{"id":20475,"date":"2015-12-18T00:00:00","date_gmt":"2015-12-18T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/governo-populista-3\/"},"modified":"2015-12-18T00:00:00","modified_gmt":"2015-12-18T00:00:00","slug":"governo-populista-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/governo-populista-3\/","title":{"rendered":"Governo Populista"},"content":{"rendered":"\n<h4><strong>POPULISMO<\/strong><\/h4>\n\u00c9 basicamente um \u0093modo\u0094 de exercer o poder. Ou seja, d\u00e1-se uma \u0093import\u00e2ncia\u0094 ao povo, \u00e0s classes menos favorecidas, cuida-se delas e, assim, conquista-se sua confian\u00e7a o que permite que se exer\u00e7a um autoritarismo consentido, uma domina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 percebida por quem \u00e9 dominado.\n\nHistoricamente o populismo est\u00e1 ligado a fen\u00f4menos pol\u00edticos da Am\u00e9rica Latina e se identifica com a industrializa\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o. No caso espec\u00edfico do Brasil este processo se inicia nos anos vinte e trinta o que coloca o populismo em foco exatamente neste per\u00edodo.\n\nDentre as caracter\u00edsticas do populismo est\u00e1 o fato de que o contato do l\u00edder com as massas acontece diretamente. Isto \u00e9, o l\u00edder n\u00e3o precisa de ningu\u00e9m que seja seu contato com o povo, mas vai, pessoalmente, de encontro a ele, torna-se \u0093amigo pessoal\u0094 dos pobres, preocupando-se com sua situa\u00e7\u00e3o individual. Atrav\u00e9s dessa proximidade, cria la\u00e7os que permitir\u00e3o a ele ser eleito sob os aplausos da grande massa popular que a ele confia, posto que se trata, n\u00e3o de um pol\u00edtico qualquer, mas de um amigo. Portanto, o populismo tem como foco as classes m\u00e9dia e baixa.\n\nO populismo n\u00e3o \u00e9 um governo de esquerda apesar de se voltar para as classes m\u00e9dia e baixa. Tampouco \u00e9 um governo de direita. A direita o considera uma forma demag\u00f3gica de comportamento pol\u00edtico. O populismo n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o para a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe burguesa uma vez que suas determina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o atribu\u00eddas ao l\u00edder. O l\u00edder populista est\u00e1 acima de todas as classes, \u00e9 representante \u00fanico e total dos anseios do povo que o elegeu. Para a esquerda o populismo representa uma venda que \u00e9 colocada nos olhos das massas distanciando-as da possibilidade de perceber o papel exercido sobre ele pelo Estado.\n\nNo Brasil, Get\u00falio Vargas \u00e9 o exemplo maior do populismo. Apesar de toda a repress\u00e3o exercida por Vargas conseguiu ser democraticamente eleito pelo povo o que mostra sua popularidade diante das grandes massas. Seu \u0093interesse\u0094 pelos pobres, o que o levou a ser apelidado de \u0093pai dos pobres\u0094, d\u00e1 uma dimens\u00e3o do populismo assumido por Get\u00falio Vargas. A manipula\u00e7\u00e3o das massas \u00e9 compreens\u00edvel na medida em que a industrializa\u00e7\u00e3o fez migrar para as grandes cidades um grande contingente de trabalhadores das zonas rurais como tamb\u00e9m de outros pa\u00edses. Estas massas vindas de diferentes lugares tinham dificuldades de organizar-se e, assim, preferiam confiar seus anseios \u00e0quele que se dizia um amigo, o l\u00edder populista.\n\nFonte: www.machadodeassis.com.br\n<h6>Governo Populista<\/h6>\n<p class=\"google\"><\/p>\n<strong>O POPULISMO NA POL\u00cdTICA BRASILEIRA<\/strong>\n<p align=\"center\">&#8220;N\u00e3o h\u00e1 povo amorfo. N\u00e3o h\u00e1 massa bruta e indiferente. A massa \u00e9 formada de homens e a natureza de todos os homens \u00e9 a mesma: dela \u00e9 a paix\u00e3o, a gratid\u00e3o, a c\u00f3lera, o instinto de luta e o instinto de defesa.&#8221; Rachel de Queiroz<\/p>\nHerdeiro do &#8220;clientelismo&#8221; da Primeira Rep\u00fablica, o &#8220;populismo&#8221;, ap\u00f3s 1930, teria dado continuidade a uma rela\u00e7\u00e3o desi\u00adgual entre Estado e sociedade e, em particular, entre Estado e classe trabalhadora. Sobretudo com a ditadura de Get\u00falio Vargas, os trabalhadores, com a viol\u00eancia policial, teriam perdido suas lideran\u00e7as mais combativas e, com a efic\u00e1cia da m\u00e1quina do DIP, sido iludidos pela propaganda pol\u00edtica estatal. Destitu\u00eddos de tradi\u00e7\u00f5es de luta, organiza\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia, os trabalhado\u00adres, fossem os mais &#8220;antigos&#8221;, fossem os mais &#8220;novos&#8221;, aqueles rec\u00e9m-chegados do mundo rural, sucumbiram aos agrados do ditador.\n\nSatisfeitos com alguns benef\u00edcios materiais, a legisla\u00e7\u00e3o social em particular, eles, em troca, dedicaram a Vargas submis\u00ads\u00e3o e obedi\u00eancia pol\u00edtica.\n\n<strong>Cooptados, manipulados, iludidos e amedrontados com as persegui\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Especial, os assalariados, ap\u00f3s 1945, n\u00e3o teriam conseguido livrar-se das amarras ideol\u00f3gicas tecidas na \u00e9poca anterior: <\/strong>cerceados em suas lutas pela manuten\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o corporativista e a tutela estatal dos sindicatos, tra\u00eddos com a atua\u00e7\u00e3o dos pelegos sindicais e confundidos politicamente com as lideran\u00e7as populistas, as mais antigas como Vargas, as mais recicladas como Goulart. Os comunistas, igualmente ilu\u00addidos com o nacionalismo, refor\u00e7aram os la\u00e7os, j\u00e1 apertados, da teia populista.\n\nA hist\u00f3ria dos trabalhadores, como \u00e9 contada, n\u00e3o \u00e9 nova e, independentemente de suas diversas vers\u00f5es, retoma uma longa tradi\u00e7\u00e3o intelectual.\n\n<strong>Liberais e autorit\u00e1rios, de direita ou esquer\u00adda, diagnosticaram que os males do pa\u00eds prov\u00eam de uma rela\u00ad\u00e7\u00e3o desigual, destitu\u00edda de reciprocidade e interlocu\u00e7\u00e3o:<\/strong> a uma sociedade civil incapaz de auto-organiza\u00e7\u00e3o, &#8220;gelatinosa&#8221; em algumas leituras, e a uma classe trabalhadora &#8220;d\u00e9bil&#8221;, imp\u00f5e-se um Estado que, armado de eficientes mecanismos repressivos e persuasivos, seria capaz de manipular, cooptar e corromper. A interpreta\u00e7\u00e3o ainda foi refor\u00e7ada por um certo tipo de marxis\u00admo que defendia um modelo de classe trabalhadora, uma deter\u00adminada consci\u00eancia que lhe corresponderia e um caminho, \u00fani\u00adco e portanto verdadeiro, a ser seguido.\n\nNesse caso, se a classe n\u00e3o surgiu como se imaginava, se a consci\u00eancia n\u00e3o se desen\u00advolveu como se previa e se os caminhos trilhados foram outros, a explica\u00e7\u00e3o poderia ser encontrada no poder repressivo de Estado, nos mecanismos sutis de manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e, ainda, nas pr\u00e1ticas demag\u00f3gicas dos pol\u00edticos populistas. A teoria do &#8220;desvio&#8221;, assim, refor\u00e7ou a interpreta\u00e7\u00e3o que polarizava Estado e sociedade. Como lembra Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, a postura antiestatal, manique\u00edsta em sua defini\u00e7\u00e3o, inviabiliza qualquer no\u00e7\u00e3o de cidadania e, na pr\u00e1tica, &#8220;acaba por revelar uma atitude paternalista em rela\u00e7\u00e3o ao povo, ao consider\u00e1-lo v\u00edtima impotente diante das maquina\u00e7\u00f5es do Estado ou de grupos dominantes. Acaba por bestializar o povo\u0094. Culpabilizar o Estado e vitimizar a sociedade, eis alguns dos fundamentos da no\u00e7\u00e3o de populismo.\n\nN\u00e3o s\u00e3o poucos, \u00e9 verdade, os trabalhos que romperam com esta esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica entre um Estado que surge pleno de poderes e uma sociedade incapaz de reagir e se manifestar No entanto, se o populismo, como categoria explicativa da pol\u00edtica brasileira entre 1930 e 1964, e como uma maneira de enfocar o movimento oper\u00e1rio e sindical, vem, desde a d\u00e9cada de 70, sendo posto em d\u00favida em um ou outro aspecto, em uma ou outra afirma\u00e7\u00e3o, o conjunto da teoria ainda continua a dar as cartas para explicar o passado recente do pa\u00eds.\n\nNas p\u00e1ginas que se seguem, procuro reconstituir a hist\u00f3ria do populismo. No entanto, \u00e9 importante frisar, n\u00e3o compreen\u00addo a express\u00e3o como um fen\u00f4meno que tenha regido as rela\u00ad\u00e7\u00f5es entre Estado e sociedade durante o per\u00edodo de 1930 a 1964 ou como uma caracter\u00edstica peculiar da pol\u00edtica brasileira na naquela temporalidade, pois sequer creio que o per\u00edodo tenha sido &#8220;populista&#8221;, mas, sim, como uma categoria que, ao longo do tempo, foi imaginada, e portanto constru\u00edda, para explicar essa mesma pol\u00edtica.\n<h4>O POPULISMO DE PRIMEIRA GERA\u00c7\u00c3O<\/h4>\nNos anos 50\/60, a teoria da moderniza\u00e7\u00e3o repercutiu nos meios acad\u00eamicos do pa\u00eds com grande impacto, sobretudo para a configura\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de populismo. Para Gino Germani, o mais conhecido desses te\u00f3ricos, a inser\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina no mundo moderno n\u00e3o seguiu os padr\u00f5es cl\u00e1ssicos da democracia liberal europ\u00e9ia. A passagem de uma sociedade tradicional para uma moderna ocorreu em um r\u00e1pido processo de urbaniza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o, mobilizando, desta maneira, as &#8220;massas populares&#8221;. Impacientes, elas exigiram participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, atropelando, com suas press\u00f5es, os canais institucionais cl\u00e1ssicos. A resolu\u00e7\u00e3o dos problemas ocorreu com golpes militares ou com &#8220;revolu\u00e7\u00f5es nacionais-populares&#8221;, sendo que as \u00faltimas, sobretudo seus resultados, foram nomeadas de populismo. Torcuato di Tella, por sua vez, foi al\u00e9m. A explos\u00e3o demogr\u00e1fica e as aspira\u00e7\u00f5es participativas das &#8220;massas populares&#8221; for\u00e7aram altera\u00e7\u00f5es no sistema pol\u00edtico. Em certo ponto, de muita tens\u00e3o, as &#8220;massas&#8221;, com suas expectativas, se aliaram \u00e0s camadas m\u00e9dias, setores ressentidos por n\u00e3o se tornarem classes dominantes. Assim, diante de um quadro em que as classes fundamentais n\u00e3o deram respostas adequadas exigidas pelo &#8220;momento hist\u00f3rico&#8221; \u0097 as dominantes, por sua inoper\u00e2ncia, a oper\u00e1ria, por sua inexpressividade \u0097, surgiram l\u00edderes oriundos das classes m\u00e9dias prontos para manipularem as &#8220;massas&#8221;.\n\n<strong>Desse modo, no contexto da transi\u00e7\u00e3o de uma &#8220;economia tradicional&#8221;, de &#8220;participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica restrita&#8221;, para uma &#8220;economia de mercado&#8221;, de &#8220;participa\u00e7\u00e3o ampliada&#8221;, a teoria da moderniza\u00e7\u00e3o elegeu um ator coletivo central para o surgimento do populismo na Am\u00e9rica Latina:<\/strong> os camponeses. Mesmo que eles n\u00e3o sejam nomeados com todas as letras, o eixo fundamental dos argumentos de Germani e di Tella gira em torno da quest\u00e3o do mundo rural, definido como tradicional. O populismo surgiu em um momento de transi\u00e7\u00e3o dessa sociedade para a moderna, implicando o deslocamento de popula\u00e7\u00f5es do campo para a cidade \u0097 o mundo agr\u00e1rio invadindo o urbano-industrial. Como a mescla de valores tradicionais e modernos, os l\u00edderes populistas se projetaram em sociedades que n\u00e3o consolidaram institui\u00e7\u00f5es e ideologias aut\u00f4nomas, mas necessariamente seriam substitu\u00eddos por outras lideran\u00e7as portadoras de id\u00e9ias classistas quando o capitalismo alcan\u00e7asse maturidade na regi\u00e3o.\n\nOs cr\u00edticos de Germani e di Tella, de variadas maneiras, denunciaram a suposta vincula\u00e7\u00e3o entre camponeses que vieram para as cidades e l\u00edderes populistas.\n\nOctavio Ianni, por exemplo, denunciou a imagem, sugerida pelos te\u00f3ricos da moderniza\u00e7\u00e3o, de docilidade das &#8220;massas \u00e0s manipula\u00e7\u00f5es populistas, demag\u00f3gicas e carism\u00e1ticas&#8221;. Por um aspecto, diz Ianni, h\u00e1 o surgimento de popula\u00e7\u00f5es rec\u00e9m-chegadas do mundo rural que &#8220;n\u00e3o disp\u00f5em ainda das condi\u00e7\u00f5es psicossociais, ou horizonte cultural&#8221;, para um adequado comportamento urbano e democr\u00e1tico. Por outro, a sociedade carece de institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00f3lidas, a exemplo de um sistema partid\u00e1rio. &#8220;Da\u00ed o sucesso da arregimenta\u00e7\u00e3o das massas marginais, ou classes populares, pelo populismo.&#8221;\n\n<strong>Trata-se de um descompasso, retrocesso ou desvio de curso no sentido que se queria ideal: <\/strong>o modelo europeu de democracia representativa. &#8220;No mundo urbano-industrial&#8221;, continua Ianni em sua cr\u00edtica, &#8220;onde imperam as rela\u00e7\u00f5es de mercado, sobrevivem ou predominam as massas e o l\u00edder, cujos v\u00ednculos s\u00e3o a demagogia e o carisma.&#8221;\n\nCom o tempo, as inconsist\u00eancias da teoria da moderniza\u00e7\u00e3o foram percebidas e as cr\u00edticas tornaram-se mais agudas. A distin\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses &#8220;atrasados&#8221; e &#8220;desenvolvidos&#8221;, indicando, segundo Maria Helena Capelato, uma rela\u00e7\u00e3o de exterioridade entre eles, o mundo capitalista &#8220;moderno&#8221; como modelo a ser seguido, a perspectiva etapista, progressista, que levaria \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do regime democr\u00e1tico nos pa\u00edses &#8220;atrasados&#8221; \u0097 concep\u00e7\u00e3o desmentida pelas ditaduras militares nos anos 60 \u0097, entre outras quest\u00f5es, abalaram a credibilidade do enfoque.\n\nNo entanto, mesmo d\u00e9cadas depois, quando as cr\u00edticas tornaram as id\u00e9ias de Germani e di Tella desacreditadas, as imagens de &#8220;atraso&#8221;, &#8220;desvio&#8221; e &#8220;manipula\u00e7\u00e3o&#8221; perdurariam. As representa\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias, sabemos, s\u00e3o capazes de resistir a cr\u00edticas, mesmo aquelas formais, eruditas e com base na investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. Assim, perdurou, ao longo do tempo, a id\u00e9ia de que, com o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, os indiv\u00edduos rec\u00e9m-chegados do mundo rural teriam contaminado os antigos oper\u00e1rios com suas id\u00e9ias tradicionais e individualistas. Sociedade atrasada, camponeses que vieram para as cidades, igualmente um atraso, e, logo, uma pol\u00edtica novamente atrasada, eis o ambiente em que teriam proliferado os l\u00edderes populistas.\n\nA teoria da moderniza\u00e7\u00e3o foi decisiva para as primeiras formula\u00e7\u00f5es sobre o populismo no Brasil. Segundo Angela de Castro Gomes, em meados da d\u00e9cada de 50 um grupo de intelectuais, sob o patroc\u00ednio do Minist\u00e9rio da Agricultura, passou a se reunir periodicamente com o objetivo de debater os problemas pol\u00edticos do pa\u00eds. Como uma vanguarda esclarecida, o Grupo de Itatiaia, como ficou conhecido, esfor\u00e7ou-se para formular projetos pol\u00edticos e estabelecer uma nova vis\u00e3o de mundo. Um dos problemas identificados foi o surgimento do &#8220;populismo na pol\u00edtica brasileira&#8221;. Embora se constate aus\u00eancia de esfor\u00e7os para conceituar o fen\u00f4meno nas condi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, explicava se a express\u00e3o por vari\u00e1veis hist\u00f3rico-sociol\u00f3gicas, influenciando, mais tarde, as in\u00fameras formula\u00e7\u00f5es que se seguiram.\n\nPara os intelectuais do Grupo, em primeiro lugar, o populismo era uma pol\u00edtica de massas. Trata-se de um fen\u00f4meno vinculado \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o da sociedade, sobretudo no tocante ao processo de proletariza\u00e7\u00e3o de trabalhadores que n\u00e3o adquiriram consci\u00eancia de classe. Interpelados como massa, eles somente se libertariam dos l\u00edderes populistas quando alcan\u00e7assem a verdadeira consci\u00eancia de seus interesses. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, portanto, perceber as influ\u00eancias da teoria da moderniza\u00e7\u00e3o. Mas, em segundo lugar, o populismo igualmente estava associado a uma classe dirigente que perdera a sua representatividade, que carecia de exemplos e valores que orientassem toda a coletividade. Em crise e sem condi\u00e7\u00f5es de dirigir o Estado, as classes dominantes necessitariam conquistar o apoio pol\u00edtico das massas emergentes.\n\n<strong>Por fim, diante da &#8220;inconsist\u00eancia&#8221; das classes fundamentais da sociedade, o terceiro elemento completaria o fen\u00f4meno:<\/strong> o l\u00edder populista, homem carregado de carisma, com capacidade incomum para mobilizar e empolgar as massas.\n\nNessa linha de abordagem, em 1961, o soci\u00f3logo Alberto Guerreiro Ramos, integrante do Grupo de Itatiaia, publicou A crise do poder no Brasil. O livro estabeleceria, de maneira mais sistematizada, a imagem do populismo na pol\u00edtica brasileira e influenciaria estudos acad\u00eamicos que, naquela \u00e9poca, ainda estavam em curso.\n\nTamb\u00e9m em uma perspectiva hist\u00f3rico-sociol\u00f3gica, Ramos defende que o estabelecimento do populismo no Brasil ocorreu sobretudo a partir de 1945. Com o fim do Estado Novo, o pa\u00eds conheceu, no plano pol\u00edtico, um m\u00ednimo de probidade nas elei\u00e7\u00f5es e, no plano econ\u00f4mico, uma industrializa\u00e7\u00e3o mais consistente.\n\nAssim, em uma conjuntura de expans\u00e3o industrial, urbaniza\u00e7\u00e3o e de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-eleitoral, \u00e9 que se manifestaram as primeiras gera\u00e7\u00f5es de assalariados das cidades. Para o autor, o populismo, como uma ideologia pequeno-burguesa, procurou mobilizar politicamente &#8220;as massas obreiras nos per\u00edodos iniciais da industrializa\u00e7\u00e3o&#8221;. Contudo, os assalariados n\u00e3o apresentavam &#8220;aquela mentalidade classista que costuma caracterizar as gera\u00e7\u00f5es de trabalhadores providos de longas tradi\u00e7\u00f5es de lutas&#8221;, uma vez que as classes sociais ainda n\u00e3o tinham se configurado, despontando no cen\u00e1rio pol\u00edtico do pa\u00eds de &#8220;maneira rudimentar&#8221;, como um &#8220;agregado sincr\u00e9tico&#8221;. Em uma palavra, a classe trabalhadora se apresentava como &#8220;povo em estado embrion\u00e1rio&#8221;. Assim, novamente associando os camponeses ao populismo, os l\u00edderes de massa, diz Ramos, encontraram sustenta\u00e7\u00e3o em &#8220;componentes rec\u00e9m-egressos dos campos [que] ainda n\u00e3o dominam o idioma ideol\u00f3gico&#8221;. S\u00e3o trabalhadores com escasso &#8220;treino partid\u00e1rio&#8221; e &#8220;t\u00edmida consci\u00eancia de direitos&#8221;, o que os &#8220;torna incapazes&#8221; de exercer influ\u00eancia sobre os pol\u00edticos populistas.\n\nRecuperando as teorias em voga na \u00e9poca, sobretudo as de Gino Germani, Guerreiro Ramos, a seguir, formula cr\u00edticas ao trabalhismo brasileiro, classificando, n\u00e3o sem alguma ironia, as suas &#8220;doen\u00e7as infantis&#8221;. A primeira \u00e9 o varguismo. Trata-se, em suas palavras, de um &#8220;res\u00edduo emocional baseado em impress\u00f5es e cren\u00e7as populares na bondade intr\u00ednseca de Vargas&#8221;. A segunda \u00e9 o janguismo, definido como uma forma de seguidismo que se fundamenta no &#8220;reconhecimento de amplas camadas populares de que o Sr. Jo\u00e3o Goulart \u00e9 o continuador da obra do Presidente Get\u00falio Vargas&#8221;. A terceira, o peleguismo, na verdade um subproduto do varguismo e irm\u00e3o siam\u00eas do janguismo. Para Ramos, o peleguismo impede a forma\u00e7\u00e3o de um &#8220;movimento obreiro na exata express\u00e3o da for\u00e7a pol\u00edtica que t\u00eam j\u00e1 os trabalhadores brasileiros&#8221;. Por fim, o expertismo, ou seja, a pr\u00e1tica do partido em recorrer a um &#8220;doutor, encomendando-lhe uma teoria sob medida&#8221;. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que as &#8220;doen\u00e7as infantis do trabalhismo&#8221;, formuladas por Guerreiro Ramos, sobretudo as tr\u00eas primeiras, firmaram-se como imagens fortemente introjetadas na imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das gera\u00e7\u00f5es que o sucederam. Ironias que foram tomadas a s\u00e9rio.\n\nSeja como for, os soci\u00f3logos do Grupo de Itatiaia, sobretudo H\u00e9lio Jaguaribe e Guerreiro Ramos em particular, influenciados pela teoria da moderniza\u00e7\u00e3o, foram aqueles que formularam as primeiras reflex\u00f5es sobre o populismo na pol\u00edtica brasileira.\n\nAssim, dando continuidade a uma linha interpretativa que se constitu\u00eda desde meados dos anos 50, um outro grupo de soci\u00f3logos, agora nas universidades, desenvolveu reflex\u00f5es sobre o papel dos camponeses no processo de forma\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria e do movimento sindical. Nomeada por Luiz Werneck Vianna de a &#8220;interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica&#8221;, o primeiro desses trabalhos veio ao conhecimento do p\u00fablico em 1964, com Juarez Brand\u00e3o Lopes. A partir do aux\u00edlio de algumas categorias weberianas, Brand\u00e3o procurou compreender as motiva\u00e7\u00f5es de oper\u00e1rios de uma empresa de porte m\u00e9dio em um momento de transito de uma &#8220;economia tradicional&#8221; para uma &#8220;economia de mercado&#8221;. A conclus\u00e3o, segundo Werneck Vianna, foi a determina\u00e7\u00e3o estrutural entre a origem social e a consci\u00eancia de classe. Desse modo, os trabalhadores origin\u00e1rios do campo e das pequenas comunidades do interior, quando instalados nas cidades, n\u00e3o se identificariam completamente como oper\u00e1rios industriais, tendendo a se comportar de acordo com seus &#8220;interesses pessoais&#8221;. N\u00e3o conseguiriam, dessa maneira, explicitar a consci\u00eancia de sua identidade coletiva devido \u00e0 falta de experi\u00eancias cooperativas, pr\u00f3prias do mundo urbano e industrial. Os outros oper\u00e1rios, qualificados e mais antigos nas cidades, por tiara vez, demonstrariam satisfa\u00e7\u00e3o com suas profiss\u00f5es, mas, por sara situa\u00e7\u00e3o vantajosa no mercado de trabalho e pela &#8220;falta de tradi\u00e7\u00e3o industrial&#8221;, tornaram-se pouco sens\u00edveis para a\u00e7\u00f5es coletivas atrav\u00e9s do sindicato.\n\nSegundo Luiz Werneck Vianna, os estudos sobre o movimento oper\u00e1rio e sindical no Brasil se iniciaram com os trabalhos de Juarez Brand\u00e3o Lopes e Le\u00f4ncio Martins Rodrigues, como tamb\u00e9m com os de Azis Sim\u00e3o e Jos\u00e9 Albertino Rodrigues. Embora com suas diferen\u00e7as e especificidades, a &#8220;interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica&#8221; compartilha perspectivas semelhantes em suas an\u00e1lises. Partindo dos &#8220;gloriosos anos 10&#8221;, com a atua\u00e7\u00e3o dos anarquistas, a reflex\u00e3o procura tornar evidente a transi\u00e7\u00e3o, completada na d\u00e9cada de 30, para um sindicalismo burocr\u00e1tico e acomodado, permitindo o surgimento de uma classe oper\u00e1ria que teria perdido sua autonomia, espontaneidade e \u00edmpeto revolucion\u00e1rio. As matrizes te\u00f3ricas da &#8220;interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica&#8221;, diz Werneck Vianna, prov\u00eam da hegemonia do pensamento cepalino nas universidades brasileiras, dos trabalhos de Gino Germani e da leitura de textos de Weber e Marx. Tais concep\u00e7\u00f5es foram entendidas como convergentes para explicar a realidade latino-americana. Assim, o enfoque sobre o &#8220;comportamento oper\u00e1rio&#8221;, determinado pela origem da for\u00e7a de trabalho em um contexto de transi\u00e7\u00e3o de uma &#8220;economia tradicional&#8221;, de &#8220;participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica restrita&#8221;, para uma &#8220;economia de mercado&#8221;, de &#8220;participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ampliada&#8221;, teria resultado em uma classe oper\u00e1ria que, marcada pelo individualismo, por suas origens rurais, tradicionais e patrimoniais, se tornou passiva e dependente do Estado. O resultado, portanto, foi o surgimento do populismo.\n\nAs cr\u00edticas, na verdade, tardaram a chegar. Para Maria Helena Capelato, um dos elementos constitutivos da no\u00e7\u00e3o de populismo nesse per\u00edodo \u00e9 a compreens\u00e3o dos movimentos sociais como reflexos, das vari\u00e1reis s\u00f3cio-econ\u00f4micas. Assim, &#8220;explica-se o comportamento pol\u00edtico das classes a partir de determinantes estruturais (processo de industrializa\u00e7\u00e3o, origem rural da classe trabalhadora). A ades\u00e3o ao populismo \u00e9 entendida ent\u00e3o a partir da estrutura social, sem se levar em conta qualquer elemento de ordem pol\u00edtica ou cultural&#8221;. O &#8220;novo proletariado&#8221; da d\u00e9cada de 30, muito distante do velho e revolucion\u00e1rio anarquismo dos anos 10, teria surgido, no dizer de Werneck Vianna, com uma &#8220;concep\u00e7\u00e3o individualista que traz do mundo do tradicionalismo agr\u00e1rio \u0097 se tornaria na massa de manobra do populismo (&#8230;) assinalando o toque de recolher para o marxismo no movimento oper\u00e1rio substitu\u00eddo pelo nacionalismo&#8221;.\n\nNo entrecruzamento da teoria da moderniza\u00e7\u00e3o com uma certa interpreta\u00e7\u00e3o do marxismo, eis que surgem os camponeses no cen\u00e1rio pol\u00edtico, representando o ator coletivo chave para a formula\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o da primeira vers\u00e3o do populismo. Seria na passagem da &#8220;sociedade tradicional&#8221; para a &#8220;moderna&#8221; que atuariam os camponeses, seres incapazes de a\u00e7\u00f5es coletivas porque imbu\u00eddos de uma percep\u00e7\u00e3o individualista da sociedade e, exatamente por isso, refrat\u00e1rios as mudan\u00e7as sociais \u0097 em particular as revolucion\u00e1rias.\n\nPortanto, entre meados dos anos 50 e in\u00edcio dos anos 60, algumas imagens sobre os &#8220;desvios&#8221; da pol\u00edtica brasileira e da pr\u00f3pria classe trabalhadora, determinados pelo papel dissolvente exercido pelos camponeses que vieram para as cidades, come\u00e7aram a circular em alguns c\u00edrculos intelectuais no Brasil.\n\nTendo como matriz a teoria da moderniza\u00e7\u00e3o, tais id\u00e9ias inicialmente foram apropriadas pelos soci\u00f3logos do Grupo de Itatiaia e, da\u00ed, come\u00e7aram a ganhar espa\u00e7os nas universidades. O golpe militar, em 1964, no entanto, veio acelerar o processo, permitindo que a no\u00e7\u00e3o de populismo surgisse como fator explicativo para a fraqueza do movimento oper\u00e1rio e sindical diante da investida, verdadeiramente fulminante, da direita civil-militar. Foi nesse contexto pol\u00edtico e intelectual que, em meados dos anos 60, veio a p\u00fablico uma s\u00e9rie de artigos, reunidos, mais tarde, sob o t\u00edtulo de O populismo na pol\u00edtica brasileira. A colet\u00e2nea resgatou o conjunto de id\u00e9ias que, desde a d\u00e9cada anterior, vinha afirmando a no\u00e7\u00e3o de populismo e, sintetizando-o de maneira original, abriu caminhos para pesquisas e reflex\u00f5es posteriores. Embora apresente reflex\u00f5es avan\u00e7adas para a primeira metade dos anos 60, o pr\u00f3prio contexto intelectual daquela \u00e9poca imp\u00f4s limita\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas aos textos. Assim, duas tradi\u00e7\u00f5es interpretativas percorrem as p\u00e1ginas do livro. A primeira \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o da tipologia de Gino Germani, que alude \u00e0 passagem de uma &#8220;democracia com participa\u00e7\u00e3o limitada&#8221; para uma &#8220;ampliada&#8221;. Trata-se de um processo de &#8220;massifica\u00e7\u00e3o prematura&#8221; ou &#8220;antecipada&#8221; de massas rurais na vida urbana e no processo pol\u00edtico. Weffort recupera a tese que afirma o sucesso da pol\u00edtica varguista entre os trabalhadores porque o \u00eaxodo rural trouxe para as cidades uma m\u00e3o-de-obra com tradi\u00e7\u00f5es patrimoniais, individualistas e sem experi\u00eancias de lutas sindicais. Desencadearam-se, desse modo, a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o individual&#8221; dos migrantes oriundos do campo que chegaram ao mundo urbano e a conseq\u00fcente press\u00e3o para o acesso ao consumo e ao emprego. Portanto, &#8220;trata-se, sempre, de formas individuais de press\u00e3o, as quais se apresentavam aos populistas como um problema a resolver&#8221;. Ou seja, como j\u00e1 afirmara Guerreiro Ramos, existia a classe, mas faltava a sua consci\u00eancia, mascarada ou deformada no processo que transformou camponeses em assalariados urbanos, permitindo a Weffort sugerir que a reflex\u00e3o sobre o populismo deva basear-se a partir de &#8220;rela\u00e7\u00f5es individuais&#8221;. A teoria da moderniza\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 central nas an\u00e1lises de Weffort.\n\nA segunda tradi\u00e7\u00e3o intelectual presente na colet\u00e2nea prov\u00e9m de uma \u00e9poca em que se acreditava que os atores sociais tinham &#8220;vontade pr\u00f3pria&#8221;.\n\n<strong>Assim, diz o autor:<\/strong> &#8220;a burguesia e o proletariado, em especial este \u00faltimo, tendem a organizar racionalmente sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a colocar, de maneira clara, seus interesses de classe \u00e0 luz do dia do debate pol\u00edtico&#8221;.\n\n<strong>Muitas vezes, no\u00e7\u00f5es oriundas da ortodoxia aparecem de maneira perempt\u00f3ria:<\/strong> &#8220;Na impot\u00eancia hist\u00f3rica da pequena burguesia est\u00e1 a raiz da demagogia populista (&#8230;). Deste modo, por limitar-se \u00e0s formas pequeno-burguesas de a\u00e7\u00e3o, o populismo traz em si a inconsist\u00eancia que conduz inevitavelmente \u00e0 trai\u00e7\u00e3o.&#8221; Se o populismo foi trai\u00e7\u00e3o, a grande pergunta, nunca respondida, lembra com raz\u00e3o John French, \u00e9: por que os oper\u00e1rios sucumbiram aos agrados dos l\u00edderes populistas, aceitando a domina\u00e7\u00e3o, e, no mesmo movimento, se dispuseram a confiar em traidores? Portanto, ler O populismo na pol\u00edtica brasileira \u00e9 conhecer um autor afinado com o contexto intelectual de seu tempo, mas igualmente limitado por ele.\n\n<strong>Algumas vezes, personagens com tradi\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas pol\u00edticas distintas s\u00e3o tratados de maneira indiferenciada, perdendo-se, assim, especificidades e a pr\u00f3pria historicidade dos projetos:<\/strong> &#8220;entre o populismo dos demagogos e o reformismo nacionalista de 1964 sempre existiram afinidades profundas de conte\u00fado&#8221;. Em um Estado como esse, alega, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 lugar de destaque para as ideologias. Os aspectos decisivos da luta pol\u00edtica \u0097 as formas de aquisi\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do poder \u0097 est\u00e3o vinculados a uma luta entre personalidades&#8221;. Ao mesmo tempo que personaliza o passado hist\u00f3rico da sociedade brasileira, o autor dilui e, conseq\u00fcentemente, perde a especificidade dos projetos pol\u00edticos em que estes l\u00edderes pol\u00edticos se manifestaram. Assim, Jo\u00e3o Goulart, Leonel Brizola, Roberto da Silveira, Alberto Pasqualini, Fernando Ferrari, L\u00facio Bittencout, entre outros, todos filiados a um partido pol\u00edtico, o PTB, bem como a uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o trabalhismo, surgem no mesmo patamar que J\u00e2nio Quadros e Adhemar de B\u00e1rros, pol\u00edticos que o pr\u00f3prio Weffort caracteriza como fen\u00f4menos de S\u00e3o Paulo. Eles, por sua vez, s\u00e3o igualados \u00e0 ala direitista-golpista da UDN, como Carlos Lacerda, ao general Eurico Dutra e a Juscelino Kubitschek. Todos, segundo indica\u00e7\u00f5es de Weffort, surgem na mesma dimens\u00e3o porque se dirigem ao povo, sem distinguir as contradi\u00e7\u00f5es de classe contidas nesta concep\u00e7\u00e3o.\n\nEnfim, v\u00e1rios s\u00e3o os temas a serem explorados na colet\u00e2nea. No entanto, vale observar uma certa tens\u00e3o ao longo dos argumentos do autor.\n\n<strong>Em alguns momentos do livro, um grupo de afirma\u00e7\u00f5es revela uma interlocu\u00e7\u00e3o, uma intera\u00e7\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora, vistas como um processo leg\u00edtimo:<\/strong>\n<blockquote>o populismo foi, sem d\u00favida, manipula\u00e7\u00e3o de massas, mas a manipula\u00e7\u00e3o nunca foi absoluta. Se o fosse, estar\u00edamos obrigados a aceitar a vis\u00e3o liberal elitista, que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, v\u00ea no populismo uma esp\u00e9cie de aberra\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria alimentada pela emocionalidade das massas e pela falta de princ\u00edpios dos l\u00edderes. Se o populismo foi manipula\u00e7\u00e3o, alega, &#8220;tamb\u00e9m foi um modo de express\u00e3o de suas insatisfa\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/blockquote>\n<strong>Outra indica\u00e7\u00e3o importante, que relativiza o poder de Estado e resgata o papel e a atua\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios trabalhadores nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas daquela \u00e9poca, igualmente \u00e9 dada por Weffort:<\/strong>\n<p align=\"center\">&#8220;Grupo burgu\u00eas algum \u00e9 capaz, por si pr\u00f3prio, de inventar um pol\u00edtico de massas. As condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia das massas t\u00eam tamb\u00e9m seu papel nesta inven\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\">As afirma\u00e7\u00f5es, importantes, sugerem que o populismo n\u00e3o foi mera manipula\u00e7\u00e3o de massa, de cima para baixo, mas que houve interlocu\u00e7\u00e3o entre Estado e classe trabalhadora. No entanto, muitas leituras n\u00e3o observaram com maior cautela uma linha de reflex\u00e3o que se abria. Talvez pela pr\u00f3pria ambig\u00fcidade das id\u00e9ias contidas em seus textos, as aten\u00e7\u00f5es voltaram-se para outro conjunto de afirma\u00e7\u00f5es. Weffort critica a vers\u00e3o liberal do populismo, cuja explica\u00e7\u00e3o seria a manipula\u00e7\u00e3o e a demagogia dos l\u00edderes conjugadas \u00e0 ignor\u00e2ncia e ao atraso das massas. Contudo, em outros momentos, contrariando suas pr\u00f3prias cr\u00edticas \u00e0 concep\u00e7\u00e3o liberal, o texto permite leituras bem diferentes. Assim, para o autor, em 1930 aparece &#8220;o fantasma do povo na hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira, que ser\u00e1 manipulado soberanamente por Get\u00falio Vargas durante 15 anos&#8221;. Ou ent\u00e3o as massas populares constitu\u00edram a raiz do poder dos l\u00edderes populistas, &#8220;mas, nesta mesma condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o passam de `massa de manobra&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Ao dar ao Estado um poder que ele, teoricamente, n\u00e3o alcan\u00e7ou, mesmo nas ditaduras mais intolerantes, surgem afirma\u00e7\u00f5es bastante question\u00e1veis:<\/strong> &#8220;nas formas espont\u00e2neas do populismo, a massa v\u00ea na pessoa do l\u00edder o projeto do Estado; abandona-se a ele, entrega-se \u00e0 sua dire\u00e7\u00e3o e, em grande medida, ao seu arb\u00edtrio&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Assim, as an\u00e1lises das rela\u00e7\u00f5es mantidas entre Estado e classe trabalhadora s\u00e3o conduzidas sob certa tens\u00e3o, sob certa ambig\u00fcidade: <\/strong>ora interlocu\u00e7\u00e3o, ora manipula\u00e7\u00e3o. No entanto, esta \u00faltima maneira, de cima para baixo, foi a que se firmou nos estudos posteriores, ressaltando-se as passagens em que Weffort analisa de maneira mais caricatural as rela\u00e7\u00f5es entre as &#8220;massas&#8221; e os l\u00edderes &#8220;populistas&#8221;: manipula\u00e7\u00e3o, emocionalidade, rela\u00e7\u00f5es individuais, trai\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p align=\"left\">Seja como for, com a teoria da moderniza\u00e7\u00e3o, as id\u00e9ias do Grupo de Itatiaia, a interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica do movimento oper\u00e1rio e os trabalhos de Weffort, o populismo, na segunda metade dos anos 60, come ou a firmar-se nas Ci\u00eancias Humanas no Brasil. Era necess\u00e1rio, no entanto, situ\u00e1-lo em um contexto hist\u00f3rico internacional para estabelecer a no\u00e7\u00e3o com maior precis\u00e3o metodol\u00f3gica.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Assim, nos comp\u00eandios e manuais sobre o populismo na Am\u00e9rica Latina e no Brasil, invariavelmente a introdu\u00e7\u00e3o ou o cap\u00edtulo inicial tratavam dos &#8220;antecedentes&#8221; hist\u00f3ricos:<\/strong> o leitor, desse modo, conhecia o populismo na R\u00fassia tzarista e nos Estados Unidos no s\u00e9culo XIX. Novamente, portanto, h\u00e1 a presen\u00e7a do mundo rural. Embora os contextos econ\u00f4mico, pol\u00edtico, social, agr\u00e1rio, cultural, ideol\u00f3gico e religioso do Brasil tenham sido diversos da R\u00fassia tzarista, e, ambos, distintos dos Estados Unidos, o que une hist\u00f3rias t\u00e3o diferentes \u00e9 o campesinato. E onde ele est\u00e1, \u00e9 de se prever, tamb\u00e9m aparecem os populistas.<\/p>\n<p align=\"left\">Estaria a primeira vers\u00e3o do populismo superada? Creio que n\u00e3o. No primeiro semestre de 1998, em uma prestigiada escola cat\u00f3lica na cidade de Niter\u00f3i, uma aluna da segunda s\u00e9rie do segundo grau recebeu de seu professor de hist\u00f3ria uma apostila resumindo a trajet\u00f3ria da pol\u00edtica brasileira ap\u00f3s 1945.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Logo no in\u00edcio, a menina leu:<\/strong> &#8220;O per\u00edodo que se estende de 1945 a 1964 \u00e9 tradicionalmente conhecido como o per\u00edodo do `Populismo&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Entre aspas e em negrito, para chamar a aten\u00e7\u00e3o dos jovens leitores, o conceito teria algumas &#8220;caracter\u00edsticas b\u00e1sicas&#8221;:<\/strong><\/p>\n\n<blockquote>\n<p align=\"left\">Como j\u00e1 se observou, o populismo na Am\u00e9rica Latina teve como caracter\u00edstica b\u00e1sica uma intensa manipula\u00e7\u00e3o das massas, num momento de transi\u00e7\u00e3o entre a economia agro-exportadora e a economia mais moderna, que come\u00e7a a se instalar apos a case de 1929. Lideran\u00e7as mais ou menos carism\u00e1ticas disputaram o poder junto a essa massa, ora fazendo concess\u00f5es (as leis trabalhistas de Vargas s\u00e3o um bom exemplo), ora utilizando o povo como elemento de ataque \u00e0s antigas oligarquias.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\">Os trabalhadores, cuja consci\u00eancia social estaria a meio-termo entre os padr\u00f5es rurais e os vigentes na ind\u00fastria, deixaram-se envolver por l\u00edderes burgueses, que, habilmente, os usaram como massa de manobra.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Ap\u00f3s aprender as dimens\u00f5es te\u00f3ricas do conceito, a aluna, um tanto confusa, tamb\u00e9m aprendeu com o professor o que se seguiu na pol\u00edtica brasileira: <\/strong>a democratiza\u00e7\u00e3o de 1945, o surgimento dos partidos pol\u00edticos nacionais e o governo Dutra. No entanto, em 1950, surpreendentemente, o populismo teria ressurgido.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>N\u00e3o sem alguma ironia, os autores da apostila escreveram:<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">Nas elei\u00e7\u00f5es de 1950, Vargas voltou ao poder (&#8230;).<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Sua vit\u00f3ria traduzia claramente o poder de manipula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica populista: <\/strong>afinal, Vargas era o \u0091pai\u0092 dos trabalhadores brasileiros&#8230;<\/p>\n<p align=\"left\">Mas, entre 1963 e 1964, as lutas sociais se acirraram, continua a apostila. <strong>A conclus\u00e3o resume-se a um jarg\u00e3o, comum na literatura sobre o assunto:<\/strong> com o golpe militar de 1964, dizem n autores do texto em tom perempt\u00f3rio, &#8220;era colapso da \u00e9poca populista no Brasil&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Seria uma injusti\u00e7a, grave a meu ver, desmerecer o trabalho desses professores. N\u00e3o \u00e9 esse o meu objetivo. S\u00e3o profissionais mal pagos, trabalhando muitas vezes em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, sem chances de atualiza\u00e7\u00e3o ou recursos para comprar livros. Com honestidade e seriedade, fazem o melhor que podem, mas isso \u00e9 o melhor que fazem.<\/p>\n<p align=\"left\">Para os professores que formam os nossos filhos, a pol\u00edtica brasileira e as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora durante o per\u00edodo de 1930 a 1964 encerram um &#8220;senso comum&#8221;, no sentido gramsciano do termo, nomeado de populismo \u0097 e em sua primeira vers\u00e3o, a dos anos 50 e 60. Mas seria correto afirmar que esse &#8220;senso comum&#8221; circula somente entre os professores de n\u00edvel m\u00e9dio? Estariam eles t\u00e3o desatualizados assim? Com ressalvas, creio que n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">Os resultados desta primeira vers\u00e3o do populismo s\u00e3o conhecidos e aceitos at\u00e9 hoje, tanto nas apostilas de n\u00edvel m\u00e9dio quanto na bibliografia especializada. No primeiro governo de Vargas, os trabalhadores tiveram acesso aos direitos sociais, mas n\u00e3o aos pol\u00edticos, e, a partir de c\u00e1lculos sobre suas perdas e ganhos, trocaram os benef\u00edcios da legisla\u00e7\u00e3o por submiss\u00e3o pol\u00edtica. Assim, incapazes de pensar por si mesmos, fracos diante das investidas ideol\u00f3gicas das classes dominantes, recebendo passivamente e sem cr\u00edticas a doutrina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, os trabalhadores brasileiros oriundos do mundo rural, destitu\u00eddos de tradi\u00e7\u00f5es de luta, organiza\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia, passaram a idolatrar Vargas e, desde 1945, a eleger outros l\u00edderes populistas e a votar no PTB.<\/p>\n\n<h4 align=\"left\">O POPULISMO DE SEGUNDA GERA\u00c7\u00c3O<\/h4>\n<p align=\"left\">Na virada dos anos 70 para a d\u00e9cada de 80, a primeira vers\u00e3o do populismo come\u00e7ou a dar mostra de esgotamento em suas hip\u00f3teses centrais. A teoria da moderniza\u00e7\u00e3o, o papel do Estado como elemento que organizaria as classes, o comportamento pol\u00edtico da classe trabalhadora determinado por estruturas s\u00f3cio-econ\u00f4micas \u0097 como sua origem rural ou devido \u00e0s peculiaridades da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira \u0097, entre outros fatores, n\u00e3o mais satisfaziam os estudiosos. Os grandes ensaios sobre o &#8220;populismo na Am\u00e9rica Latina&#8221; tornaram-se cada vez mais raros. Soci\u00f3logos e cientistas pol\u00edticos, pioneiros nos estudos, passaram a debater com historiadores, os quais, com seus m\u00e9todos de pesquisa, enfrentaram a quest\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">Assim, os estudos voltaram-se principalmente para as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e sociedade na \u00e9poca do \u0093primeiro governo\u0094 de Vargas.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>De alguma maneira, o problema que preocupou a primeira vers\u00e3o do populismo foi reiterado pelos novos estudos:<\/strong> em 1930, instituiu-se no Brasil um Estado de vertente autorit\u00e1ria que se acentuou em 1935 e se imp\u00f4s como uma ditadura em 1937, influenciada pela experi\u00eancia do fascismo europeu. As liberdades democr\u00e1ticas foram suprimidas, e o movimento oper\u00e1rio duramente reprimido. Anarquistas, socialistas, comunistas e liberais perderam os espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e muitos deles, a pr\u00f3pria vida. A repress\u00e3o policial, a censura aos meios de comunica\u00e7\u00e3o, entre outros dispositivos arbitr\u00e1rios e discricion\u00e1rios, impediram qualquer movimento para as oposi\u00e7\u00f5es. No entanto, diante de um contexto pol\u00edtico t\u00e3o sufocante, os trabalhadores apoiaram a ditadura de Vargas. O apoio, admitem diversas tend\u00eancias historiogr\u00e1ficas, n\u00e3o era apenas formal, mas sincero, e o reconhecimento, a gratid\u00e3o e as manifesta\u00e7\u00f5es elogiosas dos assalariados ao ditador dificilmente s\u00e3o refutados pelos estudiosos).<\/p>\n<p align=\"left\">Esse, portanto, foi o problema que o populismo de segunda gera\u00e7\u00e3o herdou da primeira e procurou novamente enfrentar, centrando os estudos nas rela\u00e7\u00f5es entre Estado e sociedade\/classe trabalhadora entre 1930 e 1945.<\/p>\n<p align=\"left\">Para enfrentar a quest\u00e3o, houve, inicialmente, a recusa, pelo menos formalmente, das hip\u00f3teses centrais da primeira vers\u00e3o do populismo. Contudo, a recusa n\u00e3o foi total, tanto assim que o texto-s\u00edntese daquela primeira vers\u00e3o, O populismo na pol\u00edtica brasileira, de Weffort, continuou a ser citado nos textos \u0097 algo que n\u00e3o \u00e9 casual.<\/p>\n<p align=\"left\">H\u00e1 uma premissa formulada por Weffort nos anos 60 que persistiu entre os historiadores da d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Interrogando ao extremo a colet\u00e2nea O populismo na pol\u00edtica brasileira \u00e0 procura das raz\u00f5es que teriam levado os trabalhadores a apoiarem &#8220;l\u00edderes populistas&#8221;, encontramos um argumento central:<\/strong> o populismo imp\u00f4s-se pela conjuga\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o estatal com a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, embora a chave de seu sucesso tenha sido a satisfa\u00e7\u00e3o de algumas demandas dos assalariados. Assim, mesmo que a segunda vers\u00e3o tenha rejeitado as premissas anteriores \u0097 teoria da moderniza\u00e7\u00e3o, determina\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-estruturais nas organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, a influ\u00eancia negativa dos camponeses no meio oper\u00e1rio, entre outras quest\u00f5es \u0097, a premissa central, sugerida por Weffort, repress\u00e3o, manipula\u00e7\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o, continuou presente, embora n\u00e3o exatamente da mesma maneira. Ela continuou nas an\u00e1lises, mas enfatizando o poder repressivo e manipulat\u00f3rio do governo e, no mesmo movimento, minimizando os espa\u00e7os para a atua\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e sua interlocu\u00e7\u00e3o com o Estado. A segunda vers\u00e3o do fen\u00f4meno apropriou-se das id\u00e9ias de Weffort, ressaltando as vari\u00e1veis repress\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o, mas subestimando, e muitas vezes desconhecendo, o vi\u00e9s da satisfa\u00e7\u00e3o. Surgiu, assim, o populismo na sua interpreta\u00e7\u00e3o mais repressiva e demag\u00f3gica.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Neste aspecto, \u00e9 importante citar uma poderosa tradi\u00e7\u00e3o que influenciou, direta ou indiretamente, toda uma gera\u00e7\u00e3o de intelectuais:<\/strong> o marxismo.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>O marxismo apresentou uma quest\u00e3o importante ao estudioso: <\/strong>uma ordem social n\u00e3o \u00e9 imut\u00e1vel, e a sua pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o propicia a sua transforma\u00e7\u00e3o. Para um historiador, marxista ou n\u00e3o, a assertiva foi muito bem recebida. As diverg\u00eancias, por\u00e9m, surgiram sobre a maneira e os caminhos que permitiriam a transforma\u00e7\u00e3o, suscitando acalorados debates entre autores e militantes marxistas. Assim, a vers\u00e3o mais disseminada defendeu que a possibilidade da mudan\u00e7a prov\u00e9m da capacidade dos trabalhadores de alcan\u00e7arem a &#8220;verdadeira&#8221; consci\u00eancia de classe, de &#8220;desvendarem&#8221; as contradi\u00e7\u00f5es sociais, de perceberem quais seriam os seus &#8220;reais&#8221; interesses. N\u00e3o \u00e9 casual, desse modo, que muitas pesquisas produzidas nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Social, a partir de fins dos anos 70, discutissem, na parte te\u00f3rica dos trabalhos, a quest\u00e3o da ideologia. Marx, Lenin, Luk\u00e1cs, Goldman, Althusser ou Gramsci, para citar os mais conhecidos, eram convocados em busca de uma defini\u00e7\u00e3o mais apropriada para o fen\u00f4meno. Afinal, o conceito de ideologia, compreendido na maioria das vezes como &#8220;falsa consci\u00eancia&#8221;, poderia desvendar as raz\u00f5es que teriam levado os oper\u00e1rios an\u00e3o se revoltarem contra ordens sociais opressoras.<\/p>\n<p align=\"left\">No campo do marxismo, um dos cl\u00e1ssicos que marcaram uma gera\u00e7\u00e3o foi Antonio Gramsci. Como um dos mais refinados pensadores marxistas, em fins dos anos 70 suas id\u00e9ias entraram nas universidades brasileiras \u0097 per\u00edodo, tamb\u00e9m, em que os historiadores come\u00e7aram a estudar a pol\u00edtica brasileira ap\u00f3s 1930, em particular o &#8220;primeiro governo&#8221; de Vargas. Foi a proposta te\u00f3rica de hegemonia em Gramsci que mais fascinou os estudiosos na \u00e9poca. N\u00e3o quero discutir o conceito, sabemos que ele permitiu diversas interpreta\u00e7\u00f5es. O que importa, aqui, \u00e9 a sugest\u00e3o de que a domina\u00e7\u00e3o de uma classe social sobre outra n\u00e3o se imp\u00f5e apenas pela for\u00e7a, pelo poder repressivo de Estado, como era comum pensar, mas que sua efic\u00e1cia ocorre ao se conjugar com as inst\u00e2ncias &#8220;persuasivas&#8221; da sociedade.<\/p>\n<p align=\"left\">Com o pensador italiano, n\u00e3o foi dif\u00edcil para muitos historiadores reavaliarem a teoria do primeiro populismo. Assim entre a tr\u00edade repress\u00e3o, manipula\u00e7\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o em Weffort e a dicotomia repress\u00e3o e persuas\u00e3o em Gramsci,a \u00faltima tornou-se mais atraente. Com a altera\u00e7\u00e3o no enfoque, pode-se dizer mesmo que houve uma regress\u00e3o na maneira de se pensarem as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora na \u00e9poca de Vargas.<\/p>\n<p align=\"left\">Na primeira vers\u00e3o, ainda havia a vari\u00e1vel satisfa\u00e7\u00e3o, aceitando que os assalariados se beneficiaram com as pol\u00edticas p\u00fablicas do Estado varguista, como a legisla\u00e7\u00e3o social, por exemplo. Na segunda vers\u00e3o, no entanto, sequer isto foi considerado. Repress\u00e3o e persuas\u00e3o, ou, como \u00e9 comum dizer, repress\u00e3o policial e propaganda pol\u00edtica, tornaram-se os elementos centrais para se compreender os mist\u00e9rios do sucesso de Vargas entre os trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"left\">Surgiram, assim, diversos trabalhos a partir do in\u00edcio dos anos 80 sobre o Estado Novo, contribuindo, sem d\u00favida, para a compreens\u00e3o daquela temporalidade.<\/p>\n<p align=\"left\">Muitos textos enfatizaram a repress\u00e3o policial, outros acentuaram a propaganda pol\u00edtica estatal, e alguns, de maior f\u00f4lego, ressaltaram os dois aspectos.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Mas a maioria das interpreta\u00e7\u00f5es concordavam que o populismo floresceria com sucesso em um certo tipo de Estado, autorit\u00e1rio, que recorreria a duas pr\u00e1ticas distintas, embora complementares<\/strong>: a primeira, voltada para o movimento oper\u00e1rio e sindical, utilizou a repress\u00e3o policial mais truculenta, invadindo os sindicatos de trabalhadores, prendendo os seus l\u00edderes, espancando os seus militantes, cerceando as suas pr\u00e1ticas de luta e de organiza\u00e7\u00e3o, enquadrando os sindicatos por meio de uma legisla\u00e7\u00e3o controladora e restritiva e suprimindo, \u00e0s vezes fisicamente, as esquerdas. O aparato repressivo, assim, ter-se-ia dedicado a eliminar os setores mais combativos da classe, aniquilando as veleidades autonomistas do movimento oper\u00e1rio e solapando as bases do sindicalismo mais avan\u00e7ado. A pol\u00edcia, a legisla\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e os tribunais de exce\u00e7\u00e3o teriam impedido que os trabalhadores mais organizados seguissem os caminhos &#8220;naturais&#8221; que os conduziriam a uma aut\u00eantica identidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p align=\"left\">Assim, derrotando os grupos organizados, o Estado, concomitantemente, teria recorrido a uma segunda pr\u00e1tica, voltando as suas baterias para o &#8220;povo&#8221;, ou seja, os assalariados que n\u00e3o conheciam as experi\u00eancias do movimento sindical, os pobres e as pessoas comuns \u0097 para utilizar a linguagem dos anos 60 e 70, os &#8220;novos&#8221; oper\u00e1rios de origem rural. Para o melhor sucesso de seus objetivos, o Estado utilizou os recursos oferecidos pelas modernas t\u00e9cnicas de propaganda e de doutrina\u00e7\u00e3o pol\u00edticas. Com extrema habilidade, o governo de Vargas teria &#8220;inculcado&#8221; nas mentes das pessoas id\u00e9ias, cren\u00e7as e valores baseados na mentira, na ilus\u00e3o e na deforma\u00e7\u00e3o ou invers\u00e3o da realidade Com o aux\u00edlio de seus &#8220;intelectuais org\u00e2nicos&#8221;, o Estado teria inundado a sociedade com imagens e s\u00edmbolos de exalta\u00e7\u00e3o ao governo, utilizando como ve\u00edculos r\u00e1dios, cinemas, livros, jornais, biografias, cartilhas escolares, m\u00fasicas, festas, comemora\u00e7\u00f5es c\u00edvicas etc. Assim, eliminando os oper\u00e1rios mais combativos, com a pol\u00edcia, e manipulando o restante da popula\u00e7\u00e3o, a partir dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o Estado populista teria alcan\u00e7ado amplo sucesso, sendo, dessa maneira, aceito como leg\u00edtimo pelos trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"left\">N\u00e3o h\u00e1 muitas d\u00favidas sobre a repress\u00e3o policial que se abriu a partir de 1930, se acentuou em 1935 e tornou, a partir de 1937, invi\u00e1vel qualquer resist\u00eancia ao regime. As pesquisas demonstram, \u00e0s vezes de maneira irrefut\u00e1vel, o processo repressivo. Igualmente ficou comprovada a montagem de um complexo sistema de propaganda pol\u00edtica estatal coordenado, sistem\u00e1tico e, dentro dos recursos da \u00e9poca, sofisticado. O que se questiona \u00e9 abordar as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora a partir de paradigmas explicativos, ao mesmo tempo opostos e complementares, centrados na repress\u00e3o e na manipula\u00e7\u00e3o, ambos surgindo como formas de viol\u00eancia estatal sobre os assalariados, f\u00edsica em uma dimens\u00e3o, ideol\u00f3gica na outra. Como diz Angela de Castro Gomes, &#8220;elas s\u00e3o reconhecidas como fundamentais e como pano de fundo sem o qual uma reflex\u00e3o mais refinada sobre seus impactos seria impratic\u00e1vel. Trata-se, portanto, de consider\u00e1-las te\u00f3rica e empiricamente insuficientes e equivocadas para dar conta do fen\u00f4meno que est\u00e1 sendo examinado, considerando-se sobretudo seus desdobramentos atrav\u00e9s do tempo&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Como defendi em trabalho anterior, o &#8220;mito&#8221; Vargas n\u00e3o foi criado simplesmente na esteira da vasta propaganda pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e doutrin\u00e1ria veiculada pelo Estado. N\u00e3o h\u00e1 propaganda, por mais elaborada, sofisticada e massificante, que sustente uma personalidade p\u00fablica por tantas d\u00e9cadas sem realiza\u00e7\u00f5es que beneficiem, em termos materiais e simb\u00f3lico, o cotidiano da sociedade. O &#8220;mito&#8221; Vargas expressava um conjunto de experi\u00eancias que, longe de se basear em promessas irrealiz\u00e1veis, fundamentadas t\u00e3o-somente em imagens e discursos vazios, alterou a vida dos trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"left\">As matrizes te\u00f3ricas do segundo populismo, nos anos 80, portanto, distanciaram-se dos pressupostos defendidos nas d\u00e9cadas de 60 e 70 em diversos aspectos, mas, igualmente, resgataram muitos de seus elementos. A no\u00e7\u00e3o permaneceu, contudo recebeu um tratamento mais sofisticado, atualizando-se com as tend\u00eancias historiogr\u00e1ficas do momento.<\/p>\n<p align=\"left\">No entanto, ainda na d\u00e9cada de 80, houve tentativas de se abandonar a no\u00e7\u00e3o de populismo. Diversos autores, evitando utilizar a express\u00e3o, passaram a ressaltar as pol\u00edticas p\u00fablicas de controle social implementadas pelo Estado varguista, sobretudo no tocante ao &#8220;controle oper\u00e1rio&#8221;. Diante do avan\u00e7o da mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores desde a d\u00e9cada de 1910, em particular do movimento anarquista, e do conseq\u00fcente perigo de revolu\u00e7\u00f5es anticapitalistas, novas formas de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foram implementadas. O poder, interpretado em um sentido mais amplo, certamente sob a influ\u00eancia das leituras de Michel Foucault, n\u00e3o se limitou a agir pelas inst\u00e2ncias repressivas de Estado e por seus &#8220;aparelhos ideol\u00f3gicos&#8221;. Imiscuindo-se em diversos campos do social, surgiram especialistas que formularam discursos &#8220;racionais&#8221;, no sentido sugerido pela chamada Escola de Frankfurt, Habermas em_particular, sobre sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, sexualidade, habita\u00e7\u00e3o, pedagogia, educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, medicina, direito, entre diversos outros. O objetivo dos especialistas era &#8220;conhecer&#8221; o oper\u00e1rio. E, conhecendo-o, &#8220;control\u00e1-lo&#8221;. Desqualificados em seu pr\u00f3prio saber, destitu\u00eddos de legitimidade para falarem por si mesmos e pela sociedade, os trabalhadores deixar-se-iam dominar por um saber racional, porque cient\u00edfico, e, logo, apresentado como verdadeiro. A ordem social, assim, n\u00e3o ficaria mais sob os ausp\u00edcios da pol\u00edtica, pois um saber t\u00e9cnico e cient\u00edfico, portanto neutro, deveria tomar o seu lugar. Os discursos racionais e cient\u00edficos, revestidos de toda uma efic\u00e1cia t\u00e9cnica, teriam elaborado variadas formas de conhecimento especializado. Fundamentados na compet\u00eancia t\u00e9cnica, eles come\u00e7aram a tomar corpo e forma nos anos 20 para invadirem todas as dimens\u00f5es da sociedade nos anos 30.<\/p>\n<p align=\"left\">O enfoque do &#8220;controle oper\u00e1rio&#8221; surgiu como alternativa ao bin\u00f4mio repress\u00e3o propaganda, centrando a an\u00e1lise na efic\u00e1cia do poder baseado no argumento da racionalidade e da t\u00e9cnica. Contudo, a abordagem, sabemos hoje, n\u00e3o foi t\u00e3o alternativa como se pensava. Afinal, a repress\u00e3o policial e a propaganda pol\u00edtica tinham por objetivo a ades\u00e3o dos trabalhadores e, portanto, o pr\u00f3prio controle. Sobretudo com a recep\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria Cultural no Brasil, percebeu-se que n\u00e3o h\u00e1 por que acreditar em uma rela\u00e7\u00e3o sem media\u00e7\u00f5es entre as id\u00e9ias eruditas e populares, que h\u00e1 um lapso entre a inten\u00e7\u00e3o de controlar e o efeitov controle, que o poder dos poderosos n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderoso assim. Sem negar os recursos utilizados pelo Estado ap\u00f3s 1930, ou ainda nos anos 20, para controlar a classe trabalhadora e racionalizar a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia a partir de crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e &#8220;cient\u00edficos&#8221;, tornou-se necess\u00e1rio relativizar o enfoque a fim de se evitar uma abordagem totalizadora, sugerindo estruturas capazes de diluir a exist\u00eancia de sujeitos pol\u00edticos e sociais incapazes de super\u00e1-las. Os mecanismos de &#8220;controle oper\u00e1rio&#8221; foram implementados, mas sua atua\u00e7\u00e3o e efic\u00e1cia eram limitadas pela pr\u00f3pria cultura da classe trabalhadora.<\/p>\n<p align=\"left\">Seja como for, as insatisfa\u00e7\u00f5es permaneceram. Os enfoques baseados no bin\u00f4mio repress\u00e3o-propaganda ou no controle, que necessariamente n\u00e3o se opunham, pareciam insuficientes. Era preciso explicar, de maneira mais incisiva e contundente, o sucesso de Get\u00falio Vargas entre os trabalhadores. Para alguns autores, poucos na verdade, as explica\u00e7\u00f5es que ressaltavam a propaganda pol\u00edtica, a repress\u00e3o policial e o controle social n\u00e3o estariam necessariamente equivocadas, apenas n\u00e3o foram as \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias. A repress\u00e3o estatal e a propaganda pol\u00edtica no governo Vargas, portanto, sofreram uma leitura radical. Assim, ainda nos anos 80, e mesmo no in\u00edcio da d\u00e9cada seguinte, as alternativas ao populismo n\u00e3o tardaram a chegar. Afinados com os esquemas sociol\u00f3gicos dos te\u00f3ricos do totalitarismo, historiadores aproximaram o governo Vargas dos regimes de Hitler e Stalin. Multiplicando em muitas vezes a capacidade da repress\u00e3o policial, at\u00e9 elev\u00e1-la \u00e0 categoria de terror generalizado, e ampliando ao m\u00e1ximo a efic\u00e1cia da propaganda pol\u00edtica, comparando-a \u00e0s pr\u00e1ticas nazistas e stalinistas, Vargas passou a ser definido como um l\u00edder totalit\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>A inova\u00e7\u00e3o \u00e9 aparente e equivocada: <\/strong>novamente a repress\u00e3o e a propaganda, como pressupostos centrais da an\u00e1lise, permanecem inalteradas.<\/p>\n<p align=\"left\">\u00c9 curioso observar, neste aspecto, como a teoria sociol\u00f3gica do totalitarismo seduziu muitos historiadores brasileiros. Embora os especialistas da hist\u00f3ria do socialismo, no Brasil e no exterior, recusem a express\u00e3o, os debates sobre o car\u00e1ter totalit\u00e1rio ou n\u00e3o do Estado Novo, como lembra Maria Helena Capelato, geraram algumas pol\u00eamicas.<\/p>\n<p align=\"left\">Para Marc Ferro, \u00e9 inquietante, na verdade, o processo de banaliza\u00e7\u00e3o do nazismo com a vulgariza\u00e7\u00e3o da teoria do totalitarismo, particularmente se considerarmos a contribui\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios estudiosos do assunto. Se antes da Segunda Guerra somente os regimes de Hitler e Mussolini se definiam dessa maneira, ap\u00f3s 1945 o conceito se estendeu tamb\u00e9m para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Com Carl Friedrich, Zbigniew Brzezinski e, sobretudo, Erns Nolte, diz Ferro, a equipara\u00e7\u00e3o dos campos de exterm\u00ednio nazistas com os gulags sovi\u00e9ticos encobriu o racismo, um dos pontos b\u00e1sicos da pol\u00edtica hitlerista. Em v\u00e1rios estudos, a conclus\u00e3o, surpreendente, \u00e9 a de que o nazismo, como uma forma extremada do fascismo, surgiu em rea\u00e7\u00e3o ao &#8220;totalitarismo&#8221; sovi\u00e9tico e, para se defender, foi obrigado a imit\u00e1-lo nos genoc\u00eddios. Contradi\u00e7\u00e3o flagrante, diz Ferro.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Na impossibilidade de negar a exist\u00eancia das c\u00e2maras de g\u00e1s, embora tivessem a ousadia, as interpreta\u00e7\u00f5es &#8220;revisionistas&#8221; e &#8220;negacionistas&#8221; do nazismo responsabilizaram a URSS pelos grandes massacres e, por essa brecha, desculpabilizaram a pol\u00edtica nazi, apresentando exemplos variados de genoc\u00eddios:<\/strong> nas col\u00f4nias europ\u00e9ias, no faroeste norte-americano ou nas ditaduras dos pa\u00edses pobres, entre outros exemplos, os exterm\u00ednios de popula\u00e7\u00f5es inteiras tamb\u00e9m aconteceram. Chega-se, portanto, ao est\u00e1gio avan\u00e7ado de normaliza\u00e7\u00e3o do nazismo \u0097 no Brasil, por exemplo, teria sido o caso do Estado Novo, um regime supostamente &#8220;totalit\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Para o autor, definir o III Reich como &#8220;fascista&#8221; ou por generaliza\u00e7\u00f5es como &#8220;totalit\u00e1rio&#8221; \u00e9 encobrir a caracter\u00edstica central do regime:<\/strong> o \u00f3dio racial e o projeto de dizima\u00e7\u00e3o em massa n\u00e3o somente de judeus, mas tamb\u00e9m de eslavos, ciganos, deficientes f\u00edsicos, card\u00edacos, entre outros. Assim, insiste com raz\u00e3o o autor, &#8220;identificar o terror hitlerista ao terror da URSS corresponde a fazer t\u00e1bula rasa da especificidade do racismo, que constituiu um dos pontos b\u00e1sicos da pol\u00edtica nazista de exterm\u00ednio&#8221;. Tal equipara\u00e7\u00e3o, segundo Ferro, contribui para o processo de banaliza\u00e7\u00e3o do nazismo no mundo atual. A excessiva vulgariza\u00e7\u00e3o do termo, portanto, minimiza o nazismo e, no mesmo movimento, dilui os horrores perpetrados pelo III Reich.<\/p>\n<p align=\"left\">Trata-se, portanto, de uma falsa quest\u00e3o discutir se o governo Vargas foi, ou n\u00e3o, &#8220;totalit\u00e1rio&#8221; deve ser questionado, como vem ocorrendo entre os especialistas da hist\u00f3ria do socialismo, \u00e9 a pr\u00f3pria teoria sociol\u00f3gica do totalitarismo.<\/p>\n<p align=\"left\">As vertentes do populismo de segunda gera\u00e7\u00e3o \u0097 a abordagem que privilegia o bin\u00f4mio repress\u00e3o-propaganda, a teoria do controle social e o enfoque totalit\u00e1rio \u0097 t\u00eam em comum uma maneira de abordar as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e sociedade\/ classe trabalhadora. Como em uma via de m\u00e3o \u00fanica, de cima para baixo, \u00e0 luz do enfoque opressor e oprimido, o Estado, todo-poderoso, pela viol\u00eancia f\u00edsica e ideol\u00f3gica, domina e subjuga a sociedade, os trabalhadores em particular, surgindo, desse modo, uma rela\u00e7\u00e3o destitu\u00edda de intera\u00e7\u00e3o e interlocu\u00e7\u00e3o entre as partes. O Estado, com um poder desmedido, &#8220;total&#8221; em algumas vers\u00f5es, transforma a sociedade em elemento passivo, inerte e vitimizado. Assim, no Brasil, em 1930, 1935 ou certamente em 1937, os governantes, armados com variados dispositivos &#8220;simb\u00f3licos&#8221; de domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, em alguns casos psicol\u00f3gica, teriam tido a capacidade de manipular, por meio de imagens e representa\u00e7\u00f5es, as emo\u00e7\u00f5es e a sensibilidade das pessoas, dominando, inclusive, as suas mentes.<\/p>\n<p align=\"left\">As dela\u00e7\u00f5es que ocorreram na \u00e9poca do Estado Novo, por exemplo, comprovariam a capacidade do poder estatal de pressionar os indiv\u00edduos, deixando-os tensos, apreensivos e inseguros. Muitos teriam escrito cartas a Vargas, ao Dops ou \u00e0 pol\u00edcia denunciando os opositores do regime porque se encontravam atemorizados, ou aterrorizados, com as supostas amea\u00e7as dos inimigos, reais ou fict\u00edcios, ao governo e, portanto, \u00e0 ordem social.<\/p>\n<p align=\"left\">Na \u00e9poca do &#8220;primeiro governo&#8221; Vargas, muitas foram as den\u00fancias deste tipo, e, hoje, facilmente as encontramos no Arquivo Nacional ou nos arquivos, do Dops. S\u00e3o dela\u00e7\u00f5es de que o vizinho era integralista ou comunista; as fam\u00edlias alem\u00e3s n\u00e3o falavam portugu\u00eas; o comerciante da esquina estocava alimentos; o fulano era um conhecido agiota. Todas as den\u00fancias eram seguidas de nomes e endere\u00e7os. Supor que as pessoas delatavam as outras por press\u00f5es &#8220;simb\u00f3licas&#8221; do Estado \u00e9 ter como premissa que a sociedade, em seu estado &#8220;normal&#8221;, seria &#8220;boa&#8221;, mas, ao ser corrompida moralmente pelos governantes do Estado Novo, ter-se-ia transformado em um bando de delatores. Mais dif\u00edcil, repito, \u00e9 compreender que a sociedade, em si mesma, n\u00e3o era t\u00e3o &#8220;boa&#8221; e isenta de culpas, e que nela circulavam preconceitos contra judeus; manifestavam-se rancores contra alem\u00e3es e japoneses, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial; existiam pessoas com horror dos comunistas ou dos integralistas; encontravam-se alguns que queriam punir o comerciante da esquina desmedido em seus lucros; havia outras que desejavam livrar-se das d\u00edvidas com o agiota \u0097 e, em alguns casos, mais raros, do pr\u00f3prio marido. Se havia uma ditadura que se mostrava disposta a ajud\u00e1-las, o caminho ficava mais f\u00e1cil. Em outras palavras, as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e sociedade n\u00e3o eram de m\u00e3o \u00fanica, de cima para baixo, mas, sim, de interlocu\u00e7\u00e3o, de cumplicidade.<\/p>\n<p align=\"left\">Sobre as vertentes que insistem em vitimizar a sociedade, retomo, aqui, as id\u00e9ias de Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, que nos adverte sobre os perigos de se tratar uma rela\u00e7\u00e3o de maneira manique\u00edsta, &#8220;segundo a qual o Estado \u00e9 apresentado como vil\u00e3o e a sociedade como v\u00edtima indefesa&#8221; e que, portanto, &#8220;a inexist\u00eancia da cidadania \u00e9 simplesmente atribu\u00edda ao Estado&#8221;. Insatisfat\u00f3ria, como todas as que trabalham com dicotomias para explicar fen\u00f4menos sociais, essa perspectiva, em termos te\u00f3ricos, separa partes de um mesmo todo. Mais ainda, diz o autor, &#8220;o manique\u00edsmo inviabiliza mesmo qualquer no\u00e7\u00e3o de cidadania, pois, ou se aceita o Estado como um mal necess\u00e1rio, \u00e0 maneira agostiniana, ou se o nega totalmente, \u00e0 moda anarquista. Na pr\u00e1tica, ele acaba por revelar uma atitude paternalista em rela\u00e7\u00e3o ao povo, ao consider\u00e1-lo v\u00edtima impotente diante das maquina\u00e7\u00f5es do poder do Estado ou de grupos dominantes. Acaba por bestializar o povo&#8221;. Para o autor, &#8220;\u00e9 mais fecundo ver as rela\u00e7\u00f5es entre o cidad\u00e3o e o Estado como uma via de m\u00e3o dupla, embora n\u00e3o necessariamente equilibrada&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>As abordagens que privilegiam o poder estatal nas rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora a partir de 1930 n\u00e3o se afastaram, no fundamental, das mesmas preocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que intrigaram l\u00edderes, te\u00f3ricos e militantes de esquerda desde o s\u00e9culo XIX: <\/strong>se a classe oper\u00e1ria tem um caminho a seguir e um destino a cumprir, se sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 elaborar uma identidade pol\u00edtica aut\u00f4noma, como, ent\u00e3o, ela se submete politicamente e segue l\u00edderes &#8220;populistas&#8221; ou &#8220;totalit\u00e1rios&#8221;?<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>A resposta, garantia o marxismo mais vulgarizado, n\u00e3o era dif\u00edcil:<\/strong> por meio da repress\u00e3o aberta e dos efeitos mistificadores da ideologia, as classes dominantes garantiam e reproduziam o seu poder. Algumas, mais tarde, levando ao extremo o conceito gramsciano de hegemonia, acreditaram mesmo que somente os intelectuais marxistas teriam a capacidade de superar as ilus\u00f5es fabricadas pela ideologia burguesa.<\/p>\n<p align=\"left\">A hist\u00f3ria da classe trabalhadora no Brasil, sobretudo com a ascens\u00e3o de Vargas ao poder, reduz-se, assim, a uma esp\u00e9cie de &#8220;conspira\u00e7\u00e3o&#8221; das classes dominantes, sempre criadoras de dispositivos ideol\u00f3gicos, mecanismos eficientes de controle social, meios habil\u00edssimos de propaganda pol\u00edtica, instrumentos sutis de doutrina\u00e7\u00e3o das mentes, entre outros meios para manipular, dominar e desvirtuar os assalariados de seus &#8220;reais&#8221; e &#8220;verdadeiros&#8221; interesses. Estranha classe oper\u00e1ria, no Brasil e nos pa\u00edses de capitalismo avan\u00e7ado. Forte o suficiente para revolucionar o planeta, mas &#8220;enganada&#8221; por qualquer l\u00edder &#8220;populista&#8221;, &#8220;totalit\u00e1rio&#8221; ou &#8220;traidor&#8221; que apare\u00e7a no seu caminho. Como diz Barrington Moore Jr., n\u00e3o importa de onde venham as interpreta\u00e7\u00f5es, moderadas ou revolucion\u00e1rias, a hist\u00f3ria da luta dos trabalhadores por suas conquistas confunde-se com &#8220;a hist\u00f3ria da domestica\u00e7\u00e3o do proletariado&#8221;.<\/p>\n\n<h4 align=\"left\">DE GRAMSCI A GINZBURG, DE FOUCAULT A THOMPSON<\/h4>\n<p align=\"left\">Em meados dos anos 80, muitos historiadores brasileiros adotaram, em ritmos e graus variados, a literatura de autores identificados com a hist\u00f3ria cultural. Muito resumidamente, as an\u00e1lises negam que as classes dominantes tenham o monop\u00f3lio exclusivo da produ\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias. Os trabalhadores, os camponeses e as pessoas comuns tamb\u00e9m produzem suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, valores e c\u00f3digos comportamentais, o que, no conjunto, convencionou-se chamar de cultura popular.<\/p>\n<p align=\"left\">Carlo Ginzburg, por exemplo, sugeriu o conceito de circularidade cultural e demonstrou, em um estudo de caso, que as id\u00e9ias n\u00e3o s\u00e3o produzidas apenas pelas impostas, pelas classes dominantes e impostas, sem media\u00e7\u00f5es de cima para baixo. As pesquisas em hist\u00f3ria cultural concordam que as id\u00e9ias, longe de serem institu\u00eddas por um grupo e disseminadas por toda a sociedade, circulam e, como defende Roger Chartier, as camadas populares se apropriam das mensagens dominantes, dando-lhes novos e diferentes significados. Peter Burke, por sua vez, critica o que chama de &#8220;teoria do rebaixamento&#8221;, qualificada por ele de tosca e mec\u00e2nica.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Para o autor, as imagens e as hist\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o passivamente aceitas pelos expectadores e ouvintes: <\/strong>&#8220;as mentes das pessoas comuns n\u00e3o s\u00e3o como uma folha de papel em branco, mas est\u00e3o abastecidas de id\u00e9ias e imagens; as novas id\u00e9ias, se forem incompat\u00edveis com as antigas, ser\u00e3o rejeitadas&#8221;. A no\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia cultural, assim, tornou-se parte integrante de muitos estudos. Enfim, diversos outros autores, a exemplo de Robert Darnton, Natalie Zemon Davis, Giovani Levi, para citar os conhecidos, afirmam que a &#8220;ideologia dominante&#8221; de uma sociedade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dominante quanto se pensava.<\/p>\n<p align=\"left\">No Brasil, muitos historiadores, sem abandonarem seus pr\u00f3prios m\u00e9todos de trabalho, passaram a utilizar o conceito de cultura \u0097 categoria at\u00e9 ent\u00e3o restrita \u00e0s an\u00e1lises antropol\u00f3gicas. Atrav\u00e9s de uma &#8220;narrativa densa&#8221;, os pesquisadores passaram a reconstituir aspectos do passado colonial brasileiro, a sociedade escravista e, na Primeira Rep\u00fablica, a vida social e os movimentos populares. Em suas pesquisas, eles avaliaram que estas &#8220;pessoas comuns&#8221;, embora oprimidas por um poder que, muitas vezes, escapava \u00e0 sua compreens\u00e3o, necessariamente n\u00e3o se deixaram iludir ou manipular. Particularmente na Primeira Rep\u00fablica, seja em Canudos, nas reformas de Pereira Passos, na Revolta da Vacina ou com os anarquistas, embora haja um Estado repressivo e excludente, ele n\u00e3o surge como todo-poderoso a ponto de moldar as mentes e os comportamentos de trabalhadores e populares. Estes, de maneira diversa, s\u00e3o tratados como pessoas portadoras de id\u00e9ias, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es que atuaram e, muitas vezes, se revoltaram contra a ordem vigente. Assim, os pesquisadores que voltam suas preocupa\u00e7\u00f5es para per\u00edodos anteriores a 1930 n\u00e3o encontraram tantas dificuldades para interpretar as pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es de trabalhadores e populares, bem como as suas rela\u00e7\u00f5es com o poder estatal \u0097 o que n\u00e3o \u00e9 casual. Afinal, nos per\u00edodos colonial, imperial e na Primeira Rep\u00fablica, os pesquisadores n\u00e3o transformaram as classes dominadas em objetos de regulamenta\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o do Estado, e nem responsabilizaram escravos, brancos pobres, camponeses ou assalariados urbanos por se &#8220;iludirem&#8221; com as ideologias dominantes.<\/p>\n<p align=\"left\">No entanto, ainda s\u00e3o poucos aqueles que incorporaram o enfoque cultural nas suas reflex\u00f5es sobre a hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira ap\u00f3s 1930, particularmente nas rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora. Parece-me que as indica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas da Hist\u00f3ria Cultural perdem a valida de especialmente quando se trata de estudar trabalhadores e populares ap\u00f3s aquela data, particularmente durante o &#8220;primeiro governo&#8221; de Get\u00falio Vargas, e mesmo ap\u00f3s 1945. Poucos s\u00e3o os historiadores que aplicam os conceitos de cultura, tradi\u00e7\u00e3o, circularidade, apropria\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia, entre diversos outros, para o tratamento do tema.<\/p>\n<p align=\"left\">As dificuldades existem, por mais que os historiadores etnogr\u00e1ficos h\u00e1 bastante tempo nos ensinem que, se a cultura erudita tem o objetivo de subjugar os povos, n\u00e3o h\u00e1 por que acreditar, como afirma Roger Chartier, que &#8220;estes foram real, total e universalmente submetidos&#8221;. Para o autor, &#8220;\u00e9 preciso, ao contr\u00e1rio, postular que existe um espa\u00e7o entre a norma e o vivido, entre a injun\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica, entre o sentido visado e o sentido produzido, um espa\u00e7o onde podem insinuar-se reformula\u00e7\u00f5es e deturpa\u00e7\u00f5es&#8221;. Contudo, a impress\u00e3o \u00e9 que tais indica\u00e7\u00f5es s\u00e3o levadas a s\u00e9rio para antes de 1930. Para depois, n\u00e3o. A hist\u00f3ria da classe trabalhadora a partir de 1930, assim, torna-se um grande ardil das classes dominantes, que, pela propaganda pol\u00edtica e a doutrina\u00e7\u00e3o das mentes, entre outros dispositivos ideol\u00f3gicos, desviam os trabalhadores de seus &#8220;verdadeiros&#8221; objetivos.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Se a Hist\u00f3ria Cultural n\u00e3o foi suficiente para a supera\u00e7\u00e3o das dificuldades, tamb\u00e9m parece ser o caso de um autor que h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada vem influenciando a produ\u00e7\u00e3o historio-gr\u00e1fica brasileira:<\/strong> E.P. Thompson. Suas id\u00e9ias e sugest\u00f5es metodol\u00f3gicas t\u00eam sido apropriadas no Brasil nos mais diversos estudos, dos motins populares \u00e0s festas, das organiza\u00e7\u00f5es culturais dos oper\u00e1rios aos rituais, entre outras tem\u00e1ticas. No entanto, a quest\u00e3o central de sua obra, o processo de forma\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, surge prioritariamente nos estudos sobre a Primeira Rep\u00fablica, particularmente com os anarquistas \u0097 e, como no caso da Hist\u00f3ria Cultural, n\u00e3o para per\u00edodos posteriores.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>No Brasil, Thompson, ao lado dos historiadores da cultura, em poucas ocasi\u00f5es ultrapassa a data tabu:<\/strong> 1930.<\/p>\n<p align=\"left\">Novamente n\u00e3o estamos diante de uma casualidade. Lembremos que a concep\u00e7\u00e3o que o historiador ingl\u00eas tem de classe social e de consci\u00eancia de classe \u00e9 incompat\u00edvel com a no\u00e7\u00e3o de populismo e de suas inevit\u00e1veis conseq\u00fc\u00eancias, como manipula\u00e7\u00e3o, das,massas, mistifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e consci\u00eancias desviadas dos seus interesses &#8220;reais&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Refletindo junto a Thompson, pode-se mesmo dizer que express\u00f5es como populismo, getulista, janguista ou trabalhista, n\u00e3o importa o complemento, surgem como uma tentativa de fabricar explica\u00e7\u00f5es apresentadas como racionais para comportamentos interpretados como n\u00e3o-racionais. A categoria de &#8220;irracionalidade&#8221;, inclusive, \u00e9 uma das pilastras que sustenta a no\u00e7\u00e3o de populismo. Por exemplo, para Weffort, o populismo nunca teria sido, em suas pr\u00f3prias palavras, &#8220;bastante conseq\u00fcente em seu irracionalismo para colocar-se diretamente sob a tutela de um chefe&#8221;, enquanto o nacionalismo, por sua vez, \u00e9 definido como &#8220;irracionalismo sob a forma racional&#8221; (grifos meus). Assim, as experi\u00eancias vividas pelos indiv\u00edduos, suas tradi\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as e valores, s\u00e3o definidos como uma racionalidade deslocada, um desvio, uma ideologia, portanto.<\/p>\n<p align=\"left\">As dificuldades para compreender o trabalhismo como um &#8220;fen\u00f4meno hist\u00f3rico&#8221; surgem diante das interven\u00e7\u00f5es, repressivas e persuasivas, patrocinadas pelo Estado ap\u00f3s 1930, as quais, em v\u00e1rias an\u00e1lises, teriam alterado os caminhos &#8220;naturais&#8221; da classe na constitui\u00e7\u00e3o de sua identidade pol\u00edtica. No entanto, a experi\u00eancia do movimento oper\u00e1rio e sindical entre 1930 e 1964 e as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora, ao serem definidas como &#8220;populistas&#8221;, devido \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do poder estatal, podem, e certamente devem, ser criticadas pelo que Thompson chama de recurso da &#8220;interpela\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;chamamento&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>A coisa ocorreria da seguinte maneira: <\/strong>o Estado, por meio de seus aparelhos pol\u00edticos, legais, ideol\u00f3gicos, entre outros, grita para os indiv\u00edduos: &#8220;\u00d3, voc\u00ea a\u00ed!&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\">Sem demora, eles s\u00e3o &#8220;recrutados&#8221; para as rela\u00e7\u00f5es &#8220;imagin\u00e1rias&#8221; \u0097 no pior sentido do termo \u0097 que o Estado exige.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Como ele diz em seu estilo ir\u00f4nico, tais concep\u00e7\u00f5es surgem como &#8220;um roteiro comovente&#8221;, pr\u00f3prio de filmes infantis:<\/strong> (&#8230;) &#8220;a malvada bruxa do Estado aparece! A varinha m\u00e1gica da ideologia \u00e9 agitada! E, pronto&#8221;. Surge, assim, o movimento sindical reformista. Embora o ato de &#8220;chamar&#8221; ocorra em qualquer sociedade, alega o autor, n\u00e3o h\u00e1 por que acreditar que os trabalhadores necessariamente atendam, exceto se eles forem transformados em seres passivos e sem iniciativa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p align=\"left\">Houve, decerto, a interven\u00e7\u00e3o estatal, insisto. Sobretudo a partir de 1942, a formula\u00e7\u00e3o do projeto trabalhista pelo Estado contribuiu, de maneira decisiva, para configurar uma identidade coletiva da classe trabalhadora. Mas, em qualquer experi\u00eancia hist\u00f3rica, os assalariados sofrem influ\u00eancias dos contextos sociais, pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos em que vivem. No caso brasileiro, como em outros, tratou-se de uma rela\u00e7\u00e3o, em que as partes, Estado e classe trabalhadora, identificaram interesses comuns. No trabalhismo, estavam presentes id\u00e9ias, cren\u00e7as, valores e c\u00f3digos comportamentais que circulavam entre os pr\u00f3prios trabalhadores muito antes de 1930. Compreendido como um conjunto de experi\u00eancias pol\u00edticas, econ\u00f4micas, sociais, ideol\u00f3gicas e culturais, o trabalhismo expressou uma consci\u00eancia de classe, leg\u00edtima porque hist\u00f3rica.<\/p>\n<p align=\"left\">Por este enfoque, os trabalhadores, &#8220;ao viverem sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria&#8221;, deixam de ser considerados simples objeto de regulamenta\u00e7\u00e3o estatal! O pr\u00f3prio projeto trabalhista, para ser compreendido e aceito, n\u00e3o pode ignorar o patrim\u00f4nio simb\u00f3lico presente na cultura pol\u00edtica popular. O sucesso do trabalhismo, portanto, n\u00e3o foi arbitr\u00e1rio, e muito menos imposto pela propaganda pol\u00edtica e pela m\u00e1quina policial. Igualmente, n\u00e3o foi casual que o PTB, a institucionaliza\u00e7\u00e3o do projeto, tenha sido a organiza\u00e7\u00e3o mais popular durante a experi\u00eancia democr\u00e1tica p\u00f3s-45, tornando-se, em 1964, a maior agremia\u00e7\u00e3o no espectro pol\u00edtico do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"left\">Por fim, uma advert\u00eancia bastante contundente do historiador ingl\u00eas. Trata-se dos perigos de enfocar as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora a partir de cima, dando ao aparato estatal, ou \u00e0s classes dominantes, um poder desmedido.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Trata-se, para o autor, de uma maneira elitista de tratar uma rela\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n\n<blockquote>\n<p align=\"left\">Mais uma vez os intelectuais \u0097 um grupo escolhido entre eles \u0097 receberam a tarefa de iluminar o povo. N\u00e3o h\u00e1 tra\u00e7o mais caracter\u00edstico dos marxismos ocidentais, nem mais revelador de suas premissas profundamente antidemocr\u00e1ticas. Seja a Escola de Frankfurt ou Althusser, est\u00e3o marcados pela sua acentuada \u00eanfase no peso inelut\u00e1vel dos modos ideol\u00f3gicos de domina\u00e7\u00e3o \u0097 domina\u00e7\u00e3o que destr\u00f3i qualquer espa\u00e7o para a iniciativa ou criatividade da massa do povo \u0097, uma domina\u00e7\u00e3o da qual s\u00f3 uma minoria esclarecida de intelectuais pode se libertar. Sem d\u00favida, essa predisposi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica foi alimentada pelas experi\u00eancias terr\u00edveis do fascismo, da doutrina\u00e7\u00e3o da massa pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e do pr\u00f3prio stalinismo. \u00c9, por\u00e9m, uma triste premissa para a teoria socialista (todos os homens e mulheres, exceto n\u00f3s, s\u00e3o originalmente est\u00fapidos) e destinada a levar a conclus\u00f5es pessimistas ou autorit\u00e1rias.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h4 align=\"left\">O &#8220;COLAPSO&#8221; DO POPULISMO<\/h4>\n<p align=\"left\">Como pol\u00edtica de massas, estilo de governo e tendo por id\u00e9ias b\u00e1sicas o controle, a manipula\u00e7\u00e3o e a tutela do Estado, a no\u00e7\u00e3o de populismo, no dizer de Angela de Castro Gomes, tornou-se, em fins dos anos 70, quase uma imposi\u00e7\u00e3o, &#8220;pelo compartilhamento j\u00e1 alcan\u00e7ado e pela falta de vers\u00f5es de maior tr\u00e2nsito&#8221;. No entanto, n\u00e3o eram incomuns, mesmo no in\u00edcio dessa d\u00e9cada, insatisfa\u00e7\u00f5es e inconformismos com a express\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Em trabalho ainda muito atual, Celso Frederico, j\u00e1 em 1970, questionava:<\/strong><\/p>\n\n<blockquote>\n<p align=\"left\">Seja nessas interpreta\u00e7\u00f5es convencionais [teorias da moderniza\u00e7\u00e3o], seja em ensaios mais refinados como os de F. C. Weffort, o populismo \u00e9 sempre visto como um desvio, uma simples deforma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, uma falsifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\">Embora com as limita\u00e7\u00f5es impostas pelas teorias vigentes naquela \u00e9poca, o autor expressou suas d\u00favidas certamente por entrevistar oper\u00e1rios de carne e osso, conhecendo-os de perto. Frederico n\u00e3o encontrou, e demonstrou isso com muito talento, trabalhadores manipulados, iludidos e desviados dos seus &#8220;reais&#8221; interesses.<\/p>\n<p align=\"left\">Somente em fins daquela d\u00e9cada, surgiram as primeiras ver s\u00f5es alternativas, sobretudo an\u00e1lises que apontavam para as intera\u00e7\u00f5es entre o projeto varguista e as demandas dos pr\u00f3prios trabalhadores antes de 1930. Recusando as concep\u00e7\u00f5es que sugeriam os &#8220;desvios ideol\u00f3gicos&#8221; da classe trabalhadora, categoria que implicitamente apontava para um caminho &#8220;verdadeiro&#8221;, um grupo de cientistas pol\u00edticos interpretou a consci\u00eancia de classe como algo que se define por uma complexa intera\u00e7\u00e3o com o Estado e os empres\u00e1rios. Maria Herm\u00ednia Tavares de Almeida, Luiz Werneck Vianna e Wanderley Guilherme dos Santos ofereceram, assim, importantes contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"left\">Em compasso com o ambiente intelectual prop\u00edcio para vers\u00f5es alternativas, outros pesquisadores, em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds, e n\u00e3o apenas no eixo Rio-S\u00e3o Paulo, passaram a criticar o &#8220;populismo na pol\u00edtica brasileira&#8221; \u0097 alguns deles sob a influ\u00eancia das interpreta\u00e7\u00f5es gramscianas de Ernesto Laclau sobre o fen\u00f4meno na Argentina. Fl\u00e1vio Henrique Albert Brayner, por exemplo, criticou os que, tomando como texto-base o discurso de posse de Miguel Arraes no governo de Pernambuco, no in\u00edcio dos anos 60, classificaram sua proposta pol\u00edtica como &#8220;populismo de esquerda&#8221; \u0097 fen\u00f4meno que se caracterizaria pela mistifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de classe, pela presen\u00e7a da m\u00edstica Povo-Comunidade. Questionando a indefini\u00e7\u00e3o conceitual de &#8220;populismo de esquerda&#8221;, o que implicaria um de &#8220;centro&#8221; e outro de &#8220;direita&#8221;, Brayner afirma que os autores gostariam de ver<\/p>\n\n<blockquote>\n<p align=\"left\">um discurso que trouxesse um corte de classe preciso, um pertencimento de classe facilmente observ\u00e1vel a olho nu. Pensam as classes, e suas ideologias, sob a forma da redu\u00e7\u00e3o. V\u00eaem a utiliza\u00e7\u00e3o da categoria POVO no discurso de Arraes como a pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o do conflito de classes.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\">Miguel Bodea, por sua vez, com base em extensa pesquisa, questionou em Weffort a tipologia da rela\u00e7\u00e3o &#8220;l\u00edder populista-massas populares&#8221; e a id\u00e9ia de que o populismo teria sido um pouco mais que uma &#8220;forma pequeno-burguesa de consagra\u00e7\u00e3o do Estado&#8221;, uma vez que desestimularia a organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Bodea, igualmente influenciado pelas reflex\u00f5es de Laclau, demonstrou como Get\u00falio Vargas, Alberto Pasqualini, Jo\u00e3o Goulart e Leonel Brizola primeiro firmaram suas lideran\u00e7as em uma estrutura partid\u00e1ria regional e somente depois se projetaram na pol\u00edtica nacional. A ascens\u00e3o ocorreu dentro do partido pol\u00edtico, e n\u00e3o, &#8220;como muitos parecem supor, a partir de uma rela\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica direta entre o l\u00edder e as massas populares&#8221;. Para o autor, &#8220;o carisma, quando houve, desenvoIveu-se a posteriori&#8221;. Assim, a lideran\u00e7a de Pasqualini \u00e9 impens\u00e1vel fora do PTB ga\u00facho. Sem a organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, certamente ele seria um personagem desconhecido. Goulart e Brizola, por sua vez, n\u00e3o alcan\u00e7ariam a proje\u00e7\u00e3o nacional sem um PTB forte a n\u00edvel regional. Mesmo Vargas, at\u00e9 chegar \u00e0 categoria de mito pol\u00edtico, lutou por quase tr\u00eas d\u00e9cadas para se impor no Partido Republicano Rio-Grandense. Com base em farta documenta\u00e7\u00e3o, o autor rejeita as indica\u00e7\u00f5es sugeridas por Weffort de que &#8220;o l\u00edder ser\u00e1 sempre algu\u00e9m que j\u00e1 se encontra no controle de alguma fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u0097 um presidente, um governador, um deputado etc.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Em sua pesquisa, contrap\u00f5e Bodea:<\/strong><\/p>\n\n<blockquote>\n<p align=\"left\">Na avalia\u00e7\u00e3o de todas estas carreiras pol\u00edticas [&#8230;] torna-se patente que nenhum destes l\u00edderes teria desenvolvido seu prest\u00edgio junto \u00e0s massas \u0097 ao menos no \u00e2mbito regional \u0097 sem passar pl.o_.cx\u00faro.,do partido, com suas disputas internas e a luta constante pelo voto dos delegados \u00e1s c\u00f3r\u00eeven\u00e7oes partida-rias. Evidentemente, depois de verem sacramentadas suas lideran\u00e7as e candidaturas no n\u00edvel partid\u00e1rio, todos estes l\u00edderes criaram uma proje\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de lideran\u00e7a de massa para fora e at\u00e9 acima do partido.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\">\u00c9 nesse contexto de insatisfa\u00e7\u00f5es e de procura de alternativas que vem a p\u00fablico, em 1988, A inven\u00e7\u00e3o do trabalhismo, de Angela de Castro Gomes. Inicialmente, \u00e9 importante ressaltar, o trabalho foi recebido com certa inquieta\u00e7\u00e3o. Afinal, n\u00e3o se rompe com todas as premissas da no\u00e7\u00e3o de populismo e, portanto, com uma tradi\u00e7\u00e3o longamente aceita e compartilhada sem custos. Assim, foi preciso esperar que uma gera\u00e7\u00e3o de historiadores, influenciados pelas abordagens culturais, pelas leituras antropol\u00f3gicas, pela recep\u00e7\u00e3o da assim chamada Hist\u00f3ria Pol\u00edtica renovada e, particularmente, pelas id\u00e9ias de Thompson, estivesse receptiva para compreender a pol\u00edtica brasileira entre 1930 e 1964 sob novos enfoques. Dez anos ap\u00f3s sua primeira edi\u00e7\u00e3o, A inven\u00e7\u00e3o do trabalhismo passou a sofrer uma nova leitura, menos inquietante e mais reflexiva.<\/p>\n<p align=\"left\">Seja como for, em fins dos anos 90, aqueles que recusaram as abordagens que privilegiam a manipula\u00e7\u00e3o e a tutela estatal dos trabalhadores ap\u00f3s 1930 deixaram de ser vozes isoladas. Diversos autores v\u00eam contribuindo para desacreditar, uma a uma, as premissas do &#8220;populismo na pol\u00edtica brasileira&#8221;. Assim, Luc\u00edlia de Almeida Neves e Maria Celina D&#8217;Ara\u00fajo, cada uma \u00e0 sua maneira, demonstraram que o trabalhismo n\u00e3o se reduziu \u00e0 mera manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e que o PTB, igualmente, n\u00e3o se resumiu a um &#8220;partido de pelegos&#8221;. Argelina Cheibub Figueiredo, em trabalho inovador, comprovou a insustentabilidade da tese cl\u00e1ssica que explicaria o &#8220;colapso do populismo&#8221; pelas mudan\u00e7as nos padr\u00f5es de acumula\u00e7\u00e3o capitalista \u0097 vale dizer, pelo determinismo econ\u00f4mico. Maria Helena Rolim Capelato, em sua pesquisa comparativa sobre o Estado Novo e o peronismo, relativiza o poder da propaganda pol\u00edtica de massas. Para a autora, &#8220;a efic\u00e1cia das mensagens depende dos c\u00f3digos de afetividade, costumes e elementos hist\u00f3rico-culturais dos receptores&#8221;. Sem a presen\u00e7a desses elementos, uma m\u00e1quina propagand\u00edstica, mesmo poderosa e sofisticada, cai no vazio. Em teses e disserta\u00e7\u00f5es que orientou, surgem contrariedades com as premissas &#8220;que insistem na capacidade de manipula\u00e7\u00e3o estatal das consci\u00eancias pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o&#8221;. No meu pr\u00f3prio livro, Trabalhadores do Brasil. O imagin\u00e1rio popular, procurei reconstituir, ainda que parcialmente, id\u00e9ias, experi\u00eancias e estrat\u00e9gias pol\u00edticas de trabalhadores e populares, demonstrando que eles n\u00e3o estavam manipulados ou iludidos na \u00e9poca do &#8220;primeiro governo&#8221; de Vargas.<\/p>\n<p align=\"left\">Mais ainda, em programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, grupos de pesquisadores, instituindo &#8220;escolas&#8221; historiogr\u00e1ficas, atualmente formam jovens historiadores cr\u00edticos da no\u00e7\u00e3o de populismo.<\/p>\n<p align=\"left\">O populismo, portanto, parece entrar em colapso. Evidentemente que n\u00e3o no sentido dado por Octavio Ianni, mas, sim, em sua pr\u00f3pria l\u00f3gica explicativa.<\/p>\n<p align=\"left\">Embora, por uma quest\u00e3o de cautela, n\u00e3o se deva subestimar a for\u00e7a das tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n<h4 align=\"left\">A &#8220;INVEN\u00c7\u00c3O&#8221; DO POPULISMO<\/h4>\n<p align=\"left\">As palavras &#8220;populismo&#8221; e &#8220;populista&#8221; n\u00e3o estavam dispon\u00edveis no vocabul\u00e1rio pol\u00edtico e na linguagem cotidiana do pa\u00eds na \u00e9poca do &#8220;primeiro governo&#8221; de Vargas. N\u00e3o existiam, simplesmente. Ent\u00e3o, afinal, quem &#8220;inventou&#8221; o populismo?<\/p>\n<p align=\"left\">No Brasil, o primeiro historiador a defender que a propaganda pol\u00edtica estatal se mostrou eficaz na manipula\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, e da\u00ed o apoio deles a Vargas, foi Karl Loewenstein, em livro publicado ainda em 1942. A interpreta\u00e7\u00e3o liberal daquele fen\u00f4meno percorre a sua an\u00e1lise.<\/p>\n<p align=\"left\">No entanto, o ano de 1945 foi crucial para a formula\u00e7\u00e3o e o estabelecimento da cren\u00e7a de que o prest\u00edgio do ditador entre os assalariados urbanos constituiu obra da m\u00e1quina propagand\u00edstica do DIP. Nesse ano, em pleno processo de democratiza\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds conheceu uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o em favor da continuidade de Vargas no poder. O &#8220;queremismo&#8221;, movimento de propor\u00e7\u00f5es grandiosas, somente comparado \u00e0 Alian\u00e7a Nacional Libertadora e \u00e0 campanha das Diretas J\u00e1, irritou profundamente os grupos liberais de oposi\u00e7\u00e3o ao Estado Novo. Para as for\u00e7as liberais e antigetulistas, havia uma grande dificuldade para compreender e assimilar manifesta\u00e7\u00f5es populares de defesa do ditador. Nos jornais, os violentos ataques a Vargas tornavam-se, ao mesmo tempo, argumentos explicativos. Em editorial, o Di\u00e1rio da Noite, de S\u00e3o Paulo, concordou que Vargas, de fato, &#8220;desfruta de alguma popularidade&#8221; entre certas categorias de trabalhadores. Mas o prest\u00edgio do ditador explica-se fundamentalmente pela propaganda demag\u00f3gica do Estado Novo. Hitler e Mussolini tamb\u00e9m, por for\u00e7a m\u00edstica que souberam difundir, [&#8230;] desfrutaram de popularidade [&#8230;] de milh\u00f5es de homens fanatizados, atiizados, i 1, ,atos (&#8230;), excitando sua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">Em O Jornal, no Rio de Janeiro, um jornalista igualmente tentou enfrentar a quest\u00e3o. A participa\u00e7\u00e3o de trabalhadores, qualificados por ele de &#8220;arruaceiros&#8221;, que tentam impedir manifesta\u00e7\u00f5es pela democracia, tem origem, fundamentalmente, na presen\u00e7a, no Brasil, de uma &#8220;atitude mental obscurantista&#8221; oriunda da importa\u00e7\u00e3o da ideologia nazista. Tais id\u00e9ias, perniciosas, mas ainda vivas na sociedade brasileira, perturbam a ordem e repelem a marcha para as liberdades democr\u00e1ticas. Portanto, conclui o autor, \u00e9 preciso eliminar estas &#8220;for\u00e7as do mal que, esmagadas na Alemanha nazista, ainda procuram defender posi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem defender pelas armas&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Em 1945, as correntes liberais e antigetulistas demonstraram incapacidade para assimilar manifesta\u00e7\u00f5es populares a favor de Vargas. Assim, entre a influ\u00eancia do nazismo e a atua\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias perniciosas, entre a mentalidade obscurantista e o comportamento pr\u00f3prio de arruaceiros, a oposi\u00e7\u00e3o liberal esfor\u00e7ava-se para dar conta dos conflitos que surgiam. Portanto, a explica\u00e7\u00e3o liberal, em seu limite, denunciava a aplica\u00e7\u00e3o, nos anos do Estado Novo, das t\u00e9cnicas de propaganda pol\u00edtica de massa pelo DIP, importadas da Alemanha nazista, sobre uma popula\u00e7\u00e3o pobre, analfabeta e ignorante, ensejando que, no ocaso da ditadura, surgissem tais constrangimentos. Reprimir as manifesta\u00e7\u00f5es a favor de Get\u00falio, desse modo, era a sa\u00edda leg\u00edtima para o problema.<\/p>\n<p align=\"left\">Assim, na conjuntura da democratiza\u00e7\u00e3o, entre 1942 e I 945, houve a aproxima\u00e7\u00e3o entre o historiador e o jornalista. Ambos, partindo dos horizontes oferecidos pelo liberalismo, passaram a explicar as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e classe trabalhadora a partir da manipula\u00e7\u00e3o, da propaganda estatal e do &#8220;atraso&#8221; da cultura pol\u00edtica popular brasileira. As palavras &#8220;populismo&#8221; e &#8220;populista&#8221; ainda n\u00e3o se encontravam dispon\u00edveis no vocabul\u00e1rio da \u00e9poca, mas os fundamentos explicativos do fen\u00f4meno estavam lan\u00e7ados.<\/p>\n<p align=\"left\">A partir de 1945 at\u00e9 1964, as palavras foram surgindo muito lentamente atrav\u00e9s dos anos. No entanto, raramente eram utilizadas, e quando surgiam nas p\u00e1ginas dos jornais, n\u00e3o tinham o objetivo de desmerecer ou insultar o advers\u00e1rio. Mesmo na linguagem virulenta do lacerdismo, esses termos estavam ausentes.<\/p>\n<p align=\"left\">Get\u00falio Vargas, por exemplo, em um \u00fanico texto datado de 1954, foi acusado de criminoso, materialista, imoral, desonesto, conivente com ladr\u00f5es e comparado a uma grande peste. Jo\u00e3o Goulart, por sua vez, era descrito pela imprensa oposicionista como um homem prim\u00e1rio nas letras, de limitados horizontes intelectuais, demagogo, corrupto e manipulador dos sindicatos. De criminosos a demagogos, de corruptos a golpistas, de ladr\u00f5es a ignorantes, as oposi\u00e7\u00f5es formulavam e disseminavam imagens extremamente negativas acerca dos dois l\u00edderes trabalhistas. No entanto, as palavras &#8220;populismo&#8221; ou &#8220;populista&#8221; n\u00e3o estavam no rol de acusa\u00e7\u00f5es a Vargas e a Goulart.<\/p>\n<p align=\"left\">Os termos &#8220;populista&#8221; e &#8220;populismo&#8221; existiam no vocabul\u00e1rio pol\u00edtico entre 1945 e 1964, mas muito raramente eram utilizados. Contudo, quando eram pronunciados, tinham um significado bastante diferente deste que conhecemos hoje. Lendo os notici\u00e1rios pol\u00edticos de diversos jornais daquela \u00e9poca, \u00e9 curioso perceber que, nas poucas situa\u00e7\u00f5es, quando Get\u00falio Vargas e Jo\u00e3o Goulart eram chamados de &#8220;populistas&#8221; nada havia de ofensivo. Ao contr\u00e1rio, a express\u00e3o surgia como elogiosa.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Por exemplo, Jo\u00e3o Duarte Filho, nas p\u00e1ginas da Tribuna da Imprensa, escreveu:<\/strong> &#8220;Desde que Get\u00falio mascarou Jango de l\u00edder populista come\u00e7ou uma \u00e9poca de agita\u00e7\u00e3o dos trabalhadores&#8221; (grifos meus). O sentido, aqui, n\u00e3o \u00e9 o da transfer\u00eancia da demagogia e da manipula\u00e7\u00e3o de um para o outro, mas, sim, que Goulart teria herdado de Vargas a legitimidade pol\u00edtica para atuar entre os trabalhadores, respondendo, assim, \u00e0s suas demandas. \u00daltima Hora, por sua vez, jornal que apoiava Vargas, publicou um editorial (possivelmente escrito por Samuel Wainer, diz Maria Vict\u00f3ria Benevides) defendendo, com veem\u00eancia, o papel hist\u00f3rico do trabalhismo e do PTB. O partido, diz o texto, sendo &#8220;instrumento pol\u00edtico do Sr. Get\u00falio Vargas, segue as pegadas populistas do seu fundador. Para as massas obreiras, o aval que Get\u00falio d\u00e1 ao partido basta a lhe conferir um largo cr\u00e9dito de confian\u00e7a&#8221; (grifos meus). Assim, tanto Jo\u00e3o Duarte Filho, que detestava Goulart, como Samuel Wainer, que defendia Vargas, usavam a palavra &#8220;populista&#8221; em um sentido elogioso.<\/p>\n<p align=\"left\">Portanto, naquela \u00e9poca, ser um l\u00edder &#8220;populista&#8221;, tanto para os trabalhistas como para seus advers\u00e1rios, n\u00e3o descrevia um pol\u00edtico _que utilizava como recursos a manipula\u00e7\u00e3o, a demagogia e a mentira,, A palavra tinha um outro significado do\u0097atar \u0097 talvez o oposto. A express\u00e3o, embora pouco utilizada, pode ser traduzida, na linguagem de nossos dias, no que chamamos de &#8220;l\u00edder popular&#8221;, de algu\u00e9m que representa, autenticamente, os anseios pol\u00edticos &#8220;populares&#8221; ou dos &#8220;movimentos populares&#8221;. Se hoje, pelo menos na sensibilidade pol\u00edtica das esquerdas, ser um &#8220;l\u00edder popular&#8221; \u00e9 algo elogioso, nos anos 50 e in\u00edcio dos 60, de maneira similar, surgia com merit\u00f3rio definir algu\u00e9m como &#8220;l\u00edder populista&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Igualmente, \u00e9 curioso investigar o significado da palavra &#8220;pelego&#8221;. Na linguagem da milit\u00e2ncia de esquerda, sobretudo com as greves no ABC paulista em fins dos anos 70, tornou-se comum qualificar o movimento sindical no per\u00edodo anterior a 1964, e sobretudo suas liga\u00e7\u00f5es com o Estado e o PTB, como &#8220;pelego&#8221;. As lideran\u00e7as dos trabalhadores, exatamente por se aproximarem de l\u00edderes pol\u00edticos como Vargas e Goulart e formularem uma identidade com base no trabalhismo e no nacionalismo, passaram a merecer aquele t\u00edtulo desqualificador. Mesmo que pesquisas mais recentes demonstrem que as coisas n\u00e3o eram t\u00e3o simples assim, a estampa de &#8220;partido dos pelegos&#8221; marcou o PTB como uma &#8220;tatuagem de marcas profundas&#8221;, no dizer de Luc\u00edlia de Almeida Neves Delgado.<\/p>\n<p align=\"left\">Os &#8220;pelegos&#8221;, sindicalistas dispostos a negocia\u00e7\u00e3o com o governo, sem d\u00favida, existiram. Mesmo antes de 1930, eles concorriam com anarquistas, comunistas e outras correntes. Mas foi sobretudo ap\u00f3s 1935, com a violenta repress\u00e3o ao movimento oper\u00e1rio e sindical, que o &#8220;pelego&#8221;, dito cl\u00e1ssico, adentrou o cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro. A tal ponto o movimento sindical foi desmobilizado, que, em 1942, t\u00e9cnicos do Minist\u00e9rio do Trabalho se esfor\u00e7aram para formar, por meio de cursos, lideran\u00e7as aut\u00eanticas, visando a criar uma base de apoio a Vargas com a democratiza\u00e7\u00e3o que se vislumbrava.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas o que interessa aqui \u00e9 perceber que o estigma de &#8220;pelego&#8221; continuou ap\u00f3s 1945. Mesmo que o movimento sindical tivesse se modificado, principalmente em meados dos anos 50, com o surgimento de l\u00edderes que procuravam representar legitimamente sua categoria, realizando greves, formando intersindicais, politizando suas lutas e assumindo um programa de reformas, como a agr\u00e1ria, e a nacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas, a marca de &#8220;pelego&#8221; continuaria. Era sobretudo a oposi\u00e7\u00e3o liberal-conservadora, em particular a UDN, que denunciava o perigo dos sindicalistas &#8220;pelegos&#8221; para as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p align=\"left\">Na sensibilidade pol\u00edtica dos grupos conservadores, qualquer l\u00edder sindical, aut\u00eantico ou fisiol\u00f3gico, trabalhista ou comunista, aut\u00f4nomo ou subserviente ao Estado, era qualificado, indistintamente, de &#8220;pelego&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Assim, j\u00e1 em 1945, diante do amplo apoio dos trabalhadores e de l\u00edderes sindicais ao movimento &#8220;queremista&#8221;, o Di\u00e1rio da Noite, de S\u00e3o Paulo, argumentou: <\/strong>&#8220;Est\u00e1 provado que o Minist\u00e9rio do Trabalho, atrav\u00e9s de seus agentes e por interm\u00e9dio de alguns falsos l\u00edderes sindicais, manobra os cord\u00e9is dessa mistifica\u00e7\u00e3o ign\u00f3bil de gordas verbas&#8221; (grifos meus).<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Em 1953, criticando a gest\u00e3o de Goulart no Minist\u00e9rio do Trabalho, Carlos Lacerda afirmou:<\/strong><\/p>\n\n<blockquote>\n<p align=\"left\">Jo\u00e3o Goulart tenta criar no Brasil uma nova CGT, do tipo Peron. Ele prepara um golpe peronista, no estilo boliviano. N\u00e3o se trata do fechamento do Congresso como foi feito em 1937, e, sim, da sua domina\u00e7\u00e3o pela massa de manobra de um sindicalismo dirigido por &#8220;pelegos&#8221;, visando reformar a Constitui\u00e7\u00e3o e estabelecer uma ditadura no pa\u00eds (grifos meus).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\"><strong>Nessa \u00e9poca, os jornais, quase que diariamente, apresentavam imagens bastante negativas do governo e da amea\u00e7adora situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds:<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">\u0093Desde que o Sr. Jo\u00e3o Goulart assumiu o Minist\u00e9rio do Trabalho\u0094, afirmou o Di\u00e1rio de Not\u00edcias, \u0093se tem acentuado o clima de de agita\u00e7\u00e3o e exacerba\u00e7\u00e3o do conflito de classes, que o Sr. Get\u00falio Vargas diz condenar.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>As violentas cr\u00edticas a Vargas e a Goulart, veiculadas pela imprensa, escamoteavam os verdadeiros personagens que se queriam atingir:<\/strong> os trabalhadores e o movimento sindical. N\u00e3o foi casual, assim, que em epis\u00f3dios dram\u00e1ticos na vida pol\u00edtica do pa\u00eds, como o suic\u00eddio de Vargas, em 1954, na assim conhecida Campanha da Legalidade, em 1961, ou nos primeiros dias de abril de 1964, a primeira medida tomada pelos governos estaduais conservadores tenha sido prender l\u00edderes e dirigentes sindicais, sempre com o pretexto de resguardar a &#8220;ordem p\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Para as oposi\u00e7\u00f5es, o perigo n\u00e3o era necessariamente o &#8220;pelego&#8221;, mas o movimento sindical em processo de mobiliza\u00e7\u00e3o e politiza\u00e7\u00e3o crescentes. No projeto pol\u00edtico conservador dos liberais brasileiros, n\u00e3o haveria espa\u00e7os para a cidadania plena dos trabalhadores. No entanto, a palavra &#8220;pelego&#8221; pegou. Mesmo nos primeiros meses de 1964, quando o movimento dos trabalhadores radicalizou, a imagem do sindicalista subserviente ao Estado e corrompido pelo imposto sindical, ileg\u00edtimo e merecedor de puni\u00e7\u00f5es, portanto, ainda surgia nas p\u00e1ginas da imprensa conservadora.<\/p>\n<p align=\"left\">Trata-se, como observou Fernando Lattman-Weltman com acuidade, de uma pol\u00edtica de exclus\u00e3o dos trabalhadores veiculada pela grande imprensa do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo, particularmente no tocante \u00e0 quest\u00e3o da cidadania. Os assalariados, que aprenderam a creditar os seus direitos sociais ao regime de Vargas, em 1945 passaram igualmente a se beneficiar dos direitos pol\u00edticos. A imprensa, que rejeitava o governo instaurado em 1930 por negar os primados b\u00e1sicos do liberalismo, como o laissez-faire econ\u00f4mico, o individualismo e as liberdades pol\u00edticas fundamentais, com a democratiza\u00e7\u00e3o passou a identificar os direitos sociais dos trabalhadores, bem como os perigos de sua extens\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o, como uma amea\u00e7a \u00e0 ordem liberal. Segundo Lattman Welteman, &#8220;o exerc\u00edcio dos direitos pol\u00edticos \u0097 particularmente o voto \u0097 era, nesta vers\u00e3o tupiniquim do liberalismo, conspurcada pela outorga ileg\u00edtima dos direitos sociais, mercadoria privilegiada do tr\u00e1fico demag\u00f3gico\/populista dos falsos democratas (o ex-ditador e sua `camarilha de golpistas, apaniguados e pelegos&#8217;).<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Toda uma tradi\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica se construiu atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o de tais palavras \u0097verdadeiros an\u00e1temas da \u00e9poca:<\/strong> `demagogo&#8217;, `caudilhismo&#8217;, `populismo&#8217;, `pelegos&#8217; etc.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\">A pol\u00edtica de exclus\u00e3o, patrocinada pelos liberais e veiculada pela imprensa, delineou a imagem de uma &#8220;democracia impura&#8221;, ou melhor, de uma &#8220;democracia populista&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Assim, se nos anos 40 houve a aproxima\u00e7\u00e3o entre o historiador e o jornalista para a configura\u00e7\u00e3o do populismo, na d\u00e9cada de 50 ocorreu a segunda aproxima\u00e7\u00e3o, agora a do soci\u00f3logo com o mesmo jornalista. Com o anteparo da teoria da moderniza\u00e7\u00e3o, o Grupo de Itatiaia, como vimos, formulou as primeiras indica\u00e7\u00f5es sobre o &#8220;populismo na pol\u00edtica brasileira&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas foi nos anos 60, sobretudo a partir de 1963, que a alian\u00e7a se ampliou enormemente. Al\u00e9m da imprensa e de novos soci\u00f3logos, agora das universidades, agregaram-se os militares golpistas, a direita civil, a Igreja, os capitalistas, as classes m\u00e9dias conservadoras e os crentes na ortodoxia marxista-leninista.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Todos, no dizer de Daniel Aar\u00e3o Reis Filho, tinham contas a ajustar com o grande inimigo:<\/strong> o trabalhismo.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>E t\u00e3o liquidado o queriam, que o defunto sequer teve o direito de levar seu pr\u00f3prio nome ao t\u00famulo: <\/strong>&#8220;batizado pela sociologia paulista, foi como populismo que desceu os sete palmos de terra. E, assim, seria ensinado \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, nas escolas, nos quart\u00e9is e nas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas&#8221;. E, como diz o autor, &#8220;temos as contas ajustadas&#8221;.<\/p>\n\n<h4 align=\"left\">PALAVRAS FINAIS<\/h4>\n<p align=\"left\">Ap\u00f3s tantas trajet\u00f3rias e interpreta\u00e7\u00f5es, a no\u00e7\u00e3o de &#8220;populismo&#8221;, cm fins dos anos 90, passou, para usar uma express\u00e3o de \u00c2ngela de Castro Gomes, &#8220;de pedra a vidra\u00e7a&#8221;, embora, de acordo com a mesma autora, ainda seja &#8220;um gato de sete vidas&#8221;. Apesar das cr\u00edticas crescentes e carecendo de conte\u00fado te\u00f3rico mais consistente, a express\u00e3o passou a fazer parte da linguagem corrente da popula\u00e7\u00e3o, sedimentando-se na cultura pol\u00edtica brasileira, seja ela popular ou erudita.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Assim, entrevistado em 1997 por um rep\u00f3rter, Jacob Gorender ouviu uma pergunta que, igualmente, era uma explica\u00e7\u00e3o para o populismo, agora em sua terceira vers\u00e3o:<\/strong><\/p>\n\n<blockquote>\n<p align=\"left\">Alguns estudiosos sugerem que estamos vivendo um per\u00edodo que poderia ser denominado &#8220;neopopulismo&#8221;, onde o poder executivo toma para si a id\u00e9ia e a pr\u00e1tica de uma acentuada personaliza\u00e7\u00e3o e autonomia, al\u00e9m de tentar, tal como os moldes tradicionais do populismo, harmonizar as diferentes classes sociais e capital e trabalho em torno de um comp\u00eandio comum. Na\u00e7\u00e3o, por exemplo.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\">Personaliza\u00e7\u00e3o e autonomia do poder executivo, concilia\u00e7\u00e3o de classes e ideal da Na\u00e7\u00e3o, eis os ingredientes do populismo de terceira gera\u00e7\u00e3o, agora rebatizado de &#8220;neopopulismo&#8221;. Seja ele na \u00e9poca de Vargas ou de Fernando Henrique Cardoso, n\u00e3o importa, trata-se de uma verdadeira maldi\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica brasileira, \u00e0 qual, ao que parece, fomos condenados.<\/p>\n<p align=\"left\">Talvez a explica\u00e7\u00e3o para o &#8220;populismo na pol\u00edtica brasileira&#8221; seja bem mais simples. Em agosto de 1998, durante a campanha eleitoral para a presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Fernando Henrique Cardoso, disputando a reelei\u00e7\u00e3o, promoveu um com\u00edcio no Parque Royal, uma favela no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Acompanhado do candidato a governador do estado pelo Partido da Frente Liberal, o presidente, ap\u00f3s lembrar que conhecia as dificuldades dos favelados atrav\u00e9s de seus estudos sociol\u00f3gicos sobre a situa\u00e7\u00e3o dos negros no sul do pa\u00eds, disse para aproximadamente 1.500 pessoas que assistiam ao com\u00edcio<\/strong>: &#8220;N\u00e3o adianta prometer o que n\u00e3o vamos fazer. N\u00e3o d\u00e1 para transformar todo mundo em rico, nem sei se vale a pena, porque a vida de rico em geral \u00e9 muito chata.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\">Ao final do com\u00edcio, acompanhado de pol\u00edticos conservadores, foi almo\u00e7ar no Iate Clube.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Entre coquetel de camar\u00e3o e lil\u00e9 mignon, os cerca de 450 candidatos da coliga\u00e7\u00e3o conservadora que o apoiou ouviram do presidente refer\u00eancias negativas a seus concorrentes, em particular a Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva:<\/strong> &#8220;Se por alguma cat\u00e1strofe, que n\u00e3o vai ocorrer, se elegesse um populista, nem ele seria capaz de fazer o que diz que vai fazer, porque o povo repudiaria imediatamente.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\">Mais ainda, criticou os que pregam solu\u00e7\u00f5es &#8220;facilit\u00e1rias, mirabolantes, de populismo barato&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Para o presidente, &#8220;o Brasil amadureceu: <\/strong>n\u00e3o h\u00e1 mais caminho do passado&#8221; (grifos meus).<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>No dia seguinte, reavaliando suas declara\u00e7\u00f5es na favela, Fernando Henrique declarou:<\/strong> &#8220;Eu sou professor, sou pobre.&#8221;<\/p>\n<p align=\"left\">Mas, afinal, quem s\u00e3o os populistas? Dif\u00edcil saber, pois depende do lugar pol\u00edtico em que o personagem que acusa se encontra. Para os conservadores, populismo \u00e9 o passado pol\u00edtico brasileiro, s\u00e3o pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam os direitos sociais dos trabalhadores, s\u00e3o modelos de economia e de sociedade que, na Europa Ocidental, ficaram conhecidos como Estado de Bem-Estar Social; outros, talvez, diriam que populista \u00e9 aquele que, diante dos pobres, diz que ser rico \u00e9 chato. O populista, portanto, \u00e9 o advers\u00e1rio, o concorrente, o desafeto. O populista \u00e9 o Outro.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Trata-se de uma quest\u00e3o eminentemente pol\u00edtica e, muito possivelmente, pol\u00edtico-partid\u00e1ria, que poderia ser enunciada da seguinte maneira:<\/strong> o meu candidato, o meu partido, a minha proposta pol\u00edtica n\u00e3o s\u00e3o populistas, mas o teu candidato, o teu partido e a tua proposta pol\u00edtica, estes, sim, s\u00e3o populistas.<\/p>\n<p align=\"left\">Populista \u00e9 sempre o Outro, nunca o Mesmo.<\/p>\n<strong>Jorge Ferreira<\/strong>\n\nFonte: www.cefetsp.br\n<h6>Governo Populista<\/h6>\n<h4>O populismo (pol\u00edtica)<\/h4>\nO <strong>populismo<\/strong> \u00e9 um tipo de discurso e correntes pol\u00edticas, visando as suas &#8220;cr\u00edticas elites &#8220;e defendendo o uso de&#8221; pessoas &#8220;(da\u00ed o nome), \u00e9 incorporada em uma figura carism\u00e1tica e apoiado por um partido adquiriu o corpus ideol\u00f3gico. Ele pressup\u00f5e a exist\u00eancia de uma democracia representativa que a cr\u00edtica. \u00c9 por isso que ele apareceu com democracias modernas, depois de experimentar alguns historiadores primeira exist\u00eancia na Rep\u00fablica Romana.\n\nA palavra populismo apareceu em franc\u00eas em 1929 nos escritos de Leon Lemonnier para designar uma nova escola liter\u00e1ria que ele escreveu o manifesto. Esta doutrina liter\u00e1ria, posando como inspirado por naturalismo, a inten\u00e7\u00e3o de trazer a literatura para o n\u00edvel de vida humilde &#8220;pobres&#8221;, livrar de todas essas &#8220;doutrinas sociais que tendem a distorcer as obras liter\u00e1rias&#8221;. Populismo pol\u00edtico existe desde o s\u00e9culo XIX, no Estados Unidos (&#8220;rural e pequeno-burguesa queria reencarnar o fundador da democracia americana populismo pessoas &#8220;) e R\u00fassia (&#8220;O populismo da R\u00fassia czarista&#8221; indo para o povo &#8220;, sonhou com a restaura\u00e7\u00e3o de uma comunidade perdida . &#8220;).\n\nAntes dos anos 1990 , o termo &#8220;populismo&#8221; e &#8220;populista&#8221; pode designar v\u00e1rias correntes pol\u00edticas referentes a pessoas, incluindo o partido de centro-direita \u00d6VP austr\u00edaco ou SHP turco de centro-esquerda , uma vez que tendem a fazer mais quer cham\u00e1-lo assim, preferindo o r\u00f3tulo de &#8220;popular&#8221;.\n\n<strong>Se o populismo prazo \u00e9 hoje (ano de 2010) a pol\u00edtica de pejorativo , as chamadas pol\u00edticas populistas podem ser muito diferentes:<\/strong> diferente esquerda \/ direita , e entre a do populismo Europa e Am\u00e9rica do Sul . O historiador Philippe Roger diz que a palavra populismo &#8220;refere-se a um complexo de id\u00e9ias, experi\u00eancias e pr\u00e1ticas que nenhuma tipologia \u00e9 pesquisado se n\u00e3o esgota.&#8221;\n<h4>Defini\u00e7\u00e3o<\/h4>\nO populismo acusa as elites ou pequenos grupos de interesses especiais na sociedade.\n\n<strong>Porque eles det\u00eam o poder, o populismo d\u00e1-lhes a responsabilidade dos males da sociedade:<\/strong> esses grupos buscam a satisfa\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios interesses e trair os interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o. Populista Assim, proponho para remover o dispositivo do estado das m\u00e3os desses elites ego\u00edstas, mesmo penais, para &#8220;servir o povo&#8221;. Para remediar esta situa\u00e7\u00e3o, o l\u00edder populista oferece solu\u00e7\u00f5es que exigem bom senso popular e simplicidade. Estas solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o apresentados como aplic\u00e1vel imediatamente e de uma opini\u00e3o p\u00fablica apresentado como monol\u00edtico. Cr\u00edticos populistas geralmente anda de dinheiro ou qualquer minoria (\u00e9tnica, pol\u00edtica, administrativa, etc.), Deveria ter conquistado o poder, eles se op\u00f5em \u00e0 sua maioria, eles representam.\n<h4 class=\"firstHeading\">Populismo<\/h4>\nO populismo \u00e9 um encargo que \u00e9 usado por pol\u00edticos no poder (e seus apoiadores) contra aqueles que os criticam <i>n\u00e3o usar seu poder no interesse do povo.<\/i>\n\n<strong>O populismo como uma defesa das pessoas<\/strong>\n\nO populismo termo envolve o conceito de povo. Esta no\u00e7\u00e3o pode ele ter um sentido individualista? O dicion\u00e1rio define as pessoas como &#8220;todos os seres humanos que vivem no mesmo territ\u00f3rio ou com uma cultura comum, maneiras, um sistema de governo.&#8221; A partir desta defini\u00e7\u00e3o de &#8220;povo&#8221; \u00e9 praticamente imposs\u00edvel definir um interesse comum em que todos os membros concordam.\n\nNo sentido de preocupa\u00e7\u00e3o, como &#8220;Um pol\u00edtico promete para os cortes de impostos de pessoas. Isso \u00e9 populismo, julgar o seu rival.&#8221; esta defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o se aplica ao pol\u00edtico n\u00e3o promete a si mesmo ou ao seu rival, nem mesmo a toda a casta de explora\u00e7\u00e3o . Ele realmente n\u00e3o pode prometer aqueles que s\u00e3o v\u00edtimas de impostos. O termo populista, para ser significativa, deve implicitamente envolvido, pelo menos em parte, para definir as pessoas como a casta explorado.\n\n<strong>De acordo com a teoria de aulas em que os adere populistas, n\u00e3o tirar a mesma conclus\u00e3o:<\/strong> se ele adere \u00e0 teoria marxista das classes, ele acha que eles s\u00e3o os &#8220;capitalistas&#8221;, que &#8220;explorar&#8221; a &#8221; trabalhadores &#8220;e que&#8221; o povo &#8220;, ou seja, a casta explorado assim definido deve, atrav\u00e9s de redistribui\u00e7\u00e3o revolta democracia contra a casta de aproveitamento, se ele entende a teoria das classes liberais (pelo menos em parte, e talvez inconscientemente), ao contr\u00e1rio, ele sabe que &#8220;o povo&#8221; \u00e9 operado por homens de Estado, e que a sua pseudo-democracia que impede a decidir &#8220;se&#8221; Neg\u00f3cios que &#8220;a&#8221; preocupa\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 o que Francis Guillaumat chamada &#8220;esquerda populista&#8221; e &#8220;populistas de direita&#8221;.\n\n<strong>Preso na dire\u00e7\u00e3o consistente e n\u00e3o-contradit\u00f3rias, ent\u00e3o, o populismo prazo torna-se in\u00fatil, pois sin\u00f4nimo comunismo ou liberalismo:<\/strong> a defini\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, a de um <i>populista de direita que n\u00e3o entende toda<\/i> a defini\u00e7\u00e3o de pseudo-democracia muitas vezes \u00e9 simplesmente a &#8220;social-democracia tecnocr\u00e1tica&#8221;, a defini\u00e7\u00e3o de &#8220;deixar o povo decidir sobre assuntos que dizem respeito&#8221; ao inv\u00e9s significa &#8220;democracia direta&#8221; eo gerente dele como presidente desde \u00e9 um pol\u00edtico!\n\nDa mesma forma, ele define como pessoas exploradas para fins de oposi\u00e7\u00e3o com a classe classe exploradora, mas para o resto reconhece a relev\u00e2ncia do conceito de pessoas com a sua <i>pr\u00f3pria vontade coletiva.<\/i> Como &#8220;povo&#8221; \u00e9 muitas vezes confundida com &#8220;cidad\u00e3os do Estado-na\u00e7\u00e3o&#8221;, o populista agora sempre defender um certo nacionalismo &#8211; caso contr\u00e1rio, n\u00e3o seria populista, mas os liberais ou anarquistas e n\u00e3o falar do &#8220;povo&#8221;, mas de <i>indiv\u00edduos.<\/i>\n\n<strong>A acusa\u00e7\u00e3o de populismo<\/strong>\n\nOs pol\u00edticos com diferentes orienta\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas vezes tratadas por outros pol\u00edticos populistas que n\u00e3o t\u00eam nenhuma teoria coerente da democracia ou da lei e n\u00e3o s\u00e3o capazes de dar uma defini\u00e7\u00e3o coerente ou populismo ou a extrema direita, nem explicar a distin\u00e7\u00e3o entre os dois.\n\nQuanto mais \u00e0 direita , o termo \u00e9 usado principalmente pela esquerda para desacreditar partes (cada vez maior), o direito, por exemplo, para colocar no mesmo saco Le Pen , Blocher , Haider, Pim Fortuyn. No entanto, mesmo assumindo que eles t\u00eam em comum uma certa desconfian\u00e7a da imigra\u00e7\u00e3o, em diferentes graus, em diferentes formas e por uma variedade de raz\u00f5es, al\u00e9m disso, ainda n\u00e3o explica o &#8220;populista&#8221; e por que designar o mesmo termo mais ou menos um socialista nacionalista (e cada vez mais socialista desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 &#8230;), um liberal-conservador, um oponente conservador-nacionalista ou um do Isl\u00e3.\n\n<strong>&#8220;O populismo \u00e9 defender a&#8221; vontade do povo &#8220;<\/strong>\n\nO termo tamb\u00e9m se refere populismo \u00e0s vezes aqueles que defendem a &#8220;vontade popular&#8221; contra a democracia representativa (por exemplo, durante o debate sobre o referendo franc\u00eas sobre a TCE, Mam\u00e8re Natal foi usado neste sentido, dizendo que c &#8216; \u00e9 o parlamento deve ratificar a ECT, e aqueles que pensam o contr\u00e1rio s\u00e3o contra a democracia representativa e assim populista.\n\nDa mesma forma, o termo pode referir-se aqueles que acreditam que a vontade do povo deve ser respeitada, o papel da pol\u00edtica \u00e9 perguntar &#8220;O que voc\u00ea pediria?&#8221; e faz\u00ea-lo. H\u00e1, por exemplo, os soci\u00f3logos su\u00ed\u00e7os que criticam abusos no asilo, n\u00e3o porque eles representam um problema em si, mas porque &#8220;as pessoas&#8221; s\u00e3o considerados como um problema.\n\nMas estes, <b>n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio descrev\u00ea-los como populista, eles s\u00e3o simplesmente (pseudo-) Democratas!<\/b> Enquanto Mam\u00e8re, neste caso, \u00e9 reconhecido como um <b>autorit\u00e1rio, anti-democr\u00e1tico:<\/b> ele <i>n\u00e3o s\u00f3<\/i> nega o direito das pessoas a ter sua pr\u00f3pria (como todos os (pseudo-) Democratas), <i>mas<\/i> tamb\u00e9m considera \u00e9 a classe pol\u00edtica, ao inv\u00e9s de a <i>maioria das pessoas,<\/i> que possam violar os direitos individuais.\n\n<strong>\u00c9 tamb\u00e9m significativo que os partidos dominantes est\u00e3o seriamente considerando banir o partido &#8220;de extrema direita &#8220;, mesmo que eles tamb\u00e9m aceitar que a vontade da maioria prevalece sobre a lei:<\/strong> a sua concep\u00e7\u00e3o de democracia \u00e9 deixar a maioria escolher &#8211; desde que os escolhe, e quando falam de &#8220;limitar os excessos da democracia&#8221; \u00e9 nesse sentido que eles ouvem, e n\u00e3o a da &#8216; constitucionalista ilus\u00e3o.\n\n<strong>&#8220;O populismo \u00e9 para agradar aos instintos b\u00e1sicos do povo&#8221;<\/strong>\n\n<strong>Outra alternativa \u00e9 a acusar aqueles que defendem o populismo desejos populares que n\u00e3o s\u00e3o as mesmas que as do acusador:<\/strong> sugerir tomar o dinheiro onde ele est\u00e1, ou seja, a acreditar nas &#8220;pessoas&#8221; ser\u00e1 refor\u00e7ada por punir os ricos ficaram ricos por exemplo, dificilmente ser\u00e1 chamado de populismo, como o termo \u00e9 usado principalmente pelos socialistas.\n\n<strong>Mais uma vez, o termo \u00e9 usado por uma raz\u00e3o simples: para fazer de tudo para esconder a \u00fanica distin\u00e7\u00e3o relevante \u00e9 que entre os desejos de &#8220;o povo&#8221; que s\u00e3o perfeitamente leg\u00edtimos e quais n\u00e3o s\u00e3o: <\/strong>\n<blockquote>Os desejos do &#8220;povo&#8221; s\u00e3o todos aqueles perfeitamente leg\u00edtimos, que n\u00e3o envolvem viol\u00eancia agressiva, mas em vez disso buscam se proteger. Ent\u00e3o, \u00e9 tratada sistematicamente <b>demagogo populista<\/b> ou qualquer pol\u00edtico fazendo uma proposta para <i>fazer o dinheiro das pessoas do que os homens do Estado roubou sua<\/i> e qualquer pol\u00edtico se atrever a lembrar que a seguran\u00e7a \u00e9 menos seguro, e, portanto, deveria, talvez, permitir que as pessoas para se defender contra a agress\u00e3o, ou ele teria que os homens do Estado assegurar seguran\u00e7a de pessoas e bens, o que, afinal, \u00e9 a primeira <i>desculpa<\/i> seu <i>monop\u00f3lio da viol\u00eancia.<\/i>\n\nOs desejos de &#8220;o povo&#8221; que n\u00e3o s\u00e3o leg\u00edtimos s\u00e3o todos aqueles que dependem de viol\u00eancia agressiva. Isto \u00e9 particularmente verdadeiro de alguns desejos socialistas, mantida pelo escravo absurdism , <i>para usar a democracia (pseudo-)<\/i> para deixar os homens da carga do estado for\u00e7as da desordem para cometer viola\u00e7\u00f5es da lei <i>que &#8220;Eles n\u00e3o ousariam fazer-se diretamente,<\/i> e tamb\u00e9m entender que eles n\u00e3o t\u00eam o direito de faz\u00ea-lo eles mesmos, mas acredita ou quer acreditar que eles t\u00eam o direito de cobrar outros fazer, ou melhor, para carregar outro para exigir outros para instruir os outros a faz\u00ea-lo, de modo que todo mundo tem uma desculpa: \u00e9 a <i>cren\u00e7a no chap\u00e9u<\/i>.<\/blockquote>\nJ\u00e1 John Locke ainda n\u00e3o tinha percebido que <b><i>as pessoas n\u00e3o podem<\/i><\/b><i> delegar ao governo o poder de fazer qualquer coisa Tudo o que seria ilegal para que eles fa\u00e7am eles mesmos.<\/i>\n\nCom o &#8220;populista&#8221;, esta distin\u00e7\u00e3o essencial desaparece &#8211; e esse \u00e9 o objetivo &#8211; e encontra-se substitu\u00edda por uma falsa oposi\u00e7\u00e3o entre os pontos em que os desejos de &#8220;o povo&#8221; s\u00e3o semelhantes aos da classe exploradora (ou seja, muitas vezes os desejos de quem lan\u00e7ou o an\u00e1tema de &#8220;populismo&#8221;) e aqueles em que elas contradizem.\n<h4>Populismo: um termo usado por raz\u00f5es espec\u00edficas<\/h4>\nJogando com o vago sentimento de &#8220;povo&#8221;, o uso do termo populismo ajuda a manter a confus\u00e3o sobre (pseudo-) democracia e evitar o debate sobre a defini\u00e7\u00e3o e legitimidade.\n\nSendo usado por alguns pol\u00edticos para tratar outros demagogos, ajuda a lembrar que todos eles s\u00e3o necessariamente.\n\nUm partido populista \u00e9 tratado a partir do momento que ele percebe uma pequena parte muito dif\u00edcil, n\u00e3o da casta explorar no poder, o poder pol\u00edtico do momento \u00e9 a democracia (pseudo-) no seu pr\u00f3prio interesse e n\u00e3o em que as pessoas como ele alega, ou seja, um partido populista \u00e9 tratada assim que <i>ele \u00e9 projetado para manter os ladr\u00f5es e pol\u00edticos corruptos para se fazer a mesma coisa por conta pr\u00f3pria, ou se pretende remover (o menos em parte) o sistema.<\/i>\n\n<strong>Dois casos, em seguida, surgem: <\/strong>\n<blockquote>Quando os partidos populistas tratados s\u00e3o, na verdade pior, a vis\u00e3o liberal que as partes no processo, eles devem fazer todo o poss\u00edvel para impedi-los de ser criticado pelos motivos certos, <b>eles n\u00e3o podem culp\u00e1-los por nada v\u00e1lido que chamar a aten\u00e7\u00e3o para a sua pr\u00f3pria escravid\u00e3o absurdo<\/b> . O discurso anti-liberal em geral e anti-&#8220;globaliza\u00e7\u00e3o liberal&#8221; em particular \u00e9 t\u00e3o difundido e un\u00e2nime na classe pol\u00edtica francesa, a &#8220;extrema esquerda&#8221; e &#8220;direita&#8221; em alguns n\u00e3o- exce\u00e7\u00f5es significativas: o que pode estar errado, por exemplo, Chirac para Le Pen (assumindo que Le Pen \u00e9 pior do que Chirac, que podem ser objeto de discuss\u00e3o)? Ele n\u00e3o pode acus\u00e1-lo de ser um socialista, uma vez que ele tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 para ser protecionista e anti-globaliza\u00e7\u00e3o, nem mesmo fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre &#8220;cidad\u00e3os nacionais&#8221; e &#8220;estrangeiros&#8221;, como homens da o Estado tamb\u00e9m o s\u00e3o.\n\nQuando pelo contr\u00e1rio nocivos, ou seja, empr\u00e9stimos menos violar os direitos dos indiv\u00edduos e respeitar os seus desejos mais, por isso s\u00e3o mais &#8220;democr\u00e1tico&#8221; e melhor defender os &#8220;interesses do povo&#8221; que os partidos no poder, eles devem fazer tudo para evitar este ponto tamb\u00e9m, para culp\u00e1-los por ele mesmo como um defeito perigoso, tratando tamb\u00e9m populista.<\/blockquote>\nAssim, os pol\u00edticos no poder s\u00e3o capazes de introduzir uma nova falsa dicotomia \u00e9 que entre o &#8220;populista&#8221; e de outros partidos &#8220;extremistas&#8221; e os partidos &#8220;parlamentares&#8221; para ocultar a verdadeira quest\u00e3o do debate pol\u00edtico, o que \u00e9 qu\u00e3o longe um pol\u00edtico est\u00e1 disposto a deixar &#8220;o povo&#8221; decidir o que diz respeito \u00e0 medida em que <i>desafia o voo do fraco pelo forte,<\/i> ou <i>seja,<\/i> o &#8220;povo&#8221; com &#8220;representantes&#8221; .\n\nFonte: fr.liberpedia.org\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Governo Populista, Populismo, Brasil, Pol\u00edtica, O que \u00e9, Fun\u00e7\u00e3o, Get\u00falio, Vargas, Brasileiro, Defini\u00e7\u00e3o, Tipo, Conceito, Resumo, Governo Populista<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-20475","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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