{"id":20444,"date":"2015-12-18T00:00:00","date_gmt":"2015-12-18T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/luta-pela-redemocratizacao-no-brasil-3\/"},"modified":"2015-12-18T00:00:00","modified_gmt":"2015-12-18T00:00:00","slug":"luta-pela-redemocratizacao-no-brasil-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/luta-pela-redemocratizacao-no-brasil-3\/","title":{"rendered":"Luta Pela Redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Luta Pela Redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil &#8211; O que foi<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final da d\u00e9cada de 70, na passagem do governo Geisel para o de Figueiredo, estava ficando claro que a ditadura estava acabando. A palavra da moda era abertura, especialmente abertura pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vimos que os generais castelistas, como Geisel e Figueiredo, eram favor\u00e1veis \u00e0 abertura pol\u00edtica. Mas seria um grave erro atribuir o fim do regime \u00e0 boa vontade democr\u00e1tica dos militares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, a ditadura estava afundando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para come\u00e7ar, a crise econ\u00f4mica:<\/strong>\u00a0infla\u00e7\u00e3o, diminui\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, aumento da pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi s\u00f3 Geisel abrandar a censura para que os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o no governo come\u00e7assem a pipocar. Tudo isso tirava a confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o no governo. Bastava ter elei\u00e7\u00e3o e pimba, o MDB ganhava mais votos do que a Arena. No come\u00e7o do regime, castrado pelas cassa\u00e7\u00f5es, o MDB era uma presen\u00e7a t\u00edmida. Praticamente s\u00f3 havia Arena no Brasil, Aos poucos, entretanto, o MDB foi ampliando sua capacidade de fustigar a ditadura,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nele havia desde liberais at\u00e9 comunistas, todos unidos com um prop\u00f3sito b\u00e1sico:\u00a0<\/strong>acabar com o regime militar, restaurar a democracia no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, ao contr\u00e1rio do que disse a propaganda oficial, a tal abertura pol\u00edtica n\u00e3o foi resultado simplesmente da boa vontade do governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o recuo de um regime acossado pela crise e atacado por um povo que se organizava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em nenhum momento do regime a oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica se calou. Todavia, a partir de 1975, essa oposi\u00e7\u00e3o atuava de outro jeito. N\u00e3o eram mais estudantes jogando pedras para enfrentar a pol\u00edcia, como nas memor\u00e1veis passeatas de 1968, nem eram meia d\u00fazia de guerrilheiros cutucando a on\u00e7a blindada com vara curta. Agora, a luta contra o regime ainda tinha o mesmo ardor, o mesmo idealismo, s\u00f3 que com maturidade, com subst\u00e2ncia. O segredo era a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sociedade civil n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio de sociedade militar. A sociedade civil se op\u00f5e ao Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem faz parte do Estado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pol\u00edticos, os ju\u00edzes e tribunais, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a pol\u00edcia, o Ex\u00e9rcito etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es como sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de moradores, grupos feministas, igrejas, comit\u00eas de defesa de direitos humanos, sociedades ecol\u00f3gicas e culturais etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para come\u00e7ar, a Igreja Cat\u00f3lica passava por um processo de grandes mudan\u00e7as. Em 1964, ela jogou \u00e1gua benta nos tanques. Agora, crescia a consci\u00eancia de que ser crist\u00e3o era ser tamb\u00e9m contra o pecado da opress\u00e3o social, contra o pecado de nada fazer diante da injusti\u00e7a social; ser solid\u00e1rio com os pobres; lutar por um mundo mais justo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tinha mais essa de que \u201cDeus quis que os pobres fossem submissos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. A visita do papa Jo\u00e3o Paulo II ao Brasil, em 1980, foi interpretada como uma for\u00e7a para esse tipo de atitude de engajamento social dos cat\u00f3licos. Enquanto apoiou o regime, a Igreja foi elogiada. Bastou que uma parte dela (o chamado clero progressista) se voltasse contra as barbaridades do nosso capitalismo selvagem, para que logo a acusassem de \u201cfazer politicagem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grandes figuras, como D. H\u00e9lder C\u00e2mara, D. Evaristo Arns e D. Pedro Casald\u00e1liga, frei Betto e frei Leonardo Boff, defenderam os direitos humanos, denunciaram as injusti\u00e7as sociais, exigiram que o governo mudasse suas atitudes. Organizada nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a popula\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica ia se conscientizando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Descobria-se que o Evangelho n\u00e3o era uma mensagem para manter escravos, mas justamente o contr\u00e1rio, uma boa-nova de liberta\u00e7\u00e3o, de liberta\u00e7\u00e3o de toda a opress\u00e3o, incluindo a opress\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O homem deve ganhar o p\u00e3o com o suor do seu rosto e, portanto, para que todos os que produzem o p\u00e3o possam ter um peda\u00e7o justo desse p\u00e3o, \u00e9 preciso suar o rosto para transformar a sociedade no sentido da justi\u00e7a crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a justi\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 apenas a da caridade, mas a do respeito aos direitos de todos. N\u00e3o estamos fazendo propaganda da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, mas exprimindo algumas de suas id\u00e9ias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Essa novidade seria important\u00edssima para compreender o Brasil contempor\u00e2neo:<\/strong>\u00a0nos anos 80, diversos movimentos de oper\u00e1rios e camponeses ergueram sua voz para exigir direitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um estudo de suas origens revelar\u00e1 que muitos deles nasceram das CPT (Comiss\u00f5es Pastorais da Terra) e das CEBs cat\u00f3licas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pr\u00f3prio movimento estudantil universit\u00e1rio renascia. Nas principais universidades do Brasil, o pessoal reorganizava as entidades representativas (Centros Acad\u00eamicos, Diret\u00f3rios Acad\u00eamicos, Diret\u00f3rios Centrais dos Estudantes).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta gera\u00e7\u00e3o do final dos anos 70 e come\u00e7o dos 80 mostraria que a pol\u00edtica ainda corria no sangue dos estudantes. Mas as coisas n\u00e3o eram f\u00e1ceis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As faculdades ainda estavam cheias de agentes secretos do SNI infiltrados. E a tentativa de refazer a UNE, atrav\u00e9s de um encontro de estudantes na PUC-SP em 1977, foi desfeita com brutalidade pela pol\u00edcia, que bateu tanto que uma menina ficou cega. Mesmo assim, em 1979, num Congresso emocionante na bela Salvador, a UNE estava recriada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entidades como a<b>\u00a0SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia)<\/b>, a\u00a0<b>OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)<\/b>\u00a0\u2013 esta sob a lideran\u00e7a do dr. Raymundo Faoro \u2013 e intelectuais de prest\u00edgio se manifestavam contra o regime. A imprensa alternativa, representada pelos jornais O Pasquim, Movimento e Opini\u00e3o, n\u00e3o descansava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A censura tinha sido abrandada no final do governo Geisel e, portanto, j\u00e1 havia um espa\u00e7o para falar de coisas novas na pol\u00edtica. Cada n\u00famero novo de um desses jornais era lido com voracidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1975, foi criado o\u00a0<b>MFA (Movimento Feminino pela Anistia)<\/b>, para que os presos pol\u00edticos fossem soltos, os exilados pudessem voltar \u00e0 p\u00e1tria e os cassados recebessem justi\u00e7a. Em 1978, foi criado o\u00a0<b>CBA (Comit\u00ea Brasileiro pela Anistia)<\/b>. 0 Brasil inteiro repudiava a tortura e a arbitrariedade. A saudosa Elis Regina emocionaria o pa\u00eds cantando o hino da anistia; O B\u00eabado e o Equilibrista. Outros cantores populares, como Chico Buarque e Milton Nascimento, compunham m\u00fasicas com cr\u00edticas sutis ao regime militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea, a oposi\u00e7\u00e3o estava articulada:<\/strong>\u00a0jornalistas, MDB, estudantes, Igreja Cat\u00f3lica, intelectuais, movimento pela anistia. Mas as coisas n\u00e3o seriam t\u00e3o f\u00e1ceis assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A extrema direita respondeu com fogo.\u00a0<b>D. Adriano Hip\u00f3lito<\/b>, bispo de Nova Igua\u00e7u (Rio de Janeiro), foi seq\u00fcestrado e espancado. Bombas explodiram na\u00a0<b>ABI (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa)<\/b>, e na Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. No mesmo ano (1976), o DOI-CODI invadiu a tal casa na Lapa e massacrou os ocupantes, todos da dire\u00e7\u00e3o do PC do B, como j\u00e1 foi dito. Assim, as for\u00e7as retr\u00f3gradas deixavam claro que n\u00e3o aceitariam qualquer avan\u00e7o democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A situa\u00e7\u00e3o ficou tensa. As for\u00e7as democr\u00e1ticas avan\u00e7avam, mas a direita replicava:<\/strong>\u00a00 governo, irritado, se confundia, reprimia, vacilava. Era o impasse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para onde iria o Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A extrema direita teria mesmo o poder de barrar o povo? Quem decidiria o nosso futuro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dias de medo pareciam eternos. Apesar de toda a articula\u00e7\u00e3o da sociedade, o regime autorit\u00e1rio dava a impress\u00e3o de ser capaz de resistir por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Seria uma muralha indestrut\u00edvel?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia talvez n\u00e3o terminasse nunca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem teria a capacidade de mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as? Quem seria capaz de abalar decisivamente o regime? Haveria algum movimento social capaz de provocar a virada decisiva?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>As pessoas se entreolhavam angustiadas; e agora?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nasce o Partido dos Trabalhadores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Saab-Scania, multinacional sueca de sal\u00e1rios brasileiros localizada em S\u00e3o Bernardo do Campo (S\u00e3o Paulo). S\u00e3o 7 horas da manh\u00e3. 13 de maio de 1978, sexta-feira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os diretores e executivos observam e n\u00e3o acreditam no que v\u00eaem:<\/strong>\u00a0os oper\u00e1rios est\u00e3o ali, bateram cart\u00e3o de ponto, mas nada funciona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bra\u00e7os cruzados, m\u00e1quinas paradas. E sem o pe\u00e3o, nada existe. A greve. Apesar da r\u00edgida proibi\u00e7\u00e3o da ditadura, os trabalhadores pararam. E dali se espalharam e paralisaram o cintur\u00e3o industrial do ABC Paulista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi uma loucura. Todo mundo ficou perplexo. Desde o governo at\u00e9 a esquerda tradicional, incapazes de aceitar que a classe trabalhadora pudesse, por conta pr\u00f3pria, resolver seus problemas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Na lideran\u00e7a, uma nova cabe\u00e7a no pa\u00eds, que n\u00e3o estava ligada a nenhum partido, a nenhum grupelho de esquerda:<\/strong>\u00a0Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva, o Lula, presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo do Campo. Filho de miser\u00e1veis camponeses nordestinos que emigraram para S\u00e3o Paulo, Lula trabalhava desde crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom oper\u00e1rio, torneiro-mec\u00e2nico, perdeu o dedo num acidente de trabalho t\u00e3o comum no Brasil. Na adolesc\u00eancia, n\u00e3o ligava muito para pol\u00edtica nem para sindicato. Queria mesmo era jogar bola e namorar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Amadureceu, come\u00e7ou a tomar consci\u00eancia das coisas e entrou para o sindicato, at\u00e9 ser eleito presidente. Assim, iria se tornar o mais influente l\u00edder sindical oper\u00e1rio de toda a hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois do susto da greve de 1978, o governo respondeu. Na greve de 1979, o presidente j\u00e1 era Figueiredo. O sindicato de S\u00e3o Bernardo sofreu interven\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia federal ocupou a sede.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E quem precisava do pr\u00e9dio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas assembl\u00e9ias, compareciam dezenas de milhares de metal\u00fargicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil inteiro explodiu em greves. Todo mundo queria de volta o que a infla\u00e7\u00e3o tinha levado para os patr\u00f5es. Categorias que antes de 1964 jamais teriam organizado um movimento (afinal, eram de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d), como professores, m\u00e9dicos e engenheiros, descobriram a necessidade de tamb\u00e9m participar do sindicalismo combativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ditadura reprimia sem d\u00f3. O oper\u00e1rio Santo Dias, ativista sindical, foi assassinado pela PM na rua. Era preciso deixar claro que novas rebeldias n\u00e3o seriam toleradas. A f\u00e1brica da Fiat (Minas Gerais) foi invadida pela PM com c\u00e3es amestrados. Os trabalhadores deviam se calar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois n\u00e3o se intimidaram. Contra os abusos dos patr\u00f5es, novas greves no ABC, em 1980. A ditadura mostrava, mais uma vez, que estava sempre do lado da burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma opera\u00e7\u00e3o de guerra foi montada. Guerra contra trabalhadores desarmados. O comandante do II Ex\u00e9rcito planejou as a\u00e7\u00f5es b\u00e9licas. Mobilizaram-se homens, armas, recursos. A pol\u00edcia federal chefiada pelo dr. Romeu Tuma, o DOPS e o DOI-CODI prenderam Lula e mais 15 dirigentes sindicais. Ficaram incomunic\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esperavam que, prendendo a lideran\u00e7a, acabariam as greves. Engano. Esse era um novo sindicalismo. Organizado pela base, sem chefes supremos a decidir tudo. Cada pe\u00e3o era um respons\u00e1vel. A hidra de 250 mil cabe\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A greve continuava. Proibida pelo governo, decretada ilegal pelo Tribunal do Trabalho. Mais pris\u00f5es de pol\u00edticos, advogados e sindicalistas. A televis\u00e3o s\u00f3 entrevistava ministro, patr\u00e3o, policial e pelego, para dar a impress\u00e3o de que o Brasil era contra. Mas o povo colhia donativos nas ruas para ajudar as fam\u00edlias dos oper\u00e1rios. Provocadores da pol\u00edcia destru\u00edram lojas, para criar a fama de que greve \u00e9 baderna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jornalistas os fotografaram e desmascararam a arma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Ex\u00e9rcito deu, ent\u00e3o, o ultimato. As ruas de S\u00e3o Bernardo do Campo foram ocupadas por blindados, soldados de fuzis autom\u00e1ticos, ninhos de metralhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Helic\u00f3pteros equipados com bombas patrulhavam a cidade. Estava terminantemente proibido fazer assembl\u00e9ia oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois uma multid\u00e3o de 120 mil pessoas desafiou o poder. Cabe\u00e7as erguidas, fona da verdade no cora\u00e7\u00e3o. Massacr\u00e1-los seria dar in\u00edcio a uma guerra civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia seguinte, n\u00e3o havia mais soldados em S\u00e3o Bernardo. A luta da classe oper\u00e1ria havia derrotado a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>General Jo\u00e3o Batista Figueiredo (1979 \u2013 1985)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O general\u00a0<strong>Jo\u00e3o Batista Figueiredo<\/strong>\u00a0foi o nosso presidente eq\u00fcestre. Ex-chefe do SNI, declarou que \u201cpreferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo\u201d. Infelizmente, no Brasil o povo podia escolher o desodorante, mas n\u00e3o o presidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O regime deveria ser condecorado com uma ferradura. A infla\u00e7\u00e3o veio \u00e3 galope, dando coices nos sal\u00e1rios. O ministro Delfim Netto, o \u201cgordinho sinistro\u201d achava que \u201cprimeiro o bolo deveria crescer, para depois ser dividido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pois a\u00ed est\u00e1 a grande empulha\u00e7\u00e3o da ditadura:<\/strong>\u00a0o Brasil teve um grande crescimento econ\u00f4mico e sua renda per capita ficou bem maior. Mas o bolo foi comido pelos ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o IBGE, em 1980 aos 5% mais ricos cabiam 37,9% do total da renda do pa\u00eds, e aos 50% mais pobres sobravam 12,6%. Portanto, a fatia a ser partilhada pelos 5% mais ricos era tr\u00eas vezes maior que a fatiazinha que ainda tinha de ser rachada entre a multid\u00e3o dos 50% mais famintos!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00cata festazinha de anivers\u00e1rio safada:<\/strong>\u00a0isso tinha de dar bolo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atrav\u00e9s da infla\u00e7\u00e3o, os sal\u00e1rios eram comidos pelos patr\u00f5es. N\u00e3o satisfeito, o governo Figueiredo inventou v\u00e1rias leis que deveriam proibir aumentos salariais para compensar \u00e3 infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas os tempos eram outros e o Congresso Nacional barrou as medidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A d\u00edvida externa alcan\u00e7ou cifras absurdas:<\/strong>\u00a0quase 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Ora, ela fez com que o Brasil tivesse de pagar, todos os anos, v\u00e1rios bilh\u00f5es de d\u00f3lares aos banqueiros internacionais que tinham financiado o pa\u00eds. O resultado \u00e9 que pagamos os tais 100 bilh\u00f5es, mas continuamos devendo \u00e3 mesma quantia! E continuamos tendo de pagar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma verdadeira bomba de suc\u00e7\u00e3o na economia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 1982, o pa\u00eds come\u00e7ou a negociar com o FMI (Fundo Monet\u00e1rio Internacional), para ajudar no pagamento da d\u00edvida externa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O FMI, como sempre, fez exig\u00eancias cru\u00e9is:\u00a0<\/strong>o Brasil deveria reduzir os sal\u00e1rios, cortar os gastos p\u00fablicos (menos dinheiro para as escolas e universidades, para os hospitais, para investir na economia), aceitar que a economia parasse de crescer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso em nome da estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Para a oposi\u00e7\u00e3o, recorrer ao FMI era botar a economia do Brasil nas m\u00e3os do capitalismo internacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, o regime militar tinha simplesmente desgra\u00e7ado nossa economia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O crescimento dos tempos do \u201cmilagre\u201d era ilus\u00f3rio:<\/strong>\u00a0um pa\u00eds n\u00e3o pode crescer por muito tempo mantendo tanta injusti\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da\u00ed que em 1981 aconteceu, pela primeira vez desde os anos da crise de 1929, o crescimento negativo da economia do pa\u00eds. O Brasil tinha ficado mais pobre ainda. Era a terr\u00edvel estagfla\u00e7\u00e3o, mistura de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (tudo parando) com infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Figueiredo gostava de dizer que \u201cjurou fazer deste pa\u00eds uma democracia\u201d. (Engra\u00e7ado, antes n\u00e3o era?) Mas sua abertura foi uma mistura de oportunismo com recuo. \u00c9 bem verdade que a censura abrandou, embora fosse mais f\u00e1cil publicar revistas porn\u00f4s do que jornaizinhos de esquerda. Realmente, Figueiredo era tolerante com as manifesta\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o foi \u00e0 toa que os generais linha-dura nunca o perdoaram e at\u00e9 hoje o xingam de \u201ctraidor do regime\u201d. Ponto favor\u00e1vel para ele no julgamento da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas n\u00e3o se deve esquecer o lado repressor do governo Figueiredo:\u00a0<\/strong>reprimiu greves; prendeu militantes do PCB e do PC do B; expulsou padres estrangeiros que colaboravam com a luta camponesa pela reforma agr\u00e1ria; imp\u00f4s novidades nas regras eleitorais, para favorecer o governo; fez com que mudan\u00e7as na Constitui\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorressem com aprova\u00e7\u00e3o de dois temos do Congresso; enquadrou estudantes na LSN.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A extrema direita, que nunca foi reprimida, continuou fazendo das suas:<\/strong>\u00a0um atentado terrorista \u00e0 secret\u00e1ria da OAB (1980). No ano seguinte, durante um show de MPB comemorando o dia 1\u00ba de maio, v\u00e1rias bombas foram instaladas no Riocentro (Rio de Janeiro).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se explodissem, podemos imaginar quantos morreriam. S\u00f3 uma delas estourou, no colo de um sargento do Ex\u00e9rcito que estava num carro estacionado por l\u00e1. Ele ao lado de um capit\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que faziam ali?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O inqu\u00e9rito policial-militar concluiu que ambos foram \u201cv\u00edtimas\u201d. Para muita gente, por\u00e9m, tinha sido um frustrado atentado de extrema direita. Os dois morreram de acidente de trabalho\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A anistia veio em 1979. Mas n\u00e3o foi \u201campla, geral e irrestrita\u201d. O pior \u00e9 que os torturadores tamb\u00e9m foram anistiados, sem jamais terem sentado no banco dos r\u00e9us. De qualquer modo, ela permitiu o retorno dos exilados e a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos. Os reencontros no aeroporto e na sa\u00edda da cadeia emocionaram uma gera\u00e7\u00e3o que havia sacrificado sua juventude por seu patriotismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nova pol\u00edtica partid\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O governo falava em abertura mas criava artif\u00edcios para manter o controle da situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 dissemos que a ditadura militar tinha a participa\u00e7\u00e3o ativa de muitos civis, incluindo empres\u00e1rios, administradores e os pol\u00edticos da Arena. Para dividir as oposi\u00e7\u00f5es, Figueiredo baixou a Nova Lei Org\u00e2nica dos Partidos (1979) que acabava com a divis\u00e3o Arena e MDB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Foi assim que nasceram cinco novos partidos pol\u00edticos:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><b>O PDS (Partido Democr\u00e1tico Social)\u00a0<\/b>era o novo nome da Arena. Representava os pol\u00edticos que apoiaram a ditadura. Portanto, tinha bem pouco de democr\u00e1tico e quase nada de social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O l\u00edder era o senador Jos\u00e9 Sarney, do Maranh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><b>O PMDB (Partido do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro)<\/b>\u00a0herdava o antigo MDB. Continuou sendo o grande partido da oposi\u00e7\u00e3o, reunindo diversas correntes pol\u00edticas, incluindo conservadores moderados, liberais e at\u00e9 os comunistas (os PCs ainda estavam proibidos de funcionar). O l\u00edder era o deputado Ulisses Guimar\u00e3es, figura importante na luta contra o regime militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><b>O PDT (Partido Democr\u00e1tico Trabalhista)<\/b>\u00a0era chefiado por Leonel Brizola, que tinha voltado do ex\u00edlio. Naquela \u00e9poca, Brizola gozava de enorme prest\u00edgio como 0 homem contr\u00e1rio a tudo de ruim do regime militar. Ele quis refundar o antigo PTB mas levou uma pernada da justi\u00e7a. Propunha ser herdeiro do trabalhismo de Vargas e Jango, misturado \u00e0 social-democracia, que ele tinha aprendido a admirar na Fran\u00e7a, na Alemanha e na Su\u00e9cia (uma esp\u00e9cie de capitalismo reformado com medidas inspiradas no socialismo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><b>O PTB (Partido Trabalhista Brasileiro)\u00a0<\/b>n\u00e3o tinha nada a ver com o antigo PTB. Pelo contr\u00e1rio, chegou a abrigar antigos udenistas e at\u00e9 algumas figuras da antiga Arena. Ficou nas m\u00e3os da deputada Ivete Vargas e foi visto como uma cria\u00e7\u00e3o ardilosa do regime, uma esp\u00e9cie de filial camufla da do PDS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><b>O PT (Partido dos Trabalhadores)<\/b>\u00a0aparecia como o grande partido de esquerda do Brasil. Na sua origem, o movimento oper\u00e1rio organizado no ABC paulista, liderado por Lula, mas tamb\u00e9m dirigentes sindicais de outras categorias oper\u00e1rias e at\u00e9 de setores como o banc\u00e1rio, o de professores e de funcion\u00e1rios p\u00fablicos. O PT tamb\u00e9m recebeu apoio de setores da Igreja Cat\u00f3lica (ligados \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o), estudantes universit\u00e1rios e intelectuais, reunindo desde marxistas a social-democratas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda houve um partido de exist\u00eancia ef\u00eamera, o\u00a0<b>PP (Partido Popular)<\/b>, que tinha pouco de popular, j\u00e1 que sua lideran\u00e7a estava nas m\u00e3os de grandes banqueiros e pol\u00edticos tradicionais como Tancredo Neves. Mas como a lei eleitoral de 1982 obrigava a vota\u00e7\u00e3o de todos os candidatos (de vereador a governador) do mesmo partido, o PP acabou se fundindo ao PMDB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em 1982, com as elei\u00e7\u00f5es diretas para governador restabelecidas, a oposi\u00e7\u00e3o obteve vit\u00f3rias espetaculares:<\/strong>\u00a0Franco Monturo (PMDB-SP), Leonel Brizola (PDT-RJ) e Tancredo Neves (PMDB-MG), embora tenha perdido no Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>As \u201cDiretas-J\u00e1!\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O acontecimento final do governo do general Figueiredo foi a campanha pelas Diretas J\u00e1, em 1984. Uma coisa maravilhosa, na qual praticamente o pa\u00eds inteiro tomou parte, lutando pelo direito de votar para presidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos com\u00edcios, no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo, reuniram-se milh\u00f5es de pessoas. Foram as maiores manifesta\u00e7\u00f5es de massa da hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia em que a Emenda Dante de Oliveira, restabelecendo as diretas, foi votada pela C\u00e2mara dos Deputados, Bras\u00edlia ficou em estado de emerg\u00eancia. O general Newton Cruz, a cavalo como um Napole\u00e3o desvairado, queria prender todo mundo vestido de amarelo (s\u00edmbolo da campanha) e chicoteava os carros que buzinavam a favor da emenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O pior aconteceu:<\/strong>\u00a0apesar de os \u201csim\u201d ganharem de 298 a 65, inclusive com alguns votos do PDS, faltaram 22 votos para a vit\u00f3ria. V\u00e1rios canalhas tinham votado contra ou simplesmente n\u00e3o compareceram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, uma batalha tinha sido perdida, mas n\u00e3o a guerra. Ainda dava para botar o povo de novo na rua para protestar e exigir uma nova vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a c\u00fapula do PMDB j\u00e1 estava armando um acordo com pol\u00edticos descontentes do PDS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Praticamente s\u00f3 o PT, ainda pequeno, protestou contra a arma\u00e7\u00e3o. Pelas regras antigas que foram mantidas, o presidente seria eleito indiretamente pelo Col\u00e9gio Eleitoral. O Col\u00e9gio Eleitoral, formado pelo Congresso e por deputados estaduais (seis por cada Assembl\u00e9ia Estadual, do partido majorit\u00e1rio no respectivo estado), era uma arma\u00e7\u00e3o que sempre dava vit\u00f3ria ao governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece que o candidato oficial do PDS, sr. Paulo Maluf, estava muito queimado. Sua liga\u00e7\u00e3o com a podrid\u00e3o do regime atra\u00eda o \u00f3dio popular. Se ele fosse presidente seria uma decep\u00e7\u00e3o muito grande para o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos pol\u00edticos do PDS perceberam que n\u00e3o dava para Maluf. Liderados pelo senador Jos\u00e9 Sarney, eles formaram a Frente Liberal que, no Col\u00e9gio Eleitoral, elegeu Tancredo Neves presidente do Brasil (o vice era Sarney). Pouco depois, esse pessoal, que saiu do PDS mas que mantinha as velhas id\u00e9ias conservadoras, fundou o\u00a0<b>PFL (Partido da Frente Liberal).<\/b><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tancredo Neves fez carreira no PSD junto das oligarquias mineiras. Foi ministro da Justi\u00e7a de Get\u00falio e esteve no MDB. Moderad\u00edssimo, nunca tivera atritos graves com o regime militar. Pois \u00e9, um pol\u00edtico h\u00e1bil, mas que nunca se ligou a nenhuma luta popular, virou salvador da p\u00e1tria. Talvez, porque tenha falecido antes de tomar posse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Assim, por ironia da hist\u00f3ria, o presidente que poria fim ao regime militar seria o ex-l\u00edder do regime no Senado:<\/strong>\u00a0Jos\u00e9 Sarney, vice de Tancredo. A trag\u00e9dia da hist\u00f3ria se repetia como farsa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A \u201cNova\u201d Rep\u00fablica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO neoliberalismo reinterpreta o processo hist\u00f3rico de cada pa\u00eds: os vil\u00f5es do atraso econ\u00f4mico passam a ser os sindicatos, e junto com eles, as conquistas sociais\u2026 Ao mesmo tempo, a direita, os conservadores, se reconvertem \u00e0 modernidade na sua vers\u00e3o neoliberal, via privatiza\u00e7\u00f5es e um modelo de Estado m\u00ednimo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Luta Pela Redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil &#8211; Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00a0<strong>luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil<\/strong>\u00a0teve na chamada imprensa alternativa um de seus marcos mais importantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal imprensa ficou marcada pela pr\u00e1tica de den\u00fancias sistem\u00e1ticas contra as torturas e viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos praticados pela ditadura militar e tamb\u00e9m pelas cr\u00edticas ao modelo econ\u00f4mico ent\u00e3o vigente; de maneira geral, a imprensa alternativa ficou caracterizada pelo princ\u00edpio de oposi\u00e7\u00e3o ao discurso oficial. Nesse sentido, Sonia Virginia Moreira define imprensa alternativa como \u201cos jornais e revistas que nasceram nos \u00faltimos vinte anos [d\u00e9cadas de 1970 e 1980], e n\u00e3o estavam ligados, via cord\u00e3o umbilical, \u00e0 chamada grande imprensa ou imprensa oficial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jornal Movimento, criado em abril de 1975 e que circulou semanalmente de julho de 1975 at\u00e9 novembro de 1981, foi, certamente, uma das experi\u00eancias mais significativas da imprensa alternativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conhecer a sua hist\u00f3ria, identificar sua proposta pol\u00edtico-editorial, particularmente naquilo que diz respeito \u00e0 luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil e analisar a presen\u00e7a e a import\u00e2ncia discursiva das charges no jornal Movimento se coloca como o objetivo principal desse trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como a charge foi fartamente utilizada no Movimento, o que exigiria um trabalho de maior densidade e envergadura, decidimos realizar nossa an\u00e1lise fundamentalmente em algumas charges publicadas na sess\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cCorta Essa\u201d que tematizaram a luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil, num per\u00edodo em que o jornal j\u00e1 n\u00e3o se encontrava mais sob a condi\u00e7\u00e3o de censura pr\u00e9via.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para desenvolver nossa an\u00e1lise, faremos uso de uma metodologia de an\u00e1lise do discurso ch\u00e1rgico, que visa aprofundar a compreens\u00e3o do contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico e as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que possibilitaram a constru\u00e7\u00e3o de um determinado discurso, aqui materializado sob a forma de uma produ\u00e7\u00e3o iconogr\u00e1fica, a charge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jornal Movimento:\u00a0<\/strong>uma experi\u00eancia de luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O\u00a0<strong>jornal Movimento<\/strong>, criado em abril de 1975 por um grupo de jornalistas que se desligou do jornal Opini\u00e3o e liderados por Raimundo Rodrigues Pereira, ficou conhecido na hist\u00f3ria da imprensa alternativa como \u201co jornal dos jornalistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A concep\u00e7\u00e3o de administra\u00e7\u00e3o do jornal foi assim sintetizada pela historiadora Maria Aparecida de Aquino:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jornal foi montado como uma sociedade an\u00f4nima com o controle acion\u00e1rio distribu\u00eddo entre aproximadamente duzentas pessoas. A forma de sociedade acabou sendo definida por exig\u00eancias legais, pois a id\u00e9ia original era a de que o seman\u00e1rio fosse propriedade dos que l\u00e1 trabalhavam. O compromisso foi o de, com o passar do tempo, preservar o controle para a reda\u00e7\u00e3o de Movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 proposta pol\u00edtica do jornal Movimento, foi aprovado um programa pol\u00edtico m\u00ednimo que, de acordo com Raimundo Pereira, consistia em<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apresentar, analisar e comentar os principais acontecimentos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e culturais da semana; descrever a cena brasileira, as condi\u00e7\u00f5es de vida da gente brasileira; acompanhar a luta dos cidad\u00e3os brasileiros pelas liberdades democr\u00e1ticas, pela melhoria da qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o; contra a explora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds por interesses estrangeiros; pela divulga\u00e7\u00e3o dos reais valores art\u00edsticos e culturais do povo; pela defesa de nossos recursos naturais e por sua explora\u00e7\u00e3o planejada em benef\u00edcio da coletividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jornal Movimento j\u00e1 nasceu sob a censura pr\u00e9via. Desde o n\u00famero zero, e at\u00e9 a edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 153 de junho de 1978, todas as edi\u00e7\u00f5es foram submetidas \u00e0 censura. De acordo com Bernardo Kucinski, s\u00f3 nas primeiras 15 edi\u00e7\u00f5es do jornal, 1.099 laudas foram censuradas, culminando na proibi\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 15. Essa situa\u00e7\u00e3o permaneceu praticamente inalterada at\u00e9 o dia 08 de junho de 1978, quando a equipe do Movimento recebeu o comunicado do governo federal informando que o jornal deixaria de sofrer censura pr\u00e9via.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda de acordo com Kucinski, uma caracter\u00edstica marcante do jornal Movimento, como conseq\u00fc\u00eancia da imposi\u00e7\u00e3o da censura pr\u00e9via, foi a ado\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica do feio como manifesto pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como o projeto editorial e gr\u00e1fico n\u00e3o conseguiu ser implantado por for\u00e7a dos excessivos vetos dos censores, a equipe passou a valorizar o programa pol\u00edtico em detrimento do acabamento gr\u00e1fico e isso acabou servindo como pretexto para justificar a menor preocupa\u00e7\u00e3o dispensada \u00e0 diagrama\u00e7\u00e3o e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do jornal, que se revelou desastrosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa quest\u00e3o, por\u00e9m, teve impacto direto na hist\u00f3ria financeira do seman\u00e1rio, que foi marcada por desastres sucessivos. O projeto inicial, que previa um jornal de 28 p\u00e1ginas com tiragem de 50 mil exemplares, n\u00e3o chegou a ser cumprido. De acordo com Kucinski, a edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 1 vendeu apenas 21 mil exemplares e da\u00ed por diante a vendagem foi diminuindo drasticamente, devido, em grande parte, \u00e0 censura pr\u00e9via; os pr\u00f3prios produtores do Movimento perceberam que os leitores n\u00e3o estavam dispostos a comprar um jornal mutilado apenas por apoio pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas modifica\u00e7\u00f5es foram implementadas para evitar maiores preju\u00edzos, mas a mais comprometedora foi o corte das despesas com folha de pagamento que eliminou qualquer possibilidade de constituir uma reda\u00e7\u00e3o profissionalizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No per\u00edodo em que esteve sob censura pr\u00e9via, destacou-se a sess\u00e3o \u201cEnsaios Populares\u201d, n\u00e3o apenas pela sua natureza editorial, mas por ter sido estopim de algumas das mais intensas diverg\u00eancias pol\u00edticas internas, algumas delas resultando em rachas e dissid\u00eancias na equipe com a sa\u00edda de alguns dos fundadores do projeto do jornal Movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sobre os \u201cEnsaios Populares\u201d, Kucinski afirma:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Ensaios Populares destacaram-se pela clareza de estilo e linguagem pedag\u00f3gica. Propunham-se a \u2018fazer educa\u00e7\u00e3o popular\u2019, desenvolvendo um tema em forma editorial, a partir de fatos da semana ou da conjuntura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos poucos, v\u00e3o definindo, com vigor e estilo econ\u00f4mico, posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, e passam a desempenhar dentro do jornal e junto ao p\u00fablico o papel de s\u00edmbolo ou comprova\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia de uma determinada hegemonia pol\u00edtica no jornal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tencionamento das for\u00e7as pol\u00edticas no interior do jornal provocou diverg\u00eancias e rachas que se mostraram fatais para o Movimento. Com um quadro pol\u00edtico partid\u00e1rio em constitui\u00e7\u00e3o, por ocasi\u00e3o do encerramento do ciclo do bipartidarismo, e com a aglutina\u00e7\u00e3o de importantes lideran\u00e7as pol\u00edticas de esquerda em torno da cria\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores (PT), Raimundo Pereira, na condi\u00e7\u00e3o de principal articulador do Movimento e n\u00e3o adepto \u00e0 id\u00e9ia de cria\u00e7\u00e3o do referido partido, atuou de maneira a impedir o controle pol\u00edtico do jornal pelo PT, levando isso \u00e0 \u00faltima conseq\u00fc\u00eancia, qual seja, o fechamento do Movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Kucinski assim sentencia a atitude de Raimundo Pereira:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Raimundo fechou o jornal para que ele n\u00e3o ca\u00edsse sob o controle da for\u00e7a pol\u00edtica que se tornava hegem\u00f4nica no movimento popular, o PT. Como um general que, entre deixar uma ponte cair nas m\u00e3os do inimigo ou destru\u00ed-la, prefere a \u00faltima hip\u00f3tese, Raimundo decidiu fechar MOVIMENTO.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal decis\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o dependia exclusivamente de Raimundo Pereira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele apenas apresentou uma recomenda\u00e7\u00e3o pelo fechamento do jornal em uma conven\u00e7\u00e3o nacional dos trabalhadores do Movimento que acabou aprovada pela maioria dos delegados presentes. Assim, em 15 de novembro de 1981 foi decretado o fechamento do jornal Movimento, que publicou sua \u00faltima edi\u00e7\u00e3o (n\u00ba 334) na semana de 23 a 29 de novembro de 1981.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A charge no jornal Movimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em v\u00e1rias outras oportunidades, j\u00e1 declaramos nossa convic\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 import\u00e2ncia pol\u00edtica e persuasiva da charge na constitui\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia discursiva. De natureza intertextual, dissertativa, l\u00fadica e humor\u00edstica, a charge cumpre invariavelmente a fun\u00e7\u00e3o de \u201ceditorial gr\u00e1fico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo humor, a charge ganha ares de transgress\u00e3o. Umberto Eco chega a afirmar que o humor mina os limites da lei 10 e essa afirma\u00e7\u00e3o se aplica perfeitamente bem \u00e0 fun\u00e7\u00e3o cumprida pela charge no jornal Movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considerando a proposta do Movimento de analisar os principais acontecimentos pol\u00edticos e econ\u00f4micos do pa\u00eds na perspectiva de defender o direito \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas, acreditamos que a charge cumpria papel decisivo neste intento, pois como afirmamos em outras ocasi\u00f5es,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos convencidos de que a charge pretende n\u00e3o somente dissertar sobre um determinado assunto, mas levar o seu receptor ao convencimento, objetivando inclusive uma mudan\u00e7a de consci\u00eancia e atitude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A charge se converte, por influ\u00eancia da institui\u00e7\u00e3o que a produz e dissemina, num verdadeiro discurso de convencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o per\u00edodo em que o Movimento conviveu com a censura pr\u00e9via, a publica\u00e7\u00e3o de charges n\u00e3o era uma pr\u00e1tica recorrente. Para se ter uma id\u00e9ia, de acordo com Aquino, no referido per\u00edodo os dados do pr\u00f3prio seman\u00e1rio registraram o corte de 3.162 ilustra\u00e7\u00f5es. sendo aproximadamente 2.200 s\u00f3 de charges.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As charges se tornaram alvos constantes dos censores em raz\u00e3o das cr\u00edticas e ironias que faziam aos militares e ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Com o fim da censura pr\u00e9via, imediatamente o Movimento registrou sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 censura das charges, publicando algumas delas:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A charge, o humor, t\u00eam sido instrumentos cr\u00edticos dos mais eficazes em todo jornal de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E por isso n\u00e3o \u00e9 de se estranhar que sejam justamente eles os primeiros a sofrerem uma censura mais feroz sempre que a pol\u00edcia resolve manter sob seu controle qualquer publica\u00e7\u00e3o. Em Movimento n\u00e3o foi diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tr\u00eas anos de censura significaram a n\u00e3o publica\u00e7\u00e3o de cerca de 2.200 charges, dos melhores cartunistas brasileiros. Um trabalho que acompanhou dia-a-dia os sofrimentos, as humilha\u00e7\u00f5es de grande parte da popula\u00e7\u00e3o pobre. Aqui est\u00e1 uma pequena amostra desses desenhos cr\u00edticos, que na verdade n\u00e3o s\u00e3o apenas para a gente rir, mas tamb\u00e9m para perceber a ironia das injusti\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na edi\u00e7\u00e3o seguinte, n\u00ba 155 de 19 de junho de 1978, o Movimento criou a sess\u00e3o \u201cCorta Essa\u201d, publicada na \u00faltima p\u00e1gina de cada edi\u00e7\u00e3o, com uma colet\u00e2nea de v\u00e1rias charges de diferentes desenhistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A cria\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o veio acompanhada de uma mensagem da equipe do Movimento, refor\u00e7ando a import\u00e2ncia da charge para o jornal e aproveitando a nova situa\u00e7\u00e3o (sem censura) para reafirmar seu tom provocativo, sob o pretexto de justificar a escolha do nome da referida sess\u00e3o:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aproveitando o espa\u00e7o conquistado e revivendo o saud\u00e1vel h\u00e1bito da goza\u00e7\u00e3o, os humoristas de Movimento cumprimentam os leitores e pedem licen\u00e7a para apresentar mimosa colet\u00e2nea de diatribes contra a prepot\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E desafiam:\u00a0<\/strong>corta essa! Corta essa, leitor, e cola na escrivaninha, na oficina, na parede do bar\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sess\u00e3o \u201cCorta Essa\u201d, nas suas primeiras apari\u00e7\u00f5es, foi acompanhada de frases que procuravam sintetizar o tema recorrente das charges publicadas naquela referida edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A primeira delas, por\u00e9m, fez refer\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria natureza da sess\u00e3o, al\u00e9m de um trocadilho sobre o potencial de censura das charges:\u00a0<\/strong>\u201cHumor cortante: pode causar apreens\u00f5es\u201d. Outros exemplos: \u201c\u00ca! Poderosos!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">V\u00e3o mais devagar pros humoristas poderem acompanhar!\u201d (edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 157); \u201cEu n\u00e3o sei porque implicam tanto com o Figueiredo, eu adoro ele. Eu o Geisel.\u201d (edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 158); \u201cMandato tamp\u00e3o &#8220;Ato excepcional&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelas vias indiretas? Isso \u00e9 pura sem-vergonhice!\u201d (edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 169); \u201cBras\u00edlia n\u00e3o tem polui\u00e7\u00e3o ambiental mas, rapaz! Como cheira mal!\u201d (edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 172); \u201cDiga-me com quem andas e\u2026 conforme a grana eu direi que n\u00e3o tens nada a ver com isso!\u201d (edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 173); \u201cDescoberto o livro de cabeceira do Planalto: como fazer leis e enquadrar pessoas\u201d (edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 174); \u201cAt\u00e9 tu, Dinarte?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim matas o Erasmo\u2026 de enfarte!\u201d (edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 187).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sess\u00e3o \u201cCorta Essa\u201d foi produzida a partir da edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 155 de 19 de junho de 1978 e permaneceu at\u00e9 a edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 251 de 21 de abril de 1980 como sess\u00e3o exclusiva para publica\u00e7\u00e3o de charges, ocupando integralmente a \u00faltima p\u00e1gina de cada edi\u00e7\u00e3o; nesse per\u00edodo, apenas em raras ocasi\u00f5es a sess\u00e3o n\u00e3o foi produzida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante mais algumas edi\u00e7\u00f5es, a sess\u00e3o \u201cCorta Essa\u201d dividiu espa\u00e7o com outras sess\u00f5es, como entretenimento, cartas, culin\u00e1ria, descaracterizando a proposta inicial, at\u00e9 o seu desaparecimento completo a partir da edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 264 de 21 de julho de 1980. Depois disso, a sess\u00e3o \u201cCorta Essa\u201d s\u00f3 reapareceu uma \u00fanica vez, na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 299 de 23 de mar\u00e7o de 1981, como uma provoca\u00e7\u00e3o ao ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Baptista Figueiredo que assumiu n\u00e3o gostar de se ver caricaturado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Assim anunciava a sess\u00e3o \u201cCorta Essa, Figueiredo\u201d:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O recado foi captado primeiro pela se\u00e7\u00e3o \u2018Radar\u2019, da Veja:\u00a0<\/strong>o general-presidente n\u00e3o gosta de se ver caricaturado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>De radar em radar o recado se espalhou, isso \u00e9, passou a ser dado nos ouvidos dos chargistas pelos editores da grande imprensa:<\/strong>\u00a0\u2018V\u00ea se manera!\u2019. N\u00e3o maneramos, n\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o homem n\u00e3o est\u00e1 gostando \u00e9 sinal que estamos acertando, por isso lutaremos at\u00e9 a \u00faltima gota de tinta nanquim pelo direito de caricaturiz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Neste CORTA-ESSA, ESPECIAL lan\u00e7amos nosso grito de guerra:<\/strong>\u00a0pela caricatura ampla, geral e irrestrita!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O discurso ch\u00e1rgico no jornal Movimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal dificuldade para a realiza\u00e7\u00e3o deste trabalho foi a sele\u00e7\u00e3o de charges para as an\u00e1lises. O grande volume e a qualidade da produ\u00e7\u00e3o ch\u00e1rgica nos obrigou a delimitar algumas tem\u00e1ticas; nesse sentido, selecionamos as charges que tematizaram exclusivamente a anistia e a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o governo do general Ernesto Geisel (mar\u00e7o\/1974 a mar\u00e7o\/1979), foi anunciada a chamada abertura pol\u00edtica, lenta, gradual e segura, que se propunha ser um processo de transi\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das diverg\u00eancias e conflitos em torno dessa condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao regime, especialmente por ainda existir um setor militar (linha dura) favor\u00e1vel \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es menos moderadas, o Governo Geisel proporcionou algumas importantes a\u00e7\u00f5es em favor da redemocratiza\u00e7\u00e3o; destacam-se o fim do AI-5 e a restaura\u00e7\u00e3o do habeas-corpus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vit\u00f3ria do MDB nas elei\u00e7\u00f5es de 1978 \u201cacelerou\u201d o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o. Esse fato obrigou o general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, que assumira a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 15 de mar\u00e7o de 1979, a promulgar em 28 de agosto do mesmo ano a Lei da Anistia Pol\u00edtica (Lei n\u00ba 6.683) que concedia o direito aos exilados, condenados por crimes pol\u00edticos, de retornarem ao Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Essa lei, contudo, apresentava limita\u00e7\u00f5es e deforma\u00e7\u00f5es que foram assim demarcadas por Jos\u00e9 Dami\u00e3o de Lima Trindade:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um lado, a lei concedeu uma anistia pol\u00edtica apenas parcial, dela excetuando todos os que tivessem sido condenados por pr\u00e1ticas da luta armada \u2013 ou seja, todos os que exerceram o direito de rebeli\u00e3o contra a viol\u00eancia ileg\u00edtima dos usurpadores do poder; e, por outro lado, a mesma lei estendeu a anistia aos torturadores e homicidas \u2013 isto \u00e9, premiou com impunidade perp\u00e9tua os que praticaram todas as viol\u00eancias a favor da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das limita\u00e7\u00f5es e deforma\u00e7\u00f5es \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que a Lei da Anistia de agosto de 1979 foi uma conquista do movimento contra a ditadura militar. A anistia \u201campla, geral e irrestrita\u201d n\u00e3o chegou a ser conquistada, mas foi avaliada como um avan\u00e7o significativo nas lutas pela redemocratiza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e foi explorada exaustivamente no discurso ch\u00e1rgico do Movimento. Para a an\u00e1lise dessa tem\u00e1tica, selecionamos algumas charges que demonstraram, com \u00eanfase, a natureza parcial da anistia, como forma de den\u00fancia das t\u00edmidas modifica\u00e7\u00f5es que vinham se operando na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira charge a ser analisada foi produzida pelo chargista Jota e publicada na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 187 de 29 de janeiro de 1979.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na charge observamos claramente a cr\u00edtica \u00e0s condi\u00e7\u00f5es proporcionadas por uma anistia parcial (que seria oficializada alguns meses depois). No primeiro quadro o personagem que representava a ditadura militar, caracterizado por um brutamonte bem \u00e0 vontade (sem camisa), assim como se sentiam os torturadores no exerc\u00edcio de sua \u201cfun\u00e7\u00e3o\u201d durante o regime autorit\u00e1rio, caminhava em dire\u00e7\u00e3o a um prisioneiro, simbolizando os prisioneiros e perseguidos pol\u00edticos, e anunciando, com as chaves na m\u00e3o, o estado de anistia. No segundo quadro, concluiu que se tratava de anistia parcial, deixando o prisioneiro ainda preso, mas apenas por uma das m\u00e3os e um dos p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa imagem expressa a convic\u00e7\u00e3o de que havia uma compreens\u00e3o de que a situa\u00e7\u00e3o principal n\u00e3o havia sofrido nenhuma grande mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A condi\u00e7\u00e3o de prisioneiro ou perseguido permanecia praticamente inalterada com a anistia, pois permanecer preso pelas duas m\u00e3os e os dois p\u00e9s ou por uma das m\u00e3os e um dos p\u00e9s n\u00e3o mudava a sua situa\u00e7\u00e3o de prisioneiro. A express\u00e3o de contentamento do portador das chaves representava a satisfa\u00e7\u00e3o (mesmo que parcial) dos defensores da ditadura militar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 referida situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outra charge sobre a tem\u00e1tica da anistia, produzida por Nilson e publicada na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 208 de 16 de junho de 1979, a revela\u00e7\u00e3o de que o ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Baptista Figueiredo procurava fazer de tudo para impedir a aprova\u00e7\u00e3o da anistia ampla, total e irrestrita (reivindica\u00e7\u00e3o geral dos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es populares na luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o) se fez expl\u00edcita. Representado pela imagem de um halterofilista, a situa\u00e7\u00e3o retratada mostrou o presidente simulando um esfor\u00e7o descomunal (pelo suor saltando do rosto) para erguer a \u201cpesada bandeira\u201d (haltere) da anistia; mas, ao mesmo tempo, observamos que ele se ap\u00f3ia no haltere para impedir o seu levantamento. A cr\u00edtica reside na tentativa de denunciar sua postura demag\u00f3gica de se apresentar como defensor da causa da anistia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda sobre a cr\u00edtica \u00e0 forma como acontecia a discuss\u00e3o em torno da anistia, a charge de Fausto publicada na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 209 de 2 de julho de 1979 refor\u00e7ou o insignificante avan\u00e7o que caracterizava a \u201canistia relativa\u201d, representada pela imagem da soltura de um p\u00e1ssaro (supostamente uma pomba branca, s\u00edmbolo da paz e da liberdade) do interior do Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dar liberdade a um p\u00e1ssaro como gesto simb\u00f3lico pode ser significativo, mas como a\u00e7\u00e3o concreta n\u00e3o representa nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim era a compreens\u00e3o de muitos dos perseguidos pol\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 anistia pol\u00edtica da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um detalhe importante nesta charge \u00e9 a express\u00e3o de medo do p\u00e1ssaro; ele saiu voando rapidamente do interior do espa\u00e7o que simboliza o poder pol\u00edtico institucional, numa clara alus\u00e3o ao terror que imperou nas entranhas do regime militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro tema recorrente nas charges da sess\u00e3o \u201cCorta Essa!\u201d foi \u201cdemocracia\u201d. Ora para defend\u00ea-la como bandeira de luta dos movimentos sociais, ora para denunciar as arbitrariedades dos defensores do regime militar, ora ainda para ironizar a concep\u00e7\u00e3o de democracia proferida e\/ou praticada pelos militares, esse tema foi alvo do \u201chumor cortante\u201d dos chargistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na charge de Alcy, publicada na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 194 de 19 de mar\u00e7o de 1979 vemos uma cena em que apareceu o presidente Ernesto Geisel discursando (fazendo refer\u00eancia \u00e0 solenidade de posse do novo presidente da Rep\u00fablica) e se enroscando na leitura da palavra democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao seu lado estavam o ent\u00e3o presidente empossado Jo\u00e3o Baptista Figueiredo e o ditador paraguaio Alfredo Stroessner (1954-1989) refletindo (bal\u00f5es de pensamento) sobre qual seria a correta grafia de democracia, por\u00e9m nenhum dos dois conseguia se lembrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao retratar uma situa\u00e7\u00e3o que sugeria que aqueles representantes de governos autorit\u00e1rios desconheciam ou se esqueceram de como se pronuncia a palavra democracia, a cr\u00edtica residia na insinua\u00e7\u00e3o de que a referida palavra, e portanto as condi\u00e7\u00f5es para o seu exerc\u00edcio, n\u00e3o faziam parte do vocabul\u00e1rio cotidiano de nenhum deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa das charges da sess\u00e3o \u201cCorta Essa!\u201d da edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 221 de 24 de setembro de 1979, de produ\u00e7\u00e3o coletiva de Jota e Alcy, temos a den\u00fancia do conceito (e da pr\u00e1tica) de di\u00e1logo como definidor de democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A charge mostra que, no momento do an\u00fancio de sua concep\u00e7\u00e3o de que \u201ca democracia que defendo \u00e9 a democracia do di\u00e1logo\u201d, o presidente Figueiredo foi obrigado a interromper o seu discurso para chamar a aten\u00e7\u00e3o de alguns subordinados porque ele tamb\u00e9m havia sido atingido pelos efeitos do despejo de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Esse produto era (e continua sendo) usado freq\u00fcentemente por militares para conter mobiliza\u00e7\u00f5es populares, inclusive de natureza pac\u00edfica, e a charge fez alus\u00e3o a uma suposta investida de militares contra manifestantes contr\u00e1rios ao regime, sob ordens do ent\u00e3o presidente, contrariando a id\u00e9ia de que o mesmo defendesse qualquer esp\u00e9cie de di\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o \u201cp\u00e1ra um pouquinho a\u00ed\u201d reafirma que a inten\u00e7\u00e3o era de que houvesse uma interrup\u00e7\u00e3o apenas moment\u00e2nea, que fosse suficiente para concluir seu discurso, mas que depois poderiam continuar com o mesmo tratamento autorit\u00e1rio (e n\u00e3o de \u201cdi\u00e1logo\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um detalhe significativo a ser observado nesta charge \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o em riste do dedo indicador do presidente nos momentos em que consegue iniciar e concluir seu pronunciamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse gesto \u00e9 caracter\u00edstico dos atos de autoritarismo, prepot\u00eancia e de intimida\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao interlocutor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, selecionamos uma outra charge de Nilson, publicada na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 246 de 17 de mar\u00e7o de 1980, quando o Governo Figueiredo acabara de completar um ano de mandato, em que aparece o presidente sendo entrevistado e questionado sobre a possibilidade de se estabelecer a democracia, considerando os desdobramentos daquela conjuntura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A resposta \u00e0 pergunta \u201cvamos acabar caindo numa democracia?\u201d foi uma negativa e veio em forma de trocadilho:\u00a0<\/strong>\u201cN\u00e3o, pois numa democracia, vamos acabar caindo!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa resposta fazia refer\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria convic\u00e7\u00e3o do presidente e de seus ministros de que, por serem defensores ou colaboradores do regime militar, teriam sua situa\u00e7\u00e3o bastante complicada na eventualidade da implanta\u00e7\u00e3o de uma efetiva democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o de alegria estampada no rosto dos ministros representava a absoluta concord\u00e2ncia dos mesmos com a id\u00e9ia de que a democracia n\u00e3o deveria ser estabelecida sob pena de tamb\u00e9m sofrerem as suas conseq\u00fc\u00eancias e, mais do que isso, de que n\u00e3o acreditavam que a democracia pudesse ocorrer em curto prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Luta Pela Redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil &#8211; Reforma<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Revolu\u00e7\u00e3o. A simples men\u00e7\u00e3o desta palavra leva-nos a crer que estamos diante de uma revolta que est\u00e1 prestes a melhorar algo ou simplesmente a no m\u00ednimo, deixar uma marca hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Her\u00f3icos foram aqueles que na \u00e9poca da ditadura militar brasileira exigiram mudan\u00e7as, dignidade ou simplesmente o que hoje, seria a nossa corriqueira liberdade. Esta que foi fruto de muitas vidas, de muito sofrimento, mas por ironia do destino, ou simples ignor\u00e2ncia deste povo muitas vezes desprovido de patriotismo, est\u00e1 sendo deixado de lado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Durante a ditadura militar, os conceitos de vida eram diferentes, a teoria era diferente da pr\u00e1tica, mas principalmente:<\/strong>\u00a0n\u00e3o existia o termo liberdade. Ao longo dos anos que se passaram nesta ditadura, a estagna\u00e7\u00e3o cultural foi tamanha, que apenas atualmente, estamos come\u00e7ando a desenvolver obras dignas de vestir a camisa verde amarela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas como pode um povo t\u00e3o grande e revolucion\u00e1rio como o nosso deixar a democracia entrar neste imenso pa\u00eds tropical?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em plena guerra fria, no governo do ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Goulart, o povo brasileiro, como supracitado, come\u00e7ou a formar cada vez mais organiza\u00e7\u00f5es sociais, tais como movimentos estudantis e organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores. Tamanha foi a for\u00e7a e a imposi\u00e7\u00e3o destes grupos para sociedade como um todo, que as partes mais conservadoras como a Igreja Cat\u00f3lica, os militares e os grandes empres\u00e1rios temeram que o Brasil acabasse vindo a ser um pa\u00eds socialista. Isto gerou tanta repercuss\u00e3o que at\u00e9 mesmo os Estados Unidos tiveram medo que isso viesse a acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Com isso, n\u00e3o demorou que as alas conservadoras e os partidos opositores ao governo se unissem com um \u00fanico ideal<\/strong>: tirar Jo\u00e3o Goulart do poder, e impedir a dissemina\u00e7\u00e3o de pensamentos socialistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As crises pol\u00edticas come\u00e7aram cada vez mais a gerar tens\u00f5es sociais, que teve seu cl\u00edmax em 31 de mar\u00e7o de 1964, onde inclusive as tropas militares tiveram que sair \u00e0s ruas em algumas regi\u00f5es para se evitar uma guerra civil, isso fez com que Jo\u00e3o Goulart se exilasse no Uruguai, deixando vago o cargo presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com imensa l\u00e1bia e mal\u00edcia, os militares e conservadores iludiram a massa brasileira (assemelhando-se muito com o caso do Hitler e os alem\u00e3es), fazendo-os acreditar que iriam lutar ao m\u00e1ximo para que a crise se desintegrasse e a liberdade e os direitos fossem respeitados. Os militares n\u00e3o tardaram a eleger o seu pr\u00f3prio candidato, Castello Branco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou assim o inferno autorit\u00e1rio, surgiram medidas duras e calculistas, como o bipartidarismo (ARENA \u2013 militares e o MDB \u2013 oposi\u00e7\u00e3o moderada e altamente controlada), elei\u00e7\u00f5es indiretas para presidente, ou seja, eleitos pelo Col\u00e9gio Eleitoral, fora os v\u00e1rios cidad\u00e3os que tiveram seus direitos pol\u00edticos e constitucionais cancelados e os sindicatos que receberam interven\u00e7\u00e3o do governo militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A opress\u00e3o fez muitas mentes brilhantes se calarem ou se exilarem, fazendo com que \u00e0s vezes, essas encontrassem meios alternativos para passar sutilmente uma mensagem de subleva\u00e7\u00e3o, tais como<\/strong>: \u201cVem vamos embora que esperar n\u00e3o \u00e9 saber. Quem sabe faz a hora, e n\u00e3o espera acontecer \u2013 Geraldo Vandr\u00e9\u201d, cujo intuito era gerar uma revolta para com o militarismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 censura que se instalava cada vez mais nas entranhas da imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a emin\u00eancia cada vez maior de revoltas sociais, o governo se viu numa situa\u00e7\u00e3o onde a \u00fanica alternativa plaus\u00edvel seria a de abrandar suas atitudes autorit\u00e1rias, uma vez que, mesmo possuindo um grande arsenal de armas e homens, os jovens come\u00e7aram a assaltar bancos e seq\u00fcestrar embaixadores com o intuito de angariar fundos para a inicia\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o armada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas para a surpresa do povo, n\u00e3o foi bem isso o que veio a acontecer\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com os atos institucionais sempre tirando a luz da esperan\u00e7a dos brasileiros, veio ent\u00e3o o mais duro golpe militar, o AI-5, que incredulamente veio \u00e0 tona, aposentando juizes, cassando mandatos, acabando com as garantias do habeas-corpus e aumentando a repress\u00e3o militar e policial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o muito tempo depois se segue os \u201canos de chumbo\u201d, per\u00edodo mais duro e repressivo da ditadura, com repress\u00e3o \u00e0 luta armada e com uma severa pol\u00edtica de censura, \u2013 governo M\u00e9dici.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato \u00e9 que no campo econ\u00f4mico havia crescimento, no entanto se contradizia com o lado pol\u00edtico que era cada vez mais de repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os avan\u00e7os no campo econ\u00f4mico na \u00e9poca do dito Milagre Econ\u00f4mico do pa\u00eds s\u00e3o inigual\u00e1veis comparados com o da nossa hist\u00f3ria, gerando in\u00fameros empregos pelo pa\u00eds com algumas obras fara\u00f4nicas \u2013 Rodovia Transamaz\u00f4nica e Ponte Rio \u2013 Niter\u00f3i \u2013 e d\u00edvidas futuras, devido aos empr\u00e9stimos do exterior. N\u00e3o podemos negar que algumas dessas obras foram de suma import\u00e2ncia para o desenvolvimento do pa\u00eds, por\u00e9m tiveram um custo alt\u00edssimo, onerando o pa\u00eds at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A insatisfa\u00e7\u00e3o popular em fun\u00e7\u00e3o das altas taxas de juros e outros in\u00fameros fatores fizeram que o novo governo de Geisel tomasse medidas diferentes em rela\u00e7\u00e3o ao andamento do pa\u00eds, ocorrendo um processo lento de rumo \u00e0 redemocratiza\u00e7\u00e3o t\u00e3o desejada, com uma abertura pol\u00edtica lenta, gradual e segura e com o t\u00e9rmino do AI-5.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ventos est\u00e3o come\u00e7ando a mudar, Jo\u00e3o Figueiredo \u2013 \u00faltimo ditador \u2013 decreta a Lei Anistia, permitindo a volta dos brasileiros exilados, e aprova a lei que restabelece o pluripartidarismo no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos do governo militar, o Brasil apresentava grandes problemas, principalmente com a infla\u00e7\u00e3o, em que os sal\u00e1rios dos trabalhadores n\u00e3o conseguiam acompanhar a alta dos pre\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo com a Emenda Constitucional de 1980 que decretava elei\u00e7\u00f5es diretas para governadores percebia-se com as v\u00e1rias fraudes que tudo n\u00e3o passava de pura propaganda e que o povo ainda n\u00e3o havia conseguido sua liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por volta desta \u00e9poca, Florian\u00f3polis atraiu todas as aten\u00e7\u00f5es do Brasil. Novembrada. O ent\u00e3o presidente Figueiredo foi recepcionado com o \u201ccalor\u201d do povo catarinense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos universit\u00e1rios por estarem revoltados com a aus\u00eancia do presidente no estado desde a sua elei\u00e7\u00e3o, uniram-se com o intuito de organizar uma revolta. Professores, alunos, todos unidos por esse ideal, come\u00e7aram a distribuir panfletos, num total de 2000, e conseguiram conquistar o apoio de mais ou menos 300 pessoas, as quais foram para o centro da cidade onde a homenagem ao presidente se daria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda a patota elitista se encontrava bajulando o presidente, e, com o sol iluminando a Pra\u00e7a XV de Novembro, para todos os presentes se deu uma cena digna de marcar a hist\u00f3ria. E marcou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou com faixas de protestos, sabotaram a caixa de som e come\u00e7aram os gritos de revolta os quais a pol\u00edcia tentou abafar com a Banda da Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi ent\u00e3o que por volta de 1984 come\u00e7ou a se organizar a campanha pelas \u201cDiretas J\u00e1\u201d, que levou a popula\u00e7\u00e3o \u00e0s ruas para protestar contra a repress\u00e3o que estava sendo sujeita h\u00e1 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brigaram pela aprova\u00e7\u00e3o da Emenda Dante Oliveira que garantia a elei\u00e7\u00e3o direta para presidente naquele ano, o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somente em 1985 com a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves tivemos um \u201censaio\u201d de redemocratiza\u00e7\u00e3o, uma vez que o mesmo recebeu apoio dos militares e dos civis conservadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo \u00e9 o caso de Sarney que desde 1964 participava de partidos de fachada da Ditadura como o PDS e a ARENA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo ap\u00f3s a morte de Tancredo, Sarney assumiu o poder e somente em 1986 com a elei\u00e7\u00e3o dos primeiros deputados constituintes e em 1988 com a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 que tivemos os primeiros verdadeiros sinais de avan\u00e7os na redemocratiza\u00e7\u00e3o. As seguidas altas da infla\u00e7\u00e3o, o crescimento do desemprego e a seq\u00fc\u00eancia de planos econ\u00f4micos mostram a persist\u00eancia da crise econ\u00f4mica brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1989 temos finalmente as primeiras elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente com a vit\u00f3ria de Fernando Collor, que teve sua campanha feita atrav\u00e9s dos \u201cesportes\u201d, que expressava a juventude, que por sua vez era presen\u00e7a massiva das revoltas populares. Por\u00e9m, acabou se descobrindo o envolvimento do presidente com casos de corrup\u00e7\u00e3o, o que levou ao seu impeachment.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com isso, a infla\u00e7\u00e3o s\u00f3 tendeu a aumentar, onde para tentar control\u00e1-la, v\u00e1rios planos foram feitos com esse objetivo, como o Plano Cruzado, o Plano Real, entre outros. Mas mesmo assim, a infla\u00e7\u00e3o continuou assombrando a nossa economia, agravando ainda mais a crise econ\u00f4mica brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o desenrolar dos anos, a economia brasileira come\u00e7ou a dar esperan\u00e7as de que poderia vir a crescer. A infla\u00e7\u00e3o foi contida, super\u00e1vits come\u00e7aram a surgir, e enfim, nos dias atuais, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica esta, sem a menor sombra de d\u00favidas, come\u00e7ando a florescer, conseguindo at\u00e9 come\u00e7ar a pagar uma parte do montante da nossa d\u00edvida externa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, ainda h\u00e1 muito por fazer e conquistar. Como falar de democracia, direitos e liberdade quando os semi-alfabetizados do pa\u00eds representam boa parte da popula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qual a democracia poss\u00edvel para o idoso que, depois de aposentado sobrevive com um sal\u00e1rio m\u00ednimo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As car\u00eancias do Brasil n\u00e3o s\u00e3o de fundo econ\u00f4mico, mas de distribui\u00e7\u00e3o de renda, pois somente com consci\u00eancia e estrutura\u00e7\u00e3o, poder\u00edamos pensar numa melhora da democracia, e n\u00e3o \u00e9 essa a nossa realidade atual, pois com toda essa desigualdade social, a democracia n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de uma utopia brasileira, mas quem sabe, com o fim progressivo da corrup\u00e7\u00e3o, talvez possamos usufruir n\u00e3o de uma democracia plena, mas quem sabe, pelo menos, de um lugar mais digno de se viver [\u2026].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.redealcar.jornalismo.ufsc.br\/www.culturabrasil.pro.br\/Gustavo Soldateli\/Leandro Liberal\/Leonardo Martins\/Luiz Ant\u00f4nio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luta Pela Redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil, Hist\u00f3ria, Pol\u00edtica, PT, Partidos, Reforma, Diretas J\u00e1, O que foi, Luta Pela Redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-20444","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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