{"id":20196,"date":"2015-12-15T00:00:00","date_gmt":"2015-12-15T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/usina-belo-monte-3\/"},"modified":"2026-09-01T15:29:19","modified_gmt":"2026-09-01T15:29:19","slug":"usina-belo-monte-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/meio-ambiente-2\/usina-belo-monte-3\/","title":{"rendered":"Usina Belo Monte"},"content":{"rendered":"\n<strong>Usina Belo Monte &#8211; Constru\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\nA constru\u00e7\u00e3o da usina hidrel\u00e9trica de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0na bacia do rio Xingu (PA), um dos principais afluentes do rio Amazonas, \u00e9 considerada uma das principais obras do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC) do governo federal. Aclamada como a terceira maior hidrel\u00e9trica do mundo,\u00a0<strong>Belo Monte<\/strong>\u00a0prop\u00f5e o barramento do rio Xingu com a constru\u00e7\u00e3o de dois canais que desviar\u00e3o o leito original do rio, com escava\u00e7\u00f5es da ordem de grandeza compar\u00e1veis ao canal do Panam\u00e1.\n\nA represa de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0deve gerar, em m\u00e9dia, 4,5 mil megawatts (MW) de energia e dever\u00e1 ter uma capacidade instalada de 11 mil MW nas \u00e9pocas de cheia do rio Xingu. As estimativas de custo variam de R$ 19 a 30 bilh\u00f5es e a constru\u00e7\u00e3o da usina prev\u00ea o alagamento de uma \u00e1rea de 516 km\u00b2, o equivalente a um ter\u00e7o da cidade de S\u00e3o Paulo.\n\nA concep\u00e7\u00e3o do projeto da hidrel\u00e9trica tem sido alvo de um longo e pol\u00eamico processo cuja discuss\u00e3o no pa\u00eds perdura h\u00e1 mais de 20 anos.\n\nO governo defende a import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o da usina para a seguran\u00e7a energ\u00e9tica e o desenvolvimento do Brasil, argumentando que a hidrel\u00e9trica vai gerar a energia necess\u00e1ria para dar continuidade ao processo de industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e manter um elevado ritmo de crescimento econ\u00f4mico.\n\nSegundo o governo,<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0\u00e9 a usina melhor planejada dentre todas do pa\u00eds e ser\u00e1 uma hidrel\u00e9trica modelo na avalia\u00e7\u00e3o e minimiza\u00e7\u00e3o dos impactos socioambientais.\n\nPor outro lado, entretanto, o projeto tem sido alvo de cr\u00edticas severas de diversos setores sociais, que alegam sua inviabilidade por quest\u00f5es que v\u00e3o do econ\u00f4mico ao cultural.\n\nUma das principais acusa\u00e7\u00f5es diz respeito \u00e0 inefici\u00eancia energ\u00e9tica da usina, uma vez que a energia firme (m\u00e9dia anual da energia a ser produzida) giraria em torno de 40% de sua pot\u00eancia, o que faria de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0uma das usinas de menor efici\u00eancia energ\u00e9tica do pa\u00eds. Outro ponto cr\u00edtico \u00e9 o alto custo e a fonte para o custeio da obra, para a qual se estima que de 80% a 90% dos recursos ser\u00e3o advindos dos cofres p\u00fablicos.\n\nEm 1\u00ba de fevereiro de 2010, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente concedeu a licen\u00e7a pr\u00e9via com 40 condicionantes, antes que quest\u00f5es centrais de avalia\u00e7\u00e3o do impacto da obra fossem esclarecidas.\n\nO leil\u00e3o de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0foi realizado em 20 de abril de 2010, apesar dos esfor\u00e7os da sociedade civil e do Minist\u00e9rio P\u00fablico para impedi-lo.\n\nDevido \u00e0s irregularidades na condu\u00e7\u00e3o do processo de licenciamento da obra, uma s\u00e9rie de A\u00e7\u00f5es Civis P\u00fablicas vem tramitando na Justi\u00e7a, questionando a insufici\u00eancia de consultas p\u00fablicas, a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de oitivas ind\u00edgenas como determina a legisla\u00e7\u00e3o brasileira e a ONU, a necessidade de autoriza\u00e7\u00e3o da obra, por se tratar de terras ind\u00edgenas, pelo Congresso, entre outros.\n\nAs condicionantes do Ibama e da Funai deveriam ter sido cumpridas pelo poder p\u00fablico e pelos empreendedores antes e depois do leil\u00e3o. Entretanto, at\u00e9 o in\u00edcio de 2011, a maioria das condicionantes da licen\u00e7a pr\u00e9via n\u00e3o foi realizada, o que legalmente impede a concess\u00e3o das licen\u00e7as, necess\u00e1rias para o in\u00edcio das obras.\n\nV\u00e1rios impactos biol\u00f3gicos e sociais s\u00e3o previstos com a redu\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis da \u00e1gua do rio Xingu no trecho abaixo da barragem principal, como problemas para a navega\u00e7\u00e3o e os efeitos sobre a floresta aluvial em toda a \u00e1rea afetada pelo rebaixamento do len\u00e7ol fre\u00e1tico, extin\u00e7\u00e3o local de esp\u00e9cies, escassez da pesca, aumento de press\u00e3o fundi\u00e1ria e de desmatamento, migra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-\u00edndios, ocupa\u00e7\u00e3o desordenada do territ\u00f3rio, prolifera\u00e7\u00e3o de epidemias e diminui\u00e7\u00e3o da qualidade da \u00e1gua.\n\nOs empreendedores estimam que a usina alagar\u00e1 cerca de 50% da \u00e1rea urbana de Altamira e mais de 1.000 im\u00f3veis rurais dos munic\u00edpios de Altamira, Vit\u00f3ria do Xingu e Brasil Novo, que perfazem mais de 100 mil ha, em sua maioria sob jurisdi\u00e7\u00e3o do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra). Como conseq\u00fc\u00eancia, entre 20 e 40 mil pessoas ser\u00e3o desalojados pela obra.\n\nOnze munic\u00edpios foram definidos como \u00e1rea de influ\u00eancia de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>, totalizando mais de 25 milh\u00f5es ha. Cerca de 70% desta \u00e1rea consiste em \u00e1reas protegidas, incluindo unidades de conserva\u00e7\u00e3o, terras ind\u00edgenas, terras quilombolas e \u00e1reas militares. Al\u00e9m dos cerca de 320 mil habitantes dos munic\u00edpios afetados, 350 fam\u00edlias de ribeirinhos que vivem em Reservas Extrativistas e 21 comunidades quilombolas da regi\u00e3o seriam afetados pela usina, al\u00e9m de pescadores, pequenos agricultores e garimpeiros.\n\nOs povos ind\u00edgenas da bacia do Xingu somam 28 etnias que totalizam cerca de 20 mil \u00edndios distribu\u00eddos em 19,8 milh\u00f5es ha (cerca de 40% da bacia), que ser\u00e3o direta ou indiretamente afetados pela usina.\n\n<strong>Na regi\u00e3o de influ\u00eancia da usina, duas TIs s\u00e3o consideradas diretamente impactadas:\u00a0<\/strong>a TI Paqui\u00e7amba, dos \u00edndios Juruna, e a \u00e1rea dos Arara da Volta Grande, que se situam no trecho de 100km do rio que teria sua vaz\u00e3o drasticamente reduzida.\n\nPor considerar que o empreendimento n\u00e3o avaliou adequadamente os reais impactos ambientais, sociais, econ\u00f4micos e culturais da usina sobre a biodiversidade e as popula\u00e7\u00f5es locais, a CI-Brasil \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 obra de Belo Monte. A organiza\u00e7\u00e3o, que desde 1992 trabalha com o povo Kayap\u00f3 no M\u00e9dio Xingu, tem em seu site o posicionamento institucional acerca do empreendimento. Acreditamos que o governo brasileiro precisa aprimorar o planejamento de sua matriz energ\u00e9tica, tornando-a mais diversificada e distribuindo melhor, no territ\u00f3rio nacional, seus impactos e oportunidades socioecon\u00f4micas.\n\n<strong>Para arbitrar a respeito desse pol\u00eamico empreendimento, convidamos um dos cientistas de maior prest\u00edgio mundial baseado no pa\u00eds:<\/strong>\u00a0Philip Fearnside.\n\nEle \u00e9 um dos cinco pesquisadores brasileiros da \u00e1rea ambiental mais citados internacionalmente, com mais de 400 trabalhos publicados. Philip \u00e9 pesquisador-titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa). Desde 1992, vem promovendo a valoriza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os ambientais da floresta amaz\u00f4nica como forma de desenvolvimento sustent\u00e1vel para as popula\u00e7\u00f5es rurais na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Foi o vencedor, em 2004, do Pr\u00eamio da Funda\u00e7\u00e3o Conrado Wessel na \u00e1rea de Ci\u00eancia Aplicada ao Meio Ambiente. Em 2006, foi agraciado com o 1\u00ba lugar na \u00e1rea de Ci\u00eancia e Tecnologia do Pr\u00eamio Chico Mendes, organizado pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, tendo sido tamb\u00e9m reconhecido pelo Instituto de Informa\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas (Thomson-ISI) como o segundo mais citado cientista no mundo na \u00e1rea de aquecimento global.\n\nEle integrou o painel de especialistas que analisou o EIA-RIMA de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>,\n\nPara entrevistar Fearnside, convidamos sete jornalistas de diversas regi\u00f5es do Brasil, que atuam como rep\u00f3rteres e comunicadores de ONGs ambientais e universidades p\u00fablicas.\n\n<strong>1. A regi\u00e3o amaz\u00f4nica concentra o maior potencial de explora\u00e7\u00e3o de energia atrav\u00e9s da hidroeletricidade. O discurso oficial do governo ? com o aval de setores importantes da academia sustenta a tese de que se investimentos na dire\u00e7\u00e3o de projetos como o de Belo Monte n\u00e3o forem realizados, a matriz energ\u00e9tica brasileira ser\u00e1 inevitavelmente mais suja e cara. O senhor concorda com isso?<\/strong>\n\nN\u00e3o. Esse discurso tem a presun\u00e7\u00e3o, raramente explicitada, de que a energia no pa\u00eds continuar\u00e1 a ser cada vez mais usada para ind\u00fastrias eletro-intensivas de exporta\u00e7\u00e3o, tais como as ind\u00fastrias de beneficiamento de alum\u00ednio prim\u00e1rio.\n\n<strong>Essa op\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais desfavor\u00e1vel para o Brasil, pois as hidrel\u00e9tricas criam grandes impactos e o benef\u00edcio em termos de cria\u00e7\u00e3o de empregos pelas usinas de alum\u00ednio \u00e9 insignificante:<\/strong>\u00a0apenas 2,4 empregos por GW de eletricidade consumida.\n\nH\u00e1 planos para duplicar a capacidade de praticamente todas as usinas de alum\u00ednio no Brasil visando, evidentemente, \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o pa\u00eds produz hoje muito mais alum\u00ednio do que \u00e9 consumido no mercado dom\u00e9stico. Seguindo essa l\u00f3gica, n\u00e3o haver\u00e1 limites de quantas hidrel\u00e9tricas o Brasil precisar\u00e1 ter se for para suprir a demanda mundial de alum\u00ednio. A discuss\u00e3o sobre o que deve ser feito com a energia ainda nem come\u00e7ou no Brasil.\n\nPor exemplo, o atual Plano Decenal de Expans\u00e3o Energ\u00e9tica, lan\u00e7ado em fevereiro de 2009, sequer menciona a quest\u00e3o de decis\u00f5es sobre o uso de energia. Simplesmente faz uma proje\u00e7\u00e3o da demanda presumindo que esta deve ser atendida em sua integridade. Para mim, a primeira decis\u00e3o deve ser a de n\u00e3o exportar mais alum\u00ednio, pois o dano que causa ao pa\u00eds \u00e9 maior do que o benef\u00edcio que traz. Em seguida, deve-se proibir ou sobretaxar pesadamente os usos indesej\u00e1veis de energia e incentivar as redu\u00e7\u00f5es de uso de eletricidade atrav\u00e9s de melhorias na efici\u00eancia energ\u00e9tica. O exemplo mais \u00f3bvio \u00e9 o chuveiro el\u00e9trico que, segundo o atual Plano Nacional de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, \u00e9 respons\u00e1vel por 5% do consumo nacional de eletricidade, ou seja, bem mais do que<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0ou qualquer outra hidrel\u00e9trica planejada produziria.\n\nDepois viriam as outras fontes (solar, e\u00f3lica etc.) e, finalmente, as hidrel\u00e9tricas sempre pensando em priorizar as a\u00e7\u00f5es de menor impacto e maior benef\u00edcio.\n\n<strong>2. A Usina Hidrel\u00e9trica de Balbina, constru\u00edda no final da d\u00e9cada de 1980 em Presidente Figueiredo (AM), ficou marcada como um projeto mal realizado, caro e ineficiente. \u00c9 poss\u00edvel comparar, em alguma medida, os projetos de Balbina e Belo Monte?<\/strong>\n\nApesar de os dois projetos serem obras de grandes impactos existem diferen\u00e7as entre Balbina e<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>.\n\n<strong>Belo Monte<\/strong>\u00a0tem a capacidade de gerar muito mais energia do que Balbina. O lago de Balbina \u00e9 imenso e esse tamb\u00e9m pode ser o caso de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0se as barragens planejadas no rio a montante (acima) forem consideradas. E essas barragens s\u00e3o o X da quest\u00e3o em<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>, e aqui a hist\u00f3ria de Balbina tem uma triste li\u00e7\u00e3o para nos ensinar. Em setembro de 1987, ou seja, menos de um m\u00eas antes do fechamento de Balbina, em 1\u00ba de outubro daquele ano, a Eletronorte distribuiu um documento de Esclarecimento P\u00fablico em que prometeu encher o lago apenas at\u00e9 a cota de 46m acima do n\u00edvel do mar. O n\u00edvel seria mantido nessa cota at\u00e9 que um programa de monitoramento da qualidade da \u00e1gua comprovasse que n\u00e3o havia nenhum problema, processo que deveria levar alguns anos.\n\nS\u00f3 ap\u00f3s a conclus\u00e3o desse estudo seria tomada a decis\u00e3o sobre o preenchimento do reservat\u00f3rio at\u00e9 a cota plena de 50m acima do n\u00edvel do mar. No entanto, a realidade foi bem diferente.\n\nQuando o n\u00edvel da \u00e1gua chegou \u00e0 cota de 46m, n\u00e3o houve nenhuma interrup\u00e7\u00e3o para realizar o monitoramento da qualidade da \u00e1gua.\n\nO preenchimento chegou at\u00e9 um n\u00edvel um pouco acima dos 50m, criando um lago o dobro do tamanho inicialmente previsto.\n\nO paralelo com<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0\u00e9 extremamente preocupante. No caso de Belo Monte as autoridades el\u00e9tricas hoje fazem pronunciamentos afirmando que apenas uma barragem ser\u00e1 constru\u00edda no rio Xingu, e mais nenhuma das outras cinco originalmente planejadas rio acima. No entanto, essa usina produziria uma quantidade bem maior de energia com pelo menos uma das barragens adicionais rio acima, presumivelmente a Babaquara (ou Altamira pelo novo nome oficial). S\u00f3 essa barragem teria 6.140 km\u00b2 pelo plano original, ou seja, mais do que o dobro da \u00e1rea de Balbina, e grande parte seria em \u00e1rea ind\u00edgena.\n\nAssim como em Balbina, onde a op\u00e7\u00e3o de 46m foi esquecida em prol dos 50m, a tenta\u00e7\u00e3o no sentido de simplesmente esquecer as promessas divulgadas pode ser grande na hora de iniciar a constru\u00e7\u00e3o da obra.\n\n<strong>3. A proposta de redu\u00e7\u00e3o do desmatamento apresentada pelo Brasil na COP-15 (em Copenhague) foi considerada um avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aus\u00eancia de qualquer compromisso formal do governo nesse campo. Que avalia\u00e7\u00e3o o senhor faz deste plano?<\/strong>\n\nA proposta do Itamaraty em Copenhague foi um avan\u00e7o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 (triste) hist\u00f3ria das posi\u00e7\u00f5es passadas. No entanto, o Brasil precisa assumir uma meta de verdade para reduzir as suas emiss\u00f5es.\n\nO que foi lan\u00e7ado na COP-15 foi apenas um objetivo volunt\u00e1rio, e n\u00e3o uma meta.\n\nUma meta implica em consequ\u00eancias caso ela n\u00e3o seja cumprida; pode ser, por exemplo, comprar carbono at\u00e9 atingir a meta assumida. Por outro lado, um mero objetivo n\u00e3o implica em nenhuma conseq\u00fc\u00eancia se n\u00e3o for alcan\u00e7ado. Al\u00e9m disso, o objetivo volunt\u00e1rio pode ser abandonado ou mudado por qualquer um dos v\u00e1rios presidentes que o Brasil ter\u00e1 at\u00e9 2020, o ano a que o objetivo se refere.\n\n<strong>Uma meta sob a Conven\u00e7\u00e3o de Clima \u00e9 diferente:<\/strong>\u00a0continua valendo independentemente de quem esteja governando o pa\u00eds.\n\nO plano lan\u00e7ado em Copenhague \u00e9 menos do que aparece, j\u00e1 que usava 19,5 mil km\u00b2\/ano como a taxa de refer\u00eancia de desmatamento, e quase toda a redu\u00e7\u00e3o prometida j\u00e1 havia acontecido.\n\nFaltou explicar melhor como o desmatamento seria mantido nos baixos n\u00edveis prometidos. H\u00e1 uma incoer\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos planos do governo federal de abrir estradas, aumentando o acesso dos processos de desmatamento aos blocos de floresta ainda intactos na Amaz\u00f4nia, como \u00e9 o caso da rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho), que continua a constar no Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC).\n\n<strong>4. Quais impactos ambientais podem ser esperados com a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica no pior e no melhor cen\u00e1rio?<\/strong>\n\nN\u00e3o nos devemos enganar com um suposto melhor cen\u00e1rio. A l\u00f3gica leva \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de barragens rio acima, come\u00e7ando com a Babaquara\/ Altamira, com impactos enormes.\n\n<strong>Estes incluem:<\/strong>\u00a0a inunda\u00e7\u00e3o de vastas \u00e1reas de floresta tropical; a perda, pela popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, de \u00e1reas de terra e de rio (lembrando que o uso do rio \u00e9 cr\u00edtico para essa popula\u00e7\u00e3o, pois o peixe \u00e9 parte essencial da dieta); e a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa.\n\n<strong>5. A hidrel\u00e9trica \u00e9 fundamental para o acr\u00e9scimo de energia esperado ou h\u00e1 alternativas menos custosas?<\/strong>\n\nNo cen\u00e1rio ideal, dever\u00edamos seguir uma sequ\u00eancia l\u00f3gica de passos.\n\nPrimeiro, parar de exportar alum\u00ednio, ou seja, produzir apenas o que ser\u00e1 consumido no Brasil. Segundo, investir em efici\u00eancia energ\u00e9tica, come\u00e7ando com altera\u00e7\u00f5es importantes que se referem a usos mais corriqueiros como o fim dos chuveiros el\u00e9tricos que, por si s\u00f3, consomem bem mais do que<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0ir\u00e1 produzir. Terceiro, h\u00e1 a necessidade de investimentos pesados em energia solar, e\u00f3lica e outros.\n\nOs investimentos em efici\u00eancia e nas fontes alternativas t\u00eam que ter a mesma escala e urg\u00eancia pol\u00edtica que os investimentos em hidrel\u00e9tricas hoje.\n\n<strong>6. As audi\u00eancias p\u00fablicas est\u00e3o sendo satisfat\u00f3rias?<\/strong>\n\nAs audi\u00eancias foram uma farsa, com intermin\u00e1veis discursos pelos proponentes e sem nenhuma oportunidade formal para contesta\u00e7\u00f5es pelo outro lado, com a exce\u00e7\u00e3o de breves coloca\u00e7\u00f5es da plateia, ap\u00f3s horas de discurso oficial. Os \u00edndios abandonaram o evento para n\u00e3o passar a impress\u00e3o de que estavam sendo realmente consultados. Havia mais pol\u00edcia do que participantes.\n\n<strong>7. O que o Brasil perde com Belo Monte?<\/strong>\n\nPassar por cima do processo de licenciamento tem um custo de credibilidade enorme. Significa que a expectativa para as futuras obras ser\u00e1 tamb\u00e9m de aprova\u00e7\u00e3o garantida, independente dos m\u00e9ritos, principalmente quando se tratar de uma prioridade pol\u00edtica. Tanto no caso do Rio Madeira como no de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0o corpo t\u00e9cnico do Ibama se posicionou contra a aprova\u00e7\u00e3o e, no \u00faltimo minuto, o chefe do setor de licenciamento foi substitu\u00eddo e as licen\u00e7as aprovadas.\n\nO impacto verdadeiro em termos ambientais e humanos \u00e9 muitas vezes maior do que os impactos oficialmente admitidos no EIA-RIMA porque esse documento omite que haveria barragens rio acima.\n\nS\u00f3 Babaquara\/Altamira ocuparia, pelo plano original, 6.140 km\u00b2 (o dobro de Balbina), sendo grande parte em terra ind\u00edgena.\n\n<strong>8. O que o Brasil ganha com Belo Monte?<\/strong>\n\n\u00c9 dif\u00edcil dizer o que o Brasil ganha com<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>, pois mesmo em termos puramente financeiros o custo \u00e9 grande. A constru\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo paga pelos contribuintes brasileiros, n\u00e3o pelas empresas internacionais de alum\u00ednio que v\u00e3o ser beneficiadas. Essencialmente, o Brasil est\u00e1 dando subs\u00eddios aos benefici\u00e1rios de outros pa\u00edses. O subs\u00eddio maior n\u00e3o \u00e9 o financeiro, mas sim o impacto ambiental e social que o Brasil est\u00e1 recebendo.\n\nExporta\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio \u00e9 essencialmente a exporta\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, em forma de lingotes. Outros pa\u00edses n\u00e3o querem ter os impactos de gerar esta energia domesticamente e, portanto, exportam o impacto ambiental para o Brasil. E o pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 cobrando por esse impacto. Ao contr\u00e1rio, vem at\u00e9 facilitando a exporta\u00e7\u00e3o sem sequer incorporar devidamente em seu custo todos os gastos puramente financeiros com o fornecimento de energia.\n\n<strong>9. O Brasil precisa produzir energia para se desenvolver, isso \u00e9 fato. H\u00e1 ainda espa\u00e7o para produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel de energia hidrel\u00e9trica na Amaz\u00f4nia? O problema com Belo Monte \u00e9 que o projeto \u00e9 ruim, ou que o projeto n\u00e3o deveria existir para come\u00e7o de conversa? Em outras palavras: \u00e9 poss\u00edvel fazer uma hidrel\u00e9trica de grande porte na Amaz\u00f4nia, ou dever\u00edamos simplesmente desistir de fazer hidrel\u00e9tricas de grande porte na Amaz\u00f4nia?<\/strong>\n\nEu n\u00e3o concordo com a premissa de que o Brasil precisa produzir mais energia para se desenvolver. Os problemas com<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0s\u00e3o m\u00faltiplos.\n\nPrimeiro, \u00e9 o fato de que grande parte da energia seria usada para alum\u00ednio. Isso n\u00e3o resolve a falta de energia para outros usos de eletricidade e ainda estimula a expans\u00e3o das usinas de alumina (em Juruti e Barcarena) e de alum\u00ednio prim\u00e1rio (em Barcarena e em S\u00e3o Lu\u00eds). Al\u00e9m disso, justifica a constru\u00e7\u00e3o de termoel\u00e9tricas para fazer essas usinas funcionarem no per\u00edodo do ano em que<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0estar\u00e1 praticamente sem \u00e1gua.\n\n<strong>Segundo, h\u00e1 um grande impacto ambiental e social (ignorado no EIARIMA) pela imensa \u00e1rea a ser inundada pelas barragens que foram propostas a montante (rio acima) para suprir \u00e1gua \u00e0s turbinas de Belo Monte, que tem uma grande capacidade instalada<\/strong>: 11 mil MW. Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 um reservat\u00f3rio com armazenamento vivo de \u00e1gua para manter funcionando as turbinas da casa principal de for\u00e7a na \u00e9poca de baixa vaz\u00e3o.\n\nO problema \u00e9 a chamada mentira institucionalizada, ou seja, as afirma\u00e7\u00f5es oficiais anunciadas desde 2008 de que seria constru\u00edda apenas uma barragem (Belo Monte) no rio Xingu.\n\nQualquer outra barragem a montante resultaria em um impacto real de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0muitas vezes maior do que \u00e9 oficialmente admitido.\n\nBelo Monte, sozinha, \u00e9 completamente invi\u00e1vel economicamente, como foi mostrado pela an\u00e1lise detalhada feita pela ONG Conserva\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica.\n\nO fato de algumas empresas estarem dispostas a investir na obra indica que elas est\u00e3o contando com outro cen\u00e1rio, considerando mais barragens rio acima.\n\nMesmo sem considerar as barragens a montante, o projeto de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0em si tem impactos bem maiores do que os admitidos. O trecho seco da Grande Volta do rio Xingu, nos 100km abaixo da barragem principal, passa por duas \u00e1reas ind\u00edgenas. O discurso de que povos ind\u00edgenas n\u00e3o ser\u00e3o afetados se baseia na fic\u00e7\u00e3o de que apenas a inunda\u00e7\u00e3o pelo reservat\u00f3rio constitui um impacto direto.\n\nN\u00e3o podemos fazer uma generaliza\u00e7\u00e3o sobre todas as barragens, mas o fato de que os impactos tendem a ser muito maiores e os benef\u00edcios muito menores do que geralmente se admite pressup\u00f5e que, na compara\u00e7\u00e3o entre impacto e benef\u00edcio, a melhor decis\u00e3o seria n\u00e3o construir a maioria das barragens propostas na Amaz\u00f4nia.\n\n<strong>10. No caso espec\u00edfico de Belo Monte: seria poss\u00edvel fazer uma hidrel\u00e9trica naquele mesmo local, por\u00e9m com um impacto socioambiental reduzido, dentro do aceit\u00e1vel Ou n\u00e3o deveria haver uma hidrel\u00e9trica naquele ponto em hip\u00f3tese alguma? Por qu\u00ea?<\/strong>\n\nN\u00e3o devemos ser ing\u00eanuos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s barragens a montante de Belo Monte. A discuss\u00e3o sobre a possibilidade de se fazer ou n\u00e3o uma barragem naquele local precisa enfrentar a quest\u00e3o das barragens rio acima.\n\nO Brasil atualmente n\u00e3o tem um mecanismo jur\u00eddico confi\u00e1vel para que seja feito um compromisso irrevog\u00e1vel no quesito de n\u00e3o fazer as barragens a montante.\n\nO que existe \u00e9 uma decis\u00e3o do Conselho Nacional de Pol\u00edtica Energ\u00e9tica (CNPE) dizendo que apenas<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0seria feito.\n\nNo entanto, este conselho est\u00e1 composto principalmente de ministros, que mudam a cada novo mandato presidencial. O CNPE pode facilmente mudar de opini\u00e3o no futuro, revogando a sua decis\u00e3o de 2008 e permitindo a constru\u00e7\u00e3o de mais barragens. De fato, h\u00e1 v\u00e1rios ind\u00edcios de que este seja o cen\u00e1rio contemplado tanto pela ind\u00fastria barrageira como por inst\u00e2ncias importantes nos \u00f3rg\u00e3os do governo.\n\nUm ind\u00edcio forte surgiu quando a Reserva Extrativista do M\u00e9dio Xingu, proposta pela ent\u00e3o Ministra do Meio Ambiente Marina Silva, foi vetada pela ent\u00e3o Ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, porque poderia atrapalhar a constru\u00e7\u00e3o de barragens adicionais \u00e0 usina de Belo Monte (Folha de S\u00e3o Paulo, 10 de outubro de 2010, p. A-15).\n\n<strong>11. Qual ser\u00e1 o impacto ambiental de Belo Monte, caso ela seja mesmo constru\u00edda de acordo com o projeto atual?<\/strong>\n\nH\u00e1 bastante evid\u00eancia de que o projeto atual a que os oponentes da barragem chamam de mentira institucionalizada, seja mesmo uma mentira. Isto \u00e9, o cen\u00e1rio oficial \u00e9 apenas uma barragem no rio Xingu.\n\nEsse cen\u00e1rio n\u00e3o tem credibilidade alguma entre pessoas que estudam o caso e que n\u00e3o sejam financeiramente ligadas \u00e0 ind\u00fastria hidrel\u00e9trica.\n\n<strong>12. Por que o senhor acha que o governo insistiu nesse projeto, mesmo com todos os seus riscos e questionamentos?<\/strong>\n\nA raz\u00e3o mais simples \u00e9 o valor pol\u00edtico. Ganham-se mais votos promovendo do que se opondo \u00e0 obra. H\u00e1 tamb\u00e9m uma influ\u00eancia da ind\u00fastria barrageira, que inclui as empresas de constru\u00e7\u00e3o e os grupos profissionais de engenheiros, consultores, fornecedores de equipamentos e servi\u00e7os, entre outros. Qualquer obra cujo projeto principal custa R$19 bilh\u00f5es (ou talvez at\u00e9 R$30 bilh\u00f5es), al\u00e9m de v\u00e1rios bilh\u00f5es a mais para o sistema de transmiss\u00e3o, ter\u00e1 um lobby fort\u00edssimo a favor, mesmo se n\u00e3o fosse produzir um \u00fanico Watt de energia.\n\nA hist\u00f3ria de Balbina fornece um exemplo concreto.\n\n<strong>13. H\u00e1 pouco mais de um s\u00e9culo, nos Estados Unidos, havia tr\u00eas ou quatro entidades p\u00fablicas encarregadas da supervis\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o dos recursos florestais. No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, com a participa\u00e7\u00e3o de Gifford Pinchot, um dos cientistas pioneiros em conserva\u00e7\u00e3o do ambiente natural no continente americano, o governo e o congresso dos EUA unificaram as diversas inst\u00e2ncias decis\u00f3rias, criando o Servi\u00e7o Florestal, que at\u00e9 hoje vigora. Trazendo a quest\u00e3o para o Brasil do in\u00edcio do s\u00e9culo 21, e fazendo uma met\u00e1fora com o futebol, o senhor n\u00e3o acha que as quest\u00f5es ambientais, entre n\u00f3s, est\u00e3o como um campo onde h\u00e1 times em excesso disputando a mesma bola, cada qual, obviamente, com seus interesses e estrat\u00e9gias? N\u00e3o estaria mais do que na hora, ou j\u00e1 teria passado da hora, de o Estado Brasileiro chamar a sociedade organizada e dizer: Vamos botar um basta nesse jogo com regras em excesso e conflitantes, o que equivale a n\u00e3o ter regras, e vamos partir para uma defini\u00e7\u00e3o clara do que o Brasil quer com os seus recursos e com os seus projetos de desenvolvimento, unificando o processo de decis\u00f5es para o campo ambiental, numa defini\u00e7\u00e3o do futuro que queremos construir?<\/strong>\n\n\u00c9 um pouco estranha a utiliza\u00e7\u00e3o do exemplo do Servi\u00e7o Florestal dos EUA para ilustrar a pergunta. O Servi\u00e7o Florestal americano fica dentro do Departamento da Agricultura (equivalente a um minist\u00e9rio brasileiro), e h\u00e1 uma longa hist\u00f3ria de tentativas de transferi-lo para o Departamento do Interior, que cuida de florestas em parques nacionais e outros tipos de reservas e que tem uma perspectiva mais ambiental.\n\nA pergunta implica que seria melhor unificar todas as posi\u00e7\u00f5es sobre assuntos de meio ambiente e desenvolvimento. Eu diria que h\u00e1 um risco consider\u00e1vel em adotar esse caminho.\n\nN\u00e3o \u00e9 segredo que o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente \u00e9 muito mais fraco politicamente do que os v\u00e1rios minist\u00e9rios que promovem projetos com grandes impactos ambientais, tais como o Minist\u00e9rio dos Transportes, o Minist\u00e9rio da Agricultura e o Minist\u00e9rio das Minas e Energia. A tend\u00eancia de posi\u00e7\u00f5es assim unificadas seria sempre a preval\u00eancia da ala desenvolvimentista.\n\nH\u00e1 um exemplo muito relevante disto ocorrido nos Estados Unidos. \u00c9 a hist\u00f3ria da Ag\u00eancia de Energia At\u00f4mica (AEA), que foi criada logo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial para promover a energia at\u00f4mica e fiscalizar a seguran\u00e7a das usinas. O resultado foram centenas de quase desastres, todos encobertos pela Ag\u00eancia visando a sua fun\u00e7\u00e3o de fomentar a energia nuclear. Isto s\u00f3 se tornou de conhecimento p\u00fablico em 1979, quando houve o acidente de Three Mile Island.\n\nCom isso, a AEA foi extinta e foram criados dois \u00f3rg\u00e3os separados, um para promover a energia e outro para fazer a fiscaliza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a. Assim, todas as diferen\u00e7as ficam vis\u00edveis ao p\u00fablico e o resultado foi uma melhoria enorme na seguran\u00e7a.\n\n<strong>14. Ainda me soam aos ouvidos as vozes de ambientalistas que elogiavam o Brasil por suas fontes de ?energia limpa? provinda do potencial hidrel\u00e9trico. Hoje, como se v\u00ea, d\u00e1-se o exato oposto. Por que esse discurso se transformou t\u00e3o radicalmente e num intervalo de tempo relativamente curto?<\/strong>\n\nA maioria das pessoas ainda n\u00e3o sabe sobre as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa das hidrel\u00e9tricas.\n\nExiste um lobby extremamente forte por parte da ind\u00fastria hidrel\u00e9trica e por parte dos \u00f3rg\u00e3os governamentais respons\u00e1veis por promover hidrel\u00e9tricas.\n\nO primeiro trabalho mostrando emiss\u00f5es de gases das usinas foi publicado em 1993 por um grupo de canadenses que mostrou emiss\u00f5es de lagos artificiais naquele pa\u00eds. Eu publiquei um trabalho semelhante em 1995 mostrando que a hidrel\u00e9trica de Balbina emitia mais do que seria emitido para gerar a mesma energia com combust\u00edvel f\u00f3ssil e isso foi o estopim da rea\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria hidrel\u00e9trica. No in\u00edcio, eles negaram completamente a exist\u00eancia de emiss\u00f5es, mas essa posi\u00e7\u00e3o evoluiu ao longo dos anos e passaram a admitir alguma emiss\u00e3o, mas ainda muito menor do que as termoel\u00e9tricas equivalentes. No Brasil, essa posi\u00e7\u00e3o se sustenta de v\u00e1rias maneiras. A mais significativa \u00e9 a de simplesmente fingir que as \u00fanicas emiss\u00f5es s\u00e3o as das bolhas e da difus\u00e3o atrav\u00e9s da superf\u00edcie do pr\u00f3prio lago, ignorando a \u00e1gua que passa pelas turbinas e vertedouros.\n\nO EIA-RIMA de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0\u00e9 um exemplo gritante disso. A outra maneira \u00e9 usar dados das emiss\u00f5es a jusante (rio abaixo) medidas apenas como fluxos da superf\u00edcie do rio, realizadas a 50m ou mais abaixo das turbinas, ou seja, ap\u00f3s muito do metano j\u00e1 ter sido liberado.\n\nA \u00fanica forma de contabilizar a emiss\u00e3o nas turbinas sem omitir o g\u00e1s liberado logo na sa\u00edda das turbinas \u00e9 pela diferen\u00e7a entre as concentra\u00e7\u00f5es de metano na \u00e1gua acima da barragem e abaixo da barragem. Entretanto, a t\u00e1tica usada \u00e9 a de dizer que essas emiss\u00f5es s\u00e3o sujeitas \u00e0 controv\u00e9rsia e, portanto, n\u00e3o devem ser consideradas at\u00e9 haver consenso entre os cientistas.\n\n\u00c9 o mesmo argumento que foi usado durante tantos anos pela ind\u00fastria de fumo, alegando que havia grande incerteza sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o cigarro e o c\u00e2ncer. No caso das hidrel\u00e9tricas, as incertezas que existem na quantifica\u00e7\u00e3o exata das emiss\u00f5es n\u00e3o mudam a conclus\u00e3o bastante substanciada de que barragens liberam bastante g\u00e1s de efeito estufa.\n\n<strong>15. As garantias que o governo federal oferece aos povos ind\u00edgenas do Xingu, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte, s\u00e3o insuficientes ou s\u00e3o, de fato, um engodo? Para os ambientalistas, \u00e9 claro, trata-se de um engodo. Ent\u00e3o, que alternativas vi\u00e1veis do ponto de vista ecol\u00f3gico e econ\u00f4mico eles oferecem ao governo e \u00e0 sociedade de um pa\u00eds que necessita de energia?<\/strong>\n\n\u00c9 mesmo um engodo a palavra usada pelo jornalista L\u00facio Fl\u00e1vio Pinto no t\u00edtulo do seu livro sobre<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>. N\u00e3o s\u00e3o apenas ambientalistas que chegaram a essa conclus\u00e3o.\n\nQuanto \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds que necessita de energia, isso depende do que significa necessita! Subsidiar energia para exporta\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio n\u00e3o pode ser considerado uma necessidade.\n\nVide minha resposta \u00e0 pergunta n\u00b0 1 do jornalista Andr\u00e9 Trigueiro.\n\n<strong>16. Sabemos que muitas \u00e1reas da Mata Atl\u00e2ntica j\u00e1 pagaram o pre\u00e7o para o crescimento econ\u00f4mico do Brasil, por isso hoje o bioma est\u00e1 reduzido a cerca de 7% de sua cobertura original. Projetos como o de Belo Monte tendem a derrubar os obst\u00e1culos naturais que mant\u00eam a Amaz\u00f4nia protegida, isso com a justificativa de que o pa\u00eds precisa de mais, sempre mais. Mas, na sua opini\u00e3o, porque num pa\u00eds com imensa riqueza natural, que pode se posicionar mundialmente como uma pot\u00eancia ambiental, as terras preservadas s\u00e3o vistas como terras livres para quaisquer planos econ\u00f4micos, enquanto \u00e1reas devastadas s\u00e3o vistas como terras produtivas e acabam tendo mais prote\u00e7\u00e3o que as primeiras?<\/strong>\n\nO porqu\u00ea da \u00f3bvia prefer\u00eancia para formas de desenvolvimento que envolvam a destrui\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 que os benef\u00edcios financeiros entram no bolso do destruidor, enquanto os custos ambientais s\u00e3o pagos pela sociedade como um todo. Assim, mesmo que o total dos impactos seja maior que os benef\u00edcios, a op\u00e7\u00e3o \u00e9 pela destrui\u00e7\u00e3o. Eu estou tentando ao longo dos \u00faltimos 25 anos vender o peixe dos servi\u00e7os ambientais como uma base para a economia rural na Amaz\u00f4nia, substituindo a economia atual que \u00e9 baseada na destrui\u00e7\u00e3o da floresta.\n\n<strong>17. Existe uma grande resist\u00eancia da opini\u00e3o p\u00fablica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica, principalmente dos movimentos sociais e ambientalistas. Quais os principais argumentos que podem ser tecnicamente comprov\u00e1veis e que podem barrar a constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte?<\/strong>\n\nO argumento que sempre deve ser lembrado \u00e9 a falta de viabilidade econ\u00f4mica da obra em sua vers\u00e3o oficial, ou seja, sem as barragens rio acima.\n\nMuitas vezes, quando se come\u00e7a a falar em c\u00e1lculos econ\u00f4micos, pessoas ligadas a movimentos ambientalistas e ind\u00edgenas simplesmente desligam os neur\u00f4nios, pensando que apenas os grandes impactos ambientais e sociais t\u00eam valor. Mas o aspecto econ\u00f4mico \u00e9 chave, pois a inviabilidade do projeto sem as barragens a montante oferece uma evid\u00eancia clara daquilo que os ambientalistas chamam da mentira institucionalizada e os economistas chamam da crise planejada. Isto \u00e9, depois de constru\u00edda Belo Monte, haver\u00e1 uma grande surpresa quando se descobrir que o rio Xingu n\u00e3o tem \u00e1gua suficiente durante tr\u00eas ou quatro meses no ano para rodar sequer uma \u00fanica turbina nos 11 mil MW na casa de for\u00e7a principal, e vai ficar apenas com as 330 MW das pequenas turbinas da casa de for\u00e7a suplementar. Deixar ociosas as grandes turbinas, que representam a parte mais cara de uma hidrel\u00e9trica, e tamb\u00e9m deixar sem energia o sistema de linhas de transmiss\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 um neg\u00f3cio rent\u00e1vel.\n\nIsto dar\u00e1 a for\u00e7a pol\u00edtica para justificar a constru\u00e7\u00e3o de barragens rio acima, com impactos desastrosos hoje habilmente escondidos da discuss\u00e3o p\u00fablica.\n\n<strong>18. Quais os pontos critic\u00e1veis ao Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado para a constru\u00e7\u00e3o da obra? Quais as alternativas lan\u00e7adas para tentar diminuir os impactos \u00e0s comunidades ind\u00edgenas, e \u00e0 diversidade biol\u00f3gica e cultural?<\/strong>\n\nO EIA-RIMA tem muitas falhas graves (veja o relat\u00f3rio do Painel de Especialistas sobre<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>.\n\n\u00c9 bom lembrar que na licen\u00e7a pr\u00e9via, concedida (sob press\u00e3o) pelo Ibama em 1\u00ba de fevereiro de 2010, h\u00e1 uma cl\u00e1usula ressalvando que a autoriza\u00e7\u00e3o seria revogada caso tenha havido omiss\u00e3o ou falsa descri\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es relevantes que subsidiaram a expedi\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a. Um exemplo claro que se enquadra nesse sentido \u00e9 o tratamento das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa.\n\nO EIA n\u00e3o considera a fonte principal de emiss\u00e3o, que \u00e9 o metano liberado pela \u00e1gua que passa pelas turbinas e pelos vertedouros.\n\nA emiss\u00e3o da superf\u00edcie do lago, que \u00e9 relativamente pequeno em Belo Monte, excluindo as barragens a montante, teria uma emiss\u00e3o por bolhas e difus\u00e3o bem pequena se comparada \u00e0 emiss\u00e3o que sairia do grande volume de \u00e1gua passando anualmente pelas turbinas\n\nO EIA n\u00e3o oferece alternativas para comunidades ind\u00edgenas porque o documento simplesmente finge que n\u00e3o h\u00e1 impactos diretos. As duas \u00e1reas ind\u00edgenas na Grande Volta do rio Xingu, que se tornaria o techo seco com muito menos \u00e1gua, s\u00e3o consideradas fora da \u00e1rea de impacto direto, que \u00e9 retratada como sendo apenas a \u00e1rea submersa pelo reservat\u00f3rio.\n\nNo caso das \u00e1reas muito maiores de terras ind\u00edgenas que seriam inundadas pelas outras hidrel\u00e9tricas planejadas a montante para armazenar \u00e1gua para Belo Monte, o relat\u00f3rio n\u00e3o toca no assunto, devido ao fato de o EIA ser baseado na hip\u00f3tese (questionada, inclusive por mim) de que<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0\u00e9 planejada para ser a \u00fanica barragem no rio Xingu. Evidentemente, os impactos dos grandes reservat\u00f3rios a montante sobre a biodiversidade tamb\u00e9m seriam muito maiores do que aqueles retratados para<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0sozinha.\n\nO EIA (Vol. 33, p. 155) sugere criar pelo menos uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o para proteger o tipo de floresta que seria inundada pelo reservat\u00f3rio de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>, mas deixa para um relat\u00f3rio subseq\u00fcente (o Plano B\u00e1sico Ambiental \u2013 PBA) as defini\u00e7\u00f5es sobre local e caracter\u00edsticas da unidade.\n\n<strong>19. O reservat\u00f3rio ter\u00e1 516 km\u00b2 ocupando uma \u00e1rea de cinco munic\u00edpios do Par\u00e1, numa regi\u00e3o com alto potencial de endemismo. Antes do alagamento da \u00e1rea, existem estudos para identificar o que se perder\u00e1, e at\u00e9 mesmo algum trabalho para tentar transferir as esp\u00e9cies de fauna e flora para alguma unidade de prote\u00e7\u00e3o integral? E como isto est\u00e1 sendo previsto?<\/strong>\n\nA id\u00e9ia de que o reservat\u00f3rio ter\u00e1 516 km\u00b2 enquadra-se na chamada mentira institucionalizada, ou seja, a tese de que s\u00f3 haver\u00e1 uma barragem no rio Xingu, a de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>.\n\nA hidrologia e a economia oferecem fortes ind\u00edcios para que a hist\u00f3ria se desenvolva de outra forma, com a constru\u00e7\u00e3o de mais barragens para aumentar o fluxo de \u00e1gua em<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0na \u00e9poca da vazante.\n\nA pr\u00f3xima barragem seria a Babaquara\/Altamira, com 6.140 km\u00b2 pelo plano original.\n\nQuanto \u00e0 fauna afetada pela primeira barragem, h\u00e1 peixes \u00fanicos nas cachoeiras da Grande Volta do Xingu. Desconhe\u00e7o planos para salv\u00e1-los artificialmente.\n\nO que existem s\u00e3o promessas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vaz\u00e3o que seria passada pela Grande Volta. H\u00e1 preocupa\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 possibilidade de as empresas el\u00e9tricas serem autorizadas, futuramente, a deixar passar menos \u00e1gua pela Grande Volta, visando aumentar a gera\u00e7\u00e3o de energia. Existe tamb\u00e9m uma fauna incomum nas cavernas afetadas.\n\nVeja os trechos sobre peixes e cavernas no relat\u00f3rio do Painel dos Especialistas sobre Belo Monte.\n\n<strong>20. A regi\u00e3o oeste da Bahia, \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o do Instituto Bioeste, come\u00e7ou a sofrer as amea\u00e7as das Pequenas Centrais Hidrel\u00e9tricas (PCH\u00b4s). A \u00e1rea \u00e9 considerada um hotspot de biodiversidade, pela grande biodiversidade, com alto grau de endemismo, bem como pelo risco de destrui\u00e7\u00e3o dos seus recursos naturais. A regi\u00e3o foi considerada pela Aneel um dos alvos para a instala\u00e7\u00e3o destes empreendimentos. Apesar de ser no m\u00e1ximo 10 MW, e guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, os preju\u00edzos causados por estas PCH\u00b4s s\u00e3o os mesmos que a constru\u00e7\u00e3o em Belo Monte?<\/strong>\n\nPor ser muito menores, \u00e9 evidente que o impacto de cada PCH \u00e9 menor.\n\nNo entanto, n\u00e3o \u00e9 verdade que o impacto por MW de energia gerada seja menor, pois a \u00e1rea inundada por MW instalado normalmente \u00e9 maior no caso de PCHs. Somadas, as PCHs podem criar impactos bastante grandes nos ecossistemas aqu\u00e1ticos, barrando trechos extensos dos cursos d&#8217;\u00e1gua sobre regi\u00f5es inteiras.\n\nO estado de Mato Grosso \u00e9 outro lugar com um n\u00famero grande de PCHs planejadas.\n\n<strong>21. H\u00e1, na Volta Grande do Xingu, uma s\u00e9rie de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos que, pelo que me consta, n\u00e3o foram estudados ainda. A constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte poder\u00e1 prejudicar estudos arqueol\u00f3gicos e antropol\u00f3gicos relevantes nesta regi\u00e3o?<\/strong>\n\nAl\u00e9m dos impactos sobre as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e n\u00e3o-ind\u00edgenas na \u00e1rea hoje, h\u00e1 perdas dos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos mencionados. Sugiro a leitura do relat\u00f3rio do Painel dos Especialistas sobre<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>.\n\n<strong>22. Com uma seca mais acentuada na extens\u00e3o da Volta Grande, qual a real possibilidade de multiplica\u00e7\u00e3o de vetores de doen\u00e7as, como mal\u00e1ria e dengue? Partindo de experi\u00eancias com outras barragens, como Tucuru\u00ed, h\u00e1 o perigo de prolifera\u00e7\u00e3o de outros insetos nocivos \u00e0 sa\u00fade humana e animal?<\/strong>\n\nNo caso de Tucuru\u00ed, houve uma praga impressionante de mosquitos do g\u00eanero Mansonia, um tipo de inseto extremamente agressivo que pica tanto de dia quanto de noite. Isto aconteceu devido aos ventos predominantes, que na Amaz\u00f4nia sopram de leste para oeste, empilhando as macr\u00f3fitas (plantas aqu\u00e1ticas) no lado oeste do reservat\u00f3rio.\n\nEsta margem estava encostada no assentamento da Gleba Parakan\u00e3, levando os assentados a tentar, durante dois anos, conseguir um local diferente para morar (no final, desistiram e estabelecerem um novo assentamento por conta pr\u00f3pria). Pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia) registraram 600 picadas por hora em iscas humanas no assentamento.\n\nNesse caso, assim como em reservat\u00f3rios amaz\u00f4nicos em geral, houve uma explos\u00e3o de macr\u00f3fitas no in\u00edcio, cobrindo 40% do lago, mas com a diminui\u00e7\u00e3o da fertilidade da \u00e1gua ao longo dos anos, a \u00e1rea diminuiu e estabilizou-se em 10% ap\u00f3s uma d\u00e9cada.\n\nNo caso de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>, com a cidade de Altamira localizada na margem oeste do reservat\u00f3rio, h\u00e1 um risco. Vamos esperar para ver.\n\n<strong>23. Ainda em compara\u00e7\u00e3o com outros projetos hidrel\u00e9tricos, qual a expectativa de superpopula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, e quais os impactos sociais, ambientais e sobre as popula\u00e7\u00f5es tradicionais que isso pode trazer?<\/strong>\n\nA disponibilidade de emprego e o fluxo monet\u00e1rio que acompanham uma obra deste porte fatalmente levam a um grande aumento da popula\u00e7\u00e3o local. No final da obra, no entanto, grande parte dessas pessoas fica sem emprego e muitos migram para outros locais para se juntar \u00e0 pr\u00f3xima obra.\n\nNesses casos, quem mais perde s\u00e3o as popula\u00e7\u00f5es tradicionais. Eu tive a experi\u00eancia de ficar com uma fam\u00edlia tradicional justamente na \u00e1rea hoje condenada para o lago de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0(orientei uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado sobre o sistema agr\u00edcola na \u00e1rea). Essa popula\u00e7\u00e3o perde o seu sustento e tem pouca chance de se dar bem ap\u00f3s a expuls\u00e3o.\n\nN\u00e3o aprendemos as li\u00e7\u00f5es de Tucuru\u00ed e do drama atualmente em curso dos pescadores na \u00e1rea das barragens do rio Madeira. A hist\u00f3ria se repete.\n\n<strong>24. Supondo que o projeto da usina prossiga, como fica a situa\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es atingidas? Possivelmente \u00e9 mais simples, para o Cons\u00f3rcio, avaliar as mitiga\u00e7\u00f5es nas Terras Ind\u00edgenas, que j\u00e1 est\u00e3o demarcadas (em sua maioria). Mas como ficam ribeirinhos e pequenos agricultores? De acordo com o site do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio sobre o Terra Legal, apenas 800 agricultores est\u00e3o cadastrados em Altamira, o que \u00e9 muito pouco. Outra quest\u00e3o \u00e9 a terra ind\u00edgena dos Arara, que ainda n\u00e3o est\u00e1 homologada. Como ficaria esta popula\u00e7\u00e3o?<\/strong>\n\n\u00c9 muito importante que a popula\u00e7\u00e3o atingida seja interpretada como todos os impactados nos efeitos da redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da vaz\u00e3o na Grande Volta do Xingu. Isso inclui as duas \u00e1reas ind\u00edgenas abaixo da barragem.\n\n<strong>Tamb\u00e9m nunca se deve esquecer a import\u00e2ncia da chamada mentira institucionalizada (ou crise planejada):<\/strong>\u00a0o impacto prov\u00e1vel sobre popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas \u00e9 muito maior, pois as barragens a montante est\u00e3o todas predominantemente em terras ind\u00edgenas.\n\n<strong>Usina Belo Monte &#8211; Belo \u201cMonstro\u201d N\u00e3o!<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-161658 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Usina-6-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"165\" \/><strong>Usina Belo Monte<\/strong><\/p>\n<strong>Seis motivos para ser contra a constru\u00e7\u00e3o da Usina Hidrel\u00e9trica de Belo Monte:<\/strong>\n\n<strong>1) Ind\u00edgenas e ribeirinhos ser\u00e3o afetados:<\/strong>\u00a0a barragem a ser constru\u00edda no rio Xingu vai desviar cerca de 70-80% do volume de \u00e1gua e inundar uma \u00e1rea de 500 km\u00b2. Na parte do rio que vai secar, conhecida como Volta Grande do Xingu, com uma extens\u00e3o de 130 km, vivem ribeirinhos e comunidades ind\u00edgenas que n\u00e3o s\u00e3o consideradas pelo IBAMA como impactadas diretamente pelo projeto, o que significa que n\u00e3o ter\u00e3o direito a indeniza\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, os pareceres t\u00e9cnicos indicam que h\u00e1 risco de n\u00e3o serem garantidos nem a navegabilidade do rio, nem a qualidade de suas \u00e1guas, base da vida das popula\u00e7\u00f5es locais.\n\n<strong>2) D\u00favidas sobre popula\u00e7\u00e3o urbana:\u00a0<\/strong>a cidade de Altamira ter\u00e1 parte de seus bairros inundados, entretanto n\u00e3o h\u00e1 estudo conclusivo sobre o impacto. Os n\u00fameros variam entre 30-70% da \u00e1rea urbana, sendo que n\u00e3o se sabe a quantidade exata de pessoas a serem removidas, nem est\u00e1 claro para onde ser\u00e3o realocadas. Investiga\u00e7\u00f5es independentes conclu\u00edram que a avalia\u00e7\u00e3o do estudo de impacto ambiental do projeto \u00e9 incompleta e subestima a extens\u00e3o dos poss\u00edveis impactos da usina de Belo Monte.\n\n<strong>3) UHE Belo Monte \u00e9 invi\u00e1vel economicamente:\u00a0<\/strong>pesquisadores independentes, de v\u00e1rias universidades brasileiras e internacionais, analisaram o projeto e seus impactos ambientais e comprovaram que dos 11.181 megawatts de pot\u00eancia da hidrel\u00e9trica, apenas 39% de energia seriam gerados, pois o rio Xingu tem uma vaz\u00e3o que varia 20 vezes ao longo do ano e a \u00e9poca da cheia dura apenas quatro meses.\n\nUm documento de 2006, elaborado por dois especialistas do Instituto Tecnol\u00f3gico de Aeron\u00e1utica\u00a0 ITA, analisou o custo-benef\u00edcio social da hidrel\u00e9trica e demonstrou que o empreendimento n\u00e3o seria vi\u00e1vel economicamente e que n\u00e3o produziria a energia firme de 4.700 MW que consta dos estudos de viabilidade da Eletrobr\u00e1s, mas apenas 1.172 MW.\n\nO modelo utilizado pela Eletrobr\u00e1s, segundo os pesquisadores, s\u00f3 seria v\u00e1lido para o complexo de cinco hidrel\u00e9tricas no rio Xingu, proposto inicialmente.\n\n<strong>4) Preju\u00edzos ao meio ambiente global:<\/strong>\u00a0o apodrecimento da vegeta\u00e7\u00e3o que ficar submersa emitir\u00e1 grandes quantidades de g\u00e1s metano, que contribui para o efeito estufa e \u00e9 21 vezes mais potente do que o g\u00e1s carb\u00f4nico\/ CO\u00b2. Grandes barragens tamb\u00e9m causam destrui\u00e7\u00e3o ambiental direta e indireta consider\u00e1veis, como o desmatamento de grandes \u00e1reas e o aumento das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. N\u00e3o h\u00e1 nada de limpo nem de sustent\u00e1vel em Belo Monte.\n\n<strong>5) Aumento populacional e desemprego:\u00a0<\/strong>o governo federal estima que aproximadamente 100 mil pessoas migrar\u00e3o para a regi\u00e3o, principalmente para a cidade de Altamira. Especialistas falam que este n\u00famero ser\u00e1 de no m\u00ednimo 150 mil pessoas. A Eletrobr\u00e1s observa no EIA\/RIMA que 18 mil empregos diretos ser\u00e3o gerados no pico da obra, durante 02 anos (entre o 3\u00ba e o 4\u00ba ano), e 23 mil empregos indiretos ser\u00e3o obtidos, totalizando 41 mil postos de trabalho. Ou seja, nas contas do pr\u00f3prio governo, aproximadamente 60 mil pessoas que migrar\u00e3o n\u00e3o ter\u00e3o emprego em nenhum momento. A obra est\u00e1 prevista para durar 10 anos. No final da constru\u00e7\u00e3o a quantidade de empregos estimados \u00e9 de apenas 700 diretos e 2.700 indiretos. O EIA\/RIMA avalia que 32 mil migrantes dever\u00e3o ficar na regi\u00e3o ap\u00f3s o termino da obra. Ser\u00e3o milhares de desempregados, abandonados pelo governo e empreiteiras nas periferias das grandes cidades.\n\n<strong>6) Existem alternativas menos nocivas:\u00a0<\/strong>a realiza\u00e7\u00e3o do projeto de Belo Monte desconsidera alternativas vi\u00e1veis e menos destrutivas tais como o aumento da efici\u00eancia energ\u00e9tica e a promo\u00e7\u00e3o de fontes renov\u00e1veis de energia, como energia solar e e\u00f3lica (ventos). Um estudo realizado pela WWFBrasil, publicado em 2007, mostrou que at\u00e9 2020 o Brasil poderia reduzir a demanda energ\u00e9tica prevista em 40% por meio de investimentos em efici\u00eancia energ\u00e9tica. A energia economizada, com a moderniza\u00e7\u00e3o do atual modelo, sem novas barragens, seria equivalente a 14 hidrel\u00e9tricas de<strong>\u00a0Belo Monte<\/strong>\u00a0e representaria uma economia de cerca de R$33 bilh\u00f5es para os cofres brasileiros. Queremos desenvolvimento, mas com compromisso social e ambiental.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.conservation.org.br(Ana Ligia Scachetti\/Andr\u00e9 Trigueiro\/Bettina Barros\/Herton Escobar\/Hebert Regis de Oliveira\/Manuel Dutra\/Verena Glass)\/assets.survivalinternational.org\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Usina Belo Monte, Hidrel\u00e9trica, Brasil, Constru\u00e7\u00e3o, Rio, Projeto, Energia, Governo, Meio Ambiente, Impactos, Investimento, Usina Belo Monte<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8068,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-20196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meio-ambiente-2"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Usina Belo Monte - 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