{"id":15082,"date":"2015-12-22T00:00:00","date_gmt":"2015-12-22T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/noite-das-garrafadas-2\/"},"modified":"2026-08-31T23:19:56","modified_gmt":"2026-08-31T23:19:56","slug":"noite-das-garrafadas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/noite-das-garrafadas-2\/","title":{"rendered":"Noite das Garrafadas"},"content":{"rendered":"\n<strong>Noite das Garrafadas &#8211; O que foi<\/strong>\n\nA\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>\u00a0foi um grande epis\u00f3dio muito engra\u00e7ado da hist\u00f3ria do Brasil.\n\nO imperador tinha chegado de Minas inclusive n\u00e3o foi muito bem visto pelo povo mineiro, e no dia 11 de mar\u00e7o ele retornara ao Rio de Janeiro, e l\u00e1 foi recebido com uma grande festa do partido portugu\u00eas, mas o partido brasileiro acompanhava a festa e ficava indignado, pois naquela \u00e9poca o pa\u00eds estava numa crise e ai deu inicio a um grande conflito entre o partido portugu\u00eas e o partido brasileiro feito com garrafas e muita pedras.\n\nEsse epis\u00f3dio teve grande import\u00e2ncia na crise pol\u00edtica que resultou na Abdica\u00e7\u00e3o do primeiro imperador do Brasil.\n\nA\u00a0<strong>Noite das Garrafadas\u00a0<\/strong>aconteceu em 1831, quando portugueses e brasileiros disputavam para ver quem compunha o Minist\u00e9rio durante o Primeiro Reinado.\n\nBrasileiros e portugueses se enfrentaram pelo poder pol\u00edtico lan\u00e7ando garrafas contendo urina e outros l\u00edquidos das janelas de suas casas, uns nos outros.\n\nDom Pedro I defendeu os portugueses (pois tamb\u00e9m havia nascido em Portugal) nesse epis\u00f3dio, o que desagradou os brasileiros.\n\n<strong>Noite das Garrafadas &#8211; D. Pedro I<\/strong>\n\nAp\u00f3s assumir o imp\u00e9rio no Brasil depois de proclamar a Independ\u00eancia, D. Pedro I estava governando o pa\u00eds de forma centralizadora e, ao mesmo tempo, negligente com as novas posi\u00e7\u00f5es que a popula\u00e7\u00e3o defendia.\n\nEntre as mudan\u00e7as exigidas, os brasileiros queriam uma autonomia maior dos governos provinciais e um distanciamento maior dos lusitanos na pol\u00edtica.\n\nIncomodava os moradores a marcante presen\u00e7a de portugueses no minist\u00e9rio e na Assembleia, dando a entender que D. Pedro I queria dar continuidade aos privil\u00e9gios da coroa e dos portugueses, como acontecia no per\u00edodo do Brasil Col\u00f4nia.\n\nSomava-se aos questionamentos do poderio imperial a fraca presen\u00e7a pol\u00edtica de D. Pedro I nos territ\u00f3rios brasileiros. Ainda mais com a not\u00edcia da morte do rei de Portugal D. Jo\u00e3o VI, em 1826; o imperador demonstrou grande preocupa\u00e7\u00e3o com o epis\u00f3dio e acabou se envolvendo em supostas reuni\u00f5es para ver quem ocuparia o cargo do falecido no reinado portugu\u00eas.\n\nOs brasileiros defendiam que o l\u00edder de um pa\u00eds independente n\u00e3o deveria voltar os olhos para ocupar um alto cargo numa outra na\u00e7\u00e3o e interpretaram a preocupa\u00e7\u00e3o do imperador como um descaso para a situa\u00e7\u00e3o cada vez mais conflitante que o Brasil estava sofrendo.\n\n<strong>Jo\u00e3o Batista L\u00edbero Badar\u00f3<\/strong>, jornalista italiano radicado no Brasil e dono do jornal O Observador Constitucional, argumentava que o governo imperial estava exercendo um autoritarismo negligente com artigos a favor da liberdade dos brasileiros atrav\u00e9s do rompimento das liga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com os mandat\u00e1rios lusitanos.\n\nSuas ideias liberais atacavam com veracidade o descaso de D. Pedro I e sua morte, em 20 de novembro de 1830 por quatro assassinos alem\u00e3es, acabou sendo atribu\u00edda ao imp\u00e9rio portugu\u00eas.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Noite das Garrafadas\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/nnoite-14.jpg\" alt=\"Noite das Garrafadas\" width=\"211\" height=\"278\" \/><strong>\nL\u00edbero Badar\u00f3<\/strong><\/p>\nVisto como m\u00e1rtir da liberdade, a morte de L\u00edbero Badar\u00f3 causou revolta nos liberais brasileiros. Para tentar contornar a situa\u00e7\u00e3o e melhorar sua imagem perante o povo, D. Pedro I realizou algumas excurs\u00f5es pelos estados do pa\u00eds. O primeiro destino foi a cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, mas a popula\u00e7\u00e3o local o recebeu com janelas cobertas de tecido preto, uma forma revoltosa de dizer que ele n\u00e3o era bem vindo por ali.\n\nOs protestos cada vez maiores no Rio de Janeiro em raz\u00e3o da morte de L\u00edbero Badar\u00f3 exigiram que o imperador retornasse \u00e0 capital para tentar controlar a rebeldia dos manifestantes. No dia 13 de mar\u00e7o de 1831, os brasileiros entraram em conflito com os portugueses no Rio de Janeiro, em um epis\u00f3dio que ficou marcado como Noite das Garrafadas, devido aos in\u00fameros objetos lan\u00e7ados pelos revoltosos.\n\n<strong>Noite das Garrafadas &#8211; Hist\u00f3ria do Brasil<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-159624 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Noite-9-300x160.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"160\" \/><strong>Noite das Garrafadas<\/strong><\/p>\nFoi numa festa organizada por alguns moradores da cidade do Rio de Janeiro para comemorar a volta da viagem do Imperador \u00e0 prov\u00edncia de Minas Gerais que ocorreu a\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>, principal dist\u00farbio de teor pol\u00edtico e social que precede a Abdica\u00e7\u00e3o.\n\nEste epis\u00f3dio ocorreu no quadril\u00e1tero delimitado pelas Ruas da Quitanda, dos Ourives, Direita e das Violas, localidades de com\u00e9rcio portugu\u00eas, e no Rocio, habitada, sobretudo, por negros e pardos, entre os dias 11 e 15 de mar\u00e7o de 1831.\n\nNessas ruas, segundo os relatos, os conflitos se d\u00e3o entre portugueses e brasileiros que se insultavam mutuamente. Os portugueses davam vivas ao Imperador, aos bons portugueses e &#8220;morras&#8221; aos republicanos, enquanto os brasileiros davam vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o, somente para citar alguns exemplos. Das janelas das casas ca\u00edam, entre outras coisas, cacos de vidros de garrafas. Certamente, as fontes indicam a presen\u00e7a de conflitos antilusitanos nas Garrafadas. No entanto, como entender essa mistura de conflitos antilusitanos com motes pol\u00edticos.\n\nComo explicar a grande repercuss\u00e3o da Noite das Garrafadas na imprensa e qual rela\u00e7\u00e3o desta com a Abdica\u00e7\u00e3o.\n\nNas\u00a0<strong>Garrafadas<\/strong>\u00a0s\u00e3o in\u00fameros os exemplos de negros e pardos que participaram do conflito. Agrupamentos compostos de homens de p\u00e9s no ch\u00e3o, negros, pardos vestidos de jaqueta e armados de paus e alguns brancos com chap\u00e9u ornado com o la\u00e7o nacional formavam-se em v\u00e1rias ruas da cidade do Rio de Janeiro.\n\nO Novo Censor menciona um cativo participante da Noite das Garrafadas que foi detido no momento em que ia descarregar o seu cacete na cabe\u00e7a de um cidad\u00e3o pac\u00edfico.\n\n<strong>Em outro momento indica novamente a participa\u00e7\u00e3o dos negros nas disputas pol\u00edticas desse momento:\u00a0<\/strong>Os Negros s\u00e3o os que continuam a serem iludidos!?\n\nOs xingamentos e os conflitos descritos pelas testemunhas interrogadas na devassa que apurou os acontecimentos mostraram a exist\u00eancia de conflitos raciais, sobretudo opondo os portugueses estabelecidos na Candel\u00e1ria com os brasileiros, termo que neste conflito aparece mais associado aos negros e pardos, xingados de cabras. Nesse sentido, algumas explica\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram apresentadas para entender as Garrafadas como as considera\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 disputa no mercado de trabalho entre os homens pobres, ou seja, entre portugueses versus escravos e libertos que exerciam o mesmo of\u00edcio.\n\nA crescente entrada de imigrantes portugueses no Brasil acirrou a concorr\u00eancia entre portugueses com os negros no mercado de trabalho carioca. Mary Karasch (2000) mostra a variedade de fun\u00e7\u00f5es dos escravos da cidade do Rio de Janeiro. Eles desenvolviam atividades como a de carregadores, almocreves, barqueiros, marinheiros e oper\u00e1rios fabris. Al\u00e9m dessas atividades, exerceram profiss\u00f5es mais especializadas, como na ourivesaria e sapataria, o que gerava protestos dos brancos em um mercado competitivo.\n\nO \u00f3dio ao portugu\u00eas deve ser remetido \u00e0 posi\u00e7\u00e3o social que eles desempenharam na sociedade brasileira do s\u00e9culo XIX. No primeiro reinado, os portugueses ocuparam posi\u00e7\u00f5es de influ\u00eancia nas fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, sobretudo nos setores judici\u00e1rios e das mil\u00edcias, e possu\u00edam riqueza comercial, al\u00e9m de quase todos os ministros serem portugueses. Por outro lado, portugueses pobres concorriam com negros e pardos no mercado de trabalho.\n\nAt\u00e9 1834, os portugueses representam a maioria dos estrangeiros que entraram no Brasil (em 1831 eram 56,5%). Os imigrantes portugueses eram, sobretudo, homens vindos do Porto ou do norte de Portugal, solteiros e de idade entre 10 e 30 anos (RIBEIRO, 2002, p. 188). Poucos deles empregavam-se nas regi\u00f5es rurais da Corte, a maioria habitava as freguesias urbanas, principalmente a freguesia da Candel\u00e1ria (68,9% de portugueses em 1831), palco da Noite das Garrafadas (RIBEIRO, 2002, p. 195-196).\n\nA Candel\u00e1ria era denominada Cidade Velha. A\u00ed ficavam muitos edif\u00edcios p\u00fablicos, como os Correios, o Arsenal da Marinha, a Alf\u00e2ndega, o Pa\u00e7o Municipal e a Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio.\n\nNesta freguesia estava a Cidadela Portuguesa, formada pelo quadril\u00e1tero delimitado pelas Ruas da Quitanda, dos Ourives, Direita e das Violas. Na Rua da Quitanda, constantemente citada nos depoimentos das Garrafadas como local de muitos conflitos entre os grupos que se agrediam com cacos de garrafas e outros objetos, havia, da esquina da Rua do Ouvidor at\u00e9 a dos Pescadores, muitas lojas de mercadorias a retalho. Na Rua Direita e dos Pescadores tamb\u00e9m residiam respeit\u00e1veis comerciantes.\n\nAs Ruas do Ouvidor e da Quitanda possu\u00edam not\u00e1vel participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, era na confeitaria do Carceler que se reunia a nata da intelectualidade (KATO, 1988, p. 35-36).\n\nA participa\u00e7\u00e3o de escravos nas Garrafadas, embora n\u00e3o se tenham testemunhos dos motivos pelos quais esses negros entraram no conflito, sabe-se que a obten\u00e7\u00e3o da liberdade atrav\u00e9s da alforria nesse momento ficou extremamente dif\u00edcil. Atrav\u00e9s da constata\u00e7\u00e3o do ex\u00edguo n\u00famero de cartas de alforria no s\u00e9culo XIX, Florentino (2002) concluiu que a condi\u00e7\u00e3o dos escravos foi severa no s\u00e9culo XIX. No contexto das transforma\u00e7\u00f5es da sociedade no s\u00e9culo XIX, decorrente do crescente aumento no n\u00famero de migrantes europeus e na estrutura\u00e7\u00e3o do Estado Nacional, a norma que justificava o cativeiro a partir de enraizadas regras morais foi substitu\u00edda por outra alicer\u00e7ada no primado da propriedade e do mercado.\n\nTais mudan\u00e7as relacionadas ao estatuto do escravo e \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o da alforria de 1820 em diante redefinem as op\u00e7\u00f5es, expectativas e estrat\u00e9gias dos escravos no que se refere \u00e0 liberdade.\n\nEm fins do s\u00e9culo XVIII h\u00e1 na composi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro um conjunto consider\u00e1vel de pardos e negros libertos, no qual estavam inclu\u00eddos tanto os manumissos quanto os nascidos fora do cativeiro.\n\n<strong>Nesse momento alforriava-se muito:<\/strong>\u00a0os dados mostram que os alforriados representavam 20% dos habitantes das freguesias urbanas dessa cidade em 1799, o que equivale a nove mil alforriados.\n\nOs libertos equivaliam a 60% da popula\u00e7\u00e3o escrava e, quando somados aos cativos, representavam a maioria da popula\u00e7\u00e3o urbana. No s\u00e9culo XIX o quadro \u00e9 diferente, h\u00e1 um aumento no n\u00famero de escravos, sobretudo de africanos, uma quantidade nunca observada de imigrantes portugueses e um pequeno n\u00famero de libertos. Em meados do s\u00e9culo XIX, apenas uma entre cada dez pessoas livres havia passado pelo cativeiro, enquanto que em 1799 uma em cada tr\u00eas pessoas havia estado no cativeiro.\n\nA alta dos pre\u00e7os dos escravos foi o elemento fundamental para a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de alforrias, o valor do escravo t\u00edpico (homem, entre 15 e 40 anos de idade) teve seu pre\u00e7o dobrado entre o final do s\u00e9culo XVII e a d\u00e9cada de 1820, repetindo-se nos anos 1830.\n\nOs conflitos que envolveram portugueses e a popula\u00e7\u00e3o pobre nas Garrafadas podem ser relacionados ao agravamento da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com a grave crise de abastecimento de alimentos em 1831 na cidade do Rio de Janeiro. Essa foi uma das sucessivas crises que elevava os pre\u00e7os dos v\u00edveres, cuja culpa na \u00e9poca recaiu sobre os atravessadores, os caixeiros e vendeiros tidos como exploradores.\n\n<strong>Na cidade do Rio de Janeiro, os anos entre 1825 a 1830 foram considerados como uma \u00e9poca de empobrecimento das camadas populares, decorrente de uma s\u00e9rie de raz\u00f5es:<\/strong>\u00a0os altos impostos sobre o abastecimento local que acarretou o encarecimento dos v\u00edveres, a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda para arcar com os gastos das guerras de independ\u00eancia, o custo militar e financeiro com a guerra da Cisplatina, o pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o a Portugal e a circula\u00e7\u00e3o de moeda falsificada. Sobre a crise econ\u00f4mica de 1831, sabe-se que na \u00e9poca a culpa pelo alto pre\u00e7o ou pela falta de carne foi atribu\u00edda aos a\u00e7ougueiros que, em geral, eram portugueses (LOBO, 1978). Lenharo (1979) analisou as sucessivas crises de abastecimento no Rio de Janeiro a partir de 1808 e a exist\u00eancia de uma vis\u00e3o que o autor chamou de moralista, segundo a qual a culpa dessas crises era atribu\u00edda \u00e0 m\u00e1 conduta dos comerciantes gananciosos.\n\nAo contr\u00e1rio dessa interpreta\u00e7\u00e3o, o autor mostrou que os problemas que afetavam o abastecimento s\u00e3o diversos, como a \u00eanfase na economia de exporta\u00e7\u00e3o, a dificuldade de transporte, os problemas internos das prov\u00edncias das quais os v\u00edveres procediam e a amplia\u00e7\u00e3o das demandas do mercado carioca decorrentes do crescimento demogr\u00e1fico a partir da vinda da Corte. Somando-se a esse quadro, o autor destaca outros aspectos mais particulares, como o monop\u00f3lio sobre o com\u00e9rcio carioca de carne verde a partir de 1823 e a irradia\u00e7\u00e3o da economia cafeeira acentuando a urbaniza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas anteriormente destinadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros de subsist\u00eancia. Com a instala\u00e7\u00e3o da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, institu\u00edram-se novos padr\u00f5es de consumo, j\u00e1 que aportaram nesta cidade delega\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, altos comerciantes, estratos burocr\u00e1ticos e militares. Tamb\u00e9m, \u00e9 nesse momento que esta cidade constituiu-se no mais importante entreposto comercial de todo o Centro-Sul. Portanto, as transforma\u00e7\u00f5es desencadeadas a partir de 1808 demandavam o aumento do abastecimento de alimentos, e as doa\u00e7\u00f5es de alimentos dos colonos j\u00e1 n\u00e3o podiam mais suprir as necessidades do mercado com o crescimento populacional da cidade (LENHARO, 1979, p. 41-43)\n\nApesar das explica\u00e7\u00f5es sobre a grave situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de abastecimento e a disputa no mercado de trabalho entre homens pobres para entender o antilusitanismo da\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>, elas ainda pouco nos informam sobre as disputas pol\u00edticas que posteriormente resultaram na Abdica\u00e7\u00e3o de d. Pedro I.\n\n<strong>Como e por que setores das elites e camadas m\u00e9dias da sociedade carioca, entre os quais deputados, redatores de jornais e oficiais do ex\u00e9rcito, participaram da Noite das Garrafadas?<\/strong>\n\nTal dificuldade em avan\u00e7ar a compreens\u00e3o desse conflito para al\u00e9m do entendimento desta como um conflito entre brasileiros e portugueses est\u00e1 atrelada aos discursos da imprensa na \u00e9poca que refor\u00e7avam esta interpreta\u00e7\u00e3o.\n\nPor exemplo, na opini\u00e3o do pasquim Cartas ao Povo, os brasileiros foram desarmados para as ruas e no segundo dia foram agredidos pelos portugueses que se armaram.\n\n<strong>As sim coloca:<\/strong>\u00a0os sarracenos atacavam os meninos que estavam com o tope nacional, feriram quem levava o tope dizendo que eram federalistas.\n\nOs depoimentos sobre as Garrafadas descrevem os v\u00e1rios bandos que se atracavam mutuamente.\n\n<strong>Estes bandos dividem-se, basicamente, em dois grupos:<\/strong>\u00a0os liberais federalistas e os que organizaram os festejos, tidos por antifederalistas e mais associados aos portugueses. O bando da Rua da Quitanda, composto de brancos, pardos e pretos, dava vivas a Sua Majestade o Imperador e a Constitui\u00e7\u00e3o tal qual foi jurada e &#8220;morras&#8221; aos Federalistas e Republicanos.\n\nEsse bando queria ir ao Rocio para acabar com os que os haviam insultado com vivas \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o e \u00e0 Rep\u00fablica quando festejavam boas-vindas \u00e0 Sua Majestade Constitucional.\n\nConsta que o grupo que estava no Rocio dava vivas \u00e0 Sua Majestade o Imperador Constitucional, \u00e0 Rep\u00fablica Legislativa e aos Deputados Liberais, queixando-se de que os portugueses tinham derramado sangue dos brasileiros que deviam ser vingados.\n\nEm outro depoimento, relata-se que havia um grande bando na Rua do Ouvidor que queria ir ao Rocio acabar com os Republicanos e Federalistas. No Rocio, consta haver um bando formado de gente de diferentes cores que desceu at\u00e9 as Ruas da Quitanda e da Direita, onde estavam as fogueiras, os fogos e as m\u00fasicas, e come\u00e7ou a dar vivas ao contr\u00e1rio ao regime estabelecido a Rep\u00fablica.\n\nConsta que ambos os partidos se amea\u00e7aram de parte a parte com fundos de garrafa e outros objetos. Como se pode notar, nos discursos que constam no Traslado, aos poucos, vai se configurando dois grupos, um que se auto-denominava brasileiros contra os que eram associados aos portugueses; por\u00e9m, nos dois grupos h\u00e1 a presen\u00e7a de pardos e negros.\n\nOs relatos das testemunhas informam que os bandos eram formados, \u00e0s vezes, por mil indiv\u00edduos, outras vezes por 400 e 200 pessoas.\n\n<strong>Policiais e tropas tentavam conter os dist\u00farbios, e durante o conflito foram feitas algumas pris\u00f5es como a de Jos\u00e9 Maria Monteiro, que gritava:\u00a0<\/strong>Brasileiros, vamos neles desembainharmos um estoque.\n\n<strong>Aparecem no meio dos dist\u00farbios conflitos entre personagens conhecidos, como no dia 15 de mar\u00e7o, em que Francisco Soares deu chicotadas em Chagas (redator do Tribuno), porque o \u00faltimo gritava:\u00a0<\/strong>Viva Sua Majestade o Imperador Constitucional.\n\nEm outro caso fora preso no dia 15 de mar\u00e7o na Rua Direita o comiss\u00e1rio do Esquadr\u00e3o Nacional, Rodrigo Paz do Amaral, por dar vivas \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o em frente da tropa que ali estava.\n\nHavia um oficial que acompanhava nos dias 12 e 13 de mar\u00e7o o partido dos federalistas dando vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o e praticando a\u00e7\u00f5es indignas de um oficial.\n\n<strong>Assim coloca o depoente:<\/strong>\n<blockquote>sendo no dia 13 por mim advertido no Estado Maior do Batalh\u00e3o dizendo-lhe que faria muito mal em praticar de semelhante maneira e que era preciso guardar respeito as autoridades e a Sua Majestade Imperial que a ela dever\u00edamos derramar a \u00faltima gora de sangue, respondendo-me que era esse seu gosto, e que os seus amantes eram e haviam de ser o redator do Republico com quem acompanhado todas as noites de bra\u00e7o dado ao Tribuno, e todos os mais que pugnavam pela federa\u00e7\u00e3o (\u2026)<\/blockquote>\nAlguns militares que participaram das Garrafadas foram presos. No dia 14 e mar\u00e7o foi conduzido \u00e0 Fortaleza de Santa Cruz o alferes Faustino, que, no momento de sua pris\u00e3o, pronunciou palavras indignas contra todas as pessoas e autoridades que seguiam a ordem.\n\nO depoente e condutor declarou que foi obrigado a rebater sua aud\u00e1cia advertindo-o para que se comportasse e dizendo que n\u00e3o ouviria mais nada. No entanto, quando chegou dentro do Arsenal, juntou-se a Francisco Jo\u00e3o Barcellos que ia preso e come\u00e7aram a vociferar contra a Majestade, dizendo que os pretos e pardos que havia no Escaler e que foram embarcados eram a sua gente e que todos os brasileiros adotivos, sem exce\u00e7\u00e3o, deviam ser papados a espada. Outro caso \u00e9 o do cadete Cajueiro, que foi visto no bando dos federalistas com uma bandeira alvorada em um pau dando vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o. Consta tamb\u00e9m que 10 paisanos queriam entrar na Guarda da Comarca para agredir o oficial que n\u00e3o dera vivas \u00e0 sua Majestade Imperial.\n\nEstes depoimentos das testemunhas inquiridas no Traslado indicam que a Noite das Garrafadas n\u00e3o pode ser caracterizada somente como um conflito que envolveu comerciantes portugueses que se atracavam com segmentos populares por quest\u00f5es relacionadas \u00e0 crise de abastecimento e disputas no mercado de trabalho.\n\nOs motes pol\u00edticos descritos pelas testemunhas, a presen\u00e7a das elites, das camadas m\u00e9dias e de militares nas Garrafadas requerem novas an\u00e1lises.\n\nA liga\u00e7\u00e3o de setores do ex\u00e9rcito com os liberais \u00e9 um elemento importante. Por exemplo, no Traslado uma testemunha relata que o tenente do Batalh\u00e3o do Imperador Elisario Garces d\u2019Ara\u00fajo \u00e9 republicano e amigo \u00edntimo do Republico e do Tribuno, em refer\u00eancia aos redatores desses jornais, respectivamente Borges da Fonseca e Francisco das Chagas Oliveira Fran\u00e7a. Tamb\u00e9m, relata-se que na Rua da Quitanda vinha um grupo de mais de 100 pessoas guiadas pelo redator do Republico dando vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o, do qual faziam parte o alferes Faustino dos Reis, um cadete de artilharia, e o alferes Manoel Jos\u00e9.\n\nNos grupos em que se avistavam os militares havia muitos homens de cor parda dando vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o e &#8220;morras&#8221; ao Imperador, como o capit\u00e3o do Terceiro Batalh\u00e3o Mariano Jo\u00e3o.\n\nEsses desciam a Rua da Quitanda armados com paus, enquanto outros grupos, com espadas e pistolas, gritavam que queriam acabar com os p\u00e9s-de-chumbo e davam vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o, acusando a tropa que os tentava conter de compradas pelos chumbos e contra os brasileiros.\n\n<strong>Os moradores interrogados que habitavam as ruas nas quais ocorreram os dist\u00farbios descreveram os vivas que eram dados pelas pessoas durante as Garrafadas:<\/strong>\u00a0de um lado, os vivas ao Imperador e aos bons portugueses e os xingamentos aos cabras, de outro, os vivas aos federalistas e os xingamentos aos p\u00e9s-de-chumbo. A maioria dos depoimentos identifica os brasileiros como os agredidos por fundos de garrafas, pelas garrafas de aguarr\u00e1s e botijas de tinta arremessados dos sobrados da Rua do Ouvidor.\n\nJuntando-se todas essas reconstitui\u00e7\u00f5es das Garrafadas, chama aten\u00e7\u00e3o o fato dos conflitos antilusitanos se misturarem \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas candentes nesse momento, principalmente a bandeira da federa\u00e7\u00e3o que era pregada pelos jornais Tribuno do Povo e Republico.\n\nA\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>\u00a0ganhou not\u00e1vel dimens\u00e3o na imprensa liberal, mesmo os jornais mais moderados, como o Aurora Fluminense, que, a despeito de n\u00e3o partilhar dos ideais federalistas do Republico, considerou o conflito um insulto aos brasileiros e ao pundonor nacional.\n\nO jornal Novo Brasileiro Imparcial critica a polariza\u00e7\u00e3o portugueses e brasileiros que alguns redatores utilizaram para explicar a\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>. Logo no in\u00edcio, este peri\u00f3dico adverte que a linguagem empregada \u00e9 tosca e que tem como miss\u00e3o exprimir sua opini\u00e3o em meio a tantos analistas. Afirma escrever motivado n\u00e3o pelo esp\u00edrito de partido, mas pelo amor \u00e0 ordem e \u00e0 utilidade p\u00fablica. Coloca-se a favor da concilia\u00e7\u00e3o e contra a instiga\u00e7\u00e3o do \u00f3dio entre brasileiros e portugueses.\n\nConsidera que o Republico generalizou ao empregar o termo portugueses para identificar os desordeiros da\u00a0<strong>Noite das Garrafadas.<\/strong>\n\n<strong>Pela primeira vez um jornal analisa a constru\u00e7\u00e3o da polariza\u00e7\u00e3o portugueses e brasileiros. respeito dessa quest\u00e3o coloca:<\/strong>\u00a0somos imparciais, n\u00f3s s\u00f3 nos propusemos \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o de todos os nossos irm\u00e3os num s\u00f3 centro (\u2026). Este peri\u00f3dico argumenta que sua inten\u00e7\u00e3o era esquecer os funestos acontecimentos dos dias 13 e 14 de mar\u00e7o que n\u00e3o deveriam figurar na hist\u00f3ria do Brasil independente; no entanto, eles estavam sendo tomados por uma quest\u00e3o nacional. O redator adverte que n\u00e3o presenciou tais acontecimentos, mas que iria debater as proposi\u00e7\u00f5es lan\u00e7adas pelos seus colegas escritores, sobretudo as que apresentavam certa inexatid\u00e3o. Sobre quem teria come\u00e7ado as agress\u00f5es na Noite das Garrafadas, diz n\u00e3o saber quais foram os insultantes e quais foram os insultados. Critica o peri\u00f3dico Republico por dizer que os portugueses nos insultam, pois considera que n\u00e3o foram todos os portugueses residentes na Corte que entraram na desordem e sim alguns caixeiros e criados de servir da Rua da Quitanda.\n\nJustifica que os portugueses reconhecidos como brasileiros adotivos, muitos deles estabelecidos com neg\u00f3cios, homens de bem, bons cidad\u00e3os casados, n\u00e3o se encontravam na desordem nem a apoiavam, porque tais conflitos poderiam ocasionar um tumulto geral na cidade e colocar em risco suas fortunas, suas vidas e de suas fam\u00edlias.\n\nCita nomes de portugueses influentes que n\u00e3o estiveram nas Garrafadas para discordar do Republico, que emprega o termo portugueses em refer\u00eancia aos desordeiros.\n\nAdverte que os portugueses s\u00e3o somente aqueles que chegaram ao Brasil depois do juramento da Constitui\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, \u00e9 inexato empregar o termo portugueses, uma vez que foi informado que no barulho participavam brasileiros adotivos que se encontravam alistados nas mil\u00edcias.\n\nDeclara estar convencido de que os brasileiros adotivos e os portugueses que entraram no conflito e que aspiravam a recoloniza\u00e7\u00e3o do Brasil eram gente abjeta, pois os que se encontravam estabelecidos com neg\u00f3cios, lavouras, f\u00e1bricas e empregos cooperavam para a felicidade do Brasil.\n\nQuanto \u00e0 atua\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia nesse conflito, n\u00e3o concorda que ela foi mandada para defender os tumultuosos e, ap\u00f3s conversar com algumas pessoas, p\u00f4de concluir que a pol\u00edcia trabalhava para apaziguar o barulho.\n\nO Novo Brasileiro Imparcial discute as argumenta\u00e7\u00f5es do redator do Novo Censor a respeito da\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>.\n\nAfirma que parou de ler o Novo Censor por ele se encontrar tomado de um esp\u00edrito de parcialidade, presidido pela maledic\u00eancia e pelo vitup\u00e9rio. Critica-o por empregar express\u00f5es pesadas, diatribes e improp\u00e9rios, que ao inv\u00e9s de atacar as id\u00e9ias, insultavam os indiv\u00edduos. Declara que, mesmo n\u00e3o sabendo quais foram os insultantes e quais foram os insultados, diante da posi\u00e7\u00e3o da maioria dos jornais e da Representa\u00e7\u00e3o que foi levada ao Imperador, n\u00e3o era cr\u00edvel a argumenta\u00e7\u00e3o do Novo Censor que, ao conferir aos brasileiros o car\u00e1ter de sediciosos, misturava os negros e os cativos com oficiais do Segundo Corpo de Artilharia de Posi\u00e7\u00e3o.\n\nSegundo o Novo Brasileiro Imparcial, ficou sabendo que os brasileiros foram atacados e obrigados a tirar o la\u00e7o nacional do chap\u00e9u \u00e0 for\u00e7a.\n\nConsidera que tal distintivo n\u00e3o \u00e9 o la\u00e7o nacional e sim um indicativo do partido federalista; no entanto, nenhum indiv\u00edduo poderia tirar o la\u00e7o nacional mesmo sendo distintivo do partido federalista, pois compete ao governo punir tal atentado.\n\n<strong>Termina sua exposi\u00e7\u00e3o acreditando ser os conflitos das Garrafadas um ataque \u00e0 honra nacional e aos brasileiros:<\/strong>\n<blockquote><strong>O ataque \u00e0 honra Nacional, o massacre dos Brasileiros h\u00e1 de ser punido:<\/strong>\u00a0<strong>os vivas sediciosos, as doutrinas, e incita\u00e7\u00e3o a desordem, e anarquia, h\u00e1 de ser castigado:<\/strong>\u00a0logo que se conhe\u00e7am os c\u00famplices eles expiaram seus crimes; resta por tanto, Brasileiros Natos, e Adotivos, que tenhamos confian\u00e7a no Governo, deixemos que livre opere sobre qualquer acontecimento (\u2026) UNI\u00c3O E TRANQ\u00dcILIDADE, brasileiros, \u00e9 o que somente nos conv\u00e9m no come\u00e7o de nossa Independ\u00eancia. Respeito ao trono, confian\u00e7a no governo, amor ao Monarca (\u2026)<\/blockquote>\nA id\u00e9ia exposta pelo Novo Brasileiro Imparcial \u00e9 a de que se deve relativizar a interpreta\u00e7\u00e3o de que portugueses atacaram os brasileiros, mas n\u00e3o exclui existirem portugueses que entraram no conflito contra os brasileiros e que almejavam a recoloniza\u00e7\u00e3o. Mesmo relativizando a oposi\u00e7\u00e3o brasileiros e portugueses, a interpreta\u00e7\u00e3o que permanece das Garrafadas \u00e9 a de um conflito em que os brasileiros foram feridos em sua honra e dignidade.\n\nA partir da leitura desse jornal pode-se historicizar o significado das denomina\u00e7\u00f5es portugueses e brasileiros em 1831.\n\nO peri\u00f3dico Novo Brasileiro Imparcial posiciona-se contra as generaliza\u00e7\u00f5es que tais termos carregam ao agrupar por brasileiros negros, cativos e oficiais de segunda linha, o que requer a necessidade de compreender as motiva\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de setores do ex\u00e9rcito que estavam ao lado dos federalistas na Noite das Garrafadas como aparece no Traslado das Garrafadas.\n\nQuanto ao termo portugueses este peri\u00f3dico argumenta haver muitos portugueses bem posicionados que n\u00e3o participaram dos eventos, mas n\u00e3o descarta que os que defendiam a recoloniza\u00e7\u00e3o eram gente abjeta e n\u00e3o portugueses de posse.\n\n\u00c9 no n\u00famero de 19 de mar\u00e7o de 1831 do Novo Censor, jornal que fazia oposi\u00e7\u00e3o aos liberais, que pela primeira vez os acontecimentos da\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>\u00a0foram discutidos, apresentando uma interpreta\u00e7\u00e3o que diverge da dos jornais liberais. Segundo o redator, a cidade encontrava-se iluminada, havia coros de m\u00fasica em v\u00e1rios lugares e a rua estava repleta de gente que, com grande entusiasmo, repetia vivas \u00e0 Sua Majestade e \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o tal qual o Imperador havia dado, e o Brasil jurara, e \u00e0 Independ\u00eancia. Segundo o Novo Censor, no decorrer da comemora\u00e7\u00e3o, apareceu um grupo de revolucion\u00e1rios anarquistas da federa\u00e7\u00e3o. Tal grupo era composto de poucos homens brancos, misturados com muitos negros e alguns cativos, e era presidido pelo redator do Republico, por alguns oficiais do Segundo Corpo de Artilharia e um desgra\u00e7ado filho de um honrado negociante demitido da Guarda de Honra.\n\n<strong>Consta que estes for\u00e7aram o povo a dar vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o e diziam em altas vozes:<\/strong>\n<blockquote>Aqui vem os corajosos Brasileiros\u2026 Calem-se as m\u00fasicas, e como quer que das janelas se come\u00e7assem a repetir os vivas \u00e0 S.M.I.C. e a Independ\u00eancia, e a Constitui\u00e7\u00e3o, sem serem atendidos os do grupo, que diligenciavam que todos emudecessem as suas vozes (\u2026)<\/blockquote>\nConsta ainda que os desorganizadores atacaram as fogueiras, apropriando-se de tochas de lenha e atirando os ti\u00e7\u00f5es sobre as fam\u00edlias que estavam nas janelas.\n\nEm repres\u00e1lia, os acometidos cidad\u00e3os lan\u00e7aram garrafas sobre a vil canalha. No entanto, os r\u00e9us de t\u00e3o atrozes crimes retiraram-se para a Rua dos Pescadores onde quebraram vidra\u00e7as e lumin\u00e1rias e, dentre os que arrancavam gir\u00e2ndolas, estava o redator do Republico, todos dando vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o e \u00e0 Rep\u00fablica. Al\u00e9m de desorganizadores, esses s\u00e3o chamados de sansculotes.\n\nEles teriam adentrado a Rua Direita e tentaram arrombar algumas portas, por\u00e9m n\u00e3o conseguiram por terem sido impedidos. Segundo o Novo Censor, a canalha fez estragos por toda a parte, obrigando a abrirem as tabernas para comerem e beberem sem pagar. Foram divulgadas id\u00e9ias falsas de que os brasileiros adotivos pretendiam transtornar o equil\u00edbrio da sociedade. Ao contr\u00e1rio disso, o Novo Censor defende que eles eram pais de fam\u00edlia, possu\u00edam amor ao Monarca Constitucional e a na\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o membros.\n\n<strong>Na opini\u00e3o desse peri\u00f3dico, a dedu\u00e7\u00e3o do que ocorreu na Noite das Garrafadas \u00e9:\u00a0<\/strong>Segue-se que a luta n\u00e3o foi entre os Brasileiros natos, e Brasileiros adotivos, mas sim entre os anarquistas da federa\u00e7\u00e3o, e os amantes de nossa jurada e amada Constitui\u00e7\u00e3o.\n\nPara este peri\u00f3dico, os r\u00e9us n\u00e3o foram os habitantes que colocaram lumin\u00e1rias para festejar a volta do Imperador, mas foram os anarquistas que atacaram suas fogueiras, despeda\u00e7aram suas gir\u00e2ndolas de fogos artificiais e deram vivas \u00e0 federa\u00e7\u00e3o e \u00e0 Rep\u00fablica e morras ao Imperador. Consta que os mesmos atiraram achas de lenha nas janelas, quebraram as vidra\u00e7as e usaram os casti\u00e7ais de vela no ataque. Em repres\u00e1lia a tal ataque, os defensores atiraram garrafas para espantar os agressores. Nesse sentido, o Novo Censor considera que os r\u00e9us n\u00e3o eram os cidad\u00e3os pac\u00edficos que organizaram os festejos e que davam vivas \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, ao Imperador, e \u00e0 Sua Augusta Dinastia e Independ\u00eancia do Brasil. Em sua opini\u00e3o, os agressores s\u00e3o os patifocratas infames que, sob os berros do Quilombeiro Republico, puderam reunir-se na Rua dos Pescadores e perpetrar tais crimes at\u00e9 a Rua Direita, onde consta nos autos que atacaram propriedade alheia.\n\nO Novo Censor critica a Representa\u00e7\u00e3o assinada por deputados e pelo senador Vergueiro pedindo provid\u00eancias para apurar os acontecimentos da\u00a0<strong>Noite das Garrafadas.<\/strong>\n\nConsidera que esta Representa\u00e7\u00e3o era uma declara\u00e7\u00e3o de guerra contra os portugueses n\u00e3onaturalizados que vieram fugidos de Portugal em busca de ref\u00fagio no Brasil.\n\nN\u00e3o acredita que tais homens fossem capazes de insurgir-se no Brasil. Segundo esse peri\u00f3dico, esta cal\u00fania era dirigida com o intuito de irritar os \u00e2nimos dos brasileiros incautos e de arm\u00e1-los contra os brasileiros adotivos e contra os brasileiros que eles chamam por natos e, finalmente, voltar-se contra todos que n\u00e3o fossem do Clube dos Patricidas Federativos.\n\nCritica a Aurora Fluminense por ter afirmado que na Noite das Garrafadas um partido lusitano se insurgiu contra os brasileiros aos gritos de vivam os portugueses. Considera que, mesmo que se tenha dado tal viva, n\u00e3o se pode deduzir que se insurgira no Rio de Janeiro um partido lusitano.\n\n<strong>Assim coloca:<\/strong>\n<blockquote>se alguns ingleses, franceses, italianos, turcos, ou Diabos do ar, entusiasmados no meio dos vivas ao Imperador ingleses, ou franceses, ou turcos, ou viva ao Rei de Argel, dir-se-ia, que tal viva era para dar-se (garrete) a Liberdade da P\u00e1tria, ou que havia insurgido um partido Turco, Ingl\u00eas, ou Napolitano contra os Brasileiros<\/blockquote>\nO Novo Censor acusa seus opositores de lan\u00e7arem perjuros que poderiam provocar uma guerra civil e de at\u00e9 pretenderem contaminar a escravatura.\n\n<strong>Apesar de tais acusa\u00e7\u00f5es, o redator diz n\u00e3o acreditar que eles tivessem tais inten\u00e7\u00f5es:\u00a0<\/strong>N\u00e3o acreditamos todavia, que estes Srs. tenham tais desejos; por\u00e9m, que est\u00e3o iludidos (\u2026).\n\nDiz ser malvada a id\u00e9ia que separa brasileiro nato e brasileiro adotivo e considera que a nacionalidade brasileira nada sofreu e que o termo nacionalidade era usado pelos celerados para indisporem os incautos brasileiros contra seus pr\u00f3prios interesses e para fins sanguin\u00e1rios.\n\n<strong>Sobre a refer\u00eancia que a Representa\u00e7\u00e3o faz ao jugo ignominioso do estrangeiro, responde o Novo Censor:\u00a0<\/strong>Quais s\u00e3o esses estrangeiros? Ser\u00e3o os emigrados corridos de d. Miguel? Ser\u00e3o os que se honrem de ser dele vassalos? S\u00f3 a m\u00e1-f\u00e9 se podia acordar deste princ\u00edpio!!\n\nA conclus\u00e3o desta se\u00e7\u00e3o \u00e9 que as fontes estudadas mostraram a necessidade de analisar as Garrafadas al\u00e9m de um conflito entre dois grupos homog\u00eaneos portugueses versus brasileiros, como colocou boa parte da imprensa. Tanto atrav\u00e9s do Traslado como da pr\u00f3pria imprensa, \u00e9 poss\u00edvel identificar a diversidade de atores que participaram das Garrafadas, como tamb\u00e9m a dificuldade dos contempor\u00e2neos na compreens\u00e3o dos la\u00e7os de coopera\u00e7\u00e3o entre setores sociais t\u00e3o heterog\u00eaneos.\n\n<strong>Conclus\u00e3o<\/strong>\n\nA conclus\u00e3o geral \u00e9 que a Abdica\u00e7\u00e3o parece ter sido um processo menos linear do que normalmente se sup\u00f5e. A\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>, por exemplo, n\u00e3o parece ter sido um desdobramento necess\u00e1rio do processo de desgaste de d. Pedro I, em que portugueses, apoiadores do Imperador, e brasileiros, opositores, finalmente se confrontaram defendendo projetos pol\u00edticos bem definidos. Muitos outros fatores estiveram presentes, como a exist\u00eancia de conflitos no mercado de trabalho e os problemas ligados ao abastecimento de v\u00edveres, cuja distribui\u00e7\u00e3o era feita por caixeiros do quadril\u00e1tero formado pelas Ruas da Direita, dos Ourives, Quitanda e das Violas, localidades nas quais ocorreram boa parte dos conflitos das Garrafadas. Soma-se a esses a participa\u00e7\u00e3o de militares na\u00a0<strong>Noite das Garrafadas<\/strong>\u00a0ao lado dos liberais.\n\nParece plaus\u00edvel, entretanto, que o termo portugueses tenha adquirido, aos olhos dos contempor\u00e2neos, um conte\u00fado pol\u00edtico progressivamente maior, incluindo todos que almejavam uma recoloniza\u00e7\u00e3o, os que apoiavam o Gabinete Secreto e, sobretudo, todos os que estavam contra os interesses nacionais os n\u00e3o-patri\u00f3ticos.\n\nMas essa conota\u00e7\u00e3o s\u00f3 parece ter se afirmado em raz\u00e3o do papel fundamental que a imprensa teve como fator de potencializa\u00e7\u00e3o do conflito, e n\u00e3o como resultado de uma radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o.\n\nOs relatos da viagem de d. Pedro I a Minas Gerais parecem ratificar essa conclus\u00e3o, na medida em que mostraram muito menos oposi\u00e7\u00e3o popular e tamb\u00e9m das elites locais ao Imperador do que a hip\u00f3tese de radicaliza\u00e7\u00e3o anti-d.Pedro sugeriria.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.exuperyjau.com.br\/www.unesp.br\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noite das Garrafadas, Brasil, Hist\u00f3ria, Imp\u00e9rio, Portugueses, Independ\u00eancia, Pedro I, Conflitos, O que foi, Noite das Garrafadas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9908,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-15082","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Noite das Garrafadas - 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