PINTURAS NAS CAVERNAS
Uma das mais conhecidas da ligações existentes entre os homens da pré-história e as cavernas, envolve as pinturas e gravações existentes em várias delas, através das quais é possível vislumbrar aspectos da fauna que lhes foi contemporânea, seus rituais e crenças, seus conhecimentos de anatomia e, por que não, sua arte. Pinturas Rupestres Pinturas rupestres são encontradas em todos os continentes que foram ocupados pelo homem pré-histórico e seu estudo revela uma evolução de traços simples a representações altamente sofisticadas e estilizadas, chegando ao extremo de aproveitar saliências e formas sugestivas do teto e paredes das cavernas como base para a pintura de deterninado animal. As pinturas podem ser divididas em três grandes grupos tais como o zoomórfico (que é a representação de animais), o antropomórfico (que abrange figuras humanas em suas diversas formas de estilização), e o grupo de símbolos, constituído por desenhos sem sentido aparente que muitas vezes constituem verdadeiras alusões a calendários astronômicos capazes de descrever o período e mesmo a trajetória aparente de diversos corpos celestes com grande precisão. Estranhamente as figuras antropomórficas são praticamente sempre executadas de forma muito rústica, enquanto os animais são retratados com maior exatidão, o que nos leva a supor que os animais representados tinham mesmo um forte sentido ritualístico. A observação de tais obras geralmente evidencia certa evolução de estilo e qualidade da representação que atinge níveis soberbos, como nas grutas de Lascaux (França) e Altamira(Espanha). A análise dos pigmentos revelou que os mesmos seriam constituídos inicialmente por uma variedade de pastas de base vinculada ao carvão, possivelmente dos restos de suas fogueiras, com saliva, óleos vegetais e até mesmo sangue. Em uma segunda etapa surgem pigmentos mais elaborados, e resistentes, com o emprego de óxidos metálicos. Tal mudança pode estar associada à obtenção de cores mais atraentes ou à busca de pinturas mais resistentes ao tempo e ao ambiente da caverna. Gravações Uma outra forma de representação eram as gravações, constituídas por desenhos sulcados nas rochas de paredões e grutas. Mais sutis que a anterior freqüentemente encontram-se várias delas sobrepostas, exigindo grande atenção e perícia por parte de seu observador. Para sua confecção parecem ter sido utilizados pontas de ossos e raspadores de pedra, e embora seja um método aparentemente não tão requintado, apresenta níveis de detalhamento tão elaborados quanto seus similares em pigmentos.A natureza do registro rupestre
Considerações extraídas do trabalho de pesquisa (A questão da teoria semiótica da interpretação da arte rupestre) executado por Carlos Xavier de Azevedo Netto, pesquisador do Instituto Superior de Cultura Brasileira (ISCB) e professor da UNESA. O registro rupestre é uma das facetas com que o arqueólogo se depara no decorrer de suas atividades, sendo aquela que implica em maior subjetividade nas diferentes tentativas de análise e interpretação deste fenômeno. O que o debate sobre arte rupestre parece deixar claro é a nova visão que se tem sobre estas manifestações, não mais como um fenômeno específico e isolado dos demais componentes do registro arqueológico, mas sim como um integrante, importante, desse mesmo registro. Além disso parece começar a surgir um consenso de que estas manifestações estão imbuídas de uma intenção, e esta intenção é de comunicação. Então a arte rupestre é uma manifestação comunicativa. Mas atualmente, embora mantida pela tradição, a própria expressão “arte rupestre” vem sendo questionada, na medida em que muitos pesquisadores acham que as manifestações rupestres estariam fora da esfera artística, e mesmo se pertencer a esta esfera estaria fora de qualquer análise científica. Este posicionamento denota uma certa confusão quanto ao caráter de comunicabilidade que este fenômeno possui, já que há uma tendência de se ver a arte rupestre, enquanto comunicação, como uma forma de linguagem, passível de ser analisada e compreendida pelo parâmetro da lingüística, o que leva à um grande desvio quanto à natureza desse registro do passado, ainda apegado à postulações de Leroi-Gourhan (1983/85). Aceitando-se estas expressões como gráfico-icônicas, de cunho comunicativo, não se pode deixar de notar, que as mesmas não estão ordenadas, organizadas ou mesmo pensadas, como uma linguagem estruturada, e até uma pré-linguagem. Estas expressões não estão inscritas no mesmo universo das línguas, mas são compostas por arranjos completamente diferentes daqueles que encontra-se nas diversas formas lingüísticas em qualquer tempo. (…) Então a arte rupestre seria uma criação artística, não relacionada com o conceito, ou conceitos, que se tem da arte ocidental. Estas formas estéticas teriam como caráter fundamental exprimir alguma forma de comunicação, sendo que o repertório, definido por Coelho Netto (1989:123), e de acordo com a teoria exposta por Bense (1975), dos grupos que produziriam esta arte seria mais limitado do que aquele que as culturas mais modernas possuiriam, já que para haver este potencial de comunicabilidade, a forma de expressão desse indivíduo, em particular, teria que ser estendida pelos demais membros de seu grupo, admitindo-se que a produção e o entendimento dos signos que compõe os painéis, pode, por vezes, apresentar algumas modificações, derivadas ora da interpretação de seu executor, ora da própria dinâmica cultural do grupo a que pertence. (…)
Pintura Rupestre
Caverna das Mãos
Serra da Capivara
Chapada Diamantina
Pintura Rupestre – Definição
Pintura Rupestre
Pinturas Rupestres: A Comunicação nas Cavernas
Pintura Rupestre
Pinturas e Gravuras Rupestres
Quando o Homem passa a viver em sociedade a comunicação torna-se essencial. Um dos primeiros tipos de arte, usada para comunicar, fora as lendárias Pinturas Rupestres. O ser humano passa a se expressar através das gravuras deixadas nas rochas. Representa o cotidiano: as danças, guerras, caçadas, objetos, animais; ou grafismos. Descobrem-se meios de adquirir cores variadas e métodos novos de fabricação. Essa evolução, lenta e gradual, nos levou a categoria mais alta dentre a cadeia terrestre. François de Belleforest, em 1575, publicou suas observações feitas na gruta de Rouffignac, na França. Conferiram tais artes aos camponeses, aos pastores e também aos Jesuítas. O primeiro a atribuir essa arte aos povos primitivos fora Marcelino Sanz de Sautuola, no ano de 1868, na cidade Cântabro de Santillana del Mar, na Espanha, na Gruta de Altamira. Na ocasião, sua filha Maria, então com oito anos, descobriu ao adentrar numa ala da caverna, várias pinturas. O pai juntamente com a filha procurava peças Pré-Históricas no local. Sua autenticidade, contudo, só foi reconhecida em 1902. Marcelino morreu antes de ver suas teorias aceitas. As gravuras de Altamira são datadas de 14.000 anos. No Brasil estão catalogados cerca de 800 sítios históricos com pinturas rupestres. Ainda existe a possibilidade de novas descobertas. Muitos dos sítios, hoje, estão deteriorados pela ação predatória do homem. Os mais importantes (por receber maior atenção) destacam-se a região do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, de Lagoa Santa e Peruaçu, em Minas Gerais, e da Pedra Pintada, no Pará. No município de Paramirim, na Bahia, apenas aqueles que eu tenho conhecimento são sete sítios rupestres, porém, sabe-se que a quantidade é muito maior. A idade das pinturas rupestres do Brasil encontram-se entre a faixa de 10.000 a 2.000 anos. As pinturas rupestres são classificadas de acordo os Estilos e Tradições. As mais difundidas são duas: a “Nordeste” e a “Agreste”. A Tradição Nordeste: pinturas entre 15.000 a 6.000 anos. A Agreste: de 6.000 a 2.000. Na primeira, os desenhos representavam cenas do cotidiano, mostra movimento. Nessa encontram muitas pinturas de animais, pessoas e grafismos. A segunda representa o contrario da primeira, são desenhos sem ação. Os Estilos e as Tradições são utilizados para marcar cada etnia de acordo as pinturas criadas. As tradições, às vezes, pode ser dividido em sub-tradições de acordo aos estilos usados dentro dessa mesma tradição tendo algumas diferenças de uma para outra. As cores eram adquiridas a partir dos minerais: hematita, carvão e tabatinga (um tipo de argila branca), usavam gorduras e sangue de animais para melhor fixar. Pitavam com os dedos, ou usava uma forma rústica de pincel de pelo ou pena, ou almofadas feitas de musgo ou folhas. Sabe-se pouco sobre esses artistas Pré-Históricos. Não conseguem ligar esses homens com os índios atuais, se é que exista uma ligação. As pinturas revelam a evolução desses grupos étnicos, gradativamente houve uma mudança no modo de pintar. Representavam o cotidiano, suas indagações, sonhos e desejos. Não dar para saber exatamente o que elas expressavam para aqueles grupos, pois nos dias atuais quase nada se sabe daquela época. Há muitas diferenças de um Sítio Rupestres para outro, contudo podem-se encontrar pinturas iguais ou semelhantes em tais. As pinturas podem ser encontradas ao ar livre, debaixo de rochedos, leitos de rios ou em cavernas. Não existe uma diferença dos homens (em termo do aparelho humano) donos dessas artes com o povo de agora, o que aconteceu foi um acumulo de conhecimentos. Escolho Sócrates, que vivera a mais de dois mil anos, e comparo com a população atual. Um homem privado do saber que temos hoje foi responsável pelo inicio desse próprio conceito. Pegar sua obra e compará-la a tudo que existe na sociedade, ainda assim, ele paira triunfante no topo da escala. As Pinturas Rupestres representam o nosso passado, pena que poucos dão importância. Nossos sítios rupestres estão sendo degradados pela brutalidade e incompreensão dos descendentes desses artistas. Luiz Carlos M. CardosoPintura Rupestre – Arte
Evolução do conceito Variados estudos sobre o que comumente se chama “arte rupestre“, principalmente no campo da arqueologia, utilizam diferentes termos para as pinturas rupestres, que conseqüentemente induz uma metodologia e marcos teóricos sobre os quais se pretende adequar uma possível interpretação deste objeto de estudo. Em uma análise feita do levantamento bibliográfico realizado por André Prous (1980; 1985) para a arqueologia brasileira, verificaram-se 275 títulos, cujas referências se faziam diretas às pinturas e gravações rupestres do Brasil. Essas referências são responsáveis por 10,6% do total de 2.916 títulos entre os anos de 1839 e 1985 (acredita-se que este percentual seja superior, pois muitos trabalhos com títulos gerais “Programa Arqueológico…”, “Projeto de Pesquisa…”, “Pré-História Brasileira” possivelmente contêm mais informações acerca desse tipo de vestígio em particular). Tal levantamento, portanto, possibilitou traçar um perfil da relação entre o desenvolvimento das pesquisas (ou comunicações) e a apropriação de conceitos e interpretações próprios de cada época. De 1839 a 1950, os títulos, cujas expressões remetem a idéias de comunicação através de vestígios de sistemas gráficos antigos ou de povos estrangeiros, predominam nesse período (“hieróglifos”, “letreiros antigos”, “escrita pré-histórica”, “vestígios de língua primitiva”). Os trabalhos mais devotados utilizam expressões do latim, a exemplo de outras ciências, como nas classificações zoo-botânicas (“inscrições rupestres”, “petroglifos”, “litóglifos”). No final da década de 1930, então, surgem às primeiras conotações à “arte brasileira“, uma concepção à autoria genuinamente artística dos grupos pré-históricos. De 1950 a 1960 podem-se constatar 10 trabalhos publicados. Embora 50% desses títulos permaneçam fiéis à concepção de “escrita”, se materializa a idéia de arte como característica de expressão desses grupos do passado e as interpretações, por conseguinte, derivam de imediato do conceito de “arte brasileira” e “desenhos rupestres”. Surgem ainda, dentro dessa nova forma de interpretação, os primeiros títulos com o termo “arte rupestre“, que irá se fortalecer na década seguinte. É o período “formativo”, como ressalta André Prous (1980, p. 17), de amadores dedicados à arqueologia que procuravam criar instituições de pesquisas com a colaboração de profissionais estrangeiros. Entre 1970 e 1980 verificaram-se 87 referências. Dessas, em 39% dos títulos o termo “arte rupestre” se encontra presente. Paralelamente, surgem nesse período expressões de caráter imparcial a uma proposta interpretativa (“pinturas”, “gravuras”, “sinalações”), que respondem por 29% dos títulos. O termo “petróglifo” é indicado em 20,5% e as expressões “inscrições fenícias”, “pedra lavrada”, “pedra com inscrições” são encontradas em apenas 9% do total. São evidentes, nesse período, as preocupações com a sistematização dos registros dos sítios, assim como são discutidas as orientações conceituais, tais como: estilo, tradição, cronologia e ambiente como elementos básicos para uma boa interpretação das pinturas e gravuras rupestres. Nesse cenário a influência da lingüística estrutural é bastante evidente, como modelo de evolução para interpretar as transformações estilísticas. Também nessa década surgem os primeiros títulos exclusivos à análise dos sítios, sob a perspectiva dos conceitos de signos e representação, dando origem a outros possíveis caminhos interpretativos, como através de analogias etnográficas. Por último analisaram-se 84 referências relativas ao período compreendido entre 1980 e 1985, ano em que se encerra a bibliografia. Nesse período confirma-se a tendência do período anterior. A referência a “inscrições”, no sentido literal do termo, cai para 4,7% dos títulos. Da mesma forma os títulos que contém os termos “petroglifos” e “pictoglifos” diminuem para 7,1%, demonstrando uma tendência clara a se ignorar termos cujos sentidos levam a definir as pinturas e gravuras como escrita. Por outro lado, os títulos que se colocam imparciais a uma tendência interpretativa sobem para 41,6% nas referências. Os sítios são indicados como “unidades estilísticas”, “pinturas rupestres”, “abrigos com pinturas e gravuras” e “sinalações rupestres”. Nota-se, neste cômputo, que referências indicativas de metodologias de análise no campo da “representação” se tornam mais significativas (“símbolos”, “expressão visual”, “imagens pré-históricas” e “representações rupestres”). A expressão “arte rupestre” nos títulos aparece em 47,6% dos casos, perdendo de certa forma o impulso que vinha tendo duas décadas atrás. Ainda nesse período é bastante significativo o número de trabalhos que se ocupam com as metodologias, deixando para trás o caráter puramente descritivo dos sítios rupestres. É notória a tendência de mudanças conceituais, para que metodologias mais apropriadas possam se constituir como ferramentas mais autorizadas no âmbito da busca do significado das representações rupestres. O conceito no debate atual Ainda hoje alguns usos correntes da terminologia para a pintura rupestre estão mais diretamente relacionados a um sentido interpretativo, isto é, ao que o próprio termo induz como significado do objeto, tais como: arte rupestre uma valorização de conteúdo artístico; pictoglifo escrita pintada, remete à grafologia; petroglifo escrita na pedra, também remete à grafologia; figura denota exemplos figurativos, ícones; grafismos como sinais gráficos, discurso, mais usual para os murais urbanos, elaborados pelos denominados “grafiteiros”. Implica um abstracionismo não cognificável: inscrição rupestre escrita na pedra, o mesmo sentido de pictoglifo e petroglifo; gráfico icônico como se a representação quisesse descrever aquilo que se vê, destituída de simbolismos que a sociedade, autora dessas pinturas, quisera representar. Como as definições para os termos descrevem seus objetos a partir de vários campos (artístico, grafológico, fotográfico), não mobilizam significados para se pensar nos elementos últimos de sua significação a representação. Os termos antes mencionados são similares somente no sentido que podem ser vistos para a comunicação. Hyder (1988, p. 7), fundamenta esta afirmativa quando diz que devemos olhar as pinturas rupestres como uma forma visual de expressão simbólica; expressão visual não no sentido da arte, mas de uma “linguagem” constituída de signos desprovidos de raízes originais, sem relação sensível com os objetos (os signos geométricos). A arte, portanto, conforme Sylvia Novaes (1999, p. 70), diferencia-se da linguagem rupestre exatamente por estabelecer esta relação sensível entre signo que se dá pela semiose. Signo lingüístico, conforme Hyder (id.), diferente de pantomima, é específico na cultura na qual é compreendido. Citando Umiker-Sebeok e Sebeok (1978), aponta três caminhos nos quais o signo lingüístico toma a função de linguagem:É um complexo de sinais naturais e convencionais com elementos icônicos e indexical superam elementos simbólicos; É semanticamente abrir em que os elementos podem ser recombinadas para formular um número indefinido de mensagens; Leva vantagem de competência não-verbal.Considerando-se a simbologia intrínseca na cultura material pré-histórica, os mais modernos estudos de arqueologia atualmente se apropriam dos conceitos e das teorias antropológicas, da psicologia cognitiva e da semiótica, buscando a interdisciplinaridade no intuito de melhor visualizar, através dos vestígios materiais, a concepção de mundo dessas sociedades pretéritas e, dentro desta nova abordagem, a “arte rupestre“, no conjunto dos vestígios arqueológicos, se caracteriza como material sui generis de análise. O exemplo mais clássico desta interdisciplinaridade é o modelo neuropsicológico desenvolvido por Lewis-Willians e Dolson (1988) para a interpretação da “arte rupestre” dos aborígines da África do Sul: um modelo explicitamente antropológico, baseado na etnografia, nas ciências médicas e nas pesquisas de laboratório. Isto deve ser considerado, a despeito da discussão sobre o processo de formação cognitiva da espécie humana, àqueles que defendem que a representação simbólica tenha evoluído da espécie hominídea mais antiga para as formas mais complexas no homem moderno, e daqueles que defendem que essa capacidade de simbolização tenha aparecido com o Homo sapiens sapiens há cerca de 150 mil anos, resultante de conexões cerebrais acabadas, conforme Mithen (2002). Não se considerando as supostas figuras antropomorfas de Berekhat Ram, dos Altos de Golan, datadas entre 280 e 250 mil anos antes do presente (DERRICO; NOWELL, 2000), as pinturas rupestres em todo o mundo têm sido datadas em períodos que variam entre 40 mil até o presente com os povos sul-africanos que repintam os painéis rupestres deixados pelos seus antepassados, como forma de reinterpretar suas tradições. Portanto, deve-se considerar que a prática cultural de representação em cavernas ou abrigos rochosos, remonta um passado recente que pertence ao Homo sapiens sapiens, e conseqüentemente, concebíveis a um estágio em que a comunicação simbólica já estava difundida entre os povos pré-históricos. As pinturas encontradas nas paredes das grutas e abrigos rochosos inserem-se no contexto arqueológico como um tipo particular de vestígio. Apresentam-se como um sistema de idéias de natureza sociocultural, visíveis em sua estrutura outrora compartilhado dentro do grupo pré-histórico. Diferenciam-se do restante do conteúdo material do sítio por apresentar signos de natureza simbólica, e podem exprimir o cotidiano desses grupos através de representações isoladas ou agrupadas de cenas de caça, luta, dança, entre outras atividades, ou de maneira aparentemente estática, antropomorfos, zoomorfos, fitomorfos, sinais geométricos simples ou complexos (quando estão associados vários sinais simples formando um único sinal). A imagem ícone nem sempre pode representar aquilo que aparenta. Por trás de sua descrição formal podem estar ocultos elementos simbólicos cujos significados não são possíveis de serem resgatados (no caso das pinturas rupestres), uma vez que são desconhecidos seus códigos e/ou significantes, salvo se recorrer a testemunhos etnográficos ou a correlações arqueoastronômicas que por analogias, podem ser testemunhos diretos do significado das representações. A cerâmica e o lítico arqueológicos, por exemplo, desde que não possuindo outros atributos, que não os de conferir-lhes suas funções utilitárias, podem ser analisados através de analogias e deduções, e descritos formalmente quanto a sua função dentro da cultura que as produziram. Nos últimos anos tem havido uma maior preocupação de arqueólogos e antropólogos sobre a necessidade de uma análise interdisciplinar para refletir a “arte rupestre” (GALVAN, 2002, p. 1; TACON, 1998, p. 6). Coloca-se então, o que poderia se chamar de primeira preocupação no escopo deste trabalho, o uso da terminologia, no sentido de que esta possa ser a base de uma boa comunicabilidade científica, além de suscitar, conseqüentemente, caminhos metodológicos mais autorizados, na perspectiva de se ampliar a gama de temas a respeito da “arte rupestre” nas ciências afins. Como afirma G. Martin, é natural que existam polêmicas quanto ao uso do termo e a metodologia adotada para o estudo da “arte rupestre“, pois os pesquisadores discutem sobre pontos de vista divergentes, “procuram respostas diferentes às mensagens que as pinturas e gravuras rupestres proporcionam” (MARTIN, 1997, p. 21). O ideal é que assim como qualquer outra ciência, a arqueologia tenha um conjunto de termos para cada conceito particular de seu objeto de estudo. É certo, no entanto, que a ciência no seu processo natural de crescimento suscita novos conceitos, “… e todo novo conceito científico deveria receber uma nova palavra [], ou melhor, uma nova família de palavras cognatas” (PIERCE, 2000, p. 40). Neste sentido, arte como conceito agregado a rupestre, por si só, não pode ser conceituada, ela é o que parece ser ao seu apreciador, diferente de outra opinião. Este a formula e a descreve com seus sentimentos e sua explicação, essencialmente subjetivista, não pode ser concebida dentro dos limites de verdade. Como afirma Bourdier (apud RIBEIRO, 1995, p. 28): “[…] a classe dos objetos dearte seria definida pelo fato de que existe uma percepção guiada por uma intenção propriamente estética, isto é, uma percepção de sua forma mais do que sua função”. Ela é (a arte) então, produto histórico, que deve ser legitimada pela sociedade em que é produzida. Fora dela, o significado intrínseco à sua forma de expressão se perde, para dar lugar apenas ao de beleza plástica. Neste contexto então, a pintura rupestre estaria fora da esfera artística, e se pertencesse a essa esfera, estaria fora da possibilidade de qualquer análise científica. Arte e ciência se tocam em seus extremos. Geertz (1999, p. 143) sobre este ponto de vista, afirma que:
[…] descrevamos, analisamos, comparamos, julgamos, classificamos: elaboramos teorias sobre criatividade, forma, percepção, função social; caracterizamos a arte como uma linguagem, uma estrutura, um sistema, um ato, um símbolo, um padrão de sentimento; buscamos metáforas científicas, espirituais, tecnológicas, políticas, e se nada disso dá certo, juntamos várias frases incompreensíveis na expectativa de que alguém nos ajudará, tornando-as mais inteligíveis.O conceito de arte, como já foi colocado, tem sua origem na Europa no início do século XX, estendendo-se para o resto do mundo quando foi assimilado para atender uma nova exigência estética: de incorporar à cultura do prazer e do mercado nos tempos modernos (moderno no contexto europeu), onde seu significado é muito específico. André Prous (1992, p. 510; 2003, p.44) discorda do termo arte rupestre e sugere em seu lugar grafismos, embora considere a primeira expressão já consagrada pelo uso para ser abandonada. Conforme Prous: “[…] a obra de arte é considerada, desde Kant, uma finalidade sem fim, ou seja, sua própria finalidade, objeto de contemplação estética quase que mística… Por não o conhecer, é que consideramos uma escultura de sambaqui, de catedral gótica ou da Nigéria apenas como obra de arte, e não como instrumento de culto, ou meio de propagação de uma ideologia” (PROUS, 1992, p. 510). Desse modo, deve ser discutido porque a expressão arte não deve ser incorporada à expressão “arte rupestre“, pois os caminhos que levam a fazer e a pensar arte, fazem sentido para a sociedade que a produz, “[…] é específica de cada cultura” (MITHEN, 2002, p. 252). Conkey (apud MITHEN, 2002, p. 292, nota 7) discute como a categoria arte adotada pelos arqueólogos prejudica as análises sobre a evolução cultural no início do Paleolítico Superior. A regra ideal é que o termo não desvie do conceito: o que imaginaria um leigo ao folhear um livro com inúmeras ilustrações de pinturas rupestres cujo título fosse “arte-rupestre“? Thomas Heid (1999, p. 453), discutindo o lugar do conceito de arte, questiona sobre a orientação teórica de Blocker (1994), quando justifica que os artefatos produzidos pelas sociedades tradicionais (small-scale societies), ocupam o mesmo espaço nas salas dos museus etnográficos ou de museus de arte. Blocker argumenta que: “[…] pessoas que fazem e usam esses artefatos manifesto suficiente das atitudes e disposições artísticas e estéticas relevantes para justificar-nos em chamar ‘obras de arte’ tais artefatos e tratá-los como tal.” (BLOCKER apud HEID, op. cit. p. 454). A proposta de Blocker, no entanto, pode fazer sentido se realmente a sociedade possui o conceito de arte para seus artefatos produzidos. É preciso que se verifique se este conceito não tenha sido incorporado como forma de se apelar para uma maior integração à cultura envolvente, quando o verdadeiro significado implícito nas obras passa a ser obscurecido e onde uma interpretação mais geral e simples de arte, de artefato decorador, tenha sido imposto para ser exibido ao público. Shiner examina esta concepção de arte aplicada a diferentes sociedades pelas sociedades ocidentais, atribuindo a elas, uma predeterminação de apropriar-se e extinguir os valores simbólicos dos objetos de outras culturas. Admite-se que, conferindo o título arte para tais artefatos simples, nossas instituições fazem um jogo com o propósito de manter o controle sobre culturas marginais. Shiner afirma que: “[…] ultimately, through this strategy our art institutions seek retain the power of making differentiations between authentic, fake and tourist art” (HEID, 1999. p. 455) Estas observações são interessantes, à medida em que se questione se os executores das pinturas rupestres possuíam o conceito dearte enquanto arte estética, como no exemplo de alguns sítios africanos descritos por Ki-Zerbo (1982, p. 688) e assim se poder denominar “sítios de arte rupestre“. A despeito disto, se as pinturas possuem intrínsecas relações cosmogônicas e religiosas, estas naturalmente devem ser representadas esteticamente. Como Morin ressalta, que a “arte rupestre”, além do sentido ritual e mágico, comportaria também o sentido estético, que são perfeitamente combináveis: “os fenômenos mágicos são potencialmente estéticos e… os fenômenos estéticos são potencialmente mágicos” ( apud SEDA, 1997, p. 152). A preocupação maior, portanto, é sobre o sentido que deve ser dado à interpretação. É perfeitamente plausível que um pesquisador descreva esses painéis como uma obra de arte, partindo de seu conteúdo estético, diferencie as técnicas, as formas, e até as identifique dentro de uma classe de arte, e. g., abstracionista, impressionista etc. Porém, dificilmente chegaria a alguma interpretação científica. Diferente de uma antropologia urbana ou de uma etnologia indígena, onde se podem resgatar os valores simbólicos de seus interlocutores, fazer uma arqueologia antropológica, quando a “tradição viva” (cf. DAMATTA, 1987, p. 50) não está mais presente, exige que se trate o objeto de estudo com metodologias mais apropriadas e, por conseguinte, a terminologia é importante para que se comece a pensar caminhos mais profícuos para uma análise científica da “arte rupestre“. Sugere-se então, que o termo representação rupestre se apresenta de maneira mais apropriada a esse tipo de manifestação cultural. Representação como reprodução daquilo que se pensa. Conteúdo concreto apreendido pelos sentidos (estéticos), pela imaginação ou pela memória, retraduzido no conjunto de signos não verbais, e compreendido no campo de elaboração relativa ao psicológico e ao sociológico. E ainda, representação no sentido de sua origem na semiótica, onde o conceito exerce o papel de evidenciar categorias de signos diferentes, que interagem no contexto segundo leis próprias de organização estruturais, de processos de representação particulares. Deste ponto de vista, o termo assume os conceitos unificadores de dois domínios que são: o signo, por seu lado perceptível, e a representação, seu lado mental, pois como afirmam Santaella e Nöth (1998, p. 15): “[…] não há imagem de representações visuais que não tenha surgido de imagens na mente daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo concreto dos objetos visuais”. Representação é significante da idéia de reprodução de algo que já estava na mente. Se a imagem rupestre é produto de uma “visão de mundo” socialmente compartilhada, representar, então, é rememorar aquilo que se reapresenta na mente de quem produziu essas imagens e que desperta sentido no grupo espectador. Representação, portanto, remete ao conceito de signo, e a terminologia por sua vez, em detrimento das outras terminologias citadas, implica que imagens rupestres sejam tratadas metodologicamente, também, sob a perspectiva da teoria geral dos signos, ou semiótica. O objeto da antropologia, senão único, pelo menos principal, são as representações culturais. Segundo D. Sperber (2001, p. 91) toda representação envolve no mínimo três termos: a própria representação, seu conteúdo e um usuário, aos quais se pode acrescentar um quarto, o produtor da representação, quando não é o próprio usuário. A representação é mental no momento em que seu conteúdo é construído e torna-se pública quando é endereçada aos espectadores. Admite-se que o conteúdo explícito nos painéis rupestres traz em si espectros da vida social e cultural dos povos que os produziram, visões de experiências e conhecimentos acumulados, e que não somente expressa a vontade de retraduzir esses conhecimentos, mas também é para ser interpretado e assimilado, então se deve conceber essas imagens metodologicamente como representações das representações dos saberes, e devem obedecer a uma estrutura qualquer que tornem inteligíveis as informações referentes a objetos ou a situações. Ainda reforçando esse lado mental da representação Jean-Claude Abric afirma que: [representação é…] “o produto e o processo de uma atividade mental por intermédio da qual um indivíduo ou um grupo reconstitui o real com o qual é confrontado e lhe atribui uma significação específica” (ABRIC, 2001, p. 156). Trata-se, portanto, da apreensão dos fenômenos sem levar em conta os fatores diretamente observáveis, mas que enfatiza sua dimensão simbólica, valoriza sua significação. Representação como eixo norteador para as hipóteses a serem testadas, que legitima seu conteúdo como objeto de pesquisa científica. Joaquim Perfeito da Silva
A arte rupestre pré-histórica
A discussão do valor como “arte” dos registros rupestres pré-históricos tem sido objeto de polêmicas entre arqueólogos e historiadores da arte. A base dessa discussão reside na procura de respostas diferentes às mensagens que as pinturas e gravuras rupestres proporcionam. O arqueólogo não poderá ignorar os registros rupestres na sua dimensão estética, considerando-se a habilidade manual e o poder de abstração e de invenção que levaram o homem a usar recursos técnicos e operativos nas representações pictóricas pré-históricas. Mas, para o arqueólogo, o registro rupestre é sobretudo, parte do contexto arqueológico ao qual se integra como forma de identificar o grupo étnico que o realizara. O termo “registro rupestre”, definição que tenta substituir entre os arqueólogos a consagrada expressão “arte rupestre“, pretende liberar da conotação puramente estética algo que, seguramente, é a primeira manifestação artística do homem, ao menos em grandes áreas geográficas onde a arte móvel em pedra e osso não aparece anteriormente às gravuras e pinturas rupestres.
Nicho Policrômico – Toca do Boqueirão da Pedra Furada – Serra da Capivara – PI
Sítio : Xique-Xique I – Carnaúba dos Dantas – Seridó – RN
1) O SÍTIO
a) como sítio rupestre b) o entorno do sítio c) problemas de conservação e apresentação didática.
2) OS REGISTROS RUPESTRES
a) o estudo técnico e estilístico b) as tradições rupestres da área
3) O CONTEXTO ARQUEOLÓGICO
a) as relações com os registros arqueológicos b) o entorno ecológico da área.Este esquema é válido para qualquer área rupestre, pois, dificilmente, um sítio com representações parietais apresenta-se isolado, formando sempre parte de um entorno de maior ou menor densidade. Um sítio de referência deve ser o ponto de partida; os registros rupestres de outros sítios da área geográfica de influência serão a continuação lógica da pesquisa e o estudo do contexto arqueológico significará o conhecimento do entorno físico e social em que viveram os grupos humanos que habitaram a área. Assim, não se discrimina a arte parietal do seu contexto que deve ser estudada arqueologicamente como mais uma manifestação da atividade humana. No estudo da arte rupestre como nos outros períodos da História da Arte, além dos estilos generalizados, estuda-se cada artista e cada obra por separado dentro das linhas mestras estilísticas. Sabe-se que dentro de uma mesma tradição, cada abrigo, cada paredão pintado e cada painel foi realizado por um autor ou “artista” diferente e aí estaria a “variedade”. Seria o estilo a obra unitária de um pequeno grupo cronologicamente limitado? Ou poderíamos definí-lo como interpretação subjetiva da macro-temática das grandes tradições? A evolução na forma de apresentação, indica, sem dúvida, diferenças culturais e cronológicas, sem se esquecer porém o caráter subjetivo da mão humana.
Sítio : Toca do Salitre – Serra da Capivara – PI
Sítio : Furna do Caboclo – Seridó – RN
Sítio : Xique-xique IV – Seridó – RN
Sítio : Xique-Xique I – Carnaúba dos Dantas – Seridó – RN
Sítio : Toca do Morcego – Serra da Capivara – PI