{"id":15108,"date":"2015-12-22T00:00:00","date_gmt":"2015-12-22T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/proclamacao-da-republica-2\/"},"modified":"2026-08-31T23:20:09","modified_gmt":"2026-08-31T23:20:09","slug":"proclamacao-da-republica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/proclamacao-da-republica-2\/","title":{"rendered":"Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"\n&nbsp;\n\n<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica \u2013 15 de novembro de 1889<\/strong>\n\n<strong>A data da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica \u2013 15 de novembro, se tornou feriado nacional a partir da aprova\u00e7\u00e3o da lei n\u00ba.662, de 6 de abril de 1949, proposta pelo ent\u00e3o presidente Eurico Gaspar Dutra.<\/strong>\n\nA Rep\u00fablica no Brasil come\u00e7ou a dar seus primeiros passos em 1870, com a publica\u00e7\u00e3o do \u201cManifesto Republicano\u201d no jornal A Rep\u00fablica.\n\n<strong>Com 58 assinaturas de jornalistas, advogados, m\u00e9dicos, negociantes e fazendeiros o documento anunciava:<\/strong>\u00a0\u201cSomos da Am\u00e9rica e queremos ser americanos\u201d. Ser americano, naquele momento, significava ser republicano. Afinal, o Brasil era o \u00fanico pa\u00eds do continente que ainda adotava a monarquia como regime de governo.\n\nO Manifesto defendia o federalismo (autonomia para as Prov\u00edncias administrarem seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios) e criticava o poder pessoal do imperador. A partir dessas id\u00e9ias surgiram os jornais, os clubes e os partidos republicanos.\n\nEm 1873, foi fundado o Partido Republicano Paulista (PRP), na cidade de It\u00fa, que difundiu a id\u00e9ia de que a Rep\u00fablica era sin\u00f4nimo de progresso. Na verdade, os cafeicultores paulistas que compunham o partido n\u00e3o aceitavam a falta de participa\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica do pa\u00eds. O PRP passou a contar tamb\u00e9m com o apoio de parte da classe m\u00e9dia, dos oper\u00e1rios, do Ex\u00e9rcito e da Igreja Cat\u00f3lica.\n\nEm 1873, reuniu-se em It\u00fa, na prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, a primeira Conven\u00e7\u00e3o republicana. Os republicanos de S\u00e3o Paulo come\u00e7avam os trabalhos que orientariam a a\u00e7\u00e3o do Partido Republicano.\n<p class=\"imagem\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/pprocla14.jpg\" alt=\"Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica\" width=\"387\" height=\"255\" \/>\nMarechal Deodoro proclamou a Rep\u00fablica no Quartel-General do Ex\u00e9rcito, no Rio<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">Nesse dia, o marechal\u00a0<strong>Marechal Deodoro\u00a0<\/strong>entrou no Quartel-General do Ex\u00e9rcito (hoje Pal\u00e1cio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro), montado num cavalo, e terminou com o \u00faltimo Gabinete da Monarquia, que se encontrava em reuni\u00e3o naquele local.<\/p>\n<strong>Os republicanos brasileiros dividiam-se em duas tend\u00eancias:<\/strong>\n<blockquote><strong>Tend\u00eancia evolucionista:\u00a0<\/strong>Representada por Quintino Bocai\u00fava, acreditava que a transi\u00e7\u00e3o da Monarquia para a Rep\u00fablica deveria ser feita pacificamente.<strong>\nTend\u00eancia revolucion\u00e1ria:\u00a0<\/strong>Representada por Silva Jardim e Lopes Trov\u00e3o. Pretendia instalar a Rep\u00fablica atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o armada do povo. Essa tend\u00eancia era minorit\u00e1ria no Parlamento Republicano.<\/blockquote>\n<strong>Quest\u00f5es que levaram a queda da monarquia:<\/strong>\n\nEm 1888, a escravid\u00e3o foi definitivamente abolida. Os grandes propriet\u00e1rios rurais do Vale do Para\u00edba (SP), defensores da escravid\u00e3o, passaram a apoiar o movimento republicano, pois se sentiam tra\u00eddos pela monarquia.\n\nDurante o Imp\u00e9rio, o catolicismo era a religi\u00e3o oficial no Brasil e a Igreja era subordinada ao Estado. O imp\u00e9rio come\u00e7ou a perder a simpatia da Igreja Cat\u00f3lica a partir de 1872. Nesse ano, os bispos de Olinda e de Bel\u00e9m puniram ordens religiosas que apoiavam os ma\u00e7ons. D. Pedro II solicitou que as puni\u00e7\u00f5es fossem suspensas, mas os bispos n\u00e3o obedeceram, sendo, por isso condenados \u00e0 pris\u00e3o.\n\nDepois da guerra do Paraguai, o Ex\u00e9rcito ganhou import\u00e2ncia na sociedade. Mas, n\u00e3o tinham reconhecimento do governo mon\u00e1rquico. O poder dos civis era muito maior que o dos militares.\n\nOs militares queriam maior participa\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica do pa\u00eds, os oficiais do Ex\u00e9rcito come\u00e7aram a aderir as id\u00e9ias republicanas. O coronel Benjamin Constant foi um dos que ajudaram a difundir as id\u00e9ias republicanas.\n\nEm 1844, grandes chefes do Ex\u00e9rcito (entre eles o marechal Deodoro da Fonseca) revoltaram-se contra a puni\u00e7\u00e3o de oficiais que fizeram den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o acobertada por pol\u00edticos.\n\nPara resolver sua situa\u00e7\u00e3o de isolamento, o governo imperial tentou um programa de reformas pol\u00edticas (liberdade religiosa, liberdade de ensino, autonomia das prov\u00edncias, mandato tempor\u00e1rio para os senadores).\n\nMas as reformas chegaram tarde.\n\nNo dia\u00a0<strong>15 de novembro de 1889<\/strong>, no Rio de Janeiro, o marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), liderou um golpe que dep\u00f4s a Monarquia. Deodoro \u00e0 frente de um batalh\u00e3o, marchou para o Minist\u00e9rio da Guerra, depondo o Gabinete de Ouro Preto. N\u00e3o houve resist\u00eancia. Os revoltosos conseguiram a ades\u00e3o das tropas governistas. Deodoro que estava doente, dirigiu-se ent\u00e3o para a sua resid\u00eancia e os militares voltaram aos quart\u00e9is. Nesse momento, alguns republicanos, entre os quais Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, preocupados com a indefini\u00e7\u00e3o do movimento, dirigiram-se \u00e0 C\u00e2mara de Vereadores do Rio de Janeiro, proclamando a Rep\u00fablica. O povo n\u00e3o participou de nenhuma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, quando viram a tropa na rua, pensaram que se tratasse de um desfile militar.\n\nDeodoro criou o governo Provis\u00f3rio da Rep\u00fablica dos Estados Unidos do Brasil. D. Pedro II foi convidado a deixar o pa\u00eds com sua fam\u00edlia\n\n<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica \u2013 Constitui\u00e7\u00e3o Republicana<\/strong>\n\n<strong>15 DE NOVEMBRO DE 1889<\/strong>\n\nNesta data, no ano de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca entrou no Quartel-General do Ex\u00e9rcito (hoje Pal\u00e1cio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro), montado num cavalo e terminou com o \u00faltimo Gabinete da Monarquia, que se encontrava em reuni\u00e3o naquele local.\n\nNa verdade, o sistema mon\u00e1rquico de governo j\u00e1 n\u00e3o tinha o apoio de antes da Igreja, nem dos militares, nem das lideran\u00e7as civis e dos antigos senhores de escravos.\n\nEssa insatisfa\u00e7\u00e3o generalizada enfraqueceu a monarquia e o gesto do marechal Deodoro foi o marco decisivo para abolir aquele sistema e implantar a Rep\u00fablica.\n\nO fato \u00e9 que muitos s\u00f3 esperavam que isso acontecesse ap\u00f3s a morte do imperador D. Pedro II, admirado e respeitado por todos.\n\nO marechal Deodoro, ao chefiar o movimento pac\u00edfico do qual se tratou a\u00a0<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/strong>\u00a0no Brasil (n\u00e3o houve derramamento de sangue), marcou o in\u00edcio de uma nova era no pa\u00eds, a partir do ano de 1889. O come\u00e7o da era republicana, que se firmou de fato com o marechal Floriano Peixoto, sucessor de Deodoro.\n\n<strong>Fundamentos<\/strong>\n\nA semente do ideal republicano no Brasil j\u00e1 podia ser percebida nos tempos coloniais. Movimentos de emancipa\u00e7\u00e3o como a Inconfid\u00eancia Mineira (1789), a Conjura\u00e7\u00e3o Baiana (1798) e a Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana (1817) tinham em mente, de uma certa forma, a ado\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica como sistema de governo.\n\nEsse ideal, que teve como fonte os princ\u00edpios da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, foi se fortalecendo aos poucos entre as For\u00e7as Armadas e sua implanta\u00e7\u00e3o deixou de ser um mero sonho para se tornar uma possibilidade real, tendo em vista o desgaste da Monarquia.\n\nO Imperador D. Pedro II ainda tentou manter o sistema mon\u00e1rquico, ao sugerir a forma\u00e7\u00e3o de um minist\u00e9rio comandado por Silveira Martins, inimigo pessoal do marechal Deodoro. A decis\u00e3o, por\u00e9m, ocorreu-lhe tarde demais, n\u00e3o conseguindo impedir que, j\u00e1 na manh\u00e3 do dia 16 de novembro, o Di\u00e1rio Oficial publicasse a not\u00edcia da Proclama\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m a do governo provis\u00f3rio na mudan\u00e7a do Regime.\n\nA atual bandeira do Brasil foi institu\u00edda no dia 19 de novembro de 1889, quatro dias depois de proclamada a Rep\u00fablica.\n\n<strong>Estrat\u00e9gia e Intimidade<\/strong>\n\nNingu\u00e9m pode afirmar com certeza que o Marechal Deodoro quisesse de fato proclamar a Rep\u00fablica. Ele era amigo de D. Pedro II e tinha boas rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia imperial.\n\nEntretanto, sua a\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia avan\u00e7ado de uma tal maneira que n\u00e3o seria poss\u00edvel voltar atr\u00e1s. Muitos militares saudavam a Rep\u00fablica das janelas dos quart\u00e9is, aguardando a conclus\u00e3o do movimento.\n\n<strong>\u00c0 frente do Gabinete da Monarquia se encontrava o Visconde de Ouro Preto, de quem Deodoro guardava alguns ressentimentos:\u00a0<\/strong>primeiro, por ter nomeado seu grande inimigo, Gaspar Silveira Martins, para a presid\u00eancia do Rio Grande do Sul; e, segundo, por ter oferecido a presid\u00eancia da prov\u00edncia de Mato Grosso a Cunha de Matos, com o qual n\u00e3o se entendia.\n\nNessa m\u00e1goa de Deodoro \u00e9 que os republicanos convictos se agarraram, vencendo a indecis\u00e3o afetiva do Marechal e o aliciando definitivamente para a conspira\u00e7\u00e3o e o derradeiro golpe.\n\nMilitares como Benjamin Constant e S\u00f3lon Sampaio Ribeiro, sabendo tanto do seu descontentamento com o Visconde de Ouro Preto quanto do seu prest\u00edgio entre os soldados, souberam estrategicamente convencer Deodoro a favor da causa republicana.\n\n<strong>Constitui\u00e7\u00e3o de Direito e de Fato<\/strong>\n\nElaborada e promulgada rapidamente, a nova Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds determinava que o primeiro presidente da Rep\u00fablica e o seu vice fossem eleitos pelo Congresso Nacional.\n\nGanharam a elei\u00e7\u00e3o o Marechal Deodoro para a presid\u00eancia e o Marechal Floriano Peixoto para a vice-presid\u00eancia.\n\n<strong>Ambos de chapas diferentes, iniciando, dessa forma, uma pr\u00e1tica que viria a se tornar comum:<\/strong>\u00a0a de o presidente e o vice serem de partidos opostos.\n\nInspirada na Constitui\u00e7\u00e3o norte-americana, a Carta Magna brasileira estipulava para a na\u00e7\u00e3o um regime republicano, com governo presidencialista e sistema federativo. Na pr\u00e1tica, no entanto, o que se deu nos governos seguintes foi um forte e centralizado presidencialismo, tornando dif\u00edcil a aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio federativo, uma vez que os estados nunca foram independentes do poder central nem no \u00e2mbito pol\u00edtico, muito menos no financeiro.\n\nGanharam for\u00e7a as oligarquias rurais, basicamente as de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, fazendo surgir a conhecida pol\u00edtica do \u201ccaf\u00e9 com leite\u201d, que alternou o poder presidencial entre esses dois estados at\u00e9 o ano de 1930, quando chegou ao fim a chamada Rep\u00fablica Velha.\n\nEm 24 de fevereiro de 1891, foi promulgada a primeira Constitui\u00e7\u00e3o Republicana.\n\n<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica &#8211; Movimento<\/strong>\n\nMovimento pol\u00edtico-militar que acaba com o Imp\u00e9rio e instaura no pa\u00eds uma rep\u00fablica federativa.\n\nA\u00a0<strong>proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/strong>\u00a0\u00e9 feita pelo marechal Deodoro da Fonseca no dia 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro.\n\nO novo sistema de governo \u00e9 inaugurado depois de uma campanha pol\u00edtica que dura quase 20 anos.\n\nO esfor\u00e7o nacional em torno da Guerra do Paraguai coloca na ordem do dia o regime federativo e a luta contra a escravid\u00e3o.\n\nEm dezembro de 1870, pol\u00edticos, intelectuais e profissionais liberais lan\u00e7am no Rio o Manifesto Republicano. Defendem um regime presidencialista, representativo e descentralizado.\n\nNo ano seguinte, o governo sanciona a primeira lei contra a escravatura. Da\u00ed por diante, as campanhas republicana e abolicionista caminham paralelas.\n\n<strong>Partido Republicano<\/strong>\n\nEm 1873 \u00e9 fundado o Partido Republicano Paulista (PRP), com a proposta b\u00e1sica de defender os princ\u00edpios e os ideais republicanos e federativos.\n\nApesar da crescente simpatia popular, a campanha n\u00e3o avan\u00e7a e o PRP elege poucos candidatos.\n\nPara os republicanos hist\u00f3ricos, que formam o n\u00facleo pol\u00edtico-ideol\u00f3gico do movimento, fica cada vez mais claro que o novo regime n\u00e3o ser\u00e1 conquistado apenas com propaganda pol\u00edtica e atua\u00e7\u00e3o eleitoral.\n\nApesar das evidentes dificuldades, a monarquia continua s\u00f3lida. Diante desse quadro, republicanos \u201cexaltados\u201d e militares positivistas, como Benjamin Constant, defendem a intensifica\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o popular.\n\n<strong>Campanha pela Rep\u00fablica<\/strong>\n\nO esfor\u00e7o nacional em torno da Guerra do Paraguai coloca na ordem do dia o regime federativo e a luta contra a escravid\u00e3o. Em dezembro de 1870, pol\u00edticos, intelectuais e profissionais liberais lan\u00e7am no Rio o Manifesto Republicano. Defendem um regime presidencialista, representativo e descentralizado. No ano seguinte, o governo sanciona a primeira lei contra a escravatura. Da\u00ed por diante, as campanhas republicana e abolicionista caminham paralelas.\n\nEm 1873 \u00e9 fundado o Partido Republicano Paulista (PRP), com a proposta b\u00e1sica de defender os princ\u00edpios e os ideais republicanos e federativos. Apesar da crescente simpatia popular, a campanha n\u00e3o avan\u00e7a e o PRP elege poucos candidatos. Para os republicanos hist\u00f3ricos, que formam o n\u00facleo pol\u00edtico-ideol\u00f3gico do movimento, fica cada vez mais claro que o novo regime n\u00e3o ser\u00e1 conquistado apenas com propaganda pol\u00edtica e atua\u00e7\u00e3o eleitoral. Apesar das evidentes dificuldades, a monarquia continua s\u00f3lida. Diante desse quadro, republicanos \u201cexaltados\u201d e militares positivistas, como Benjamin Constant, defendem a intensifica\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o popular.\n\nA propaganda republicana tamb\u00e9m se tornava mais intensa atrav\u00e9s da imprensa e de com\u00edcios buscando a ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. As cr\u00edticas contundentes aos membros da fam\u00edlia imperial, em especial ao \u201cdecr\u00e9pito\u201d imperador Pedro II, visavam evitar o estabelecimento de um Terceiro Reinado, sob a \u00e9gide da Princesa Isabel e do Conde d\u2019Eu, seu marido de nacionalidade francesa. Criticava-se o Poder Moderador, a vitaliciedade do Senado, a aus\u00eancia de liberdade religiosa e a inexist\u00eancia de autonomia das prov\u00edncias. Enfim, desejava-se uma descentraliza\u00e7\u00e3o administrativa e pol\u00edtica.\n\nO estabelecimento do \u00faltimo Gabinete do Imp\u00e9rio, liderado pelo liberal Visconde de Ouro Preto, em junho de 1889, foi uma tentativa de implementar as reformas reivindicadas pelos setores oposicionistas, por\u00e9m sem sucesso.\n\n<strong>Conspira\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\nO \u00faltimo abalo da monarquia \u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. O imperador perde o apoio de escravocratas, que aderem \u00e0 rep\u00fablica. Liderados pelos republicanos hist\u00f3ricos, civis e militares conspiram contra o imp\u00e9rio.\n\nComandante de prest\u00edgio, o marechal Deodoro da Fonseca \u00e9 convidado para chefiar o golpe. Em 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, \u00e0 frente de suas tropas, o militar proclama a Rep\u00fablica.\n\nO antigo regime n\u00e3o resiste. Dom Pedro II e a fam\u00edlia real s\u00e3o desterrados e embarcam para a Europa dois dias depois.\n\nDeodoro da Fonseca assume a chefia do novo governo provis\u00f3rio.\n\n<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica \u2013 Hist\u00f3ria do Brasil<\/strong>\n\nA\u00a0<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/strong>\u00a0\u00e9 um dos fatos hist\u00f3ricos mais pesquisados pela historiografia brasileira. O n\u00famero significativo de trabalhos sobre o tema denuncia, por assim dizer, a atra\u00e7\u00e3o dos historiadores a respeito dos processos que influ\u00edram na instala\u00e7\u00e3o do modelo republicano no Brasil. De fato, o tema \u00e9 bastante instigante pelas discuss\u00f5es e pol\u00eamicas que suscita. Ali\u00e1s, \u00e9 comum, ao se estudar o advento republicano, nos depararmos com antinomias e interpreta\u00e7\u00f5es concorrentes. Seria a rep\u00fablica brasileira resultado da a\u00e7\u00e3o quase isolada dos militares Teriam os civis, de alguma forma, contribu\u00eddo decisivamente para a queda da monarquia Como explicar a postura do povo diante do novo regime surgido na manh\u00e3 do dia 15 de novembro de 1889 Esteve o povo bestializado como prop\u00f4s o jornalista Aristides Lobo Ou esse mesmo povo teve algum tipo de participa\u00e7\u00e3o durante o processo que instaurou a rep\u00fablica Houve um processo de instala\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica Ou teria sido a rep\u00fablica uma solu\u00e7\u00e3o circunstancial.\n\nDiante dessas d\u00favidas, muitos trabalhos procuraram dar uma resposta plaus\u00edvel. O que n\u00e3o nos falta s\u00e3o respostas.\n\nMuito comumente encontramos trabalhos que enfatizam este ou aquele aspecto dos processos que contribu\u00edram para o advento republicano, quase todos atribuindo certo ineditismo \u00e0 maneira como interpretam o mesmo fato.\n\nN\u00e3o estamos sugerindo com isso que haja algo de errado na forma como os pesquisadores se portam frente ao objeto em quest\u00e3o, no caso a\u00a0<strong>proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica<\/strong>.\n\nMuito pelo contr\u00e1rio, apenas desejamos mostrar que a pluralidade de an\u00e1lises concernente ao tema torna a discuss\u00e3o mais acirrada e at\u00e9 mesmo competitiva.\n\nO presente ensaio n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de destoar dessa l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o. \u00c9 na qualidade de leitor razo\u00e1vel sobre o assunto que enfrentaremos os riscos inerentes a toda interpreta\u00e7\u00e3o que se pretende original.\n\nEvidentemente, estamos c\u00f4nscios de que esse trabalho constitui apenas um ensaio sobre o tema e, sendo assim, n\u00e3o podemos esperar mais do que alguns caminhos a serem posteriormente desbravados.\n\nEm que pesem as dificuldades mencionadas, pretendemos, como outros trabalhos j\u00e1 o fizeram, analisar os processos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais que resultaram na\u00a0<strong>proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica<\/strong>.\n\nEntretanto, pretendemos faz\u00ea-lo a partir de uma vis\u00e3o materialista da hist\u00f3ria. N\u00e3o que nisso resida o nosso suposto ineditismo, pois assumir tal postura seria um descalabro, ou melhor, um desconhecimento da historiografia republicana. O que pretendemos \u00e9 discutir a proclama\u00e7\u00e3o problematizando, a partir do materialismo hist\u00f3rico, algumas interpreta\u00e7\u00f5es reconhecidas sobre o tema. Procuramos, para tanto, nos aproximar de trabalhos recentes. Embora n\u00e3o possamos descartar a import\u00e2ncia de algumas pesquisas mais antigas e n\u00e3o menos consagradas, procuramos analisar os trabalhos mais pr\u00f3ximos de nossa \u00e9poca pelo fato de estarem mais acess\u00edveis ao grande p\u00fablico.\n\nComo ponto de partida, afirmarmos que a rep\u00fablica foi s\u00f3 proclamada devido ao enfraquecimento das institui\u00e7\u00f5es mon\u00e1rquicas frente \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e materiais da sociedade brasileira ocorridas nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX e que sua aceita\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorreu devido \u00e0 intensa propaganda republicana, que ajudou a construir no imagin\u00e1rio popular uma ideologia do progresso atrelada ao republicanismo.\n\nMas o fator decisivo sem o qual essas ideias novas n\u00e3o teriam sido absorvidas pelo imagin\u00e1rio popular foi sua legitima\u00e7\u00e3o diante das transforma\u00e7\u00f5es materiais e econ\u00f4micas da sociedade brasileira, principalmente no que se refere \u00e0s cidades do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo. Foi o avan\u00e7o econ\u00f4mico e as inova\u00e7\u00f5es deste resultante que decidiu o jogo a favor da rep\u00fablica, em primeiro lugar, desgastando as institui\u00e7\u00f5es e s\u00edmbolos da monarquia, em segundo, legitimando a ideia de progresso embutida no discurso republicano. Esse discurso, como veremos, n\u00e3o ficou restrito aos civis, influindo igualmente na forma\u00e7\u00e3o da chamada mocidade militar j\u00e1 a partir de 1880. De todo modo, acreditamos que as novas ideias que passam a circular no espa\u00e7o p\u00fablico, principalmente atrav\u00e9s da imprensa republicana, s\u00f3 obtiveram \u00eaxito por conta da expans\u00e3o material e econ\u00f4mica da sociedade, sendo unicamente por esse motivo aceitas tanto pelos grupos mais jovens do ex\u00e9rcito quanto pelo grupo pol\u00edticos progressistas.\n\n<strong>A monarquia brasileira em face das rep\u00fablicas americanas<\/strong>\n\nAo analisar a transfer\u00eancia da corte portuguesa para o Brasil em 1808, devido \u00e0s guerras napole\u00f4nicas, Caio Prado J\u00fanior atenta para o fato de que esta foi decisiva para nossa emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, dando um car\u00e1ter que a singulariza no conjunto do processo hist\u00f3rico da independ\u00eancia das col\u00f4nias americanas (2007, p. 49).\n\nO autor parece estar se referindo ao fato de que os processos de independ\u00eancia na Am\u00e9rica ocorreram quase todos na mesma \u00e9poca, mas o Brasil, que se tornou independente anos depois, teve um processo um pouco diferente, destoando dos pa\u00edses vizinhos.\n\nComo bem demonstrou Jos\u00e9 Ribeiro J\u00fanior (1977), essa condi\u00e7\u00e3o singular do Brasil em face de nossos vizinhos n\u00e3o foi de todo ruim, pois, embora o pa\u00eds tivesse seus problemas, estes ainda eram bem menores se comparados aos problemas das rec\u00e9m-nascidas rep\u00fablicas latino-americanas.\n\nVelhos v\u00edcios pol\u00edticos somados \u00e0s ideias importadas acabaram ampliando a instabilidade pol\u00edtica das experi\u00eancias republicanas no continente.\n\nMas se a monarquia brasileira se caracterizou por uma estabilidade pol\u00edtica maior que a dos vizinhos latino-americanos, isso n\u00e3o significa que sua emerg\u00eancia e consolida\u00e7\u00e3o foram imunes aos problemas.\n\nSegundo o autor, as ideias republicanas no Brasil t\u00eam sua origem ainda na col\u00f4nia.\n\nEntretanto, a chegada da fam\u00edlia real ainda que importante para a independ\u00eancia, foi respons\u00e1vel por desmobilizar momentaneamente o discurso republicano, ainda t\u00edmido no pa\u00eds, haja vista que a presen\u00e7a da coroa portuguesa no Rio de Janeiro frustrou qualquer tentativa de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.\n\nN\u00e3o por acaso, demonstra o autor, nosso processo de independ\u00eancia, ocorrido anos depois, destoou de todos os outros ocorridos no continente americano.\n\nEnquanto nossos vizinhos conquistaram a autonomia pol\u00edtica por meio de lutas sangrentas, tornando-se rep\u00fablicas, o Brasil alcan\u00e7ou sua independ\u00eancia de uma maneira pac\u00edfica, num acordo entre elites, que naquele momento optaram pela monarquia.\n\nGanh\u00e1vamos assim a liberdade pol\u00edtica, mas adot\u00e1vamos estranhamente a monarquia como forma de governo e nos torn\u00e1vamos assim, a \u00fanica monarquia americana.\n\nPara o desespero daqueles que simpatizavam com o modelo republicano, passado o momento fervoroso da independ\u00eancia e da reg\u00eancia, o Brasil desfrutaria de tranquilidade no campo pol\u00edtico, enquanto os pa\u00edses vizinhos que adotaram o republicanismo, enfrentavam as instabilidades iniciais que toda mudan\u00e7a radical de regime comporta.\n\nAs rep\u00fablicas americanas viviam sob tens\u00e3o e a paz era exce\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tens\u00f5es pol\u00edticas.\n\nAp\u00f3s a coroa\u00e7\u00e3o de D. Pedro II, o Brasil passaria um per\u00edodo pr\u00f3spero do ponto de vista econ\u00f4mico, impulsionado pelos avan\u00e7os do capitalismo e pelo bom momento do mercado internacional que absorvia parte significativa da produ\u00e7\u00e3o brasileira de produtos tropicais. A flor ex\u00f3tica da Am\u00e9rica, assim era conhecida o \u00fanico regime mon\u00e1rquico no continente.\n\nE durante anos ap\u00f3s a ascens\u00e3o de D. Pedro II em 1840, no chamado golpe da maioridade, a monarquia brasileira passou inc\u00f3lume aos conflitos pol\u00edticos enfrentados por nossos vizinhos.\n\nAinda que as tens\u00f5es entre membros do Partido Liberal e do Partido Conservador ocorressem com frequ\u00eancia, o Imperador, por meio do poder moderador, instrumento pol\u00edtico presente desde a constitui\u00e7\u00e3o de 1824, apaziguava os \u00e2nimos ora destituindo conservadores, ora destituindo liberais. Sem d\u00favida, os pol\u00edticos do imp\u00e9rio se irritavam, mas n\u00e3o se levantavam contra a monarquia.\n\nA classe pol\u00edtica brasileira n\u00e3o tinha o que reclamar do regime mon\u00e1rquico. Os pol\u00edticos eram beneficiados com t\u00edtulos de nobreza e com cargos no estado, o que de certo modo evitava que se lan\u00e7assem contra a coroa.\n\nMas se essa situa\u00e7\u00e3o era confort\u00e1vel para todos, por que a monarquia chegou ao fim. Que fatores concorreram para sua substitui\u00e7\u00e3o?\n\nEvidentemente que o decl\u00ednio da monarquia n\u00e3o se deu de forma abrupta. Afinal, as bases da monarquia brasileira pareciam s\u00f3lidas quando comparadas \u00e0s rep\u00fablicas latino-americanas.\n\nPara se compreender como o regime mon\u00e1rquico brasileiro come\u00e7ou a ruir, tomo de empr\u00e9stimo a an\u00e1lise de Jos\u00e9 \u00canio Casalecchi (1986, p. 8-9), para quem o Segundo Reinado, que compreende o per\u00edodo de 1840 at\u00e9 1889, se divide em quatro momentos.\n\nDe 1840 a 1850, \u00e9 o per\u00edodo de consolida\u00e7\u00e3o do regime. De 1850 a 1864, que \u00e9 o per\u00edodo marcado, por um lado, pela legisla\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e centralizadora que sufocou in\u00fameras revoltas e, por outro, pelo avan\u00e7o econ\u00f4mico resultante das exporta\u00e7\u00f5es. De 1864-1870, temos a Guerra do Paraguai, momento cr\u00edtico de nossa hist\u00f3ria, tanto pelas d\u00edvidas contra\u00eddas, quanto pelas vidas perdidas. E, por \u00faltimo, de 1870-1889, per\u00edodo de decl\u00ednio da monarquia, onde as ideias republicanas que estavam anestesiadas recobram a consci\u00eancia e passam a atuar por meio do Partido Republicano.\n\n\u00c9 esse \u00faltimo momento mencionado por Casalecchi que nos interessa.\n\nEntretanto, para compreend\u00ea-lo em sua complexidade, devemos antes considerar as transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ocorridas a partir de 1850, das quais a urbaniza\u00e7\u00e3o e a industrializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o consequ\u00eancias.\n\nEsse avan\u00e7o econ\u00f4mico ocorrido na segunda metade do s\u00e9culo XIX n\u00e3o foi um fen\u00f4meno s\u00f3 brasileiro.\n\nNa verdade, a expans\u00e3o material do pa\u00eds resultou do avan\u00e7o da economia mundial. Em poucos anos o Brasil colheria os frutos desse momento de prosperidade, tendo o caf\u00e9 como carro chefe da economia, seguido do a\u00e7\u00facar e do algod\u00e3o. Passemos agora a analisar o per\u00edodo de 1870 a 1889. Parece ser consenso entre os pesquisadores que o ano de 1870 foi decisivo para a sorte da rep\u00fablica. De fato, esse ano \u00e9 bastante significativo n\u00e3o s\u00f3 por representar o fim da Guerra do Paraguai, mas tamb\u00e9m por ser o ano de funda\u00e7\u00e3o do Partido Republicano.\n\n<strong>A partir desse ano, a monarquia brasileira passa a ter um forte e delineado oponente:<\/strong>\u00a0o republicanismo.\n\nSoma-se a isso os in\u00fameros problemas que recair\u00e3o sobre a coroa e que ser\u00e3o respons\u00e1veis por desgastar a imagem do imperador, a exemplo da quest\u00e3o militar, da quest\u00e3o religiosa, da quest\u00e3o abolicionista e do problema da sucess\u00e3o que despontou nos \u00faltimos anos do imp\u00e9rio.\n\n<strong>O ocaso do Imp\u00e9rio:\u00a0<\/strong>1870 a 1889\n\nCom o t\u00e9rmino da Guerra do Paraguai, as bases da monarquia brasileira come\u00e7am a ruir. In\u00fameros fatores concorreram para isso e embora seja dif\u00edcil mensurar qual dos fatores teve maior peso, o fato \u00e9 que a monarquia n\u00e3o suportou as dificuldades que se apresentaram a partir de 1870. Para se compreender melhor os problemas enfrentados pela monarquia nesse per\u00edodo, passamos agora a analisar, seguindo o modelo consagrado por Pandi\u00e1 Cal\u00f3geras, as chamadas quest\u00f5es, que comp\u00f5em uma s\u00e9rie de dificuldades enfrentadas pela coroa brasileira durante as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX e que teriam sido decisivas para o advento republicano.\n\n<strong>A quest\u00e3o abolicionista<\/strong>\n\nComo sabemos, a escravid\u00e3o foi institu\u00edda no Brasil ainda durante o per\u00edodo colonial. Desde a col\u00f4nia o escravismo foi fortalecido enquanto modalidade de trabalho, tornando-se assim um sistema.\n\nTendo em vista que a igreja permitiu a explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra negra, a sociedade brasileira passou a encarar com naturalidade esse forma desumana de trabalho. Possuir escravos era mesmo sinal de status, sendo muito comum, como demonstra Emilia Viotti da Costa (1999), que negros alforriados, principalmente ap\u00f3s o s\u00e9culo XVIII, se esfor\u00e7assem para comprar escravos como uma maneira de amenizar sua condi\u00e7\u00e3o de ex-escravo.\n\nDurante grande parte do s\u00e9culo XIX, quando a economia brasileira esteve quase que completamente ancorada na exporta\u00e7\u00e3o do caf\u00e9, a escravid\u00e3o foi o sustent\u00e1culo dos cafeicultores. Como ressalta Boris Fausto (2006, p. 192) era comum se falar que o Brasil \u00e9 o caf\u00e9 e o caf\u00e9 \u00e9 negro. O \u00eaxito inicial do caf\u00e9 na regi\u00e3o do Vale do Para\u00edba foi obtido atrav\u00e9s do plantation e da m\u00e3o-de-obra escrava. Em outras palavras, a economia cafeeira s\u00f3 obteve sucesso por conta do trabalho escravo, sem o qual muito possivelmente n\u00e3o alcan\u00e7aria a condi\u00e7\u00e3o de carro-chefe da economia brasileira.\n\nConsiderando que o n\u00famero de escravos durante a primeira metade do s\u00e9culo XIX era significativa, chegando a atingir quase metade da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, possuir escravos era algo at\u00e9 certo ponto normal para os padr\u00f5es sociais da \u00e9poca. Os trabalhos por estes efetuados eram bastante diversificados e, embora uma parte significativa desse contingente estive destinada ao plantio do caf\u00e9 nas grandes fazendas, havia um leque de profiss\u00f5es ocupadas por homens e mulheres negras. Ali\u00e1s, essa condi\u00e7\u00e3o j\u00e1 se arrastava desde a col\u00f4nia.\n<blockquote>O negro n\u00e3o servia apenas para o trabalho da cana, do a\u00e7\u00facar ou do tabaco. Aprendia qualquer of\u00edcio, fazia, por vezes, concorr\u00eancia desleal embora involunt\u00e1ria, aos poucos mec\u00e2nicos, art\u00edfices ou mestres de of\u00edcio, quando n\u00e3o eram por estes mesmos comprados para substitu\u00ed-los no trabalho manual que, gra\u00e7as a esse sistema, se transformava pouco a pouco em desprimoroso, quando n\u00e3o inteiramente desonroso (BASBAUM, 1976, p. 90)<\/blockquote>\nNo que concerne \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida dos escravos, as fazendas de caf\u00e9 n\u00e3o ofereciam uma situa\u00e7\u00e3o melhor do que aquela encontrada nos antigos engenhos de a\u00e7\u00facar. O trabalho era extremamente desgastante, podendo chegar a 18 horas de trabalho di\u00e1rias. A alimenta\u00e7\u00e3o por vezes era insuficiente e a higiene deficiente o que acabava aumentando muito a possibilidade de doen\u00e7as.\n\nAs epidemias eram at\u00e9 certo ponto comuns e a assist\u00eancia m\u00e9dica prec\u00e1ria para atender os doentes que acabavam tendo que recorrer aos curandeiros e feiticeiros. Posto isto, o n\u00famero de \u00f3bitos era grande entre os escravos. Embora as Santas Casas prestassem servi\u00e7o aos fazendeiros, recolhendo escravos inv\u00e1lidos, principalmente negros velhos e doentes, muitos acabavam morrendo na pr\u00f3pria fazenda. A mortalidade infantil tamb\u00e9m era espantosa chegando a atingir 88% e a dura\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho era em m\u00e9dia de 15 anos.\n\nNas senzalas havia sempre um n\u00famero menor de mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos homens o que acabava estimulando muito a promiscuidade a qual os senhores fechavam os olhos.\n\nA licen\u00e7a sexual imperava e muitas vezes os senhores dela participavam, haja vista a popula\u00e7\u00e3o escrava mesti\u00e7a. Alguns filhos de senhores com escravas eram mantidos em cativeiro, enquanto outros eram alforriados, incorporando-se aos agregados da casa. O preconceito racial, que autores como Gilberto Freire foram incapazes de visualizar, foi bastante intenso, principalmente nas regi\u00f5es onde a produ\u00e7\u00e3o tradicional vigorava.\n\nGeralmente esse preconceito recaia sobre a suposta inferioridade intelectual e f\u00edsica do negro, na forma de piadas ou frases que apresentavam o negro como uma esp\u00e9cie de sub-ra\u00e7a, sendo que essa mentalidade praticamente manteve-se durante todo o per\u00edodo mon\u00e1rquico e infelizmente ainda resiste at\u00e9 nossos dias como uma esp\u00e9cie de heran\u00e7a maldita. Com efeito, a ideia durante algum tempo difundida de que a escravid\u00e3o brasileira foi mais humanizada, se comparada, por exemplo, ao sistema escravocrata norte-americano, n\u00e3o se sustenta.\n\nSe a viol\u00eancia contra o escravo negro diminuiu ao longo do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o se pode afirmar que tenha desaparecido ou mesmo cessado, haja vista ter tomado outros formatos que n\u00e3o s\u00f3 o da viol\u00eancia f\u00edsica.\n\nEm termos gerais, as condi\u00e7\u00f5es de vida do escravo eram extremamente prec\u00e1rias e o negro, a exemplo dos tempos coloniais, continuava a ser visto como uma mercadoria.\n\nComo nos lembra Le\u00f4ncio Basbaum (1976), a escravid\u00e3o, no decorrer do s\u00e9culo XIX, era um grande problema para as elites brasileiras, principalmente por que aos olhos da comunidade internacional essa modalidade de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho era motivo de atraso. Nesse sentido, muitas cr\u00edticas passaram a ser endere\u00e7adas ao governo brasileiro e \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do sistema escravista. Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo essas cr\u00edticas j\u00e1 se faziam valer.\n\nAlgumas mentes mais esclarecidas da elite brasileira tamb\u00e9m insistiram na necessidade de por fim \u00e0 escravid\u00e3o, mesmo que gradativamente, procurando evitar atritos com as elites tradicionais.\n\nO problema da escravid\u00e3o era bastante delicado, haja vista que muitos interesses econ\u00f4micos estavam relacionados \u00e0 sorte do sistema.\n\nEmbora na primeira metade do s\u00e9culo XIX j\u00e1 houvesse um movimento no sentido da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, n\u00e3o podemos afirmar que este fosse forte e organizado como, de fato, venho a se tornar posteriormente.\n\nTratava-se de grupos isolados, cujo ponto de converg\u00eancia era a identifica\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o como uma mazela social.\n\nAo analisar a sociedade paulista no final do s\u00e9culo XIX, Lilia Moritz Schwarcz (1987), afirma que a partir de 1870 as cr\u00edticas ao escravismo se agu\u00e7am. Essas cr\u00edticas, em certo momento, passam a se confundir com a pr\u00f3pria id\u00e9ia de rep\u00fablica que, nesse instante, estava ganhando corpo. Como demonstra a autora,e desde o in\u00edcio do s\u00e9culo as press\u00f5es inglesas acerca da aboli\u00e7\u00e3o j\u00e1 se faziam sentir.\n\nSe os ingleses tinham num passado pr\u00f3ximo incentivado o tr\u00e1fico negreiro, passavam agora a critic\u00e1-lo e at\u00e9 mesmo impedi-lo, estendendo \u00e0s suas col\u00f4nias a decis\u00e3o de cess\u00e1-lo. Os motivos dessa reviravolta s\u00e3o as transforma\u00e7\u00f5es ocorridas na economia europ\u00e9ia e, sobretudo, inglesa, durante o s\u00e9culo XIX. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial reclamava a amplia\u00e7\u00e3o do mercado consumidor, que ficava comprometida frente ao sistema de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho t\u00e3o pouco flex\u00edvel e sem mobilidade. Transformar escravos em homens livres e consumidores era o objetivo a ser alcan\u00e7ados. Contudo, as elites tradicionais, defensoras da escravid\u00e3o, n\u00e3o estavam dispostas a sucumbir aos caprichos ingleses. As formas de driblar as press\u00f5es brit\u00e2nicas foram variadas e engenhosas, sendo respons\u00e1veis pela vig\u00eancia do sistema. Quando em 1850 a Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s iniciou o cerceamento sistem\u00e1tico ao tr\u00e1fico negreiro, os grandes propriet\u00e1rios agr\u00e1rios n\u00e3o tardaram em aquecer o tr\u00e1fico interno. Na medida em que a economia do nordeste declinava, aumentava a popula\u00e7\u00e3o escrava do sudeste, regi\u00e3o de maior concentra\u00e7\u00e3o de fazendas de caf\u00e9.\n<blockquote>Entre 1864 e 1874, o n\u00famero de escravos no Nordeste declinou de 774 mil (45% do total de escravos existente no Brasil) para 435 687 (28% do total). No mesmo per\u00edodo, nas regi\u00f5es cafeeiras, a popula\u00e7\u00e3o escrava aumentou de 645 mil (43% do total de escravos) para 8099 575 (56% do total) e s\u00f3 na Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo o n\u00famero de cativos dobrou, passando de 80 mil a 174 622 (FAUSTO, 1999, p. 204)<\/blockquote>\nEntretanto, o aquecimento do tr\u00e1fico interprovincial n\u00e3o foi capaz de assegurar por muito tempo o abastecimento de escravos necess\u00e1rio \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da grande lavoura.\n\n<strong>Na medida em que as press\u00f5es se intensificam uma coisa parece certa:<\/strong>\u00a0a escravid\u00e3o no Brasil estava com os dias contados. A luta, dali por diante, foi pela aboli\u00e7\u00e3o cordial com a remunera\u00e7\u00e3o do propriet\u00e1rio ou radical e sem remunera\u00e7\u00e3o. Mas se a aboli\u00e7\u00e3o tornou-se inadi\u00e1vel, os cafeicultores mais tradicionais procuraram atrasar ao m\u00e1ximo esse processo.\n\nCom o tempo, por\u00e9m, a estrat\u00e9gia de prorrogar a escravid\u00e3o se mostrou insustent\u00e1vel. Impulsionada pelo avan\u00e7o das id\u00e9ias republicanas, as id\u00e9ias acerca da aboli\u00e7\u00e3o v\u00e3o ganhando voz, atingindo, inclusive, uma parcela significativa de membros do Partido Republicano que se tornaram simp\u00e1ticos ao fim da escravid\u00e3o. O alto pre\u00e7o dos escravos, resultante desse processo, fez com que os produtores mais tradicionais sentissem na pele o que parecia ser o fim da escravid\u00e3o no Brasil. Tanto a Lei do Ventre Livre quanto a Lei dos Sexagen\u00e1rios s\u00f3 contribu\u00edram para a causa abolicionista, al\u00e9m de fomentar a imigra\u00e7\u00e3o, principalmente italiana. O n\u00famero de imigrantes no pa\u00eds aumentou muito ap\u00f3s 1870 e essas ondas imigrat\u00f3rias prosseguiram ininterruptas at\u00e9 o advento da Primeira Guerra Mundial em 1914. Essas mudan\u00e7as substantivas na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho concorreram para incentivar outras atividades econ\u00f4micas. Quando a coroa brasileira, em maio de 1888, optou por emancipar os escravos n\u00e3o imaginava os efeitos pol\u00edticos de tal decis\u00e3o. Como resultado imediato, os propriet\u00e1rios tradicionais se voltam contra a coroa.\n<blockquote>Por isso, quando os escravocratas deixam de apoiar a Monarquia, esta tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 o apoio dos abolicionistas republicanos. Juntam-se agora os abolicionistas que fizeram a campanha desde 1860 aos republicanos de 14 de maio, contra a Monarquia. Esta composi\u00e7\u00e3o foi muito importante para enfraquecer a Monarquia, que n\u00e3o tinha s\u00f3 esses problemas e esses antagonistas (CASALECCHI, 1981, p. 60).<\/blockquote>\nOs chamados republicanos de \u00faltima hora, como ficaram conhecidos esses propriet\u00e1rios de escravos, temendo n\u00e3o serem indenizados, correm para o lado dos republicanos e deixam \u00f3rf\u00e3 a moribunda monarquia.\n\nCom efeito, alguns autores como Le\u00f4ncio Basbaum (1977), entendem que a quest\u00e3o abolicionista foi extremamente perniciosa para a sobreviv\u00eancia da monarquia, pois, tendo em vista que a escravid\u00e3o era base da economia imperial, tendo sido suprimida, ocasionou sua derrocada.\n\n<strong>A quest\u00e3o religiosa<\/strong>\n\nSegundo Douglas Teixeira Monteiro (2006, p. 49), a partir de 1860 ocorre uma seq\u00fc\u00eancia de importantes reformas na estrutura eclesi\u00e1stica e no modo como a igreja atuava no Brasil.\n\nEssas reformas tinham por objetivo a aproxima\u00e7\u00e3o com o povo, especialmente os menos favorecidos, e reorganizar as jurisdi\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas e reavivar a f\u00e9 entre leigos e cl\u00e9rigos. Para tanto, novas dioceses e semin\u00e1rios s\u00e3o fundadas com o fito de formar um clero virtuoso e mais preparado.\n\nA tentativa de resgatar o virtuosismo dos fi\u00e9is foi completada com a orienta\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9 contra os membros da ma\u00e7onaria. Essa orienta\u00e7\u00e3o ocasionaria a no Brasil muita pol\u00eamica. Pelo sistema de padroado, o Imperador tinha o controle sobre os assuntos eclesi\u00e1sticos, mas as reformas eclesi\u00e1sticas impostas pela Santa S\u00e9, representada na ocasi\u00e3o pelo Papa Pio IX, foram acatadas pelo bispo de Olinda e do bispo do Par\u00e1.\n\n<strong>Ao decidirem aplicar as determina\u00e7\u00f5es papais, ambos se defrontam com uma institui\u00e7\u00e3o tradicional e enraizada na sociedade brasileira:<\/strong>\u00a0a ma\u00e7onaria.\n\nExistia um n\u00famero grande de ma\u00e7ons no pa\u00eds. Muitos republicanos e monarquistas eram ma\u00e7ons. A resposta da ma\u00e7onaria aos des\u00edgnios da Santa S\u00e9 foi imediata.\n\nAs press\u00f5es sobre os bispos resultaram na pris\u00e3o de ambos. Tratava-se de um fato inusitado. Afinal a coroa mandar\u00e1 prender dois religiosos por acatar as ordens provindas do Papa.\n\nO poder temporal se defrontava com o poder atemporal.\n\nNo Brasil, o catolicismo nunca foi seguido ortodoxamente. Muitos cat\u00f3licos, at\u00e9 mesmo muitos membros da igreja, adotavam pr\u00e1ticas que n\u00e3o condiziam com as doutrinas que afirmavam seguir.\n\nA persegui\u00e7\u00e3o aos membros da ma\u00e7onaria s\u00f3 fez indispor a igreja com os meios mais ilustrados da sociedade brasileira, cuja influ\u00eancia anti-clerical era conhecida. A pr\u00f3pria igreja tamb\u00e9m estava dividida, haja vista que muitos padres e bispos pertenciam aos quadros da ma\u00e7onaria.\n\nA pris\u00e3o do Bispo do Par\u00e1 e de Olinda, contr\u00e1rios aos ma\u00e7ons foi um caso \u00fanico e inusitado, haja vista ter sido a coroa quem mandou prend\u00ea-los. Mas apesar da posi\u00e7\u00e3o sustentada pelo governo brasileiro, a maioria dos historiadores n\u00e3o acredita que a quest\u00e3o religiosa tenha sido decisiva para a queda da monarquia.\n\nIsto porque parte significativa dos republicanos vislumbrava acabar com o sistema de padroado. Defendiam abertamente a separa\u00e7\u00e3o entre Estado e Igreja. Como afirma Em\u00edlia Viotti da Costa,\n<blockquote>Grande n\u00famero de republicanos era o que se chamaria na \u00e9poca de livre-pensador, denotando mesmo certa hostilidade a tudo que lembrasse Igreja e clero. No programa do partido republicano constava a plena liberdade de cultos, perfeita igualdade de todos os cultos perante a lei, aboli\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter oficial da Igreja, sua separa\u00e7\u00e3o do Estado e emancipa\u00e7\u00e3o do poder civil pela supress\u00e3o dos privil\u00e9gios e encargos temporais outorgados a seus representantes, ensino secular separado do ensino religioso, constitui\u00e7\u00e3o do casamento civil, sem preju\u00edzo do volunt\u00e1rio preenchimento das cerim\u00f4nias religiosas conforme o rito particular dos c\u00f4njuges, institui\u00e7\u00e3o do registro civil de nascimento e \u00f3bitos, seculariza\u00e7\u00e3o dos cemit\u00e9rios e sua administra\u00e7\u00e3o pelas municipalidades. (COSTA, 1999, p. 456)<\/blockquote>\nA puni\u00e7\u00e3o imposta pela monarquia aos bispos do Par\u00e1 e do Olinda foi aceita pelos os republicanos, que pouco aproveitaram o fato em causa pr\u00f3pria. Posto isto, seria exagerado afirmar que a quest\u00e3o religiosa teria sido decisiva para a derrocada do regime. Nem mesmo os republicanos se opuseram ao regime em virtude das puni\u00e7\u00f5es aplicadas aos bispos. Por sua vez, o povo tamb\u00e9m estava dividido. A maioria, entretanto, desinteressada pelo desfecho do epis\u00f3dio. Considerando que os republicanos tinham inclina\u00e7\u00e3o anti-clerical, a quest\u00e3o religiosa n\u00e3o acrescentou ou emprestou nada a luta contra a monarquia.\n\n<strong>A quest\u00e3o militar<\/strong>\n\nConforme aponta Jos\u00e9 Ribeiro J\u00fanior (1977), durante a Guerra do Paraguai, o ex\u00e9rcito brasileiro, um dos integrantes, ao lado de Uruguai e Argentina, da chamada tr\u00edplice alian\u00e7a, desenvolveu um sentimento de classe.\n\nEsse esp\u00edrito de corpora\u00e7\u00e3o ser\u00e1, ap\u00f3s o t\u00e9rmino da guerra em 1870, respons\u00e1vel pela maior parte dos atritos entre ex\u00e9rcito e os pol\u00edticos do Imp\u00e9rio. De fato, como observa o autor, o ex\u00e9rcito brasileiro sempre ocupou um lugar secund\u00e1rio na estrutura pol\u00edtica da monarquia. Quando a guerra chegou ao fim, o ex\u00e9rcito n\u00e3o obteve dos pol\u00edticos do Imp\u00e9rio qualquer tipo de reconhecimento pelo trabalho realizado durante o confronto o Paraguai de S\u00f3lon Lopes. Pelo contr\u00e1rio, os casacas, como era conhecida a classe pol\u00edtica imperial, desejavam que os negros que haviam lutado pelo pa\u00eds na guerra, retornassem a sua antiga condi\u00e7\u00e3o de escravo. Ademais, queriam que o ex\u00e9rcito perseguisse e ajudasse no trabalho de captura dos negros fuj\u00f5es, situa\u00e7\u00e3o essa que os militares logo trataram de refutar. Por sua vez, o ex\u00e9rcito se ressentia dos baixos soldos e da aus\u00eancia de investimentos, por parte do governo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura da institui\u00e7\u00e3o militar. O atraso das pens\u00f5es, comuns durante esse per\u00edodo, s\u00f3 faziam aumentar a insatisfa\u00e7\u00e3o dos militares que acabavam quase sempre punidos todas as vezes que tornavam p\u00fablicas suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.\n\nEsses pequenos confrontos entre militares e os pol\u00edticos civis identificados com o regime, ser\u00e3o intensificados a partir do projeto de reforma do servi\u00e7o militar, proposta pelo Marqu\u00eas de Paranagu\u00e1, em 1883, cujo conte\u00fado, os militares criticaram publicamente. Para tanto, como afirmar v\u00e3o os militares criar um diret\u00f3rio de resist\u00eancia, delegando poderes ao tenente-coronel Sena Madureira que ficou incumbido de pesquisar a opini\u00e3o dos militares a respeito do pol\u00eamico projeto.\n\nMas esse diret\u00f3rio acabou por desencadear manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas contr\u00e1rias ao Marqu\u00eas de Paranagu\u00e1, resultando na troca de acusa\u00e7\u00f5es e acirrando ainda mais o embate entre a classe pol\u00edtica e os militares.\n\nO Marqu\u00eas, sentindo-se ofendido, pediria a puni\u00e7\u00e3o dos militares envolvidos. Afinal, segundo a mentalidade dos pol\u00edticos profissionais, a interven\u00e7\u00e3o militar na opini\u00e3o p\u00fablica era um caso claro de rebeldia que deveria ser punido com todo rigor.\n\nDurante uma inspe\u00e7\u00e3o, em 1885, na prov\u00edncia do Piau\u00ed, o coronel Cunha Matos, que comandava a opera\u00e7\u00e3o, apontou algumas irregularidades que acarretaram na puni\u00e7\u00e3o de um capit\u00e3o ligado ao Partido Conservador.\n\nDiante do desfecho, os conservadores, em solidariedade ao militar punido, se voltam contra Cunha Matos, que chegou a ser advertido. Mas apesar das retalia\u00e7\u00f5es impostas pelos casacas, os militares conseguiram algumas vit\u00f3rias sobre os pol\u00edticos do Imp\u00e9rio.\n\nUm exemplo da for\u00e7a do ex\u00e9rcito pode ser avistado no caso do Ministro da Guerra, o Bar\u00e3o de Cotegipe que depois de punir alguns militares, acabou pedindo demiss\u00e3o do cargo devido \u00e0s press\u00f5es exercidas pelo militares.\n\nEm 1886, afirma Jos\u00e9 \u00canio Casalecchi (1986), a crise alcan\u00e7ou seu auge. Recebendo convite para opinar sobre a quest\u00e3o, o Marechal Deodoro da Fonseca posicionou-se favoravelmente aos colegas de farda e em represaria foi exonerado do cargo de comandante das For\u00e7as de Terra e Mar do Rio Grande do Sul.\n\nEsta era uma puni\u00e7\u00e3o extremamente dura. Afinal, Deodoro se notabilizara pela bravura demonstrada na Guerra do Paraguai. Oriundo de uma fam\u00edlia de militares, formada por cinco irm\u00e3os, todos militares, e dos quais dois morreram durante a referida guerra, Deodoro tornou-se o s\u00edmbolo de uma disputa de car\u00e1ter pol\u00edtico, que s\u00f3 contribuiu para fortalecer o sentimento de classe do ex\u00e9rcito, acirrando ainda mais os \u00e2nimos dos militares contra os casacas. A puni\u00e7\u00e3o imposta a Deodoro, soou como descalabro. Os militares, agora unidos em torno do Marechal, exigiam o direito de manifestar suas opini\u00f5es, dando forma a um movimento denominado de soldado-cidad\u00e3o. Tratava-se de uma reivindica\u00e7\u00e3o de ex\u00e9rcito acerca de sua participa\u00e7\u00e3o nos assuntos pol\u00edticos do pa\u00eds.\n\nMas a posi\u00e7\u00e3o dos militares n\u00e3o foi suficiente para evitar a puni\u00e7\u00e3o de muitos militares. O pr\u00f3prio Marechal Deodoro pagaria pela a aud\u00e1cia de externalizar publicamente suas posi\u00e7\u00f5es.\n\nNos idos de 1887, os militares, consolidando suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, fundam o Clube Militar cuja presid\u00eancia foi entregue ao Marechal Deodoro da Fonseca e a vice-presid\u00eancia ao professor da Escola Militar da Praia Vermelha, Benjamin Constant. Conforme aponta H\u00e9lio Silva (2005), a funda\u00e7\u00e3o do Clube teve grande import\u00e2ncia n\u00e3o s\u00f3 porque as fra\u00e7\u00f5es militares que se opunham \u00e0 monarquia se institucionalizam, mas tamb\u00e9m pelo fato de que o Clube tornou-se um espa\u00e7o de discuss\u00e3o decisivo para os rumos pol\u00edticos do pa\u00eds.\n\nMas se, como vimos, havia grupos dentro das for\u00e7as armadas unidos na luta contra os desmandos da classe pol\u00edtica, n\u00e3o podemos perder de vista que esses grupos eram na sua esmagadora maioria formados por jovens oficiais. Como sugere Celso Castro (2001), a mocidade militar foi determinante para o agravamento da chamada quest\u00e3o militar e consequentemente respons\u00e1vel pela queda da monarquia.\n\nUma parte significativa desses jovens militares era formada por alunos da Escola da Praia Vermelha no Rio de Janeiro. Tratava-se de um grupo mais ou menos coeso, formado sob os c\u00e2nones positivistas, que defendiam novas ideias pol\u00edticas. Essa mocidade militar acreditava na viabilidade da rep\u00fablica diante das anacr\u00f4nicas institui\u00e7\u00f5es imperiais e por isso procurou se aproximar de l\u00edderes como Benjamin Constant com o fito de promover o agravamento da crise mon\u00e1rquica.\n\nConforme explica Emilia Viotti da Costa (1999, p. 459), o positivismo difundido pela Escola Militar foi determinante para a convers\u00e3o de jovens oficiais ao republicanismo.\n\nCom efeito, a quest\u00e3o militar \u00e9 considerada por muitos historiadores o principal fator contribuinte para a queda do regime mon\u00e1rquico no Brasil, haja vista que o golpe decisivo ocorrido na manh\u00e3 do dia 15 de novembro de 1889 no Campo de Santana e que a uma s\u00f3 vez p\u00f4s fim ao Imp\u00e9rio e inaugurou a Rep\u00fablica, foi desferido pelo ex\u00e9rcito. Como observou o jornalista Aristides Lobo, numa an\u00e1lise que se tornaria celebre, Por ora, a cor do governo \u00e9 puramente militar, e deveria ser assim. O fato foi deles, deles s\u00f3, porque a colabora\u00e7\u00e3o do elemento civil foi quase nula. Em suma, a diferen\u00e7a entre os militares e as classes dominantes do Imp\u00e9rio, aprofundada principalmente depois de 1870, teria acarretado o fortalecimento das novas ideias defendidas pela mocidade militar e, por conseguinte, desencadeado um embate cujo resultado fora a consolida\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica brasileira. Ainda que n\u00e3o reste d\u00favida sobre a import\u00e2ncia da quest\u00e3o militar para o processo que culminou na Rep\u00fablica, cumpre analisar se outros fatores contribu\u00edram igualmente nesse sentido, pois, muitos historiadores, ao enfatizar o papel dos militares, acabam minimizando a participa\u00e7\u00e3o de outros grupos, gerando a impress\u00e3o de que a rep\u00fablica foi unicamente efeito da a\u00e7\u00e3o militar.\n\n<strong>A quest\u00e3o sucess\u00f3ria<\/strong>\n\nA chamada quest\u00e3o sucess\u00f3ria desponta nos \u00faltimos anos de vida da monarquia. De certo modo, a sucess\u00e3o passa a ser discutida principalmente ap\u00f3s a viagem de D. Pedro II \u00e0 Europa.\n\nAs desconfian\u00e7as a cerca da sa\u00fade do imperador suscitaram uma s\u00e9rie de indaga\u00e7\u00f5es a respeito da sucess\u00e3o. De fato, o imperador j\u00e1 n\u00e3o era nenhum jovem.\n\nA idade avan\u00e7ada come\u00e7ou a ser explorada pela imprensa republicana. Afinal, o sucessor de D. Pedro II era Conde D\u00b4Eu, casado com a filha do imperador Princesa Isabel. De origem francesa, Conde D\u00b4Eu estava longe de ser uma figura querida pelos representantes da elite brasileira. Desajeitado e pouco dado \u00e0 pol\u00edtica, o Conde passou a ser visto como uma amea\u00e7a aos planos republicanos.\n\nOs republicanos sentiram que o fato sucess\u00f3rio poderia ser explorado. A estrat\u00e9gia parecia girar em torno do desgaste da figura do Conde, demonstrando assim a impossibilidade do continu\u00edsmo do regime mon\u00e1rquico.\n\nAlguns republicanos mais exaltados, ligados a ala radical do partido, a exemplo de Silva Jardim, defendiam uma solu\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, incluindo o fuzilamento de Conde D\u00b4Eu como um dos requisitos para a mudan\u00e7a de regime. Exageros \u00e0 parte, a figura de Conde D\u00b4Eu n\u00e3o inspirava confian\u00e7a nas elites brasileiras, principalmente porque a solu\u00e7\u00e3o republicana, defendida pelos mais progressistas, j\u00e1 circulava a tempos nos grandes centros urbanos, sendo, portanto, uma quest\u00e3o de tempo para sua consolida\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>O papel do Partido Republicano<\/strong>\n\nA maior parte dos estudiosos aponta 1868 como um ano decisivo para o rumo da monarquia brasileira. Isso porque, nessa data, tem in\u00edcio uma crise, envolvendo, de um lado, alguns pol\u00edticos conservadores do imp\u00e9rio e o pr\u00f3prio imperador, de outro, os liberais.\n\n<strong>Como \u00e9 sabido, dois partidos dividiam o cen\u00e1rio pol\u00edtico:<\/strong>\u00a0o Partido Conservador e o Partido Liberal.\n\nEmbora ambos fossem monarquistas e quase sempre adotassem a\u00e7\u00f5es similares, liberais e conservadores comumente se desentendiam.\n\nEm 1866, durante a Guerra do Paraguai, o pol\u00edtico liberal Zacarias de Vasconcelos assume a chefia do gabinete ministerial. A situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, principalmente no plano externo, em decorr\u00eancia da guerra, n\u00e3o era nada f\u00e1cil, tendo, portanto, o minist\u00e9rio, que enfrentar enormes problemas.\n\nEm 1868, o nome de Duque de Caxias, ligado aos conservadores, foi indicado para o comando do ex\u00e9rcito na Guerra do Paraguai.\n\nA indica\u00e7\u00e3o desagradou os liberais e desencadeou uma s\u00e9rie de acusa\u00e7\u00f5es entre estes e os conservadores. Os liberais acusavam Caxias de incompet\u00eancia na condu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as militares no Paraguai.\n\nEste apoiado pelos conservadores, afirmava ser v\u00edtima de retalia\u00e7\u00f5es do minist\u00e9rio. A troca de acusa\u00e7\u00f5es fez com que Zacarias colocasse o cargo a disposi\u00e7\u00e3o. O Imperador D. Pedro II preferiu n\u00e3o demiti-lo. Todavia, era um fato de que simpatizava mais com Caxias e menos com Zacarias. E a prova disso veio quando D. Pedro II recorre ao nome de Sales Torres, inimigo pol\u00edtico de Zacarias, para o senado do Rio Grande do Norte.\n\nN\u00e3o s\u00f3 por se tratar de um cargo vital\u00edcio, mas, principalmente em virtude da indica\u00e7\u00e3o de Sales Torres, Zacarias abandona a chefia do Gabinete sem deixar nenhum substituto. O resultado foi que D. Pedro II indica o pol\u00edtico conservador Itabora\u00ed para assumir o cargo, despertando a ir\u00e1 do Partido Liberal.\n\nO caso n\u00e3o teria maiores desdobramentos se uma ala radical dentro do partido n\u00e3o iniciasse uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es a respeito dos rumos pol\u00edticos do pa\u00eds.\n\n<strong>Esse grupo, formado por nomes como os de Saldanha Marinho, Campos Salles e Prudente de Morais, entre outros, passam a cogitar um novo regime pol\u00edtico:\u00a0<\/strong>a rep\u00fablica.\n\nAs id\u00e9ias republicanas come\u00e7am ent\u00e3o a tramitar entre os liberais mais radicais e o resultado dessa efervesc\u00eancia foi a funda\u00e7\u00e3o, em 1870, do Partido Republicano. Esse foi um fato decisivo, pois, pela primeira vez na hist\u00f3ria brasileira, se organizava um partido pol\u00edtico de ideais declaradamente republicanos. A partir desse momento, os republicanos travam um longo e \u00e1rduo combate na tentativa de derrubar a monarquia e instaurar a rep\u00fablica no Brasil.\n\n<strong>Os \u00faltimos suspiros da monarquia<\/strong>\n\nO embate entre republicanos e monarquistas, principalmente ap\u00f3s 1880, ganha as ruas. Diversas manifesta\u00e7\u00f5es republicanas, organizadas pelos membros do partido, procuraram desmoralizar o regime.\n\nA ala mais radical do partido republicano, personificada na figura de Silva Jardim, era efusiva nas cr\u00edticas \u00e0 coroa brasileira e aos pol\u00edticos conservadores que a representavam. Ali\u00e1s, n\u00e3o foram poucas as vezes que com\u00edcios organizados pelos republicanos acabaram em pancadaria, principalmente quando a guarda negra tentava boicotar essas manifesta\u00e7\u00f5es antimon\u00e1rquicas.\n\nO clima de animosidade entre os dois grupos demonstra que as ideias republicanas tinham alguma penetra\u00e7\u00e3o nos grandes centros.\n\nQuando Visconde de Ouro Preto foi nomeado chefe do gabinete ministerial, os defensores da monarquia acreditavam que a presen\u00e7a de um liberal pudesse desmantelar o discurso republicano.\n\nAo assumir tal responsabilidade, Afonso Celso, como chefe do gabinete, sabia que precisava imobilizar o avan\u00e7o do republicanismo. Sua estrat\u00e9gia baseou-se em acatar algumas das reivindica\u00e7\u00f5es dos republicanos, atrav\u00e9s de um programa de reformas bastante ousado.\n\nOuro Preto acreditava que seu programa pudesse paralisar as cr\u00edticas do Partido Republicano. Todavia, para que essas reformas sa\u00edssem do papel, era necess\u00e1ria a aprova\u00e7\u00e3o do Senado, o que n\u00e3o ocorreu, em virtude do conte\u00fado programa, considerado progressista demais. Afonso Celso, n\u00e3o obtendo \u00eaxito em sua empresa, teve que amargar o fato de ter sido o \u00faltimo chefe de gabinete da monarquia.\n\nAntes do fim derradeiro dessa hist\u00f3ria, a monarquia ainda teve tempo para festividades, ali\u00e1s, em grande estilo. O baile realizado na Ilha Fiscal, no dia 9 de novembro de 1889, em homenagem \u00e0 marinha chilena, foi realmente deslumbrante, digno de uma monarquia forte e consolidada. Mas as apar\u00eancias enganam.\n\nEnquanto o baile se estendia noite, a poucos metros dali, os membros do Clube Militar, somados a alguns civis, confabulam contra o regime. Essa reuni\u00e3o culminaria com uma reuni\u00e3o ocorrida no dia 11 do m\u00eas corrente na resid\u00eancia de Deodoro, com a presen\u00e7a de Rui Barbosa, Quintino Bocai\u00fava, Aristides Lobo, Francisco Glic\u00e9rio e S\u00f3lon Ribeiro, que tentavam cooptar o velho general para a derrubada da monarquia. Essa uni\u00e3o provis\u00f3ria demonstra que o ideal republicano estava longe de ser apenas coisa de estudante, como pensavam os pol\u00edticos monarquistas.\n\nTendo a reuni\u00e3o se consagrado, embora o estado de sa\u00fade de Deodoro n\u00e3o fosse dos melhores, seria uma quest\u00e3o de tempo o surgimento do novo regime. No dia 14, o boato, propositalmente espalhado por S\u00f3lon Ribeiro, a respeito das pris\u00f5es de Deodoro e Constant s\u00f3 aceleraram o processo.\n\n<strong>Na manh\u00e3 do dia 15, ainda debilitado, Deodoro se dirige a cavalo ao Campo de Santana, onde se encontrava sua desaven\u00e7a:\u00a0<\/strong>o Visconde de Ouro Preto, que tenta articular uma in\u00fatil resist\u00eancia.\n\nDeodoro acaba por depor o chefe do gabinete ministerial. Na mesma hora, Ouro Preto manda avisar D. Pedro II que estava em Petr\u00f3polis e que veio ao Rio de Janeiro para tentar reverter a situa\u00e7\u00e3o e convocar um novo gabinete. Mas o resultado era definitivo. N\u00e3o se tratava de uma mera queda de gabinete.\n\nA monarquia tinha ca\u00eddo e D. Pedro II, que descera na esperan\u00e7a de resolver o problema, ficou, como sarcasticamente afirma Le\u00f4ncio Basbaum (1976), mais pr\u00f3ximo do porto, haja vista que naquele mesmo dia seria comunicado da extradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia real para a Europa.\n\n<strong>As interpreta\u00e7\u00f5es a respeito da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/strong>\n\nA\u00a0<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/strong>\u00a0suscitou uma s\u00e9rie de pesquisas e, por conseguinte, um n\u00famero significativo de interpreta\u00e7\u00f5es, por vezes, divergentes.\n\nN\u00e3o temos a pretens\u00e3o de analisar cada um dos trabalhos a respeito do fim da monarquia e da implementa\u00e7\u00e3o do republicanismo no Brasil. Tal fato seria improv\u00e1vel, considerando as limita\u00e7\u00f5es que um artigo como esse oferece. Analisaremos apenas alguns trabalhos que consideramos importantes para a compreens\u00e3o dessa passagem.\n\nOs crit\u00e9rios que permitiram essa sele\u00e7\u00e3o foram \u00e0 adequa\u00e7\u00e3o ao tema e a relev\u00e2ncia do autor para a historiografia republicana.\n\nAl\u00e9m disso, procuramos nos apoiar em trabalhos mais recentes, embora algumas pesquisas mais antigas tenham sido aqui inclu\u00eddas por sua validade. Esses trabalhos se desenvolvem em perspectivas anal\u00edticas distintas e, por vezes, divergentes. Alguns deles afirmam que o papel exercido pelas for\u00e7as armadas foi decisivo para a proclama\u00e7\u00e3o, enquanto outros atribuem maior peso ao trabalho pol\u00edtico e propagand\u00edstico do Partido Republicano. Partindo desses vieses interpretativos, objetivamos analisar os fatores que decidiram a sorte da monarquia e da rep\u00fablica.\n\nEntre os trabalhos imprescind\u00edveis para a compreens\u00e3o deste per\u00edodo est\u00e1 o de Caio Prado J\u00fanior, Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica do Brasil. Neste livro, o autor argumenta que o final da monarquia brasileira est\u00e1 relacionado \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas processadas no decorrer da segunda metade do s\u00e9culo XIX.\n\nComo \u00e9 sabido, esse foi um per\u00edodo caracterizado por grande avan\u00e7o material e econ\u00f4mico, decorr\u00eancia da valoriza\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 no mercado internacional. Essa expans\u00e3o material foi respons\u00e1vel, argumenta o autor, por introduzir uma nova mentalidade de car\u00e1ter progressista no Brasil que colidiu com as institui\u00e7\u00f5es anacr\u00f4nicas da monarquia. Para o autor, dos grupos que tomaram contato com essas novas ideias, o ex\u00e9rcito foi o mais organizado sendo, por isso, respons\u00e1vel por proclamar a rep\u00fablica. Na vis\u00e3o do historiador, o advento republicano como um golpe militar, ainda que o fator decisivo tenha se sido as transforma\u00e7\u00f5es materiais da sociedade brasileira. Quanto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do povo, Caio Prado J\u00fanior partilha da ideia de que este esteve completamente alheio ao processo, haja vista ter sido a Rep\u00fablica um golpe de bastidores.\n\nO tamb\u00e9m marxista Nelson Werneck Sodr\u00e9, em sua Forma\u00e7\u00e3o da Sociedade Brasileira, atribui ao ex\u00e9rcito participa\u00e7\u00e3o decisiva no processo que culminou com a derrocada da monarquia. Aponta, nesse sentido, o t\u00e9rmino da Guerra do Paraguai como uma data lim\u00edtrofe, haja vista que os embates entre ex\u00e9rcito e os pol\u00edticos do imp\u00e9rio se intensificaram. Na vis\u00e3o do autor, ap\u00f3s 1870, o ex\u00e9rcito passou a falar como entidade aut\u00f4noma, atuando em nome dos grupos menos favorecidos que compunham suas fileiras. J\u00e1 num outro trabalho intitulado Panorama do Segundo Reinado, Sodr\u00e9 procura explorar as fragilidades institucionais do imp\u00e9rio frente \u00e0s novas for\u00e7as engendradas no seu interior. Comenta que a elite agr\u00e1ria, base da monarquia, entrou num franco processo de decl\u00ednio, enquanto novos grupos passaram a atuar no cen\u00e1rio pol\u00edtico, como \u00e9 o caso dos fazendeiros de mentalidade progressista de S\u00e3o Paulo e da classe m\u00e9dia urbana. Apesar disso, Sodr\u00e9 \u00e9 desdenhoso quanto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do Partido Republicano. O autor n\u00e3o considera a propaganda republicana decisiva para a proclama\u00e7\u00e3o, tendo em vista que a monarquia caiu muito mais pelas fragilidades apresentadas pelas suas institui\u00e7\u00f5es frente \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas do que propriamente pelo trabalho propagand\u00edstico da imprensa republicana.\n\nNum terceiro trabalho intitulado Forma\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica do Brasil, Sodr\u00e9 enfatiza a participa\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias urbanas para a consolida\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica. O autor parece ter revisto alguns pontos anteriores, passando a considerar o papel dos profissionais liberais presentes nos grandes centros, principalmente quanto \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de novas ideias pol\u00edticas no espa\u00e7o pol\u00edtico. Entretanto, ainda fiel aos trabalhos anteriores, alerta que se as classes tradicionais estivessem unidas, pouco efeito teria essas novas ideias.\n\nMuito pr\u00f3ximo de Werneck Sodr\u00e9 est\u00e1 o primeiro volume do trabalho de Le\u00f4ncio Basbaum, Hist\u00f3ria Sincera da Rep\u00fablica.\n\n<strong>Adotando um vi\u00e9s economicista, o autor, reconhecidamente marxista, afirma que a monarquia teria nascido condenada por trazer em seu bojo sua pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0o latif\u00fandio e o escravismo.\n\nO surgimento de uma elite agr\u00e1ria de car\u00e1ter progressista teria efetivamente rompido com a l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o herdada do per\u00edodo colonial. Embora o problema fundi\u00e1rio n\u00e3o tenha sido superado, as ideias desse novo grupo n\u00e3o condiziam com a estrutura anacr\u00f4nica mantida pela monarquia. O centralismo pol\u00edtico e a escravid\u00e3o, insistentemente mantidos pelo imp\u00e9rio, acabaram por se tornar um entrave aos prop\u00f3sitos econ\u00f4micos desses novos grupos. O autor tamb\u00e9m analisa as chamadas quest\u00f5es, mas d\u00e1 pouco peso \u00e0 quest\u00e3o religiosa e afirma, no caso da quest\u00e3o militar que o ex\u00e9rcito, ao contr\u00e1rio do que se afirma, n\u00e3o constitu\u00eda uma entidade coesa e nem mesmo era republicana. Embora confirme o ex\u00e9rcito como proclamador da rep\u00fablica, sua participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deveu por ser republicano, mas por ressentimento. Ali\u00e1s, n\u00e3o havia no Brasil, segundo o autor, uma tradi\u00e7\u00e3o republicana.\n\n<strong>Por caminhos diferentes, H\u00e9lio Silva em 1889:<\/strong>\u00a0a Rep\u00fablica n\u00e3o esperou amanhecer e Celso Castro em A\u00a0<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/strong>, defendem que o advento republicano foi resultado de uma conspira\u00e7\u00e3o militar. Para ambos, a quest\u00e3o militar foi decisiva para a queda da monarquia, enquanto que influ\u00eancia da propaganda republicana foi praticamente nula. H\u00e9lio Silva argumenta que nem todos os militares eram republicanos, ali\u00e1s, afirma o autor, a minoria. Entretanto, as diverg\u00eancias entre estes e os casacas anteciparam a proclama\u00e7\u00e3o, pois, o embate ganhou status pol\u00edtico.\n\n<strong>Por sua vez, Celso Castro argumenta os eventos que colocaram o ex\u00e9rcito em rota de colis\u00e3o com pol\u00edticos do imp\u00e9rio contribu\u00edram para o fortalecimento principalmente de uma jovem fra\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito:<\/strong>\u00a0a mocidade militar. Tratava-se de jovens oficiais, estudantes da Escola Militar de Praia Vermelha, que se formaram sobre \u00e9gide do positivismo. Esse grupo, que assistiu e participou dos eventos envolvendo o ex\u00e9rcito e os casacas, v\u00e3o gradualmente colocando-se contra o regime.\n\n<strong>Tamb\u00e9m foram respons\u00e1veis, ressalta o historiador, por cooptar um l\u00edder que pudesse represent\u00e1-los:<\/strong>\u00a0o positivista e professor de matem\u00e1tica Benjamin Constant.\n\nCelso Castro sugere que a presen\u00e7a de civis republicanos foi muito discreta, limitada a algumas reuni\u00f5es promovidas pelo Clube Militar.\n\nContr\u00e1rios \u00e0s teses acima mencionadas, est\u00e3o os trabalhos de George Boeher, Da Monarquia a Rep\u00fablica, o de Ana Luiza Martins, O Despertar da Rep\u00fablica e o de Maria Teresa de Chaves Mello A Rep\u00fablica Consentida.\n\n<strong>Essas pesquisas t\u00eam um elemento comum, a saber:<\/strong>\u00a0enfatizam a participa\u00e7\u00e3o civil no processo pol\u00edtico que conduziu o pa\u00eds \u00e0 Rep\u00fablica. De certo modo, os referidos trabalhos se mant\u00eam dentro de uma perspectiva civilista, pois ressaltam a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o civil na\u00a0<strong>proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica<\/strong>, rompendo, dessa maneira, com as posi\u00e7\u00f5es de H\u00e9lio Silva e Celso Castro que poderiam ser denominados de militaristas (COSTA, 1999). O ponto de converg\u00eancia dos trabalhos citados \u00e9 o papel exercido pelo Partido Republicano Paulista, principalmente atrav\u00e9s da propaganda pol\u00edtica que, na vis\u00e3o dos autores, teria sido fundamental para fomentar e consolidar as ideias republicanas. Jornais, com\u00edcios, debates tornam-se espa\u00e7o ideal para difus\u00e3o desse ideal junto ao imagin\u00e1rio popular.\n\nA aceita\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica sem maior relut\u00e2ncia legitimaria a tese sobre a for\u00e7a da propaganda junto ao povo, que j\u00e1 teria absorvido as ideias republicanas.\n\n<strong>Por outra interpreta\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\nEnquanto fato hist\u00f3rico, a\u00a0<strong>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/strong>\u00a0imp\u00f5e-se ao historiador como um desafio, cujo principal obst\u00e1culo para sua compreens\u00e3o \u00e9 a \u00eanfase neste ou naquele aspecto do fato, sem atentar-se adequadamente para o conjunto de elementos que compuseram o epis\u00f3dio. Ainda que uma interpreta\u00e7\u00e3o totalizante constitua uma utopia, o pesquisador deve desvencilhar-se das armadilhas e reducionismos anal\u00edticos. Penso que a \u00eanfase dada tanto a quest\u00e3o militar quanto ao papel propagand\u00edstico do partido republicano, \u00e9 incapaz de abarcar a complexidade do fato, pois, ao afirmar que a quest\u00e3o militar foi determinante, praticamente descartamos o trabalho de propaganda dos republicanos e, ao contr\u00e1rio, quando valorizamos esse trabalho tendemos a ignorar a for\u00e7a dos militares.\n\nNesse sentido, cabe ao historiador analisar o contexto pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social. N\u00e3o se trata de escolher entre a macro-hist\u00f3ria ou micro-hist\u00f3ria, mas de atentar para as in\u00fameras possibilidades e influ\u00eancias que envolvem o evento analisado. Como j\u00e1 apontamos, as transforma\u00e7\u00f5es sociais pelo qual passou o Brasil durante o s\u00e9culo XIX, que desencadearam um processo de urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada, possibilitaram o surgimento de novos grupos sociais e pol\u00edticos, inv\u00f3lucros de uma mentalidade progressista.\n\nEssas transforma\u00e7\u00f5es materiais n\u00e3o podem ser descartadas pelo historiador, pois s\u00e3o elas respons\u00e1veis por desgastar as anacr\u00f4nicas institui\u00e7\u00f5es mon\u00e1rquicas. S\u00e3o esses novos grupos, originados no bojo dessas transforma\u00e7\u00f5es, os representantes das novas ideias e projetos para o pa\u00eds. Se uma parte da popula\u00e7\u00e3o aceitou essas novas id\u00e9ias (e isso se verifica pela facilidade com que a rep\u00fablica foi aceita no pa\u00eds), isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque no campo social, determinadas pr\u00e1ticas sociais e econ\u00f4micas foram percebidas e consentidas.\n\nO progresso e as novas tecnologias, ainda que n\u00e3o tivessem o alcance desejado, eram percebidos como manifesta\u00e7\u00e3o dessas mudan\u00e7as resultantes da mentalidade progressista que acometia os grandes centros urbanos.\n\nA rep\u00fablica, portanto, n\u00e3o \u00e9 resultado deste ou daquele grupo ou um epis\u00f3dio gerado a partir de id\u00e9ias soltas.\n\n\u00c9 antes resultado de transforma\u00e7\u00f5es materiais e sociais em grande parte impulsionadas pela economia cafeeira, considerando que a necessidade do progresso colidia com a estrutura pol\u00edtica do imp\u00e9rio.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0EncBrasil\/br.geocities.com\/www.ibgeteen.com.br\/Sidnei Ferreira de Vares\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, Brasil, Hist\u00f3ria, Data, Dia, Governo, Golpe, Monarquia, Constitui\u00e7\u00e3o, Movimento, Per\u00edodo, Causa, Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9989,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-15108","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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