{"id":12159,"date":"2016-01-04T00:00:00","date_gmt":"2016-01-04T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/uncategorized\/segunda-guerra-punica\/"},"modified":"2026-08-31T21:45:09","modified_gmt":"2026-08-31T21:45:09","slug":"segunda-guerra-punica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/historia-geral\/segunda-guerra-punica\/","title":{"rendered":"Segunda Guerra P\u00fanica"},"content":{"rendered":"\n<strong>Segunda Guerra P\u00fanica &#8211; O que foi<\/strong>\n\n<strong>Per\u00edodo:<\/strong>\u00a0218-201 aC\n\nA segunda guerra entre Roma e Cartago era um dos grandes conflitos militares do mundo antigo.\n\nHannibal conduziu suas for\u00e7as a partir de Espanha atrav\u00e9s dos Alpes para a It\u00e1lia, chegando perto do rio Po, em 218. Ele completamente derrotado uma for\u00e7a romano de mais de 15.000 em 217, mas n\u00e3o deu seguimento a sua vit\u00f3ria.\n\nO general romano Quintus Fabius Maximus seguido, mas n\u00e3o se envolver, Hannibal-assim, impedindo-o de estabelecer uma base permanente de opera\u00e7\u00f5es.\n\nEm 216 Roma enviou um grande ex\u00e9rcito para atender Hannibal. As for\u00e7as opostas se reuniu em Canas, onde Hannibal completamente derrotou os ex\u00e9rcitos romanos. Sua t\u00e1tica era simples.\n\nEle permitiu que os romanos para conduzir atrav\u00e9s de seu centro. Em seguida, seu irm\u00e3o Hasdrubal rodado sua cavalaria em torno de envolver o flanco inimigo e traseira. A for\u00e7a Roman foi cercado e quase aniquilada.\n\nHannibal novamente n\u00e3o deu seguimento a sua vit\u00f3ria com um ataque direto a Roma. Ele permaneceu na It\u00e1lia, tentando trazer aliados de Roma para o seu lado.\n\nPor 207 Hasdrubal tinha ido para a Espanha e voltou para a It\u00e1lia com ex\u00e9rcitos frescos. Roma foi logo amea\u00e7ado a partir do norte e do sul. As duas for\u00e7as cartagineses, no entanto, n\u00e3o se juntam.\n\nOs ex\u00e9rcitos romanos combinados derrotado Asdr\u00fabal, e Hannibal foi deixado para vaguear sul da It\u00e1lia at\u00e9 ordens de voltar \u00e0 \u00c1frica em 203. Al\u00e9m de It\u00e1lia n\u00e3o estava lutando na Sic\u00edlia e na Espanha. Por 210 toda a Sic\u00edlia estava nas m\u00e3os dos romanos. Nesse mesmo ano Scipio Africanus, ent\u00e3o conhecido como Publius Cornelius Scipio, foi colocado no comando de for\u00e7as romanas em Espanha.\n\nEle n\u00e3o conseguiu impedir Hasdrubal de tomar um ex\u00e9rcito para a It\u00e1lia em 208, mas ele terminou poder cartagin\u00eas na Espanha com uma grande vit\u00f3ria no Ilipa, perto de Sevilha moderna, em 206.\n\nDepois de uma visita a Roma em 205, Scipio montou um ex\u00e9rcito e partiu para o Norte de \u00c1frica, em 204. Ele ganhou campanhas em 204 e 203 contra Cartago e seus aliados.\n\nEm 202 Hannibal foi colocado no comando de for\u00e7as cartagineses. Ele conheceu ex\u00e9rcito bem treinado e disciplinado de Scipio perto Zama.\n\nScipio ganhou e ganhou o apelido de Africanus pelo qual ele tem sido conhecido desde ent\u00e3o.\n\n<strong>Cartago<\/strong>\u00a0processado por paz. Sob os termos de Roma, Cartago foi for\u00e7ada a dar a Espanha e todas as ilhas do Mediterr\u00e2neo que controlava a Roma. Al\u00e9m disso, ele foi obrigado a pagar uma grande indeniza\u00e7\u00e3o e perder qualquer independ\u00eancia em pol\u00edtica externa. Este foi o fim efetivo de Cartago como uma pot\u00eancia militar.\n\n<strong>Segunda Guerra P\u00fanica &#8211; Hist\u00f3ria<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-157816 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Segund6-300x152.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"152\" \/><strong>Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong><\/p>\nDesde a sua eclos\u00e3o, a\u00a0<strong>Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong>\u00a0foi uma contenda muito mais s\u00e9ria do que a Primeira, que rebentou na Sic\u00edlia e foi essencialmente uma luta pelo controle da ilha.\n\nA invas\u00e3o de R\u00e9gulo colocou os Cartagineses \u00e0 beira da capitula\u00e7\u00e3o mas resultou numa derrota e n\u00e3o foi repetida pelos Romanos.\n\nO conflito converteu-se numa prova de resist\u00eancia que acabou por ser decidida com a derrota da \u00faltima esquadra p\u00fanica nas ilhas Egates.\n\nO tratado de paz deixou Cartago forte na \u00c1frica e capaz de se expandir na Hisp\u00e2nia, mas afigurou-se mais duro depois de Roma se ter apoderado da Sardenha.\n\nA\u00a0<strong>Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong>\u00a0foi um conflito muito mais simples, pela supremacia, na qual os territ\u00f3rios foram sempre de import\u00e2ncia secund\u00e1ria.\n\nA tentativa cartaginesa de reconquista da Sardenha foi d\u00e9bil e as movimenta\u00e7\u00f5es contra a Sic\u00edlia s\u00f3 tiveram inicio alguns anos depois da eclos\u00e3o da guerra. Em ambos os casos, a iniciativa partiu de lideres das ilhas e n\u00e3o de Cartago. A conquista de territ\u00f3rios ao inimigo e a persuas\u00e3o dos seus aliados para que desertassem foram meios de exercer press\u00e3o e n\u00e3o fins a atingir.\n\nOs tratados que garantiram a Estados como C\u00e1pua ou Tarento a independ\u00eancia de Cartago deixaram claro que n\u00e3o havia a inten\u00e7\u00e3o de estabelecer uma prov\u00edncia p\u00fanica no Sul do L\u00e1cio.\n\nA guerra foi travada para for\u00e7ar o advers\u00e1rio a submeter-se e a aceitar um tratado muito favor\u00e1vel para o vencedor. Em 218, ambas as partes planejaram atacar o cora\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio inimigo, os Romanos a \u00c1frica e na Hisp\u00e2nia, Hannibal na It\u00e1lia.\n\nApesar dos reveses, das distra\u00e7\u00f5es e das disc\u00f3rdias no seio das lideran\u00e7as rivais, este objetivo manteve-se at\u00e9 ao fim, com Asdr\u00fabal e Mag\u00e3o renovando a invas\u00e3o da It\u00e1lia e Cipi\u00e3o terminando a guerra na \u00c1frica.\n\n\u00c0 medida que ambos os lados procuraram lan\u00e7ar ataques adicionais e incrementar a press\u00e3o sobre o inimigo o conflito alastrou a outros teatros. Mas estes estiveram sempre subordinados ao esfor\u00e7o principal.\n\nA maior intensidade da\u00a0<strong>Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong>\u00a0\u00e9 ilustrada pelo equil\u00edbrio verificado entre os tr\u00eas tipos de combate principais, as batalhas, os cercos e as incurs\u00f5es.\n\nAs batalhas campais foram muito mais comuns mas os recontros navais foram poucos e em escala reduzida, nada que se compare as grandes batalhas navais da\u00a0<strong>Primeira Guerra P\u00fanica<\/strong>. Entre 218 e 202, registaram-se cerca de doze batalhas campais, tr\u00eas vezes o n\u00famero das travadas entre 265 e 241, e talvez outros doze embates de alguma dimens\u00e3o.\n\nAs breves narrativas de muitos recontros tornam dif\u00edcil discernir a sua escala. A sua natureza \u00e9, por vezes, o seu desfecho, o que faz com que os n\u00fameros supra-referidos sejam aproximados.\n\nUm pouco mais da metade das batalhas foi travada na It\u00e1lia, as restantes na \u00c1frica e na Hisp\u00e2nia. Tal como na Primeira Guerra P\u00fanica, o terreno da Sic\u00edlia n\u00e3o favoreceu a ocorr\u00eancia de batalhas campais formais e o mesmo aconteceu em grande parte da Hisp\u00e2nia, da Il\u00edria e da Gr\u00e9cia. E al\u00e9m de as batalhas campais se concentrarem em certas regi\u00f5es, tenderam a ocorrer em per\u00edodos de campanha breves e de extrema intensidade. Hannibal travou tr\u00eas grandes batalhas e v\u00e1rios combates importantes entre 218 e 216, e muito menos nos anos posteriores.\n\nCipi\u00e3o Africano travou uma batalha na Hisp\u00e2nia, em 208, tentou infrutiferamente travar outra em 207, e completou a sua vit\u00f3ria com uma \u00faltima batalha, em 206.\n\nRepetiu este padr\u00e3o na \u00c1frica, travando grandes batalhas em 203 e 202. As batalhas tinham mais tend\u00eancia a ocorrer quando o general agia de forma excepcionalmente agressiva, de um modo geral internando-se profundamente em territ\u00f3rio inimigo, como foram os casos, por exemplo, das primeiras invas\u00f5es da It\u00e1lia e da \u00c1frica, ou das grandes incurs\u00f5es de Cipi\u00e3o na prov\u00edncia p\u00fanica da Hisp\u00e2nia. A resposta romana a este tipo de amea\u00e7a foi a batalha campal, e foram necess\u00e1rias sucessivas derrotas at\u00e9 que comandantes como F\u00e1bio M\u00e1ximo instilassem alguma cautela nas opera\u00e7\u00f5es romanas na It\u00e1lia.\n\nA ocorr\u00eancia de uma batalha campal exigia um grau t\u00e3o elevado de consentimento m\u00fatuo que at\u00e9 generais t\u00e3o competentes como Hannibal e Cipi\u00e3o se viram frequentemente incapazes de obrigarem o inimigo a combater.\n\nEsta realidade toma a decis\u00e3o de Cipi\u00e3o de atacar uma posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o formid\u00e1vel como a de Asdr\u00fabal em B\u00e9cula t\u00e3o not\u00e1vel como o seu sucesso.\n\nOs Romanos perderam v\u00e1rios recontros de menor dimens\u00e3o mas s\u00f3 foram derrotados numa batalha campal por Hannibal, na It\u00e1lia. As derrotas de P\u00fablio e Gneu Cipi\u00e3o, em 212, resultaram de uma s\u00e9rie de embates confusos, gerados por uma situa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica marcadamente desfavor\u00e1vel. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o destes casos, os ex\u00e9rcitos romanos demonstraram, em batalhas campais, uma superioridade ineg\u00e1vel sobre todos os outros ex\u00e9rcitos e generais p\u00fanicos.\n\nO ex\u00e9rcito de Hannibal na It\u00e1lia foi, sem qualquer sombra de d\u00favida, o melhor jamais alinhado por Cartago, beneficiando da lideran\u00e7a carism\u00e1tica de Hannibal e dos longos anos de campanha na Hisp\u00e2nia.\n\nOutra das suas vantagens foi um r\u00e1cio cavalaria\/infantaria excepcionalmente elevado, que chegou a ser de 1:3 a 1:4, mais do dobro da media de ambas as partes.\n\nOs continuados \u00eaxitos de Hannibal sobre os Romanos conferiram ao seu ex\u00e9rcito uma vantagem em termos de moral que, at\u00e9 ao fim da campanha italiana, nunca perdeu.\n\nOutros ex\u00e9rcitos p\u00fanicos apresentaram uma mistura similar de nacionalidades e tipos de tropas, mas o seu desempenho no campo de batalha foi med\u00edocre.\n\nOs outros generais eram muito inferiores a Hannibal como lideres e t\u00e1ticos, e n\u00e3o tiveram a oportunidade para converter os dispares contingentes que comandavam numa unidade coesa atrav\u00e9s da combina\u00e7\u00e3o de uma instru\u00e7\u00e3o longa e da participa\u00e7\u00e3o em opera\u00e7\u00f5es bem sucedidas sob oficiais que lhes eram familiares.\n\nAs fontes apresentam com frequ\u00eancia um elemento como a \u00fanica parte verdadeiramente fi\u00e1vel e eficaz do ex\u00e9rcito, como por exemplo, os L\u00edbios em Ilipa ou os Celtiberos nas Grandes Plan\u00edcies.\n\nE nem Hannibal conseguiu, no pouco tempo dispon\u00edvel, fundir os tr\u00eas ex\u00e9rcitos da \u00c1frica para a campanha de Cannae.\n\nO sistema de mil\u00edcia romano produzia ex\u00e9rcitos muito mais homog\u00e9neos em termos de l\u00edngua, cadeia de comando, instru\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o. Isto facilitava a integra\u00e7\u00e3o de legi\u00f5es de diferentes for\u00e7as num mesmo ex\u00e9rcito.\n\nO prolongado tempo de servi\u00e7o aumentava inexoravelmente a efic\u00e1cia dos ex\u00e9rcitos romanos, um processo que era muito mais r\u00e1pido do que numa for\u00e7a p\u00fanica de v\u00e1rias nacionalidades.\n\nAs legi\u00f5es da Segunda Guerra P\u00fanica serviram durante muito mais tempo do que quaisquer outras tropas romanas at\u00e9 ent\u00e3o, pelo que na fase final da guerra muitos soldados estavam t\u00e3o bem instru\u00eddos e confiantes como quaisquer tropas profissionais. A flexibilidade t\u00e1tica demonstrada pelos Romanos no Metauro, em Ilipa e em Zama foi uma prova tang\u00edvel desta realidade. Soldados e oficiais tinham-se tornado capazes de feitos que seriam inimagin\u00e1veis em 218.\n\nEstes ex\u00e9rcitos eram muit\u00edssimo superiores a maioria das for\u00e7as p\u00fanicas e mesmo em grande inferioridade num\u00e9rica conseguia derrotar o inimigo, como Cipi\u00e3o demonstrou. Com a evolu\u00e7\u00e3o do conflito, o desd\u00e9m que os Romanos mostravam por todos os ex\u00e9rcitos e generais cartagineses \u2013 \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de Hannibal \u2013 foi-se fundamentando cada vez mais na realidade.\n\nApesar do consider\u00e1vel n\u00famero de batalhas e recontros importantes tratados na Segunda Guerra P\u00fanica, n\u00e3o deixaram de ser acontecimentos raros na experi\u00eancia da maioria dos soldados, que participaram com muito mais frequ\u00eancia em incurs\u00f5es ou cercos. As incurs\u00f5es n\u00e3o se destinavam primariamente a providenciar comida para os ex\u00e9rcitos, embora pudessem ser combinadas com esta atividade.\n\nO seu objetivo principal era provocar o m\u00e1ximo de danos poss\u00edvel \u00e0s zonas rurais do inimigo, matando ou capturando as popula\u00e7\u00f5es, destruindo quintas e aldeias, incendiando as colheitas e roubando o gado.\n\nTodas estas atividades exigiam tempo e esfor\u00e7o, e algumas, como por exemplo, a destrui\u00e7\u00e3o das colheitas, s\u00f3 podiam ser concretizadas durante as semanas que antecediam a apanha.\n\nOs danos tendiam a limitar-se a uma \u00e1rea e tinham pouco efeito a longo prazo mas eram inegavelmente horr\u00edveis para as v\u00edtimas. Mas quando as incurs\u00f5es prosseguiam durante um longo per\u00edodo, as consequ\u00eancias para a regi\u00e3o podiam ser muito graves. As perdas em m\u00e3o-de-obra rural, devido a captura, a morte ou a conscri\u00e7\u00e3o, e os danos prolongados aos campos, as colheitas e ao gado, reduziam a produtividade e davam origem a uma escassez de alimentos que por sua vez enfraquecia a popula\u00e7\u00e3o e encorajava o aparecimento de doen\u00e7as, provocando um decl\u00ednio adicional na produ\u00e7\u00e3o.\n\nAlgumas \u00e1reas, especialmente o Br\u00fatio e outras partes do Sul de It\u00e1lia, onde Hannibal e o seu ex\u00e9rcito estiveram confinados durante anos, foram palco das repetidas incurs\u00f5es dos beligerantes e ter\u00e3o sofrido grandemente. Uma das grandes controv\u00e9rsias da Segunda Guerra P\u00fanica, que discutiremos num capitulo posterior, \u00e9 o seu impacto sobre a popula\u00e7\u00e3o e a economia rural da It\u00e1lia.\n\nA consequ\u00eancia mais imediata das incurs\u00f5es eram os danos causados ao prestigio do inimigo por n\u00e3o conseguir defender o seu territ\u00f3rio. A vis\u00e3o das quintas a arder deixadas pela marcha de Hannibal, em 217, incitou Flaminio a persegui-lo incautamente, desejoso de vingar aquela humilhante demonstra\u00e7\u00e3o da debilidade de Roma. Mais tarde, ainda no mesmo ano, F\u00e1bio Maximo tornou-se muito impopular por se negar a impedir tais depreda\u00e7\u00f5es.\n\nUm Estado que se revelava incapaz de proteger os seus aliados contra as depreda\u00e7\u00f5es do inimigo perdia prestigio e poderia tamb\u00e9m perder os seus aliados.\n\nIsto aplicou-se particularmente \u00e0 \u00e1reas como a Sic\u00edlia ou a Hisp\u00e2nia, onde as comunidades revelaram um empenho compreensivelmente diminuto para com ambos os lados.\n\nO fracasso de Hannibal em proteger das incurs\u00f5es romanas muitos dos seus aliados italianos foi um fator de peso no seu lento mas inexor\u00e1vel regresso \u00e0 alian\u00e7a com Roma.\n\nAs cidades muralhadas estavam a salvo das incurs\u00f5es, e s\u00f3 as menores poderiam eventualmente sucumbir a um assalto. As cidades constitu\u00edam os centros pol\u00edticos da maioria dos povos envolvidos no conflito, controlando amplas \u00e1reas circundantes. As incurs\u00f5es podiam intimidar a popula\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o, mas s\u00f3 a ocupa\u00e7\u00e3o das suas pra\u00e7as-fortes mais importantes garantia o seu controle em termos permanentes.\n\nA vit\u00f3ria romana na Sic\u00edlia decorreu da conquista dos dois principais basti\u00f5es inimigos, Siracusa e Agrigento. Durante toda a guerra, nenhuma das partes conseguiu conquistar a capital inimiga, demasiado grande e defendida, ainda que, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, tanto Roma como Cartago se tenham sentido diretamente amea\u00e7adas. A conquista de posi\u00e7\u00f5es fortificadas foi sempre extremamente dif\u00edcil, o que constituiu um dos motivos para a predomin\u00e2ncia dos cercos na propaganda dos \u201cGrandes Reis\u201d, dos fara\u00f3s em diante.\n\nS\u00f3 quando o ex\u00e9rcito profissional romano combinou as capacidades de engenharia com a predisposi\u00e7\u00e3o para aceitar as baixas inevit\u00e1veis nos assaltos \u00e9 que a balan\u00e7a come\u00e7ou a pender para os sitiantes.\n\nOs ataques diretos contra uma grande cidade apenas tinham sucesso quando combinavam a surpresa com a trai\u00e7\u00e3o ou com o conhecimento de pontos fracos nas defesas.\n\nOs bloqueios demoravam muito mais tempo e exigiam a perman\u00eancia de for\u00e7as consider\u00e1veis no mesmo lugar durante meses ou anos, agudizando o problema do aprovisionamento.\n\nFoi a superioridade num\u00e9rica dos Romanos e a sua capacidade para alimentar os seus ex\u00e9rcitos que lhes permitiu montar os longos e vitoriosos ass\u00e9dios \u00c0 C\u00e1pua e Siracusa.\n\nA devasta\u00e7\u00e3o dos campos, a conquista das cidades e as batalhas campais eram os tr\u00eas meios de sapar a determina\u00e7\u00e3o do inimigo para prosseguir a luta.\n\nO equil\u00edbrio entre estes tr\u00eas meios variou de teatro para teatro mas o maior impacto adveio sempre de uma grande derrota em combate. A guerra terminou com a vit\u00f3ria romana de Zama, tal como a Primeira Guerra P\u00fanica terminara com as Ilhas Egates. Outras batalhas revelaram-se vitorias t\u00e1ticas mais completas mas n\u00e3o tiveram um efeito t\u00e3o decisivo.\n\nIsto aplica-se particularmente \u00e0 s\u00e9rie de vit\u00f3rias esmagadoras que Hannibal alcan\u00e7ou na It\u00e1lia e que for\u00e7aram os Romanos a admitir que n\u00e3o podiam enfrenta-lo em campo aberto.\n\nHannibal assolou as terras por onde passou e, no Sul, promoveu a defec\u00e7\u00e3o de muitos aliados de Roma.\n\nMas apesar de tudo isto, os Romanos recusaram ceder. Quando reconquistou C\u00e1pua e Tarento, os mais importantes Estados desertores, Roma j\u00e1 se tinha reapoderado da maior parte das \u00e1reas que tinham desertado e o poder de Hannibal na It\u00e1lia estava em decl\u00ednio. Nenhuma cidade latina aderiu \u00e0 sua causa.\n\nAs tentativas para o refor\u00e7ar com novos ex\u00e9rcitos fracassaram e tornou-se \u00f3bvio que n\u00e3o poderia vencer. Entretanto, os Romanos haviam reconquistado a Sic\u00edlia, tinham expulsado os Cartagineses da Hisp\u00e2nia e estavam instalados na \u00c1frica.\n\n\u00c9 dif\u00edcil ver o que mais poderia Hannibal ter feito para alcan\u00e7ar a vit\u00f3ria. Nunca saberemos a que ponto estiveram os Romanos de admitir a derrota.\n\nTalvez uma marcha sobre Roma ap\u00f3s Canaae tivesse levado os Romanos a perder o sangue-frio, mas n\u00e3o podemos estar certos de que assim seria e essa op\u00e7\u00e3o teria constitu\u00eddo um risco enorme.\n\nUm dos problemas principais dos Cartagineses foi terem ao seu dispor um general soberbo \u00e0 frente de um ex\u00e9rcito excelente num dado teatro, enquanto que em outros dispuseram de generais med\u00edocres com ex\u00e9rcitos medianos ou generais medianos com ex\u00e9rcitos med\u00edocres. Desde o principio, os Romanos conseguiram produzir, em quantidade consider\u00e1vel, ex\u00e9rcitos e generais de qualidade mediana, com vantagem sobre todos os advers\u00e1rios \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de Hannibal. Com a evolu\u00e7\u00e3o do conflito, os lideres e os soldados romanos adquiriram experi\u00eancia e a sua superioridade sobre os outros ex\u00e9rcitos p\u00fanicos tornou-se ainda mais vincada.\n\nSe os Romanos n\u00e3o tivessem encontrado tropas para travarem e vencerem as campanhas nas frentes fora da It\u00e1lia, o desfecho da guerra teria seguramente sido muito diferente.\n\nO Senado romano teve o m\u00e9rito imenso de continuar a empenhar homens e recursos em teatros de opera\u00e7\u00f5es distantes quando o desastre parecia amea\u00e7ar a It\u00e1lia.\n\nSob amea\u00e7a direta, Roma e Cartago comportaram-se de forma fundamentalmente diferente. Quando um ex\u00e9rcito romano apareceu \u00e0s portas da cidade, em 255, 203 e 202, a lideran\u00e7a cartaginesa respondeu procurando a paz. L\u00edvio acredita que o fizeram com falsidade em 203, e neste ano e em 255 retomaram as hostilidades quando n\u00e3o conseguiram garantir os termos que consideravam apropriados ao seu poderio, que ainda era consider\u00e1vel. Em 216, 212 ou em outra fase negativa da guerra, nunca o Senado ou qualquer general romano contemplou seriamente admitir a derrota e negociar com o inimigo. Apesar das perdas calamitosas, da sucess\u00e3o de derrotas humilhantes, da defec\u00e7\u00e3o de alguns aliados e da continua\u00e7\u00e3o da nefasta presen\u00e7a do ex\u00e9rcito de Hannibal na It\u00e1lia, os Romanos recusaram pura e simplesmente entender-se com os Cartagineses, tal como se tinham negado a negociar com Pirro. Depois, levaram o inimigo de vencido em todas as outras frentes e obrigaram Hannibal, apesar de invicto, a abandonar o L\u00e1cio e a regressar a Cartago para a proteger.\n\nOs Cartagineses contavam que as guerras terminassem com uma paz negociada. Os Romanos contavam que as guerras terminassem com a sua vit\u00f3ria total ou com a sua pr\u00f3pria aniquila\u00e7\u00e3o, algo que nenhum Estado contempor\u00e2neo dispunha de recursos para conseguir. Foi esta atitude que impediu os Romanos de perderem a guerra e que lhes deu a vit\u00f3ria.\n\nO fator mais importante que permitiu a Roma adotar esta atitude t\u00e3o r\u00edgida foi provavelmente a sua enorme reserva de potenciais soldados. As suas perdas foram colossais, muito superiores as da Primeira Guerra P\u00fanica, com particular incid\u00eancia sobre as classes mais abastadas, os senadores, os membros da Ordem Equestre e os lavradores que serviam na infantaria pesada das legi\u00f5es.\n\nNos primeiros anos de guerra, Roma ter\u00e1 talvez perdido 25% dos homens qualificados para o servi\u00e7o militar devido a mortes e defec\u00e7\u00f5es, mas mesmo assim o n\u00famero de legi\u00f5es foi aumentado.\n\nTornaram-se algumas medidas de exce\u00e7\u00e3o para colmatar a lacuna de recrutas, alistando homens mais novos e mais velhos do que o habitual, reduzindo as posses m\u00ednimas exigidas para o cumprimento do servi\u00e7o militar e formando legi\u00f5es com condenados e escravos. No seu conjunto, esta expans\u00e3o foi possibilitada pela anu\u00eancia dos cidad\u00e3os comuns em submeterem-se a anos de severa disciplina militar e de campanhas extremamente perigosas. \u00c9 vital n\u00e3o nos esquecermos de que, em Roma e na maioria dos aliados, todas as classes mantinham fortes la\u00e7os de lealdade entre si e para com o Estado. Verificaram-se algumas exce\u00e7\u00f5es, nomeadamente a recusa das doze col\u00f4nias latinas de fornecerem mais homens, em 209, mas foram extremamente raras. E note-se que estas col\u00f4nias apenas declararam ter esgotado os seus recursos.\n\nN\u00e3o recomendaram nenhum entendimento com o inimigo nem tomaram nenhuma medida tendente a desertarem. Do mesmo modo, alguns homens tentaram evitar o servi\u00e7o militar, outros procuraram lucrar custa das tropas que deveriam abastecer e alguns, muito poucos, desertaram e combateram ao lado do inimigo; mas a esmagadora maioria n\u00e3o fez nada disto e foi movida, por orgulhoso patriotismo, a sacrificar-se pelo Estado.\n\nOs Cartagineses sofreram muito menos baixas, quer em n\u00famero, quer em percentagem do total dos cidad\u00e3os. Os cidad\u00e3os p\u00fanicos apenas entraram em campanha em n\u00famero significativo na \u00c1frica, e as suas perdas nas Grandes Plan\u00edcies e em Zama n\u00e3o foram elevadas. Parece nunca ter faltado dinheiro para contratar mercen\u00e1rios, mas o que frequentemente escasseou foi o tempo para os recrutar e converter num ex\u00e9rcito eficaz. A verdade \u00e9 que Cartago n\u00e3o estava t\u00e3o organizada para a atividade b\u00e9lica como Roma, onde a guerra era parte integral do sistema politico. O Senado romano decidia anualmente a atribui\u00e7\u00e3o de comandos e recursos militares, e durante a Guerra Anib\u00e1lica assistiu-se a uma simples continua\u00e7\u00e3o deste procedimento normal.\n\nN\u00e3o se pode afirmar peremptoriamente que os Romanos faziam a guerra com mais ou menos frequ\u00eancia do que outros povos contempor\u00e2neos, mas do que n\u00e3o restam d\u00favidas \u00e9 de que a faziam com maior efic\u00e1cia e entrega. Polibio acerta em cheio no alvo ao destacar a organiza\u00e7\u00e3o politica, a estrutura social e as institui\u00e7\u00f5es militares de Roma como chaves da sua vit\u00f3ria sobre Cartago. Durante a Guerra Anib\u00e1lica, todas elas tiveram que ser modificadas para lidar com a crise.\n\nTornaram-se comuns as m\u00faltiplas magistraturas e promagistraturas, as lacunas nas fileiras do Senado foram preenchidas em massa, recrutaram-se escravos para o ex\u00e9rcito e a instru\u00e7\u00e3o ministrada \u00e0s legi\u00f5es foi de molde a permitir-lhes atingirem n\u00edveis in\u00e9ditos de efic\u00e1cia.\n\nCada uma destas institui\u00e7\u00f5es revelou-se suficientemente flex\u00edvel para se adaptar sem ter que alterar a sua natureza essencial. No meio s\u00e9culo seguinte, dariam a Roma o dom\u00ednio do mundo mediterr\u00e2nico.\n\n<strong>Cartago reconhece sua derrota na Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-157817 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Segund7-1-216x300.jpg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"300\" \/><strong>Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong><\/p>\nDepois da batalha, Hannibal e o seu estado-maior fugiram para a sua base principal, em Adrumeto. Os Romanos reuniram os prisioneiros e pilharam o acampamento p\u00fanico.\n\nCipi\u00e3o recebeu a noticia animadora de que se aproximava de Castra Cornelia um comboio com mantimentos, e L\u00e9lio foi de novo enviado a Roma para dar conta da vit\u00f3ria.\n\nA derrota do seu \u00faltimo ex\u00e9rcito deixou Cartago com a \u00fanica alternativa de procurar novamente a paz. Cipi\u00e3o conduziu a esquadra numa demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a junto da pr\u00f3pria cidade de Cartago, uma press\u00e3o adicional para que se submetesse. Em termos militares, os Romanos pouco poderiam amea\u00e7ar uma urbe t\u00e3o bem fortificada. Mesmo recorrendo a todo o seu ex\u00e9rcito, o cerco de Cartago teria sido uma empresa enorm\u00edssima e de desfecho incerto. Cipi\u00e3o rejeitou prontamente a ideia, apesar de, segundo L\u00edvio, ter sido advogada por v\u00e1rios dos seus oficiais.\n\nN\u00e3o obstante ter-se negado a receber uma primeira embaixada de paz p\u00fanica, o general romano estava desejoso de chegar a um entendimento. Em particular, estaria de novo preocupado com a manuten\u00e7\u00e3o do seu comando e com a obten\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria que a vit\u00f3ria lhe merecera. De fato, mesmo com a guerra prestes a acabar, um dos c\u00f4nsules de 201 tentou substituir Cipi\u00e3o no comando na \u00c1frica mas depois da interven\u00e7\u00e3o de alguns dos tribunos da plebe e de novos debates senatoriais acabou por substituir Nero no comando naval.\n\nOs termos do tratado ditado por Cipi\u00e3o foram duros. Entrega, sem resgate, de todos os prisioneiros e desertores romanos. Confisca\u00e7\u00e3o de todos os elefantes de guerra. Redu\u00e7\u00e3o da armada a dez trirremes.\n\nCartago manteve a maior parte do seu territ\u00f3rio na \u00c1frica mas perdeu todas as suas possess\u00f5es ultramarinas, e at\u00e9 na \u00c1frica foi obrigada a reconhecer Masinissa como soberano de um reino substancialmente aumentado. Cartago foi obrigada a pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o de 10.000 talentos de prata, em presta\u00e7\u00f5es anuais, durante mais de cinquenta anos, uma recorda\u00e7\u00e3o constante da sua derrota. Outra indica\u00e7\u00e3o do seu novo estatuto foi a estipula\u00e7\u00e3o de que Cartago n\u00e3o poderia entrar em guerra fora da \u00c1frica, e na \u00c1frica s\u00f3 com autoriza\u00e7\u00e3o de Roma. Cartago continuaria a ser governada pelas suas pr\u00f3prias leis mas ficava claramente subordinada a Roma em todos os assuntos extemos. Por fim, os Cartagineses deveriam fornecer alimentos e provis\u00f5es ao ex\u00e9rcito de Cipi\u00e3o durante tr\u00eas meses, e custear o seu soldo at\u00e9 a ratifica\u00e7\u00e3o do tratado.\n\nE em pagamento pelo que os Romanos consideravam ser a sua recente trai\u00e7\u00e3o, deveriam tamb\u00e9m indenizar a perda de bens romanos aquando da viola\u00e7\u00e3o da tr\u00e9gua e do ataque ao comboio naval.\n\nForam selecionados ref\u00e9ns entre as fam\u00edlias nobres da cidade, como garantia para que n\u00e3o se repetisse o mesmo tipo de incidente durante as negocia\u00e7\u00f5es.\n\nA mensagem do tratado foi clara e talvez refor\u00e7ada se, como afirma Apiano, os Cartagineses passariam a ser designados como ?Amigos e Aliados? do povo romano, a formula usada para os aliados subordinados de Roma na It\u00e1lia. E tinham-se efetivamente tornado, de forma inequ\u00edvoca, aliados subordinados de um Estado superior ao qual pagavam um tributo anual e a cuja autoridade se submetiam em quest\u00f5es importantes de politica externa.\n\nO imp\u00e9rio ultramarino e a marinha orgulhosa que o protegera foram abolidos. N\u00e3o admira que alguns l\u00edderes p\u00fanicos pretendessem rejeitar t\u00e3o dura paz. Quando um dos senadores embarcou num discurso nesta veia, Hannibal, sempre realista, arrastou-o do p\u00f3dio dos oradores. Pediu desculpa pelo seu comportamento, dizendo que trinta e seis anos de aus\u00eancia de Cartago o tinham levado a esquecer a etiqueta politica, mas instou com veem\u00eancia os l\u00edderes a n\u00e3o rejeitarem uma paz que, tendo em conta a situa\u00e7\u00e3o de Cartago, poderia ter sido muito pior. Por fim, o senado p\u00fanico aceitou esta via e enviou delega\u00e7\u00f5es a Roma para confirmar os termos.\n\nFoi somente no principio da Primavera de 201 que o Senado confirmou finalmente a sua decis\u00e3o anterior de aceitar quaisquer termos de paz propostos por Cipi\u00e3o. Imediatamente ap\u00f3s o regresso dos emiss\u00e1rios, acompanhados por representantes do clero romano, os feciais, para supervisionar os importantes rituais envolvidos, as provis\u00f5es do tratado come\u00e7aram a ser implementadas.\n\nUm grande n\u00famero de navios de guerra p\u00fanicos, 500 segundo algumas das fontes de L\u00edvio, saiu do grande porto da cidade e foi depois incendiado.\n\n<strong>Aos desertores que tinham combatido pelos Cartagineses, estava reservado um destino terr\u00edvel:<\/strong>\u00a0os romanos foram crucificados e os latinos decapitados. Cipi\u00e3o regressou a Roma, onde celebrou um triunfo espetacular.\n\n<strong>As causas da Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong>\n\nExistiram decerto momentos de tens\u00e3o depois da Primeira Guerra P\u00fanica, mas as rela\u00e7\u00f5es entre Roma e Cartago n\u00e3o eram inteiramente hostis. Renovado o interc\u00e2mbio comercial, os mercadores p\u00fanicos eram uma vis\u00e3o t\u00e3o familiar em Roma como os italianos parecem ter sido em Cartago. Com efeito, ter\u00e1 sido durante estes anos que foram criados la\u00e7os de hospitalidade \u2013 ou ressuscitados os anteriores a 265 -, uma caracter\u00edstica t\u00e3o comum das rela\u00e7\u00f5es internacionais no mundo antigo, ligando fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas p\u00fanicas e romanas. A paz conclu\u00edda em 241 durou vinte e tr\u00eas anos, se descontarmos a amea\u00e7a romana de reabrir as hostilidades por causa da Sardenha, em 238, e terminou quando Hannibal Barca, comandante supremo cartagin\u00eas na Hisp\u00e2nia, atacou a cidade ib\u00e9rica de Sagunto, que estava sob prote\u00e7\u00e3o romana. Nenhuma das partes se mostrou muito relutante em entrar em guerra, n\u00e3o obstante as mem\u00f3rias do conflito anterior que fora renhido e dispendioso.\n\nOs motivos que as levaram a guerra t\u00eam sido tema de intensos debates desde ent\u00e3o, debates que procuram quase sempre atribuir a culpa a uma das partes. E com igual frequ\u00eancia, os historiadores t\u00eam ca\u00eddo na armadilha de analisar os eventos em fun\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es modernos, esquecendo-se de que at\u00e9 Estados antigos mais politicamente avan\u00e7ados entravam em guerra com frequ\u00eancia e entusiasmo, em especial quando contavam vencer e imaginavam os benef\u00edcios que a vit\u00f3ria lhes traria.\n\nAntes de abordarmos estas quest\u00f5es, convir\u00e1 passarmos em revista \u00e0 sucess\u00e3o de acontecimentos que levaram \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de guerra por parte de Roma.\n\nProvavelmente em 226, Asdr\u00fabal aceitou as exig\u00eancias de emiss\u00e1rios romanos no sentido de os Cartagineses n\u00e3o atravessem o rio Ebro.\n\nA ideia de colocar uma fronteira f\u00edsica ao poder de um Estado era um conceito familiar a ambas as culturas. Nesse caso, n\u00e3o se tratou de uma grande restri\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o cora\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia p\u00fanica ainda estava muito longe do rio. Os argumentos de que o tratado definiu uma fronteira muito mais a sul n\u00e3o convencem, e s\u00e3o ainda menores os fundamentos para o comum pressuposto de que os Romanos se comprometeram a n\u00e3o intervir a sul do Ebro. De fato, nesta altura, o Estado romano carecia de qualquer liga\u00e7\u00e3o direta \u00e0 Hisp\u00e2nia, exceto se considerarmos que a sua aliada, Mass\u00edlia, tinha comunidades dependentes em Emp\u00f3rio e Rode.\n\nEm determinada altura, depois de 226, Roma associou-se \u00e0 cidade de Sagunto (a moderna Sagunto, perto de Val\u00eancia). Polibio diz-nos que isto aconteceu \u201calguns anos\u201d antes da \u00e9poca de Hannibal.\n\nMas seria plaus\u00edvel a sua men\u00e7\u00e3o no tratado do Ebro se a liga\u00e7\u00e3o j\u00e1 existisse, dado que a cidade se localizava muito a sul do rio.\n\nA discuss\u00e3o sobre se existia ou n\u00e3o um tratado formal garantindo o estatuto de aliada a Sagunto ou se a cidade simplesmente requereu a prote\u00e7\u00e3o de Roma, como Utica tentara fazer durante a Guerra dos Mercen\u00e1rios, n\u00e3o \u00e9 relevante para o nosso prop\u00f3sito. A dada altura, o Senado romano foi solicitado a arbitrar a disputa interna da cidade, muito possivelmente entre fac\u00e7\u00f5es rivais adeptas de Roma e Cartago, e os enviados ordenaram a execu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios nobres saguntinos. Parecem \u00f3bvios para a cidade hisp\u00e2nica os atrativos de uma alian\u00e7a com Roma. Sagunto, uma cidade-estado de import\u00e2ncia local, assistiria com preocupa\u00e7\u00e3o a expans\u00e3o da prov\u00edncia cartaginesa na sua dire\u00e7\u00e3o. O apoio romano oferecia a maior seguran\u00e7a poss\u00edvel contra o seu poderoso vizinho.\n\nO motivo pelo qual os Romanos aceitaram a alian\u00e7a \u00e9 menos claro e est\u00e1 estreitamente associado \u00e0 causa da guerra.\n\nEm 221, Hannibal, ent\u00e3o com 26 anos de idade, sucedeu ao cunhado e continuou a agressiva politica expansionista na Hisp\u00e2nia, levando a cabo opera\u00e7\u00f5es muito mais vastas do que os seus antecessores.\n\nConduziu os seus ex\u00e9rcitos contra as tribos da Hisp\u00e2nia Central, avan\u00e7ando bastante para norte, at\u00e9 regi\u00e3o da moderna Salamanca. Cerca de 220-219, eclodiu uma disputa entre Sagunto e uma tribo vizinha, acusada de realizar incurs\u00f5es no seu territ\u00f3rio. Os pormenores s\u00e3o obscuros e at\u00e9 o nome do povo em causa \u00e9 incerto, mas a tribo era aliada de Cartago e recebeu o apoio de Hannibal. No Inverno, uma embaixada romana apresentou-se a Hannibal, em Nova Cartago, e recordou-lhe a exist\u00eancia do tratado do Ebro, avisando-o tamb\u00e9m para n\u00e3o atacar Sagunto.\n\nA embaixada foi recebida com extrema frieza e deslocou-se a Cartago para repetir as suas exig\u00eancias. O jovem general tamb\u00e9m pediu instru\u00e7\u00f5es a Cartago, e na Primavera conduziu o seu exercito contra a cidade.\n\nSagunto situava-se numa posi\u00e7\u00e3o forte, no cimo de uma colina, a quil\u00f3metro e meio do mar (No Outono de 1811,os defensores espanh\u00f3is de uma fortaleza improvisada entre as ruinas ib\u00e9ricas, romanas e mouras da cidade repeliram v\u00e1rios ataques lan\u00e7ados por um dos mais capazes comandantes de Napole\u00e3o, Suchet.) Hannibal levou oito meses para se apoderar da cidade, mas desde o inicio foi claro que a sua inten\u00e7\u00e3o era toma-la de assalto e n\u00e3o submet\u00ea-la pela fome.\n\nAs suas t\u00e1cticas foram muito mais agressivas do que as adotadas pelos Cartagineses em qualquer um dos cercos da Primeira Guerra P\u00fanica, pelo que as baixas tamb\u00e9m foram mais elevadas.\n\nL\u00edvio diz mesmo que o pr\u00f3prio Hannibal foi ferido ao dirigir um ataque demasiado pr\u00f3ximo da peleja.\n\nOs Romanos nada fizeram para auxiliar os Saguntinos depois de iniciado o assedio. L\u00edvio afirma que enviaram outra embaixada a Hannibal, mas a sua cronologia \u00e9 irremediavelmente confusa neste ponto e, dado que Polibio n\u00e3o menciona semelhante iniciativa, mais vale rejeit\u00e1-la. Sagunto caiu em finais de 219 ou nas primeiras semanas de 218, e a noticia poder\u00e1 ter chegado a Roma num m\u00eas.\n\nNo fim do Inverno, foi enviada a Cartago uma embaixada que inclu\u00eda os dois c\u00f4nsules de sa\u00edda, L\u00facio Emilio Paulo e Marco L\u00edvio Salinator. L\u00edvio diz que a delega\u00e7\u00e3o era chefiada por Quinto F\u00e1bio M\u00e1ximo, ficando assim completo o trio que desempenharia papeis de relevo na guerra que se avizinhava, mas parece mais prov\u00e1vel que o l\u00edder fosse Marco F\u00e1bio Bute\u00e3o, o experiente ex-censor que combatera na Sic\u00edlia quando era c\u00f4nsul, em 245. A embaixada protestou contra os atos de Hannibal e exigiu saber se ele agia com a aprova\u00e7\u00e3o do senado cartagin\u00eas.\n\nOs Cartagineses viram-se confrontados com as alternativas de condenarem Hannibal e entregarem-no e aos seus oficiais superiores aos Romanos para serem punidos, ou de entrarem em guerra contra Roma.\n\nO estilo de diplomacia praticado pelas embaixadas romanas raramente parece ter sido muito sutil, mas neste caso os Romanos eram claramente obrigados a vingarem um ataque contra um aliado.\n\nNuma vers\u00e3o da hist\u00f3ria, que refere um poderoso partido oposto aos Barcas, um certo Han\u00e3o ter\u00e1 condenado as a\u00e7\u00f5es de Hannibal mas os Cartagineses, na sua maioria, responderam furiosamente as bruscas exig\u00eancias romanas. Negaram-se a reconhecer o tratado do Ebro, dizendo que nunca o tinham ratificado, citaram o exemplo de Catulo, que em 241 submetera os termos de paz a aprecia\u00e7\u00e3o de Roma, e contestaram a sua obrigatoriedade de terem que reconhecer qualquer rela\u00e7\u00e3o entre Roma e Sagunto.\n\nReza a hist\u00f3ria que F\u00e1bio se plantou no meio da c\u00e2mara e anunciou que trazia nas dobras da toga a paz e a guerra, e que deixaria cair a que os Cartagineses escolhessem.\n\nOs \u00e2nimos dos senadores p\u00fanicos exaltaram-se e o sufeta presidente gritou-lhe que escolhesse ele. Quando F\u00e1bio respondeu que deixava cair a guerra, o sal\u00e3o encheu-se com um grande grito de \u201cAceitamos\u201d.\n\nAssim foi declarada a guerra, mas talvez j\u00e1 fosse inevit\u00e1vel. Regressado aos aquartelamentos de Inverno depois da queda de Sagunto, Hannibal fez seguramente preparativos para a invas\u00e3o da It\u00e1lia, e tamb\u00e9m \u00e9 bastante poss\u00edvel que os Comitia Centuriata j\u00e1 tivessem votado a favor da guerra caso os embaixadores n\u00e3o conseguissem uma resposta satisfat\u00f3ria de Cartago.\n\nPolibio discute com algum detalhe as causas subjacentes \u00e0 retoma das hostilidades e conclui que foram tr\u00eas os fatores principais.\n\nO primeiro foi o ressentimento ou a raiva de Am\u00edlcar Barca no fim da Primeira Guerra P\u00fanica, ao ser for\u00e7ado a capitular apesar de invito na Sic\u00edlia. O segundo fator \u2013 e o mais importante \u2013 foi a descarada conquista romana da Sardenha, em 238, quando Cartago ainda se encontrava abalada pela desordem da Revolta dos Mercen\u00e1rios. Esta humilha\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de aumentar o ressentimento de Am\u00edlcar, propalou o \u00f3dio a Roma a toda a popula\u00e7\u00e3o p\u00fanica. Foi com o objetivo de construir uma base de poder para usar contra Roma que Am\u00edlcar se deslocou para a Hisp\u00e2nia, lan\u00e7ando-se de corpo e alma num programa de expans\u00e3o. Os \u00eaxitos da sua fam\u00edlia na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica constitu\u00edram a terceira causa, pois o crescimento do poderio cartagin\u00eas encorajou os P\u00fanicos a julgarem-se suficientemente fortes para derrotarem a sua antiga rival.\n\nPolibio sustenta a sua vis\u00e3o da motiva\u00e7\u00e3o de Am\u00edlcar com um epis\u00f3dio narrado por Hannibal na corte do rei sel\u00eaucida Antioco III, na d\u00e9cada de 190. Pouco antes de partir para assumir o comando na Hisp\u00e2nia, Am\u00edlcar Barca sacrificou no altar de uma divindade a que Polibio chama Zeus e L\u00edvio designa por J\u00fapiter, mas tratava-se provavelmente de BaaI Shamin. Recebendo sinais favor\u00e1veis, chamou junto de si o seu filho Hannibal, ent\u00e3o com nove anos de idade, e perguntou-lhe se gostaria de o acompanhar na expedi\u00e7\u00e3o. O garoto, que provavelmente vira poucas vezes o pai durante os seus primeiros anos de vida, respondeu entusiasticamente, implorando-lhe autoriza\u00e7\u00e3o para ir com ele.\n\nAm\u00edlcar colocou a m\u00e3o do rapaz na vitima sacrificial e obrigou-o a jurar solenemente nunca ser amigo dos Romanos. Hannibal contou esta hist\u00f3ria para convencer Antioco de que n\u00e3o estava conluiado com os Romanos, que eram inimigos do rei, e dado que Polibio a recebeu em terceira m\u00e3o \u2013 na melhor das hip\u00f3teses -, \u00e9 imposs\u00edvel avaliar a sua veracidade. Na vers\u00e3o romana, que \u00e9 posterior, o juramento torna-se mais severo, com o garoto prometendo inimizade eterna a Roma.\n\nNa vers\u00e3o dos acontecimentos dada por Polibio, Hannibal herda do pai a guerra contra Roma, do mesmo modo que Alexandre Magno realizaria a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 P\u00e9rsia planejada por Filipe II, seu pai.\n\nDurante muito tempo, os historiadores modernos aceitaram esta interpreta\u00e7\u00e3o e alguns foram mais longe, afirmando que o plano de invadir a It\u00e1lia pelos Alpes e at\u00e9 as t\u00e1ticas de combate de Hannibal poder\u00e3o ter sido concebidas pelo pai. Mais recentemente, a ideia de que a guerra foi um projeto premeditado dos Barcas caiu em desfavor, em parte porque os historiadores tem geralmente relut\u00e2ncia em atribuir acontecimentos importantes aos humores e a\u00e7\u00f5es dos l\u00edderes, preferindo procurar a explica\u00e7\u00e3o em tend\u00eancias mais gerais. O debate tem incidido, com mais frequ\u00eancia, nos pormenores e na cronologia dos acontecimentos que conduziram \u00e0 guerra, dado que Polibio \u00e9 vago nesta mat\u00e9ria, enquanto que as outras fontes que possu\u00edmos s\u00e3o de question\u00e1vel credibilidade.\n\nDe import\u00e2ncia fundamental \u00e9 a quest\u00e3o de saber o que esperavam conseguir na Hisp\u00e2nia os Cartagineses liderados pelos Barcas, e tamb\u00e9m aqui temos que lamentar a aus\u00eancia de fontes ilustrativas da perspectiva p\u00fanica.\n\nTem-se partido do principio de que a perda de territ\u00f3rios rent\u00e1veis na Sic\u00edlia e na Sardenha for\u00e7ou Cartago a procurar receitas noutros locais, e as minas de prata ib\u00e9ricas s\u00e3o ami\u00fade citadas neste contexto.\n\n\u00c9 certo que Am\u00edlcar colocou muitas delas sob controlo p\u00fanico, e embora tenham sido necess\u00e1rios v\u00e1rios anos para dar inicio \u00e0 sua explora\u00e7\u00e3o, isto permitiu \u00e0 sua fam\u00edlia cunhar v\u00e1rias series de moedas com um teor de prata especialmente elevado. Noutros aspectos, \u00e9 dif\u00edcil perceber como \u00e9 que a expans\u00e3o na Hisp\u00e2nia permitiu uma explora\u00e7\u00e3o mais lucrativa dos seus recursos do que atrav\u00e9s das comunidades p\u00fanicas presentes na regi\u00e3o. No curto prazo, v\u00e1rias campanhas bem sucedidas geraram certamente receitas consider\u00e1veis, parte das quais poder\u00e1 ter chegado \u00e0s m\u00e3os do Estado \u2013 daqui a resposta de Am\u00edlcar, quando a embaixada romana exigiu saber porque travava ele tantas guerras de conquista, de que necessitava de anexar terras para ter lucros com que pagar a divida de guerra p\u00fanica a Roma.\n\nUma grande parte dos dividendos restantes das campanhas foi para pagar e aumentar o ex\u00e9rcito na Hisp\u00e2nia. H\u00e1 muito que os oficiais p\u00fanicos recrutavam soldados hisp\u00e2nicos, mas a prov\u00edncia b\u00e1rcida assumiu o controle sobre grande parte desta enorme reserva de recursos humanos.\n\nAs comunidades da Hisp\u00e2nia produziam um excedente de jovens que n\u00e3o podiam obter o seu sustento da terra e era frequente tonarem-se bandidos ou mercen\u00e1rios. Em pelo menos uma ocasi\u00e3o, Am\u00edlcar recrutou para o seu ex\u00e9rcito guerreiros inimigos capturados, dado que a remo\u00e7\u00e3o deste elemento da sociedade tornava as conquistas mais seguras. Os ex\u00e9rcitos da Primeira\u00a0<strong>Guerra P\u00fanica<\/strong>\u00a0tinham sido predominantemente africanos, mas embora muitos destes soldados ainda estivessem no ativo, na Segunda Guerra P\u00fanica o seu n\u00famero seria ultrapassado, de longe, pelos Hisp\u00e2nicos.\n\nNa sua maioria, estes guerreiros hisp\u00e2nicos n\u00e3o serviriam como mercen\u00e1rios, por dinheiro, mas sim na qualidade de aliados.\n\nA Hisp\u00e2nia proporcionou aos Barcas e \u2013 dependendo da perspectiva que se tenha da independ\u00eancia do seu poder \u2013 a Cartago uma for\u00e7a militar formid\u00e1vel e a riqueza para a sustentar.\n\nEmbora este recurso tenha permitido a Hannibal prosseguir a guerra com tanta efic\u00e1cia, isto n\u00e3o significa necessariamente que tenha sido criado para a fazer.\n\nPoder\u00e1 argumentar-se que o incremento do poderio militar p\u00fanico foi essencialmente defensivo, dando-lhe alguma prote\u00e7\u00e3o contra atos romanos t\u00e3o arbitr\u00e1rios como o roubo da Sardenha.\n\nA perda da guerra contra Roma e os acontecimentos que se lhe seguiram foram claramente um grande golpe para o orgulho de um imp\u00e9rio poderoso.\n\nA empresa hisp\u00e2nica poderia simplesmente ter sido uma tentativa de reafirma\u00e7\u00e3o da sua independ\u00eancia. Contudo, para validar esta afirma\u00e7\u00e3o seria necess\u00e1rio acreditar que o ataque de Hannibal a Sagunto foi uma mera declara\u00e7\u00e3o de revivalismo do poderio p\u00fanico, que n\u00e3o contava provocar uma guerra com Roma.\n\nA rapidez com que Hannibal deu in\u00edcio aos colossais preparativos para a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia torna esta hip\u00f3tese extremamente improv\u00e1vel.\n\nOs Romanos parecem ter sentido sempre algum nervosismo perante as atividades dos Barcas na Hisp\u00e2nia, como comprova o n\u00famero de embaixadas que a\u00ed enviaram.\n\nA\u00a0<strong>Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong>\u00a0foi claramente uma heran\u00e7a do primeiro conflito, que terminou subitamente, com ambos os beligerantes quase no mesmo n\u00edvel de exaust\u00e3o.\n\nOs Romanos esperavam que as guerras que travavam se saldassem pela vit\u00f3ria completa das suas armas, com o ex-inimigo deixando de constituir uma amea\u00e7a ao ser geralmente absorvido na qualidade de aliado subordinado. Fosse qual fosse a autonomia interna que preservavam, os aliados n\u00e3o estavam autorizados a conduzir uma politica externa independente, e muito menos uma que entrasse em conflito com os interesses de Roma. Em 241, Cartago era demasiado grande e estava demasiado longe para ser absorvida por Roma do mesmo modo que acontecera grande parte da It\u00e1lia, mas mesmo assim os Romanos negaram-se a trat\u00e1-la como igual nas d\u00e9cadas que se seguiram \u00e0 guerra. A Sardenha deu corpo a um exemplo gritante desta atitude, com os Cartagineses obrigados a curvarem-se perante uma exig\u00eancia injusta, e as repetidas interven\u00e7\u00f5es romanas na Hisp\u00e2nia foram outro sintoma.\n\nEmbora o tratado do Ebro possa n\u00e3o ter imposto grandes limites a expans\u00e3o cartaginesa na Hisp\u00e2nia, deixou bem claro que os Romanos se sentiam no direito de imporem restri\u00e7\u00f5es as atividades p\u00fanicas longe de territ\u00f3rio romano.\n\nA aceita\u00e7\u00e3o de uma liga\u00e7\u00e3o com Sagunto recordou aos Cartagineses que os Romanos n\u00e3o se submetiam aos mesmos constrangimentos.\n\nO pagamento anual da indeniza\u00e7\u00e3o era uma lembran\u00e7a constante da derrota de Cartago, mas estaria provavelmente conclu\u00eddo em meados da d\u00e9cada de 220, e foi talvez nesta altura que Roma se come\u00e7ou a interessar cada vez mais pela Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.\n\nUm antigo inimigo que aparentasse estar a converter-se de novo numa pot\u00eancia independente e rival seria considerado pelos Romanos uma amea\u00e7a inequ\u00edvoca, independentemente da realidade da situa\u00e7\u00e3o militar.\n\nAs interven\u00e7\u00f5es das embaixadas romanas serviram para recordar a Cartago o seu estatuto. At\u00e9 219, os Cartagineses cederam sempre perante as exig\u00eancias romanas.\n\n\u00c9 muit\u00edssimo prov\u00e1vel que o Senado contasse que o fizessem de novo quando a delega\u00e7\u00e3o disse a Hannibal para n\u00e3o atacar Sagunto, e a surpresa dos senadores quando ele ignorou a proibi\u00e7\u00e3o ajuda a explicar porque \u00e9 que os Romanos n\u00e3o enviaram nenhuma ajuda a cidade.\n\nOs Cartagineses n\u00e3o viam qualquer raz\u00e3o para se comportarem como um aliado subordinado de Roma. A sua cultura militar era diferente da romana e n\u00e3o esperava que os desfechos das guerras fossem t\u00e3o definitivos.\n\nAl\u00e9m do mais, o seu poder real n\u00e3o fora t\u00e3o enfraquecido pela derrota de 241 como a atitude romana sugeria, especialmente depois de Cartago ter recuperado dos custos da guerra e da agita\u00e7\u00e3o da Revolta dos Mercen\u00e1rios. Cartago ainda era um Estado grande e rico, com extensos territ\u00f3rios na \u00c1frica e um reino em expans\u00e3o na Hisp\u00e2nia. N\u00e3o existiam bons motivos para que os cidad\u00e3os p\u00fanicos considerassem a sua cidade inferior a Roma, e \u00e9 compreens\u00edvel o seu ressentimento face a recusa dos Romanos de reconhecerem esta realidade. Ambos os Estados possu\u00edam amplos recursos para fazerem a guerra e desconfiavam um do outro.\n\nNestas circunst\u00e2ncias, a retoma das hostilidades afigura-se menos surpreendente.\n\nO desejo de se reafirmarem como pot\u00eancia independente era t\u00e3o natural para os Cartagineses como aparentemente amea\u00e7ador para os Romanos. Alguns indiv\u00edduos poder\u00e3o ter desejado e planejado a guerra.\n\nHannibal era um jovem nobre a frente de um ex\u00e9rcito poderoso e estava seguro da sua capacidade para o comandar. Os autores antigos explicam sempre as grandes guerras como inspiradas pela \u00e2nsia de gloria de reis, imperadores e pr\u00edncipes, e far\u00edamos mal em rejeitar Iiminarmente esta vis\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel que Hannibal tenha procurado uma guerra, e n\u00e3o restam d\u00favidas de que a aceitou prontamente e que a travou com consider\u00e1vel entusiasmo. Poderia certamente existir em Cartago quem se opusesse ao jovem general e desejasse a paz, mas a verdade \u00e9 que a maioria da elite n\u00e3o via motivos para que o renovado Estado p\u00fanico se submetesse a exig\u00eancias romanas t\u00e3o arrogantes.\n\n\u00c9 imposs\u00edvel dizer se aquiesceram nas atividades de Hannibal que provocaram a crise, ou se as ter\u00e3o mesmo ordenado<strong>.<\/strong>Existiram decerto momentos de tens\u00e3o depois da Primeira Guerra P\u00fanica, mas as rela\u00e7\u00f5es entre Roma e Cartago n\u00e3o eram inteiramente hostis. Renovado o interc\u00e2mbio comercial, os mercadores p\u00fanicos eram uma vis\u00e3o t\u00e3o familiar em Roma como os italianos parecem ter sido em Cartago.\n\nCom efeito, ter\u00e1 sido durante estes anos que foram criados la\u00e7os de hospitalidade \u2013 ou ressuscitados os anteriores a 265 -, uma caracter\u00edstica t\u00e3o comum das rela\u00e7\u00f5es internacionais no mundo antigo, ligando fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas p\u00fanicas e romanas. A paz conclu\u00edda em 241 durou vinte e tr\u00eas anos, se descontarmos a amea\u00e7a romana de reabrir as hostilidades por causa da Sardenha, em 238, e terminou quando Hannibal Barca, comandante supremo cartagin\u00eas na Hisp\u00e2nia, atacou a cidade ib\u00e9rica de Sagunto, que estava sob prote\u00e7\u00e3o romana.\n\nNenhuma das partes se mostrou muito relutante em entrar em guerra, n\u00e3o obstante as mem\u00f3rias do conflito anterior que fora renhido e dispendioso.\n\nOs motivos que as levaram a guerra t\u00eam sido tema de intensos debates desde ent\u00e3o, debates que procuram quase sempre atribuir a culpa a uma das partes. E com igual frequ\u00eancia, os historiadores t\u00eam ca\u00eddo na armadilha de analisar os eventos em fun\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es modernos, esquecendo-se de que at\u00e9 Estados antigos mais politicamente avan\u00e7ados entravam em guerra com frequ\u00eancia e entusiasmo, em especial quando contavam vencer e imaginavam os benef\u00edcios que a vit\u00f3ria lhes traria.\n\nAntes de abordarmos estas quest\u00f5es, convir\u00e1 passarmos em revista \u00e0 sucess\u00e3o de acontecimentos que levaram \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de guerra por parte de Roma.\n\nProvavelmente em 226, Asdr\u00fabal aceitou as exig\u00eancias de emiss\u00e1rios romanos no sentido de os Cartagineses n\u00e3o atravessem o rio Ebro.\n\nA ideia de colocar uma fronteira f\u00edsica ao poder de um Estado era um conceito familiar a ambas as culturas. Nesse caso, n\u00e3o se tratou de uma grande restri\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o cora\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia p\u00fanica ainda estava muito longe do rio. Os argumentos de que o tratado definiu uma fronteira muito mais a sul n\u00e3o convencem, e s\u00e3o ainda menores os fundamentos para o comum pressuposto de que os Romanos se comprometeram a n\u00e3o intervir a sul do Ebro. De fato, nesta altura, o Estado romano carecia de qualquer liga\u00e7\u00e3o direta \u00e0 Hisp\u00e2nia, exceto se considerarmos que a sua aliada, Mass\u00edlia, tinha comunidades dependentes em Emp\u00f3rio e Rode.\n\nEm determinada altura, depois de 226, Roma associou-se \u00e0 cidade de Sagunto (a moderna Sagunto, perto de Val\u00eancia). Polibio diz-nos que isto aconteceu \u201calguns anos\u201d antes da \u00e9poca de Hannibal.\n\nMas seria plaus\u00edvel a sua men\u00e7\u00e3o no tratado do Ebro se a liga\u00e7\u00e3o j\u00e1 existisse, dado que a cidade se localizava muito a sul do rio.\n\nA discuss\u00e3o sobre se existia ou n\u00e3o um tratado formal garantindo o estatuto de aliada a Sagunto ou se a cidade simplesmente requereu a prote\u00e7\u00e3o de Roma, como Utica tentara fazer durante a Guerra dos Mercen\u00e1rios, n\u00e3o \u00e9 relevante para o nosso prop\u00f3sito. A dada altura, o Senado romano foi solicitado a arbitrar a disputa interna da cidade, muito possivelmente entre fac\u00e7\u00f5es rivais adeptas de Roma e Cartago, e os enviados ordenaram a execu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios nobres saguntinos. Parecem \u00f3bvios para a cidade hisp\u00e2nica os atrativos de uma alian\u00e7a com Roma. Sagunto, uma cidade-estado de import\u00e2ncia local, assistiria com preocupa\u00e7\u00e3o a expans\u00e3o da prov\u00edncia cartaginesa na sua dire\u00e7\u00e3o. O apoio romano oferecia a maior seguran\u00e7a poss\u00edvel contra o seu poderoso vizinho.\n\nO motivo pelo qual os Romanos aceitaram a alian\u00e7a \u00e9 menos claro e est\u00e1 estreitamente associado \u00e0 causa da guerra.\n\nEm 221, Hannibal, ent\u00e3o com 26 anos de idade, sucedeu ao cunhado e continuou a agressiva politica expansionista na Hisp\u00e2nia, levando a cabo opera\u00e7\u00f5es muito mais vastas do que os seus antecessores.\n\nConduziu os seus ex\u00e9rcitos contra as tribos da Hisp\u00e2nia Central, avan\u00e7ando bastante para norte, at\u00e9 regi\u00e3o da moderna Salamanca. Cerca de 220-219, eclodiu uma disputa entre Sagunto e uma tribo vizinha, acusada de realizar incurs\u00f5es no seu territ\u00f3rio. Os pormenores s\u00e3o obscuros e at\u00e9 o nome do povo em causa \u00e9 incerto, mas a tribo era aliada de Cartago e recebeu o apoio de Hannibal. No Inverno, uma embaixada romana apresentou-se a Hannibal, em Nova Cartago, e recordou-lhe a exist\u00eancia do tratado do Ebro, avisando-o tamb\u00e9m para n\u00e3o atacar Sagunto.\n\nA embaixada foi recebida com extrema frieza e deslocou-se a Cartago para repetir as suas exig\u00eancias. O jovem general tamb\u00e9m pediu instru\u00e7\u00f5es a Cartago, e na Primavera conduziu o seu exercito contra a cidade.\n\nSagunto situava-se numa posi\u00e7\u00e3o forte, no cimo de uma colina, a quil\u00f3metro e meio do mar (No Outono de 1811,os defensores espanh\u00f3is de uma fortaleza improvisada entre as ruinas ib\u00e9ricas, romanas e mouras da cidade repeliram v\u00e1rios ataques lan\u00e7ados por um dos mais capazes comandantes de Napole\u00e3o, Suchet.) Hannibal levou oito meses para se apoderar da cidade, mas desde o inicio foi claro que a sua inten\u00e7\u00e3o era toma-la de assalto e n\u00e3o submet\u00ea-la pela fome.\n\nAs suas t\u00e1cticas foram muito mais agressivas do que as adotadas pelos Cartagineses em qualquer um dos cercos da Primeira Guerra P\u00fanica, pelo que as baixas tamb\u00e9m foram mais elevadas.\n\nL\u00edvio diz mesmo que o pr\u00f3prio Hannibal foi ferido ao dirigir um ataque demasiado pr\u00f3ximo da peleja.\n\nOs Romanos nada fizeram para auxiliar os Saguntinos depois de iniciado o assedio. L\u00edvio afirma que enviaram outra embaixada a Hannibal, mas a sua cronologia \u00e9 irremediavelmente confusa neste ponto e, dado que Polibio n\u00e3o menciona semelhante iniciativa, mais vale rejeit\u00e1-la. Sagunto caiu em finais de 219 ou nas primeiras semanas de 218, e a noticia poder\u00e1 ter chegado a Roma num m\u00eas.\n\nNo fim do Inverno, foi enviada a Cartago uma embaixada que inclu\u00eda os dois c\u00f4nsules de sa\u00edda, L\u00facio Emilio Paulo e Marco L\u00edvio Salinator. L\u00edvio diz que a delega\u00e7\u00e3o era chefiada por Quinto F\u00e1bio M\u00e1ximo, ficando assim completo o trio que desempenharia papeis de relevo na guerra que se avizinhava, mas parece mais prov\u00e1vel que o l\u00edder fosse Marco F\u00e1bio Bute\u00e3o, o experiente ex-censor que combatera na Sic\u00edlia quando era c\u00f4nsul, em 245. A embaixada protestou contra os atos de Hannibal e exigiu saber se ele agia com a aprova\u00e7\u00e3o do senado cartagin\u00eas.\n\nOs Cartagineses viram-se confrontados com as alternativas de condenarem Hannibal e entregarem-no e aos seus oficiais superiores aos Romanos para serem punidos, ou de entrarem em guerra contra Roma.\n\nO estilo de diplomacia praticado pelas embaixadas romanas raramente parece ter sido muito sutil, mas neste caso os Romanos eram claramente obrigados a vingarem um ataque contra um aliado.\n\nNuma vers\u00e3o da hist\u00f3ria, que refere um poderoso partido oposto aos Barcas, um certo Han\u00e3o ter\u00e1 condenado as a\u00e7\u00f5es de Hannibal mas os Cartagineses, na sua maioria, responderam furiosamente as bruscas exig\u00eancias romanas. Negaram-se a reconhecer o tratado do Ebro, dizendo que nunca o tinham ratificado, citaram o exemplo de Catulo, que em 241 submetera os termos de paz a aprecia\u00e7\u00e3o de Roma, e contestaram a sua obrigatoriedade de terem que reconhecer qualquer rela\u00e7\u00e3o entre Roma e Sagunto.\n\nReza a hist\u00f3ria que F\u00e1bio se plantou no meio da c\u00e2mara e anunciou que trazia nas dobras da toga a paz e a guerra, e que deixaria cair a que os Cartagineses escolhessem.\n\nOs \u00e2nimos dos senadores p\u00fanicos exaltaram-se e o sufeta presidente gritou-lhe que escolhesse ele. Quando F\u00e1bio respondeu que deixava cair a guerra, o sal\u00e3o encheu-se com um grande grito de \u201cAceitamos\u201d.\n\nAssim foi declarada a guerra, mas talvez j\u00e1 fosse inevit\u00e1vel. Regressado aos aquartelamentos de Inverno depois da queda de Sagunto, Hannibal fez seguramente preparativos para a invas\u00e3o da It\u00e1lia, e tamb\u00e9m \u00e9 bastante poss\u00edvel que os Comitia Centuriata j\u00e1 tivessem votado a favor da guerra caso os embaixadores n\u00e3o conseguissem uma resposta satisfat\u00f3ria de Cartago.\n\nPolibio discute com algum detalhe as causas subjacentes \u00e0 retoma das hostilidades e conclui que foram tr\u00eas os fatores principais.\n\nO primeiro foi o ressentimento ou a raiva de Am\u00edlcar Barca no fim da Primeira Guerra P\u00fanica, ao ser for\u00e7ado a capitular apesar de invito na Sic\u00edlia. O segundo fator \u2013 e o mais importante \u2013 foi a descarada conquista romana da Sardenha, em 238, quando Cartago ainda se encontrava abalada pela desordem da Revolta dos Mercen\u00e1rios. Esta humilha\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de aumentar o ressentimento de Am\u00edlcar, propalou o \u00f3dio a Roma a toda a popula\u00e7\u00e3o p\u00fanica. Foi com o objetivo de construir uma base de poder para usar contra Roma que Am\u00edlcar se deslocou para a Hisp\u00e2nia, lan\u00e7ando-se de corpo e alma num programa de expans\u00e3o. Os \u00eaxitos da sua fam\u00edlia na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica constitu\u00edram a terceira causa, pois o crescimento do poderio cartagin\u00eas encorajou os P\u00fanicos a julgarem-se suficientemente fortes para derrotarem a sua antiga rival.\n\nPolibio sustenta a sua vis\u00e3o da motiva\u00e7\u00e3o de Am\u00edlcar com um epis\u00f3dio narrado por Hannibal na corte do rei sel\u00eaucida Antioco III, na d\u00e9cada de 190. Pouco antes de partir para assumir o comando na Hisp\u00e2nia, Am\u00edlcar Barca sacrificou no altar de uma divindade a que Polibio chama Zeus e L\u00edvio designa por J\u00fapiter, mas tratava-se provavelmente de BaaI Shamin. Recebendo sinais favor\u00e1veis, chamou junto de si o seu filho Hannibal, ent\u00e3o com nove anos de idade, e perguntou-lhe se gostaria de o acompanhar na expedi\u00e7\u00e3o. O garoto, que provavelmente vira poucas vezes o pai durante os seus primeiros anos de vida, respondeu entusiasticamente, implorando-lhe autoriza\u00e7\u00e3o para ir com ele.\n\nAm\u00edlcar colocou a m\u00e3o do rapaz na vitima sacrificial e obrigou-o a jurar solenemente nunca ser amigo dos Romanos. Hannibal contou esta hist\u00f3ria para convencer Antioco de que n\u00e3o estava conluiado com os Romanos, que eram inimigos do rei, e dado que Polibio a recebeu em terceira m\u00e3o \u2013 na melhor das hip\u00f3teses -, \u00e9 imposs\u00edvel avaliar a sua veracidade. Na vers\u00e3o romana, que \u00e9 posterior, o juramento torna-se mais severo, com o garoto prometendo inimizade eterna a Roma.\n\nNa vers\u00e3o dos acontecimentos dada por Polibio, Hannibal herda do pai a guerra contra Roma, do mesmo modo que Alexandre Magno realizaria a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 P\u00e9rsia planejada por Filipe II, seu pai.\n\nDurante muito tempo, os historiadores modernos aceitaram esta interpreta\u00e7\u00e3o e alguns foram mais longe, afirmando que o plano de invadir a It\u00e1lia pelos Alpes e at\u00e9 as t\u00e1ticas de combate de Hannibal poder\u00e3o ter sido concebidas pelo pai. Mais recentemente, a ideia de que a guerra foi um projeto premeditado dos Barcas caiu em desfavor, em parte porque os historiadores tem geralmente relut\u00e2ncia em atribuir acontecimentos importantes aos humores e a\u00e7\u00f5es dos l\u00edderes, preferindo procurar a explica\u00e7\u00e3o em tend\u00eancias mais gerais. O debate tem incidido, com mais frequ\u00eancia, nos pormenores e na cronologia dos acontecimentos que conduziram \u00e0 guerra, dado que Polibio \u00e9 vago nesta mat\u00e9ria, enquanto que as outras fontes que possu\u00edmos s\u00e3o de question\u00e1vel credibilidade.\n\nDe import\u00e2ncia fundamental \u00e9 a quest\u00e3o de saber o que esperavam conseguir na Hisp\u00e2nia os Cartagineses liderados pelos Barcas, e tamb\u00e9m aqui temos que lamentar a aus\u00eancia de fontes ilustrativas da perspectiva p\u00fanica.\n\nTem-se partido do principio de que a perda de territ\u00f3rios rent\u00e1veis na Sic\u00edlia e na Sardenha for\u00e7ou Cartago a procurar receitas noutros locais, e as minas de prata ib\u00e9ricas s\u00e3o ami\u00fade citadas neste contexto.\n\n\u00c9 certo que Am\u00edlcar colocou muitas delas sob controlo p\u00fanico, e embora tenham sido necess\u00e1rios v\u00e1rios anos para dar inicio \u00e0 sua explora\u00e7\u00e3o, isto permitiu \u00e0 sua fam\u00edlia cunhar v\u00e1rias series de moedas com um teor de prata especialmente elevado. Noutros aspectos, \u00e9 dif\u00edcil perceber como \u00e9 que a expans\u00e3o na Hisp\u00e2nia permitiu uma explora\u00e7\u00e3o mais lucrativa dos seus recursos do que atrav\u00e9s das comunidades p\u00fanicas presentes na regi\u00e3o. No curto prazo, v\u00e1rias campanhas bem sucedidas geraram certamente receitas consider\u00e1veis, parte das quais poder\u00e1 ter chegado \u00e0s m\u00e3os do Estado \u2013 daqui a resposta de Am\u00edlcar, quando a embaixada romana exigiu saber porque travava ele tantas guerras de conquista, de que necessitava de anexar terras para ter lucros com que pagar a divida de guerra p\u00fanica a Roma.\n\nUma grande parte dos dividendos restantes das campanhas foi para pagar e aumentar o ex\u00e9rcito na Hisp\u00e2nia.\n\nH\u00e1 muito que os oficiais p\u00fanicos recrutavam soldados hisp\u00e2nicos, mas a prov\u00edncia b\u00e1rcida assumiu o controle sobre grande parte desta enorme reserva de recursos humanos.\n\nAs comunidades da Hisp\u00e2nia produziam um excedente de jovens que n\u00e3o podiam obter o seu sustento da terra e era frequente tonarem-se bandidos ou mercen\u00e1rios. Em pelo menos uma ocasi\u00e3o, Am\u00edlcar recrutou para o seu ex\u00e9rcito guerreiros inimigos capturados, dado que a remo\u00e7\u00e3o deste elemento da sociedade tornava as conquistas mais seguras.\n\nOs ex\u00e9rcitos da Primeira Guerra P\u00fanica tinham sido predominantemente africanos, mas embora muitos destes soldados ainda estivessem no ativo, na Segunda Guerra P\u00fanica o seu n\u00famero seria ultrapassado, de longe, pelos Hisp\u00e2nicos. Na sua maioria, estes guerreiros hisp\u00e2nicos n\u00e3o serviriam como mercen\u00e1rios, por dinheiro, mas sim na qualidade de aliados.\n\nA Hisp\u00e2nia proporcionou aos Barcas e \u2013 dependendo da perspectiva que se tenha da independ\u00eancia do seu poder \u2013 a Cartago uma for\u00e7a militar formid\u00e1vel e a riqueza para a sustentar.\n\nEmbora este recurso tenha permitido a Hannibal prosseguir a guerra com tanta efic\u00e1cia, isto n\u00e3o significa necessariamente que tenha sido criado para a fazer.\n\nPoder\u00e1 argumentar-se que o incremento do poderio militar p\u00fanico foi essencialmente defensivo, dando-lhe alguma prote\u00e7\u00e3o contra atos romanos t\u00e3o arbitr\u00e1rios como o roubo da Sardenha.\n\nA perda da guerra contra Roma e os acontecimentos que se lhe seguiram foram claramente um grande golpe para o orgulho de um imp\u00e9rio poderoso.\n\nA empresa hisp\u00e2nica poderia simplesmente ter sido uma tentativa de reafirma\u00e7\u00e3o da sua independ\u00eancia. Contudo, para validar esta afirma\u00e7\u00e3o seria necess\u00e1rio acreditar que o ataque de Hannibal a Sagunto foi uma mera declara\u00e7\u00e3o de revivalismo do poderio p\u00fanico, que n\u00e3o contava provocar uma guerra com Roma.\n\nA rapidez com que Hannibal deu in\u00edcio aos colossais preparativos para a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia torna esta hip\u00f3tese extremamente improv\u00e1vel.\n\nOs Romanos parecem ter sentido sempre algum nervosismo perante as atividades dos Barcas na Hisp\u00e2nia, como comprova o n\u00famero de embaixadas que a\u00ed enviaram.\n\nA\u00a0<strong>Segunda Guerra P\u00fanica\u00a0<\/strong>foi claramente uma heran\u00e7a do primeiro conflito, que terminou subitamente, com ambos os beligerantes quase no mesmo n\u00edvel de exaust\u00e3o.\n\n<strong>Antecedentes da Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong>\n\nOs Romanos reagiram com muita lentid\u00e3o ao ataque a Sagunto, provavelmente em parte, como vimos, por esperarem que os Cartagineses se submetessem \u00e0 press\u00e3o diplom\u00e1tica. Al\u00e9m disso, a pr\u00e1tica b\u00e9lica romana ainda estava muito ligada ao ano consular. Quando o Senado soube que Sagunto estava sitiada, os c\u00f4nsules desse ano j\u00e1 se encontravam no estrangeiro, no comando da esquadra e do ex\u00e9rcito em campanha na Il\u00edria. Esta guerra ainda estava em curso, e mesmo que um c\u00f4nsul fosse chamado levaria algum tempo a recrutar um novo ex\u00e9rcito. Por conseguinte, a \u00e9poca de campanha j\u00e1 estaria bastante adiantada quando um ex\u00e9rcito romano chegasse a Hisp\u00e2nia, e serlhe-ia dif\u00edcil conseguir alguma coisa antes que o Inverno pusesse fim \u00e0s opera\u00e7\u00f5es. Era mais sensato e, pelos padr\u00f5es romanos, pr\u00f3prio para o Senado aguardar e atribuir a importante guerra contra Cartago como responsabilidade especial aos c\u00f4nsules de 218, que assumiriam o cargo em Mar\u00e7o. Obviamente, isto de pouco serviu aos Saguntinos, que lutaram sozinhos at\u00e9 ao fim contra um inimigo avassalador mas \u00e9 duvidoso que lhes pudesse ter sido enviado qualquer auxilio eficaz.\n\nO plano do Senado para a conduta da guerra era simples e direto, de um modo caracteristicamente romano. Os c\u00f4nsules operariam separadamente, um indo para a Hisp\u00e2nia para fazer frente a Hannibal, enquanto o outro iria para a Sic\u00edlia, de onde lan\u00e7aria uma invas\u00e3o ao Norte da \u00c1frica. Assim, o general inimigo que provocara a guerra seria derrotado em combate e as autoridades cartaginesas que o tinham apoiado ver-se-iam a bra\u00e7os com um ataque direto \u00e0 sua cidade.\n\nAo confrontarem o inimigo nos seus pontos mais fortes, os Romanos colocavam uma forte press\u00e3o sobre os pilares da sua oposi\u00e7\u00e3o. Cartago quase se vergara sob esta press\u00e3o em 256-255, e n\u00e3o havia raz\u00f5es para pensar que n\u00e3o voltaria a faze-lo. De fato, dada a tend\u00eancia de Cartago de ceder \u00e0s amea\u00e7as romanas nas d\u00e9cadas entre as guerras, os Romanos ter\u00e3o contado que seria menos resistente em caso de guerra.\n\nQuanto aos c\u00f4nsules de 218, P\u00fablico Corn\u00e9lio Cipi\u00e3o recebeu a Hisp\u00e2nia como prov\u00edncia e Tib\u00e9rio Sempr\u00f4nio Longo a Sic\u00edlia e a \u00c1frica. Foram criadas seis legi\u00f5es para esse ano, consistindo cada uma de 4000 infantes e 300 cavaleiros. Foi atribu\u00eddo a cada c\u00f4nsul um ex\u00e9rcito consular padr\u00e3o de duas legi\u00f5es apoiadas por duas alas latinas. No total, Cipi\u00e3o recebeu 14.000 infantes e 1.600 cavaleiros aliados, e Longo 16.000 infantes e 18000 cavaleiros. As restantes legi\u00f5es, juntamente com 10.000 infantes e 1.000 cavaleiros aliados, foram enviadas para a G\u00e1lia Cisalpina, sob o comando do Pretor L\u00facio M\u00e2nlio Vulsao.\n\nA prontid\u00e3o para alterar o tamanho dos contingentes aliados de modo a lidar com a escala do problema demonstra mais uma vez que o sistema militar romano n\u00e3o era t\u00e3o r\u00edgido como \u00e0s vezes se julga.\n\nA avalia\u00e7\u00e3o que o Senado fez da tarefa em m\u00e3os refletiu-se tamb\u00e9m na distribui\u00e7\u00e3o dos recursos navais. Longo, cuja projetada invas\u00e3o da \u00c1frica contaria possivelmente com a oposi\u00e7\u00e3o de uma poderosa esquadra p\u00fanica, recebeu 160 quinquerremes e vinte navios mais ligeiros.\n\nCipi\u00e3o teria muito menos probabilidades de encontrar uma forte armada inimiga ao deslocar o seu exercito para a Hisp\u00e2nia, pelo que l\u00e1 foram atribu\u00eddos sessenta \u201ccincos\u201d.\n\nA recente guerra na Il\u00edria ter\u00e1 garantido a boa condi\u00e7\u00e3o da marinha romana.\n\nAntes que pudesse ser empreendida qualquer movimenta\u00e7\u00e3o contra Cartago, eclodiu uma rebeli\u00e3o na G\u00e1lia Cisalpina, novamente provocada pelo ressentimento das tribos perante as incurs\u00f5es dos colonos romanos.\n\nOs Boios e os Insubres expulsaram-nos das col\u00f4nias de Cremona e Plac\u00eancia, que ainda n\u00e3o estavam fortificadas, e perseguiram-nos at\u00e9 a cidade de Mutina. Depois, os Gauleses plantaram-se junto s muralhas da urbe e deram in\u00edcio a um bloqueio. Tr\u00eas comiss\u00e1rios senatoriais, enviados para organizarem a distribui\u00e7\u00e3o de terras nas novas col\u00f4nias, foram presos ao tentarem negociar.\n\nPartiu imediatamente uma coluna de socorro, sob o comando do pretor M\u00e2nlio Vuls\u00e3o. Marchando rapidamente e negligenciando o reconhecimento do terreno, foi emboscada ao avan\u00e7ar por um trilho numa regi\u00e3o densamente arborizada e sofreu pesadas baixas \u2013 L\u00edvio afirma que se perderam 500 homens numa primeira emboscada e 700 e seis estandartes na segunda.\n\nO ex\u00e9rcito, muito maltratado, conseguiu chegar a uma cidadezinha chamada Taneto, onde ficou tamb\u00e9m bloqueado.\n\nA situa\u00e7\u00e3o era grave e a agita\u00e7\u00e3o na G\u00e1lia Cisalpina demasiado pr\u00f3xima de Roma para que o Senado a ignorasse at\u00e9 a conclus\u00e3o da guerra contra Cartago.\n\nO ex\u00e9rcito de Cipi\u00e3o estava a reunir-se no Norte de It\u00e1lia antes de partir para a Hisp\u00e2nia, pelo que o Senado ordenou a outro pretor, Gaio Atulio Serrano, que assumisse o comando de uma legi\u00e3o e 5000 soldados aliados e socorresse M\u00e2nlio, uma miss\u00e3o que ele cumpriu com rapidez e sem oposi\u00e7\u00e3o. Cipi\u00e3o recebeu ordens para recrutar uma nova legi\u00e3o e tropas aliadas adicionais para substituir estas unidades, mas n\u00e3o \u00e9 claro se o total avan\u00e7ado por L\u00edvio de seis legi\u00f5es constitu\u00eddas para esse ano inclui este contingente. A demora consequente significou o adiamento do avan\u00e7o para a Hispdnia. Entretanto, Longo rumou a Lilibeu, onde empreendeu grandes preparativos pana a expedi\u00e7\u00e3o africana. No entanto, a guerra n\u00e3o seria travada como o Senado contava.\n\nDurante a\u00a0<strong>Primeira Guerra P\u00fanica<\/strong>, os Cartagineses tinham invariavelmente respondido as movimenta\u00e7\u00f5es romanas em vez de tentarem eles pr\u00f3prios ditar o rumo da contenda.\n\nTinham sido sempre os seus oponentes a escalar o conflito e a procurar um resultado decisivo. Pois a Segunda Guerra P\u00fanica foi muito diferente desde o in\u00edcio, e a principal raz\u00e3o para que assim tenha sido prende-se com a influ\u00eancia de um homem, Hannibal Barca. Nas fontes, Hannibal \u00e9 apresentado como o autor de todas as decis\u00f5es cruciais para organizar o esfor\u00e7o b\u00e9lico p\u00fanico inicial, em 219-218, n\u00e3o s\u00f3 na Hisp\u00e2nia, mas tamb\u00e9m na \u00c1frica. Por norma, os Cartagineses interferiam muito pouco com os generais que nomeavam para as suas miss\u00f5es, chegando frequentemente ao ponto de n\u00e3o os apoiarem nas opera\u00e7\u00f5es subsequentes, mas os recursos ao dispor imediato do jovem general eram enormes. \u00c9 nesta altura, mais do que em qualquer outra, que Hannibal aparenta ser o senhor do principado semi-independente da Hisp\u00e2nia retratado por alguns estudiosos.\n\nA guerra eclodira a prop\u00f3sito de uma disputa local na Hisp\u00e2nia, com os Cartagineses deixando de reconhecer as restri\u00e7\u00f5es que os Romanos lhes tinham imposto na regi\u00e3o.\n\nOs Romanos esperavam claramente que os Cartagineses permanecessem no local e travassem uma guerra defensiva para protegerem o seu territ\u00f3rio, semelhan\u00e7a da que tinham travado na Sic\u00edlia.\n\nCom as for\u00e7as ao seu dispor, An\u00edbal encontrava-se numa posi\u00e7\u00e3o s\u00f3lida para enfrentar qualquer invas\u00e3o. De fato, beneficiaria de uma grande superioridade num\u00e9rica sobre o \u00fanico ex\u00e9rcito consular que Cipi\u00e3o ia conduzir para a Pen\u00ednsula, e derrot\u00e1-lo-ia facilmente se conseguisse for\u00e7\u00e1-lo ao combate. Contudo, a experi\u00eancia da Primeira Guerra P\u00fanica mostrara que a destrui\u00e7\u00e3o de uma esquadra ou de um ex\u00e9rcito romanos significaria simplesmente que seriam substitu\u00eddos por outros.\n\nA tenaz persist\u00eancia que os Romanos haviam demonstrado face a perdas colossais tornava improv\u00e1vel que desistissem rapidamente.\n\nQuanto mais se prolongasse a guerra na Hisp\u00e2nia, menos s\u00f3lidas pareceriam as conquistas dos Barcas.\n\nMuitas tribos tinham ficado atemorizadas face ao poderio militar p\u00fanico mas a sua lealdade poderia n\u00e3o perdurar na presen\u00e7a de um ex\u00e9rcito hostil cujos comandantes n\u00e3o poupariam seguramente esfor\u00e7os para seduzirem os chefes hisp\u00e2nicos.\n\nA pr\u00e1tica b\u00e9lica cartaginesa, mais tradicional, resistir ao inimigo at\u00e9 o seu poder come\u00e7ar a enfraquecer, na melhor das hip\u00f3teses, a perspectiva de um impasse prolongado ou, no pior dos cen\u00e1rios, a derrota quando o inimigo era Roma. Hannibal rejeitou a partida \u00e0 op\u00e7\u00e3o defensiva e decidiu que deveriam ser empreendidos todos os esfor\u00e7os para derrotar Roma.\n\nDado que as pesadas perdas sofridas por Roma no estrangeiro pouco tinham enfraquecido o seu poder, Roma teria que ser confrontada e vencida no seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, na It\u00e1lia.\n\nEm muitos aspectos, a invas\u00e3o da It\u00e1lia foi uma opera\u00e7\u00e3o marcadamente \u201cromana\u201d, aplicando diretamente uma for\u00e7a poderosa contra um ponto forte do inimigo.\n\nNeste sentido, talvez fosse de esperar que os Romanos tivessem ficado menos surpreendidos quando Hannibal escolheu esta op\u00e7\u00e3o, mas a forma de guerrear p\u00fanica, conhecida do passado, n\u00e3o indiciava uma iniciativa arrojada, especialmente tendo em conta as inerentes dificuldades de ordem pr\u00e1tica. Em 218, uma invas\u00e3o anf\u00edbia n\u00e3o era exequ\u00edvel.\n\nSem bases na Sic\u00edlia, at\u00e9 o Sul de It\u00e1lia ficava no limite m\u00e1ximo do alcance operacional de uma esquadra de gales operando a partir do Norte da \u00c1frica, e o poderio naval p\u00fanico na Hisp\u00e2nia n\u00e3o era substancial.\n\nEm qualquer dos casos, o desembarque numa costa hostil, provavelmente face \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o de uma poderosa marinha romana, era uma empresa extremamente arriscada e n\u00e3o \u00e9 de crer que pudesse ser desembarcado um ex\u00e9rcito suficientemente grande para operar com um m\u00ednimo de efic\u00e1cia.\n\nRestava a op\u00e7\u00e3o de uma invas\u00e3o terrestre a partir da Hisp\u00e2nia, mas as dificuldades eram formid\u00e1veis. A expedi\u00e7\u00e3o implicaria uma marcha de centenas de quil\u00f4metros pelo territ\u00f3rio de tribos neutrais \u2013 no melhor dos cen\u00e1rios \u2013 ou potencialmente hostis, e a travessia do importante obst\u00e1culo formado pelos Alpes. Na It\u00e1lia, o ex\u00e9rcito p\u00fanico n\u00e3o disporia de nenhuma base nem de mantimentos, e teria pela frente um n\u00famero crescente de inimigos. Foi uma empresa arriscada, e o fato de conhecermos a hist\u00f3ria n\u00e3o nos deve levar a ignorar o choque que os Romanos ter\u00e3o tido quando souberam que fora precisamente essa a op\u00e7\u00e3o de Hannibal.\n\nDepois da queda de Sagunto, Hannibal retirou para invernar em Nova Cartago, onde recompensou prodigamente os seus soldados com parte dos despojos.\n\nAs tropas hisp\u00e2nicas foram autorizadas a regressar aos seus lares, com ordens para se apresentarem no princ\u00edpio da Primavera. Prevendo corretamente as movimenta\u00e7\u00f5es romanas, Hannibal tomou medidas para melhorar as defesas da \u00c1frica e da Hisp\u00e2nia. Os n\u00fameros relativos \u00e0s for\u00e7as envolvidas s\u00e3o invulgarmente precisos pelos padr\u00f5es antigos, e Polibio diz-nos que provieram de uma inscri\u00e7\u00e3o erguida por ordem do pr\u00f3prio Hannibal durante a sua estada na It\u00e1lia. A \u00c1frica foi refor\u00e7ada com 13.850 infantes e 1200 cavaleiros ib\u00e9ricos, apoiados por 870 dos selvagens fundibul\u00e1rios das Baleares. Um pequeno destacamento destas tropas foi estacionado na cidade de Cartago, juntamente com 4000 infantes Il\u00edrios, que entregaram ref\u00e9ns como penhor do bom comportamento das suas comunidades.\n\nO grosso das for\u00e7as foi instalado na regi\u00e3o L\u00edbia conhecida por Metag\u00f4nia. Asdr\u00fabal, irm\u00e3o de Hannibal, recebeu o comando da prov\u00edncia hisp\u00e2nica, dando continuidade \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de governo pelos Barcas.\n\nAsdr\u00fabal parece ter sido um homem capaz e gozava indubitavelmente da confian\u00e7a do irm\u00e3o, mas outro motivo para a tomada desta decis\u00e3o poder\u00e1 ter sido a natureza pessoal da lealdade entre as tribos hisp\u00e2nicas.\n\nAl\u00e9m dos aliados que podiam ser recrutados na prov\u00edncia, Asdr\u00fabal recebeu um poderoso contingente de soldados africanos. No total, dispunha de vinte e um elefantes, 2500 cavaleiros (450 l\u00edbio-fen\u00edcios e l\u00edbios, 300 ilergetes e 1800 n\u00famidas oriundos de quatro tribos) e 12.650 infantes, na sua maioria l\u00edbios mas incluindo 300 ligures e 500 fundibul\u00e1rios das Baleares. O apoio naval era garantido por uma pequena esquadra de 50 \u201ccincos\u201d, 2 \u201cquatros\u201d e 5 \u201ctr\u00eas\u201d, mas apenas uma parte \u2013 trinta e duas quinquerremes e todas as trirremes \u2013 se encontrava devidamente guarnecida e em estado de prontid\u00e3o.\n\nO interc\u00e2mbio de soldados recrutados na Hisp\u00e2nia e na \u00c1frica era considerado um bom m\u00e9todo para garantir a sua lealdade, dificultando-lhes a possibilidade de desertarem e regressarem a casa.\n\nO grosso dos preparativos prendeu-se com a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia, congregando, segundo Polibio, o gigantesco total de 12.000 cavaleiros e 90.000 infantes.\n\nInfelizmente, Polibio n\u00e3o entra em pormenores quanto \u00e0 sua composi\u00e7\u00e3o, embora seja prov\u00e1vel que estivessem presentes a maioria das nacionalidades e tipos de tropas constantes dos outros contingentes.\n\nO grosso provinha evidentemente da Pen\u00ednsula Hisp\u00e2nica, e os acontecimentos posteriores mostram claramente a presen\u00e7a de representantes dos principais povos da regi\u00e3o \u2013 Iberos, Lusitanos e Celtiberos.\n\nEstes povos tribais forneceram tropas de qualidade, cavalaria para combater em ordem cerrada e infantaria para combater em ordem cerrada e aberta.\n\nInclu\u00edam-se ainda um forte contingente de infantaria regular africana, bem treinada e disciplinada, cavaleiros ligeiros e talvez alguns infantes n\u00famidas, e uma unidade de elefantes de guerra \u2013 Apiano fala em trinta e sete.\n\nEste ex\u00e9rcito era muito maior do que qualquer outra for\u00e7a registada para os Cartagineses durante o s\u00e9culo, e \u00e9 prov\u00e1vel que muitos soldados, em particular os hisp\u00e2nicos, tivessem sido recrutados recentemente.\n\nO n\u00facleo do exercito era constitu\u00eddo pelas tropas que, sob o comando de Hannibal, de seu pai e seu cunhado, tinham vencido as muitas guerras de conquista na Hisp\u00e2nia.\n\nEram lideradas por um conjunto de oficiais superiores que conheciam e em quem confiavam. Estes homens tinham fundido os guerreiros de muitas ra\u00e7as d\u00edspares numa for\u00e7a de combate extremamente eficaz e que, para o n\u00famero dos seus efetivos, era provavelmente melhor do que quaisquer outras for\u00e7as ent\u00e3o existentes no mundo mediterr\u00e2nico.\n\nPelos padr\u00f5es da \u00e9poca, esta gigantesca tropa requeria um gigantesco apoio log\u00edstico para se alimentar, vestir e equipar.\n\nEste problema ter\u00e1 ocupado Hannibal e os seus oficiais durante todo o Inverno e provavelmente durante muitos meses ou anos antes. Houve quem sugerisse que as campanhas hisp\u00e2nicas de Hannibal, a partir de 221, tiveram como um dos seus objetivos principais a conquista de algumas das regi\u00f5es mais f\u00e9rteis da Pen\u00ednsula de modo a garantir o abastecimento de cereais para a projetada expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia.\n\nE havia muitos outros preparativos que n\u00e3o podiam ser completados rapidamente. Foram enviados homens para obterem o m\u00e1ximo poss\u00edvel de informa\u00e7\u00f5es sobre a rota que se pensava seguir para It\u00e1lia e, em particular, sobre os grandes obst\u00e1culos como os Alpes. Foram enviados representantes as tribos localizadas ao longo do caminho, em especial as da G\u00e1lia Cisalpina, procurando o seu apoio contra Roma quando o ex\u00e9rcito chegasse \u00e0 It\u00e1lia.\n\nA mem\u00f3ria recente das pesadas derrotas infligidas pelos Romanos desde 225 garantiu uma calorosa recep\u00e7\u00e3o a estas aproxima\u00e7\u00f5es. Com aliados transalpinos, Hannibal poderia contar com provis\u00f5es e acrescentar muitos guerreiros ao seu ex\u00e9rcito. Polibio diz-nos que os emiss\u00e1rios regressaram no fim do Inverno e garantiram a Hannibal um bom acolhimento.\n\nIsto significa que ter\u00e3o partido logo ap\u00f3s a queda de Sagunto, o mais tardar, e \u00e9 bem poss\u00edvel que tenham partido antes. Todos estes preparativos indiciam que a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia, e consequentemente a guerra contra Roma, vinham sendo ponderadas h\u00e1 muito e talvez ativamente preparadas pelo jovem general p\u00fanico.\n\nAlguns autores v\u00eaem na expectativa de auxilio gaul\u00eas como parte do plano \u00e0 prova de que o conceito n\u00e3o pode ter sido elaborado antes de 225, pelo que, no m\u00e1ximo, ter\u00e1 sido uma cria\u00e7\u00e3o de Asdr\u00fabal e n\u00e3o de Am\u00edlcar. Todavia, talvez isto signifique apenas que um plano anterior se tornou mais exequ\u00edvel a partir dessa data. Mais uma vez, na aus\u00eancia da perspectiva cartaginesa, resta-nos especular.\n\n<strong>An\u00edbal empreendeu outro preparativo no Inverno, talvez t\u00e3o importante como todos os outros pelos padr\u00f5es antigos \u2013 n\u00e3o pelos modernos:<\/strong>\u00a0deslocou-se a Gades para sacrificar no Templo de Melcarte-H\u00e9rcules, uma divindade associada aos Barcas e que surge em algumas moedas por eles cunhadas.\n\nCumpriu votos antigos e fez novos votos em nome do \u00eaxito da expedi\u00e7\u00e3o.\n\n<strong>Qual foi o objetivo de Hannibal ao invadir a It\u00e1lia?<\/strong>\n\nH\u00e1 muito que este t\u00f3pico vem sido sujeito a intenso debate, frequentemente centrado na sua decis\u00e3o de n\u00e3o marchar sobre Roma quando teve a oportunidade para o fazer, em 217 ou 216.\n\nA opini\u00e3o hoje mais comum \u00e9 a de que o plano de Hannibal nunca foi conquistar a cidade, mas sim enfraquecer o seu poder persuadindo o maior n\u00famero poss\u00edvel dos seus aliados italianos e latinos a desertar.\n\nPor consequ\u00eancia, quando Hannibal negociou uma alian\u00e7a contra Roma com Filipe V da Maced\u00f4nia, os termos previam claramente que Roma continuaria a existir, num estado enfraquecido, depois da sua vit\u00f3ria conjunta. De modo similar, L\u00edvio diz que depois de Cannae, em 216, Hannibal se dirigiu aos prisioneiros romanos e lhes garantiu que n\u00e3o combatia para os aniquilar, mas sim \u201cpela honra e pelo poder\u201d.\n\nA resposta \u00e9 muito mais simples do que a controv\u00e9rsia sobre esta mat\u00e9ria sugeriria. Hannibal atacou a It\u00e1lia para ganhar a guerra. No per\u00edodo em causa, raramente era poss\u00edvel um beligerante aniquilar por completo o inimigo, a menos que os Estados envolvidos fossem muito pequenos e um deles detivesse uma vantagem esmagadora. Mais tarde, em 146, Roma possuiu este tipo de vantagem sobre Cartago e conseguiu, depois de uma luta renhida destrui-la como entidade politica. Por norma, as guerras, em particular entre Estados t\u00e3o grandes como Cartago ou Roma, terminavam quando um dos lados perdia a vontade de prosseguir o combate, e n\u00e3o a capacidade para o fazer. Chegado a esse ponto, tal como Cartago esteve a ponto de fazer em 255 e fez efetivamente em 241, reconhecia a derrota e aceitava termos de paz que a refletissem. O objetivo de qualquer guerra era encurralar o inimigo numa posi\u00e7\u00e3o em que seria obrigado a ceder.\n\nO m\u00e9todo poderia ser venc\u00ea-lo em uma ou em v\u00e1rias batalhas campais, conquistar-lhe cidades, devastar-lhe os campos e incendiar-lhe aldeias ou, mais frequentemente, uma combina\u00e7\u00e3o de todas estas coisas.\n\nTodos os Estados mais poderosos tinham absorvido muitas comunidades pequenas como aliados subordinados com v\u00e1rios graus de aceita\u00e7\u00e3o.\n\nUma demonstra\u00e7\u00e3o de fraqueza por parte dos seus amos \u00e0s m\u00e3os de um invasor daria seguramente lugar a defec\u00e7\u00f5es, com cada comunidade procurando alinhar-se com o potencial vencedor do conflito.\n\nA maioria das cidades-estado e tribos estavam fraturadas por disputas internas cujas fac\u00e7\u00f5es n\u00e3o costumavam ter pejo em alinharem com uma pot\u00eancia estrangeira que estivesse disposta a coloc\u00e1-los no controle do seu pr\u00f3prio povo. Foi assim que as cidades sicilianas se juntaram rapidamente a Roma depois dos seus \u00eaxitos iniciais, em 264, e que os L\u00edbios, em 240, alinharam de imediato com os mercen\u00e1rios rebeldes. Durante a Segunda Guerra P\u00fanica, as tribos hisp\u00e2nicas mostraram-se sempre prontas a renegarem uma alian\u00e7a e a juntarem-se ao lado que aparentasse estar na m\u00f3 de cima.\n\nUm Estado que visse os seus aliados e s\u00faditos a romperem consigo ver-se-ia ainda mais pressionado para entrar num compromisso e aceitar a derrota. Por consequ\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 irrazoavel acreditar que, se Hannibal conseguisse chegar \u00e0 It\u00e1lia e come\u00e7asse a obter vit\u00f3rias, os aliados come\u00e7ariam a vacilar. Hannibal n\u00e3o estava a adotar uma estrat\u00e9gia novel, e n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio declarar que ele compreendeu que a verdadeira for\u00e7a de Roma assentava na sua rede de aliados.\n\nHannibal estava simplesmente a travar uma guerra como so\u00edam travar-se. Aquilo que os seus planos tiveram de invulgar, pelo menos em compara\u00e7\u00e3o com as recentes pr\u00e1ticas b\u00e9licas cartaginesas, foi a predisposi\u00e7\u00e3o para agir de modo t\u00e3o agressivo e levar a guerra a uma conclus\u00e3o.\n\n<strong>Roma ap\u00f3s a Segunda Guerra P\u00fanica<\/strong>\n\nA conquista romana do Mediterr\u00e2neo trouxe como consequ\u00eancia inevit\u00e1vel profundas mudan\u00e7as na vida pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica de Roma e da It\u00e1lia. No \u00e2mbito politico, a conduta do Senado com respeito ao esfor\u00e7o realizado na guerra com Hannibal e seus subsequentes triunfos no Leste grego comportou uma aceita\u00e7\u00e3o geral entre as pessoas do governo senatorial; a legisla\u00e7\u00e3o popular e os ataques a ordem estabelecida foram muito pouco frequentes no s\u00e9culo seguinte ao tribunado de C. Flaminio em 232 a.e.c.. Foi um per\u00edodo de aparente calma e estabilidade politica, mas C\u00edcero o recordaria como a idade de ouro do mandato senatorial.\n\nO Senado mesmo foi dominado pelos nobres, que se encontravam divididos em dois campos totalmente opostos.\n\nEsses grupos adotaram uma forma de alian\u00e7as ad hoc entre amigos e parentes que se uniam para promover programas pol\u00edticos pr\u00f3prios e mobilizavam seus clientes e seguidores para votar e favorecer seus candidatos nas elei\u00e7\u00f5es.\n\nNa verdade, essas fac\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram partidos pol\u00edticos permanentes, e, apesar de algumas amizades terem durado mais tempo que outras, isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para supor que os pol\u00edticos romanos fossem dominados por alian\u00e7as preestabelecidas e heredit\u00e1rias de fam\u00edlias nobres ou gentes. As rivalidades entre indiv\u00edduos e grupos eram habituais, o que garantia uma esp\u00e9cie de equil\u00edbrio; mas as tens\u00f5es dentro da oligarquia senatorial ressurgiram em consequ\u00eancia do aumento da retribui\u00e7\u00e3o pelos cargos e da forte concorr\u00eancia pelas magistraturas principais.\n\nNo curso da guerra contra Hannibal, as necessidades militares obrigaram, na pr\u00e1tica, a prolongar os mandatos dos generais vitoriosos para al\u00e9m do limite regulamentar de um ano.\n\nAinda que isso pudesse ser justificado do ponto de vista pr\u00e1tico, teve como resultado perigosas consequ\u00eancias politicas, j\u00e1 que gerou ambi\u00e7\u00f5es pessoais como as de Cipi\u00e3o, que minaram de fora o sistema das magistraturas anuais. Esses homens tamb\u00e9m se destacaram de seus iguais por levar um estilo de vida afetado e luxuoso e por vangloriar-se de seu conhecimento da cultura grega.\n\nOutros nobres se apressaram a segui-los, e o resultado foi a intensifica\u00e7\u00e3o da luta pelos cargos, o auto-enriquecimento, a corrup\u00e7\u00e3o e um indiscriminado culto ao helenismo.\n\nA oposi\u00e7\u00e3o a essas tend\u00eancias foi assumida por Cat\u00e3o, o Censor (234-149 a.e.c.), que adotou deliberadamente um tom austero de vida, imitando com isso um dos grandes homens do passado, M. C\u00fario Dentato.\n\nCat\u00e3o ridicularizou o fr\u00edvolo exibicionismo dos helenistas, advogou pelas virtudes simples e mostrou profundo respeito pelas tradi\u00e7\u00f5es nacionais italianas.\n\nSeus esfor\u00e7os por manter a coes\u00e3o tradicional da oligarquia lhe permitiram levar a cabo um ataque politico contra Cipi\u00e3o, que se viu obrigado a tirar-se por algum tempo da vida p\u00fablica em 184 a.e.c. Cat\u00e3o apoiou o cumprimento de leis suntu\u00e1rias e se op\u00f4s com frequ\u00eancia aos subornos, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e aos abusos de poder.\n\nA oposi\u00e7\u00e3o de Cat\u00e3o ao helenismo n\u00e3o se baseou em simples preconceitos. Ele mesmo falava grego e conhecia a cultura grega muito melhor que muitos daqueles que atacava; favoreceu de fato que se tomassem emprestadas id\u00e9ias gregas, sempre que pudessem ser adaptadas \u00e0s necessidades romanas. Foi Cat\u00e3o quem ordenou, durante o per\u00edodo de censura que ele mesmo iniciou, a constru\u00e7\u00e3o da primeira bas\u00edlica romana, no estilo das constru\u00e7\u00f5es gregas. \u00c9 um dos numerosos exemplos de constru\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de tipo grego que se ergueram nessa \u00e9poca.\n\nMas o exemplo mais not\u00e1vel da adapta\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias gregas \u00e0s necessidades romanas \u00e9 o desenvolvimento da literatura latina, para o que Cat\u00e3o contribuiu decisivamente.\n\nO primeiro escritor da literatura latina foi L\u00edvio Andr\u00f4nico, um grego levado preso para Roma depois da tomada de Tarento em 272 a.e.c. A L\u00edvio Andr\u00f4nico se deve a tradu\u00e7\u00e3o para o latim da Odisseia; ele comp\u00f4s tamb\u00e9m trag\u00e9dias baseadas em originais gregos. Seu exemplo foi seguido por Cneu N\u00e9vio (para 275-200 a.e.c.) e Quinto \u00canio (239-169), que escreveram poemas \u00e9picos e obras teatrais.\n\n<strong>Vale destacar que n\u00e3o eram latin\u00f3fonos:<\/strong>\u00a0Cneu N\u00e9vio, procedente da Camp\u00e2nia, era de fala osca, e Quinto \u00canio era um mess\u00e1pio de R\u00fadias. Id\u00eantica situa\u00e7\u00e3o foi a do \u00dambrio Tito M\u00e1cio Plauto, do celta C\u00e9lio Est\u00e1cio e de P\u00fablio Ter\u00eancio \u00c1fer, que produziram durante a primeira metade do s\u00e9culo II a.e.c. com\u00e9dias latinas ao estilo grego (as de Tito Plauto e as de P\u00fablio Ter\u00eancio \u00c1fer tem o mesmo estilo).\n\nOutras figuras proeminentes da literatura latina inicial foram os autores tr\u00e1gicos M. Pac\u00favio (220 \u2013 por volta de 130 a.e.c.) e C. Acio (170 \u2013 por volta de 90 a.e.c.) e o sat\u00edrico C. Lucilo (por volta de 180-20 a.e.c.).\n\nO grande \u00eaxito de Cat\u00e3o foi a cria\u00e7\u00e3o da literatura latina em prosa. Entre suas obras, h\u00e1 discursos, 142 dos quais foram conhecidos por C\u00edcero, que os admirou muito; uma obra sobre agricultura, que se conservou; e uma obra hist\u00f3rica sobre Roma e a It\u00e1lia intitulada Origines. As historias mais antigas de Roma (por exemplo, a de F\u00e1bio Pictor) foram escritas em grego.\n\nUma das caracter\u00edsticas das Origines foi que inclu\u00eda tanto a historia dos povos italianos como a dos romanos.\n\nAssim, os esfor\u00e7os de Cat\u00e3o se voltaram para a explora\u00e7\u00e3o construtiva da cultura grega tomada de empr\u00e9stimo e a recusa da influ\u00eancia corruptora da riqueza, do luxo e da busca do poder, que ele associava ao helenismo como produto indireto da conquista militar. Mas, como podemos ver, Cat\u00e3o n\u00e3o se dava conta das profundas e s\u00e9rias consequ\u00eancias do imperialismo romano. Durante sua vida, a economia rural da It\u00e1lia foi transformada por um processo que levou a uma crise agr\u00e1ria grave. Os sintomas mais \u00f3bvios dessa mudan\u00e7a foram o empobrecimento e deslocamento do campesinato italiano, como resultado de mais de meio s\u00e9culo de guerras continuas.\n\n<strong>A guerra afetou a pol\u00edtica econ\u00f4mica da It\u00e1lia em dois aspectos:<\/strong>\u00a0primeiro, com os efeitos diretos da invas\u00e3o de Hannibal, que teve por resultado uma extensa devasta\u00e7\u00e3o do campo, sobretudo no Sul da It\u00e1lia, e a aniquila\u00e7\u00e3o de comunidades inteiras. Por exemplo, quando Tarento caiu nas m\u00e3os dos romanos em 209 a.e.c., a maior parte de sua popula\u00e7\u00e3o foi escravizada, e aquela cidade, antes pr\u00f3spera, se transformou num lugar desolado. A devasta\u00e7\u00e3o afetou necessariamente a capacidade produtiva do terreno agr\u00edcola, e a destrui\u00e7\u00e3o das colheitas, das edifica\u00e7\u00f5es do gado foi suficiente para arruinar muitas fam\u00edlias de camponeses e para despovoar grandes \u00e1reas do territ\u00f3rio.\n\nOs efeitos indiretos das continuas guerras foram at\u00e9 mais s\u00e9rios para os camponeses que tiveram de suportar a carga de um prolongado servi\u00e7o militar.\n\nO ex\u00e9rcito romano tradicional foi uma mil\u00edcia camponesa que se mostrou eficiente enquanto as guerras eram locais e os conflitos eram com as comunidades vizinhas; mas foi insuficiente para as necessidades militares romanas durante e depois da guerra contra Hannibal, quando se recrutaram grandes contingentes de soldados para servir por muitos anos em \u00e1reas distantes do Mediterr\u00e2neo.\n\nEstimou-se que, em media, os ex\u00e9rcitos combinados de romanos e italianos, durante os 35 anos que se seguiram \u00e0 derrota de Hannibal, superavam os 130.000 homens; isso representa uma propor\u00e7\u00e3o muito elevada do total de homens adultos da It\u00e1lia.\n\nA m\u00e9dia de cidad\u00e3os romanos homens adultos em servi\u00e7o por certo tempo durante os dois \u00faltimos s\u00e9culos da Rep\u00fablica \u00e9 calculada em cerca de 13 por cento.\n\nIsso significa que mais da metade dos homens adultos serviu regularmente nas legi\u00f5es por no m\u00ednimo sete anos. Tal n\u00edvel de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra foi desastroso para o pequeno campesinato.\n\nMuitas fam\u00edlias de camponeses ficaram assim privadas da for\u00e7a de trabalho essencial durante longos per\u00edodos e at\u00e9 permanentemente, Se seus homens morressem no campo de batalha. As fazendas foram abandonadas, contra\u00edram-se dividas, e a isso se seguiu o despojamento atrav\u00e9s da venda ou do despejo. O processo se acelerou pelo fato de os ricos buscarem investir os ganhos das guerras vitoriosas em terras italianas. Isso permitiu o crescimento de grandes fazendas (latifundia) mediante a acumula\u00e7\u00e3o por parte de poucos da terra que antes o pequeno campesinato havia trabalhado.\n\nFam\u00edlias inteiras de camponeses foram afastadas de suas terras por esses endinheirados investidores e substitu\u00eddas por escravos.\n\nEstes eram fornecidos em abund\u00e2ncia gra\u00e7as \u00e0s vit\u00f3rias militares e \u00e0s escraviza\u00e7\u00f5es maci\u00e7as de popula\u00e7\u00f5es vencidas; organizados em verdadeiras equipes de trabalhadores para proporcionar o trabalho necess\u00e1rio \u00e0s empresas agr\u00edcolas em grande escala, eram relativamente baratos, e havia a vantagem adicional de os escravos serem isentos do servi\u00e7o militar. Assim, o desenvolvimento dos latifundia se viu favorecido pelo influxo da riqueza e dos escravos, produto das vit\u00f3rias conseguidas pelos esfor\u00e7os e sacrif\u00edcios dos camponeses italianos que serviram no ex\u00e9rcito.\n\n<strong>Como diz Keith Hopkins:\u00a0<\/strong>\u201cOs soldados camponeses romanos lutaram para ser desalojados\u201d.\n\nO desenvolvimento dos latif\u00fandios no s\u00e9culo II a.e.c. foi acompanhado de novos m\u00e9todos de cultivo, pensados para proporcionar aos latifundi\u00e1rios ausentes s rendas da venda dos produtos excedentes.\n\nO novo regime foi bem exemplificado na obra de Cat\u00e3o De Agricultura, manual dirigido aos propriet\u00e1rios de fazendas de tipo m\u00e9dio (ele especifica propriedades de 25 a 60 hectares) trabalhadas por escravos e supervisionadas pelos vilici, escravos administradores residentes.\n\nCat\u00e3o trata especialmente dos cultivos de vinhas e oliveiras, que d\u00e3o bons lucros, mas requerem um alto investimento de capital inicial e posses relativamente extensas para conseguir economias em grande escala.\n\nIgualmente proveitosa era a pr\u00e1tica da cria\u00e7\u00e3o de gado e do pastoreio de ovelhas, mas tamb\u00e9m requeria capital e grandes \u00e1reas. Havia pastos extensivos dispon\u00edveis no Sul da It\u00e1lia, onde a totalidade das regi\u00f5es tinha ficado despovoada na Segunda Guerra P\u00fanica.\n\nMuitas daquelas terras se transformaram tecnicamente em agerpublicus, ao terem sido confiscadas por Roma aos Estados aliados que se tinham unido a Hannibal.\n\nMas o governo romano n\u00e3o foi muito exigente diante da expropria\u00e7\u00e3o de tais terras e n\u00e3o fez cumprir as restri\u00e7\u00f5es legais \u00e0 extens\u00e3o das propriedades.\n\nParece prov\u00e1vel que acontecesse o mesmo com o agerpublicus em outras partes da It\u00e1lia.\n\nMuitos dos camponeses deslocados emigraram para as vilas ou cidades da It\u00e1lia e especialmente para Roma, onde come\u00e7aram a ser criadas possibilidades de emprego devido aos grandes gastos dos ricos em luxos, servi\u00e7os, subornos pol\u00edticos e divers\u00f5es. Assim, os gastos p\u00fablicos contribu\u00edram para o desenvolvimento de uma economia de mercado urbanizada. As receitas estatais em forma de butim, indeniza\u00e7\u00f5es e taxas foram imensas; depois da coloniza\u00e7\u00e3o da Maced\u00f4nia em 167 a.e.c., aboliu-se o tributum e n\u00e3o se exigiram taxas diretas sobre as propriedades dos cidad\u00e3os romanos.\n\nUma elevada propor\u00e7\u00e3o das receitas p\u00fablicas foi reinvestida em conquistas ulteriores, ou seja, foi gasta em pagamentos e fornecimentos ao ex\u00e9rcito.\n\nO restante serviu para levar a cabo extensos projetos de obras p\u00fablicas empreendidos por todas as partes em Roma e nas cidades da It\u00e1lia durante o s\u00e9culo II a.e.c. (isso demonstra que n\u00e3o houve um decl\u00ednio na atividade construtora na d\u00e9cada de 130, como \u00e0s vezes se disse).\n\nO desenvolvimento ou crescimento das cidades criou um mercado para os produtos dos grandes Latifundi\u00e1rios, enquanto as necessidades do ex\u00e9rcito deram conta de grande parte da l\u00e3 e do couro que se produziam nas fazendas do Sul da It\u00e1lia.\n\nOs povos e as cidades tamb\u00e9m foram centros de intensa produ\u00e7\u00e3o e de certa atividade industrial em pequena escala, provavelmente baseada no trabalho dos escravos.\n\nO principal mercado de produtos manufaturados foi indubitavelmente o ex\u00e9rcito, que necessitava regularmente de provis\u00f5es de roupas, equipamento e armas.\n\nA organiza\u00e7\u00e3o do fornecimento era levada a efeito por setores privados que competiam pelos contratos com o governo. Esses contratistas privados eram chamados publicanos \u201cpublicani\u201d.\n\nFaziam contratos para a constru\u00e7\u00e3o e reforma dos pr\u00e9dios p\u00fablicos e das estradas e outros servi\u00e7os, e foram ele que adquiriram os direitos de explora\u00e7\u00e3o das propriedades mineiras do Estado e de arrecada\u00e7\u00e3o dos impostos indiretos (como ped\u00e1gios e direitos portu\u00e1rios), bem como das rendas do er\u00e1rio p\u00fablico.\n\nOs contratos que cada cinco anos os censores emitiam foram imensamente lucrativos e de grande import\u00e2ncia econ\u00f4mica.\n\nPolibio conta que quase n\u00e3o houve ningu\u00e9m em Roma que n\u00e3o estivesse envolvido na venda desses contratos ou nos neg\u00f3cios que surgiam deles. Isso implicou riqueza e poder para os principais publicanos, que formaram um grupo de press\u00e3o muito influente fora do Senado (aos senadores n\u00e3o era permitido participar dos contratos p\u00fablicos).\n\n<strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.thelatinlibrary.com\/www.roma.templodeapolo.net\/vereda.saber.ula.ve\/www.history.com\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segunda Guerra P\u00fanica, Causas, Hist\u00f3ria, Roma, Romanos, Cartagineses, Conquista, An\u00edbal, Batalha, Consequ\u00eancias, Conflito, Segunda Guerra P\u00fanica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12160,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-12159","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-geral"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.3 - 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