restaria um minguado territ\u00f3rio de 74.135 quil\u00f4metros quadrados, enquanto os 258.740 fartariam os paranaenses com todas as \u00e1guas dos rios Negro e Igua\u00e7u.\n\n<strong>Povoamento nos limites<\/strong>\n\n<strong>Uma perigosa linha reta<\/strong>\n\nA\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>\u00a0finca suas ra\u00edzes, primeiras ra\u00edzes, h\u00e1 mais de 500 anos. Antes, portanto, de o europeu branco e conquistador desembarcar nas ilhas do Caribe \u2013 Crist\u00f3v\u00e3o Colombo \u2013 ou de Pedro \u00c1lvares Cabral molhar os p\u00e9s no litoral sul da Bahia.\n\nEssa raiz primeira foi adubada pelo acordo entre Portugal e Castela, atual Espanha, que resultou na exist\u00eancia, desconfort\u00e1vel para o Brasil, do c\u00e9lebre Meridiano de Tordesilhas.\n\nDiz frei Vicente do Salvador, na primeira Hist\u00f3ria do Brasil, escrita em 1622: Grandes d\u00favidas e diferen\u00e7as se come\u00e7avam a mover sobre as conquistas das terras do Novo Mundo.\n\nE elas haviam de crescer cada dia mais se os reis cat\u00f3licos de Castela, dom Fernando e dona Isabel, sua mulher, e el-rei de Portugal, dom Jo\u00e3o II, que as iam conquistando, n\u00e3o assinassem um acordo que fizeram entre eles.\n\nO acordo entre as duas fam\u00edlias reais, as mais poderosas do mundo \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 a assinatura, em 7 de junho de 1494, do Tratado de Tordesilhas. Pelo documento, aben\u00e7oado pelo Papa, todas e quaisquer ilhas e terras firmes achadas e por achar, descobertas e por descobrir, situadas a oeste de um meridiano que passasse a 2 mil quil\u00f4metros do Arquip\u00e9lago de Cabo Verde, pertenceriam \u00e0 Espanha.\n\nA decis\u00e3o do papa Alexandre VI, dividindo o sul da Terra em duas fatias, uma para Portugal e outra para a Espanha, n\u00e3o apresenta como base jur\u00eddica o chamado direito de conquista ou de descobrimento, equivalente ao primeiro ocupante.\n\nO que vale para o Acordo de Tordesilhas foi a assinatura de um tratado solene, entre dois pa\u00edses, sancionado pelo Sumo Pont\u00edfice que, ent\u00e3o, perante as pot\u00eancias crist\u00e3s da Europa tinha para as mesmas a for\u00e7a e o prest\u00edgio de um direito, a que elas pr\u00f3prias se haviam sujeitado.\n\nO fato de Portugal declarar como suas terras ainda n\u00e3o descobertas, ou n\u00e3o achadas, para respeitar a linguagem da \u00e9poca a milhares de quil\u00f4metros mar afora, comprova que em 1494 julgava-se mais do que poss\u00edvel a exist\u00eancia de algumas terras mais para a esquerda da linha de demarca\u00e7\u00e3o.\n\nA exist\u00eancia comprovada dessa grande extens\u00e3o de terra presumida teve-a dom Jo\u00e3o II atrav\u00e9s do primeiro par\u00e1grafo da carta de Pero Vaz de Caminha, escriv\u00e3o da armada de Pedro \u00c1lvares Cabral.\n\nPosto que o capit\u00e3o-mor desta vossa frota e assim os outros capit\u00e3es escrevam a vossa alteza a nova do achamento desta vossa terra nova que ora nesta navega\u00e7\u00e3o se achou, n\u00e3o deixarei tamb\u00e9m de dar disso minha conta a vossa alteza assim como eu melhor puder, ainda que para bem contar e falar o saiba pior que todos fazer?.\n\nA bendita linha imagin\u00e1ria reduzia o atual territ\u00f3rio brasileiro \u00e0s terras situadas a leste de uma reta que ligava Bel\u00e9m, ao norte, e Laguna, ao sul. Antes de existir legalmente, Santa Catarina reduzia-se a um apertado ret\u00e2ngulo de terras, com menos de 10 mil quil\u00f4metros quadrados, com 300 quil\u00f4metros de comprimento e com 20 de largura. \u00c9 muito pouca terra.\n\nAlgu\u00e9m ser\u00e1 obrigado a ceder territ\u00f3rio, mesmo que j\u00e1 esteja aben\u00e7oado pelo Papa.\n\n<strong>Sert\u00f5es adentro<\/strong>\n\nEm 1549, o navegador espanhol Alvaro Nu\u00f1ez Cabeza de Vacca, nomeado governador do Paraguai, desembarca em S\u00e3o Francisco do Sul, Norte de Santa Catarina, para reabastecimento.\n\nPor acaso, o navegador se encontra com dois padre jesu\u00edtas, que o convencem a realizar o resto da viagem a p\u00e9, sert\u00f5es adentro, at\u00e9 Assun\u00e7\u00e3o.\n\nOs dois sacerdotes e um grupo de \u00edndios catequizados guiam a comitiva espanhola, composta por 250 pessoas. A comitiva embrenha-se nas florestas da Mata Atl\u00e2ntica, sobe a Serra Geral, acompanha os rios Negro e Igua\u00e7u, atravessa o Rio Paran\u00e1 e entra em Assun\u00e7\u00e3o, depois de uma caminhada de 99 dias.\n\nO fato espelha uma dupla leitura.\n\nDesde meados do s\u00e9culo XVI, os jesu\u00edtas espanh\u00f3is est\u00e3o em Santa Catarina. E, instru\u00eddos pelos \u00edndios, j\u00e1 haviam aberto um caminho terrestre entre o litoral atl\u00e2ntico e a capital do Paraguai, evitando o longo trajeto mar\u00edtimo e fluvial que passava por Buenos Aires e depois subia os rios Paran\u00e1 e Paraguai. \u00c9 uma variante do Caminho de Peabiru, aberto pelos \u00edndios muitos e muitos anos antes da chegada dos jesu\u00edtas ao continente.\n\nNo entanto, as rela\u00e7\u00f5es entre portugueses e espanh\u00f3is, no Sul do Brasil, tornavam-se cada vez mais hostis. Isso porque exploradores paulistas, os temidos bandeirantes, n\u00e3o respeitam os limites impostos pelo Meridiano de Tordesilhas e varrem as terras pertencentes \u00e0 Espanha em busca das minas de ouro e do bra\u00e7o ind\u00edgena reunido pelos padres nas famosas &#8220;redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas&#8221;.\n\nTodo o sert\u00e3o percorrido em 1549 pelo navegador Cabeza de Vacca constitui um territ\u00f3rio que a Espanha entregar\u00e1 a Portugal em 1777.\n\nMas primeiro S\u00e3o Paulo e depois o Paran\u00e1 impedem que a regi\u00e3o integre o Estado de Santa Catarina.\n\nAssim come\u00e7a a Hist\u00f3ria da\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>.\n\n<strong>Coloniza\u00e7\u00e3o das terras de Santa Catarina<\/strong>\n\nA Hist\u00f3ria do Brasil, de frei Vicente do Salvador, escrita em 1627, esclarece que n\u00e3o h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o com a largura que a terra do Brasil tem no rumo do sert\u00e3o, porque at\u00e9 aquele ano n\u00e3o houve quem a povoasse.\n\n\u00c9 que, por neglig\u00eancia, os portugueses, grandes conquistadores de terras, n\u00e3o se aproveitaram delas, pois se contentaram apenas de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos. E, de fato, foi assim nos primeiros 250 anos de povoamento.\n\nEm 1532, dom Jo\u00e3o III, rei de Portugal, distribui as terras do Brasil entre 12 protegidos do trono que receberam o t\u00edtulo de capit\u00e3es donat\u00e1rios. Claro que, com a medida, a Coroa se livra de novos gastos neste lado do Atl\u00e2ntico, uma vez que o povoamento de cada uma das capitanias, porque s\u00e3o heredit\u00e1rias, dever\u00e1 ser realizado \u00e0s custas do novo propriet\u00e1rio.\n\nA capitania situada no Extremo-Sul do Brasil, Terras de SantAna, foi entregue a Pero Lopes de Sousa, irm\u00e3o de Martin Afonso de Sousa, que tamb\u00e9m recebeu um quinh\u00e3o um pouco mais ao norte, o atual Estado de S\u00e3o Paulo.\n\nA carta de doa\u00e7\u00e3o das Terras de SantAna ao seu donat\u00e1rio faz refer\u00eancia apenas \u00e0 coloca\u00e7\u00e3o de marcos no litoral. O Extremo-Sul estava assinalado pela ponta de Itapirub\u00e1, pr\u00f3xima \u00e0 Laguna, onde Portugal e Espanha confinavam, segundo os limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas.\n\nCom o passar dos anos e dos s\u00e9culos, as terras de Santa Catarina, sert\u00e3o adentro, sobem as encostas da Serra Geral e da Serra do Mar e espalham-se pelo Planalto, sob os protestos, n\u00e3o dos espanh\u00f3is confinantes, mas dos paulistas e curitibanos desconfinados.\n\n<strong>Terras confrontadas<\/strong>\n\n<strong>Nos limites dos tr\u00eas rios<\/strong>\n\nNo decorrer dos s\u00e9culos XVI e XVII n\u00e3o foi emitido qualquer documento oficial para caracterizar os limites ao norte de Santa Catarina, desde a bacia do Rio S\u00e3o Francisco at\u00e9 os sert\u00f5es dos espanh\u00f3is confinantes.\n\nEm 11 de agosto de 1738, o rei de Portugal estabelece a cria\u00e7\u00e3o da Capitania de Santa Catarina e a localiza\u00e7\u00e3o de um governo no Desterro para p\u00f4r debaixo de um s\u00f3 comando militar toda a regi\u00e3o da costa sul do Brasil.\n\nUma outra provis\u00e3o, em 9 de abril de 1747, determina que o brigadeiro Jos\u00e9 da Silva Paes, respons\u00e1vel pelo governo de Santa Catarina, escolha terras na Ilha do Desterro e regi\u00f5es adjacentes, desde o Rio de S\u00e3o Francisco at\u00e9 o Serro de S\u00e3o Miguel, no alto da Serra Geral, para o assento dos imigrantes a\u00e7orianos que come\u00e7ar\u00e3o a chegar assim que houver &#8220;citios&#8221; dispon\u00edveis.\n\nO documento exige especial aten\u00e7\u00e3o para que as terras entregues aos colonos n\u00e3o d\u00eaem raz\u00e3o de queixa aos espanh\u00f3is confinantes, j\u00e1 que o Meridiano de Tordesilhas passava bem pr\u00f3ximo aos locais assinalados.\n\nUm ano e meio depois, 20 de novembro de 1748, com centenas de casais a\u00e7orianos instalados no litoral catarinense, Lisboa decide reorganizar a administra\u00e7\u00e3o judici\u00e1ria do Sul do Brasil e cria a Ouvidoria de Santa Catarina, com jurisdi\u00e7\u00e3o sobre o Desterro, Laguna e o Rio Grande.\n\nA nova provis\u00e3o real ratifica o texto de 1747 quando estipula, de modo claro, que os limites ao Norte da Ouvidoria devem correr pelos rios S\u00e3o Francisco, Cubat\u00e3o e Negro, que se mete no grande rio de Curitiba, isto \u00e9, o Igua\u00e7u.\n\nPela determina\u00e7\u00e3o real, Santa Catarina, pelo Oeste, encontrava-se com os espanh\u00f3is confinantes nas Cataratas do Igua\u00e7u, e com os paulistas, depois com os paranaenses, nas margens dos rios Negro e Igua\u00e7u.\n\nTanto os espanh\u00f3is confinantes, no Oeste, quanto os paulistas desconfinados, ao Norte, recusam-se a respeitar o limite dos tr\u00eas rios.\n\n<strong>Avan\u00e7os sobre o solo catarinense<\/strong>\n\nA comarca de Curitiba ocupava todo o sul da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo. Em 29 de agosto de 1853, com a Lei Federal 704, o territ\u00f3rio da comarca \u00e9 transformado na Prov\u00edncia do Paran\u00e1.\n\nAs autoridades na nova prov\u00edncia investem fundo contra Santa Catarina quando fixam os limites do leste pelo Rio Canoinhas, que corre em dire\u00e7\u00e3o ao Rio Negro desde os campos de Lages.\n\nCria-se uma nova zona de conflito e de terras-de-ningu\u00e9m quando o Paran\u00e1 exige que o vizinho do Sul exiba a legisla\u00e7\u00e3o que lhe garanta a propriedade das terras contestadas.\n\nOusadia bem maior demonstra a nova prov\u00edncia. Em abril de 1864, ela cria uma esta\u00e7\u00e3o fiscal na regi\u00e3o do Rio Chapec\u00f3 para arrecadar uma taxa sobre cada animal em tr\u00e2nsito do Rio Grande do Sul para S\u00e3o Paulo.\n\nSanta Catarina protesta e exige que o governo imperial intervenha e acabe com a invas\u00e3o nos dois lados do territ\u00f3rio que lhe pertence nos termos da legisla\u00e7\u00e3o emitida pela Coroa Portuguesa em 1749.\n\nEm resposta ao apelo dos catarinenses, em janeiro de 1865 as autoridades do Rio de Janeiro expedem o Decreto 3.378, que praticamente homologa os avan\u00e7os o Paran\u00e1 sobre o territ\u00f3rio contestado por Santa Catarina. Os limites foram estabelecidos pelo Rio Sa\u00ed-Gua\u00e7u, Serra do Mar e Rio Marombas, desde a sua vertente at\u00e9 o Canoas e, por este, at\u00e9 o Uruguai.\n\nPelo Aviso de 14\/1\/1879, foi mudado o Rio Marombas pelo Rio do Peixe, deixando Curitibanos e Campos Novos para Santa Catarina. Esta divis\u00e3o foi respeitada por Santa Catarina e pelo Paran\u00e1 at\u00e9 o Acordo de 1916.\n\nPelos termos do decreto, Santa Catarina deve contentar-se em ocupar a faixa do litoral e uma estreita nesga de terra nos contrafortes do Planalto Serra Acima. Os 114 mil quil\u00f4metros quadrados garantidos pela legisla\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVIII ficam reduzidos a pouco mais de 74 mil.\n\nOs protestos de toda a prov\u00edncia for\u00e7am o governo imperial a suspender os efeitos do decreto. Mas os paranaenses continuam firmes nas terras que levaram para dentro de sua prov\u00edncia.\n\n<strong>As duas caras do Direito<\/strong>\n\nA incorpora\u00e7\u00e3o do Planalto de Lages, em 9 de setembro de 1820, ao territ\u00f3rio catarinense, define mais uma vez os limites de Santa Catarina com o seu vizinho do norte. Esses mesmos limites s\u00e3o reafirmados pelo artigo 2\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio do Brasil, em 25 de mar\u00e7o de 1824, ao afirmar que o territ\u00f3rio brasileiro \u00e9 dividido em prov\u00edncias na forma em que atualmente se acha.\n\nA nova constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o corta a presen\u00e7a dos paulistas nos campos de Palmas, na regi\u00e3o sul do Rio Igua\u00e7u e nas terras a oeste do Rio do Peixe.\n\nO problema da disputa pelo territ\u00f3rio contestado toma um novo rumo porque Santa Catarina, baseada no artigo 2\u00ba da Lei Maior, argumenta com o &#8220;direito expresso&#8221;, com o &#8220;direito j\u00e1 constitu\u00eddo&#8221; e, portanto, alcan\u00e7ado pela express\u00e3o em que atualmente se acha.\n\nDo outro lado, os paulistas apegam-se ao &#8220;direito da descoberta&#8221; ou da &#8220;primeira ocupa\u00e7\u00e3o&#8221;. \u00c9 o j\u00e1 conhecido &#8220;uti possidetis&#8221;, tal como os portugueses aplicaram em 1777 para se apoderarem das terras que, pelo Tratado de Tordesilhas, estavam sob dom\u00ednio espanhol. As duas prov\u00edncias apegam-se, uma no direito j\u00e1 expresso; a outra, no vislumbre de direito, ou de um direito ainda n\u00e3o institu\u00eddo.\n\nAcontece que cada um dos dois lados apresentava o seu mapa, que era contestado pela outra parte.\n\nO direito do uti possidetis era consagrado em todo o mundo, por aquela \u00e9poca, quando o Papa arbitrava quest\u00e3o de limites entre Coroas. Essa foi a tese do bar\u00e3o do Rio Branco na quest\u00e3o com a Argentina, definida a favor do Brasil, em 1895. Por isso, o Paran\u00e1 apelou para este direito. Antes de passar um s\u00e9culo, as duas caras do Direito v\u00e3o desatar o n\u00f3 do embrulho jur\u00eddico e pol\u00edtico com fac\u00f5es de madeira e com metralhadoras.\n\nDepois da mortandade in\u00fatil, tal como no caso de Salom\u00e3o, o territ\u00f3rio contestado ser\u00e1 dividido ao meio.\n\n<strong>A vinda dos a\u00e7orianos<\/strong>\n\nEm 31 de agosto de 1746, o rei dom Jo\u00e3o V de Portugal comunica aos habitantes das ilhas dos A\u00e7ores que a Coroa oferece uma s\u00e9rie de vantagens aos casais ilh\u00e9us que decidirem imigrar para o litoral do sul do Brasil.\n\n<strong>Nos termos do edital fartamente distribu\u00eddo pelas nove ilhas do arquip\u00e9lago, as vantagens do convite para a volunt\u00e1ria expuls\u00e3o resultam evidentes:<\/strong>\n<blockquote>Haver\u00e1 um grande al\u00edvio nas ilhas porque elas n\u00e3o mais ver\u00e3o &#8220;padecer os seus moradores&#8221;, uma vez que v\u00e3o diminuir os males resultantes da indig\u00eancia em que todos vivem;\nHaver\u00e1 um grande benef\u00edcio para o Brasil, j\u00e1 que os imigrantes ir\u00e3o cultivar terras ainda inexploradas.<\/blockquote>\nO edital acena com uma s\u00e9rie de mordomias a partir do transporte gratuito at\u00e9 os citios que se lhes destinarem para as suas abita\u00e7oens.\n\nE logo que chegarem aos citios que haver\u00e3o de habitar, se dar\u00e1 a cada casal uma espingarda, duas enxadas, um machado, uma enx\u00f3, um martelo, um fac\u00e3o, duas facas, duas tesouras, duas verrumas, uma serra com sua lima e travadeira, dois alqueires de sementes (27,5 litros), duas vacas e uma \u00e9gua.\n\nNo primeiro ano se lhes dar\u00e1 a farinha, que se entende bastar para o sustento, assim dos homens como das mulheres, mas n\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as que n\u00e3o tiverem sete anos, e aos que tiverem at\u00e9 os 14 se lhes dar\u00e1 quarta e meia de alqueire para cada m\u00eas.\n\nSe dar\u00e1 a cada casal um quarto de l\u00e9gua em quadra, para principiar as suas culturas, sem que se lhe levem direitos nem sal\u00e1rios algum por esta sesmaria. E quando, pelo tempo adiante tiverem fam\u00edlia com que possam cultivar mais terra, a poder\u00e3o pedir ao governador do distrito.\n\nTamb\u00e9m fica definido por sua majestade que o primeiro estabelecimento de casais a\u00e7orianos far-se-\u00e1 na Ilha de Santa Catarina e nas suas vizinhan\u00e7as, em que a fertilidade da terra, abund\u00e2ncia de gados e grande quantidade de peixes conduzem muito para a comodidade e fartura destes novos habitadores.\n\nEm menos de um ano, 7.817 pessoas comprovam o desejo de se transferirem para o outro lado do Atl\u00e2ntico.\n\nUma Provis\u00e3o R\u00e9gia de 9 de agosto de 1747 determina ao brigadeiro Jos\u00e9 da Silva Paes, governador da capitania da Ilha de Santa Catarina, que tome todo o cuidado em tratar bem os novos colonos.\n\nO dito brigadeiro por\u00e1 todo o cuidado em que estes novos colonos sejam bem tratados, e agasalhados, e assim que lhe chegar esta ordem, procurar\u00e1 escolher assim na mesma Ilha, como nas terras adjacentes, desde o Rio de S\u00e3o Francisco do Sul at\u00e9 o Serro de S\u00e3o Miguel, nos altos da Serra do Mar, e no sert\u00e3o correspondente a este distrito, com aten\u00e7\u00e3o por\u00e9m que se n\u00e3o d\u00ea a justa raz\u00e3o de queixa aos espanh\u00f3is confinantes.\n\nA decis\u00e3o de sua majestade em respeitar as terras dos espanh\u00f3is confinantes, plantados muito longe l\u00e1 pelos lados do Oeste, fez esquecer a defini\u00e7\u00e3o dos limites norte-sul das terras que a\u00e7orianos de Santa Catarina poderiam ocupar.\n\nDom Jo\u00e3o V e muito menos o brigadeiro Silva Paes podiam prever que o descuido de Lisboa dava os primeiros passos para gerar um conflito de limites dentro das terras brasileiras e uma guerra encarni\u00e7ada entre os pr\u00f3prios catarinenses.\n\n<strong>Terras paulistas de Lages<\/strong>\n\nA designa\u00e7\u00e3o de Luiz Ant\u00f4nio de Sousa Botelho Mour\u00e3o, o morgado de Mateus, para governador e capit\u00e3o general da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, em dezembro de 1764, tem profunda repercuss\u00e3o no povoamento do Planalto e na fixa\u00e7\u00e3o dos limites entre Santa Catarina e as futuras terras do Paran\u00e1.\n\nUm dos primeiros atos do morgado \u00e9 o de fazer povoar metodicamente os sert\u00f5es de Curitiba e todos os imensos campos da regi\u00e3o, at\u00e9 a margem direita dos rios Pelotas e Uruguai.\n\nO forte argumento para essa tomada de decis\u00e3o \u00e9 o de fazer frente aos espanh\u00f3is confinantes, que haviam ocupado uma grande parte do territ\u00f3rio do Rio Grande do Sul.\n\nAnt\u00f4nio Corr\u00eaa Pinto de Macedo, rico e experimentado fazendeiro daqueles sert\u00f5es paulistas, em fins de 1766, instala-se na paragem chamada as Lages. Para facilitar a tarefa, o fundador est\u00e1 autorizado a convocar todos os \u00edndios carij\u00f3s j\u00e1 civilizados que andam vadios e n\u00e3o t\u00eam casa, nem domic\u00edlio certo, nem s\u00e3o \u00fateis \u00e0 coisa p\u00fablica. E ele pode obrig\u00e1-los a ir povoar as ditas terras.\n\nA viajada oficial de Ant\u00f4nio Corr\u00eaa Pinto para o Sul e a miss\u00e3o de fundar uma povoa\u00e7\u00e3o na referida parada das tropas irrita as autoridades do Rio Grande do Sul porque garantem deter a jurisdi\u00e7\u00e3o de parte daquele territ\u00f3rio at\u00e9 a margem esquerda do Rio Canoas, afluente do Pelotas.\n\nE transtorna os catarinenses porque eles defendem que o limite sul \u00e9 pelo Rio Pelotas e, ao norte, pelos rios Negro e Igua\u00e7u.\n\nPassado meio s\u00e9culo, 9 de setembro de 1820, toda a regi\u00e3o do Planalto \u00e9 desanexada de S\u00e3o Paulo e unida \u00e0 Prov\u00edncia de Santa Catarina, com os seus limites a oeste indefinidos.\n\nCom a decis\u00e3o do governo de Portugal, os paulistas fundadores de Lages e seus descendentes tornam-se catarinenses com papel passado em Lisboa.\n\nMas S\u00e3o Paulo e, a partir de 1853, o Paran\u00e1 n\u00e3o abrem m\u00e3o de seu territ\u00f3rio e continuam a banhar-se nas \u00e1guas do Pelotas e do Uruguai. At\u00e9 que um dia, meio s\u00e9culo depois, acontece o estouro da peonada que n\u00e3o se rendeu e acaba destru\u00edda pelas armas de um governo que age em nome da lei.\n\n<strong>Cidades nascem no caminho dos tropeiros<\/strong>\n\nO povoamento do Planalto de Santa Catarina adota uma estrat\u00e9gia bem diferente daquela que resultou da ocupa\u00e7\u00e3o do Litoral, do Vale do Itaja\u00ed e das planuras do Sul. Na Serra-Abaixo, ao longo de 150 anos, adota-se a fixa\u00e7\u00e3o do imigrante europeu em pequenas glebas de terra \u2013 o s\u00edtio, o lote, a col\u00f4nia \u2013 como ponto de partida para a abertura do processo civilizador.\n\nNo planalto central da Serra-Acima a qualidade do solo n\u00e3o se adapta \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o definitiva de um colono dedicado \u00e0 agricultura.\n\nAs imensas pastagens naturais obrigam a substituir o manejo da terra pela conviv\u00eancia com o gado. Esse mesmo gado resultar\u00e1 na produ\u00e7\u00e3o do imenso estoque de carnes no Rio Grande do Sul.\n\nO perigo de utilizar o transporte mar\u00edtimo para entregar o boi gordo no mercado devorador de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro torna-se evidente pelos riscos que a medida acarreta como naufr\u00e1gio, pirataria e a necessidade de alimentar os animais no decorrer do trajeto que, al\u00e9m de tudo, fica dependendo da colabora\u00e7\u00e3o de ventos favor\u00e1veis para empurrar o navio cargueiro.\n\nA solu\u00e7\u00e3o encontrada \u00e9 simples e copia o exemplo de Alvaro Nu\u00f1ez Cabeza de Vacca e sua comitiva deslocando-se a p\u00e9 entre o porto de S\u00e3o Francisco do Sul e a capital do Paraguai. Dessa maneira, os pr\u00f3prios animais se deslocam ao local de consumo atrav\u00e9s do &#8220;caminho das tropas&#8221;, tamb\u00e9m chamado Estrada Real ou Caminho do Sul, que liga Vacaria, os campos de Lages e da Estiva com as cidades de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro.\n\nDezenas de povoados e de cidades do Planalto Catarinense resultam de um &#8220;descanso das tropas e dos tropeiros&#8221;. Mas ocorre um fato novo na hist\u00f3ria desse povoamento.\n\nEnquanto Santa Catarina alega que tem a seu favor uma s\u00e9rie de leis que lhe garantem a propriedade das terras, os paulistas, na quase totalidade propriet\u00e1rios das vacarias do Rio Grande, v\u00e3o se fixando pelo Planalto e pelos campos de Palmas, muito ao sul dos rios Negro e Igua\u00e7u.\n\n<strong>Colonos e militares na fronteira<\/strong>\n\nPelos meados do s\u00e9culo XIX, dom Pedro II d\u00e1-se conta de que o Brasil precisa definir e proteger suas extensas fronteiras com os diferentes pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, uma vez que a maioria deles apresenta contornos indefinidos.\n\nA sa\u00edda encontrada pelo imperador \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias militares nas quais possam conviver a vigil\u00e2ncia do militar com o trabalho do civil, ambos acompanhados da respectiva fam\u00edlia. Nesta linha de pensamento, o Decreto 2.502, de 16 de novembro de 1859, cria as col\u00f4nias militares do Chopim e do Chapec\u00f3, no extremo-oeste da regi\u00e3o contestada por Santa Catarina e pelo Paran\u00e1 e bem ao lado dos 30 mil quil\u00f4metros quadrados de territ\u00f3rio brasileiro exigido pela Argentina.\n\nMas o entusiasmo do imperador pela conviv\u00eancia entre civis e militares na fronteira esfria durante quase 25 anos. S\u00f3 em 14 de mar\u00e7o de 1882 o capit\u00e3o Jos\u00e9 Bernardino Bormann instala a col\u00f4nia militar de Chapec\u00f3.\n\nDe imediato, o capit\u00e3o abre v\u00e1rias frentes de trabalho destinadas a povoar a regi\u00e3o com pequenos lavradores e criadores das redondezas, do Rio Grande do Sul e do Paran\u00e1 e tamb\u00e9m para defender a fronteira, atrair os \u00edndios, implantar o progresso, difundir a cultura. Logo nos primeiros tempos, a col\u00f4nia disp\u00f5e de duas escolas de primeiras letras, uma escola de m\u00fasica e respectiva banda. Existe at\u00e9 um jornal,O Xanxer\u00ea.\n\nEm 1895, um laudo pericial do presidente Cleveland, dos Estados Unidos, define que a Argentina n\u00e3o tem nenhum direito sobre as terras do assim chamado Campos de Palmas e a regi\u00e3o \u00e9 definitivamente incorporada ao territ\u00f3rio brasileiro.\n\nEm 1916, as terras contestadas ser\u00e3o divididas entre o Paran\u00e1 e Santa Catarina. Solucionados os dois conflitos, Xanxer\u00ea e Chapec\u00f3, em Santa Catarina, Clevel\u00e2ndia e Palmas, no Paran\u00e1, come\u00e7am a exercer um papel importante para o desenvolvimento das terras que a Argentina e os dois estados haviam cobi\u00e7ado.\n\n<strong>O papel do cacique Cond\u00e1<\/strong>\n\nPelos meados do s\u00e9culo XIX, dezenas de pequenos propriet\u00e1rios v\u00e3o se estabelecendo nos campos de Palmas, regi\u00e3o contestada por Santa Catarina e pelo Paran\u00e1. Sobre essas terras vivem \u00edndios kaingang.\n\nA presen\u00e7a do homem branco contribui para o surgimento de pequenas fazendas de cria\u00e7\u00e3o de gado, sem contornos definidos por estarem localizadas sobre terras devolutas, isto \u00e9, pertencentes ao Poder P\u00fablico.\n\nAs confronta\u00e7\u00f5es entre posseiros e os enfrentamentos com os \u00edndios s\u00e3o freq\u00fcentes e resultam em total desrespeito \u00e0s divisas naturais que delimitam as fazendas.\n\nQuando da ocupa\u00e7\u00e3o dos campos de Palmas, em 1839, os moradores n\u00e3o encontram solu\u00e7\u00e3o para as cont\u00ednuas depreda\u00e7\u00f5es e por isso buscam a colabora\u00e7\u00e3o dos \u00e1rbitros Jo\u00e3o da Silva Carr\u00e3o e Jos\u00e9 Joaquim Pinto Bandeira, de Curitiba.\n\nOs dois dirigem-se ao local e pedem o apoio do cacique Cond\u00e1, profundo conhecedor da topografia daqueles campos.\n\nA determina\u00e7\u00e3o do cacique \u00e9 a de que todos os \u00edndios do grupo se unam em torno dos moradores para assentar as bases de um povoamento ordenado e sem futuras rixas.\n\nEm 1815, Athanagildo Pinto Martins abriu a Estrada das Miss\u00f5es, ligando Guarapuava, Clevel\u00e2ndia, Campos Novos e Lages. Trinta anos depois, Francisco Ferreira da Rocha Loures une Palmas a Goio-En.\n\nCom a situa\u00e7\u00e3o mais ou menos definida, em 1865 o governo imperial decide abrir uma estrada para ligar Palmas a Corrientes, na Argentina, passando pelo oeste das terras contestadas por Santa Catarina e pelo Paran\u00e1.\n\nOs primeiros estudos sobre o trajeto da estrada contam com a colabora\u00e7\u00e3o do cacique Cond\u00e1 e de 37 \u00edndios. Eles tamb\u00e9m acalmam os \u00edndios do Nonoai, no outro lado do Uruguai, revoltados com a invas\u00e3o das terras pelos oper\u00e1rios da estrada.\n\nOs caciques Cond\u00e1 e Viri s\u00e3o personagens importantes para a hist\u00f3ria do povoamento dos campos de Palmas e dos sert\u00f5es do Extremo-Oeste de Santa Catarina. Para alguns historiadores, Cond\u00e1 passou de &#8220;bugre a bugreiro&#8221;, pois recebia pagamento para cada \u00edndio que aldeasse.\n\nEm Chapec\u00f3, uma enorme est\u00e1tua exalta a mem\u00f3ria do \u00edndio Cond\u00e1.\n\n<strong>Parte II<\/strong>\n\n<strong>Terras em disputa<\/strong>\n\nNos primeiros tempos de sua hist\u00f3ria, o Planalto de Santa Catarina foi habitado pelos \u00edndios G\u00ea, tradicionais inimigos dos Guarani, que viviam no outro lado do Rio do Peixe. Ao longo do s\u00e9culo XVIII, o tropeiro, um homem branco, percorre a regi\u00e3o no sentido sul-norte, conduzindo bois e cavalos entre o Rio Grande do Sul e S\u00e3o Paulo.\n\nCom o passar dos anos, surge o homem t\u00edpico do Planalto, conhecido como caboclo. Ele trabalha na condu\u00e7\u00e3o das tropas, nas fazendas de cria\u00e7\u00e3o de gado ou na colheita da erva-mate.\n\nEsse novo habitante n\u00e3o consegue receber um t\u00edtulo de propriedade, pois mesmo as terras devolutas est\u00e3o reservadas para os &#8220;coron\u00e9is&#8221; do Planalto ou para os pol\u00edticos do Litoral.\n\nAl\u00e9m disso, Santa Catarina e Paran\u00e1 disputam a administra\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, numa velha rixa come\u00e7ada em meados do s\u00e9culo XVIII.\n\nAssim come\u00e7a a hist\u00f3ria do caboclo sem terra e sem governo, personagem central da\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>.\n\n<strong>Alem\u00e3es sobem a Serra<\/strong>\n\nEm 1868 esgotam-se os lotes rurais na Col\u00f4nia Dona Francisca para instalar os novos imigrantes alem\u00e3es, que continuavam a chegar da Europa.\n\nA falta de terras para cultivar e o n\u00famero consider\u00e1vel de alem\u00e3es-sem-terra obrigam a dire\u00e7\u00e3o da Col\u00f4nia a abrir um novo n\u00facleo Serra acima, onde existem 24 quil\u00f4metros quadrados de terras no campo de S\u00e3o Miguel, em dire\u00e7\u00e3o ao rio de S\u00e3o Bento, tamb\u00e9m pertencentes \u00e0 Dona Francisca.\n\nNos primeiros dias de setembro de 1873, as autoridades de Joinville escolhem 70 imigrantes robustos e desejosos de arriscar a odiss\u00e9ia de subir a serra para abrir picadas e preparar os ranchos necess\u00e1rios \u00e0 instala\u00e7\u00e3o das respectivas fam\u00edlias. Em 26 de novembro chegam as primeiras fam\u00edlias para fundar o n\u00facleo, que recebe o nome de S\u00e3o Bento.\n\nAs mulheres e as crian\u00e7as seguiram em carro\u00e7as at\u00e9 o limite do trecho carro\u00e7\u00e1vel da estrada Dona Francisca, no quil\u00f4metro 33, do Alto da Serra. O restante da viagem foi efetuado em lombo de burros e a p\u00e9.\n\nAs crian\u00e7as foram carregadas em cestos grandes, colocados um em cada lado da mula, os mesmos cestos utilizados no transporte da erva-mate.\n\nEste primeiro transporte foi efetuado com 30 mulas. Sete dentre elas levavam cargueiros e mantimentos formados por seis sacos de farinha, tr\u00eas de feij\u00e3o, seis arrobas de carne, tr\u00eas de toucinho, 30 quilos de a\u00e7\u00facar e 15 de caf\u00e9. Outras tr\u00eas mulas levavam, al\u00e9m de sacos com sal, panelas e apetrechos de cozinha, pregos, ferramentas e dobradi\u00e7as para portas e janelas. O novo povoamento, localizado em terrenos que o Paran\u00e1 afirma estarem sob a sua jurisdi\u00e7\u00e3o, vai desaguar em uma sucess\u00e3o de enfrentamentos entre os novos colonos e as velhas autoridades de Curitiba.\n\n<strong>Direitos adquiridos pelo esfor\u00e7o<\/strong>\n\nNo segundo semestre de 1876, a presid\u00eancia da Prov\u00edncia de Santa Catarina \u00e9 ocupada por Alfredo dEscragnolle Taunay, o famoso autor do romance Inoc\u00eancia e do livro de mem\u00f3rias sobre a Guerra do Paraguai, A Retirada da Laguna.\n\nNascido no Rio de Janeiro, engenheiro militar e com pouca liga\u00e7\u00e3o anterior com o Estado, o novo presidente sente de perto os problemas resultantes da quest\u00e3o de limites com o Paran\u00e1.\n\nEm dezembro, poucas semanas antes de deixar o governo, Taunay visita o n\u00facleo de imigrantes alem\u00e3es, h\u00e1 pouco instalado no alto da Serra do Mar. Em relat\u00f3rio, diz o governador:\n\nO sentimento das popula\u00e7\u00f5es vivendo ao sul da linha do Rio Negro, ou melhor, \u00e0 margem esquerda desse rio, excelente limite natural, \u00e9 contr\u00e1rio, e de modo veemente, a qualquer possibilidade de desanexa\u00e7\u00e3o desta prov\u00edncia. O n\u00facleo de S\u00e3o Bento encerra muitas esperan\u00e7as e apresenta um r\u00e1pido incremento.\n\nTudo isso \u00e9 efeito \u00fanico da iniciativa particular e da emigra\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea.\n\nTodos os colonos a\u00ed estabelecidos abra\u00e7aram com ardor a causa de Santa Catarina e mostram-se receosos de qualquer decis\u00e3o que v\u00e1 perturbar o bom encaminhamento que tem a prosperidade e o engrandecimento.\n\nComo se v\u00ea, a quest\u00e3o tornou-se hoje mais complexa, indo afetar direitos adquiridos pelo esfor\u00e7o de uma grande sociedade particular que busca, por meio da atra\u00e7\u00e3o de boa e moralizada coloniza\u00e7\u00e3o, desenvolver seus meios de a\u00e7\u00e3o, concorrendo simultaneamente para a grandeza do Brasil.\n\n<strong>Conflitos aumentam em S\u00e3o Bento<\/strong>\n\nO progresso do n\u00facleo de S\u00e3o Bento, fundado em 1873, exige a constante ajuda de novos imigrantes. Dois anos depois chega um outro grupo de alem\u00e3es.\n\nMas seis fam\u00edlias n\u00e3o conseguem entrar no respectivo lote porque ele j\u00e1 est\u00e1 ocupado com posseiros oriundos do Paran\u00e1.\n\nPara evitar um previs\u00edvel conflito, as autoridades de Curitiba aplicam uma s\u00e9rie de medidas que garantem a jurisdi\u00e7\u00e3o paranaense sobre os imigrantes rec\u00e9m-instalados.\n\nTr\u00eas dessas medidas aumentam o conflito.\n<blockquote>1. Os seis posseiros permanecem em seus lotes e as fam\u00edlias alem\u00e3s precisam buscar o novo pouso mais para dentro da floresta.\n2. O inspetor de quarteir\u00e3o, nomeado por Santa Catarina, \u00e9 multado ao recusar-se a entregar a lista com os nomes dos imigrantes jovens em idade de prestar o servi\u00e7o militar.\n3. Quatorze policiais invadem a localidade, aprisionam um morador e o levam para a cadeia, no outro lado do Rio Negro, territ\u00f3rio paranaense.<\/blockquote>\nA intranq\u00fcilidade entre os alem\u00e3es aumenta \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o Paran\u00e1 intensifica decis\u00f5es autorit\u00e1rias para comprovar a sua jurisdi\u00e7\u00e3o. Assim, por exemplo, na regi\u00e3o da Encruzilhada, um posto fiscal instalado por Curitiba, h\u00e1 dezenas de guardas, alguns fardados.\n\nE todos eles deixam bem \u00e0 mostra as facas de ponta e as clavinas engatilhadas para entrar em a\u00e7\u00e3o contra o barriga-verde que levantar a crista.\n\nO mais grave de tudo \u00e9 que o Paran\u00e1 arma conflitos em uma regi\u00e3o que nunca havia sido contestada nos tempos da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo.\n\n<strong>O v\u00edrus da rebeli\u00e3o<\/strong>\n\n(DI\u00c1RIO DE CAMPANHA DE UM OFICIAL DO EX\u00c9RCITO QUE FEZ PARTE DA EXPEDI\u00c7\u00c3O PARA EVITAR UM ENFRENTAMENTO ENTRE DEM\u00c9TRIO RAMOS E AS FOR\u00c7AS DO PARAN\u00c1)\n\nIndignou-se Dem\u00e9trio contras as viol\u00eancias que lhe infringiram as autoridades do Paran\u00e1 e recorreu ao aux\u00edlio dos seus correligion\u00e1rios da Vila de Santa Cruz de Canoinhas.\n\nCom a alega\u00e7\u00e3o de que o Paran\u00e1 desrespeitava direitos de Santa Catarina, Dem\u00e9trio Ramos conseguiu facilmente reunir cerca de 600 sertanejos dessa gente inculta e supersticiosa, jeitosamente preparada por Antero Alves, comiss\u00e1rio de pol\u00edcia da vila. Consta mesmo que esse povo foi armado a comblain pelo governo do Estado de Santa Catarina e por ele pr\u00f3prio mantido, com o aux\u00edlio de algumas casas comerciais.\n\nUma s\u00e9rie de conflitos mais ou menos criminosos foi desenvolvida por partid\u00e1rios apaixonados desses dois estados, vindo da\u00ed por diante alimentada a luta pelos maiores interessados na quest\u00e3o da zona contestada?.\n\nO movimento organizado por Dem\u00e9trio Ramos deixou nas terras contestadas o v\u00edrus da rebeli\u00e3o. Os habitantes do territ\u00f3rio em lit\u00edgio continuaram n\u00e3o se sujeitando ao regime de qualquer autoridade dos dois estados, at\u00e9 porque n\u00e3o sabiam a quem respeitar ou obedecer. E sempre aprendiam estrat\u00e9gias que poucos anos mais tarde saberiam aproveitar muito bem no decorrer da\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>.\n\n<strong>Vozes da guerrilha<\/strong>\n\nA argumenta\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1, perante o Supremo Tribunal Federal, ao reivindicar a posse das terras tamb\u00e9m contestadas por Santa Catarina, apresenta como suporte b\u00e1sico a hist\u00f3ria do povoamento da regi\u00e3o.\n\nPara os juristas de Curitiba, Santa Catarina n\u00e3o tem direito \u00e0s terras em lit\u00edgio, pois apresenta em seu favor uma documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica mais ou menos discut\u00edvel e omite a situa\u00e7\u00e3o de fato em que se encontra o referido territ\u00f3rio.\n\nEnquanto os catarinenses se baseiam em obscuras provis\u00f5es r\u00e9gias do s\u00e9culo XVIII e algumas leis obscuras do tempo do Imp\u00e9rio, Curitiba comprova que bandeirantes paulistas e povoadores paranaenses desbravaram a regi\u00e3o, abriram estradas, fundaram n\u00facleos coloniais, vilas e cidades. Em uma palavra, levaram para o sert\u00e3o de ningu\u00e9m todos os elementos da vida de uma civiliza\u00e7\u00e3o.\n\nNa linguagem de Curitiba, a decis\u00e3o do Supremo, ao dar ganho de causa a Santa Catarina, n\u00e3o foi uma vit\u00f3ria do Direito.\n\nEla constitui uma derrota pol\u00edtica do Paran\u00e1 devido \u00e0 falta de prest\u00edgio de sua representa\u00e7\u00e3o na capital da Rep\u00fablica, em confronto com a for\u00e7a dos catarinenses, que contam com a presen\u00e7a de Lauro M\u00fcller no Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria, Via\u00e7\u00e3o e Obras P\u00fablicas. O Paran\u00e1 garante, por isso, que a quest\u00e3o do Contestado jamais se resolver\u00e1 dentro do terreno jur\u00eddico.\n\n<strong>O senador Alencar Guimar\u00e3es repete a opini\u00e3o do ex-secret\u00e1rio de obras do Paran\u00e1, Niepce da Silva, em declara\u00e7\u00e3o \u00e0 imprensa do Rio de Janeiro (Jornal A Noite, 24, abril, 1914):<\/strong>\nOs paranaenses est\u00e3o dispostos a defender o seu territ\u00f3rio at\u00e9 pela for\u00e7a das armas. Para isso, o Estado disp\u00f5e de um regimento de seguran\u00e7a, com um efetivo de mil homens armados com carabinas mauser. E existem armas e muni\u00e7\u00f5es para mobilizar, de um momento para outro, um pequeno ex\u00e9rcito de 5 mil combatentes. S\u00e3o eles audaciosos bandos de volantes, que no sistema de guerrilhas mais adequadas em certos pontos do territ\u00f3rio litigioso, s\u00e3o sucept\u00edveis de causar maiores males ao advers\u00e1rio.\n\n<strong>Preliminares do conflito<\/strong>\n\nEm setembro de 1909, o catarinense Aleixo Gon\u00e7alves de Lima, capit\u00e3o da Guarda Nacional, \u00e0 frente de 500 homens, invade o territ\u00f3rio sob a Estrada Dona Francisca, que o Paran\u00e1 alega pertencer-lhe, mesmo que esteja situado no lado de c\u00e1 do Rio Negro. O capit\u00e3o expulsa os funcion\u00e1rios do fisco e os guardas do pequeno destacamento policial. Mas de imediato, um forte destacamento inimigo restabelece as barreiras, rastros da presen\u00e7a da jurisdi\u00e7\u00e3o paranaense.\n\nAleixo Gon\u00e7alves de Lima e seu batalh\u00e3o vingador s\u00e3o recebidos com festas e foguetes na cidade de Joinville. Carros v\u00e3o esper\u00e1-los na entrada da cidade. Passeata pelas ruas, espoucar de fogos, sons da banda de m\u00fasica, tudo anuncia e aplaude o regresso dos her\u00f3is.\n\n\u00c0 frente de um grupo de revoltosos contra as odiadas barreiras paranaenses, o capit\u00e3o afugentou a for\u00e7a policial daquele Estado que as protegia. Este \u00e9 o coment\u00e1rio generalizado entre os respeit\u00e1veis senhores e vener\u00e1veis senhoras que sa\u00edram de suas casas para abra\u00e7ar os bravos guerreiros da Serra-Acima.\n\nGoverno e sociedade de Florian\u00f3polis e de Curitiba n\u00e3o se d\u00e3o conta de que os enfrentamentos entre grupos de civis armados j\u00e1 duram mais de 20 anos.\n\nCada desencontro joga lenha na fogueira de uma situa\u00e7\u00e3o em alta periculosidade.\n\nH\u00e1 um inimigo em marcha porque muitos sertanejos e caboclos se familiarizam com o manejo das armas e com as t\u00e9cnicas militares de ataque e defesa. Todos v\u00e3o aprendendo h\u00e1bitos e comportamentos que ser\u00e3o postos \u00e0 prova na hora de se defenderem das for\u00e7as do governo federal e das pol\u00edcias militares dos dois estados encaminhadas para impor a ordem pela for\u00e7a da boca do canh\u00e3o, a partir de 1912.\n\nO mais grave: nas terras contestadas, terras de ningu\u00e9m, todos se acostumam a viver e a impor suas ordens, sem f\u00e9, sem lei e sem rei, como dizia o colonizador portugu\u00eas do s\u00e9culo XVI a respeito dos ind\u00edgenas que habitavam o litoral do Brasil.\n\n<strong>Abuso pol\u00edtico e econ\u00f4mico<\/strong>\n\nA instala\u00e7\u00e3o de barreiras fiscais no alto da Serra de Joinville, pelo Paran\u00e1, em uma zona que Santa Catarina sempre considerou como terras que integram o seu territ\u00f3rio, desencadeia um s\u00e9rio problema econ\u00f4mico e um explosivo problema pol\u00edtico.\n\nA presen\u00e7a dos fiscais paranaenses impede a circula\u00e7\u00e3o da erva-mate produzida em S\u00e3o Bento e industrializada em Joinville, j\u00e1 que os ervateiros n\u00e3o est\u00e3o de acordo com as duas cobran\u00e7as: uma, ao fisco do Paran\u00e1, antes de descer a serra, e outra, ao Estado de Santa Catarina, na hora do embarque no porto de S\u00e3o Francisco. Mas o problema \u00e9 tamb\u00e9m pol\u00edtico, pois ele intensifica a animosidade entre os dois estados que, al\u00e9m da Serra de S\u00e3o Bento, enfrentam-se no Planalto, no Vale do Rio do Peixe e no Extremo-Oeste.\n\nPara Santa Catarina, a invas\u00e3o do Paran\u00e1 constitui um criminoso abuso, tanto mais grave quando a Uni\u00e3o atravessa um momento de turbul\u00eancia pol\u00edtica. O sistema republicano, implantado em 15 de novembro de 1889, exige uma s\u00e9rie de ajustes entre os monarquistas, que n\u00e3o aceitam a perda do poder, e entre os republicanos, divididos em fac\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas.\n\nVinte anos depois, quando o governo federal ouve dizer que, na zona do Contestado um grupo de fan\u00e1ticos, comandados por um monge, estava pretendendo trazer de volta a Monarquia, o mundo vem abaixo.\n\nE os canh\u00f5es v\u00e3o falar todos os berros de uma boca enlouquecida.\n\n<strong>A guerra entre SC e Paran\u00e1 que n\u00e3o houve<\/strong>\n\nA guerra que n\u00e3o aconteceu fora da manchete de um jornal de Curitiba, em 8 de agosto de 1896.\n\nA guerra explodiu desse jeito. Duas semanas antes, 21 de julho, as autoridades paranaenses da vila do Rio Negro derrubam as pontes de madeira da estrada de rodagem que liga as vilas de S\u00e3o Bento e S\u00e3o Louren\u00e7o, todas elas constru\u00eddas pelo Estado de Santa Catarina no territ\u00f3rio que lhe pertence.\n\nHerc\u00edlio Luz, o nosso governador, se irrita e faz desabar um telegrama sobre a mesa do colega, Santos Andrade, repudiando o &#8220;ato vand\u00e1lico&#8221; das autoridades de Curitiba. Ao mesmo tempo, ele manda reconstruir as pontes. Uma enxurrada de telegramas entre Florian\u00f3polis e Curitiba resulta na presen\u00e7a de tropas militares, cara a cara, fuzil contra fuzil, tudo despachado \u00e0s pressas para o local da confus\u00e3o pelos dois estados.\n\nA guerra quase se acende, em 13 de novembro, quando duas centenas de homens armados assaltam um destacamento de Santa Catarina, instalado a seis quil\u00f4metros da margem esquerda do Rio Negro, em plenas e catar\u00ednicas terras. Vinte e sete soldados barrigas-verdes s\u00e3o metidos na cadeia, evidente que situada no outro lado do rio, onde Santa Catarina jamais reivindicou um palmo de terra. Vandalismo paranaense, protestam vozes nos quatro cantos do Estado.\n\nO governo do Paran\u00e1 pede desculpas pela agress\u00e3o e devolve os 27 prisioneiros s\u00e3os e salvos. Embora um tanto assustados. Para esfriar a guerra que n\u00e3o houve, a seguran\u00e7a p\u00fablica da regi\u00e3o \u00e9 entregue \u00e0s for\u00e7as federais, deslocadas de Curitiba.\n\n<strong>Seis por meia d\u00fazia<\/strong>\n\nA oposi\u00e7\u00e3o a Lauro M\u00fcller, governador provis\u00f3rio de Santa Catarina, nomeado pelo marechal Deodoro da Fonseca, logo nos primeiros dias da Rep\u00fablica, cresce r\u00e1pida diante da in\u00e9rcia com que o jovem tenente enfrenta as cont\u00ednuas investidas do Paran\u00e1 contra a jurisdi\u00e7\u00e3o de Santa Catarina, na regi\u00e3o de S\u00e3o Bento.\n\nSegundo os advers\u00e1rios do governador, ele se mostra vacilante e frouxo porque est\u00e1 absorvido apenas com a mesquinha quest\u00e3o pol\u00edtica da indica\u00e7\u00e3o dos nomes \u00e0s tr\u00eas vagas do Senado, \u00e0s quatro cadeiras para a C\u00e2mara dos Deputados e, principalmente, interessado em esmagar os pol\u00edticos monarquistas e at\u00e9 os republicanos que n\u00e3o se integraram \u00e0 nova ordem.\n\nLauro M\u00fcller d\u00e1 um golpe de mestre quando, para vencer o inimigo, aplica uma n\u00edtida estrat\u00e9gia militar que se mostra mais do que eficiente para calar o inimigo.\n\nO governador faz de conta que se desloca at\u00e9 Joinville para refor\u00e7ar a lista dos candidatos do governo \u00e0s pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es de 15 de setembro de 1890. Mas, muito em segredo, ele vai a Curitiba e retorna com uma solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica para o problema dos limites do Alto da Serra, baseada em quatro princ\u00edpios, devidamente sacramentados pelos dois governadores:\n<blockquote>Aboli\u00e7\u00e3o do Imposto de Importa\u00e7\u00e3o e Exporta\u00e7\u00e3o, exclu\u00edda a erva-mate;\nCobran\u00e7a do Imposto da Erva-Mate apenas no porto de S\u00e3o Francisco e sua divis\u00e3o em partes iguais entre Santa Catarina e Paran\u00e1;\nLevantamento da planta exata do territ\u00f3rio contestado com o aux\u00edlio da Uni\u00e3o;\nEncaminhamento da quest\u00e3o de limites ao Congresso Nacional.<\/blockquote>\nO Imposto de Exporta\u00e7\u00e3o da Erva-Mate, que era de 2%, foi elevado para 4%. A mesma taxa que o governo de Curitiba arrecadava no porto de Paranagu\u00e1.\n\n\u00c9 sempre assim nas terras do Contestado: Santa Catarina e Paran\u00e1 vivem trocando seis por meia d\u00fazia!\n\n<strong>Ensaio para o conflito<\/strong>\n\nEm 1899, o governador Felipe Schmidt busca uma nova sa\u00edda para a quest\u00e3o dos limites e contrata os servi\u00e7os do advogado Manoel da Silva Mafra. Ele dever\u00e1 voltar ao Supremo Tribunal Federal, desta vez com uma a\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00e3o de posse, para obrigar o Paran\u00e1 a recolher-se no outro lado dos rios Negro e Igua\u00e7u.\n\nEm 6 de julho de 1904, o Tribunal proclama-se competente para tomar conhecimento da quest\u00e3o, com o argumento que os limites desejados por Santa Catarina foram estabelecidos, atrav\u00e9s do tempo, pelas autoridades que tinham compet\u00eancia para faz\u00ea-lo. E manda respeitar os limites j\u00e1 demarcados desde 1749.\n\nO Paran\u00e1 contesta a a\u00e7\u00e3o. Passados cinco anos, 24 de dezembro de 1909, o Supremo reafirma a decis\u00e3o de 1904.\n\nAs autoridades de Curitiba n\u00e3o reconhecem a decis\u00e3o da mais alta corte do pa\u00eds com o argumento de que a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1891 estabelecia que os casos de limites entre os estados da Federa\u00e7\u00e3o deveriam ser resolvidos politicamente e n\u00e3o juridicamente. Logo, a quest\u00e3o s\u00f3 poderia ser definida mediante acordo das respectivas Assembl\u00e9ias Legislativas homologado pelo Congresso Nacional.\n\nA maioria das lideran\u00e7as pol\u00edticas do territ\u00f3rio em lit\u00edgio, principalmente no Contestado Norte \u2013 regi\u00e3o de Itai\u00f3polis, Papanduva e Canoinhas \u2013 n\u00e3o aceita a administra\u00e7\u00e3o catarinense. S\u00e3o poloneses, inimigos hist\u00f3ricos dos alem\u00e3es! Os poloneses tamb\u00e9m n\u00e3o gostavam dos alem\u00e3es que o Paran\u00e1 havia instalado em Mafra, Rio Negro e Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria. E a rec\u00edproca era verdadeira.\n\nNo decorrer de 1905, a situa\u00e7\u00e3o torna-se explosiva na regi\u00e3o de Canoinhas. O antigo maragato Dem\u00e9trio Ramos re\u00fane em torno de si alguns sertanejos assalariados, em armas.\n\nEle age protegido pelo governo de Santa Catarina, de cujas autoridades recebe recursos de toda ordem, segundo \u00e9 voz corrente na regi\u00e3o.\n\nAssustado, o Paran\u00e1 tamb\u00e9m azeita as armas e recorre ao grupo armado do coronel da Guarda Nacional, Fabr\u00edcio Vieira.\n\nNa regi\u00e3o disputada pelos dois estados, em Timb\u00f3, por quest\u00f5es de ordem policial, na v\u00e9spera do Natal de 1905, tr\u00eas homens e uma mulher s\u00e3o assassinados por desconhecidos.\n\nAntes que as autoridades de Santa Catarina tomem provid\u00eancias para esclarecer o crime, for\u00e7as policiais e civis do Paran\u00e1 atacam a resid\u00eancia do coronel Dem\u00e9trio Ramos, suspeito de ser o mandante dos quatro homic\u00eddios. Queimam-lhe a casa e prendem-lhe a esposa e os filhos. Nessa mesma invas\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o presos o inspetor de pol\u00edcia da cidade e mais tr\u00eas catarinenses.\n\nJunto com familiares de Dem\u00e9trio Ramos, todos s\u00e3o metidos na cadeia em Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria, cidade paranaense.\n\nEnquanto isso, o Paran\u00e1 mant\u00e9m um vapor nas \u00e1guas do Rio Igua\u00e7u guarnecido com armas com o pretexto de garantir um territ\u00f3rio nunca invadido e jamais contestado pelos catarinenses.\n\nTropas federais s\u00e3o enviadas \u00e0s pressas e se metem entre os dentes afiados dos galos-de-briga. O estopim de um enfrentamento em marcha foi desarmado.\n\nDem\u00e9trio Ramos concorda em debandar o seu pessoal e se transfere para fora do Estado. Mas o grupo chefiado pelo ex-maragato prefere ficar na regi\u00e3o.\n\nCombust\u00edvel f\u00e1cil para os quadros santos dos seguidores do monge Jos\u00e9 Maria.\n\n<strong>Solu\u00e7\u00e3o judicial falha<\/strong>\n\nOs \u00faltimos 10 anos do s\u00e9culo XIX costuram uma dif\u00edcil conviv\u00eancia entre Santa Catarina e Paran\u00e1 pela radical impossibilidade de ser resolvida a quest\u00e3o dos 40 mil quil\u00f4metros quadrados de terras exigidos, ao mesmo tempo, pelos dois estados.\n\nSanta Catarina arma uma tentativa de solu\u00e7\u00e3o quando a Lei 242, de 1896, autoriza o governador Herc\u00edlio Luz a entrar em acordo com o Paran\u00e1 para que a quest\u00e3o de limites seja resolvida por arbitramento.\n\nOs vizinhos tamb\u00e9m decidem entrar na mesma cartilha e escolhem o nome do vice-presidente da Rep\u00fablica, Manuel Victorino Pereira, como \u00e1rbitro, condicionando que a decis\u00e3o dele deveria ser homologada pelo Supremo Tribunal Federal.\n\nOs dois contestadores, com a respectiva documenta\u00e7\u00e3o, apresentam-se no Supremo Tribunal Federal. Pelo amor de Deus, ministros, consertem os nossos limites. J\u00e1 estamos no limite da impaci\u00eancia.\n\nO Tribunal n\u00e3o aceita pronunciar-se sobre o problema do arbitramento, alegando que s\u00f3 poderia manifestar-se quando fosse acionado por uma a\u00e7\u00e3o judicial.\n\nDas mem\u00f3rias do senador paranaense Alencar Guimar\u00e3es.\n\nA id\u00e9ia do arbitramento para definir a quest\u00e3o dos limites entre Paran\u00e1 e Santa Catarina resultou de estudo feito pelos advogados dos dois estados, Ubaldino do Amaral e conselheiro Mafra, sobre o processo a adotar para a validade e for\u00e7a jur\u00eddica do laudo arbitral, em quest\u00e3o dessa natureza, e depois de audi\u00eancia do conselheiro Aquino e Castro, ent\u00e3o presidente do Supremo Tribunal Federal.\n\nEra opini\u00e3o desse eminente jurisconsulto que o processo arbitral em casos desses s\u00f3 poderia produzir efeitos jur\u00eddicos se o respectivo compromisso fosse firmado perante o Supremo Tribunal Federal e este homologasse o laudo proferido pelo \u00e1rbitro escolhido.\n\nFoi exclusivamente por tal motivo que os representantes federais dos dois estados, em reuni\u00e3o celebrada a 22 de maio de 1896, na Rua do Ourives, 19, no Rio de Janeiro, firmaram um ajuste, em que inclu\u00edram as seguintes cl\u00e1usulas:\n<blockquote>I \u2013 Comprometem-se os representantes dos dois estados a promover nas respectivas Assembl\u00e9ias, no corrente ano, a ado\u00e7\u00e3o de uma lei autorizando o arbitramento na quest\u00e3o de limites, devendo os governadores nomearem de comum acordo um s\u00f3 \u00e1rbitro.\nII \u2013 Dentro de dois meses, depois de publicada a lei nos dois estados, os governadores eleger\u00e3o o \u00e1rbitro e nomear\u00e3o procuradores perante o Supremo Tribunal Federal, e perante o \u00e1rbitro com os poderes necess\u00e1rios para os fins das leis votadas.<\/blockquote>\nDe comum acordo, iniciar\u00e3o os procuradores a a\u00e7\u00e3o perante o Tribunal, requerendo que, distribu\u00eddo o feito, seja tomado o termo de compromisso e se expe\u00e7a comunica\u00e7\u00e3o ao \u00e1rbitro nomeado, cuja resposta se juntar\u00e1 aos autos. (\u2026)\n\nV \u2013 A decis\u00e3o proferida ser\u00e1 sem novas alega\u00e7\u00f5es, nem documentos, submetida \u00e0 homologa\u00e7\u00e3o do egr\u00e9gio Supremo Tribunal Federal.\n\nVI \u2013 Desde a homologa\u00e7\u00e3o, torna-se obrigat\u00f3ria a senten\u00e7a, mas n\u00e3o ter\u00e1 efeito retroativo e, portanto, ser\u00e3o respeitados os direitos adquiridos pelos particulares.\n\nEssas cl\u00e1usulas foram aceitas sem diverg\u00eancias pelos representantes dos dois estados, os senadores Raulino Horn, Esteves J\u00fanior, Gustavo Richard, Arthur de Abreu, Alberto Gon\u00e7alves e Vicente Machado, bem como os deputados federais Tolentino de Sousa, Paula Ramos, Braz\u00edlio Luz, Alencar Guimar\u00e3es, Lamenha Lins, Almeida Torres, Em\u00edlio Blum e Lauro M\u00fcller, cabendo a este \u00faltimo, segundo consta da respectiva ata, a exposi\u00e7\u00e3o dos motivos que justificaram o ajuste feito.\n\nAs Assembl\u00e9ias Legislativas dos dois estados, conformando-se em sua unanimidade com tal delibera\u00e7\u00e3o de seus representantes federais, votaram sem demora as leis de autoriza\u00e7\u00e3o para o arbitramento combinado.\n\nOs dois governadores, em cumprimento e obedi\u00eancia \u00e0s suas cl\u00e1usulas, assentaram de comum acordo na escolha para \u00e1rbitro, o doutor Manoel Victorino Pereira, ent\u00e3o vice-presidente da Rep\u00fablica.\n\nQuando, por\u00e9m, foi necess\u00e1rio requerer ao Supremo Tribunal a assinatura do respectivo compromisso, o eminente Aquino e Castro, com surpresa para os advogados dos dois estados que o haviam ouvido previamente, como j\u00e1 ficou dito, declarou o Tribunal incompetente para intervir no processo arbitral combinado, e isso consta dos dois \u00faltimos itens da peti\u00e7\u00e3o inicial de Santa Catarina na a\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria de limites entre os dois estados. (GUIMAR\u00c3ES, Alencar. Quest\u00e3o de Limites. Paran\u00e1-Santa Catarina. Atos e Fatos. Curitiba, Oficinas de O Estado, 1916, p\u00e1g. 29-31).\n\n<strong>A cria\u00e7\u00e3o de Canoinhas<\/strong>\n\nEm 1889, Francisco de Paula Pereira, propriet\u00e1rio de um engenho de erva-mate em S\u00e3o Bento, com algumas fam\u00edlias da regi\u00e3o, transfere-se para as margens do Rio Canoinhas, 100 quil\u00f4metros na dire\u00e7\u00e3o oeste do ponto de partida, porque ali estava a erva-mate que em S\u00e3o Bento ele comprava dos caboclos.\n\nEstabelecidos a poucos quil\u00f4metros da margem esquerda do Rio Negro, era natural que os novos povoadores catarinenses viessem a sofrer os atropelos e as correrias de um territ\u00f3rio contestado por Santa Catarina e pelo Paran\u00e1. Por isso, nos primeiros tempos, o novo n\u00facleo vive uma situa\u00e7\u00e3o de terra-de-ningu\u00e9m e de todos. E seus habitantes n\u00e3o contam com o apoio de qualquer autoridade porque nenhum dos dois estados se atreve a exercer a respectiva jurisdi\u00e7\u00e3o plena.\n\nO territ\u00f3rio em disputa transforma-se num para\u00edso sem impostos e num ref\u00fagio sem castigo para toda a esp\u00e9cie de impostores. Na tentativa de reverter a perigosa situa\u00e7\u00e3o, em novembro de 1899 o governo do Paran\u00e1 cria o Distrito Policial de Canoinhas e nomeia Roberto Elke para o cargo de subcomiss\u00e1rio. O escolhido recusa o posto argumentando que o territ\u00f3rio pertence a Santa Catarina e que, portanto, a indica\u00e7\u00e3o recebida \u00e9 nula de pleno direito.\n\nComo prova de que exerce a plena jurisdi\u00e7\u00e3o sobre as terras da regi\u00e3o, o coronel Albuquerque, prefeito de Curitibanos, cria o Distrito de Paz e Policial de Canoinhas e nomeia o mesmo Roberto Elke como subcomiss\u00e1rio. O indicado aceita a designa\u00e7\u00e3o.\n\nDecorridos nove anos desde a sua funda\u00e7\u00e3o, a vila conta apenas com 60 casas e magras centenas de habitantes. Mesmo assim, e antes que o Paran\u00e1 tome a decis\u00e3o, com a Lei 907, de 12 de setembro de 1911, Santa Catarina transforma o distrito em munic\u00edpio. O major Tomaz Vieira \u00e9 designado como o primeiro superintendente.\n\nA cria\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de Canoinhas desencadeia uma s\u00e9rie de protestos do Paran\u00e1. Isto porque, por uma lei paranaense, o territ\u00f3rio do munic\u00edpio de Rio Negro inclu\u00eda toda a \u00e1rea do novo munic\u00edpio de Santa Catarina. Ao sul, os limites de Rio Negro iam at\u00e9 Lages. Mais tarde se contentaram em chegar s\u00f3 at\u00e9 Curitibanos, nos campos da Estiva.\n\nAnos depois, por sugest\u00e3o de Oswaldo Rodrigues Cabral, a cidade Santa Cruz de Canoinhas inscreve em seu bras\u00e3o o lema Catharinensis semper. De fato, sempre catarinense?\n\nMas ela dever\u00e1 pagar um alto pre\u00e7o de ang\u00fastias e mortes durante toda a\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>.\n\n<strong>Barreiras fiscais<\/strong>\n\nO Decreto n\u00famero 1, de 15 de novembro de 1889, assinado pelo marechal Deodoro da Fonseca, chefe do Governo Provis\u00f3rio, determina que as prov\u00edncias sejam transformadas em estados e que elas mesmas organizem o respectivo governo.\n\nNenhuma palavra sobre os eventuais problemas de limites que possam existir entre as antigas unidades do Imp\u00e9rio.\n\nPara Santa Catarina e Paran\u00e1, a decis\u00e3o do governo federal \u00e9 desconfort\u00e1vel, j\u00e1 que os dois novos estados, nos \u00faltimos 15 anos do Imp\u00e9rio, haviam convivido com graves desencontros no alto da Serra do Mar, regi\u00e3o de S\u00e3o Bento, pela impossibilidade de fixar o ponto exato dos respectivos limites.\n\nNos primeiros dias de julho de 1890, mais uma vez o Paran\u00e1 cruza o Rio Negro e planta quatro barreiras fiscais que impedem a livre descida da erva-mate para a sua industrializa\u00e7\u00e3o, em Joinville, e o posterior embarque no porto de S\u00e3o Francisco do Sul, rumo ao mercado consumidor do Rio da Prata.\n\nAs barreiras levantam protestos em S\u00e3o Bento, em Joinville, no Desterro e na col\u00f4nia catarinense do Rio de Janeiro, comandada por Esteves J\u00fanior, respeitado pol\u00edtico do novo regime republicano rec\u00e9m-instalado.\n\nO governador do Paran\u00e1, Am\u00e9rico Lobo, garante que as barreiras foram levantadas fora da zona contestada e que a medida protegia a erva-mate produzida no outro lado dos rios Negro e Igua\u00e7u: o produto paga imposto para descer at\u00e9 o porto de Paranagu\u00e1. Como no lado de c\u00e1 dos dois rios tamb\u00e9m era territ\u00f3rio do Paran\u00e1, o governador vizinho chega at\u00e9 a estranhar as pretens\u00f5es de Santa Catarina, j\u00e1 que suas autoridades desejavam ocupar terras que nunca lhes haviam pertencido.\n\n<strong>Soldados atacados pela fome<\/strong>\n\nO Paran\u00e1 defende a instala\u00e7\u00e3o e o funcionamento das barreiras fiscais na zona contestada por Santa Catarina com a presen\u00e7a ostensiva de algumas pra\u00e7as da for\u00e7a de linha, soldados da Pol\u00edcia Militar, como se diria hoje. As barreiras fiscais eram coletorias que garantiam excepcional fonte de impostos para as prov\u00edncias. Em Santa Catarina, elas come\u00e7aram a ser instaladas nas estradas das tropas, no Planalto e no Oeste, h\u00e1 200 anos. Estes pontos de cobran\u00e7a de impostos sobre a erva-mate repetiam o procedimento sobre o transporte do gado no s\u00e9culo XVIII.\n\nO governo vizinho instala os soldados no territ\u00f3rio em lit\u00edgio, mas esquece de entregar-lhes o respectivo farnel. As barreiras est\u00e3o plantadas no meio do mato. N\u00e3o deu outra. Ro\u00eddos pela fome, os pra\u00e7as atacam aves e pequenos animais dos colonos catarinenses, consumidos sob o pretexto de n\u00e3o morrerem de fome, pois estavam sem provis\u00e3o alguma. A aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio evang\u00e9lico dar de comer a quem tem fome evoltou os colonos dilapidados no seu reino animal, pois houve abusos.\n\nUm morador da regi\u00e3o conta uma hist\u00f3ria bem desagrad\u00e1vel.\n\nOs militares que constituem a guarni\u00e7\u00e3o das barreiras vivem praticando repetidas cenas de selvageria e alegam que est\u00e3o garantidos pela lei. Por exemplo, ao chegar numa pequena vila, a soldadesca parecia faminta e inveterada no crime. Ovelhas, galinhas e porcos, tudo era morto e devorado por essa magra e desenfreada soldadesca.\n\nE os roubos, meu Deus! Na casa da vi\u00fava Ant\u00f4nia Maria de Jesus roubaram um ponche, dois chap\u00e9us de sol, uma ceroula, um chap\u00e9u de palha, um corte de cal\u00e7as, um palet\u00f3 grosso, um alqueire de feij\u00e3o, 30 mil r\u00e9is, dinheiro de um santo. E, ainda por cima, o pr\u00f3prio santo!\n\nEm vista desta e de outras cenas, o povo est\u00e1 fugindo, abandonando as propriedades e juntando-se em turmas para defender as suas fam\u00edlias. N\u00f3s, aqui, estamos em uma revolu\u00e7\u00e3o que, \u00e0 primeira vista, parece pequena, mas que toma corpo e amea\u00e7a para o futuro graves conflitos, se os altos poderes da Rep\u00fablica n\u00e3o intervierem. (Jornal do Com\u00e9rcio, Desterro, 18 de agosto de 1890.\n\nVinte anos depois, desata-se uma guerra com todas as dores e todas as letras. E nessa mesma regi\u00e3o de gente morta de fome.\n\n<strong>Caminhos da mis\u00e9ria<\/strong>\n\n<strong>Caboclo do Planalto<\/strong>\n\nNos primeiros tempos da hist\u00f3ria do Planalto de Santa Catarina estavam os \u00edndios G\u00ea, tradicionais inimigos dos Guarani, que eram donos das terras do outro lado do Rio do Peixe.\n\nAo longo do s\u00e9culo XVIII, o homem branco, um tropeiro, percorre a regi\u00e3o no sentido norte-sul, conduzindo bois e cavalos entre o Rio Grande do Sul e S\u00e3o Paulo. Com a funda\u00e7\u00e3o de Lages em 1771, ao longo do chamado Caminho do Sul, surgem pousos, currais e invernadas, enfim, as primeiras fazendas de cria\u00e7\u00e3o de gado e os primeiros registros (coletorias) para a cobran\u00e7a de impostos.\n\nAs terras contestadas pelo Paran\u00e1 e por Santa Catarina povoam-se com o mameluco, mescla do tropeiro luso-castelhano com o \u00edndio. O novo homem t\u00edpico do Planalto, tamb\u00e9m conhecido como caboclo, trabalha na condu\u00e7\u00e3o das tropas, o tropeiro, ou na fazenda, o pe\u00e3o.\n\nAs terras do Planalto, na sua totalidade, constituem enormes extens\u00f5es, as sesmarias, doadas pelo governo imperial a propriet\u00e1rios que, muitas vezes, nelas n\u00e3o residem.\n\nH\u00e1 impossibilidade de receber t\u00edtulos de propriedade, que j\u00e1 pertencem ao sesmeiro. O tropeiro, o \u00edndio civilizado, os que desejam instalar-se na regi\u00e3o s\u00e3o obrigados a fixar-se nas terras devolutas e inexploradas, sempre na condi\u00e7\u00e3o de posseiro \u2013 aquele que est\u00e1 na terra mas n\u00e3o \u00e9 propriet\u00e1rio.\n\nAssim come\u00e7a a hist\u00f3ria do intruso do s\u00e9culo XIX e do caboclo guerrilheiro da\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>.Vivendo em liberdade no isolado sert\u00e3o de pinhais e de pastagens, esse novo tipo de morador, o caboclo, ali fixa o seu h\u00e1bitat e tira da mata os meios de subsist\u00eancia para a fam\u00edlia.\n\nAl\u00e9m de assimilar a cultura ind\u00edgena, o caboclo fica marcado pelos tra\u00e7os das tradi\u00e7\u00f5es de origem ib\u00e9rica, do tradicionalismo dos bandeirantes paulistas e do comportamento dos ga\u00fachos dos pampas. Este caboclo \u00e9, pois, uma s\u00edntese antropol\u00f3gica de suma import\u00e2ncia para a hist\u00f3ria do Planalto. Portador que \u00e9 de diferentes culturas, ele deve ser olhado e tratado com muito respeito e admira\u00e7\u00e3o. (THOM\u00c9, Nilson. Ciclo da Madeira. Ca\u00e7ador, Impressora Universal, 1995, p. 51).\n\n<strong>Perigos na estrada<\/strong>\n\n<strong>CR\u00d4NICA DE UM JORNAL<\/strong>\n\nOs bugres mataram a 3 ou 4 do corrente, janeiro de 1890, na estrada que de Curitibanos conduz a Blumenau, o ex-guarda policial Roque Celestino de Matos, que para ali seguia, como camarada, ajudando a conduzir uma tropa de bois.\n\nNa estrada da serra que desce para o Vale do Itaja\u00ed, teve a infeliz v\u00edtima que atrasar-se da tropa, a fim de carnear um boi que havia cansado enquanto as outras pessoas iam mais adiante fazer parar o gado.\n\nDa\u00ed a pouco tempo, voltando um pardinho com os cargueiros para ser conduzida a carne do dito boi, apenas encontrou a mula em que montava Roque, morta \u00e0 lan\u00e7a e vest\u00edgios que os bugres haviam deixado.\n\nDias depois, o cad\u00e1ver de Roque foi encontrado dentro de um arroio, \u00e0 pequena dist\u00e2ncia do lugar onde tinha ficado carneando o boi. (Jornal do Com\u00e9rcio, Desterro, 28, janeiro, 1890).\n\nMesmo no final do s\u00e9culo XIX, as estradas entre o Planalto e o Litoral apresentavam s\u00e9rios riscos de enfrentamento entre o homem branco, dito civilizado, e o \u00edndio, que reconhece o perigo da pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia por causa do processo civilizador que est\u00e1 em andamento.\n\nMas o problema do Planalto n\u00e3o est\u00e1 apenas escondido na boca da serra que se encaminha para a regi\u00e3o de Blumenau. Problema bem maior est\u00e1 escondido em todo o Planalto que desce para o Vale do Rio do Peixe.\n\nCentenas de ranchos abrigam caboclos e posseiros que mal e mal conseguem arrastar a vida como pe\u00f5es das grandes fazendas de cria\u00e7\u00e3o de gado, como pequenos lavradores avulsos ou catadores de erva-mate.\n\n<strong>Soma de todo tipo de pobreza<\/strong>\n\nAt\u00e9 os \u00faltimos anos do Imp\u00e9rio, a principal via de liga\u00e7\u00e3o entre o Rio Grande do Sul e a parte central do Brasil era a Estrada das Tropas, aberta pelo casco das mulas e pelo passo lento das boiadas, rumo ao mercado consumidor de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro.\n\nAo longo da rota que corta as imensas extens\u00f5es de terras devolutas do Planalto e dos Campos de Lages, durante um s\u00e9culo e meio foram se instalando pousos, currais e invernadas para o descanso do tropeiro ou para a engorda da boiada. Por interfer\u00eancia quase sempre da pol\u00edtica, grandes por\u00e7\u00f5es dessas terras v\u00e3o sendo doadas a particulares. Eram as sesmarias, a maioria delas transformadas em fazendas para a cria\u00e7\u00e3o de gado, de cavalos ou de mulas.\n\nO desenvolvimento da pecu\u00e1ria, no decorrer dos anos, \u00e9 prejudicado pela amea\u00e7a constante dos ataques dos \u00edndios missioneiros, sobreviventes das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas do Sul, destru\u00eddas pelos bandeirantes paulistas.\n\nEntre os poucos moradores da regi\u00e3o, sesmeiros e posseiros, na maioria pequenos criadores e lavradores, mais agregados, pe\u00f5es, ervateiros e ex-escravos, havia tamb\u00e9m descendentes de ga\u00fachos, v\u00edtimas da invas\u00e3o espanhola, da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, da Guerra do Paraguai e da Revolu\u00e7\u00e3o Federalista.\n\nPelos campos e pelas matas espalhavam-se \u00edndios mansos, sem casa e sem condi\u00e7\u00f5es de trabalho, quase sempre por inapet\u00eancia ou por falta de for\u00e7as para lidar com gado xucro ou boiadas selvagens.\n\nPelo fim do s\u00e9culo XIX, esses grupos de \u00edndios arredios ao processo civilizador haviam dado origem ao caboclo, sem terra e sem inclina\u00e7\u00e3o para os trabalhos pastoris. Tudo uma soma de grandes mis\u00e9rias, f\u00e1cil de ser pescada pelo fanatismo religioso que toma f\u00f4lego em meados do s\u00e9culo XIX e que explode assim que o s\u00e9culo XX abre as portas.\n\n<strong>Parte III<\/strong>\n\n<strong>Taquaru\u00e7u, cidade santa<\/strong>\n\nOs caboclos sobreviventes do massacre do Irani retornam \u00e0s suas terras na regi\u00e3o de Campos Novos e Curitibanos.\n\nPassado um ano, em dezembro de 1913, um dos seguidores do monge, Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos, com toda a sua fam\u00edlia, inicia a organiza\u00e7\u00e3o de uma nova irmandade em Taquaru\u00e7u, no exato local escolhido um ano antes, por Jos\u00e9 Maria, para implantar o primeiro reduto.\n\nO acampamento cresce de imediato, pois corre a not\u00edcia de que o monge em breve ressuscitaria para orientar os seus fi\u00e9is na organiza\u00e7\u00e3o da cidade santa.\n\nO governo de Santa Catarina teme que surjam confrontos entre os acampados e as popula\u00e7\u00f5es vizinhas e solicita a presen\u00e7a do Ex\u00e9rcito para garantir a seguran\u00e7a da regi\u00e3o.\n\nNo primeiro ataque ao reduto, as for\u00e7as militares s\u00e3o derrotadas pelos caboclos.\n\n<strong>A nova peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\nDias antes do combate do Irani, em 22 de outubro de 1912, entre os devotos seguidores do monge e as for\u00e7as do Regimento da Pol\u00edcia Militar do Paran\u00e1, Jos\u00e9 Maria diz que iria &#8220;morrer&#8221; no enfrentamento.\n\nMas n\u00e3o era morrer mesmo, pois ele passaria para o outro reino. Quase que nem Jesus Cristo.\n\n\u2013 Voc\u00eas me esperem no Taquaru\u00e7u. Dentro de um ano eu vou estar de volta para organizar o Ex\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o. E, com ele, vamos vencer todos os nossos inimigos.\n\nEuz\u00e9bio Ferreira dos Santos, pequeno fazendeiro, seguidor das id\u00e9ias do monge, vive nas suas terras, em Perdizes, munic\u00edpio de Curitibanos, aguardando o retorno de Jos\u00e9 Maria.\n\nEm uma tarde de agosto de 1913, Teodora, a neta do fazendeiro, jura perante o av\u00f4:\n\n\u2013 O santo monge Z\u00e9maria falou comigo. Foi l\u00e1 embaixo daquela \u00e1rvore.\n\nAs apari\u00e7\u00f5es do monge se tornam cada vez mais freq\u00fcentes. Ele d\u00e1 ordens e at\u00e9 cura doen\u00e7as, sempre atrav\u00e9s da menina privilegiada.\n\nDepois de algumas semanas, o monge d\u00e1 o ultimatum \u00e0 pequena vidente:\n\n\u2013 Para que eu continue aparecendo, exijo que dentro de tr\u00eas dias todos voc\u00eas se instalem em Taquaru\u00e7u. L\u00e1 vai ser a nossa Terra da Promiss\u00e3o, a minha cidade santa.\n\nNo dia 1\u00ba de dezembro de 1913, Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos conclui que havia chegado a hora de encontrar-se com Jos\u00e9 Maria no Taquaru\u00e7u.\n\nDe imediato, o pequeno fazendeiro e toda a sua fam\u00edlia, com oito cargueiros, abandona as terras em que vive para encaminhar-se ao local assinalado pelo monge.\n\n<strong>A volta do monge<\/strong>\n\nA morte de Jos\u00e9 Maria, no Irani, em 22 de outubro de 1912, determina a completa dispers\u00e3o dos devotos do monge. Na sua maioria, os sobreviventes da chacina decidem regressar para Santa Catarina; cruzam o Rio do Peixe e voltam a conviver com as suas fam\u00edlias nos munic\u00edpios de Curitibanos e Campos Novos.\n\nO movimento fan\u00e1tico-religioso parece extinto. Santa Catarina perde-lhe os passos no decorrer de quase todo o ano de 1913.\n\nNo final da primeira semana de dezembro, uma not\u00edcia se espalha na regi\u00e3o e at\u00e9 pela Serra Abaixo. O estimado frei Rog\u00e9rio, que tinha vindo da cidade de Lages, por solicita\u00e7\u00e3o do poderoso coronel Albuquerque, superintendente de Curitibanos, havia seguido para um novo acampamento de fan\u00e1ticos, mais uma vez no Taquaru\u00e7u, a fim de conferenciar e obter a dispers\u00e3o do grupo.\n\nNo dia seguinte, j\u00e1 se conhece que os esfor\u00e7os do padre haviam fracassado. E at\u00e9 que ele fora mal recebido e for\u00e7ado a retirar-se, diante das amea\u00e7as de morte.\n\nO n\u00famero de fan\u00e1ticos \u00e9 de 60 a 80 homens e todos est\u00e3o dispostos a oferecer resist\u00eancia se forem atacados pelo governo.\n\nBoa parte dos acampados saiu dos matos da regi\u00e3o. Eles nada t\u00eam em comum com os poucos moradores de Taquaru\u00e7u, que at\u00e9 se retiraram para outros pontos.\n\nPara o jornal O Dia, de Florian\u00f3polis, a not\u00edcia da reinstala\u00e7\u00e3o do reduto deve preocupar as autoridades p\u00fablicas e militares, j\u00e1 que renasce a possibilidade de futuros enfrentamentos radicais entre os fan\u00e1ticos e as for\u00e7as do governo.\n\nA exist\u00eancia do reduto comprova o grau de fascina\u00e7\u00e3o que os celeb\u00e9rrimos monges exercem sobre o esp\u00edrito da pobre gente ignorante daquelas paragens que, segundo dizem, acha-se reunida para aguardar a volta do monge (O Dia, 11 e 12, dezembro, 1913).\n\n<strong>Jos\u00e9 Maria aparece em vis\u00f5es<\/strong>\n\nA fam\u00edlia de Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos, um dos sobreviventes do primeiro reduto de Taquaru\u00e7u, decide abandonar a localidade de Perdizes, onde vive com a fam\u00edlia, e instala-se de novo em Taquaru\u00e7u, \u00e0 espera da volta do monge Jos\u00e9 Maria.\n\nA comitiva entra na pequena localidade e apresenta-se na casa do negociante e amigo Praxedes Gomes Damasceno.\n\n\u2013 Pe\u00e7o uma pousada nesses terrenos para esperar o Z\u00e9maria, que deve estar chegando.\n\nPraxedes Gomes e seu irm\u00e3o Joaquim Gomes Damasceno haviam acompanhado Jos\u00e9 Maria at\u00e9 o Irani e ambos foram feridos no combate de 1912. Por isso n\u00e3o queriam mais entrar na confus\u00e3o.\n\nEuz\u00e9bio e fam\u00edlia recebem autoriza\u00e7\u00e3o para acampar dois quil\u00f4metros mais \u00e0 frente, ao redor da casa de Francisco Paes de Farias, o Chico Ventura.\n\nEuz\u00e9bio dos Santos e Chico Ventura fornecem comida e at\u00e9 dinheiro para os caboclos que se agregam ao acampamento. Em poucos dias, j\u00e1 est\u00e3o reunidos 170 homens, fora mulheres e crian\u00e7as.\n\nInstalado o acampamento, o monge n\u00e3o aparece em pessoa, mas fala aos caboclos atrav\u00e9s de Teodora, a neta de 11 anos de Euz\u00e9bio.\n\nLogo, logo, o monge deixa de lado a menina como porta-voz e se comunica com Manoel, filho de Euz\u00e9bio, um jovem de 17 anos.\n\nSempre que precisa entrar em contato com o monge, Manoel se retira para o mato. Recebe as ordens e, ao repass\u00e1-las em reuni\u00e3o de todo o grupo, os caboclos ouvem-no com aten\u00e7\u00e3o.\n\nUma s\u00e9rie de lendas se espalha de imediato.\n\nUma delas \u00e9 que a intimidade entre Manoel e o monge \u00e9 t\u00e3o profunda que o jovem \u00e9 capaz de distinguir nos matos os ramos das \u00e1rvores que o monge tocou quando por ali estivera. E, por isso, ramos e \u00e1rvores se tornam objeto de venera\u00e7\u00e3o.\n\nEm determinadas ocasi\u00f5es, os devotos chegam a beijar as m\u00e3os e os p\u00e9s do jovem.\n\nConta-se, igualmente, que Manoel, na hora das refei\u00e7\u00f5es, conduz para o mato, numa bandeja, as iguarias mais apetitosas dizendo serem para o monge. Horas depois, volta com a bandeja vazia.\n\n\u2013 O monge estava com uma fome de todo o tamanho!\n\n<strong>O sonho da cidade santa<\/strong>\n\nEuz\u00e9bio Ferreira dos Santos, um homem avan\u00e7ado em anos, l\u00edder dos acampados, \u00e9 um paranaense que vive no munic\u00edpio de Curitibanos desde 1878.\n\nQuando chegou \u00e0 regi\u00e3o, ainda jovem, era posseiro de umas terras devolutas e sobre elas come\u00e7ou a criar uma ponta de gado, que lhe deu razo\u00e1vel sustenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.\n\nCom o aparecimento do monge, Euz\u00e9bio deixou-se envolver com as id\u00e9ias do &#8220;santo homem&#8221; e com ele conviveu no primeiro acampamento de Taquaru\u00e7u, no segundo semestre de 1912.\n\nNaquele tempo era assim. O interessado entrava nas terras-sem-dono, escolhia um peda\u00e7o, tomava posse e depois tentava requerer as terras mediante o &#8220;T\u00edtulo de Legitima\u00e7\u00e3o de Posse&#8221;.\n\nEuz\u00e9bio Ferreira dos Santos e Elias de Morais estavam lutando pelo t\u00edtulo de propriedade, mas n\u00e3o conseguiam porque elas haviam sido compradas por um especulador de Florian\u00f3polis.\n\nO pequeno fazendeiro n\u00e3o acompanhou Jos\u00e9 Maria na aventura do Irani. E at\u00e9 andou escondido, logo ap\u00f3s a morte do l\u00edder. Com a instala\u00e7\u00e3o do segundo reduto, Euz\u00e9bio \u00e9 um fervoroso crente da anunciada ressurrei\u00e7\u00e3o do monge.\n\nE vive dizendo:\n\n\u2013 Feliz daquele que avistar a cola do cavalo de S\u00e3o Sebasti\u00e3o.\n\nEuz\u00e9bio Ferreira dos Santos tem plena certeza que o Ex\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o vai levantar a cidade santa de Jerusal\u00e9m, ali mesmo, no Taquaru\u00e7u.\n\nE ent\u00e3o Euz\u00e9bio exibia aos amigos um canivete, cujo cabo, aparelhado com uma lente, mostrava l\u00e1 dentro a cidade santa de Taquaru\u00e7u, tal como Jos\u00e9 Maria costumava descrev\u00ea-la, templos de pedra, edifica\u00e7\u00f5es majestosas, ruas largas, imensos jardins \u2013 uma lindeza de cidade. (SASSI, Guido Wilmar. Gera\u00e7\u00e3o do Deserto. Rio, Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1964, p\u00e1g. 53).\n\n<strong>A vida no reduto<\/strong>\n\nNo reduto, Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos e o amigo Chico Ventura realizam venda de gado e outros bens para organizar o Ex\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o e para alimentar os quase 200 caboclos, fora as mulheres e as crian\u00e7as. Todos se encontram no trabalho de levantar a nova Jerusal\u00e9m.\n\nPerto da resid\u00eancia de Chico Ventura levanta-se uma igreja de madeira. Em torno dela vai crescendo r\u00e1pido um conjunto de casas improvisadas com lascas de pinheiros e distribu\u00eddas em ruelas surgidas ao acaso.\n\nCom o passar do tempo, 500 metros adiante, foi instalada uma segunda parte do reduto.\n\nDurante a primeira semana do ajuntamento, qualquer pessoa pode entrar e sair do reduto. Mas, logo em seguida, quem entra para receber comida ou para visitar parentes e conhecidos \u00e9 obrigado a permanecer.\n\nEuz\u00e9bio tem um filho chamado Manoel, que se diz int\u00e9rprete do monge, que ainda n\u00e3o apareceu. Manoel diz que se comunica com o monge, cujas ordens transmite aos acampados.\n\nTodas as manh\u00e3s os fi\u00e9is v\u00e3o beijar-lhe os p\u00e9s.\n\nNas primeiras semanas da vida em comum, os caboclos ocupam o tempo em rezar e em repetir prociss\u00f5es de louvor e de cantorias. Em todas elas, Manoel abre o desfile, acompanhado pelas virgens, meninas colocadas a servi\u00e7o do monge, jovens e mulheres n\u00e3o casadas. Depois, v\u00eam as mulheres casadas sem filhos, em seguida, as casadas com filhos.\n\nOs homens encerram o desfile com as suas armas e com os meninos, que preferem acompanhar os pais.\n\nA alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 preparada com g\u00eaneros comprados e pagos \u00e0 vista. Os animais abatidos para o consumo tamb\u00e9m s\u00e3o pagos a dinheiro.\n\nO filho de Euz\u00e9bio, de vez em quando, vai ao mato pr\u00f3ximo. L\u00e1, ouve o que lhe diz o monge para ser comunicado ao reduto.\n\nA vida no reduto \u00e9 de ora\u00e7\u00f5es e s\u00faplicas \u00e0s vezes, acompanhadas com razo\u00e1vel consumo de cacha\u00e7a (O Dia, 23, dezembro, 1913). Os caboclos afirmam que n\u00e3o pretendem fazer mal a ningu\u00e9m.\n\nSegundo ordens recebidas de Jos\u00e9 Maria, eles desejam levantar uma cidade s\u00f3 deles e onde possam viver em paz com todos, e felizes com eles mesmos.\n\n<strong>Disciplina militar<\/strong>\n\nO jovem Manoel, porta-voz do monge, tamb\u00e9m fala com S\u00e3o Sebasti\u00e3o e dele recebe ordem para organizar o Ex\u00e9rcito Encantado.\n\nA vida no reduto toma um novo rumo pois, ao lado das rezas e das prociss\u00f5es para atrair as b\u00ean\u00e7\u00e3os do santo, os caboclos s\u00e3o submetidos a uma r\u00edgida disciplina militar para se tornarem capazes de repelir as maldi\u00e7\u00f5es dos homens.\n\nExerc\u00edcios militares acontecem todas as manh\u00e3s e s\u00e3o orientados por um tal Manec\u00e3o Teixeira, um negro pernambucano, desertor do Ex\u00e9rcito.\n\nA bandeira branca que se movimenta do alto de um tronco \u00e9 a cor-s\u00edmbolo dos acampados, a mesma dos revolucion\u00e1rios maragatos de 1891-1894. \u00c9 proibido usar o vermelho, o distintivo dos pica-paus, os governistas daquele tempo.\n\nO pano est\u00e1 atravessado por uma faixa verde em forma de cruz para copiar a bandeira de Carlos Magno e tamb\u00e9m para lembrar as cruzes de aroeira que o monge Jo\u00e3o Maria e o sucessor andaram plantando por todo o Planalto.\n\nA cruz pode ser substitu\u00edda pela imagem de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, padroeiro da capela de Perdizes, onde vivia Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos quando formou a Irmandade.\n\nLa\u00e7os de fita branca no chap\u00e9u largo com as abas ca\u00eddas para tr\u00e1s, de longe, tamb\u00e9m distinguir\u00e3o os escolhidos da cidade santa daqueles que n\u00e3o fazem parte do reduto.\n\nAo mesmo tempo em que se intensificam os exerc\u00edcios militares, Manoel determina que o reduto passe a fabricar fac\u00f5es de madeira e que os fi\u00e9is de S\u00e3o Jos\u00e9 Maria realizem exerc\u00edcios de combate simulado.\n\n<strong>Santo e devasso<\/strong>\n\nos residentes do Taquaru\u00e7u acreditam que Jos\u00e9 Maria aparece ao Manoel, um jovem de 17 anos, filho de Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos, o l\u00edder maior da nova cidade santa.\n\nEntre as ordens dadas pelo monge atrav\u00e9s do jovem est\u00e1 o r\u00edgido treinamento militar, que inclui combates simulados com fac\u00f5es de madeira.\n\nDepoimento de Francisco Palhano, em 1984:\n\nO Iz\u00e9bio tinha um menino, o Man\u00e9 Iz\u00e9bio, que era o deus. Bob\u00e3o que era, n\u00e3o sei como era que o pessoar foram se iludi com ele. E quem n\u00e3o fosse beij\u00e1 nos p\u00e9s dele pra v\u00ea o que acontecia. Tinha que beij\u00e1, tinha que cheg\u00e1, se benz\u00ea, se apoi\u00e1, beij\u00e1 nos p\u00e9 dele, aquele amardi\u00e7oado, todos tinha que faz\u00ea isso, n\u00e3o tinha b\u00e3o.\n\nDiziam que Deus tava junto ali, mas Deus n\u00e3o podia t\u00e1 junto, fazendo aquele banditismo que faziam pros outro, faziam s\u00f3 banditismo, surrava com a espada, fazia o pessoar pass\u00e1 acordado.\n\nToda a noite faziam porciss\u00e3o tamb\u00e9m, rezavam de luz acesa, caminhando. N\u00f3is tamb\u00e9m fumo nessa porciss\u00e3o, a\u00ed, n\u00f3is tinha medo, n\u00e9. O v\u00e9io Iz\u00e9bio tinha a espada, surrava com a espada.\n\nPassemo sono e n\u00e3o sei o que mais, passemo tudo isso, n\u00f3is passemo. (THOM\u00c9, N\u00edlson. Os Iluminados. Florian\u00f3polis, Ed. Insular, 1999, p\u00e1g. 171).\n\nCerta vez, por decis\u00e3o de Jos\u00e9 Maria, Manoel passou a dormir entre tr\u00eas donzelas. No fim de um m\u00eas, o esc\u00e2ndalo: o santo fizera mal \u00e0s tr\u00eas mo\u00e7as. As virgens deixaram de s\u00ea-lo. O santo \u00e9 demitido. No lugar dele, entra o sobrinho Joaquim, 12 anos.\n\nDe qualquer maneira, o poder no reduto continuava nas m\u00e3os de Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos, o &#8220;presidente de um sistema parlamentarista&#8221; que j\u00e1 havia nomeado tr\u00eas primeiros-ministros da mesma fam\u00edlia: a neta Teodora, o filho Manoel e, agora, o neto Joaquim.\n\n<strong>Impertin\u00eancia do Paran\u00e1<\/strong>\n\nA not\u00edcia do ajuntamento dos devotos do monge de Taquaru\u00e7u levanta uma forte rea\u00e7\u00e3o nos meios pol\u00edticos do Paran\u00e1. N\u00e3o pelo perigo que o reagrupamento pudesse trazer \u00e0 regi\u00e3o do Contestado, j\u00e1 que, afinal, o reduto estava localizado em terras que mansa e pacificamente s\u00e3o admitidas como pertencentes ao Estado de Santa Catarina.\n\nA impertin\u00eancia \u00e9 pol\u00edtica e se torna bem mais nervosa a partir de 1904 e, principalmente, depois de 1909, quando, nas duas vezes, o Supremo Tribunal Federal decide que o Paran\u00e1 n\u00e3o det\u00e9m nenhum direito nas terras localizadas ao sul dos rios Negro e Igua\u00e7u.\n\nFace ao r\u00e1pido crescimento do novo reduto, Curitiba garante que os caboclos est\u00e3o sendo reagrupados dentro de um plano das autoridades de Florian\u00f3polis.\n\nA l\u00f3gica interven\u00e7\u00e3o das for\u00e7as federais iria garantir a posse de todo o territ\u00f3rio Contestado para as gulas de Santa Catarina.\n\nA an\u00e1lise dos paranaenses que envolve os acampados do Taquaru\u00e7u n\u00e3o passa de considera\u00e7\u00f5es puramente especulativas e por isso recebe pronta resposta do governo Vidal Ramos:\n\nS\u00f3 uma grande dose de m\u00e1-f\u00e9 pode encontrar correla\u00e7\u00e3o entre o novo levantamento do reduto e um poss\u00edvel desejo por parte de Santa Catarina de ampliar a sua jurisdi\u00e7\u00e3o sobre o territ\u00f3rio que est\u00e1 em lit\u00edgio no Supremo Tribunal Federal.\n\nA impertin\u00eancia injustificada e a mania de persegui\u00e7\u00e3o dos nossos vizinhos esperam arrebatar um territ\u00f3rio que sempre pertenceu a Santa Catarina conforme, por duas vezes, acaba de definir o Supremo Tribunal Federal.\n\n<strong>Tentativa de padre fracassa<\/strong>\n\nA not\u00edcia do ajuntamento dos devotos de Jos\u00e9 Maria, em dois locais, um distante do outro cerca de meio quil\u00f4metro, no reduto de Taquaru\u00e7u, bem como a sua n\u00edtida organiza\u00e7\u00e3o e treinamento militares, deixa em sobressalto a cidade de Curitibanos.\n\nNot\u00edcias alarmantes chegam de todos os lados. As autoridades municipais come\u00e7am a temer poss\u00edveis ataques dos caboclos em busca de alimentos ou de armas.\n\nAntes de solicitar a presen\u00e7a de um refor\u00e7o militar para restabelecer a tranq\u00fcilidade da regi\u00e3o, o coronel Albuquerque, superintendente de Curitibanos, convence o frei Rog\u00e9rio, agora vivendo em Curitibanos, a deslocar-se ao reduto para tentar a dissolu\u00e7\u00e3o dos acampados.\n\n<strong>Das mem\u00f3rias de frei Rog\u00e9rio:<\/strong>\n\nNo dia 8 de dezembro, \u00e0s 10h da noite, cheguei debaixo de uma chuva torrencial \u00e0 casa de Praxedes Gomes Damasceno. Disseram-me que o grupo de Euz\u00e9bio estava ali a dois quil\u00f4metros, organizado ao redor da casa de Chico Ventura. \u00c0s 7h do dia 9, com quatro pessoas, consigo entrar no acampamento. Exponho o motivo da minha visita.\n\nEu vos considero como meus filhos. Quero bem a v\u00f3s todos. At\u00e9 estou pronto a dar a minha vida por v\u00f3s. Convido-vos para assistir \u00e0 Santa Missa e, depois, cada um volte para a sua casa.\n\n.A demorada entrevista se mostra in\u00fatil. Euz\u00e9bio e o filho Manoel se recusam a desfazer o acampamento.\n\n<strong>Continua o frade:<\/strong>\n\nDirigi-me a algumas mulheres pedindo que, por amor aos seus filhinhos, se retirassem. Replicou uma delas:\n\n\u2013 Se morrermos, morreremos na f\u00e9 de Deus.\n\nMontei na mula, dirigindo-me, ainda uma vez, a Euz\u00e9bio:\n\n\u2013 Se o senhor n\u00e3o quiser aceitar meus conselhos, digo-lhe o \u00faltimo adeus, porque o senhor morrer\u00e1.\n\n<strong>Rem\u00e9dios in\u00fateis<\/strong>\n\nOs \u00f3rg\u00e3os de Seguran\u00e7a do Ex\u00e9rcito nacional v\u00eaem o ressurgimento do reduto de Taquaru\u00e7u com os olhos ainda voltados sobre os destro\u00e7os da estrat\u00e9gia militar aplicada em Canudos. A nova Canudos, plantada no sert\u00e3o de Santa Catarina, deve ser cortada nas suas ra\u00edzes, tanto mais que ela est\u00e1 brotando pela segunda vez. Mas a tropa se mant\u00e9m calada, em estado de alerta, recolhida aos quart\u00e9is, \u00e0 espera da manifesta\u00e7\u00e3o concreta dos governadores de Santa Catarina ou do Paran\u00e1.\n\nEm 16 de dezembro de 1913, o presidente do Estado do Paran\u00e1, Carlos Cavalcanti, atrav\u00e9s de telegrama, despacha um recado autorit\u00e1rio ao seu vizinho do Sul.\n\nMais uma vez est\u00e1 amea\u00e7ada a paz p\u00fablica com os fatos que se est\u00e3o desenrolando nos sert\u00f5es de Taquaru\u00e7u. A \u00fanica causa que determina esses fatos e continuar\u00e1 a determinar de futuro, \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o criada pela quest\u00e3o dos limites entre os dois estados, porque ela torna incerta, hesitante e prec\u00e1ria a a\u00e7\u00e3o dos respectivos governos, em certos pontos do Contestado.\n\nAdotemos o arbitramento para dirimir a nossa contenda.\n\nNo dia seguinte, Vidal Ramos devolve o troco.\n\nPermita que eu manifeste o meu desacordo quanto \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que a causa \u00fanica das lament\u00e1veis ocorr\u00eancias, que v\u00eam perturbar a tranq\u00fcilidade das popula\u00e7\u00f5es dos nossos dois estados, seja a velha quest\u00e3o de limites. Em minha opini\u00e3o, esses tristes fatos t\u00eam sua origem na degradante e mesquinha condi\u00e7\u00e3o a que o analfabetismo reduz os infelizes habitantes dos nossos sert\u00f5es. Quanto ao arbitramento, s\u00e9rios motivos me levam a discordar desse processo, em se tratando de pleitos ainda n\u00e3o julgados definitivamente\n\nO Ex\u00e9rcito nacional e os dois governadores manejam l\u00ednguas diferentes. Estrat\u00e9gia militar, procedimentos jur\u00eddicos e a\u00e7\u00f5es do governo no campo da educa\u00e7\u00e3o, tudo no mesmo laborat\u00f3rio, s\u00e3o rem\u00e9dios inadequados para dissuadir os caboclos a abandonarem pacificamente a cidade santa que est\u00e3o construindo, sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os de S\u00e3o Jos\u00e9 Maria.\n\n<strong>Relato sobre os fan\u00e1ticos<\/strong>\n\nO coronel Zacharias de Paula Xavier, propriet\u00e1rio da Fazenda Buti\u00e1 Verde, pr\u00f3xima ao reduto do Taquaru\u00e7u, entrevistado por um jornal da Capital, presta as seguintes informa\u00e7\u00f5es:\n\n\u2013 Coronel, o que nos diz em rela\u00e7\u00e3o aos fan\u00e1ticos:\n\u2013 Eles est\u00e3o acampados em dois grupos, um a meio quil\u00f4metro do outro, chefiados por Praxedes de tal, Euz\u00e9bio e seu filho, que tem grande influ\u00eancia sobre o pessoal.\n\u2013 Qual o verdadeiro intento dos sertanejos:\n\u2013 Sei que n\u00e3o os anima ideal algum. S\u00e3o fan\u00e1ticos simplesmente, cujo desejo \u00e9 o de brigarem se forem atacados. Contam mesmo com a vit\u00f3ria, profetizada pelo filho de Euz\u00e9bio, que se diz vidente.\n\u2013 \u00c9 verdade que os fan\u00e1ticos est\u00e3o armados:\n\u2013 Sei que parte dos fan\u00e1ticos est\u00e1 armada com fac\u00f5es fabricados no Rio Negro e em Blumenau. Outra parte carrega fac\u00f5es de pau e outra tem cacetes falquejados em quatro faces com um prego na ponta. Poucos s\u00e3o os que carregam carabinas.\n\u2013 Parece que eles t\u00eam uma organiza\u00e7\u00e3o militar:\n\u2013 \u00c9 verdade. Dizem que todas as manh\u00e3s h\u00e1 exerc\u00edcios de ataque e defesa, servindo de instrutor um soldado do Ex\u00e9rcito que desertou.\n\u2013 De onde tiram os elementos para a sua subsist\u00eancia:\n\u2013 Todos eles s\u00e3o abastecidos por Euz\u00e9bio e seus lugares-tenentes, os quais alardeiam possuir 10 contos de r\u00e9is para sustentar os acampados. A verdade \u00e9 que at\u00e9 agora n\u00e3o atentaram contra a propriedade alheia. Entre eles existem, ao que consta, homens honestos e abastados.\n\n<strong>Perigo \u00e0 vista<\/strong>\n\nA not\u00edcia da presen\u00e7a, no Taquaru\u00e7u, de um grupo de seguidores do monge Jos\u00e9 Maria, reacende a movimenta\u00e7\u00e3o das autoridades civis e militares de Santa Catarina.\n\nA cada dia que passa, aumentam os boatos sobre o n\u00famero de acampados. Num primeiro momento, frei Rog\u00e9rio p\u00f4de contar entre 60 e 80 homens capazes de oferecer resist\u00eancia. Dois dias mais tarde, os fan\u00e1ticos seriam 200, pois o frade n\u00e3o viu uns tantos outros que podiam estar reunidos no acampamento n\u00e3o visitado. Uma semana decorrida, a confus\u00e3o e os boatos misturam os n\u00fameros para baixo e para cima.\n\n\u2013 Dizem alguns informantes que esse n\u00famero n\u00e3o passa de 100 homens; outros, que ele se eleva a 300.\n\nInformado atrav\u00e9s de seu compadre, coronel Francisco Ferreira de Albuquerque, superintendente municipal de Curitibanos, o governador Vidal Ramos comunica a exist\u00eancia dos caboclos acampados ao presidente do Estado do Paran\u00e1 e ao general Alberto de Abreu, inspetor da Regi\u00e3o Militar com sede em Curitiba.\n\nO governador catarinense n\u00e3o se limita apenas a expedir telegramas. No dia 9 de dezembro, o chefe de pol\u00edcia do Estado, o desembargador S\u00e1lvio Gonzaga, acompanhado por um destacamento de 60 pra\u00e7as do Regimento de Seguran\u00e7a, inicia viagem a Curitibanos. O objetivo da opera\u00e7\u00e3o \u00e9 evitar que a ignor\u00e2ncia explorada pelo banditismo produza derramamento de sangue, perturbando consideravelmente a ordem nos sert\u00f5es catarinenses.\n\nO desembargador-policial leva instru\u00e7\u00f5es positivas e severas de Vidal Ramos para, antes do emprego da for\u00e7a e da viol\u00eancia, lan\u00e7ar m\u00e3o de todos os meios poss\u00edveis para conseguir suasoriamente a dispers\u00e3o e o desarmamento dos caboclos acantonados.\n\nPlano para o ataque\n\nO coronel Vidal Ramos, governador do Estado, comunica ao general Alberto de Abreu, inspetor da Regi\u00e3o Militar com sede em Curitiba, que no lugar denominado Taquaru\u00e7u foi localizado um ajuntamento de 150 homens e 50 mulheres, a maior parte, armados.\n\nQuatro dias depois, em outro telegrama, remetido ao ministro da Justi\u00e7a e Neg\u00f3cios Interiores, Rivad\u00e1via da Cunha Corr\u00eaa, Vidal Ramos solicita do governo federal medidas eficazes para evitar que\no bando de fan\u00e1ticos, como da outra vez, tome o caminho de Palmas, ou se interne pelos sert\u00f5es de Canoinhas e Timb\u00f3.\n\nO governador catarinense toma a liberdade de sugerir que a for\u00e7a federal, dois contingentes, seja transportada pela Estrada de Ferro S\u00e3o Paulo-Rio Grande.\n\nUm destacamento deveria desembarcar na esta\u00e7\u00e3o de Rio Ca\u00e7ador para tomar a dire\u00e7\u00e3o de Curitibanos e o outro teria como destino Herval ou Capinzal e da\u00ed seguir para Campos Novos.\n\nOs dois grupos deveriam reunir-se, nas proximidades de Taquaru\u00e7u, com um outro destacamento da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina que j\u00e1 estava subindo de Florian\u00f3polis, para Lages e Curitibanos.\n\nO governo federal atende \u00e0 sugest\u00e3o do governo catarinense. De Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria, despacha dois destacamentos expedicion\u00e1rios. Os 100 homens, sob as ordens do capit\u00e3o Adalberto de Menezes, desembarcam em Rio Ca\u00e7ador, e outros 60, sob o comando do capit\u00e3o Esperidi\u00e3o de Almeida, seguem at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o do Herval.\n\nAs ordens recebidas, tanto de Curitiba quanto de Florian\u00f3polis, s\u00e3o claras: Observar os movimentos de um grupo de fan\u00e1ticos que se reuniu em Taquaru\u00e7u, mas evitar hostiliz\u00e1-lo.\n\n<strong>Marchas fora de compasso<\/strong>\n\nA marcha, via terrestre e a p\u00e9, desde Rio Ca\u00e7ador at\u00e9 Taquaru\u00e7u, da tropa do capit\u00e3o Adalberto de Menezes, convive com uma s\u00e9rie enorme de imprevistos. Primeiro, o capit\u00e3o deve bater-se com in\u00fameros contratempos para organizar o sistema de apoio que acompanhar\u00e1 o grupo.\n\nOs tropeiros e os propriet\u00e1rios das mulas levantam d\u00favidas sobre o pagamento do aluguel e a indeniza\u00e7\u00e3o dos que se perderem ou forem mortos.\n\nOs animais s\u00e3o conseguidos porque o negociante Guilherme Gaertner decide servir como fiador da opera\u00e7\u00e3o de empr\u00e9stimo. Foi muito dif\u00edcil p\u00f4r em marcha a tropa de mulas.\n\nAlgumas delas corcoveavam e disparavam com a carga que lhes era colocada sobre as costas. Acontece ainda que os soldados n\u00e3o sabem conduzir a tropa, que deveria atravessar terrenos montanhosos e praticamente sem veredas adequadas para permitir a passagem do animal carregado com a respectiva bruaca.\n\nNo trajeto, o capit\u00e3o se depara com a p\u00e9ssima qualidade dos caminhos. Os soldados equipados, em completa ordem de marcha, com o farnel de comida e demais apetrechos, desde logo, sentem-se extenuados pelas \u00edngremes subidas e descidas bastante freq\u00fcentes. A coluna \u00e9 obrigada a parar muitas vezes para aguardar que um ou outro animal desgarrado retome o trilho, ou para carreg\u00e1-lo novamente porque ele cuspiu a carga aos corcovos, diante do obst\u00e1culo que se apresentava \u00e0 sua frente.\n\n<strong>Tr\u00eas frentes da confus\u00e3o<\/strong>\n\nO plano de ataque ao Taquaru\u00e7u foi elaborado pelo capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Lebon R\u00e9gis, secret\u00e1rio-geral dos Neg\u00f3cios do Estado de Santa Catarina. Dentro do esquema, tr\u00eas destacamentos militares marchariam por veredas separadas em demanda ao ajuntamento.\n\nDo norte, a partir de Rio Ca\u00e7ador, desceriam 100 homens do capit\u00e3o Adalberto de Menezes; do sul, desde Herval-Campos Novos, subiriam os 60 soldados do capit\u00e3o Esperidi\u00e3o de Almeida; de Curitibanos, marchariam rumo noroeste, os 60 pra\u00e7as da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina, comandados pelo capit\u00e3o Euclides de Castro.\n\nAo todo eram 220 soldados bem armados e muito bem guarnecidos de armamentos, nele inclu\u00eddo algumas metralhadoras. Os tr\u00eas destacamentos trazem ordens expressas do governador Vidal Ramos:\n\nDispersar e desarmar os sertanejos sem derramamento de sangue. Em seguida, fazer incidir sobre os criminosos a a\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica da pol\u00edcia.\n\nO capit\u00e3o Esperidi\u00e3o de Almeida, na sua qualidade de oficial mais antigo, \u00e9 o comandante-geral das for\u00e7as em marcha. Os tr\u00eas destacamentos iniciam a caminhada em pin\u00e7a sobre Taquaru\u00e7u, desde Ca\u00e7ador-Campos Novos-Curitibanos. A partir de uma certa altura da marcha, nenhum dos tr\u00eas grupos disp\u00f5e de mapas, de informa\u00e7\u00f5es sobre o terreno, de garantia da colabora\u00e7\u00e3o dos guias, os vaqueanos.\n\nAntes da chegada ao reduto, a uma l\u00e9gua de dist\u00e2ncia, a tropa do capit\u00e3o Adalberto junta-se ao destacamento dos soldados da Pol\u00edcia Militar.\n\nMas os soldados do capit\u00e3o Esperidi\u00e3o de Almeida n\u00e3o se re\u00fanem aos companheiros, j\u00e1 que o comandante prefere permanecer alojado em uma fazenda das proximidades.\n\n<strong>Trapalhadas e festejos<\/strong>\n\nO destacamento da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina est\u00e1 aquartelado nas proximidades de Taquaru\u00e7u enquanto aguarda a chegada de uma for\u00e7a do Ex\u00e9rcito, sob o comando do capit\u00e3o Adalberto de Menezes.\n\nO grupo catarinense est\u00e1 constitu\u00eddo por 60 pra\u00e7as, um capit\u00e3o, um alferes e 60 civis. Tamb\u00e9m integra o destacamento o desembargador S\u00e1lvio Gonzaga, chefe de Pol\u00edcia do Estado.\n\nNo dia 27 de dezembro, os dois destacamentos, j\u00e1 agrupados, recebem correspond\u00eancia do capit\u00e3o Esperidi\u00e3o de Almeida, comandante do outro grupo e de toda a opera\u00e7\u00e3o, determinando que a marcha sobre o reduto ocorra no dia 29. E iniciaria o ataque o contingente que primeiro chegasse ao local. Para confirmar que tinham recebido a not\u00edcia sobre o dia do ataque, quatro civis s\u00e3o enviados \u00e0 fazenda onde est\u00e1 acampado o comando-geral. Os emiss\u00e1rios s\u00e3o confundidos com espi\u00f5es.\n\nOficiais e pra\u00e7as do capit\u00e3o Almeida amea\u00e7am-nos de morte e seq\u00fcestram-lhes as armas que levam.\n\nPara complicar o mapa do ataque, com a proximidade do entrevero, v\u00e1rios civis incorporados ao destacamento da Pol\u00edcia Militar, sob diferentes pretextos, desligam-se do batalh\u00e3o catarinense.\n\nA fileira de civis vai rareando a cada hora que passa e fica reduzida a 15 homens, para supremo desgosto e irrita\u00e7\u00e3o do desembargador S\u00e1lvio Gonzaga.\n\nNo dia 29, \u00e0s portas do reduto, caboclos e militares se enfrentam em inesperado tiroteio. A coluna do capit\u00e3o Adalberto \u00e9 recebida \u00e0 bala quando se aproxima de Taquaru\u00e7u. H\u00e1 troca de tiros durante tr\u00eas horas.\n\nTaquaru\u00e7u est\u00e1 defendida s\u00f3 por nove caboclos. Os outros tinham ido fazer guarda ao sul da cidade santa, pois esperavam o ataque da coluna do capit\u00e3o Esperidi\u00e3o. Um tiro de metralhadora feriu Euz\u00e9bio na perna. Os caboclos, entrincheirados, balan\u00e7am bandeiras e d\u00e3o vivas a Z\u00e9maria.\n\nO tiroteio atraiu os outros caboclos. A coluna descobre a poss\u00edvel chegada de refor\u00e7o dos caboclos. Ela sai em correria e abandona aquilo que n\u00e3o pode carregar.\n\nA derrota das for\u00e7as legais convence os fan\u00e1ticos que eles s\u00e3o invenc\u00edveis porque est\u00e3o protegidos pelo monge. A not\u00edcia se espalha por toda a regi\u00e3o e mais gente adere ao movimento dos caboclos.\n\n<strong>Retirada em ordem<\/strong>\n\nO capit\u00e3o Adalberto de Menezes rel\u00ea o relat\u00f3rio que vai encaminhar ao general Alberto de Abreu, inspetor da Regi\u00e3o Militar, sobre o ataque-surpresa dos caboclos \u00e0s for\u00e7as militares do governo.\n\nAp\u00f3s 3 horas e 40 minutos de lenta marcha, alcan\u00e7amos a casa do chefe Chico Ventura, abandonada, por\u00e9m tendo ainda aceso o fogo de lenha. Est\u00e1vamos, portanto, em pleno Taquaru\u00e7u.\n\nCont\u00e1vamos encontrar ao menos um insignificante povoado. Mas Taquaru\u00e7u n\u00e3o \u00e9 absolutamente o que se nos afigurava. De tanto repetir o nome, esper\u00e1vamos entrar em um enorme aglomerado de ranchos e acampamentos.\n\nDe repente, uma descarga de Winchester desaba sobre as nossas tropas. Um soldado cai atingido.\n\nUma enorme confus\u00e3o de nossa parte deixa escapar o prisioneiro que nos havia servido como guia para chegar at\u00e9 o reduto. Apesar do tiroteio, a for\u00e7a sob o meu comando avan\u00e7a em ordem, procurando posi\u00e7\u00e3o para melhorar o ataque e a defesa.\n\nUma incessante fuzilaria mostrou a impossibilidade de sustentar o combate. Ao toque de prepara\u00e7\u00e3o para cessar-fogo, tudo entrou em ordem, mesmo ouvindo-se o continuado estr\u00e9pito das Winchester dos fan\u00e1ticos.\n\nRespondemos com as nossas metralhadoras. Mas a luta tornou-se invi\u00e1vel, j\u00e1 que a for\u00e7a do capit\u00e3o Almeida n\u00e3o apareceu para nos auxiliar. Uma retirada em regra se impunha diante da impossibilidade de uma vit\u00f3ria, nada prov\u00e1vel, devido \u00e0 natureza do terreno e do tipo de inimigo a combater.\n\nInfelizmente tenho a registrar a morte do segundo-sargento Augusto C\u00e9sar de Oliveira, v\u00edtima de uma les\u00e3o card\u00edaca.\n\n<strong>Vit\u00f3ria do Ex\u00e9rcito Encantado<\/strong>\n\nPara os acampados no reduto de Taquaru\u00e7u, o Ex\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o havia derrotado, quase sem sangue, os inimigos do santo monge, mesmo representados por dois destacamentos militares do Ex\u00e9rcito Nacional e um da Pol\u00edcia Militar do Estado de Santa Catarina.\n\nDepois do encontro, \u00e9 voz corrente no reduto:\n\nS\u00f3 oito de n\u00f3s enfrentamos os atacantes. O resto todo estava deitado na grama esperando os &#8220;peludos&#8221;. Mas os &#8220;p\u00e9s redondos&#8221; debandaram desde o primeiro instante, com medo de nossas espadas e de nossos fac\u00f5es.\n\nA confus\u00e3o entre os soldados foi tanta que um dos nossos la\u00e7ou uma metralhadora e arrastou ela amarrada na chincha do cavalo.\n\nTamb\u00e9m servem para aumentar a auto-estima dos &#8220;soldados&#8221; do Ex\u00e9rcito Encantado outros fatos acontecidos no decorrer do enfrentamento. Durante a fuzilaria, grande parte da tropa de mulas que trazia armamento e alimenta\u00e7\u00e3o para os soldados da Pol\u00edcia Militar disparou para o meio do mato e muitos animais foram mortos pelos tiros das pr\u00f3prias for\u00e7as militares.\n\nO mais comentado \u00e9 o fato que o capit\u00e3o Euclides de Castro n\u00e3o conseguiu comandar em ordem a sua tropa, carente de qualquer instru\u00e7\u00e3o militar para exerc\u00edcio real de ataque e defesa. Na sua maior parte, os pra\u00e7as de Santa Catarina sempre estiveram em destacamentos com pouco exerc\u00edcio para enfrentar um inimigo de verdade e muito bem organizado.\n\nPor \u00faltimo, caiu prisioneiro um soldado ferido, que veio a morrer no dia seguinte. Pouco antes de morrer ele solicita:\n\nQuero que me tirem o fardamento e que me ponham roupa civil. Vou morrer paisano,\n\n<strong>Capit\u00e3o de campo limpo<\/strong>\n\nO capit\u00e3o de Ex\u00e9rcito Esperidi\u00e3o de Almeida, na qualidade de oficial mais antigo, era o comandante-geral das for\u00e7as que participaram do ataque ao reduto de Taquaru\u00e7u.\n\nNa impossibilidade de cronometrar uma opera\u00e7\u00e3o coordenada pelos tr\u00eas destacamentos militares, ficou decidido que a for\u00e7a que primeiro alcan\u00e7asse o reduto, a ela competiria romper o fogo. Portanto, n\u00e3o se tratava mais de dialogar com a lideran\u00e7a da cidade canta. Era atacar e pronto.\n\n<strong>No entanto, as ordens do ministro da Justi\u00e7a e Neg\u00f3cios Interiores e do governador Vidal Ramos eram claras:<\/strong>\u00a0procurar por todos os meios poss\u00edveis impedir o derramamento de sangue.\n\nO capit\u00e3o Esperidi\u00e3o de Almeida, por uma estranha decis\u00e3o, n\u00e3o chegou a incorporar-se aos dois destacamentos ,que acabaram sendo atacados pelo reduto. Informado da surpresa do ataque dos caboclos, o capit\u00e3o preferiu retornar a Campos Novos com o seu destacamento j\u00e1 que, segundo ele, nenhum dos vaqueanos que o acompanhava conhecia o terreno no local das opera\u00e7\u00f5es.\n\nOs vaqueanos conheciam muito bem o terreno, pois eram da regi\u00e3o.\n\nEm Curitiba, o capit\u00e3o justifica o fracasso da miss\u00e3o. N\u00e3o atacamos o reduto porque n\u00e3o ouvimos o tiroteio das for\u00e7as do capit\u00e3o Adalberto. O local era extremamente perigoso.\n\nParece que existe telepatia entre os fan\u00e1ticos. Eles tudo sabem, enquanto n\u00f3s, os atacantes, nada sabemos.\n\nTudo indica que os habitantes da regi\u00e3o est\u00e3o de acordo com esses malfeitores, j\u00e1 que nada informam sobre o reduto. Apenas dizem que s\u00e3o homens inofensivos, dominados por id\u00e9ias religiosas.\n\nO capit\u00e3o Albino Barros, do Herval, me disse que o atual movimento do Taquaru\u00e7u se parece muito com uma fita cinematogr\u00e1fica. Enquanto gritam fogo, uns correm e abandonam o bando; outros sabem que n\u00e3o h\u00e1 fogo e ficam nos seus lugares tranq\u00fcilamente.\n\nOs catarinenses est\u00e3o interessados em perturbar a ordem na zona contestada. Eles levam o terror \u00e0s autoridades paranaenses, a fim de que estas abandonem os seus postos para deixarem o campo limpo \u00e0s pretens\u00f5es de Santa Catarina sobre a posse de todo o Contestado. (O Dia, 13, janeiro, 1914).\n\n<strong>Inobserv\u00e2ncia do dever militar<\/strong>\n\nEm julho de 1915, os catarinenses tomam conhecimento de um fato bastante desagrad\u00e1vel ocorrido dentro das for\u00e7as armadas que se empenham na luta contra os rebeldes do Planalto.\n\nDezoito meses antes, mais precisamente em 13 de janeiro de 1914, o Supremo Tribunal Militar havia condenado o capit\u00e3o Esperidi\u00e3o Jos\u00e9 de Almeida a 14 meses de pris\u00e3o simples, com acr\u00e9scimo de sexta parte, pelo crime de inobserv\u00e2ncia do dever militar. O comandante do destacamento havia deixado de colaborar com uma coluna do Ex\u00e9rcito e outra da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina, que acabaram desbaratadas pelos rebeldes entocados no reduto de Taquaru\u00e7u, em 13 de dezembro de 1913.\n\nO capit\u00e3o havia recorrido da senten\u00e7a, mas o tribunal confirmou a puni\u00e7\u00e3o. O governo do Estado de Santa Catarina, um dos denunciantes, manda publicar em primeira p\u00e1gina do jornal O Dia (3, julho, 1915), os termos da senten\u00e7a confirmat\u00f3ria.\n\nO fato incriminat\u00f3rio ao comportamento do capit\u00e3o teve in\u00edcio quando a tropa do capit\u00e3o Adalberto Gon\u00e7alves de Menezes quase foi destro\u00e7ada pelos fan\u00e1ticos acampados no reduto que deveria ser tomado pela for\u00e7a das armas.\n\nMeio que justificando a vergonheira do desastre, o capit\u00e3o Adalberto, um dos derrotados, apresenta relat\u00f3rio ao general inspetor da XI Regi\u00e3o Militar, em Curitiba, comunicando que o capit\u00e3o Esperidi\u00e3o Jos\u00e9 de Almeida, com sua tropa, havia deixado de colaborar com o assalto ao reduto, uma vez que permaneceu inativo a menos de seis quil\u00f4metros do local do enfrentamento.\n\nA aus\u00eancia do refor\u00e7o acarretou perdas de vidas durante o ataque e posterior retirada das for\u00e7as militares.\n\nEm sua defesa, o capit\u00e3o incriminado alega que n\u00e3o se uniu \u00e0s for\u00e7as legais atacadas pelos fan\u00e1ticos pela falta de guias, os vaqueanos, capazes de conduzi-lo \u00e0s portas do reduto.\n\nO Supremo Tribunal Militar confirmou a senten\u00e7a, baseado numa lei da F\u00edsica: mesmo sem guias, o capit\u00e3o poderia ter-se orientado pelo tiroteio, que durou cerca de tr\u00eas horas.\n\n<strong>Parte IV<\/strong>\n\n<strong>Canh\u00f5es contra a espingarda<\/strong>\n\nA derrota das tr\u00eas colunas militares frente aos caboclos acampados no reduto de Taquaru\u00e7u desencadeia fortes estragos na auto-estima e no prest\u00edgio das For\u00e7as Armadas.\n\nO clamor \u00c9 preciso destruir Taquaru\u00e7u chega aos altos escal\u00f5es dos comandos militares que decidem p\u00f4r em movimento, rumo ao Planalto catarinense, modernas e destruidoras bocas-de-fogo.\n\nEnquanto isso, o governador Vidal Ramos recomenda a seus comandados que os caboclos sejam submetidos a meios brandos e suas\u00f3rios para que, espontaneamente, eles se dispersem.\n\nMal-decorridos 40 dias da primeira derrota, os estrategistas militares instalam canh\u00f5es e metralhadoras frente ao reduto e anulam o poder de fogo dos caboclos.\n\nTaquaru\u00e7u \u00e9 arrasado ao pre\u00e7o de quase uma centena de mortes.\n\n<strong>Carregamento seq\u00fcestrado<\/strong>\n\nNo embalo da vit\u00f3ria das for\u00e7as do Ex\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o contra as tropas militares, dias depois do combate no Taquaru\u00e7u, Praxedes Gomes Damasceno, simpatizante da causa cabocla, vai a Curitibanos com alguns dos seus amigos para um ajuste de contas.\n\nExiste alguma raz\u00e3o para explicar o gesto ousado de Praxedes. Embora simp\u00e1tico aos devotos do monge, ele continua \u00e0 frente de sua casa comercial em Taquaru\u00e7u, fora do reduto, em forte concorr\u00eancia aos neg\u00f3cios do coronel Albuquerque, superintendente do munic\u00edpio.\n\nPraxedes entende que o aprisionamento, pelo prefeito, de uma tropa de 20 mulas, com toda a carga de mantimentos e de tecidos despachados para ele de Florian\u00f3polis pela firma Hoepcke, n\u00e3o passa de um golpe comercial do concorrente desleal instalado na cidade.\n\nO coronel Albuquerque garante que tomou a decis\u00e3o de seq\u00fcestrar a carga porque no meio dela estavam escondidas seis winchesters e uma caixa de balas.\n\nSegundo a descri\u00e7\u00e3o oficial da viagem de Praxedes a Curitibanos, no dia 3 de janeiro, pelas 7h da manh\u00e3, um grupo de 21 caboclos do reduto entrou na cidade, protegido por um cerrado tiroteio.\n\n\u00c0 frente do grupo est\u00e1 o Praxedes, que conduz a bandeira branca do acampamento.\n\nA cidade reage, protegida pelos pra\u00e7as do Regimento de Seguran\u00e7a do Estado e por um grupo de civis a mando do coronel Albuquerque.\n\nDo enfrentamento entre os dois grupos resultam quatro mortos. Praxedes recebe um tiro que o fere gravemente, em conseq\u00fc\u00eancia do qual vem a falecer no dia seguinte.\n\nA bandeira branca, com a costumeira cruz verde e com as iniciais S. J. D. que, referindo-se ao monge, poderia dizer &#8220;S\u00e3o Jos\u00e9 Deus&#8221;, foi exposta na Capital do Estado para comprovar a vit\u00f3ria das for\u00e7as do governo sobre os fan\u00e1ticos que sa\u00edram de seu reduto para atacar Curitibanos.\n\nUm filho de Praxedes, informado da morte do pai, esclarece:\n\n\u2013 Sei que meu pai foi morto em Curitibanos. N\u00e3o muda nada. Ele agora faz parte do Ex\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Em vida, ele combateu com um inimigo. Agora, ele poder\u00e1 combater com 10.\n\n<strong>A voz da testemunha<\/strong>\n\nDepoimento de uma testemunha da invas\u00e3o a Curitibanos por um grupo de caboclos de Taquaru\u00e7u, comandados por Praxedes Gomes Damasceno.\n\n\u2013 Os fan\u00e1ticos nunca quiseram atacar a vila, apesar da grande animosidade deles contra o coronel Albuquerque.\n\nO Praxedes, com 24 amigos seus, recebeu informa\u00e7\u00e3o que foram apreendidos v\u00e1rios cargueiros de mercadorias de sua propriedade, comprados na Casa Hoepcke, de Florian\u00f3polis.\n\nAs mercadorias haviam sido confiscadas pela pol\u00edcia, a pretexto de que junto com elas estavam cinco espingardas winchesters.\n\nSentindo-se prejudicado nos seus neg\u00f3cios, Praxedes foi \u00e0 vila para tentar, por meios brandos e a interven\u00e7\u00e3o de amigos, resgatar o que lhe pertencia.\n\nEram mais ou menos 9h da manh\u00e3 quando o grupo entrou na vila.\n\nNa frente ia o Praxedes com uma bandeira branca na m\u00e3o. Na entrada da cidade, n\u00e3o houve disparo de um s\u00f3 tiro.\n\nO grupo parou em frente \u00e0 casa de Albuquerque. Praxedes apeia-se do cavalo. Ainda com a bandeira branca na m\u00e3o, ele estende o bra\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o ao superintendente para cumpriment\u00e1-lo.\n\nSem qualquer explica\u00e7\u00e3o, o prefeito desfecha-lhe um tiro. Outros indiv\u00edduos d\u00e3o-lhe dois tiros pelas costas.\n\nFica estabelecida a confus\u00e3o. Praxedes \u00e9 ferido gravemente. Sem nenhuma assist\u00eancia m\u00e9dica, ele morre na cadeia no dia seguinte.\n\nDois caboclos tamb\u00e9m morrem. Os outros escapam rumo ao cemit\u00e9rio velho onde se entrincheiram e continuam atirando sobre a cidade.\n\nHouve outros mortos e feridos.\n\n<strong>Armas do direito<\/strong>\n\nNa viagem a Curitibanos para reaver mercadorias compradas em Florian\u00f3polis e seq\u00fcestradas pela pol\u00edcia, Praxedes Gomes Damasceno, ferido a bala, \u00e9 feito prisioneiro.\n\nMais morto do que vivo, \u00e9 submetido a imediato interrogat\u00f3rio, pelas autoridades policiais:\n\n\u2013 Qual o motivo do ataque \u00e0 cidade:\n\u2013 Eu n\u00e3o queria atacar ningu\u00e9m. Eu s\u00f3 precisava reaver as minhas coisas aprisionadas pelo coronel Albuquerque e cobrar os preju\u00edzos sofridos.\n\u2013 Por que veio armado:\n\u2013 Vim armado e com gente armada porque sabia que, de outro jeito, as cargas n\u00e3o me seriam entregues. E eu precisava delas.\n\u2013 O senhor n\u00e3o sabia que a cidade estava protegida por uma guarni\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar:\n\u2013 Sabia. Mas o tropeiro Juca Ramos me garantiu que a guarni\u00e7\u00e3o estava com pouca gente e era at\u00e9 f\u00e1cil tomar a carga de volta.\n\u2013 A luta mantida em Taquaru\u00e7u era contra quem:\n\u2013 O nosso povo n\u00e3o quer briga. Mas est\u00e1 disposto a repelir toda a for\u00e7a do governo que aparecer por l\u00e1. Este \u00e9 o desejo do santo monge.\n\u2013 Por que na hora em que as for\u00e7as do governo come\u00e7aram a abandonar o reduto, voc\u00eas n\u00e3o atacaram:\n\u2013 Porque o menino Manoel, o nosso l\u00edder, n\u00e3o quis.\n\nFerido e esvaziado em sangue, por ordem do coronel Albuquerque, Praxedes foi levado para a cadeia da cidade e, ali, faleceu no dia seguinte.\n\nFrei Rog\u00e9rio quis prestar-lhe assist\u00eancia, mas n\u00e3o recebeu autoriza\u00e7\u00e3o.\n\nO superintendente municipal de Curitibanos n\u00e3o gostava de Praxedes Gon\u00e7alves Damasceno, pois o armaz\u00e9m dele, em Taquaru\u00e7u, era concorrente do prefeito, que tamb\u00e9m tinha armaz\u00e9m, em Curitibanos.\n\nE mais: o coronel tinha rixa com o l\u00edder dos fan\u00e1ticos desde quando Praxedes trouxe Jos\u00e9 Maria ao Taquaru\u00e7u e o acompanhou ao Irani.\n\nA rixa vinha de muito longe. O dono do armaz\u00e9m em Taquaru\u00e7u era da fac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do coronel Henrique Paes de Almeida, advers\u00e1rio de Albuquerque.\n\n<strong>Meios brandos e outros nem tanto<\/strong>\n\nO desastre do combate de Taquaru\u00e7u traz ao governo do Estado a certeza de que a interven\u00e7\u00e3o armada, pura e simples, n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para eliminar o conflito com os caboclos do Contestado.\n\nPara o governador Vidal Ramos seria preciso movimentar um novo tipo de for\u00e7as, inclusive do lado de fora das armas, para evitar que bandoleiros e criminosos mesclados entre os seguidores do monge, cada vez se tornassem em maior n\u00famero e cada vez demonstrassem mais capacidade de provocar a ordem p\u00fablica.\n\nO governador distingue muito bem o fiel seguidor do monge e o infiel infrator da Justi\u00e7a, fonte de toda a esp\u00e9cie de desordens.\n\nLogo no dia seguinte \u00e0 derrota de Taquaru\u00e7u, o secret\u00e1rio geral do Estado, Gustavo Lebon R\u00e9gis, recebe ordens para se deslocar ao Planalto e tomar as provid\u00eancias que de momento as circunst\u00e2ncias fossem aconselhando.\n\nDesde setembro do ano anterior, tamb\u00e9m se encontra na regi\u00e3o do Contestado o desembargador S\u00e1lvio de S\u00e1 Gonzaga, chefe de Pol\u00edcia do Estado.\n\nUma continuada troca de mensagens entre o governador e as duas autoridades civis demonstra que as ordens da autoridade m\u00e1xima s\u00e3o por demais claras.\n\nAntes do primeiro ataque ao Taquaru\u00e7u, em fins de dezembro, o governador recomenda a aplica\u00e7\u00e3o de &#8220;meios suas\u00f3rios&#8221;.\n\n\u2013 Os sentimentos de humanidade para com os infelizes sertanejos, as mulheres e as crian\u00e7as que, talvez, mais por ignor\u00e2ncia do que por outra causa, constituem no momento amea\u00e7a para a tranq\u00fcilidade do Planalto aconselham, antes de empregar a for\u00e7a, procurar todos os meios poss\u00edveis para dispers\u00e1-los sem derramamento de sangue. (17 de setembro).\n\nMas, ao mesmo tempo, o governador manda verificar se entre os moradores do reduto n\u00e3o se escondem criminosos ou bandidos. Sobre eles \u00e9 preciso fazer cair pelos meios adequados, a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia.\n\nDepois da inesperada derrota das for\u00e7as legalistas, nos \u00faltimos dias de dezembro, o governador catarinense continua a insistir que os seus delegados fa\u00e7am todos os esfor\u00e7os para uma tentativa bem dirigida de pacifica\u00e7\u00e3o.\n\n\u2013 Seria de grande conveni\u00eancia para a tranq\u00fcilidade da zona, a dispers\u00e3o dos fan\u00e1ticos por meios brandos, al\u00e9m de outras vantagens de ordem moral. (19 de janeiro).\n\nVidal Ramos deixa a crit\u00e9rio do secret\u00e1rio de Estado para definir quais sejam essas vantagens de ordem moral j\u00e1 que elas n\u00e3o escapar\u00e3o ao esclarecido esp\u00edrito de Lebon R\u00e9gis.\n\nA preocupa\u00e7\u00e3o humanista de Vidal Ramos sobe at\u00e9 o comandante das for\u00e7as do governo, o tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires, e pinta-lhe um desejo pacifista e bem expl\u00edcito.\n\n\u2013 Tendo encarregado o dr. Lebon de conseguir, em Campos Novos, a organiza\u00e7\u00e3o de uma miss\u00e3o para uma nova tentativa de pacifica\u00e7\u00e3o dos fan\u00e1ticos do Taquaru\u00e7u, por meios suas\u00f3rios, espero que concordeis em esperar o resultado desta tentativa para encetar qualquer movimento militar contra o reduto dos fan\u00e1ticos (18 de janeiro).\n\nO governador n\u00e3o desconhece as dificuldades dessa tentativa porque j\u00e1 fora constatada a exist\u00eancia de criminosos e bandoleiros perigosos entre os sertanejos fanatizados. No entanto, ele insiste perante o comandante:\n\n\u2013 Os meus sentimentos humanit\u00e1rios e o sincero desejo de ver o mais depressa poss\u00edvel restabelecida a tranq\u00fcilidade no Planalto, aconselham-me a lan\u00e7ar m\u00e3o mais uma vez do aludido recurso para a dispers\u00e3o do ajuntamento de sertanejos em Taquaru\u00e7u.\n\nN\u00e3o \u00e9 conhecida a resposta do comandante militar ao governador civil.\n\nMas, em 15 dias, os caboclos do Taquaru\u00e7u recebem a resposta pela boca do canh\u00e3o instalada a 600 metros do reduto.\n\n<strong>Duas dire\u00e7\u00f5es<\/strong>\n\nA frustrada investida dos tr\u00eas destacamentos militares em fins de dezembro, para acabar com o reduto de Taquaru\u00e7u, sobressaltou a opini\u00e3o p\u00fablica e a auto-estima das autoridades civis e militares, todas a exigirem uma pronta solu\u00e7\u00e3o para o problema.\n\nAs tentativas para descascar o abacaxi armado, caminham em duas dire\u00e7\u00f5es.\n\nDe um lado, os \u00f3rg\u00e3os de Seguran\u00e7a P\u00fablica e das For\u00e7as Armadas exigem um completo desmantelamento do reduto.\n\nChegam mesmo a planejar a destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos fan\u00e1ticos que promoverem qualquer tipo de rea\u00e7\u00e3o.\n\nEnquanto isso, o governador Vidal Ramos continua com a id\u00e9ia de obter a dispers\u00e3o dos acampados pela a\u00e7\u00e3o persuasiva dos conselhos e dos meios brandos e suas\u00f3rios.\n\nEm 14 de janeiro de 1914, o jornal Di\u00e1rio da Tarde, de Curitiba, cobra do governador de Santa Catarina uma interven\u00e7\u00e3o amistosa, antes de qualquer procedimento militar.\n\nAcontece que o enfrentamento no Taquaru\u00e7u, que havia obrigado as for\u00e7as militares a uma vergonhosa retirada, trouxe ao governador a convic\u00e7\u00e3o de que outras provid\u00eancias tinham que ser imediatamente desencadeadas.\n\nO primeiro impulso militar de Vidal Ramos foi o de envolver um maior n\u00famero de soldados da Pol\u00edcia Militar para impedir que os bandoleiros fan\u00e1ticos, cada dia mais perigosos\npromovessem uma total perturba\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem p\u00fablica.\n\nO Ex\u00e9rcito, por sua vez, decide agrupar um forte n\u00famero de militares, protegidos por um armamento pesado.\n\nO governo do Paran\u00e1, depois da vergonheira do Irani, prudentemente tira o corpo fora. Afinal, Taquaru\u00e7u n\u00e3o \u00e9 o Irani. O acampamento est\u00e1 situado no outro lado do Rio do Peixe, terras que sempre haviam sido administradas por Santa Catarina.\n\n<strong>Cartucho in\u00fatil<\/strong>\n\nA partir de meados de janeiro de 1914, a linguagem dos \u00f3rg\u00e3os encarregados da Seguran\u00e7a P\u00fablica proclamam ser urgente e indispens\u00e1vel a dispers\u00e3o dos sertanejos pois eles est\u00e3o movidos pela psicose de um fanatismo religioso aliciado \u00e0 criminosa sugest\u00e3o por parte de alguns bandidos conhecidos. (O Dia, 21 de janeiro de 1914).\n\nO governador de Santa Catarina ainda est\u00e1 dividido. De um lado, a press\u00e3o das For\u00e7as Armadas que exige a guerra. De outro, a imprensa de Curitiba que reclama uma &#8220;interven\u00e7\u00e3o amistosa&#8221; do povo e do governo de Santa Catarina e do Paran\u00e1 para a pacifica\u00e7\u00e3o de nossos patr\u00edcios fanatizados pelos irrespons\u00e1veis do Taquaru\u00e7u.\n\nComo \u00faltimo cartucho da paz, o coronel Henrique Rupp, de Campos Novos, determina a ida de mais um emiss\u00e1rio ao reduto na esperan\u00e7a de encontrar uma desesperada sa\u00edda para o confronto.\n\nO novo emiss\u00e1rio, Dam\u00e1sio Padilha, afamado curandeiro e benzedor, entra no &#8220;reino encantado&#8221; dos caboclos, em 21 de janeiro. Ele leva uma carta pessoal de Rupp pedindo a dispers\u00e3o dos l\u00edderes.\n\nA carta \u00e9 respondida por Euz\u00e9bio e Francisco Paes de Almeida que se prontificaram em receber a visita do coronel Rupp.\n\nA resposta n\u00e3o saiu de Taquaru\u00e7u e foi encontrada nos destro\u00e7os do reduto por ocasi\u00e3o do segundo ataque.\n\n<strong>Das declara\u00e7\u00f5es do emiss\u00e1rio:<\/strong>\n\n\u2013 Assim que cheguei ao reduto fui apresentado a um menino de 8 anos, atual chefe dos fan\u00e1ticos, filho de Ant\u00f4nio Linhares, de ra\u00e7a negra, um dos acampados.\n\nAo anoitecer, todos os homens do reduto, uns 150, entram em forma para me escutarem.\n\nPor ordem do menino, fui desarmado. Em seguida, vozes me aconselham a queimar a carta que eu trazia solicitando a dispers\u00e3o.\n\nInsisto em apresentar o documento ao menino. Nesse meio tempo, chega o pai do garoto. Ele aceita receber o papel, mas determina que seja encaminhado ao novo reduto que j\u00e1 estava em organiza\u00e7\u00e3o, em Caraguat\u00e1, meia centena de quil\u00f4metros ao norte, pr\u00f3ximo \u00e0 localidade de Rio Ca\u00e7ador.\n\nO grupo, na sua totalidade, me confirma estar disposto a bater-se com qualquer for\u00e7a que se aproximar do reduto com inten\u00e7\u00e3o de ataque.\n\nAlguns acampados, em sinal de esc\u00e1rnio, sugerem que os inimigos nunca venham com menos de 2 mil homens.\n\nAntes de regressar, consegui receber de volta o fac\u00e3o. Mas perdi uma pistola. (O Dia, 24 de janeiro de 1914).\n\n<strong>Canh\u00e3o do presidente<\/strong>\n\nOs chefes do reduto estavam reunidos e aguardando a chegada do pr\u00f3prio para conversarem. Diversas pessoas estiveram em contato com o seu Venuto e os demais respons\u00e1veis pelo reduto de Taquaru\u00e7u, mas n\u00e3o encontraram um caminho de pacifica\u00e7\u00e3o.\n\nAgora vinha um deputado do Paran\u00e1 e trazia a palavra do presidente da Rep\u00fablica.\n\nChegou cedo e foi levado para a casa do seu Venuto, onde estava sendo esperado e onde tamb\u00e9m se encontrava seu Euz\u00e9bio, com quem tinha conhecimento.\n\nO emiss\u00e1rio do governo aconselhou os chefes para que debandassem e n\u00e3o reunissem gente no reduto, porque o governo teria que destru\u00ed-lo.\n\nA r\u00e9plica foi negativa e alegaram, inclusive, que eram pac\u00edficos e s\u00f3 se defendiam. Foram as tropas do Hermes, (o presidente da Rep\u00fablica), essa foi a express\u00e3o do seu Venuto, que vieram provoc\u00e1-los.\n\n\u2013 Essas tropas est\u00e3o esperando a minha resposta. Se os senhores n\u00e3o concordarem, eles v\u00e3o atacar e destruir o reduto.\n\nA presen\u00e7a do deputado procurava apenas impedir o massacre que se avizinhava, porque a posi\u00e7\u00e3o dos chefes dos jagun\u00e7os era irredut\u00edvel: como haviam conseguido uma vit\u00f3ria no primeiro combate, esperavam repetir o feito.\n\nAs negocia\u00e7\u00f5es continuaram lentamente. Segundo o deputado, o governo daria terras para eles voltarem ao trabalho e os ajudaria,\n\n\u2013 N\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos nossas terras; o governo veio e tomou. Agora quer dar de novo.\n\u2013 O senhor n\u00e3o acha que est\u00e1 errado? Como podemos acreditar nessa promessa?\n\u2013 Tem que haver confian\u00e7a no governo. Ele far\u00e1 o que promete.\n\u2013 \u00c9, mas n\u00e3o confiamos.\n\nAs conversas continuavam e o deputado tentava mostrar a impossibilidade de eles acabarem vitoriosos.\n\nOs chefes fan\u00e1ticos procuravam protelar as conversa\u00e7\u00f5es para ver se chegavam os pr\u00f3prios que sa\u00edram com a ordem de convocar os piquetes e tentar conhecer as for\u00e7as dos peludos.\n\nFoi o deputado quem deu a informa\u00e7\u00e3o sobre a tropa. Afirmou que eram aproximadamente mil homens e que traziam metralhadora e canh\u00e3o.\n\n\u2013 Ent\u00e3o \u00e9 verdade que vamos conhecer a metralhadora e o canh\u00e3o, aqui em Taquaru\u00e7u?, perguntou seu Euz\u00e9bio. N\u00e3o era s\u00f3 conversa?\n\u2013 Tudo indica que eles v\u00e3o atacar. Est\u00e3o s\u00f3 esperando a volta do deputado. Foi isso que eles falaram.\n\nMas seu Venuto era um homem astuto e violento e, como acreditava que eles possu\u00edam a prote\u00e7\u00e3o de Deus, tinha suas d\u00favidas quanto ao ataque.\n\n\u2013 Eles est\u00e3o s\u00f3 querendo meter medo.\n\u2013 Voc\u00ea disse que eles s\u00f3 est\u00e3o esperando a volta do deputado? \u2026\n\u2013 Eles falaram isso.\n\u2013 Ent\u00e3o temos que segurar a conversa com o deputado por mais tempo. Enquanto isso, pode ser que os pr\u00f3prios voltem com os piquetes.\n\nO dia estava para terminar e as conversas continuavam. O deputado prometeu entregar 100 mil contos de r\u00e9is e ajeitar as terras depois.\n\n\u2013 \u00c9 melhor o senhor pousar aqui enquanto n\u00f3s estudamos a proposta. At\u00e9 amanh\u00e3 dar\u00e1 tempo para conhecer a opini\u00e3o dos outros. Assim seu Venuto tentava protelar a palavra final (\u2026)\n\nNo dia seguinte, os chefes voltaram \u00e0 nova reuni\u00e3o com o deputado e, desta vez, as respostas foram negativas. Sabiam pelos bombeiros (espi\u00f5es) quais as condi\u00e7\u00f5es da tropa de peludos que estava no Espinilho e o armamento que possu\u00edam.\n\nA resposta final, e isso bem tarde, terminou a conversa. Disseram que queriam conhecer o canh\u00e3o do bandido do Hermes.\n\nEles \u00e9 que vieram provocar. Viviam quietos no reduto e as for\u00e7as dos peludos \u00e9 que tinham vindo de longe para atac\u00e1-los. E por qu\u00ea? E assim justificavam suas negativas.\n\nFinalmente o deputado retirou-se sem conseguir demov\u00ea-los da decis\u00e3o, apesar de ter insistido que evitassem uma guerra desigual. (OLIVEIRA, FERNANDO OSVALDO DE, O JAGUN\u00c7O, UM EPIS\u00d3DIO DA GUERRA DO CONTESTADO, FLORIAN\u00d3POLIS, GOVERNO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, 1989)\n\n<strong>Ventos do inc\u00eandio<\/strong>\n\nA movimenta\u00e7\u00e3o a favor de uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica para o mal-estar provocado pela amea\u00e7a que representava o ajuntamento dos caboclos no Taquaru\u00e7u recebe um forte e decidido apoio de alguns l\u00edderes do Paran\u00e1.\n\nAinda em meados de janeiro, o reduto recebe a visita do deputado federal Manoel Correia Defreitas, acompanhado do coronel Ant\u00f4nio da Rocha Tico, emiss\u00e1rio do jornal Di\u00e1rio da Tarde, de Curitiba.\n\nA comitiva conta ainda com a participa\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio Cordeiro de Sampaio, Generoso Ribeiro e Firmino Melo. Os tr\u00eas tinham parentes em Taquaru\u00e7u e tinham a esperan\u00e7a de conseguir tir\u00e1-los de l\u00e1.\n\nOs negociadores s\u00e3o recebidos com toda a hospitalidade ao mesmo tempo em que conversam com os l\u00edderes e sondam opini\u00f5es. Os acampados insistem:\n\n\u2013 Se formos atacados, vai correr sangue. E muito sangue.\n\nAo mesmo tempo em que os emiss\u00e1rios paranaenses se encontram no reduto, o advogado de Curitiba, Diocleciano Martyr, d\u00e1 entrada no Supremo Tribunal Federal de um pedido de habeas-corpus em favor de Francisco Paes de Farias e mais cerca de 300 indiv\u00edduos que se dizem perseguidos pela For\u00e7a P\u00fablica e amea\u00e7ados de pris\u00e3o e morte pelas autoridades de Santa Catarina, sob o pretexto da pr\u00e1tica de ritos religiosos.\n\nO Supremo requisita informa\u00e7\u00f5es ao governador do Estado para instruir o habeas-corpus.\n\nNo alongado telegrama-resposta que remete ao venerando Tribunal, o governador abandona os proclamados sentimentos humanit\u00e1rios para com os infelizes sertanejos e enumera uma s\u00e9rie de provas para concluir que os meios brandos e suas\u00f3rios at\u00e9 ent\u00e3o empregados para tentar a dispers\u00e3o haviam se mostrado ineficazes.\n\n\u2013 Pelas informa\u00e7\u00f5es que me t\u00eam sido transmitidas em minuciosos despachos telegr\u00e1ficos, verifiquei que os sertanejos se reuniram em Taquaru\u00e7u, grande parte deles movidos por uma perigosa exalta\u00e7\u00e3o religiosa.\n\nEssa reuni\u00e3o, por\u00e9m, assumiu desde logo uma fei\u00e7\u00e3o perturbadora da ordem p\u00fablica.\n\nAl\u00e9m de estarem quase todos os sertanejos armados de carabinas, winchesters, rev\u00f3lveres, etc.; de terem estabelecido trincheiras ao longo do caminho que conduz a Taquaru\u00e7u, desde uma l\u00e9gua de dist\u00e2ncia do reduto; de terem mortalmente ferido uma das pra\u00e7as empregadas nesse servi\u00e7o; de dois ataques consecutivos \u00e0 vila de Curitibanos; dos saques que praticaram em v\u00e1rias casas comerciais; dos roubos de gado que est\u00e3o iniciando, os fan\u00e1ticos est\u00e3o fazendo constantes exerc\u00edcios militares sob as ordens de perigosos criminosos, como Benevenuto Alves de Lima e outros contra os quais existem mandatos de pris\u00e3o.\n\nFoi para impedir a pr\u00e1tica de tais atos, para restabelecer a ordem naquela long\u00ednqua zona e para a conseq\u00fcente pris\u00e3o dos criminosos que ali se acham, que o governo entendeu de seu dever tomar provid\u00eancias decisivas e en\u00e9rgicas, evitando assim conseq\u00fc\u00eancias talvez muito tristes para o Estado.\n\nO governo do Estado pretende, com as provid\u00eancias tomadas, impedir a reuni\u00e3o de indiv\u00edduos armados, que d\u00e3o guarda a criminosos, atacam as for\u00e7as encarregadas de manter a ordem p\u00fablica, assaltam audaciosamente a vila, saqueiam casas, roubam gado como j\u00e1 o fizeram e est\u00e3o fazendo os fan\u00e1ticos de Taquaru\u00e7u.\n\nO governo continua, entretanto, a fazer todos os poss\u00edveis esfor\u00e7os para conseguir a dispers\u00e3o dos sertanejos fanatizados, por meios brandos e suas\u00f3rios.\n\nO pedido de habeas-corpus \u00e9 negado.\n\nE acendeu-se o facho de um inc\u00eandio medonho.\n\n<strong>Li\u00e7\u00f5es para uma nova guerra<\/strong>\n\nA derrota de 29 de dezembro dos tr\u00eas destacamentos militares, frente aos caboclos acampados no Taquaru\u00e7u, motivou uma completa reformula\u00e7\u00e3o na estrat\u00e9gia do governo para a repeti\u00e7\u00e3o do futuro assalto ao velho ninho subversivo.\n\nO Ex\u00e9rcito Nacional conclui, de imediato, que a tarefa de comandar a nova opera\u00e7\u00e3o contra o aldeamento deveria ser entregue a um oficial de gradua\u00e7\u00e3o mais elevada e aproveitar soldados catarinenses mais familiarizados com a configura\u00e7\u00e3o do terreno da regi\u00e3o.\n\nA escolha para dirigir e executar a opera\u00e7\u00e3o recai no tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires, comandante do 54\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores de Florian\u00f3polis.\n\nO novo comandante recebeu um refor\u00e7o do 5\u00ba e do 6\u00ba regimentos do Ex\u00e9rcito, oriundos de Porto Uni\u00e3o, um deles comandado pelo capit\u00e3o Adalberto de Menezes. O capit\u00e3o Esperidi\u00e3o de Almeida, em parte respons\u00e1vel pela derrota de 29 de dezembro, foi exclu\u00eddo da opera\u00e7\u00e3o.\n\nA tropa est\u00e1 refor\u00e7ada em n\u00famero de efetivos, 750 homens; em unidades de apoio, 150 cargueiros; e com uma sec\u00e7\u00e3o de artilharia de montanha, remetida pela Capital Federal.\n\nO ponto de encontro entre os v\u00e1rios contingentes em opera\u00e7\u00e3o foi marcado para a Fazenda do Espinilho, a poucos quil\u00f4metros de Taquaru\u00e7u.\n\nTodos os soldados descansam tr\u00eas dias na fazenda para se refazerem dos inc\u00f4modos de uma longa viagem a p\u00e9, pelo Planalto, a partir de Curitibanos, de Campos Novos e de Rio Ca\u00e7ador.\n\nNo decorrer do trajeto, o comandante percebeu que a natureza reage vantajosamente contra a geometria das t\u00e1ticas de guerra. E que o caboclo, por sua vez, conhecedor dos rec\u00f4ncavos e das modalidades do terreno circundante, aproveita habilidosamente estas dificuldades para enfrentar os expedicion\u00e1rios.\n\n<strong>Granadas contra espoletas<\/strong>\n\nNo dia 8 de fevereiro de 1914, domingo, dia do Senhor, pela manh\u00e3, as for\u00e7as do governo, 750 homens e 150 cargueiros, comandadas pelo tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires, acampadas nas proximidades do reduto, iniciam a marcha do assalto sobre a vila dos fan\u00e1ticos.\n\nDepois de uma caminhada de dois quil\u00f4metros, descobrem uma patrulha dos caboclos. Ela acaba fugindo sem enfrentar os tiros dos soldados da Lei e da Ordem.\n\nLogo adiante, numa encruzilhada do caminho, acontece o primeiro encontro com os jagun\u00e7os que parecem dispostos a impedir a realiza\u00e7\u00e3o do ataque.\n\nA troca de tiros p\u00f5e o reduto em p\u00e9 de guerra e todos os acampados est\u00e3o a postos. Aqui, enfurnados nas curvas do terreno; ali, metidos nos buracos das trincheiras abertas \u00e0 margem do rio. Por toda a parte, eles est\u00e3o muito bem escondidos quando n\u00e3o se movimentam r\u00e1pido, engatilhando os bacamartes apontados bem firmes em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 estrada que conduz ao reduto.\n\nA vanguarda dos soldados legalistas consegue dirigir-se para uma eleva\u00e7\u00e3o de onde poder\u00e1 dominar a vista sobre os mirrados e desconformes casebres que comp\u00f5em a cidade santa.\n\nQuase no topo da eleva\u00e7\u00e3o, os soldados conseguem instalar estranhas pe\u00e7as de artilharia que abrem feroz bombardeio a apenas 600 metros do alvo.\n\nCanh\u00f5es e metralhadoras cospem rel\u00e2mpagos e trov\u00f5es que v\u00e3o abrindo buracos entre as ruas e sobre os ranchos de madeira cobertos de palha.\n\nE os acampados respondem com fr\u00e1gil poder de fogo cujo tiroteio n\u00e3o chega ao topo da colina. A luta entre o soldado e o caboclo, entre a montanha e a plan\u00edcie \u00e9 feroz e desproporcional, mas n\u00e3o menos acesa.\n\nA cada sil\u00eancio do canh\u00e3o ou da metralhadora para reabastecimento, ouvem-se vozes dos acampados gritando por Jos\u00e9 Maria e desafiando os soldados a descerem da colina para brigarem a ferro branco.\n\nPor toda a vila, os soldados conseguem distinguir bandeiras brancas que se movimentam. O seguidor do monge acredita que o pano sagrado tem a capacidade de abater 50 soldados cada vez que forem descritas tr\u00eas cruzes no ar. Pelas 16h, algumas casas come\u00e7am a arder.\n\nA partir do fato, os atacantes percebem que o reduto est\u00e1 sendo abandonado dentro de uma certa ordem. O vozerio que sobe pela colina indica que as mulheres parecem estar rezando, enquanto os homens lan\u00e7am ao ar o j\u00e1 cansado desafio:\n\n\u2013 P\u00e9 redondo, vem brigar comigo a ferro branco!\n\nInesperadamente cessa o tiroteio.\n\nLogo a seguir, um temporal desaba sobre a regi\u00e3o o que obriga os soldados a recolherem as armas e a se meterem nas barracas, ali mesmo, ao lado dos canh\u00f5es e metralhadoras.\n\nAo amanhecer, o reduto encontra-se vazio ou, pelo menos, sem viva alma que se movimente entre as cinzas dos ranchos.\n\nAs tropas legais iniciam o reconhecimento dos estragos provocados pelo canh\u00e3o e pela metralhadora que, pela primeira vez haviam sido postos em a\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio brasileiro.\n\nE esbarram com um espet\u00e1culo macabro. Cad\u00e1veres de homens, corpos de mulheres e de crian\u00e7as despeda\u00e7ados est\u00e3o desordenadamente distribu\u00eddos pelo terreno ensang\u00fcentado.\n\n\u2013 Era o horror! Era a tremenda obra de 150 granadas fulminantes que durante tr\u00eas horas e meia ca\u00edram sobre o aldeamento. (Peixoto, Demerval, Ra\u00edzes da rebeldia, Curitiba, Funda\u00e7\u00e3o Cultural, 1955).\n\nO toque de vit\u00f3ria foi saudado pelas ova\u00e7\u00f5es retumbantes de todos os vencedores que percorrem o acampamento vazio.\n\nOs militares n\u00e3o sabiam, mas a maior parte dos caboclos j\u00e1 havia sa\u00eddo de Taquaru\u00e7u, rumando para Caraguat\u00e1, ao Norte, um lugar mais seguro. A maioria dos seus componentes escapou de Taquaru\u00e7u durante a noite, aproveitando a chuva.\n\nForam feitos dois prisioneiros: Fabr\u00edcio Soares dos Santos e Claudina de Tal. E nada mais, al\u00e9m de cinzas e destrui\u00e7\u00f5es.\n\nO comandante vitorioso comunica ao general Alberto Ferreira de Abreu, inspetor da Regi\u00e3o Militar, em Curitiba, o exterm\u00ednio dos bandidos, e recebe como resposta:\n\n\u2013 N\u00e3o posso furtar-me ao dever de elogiar o sr. tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires e os seus bravos companheiros aos quais o Estado vizinho ficar\u00e1 devendo a tranq\u00fcilidade em seu territ\u00f3rio. Baldados foram os esfor\u00e7os empregados especialmente pelo governador catarinense para a dispers\u00e3o desse il\u00edcito e prejudicial ajuntamento no Rio Taquaru\u00e7u.\n\nO general encerra a comunica\u00e7\u00e3o com a esperan\u00e7a de poder, em breve, considerar terminada a a\u00e7\u00e3o militar nos sert\u00f5es catarinenses.\n\nGrosso engano do general! Os mortos de Taquaru\u00e7u v\u00e3o cobrar milhares de vidas, inclusive entre as For\u00e7as Armadas, durante os anos de 1914 e 1915.\n\n<strong>Franca simpatia popular<\/strong>\n\nA marcha do 54\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, de Florian\u00f3polis, at\u00e9 Curitibanos, para integrar os dois destacamentos do Ex\u00e9rcito que ser\u00e3o lan\u00e7ados na destrui\u00e7\u00e3o do reduto, foi realizada na maior ordem poss\u00edvel.\n\nA caminhada n\u00e3o registrou o menor ato de indisciplina, apesar de terem sido percorridas 51 l\u00e9guas (300 quil\u00f4metros) a p\u00e9, debaixo de chuvas, dentro do barro e em meio a calores insuport\u00e1veis do m\u00eas de janeiro.\n\nO bom humor dos 132 soldados e o seu g\u00eanio folgaz\u00e3o serviram de est\u00edmulo para suportar todas as adversidades.\n\nA m\u00e9dia de 30 quil\u00f4metros di\u00e1rios possibilitou vencer o trajeto at\u00e9 Lages em nove dias. E mais tr\u00eas dias foram gastos para percorrer o resto da estrada at\u00e9 Curitibanos.\n\nDurante a marcha foram realizados servi\u00e7os de vanguarda e explora\u00e7\u00e3o, treinamentos que a arte militar aconselha como garantia para manter o esp\u00edrito de grupo e a permanente jovialidade.\n\nEm todo o percurso, o contingente colheu not\u00edcias, as mais desencontradas, a respeito dos assim chamados jagun\u00e7os ou fan\u00e1ticos que os jovens recrutas do quartel da Capital v\u00e3o enfrentar \u00e0 bala.\n\nNos tropeiros em rota entre Lages e o Litoral catarinense com os quais o grupo entrou em contato, e at\u00e9 com pessoas de responsabilidade, foi percebida uma franca simpatia pelos caboclos acampados no reduto.\n\n<strong>Mulheres enfrentam o drag\u00e3o<\/strong>\n\nNo romance O drag\u00e3o vermelho do Contestado, de A. Sanford de Vasconcelos. O personagem Saturnino encontra-se no reduto, por acaso.\n\n\u2013 Saturnino n\u00e3o era um guerreiro.\n\nEra um m\u00fasico. Com a sensibilidade de um m\u00fasico.\n\nAcordara em sobressalto sob o ribombar das granadas, dos obuses e dos gritos hist\u00e9ricos das mulheres. Ainda estava escuro. Forte petardo destruiu-lhe um lado inteiro do fr\u00e1gil casebre.\n\nAcordara-se no meio do inferno. Sofria Taquaru\u00e7u, naquele instante, um bombardeio brutal, uma varredura de ininterrupto fogo. Que se prolongou durante horas, n\u00e3o deixando d\u00favidas quanto ao seu objetivo de um exterm\u00ednio completo.\n\nSaturnino, no meio da ensurdecedora metralha, salta para a rua. Silhuetas locomoviam-se espavoridas por entre a fuma\u00e7a e o fogo.Os estampidos aconteciam sem tr\u00e9gua.\n\nAlgumas mulheres xucras, decididas, empunhavam um porrete, ali um espeto de madeira, prontas pra lutar, possu\u00eddas de histeria e de cego fanatismo.\n\n\u2013 Viva a Monarquia. Viva S\u00e3o Jo\u00e3o Maria. Viva S\u00e3o Sebasti\u00e3o.\n\nRecebiam, como brutal resposta \u00e0s suas hist\u00e9ricas invoca\u00e7\u00f5es, o permanente ribombar da artilharia pesada.\n\nOutras mulheres, sempre fortes na sua f\u00e9, oravam e erguiam os bra\u00e7os para os c\u00e9us em busca do Ex\u00e9rcito Encantado.\n\nAcreditava-se no poder m\u00e1gico das bandeiras. Acreditava-se possu\u00edrem elas o poder de aniquilar 50 soldados cada vez que, ao agit\u00e1-las, riscassem no ar a forma\u00e7\u00e3o de tr\u00eas cruzes.\n\nAqueles bra\u00e7os femininos armados de espetos e de porretes, todos, um a um, foram tombando, os seus corpos estra\u00e7alhados aqui por explos\u00f5es, ali transpassados por bala\u00e7os.\n\nOlhando em torno, o gaiteiro viu-se rodeado por tal cen\u00e1rio horripilante e assustador.\n\n<strong>F\u00farias da montanha e do c\u00e9u<\/strong>\n\nFoi de manh\u00e3, nem bem o sol surgira, e j\u00e1 os vultos dos soldados se recortaram, em silhueta, no alto da colina. O povo do reduto, a defesa preparada, esperava.\n\nE ent\u00e3o, de repente, o canh\u00e3o cuspiu fogo e a\u00e7o, e a granada, rebentando no meio do Quadro Santo, se transformou em estrondo, pavor, morte (\u2026)\n\nDe cima do morro o canh\u00e3o estrondeou de novo, e a metralhadora varreu as choupanas de taquara e pranch\u00f5es de pinho. Gritos de mulheres e de crian\u00e7as, de gente com o ventre furado pelas balas, de gente com as pernas e os bra\u00e7os arrancados pela metralha.\n\nAs mulheres irrompiam em lamenta\u00e7\u00f5es:\n\n\u2013 A nossa igreja! Corram! Acudam! A nossa igreja t\u00e1 pegando fogo.\n\nBaldados foram os esfor\u00e7os para apagar as chamas. As t\u00e1buas secas ardiam com facilidade e o fogo se alastrou pelos casebres vizinhos. Calor e fuma\u00e7a tocaram as pessoas para fora das casas, e a metralhadora, l\u00e1 em cima, fazia a sua ca\u00e7a (\u2026)\n\nOutros proj\u00e9teis ca\u00edram onde estavam os animais. Relinchos de cavalos em p\u00e2nico se casaram ao mugir triste de bois feridos. Os c\u00e3es, gani\u00e7ando, corriam apavorados, sem poder descobrir de que lado se encontrava o caminho da fuga.\n\nMas os jagun\u00e7os n\u00e3o se atemorizaram, n\u00e3o perderam o entusiasmo e nem, tampouco, a f\u00e9.\n\n\u2013 Aqui n\u00e3o entra p\u00e9 redondo! S\u00e3o Sebasti\u00e3o t\u00e1 do nosso lado. Viva S\u00e3o Jos\u00e9 Maria.\n\u2013 Morra a Rep\u00fablica! Morra a fraqueza do governo!\n\u2013 Viva a Monarquia! Viva a coroa do Imp\u00e9rio!\n\u2013 Venha brigar a ferro branco, p\u00e9 redondo de m\u2026 !\n\nDe balde, os Doze Pares de Fran\u00e7a, atr\u00e1s das trincheiras, atiravam sem cessar. O pouco alcance de suas armas impedia-os de atingir o alvo. Al\u00e9m do mais, suas balas tinhas cruzes entalhadas no chumbo, o que lhe modificava a trajet\u00f3ria. A efic\u00e1cia era nula. Gasparino de Melo deixou de lado a winchester e foi buscar a bandeira santa de S\u00e3o Jos\u00e9 Maria.\n\nOs soldados pararam de atirar. Os oficiais haviam comandado.\n\n\u2013 Cessem o fogo. Os fan\u00e1ticos t\u00e3o se rendendo.\n\nEngano. Das trincheiras, de novo atiravam, enquanto Gasparino Melo, bem vis\u00edvel, levantava a bandeira e baixava-a outra vez. Tranq\u00fcila e compassadamente.\n\nPausadamente, Gasparino continuava a agitar o estandarte. Enquanto isso, aproveitando a folga que os soldados haviam dado, os jagun\u00e7os disparavam continuamente. Era s\u00f3 o tempo de embalar, puxar o gatilho e carregar de novo. Os canos das armas come\u00e7aram a aquecer. Os proj\u00e9teis, contudo, jamais alcan\u00e7avam a eleva\u00e7\u00e3o onde se encontravam os soldados do governo.\n\nMas n\u00e3o importava que as balas n\u00e3o os matassem. A bandeira de S\u00e3o Jos\u00e9 Maria continuava matando: 50 de cada vez.\n\nO dia inteiro o canh\u00e3o Krupp despejou destrui\u00e7\u00e3o e morte em cima do reduto. E a metralhadora, pipocando de cont\u00ednuo, n\u00e3o ficou nunca sem resposta \u2013 n\u00e3o se calaram um s\u00f3 momento os mosquet\u00f5es e as comblains dos jagun\u00e7os. Nos raros instantes de tr\u00e9gua, as mulheres socorriam os feridos. Somente os Pares de Fran\u00e7a possu\u00edam o milagroso b\u00e1lsamo de Farrabr\u00e1s, fabricado pelo monge. Para os outros, t\u00e3o-somente havia o picum\u00e3, para estancar o sangue das feridas.\n\nPenugem de p\u00f3 tamb\u00e9m servia, mas ningu\u00e9m podia ir ca\u00e7ar soc\u00f3s \u00e0quela hora. Ca\u00e7ar peludos interessava mais. Os tiros por\u00e9m, nunca atingiam o objetivo, e o recurso portanto era a bandeira do monge.\n\nGasparino Melo se cansara de agit\u00e1-la. Os Pares substitu\u00edram-no, revezando-se.\n\nAo entardecer, outros ru\u00eddos se fizeram ouvir, acompanhando o clamor da artilharia. Era a f\u00faria do c\u00e9u que tamb\u00e9m se desencadeava, em rel\u00e2mpagos e trov\u00f5es.\n\nA chuva, desabando numa verdadeira tempestade, impediu o ataque final. Junto aos soldados, um raio caiu sobre um pinheiro, fendendo a \u00e1rvore de alto a baixo.\n\nOutro rebentou no reduto, incendiando um rancho de palha. Anoiteceu chovendo. Chove a noite toda.\n\nNo dia seguinte, o arraial amanheceu em sil\u00eancio. Cessara a chuva e os caminhos estavam enlameados. Cautelosamente, armas embaladas, ouvidos atentos, os soldados avan\u00e7aram. Taquaru\u00e7u estava deserto.\n\nNenhum tiro foi disparado, voz alguma se ouvia. Por toda a parte, ru\u00edna, a mortandade; escombros e cinzas, de permeio com membros dispersos e cabe\u00e7as esfaceladas; cad\u00e1veres de bois, de cavalos e de c\u00e3es, juntamente com os horrendos e mutilados cad\u00e1veres dos jagun\u00e7os.\n\nA chuva n\u00e3o conseguira limpar a sang\u00fceira.\n\n<strong>Melhor ignorar<\/strong>\n\nA brutal e est\u00fapida destrui\u00e7\u00e3o de Taquaru\u00e7u, com mulheres e crian\u00e7as destro\u00e7adas pelos dois canh\u00f5es do Ex\u00e9rcito Nacional, foi energicamente condenada por lideran\u00e7as n\u00e3o militares tanto de Santa Catarina como do Paran\u00e1.\n\nUm dos revoltados com o epis\u00f3dio chega a dizer: Coisas houve e fatos h\u00e1 que ficam melhor quando ignorados. (Folha do Com\u00e9rcio, 25, abril, 1914).\n\nOficiais da tropa de assalto, diante dos dois canh\u00f5es, chegaram ao humor e \u00e0 ironia:\n\n\u2013 Como ser\u00e1 que os jagun\u00e7os v\u00e3o resistir diante desses dois argumentos?\n\n\u00c9 verdade, tamb\u00e9m, que o comandante da opera\u00e7\u00e3o, tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires, e alguns elementos do seu contingente demonstraram repugn\u00e2ncia em tomar parte naquele tipo de opera\u00e7\u00e3o.\n\n\u2013 Estavam convencidos de que n\u00e3o iam combater inimigos, mas arrasar, levar \u00e0 morte o reduto de pacatos e inofensivos sertanejos.\n\nAcontece que toda a tropa estava submetida pelo dever e pela rigorosa obedi\u00eancia militar, no caso, representada pelo general Alberto de Abreu.\n\nO inspetor da Regi\u00e3o Militar tinha pressa em apresentar servi\u00e7o perante os altos escal\u00f5es para reerguer a auto-estima do pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito Nacional, manchada pela vergonheira do primeiro ataque ao reduto.\n\nEst\u00e1 suficientemente provado que em &#8220;telegramas impr\u00f3prios para um general&#8221;, Alberto de Abreu exigiu a\u00e7\u00e3o de seus comandados chamando-os at\u00e9 de covardes, porque demoravam em come\u00e7ar o ataque para fulminar os caboclos.\n\nO servi\u00e7o foi muito bem-feito.\n\n\u2013 O estrago da artilharia sobre o povoado de Taquaru\u00e7u foi pavoroso. Grande n\u00famero de cad\u00e1veres, talvez uns 90, estavam com os corpos destro\u00e7ados entre bois e cavalos mortos e casas queimadas. Fazia pavor e pena o espet\u00e1culo que ent\u00e3o se desenhava aos olhos do espectador. Pavor motivado pelos destro\u00e7os humanos; pena das mulheres e das crian\u00e7as que jaziam inertes por todos os cantos do reduto.(Alves Cerqueira, m\u00e9dico da expedi\u00e7\u00e3o).\n\n<strong>Parte V<\/strong>\n\n<strong>Caraguat\u00e1:<\/strong>\u00a0sabor de vit\u00f3rias\n\nA feroz destrui\u00e7\u00e3o de Taquaru\u00e7u, a cidade santa dos caboclos, pelos canh\u00f5es das for\u00e7as militares, muda o rumo e o ritmo da vida dos acampados que buscam ref\u00fagio no reduto de Caraguat\u00e1.\n\nO comandante da nova cidade santa submete os moradores e suas fam\u00edlias a um regime de convento e de quartel. Dentro de uma vida em comum, as ora\u00e7\u00f5es, as rezas e as prociss\u00f5es entremeiam horas de r\u00edgido treinamento de t\u00e1ticas de guerra para garantir a defesa do reduto.\n\nEm 10 de mar\u00e7o de 1914, duas colunas militares marcham em dire\u00e7\u00e3o ao Caraguat\u00e1. Antes de alcan\u00e7arem o objetivo, os soldados s\u00e3o varridos pelo fogo dos caboclos.\n\nA morte de tr\u00eas dezenas de militares e um igual n\u00famero de feridos aumentam a auto-estima dos acampados. A partir do epis\u00f3dio, eles t\u00eam a prova de que o santo monge vai lev\u00e1-los a novas vit\u00f3rias.\n\n<strong>Mudan\u00e7a de rumos<\/strong>\n\nA brutal e in\u00fatil destrui\u00e7\u00e3o do reduto de Taquaru\u00e7u, em 8 e 9 de fevereiro de 1914, com dezenas de mulheres e de crian\u00e7as esfareladas pelos canh\u00f5es do Ex\u00e9rcito Nacional, muda o rumo e o ritmo da vida dos caboclos, fan\u00e1ticos seguidores do monge Jos\u00e9 Maria.\n\nNo primeiro semestre do ano, o evidente fanatismo dos acampados, movido a ora\u00e7\u00f5es, cantos e esperan\u00e7as, cede espa\u00e7o ao surgimento de uma guerrilha de ataque \u00e0s for\u00e7as armadas e, mais tarde, aos povoados da regi\u00e3o.\n\nUm pouco antes da destrui\u00e7\u00e3o de Taquaru\u00e7u, grande parte dos abrigados no acampamento resolve mover-se algumas dezenas de quil\u00f4metros mais ao Norte, para fixar-se em Caraguat\u00e1.\n\nO novo reduto estava plantado ao p\u00e9 da Serra do Espig\u00e3o, nas terras de Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos, a seis quil\u00f4metros do povoado de Perdiz Grande, que era sede do distrito de S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Na sede do distrito, no dia 20 de janeiro, os abrigados realizaram a festa em honra a S\u00e3o Sebasti\u00e3o, o padroeiro da capela.\n\nCaraguat\u00e1 est\u00e1 mais pr\u00f3ximo \u00e0 estrada de ferro e da esta\u00e7\u00e3o de Rio Ca\u00e7ador do que a dist\u00e2ncia que existe entre o Taquaru\u00e7u e a mesma via de chegada das for\u00e7as militares. Al\u00e9m disso, o novo reduto est\u00e1 protegido pela quase inexist\u00eancia de estradas, pela espessa mataria que o cerca, pelas encostas escorregadias, pelos riachos e pelas correntes de \u00e1gua, que se tornam instranspon\u00edveis com as fortes e r\u00e1pidas chuvas que desabam durante o Ver\u00e3o.\n\nA mudan\u00e7a de local para instalar o novo acampamento provoca altera\u00e7\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o e na defesa dos caboclos, em guerra com as for\u00e7as militares. O comando militat nova cidade santa \u00e9 entregue a not\u00f3rios valent\u00f5es do Contestado, entre eles o Venuto Baiano, perigoso bandido; o Joaquim Germano, pe\u00e3o ga\u00facho que se tornou jagun\u00e7o, e o Agostinho Saraiva, o Castelhano, origin\u00e1rio da fronteira uruguaia.\n\nOs acampados tamb\u00e9m mudam de t\u00e1tica para garantir a defesa do reduto: n\u00e3o mais v\u00e3o permitir que as for\u00e7as legalistas conquistem posi\u00e7\u00f5es no alto de uma colina para eliminar o acampamento, depois de intenso bombardeio.\n\nA partir dessa nova fase, do enfrentamento com armas, ao lado das rezas e da vida em comum, os jagun\u00e7os v\u00e3o ao encontro dos soldados para destro\u00e7\u00e1-los antes que instalem os canh\u00f5es e as metralhadoras que haviam aniquilado o Taquaru\u00e7u.\n\n<strong>Espi\u00e3o bem-tratado<\/strong>\n\nTaquaru\u00e7u continua um mont\u00e3o de cinzas enquanto as for\u00e7as legais, h\u00e1 quase dois meses, est\u00e3o acampadas na esta\u00e7\u00e3o de Rio Ca\u00e7ador \u00e0 espera de ordens superiores para caminhar sobre o Caraguat\u00e1, o novo reduto dos jagun\u00e7os. As ordens de ataque n\u00e3o saem dos comandos militares e provocam um forte ressentimento entre os soldado,s desejosos de retornar ao quartel protetor.\n\nAlguns militares revelam o seu mal-estar diante da in\u00e9rcia. Mas, claro, em sil\u00eancio, que a disciplina, e ainda mais em tempo de guerra, n\u00e3o permite questionar decis\u00f5es da hierarquia. L\u00e1 dentro, bem \u00e0s escondidas, \u00e9 voz corrente: Estamos perdendo um tempo enorme. Os dias que passam permitem que os bandidos tomem f\u00f4lego e preparem muito bem as defesas do reduto.\n\nForam feitas tr\u00eas tentativas para dispersar os fan\u00e1ticos em Caraguat\u00e1: uma pelo deputado paranaense Defreitas, outra pelo secret\u00e1rio do Interior de Santa Catarina, Gustavo Lebon R\u00e9gis, e outra por emiss\u00e1rios do capit\u00e3o Adalberto de Menezes. Nenhuma delas deu certo, pois os caboclos fizeram uma contraproposta que exigia um milh\u00e3o de contos de r\u00e9is, a titula\u00e7\u00e3o das terras, a derrubada dos coron\u00e9is, a restaura\u00e7\u00e3o da monarquia e a devolu\u00e7\u00e3o da vida a todos os massacrados em Taquaru\u00e7u.\n\nEnquanto isso, alguns jagun\u00e7os s\u00e3o astutos e ousados. Chegam a visitar o quartel em miss\u00e3o de espionagem. S\u00e3o os tem\u00edveis bombeiros.\n\nNa linguagem do Contestado, bombeiro \u00e9 aquele que observa atentamente os atos de outrem.\n\nO assistente do comandante e alguns oficiais bem que gostariam de meter na pris\u00e3o uns tipos desconhecidos que passam pelo quartel, fingindo grande humildade, para falar com o comandante, o tenente-coronel do Ex\u00e9rcito Jos\u00e9 Capitulino Freire Gameiro.\n\nClaro que o coronel Gameiro aplica essas amabilidades para investigar a situa\u00e7\u00e3o do reduto e descobrir o sistema de defesa instalado no novo acampamento. Ao jagun\u00e7o-bombeiro, o comandante sempre pergunta se nas adjac\u00eancias de Caraguat\u00e1 existe algum ponto elevado de onde se possa descortinar o reduto. O caboclo espertalh\u00e3o compreende qual ser\u00e1 o plano de ataque.\n\nEle n\u00e3o esqueceu a estrat\u00e9gia militar aplicada na destrui\u00e7\u00e3o do Taquaru\u00e7u.\n\n<strong>Lei do governo do c\u00e9u<\/strong>\n\nCarta de Francisco Pais de Farias, o Chico Ventura, com a data de 23 de fevereiro de 1914, ao compadre Altino Gon\u00e7alves de Farias. A carta \u00e9 verdadeira. Nela, Chico Ventura revela que est\u00e1 completamente fanatizado e empolgado.\n\nGrassas adeus aqui n\u00e3o se tem medo nem um. Participo-lhe que aqui n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feio como as not\u00edcias que corre pois quem tem medo da morte n\u00e3o \u00e0 lugar que sirva aqui.\n\nSobre s amigos n\u00e3o desejo mar de amigos nem um estamos comprindo ordem de nosso rei Jos\u00e9 Maria s\u00f3 comprimos ordem o que vier contra n\u00f3s as provid\u00eancias de deus nosso senhor e que ade valler n\u00f3s tamos aqui a irmandade cuidando de obedecer a santa religi\u00e3o pois n\u00e3o obedecemos lei de governo se n\u00e3o s\u00f3 a lei do governo do c\u00e9u lembre-se do que eu lhe disse tantas vezes que a lei que deus deixo no mundo \u00e9 a lei de rei e essa \u00e9 a que estamos e se deus quizer avemos de ver se deus quizer.\n\nNada mais aceite muitas lembran\u00e7as de n\u00f3s todos seu compadre e amigo todo o bem lhe deseja. A minha fam\u00edlia vai tudo bom grassa a deus.\n\nFa\u00e7a o favor de dar muita lembran\u00e7a para o meu padrinho Marcos Gonsalves de Farias lembre-se bem que nos primeiro governo que n\u00f3s sabia que tinha era Imp\u00e9rio e esse \u00e9 que estamos esperando e se deus quizer avemos de ter nem que chova sangue.\n\nMande-me contar algumas not\u00edcias de minha m\u00e3e e fassa o favor de dizer para ella que n\u00f3s imos todos bem grassas a deus e d\u00ea Muitas lembran\u00e7as para a comadre Clar\u00e1 e para minha mai Luiza Derfina Vebre.\n\nSe for pocivel requisitar meus jornais. Mande-me por o primeiro portador. (O Dia, Florian\u00f3polis, 6, mar\u00e7o, 1914).\n\n<strong>Venuto Baiano<\/strong>\n\nO comandante maior dos caboclos acampados em Caraguat\u00e1 \u00e9 Venuto Baiano, em torno de cujo nome formou-se uma verdadeira lenda de banditismo, de esperteza e de coragem.\n\nEm v\u00e1rias ocasi\u00f5es, a For\u00e7a P\u00fablica deixou de p\u00f4r-lhe as m\u00e3os. Ele sempre escapa, mesmo com o sacrif\u00edcio de sua escolta, que nunca \u00e9 maior do que 20 homens.\n\nA fama do comandante vem de longe.\n\nVenuto Baiano era o apelido de Benevenuto Lima, ex-marinheiro de guerra. Era da Bahia. Estava na regi\u00e3o desde o final da Revolu\u00e7\u00e3o Federalista e Campanha de Canudos. Fixou resid\u00eancia na Campina do Bode, uma fazendola na margem do Rio Tamandu\u00e1. Era amigo de Dem\u00e9trio Ramos e com ele participou das escaramu\u00e7as no Timb\u00f3 em 1905-1906. Depois que Dem\u00e9trio foi embora, para evitar persegui\u00e7\u00f5es, ficou amigo dos paranaenses.\n\nAmigo de Eus\u00e9bio Ferreira dos Santos, ele esteve em Taquaru\u00e7u entre o primeiro e o segundo ataques \u00e0 cidade-santa. Quando do segundo ataque, encontrava-se na regi\u00e3o de Canoinhas, onde foi buscar gente (e conseguiu arrebanhar mais de 100 homens), por isso n\u00e3o combateu. Exerceu o papel de instrutor da arte-de-guerra dos fan\u00e1ticos, tanto em Taquaru\u00e7u quanto em Caraguat\u00e1. Por causa disso foi declarado\ninimigo pelos paranaenses.\n\nBaiano foi o articulador entre os dois grupos de &#8220;rebeldes&#8221;, que at\u00e9 ent\u00e3o agiam separadamente. Um, no Timb\u00f3, motivado pela quest\u00e3o de limites, que tinha \u00e0 frente Conrado Grober, Bonif\u00e1cio dos Santos, Antonio Tavares e Aleixo Gon\u00e7alves de Lima. Outro, em Caraguat\u00e1, motivado pelo messianismo, que era liderado por Eus\u00e9bio Ferreira dos Santos, Elias de Moares, Alexandre de Souza, Francisco Paes de Farias e o pr\u00f3prio Venuto Baiano.\n\nDurante a constru\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro S\u00e3o Paulo-Rio Grande, ao longo do Rio do Peixe, 1907-1910, Farquhar contratou-o para integrar a for\u00e7a policial particular encarregada da seguran\u00e7a dos dirigentes da empresa e dos oper\u00e1rios da ferrovia. O grande n\u00famero de assassinatos de trabalhadores, nos quatro anos de implanta\u00e7\u00e3o dos trilhos, atribu\u00eddo at\u00e9 aos \u00edndios, \u00e9 creditado \u00e0 estranha for\u00e7a policial.\n\nEm 1911, quando, mais uma vez, a Pol\u00edcia do Paran\u00e1 invadiu o territ\u00f3rio do munic\u00edpio de Canoinhas, portanto regi\u00e3o de Santa Catarina, Venuto Baiano serviu de guia aos invasores. Nos come\u00e7os de 1914, o vaqueano dos militares paranaenses entrou para a irmandade dos fan\u00e1ticos e se tornou &#8220;comandante de briga&#8221; no Caraguat\u00e1.\n\nNas incurs\u00f5es para fora do reduto, ele n\u00e3o dorme junto com a escolta: pousa com ela. Mas, quando todos adormecem, mete-se algumas centenas de metros pela mataria adentro at\u00e9 encontrar um abrigo bem seguro.\n\nA \u00faltima. Depois que as for\u00e7as do coronel Gameiro sa\u00edram de Rio Ca\u00e7ador para enfrentar o Caraguat\u00e1, Venuto entrou na esta\u00e7\u00e3o, com seu piquete, e for\u00e7ou o telegrafista a transmitir ao Di\u00e1rio da Tarde, de Curitiba, um telegrama em que os fan\u00e1ticos se declaravam solid\u00e1rios com o Paran\u00e1 na disputa pela larga faixa de terras \u00e0 margem esquerda dos rios Negro e Igua\u00e7u.\n\nNesse tempo, no local, havia apenas a Esta\u00e7\u00e3o e o Armaz\u00e9m Gaertner, que foram as primeiras constru\u00e7\u00f5es da atual cidade de Ca\u00e7ador.\n\n<strong>Guerreira iluminada<\/strong>\n\nA menina Maria Rosa, 15 anos, filha de Elias de Sousa, o Eliazinho da Serra, no decorrer da sangreira do Contestado, ocupa um papel bastante similar ao de Anita Garibaldi na Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha.A filha do pequeno agricultor, que se tornou fan\u00e1tico, acompanhou a fam\u00edlia quando o pai decidiu entrar no reduto de Taquaru\u00e7u.\n\nAlgumas semanas antes do ataque das for\u00e7as legais, Elias de Sousa e a fam\u00edlia marcharam para o ref\u00fagio de Caraguat\u00e1.\n\nMaria Rosa n\u00e3o sabia ler nem escrever, mas falava com desembara\u00e7o. Andava com um vestido branco, enfeitado de fitas azuis e verdes e de penas de p\u00e1ssaros de todas as cores. Era ela que, nas prociss\u00f5es, marchava \u00e0 frente, carregando uma grande bandeira com a cruz verde.\n\nOs acampados consideram a jovem uma santa e algu\u00e9m que tudo sabe.\n\nDe imediato, Maria Rosa \u00e9 reconhecida como int\u00e9rprete das vontades do monge. Assume a posi\u00e7\u00e3o, d\u00e1 ordens, indica e substitui os chefes para as diversas miss\u00f5es do dia-a-dia, dentro e fora do acampamento.\n\nA personalidade da adolescente dinamiza a vida no Caraguat\u00e1 quando ela consegue a ades\u00e3o do subdelegado do distrito, do juiz de paz e de quase todos os habitantes de S\u00e3o Sebasti\u00e3o das Perdizes, proximidades do reduto.\n\nO porte esbelto e o sorriso permanente marcam a presen\u00e7a da jovem em qualquer ambiente. Mas nos momentos de tomar decis\u00e3o, ela assume a postura de uma estrategista, demonstrando conhecimentos muito superiores \u00e0 idade e ao n\u00edvel cultural em que vive.\n\nTodo o reduto conhece o epis\u00f3dio que ocorreu com Nh\u00f4ca Quadros. Um dia, o mo\u00e7o aparece no reduto para buscar a noiva ali recolhida com a fam\u00edlia. Tomado por espi\u00e3o, \u00e9 preso. Maria Rosa manda cham\u00e1-lo, j\u00e1 com a senten\u00e7a tomada. Se ele ficar companheiro, mando amar ele; se ficar contr\u00e1rio, mando degolar.\n\n<strong>Socialismo caboclo<\/strong>\n\nEm 26 de outubro de 1917, trabalhadores em armas, soldados e marinheiros comandados por L\u00eanin tomam o poder na R\u00fassia e proclamam uma nova maneira de governar, baseada em dois princ\u00edpios:\n<blockquote>\u2013 Toda a terra aos camponeses;\n\u2013 Todo o governo \u00e0 ditadura do proletariado.<\/blockquote>\nQuatro anos antes, nos sert\u00f5es do Planalto Serrano de Santa Catarina, a irmandade cabocla que vive no reduto de Caraguat\u00e1 orienta-se pela mesma filosofia.\n\nQuem tem m\u00f3i; quem n\u00e3o tem m\u00f3i tamb\u00e9m, e no fim todos ficar\u00e3o iguais?\n\nAs propriedades e os bens dos caboclos que decidem incorporar-se ao reduto s\u00e3o postos em comum. O gado e as lavouras s\u00e3o utilizados para o consumo coletivo; o dinheiro que cada um traz, entra para o bolo.\n\nOs acampados Euz\u00e9bio Ferreira dos Santos e Elias de Morais simplesmente abandonaram suas pequenas propriedades. Outros caboclos destru\u00edram e tocaram fogo nos seus casebres e nas escrituras dos terrenos.\n\nEra norma geral de comportamento no reduto:\n\n\u2013 Do que um come tudo tem que comer. Todos s\u00e3o irm\u00e3os. Ningu\u00e9m tem direito de vender nada para o outro. Tudo \u00e9 dado para todos.\n\nAs necess\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a para a ordem dentro do reduto ou para o \u00eaxito no momento do entrevero com as for\u00e7as militares eram conquistadas no dia-a-dia da vida em comum.\n\nL\u00edder, para o caboclo, \u00e9 quem apresenta determinadas destrezas como rezar, benzer, atirar, organizar estrat\u00e9gias militares para a defesa e para o ataque.\n\nNos jagun\u00e7os, n\u00e3o havia pai por filho, nem mulher por marido, segundo as palavras de Maria Alves Moreira, acampada no Caraguat\u00e1.\n\n<strong>Nuvem da salva\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\nEm princ\u00edpios de abril de 1914, o enfrentamento das for\u00e7as do governo com os &#8220;soldados&#8221; de S\u00e3o Sebasti\u00e3o est\u00e1 a ponto de explodir.\n\nElias de Morais, o comandante supremo, e Venuto Baiano, mentor das t\u00e1ticas para as opera\u00e7\u00f5es b\u00e9licas do lado dos jagun\u00e7os, concluem que o Ex\u00e9rcito Encantado da irmandade apresenta \u00f3timas condi\u00e7\u00f5es de responder ao ataque das for\u00e7as legais.\n\nS\u00e3o 3 mil homens prontos para manejar armas brancas (facas e fac\u00f5es) ou arma de tiro (rev\u00f3lver e espingardas), auxiliados por 200 caboclos mais do que peritos no manuseio de Winchesters e Mausers.\n\nMais de duas mil mulheres, maiores de 17 anos, junto com 500 crian\u00e7as, est\u00e3o prontas para, dentro da Guerra Santa da Liberta\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m fazerem frente aos 2 mil soldados que v\u00e3o iniciar a grande ca\u00e7ada.\n\nQuanto ao futuro destino de Caraguat\u00e1, os caboclos acreditam que aquela pequena nuvem branca, que sempre rodeia o acampamento, \u00e9 o pr\u00f3prio monge que protege o reduto. E, no momento oportuno, o santo Jos\u00e9 Maria vaia aparecer \u00e0 frente do ex\u00e9rcito de 3 mil homens para conduzir os seus fi\u00e9is seguidores \u00e0 vit\u00f3ria final.\n\nOs acampados na fortaleza natural de Caraguat\u00e1 n\u00e3o desejam iniciar as hostilidades e abrir o enfrentamento com as for\u00e7as militares. Mas todos eles proclamam:\n\nSe formos atacados, o Z\u00e9maria, aquela nuvem que est\u00e1 ali, vai derrotar a tropa dos peludos e dos p\u00e9s redondos.\n\nComo S\u00e3o Jos\u00e9 Maria no Irani, os caboclos desprezam a morte, pois n\u00e3o contam com a possibilidade de serem surpreendidos por ela.\n\nMorrer em combate \u00e9 passagem para ressuscitar e vencer na guerra seguinte.\n\nFora da irmandade do santo monge n\u00e3o existe salva\u00e7\u00e3o, garantem os quase 6 mil lutadores fanatizados pelo santo monge que, em forma de nuvem, protege o reduto de Caraguat\u00e1.\n\n<strong>Prisioneiro bem tratado<\/strong>\n\nArcino Zacharias da Rosa, 20 anos, foi feito prisioneiro pela tropa do Ex\u00e9rcito. Entregue \u00e0s autoridades policiais do Estado, ele est\u00e1 recolhido \u00e0 Chefatura de Pol\u00edcia da Capital.\n\nSou filho do finado Vicente Zacharias da Luz. Tenho parentes na Palho\u00e7a. Jos\u00e9 Maria da Luz e Jorge da Luz s\u00e3o meus primos.\n\nEstava eu na venda do meu amigo Pedro Carlin dos Santos quando fui aprisionado pelos fan\u00e1ticos do Caraguat\u00e1 e levado para dentro daquele reduto.\n\nAli chegando, minha cabeleira foi cortada a fac\u00e3o e, de leve, me fizeram uma cruz na testa \u00e0 ponta de faca.\n\nNo reduto, havia muita gente, muitos homens e muitas mulheres. Devido aos saques ou \u00e0s compras, havia \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de todos uma grande quantidade de roupas, fazendas, mercadorias.\n\nMeninas, as tais virgens de seis a 12 anos, que viviam quase nuas quando estavam com seus pais, agora se apresentam bastante bem vestidas.\n\nNa venda do Pedro, os fan\u00e1ticos compravam fiado, garantindo que o monge passaria por l\u00e1 e pagava tudo.\n\nA muito custo, consegui escapar de Caraguat\u00e1. Disse que ia colher milho e fugi.\n\nAntes de voltar para casa, prestei servi\u00e7o \u00e0s for\u00e7as legais em Ca\u00e7ador. N\u00e3o sei por que, o capit\u00e3o Matos Costa me aprisionou e me trouxe para a Ilha. N\u00e3o conhe\u00e7o o motivo.\n\nSempre fui muito bem tratado pelas for\u00e7as do governo, tanto pelos oficiais quanto pelos pra\u00e7as.\n\n<strong>Guerra ao governo e \u00e0 pol\u00edcia<\/strong>\n\nO capit\u00e3o Matos Costa est\u00e1 \u00e0 frente de uma coluna encarregada de proceder o reconhecimento do reduto de Caraguat\u00e1.\n\nEntre os colegas de farda, o capit\u00e3o \u00e9 reconhecido pela maneira pouco militar com que analisa o comportamento dos caboclos envolvidos na luta contra as for\u00e7as legais.\n\nO capit\u00e3o vive dizendo:\n\nEles n\u00e3o s\u00e3o inimigos da ordem e da seguran\u00e7a p\u00fablica. Apenas exigem condi\u00e7\u00f5es de ter uma vida melhor.\n\nPara convencer os escal\u00f5es superiores do Ex\u00e9rcito sobre essa nova \u00f3tica de encarar o problema do relacionamento entre os fan\u00e1ticos e a tropa legalista, o capit\u00e3o apresenta-se em Curitiba, acompanhado dos fan\u00e1ticos Jos\u00e9 Fogliese, de origem alem\u00e3, e Alfredo de tal, brasileiro.\n\nEm todas as oportunidades, os dois caboclos insistem em explicar que decidiram incorporar-se ao grupo de fan\u00e1ticos porque Benevenuto Baiano lhes garantiu que o monge havia determinado aos sertanejos que, em nome de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, eles declarassem guerra ao governo e \u00e0 pol\u00edcia. E repetem a ordem recebida:\n\nTodo aquele que fugir da guerra receber\u00e1 v\u00e1rios castigos, entre eles o de ser envolvido pelas trevas durante tr\u00eas dias.\n\nJos\u00e9 e Alfredo acrescentam ainda que seus companheiros vivem atemorizados e, por isso, obedecem cegamente a Venuto Baiano, que orienta os caboclos para enfrentar os soldados, fazendo cont\u00ednuos exerc\u00edcios de tiro e de marchas for\u00e7adas.\n\nQuase ao mesmo tempo das declara\u00e7\u00f5es em Curitiba, 80 acampados fogem do reduto de Caraguat\u00e1 e se apresentam \u00e0s autoridades paranaenses pedindo prote\u00e7\u00e3o, pois desejam retornar \u00e0 vida normal que tinham antes de unir-se ao grupo de fan\u00e1ticos.\n\n<strong>Na boca do reduto<\/strong>\n\nNo dia 6 de mar\u00e7o de 1914, duas colunas militares, entre elas soldados da Pol\u00edcia de Santa Catarina, acampadas em Rio Ca\u00e7ador, entram floresta adentro dispostas a desalojar os atrevidos moradores de Caraguat\u00e1, ref\u00fagio de muitos fan\u00e1ticos que haviam escapado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de Taquaru\u00e7u.\n\nA primeira coluna, 400 homens, e a segunda, 355, estavam sob o comando do tenente-coronel Jos\u00e9 Capitulino Freire Gameiro.\n\nTamb\u00e9m integra a tropa legal um destacamento de cavalaria, sob as ordens do capit\u00e3o Zaluar.\n\nTr\u00eas dias s\u00e3o gastos no trajeto a p\u00e9, entre a esta\u00e7\u00e3o da estrada de ferro e o local do futuro entrevero. A marcha \u00e9 lenta porque os soldados precisam mover-se por estreitas picadas e com lama\u00e7ais que, muitas vezes, se elevam acima dos joelhos.\n\nNo dia 9, pela manh\u00e3, chega a ordem do assalto. A decis\u00e3o, por escrito, \u00e9 enigm\u00e1tica. N\u00e3o v\u00e1 ela cair nas m\u00e3os dos terr\u00edveis bombeiros.\n\nAmanh\u00e3, a expedi\u00e7\u00e3o marchar\u00e1 a\u2026 hora para lugar desconhecido?.\n\nBobagem. Tivesse o coronel comandante lido o jornal O Dia, de Florian\u00f3polis, de 6 de mar\u00e7o, teria esbarrado com esta not\u00edcia:\n\nO capit\u00e3o Euclides de Castro, delegado regional de Campos Novos, declarou ter-se encontrado com um grupo de fan\u00e1ticos, dos quais aprisionou um deles, que declarou haver entre os fan\u00e1ticos de Caraguat\u00e1 uma grande anima\u00e7\u00e3o para a luta, devendo a for\u00e7a militar ser atacada duas l\u00e9guas antes de Caraguat\u00e1.\n\nComo os caboclos n\u00e3o encontram diferen\u00e7a entre a id\u00e9ia de l\u00e9gua (seis quil\u00f4metros) e quil\u00f4metro,o lugar j\u00e1 havia sido anunciado tr\u00eas dias antes: o lugar desconhecido seria exatamente a boca do reduto.\n\nAo entrar na picada que se dirige para o reduto, dois quil\u00f4metros antes da fortaleza, os soldados do governo recebem nutrido fogo pela frente e pelos lados. Os jagun\u00e7os atiram de dentro da mataria sem serem vistos.\n\nDado o toque de retroceder, as for\u00e7as legais contam o desastre. H\u00e1 28 mortos, entre eles um capit\u00e3o, um tenente e 26 pra\u00e7as; 21 soldados feridos e tr\u00eas extraviados.\n\nA tropa do governo nem chegou a descobrir onde estava plantado o &#8220;local desconhecido&#8221;, que era o reduto de Caraguat\u00e1.\n\n<strong>Carnificinas e loucuras<\/strong>\n\nNo seu livro, em preparo, A Irmandade Cabocla de Caraguat\u00e1, o historiador N\u00edlson Thom\u00e9 descreve detalhadamente o sangrento e irracional encontro armado entre os soldados e os caboclos, atrav\u00e9s do depoimento de participantes ou de estudiosos da guerra.\n\nA um quil\u00f4metro de Caraguat\u00e1, os soldados foram v\u00edtimas da primeira emboscada. Travou-se o tiroteio e eles foram desalojados e recuaram em fuga. Mais adiante, uma trincheira deles despedia balas sobre os nossos; tiroteio de parte a parte; montaram-se os canh\u00f5es e um schrapnell foi desaloj\u00e1-los, matando oito.\n\nContinu\u00e1vamos a avan\u00e7ar debaixo do tiroteio de suas emboscadas. Montam-se as metralhadoras para auxiliar a desaloj\u00e1-los das trincheiras e emboscadas. Neste andar, de onde em onde, uma emboscada ou uma trincheira?.\n\nComo a configura\u00e7\u00e3o do terreno n\u00e3o permitia bom aproveitamento das metralhadores e dos canh\u00f5es, a infantaria atacava pelos flancos da coluna, mas tamb\u00e9m com pouco sucesso. Mesmo assim, a fuzilaria travava o tiroteio na dire\u00e7\u00e3o dos seus disparos, no que era auxiliada pelas metralhadoras; a artilharia atirava sobre suas trincheiras. Os canh\u00f5es vantajosamente vomitavam morte e destrui\u00e7\u00e3o.\n\nMostrando ser profundo conhecedor de estrat\u00e9gias de guerra, no lado noroeste de Caraguat\u00e1, junto ao acesso pela estrada a Perdiz Grande, Venuto Baiano disp\u00f4s os defensores em pequenos grupos, de nove a 15 elementos cada, posicionados a cerca de 100 a 200 metros um do outro, escondidos dentro de troncos de imbuias queimadas, por tr\u00e1s de grossos pinheiros e em trincheiras rasas cavadas nas eleva\u00e7\u00f5es do terreno.\n\nOs soldados lutavam irritados, pois viam seus companheiros ser abatidos pelas Winchester e Comblaim e n\u00e3o enxergavam os caboclos. A posi\u00e7\u00e3o deles era somente conhecida pela fuma\u00e7a dos tiros de Winchester, sendo essa fuma\u00e7a o \u00fanico ponto de mira dos soldados, relatou o tenente Edgard Fac\u00f3. (Deve haver equ\u00edvoco neste relato, pois o disparo de Winchester n\u00e3o forma fuma\u00e7a, mas sim o de Comblaim).\n\nPor volta das 13h, quando conseguiu chegar no passo do Arroio Canhada Funda, a cerca de 500 metros do quadro santo de Caraguat\u00e1, a infantaria obteve permiss\u00e3o para tentar desalojar a resist\u00eancia nos flancos da coluna \u00e0 baioneta. Era o que os caboclos queriam. Na luta corpo-a-corpo, as baionetas e as espadas dos militares foram superadas pelos fac\u00f5es dos sertanejos. Estabeleceu-se a confus\u00e3o entre os soldados, que ficaram desorientados diante da inferioridade.\n\nOs soldados eram cortados, degolados e picados pelas afiadas l\u00e2minas. O Ex\u00e9rcito sentiu a carnificina at\u00e9 no seu Servi\u00e7o de Sa\u00fade, o qual, instalado na retaguarda, foi atacado por tr\u00e1s e salvo da destrui\u00e7\u00e3o pelo contingente que acompanhava o capit\u00e3o Vieira da Rosa, ap\u00f3s o que a vanguarda ainda tiroteou por alguns minutos, desalojando a \u00faltima trincheira, depois do que cessou o fogo por n\u00e3o mais responder o inimigo. Os sertanejos suspenderam o tiroteio quando viram que as for\u00e7as come\u00e7aram a se retirar, assim economizando muni\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que come\u00e7aram a festejar.\n\nDepois de seis horas de combate, por volta das 15h30min, ciente de que, se continuasse a tentar avan\u00e7ar, as for\u00e7as seriam destro\u00e7adas, o tenente-coronel Gameiro mandou tocar a corneta de cessar-fogo, decidindo parar o ataque e voltar para Perdiz Grande, levando os corpos de 28 mortos (um capit\u00e3o, um tenente, dois sargentos e 24 pra\u00e7as), os 21 soldados feridos e um sem-n\u00famero de estropiados.\n\nAli, no cemit\u00e9rio do arraial, montado o acampamento, foram sepultadas as 28 v\u00edtimas fatais e verificado que tr\u00eas soldados estavam extraviados. A expedi\u00e7\u00e3o pernoitou em Perdizes. A pequena igreja de S\u00e3o Sebasti\u00e3o serviu de hospital de sangue. Os m\u00e9dicos, durante a noite, faziam curativos, \u00e0 luz ba\u00e7a de uma velha lanterna, minorando a dor dos feridos. No dia seguinte, pela manh\u00e3, enterrou os mortos no cemit\u00e9rio do vilarejo?.\n\nDois dias depois, os caboclos dirigiram-se \u00e0 abandonada Perdiz Grande e desenterraram os soldados mortos.\n\nPara a cr\u00f4nica militar, haviam sido desenterrados os cad\u00e1veres e as carnes p\u00fatridas serviam de pasto aos porcos famintos. A jagun\u00e7ada visitara o cemit\u00e9rio improvisado, cometendo ali uma s\u00e9rie de ferocidades.\n\nEntre outras mis\u00e9rias, deceparam os dedos dos soldados para retirarem os an\u00e9is ordin\u00e1rios ou foram eles desenterrados pelos bandidos, saqueados, picados a fac\u00e3o e entregues \u00e0 saciedade de porcos!\n\nSobreviventes do combate relatam que, de verdade fizeram isso, mas, tamb\u00e9m, que a maioria dos cad\u00e1veres foi levada para as proximidades da estrada que ligava Caraguat\u00e1 a Perdiz Grande, na passagem do Arroio Caraguat\u00e1, onde foram amarrados pelo pesco\u00e7o, enforcados e pendurados em galhos de pinheiros para que o mau cheiro da putrefa\u00e7\u00e3o se espalhasse por todo o sert\u00e3o e servisse para mostrar ao Ex\u00e9rcito e \u00e0 Pol\u00edcia o que lhes aconteceriam se tentassem novamente investir contra o reduto.\n\n<strong>Luto e vingan\u00e7a<\/strong>\n\nBem no estilo da \u00e9poca, os jornais de Santa Catarina noticiam o entrevero na boca de Caraguat\u00e1, entre os caboclos do reduto e as for\u00e7as militares que est\u00e3o \u00e0 ca\u00e7a dos jagun\u00e7os.\n\nImpressionaram dolorosamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o catarinense as not\u00edcias chegadas dos sert\u00f5es onde operam as for\u00e7as legais contra os fan\u00e1ticos e os bandidos.\n\nNo combate morreram 28 militares e 21 ficaram feridos, sem contar os tr\u00eas que se encontram extraviados.\n\nO trauma do catarinense da Capital \u00e9 muito forte, uma vez que boa parte da tropa em opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 vinculada a fam\u00edlias que vivem na regi\u00e3o. A lista dos mortos inclui pessoas muito conhecidas, como o capit\u00e3o Alves Pinto, o tenente Bel\u00edsio Leite, os sargentos Adolpho Monteiro e Jo\u00e3o Nunes, al\u00e9m de v\u00e1rios pra\u00e7as, todos eles do 54\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, respeitado quartel do Ex\u00e9rcito, de Florian\u00f3polis.\n\nEm sinal de luto, as casas de divers\u00f5es n\u00e3o funcionam no dia 11. No dia 16, na Catedral Metropolitana, foi celebrada Missa de S\u00e9timo Dia, em mem\u00f3ria \u00e0s v\u00edtimas, com a presen\u00e7a do governador e das autoridades.\n\nA revolta das fam\u00edlias dos militares atingidos \u00e9 muito forte porque alguns dos mortos foram vitimados no ataque ao hospital de sangue, barraca montada \u00e0 retaguarda, em plena floresta, para atender aos soldados feridos.\n\nUma quebra frontal a todos os c\u00f3digos, sempre respeitados pelos envolvidos em qualquer tipo de guerra.\n\nA dor entre as fam\u00edlias da Capital concorre com a sede de vingan\u00e7a dos militares que participaram da opera\u00e7\u00e3o, mais uma vez recolhidos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Rio Ca\u00e7ador para se refazerem da refrega.\n\n<strong>Mais uma retirada<\/strong>\n\nA perda de meia centena de militares em opera\u00e7\u00e3o contra o reduto de Caraguat\u00e1 demonstra ao comando das opera\u00e7\u00f5es legais um tipo de &#8220;inimigo&#8221; que n\u00e3o est\u00e1 descrito nos manuais de estudo, utilizados na escolas militares, mais ou menos bem traduzidos do franc\u00eas.\n\n\u00c0 boca pequena, todos os catarinenses comentam a nova t\u00e1tica dos caboclos armados: Antes de serem varridos \u00e0 metralhadora, em Taquaru\u00e7u, os fan\u00e1ticos n\u00e3o atacavam o Ex\u00e9rcito. Agora, o fazem.\n\nClaro que \u00e9 por vingan\u00e7a pelo massacre das mulheres e das crian\u00e7as, que n\u00e3o tiveram tempo de escapar do reduto destro\u00e7ado pelos dois canh\u00f5es, colocados a poucos metros do reduto. (Folha do Com\u00e9rcio, Florian\u00f3polis, 28 de mar\u00e7o de 1914).\n\nO tenente-coronel Gameiro, comandante-geral das for\u00e7as em opera\u00e7\u00e3o contra o Caraguat\u00e1, em relat\u00f3rio ao general Alberto Ferreira de Abreu, inspetor da XI Regi\u00e3o Militar, com sede em Curitiba, n\u00e3o esconde que a expedi\u00e7\u00e3o regressou sem ter conseguido penetrar no reduto, sem poder perseguir e nem tampouco conhecer dos estragos que poderia ter causado. Para o chefe militar do desastre, o reconhecimento ao ninho dos rebeldes decorreu, &#8220;\u00e0 viva for\u00e7a&#8221;, j\u00e1 que o contingente foi atacado em caminho, dentro da mata.\n\nPelas palavras do autor do documento conhecido como Parte de Combate, o inimigo foi &#8220;levado de vencida&#8221; at\u00e9 a proximidade do acampamento. E se os militares tiveram 28 mortes, os jagun\u00e7os perderam 37 atiradores.\n\nA estranha vit\u00f3ria, narrada pelo comando das opera\u00e7\u00f5es, conclui que teria sido temer\u00e1rio o ataque final ao reduto. Isto porque os caboclos estavam dispersos nas matas, aguerridos e armados.\n\nO comandante n\u00e3o podia esconder: acontecera mais uma retirada. E pela quinta vez desde que foram iniciados os enfrentamentos.\n\n<strong>Pouco dinheiro e muita doen\u00e7a<\/strong>\n\nNo local denominado Cachoeira, dentro do territ\u00f3rio Contestado, o Paran\u00e1 conta com um forte contingente militar composto por um major, dois capit\u00e3es, dois tenentes, quatro oficiais e 180 pra\u00e7as.\n\nUm pouco distante de Cachoeira, na vizinhan\u00e7a de Calmon, est\u00e1 a sede da Fazenda dos Pardos, e nela se aloja a tropa da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina, com tr\u00eas oficiais e pouco mais de 70 pra\u00e7as.\n\nOs catarinenses decidem fazer uma visita de cortesia aos vizinhos. Afinal, os dois destacamentos podem entrar em luta, passo a passo, contra o inimigo comum: o caboclo armado que n\u00e3o se deixa ver na hora do enfrentamento. Os paranaenses oferecem um &#8220;lauto jantar&#8221; aos companheiros barrigas-verdes. Mas a gentileza n\u00e3o pode ser retribu\u00edda. Os &#8220;catarinas&#8221; est\u00e3o sem fundos.\n\nNo encontro entre os dois destacamentos, conversa vai, conversa vem, entra a quest\u00e3o dos soldos e das di\u00e1rias recebidas em tempo de guerra. Um esc\u00e2ndalo, a diferen\u00e7a. O major do Paran\u00e1 recebe uma di\u00e1ria de 10 mil r\u00e9is; o capit\u00e3o, oito mil; o tenente, seis mil, e o alferes, quatro mil. Os catarinenses ficam tristes, pois os oficiais do lado de c\u00e1 n\u00e3o recebem nenhuma vantagem, a n\u00e3o ser o miser\u00e1vel refor\u00e7o de um mil r\u00e9is por dia.\n\nDepois de Taquaru\u00e7u e Caraguat\u00e1, a maioria dos pra\u00e7as da Pol\u00edcia Militar acha-se doente. Baixaram ao hospital 28 soldados e dado parte de doentes, cinco oficiais. O contingente est\u00e1 reduzido a tr\u00eas oficiais e 70 pra\u00e7as. Muitos j\u00e1 terminaram o tempo estipulado para a miss\u00e3o de guerra e n\u00e3o querem continuar.\n\nNos Pardos, o destacamento da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina foi &#8220;dispensado&#8221; no final de mar\u00e7o pelo comandante-provis\u00f3rio da expedi\u00e7\u00e3o, tenente-coronel Adolpho de Carvalho (que substituiu a Gameiro at\u00e9 a chegada do novo comandante, general Carlos de Mesquita). Da mesma forma, as for\u00e7as do Paran\u00e1 foram convidadas a se retirar de Cachoeira. A catarinense foi para Canoinhas, e a paranaense, para Vila Nova do Timb\u00f3.\n\n<strong>Vendaval de fogo<\/strong>\n\nO tremendo sucesso do Ex\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o contra as tropas do governo, na boca do Caraguat\u00e1, sedimenta o entusiasmo da caboclada aguerrida, que resolve inundar todo o Planalto Norte.\n\nA regi\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia para a investida. As tropas da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina e do Paran\u00e1 vivem aos empurr\u00f5es e \u00e0s tropelias, j\u00e1 que o Paran\u00e1 se considera dono de uma larga faixa de terra no lado de c\u00e1 dos rios Negro e Igua\u00e7u. E entre os rios Timb\u00f3 e Paci\u00eancia, um destacamento do Ex\u00e9rcito impede o enfrentamento entre as for\u00e7as policiais dos dois estados.\n\nA guerra santa dos caboclos n\u00e3o \u00e9 mais apenas para defender o reduto. Ela se movimenta na mira da arma de fogo, que sai atirando em todas as dire\u00e7\u00f5es. Fam\u00edlias inteiras fogem.\n\nN\u00e3o existe mais o poder de pol\u00edcia ou a for\u00e7a da lei e da autoridade. E, ainda por cima, no Caraguat\u00e1, a vidente Maria Rosa anuncia que n\u00e3o est\u00e1 longe o momento em que a for\u00e7a do governo vai estar de volta.\n\nMal passadas tr\u00eas semanas do enfrentamento com as for\u00e7as legais, Caraguat\u00e1 levanta acampamento. Um dos principais motivos da retirada foi o tifo. Muitos caboclos morreram sem qualquer assist\u00eancia. Maria Rosa, qual Joana dArc, encabe\u00e7a a for\u00e7ada peregrina\u00e7\u00e3o. Fam\u00edlias de fan\u00e1ticos, a p\u00e9, a cavalo, trouxas \u00e0 cabe\u00e7a, carregam objetos ou tocam dezenas de cargueiros. O cortejo fecha com 100 homens a cavalo, para garantir a retaguarda.\n\nO novo reduto se chama Pedras Brancas, nos Campos do Bom Sossego, perto das nascentes do Rio Paci\u00eancia. Em poucos dias ergueram-se bairros inteiros de casebres improvisados de madeira.\n\nEm meados de maio, nova tropa do governo marcha sobre Caraguat\u00e1. O reduto foi encontrado vazio. A caboclada tinha sumido.\n\n<strong>Cinco contra um<\/strong>\n\nCom o vergonhoso duplo fracasso do assalto a Caraguat\u00e1, o governo federal decide entregar a opera\u00e7\u00e3o de comando pelo resgate do Contestado a um general do Ex\u00e9rcito. Em meados de abril, o general Carlos Frederico de Mesquita \u00e9 indicado pelo ministro da Guerra para ser o novo comandante. O primeiro passo da nova autoridade \u00e9 conceder uma entrevista aos jornais do Sul do Brasil.\n\n\u2013 General, qual ser\u00e1 o seu plano de a\u00e7\u00e3o?\n\u2013 A minha miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de exterm\u00ednio. Empregarei todos os meios suas\u00f3rios para chamar ao aprisco os infelizes fan\u00e1ticos.\n\u2013 E se as aten\u00e7\u00f5es pac\u00edficas n\u00e3o derem resultado?\n\u2013 Procurarei estabelecer um cerco apertado para que eles se rendam. As hostilidades das for\u00e7as sob meu comando somente romper\u00e3o se eles nos atacare.\n\u2013 Qual o efetivo das for\u00e7as que o general Mesquita presume poder organizar?\n\u2013 Talvez uns 2 mil homens, neles inclu\u00eddos tropas de infantaria de Santa Maria, esquadr\u00f5es de cavalaria de Curitiba e o 54\u00ba Batalh\u00e3o estacionado em Santa Catarina.\n\u2013 \u00c9 grande o n\u00famero de fan\u00e1ticos?\n\u2013 Tenho informa\u00e7\u00f5es que devem ser uns 400 ou 500.\n\u2013 Pouca gente para tanto soldado, n\u00e3o?\n\u2013 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Mas n\u00e3o \u00e9 a for\u00e7a num\u00e9rica que devemos atender. \u00c9 o sistema de guerrilhas no mato que os fan\u00e1ticos adotam. Al\u00e9m disso, os fan\u00e1ticos s\u00e3o audaciosos e valentes. Lan\u00e7am-se \u00e0 luta temerariamente e atacam as for\u00e7as legais at\u00e9 a fac\u00e3o. Apesar disso, tentarei, quanto for poss\u00edvel, alcan\u00e7ar a volta da normalidade de um modo bastante pac\u00edfico.\n\u2013 E se isso n\u00e3o for poss\u00edvel?\n\u2013 Ent\u00e3o procederei com energia para restabelecer a calma e a ordem nos lugares em que campeiam os fan\u00e1ticos. (O Dia, 14 de abril de 1914)\n\nO general estava completamente equivocado. O Ex\u00e9rcito Encantado j\u00e1 contava com 3 mil caboclos dispostos a conquistar a vit\u00f3ria prometida pelo santo monge.\n\n<strong>Parte VI<\/strong>\n\n<strong>O terror da vingan\u00e7a<\/strong>\n\nA Primavera de 1914 espalha o terror entre a popula\u00e7\u00e3o civil do Planalto Sul.\n\nAs for\u00e7as legalistas descobrem-se incapazes de enfrentar os bandoleiros, que se multiplicam pelas noites afora e pelos campos adentro.\n\nA vila de Curitibanos \u00e9 praticamente destru\u00edda. Lages e S\u00e3o Joaquim escapam do festival da morte, mas centenas de fam\u00edlias da borda do Planalto voam Serra abaixo, no desespero da sobreviv\u00eancia.\n\nEnquanto isso, o novo comandante das for\u00e7as militares, o general Fernando Setembrino de Carvalho, enreda-se nas malhas da pol\u00edtica e no despreparo de suas tropas para fazerem frente ao \u00f3dio posto a servi\u00e7o da vingan\u00e7a a qualquer pre\u00e7o.\n\n<strong>Guerrilha de fan\u00e1ticos e pol\u00edticos<\/strong>\n\nNos primeiros dias de setembro de 1914, o Planalto Norte de Santa Catarina \u00e9 submetido a um permanente estado de terror. Para um jornal de Florian\u00f3polis a situa\u00e7\u00e3o an\u00e1rquica dos nossos sert\u00f5es, assolados por um bando de bandoleiros fan\u00e1ticos, tornava-se cada vez mais cr\u00edtica e amea\u00e7adora. (O Dia, 11 de setembro de 1914).\n\nAs preocupa\u00e7\u00f5es dos habitantes da regi\u00e3o assentavam-se em dados evidentes. Os fan\u00e1ticos abandonavam os entrincheiramentos, espalhavam-se por toda uma vasta zona, atacavam povoados, seq\u00fcestravam alimentos e matavam a tr\u00eas por dois.\n\nNessa onda de viol\u00eancia dos novos b\u00e1rbaros, as cidades de Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria, Rio Negro, Curitibanos, Campos Novos, Canoinhas, Itai\u00f3polis (antiga Col\u00f4nia Lucena) e mais os povoados de Vila Nova do Timb\u00f3, Papanduva e Tr\u00eas Barras, sede do imperialismo norte-americano na regi\u00e3o, reclamam a prote\u00e7\u00e3o dos militares.\n\nPara complicar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o e o estado de p\u00e2nico, o inspetor da 11\u00aa Regi\u00e3o Militar, general Alberto de Abreu, j\u00e1 com substituto indicado, atribui ao governo de Santa Catarina a responsabilidade de ter entregue armamento aos guerrilheiros para atacarem o territ\u00f3rio contestado pelo Paran\u00e1.\n\nAs declara\u00e7\u00f5es da maior autoridade do Ex\u00e9rcito, com jurisdi\u00e7\u00e3o sobre o Paran\u00e1 e Santa Catarina, repercutem feio na C\u00e2mara Federal.\n\nSegundo o deputado catarinense Celso Bayma, as palavras do general n\u00e3o passam de uma agress\u00e3o irrespons\u00e1vel ao governador Vidal Ramos, que chegou a sacrificar as obras de saneamento da Capital para aplicar os recursos no combate aos fan\u00e1ticos.\n\nO general e o deputado perdem o seu tempo e apenas tentam colher aplausos entre as respectivas plat\u00e9ias do Paran\u00e1 e de Santa Catarina, uma vez que Alberto de Abreu j\u00e1 fora substitu\u00eddo pelo general Setembrino de Carvalho e em menos de 15 dias o governo de Santa Catarina seria entregue a Felipe Schmidt, tamb\u00e9m militar, e l\u00edder do Partido Republicano Catarinense. Por sinal, ex-governador entre 1898 e 1902.\n\n<strong>Convic\u00e7\u00f5es de comandante<\/strong>\n\n<strong>Depoimento do general Setembrino de Carvalho.<\/strong>\n\nEram do dom\u00ednio p\u00fablico os insucessos das expedi\u00e7\u00f5es anteriores, cujas causas eu n\u00e3o aprecio; mas em meu relat\u00f3rio, apresentado ao senhor ministro da Guerra, eu descrevo as opera\u00e7\u00f5es efetuadas pelos meus dignos camaradas que as dirigiram.\n\nFoi no Ex\u00e9rcito onde os seus efeitos repercutiram com mais intensidade, pois vimos tombar no campo da luta bravos e esperan\u00e7osos oficiais, sem o conseguimento do objetivo desejado.\n\nE como n\u00e3o \u00e9 raro ver-se a raz\u00e3o por instantes suplantada pelo erro, invers\u00e3o motivada ou pela defici\u00eancia de meios para julgamento dos fatos que nos impressionam, ou porque estes ao nosso ju\u00edzo chegam transfigurados, gerou-se a opini\u00e3o nos meios militares de que n\u00e3o era coadun\u00e1vel com as fun\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito o ato de persegui\u00e7\u00e3o aos fan\u00e1ticos, cabendo exclusivamente \u00e0s pol\u00edcias dos estados conflagrados. Como conseq\u00fc\u00eancia, chegaram-me pronunciamentos atribu\u00eddos a oficiais desta e da guarni\u00e7\u00e3o de Curitiba que, se n\u00e3o fosse eu dotado de certa fortaleza moral, me teriam compelido a desistir da empresa, solicitando demiss\u00e3o de um cargo mesmo sem ainda o ter exercido.\n\nSemelhante modo de pensar dos que julgavam deprimente ao Ex\u00e9rcito sua interven\u00e7\u00e3o contra os bandoleiros, seria perfeitamente exato se se tratasse de uma rebeldia de insignificantes conseq\u00fc\u00eancias; mas, o que o pa\u00eds inteiro presenciava era o tr\u00e1gico espet\u00e1culo atentat\u00f3rio dos seus foros de povo civilizado, espet\u00e1culo cuja a\u00e7\u00e3o se desenvolvia em um vasto cen\u00e1rio, onde os atores contavam-se por milhares.\n\nE a prova mais cabal de que a pol\u00edcia dos dois estados era impotente para derrotar os baluartes do fanatismo, consiste em que haviam sido infrut\u00edferos os esfor\u00e7os das expedi\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito que contra eles foram enviadas. N\u00e3o era l\u00edcito, pois, compartilhar dessa opini\u00e3o.\n\n<strong>Um tr\u00e1gico espet\u00e1culo<\/strong>\n\nEm 11 de setembro de 1914, o general-de-brigada Fernando Setembrino de Carvalho desembarca em Curitiba para assumir o cargo de inspetor permanente da 11\u00aa Regi\u00e3o Militar. Ao mesmo tempo, o ex-interventor militar do Cear\u00e1 \u00e9 designado, interinamente, para executar o servi\u00e7o de limpeza do Contestado e de suprimir os desordeiros que em Santa Catarina e no Paran\u00e1 atentavam contra as autoridades da Uni\u00e3o e dos dois estados.\n\nO general vem precedido de nada boa fama, desde suas interven\u00e7\u00f5es na Revolu\u00e7\u00e3o Federalista e na Campanha de Canudos.\n\nComo interventor militar no Cear\u00e1 para p\u00f4r fim ao caos instalado por quest\u00f5es de ordem interna, ele havia atra\u00eddo os rancores de uma forte camada de pol\u00edticos com prest\u00edgio nacional.\n\nDentro do Ex\u00e9rcito, o novo cargo do general tamb\u00e9m provoca constrangimentos. Grande parte dos comandantes de tropas, inclusive o general Carlos de Mesquita, que estivera no Contestado uns poucos meses antes, defende a premissa de que n\u00e3o cabe \u00e0s tropas federais e sim \u00e0s pol\u00edcias estaduais perseguir os bandoleiros que infernizam o Planalto de Santa Catarina.\n\nO general se defende e aplaude a tarefa que recebeu do Minist\u00e9rio da Guerra:\n\nO modo de pensar dos que julgam deprimente ao Ex\u00e9rcito sua interven\u00e7\u00e3o contra os bandoleiros seria perfeitamente exato se se tratasse de uma rebeldia de insignificantes conseq\u00fc\u00eancias.\n\nAcontece que o pa\u00eds inteiro presencia um tr\u00e1gico espet\u00e1culo atentat\u00f3rio aos seus foros de povo civilizado, espet\u00e1culo cuja a\u00e7\u00e3o se desenvolve em um vasto cen\u00e1rio, onde os atores contam-se por milhares.\n\nSetembrino de Carvalho aponta como prova do que afirma o fato que as pol\u00edcias de Santa Catarina e do Paran\u00e1 se haviam mostrado incapazes de liquidar os focos de fan\u00e1ticos que haviam explodido no Irani, em Taquaru\u00e7u e no Caraguat\u00e1.\n\nO general pensou mas n\u00e3o disse que o governo da Uni\u00e3o desconfiava da fidelidade das duas for\u00e7as estaduais, j\u00e1 que elas viviam se enfrentando na regi\u00e3o de Canoinhas-Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria desde os \u00faltimos anos do s\u00e9culo anterior.\n\n<strong>Autoridades novas, id\u00e9ias secretas<\/strong>\n\nA Primavera de 1914 traz modifica\u00e7\u00f5es substanciais no desenrolar da guerra entre as tropas militares e os caboclos em armas.\n\nNo dia 11 de setembro, o general Setembrino de Carvalho assume o comando das tropas federais em a\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio conflagrado, e o tamb\u00e9m militar, Felipe Schmidt, \u00e9 empossado governador de Santa Catarina no dia 28.\n\nMal terminado o m\u00eas de outubro, em Curitiba, confirma-se o boato de que o general Setembrino havia escrito uma carta ao governador catarinense. O documento confidencial \u2013 como veio a p\u00fablico, ningu\u00e9m sabe explicar \u2013 analisa o problema dos caboclos rebelados. O general comandante manifesta a opini\u00e3o que o conflito, alimentado pelos fan\u00e1ticos do monge Jos\u00e9 Maria, tem como origem dois problemas centrais: a posse das terras em que os caboclos vivem e trabalham e a quest\u00e3o dos limites entre os dois estados.\n\nSetembrino de Carvalho deseja marcar um novo rumo \u00e0 quest\u00e3o e se oferece como intermedi\u00e1rio para tentar um acordo.\n\nO governador catarinense n\u00e3o se manifesta sobre a carta recebida, mas o general confirma a expedi\u00e7\u00e3o e o destinat\u00e1rio. Dirigi ao meu amigo e companheiro de armas, coronel Felipe Schmidt, uma carta confidencial, particular, na qual externei o meu modo de apreciar, como cidad\u00e3o patriota e republicano, a situa\u00e7\u00e3o delicada dos dois estados em cujo territ\u00f3rio, contestado por ambas as partes, est\u00e3o ocorrendo grav\u00edssimos acontecimentos a que me cumpre p\u00f4r um paradeiro?. (O Dia, 31 de outubro\/13 de novembro de 1914).\n\nO coronel n\u00e3o faz eco ao general. O texto era t\u00e3o secreto que morreu nas m\u00e3os do destinat\u00e1rio.\n\n<strong>As quatro linhas do \u00f3dio<\/strong>\n\nO general Setembrino de Carvalho assume o comando geral das opera\u00e7\u00f5es militares contra os guerrilheiros do Contestado em 11 de setembro de 1914. Antes de completar os 30 dias de comando, o chefe supremo da ca\u00e7ada aos bandidos divulga o &#8220;Plano de uma pequena guerra&#8221;. O documento traz pouca ou nenhuma originalidade, uma vez que repetia, em escala maior, as t\u00e1ticas militares do frustrado assalto ao reduto de Taquaru\u00e7u, nos \u00faltimos dias de dezembro do ano anterior, e do nervoso comando do general Carlos Frederico de Mesquita, que mal se ag\u00fcentara 30 dias \u00e0 frente das tropas do Ex\u00e9rcito, em abril\/maio de 1914.\n\nPara o novo estrategista, o conjunto da tropa sob suas ordens foi dividido em quatro destacamentos denominados Linhas Norte, Sul, Leste, Oeste.\n\nAs sedes das opera\u00e7\u00f5es no teatro da guerra foram localizadas nas vilas mais populosas da respectiva regi\u00e3o conflagrada: Canoinhas, Curitibanos, Rio Negro e Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria.\n\nUma parte da tropa deveria ocupar os pontos de maior concentra\u00e7\u00e3o populacional, por onde os sertanejos costumavam comunicar-se ou abastecer-se. A outra parte, em colunas m\u00f3veis, penetraria pouco a pouco nos sert\u00f5es para localizar os rebeldes e extermin\u00e1-los. Para executar o seu projeto, o general-comandante solicita do Minist\u00e9rio da Guerra um contingente de 6 mil soldados e um sistema completo de radiotelegrafia para orientar diretamente os seus camaradas no campo das opera\u00e7\u00f5es.\n\nSetembrino de Carvalho faz ampla divulga\u00e7\u00e3o do seu plano na esperan\u00e7a que, ao tomar conhecimento dele, os guerrilheiros decidam entregar-se. Por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es ainda n\u00e3o bem contadas, o plano do general s\u00f3 foi desencadeado em janeiro de 1915, quando o \u00f3dio dos guerrilheiros contra as autoridades militares, contra os pol\u00edticos civis e contra os coron\u00e9is donos das terras tinha atingido o ponto mais alto da soma de todos os \u00f3dios.\n\n<strong>Paz na terra aos jagun\u00e7os de boa vontade<\/strong>\n\nLogo nos primeiros dias de comando, o general Setembrino de Carvalho depara-se com o estado prec\u00e1rio em que se encontram os corpos encarregados de garantir a seguran\u00e7a na regi\u00e3o. Faltam homens, armamentos, muni\u00e7\u00e3o, estrat\u00e9gias para o ataque e para a defesa.\n\nPior ainda foi descobrir o evidente contraste entre a situa\u00e7\u00e3o das tropas militares, que est\u00e3o desmotivadas, ao lado do furor com que os sertanejos espalhavam o p\u00e2nico \u00e0 vasta regi\u00e3o em conflito.\n\nDiante dos vergonhosos fracassos das tropas legais anteriores postas \u00e0 ca\u00e7a dos caboclos em armas, o novo comandante transforma-se em diplomata quando oferece uma sa\u00edda honrosa, esperando a convers\u00e3o dos jagun\u00e7os de boa vontade.\n\nDe repente, portas de bodegas, esquinas das cidades, das vilas e dos povoados, estradas de acesso aos pequenos redutos que foram nascendo depois de Caraguat\u00e1, casas de gente de bem, ch\u00e1caras e fazendas dos coron\u00e9is, tudo est\u00e1 enfeitado com um papel colorido que cont\u00e9m impresso um apelo contendo a voz do general.\n\nPena que quase 100% dos fan\u00e1ticos sejam analfabetos. Se n\u00e3o o fossem, poderiam ter lido: Dirijo um apelo aos habitantes da zona conflagrada que se acham em companhia dos fan\u00e1ticos para que se retirem, mesmo armados, para os pontos onde houver for\u00e7as, a cujos comandantes devem apresentar-se?.\n\nSetembrino de Carvalho n\u00e3o desconhece que no Planalto Norte a guerra \u00e9 dirigida contra os coron\u00e9is ladr\u00f5es de terras e contra o governo do Paran\u00e1, que d\u00e1 raz\u00e3o aos lar\u00e1pios e garante a propriedade com a for\u00e7a das armas. E ainda por cima, o novo comandante escolheu como colaboradores um grupo de civis e de policiais paranaenses, al\u00e9m de oficiais do Ex\u00e9rcito que moravam em Curitiba. Para o militar ga\u00facho, a regi\u00e3o do Contestado pertencia ao Paran\u00e1 e n\u00e3o a Santa Catarina.\n\n\u00c9 por isso que est\u00e1 escrito no Apelo : uma vez apresentado \u00e0s for\u00e7as militares, ou no pr\u00f3prio local da entrega das armas, o jagun\u00e7o arrependido receber\u00e1 meios de subsist\u00eancia at\u00e9 que o governo do Estado do Paran\u00e1 lhes d\u00ea terras, das quais se passar\u00e3o t\u00edtulos de propriedade?.\n\n<strong>Sem medo de jagun\u00e7o<\/strong>\n\nDas mem\u00f3rias do deputado estadual Enedino Ribeiro.\n\nNo dia 16 de setembro de 1914 chega a not\u00edcia a Lages que um dos mais ferozes e tem\u00edveis bandoleiros, o Castelhano, fora destacado, com numeroso bando, para atacar a nossa cidade, que seria incendiada e as fam\u00edlias desonradas.\n\nDiante da pavorosa amea\u00e7a do Castelhano e seu bando, os homens v\u00e1lidos da cidade se mobilizaram com as armas que tinham para resistir at\u00e9 a morte aos bandoleiros assassinos e ladr\u00f5es.\n\n\u00c0s nove horas da noite, tocava o sil\u00eancio e ningu\u00e9m mais podia andar pelas ruas. Al\u00e9m disso, a qualquer hora da noite, a corneta tocava o sinal de sentido, avisando a popula\u00e7\u00e3o do perigo.\n\n\u00c9 f\u00e1cil calcular o estado de alarme que se apossava das fam\u00edlias em tais momentos.\n\nCerta madrugada, chamaram o meu pai e perguntaram se ele tinha um vaqueano para guiar tr\u00eas homens at\u00e9 a trincheira atr\u00e1s do Posto Zoot\u00e9cnico.\n\nOs referidos cidad\u00e3os iriam levar muni\u00e7\u00e3o e refor\u00e7ar a guarda daquela trincheira, pois se dizia que os jagun\u00e7os atacariam a cidade ao romper do dia.\n\nPapai era um homem inv\u00e1lido. N\u00e3o havendo outra pessoa em casa para desempenhar a miss\u00e3o, me perguntaram se me atrevia a ir. Eu j\u00e1 tinha meus 15 anos.\n\nAceitei a miss\u00e3o com alegria. Levei a Winchester de meu pai e guiei os tr\u00eas homens at\u00e9 a trincheira.\n\nEu n\u00e3o tinha medo e n\u00e3o queria voltar para casa. Meu desejo era assistir ao combate. Dada a minha situa\u00e7\u00e3o de menor, tive que voltar para casa.?\n\n<strong>Golias e o pequeno pr\u00edncipe<\/strong>\n\nAs \u00faltimas semanas de setembro de 1914 espalham medos, sangues e mortes na regi\u00e3o campeira de Lages, Curitibanos, Campos Novos e nas matas de Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria, Canoinhas e Rio Negro.\n\nDois aspectos da a\u00e7\u00e3o dos bandoleiros aterrorizam as popula\u00e7\u00f5es atingidas: a ferocidade dos atacantes e a omiss\u00e3o das for\u00e7as armadas.\n\nEst\u00e1 claro para toda a regi\u00e3o envolvida na guerra que os bandidos de Golias se organizaram em duas poderosas frentes. A primeira comp\u00f5e-se de bandidos que atacam as cidades para destruir e matar.\n\nA outra \u00e9 representada pelos grupos que vivem em permanente atividade de assaltos e de pilhagens \u00e0s fazendas para recolher animais, v\u00edveres e toda a sorte de mantimentos. Claro que estes \u00faltimos grupos, conhecidos como piquetes, tamb\u00e9m matam quando encontram resist\u00eancia.\n\nOs dois setores do banditismo agem em constante comunica\u00e7\u00e3o, embora estejam espalhados dentro de um territ\u00f3rio de cerca de 10 mil quil\u00f4metros quadrados entre Lages, Curitibanos e Ca\u00e7ador. Sempre a cavalo, os rebeldes movimentam-se livremente. Portanto, s\u00f3 seria poss\u00edvel det\u00ea-los com uma for\u00e7a militar bem \u00e1gil e bem montada.\n\nAcontece que as tropas do general Setembrino de Carvalho destinadas ao Planalto Sul, integradas pelo 54\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, sediado em Florian\u00f3polis, mal somam 300 pra\u00e7as.\n\nJunto com um bisonho grupo de civis, disposto a guerrear, a tropa legalista manifesta total incapacidade de impedir a a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos bandidos.\n\nPara uma grande parte dos moradores do Planalto, o general Setembrino vive entocado em Curitiba, de bra\u00e7os cruzados. Ele esqueceu a miss\u00e3o de combater os bandidos.\n\nTudo indica que o comandante percorre um caminho alheio \u00e0 sua miss\u00e3o militar, j\u00e1 que insiste na id\u00e9ia de transformar-se em pr\u00edncipe mediador entre Santa Catarina e o Paran\u00e1 na quest\u00e3o jur\u00eddica e pol\u00edtica dos limites entre os dois estados.\n\n<strong>Mediador embrulhado<\/strong>\n\nO general Setembrino de Carvalho, comandante das opera\u00e7\u00f5es militares contra os fan\u00e1ticos guerrilheiros do Planalto, mal assume o cargo e come\u00e7a a deitar fala\u00e7\u00e3o, que lhe rendem pesados aborrecimentos.\n\nPelos fins de outubro, com apenas 30 dias \u00e0 frente do Poder Executivo catarinense, Felipe Schmidt j\u00e1 definiu que o Contestado \u00e9 uma quest\u00e3o do governo federal e que Santa Catarina daria todo o apoio, dentro de suas possibilidades.\n\nO caso dos fan\u00e1ticos, cujas conseq\u00fc\u00eancias j\u00e1 t\u00eam sido muito dolorosas, est\u00e1 entregue \u00e0 a\u00e7\u00e3o do governo federal, mas o Estado n\u00e3o pode deixar de coadjuvar, dentro de suas for\u00e7as, em tudo o que se fizer mister (Folha do Com\u00e9rcio, 26 de outubro de 1914).\n\nO general Setembrino n\u00e3o acerta o passo com o governador. O novo comandante militar entende que o movimento dos fan\u00e1ticos apresenta como d\u00ednamo a quest\u00e3o dos limites. E ele, general do Ex\u00e9rcito, tem poderes para negociar um acordo entre os dois estados.\n\nA opini\u00e3o p\u00fablica, principalmente os moradores do Planalto, reage a pedradas e fala bem alto para que o general escute, l\u00e1 de sua toca, em Curitiba:\n\nA quest\u00e3o dos limites pode ter contribu\u00eddo para o ajuntamento inicial dos grupos de bandidos. Acontece que, a partir do segundo semestre de 1914, os fan\u00e1ticos s\u00f3 tratam de saques, latroc\u00ednios, inc\u00eandios e assassinatos, que nada t\u00eam a ver com a quest\u00e3o de limites?.\n\nSegundo um jornal de Florian\u00f3polis, a miss\u00e3o do general era aniquilar os bandidos e n\u00e3o exibir-se como mediador entre os estados, envolvidos num conflito jur\u00eddico de limites. (Folha do Com\u00e9rcio, 31 de outubro de 1914). O jornal exagera. O ?conflito jur\u00eddico de limites s\u00f3 preocupava a minoria dos coron\u00e9is da Serra, temerosos de perder as imensas sesmarias ca\u00eddas do c\u00e9u e das gra\u00e7as da Santa Pol\u00edtica?.\n\n<strong>Brios de soldado ferido<\/strong>\n\nNot\u00edcias e boatos tomam conta do estado de esp\u00edrito da popula\u00e7\u00e3o e das for\u00e7as militares encarregadas da seguran\u00e7a, enquanto os bandoleiros seguidores do monge Jos\u00e9 Maria cercam a cidade de Lages, dispostos a invadi-la.\n\nNo dia 19 de novembro, um jornal que faz oposi\u00e7\u00e3o ao governo do Estado aborda o problema do medo generalizado.\n\nN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o banditismo na regi\u00e3o serrana constitui um perigo grav\u00edssimo para a popula\u00e7\u00e3o e um problema muito s\u00e9rio para o nosso Estado, que se encontra sem nenhuma possibilidade de efetuar qualquer arrecada\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios conflagrados. \u00c9 escusado pretender diminuir a raz\u00e3o do p\u00e2nico que tomou conta de todos os habitantes da Serra.\n\n\u00c9 evidente que esses homens brutais, de instintos grosseiros e dispostos a toda sorte de crimes, n\u00e3o podem deixar de apavorar. Mas \u00e9 preciso reconhecer que o medo tem sido excessivo.? (Folha do Com\u00e9rcio, 19 de novembro de 1914).\n\nEssa hist\u00f3ria de medo excessivo? provoca indigna\u00e7\u00e3o dentro dos \u00f3rg\u00e3os militares encarregados da seguran\u00e7a e do controle dos movimentos dos bandidos.\n\nOs ofendidos procuram o abrigo da imprensa para se defenderem do que entendem ter sido uma grave acusa\u00e7\u00e3o.\n\n?N\u00f3s, oficiais do 54\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, protestamos contra o gratuito ataque covardemente feito ao nosso brio de militares. Medo \u00e9 o que n\u00e3o existe aqui. E nem jamais existiu entre a oficialidade, os soldados e os civis que pegam em armas para colaborar com a defesa.?\n\nO protesto se transforma em desafio quando a oficialidade intima o jornalista da oposi\u00e7\u00e3o, ?se tiver brio?, a acompanhar as opera\u00e7\u00f5es que os militares continuadamente realizam no Alto da Serra. (O Dia, 24 de novembro de 1914).\n\nPara felicidade do jornalista convidado, em come\u00e7os de dezembro os fan\u00e1ticos suspenderam o cerco de Lages e se dirigiram para o Norte.\n\n<strong>Desentendimentos caboclos e confus\u00f5es militares<\/strong>\n\nDurante o cerco \u00e0 cidade de Lages, os l\u00edderes dos 350 fan\u00e1ticos envolvidos na opera\u00e7\u00e3o se desentendem feio. Castelhano, um dos chefes mais ousados do grupo, est\u00e1 decidido a promover a invas\u00e3o o quanto antes, mas os outros dois l\u00edderes, Paulino Pereira e Chico Ventura, se op\u00f5em a faz\u00ea-lo enquanto n\u00e3o houver certeza do \u00eaxito.\n\nPara evitar uma perigosa divis\u00e3o dentro da irmandade invasora, fica decidido: Os que quiserem ficar, ficam; os que quiserem ir que venham comigo?, teria desafiado Castelhano.\n\nCento e trinta caboclos resolvem aderir \u00e0 id\u00e9ia da imediata invas\u00e3o. Apertando o cerco para desferir o bote final, o grupo faz uma parada em uma fazenda a oito quil\u00f4metros da cidade.\n\nSem apresentar uma raz\u00e3o convincente, os rebeldes pedem licen\u00e7a ao comandante do destacamento do Ex\u00e9rcito, Dinarte de Aleluia Pires, para se dirigirem \u00e0 igreja matriz e celebrar um culto religioso. Depois, todos iriam embora sem qualquer agress\u00e3o. Claro que o estranho pedido \u00e9 recusado. Como revanche \u00e0 ousadia da proposta, um batalh\u00e3o patri\u00f3tico decide ca\u00e7ar os fan\u00e1ticos e os obriga a retroceder alguns quil\u00f4metros.\n\nChico Ventura e Paulino Ribeiro abandonam a regi\u00e3o. Mais uma vez Castelhano se op\u00f5e e fica praticamente sozinho. O guerrilheiro, atacado por um destacamento do 54\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, comandado pelo capit\u00e3o Vieira da Rosa, em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, mesmo bastante ferido, consegue escapar. Ele decide voltar para os pampas. Seu companheiro fiel, Joaquim Germano, o ?Nego Germano?, tamb\u00e9m ex-maragato, foge para a Serra do Espig\u00e3o, onde veio a ser amigo insepar\u00e1vel de Adeodato, o futuro comandante-geral dos rebeldes.\n\nNa passagem do Rio Pelotas, Castelhano, surpreendido por um piquete de civis, trava um pesado tiroteio com as for\u00e7as legais e \u00e9 morto. Lages explode em festas quando recebe como trof\u00e9u as orelhas do famigerado assassino. Un\u00e2nimes s\u00e3o os louvores que a popula\u00e7\u00e3o presta ao ?ilustre major Valgas Neves?, comandante interino do 54\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, que havia tomado a iniciativa da persegui\u00e7\u00e3o eficaz aos bandoleiros.\n\nAs homenagens ao comandante interino, que havia decidido correr atr\u00e1s do bandoleiro, foram vistas como uma ostensiva cr\u00edtica ao coronel Aleluia Pires, comandante efetivo do batalh\u00e3o.\n\nSemanas antes ele definira que sua tropa estava na regi\u00e3o para guarnecer a cidade e n\u00e3o para entrar na perigosa aventura das opera\u00e7\u00f5es ofensivas.\n\n<strong>Hino \u00e0 subvers\u00e3o<\/strong>\n\nA regi\u00e3o de Palmas, sudoeste do Paran\u00e1, noroeste de Santa Catarina, regi\u00e3o do Contestado, vive longe dos ataques dos bandoleiros que infernizam a vida dos moradores de Lages, Curitibanos e Canoinhas.\n\nMas em Palmas, quase estoura uma guerra particular por causa do Hino de Santa Catarina, aquele que abre assim: Sagremos num hino, de estrelas e flores\/Num canto sublime de gl\u00f3rias e luz\/As festas que os livres frementes de ardores\/Celebram nas terras gigantes da Cruz!?\n\nA quase guerrinha particular toma f\u00f4lego desse jeito. Os padres da cidade est\u00e3o organizando uma banda de m\u00fasica e escolhem um mestre nascido em Santa Catarina. Da\u00ed, a Philarmonica Palmense entende afinar os instrumentos e aquilatar a versatilidade dos m\u00fasicos com o Hino de Santa Catarina.\n\nA partir do fato, correm duas vers\u00f5es: uma no Paran\u00e1, outra em Santa Catarina. A m\u00fasica mal sonante para os ouvidos dos patriotas paranaenses de Palmas exigiu a interven\u00e7\u00e3o do delegado de Pol\u00edcia para, com a for\u00e7a de sua autoridade, obrigar a filarm\u00f4nica a calar-se. Caso contr\u00e1rio, baixos e trombones, clarinetes e flautins iriam transformar-se em armas de combate.\n\nNas terras de Santa Catarina correram outros sons. Ao ouvirem o seu hino, os catarinenses que vivem na cidade, e havia muitos, entravam a aplaudir a execu\u00e7\u00e3o, pedindo ?bis? e mais ?bis?.\n\nNo fim da hist\u00f3ria, com o Contestado roncando tamb\u00e9m no outro lado do Rio do Peixe, os catarinenses de Palmas, com o cora\u00e7\u00e3o rubro-verde ensopado de dores, ficaram calados, amarelos de raiva, \u00e0 espera de tempos menos beligerantes.\n\n<strong>Passaporte para o nada<\/strong>\n\nO plano de guerra do general Setembrino para isolar os guerrilheiros e venc\u00ea-los, primeiro pela fome e depois pela metralhadora, estava pronto em fins de setembro de 1914.\n\nMas a imediata marcha dos quatro destacamentos sa\u00eddos de Canoinhas, Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria, Rio Negro-Mafra e Curitibanos, rumo ao sert\u00e3o infestado de caboclos em armas, logo, logo mostrou-se invi\u00e1vel.\n\nEra dif\u00edcil vasculhar palmo a palmo 28 mil quil\u00f4metros quadrados de montes e de vales, de serras empinadas e de florestas impenetr\u00e1veis, em contraste, nas planuras dos campos, com picadas e atalhos abertos em todas as dire\u00e7\u00f5es. Tudo isso exigia a participa\u00e7\u00e3o e o aux\u00edlio do pr\u00f3prio caboclo, bom conhecedor da regi\u00e3o.\n\nSem a presen\u00e7a de vaquenaos nativos ou \u00edntimos com a natureza e com a geografia do lugar a ser percorrido pela tropa, o soldado se perdia na amplid\u00e3o do mataredo ou ca\u00eda nas barrancas e nos banhados.\n\nE o perigo de ver-se perdido no meio do mato? Sem o apoio do guia, a tropa era presa f\u00e1cil e o alvo preferido da certeira pontaria da caboclada em f\u00faria.\n\nOs sertanejos que chegam aos quart\u00e9is improvisados, para se oferecer como vaqueanos, n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis. Outros se recusam a colaborar com a tropa com medo da vingan\u00e7a implac\u00e1vel que desabava sobre o ?peludo?, aquele que tra\u00eda a irmandade: ser ?refrescado?, o novo nome da degola sum\u00e1ria.\n\nO primeiro passo da estrat\u00e9gia do general para sair da enredada em que os militares se haviam metido foi instituir a necessidade de um salvo-conduto para a popula\u00e7\u00e3o civil poder circular na regi\u00e3o ou para sair dela.\n\nCom ou sem passaporte, os jagun\u00e7os continuaram mandando para fora de seu territ\u00f3rio o couro do gado que era abatido e a erva-mate que era triturada.\n\nEm troca do couro e da erva-mate, os caboclos adquiriram armas, muni\u00e7\u00f5es de guerra, alimentos, rem\u00e9dios, e principalmente o a\u00e7\u00facar e o sal. Este necess\u00e1rio \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da carne, transformada em charque.\n\nA inutilidade do passaporte estava confirmada no fato de que os guerrilheiros negociavam com elementos infi\u00e9is da pr\u00f3pria tropa para circularem \u00e0 vontade na regi\u00e3o e at\u00e9 para desencadearem ataques a localidades muito afastadas.\n\nCom o estratagema, desviavam a aten\u00e7\u00e3o dos colaboradores do general-comandante e podiam percorrer os campos para executar o arrebanhamento e a coleta.\n\n<strong>Bandido nos campos, soldado nos quart\u00e9is<\/strong>\n\nSetembro e outubro de 1914 s\u00e3o meses negros para todo o Planalto dominado pelos bandoleiros, que ainda se dizem seguidores de Jos\u00e9 Maria.\n\nA partir do come\u00e7o de setembro, os guerrilheiros do monge decidiram n\u00e3o mais atacar as tropas do governo na boca dos redutos, como haviam feito em Taquaru\u00e7u e Caraguat\u00e1.\n\nA nova estrat\u00e9gia substitui a defesa pelo ataque desencadeado por pequenos grupos que, \u00e0s dezenas, agem dentro do mato e, \u00e0s centenas, metem fogo nos campos e destroem as cidades.\n\nComo primeiro passo, os caboclos em armas abandonam os seus redutos e se espalham pelos vales dos rios Marombas e Canoas, arrebanhando gado e alimentos e preparando-se para atacar centros populacionais.\n\nO que mais impressiona as autoridades civis e militares \u00e9 o grande n\u00famero de mulheres e de crian\u00e7as que acompanham os passos guerreiros dos rebelados.\n\nLages, Curitibanos, S\u00e3o Joaquim e Campos Novos, onde existiam os currais do coronel Vidal Ramos, vivem dias de p\u00e2nico porque n\u00e3o h\u00e1 na regi\u00e3o for\u00e7as militares suficientes para deter os avan\u00e7os dos rebeldes, que j\u00e1 praticaram toda a sorte de crimes. Era preciso defend\u00ea-los. Na alegria e na tristeza! Na riqueza dos coron\u00e9is-de-ro\u00e7a e na pobreza do povo.\n\nAo lado deste \u00edmpeto dos rebeldes, o grupo de civis que colabora com as for\u00e7as legais, os ?patriotas?, est\u00e1 moralmente abalado pelo desamparo em que se encontra, quase sem armamento e com escassa muni\u00e7\u00e3o.\n\nFelipe Schmidt, com menos de duas semanas de governo, no dia 8 de outubro, despacha um desesperado telegrama ao general Setembrino de Carvalho pedindo refor\u00e7os para impedir a destrui\u00e7\u00e3o de novas cidades, l\u00e1 no alto da Serra.\n\nResposta do general comandante das opera\u00e7\u00f5es: ?Tenho reclamado urgentes medidas para guarnecer a regi\u00e3o do Planalto Sul. Apesar do senhor ministro ter ordenado a marcha do 5\u00ba Regimento de Cavalaria de Santa Maria, at\u00e9 hoje ele n\u00e3o saiu do Rio Grande do Sul por falta de pagamento dos soldos atrasados.? (O Dia, 11 de outubro de 1914).\n\nMoral da burocr\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o: enquanto os vencimentos n\u00e3o v\u00eam, os guerrilheiros v\u00e3o vencendo.\n\n<strong>Terror no Planalto Sul<\/strong>\n\nEm fins de setembro, os caboclos, transformados em guerrilheiros, espalham o terror tamb\u00e9m no Planalto Sul, na regi\u00e3o de Curitibanos e de Lages.\n\nNo dia 25, uma onda de 500 guerrilheiros, 200 dos quais montados, sob as ordens da fam\u00edlia Sampaio e Oliveira, Agost\u00edn Saraiva, Oleg\u00e1rio Ramos, Chico Ventura e Paulino Pereira da Silva, vindos do Marombas, aproxima-se da vila de Curitibanos. As for\u00e7as militares tentam resistir fora dos limites da vila, mas s\u00e3o obrigadas a ceder, pois contam apenas com 30 homens. Depois de 12 horas de fogo, a tropa legalista perde tr\u00eas soldados e esgota toda a muni\u00e7\u00e3o.\n\nNo ataque \u00e0 cidade, v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o devoradas por um inc\u00eandio descontrolado, entre elas o pr\u00e9dio da Superintend\u00eancia Municipal, a Esta\u00e7\u00e3o Telegr\u00e1fica, cinco estabelecimentos co\n\nmerciais, o Cart\u00f3rio do Tabelionato, a Escola P\u00fablica, a Cadeia P\u00fablica e 18 resid\u00eancias particulares, inclusive a casa de moradia do coronel Ferreira de Albuquerque, superintendente do munic\u00edpio. Tamb\u00e9m foram destru\u00eddas as instala\u00e7\u00f5es do jornal O Trabalho, de propriedade do mesmo coronel Albuquerque.\n\nEm Lages, naquela \u00faltima semana do m\u00eas, o aspecto \u00e9 desolador. As casas de com\u00e9rcio est\u00e3o fechadas, as reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, suspensas e as estradas que levam \u00e0 cidade, semeadas de trincheiras guarnecidas dia e noite. O medo dos habitantes transforma-se em p\u00e2nico quando se descobre que os fan\u00e1ticos, em n\u00famero de 300, est\u00e3o acampados no Cerrito, a poucos quil\u00f4metros da cidade.\n\nA situa\u00e7\u00e3o em todo o Planalto Sul \u00e9 muito s\u00e9ria porque, ao mesmo tempo em que metem fogo nas fazendas, os guerrilheiros arrebatam os animais que v\u00e3o encontrando na sua marcha de destrui\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>A casa que n\u00e3o ardia<\/strong>\n\nCarta de um morador de Curitibanos a um amigo da Serra.\n\n\u00c9 com o cora\u00e7\u00e3o transpassado pela dor que venho por meio desta relatar-vos as tristes ocorr\u00eancias da madrugada do dia 25 de setembro, em Curitibanos, praticadas pelos malvados fan\u00e1ticos (se \u00e9 que ainda tenham esse nome) numa s\u00e9rie de acontecimentos horrorosos que compunge o mais duro cora\u00e7\u00e3o humano.\n\nPelas tr\u00eas horas da madrugada, come\u00e7ou uma chuva fort\u00edssima. Enquanto isso, os jagun\u00e7os vinham vindo pela estrada geral, todos em forma.\n\nAo passarem em frente ao port\u00e3o do local onde nos encontr\u00e1vamos, demos uma descarga. Mas n\u00e3o pudemos repeti-la porque fomos de pronto cercados pelo inimigo.\n\nDamos gra\u00e7as a Deus pelo aux\u00edlio da escurid\u00e3o, de n\u00e3o sermos todos agarrados pelos bandidos.\n\nDesta vez, fomos todos extraviados e os que ficaram na vila abandonaram-na com a chegada do inimigo.\n\nAo romper da aurora, estava nossa desventurada vila, toda sitiada, rompendo os bandidos uma vozeria infernal com estrepitosos vivas a S\u00e3o Sebasti\u00e3o, ao Jos\u00e9 Maria e \u00e0 Monarquia.\n\nConservando-me de espia sobre os arredores da vila, pelas 8h, vi uma forma de fumo de vulc\u00e3o, pelos ares. Era o princ\u00edpio de um grande inc\u00eandio. O edif\u00edcio do a\u00e7ougue, em 15 minutos, ficou completamente reduzido a cinzas. Logo em seguida, arderam a prefeitura, o Tel\u00e9grafo, o Correio, a Escola P\u00fablica Masculina.\n\nO inc\u00eandio se espalhava com f\u00faria devido \u00e0s grandes chamas que torrencialmente desabavam sobre a desditosa vila, tornando-se um verdadeiro eclipse. Na casa do coronel Albuquerque havia um que quer que seja, pois os bandidos tentaram queim\u00e1-la desde a manh\u00e3 e s\u00f3 conseguiram j\u00e1 pela tarde. Queimaram cozinha e os galp\u00f5es, mas a casa continuava intacta. Diziam mesmo que aquela casa tinha qualquer mist\u00e9rio. Ao entrarem na casa para incendi\u00e1-la, os bandidos encontraram diversas imagens de santos. Quando foram retiradas essas imagens e estampas, a casa come\u00e7ou a pegar fogo.?\n\nCaso verdadeiramente misterioso! (O Dia, 22 de outubro de 1914).\n\n<strong>Piquetes de defesa local<\/strong>\n\nEm fins de setembro, o aspecto de Lages \u00e9 de p\u00e2nico generalizado ante a imin\u00eancia de ser atacada por um piquete com centenas de fan\u00e1ticos, tal como havia acontecido com Curitibanos, poucos dias antes.\n\nO Ex\u00e9rcito e a Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de garantir a defesa da cidade e pedem o apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o civil para que sejam formados piquetes de defesa local.\n\nA estrat\u00e9gia de agrupar a popula\u00e7\u00e3o e met\u00ea-la em armas define que sejam formados grupos de 10 civis.\n\nO n\u00famero \u00e9 considerado ideal para facilitar os movimentos da defesa e o mais adequado para a melhor distribui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as para os postos de vigil\u00e2ncia e as trincheiras que rodeiam a cidade.\n\nO coronel Belis\u00e1rio Ramos, superintendente municipal, lan\u00e7a um apelo dram\u00e1tico sobre inscri\u00e7\u00f5es de volunt\u00e1rios para os grupos de 10. ?Existe a ingente necessidade de impedir, pela resist\u00eancia da cidade, que os fan\u00e1ticos avassalem todo o munic\u00edpio?.\n\nO grito do experimentado pol\u00edtico recebe uma chuvarada de presen\u00e7as. No primeiro dia de inscri\u00e7\u00f5es apresentam-se 300 volunt\u00e1rios, que s\u00e3o imediatamente incorporados \u00e0s trincheiras da cidade. No dia seguinte, o coronel Emiliano Ramos, chefe pol\u00edtico de Cap\u00e3o Alto, refor\u00e7a o n\u00famero com mais uma centena de inscritos.\n\nA guarni\u00e7\u00e3o federal de 50 homens e os 40 soldados da Pol\u00edcia Militar comemoram o refor\u00e7o e todos se preparam para a defesa. O n\u00famero de homens em armas deve ter assustado os bandoleiros.\n\nEles desistem de atacar a cidade e de repetir nela os estragos que haviam plantado em Curitibanos.\n\n<strong>Provoca\u00e7\u00f5es do Castelhano<\/strong>\n\nUm dos l\u00edderes do movimento guerrilheiro dos jagun\u00e7os \u00e9 o Castelhano. Era assim conhecido porque Agost\u00edn Saraiva Perez, nascido no Uruguai, falava um espanhol aportuguesado. Ele era sobrinho, por parte da m\u00e3e,\n\nCarminda Saraiva, dos caudilhos Gumercindo e Apar\u00edcio Saraiva, l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Federalista de 1893. E caudilho ele tamb\u00e9m se considerava, mesmo sendo o primo pobre da fam\u00edlia.\n\nNos primeiros tempos de sua perman\u00eancia no Planalto Catarinense, Castelhano era tratador de animais de corrida. Envolvido em quest\u00f5es de divis\u00e3o de terras, o superintendente de Lages, Belis\u00e1rio Ramos, teria mandado mat\u00e1-lo. Para se proteger, o ga\u00facho espanholado passou-se para o lado dos fan\u00e1ticos e entrou a dar conselhos aos chefes da guerrilha.\n\nEm meados de setembro de 1914, Castelhano comanda um grande piquete encarregado de cercar e invadir Lages. Antes de executar a a\u00e7\u00e3o, Agost\u00edn Saraiva escreve uma carta ao coronel Emiliano Ramos, um dos l\u00edderes pol\u00edticos da regi\u00e3o.\n\nO motivo da presente \u00e9 fazer saber que vou entrar na cidade, com o favor de Deus e de S\u00e3o Jo\u00e3o Maria. As\u00ed es que as\u00ed que o se\u00f1or aceitar a mia sentencia pe\u00e7o se retirar da sidade porque comprenda o amigo que como pra\u00e7a p\u00fablica tenho o direito de passar em ella al\u00e9m disso eu sou o comandante geral da campanha do partido federalista.\n\nE (eu) tenho meus patr\u00f5es a quem obedecer ordens. Es as\u00ed coronel. O se\u00f1or, como pai caritativo do povo pe\u00e7o fa\u00e7a sair as fam\u00edlias pois es um ser franco e debemos olhar por ellas es uma pena que sofram injustamente.\n\nEu so quer brigar com esses baianos intimidadores que falam muito mal e por causa deles sofrem otros. So penso em mia felicidade por ajudat\u00f3rio de Deos e San Jo\u00e3o Maria de Agostinho.\n\nPois essos baianos me mandaram probocar e aceito a probocason.\n\nBaianos ara os fan\u00e1ticos, era o designativo atribu\u00eddo aos soldados do Ex\u00e9rcito.\n\n<strong>Parte VII<\/strong>\n\n<strong>Passos do \u00f3dio<\/strong>\n\nNas \u00faltimas semanas de 1914, a for\u00e7a do misticismo fan\u00e1tico e o esp\u00edrito predominantemente religioso do caboclo-sem-futuro n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rios \u00e0 coes\u00e3o da Irmandade, que havia nascido em meados de 1912, no primeiro reduto de Taquaru\u00e7u.\n\nUm consider\u00e1vel n\u00famero de marginais e de foragidos da pol\u00edcia integra-se aos rebeldes e instala o banditismo institucionalizado.\n\nDesse modo, a guerrilha se torna mais sangrenta pela in\u00e9pcia das autoridades militares em dominar os rebeldes e pela omiss\u00e3o dos governos de Santa Catarina e do Paran\u00e1 em resolver a quest\u00e3o da propriedade das terras roubadas pelos coron\u00e9is.\n\nOs dois lados em conflito definem os \u00faltimos passos do \u00f3dio:\n\n\u2013 Vencer a qualquer pre\u00e7o!\n\n<strong>Do fanatismo ao banditismo<\/strong>\n\nA escolha de Adeodato Manoel Ramos ou tamb\u00e9m Joaquim Jos\u00e9 de Ramos, o Adeodato, ou ainda o Leodato, para assumir o comando-geral dos guerrilheiros fan\u00e1ticos, desvia as raz\u00f5es da guerra para um eixo completamente modificado em compara\u00e7\u00e3o aos dias de Taquaru\u00e7u I.\n\nO misticismo e o esp\u00edrito religioso dos tempos da vida real do monge j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rios \u00e0 coes\u00e3o da Irmandade, agora transformada em piquetes de bandoleiros que aterrorizam os campos, os matos e as serras do Planalto Norte.\n\nUm bom n\u00famero de marginais infiltrado no movimento havia encontrado uma ocupa\u00e7\u00e3o, um trabalho-quase-profiss\u00e3o, cujo pagamento era a manuten\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e da respectiva fam\u00edlia.\n\nA guerra alimentada pelo car\u00e1ter de reforma religiosa, exigida pelos devotos dos monges, cede espa\u00e7o a uma luta armada que, uma vez conclu\u00edda, proporcionaria a cada guerrilheiro a desejada situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social.\n\nA destrui\u00e7\u00e3o dos redutos, com a conseq\u00fcente dispers\u00e3o dos combatentes, poderia trazer como resultado a volta \u00e0 marginalidade anterior, o retorno \u00e0 mis\u00e9ria, \u00e0 falta de terras para cultivar ou \u00e0 inexist\u00eancia de meios para manter o guerrilheiro e seus familiares.\n\nA continua\u00e7\u00e3o das hostilidades contra as popula\u00e7\u00f5es pac\u00edficas e, principalmente, contra as tropas do governo, alimentava esperan\u00e7as de resolu\u00e7\u00e3o dos problemas que haviam lan\u00e7ado o caboclo na mis\u00e9ria, e o marginal, no crime.\n\nNos redutos, o prest\u00edgio do chefe espiritual cede lugar exclusivo ao comandante-das-armas. O fanatismo religioso cede espa\u00e7o ao banditismo de marginais, promovido tamb\u00e9m pelos vaqueanos civis, a servi\u00e7o das tropas do governo.\n\n<strong>Assassinos a servi\u00e7o do governo<\/strong>\n\nA etapa mais sangrenta da\u00a0<strong>Guerra do Contestado<\/strong>\u00a0toma corpo e alma na regi\u00e3o de Canoinhas, a partir do final de 1914. Correndo em paralelo com as habituais investidas dos bandoleiros e dos fan\u00e1ticos, em busca de alimentos ou procurando defender-se, a regi\u00e3o \u00e9 atravessada por bandidos profissionais, que se agregam \u00e0s tropas do governo como vaqueanos, com o intuito exclusivo de exercer vingan\u00e7as pessoais ou de servir como matadores profissionais para os propriet\u00e1rios das terras arrebatadas dos posseiros, que posteriormente se haviam incorporado aos fan\u00e1ticos em armas.\n\nEsses fac\u00ednoras fazem parte do grupo que obedece \u00e0s ordens de Manoel Fabr\u00edcio Vieira. Armados com carabinas de guerra, como a metralhadora Mauser, eles tamb\u00e9m aparecem como apaziguadores todas as vezes que acontece um ataque aos fan\u00e1ticos.\n\nUm dos mais conhecidos entre os bandidos profissionais \u00e9 Pedro Ruivo, ?um celerado vaqueano promovido a her\u00f3i?. O bandido Pedro Ruivo agia do mesmo modo que os outros comandantes de piquetes, como Manoel Fabr\u00edcio Vieira, Salvador Pinheiro, Pedro Vieira, Leoc\u00e1dio Pacheco e Jo\u00e3o Alves de Oliveira, que sempre atacavam em duas frentes: como bandido profissional, a matar desafetos, e como vaqueano, a servi\u00e7o das tropas legalistas.\n\nComo legalista, Pedro Ruivo estava encarregado de dar fim aos prisioneiros suspeitos ou \u00e0queles que se entregavam voluntariamente sem apresentar uma raz\u00e3o convincente do seu gesto de desespero.\n\nPara cumprir com a sua tarefa escabrosa, Pedro Ruivo conduzia as v\u00edtimas para fora da cidade e degolava culpados e suspeitos.\n\nOs corpos permaneciam insepultos. S\u00f3 nesse trabalho, o assassino profissional teria ?refrescado? uma centena de v\u00edtimas. Em outras ocasi\u00f5es, integrando piquetes de civis, o serial-killer assassinava desafetos que nunca haviam sido fan\u00e1ticos.\n\nTerminada a guerra, Pedro Ruivo transferiu-se para a cidade da Lapa e terminou seus dias como um homem bastante rico.\n\n<strong>Guerrilheiros vendedores de cavalos<\/strong>\n\nDe repente, a not\u00edcia escorre pelo Vale do Itaja\u00ed e inunda o Litoral:\n\n?Trinta e sete fan\u00e1ticos, al\u00e9m de mulheres, crian\u00e7as e muitos animais est\u00e3o acampados na regi\u00e3o de Hansa-Ham\u00f4nia.? (Ibirama).\n\nOs boatos se repetem e garantem que, dentro de poucos dias, os fan\u00e1ticos plantados Serra-Abaixo v\u00e3o crescer e devem chegar a 200, entre os homens e as respectivas fam\u00edlias.\n\nO que assusta mais ainda \u00e9 todos se darem conta que essa gente est\u00e1 acampada a centena e meia de quil\u00f4metros do Planalto em conflito.\n\nO delegado Mafra Cardoso, respons\u00e1vel pela ordem na regi\u00e3o, investiga o fato e conclui:\n\nOs indiv\u00edduos acampados em Hansa-Ham\u00f4nia n\u00e3o s\u00e3o fan\u00e1ticos. S\u00e3o caboclos ambulantes que negociam animais.\n\nAs garantias do delegado n\u00e3o convencem, j\u00e1 que os motivos das suspeitas carregam s\u00f3lidos fundamentos. Al\u00e9m do caminho que teriam percorrido, cheios de terrenos alagados, um dos componentes apresenta ferimentos na m\u00e3o e no joelho e o outro est\u00e1 com um bra\u00e7o amputado. Eles explicam ao delegado que sofreram acidente no decorrer das opera\u00e7\u00f5es de compra e venda de animais.\n\nPara clarear toda essa hist\u00f3ria, apresentam documentos assinados pelas autoridades paranaenses.\n\nAs suspeitas continuam:\n\n?Esta hist\u00f3ria de acidente \u00e9 papo furado. E a assinatura das autoridades do Paran\u00e1 n\u00e3o prova nada. Ao contr\u00e1rio, a\u00ed mesmo que aumenta o perigo.\n\nElas est\u00e3o se livrando de guerrilheiros arrependidos que buscaram asilo no outro lado do Rio Igua\u00e7u.\n\nPara os moradores de Hansa-Ham\u00f4nia s\u00f3 o delegado acredita que negociantes de animais, acompanhados por mulheres e crian\u00e7as, percorrem o interiorz\u00e3o para vender cavalos.\n\nA perman\u00eancia dos vendedores estropiados aumenta o pavor dos moradores da regi\u00e3o. De um momento para outro, os desconhecidos somem como haviam aparecido: sem deixar rastro. (O Dia, 24 de outubro de 1914).\n\nHansa-Ham\u00f4nia, uma col\u00f4nia de imigrantes alem\u00e3es no Alto Vale do Itaja\u00ed, nunca foi incomodada pelos rebeldes do Contestado. Era comum os caboclos visit\u00e1-la. Vender cavalos e mulas era com\u00e9rcio habitual.\n\n<strong>Perigos do medo<\/strong>\n\nEm meados de novembro, a presen\u00e7a dos guerrilheiros nos campos do Planalto Sul cria o p\u00e2nico em Lages e S\u00e3o Joaquim.\n\nA publica\u00e7\u00e3o da carta de Castelhano, escrita ao coronel Emiliano Ramos, anunciando que iria invadir Lages, aumenta o n\u00famero de fam\u00edlias que busca abrigo fora da regi\u00e3o, rumando at\u00e9 Palho\u00e7a, S\u00e3o Jos\u00e9, Brusque e Itaja\u00ed. O medo des\u00e1gua Serra-Abaixo, acampa em Tubar\u00e3o e est\u00e1 de malas prontas para inundar a Capital.\n\nJo\u00e3o de Oliveira, respeitado dirigente pol\u00edtico de Tubar\u00e3o, est\u00e1 em Florian\u00f3polis para fazer eco aos temores espalhados pelo Sul.\n\nOs boatos que correm na minha regi\u00e3o t\u00eam um grande fundamento e atingem uma gravidade incontest\u00e1vel.\n\nV\u00e1rias fam\u00edlias da borda do Planalto est\u00e3o refugiadas em Tubar\u00e3o. Se os fan\u00e1ticos dominarem S\u00e3o Joaquim, minha cidade ser\u00e1 imediatamente assaltada. N\u00e3o por eles, mas por gente muito pior.\n\nNa encosta da Serra do Rio do Rastro vive um terr\u00edvel bando de criminosos, chefiados por verdadeiros assassinos, capazes de cometer as maiores atrocidades.\n\nEles s\u00e3o mais ou menos 40 indiv\u00edduos perigosos. Enquanto isso, a autoridade policial disp\u00f5e apenas de oito soldados, inclusive um que est\u00e1 doente e, por isso, fora de a\u00e7\u00e3o.\n\nOs seguidores do monge Jos\u00e9 Maria, transformados em bandoleiros, muito bem armados e colhendo ineg\u00e1veis vit\u00f3rias, come\u00e7am a gerar filiais do terror que infernizam popula\u00e7\u00f5es a centenas de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia\n(Folha do Com\u00e9rcio, 21 de novembro de 1914).\n\nNingu\u00e9m invadiu Lages e muito menos S\u00e3o Joaquim. Os bandoleiros assassinos da Serra do Rio do Rastro preferiram manter-se abrigados nos grot\u00f5es da montanha.\n\n<strong>A morte do comandante-geral<\/strong>\n\nNa col\u00f4nia de Rio das Antas, \u00e0s margens do Rio do Peixe, poucos quil\u00f4metros ao sul de Ca\u00e7ador, a Southern Brazil Lumber and Colonization Company vendera lotes a imigrantes poloneses e alem\u00e3es.\n\nAs propriedades vendidas aos imigrantes j\u00e1 estavam ocupadas por sertanejos, que h\u00e1 muitos anos ali viviam como posseiros. Mas, para os efeitos legais, tratava-se de terras devolutas.\n\nOs caboclos em armas, praticamente senhores do Contestado pela in\u00e9rcia das tropas do general Setembrino de Carvalho, decidem vingar a espolia\u00e7\u00e3o e planejam um ataque ao agrupamento de imigrantes.\n\nO comandante-geral dos guerrilheiros, Francisco Alonso de Sousa, com anteced\u00eancia de 30 dias, solicita aos colonos estrangeiros que abandonem as propriedades. Caso contr\u00e1rio, seriam expulsos \u00e0 bala ou mortos.\n\nOs imigrantes, movidos pela esperan\u00e7a que sua defesa teria o refor\u00e7o da tropa do general Setembrino, acampada em Ca\u00e7ador, decidem resistir \u00e0 viol\u00eancia dos jagun\u00e7os.\n\nNo Dia de Finados, 2 de novembro de 1914, Francisco Alonso, \u00e0 frente de um piquete de 35 homens de briga, desencadeia o ataque prometido. No primeiro enfrentamento, os jagun\u00e7os matam quatro colonos.\n\nAlertados pelos tiros, muitos colonos se protegem dentro de suas casas. Os soldados do Ex\u00e9rcito escutam o tiroteio, mas n\u00e3o se movem, imaginando tratar-se de tiro ao alvo!\n\nUma cerca dupla de arame farpado protege a entrada da sede da col\u00f4nia. Os atacantes n\u00e3o conseguem romper a barreira. Doze deles s\u00e3o mortos. Um dos atingidos \u00e9 Francisco Alonso de Sousa, o comandante-geral da irmandade em armas.\n\nO historiador N\u00edlson Thom\u00e9, baseado em ?informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel de um caboclo que participou do ataque, esclarece que, no meio da confus\u00e3o, Adeodato Manoel Ramos matou Francisco Alonso de Sousa pelas costas.\n\nO assassino queria ser o comandante e tamb\u00e9m desejava a mulher da v\u00edtima. A vingan\u00e7a dos imigrantes \u00e9 selvagem. Armam uma grande fogueira e transformam em cinzas os corpos dos jagun\u00e7os abatidos\n\nEntre os sobreviventes do ataque est\u00e1 Adeodato Manoel Ramos, o substituto de Alonso, e futuro ?flagelo de Deus.\n\nDepois do ataque, todos os colonos pegaram o trem e se mandaram para Marcelino Ramos. N\u00e3o ficou ningu\u00e9m em Rio das Antas.\n\nMas eles voltaram no final de 1915.\n\n<strong>O cavalo e a vi\u00fava<\/strong>\n\nSobrevivente do ataque \u00e0 col\u00f4nia de imigrantes de Rio das Antas, o jagun\u00e7o Adeodato Manoel Ramos \u00e9 encarregado de entregar o cavalo de Francisco Alonso de Sousa, o Chiquinho, \u00e0 respectiva vi\u00fava.\n\nAdeodato entrega o cavalo de Chico Alonso \u00e0 vi\u00fava e ao mesmo tempo declara a ela que a tomava como esposa.\n\nPara n\u00e3o ser infiel \u00e0 companheira anterior, com a qual havia ?casado? no reduto, o novo comandante decide mat\u00e1-la tamb\u00e9m.\n\nCumprida a miss\u00e3o, em Ca\u00e7ador, Adeodato vai conversar com Elias Ant\u00f4nio de Moraes, um dos primeiros moradores de Caraguat\u00e1 e considerado o guia da Irmandade. Durante a conversa, Adeodato informa que, com a morte de Chico Alonso, ele estava assumindo o comando-geral.\n\nEnquanto se delicia com o novo posto, uma noite Adeodato \u00e9 possu\u00eddo por um sonho gostoso e sai dizendo por a\u00ed:\n\nNoite dessas o santo monge me apareceu em sonho e ele me ordenou que eu assumisse o posto de comandante-geral.\n\nPara demonstrar que aceita a ordem do santo protetor de todos os jagun\u00e7os, Adeodato come\u00e7a a carregar uma bandeira branca enquanto proclama: ?Agora eu sou o comandante-geral.\n\nSou eu que vou tocar a guerra contra o governo, contra os coron\u00e9is, ladr\u00f5es de nossas terras, e contra os peludos.\n\nElias de Morais e Maria Rosa n\u00e3o gostam do golpe aplicado por Adeodato. J\u00e1 assumido como novo e exclusivo l\u00edder, Adeodato toma a primeira decis\u00e3o de ?imperador?: manda fuzilar Antoninho, vidente de 20 anos e candidato a comandante, apoiado por Maria Rosa. Um grupo de descontentes com a nova situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 passado pelas armas.\n\n<strong>Nas cinzas da vila<\/strong>\n\nNos primeiros dias de dezembro, os guerrilheiros suspendem o cerco \u00e0 cidade de Lages e abandonam a regi\u00e3o do Planalto Sul. Muitos deles s\u00e3o presos ao deixarem o mataredo que os abrigava, outros se entregam \u00e0s autoridades. Entre os detidos s\u00e3o encontrados menores, que tamb\u00e9m se dedicavam \u00e0s pilhagens e aos inc\u00eandios.\n\nPara os oficiais do Ex\u00e9rcito envolvidos na persegui\u00e7\u00e3o aos bandoleiros, o moral dos fan\u00e1ticos come\u00e7ava a sofrer uma profunda depress\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 capacidade militar do general Setembrino, que antes do ataque final havia preferido responder com uma esp\u00e9cie de guerrilha contra os piquetes que varriam a regi\u00e3o em armas. V\u00e3 e passageira ilus\u00e3o dos estrategistas militares.\n\nCoincidindo com a afirmativa oficial que o ?inimigo? estava em depress\u00e3o, no dia 23 de dezembro inc\u00eandios devoram Canoinhas, 300 quil\u00f4metros mais ao norte de Lages, junto com dezenas de casas na zona rural da mesma regi\u00e3o. Era o quinto ataque frontal a uma vila defendida por tropas do Ex\u00e9rcito.\n\nA fuzilaria, com toques de alarma, refor\u00e7os, muni\u00e7\u00f5es, padioleiros carregando feridos, coloca em p\u00e2nico os poucos habitantes que ainda permaneciam na sede do munic\u00edpio.\n\nOs guerrilheiros recha\u00e7ados conseguem escapar, mas abandonam armas, muni\u00e7\u00f5es, sacol\u00f5es com alimentos. Seis mortos s\u00e3o encontrados pelas ruas desertas, agora em cinzas. Ign\u00e1cio de Lima, o chefe dos bandidos, resulta gravemente ferido.\n\nFeito o balan\u00e7o das queimadas, 243 pessoas de fam\u00edlias polonesas, arruinadas pela destrui\u00e7\u00e3o das casas e das planta\u00e7\u00f5es, encontravam-se sem qualquer meio de subsist\u00eancia. O problema \u00e9 resolvido, em parte, quando o governo federal decide considerar os flagelados como imigrantes em tr\u00e2nsito. A medida permite assent\u00e1-los em n\u00facleos agr\u00edcolas, bem longe dos tiros e das chamas dos fan\u00e1ticos endiabrados. (O Dia, 9 e 10 de dezembro de 1914).\n\n<strong>Brigas por terras no Sudeste acirram conflito<\/strong>\n\nOs estados de Minas Gerais e do Esp\u00edrito Santo tamb\u00e9m alimentaram, por longo tempo, uma quest\u00e3o sobre um territ\u00f3rio contestado pelas duas unidades da federa\u00e7\u00e3o. O problema, submetido a um laudo arbitral, foi definido em dezembro de 1914, com a decis\u00e3o de entregar as terras em conflito ao Estado de Minas Gerais. (O Dia, 18 de dezembro, 1914).\n\nMas o Esp\u00edrito Santo recusa-se a respeitar o laudo. O gesto de rebeldia encontra forte eco em Santa Catarina e no Paran\u00e1, que tamb\u00e9m sofrem o mesmo intrincado problema jur\u00eddico,\n\nj\u00e1 bastante deteriorado pelo movimento guerrilheiro que meteu fogo no Planalto. Cada semana que passa, os \u00f3dios e as tintas de largas camadas da imprensa de Florian\u00f3polis e de Curitiba atingem a cal\u00fania e beiram \u00e0 perf\u00eddia.\n\nEm 13 de fevereiro de 1915, os paranaenses s\u00e3o informados, pelos jornais, que o chefe do reduto de Moema, Ant\u00f4nio Tavares J\u00fanior, depois da destrui\u00e7\u00e3o do seu acampamento pelas autoridades militares, foi recebido com foguetes e abra\u00e7os em Florian\u00f3polis. A alegria, na capital dos catarinenses, segundo a l\u00f3gica dos vizinhos do Norte, teria sido uma homenagem \u00e0 campanha que o ?famigerado cabecilha? vinha pregando em todo o Contestado contra o Paran\u00e1.\n\nN\u00e3o havia acontecido festa nenhuma e muito menos o cabecilha havia estado na Ilha.Na verdade, as autoridades policiais de Santa Catarina haviam sido informadas que o temido chefe do reduto de assassinos fora visto no interior do munic\u00edpio de Blumenau. As ordens de captura demonstraram-se in\u00fateis. O ?famigerado chefe de bandidos assassinos? n\u00e3o havia deixado rastro algum em qualquer ponto da Serra-Abaixo e muito menos nas areias brancas do Litoral. (O Dia, 21 de fevereiro de 1915).\n\nAnt\u00f4nio Tavares J\u00fanior, barriga-verde convicto e idealista de quatro costados, era amigo de Felipe Schmidt, que o acobertava. Desconfiado que o superintendente de Canoinhas, Manoel Tomaz Vieira, pretendia entregar a vila para as autoridades paranaenses, chegou a destitu\u00ed-lo. Em seguida, telegrafou ao governador comunicando que o cargo estava vago. S\u00f3 o devolveu a Tomaz Vieira sob press\u00e3o da pol\u00edcia. Com a destrui\u00e7\u00e3o do seu reduto, Tavares J\u00fanior foge para o Sul do Estado, protegido por Felipe Schmidt, o governador do Estado. Fixou resid\u00eancia primeiro em Tubar\u00e3o e depois em Ararangu\u00e1, onde veio a falecer.\n\n<strong>Poeta e jagun\u00e7o<\/strong>\n\nAnt\u00f4nio Tavares J\u00fanior, nascido em S\u00e3o Francisco do Sul, tem grandes sonhos que n\u00e3o cabem na pequena ilha do norte de Santa Catarina. Garoto, com d\u00fazia e meia de anos, ele sai de casa, mete-se no Rio Grande do Sul e sobrevive com a sorte que tem no jogo. Os pagos tranq\u00fcilos da gauchada perdedora n\u00e3o ret\u00eam o catarinense, que decide voltar para o Norte.\n\nMas Tavares J\u00fanior n\u00e3o se mete na ilha natal. Em Canoinhas, ele vai trabalhar no F\u00f3rum, como assistente de promotor, e casa com uma vi\u00fava rica, quarentona, futuro mais garantido do que os azares do jogo.\n\nAo mesmo tempo, em sociedade com um franc\u00eas, vende dormentes utilizados na constru\u00e7\u00e3o da estrada de ferro, abre um hotel e um bar. A\u00ed come\u00e7am os azares da vida, que tamb\u00e9m estava em jogo.\n\nO novo empres\u00e1rio vai \u00e0 fal\u00eancia, tem a casa penhorada e acaba secret\u00e1rio de Bonif\u00e1cio Jos\u00e9 dos Santos, o Bonif\u00e1cio Papudo, para as freq\u00fcentes festas e leil\u00f5es que o velho maragato de 60 anos vinha organizando como meio de subsist\u00eancia.\n\nAnt\u00f4nio Tavares era tamb\u00e9m um homem de letras, pois chegou a ocupar o posto de inspetor de escolas em Canoinhas. Poetava de vez em quando, jornais de Curitiba chegaram a publicar-lhe composi\u00e7\u00f5es amorosas que rimavam saudade com maldade?.Um belo dia, Bonif\u00e1cio Papudo e seu secret\u00e1rio levantam-se contra as autoridades de Canoinhas porque elas n\u00e3o resolvem os problemas das terras roubadas dos posseiros e entregues, pela Lumber, aos colonos alem\u00e3es e poloneses que chegavam em pencas da Europa. Em 14 de junho de 1914 os dois integram o grupo dos 500 caboclos que praticamente arrasou Canoinhas.\n\nPara aprofundar a luta contra as autoridades e contra os ladr\u00f5es das terras dos posseiros, Ant\u00f4nio Tavares d\u00e1 in\u00edcio a um reduto para agrupar nele os descontentes decididos a brigar contra o governo.\n\nO Reduto Tavares localizava-se Iracema e Moema, numa pequena localidade nas nascentes do Rio Itaja\u00ed-do-Norte, pr\u00f3ximo a Papanduva e Itai\u00f3polis.\n\n<strong>Fan\u00e1tico arrependido<\/strong>\n\nEstanislau Schumann, um colono alem\u00e3o arrependido de ter entrado para o grupo dos caboclos em armas, escreve uma carta ao primeiro-tenente Herm\u00ednio Castello Branco, chefe do destacamento da Pol\u00edcia Militar em Canoinhas. Na abertura do documento, o ex-fan\u00e1tico garante que, como bom patr\u00edcio, n\u00e3o \u00e9 contra as leis que regem o pa\u00eds.\n\nEle e todos os rebeldes s\u00e3o contra as autoridades do Paran\u00e1.\n\nEste povo daqui de Canoinhas n\u00e3o quer ser paranaense. Muitos dos meus conhecidos perderam as suas propriedades, que foram entregues aos amigos do governo que moravam em Curitiba. Para n\u00f3s, n\u00e3o h\u00e1 leis e nem garantias.\n\nPara o autor da carta, o governo do Paran\u00e1 vive tomando as terras que os colonos cultivam. E os novos donos, que moram na cidade, nem deixam tempo para os colonos colherem o que haviam plantado.\n\nOs rebeldes n\u00e3o t\u00eam queixas contra Santa Catarina porque o governo do Estado respeita as propriedades que foram vendidas aos colonos.\n\nEstanislau Schumann vai fundo no problema pessoal. ?Eu, como estrangeiro, n\u00e3o posso fazer nada. E nem tampouco devo decidir sobre o que quer que seja.\n\nFa\u00e7o o poss\u00edvel para respeitar a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira. Por isso, n\u00e3o sou contra a Rep\u00fablica, nem contra o governo que nos rege. Mas n\u00e3o posso aceitar que os donos das terras sejam expulsos de suas propriedades, pior do que se fosse \u00edndio do mato.\n\nO colono tamb\u00e9m entra na quest\u00e3o dos limites entre os dois estados e entende que o governo deve dividir o territ\u00f3rio contestado, em partes iguais, entre os dois brig\u00f5es. Quanto aos fan\u00e1ticos, Estanislau Schumann manifesta toda a certeza que eles v\u00e3o brigar at\u00e9 a \u00faltima gota de sangue, pois, de jeito nenhum aceitam o dom\u00ednio do Paran\u00e1. (O Dia, 13 de janeiro de 1915).\n\nAs profecias do colono alem\u00e3o se realizam: o Contestado ser\u00e1 dividido entre o Paran\u00e1 e Santa Catarina e os caboclos ag\u00fcentam a luta at\u00e9 a \u00faltima gota de sangue.\n\n<strong>Cartas in\u00fateis<\/strong>\n\nEm meados de dezembro de 1914, o chefe do reduto, Ant\u00f4nio Tavares, recebe uma carta do major Atal\u00edbio Taurino de Rezende, comandante de um atalh\u00e3o do Ex\u00e9rcito respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a da \u00e1rea de Canoinhas. Nessa carta, o major sugeria a rendi\u00e7\u00e3o dos acampados no reduto para evitar que fossem massacrados pela tropa, j\u00e1 em preparativos para o assalto final.\n\nOs termos da resposta do poeta, transformado em chefe de guerrilha, deixam evidentes os objetivos da subvers\u00e3o armada que destr\u00f3i o Planalto.\n\nN\u00e3o aceitamos o ep\u00edteto de ?campanha ingl\u00f3ria?, como vossa excel\u00eancia batiza o nosso movimento armado. N\u00f3s nos debatemos dentro dos limites de um programa que observamos com o maior respeito, com a maior fidelidade e com a maior lisura. Defendemos uma causa sacrossanta, mas que infelizmente at\u00e9 hoje tem sido descurada pela nefasta neglig\u00eancia dos ex-governadores do meu pobre Estado: a apodrecida quest\u00e3o dos limites.\n\nS\u00f3 temos um lema e esse lema \u00e9:\n\n\u2013 Execu\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a do Supremo Tribunal Federal ou morte.\n\nS\u00e3o 10 mil fam\u00edlias que imploram essa execu\u00e7\u00e3o; s\u00e3o 10 mil fam\u00edlias que se encontram ignominiadas por essa conspurca\u00e7\u00e3o vexat\u00f3ria do Direito, da lei, da Justi\u00e7a, feita exclusivamente para satisfazer capricho de meia d\u00fazia de politiqueiros e acolitados pela sede insaci\u00e1vel dos nossos vizinhos. S\u00e3o 10 mil fam\u00edlias que choram o long\u00ednquo bem-estar de suas resid\u00eancias; s\u00e3o 10 mil fam\u00edlias, enfim, que preferem entregar-se em holocausto a suportar a ambi\u00e7\u00e3o desmedida e as persegui\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas do sequioso Paran\u00e1.\n\nFoi, pois, impulsionado por esse brado de desespero e de Justi\u00e7a que corri \u00e0s armas para, ao protesto espont\u00e2neo e un\u00e2nime desse povo bem digno de chamar-se brasileiro, juntar o meu e os meus reduzidos esfor\u00e7os, esquecendo dos filhos, da vida e das propriedades e n\u00e3o para espalhar o sangue e me tornar o bandido de que me acoima o Paran\u00e1.\n\nTenho, pois, a dizer a vossa excel\u00eancia que tudo se conseguir\u00e1, desde que o preclaro chefe da na\u00e7\u00e3o queira fazer Justi\u00e7a.\n\nPrevenimos aos interessados que, com amea\u00e7as, nada conseguir\u00e3o, porque os mil homens que existem neste acampamento, sob as minhas ordens, s\u00f3 se entregar\u00e3o contra o Direito depois de o \u00faltimo deles cair in\u00e2nime.\n\nAo convite verbal que vossa excel\u00eancia se dignou mandar-me fazer, pode vossa excel\u00eancia marcar o lugar, assim como se quiser, poder\u00e1 vir at\u00e9 este acampamento, onde teremos o prazer indiz\u00edvel de receb\u00ea-lo.\n\nPode vossa excel\u00eancia vir sem o menor receio, que ser\u00e1 garantido. N\u00e3o costumamos violar as nossas promessas. Subscrevo-me com estima.? (O Dia, 29 de dezembro de 1914).\n\nOs dois l\u00edderes trocam uma s\u00e9rie de cartas e at\u00e9 chegam a encontrar-se em um terreno neutro. Tudo in\u00fatil. Em 8 de janeiro de 1915, as for\u00e7as militares cercam o reduto. Um inc\u00eandio transforma o casario em cinzas.\n\nS\u00e3o aprisionados ?270 patr\u00edcios desviados?. (O Dia, 12 de janeiro de 1915).\n\n<strong>Trag\u00e9dia em quatro atos<\/strong>\n\n<strong>Ato I \u2013 Estranha oferta<\/strong>\n\nEm abril de 1914, o comando das opera\u00e7\u00f5es de guerra no Contestado est\u00e1 sob as ordens do general Carlos Frederico de Mesquita. Ele \u00e9 um vitorioso da Guerra de Canudos, mas n\u00e3o consegue derrotar os sertanejos catarinenses em armas.\n\nO novo comandante das for\u00e7as do governo em luta contra os devotos do monge Jos\u00e9 Maria fica bastante surpreso quando recebe do aviador C\u00edcero Marques a proposta de uma estranha colabora\u00e7\u00e3o.\n\nOfere\u00e7o ao Ex\u00e9rcito Brasileiro, e gratuitamente, os meus servi\u00e7os profissionais para enfrentar o elemento sertanejo em armas contra a lei.?\n\nPara colaborar com os militares, o corajoso aviador pede que lhe seja fornecido um dos grandes aeroplanos da Escola Brasileira de Avia\u00e7\u00e3o, situada no Rio de Janeiro. C\u00edcero Marques disp\u00f5e de um avi\u00e3o, mas o motor da aeronave n\u00e3o desenvolve for\u00e7a suficiente para v\u00f4os de observa\u00e7\u00e3o nos acidentados terrenos da regi\u00e3o catarinense.\n\nO ministro da Guerra nega apoio \u00e0 id\u00e9ia por julgar sem chances de \u00eaxito a utiliza\u00e7\u00e3o de aeroplanos na vasta zona das opera\u00e7\u00f5es b\u00e9licas em Santa Catarina.\n\n<strong>Ato II \u2013 Segredo militar<\/strong>\n\nNo Aeroclube Brasileiro, Capital Federal, 19 de setembro de 1914, a rotina \u00e9 quebrada pelo tipo de atividade que se nota em uma das sec\u00e7\u00f5es.Os aviadores Ricardo Kirk e Ernesto Dariolli encaixotam, muito \u00e0s pressas, um material que j\u00e1 est\u00e1 devidamente separado.\n\n\u2013 Porque tanta pressa no manuseio deste material se por aqui n\u00e3o tem guerra nenhuma como l\u00e1 na Europa?, pergunta um freq\u00fcentador do Aeroclube.\n\u2013 Acontece que o mec\u00e2nico que fazia este servi\u00e7o partiu para a Europa no m\u00eas passado. Agora, n\u00f3s, os pr\u00f3prios aviadores, \u00e9 que devemos preparar o material para o pr\u00f3ximo v\u00f4o.\n\u2013 Para onde?\n\u2013 Segredo militar!\n\n\u00c9 verdade o segredo militar. Os dois aviadores acabam de receber ordem do Minist\u00e9rio da Guerra para seguir rumo ao Contestado, em Santa Catarina, a fim de auxiliar a for\u00e7a federal na desesperada luta contra um bando de fan\u00e1ticos religiosos transformado em fan\u00e1ticos armados. (O Dia, 20 de setembro de 1914).\n\n<strong>Ato III \u2013 Avi\u00f5es no Contestado<\/strong>\n\nNa \u00faltima semana de setembro de 1914, o pessoal e o material da Sec\u00e7\u00e3o de Avia\u00e7\u00e3o destinado \u00e0s for\u00e7as militares em luta contra os rebeldes do Contestado, partem do Rio de Janeiro, via trem, rumo ao norte de Santa Catarina.\n\nO refor\u00e7o a\u00e9reo para as tropas do general Setembrino de Carvalho, sob a dire\u00e7\u00e3o dos aviadores Kirk e Dariolli, est\u00e1 constitu\u00eddo por cinco avi\u00f5es monoplanos: um Bleriot, 80 cavalos, dois lugares; um Morane Saulnier, 90 cavalos; um Parrascal Morane, 60 cavalos, e dois outros, de 50 cavalos.\n\nOs dois aviadores confiam no \u00eaxito da miss\u00e3o. Eles esperam que a nova t\u00e1tica de guerra a\u00e9rea d\u00ea bons resultados, apesar de os campos do Planalto catarinense n\u00e3o se prestarem para aterrissagens. (O Dia, 26 de setembro de 1914).\n\nEnquanto o Ex\u00e9rcito constru\u00eda os primeiros campos de avia\u00e7\u00e3o em solo catarinense \u2013 em Canoinhas, Porto Uni\u00e3o, Ca\u00e7ador e Lebon R\u00e9gis -, os cinco avi\u00f5es do Rio de Janeiro vieram de trem. Uma fagulha da maria-fuma\u00e7a queimou tr\u00eas deles.\n\n<strong>Ato IV \u2013 Asa quebrada<\/strong>\n\nPrimeiro de mar\u00e7o de 1915. A caminho de um v\u00f4o de reconhecimento sobre o grande reduto de Santa Maria, o avi\u00e3o de Ricardo Kirk perde altura, d\u00e1 de encontro a um pinheiro, arrebenta um peda\u00e7o da asa esquerda e se espatifa no ch\u00e3o, no quil\u00f4metro 44 da estrada de rodagem Porto Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria-Palmas.\n\nO piloto morre. A guerra a\u00e9rea no Contestado termina antes de come\u00e7ar. Mas o corte de vidas continuar\u00e1 por muitos anos.\n<h4>Guerrilheiro de olhos azuis<\/h4>\nA bela estampa f\u00edsica de Henrique Volland, desertor de uma canhoneira alem\u00e3 aportada em S\u00e3o Francisco do Sul, percorreu uma vida de aventuras nas terras ensang\u00fcentadas do Planalto catarinense.\n\nLogo depois do desastre de Caraguat\u00e1, o jovem alem\u00e3o aparece como fot\u00f3grafo ambulante no reduto de Tamandu\u00e1, na Serra dos Vieiras, onde se apresentou ao comandante, coronel Aleixo Gon\u00e7alves de Lima, disposto a lutar pela causa dos rebeldes.\n\nInteligente e com fama de valentia indiscut\u00edvel, o ex-fot\u00f3grafo assume o posto de comandante. Maria Rosa confirma-lhe o cargo, nele inclu\u00eddo o poder de trancar estradas e de combater os peludos na regi\u00e3o de Papanduva, Rio Negro, Campo Alegre e at\u00e9 na Serra-Abaixo, em Joinville e Blumenau.\n\nToda a irmandade, sob as ordens do novo guerrilheiro, vive em r\u00edgida disciplina de quartel. Nos piquetes de arrebanhamento ou de ataque, ningu\u00e9m pode falar alto, muito menos rir ou beber cacha\u00e7a.\n\nUns tratem bem dos outros. Ningu\u00e9m tenha pressa de voltar, nem pergunte para onde vai, nem de onde vem.\n\n\u00c9 proibido falar com qualquer senhora sem que seja preciso.? Todo mundo conhecia muito bem as ordens do Alem\u00e3ozinho, repetidas muitas e muitas vezes.\n\nAs repreens\u00f5es, sempre p\u00fablicas; conselhos, na hora da forma; surra, com vara de marmelo, em caso de reincid\u00eancia; algumas vezes, pena de morte. Nessa posi\u00e7\u00e3o, o ex-marinheiro de olhos azuis, acompanhado apenas de 15 jagun\u00e7os, ocupou Itai\u00f3polis para destruir o cart\u00f3rio, que vivia fazendo escrituras das terras roubadas dos posseiros.\n\nEm determinado momento, sem maiores explica\u00e7\u00f5es, Maria Rosa o destitui do cargo de comandante. Alem\u00e3ozinho toma uma decis\u00e3o de n\u00edtida vingan\u00e7a.\n\nEle e mais duas centenas de rebeldes se entregam \u00e0s for\u00e7as do general Setembrino declarando que deixaram de acreditar na guerra. ?A partir de agora estou disposto a combater, \u00e0 frente de meu piquete, junto com o Ex\u00e9rcito. O fanatismo n\u00e3o passa de puro banditismo.?\n\nNum mapa que o general lhe apresenta, o ex-guerrilheiro localiza os redutos que se espalham pela regi\u00e3o.\n\n<strong>Novo reduto santo \u00e9 erguido<\/strong>\n\nO jagun\u00e7o Adeodato Manoel Ramos, agora comandante-geral de todos os caboclos, determina que o reduto-capital dos rebeldes seja levantado no vale do Rio Santa Maria, 10 quil\u00f4metros a leste de Ca\u00e7ador, para nele instalar os fi\u00e9is que ainda acreditam na ressurrei\u00e7\u00e3o do monge que se havia ?passado? no Irani.\n\nO local do acampamento, protegido por ladeiras empinadas e penhascos profundos, \u00e9 de complicado acesso e est\u00e1 defendido pela mata impenetr\u00e1vel de pinheiros e de imbuias. Entre os sertanejos engajados na guerra, corre a cren\u00e7a que o novo reduto est\u00e1 assentado em territ\u00f3rio santo, onde existem montanhas de bijus, onde corre um riacho de leite e onde os que nele se banharem tornam-se imortais.\n\nCaboclos da regi\u00e3o invadem a nova Jerusal\u00e9m. No mesmo local tamb\u00e9m se re\u00fanem os bandoleiros derrotados nos enfrentamentos com as tropas do governo.\n\nEm pouco tempo, o reduto-capital abriga uma popula\u00e7\u00e3o de 5 mil habitantes. O prest\u00edgio e a seguran\u00e7a de Santa Maria atraem fan\u00e1ticos de todo o Contestado.\n\nS\u00f3 de uma vez, aproximadamente mil caboclos chegaram de Lages. Na grande pra\u00e7a central, desembocadouro das ruelas do casario em madeira, uma igreja abriga a est\u00e1tua de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, o padroeiro dos sertanejos. Para alimenta\u00e7\u00e3o de tanta gente, os carneadores abatem 30 a 40 cabe\u00e7as de gado por dia.\n\nCom a funda\u00e7\u00e3o de Santa Maria, Adeodato comete um erro fatal de estrat\u00e9gia para a sobreviv\u00eancia do movimento rebelde. O local fornecia seguran\u00e7a contra as for\u00e7as armadas, mas ele se tornou uma arapuca apetitosa para os planos de general Setembrino, que havia decidido substituir o ataque e o confronto aos fan\u00e1ticos pelo cerco e, com isso, impedir a entrada de alimentos no territ\u00f3rio dominado pela guerrilha e, principalmente, nos redutos.\n\n<strong>Cai o reduto de Santa Maria<\/strong>\n\nNos \u00faltimos dias de dezembro de 1914, o general Setembrino de Carvalho deixa o quartel-general de Curitiba e realiza uma demorada inspe\u00e7\u00e3o \u00e0s linhas de combate do Planalto Norte. Na regi\u00e3o, divulga um novo apelo aos ?patr\u00edcios rebeldes&gt;\n\nDesde o dia 11 de setembro que lutamos, e os nossos soldados cada vez mais se sentem encorajados para a vit\u00f3ria final, que n\u00e3o tarda. Mas \u00e9 preciso parar; \u00e9 for\u00e7oso que se termine esta luta; que o sangue brasileiro n\u00e3o continue a manchar as nossas terras, onde a natureza acumulou tesouros inesgot\u00e1veis, para a grandeza da nossa p\u00e1tria.\n\nN\u00e3o venho trazer-vos a morte ou o pres\u00eddio pela vit\u00f3ria das nossas tropas, sen\u00e3o concitar-vos mais uma vez a que deponhais as armas e aceitais as garantias que vos ofere\u00e7o em nome do governo e da lei. Imp\u00f5e-se, portanto, que volteis novamente ao trabalho, meio \u00fanico capaz de garantir a felicidade do lar e promover a felicidade da nossa grande p\u00e1tria, que tanto precisa do patriotismo dedicado dos seus filhos.?\n\nDiante das amea\u00e7as das garras da artilharia e das bocas-de-fogo dos canh\u00f5es legalistas, pequenos redutos espalhados no trajeto de cada uma das colunas v\u00e3o sumindo um a um. Outras vezes, os pr\u00f3prios comandantes do reduto se rendem na certeza que s\u00f3 assim poderiam salvar a pele e a de todos os seus guerrilheiros encurralados. Com a mesma l\u00f3gica de render-se para sobreviver, l\u00edderes desativam o respectivo reduto e evitam a sangreira in\u00fatil. \u00c9 o caso dos acampamentos de Ant\u00f4nio Tavares, Bonif\u00e1cio Papudo e Henrique Wolland, o Alem\u00e3ozinho.\n\nDando in\u00edcio ao assalto final contra os rebeldes, no dia 8 de fevereiro de 1915, o coronel Francisco Raul d?Estillac Leal, comandante da Coluna Sul, tenta invadir o reduto de Santa Maria.\n\nMas as for\u00e7as do governo recolhem 29 mortos, inclusive dois oficiais, e 39 feridos. O coronel n\u00e3o retorna \u00e0 base e inicia o cerco ao reduto-capital \u00e0 espera do aux\u00edlio das outras tr\u00eas colunas, j\u00e1 em marcha.\n\nO corte de suprimentos instaura a fome e o desespero entre os 5 mil moradores. O abate das 10 reses por dia vai-se reduzindo. \u00c0 falta de carne, soma-se a aus\u00eancia completa de sal, o que inutiliza a prepara\u00e7\u00e3o de qualquer tipo de sopa ou da carne de ca\u00e7a. Para sobreviver, os moradores lambem o suor; devoram frutinhas silvestres, coletam mel de abelhas do mato, devoram couro em correia e at\u00e9 a bruaca, uma bolsa confeccionada com couro ressequido. Dois homens chegam a enfrentar-se a fac\u00e3o porque um havia comido o cinto do outro.\n\nSanta Maria cai em 3 de abril, depois de ser atacada pelos 7 mil soldados das quatro frentes organizadas pelo general Setembrino.\n\n<strong>Prisioneiros complicados<\/strong>\n\nA opera\u00e7\u00e3o de cerco e de ca\u00e7a aos fan\u00e1ticos, pelos quatro destacamentos militares comandados pelo general Setembrino de Carvalho, aberta em meados de janeiro de 1915, resulta na pris\u00e3o de uma enorme quantidade de rebeldes. A vit\u00f3ria das for\u00e7as militares contra a viol\u00eancia armada dos caboclos gera um s\u00e9rio problema: n\u00e3o h\u00e1 pris\u00f5es suficientes para met\u00ea-los e muito menos estruturas para alimentar centenas de prisioneiros.\n\nEm meados de mar\u00e7o, o general-comandante despacha para Florian\u00f3polis o seu ajudante-de-ordens, primeiro-tenente Ant\u00f4nio Guilhon, a fim de, com a interven\u00e7\u00e3o do governador Felipe Schmidt, transferir para n\u00facleos agr\u00edcolas os fan\u00e1ticos aprisionados.\n\nDurante a perman\u00eancia na Ilha, o tenente participa de uma reuni\u00e3o social na qual toma parte o deputado Paula Ramos, representante de Santa Catarina na C\u00e2mara dos Deputados. No decorrer da reuni\u00e3o, alguns interlocutores tecem refer\u00eancias desabonadoras ao comportamento militar do general Setembrino pela maneira como trata os fan\u00e1ticos que se rendem \u00e0s for\u00e7as legais. A situa\u00e7\u00e3o era de fato complicada.\n\nAlguns fan\u00e1ticos que haviam deposto as armas, depois de receberem o salvo-conduto para se movimentarem pela regi\u00e3o em busca de trabalho, retornavam aos redutos. Ali, eram encontrados pelo Ex\u00e9rcito com armas na m\u00e3o lutando contra as for\u00e7as legais. Outros, utilizados como vaqueanos, cometiam trai\u00e7\u00f5es e levavam os soldados a cair em emboscadas. Al\u00e9m disso, as tropas legais reclamavam do modo como os fan\u00e1ticos tratavam os cad\u00e1veres dos oficiais e pra\u00e7as, que eram desenterrados para servirem de pasto aos animais da floresta e \u00e0s aves de rapina.\n\nNo fervo da discuss\u00e3o, o tenente teria dito que os militares deveriam aplicar o fuzilamento a todos os fan\u00e1ticos encontrados nos redutos. O deputado Paula Ramos transmite a opini\u00e3o a um jornal do Rio de Janeiro.\n\nEstoura o esc\u00e2ndalo nacional. Militar prop\u00f5e o fuzilamento de todos os fan\u00e1ticos do Contestado!\n\nO p\u00e9ssimo retrato da presen\u00e7a das tropas do Ex\u00e9rcito no Planalto Norte de Santa Catarina nem foi retocado quando o tenente jurou que apenas havia dito:\n\nOs fan\u00e1ticos deveriam ser tratados de acordo com as leis da guerra: todo inimigo que fosse encontrado com arma na m\u00e3o e salvo-conduto, anunciando-o como ex-prisioneiro, deveria ser submetido a conselho de guerra e at\u00e9 fuzilado, se fosse o caso.? (O Dia, 21 de mar\u00e7o de 1915).\n\n<strong>Despojos de guerra<\/strong>\n\nEstas mem\u00f3rias de um soldado vitorioso referem-se ao ataque da for\u00e7a do capit\u00e3o Tertuliano Potyguara \u00e0 guarda de Maria Rosa, reduto de Ca\u00e7ador, dois dias antes de ele entrar em Santa Maria.\n\nO reduto, composto de muitas casas de madeira, abandonado precipitadamente pelos jagun\u00e7os e suas fam\u00edlias, adquiriu logo um aspecto estranho, com os soldados se espalhando em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es, penetrando nas casas para o exame e para as buscas necess\u00e1rias.\n\nDurante os trabalhos, apreenderam os soldados, em duas habita\u00e7\u00f5es mais confort\u00e1veis, diversas cartas, cujo texto veio revelar coisas comprometedoras para certa gente de posi\u00e7\u00e3o, naturalmente os instigadores da cruenta batalha entre brasileiros humildes e uma falange do glorioso Ex\u00e9rcito brasileiro.\n\nEm outra casa, foi encontrado um saco de aniagem com a cor verde e amarela pertencente ao Correio.\n\nUm soldado descobriu uma garrafa de vidro com avantajado bocal branco. Em seu interior havia um pequeno caix\u00e3o de defunto, trabalhado em madeira, ao lado de quatro pequenas velas, tamb\u00e9m de madeira branca, e mais uma caveira microsc\u00f3pica. Descobrimos logo que era uma tola e inofensiva feiti\u00e7aria feita \u00e0 coluna dos soldados pelos nossos inimigos supersticiosos.\n\nNum ba\u00fa de madeira foi encontrado um vestido da virgem Maria Rosa. Era branco e todo enfeitado com fitas azuis e verdes e com uma profus\u00e3o de p\u00e1ssaros de todas as cores.\n\nO vestido e o ba\u00fa foram entregues ao nosso comandante.\n\nAntes de acampar, ateamos fogo \u00e0s casas, bem como a uma pequena igreja tendo \u00e0 frente um grande cruzeiro de madeira.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.alca-bloco.com.br\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria do Contestado &#8211; Livro, Guerra, Conflito, Causa, L\u00edder, Limites, Coloniza\u00e7\u00e3o, Terras, Governo, Fotos, Hist\u00f3ria do Contestado &#8211; Livro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9292,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-20488","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Hist\u00f3ria do Contestado - Livro - Portal S\u00e3o Francisco<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Hist\u00f3ria do Contestado - Livro - Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Hist\u00f3ria do Contestado - Livro, Guerra, Conflito, Causa, L\u00edder, Limites, Coloniza\u00e7\u00e3o, Terras, Governo, Fotos, Hist\u00f3ria do Contestado - Livro\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/historia-do-contestado-3\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2015-12-18T00:00:00+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/pontilhado1.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"10\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"158\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"admin\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"admin\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"221 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisco\\\/uncategorized\\\/historia-do-contestado-3\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisco\\\/uncategorized\\\/historia-do-contestado-3\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"admin\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisco\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/809496378e7bdc3449a70c476cbf211c\"},\"headline\":\"Hist\u00f3ria do Contestado &#8211; 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