{"id":14916,"date":"2015-12-18T00:00:00","date_gmt":"2015-12-18T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/fim-da-escravidao-no-brasil-2\/"},"modified":"2026-08-31T23:18:08","modified_gmt":"2026-08-31T23:18:08","slug":"fim-da-escravidao-no-brasil-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/fim-da-escravidao-no-brasil-2\/","title":{"rendered":"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"ads-cima\"><\/p>\n&nbsp;\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ffim-da2.jpg\" alt=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" width=\"248\" height=\"258\" \/><\/p>\nEm 1850, Eus\u00e9bio de Queiroz motivou a lei contra o tr\u00e1fico negreiro, entre outras coisas, pelo medo de o grande n\u00famero de negros ( 3.500.000 para 1.500.000 brancos ) viesse a perturbar a ordem estabelecida. Queiroz chegou a propor a contrata\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito de mercen\u00e1rios estrangeiros para manter submissos os escravos, pois os soldados brasileiros se recusavam a cumprir tal oficio. Na verdade, boa parte dos escravos estavam se insubordinando.\n\n<strong>Em 1823, cantava-se nas ruas de Pernambuco:<\/strong> Marinheiros e caiados,Todos devem se acabar,Porque s\u00f3 pardos e pretos,O pa\u00eds h\u00e3o de habilitar!\n\nEm 1821, os pretos ocuparam Vila Rica, ap\u00f3s sangrentos combates, declarando sua liberdade e igualdades aos brancos.\n\nEm 1849, em Queimados, Esp\u00edritos Santo, 200 escravos tentaram um levante, visando atingir todo o estado.\n\nLei do Ventre Livre &#8211; Em 28 de setembro de 1871 o governo conservador do Visconde do Rio Branco promulga a Lei do Ventre Livre. De poucos efeitos pr\u00e1ticos, a lei d\u00e1 liberdade aos filhos de escravos, mas deixa-os sob tutela dos senhores at\u00e9 21 anos de idade.\n\nLei dos Sexagen\u00e1rios &#8211; Em 28 de setembro de 1885 o governo imperial promulga a Lei Saraiva-Cotegipe, conhecida como Lei dos Sexagen\u00e1rios, que liberta os escravos com mais de 65 anos. A decis\u00e3o \u00e9 considerada de pouco efeito, pois a expectativa de vida do escravo n\u00e3o ultrapassa os 40 anos.\n\nAboli\u00e7\u00e3o no Cear\u00e1 &#8211; A campanha abolicionista no Cear\u00e1 ganha a ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pobre. Os jangadeiros encabe\u00e7am as mobiliza\u00e7\u00f5es, negando-se a transportar escravos aos navios que se dirigem ao sudeste do pa\u00eds. Apoiados pela Sociedade Cearense Libertadora, os &#8220;homens do mar&#8221; mant\u00eam sua decis\u00e3o, apesar das fortes press\u00f5es governamentais e da a\u00e7\u00e3o repressiva da pol\u00edcia.\n\n<strong>O movimento \u00e9 bem-sucedido:<\/strong> a vila de Acarape (CE), atual Reden\u00e7\u00e3o, \u00e9 a primeira a libertar seus escravos, em janeiro de 1883. A escravid\u00e3o \u00e9 extinta em todo o territ\u00f3rio cearense em 25 de mar\u00e7o de 1884.\n\nO Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do continente a abolir formalmente a escravid\u00e3o mas, a liberdade veio mesmo por motivos econ\u00f4micos.\n\nEntre estes, os historiadores apontam a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de um mercado consumidor para os produtos industrializados, provenientes da Inglaterra. Os portos brasileiros foram, ent\u00e3o, abertos aos imigrantes europeus, tendo sido permitido aos escravos alforriados, ou libertos, que retornassem \u00e0 \u00c1frica.\n\nEm 1888, a Princesa Isabel assinou a lei que abolia a escravid\u00e3o. Lei \u00c1urea &#8211; Em 13 de maio de 1888, o gabinete conservador de Jo\u00e3o Alfredo apresenta, e a princesa Isabel assina, a Lei \u00c1urea, extinguindo a escravid\u00e3o no pa\u00eds. A decis\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o agrada aos latifundi\u00e1rios, que exigem indeniza\u00e7\u00e3o pela perda dos &#8220;bens&#8221;. Como isso n\u00e3o acontece, passam a apoiar a causa republicana.Em 1899 partiu o \u00faltimo navio &#8211; &#8221; o Alian\u00e7a &#8221; &#8211; levando de volta \u00e0 \u00c1frica um grupo de ex-escravos. Uma crian\u00e7a que seguiu para a \u00c1frica naquele navio, Maria Romana da concei\u00e7\u00e3o, chegou a visitar o Brasil em 1963.\n\nA lei \u00c1urea n\u00e3o indenizou os escravos pelo trabalho realizado. Assim, abandonadas a pr\u00f3pria sorte, a maioria caiu na mis\u00e9ria da mendic\u00e2ncia e v\u00e3o compor a camada mais miser\u00e1vel das classes populares .\n\nFonte: www.zbi.vilabol.uol.com.br\n<h6>Fim da Escravid\u00e3o no Brasil<\/h6>\n<p class=\"google\"><\/p>\nDesde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, a quest\u00e3o da escravatura \u00e9 uma fonte constante de atrito entre o Brasil e a Inglaterra. No interior do pa\u00eds, a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura \u00e9 defendida por grupos de liberais, mas n\u00e3o chega a ter repercuss\u00e3o na elite agr\u00e1ria, dependente do trabalho escravo. O fim efetivo do tr\u00e1fico negreiro \u00e9 o primeiro grande passo para a transforma\u00e7\u00e3o real da estrutura das rela\u00e7\u00f5es de trabalho no Brasil, mantidas praticamente intactas desde a coloniza\u00e7\u00e3o.\n<h4>Fim do tr\u00e1fico<\/h4>\nJ\u00e1 em 1810, ao assinar o Tratado de Com\u00e9rcio e Navega\u00e7\u00e3o com a Inglaterra, dom Jo\u00e3o VI compromete-se com o fim do com\u00e9rcio de escravos. As negocia\u00e7\u00f5es arrastam-se por 15 anos, devido \u00e0 ferrenha oposi\u00e7\u00e3o dos grandes propriet\u00e1rios de terras. Em 1825 os ingleses exigem que o Brasil marque uma data para a extin\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico. Um decreto imperial de 1827 garante a interrup\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio negreiro no prazo de quatro anos. Em 7 de novembro de 1831 \u00e9 votada a lei que determina o fim do tr\u00e1fico. Nunca posta em pr\u00e1tica, o epis\u00f3dio d\u00e1 origem \u00e0 express\u00e3o &#8220;para ingl\u00eas ver&#8221;.\n<h4>Lei Eus\u00e9bio de Queiroz<\/h4>\nEm 8 de agosto de 1845 o Parlamento ingl\u00eas promulga a Lei Bill Aberdeen, que pro\u00edbe o tr\u00e1fico em todo o mundo e arroga ao Reino Unido o dever e o direito de aprisionar qualquer navio suspeito de carregar escravos. No Brasil, o fim do tr\u00e1fico negreiro \u00e9 definido pela Lei Eus\u00e9bio de Queiroz, aprovada em 4 de setembro de 1850 e complementada pela Lei Nabuco de Ara\u00fajo, de 1854. Os \u00faltimos 209 escravos trazidos para o Brasil desembarcam em Serinha\u00e9m (PE), em 1855.\n<h4>Conseq\u00fc\u00eancias do fim do tr\u00e1fico<\/h4>\nEm 1856 j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 entradas de escravos no Brasil. Logo aparecem as primeiras reclama\u00e7\u00f5es sobre a falta de &#8220;bra\u00e7os&#8221; para a lavoura e a carestia das &#8220;pe\u00e7as&#8221; negras. Alguns fazendeiros chegam a tentar a reprodu\u00e7\u00e3o &#8220;racionalizada&#8221; da popula\u00e7\u00e3o escrava, num sistema semelhante ao utilizado nas plantations norte-americanas. Mas a experi\u00eancia n\u00e3o vinga por exigir grandes gastos com a manuten\u00e7\u00e3o dos &#8220;reprodutores&#8221;. O fim do tr\u00e1fico negreiro estimula a imigra\u00e7\u00e3o de europeus, inclusive de oper\u00e1rios qualificados, e libera grandes quantidades de capitais, at\u00e9 ent\u00e3o empregados no com\u00e9rcio de escravos &#8211; cerca de 1,9 milh\u00e3o de libras esterlinas por ano. Esses dois fatores s\u00e3o determinantes para a diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds.\n<h4>Campanha abolicionista<\/h4>\nO Partido Liberal compromete-se publicamente com a causa abolicionista. A campanha cresce ap\u00f3s a Guerra do Paraguai com a ades\u00e3o dos militares. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 \u00e9 criada a Sociedade Brasileira contra a Escravid\u00e3o e a Associa\u00e7\u00e3o Central Abolicionista, no Rio de Janeiro, agremia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que re\u00fanem figuras proeminentes do Imp\u00e9rio, como Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Lu\u00eds Gama e Andr\u00e9 Rebou\u00e7as. Em 1887, nas fazendas, come\u00e7am as fugas em massa de escravos. S\u00e3o apoiadas pelos abolicionistas e o Ex\u00e9rcito recusa-se a perseguir os fugitivos.\n<h4>Lei do Ventre Livre<\/h4>\nEm 28 de setembro de 1871 o governo conservador do visconde do Rio Branco promulga a Lei do Ventre Livre. De poucos efeitos pr\u00e1ticos, a lei d\u00e1 liberdade aos filhos de escravos, mas deixa-os sob tutela dos senhores at\u00e9 21 anos de idade.\n<h4>Aboli\u00e7\u00e3o no Cear\u00e1<\/h4>\nA campanha abolicionista no Cear\u00e1 ganha a ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pobre. Os jangadeiros encabe\u00e7am as mobiliza\u00e7\u00f5es, negando-se a transportar escravos aos navios que se dirigem ao sudeste do pa\u00eds. Apoiados pela Sociedade Cearense Libertadora, os &#8220;homens do mar&#8221; mant\u00eam sua decis\u00e3o, apesar das fortes press\u00f5es governamentais e da a\u00e7\u00e3o repressiva da pol\u00edcia.\n\n<strong>O movimento \u00e9 bem-sucedido:<\/strong> a vila de Acarape (CE), atual Reden\u00e7\u00e3o, \u00e9 a primeira a libertar seus escravos, em janeiro de 1883. A escravid\u00e3o \u00e9 extinta em todo o territ\u00f3rio cearense em 25 de mar\u00e7o de 1884.\n<h4>Lei dos Sexagen\u00e1rios<\/h4>\nEm 28 de setembro de 1885 o governo imperial promulga a Lei Saraiva-Cotegipe, conhecida como Lei dos Sexagen\u00e1rios, que liberta os escravos com mais de 65 anos. A decis\u00e3o \u00e9 considerada de pouco efeito, pois a expectativa de vida do escravo n\u00e3o ultrapassa os 40 anos.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ffim-da3.jpg\" alt=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" width=\"225\" height=\"273\" \/><strong>\nPrincesa Isabel<\/strong><\/p>\n\n<h4>Lei \u00c1urea<\/h4>\nEm 13 de maio de 1888, o gabinete conservador de Jo\u00e3o Alfredo apresenta, e a princesa Isabel assina, a Lei \u00c1urea, extinguindo a escravid\u00e3o no pa\u00eds. A decis\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o agrada aos latifundi\u00e1rios, que exigem indeniza\u00e7\u00e3o pela perda dos &#8220;bens&#8221;. Como isso n\u00e3o acontece, passam a apoiar a causa republicana. Os escravos, por seu lado, ficam abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Marginalizados pela sociedade, v\u00e3o compor a camada mais miser\u00e1vel das classes populares.\n\nFonte: www.conhecimentosgerais.com.br\n<h6>Fim da Escravid\u00e3o no Brasil<\/h6>\n<h4>O FIM DA ESCRAVID\u00c3O E AS SUAS CONSEQU\u00caNCIAS<\/h4>\n<strong>Resumo<\/strong>\n\nO per\u00edodo imperial foi marcado por conflitos e ideologias sobre a escravid\u00e3o brasileira, que tinham duas frentes pol\u00edticas na elite, uma queria o fim da escravid\u00e3o e estava ligada ao movimento abolicionista e a outra defendia a continuidade da escravid\u00e3o.\n\nOs negros por sua vez, n\u00e3o ficaram parados lutaram de varias formas por sua liberdade. Entretanto, com o fim da escravid\u00e3o os negros passaram a ser discriminados perante a sociedade, que os tinham como pessoas inferiores aos brancos. Portanto, n\u00f3s ainda temos hoje resqu\u00edcios do per\u00edodo imperial do Brasil.\n\n<strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong>\n\nAs formas que os escravos encontraram para lutarem pela sua liberdade, se deram de varias formas, tanto no movimento abolicionista, como a fuga para os quilombos e at\u00e9 a\u00e7\u00f5es judiciais. Este trabalho buscar analisar o fim da escravid\u00e3o no Brasil e suas consequ\u00eancias para a sociedade brasileira. Como viveriam os negros diante de uma sociedade que maquiou uma ideologia de superioridade.\n\nDurante os per\u00edodos colonial e imperial surgiram v\u00e1rios movimentos que queriam o fim da escravid\u00e3o. Um desses foi o movimento abolicionista, que al\u00e9m de financiar a compra da carta de alforriar de negros, havia tamb\u00e9m o debate entra a elite brasileira que tentava achar uma solu\u00e7\u00e3o para o fim da escravid\u00e3o, uma delas foi embranquecer o Brasil, alegando que os negros eram incapazes de assumir os novos postos de trabalho que surgiriam posteriormente.\n\nPor outro lado, os negros n\u00e3o tinham consci\u00eancia de classe, levados sempre a acreditar que eram inferiores aos brancos, mas isso foi mudando na medida em que alguns membros da elite brasileira como Joaquim Nabuco, Jos\u00e9 Bonifacio e outros, come\u00e7aram a denunciar e questionar a elite brasileira sobre a escravid\u00e3o.\n\nS\u00f3 que grande parte dessa elite n\u00e3o queria o fim da escravid\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o se podia mais adiar, era preciso eliminar a escravid\u00e3o do Brasil. Em 1888 \u00e9 decretada a liberdade dos negros, mas isso n\u00e3o mudou a forma de pensar e de agir da elite brasileira.\n\nCom o fim da escravid\u00e3o no Brasil, muitos negros foram expulsos das fazendas e ficaram sem ter onde morar nem como sobreviver. A elite brasileira n\u00e3o queria que os negros assumissem os novos postos de trabalho que estavam surgindo no Brasil, \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o da elite era embranquecer o pa\u00eds com imigrantes vindos da Europa.\n\nEssa pol\u00edtica de segrega\u00e7\u00e3o racial fez com os negros vivessem as margens da sociedade. O objetivo desse trabalho \u00e9 analisa a trajet\u00f3ria dos negros durante a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e a transforma\u00e7\u00e3o social cultural e pol\u00edtica que os negros tiveram depois desse per\u00edodo.\n\nDurante todo tempo em que estiveram nas senzalas, sendo utilizados como escravos os negros sempre lutaram pela sua liberdade tendo Zumbi dos Palmares como um s\u00edmbolo de resist\u00eancia contra a escravid\u00e3o dos negros desde per\u00edodo colonial at\u00e9 o imp\u00e9rio. O Quilombo dos Palmares e outros que existiram no Brasil, eram considerados apenas como um local onde os negros tentavam preserva a sua cultura e o seu modo de vida que tinham na \u00c1frica.\n\nCom isso os negros criaram um reduto de resist\u00eancia contra a um sistema que massacrava um povo que por uma ideologia cultural e religiosa eram considerados inferiores aos brancos. Por outro lado, devido \u00e0s lutas tribais na \u00c1frica muitos negros eram negociados pelos pr\u00f3prios conterr\u00e2neos do continente. A escravid\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 foi utilizada pelos brancos, mas tamb\u00e9m pelos quilombolas.\n\nA mesma muitas vezes se dava quando um negro fugia ou saia do Quilombo sem permiss\u00e3o, pois era considerado traidor, o castigo era se torna escravo dos descendentes de cor ou de luta, pois no local n\u00e3o s\u00f3 tinha negros, mais tamb\u00e9m \u00edndios, pardos e pessoas que estavam sendo perseguidas por algum motivo. Ent\u00e3o os Quilombos se tornaram um ref\u00fagio em busca da liberdade.\n\nO Quilombo n\u00e3o foi \u00e0 \u00fanica forma de luta pela liberdade, houve outros movimentos que fortaleceram ainda mais a quest\u00e3o abolicionista, que buscavam uma solu\u00e7\u00e3o para o fim da escravid\u00e3o no Brasil. Devido a esses movimentos que se expandiam a cada dia na sociedade brasileira e da press\u00e3o internacional que queria o fim da escravid\u00e3o.\n\nO imperador D. Pedro II teve que criar mecanismo para amenizar a situa\u00e7\u00e3o criando algumas leis, dando a entender que o fim da escravid\u00e3o n\u00e3o era um problema do imperador e sim de toda uma sociedade escravocrata, onde o escravo era tratado como uma mercadoria de grande valor comercial, ent\u00e3o alguns donos de escravos n\u00e3o queriam se desfizer de um negocio t\u00e3o rent\u00e1vel, a n\u00e3o ser por meio de indeniza\u00e7\u00f5es pagas pelo imp\u00e9rio.\n<blockquote>O abolicionismo, entendendo-se por tal corrente de opini\u00e3o e movimentos sociais e n\u00e3o pol\u00edtica de governo baseou-se na Europa e nos Estados Unidos, em raz\u00f5es tiradas de determinadas pr\u00e1tica do cristianismo e em raz\u00f5es geradas pelo Iluminismo Franc\u00eas. (CARVALHO, 2005)<\/blockquote>\nO movimento Iluminista surgiu na Fran\u00e7a com o prop\u00f3sito de impedir que o governo interferisse na economia do pa\u00eds, essas id\u00e9ias liberais chegam ao Brasil por volta dos s\u00e9culos XVI e XVII, que vai ser umas das bases do movimento abolicionista.\n\nO movimento abolicionista vai encontrar resist\u00eancia de alguns senhores de escravos, pois mesmo com todas as implica\u00e7\u00f5es o com\u00e9rcio de negros era muito rent\u00e1veis e talvez por isso a sociedade brasileira n\u00e3o estivesse pronta para acabar com a escravid\u00e3o.\n\n\u00c9 not\u00f3rio que alguns senhores de escravos j\u00e1 estava querendo o fim da escravid\u00e3o, e alguns negros recebiam benef\u00edcios dos seus senhores pelos trabalhos prestados, isso era mais not\u00e1vel principalmente nas cidades do que nas fazendas.\n\nOutros escravos que sofriam maus tratos fugiam e muitos deles n\u00e3o iam para os Quilombos e sim para cidades, at\u00e9 mesmo de outras regi\u00f5es do pa\u00eds, na ilus\u00e3o de ter uma suposta liberdade e quando era capturado pela policia, brigavam na justi\u00e7a por sua liberdade, muitos deles conseguiam sua liberdade depois de uma longa batalha na justi\u00e7a.\n\nIsso para o um negro era uma vit\u00f3ria, devido ao fato de n\u00e3o ter que buscar refugio nos Quilombos, j\u00e1 que locais eram mal vistos pela sociedade brasileira, porque nas cidades o negro foragido conseguiria aprender algumas profiss\u00f5es, e com isso ganhar o seu dinheiro e comprar objetos e at\u00e9 mesmo escravos que eram vendidos nos mercados e pra\u00e7as de algumas capitais, dessa forma tornando-se um senhor de escravo, mesmo com a proibi\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de negros essas pr\u00e1tica ainda estava muito presente no s\u00e9culo XIX.\n\nSe chegar ao fim da escravid\u00e3o no Brasil n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil, se buscou de v\u00e1rias maneiras alcan\u00e7ar esse objetivo, era preciso mudar a consci\u00eancia pol\u00edtica da elite brasileira. Para Joaquim Nabuco, n\u00e3o foi a filantropia que impulsionou o nosso abolicionismo e sim a raz\u00e3o pol\u00edtica de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, (Carvalho,2005).\n\nO grande obst\u00e1culo da elite brasileira era que com o fim da escravid\u00e3o os negros poderiam ocupar os postos de trabalho, mas essa mesma elite n\u00e3o queria ascens\u00e3o dos negros na sociedade, devido a isso, preferiram embranquecer o Brasil criando uma pol\u00edtica para financiar a passagem de Europeus para trabalhar no Brasil.\n\nEnquanto os ex-escravos n\u00e3o teriam direitos nenhum, ou seja, iam viver a margem da sociedade. A forma como os negros foram tratados ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, teve grandes conseq\u00fc\u00eancias para a forma\u00e7\u00e3o da nossa sociedade, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o eram citados como membros, n\u00e3o tinham os direito garantidos somente os negros que possu\u00edssem algum tipo de bens, poderiam participar como membros da sociedade e n\u00e3o sofriam tanta discrimina\u00e7\u00e3o.\n\nMesmo com o fim da escravid\u00e3o ainda n\u00e3o conseguimos de fato a nossa liberdade definitiva, pois temos resqu\u00edcios daquele per\u00edodo, \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma deles.\n\nA batalha de hoje se d\u00e1 em duas frentes principais, a frente acad\u00eamica e a frente do movimento pelo fim das discrimina\u00e7\u00f5es raciais (CARVALHO, 2005). Essas duas frentes s\u00e3o pol\u00edticas, a primeira se d\u00e1 na argumenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, a segunda se fundamenta nos movimentos negros que lutam pelo fim da discrimina\u00e7\u00e3o social do negro, isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel na mudan\u00e7a de mentalidade da sociedade brasileira, enquanto n\u00e3o houver essa mudan\u00e7a n\u00e3o poderemos chegar a uma sociedade justa e igualit\u00e1ria.\n<blockquote>A elite branca brasileira j\u00e1 tinha em sua pr\u00f3pria sociedade os elementos necess\u00e1rios para forjar sua ideologia racial. Tinha aprendido desde o per\u00edodo colonial a ver os negros como inferiores. Tinha tamb\u00e9m aprendido abrir exce\u00e7\u00f5es para alguns indiv\u00edduos negros ou mulatos (VIOTTI, 1998).<\/blockquote>\nEssa ideologia da inferioridade dos negros esta presente no mundo contempor\u00e2neo devido a uma parte da sociedade que defende um tipo de comportamento que mascara a forma\u00e7\u00e3o \u00e9tnica do nosso pa\u00eds, e muitas vezes desvirtuam a luta dos negros por melhorias e participa\u00e7\u00e3o dos mesmos na discuss\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica da sociedade como um todo.\n\nOs negros buscam demonstrar a sua capacidade de participa\u00e7\u00e3o na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, seja ela cultural, pol\u00edtica ou social. No decorrer dos anos o que vimos foi uma transforma\u00e7\u00e3o nas pol\u00edticas p\u00fablicas para a comunidade negra, como as cotas para se entrar nas Universidades, fortalecimento da cultura negra.\n\nEssas pol\u00edticas s\u00e3o paliativas n\u00e3o resolvem o problema da quest\u00e3o racial do pa\u00eds. Para alguns movimentos negros, esse tipo de pol\u00edtica \u00e9 necess\u00e1ria em repara\u00e7\u00e3o ao erro do passado. J\u00e1 outros grupos t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0s pol\u00edticas raciais, s\u00f3 disseminam o preconceito e o racismo ainda mais, onde se perpetua uma vis\u00e3o negativa em rela\u00e7\u00e3o aos negros diante de boa parte da popula\u00e7\u00e3o.\n\nComo citado acima \u00e0 elite brasileira aprendeu a fazer concess\u00f5es para se manter no poder, podemos perceber essas manobras em todo processo hist\u00f3rico Brasileiro, na chegada da fam\u00edlia Real ao Brasil, no Imp\u00e9rio, na Independ\u00eancia e na Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica.\n\nDessa forma a popula\u00e7\u00e3o muito pouco participou da transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desse pa\u00eds. Foram poucos os negros que se destacaram entre a elite brasileira, esses para se diferenciar dos demais eram chamados de pardos.\n\nA ideologia da inferioridade dos negros que foi forjada durante s\u00e9culos pelos europeus atrav\u00e9s do cristianismo, levou-o a viver sempre sobre a tutela dos brancos.\n\nEsse processo ajudou a construir uma imagem negativa do negro, fazendo do mesmo um \u0093marginalizado\u0094 diante da sociedade brasileira, muitas vezes n\u00e3o tendo chances de progredir economicamente e socialmente.\n\nO mito da democracia racial ainda \u00e9 uma realidade no Brasil e no mundo. Uma sociedade que busca defende os direitos humanos e que se diz democrata, mas n\u00e3o consegue resolver os problemas sociais, como saneamento b\u00e1sico, seguran\u00e7a, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.\n\nN\u00e3o pode ser chamada de uma democracia, pois a democracia \u00e9 para poucos. O bom cidad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o que se sente livre e igual, \u00e9 o que se encaixa na hierarquia que lhe \u00e9 prescrita. (CARVALHO, 2005).\n\nPodemos perceber que a cidadania ainda est\u00e1 longe de ser uma realidade social, pois a cada dia \u00e9 divulgado nos meios de comunica\u00e7\u00f5es agress\u00f5es contra negros, sejam elas verbais ou f\u00edsicas. Isso mostra o quanto a comunidade negra brasileira precisa lutar para conquistar de fato os seus direitos de cidad\u00e3os, porque n\u00e3o \u00e9 com pol\u00edticas paliativas que iremos resolver os problemas sociais da na\u00e7\u00e3o.\n\n\u00c9 preciso que haja uma mudan\u00e7a de mentalidade das pessoas, que muitas vezes tem o negro como um \u0093inimigo\u0094, isso fica bem claro na Lei 10639 que regulamenta o ensino de Hist\u00f3ria da \u00c1frica e dos Afro-brasileiros nas escolas publicas de todo o Brasil, que n\u00e3o saiu do papel, pois muitos professores recurs\u00e3o a ministrar esse tipo de conte\u00fado, deixando subtendido que a discrimina\u00e7\u00e3o se apresenta de varias formas at\u00e9 na educa\u00e7\u00e3o, onde pessoas que se dizem serem formadores de opini\u00e3o, mas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo respeito por um povo que foi tirado de seu continente (africano) a for\u00e7a e trazido para um pa\u00eds cujo o nome seria Brasil, para serem explorados como escravos, e no momento n\u00e3o tem sequer o direito de divulgar a sua Hist\u00f3ria.\n\nA cultura da desigualdade persiste em nosso pa\u00eds, onde aqueles que se acham superiores por ter uma condi\u00e7\u00e3o financeira melhor, e que teve condi\u00e7\u00f5es de estudar s\u00e3o tratados como doutores ou at\u00e9 mesmo aqueles que possuem um emprego melhor, que demonstrar a sua autoridade sobre os menos favorecidos.\n<blockquote>\u00c9 sintom\u00e1tico da cultura da desigualdade que ele n\u00e3o seja considerado marginal como os que est\u00e3o por fora e \u00e1 margem da lei, mas por baixo dela. Entre os dois marginais labuta a multid\u00f5es dos cidad\u00e3os sujeitos aos rigores da lei. (CARVALHO, 2005)<\/blockquote>\nEsta cita\u00e7\u00e3o se refere ao que se respeita no Brasil, pois os pobres, negros e todos aqueles que vivem nas favelas, s\u00e3o marginalizados pelo pr\u00f3prio estado e quando este v\u00e3o luta pelos seus direitos atrav\u00e9s de protestos e organiza\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o tratados com a viol\u00eancia institucionais.\n\nComo \u00e9 que podemos dizer que o pa\u00eds \u00e9 democr\u00e1tico? Se o cidad\u00e3o brasileiro mais simples n\u00e3o tem sequer o direito de reivindicar melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Na escravid\u00e3o a luta da comunidade negra e por alguns seguimentos da elite brasileira era pela liberdade dos escravos, no mundo contempor\u00e2neo essas lutas se d\u00e3o atrav\u00e9s da dignidade humana, pois a cada momento esses direitos s\u00e3o violados, gerando uma insatisfa\u00e7\u00e3o da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o.\n\nEm Pernambuco todos os dias s\u00e3o noticiados na m\u00eddia falada ou escrita, casos de viol\u00eancia contra o cidad\u00e3o ou cidad\u00e3. Isso ocorre frequentemente com os de pele mais escura, pois a sociedade brasileira aprendeu que o negro \u00e9 o bandido, enquanto \u0093os donos do poder\u0094 praticam ato de corrup\u00e7\u00e3o e muitas vezes nem sequer s\u00e3o julgados e muito menos condenados.\n\nPor outro lado temos ainda as diferen\u00e7as religiosas, onde os membros do candombl\u00e9 s\u00e3o discriminados por outras denomina\u00e7\u00f5es religiosas. Que tentam difamar a religi\u00e3o dos negros que \u00e9 uma heran\u00e7a dos nossos ancestrais africanos que tanto ajudaram a construir esse pa\u00eds, que n\u00e3o tiveram nem sequer o direito de manifestar a sua cultura religiosa, pois muitos foram obrigados a se converter ao cristianismo (cat\u00f3lico), que era predominante no per\u00edodo colonial e se fortaleceu no imp\u00e9rio.\n\nDiante desses fatos vem se discutindo a intoler\u00e2ncia religiosa, pois ainda temos uma mentalidade do s\u00e9culo passado, \u00e9 preciso desmistificar essa id\u00e9ia de que n\u00e3o presta e que tem liga\u00e7\u00e3o com o mal, pelo contrario o candombl\u00e9 \u00e9 uma denomina\u00e7\u00e3o religiosa s\u00e9ria como as demais.\n\nPodemos perceber o quanto boa parte da sociedade brasileira por n\u00e3o conhecer ou at\u00e9 mesmo por uma ideologia religiosa discriminar a cultura negra com um argumento sem nenhum fundamento Hist\u00f3rico, sociol\u00f3gico ou religioso, pois reproduzem apenas aquilo que \u00e9 dito pelo seu pastor. Por outro lado, no mundo contempor\u00e2neo vem surgindo cada vez mais movimentos contra o racismo, a intoler\u00e2ncia religiosa em v\u00e1rias partes do mundo.\n\nNo Brasil podemos citar o movimento Ecum\u00eanico que re\u00fane algumas denomina\u00e7\u00f5es religiosas. Sabemos que ainda \u00e9 muito pouco, para um pa\u00eds que \u00e9 multicultural, ser\u00e1 que n\u00e3o poderemos viver em harmonia? Ser\u00e1 que n\u00e3o acabaremos com o racismo que persiste desde o per\u00edodo colonial? Devemos sempre nos fazer essas perguntas, s\u00f3 assim, poderemos mudar o contexto hist\u00f3rico em que vivemos.\n\n<strong>Conclus\u00e3o<\/strong>\n\nA trucul\u00eancia do estado contra as pessoas das comunidades carentes \u00e9 vis\u00edvel, pois nestas localidades a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem instru\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil oprimir e manter-los em seu lugar. Essa viol\u00eancia est\u00e1 representada de varias maneiras, deste uma simples abordagem policial at\u00e9 no assassinato de pessoas inocentes que muitas vezes s\u00e3o confundidas com bandidos.\n\nA constitui\u00e7\u00e3o brasileira garante o direito do cidad\u00e3o, mas quando a comunidade vai luta pelos seus direitos, notamos o quanto a discrimina\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente. O fato de grande parte da popula\u00e7\u00e3o das favelas serem descentes de escravos, mostra que \u00e9 preciso uma reconstru\u00e7\u00e3o da nossa Historiografia desmistificando a id\u00e9ia de que o negro era inferior ao branco.\n\nLevando em considera\u00e7\u00e3o que os mesmo foram fundamentais para forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira, e que possam ser vistos como cidad\u00e3os, pois, ainda \u00e9 muito forte a cultura branca em nosso pa\u00eds. Com diferen\u00e7as \u00e9tnicas, religiosa e cultural, criando um novo tipo \u0093apartheid\u0094 no Brasil.\n\n<strong>Andr\u00e9 Jos\u00e9 do Nascimento<\/strong>\n\n<strong>Maria da Gloria de Ms. Medeiros<\/strong>\n\n<strong>Referencia Bibliogr\u00e1fica <\/strong>\n\nFRITAS, D\u00e9cio. Palmares: A Guerra dos Escravos. Rio de Janeiro: Ed.Graal, 1982.\nCHALHOUB, Sidney. Vis\u00f5es da Liberdade: Uma Hist\u00f3ria das Ultimas D\u00e9cadas da Escravid\u00e3o na Corte. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1990.\nCARVALHO, Jos\u00e9 Murilo de. Pontos e Bordados: Escritos de Hist\u00f3ria e Pol\u00edtica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.\nCOSTA, Em\u00edlia Viotti da. Da Monarquia \u00e0 Rep\u00fablica: Momentos Decisivos. S\u00e3o Paulo. Editora UNESP, 1998\n\nFonte: www.unicap.br\n<h6>Fim da Escravid\u00e3o no Brasil<\/h6>\n<h4>O FIM DA ESCRAVID\u00c3O E O P\u00d3S-ABOLI\u00c7\u00c3O<\/h4>\n<strong>O CONTEXTO S\u00d3CIO-HIST\u00d3RICO DA ABOLI\u00c7\u00c3O DA ESCRAVATURA<\/strong>\n\nPodemos dizer que, para a maior parte do mundo ocidental, o s\u00e9culo XIX representou a \u0093era das emancipa\u00e7\u00f5es\u0094.\n\nNaquele s\u00e9culo XIX representou a \u0093era das emancipa\u00e7\u00f5es\u0094. Naquele s\u00e9culo, a escravid\u00e3o e as demais formas de trabalho for\u00e7ado, como a servid\u00e3o na R\u00fassia, foram condenadas e extintas em v\u00e1rias partes da Europa e das Am\u00e9ricas.\n\nNa Europa, desde fins do s\u00e9culo XVIII, surgiram movimentos abolicionistas reivindicando o fim do tr\u00e1fico e a extin\u00e7\u00e3o do trabalho escravo. Aqueles movimentos modificaram o posicionamento dos governos das grandes pot\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o em seus dom\u00ednios coloniais.\n\nPor exemplo, foi sob press\u00e3o dos abolicionistas que, em 1808, foi abolido o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico para as col\u00f4nias inglesas do Caribe e, em 1834, foi abolida a escravid\u00e3o nessas mesmas col\u00f4nias.\n\nSem d\u00favida, aqueles acontecimentos repercutiram no Brasil e deixaram evidente que se havia quebrado o pacto entre as grandes na\u00e7\u00f5es coloniais europ\u00e9ias de defesa da escravid\u00e3o. Repercutiu tamb\u00e9m a revolu\u00e7\u00e3o escrava do Haiti. As elites brasileiras temiam que seus escravos fizessem o mesmo.\n\nDurante todo o s\u00e9culo XIX, o fantasma do \u0093haitianismo\u0094 atormentou as cabe\u00e7as de quem defendia e inspirou quem atacava a ordem escravocrata. Muitos cr\u00edticos da escravid\u00e3o na primeira metade do s\u00e9culo advertiam que se o tr\u00e1fico e em seguida a escravid\u00e3o n\u00e3o desaparecessem o Haiti poderia repetir-se no Brasil. De fato, para os escravos brasileiros os acontecimentos do Haiti tiveram outro significado, mostraram que era poss\u00edvel sonhar com o fim da escravid\u00e3o.\n\nMas foi na segunda metade do s\u00e9culo XIX, especialmente depois da proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico, em 1850, que o debate sobre a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o se intensificou no Brasil. Para boa parte das elites brasileiras ficou evidente que o fim do tr\u00e1fico teria como conseq\u00fc\u00eancia l\u00f3gica o fim do cativeiro.\n\nAcreditavam que com os altos \u00edndices de mortalidade da popula\u00e7\u00e3o escrava, e sem possibilidade de renov\u00e1-la por meio do tr\u00e1fico, a escravid\u00e3o desapareceria em algumas d\u00e9cadas. A partir de ent\u00e3o, a elite pol\u00edtica e as organiza\u00e7\u00f5es de agricultores passaram a projetar e a colocar em pr\u00e1tica a substitui\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra escrava por colonos europeus ou asi\u00e1ticos. Buscou-se tamb\u00e9m transformar os escravos em trabalhadores livres.\n\nDesde meados do s\u00e9culo XIX, a escravid\u00e3o no Brasil vinhasofrendo transforma\u00e7\u00f5es significativas. Deu-se o decl\u00ednio acentuado da popula\u00e7\u00e3o escrava nas cidades por causa da transfer\u00eanciade cativos para as \u00e1reas rurais.\n\nEm algumas prov\u00edncias do Norte edo Nordeste houve diminui\u00e7\u00e3o significativa da popula\u00e7\u00e3o cativaem decorr\u00eancia da maior demanda de trabalho nas lavouras decaf\u00e9 das prov\u00edncias do Sudeste, principalmente Rio de Janeiro eS\u00e3o Paulo. Com isso, algumas prov\u00edncias passaram a ter menoscompromisso do que outras com a manuten\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.\n\nCom a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico aumentaram os pre\u00e7os dos escravos e cada vez menos pessoas podiam compr\u00e1-los. Desde ent\u00e3o, possuir escravos passou, aos poucos, a ser privil\u00e9gio de alguns, especialmente dos mais ricos. Com os pre\u00e7os em alta, pobres e remediadas ficaram sem condi\u00e7\u00f5es de ter escravos e os quetinham procuraram vend\u00ea-los. Para eles j\u00e1 n\u00e3o fazia sentido a escravid\u00e3o. E passou a n\u00e3o fazer sentido defender a escravid\u00e3o.\n\nMesmo assim, em meados do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o havia nenhuma garantia de que o fim da escravid\u00e3o no Brasil se daria embreve. Nas regi\u00f5es cafeeiras do Sudeste, especialmente nas prov\u00edncias de S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, a escravid\u00e3oganhou for\u00e7a com o crescimento das exporta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9.\n\nEra deinteresse dos fazendeiros de caf\u00e9 que a escravid\u00e3o se prolongasseo m\u00e1ximo de tempo poss\u00edvel. Pol\u00edticos das regi\u00f5es cafeeiras fizeram de tudo para impedir qualquer medida legal que levasse \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o imediata. Alegavam que a aboli\u00e7\u00e3o provocaria crise econ\u00f4mica, pois a grande lavoura n\u00e3o suportaria o impacto da perda dosbra\u00e7os escravos. Em 1867, Nabuco de Ara\u00fajo, pai do futuro abolicionista Joaquim Nabuco, afirmou que a aboli\u00e7\u00e3o imediata \u0093precipitaria o Brasil em um abismo profundo e infinito\u0094.\n\nPara se opor \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o, os donos de escravos e seus representantes no parlamento argumentavam que os cativos n\u00e3o estavam preparados para a vida em liberdade, e que fora do cativeirose tornariam vadios e ociosos.\n\nFizeram tamb\u00e9m previs\u00f5es catastr\u00f3ficas de aumento da criminalidade nas cidades decorrente dasa\u00edda dos escravos das zonas rurais. Na verdade, os senhores n\u00e3oqueriam perder o controle sobre seus trabalhadores cativos e s\u00f3admitiam que a aboli\u00e7\u00e3o fosse feita no longo prazo, com indeniza\u00e7\u00e3o e leis que garantissem que, mesmo depois de abolido o cativeiro, os ex-escravos n\u00e3o abandonariam suas propriedades.\n\nJ\u00e1 os escravos tinham expectativas de que a aboli\u00e7\u00e3o do cativeiro acontecesse o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Estudos recentes demonstraram que os escravos tomaram iniciativas que aceleraram ofim da escravid\u00e3o, como as fugas, a forma\u00e7\u00e3o de quilombos e arebeldia cotidiana. A movimenta\u00e7\u00e3o dos escravos teve repercuss\u00e3o pol\u00edtica e influenciou decisivamente o processo da aboli\u00e7\u00e3o.\n\nInfluenciou inclusive a forma como os pol\u00edticos encaminharamas discuss\u00f5es sobre as leis emancipacionistas. Deputados, senadores e conselheiros do Imp\u00e9rio, muitos deles grandes propriet\u00e1riosde escravos, estavam atentos ao que acontecia \u00e0 sua volta e muitasdas suas decis\u00f5es foram tomadas sob press\u00e3o do que viam nasruas e nas senzalas.\n\nAs duas \u00faltimas d\u00e9cadas que antecederam a aboli\u00e7\u00e3o forammarcadas pelo aumento das fugas e do n\u00famero de quilombos emtodo o Brasil. Veremos que, nesses atos de rebeldia, escravos e escravas agiram avaliando as possibilidades do momento, tirando proveito da crescente desmoraliza\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e do sentimentoantiescravista que crescia entre a popula\u00e7\u00e3o livre.\n\nProcuraram tamb\u00e9m explorar as possibilidades abertas pela legisla\u00e7\u00e3o imperial disputando na justi\u00e7a o direito \u00e0 liberdade. Este cap\u00edtulo busca mostrarcomo os escravos participaram e interferiram decisivamente no processo que culminou com a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil. Osnegros brasileiros n\u00e3o esperaram passivamente pela sua liberta\u00e7\u00e3o.\n<h4>Leis emancipacionistas e perspectivas de liberdade<\/h4>\nNo final da d\u00e9cada de 1860, o governo imperial tomou algumasiniciativas para promover a substitui\u00e7\u00e3o gradual do trabalho escravo. Depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o nos Estados Unidos, em1865, Brasil e Cuba eram os \u00fanicos pa\u00edses que ainda mantinham aexplora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo nas Am\u00e9ricas. Numa \u00e9poca emque se condenava a escravid\u00e3o nos quatro cantos do mundo, isson\u00e3o era nada confort\u00e1vel para os governantes brasileiros.\n\nAl\u00e9m disso, no final dos anos sessenta, ainda que em pequenos grupos,os abolicionistas come\u00e7aram a agitar os grandes centros urbanoscom discursos inflamados exigindo o fim do cativeiro. E mais, nofinal da d\u00e9cada de 1860, as ocorr\u00eancias de crimes, fugas e revoltasescravas aumentaram em v\u00e1rias prov\u00edncias do Brasil, especialmentenas do Sudeste, onde se concentrava o maior n\u00famero de cativos.\n\nPara conservar a imagem de soberano ilustrado, d. Pedro IIpassou a se pronunciar publicamente favor\u00e1vel \u00e0 erradica\u00e7\u00e3o daescravid\u00e3o no pa\u00eds. Em 1867, o imperador encomendou aos seusconselheiros propostas de extin\u00e7\u00e3o do trabalho escravo. Na ocasi\u00e3o, os conselheiros elaboraram um projeto de emancipa\u00e7\u00e3o queprevia a liberta\u00e7\u00e3o dos filhos das escravas e a cria\u00e7\u00e3o de um fundopara custear a compra da liberdade.\n\nPara acalmar os fazendeiros, oprojeto propunha a ado\u00e7\u00e3o de leis que obrigassem os ex-escravos a trabalhar nas terras dos seus ex-senhores sob pena de serempresos como vadios. Mas as discuss\u00f5es n\u00e3o avan\u00e7aram, pois aindahavia muita oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o de qualquer reforma que tocas-se na propriedade escrava, pelo que ela representava para a movimenta\u00e7\u00e3o da economia do pa\u00eds.\n\nEmbora afirmasse que n\u00e3o pretendia fazer a aboli\u00e7\u00e3o j\u00e1, oimperador foi bastante criticado pelos propriet\u00e1rios de escravos.Em diversos jornais, os fazendeiros o criticaram por querer interferir nas rela\u00e7\u00f5es escravistas, e muitos chegaram a amea\u00e7ar PedroII com a perda do trono.\n\nMesmo assim, cautelosamente, o governo imperial tomou algumas medidas. Em junho de 1865, determinou que os escravos condenados a trabalhos for\u00e7ados n\u00e3o poderiam mais ser castigados com chicotes. No ano seguinte, declarouextinto o emprego de escravos em obras p\u00fablicas.\n\nNo final da d\u00e9cada de 1860, deputados e senadores passarama discutir mais constantemente a emancipa\u00e7\u00e3o. De maio a julho de1869, muitos projetos com tal prop\u00f3sito foram apresentados naC\u00e2mara dos Deputados. A maioria das propostas n\u00e3o entrou emdebate, mas havia certo consenso sobre a urg\u00eancia de se discutir ofim da escravid\u00e3o. Em 1869, foi aprovada uma lei que proibia oleil\u00e3o p\u00fablico de escravos e a separa\u00e7\u00e3o de marido e esposa nasopera\u00e7\u00f5es de compra e venda. Determinou-se tamb\u00e9m que escravos com menos de quinze anos n\u00e3o podiam ser separados de suasm\u00e3es.\n\nDois anos depois, o parlamento brasileiro aprovou a lei demaior impacto sobre a escravid\u00e3o, a Lei 2040, de 28 de Setembro,de 1871, mais conhecida como Lei do Ventre Livre. Por ela ficavam livres as crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas das mulheres escravas, obrigando seus senhores a cuidar delas at\u00e9 a idade de oito anos.\n\nDa\u00edpor diante os senhores poderiam optar entre receber do governouma indeniza\u00e7\u00e3o de 600 mil r\u00e9is ou utilizarem o trabalho dos menores at\u00e9 a idade de vinte e um anos.\n\nAl\u00e9m de libertar os \u0093ing\u00eanuos\u0094 (assim eram chamados os filhos libertos dos escravos) nascidos ap\u00f3s sua publica\u00e7\u00e3o, a leicriou o fundo de emancipa\u00e7\u00e3o, que libertava cativos com dinheiroproveniente de impostos sobre a propriedade escrava, loterias,multas para quem desrespeitasse a lei e dota\u00e7\u00f5es dos or\u00e7amentosp\u00fablicos.\n\nCriava, tamb\u00e9m, a matr\u00edcula obrigat\u00f3ria dos cativos comoforma de melhorar a cobran\u00e7a de impostos dos propriet\u00e1rios deescravos. O escravo que n\u00e3o fosse matriculado seria consideradolivre pelas autoridades sem o desembolso de qualquer quantia.\n\nA Lei de 28 de Setembro de 1871 contemplava alguns direitos costumeiros que os negros haviam adquirido ao longo de muitosanos de luta. Por exemplo, a lei reconhecia o direito ao pec\u00falio, ouseja, que o escravo podia utilizar suas economias para comprar aliberdade.\n\nA grande inova\u00e7\u00e3o foi permitir ao escravo acionar ajusti\u00e7a caso o senhor se recusasse a conceder sua alforria. Nessecaso o escravo, representado por um curador, podia se dirigir aum juiz municipal e abrir uma a\u00e7\u00e3o de liberdade. Quebrava-se assim o monop\u00f3lio da vontade dos senhores na concess\u00e3o da alforria.Depois de 1871, em todo o Brasil, centenas de escravos e escravas recorreram \u00e0 justi\u00e7a para conseguir a liberdade.\n\nAlvo de cr\u00edticas por parte dos senhores, a lei de 28 de setembro de 1871 terminou definindo o caminho pelo qual o governoimperial pretendia abolir a escravid\u00e3o. Ou seja, a escravid\u00e3o acabaria de forma gradual e respeitando o direito de propriedade dossenhores.\n\nMesmo considerando as defici\u00eancias do governo em fazervaler os direitos dos ing\u00eanuos e as fraudes na aplica\u00e7\u00e3o do fundode emancipa\u00e7\u00e3o, a Lei do Ventre Livre abriu perspectivas importantes para muitos escravos alcan\u00e7arem a alforria por meio dasa\u00e7\u00f5es de liberdade. Os escravos das cidades e das fazendas estavamatentos aos direitos garantidos pela lei.\n\nPor exemplo, em janeiro de1875, ao ser preso na freguesia de Santana, em Salvador, o escravoRaimundo, fugido do engenho Laranjeiras, na vila de S\u00e3o Franciscodo Conde, disse ter fugido porque soube que n\u00e3o havia sido matriculado por sua senhora. Ele disse ainda que tinha pec\u00falio de 92 milr\u00e9is e foi para a cidade \u0093tratar de minha liberdade&#8221;.\n\nSem que os autores da lei pudessem prever, os escravos passaram a utilizar as a\u00e7\u00f5es de liberdade para reivindicar outros direitos, denunciar maus-tratos, castigos f\u00edsicos e a escraviza\u00e7\u00e3o ilegalde africanos desembarcados depois de 1831, ano da primeira proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico.\n\nNos anos oitenta, cresceu o n\u00famero dos quefugiam para buscar a prote\u00e7\u00e3o de ju\u00edzes ou autoridades policiais.Foi para denunciar maus-tratos que, em 19 de outubro de 1881, aescrava Rosalina, crioula, com um \u0093filho de peito\u0094, fugiu do engenho Quingona, no Rec\u00f4ncavo baiano, e seguiu para Salvador embusca da prote\u00e7\u00e3o do chefe de pol\u00edcia.\n\nMuitas vezes, ao denunciar os senhores por maus-tratos, oscativos estavam se referindo a outros rigores da vida escrava. Aoser preso em 30 de outubro de 1879, David, crioulo, maior detrinta anos, casado e com um filho, morador no engenho S\u00e3o Jos\u00e9,em Abrantes, interior da Bahia, alegou ter fugido do dom\u00ednio dosenhor por causa dos \u0093maus modos que dele recebe, sendo-lhe exigido trabalho de lavoura maior do que pode ser prestado\u0094.\n\nDesde a d\u00e9cada de 1870, os escravos perceberam que algumas autoridades judiciais estavam se posicionando claramente em favor de suas demandas, impedindo a venda dos que tinham pec\u00falio para outras prov\u00edncias, alforriando os que eram abandonados nas cadeias p\u00fablicas, decidindo o valor das alforrias por valores mais baixos do que o exigido pelos senhores. Perceberam tamb\u00e9m que diversos setores da sociedade vinham se posicionandoclaramente contra a escravid\u00e3o. \u00c9 sobre escravos e abolicionistasque falaremos a seguir.\n<h4>Escravos e abolicionistas<\/h4>\nNo final da d\u00e9cada de 1860, um n\u00famero crescente de pessoas dasmais diversas camadas sociais passou a manifestar e a defender publicamente seu rep\u00fadio \u00e0 escravid\u00e3o. Essa atitude antiescravista n\u00e3oera nova, uma vez que desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX houve quemlevantasse a voz denunciando os horrores do tr\u00e1fico e da escravid\u00e3o. A novidade dos anos sessenta foi que determinados setoresabandonaram as solu\u00e7\u00f5es gradualistas e passaram a reclamar aboli\u00e7\u00e3o j\u00e1. \u00c9 por isso que se identificavam como abolicionistas.\n\nAlguns n\u00facleos abolicionistas come\u00e7aram a atuar desde meados da d\u00e9cada de 1860. Em 1865, um mesti\u00e7o baiano de dezoitoanos, estudante da Faculdade de Direito do Recife, Ant\u00f4nio de Castro Alves, j\u00e1 celebrava em verso a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos na Am\u00e9rica do Norte.\n\nPouco depois, ele se consagraria como o \u0093poeta dosescravos\u0094 ao denunciar os sofrimentos dos que fizeram a travessiaatl\u00e2ntica. Em 1868, Castro Alves inscreveu-se na Faculdade de Direito de S\u00e3o Paulo, onde se juntou a Rui Barbosa, Joaquim Nabucoe outros estudantes que militavam no movimento abolicionista.\n\nPara a juventude estudantil das faculdades de direito e medicina o abolicionismo foi uma forma de rebeldia contra tudo queera considerado heran\u00e7a colonial, sobretudo a escravid\u00e3o. Al\u00e9mde estudantes, aderiram ao movimento professores, jornalistas, tip\u00f3grafos, advogados, literatos, militares, parlamentares, ju\u00edzes,m\u00e9dicos, artistas, m\u00fasicos, comerciantes. No entanto, o movimenton\u00e3o se restringiu apenas aos setores m\u00e9dios da sociedade. Ele terminou envolvendo indiv\u00edduos das mais diversas classes, credo e origem.\n\nCabe observar que desde o seu in\u00edcio o movimento abolicionista n\u00e3o se restringiu a uma elite intelectual branca. O professor negro Francisco \u00c1lvares dos Santos foi um precursor do abolicionismo na Bahia, inclusive liderando passeatas c\u00edvicas em favor da liberdade dos escravos em 1862.\n\nIntelectuais negros epardos participaram ativamente do movimento, alguns na lideran\u00e7a das associa\u00e7\u00f5es e clubes abolicionistas. Muitos se destacaram como grandes oradores, discursando nas ruas e no parlamento, escrevendo cr\u00f4nicas e artigos em jornais, atuando na propaganda de rua ou auxiliando os escravos nas disputas judiciaiscontra seus senhores.\n\nAlguns traziam na trajet\u00f3ria de vida a liga\u00e7\u00e3o com a escravid\u00e3o. Um deles era o poeta Luiz Gama, nascido em Salvador, em1830, filho de uma quitandeira africana liberta chamada Lu\u00edza Mahine de um negociante portugu\u00eas.\n\nSua m\u00e3e teria se envolvido em insurrei\u00e7\u00f5es escravas na Bahia, fugido para o Rio de Janeiro e em seguidadeportada para a \u00c1frica. Mas a hist\u00f3ria de Luiza Mahin est\u00e1 envoltaem d\u00favidas. Seu pr\u00f3prio filho fala dela cheio de incertezas. Quantoao pai de Luiz Gama, em crise financeira, o teria vendido comocativo para o Rio de Janeiro, uma venda ilegal posto que houvessenascido livre. Do Rio foi vendido para S\u00e3o Paulo, onde viveu comoescravo dom\u00e9stico at\u00e9 os dezessete anos.\n\nAlfabetizou-se ainda nocativeiro com h\u00f3spedes da casa de seu senhor. Depois de livrar-sedo cativeiro, n\u00e3o se sabe como, foi escriv\u00e3o, poeta, jornalista, advogado sem diploma. Na d\u00e9cada de 1870, Gama notabilizou-se defendendo nos tribunais a liberdade de africanos trazidos para o Brasildepois da lei de 1831. Em 1881, ele fundou a Caixa EmancipadoraLuiz Gama para a compra de alforrias.\n\nJos\u00e9 do Patroc\u00ednio teve participa\u00e7\u00e3o destacada na imprensacarioca e nas reuni\u00f5es abolicionistas. Nascido em Campos, no Riode Janeiro, Patroc\u00ednio era filho de um padre fazendeiro, dono deescravos, e de uma mulher negra vendedora de frutas chamadaJustina Maria do Esp\u00edrito Santo. Aos vinte e oito anos j\u00e1 era famoso por seus discursos exaltados, emotivos e teatrais. Ao lado deJoaquim Nabuco, importante abolicionista pernambucano, fundou a Sociedade Brasileira contra a Escravid\u00e3o.\n\nAndr\u00e9 Rebou\u00e7as foi um dos mais admir\u00e1veis l\u00edderes abolicionistas. Tamb\u00e9m nasceu na Bahia, filho do conselheiro Ant\u00f4nioPereira Rebou\u00e7as, pardo, mudou-se para corte ainda crian\u00e7a. Formou-se em engenharia e ensinou bot\u00e2nica, c\u00e1lculo e geometria naEscola Polit\u00e9cnica do Rio de Janeiro. Mesmo n\u00e3o tendo o domda orat\u00f3ria de Luiz Gama e de Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, Rebou\u00e7astinha uma vis\u00e3o bastante l\u00facida das quest\u00f5es cruciais que envolviam o futuro do povo negro.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ffim-da4.jpg\" alt=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" width=\"273\" height=\"338\" \/><strong>\nCastro Alves, poeta e abolicionista<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">Vale dizer que n\u00e3o havia unidade de pensamento e a\u00e7\u00e3oentre os abolicionistas. Na verdade, o movimento abrigava indiv\u00edduos e grupos com vis\u00f5es pol\u00edticas diferentes. Podiam-se encontrar liberais e conservadores, monarquistas e republicanos. Eles se dividiam principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formas de atua\u00e7\u00e3o e aos objetivos.<\/p>\n<p align=\"left\">Para muitos, a aboli\u00e7\u00e3o devia ser feita pelavia parlamentar, sem mobilizar as camadas populares e muitomenos os escravos. Para outros, no entanto, o abolicionismo deveria envolver toda a popula\u00e7\u00e3o, sobretudo os escravos. Essa segunda vertente vai se fortalecer na d\u00e9cada de 1880 e ser\u00e1 respons\u00e1vel pelas a\u00e7\u00f5es mais ousadas, promovendo fugas e confrontando capit\u00e3es-do-mato e policiais que perseguiam escravos fugidos.<\/p>\n<p align=\"left\">Quanto aos objetivos, muitos achavam que a luta abolicionista deveria acabar com o fim da escravid\u00e3o, pois acreditavamque da\u00ed por diante n\u00e3o haveria mais entraves ao desenvolvimentoe ao progresso do pa\u00eds. Entre estes havia quem achasse que o\u0093progresso\u0094 s\u00f3 seria vi\u00e1vel se os trabalhadores negros fossem substitu\u00eddos por imigrantes europeus.<\/p>\n<p align=\"left\">Para eles, n\u00e3o s\u00f3 a escravid\u00e3o,mas tamb\u00e9m os escravos eram empecilhos ao desenvolvimentodo pa\u00eds. Eles esperavam que a aboli\u00e7\u00e3o fosse feita, n\u00e3o para melhorar a sorte dos negros escravizados, e sim para motivar a vindade imigrantes europeus.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ffim-da5.jpg\" alt=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" width=\"314\" height=\"282\" \/><strong>\nLuiz Gama, poeta e abolicionista<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">Mas havia quem pensasse o contr\u00e1rio e apostasse na aboli\u00e7\u00e3ocomo o come\u00e7o de um processo de moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que traria benef\u00edcios para os ex-escravos e seus descendentes. Por isso defendiam reformas sociais que deveriam complementar a aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">A luta contra a escravid\u00e3o e suas conseq\u00fc\u00eancias sociais haveria decontinuar por muito tempo depois da aboli\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da amplia\u00e7\u00e3ode oportunidades econ\u00f4micas para negros e mulatos, alguns abolicionistas defendiam reforma agr\u00e1ria e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica para todas as classes sociais.<\/p>\n<p align=\"left\">Andr\u00e9 Rebou\u00e7as pregava mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o que permitissem aos ex-escravos acesso \u00e0 terra. Era o que elechamava de \u0093democracia rural\u0094, uma esp\u00e9cie de reforma agr\u00e1riaque deveria promover a inclus\u00e3o social dos ex-escravos.<\/p>\n<p align=\"left\">Para Rebou\u00e7as a luta contra a escravid\u00e3o n\u00e3o podia ser desligada daluta pela cidadania dos ex-escravos e dos seus descendentes.<\/p>\nJ\u00e1 Luiz Gama sempre associou o fim da escravid\u00e3o \u00e0 lutacontra a discrimina\u00e7\u00e3o racial, pela educa\u00e7\u00e3o formal e cidadanianegra. O seu empenho em denunciar o preconceito racial lhe rendeu muita fama.\n\n<strong>No poema conhecido como Bodarrada ele lamentou por aqueles que n\u00e3o reconheciam a sua negritude:<\/strong>\n<blockquote>Pouco importa. O que isto pode?\nBodes h\u00e1 de toda casta,\nPois que a esp\u00e9cie \u00e9 muito vasta&#8230;\nH\u00e1 cinzentos, h\u00e1 rajados,\nBaios, pampas e malhados,\nBodes negros,\nbodes brancos,\nE, sejamos todos francos,\nUns plebeus, e outros nobres,\nBodes ricos, bodes pobres,\nBodes s\u00e1bios, importantes,\nE tamb\u00e9m alguns tratantes<\/blockquote>\nO termo era usado na \u00e9poca para denominar o mesti\u00e7o filho de negro com branco. Com esses versos Luiz Gama lembrava aos brancos do Brasil que eles tamb\u00e9m, na sua maioria, tinham ascend\u00eancia africana.\n\nOs abolicionistas atuavam geralmente no interior de associa\u00e7\u00f5es que seguiam diretrizes e objetivos definidos em estatutos. As primeiras associa\u00e7\u00f5es abolicionistas surgiram entre o final da d\u00e9cada de 1860 e o in\u00edcio da d\u00e9cada seguinte.\n\nAlgumas surgiram at\u00e9 antes dos anos 60, como a Sociedade Abolicionista 2 de Julho,criada em 1852 por estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia.\n\nEm 1869, foi fundada em Salvador a Sociedade Libertadora Setede Setembro, uma das mais fortes organiza\u00e7\u00f5es abolicionistas da prov\u00edncia da Bahia na d\u00e9cada de 70. No Rio Grande do Sul, a Sociedade Libertadora de Passo Fundo foi criada em agosto de1871 com a finalidade de libertar meninas escravas. Em Porto Alegre, na d\u00e9cada de 1870, surgiram a Sociedade Visconde do RioBranco e a Sociedade Esperan\u00e7a e Caridade.\n\nAo longo da d\u00e9cada de 1880, outros clubes e sociedadesabolicionistas foram criados em diversas cidades brasileiras. Em1880, no Rio de Janeiro, foi fundada a Sociedade Brasileira Contraa Escravid\u00e3o. Pouco tempo depois surgiram o Clube dos Libertosde Niter\u00f3i, Libertadora da Escola Militar, Libertadora da Escolade Medicina e outras.\n\nEm setembro daquele ano, membros daUni\u00e3o Liter\u00e1ria e Republicana desfilaram pelas ruas de Diamantina,Minas Gerais, seguidos de uma banda de m\u00fasica e grande multid\u00e3o, pedindo donativos para a liberta\u00e7\u00e3o de escravos. Em novembro, a Sociedade Abolicionista Maranhense foi formada na cidadede S\u00e3o Lu\u00eds. Foi tamb\u00e9m naquele ano que Eduardo Carig\u00e9 ePamphilo da Santa Cruz fundaram a Libertadora Bahiana, a maisatuante organiza\u00e7\u00e3o abolicionista da Bahia.\n\nMuitas associa\u00e7\u00f5es foram criadas por mulheres, e isso mostra que foi marcante a participa\u00e7\u00e3o feminina no movimento. Em1888, em Salvador, um grupo de mulheres fundou o Clube CastroAlves com a finalidade de angariar fundos para promover a educa\u00e7\u00e3o dos ing\u00eanuos.\n\nMas tamb\u00e9m h\u00e1 evid\u00eancias da participa\u00e7\u00e3ode mulheres em associa\u00e7\u00f5es e clubes em que os homens erammaioria. Muitas delas atuaram em opera\u00e7\u00f5es clandestinas, escondendo escravos fugidos em suas propriedades.\n\nAs associa\u00e7\u00f5es promoviam reuni\u00f5es festivas nas quais eramfeitas coletas de dinheiro para a alforria de algum escravo ou escrava. Nesses encontros rolavam muita m\u00fasica executada por filarm\u00f4nicas, recitais de poesia e discursos exaltados condenando aescravid\u00e3o. No come\u00e7o essas reuni\u00f5es eram pouco concorridas,mas na d\u00e9cada de 1880 elas chegaram a reunir milhares de pessoasnas ruas e pra\u00e7as das grandes cidades.\n\nEssas manifesta\u00e7\u00f5es abolicionistas impressionaram aos contempor\u00e2neos pela quantidade de pessoas mobilizadas. Depois do movimento pela independ\u00eancia, em 1822, foram as maiores manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Brasiloitocentista. Foi nesse contexto que brilharam figuras bem falantes e carism\u00e1ticas como Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa.\n\nAt\u00e9 a d\u00e9cada de 1870, os abolicionistas atuaram principalmente na propaganda antiescravista, escrevendo cr\u00f4nicas e artigos em jornais, discursando no parlamento, nas pra\u00e7as e teatros.Eles atuavam tamb\u00e9m prestando assist\u00eancia jur\u00eddica a escravos,negociando com os senhores as condi\u00e7\u00f5es de liberdade, oferecendo prote\u00e7\u00e3o aos que aguardavam o desfecho de seus processos na justi\u00e7a, redigindo peti\u00e7\u00f5es ou se apresentando como advogados dos cativos em a\u00e7\u00f5es movidas contra seus senhores. Foramadvogados abolicionistas que atuaram nos tribunais defendendoescravos que cometiam algum crime.\n\n\u00c0 medida que o movimento foi crescendo, os abolicionistasse tornaram alvo de ataques pessoais e acusa\u00e7\u00f5es que tinham comoobjetivo intimid\u00e1-los e desacredit\u00e1-los perante a opini\u00e3o p\u00fablica.\n\n<strong>Por exemplo, em 1880, foram divulgados na imprensa paulista ataques racistas \u00e0s origens de Luiz Gama. Diante da afronta, Gamarebateu:<\/strong>\n<blockquote>Em n\u00f3s, at\u00e9 a cor \u00e9 um defeito, um v\u00edcio imperdo\u00e1vel deorigem, o estigma de um crime [&#8230;]. Mas os cr\u00edticos esqueceram que esta cor \u00e9 a origem da riqueza de milhares de salteadores que nos insultam; que esta cor convencional da escravid\u00e3o, como sup\u00f5em os especuladores, \u00e0 semelhan\u00e7a da terra, ao travez da escura superf\u00edcie, encerra vulc\u00f5es, onde ardeo fogo sagrado da liberdade.<\/blockquote>\nMas as hostilidades n\u00e3o pararam por a\u00ed. Ao longo da d\u00e9cadade 1880, abolicionistas negros e brancos foram v\u00edtimas de agress\u00f5es f\u00edsicas, alguns foram assassinados. Em muitas cidades, as reda\u00e7\u00f5es dos jornais abolicionistas seriam invadidas e seus equipamentos quebrados.\n\nS\u00f3 que, no decorrer dos anos oitenta, a defesada escravid\u00e3o foi ficando cada vez mais insustent\u00e1vel e os abolicionistas terminavam recebendo apoio de diversos setores da sociedade. Por exemplo, em Fortaleza, na d\u00e9cada de 1880, tip\u00f3grafos se negaram a imprimir panfletos que atacavam os abolicionistas.\n<h4>Escravos e abolicionismo popular<\/h4>\nEm fins da d\u00e9cada de 1870, havia certo desencanto com os resultados da Lei do Ventre Livre. Chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o que seguindo asdetermina\u00e7\u00f5es da lei a escravid\u00e3o n\u00e3o acabaria t\u00e3o cedo no Brasil.\n\nDesde ent\u00e3o, alguns abolicionistas partiram para a\u00e7\u00f5es mais ousadas, estimulando fugas ou dando esconderijo a escravos fugidos,impedindo a venda para outras prov\u00edncias e criando in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es para inviabilizar o trabalho cativo nas cidades. Em v\u00e1rias delas os abolicionistas formaram redes de ajuda a escravos fugidos,enviando-os para outras prov\u00edncias ou os escondendo em locaisonde n\u00e3o poderiam ser facilmente localizados pela pol\u00edcia.\n\nSem d\u00favida, a agita\u00e7\u00e3o social que invadiu as ruas das cidadesnas d\u00e9cadas de 1870 e 1880 estava relacionada \u00e0 emerg\u00eancia de umabolicionismo de fei\u00e7\u00e3o popular comprometido em acelerar o fim daescravid\u00e3o.\n\nNessa \u00e9poca, as cidades brasileiras foram agitadas pelacrescente onda de indigna\u00e7\u00e3o popular em rela\u00e7\u00e3o aos castigos corporais e maus-tratos contra escravos. Em muitas ocasi\u00f5es, as autoridades policiais foram acionadas pela popula\u00e7\u00e3o para agir contra senhores que castigavam ou submetiam cativos a condi\u00e7\u00f5es indignas.\n\nNaquela \u00e9poca, a gente pobre livre das cidades, grande parte dela negra e mesti\u00e7a, vinha se manifestando contra a venda e oembarque de escravos para outras prov\u00edncias e enfrentando asfor\u00e7as policiais que perseguiam cativos fugidos. No dia 1o de maiode 1877, em Salvador, populares impediram o embarque de umaescrava chamada Joana, que meses antes havia fugido do dom\u00edniode seu senhor, dono do engenho Pericoara, na vila de S\u00e3o Francisco do Conde.\n\nSegundo o relat\u00f3rio da pol\u00edcia, o embarque foiimpedido pelo \u0093povo que se aglomerou em roda dela e que a protegia.\u0094 A escrava estava gr\u00e1vida e, sob press\u00e3o dos populares, apol\u00edcia a conduziu ao hospital da Santa Casa.\n\nNos anos oitenta, o antiescravismo das camadas populares muitas vezes tendeu a uma atitude francamente abolicionista. Em26 de janeiro de 1880, a atua\u00e7\u00e3o conjunta entre jangadeiros e abolicionistas de Fortaleza, capital do Cear\u00e1, foi fundamental parapor fim ao tr\u00e1fico de escravos daquele porto para o sul do pa\u00eds.No dia 27, quando o navio mercante Par\u00e1 ancorou no porto deFortaleza, vindo do Norte para embarcar um grupo de escravos,os jangadeiros se recusaram a transport\u00e1-los at\u00e9 o navio.\n\nOs jangadeiros eram liderados por Francisco Jos\u00e9 do Nascimento e Jo\u00e3o Napole\u00e3o, ambos ex-escravos. Na ocasi\u00e3o, a pol\u00edciaamea\u00e7ou reprimir o movimento, mas terminou recuando dianteda multid\u00e3o que se aglomerou no cais do porto.\n\n<strong>A multid\u00e3o come\u00e7ou a gritar: <\/strong>\u0093No porto do Cear\u00e1 n\u00e3o se embarcam mais escravos.\u0094 Naquele mesmo ano, apesar das tentativas dos traficantes de escravos de subornar os jangadeiros, o tr\u00e1fico foi completamente extinto nos portos de Fortaleza.\n\nDepois desse epis\u00f3dio, o abolicionismo no Cear\u00e1 se transformou num movimento popular de grandes propor\u00e7\u00f5es. At\u00e9 mesmoo 15\u00ba Batalh\u00e3o do Ex\u00e9rcito para ali deslocado foi contagiado pelomovimento e terminou se declarando abolicionista. Em outubro de1882, os abolicionistas cearenses desencadearam um movimentode liberta\u00e7\u00e3o a partir das ruas, bairros, vilas e munic\u00edpios.\n\nEra umacampanha corpo-a-corpo, de convencimento e press\u00e3o, sobre ossenhores da capital e do interior para libertarem seus cativos semindeniza\u00e7\u00e3o. O sucesso da iniciativa foi t\u00e3o grande que, em 1884,praticamente n\u00e3o existia escravid\u00e3o na prov\u00edncia. Por essa \u00e9poca, oCear\u00e1 transformou-se num ref\u00fagio de escravos fugitivos das prov\u00edncias vizinhas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Para\u00edba.\n\nO movimento cearense tornou-se refer\u00eancia para abolicionistas de outras prov\u00edncias do Imp\u00e9rio. Em Porto Alegre, adotou-se a mesma estrat\u00e9gia de liberta\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1. Em 1884, indo decasa em casa, abolicionistas libertaram escravos residentes no centro da cidade e dali o movimento espalhou-se pelas cidades deS\u00e3o Leopoldo, S\u00e3o Sebasti\u00e3o e Pelotas. Em 1884, no rastro do queacontecera no Cear\u00e1, a prov\u00edncia do Amazonas declarou extinta aescravid\u00e3o dentro de suas fronteiras.\n\nA a\u00e7\u00e3o dos jangadeiros do Cear\u00e1 parece ter inspirado ostrabalhadores de outras cidades portu\u00e1rias do Brasil. Em 13 de abril de 1883, o Echo Santamarense, jornal com circula\u00e7\u00e3o na cidade de Santo Amaro, no Rec\u00f4ncavo baiano, informou que umgrupo de saveiristas e mais dois indiv\u00edduos considerados \u0093abolicionistas exaltados\u0094 impediram o embarque de cinco escravosvendidos por um senhor de engenho da regi\u00e3o.\n\nRememorando os feitos abolicionistas da d\u00e9cada de 1880,o engenheiro negro Teodoro Sampaio contou que os canoeirosque faziam a travessia do rio Paragua\u00e7u, entre Cachoeira e S\u00e3oF\u00e9lix, na Bahia, se negaram a transportar escravos a servi\u00e7o dossenhores e se prontificaram a transportar gratuitamente os queestivessem em fuga.\n\nSampaio lembrou tamb\u00e9m que, em Salvador, membros do Clube Saveirista (organiza\u00e7\u00e3o abolicionista), utilizando-se de grandes cordas, escalavam as paredes dos sobrados do bairro comercial para promover a fuga de escravosque aguardavam a chegada de embarca\u00e7\u00f5es para serem vendidospara as prov\u00edncias do Sul.\n\nNa d\u00e9cada de 1880 ocorreram diversos confrontos entreabolicionistas e senhores de escravos em v\u00e1rias cidades do pa\u00eds.Em 10 de abril de 1883, abolicionistas de Salvador se confrontaram com o bar\u00e3o de Cotegipe, um dos mais ricos senhores deengenho do Rec\u00f4ncavo e influente pol\u00edtico do Imp\u00e9rio. O bar\u00e3ode Cotegipe pretendia embarcar para o Rio de Janeiro um meninode onze ou doze anos chamado Lino Caboto.\n\nNo momento emque ingressava na embarca\u00e7\u00e3o, abolicionistas da cidade, a pretextode verificarem a condi\u00e7\u00e3o do menino, arrebataram-no de seuscondutores e o levaram de volta \u00e0 cidade. Segundo os jornais da\u00e9poca houve grande tumulto no porto e \u0093grande indigna\u00e7\u00e3o\u0094 entre os partid\u00e1rios de Cotegipe. No dia seguinte, abolicionistas epopulares impediram o embarque de mais escravos para o Rio de Janeiro. Aqueles epis\u00f3dios deixaram claro aos senhores que estavacada vez mais dif\u00edcil e mesmo invi\u00e1vel dispor livremente de suaspropriedades humanas.\n\nNa d\u00e9cada de 1880, alguns grupos abolicionistas passaram aatuar com mais freq\u00fc\u00eancia nas \u00e1reas rurais incitando os escravos afugir, oferecendo esconderijo e alternativas de emprego nas cidades. Na capital da Bahia, o abolicionista Eduardo Carig\u00e9 liderouuma extensa rede de ajuda a escravos fugidos.\n\nEm S\u00e3o Paulo, um grupo autodenominado Caifazes atuou durante toda a d\u00e9cadade 1880. Antonio Bento de Sousa e Castro, proveniente de umafam\u00edlia abastada, advogado, promotor e juiz de direito, era o l\u00edder do movimento, mas a maioria dos caifazes era formada portip\u00f3grafos, artes\u00e3os, pequenos comerciantes e ex-escravos.\n\nReunidos na sede da irmandade negra de Nossa Senhora dosRem\u00e9dios, os caifazes contavam com diversos colaboradores nacidade de Santos e S\u00e3o Paulo que recebiam e acomodavam emesconderijos os fugitivos. Os caifazes atuaram em v\u00e1rias cidadesdo oeste paulista, onde se concentrava a maior parte dos escravosda prov\u00edncia. Um caifaz conhecido como Ant\u00f4nio Paci\u00eancia notabilizou-se por sua atua\u00e7\u00e3o no interior das fazendas de caf\u00e9, planejando e organizando fugas junto aos escravos. Sabe-se que oscaifazes tinham liga\u00e7\u00e3o com os ferrovi\u00e1rios, pois muitos cativoseram clandestinamente transportados em trens at\u00e9 Santos e S\u00e3oPaulo.\n\nEm 1886, a cidade portu\u00e1ria de Santos transformou-se no ref\u00fagio preferido dos escravos que fugiam das fazendas de caf\u00e9 do interior paulista. Muitos chegavam escondidos nos vag\u00f5es dos trens. Asitua\u00e7\u00e3o ficou t\u00e3o cr\u00edtica que, em novembro de 1886, o presidente daprov\u00edncia enviou para ali uma for\u00e7a de vinte soldados para patrulharas ruas e capturar escravos fugitivos.\n\nMas o trabalho da pol\u00edcia foiimpossibilitado pela rea\u00e7\u00e3o popular. Os escravos capturados eramresgatados e soltos pelo povo. A repeti\u00e7\u00e3o desses acontecimentos fezcom que, em 1887, o Ex\u00e9rcito conseguisse da princesa regente a dispensa do pesado e indigno encargo de capturar escravos.\n\nAl\u00e9m dos personagens j\u00e1 consagrados, o movimento abolicionista era formado por muita gente do povo. Foram essas pessoas que estiveram \u00e0 frente dos movimentos de rua, enfrentandoa pol\u00edcia que perseguia escravos fugidos, distribuindo jornais, discutindo nas tavernas.\n\n\u00c9 o caso de Jo\u00e3o Pinto Ferreira, que ocultava escravos em seu s\u00edtio em Barueri, S\u00e3o Paulo. Na Bahia, JorgeSaveirista, Ismael Ribeiro e Manoel Ben\u00edcio dos Passos tiveramparticipa\u00e7\u00e3o marcante nas manifesta\u00e7\u00f5es que agitaram a cidade deSalvador na \u00faltima d\u00e9cada da escravid\u00e3o. S\u00e3o nomes que devemsair do anonimato e ser celebrados pelos brasileiros.\n\nAo longo da d\u00e9cada de 1880, ficou evidente para as autoridades brasileiras que a aboli\u00e7\u00e3o tinha se transformado numa aspira\u00e7\u00e3o de muita gente, principalmente dos livres e libertos de cornegra. Estes \u00faltimos atuaram no movimento abolicionista organizado ou se integraram \u00e0s lutas dos escravos, participando das rebeli\u00f5es ou das fugas em massa que se tornaram cada vez maisfreq\u00fcentes na d\u00e9cada de oitenta.\n<h4>Rebeldia escrava e o fim da escravid\u00e3o<\/h4>\nAt\u00e9 aqui vimos que os escravos n\u00e3o estavam s\u00f3s na sua luta contraa escravid\u00e3o. Vimos que, em muitos momentos, eles contaram como apoio dos abolicionistas para batalhar pela liberdade na justi\u00e7a, seesconder dos capit\u00e3es-do-mato ou da pol\u00edcia nas fugas. No entanto,\u00e9 preciso aprofundar nossa compreens\u00e3o sobre o comportamentodos escravos, tentando desvendar como organizaram e empreenderam suas pr\u00f3prias lutas para alcan\u00e7ar a liberdade.\n\nAo longo das d\u00e9cadas de 1870 e 1880, os escravos vinham,de diversas formas, enfraquecendo a autoridade senhorial. Vimosmais atr\u00e1s que ao fugir para pedir aux\u00edlio \u00e0s autoridades judiciais epoliciais os escravos terminavam mostrando que os senhores j\u00e1n\u00e3o tinham dom\u00ednio inconteste sobre suas vidas.\n\nAs den\u00fancias de castigos corporais e longas jornadas de trabalho foram outras formas de inviabilizar o dom\u00ednio escravista. Os conflitos nas propriedades se intensificaram, e alguns deles tiveram desfechos violentos, com ferimento ou morte de feitores e senhores. Na \u00e9poca oscrimes cometidos por escravos foram explorados pelos jornais, oque aumentou o p\u00e2nico entre a popula\u00e7\u00e3o livre e intensificou arepress\u00e3o policial sobre os negros livres e escravos.\n\nNas duas \u00faltimas d\u00e9cadas da escravid\u00e3o as fugas em dire\u00e7\u00e3o\u00e0s cidades se intensificaram, pois, al\u00e9m do apoio das entidadesabolicionistas, era poss\u00edvel contar com a ajuda de outros escravose libertos.\n\nNas cidades era poss\u00edvel ocultar-se em meio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra que se aglomerava nos centros urbanos, grande partedela livre e liberta. A grande quantidade de negros e mesti\u00e7os nascidades dificultou a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia na localiza\u00e7\u00e3o dos fugidos.Naquele momento, os escravos perceberam que as fugas apresentavam grandes chances de rompimento definitivo com os la\u00e7os escravistas.\n\nOs escravos fugiam tamb\u00e9m para os quilombos. Por voltade 1885, formou-se nas imedia\u00e7\u00f5es de Campinas, prov\u00edncia deS\u00e3o Paulo, um quilombo que reunia mais de setenta pessoas. Muitos quilombos que surgiram na d\u00e9cada de 1880 foram formadosem parceria com os abolicionistas. Nas imedia\u00e7\u00f5es de Santos, o Jabaquara foi o mais famoso deles. Liderado pelo ex-escravo sergipano Quintino de Lacerda e pelo portugu\u00eas Santos\u0093Garraf\u00e3o\u0094, chegou a reunir cerca de 10 mil pessoas abrigadasem barracos de madeira cobertos de zinco.\n\nDepois de 1885, as fugas coletivas se sucederam em v\u00e1riasregi\u00f5es do pa\u00eds. Em muitas ocasi\u00f5es, fugiam grupos de dez, vinteou mais escravos de uma mesma propriedade sem que os senhores pudessem impedi-los. Essas fugas coletivas s\u00e3o consideradas omaior movimento de desobedi\u00eancia civil da nossa hist\u00f3ria.\n\nNos anos que antecederam a aboli\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia havia perdido o controle diante do volume de fugas e muitos policiais come\u00e7aram a serecusar a perseguir escravos fugidos, ou por terem aderido ao abolicionismo, ou por temerem a rea\u00e7\u00e3o popular nas ruas.\n\nMas n\u00e3o era apenas com as fugas que os cativos enfraqueciam a escravid\u00e3o. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1880, rumores de revoltasescravas surgiram em diversas cidades brasileiras. Em algumas regi\u00f5es, levantes escravos efetivamente ocorreram. Em 31 de outubro de 1882, cento e vinte escravos da fazenda Cantagalo, emCampinas, na prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, sublevaram-se e marcharamem dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade. No caminho entoaram diversas palavras deordem, numa delas davam \u0093Viva a liberdade\u0094.\n\nNo inqu\u00e9rito policial que apurou o movimento rebelde asautoridades perceberam que aquele acontecimento tinha grandeextens\u00e3o, envolvendo escravos de outras propriedades. O escravoSevero, um dos envolvidos no levante, ao ser interrogado pelapol\u00edcia confessou que fazia parte de uma \u0093sociedade secreta\u0094 soba dire\u00e7\u00e3o de Felipe Santiago e Jos\u00e9 Furtado, este \u00faltimo escravo eo outro liberto. Severo disse ainda que eles costumavam se reunirem v\u00e1rias fazendas para tratar da \u0093liberdade dos escravos&#8221;.\n\nEm 1882, ocorreram outros levantes no Oeste paulista,como Araras, Amparo, S\u00e3o Jo\u00e3o da Boa Vista e Itatiba. O curtoespa\u00e7o de tempo em que ocorreram e a proximidade das localidades chamaram a aten\u00e7\u00e3o dos fazendeiros e das autoridadespoliciais da prov\u00edncia.\n\nA sucess\u00e3o de movimentos de escravosnas fazendas, desafiando a tranq\u00fcilidade p\u00fablica, assustaram asautoridades policiais de v\u00e1rias cidades brasileiras. Aquelas rebeli\u00f5es mostraram que, al\u00e9m de reivindicarem direitos costumeiros de acesso \u00e0 terra ou diminui\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, osescravos passaram a manifestar abertamente que desejavam o fimdo cativeiro.\n\nIsso fica claro nas palavras de ordem dos rebeldesde Campinas.\n\nA partir de 1887, diante das fugas de escravos e da radicaliza\u00e7\u00e3odo movimento abolicionista, os senhores come\u00e7aram a por em pr\u00e1tica seu pr\u00f3prio plano de emancipa\u00e7\u00e3o por meio da concess\u00e3o emmassa de alforrias. O aumento da criminalidade escrava, as subleva\u00e7\u00f5es e as fugas mostraram que j\u00e1 n\u00e3o havia como manter o sistemaescravista.\n\nCom a concess\u00e3o de alforrias coletivas, os senhores buscavam preservar algum dom\u00ednio sobre os ex-escravos. Eles esperavam que, presos pela d\u00edvida de gratid\u00e3o, os libertos permanecessemnas propriedades. Os jornais deram grande publicidade a esses atos\u0093humanit\u00e1rios\u0094 no apagar das luzes do escravismo.\n\nNo munic\u00edpio de Cachoeiro do Itapemirim, prov\u00edncia doEsp\u00edrito Santo, a partir de mar\u00e7o de 1888, os senhores passaram aencurtar o prazo das alforrias condicionais, assim como fazer algumas concess\u00f5es para que os escravos permanecessem em suasfazendas. A poucos dias da aboli\u00e7\u00e3o, um fazendeiro da regi\u00e3o declarou que libertara mais de cem escravos sem impor qualquercondi\u00e7\u00e3o. Outros prometiam a liberdade depois da safra de 1888.\n\nAtos semelhantes se repetiram em diversas outras regi\u00f5es do Brasil. Mas houve senhores que n\u00e3o abriram m\u00e3o dos seus escravosat\u00e9 o \u00faltimo dia da escravid\u00e3o. Estes ainda apostavam na possibilidade de conseguir indeniza\u00e7\u00e3o pela perda da propriedade escrava caso o governo decretasse a aboli\u00e7\u00e3o.\n\nO abolicionismo de \u00faltima hora de muitos senhores n\u00e3o p\u00f4de conter a disposi\u00e7\u00e3o dos cativos de apressarem o fim da escravid\u00e3o. Tanto que no in\u00edcio do ano de 1888, em vez de fugirem, muitos escravos se recusaram a trabalhar nos canaviais e nas planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9. Assim, os escravos terminaram inviabilizando astentativas dos senhores de conduzirem o processo de aboli\u00e7\u00e3o deacordo com seus planos.\n\nDiante desse quadro de tens\u00f5es crescentes, a princesa regente promulgou a Lei de 13 de Maio de 1888 que extinguiu emdefinitivo a escravid\u00e3o no Brasil. Com dois artigos apenas, a leicolocava fim a uma institui\u00e7\u00e3o de mais de tr\u00eas s\u00e9culos.\n\nPor ela ossenhores n\u00e3o seriam indenizados, nem se cogitou qualquer formade repara\u00e7\u00e3o aos ex-escravos. Entretanto, a escravid\u00e3o foi extintano auge de um movimento popular de grandes propor\u00e7\u00f5es. Nocurso da luta contra a escravid\u00e3o foram se definindo projetos, aspira\u00e7\u00f5es e esperan\u00e7as que iam al\u00e9m do fim do cativeiro.\n\nPara os ex-escravos a liberdade significava acesso a terra, direito de escolher livremente onde trabalhar, de circular pelas cidades sem precisar de autoriza\u00e7\u00e3o dos senhores ou de ser importunado pelapol\u00edcia, de cultuar deuses africanos ou venerar \u00e0 sua maneira ossantos cat\u00f3licos, de n\u00e3o serem mais tratados como cativos e, sobretudo, direito de cidadania.\n<h4>O 13 de maio e a luta pela cidadania<\/h4>\nA not\u00edcia da aboli\u00e7\u00e3o definitiva do cativeiro no Brasil foi bastantefestejada nas cidades brasileiras. No Rio de Janeiro grande multid\u00e3ose concentrou diante do Pa\u00e7o Imperial para festejar a assinatura daLei \u00c1urea.\n\nEm seguida houve desfile de entidades abolicionistas epopulares pelas ruas da cidade. Em Salvador, desde o dia 13, entidades abolicionistas, estudantes, populares e ex-escravos ocuparam asruas e desfilaram pelo centro da cidade ao som de filarm\u00f4nicas.\n\nQueimaram-se fogos de artif\u00edcio e as fachadas das casas particularese reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ficaram iluminadas durante v\u00e1rias noites. Navila de S\u00e3o Francisco do Conde, Rec\u00f4ncavo baiano, os libertos dosengenhos sambaram durante noites seguidas. Acontecimentos comoestes se repetiram em v\u00e1rias cidades e pelo interior do pa\u00eds.\n\nA presen\u00e7a de ex-escravos nos festejos do 13 de maio foinotada por diversos contempor\u00e2neos. Em Salvador, foi por iniciativa deles que os carros do Caboclo e da Cabocla, s\u00edmbolos da Independ\u00eancia do Brasil na Bahia, desfilaram da Lapinha ao centro da cidade, percorrendo o mesmo itiner\u00e1rio que faziam a cadadia 2 de julho, data em que se comemora a liberta\u00e7\u00e3o da prov\u00ednciado colonialismo portugu\u00eas.\n\nA rela\u00e7\u00e3o do 2 de julho como o 13 demaio fazia sentido, uma vez que as duas datas comemoravam aliberdade. Em Salvador a festa se estendeu por mais alguns dias.Em 18 de maio, uma grande \u0093romaria popular\u0094 dirigiu-se \u00e0 igrejado Senhor do Bonfim para agradecer a liberdade dos escravos.\n\nOs festejos do 13 de maio transformaram-se em grande manifesta\u00e7\u00e3o popular e isso refletia em grande medida a amplitudesocial do movimento antiescravista no Brasil. As manifesta\u00e7\u00f5esimpressionaram os observadores da \u00e9poca pela quantidade de pessoas que ocuparam as ruas. O romancista Machado de Assis recordou que as comemora\u00e7\u00f5es que se seguiram \u00e0 promulga\u00e7\u00e3o da Lei\u00c1urea foram \u0093o \u00fanico del\u00edrio popular que me lembro de ter visto\u0094.\n\nNo dia 13 de maio mais de 90 por cento dos escravos brasileiros j\u00e1 haviam conseguido a liberdade por meio das alforrias edas fugas. Entretanto, a destrui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o foi um eventohist\u00f3rico de grande import\u00e2ncia e marco fundamental na hist\u00f3riados negros e de toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira. Foi uma not\u00e1vel conquista social e pol\u00edtica. Mas \u00e9 preciso perceber como os ex-escravos buscaram viabilizar suas vidas ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o.\n\nPassada a festa, os ex-escravos procuraram distanciar-se do passado de escravid\u00e3o recha\u00e7ando pap\u00e9is inerentes \u00e0 antiga condi\u00e7\u00e3o.Em diversos engenhos do Nordeste eles se negaram a receber a ra\u00e7\u00e3odi\u00e1ria e a trabalhar sem remunera\u00e7\u00e3o. Inegavelmente, os dias que seseguiram \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o foram momentos de tens\u00e3o, pois estavam emdisputa as possibilidades e limites da condi\u00e7\u00e3o de liberdade.\n\nNa Fazenda da Concei\u00e7\u00e3o, em Cantagalo, prov\u00edncia do Rio deJaneiro, seu propriet\u00e1rio libertou todos os escravos dias antes do 13de maio. Nas festas que ent\u00e3o se realizaram houve at\u00e9 coroa\u00e7\u00e3o doantigo senhor pelos libertos e enterro da palmat\u00f3ria e do vergalho.No dia seguinte, entretanto, os libertos comunicaram ao senhor quepara permanecerem na fazenda exigiam a expuls\u00e3o do administrador.Pouco disposto a concordar com a condi\u00e7\u00e3o imposta, o propriet\u00e1rioviu em poucos dias sua fazenda abandonada pelos ex-escravos.\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ffim-da6.jpg\" alt=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil\" width=\"472\" height=\"318\" \/><strong>\nFesta da aboli\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro<\/strong><\/p>\nMuitos ex-escravos, por\u00e9m, permaneceram nas localidadesem que haviam nascido. Estima-se que mais de 60 por cento delesviviam nas fazendas cafeeiras e canavieiras do Centro-Sul do Brasil.Mas decidir ficar n\u00e3o significou concordar em se submeter \u00e0s mesmas condi\u00e7\u00f5es de trabalho do regime anterior.\n\nMuitas vezes, os ex-escravos tentaram negociar as condi\u00e7\u00f5es para sua perman\u00eancia nasfazendas. Estudo recente mostra que, no Sudeste, grupos de libertos recorreram aos p\u00e1rocos locais e mesmo a agentes policiais paraapresentar suas condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia aos antigos senhores.No entanto, negociar com os libertos parece ter sido uma situa\u00e7\u00e3opara a qual seus ex-senhores se mostraram indispostos.\n\nGrande parte dessa indisposi\u00e7\u00e3o para negociar estava relacionada aos desejos dos libertos de terem acesso \u00e0 terra e de n\u00e3o seremmais tratados como cativos. Na regi\u00e3o a\u00e7ucareira do Rec\u00f4ncavo, oslibertos reivindicaram a diminui\u00e7\u00e3o das horas de trabalho e dos diasque deveriam dedicar \u00e0 grande lavoura de cana.\n\nExigiram tamb\u00e9m odireito de continuar a ocupar as antigas ro\u00e7as e dispor livrementedo produto de suas planta\u00e7\u00f5es. Nos dias seguintes ao 13 de maiolibertos ocuparam terras devolutas de engenhos abandonados e iniciaram o cultivo de mandioca e a cria\u00e7\u00e3o de animais. Isso mostraque os ex-escravos percebiam que a condi\u00e7\u00e3o de liberdade s\u00f3 seriaposs\u00edvel se pudessem garantir a pr\u00f3pria subsist\u00eancia e definir quando, como e onde deveriam trabalhar.\n\nPara os ex-escravos e para as demais camadas da popula\u00e7\u00e3onegra, a aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o representou apenas o fim do cativeiro. Paraeles a aboli\u00e7\u00e3o deveria ter como conseq\u00fc\u00eancia tamb\u00e9m o acesso \u00e0terra, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e aos mesmos direitos de cidadania que gozava apopula\u00e7\u00e3o branca.\n\nNa aus\u00eancia de qualquer iniciativa s\u00e9ria por partedo governo para garantir um futuro digno aos negros brasileirosap\u00f3s o dia 13 de maio, um grupo de libertos da regi\u00e3o de Vassouras, no Rio de Janeiro, endere\u00e7ou uma carta a Rui Barbosa, ent\u00e3ofigura importante da pol\u00edtica nacional. Na carta, eles reivindicavam que os filhos dos libertos tivessem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.\n\nA aboli\u00e7\u00e3o estava prestes a completar um ano, a monarquiaentrara em colapso e aquelas pessoas, ex-escravos, agora tinham planos de ascens\u00e3o social para seus filhos. E, ao contr\u00e1rio do que proclamavam alguns abolicionistas, aqueles libertos tinham, sim, uma interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do que seria cidadania.\n\nPara eles, uma das formas de inclus\u00e3o dos negros na sociedade de homens livres seriaatrav\u00e9s da \u0093instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u0094, como se dizia ent\u00e3o. Cientes da import\u00e2ncia do que pleiteavam, os autores da carta alertavam que, \u0093parafugir do perigo em que corremos por falta de instru\u00e7\u00e3o, vimos pedi-la para nossos filhos e para que eles n\u00e3o ergam m\u00e3o assassina paraabater aqueles que querem a rep\u00fablica, que \u00e9 a liberdade, igualdadee fraternidade\u0094. N\u00e3o sabemos se a carta teve resposta, mas \u00e9 sabidoque nenhum plano educacional foi elaborado tendo em vista a inclus\u00e3o social dos filhos de ex-escravos. Importante observar queessas aspira\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o reivindicadas pelo povo negro no Brasil republicano.\n\n<strong>Bibliografia<\/strong>\n\nANDREWS, George Reid. Negros e brancos em S\u00e3o Paulo (1888-1988). S\u00e3o Paulo:Edusc, 1998.\nAZEVEDO, C\u00e9lia Maria Marinho. Onda negra, medo branco: o negro no imagin\u00e1rio daselites, s\u00e9culo XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.\nAZEVEDO, Elciene. Orfeu de carapinha: a trajet\u00f3ria de Luiz Gama na imperial cidadede S\u00e3o Paulo. Campinas: Editora da Unicamp, 1999.\nCASTRO, Hebe Maria Matos de. Das cores do sil\u00eancio: os significados da liberdade noSudeste escravista \u0096 Brasil, s\u00e9culo XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.\nCHALHOUB, Sidney. Vis\u00f5es da liberdade: uma hist\u00f3ria das \u00faltimas d\u00e9cadas da escravi-d\u00e3o na Corte. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1990.\nCONRAD, Robert. Os \u00faltimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. Rio de Ja-neiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1978.\nCOSTA, Emilia Viotti da. Da senzala \u00e0 col\u00f4nia. S\u00e3o Paulo, Ci\u00eancias Humanas, 1982.\nGOMES, Fl\u00e1vio dos Santos. \u0093No meio das \u00c1guas turvas: Racismo e cidadania\n\nFonte: www.ceao.ufba.br\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim da Escravid\u00e3o no Brasil, Leis, Tr\u00e1fico, Aboli\u00e7\u00e3o, Escravos, Hist\u00f3ria, Independ\u00eancia, Movimento, Abolicionismo, Consequ\u00eancias, Fim da Escravid\u00e3o no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9174,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-14916","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Fim da Escravid\u00e3o no Brasil - Portal S\u00e3o Francisco<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Fim da Escravid\u00e3o no Brasil - 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