Onde jazem os povos a quem nega O filho de Clymenes a cor do dia. e ainda, mais adiante: hum estranho…de pelle pretaA partir desta época, igualmente, o pensamento europeu começou a desenvolver uma forma específica de classificar e pensar as coisas do mundo. A ânsia pelo saber, separando-se da Religião e da Filosofia, tornara-se Ciência, buscando dar conta de um novo mundo de proporções multi-continentais. Os critérios da observação sistemática e da classificação em hierarquias racionais foram aplicados às novas formas de vida (vegetal; animal e humanas) que passaram a conhecer. A escravização dos povos indígenas sul-americanos e africanos, trouxe contradições políticas e morais no pensamento colonial e os critérios de classificação das diversidades vegetais e animais foram tomados como critérios principais de demarcação das diferenças humanas. Segundo Maggie (op.cit. : 225-226), as diferenças são a própria matéria do pensamento, desde a passagem da natureza à cultura, mas foi nesse encontro entre povos distantes que se levou a troca simbólica a níveis tão intensos. A noção de Raça, e sua associação de características biológicas; comportamentais e sociais foi, neste longo período que se estendeu até o século XX, a expressão científica do racismo colonial luso-espanhol.. Na cultura luso-hispânica, este movimento teve desdobramentos importantes que incluíram, como no Brasil, a política de incentivo a aos movimentos migratórios desde a importação esclavagista da África até as tentativas de branqueamento do povo brasileiro (Seyferth, 1996), no século XIX e influenciaram os estudos raciais acadêmicos até meados do século XX. Darwin e sua obra A origem das espécies foi um importante marco da revolução metodológica que expressava uma síntese revolucionária na ciência classificatória naturalista das espécies. Sua teoria da evolução biológica das espécies introduziu uma visão dinâmica que desvinculou das ciências classificatórias naturais das explicações da origem inata das diferenças entre as espécies. Não obstante, desde meados do século XIX até meados do século XX, nos debates científicos sobre Raça, este pensamento dinâmico não se havia consolidado. Segundo Ventura dos Santos (1996:125-127), a obra de Darwin e de outros, com modelos evolucionistas, levaram um longo tempo para se consolidarem nas Ciências Antropológicas que se baseavam na construção de categorias como tipos raciais e raças. Somente pouco antes da metade do século XX, quando autores como Franz Boas (1940) e Stocking (1968) levantaram as influências das condições ambientais na constituição das diversidades humanas, o que Santos chama de segunda revolução darwinista na Antropologia Física (biológica) se consolidou. O conceito de raça, nas ciências antropológicas, foi substituído então pela categoria população (cf. Ventura dos Santos, op.cit. :125-129), construída a partir de critérios estatísticos e genéticos, cuja ênfase estava mais em seus aspectos dinâmicos, e na separação, por inspiração da biologia experimental, estes critérios dos extrabiológicos (sócio-culturais). O clima do pós-guerra europeu, em fins da década de 40 e na dos 50, trouxe reações radicalmente contrárias aos fundamentos da eugenia levada ao extremo pela política nazista. Esta transição foi significativamente marcada na Assembléia da UNESCO (United Nations Educational and Scientific Organization) de 1949 (cf. Ventura dos Santos, op. cet.:129-132). Nesta Assembléia, Boas e alguns antropólogos, como Lévi-Strauss (Raça e História) foram convidados a participar e exerceram influência no relatório final, contrária à ênfase na diversidade racial como explicativa de fenômenos sócio-culturais e ambientais. A negação da diversidade biológica e sua influência em certas características individuais dos grupos humanos, levou a uma reação de geneticistas; biólogos e antropólogos físicos, que tiveram a oportunidade de participar de outra reunião, cuja conclusão não foi, segundo Ventura dos Santos, muito diferente da anterior, embora resguardasse um espaço para se pensar a diversidade biológica humana. Diversidade Biológica Às classificações da diversidade humana, baseadas na morfologia física e no conceito de raça, sobrepunham-se igualmente aspectos do comportamento e formas de pensar e sentir (aspectos sócio-culturais). O evolucionismo darwinista inspirara, inicialmente, uma hierarquização da diversidade humana e das raças em que a raça branca estaria no ápice da escala de evolução, devido à sua superioridade tecnológica e, acreditava-se, moral (etnocentrismo evolucionista que, na antropologia social ou cultural, teve também grande influência). Não obstante, com a influência do evolucionismo darwinista e da biologia experimental do início do século XX, as classificações da antropologia física passaram, das características morfológicas à inclusão de parâmetros mais profundos da biologia humana, como os grupos sanguíneos; as características da hereditariedade genética; da estatística, com as sequências médias de caracteres genéticos e da teoria da probabilidade. A associação entre a antropologia biológica e a genética faz parte deste movimento que aprofundou o olhar científico da morfologia para as moléculas e que, segundo Ventura dos Santos (op. cit. : 126-129), consistiu em um movimento metodológico significativo, designado como a segunda revolução darwinista. A associação entre antropologia e genética faz parte deste movimento metodológico. Os antropólogos físicos, atualmente, buscam mais medir a distribuição de certas substâncias no sangue; a pressão sanguínea e de sequências genéticas específicas em determinados grupos humanos. Os estudos da antropologia física estariam assim, mais próximos dos estudos arqueológicos; médicos e genéticos, voltados, no contexto do processo saúde-doença, para as interações adaptativas entre a biologia humana e o meio-ambiente natural e sócio-cultural. Para uma revisão crítica e síntese dos rumos da Antropologia Física atual, ver Gould (1991). A genética, aprofundando mais o enfoque metodológico, ganhou um estatuto que passou de disciplina puramente científica para a de técnica, com a engenharia genética. É particularmente decisivo para as questões atuais sobre a diversidade humana, na bioética e na antropologia social, o emprego da engenharia genética, o decifrar da cadeia de DNA humano, e a ênfase no genoma. A Nova Genética, fruto das revisões críticas pós-modernas, define-se enquanto técnica terapêutico-preventiva de doenças herdadas e como uma engenharia. Este assunto será reelaborado no próximo item, sobre a Diversidade Cultural. Para uma crítica atual das questões ligadas às implicações sócio-culturais e políticas da Nova Genética, cf. Petersen e Bunton, 2002. Diversidade Cultural No campo das antropologias não-biológicas (etnologia; antropologia social e cultural), há uma diversidade de abordagens. A noção de cultura é básica para se compreender os movimentos pelos quais passou esta disciplina, inicialmente parte da Antropologia (geral, sem distinções) do início do século XIX, e que pretendia abordar todos os aspectos das questões acerca da diversidade humana. O mesmo debate que, na Antropologia Física (biológica) substitui o conceito de Raça pelo de População, desde meados do século XIX até meados do Século XX, ocorreram no âmbito da Antropologia de cunho mais social, em que a diversidade humana transitou pelos conceitos de Raça; Etnia e Cultura. E se confunde com a própria história da disciplina. Para uma visão mais abrangente, resumirei antes de entrar no assunto específico do conceito de cultura e o debate entre este conceito e o de raça, enfocarei outra questão importante, que diz respeito à história da antropologia. Por influência do darwinismo, no início da antropologia social, o projeto de dar conta da diversidade cultural levou naturalistas e historiadores a debruçarem-se sobre os relatos de viajantes; exploradores e administradores coloniais que falavam sobre as exoticidades das sociedades inferiores; incivilizadas; simples, em relação a uma visão industrial da técnica; e, finalmente, primitivas, por serem mais remanescentes de formas antigas, primeiras, da evolução das sociedades humanas. O relativo isolamento geográfico destas sociedades e povos contribuiu para esta visão. Assim, a Antropologia Social, partindo de questões evolucionistas importantes para os estudiosos do século XIX, ficou vista como ciência das sociedades primitivas. Mas com a persistência destas sociedades em resistirem até a atualidade de forma bastante diferente da tradição européia, colocou um problema crucial para esta visão evolucionista e etnocêntrica da diversidade humana. Este fato motivou variações ao longo da história da disciplina e de seus conceitos. Os antropólogos voltaram-se, a partir dos próprios resultados das pesquisas nestes povos com culturas diferenciadas, para sub-grupos ou sub-culturas no interior das sociedades complexas: os estudos de comunidades camponesas de Redford; os estudos voltados para grupos marginalizados nas regiões urbanas até, finalmente, estudos voltados para grupos pertencentes às classes populares e altas da sociedade moderna, culminaram por desembocar em uma análise crítica da visão de mundo ocidental moderna e da globalização, inclusive a da própria cultura científica nas áreas médicas e da saúde pública (cf. Verani, 1990 e 1994; Duarte, et al., 1998; Lupton, 1999; Petersen e Bunton, 2002). Voltando ao conceito de cultura, algumas das principais correntes teóricas que influenciaram variações do mesmo são: o evolucionismo e suas influências no difusionismo e na sociologia francesa de Durkheim e Mauss; o marxismo e a sociologia de Marx Weber; e o estruturalismo de Lévi-Strauss. O funcionalismo inglês e as vertentes culturalistas americanas também se inserem neste campo. Tylor e Boas foram os que mais enfatizaram o adjetivo cultural ligado à antropologia, em um movimento iniciado na Inglaterra, em início do século XIX, e nos Estados Unidos. Mas na França, com a Sociologia de Comte bem solidificada enquanto disciplina independente das demais Ciências Humanas, Durkheim; Mauss e Lévi-Strauss são autores importantes que vinculam a Antropologia Social à Sociologia, como uma sub-disciplina desta última. A noção de cultura é o cerne de uma antropologia que separava o determinismo biológico racial das manifestações de comportamento aprendidas pelos indivíduos de uma sociedade após o nascimento. Estes aspectos eram considerados então como de ordem ambiental no debate das relações entre Raça e Cultura. Para uma revisão dos diversos conceitos de cultura e de antropologia, até à metade do século XX, com suas teorias subjacentes, conferir a coletânea de Shapiro, 1956; Mair, 1965; Copans, 1971; Laraia, 1986. Mas para efeitos didáticos, cito aqui a definição de cultura de Tylor (1871, apud Mair, op.cit.:15-16): Cultura é (…) conhecimentos; crenças; artes; moral; leis; costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade. Como comenta Mair, esta é mais uma lista de itens do que uma definição ou uma teoria que descreva e explique a diversidade humana.Boas, na América, interessou-se pelas artes e técnicas. Na prática, o estudo da cultura refere-se a costumes; maneiras e técnicas tradicionais específicas de uma sociedade. Esta vertente culturalista da Antropologia considerava-se mais próxima da Antropologia Física; da Lingüística; e da Arqueologia. Sua ênfase maior era em descrever e entender a diversidade humana. Já a outra vertente citada, incluindo o funcionalismo institucional de Malinowiski e o funcionalismo-estrutural de Radcliffe-Brown, considerando-se mais próximo das Ciências Sociais, detiveram-se mais, através do método comparativo, no desenvolvimento teórico de generalizações sobre todos os tipos de sociedades humanas. Malinowiski, também considerado o pai do trabalho de campo, o método privilegiado de estudos etnológicos, enfatizava que os estudiosos deveriam descrever todos os aspectos vinculados numa dada sociedade ao complexo, por exemplo, da função alimentar: técnicas agrícolas; formas de distribuição dos alimentos entre grupos e indivíduos; instituições de trocas (comércio ou circulação de bens); etc. Malinowiski via a sociedade através de uma metáfora anatômica em que na morfologia das sociedades, as instituições cumpriam as mesmas funções que os órgãos e sistemas do corpo humano. A metáfora mecânica de estrutura e funcionamento também influenciou as teorias sobre as sociedades humanas, como no funcionalismo, em que, porém, a metáfora fisiológica predominava. A noção de sistema dinâmico é parte desta influência. É necessário, não obstante, as diferenças atribuídas ao conceito de estrutura. Apesar de utilizado por Malinowiski; Radcliffe-Brown; Evans-Pritchard; e outros, foi com Lévi-Strauss que este conceito, influenciado pelas teorias da lingüística, tornaram-se mais abstratos e ligados a questões mais sociais que a metáforas tomadas de disciplinas como a biologia e a mecânica. Lévi-Strauss, critica e sintetiza a definição de cultura mais utilizada: hábitos; atitudes; comportamentos; maneiras próprias de agir sentir e pensar de um povo e enfatiza a estrutura sub-consciente de pensamento. Para o estruturalismo de Lévi-Strauss, a diversidade humana não é importante, e sim a similaridade humana de pensamento. Nesta teoria, o conceito de cultura ganha um sentido residual. Residual, porém irredutível, como coloca Carneiro da Cunha (1986), em que a identidade de grupo é fundamental na construção da Pessoa Humana. Para o a antropologia atual, cultura é um sistema simbólico (Geertz, 1973), característica fundamental e comum da humanidade de atribuir, de forma sistemática; racional e estruturada, significados e sentidos as coisas do mundo. Observar; separar; pensar e classificar; atribuindo uma ordem totalizadora ao mundo, é fundamental para se compreender o conceito de cultura atualmente definido como sistema simbólico, e sua diversidade nas sociedades humanas, mesmo neste período atual de modernidade tardia. Cultura e folclore: construindo relações no espaço escolar
Cultura brasileira
Há um processo contínuo na esfera cultural, tornando o ter e o ser uma unidade com duas faces: a segunda é a que leva à invenção do discurso a ser sujeito da própria vida, e a primeira permite a alimentação contínua desse processo através da posse possível de todos os registros do discurso dos homens de todos os tempos. (MILANESI, 1991, p.139)Vimos, até aqui, que a cultura é uma criação humana, que, ao tentar resolver seus problemas, o homem produz os meios para a satisfação de suas necessidades e, com isso, transforma o mundo natural e a si mesmo. Por meio do trabalho instaura relações sociais, cria modelos de comportamento, instituições e saberes. O aperfeiçoamento dessas atividades, no entanto, só é possível pela transmissão dos conhecimentos adquiridos de uma geração para outra, permitindo a assimilação dos modelos de comportamento valorizados. É a educação que mantém viva a memória de um povo e dá condições para a sobrevivência material e espiritual. A educação é, portanto, fundamental para a socialização do homem e sua humanização. Trata-se de um processo que dura a vida toda e não se restringe à mera continuidade da tradição, pois supõe a possibilidade de rupturas, pelas quais a cultura se renova e o homem faz a história. Devido à existência de muitas definições sobre cultura popular, adotamos o seguinte conceito: o conjunto de criações e manifestações espontâneas, originais e autênticas, nascidas e consumidas pelos próprios sujeitos que as geraram, podendo até ser influenciado por outros tipos de expressões culturais, a erudita e a de massa, o que não descaracterizaria seu caráter popular. Essas expressões se materializam no cotidiano e se fazem presentes nos planos simbólicos, nas vivências de grupos sociais, desde o âmbito familiar até o convívio comunitário que pode ser em pequena ou grande escala, reunindo poucas pessoas ou mesmo uma multidão. Como não vivemos em uma sociedade homogênea, qualquer produção cultural está sujeita às avaliações que dependem da posição social do grupo no qual ela surge. Por isso, quando contrapomos, por exemplo, cultura de elite e cultura popular, já estamos emitindo juízo de valor, ou seja, a cultura de elite seria superior porque é refinada, elaborada, ao passo que a cultura popular seria inferior por se tratar de expressão ingênua e não intelectualizada. Outra confusão está em se identificar cultura de elite, que na verdade é a cultura erudita, com produção da classe dominante; de maneira geral deve-se ao pressuposto de que a verdadeira cultura é a produzida pela elite. Quando se fala de conhecimento, despreza-se o saber popular para se valorizar apenas a ciência; ao se tratar da técnica, exalta-se a mais refinada tecnologia; ao se referir à arte contemporânea, pensa-se nas pinturas de Picasso; quando se volta à atenção para a arte popular, é para considerá-la de forma depreciativa, como arte menor ou produção exótica e objeto de curiosidade. Cultura no sentido antropológico tem muito a ver com comunicação, cultura é um mundo de significados, é um código simbólico construído socialmente, e compartilhado por todos os seus integrantes. Cultura é construção!!!! Cultura é algo que se adquire na convivência em grupo. Um bebê, quando vem ao mundo, nada sabe além de sugar o dedo. Ele está biologicamente equipado para, aos poucos, desenvolver a fala. Mas o idioma que vai falar dependerá do grupo social ao qual pertence. Uma criança indígena, primeiro vai aprender com os pais, irmãos e outros parentes a falar o seu idioma. Só depois ela aprenderá o português. Outro exemplo no contexto escolar é o jogo como fenômeno cultural, que se desenvolve e estrutura de forma diferenciada, de acordo com a cultura e costumes em que está inserido. Exatamente por ser construída é que a cultura pode ser tão variada. Cada grupo pode desenvolver e transformar sua própria cultura, por meio de contato e convivência com outros grupos. Cultura é algo que pode ser trocado: temos nossa cultura mais podemos compreender as alheias. O povo brasileiro é um povo plural, cuja trajetória, desde a formação até os dias de hoje, tem possibilitado o encontro e a combinação de tradições culturais diversas, recriadas em combinações novas, brasileiras. A história desses encontros é marcada por conflitos e contradições. Aprendemos na escola e ouvimos, a toda hora, os meios de comunicação repetir que nosso povo é o resultado da junção de representantes de três raças; o branco, o negro e o índio. Mas, pense bem, será que o conceito de raça é adequado para explicar nossa formação social e cultural? Historiadores dedicados ao estudo do período colonial comentam a dificuldade de comunicação enfrentada pelos primeiros africanos escravizados que para cá foram trazidos. É que eles pertenciam a diferentes sociedades tribais, que viviam em diferentes locais da África Costa Ocidental, Costa Austral e Costa Oriental e falavam línguas distintas. O colonizador os igualava, denominando-os todos negros, vendo-os como mão-de-obra e não como indivíduos dotados de uma história e de valores próprios dos diferentes povos dos quais se originavam. Um negro norte-africano não era igual ao negro do centro do continente ou ao negro sul-africano. O que chamamos de cultura afro-brasileira é o resultado das vivências de africanos de diferentes sociedades, que aqui se encontraram, combinaram e recriaram distintas tradições, hoje revividas e atualizadas por seus descendentes. O mesmo podemos dizer a respeito dos brancos colonizadores que aqui chegaram há mais de 500 anos. Portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, no início. Mais tarde, outros brancos que para cá migraram em busca de melhores oportunidades. Na época do Descobrimento do Brasil, existiam mais de 200 sociedades indígenas, cada qual com sua língua, seu modo de agir e pensar, sua política, suas regras sociais, sua ética, sua maneira de adornar o corpo e educar os filhos, seus rituais. O colonizador os igualava no nome índios, mas soube, desde o início, tirar proveito das diferenças entre eles, explorando, por exemplo, as inimizades entre tribos do litoral. Os portugueses aliaram-se aos Tupiniquins, enquanto os franceses ficaram amigos dos Tupinambás. Esses povos indígenas se enfrentaram na disputa dos territórios que os europeus haviam invadido. Ainda hoje as sociedades indígenas brasileiras lutam pelo reconhecimento de suas identidades e necessidades específicas, como a demarcação de territórios onde possam viver cada uma a seu modo. O povo brasileiro, além de multiétnico, é pluricultural, Não havia, como não há atualmente, uma única cultura branca, outra negra e outra indígena. Brancos, negros e índios diferiam uns dos outros, e cada um desses grupos tinha suas diferenças internas. Quando falamos sobre cultura popular estamos nos referindo não apenas às manifestações festivas e às tradições orais e religiosas do povo brasileiro, mas ao conjunto de suas criações, às maneiras como se organiza e se expressa, aos significados e valores que atribui ao que faz, aos diferentes modos de trabalhar, aos jeitos de falar, aos tipos de música que cria, às misturas que faz na religião, na culinária e na brincadeira. Em vez de tentar definir o que é certo ou errado em matéria de folclore, o que queremos é compreender os muitos caminhos pelos quais permanece vivo e se transforma. Que encontros e combinações de tão distintas tradições são praticados pelos brasileiros? Que criações resultam das tantas misturas culturais que esse povo é capaz de fazer? Como o popular e o erudito se combinam? Não podemos de forma alguma ignorar as mudanças provocadas no mapa cultural brasileiro pelas migrações internas e pelo avanço da comunicação de massa. Já não há mais correspondência literal entre, por exemplo, o modo de ser do homem que mora na região norte e os costumes indígenas, primeiros habitantes da região. Muitos costumes se perderam e outros foram recriados. Trabalhar a cultura amazonense nas escolas requer um resgate de influências como: o conhecimento do clima, da geografia, da culinária, das danças, das brincadeiras e dos costumes me parece uma forma interessante de estudar o folclore. Compreendo a educação não apenas como a transmissão de informações, mas como o desenvolvimento da capacidade de relacionar os conteúdos e criar interpretações pessoais, e por esse motivo, não tenho dúvidas: a atuação do educador é sempre decisiva. É o professor, quem vai auxiliar seus alunos a estabelecer as relações possíveis entre o que já sabem e as descobertas que a escola propicia. De acordo com MOREIRA & CANDAU (2008, p.16), no momento atual, as questões culturais não podem ser ignoradas pelos educadores, sob o risco de que a escola cada vez se distancie mais dos universos simbólicos, das mentalidades e inquietudes das crianças e jovens de hoje. Aventurar-se neste universo, exige capacidade para poder interpretar as diversas culturas, nos seus diferentes papéis e educar de forma completa, com um olhar compreensivo. Nesta aspiração para encontrar formas adequadas de olhar, ouvir, sentir estas crianças, e principalmente em interpretá-las, retorna-se a questão da diversidade, compreendendo-a como o eixo central da discussão das culturas. Se estivermos de acordo com as premissas anteriores, verificaremos que toda e qualquer forma de conhecimento é uma leitura e interpretação parcial e relativa da cultura. Como qualquer outra ciência, o Folclore é mais uma maneira de ler e interpretar a rede de relações e os desenhos culturais de uma sociedade. Para isso, essa ciência utiliza-se de instrumentos metodológicos de pesquisa: a observação e a análise de tudo aquilo que seja tradicional, funcional e de aceitação coletiva dentro do grupo social estudado.
No quadro das ciências humanas, consideramos o folclore, no enfoque apresentado neste livro, como a mais nova dessas ciências, a qual tem relações estreitas com a Antropologia Cultural (Social ou Etnologia), Sociologia e Etnografia. […] A Antropologia Cultural Cultural ou Etnografia, como preferem designá-la no Brasil, é a ciência com a qual o folclore possui maiores afinidades. Mas não consideramos o folclore uma de suas divisões, como querem alguns especialistas. (LIMA, 2003, p.17)Seja o conhecimento científico sistematizado, resultante da aplicação de métodos específicos para cada ciência, seja o conhecimento não-formal, empírico, não-sistematizado, resultante da vivência e do senso comum, ambos, serão sempre relativos e parciais. Nenhum melhor ou superior ao outro. Antagônicos muitas vezes, complementares outras, não opostos necessariamente. Ambos importantes porque possibilitam uma leitura mais densa e compreensão mais profunda do ser e da cultura humana. Esta é a finalidade do conhecimento: possibilitar uma leitura mais densa, mais profunda, mais rica, mais abrangente da “travessia” humana. E o Folclore, como ciência humana e social, irmã da Antropologia e parte desse conhecimento é, em síntese, a possibilidade de leitura dos saberes, dos fazeres e dos quereres humanos, estudada sob a luneta da tradicionalidade, aceitação coletiva e funcionalidade. Como há muito citou Luís da Câmara Cascudo, o folclore representa as maneiras diversas do pensar, sentir e agir do povo. Referem-se à produção humana, algumas vezes contestada pelo saber dominante mais igualmente valiosa e formadora da identidade cultural. Há influências de várias culturas como europeias, indígenas e africanas. Alguns exemplos dessas influências como os amuletos, geralmente, vêm da cultura ocidental europeia. As ervas estão relacionadas com os indígenas, que ainda se utilizam de folhas como remédio alternativo e para benzimentos, já as magias e os feitiços vieram da cultura africana. Nos exemplos, registros de ignorâncias, crendices, coincidências? Ou a comprovação da presença do folclore no nosso dia-a-dia? Folclore é, portanto, a ciência humana e social que estuda os fatos e as relações, os processos e as realizações de um grupo social – materiais, sociais e espirituais, objetivas e subjetivas, orais e escritas – tradicionais, funcionais e de aceitação coletiva, integradas à vivência popular e à dinâmica do cotidiano, resultantes da difusão no tempo e no espaço. Essas manifestações, também chamadas de cultura popular, coexistem com as formas de cultura erudita (ou acadêmica) e de massa (consumo), conservando suas funções histórico- sociais. O artesanato e a medicina caseira, as crenças e superstições, as gírias e provérbios, as danças e festas populares tradicionais são alguns entre os incontáveis exemplos, objetos da ciência folclórica.
A ciência folclórica considerou como objeto de seu estudo o fenômeno ou fato folclórico, cujas características foram fixadas, no decorrer de sua história, por numerosos folcloristas. A realidade da pesquisa de campo, porém nos fez constatar que fenômeno ou fato são vocábulos muito simplistas para englobar linguagem, literatura, superstições e crendices, rodas e jogos etc., e em conseqüência, fomos buscar na antropologia cultural a denominação complexo cultural, adicionando-lhe o espontâneo, e passamos a utilizar a fórmula complexo cultural espontâneo em nossa linguagem científica. (LIMA, 2003, p.22)Para se avaliar se é fato folclórico, devemos analisar alguns aspectos que constituem suas características primordiais: Se o fato é tradicional, funcional e de aceitação coletiva, condições essenciais (“sine qua non”) à existência do fato folclórico:
1) o grupo social que o recolhe e o vivencia 2) como se manifesta e interage este fato dentro do grupo 3) a atualidade e a funcionalidade do fato na vida das pessoas e da comunidade.O fato folclórico tem uma série de características próprias: a primeira é o Anonimato, isto é, não tem autor conhecido. Naturalmente tudo tem um autor, foi feito por alguém, mas o nome desse alguém se perdeu através dos tempos, despersonalizando-se, assim, a autoria. A segunda é a Aceitação Coletiva, é a aceitação pelo povo e é essa aceitação que despersonaliza o autor. O povo, aceitando o fato, toma-o para si, considerando-o como seu, modifica-o e transforma-o, dando origem a inúmeras variantes. Assim, uma história é contada de várias maneiras, uma cantiga tem trechos diferentes na melodia, os acontecimentos são alterados e o próprio povo diz: Quem conta um conto aumenta um ponto. A terceira é a transmissão Oral, isto é de boca em boca, pois os antigos não dispunham de outros meios de comunicação. Não havia imprensa, não havia livros nem jornais, todos os conhecimentos eram transmitidos oralmente. A quarta é a tradicionalidade, não no sentido de um tradicional acabado, coisa passada, sem vida, mas uma força de coesão interna que define o modelo de conglomerado, da região, do povo e lhe dá unidade. Sem se poder valer de outros expedientes, como professores, escolas, imprensa, as pessoas do povo se valem da tradição veiculada pela transmissão oral a fim de resolver suas situações, buscando na lição vinda do passado o que precisam saber no presente, já que suas possibilidades as endereçam mais à sabedoria constituída do que à inventiva. A quinta é a Funcionalidade, tudo quanto o povo faz tem uma razão, um destino, uma função. O povo nada realiza sem motivo, sem determinante estritamente ligada a um comportamento, a uma norma psico-religiosa-social, cujas origens talvez se perderam no tempo. Observem… Por que o povo canta! Canta pra rezar, canta para adormecer a criança, canta para trabalhar, canta para festejar as colheitas e os acontecimentos, canta para ajudar a morrer e para enterrar seus mortos. Mas não dão concertos, recitais, audições como os eruditos; as suas festas têm épocas marcadas, com seus cantos e danças próprias. Fonte: www.ciamarinhobraz.com.br/www.dbbm.fiocruz.br/www.relem.info/www.unifran.br