{"id":14819,"date":"2015-12-17T00:00:00","date_gmt":"2015-12-17T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/cabanagem-2\/"},"modified":"2026-08-31T23:17:07","modified_gmt":"2026-08-31T23:17:07","slug":"cabanagem-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-do-brasil\/cabanagem-2\/","title":{"rendered":"Cabanagem"},"content":{"rendered":"\n<strong>Cabanagem &#8211; Hist\u00f3ria do Brasil<\/strong>\n\nNa d\u00e9cada de 1830, a prov\u00edncia do Gr\u00e3o-Par\u00e1, que compreendia os estados do Par\u00e1 e do Amazonas, tinha um pouco mais de 80 mil habitantes (sem incluir a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o-aldeada). De cada cem pessoas, quarenta eram escravos ind\u00edgenas, negros, mesti\u00e7os ou tapuios, isto \u00e9, ind\u00edgenas que moravam nas vilas.\n\nBel\u00e9m, nessa \u00e9poca, n\u00e3o passava de uma pequena cidade com 24 mil habitantes, apesar de importante centro comercial por onde era exportado cravo, salsa, fumo, cacau e algod\u00e3o.\n\nA independ\u00eancia do Brasil despertou grande expectativa no povo da regi\u00e3o.\n\nOs ind\u00edgenas e tapuios esperavam ter seus direitos reconhecidos e n\u00e3o serem mais obrigados a trabalhar como escravos nas ro\u00e7as e manufaturas dos aldeamentos; os escravos negros queriam a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura; profissionais liberais nacionalistas e parte do clero lutavam por uma independ\u00eancia mais efetiva que afastasse os portugueses e ingleses do controle pol\u00edtico e econ\u00f4mico. O resto da popula\u00e7\u00e3o \u2013 constitu\u00edda de mesti\u00e7os e homens livres -, entusiasmada com as ideias libert\u00e1rias, participou do movimento, imprimindo-lhe um conte\u00fado mais amplo e mais radical.\n\nA grande rebeli\u00e3o popular, que aconteceu em 1833, teve origem num movimento de contesta\u00e7\u00e3o, ocorrido dez anos antes e que havia sido sufocado com muita viol\u00eancia, conhecido como \u201crebeli\u00e3o do navio Palha\u00e7o\u201d.\n\nO descontentamento que dominava n\u00e3o s\u00f3 Bel\u00e9m, mas igualmente o interior do Par\u00e1, aumentou com a nomea\u00e7\u00e3o do novo presidente da prov\u00edncia, Lobo de Souza. O c\u00f4nego Jo\u00e3o Batista Campos, importante l\u00edder das revoltas ocorridas em 1823 e duramente reprimidas, tornou-se novamente porta-voz dos descontentes, principalmente da igreja e dos profissionais liberais.\n\nA Guarda Municipal, pr\u00f3-brasileira, era conscientizada por um de seus membros, Eduardo Angelim, que denunciava sobretudo os agentes infiltrados em toda parte.\n\nA partir de 1834, as manifesta\u00e7\u00f5es de rua se multiplicaram e o governo reagiu prendendo as lideran\u00e7as. Batista Campos, Angelim e outros l\u00edderes refugiaram-se na fazenda de F\u00e9lix Clemente Malcher, onde j\u00e1 se encontravam os irm\u00e3os Vinagre. Ali foi planejada a resist\u00eancia armada.\n\nIniciava-se a\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>, a mais importante revolta popular da Reg\u00eancia. Esse nome indicava a origem social de seus integrantes, os cabanos, moradores de casas de palha. Foi \u201co mais not\u00e1vel movimento popular do Brasil, o \u00fanico em que as camadas pobres da popula\u00e7\u00e3o conseguiram ocupar o poder de toda uma prov\u00edncia com certa estabilidade\u201d, segundo o historiador Caio Prado J\u00fanior.\n\nAs for\u00e7as militares foram extremamente violentas, incendiando a fazenda de Malcher e prendendo-o juntamente com outros l\u00edderes. Revoltado, o povo de Bel\u00e9m acompanhava os acontecimentos.\n\nO destacamento militar de Abaet\u00e9 se rebelou em protesto contra a persegui\u00e7\u00e3o feita a Eduardo Angelim. Ap\u00f3s a morte de Batista Campos, o grupo se rearticulou em quatro frentes e atacou Bel\u00e9m.\n\nCom a ades\u00e3o de guarni\u00e7\u00f5es da cidade, a vit\u00f3ria foi total. O presidente da prov\u00edncia, Lobo de Souza, e o comandante das tropas portuguesas foram mortos, e os revoltosos, soltos.\n\nMalcher foi aclamado presidente da prov\u00edncia.\n\nIniciava-se o primeiro governo cabano. Sem muitas lideran\u00e7as, o povo escolheu Clemente Malcher, por ser um homem respeitado por todos. Por\u00e9m, ele continuava com \u201ccabe\u00e7a\u201d de fazendeiro e come\u00e7ou a tomar atitudes que os cabanos consideraram trai\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Os desentendimentos levaram \u00e0 primeira importante ruptura das lideran\u00e7as:<\/strong>\u00a0de um lado, Malcher e as elites dominantes, e, de outro, os Vinagre e Angelim, juntamente com os cabanos e boa parte da tropa.\n\nMalcher foi preso, mas, a caminho da cadeia onde ficaria por algum tempo, foi morto por um popular.\n\n<strong>Cabanagem &#8211; O que foi<\/strong>\n\nA\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>\u00a0foi uma grande revolta popular que explodiu na prov\u00edncia do Par\u00e1, em 1835. Dela participou uma multid\u00e3o de pessoas muito pobres, submetidas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos poderosos da regi\u00e3o. Eram negros, \u00edndios e mesti\u00e7os que trabalhavam na explora\u00e7\u00e3o de produtos de floresta e moravam em cabanas \u00e0 beira dos rios. Por isso, eram chamados de cabanos e a rebeli\u00e3o ficou conhecida como\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>.\n\nOs cabanos queriam sair da situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria em que viviam. Para isso, tinham que lutar contra os respons\u00e1veis pela explora\u00e7\u00e3o social e pelas injusti\u00e7as. A princ\u00edpio, os cabanos foram apoiados por fazendeiros do Par\u00e1 descontentes com a pol\u00edtica do governo imperial e com a falta de autonomia da prov\u00edncia.\n\nOs fazendeiros queriam mandar livremente no Par\u00e1 e exportar sem barreiras os produtos da regi\u00e3o (cacau, madeira, ervas arom\u00e1ticas, peles etc.).\n\nN\u00e3o demorou muito para que os fazendeiros se afastassem da\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>, pois ficaram com medo das ideias que existiam no movimento. Os cabanos queriam acabar com a escravid\u00e3o, distribuir terras para o povo e matar os exploradores.\n\nUm dos chefes da\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>\u00a0foi o padre Batista Campos que, no sert\u00e3o paraense, costumava benzer os peda\u00e7os de pau utilizados como armas pelos pobres.\n\nA\u00a0<strong>cabanagem<\/strong>\u00a0teve muitos outros l\u00edderes populares, conhecidos por apelidos curiosos como o Jo\u00e3o do Mato, Domingos On\u00e7a, M\u00e3e da Chuva, Gigante do Fumo.\n\nEm janeiro de 1835, tropas de cabanos conquistaram a cidade de Bel\u00e9m (capital da prov\u00edncia) e mataram v\u00e1rias autoridades do governo, entre elas o presidente da prov\u00edncia.\n\nOs cabanos tomaram o poder, mas tiveram grande dificuldade em governar.\n\n<strong>Por qu\u00ea?<\/strong>\n\nFaltava-lhe organiza\u00e7\u00e3o, havia muita briga entre os l\u00edderes do movimento e a rebeli\u00e3o foi tra\u00edda v\u00e1rias vezes.\n\nTudo isso facilitou a repress\u00e3o violenta comandada pelas tropas enviadas pelo governo do imp\u00e9rio. A liquida\u00e7\u00e3o completa dos cabanos s\u00f3 ocorreu em 1840, depois de muito sangue derramado.\n\nCalcula-se que foram mortos mais de 30 mil cabanos. Os que sobreviveram \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es foram presos e escravizados.\n\n<strong>Cabanagem &#8211; Rebeli\u00e3o<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-159026 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Cabana1-300x166.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"166\" \/><strong>Cabanagem (1835-1840)<\/strong><\/p>\nNa d\u00e9cada de 1820, uma divis\u00e3o entre as classes dominantes brancas de Bel\u00e9m levou \u00e0 guerra civil, que logo se espalhou para os \u00edndios dominados, mesti\u00e7os, negros e mulatos. Depois de anos de luta, a guerra se transformou em um movimento popular revolucion\u00e1rio que varreu o Par\u00e1 como um inc\u00eandio.\n\nEm 1835, os guerrilheiros marcharam sobre Bel\u00e9m, tomando a cidade ap\u00f3s nove dias de combates sangrentos. Instalaram um governo popular, que expropriou as riquezas dos mercadores, distribuiu alimentos para todo o povo e declarou a independ\u00eancia de Bel\u00e9m. Mas a experi\u00eancia revolucion\u00e1ria foi imediatamente estrangulada por um bloqueio naval brit\u00e2nico, sendo a Gr\u00e3-Bretanha a principal benefici\u00e1ria do com\u00e9rcio com o Brasil na \u00e9poca.\n\nUm ano depois, uma grande for\u00e7a do governo brasileiro recapturou Bel\u00e9m. A grande maioria da popula\u00e7\u00e3o da cidade fugiu para o interior para resistir novamente. Ao longo dos quatro anos seguintes, os militares ca\u00e7aram e massacraram qualquer um que considerassem hostil. O massacre da Cabanagem foi uma das mais selvagens das muitas campanhas militares do Brasil contra seu pr\u00f3prio povo. Ao todo, cerca de 30.000 pessoas da popula\u00e7\u00e3o paraense de 150.000 morreram no conflito.\n\n\u00c9 interessante pensar no resultado de uma revolta vitoriosa, causa \u00e0 qual posteriormente se juntaram os estados do Amazonas e Maranh\u00e3o. Hoje, o Brasil poderia estar tr\u00eas estados distantes de seu atual. A &#8220;nova&#8221; regi\u00e3o possivelmente teria sido chamada de segunda Confedera\u00e7\u00e3o Equatorial (ap\u00f3s a primeira, que envolveu a Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana de 1817).\n\nUm resultado favor\u00e1vel tamb\u00e9m teria se destacado como a \u00fanica verdadeira revolu\u00e7\u00e3o do povo e para o povo.\n\nO nome \u201c<strong>Cabanagem<\/strong>\u201d refere-se ao tipo de cabana (cabana) utilizada pelos mais pobres que vivem pr\u00f3ximos aos riachos, principalmente mesti\u00e7os, escravos libertos e ind\u00edgenas. Os agricultores de elite do Gr\u00e3o-Par\u00e1, embora vivessem muito melhor, se ressentiam de sua falta de participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es do governo central, que era dominado pelas prov\u00edncias do Sudeste e Nordeste.\n\n<strong>Cabanagem &#8211; Revolta<\/strong>\n<p class=\"imagem\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-159027 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Cabana2-300x176.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"176\" \/><strong>Cabanagem (1835-1840)<\/strong><\/p>\nUma das mais importantes revoltas nativistas do per\u00edodo da Reg\u00eancia, ocorreu entre 1835 e 1840 e destacou-se pelo seu car\u00e1ter eminentemente popular, onde os\u00a0<strong>cabanos<\/strong>\u00a0(moradores de cabanas nos vilarejos ribeirinhos e que deram o nome ao movimento), \u00edndios, negros e mesti\u00e7os foram os personagens principais.\n\nA\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>\u00a0representa um prosseguimento das manifesta\u00e7\u00f5es que se desenrolaram na Prov\u00edncia do Gr\u00e3o-Par\u00e1 desde a independ\u00eancia do Brasil. A presen\u00e7a portuguesa na regi\u00e3o era marcante, tendo os paraenses lutado contra o dom\u00ednio lusitano; desde 1833 a prov\u00edncia foi marcada pelas sangrentas disputas dos partidos Caramuru (formado por portugueses) e Filantr\u00f3pico (formado por brasileiros).\n\nA luta originou-se do combate \u00e0 pen\u00faria e \u00e0s p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es sociais em que vivia a popula\u00e7\u00e3o paraense, liderado pelo C\u00f4nego Batista Campos, que se destacou em v\u00e1rias disputas contra a metr\u00f3pole at\u00e9 o nascimento do movimento revolucion\u00e1rio mais articulado.\n\nO primeiro \u00eaxito revolucion\u00e1rio ocorreu em Bel\u00e9m, em janeiro de 1835, a partir do assassinato do presidente da Prov\u00edncia do Gr\u00e3o-Par\u00e1 e dos comandantes das Armas e da For\u00e7a Naval, quando os revoltosos tomaram o poder. Com o envio de novos chefes militares pelo Governo Imperial e ante a invas\u00e3o da Capital pelos revoltosos, liderados por Pedro Vinagre e Eduardo Angelin, o Brig. Francisco Jos\u00e9 bloqueou e ocupou a Capital em maio de 1840, tendo capturado os l\u00edderes e os enviado ao Rio de Janeiro, onde foram condenados \u00e0 pris\u00e3o.\n\nO imp\u00e9rio concedeu aos revoltosos anistia irrestrita. Estava assim terminada revolta, que representou o \u00fanico movimento popular em que as camadas inferiores da popula\u00e7\u00e3o conseguiram, com certa estabilidade, ocupar o poder de toda uma prov\u00edncia.\n\n<strong>Cabanagem &#8211; Origem<\/strong>\n\nSeringueiros, \u00edndios, mesti\u00e7os e negros, homens pobres e explorados, membros do clero e liberais nacionalistas esperavam diversos resultados da independ\u00eancia brasileira, mas poucos foram efetivamente alcan\u00e7ados.\n\nA\u00a0<strong>Cabanagem\u00a0<\/strong>(1833 \u2013 1836), uma rebeli\u00e3o regencial ocorrida nos estados Par\u00e1 e Amaz\u00f4nia, foi o primeiro movimento popular que chegou ao poder no Brasil, apesar de ter sido mal conduzido e rapidamente derrotado pela reg\u00eancia\n\nOs ind\u00edgenas e tapuios (ind\u00edgenas que n\u00e3o falavam o tupi antigo) queriam o reconhecimento de seus direitos e parar de trabalhar como escravos nas manufaturas e ro\u00e7as. Os negros desejavam a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.\n\nEntre os propriet\u00e1rios, profissionais liberais e cl\u00e9rigos, as reivindica\u00e7\u00f5es eram pelo afastamento de portugueses e ingleses do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico. Sobretudo, o que unia todos era o clamor pela liberdade e independ\u00eancia, inicialmente paraense, e posteriormente difundido ao longo do Rio Negro.\n\n<strong>Cabanagem &#8211; Per\u00edodo<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-159028 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Cabana3-211x300.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"300\" \/><strong>Cabanagem (1835-1840)<\/strong><\/p>\nNo\u00a0<strong>per\u00edodo da Reg\u00eancia (1831-1841)<\/strong>, ocasi\u00e3o em que o Imp\u00e9rio do Brasil ficou sem um monarca de fato, explodiram rebeli\u00f5es por todos os lados.\n\nDo extremo Sul, como foi o caso da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha (1835-1845), ao extremo Norte, quando da Revolta dos Cabanos (1835-1840), eclodiram movimentos insurgentes mostrando o descontentamento das provinciais brasileiras com a concentra\u00e7\u00e3o do poder no eixo Rio-S\u00e3o Paulo. A diferen\u00e7a entre elas, entre os farrapos e os cabanos, deu-se em que enquanto na primeira foi a est\u00e2ncia quem entrou em guerra, na segunda, na\u00a0<strong>cabanagem<\/strong>, foi o povo da selva quem pegou em armas contra o poder da oligarquia.\n\n<strong>A trag\u00e9dia do bridge \u201cpalha\u00e7o\u201d<\/strong>\n<blockquote>\n<p align=\"left\">\u201cA insurrei\u00e7\u00e3o foi geral. Por toda a parte aonde houve um homem branco ou rico a quem matar e alguma coisa a que roubar aparecia logo quem se quisesse encarregar desse servi\u00e7o, e deste modo ainda hoje est\u00e3o em rebeldia todo o Alto e Baixo Amazonas.\u201d Brigadeiro Soares Andr\u00e9ia em relat\u00f3rio ao Ministro da Guerra, Bel\u00e9m do Par\u00e1, 1836<\/p>\n<\/blockquote>\nQuase uns trezentos homens sufocavam no por\u00e3o do brigue \u201cPalha\u00e7o\u201d ancorado nas aforas do porto de Bel\u00e9m do Par\u00e1 quando a gritaria come\u00e7ou. Berravam por \u00e1gua e por ar. Asfixiavam-se. Eram do 2\u00ba Regimento de Artilharia de Bel\u00e9m que se insurgira contra a junta governativa em agosto de 1823. Quem os prendeu e os removeu para a masmorra flutuante foi o comandante Greenfell, um daqueles ingleses oficiais de marinha a soldo de D. Pedro I, que l\u00e1 estava para assegurar a integra\u00e7\u00e3o do Gr\u00e3o-Par\u00e1 ao Brasil rec\u00e9m independente.\n\nAssustados com a barulheira dos encarcerados, meio endoidecidos pelo calor e pela sede, a tripula\u00e7\u00e3o da improvisada gal\u00e9 os acalmou a tiros e \u00e0 noite espargiu sobre eles, ainda empilhados l\u00e1 embaixo, uma nuvem de cal. Na contagem matinal do dia seguinte, no dia 22, s\u00f3 deram com 4 vivos. Dias depois restou s\u00f3 um, Jo\u00e3o Tapuia. Morreram 252 milicianos e pra\u00e7as, sufocados e asfixiados.\n\nUm pavor acometeu o Par\u00e1. O interior ferveu. Gente comum morrera como bicho.\n\nQuanto a responsabilidade pela trag\u00e9dia, como sempre ocorre, ningu\u00e9m a assumiu. Para milhares de tapuias e de caboclos paraenses, genericamente chamados de \u201ccabanos\u201d, devido as cho\u00e7as que habitavam, a independ\u00eancia at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o dissera a que veio. Agregou-se a isso o fato dos poderosos locais, quase todos portugueses, donos do com\u00e9rcio grosso e de vastas terras, ainda reservavam para si o controle das institui\u00e7\u00f5es, e que, como ativista do partido dos \u201cCaramur\u00fas\u201d, almejavam reatar com Lisboa na primeira oportunidade que houvesse.\n\nA hora da vingan\u00e7a popular soou dez anos depois do massacre dos amotinados, sufocados no bridge \u201cPalha\u00e7o\u201d. Em 1833, num momento de desentendimento da Reg\u00eancia com a oligarquia de Bel\u00e9m (dividida entre o partido filolusitano dos Caramurus e os nacionalistas chamados de Filantr\u00f3picos), abriu-se uma brecha para que o furor nativo emergisse. Em janeiro de 1835, capitaneados pelos irm\u00e3os Vinagre e por Eduardo Argelim, um ex-seringueiro, a Selva marchou contra a Cidade.\n\nOs cabanos eram milhares, tapuias de todas as tribos e caboclos do todas as misturas. Assassinaram o presidente da prov\u00edncia, e os chefes militares, do ex\u00e9rcito e da marinha. O que restou do governo de Bel\u00e9m, apavorado com a insurg\u00eancia, escafedeu-se para a ilha Tatuoca, montando ali uma prec\u00e1ria resist\u00eancia enquanto esperavam rezando um socorro qualquer da Reg\u00eancia.\n\n<strong>O porto de Bel\u00e9m no s\u00e9culo 19<\/strong>\n\nNa capital abandonada, enquanto isso, assumiam os revolucion\u00e1rios. Ao contr\u00e1rio de tantas outras rebeli\u00f5es daquela \u00e9poca, comandadas por robespierres do engenho e dantons da est\u00e2ncia, a\u00a0<strong>cabanagem<\/strong>\u00a0foi inteiramente popular, liderada por gente do povo mesmo, pelo Bararo\u00e1, pelo Borba e pelo lend\u00e1rio Maparajuba do Tapaj\u00f3s. A massa por\u00e9m, egressa do mato e dos igarap\u00e9s, n\u00e3o sabia bem o que fazer com o que conquistara, n\u00e3o conseguiu fazer com que a vit\u00f3ria inicial se transformasse em algo seguro, num estado revolucion\u00e1rio como os jacobinos fizeram na Fran\u00e7a em 1793.\n\nTudo deu para desandar.\n\nEnquanto isso, Bel\u00e9m padecia. O mato crescia por tudo e o lixo se empilhava. N\u00e3o havia servi\u00e7o p\u00fablico algum. O rebelde, o apig\u00e1ua paraense sa\u00eddo da palho\u00e7a da beira de rio, descuidava-se da cidade.\n\nOs pr\u00e9dios p\u00fablicos, obra do desenho do italiano Ant\u00f4nio Landi, eram tomados por bichos e, disseram que, at\u00e9 a boiuna de prata, a malvada cobra-grande, andou habitando neles. Oito meses e 19 dias depois, com a chegada das tropas da Reg\u00eancia em maio de 1836, os cabanos foram obrigados a se retirarem, refugiando-se nos matos.\n\nUm viajante, o reverendo norte-americano Daniel Kidder (*), que l\u00e1 esteve logo depois da retomada de Bel\u00e9m em ru\u00ednas, encontrou a maioria das fachadas dos pr\u00e9dios e das casas furadas \u00e0 bala ou lambidas pelo fogo.\n\nSeguiu-se ent\u00e3o, sob comando das tropas imperiais, o terror branco, ao mata-cabano, momento em que a floresta encheu-se de sangue. Estimaram as v\u00edtimas da repress\u00e3o do governo em mais de 30 mil mortos. A\u00a0<strong>cabanagem<\/strong>\u00a0traumatizou por muitos anos o Par\u00e1.\n\nSe o poeta Manuel Bandeira muito mais tarde, encantado, admirando as mangueiras que d\u00e3o as boas sombras das ruas de Bel\u00e9m, a \u201ccidade pomar\u201d (obra do intendente Lemos, no auge da extra\u00e7\u00e3o da borracha), disse que nela \u201co c\u00e9u esta encoberto de verde\u201d, provavelmente hoje, olhando para o mesmo c\u00e9u (corridos mais de cento e oitenta anos dos gazeamentos do brigue \u201cPalha\u00e7o\u201d e das chacinas governamentais nas florestas do Par\u00e1), veria-o ainda enrubescido de vergonha pela impunidade que por l\u00e1 ainda continua soberana..\n\n<strong>Cabanagem &#8211; Causa<\/strong>\n\nA\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>\u00a0(1835-40), tamb\u00e9m denominada como Guerra dos Cabanos, foi uma revolta de cunho social ocorrida na ent\u00e3o Prov\u00edncia do Gr\u00e3o-Par\u00e1, no Brasil.\n\nEntre as causas dessa revolta citam-se a extrema mis\u00e9ria do povo paraense e a irrelev\u00e2ncia pol\u00edtica \u00e0 qual a prov\u00edncia foi relegada ap\u00f3s a independ\u00eancia do Brasil.\n\nA denomina\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>\u00a0remete ao tipo de habita\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ribeirinha mais pobre, formada principalmente por mesti\u00e7os, escravos libertos e \u00edndios. A elite fazendeira do Gr\u00e3o-Par\u00e1, embora morasse muito melhor, ressentia-se da falta de participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es do governo central, dominado pelas prov\u00edncias do Sudeste e do Nordeste.\n\nEntre os anos de 1835 e 1840 o munic\u00edpio esteve no centro da Guerra da Cabanagem, considerada a de participa\u00e7\u00e3o mais autenticamente popular da hist\u00f3ria do pa\u00eds, \u00fanica em que a popula\u00e7\u00e3o efetivamente derrubou o governo local.\n\nPosteriormente receberia o t\u00edtulo de Imperial Munic\u00edpio, conferido por D. Pedro II (1840-1889). Entre as causas dessa revolta citam-se a extrema mis\u00e9ria do povo paraense e a irrelev\u00e2ncia pol\u00edtica \u00e0 qual a prov\u00edncia foi relegada ap\u00f3s a independ\u00eancia do Brasil.\n\nA denomina\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>Cabanagem<\/strong>\u00a0remete ao tipo de habita\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ribeirinha mais pobre, formada principalmente por mesti\u00e7os, escravos libertos e \u00edndios.\n\nA elite fazendeira do Gr\u00e3o-Par\u00e1, embora morasse muito melhor, ressentia-se da falta de participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es do governo central, dominado pelas prov\u00edncias do Sudeste e do Nordeste.\n\nA guerra durou cerca de cinco anos e provocou a morte de mais de 40.000 mil pessoas, cerca de 30% da popula\u00e7\u00e3o do Gr\u00e3o-Par\u00e1 foi dizimada, tribos inteiras foram completamente exterminadas, visto como exemplo a tribo Mura.\n\n<strong>Cabanagem &#8211; Antecedentes<\/strong>\n\nDurante a Independ\u00eancia, o Gr\u00e3o-Par\u00e1 se mobilizou para expulsar as for\u00e7as reacion\u00e1rias que pretendiam reintegrar o Brasil a Portugal. Nessa luta, que se arrastou por v\u00e1rios anos, destacaram-se as figuras do c\u00f4nego e jornalista Jo\u00e3o Batista Gon\u00e7alves Campos, dos irm\u00e3os Vinagre e do fazendeiro F\u00e9lix Clemente Malcher.\n\nFormaram-se diversos mocambos de escravos foragidos e eram frequentes as rebeli\u00f5es militares. Terminada a luta pela independ\u00eancia e instalado o governo provincial, os l\u00edderes locais foram marginalizados do poder.\n\nEm julho de 1831 estourou uma rebeli\u00e3o na guarni\u00e7\u00e3o militar de Bel\u00e9m do Par\u00e1, tendo Batista Campos sido preso como uma das lideran\u00e7as implicadas. A indigna\u00e7\u00e3o do povo cresceu, e em 1833 j\u00e1 se falava em criar uma federa\u00e7\u00e3o. O presidente da Provincia, Bernardo Lobo de Souza, desencadeou uma pol\u00edtica repressora, na tentativa de conter os inconformados. O cl\u00edmax foi atingido em 1834, quando Batista Campos publicou uma carta do bispo do Par\u00e1, Romualdo de Sousa Coelho, criticando alguns pol\u00edticos da prov\u00edncia. Por n\u00e3o ter sido autorizada pelo governo da Prov\u00edncia, o c\u00f4nego foi perseguido, refugiando-se na fazenda de seu amigo Clemente Malcher. Reunindo-se aos irm\u00e3os Vinagre (Manuel, Francisco Pedro e Ant\u00f4nio) e ao seringueiro e jornalista Eduardo Angelim reuniram um contingente de rebeldes na fazenda de Malcher. Antes de serem atacados por tropas governistas, abandonaram a fazenda. Contudo, no dia 3 de novembro, as tropas conseguiram matar Manuel Vinagre e prender Malcher e outros rebeldes. Batista Campos morreu no \u00faltimo dia do ano, ao que tudo indica de uma infec\u00e7\u00e3o causada por um corte que sofreu ao fazer a barba.\n\n<strong>Cabanagem &#8211; Populares enfrentaram oficiais<\/strong>\n\nNa noite de 6 de Janeiro de 1835 os rebeldes atacaram e conquistaram a cidade de Bel\u00e9m, assassinando o presidente Lobo de Souza e o Comandante das Armas, e apoderando-se de uma grande quantidade de material b\u00e9lico. No dia 7, Clemente Malcher foi libertado e escolhido como presidente da Prov\u00edncia e Francisco Vinagre para Comandante das Armas.\n\nO governo cabano n\u00e3o durou por muito tempo, pois enquanto Malcher, com o apoio das classes dominantes pretendia manter a prov\u00edncia unida ao Imp\u00e9rio do Brasil. Francisco Vinagre, Eduardo Angelim e os cabanos pretendiam se separar. O rompimento aconteceu quando Malcher mandou prender Angelim. As tropas dos dois lados entraram em conflito, saindo vitoriosas as de Francisco Vinagre.\n\nClemente Malcher, assassinado, teve o seu cad\u00e1ver arrastado pelas ruas de Bel\u00e9m.\n\nAgora na presid\u00eancia e no Comando das Armas da Prov\u00edncia, Francisco Vinagre n\u00e3o se manteve fiel aos cabanos. Se n\u00e3o fosse a interven\u00e7\u00e3o de seu irm\u00e3o Ant\u00f4nio, teria entregue o governo ao poder imperial, na pessoa do marechal Manuel Jorge Rodrigues (julho de 1835). Devido \u00e0 sua fraqueza e ao refor\u00e7o de uma esquadra comandada pelo almirante ingl\u00eas Taylor, os cabanos foram derrotados e se retiraram para o interior. Reorganizando suas for\u00e7as, os cabanos atacaram Bel\u00e9m, em 14 de agosto. Ap\u00f3s nove dias de batalha, mesmo com a morte de Ant\u00f4nio Vinagre, os cabanos retomaram a capital.\n\nEduardo Angelim assumiu a presid\u00eancia. Durante 10 meses, a elite se viu atemorizada pelo controle cabano sobre a Prov\u00edncia do Gr\u00e3o-Par\u00e1.\n\nA falta de um projeto com medidas concretas para a consolida\u00e7\u00e3o do governo rebelde, provocaram seu enfraquecimento. Em mar\u00e7o de 1836, o brigadeiro Jos\u00e9 de Sousa Soares Andr\u00e9ia foi nomeado para presidente da Prov\u00edncia. A sua primeira provid\u00eancia foi a de atacar novamente a capital (abril de 1836), em fun\u00e7\u00e3o do que os cabanos resolveram abandonar a capital para resistir no interior.\n\nAs for\u00e7as navais sob o comando de John Pascoe Grenfell bloquearam Bel\u00e9m e, no dia 10 de maio, Angelim deixou a Capital, sendo detido logo em seguida. Entretanto, ao contr\u00e1rio do que Soares Andr\u00e9ia imaginou, a resist\u00eancia n\u00e3o terminou com a deten\u00e7\u00e3o de Eduardo Angelim. Durante tr\u00eas anos, os cabanos resistiram no interior da prov\u00edncia, mas aos poucos, foram sendo derrotados.\n\nEla s\u00f3 cederia com a decreta\u00e7\u00e3o de anistia aos revoltosos (1839). Em 1840 o \u00faltimo foco rebelde, sob lideran\u00e7a de Gon\u00e7alo Jorge de Magalh\u00e3es, se rendeu.\n\nCalcula-se que de 30 a 40% de uma popula\u00e7\u00e3o estimada de 100 mil habitantes morreu.\n\n<strong>Em homenagem ao movimento Cabano um monumento foi erguido na entrada da cidade de Bel\u00e9m:<\/strong>\u00a0o Memorial da Cabanagem, projetado por Oscar Niemayer, ali\u00e1s o \u00fanico no norte do Brasil.\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0br.geocities.com\/www.sampaio.to.gov.br\/www.dicionarioinformal.com.br\/www.senado.gov.br\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cabanagem, Hist\u00f3ria, Brasil, Revolta, Causa, Cabanos, Revolta, Luta, Reg\u00eancia, Ex\u00e9rcito, Motivos, L\u00edderes, Objetivos, Origem, Cabanagem<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8775,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-14819","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-do-brasil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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