{"id":15455,"date":"2015-12-29T00:00:00","date_gmt":"2015-12-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/cultura-urbana-2\/"},"modified":"2026-08-31T23:24:17","modified_gmt":"2026-08-31T23:24:17","slug":"cultura-urbana-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-geral\/cultura-urbana-2\/","title":{"rendered":"Cultura Urbana"},"content":{"rendered":"\n<strong>Cidade e Culturas Urbanas &#8211; Defini\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\n<strong>Cultura Urbana<\/strong>, qualquer um dos padr\u00f5es de comportamento dos v\u00e1rios tipos de cidades e \u00e1reas urbanas, tanto do passado como do presente.\n\nA pesquisa sobre culturas urbanas concentra-se naturalmente em sua institui\u00e7\u00e3o definidora, a cidade, e os modos de vida, ou formas culturais, que crescem dentro das cidades.\n\nA bolsa de estudos urbana tem progredido continuamente em dire\u00e7\u00e3o a uma concep\u00e7\u00e3o de cidades e culturas urbanas que \u00e9 livre de etnocentrismo, com ampla validade transcultural e hist\u00f3rica.\n\nJ\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, as concep\u00e7\u00f5es da cidade muitas vezes procediam como se houvesse apenas uma forma aut\u00eantica ou t\u00edpica.\n\n<strong>A partir de sua pesquisa sobre a cidade na Idade M\u00e9dia europeia, Henri Pirenne, por exemplo, argumentou em Cidades Medievais (1925) que duas caracter\u00edsticas foram fundamentais para o desenvolvimento de uma cultura urbana:<\/strong>\u00a0uma burguesia, ou classe m\u00e9dia, que depende do com\u00e9rcio para ambas riqueza e autonomia pol\u00edtica dos detentores do poder feudal n\u00e3o urbano; e uma organiza\u00e7\u00e3o comunal da cidadania urbana que cria a integra\u00e7\u00e3o municipal necess\u00e1ria para libertar a cidade do controle dos senhores feudais locais ou autoridades religiosas.\n\nEmbora muitas vezes tenha sido tomada como uma defini\u00e7\u00e3o geral da cidade e da cultura urbana (da\u00ed a no\u00e7\u00e3o de senso comum de que as cidades devem cumprir fun\u00e7\u00f5es comerciais), a formula\u00e7\u00e3o de Pirenne foi deficiente porque apenas a cidade medieval europeia e sua cultura burguesa foram tidas como t\u00edpicas do \u201c verdadeira \u201dcidade.\n\nMax Weber em The City (1921) forneceu outra defini\u00e7\u00e3o de cidade, semelhante \u00e0 de Pirenne, quando comparou o urbanismo &#8220;ocidental&#8221; com o &#8220;oriental&#8221;.\n\n<strong>De acordo com Weber, cinco atributos definem uma comunidade urbana:<\/strong>\u00a0ela deve possuir uma fortifica\u00e7\u00e3o, um mercado, um c\u00f3digo de leis e sistema judicial pr\u00f3prio, uma associa\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os urbanos criando um sentido de corporatividade municipal, e autonomia pol\u00edtica suficiente para os cidad\u00e3os urbanos escolherem os governadores da cidade.\n\nWeber acreditava que as cidades orientais raramente alcan\u00e7avam essas caracter\u00edsticas essenciais porque as identidades familiares, tribais ou sect\u00e1rias impediam os residentes urbanos de formar uma cidadania urbana unificada capaz de resistir ao controle do Estado. Mesmo no que diz respeito \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do Ocidente, Weber excluiria quase todas as cidades pr\u00e9-modernas, pois a autonomia urbana que ele exigia existia apenas no norte da Europa e na It\u00e1lia e, mesmo l\u00e1, por per\u00edodos muito curtos de tempo no final da Idade M\u00e9dia.\n\nO resultado foi uma concep\u00e7\u00e3o excessivamente limitada de culturas urbanas, a partir da qual foi extremamente dif\u00edcil gerar uma compreens\u00e3o transculturalmente v\u00e1lida.\n\nNa d\u00e9cada de 1940, Robert Redfield, fortemente influenciado por Louis Wirth e outros membros da escola de ecologia urbana de Chicago, concebeu o urbano como invariavelmente impessoal, heterog\u00eaneo, secular e desorganizador. No modelo urbano-popular, conforme exposto em seu artigo \u201cThe Folk Society\u201d (A Sociedade Folcl\u00f3rica), Redfield contrastou essa imagem da vida na cidade com uma imagem da comunidade popular, que ele caracterizou como pequena, sagrada, altamente personalista e homog\u00eanea. Ele presumiu que, \u00e0 medida que os indiv\u00edduos se mudassem da comunidade folcl\u00f3rica para a cidade, ou \u00e0 medida que uma sociedade inteira se movesse em dire\u00e7\u00e3o a uma cultura mais urbanizada, haveria um colapso nas tradi\u00e7\u00f5es culturais.\n\nA urbaniza\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos e sociedades sofreria de desorganiza\u00e7\u00e3o cultural e teria maior incid\u00eancia de patologias sociais como div\u00f3rcio, alcoolismo, crime e solid\u00e3o.\n\nA concep\u00e7\u00e3o de Redfield sobre a cidade dependia da pesquisa urbana realizada por soci\u00f3logos em cidades industriais americanas, predominantemente Chicago.\n\nEle presumiu etnocentricamente que suas descobertas poderiam ser generalizadas para todas as culturas urbanas. Pesquisas subsequentes indicaram que essa concep\u00e7\u00e3o estava errada em muitos aspectos, mesmo para as cidades industriais americanas. Apesar de ser geralmente etnoc\u00eantrica e especificamente inadequada para as cidades americanas, essa concep\u00e7\u00e3o ainda prevalece sobre muito do pensamento popular, que concebe as cidades, em todas as culturas e em todos os tempos, como centros de boemia, experimenta\u00e7\u00e3o social, dissid\u00eancia, anomia, crime e condi\u00e7\u00f5es semelhantes &#8211; sejam boas ou m\u00e1s &#8211; criadas pelo colapso social.\n\nGideon Sjoberg (The Preindustrial City, Past and Present, 1960), na pr\u00f3xima etapa em dire\u00e7\u00e3o a uma compreens\u00e3o transculturalmente v\u00e1lida das cidades, desafiou essa concep\u00e7\u00e3o de cultura urbana como etnoc\u00eantrica e historicamente limitada. Ele dividiu os centros urbanos do mundo em dois tipos, a cidade pr\u00e9-industrial e a cidade industrial, que ele distinguiu com base nas diferen\u00e7as no n\u00edvel tecnol\u00f3gico da sociedade. As cidades pr\u00e9-industriais, de acordo com Sjoberg, podem ser encontradas em sociedades sem tecnologia sofisticada de m\u00e1quinas, onde o trabalho humano e animal \u00e9 a base da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. As cidades industriais predominam nas na\u00e7\u00f5es modernizadas da Europa Ocidental e da Am\u00e9rica, onde fontes de energia de combust\u00edveis f\u00f3sseis e energia at\u00f4mica expandem fenomenalmente a produtividade econ\u00f4mica.\n\n<strong>Para Sjoberg, a cultura urbana pr\u00e9-industrial diferia acentuadamente de sua contraparte industrial:<\/strong>\u00a0os bairros da cidade pr\u00e9-industrial eram fortemente integrados por la\u00e7os personalistas de etnia e lealdade sect\u00e1ria; mantinha fortes conex\u00f5es familiares, e a desorganiza\u00e7\u00e3o social era pouco evidente; igrejas ou outras institui\u00e7\u00f5es sagradas dominavam o horizonte, bem como as cren\u00e7as culturais do lugar urbano; e a principal fun\u00e7\u00e3o urbana era a administra\u00e7\u00e3o imperial, e n\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o industrial.\n\nEmbora a concep\u00e7\u00e3o de Sjoberg de um tipo urbano pr\u00e9-industrial tenha sido uma grande melhoria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s defini\u00e7\u00f5es urbanas anteriores, tamb\u00e9m sofreu com a generaliza\u00e7\u00e3o excessiva.\n\nSjoberg colapsou culturas urbanas de tipos notavelmente diferentes em um \u00fanico tipo de cidade pr\u00e9-industrial indiferenciada &#8211; por exemplo, as cidades de imp\u00e9rios antigos foram confundidas com locais urbanos atuais no Terceiro Mundo. As culturas urbanas do passado que n\u00e3o se encaixavam prontamente na concep\u00e7\u00e3o de Sjoberg, como as cidades autoc\u00e9falos (autogovernadas) do in\u00edcio da Europa moderna, foram descartadas como variantes tempor\u00e1rias e incomuns de seu tipo pr\u00e9-industrial, em vez de variedades importantes de cultura urbana.\n\nEm &#8220;The Cultural Role of Cities&#8221;, Robert Redfield e Milton Singer tentaram melhorar todas as concep\u00e7\u00f5es anteriores da cidade, incluindo aquela que o pr\u00f3prio Redfield usou em seu modelo urbano-popular, enfatizando os pap\u00e9is culturais vari\u00e1veis desempenhados pelas cidades nas sociedades. Redfield e Singer delinearam dois pap\u00e9is culturais para as cidades que todos os lugares urbanos desempenham, embora com graus variados de intensidade e elabora\u00e7\u00e3o. As cidades cujo papel cultural predominante \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o e codifica\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es da sociedade desempenham fun\u00e7\u00f5es \u201cortogen\u00e9ticas\u201d.\n\nEm tais culturas urbanas, os quadros de literatos racionalizam uma \u201cGrande Tradi\u00e7\u00e3o\u201d de cultura para a sociedade em geral. A mensagem cultural que emana de Delhi, Paris, Washington, D.C. e outras capitais de imp\u00e9rios cl\u00e1ssicos ou estados-na\u00e7\u00e3o modernos funciona para elaborar e salvaguardar a tradi\u00e7\u00e3o cultural. Em contraste, as cidades cujo papel cultural prim\u00e1rio \u00e9 \u201cheterogen\u00e9tico\u201d, como Redfield e Singer definiram, s\u00e3o centros de mudan\u00e7a t\u00e9cnica e econ\u00f4mica e funcionam para criar e introduzir novas ideias, cosmologias e pr\u00e1ticas sociais na sociedade. Em cidades como Londres, Marselha ou Nova York, a intelectualidade desafia m\u00e9todos antigos, questiona tradi\u00e7\u00f5es estabelecidas e ajuda a tornar essas cidades centros culturais inovadores.\n\nContinuando a preocupa\u00e7\u00e3o de Redfield e Singer com o papel cultural das cidades em suas sociedades, Paul Wheatley em The Pivot of the Four Quarters (1971) considerou a forma mais antiga de cultura urbana um centro cerimonial ou de culto que organizou e dominou uma regi\u00e3o rural circundante atrav\u00e9s de suas pr\u00e1ticas sagradas e autoridade. De acordo com Wheatley, s\u00f3 mais tarde a proemin\u00eancia econ\u00f4mica e o poder pol\u00edtico foram adicionados a esse papel cultural urbano original. Wheatley, seguindo Redfield e Singer, estabeleceu que qualquer concep\u00e7\u00e3o de uma cultura urbana tinha de se basear no papel cultural das cidades em suas sociedades; a pesquisa deve abordar especificamente como o papel cultural urbano organiza cren\u00e7as e pr\u00e1ticas na cultura mais ampla al\u00e9m dos recintos urbanos e, conseq\u00fcentemente, como esse papel cultural urbano necessita de certos modos de vida e agrupamentos sociais (formas culturais) na cidade.\n\nA partir da d\u00e9cada de 1970, David Harvey (Social Justice and the City, 1973), Manuel Castells (The Urban Question, 1977) e outros estudiosos influenciados pelo marxismo causaram uma grande mudan\u00e7a na concep\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is culturais urbanos. Embora eles trabalhassem principalmente em cidades em culturas capitalistas avan\u00e7adas, sua abordagem teve grande relev\u00e2ncia. Em vez de olhar para fora da cidade para a cultura urbana como um todo, a nova bolsa concebeu a cidade como um t\u00e9rmino para pap\u00e9is culturais que emanam da cultura mais ampla ou mesmo do sistema mundial.\n\n<strong>Harvey, por exemplo, vinculou as principais mudan\u00e7as nos modos de vida urbanos americanos \u00e0 cultura urbana do capitalismo avan\u00e7ado:<\/strong>\u00a0para ele, o crescimento dos sub\u00farbios se desenvolveu a partir da promo\u00e7\u00e3o do capitalismo de novos padr\u00f5es de consumo no interesse do lucro. Castells via a cidade como uma arena para conflitos sociais que, em \u00faltima an\u00e1lise, emanavam das divis\u00f5es de classe dentro da sociedade capitalista.\n\nEssa erudi\u00e7\u00e3o marxista n\u00e3o contradiz a \u00eanfase anterior na cidade como fonte de pap\u00e9is culturais, tanto quanto a complementa.\n\nO estudo dos pap\u00e9is culturais das cidades deve incluir n\u00e3o apenas as cren\u00e7as e pr\u00e1ticas culturais que emanam das cidades, mas tamb\u00e9m as formas culturais que se desenvolvem dentro da cidade como resultado do impacto da cultura urbana sobre ela. Dessa forma, a bolsa de estudos pode apresentar uma concep\u00e7\u00e3o transcultural e historicamente v\u00e1lida das cidades, suas formas culturais e as culturas urbanas nas quais est\u00e3o inseridas.\n\n<strong>Culturas urbanas e desafios \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o cultural<\/strong>\n\nNesta sess\u00e3o sobre culturas urbanas vou recuperar alguns pontos gerais sobre a cidade e a quest\u00e3o urbana como forma de me centrar numa dimens\u00e3o particular \u2013 a prioridade do tempo instant\u00e2neo e o modo como torna dif\u00edcil a coopera\u00e7\u00e3o cultural entre cidades que, a meu ver, se revela hoje, talvez inesperadamente, uma vari\u00e1vel determinante da cultura urbana e do exerc\u00edcio da cidadania na cidade. O meu objetivo \u00e9 sustentar que talvez tenhamos que equacionar melhor e de forma mais criativa o potencial que, apesar dos obst\u00e1culos culturais que enfrenta,\u00a0 a coopera\u00e7\u00e3o cultural pode trazer para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia urbana e a constru\u00e7\u00e3o de uma cidade feita de diversidade, justa e solid\u00e1ria.\n\nDesejo come\u00e7ar por assinalar o enorme e t\u00e3o diverso conhecimento de que dispomos hoje sobre a cidade e a condi\u00e7\u00e3o urbana.\u00a0 Podemos dizer, que sabemos tudo ou quase tudo sobre a cidade contempor\u00e2nea\u2026\n\nConhecemos bem, isto \u00e9, est\u00e1 hoje ao nosso dispor, uma bateria enorme de conhecimento acerca das principais vari\u00e1veis urbanas, sejam socio-econ\u00f4micas e demogr\u00e1ficas, sejam ambientais e arquitet\u00f4nicas, sejam pol\u00edticas e de governa\u00e7\u00e3o, sejam mesmo est\u00e9ticas e culturais. Dominamos um conjunto de instrumentos e t\u00e9cnicas de gest\u00e3o e planeamento urbano, a come\u00e7ar sobre a hist\u00f3ria da cidade que parece dar garantias da qualidade futura da exist\u00eancia humana na cidade. Estamos, por isso, muito capacitados para saber quais os limites e quais as contradi\u00e7\u00f5es da cidade de hoje.\n\nAl\u00e9m disso n\u00e3o tem faltado saber e imagina\u00e7\u00e3o na descoberta de facetas novas que as cidades v\u00e3o revelando a cada passo.\n\nApesar deste incessante aumento do capital de conhecimento e de criatividade urbana, estamos longe de admitir que vivemos ou alcan\u00e7aremos em breve o patamar de uma cidade idealizada como cidade justa, democr\u00e1tica, inclusiva, intelig\u00edvel e, enfim, bela. N\u00e3o admira, portanto, que apesar ou por causa do est\u00e1dio avan\u00e7ado do conhecimento alcan\u00e7ado sobre a cidade e a sociedade, a quest\u00e3o que mais nos inquieta \u00e9 a generalizada suspeita sobre se seremos ou n\u00e3o capazes de construir aquela cidade idealizada.\n\nAlgo de essencial est\u00e1 em falta e admito que o que est\u00e1 em falta seja precisamente uma vis\u00e3o clara das condi\u00e7\u00f5es em que podemos instaurar uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica efetiva e democr\u00e1tica de coopera\u00e7\u00e3o cultural intra e inter cidades.\n\nEm vez de mobilizarmos todas as capacidades necess\u00e1rias \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da cidade justa e democr\u00e1tica do futuro, tornou-se f\u00e1cil acusar a cidade de muitas insufici\u00eancias e malef\u00edcios sist\u00e9micos e civilizacionais.\n\nOra nesta esp\u00e9cie de acusa\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, perdemos de vista muitos dos mecanismos que tornam a cidade objeto de perversas incoer\u00eancias e incompletudes do projeto e das promessas da modernidade.\n\nPermitam que assinale muito sinteticamente alguns dos processos de transforma\u00e7\u00e3o global recente que exercem poderosos efeitos sobre a cidade.\n\n<strong>Assinalemos sumariamente apenas dois destes efeitos:<\/strong>\n<blockquote><strong>O primeiro\u00a0<\/strong>diz respeito ao reconhecimento da cidade como entidade socio-pol\u00edtica de escala interm\u00e9dia (algures entre o estado-na\u00e7\u00e3o e a regi\u00e3o, de um lado, e o local, ou a pequena comunidade, de outro lado)\n\nCome\u00e7aria, portanto por chamar a vossa aten\u00e7\u00e3o para um conjunto de aspectos que sintetizam os principais tra\u00e7os da evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que afetam os modos como a cidade \u00e9 percepcionada e a vida urbana se modifica.\n\nO que parece mais interessante fazer ressaltar deste enunciado \u00e9 o fato de as cidades constitu\u00edrem uma arena pol\u00edtica interm\u00e9dia de governa\u00e7\u00e3o (um per\u00edmetro pol\u00edtico algures entre o estado-na\u00e7\u00e3o e a localidade). Esta situa\u00e7\u00e3o torna a cidade um terreno disputado politicamente, ao mesmo tempo que revela potenciais para o exerc\u00edcio da a\u00e7\u00e3o e da governa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tem dado origem a experi\u00eancias inovadoras de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.\n\n<strong>O segundo<\/strong>\u00a0efeito \u00e9 o de a cidade estar hoje sujeita a influ\u00eancias socio-culturais radicalmente novas que contribuem elas pr\u00f3prias para a renova\u00e7\u00e3o do nosso entendimento do que \u00e9 a cultura urbana dos nossos dias.<\/blockquote>\n\u00c9\u00a0 escusado afirmar que estas transforma\u00e7\u00f5es, decorrentes da globaliza\u00e7\u00e3o do mundo e da economia atuais, provocam altera\u00e7\u00f5es profundas nos padr\u00f5es de cultura e nos comportamentos dos indiv\u00edduos e grupos, nos diversos contextos urbanos.\n\nNo espa\u00e7o desta comunica\u00e7\u00e3o darei uma aten\u00e7\u00e3o muito particular aos efeitos da cultura da velocidade que me parece condicionar muito particularmente todos os restantes fatores enunciados, com destaque particular para a retra\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico urbano.\n\nEsta ideia de cultura de velocidade, remete-nos para uma no\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>tempo instant\u00e2neo<\/i>\u00a0que \u00e9 uma sugestiva (ou provocat\u00f3ria) hip\u00f3tese de o futuro se estar a dissolver no presente.\n\nEsta l\u00f3gica imediatismo n\u00e3o permite refletir sobre a cidade e a cultura do futuro, pois que sublinha o desejo de alcan\u00e7ar o futuro j\u00e1 e de o transformarmos numa mera sucess\u00e3o de agoras. Esta cultura da instantaneidade e da velocidade\u00a0 tem v\u00e1rios efeitos, alguns dos quais se prendem diretamente com a nossa reflex\u00e3o sobre a cidade.\n\nUma primeira consequ\u00eancia \u00e9 que o tempo objetivo e social da modernidade est\u00e1 dando lugar a temporalidades subjetivas e personalizadas. A segunda grande consequ\u00eancia trazida pelo tempo instant\u00e2neo \u00e9 a desconfian\u00e7a no futuro que significa que ningu\u00e9m tem tempo para esperar e todos buscam a gratifica\u00e7\u00e3o imediata dos seus atos.\n\nA terceira consequ\u00eancia \u00e9 que os trajetos espacio-temporais dos sujeitos deixaram de estar sincronizados e articulados entre si, dando origem a uma acentuada\u00a0<i>varia\u00e7\u00e3o entre os diferentes tempos<\/i>\u00a0individuais, na medida em que estes s\u00e3o cada vez menos organizados de forma coletiva, social, ou familiar.\n\nEm termos gerais, esta fragmenta\u00e7\u00e3o dos tempos dos sujeitos e dos seus trajetos \u00e9 uma condicionante muito forte da a\u00e7\u00e3o de coopera\u00e7\u00e3o cultural que \u00e9 preciso estimular como forma de promover a constru\u00e7\u00e3o da cidade idealizada do futuro, t\u00e3o diversa como solid\u00e1ria. Permitam-me que me detenha brevemente sobre tr\u00eas efeitos decorrentes desta cultura da instantaneidade sobre a l\u00f3gica da coopera\u00e7\u00e3o cultural das cidades.\n<blockquote>Em primeiro lugar, perante a globaliza\u00e7\u00e3o dos mercados, a cultura da instantaneidade e da velocidade agudiza a concorr\u00eancia entre cidades em vez de alimentar a coopera\u00e7\u00e3o entre elas. Em vez de redes organizadas de cidades em coopera\u00e7\u00e3o, esta cultura acentua e premeia a a\u00e7\u00e3o isolada e aut\u00f3noma de cada cidade, em como meio de capta\u00e7\u00e3o de recursos (investimentos, equipamentos e servi\u00e7os) e de inser\u00e7\u00e3o em fluxos internacionais (mercadorias, pessoas) que organizam a economia globalizada. A ideia de uma marca ou imagem individual de cidade, com os benef\u00edcios que a ret\u00f3rica do marketing de cidades anuncia, pode ser determinante para o sucesso das cidades na concorr\u00eancia econ\u00f4mica, mas n\u00e3o o ser\u00e1 para a constru\u00e7\u00e3o de uma cidade inclusiva.\n\nNesta linha de ideias, h\u00e1 um segundo sentido em que a cultura da velocidade e a fragmenta\u00e7\u00e3o dos tempos dos sujeitos prejudica a coopera\u00e7\u00e3o cultural. Para o enunciarmos devemos ter em conta que a coopera\u00e7\u00e3o cultural da cidade n\u00e3o pode ser entendida apenas na rela\u00e7\u00e3o de exterioridade de uma cidade com outra ou outras, mas \u00e9 essencial que saiba promover da coopera\u00e7\u00e3o cultural end\u00f3gena num quadro de diversidade sociocultural. Por outras palavras, promover da coopera\u00e7\u00e3o da cidade consigo mesma e com os seus diversos grupos e culturas.\n\nQuero dizer com isto que a l\u00f3gica da concorr\u00eancia inter-cidades que conduz \u00e0 op\u00e7\u00e3o pela constru\u00e7\u00e3o de uma imagem e uma identidade singular que seja competitiva no mercado global, \u00e9 sempre constru\u00edda a partir dos recursos e patrim\u00f3nios locais mais atrativos e vend\u00e1veis, segundo uma l\u00f3gica de mercado e n\u00e3o uma l\u00f3gica de comunidade de interesses e patrim\u00f3nios diversos. Ora na cidade da diversidade cultural como tendem a ser todas as cidades de hoje, a escolha de um patrim\u00f3nio, ou recurso, ou grupo \u00e9tnico, como emblem\u00e1tico, \u00e9 sempre uma escolha pol\u00edtica e culturalmente seletiva e, no limite, tende a produzir ou a refor\u00e7ar a subalterniza\u00e7\u00e3o e a exclus\u00e3o de outros grupos, patrim\u00f3nios ou culturas alternativos. Em vez de solid\u00e1ria e inclusiva a cidade pode, por este via, tornar-se particularmente excludente e fragment\u00e1ria.\n\nPor fim, o terceiro sentido em que \u00e9 indiscut\u00edvel a dificuldade da rela\u00e7\u00e3o da cultura da instantaneidade com a coopera\u00e7\u00e3o cultural, tem a ver com a j\u00e1 referida desconfian\u00e7a no futuro. Esta dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o resulta do paradoxal apelo que o tempo instant\u00e2neo faz ao passado e o respectivo culto da nostalgia que est\u00e1 hoje em todo o lado e n\u00e3o se confina a artefatos concretos, territ\u00f3rios espec\u00edficos ou experi\u00eancias ou acontecimentos localizados, como antes sucedia. A nostalgia de hoje est\u00e1 relacionada com todo e qualquer acontecimento, lugar ou artefato antigo. Podem mesmo ser bairros e cidades inteiras que pretendem ser\u00a0 tratadas como hist\u00f3ricas ou patrimoniais e antigas, como forma de serem reconhecidas e se modernizarem. Basta que pensemos que nunca as ru\u00ednas milenares ou os vest\u00edgios de uma velha f\u00e1brica estiveram t\u00e3o na moda\u00a0 e receberam tanta aten\u00e7\u00e3o por parte das pol\u00edticas patrimonialistas nacionais ou regionais, ou dos agentes do ?espet\u00e1culo de luz e som? e da esteticiza\u00e7\u00e3o urbana. Nunca os monumentos do passado foram t\u00e3o cativantes e estilizados, nem os museus t\u00e3o interativos e publicitados.<\/blockquote>\nEsta situa\u00e7\u00e3o tem dado origem a um crescimento inusitado de uma esp\u00e9cie de ind\u00fastria ou manufatura institucionalizada da produ\u00e7\u00e3o\/preserva\u00e7\u00e3o de patrim\u00f3nio. Alguns pa\u00edses, regi\u00f5es ou prefeituras investem recursos avultados na patrimonializa\u00e7\u00e3o dos seus vest\u00edgios da hist\u00f3ria e mostram-se desejosos de os verem transformados em s\u00edmbolos da humanidade e\/ou tamb\u00e9m artefatos tur\u00edsticos. Sem contestar esta pol\u00edtica de consagra\u00e7\u00e3o do objeto patrimonial, muitas vezes seletiva e elitista, gostaria de assinalar a necessidade de se promover uma outra a\u00e7\u00e3o alter-patrimonialista do patrim\u00f3nio sociocultural e hist\u00f3rico das cidades.\n\nDesejo sustentar que uma coopera\u00e7\u00e3o cultural para a cidade do futuro deve ser capaz de consagrar o patrim\u00f3nio, seja na forma de ?anti-monumento ou\u00a0 anti-museu, que resulta da a\u00e7\u00e3o social e da hist\u00f3ria popular que n\u00e3o representa nem celebra o poder hegem\u00f3nico institu\u00eddo, mas que, ao contr\u00e1rio, representa, materializa e preserva o quotidiano popular dos grupos sociais subalternizados.\n\nAproximo-me, assim, do final desta comunica\u00e7\u00e3o.\n\nCom a refer\u00eancia aos tr\u00eas sentidos que acabo de enunciar da rela\u00e7\u00e3o entre tempo instant\u00e2neo e coopera\u00e7\u00e3o cultural procurei sintetizar alguns dos desafios que teremos que enfrentar para a constru\u00e7\u00e3o cultural e politicamente sustentada de uma cidade justa e democr\u00e1tica.\n\nEsses desafios decorrem da a\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o que fomenta a concorr\u00eancia e n\u00e3o a coopera\u00e7\u00e3o entre cidades. Prolonga-se, depois, pela pol\u00edtica de radicaliza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as no seio da pr\u00f3pria cidade, em vez de promover a inclus\u00e3o da e na diversidade. Por fim, estende-se pela patrimonializa\u00e7\u00e3o hegem\u00f3nica da cultura e do tempo hist\u00f3rico, a que \u00e9 necess\u00e1rio contrapor uma alternativa.\n\nInsisto, a terminar, portanto, na necessidade de se admitir que talvez seja a pol\u00edtica e a a\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o cultural aquilo que nos falta ensaiar com mais ousadia e criatividade de modo a sustentar uma condi\u00e7\u00e3o humana renovada nas cidades de hoje e de amanh\u00e3.\n\nMuito de n\u00f3s, e ouvimos isso ser dito por diversas vezes neste Encontro, n\u00e3o temos ainda uma ideia s\u00f3lida e definitiva de como forjar e instituir esta coopera\u00e7\u00e3o. Parece que afinal sabemos muito sobre as cidades, mas pouco sobre a coopera\u00e7\u00e3o cultural. Quando \u00e9 assim, n\u00e3o \u00e9 no saber que temos que nos refugiar em busca de respostas e solu\u00e7\u00f5es. \u00c9, ao contr\u00e1rio, na ousadia, na criatividade e na imagina\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o (de coopera\u00e7\u00e3o).\n\n<strong>O cotidiano urbano e as pr\u00e1ticas culturais<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-157508 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Cultur6-1-300x212.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"212\" \/><strong>Cultura Urbana<\/strong><\/p>\n<strong>A Cidade Cosmopolita<\/strong>\n\n\u00c9 fato que as cidades sempre existiram embora n\u00e3o apresentassem no passado a configura\u00e7\u00e3o das grandes cidades capitalistas.\n\nJ\u00e1 abordamos tamb\u00e9m o conceito de urbano e a mudan\u00e7a na sociedade urbana que deixou de ser rural e passou a organizar-se no contexto urbano, ou seja, nas cidades.\n\nCom todos os elementos que vimos at\u00e9 aqui, ficou claro que as cidades concentram uma verdadeira mistura de diferentes refer\u00eancias culturais.\n\nA forma\u00e7\u00e3o e crescimento das cidades est\u00e3o associados ao seu poder de atra\u00e7\u00e3o e pessoas de diversas partes afluem para as cidades por diferentes motivos. S\u00e3o pessoas do entorno da cidade, da regi\u00e3o, de outras regi\u00f5es e at\u00e9 mesmo de outros pa\u00edses, como \u00e9 o caso das metr\u00f3poles mundiais.\n\nO fluxo cont\u00ednuo de pessoas das mais diferentes culturas transformou a cidade em um espa\u00e7o cosmopolita no qual as diferen\u00e7as convivem e se expressam das formas diferenciadas. Neste aspecto, a compreens\u00e3o do cotidiano da cidade, suas pr\u00e1ticas, refer\u00eancias e signos, s\u00e3o elementos essenciais para a nossa compreens\u00e3o da cultura urbana, cultura esta que n\u00e3o est\u00e1 presa \u00e0s ra\u00edzes do passado, mas sim, uma cultura em constante transforma\u00e7\u00e3o. A cultura urbana n\u00e3o influencia e transforma apenas o migrante rec\u00e9m-chegado ou o turista; \u00e9 uma cultura que exerce forte influ\u00eancia, mas tamb\u00e9m \u00e9 influenciada por cada um dos seus habitantes permanentes ou tempor\u00e1rios.\n\nUm bom exemplo \u00e9 a exist\u00eancia de espa\u00e7os da cultura nordestina em cidades como Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, onde \u00e9 poss\u00edvel comprar produtos t\u00edpicos do Nordeste, (queijo coalho, tapioca, bode) e dan\u00e7ar um leg\u00edtimo forr\u00f3 p\u00e9 de serra em pleno centro da cidade.\n\nNa\u00a0<strong>cultura urbana<\/strong>\u00a0existe aspectos do cotidiano que s\u00e3o consolidados pelo pr\u00f3prio modo de vida da cidade moderna. \u00c8 preciso ter pressa na cidade, j\u00e1 que as dist\u00e2ncias s\u00e3o grandes, os transportes de massa e o tr\u00e2nsito flui lentamente. N\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o da cortesia, da lentid\u00e3o, da contempla\u00e7\u00e3o, dos grandes espa\u00e7os. Na cidade encontramos o ritmo nervoso, arisco, da corrida para entrar primeiro no transporte, dos restaurantes lotados, das filas intermin\u00e1veis, e da viol\u00eancia. Para um habitante de uma cidade pacata, adaptar-se ao ritmo de uma grande cidade pode ser uma tarefa \u00e1rdua que nunca \u00e9 finalizada.\n\nUma das caracter\u00edsticas marcantes da cidade \u00e9 a oferta de servi\u00e7os, especializados e em quantidades surpreendentes. A cultura \u00e9 um dos servi\u00e7os que mais atraem nas cidades, pois \u00e9 o ponto de efervesc\u00eancia do que \u00e9 novo, moderno, atua e de vanguarda. \u00c9 poss\u00edvel nas grandes cidades assistir grandes espet\u00e1culo com a \u00f3pera A\u00edda, concertos de rock de bandas internacionais, filmes alternativos, exposi\u00e7\u00e3o de grandes artistas ou obras inestim\u00e1veis como obras do fara\u00f3 eg\u00edpcio. Ou seja, nas cidades n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel apenas a cultura local, mas a cultura da humanidade de todas as polis do mundo, representadas em um s\u00f3 local.\n\nApesar do papel de cidade espet\u00e1culo que oportuniza diferentes experi\u00eancias, o cotidiano das grandes cidades provoca tamb\u00e9m a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o, inadequa\u00e7\u00e3o e inconst\u00e2ncia que resulta no surgimento de grupos que expressam a sua insatisfa\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia, com o ritmo acelerado e com as dificuldades encontradas em uma caracteriza\u00e7\u00e3o de roupas, m\u00fasicas, modo de andar, consumir e viver diferenciados do resto da sociedade. S\u00e3o as tribos urbanas, como os g\u00f3ticos, grunges, punks, roqueiros, technos etc que encontram em seus estilos de vida um espa\u00e7o singular no universo homog\u00eaneo das cidades. \u00c9 a busca da identidade e da identifi ca\u00e7\u00e3o para uma melhor compreens\u00e3o e mobilidade nos espa\u00e7os urbanos.\n\n<strong>Da Figura do Flaneur de Baudellaire ao Filme Koyaanisqatsi:<\/strong>\u00a0Life out of balance (Vida fora de equil\u00edbrio)\n\nUm dos primeiros relatos do cotidiano das cidades foi realizado por Baudellaire atrav\u00e9s da figura do flaneur que ficava observando os transeuntes das ruas da cidade, registrando os seus h\u00e1bitos e costumes. Flanear virou sin\u00f4nimo de andar de forma despreocupada pelas ruas das cidades observando o comportamento local. Para o flaneur, uma grande cidade \u00e9 um territ\u00f3rio rico em sujeitos e atitudes que pode retratar o perfil de todo um grupo social como leg\u00edtimos representantes da cultura urbana.\n\n\u00c9 preciso contextualizar o olhar de Baudellaire que estava testemunhando o surgimento da cidade capitalista moderna, em plena transi\u00e7\u00e3o do modo de vida rural predominante para o modo de vida urbano.\n<blockquote>O poeta franc\u00eas Charles Baudelaire procurou, na imensid\u00e3o das grandes cidades, a efemeridade que caracterizou sua \u00e9poca. Viveu na Paris oitocentista em seu momento de reforma urbana, sob o governo de Napole\u00e3o III. Da reforma, nasceu um modelo de modernidade urbana, em que a constru\u00e7\u00e3o de grandes vias para a r\u00e1pida circula\u00e7\u00e3o de cargas e de transporte de passageiros passa a ser privilegiada. Paris, \u00e0 \u00e9poca de Baudelaire, era a capital da utilidade f\u00fatil. Seus caf\u00e9s, bulevares, sal\u00f5es e passagens foram freq\u00fcentados por uma sociedade esqu\u00e1lida, desejosa em ver seu rosto refletido em tudo o que constru\u00eda ou podia comprar (MENEZES, 2009, p.64).<\/blockquote>\nNo seu pr\u00f3prio texto, Baudellaire defi ne o papel do flaneur como um admirador de uma nova ordem social que registra as suas observa\u00e7\u00f5es e refle x\u00f5es, consciente da import\u00e2ncia hist\u00f3rica do seu registro.\n<blockquote>Para o perfeito Fl\u00e2neur, para o observador apaixonado, \u00e9 um imenso j\u00fabilo fixar resid\u00eancia no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa, e contudo sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto no mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses esp\u00edritos independentes, apaixonados, imparciais, que a linguagem n\u00e3o pode definir sen\u00e3o toscamente. O observador \u00e9 um pr\u00edncipe que frui por toda parte do fato de estar inc\u00f3gnito. O amador da vida faz do mundo a sua fam\u00edlia, tal como o amador do belo sexo comp\u00f5e sua fam\u00edlia, com todas as belezas encontradas e encontr\u00e1veis ou inencontr\u00e1veis; tal como o amador de quadros vive numa sociedade encantada de sonhos pintados. Assim o apaixonado pela vida universal entra na multid\u00e3o como se isso lhe aparecesse como um reservat\u00f3rio de eletricidade (BAUDELLAIRE, 1988, P.170).<\/blockquote>\nO autor n\u00e3o foi o \u00fanico a lan\u00e7ar um olhar perspicaz sobre a nova organiza\u00e7\u00e3o da sociedade em complexas cidades. Outros autores tamb\u00e9m buscaram captar os fragmentos da realidade para os seus romances, como Edgard Allan Poe, Emil\u00e9 Zola, Charles Dickens, Honor\u00e9 de Balzac e Victor Hugo trouxeram relatos interessantes do panorama urbano da \u00e9poca. O livro Londres e Paris no S\u00e9culo XIX, o espet\u00e1culo da pobreza da historiadora, Maria Stella Martins Bresciani, aborda a perplexidade dos habitantes diante de condi\u00e7\u00f5es de vida sub humanas, muito parecidas com a realidade que encontramos nas favelas e regi\u00f5es perif\u00e9ricas hoje.\n\nN\u00e3o \u00e9 por acaso que v\u00e1rias cidades passaram por reformas e a\u00e7\u00f5es higienistas com o objetivo de livrar as cidades das doen\u00e7as provocadas pela aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas em condi\u00e7\u00f5es insalubres.\n\n\u00c9 um per\u00edodo complexo da conforma\u00e7\u00e3o das cidades, no qual foram criados v\u00e1rios processos e c\u00f3digos para se viver nas cidades, como por exemplo, a necessidade da vacina e o controle da sa\u00fade dos seus habitantes.\n\nA forma de viver foi modificada, os costumes da vida rural n\u00e3o podiam ser reproduzidos nos grandes centros urbanos.\n\nO modo de vida da cidade exige um comportamento urbano condicionado em uma s\u00e9rie de procedimentos que implicam n\u00e3o apenas a forma de organiza\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m o deslocamento e o modo de viver.\n\n<strong>Os apartamentos, por exemplo, exigem n\u00e3o apenas uma adapta\u00e7\u00e3o ao estilo de moradia (quartos menores, banheiros e cozinhas min\u00fasculos), como tamb\u00e9m afetam outras \u00e1reas do estilo de vida:<\/strong>\u00a0elevadores que exigem tempo de espera, uso comum da \u00e1gua, distin\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7os comuns e privados, regras de conviv\u00eancia registradas em cart\u00f3rio civil etc.\n\nS\u00e3o regras que condicionam n\u00e3o apenas os espa\u00e7os comuns p\u00fablicos, mas tamb\u00e9m os espa\u00e7os privados (proibi\u00e7\u00e3o de animais, roupas penduradas nas janelas, barulho em determinados hor\u00e1rios etc.).\n\nTodas estas quest\u00f5es, embora subjetivas, condicionam a forma de viver das pessoas que precisam se conformar com as regras para viver em determinados espa\u00e7os.\n\nE n\u00e3o \u00e9 apenas no espa\u00e7o de habita\u00e7\u00e3o que os crit\u00e9rios s\u00e3o estabelecidos, praticamente em todos os espa\u00e7os urbanos sejam eles museus, cinemas, transporte p\u00fablico, pra\u00e7as etc, existe um c\u00f3digo de conduta pr\u00e9-estabelecido.\n\nNa pe\u00e7a de teatro chamada Fulaninha e Dona Coisa, as rela\u00e7\u00f5es entre uma empregada dom\u00e9stica e sua patroa s\u00e3o exploradas na perspectiva da condi\u00e7\u00e3o de Fulaninha, uma mo\u00e7a rec\u00e9m chegada do interior para trabalhar na cidade que n\u00e3o compreende os c\u00f3digos de conduta.\n\n<strong>Em uma das cenas, a personagem lava as roupas da patroa na piscina do pr\u00e9dio e ao ser repreendida afi rma com evidente surpresa:\u00a0<\/strong>Imagina, Dona Coisa, um a\u00e7ude cheio d?\u00e1gua s\u00f3 para tomar banho!\n\nExistem v\u00e1rias cr\u00f4nicas que exploram as contradi\u00e7\u00f5es e os problemas da cidade, como O Homem Nude Fernando Sabino, mas a transi\u00e7\u00e3o da vida rural para o homem urbano foi retratado de forma magistral no filme\n\nA Marvada Carne, sobre um matuto cujo maior desejo era comer carne de boi. As perip\u00e9cias terminam com a migra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia para uma grande cidade, \u00fanico local onde ele consegue realizar o seu desejo.\n\nCabe aqui um refer\u00eancia ao enorme poder de atra\u00e7\u00e3o que as grandes cidades exercem sobre os habitantes das mais diversas localidades.\n\nA sociedade capitalista moderna consolidou a ideia de que as cidades s\u00e3o locais associados a modernidade, com todas as facilidades de uma vida de consumo e sucesso.\n\nA dicotomia campo-cidade vem sendo retratada no imagin\u00e1rio de todos como um contraponto entre o antigo e o moderno, o atrasado e o atual, o im\u00f3vel e o din\u00e2mico, seja atrav\u00e9s das novelas, livros, contos, pe\u00e7as e jornais. Existe a imagem da cidade que oferece mais empregos, mais condi\u00e7\u00f5es de mobilidade social e econ\u00f4mica, mais possibilidade de sucesso e uma diversidade de servi\u00e7os.\n\n\u00c9 na cidade que encontramos os grandes m\u00e9dicos, as maiores lojas, ou seja, mais acesso ao consumo. N\u00e3o \u00e9 colocado em momento algum que esta acessibilidade est\u00e1 relacionada com o consumo, e, consequentemente, ao capital financeiro. Atra\u00eddos pelas possibilidades de melhores oportunidades nas cidades, milhares de pessoas migram nas suas pr\u00f3prias regi\u00f5es ou intra-regi\u00f5es em busca de realizar o sonho de uma realidade melhor.\n\nPor outro lado, para os que vivem nas cidades, os problemas s\u00e3o muitos e reside em cada habitante o imagin\u00e1rio de uma qualidade de vida melhor, em cidades de pequeno e m\u00e9dio porte, sem o estresse do cotidiano causado pelo barulho, pelo tr\u00e2nsito e pela viol\u00eancia. Este panorama ca\u00f3tico das cidades modernas levou v\u00e1rios artistas a criarem suas obras, a partir de suas inquieta\u00e7\u00f5es com o estilo de vida urbano e suas contradi\u00e7\u00f5es.\n\n<strong>Um trabalho que exemplifica bem a preocupa\u00e7\u00e3o com o modo de vida urbano \u00e9 o document\u00e1rio Koyaanisqatsi:\u00a0<\/strong>Life out of balance, dirigido por Godfrey Reggio em 1983.\n\nO filme mostra atrav\u00e9s de um olhar muito particular, cenas da cidade aceleradas, apontando para a irracionalidade em nosso modo de viver.\n\nO t\u00edtulo complicado do fi lme \u00e9 uma palavra utilizada por tribos ind\u00edgenas que significa vida louca e tem uma fun\u00e7\u00e3o importante na narrativa. Considerado uma obra prima visual com excelente trilha sonora, o filme nos leva a uma refl ex\u00e3o profunda sobre a\u00e7\u00f5es aparentemente banais do cotidiano das cidades.\n\nUma quest\u00e3o interessante \u00e9 que o modo de vida urbano n\u00e3o altera apenas as estruturas f\u00edsicas como a moradia, deslocamento, transporte, trabalho etc. As rela\u00e7\u00f5es de tempo tamb\u00e9m s\u00e3o alteradas, e os minutos e segundos do rel\u00f3gio costumam fazer diferen\u00e7a, principalmente quando se perde um \u00f4nibus ou se chega atrasado para bater o ponto na f\u00e1brica. No modo de vida rural, as horas possuem um significado importante relacionado com elementos pontuais como a hora das refei\u00e7\u00f5es, por exemplo, mas o principal rel\u00f3gio ainda \u00e9 a luz solar e as refer\u00eancias da natureza (tal evento aconteceu antes ou depois da colheita ou da seca).\n\n<strong>O ritmo de tempo diferenciado \u00e9 mais um elemento que caracteriza o cotidiano urbano e sempre \u00e9 importante lembrar que as duas categorias mais importantes para o ser humano \u00e9 o tempo e o espa\u00e7o e suas constantes altera\u00e7\u00f5es provocam inquieta\u00e7\u00f5es e perplexidade que costumam ser encontradas em express\u00f5es do senso comum como:<\/strong>\u00a0o tempo est\u00e1 passando muito r\u00e1pido, o dia est\u00e1 mais curto, o tempo voa, o dia com 24 horas n\u00e3o \u00e9 mais suficiente etc.\n\nObviamente, do ponto de vista f\u00edsico n\u00e3o existe nenhuma mudan\u00e7a no tempo, mas a percep\u00e7\u00e3o individual est\u00e1 relacionada com o tempo social. Harvey (1999) tece algumas considera\u00e7\u00f5es interessantes sobre o assunto.\n<blockquote>Em primeiro lugar, as comunica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas derrubaram as fronteiras usuais do espa\u00e7o e do tempo, produzindo tanto um novo internacionalismo como fortes diferencia\u00e7\u00f5es internas em cidades e sociedades baseadas no lugar, na fun\u00e7\u00e3o e no interesse social. Essa fragmenta\u00e7\u00e3o produzida? existe num contexto com tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e transportes capazes de lidar com a intera\u00e7\u00e3o social no espa\u00e7o de maneira bem diferenciada. A arquitetura e o projeto urbano viram-se, portanto, diante de oportunidades novas e mais amplias de diversifi car a forma espacial do que ocorrera no per\u00edodo p\u00f3s-guerra imediato. Formas urbanas dispersas, descentralizadas e desconcentradas s\u00e3o hoje mais fact\u00edveis tecnologicamente do que antes. (HARVEY, 2001, p.77).<\/blockquote>\nAssim, verifi camos que as estruturas da organiza\u00e7\u00e3o espacial tamb\u00e9m afetam as rela\u00e7\u00f5es do tempo nas grandes cidades, modifi cando as duas categorias essenciais para o ser humano, que s\u00e3o concretizadas nas a\u00e7\u00f5es do cotidiano. O cotidiano, principalmente nas grandes cidades, \u00e9 um retrato da estrutura da sociedade e autores como Lefebvre (1991) o consideram t\u00e3o importante que afirma que quando as pessoas n\u00e3o podem mais a viver sua cotidianidade, ent\u00e3o come\u00e7a uma revolu\u00e7\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o. Enquanto puderem viver o cotidiano, as antigas rela\u00e7\u00f5es se reconstituem (LEFEBVRE, 1991, p.39).\n\nInvestigar o cotidiano e a sua import\u00e2ncia na vida moderna \u00e9 essencial para compreendermos a l\u00f3gica da vida urbana e seus impactos em nossa sociedade.\n\n<strong>As Identidades e a busca de espa\u00e7os para a express\u00e3o da cultura<\/strong>\n\nA organiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os na cidade e as modifica\u00e7\u00f5es nas estruturas temporais e espaciais provocam inquieta\u00e7\u00f5es em seus moradores que convivem cotidianamente com quest\u00f5es relacionadas com a viol\u00eancia, solid\u00e3o, indiferen\u00e7a, entre outros elementos.\n\nDiante da opress\u00e3o e da solid\u00e3o imposta pela cidade, s\u00e3o formados grupos que buscam a sua inser\u00e7\u00e3o no ambiente urbano atrav\u00e9s de uma refl ex\u00e3o e cr\u00edtica sobre o modo de vida da cidade.\n\nO soci\u00f3logo franc\u00eas Michel Mafesoli foi o primeiro autor a utilizar a express\u00e3o tribos urbanas em seus artigos, a partir de 1985.\n\n<strong>Segundo o autor, as tribos urbanas podem ser definidas como:<\/strong>\n<blockquote>Diversas redes, grupos de afinidades e de interesse, la\u00e7os de vizinhan\u00e7a que estruturam nossas megal\u00f3poles. Seja ele qual for, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a pot\u00eancia contra o poder, mesmo que aquela n\u00e3o possa avan\u00e7ar sen\u00e3o mascarada para n\u00e3o ser esmagada por este (MAFESOLI, 1998, p.70).<\/blockquote>\n<strong>Segundo Frehse (2006), o uso da no\u00e7\u00e3o era metaf\u00f3rico, para dar conta de formas supostamente novas de associa\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos na ?sociedade p\u00f3s-moderna:<\/strong>\u00a0o autor fala em neotribalismo. Seriam essencialmente micro-grupos que, forjados em meio \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais baseadas no individualismo e marcados pela unissexualiza\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia f\u00edsica, dos usos do corpo e do vestu\u00e1rio, acabariam, mediante sua sociabilidade, por contestar o pr\u00f3prio individualismo vigente no mundo contempor\u00e2neo.\n\nPodemos citar como exemplos de tribos urbanas os punks, nerds, clubbers, g\u00f3ticos, emos, rappers, surfi stas etc. Cada tribo apresenta um visual pr\u00f3prio, uma linguagem espec\u00edfica que poder expressada em arte ou em m\u00fasicas e pr\u00e1ticas cotidianas espec\u00edficas. \u00c9 interessante ressaltar que os grupo n\u00e3o s\u00e3o fechados, ao mesmo tempo em que buscam uma diferencia\u00e7\u00e3o da sociedade, n\u00e3o existe crit\u00e9rios que definem quem pode pertencer aos grupos. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel transitar entre os diversos grupos. Dependendo do momento, uma pessoa pode passar por um per\u00edodo g\u00f3tico e posteriormente tornar-se punk ou clubber, por exemplo.\n\n\u00c9 uma ideia de identidade flex\u00edvel ou da exist\u00eancia de identidades m\u00faltiplas, conceito definido por Hall (2006) como um descentramento da identidade fixa e est\u00e1vel, resultando nas identidades abertas, contradit\u00f3rias, inacabadas, fragmentadas do sujeito p\u00f3s-moderno.\n\nO deslocamento ou descentramento da identidade \u00e9 uma excelente abordagem para analisar a exist\u00eancia das diversas tribos urbanas e as possibilidades de classifica\u00e7\u00f5es flex\u00edveis dos seus grupos.\n\nEm 1991, um grupo Ingl\u00eas chamado Stomp recriou atrav\u00e9s da dan\u00e7a, movimentos e sons espec\u00edficos das grandes cidades, tornando-se rapidamente um sucesso mundial.\n\nA for\u00e7a do grupo est\u00e1 justamente em retratar o caos das grandes cidades em pequenos recortes do cotidiano (o barulho de uma chave, o andar nas ruas, o movimento de vassouras, os lat\u00f5es de lixo), em arte.\n\nUm exemplo nacional que expressa a busca da identidade e espa\u00e7o na cultura das grandes cidades \u00e9 o funk, uma mistura de v\u00e1rios ritmos que mobiliza grandes bailes na periferia e nas favelas do Rio de Janeiro.\n\nO surgimento de um estilo de m\u00fasica relacionado com espa\u00e7os da cidade onde se concentra a pobreza gerou alus\u00f5es \u00e0 exist\u00eancia de uma cidade partida e nas pr\u00f3prias m\u00fasicas \u00e9 poss\u00edvel encontrar refer\u00eancias ao conflito de culturas diferenciadas como na letra da m\u00fasica Som de Preto de Amilcka e Chocolate que cantam em seu refr\u00e3o \u00c9 som de preto, de favelado, mas quando toca, ningu\u00e9m fica parado.\n\n<strong>O Hip<\/strong>\n\n<strong>Hop e o Rap tamb\u00e9m s\u00e3o express\u00f5es que traduzem em suas letras a viol\u00eancia do tr\u00e1fico, as quest\u00f5es relacionadas com a sexualidade e as refl ex\u00f5es sobre a organiza\u00e7\u00e3o das cidades, como o refr\u00e3o de um rap de sucesso:<\/strong>\n<blockquote>Eu s\u00f3 quero \u00e9 ser feliz\nAndar tranquilamente\nNa favela onde eu nasci\nE poder me orgulhar\nE ter a consci\u00eancia\nQue o pobre tem o seu lugar\nRap da Felicidade (Cidinho e Doca)<\/blockquote>\nTodas estas manifesta\u00e7\u00f5es apontam para os conflitos gerados a partir da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o das cidades que nos interessam justamente por refl etir a busca da identidade diante de uma tentativa de homogeneiza\u00e7\u00e3o do ser humano nos grandes centros.\n\nEste \u00e9 um dos aspectos mais complexos na organiza\u00e7\u00e3o das cidades, ao mesmo tempo em que promove o isolamento dos indiv\u00edduos e perda da individualidade no meio da multid\u00e3o.\n\nSurge a oportunidade de diferencia\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos estilos das tribos, identifica\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da diferen\u00e7a. \u00c9 o movimento e a resist\u00eancia diante de um modelo opressor de organiza\u00e7\u00e3o social.\n\nDiante de tantas diferen\u00e7as, a cidade se apresenta como um verdadeiro caldeir\u00e3o cultural em constante ebuli\u00e7\u00e3o, oferecendo in\u00fameras possibilidades de acesso ao patrim\u00f4nio cultural da humanidade, sem fronteiras.\n\n<strong>A variedade cultural nas cidades<\/strong>\n\nAs cidades se caracterizam por uma imensa diversidade e quantidade de op\u00e7\u00f5es culturais que abarcam desde museus antigos com s\u00f3lidas cole\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria at\u00e9 manifesta\u00e7\u00f5es modernas de arte nas pra\u00e7as e nas ruas.\n\nA multiplicidade de op\u00e7\u00f5es culturais \u00e9 que tornam as pr\u00e1ticas culturais das cidades t\u00e3o interessantes. O velho e o novo convivem nos espa\u00e7os, possibilitando ao morador ou visitante optar por experimentar e assistir diversos espet\u00e1culos e exposi\u00e7\u00f5es. Em uma grande cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma exposi\u00e7\u00e3o com artefatos do Egito antigo, assistir um espet\u00e1culo de ballet cl\u00e1ssico no Teatro Municipal, participar de um ensaio de Escola de Samba da Mangueira e visitar um baile Funk na periferia. A exist\u00eancia de diversos museus, teatro e casas de shows, promove uma verdadeira babel cultural na qual cabe a cada um escolher o que deseja experimentar.\n\nAl\u00e9m das op\u00e7\u00f5es de arte formal, existem as op\u00e7\u00f5es ao ar livre que est\u00e3o expostas, seja as esculturas e fachadas nas pra\u00e7as e ruas, ou espet\u00e1culos mambembes que acontecem nos espa\u00e7os p\u00fablicos a todo instante.\n\nMuitas op\u00e7\u00f5es culturais s\u00e3o gratuitas e abertas ao p\u00fablico em geral.\n\nMas a exist\u00eancia de diversas op\u00e7\u00f5es culturais n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Rio de Janeiro.\n\nTodas as grandes cidades apresentam a mesma quantidade e diversidade de op\u00e7\u00f5es e os principais museus do mundo est\u00e3o localizados nas grandes cidades mundiais (Museu do Louvre em Paris, Museu do Prado em Madri, Moma em Nova York, entre outros). Outras cidades de porte m\u00e9dio tamb\u00e9m j\u00e1 come\u00e7am a investir na constru\u00e7\u00e3o de grandes museus e teatros, assim como outros espa\u00e7os culturais como forma de atrair turistas e investimentos. \u00c9 o caso do Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Niter\u00f3i, projetado por Oscar Niemayer que colocou a cidade no roteiro da cultura e a Esta\u00e7\u00e3o Ci\u00eancia em Jo\u00e3o Pessoa, com projeto arquitet\u00f4nico do mesmo autor.\n\nAl\u00e9m do investimento na estrutura f\u00edsica existe tamb\u00e9m o est\u00edmulo aos festivais de teatro, dan\u00e7a, m\u00fasica, al\u00e9m do apoio aos expoentes das manifesta\u00e7\u00f5es culturais locais.\n\nA efervesc\u00eancia cultural nas cidades nos lembra a fun\u00e7\u00e3o das cidades na Idade M\u00e9dia como espa\u00e7os para representa\u00e7\u00f5es e divertimentos variados.\n\n<strong>Conclus\u00e3o<\/strong>\n\nO cotidiano urbano retrata as mudan\u00e7as no modo de vida das cidades e suas implica\u00e7\u00f5es para as categorias tempo e espa\u00e7o t\u00e3o importantes para o ser humano.\n\nOs c\u00f3digos, a estrutura, a forma de morar, deslocar e trabalhar, enfi m o modo de vida urbana produz tamb\u00e9m novas tribos que buscam nos grupos e nos estilos de vida se contrapor ao caos da massifi ca\u00e7\u00e3o das grandes cidades.\n\nSurgem os espa\u00e7os para pr\u00e1ticas culturais distintas que agregam os espa\u00e7os formais com seus museus, teatros e cinemas e os informais que acontecem na rua, na pra\u00e7a, na avenida, nas periferias.\n\n\u00c9 justamente a combina\u00e7\u00e3o de tantas manifesta\u00e7\u00f5es distintas que mant\u00e9m em ebuli\u00e7\u00e3o o caldeir\u00e3o cultural das cidades.\n\n<strong>Resumo<\/strong>\n\nOs aspectos do cotidiano urbano e as pr\u00e1ticas culturais das grandes cidades, provocam transforma\u00e7\u00f5es nas categorias tempo e espa\u00e7o que podem ser identificadas no modo de vida urbano.\n\nA constru\u00e7\u00e3o das identidades e as pr\u00e1ticas culturais apresentam uma estrutura espec\u00edfica nas grandes cidades, que foi observada e utilizada por grandes escritores e artistas em busca de respostas sobre o ritmo de vida fren\u00e9tico e as manifesta\u00e7\u00f5es culturais em constante ebuli\u00e7\u00e3o. A organiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os na cidade e as modifi ca\u00e7\u00f5es nas estruturas temporais e espaciais provocam inquieta\u00e7\u00f5es em seus moradores que convivem cotidianamente com in\u00fameras quest\u00f5es e diante da opress\u00e3o e da solid\u00e3o imposta pela cidade, s\u00e3o formados grupos que buscam a sua inser\u00e7\u00e3o no ambiente urbano atrav\u00e9s de uma refl ex\u00e3o e cr\u00edtica sobre o modo de vida da cidade.\n\nAs cidades se caracterizam por uma imensa diversidade e quantidade de op\u00e7\u00f5es culturais que abarcam desde museus antigos com s\u00f3lidas cole\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria at\u00e9 manifesta\u00e7\u00f5es modernas de arte nas pra\u00e7as e nas ruas, sendo justamente a multiplicidade de op\u00e7\u00f5es culturais \u00e9 que tornam as pr\u00e1ticas culturais das cidades t\u00e3o interessantes.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0Regina Celly Nogueira\/Ana Beatriz Gomes Carvalho\/Carlos Fortuna\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura Urbana, Metr\u00f3poles, Cidade, Pol\u00edticas, Objetivo, Rural, Seguran\u00e7a, Experi\u00eancia, Sistema, Desafios, Globaliza\u00e7\u00e3o, Din\u00e2mica, Caracter\u00edstica, Cultura Urbana<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11452,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-15455","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-geral"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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