{"id":19536,"date":"2015-12-01T00:00:00","date_gmt":"2015-12-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/surrealismo-3\/"},"modified":"2026-09-01T15:23:42","modified_gmt":"2026-09-01T15:23:42","slug":"surrealismo-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/arte-2\/surrealismo-3\/","title":{"rendered":"Surrealismo"},"content":{"rendered":"\nO movimento art\u00edstico <strong>Surrealismo<\/strong> surgiu em Paris, no ano de 1924, sob reg\u00eancia de Andr\u00e9 Beton, e com muita influ\u00eancia do Dada\u00edsmo. Com o apoio da Psican\u00e1lise, inclu\u00eda na sua cria\u00e7\u00e3o abordagens do inconsciente, a fim de descrever a realidade da maneira como ela \u00e9 realmente vista.\n\nNa literatura, foi adotada a t\u00e9cnica de uso livre de palavras, enquanto na pintura o sonho e o inconsciente eram pintados.\n\nOs artistas que fizeram parte desse movimento foram:\n<blockquote><strong>Na pintura:<\/strong> Andr\u00e9 Beton, Paul \u00c9luard, Antonin Artaud Louis Aragon e Salvador Dal\u00ed.\n\n<strong>No cinema:<\/strong> Luis Bu\u00f1el<\/blockquote>\nNos principais setores de conhecimento, como artes, ci\u00eancia, filosofia, a Arte assume um papel importante, pois se torna algo abstrato e claro, surreal, onde os artistas deixam a imita\u00e7\u00e3o de lado e passam a criar os seus pr\u00f3prios seres e objetos. A Arte Moderna assume posi\u00e7\u00e3o de quebra de paradigmas, atrav\u00e9s de um caos das inven\u00e7\u00f5es e suas inova\u00e7\u00f5es.\n\n<strong>Al\u00e9m da Arte, na Ci\u00eancia surgem descobertas muito importantes para todos:<\/strong> A <em>Teoria Qu\u00e2ntica<\/em>, de Max Planck; <em>Teoria da Relatividade<\/em>, de Albert Einstein. J\u00e1 na psiquiatria, Bergson e Freud tem pesquisas desenvolvidas, o primeiro na sua obra <em>Mat\u00e9ria e Mem\u00f3ria<\/em>, enquanto o \u00faltimo, no ano de 1916\/1917 lan\u00e7a a obra <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Psican\u00e1lise.<\/em>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-131330 size-full\" title=\"A persist\u00eancia da Mem\u00f3ria (Salvador Dali - 1931)\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/A-persistencia-da-Memoria-Salvador-Dali-1931.jpg\" alt=\"A persist\u00eancia da Mem\u00f3ria (Salvador Dali - 1931)\" width=\"400\" height=\"300\" \/>\n<strong>A obra &#8220;A persist\u00eancia da Mem\u00f3ria&#8221; (Salvador Dali &#8211; 1931) \u00e9 representante do movimento art\u00edstico denominado Surrealismo.<\/strong><\/p>\nPortal S\u00e3o Francisco\n\n<strong>Surrealismo &#8211; Movimento<\/strong>\n\n<strong>Inic\u00edo:<\/strong> 1924\n\n<strong>Final:<\/strong> 1966\n\nO <strong>movimento surrealista <\/strong>foi fundado em Paris por um pequeno grupo de escritores e artistas que procuraram canalizar o inconsciente como um meio para desbloquear o poder da imagina\u00e7\u00e3o.\n\nDesprezando o racionalismo e o realismo liter\u00e1rio, e fortemente influenciados pela psican\u00e1lise, os surrealistas acreditavam que a mente consciente reprimiu o poder da imagina\u00e7\u00e3o, ponderando-o para baixo com tabus. Influenciado tamb\u00e9m por Karl Marx, que esperavam que a psique tinha o poder de revelar as contradi\u00e7\u00f5es do mundo cotidiano e estimular a revolu\u00e7\u00e3o.\n\nSua \u00eanfase no poder da imagina\u00e7\u00e3o colocou-os na tradi\u00e7\u00e3o do romantismo, mas ao contr\u00e1rio de seus antepassados, eles acreditavam que as revela\u00e7\u00f5es poderiam ser encontrado na rua e na vida cotidiana. O impulso surrealista de tocar a mente inconsciente, e seus interesses em mito e primitivismo, passou a moldar muitos movimentos posteriores, e o estilo permanece influente at\u00e9 hoje.\n<h4>Surrealismo &#8211; Movimento<\/h4>\nO <strong>Surrealismo<\/strong> foi um movimento que come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1920 de escritores e artistas (incluindo Salvador Dal\u00ed e Ren\u00e9 Magritte), que experimentou com formas de libertar a imagina\u00e7\u00e3o subconsciente.\n\nO <strong>Surrealismo<\/strong> foi um movimento da literatura e das belas artes, fundado em Paris pelo poeta e cr\u00edtico Andr\u00e9 Breton em 1924, quando publicou seu Manifesto Surrealista. Foi constantemente dominado por seu criador. Cresceu fora do movimento conhecido como Dada\u00edsmo, um movimento art\u00edstico e liter\u00e1rio que refletiu o protesto niilista contra todos os aspectos da cultura Ocidental. Assim como o Dada\u00edsmo, enfatizou o papel do inconsciente na atividade criativa, mas empregou o inconsciente ps\u00edquico mais ordenadamente e de maneira mais s\u00e9ria.\n\n<strong>Literatura surrealista<\/strong>\n\nOs surrealistas deram seguimento, como seus antecessores liter\u00e1rios, a uma longa linha de excelentes escritores, entre os quais Comte de Lautreamont (1846-70), autor do longo e complicado romance Les chants de Maldoror (1868). Al\u00e9m de Breton, muitos dos escritores franceses mais distinto do in\u00edcio do s\u00e9culo se conectaram ao movimento, incluindo Paul Eluard, Louis Aragon, Rene Crevel (1900-35), e Philippe Soupault (1897-1990). Escritores mais jovens, como Raymond Queneau (1903-76) tamb\u00e9m foram influenciados por seus pontos de vista.\n\n<strong>Os escritores surrealistas mais &#8220;puros&#8221; usaram o automatismo como uma forma liter\u00e1ria, quer dizer:<\/strong>\u00a0escreviam quaisquer palavras que entrassem em sua mente consciente, considerando-as inviol\u00e1veis. N\u00e3o alteravam o que escreviam, pois isto constituiria uma interfer\u00eancia com o puro ato de cria\u00e7\u00e3o. Sentiam que este fluxo livre de pensamento estabeleceria uma conex\u00e3o com a mente subconsciente de seus leitores.\n\n<strong>Um pequeno exemplo t\u00edpico de um texto surrealista \u00e9 este prov\u00e9rbio de Paul Eluard:<\/strong>\u00a0&#8220;Elefantes s\u00e3o contagiosos&#8221;. Este automatismo puramente ps\u00edquico foi modificado depois pelo uso consciente, especialmente na pintura, de s\u00edmbolos derivados da psicologia freudiana.\n\nComo seus precursores dada\u00edstas, os surrealistas quebraram regras aceitas de trabalho e conduta pessoal para liberar sua sensa\u00e7\u00e3o de verdade interna. O movimento espalhou-se por todo o mundo e floresceu na Am\u00e9rica durante a Segunda Guerra Mundial, quando Andr\u00e9 Breton passou a residir em New York.\n\n<strong>Surrealismo na Arte<\/strong>\n\nNa pintura e na escultura o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0\u00e9 uma das principais influ\u00eancias do s\u00e9culo XX. Considerando como seus antepassados nas artes gr\u00e1ficas pintores como o renascentista italiano Paolo Uccello, o poeta e artista rom\u00e2ntico ingl\u00eas William Blake, e o franc\u00eas Odilon Redon. Seus artistas admiravam e tamb\u00e9m inclu\u00edam em suas exibi\u00e7\u00f5es, trabalhos de artistas do in\u00edcio do s\u00e9culo, como o italiano Giorgio de Chirico, o russo Marc Chagall, o su\u00ed\u00e7o Paul Klee, os franceses Marcel Duchamp e Francis Picabia, e o espanhol Pablo Picasso, sendo que nenhum destes fazia parte do grupo surrealista.\n\nA partir de 1924 o alem\u00e3o Max Ernst, o franc\u00eas Jean Arp, e o pintor e fot\u00f3grafo americano Man Ray aderiram ao movimento. Permaneceram juntos pouco tempo, at\u00e9 1925, aproximados pelo franc\u00eas Andr\u00e9 Masson (1896-1987), assim como o espanhol Joan Mir\u00f3, que era muito individualista, era dif\u00edcil para eles se submeter \u00e0 forte lideran\u00e7a de Andr\u00e9 Breton, que continuava a exercitar sua autoridade final sobre o movimento.\n\nDepois o grupo passou a incluir o americano Yves Tanguy, o belga Ren\u00e9 Magritte, e o su\u00ed\u00e7o Alberto Giacometti. O pintor catal\u00e3o Salvador Dali uniu-se ao movimento surrealista em 1930 mas foi acusado depois, pela maioria dos surrealistas, de estar mais interessado em comercializar sua arte do que defender as id\u00e9ias surrealistas. Embora durante certo tempo tenha sido um dos membros mais divulgados do grupo, seu trabalho \u00e9 t\u00e3o idiossincr\u00e1tico que chega a ser s\u00f3 parcialmente t\u00edpico do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>.\n\nA pintura surrealista exibe grande variedade de conte\u00fado e t\u00e9cnica. Por exemplo, os trabalhos de Dali consistem, mais ou menos, em uma transcri\u00e7\u00e3o direta e fotogr\u00e1fica de sonhos e deriva sua inspira\u00e7\u00e3o das pinturas de sonhos de De Chirico, anteriores \u00e0s suas pr\u00f3prias. As esculturas de Arp s\u00e3o grandes, lisas, e de formas abstratas, e Mir\u00f3, um surrealista formal por pouco tempo, emprega formas fant\u00e1sticas que tamb\u00e9m inclu\u00edram adapta\u00e7\u00f5es deliberadas da arte infantil, tendo algo em comum com os desenhos usados pelos artistas catal\u00e3os para decorar sua cer\u00e2mica. O pintor americano de origem russa Pavel Tchelichew (1887-1957), apesar de n\u00e3o se considerar um surrealista, traz imagens surrealistas em suas pinturas e tamb\u00e9m nos numerosos bal\u00e9s por ele criados.\n\nUm ramo americano do movimento surrealista \u00e9 o grupo de artistas conhecido como &#8220;realistas m\u00e1gicos&#8221;, que surgiu sob a lideran\u00e7a do pintor Paul Cadmus (1904). O grupo tamb\u00e9m inclui George Tooker (1920 -), Ivan Le Lorraine Albright, Philip Evergood (1901-73), Peter Blume (1906-92), e Louis Guglielmi (1906-56). Joseph Cornell, escultor de assemblage, come\u00e7ou como um surrealista reconhecido, mas depois procurou por uma maior individualidade de sua arte.\n\nA atitude de cria\u00e7\u00e3o livre dos surrealistas foi uma das principais influ\u00eancias do expressionismo abstrato de New York. Uma cole\u00e7\u00e3o representativa dos trabalhos gr\u00e1ficos dos surrealistas est\u00e1 no Museum of Modern Art e dos &#8220;realistas m\u00e1gicos&#8221; no Whitney Museum of American Art, ambos em New York.\n<h4>Surrealismo &#8211; <strong>L<\/strong>iteratura<\/h4>\n<strong>O\u00a0surrealismo foi um movimento moderno na arte e na literatura, em que \u00e9 feita uma tentativa de retratar ou interpretar o funcionamento da mente inconsciente que se manifesta em sonhos<\/strong>: \u00e9 caracterizado por um arranjo irracional, fant\u00e1stico de material.\n\nO\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0nasceu da constata\u00e7\u00e3o da crise da raz\u00e3o e do sistema l\u00f3gico feita por alguns artistas do s\u00e9culo XX. Ao perceberem tais problemas, eles propuseram uma fuga para o inconsciente, o qual, segundo os surrealistas, possibilitaria a \u00fanica sa\u00edda para a encalacrada que a raz\u00e3o humana havia se metido.\n\nCom isso eles pretendiam anular a contradi\u00e7\u00e3o entre sonho e realidade.\n\nO\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, para esses artistas, come\u00e7ou com o quadro \u0093As Tenta\u00e7\u00f5es de Santo Ant\u00e3o\u0094 , do holand\u00eas Hieronimus Bosch, que viveu no s\u00e9culo XVI. O quadro de Bosh mostra uma vis\u00e3o das tenta\u00e7\u00f5es do santo, que viveu no s\u00e9culo III. \u00c9 um conjunto de paisagens interiores, corpos transformados, hermetismo, melancolia e saturnismo. Surrealismo puro. Depois, os surrealistas chegaram at\u00e9 as obras de Fran\u00e7ois de Nom\u00e9, pintor do s\u00e9culo XVII. As cenas noturnas de Nom\u00e9 foram consideradas metaforicamente por psic\u00f3logos e historiadores de arte como uma ilustra\u00e7\u00e3o de esquizofrenia atribucionista. Depois de Nom\u00e9 e Bosh, vieram as iluminuras herm\u00e9ticas de Francisco de Holanda e as gravuras criadas pelo escritor ingl\u00eas William Blake.\n\nBlake, autor do Livro de Job e o Livro Primeiro de Urizen, criou uma t\u00e9cnica pr\u00f3pria para as gravuras que imprimia nos seus livros. Suas gravuras parecem relatar experi\u00eancias com oabsoluto.\n\nAp\u00f3s Blake, veio Goya, j\u00e1 no final do s\u00e9culo XVIII e come\u00e7o do XIX, com suas gravuras de tom moralista, recheadas de imagens de seres deformados como galinhas depenadas com rostos de pessoas. Por\u00e9m, Goya, talvez, n\u00e3o concordasse com os surrealistas, pois foi ele quem, em uma de suas obras, escreveu que \u0093o sonho da raz\u00e3o produz monstros\u0094.\n\n<strong>Pol\u00eamicas \u00e0 parte, toda esta redescoberta feita pelos artistas surrealistas do s\u00e9culo 20, como Max Ernst, Picabia, Salvador Dal\u00ed, Pablo Picasso, Andr\u00e9 Breton, Joan Mir\u00f3, entre outros, trazia consigo uma nova maneira de compreender e fazer arte:<\/strong>\u00a0o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>.\n\nNa verdade, os artistas dos s\u00e9culos XVI, XVII, XVII e XIX sequer imaginavam que suas obras seriam consideradas surrealistas um dia, mas o que \u00e9 ineg\u00e1vel \u00e9 que, ap\u00f3s o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, toda obra que remete ao mundo dos sonhos n\u00e3o consegue mais fugir \u00e0 conceitualiza\u00e7\u00e3o ou liga\u00e7\u00e3o com a arte e com as id\u00e9ias surrealistas.\n\n<strong>As Origens<\/strong>\n\nO\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0come\u00e7ou como uma moderna escola de literatura e arte, iniciada em 1924, pelo escritor franc\u00eas Andr\u00e9 Breton. Suas principais caracter\u00edsticas eram o desprezo dasconstru\u00e7\u00f5es refletidas ou dos encadeamentos l\u00f3gicos e, ao mesmo tempo, o apre\u00e7o pela ativa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do inconsciente e do irracional, do sonho e dos estados m\u00f3rbidos, valendo-se, para tal, do uso freq\u00fcente da psican\u00e1lise, que estava ent\u00e3o surgindo com toda for\u00e7a.\n\nO\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0visava, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma renova\u00e7\u00e3o total dos valores art\u00edsticos, morais, pol\u00edticos e filos\u00f3ficos, ou seja, o movimento sempre teve como perspectiva uma mudan\u00e7a completa da arte, da cultura e da vida. Como j\u00e1 foi dito, seu nascimento ocorreu, pra valer, nos anos 20, mas seu fundador, Andr\u00e9 Breton, veio para este vale de l\u00e1grimas em 1896, para desaparecer, depois de muitas cria\u00e7\u00f5es, brigas e paix\u00f5es, em 28 de setembro de 1966.\n\nPara os jovens burgueses que viviam em Paris no in\u00edcio do s\u00e9culo, as primeiras imagens sem raz\u00e3o nasceram das matan\u00e7as produzidas pela Primeira Guerra Mundial. \u00c9 exatamente que os surrealista e Goya n\u00e3o concordam, pois se para Goya a guerra \u00e9 o sono da raz\u00e3o, para os surrealistas, \u00e9 exatemente no \u00e2mbito do sonho, isto \u00e9, do inconsciente onde est\u00e1 a possibilidade de mudan\u00e7a do real.\n\nPortanto, depois da morte dos amigos dos surrealistas na Primeira Guerra e da fal\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o era mais poss\u00edvel esperar que a arte continuasse est\u00e1tica e racional, era preciso que ela transcendesse coisas como a raz\u00e3o instrumental, a l\u00f3gica, que ultrapassasse a fal\u00eancia do racional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie que guerra representou.\n\nNessa \u00e9poca do p\u00f3s-guerra, Breton \u0093recruta\u0094 os rapazes que compartilhavam com ele o desejo de fazer um animado cruzamento entre as recentes descobertas de Sigmund Freud (o inconsciente, os sonhos, a libido etc) e as v\u00edtimas da barb\u00e1rie praticada no mundo moderno em que eles viviam. Aproximaram-se ent\u00e3o de Breton o dramaturgo Antonin Artaud(1896-1948) e o poeta e cineasta Jean Cocteau (1889-1963), entre os in\u00fameros garotos que acabariam por se tornar, a nova intelectualidade da Fran\u00e7a. Al\u00e9m da Fran\u00e7a, artistas de outros pa\u00edses se encantaram com as propostas de Breton; entre os muitos artistas que vieram se juntar a Breton e sua turma, destacam-se os espanh\u00f3is Luis Bu\u00f1uel e Salvador Dal\u00ed.\n\nO primeiro, cineasta, fez entender que o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0poderia ser tamb\u00e9m cinematogr\u00e1fico. O outro, pintor, que o surrealismo poderia ser um neg\u00f3cio muito lucrativo. Breton que havia iniciado sua carreira art\u00edstica como poeta e escritor, apesar de ter uma forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica na \u00e1rea de medicina.\n\nAp\u00f3s 1920, data da recep\u00e7\u00e3o do dad\u00e1 em Paris, por Breton e seus amigos, come\u00e7am a tomar corpo as id\u00e9ias surrealistas. Artaud chega em Paris neste ano, 1920. Imediatamente articula-se com as pessoas ligadas ao teatro. Logo estar\u00e1 com Charles Dullin no Th\u00e9\u00e2tre de l\u0082Atelier. Firma-se assim desde o in\u00edcio como um homem do teatro, da representa\u00e7\u00e3o. Suas participa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m como int\u00e9rprete no cinema s\u00e3o conhecidas, cobrindo praticamente a d\u00e9cada de 1924 a 1935; come\u00e7ara em pap\u00e9is para Abel Gance, Claude Autant-Lara e Ren\u00e9 Clair, (em Entr\u00b4acte,1924). Ao mesmo tempo que Artaud escrevia suas primeiras poesias_datadas de 1920\/1921. Breton est\u00e1 fundamentando suas id\u00e9ias sobre o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>.\n\nLa Coquille et le Clergyman, filme baseado em um texto de Antonin Artaud \u00e9 unanimamente considerado o primeiro filme surrealista. Por\u00e9m, certos surrealistas como Andr\u00e9 Breton afirmaram que a diretora do filme Germaine Dulac havia tra\u00eddo Artaud e \u0093feminizado\u0094 o roteiro.\n\nEm 1929, surge \u0093Um C\u00e3o Andaluz\u0094, filme considerado como um cl\u00e1ssico do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, feito por Bu\u00f1uel e Dal\u00ed.\n\n<strong>Surrealismo e dad\u00e1<\/strong>\n\n\u00c0 nega\u00e7\u00e3o como um fim em si do dad\u00e1, o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0apresenta uma perspectiva humana, almejava tamb\u00e9m uma solu\u00e7\u00e3o do real e seus terrores atrav\u00e9s do inconsciente.\n\nO\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0que aparece no Primeiro Manifesto do Surrealismo \u00e9 uma arte recheada de esperan\u00e7a no ser humano. Os surrealistas foram grandes admiradores da figura da mulher. A poesia de Andr\u00e9 Breton, desde o \u0093Poisson Soluble\u0094(Veneno Sol\u00favel) que acompanha o Manifesto, est\u00e1 cheia de exalta\u00e7\u00f5es do feminino e da presen\u00e7a desej\u00e1vel e tang\u00edvel da mulher, da mulher-mediadora, da mulher-tes\u00e3o, da mulher-libertadora dos desejos e da libido humana. A liberta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito em que se empenha o surrealismo, seus reenvios constantes ao \u0093racional desregramento de todos os sentidos\u0094, ao desvelamento das vias reais do desejo e da imagina\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria, j\u00e1 bastaria para o diferenciar do epis\u00f3dio dad\u00e1. E dos vanguardismos do momento.\n\n<strong>O Surrealismo e o Partido Comunista<\/strong>\n\nA liga\u00e7\u00e3o do grupo surrealista com o Partido Comunista durar\u00e1 dos anos 20 at\u00e9 os epis\u00f3dios de 1930\/31, com a ruptura do affaire Aragon (Front Rouge, 1932) e a den\u00fancia do dirigismo que se instalara no comunismo sovi\u00e9tico. Logo depois, o grupo surrealista formalizar\u00e1 a den\u00fancia e a recusa do totalitarismo stalinista.\n\nMais tarde, a quest\u00e3o ficar\u00e1 completamente esclarecida com a publica\u00e7\u00e3o do Manifesto por uma Arte Revolucion\u00e1ria Independente, feita em 25 de julho de 1938, e firmada por Breton e Leon Trotsky, no M\u00e9xico.\n\nOs anos que se seguem s\u00e3o marcados por uma grande efervesc\u00eancia internacional do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0(com atividades m\u00faltiplas, al\u00e9m de Paris, em Barcelona, M\u00e1laga, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, Lima e a revista Que em Buenos Aires; al\u00e9m de Praga, Bucareste, T\u00f3quio, Cuba etc.).\n\nEm 2 de fevereiro de 1937, Breton publica \u0093L\u0082Amour Fou\u0094 (O Amor Louco).\n\n1937 tamb\u00e9m \u00e9 o ano de exposi\u00e7\u00f5es em T\u00f3quio, Londres, Santiago (logo seguidas das duas grandes mostras internacionais em Paris e Amsterd\u00e3, em 1938).\n\nNote-se que as exposi\u00e7\u00f5es do movimento nunca foram montadas nos moldes tradicionais (s\u00f3 artes pl\u00e1sticas), visto inclu\u00edrem poesias,textos, fotos, proje\u00e7\u00f5es, objetos e, via de regra, serem montadas numa instala\u00e7\u00e3o in\u00e9dita para cada evento.\n\nOs anos de 1939 a 45 (Segunda Guerra Mundial) s\u00e3o marcados pelo ex\u00edlio de boa parte dos surrealistas. Embora as atividades grupais continuem em Bruxelas e mesmo Paris, iniciam-se as ativa\u00e7\u00f5es no Chile, M\u00e9xico e em todo o Caribe; em Nova York, Qu\u00e9bec, Londres, Bucareste, Praga, Rio de Janeiro e Buenos Aires s\u00e3o reativadas.\n\n<strong>Exposi\u00e7\u00f5es internacionais no M\u00e9xico e em NovaYork, revistas etc. Andr\u00e9 Breton fala aos estudantes na Yale University \u0097 Situation du Surr\u00e9alisme entre les Deux Guerres (Situa\u00e7\u00e3o doSurrealismo entre as Duas Guerras)\u0097 e publica:<\/strong>\u00a0Fata Morgana, Pleine Marge, Arcano 17. Reedita Le Surr\u00e9alisme et la Peinture (O Surrealismo e a Pintura), seguido de Gen\u00e8se et Perspective Artistiques du Surr\u00e9alisme et Fragments In\u00e9dits (G\u00eanese e Perspectiva Art\u00edsticas do Surrealismo e Fragmentos In\u00e9ditos); al\u00e9m da Anthologie de l\u00b4Humour Noir (Antologia do Humor Negro), em 1940, cuja edi\u00e7\u00e3o fora interditada pela censura do governo de Vichy. De volta da Am\u00e9rica, no fim de 1946, Breton trar\u00e1 os textos de Ode a Charles Fourier (1947), Martinique Charmeuse des Serpents\u0094 (Martinica Encantadora deSerpentes) e Po\u00e8mes (Poemas) s\u00f3 foram editados em 1948.\n\nEm Paris, Breton participa ativamente da campanha para angariar recursos e condi\u00e7\u00f5es com vistas \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de Artaud do asilo de Rodez \u0097 realiza-se um ato p\u00fablico em 14 dejaneiro de 1947, com leitura de uma homenagem a Artaud, feitapor todos os colaboradores desta causa (lida em p\u00fablico porBreton) e uma sess\u00e3o especial com o pr\u00f3prio Artaud. Data tamb\u00e9m de toda uma s\u00e9rie de publica\u00e7\u00f5es, a partir de Artaud le M\u00f4mo, como Van Gogh, o Suicidado da Sociedade, La Culture Indienne (A Cultura Indiana), exposi\u00e7\u00e3o de retratos e desenhos de seu per\u00edodo recluso etc.\n\nEm 4 de mar\u00e7o de 1948, Artaud \u00e9 encontrado morto, sentado aolado de sua cama. Em 17 de mar\u00e7o de 1947, ao assistir uma palestra de Tristan Tzara, na Sorbone, na qual Tzara faz cr\u00edticas a algumas posturas do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, Breton inconformado na plat\u00e9ia, n\u00e3o aceita ouvir as, segundo ele, \u0093mentiras de Tzara\u0094 e parte para as vias de fato. Por causa dessa briga e de seu n\u00e3o apoio a Artaud, quando este estava internado num asilo, Tzara passou o resto de sua vida num relativo ostracismo, \u00e0 margem de qualquer v\u00ednculo com o movimento.\n\nTristan Tzara morreu, em Paris, no ano de 1963.\n\nEm 1961, Andr\u00e9 Breton voltar\u00e1 a dirigir uma revista do grupo, \u0093La Br\u00e8che\u0094, na qual prop\u00f5e num de seus editoriais \u0097 Perspective Cavali\u00e8re \u0097 a necessidade de se passar a dimensionar o movimento surrealista a partir da sua presente atualidade e n\u00e3o mais em fun\u00e7\u00e3o da primeira revista, La R\u00e9volution Surr\u00e9aliste.\n\n<strong>Em 1961, Breton publicou sua \u00faltima colet\u00e2nea de poesias:<\/strong>\u00a0Le la. Ele ainda participou de mais tr\u00eas mostras internacionais, de 1961 a 1966.\n\nReeditou os Manifestes du Surr\u00e9alisme(1962), \u0093Nadja\u0094 (1963), Le Surr\u00e9alisme et la Peinture (1965)e a Anthologie de l\u0082Humour Noir (1966).\n\nEm 28 de setembro de 1966, Andr\u00e9 Breton morre no hospital Lariboisi\u00e8re, Paris.\n\n<strong>Surrealismo no Brasil<\/strong>\n\nAqui no Brasil, quando os dada\u00edstas e surrealistas, \u00e0 luz da \u0093descoberta\u0094 do inconsciente e das teorias freudianas, come\u00e7am a decretar o primado das formas livres, da inconsci\u00eancia se sobrepondo aos apelos da raz\u00e3o e do cotidiano, Durval Marcondes, por sua vez, iniciava sua descoberta de Freud. Marcondes fez parte do movimento modernista brasileiro, chegando a publicar um poema na revista Klaxon, em agosto de1922 \u0097quase seis meses depois da Semana de Arte Moderna.\n\nQuando Durval Marcondes e Franco da Rocha fundaram a Sociedade Brasileira de Psican\u00e1lise, em 1927, v\u00e1rios escritores, como Menotti del Picchia, estavam inscritos entre os 24 primeiros membros, tamanha era a liga\u00e7\u00e3o entre os artistas e a pscan\u00e1lise.\n\nEm 1954, surge, em Paris, o movimento outsider Phases. O grupo n\u00e3o definia qualquer est\u00e9tica e propunha, grosso modo, apenas a liberdade para a manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente. Anos mais tarde, mais precisamente em 1967, Walter Zanini, o primeiro diretor do Museu de Arte Contempor\u00e2nea da USP, organizou o Grupo Austral de pintura, o qual era umrepresentante do Phases no Brasil.\n\n<strong>Surrealismo hoje<\/strong>\n\nEm 1996, quando o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0completava 100 anos de exist\u00eancia, foram feitas uma exposi\u00e7\u00e3o em Nova York, uma s\u00e9rie de lan\u00e7amentos liter\u00e1rios na Europa e, ainda, uma montagem surrealista, em palcos brasileiros. O museu Guggenheim, em Nova York, recebeu obras da artista Meret Oppenheim.\n\nNa Europa, houve uma enxurrada de biografias e ensaios sobre o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, enquanto em S\u00e3o Paulo o diretor Jos\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa estr\u00e9iou, no dia 25 de setembro, a pe\u00e7a Para Acabar com o Ju\u00edzo de Deus, do dramaturgo franc\u00eas Antonin Artaud.\n\n1996 foi, para o mundo, o ano do centen\u00e1rio do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>. Agora, em 2004, o Instituto Tomie Ohtake faz uma interessante mostra \u0093Sonhando de Olhos Abertos \u0096 O Dada\u00edsmo e o Surrealismo na Cole\u00e7\u00e3o de Vera e Arturo Schwarz\u0094, abrigadas no Museu de Israel, em Jerusal\u00e9m. <strong>Renato Roschel<\/strong>\n<h4><strong>Surrealismo &#8211; <\/strong>Corrente Art\u00edstica<\/h4>\nO\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0foi por excel\u00eancia a corrente art\u00edstica moderna da representa\u00e7\u00e3o do irracional e do subconsciente. Suas origens devem ser buscadas no dada\u00edsmo e na pintura metaf\u00edsica de Giorgio De Chirico.\n\n<strong>Este movimento, a exemplo de seus predecessores, pregou a transgress\u00e3o dos valores morais e sociais, a nulidade das academias e a dessacraliza\u00e7\u00e3o do artista, com uma ressalva:<\/strong>\u00a0ao nihilismo fundamentalista do dada\u00edsmo op\u00f4s uma atitude esperan\u00e7osa e comprometida com seu tempo.\n\nA publica\u00e7\u00e3o do Manifesto do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>, assinado por Andr\u00e9 Breton em outubro de 1924, marcou historicamente o nascimento do movimento. Nele se propunha a restaura\u00e7\u00e3o dos sentimentos humanos e do instinto como ponto de partida para uma nova linguagem art\u00edstica. Para isso era preciso que o homem tivesse uma vis\u00e3o totalmente introspectiva de si mesmo e encontrasse esse ponto do esp\u00edrito no qual a realidade interna e externa s\u00e3o percebidas totalmente isentas de contradi\u00e7\u00f5es.\n\nA livre associa\u00e7\u00e3o e a an\u00e1lise dos sonhos, ambos m\u00e9todos da psican\u00e1lise freudiana, transformaram-se nos procedimentos b\u00e1sicos do<strong>surrealismo<\/strong>, embora aplicados a seu modo.\n\n<strong>Por meio do automatismo, ou seja, qualquer forma de express\u00e3o em que a mente n\u00e3o exercesse nenhum tipo de controle, os surrealistas tentavam plasmar, seja por meio de formas abstratas ou figurativas simb\u00f3licas, as imagens da realidade mais profunda do ser humano:<\/strong>\u00a0o subconsciente.\n\n<strong>Dentro do surrealismo devem-se destacar tr\u00eas per\u00edodos importantes e bem diferenciados entre si:<\/strong>\u00a0o per\u00edodo dos sonhos (1924), representado pelas obras de natureza simb\u00f3lica, obtidas atrav\u00e9s de diferentes procedimentos de automatismo, de um certo figurativismo; o per\u00edodo do compromisso pol\u00edtico (1928), expresso na filia\u00e7\u00e3o de seus l\u00edderes ao comunismo; e uma terceira fase (1930), de difus\u00e3o, que se empenhou na forma\u00e7\u00e3o de grupos surrealistas em toda a Europa, tendo conseguido a ades\u00e3o de grupos americanos.\n<h4>Pintura<\/h4>\nEm um dos n\u00fameros da revista A Revolu\u00e7\u00e3o Surrealista, que Andr\u00e9 Breton editava, ele n\u00e3o s\u00f3 aceitava a teoria freudiana do automatismo verbal (livre associa\u00e7\u00e3o de palavras), como tamb\u00e9m admitia a possibilidade do automatismo gr\u00e1fico (livre associa\u00e7\u00e3o de imagens), dois processos que, na opini\u00e3o dele, est\u00e3o estreitamente relacionados.\n\n<strong>O poeta citava concretamente dois artistas:<\/strong>\u00a0Pablo Picasso e Max Ernst. Pela primeira vez se aprovava a exist\u00eancia de uma pintura surrealista.\n\n<strong>Segundo Breton, h\u00e1 dois m\u00e9todos propriamente surrealistas:<\/strong>\u00a0o automatismo r\u00edtmico (pelo qual se pintava seguindo o impulso gr\u00e1fico) e o automatismo simb\u00f3lico (a fixa\u00e7\u00e3o das imagens on\u00edricas ou subconscientes de maneira natural).\n\n<strong>De acordo com isso, surgiram grupos diferentes de pintores:<\/strong>\u00a0Mir\u00f3, Hans Arp e Andr\u00e9 Masson, por exemplo, representaram o<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0org\u00e2nico ou automatista, enquanto Dal\u00ed, Magritte, Chagall e Marx Ernst, entre outros, desenvolveram o surrealismo simb\u00f3lico.\n\nOs surrealistas n\u00e3o representaram subjetivamente a realidade, pelo contr\u00e1rio, tentaram objetivar seu mundo interno, como demonstram suas obras. Na Am\u00e9rica Latina, esse tipo de representa\u00e7\u00e3o encontrou eco principalmente entre pintores do porte de Frida Kahlo e Wilfredo Lam, entre outros. Sua pintura estava impregnada desse aspecto tel\u00farico e quase ing\u00eanuo que tanto interesse despertara nos surrealistas europeus, apesar de n\u00e3o lhe faltar caracter\u00edsticas expressionistas.\n<h4>Escultura<\/h4>\nNo\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, melhor do que falar em escultura, deve-se falar em objetos retirados do seu contexto &#8211; algo muito parecido com o que o franc\u00eas Marcel Duchamp, na ocasi\u00e3o tamb\u00e9m membro do movimento, havia iniciado com seus ready mades. Os surrealistas se dedicaram conscientemente a reunir os objetos mais dispares, privados de sua funcionalidade, para expressar as necessidades mais \u00edntimas do homem.\n\n<strong>No come\u00e7o, chegaram inclusive a falar de dois tipos de objetos:<\/strong>\u00a0os naturais (vegetais, animais e minerais) e os de uso cotidiano.\n\nExemplo claro do culto ao objeto, iniciado por este movimento, foi a Exposi\u00e7\u00e3o de Objetos Surrealistas de 1936. Nela se representaram as mais extravagantes combina\u00e7\u00f5es, produto das associa\u00e7\u00f5es inconscientes de seus autores. Alguns podiam ser interpretados quase automaticamente pelo p\u00fablico, de t\u00e3o simples que eram em sua composi\u00e7\u00e3o, enquanto outros se mantinham dentro de um hermetismo simb\u00f3lico po\u00e9tico, no melhor estilo das esculturas dada\u00edstas.\n\nNo entanto, deve-se destacar que os objetos surrealistas, no limite entre a ironia e a pervers\u00e3o, tentavam abrir a imagina\u00e7\u00e3o do espectador para a multiplicidade de rela\u00e7\u00f5es existentes entre as coisas, para a associa\u00e7\u00e3o livre de condicionamentos. Prova disso foram o engenhoso Telefone-lagosta, de Dal\u00ed, ou as combina\u00e7\u00f5es de objetos de Mir\u00f3.\n\n<strong>Referindo-se \u00e0 escultura surrealista, Andr\u00e9 Breton, precursor do movimento, disse:\u00a0<\/strong>&#8220;n\u00e3o encontramos mais do que aquilo de que precisamos profundamente&#8221;.\n<h4>Cinema e Fotografia<\/h4>\nO cinema e a fotografia surrealista assimilaram, logicamente, os par\u00e2metros da pintura e da escultura desta corrente. Os diretores de cinema procuraram o exorcismo do subconsciente por meio de imagens totalmente simb\u00f3licas ou no limite do absurdo. N\u00e3o faltaram nessas disciplinas a cr\u00edtica \u00e0s conven\u00e7\u00f5es morais, religiosas e pol\u00edticas, mas sempre sob a forma de herm\u00e9ticas met\u00e1foras visuais, alienadas e provocantes, que tinham pouco em comum com o cinema e a fotografia tradicionais.\n\n<strong>S\u00e3o dois os grandes representantes do cinema surrealista:\u00a0<\/strong>o espanhol Luis Bu\u00f1uel e o franc\u00eas Jean Cocteau. Da filmografia do primeiro \u00e9 preciso destacar-se os filmes O C\u00e3o Andaluz e A Idade Dourada. Em ambas as obras, uma esp\u00e9cie de exerc\u00edcio de filmagem, o cineasta n\u00e3o poupa imagina\u00e7\u00e3o para criar mundos completamente fant\u00e1sticos. Com base em cenas de apar\u00eancia on\u00edrica, paradoxalmente subversivas e ao mesmo tempo po\u00e9ticas, conta hist\u00f3rias inveross\u00edmeis e audazes. Na primeira, trabalhou em colabora\u00e7\u00e3o com Salvador Dal\u00ed.\n\nA obra de Cocteau se manteve dentro da linguagem simb\u00f3lica dos sonhos com imagens absurdas, produto de fotomontagem. Seus filmes mais conhecidos s\u00e3o Sangue de um Poeta e A Bela e a Fera. O fot\u00f3grafo por excel\u00eancia do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0foi o norte-americano Man Ray. Depois de militar nas fileiras do dada\u00edsmo, ele n\u00e3o hesitou em passar para o grupo de amigos de Breton, interessado no que o inconsciente e o automatismo podiam dar \u00e0 fotografia.\n<h4>Surrealismo &#8211; In\u00edcio<\/h4>\nNo in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920, a vanguarda dada\u00edsta tinha se esgotado num niilismo inoperante. Sob a lideran\u00e7a de Andr\u00e9 Breton, ex-integrante do movimento Dad\u00e1, um grupo de poetas e artistas pl\u00e1sticos entre os quais Benjamin P\u00e9ret, Paul Elouard, Francis Picabia e Max Ernest, passou a buscar novas formas de express\u00e3o art\u00edstica. Em 1924, o pr\u00f3prio Breton lan\u00e7ou o Manifesto do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>.\n\nEm seguida, fundou a revista A revolu\u00e7\u00e3o surrealista que seria editada at\u00e9 1929. Ao grupo inicial se juntariam, nos anos posteriores, poetas como Garc\u00eda Lorca, pintores como Salvador Dali e Ren\u00e9 Magritte e o cineasta espanhol Lu\u00eds Bu\u00f1uel, cujo filme, Um c\u00e3o andaluz, tornou-se um dos \u00edcones do movimento.\n\n<strong>Em s\u00edntese, os surrealistas defendiam os seguintes princ\u00edpios:<\/strong>\n<blockquote>Automatismo ps\u00edquico, \u0093mediante o qual se pretende expressar, seja verbalmente ou de outra maneira, o funcionamento real do pensamento.\u0094(Andr\u00e9 Breton). O resultado \u00e9 a escrita autom\u00e1tica, em que a \u0093aus\u00eancia da fiscaliza\u00e7\u00e3o exercida pela raz\u00e3o, pela moral e pela est\u00e9tica\u0094 permite ao artista uma libera\u00e7\u00e3o total do seu esp\u00edrito criador.\n\nValoriza\u00e7\u00e3o das formas il\u00f3gicas e n\u00e3o-racionais do conhecimento. \u0093Deixai o inconsciente falar\u0094 \u0096 dizem os surrealistas, celebrando n\u00e3o apenas os fluxos de id\u00e9ias e imagens vindas das camadas n\u00e3o-policiadas da mente, mas tamb\u00e9m o sonho, a imagina\u00e7\u00e3o, a associa\u00e7\u00e3o livre, a hipnose, os estados de transe e a loucura. As descobertas de Freud sobre o inconsciente levam os integrantes do movimento a se aproximar da psican\u00e1lise.\n\nEstabelecimento de uma arte \u0093m\u00e1gica\u0094, ins\u00f3lita, que surpreenda continuamente; cria\u00e7\u00e3o de atmosferas de irrealidade e de del\u00edrio; jun\u00e7\u00e3o inesperada de objetos incongruentes; elabora\u00e7\u00e3o de imagens extravagantes, etc. Certos quadros de Salvador Dal\u00ed, Ren\u00e9e Magritte e Max Ernest, por exemplo, at\u00e9 hoje causam impacto pelo inusitado de sua express\u00e3o.\n\nAproxima\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica surrealista com a pol\u00edtica. H\u00e1 uma identifica\u00e7\u00e3o coletiva do grupo com as id\u00e9ias comunistas. Revolu\u00e7\u00e3o e arte se conjugam. <strong>A f\u00f3rmula desta combina\u00e7\u00e3o \u00e9 traduzida assim por Breton<\/strong>: \u0093Mudar a vida, dizia Rimbaud; transformar o mundo, dizia Marx; para n\u00f3s, esses dois lemas formam um s\u00f3.\u0094\n\nNa d\u00e9cada de 1930, a exemplo das demais vanguardas, o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0decresceu em import\u00e2ncia. Mesmo assim, seu legado espalhou-se pelo Ocidente e \u00e9 raro o poeta ou o pintor \u0096 surgido naquele per\u00edodo \u0096 que n\u00e3o tenha realizado alguma experi\u00eancia sob o influxo das id\u00e9ias est\u00e9tico-ideol\u00f3gicas dos surrealistas.<\/blockquote>\n<h4><strong>Surrealismo &#8211; M<\/strong>ovimento Liter\u00e1rio e Art\u00edstico<\/h4>\nO <strong>Surrealismo <\/strong>foi um movimento liter\u00e1rio e art\u00edstico do s\u00e9culo XX que tenta expressar o funcionamento do subconsciente por imagens fant\u00e1sticas e justaposi\u00e7\u00e3o incongruente de temas.\n\nO\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>, movimento das artes visuais e da literatura, floresceu na Europa entre a I e a II Guerra Mundial.\n\nCresceu principalmente a partir do movimento Dada, que mais cedo, antes da Primeira Guerra Mundial, produziu trabalhos de anti-arte que deliberadamente desafiavam a raz\u00e3o; mas a \u00eanfase do Surrealismo n\u00e3o estava na nega\u00e7\u00e3o mas sim na express\u00e3o positiva.\n\nO movimento representou uma rea\u00e7\u00e3o contra o que seus criadores viram como a destrui\u00e7\u00e3o da arte forjada pelo pol\u00edtica europ\u00e9ia no passado, culminando nos horrores de &#8220;racionalismo&#8221; que tinha guiado a cultura e a Primeira Guerra Mundial.\n\nDe acordo com o porta-voz principal do movimento, o poeta e cr\u00edtico Andr\u00e9 Breton, que publicou o Manifesto Surrealista em 1924, o<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0\u00e9 um meio de reunir reinos conscientes e inconscientes de experi\u00eancias, t\u00e3o completamente que um mundo de sonho e fantasia seria juntado ao mundo racional cotidiano em &#8220;uma realidade absoluta, um surrealismo&#8221;.\n\nUtilizando teorias pesadamente adaptadas de Sigmund Freud, Breton viu o inconsciente como a origem da imagina\u00e7\u00e3o. Ele definiu o g\u00eanio como algu\u00e9m que, normalmente, extrai deste reino sua inspira\u00e7\u00e3o, o que, como acreditou, poderia ser conseguido por poetas e pintores especiais.\n\nOs principais pintores surrealistas foram Jean Arp, Max Ernst, Andr\u00e9 Masson, Ren\u00e9 Magritte, Yves Tanguy, Salvador Dal\u00ed, Pierre Roy, Paul Delvaux, e Joan Mir\u00f3. Com sua \u00eanfase em conte\u00fado e formas gratuitas e imagin\u00e1rias, o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0foi uma das alternativas principais para a arte contempor\u00e2nea, se contrapondo ao movimento Cubista, altamente formalista e largamente respons\u00e1vel pela perpetua\u00e7\u00e3o, na pintura moderna, da \u00eanfase em conte\u00fados tradicionais.\n\nEm 1917, Apollinaire criou a express\u00e3o &#8220;<strong>Surrealismo<\/strong>&#8221; (a palavra teria sido sugerida por Chagall ou, de acordo com outras fontes, atrav\u00e9s de P. Albert-Birot).\n\nJunto de processos de cria\u00e7\u00e3o e express\u00e3o que usam todas as for\u00e7as ps\u00edquicas (disposi\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas, sonhos, inconsciente&#8230;) livres do controle da raz\u00e3o e em luta contra os valores recebidos; concebido como movimento intelectual revolucion\u00e1rio que afirma a superioridade destes processos, se desenvolveu especialmente na literatura e nas artes pl\u00e1sticas, na pintura, no cinema&#8230; seguindo o movimento Dada.\n<h4><strong>Surrealismo &#8211; M<\/strong>anifesto<\/h4>\nA est\u00e9tica do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0est\u00e1 condensada no manifesto escrito e publicado em Paris, em 1924, pelo poeta e escritor franc\u00eas Andr\u00e9 Breton (1896), estudante de neurologia e adepto de Freud. Escreveu que o surrealismo \u00e9 &#8220;automatismo ps\u00edquico puro, por meio do qual se prop\u00f5e expressar, seja verbalmente, seja por escrito, seja por qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento com aus\u00eancia de toda fiscaliza\u00e7\u00e3o exercida pela raz\u00e3o, alheio a toda a preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica ou moral&#8221;.\n\nEm linhas gerais todos n\u00f3s conhecemos as reveladoras contribui\u00e7\u00f5es de Freud ao melhor conhecimento de nossa vida ps\u00edquica, com as suas aplica\u00e7\u00f5es no tratamento das neuroses.\n\nA nossa alma ou a nossa vida ps\u00edquica se divide, como sabemos, em tr\u00eas zonas &#8211; o inconsciente, o subconsciente e o consciente. No inconsciente, est\u00e3o os nossos impulsos primitivos, verdadeiramente instintivos, que n\u00e3o conhecemos justamente por serem inconscientes. Quando esses impulsos primitivos emergem das profundidades desconhecidas do inconsciente e tentam chegar ao consciente, para se transformarem em atos e palavras, tem de atravessas o subconsciente, que os fiscaliza, recalca ou sublima. Disfar\u00e7a-os, por assim dizer. Desse modo, quando chegam ao consciente, refletem n\u00e3o a nossa personalidade inconsciente, mas a nossa personalidade consciente, modelada e aperfei\u00e7oada pela educa\u00e7\u00e3o e cultura.\n\nAlgumas vezes, por\u00e9m, as manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente burlam a vigil\u00e2ncia e chegam disfar\u00e7adas ao consciente. Isso ocorre, geralmente, quando dorminos.\n\nNosso sonhos, por isso mesmo, s\u00e3o quase sempre disparatados, absurdos, fantasiosos e simb\u00f3licos. Ocorre tamb\u00e9m quando estamos acordados, gra\u00e7as ao processo que os psicanalistas chamam de automatismo ps\u00edquico e b\u00e1sico para os dada\u00edstas e surrealistas &#8211; coisas que fazemos ou dizemos, aparentemente inexplic\u00e1veis, porque independentes da nossa vontade ou contr\u00e1rias \u00e0 l\u00f3gica.\n\nFascinados pelas id\u00e9ias e m\u00e9todos de Freud, os surrealistas recusam, como fontes de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, as manifesta\u00e7\u00f5es racionais e l\u00f3gicas do consciente.\n\nAceitam somente as manifesta\u00e7\u00f5es do subconsciente, absurdas e il\u00f3gicas, como acabamos de ver, principalmente nos sonhos, nos automatismos ps\u00edquicos, nos estados alucinat\u00f3rios, que consideram fontes art\u00edsticas mais aut\u00eanticas do que a natureza e a realidade.\n\n<strong>Dizia Andr\u00e9 Breton:<\/strong>\u00a0&#8220;No meu modo de entender, nada existe de inadmiss\u00edvel.&#8221; Passa-se ent\u00e3o a considerar o irreal t\u00e3o verdadeiro como o real e o irracional, o fant\u00e1stico e o maravilhoso como a \u00fanica linguagem art\u00edstica universal entre os homens.\n<h4>Recursos dos Surrealistas<\/h4>\nNa pintura, al\u00e9m do registro e representa\u00e7\u00e3o, com inteira liberdade, sem qualquer fiscaliza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o, do fluir incessante de id\u00e9ias e imagens em nosso esp\u00edrito, os pintores surrealistas valeram-se ainda de outros recursos &#8211; o humor, paisagens de sonho e excesso de realismo, quase fotogr\u00e1fico.\n\nO humor, dizem os surrealistas &#8211; \u00e9 a m\u00e1scara dos nosso desesperos.\n\n<strong>Exemplos:\u00a0<\/strong>quatro cirurgi\u00f5es curvados gravemente sobre uma mesa de opera\u00e7\u00f5es onde est\u00e1 um guarda-chuva fechado, ou confort\u00e1vel poltrona, em pleno deserto do Saara. As paisagens de sonho s\u00e3o paisagens fantasmag\u00f3ricas, irreais, inexistentes na natureza. O excesso do realismo, chegando ao mais cru verismo fotogr\u00e1fico na representa\u00e7\u00e3o dos objetos, concorre para maior irrealidade.\n\n<strong>Restri\u00e7\u00f5es \u00e0 Pintura Surrealista<\/strong>\n\nDuas restri\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas \u00e1 pintura surrealista.\n<blockquote><strong>A primeira pelos psicanalistas:<\/strong>\u00a0as manifesta\u00e7\u00f5es do subconsciente realmente s\u00e3o ricas de beleza, mas extremamente pessoais e simb\u00f3licas. Precisam ser interpretadas no seu simbolismo, como os analistas fazem com os sonhos dos seus pacientes estendidos no sof\u00e1 dos consult\u00f3rios. Apesar de desconhecida a significa\u00e7\u00e3o de seus s\u00edmbolos, a verdade \u00e9 que pintura surrealista exerce irresist\u00edvel fasc\u00ednio em nosso esp\u00edrito.\n\n<strong>A segunda restri\u00e7\u00e3o, feita por alguns pintores, \u00e9 a seguinte:<\/strong>\u00a0a concep\u00e7\u00e3o do quadro pode ser subconsciente, autom\u00e1tica, mas a sua execu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre obra do consciente, com a aplica\u00e7\u00e3o de recursos racionais e l\u00f3gicos ou em sentido de absoluta consci\u00eancia.<\/blockquote>\nO franc\u00eas Andr\u00e9 Masson (1896) procurou sanar essa contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre a concep\u00e7\u00e3o subconsciente e a execu\u00e7\u00e3o consciente com os seus tableaux de sable (quadros de areia). Sobre uma tela coberta de cola fresca, atirou desordenadamente, num verdadeiro automatismo, punhados de areia de cores diferentes.\n\nTentava obter, desse modo, automatismo tamb\u00e9m na execu\u00e7\u00e3o. Os resultados n\u00e3o o satisfazem, abandonou, por isso, a pintura surrealista.\n\nO espanhol Salvador Dali, um dos surrealistas mais populares, criou a paran\u00f3ia cr\u00edtica &#8211; del\u00edrio na interpreta\u00e7\u00e3o do mundo e do pr\u00f3prio eu. O paran\u00f3ico cr\u00edtico vive num mundo estranho, n\u00e3o se submetendo \u00e0 l\u00f3gica do cotidiano. &#8220;\u00c9 preciso sistematizar a confus\u00e3o e contribuir para o total descr\u00e9dito da realidade&#8221;, disse Dali.\n\n<strong>O pintor surrealista pode representar as manifesta\u00e7\u00f5es de seu subconsciente de dois modos:<\/strong>\u00a0figurativo ou abstrato. Em consequ\u00eancia existem surrealistas figurativos (Salvador Dali) e surrealistas abstratos (Juan Mir\u00f3). Entre os mais destacados surrealista figurativos est\u00e3o Salvador Dali (1904), Ren\u00e9 Magritte (1898), Paul Delvaux (1897) e Marc Chagall (1887). Entre os surrealistas abstratos, ainda que em algumas obras sejam figurativos, Juan Mir\u00f3 (1893), Yves Tanguy (1900), Max Ernest (1891), Francis Picabia (1879) e Hans Arp (1887).\n\nNo passado, entre remotos precursores do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, os estudiosos citam Hyeronimus Bosch (1450\/60 &#8211; 1516) e Giuseppe Arcimboldo (1530 &#8211; 1596).\n<h4>Surrealismo &#8211; Caracter\u00edsticas<\/h4>\nO\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0surgiu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando as descobertas de Freud sobre a mente humana e as incertezas pol\u00edticas eclodiam na Europa.\n\nO Manifesto Surrealista, publicado em 1924 por Andr\u00e9 Breton, propunha aos artistas em geral que expressassem livremente o pensamento em sua forma espont\u00e2nea e irracional.\n\nEsse foi um movimento que interferiu de maneira fantasiosa na realidade e buscou representar o subconsciente na forma de obras de arte.\n\nRevolucion\u00e1rio, o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0trouxe novos meios e fontes de inspira\u00e7\u00e3o art\u00edstica como a Frottage, a Colagem, Assemblage, Foto-montagem e Pintura Autom\u00e1tica.\n\nAs caracter\u00edsticas principais das produ\u00e7\u00f5es desse movimento s\u00e3o a busca da perfei\u00e7\u00e3o do desenho e das cores dentro da dimens\u00e3o do imagin\u00e1rio, a impress\u00e3o espacial baseada em ilus\u00f5es \u00f3ticas e a separa\u00e7\u00e3o entre imagens e legendas trabalhadas na constru\u00e7\u00e3o de cenas de sonho ou de ironia.\n\nOs surrealistas exaltavam a livre associa\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias, de imagens e de todas as manifesta\u00e7\u00f5es de atividade mental, dando vaz\u00e3o aos impulsos do eu interior sem exercer sobre eles qualquer controle e sem levar em considera\u00e7\u00e3o qualquer ordem moral ou est\u00e9tica.\n\nTemas como o acaso, a loucura, os sonhos, as alucina\u00e7\u00f5es, o del\u00edrio e o humor eram predominantes nas obras surrealistas\n<h4>Surrealismo &#8211; Origem<\/h4>\nO aparecimento do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0n\u00e3o pode dissociar-se da mudan\u00e7a de estruturas econ\u00f4micas e sociais, decorrentes sobretudo da 1\u00aa Grande Guerra e da \u0093Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro\u0094, em 1917, na U.R.S.S., nem do agravamento de uma crise da valores que inclui o questionamento do pensamento discursivo e racional.\n\nEste movimento desejou revolucionar a vida atrav\u00e9s da arte, aceitando e alimentando as manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente, da loucura, do desregramento dos sentidos, da anula\u00e7\u00e3o de fronteiras entre o sonho e a realidade.\n\nAbordar o aparecimento e evolu\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0em Portugal implica, necessariamente, uma primeira refer\u00eancia ao movimento surrealista em Fran\u00e7a e o imediato registo da \u0093d\u00e9calage\u0094 cronol\u00f3gica entre as manifesta\u00e7\u00f5es surrealistas em cada um dos pa\u00edses.\n\nAlguns autores consideram que o seu aparecimento coincide, em linhas gerais, com o fim da primeira guerra mundial, e o desaparecimento com o desencadear da segunda. No entanto, o movimento n\u00e3o se pode delimitar entre as duas guerras, ainda que o ambiente posterior seja radicalmente diferente do de antes da guerra.\n\nPara al\u00e9m da est\u00e9tica e pr\u00e1ticas surrealistas continuarem a estar na origem de v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, o grupo de artistas que se re\u00fane \u00e0 volta de Louis Aragon (depois do seu regresso do ex\u00edlio, nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, em 1947) s\u00f3 caminha para a dissolu\u00e7\u00e3o com a morte deste, em 1966, e s\u00f3 em 1969 assume a sua auto-dissolu\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do artigo \u0093le Quatri\u00e8me Chant\u0094, publicado no jornal Le Monde, a 4 de Outubro, e assinado por Jean Schuster.\n\n<strong>Num breve percurso pela hist\u00f3ria do surrealismo em Fran\u00e7a, refira-se primeiro o movimento dada, fundado em 1916 por Tristan Tzara, que p\u00f4s em pr\u00e1tica, a partir de 1919, uma das t\u00e9cnicas mais usadas, posteriormente, pelos surrealistas:<\/strong>\u00a0a escrita autom\u00e1tica. Tristan Tzara, nascido na Rom\u00e9nia, vai para Paris precisamente em 1919, onde \u00e9 acolhido pelo grupo da revista Litt\u00e9rature, fundada nesse ano por Andr\u00e9 Breton, Louis Aragon e Philippe Soupault. Tamb\u00e9m Breton experimenta a escrita autom\u00e1tica a partir de 1919, e escreve, com Philippe Soupault, Les Champs magn\u00e9tiques.\n\nEm 1922, Tristan Tzara rompe com Andr\u00e9 Breton e em 1924 surge \u0093oficialmente\u0094 o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>, com o Manifeste du surr\u00e9alisme, deste \u00faltimo. O voc\u00e1bulo fora usado pela primeira vez por Guillaume Apollinaire, em 1918, ao qualificar o seu drama \u0093les Mamelles de Tir\u00e9sias\u0094.\n\n<strong>A defini\u00e7\u00e3o apresentada no Manifesto \u00e9 a seguinte:\u00a0<\/strong>\u0093Automatismo ps\u00edquico pelo qual se pretende exprimir, verbalmente ou por escrito, ou de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento.\n\nDitado do pensamento, na aus\u00eancia de qualquer vigil\u00e2ncia exercida pela raz\u00e3o, para al\u00e9m de qualquer preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica ou moral\u0094 (Breton, Manifestos do Surrealismo, Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es Salamandra, 1993,p.34). No entanto, os modos de express\u00e3o do surrealismo n\u00e3o se reduzir\u00e3o ao procedimento da escrita autom\u00e1tica. Apresentar-se-\u00e1 como um movimento revolucion\u00e1rio, n\u00e3o reservado apenas \u00e0 literatura mas ser\u00e1 sobretudo a poesia o instrumento de Conhecimento tendo em vista a emancipa\u00e7\u00e3o do homem.\n\n<strong>Em 1929 surgir\u00e1 o Second Manifeste du Surr\u00e9alisme, tamb\u00e9m de Breton. Entretanto, v\u00e1rias diverg\u00eancias surgiram no grupo:<\/strong>\u00a0em 1926, Aragon, Breton, Eluard, P\u00e9ret e Pierre Unik excluiram Antonin Artaud e Philippe Soupault, por incompatibilidade de objetivos. Breton, juntamente com Eluard e Aragon aderiram ao Partido comunista, em 1927; mas em 1933 Breton e Eluard ser\u00e3o exclu\u00eddos do Partido e depois da \u0093Association des \u00e9crivains et artistes r\u00e9volutionnaires\u0094. Conflitos ideol\u00f3gicos afastar\u00e3o alguns surrealistas do partido comunista.\n\n<strong>Numa tentativa de sistematiza\u00e7\u00e3o dos aspectos mais importantes da escrita surrealista, poderemos indicar:<\/strong>\n<blockquote>Atividade experimental na pr\u00e1tica do automatismo e na prospec\u00e7\u00e3o dos estados segundos, atrav\u00e9s da escrita autom\u00e1tica e do sono provocado ou hipn\u00f3tico.\nPreocupa\u00e7\u00e3o em explorar o inconsciente\nProspec\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos sonhos, das coincid\u00eancias, de fen\u00f3menos do acaso\nPsican\u00e1lise\nInqu\u00e9ritos acerca da sexualidade e do amor<strong>\nAtividade l\u00fadica &#8211;<\/strong>\u00a0sobretudo atrav\u00e9s de jogos, como o cad\u00e1ver exquisito\nEscrito e desenhado\nEsoterismo e magia\nHumor negro, cuja presen\u00e7a corrosiva \u00e9, por excel\u00eancia,, o princ\u00edpio de subvers\u00e3o da linguagem.<\/blockquote>\nN\u00e3o esque\u00e7amos, no entanto, que muitos destes aspectos n\u00e3o s\u00e3o exclusivos da literatura e que foram tamb\u00e9m explorados noutras manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, sobretudo na pintura e no cinema.\n\nO conhecimento do movimento surrealista em Portugal \u00e9 simult\u00e2neo com o seu aparecimento em Fran\u00e7a, j\u00e1 que, num livro sa\u00eddo em 1925, cujo pref\u00e1cio fora escrito em 1924, se refere, nesse mesmo pref\u00e1cio, o\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, como frisa Jorge de Sena, citado por Maria de F\u00e1tima Marinho, na sua obra O Surrealismo em Portugal (Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1987, p.14). Trata-se do livro Afonso Lopes Vieira (Prosa e Poesia), com organiza\u00e7\u00e3o e pref\u00e1cio de Agostinho de Campos (Paris-Lisboa, Liv. Aillaud e Bertrand, 1925). No entanto, s\u00f3 em 1942 surge a revista Variante, com dire\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Pedro e da qual sair\u00e3o apenas dois n\u00fameros. O n\u00ba2 \u00e9 \u0093votado ao \u0093Mau gosto e ironia\u0094 e pretende ser uma \u0093interven\u00e7\u00e3o contra o tabu do feio\u0094. Seguem-se outras publica\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas como O Globo (1943), Unic\u00f3rnio (1951), Anteu (1954) e Pir\u00e2mide (1959). Autores franceses ligados ao surrealismo s\u00e3o, ent\u00e3o, referidos e traduzidos nas revistas portuguesas.\n\nUma obra de Ant\u00f3nio Pedro, \u0093Apenas uma Narrativa\u0094, publicada em 1947, ser\u00e1 considerada o primeiro conjunto de textos surrealista-autom\u00e1ticos produzido em Portugal. Ant\u00f3nio Pedro, j\u00e1 em 1936, aderira ao grupo surrealista ingl\u00eas e publicara em Lisboa o \u0093Manifesto Resumo do Dimensionismo\u0094.\n\nEm 1944, um artigo de Jorge de Sena, no jornal O Globo, de 15 de Setembro (cit.in Marinho,1987:21), intitulado \u0093Poesia Sobrerealista\u0094, \u00e9 fundamental para a divulga\u00e7\u00e3o da \u0093nova est\u00e9tica\u0094. De salientar que os termos \u0093sobrerealista\u0094 e \u0093surrealista\u0094 alternam.\n\nAs pol\u00e9micas s\u00e3o constantes entre aqueles que come\u00e7am a interessar-se ou a afirmar-se como surrealistas. Esta situa\u00e7\u00e3o tem que ver n\u00e3o apenas com diverg\u00eancias intelectuais, filos\u00f3ficas ou est\u00e9ticas mas tamb\u00e9m com uma certa postura de gosto pelo esc\u00e2ndalo e que caracterizam tamb\u00e9m o fen\u00f3meno lisboeta.\n\nMaria de F\u00e1tima Marinho considera que em 1947 ainda n\u00e3o h\u00e1 verdadeiramente um grupo surrealista em Portugal (1987,p.28), no entanto, as pol\u00e9micas s\u00e3o j\u00e1 frequentes.\n\n<strong>\u00c9 neste ano que se iniciam as atividades do \u0093Cad\u00e1ver Esquisito\u0094, cuja defini\u00e7\u00e3o \u00e9 a seguinte:\u00a0<\/strong>\u0093Jogo de papel dobrado que consiste em fazer compor uma frase ou desenho por v\u00e1rias pessoas, sem que nenhuma delas possa aperceber-se da colabora\u00e7\u00e3o ou colabora\u00e7\u00f5es precedentes.\n\n<strong>O exemplo, tornado cl\u00e1ssico, que deu nome ao jogo, est\u00e1 contido na primeira frase obtida deste modo:\u00a0<\/strong>O cad\u00e1ver-esquisito-beber\u00e1-o-vinho-novo.\u0094 ( in Antologia do Cad\u00e1ver Esquisito, organiza\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Cesariny, Lisboa, Ass\u00edrio &amp; Alvim, 1989, p.95. Trata-se de uma tradu\u00e7\u00e3o retirada do Dictionnaire abr\u00e9g\u00e9 du surr\u00e9alisme, de Breton e \u00c9luard, de 1938).\n\nO cad\u00e1ver esquisito era, como vimos, uma das principais t\u00e9cnicas usadas pelos surrealistas franceses. O acaso, criando por vezes ins\u00f3litas aproxima\u00e7\u00f5es, leva a que esta t\u00e9cnica seja encarada n\u00e3o apenas como um divertimento mas como uma forma de enriquecimento de conhecimento do real.\n\nO\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0portugu\u00eas, \u00e0 parte algumas situa\u00e7\u00f5es particulares, seguir\u00e1 de muito perto as concep\u00e7\u00f5es e t\u00e9cnicas do movimento franc\u00eas, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o a Andr\u00e9 Breton. Surge, no entanto, uma necessidade de afirma\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia baseada na especificidade nacional (Marinho, 1987,p.30).\n\nNo final de 1947 forma-se o Grupo Surrealista de Lisboa, o qual n\u00e3o chega a afirmar-se de forma coesa. Logo em 1948, M\u00e1rio Cesariny desliga-se deste grupo, assim como Pedro Oom, Ant\u00f3nio Maria Lisboa e Henrique Risques Pereira. Criam ent\u00e3o o Grupo Surrealista Dissidente, cuja primeira comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 \u0093A Afixa\u00e7\u00e3o Proibida\u0094, lida na sess\u00e3o \u0093O\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0e o seu p\u00fablico em 1949\u0094 e que \u0093funciona como um manifesto onde os surrealistas exp\u00f5em as suas concep\u00e7\u00f5es de poesia e os seus pontos de vista perante a interven\u00e7\u00e3o do poeta na sociedade(&#8230;)\u0094 (Marinho, 1987,p.54). Extremam-se assim duas posi\u00e7\u00f5es, querendo cada grupo afirmar-se como mais \u0093aut\u00eantico\u0094 do que o outro.\n\n<strong>H\u00e1 sobretudo dois nomes que polarizam estas posturas:<\/strong>\u00a0M\u00e1rio Cesariny e Alexandre O\u0092Neill.\n\nAs pol\u00e9micas sucedem-se, n\u00e3o s\u00f3 entre os elementos dos dois grupos (do grupo dissidente com Alexandre O\u0092Neill, Jos\u00e9-Augusto Fran\u00e7a, Jorge de Sena, por exemplo), mas tamb\u00e9m com cr\u00edticos liter\u00e1rios e ensa\u00edstas n\u00e3o vinculados aos grupos, como Jo\u00e3o Gaspar Sim\u00f5es, em 1949, com Eug\u00e9nio de Andrade, em 1951 (conflito despoletado por Cesariny), entre outras pol\u00e9micas.\n\nEm 1951, Alexandre O\u0092Neill demarca-se do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, com o texto \u0093Tempo de Fantasmas\u0094(in Cadernos de Poesia, Fasc.onze, 2\u00aa s\u00e9rie, Nov.1951).\n\n<strong>As pol\u00e9micas referidas ilustram, em rela\u00e7\u00e3o a Portugal, o que Claude Abastado considera em rela\u00e7\u00e3o a Fran\u00e7a:<\/strong>\u00a0\u0093Il n\u0092y a pas, chez les surr\u00e9aliste, unit\u00e9 absolue de conduite et de doctrine\u0094 (Introduction au surr\u00e9alisme, Paris, Bordas,1986,p.36).\n\nEm Portugal, foi ef\u00e9mera a exist\u00eancia do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0atrav\u00e9s da atividade de um grupo, merc\u00ea tamb\u00e9m de diverg\u00eancias, como em Fran\u00e7a, mas as influ\u00eancias surrealistas n\u00e3o desapareceram.\n\nDo grupo de Lisboa, Alexandre O\u0092Neill, por exemplo, mesmo depois de afirmar o seu distanciamento, n\u00e3o deixa de manifestar fortes marcas da sua passagem pelo movimento bretoniano, continuando a utilizar nos seus textos uma certa imag\u00e9tica t\u00edpica do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>, alguns recursos t\u00e9cnico-liter\u00e1rios, como as frases justapostas, cuja liga\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica \u00e9 nula, e o humor. No entanto, Maria de F\u00e1tima Marinho considera que este humor vem mais na linha de um Tolentino ou de um Ces\u00e1rio Verde do que na do surrealismo (1987,p.208).\n\nA sua primeira obra, A Ampola Miraculosa, surge em 1948, na cole\u00e7\u00e3o \u0093Cadernos Surrealistas\u0094, mas publicara j\u00e1 alguns poemas na revista Litoral, em 1945.\n\nApesar dos rastos do\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0n\u00e3o desparecerem nunca da sua poesia, a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria portuguesa \u00e9 uma presen\u00e7a constante. Tamb\u00e9m Clara Rocha (Pref\u00e1cio a Alexandre O\u0092Neill &#8211; Poesias Completas 1951\/1986, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990,p.26) refere as marcas da s\u00e1tira medieval (pelo aproveitamento da linguagem colorida, incisiva, por vezes obscena e pela agudeza da cr\u00edtica social e moral das cantigas de esc\u00e1rnio e mal-dizer), da poesia barroca (essencialmente pela utiliza\u00e7\u00e3o das ant\u00edteses, centradas sobretudo nos p\u00f3los da apar\u00eancia\/profundidade, frivolidade\/seriedade, parecer\/ser); refere tamb\u00e9m as presen\u00e7as emblem\u00e1ticas de Nicolau Tolentino (ao perspectivar o feio como algo poetiz\u00e1vel), de Bocage (tomando como modelo o seu \u0093auto-retrato\u0094) e Ces\u00e1rio Verde (pela liga\u00e7\u00e3o a uma poesia deambulat\u00f3ria pela cidade).\n\n<strong>V\u00e1rias t\u00e9cnicas s\u00e3o ent\u00e3o usadas para a produ\u00e7\u00e3o de um sentido simultaneamente l\u00fadico e sat\u00edrico:<\/strong>\u00a0a escrita autom\u00e1tica e a colagem, imagens visuais cheias de imprevisto, trocadilho, inven\u00e7\u00e3o de palavras, integra\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas da linguagem publicit\u00e1ria (lembremos que O\u0092Neill trabalhou em publicidade, tendo criado v\u00e1rios slogans publicit\u00e1rios que se tornaram famosos na televis\u00e3o e, de uma maneira geral, no meio cultural portugu\u00eas), explora\u00e7\u00e3o da poesia experimental, com o aproveitamento da mancha gr\u00e1fica, utiliza\u00e7\u00e3o de linguagem de cal\u00e3o, pelo que isso significa como forma de subvers\u00e3o e ruptura da ordem, utiliza\u00e7\u00e3o de imagens de animais como representa\u00e7\u00e3o de um real abjeto. Globalmente, tudo isto centrado numa atitude de provoca\u00e7\u00e3o e blasf\u00e9mia que op\u00f5e ao amor e ao lirismo, socorrendo-se tamb\u00e9m do humor como forma de den\u00fancia (Rocha, 1990,p.20).\n\nEsta atitude n\u00e3o se centra apenas numa perspectiva cr\u00edtica individual mas projeta-se numa vis\u00e3o sat\u00edrica de Portugal.\n\nQuanto a M\u00e1rio Cesariny de Vasconcelos, conv\u00e9m referir desde logo que a ordem cronol\u00f3gica de publica\u00e7\u00e3o das obras de Cesariny n\u00e3o corresponde \u00e0 da sua elabora\u00e7\u00e3o, pelo que n\u00e3o se dever\u00e1 fazer ju\u00edzos precipitados quanto a influ\u00eancias e op\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, delimitadas de forma r\u00edgida.\n\nPublica o primeiro livro, Corpo Vis\u00edvel, em 1950, onde um animal como o peixe tem uma especial relev\u00e2ncia, sendo um dos elementos consagrados pela est\u00e9tica bretoniana. Um outro animal como o gato surgir\u00e1 tamb\u00e9m com frequ\u00eancia, tratando-se de mais um exemplo do besti\u00e1rio privilegiado pelo surrealismo.\n\nA vis\u00e3o do mundo que dominar\u00e1 a sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica ser\u00e1 habitualmente uma vis\u00e3o humor\u00edstica e onde o riso funciona como forma de superioridade e poder de destrui\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso em Nobil\u00edssima Vis\u00e3o, de 1956.\n\n<strong>Declarando, em Pena Capital (1957), \u0093O \u00fanico fim que eu persigo\/ \u00e9 a fus\u00e3o rebelde dos contr\u00e1rio as m\u00e3os livres os grandes tranparentes\u0094, continua no entanto a situar-se na linha do que de mais essencial o surrealismo defende e que \u00e9 preconizado por Breton no Segundo Manifesto:<\/strong>\u00a0\u0093 Tudo leva a crer que existe um certo ponto do esp\u00edrito de onde a vida e a morte, o real e o imagin\u00e1rio, o passado e o futuro, o comunic\u00e1vel e o incomunic\u00e1vel, o que est\u00e1 em cima e o que est\u00e1 em baixo deixam de ser apercebidos contraditoriamente\u0094.\n\n\u00c9 interessante referir que, como ep\u00edgrafe \u00e0 Antologia Surrealismo\/Abjecionismo, que organiza em 1963, apresenta precisamente estas palavras de Andr\u00e9 Breton mas tamb\u00e9m a par\u00e1frase de Pedro Oom, que reproduz o texto exatamente da mesma maneira, excepto a \u00faltima parte \u0093(&#8230;) deixam de ser e n\u00e3o deixam de ser apercebidos contraditoriamente\u0094. Parece, ent\u00e3o, que a situa\u00e7\u00e3o das letras portuguesas no que concerne este movimento foi ainda mais polarizada do que a francesa!\n\n<strong>Registamos apenas os nomes de alguns autores que, na aprecia\u00e7\u00e3o de Maria de F\u00e1tima Marinho, s\u00e3o considerados \u0093Surrealistas sem Escola\u0094:<\/strong>\u00a0M\u00e1rio Saa, Vitorino Nem\u00e1sio, Edmundo de Bettencourt, Manuel Lima e Jorge de Sena (1987,p.157-186) e referiremos alguns autores que, nunca tendo feito parte de nenhum dos grupos surrealistas apresentam inequivocamente influ\u00eancias e caracter\u00edsticas surrealistas. Continuamos a seguir de perto o levantamento de nomes feito pela mesma autora na sua obra O<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0em Portugal, os quais se apresentam organizados em tr\u00eas \u0093se\u00e7\u00f5es\u0094, no cap\u00edtulo \u0093\u00c0 Margem do Surrealismo Ortodoxo\u0094. Na primeira s\u00e3o referidos os nomes de Isabel Meyrelles, Fernando Lemos, Alfredo Margarido, Ruben A.; na segunda, os nomes mais pr\u00f3ximos da corrente do Abjecionismo que marca \u0093um regresso ao des\u00edgnio de contesta\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o caracter\u00edstico dos dada\u00edstas, a um sentido de deris\u00e3o, desespero ou, at\u00e9, agress\u00e3o que vem retomar aquele esp\u00edrito de empenhamento revolucion\u00e1rio que \u00e9 pr\u00f3prio do Surrealismo\u0094 (Guimar\u00e3es, 1992,p.172).\n\nEsta posi\u00e7\u00e3o abjecionista parece ter sido uma das poucas originalidades face ao\u00a0<strong>surrealismo<\/strong>\u00a0franc\u00eas.\n\nSem que se considere que haja diferen\u00e7as significativas entre uns e outros, dentro do movimento portugu\u00eas, para al\u00e9m de uma pose te\u00f3rica, referem-se, nesta se\u00e7\u00e3o, Ant\u00f3nio Barahona da Fonseca, Ernesto Sampaio, Manuel Grangeio Crespo (autor de O Gigante Verde, \u0093um dos rar\u00edssimos casos de teatro surrealista em Portugal\u0094, segundo M. F. Marinho, p.272), Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Forte, Jos\u00e9 Carlos Gonz\u00e1lez, Manuel de Castro, Helder Macedo ( apenas com algumas reminisc\u00eancias surrealistas) e Luiz Pacheco.\n\nN\u00e3o havendo uma preocupa\u00e7\u00e3o de defini\u00e7\u00e3o de linhas comuns, s\u00e3o de referir escritores como Nat\u00e1lia Correia, Virg\u00edlio Martinho, Herberto Helder, Jos\u00e9 Sebag, Ant\u00f3nio Quadros, M. S. Louren\u00e7o e Luiza Neto Jorge.\n\nNat\u00e1lia Correia, por exemplo, em 1958, na obra Poesia de Arte e Realismo Po\u00e9tico, defende os princ\u00edpios teorizados por Andr\u00e9 Breton.\n\nUma \u0093breve investiga\u00e7\u00e3o da biografia de Herberto Helder tem a utilidade de mostrar o quanto na sua hist\u00f3ria pessoal h\u00e1 de inst\u00e1vel, de inquieto e palpitante\u0094 (Dal Farra, 1986, p.17) e permite-nos perceber que a cosmogonia presente na sua obra n\u00e3o poderia ignorar esta pluralidade e fus\u00e3o de viv\u00eancias.\n\nO primeiro livro que publica \u00e9 O Amor em Visita, em 1958, mas publicara j\u00e1, em 1954, o poema \u0093Fonte\u0094 (in A Briosa, Coimbra, 6 de Fevereiro de 1954, cit. in Dal Farra, 1986, p.15).\n\nAs imagens utilizadas, o erotismo, a alquimia, o ocultismo e a forma ins\u00f3lita de narrar, s\u00e3o os tra\u00e7os mais surrealistas da sua obra (Marinho, 1987, p.284).\n\nMas o inesperado da poesia de H.Helder vem da transmuta\u00e7\u00e3o a que ele sujeita o universo, transpondo essa alquimia para a linguagem po\u00e9tica atrav\u00e9s de \u0093campos sem\u00e2nticos cruzados\u0094, como lhes chama Maria L\u00facia Dal Farra (1986, p.161).\n\n<strong>De mencionar ainda, no panorama portugu\u00eas, algumas antologias, significativas na apresenta\u00e7\u00e3o de autores surrealistas ou de tend\u00eancias surrealistas, incluindo outros autores n\u00e3o referidos nesta breve resenha:<\/strong>\n\nAntologia Surrealista do Cad\u00e1ver Esquisito (1961)\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\/Abjecionismo (1963), Grifo (1970) e Coisas (1974).\n\nSalienta-se de novo que o surrealismo teve uma forte expres\u00e3o noutros campos art\u00edsticos para al\u00e9m da Literatura, nomeadamente nas artes visuais &#8211; pintura, escultura, fotografia. Em Portugal, M\u00e1rio Cesariny e Cruzeiro Seixas, por exemplo, destacam-se n\u00e3o s\u00f3 na literatura mas tamb\u00e9m na pintura.\n\n<strong>Os artistas que de seguida se referem s\u00e3o intencionalmente selecionados tendo em conta as suas diferentes origens nacionais, de forma a ilustrar-se a proje\u00e7\u00e3o do surrealismo n\u00e3o s\u00f3 na Europa mas tamb\u00e9m no continente americano, nos referidos campos art\u00edsticos:<\/strong>\u00a0Ren\u00e9 Magritte, belga, na pintura; Alberto Giacometti, su\u00ed\u00e7o, na escultura; Man Ray, americano, na fotografia.\n\nEm todos estes campos houve mulheres que se destacaram tamb\u00e9m.\n\n<strong>Alguns exemplos:<\/strong>\u00a0Frida Khalo, mexicana, na pintura; Leonora Carrington, inglesa, na pintura e na literatura; Lee Miller, americana, na fotografia. <strong>Maria da Natividade Pires<\/strong>\n<h4>Surrealismo &#8211; Per\u00edodos<\/h4>\nEnquanto componente revolucion\u00e1rio e formador do esp\u00edrito libert\u00e1rio, as a\u00e7\u00f5es do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m se fizeram presentes no Brasil. Aqui, sobretudo no eixo do Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, suas movimenta\u00e7\u00f5es agrupam-se prioritariamente em tr\u00eas momentos ou per\u00edodos. E per\u00edodos distintos, seja por implica\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas, econ\u00f4micas e culturais, seja pela presen\u00e7a de personalidades decisivas para sua afirma\u00e7\u00e3o.\n\nUm primeiro per\u00edodo come\u00e7a com movimenta\u00e7\u00f5es \u00e0 roda da raiz primitivista (Rego Monteiro, Bopp), da revista Est\u00e9tica (Prudente Moraes, neto, e Sergio Buarque de Hollanda), e da turma de M\u00e1rio Pedrosa a Murilo Mendes, culminando com a \u00932a denti\u00e7\u00e3o\u0094 da Antropofagia e a vinda de Benjamin P\u00e9ret e sua esposa Elsie Houston (1929-31). Segue-se a continuidade da Antropofagia nos anos 30, mais os anos da II Guerra e o p\u00f3s-guerra. Continua num per\u00edodo de indefini\u00e7\u00f5es, como foram os \u009250, prolongando-se assim at\u00e9 o come\u00e7o da d\u00e9cada dos anos 60.\n\n<strong>Per\u00edodo primeiro dos \u009120\/\u009230, durante o qual existe uma influ\u00eancia verific\u00e1vel, not\u00e1vel at\u00e9 eu diria, se n\u00e3o fosse a destrui\u00e7\u00e3o de tr\u00eas obras chaves para este in\u00edcio:\u00a0<\/strong>Ponto de Partida, de Pedrosa, O Pr\u00edncipe do Fogo, de Febr\u00f4nio Indio do Brazil, e O Almirante Negro, de P\u00e9ret. Portanto, h\u00e1 sim desdobramentos de uma influ\u00eancia sentida, vis\u00edvel, embora deslocada para uma resson\u00e2ncia difusa, ou melhor apresentada como difusa enquanto Movimento.\n\nDesloca\u00e7\u00e3o que funcionou, em fun\u00e7\u00e3o do silenciamento sistem\u00e1tico por parte da imprensa e do ecletismo, digamos, por parte dos modernistas. E tamb\u00e9m por n\u00e3o haver grupo organizado de surrealistas num primeiro momento no Brasil.\n\nO segundo per\u00edodo define-se com a volta de Maria Martins (seu retorno nos \u009150, sua primeira retrospectiva apresentada por P\u00e9ret, Breton e Murilo Mendes \u009155) e do grupo surrealista de S. Paulo\/Rio de Janeiro (1965-1969). A d\u00e9cada seguinte, subseq\u00fcente ao AI-5, conservar\u00e1 igualmente um car\u00e1ter de encobrimentos, permanecendo contudo um acento nitidamente \u00e0 margem &#8211; em que pese pontuais publica\u00e7\u00f5es de grande vulto.\n\nE, por fim, o terceiro per\u00edodo, come\u00e7ando a partir da Semana Surrealista \u009285, apresenta-se em concomit\u00e2ncia \u00e0 emerg\u00eancia de importante corpo cr\u00edtico. Terceiro per\u00edodo que est\u00e1 centrado em torno do segundo grupo surrealista no Brasil, grupo de S.Paulo\/Fortaleza (1990-1999).\n\nTranscrevo a passagem no original, muito embora, vale observar, n\u00e3o corresponda exatamente aos termos da edi\u00e7\u00e3o em apre\u00e7o, a qual, inadvertidamente, trouxe alguns cortes e enxugamentos indevidos. Ainda sobre o primeiro per\u00edodo, neste \u0093Anexo\u0094 de Estrela da Manh\u00e3, volto a repetir que (1)\n\n<strong>PRIMEIRO PER\u00cdODO<\/strong>\n\nBenjamin P\u00e9ret mora no Brasil de fevereiro \u009229 \u00e0 dezembro de \u009231, tem contactos com a Revista de Antropofagia e desenvolve pesquisas sobre nossas artes e ra\u00edzes afro-\u00edndias. Mais adiante voltaremos sobre sua atividade no Brasil nestes anos. Mas, mesmo antes desta visita, artistas e escritores como Ismael Nery, An\u00edbal M. Machado, Murilo Mendes e M\u00e1rio Pedrosa se interessam pelo\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>, al\u00e9m dos prematuramente falecidos J.A Ferreira Prestes e Asc\u00e2nio Lopes; como, na d\u00e9cada de \u009230, C\u00edcero Dias, Fernando Mendes de Almeida, Wagner Castro, Jamil Almansur Haddad, Adalgisa Nery e Jorge de Lima. A controversa \u0093convers\u00e3o\u0094 religiosa desses dois poetas, Murilo e Jorge de Lima, a partir de \u009234, n\u00e3o exclui tudo o que escreveram e produziram nos dez anos anteriores.\n\nSendo que a d\u00e9cada de \u009230, marcada tanto pela hegemonia ditatorial do realismo-socialista quanto pelo populismo de Get\u00falio Vargas, culminando com as contribui\u00e7\u00f5es de Fl\u00e1vio de Carvalho.\n\n<strong>E ainda a publica\u00e7\u00e3o da entrevista que Fl\u00e1vio fizera com Andr\u00e9 Breton em 1934, na revista da comunidade negra de S\u00e3o Paulo:<\/strong>\u00a0Cultura. Dir-se-ia que essa entrevista, por se ocupar das quest\u00f5es da raiz afro e suas implica\u00e7\u00f5es, numa de suas perguntas, prenuncia curiosamente o di\u00e1logo que logo ocorrer\u00e1 no in\u00edcio dos \u009240, entre Breton e Aim\u00e9 Cesaire.\n\nAl\u00e9m das mulheres Adalgisa Nery, Eugenia Moreyra, Elsie Houston-P\u00e9ret e Pagu, come\u00e7aram a ter destaque autores como Fernando Mendes de Almeida, Ros\u00e1rio Fusco, Livio Xavier, Os\u00f3rio C\u00e9sar, Jamil Almansur Haddad, Sos\u00edgenes Costa e Raguna Cabral. Acrescente-se o pintor Wagner Castro, a dan\u00e7arina e core\u00f3grafa Eros Volusia, bem como os casos extraordin\u00e1rios de Albino Braz e Febr\u00f4nio \u00cdndio do Brazil. Bem como os pren\u00fancios vis\u00edveis em Gilka Machado, C\u00e9rsar de Castro e Rego Monteiro, deve-se incluir igualmente Ra\u00fal Bopp e Tarsila do Amaral, ao lado da radicaliza\u00e7\u00e3o expressa da Revista de Antropofagia.\n\nAfinal a turma da \u00932a denti\u00e7\u00e3o\u0094 antropof\u00e1gica acolheu P\u00e9ret e representou a \u00fanica vertente que se op\u00f4s aos nacionalismos despregados pelas movimenta\u00e7\u00f5es vanguardistas do momento, no Modernismo brasileiro.\n\nNos primeiros anos depois da II Guerra, temos n\u00e3o s\u00f3 um vulto do porte de Maria Martins como as presen\u00e7as marcantes de visitantes como Ant\u00f4nio Pedro, Vieira da Silva e Arpad Szenes, o casal fixando-se no Rio de Janeiro &#8211; onde mant\u00eam intensa intera\u00e7\u00e3o, particularmente com Murilo Mendes e Jorge de Lima.\n\nLogo depois, no imediato p\u00f3s-II Guerra, Pagu e M\u00e1rio Pedrosa publicam em \u009246, no jornal Vanguarda Socialista, a tradu\u00e7\u00e3o integral do \u0093Manifesto por uma arte revolucion\u00e1ria independente\u0094 de Breton\/Trotsky. Observa-se que o Movimento acabara por se impor em diversos pa\u00edses nos anos \u009240, anos da II Guerra.\n\nGra\u00e7as aos ex\u00edlios de muitos dos seus e da emerg\u00eancia inequ\u00edvoca do contexto latino-americano, o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0reafirma-se enquanto vertente revolucion\u00e1ria e \u0093absolutamente moderna\u0094. Penso sobretudo no importante car\u00e1ter de revolta que impregna suas obras neste per\u00edodo, em tudo e por tudo diverso do acento de resist\u00eancia ent\u00e3o dominante. A Exposi\u00e7\u00e3o Internacional de \u009247 \u00e9 um bom testemunho desta diferen\u00e7a.\n\nEnquanto outros grupos de surrealistas prosseguiam, nos anos da II Guerra surgiam significativamente mais quatro novos grupos organizados do Movimento &#8211; em Santiago do Chile, no Cairo, Lisboa e Martinica &#8211; que se somam aos centros ativos de Nova York e Ciudad de M\u00e9xico.\n\nSe por um lado havia esta emerg\u00eancia toda, por outro lado, entendo que a d\u00e9cada seguinte, dos \u009250 em diante, j\u00e1 se pode considerar portadora de uma nova e vis\u00edvel corre\u00e7\u00e3o de rumo do Movimento. O qual afirma-se, em combate incessante, rearticulando-se mais uma vez com fontes do Anarquismo e do pensamento ocultista da Ci\u00eancia Tradicional, isto \u00e9 reavivando o casamento da bandeira libert\u00e1ria com as fundas matrizes herm\u00e9ticas. Mudan\u00e7a que passaria a configurar, tamb\u00e9m no Brasil, certos acentos fundacionais da atualidade do<strong>Surrealismo<\/strong>.\n\nConsiderando suas conseq\u00fc\u00eancias e desdobramentos importantes, proponho chamarmos \u0093segundo per\u00edodo do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u0094 no Brasil, o espa\u00e7o que vai de meados dos \u009250 at\u00e9 o final dos \u009260, ou melhor, at\u00e9 os in\u00edcios dos \u009270.\n\nNo imediato p\u00f3s guerra e in\u00edcios dos \u009250, a cidade de S\u00e3o Paulo vivia uma grande transforma\u00e7\u00e3o. Acabavam de ocorrer as funda\u00e7\u00f5es do Museu de Arte de S. Paulo (MASP \u009247) e do Museu de Arte Moderna (MAM\u009249), ambos no pr\u00e9dio dos Di\u00e1rios Associados na rua 7 de Abril, e ocorria tamb\u00e9m o come\u00e7o pol\u00eamico e controverso da I Bienal de S. Paulo (\u009251), organizada pelo MAM, tendo Ciccilo Matarazzo \u00e0 frente. Estava dado um passaporte direto \u00e0 contemporaneidade, ao mesmo tempo em que a cidade assumia-se enquanto metr\u00f3pole cosmopolita. Pode-se dizer que a 7 de Abril, com seus dois museus, mais a Pra\u00e7a Dom Jos\u00e9 Gaspar, com a Biblioteca Municipal \u0093M\u00e1rio de Andrade\u0094, o Paris Bar e o boulevard S.Luiz, que culminava no novo pr\u00e9dio do jornal O Estado de S. Paulo, esquina com rua da Consola\u00e7\u00e3o, formavam uma esp\u00e9cie de territ\u00f3rio onde aconteciam os principais eventos culturais. Inclua-se a\u00ed a rua Bar\u00e3o de Itapetininga e o Teatro Municipal, bem como os cinemas pr\u00f3ximos. Espa\u00e7o que emergia em verdadeiro centro intelectual da cidade que se modernizava velozmente. A\u00ed tamb\u00e9m se localizavam as principais livrarias da cidade e as duas galerias de arte ent\u00e3o atuantes, al\u00e9m da tradicional Galeria It\u00e1. No acervo da Biblioteca Municipal, encontravam-se edi\u00e7\u00f5es raras e um significativo repert\u00f3rio de livros e revistas de arte, dentre as quais um bom n\u00famero representativo das edi\u00e7\u00f5es surrealistas, em decorr\u00eancia talvez da exemplar gest\u00e3o de S\u00e9rgio Milliet na sua dire\u00e7\u00e3o &#8211; afinal testemunho sur place da explos\u00e3o do Manifeste du Surr\u00e9alisme, em fins de \u009224. Apenas a Bienal, por seu enorme espa\u00e7o de ocupa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, situava-se fora desse quadril\u00e1tero, no Parque Ibirapuera, constru\u00eddo e preparado ali\u00e1s para a II Bienal, inaugurada em dezembro de \u009253, como que abrindo ou se interligando aos festejos do IV Centen\u00e1rio da Cidade de S\u00e3o Paulo.\n\nJ\u00e1 no \u009254, dentro dos festejos do IV Centen\u00e1rio, com o ressurgimento do cinema brasileiro, promovido pela Vera Cruz e seus \u00eaxitos no Exterior, houve a vultosa movimenta\u00e7\u00e3o do primeiro Festival Internacional de Cinema. Com patroc\u00ednio do jornal O Estado de S.Paulo e do MAM e sua filmoteca (depois transformada em Cinemateca Brasileira), que vale dizer, com os apoios de empres\u00e1rios, Ciccilo Matarazzo \u00e0 frente. O mesmo Ciccilo que promoveu a volta de Paulo Em\u00edlio Salles Gomes para dirigir a filmoteca do MAM e preparar o I Festival de Cinema. Festival que foi um evento dominante na cidade, com p\u00fablico maior que o dos espet\u00e1culos do Ballet do IV Centen\u00e1rio ou da pr\u00f3pria Bienal (cujas duas primeiras edi\u00e7\u00f5es j\u00e1 trouxeram Picasso, Tanguy, Magritte, Moore, Maria Martins, Masson, Miro, Ernst etc.). Tanto as presen\u00e7as de astros e estrelas do Festival, \u0093\u00eddolos da tela\u0094, quanto as de personalidades de grande carisma, verdadeiros monstros sagrados como se dizia, do porte de Eric von Stroheim e Abel Gance, acabaram por ofuscar os demais acontecimentos.\n\n<strong>Assim, Paulo Em\u00edlio Salles Gomes, que havia estabelecido v\u00ednculos com o movimento surrealista e, particularmente, com Benjamin P\u00e9ret, a quem estava ligado por la\u00e7os de parentesco, organiza em 1954 o I Festival de Cinema de S.Paulo, e um ciclo de \u0093Hist\u00f3ria do Cinema\u0094, com apresenta\u00e7\u00e3o entre outros dos primeiros filmes do Movimento Surrealista:<\/strong>\u00a0<strong>os dois primeiros de Bu\u00f1uel e Salvador Dal\u00ed:<\/strong> Un chien andalou e L\u0092\u00c2ge d\u0092Or; os curtas de Man Ray: Emak Bakia, L\u0092\u00c9toile de mer; a primeira adapta\u00e7\u00e3o de Antonin Artaud: La Coquille et le Clergyman, dirigido por Madame Dulac; e ainda o \u0093escandaloso\u0094 Entr\u0092Acte de Picabia e Ren\u00e9 Clair. Do lado brasileiro deu-se especial aten\u00e7\u00e3o ao filme Limite, de M\u00e1rio Peixoto; Canga Bruta de Humberto Mauro; En Rade, Rien que les Heures, Sim\u00e3o, o caolho e O Canto do Mar de Alberto Cavalcanti.\n\nPermitam-me um teor memorialista nestas r\u00e1pidas reconstitui\u00e7\u00f5es de \u00e9poca que se seguem. Deixei os estudos em meados de \u009257, para ir trabalhar na Cinemateca Brasileira. Essa minha ida para a Cinemateca Brasileira, possibilitava uma aproxima\u00e7\u00e3o maior de Paulo Em\u00edlio, importante para mim n\u00e3o s\u00f3 pelo seu envolvimento com o cinema mas, tamb\u00e9m, pelas suas j\u00e1 citadas liga\u00e7\u00f5es com os surrealistas. Paulo Em\u00edlio ali\u00e1s, que fora um dos colaboradores nos in\u00edcios dos \u009250, ainda em Paris, da revista L\u0092\u00c2ge du Cin\u00e9ma &#8211; animada pelo grupo surrealista parisiense (onde publicara uma entrevista com Pl\u00ednio Sussekind sobre Limite, a \u0093obra-prima desconhecida\u0094 de M\u00e1rio Peixoto) -, vinha de receber premia\u00e7\u00e3o editorial na capital francesa pelo seu ensaio sobre o cineasta Jean Vigo e sua forma\u00e7\u00e3o anarchiste (livro em que P\u00e9ret ajudara na revis\u00e3o final). O\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0que j\u00e1 me interessava diretamente, faz\u00eda-se presente mais uma vez de forma incontest\u00e1vel.\n\nT\u00ednhamos h\u00e1 pouco visto a III Bienal [1955], com pr\u00eamios para Alfred Kubin e Maria Martins, entre outros nomes consagrados, voltando \u00e0 baila portanto a quest\u00e3o do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>. Al\u00e9m do v\u00ednculo com as artes pl\u00e1sticas &#8211; vis\u00edvel nos in\u00edcios de Bernardo Cid e Odriozola ou nas obras de Teresa D\u0092Amico que retoma a collage -, a quest\u00e3o do movimento e da pr\u00e1xis surrealista era reativada e resgatada em outras \u00e1reas expressivas com significativos textos neste per\u00edodo.\n\nPor exemplo os escritos de An\u00edbal M. Machado (inclusive sua declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica de ades\u00e3o ao movimento do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>), ou de Murilo Mendes e Campos de Carvalho, ou ainda O Hosp\u00edcio \u00e9 Deus de Maura Lopes Can\u00e7ado e por uma singular retomada por parte Clarice Lispector, de volta ao Rio de Janeiro e \u00e0s suas tardes de crime, de mulher \u0093no escuro\u0094. Afinal n\u00e3o nos esque\u00e7amos que em ambas autoras, segundo formas pr\u00f3prias a cada uma delas, trata-se mais da conquista de uma linguagem e sua ventura, sua experi\u00eancia nas bordas de um limite poss\u00edvel do que propriamente o exerc\u00edcio de uma produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria convencional. Sendo que no caso de Clarice tal ventura chega \u00e0s raias de uma falta, de um aqu\u00e9m do expressivo diante do transbordo imenso da vol\u00fapia que a toma, desse transe que a co-move.\n\nCoincidentemente, Benjamin P\u00e9ret voltava a ter atua\u00e7\u00e3o importante no Brasil, como ocorrera na sua anterior estada no pa\u00eds.\n\n<strong>Durante este per\u00edodo, 1955\/1956, ele faz incurs\u00f5es no Norte e Nordeste, al\u00e9m de ida at\u00e9 os \u00edndios do Araguaia; \u00e9 tamb\u00e9m neste momento que P\u00e9ret ultima a conclus\u00e3o de seu ensaio antol\u00f3gico sobre as nossas narrativas primitivas:<\/strong>\u00a0Anthologie des mythes, l\u00e9gendes et contes populaires de l\u0092Am\u00e9rique (edi\u00e7\u00e3o cuja Introduction est\u00e1 datada de \u0093S.Paulo, 1955\u0094) &#8211; s\u00f3 publicado postumamente, pela editora Albin Michel, Paris, em 1960.\n\nTamb\u00e9m nos meados de \u009250, mais precisamente em 1953, temos um acontecimento, o encontro hist\u00f3rico de Murilo Mendes com Andr\u00e9 Breton. Murilo encontra-se em Paris com Breton, visitando-o na Rue Fontaine. A forte impress\u00e3o que surge dessa visita ser\u00e1 narrada s\u00f3 em 1966 (e impressa quase 25 anos depois) por Murilo, comentando a figura de Breton e sua raiz libert\u00e1ria &#8211; inclua-se men\u00e7\u00e3o a uma her\u00e1ldica cifrada, confirmada por P\u00e9ret desde 1929, tendo como animal simb\u00f3lico o tamandu\u00e1 ou seja \u0093le grand tamanoir\u0094 (animal que figura o ex libris de Breton, desenhado por Salvador Dal\u00ed; o mesmo animal que posteriormente ser\u00e1 objeto de escultura em madeira, feita pelo pr\u00f3prio Breton).\n\nNa mesma \u00e9poca M\u00e1rio Pedrosa participa da enqu\u00eate da Arte M\u00e1gica, organizada por Breton.. Enquanto Pagu, outra das figuras decisivas dos anos 30, neste final dos \u009250, publica v\u00e1rios textos de import\u00e2ncia sobre o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>. Comentando Crevel, Artaud e Octavio Paz, al\u00e9m de encenar pe\u00e7a de teatro da artista Leonora Carrington, Pagu interessa-se pela dramaturgia surrealista de Georges Sch\u00e9had\u00e9 e tamb\u00e9m pela de Fernando Arrabal, ent\u00e3o ligados ao grupo parisiense.\n\nDatam igualmente de 1955\/1956 minhas primeiras experi\u00eancias com escritura-autom\u00e1tica, os cadernos de \u0093desenhos autom\u00e1ticos\u0094 e \u0093desenhos de sonhos\u0094.\n\nAssim como a primeira s\u00e9rie de collages que se configuraria num romance-collage (As Aventuras do M\u00e1scara Negra, 1957), logo seguido das narrativas e poemas em prosa de Amore (1959-1960), meu primeiro livro, publicado anos depois.\n\nEm \u009259 realiza-se o festival \u0093Hist\u00f3ria do Cinema Franc\u00eas\u0094, sob a dire\u00e7\u00e3o de Paulo Em\u00edlio Salles Gomes e Henri Langlois, da Cin\u00e9math\u00e8que Fran\u00e7aise, com organiza\u00e7\u00e3o do MAM do Rio de Janeiro, Cinemateca Brasileira e V Bienal de S.Paulo. O cat\u00e1logo dessa mostra internacional traz os tr\u00eas primeiros estudos que realizei sobre pioneiros franceses do cinema, como George M\u00e9li\u00e8s e \u00c9mile Cohl, assim como uma primeira an\u00e1lise de um dos \u00edcones e mito liter\u00e1rio dos anos \u009210, a figura emblem\u00e1tica de Fant\u00f4mas &#8211; cujos folhetins marcaram toda uma gera\u00e7\u00e3o vanguardista, aquela de Apollinaire e Max Jacob, de Breton e Robert Desnos &#8211; atrav\u00e9s dos filmes seriados do genial diretor Louis Feuillade. Filmes esses que, ao lado de trabalhos como os do c\u00e9lebre Atget, instauravam uma in\u00e9dita concep\u00e7\u00e3o de \u0093poesia visual\u0094.\n\n<strong>Afirmava-se em definitivo uma nova po\u00e9tica do espa\u00e7o:<\/strong>\u00a0\u0093a poesia da cidade\u0094, do urbano e seu estranhamento singular\u00edssimo, com suas ila\u00e7\u00f5es diretas em De Chirico, ou mesmo no humour noir de um Jacques Vach\u00e9 ou de um C\u00e9sar de Castro, esse lend\u00e1rio simbolista do Rio Grande do Sul que morre na Revolu\u00e7\u00e3o de \u009230, deixando uma obra extraordin\u00e1ria e a primeira tese defendida no Brasil sobre a doutrina de Freud e os quadros de \u0093psycho-neurosis\u0094.\n\nAinda neste per\u00edodo dos \u009150, basicamente demarcado pela retrospectiva das obras de Maria Martins no MAM do Rio (1955) e pela segunda estada entre n\u00f3s de Benjamin P\u00e9ret (\u009155\/\u009256), aparecem as edi\u00e7\u00f5es completas de poesias de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes, entre outros nomes do Modernismo brasileiro, que apenas come\u00e7a a ser revisto (revis\u00f5es essas, e n\u00e3o s\u00f3 as liter\u00e1rias, que ir\u00e3o dar o tom aos anos \u009260). Apesar dos in\u00edcios de Jo\u00e3o Cabral e de sua conhecida liga\u00e7\u00e3o com a turma da Dal au Set (revista catal\u00e3 editada por J.-E. Cirlot, Cuixart e T\u00e1pies, vinculada expressamente ao\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>), meu interesse volta-se imediatamente para Murilo Mendes, ainda pouco discutido e menos ainda publicado, al\u00e9m de ir para a Universidade de Roma, no \u009257.\n\nMesmo per\u00edodo em que vemos uma retrospectiva de filmes experimentais e sobre arte (incluso os filmes L\u0092 Invention du monde, de J.L.B\u00e9douin e Benjamin P\u00e9ret, Paul Delvaux, de Henri Storck, Le sang des b\u00eates, de Georges Franju), al\u00e9m da s\u00e9rie mexicana de Luis Bu\u00f1uel, com extraordin\u00e1rias crea\u00e7\u00f5es como El, Abismos de la Pasi\u00f3n e La vida criminal d\u0092Archibald de la Cruz &#8211; apresentados por Paulo Em\u00edlio, Francisco Luiz de Almeida Salles e Paulo Duarte. A \u00fanica c\u00f3pia de Los Olvidados em circula\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, da Cineamteca Uruguaia, n\u00e3o foi exibida pois continuava interditada pela nossa Censura.\n\nDeste modo, na passagem dos \u009250 &#8211; quase uma ponte do p\u00f3s-guerra aos \u009260 -, ocorrem algumas edi\u00e7\u00f5es de real import\u00e2ncia.\n\nDentre as quais quero destacar o Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, de Andrade Muricy (Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro\/Imprensa Nacional, 1952, edi\u00e7\u00e3o ilustrada). Aguardando publica\u00e7\u00e3o desde \u009246, essa publica\u00e7\u00e3o inclui-se entre as homenagens relativas \u00e0 mem\u00f3ria do poeta Cruz e Sousa e ao Simbolismo, revelando por primeira vez, todo um per\u00edodo dito \u0093pr\u00e9-modernista\u0094, ainda quase desconhecido e pouco trilhado nas minhas andan\u00e7as de escritor iniciante. Atrav\u00e9s do impec\u00e1vel panorama desenhado por Muricy e, mais particularmente, por seu brilhante ensaio \u00e0 volta de Cruz e Sousa na edi\u00e7\u00e3o de suas obras completas pela Editora Aguilar (Rio:1960), acerquei-me de outros nomes a reter, embora muito negligenciados no limbo da cr\u00edtica acad\u00eamica, que s\u00e3o Gonzaga Duque e Nestor Victor.\n\nDa mesma forma, buscando pistas, come\u00e7o a me interessar, mais de perto, por outros autores pr\u00f3ximos \u00e0 quest\u00e3o da express\u00e3o que tende ao\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>, seja aquela do inconsciente e do automatismo, ou ainda seja a da transgress\u00e3o e do erotismo em nossas letras, tais como os simbolistas Ra\u00fal Pomp\u00e9ia, Rocha Pombo, Augusto dos Anjos, Pedro Kilkerry, C\u00e9sar de Castro, Ernani Rosas e Gilka Machado, logo assimilados e como que subjacentes \u00e0 minha escrita. Uma das minhas surpresas, ali\u00e1s, foi o conhecimento da figura e das atua\u00e7\u00f5es de \u0093cooperativa de iniciados\u0094, levadas adiante por Dario Velloso, nos arredores de uma Curitiba finissecular desde o in\u00edcio do s\u00e9culo. Totalmente desconhecido e ausente dos manuais liter\u00e1rios e antologias oficiais, um poeta nosso diretamente vinculado ao Ocultismo &#8211; diplomado no col\u00e9gio de Ci\u00eancias Esot\u00e9ricas de Papus, Paris.\n\nAproxima\u00e7\u00e3o e contato mais direto com o Simbolismo que teve fortes resson\u00e2ncias em minha obra, com incid\u00eancias que se expressam enquanto fluxo subterr\u00e2neo, subjacente ao texto, quando n\u00e3o na pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e de determinadas imagens. O que apresenta-se nitidamente nas entrelinhas da narrativa e\/ou poemas em prosa de Amore [1959\/1961]. O ano de 1957 data, para mim, as s\u00e9ries de desenhos &#8211; aquela das aguadas er\u00f3ticas (\u0093Retorno ao Selvagem\u0094) e aquela dos nanquins, eros e desenhos autom\u00e1ticos mais as collages que come\u00e7o a praticar em 1957, com o \u0093romance visual\u0094 As Aventuras do M\u00e1scara Negra. Ao passo que no 1959 come\u00e7avam os escritos das narrativas e dos poemas-em-prosa que resultariam no meu livro de estr\u00e9ia Amore, que seria editado s\u00f3 em \u009163.\n\nNesse segundo per\u00edodo, insisto em sublinhar, tivemos portanto a reedi\u00e7\u00e3o de textos raros do precursor negro, filho de escravos, de uma nova poesia do maravilhoso, o soberbo e excessivo Cruz e Sousa (a edi\u00e7\u00e3o Aguilar trazia v\u00e1rios in\u00e9ditos e reenvios a pesquisas recentes). Embora figura decisiva, Cruz e Sousa continuava a ser considerado \u00e0 parte no cen\u00e1rio das nossas Letras. Falo do in\u00edcio dos \u009260. Mesma d\u00e9cada que viria depois, mais para frente, a redescoberta inesperada de Qorpo-Santo, outro precursor do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0&#8211; em fins de \u009267 chegavam as primeiras not\u00edcias de um anunciador do l\u0092humour noir em nossas letras -, de um teatro do sonho e da crueldade, como preconizara Artaud. Em \u009167, praticamente em sincronicidade \u00e0 XIII Exposi\u00e7\u00e3o Internacional do movimento dos surrealistas, \u00e9 Qorpo-Santo que volta a surgir ou melhor re-surge, com acesso a publica\u00e7\u00f5es dadas como perdidas. Tivemos, deste modo, um verdadeiro cadinho formador de tend\u00eancias e novos horizontes que para mim foram decisivos.\n\nToda minha poesia, a partir das escrituras autom\u00e1ticas de \u009257 e \u009258, assim como minha pintura e collages dessa data em diante, al\u00e9m de uns primeiros textos cr\u00edticos, roteiros e narrativas, assumem de modo expresso o sentido surrealista, isto \u00e9 passam a ser, sobretudo, questionamentos nessas e atrav\u00e9s dessas express\u00f5es. A maior parte de tal produ\u00e7\u00e3o acompanhar-me-\u00e1 na viagem a Paris, e ser\u00e1 \u00e0 vista delas que Andr\u00e9 Breton me convidar\u00e1 para participar do grupo parisiense do movimento surrealista. Tamb\u00e9m levei os originais de Amore, apesar do problema da l\u00edngua, pois nenhum dos membros atuantes naquele momento conhecia o portugu\u00eas, afora a chilena Elisa Breton e o cineasta algeriano Robert Benayoun que tinham alguma no\u00e7\u00e3o (Benayoun teve um certo tr\u00e2nsito por Portugal). Houve discuss\u00f5es sobre o livro, que, para mim, explicitaram a pertin\u00eancia de sua escritura no contexto do Movimento Surrealista; houve at\u00e9 mesmo um certo interesse, depois confirmado, quando da sua edi\u00e7\u00e3o em livro, atrav\u00e9s de cartas de novos amigos e interlocutores, como as carta de Pierre Molinier, que lia portugu\u00eas, de Ars\u00e8ne Bonafous-Murat, de Bellmer e de Magloire Saint-Aude, que tamb\u00e9m conhecia bem o portugu\u00eas.\n\nConvidado a participar do Movimento durante o per\u00edodo de 1961\/1962, minha estr\u00e9ia, digamos assim, ocorre com uma uma exposi\u00e7\u00e3o sui generis no caf\u00e9 \u0093A La Promenade de V\u00e9nus\u0094 (em frente ao Les Halles), onde o grupo se reunia regularmente. Nessa noite todos meus desenhos e pinturas (quase toda minha produ\u00e7\u00e3o de 1956 a 1961), circularam de m\u00e3o em m\u00e3o at\u00e9 bem tarde, com coment\u00e1rios, d\u00favidas e perguntas que foram me articulando com a turma.\n\n<strong>Estando regularmente presente nas reuni\u00f5es do caf\u00e9 \u0093A La Promenade de V\u00e9nus\u0094, houve v\u00e1rias trocas e experi\u00eancias com autores representativos do grupo parisiense, com os quais mantive um contato prolongado &#8211; sempre a cada dois dias -, durante praticamente um ano, ora em fun\u00e7\u00e3o do comit\u00ea de reda\u00e7\u00e3o da revista La Br\u00e8che (a \u00faltima dirigida por Breton e na qual colaborei diretamente em dois n\u00fameros), como os adiante citados:<\/strong>\u00a0Robert Benayoun, Toyen, Jean e Claire Markale, Ars\u00e8ne Bonafous-Murat, Alain Joubert, Nicole Espagnole, Mimi Parent e Jean Beno\u00eet, Jos\u00e9 Pierre, Jean Schuster, Joyce Mansour, G\u00e9rard Legrand, Radovan Ivisic, Annie LeBrun, Jorge Camacho etc., ademais do pr\u00f3prio Andr\u00e9 Breton e Elisa, e meus amigos Vincent Bounoure e Micheline. Minha m\u00faltipla atua\u00e7\u00e3o em seu meio nesse per\u00edodo, e nos anos subseq\u00fcentes, constam das revistas e publica\u00e7\u00f5es coletivas do grupo desta data em diante, como, por exemplo, o manifesto de apoio a Luis Bu\u00f1uel e contra a interdi\u00e7\u00e3o do filme Viridiana. A estada em Paris propiciou-me rela\u00e7\u00f5es diretas tamb\u00e9m com personalidades atuantes em diversas \u00e1reas, como filosofia, sociologia, cinema, psican\u00e1lise, hist\u00f3ria, belas artes e literatura. Por exemplo, contatos com Eric Losfeld, Nelly Kaplan, Mandiargues, Julien Gracq, Bataille, Bachelard, Clovis Trouille, Edouard Jaguer e Anne Ethuin; assim como encontros com Buster Keaton, Alain Resnais, Arrabal, Octavio Paz, Gironella, J.-J. Brunius, e ainda Eug\u00e8ne Canseliet, disc\u00edpulo e bi\u00f3grafo do mestre ocultista Fulcanelli. Al\u00e9m de figuras ativas e participantes do movimento, mas que n\u00e3o freq\u00fcentavam assiduamente o grupo, como Meret Oppenheim, Clovis Trouille, Pierre Molinier, \u00danica Zurn e Bellmer. Figuras essas que de uma maneira ou de outra interagiam com o movimento surrealista, havendo muitos que mantiveram at\u00e9 mesmo uma participa\u00e7\u00e3o formal ou milit\u00e2ncia grupal em per\u00edodos anteriores. As m\u00faltiplas atividades, interesses e vincula\u00e7\u00f5es dessas figuras todas, evidenciam a permeabilidade do grupo e do movimento surrealista em geral. Caracter\u00edstica que \u00e9 uma das componentes do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0mesmo, apesar de colidir frontalmente com uma propalada \u0093ortodoxia do grupo\u0094 &#8211; o que seria mais pr\u00f3prio de uma escola formal -, mas n\u00e3o \u00e9 o caso em se tratando do Surrealismo, do movimento surrealista e o vetor rebelde, sen\u00e3o an\u00e1rquico que mais o caracteriza.\n\nA principal contribui\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia com os surrealistas foi, para mim, a descoberta da \u0093alteridade\u0094, essa experi\u00eancia do outro e suas inst\u00e2ncias mais fortes sen\u00e3o quase sempre extremas. Experi\u00eancia profunda do outro que me transformou e me modificou, trouxe-me uma viv\u00eancia transformada e ampliada de mim mesmo. N\u00e3o por acaso adquiriu enorme vulto a quest\u00e3o do erotismo que \u00e9 inerente \u00e0 experi\u00eancia do outro &#8211; nenhum outro movimento moderno apresentou um n\u00famero t\u00e3o significativo de mulheres em seus campos de atua\u00e7\u00e3o, seja na poesia, nas artes, nas pesquisas ou no ensaio. E, ressalto ainda, a contribui\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel de um certo senso expressivo emergente da diferen\u00e7a, do princ\u00edpio de consci\u00eancia e da diferen\u00e7a que o instaura, que o envolve todo pelo vi\u00e9s de transgress\u00e3o e rupturas.\n\nA possibilidade de express\u00e3o da diferen\u00e7a vislumbrou para mim todo um campo de investiga\u00e7\u00e3o e interesse, principalmente atrav\u00e9s do exerc\u00edcio da poesia.\n\n<strong>SEGUNDO PER\u00cdODO<\/strong>\n\nEsse segundo per\u00edodo que se articula e se move ao redor de Maria Martins &#8211; cuja primeira retrospectiva foi apresentada conjuntamente por Benjamin P\u00e9ret, Murilo Mendes e Andr\u00e9 Breton &#8211; tem um antes, um durante com seu ponto capital ou cl\u00edmax, e um depois\n\nUm antes que compreende as primeiras contribui\u00e7\u00f5es de Walter Lewy, Maura Lopes Can\u00e7ado, Campos de Carvalho, Jos\u00e9 Alcides Pinto e mesmo Clarice Lispector. Um cl\u00edmax, representado pelo grupo surrealista de S. Paulo\/Rio, pela edi\u00e7\u00e3o da revista A Phala # 1 e pela realiza\u00e7\u00e3o da XIII Exposi\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0em S. Paulo, em agosto\/setembro\u009267.\n\n<strong>Mostra essa que teve suas conseq\u00fc\u00eancias imediatas, cruzadas com os eventos de Maio\u009268 e v\u00e1rias mudan\u00e7as de rumo, como a interrup\u00e7\u00e3o quase for\u00e7ada (pelo AI-5), do n\u00famero 2 da revista A Phala:\u00a0<\/strong>j\u00e1 pautada para composi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, com estudos sobre Jorge de Lima, Albino Braz e Cruz e Sousa. E tem um depois. Depois que inclui desdobramentos das rebeli\u00f5es de Maio\u009268, suas mudan\u00e7as e, primeira publica\u00e7\u00e3o integral, no Brasil, dos Cantos de Maldoror, de Lautr\u00e9amont, apresentado e traduzido por Claudio Willer, com ilustra\u00e7\u00f5es de Maninha Cavalcanti. Inclui, ainda, as primeiras produ\u00e7\u00f5es de Nelson Guimar\u00e3es e Juan Sanz Hernandez, novas exposi\u00e7\u00f5es de Bernardo Cid e Oriozola, este com a presen\u00e7a cada vez mais marcante de objetos invadindo o espa\u00e7o pl\u00e1stico tradicional.\n\nMuito embora a d\u00e9cada de \u009270 esteja obscurecida pela ditadura militar, dominante desde \u009264, e pelo previs\u00edvel das \u0093obras de resist\u00eancia\u0094 que ent\u00e3o se multiplicavam, ocorrem contudo umas poucas obras de outro teor ou em outro tom, como a perman\u00eancia de vozes da contracorrente. Na contra-m\u00e3o dos modismos, e, sempre, afirmando vozes da contesta\u00e7\u00e3o e den\u00fancia dos crescentes modelos de \u0093produtores culturais\u0094, lan\u00e7o duas obras fugindo do lugar comum.\n\nEnsaio e poesia, O Corpo Significa e A Festa (Deitada), pela Edart Editora e Qu\u00edron Editora, respectivamente, em \u009274 e \u009276.\n\n<strong>Este ensaio abrangente de arte e filosofia, de Eros e poesia, O Corpo Significa e A Festa (Deitada), apresenta-se num formato pouco usual:<\/strong>\u00a0o livro todo est\u00e1 configurado em 19 linhas ou versos, que formam por sua vez os cap\u00edtulos. Cada uma de suas inflex\u00f5es ou conceitos avan\u00e7ados, abre notas de fim de cap\u00edtulo, com transcri\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios cr\u00edticos. Ou seja, mais que um simples reenvio \u00e0 leitura circular, remete necessariamente a um processo sucessivo e acumulativo, dando passagem a todo um bordado que permeia as colagens de textos. Transcri\u00e7\u00f5es que incluem boa parte de textos in\u00e9ditos e que vem assim citados e traduzidos por mim. Como as primeiras transposi\u00e7\u00f5es para o portugu\u00eas de fragmentos da Enciclop\u00e9dia de Novalis, de Kostas Axelos, Marius Schneider ou de Schwaller de Lubicz, ou anota\u00e7\u00f5es de cadernos pessoais de Duchamp; ou tradu\u00e7\u00f5es livres de refer\u00eancias s\u00f3 muito mais tarde vertidas para nossa l\u00edngua, como as de Bachelard, Blanchot, Bellmer, Bataille, Kenneth Clark, Ernst Cassirer, Ren\u00e9 Guenon, e outros tantos, para n\u00e3o falar de Breton e de P\u00e9ret, Dali, Desnos e Aragon, ainda praticamente in\u00e9ditos no Brasil de 76! Note-se tamb\u00e9m que os autores latino-americanos, sendo nomes do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0e ali presentes, aguardariam mais 20 ou 30 anos para come\u00e7ar a ser traduzidos e impressos em nossa l\u00edngua. Falo de um Aldo Pellegrini, C\u00e9sar Moro, Aim\u00e9 C\u00e9saire, Magloire Saint-Aude, Alexandra Pyzarnik, Ludwig Zeller ou E. F. Granell, e n\u00e3o, claro est\u00e1, dos Alejo Carpentier ou, tampouco, dos adeptos do \u0093realismo m\u00e1gico\u0094.\n\nMas&#8230; retomo os come\u00e7os da discuss\u00e3o do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0em S\u00e3o Paulo, nos debates que pa\u00e7o a coordenar, logo ap\u00f3s meu retorno de Paris, em fins do \u009262.\n\nVoltando de Paris para S\u00e3o Paulo em 1962, passei a me reunir com os poetas ditos \u0093nov\u00edssimos\u0094 (estreantes que eram editados na s\u00e9rie \u0093nov\u00edssimos\u0094, por Massao Ohno). Logo organizamos, Roberto Piva, Claudio Willer e eu, uma central ou n\u00facleo de debates sobre o<strong>Surrealismo<\/strong>, com reuni\u00f5es regulares (tr\u00eas vezes por semana, no Bar do L\u00e9o, do Redondo ou no Ferro\u0092s, em frente a Sinagoga do Bexiga.\n\n<strong>Dessa turma inicial, al\u00e9m dos citados, apenas dois mais ter\u00e3o uma continuidade de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria:<\/strong>\u00a0Ant\u00f3nio Fernando De Franceschi e D\u00e9cio Bar. Ra\u00fal Fiker chegaria pouco depois, j\u00e1 no final de \u009263 para \u009264, seguido das ades\u00f5es de Leila Ferraz e Maninha.\n\nPor meio da correspond\u00eancia regular que mantive com os amigos parisienses, reunidos \u00e0 roda de Breton, mant\u00ednhamos atualiza\u00e7\u00e3o do que se iniciava e come\u00e7ava a ocorrer com seus altos e baixos presum\u00edveis, aqui em S. Paulo e nos outros centros do Movimento do<strong>Surrealismo<\/strong>. Insisto que do meu retorno at\u00e9 fins de \u009264 n\u00e3o se constitui um grupo organizado, apesar das atividades coletivas, panfletagens e provoca\u00e7\u00f5es que incentivamos e promovemos com certos arroubos e at\u00e9 entusiasmos. O grupo s\u00f3 se formalizaria no in\u00edcio de \u009265, estendendo-se at\u00e9 \u009269. Assim, mesmo sem o grupo estar formalizado, houve sim uma s\u00e9rie de eventos e provoca\u00e7\u00f5es que respondem explicitamente por uma vis\u00e3o surrealista do amor e da arte, do mundo e da sociedade. Iniciava-se um rigor e uma radicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9tica pouco usual em nossos meios expressivos. Ou, como j\u00e1 se disse antes e bem melhor, soprava os ares de um vento novo, um \u0093frisson noveau\u0094 advindo da vertigem toda outra da imagem nova e portanto moderna, sua provoca\u00e7\u00e3o quase selvagem, o excesso dos transbordos, a vol\u00fapia e o transe \u00e0 flor da pele.\n\nEm janeiro de \u009263, resultante de uma cobran\u00e7a por parte de Vincent Bounoure e Jean Schuster dos insultos contra Benjamin P\u00e9ret, promovidos por Georges Hugnet, numa uma esp\u00e9cie de \u0093ajuste de contas liter\u00e1rio\u0094, ocorrido semanas antes em Paris, fico incumbido de fazer levantamento das estadas de P\u00e9ret no Brasil &#8211; n\u00e3o se tinha acesso a quase nada de sua grande produ\u00e7\u00e3o esparsa, principalmente entre n\u00f3s -, com vistas a uma biografia cr\u00edtica que ent\u00e3o se pensou em preparar, por iniciativa de Losfeld, Breton, Claude Courtot e demais amigos [Introduction \u00e0 la lecture de Benjamin P\u00e9ret, ensaio de Courtot que sairia em 1966, em publica\u00e7\u00e3o da editora de Losfeld e \u0093dos Amigos de P\u00e9ret\u0094 com toda uma iconografia in\u00e9dita de P\u00e9ret no Brasil, encontrada, identificada e fornecida por mim].\n\nDesta forma, alguns colaboradores solicitados para os resgates da mem\u00f3ria de P\u00e9ret, entre outros Octavio Paz, Toyen e Jean Mayoux, passaram a ser, como eu, os pr\u00f3prios s\u00f3cios fundadores do que mais tarde seria a Soci\u00e9t\u00e9 des Amis de Benjamin P\u00e9ret.\n\nSociedade que editaria, juntamente com o Eric Losfeld, at\u00e9 1997, suas obras completas, em nove tomos. Obra completa que compreende uma significativa parte produzida no Brasil, nos dois per\u00edodos em que aqui residiu, com as pesquisas e estudos sobre a \u0093makumba\u0094, o \u0093Quilombo dos Palmares\u0094, a poesia das \u0093ra\u00edzes primitivas\u0094 dos nossos ind\u00edgenas; os mitos e os \u0093contos populares\u0094, as crendices da \u0093inven\u00e7\u00e3o do mundo\u0094; a magia narrativa dos feiti\u00e7os e o retorno aos corpos ancestrais das Grandes Figuras, ora tutelares ora devoradoras.\n\nE ainda nestas obras completas, em termos de contexto brasileiro, vale mencionar o pref\u00e1cio a Mythes et l\u00e9gendes, conclu\u00eddo em S\u00e3o Paulo, assim como Le noyau de la com\u00e8te, igualmente aqui ultimado. Igualmente merece particular destaque a correspond\u00eancia ativa de Benjamin com M\u00e1rio Pedrosa, Elsie Houston e, mais tarde, Geyser P\u00e9ret, al\u00e9m daquela com L\u00edvio Xavier. Numa das cartas ao L\u00edvio, pergunta por An\u00edbal (M. Machado) para convid\u00e1-lo a colaborar na revista VVV, dirigida em Nova York por Duchamp, Breton e David Hare.\n\nO material que consigo resgatar, gra\u00e7as \u00e0s ajudas do pr\u00f3prio L\u00edvio, de Aristides Lobo (ent\u00e3o na Folha de S. Paulo) e Manuel Macedo (editor do Di\u00e1rio da Noite), de S\u00f4nia e do Paulo Em\u00edlio, revela-se precioso.\n\n<strong>Assim, s\u00e3o publicadas as primeiras fotos de Benjamin P\u00e9ret em S. Paulo, na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, bem como alguns dos originais que resgatei:<\/strong>\u00a0sua carteira de ades\u00e3o ao partido trotskysta (Liga de Opposi\u00e7\u00e3o de Esquerda\u0094); entrevista para a Ag\u00eancia Brasileira (liderada por Ra\u00fal Bopp aqui em S\u00e3o Paulo, e que era o ponto de encontro da Antropofagia); artigo sobre a escritura-autom\u00e1tica; pol\u00eamica com Ra\u00fal Polillo, e outros documentos mais.\n\n<strong>Permanecer\u00e1 in\u00e9dito apenas o manuscrito original de narrativa (inacabada):<\/strong>\u00a0\u0093Di\u00e1rio da m\u00e3e de Paul Claudel escrito por ela mesma\u0094. \u00c9 desta mesma ocasi\u00e3o as primeiras not\u00edcias que publico, inicialmente em Paris \u009263, e depois em S\u00e3o Paulo, em \u009267, atrav\u00e9s de depoimentos de L\u00edvio Xavier e Manoel de Macedo, de um livro escrito por P\u00e9ret e que permanecia totalmente desconhecido dos estudos sobre o per\u00edodo.\n\n<strong>P\u00e9ret aventurava-se numa an\u00e1lise comparada in\u00e9dita, entre o epis\u00f3dio da revolta dos marinheiros russos em Odessa [tema do filme de Sergei M. Eisenstein:<\/strong>\u00a0O Encoura\u00e7ado Potemkin], e aquela dos marinheiros comandados pelo cabo Jo\u00e3o C\u00e2ndido, em plena ba\u00eda de Guanabara.\n\nA conhecida ou chamada \u0093Revolta da Chibata\u0094, um dos epis\u00f3dios mais sangrentos de nossa hist\u00f3ria recente, virou documento de contesta\u00e7\u00e3o contundente, que P\u00e9ret intitulou L\u0092Amiral Noir \/ O Almirante Negro &#8211; livro destru\u00eddo pela pol\u00edcia, embora pe\u00e7a chave na primeira pris\u00e3o de P\u00e9ret no Brasil (como agitador e elemento subversivo, em dezembro de \u009231) e sua subseq\u00fcente expuls\u00e3o, repatriado por decreto governamental. Livio Xavier afirmava ter tido um dos exemplares j\u00e1 impresso em m\u00e3os, na pr\u00f3pria gr\u00e1fica.\n\nAnos mais tarde, no processo movido pela pol\u00edcia getulista contra M\u00e1rio Pedrosa, tr\u00eas p\u00e1ginas do original do Almirante Negro constaram como provas comprobat\u00f3rias (p\u00e1ginas essas advindas dos arquivos do Minist\u00e9rio da Marinha). Pode-se notar que a presen\u00e7a por certo tempo de Benjamin P\u00e9ret entre n\u00f3s &#8211; ao contr\u00e1rio do que normalmente se divulga -, foi de import\u00e2ncia e corresponde a significativas atua\u00e7\u00f5es do autor de Mort aux vaches aux champs d\u0092honneur!, seja liter\u00e1ria seja de milit\u00e2ncia pol\u00edtica. As fotos e os dados relativos a Benjamin P\u00e9ret s\u00e3o inicialmente publicados em Paris (parte em De la part de P\u00e9ret e parte em Introduction \u00e0 la lecture de Benjamin P\u00e9ret), como disse, mas a maior parte da documenta\u00e7\u00e3o por mim levantada, ser\u00e1 complementada numa monografia que ultimo nos anos seguintes e que sairia em primeira m\u00e3o na revista A Phala, quatro anos depois.\n\n<strong>Monografia que \u00e9 a primeira publicada na Am\u00e9rica sobre P\u00e9ret, e que tem como titulo um outro famoso dos anos \u009240 do pr\u00f3prio P\u00e9ret:\u00a0<\/strong>Je ne mange-pas de ce pain-l\u00e0. Juntamente com o material resgatado que enviamos para Paris, segue uma lista de assinaturas de autores brasileiros de ades\u00e3o, em protesto diante dos \u00faltimos fatos e solidariedade a P\u00e9ret (entre outros assinam P. E. Salles Gomes, An\u00edbal M. Machado, S. Lima, L\u00edvio Xavier, M\u00e1rio Pedrosa, Maria Martins, Paulo Carneiro, S\u00f4nia Borges). A lista completa das assinaturas de apoio, vindas dos v\u00e1rios pa\u00edses, sairia meses depois na plaqueta De la part de P\u00e9ret [Paris, 1963, Eric Losfeld].\n\n<strong>Logo temos os tr\u00eas primeiros livros publicados por nossa turma, os quais passam a ser centro das discuss\u00f5es (e disputas) principais entre n\u00f3s:<\/strong>\u00a0Paran\u00f3ia (lan\u00e7ado no final de \u009262), do R. Piva; Amore, de S. Lima (editado em \u009263, com textos de \u009259 e \u009160); e, pouco depois, no come\u00e7o de \u009264, Anota\u00e7\u00f5es para um Apocalipse, de C. Willer (onde se encontram as primeiras reflex\u00f5es de Willer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 beat generation e suas implica\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias).\n\nAnota\u00e7\u00f5es \u00e9 lan\u00e7ado juntamente com um segundo livro de Piva, o Piazzas (1964), o qual, escrito em \u009263 portanto, j\u00e1 sinalizava, por assim dizer, um diapas\u00e3o distinto de seu primeiro livro de poemas, o Paran\u00f3ia. Cumpre salientar que come\u00e7avam, ent\u00e3o, a se formar certas dist\u00e2ncias entre a perspectiva surrealista, de uma atua\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, e aquela mais descompromissada, pretendida pelos demais nomes da turma. Observo ainda outro detalhe que recentemente tem sido maquiado e distorcido para outros fins. Falo de uma foto que se produziu, com toda a turma paulista a que estava ligado e que formava o n\u00facleo de debates voltados para o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0que liderava. Foto essa produzida a meu pedido (na Standard Propaganda, onde trabalhava Rengastein Rocha), para o lan\u00e7amento do Amore, a qual, transformada em poster, pontificou na entrada da Livraria Parthenon, por ocasi\u00e3o do perturbador vernissage de Amore (evento que incluia sons de orgasmos femininos e outras surpresas para os presentes, como o convite com \u0093boca do autor\u0094).\n\nEmbora n\u00e3o tenha prosseguido enquanto grupo, essa turma era, digamos assim, o g\u00e9rmen do primeiro grupo surrealista que iria se formar logo depois, fins de \u009264, com novas participa\u00e7\u00f5es e amigos do Rio de Janeiro.\n\nOs anos de \u009262 a \u009265 foram de grande efervesc\u00eancia pol\u00edtica e cultural, sendo que abrigou incurs\u00f5es v\u00e1rias de reivindica\u00e7\u00f5es e de retomadas, desde a estr\u00e9ia de Agrippino de Paula (com o livro Panamericana), \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es de Trindade Leal, P\u00e9ricles Prade, Hilda Hilst, mais a \u0093volta\u0094 de Clarice Lispector.\n\nGeraldo Ferraz organizou em 1964, um ciclo de palestras, \u0093Dada &amp;\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u0094, no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Santos, em colabora\u00e7\u00e3o com o jornal A Tribuna, que pouco depois edita toda a mat\u00e9ria exposta numa plaqueta, distribu\u00edda e divulgada em dezembro de \u009264. No pref\u00e1cio de \u0093Dada &amp; Surrealismo\u0094, Geraldo j\u00e1 indica que se trata \u0093dum per\u00edodo hist\u00f3rico da arte moderna, que esteve em foco durante o ano de 1964 &#8211; o per\u00edodo referente ao Dada\u00edsmo e ao Surrealismo &#8211; pois quarenta anos decorreram do primeiro Manifesto do Surrealismo\u0094. Note-se que no seu texto, Geraldo Ferraz trata do Surrealismo como algo datado, iniciado e terminado na Fran\u00e7a com sede em Paris, a partir de 1924. Omite assim seus desdobramentos e n\u00e3o menciona qualquer dos seus outros p\u00f3los de irrup\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da central parisiense; muito menos faz men\u00e7\u00e3o aos autores brasileiros que a ele se vincularam, ou que se declararam \u00e0 \u00e9poca, j\u00e1 impregnados pelo Movimento. O que n\u00e3o era de admirar, pelo parti pris de Geraldo Ferraz e seu ferrenho sil\u00eancio diante de P\u00e9ret, afinal colegas da Antropofagia&#8230; Lembro que combati igual sil\u00eancio que grassava junto aos \u0093nov\u00edssimos\u0094, em rela\u00e7\u00e3o aos autores e artistas brasileiros do per\u00edodo do Modernismo que estavam impregnados e cativos da aventura surrealista, como Ismael Nery, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Ra\u00fal Bopp, C\u00e9sar de Castro e outros mais. Realmente, caso minha volta de Paris tenha marcado tamb\u00e9m o in\u00edcio de uma revis\u00e3o destes autores na \u00f3tica do \u0093desregramento de todos os sentidos \u0093 e do \u0093absolutamente moderno\u0094; n\u00e3o \u00e9 certo dizer que \u0093trouxe o Surrealismo de Paris\u0094, como se espalhou um pouco levianamente, visto que houve a preocupa\u00e7\u00e3o de situar as ocorr\u00eancias do Movimento como tal, em nosso meio, pelo menos desde a apari\u00e7\u00e3o pol\u00eamica da revista Est\u00e9tica em 1924 e a publica\u00e7\u00e3o na mesma, do manifesto pelos \u0093direitos do sonho\u0094 de S\u00e9rgio Buarque de Hollanda.\n\nNessa \u00e9poca tamb\u00e9m aparecem resist\u00eancias significativas, como aquelas do tipo exposi\u00e7\u00e3o \u0093Proposta 65\u0094, ou espet\u00e1culos como \u0093Opini\u00e3o\u0094 e \u0093Roda Viva\u0094.\n\nResist\u00eancias que vemos igualmente no surgimento do cinema novo e, logo depois, da nova-figura\u00e7\u00e3o e do tropicalismo, com o respectivo enterro da Bossa Nova, ela e o Cinema Novo oriundos do final dos \u009250. Vale observar que o cinema novo vai se configurar basicamente depois, in\u00edcio dos \u009260, tendo como marco uma vis\u00e3o t\u00e3o nacionalista como a Revis\u00e3o Cr\u00edtica do Cinema Brasileiro (\u009263), de Glauber Rocha.\n\nEm nosso grupo de debates, durante os anos de \u009263 e \u009264 desenvolvo pol\u00eamicas e leituras dos manifestos surrealistas, alguns jogos (\u0093cad\u00e1ver-delicioso\u0094, \u0093um-dentro-do-outro\u0094, \u0093dar legenda \u00e0s figuras\u0094 etc.), al\u00e9m de panfletagem, afora outras atividades coletivas e incurs\u00f5es grupais. Destaco, por exemplo, o \u0093manifesto f\u00fanebre\u0094 (que foi manuscritado originalmente por D\u00e9cio Bar), lan\u00e7ado na inaugura\u00e7\u00e3o da VII Bienal, contra os \u0093poetas oficiais\u0094. Esc\u00e2ndalo rapidamente interrompido pela seguran\u00e7a local, embora tenha resultado em p\u00e1gina inteira do jornal \u00daltima Hora, com r\u00e9plicas dos atingidos, e ecos no Correio Paulistano, na Folha e no O Estado de S. Paulo.\n\nSucedendo a este n\u00facleo inicial, e em fun\u00e7\u00e3o de diverg\u00eancias que passam a ter um certo vulto (sobretudo por parte de Piva e Willer, mais preocupados com a beat generation e o pop art), assumo de vez a lideran\u00e7a e, com as novas ader\u00eancias de Fiker e Leila Ferraz, mais Zuca Saldanha e Paulo Ant\u00f4nio Paranagu\u00e1, vindos do Rio de Janeiro, organizo o primeiro grupo surrealista S.Paulo\/Rio, cuja vida breve &#8211; 1965 a 1969 &#8211; n\u00e3o deixou de ser pr\u00f3diga de realiza\u00e7\u00f5es. Eduardo Jardim de Moraes e Maninha tamb\u00e9m aderiram ao primeiro grupo. N\u00e3o por acaso deve-se lembrar que a eclos\u00e3o do grupo \u00e9 imediatamente p\u00f3s-64, e se encerraria no p\u00f3s-68, ainda nas seq\u00fcelas de Maio 68; isto \u00e9, \u00e0 mesma data que os atos de exce\u00e7\u00e3o promovidos pelo governo militar.\n\nA idealiza\u00e7\u00e3o em fins de 1965 e as subseq\u00fcentes pesquisas para atender ao planejamento da Mostra Surrealista Internacional que realizamos em 1967, revestem-se de extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia, tanto para o contexto local, brasileiro, do nosso grupo, quanto para o grupo parisiense que via assim uma sua realiza\u00e7\u00e3o acontecendo no outro lado do Atl\u00e2ntico, fato que n\u00e3o ocorria desde 1949, ano da \u00faltima mostra internacional promovida fora da Europa &#8211; na Galeria D\u00e9dalo, Santiago de Chile. Contamos desde o in\u00edcio com o apoio e os aportes de Andr\u00e9 Breton e de toda a turma de Paris, aos quais logo vieram se somar tamb\u00e9m os do grupo de Lisboa, liderados por M\u00e1rio Cesariny, e os de Buenos Aires, liderado por Aldo Pellegrini. A representa\u00e7\u00e3o brasileira do Movimento apresentou-se com objetos, collages, pinturas e o filme Nadja, de P. A. Paranagu\u00e1, al\u00e9m de partes retrospectivas, como a dedicada a Ismael Nery e C\u00e1ssio M\u0092Boy, \u00e0 arte ind\u00edgena (pr\u00e9-colombiana, cer\u00e2mica e plum\u00e1ria); tivemos ainda uma sess\u00e3o de \u0093arte dos alienados\u0094, emprestada pelo Juqueri (sob a \u00e9gide de Os\u00f3rio C\u00e9sar), que se compunha com outros pr\u00e9stimos e documenta\u00e7\u00e3o fornecida pelos Laborat\u00f3rios Sandoz e pela Sociedade da \u0093Arte Bruta\u0094. Nas artes pl\u00e1sticas tivemos as colabora\u00e7\u00f5es de galerias europ\u00e9ias, espanholas, francesas e italianas, do MAM\/Rio de Janeiro e tamb\u00e9m pe\u00e7as da abrangente cole\u00e7\u00e3o de Maria Martins &#8211; muito embora os empr\u00e9stimos que substanciavam a sess\u00e3o hist\u00f3rica da mostra (Dom\u00ednguez, Ernst, Boccioni, Maria Martins, Picabia, Ernst, De Chirico, Calder, Picasso), do MASP e do MAC\/USP tenham sido negados \u00e0 \u00faltima hora, mais precisamente dias antes da data da montagem, como consta da correspond\u00eancia da dire\u00e7\u00e3o do evento.\n\nPor\u00e9m, a publica\u00e7\u00e3o da revista-cat\u00e1logo A Phala (# 1, agosto de 1967), como que conjurou as principais lacunas, do \u00e2mbito hist\u00f3rico da exposi\u00e7\u00e3o como mencionado, e acabou complementando-a de forma documental. Sublinho seu car\u00e1ter documental, viabilizando e expondo todo um contexto vivo e vis\u00edvel do movimento dos surrealistas; n\u00e3o por acaso seu artigo O\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0atualmente, ser\u00e1 reimpresso em Lisboa e Buenos Aires, indicando claramente o espectro, o provocante diapas\u00e3o deste cat\u00e1logo-revista, com suas mais de 200 p\u00e1ginas. Cat\u00e1logo que trouxe, pela primeira vez em nossa l\u00edngua, todo um elenco de brasileiros vinculados \u00e0s tend\u00eancias que formaram o movimento surrealista, num vasto e riqu\u00edssimo material para o nosso p\u00fablico, informando e propiciando comunica\u00e7\u00e3o direta do interior do Movimento para fora, com aportes tamb\u00e9m significativos dos militantes de Buenos Aires, Lisboa e do Porto. Esse cat\u00e1logo bil\u00edng\u00fce, com originais em franc\u00eas e portugu\u00eas, trouxe ensaios, poemas em prosa e poesias, contou com colabora\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas de Joyce Mansour, Annie Lebrun, Alain Joubert e Nicole Espagnole, Vincent Bounoure, Robert Benayoun, Jean e Claire Markale, Pedro Oom, Enrique Molina, Juan Vasco, Aldo Pellegrini e M\u00e1rio Cesariny, entre outros &#8211; al\u00e9m de artigo cr\u00edtico de Giuseppe Baccaro, perfilando Ismael Nery em termos do Surrealismo, algo total in\u00e9dito \u00e0 \u00e9poca.\n\n<strong>E textos cr\u00edticos e pesquisas monogr\u00e1ficas, como aquelas sobre Charles Fourier e Benjamin P\u00e9ret (todos escritos in\u00e9ditos, salvo texto de Breton sobre Maria Martins, datado de 1946); seu impacto marcou aquele momento, pois A Phala foi at\u00e9 mesmo vendida com sucesso em Paris por seus co-editores:<\/strong>\u00a0a livraria Le Terrain Vague, de Eric Losfeld, e a editora de Jean-JacquesPauvert.\n\nA Phala # 1 cont\u00e9m tamb\u00e9m a primeira men\u00e7\u00e3o expressa de Cruz e Sousa enquanto um dos predecessores do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0em nossa poesia &#8211; justamente num pequeno ensaio que frisa rela\u00e7\u00f5es e a ponte de contato que interligam Simbolismo e Surrealismo, herdeiros que s\u00e3o da caudal revolucion\u00e1ria do Romantismo. Nos preparativos para a XIII Exposi\u00e7\u00e3o, organizamos algumas entrevistas com nossos artistas ditos \u0093surrealistas\u0094 pela imprensa ou ligados ao movimento, dentre os quais Walter Levy, Tarsila e Fl\u00e1vio; contudo, as declina\u00e7\u00f5es mais demoradas e interessadas sobre o tema vieram do pr\u00f3prio Fl\u00e1vio de Carvalho.\n\nFoi o pr\u00f3prio Fl\u00e1vio que tornou poss\u00edvel o evento, com seu apoio e gest\u00f5es na FAAP, somado que foi aos de Maria Martins, Os\u00f3rio C\u00e9sar e Giuseppe Baccaro, o qual &#8211; ademais de preparar um texto sobre Nery e o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0para o cat\u00e1logo &#8211; nos facilitou toda uma s\u00e9rie de 20 obras in\u00e9ditas de Ismael Nery, entre pinturas e desenhos.\n\nRepito que o segundo per\u00edodo inclui assim a forma\u00e7\u00e3o do primeiro grupo organizado do Movimento Surrealista no Brasil, de 1964 a 1969, o qual se responsabiliza por toda uma s\u00e9rie de atividades coletivas, indo de panfletagem, edi\u00e7\u00e3o de plaquetas, livros, testemunhos p\u00fablicos, exposi\u00e7\u00f5es e um manifesto, publicado em editorial na Phala # 1 (redigido em conjunto por mim e Aldo Pellegrini).\n\n\u00c3 turma do primeiro grupo do Movimento no Brasil, formado por Leila Ferraz, Eduardo Jardim de Moraes, Maninha, Ra\u00fal Fiker, Paulo Antonio Paranagu\u00e1, Zuca Saldanha e minha pessoa, vieram se somar Trindade Leal, P\u00e9ricles Prade, Bernardo Cid, Odriozola e, depois de \u009171 e \u009273, Nelson Guimar\u00e3es de Paula e Juan Sanz Hern\u00e1ndez, mais Tito Iglesias. Surgiam assim novas ades\u00f5es ao grupo centrado em S\u00e3o Paulo. Ades\u00f5es que se sucederam aos afastamentos espont\u00e2neos, ainda em 1969, de P. A. Paranagu\u00e1 e Ra\u00fal Fiker, mais aquele de Maninha, desde o final de 1967. Ades\u00f5es que n\u00e3o foram suficientes para a forma\u00e7\u00e3o de um novo grupo, visto que faltava a cristaliza\u00e7\u00e3o de um segundo momento, digamos assim, e as conseq\u00fcentes tomadas de posi\u00e7\u00e3o que implicavam, necess\u00e1rias, penso eu, para a retomada da aventura surrealista.\n\nOs \u009270, anos sombrios em nosso pa\u00eds, abrem-se no que diz respeito ao\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0com a dissid\u00eancia interna ocorrida no grupo parisiense (em fins de \u009269, em repercuss\u00e3o ainda da crise de Maio \u009168), e que originou um protesto geral de todos os demais grupos espalhados na Europa e na Am\u00e9rica, n\u00e3o concordes com a estrat\u00e9gia de uma \u0093divis\u00e3o\u0094 entre surr\u00e9alisme \u00e9ternel e surr\u00e9alisme historique.\n\nObviamente essa \u00faltima classifica\u00e7\u00e3o &#8211; ou melhor, essa tentativa de circunscrever historicamente algo mais amplo que as pretens\u00f5es de imediatismo ou oportunismo mesmo, tout court, de certos franceses &#8211; abria de par em par as vias para uma discut\u00edvel apropria\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Haja visto a raz\u00e3o da presente estrat\u00e9gia de \u0093pol\u00edtica cultural\u0094:<\/strong>\u00a0uma tal apropria\u00e7\u00e3o passa, necessariamente pois, por uma \u0093morte oficial\u0094 que dotaria ou passaria a dotar o Movimento Surrealista de um nascimento, um meio e&#8230; um fim hist\u00f3rico, interrompendo seu car\u00e1ter revolucion\u00e1rio e permanente de atravessar as vanguardas e todo o s\u00e9culo XX.\n\nA maioria dos nomes do grupo parisiense tamb\u00e9m n\u00e3o aderiu \u00e0 esta morte promovida, e se ligaram aos checos que, na sua totalidade, fizeram publica\u00e7\u00f5es e textos violentos contra a estrat\u00e9gia delineada e liderada por Jean Schuster, Jos\u00e9 Pierre, G\u00e9rard Legrand, Claude Courtot e J. C. Silbermann, denunciando com veem\u00eancia a manipula\u00e7\u00e3o em curso. O\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0e seu movimento continuaram produzindo uma s\u00e9rie de revistas, sendo duas dirigidas por Vincent Bounoure e at\u00e9 mesmo uma importante colet\u00e2nea de textos e contribui\u00e7\u00f5es ensa\u00edsticas coletivas, que se intitulou La civilisation surr\u00e9aliste [Paris, 1976, Edi\u00e7\u00f5es Payot] &#8211; org. por Vincent Bounoure e Vratislav Effenberger. Mesmo ano em que se realiza a Exposi\u00e7\u00e3o Mundial do Surrealismo, em Chicago.\n\nAmbos os fatos, La civilisation surr\u00e9aliste e a exposi\u00e7\u00e3o que se chamou Marvellous Freedom desmentem categoricamente a \u0093morte do movimento\u0094&#8230; pretendida (e promovida) pelos dissidentes de \u009269.\n\nOs \u009270 constituem assim o espa\u00e7o intermediario entre o fim do primeiro grupo organizado do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0no Brasil e os eventos de \u009280, que pouco a pouco iriam constituir e sinalizar os come\u00e7os do segundo grupo organizado. Anos esses que est\u00e3o marcados, para mim, nas tr\u00eas exposi\u00e7\u00f5es individuais que realizo, em 1971, 1976 e 1978 (nas galerias paulistas Ars Mobile, MASP-Luiza Strina e Galeria Paulo Prado), bem como nas edi\u00e7\u00f5es do meu primeiro livro na \u00e1rea do ensaio filos\u00f3fico, O Corpo Significa, e do livro de collage e poesia A Festa (Deitada). &#8211; na mesma data, ocorre a primeira Exposi\u00e7\u00e3o Mundial do Surrealismo, em Chicago, promovida por Franklin e Penelope Rosemont, a qual conta com representa\u00e7\u00e3o do Brasil ao lado de mais de 60 pa\u00edses, reunindo quase uma centena de artistas e escritores.\n\nNeste meio tempo, j\u00e1 em 1977, temos a significativa edi\u00e7\u00e3o da antologia Textos de Afirma\u00e7\u00e3o e de Combate do Movimento Surrealista Mundial, organizada e apresentada por M\u00e1rio Cesariny (Lisboa 1977, publica\u00e7\u00e3o da Editora Perspectivas &amp; Realidades).\n\n<strong>Novo desmentido frontal \u00e0 propalada \u0093morte do movimento\u0094, essa antologia inclui o Brasil, presente em tr\u00eas dos seus cap\u00edtulos:<\/strong>\u00a0o dedicado ao grupo surrealista de S\u00e3o Paulo\/Rio de Janeiro, outro \u00e0 XIII Exposi\u00e7\u00e3o Internacional do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0em S\u00e3o Paulo, e outro mais ao ensaio que vinha de publicar pelas edi\u00e7\u00f5es Edart: O Corpo Significa.\n\nTamb\u00e9m nos 70 e como que ecoando as movimenta\u00e7\u00f5es mais recentes em Chicago e Praga, ou em Paris e Lisboa, h\u00e1 um recome\u00e7o ou uma progressiva retomada das movimenta\u00e7\u00f5es ligadas ao\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0entre n\u00f3s, aqui em S\u00e3o Paulo.\n\n<strong>Data de debates sobre a collage e suas caracter\u00edsticas de \u0093linguagem pl\u00e1sica estendida\u0094 &#8211; que gerou o in\u00edcio da pesquisa sobre o tema j\u00e1 no final dos \u009270 &#8211; tornando-se um alentado ensaio:<\/strong>\u00a0Collage&#8230; uma nova superf\u00edcie sens\u00edvel, s\u00f3 editado em 1984. Novas publica\u00e7\u00f5es de autores brasileiros ligados ao movimento surrealista, tradu\u00e7\u00f5es de nomes do Surrealismo ou pr\u00f3ximos do mesmo e que s\u00f3 agora come\u00e7avam a traduzir. Clarice Lispector entrevista Maria Martins na sua s\u00e9rie famosa de entrevistas para a revista Manchete, onde a questiona, entre outras coisas, sobre o seu envolvimento com o Movimento e os surrealistas. Etc.\n\nNo in\u00edcio da d\u00e9cada seguinte, 1981, tem in\u00edcio o primeiro semin\u00e1rio que realizo sobre \u0093A Imagem como Conhecimento Sens\u00edvel\u0094, fazendo parte dos eventos que inauguraram naquele ano a Galeria S\u00e3o Paulo. Esp\u00e9cie de passeio filos\u00f3fico sobre as diferen\u00e7as e\/ou distin\u00e7\u00f5es que se perfilam entre o modelo, o molde (ou simulacro) e a imagem propriamente dita, quer liter\u00e1ria quer visual. Ao mesmo tempo que retomo o tema da apresenta\u00e7\u00e3o de minha primeira exposi\u00e7\u00e3o (\u0093O Molde e o seu Modelo\u0094, 1971), retomo tamb\u00e9m algumas das fontes decisivas para O Corpo Significa, como Bachelard, Bataille, Malcolm de Chazal, Marcuse, Kostas Axelos, Clarice Lispector e outros. Avan\u00e7o nas pesquisas e buscas, adentrando numa esp\u00e9\u00e7ie de arqueologia das poss\u00edveis influ\u00eancias e influxos do Movimento entre nossos autores, poetas e pintores, ao mesmo tempo em que desenvolvo uma nova escrita para o ensaio sobre a linguagem visual e a collage.\n\nJ\u00e1 em \u009285 publico A Alta Licenciosidade. Poesia &amp; Er\u00f3tica 1955-1985, uma colet\u00e2nea de minha poesia que organizei com vistas \u00e0 Semana Surrealista em S\u00e3o Paulo, onde foi lan\u00e7ada, na abertura da Semana do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>, abrindo a mostra coletiva \u0093A arte do Imagin\u00e1rio\u0094\/Galeria Encontro das Artes\/S\u00e3o Paulo.\n\nAtividades tais, dos ensaios e textos cr\u00edticos \u00e0s exposi\u00e7\u00f5es e aos poemas, que acabaram por alimentar uma s\u00e9rie de encontros e novas rela\u00e7\u00f5es, ampliando por certo e vindo dinamizar significativamente, com perspectivas seminais quer o percurso de minhas reflex\u00f5es, quer aquele de minha express\u00e3o escrita ou pl\u00e1stica.\n\nEspecial repercuss\u00e3o ocorreu, por exemplo, com a vinda do grupo surrealista de Buenos Aires (da revista Signo Ascendente) para S\u00e3o Paulo, convidados para a Semana Surrealista de 1985. Na ocasi\u00e3o esse grupo publicou um manifesto denunciando a manipula\u00e7\u00e3o da \u0093morte do movimento em \u009169\u0094, por parte da cr\u00edtica oficial. De imediato houve uma certa empatia, e logo passamos a atividades conjuntas. Ano seguinte, 1986, viajo para Buenos Aires, \u00e0 convite de Julio Del Mar e Silvia Grenier, l\u00edderes da movida surrealista na Argentina dos \u009180. Na capital portenha realizo exposi\u00e7\u00e3o individual de collages e o semin\u00e1rio sobre A Imagem, conforme mencionado acima. Ambos eventos realizados nas salas e no audit\u00f3rio do Escrit\u00f3rio Comercial do Brasil, na Calle Esmeralda n. 68.\n\nProssigo para o terceiro per\u00edodo que j\u00e1 come\u00e7ava, praticamente, no final dos \u009280.\n\n<strong>A partir de 1987, come\u00e7ei a ministrar aulas regulares em Bacharelado de Artes Pl\u00e1sticas, iniciando-se uma Intera\u00e7\u00e3o importante com o meio acad\u00eamico e suas oficinas de forma\u00e7\u00e3o, que logo me trazem alguns desdobramentos significativos em simp\u00f3sios e encontros de que participo, como a semana de estudos no Curso de Extens\u00e3o \u0093Arte e Pol\u00edtica:<\/strong>\u00a0o\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u0094, falando sobre Surrealismo e Revolu\u00e7\u00e3o da Imagem, no Campus de Assis, da UNESP.\n\nAssim, do segundo semestre de 1992 a 1995, tamb\u00e9m atuo junto ao IEL\/UNicamp. Depois, de 1996 em diante, come\u00e7o tamb\u00e9m a lecionar regularmente Hist\u00f3ria da Arte em ateli\u00eas livres, enquanto passava a titular de Teoria da Cria\u00e7\u00e3o, no Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o Social, Jornalismo e Publicidade, do Centro Universit\u00e1rio FIEO. Nesse per\u00edodo, desenvolvo os tr\u00e2mites poss\u00edveis para concluir a edi\u00e7\u00e3o do tomo 1 da Aventura Surrealista, junto a Editora da UNICAMP. E participo da Semana de Estudos de Letras e Lingu\u00edstica com foco no Romantismo e sua vertente ut\u00f3pico-revolucion\u00e1ria (juntamente com Francisco Foot Hardman e Michael L\u00f6wy).\n\nComecei a desenvolver, ao mesmo tempo das outras atividades, uma extensa pesquisa hist\u00f3rica sobre as ra\u00edzes do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0e suas ramifica\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina, especialmente no Brasil. Pesquisa essa que j\u00e1 me fora sugerida em 1967, desde Paris, por Lo Duca, ent\u00e3o assessor de Jean-Jacques Pauvert &#8211; um dos co-editores de A Phala # 1 -, a partir do material a\u00ed publicado ou j\u00e1 assinalado. E que, deixada de lado ap\u00f3s \u009171\/\u009272, s\u00f3 retomaria em \u009285, a partir da Semana Surrealista em S\u00e3o Paulo. Retomado o projeto inicial, come\u00e7o a avan\u00e7ar nos levantamentos e prospec\u00e7\u00f5es fundados nas letras e artes brasileiras. A pesquisa cobre as duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo, os anos do chamado pr\u00e9-modernismo e da Primeira Guerra, continuando nos anos do \u0093entre guerras\u0094, d\u00e9cadas de \u009220 e \u009230. Toda essa parte da pesquisa, coletada e organizada de 1985 a 1995, foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 Bolsa de Pesquisa na Hist\u00f3ria da Arte e Teoria &#8211; projeto \u0093A Aventura Surrealista\u0094 &#8211; concedida pelo CNPq em 1989\/1990, assim como apoios e acessos obtidos \u00e0s cole\u00e7\u00f5es de arquivos da UNICAMP, particularmente aos documentos de Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Alexandre Eul\u00e1lio e S\u00e9rgio Buarque de Holanda.\n\nSimultaneamente, reativo as atividades coletivas do movimento surrealista em S\u00e3o Paulo no per\u00edodo de \u009187 a \u009291, granjeando novas ades\u00f5es entre pintores e poetas. No intervalo ou ciclo intermedi\u00e1rio destes \u00faltimos anos, digamos de \u009285 a \u009290, ocorre o espa\u00e7o e as passagens necess\u00e1rias para a forma\u00e7\u00e3o de um segundo grupo surrealista, que balizar\u00e1 um chamado terceiro per\u00edodo. Deste modo, no in\u00edcio da d\u00e9cada dos \u009290, abrimos um segundo grupo surrealista em S\u00e3o Paulo, agora em parceria com Floriano Martins, de Fortaleza, sendo que no ano seguinte contamos com as ades\u00f5es do ensa\u00edsta Fernando Freitas Fu\u00e3o e da artista Michele Argenta Finger.\n\n<strong>TERCEIRO PER\u00cdODO<\/strong>\n\nPodemos dizer, assim, que o terceiro per\u00edodo articula-se ao redor da forma\u00e7\u00e3o de um segundo grupo do Movimento no Brasil, o grupo surrealista \u0093S\u00e3o Paulo-Fortaleza\u0094, vigente desde esta \u00faltima d\u00e9cada, ou, mais precisamente, ativo e atuante de 1990 a 1999.\n\nEm 1992, com pref\u00e1cio de Floriano Martins e carta-coment\u00e1rio de M\u00e1rio Cesariny, na editora &amp; Etc., por iniciativa de J. Tavares, sai publicado em Lisboa meu poema Aluvi\u00e3o Rei. Depois seguem-se os poemas e poemas-em-prosa de Floriano, como Tumult\u00famulos (Rio de Janeiro, Mundo Manual Edi\u00e7\u00f5es, 1994) e Alma em Chamas (Rio de Janeiro-Fortaleza, Biblioteca Nacional e Edi\u00e7\u00f5es Letra &amp; M\u00fasica, 1998). Ao que vem se somar a antologia cr\u00edtica estabelecida com poetas de hoje, sob o t\u00edtulo Escritura Conquistada (Di\u00e1logos com poetas latino-americanos) (Fortaleza, Letra &amp; M\u00fasica Edi\u00e7\u00f5es, Universidade de Mogi das Cruzes, Biblioteca Nacional). Assim, o importante Escritura Conquistada, com sua s\u00e9rie de entrevistas, recorta o universo atual de autores de seu interesse &#8211; ligados ou n\u00e3o ao Surrealismo &#8211; cuja abrang\u00eancia \u00e9 reveladora sobretudo de uma respira\u00e7\u00e3o maior dada \u00e0 Poesia. Muito embora surgido nesses anos iniciais da d\u00e9cada, o Escritura Conquistada s\u00f3 sairia publicado depois, em 1998.\n\nEntretanto o primeiro documento do segundo grupo surrealista, nesse terceiro momento da periodicidade aqui proposta, refere-se ao relat\u00f3rio a quatro m\u00e3os, que Floriano Martins e eu enviamos, em \u009190, para o Boletim Internacional do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>, ent\u00e3o editada em Estocolmo.\n\nPouco depois, em \u009191, seriam articuladas as propostas do \u0093tierra adentro\u0094, promovidas por Silvia Guiard e o grupo de Buenos Aires, seguida do subseq\u00fcente manifesto contra os festejos do Descobrimento da Am\u00e9rica, intitulado \u0093Enquanto os Turistas Ocupem o Lugar dos Videntes\u0094 (1992).\n\nEste manifesto compreendia participa\u00e7\u00e3o brasileira, cujos signat\u00e1rios tiveram suas obras presentes na grande mostra internacional de B\u00f6chun, \u0093LatinAmerika und der Surrealismus\u0094. Nessa mostra estavam tamb\u00e9m obras de nomes hist\u00f3ricos do Movimento no Brasil, como C\u00edcero Dias, Pagu e Fl\u00e1vio de Carvalho, bem como, portanto, obras atuais de artistas do grupo de S\u00e3o Paulo-Fortaleza.\n\n<strong>Em \u009195, iniciava-se a edi\u00e7\u00e3o ilustrada da pesquisa a que vinha me dedicando nos \u00faltimos dez anos, a prospec\u00e7\u00e3o e levantamento hist\u00f3rico-documental das rela\u00e7\u00f5es entre o Movimento do Surrealismo e o Brasil:<\/strong>\u00a0A Aventura Surrealista (S\u00e3o Paulo: Editora Unicamp, Unesp e Vozes, T. I, ilustrado).\n\nO segundo grupo que se afirma assim, ao longo do que chamo \u0093terceiro per\u00edodo\u0094, \u00e9 formado com as participa\u00e7\u00f5es de Helo\u00edsa Pessoa, Laila Aiach, Lya Paes de Barros, Zoca Barros, Ivanir de Oliveira, Josifa Aharony, Nicole Evelyne Reiss, Nelson de Paula, Juan Hern\u00e1ndez, Floriano Martins, eu e Hilton Seallwright, mais o Zuca Saldanha que continuava residindo na Alemanha,em Hamburgo, e Michael L\u00f6wy que reside em Paris. De \u009294 para frente, enquanto t\u00ednhamos novas aproxima\u00e7\u00f5es com Claudio Willer e Trindade Leal, os amigos Nelson de Paula, Zoca, Juan e Hilton deixaram de participar do Movimento. Vale indicar, talvez como foco central desse segundo grupo do Movimento no Brasil, no terceiro per\u00edodo portanto, a realiza\u00e7\u00e3o de um novo boletim ou revista, com seus n\u00fameros I (1993) e II (1996), intitulada Escrituras Surrealistas.\n\nE, ainda em \u009296, realizamos uma mostra internacional, intitulada \u0093Collage &#8211; Homenagem ao centen\u00e1rio de Andr\u00e9 Breton (1896-1996)\u0094. O evento trouxe obras de artistas e escritores da Fran\u00e7a, Portugal, Peru, Su\u00e9cia, Argentina e Brasil, al\u00e9m de convidados da Fran\u00e7a e da Argentina. Tamb\u00e9m recente, em 1999, no n\u00famero 4 da revista Uni\u00f3n Libre, editada em Lugo (Gal\u00edcia) por Claudio R. Fer e Carmen Blanco, tivemos a publica\u00e7\u00e3o integral do longo poema de minha autoria, intitulado A Boca Da Sombra Que Te Ergue Branca.\n\nA d\u00e9cada dos \u009290 traz portanto a atua\u00e7\u00e3o de Michael L\u00f6wy junto ao grupo brasileiro. Assim, o itiner\u00e1rio de uma figura atuante desde os anos 60 na Fran\u00e7a e no Brasil, como a de Michael L\u00f6wy, cabe muito bem, por exemplo, para se delinear a enorme mobilidade dos adeptos do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0em seus contextos respectivos. Brasileiro residindo em Paris, al\u00e9m de participar de movimenta\u00e7\u00f5es do grupo surrealista no Brasil, Michael tamb\u00e9m \u00e9 figura atuante junto aos nossos amigos do grupo parisiense. Em ambos os grupos, ele traz e continua a trazer aportes novos para o pensamento do Surrealismo e sua pr\u00e1xis.\n\nEm sua primeira viagem para Paris, 1958, Michael era portador de material para Benjamin P\u00e9ret, enviado por Paulo Em\u00edlio Salles Gomes (Paulo Em\u00edlio era casado com S\u00f4nia Borges, sobrinho de Elsie Houston, primeira esposa de Benjamin P\u00e9ret e irm\u00e3 de Mary Houston, esposa de M\u00e1rio Pedrosa, outro nome do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0no Brasil). Michael volta a Paris em \u009161, quando tivemos um r\u00e1pido encontro na Cidade Luz, conversamos e se falou muito do Surrealismo e seus animadores, os poetas e artistas do Movimento, ent\u00e3o reunindo-se regularmente no Caf\u00e9 \u00c0 La Promenade de V\u00e9nus.\n\n<strong>Apenas em \u009175\/\u009276 \u00e9 que Michael, j\u00e1 publicada sua tese sobre A Teoria da revolu\u00e7\u00e3o no jovem Marx (La Th\u00e9orie de la r\u00e9volution chez le jeune Marx. Paris:\u00a0<\/strong>Maspero, 1970), ter\u00e1 a iniciativa de uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o com os surrealistas da capital parisiense no meio dos \u009170, depois daquela em que foi instado por mim e que ficara sem \u00eaxito.\n\nSublinho, contudo, que a articula\u00e7\u00e3o que ent\u00e3o se firmou em \u009175 entre Michael L\u00f6wy e os surrealistas &#8211; o grupo parisiense liderado por Vincent Bounoure, Jean-Louis B\u00e9douin e Michel Zimbacca, nomes engajados no Movimento desde o final dos \u009240 e dos \u009250 &#8211; ocorreu \u00e0 roda da quest\u00e3o do resgate de Paulo Antonio Paranagu\u00e1, detido em Buenos Aires h\u00e1 algum tempo, nos c\u00e1rceres da pol\u00edcia argentina. A partir de ent\u00e3o Michael passa a militar no grupo e fica sendo presen\u00e7a constante nas suas reuni\u00f5es.\n\n<strong>E mais:<\/strong>\u00a0alguns anos mais tarde Michael estar\u00e1 presente tamb\u00e9m, em suas regulares estadias em S. Paulo uma vez por ano, nas reuni\u00f5es do grupo surrealista de S.Paulo\/Fortaleza que tinha se formado em fins dos \u009290 e meados de \u009191 (nossas reuni\u00f5es ent\u00e3o eram no atelier de Lya Paes de Barros, na Rua Augusta.).\n\n<strong>A publica\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s da colet\u00e2nea de ensaios de Michael L\u00f6wy , originalmente intitulada L\u0092\u00c9toile du Matin:<\/strong>\u00a0surr\u00e9alisme et marxisme, \u00e9 um acontecimento editorial prenhe de surpresas e provoca\u00e7\u00f5es. Suas in\u00fameras implica\u00e7\u00f5es compreendem, por exemplo, todo um discurso perfeitamente claro e com seus pontos de fuga bem posicionados, diante da exposi\u00e7\u00e3o do fato consumado que \u00e9 o<strong>Surrealismo<\/strong>. Surrealismo que se apresenta em seu texto enquanto posi\u00e7\u00e3o e gesto revolucion\u00e1rio, atual e contundente. Surrealismo que navega livremente nas suas compara\u00e7\u00f5es, a todo pano diria um homem do mar, para grande espanto dos cr\u00edticos tradicionalistas ou das mentes mais conservadoras. Ou ent\u00e3o para os ortodoxos guardi\u00f5es de um saudoso Modernismo datado.\n\nL\u0092\u00c9toile du Matin, pouco importa se escrito em Paris ou em outra capital do mundo, inscreve-se naturalmente no longo processo da afirma\u00e7\u00e3o paulatina e vigorosa do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0mesmo, enquanto etapa e mais um degr\u00e1u decisivo para uma singular e pr\u00f3pria vis\u00e3o brasileira do Movimento.\n\nBasta se aproximar de qualquer artigo e dos ensaios que comp\u00f5em a presente sele\u00e7\u00e3o e se ter\u00e1, de imediato, a vertigem do novo e, qui\u00e7\u00e1, o impacto de itens e de aspectos absolutamente modernos e sistematicamnente ignorados, os quais est\u00e3o ausentes dos suplementos liter\u00e1rios ou art\u00edsticos, para n\u00e3o dizer da pr\u00f3pria imprensa brasileira h\u00e1 um bom tempo!\n\nDe pronto temos a quest\u00e3o do\u00a0<strong>Surrealismo<\/strong>\u00a0colocado atualmente, hoje, sobretudo e apesar de tudo vigente no momento do presente. Em que pese os sil\u00eancios deste lado de c\u00e1 do Equador.\n\n<strong>Quanto a um eventual depois deste per\u00edodo mais recente, podemos retomar a asser\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de Andr\u00e9 Breton, quando instado por um rep\u00f3rter espanhol nos idos dos \u009250 sobre os destinos do Movimento:<\/strong>\n\n\u0093 &#8211; O Surrealismo \u00e9 o que ser\u00e1!\u0094\n\nEste texto foi publicado originalmente (com alguns erros e cortes por parte da editoria) em forma de &#8220;Anexo&#8221;, ou cap\u00edtulo derradeiro da colet\u00e2nea de estudos cr\u00edticos Estrela da manh\u00e3, de Michael L\u00f6wy, lan\u00e7ado em fins de novembro de 2002, pela editora Record\/Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira &#8211; Rio de Janeiro.\n\n<strong>Note-se que a edi\u00e7\u00e3o original francesa, publicada em 2000:<\/strong>\u00a0L&#8217; \u00c9toile du matin\/ edit. Trysk\u00e8le, n\u00e3o trazia este cap\u00edtulo, que, encomendado em maio\/junho 2001 s\u00f3 agora saiu impresso no Brasil. <strong>SERGIO LIMA<\/strong>\n\nFonte: Infopedia 2.0 CD-ROM\/www.speculum.art.br\/Enciclopedia Multimedia del Arte Universal\/www2.fcsh.unl.pt\/\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Surrealismo, Arte, Literatura, Movimento, Surrealista, Per\u00edodos, Pintura, Artistas, Brasil, Mundo, Manifesto, Caracter\u00edsticas, Surrealismo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5046,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-19536","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-2"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Surrealismo - Portal S\u00e3o Francisco<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Surrealismo - 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