31 de outubro de 1879: Aprovação pelo Parlamento da lei que instituía a cobrança de imposto no valor de 25 réis, o equivalente a 1 vintém, sobre o trânsito de passageiros de vias férreas na cidade do Rio de Janeiro. A lei aumentaria em 20% o valor das tarifas pagas pelos passageiros dos bondes. 15 de novembro de 1879: Lopes Trovão, republicano e líder da revolta que se instalaria, aconselha o povo a não se submeter à cobrança do imposto. 13 de dezembro de 1879: É expedido o regulamento para a arrecadação da taxa, os ânimos já se encontravam exaltados. 28 de dezembro de 1879: A notícia da cobrança do imposto se espalha e Lopes Trovão convoca a população a se concentrar no campo de São Cristóvão a fim de manifestar-se contra o mesmo. A manifestação reúne cerca de cinco mil pessoas por volta das 5 horas da tarde. 1 de janeiro de 1880: Lopes Trovão convoca novo comício no Largo do Paço e a multidão mais uma vez comparece em manifesto. A polícia reage a tiros iniciando um conflito sangrento que resulta em 3 mortos e 28 feridos. 4 de janeiro de 1880: A partir deste dia a tranquilidade da cidade do Rio de Janeiro passa a ser mantida às custas do acionamento do batalhão naval, dos imperiais marinheiros e do exército. As manifestações da população foram contidas e o imposto continuou a existir, mas muitas discussões em torno de sua arbitrariedade foram mantidas. 20 de março de 1880: Ainda sob os efeitos da revolta, o ministro Cansanção de Sinimbú é destituído do cargo e substituído por José Antonio Seabra. Abril de 1880: Em consequência da grande demanda social, as companhias de bondes pedem a revogação do imposto. Setembro de 1880: A cobrança do imposto do vintém é suspensa.A Movimentação nas Ruas Os jornais da época descrevem uma intensa movimentação nas ruas do Rio de Janeiro durante a Revolta do Vintém, movimentações estas que como veremos mais adiante geraram grande preocupação para os governantes e a polícia que foi acionada em vista de sua contenção. Tendo em mãos os seguintes trechos um de um destes jornais e o outro de autoria de Mello Barreto Filho e Hermeto Lima que descrevem alguns momentos da revolta reflita sobre os diferentes posicionamentos de cada um deles em torno da revolta e, em seguida, produza um breve artigo para um jornal no qual estejam contidos os principais acontecimentos da revolta e as reivindicações dos manifestantes:
Ontem pelas 5 horas da tarde, reuniram-se em frente ao palacete Mauá, no campo de S. Christovão, cerca de quatro ou cinco mil pessoas. De uma das janelas do palacete, o Sr. Dr. Lopes Trovão dirigiu a palavra ao povo, esclarecendo-o de que era-lhe licito levar à S.M. o Imperador uma petição, pedindo que fosse revogado o regulamento do imposto do vintém.(…) Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias, 29/12/1879. Referência ao comício realizado no dia anterior por Lopes Trovão no Palácio de São Cristóvão. [fonte primária] As 5 horas da tarde os ânimos já estavam exacerbados, na rua Uruguaiana, onde cada vez mais aumentava a onda popular. A cada bonde que vinha, os mais exaltados armavam lutas com os cocheiros e condutores, até que resolveram arrancar os trilhos existentes nessa rua. Foi crescendo o tumulto. No dia seguinte, o povo virava os bondes que trafegavam pela cidade, sendo já impotente o número de soldados da Polícia para conter a ira popular.FILHO, Melo Barreto e LIMA, Hermeto. História da Polícia do Rio de Janeiro- aspectos da cidade e da vida carioca (1870-1889). RJ: A Noite, 1942. p. 105 [fonte secundária]Direitos Pensando os direitos divididos em três formas fundamentais, sendo elas os direitos políticos, civis e sociais, é preciso dizer que há diferentes versões em torno do desenvolvimento destes no Brasil. Alguns historiadores, como José Murilo de Carvalho, acreditam que no Brasil do século XIX os direitos civis estariam fora da cena social e política, já que é incompatível com a limitação das liberdades individuais oriunda da escravidão. Outros historiadores, como Keila Grinberg, ao contrário, defendem que já havia neste momento a existência de um debate acirrado em torno dos direitos civis no Brasil. Mesmo por que, se os escravos tinham seu espaço de atuação limitado pelo senhor, não eram raros os casos daqueles que conseguiam escapar do controle senhorial e tecer suas próprias relações na esfera urbana. Pensando a possibilidade de existência de uma reivindicação destes direitos no período aqui analisado e as divergências de opinião em torno de seu desenvolvimento, é preciso enfatizar o quanto a Revolta do Vintém trouxe de discussões de alguns destes direitos e o que seriam exatamente estes direitos na sociedade brasileira do final do século XIX se é que todos eles já eram então pensados. Considerando-se a importância de se pensar as discussões acerca dos direitos individuais numa sociedade monárquica como a que aqui abordamos, leia o trecho a seguir do jornal Gazeta de Notícias e discuta as questões que o seguem:
O Sr. Dr. Lopes Trovão (…), dirigiu-se ao povo que tentava resistir e disse que o povo usava de um legítimo direito pedindo ao primeiro magistrado do paiz, a revogação de um regulamento(…) Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias, 29/12/1879. Comício organizado por Lopes Trovão no Palácio de São Cristóvão. [fonte primária]Povo e Cidadania Os jornais da época que participaram ativamente da Revolta do Vintém incentivavam, no início da mesma, o povo à luta, convidando-o a agir contra a ação arbitrária do governo. A Gazeta de Notícias é bastante representativa neste sentido. Em reportagem publicada a 29 de dezembro de 1879 este jornal descreve a manifestação realizada pela população sob a liderança de Lopes Trovão no palácio de São Cristóvão. Aqui ele enfatiza ao longo de todo o texto o papel do povo no protesto. O povo aplaudia Lopes Trovão, o povo o seguiu em perfeita ordem, o povo resistiu usando o direito legítimo de se manifestar, o povo gritava e o povo ficou impressionado por ter sido proibido pela polícia de adentrar o Paço Imperial. Esta exaltação ao povo esteve presente, ao mesmo tempo, no artigo sobre a Revolta do Vintém escrito por Moreira D Azevedo para a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1895. Neste sentido, leia atentamente os trechos abaixo:
Depois de expor o fim do meeting, o orador [Lopes Trovão] na sua peroração convidou o povo a que ao mesmo momento se dirigisse ao paço da Boa Vista. O povo respondeu por uma salva estrepitosa de palmas, e por um viva unisono ao Dr. Lopes Trovão. O orador leu então a petição, que foi estrondosamente applaudida. Deixando a tribuna o orador, o povo seguiu após ele na mais perfeita ordem dando vivas ao orador, á imprensa livre, á soberania nacional. Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias, 29/12/1879. Referência ao comício realizado no dia anterior por Lopes Trovão no Palácio de São Cristóvão. [fonte primária]
O povo resisti-o tenazmente á força publica, que teve de fazer fogo, resultando, da luta a morte de quatro cidadãos e ferimento de muitos DAZEVEDO, Moreira. Imposto do Vintém. In: Revista do IHGB, 58. Ano 1895. [fonte secundária]
Nação e Soberania Nacional
Viva o povo brasileiro, viva a soberania nacional! Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias, 29/12/1879. [fonte primária] Frase de incentivo à revolta ainda em seu início. Durante seu trajeto a pé a multidão levantava estrondosos vivas à soberania do povo, à dignidade nacional, aos estrangeiros residentes no Brasil, à nação portuguesa, ao exército e a armada nacional, ao Dr. Lopes Trovão (…). Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias, 29/12/1879. [fonte primária]Pensar a Revolta do Vintém é também inseri-la neste contexto de discussões em torno da soberania nacional e da imagem de nação que se buscava construir sobre o Brasil. Num momento posterior à Guerra do Paraguai, na qual o historiador José Murilo de Carvalho identifica um papel fundamental, já que a identidade nacional brasileira teria sido construída em consequência da guerra, pois produziu-se uma certa unidade entre os brasileiros e uma maneira da população se identificar com o que seria a nação brasileira, a Revolta do Vintém não deixou de trazer em seu bojo esta discussão. Neste sentido, é preciso refletir mais sobre que elementos foram relevantes na formação destas exaltações à soberania nacional que vimos acima por meio de trechos da imprensa da época. O Papel e o Posicionamento da Imprensa A participação dos jornais na Revolta do Vintém fora notável. Os jornalistas tiveram papel essencial em sua conflagração e organização e foram eles, liderados por Lopes Trovão, que organizaram os comícios, passeatas e manifestações pelas ruas do Rio de Janeiro. As passeatas se davam no caminho entre as redações dos jornais da cidade, sendo realizados discursos em cada parada discursos proferidos por jornalistas. Esses jornalistas não protestavam apenas contra o imposto do vintém, mas contra o governo imperial como um todo, já que muitos deles, principalmente Lopes Trovão, eram republicanos. Refletindo sobre este acentuado papel da imprensa na revolta, discuta as questões propostas a partir dos seguintes trechos de diferentes destes jornais. Um do Jornal do Comercio e outro da Revista Illustrada:
Concidadãos: voltai aos vossos labores quotidianos; não mais seja esta cidade theatro de scenas tumultuarias. Mostrai-vos dignos filhos do Brasil, e dai ao mundo o grande exemplo de um povo que sabe zelar a sua liberdade sem sahir da ordem. Jornal do Comercio O Cruzeiro Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, Jornal do Commercio, 4/1/1880. [fonte primária] Pedido direcionado aos manifestantes em nome da Tríplice Aliança, formada pelos órgãos de imprensa Jornal do Commercio, O Cruzeiro e Gazeta de Noticias, que pretendia acabar com a revolta.
As partes officiaes publicadas ante-hontem pela folha do governo anunciam a ordem restabelecida e a população bem disposta a pagar o imposto do vintém. Infelizmente são mais duas mentiras atiradas na circulação pelo Diário Official, tristemente condemnado a desdizer-se hoje do que ontem asseverou nas columnas destinadas á palavra do governo e aos decretos da coroa. A verdade é que o povo continúa a reagir contra o novo imposto e, irritado perante as violências praticadas pela polícia liberal, sobressalta-o justamente o receio de novos attentados por parte de um governo que inaugurou a cobrança á mão armada: Ou a bolça ou a vida! Revista Illustrada, nº 189, 1880. [fonte primária]Repressão à Revolta A repressão à Revolta do Vintém foi bastante rigorosa contando com a polícia armada avançando sobre a população. Não apenas a polícia agiu em prol de aplacá-la. O exército e o batalhão naval também exerceram função de contenção dos ânimos durante as manifestações. Os resultados foram assustadores, somando-se nos três primeiros dias da revolta 28 feridos e 3 mortos, de acordo com o que nos falam Mello Barreto Filho e Hermeto Lima em 1942. Outro fato representativo desta dura forma de repressão foi a entrada violenta da polícia na redação do jornal A Gazeta da Noite, principal órgão de imprensa incentivador da revolta. Nesta ação vários jornalistas terminaram feridos ou mortos, pois a polícia atirou contra todos eles. A polícia aqui exerceu o papel de repressora da revolta em vista de restituir a almejada ordem social que então se via abalada. Os embates entre a multidão e a polícia foram frequentes e esta não mediu esforços na contenção da população que queimava os bondes da cidade. O seguinte trecho demonstra a ação da polícia em repressão à revolta. Com base nele e em pesquisas complementares discuta as questões que o seguem:
Reuniu-se o ministério e ouvido o chefe de Polícia, foi resolvido que se mandasse o 1º Batalhão de Infantaria para a rua Uruguaiana, onde o povo, já armado, tinha feito uma barricada. Entretanto, os tumultos não se limitavam a esse ponto da cidade. Em vários lugares, o povo queimava ou virava os bondes. E nos dias 2, 3 parte de 4 continuaram os conflitos, até que, na rua Uruguaiana, houve um combate sério do qual resultaram a morte de 3 pessoas e ferimentos em 28. Já então a cidade se achava policiada por praças do Batalhão Naval, pelos imperiais marinheiros e por quase toda a fôrça do Exército. FILHO, Melo Barreto e LIMA, Hermeto. História da Polícia do Rio de Janeiro- aspectos da cidade e da vida carioca (1870-1889). RJ: A Noite, 1942. p. 105 [fonte secundária]Revolta do Vintém – Revolta do Bonde A Revolta do Vintém, ou revolta do bonde aconteceu no final de 1879, na cidade do Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil Imperial. Quase 5 mil manifestante se posicionaram em frente ao campo de São Cristóvão, para exigir a diminuição da taxa cobrada pelo transporte público.
Revolta do Vintém
Os revoltosos foram contidos pelas autoridades policiais e permaneceram a espera de uma resposta do jornalista republicano Lopes Trovão, um dos principais lideres do protesto. O imperador prometeu negociar, a fim de resolver a disputa, mas Trovão rejeitou o seu pedido e convocou a população, através do jornal Gazeta da Noite, a reagir com violência contra a medida imperial.
Em 1º de janeiro de 1880, data em que a nova taxa seria oficializada, a população incitada por Lopes Trovão, se dirigiu até o Largo São Francisco, local de partida e chegada da maioria dos bondes da cidade.
A presença das autoridades policiais só aumentou o clima de tensão, e os revoltosos impacientes começaram a gritar fora o vintém, matar as mulas que carregavam os bontes e bater nos condutores.
Os policiais precisaram da ajuda do Exército para acalmar os ânimos daquela confusão, mas em vez disso a população ficou ainda mais nervosa e passou a lançar pedras contra a cavalaria oficial.
Os oficiais abriram fogo contra a multidão fazendo com que os manifestantes fossem dispersos a custa de muitos mortos e feridos. Em alguns dias o motim já havia cessado.
A revolta pode ser considerada um sucesso, apesar dos mortos e feridos, pois as autoridades mantiveram os preços antigos das passagens do transporte.
A REVOLTA DO VINTÉM E A CRISE NA MONARQUIA
Revolta do Vintém
José do Patrocínio, um dos líderes da Revolta do Vintém.
1. Os cidadãos inativos pelo critério constitucional revelavam-se, então, não só profundamente atentos a aspectos do exercício do poder que lhes afetavam a vida cotidiana como, também, dispostos a ir até as últimas consequências para defender o que consideravam seus direitos; 2. A oposição [revolta] perpassou a sociedade de alto a baixo. Sua natureza, no entanto, mudou de acordo com as várias camadas que nela se envolveram. No que se refere ao povo, que nos interessa de modo especial, a oposição adquiriu, aos poucos, caráter moralista; 3. A tendência geral [na grande imprensa conservadora], refletindo a posição governista moderada, era ver a Revolta como exploração inescrupulosa da população ignorante por parte de políticos ambiciosos e atribuir a ação de rua às classes perigosas; 4. Desde o início, e cada vez mais, os principais alvos da ira popular, expressos sejam por palavras ou por ações, foram os serviços públicos e os representantes do governo; 5. Aparecia aí a sensação generalizada entre parte da elite e entre o povo de que o regime, como era praticado, não abria espaço para a manifestação da opinião pública e não fornecia canais de participação legítima.E, principalmente:
6. Era uma revolta fragmentada de uma sociedade fragmentada. A fragmentação social tinha como contrapartida a alienação quase completa da população em relação ao sistema político que não lhe abria espaços. Havia, no entanto, uma espécie de pacto informal, de entendimento implícito sobre o que constituía legítima interferência do governo na vida das pessoas. Quando parecia à população que os limites tinham sido ultrapassados, ela reagia por conta própria, por via de ação direta. Os limites podiam ser ultrapassados seja no domínio material, como nos casos de criação ou aumento de impostos, seja no domínio dos valores coletivos.Estas seis assertivas, embora sejam de caráter bastante genérico e apareçam aqui de forma até certo ponto imprecisa, ilustrariam de modo satisfatório alguns dentre os aspectos mais importantes que perpassam a relação entre o povo da corte e o Estado monárquico durante a Revolta do Vintém, conforme procuraremos ressaltar. Evidentemente, digo ilustrariam, porque se trata de comentários acerca da relação entre a população mais humilde da capital federal e o Estado republicano feitos por José Murilo de Carvalho relativos à Revolta da Vacina de 1904. (Cf. CARVALHO: 91, 115, 131, 133,137-138). De todo modo, a similaridade gritante entre as atitudes coletivas e as representações da população acerca do Estado presente nos dois movimentos de protesto popular, automaticamente nos induz a refletir sobre os elementos comuns, mais concretos, observáveis em ambos os contextos, monárquico e republicano. Certamente existiram elementos de diferenciação entre os dois movimentos. Talvez o mais importante deles a partir do qual poderíamos atribuir maior complexidade e alcance histórico à Revolta da Vacina, seja o fato de que nesta se tenha processado de forma mais visível e completa o fenômeno de fusão de uma ideologia inerente aos setores populares com a ideologia própria das classes dominantes, amalgamando, assim, valores que acabariam por gerar uma ideologia específica do protesto popular, próxima da acepção do termo formulada por George Rudé. Não obstante, há uma linha de continuidade ligando a Revolta do Vintém à Revolta da Vacina, passando por outros movimentos de protesto popular ocorridos na cidade tais como a quebra de lampiões (1882), a quebra de bondes (1901), o assalto aos trens da Central do Brasil (1902) e o ataque aos registros de água (1902). Nesse sentido, pelo menos, dois aspectos parecem bastante visíveis e fundamentais. Em primeiro lugar notamos que prevalece tanto na Revolta do Vintém como na Revolta da Vacina, uma dinâmica de expansão concêntrica dos grupos sociais participantes do protesto; iniciado entre as lideranças políticas (liberais radicais, republicanas, reformistas ou socialistas) e os setores médios urbanos, e espalhando-se de modo incontrolável e violento entre os setores subalternos da população carioca. Em 1880 a grande maioria das pessoas mais pobres da corte não dispunha de poder aquisitivo suficiente para utilizar com regularidade os bondes, o que nos leva a concluir que o protesto contava, inicialmente sobretudo, com a participação de pessoas de rendimentos modestos mas regulares, decentemente vestidas e alfabetizadas. (CHALHOUB: 201). Assim sendo, presumimos que, inicialmente, além dos líderes políticos e publicistas de classe média, a multidão que reclamava contra o imposto do vintém seria composta por pequenos comerciantes, funcionários públicos, artesãos e operários. No entanto, o movimento evoluiu rapidamente para o embate entre a polícia e a classe baixa de nossa população, quer dizer, as pessoas de pouca importância, no vocabulário das autoridades da época. Algo semelhante ocorreria na Revolta da Vacina. Em segundo, observamos a existência de certo padrão nas atitudes e representações das pessoas comuns diante do Estado, estabelecido na cultura popular com limites fortemente marcados, para além dos quais não era permitido ao Estado, seja monárquico ou republicano, avançar sem que provocasse movimentos coletivos de protesto. Devemos afirmar, portanto, e mais uma vez nos termos apresentados por Carvalho, que entre as pessoas comuns que compunham a maioria dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro tanto sob o regime monárquico-escravista quanto sob o regime republicano em sua primeira fase, o Estado era percebido como impossível de ser influenciado ou minimamente moldado, a partir dos interesses dos simples súditos ou cidadãos. (Cf. CARVALHO: 140-160). Era uma instância a qual eventualmente recorriam, mas que, no entanto, permanecia distante do entendimento completo e do controle da gente comum. Era visto como produto de um concerto político do qual a maioria dos moradores da cidade não fazia parte. Consequentemente, prevalecia entre os setores populares a atitude de distanciamento perante os poderes constituídos e as instâncias superiores e mais visíveis do poder político. Porém, ocasionalmente essa indiferença ou aparente apatia diante do Estado podia se transformar em movimento de oposição, característico de uma população que se colocava relativamente distante do poder estatal. De tal modo que o protesto popular violento surgia apenas como resposta aos abusos da intervenção do Estado no cotidiano da gente comum, a exemplo da cobrança do imposto do vintém. Havia assim uma espécie de pacto informal implícito que equacionava, dentro do universo das representações e do imaginário político popular, aquilo que constituía a interferência legítima, ou ilegítima, do governo na vida das pessoas. Isso fica bastante evidente na análise que Carvalho fez da Revolta da Vacina. Como nos indicam as principais características da Revolta do Vintém, este pacto implícito que informava o comportamento da gente comum diante do Estado parece, portanto, preexistente a 1904, podendo ser estendido retroativamente à última fase do regime monárquico. Portanto, somos levados a afirmar que havia um limite coletivamente aceitável desde meados da segunda metade do século XIX, para a interferência estatal na vida da gente comum, demarcando a existência de uma gradação, para a interferência do Estado ser considerada legítima. Para além desse limite, tanto no domínio material como no domínio dos valores éticos coletivos, a população responderia com violência. Seria uma espécie de economia moral da indiferença, que estabelecia em termos coletivos não-formulados, e inconscientes, o ponto em que o distanciamento e a aparente apatia da população diante do Estado se transformaria em protesto popular. (THOMPSON, 1989; 1998). Toda vez que o Estado transpusesse esse ponto, a população reagiria pela via da ação direta, passando rapidamente da indiferença à oposição violenta contra autoridades instituídas contra o poder estatal e contra o regime político. Podemos ainda perguntar: qual teria sido o impacto deste movimento de oposição sobre as visões da monarquia difundidas entre as pessoas comuns na corte? Nos dias que se seguiram à Revolta do Vintém, depois de interrompida a arrecadação pelo protesto popular, a regularização do imposto seria revogada e os principais integrantes do governo ligados ao episódio seriam substituídos. Entre os monarquistas, liberais e conservadores, a revolta era vista como fruto do oportunismo de alguns e da ingenuidade da maioria da população. Ao avaliar quais eram os segmentos sociais envolvidos nas manifestações de rua relacionavam:
1. a juventude das escolas, cheia de nobre mais indefinido entusiasmo por tudo que lhe agita a fibra sensível das generosas paixões (poderíamos incluir aqui a maioria dos publicistas de oposição); 2. os descontentes com a incapacidade do Estado em se ocupar de seus serviços (leia-se incapacidade de favorecê-los em seus negócios) e 3. aqueles que ao longo dos anos tiveram o seu sonho de bem estar destruído pela política dominante.Todos esses pertencentes aos setores médios urbanos e à elite da corte, encabeçando a turba dos desesperados e descontentes de todos matizes. Por fim, arrebanhado pela elite descontente e comungando aquilo que parecia uma visão ingênua, porque utópica, da organização econômica, social e política do império, vinha o segmento popular presente na revolta, formado por aqueles que: […] na sinceridade de sua crassa ignorância e sob o agulhão das privações diurnas, estão sempre prontos a condenar os governos, sejam quais forem, que não realizem o ideal impossível e sobrenatural de dirigirem a sociedade de modo que não se pague impostos e que todos vivam contentes no seio de uma abundância fácil e sem trabalho. Como não poderia deixar de ser, por seu turno, publicistas e políticos antimonarquistas atribuíam as causas da Revolta do Vintém à impopularidade do regime imperial e ao desgaste da imagem de D. Pedro II entre a maior parte da população da cidade do Rio de Janeiro. Encontramos nos jornais uma quantidade imensa de material ironizando a coroa e o monarca. Por exemplo, este poema de Mathias Carvalho: O Imposto do Vintém
E o rei sentiu-se mal fora sinistro o dia! Passou-lhe no frontal a contração sombria Que marcava a convulsão tempestuosa, interna! Pois que! leproso o cão ousar a sujar-lhe a perna! A sombra dar um passo! o diamante régio Sentir manchas na luz de sua grande esfera! O verme avolumou-se em proporção de fera! Ter o arrojo brutal, o grande atrevimento De contestar a cifra do Dogma-Orçamento E tirar-lhe em cheio ao seu sagrado rosto: Este imposto é ilegal: eu não pago esse imposto! Oh! isto era demais!No contexto da Revolta do Vintém, insistiam na fragilidade institucional do governo começando pela construção de uma imagem bastante negativa do imperador. Nos folhetins satíricos a imagem do rei pai dos pobres algo generoso, atencioso e ilustrado, começava, definitivamente, a perder espaço para a figura do monarca incompetente, velho, cansado e alheio aos verdadeiros interesses da maioria da população. Dizia-se que o rei andava angustiado:
S. M. agora anda cabisbaixo e triste… Triste e cabisbaixo porque o Zé Povinho, de quem ele sempre esperou a mais passiva obediência, pondo de lado umas certas conveniências, deu-lhe uma vaia mesmo na bochecha. Em que constituiu a vaia O povo chamou-o de tipo, sábio de contrabando, cajú, banana e outras poucas vergonhas deste jaez. D. Pedro ouviu tudo muito caladinho e voltou para São Cristóvão, dizendo com seus botões: Não há nada como cada um em sua casa com sua mulher e os seus filhos…Assim, ao longo dos anos da década de 1880, cada vez mais o outrora rei majestático, cidadão, mecenas, generoso e pai dos pobres, seria representado como Pedro Banana. (Cf. SCHWARCZ). Obviamente, no decorrer dos conflitos e imediatamente após, se acentuavam os elementos negativos do Estado imperial entre os órgãos de opinião pública. Mas isso não implicava, automaticamente, que logo em seguida, de volta ao contexto cotidiano de distanciamento e aparente apatia, as visões da Monarquia tivessem sofrido grandes alterações. Ou ainda que tivesse sido modificada radicalmente a figura do imperador para a maioria da população. Assim sendo, certamente a Revolta do Vintém ocasionou muito mais a alteração radical e momentânea das atitudes e expectativas diante do regime político e do imperador, do que uma mudança significativa e duradoura no imaginário popular, nas representações das pessoas comuns acerca da Monarquia. Poucos anos mais tarde, em meio ao movimento abolicionista, o rei ainda apareceria como aliado importante, embora fosse evidente o processo contínuo de degradação de sua imagem. Por fim, podemos supor que para as estratégias mais pragmáticas da gente comum na abordagem da coroa, do imperador e da família real, fazia pouca diferença recorrer ao Pedro pai dos pobres ou ao Pedro Banana. De todo modo, 1880 inauguraria uma nova fase na história do segundo reinado, uma fase de crise cada vez mais acentuada, na qual as imagens de D. Pedro II e da Monarquia sofreriam um desgaste contínuo. E como nos ensina Emilia Viotti da Costa, tempos de crises são aqueles em que vêm à luz conflitos que permaneceram ao longo do tempo ocultos sob as regras e rotinas do protocolo social, imperceptíveis, por detrás dos atos automáticos de significado e finalidades inconscientes. Momentos históricos que expõem as contradições existentes por trás da retórica de consenso e hegemonia social. (COSTA: 13-14). Neste sentido a Revolta do Vintém foi um marco evidente. Em seguida, no decorrer dos anos 1880, o movimento abolicionista em sua fase mais radical e popular seria o vetor mais importante neste processo em que, cada vez mais, os conflitos e contradições da sociedade monárquica escravista ficariam expostos, com efeitos diretos sobre as visões da Monarquia entre a gente comum da corte. Fonte: www.historiabrasileira.com/www.ifch.unicamp.br(Ronaldo Pereira de Jesus)/www.ceo.historia.uff.br(Ana Paula Barcelos Ribeiro da Silva)